Você está na página 1de 10

AUTOMUTILAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA: UM COMPORTAMENTO DE FUGA

Ana Fernanda Pompeu, Faculdade Guairacá


Fernanda Aparecida Padilha, Faculdade Guairacá
Pollyana Pittner, Faculdade Guairacá
Tatiane Dassoglio, Faculdade Guairacá
Weslley Kozlik Silva, Faculdade Guairacá, Professor orientador

RESUMO
A adolescência por si só já é um período conturbado, pois é o momento em que ocorrem
diversas mudanças na vida do adolescente, tanto físicas, sociais e psicológicas. O meio em
que o adolescente está inserido tem papel quase que definitivo para tornar essa passagem
saudável. No entanto, principalmente na sociedade contemporânea, o papel dominador da
mídia e até mesmo a ausência por parte dos pais às vezes não oferece recursos suficientes para
tornar esse período uma passagem saudável, fazendo com que os adolescentes passem a
utilizar outros recursos, que por sua vez podem ser patológicos, atacando o seu próprio corpo.
Buscamos nesta pesquisa discutir sobre a automutilação, bem como compreender o que leva o
adolescente a atacar seu próprio corpo, e ainda, relatarmos que esses tipos de ataques estão
diretamente relacionados com um comportamento de fuga, especialmente na tentativa de lidar
com algo doloroso.

Palavras-chave: Automutilação; fuga; reforço negativo; análise do comportamento;


adolescência;

INTRODUÇÃO
Atualmente diversos estudos mostram que a adolescência é uma fase cercada por
conflitos, pois nesse momento o jovem passa por diversas mudanças físicas, sociais e
psicológicas. O individuo não sabendo lidar com essas mudanças, e/ou por problemas no
convívio familiar e escolar utiliza a automutilação para aliviar a tensão que esses aspectos
vêm proporcionando (LOPES et al, 2001).
Segundo Lopes et al (2001) a fase chamada de adolescência é um período que faz
parte do desenvolvimento e ocorre desde a puberdade até a idade adulta, ou seja, há uma série
de mudanças biológicas e psicológicas que tem como objetivo instalar uma identidade. É
nesse momento que ocorre a passagem da infância, e a busca de uma posição adulta e matura.
A passagem da infância para a adolescência é um período critico, é o momento de
deixar de ser criança e passar a fazer parte de um novo grupo, o grupo da juventude, e, além
de enfrentar a fase das mudanças, há também um enorme atraimento pela curiosidade de
experimentar aquilo que é novo, que está na ‘moda’. É como se o adolescente precisasse
adentrar num novo espaço, seja de amigos, escola, redes sociais, etc., ou seja, para fazer parte
do grupo deve igualar-se aos demais. A mídia é uma das maiores influenciadoras para que os
adolescentes pratiquem a automutilação, alguns pela curiosidade e outros por estarem
passando por algum tipo de desconforto, ou porque é algo muito praticado atualmente
(SAVIETTO, 2007).
Desse modo, de acordo com Le Breton (2010) na adolescência o corpo é visto como a
representação da relação com o mundo é a imagem do mundo interno e mundo externo ao
mesmo tempo. É como se o corpo fosse um espelho daquilo que o adolescente é, tudo isso
para lidar com as alterações, sexualidade, deixar de ser criança e principalmente se colocar no
mundo adulto. O adolescente utiliza do corpo para lidar com aquilo que lhe traz sofrimento,
para fugir de algo doloroso provocando e atacando o seu próprio corpo.
Nesses casos em que o adolescente procura fugir de alguma situação aversiva e de
sofrimento ele parece ficar impossibilitado de falar, a utilização da linguagem torna-se inútil
diante do significado do uso do corpo. Para o autor essas atitudes de cortar-se, queimar-se,
escarificar-se enfim... São tentativas de viver, é sacrificando o seu próprio corpo para
continuar a existir (LE BRETON, 2010).
Considerando a gravidade deste comportamento justifica-se importância da realização
dessa pesquisa, que ainda apresenta baixo índice de informações científicas abordando o
assunto, e, nesse sentido, torna-se um estudo pioneiro.
De acordo com a literatura pesquisada, portanto considerando que o comportamento
de fuga é um conceito da Psicologia, que se refere ao sujeito entrar em contato com o
estimulo considerado aversivo, e em seguida eliciar um comportamento de fuga, visando
diminuir essa tensão (MOREIRA e MEDEIROS, 2007), se questiona se a automutilação,
sendo um comportamento aversivo (pois causa dor física), pode ser considerada como um
comportamento de fuga. A hipótese inicial é que a automutilação pode ser considerada como
pertencente à classe de comportamentos de fuga.

