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MOBILIDADE E CIRCULAÇÃO DE DISCURSOS NA

CONTEMPORANEIDADE: A TORÇÃO DO PARAFUSO REFERENCIAL

MOBILITY AND DISCOURSE CIRCULATION IN THE CONTEMPORARY


WORLD: THE TURN OF THE REFERENTIAL SCREW

Branca Falabella Fabrício1

RESUMO: Neste ensaio interrogo o paradigma referencial a partir das discussões


encaminhadas no âmbito da Escola de Altos Estudos, realizada na Unicamp e na UFRJ
ao longo de 2015. Minha indagação se desenvolve à luz de aparato conceitual advindo
da Antropologia, Antropologia Linguística, Sociolinguística e Linguística Aplicada
contemporâneas. Argumentando em favor da problematização urgente da metafísica
referencial, localizo em construtos como entextualização e indexicalidade a
possibilidade de abalo da forte tradição representacional no campo dos estudos da
linguagem, que estaria na base de uma ideologia linguística modernista infecciosa e de
um modelo de realidade monista e autoritário. Tais construções teóricas vêm perdendo
sua potência explicativa em face da intensa mobilidade e complexidade dos processos
de globalização.
PALAVRAS-CHAVE: mobilidade, metafísica referencial, entextualização,
indexicalidade

ABSTRACT: In this paper I call into question the referential paradigm, drawing on the
conceptual framework developed by contemporary Anthropology, Linguistic
Anthropology, Sociolinguistics and Applied Linguistics. I call for the urgent
problematization of the so-called referential metaphysics while arguing that constructs
such as entextualization and indexicality can shake the strong representational tradition
in the field of language studies – a tradition sustained by an infectious modernist
linguistic ideology and authoritarian and monist models of reality. The latter have been
losing ground as an explanatory apparatus amidst the intense mobility and complexity
of globalization processes which require new theoretical-analytical tools.
KEYWORDS: mobility, referential metaphysics, entextualization, indexicality

1
Universidade Federal do Rio de Janeiro
MOBILIDADE E CIRCULAÇÃO DE DISCURSOS NA
CONTEMPORANEIDADE: A TORÇÃO DO PARAFUSO REFERENCIAL

Pois não se trata (...) de pregar a abolição da fronteira que une-separa


“linguagem” e “mundo”, “pessoas” e “coisas, “nós” e “eles”, “humanos” e
“não-humanos” – as facilidades reducionistas e os monismos de bolso estão
tão fora de questão quanto as fantasias fusionais –; mas sim de “irreduzir” e
“imprecisar” essa fronteira, contorcendo sua linha divisória (suas sucessivas
linhas divisórias paralelas) em uma curva infinitamente complexa. Não se trata
de apagar contornos, mas de dobrá-los, adensá-los, enviesá-los, irisá-los,
fractalizá-los.
Eduardo Viveiros de Castro, Metafísicas Canibais

1 TRAJETO EM QUATRO TEMPOS


A inadequação do chamado ideário linguístico modernista na produção de
entendimento sobre a vida social em tempos de mobilidade e globalização foi tema
recorrente nas reflexões encaminhadas durante os encontros da Escola de Altos Estudos.
A recursividade desse questionamento no âmbito do evento e o reconhecimento de sua
relevância para o debate contemporâneo em várias áreas do conhecimento me
instigaram à discussão que realizo neste ensaio. Seu desenvolvimento tem como mote
inspirador a epígrafe acima, com a qual dialogo em quatro movimentos. O primeiro
trata em termos gerais do enfrentamento de perspectivas transdisciplinares e
implicações dele decorrente. O segundo revisita a metafísica referencial que nos ronda.
O terceiro identifica alguns alicerces teórico-metafórico-conceituais no campo dos
estudos da linguagem que nos auxiliam a reposicionar e retorcer o jogo referencial. O
último traz algumas considerações sobre possíveis efeitos de sentido das indagações
formuladas para a pesquisa e produção de conhecimento. A relação desse percurso com
uma ideologia linguística modernista é o nexo que me proponho a projetar.

