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ANGELPINO
Coordenador Editorial de Educação
Valdemar Sguissardi

Conselho Editorial de Educação


José Cerchi Fusari
Marcos Antonio Lorieri
Marcos Cezar de Freitas
Marli André
Pedro Goergen
Terezinha Azerêdo Rios
Vitor Henrique Paro

AS MARCAS DO HUMANO
ÀS ORIGENS DA CONSTITUiÇÃO CULTURAL DA
CRIANÇA NA PERSPECTIVA DE lEV S. VIGOTSKI
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
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(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
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Pino, Angel
As marcas do humano : às origens da constituição cultural da
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criança na perspectiva de Lev S. Vigotski / Angel Pino. - São Paulo: / QtÚb'/7y ....
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Cortez, 2005. h v' ,r)
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Bibliografia.
ISBN 85-249-1179-4 l~a.J c..fk t/:~fJ-J'k/'-e ~tVJ)
1. Crianças - Desenvolvimento 2. Cultura 3. Natureza
humanos 5. Vigotski, Lev Semenovich, 1894-1934 I. Título.
4. Seres
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05-7694 CDD-155.413 ~I • /; ....
índices para catálogo sistemático: ---L-{-r;j C\A 5! ( il O J~
1. Crianças: Constituição cultural: Natureza humana: Psicologia
155.413
2. Constituição cultural: Crianças: Natureza humana: Psicologia
155.413

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~EDITOR~
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( AS MARCAS DO HUMANO: Às origens da constituição cultural da criança na perspectiva de
Lev S. Vigotski
( Angel Pino

(
.Capa: Estúdio Graal
( Preparação de originais: [aci Dantas
Revisão: Maria de Lourdes de Almeida
Composição: Dany Editora Ltda,
( Coordenação editorial: Danilo A Q. Morales

(
(

(
(

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa do autor
edo editor.

© 2005 by Autora

( Direitos para esta edição Dedico este trabalho a:


CORTEZ EDITORA
( Lucas,
Rua Bartira, 317 - Perdizes cujo nascimento o inspirou
( 05009-000 - São Paulo-SP
Ivany,
Te!.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 Esposa amada e companheira de todas as viagens
( E-mai!: cortez@cortezeditora.com.br Richard •• Carolina
www.cortezeditora.com.br
Monique

Impresso no Brasil - outubro de 2005 com todo o meu carinho

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Sumário

Índice de figuras 11

Prefácio 13
Introdução 19

PRIMEIRA PARTE: NATUREZA CULTURAL DO PSIQU:ISMO


( HUMANO. ASPECTOS TEÓRICOS

( Capítulo I -.:..A criança, um ser cultural ou da passagem do


biológico ao simbólico 43
A insuficiência do nascer humano 43
o biológico e o cultural: uma relação complexa.......... 47
O duplo nascimento da criança..................................................... 55
Mediação social e semiótica no acesso da criança à cultura.... 59

Capítulo II - Natureza e Cultura........................................................ 69


J... ,
Raízes •
etimo 1"
oglcas d o termo "1"
eu tura . 69

O conceito de cultura na literatura especializada. 71


Teoria do "Contrato Social" 71
A cultura no pensamento sociológico 77
O conceito de cultura no pensamento antropológico 78
A cultura em Vigotski 87

( =--~~~-,
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(
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO

Capítulo lU - Revendo conceitos. Problemas conceituais na A questão dos indícios 177


( obra de Vigotski 95 A questão do método 178
( Introdução 95 O método em Vigotski 179
Sentido do termo "função" 96 O paradigma indicial 181
Sentido da expressão "relações sociais" 102 Especificando o design da pesquisa 185
O sentido do termo "conversão" 110 Procedimentos de investigação 189
Capítulo IV - Questão semiótica e desenvolvimento cultural Quadro de análise 191
em Vigotski 113 Capítulo VII - Indicadores das funções biológicas e
Semiótica: aspectos históricos e conceituais 113 gradientes de evolução 195
Período clássico ..... 114 Introduzindo o tema 195
( Período moderno 120 Questões preliminares 196
O signo em F. de Saussure 121 Os "indicadores" de desenvolvimento 202
O signo em Charles S. Peirce 124 O choro 204
Lógica e semiótica 124 O movimento 205
Semiose ..... 130 O olhar 210
Vigotski e a questão semiótica 133 O sorriso 212
Elaboração do conceito de signo 135 Reações combinadas ("brilho" e "exaltação") 215
( Atividade prática e signo 136 Gradientes de evolução das funções 215
O signo e o modelo E - R 137
( Capítulo VIII - Auscultando a linguagem dos indícios 220
Pensamento e fala 139
( Introdução 220
Significação e desenvolvimento cultural 144
( Identificação e análise dos níveis ou gradientes de evolução ... 221
Capítulo V - O nascimento cultural da criança 151 Os indícios e sua interpretação 243
Significado cultural do nascimento biológico 151 Conclusões gerais 263
Acesso da criança ao mundo cultural 156
Mediação semiótica Referências bibliográficas 269
159
O papel do Outro 167 Apêrylice: registro dos dados 275
( Conversão das funções sociais em funções pessoais 168

SEGUNDA PARTE: À PROCURA DE INDÍCIOS DA PRESENÇA DO


HUMANO NA CRIANÇA

Capítulo VI - A análise semiótica 175


Premissas do trabalho 175
(
@~ 11

~
Indice de figuras

Figura 1 - Relação dos dois planos do desenvolvimento humano .... 60


Figura 2 Diagrama da dupla via de comunicação criança-adulto .... 65
Figura 3 - Mediação do Outro na interaçãocriança-cultura .............. 66
Figura 4 - Representação gráfica dos diferentes tipos de produção
cultural ..........................................................................................94
Figura 5 - Diagramas das estruturas do "signo" e da "relação" em
(
,.geral..............................................................................................
108
( Figura 6 - Diagrama da estrutura da "relação social" .......................
,. 108
( Figura 7 - Diagrama do signo em Piatão ................................................ 115
Figura 8 - Diagrama do signo em Aristóteles ........................................ 116
Figura 9 Diagrama do signo lingüístico nos estóicos ........................ 117
( Figura 10 - Unidade do signo lingüística em F. de Saussure ................ 123
Figura 11 - Estrutura triádica do signo em Peirce .................................. 128
(
Figura 12 - Os dois modelos de ação: o determinista (1) e o
voluntário (2)..............................................................................138
(
Figura 13 - Modelo do signo lingüístico em Vigotski ............................ 141
Figura 14 - Estrutura do signo lingüística em Vigotski ......................... 142
Figura 15 - Estrutura "trífásica" do desenvolvimento cultural da
criança ..........................................................................................
161
Figura 16 - Escala seqüencial dos diferentes níveis ou gradientes de
evolução das funções biológicas em Lucas .......................... 218
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11
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12
ANGELPINO @~~ 13

( Figura 17 Esquema da articulação de diferentes funções do Outro


( que desencadeiam a reação das funções da Criança 231
( Figura 18 Esquema da interação CRIANÇA Ç::> MEIO 245
Figura 19 ?
( Correspondência entre as duas funções orgânicas
básicas: excitabilidade e reatividadc 255
(

(
Prefácio
(

( Concluída a elaboração deste trabalho, pareceu-me que seria opor-


( tuno tecer alguns comentários, em forma de prefácio, a respeito do seu
título NAsmarcas do humano". A razão disso é simples: o termo "hu-
(
mano", espécie de ?eit1!!()!iv deste trabalho, tomado particularmente na
(
forma substantiva; evoca diferentes pautas possíveis de reflexão de um
( tema que desde a Renascença reaparece com freqüência no pensamento
( ocidental. Na época contemporânea, o tema retorna com força total;
poderíamos. dizer, na forma de alertas lançados por diversos cientistas!
(
sobre o perigo de explosão do humano" caso escape ao controle o avanço
N

(
das novas biotecnologias, antevendo-se a possibilidade objetiva de uma
( nova "era evolutiva pós-humana", não necessariamente pela extinção
( da espécie humana em razão de acidentes nucleares ou de catástrofes
(
1. A expressão mais radical desses alertas talvez seja a recente obra do astrônomo britâ-
(
nico Martin Rees, Our Final Hour, New York: Basic Books, 2003, que em pouco mais de duzen-
( tas páginas mostra não só a persistência da ameaça nuclear e do recurso às armas químicas,
mas, dobretudo, as conseqüências dos avanços inevitáveis no campo da biotecnologia e da
(
nanotecnologia tornando realidade o que ainda há algumas décadas parecia pura ficção: a
( criação e implante de autômatos microscópicos no organismo humano assumindo o controle
das funções específicas do homem. O resultado previsível disso é a possibilidade de "trans-
( mutação da espécie", inaugurando o que está se convencionando chamar de "nova era evo-
lutiva pós-humana". Nesta mesma linha de raciocínio, situa-se o artigo de Ray Kurzweil,
(
"Ser Humano: Versão 2.0", Folha de S. Paulo, Maisl , de 23/03/2003, onde o autor nos apresen-
( ta o que poderá ser essa nova versão do "ser humano", em que os componentes bíônicos
microscópicos substituiriam grande parte das estruturas biológicas.
(

(
(

(
(

14
ANGELPINO A51MRCAS 00 HUMANO H

naturais em grande escala - o que não está totalmente excluído - mas tivo. Trata-se da tese na qual Vigotski" identifica as funções mentais supe-
pela possibilidade real de ocorrerem nela profundas transmutações riores - aquelas que constituem as características específicas do Ho-
( biogenéticas. Estas seriam conseqüência de manipulações genéticas e mem e que são as demarcadoras do espaço do "humano" - com a Cul-
de implantes biônicos microscópicos capazes de substituir órgãos vitais tura, a qual é obra do próprio Homem. Traduzida em outros termos,
e de assumir de forma autônoma funções fisiológicas e neurológicas, essa tese faz do Homem o criador daquilo que o constituí e que o define
colocando em questão nossos conceitos de liberdade e de dignidade como um ser humano. Dessa forma, ela aponta um caminho fecundo
( humanas. A metáfora do gênio escapando da lâmpada do mago parece para participar do debate da questão da "natureza humana": o homem
( adquirir hoje um sentido de realidade inimaginável outrora. como criador da condição humana da sua natureza.
A questão de fundo que tanto esses alertas quanto numerosos ou- O sentido em qqe é entendido aqui o termo "humano" afasta-se,
tros escritos de cientistas e de pensadores contemporâneos levantam é a deliberadamente, tanto daquele que adquire em discursos caracteriza-
(
questão da natureza humana que sintetiza as diversas concepções a res- dos por posturas de exaltação do homem - da sua grandeza, do seu
peito da relação "homem ~ natureza'? que atravessam a história da poder ou da sua superioridade em relação às outras criaturas -, discur-
filosofia e que adquirem hoje uma nova dimensão a partir das descober- sos que, de uma forma geral, concebem o "humano" como expressão da
tas científicas impulsionadas pelos rápidos avanços das novas tecnolo- dimensão transcendental do homem, qualquer que seja a razão irrvoca-
gías. Em última artálise.io que está em jogo é a própria concepção do da (religiosa, metafísica ou simplesmente romântica), quanto do senti-
( que é o "humano". do que adquire em discursos caracterizados pela negação niilista ou cé-
Ao propor como título deste trabalho "As marcas do humano", tica do significado de "humano" como atributo do homem, em razão,
meu propósito foi fazer desse "humano" o objeto de uma investigação particularmente, dos inúmeros aspectos 'sombrios de sua história e das
sugerida pelas indagações suscitadas pelo estudo que venho fazendo múltiplas formas destrutivas e predatórias que marcam muitas das suas
dos trabalhos de Lev S. Vígotskí.' Trabalhos que, apesar de terem sido relações com seus semelhantes e com a natureza.
escritos nas décadas de 1920 e 1930do século passado, apresentam-se Como o leitor poderá comprovar por si mesmo, as questões envol-
hoje com um surpreendente ar de contemporaneidade, fornecendo im- vidas na discussão do "humano" neste trabalho - no sentido em que
portantes elementos para entender as questões relativas à natureza hu- esse termo é entendido nele - têm muito a ver com as interrogações
mana, objeto em foco no debate contemporâneo. Mais especificamente, levantadas no debate contemporâneo, pois elas nos permitem entender
o principal ponto que motivou este trabalho foi uma tese de Vigotski o lugar concretoque o homem ocupa na natureza e no processo evolutivo
que eu considero central no debate do tema que me propus como obje- e os riscos que corre enquanto espécie caso resolva dar asas (a menos
que seja vítima das próprias açõesirresponsáveis) ao seu poder de agente
( de transformação da natureza e pelo mesmo ato de si mesmo: a nature-
2. Assunto de duas versões diferentes desta temática: a do biogeneticista Francis i
Fukuyama, no seu livro Our Post-Human Future, 2003 (O futuro da natureza humana, Ed. za sobreviverá, mas ele não.
Rocco) e a do filósofo Jürgen Habermas, Die Zukunft der menschlichen Natur, 2003, cuja crítica
Apesar dos ares filosóficosque por vezes despontam no trabalho
é feita por Slavoj Zizek no artigo" A Falha da Bio-Ética", publicado na Folha de S. Paulo, Mais!
de 22/06/2003. - o que pode dar a falsa impressão de estarmos invocando velhos
3. Lev S. Vigotski é o grande líder do grupo de autores que formam a nova corrente de
psicologia surgida na Rússia na época da Revolução de 1917 e que ficou conhecida corno 4. Tese desenvolvida, sobretudo, no seu livro "The History of the Development of Higher
"escola soviética" de psicologia, nome que remete não só ao seu lugar de origem, mas, sobre- Mental Functíons", The Collected Workrs of L. S. Vygotski, Edited by Robert W. Rieber, New
tudo, à perspectiva marxista que ela representa. York - London: Plenurn Press, v. 4, 1997.

