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NOÇÕES DE SOCIOLOGIA

NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
práticas sociais nas quais os conflitos, as contradições e os anta-
REINVINDICAÇÕES gonismos existentes na sociedade constituem o móvel básico das
POPULARES URBANAS. ações desenvolvidas. E continua Gohn, o movimento social tam-
bém expressa a consciência possível da classe que representa.
Todo Movimento Social carrega o germe da insatisfação, do
protesto contra relações sociais que redundam em situações inde-
sejáveis para um grupo ou para a sociedade, sejam elas presentes
Nas diversas conjunturas históricas tem ocorrido à necessi- ou futuras. Sendo assim, todo Movimento Social inscreve-se em
dade da população em geral e da população de baixa renda em uma problemática relacional de poder, e, como tal, é preciso com-
particular, de lutar pela sobrevivência e pelas necessidades huma- preendê-lo como uma relação de força, de confronto, de disputa e
nas básicas. Isso tem Levado essa população a mobilizações orga- conflito entre lutas de classes, dominantes e dominados, de relação
nizadas e às vezes desorganizadas ou a formação de movimentos capital/trabalho, com todas as complexidades e implicações que
sociais urbanos de caráter reivindicatórios em diversas sociedades envolvem estas categorias, hoje.
ou setores destas. Esta luta nem sempre é pela direção da produção da socie-
Os movimentos sociais de modo geral existem deste muitos dade, mas protestam contra formas de direção vigentes ou anun-
séculos. O autor Beer, usando a denominação de lutas sociais narra ciadas, e de suas consequências para a classe dominada, Andrade
sua existência na mais remota Antiguidade e, atravessando guerras enfatiza que a história e o processo de produção do espaço cons-
e conflitos que marcaram a vida dos povos, passando pelos tem- tituem assim uma interminável luta entre os grupos sociais domi-
pos modernos chega à época Contemporânea (década de 1920, do nantes entre si, e da classe dominante como um todo, frente às
século passado). classes dominadas.
Hofmann (1984) afirma que ―todo o pensamento do movi- O jogo dialético da luta dentre as classes dá origem e se ori-
mento social contemporâneo encontra a sua origem nas grandes gina, a um só tempo, do sistema de relações de trabalho dominan-
ideias da Filosofia do Iluminismo. Para ele é ― pela primeira vez te em face do nível de desenvolvimento, de utilização das forças
na história do mundo, o Iluminismo traçou a imagem de uma hu- produtivas. Daí a ligação direta que há entre o tipo de espaço pro-
manidade libertada. Isto faz com que o homem coevo crie e realize duzido e o modo de produção e/ou a formação econômico social
as suas utopias ou busque realizá-la. E continua Hofmann, “o que dominante.
constituiu uma esperança para o Iluminismo, passou a constituir Sendo assim, o antagonista visível dos Movimentos Sociais
para o movimento social um programa ainda não cumprido e pas- pode ser o Estado ou outros representantes diretos da exploração,
sível de ser realizado.” Para Gohn (1982), os movimentos sociais enquanto responsáveis por relações sociais consideradas inde-
europeus, anteriores ao século XX, e principalmente os do século sejáveis. Os representantes dos Movimentos Sociais podem ser,
XIX, caracterizam-se por suas ideologias e práticas revolucioná- uma classe social, uma etnia, uma região, um religião, um partido
rias. A unidade básica destes movimentos era dada no próprio pla-
político, ou inúmeras outras categorias. Mas Gohn (1985) e Am-
no da produção. As péssimas condições de vida dentro das fábricas
mann (1991), nos alerta que, tanto a classe dominante como a clas-
levavam à sua eclosão.
se dominada, com suas respectivas frações, podem constituir-se
Movimentos e mobilizações de grupos sociais são encontrados
em sujeitos sociais dos movimentos, insatisfeitas com as relações
em diferentes épocas, lugares, situações e em distintas sociedades,
sociais vigentes ou propostas. Entretanto, aqui se faz necessário
com maior ou menor significação. Como exemplos podemos nos
alertar que apesar dos Movimentos Sociais encontra-se regidos
referir às revoltas de escravos, aos movimentos de mulheres da
por uma lógica de exploração do capital, este produz outras for-
Idade Média, às guerras camponesas do século XVI, aos confli-
tos étnicos, aos movimentos religiosos como o franciscanismo, o mas de opressão e dominação específicas, entre as quais figura as
protestantismo do século XVI. Na história do Brasil, encontramos problemáticas dos índios, homossexuais, étnicos, ecológicos entre
vários deles, de diferentes características e dimensões, como mo- outros, que não se reduz em relação capital/trabalho. Esses mo-
vimentos emancipacionistas, messiânicos, culturais, políticos... Os vimentos específicos têm objetivos particulares, não podendo ser
dos anos 70 e 80 têm seus predecessores nos movimentos de bair- reduzidos as relações de classe como adverte Ammann (1991); em
ro, de camponeses e operários das décadas anteriores. Ao se falar outras palavras, apesar de estar no interior do regime capitalista,
dos movimentos das últimas duas décadas, os autores procuram quando dentro desses movimentos suprimir-se a oposição entre
distingui-los dos anteriores, denominando-os de novos movimen- capital/trabalho não se enquadrando como movimentos sociais.
tos sociais. Entretanto, as necessidades cotidianas dos moradores pobres e mi-
Como vimos, os Movimentos Sociais decorrem das desigual- seráveis do nosso País se inserem nas questões de lutas de classes,
dades de classes ao longo da história e, do avanço do processo apresentando-se como movimentos.
urbano-industrial, que no início do século XX, compreendia quase Isto mostra-nos que são as intencionalidades dos processos de
exclusivamente a organização do proletariado industrial, isto é, os contestação que define o que será ou não um Movimento Social,
sindicatos. Entretanto, Ammann (1991) destaca que os Movimen- em outras palavras, são os ―processos de contestação que obje-
tos Sociais só recentemente mereceram a atenção dos cientistas tivam a contraversão ou a preservação da ordem estabelecida, a
sociais. Para estes, o que vem a qualificar um movimento como partir das contradições específicas da realidade.
Movimento Social é o elemento constitutivo: a contestação, o pro- Para superar as imprecisões e ambiguidades do conceito de
testo, a insatisfação, o conflito, o antagonismo. Movimentos Sociais básicos que conhecemos Gohn (1985) ela-
Movimento é aqui entendido no sentido dado por Gohn bora um quadro geral, denominado de Principais Movimentos So-
(1985): Os movimentos se expressam através de um conjunto de ciais; o qual transcrevemos abaixo:

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Principais Movimentos Sociais Movimentos Sociais urbanos reivindicatórios

1) Movimentos Sociais Ligados à Produção: Como vimos acima, as lutas e reivindicações por menores de-
- Movimento Operário sigualdades e exclusões sociais, ou seja, melhores condições de
- Movimento dos Produtores vida em sentido pleno (de cidadania), não são novas nem exclu-
- Movimento Sindical: Operário e Patronal sivas do Brasil, mas tem acompanhado a humanidade desde que
2) Movimentos Sociais Político-Partidários surgiu a divisão social do trabalho (divisão de classe), contudo
- Partidos Institucionalizados apresentam particularidades no tempo e no espaço.
- Grupos e Facções Políticas Não Institucionalizados No entanto, os estudos propriamente ditos dos movimentos
3) Movimentos Sociais Religiosos sociais reivindicatórios de melhorias urbanas datam de época re-
- Movimentos de Igreja Católica cente. Segundo Gohn (1982), eles se desenvolveram principal-
- Movimentos de Igrejas Protestantes e Outras mente a partir de uma abordagem derivada de uma leitura estrutu-
- Movimentos Messiânicos ralista de Marx. Na Europa, o maior número destas análises tem
- Movimentos Religiosos Ligados a Tradições Culturais e ocorrido na França, sendo Manuel Castells um de seus principais
Folclóricas representantes.
4) Movimentos Sociais do Campo Esse autor foi um dos que mais influenciou na literatura sobre
- Proprietários Movimentos Sociais na América Latina. Para ele, um movimento
- Trabalhadores Rurais social nasce do encontro de uma dada combinação estrutural, que
5) Movimentos Sociais de Categorias Específicas acumula várias contradições, com um certo tipo de organização.
- Movimento Feminista Todo movimento social provoca, por parte do sistema, um contra
- Movimento Negro movimento que nada mais é do que a expressão de uma interven-
- Movimento de homossexuais ção do aparelho político (integração/repressão) visando à manu-
- Movimento de Defesa do Índio tenção da ordem.
- Movimento de Estudantes e Professores E continua Castells, o movimento social urbano é um sistema
6) Movimentos Sociais a partir de Lutas Gerais de práticas resultando da articulação de uma conjuntura do sistema
- Lutas pela Preservação do Meio Ambiente — Movimento de agentes urbanos e das outras práticas sociais, de forma que seu
Ecológico desenvolvimento tende objetivamente para a transformação estru-
- Lutas pela Democracia (Ex. Movimento pela Anistia e Luta
tural do sistema urbano ou para uma modificação substancial da
pelas Diretas)
relação de forças na luta de classes, quer dizer, em última instân-
- Lutas contra inflação e a Política Econômica do Governo
cia, no poder do Estado.
(Ex. Movimento contra a Carestia)
Outro autor a influenciar teoricamente os movimentos sociais
- Lutas de Defesa dos Consumidores
urbanos na América Latina foi Alain Touraine. Para ele, Movimen-
- Movimentos dos Desempregados
tos Sociais são a ação conflitante de agentes das classes sociais,
7) Movimentos Sociais Urbanos:
lutando pelo controle do sistema de ação histórica. Touraine deixa
- Populares: Movimentos Econômicos, Reivindicatórios de
mais clara a definição quando afirma que os Movimentos Sociais
Bens e Equipamentos. Movimentos Sociais Populares Urbanos de
Caráter Marcadamente Político são forças centrais que lutam umas contra as outras para dirigir a
- Burgueses: Ações Reivindicatórias de Bens e Equipamentos produção da sociedade por ela mesma, a ação de classe pela dire-
Urbanos Defensores de Privilégios e anti-igualitários. ção da historicidade.
Já Ammann (1991), enumera seis princípios para conceituar o Para nós os movimentos sociais urbanos reivindicatórios, ou
que seja Movimento Social, que descrevemos a seguir: seja, os movimentos populares de bairros são organizações da clas-
- É a contestação o elemento construtivo dos Movimentos se destituída de poder, que demandam através das reivindicações,
Sociais; por direitos básicos de acesso à participação e cidadania, não se
- Os Movimentos Sociais contestam determinadas relações dirigindo à luta pelo domínio (controle) político do Estado. Mas,
sociais, no contexto das relações de produção; tendo no Estado não apenas o destinatário de suas reivindicações,
- Os protagonistas podem ser classes sociais, etnias, partidos mas também um adversário e, às vezes, paradoxalmente, até um
políticos, regiões etc.; aliado.
- Nem todo Movimento Social tem caráter de classe;
- Nem todo movimento Social luta pelo poder; Na América Latina
- O objetivo dos Movimentos Sociais pode ser a transforma-
ção ou, contrariamente, a preservação de relações sociais dadas, No caso da América Latina, para ficarmos no mundo subde-
quando as mesmas se encontram ameaçadas. senvolvido e no nosso continente, as mudanças ocorridas nos con-
Diante do exposto, concordamos com o conceito formulado flitos sociais são decorrentes da radicalidade com que os grupos
por Ammann, movimento social é uma ação coletiva de caráter financeiros transnacionais submeteram esta região aos seus inte-
contestador, no âmbito das relações sociais, objetivando a trans- resses de lucro causou importantes modificações nas relações de
formação ou a preservação da ordem estabelecida na sociedade. classe destes países, ameaçando a simples sobrevivência de am-
Sendo assim, os movimentos sociais em sua maioria lutam por plos setores das massas assalariadas, que se agravou, particular-
melhorias sociais (de bens, equipamentos e serviços), e não pela mente, a partir do pós-guerra, necessitando de buscar novas formas
tomada do poder (do Estado), como veremos a seguir. de luta e resistência cotidiana.