2 POR OUTROS REGIMES DE CONHECIMENTO


A epígrafe que enquadra minhas considerações resume a crítica de Eduardo
Viveiros de Castro (2009/2015) ao colonialismo fundante da antropologia, área que,
segundo ele, estaria pronta para “assumir sua verdadeira missão, a de ser a teoria-prática
da descolonização permanente do pensamento” (p. 20). Sua aposta na realização dessa
perspectiva envolve o rompimento de barreiras conservadoras e politicamente
sufocantes entre territórios de conhecimento, em direção a uma transdisciplinaridade
efervescente na qual pudessem proliferar intercâmbios profícuos e reinvenções da
chamada metafísica ocidental. E no centro desse exercício criativo estaria a
desconstrução de dois jogos epistêmicos que impedem, segundo o autor, o esforço
imaginativo proposto: “as dicotomias infernais da modernidade” (p. 33) e o “mundo dos
referentes” (p. 39).
Tais práticas, a dualista e a referencial, estão fortemente entrelaçadas a formas
de produção de sentido vinculadas a práticas de objetivação, essencialização, e projeção
de elos causais entre eventos – um legado que tem sido alvo de reflexão crítica nas
Humanidades e Ciências Sociais, em geral2. Essa ótica se faz presente nos
2
No campo dos estudos da linguagem, parte do conhecimento produzido em Linguística Aplicada,
Antropologia Linguística e Sociolinguística abordam criticamente o pensamento colonizado, contribuindo
para o desenvolvimento de perspectivas pós-colonialistas. Conferir, por exemplo, as discussões
deslocamentos produzidos na episteme colonial e nos parâmetros de confinamento,
homogeneização e uniformidade, subjacentes às fronteiras simbólicas que separam
línguas, culturas, sujeitos sociais, corpos, saberes, e disciplinas. Descrentramentos dessa
natureza reverberam a proposta transgressora de Viveiros de Castro de duas formas. Por
um lado, reconhecem a visão territorial como sendo resultado das conhecidas operações
demarcadoras coloniais. Por outro, identificam como obstáculo central ao projeto de
descolonização a lógica binária que captura a percepção do mundo social em categorias
totalitárias. O manancial de polaridades conceituais com que operamos – competência /
performance, homem / mulher, natureza / cultura, objetivo / subjetivo, e epistemologia /
ontologia, entre tantas outras! – e a facilidade com que as invocamos fazem parte de
uma herança intelectual dicotômica e colonizadora. Refratária às misturas e
intercâmbios, ela tolhe qualquer espécie de interpenetração, ressonância ou
entrelaçamento de modos de ser, pensar, agir, valorar, comunicar, conhecer. Não se
pode, assim, desafiá-la sem dobrá-la, adensá-la, enviesá-la, irisá-la, fractalizá-la. Pois
não é possível contrapor práticas mestiças ao dualismo insidioso sem se pagar pedágio à
tradição. O preço? Retorcer a visão referencial da linguagem – alicerce ideológico da
linguística modernista.

3 A ANCORAGEM REFERENCIAL
Há certa urgência em colocar a metafísica referencial em xeque, segundo a qual
a linguagem seria um instrumento de representação de fatos dos mundos social e
natural, tomados como entidades pressupostas – interiores (como pensamentos e estados
emocionais) ou exteriores (coisas e objetos da natureza) que nos afetam e interpelam.
Segundo ela, a produção de sentidos seria uma questão de tradução dessa ligação entre
estados e coisas e sua percepção pelo indivíduo; implicaria, portanto, a “re-
apresentação” desses fatos na forma de um substituto – a palavra ou proposição – que
expressasse a conexão correta entre a palavra/conceito e aquilo a que ela se refere no
mundo externo – ou seja, de seu valor denotacional. Constitui-se, assim, um elo triádico
entre “real” (A), idéia (B), e nome (C) – este último a rosca que atarraxa os outros dois,
representando sua relação. De acordo com esse percurso, a operação primeira da
linguagem seria a de simples mediação e transporte de sentidos por um circuito linear
entre emissor e receptor, cuja eficácia se apóia na posse individual de uma competência
linguística para o domínio de um código estruturado por regras universais (C), que seja
capaz de traduzir a experiência privada do indivíduo (B) com o real (A). Dito de outro
modo, ao usarmos a linguagem, “aparafusamos” com nomes significados às entidades
(interiores ou exteriores) que eles nomeiam. O entendimento subjacente a tal proposição
é de que a língua(gem) é uma caixa de ferramentas empregada em contextos específicos
(a realidade) – formulação perpassada por um sentido de pré-configuração forte, tanto
em relação à língua(gem) quanto ao sujeito (falante, escritor etc.) e ao contexto. O
ferramental está guardado em um recipiente e, ao ser colocado em uso em determinada
situação (o contexto) a ela se refere, descrevendo-a, de forma mais ou menos fidedigna.
Essa compreensão limitadora da práxis linguística a funções mediadoras, descritivas e
referenciais tem como corolário a caracterização da comunicação como processos de
codificação, transmissão, e decodificação – processos tomados como mecanismos
mentais e desvinculados de corpos e seus pertencimentos geográficos, comunitários,
identitários e sociopolíticos.

