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29/08/2018 Bahia de todas as Áfricas - Revista de História

Bahia de todas as Áfricas


A trajetória dos líderes e devotos do candomblé do século XIX revela que a história
das religiões afro-brasileiras é, sobretudo, a de crescente mistura étnica e social
João José Reis
19/9/2007  

Foi na Bahia do século XIX que ficou estabelecido o modelo


básico adotado pelo candomblé que conhecemos hoje.
Segundo a tradição, o Ilê Iya Nassô – a Casa de Mãe Nassô,
popularmente conhecido como Candomblé do Engenho Velho
ou Casa Branca – teria sido o primeiro a celebrar diferentes
deuses simultaneamente sob o mesmo teto. Essa prática
refletiria alianças entre grupos étnicos diferentes,
contribuindo para a consolidação de novas identidades
africanas em terras brasileiras.

Mas teria sido aquele terreiro o único com essas


características no ambiente que o viu nascer? Pouco se sabe
sobre a história das religiões afro-brasileiras no século XIX,
inclusive sobre os indivíduos e grupos envolvidos. É a respeito
de líderes, acólitos, devotos e clientes que vamos falar aqui.
Informações sobre homens e mulheres participantes de formas
diversas nesses rituais aparecem basicamente em dois tipos de
fontes, os registros policiais e as notícias de jornal. Esses
documentos eram produzidos por indivíduos que, em geral,
não eram iniciados no candomblé, não tinham interesse nele
como tema de pesquisa, curiosidade ou lazer, e que o estavam
perseguindo e/ou condenando. Por isso, as informações que
apresentam são quase sempre incompletas, distorcidas ou
simplesmente equivocadas. Apesar disso, elas revelam muito
das práticas e dos praticantes ligados aos cultos de origem
africana ao longo do século XIX.

Durante esse período, na Bahia, a maior atividade do


candomblé acontecia nos subúrbios de Salvador. Apesar disso, não foram poucas as denúncias de
episódios acontecidos na cidade, sob as barbas da polícia, como insistia O Alabama, periódico “crítico
e chistoso”, publicado entre 1864 e 1871. Dedicando-se a uma dura e sistemática campanha contra os
candomblés baianos, o jornal publicava, com considerável freqüência, histórias de pessoas envolvidas
nesses rituais.

Dossiê Candomblé Os que podem ser considerados líderes do candomblé não


eram apenas os indivíduos que presidiam os terreiros
Orixás, forças de Olodum propriamente – ou seja, uma comunidade religiosa com seu
Axé carioca grupo de iniciados, estrutura hierárquica e organizacional,
calendário de festas, e assim por diante. Eram também os
O arsenal da macumba auxiliares mais próximos dos chefes de terreiros, incluindo,
Antes dos orixás
por exemplo, o líder dos tocadores de atabaques e o
responsável pelo sacrifício votivos de animais. Com
freqüência, adivinhos e curandeiros atendiam em casa,
sem participar da hierarquia dos terreiros de candomblé. Alguns atraíam centenas de consulentes,
mesmo de fora da Bahia, até da África.

Nomes como o da sacerdotisa Nicácia, uma mulata que teria morrido em 14 de março de 1807,
conforme foi registrado com precisão, no final do século XIX, em um Resumo chronologico e noticioso
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da Província da Bahia desde seu descobrimento em 1500. Segundo o autor da obra, o registro de
Nicácia fora feito porque ela “tão falada foi por muito tempo, e da qual inda hoje se referem factos
interessantes.” Infelizmente ele não relata esses “factos.” Moradora no Cabula, na época periferia
rural e hoje bairro popular de Salvador, Nicácia demonstrou seu carisma alguns meses antes quando
fora seguida por uma multidão até cidade, presa por ordem do governador da capitania da Bahia, o
Conde da Ponte. Esse governador desencadeou uma vigorosa campanha repressiva contra candomblés e
quilombos nos arredores da capital e no Recôncavo dos engenhos.  Mas a perseguição aos cultos afros
aconteceu durante quase todo o século XIX na Bahia.