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Estas novas formas de luta e resistência se fizeram de diver- por serviços de infraestrutura (água, esgotos, asfaltamento de ruas,
sas maneiras, em um primeiro momento, e predominantemente, iluminação privada e pública, etc.) e por um sistema de transpor-
a partir da situação de moradia, muitas vezes nos bairros pobres tes coletivos mais rápido e eficiente, pois a expansão da periferia
e improvisados que chegam a servir de habitat para milhões de tornava bem maiores as distâncias entre o local de moradia e o
famílias trabalhadoras do continente. Tais lutas acompanhadas de local de trabalho da mão-de-obra. Por outro lado, o novo desen-
outras, como: água, luz e serviços urbanos básicos já não ocorrem volvimento criou necessidades (reais ou ilusórias) infinitamente
de forma isolada, e vão construindo uma rede de intercâmbio de maiores para o sistema educacional, em todos os níveis, pois a
experiências e organização que pode chegar a convertê-las em mo- modernização econômica impôs expectativas novas à mão-de-
vimentos de bairro. -obra e, ao mesmo tempo, uma ânsia de valorização (qualificação e
Como decorrência desse processo de conflito Evers et al. especialização) para o conjunto da força de trabalho; de outra par-
(1985) afirmam, o fato de que praticamente todos os países lati- te, ampliou consideravelmente a demanda por serviços de saúde
no-americanos surjam movimentos de bairro indica que em sua (pronto socorros, postos de saúde, maternidades, hospitais, etc.),
origem deve haver um problema social de alcance geral. Numa pois a complexificação de vida urbana, com a intensidade e a rapi-
palavra, este problema chama-se: pauperização. dez de sua concentração, altas taxas de densidade, circulação rápi-
No segundo momento, decorrentes destas experiências surgi- da e veículos, trânsito, etc., e ao ritmo cada vez intenso do trabalho
ram algumas conjunturas especiais de protesto social, como: e da vida social, aumentou os acidentes de trabalho e de trânsito, as
As depredações desesperadas e espontâneas contra os trens doenças nervosas, as epidemias e as enfermidades em geral. Criou
suburbanos, devido às condições infra-humanas de transporte; uma demanda nova por equipamentos sociais e culturais (creches,
passando por marchas de protesto, com milhares de participantes maternidades, parques infantis, bibliotecas, centros de recreação,
durante vários dias, por causa do despedimento maciço de traba- locais de práticas de esportes, áreas verdes), pois não apenas as
lhadores; a mobilização de milhares de habitantes de toda a cidade; crescentes levas de migrantes recém-chegados à cidade exigiam
até às organizações de longo prazo sob formas quase partidárias atendimento social especial, como as condições urbanas aprofun-
(Tierra y Libertad, México) e inclusive greves nacionais. Parale- daram a qualidade das expectativas, provocando a emergência de
lamente, surgem também novas formas de luta contra a repressão uma demanda inteiramente nova para o sistema. A incorporação
política que acompanha a pauperização econômica, como greves da mulher à força de trabalho criou problemas sempre crescentes,
de fome, comitês de defesa dos direitos humanos, a ocupação de como a necessidade de hospitalização durante a gravidez e a as-
igrejas ou de edifícios das Nações Unidas, etc. E continuam os au- sistência à população infantil durante o horário de trabalho. Além
tores (Evert et al., 1985), a deterioração das condições reproduti- disso, a atomização da vida social e a diluição da vida familiar
vas em muitos países é parte da história atual do desenvolvimento
exigiu o surgimento de novos padrões de sociabilidade da mesma
capitalista na América Latina, que tem seu eixo no processo de
forma que lançou os agentes dessa vida moderna a um tal grau
industrialização periférica.
de complexificação de sua existência, que seria inevitável a emer-
gência de problemas como as chamadas enfermidades mentais, a
No Brasil
prostituição, a criminalidade do menor, etc.
Viver nas áreas metropolitanas, além de exigir a integração
No Brasil, as contradições urbanas decorrentes do desenvol-
a novos padrões de consumo, que garantissem uma sociabilidade
vimento do capitalismo se iniciam após 1930, com uma lógica no
adequada à vida moderna (de que a televisão talvez seja o melhor
processo de acumulação do capital que cria como precondição,
para seu funcionamento e desenvolvimento, a participação con- exemplo), exigia também, da população, o desenvolvimento de
trolada das massas populares no processo econômico e político uma rápida capacidade de resposta ao ritmo urbano de vida (longas
(RAICHELIS, 1988). Gerando um novo tipo de sociedade urbana, distâncias, tráfego congestionado, mobilidade rápida no trabalho,
especialmente nas duas principais metrópoles do país, Rio de Ja- acidentes, surtos epidêmicos, etc.). E a integração nesse ritmo rápi-
neiro e São Paulo, baseando-se na superconcentração de atividades do e violento de vida, indispensável para o funcionamento da me-
produtivas e de sua reprodução. Concentrou-se nessas regiões, já trópole, não podia mais se dar no âmbito das soluções individuais,
que ai se centralizava os demais fatores indispensáveis para sua tomadas por cada família dos componentes da força de trabalho.
ampliação. Ela dependia de soluções globais situadas ao nível das macro deci-
Para Moisés (1985), as enormes massas de população foram sões, só passíveis de serem tomadas ao nível do Estado.
formadas neste contexto, sendo obrigadas a se acomodar ao fenô- É interessante observar do exposto acima, como o processo
meno que se poderia chamar de urbanização por extensão de peri- de industrialização/urbanização não só alterou a vida da popula-
ferias, fenômeno que adquiriu as feições de um verdadeiro proces- ção pobre (da classe trabalhadora), com novas necessidades, como
so ecológico de discriminação social. E continua ele, a formação também levou a um agravamento do estado de pauperização desta.
das principais áreas metropolitanas brasileiras foi acompanhada do Além de transferir com uma nova ideologia criada pela classe do-
surgimento de uma série de contradições sociais e políticas especí- minante, segundo a qual cabia agora ao Estado ser o provedor de
ficas que apareceram na forma das distorções urbanas conhecidas, toda a população, isto é, um Estado acima das classes, responsável
por exemplo, por cidades como São Paulo, Rio, Recife, Belo Ho- a atender às necessidades mais prementes da população, e assim,
rizonte, Salvador e Porto Alegre, entre outras. Desde os anos 40 e, resolver a problemática urbana, que crescia sempre mais. Levando
mais intensamente, após a industrialização que se inicia em mea- também, a alteração, no transcorrer do tempo, da importância do
dos dos anos 50, o aprofundamento da divisão social do trabalho antagonismo entre proletariado e burguesia nos conflitos sociais
no país provocou a emergência de necessidades sociais e urbanas induzindo a uma nova contradição, que é o confronto entre as mas-
novas para a sobrevivência da população. Aumentou a demanda sas populares e o Estado.

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Este processo de metropolização que vai formando-se nas o movimento operário francês e as ideias ligadas ao socialismo. A
principais cidades brasileira, só foi possível entre outros fatores, partir da segunda metade do século XX, surgem nos EUA e Europa
graças aos movimentos migratórios do campo, que apresenta ver- movimentos com os mesmo laços de união e luta, mas caracteriza-
dadeira inversão quanto ao lugar de residência da população apon- dos por objetos de conquistas diferentes, é neste período que está
tada nas taxas de urbanização do país entre 1940 e 2000, melhor englobado os movimentos que defendem a ecologia, o movimento
dizendo, em 1940, a taxa de urbanização representava 26,35% do feminista, em defesa de grupos marginalizados da sociedade por
total, passou para 36,16% em 1950; alcançando 45,52% em 1960; questões de cor, raça, opção sexual etc. Alain Touraine cit. Por
em 1970 chega 56,80%; em 1980 vai para 68,86% e em 1991 e Herkenhoff (2004) leciona: “(...) Vê Os novos movimentos sociais
2000 atinge 77,13% e 81,25% respectivamente . como ações coletivas tendentes a obter mudanças na esfera social e
Estes recém-emigrados do campo se fixam na periferia das cultural. Essas ações são dirigidas contra um opositor que resiste”.
principais cidades, em condições muito precárias de vida, estan- Assim os movimentos sociais, sempre terão um caráter de luta
do disponíveis, abaixo preço para investimento do capital, tanto e esperança, um movimento sócio politizado almejando a modifi-
na agricultura (os boias frias), como nas atividades urbanas (in- cação da realidade encontrada, ligando os indivíduos por laços de
igualdade, solidariedade e humanização.
dústrias e serviços), como à construção civil; se constituindo em
No Brasil, é conhecido como pertencentes a esta última classi-
um subproletariado (GOHN, 1982) que subsiste mediante a venda
ficação, todos os movimentos surgidos após o regime militar, estes
da força de trabalho diária, sem desfrutar das garantias da legis-
caracterizados especialmente pelas reivindicações por terras urba-
lação trabalhista, constituindo o proletariado urbano. Em outras nas e rurais diante de um modelo social, que os marginalizam da
palavras, os trabalhadores e seus familiares constituem a força de terra, privilegiando as áreas urbanas para os detentores de capitais
trabalho predominante nos grandes centros urbanos, necessitando e excluindo várias famílias do direito à habitação, gerando assim a
que aumente a demanda dos serviços de infraestrutura urbana que necessidade de modificação de um determinado modelo de socie-
necessitam, e ao mesmo tempo, que eleva e acelera as proporções dade que não atende ao equilíbrio necessário para garantir a todos
de moradia em condições inadequadas, de forma geral, agrava um mínimo de vida digna e humanizada. Assim é inevitável que
também, conforme o perfil social, a cidade. Surgindo assim, as estes indivíduos mais afetados, sofredores oprimidos, organizem-
favelas e os bairros periféricos, além de novas formas de organiza- -se com o fim de alterar este quadro posto.
ção e estrutura de poder que se materializa nos movimentos sociais Os anseios manifestados pelos “novos movimentos sociais”
urbanos reivindicatórios. (Texto adaptado de CABRAL, A. A. C. e (dos ecologistas, das feministas, dos negros. Dos jovens, dos ho-
SÁ, A. J. de Professores pesquisadores). mossexuais etc.) não podem a meu ver ser satisfeito dentro de uma
sociedade fundada em relações de produção capitalista. Socieda-
des Capitalistas não conduzem a uma vida de autêntica significa-
MOVIMENTOS SOCIAIS E LUTAS ção existencial.
PELA MORADIA. Desta feita, torna-se elemento fundamental a colocação da es-
perança em combate a opressão posta pela estrutura vigente, estru-
tura esta composta pelos mais diversos meios, principalmente os
de natureza midiática, que banalizam os movimentos sociais, em
especial os que lutam pela terra, sendo oportuno desde já, citarmos
Frequentemente indivíduos organizam-se em busca de uma trecho da nota pública em defesa dos movimentos sociais pela mo-
solução comum diante de um problema comum, este seria o em- radia e contra a criminalização da luta pela moradia lançada pela
brião de um fenômeno complexo conhecido na Sociologia acadê- confederação nacional das associações de moradores (2007)
mica por movimentos sociais. Este termo, utilizado pela primeira Se a questão não for tratada corretamente, poderá ser um
vez por Lorenz Von Stein, por volta de 1840, representava um mo- pretexto para criminalizar o movimento social que reivindica de
forma legítima o direito à moradia adequada e à cidade. São le-
delo semântico que indicava a busca sistêmica para englobar todo
gítimos os mecanismos de pressão da sociedade organizada junto
o arcabouço de organização, linhas invisíveis que unem vários in-
ao Estado, garantidos pela Constituição e por instituições interna-
divíduos, sujeitos ativos, de forma a comporem um só corpo que
cionais. “Mas, muitas vezes, a luta por direitos é confundida com
lutam constantemente para solucionar uma problemática comum, criminalidade”
desta forma, o termo representava a definição sucinta do movi- Problema de relevância nacional trata-se da questão da ha-
mento operário francês, do comunismo e o socialismo emergente. bitabilidade, o crescente processo de urbanização acompanhado
Iniciado na Europa do século XIX, o termo movimentos so- por medidas excludentes gira em torno da necessidade de lutas
ciais adquire caráter científico, e ao longo dos séculos representa por moradias, bem como de terras para cultivá-las. Neste cenário
objeto de grande significância na sociologia, Antropologia, Direito de conflitos, os movimentos sociais tornam-se autores de Direitos,
e demais ciências do campo social Maria da Glória Gohn defi- criam normas.
ne Movimentos Sociais: Como sendo aquelas organizações que
possuem uma identidade, tem um opositor e articulam ou se fun- Os movimentos sociais e o direito
damentam num projeto de vida e de sociedade. Historicamente se
observa que eles têm contribuído para organizar e conscientizar a Os movimentos sociais criam Direitos, por representarem fa-
sociedade apresenta conjuntos de demandas via práticas de pres- tos que não podem passar despercebidos aos olhos do legislador.
são e mobilização e têm certa continuidade e permanência. Relembrando a teoria tridimensional do Direito, proposto por Mi-
Na academia, é conhecida uma divisão entre tal fenômeno; de- guel Reale, jus filósofo brasileiro, os movimentos sociais, ao cria-
finido como velhos e novos movimentos sociais, os velhos movi- rem um fato social podem, desta forma criar normas que busquem
mentos sociais indicam o fenômeno surgido no século XIX, como resguardar estes valores.