OBJETIVOS
O objetivo central deste trabalho é realizar uma discussão acerca da automutilação
caracterizando-a como um comportamento de fuga, envolvendo também alguns objetivos
específicos, tais como realizar pesquisa bibliográfica acerca da automutilação, discutir os
conceitos de automutilação e comportamento de fuga, além de discutir qual a relação
existente entre o comportamento de fuga e o ato de automutilar-se, sugerindo algumas
intervenções para tal.

MÉTODO
O objetivo do trabalho sugere uma pesquisa bibliográfica, que pode ser definida como
uma revisão, um levantamento de literatura a respeito de determinado tema, baseada em
livros, periódicos, artigos, teses, entre outros documentos (PIZZANI, SILVA, BELLO e
HAYASHI, 2012). Seu objetivo é a resolução de um problema – ou seja, uma hipótese –
através de referenciais teóricos, procurando analisar e discutir as variadas contribuições
científicas. É necessário então que o pesquisador planeje sistematicamente o processo de
pesquisa, desde a definição do tema, a construção lógica do trabalho, até a forma de
divulgação do mesmo (BOCCATO apud PIZZANI, SILVA, BELLO e HAYASHI, 2012).
Este tipo de pesquisa envolve um trabalho minucioso e investigativo em busca do
conhecimento, porém, se realizada de forma cuidadosa e bem-feita, pode gerar temas pouco
explorados, impulsionar à postulação de hipóteses e interpretações que podem servir como
ponto de partida de outras pesquisas (MIOTO apud PIZZANI, SILVA, BELLO e HAYASHI,
2012).
Para a realização desta pesquisa, foram utilizados artigos científicos obtidos através de
pesquisa em bases de dados eletrônicos como Google Acadêmico, Pepsic, Lilacs e SciELO.
Os descritores utilizados foram: reforço negativo, automutilação, adolescência,
comportamento de fuga, utilizados separadamente e também relacionados. Foram
selecionados os artigos que pontuavam a relação entre adolescência e automutilação;
automutilação e reforço negativo; e automutilação e fuga.
Inicialmente, serão apresentados os conceitos de automutilação e de comportamento
de fuga, em seguida, através de uma discussão realizada pelo grupo, apresentar-se-á a relação
entre os temas, para que em seguida a hipótese inicial seja discutida.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
O CID-10 aponta que essa autolesão ao corpo faz parte da categoria de transtornos dos
hábitos e dos impulsos. Pode ser caracterizada como uma síndrome psiquiátrica, na qual é
difícil ao indivíduo resistir ao impulso que o leva a comportar-se de tal forma, já que, quando
realiza o ato, após um período de tensão o sujeito obtém uma sensação de alívio (SILVA,
2012).
Na mitologia grega já havia relatos de casos de automutilação, assim como na
antiguidade as religiões pregavam que o sofrimento e a dor física trariam a purificação da
alma (SILVA, 2012).
Segundo Giusti (2013) a automutilação pode ser definida como “qualquer
comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção
consciente de suicídio e não socialmente aceita dentro de sua própria cultura e nem para
exibição” (p.5), em que a mesma pode ser efetuada inúmeras vezes, podendo ser ou não
programada anteriormente para a ação da agressão. Este fenômeno não está associado ao uso
e abuso de substâncias psicoativas. Além disso, na automutilação os resultados das lesões são
planejados, desejados e visíveis, havendo certo controle no que diz respeito à extensão das
lesões, ocorrendo geralmente durante a adolescência.
Segundo a mesma autora, há alguns tipos de automutilação que são mais frequentes,
que podem ser: “cortes superficiais, queimaduras, arranhões, mordidas, bater partes do corpo
contra parede ou objetos e cutucar ferimentos com conseqüente aumento desses ferimentos e
sangramento” (p.5). Acrescenta ainda que as regiões do corpo mais atingidas sejam os braços,
pernas e peito. Há um aumento de tensão, raiva de si mesmo, ansiedade, depressão, disforia e
sensação de perda do controle. As razões podem variar de sujeito para sujeito, no entanto, na
maioria das vezes podem estar associados à sensações de vazio ou culpa, e depois do ato
violento ao próprio corpo essas sensações desaparecem por curtos períodos (GIUSTI, 2013).
Nock & Prinstein (2004) apud Giusti (2013) descreveram quatro fatores teóricos para
as funções que a automutilação exerce, que são eles:

“Reforço automático negativo: uso de automutilação para remover ou parar alguns


estados cognitivos ou emocionais indesejados. Exemplo: aliviar tensão ou desviar
algum pensamento ruim, “reduzir dor emocional”, expressar a raiva que sente contra
outros”, “reduzir as tensões, sentimentos de culpa”. É o fator mais comum. Esta é a
única função relacionada também ás tentativas de suicídio. Reforço automático
positivo: uso da automutilação para gerar um estado desejável. Exemplo: para sentir
alguma coisa. Comumente relacionada á presença de sintomas de Transtorno de
Estresse Pós-Traumático (TEPT) e depressa, anedonia e inutilidade. Reforço social
positivo: uso da automutilação para ter a atenção de outros. “Para que os outros
vejam como eu me sinto”, “para influenciar no comportamento de outros e para
regular seus próprios estados emocionais”. Nem sempre a automutilação se inicia
por motivos de reforço social positivo. Para muitos adolescentes, pode demorar
algum tempo até que percebam que deixar os familiares notarem as cicatrizes pode
ajudar a conseguir o cuidado que eles querem e desejam. Este tipo de reforço está
associado á presença de automutilação entre colegas. Reforço social negativo: uso
da automutilação para fugir de alguma responsabilidade. Exemplo: “para não ir a
escola”, “para não fazer algo que acha chato” (p.7 e 8).

Alguns vêem esse tipo de comportamento como um meio de atrair a atenção, porém
essa afirmação não se concretiza, já que os sujeitos que se comportam dessa forma tentam
esconder através de roupas ou desculpas as evidências dessa auto violência, além de estar
presente o isolamento (SILVA, 2012).
Na automutilação, o intuito do sujeito é a busca de se sentir melhor, e, nesse sentido, a
sensação de alivio é imediata, pois no momento em que o sujeito se agride ocorre uma
diminuição temporária dos sentimentos de angustia, tensão e ansiedade. Este fenômeno é
pouco conhecido e possui poucas pesquisas, e que estudos deste problema na vida adulta são
raros (GIUSTI, 2013).
Outro aspecto que influencia esse ato refere-se ao bombardeio de novas informações
que a sociedade contemporânea vem sofrendo, é um acumulo de coisas novas apresentadas
por um elevado desenvolvimento cientifico e tecnológico. O homem esta cada vez mais
distante dos processos sociais, da totalidade do seu trabalho, desnaturalizado das vivências do
desenvolvimento (SAVIETTO, 2007).