-~--~_.~----~.
~

16 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 17

humanismos - O termo "humano" tem nele contornos semânticos bem nitamente pequena partícula da maéria viva que compõe a infinitamente
precisos. Em síntese, designa esse pontoindescritível na relação ho- pequena parte da matéria inorgânita que constitui a imensidão do uni-
mem <=> natureza em que ocorre a emergência da consciência. Para com- verso, a natureza adquire consciênca dela mesma, atingindo o patamar
preender de que estou falando, lembro ao leitor de que a tese de Vigotski
f. de evolução mais alto que se conhese até agora. Pensando em termos de
que orienta minhas reflexões situa-se no contexto do materialismo his- uma possível "era evolutiva pós-lurnana", como anunciam as profecias
tórico e dialético, na linha de Marx e Engels, como ele mesmo afirma em científicas contemporâneas, poder-e-ia pensar que essa nova era tanto
( vários dos seus trabalhos. Nesse contexto, a emergência da consciência é poderia ver extinguir-se na riaturea a "luz da consciência" - no caso
( um fenômeno historicamente situado e ligado à atividade produtora do de uma extinção catastrófica da esjécie humana - quanto poderia ver
homem. Sua emergência é contemporânea à descoberta do homem de evoluir essa consciência em formas novas - no caso de transmutações
que fazendo parte da natureza ele pode agir sobre ela e transformá-Ia biogenéticas da espécie humana.
( com os meios de que ele é capaz de inventar para isso. A consciência É na relação dialética bomem.e» natureza, na qual se inscreve a
surge, portanto, no distanciamento do homem da natureza que lhe per- relação recíproca natureza <==> cultun, que se situa o lugar do debate que
mite fazer dela o objeto da sua ação. Isso quer dizer que a consciência é o termo "humano" levanta neste tnbalho. A esfera do "humano" é essa
algo que acontece no próprio agir humano, sendo ao mesmo tempo causa minúscula porção da natureza emevolução onde ocorre a emergência
e efeito dele. Ora; o próprio da atividade humana é que, por ser simbó- da consciência quando indivíduos .esgarrados do tronco dos primatas
( lica além de técnica, é de natureza reversível, ou seja, afeta tanto o objeto descobrem que existe a natureza, íue eles fazem parte dela, mas tam-
sobre o qual se exerce quanto o sujeito que a realiza. O resultado é que bém que eles podem transformá-a, autodenominando-se homens. De
( ambos - natureza e homem - adquirem uma forma nova de existên- outra epopéia similar não ternos noícia ainda na história do universo. O
cia: a existência simbólica. termo "humano" traduz então essadimensão do homem que ao mesmo
(
Por outra parte, é próprio do simbólico transformar as coisas sem tempo em que o remete às suas rases na natureza, remete-o também a
(
subtrair-lhes sua natureza própria. Isso permite tirar algumas conse- uma história que começa COIn ele ed a qual ele é autor e protagonista.
( qüências lógicas. A primeira é que a natureza não perde sua condição de O "humano" não é, portanto, a esfera da negação da natureza, fa-
natureza, apenas adquire formas novas que o homem lhe confere; da zendo do homem um ser à parte 10 mundo dos seres naturais, mas a
mesma maneira que o homem não perde a sua condição de ser da esfera da revelação nele dessa naureza, de cuja fecundidade ele é as
natureza ao adquirir as formas (qualidades, aptidões, habilidades etc.) primícias. Se, por um lado, o honem desponta como um ser que se
que definem sua condição humana. A segunda é que tanto as novas destaca dos outros seres, distancízado-se da natureza, por outro lado,
formas da natureza quanto as novas formas do homem têm significa- ele permanece radicalmente ligadoa ela pelo cordão umbilical que ali-
ção para este, não para aquela'. A terceira é que se o homem é no plano menta sua realidade biológica. Realidxíe estranha essa - pode perguntar-
natural obra da natureza, no plano simbólico é a natureza que é obra se, com toda razão, o leitor - que <O distanciar-se da natureza, para tor-
do homem. nar-se consciência dela, aproxima-Si mais dela ao descobrir-se natureza.
Ora, na medida em que o homem continua natureza, é possível Não é difícil perceber que nuna perspectiva como esta não há lu-
\
pensar que nele a natureza se transforma a si mesma. Em outras pala- gar nem para exaltações romântica! do "humano" nem para niilismos e
(
vras - palavras capazes de provocar prqfundas comoções na nossa ceticismos negadores do lugar do Jomem na natureza como consciência
( maneira habitual de pensar - isso quer dizer que no homem, essa infí- dela.

18 ANGELPINO @~~ 19

(
Uma das novidades _datese de Vigotski é que ela opera uma des-
construção de UIll discurso psicológico, outrora filosófico,feito de ambi-
güidades e impasses sobre a natureza humana, resultado da cisão que a
psicologia tradicional introduzira na unidade do ser do homem ao não ser
capaz de conciliar a ordem da natureza - da qual o homem é obra - e a
ordem da cultura - pela qual a natureza toma-se obra do homem. Ao
sustentar o caráter cultural do psiquismo e, em conseqüência, sua ori-
gem social, a tese de Vigotski constitui uma espécie de sutura na cisão
da unidade do homem juntando nele a natureza e a cultura, a ordem do Introdução
biológico e a ordem do simbólico.
Convencido da importância e da atualidade da temática presente
na tese de Vigotski, eu pensei que seria extremamente oportuno tentar
Quando a história natural se torna biologia,
desvelar na realidade empírica da evolução da criança logo após o nas- quando a análise das riquezas se torna economia,
cimento a maneira concreta como a natureza, constitutiva da sua condi- quando sobretudo a reflexão sobre a linguagem se
ção biológica, transforma-se sob a ação da cultura, fazendo da criança faz filologia e se desvanece nesse discurso clássico
( em que o ser e a representação encontravam seu
um ser humano. Embora este trabalho não trate diretamente das ques-
lugar comurn, então, no movimento profundo de
tões levantadas pelos cientistas a que me referi anteriormente, penso urna mutação arqueológica, o homem aparece com
que acompanhar sob um outro olhar a evolução da criança nos primei- sua posição ambígua de objeto para um saber e de
( ros meses de vida deverá trazer alguma luz a esse debate. sujeito qm conhece.
Michel Foucault

(
Desvendar os mistérios da origem das coisas, procurando a razão
(
da sua existência, parece ter sido urna das inquietações dos homens em
( todos os tempos, desde as épocas mais remotas até as mais recentes,
( como Oatestam, de um lado, as tradições mitológicas dos povos antigos
( - em particular, os mitos das origens! - e, do outro, a história da ciên-

1. Os mitos das origens são formas de recitados simbólicos, criados para justificar ou
explicar a origem do mundo (animado e inanimado) e do homem, tendo, em geral, como
( protagonistas, particularmente nos mitos religiosos, seres sobrenaturais. A explicação das
origens constitui o cerne das cosmogonias antigase das várias formas do mito da criação. As
~ cosmogonias e os mitos da criação, embora tenham a ver com o mesmo problema das ori-
( gens, traduzem aspectos diferentes desse problema: as primeiras tratam da origem do mun-
do em geral, entendido o termo" origem" no senlido de fundamento do que existe;os segun-
dos pressupõem um ato de criação, implicando um criador, qualquer que seja a sua natureza,
20 ANGELPINO
Ii AS MARCAS DO HUMANO 21
(l
(
cia moderna, especialmente dos últimos séculos. Mito e ciência são ex- ;1 mo se os personagens são diferentes, deuses e seres sobrenaturais no
( pressões diferentes de urna mesma vontade humana de perscrutar os ~
',"\ primeiro caso e heróis e animais fabulosos no segundo, eles têm em
mistérios da natureza e das suas origens.
(
A palavra limito" é a transposição para o português do termo gre-
f comum o fato de não pertencerem ~o mundo cotidiano. Não obstante,
diz Elíade, os indígenas sentiram que se tratava de "histórias" radical-
go mythos, que significa palavra final ou decisiva, em contraposição a mente diferentes, pois tudo que é relatado pelos mitos diz-lhes respeito
logos, que significa palavra cuja veracidade pode ser argüida e compro- diretamente, enquanto que o que os contos e as fábulas narram não,
(
vada.? Por isso, ao passo que logos representa um apelo à racionalidade, pois embora sejam eventos que transformaram o mundo, não mudaram
(
mythos apenas exige acolhimento e aceitação. Aquele se inscreve no re- a condição humana como tal.
c. gistro da lógica, este no da crença e da confiabilidade. O fato de que os Os mitos relatam as origens do mundo, dos animais, das plantas e
( mitos tratam de eventos extraordinários que não têm que ser compro- do homem, mas também todos os eventos primordiais a partir dos quais
vados nem justificados explicaria que sejam vistos, nos tempos moder- o homem tomou-se o que ele é hoje.-um ser mortal, sexuado, organiza-
nos, como histórias fabulosas pouco ou nada prováveis ou mesmo total- do em sociedade e tendo que trabalhar segundo determinadas regras. O
( mundo e o homem existem porque nas origens de tudo seres sobrenatu-
mente fantasiosas, identifica das, impropriamente, com os sonhos e as
fábulas. Em termos ger,ais, os mitos fazem parte da história de todos os rais realizaram uma ação criadora (cosmogonia e antropogonia), à qual
povos, constituindo um dos pilares da sua cultura. Junto com outras seguiram-se outros eventos míticos dos quais o homem é o resultado.
<'
formas literárias antigas, como as lendas e as fábulas, eles constituem Na origem de tudo o que é hoje o homem, o pensamento primitivo colo-
parte do repertório das formas simbólicas de cada povo, em especial da ca um evento mítico que o tornou possível.
(
simbologia religiosa. Os mitos revelam corno os povos antigos tentam explicar, cada um à
,
(

No seu livro Aspectos do mito, Mircea Elíade (1963) lembra a distin- sua maneira,.as origens do mundo, dos seres animados e inanimados, da
( ção que povos indígenas fazem entre "histórias verdadeiras" e "histó- sua história e,
particularmente, do homem. Eles são, portanto, sistemas
( rias falsas"} correspondendo, respectivamente, aos mitos e aos contos simbólicos de complexidade variável, criados para explicar tudo aquilo
ou lendas. Em ambos os casos são narrações que falam de eventos que cujo conhecimento está além da experiência imediata. Neste sentido, po-
(
tiveram lugar num passado longínquo e fabuloso. O curioso é que, mes- der-se-ia dizer que os sistemas mitológicos se assemelham aos sistemas
( científicos, com a diferença de que nestes a razão explicativa é procurada
na realidade interna das coisas, ao passo que naqueles a razão explicativa
e algo que é criado. A criação, a partir do nada, é um tema mais raro na mitologia criacionista,
( aparecendo apenas em algumas tradições filosóficas. Nas histórias da criação, tanto de cultu-
é procurada fora delas, corno nos deuses, nos heróis, nos ancestrais ou em
ras mais antigas quanto de culturas mais recentes, a terra é concebida, freqüentemente, como outros seres sobrenaturais. Por isso, à diferença dos sistemas científicos,
preexistindo à criação dos diferentes seres, servindo de material para a sua criação, como no os sistemas mitológicos se sustentam por si mesmos, como constitutivos
( caso do homem na tradição bíblica e na mitologia babilônica. Nada mais natural do que a
das tradições culturais e das práticas sociais dos povos.
origem do homem ser conectada com a cosmogonía, dado que o cosmos é o mundo onde ele
habita. Entretanto, colocar o homem no centro da cosmogonia revela já a influência das filo- Durante longos milênios, os sistemas mitológicos criados pelos
sofias sobre certas mitologias.
homens foram suficientes para acalmar sua necessidade de encontrar
2. Cf. os verbetes" Myhte" e" Mythology", Encyclopaedia Briiannica, 1978, v. 12, pp. 793 e ss.
( um fundamento à existência do mundo e de si mesmos, assim como às
3. Isso não quer dizer que os critérios para considerar as histórias "verdadeiras" ou
"falsas" sejam os mesmos em todas as sociedades tribais. O importante é que todas elas' suas tradições e práticas sociais, políticas e religiosas. Parece razoável
distinguem entre mitos e contos ou lendas. pensar que os sistemas mitológicos permitiam às comunidades huma-

e.
22

nas viverem em harmonia com a natureza, fato fundamental para os


povos primitivos, constituindo uma espécie de "seguro social" contra
ANGELPINO

I
~
~
AS MARCAS DO HUMANO

mais parece poder resistir à vontade humana de saber e de penetrar nas


entranhas da matéria, tornando-se o homem cada vez mais capaz de
23

!li

os fatores desagregadores de origem externa e interna a elas mesmas.


Nos últimos séculos, porém, o acelerado desenvolvimento da ciên-
í
~~
manipular as forças ocultas nela, do 'outro, aumenta também a cons-
ciência do abismo. que se abre entre o desejo de saber e o mistério que
L~
cia e da tecnologia e as transformações sociais e políticas a elas associa- r~j encobre sua própria natureza. Afinal, quem é ele? De onde vem? Como
das ou delas decorrentes, em particular a secularização da vida e a pri- é feito? Na ausência de respostas mais consistentes e seguras a estas
mazia da racionalidade sobre outras formas de compreensão do real, interrogações, o campo fica aberto para toda sorte de especulações e
fizeram com que as antigas mitologias fossem cedendo terreno às novas para a manutenção de velhos mitos e a emergência de novos, mostran-
teorias científicas e os mitos das origens às novas teorias cosmológicas e do que o orgulho científicoainda não conseguiu desalojar totalmente os
etnológicas, as quais iam adquirindo, cada vez mais, ares de objetivida- fantasmas que povoam>o imaginário mítico.
de e de certeza. Mas o drama do homem contemporâneo é também descobrir que,
Entretanto, caberia perguntar-se: os fantásticos avanços tecnológi- ao procurar nas coisas respostas às interrogações a respeito dele mesmo
cos que marcam a época contemporânea, ao possibilitarem vencer as e das suas origens, elas não podem responder-lhe nada, pois, mesmo
barreiras das distâncias estelares e a resistência da matéria - permitin- sendo mais antigas que ele, elas são meras testemunhas silenciosas de
do ao homem aproximar-se dos confins do universo físico e desvendar um passado que ignoram. Tal parece ser o sentido das palavras de
cada vez mais os segredos do que se suspeita ser a matéria original do Foucault quando diz que o originário do homem não anuncia o tempo de seu
cosmos - e ao deslocarem os mitos para as áreas escuras da racionali- nascimento, nem o núcleo mais antigo da sua experiência: liga-o ao que não tem
dade, não estariam sedimentando as condições favoráveis à emergência o mesmo tempo que ele; e libera nele tudo o que não lhe é contemporâneo. (1992:
de novas mitologias que se apresentariam com o ar de teorias científi- 347)Consolida-se assim na consciência do homem contemporâneo a idéia
cas? A distância que separa a mitologia e a ciência, ou seja, a crença e a de que só o homem pode dizer ao hornerri quem é ele e como apareceu
razão, talvez não seja tão grande como se pensa, dado que ambas são no movimento evolutivo da matéria. Para tanto tem que conseguir fazer
obras da mesma mente humana. falar a matéria muda, emprestando-lhe sua palavra, mas observando
O drama do homem contemporâneo-é descobrir que quanto mais atentamente seus movimentos para ver se consegue penetrar nos segre-
se aproxima das coisas, rasgando o véu do seu mistério, mais elas pare- dos que ela oculta.
cem se distanciar dele na medida em que, ao tentar investigá-Ias, des- Se o avanço espetacular do pensarriento científico e das inova-
monta-as reduzindo-as aos seus componentes mais elementares. Ao ções tecnológicas que ocorreram nos últimos séculos, em particular no
encanto das formas sensíveis da matéria sucede um certo desencanto século XX,retirou aos mitos das origens seu encanto literário e sua con-
das formas racionais abstratas a que elas são reduzidas pela ciência, es- dição dk mistério e de certeza, não conseguiu, entretanto, eludir as pro-
quecendo que sensibilidade e a razão são partes integrantes da reali-
á

fundas interrogações que eles encerram. Ao contrário, a curiosidade e o


dade humana e que silenciar qualquer uma delas em benefício da outra interesse pelos mistérios das origens do mundo e do homem cresceram
não é ganho, mas perda. na razão direta da vontade de substituir os antigos mitos pelas novas
O drama do homem contemporâneo é também descobrir atônito teorias científicas e do aumento da crença de que com a ajuda da técnica
quanto já sabe a respeito do universo e quão pouco sabe ainda a respeito será possível concretizar os sonhos milenares de saber tudo a respeito
de si mesmo. Se, de um lado, consolida-se a consciência de que nada do mundo e da existência.