Amaro, um liberto africano, foi uma vítima. Preso em novembro 1855 em incursão policial provocada
por rumores de uma conspiração de escravos, era suspeito de ser “o grande sacerdote dos africanos”
no distrito da Sé, populoso centro administrativo e religioso de Salvador. Com ele foi encontrada a
maioria dos “vários objectos de [...] crenças” africanas confiscados em sua casa e outras da
vizinhança. Alguns desses objetos foram assim descritos pelo subdelegado: “figuras, símbolos, sapos
mortos e secos, chocalhos, pandeiros e algumas vestimentas”. Nessa mesma ocasião, na freguesia de
Santana, foi preso o crioulo (preto nascido no Brasil) Francisco Antonio Rodrigues, o Vico Papai,
segundo relatório policial porque “com embustes e superstições reúne em sua casa Africanos escravos
para danças e [para] batuques com ofensa à moral pública”. Nem Amaro nem Vico Papai estavam
liderando conspiração alguma, mas sim cultos da religião africana, o que não deixava de ser uma forma
de rebeldia.

A maioria dos líderes identificados no período tinha nascido na África. É possível ir um pouco mais
longe na tentativa de determinar a origem deles. Os escravos importados para a Bahia ao longo da
primeira metade do século XIX vieram principalmente de povos do grupo lingüístico gbe, localizados
sobretudo na atual República de Benin, conhecidos como jeje na Bahia; ou eram falantes do iorubá,
vindos do Sudoeste da atual Nigéria e chamados nagôs na Bahia. Maiores vítimas do tráfico
transatlântico nos anos que antecederam sua proibição definitiva, em 1850, os nagôs alcançaram a
marca de quase 80% dos escravos africanos em Salvador na década de 1860. Tradições religiosas nagôs
e jejes predominaram no candomblé da Bahia oitocentista, mas no final do século os nagôs já tinham
estabelecido sua hegemonia.

Embora candomblé seja um vocábulo de origem banta (família língüística dos escravos chamados no
Brasil angolas, congos, benguelas, cabindas etc., trazidos principalmente de território da atual
Angola), poucas são as evidências escritas sobre cultos especificamente bantos no século XIX baiano.
Mas temos algumas expressões  como candonga e milonga para designar feitiçaria, e calundu, para
definir a prática religiosa africana em geral. Este último termo, que predominou até o final do século
XVIII, foi mais tarde substituído por candomblé. É possível, porém, identificar uns poucos sacerdotes
angolas entre os líderes desse universo religioso.

O papel de líder era também desempenhado por


crioulos, pardos e até brancos. Tem-se notícia que,
em julho de 1859, o português Domingos Miguel e
sua amásia, a parda Maria Umbelina, foram presos
numa casa à rua Coqueiros d’Água de Meninos,
porque ali organizavam um candomblé com “danças
e objetos de feitiçaria”, dele participando homens
e mulheres pardos, crioulos e africanos, escravos,
livres e libertos. Foram presas dezesseis pessoas.
Que o português estivesse envolvido naquela
experiência religiosa parece provável, mas é
possível que a batuta ritual estivesse de fato nas
mãos de sua amante parda ou de outra pessoa do
grupo; talvez nas mãos de Felisarda Sulana, escrava
e única africana presa com o grupo.

Nenhuma dúvida foi deixada pela polícia no caso da


outra pessoa branca em nossa lista de líderes. Maria
Couto foi abertamente acusada de ser “dona ou

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diretora” de um “grande candomblé” no Saboeiro,


arredores de Salvador, que estivera ativo – batendo
tambor e dançando para os deuses – por alguns dias
em abril de 1873, até ser denunciado por vizinhos
alarmados. Segundo o chefe de polícia, além de
moradores locais bem conhecidos, estranhos
armados e escravos fugidos freqüentavam aquelas cerimônias, o que recomendava cuidado. O chefe de
polícia ordenou ao subdelegado daquele distrito que prendesse Maria Couto e a levasse à sua presença
– sinal de que ele achava pouco usual, talvez preocupante, ou apenas curioso, o fato de uma casa de
candomblé ser liderada por uma mulher branca.