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A correlação entre aqueles três elementos é de natureza fun- O Direito a moradia, citado no Art. 6º da Constituição Bra-
cional e dialética, dada a “implicação-poliridade” existente entre sileira de 1988, reflete uma das mais básicas necessidades do ser
fato e valor, de cuja tensão resulta o momento normativo, como so- - humano, o indivíduo, para que viva dignamente e mantenha-se
lução superadora e integrante nos limites circunstanciais de lugar e numa ótima qualidade de vida faz necessário o seu habitat, não
de tempo (concreção histórica do processo jurídico, numa dialética penas um pedaço de terra, mas, toda a infraestrutura para manter o
de complementaridade). sujeito com as necessidades básicas atendidas, como saneamento,
Deste processo dialético entre fato e valor. Assim refletimos iluminação e vias de acesso eficaz.
que necessariamente os movimentos sociais possuem legitimida- É indispensável à efetivação da dignidade da pessoa humana,
de e capacidade para a criação e modificação do Direito. O que um dos preceitos garantidos por nossa Carta magna em seu Art. 1º
nos parece contraditório, é presenciarmos a atual situação, em que III, de forma em que milhares de pessoas descobertas de uma das
os movimentos sociais acabam sendo visto como inimigos da paz necessidades tão básicas, ao lado da alimentação, que é a moradia,
pública observem o que leciona em suas sábias palavras o prof. assim, se constituindo um grande desafio para o poder soberano na
Herkenhoff: Os movimentos sociais não se submetem aos padrões efetivação de seus objetivos elencados no Art. 3º da Constituição
do Direito estabelecido. Brasileira de 1988.
Sobretudo em sociedades como a brasileira, onde milhões de Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Fe-
pessoas estão à Margem de qualquer Direito, num estado de per- derativa do Brasil:
manente negação da cidadania, os movimentos sociais estão sem- I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
pre a criar Direito à face de uma realidade sociopolítica surda aos II - garantir o desenvolvimento nacional;
apelos de direito e dignidade humana. III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desi-
O poder judiciário, assim como a maior parte da população gualdades sociais e regionais;
brasileira, mostra-se falhos na receptividade aos clamores de luta. IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem,
Isso vale para qualquer movimento. Se for invasão de propriedade, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação
destruição de bens, impedimento de afazeres de órgão públicos, já E o art. XXV da Declaração universal dos Direitos Humanos,
ultrapassou os limites que a Constituição estabelece. (2008) ao declara o direito a habitação como Direito universal da huma-
Este abismo existencial mostra exatamente as falhas de um nidade.
sistema jurídico posto, imperativo, que não conseguem de fato A dignidade da pessoa humana como comando constitucional
proteger a todos, e tampouco conseguem resgatar os marginaliza- será observada quando os componentes de uma moradia adequada
dos para a real condição de cidadania.
forem reconhecidos pelo poder público e pelos agentes privados,
Os Direitos e Garantias fundamentais garantidos por nossa
responsáveis pela execução de programas e projetos de habitação
constituição Federal de 1988, não conseguem, após 20 de anos de
e interesse social, como elementos necessários à satisfação do Di-
promulgação, descer até as camadas mais baixas da sociedade e
reito a moradia.
dar-lhes a proteção humana para sobreviverem, analisando espe-
Absurdamente, após doze anos de promulgação da Carta
cialmente aqui o Direito a moradia.
Magna, ainda que com pouquíssima utilidade fática, o legislador
Um dos maiores problemas encaradas nas cidades, é a condi-
constituinte derivado inclui através da emenda constitucional nº
ção de viverem dignamente debaixo de um teto, muitas famílias
vivem sem possuírem um abrigo, em contraste com alguns poucos 26/2000 o Direito social a moradia ao art. 6º. Na verdade pou-
que detêm sobre seu domínio grandes extensões de terras, manten- co se faz de diferença, tendo em vista que desde a promulgação
do-as improdutivas, e com a única finalidade da especulação imo- os Art. 23 e 24 atribuem as competências entre união, estados e
biliária. Os movimentos sociais pela moradia buscam a liberdade municípios na responsabilidade de trabalharem tendo em vista o
deste cenário perturbador, inúmeros pessoas são privadas de uma equilíbrio e o bem-estar da sociedade, dentre este objetivo inclui-
habitação digna, por contas de poucos, que, com poderes pecuniá- -se programas de habitação popular.
rios, alicerçados numa estrutura jurídica preocupada em proteger o Verdadeiramente, a emenda nº 26/2000 com essa inclusão da
patrimônio individual, mostra-se ineficaz para solucionar conflitos moradia nada significou de mudança real nos projetos de habitação
da grande massa oprimida. Em um Estado nacional do tamanho popular. Uma medida demagoga, em que somente modificando um
geográfico do Brasil, seus preceitos de Direitos e Garantias funda- texto normativo, nada se realiza de concreto.
mentais, escritos na Constituição do Brasil de 1988, mostram-se de Talvez a EC nº 26 seja isto: lembraram-se de colocar ali mais
eficácia questionável na solução desta drástica realidade. uma coisa que não existe para a grande massa populacional bra-
sileira, algo que não se trabalha para que exista, algo que é bom
Direito social a moradia lembrar ao povo que ele não tem.
Enquanto alguns pensam que as leis são os meios únicos de se
Os direitos sociais elencados em nossa Carta Magna seguem mudar a sociedade, refletimos sobre a realidade contemporânea, a
uma tradição do constitucionalismo contemporâneo, onde o Esta- esperança de muitos que sonham com uma vida digna, e o deses-
do Socialdemocrata mostra-se em sua estrutura normativa uma pe- pero de famílias que se deparam com uma decisão judicial de uma
culiar preocupação com os menos favorecidos da sua comunidade. ação de reintegração de posse, que são despejadas por não possuí-
Os direitos sociais representam uma prestação positiva do poder rem “um justo título”, uma sentença que possui forças para tirá-los
soberano para com os seus cidadãos, visando solucionar os pro- do local, mas que a incapaz de sensibilizar-se com a situação de
blemas que atingem o corpo social. “(...) os Direitos sociais visam exclusão dos mesmos.
a uma melhoria das condições de existência, através de prestações Vários movimentos sociais urbanos passam por experiências
positivas do Estado, que deverá assegurar a criação de serviços de semelhantes, não conseguindo o seu objeto inicial, e tão logo que
educação, saúde, habitação, dentre outros, para a sua realização”. consegue algo, já se encontram em muitas outras necessidades, os

Didatismo e Conhecimento 5
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
movimentos sociais pela moradia geralmente começam por uma Entendemos que a luta pela moradia realizada por mobili-
ocupação em terrenos improdutivos, e que logo em seguida são zação social é uma luta válida, legítima e de boa credibilidade,
reclamados pelo seu proprietário ocorrendo quase sempre despejo sabemos que as dificuldades são imensas, mas, acreditamos que
das famílias que ali se instalaram necessariamente os laços de soli- através das lutas populares será possível atingir grandes conquis-
dariedade e resistência, unem os indivíduos partícipes de tal sofri- tas, e desde já ressaltamos o desafio de com um trabalho árduo e
mento a lutarem por condições dignas de vida e equilíbrio social. contínuo, modificarmos a imagem corroída que determinados se-
Os movimentos sociais pela moradia possuem uma forte ten- tores da comunidade com seus interesses particulares atribuíram
dência de se institucionalizarem, levando-os a uma grande organi- as manifestações populares de reivindicações. (Texto adaptado de
zação de tarefas entre os membros, bem como a escolhas de seus RODRIGUES, J. F. ALMEIDA, V. A. A.).
líderes e os caminhos e meios necessários para a consecução do
fim almejado. Acreditamos que o maior número de reinvindica-
ções oriundos destas organizações representa o quanto à sociedade
está desamparando os mais necessitados, o poder público torna-se MOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAÇÃO.
o maior vilão deste confronte, pois historicamente não foi capaz
de apaziguar os problemas de massa, que só se acumularam e ga-
nharam forças, O estatuto das Cidades, lei 10.257/2001, instru-
mento legal capaz se solucionar diversas injustiças, ainda possui
muitas dificuldades de serem efetivamente aplicados, e assim não A relação dos movimentos sociais e educação
nos conduz a verdadeira função social da cidade, desde já os mo-
vimentos populares continuam na luta incansável da aplicabilidade Abordamos, neste texto, a temática dos movimentos sociais,
de dispositivos previsto em tal lei federal, principalmente no que apresentando algumas características e exemplos na América Lati-
tange as questões da regularização fundiária, não tão somente esta, na. Baseamos no estudo dos movimentos sociais no Brasil na atua-
mas como o Decreto-lei 271 de 1967, que regulariza a Concessão lidade e destacamos a relação movimento social e educação. De
do Direito Real de Uso, em especial para fins de moradia prevista pronto, esclarecemos: para nós, a educação não se resume à educa-
na medida provisória 2.220/01, mas, restrições são feitas a este ção escolar, realizada na escola propriamente dita. Há aprendiza-
respeito pela própria medida. O importante é a mobilização social, gens e produção de saberes em outros espaços, aqui denominados
meio eficaz de se atingir o fim desejável na criação de novos Direi- de educação não formal. Portanto, trabalha-se com uma concepção
tos, assim como tantos já foram conseguidos, observemos: ampla de educação. Um dos exemplos de outros espaços educati-
Para qualquer iniciativa de regularização fundiária dar certo vos é a participação social em movimentos e ações coletivas, o que
é indispensável que a comunidade envolvida esteja participando gera aprendizagens e saberes. Há um caráter educativo nas práticas
ativamente do processo [...] A comunidade tem condições de atuar que se desenrolam no ato de participar, tanto para os membros da
para conquistar não só direito à moradia, mas, todos os direitos de sociedade civil, como para a sociedade mais geral, e também para
que carece. os órgãos públicos envolvidos - quando há negociações, diálogos
A mobilização popular representou e representa um forte ins- ou confrontos.
trumento de conquistas e lutas das camadas mais oprimidas da Uma das premissas básicas a respeito dos movimentos sociais
sociedade, na efetivação das ações por parte do poder estatal em é: são fontes de inovação e matrizes geradoras de saberes. Entre-
prol daquela coletividade, os mecanismos utilizados pela máquina tanto, não se trata de um processo isolado, mas de caráter político-
pública ainda são lentos e por muito tempo assim permanecerão. -social. Por isso, para analisar esses saberes, deve-se buscar as
Acima do que foi explicitado, podemos compreender as enor- redes de articulações que os movimentos estabelecem na prática
mes dificuldades enfrentadas pelos movimentos sociais que reivin- cotidiana e indagar sobre a conjuntura política, econômica e so-
dicam a moradia, dificuldades encontradas em diversos momentos, ciocultural do país quando as articulações acontecem. Essas redes
não apenas na resolução dos problemas que possui, mas abrangen- são essenciais para compreender os fatores que geram as aprendi-
do, o desprestígio que diversas entidades governamentais e mi- zagens e os valores da cultura política que vão sendo construídos
diáticas os atribuem, entendemos tais acontecimentos como algo no processo interativo.
proposital que objetiva cada vez mais criar um entendimento na A relação movimento social e educação existe a partir das
grande maioria da população brasileira que os movimentos sociais ações práticas de movimentos e grupos sociais. Ocorre de duas
são grupos de “baderneiros” e “criminosos”. formas: na interação dos movimentos em contato com instituições
Podemos afirmar que os movimentos sociais possuem poderes educacionais, e no interior do próprio movimento social, dado o
para criarem Direitos, e isso ao nosso entender representa algo de caráter educativo de suas ações. No meio acadêmico, especial-
grande perigo para aqueles que se beneficiam do atual estado caó- mente nos fóruns de pesquisa e na produção teórico-metodológica
tico que aí se apresenta. Ao longo dos anos o crescente processo existente, o estudo dessa relação é relativamente recente. A junção
de urbanização acabou por privilegiar aqueles sujeitos detentores dos dois termos tem se constituído em “novidade” em algumas
de capitais, que ao adquiriram vultosas áreas de terras, as tornaram áreas, como na própria Educação - causando reações de júbilo pelo
improdutivas e consequentemente marginalizaram diversas pes- reconhecimento em alguns, ou espanto e estranhamento - nas vi-
soas da efetivação de um dos direitos tão básicos que é a moradia. sões ainda conservadoras de outros. No exterior, a articulação dos
O Direito social a moradia previsto na Constituição Federal do movimentos com a educação é antiga e constitutiva de alguns gru-
Brasil de 1988, bem como outros dispositivos infraconstitucionais pos de pesquisa, como na International Sociological Association
ainda mostra-se ineficazes e inaplicáveis na realização do bem so- (ISA), Latin American Studies Association (LASA), Associación
cial. Latinoamericana de Sociologia (ALAS) etc.

Didatismo e Conhecimento 6
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
No Brasil, essa relação foi sendo vagarosamente construída a Cenário dos movimentos sociais na atualidade no Brasil
partir do fim dos anos 1970, quando foram criadas novas associa-
ções ou ativadas entidades científicas já existentes, a exemplo da Para situar a relação movimentos sociais e educação, é preciso
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências delinear um quadro referencial mais amplo, relativo à conjuntura
Sociais (ANPOCS), a Associação Nacional de Pós-Graduação e que constitui o campo sociopolítico e econômico no qual ocorrem
Pesquisa em Educação (ANPEd), a Sociedade Brasileira para o os movimentos. Algumas características básicas dessa conjuntura
Progresso da Ciência (SBPC), a Sociedade Brasileira de Socio- na atualidade, no campo do associativismo, são:
logia (SBS) e as Conferências Brasileiras de Educação (CBEs), - Há um novo cenário neste milênio: novos tipos movimen-
realizadas bienalmente, que passaram a debater os problemas so- tos, novas demandas, novas identidades, novos repertórios. Proli-
cioeconômicos e políticos e a destacar os grupos e movimentos feram movimentos multi e pluriclassistas. Surgiram movimentos
sociais envolvidos. Essas entidades e eventos pautaram, no fim dos que ultrapassam fronteiras da nação, são transnacionais, como o já
anos 1970 e durante a década de 1980, em seus grupos de traba- citado movimento alter ou antiglobalização. Mas também emergi-
lho e pesquisa, mesas e debates, o tema dos movimentos sociais. ram com força movimentos com demandas seculares como a terra,
A relação movimento social e educação foi construída a partir da para produzir (MST) ou para viver seu modo de vida (indígenas).
atuação de novos atores que entravam em cena, sujeitos de novas Movimentos identitários, reivindicatórios de direitos culturais que
ações coletivas que extrapolavam o âmbito da fábrica ou os locais lutam pelas diferenças: étnicas, culturais, religiosas, de nacionali-
de trabalho, atuando como moradores das periferias da cidade, dades etc. Movimentos comunitários de base, amalgamados por
ideias e ideologias, foram enfraquecidos pelas novas formas de se
demandando ao poder público o atendimento de suas necessida-
fazer política, especialmente pelas novas estratégias dos governos,
des para sobreviver no mundo urbano. Os movimentos tiveram
em todos os níveis da administração. Novos movimentos comuni-
papel educativo para os sujeitos que o compunham. Já existe um
taristas surgiram - alguns recriando formas tradicionais de relações
acervo considerável de pesquisa sobre aquela época, várias teses, de autoajuda; outros organizados de cima para baixo, em função
dissertações, livros e outros trabalhos acadêmicos foram produzi- de programas e projetos sociais estimulados por políticas sociais.
dos. Entretanto, uma avaliação mais global ainda está para ocorrer, - Criaram-se várias novidades no campo da organização popu-
especialmente um balanço que extrapole o eixo São Paulo, Rio lar, tais como a atuação em redes e maior consciência da questão
de Janeiro e Minas Gerais, porque os movimentos ocorreram em ambiental ao demandar projetos que possam vir a ter viabilidade
todo o Brasil, embora não com a mesma intensidade. Se olharmos econômica sem destruir o meio ambiente.
para a América Latina, a lacuna de estudos e publicações, espe- - A nova conjuntura econômica e política tem papel social
cialmente as de ordem comparativa, é muito grande. Faltam es- fundamental para explicar o cenário associativista atual. As políti-
tudos que articulem a produção brasileira com a de outros países cas neoliberais desorganizaram os antigos movimentos e propicia-
latino-americanos, especialmente aqueles que também passaram ram arranjos para o surgimento de novos atores, organizados em
por regimes militares. ONGs, associações e organizações do terceiro setor.
A reflexão sobre a produção teórico-metodológica dos movi- - As reformas neoliberais deslocaram as tensões para o pla-
mentos sociais nas últimas décadas conta com algumas publica- no cotidiano, gerando violência, diminuição de oportunidades no
ções no Brasil (Gohn, 2008 e 2009), mas há muito a se produzir. mundo do trabalho formal, formas precárias de emprego, constran-
O livro de S. Tarrow (1994), um dos marcos no debate teórico gimento dos direitos dos indivíduos, cobrança sobre seus deveres
dos movimentos sociais, foi publicado no Brasil somente em em nome de um ativismo formal etc.
2009. Alain Touraine, entre os autores estrangeiros que analisam - O Estado promoveu reformas e descentralizou operações de
os movimentos sociais, o mais conhecido no Brasil, não teve seus atendimento na área social; foram criados canais de mediações e
primeiros livros traduzidos para o português. M. Castells, que in- inúmeros novos programas sociais; institucionalizaram-se formas
fluenciou vários estudos dos movimentos no Brasil nos anos 1970- de atendimento às demandas. De um lado, observa-se que esse fato
1980, também não teve livros publicados na década de 1970 tradu- foi uma vitória, porque demandas anteriores foram reconhecidas
zidos no Brasil, sobretudo aqueles nos quais pautou a análise dos como direito, inscrevendo-as em práticas da gestão pública. De
movimentos sociais com novo olhar sobre a questão urbana. Em outro, a forma como têm sido implementadas as novas políticas,
síntese, apesar do denso quadro de mobilizações e movimentos so- ancoradas no pragmatismo tecnocrático, tem resultado na maioria
dos projetos sociais implementados passando a ter caráter fiscali-
ciais no país, a partir do fim dos anos 1970, o debate e a produção
zatório, ou sendo partícipes de redes clientelistas, e não de controle
teórica caminhou lentamente até os primeiros anos deste novo sé-
social de fato.
culo, embora conte com um grande número de publicações que são
Um panorama dos movimentos sociais neste novo milênio
registros descritivos, importantes como memórias. No campo da pode ser descrito em torno de 13 eixos temáticos, que envolvem as
educação, a defasagem é ainda maior. Na primeira década do novo seguintes lutas e demandas (Gohn, 2010):
milênio, o tema dos movimentos sociais tem lentamente retorna- - Movimentos sociais em torno da questão urbana, pela inclu-
do à agenda dos pesquisadores, sobretudo novos pesquisadores, são social e por condições de habitabilidade na cidade. Exemplos:
pautando o debate em eventos e publicações recentes em números - Movimentos pela moradia, expresso em duas frentes de luta:
temáticos de revistas brasileiras. E retornando de forma diferente, articulação de redes sociopolíticas compostas por intelectuais de
pautando o campo teórico, questionando marcos interpretativos centro-esquerda e movimentos populares que militam ao redor do
das décadas anteriores, postulando novos referenciais em função tema urbano (o hábitat, a cidade propriamente dita). Eles participa-
de mudanças no cenário sociopolítico. ram do processo de construção e obtenção do Estatuto da Cidade;
redes de movimentos sociais populares dos Sem-Teto (moradores
de ruas e participantes de ocupações de prédios abandonados),
apoiados por pastorais da Igreja Católica e outras;