encaminhadas em Signorini e Cavalcanti (1998); (Bauman e Briggs (2003); Moita Lopes (2006); Briggs
(2007a, 2007b); Pennycook (2007); e Blommaert (2013).
Esse legado referencialista, abstrato, desencarnado e imaterial, superaria as
contingências, imprevisibilidades, desgastes, e contratempos do mundo exterior e, assim
abrigado e protegido de possíveis “contaminações” ou “ruídos”, garantiria a apreensão e
transmissão acuradas da realidade. Dele deriva a noção de identidade autônoma e
autossuficiente (de coisas e sujeitos), dotada de propriedades essenciais observáveis e
representáveis; conhecê-las seria uma questão de detectar suas particularidades
constitutivas e modos de organização. Dela decorrem também os rótulos identitários e
estereótipos generalizantes que “capturam” a substância vital das coisas, e, como
tarraxas, demarcam territórios fixos de significação – cada coisa em seu lugar “natural”
–, e criam sistemas de valoração, inclusive para os seres humanos. O aprisionamento de
sentidos é a racionalidade produtora de generalizações, clichês dualistas, classificações
hierárquicas, padrões de norma e desvio. E, consequentemente, de certezas, muitas
certezas. Segundo Wittgenstein (1957/1999, §27), elas seriam fabricadas, desde muito
cedo, por intensos processos de aprendizagem. Somos adestrados a perguntar, e
responder, “O que é isto” ou “Como se chama isso”; somos treinados a estabelecer
correlações entre coisas/pessoas e nomes, e a unir experiências perceptivas e realidade;
somos, assim, educados a construir, pelo prisma do claustro e da imobilização,
ancoragem semântica segura (a referência) em um solo tomado como estável (o real). A
metafísica residiria justamente em uma tripla operação de forte encadeação lógica: a
oposição e separação radicais de epistemologia e ontologia; o enclausuramento de
sentidos; e, a equiparação de produção de conhecimento sobre estes últimos à busca por
sua essência, sua estrutura intrínseca e sua verdade. Não seria por outra razão que
referir-se com exatidão (a coisas, a fenômenos, a si próprio, e aos outros) e
circunscrever precisamente o objeto a ser conhecido seriam parâmetros privilegiados
para a representação correta e para o modo de conhecer científico.
Essas práticas estão na base da modernidade colonial e do ideal herderiano3
“uma nação, um povo, uma língua” – rótulos tornados ícones que, por relações de
semelhança, espelhariam uma realidade constituída. Crenças arraigadas sobre
monolinguismo, pureza linguística, comunidades coesas, sujeitos essencializados e
superioridade racial e cultural colaboram na constituição de uma ideologia linguística
em cujo âmago repousa intacta uma visão representacional de linguagem. Bauman e
Briggs (2003) a detectaram ao relerem trezentos anos de filosofia e ao reconstruírem o
mito explicativo fundante da relação entre seres humanos e o mundo que habitam. Nele
as visões de pureza e de significado claramente delimitado são generalizadas, ubíquas e
estruturadoras do pensamento linguístico ocidental. São elas que precisam ser alvo de
escrutínio crítico imperioso.
O pleito anti-representacionista, entretanto, não é novo, tendo a falácia da
representação e referenciação sido discutidas em profundidade por filósofos como
Wittgenstein (1957/1999), Austin (1962/1990), e Derrida (1967/2013). As
considerações dos dois primeiros sobre a redução da linguagem à ferramenta de
descrição e representação de uma realidade “pré-configurada” associada à
desconstrução derridiana da metafísica logocêntrica já são bem conhecidas. Também
são parâmetros influentes a abordagem de linguagem como prática, ação social, e jogo
que lhes são comuns. Como, então, a emergência anunciada se justificaria? A questão é
que a identificação mimética da significação com a(s) entidade(s) nomeada(s) pelas
palavras segue se reatualizando, através dos séculos, de forma infecciosa, adquirindo,