O REFORÇO NEGATIVO E A FUGA


A partir do que foi relatado, pode-se dizer que o reforço negativo está relacionado
diretamente à automutilação, este que é visto como “todo evento que aumenta a probabilidade
futura da resposta que o remove ou atenua” (BOCK et al, 2002, p. 63).
De acordo com a abordagem behaviorista o reforço é um fator que faz com que o
comportamento (ou resposta a determinado estímulo) aumente. No caso do reforço negativo,
este aumenta a probabilidade de um comportamento acontecer ao se retirar um estímulo do
ambiente que era aversivo (MOREIRA e MEDEIROS, 2007).
O reforço negativo tem dois processos fundamentais, que são a fuga e a esquiva, que
possuem o mesmo objetivo de minimizar ou evitar os estímulos aversivos, porém, a diferença
é que na esquiva o estimulo considerado aversivo é evitado, ou seja, não é apresentado. Já na
fuga o estimulo aversivo é exposto ao sujeito, em seguida o individuo possui um
comportamento visando diminuir os efeitos desse estímulo, ou seja, acontece uma fuga
(BOCK et al, 2002).
Esquivar-se e fugir de situações que aparentam ser ruins gera certo alívio, porém a
médio e longo prazo essas atitudes não protegem mais o indivíduo do meio, assumindo um
caráter nocivo à sua autonomia e comprometendo suas habilidades sociais, pois quanto mais o
indivíduo se comporta dessa maneira, mais insensível ao meio ele ficará, e, além disso, ele
pode ter uma falsa sensação de controle do meio (ALBANEZI, 2015).
A RELAÇÃO ENTRE FUGA E AUTOMUTILAÇÃO
A relação com a automutilação parece ser o fato de ela auxiliar no afastamento do
sofrimento psíquico ou cognitivo através da dor física. À medida que há alívio do sofrimento
psíquico, aumenta-se a probabilidade da automutilação justamente como fuga para o
sofrimento.
Quando realizado o comportamento de fuga, está se retirando um estímulo aversivo,
fazendo com que seja alta a probabilidade de a resposta ser mantida. O suicídio também é um
exemplo de comportamento de fuga, pois o indivíduo está removendo consequências
aversivas de sua vida (Análise Experimental do Comportamento II, 2012). Assim acontece
também com o comportamento de automutilar-se, pois com isso o indivíduo está tentando
fugir de alguma situação que está desfavorável em seu meio, e por isso realiza o ato de se
automutilar, como se este viesse a amenizar de certa forma seu sofrimento momentâneo.
Como esta prática é comum após episódios traumatizantes, como abuso, depressão,
ansiedade, uso de álcool ou drogas (SILVA, 2012), é possível perceber que estes são possíveis
fatores perturbadores do sujeito que o levam a aliviar a tensão causada por estes através do ato
de agredir-se, morder-se, cortar-se, entre outros que caracterizam a automutilação. A pessoa
quer fugir de algum sofrimento, e por isso escolhe a via da automutilação, assim está
utilizando o comportamento de fuga.
Podemos tomar como exemplo uma adolescente que se encontra em um processo de
separação dos pais, e que ainda a mãe inicia envolvimento com outro homem. Pode-se pensar
que uma separação por si só é delicada, agora, quando há o envolvimento de um terceiro, o
conflito aumenta ainda mais, e para um adolescente lidar com esse tipo de situação causa um
desconforto, podendo gerar sofrimento, fazendo com que o adolescente busque outras formas
para lidar atacando seu próprio corpo (SAVIETTO, 2007).
É como uma válvula de escape para os problemas que podem ser de cunho emocional
ou até mesmo para substituir dores físicas, que podem ser devido a alguma doença, por uma
dor menor, buscando um alívio momentâneo (SILVA, 2012). O sujeito então retira algo que
lhe é aversivo.
Em relação a fazer parte de um grupo social, um grupo de amigos, o adolescente pode
por curiosidade de experimentação daquilo que é novo praticar a automutilação, porém ao
sentir a dor, e como um único comportamento curioso parar por ai, somente para incluir-se
para com os iguais. Porém quando a situação é reversa, ou seja, de sofrimento, na tentativa de
fugir a automutilação continuará (SILVA, 2012).
Portanto, ao fugir de situações aversivas que causam comportamento de angustias,
ansiedades e dores realizando cortes e escarificações, ou seja, atingindo o seu próprio corpo
podem gerar certo alivio, mesmo que momentâneo, mas que é capaz de afetar outras áreas de
sua vida, resultando numa falsa impressão de conforto e bem-estar, e ao se deparar com novas
situações a prática desse comportamento se repetirá (SILVA, 2012).