Didatismo e Conhecimento 7
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
- Movimentos e ações de grupos de camadas médias contra a - Mobilizações do Movimento Nacional de Atingidos pelas
violência urbana e demandas pela paz (no trânsito, nas ruas, esco- Barragens, hidrelétricas, implantação de áreas de fronteiras de ex-
las, ações contra as pessoas e seu patrimônio etc.); ploração mineral ou vegetal etc.
- Mobilizações e movimentos de recuperação de estruturas - Movimentos sociais no setor das comunicações, a exem-
ambientais, físico-espaciais (como praças, parques), assim como plo do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
de equipamentos e serviços coletivos (área da saúde, educação, (FNDC).
lazer, esportes e outros serviços públicos degradados nos últimos
anos pelas políticas neoliberais); ou ainda mobilizações de seg- Lutas e movimentos pela educação: pontos fundamentais
mentos atingidos pelos projetos de modernização ou expansão de
serviços. Reiteramos a afirmação anterior - a educação abrange várias
- Mobilização e organização popular em torno de estruturas áreas, destacando-se: formal (escolas), não formal (práticas edu-
institucionais de participação na gestão política-administrativa cativas de formação voltadas para a construção da cidadania) e
da cidade: informal (socialização dos indivíduos no ambiente familiar de ori-
- Orçamento Participativo e Conselhos Gestores (saúde, edu-
gem). Lutas e movimentos pela educação têm caráter histórico,
cação, assistência social, criança e adolescente, idoso);
são processuais, ocorrem, portanto, dentro e fora de escolas e em
- conselhos da Condição Feminina, Populações Afrodescen-
outros espaços institucionais. Lutas pela educação envolvem lutas
dentes etc.
- Movimentos em torno da questão da saúde, como: por direitos e fazem parte da construção da cidadania. O tema dos
- Sistema Único de Saúde (SUS); direitos é fundamental, porque dá universalidade às questões so-
- conferências nacionais, estaduais e municipais da saúde; ciais, aos problemas econômicos e às políticas públicas, atribuin-
- agentes comunitários de saúde; do-lhes caráter emancipatório. É a partir dos direitos que fazemos
- portadores de necessidades especiais; o resgate da cultura de um povo e de uma nação, especialmente em
- portadores de doenças específicas: insuficiência renal, lúpus, tempos neoliberais que destroem ou massificam as culturas locais,
Parkinson, mal de Alzheimer, câncer, doenças do coração etc. regionais ou nacionais. Partir da óptica dos direitos de um povo ou
- Movimentos de demandas na área do direito: agrupamento social é adotar um princípio ético, moral, baseado
- humanos: situação nos presídios, presos políticos, situações nas necessidades e experiência acumuladas historicamente dos se-
de guerra etc.; res humanos, e não nas necessidades do mercado. A óptica dos di-
- culturais: preservação e defesa das culturas locais, patrimô- reitos possibilita-nos a construção de uma agenda de investigação
nio e cultura das etnias dos povos. que gera sinergia, não compaixão, que resulta em políticas emanci-
- Mobilizações e movimentos sindicais contra o desemprego. padoras, não compensatórias. Fora da óptica da universalidade dos
- Movimentos decorrentes de questões religiosas de diferentes direitos, caímos nas políticas focalizadas, meras justificativas para
crenças, seitas e tradições religiosas. políticas que promovem uma modernização conservadora. A ópti-
- Mobilizações e movimentos dos sem-terra, na área rural e ca dos direitos como ponto de partida poderá fazer-nos entender as
suas redes de articulação com as cidades por meio da participa- mudanças sociais em curso.
ção de desempregados e moradores de ruas, nos acampamentos do Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto
MST, movimentos dos pequenos produtores agrários, Quebradei- de escolas como de gênero, etnia, nacionalidade, religiões, por-
ras de Coco do Nordeste etc. tadores de necessidades especiais, meio ambiente, qualidade de
- Movimentos contra as políticas neoliberais: vida, paz, direitos humanos, direitos culturais etc. Os movimentos
- Mobilizações contra as reformas estatais que retiram direitos sociais são fontes e agências de produção de saber. O contexto
dos trabalhadores do setor privado e público; escolar é um importante espaço para participação na educação. A
- atos contra reformas das políticas sociais; participação na escola gera aprendizado político para a participa-
- denúncias sobre as reformas que privatizam órgãos e apare-
ção na sociedade em geral.
lhos estatais.
Ao lançarmos um olhar sobre a relação entre educação e mo-
- Grandes fóruns de mobilização da sociedade civil organiza-
vimentos sociais no Brasil, podemos encontrar alguns movimentos
da: contra a globalização econômica ou alternativa à globalização
neoliberal (contra ALCA, por exemplo); o Fórum Social Mundial a partir da segunda metade do século XX, citando, por exemplo,
(FSM), iniciativa brasileira, com dez edições ocorridas no Brasil as Ligas Camponesas, nos anos 1960, e a utilização do método
e no exterior; o Fórum Social Brasileiro, inúmeros fóruns sociais Paulo Freire, além da importante relação entre a educação escolar
regionais e locais; fóruns da educação (Mundial, de São Paulo); do ensino superior e os movimentos sociais, nas mobilizações ao
fóruns culturais (jovens, artesões, artistas populares etc.). redor de maio de 1968. Nos anos 1970, a relação é bem perceptível
- Movimento das cooperativas populares: material reciclável, nas Comunidades de Base da Igreja (CEBs), com a educação não
produção doméstica alternativa de alimentos, produção de bens e formal, que naquela época também buscava formar politicamente
objetos de consumo, produtos agropecuários etc. Trata-se de uma seus participantes, dando-lhes instrumentos para uma visão críti-
grande diversidade de empreendimentos, heterogêneos, unidos ao ca do mundo. As CEBs eram a porta de entrada nos movimentos
redor de estratégias de sobrevivência (trabalho e geração de ren- sociais urbanos de luta por creches, transportes, postos de saúde,
da), articulados por ONGs que têm propostas fundadas na econo- moradia etc. Dado o regime político da época, professores não po-
mia solidária, popular e organizados em redes solidárias, autoges- diam fazer parte de sindicatos, mas participaram de movimentos
tionárias. Muitas dessas ONGs têm matrizes humanistas, propõem de resistência em suas associações de classes. Outros movimentos
a construção de mudanças socioculturais de ordem ética, a partir questionaram diretamente o regime militar, como o movimento
de uma economia alternativa que se contrapõe à economia de mer- pela anistia, ou ainda os movimentos políticos de resistência ar-
cado capitalista. mada de setores que optaram pela guerrilha. A universidade foi um

Didatismo e Conhecimento 8
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
grande palco de debates nesse período de resistência, e a SBPC, - Escola pública com qualidade. Trata-se de uma demanda já
junto com entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil clássica nas reivindicações dos sindicatos, e tem assumido impor-
(OAB), associações de jornalistas, Cúrias Metropolitanas e outras, tância cada vez maior, uma vez que os inúmeros testes, provas e
acolheram os debates e participaram dos atos de protesto contra o ranking de escolas têm deixado claro que essa demanda é uma
regime vigente. necessidade real. O próprio governo federal reconheceu isso em
Nos anos 1980, a relação educação e movimentos sociais se dezembro de 2010: “o Livro Azul da ciência e tecnologia, que traz
acentua, por meio de trabalhos de educação popular, lutas pelas um diagnóstico da inovação no Brasil e propostas para orientar fu-
Diretas Já, organização de propostas para a constituinte e a Cons- turas políticas públicas. [...] ressalta a necessidade do que chamou
tituição propriamente dita. Os movimentos passaram a pautar uma de uma ‘revolução na educação’. A meta é simples: essencialmente
nova agenda de demandas, e uma nova cultura política também universalizar a educação básica de qualidade” (Folha de S. Paulo,
é construída, alterando as políticas públicas vigentes. Conselhos 22/12/2010). Infelizmente, para muitos políticos e administrado-
e delegacias das mulheres, temas étnico-raciais, ambientais etc. res, educação de qualidade significa formação de mão de obra para
passaram a fazer parte do cotidiano na transição do regime mili- o perfil da maioria dos empregos existentes - precários e mal re-
tar para a fase da redemocratização. Paulatinamente, foram sendo munerados. Estamos longe de um cenário em que a educação seja
construídas redes de movimentos sociais temáticos. vista como formação integral, que incluiu o pensamento crítico, a
capacidade de ler o mundo, de indignar-se com as injustiças, reco-
Os anos 1990 mudaram a cena política. O fim do regime mi-
nhecer e se alegrar com as manifestações de inovação e criativi-
litar e a ascensão de setores da oposição a cargos no poder alte-
dade dos seres humanos, ou seja, de refletir de maneira autônoma.
raram a composição política, e o país começou a reconstruir sua
- Gestão Democrática da Escola. Incluída na Constituição de
institucionalidade. Novos atores entram em cena, como as ONGs e
1988 e na LDB de 1996, a gestão democrática tem sido objeto de
outras entidades do terceiro setor. Muitos movimentos sociais des- inúmeros projetos experimentais. Os planos e reformas neoliberais
mobilizam-se. Novas políticas públicas passam a pautar questões enfatizam a gestão como foco central a ser trabalhado. Com isso,
da cidadania e da participação, as políticas neoliberais ganham projetos são formulados.
maior ênfase, os sindicatos se enfraquecem e a educação escolar - Valor das mensalidades nas escolas particulares ou confes-
ganha uma nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), mas torna-se sionais, especialmente no ensino superior. O movimento dos estu-
também um dos alvos prediletos das reformas estatais. dantes lidera essa reivindicação.
O leque de propostas e ações é amplo. Certamente há grupos - Políticas públicas que priorizem a educação com suportes
sérios, competentes, com propostas articuladas e fundadas em pro- orçamentários adequados. Movimentos de diferentes matrizes po-
jetos sociopolíticos e culturais emancipatórios. Mas há um grande líticas da área da educação têm enfatizado fortemente essa ques-
número de propostas meramente integradoras, que buscam rear- tão. Eles denunciam que a educação tem prioridade nos discursos,
ticular a coesão social, fragmentada pelos problemas sociais que mas, na prática efetiva dos planos, planejamentos e planilhas, não
extrapolam as comunidades em que atuam. é de fato prioridade. Entre os movimentos, citam-se: o Fórum Na-
cional de Luta pela Escola Pública ou o Movimento Compromisso
Demandas pela educação nos movimentos na educação es- Todos pela Educação, além dos sindicatos docentes e demais pro-
colar fissionais da educação.
- Realização de experiências alternativas. Tem crescido nos
No Brasil, nas últimas duas décadas, os principais eixos das últimos anos as análises que afirmam que os problemas da educa-
demandas pela educação, nas escolas de ensino básico, dos movi- ção formal não se resumem na busca de soluções convencionais
mentos envolvendo a educação formal são: dentro das escolas. Articulações da educação formal com a prática
da educação não formal têm sido propostas em planos e projetos e
- Lutas pelo acesso. Demandam vagas em diferentes níveis implementadas em redes públicas, a exemplo dos Centro Unifica-
do ensino. Nos últimos anos, destacam-se as lutas das camadas dos de Educação (CEUs), da rede de ensino municipal pública da
populares pelo acesso ao ensino superior. O Programa Universi- cidade de São Paulo.
dade para Todos (PROUNI) no ensino particular/confessional e o - Luta dos professores e outros profissionais da educação por
melhores condições salariais e de trabalho. Envolve também a bus-
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI)
ca por melhorias em relação à carreira e qualificação dos profes-
podem ser considerados programas que respondem a essas deman-
sores, campo por excelência dos sindicatos. Essa demanda é a que
das.
mais se destaca no campo da educação. Ao analisá-la, recupera-se
- Demandas por vagas nas escolas de educação infantil. Essa
parte da história da educação escolar. Registre-se, entretanto, a for-
área, apesar de toda a luta dos movimentos populares nos anos te presença do corporativismo, herdeiro de estratégias seculares de
1970, ainda é muito deficitária. Não foi incluída na Constituição lutas, algumas de resistência, outras de defesa de privilégios.
de 1988 ou na LDB de 1996 como obrigatória a oferta para essa - Lutas dos estudantes por vagas, condições, mensalidades,
faixa etária refeitórios, moradia.
- Aumento de vagas na escola de ensino básico. Na última dé- - Lutas contra discriminações de todos os tipos, abuso sexual
cada houve avanço nesse campo, mas as reivindicações referem-se etc.
à distribuição das vagas e seus critérios. Algumas reformas educa- -Ensino técnico. Na atualidade, é um dos setores mais caren-
cionais promoveram a racionalização na oferta das vagas, deslo- tes e deficitários do país. Faltam escolas e falta a redefinição de
cando alunos para escolas distantes de suas moradias ou separando seus objetivos, além do fato de a própria identidade desse grau de
irmãos de uma mesma família em diferentes unidades escolares. ensino não ser clara. Em um país com tradições cartoriais, bacha-