3
O filósofo alemão Johann Gottfried Herder é frequentemente associado ao desenvolvimento do conceito
de nação ao final do século XVIII e início do XIX. Atribuindo grande importância às ideias de
nacionalismo e patriotismo, via na tríade nação-povo-língua estratégias centrais de unificação e
purificação territorial.
pela repetição, tal aparência de substância e imutabilidade que leva Briggs (2007b:321)
a questionar (a partir de Bruno Latour4): “Como é possível que esse ‘móvel imutável’
possa ter viajado por todos os cantos, atravessado escalas, campos sociais, gêneros,
instituições, países, e fronteiras raciais sem praticamente alterar seu significado?”. Essa
persistência é abordada em algumas pesquisas contemporâneas.
Jan Blommaert (2005; 2010) e Marco Jacquemet (2010, 2014a, 2014b), por
exemplo, abordam a falácia denotacional em suas pesquisas sobre contextos
interacionais multilíngues de pedidos de asilo envolvendo imigrantes, intérpretes, e
representantes governamentais. Os autores apontam que estes últimos, agindo como
guardiões de fronteiras nacionais, e julgando o “outro” estrangeiro sob a ótica dos ideais
de transparência, precisão, objetividade e verdade, elegem como principal critério de
credibilidade o laço icônico entre falas-depoimentos dos entrevistados e acurácia
referencial. As investigações documentam registros dramáticos de assimetria
interacional, embates de significado, e incompreensões mútuas, resultante do “fracasso”
dos entrevistados em satisfazer as expectativas icônico-referenciais (quanto a
convenções de gênero, estilo, registro e conteúdo) dos entrevistadores.
Charles Briggs (2007a; 2007b), por sua vez, ataca a tradição representacional no
contexto de produção de conhecimento antropológico sobre indígenas na Venezuela.
Problematizando o fazer etnográfico, os procedimentos documentais nele envolvidos, e
sua forma tradicional de abordagem da “alteridade”, destaca a centralidade da entrevista
face a face entre os modos de conhecer da antropologia. Briggs mostra que as práticas
de entrevistas e de incentivo à produção de narrativas, longe de serem procedimentos
metodológicos neutros, são informadas por construções ideológicas modernas quanto à
língua, comunicação, subjetividade e conhecimento. Assim, reificam ideologias
comunicativas que forjam a compreensão do processo interacional segundo expectativas
de transparência, linearidade, precisão, objetividade, e isomorfismo entre evento e
representação. Atos autoritários e violentos – ignorantes das assimetrias, tensões e
embates pela significação que se estabelecem no contato com o “outro” –, a entrevista e
as narrativas etnográficas terminam por constituir-se em uma técnica de autoridade,
intimidadoras da alteridade, silenciadora de contra-discursos, e reprodutoras de
desigualdades coloniais, raciais e sexuais, entre outras.
São exatamente essas expectativas de correspondência icônica entre objeto e
designação que constituem, segundo o autor, a ideologia contagiosa acima referida; ao
se espraiar por diferentes espaçotempos, encontra e forma públicos cativos, que
apreendem, vivenciam e avaliam o mundo social sob a guarida do confinamento e da
inércia do significado único e transparente. Na literatura, o sequestro da polissemia é
alvo recorrente de problematizações. Não são raras as narrativas, como “A volta do
parafuso” de Henry James (1898), por exemplo, em que noções de verdade e precisão
são desafiadas e retorcidas. O texto, também traduzido como “A torção do parafuso” ou
“A outra volta do parafuso”, constrói uma narrativa que, marcada por uma atmosfera de
suspense e mistério, conduz o/as leitore/as por uma trama de dúvidas e incertezas
quanto às ações e motivações de seus protagonistas. As ambiguidades geradas dão
margem à produção de diferentes interpretações que, mutuamente excludentes, se
contorcem sucessivamente, impedindo a determinação da “verdade” dos fatos narrados
– movimento tão caro ao jogo referencial. Essa prática, entretanto, vai perdendo seu
potencial explicativo em face da intensa fluidez dos processos de globalização, que,

4
Em vários momentos de sua obra, como, por exemplo, em “Reassembing the Social: an introduction to
actor-network theory” (2005), Bruno Latour recorre à expressão “móveis imutáveis” para aludir ao
intricado diálogo entre inovação e repetição. Segundo o autor, ao se deslocarem, signos e objetos mantêm
seus aspectos formais ao mesmo tempo em que se transformam e metamorfoseiam.
impelindo-a a operar giros contínuos, abre espaço para novas teorizações sobre a práxis
linguística.