L.
24 ANGEL PINO AS IMRCAS DO HUMANO 25
'\
( o século XIX constitui para autores como Foucaulr' um marco im- natureza do homem ou, em outras palavras, daquilo que constitui a es-
( portante no caminho da reflexão do homem sobre si mesmo, ao operar- pecificidade humana dessa natureza .•
se no discurso clássico o desdobramento do ser na sua representação, duas
Se o que caracteriza o novo episteme é a cisão que se abre entre o ser e
características que ocupavam um mesmo lugar nesse discurso. Tal des-
a representação, produzida pelo fato de o homem se distanciar das coisas
dobramento permitiu que o homem se descobrisse sendo, ao mesmo
introduzindo entre ele e elas a representação que ele faz delas, então não
tempo, espectador e espetáculo, observador e observado, pensador e ~
~ é de se estranhar que o homem projete algo de si mesmo nessa represen-
objeto pensado, sujeito do saber e objeto de ciência. A consciência de ser "t~ tação, como aparece, por exemplo, nos efeitos de linguagem que marcam
um objeto no meio de outros objetos constituiu, sem dúvida, uma pro- li o discurso científico. Caberia perguntar-se: é uma questão de mero antro-
funda ferida aberta no seu narcisismo de sujeito transcendental, obra do pocentrismo ou é algo inerente à natureza da representação?
pensamento moderno. Todavia, essa descoberta, longe de constituir uma
Dizer que as coisas são nossa representação não significa que elas
catástrofe, mostrou-se com o tempo extremamente benéfica para o ho-
sejam simples quimeras, ilusões ou meros efeitos de linguagem, o que
mem pois, se saber-se objeto abalou as estruturas do seu "eu", abriu-
negaria o valor real e objetivo do conhecimento (o comum e o científico).
c', lhe, em compensação, a porta da verdade de si mesmo, liberando-o da
Significa, isso sim, que, ao olhar as coisas, o olhar confere-lhes um outro
aderência ao real imediato e permitindo-lhe descobrir-se como um ser
modo de existência, o simbólico, diferente do que lhes é dado pela natu-
simbólico, objeto de representação.
reza. Isso se aplica ao conhecimento comum, em geral, e ao conheci-
É nesse corpo de saberes inaugurado pelo novo regime da represen- mento científico, em particular. Se o objetivo do olhar do cientista é expli-
tação que, no crepúsculo do século XIX, a psicologia reivindicou um lu- car as coisas que fazem parte da natureza,' o objeto desse olhar é a repre-
gar ao sol no mundo da ciência, tentando afastar-se da especulação filo- sentação que ele faz delas, o que explica o caráter conjectural do saber
( sófica - o que nunca conseguiu completamente, é bom dizer - e apro- científico e a necessidade da sua homologação pela comunidade cientí-
( ximar-se das ciências da natureza cujo objeto de conhecimento não é o fica, como já disse Thomas Kuhn. (1972) A ciência é nossa convenção.

,f homem. Pode-se dizer então que a ciência psicológica nasce sob o signo Se o homem, ao procurar conhecer as coisas que não são ele nem
da ambigüidade herdada da tradição filosófica, uma vez que nasceu di- vêm dele, projeta-se na representação que se faz delas, colocando nelas
(
vidida entre aquilo do homem que se inscreve no campo da filosofia da algo dele, como estranhar que ao procurar conhecer a criança - um ser
alma e de seus alibi (sujeito, consciência, mente etc.) e aquilo dele que se que vem dele e, que se não é ele, nele identifica suas próprias origens -
inscreve no campo dos objetos empíricos. Essa cisão explicaria por si só projete-se nela ciente de que a existência da criança está irremediavel-
a escassa contribuição que a psicologia tem dado ao longo do século à mente presa à ação dele? A representação da criança por parte do ho-
elucidação das zonas escuras do campo do conhecimento da verdadeira mem é muito mais do que um mero ato cognitivo; ela envolve muitos
(
outros ~lementos da subjetividade humana. Isso explicaria que, ao pro-
f
I

4. As palavras e as coisas (1992). Nesta obra, M. Foucault analisa a questão das vicissitu-
jetar na criança a representação de si mesmo, o homem tenha dificulda-
des da "representação",desde o pensamento clássico até o pensamento moderno, reconsti- de de descobrir que entre ambos não existem apenas semelhanças, mas
tuindo a história desse conceito na perspectiva arqueológica que caracteriza seu método de também diferenças, e que essas diferenças traduzem a peculiaridade da
análise. Nessa história, ~le aponta o momento em que o homem chega à consciência do "du-
"condição de ser criança" e não algo negativo próprio dessa mesma con-
plo", ou seja, do desdobramento da coisa na sua representação e, simultaneamente, do ho-
mem em "sujeito" e "objeto" de ciência. Momento que eileidentifica com o início das ciências dição, como se "ser criança" representasse um "ser menos" seja porque
humanas que têm o homem corno seu objeto empírico. "ainda não é um ser adulto" seja por considerá-Ia "um adulto que ainda
(
( 26
ANGELPlNO AS MARUS DO HUMANO 27

(
é criança". Ao fazer do adulto o padrão de medida do "ser criança" não grandes transformações sociais e industriais, que a criança acabou
( se estaria negando a ela a própria condição de criança? ocupando um lugar de destaque na nova sensibilidade que toma conta
( das sociedades modernas. •
Numa das suas obras, Wallon(1968) chama a atenção sobre este ponto,
( mostrando o preconceito que se esconde por trás dessa visão de criança, Deve-se reconhecer que desde o início do século XX, a psicologia
( núcleo de uma certa concepção do desenvolvimento infantil e, em conse- manifestou um interesse crescente pelo estudo da criança, embora os
qüência, da educação da criança confiada ao adulto. O preconceito reside primeiros trabalhos, de natureza biográfica, veiculassem idéias ainda
(
na idéia de que a criança deve seguir um percurso que a leve, inelutavel- vagas e portadoras de preconceitos a respeito dela. A partir da segunda
( mente, à reprodução de um certo modelo de adulto constituído em pa- década do século XX,a criança veio ocupando um espaço cada vez maior
( drão do seu meio e da sua época, considerando ser uma aberração qual- na pesquisa psicológifa, como o mostra o considerável aumento do nú-
( quer desvio ou diferença em relação a esse padrão. Pergunta-se Wallon: mero de publicações a respeito dela. Entretanto, o aumento da produ-
ção científica e do conhecimento queela nos transmite é até hoje bastan-
( É verdade que a mentalidade da criança e a do adulto são heterônomas? te desigual, tanto no que diz respeito às diferentes fases ou momentos
( que a passagem de uma à Outrasupõe uma conversão total? que os prin- estudados do desenvolvimento infantil quanto no que se refere ao es'-
cípios aos quais o adulto julga estar ligado seu modo de pensar sejam
c uma norma imutá'{el e inflexível que permita excluir fora da razão o
pectro dos aspectos investigados. Com efeito, não só existe uma grande
(
concentração dos estudos nos primeiros anos de vida da criança como
modo de pensar da criança? que as conclusões intelectuais da criança
os temas investigados concentram-se, principalmente, nos aspectos físi-
( não tenham nenhuma relaçãocom as do adulto? E a inteligênciado adul-
cos, orgânicos e ambientais do seu desenvolvimento. Mesmo um estu-
to, teria podido permanecer fecunda se realmente houvesse sido obriga-
( do tão importante como o de Piaget, alem de limitar-se ao período da
da a afastar-se das fontes de onde brota aquela da criança? (1967: 13,
( tradução minha). infância/adolescência e concentrar-se no desenvolvimento das estrutu-
ras mentais., concede aos fatores orgânicos um papel central na gênese
(
Tais interrogações mostram, até um certo ponto, qual era a idéia dessas estruturas, o que acaba passando meio desapercebido sob o vago
( conceito de interacionismo.
que se tinha da criança ainda na primeira metade do século XX. Na
( opinião autorizada de Philippe Ariês (1973), a descoberta da infância O conhecimento acumulado sobre a infância é, ainda hoje, bastan-
( não teria ocorrido antes do século XIII. A evolução da idéia de infância te limitado e pouco sistemático, não fornecendo uma visão global e ar-
pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia religiosa e ticulada dela, mas apenas visões parciais em razão da prioridade dada
(
profana ao longo dos séculos XV e XVI; mas é só a partir do século XVII pelas pesquisas e as teorias a alguns dos seus aspectos desvinculados
( de outros ou até em detrimento deles. Isso ocorre, em geral, com as
que os sinais confiáveis do seu descobrimento se teriam tornado parti-
( cularmente numerosos e significativos, quando a família e a escola, por grandes correntes do pensamento psicológico, algumas das quais, como
vias diferentes, assumem a responsabilidade da sua educação. Entre- o construtivismo e a psicanálise, fornecem modelos complexos de al-
tanto, é no fim do século XIX e durante o século XX, que alguém já guns aspectos do desenvolvimento infantil e contribuições pouco ex-
chamou de "século da criança"," período em que o mundo passou por pressivas a respeito de outros. Torna-se difícil, portanto, falar de uma
( psicologia da infância quando o que temos, na realidade, é um mosaico
( 5. Refiro-me a ElIen Kelly, escritora sueca conhecida no seu país como apóstola da edu-
de teorias parciais da infância refletindo as diferentes concepções de
( cação popular, que escreveu em 1900 um livro intitulado O século da criança, referindo-se ao mundo de cada escola. O resultado é um quadro teórico da infância
novo século que estava começando. necessariamente heterogêneo. Com efeito, é fácil identificar nos traba-
(
(

(
(
~

29
28 ANGELPINO AS MMCAS DO HUMANO

( dedicado à análise da história da crise da psicologia, em 1927, este autor


lhos sobre a criança de Sigmund Freud e sua escola", as marcas de urna
( visão psicanalítica do mundo e do homem; como é fácil identificar nos alertava seus contemporâneos marxistas acerca do erro que seria pensar
trabalhos de A. Gesell/ J. Piaget" e H. Wallon9 as respectivas marcas da em fazer uma "psicologia marxista" ~m vez de pensar em construir uma
visão de mundo e de homem desses autores e suas escolas; da mesma ciência verdadeira.
maneira que é fácil identificar nos trabalhos de J. Bowlby" as marcas da Na opinião de Vigotski, a razão principal da crise da psicologia
sua visão etológica e nos de J. B. Watson, H. W. Stevenson, S. W. Bijou e estava em constituir um retábulo de teorias particulares e parciais, re-
( D. M. Baer" as marcas de sua concepção positivista e funcionalista do sultado da falta de uma metodologia que tornasse possível construir
( homem. uma ciência geral. Servindo-se do exemplo do que fez Marx em O Capi-
( O que tem isso de errado? - poderia perguntar o leitor. Em princí- tal, cujo valor, segundo ele, reside muito mais na metodologia que lhe
pio não há nada de errado nisso, pois a diversidade de visões do mundo permite estabelecer as leis históricas que determinam os fatos econômi-
(
faz parte da própria natureza da investigação científica. O erro é atribuir cos do que propriamente na crítica do sistema capitalista, Vigotski pro-
(
a uma teoria parcial da infância um caráter de verdade universal, crian- punha que, mais do que tentar explicar os fatos psicológicos, o impor-
( do uma representação da infância que, no lugar de fundar-se em dados tante é criar uma metodologia que seja capaz de permitir estabelecer as
( fornecidos pela realidade histórica, funda-se, essencialmente, na visão "leis históricas" que os determinam. Sem estabelecer essas leis, muito
de mundo, específica de cada escola, que contamina esses dados. O que pouco ou nada será possível conhecer a respeito da natureza desses fa-
(
vale para as correntes psicológicas de forma geral vale também para a tos. Foi essa a grande razão que levou Vigotski a estabelecer como obje-
( corrente que tem em Vigotskí" sua principal expressão. Em trabalho tivo das suas investigações a ingente tarefa de construir uma psicologia
(
que revele as leis dos processos psicológicos. Visando a esse objetivo,
6. Sigmund Freud, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905; D. Rapaport, Organization ele procura articular a história da espécie humana com a "história" na-
( and path%gJj of thougth, 1951; R. Spitz, The first year of /ife: study of normal and deoiani development tural':' da qual é um caso particular. Isso explica a grande importância
of object relations, 1965; M. S. Mahler, F. Pine e A. Bergman, The psychologica/ birth of the human
( infant: symbiosis and individualization, 1975.
que a teoria evolutiva de Darwin adquire no seu trabalho de elaboração
7. A. Gessell, The psychology of early growth, incIuding norms of infant behavior and a method teórica. É nesta perspectiva que a espécie homo é vista como uma espécie
(
of genetic analvsis, 1938; The first five years of life: a guide to the study of the preschool child, 1940. que, à semelhança do que ocorre com as outras espécies biológicas, emer-
( J.
8. Piaget, La naissance de l'inteIligence chez l'enjant, Neuchatel: Délachaux et Niestlé, ge como uma especialização que tem lugar na corrente evolutiva. Toda-
1936, La [ormation du symbole chez t'cniont, Neuchatel: Délachaux et Niestlé, 1945 e La
( via, à diferença das outras espécies, o percurso evolutivo que ela segue
construction du rée/ chez l'enfant, Neuchatel: Délachaux et Niestlé, 1937.
( é diferente, pois não é ditado unicamente pelas leis da natureza, mas,
9. H. Wallon, Les origines du caraciêre chez l'enfant, 1934; "La vie mentale de I'enfance à Ia
( veillesse", Encyc/opédie. Française, t. VIU, 1938; La psvchologie de l'eniani de Ia naissance à sept cada yez mais, pelas leis da história humana; história constituída das
ans, 1939; L'évolution psvcnologioue de I'enfant, 1941; De l'acie à Ia pensée, 1942. transformações que o homem opera na natureza visando a fazer dela o
(
10. J. Bowlby, Maternal care and mental health, 1966; Attachment and Loss, 2 vol., 1969. seu novo meio "natural". O homem é a única espécie de que se tem
( 11. J. B. Watson, Psychological care of infant and child, 1928; H. W. Stevenson, Thougth in the notícia que consegue transformar a natureza para criar seu próprio meio
young child, 1962; S. W. Bijou e D. M. Baer, Child deoelopment, 1961-
(
12. Refiro-me a essa corrente de pensamento psicológico surgida na ex-União Soviética
( nos anos 20 do século passado e que tem como matriz o materialismo histórico e dialético, 13. Na expressão história natural, o termo "história" está entre aspas porque é usado de
sem por isso confundir-se com uma pretensa "psicología marxista", como o enfatizou o pró- forma genérica, urna vez que ele só pode ser usado, com propriedade, quando aplicado ao
prio Vigotski. (1996) homem, em cuja história se insere e adquire significação a história da evolução da natureza.