Didatismo e Conhecimento 9
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
relescas e burocratizadas, não se construiu um projeto claro a res- greves para a contratação de professores, mais verbas para educa-
peito dos profissionais que o ensino técnico forma. Ele já teve di- ção, contra os reajustes das mensalidades, assim como na expan-
ferentes representações no imaginário da sociedade, de escola para são e no acesso ao ensino universitário; cotas para os socioecono-
pobres, de formação para o trabalho etc. As faculdades de tecno- micamente excluídos ou por questões da cor ou etnia; tarifas de
logia, aprovadas, com cursos para formação de tecnólogos, como transportes e de restaurantes universitários etc. Nos últimos anos,
gastronomia, hotelaria e inúmeros ofícios no campo da saúde ain- os já citados programas PROUNI e o REUNI, do governo federal,
da encontram resistência para ser aceitas como cursos superiores, são responsáveis pela expansão do ensino superior e inclusão de
embora muitas tenham altíssima demanda em seus vestibulares. estudantes de baixa renda ou em situação de vulnerabilidade so-
- Jornadas mais efetivas nos programas contra o analfabetis- cial. Eles respondem às demandas feitas há décadas por grupos
mo. Movimentos como o Brasil Alfabetizado pautaram essa de- e setores populares organizados, constituindo-se hoje em espaço
manda. Em um momento histórico em que a educação aparece de articulação de várias demandas e lutas institucionalizadas pela
como uma das três principais prioridades da população, o analfa- educação.
betismo ainda existente é uma demanda da mais alta prioridade.
- Educação de jovens e adultos. Exemplos: Movimento Na- Eixos e tipos de lutas e movimentos na área da educação não
cional do EJA (Educação de Jovens e Adultos), e o Movimento formal
de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA). No passado, a
Este item é importante, complexo e extenso, porque nele se lo-
educação de jovens e adultos focalizava bastante o processo de
caliza a grande maioria das ações educativas dos movimentos so-
alfabetização. Na atualidade, projetos como o EJA vão muito além
ciais, práticas civis, associativismo das ONGs etc. Alongaríamos
disso. O EJA realiza o Encontro Nacional de Educação de Jovens
demais se cada item da listagem a seguir fosse detalhado, vamos
e Adultos (ENEJA), que já tem institucionalidade. Trata-se de um apenas listá-los:
movimento que debate, questiona e postula mudanças, assim como - trabalho nos sindicatos;
também cria memória e grande acervo de material para pesquisas, - trabalho com movimentos sociais (especialmente popula-
pelos dados e textos que mantém on-line para consulta. O MOVA res);
também é um dos exemplos de movimento que foi estimulado por - trabalhos na área da ação social comunitária (junto a asso-
políticas públicas implementadas em parceria com a comunidade ciações, ONGs e outras formas organizativas - área mais carente e
organizada, com a assessoria de ONGs. onde se encontra o maior desafio).
- Projetos pedagógicos que respeitem as culturas locais. Essa - Alterações na relação da escola com a comunidade.
demanda refere-se à organização comunitária local, à trajetória das Outros espaços onde é necessária a atuação de educadores:
experiências de participação existentes na região, construção de - Lutas pelo acesso. Demandam vagas em diferentes níveis do
eixos identitários que singularizem as escolas em função da cultura ensino. Nos últimos em comunidades carentes - grupos vulnerá-
sociopolítica e social local, redefinição do conceito de participação veis (mulheres, crianças, idosos e pobres, exclusão socioeconômi-
no sentido da ampliação de seu campo e significado. ca ou grupos étnicos/culturais ou raciais, como negros, para quem
- Alterações na relação da escola com a comunidade. a exclusão é, além de socioeconômica, também cultural);
Pode-se observar que a lista das demandas na área da edu- - na mobilização de recursos da comunidade para combate
cação formal é extensa e, dado o limite deste artigo, destacamos às situações de exclusão por meio da implantação de programas e
apenas alguns traços do último ponto: a relação entre escola e projetos sociais (usualmente fruto de parcerias populares organiza-
comunidade. Sabe-se que, na visão tradicional, a comunidade se das, governos locais, ONGs, movimentos etc.);
reduz à participação dos pais/mães de alunos, usualmente com um - movimentos étnico-raciais (índios e negros);
único objetivo: a ajuda dos pais para a escola para superar carên- -movimentos de gênero (mulheres e homens) e movimentos
cias e deficiências (usualmente econômicas). A nova concepção de homossexuais (que têm demandas específicas e diferentes dos
de relação escola-comunidade amplia o espectro dos sujeitos em movimentos nucleados pela perspectiva de gênero, que trata mais
ação, pressupondo um trabalho conjunto entre pais, professores, das relações sociais entre homens e mulheres). Gays, lésbicas e
gestores e funcionários, representantes de associações e organiza- transexuais não são apenas discriminados, mas criminalizados,
alvo de atentados contra a vida, são perseguidos e morrem em
ções de bairros e entorno das escolas. Dois pontos devem demar-
atentados praticados por grupos com ideologias fascistas e nazis-
car as relações desse conjunto, a saber: I) ser integradora, partindo
tas;
dos problemas da escola sem esquecer os problemas do bairro ou
- movimentos culturais de jovens, especialmente na área da
comunidade territorial onde a unidade está localizada; II) centrada música, aprendizagem e formas de expressão como o rap e o hip
em um modelo de escola denominado por Alain Touraine (2005) hop;
como “Escola do Sujeito”, no qual se reconhece a liberdade e cria- - mobilizações e protestos contra a guerra, pela paz;
tividade e as demandas individuais e coletivas. O modelo orienta- - movimentos de solidariedade e apoio a programas com me-
-se para a liberdade do sujeito, para a comunicação intercultural, ninos e meninas de rua, adolescentes que usam drogas, portadores
para a gestão democrática da sociedade e suas mudanças, para for- de HIV, portadores de necessidades especiais.
mar para a cidadania. Esse modelo ainda supõe a transmissão com- - movimento pela infância;
petente de conhecimentos básicos e não só de domínio de habili- - movimentos pela preservação ou construção de condições
dades - como querem vários projetos neoliberais. Uma escola que, para o meio ambiente local, regional, nacional e global. Aqui se
em suma, prepara os indivíduos para ser cidadãos do e no mundo. inscrevem, além dos movimentos ecológicos, os movimentos em
Na rede do ensino superior universitário, tanto pública como torno da água - de defesa de rios, bacias, lagoas e água no planeta
particular ou comunitária/confessional, as lutas sempre estiveram -, movimentos de defesa dos animais, especialmente os que estão
presentes com maior visibilidade, nas demandas, mobilizações e em extinção.

Didatismo e Conhecimento 10
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
Tipos de aprendizagem nas lutas dos movimentos sociais Movimentos sociais, educação e esfera pública: a questão dos
conselhos
Segundo Vygotsky, o aprendizado ocorre quando as informa-
ções fazem sentido para os indivíduos inseridos em um dado con- Atualmente, os conselhos gestores apresentam muitas novi-
texto social. A aprendizagem no interior de um movimento social, dades. São importantes porque são frutos de demandas populares
durante e depois de uma luta, são múltiplas, tanto para o grupo antigas, organizadas em movimentos sociais, ou de grupos de pres-
como para indivíduos isolados. A seguir, destacamos algumas. Es- são da sociedade civil pela redemocratização do país. Considera-
tão separadas para efeito didático da exposição, mas muitas delas mos importante incluí-los neste texto porque são também espaços
estão articuladas. de aprendizagem e produção de saber, ainda que possam conter
- Aprendizagem prática: como se organizar, como participar, práticas nem sempre inovadoras e, portanto, reprodutoras de sabe-
como se unir, que eixos escolher. res não democráticos.
- Aprendizagem teórica: quais os conceitos-chave que mobili- Os conselhos estão inscritos na Constituição Federal de 1988
zam as forças sociais em confronto (solidariedade, empowerment, na qualidade de instrumentos de expressão, representação e par-
autoestima), como adensá-los em práticas concretas. ticipação da população. Essas estruturas inserem-se, portanto, na
- Aprendizagem técnica instrumental: como funcionam os ór- esfera pública e, por força de lei, integram-se a órgãos públicos
gãos governamentais, a burocracia, seus trâmites e papéis, quais as vinculados ao Poder Executivo, voltados para políticas públicas
leis que regulamentam as questões em que atuam etc. específicas, responsáveis pela assessoria e suporte ao funciona-
- Aprendizagem política: quais são seus direitos e os de sua mento das áreas em que atuam.
categoria, quem é quem nas hierarquias do poder estatal governa- Os conselhos gestores são diferentes dos conselhos comuni-
mental, quem cria obstáculos ou usurpa seus direitos etc. Na escola tários, populares ou dos fóruns civis não governamentais, porque
ou em processos de alfabetização com jovens e adultos, pode-se esses últimos são compostos exclusivamente de representantes da
observar o poder da alfabetização, mas concordamos com Ricci sociedade civil, cujo poder reside na força da mobilização e da
quando afirma: “esta compreensão política do seu poder, que Pau- pressão, não possuindo assento institucional junto ao Poder Pú-
lo Freire se referia. Mas esta ‘politização’ necessária do alfabeti- blico. Os conselhos gestores são diferentes também dos conselhos
zando possui uma peculiaridade. A alfabetização e o ensino não de “notáveis”, que já existiam nas esferas públicas no passado,
podem adotar como função a organização, mas ser um meio para compostos exclusivamente por especialistas.
este fim” (Ricci, 2004). Os conselhos gestores são novos instrumentos de expressão,
- Aprendizagem cultural: quais elementos constroem a identi- representação e participação. Em tese, são dotados de potencial
dade do grupo, quais suas diferenças, suas diversidades, as adver- de transformação política. Se efetivamente representativos, pode-
sidades culturais que têm de enfrentar, qual a cultura política do rão imprimir novo formato às políticas sociais, pois se relacionam
grupo (seu ponto de partida e o processo de construção ou agrega- com o processo de formação das políticas e tomada de decisões.
ção de novos elementos a essa cultura) etc. Com os conselhos, gera-se uma nova institucionalidade pública,
- Aprendizagem linguística: refere-se à construção de uma pois criam uma nova esfera social-pública ou pública não estatal.
linguagem comum que possibilita ler o mundo, decodificar temas Trata-se de um novo padrão de relações entre Estado e sociedade,
e problemas, perceber/descobrir e entender/compreender seus in- porque viabilizam a participação de segmentos sociais na formu-
teresses no meio de um turbilhão de propostas que se defrontam. lação de políticas sociais e possibilitam à população o acesso aos
Com essa linguagem, criam uma gramática própria, com códigos e espaços em que se tomam as decisões políticas.
símbolos que os identificam. Não é possível entender o papel dos diferentes tipos de con-
- Aprendizagem sobre a economia: quanto custa, quais os fa- selhos que existem atualmente no Brasil se não entendermos a
tores de produção, como baixar custos, como produzir melhor com reforma do Estado e as novas figuras jurídicas que essa reforma
custo mais baixo etc. contempla. Organizações Sociais (OSs) e as Organizações da So-
- Aprendizagem simbólica: quais são as representações que ciedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) são exemplos dessas
existem sobre eles próprios - demandatários, sobre o que deman- formas. As Organizações Sociais foram criadas por lei em maio de
dam, como se autor representam, que representações ressignifi- 1998 para reestruturar o aparelho do Estado em todos os níveis.
cam, que novas representações criam. No nível federal, parcelas do próprio Estado poderão deixar de
- Aprendizagem social: como falar e ouvir em público, hábitos fazer parte do aparelho estatal e se tornar prestadoras de serviços
e comportamentos de grupos e pessoas, como se portar diante do públicos, ou parte das atividades do Estado passarão a fazer par-
outro, como se comportar em espaços diferenciados. cerias com entidades do chamado terceiro setor (leia-se: ONGs,
- Aprendizagem cognitiva: a respeito de conteúdos novos, te- organizações e associações comunitárias ou filantrópicas e outras
mas ou problemas que lhes dizem respeito, criada a partir da par- entidades sem fins lucrativos). Como foi dito, não são todas ou
ticipação em eventos, observação, informações transmitidas por quaisquer organizações não governamentais que podem ser consi-
assessorias etc. deradas parte do terceiro setor, e sim aquelas com o perfil do novo
- Aprendizagem reflexiva: sobre suas práticas, geradora de associativismo civil dos anos 1990. Um perfil diferente das antigas
saberes. organizações dos anos 1980, que tinham fortes características rei-
- Aprendizagem ética: a partir da vivência ou observação do vindicativas, participativas e militantes. O novo perfil desenha um
outro, centrada em valores como bem comum, solidariedade, com- tipo de entidade mais voltada para a prestação de serviços, atuan-
partilhamento, valores fundamentais para a construção de um cam- do de acordo com projetos, dentro de planejamentos estratégicos,
po ético-político. buscando parcerias com o Estado e empresas da sociedade civil.