POSSÍVEIS INTERVENÇÕES PARA O COMPORTAMENTO DE FUGA


A curto prazo a fuga pode parecer vantajosa por fornecer alívio de situações aversivas.
Porém a médio e longo prazo ela parece não ter mais o caráter protetivo, por tornar o
indivíduo muito menos autônomo diante do ambiente. Assim, qualquer dificuldade que este
enfrente passa a ser resolvida diante de uma fuga, no caso deste trabalho a automutilação
(SIDMAN, 2009).
Uma vez que a automutilação pode ser considerada um derivado de reforços
negativos, ou seja, mantida pela presença de estímulos aversivos, tornando-se um
comportamento de fuga, é possível refletir, a partir da análise do comportamento, acerca de
intervenções que possam minimizar este tipo de comportamento.
Sugere-se duas possibilidades terapêuticas afim de minimizar e até extinguir o
comportamento de fuga. A primeira delas é a Terapia Analítico Funcional (FAP) de
Kolenberg, que propõe uma relação terapêutica e cabe ao terapeuta identificar os
comportamentos de fuga emocional. A partir da identificação é necessário que o
comportamento ocorra na sessão, para que o terapeuta aponte o comportamento ao cliente.
Essa técnica prioriza o contato do cliente com o seu próprio comportamento, com a situação
aversiva e os sentimentos que ela produz e, não podendo esquivar-se através da mutilação,
passa a aprender a tolerar suas próprias frustrações e vivenciá-las (BRANDÃO, 1999).
Outra possibilidade sugerida, é Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) de Hayes.
Nessa, o reconhecimento e a aceitação do próprio comportamento são parte inicial e muito
importante para o indivíduo, pois a aceitação pode ser útil para aumentar contatos com
reforçadores já esquecidos, por exemplo um abraço para o conforto numa situação aversiva e
lugar da automutilação. Uma segunda propriedade da aceitação seria aumentar o potencial de
ações produtivas, que seria melhorar a capacidade do indivíduo de lidar com emoções. Por
fim, ainda é possível diminuir a estimulação aversiva, ou seja, à medida em que o indivíduo
entende os próprios sentimentos, o que era aversivo passa a diminuir seu efeito (BRANDÃO,
1999).
É importante ressaltar que as duas técnicas sugeridas por Brandão (1999), devem ser
realizadas por psicoterapeutas com formação na área e devidamente treinados para reconhecer
os comportamentos e auxiliar o indivíduo a lidar com seus comportamentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se perceber que a automutilação é um problema de saúde pública, devido as suas
implicações possuírem um impacto social, psicológico e cultural na sociedade, que por sua
vez, faz emergir a necessidade da implantação de políticas sociais que criem espaço para que
as famílias e os próprios sujeitos possam falar a respeito da temática, recebendo subsídios
sociais e culturais para a diminuição do problema e até mesmo a sua extinção e por fim,
obtendo como resultado a amenização do sofrimento e um aumento na qualidade de vida dos
envolvidos.
Como mencionado, a adolescência por si só já se trata de um período conturbado, pois
é o momento em que a pessoa está passando por uma série de mudanças. Dentre elas, as
mudanças físicas, para o menino o aparecimento de pelos, a voz grossa; para a menina o
aparecimento das glândulas mamárias, a primeira menstruação, a mudança na estrutura do
corpo, e existem também mudanças sociais, em que os adolescentes percebem a necessidade
de inserir-se num grupo de iguais. Para que essas mudanças ocorram naturalmente é
importante o auxilio e acompanhamento dos pais, para que conversem e discutam sobre essas
variedades de mudanças que vão aparecendo (SAVIETTO, 2007).
De acordo com os artigos pesquisados, a automutilação acontece visando a melhora do
individuo, ou seja, é a tentativa do sujeito encontrar algo que faça com que o mesmo se sinta
melhor. Já a fuga é vista como um comportamento emitido diante de um estimulo aversivo,
visando a diminuição ou fuga da tensão proporcionada por tal estimulo.
Diante disso, nota-se que automutilação e o comportamento de fuga estão relacionados
primeiramente como sendo a tentativa de minimizar uma situação desagradável. Partindo da
definição encontrada sobre comportamento de fuga, pode-se fazer essa relação com a
automutilação.
È possível perceber que a prática da automutilação pode ser considerada uma das
novas patologias, já que os adolescentes não encontrando uma saída para situações de
desconforto, numa tentativa de diminuir a tensão e o sofrimento provocam os ataques ao
corpo.
Desse modo, existe uma situação, que é o estimulo aversivo, que se refere àquele
desconforto que o adolescente vem passando, e a partir disso realiza a automutilação, fazendo
com que esse desconforto emocional seja eliminado por alguns instantes. Então, a
automutilação, que é a resposta, volta a acontecer quando novas situações desconfortáveis
apareçam. Pode-se considerar esse comportamento como um comportamento de fuga, pois
existe o estimulo aversivo, da qual a pessoa deseja fugir, e isso provoca o ato de automutilar-
se.
Portanto, a automutilação acontece diante de uma situação desagradável ou/e
desconforto emocional, visando a melhora desse mal estar o indivíduo, por exemplo, passa a
se cortar, por determinado período esse sujeito melhora, desta forma esse comportamento
tende a se manter. Isso se caracteriza como comportamento de fuga, pois diante do estimulo
aversivo o individuo procura fugir da situação utilizando a automutilação como
comportamento viável. E uma vez caracterizado o comportamento é possível o tratamento
dessas questões.