(
(
30
( ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 31

(
em função de objetivos previamente definidos por ele e que, ao fazê-lo, rais, regidas por leis históricas. A originalidade do desenvolvimento da
(
transforma-se ele mesmo, assumindo assim o controle da própria evo- criança (ontogênese ou história pessoal) reside, segundo Vigotski (1997:
( lução. É a essa dupla transformação, da natureza e dele mesmo, que 15-20),no fato de que essas duas séries de funções se fundem entre si a
( chamamos de história propriamente dita, da qual passa a fazer parte a ponto de constituírem um sistema mais complexo, o que explica a difi-
história da natureza. culdade que temos para compreender seu funcionamento. Elas se inter-
penetram de tal maneira que só por abstração é possível separá-Ias. De
( Essa é, em poucas palavras, a visão do mundo e do homem que
um lado, as funções biológicas transformam-se sob a ação das culturais
Vigotski nos apresenta nos seus trabalhos e que explica por que o eixo
( e, de outro, estas têm naquelas o suporte de que precisam para consti-
das suas análises tem como coordenadas a natureza e a cultura, eixo
tuir-se, o que as torna, em parte, condicionadas pelo amadurecimento
definidor do fundamento da história propriamente dita. Isso explica tam-
biológico daquelas. Em'condições normais de desenvolvimento biológi-
bém a constante insistência dele em afirmar a existência de dois tipos de
co, as funções culturais vão se constituindo seguindo um ritmo facil-
( funções psicológicas interdependentes: as elementares e as superiores=
mente previsível, em razão do ritmo do amadurecimento biológico. A
aquelas são de natureza biológica, estas de natureza cultural, integrando-
( ~ tese da articulação de funções de natureza tão diferente numa unidade
se ambas no fluxo evolutivo. Com isso Vigotski está afirmando que a
única coloca o problema teórico, bastante complexo, da explicação do
história do homem começa na "história" natural, mas não é simples pro-
mecanismo que permite sua integração.
duto dela. Não é o momento de adentrar-me no estudo desta questão que
deverá ser tratada mais adiante. Por ora basta dizer que a evolução cultu- A segunda é que a emergência em cada ser humano das funções
(
ral do homem se explica em razão da relação dialética que ele mantém com culturais segue uma lei geral, denominada por Vigotski de "lei genéti-
( ca geral do desenvolvimento cultural" que ele formula nos seguintes
a natureza. É nessa relação que a natureza adquire sua dimensão históri-
( ca, ao passar a fazer parte da história humana. (Pino, 2000b) termos:
( Esse contexto teórico e a visão de homem que ele implica levam No desenvolvimentocultural da criança cada função aparece em cena
Vigotski a ver o desenvolvimento psíquico como desenvolvimento cultu- duas vezes,em dois planos,primeiro o social,depois o psicológico,pri-
ral. Talvez seja importante lembrar ao leitor que não se trata de uma meiro entre pessoascomouma categoriainterpsicológica,depoisno inte-
mera questão terminológica, mas epistemológica, a qual, em relação à rior da criançacomo uma categoriaintrapsicológica.(1997: 106)15
tradição psicológica, representa certamente um novo paradigma.
( O enunciado desta lei nos permite dizer que estamos diante de um
O ponto de partida da investigação que deu origem a este trabalho
( é um conjunto de idéias sustentadas por Vigotski, em particular duas processo que se dá em dois tempos - um antes e um depois - e em dois
planos diferentes - um social e outro pessoal. Isso quer dizer que as
delas decorrentes, segundo ele, do estudo da história do desenvolvi-
mento cultural da criança. funções culturais, que definem a especificidade humana de homo, não
emergem diretamente da natureza por força das "leis"16naturais que
(
A primeira é que o ser humano é constituído por urna dupla série
de funções, as naturais, regidas por mecanismos biológicos, e as cultu-
( 15. "Every function in the cultural development of the child appears on the stage twice,
in two planes, first the social, then the psychological, first between people as an intermental
14. Ao longo deste trabalho, substituir-se-á, com freqüência, a terminologia "funções categorie, then within the child as a intramental categorie".
elementares" e "funções superiores" pela equivalente "funções naturais" ou biológicas e "fun- 16. Na expressão leis naturais, o termo "leis" vai entre aspas por entender que -contra-
ções culturais", ou simbólicas, usada outras vezes por Vigotski. riamente a uma tradição que remonta ao Iluminismo, doutrina que transfere à natureza a
32 ANGELPINO 1>5MARCI>5 DO HUMANO 33

regem o desenvolvimento orgânico, corno se fossem um mero desdo- ficação, não é de natureza física, mas semiótica, a qual não está sujeita às
( bramento dele ou o simples produto da sua maturação. Elas surgem leis físicas do espaço. Isso nos permite pensar numa espécie de "geogra-
( como resultado da progressiva inserção da criança nas práticas sociais fia semiótica", contraposta à geogràfia física, onde os espaços podem
( do seu meio cultural onde, graças à mediação do Outro, vai adquirindo sobrepor-se sem se confundirem, de maneira que o que é privado possa
sua forma humana, à semelhança dos outros homens. Portanto, diferen- ser público e o que é público possa ser privado. (Pino, 1992)
temente do que ocorre com as funções biológicas, que se inscrevem nas A idéia da transposição de planos no desenvolvimento cultural, ao
estruturas genéticas da espécie, as culturais inscrevem-se na história implicar um antes e um depois, permite também pensar na existência de
social dos homens. Sua constituição em cada indivíduo resulta de uma um momento zero cultural que se situaria no interstício desses dois tem-
espécie de "transposição" de planos (o autor fala em iniernalização ou
( pos. Trata-se, sem dúvida, de um momento mais lógico que físico, em
conversão): do plano social, onde constituem o suporte das relações hu-
( razão da dificuldade de detectá-lo empiricamente. Essa dificuldade,
manas, para o plano pessoal. Em outros termos, elas são o resultado de
porém, não torna a hipótese menos -necessária para justificar a origem
uma conversão das funções das relações sociais que operam na esfera
social das funções superiores. Ela traduz o momento que precede ime-
( pública em funções dessas mesmas relações operando agora na esfera
diatamente o início da organização da "geografia semiótica" a que me
( privada, razão pela qual Vigotski as chama de "quase sociais".
referi acima. Devo reconhecer que tal hipótese não é completamente
( A idéia da existência de dois planos pode dar a impressão de que nova nem totalmente original, pois R. Zazzo (1960) já falara de algo pa-
se está falando de dois espaços físicos diferentes, um externo e o outro recido ao referir-se ao estado de "não ser psicológico" que precede o co-
(
interno ao indivíduo, como se se tratasse de uma concepção dualista do meço do desenvolvimento da criança.
( desenvolvimento que, apesar de apresentar-se sob outra formulação,
A hipótese do momento zero cultural conduz, por sua vez, à ques-
seria uma re-edição do dualismo que marca a tradição psicológica, fonte
tão das origens de que falei anteriormente: origens da constituição cul-
( permanente de dificuldades teóricas. Não se exclui a possibilidade de
tural da criança, não mais mitológicas, mas históricas. Trata-se de ori-
que tal formulação dê origem a possíveis interpretações equivocadas do
( gens quase impossíveis de serem detectadas de forma direta no início
pensamento de Vigotski; entretanto, esse risco é mais aparente que real,
<. da vida da criança em razão, de um lado, das condições mesmas do ser
pois embora a operação de "transposição" de um plano para o outro
( esteja sujeita às leis físicas do tempo - o que permite falar de "um antes" criança - um ser biológico cujas marcas culturais se perdem nas bru-
e "um depois" - o objeto dessa operação escapa às leis físicas do espaço. mas da história genética da espécie que precede sua própria história
(
Com efeito, se cada um desses planos recorta, efetivamente, espaços - e, de outro, da ação do meio cultural sobre a criança desde os primei-
( ros instantes de sua existência. Daí a necessidade de procurar indícios
reais de uma geografia física - o espaço concreto da atividade pública e
( que s~jam a prova empírica dessas origens. A razão de procurar as
o espaço também concreto da atividade privada - contudo, o que é
( objeto da operação de "transposição" de um plano para o outro, a signi- origens do processo de constituição cultural da criança funda-se no se-
guinte raciocínio: a) se o desenvolvimento humano é de natureza cultural'?

fonte do próprio ordenamento que a tradição religiosa coloca fora dela, num ser transcenden-
te - a natureza não tem propriamente leis, devendo reservar-se este termo para designar os 17. "Psychology has not yet explained adequately the differences between organic and
( modelos que a ciência cria para explicar as regularidades que observa nós fenômenos natu- cultural processes of development and maturation, between two genetic orders different in
rais. De forma mais específica, chamam-se leis os limites que a sociedade impõe à ação dos essence and nature and, consequentely, between two basicalJy different orders of laws to
indivíduos numa dada coletividade. which the two lines in the development of the child's behavior are subject". (Vigotski, 1997: 3)
34 ANGELPINO 35
AS MARCAS DO HUMANO

(
e b) se a cultura)" não é obra da natureza mas do próprio homem, o de, passagem considerada necessária para encontrar uma fundamenta-
( qual é, ao mesmo tempo, produtor e produto dela; c) então o desen- ção racional à origem da sociedade, do Estado e do direito. Embora esta
( volvimento cultural deve ter um começo que não pode ser confundido questão extrapole os limites da análise psicológica, tem desdobramen-
com o nascimento biológico, pois este é condição da concretização da- tos que afetam a maneira de conceber a especificidade do ser humano,
quele, mas não razão suficiente da sua existência. Os itens a e b são objeto central da psicologia. Que essa passagem possa ter sido um even-
premissas que fazem parte do repertório de idéias que constitui o pen- to histórico ou que se trate unicamente de uma mera exigência lógica
samento de Vigotski a respeito do desenvolvimento psicológico. O item tem menos importância do que a afirmação da existência de dois estados
c é apenas a conclusão lógica de tais premissas. ou modos de ser do homem: o natural - o homem como obra da natureza
Isso nos coloca diante da idéia da existência de um duplo nasci- - e o simbólico - o homem como transformador dessa mesma natureza.
mento, o biológico e o cultural, que traduza as duas linhas de desenvolvi- Pode parecer estranho ao leitor que na discussão do desenvolvi-
( mento de que fala Vigotski. Trata-se de uma idéia extremamente sedu- mento psicológico seja trazida à tona-a questão da cultura, visto que esta
tora, à condição de não fazer desse duplo nascimento uma re-edição do questão não tem feito parte, propriamente, das categorias fundamentais
velho "paralelismo psicofísico" de que fala Leibniz'? ou de qualquer outra das teorias psicológicas do desenvolvimento, qualquer que seja a razão
( forma de paralelismo. ~ real disso. Não se trata de que a psicologia tenha ignorado a existência
Subjacente à idéia de um nascimento cultural após o nascimento da cultura, mas apenas de que ela nunca a considerou uma categoria
biológico existe uma questão de fundo que, sob diversas formulações, constitutiva do desenvolvimento. As referências à cultura existem, em
atravessa a história do pensamento ocidental, desde a Grécia antiga graus e formas variáveis. Mas, de uma maneira geral, esta é concebida
(Platão, Aristóteles, Sofistas) até os tempos modernos (Grotius, Locke, como um componente do "meio" social, realidade externa ao indivíduo,
Hobbes, Rousseau, entre outros). É a questão da passagem, na história e não como constitutiva do psiquismo humano. Isso explica que a ques-
( da evolução da espécie humana, do estado de natureza ao estado de socieda- tão da cultura não tenha feito parte dos modelos explicativos do de-
( senvolvimento humano, fato observado por Vigotski (1997). Foi nesse
( "In the development of the child, two types of mental development are represented (not vácuo teórico do pensamento psicológico que ele introduziu na psicolo-
repeated) which we find in an isolated form in phylogenesis: biological and historical, or gia a antiga questão da relação entre "estado de natureza" e "estado de
( natural and cultural development of behavior. In: Ontogenesis both processes have their analogs
sociedade" sob a nova forma da relação entre "funções biológicas" e
(noi parallels). (ibid, p.19).
"funções culturais", fazendo da cultura a categoria central de urna nova
18. Este assunto será tratado mais adiante neste trabalho.
19. Gottfried W. Leibniz (1646-1716), grande filósofo e matemático alemão, autor do concepção do desenvolvimento psicológico do homem. Com isso, abre-
cálculo diferencial, independentemente de Newton, é um crítico do "cogito" cartesiano, sus- se no pensamento psicológico tradicional um novo caminho capaz de
tentando que a verdade resulta do rigor lógico que caracteriza as proposições da razão e de
,
trazer novas luzes à compreensão da natureza humana, na qual a pala-
( Deus que, como ser infinito que é, pode conceber todas as essências possíveis e todas as
combinações que podem ser pensadas com elas. Leibniz chama de mônadas as substâncias vra "humana" traduz a síntese da relação natureza e cultura. Essa con-
simples, sem partes, que Deus cria em número infinito e que contêm todas as suas determina- cepção da natureza humana permite resolver muitos dilemas colocados
( ções e que, agregadas a outras, formam as coisas que constituem o mundo. Para explicar a
ao pensamento psicológico pelo velho dualismo; dilemas que se tradu-
relação das mônadas entre si, Leibniz criou a teoria da "harmonia preestabelecida" por Deus
( e, para explicar a articulação do conjunto das mônadas que constituem a alma com o conjun- zem na aparente incapacidade de articular dimensões diferentes de urna
( to das respectivas mônadas que constituem o corpo, criou a teoria do "paralelismo psicofísico", mesma realidade, como "corpo e mente", "organismo e meio", "indiví-
obra também de Deus. duo e sociedade" etc. A introdução na psicologia da questão da nature-
(
36
ANGELPINO AS MARCAS 00 HUMANO 37