Didatismo e Conhecimento 11
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
A legislação em vigor no Brasil desde 1996 preconiza que, As novas práticas constituem um novo tecido social, denso
para o recebimento de recursos destinados às áreas sociais, os mu- e diversificado, tensionando as velhas formas de fazer política e
nicípios devem criar seus conselhos. Isso explica por que a maio- criando, em termos de alternativas democráticas, novas possibili-
ria dos conselhos municipais surgiu após essa data (em 1998, dos dades concretas para o futuro.
1.167 conselhos existentes nas áreas da educação, assistência so-
cial e saúde, 488 deles haviam sido criados depois de 1997; 305 Desafios
entre 94 e 96; e apenas 73 antes de 1991). Nos municípios, as áreas
básicas dos conselhos gestores são: educação, assistência social, Estamos vivendo um novo momento na trajetória do associa-
saúde, habitação, criança e adolescentes. Na esfera municipal, eles tivismo latino-americano, sobretudo no caso do Brasil. As análises
devem ter caráter deliberativo. destacam o caráter educativo das ações coletivas, organizadas na
Na área da educação, nos municípios, sabe-se que além do forma de movimentos sociais, a ampliação desse cenário associa-
Conselho Municipal de Educação há ainda o Conselho de Ali- tivo para além da sociedade civil, adentrando em novas esferas
mentação Escolar (COMAE), o Conselho de Acompanhamento e públicas, a exemplo dos conselhos e conferências nacionais, e o
Controle Social (CACS) e o ex-Fundo de Manutenção e Desen- surgimento de novos formatos desse associativismo, que agora
volvimento de Ensino Fundamental e Valorização do Magistério trabalha essencialmente em rede. O Estado transformou suas re-
(FUNDEF), substituído pelo FUNDEB, que inclui o financiamen- lações com a sociedade civil organizada, impulsionando políticas
to de todos os níveis de ensino básico. Juntos, esses três conselhos, públicas participativas, muitas delas coordenadas ou com a parti-
a rede de escolas e a Secretaria Municipal de Educação constituem cipação de antigas lideranças oriundas de movimentos sociais. A
o Sistema Municipal de Ensino e devem elaborar o Plano Muni- busca da institucionalização de práticas antes autônomas tornou-
cipal de Ensino que estabeleça progressivamente metas para a au- -se uma constante. Novo marco regulatório oficial, possibilitou a
tonomia das escolas, à medida que forem capazes de elaborar e criação de inúmeras inovações no campo da gestão democrática, e
executar seu projeto pedagógico, garantindo a gestão democrática o leque de entidades e associações atuando no campo da educação,
do ensino público. especialmente na educação não formal, cresceu bastante.
Apesar de a legislação incluir os conselhos como parte do pro- Disso tudo resulta um cenário contraditório em que convivem
cesso de gestão descentralizada e participativa e instituí-los como entidades que buscam a mera integração dos excluídos, por meio
novos atores deliberativos e paritários, vários pareceres oficiais da participação comunitária em políticas sociais exclusivamente
têm assinalado e reafirmado o caráter apenas consultivo dos con- compensatórias, com entidades, redes e fóruns sociais que buscam
a transformação social por meio da mudança do modelo de desen-
selhos, restringindo suas ações ao campo da opinião, da consulta
volvimento que impera no país, inspirados em um novo modelo
e do aconselhamento, sem poder de decisão ou deliberação. A lei
civilizatório no qual a cidadania, a ética, a justiça e a igualdade
os vinculou ao Poder Executivo do município, como órgãos au-
social sejam imperativos, prioritários e inegociáveis.
xiliares da gestão pública. É preciso, portanto, que se reafirme,
Há muitos desafios a serem enfrentados. Como meta geral, é
em todas as instâncias, seu caráter essencialmente deliberativo,
preciso alterar a cultura política de nossa sociedade (civil e polí-
porque apenas a opinião não basta. Nos municípios sem tradição
tica), ainda fortemente marcada pelo clientelismo, fisiologismo e
organizativo-associativa, os conselhos têm sido apenas uma rea-
por diversas formas de corrupção; reestruturar a cultura adminis-
lidade jurídico-formal e muitas vezes um instrumento a mais nas trativa de nossos órgãos públicos, ainda estruturados sobre os pila-
mãos do prefeito e das elites, que falam em nome da comunidade, res da burocracia e do corporativismo; contribuir para o fortaleci-
como seus representantes oficiais, não atendendo minimamente mento de uma cultura cidadã que respeite os direitos e os deveres
aos objetivos de ser mecanismos de controle e fiscalização dos ne- dos indivíduos e das coletividades, pois a cidadania predominante
gócios públicos. se restringe ao voto e é ainda marcada pelas heranças coloniais da
Atualmente, alguns administradores públicos ainda tendem a subserviência e do conformismo.
conduzir as políticas sociais para o campo da filantropia e da cari- Em resumo: o compromisso ético e a opção pelo desenvolvi-
dade, esvaziando o sentido do público, do caráter de política públi- mento de propostas que tenham como base a participação social
ca. Há um esvaziamento da responsabilidade pública, um apelo à pelo protagonismo da sociedade civil exigem clara vontade políti-
moral conservadora, tradicional, remetendo as ações ao campo das ca das forças democráticas, organizadas para a construção de uma
políticas sociais compensatórias, do burocratismo e até mesmo do sociedade de um espaço público diferente do modelo neoliberal,
velho clientelismo. construído a partir de exclusões e injustiças. É preciso que sejam
Os direitos transformam-se em benefícios concedidos. Os ad- respeitados os direitos de cidadania e que se aumentem progres-
ministradores pouco inovam. A inovação advém das novas práti- sivamente os níveis de participação democrática da população.
cas geradas pela sociedade civil. De fato, são inúmeras as novas Esses níveis expressam-se em espaços públicos, consolidados
práticas sociais expressas em novos formatos institucionais da par- em instituições que deem forma aos direitos humanos e ao exer-
ticipação, tais como conselhos, fóruns e parcerias. cício da participação cidadã, presentes nos conselhos, plenárias,
Por meio dos conselhos, por exemplo, a sociedade civil fóruns e outras possíveis instituições a ser inventadas. Tudo isso
exercita o direito de participar da gestão de diferentes políticas compõe o universo da temática educação e movimentos sociais.
públicas, tendo a chance de exercer maior controle sobre o Esta- E, lembrando um alerta de Rancière (1995), ao criticar as formas
do. Os fóruns, por sua vez, são frutos das redes tecidas nos anos de participação não emancipadoras, criadas apenas para estabele-
1970/1980 e têm possibilitado aos grupos organizados olhar para cer consensos e controles, que diz que nesses casos a participação
além da dimensão local. Têm abrangência nacional e são fontes de política é confundida com o consenso, e a política deixa de ser “a
referência e comparação para os próprios participantes. reivindicação da parte dos que não têm parte, a uma intervenção de
expedientes”. (Texto adaptado da autora GOHN, M. G.).

Didatismo e Conhecimento 12
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST
MOVIMENTOS E LUTAS SOCIAIS
NA HISTÓRIA DO BRASIL. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, também
conhecido pela sigla MST, é um movimento social brasileiro de
inspiração marxista cujo objetivo é a implantação da reforma agrá-
ria no Brasil. Teve origem na aglutinação de movimentos que fa-
ziam oposição ou estavam desgostosos com o modelo de reforma
A análise dos movimentos sociais no Brasil revelam forte agrária imposto pelo regime militar, principalmente na década de
enfoque teórico oriundo do marxismo, sejam eles vinculados ao 1970, o qual priorizava a colonização de terras devolutas em re-
espaço urbano e/ou rural. Tais movimentos, quando se referiam giões remotas, com objetivo de exportação de excedentes popula-
ao espaço urbano possuíam um leque amplo de temáticas como cionais e integração estratégica. Contrariamente a este modelo, o
por exemplo, as lutas por creches, por escola pública, por mora- MST declara buscar a redistribuição das terras improdutivas.
dia, transporte, saúde, saneamento básico etc. Quanto ao espaço Apesar dos movimentos organizados de massa pela reforma
rural, a diversidade de temáticas expressou-se nos movimentos agrária no Brasil remontarem apenas às ligas camponesas, asso-
de boias-frias (das regiões cafeeiras, citricultoras e canavieiras, ciações de agricultores que existiam durante as décadas de 1950
principalmente), de posseiros, sem-terra, arrendatários e pequenos e 1960, o MST proclama-se como herdeiro ideológico de todos
proprietários. os movimentos de base social camponesa ocorridos desde que os
Cada um dos movimentos possuía uma reivindicação especí- portugueses entraram no Brasil, quando a terra foi dividida em ses-
fica, no entanto, todos expressavam as contradições econômicas e marias por favor real, de acordo com o direito feudal português,
sociais presentes na sociedade brasileira. fato este que excluiu em princípio grande parte da população do
No início do século XX, era muito mais comum a existên- acesso direto à terra.
cia de movimentos ligados ao rural, assim como movimentos que Uma das atividades do grupo consiste na ocupação de terras
lutavam pela conquista do poder político. Em meados de 1950, improdutivas como forma de pressão pela reforma agrária, mas
os movimentos nos espaços rural e urbano adquiriram visibilidade também há reivindicação quanto a empréstimos e ajuda para que
através da realização de manifestações em espaços públicos (ro- realmente possam produzir nessas terras. Para o MST, é muito im-
dovias, praças, etc.). Os movimentos populares urbanos foram im- portante que as famílias possam ter escolas próximas ao assenta-
pulsionados pelas Sociedades Amigos de Bairro - SABs - e pelas mento, de maneira que as crianças não precisem ir à cidade e, desta
Comunidades Eclesiais de Base - CEBs. Nos anos 1960 e 1970, forma, fixar as famílias no campo.
mesmo diante de forte repressão policial, os movimentos não se A organização não tem registro legal por ser um movimento
calaram. Havia reivindicações por educação, moradia e pelo voto social e, portanto, não é obrigada a prestar contas a nenhum órgão
de governo, como qualquer movimento social ou associação de
direto. Em 1980 destacaram-se as manifestações sociais conheci-
moradores.
das como “Diretas Já”.
O movimento recebe apoio de organizações não governamen-
Em 1990, o MST e as ONGs tiveram destaque, ao lado de
tais e religiosas, do país e do exterior, interessadas em estimular a
outros sujeitos coletivos, tais como os movimentos sindicais de
reforma agrária e a distribuição de renda em países em desenvol-
professores.
vimento. Sua principal fonte de financiamento é a própria base de
Concomitante às ações coletivas que tocam nos problemas
camponeses já assentados, que contribuem para a continuidade do
existentes no planeta (violência, por exemplo), há a presença de
movimento.
ações coletivas que denunciam a concentração de terra, ao mes- Dados coletados em diversas pesquisas demonstram que os
mo tempo que apontam propostas para a geração de empregos no agricultores organizados pelo movimento têm conseguido usufruir
campo, a exemplo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra de melhor qualidade de vida que os agricultores não organizados.
(MST); ações coletivas que denunciam o arrocho salarial (greve de O MST reivindica representar uma continuidade na luta his-
professores e de operários de indústrias automobilísticas); ações tórica dos camponeses brasileiros pela reforma agrária. Os atuais
coletivas que denunciam a depredação ambiental e a poluição dos governantes do Brasil tem origens comuns nas lutas sindicais e
rios e oceanos (lixo doméstico, acidentes com navios petroleiros, populares, e portanto compartilham em maior ou menor grau das
lixo industrial); ações coletivas que têm espaço urbano como lócus reivindicações históricas deste movimento. Segundo outros auto-
para a visibilidade da denúncia, reivindicação ou proposição de res, o MST é um movimento legítimo que usa a única arma que
alternativas. dispõe para pressionar a sociedade para a questão da reforma agrá-
As passeatas, manifestações em praça pública, difusão de ria, a ocupação de terras e a mobilização de grande massa humana.
mensagens via internet, ocupação de prédios públicos, greves,
marchas entre outros, são características da ação de um movimen- Movimento dos Trabalhadores Sem Teto - MTST
to social. A ação em praça pública é o que dá visibilidade ao movi-
mento social, principalmente quando este é focalizado pela mídia O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) surgiu
em geral. Os movimentos sociais são sinais de maturidade social em 1997 da necessidade de organizar a reforma urbana e garantir
que podem provocar impactos conjunturais e estruturais, em maior moradia e a todos os cidadãos. Está organizado nos municípios do
ou menor grau, dependendo de sua organização e das relações de Rio de Janeiro, Campinas e São Paulo. É um movimento de cará-
forças estabelecidas com o Estado e com os demais atores coleti- ter social, político e sindical. Em 1997, o MST fez uma avaliação
vos de uma sociedade. interna em que reconheceu que seria necessária uma atuação na
cidade além de sua atuação no campo. Dessa constatação, duas
opções de luta se abriram: trabalho e moradia.