Alguns escravos faziam parte da liderança religiosa africana. O mais antigo documento conhecido no
qual o termo candomblé aparece é relativo ao escravo angola Antônio, descrito por um capitão de
milícias em 1807 como “presidente do terreiro dos candombléis”. Observe-se que aqui também
aparece a palavra terreiro associada a candomblé, outra novidade. Um bem-sucedido sacerdote,
adivinho e curandeiro, Antônio vivia longe de sua senhora, em terras localizadas em um engenho no
rico município açucareiro de São Francisco do Conde, onde ele tinha estabelecido seu terreiro. Ali, o
escravo era procurado por “número maior [de pessoas] de alguns Engenhos vizinhos nas vésperas de
dias santos e Domingos”. Segundo um relatório policial, ele exigia, “apesar de ser moço, que lhe
tomassem a benção, e lhe prestassem obediência, inda os mais velhos”. De início, Antônio conseguiu
escapar às forças de milícia enviadas para capturá-lo, subornando um feitor do engenho, o que sugere
que tinha acesso a algum capital obtido de sua prática religiosa. Seis escravos foram presos para
informar onde Antônio se escondera. Ele foi preso porque o feitor subornado não cumpriria sua parte
no trato.

Para ser chefe de terreiro, que implicava dedicação grande de tempo, um escravo tinha que ter
relações especiais com seu senhor.  Era o caso de Antônio, cuja senhora o deixava viver sobre si.
Infelizmente não sabemos por que. É capaz que ela temesse seus poderes espirituais e se intimidava
com seus conhecimentos de ervas venenosas. Mas a explicação pode ser mais simples: como muitos
outros senhores, ela o autorizava a trabalhar sem impedimentos, desde que lhe pagasse parte da renda
adquirida. Há casos do período colonial de senhores que chegaram a agenciar escravos curandeiros e
por isso tiveram que dar satisfação à Inquisição.

Uma expressiva maioria dos líderes do candomblé havia nascido livre ou, principalmente, adquirido a
alforria por compra ou doação. Os libertos formavam um setor importante da população africana e
crioula na Bahia, sobretudo na capital, onde o sistema do ganho facilitava o acesso do escravo ao
trabalho remunerado − como carregadores, vendedores, operários e artesãos −, que permitia a
formação da poupança amiúde usada para a compra da alforria. Foram os libertos, sobretudo, os
maiores responsáveis pela estruturação do candomblé baiano nesse período. Alguns deles haviam
provavelmente obtido a liberdade com dinheiro ganho com práticas divinatórias, curas e outros
trabalhos, ou essas práticas complementaram formas mais convencionais de ganhar a vida e a
liberdade.

Negociantes, quitandeiros, ambulantes, vendedores


"Apesar de sua origem em grupos eram algumas das ocupações de muitos dos
étnicos específicos da África, na adivinhos, curandeiros, pais e mães de terreiros. Mas
Bahia o candomblé se caracterizou não deviam ser poucos os sacerdotes africanos
por um movimento crescente de vivendo exclusivamente da religião, a se considerar
mistura cultural, étnica, racial e os muitos clientes que, segundo as fontes, eles
social. Isso começou entre os tinham. Esses clientes em geral deixavam,
próprios africanos de diferentes individualmente, pouca coisa na esteira do adivinho
etnias". ou do curandeiro, mas de vez em quando pequenas
fortunas podiam ser ali gastas. Como aconteceu com
a africana liberta Maria Romana que, em 1856,
acusou um certo Jorge, africano liberto como ela, de lhe tomar todo o dinheiro, jóias, além de um baú
de roupas e até uma casa, como remuneração pelo tratamento de seu marido, o também africano
liberto Pedro Theodoro da Silva, que segundo ela teria sido lentamente assassinado com “ervas
venenosas” feitas por Jorge. Depois de sete meses tentando negociar, sem sucesso, uma reparação,

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Maria resolveu denunciar Jorge à polícia. Não se tem notícia do desfecho dessa história.  Mas decerto,
a reputação do acusado foi arruinada com o escândalo.

Era comum que esses líderes fossem despóticos, o que podia até elevar o seu prestígio, mas eles
tinham de balancear essa reputação com outra mais positiva de generosidade, proteção e sobretudo
eficiência ritual. Esta última é que ajudava as religiões africanas a recrutar, desde o período colonial,
devotos e clientes de diversas camadas sociais.