za cultural do desenvolvimento humano muda qualitativamente o de- outras questões que serão objeto de discussão neste trabalho: 1) explicar
bate psicológico, deslocando-o do campo da biologia geral para o cam- a relação entre a natureza, ordem da qual o homem faz parte, e a cultura,
po da biologia humana, fato que tem ou poderá ter importantes reflexos ordem criada por ele e que lhe contere a especificidade humana; 2) ex-
em vários outros campos do saber. plicar o processo de articulação em cada indivíduo das funções naturais
Nas teorias tradicionais do desenvolvimento psicológico, o eixo das ou biológicas com as funções culturais, características da espécie huma-
análises passa, de forma geral, pela duplicidade de fatores responsáveis na, para constituir um ser humano concreto e unitário. Isso supõe que
por ele: fatores orgânicos, de um lado, fatores ambientais, de outro, enfa- ocorre uma transposição do plano social para o plano pessoal que só é
tizando ora uns, ora outros, ora ambos. O modelo-protótipo que consti- explicável pela mediação semiótica.
tui o eixo dessas análises, apesar das suas diferenças, é o de que existe Embora essas questões não façam parte, diretamente, do objeto desta
uma relação natural entre o organismo humano e o seu meio, relação en- investigação, sua abordagem é importante, pois permite compreender
tendida como a de dois sistemas distintos e autônomos que interagem melhor esse objeto e a démarche que será seguida na sua investigação.
entre si. Essa interação varia de acordo com cada uma das vertentes Partindo da "lei genética geral do desenvolvimento cultural" enun-
teóricas. Estes sistemas e sua relação têm sido tratados quase sempre de ciada por Vigotski, à qual já fiz referência acima, o que se procura neste
maneira abstrata e genérica, mesmo em teorias que sustentam a objeti- trabalho é detectar, nos primeiros meses de vida da criança, indícios da
vidade como princípio de ciência. De forma geral, o organismo humano existência de um processo de transformação das funções naturais ou bio-
( é visto como uma organização natural cujas estruturas e funções funda- lógicas em funções culturais sob a ação do meio social da criança. Trata-
mentais são compartilhadas por indivíduos humanos e não humanos. se, portanto, de procurar indícios do que podem muito bem constituir os
(
Por sua vez, o meio, mesmo quando se reconhece sua especificidade de primórdios do nascimento cultural do homem. A função dos indícios, di-
(
acordo com cada tipo de organismo, é entendido como o entorno natural ferente da siJ;nples comprobação científica, é dar visibilidade aos efeitos
( em que esses organismos vivem e cuja condição de existência e desen- reais e concretos da ação da cultura, através da mediação social do Ou-
( volvimento é a adaptação a ele. Pode-se dizer então, como o enfatiza tro, sobre a natureza biológica da criança.
Vigotski (1994a), que, apesar das suas diferenças, as teorias psicológicas Em termos mais específicos, procuram-se esses indícios nas formas
compartilham uma mesma visão naturalista do homem e do seu desen- de comunicação do Outro com o bebê humano, entendendo por "Ou-
volvimento. É justamente em contraposição a essa visão naturalista que tro" um lugar simbólico ocupado pelos inúmeros parceiros das relações
ele e os seus colaboradores e seguidores sustentam, desde a segunda sociais da criança ao longo da sua história social e pessoal. De maneira
década histórico-cultural do homem e do seu
do século XX, a natureza particular, o Outro é constituído nos primeiros momentos de vida do
( desenvolvimento. Nesta nova perspectiva, a cultura passa a ser a bebê humano pelo seu entorno familiar, em especial pelos pais e paren-
definidora da natureza humana, uma das inúmeras formas que a nature- tes prôximos, uma vez que é por seu intermédio que o bebê irá estabele-
(
za adquire ao longo da sua evolução. Nesse sentido, o homem represen- cendo seus primeiros contatos com o mundo cultural, conforme o prin-
( cípio da mediação social sustentado por Vigotski em inúmeras passa-
ta a emergência da consciência na natureza. Como isso é possível? Eis
( uma questão complexa cuja explicação passa, necessariamente, pela gens das suas obras, em especial duas, a de 1929 e a de 1931 (Vigotski,
( discussão daquilo que constitui a característica da espécie humana: a 1997 e 2000, respectivamente).
capacidade de inventar meios técnicos e simbólicos para agir sobre a A razão de escolher os primeiros meses de vida da criança, período
(
natureza e criar suas próprias condições de existência. Isso coloca duas pré-verbal, é perfeitamente compreensível, uma vez que é uma investi-
"
38 ANGElPINO AS MARCAS DO HUMANO 39

gação das origens. Todavia, alguém poderia perguntar: como procurar A primeira questão a ser tratada concerne ao princípio que decorre
essas origens no período pré-verbal se o mediador do processo de cons- de maneira lógica daquela tese: "o ser humano é um ser cultural". Sen-
( tituição cultural, a linguagem, está ausente? A resposta não é simples, do assim, propor-se como objeto de investigação, o estudo do início do
mas parece perfeitamente razoável pensar que se a fala é a mais proemi- desenvolvimento cultural da criança é reconhecer que ela tem que se
nente das formas de comunicação humana, ela não é a única daquelas transformar num ser cultural (capítulo 1), o que equivale a dizer que ela
que constituem o universo semiótico em que todas as coisas adquirem não o é no momento de nascer. As questões a seguir são decorrência
significação, constitutivo essencial de qualquer forma de comunicação lógica desta.
humana. Estas e outras possíveis indagações nos levam à conclusão de
O passo seguinte é discutir o conceito de cultura (capítulo 2), uma
que os indícios das origens da constituição cultural da criança devem ser
vez que esta constitui; a categoria central da tese do desenvolvimento
procurados naquele ponto "x" onde ocorre o encontro das formas simbó-
cultural. Sua discussão é necessária pois não só é termo extremamente
licas de comunicação adulta, com as quais o Outro pode significar as polissêrnico na literatura especializada e no uso comum, como não foi
(' coisas à criança, com as formas biológicas de comunicação da criança, as
suficientemente explicitado por Vigotski, apesar da importância que ele
únicas de que ela dispõe. Esse encontro constituiria, portanto, o fator
tem na sua obra. A discussão do conceito de cultura é contraposta ao
desencadeador do processo de constituição cultural da criança. Neste
conceito de natureza, pois, na perspectiva histórico-cultural que é a des-
sentido, o que se procura no bebê humano são "indícios não-verbais"
te trabalho, sua relação é dialética." o que ajuda a entender por que
( que atestem a existência em marcha de um processo de transformação
existe, ao mesmo tempo, continuidade e descontinuidade entre a histó-
( da natureza sob a ação da cultura, processo responsável pela sua consti-
ria natural do homem e a sua história cultural.
tuição cultural. Eis por que me parece importante investigar as primei-
( Analisado o conceito de cultura e delineados os contornos dentro
ras formas de comunicação do bebê com o mundo adulto. Penso que
estamos diante de um problema teórico e metodológico extremamente dos quais ele é usado neste trabalho, considero necessário submeter a
interessante e que, pelo que me consta, não foi ainda suficientemente uma análise conceitual outros três termos usados continuamente por
investigado. Vigotski e que, no meu entender, são essenciais para compreender o seu
pensamento. Refiro-me aos conceitos de "função", de "relações sociais"
O trabalho foi pensado para ser composto de duas partes.
e de "conversão" (capítulo 3) que o autor não discutiu suficientemente,
( A primeira é destinada a montar o que metaforicamente poderia o que impede ter uma idéia clara do sentido exato em que ele os utiliza
ser denominado de "cenário do humano", ou seja, o ambiente teórico no na sua obra.
(
qual o leitor possa identificar aquilo que, na perspectiva em que se situa
( A discussão da questão da cultura e da sua relação com a de natu-
este trabalho, constitui o próprio dessa espécie denominada homo sapiens
reza leva à análise de outra questão fundamental, a questão semiótica
( e que, como tentarei mostrar, é .da ordem da cultura, no sentido em que
(capítulo 4), sem a qual é muito difícil, senão impossível, compreender a
este termo é usado no trabalho, o qual supõe que ele esteja relacionado
( natureza da cultura e, como conseqüência, a natureza humana. Como
com o de natureza. Isso leva a pensar o humano como uma modalidade
( ficará evidenciado no conjunto do trabalho, a significação é a chave expli-
nova dessa natureza, tentando escapar dessa forma a qualquer espécie
cativa do conceito de cultura e da relação desta com a natureza.
( de dualismo. A montagem de tal cenário envolve a discussão, numa
( certa seqüência lógica, de algumas questões teóricas que fundamentam
o que me parece ser a tese principal de Vígotski: "a natureza cultural do 20. Por relação dialética entende-se aqui uma relação onde os dois termos que a com-
(
desenvolvimento humano", a qual orienta a presente investigação. põem, embora negando-se mutuamente, são mutuamente constitutivos.

l,
,
>
40 ANGELPINO @~ 41

Dado que a questão do desenvolvimento cultural é colocada por


Vigotski em termos da existência de um tipo específico de relação entre
funções biológicas e funções culturais, torna-se necessário discutir essa
questão (capítulo 5) para poder compreender a dimensão real do concei-
to de desenvolvimento de que ele está falando e o que o diferencia de
outras concepções existentes em psicologia.
A segunda parte é consagrada a procurar os indícios da ação da
cultura sobre as funções biológicas da criança desde os primeiros mo-
mentos do seu nascimento, os quais, segundo a hipótese que norteia este
trabalho, devem testemunhar do início do processo de "constituição cul-
(
tural" da criança. Falar em indícios de uma presença equivale a falar da
PRIMEIRA PARTE
(
"presença da ausência"," ou seja, a presença de algo que, embora esteja
(
lá, não está de forma diretamente perceptível para o observador.
Investigar algo ausepte pelos indícios da sua presença requer certos
Natureza cultural do psiquismo humano
procedimentos metodológicos próprios para tal finalidade, à semelhan-
ça dos utilizados em outros campos de investigação nos quais o objetivo ASPECTOS TEÓRICOS
é descobrir o objeto ausente nas pistas e marcas que denunciam a sua
presença. Uma metodologia apropriada para este tipo de investigação
tem muito a ver com o que se convencionou chamar de "paradigma
( indicial" (C. Ginzburg, 1980; Ecco e Sebeok, 1991), primeiro assunto desta
( segunda parte (capítulo 6).

( O capítulo seguinte (capítulo 7) é dedicado à identificação e justifi-


cação dos parâmetros que são utilizados para a procura e análise dos
(
indícios. Trata-se, de um lado, dos "indicadores" de funções biológicas e,
( de outro, dos "gradientes" de evolução dessas funções. É neles que será
( procurada a existência dos indícios que, uma vez identificados, serão o
objeto de uma análise detalhada (capítulo 8).