4 A TORÇÃO DO PARAFUSO REFERENCIAL


A progressiva mobilidade de pessoas, artefatos culturais, línguas, recursos
semióticos e textos na atualidade, propiciada pelo desenvolvimento de tecnologias de
deslocamento (territorial, informacional, interacional etc.), traz a questão da relação
entre circulação de discursos e produção de conhecimento para o centro da reflexão
contemporânea a respeito da língua(gem) e de seu uso. As práticas comunicativas em
geral têm sido afetadas por fluxos de saberes cada vez mais dinâmicos e por inundações
sígnicas e textuais, cujas marcas seriam, além do transbordamento, o hibridismo, a
imprevisibilidade, a instabilidade transformadora e, acrescento, o contato friccional, já
que não podemos “esquecer de abordar as relações de poder assimétricas e penetrações
engendradas nesses fluxos” (Jacquemet, 2005:161).
Assim, dada a velocidade exponencial com que signos (linguísticos e não-
linguísticos), conceitos, e discursos vêm viajando pelos quatro cantos do planeta,
considerar zonas de significação pelas lentes do movimento, da provisoriedade, e do
embate de significados parece ser uma indagação inescapável àquele/as que se propõem
ao desafio de gerar compreensão sobre construção de sentidos em tempos de circulação
intensa. A tarefa envolve, contudo, a alteração radical da visão de linguagem insidiosa
acima examinada e a imaginação de outras formas de pensamento, modos de conhecer,
metáforas e vocabulário conceitual que nos permitam forjar uma sensibilidade para
variações e recombinações contínuas – fenômenos tão desprezados pela chamada
episteme ocidental, enrijecida por seu foco na imobilidade. Tal gesto criativo já está em
andamento, e pode ser apreendido em construtos como entextualização, e
indexicalidade. Articulados, eles nos auxiliam a torcer o paradigma referencial.
A noção de entextualização5 parte da visão de que textos (dos quais fazem parte
signos e performances semiótico-corporais) têm uma natureza móvel, só existindo em
circulação e sendo sucessivamente inseridos em novos contextos semióticos. O conceito
diz respeito, então, aos processos contínuos de descentramento e recentramento de
textos e ao que acontece com eles ao serem desancorados de um ambiente semântico e
ancorados em outro. O foco nesse percurso chama a atenção tanto para trajetórias
textuais e sua história espaço-temporal quanto para a singularidade de ações textuais
momentâneas em eventos comunicacionais particulares, ou seja, para uma espécie de
intertextualidade-em-interação. O ângulo do trânsito confere alto grau de plasticidade às
noções clássicas de contexto, linguagem e referente, chamando a atenção para o diálogo
ativo travado por textos e co-textos no movimento ininterrupto de entextualização-
descontextualização-recontextualização. No deslocamento sucessivo há algo que se
replica (texto), mas simultaneamente há algo que se renova, caracterizando uma
maleabilidade constante. Sob esse ponto de vista, contextos e referentes são concebidos
como ambientes processuais, o que torna o fenômeno de significação em geral um
acontecimento nômade, paradoxalmente durável-itinerante, no qual a possibilidade de
determinação de sentidos é remetida, não a referentes perenes ou originais, mas a textos
que apontam para textos, signos que apontam para signos, e histórias que apontam para
histórias – um jogo ad infinitum. Nele não haveria significados, identidades ou
categorias sociais essenciais, mas sim processos permanentes de entextualização que na
repetição produzem o sentido de estabilidade.