Apesar de sua origem em grupos étnicos específicos da África, na Bahia o candomblé se caracterizou
por um movimento crescente de mistura cultural, étnica, racial e social. Isso começou entre os
próprios africanos de diferentes etnias. Documentos relativos ao fim do século XVIII e à primeira
metade do XIX, ainda que escassos, sugerem a formação de identidades étnicas a partir dessa mistura.
Em 1785, por exemplo, seis africanos foram presos em um calundu na vila de Cachoeira, no Recôncavo,
onde danças, batuques e cantos eram freqüentes. Eles foram identificados por uma testemunha
africana no inquérito policial como dois “marris”, dois “jejes”, um “dagomé” e um “tapá” (termo
iorubá que se usava na Bahia para designar os nupes, povo da África Ocidental).

Apesar de identidades diversas e mesmo da possível hostilidade que pudesse ter havido na África entre
algumas dos grupos ali representados, eles eram falantes, exceto o tapá, de línguas gbe. Portanto,
antes da criação do Ilê Iya Nassô, a religião africana já servia como instrumento de alianças
interétnicas na Bahia, sobretudo no mesmo universo lingüístico. Mas aqui ainda estamos
exclusivamente entre africanos.

Em 1828, um juiz de paz prendeu mulheres, tanto africanas quanto crioulas, dançando para deuses
africanos em Salvador, na freguesia de Brotas. Aquilo representava outro passo largo na formação do
candomblé baiano: a incorporação ritual de negros nascidos do lado de cá do Atlântico. Considerando
sua reação, o juiz que invadiu o terreiro se defrontara com algo novo. Em longos e coléricos relatórios
ao presidente da província, ele argumentou que a mistura de crioulos e africanos para celebrar deuses
d’além-mar era a ruptura de uma norma comportamental perigosa para a ordem pública; a seu ver,
negras nascidos no Brasil deviam ser exclusivamente católicas.

Mas, de acordo com o juiz de paz, elas, ao contrário, “adoravam” deuses africanos sem muita
preocupação em escondê-lo, embora fingissem ser devotas dos santos católicos. Era como se à mistura
étnica de fato equivalesse a religiosa. O juiz não entendeu, mas testemunhava um fenômeno, novo
para ele, já característico da religiosidade dos que viviam na Bahia: a circulação das pessoas através de
diferentes sistemas religiosos, sem necessariamente misturá-los.

Na segunda metade do século XIX, abundam evidências sobre africanos, crioulos, mulatos e uns poucos
brancos ritualmente misturados no candomblé.  Com o correr dos anos, observa-se um processo de
nacionalização das bases religiosas, mesmo se a liderança ainda continuava predominantemente
africana.

Em 1862, tendo sabido que um grupo de crioulos havia construído terreiro em um bairro sob sua
jurisdição, num local chamado Pojavá, um subdelegado escreveu que “neste distrito nunca os crioulos
se deram a tal divertimento, foi a primeira vez que aqui o praticaram com admiração de [todos]”. Essa
mesma autoridade vangloriou-se de haver acabado com todos os candomblés de africanos em sua
jurisdição, que representavam – escreveu – “um modo de vida dos africanos que se não queriam
empregar na lavoura”. O jornal Diário da Bahia fez um perfil detalhado dos presos no candomblé do
Pojavá. Dos 26 homens, um era africano, três pardos e 22 crioulos. Quanto às mulheres, duas eram
africanas libertas, quatro “pardas escuras” e 29 crioulas, mas nenhuma escrava; dentre os homens,
apenas quatro crioulos eram escravos. Além da predominância parda e crioula, o candomblé era
formado, sobretudo, por gente livre e liberta que eram, ao contrário do insinuado pelo subdelegado,
trabalhadores. Havia um tipógrafo, um escultor, um sapateiro, um pintor, um marceneiro, um
aparelhador e um lavrador; dois saveiristas e dois funileiros; três alfaiates e três carpinteiros; nove
pedreiros. As ocupações das mulheres não foram listadas.