(
21. Lembrando o título da obra de Henri Lefebvre, La présence et l'absence, Paris: Casterrnan,
1980, onde o autor discute a questão da representação.
(
(
@~~ 43

(
,

Capítulo I
(

( A criança, um ser cult.ural ou da passagem


do biológico ao simbólico

A INSUFICIÊNCIA DO NASCER HUMANO

Tornou-se já um lugar-comum afirmar que, ao nascer, o homem é


um animal incompleto, frase atribuída a F. Nietzsche, ou que ao nasci-
( mento a criança parece um ser prematuro, como teria afirmado o antro-
pólogo L. Bolk. A fragilidade do bebê humano no momento de nascer e
a sua insuficiência para sobreviver por conta própria fazem dele, efeti-
vamente, o mais indefeso dos mamíferos. Durante muito tempo - bem
mais de aquele que as crias de animais mais próximos do ser humano
precisam para adquirir sua autonomia -, a sobrevivência do bebê hu-
mano depende totalmente da solidariedade dos seus semelhantes, em
particular dos pais. Muitas semanas deverão transcorrer antes de ele ser
capaz de articular movimentos com os braços para atingir os objetos
próximos. Longos meses serão necessários para que atinja uma relativa
(
autonomia de movimento para cortar o espaço e aproximar-se com as
próprias pernas dos objetos que o circundam. Enfim, vários anos deve-
rão passar antes que ele consiga realizar com um mínimo de destreza as
principais funções motoras (correr, saltar, subir e descer escadas, mani-
pular objetos etc.). Sendo isso devido a um ritmo de maturação próprio
(
44 ANGELPINO AS MMCAS DO HUMANO 45

do homo sapiens', parece difícil explicarbiologicamente esse aparente atra- ! com os próprios objetos, corno uma das suas qualidades fundida nas
so maturacional e a decalagem temporal que separa a maturação dos outras. (Wallon,1942:88)2
bebês humanos da maturação dos bebês de grande parte das espécies
Ou seja, mesmo sem possuir ainda a liberdade que lhe outorgará a
que o precederam.
fala - a qual fará toda a diferença entre a criança e o primata da mesma
Pela lógica da evolução biológica, segundo a qual o processo idade - aquela, contrariamente ao que ocorre com este, percebe já os
evolutivo se apresenta em termos de ganhos cumulativos das espécies objetos com suas formas e qualidades próprias e suas posições no espa-
mais recentes em relação às mais antigas, o bebê humano deveria ser ço, o que lhe permite estabelecer relações entre eles com liberdade sufi-
í mais "esperto" que as crias das espécies precedentes, não ao contrário. ciente para não ser condicionada a agir pela gestalt da situação objetiva,
A explicação desse aparente paradoxo parece residir, justamente, na- como ocorre com o macaco. A possibilidade de comparar os objetos e
( quilo que constitui a vantagem evolutiva de homo sapiens: suas "fun- suas distâncias e de escolher entre os diferentes meios à sua disposição
( ções superiores", de natureza cultural, particularmente a fala. Vale a para atingir seus objetivos torna a ação da criança mais lenta que a do
pena lembrar aqui a observação que faz Wallon (1942: 78-88) quando símio da sua idade, mas, em compensação, torna-a subjetiva e delibera-
discute os trabalhos, típicos dos anos 20 do século passado, comparan- da (liberada do condicionamento da situação).
do comportamentos de crianças e macacos da mesma idade, submeti-
Os mecanismos genéticos ditos "instintivos" que, ao que parece,
( dos ao mesmo tipo de provas cuja solução prática exige o uso de ins-
regulam as funções responsáveis da precoce autonomia do bebê no
trumentos. De forma geral, esses trabalhos salientavam a desvanta-
mundo animal, não operam no caso do, bebê humano ou, pelo menos,
gem da criança em relação ao símio até o momento de constituição da
não da mesma maneira. Com efeito, desde os primeiros instantes da sua
fala. Segundo Wallon, tais comparações não podem ser exatas, pois na
I; existência, diferentes mecanismos culturais entram em ação que confe-
"inteligência prática" (aquela que usa instrumentos) do macaco entra
rem às ações do bebê humano um caráter cada vez menos automático
( demasiada habilidade motora para que a criança de um ano de idade
ou instintivo e cada vez mais irnitativo e deliberativo. É assim, por exem-
possa competir com ele. Não é aí, alerta o autor, que deve ser procurada
plo, que no mundo dos mamíferos a natureza parece ter provido as fê-
a diferença entre eles, mas na maneira como se configura o campo espa-
meas genitoras de necessidades cuja satisfação possibilita a satisfação
cial de cada um:
das necessidades vitais das crias (corno comer a placenta e o cordão
A distinçãoessencialentre eles é que, antes de tudo, o espaçodo macaco umbilical, de alto valor nutritivo, protegendo a cria das nefastas conse-
nada mais é do que o dos seus gestose objetivos.O espaçoda criançanão qüências de ficar ligada ao corpo da progenitora; ou a atração por certos
(
é ainda o meio neutro e abstrato, onde as mudanças de posição entre cheiros e contatos que possibilitam a estimulação por parte desta de
objetospodem ser livrementeimaginadas,mas ele já está amalgamado funções fisiológicas importantes para o desenvolvimento do seu bebê
ou ainda a manutenção deste perto dela de forma a prover sua nutrição
1. Segundo a paleantropologia contemporânea, o homem atual, denominado homo sapiens e proteção), ao passo que no mundo humano, o conjunto de ações des-
sapiens, é a mais recente subespécie da espécie homo sapiens (a outra sendo o homem do· tinadas a garantir o atendimento das necessidades vitais do bebê fica na
( Neandertal) aparecida uns 400.000 anos atrás e que, junto com as espécies homo erectus e
homo habilis, esta aparecida uns 2 milhões de anos atrás, constituem a espépie humana. Quan-
( do neste trabalho falo de "espécie humana" estarei referindo-me, em particular, à espécie 2. As citações em português de textos em outras línguas que figuram na bibliografia
homo sapiens, sem ignorar que muitas das suas características sâo conquistas das espécies de deste trabalho são traduções minhas; evito assim ter que repetir essa advertência em cada
Homo que a precederam (como a posição ereta, a marcha, a criação de ferramentas etc.). uma das citações.
\

47
46 ANGElPINO AS MARCAS DO HUMANO

(. dependência da livre e voluntária iniciativa da mãe e/ou do grupo so- zagem não consegue explicar, como ficará evidenciado ao longo deste
cial, o que explica a ocorrência de atos que, direta ou indiretamente, trabalho.
atentam contra a sobrevivência do bebê (abandonos, agressões físicas,
(
infanticídios etc.), atos impensáveis em qualquer outra espécie. Enquanto
( no mundo animal a sobrevivência do bebê é garantida pelas tendências o BIOLÓGICO E O CULTURAL: UMA RELAÇÃOCOMPLEXA
(, instintivas da fêmea progenitora e/ ou de indivíduos específicos do gru-
po, no mundo humano é confiada à decisão dos pais monitorada pelas Uma conseqüência lógica do princípio geral enunciado por Vigotski
normas sociais. A razão e o afeto, qualidades tipicamente humanas, são, (1997:106),o da origem social das funções mentais superiores ou cultu-
sem sombra de dúvida, forças poderosas para garantir aos frágeis bebês rais, é que a história do ser humano implica um novo nascimento, o
humanos a sua sobrevivência na sociedade adulta; a história mostra, cultural, uma vez que só o nascimento biológico não dá conta da emer-
porém, que, muito mais freqüentemente que o que seria desejável, elas gência dessas funções definidoras do _humano. Mas se existe um nasci-
podem não funcionar. Todavia, por paradoxal que possa parecer, é nes- mento cultural deve existir também, corno já foi dito anteriormente, um
sa possibilidade indesejável que reside a superioridade da cultura sobre hipotético momento zero cultural. A razão é simples: se as.funções cultu-
rais têm que se "instalar" no indivíduo é porque elas ainda não estão lá,
os instintos.
ao contrário do que ocorre com as funções biológicas que estão lá desde
Pode-se afirmar, então, que a aparente condição de inferioridade e
(
o início da existência, nem que seja de forma embrionária .
', de prematuridade do bebê humano, em vez de constituir uma perda e
O momento a que estou me referindo é um momento em que as
( um obstáculo ao seu desenvolvimento, representa, pelo contrário, um
funções biológicas ainda estariam sob o comando único das "leis" da
enorme ganho e um grande meio de desenvolvimento, uma vez que
natureza e poderia corresponder, no plano ontogenético, ao que teria
possibilita que possa ser educado, ou seja, que possa beneficiar-se da ex-
sido, no plano filogenético, aquilo que os especialistas chamam de "elo
periência cultural da espécie humana para devir um ser humano. Nesse
perdido" da corrente evolutiva, o qual conduziu os ancestrais de homo
caso, a aparente desvantagem em termos biológicos constitui uma van-
sapiens do estado de natureza ao estado de cultura. Todavia, a questão
tagem em termos culturais. Isso se pode dizer de quase todas as funções
não é tão simples como parece à primeira vista, pois, embora não haja
( biológicas: o fato de não estarem totalmente prontas no momento do ainda evidências a respeito da maneira como a experiência cultural da
nascimento possibilita que elas sofram profundas transformações sob a humanidade afeta sua evolução genética e neurológica, a idéia de que o
ação da cultura do próprio meio. curso que segue essa evolução tem muito a ver com a experiência cultural
É verdade que também as crias de grande número de espécies dos povos parece ser uma hipótese científica cada vez mais plausível.
animais passam, nos primeiros dias ou semanas de vida, por mudan- Aplicando isso a cada ser humano singular e concreto, poder-se-ia
ças resultantes da aprendizagem social. Mas existe uma grande dife- dizer que o patrimônio genético herdado por ele dos seus antepassados já
( rença entre tais espécies e o homem, pois ao passo que no caso dos vem marcado com as marcas da cultura. Isso significa que ele carrega um
animais essas mudanças ocorrem nos limites do plano biológico, no valor cultural agregado que faz dele um ser humano em potencial, ou seja,
(
qual a evolução permanece relativamente estacionária, no caso dos seres alguém capaz de tomar-se tal desde que esteja inserido num meio huma-
( humanos, extrapolam o plano biológico e ocorrem no plano cultural, no, com tudo o que este termo implica. Em outras palavras, é o que, no
( onde a evolução parece não ter limites. Pela sua natureza cultural, o dizer de Dobzhansky (1972), confere ao recém-nascido a aptidão para a
{

( desenvolvimento humano envolve processos que a simples aprendi- cultura, sem a qual nunca poderia adquirir a condição humana.
(

(
48
( ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 49

( Entretanto, mesmo revelando-se verdadeira a hipótese da marca veis por certas habilidades humanas) e, ainda mais recentemente, ao
( cultural na biogenética humana, ainda assiin é possível falar de um mo- estudo dos grandes segmentos de DNA que pareciam sem função (lixo?)
( mento zero cultural como o momento inaugural da concretização dessa e que cada vez mais aparecem corno possíveis elementos reguladores
aptidão para a cultura, concretização que constitui o que denominamos das funções genômicas. Um caso concreto das surpresas que as investi-
(
de história da constituição cultural da criança. gações do genoma preparam para os especialistas é descoberta da
(
Isso mostra que, na simplicidade do seu enunciado, "o princípio "estampagem genômíca'", que o autor define corno "uma situação na
( geral da origem social das funções superiores" encerra uma grande com- qual a seqüência de DNA pode apresentar comportamentos condicio-
plexidade teórica e metodológica, colocando à ciência desafios que ex- nais, dependendo de ser herança materna - ou seja, do óvulo - ou
( trapolam as condições de análise de um único campo do conhecimento paterna - do espermatozóide". Se cada vez mais é reconhecido que o
corno a psicologia. meio ambiente, em geral, exerce um importante papel sobre o funciona-
Um primeiro desafio é explicar os fatores que intervieram para dar mento do genoma de seres vivos delimitados pelas condições naturais
(
origem a cada urna das espécies de Homo. Dentre as várias surpresas de existência, com maior razão pode se esperar que o meio humano,
( que o anúncio oficial do seqüenciamento do genoma humano" trouxe criado pelo homem para produzir suas próprias condições de existên-
( aos cientistas e ao público em geral foi verificar que o número de genes cia, exerça urna influência importante na sua estrutura genética ao lon-
encontrados nele era mIlito inferior ao esperado - variando, conforme go do tempo.
(
os cálculos de cada um dos grupos de pesquisa, entre uns 31.000e 40.000 Apesar das numerosas vozes em contrário existentes ainda no meio
(
respectivamente (igual ao do milho e pouco maior do que o do camun- científico, uma coisa parece ficar cada vez mais clara para os biólogos:
( em biologia não há mais lugar para reducionismos e determinismos
dongo) - e que o genoma não explica, por si só, a grande distância que
( separa o homem das plantas e dos animais mais próximos dele. Craig genéticos. Ao mesmo tempo, parece estar se criando nos círculos cientí-
( Venter teria afirmado, ao anunciar o fim do seqüenciamento do seu gru- ficos urna espécie de consenso a respeito do papel fundamental que o
po de pesquisa, o Celera Corporation: "0 tamanho do genoma, o núme- ecossistema desempenha na montagem das estruturas genéticas das vá-
(
ro de pares de bases, é irrelevante para a bíología'". Trata-se do reconhe- rias espécies. Em outros termos, isso poderia significar que as caracte-
( cimento de que só os genes, apesar de serem responsáveis da produção rísticas de cada espécie teriam a ver com sua "história" ecológica e ten-
( da matéria-prima dos seres vivos, as proteínas, não dão conta da diver- deriam a conservar essa "história" na forma de memória genética.
( sidade específica das formas de vida, levando os cientistas a repensar Também parece razoável pensar que os ganhos que essa memória
certos conceitos tradicionais em biologia, em particular o de "gene" como genética proporciona a cada espécie sejam repassados às espécies poste-
(
unidade da genética, e a reorientar suas futuras pesquisas em direção riores, o que equivale a dizer que as espécies mais recentes e mais com-
( dos complexos protéicos, proteínas e enzirnas, e dos SNPs (pequenas plexas se beneficiariam mais e melhor da experiência evolutiva das mais
( trocas de alguma das quatro bases numa seqüência gênica, responsá- antigas. Isso explicaria, por exemplo, por que a espécie humana não só
( desenvolveu sistemas de comunicação oral mais complexos que os das
( 3. A publicação simultânea dos resultados do seqüenciamento do genoma humano pelos espécies que a precederam, por mais surpreendentes que sejam os siste-
dois grupos internacionais de pesquisa, chefiados respectivamente por Craig Venter e Francis
mas de comunicação de algumas delas, mas que tenha sido também
( Collins, foram publicados, simultaneamente, nas revistas Science e Nature de 12 de fevereiro
de 200l.