Didatismo e Conhecimento 13
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
Estão em quase todas as metrópoles do País. São desdobra- nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tra-
mentos urbanos do MST, com um comando descentralizado. As dicionais da classe média americana e das economias capitalistas
formas de atuação variam de um movimento para outro. Em geral, e totalitárias. Eles enxergavam o patriarcalismo, o militarismo, o
as ocupações não têm motivação política, apenas apoio informal poder governamental, as corporações industriais, a massificação, o
de filiados a partidos de esquerda. O objetivo das ocupações é capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais como
pressionar o poder público a criar programas de moradia e dar à parte de uma “instituição” única, e que não tinha legitimidade.
população de baixa renda acesso a financiamentos para a compra Nos anos 60, muitos jovens passaram a contestar a socieda-
de imóveis. de e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder militar e
Atualmente, o MTST é autônomo em relação ao MST, mas econômico. Esses movimentos de contestação iniciaram-se nos
tem uma aliança estratégica com esse. EUA, impulsionados por músicos e artistas em geral. Os hippies
defendiam o amor livre e a não-violência. Como grupo, os hippies
Fórum Social Mundial - FSM tendem a viver em comunidades coletivistas ou de forma nômade,
vivendo e produzindo independentemente dos mercados formais,
O Fórum Social Mundial (FSM) é um evento altermundialista usam cabelos e barbas mais compridos do que era considerado
organizado por movimentos sociais de diversos continentes, com “elegante” na época do seu surgimento. Muita gente não associada
objetivo de elaborar alternativas para uma transformação social à contracultura considerava os cabelos compridos uma ofensa, em
global. Seu slogan é Um outro mundo é possível. parte por causa da atitude iconoclasta dos hippies, às vezes por
É um espaço internacional para a reflexão e organização de acharem “anti-higiênicos” ou os considerarem “coisa de mulher”.
todos os que se contrapõem à globalização neoliberal e estão Foi quando a peça musical Hair saiu do circuito chamado off-
construindo alternativas para favorecer o desenvolvimento humano -Broadway para um grande teatro da Broadway em 1968, que a
e buscar a superação da dominação dos mercados em cada país e contracultura hippie já estava se diversificando e saindo dos cen-
nas relações internacionais. tros urbanos tradicionais.
A luta por um mundo sem excluídos, uma das bandeiras do I Os Hippies não pararam de fazer protestos contra a Guerra
Fórum Social Mundial, tem suas raízes fixadas na resistência his- do Vietnã, cujo propósito era acabar com a guerra. A massa dos
tórica dos povos contra todo o gênero de opressão em todos os hippies eram soldados que voltaram depois de ter contato com os
tempos, resistência que culmina em nossos dias com o movimento Indianos e a cultura oriental que, a partir desse contato, se inspira-
irmanando milhões de cidadãos e não-cidadãos do mundo inteiro ram na religião e no jeito de viver para protestarem. Seu principal
contra as consequências da mundialização do capital, patrocinada símbolo era o Mandala (Figura circular com 3 intervalos iguais).
por organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacio-
nal (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização Mundial do Movimento Feminista
Comércio (OMC), entre outros.
O Fórum Social Mundial (FSM) se reuniu pela primeira vez O Feminismo é um discurso intelectual, filosófico e político
na cidade de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, Brasil, que tem como meta os direitos iguais e a proteção legal às mu-
entre 25 e 30 de janeiro de 2001, com o objetivo de se contrapor lheres. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias, todas
ao Fórum Econômico Mundial de Davos. Esse Fórum Econômi- preocupadas com as questões relacionadas às diferenças entre
co tem cumprido, desde 1971, papel estratégico na formulação do os gêneros, e advogam a igualdade para homens e mulheres e a
pensamento dos que promovem e defendem as políticas neolibe- campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses. De acordo
rais em todo mundo. Sua base organizacional é uma fundação suí- com Maggie Humm e Rebecca Walker, a história do feminismo
ça que funciona como consultora da ONU e é financiada por mais pode ser dividida em três “ondas”. A primeira teria ocorrido no
de 1.000 empresas multinacionais. século XIX e início do século XX, a segunda nas décadas de 1960
e 1970, e a terceira teria ido da década de 1990 até a atualidade. A
Movimento Hippie teoria feminista surgiu destes movimentos femininos, e se mani-
festa em diversas disciplinas como a geografia feminista, a história
Os “hippies” (no singular, hippie) eram parte do que se con- feminista e a crítica literária feminista.
vencionou chamar movimento de contracultura dos anos 60 tendo O feminismo alterou principalmente as perspectivas predomi-
relativa queda de popularidade nos anos 70 nos EUA, embora o nantes em diversas áreas da sociedade ocidental, que vão da cul-
movimento tenha tido muita força em países como o Brasil so- tura ao direito. As ativistas femininas fizeram campanhas pelos di-
mente na década de 70. Uma das frases idiomáticas associada a reitos legais das mulheres (direitos de contrato, direitos de proprie-
este movimento foi a célebre máxima “Paz e Amor” (em inglês dade, direitos ao voto), pelo direito da mulher à sua autonomia e à
“Peace and Love”) que precedeu a expressão “Ban the Bomb”, a integridade de seu corpo, pelos direitos ao aborto e pelos direitos
qual criticava o uso de armas nucleares. reprodutivos (incluindo o acesso à contracepção e a cuidados pré-
As questões ambientais, a prática de nudismo, e a emanci- -natais de qualidade), pela proteção de mulheres e garotas contra
pação sexual eram ideias respeitadas recorrentemente por estas a violência doméstica, o assédio sexual e o estupro, pelos direitos
comunidades. trabalhistas, incluindo a licença-maternidade e salários iguais, e
Adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma es- todas as outras formas de discriminação.
pécie de socialismo-anarquista ou estilo de vida nômade e à vida Durante a maior parte de sua história, a maior parte dos mo-
em comunhão com a natureza, negavam o nacionalismo e a Guerra vimentos e teorias feministas tiveram líderes que eram principal-
do Vietnã, bem como todas as guerras, abraçavam aspectos de re- mente mulheres brancas de classe média, da Europa Ocidental e
ligiões como o budismo, hinduísmo, e/ou as religiões das culturas da América do Norte. No entanto, desde pelo menos o discurso

Didatismo e Conhecimento 14
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
Sojourner Truth, feito em 1851 às feministas dos Estados Unidos, Châtelet, sede do prebostado, para pedir que o estudante fosse jul-
mulheres de outras raças propuseram formas alternativas de fe- gado pelas instâncias da universidade. Se o preboste do rei indefe-
minismo. Esta tendência foi acelerada na década de 1960, com o ria o pedido, a universidade entrava em greve. Em 1453, um estu-
movimento pelos direitos civis que surgiu nos Estados Unidos, e o dante, Raymond de Mauregart, foi morto pelas forças do Châtelet
colapso do colonialismo europeu na África, no Caribe e em partes e a universidade entrou novamente em greve por vários meses.
da América Latina e do Sudeste Asiático. Desde então as mulheres Contemporaneamente, destacam-se os movimentos estudan-
nas antigas colônias europeias e no Terceiro Mundo propuseram tis da década de 1960, dentre os quais os de maio de 1968), na
feminismos “pós-coloniais” - nas quais algumas postulantes, como França. No mesmo ano, também se registraram movimentos em
Chandra Talpade Mohanty, criticam o feminismo tradicional oci- vários outros países da Europa Ocidental, nos Estados Unidos e na
dental como sendo etnocêntrico. Feministas negras, como Angela América Latina. No Brasil, o movimento teve papel importante na
Davis e Alice Walker, compartilham este ponto de vista. luta contra o regime militar que se instalou no país a partir de 1964.
Desde a década de 1980, as feministas standpoint argumen-
taram que o feminismo deveria examinar como a experiência da Era pós 90
mulher com a desigualdade se relaciona ao racismo, à homofobia,
ao classismo e à colonização. No fim da década e início da década A partir de 1990, ocorreu o surgimento de outras formas de
seguinte as feministas ditas pós-modernas argumentaram que os organização popular, mais institucionalizadas - como os Fóruns
papeis sociais dos gêneros seriam construídos socialmente, e que Nacionais de Luta pela Moradia, pela Reforma Urbana, o Fórum
seria impossível generalizar as experiências das mulheres por to- Nacional de Participação Popular etc. Os fóruns estabeleceram a
das as suas culturas e histórias. prática de encontros nacionais em larga escala, gerando grandes
diagnósticos dos problemas sociais, assim como definindo metas e
Movimento Estudantil objetivos estratégicos para solucioná-los. Emergiram várias inicia-
tivas de parceria entre a sociedade civil organizada e o poder públi-
O movimento estudantil, embora não seja considerado um co, impulsionadas por políticas estatais, tais como a experiência do
movimento popular, dada a origem dos sujeitos envolvidos, que, Orçamento Participativo, a política de Renda Mínima, Bolsa Esco-
nos primórdios desse movimento, pertenciam, em sua maioria, a la etc. Todos atuam em questões que dizem respeito à participação
chamada classe pequeno burguesa, é um movimento de caráter so- dos cidadãos na gestão dos negócios públicos. A criação de uma
cial e de massa. É a expressão política das tensões que permeiam Central dos Movimentos Populares foi outro fato marcante nos
o sistema dependente como um todo e não apenas a expressão anos 1990, no plano organizativo; estruturou vários movimentos
ideológica de uma classe ou visão de mundo. Em 1967, no Brasil, populares em nível nacional, tal como a luta pela moradia, assim
sob a conjuntura da ditadura militar, esse movimento inicia um como buscou uma articulação e criou colaborações entre diferen-
processo de reorganização, como a única força não institucionali- tes tipos de movimentos sociais, populares e não populares.
zada de oposição política. A história mostra como esse movimen- Ética na Política, um movimento do início dos anos 1990, teve
to constitui força auxiliar do processo de transformação social ao grande importância histórica, porque contribuiu decisivamente
polarizar as tensões que se desencadearam no núcleo do sistema para a deposição - via processo democrático - de um presidente da
dependente. O movimento estudantil é o produto social e a expres- República por atos de corrupção, fato até então inédito no país. Na
são política das tensões latentes e difusas na sociedade. Sua ação época, contribuiu também para o ressurgimento do movimento dos
histórica e sociológica tem sido a de absorver e radicalizar tais estudantes com novo perfil de atuação, os «caras-pintadas».
tensões. Sua grande capacidade de organização e arregimentação À medida que as políticas neoliberais avançaram, outros
foi capaz de colocar cem mil pessoas na rua, quando da passeata movimentos sociais foram surgindo: contra as reformas estatais, a
dos cem mil, em 1968. Ademais, a histórica resistência da União Ação da Cidadania contra a Fome, movimentos de desempregados,
Nacional dos Estudantes (UNE), como entidade representativa dos ações de aposentados ou pensionistas do sistema previdenciário. As
estudantes, é exemplar. lutas de algumas categorias profissionais emergiram no contexto
O movimento estudantil é um movimento social da área da de crescimento da economia informal, no setor de transportes
educação, no qual os sujeitos são os próprios estudantes. Carac- urbanos, por exemplo, apareceram os transportes alternativos
teriza-se por ser um movimento policlassista e constantemente («perueiros»); no sistema de transportes de cargas pesadas nas
renovado - já que o corpo discente se renova periodicamente nas estradas, os «caminhoneiros». Algumas dessas ações coletivas
instituições de ensino. surgiram como respostas à crise socioeconômica, atuando
Podem-se encontrar traços de movimentos estudantis pelo mais como grupos de pressão do que como movimentos sociais
menos desde o século XV, quando, na Universidade de Paris, uma estruturados. Os atos e manifestações pela paz, contra a violência
das mais antigas universidades da Europa, registraram-se vários urbana, também são exemplos dessa categoria. Se antes a paz era
movimentos grevistas importantes. A universidade esteve em gre- um contraponto à guerra, hoje ela é almejada como necessidade ao
ve durante três meses, em 1443, e por seis meses, entre setembro cidadão/cidadã comum, em seu cotidiano, principalmente nas ruas,
de 1444 e março de 1445, em defesa de suas isenções fiscais. Em onde motoristas são vítimas de assaltos relâmpagos, sequestros e
1446, quando Carlos VII submeteu a universidade à jurisdição assassinatos.
do Parlamento de Paris, eclodiram revoltas estudantis - das quais Grupos de mulheres foram organizados nos anos 1990 em
participou, entre outros, o poeta François Villon - contra a supres- função de sua atuação na política, criando redes de conscientiza-
são da autonomia universitária em matéria penal e a submissão ção de seus direitos e frentes de lutas contra as discriminações. O
da universidade ao Parlamento. Frequentemente, estudantes eram movimento dos homossexuais também ganhou impulso e as ruas,
detidos pelo preboste do rei e, nesses casos, o reitor dirigia-se ao organizando passeatas, atos de protestos e grandes marchas anuais.