REFERÊNCIAS

ALBANEZI, R. M. Esquiva e fuga: uma hipótese de efeitos de médio e longo prazo. 2015.
ANÁLISE EXPERIMENTAL DO COMPORTAMENTO II. Fuga e esquiva. 2012.
BOCK, B. M. A. Psicologias. 13ª reform. e ampl. ed. Saraiva, 2002.
BRANDAO, M. Z. S. Terapia comportamental e análise funcional da relação terapêutica:
estratégias clínicas para lidar com comportamento de esquiva. Rev. bras. ter. comport. cogn.,
São Paulo , v. 1, n. 2, dez. 1999.
GIUSTI, J. S. Automutilação: Características clinicas e comparação com pacientes com
transtorno obsessivo-compulsivo. São Paulo, 2013.
LE BETRON, D. Escarificações na adolescência: Uma abordagem antropológica.
Horizontes antropológico vol.16 no. 33 Porto Alegre, Junho, 2010.
LOPES P.; BARREIRA P. D.; PÍRES M. A. Tentativa de suicídio na adolescência: avaliação
do efeito de gênero na depressão e personalidade. Psicologia saúde e doença, 2001.
MOREIRA e MEDEIROS. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto
Alegre, RS: Artmed, 2007.
MORESI E. Metodologia da pesquisa. Brasília – DF, 2003.
NUNES, Carolina Portugal de Sousa. Auto-dano e ideação suicida na população
adolescente. Ponta Delgada, 2012.
PIZZANI, L.; SILVA, R. C.; BELLO, S. F.; HAYASHI, M. C. P. I. A arte da pesquisa
bibliográfica na busca do conhecimento. Revista Digital de Bibliotecnomia e Ciência da
Informação. Campinas, v. 10, no. 1, julho/dezembro, 2012.
SAVIETTO, B. B. A. Passagem ao ato e adolescência contemporânea: pais “desmapeados”
filhos “desamparados”. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., 2007.
SIDMAN, M. (1989). Coerção e suas aplicações. (Trad. M.A. Andery e M.T. Sérgio)
Campinas: Editora Livro Pleno, 2009.
SILVA, P. M.. Automutilação na adolescência: o acesso a tratamento médico como direito
funcamental. In: 19th World Congress on Medical Law, 2012, Maceió, 2012.