A composição do candomblé do Pojavá refletia os ventos de renovação característicos do processo de


nacionalização desse universo cultural no século XIX, fosse seu dirigente africano ou não. Era um
candomblé predominantemente formado por gente emancipada da escravidão e, a se considerar o
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perfil ocupacional dos homens, gente empregada em um setor mais especializado do mercado urbano
de trabalho. Eram também jovens e nascidos no Brasil. Quanto à predominância crioula, o Pajová não
era exceção. No ano seguinte, 1863, um subdelegado da freguesia da Vitória declarou que ali os “filhos
da terra” já tinham substituído os africanos nos “batuques de tabaques”. Entretanto, os centros
religiosos africanos continuariam a existir, pelo menos, até a virada do século. E o apelo à pureza
africana se tornaria índice de prestígio dos candomblés, desde essa época.

Entre os clientes ocasionais e visitantes, encontra-se nos documentos todo e qualquer grupo, fosse de
cunho racial, étnico, social ou ocupacional. Havia negros, brancos e mulatos, escravos e senhores,
homens de negócio e vendedores de rua, professores e estudantes, prostitutas e madames, policiais e
criminosos, artesãos, empregados públicos, padres católicos, políticos. Pessoas de todos os estratos
sociais consultavam adivinhos e curandeiros e compareciam a funerais, ritos de iniciação e festas que
celebravam divindades específicas ao longo do ano.

Típico neste caso era o que acontecia em 1862, no centro de Salvador, numa casa na ladeira de Santa
Tereza, ao lado do convento com o mesmo nome onde eram educados seminaristas. Na casa, libertos e
libertas africanas, assim como “pessoas de gravata e lavadas”, participavam de cerimônias presididas
por Domingos Pereira Sodré, sacerdote nagô da cidade-porto de Onim (Lagos), que havia sido escravo
num engenho do Recôncavo. Sodré era um afamado adivinho e “feiticeiro” que atendia a gente de toda
sorte. Mas havia muitos outros e outras. Entre a clientela de Anna Maria, mãe de terreiro angola
denunciada por O Alabama em 1864, constava uma parda que queria curar o filho de feitiço, um
português e uma crioula que procuravam tirar o diabo dos corpos dos respectivos amásios, um crioulo
em busca de cura para seu afilhado e uma “moça”, provavelmente branca, Virgínia por acaso, que
queria arrumar casamento.

Se for lícito dizer que o candomblé baiano dessa época se identificava com africanos e era encabeçado,
sobretudo, por eles, é também correto dizer que essa religião aos poucos deixaria de ser uma
instituição ou uma forma de espiritualidade apenas africana, nem era uma religião exclusiva de
escravos.

A história do candomblé na Bahia do século XIX é, portanto, a história de sua  mistura étnica, racial e,
logo, social.  Um processo que ocorreu em diversas frentes: a reunião de africanos de diferentes
origens étnicas para, juntos, celebrarem seus diferentes deuses, a atração dos descendentes de
africanos nascidos na Bahia e a difusão de todo tipo de serviço espiritual entre clientes de diversas
origens étnicas, raciais e sociais. Obviamente isso não fez do candomblé parte da cultura dominante
local, pois ele continuou a ser visto – talvez pela maior parte da população e decerto pela maioria da
elite – como anticristão ou incivilizado e legitimamente sujeito à perseguição e à brutalidade policiais.

Durante todo o século XIX e por muitas décadas depois, o candomblé continuou a ser identificado como
uma instituição africana. Devemos admitir que, embora essa religião tenha se difundido na sociedade,
enquanto existiram africanos na Bahia, provavelmente existiram candomblés apenas de africanos, e
mesmo entre estes alguns etnicamente restritos. Mas, ainda que os terreiros não tenham deixado de
representar uma memória da identidade étnica – pois continuam até hoje a se definir, de acordo com
sua “nação”, como nagô, ketu, jeje, angola –, tal identidade, em virtude da inclusão de tantos
elementos estrangeiros, deixou de se basear na linhagem étnica para se basear na afiliação espiritual.
Mesmo com a repressão policial e o menosprezo público, esse processo transcorria a todo vapor nas
vésperas da abolição da escravidão, em 1888.

João José Reis é professor do departamento de História da Universidade Federal da Bahia  (UFBA) e
autor de REBELIÂO ESCRAVA NO BRASIL: A HISTÒRIA DO LEVANTE DOS MALÊS EM 1835 ( Companhia das
Letras, 2003)

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