5
Processos incessantes de entextualização são discutidos em Bauman e Briggs (1990/2009) e Silverstein
and Urban, 1996.
Essa concepção textual e errática de existência abala o mito da origem, o mundo
dos referentes (“o real”), e a concepção de um “monismo ontológico” – ponto articulado
por Viveiros de Castro (2009/2015) e Briggs (2007b) em estudos que mostram o embate
de ontologias rivais no “encontro” entre epistemologias modernas e indígenas. O
primeiro discute o conflito entre um modo de “pensamento selvagem” e o ponto de vista
etnocêntrico do colonizador europeu; o segundo focaliza a interação entre relatos
jornalísticos da mídia venezuelana sobre um caso de homicídio infantil atribuído a uma
indígena. O confronto dessas vozes é pleno de conflitos e entrechoques semânticos, pois
neles digladiam-se diferentes realismos e ficções metafísicas. Vistos pelo horizonte da
entextualização, o diálogo com “os outros” desconhecidos encerra disputas entre textos
(des)territorializados que nem sempre apontam para o mesmo lugar. É a natureza desse
processo que o conceito de indexicalidade pode elucidar, “dissipando a bruma” da
significação. Pois somos impelidos a perguntar: na práxis do uso da linguagem
apontamos exatamente para quê? E como o fazemos?
O apontar é multidirecional e emerge de processos intensos de reflexividade
relacionados ao potencial da linguagem de falar sobre si mesma (metalinguagem) e
sobre seu funcionamento (metapragmática). Associado a ele encontra-se a capacidade
de seres humanos de, ao estabelecerem relações semiótico-sociais, engajarem-se em
atividades comunicativas de forma simultaneamente pragmática e metapragmática. Pois,
ao movimentarem todo tipo de signo – linguísticos, imagísticos, corporais etc. –,
indivíduos também imaginam a forma de sua interpretação. Por um lado, produzem
conglomerados de signos: (re)entextualizam performances entrelaçadas a modos de
dizer, agir, caminhar, vestir, olhar e gesticular; e, coordenam suas ações com as ações
de outras pessoas, objetos, acessórios, tempos, lugares, crenças e vozes sociais. Por
outro, investem esses recursos com valores que, compondo um repertório sociocultural
amplo, apontam para normas, regras, tipos sociais e padronizações. Estes índices têm
que ser reconhecíveis e reconhecidos para que algum tipo de compreensão possa se
estabelecer. A indexicalidade, então, muito além de um simples apontar denotacional
em ocasiões interacionais específicas, tem uma dimensão não-referencial que indica
expectativas, ritualizações socioculturais, e posições de sujeito racializadas,
generificadas, sexualizadas, nacionalizadas etc. Estas ações não se “referem a”, mas
enquadram o entendimento, agindo na constituição dos processos de percepção e
produção de significado. Não são referenciais no sentido convencional; são
performativas.
Segundo Silverstein (2004) há três decorrências dessa abordagem. A primeira é
que é possível discernir no nível microcontextual um repertório macrossociológico
amplo, já que textos (assim como os signos que os compõem) estão sincrônica e
diacronicamente conectados. Na dimensão da sincronia, i.e., no plano da
(en)(des)(con)textualização emergente, textos se organizam e se distribuem
horizontalmente em complexos de signos e performances. Na outra, no nível da
diacronia, vozes sociohistóricas são projetadas pelos arranjos textuais produzidos na
interação, em um jogo que articula e hierarquiza diferentes, tempos, espaços e
subjetividades. Dito de outro modo, configurações textuais indexam sentidos
socialmente estratificados no enlace multiescalar das esferas situacional e extra-
situacional. A segunda consequência é que a caracterização da atividade reflexiva como
invocação, no aqui-e-agora comunicativo, de práticas socioculturais coletivas contribui
tanto para a localização discursiva dos interlocutores na interação quanto para a
performance intersubjetiva de posições e alinhamentos que criam, mantêm ou
transformam relações sociais. Esses dois pontos geram um terceiro efeito. Apesar da
efemeridade da ordem interacional contingente, as ações e posicionamentos que ela
promove se orientam, se estruturam e se modulam reflexivamente segundo centros de
autoridade semiótica que regimentam diferentes espaços institucionais como, por
exemplo, família, escola, trabalho etc. Por eles circulam sistemas de valores e regras
que, para determinarem comportamentos sociais em algum nível, precisam ser usadas e
aplicadas para se revestirem de “normalidade”. Isso equivale a dizer que regras,
estruturas e sistematizações são articuladas depois do uso; são racionalizações e
proposições perspectivas a posteriori e não revelações de sentidos essenciais de práticas
culturais. Se os limites dessas regras ou valores são projetados, não sendo fixos, nem
exatos, nem tampouco necessários, a possibilidade de agenciamento e resistência pode
ser vislumbrada em sua plenitude.
A atividade indexical envolve, assim, ações “referenciais”, por assim dizer,
muito mais complexas do que o simples apontar ostensivo, direto e preciso para coisas,
pessoas, pensamentos e “fatos do mundo”. Sendo uma atividade de significação, e,
portanto, semântico-textual, a indexicalidade aponta para uma diversidade de discursos,
narrativas, vozes e convenções sociais – jogos de linguagem, enfim, pelos quais
circulamos e cujas regras aprendemos a aplicar pragmaticamente e a explicar
metapragmaticamente ao longo de processos de socialização. Pode-se dizer que os jogos
indexicais nos quais somos iniciados exercem um papel central na imaginação
(metapragmática) de quem somos, de quem é o outro, de que espaços-tempos culturais
habitamos e como o ocupamos, de quais jogos participamos e de quais convenções
devemos seguir. É por tal razão que têm um valor performativo importante. Eles
modulam, sem determinar, e com diferentes graus de estagnação ou dinamismo, nossas
formas de vida e nossa experiência de realidade em meio a espaçostempos sempre
moventes.
É a observação dos usos cotidianos e corriqueiros da linguagem, e das ficções
causais que eles produzem, que pode trazer visibilidade para o intrincado diálogo entre
pragmática e metapragmática, caracterizado por Briggs (2011: 218) como um tenso
bailado de tango “co-constitutivo e claramente entrelaçado sem nunca aspirar a
transparência (de forma que a metapragmática refletisse diretamente a pragmática) ou
regulação (de forma que a pragmática fosse determinada por enquadres
metapragmáticos normativos)”. Produzir sentido sobre essa dança seria uma questão de
projeção de nexus indexical entre diferentes sistemas de crenças e valores
(agenciamento histórico) e recontextualizações locais (agenciamento emergente). Mas
esses passos não são orquestrados sem o abalo de uma ideologia linguística que, refém
dos credos representacional e referencialista, negligencia rastros indexicais e itinerários
textuais, descrevendo hipóteses epistêmicas como fatos naturais; e separando linguagem
e mundo, saberes e práticas, epistemologia e ontologia. É preciso problematizar a dança
dualista coreografada nessas oposições, integrando ao pasodoble o gingado, ritmo e
passadas híbridas da kizomba6.