4. Folha de S. Paulo, 12/2/2001, p. A 12.


5. David Haig, Genomic Imprinting and Kínshíp, 2003, no site www.edge.org.
-, /#

(
50
( ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 51

(
capaz de maximizar as possibilidades comunicativas orais existentes ao último deles: explicar como os ganhos culturais da espécie humana se
( nessas espécies e inventar a fala. concretizam em cada indivíduo ou, em outros termos, como de simples
( ser biológico a criança se torna um ser cultural semelhante aos outros
Um segundo desafio é explicar como ocorre a passagem da espécie
( humana do plano biológico para o plano cultural. Se já é um grande homens. Mas esta questão subentende alguns problemas teóricos iden-
desafio explicar a maneira como mudanças ecológicas produzem nas tificados no terceiro desafio, os quais, embora não fazendo parte direta-
(
espécies mudanças genéticas capazes de dar origem a outras espécies, mente dos objetivos deste trabalho, serão abordados aqui, mesmo de
(
um desafio ainda maior é explicar a emergência de uma espécie que é forma sucinta, para dar ao trabalho consistência teórica.
capaz de alterar as próprias condições ecológicas e criar outras que lhe O primeiro problema tem a ver com a emergência da espécie hu-
( permitem transpor os limites da natureza - e os seus próprios como mana, a qual coloca aquestão da existência de duas ordens diferentes
( integrantes dessa mesma natureza - conferindo-lhe uma nova forma de realidade: a ordem da natureza - aquela na qual está inserida a pró-
de existência: uma existência cultural. pria existência do homem enquanto espécie -, e a ordem da cultura -
(
Um terceiro desafio é explicar a origem e constituição da cultura e aquela cuja existência é obra do homem, o qual por sua vez é obra dela.
(
a maneira como ela se relaciona com a natureza e confere a esta uma O segundo problema tem a ver, mais especificamente, com a constitui-
nova forma de existênci~. Isso envolve dois planos de explicação: o da ção humana de cada indivíduo dessa espécie. O primeiro remete ao pla-
história da espécie e o da história do indivíduo. Em ambos os planos, as no filogenético - ou da humanização da espécie homo sapiens - e, como
duas questões que surgem são equivalentes, não idênticas: de um lado, tal, extrapola a área da psicologia, abrangendo outras áreas, como a pa-
explicar a passagem da espécie - a qual inclui todos os indivíduos que leontologia, a etnologia e a antropologia ..O segundo remete ao plano
(
a constituem - do plano da natureza ao plano da cultura; de outro lado, ontogenético - ou da humanização de cada membro dessa espécie - e,
( explicar a passagem de cada indivíduo da condição de um ser biológico. como tal, corresponde propriamente à área da psicologia, na medida em
( à de um ser cultural, sendo que o biológico e o cultural, nesse caso, que recobre o' desenvolvimento psicológico do indivíduo.
fundem-se sem perderem sua própria especificidade. Ambos os problemas, porém, remetem a uma mesma questão: como
Um último desafio é explicar como os ganhos culturais da espécie realidades naturais ou biológicas podem adquirir forma cultural e como
(
humana se concretizam em cada um dos indivíduos dessa espécie, como realidades culturais podem se concretizar, ou objetivar, em realidades
é enunciado na "lei genética geral do desenvolvimento cultural" a que naturais ou biológicas; em suma, como duas ordens diferentes de reali-
( Vigotski se refere. Nesse caso, acontece uma espécie de transposição da dade podem concorrer para a constituição unitária do ser humano. Esta
( experiência coletiva para o indivíduo, transposição que tem lugar ao questão, como os problemas que ela envolve, apela a um mesmo princí-
longo da existência do indivíduo pela conversão das funções sociais em pio explicativo que remete, inexoravelmente, à questão semiótica, como
(
funções pessoais (1997: 106;2000: 27). Mas, se existe conversão daquelas tentarei mostrar mais adiante.
( nestas, deve existir um mediador ou "conversor" que, como já foi mos- Embora a psicologia esteja voltada para o estudo do desenvolvi-
( trado (Pino, 1992) e ainda será visto mais adiante neste trabalho, é da mento psicológico do ser humano, a questão da relação entre natureza e
( ordem da significação.
cultura nunca fez parte da sua agenda de pesquisa, talvez por conside-
( Não faz parte dos objetivos deste trabalho discutir as várias e com- rá-Ia alheia ao seu campo próprio de conhecimento. Entretanto, ela tem
plexas questões levantadas por esses desafios. Na realidade, a única se envolvido em problemáticas que, na realidade, outra coisa não é se-
(
questão que interessa diretamente ao assunto aqui tratado diz respeito não versões diferentes da mesma questão - tais como a da relação or-
(

(
(
52 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 53
~
( ganismo x meio, a da relação corpo x alma (ou mente) e a da relação pressupõe a dos indivíduos que a compõem e a destes só pode aconte-
( indivíduo x sociedade. Problemáticas que, a bem dizer, são insolúveis cer dentro daquela. Mas algo que dá a exata dimensão de escala entre as
nos termos em que a psicologia vem colocando-as, não conseguindo duas histórias é que, de um lado, a humanização da espécie é uma "ta-
superar as contradições que elas implicam nem escapar da armadilha refa coletiva", enquanto a humanização de cada indivíduo é "tarefa do
do dualismo. coletivo"; e, de outro lado, que a humanização da espécie confunde-se
(
Na análise dessas problemáticas, duas concepções principais têm com o processo de produção da cultura, enquanto que a humanização
( do indivíduo confunde-se com o processo de apropriação dessa cultura.
prevalecido na psicologia: aquela que, na linha de uma tradição filosófi-
( ca milenar (com forte influência religiosa), faz da psique (alma, mente ou Ao discutir a questão das funções psicológicas, Vigotski utiliza uma
( qualquer outra denominação utilizada) a sede das faculdades ou fun- nomenclatura que parece reproduzir o velho "mind body problem" da
ções nobres do homem (racionalidade, vontade, consciência etc.), em tradição psicológica: "funções orgânicas", de um lado, e "funções men-
oposição ao soma (corpo, organismo etc.), sede das funções orgânicas tais", de outro. Entretanto, as semelhanças param por aí, pois não só as
(
consideradas menos nobres pela sua condição animal, e aquela que, na funções superiores (pensar, falar, rememorar, ter consciência etc.) não
( linha de diferentes versões de um materialismo mecanicista, desconsi- são obra da natureza mas dos homens, como, apesar de 'serem de natu-
dera no homem tudo o que extrapola a materialidade e a objetividade reza diferente das funções elementares, são inseparáveis delas. Exata-
das funções orgânicas. ~ mente o contrário do que professa a maioria das teorias psicológicas,
Uma análise atenta das dificuldades da psicologia em lidar com para as quais tais funções ou são meras entidades metafísicas ou são
essas problemáticas revela as conseqüências que tem para a análise psi- fruto da maturação orgânica.
(
cológica o fato de não levar em conta a cultura como definidora da con- Para Vigotski e a vertente histórico-cultural, nem as funções ele-
( dição humana. A corrente histórico-cultural de psicologia, cuja figura de mentares podem, por si mesmas, dar origem ou acesso às funções supe-
( proa é Lev S. Vigotski, constitui uma exceção na história do pensamento riores, nem estas são simples manifestação daquelas. As funções ele-
(
psicológico, não só porque introduz a cultura no coração da análise, mas mentares se propagam por meio da herança genética; já as superiores
sobretudo porque faz dela a "matéria-prima" do desenvolvimento hu- propagam-se por meio das práticas sociais. O que, em razão da sua na-
mano que, em razão disso, é denominado "desenvolvimento cultural", o tureza simbólica, permite dizer que elas se propagam por si mesmas. É
qual é concebido como um processo de transformação de um ser bioló- o que ocorre, por exemplo, com a palavra (função do falar) e com a idéia
gico num ser cultural. Dessa forma, introduz-se no plano do desenvol- (função do pensar) que, à maneira do fogo que consome tudo o que está
(
vimento do indivíduo a problemática do desenvolvimento da espécie em sua volta, elas transformam tudo em palavra e em idéia. As palavras
homo sapiens. Se o desenvolvimento daquele não é uma simples repeti- dão origem a outras palavras; as idéias, a outras idéias.
(
ção do desenvolvimento desta, todavia, na medida em que o desenvol-
( vimento da espécie é a história da sua humanização e o do indivíduo é a A natureza transformar-se em cultura, sem perder suas caracterís-
história da humanização de cada membro dessa espécie, conclui-se que ticas, e a cultura materializar-se em natureza constitui um paradoxo que
este é um caso particular daquele ou, em outros termos, que a história só o caráter simbólico da cultura pode desvendar.
(
pessoal de cada indivíduo é um caso particular da história geral da es- Se é próprio de seres biológicos semelhantes ao homem, providos
(
pécie. Não é fácil precisar as diferenças e fls semelhanças que existem de um sistema nervoso suficientemente desenvolvido, perceber e dife-
entre essas duas histórias, em particular porque a história da espécie renciar as coisas, associar umas às outras, emitir e captar sinais que
54 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 55

( lhes permitam orientar suas ações, realizar escolhas de parceiros e com- Surgem então as seguintes interrogações: 1) Quando e como ocorre o
( partilhar emoções (expressão de uma atividade cognitiva e social que nascer cultural da criança? 2) Como opera a mediação do Outro (em
lhes permite interagir com o seu meio e com os seus congêneres), o •
( particular, os pais) nesse nascimento? 3) Como se dão, na ausência da
próprio do homem é conferir a todas essas funções uma significação, o fala, os primeiros contatos do bebê com a cultura? 4) Como ocorre a
que dá às atividades biológicas uma dimensão simbólica. Atribuir sig- conversão da cultura em "material" constitutivo do ser cultural da crian-
(
nificação a essas funções não é destituí-Ias da sua condição natural, ça? 5) O que ocorre com as funções naturais ou biológicas sob o impacto
( como atribuir significação às coisas não é destituí-Ias da sua condição da cultura?
( material, mas torná-Ias funções e coisas humanas. Atribuir significação
Pelo que me consta, estas perguntas ou não foram assim colocadas
às coisas - as que o homem encontra já prontas na natureza e as que
( ou não tiveram ainda uma resposta satisfatória, mesmo por parte de
ele produz agindo sobre ela - constitui o que entendemos por produ-
( autores que fazem da matriz histórico-cultural seu referencial teórico. O
zir cultura. Dessa forma, falar da relação entre funções biológicas e
próprio Vigotski (1987,1996),fazendo-se eco das idéias da época, mos-
funções culturais significa falar de uma relação pela qual aquelas, sob
trou-se bastante ambíguo ao tratar da questão da diferença que existe,
a ação destas, adquirem uma dimensão simbólica, ou seja, uma nova
antes do aparecimento da fala, entre o comportamento do bebê humano
forma de existência.
( e o das crias dos prima tas mais próximos do homem, por causa prova-
(
A passagem do homem do estado de natureza ao estado de cultura velmente da contigüidade biológica que existe entre ambos.
é um processo cujos detalhes mal podemos imaginar e do qual pouca
( Tentar responder a estas perguntas constitui o objetivo principal
coisa podemos afirmar além de que se trata de algo paradoxal, uma vez
( deste trabalho, mas só no fim dele poderemos saber se há ou não res-
que a cultura é, ao mesmo tempo, a condição e o resultado da emergên-
postas a essas perguntas e quais são elas. Espera-se que com essas res-
( cia do homem como ser humano. Isso quer dizer que a história da trans-
postas não sóse possa decifrar o enigma das origens da constituição cul-
( formação da natureza (história cultural) é a história da humanização de
tural do ser humano, como também compreender, indiretamente, algo
Homo; portanto, trata-se de uma mesma e única história. Se ainda sabe-
( sobre a maneira corno esta ocorre na história pessoal.
mos pouco a respeito dessa passagem, muito nos resta ainda por saber
( a respeito da maneira como ocorre a passagem da criança da condição
( de um ser biológico para ade um ser cultural. Mas essa passagem tem
que existir sob pena de não poder falar em humanização do homem.
o DUPLO NASCIMENTO DA CRIANÇA

( A hipótese do momento zero cultural, idéia lógica inerente a essa Parece razoável admitir - embora nos falte o testemunho da figu-
passagem, confere a este trabalho urna importância particular, pois ela ra principal que é o bebê humano - que o nascimento biológico consti-
(
pode muito bem constituir a chave de explicação da natureza humana do tui para este o ingresso num mundo totalmente estranho. Estranho não
( homem. Se, ao nascer, o bebê humano é um ser totalmente desprovido só porque o mundo é sempre estranho para quem acaba de entrar nele,
( dos meios simbólicos necessários para ingressar no mundo da cultura seja animal ou humano, mas também porque a sensibilidade e a percep-
( construído pelos homens e assim ter acesso à condição humana, parece ção biológicas, suficientes para a rápida adaptação das crias de animais
razoável imaginar que ele só possa ingressar no mundo da cultura por próximos do homem ao seu meio, são por si só insuficientes para a
intermédio da mediação do Outro (o que implica, necessariamente, a adaptação do bebê humano ao meio cultural, seu novo meio. Isso nos
sua progressiva inserção nas relações humanas e nas práticas sociais). permite falar em termos de dois nascimentos: um natural, outro cultural.
56 ANGELPINO AS I/ARCAS DO HUMANO 57