Didatismo e Conhecimento 15
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
Numa sociedade marcada pelo machismo, isso também é uma no- se da configuração das classes. Sendo estes aqui concebidos como
vidade histórica. O mesmo ocorreu com o movimento negro ou práticas sociais que elaboram a constituição de novos sujeitos.
afrodescendente, que deixou de ser predominantemente movimen- Representam manifestações bem características das sociedades
to de manifestações culturais para ser, sobretudo, movimento de complexas contemporâneas. A diversificação da estrutura social,
construção de identidade e luta contra a discriminação racial. Os sua heterogeneidade, as diversas formas de inserção dos sujeitos
jovens também criaram inúmeros movimentos culturais, especial- sociais são, sem dúvida, elementos que compõem a emergência
mente na área da música, enfocando temas de protesto, pelo rap, desses movimentos. É muito rica a possibilidade de se captar por
hip hop etc. meio deles como determinados agrupamentos se colocam no cená-
Deve-se destacar ainda três outros importantes movimentos rio social, fazendo-se representar e reconhecer. É no momento da
sociais no Brasil, nos anos 1990: dos indígenas, dos funcionários percepção do fazer representar-se, do se fazer ouvir, da expressão
públicos - especialmente das áreas da educação e da saúde - e dos de interesses próprios e da luta coletiva pela defesa desses interes-
ecologistas. Os primeiros cresceram em número e em organização ses, que se pode enriquecer a análise das classes sociais.
nessa década, passando a lutar pela demarcação de suas terras e Para Alain Touraine (1977), o caráter mais novo das classes
pela venda de seus produtos a preços justos e em mercados com- sociais nas sociedades contemporâneas (que ele denomina pós-in-
petitivos. Os segundos organizaram-se em associações e sindicatos dustriais), é que, estando menos sustentadas pela transmissão here-
contra as reformas governamentais que progressivamente retiram ditária das posições sociais, por regras institucionais e por aparatos
direitos sociais, reestruturam as profissões e arrocharam os salários simbólicos, as classes só são realidades observáveis na medida em
em nome da necessidade dos ajustes fiscais. Os terceiros, dos eco- que figuram, efetivamente, como atores históricos, ou seja, em que
logistas, proliferaram após a conferência Eco-92, dando origem a participam de movimentos sociais, ainda que estes sejam incom-
diversas organizações não governamentais. Aliás, as ONGs passa- pletos. Esses movimentos constituem-se, assim, na expressão mais
ram a ter muito mais importância nos anos 1990 do que os próprios evidente da historicidade. As classes serão reconhecidas a partir
movimentos sociais. Trata-se de ONGs diferentes das que atuavam da colocação dos atores em movimento. A fundamentação teórica
nos anos 1980 junto a movimentos populares. Agora são inscritas de Touraine tem o mérito de estabelecer o elo de ligação entre o
no universo do terceiro setor, voltadas para a execução de políticas conceito de classes e a noção de movimentos sociais.
de parceria entre o poder público e a sociedade, atuando em áreas Lojkine (1981), por sua vez, caracteriza um movimento so-
onde a prestação de serviços sociais é carente ou até mesmo au- cial principalmente pela capacidade de um conjunto de agentes das
sente, como na educação e saúde, para clientelas como meninos e classes dominadas diferenciar-se dos papéis e funções através dos
meninas que vivem nas ruas, mulheres com baixa renda, escolas quais a classe (ou fração de classe) dominante garante a subordina-
de ensino fundamental etc. (Era pós 90 - Texto adaptado da autora ção das classes dominadas com relação ao sistema socioeconômi-
GOHN, M. G.). co em vigor. O alcance histórico real de um movimento só pode ser
definido pela análise de sua relação com o poder político. Apesar
de muitas vezes observando a realidade, não podermos afirmar que
CLASSES SOCIAIS E os movimentos sociais representam, necessariamente, uma força
MOVIMENTOS SOCIAIS. transformadora, é inegável o seu poder de revigoramento do cená-
rio político. Esses movimentos trazem uma crescente politização
da vida social, ampliando a visão do político, que deixa de ser um
espaço restrito aos canais representativos instituídos. É importan-
te ainda destacar que na medida em que a estrutura social não é
Segundo Tompson (1981), “as classes surgem porque homens encarada como o único fator determinante das ações de classes,
e mulheres, em relações produtivas determinadas, identificam seus colocando-se como fundamental a forma como os sujeitos sociais
interesses antagônicos e passam a lutar, a pensar e a valorar em vividas poderão estabelecer fronteiras entre as classes. Aqui, surge
termos de classes: assim o processo de formação de classes é um o papel das conjunturas sócio-políticas como fator relevante ex-
produto de auto confecção, embora sob condições dadas”. Ele nos plicativo, estabelecendo a mediação entre a situação objetiva es-
oferece uma concepção do momento de configuração de uma clas- trutural e os elementos constitutivos do plano das representações
se social, onde estrutura e sujeito mantêm uma relação de não su- coletivas.
perposição. A classe acontece, então, enquanto as pessoas vivem
sua própria história, configurando-se como uma formação econô- Classes Sociais e Cidadania
mica, política, social e cultural. A classe não existe independente
da elaboração de uma representação de classe – da criação de um A relação entre a constituição das classes sociais e a luta pela
mundo de significação, em que as necessidades e interesses dos extensão dos direitos de cidadania tem se dado por meio de uma li-
sujeitos são tratados em sua cultura e consciência. Desta forma, gação muito íntima. Mas encontramos hoje uma tendência a afrou-
sua existência efetiva-se quando as situações e relações produtivas xar bastante os laços que ligam essas questões. A noção de cida-
são experimentadas, não só como interesses e necessidades, mas dania aumenta o seu fôlego, com ares de independência e rouba a
também como sentimentos, normas e valores. cena. Não sei se desde os brados da revolução Francesa tivemos
Quando as classes sociais são concebidas como um dado espa- um momento em que esta noção estivesse tão em evidência, do
ço constituído e ao mesmo tempo como um espaço de formulações discurso dos meios de comunicação de massa ao discurso acadê-
de representações e significados, é preciso que se esteja atento às mico. E aqui é preciso novamente que tenhamos muita cautela,
lutas e movimentos esboçados na vida social. É nesse sentido que a pois a pressão para a extensão dos direitos de cidadania teve e tem
temática dos movimentos sociais torna-se de grande valia na análi- como pano de fundo os conflitos de classes. Sem querer reduzir

Didatismo e Conhecimento 16
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
todo tipo de conflito a caracterização de conflito de classe, o que são mais afortunados que outros, uns contam com melhores con-
é preciso salientar é a abrangência desse fenômeno e a pertinência dições de vida, tem mais prestígio, mais acesso ao saber, ao poder,
de destacá-lo na caracterização dos conflitos nas sociedades con- etc. Então como não procurar caracterizá-los à partir dessas distin-
temporâneas. ções? A caracterização desses agrupamentos como classes sociais
Um exemplo da supervalorização da noção de cidadania como representa nesse contexto um exercício bastante salutar. Przewoski
princípio explicativo da composição do conflito social moderno é com relação a essa questão afirma que as classes são formadas
a proposição de Dahrendorf (1992) de que uma vez que a esmaga- como efeito de lutas; seu processo de formação é perpétuo, elas
dora maioria das pessoas dos países das sociedades da OCDE tor- são continuamente organizadas, desorganizadas e reorganizadas.
naram-se cidadãos no sentido pleno da palavra, as desigualdades (Texto adaptado de MASCARENHAS, A. C. B.).
sociais e as diferenças políticas assumiram uma nova compleição.
As pessoas não precisam mais juntar forças com outras na mesma QUESTÕES
posição para lutar por direitos básicos. Elas podem fazer progredir
suas chances de vida através do esforço individual, de um lado, e 1) “Os movimentos sociais, particularmente os origem popu-
através da representação de grupos de interesses constituídos mas lar, ao reivindicarem o acesso a bens, serviços coletivos, à mora-
fragmentados, do outro. (...) A nova classe é a classe dos cidadãos, dia ou à terra, retomaram a uma descoberta já clássica no libera-
se o paradoxo for permissível, ou, de qualquer modo, a classe da lismo: a de que o povo tem direitos e não só deveres. A questão dos
maioria. Um capítulo da história política e social que começou direitos foi, e é, sem sombra de dúvidas, o grande amálgama das
com lutas de classes profundas e potencialmente revolucionárias ações populares. Ela possibilitou a construção de uma identidade
levou, depois de muitos esforços e sofrimentos, a conflitos mais sociocultural.” (Glória Cohn.1992).
calmos de antagonismos de classes democráticos ou instituciona-
lizados. A partir do texto e de seus conhecimentos sobre o assunto é
Dahrendorf reconhece o paradoxo colocado, mas parece enca- correto afirmar:
rá-lo como permissível, o que é lamentável. Como podemos falar
em uma “classe de cidadãos”? O aglomerado de cidadãos, ainda A) As pessoas de baixo poder aquisitivo têm forças suficiente
que exista majoritariamente, abarca grandes clivagens, diferen- para mudar as condições sociais em que vivem, pois já estão ga-
ciações, muitas desigualdades. O que significa um grande agrupa- rantidos todos os seus direitos na constituição do país.
mento de cidadãos, se uma das partes se apropria do trabalho da
B) Todas as necessidades básicas são atendidas pelo Estado. É
outra? Acredito ainda, que a melhor maneira de responder a essa
o consumo dos bens que cria na população reivindicações que não
questão e a muitas outras é procurar delinear a forma como os
podem ser atendidas, porque elas se constituem em despesas muito
agrupamentos distinguem-se uns dos outros por meio de sua ca-
altas para serem assumidas pelo Estado Brasileiro.
racterização econômica, política e sociocultural, como vivenciam
C) As ações dos movimentos sociais podem ser impedidas,
o mundo e como o representam. Nesse sentido, não encontro me-
basta que haja um eficiente controle por parte dos órgãos respon-
lhor aparato analítico conceitual que o embutido na configuração
sáveis pela segurança pública.
das classes sociais e as relações travadas por elas. O conceito de
D) As ações dos movimentos sociais são frutos da crescen-
classes sociais é o elemento essencial, respaldado por análises con-
junturais e despido de ortodoxias e visões messiânicas. te exploração da classe trabalhadora e da tecnologia de produção.
Outra questão colocada na mesa das discussões sobre os con- Portanto, numa sociedade democrática, sempre existirão grupos
flitos sociais modernos é a possibilidade de realização de um novo organizados, com um exercício de cidadania e defesa de direitos
contrato social. Sobre que bases ele emergiria? Sobre as bases de que se confrontará com classes ou grupos de poder estabelecidos.
uma socialdemocracia? De um novo liberalismo? Socialismo?
Melhor não desenterrar o defunto... as alternativas apontadas es- 2. Sobre as organizações não-governamentais (ONGs) e sua
tão imersas majoritariamente no âmbito de uma democracia ca- atuação no cenário político brasileiro, é INCORRETO afirmar que:
pitalista. Essa perspectiva representa sérios limites. Recorro aqui A) integram o chamado “terceiro setor”.
a Przewoski (1989) que salienta o componente do universalismo B) realizam assessoria técnica, de pesquisa e documental, en-
inerente a ideologia burguesa, onde dentro dos contornos da noção tre outras.
de cidadania, os limites expressam-se na caracterização da mesma C) excluem a possibilidade de participação voluntária.
como a harmonia básica de interesses dos indivíduos (cidadãos). D) promovem capacitação para uma cidadania plena.
Na democracia capitalista, as massas não agem diretamente em E) podem receber financiamentos governamentais e interna-
defesa de seus interesses. A representação resulta em uma desmo- cionais.
bilização das mesmas. A estrutura do Estado burguês produz pelo
menos dois efeitos: separa as lutas econômicas das políticas e im- 3. Sobre a “Marcha” (ocorrida 1997) do Movimento dos Tra-
põe uma forma específica à organização de classes em cada uma balhadores Rurais Sem Terra, é correto afirmar que:
dessas lutas. Os sindicatos tornam-se organizações separadas dos A) não está restrito à questão da reforma agrária, já que
partidos políticos e a organização de classes assume uma forma contém temas relacionados às reformas sociais e econômicas de
representativa. âmbito nacional.
O estabelecimento de um novo contrato social passa necessa- B) Bahia e Minas Gerais foram os únicos estados do país que
riamente pela composição dos vários agrupamentos que integram a não participaram da Marcha dos Sem Terra.
sociedade, ainda que todos, ou a maioria esteja abrigada no grande C) os trabalhadores rurais da região Sul do Brasil decidiram
grupo dos cidadãos. São cidadãos que distinguem-se entre si: uns não participar, reforçando a ideia separatista dos sulistas.

Didatismo e Conhecimento 17
NOÇÕES DE SOCIOLOGIA
D) teve uma grande adesão em todo o país em razão do apoio GABARITO
financeiro fornecido pela União Democrática Ruralista.
E) não alcançou o objetivo de mobilizar os trabalhadores ru- 1. D
rais do país em direção à Brasília. 2. C
3. A
4. No âmbito dos conflitos que têm marcado o cenário político 4. C
nacional, dois movimentos sociais significativos e típicos dos anos 5. C
90 são: 6. C
A) Movimento Camponês e Movimento pela Saúde.
B) Movimento Indígena e Movimento da Melhor Idade.
C) Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida e Movi-
mento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. ANOTAÇÕES
D) Movimento Sindical e Movimento Pacifista.
E) Movimento Feminista e Movimento Negro.

5. Um movimento social caracteriza-se como um agrupamen-


to de indivíduos envolvidos em um esforço organizado para pro- —————————————————————————
mover ou resistir a mudanças na sociedade ou no grupo do qual
fazem parte. Reinaldo dias. Introdução à sociologia. São Paulo: —————————————————————————
Pearson Prentice-Hall, 2005, p. 296. —————————————————————————
A partir do conceito de movimento social apresentado no tex- —————————————————————————
to acima, assinale a opção correta.
—————————————————————————
A) Uma multidão atuante, inclinada a praticar um ato destru- —————————————————————————
tivo e agressivo, constitui um movimento social.
B) O movimento social possui natureza permanente, forman- —————————————————————————
do elementos estáveis em uma cultura.
C) Os movimentos sociais são altamente dinâmicos; duram o —————————————————————————
tempo necessário para atingir os objetivos propostos. —————————————————————————
D) O princípio de oposição, definido por Alain Touraine como
um dos princípios dos movimentos sociais, significa que, em um —————————————————————————
primeiro momento, o movimento social deve escolher uma iden-
tidade. —————————————————————————
6. Na década de 1990, os movimentos sociais camponeses e
—————————————————————————
as ONGs tiveram destaque, ao lado de outros sujeitos coletivos.
Na sociedade brasileira, a ação dos movimentos sociais vem cons- —————————————————————————
truindo lentamente um conjunto de práticas democráticas no in-
terior das escolas, das comunidades, dos grupos organizados e na —————————————————————————
interface da sociedade civil com o Estado. O diálogo, o confronto
—————————————————————————
e o conflito tem sido os motores no processo de construção demo-
crática. —————————————————————————
SOUZA, M. A. Movimentos sociais no Brasil contemporâneo:
participação e possibilidades das práticas democráticas. —————————————————————————
—————————————————————————
Segundo o texto, os movimentos sociais contribuem para o
processo de construção democrática, porque —————————————————————————
A) determinam o papel do Estado não transformações socioe-
conômicas. —————————————————————————
B) aumentam o clima de tensão social na sociedade civil.
C) pressionam o Estado para o atendimento das demandas da —————————————————————————
sociedade. —————————————————————————
D) privilegiam determinadas parcelas da sociedade em detri-
mento das demais. —————————————————————————
E) propiciam a adoção de valores éticos pelos órgãos do Es-
tado. —————————————————————————
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NOÇÕES DE SOCIOLOGIA

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NOÇÕES DE SOCIOLOGIA

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