5 POR UMA OUTRA IDEOLOGIA LINGUÍSTICA

O parafuso do romance de Henry James se retorce e se fractaliza em jogos


ambíguos de sentido que impedem a produção da verdade dos personagens e das
fronteiras entre imaginação e realidade. O parafuso referencial, por sua vez, se contorce
quando visto pela ótica da entextualização e da indexicalidade. Elas tornam a
perspectiva referencialista tradicional insustentável, pois a deslocam para um terreno

6
Dança angolana considerada uma miscelânea de estilos dançantes e ritmos musicais africanos.
movediço composto por espaços-tempos-sujeitos textualizados em articulações
rizomáticas, sem um centro orientador único.
Os autores aqui convocados mostram que o baile da significação é ensaiado em
meio a uma diversidade de rotas indexicais e interacionais que demandam desafios
metodológicos para a compreensão de sua coreografia intrincada, plena de acasos e
improvisações. É consenso entre eles que a observação etnográfica e seus
procedimentos de geração e análise de dados pode potencialmente produzir “crônicas de
complexidade” (Blommaert 2013) que reconstruam a rica história indexical de textos
culturais e as visões de mundo por elas produzidas. Entretanto, a etnografia clássica
também precisa dobrar-se criticamente sobre si mesma, correndo o risco de, ao não
fazê-lo, sucumbir à sedução referencial. A tentação de produzir diversidade de
representações sobre um “mesmo” mundo delimitado ontologicamente é grande. Ela
reatualiza uma retórica multiculturalista muito em voga, mas deixa intacta uma âncora
na ideologia linguística moderna – ao manter uma epistemologia territorialista, apenas
justapondo monoculturalismos autocontidos. O desafio seria então que estudos com
pendor etnográfico pudessem captar as múltiplas projeções metapragmáticas em disputa
(entre as quais se encontram as do etnógrafo) e as possibilidades plurais de formas de
existência que elas promovem, constituídas por atividades semióticas desenvolvidas ao
longo de diferentes (des)encontros. Incorporar o múltiplo, o movimento e a
transitoriedade como forma de vida requer explorar ideologias linguísticas alternativas,
cujo olhar atento para cadeias de entextualização, fluxos indexicais e regimes
metapragmáticos não apenas estremeçam os efeitos confinadores do referencialismo
mas também tornem a convivência com o “outro” diverso de nós viável, solidária, e
criativa.

REFERÊNCIAS

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