.~I
É especificamente deste que estarei tratando neste trabalho, mas sem mano, assim como o breve tempo de sobrevivência nele, segundo as
perder de vista aquele. informações disponíveis, revelaria também outras duas características
( humanas: de um lado, a importância da primeira infância na consolida-
Vem ao caso lembrar aqui o que H. Maturana conta ao comentar,
num dos seus escritos (1984), o caso de duas meninas bengalis, uma de ção do modo de operar das funções biológicas; de outro, que a aquisição
<. 5 e outra de 8 anos, encontradas em 1922 no meio de uma "família" de das funções culturais, próprias do modo de operar humano, é tarefa
lobos, da qual foram retiradas pelo missionário da localidade que as difícil e complexa que não decorre da mera constituição biológica, mas
teria encontrado, sendo depois submetidas à readaptação no meio hu- das condições específicas do meio em que se está inserido.
mano. A menor sobreviveu pouco tempo; a maior não mais de 10 anos. Não obstante a importância fundamental das funções biológicas
Segundo as informações fornecidas por esse autor, obtidas de fontes para adquirir o modo de ser humano, no mundo dos homens o ato de
{ que ele não revela, a que sobreviveu mais tempo conseguiu fazer pro- nascer tem muito mais o caráter de um evento cultural do que de um
gressos no campo da marcha bípede, da fala e de outras funções huma- acontecimento biológico, embora não deixe de ser uma celebração da
nas, tendo porém muita dificuldade para superar hábitos adquiridos na vida. A produção da vida, mesmo quando ela não é desejada, é um fato
(
convivência com os animais e que para ela tinham se tornado hábitos cultural de conseqüências sérias. Antes mesmo que ela ocorra, o possí-
( vel candidato à humanidade já faz parte do universo cultural dos ho-
naturais (por exemplo, Huando colocada em situações de deslocamento
( que exigiam maior rapidez, ela usava a maneira de correr dos lobos, o mens como "objeto do desejo do Outro", qualquer que seja a forma que
( que a tornava mais eficiente). Eis o que nos diz o autor: possa tomar este desejo. Com efeito, a produção da vida, em quaisquer
condições que ela ocorra, é um acontecimento cujas repercussões sociais
(
Este caso - e não é o único - mostra-nos que embora na sua constitui- não deixam seus autores indiferentes. O futuro de quem nem mesmo
( ção genética e na sua anatomia e fisiologiafossem humanas, estas duas
( meninas nunca chegaram a integrar-seao contexto humano. As condutas
6. A questão do "Outro" é urna questão complexa em razão dos diferentes tratamentos
que o missionário e sua família queriam mudar nelas, porque eram
( que ela recebeu, particularmente por dois autores que mais nos interessam: Hegel, na Feno-
aberrantes num contexto humano, eram inteiramente naturais à sua cria- menologia do Espírito (1941, v. 1: 145-166) e Lacan, no texto "Subversão do sujeito e dialética
( ção corno lobos. (1984: 87) do desejo no inconsciente freudiano" (1966: 793-827). Segundo Hegel, o desejo do homem
constitui-se por meio da mediação do desejo do outro, ou seja, seu objeto é o desejo do outro,
Se a sobrevivência dos organismos depende da sua capacidade de pois o que o homem deseja é ver reconhecido o seu desejo, o que implica em ser desejado pelo
outro. Na perspectiva hegeliana, como nos diz A. Kojêve (1947), é o desejo consciente que
adaptação às condições do meio, como afirma a teoria da evolução, a
constitui um ser em objeto (moi) da consciência de si e o revela como tal levando-o a dizer
( aquisição dos modos de viver e de funcionar dos lobos constituiu para "EU". Ternos aí um desdobramento da própria consciência de si em objeto e sujeito do desejo.
( essas crianças a forma natural de adaptação às condições desse meio, no Na idéia de Hegel, esse eu-objeto do desejo é urna realidade natural que tem que ser negada
qual a fatalidade - pois ignoramos como foram parar lá - colocara-as pela ação para que o eu-sujeito ou "consciência para si" adquira sua liberdade. Portanto, o
( próprio ser do homem, como consciência de si mesmo, implica o desejo. Em Lacan, o termo
desde tenra idade. Esse caso (o mais recente dos vários de que se tem tem um duplo sentido, representado pelo pequeno lia" (autre) e pelo grande "Ali (Autre).
notícia) confirmaria algo que, cada vez mais, está se impondo ao meio Falando da posição do analista (1966: 430, em "La chose freudienne"), o outro (autre) é aquele
( científico: que a genética da espécie homo é ligeiramente diferente da que está diante dele e em quem e por quem o "Outro" (Autre) lhe fala no discurso que faz na
sua frente. Portanto é o "Outro" (Autre), Sujeito do inconsciente, quem realmente fala e a
( genética das outras espécies, em particular as mais próximas dela, o que
quem a palavra do analista deve se dirigir. É esse "Outro" que, corno prévio "lugar" do puro
explicaria a capacidade inata de adaptação dessas crianças ao modo de sujeito do significante, ocupa a posição de Mestre, antes mesmo de tornar-se "Mestre absolu-
vida dos lobos. Sua penosa e difícil readaptação posterior ao meio hu- to". O "Outro" é o lugar da Palavra e testemunha da Verdade.
58 ANGElPINO 59
AS MARCAS DO HUMANO

existe ainda biologicamente fica já atrelado às condições reais de exis- neurologia, é muito ainda o que falta por conhecer a respeito dos com-
tência que ele encontrará no meio social e cultural em que o ato de nas- plexos mecanismos que regem a constituição e funcionamento dos or-
cer o inserirá. Como bem sabemos, essas condições variam de um meio ganismos em geral e sua relação com o meio. Tem-se cada vez mais a
a outro e de certos indivíduos a outros dentro de um mesmo meio, em impressão de que, quanto mais avança o conhecimento a respeito da
função dos inúmeros fatores que marcam a história social dos homens. natureza do homem, mais os horizontes expandem-se e mais é o que
História feita mais de conflitos que de entendimentos; feita mais de de- falta por conhecer. Isso leva muitos cientistas a manter uma atitude de
sejos irrealizáveis que de realizações concretas; feita mais de desigual- reserva prudente na maneira de lidar com os resultados das descobertas
dades, determinantes das possibilidades de acesso aos bens naturais biogenéticas.
(necessários à manutenção da vida) e culturais (necessários para a hu-
manização dessa vida), que de igualdades. Paradoxalmente, faz parte
da condição humana que o acesso a qualquer um desses dois tipos de MEDIAÇÃO SOCIAL E SEMIÓTlCA NO ACE~SO DA CRIANÇA À CULTURA
( bens não esteja garantido pelo simples ato de nascer (milhões de seres
humanos morrem por falta de condições de existência), mas fique su- Se, como veremos mais tarde, por cultura for entendido o conjunto
(
bordinado à competência humana e à vontade política dos homens. Da das produções humanas, as quais, por definição, são portadoras de sig-
( nificação, ou seja, daquilo que o homem sabe e pode dizer a respeito
mesma forma que a produção de bens é obra de um coletivo que cria as
( condições concretas paraque isso ocorra, o acesso a eles e as possibilida- delas, então o nascimento cultural da criança (ou seja, de cada indivíduo
des de consumo são também obra de um coletivo que estabelece as con- humano em particular) é a porta de acesso dela ao universo das signifi-
dições para que aconteçam. cações humanas, cuja apropriação é condição da sua constituição como
um ser cultural. O acesso ao universo da significação implica, necessa-
Dizer que o desenvolvimento da criança é um fenômeno de natu-
reza cultural pressupõe, pelo menos, duas coisas: contar com o equipa- riamente, a apropriação dos meios de acesso a esse universo, ou seja,
( dos sistemas semióticos criados pelos homens ao longo da sua história,
mento biogenético e neurológico da espécie, o qual, como já disse, leva
( as marcas da cultura e abre o acesso a ela, e conviver com os outros principalmente a linguagem, sob as suas várias formas. Em outros ter-
homens. Ao nascer, a criança já dispõe desse equipamento, o que lhe mos, isso quer dizer que a inserção do bebê humano no estranho mun-
confere a "aptidão para a cultura", mas a sua convivência com os ho- do da cultura passa, necessariamente, por uma dupla mediação: a dos
(
mens apenas está começando. Daí a razão do interesse em analisar os signos e a do Outro, detentor da significação. Como lembra, com razão,
"- primeiros meses de vida da criança quando esta convivência começa a Vigotski (1997), o caminho que leva da criança ao mundo e deste à crian-
( realizar-se. ça passa pelo Outro, mediador entre a criança e universo cultural:

Dizer que o desenvolvimento é cultural não significa, de forma al-


criança ~ Outro ~ universo cultural
guma, ignorar a realidade biológica, pois, como já foi dito anteriormen-
te, realidades biológicas e realidades culturais, embora pertencendo a Colocada a questão do duplo nascimento da criança, o biológico e o
ordens diferentes, são interdependentes e constituem dimensões de uma cultural, podemos afirmar que este começa, como o mostra a história do
mesma e única história humana. "movimento de apontar" analisado por Vigotski (1997: 104), quando os
Apesar dos progressos espetaculares q"lfeo domínio das novas tec- primeiros atos naturais da criança adquirem significação para o Outro. Só
nologias da informática vêm permitindo nos campos da genética e da depois é que eles se tornam significativos para ela.

L
"

61
60 ANGElPINO 1>5 MARCAS DO HUMANO
(

( A idéia de que o "movimento de apontar" é o modelo explicativo se articularem - o que, segundo os especialistas da infância", vai acon-
( da constituição cultural da criança, como afirma Vigotski, é extrema- tecendo lentamente ao longo do primeiro ano de vida da criança - cons-
( mente sedutora, pois permite explicar a passagem do biológico ao cul- tituiriam a base das primeiras formas de comunicação desta com o seu
tural e do cultural ao biológico: meio social. Com efeito, a sensorialidade permite à criança captar os
sinais procedentes desse meio e a motricidade permite-lhe expressar
( corporalmente seus estados internos (necessidades, emoções etc.) com
r:; PLANO CULTURAL ~ movimentos isolados de partes do corpo. Dessa forma, elas permitiriam
~ ~ PLANO BIOLÓGICO () à criança satisfazer o que, segundo pesquisas etológicas", parece consti-
(
tuir a necessidade básica dos mamíferos superiores e o fundamento bio-
Figura 1: Relação dos dois planos do desenvolvimento humano
lógico da sua sociabilidade, prelúdio e alicerce da sociabilidade huma-
(
na: a necessidade de contato com os seus semelhantes. Os estudos clássi-
o problema, no caso concreto que nos ocupa neste trabalho, é que cos dos Harlow com bebês macacos revelaram que a necessidade de
o "movimento de apontar" aparece num momento relativamente tardio contato é mais premente que todas as outras necessidades básicas, in-
( na história da criança, pois pressupõe a existência de urna certa funcio- clusive a de alimento, sendo em conseqüência a mais primitiva delas. A
nalidade motora inexistente nos primeiros meses de vida. Cabe então a necessidade de contato explica também esse misterioso fenômeno do
(
pergunta: existiria, antes disso, outro mecanismo que, sem exigir essa "imprinting", relatado por K. Lorenz (1968),e as conseqüências nefastas
( funcionalidade motora, poderia desempenhar um papel equivalente? que o fenômeno da prioação' produz tanto em bebês de animais quanto
( Ou, ao contrário, antes da existência da funcionalidade motora não seria em bebês humanos. (J. Bowlby, 1967)
possível falar de atividade cultural propriamente dita, mesmo .inicial?
A existência de um período sensório-motor anterior à aparição da
( Do pouco que se conhece ainda a respeito do estado do bebê huma- fala é consensual entre os especialistas da infância. Embora eles difiram
(
no nas primeiras semanas de vida, sabe-se que, desde o início, dispõe quanto à maneira de conceber sua função no desenvolvimento da crian-
de urna sensorialidade bastante eficiente para garantir as necessidades ça, em razão das diferenças que existem entre eles a respeito da con-
de contato com o seu meio físico e social (sensorialidade visual, auditiva cepção da gênese e natureza das funções psíquicas, todos concordam
e tátil), sendo as áreas sensoriais primárias do córtex as primeiras a de- que essa atividade exerce um papel crucial.
senvolverem-se, seguidas das motoras primárias, as quais, como vimos,
estão em relativo atraso no bebê humano, comparadas com as de outros
mamíferos da mesma idade. Essa dupla função, sensorial e matara, 7. Wallon, H. 1941; Piaget, 1971.
8. H. F. Harlow, The nature of love, American Psychologist, 1958, 13: 673-685, H. F. e M. K.,
mesmo quando sua articulação atinge um certo nível de estabilidade Harlow. The affectionalsystems, in: A. M. Schriere H. F. Harlow, Behavior of nonhuman primaies,
(
funcional, ainda é totalmente insuficiente para que o bebê humano pos- v. II, New York, Academic Press, 1965: 287-334; K. Lorenz. Il parlaii auec les mamiiêres, les
sa relacionar-se com o mundo cultural. Daí a questão: como explicar oiseaux et les poisons, trad. fr. Paris: Flammaríon. 1968.
que desse hipotético momento zero cultural possa emergir um ser cultural 9. Com base nos trabalhos de R. Spitz (Hospitalism: an inquery inta the gênesis of psychiatric;
{
que, um dia, estará plenamente integrado no universo humano? Conditions inearly Childhood, The psychan Study af the child, 1945) e de J. Bowlby. Attachement
and loss, 2 vol., Basic Books, Inc. Harper, 1973) foram feitas diversas pesquisas com crianças
Uma resposta bastante plausível e em,consonância com a realida- institucionalizadas para mostrar o efeito da separação das crias das mães na idade crítica,
de humana seria que a sensorialidade e a motricidade, mesmo antes de ficando evidenciadas as conseqüências patológicas dessa separação.
l
(
62
IS MARCAS DO HUMANO 63
ANGELPINO

Para Piaget, o período sensório-motor, que cobre os 18 primeiros A passagem capital para o futuro intelectual da criança, corno o foi para
meses de vida, é claramente um período em que, "por falta de função a espécie, é aquela que a tira da sua fusão com a situação ou com o objeto
( simbólica, o bebê não apresenta ainda nem pensamento, nem afetivida- por intermédio de suas constelações perceptivo-motoras ou de sua plas-
de ligada a representações que lhe permitam evocar as pessoas ou os ticidade perceptivo-postural e a leva ao momento em que ela pode dar-
(
lhes um equivalente feito de imagens, de símbolos, de proposições, ou
objetos emsua ausência". Isso não impede que seja um período decisi-
.{ seja, de partes articuladas no tempo e gradualmente mais desmontáveis
vo "porque a criança elabora nesse nível as subestruturas cognitivas que
nos seus elementos individuais. A imitação, situada entre a participa-
servirão de ponto de partida às suas construções perceptivas e intelec-
ção da criança no modelo e a cópia que ela acaba: contrapondo-lhe, é
tuais posteriores, assim como um certo número de reações afetivas ele-
particularmente bem feita para mostrar as formas e as condições desse
mentares que determinarão em parte sua afetividade subseqüente". desdobramento. (1942: 155)
(1971: 7) Fica claro que, para Piaget, a importância do período sensório-
motor está em que o sistema de assimilação sensório-motora se finaliza A imitação constituiria, na linha deste raciocínio, num mecanismo
numa espécie de "lógica da ação" que comporta uma série de estruturas que permitisse visualizar o processo progressivo, vivido pela criança,
de ordem e de agrupamento as quais constituem a subestrutura de ope- de descolamento da realidade - uma exigência da condição humana
rações futuras mais complexas do pensamento. Existe nesta concepção do homem - e de deslocamento definitivo do eixo evolutivo do plano
a convicção de que as estruturas mentais superiores - fonte direta ou da mera sensorialidadel motricidade, comandado pelas "leis" da natu-
indireta de outras atividades psicológicas - emergem de estruturas an- reza ao plano do simbólico, comandado pelas leis da história.
teriores que têm como base as operações sensório-motoras e que isso
Nos seus trabalhos de psicologia da criança, Vigotski (1998) fala
ocorre num longo processo em espiral gerador de novas estruturas, como
também da importância da articulação das áreas sensoriais e motoras
efeito normal da interação da criança (organismo - sujeito epistêmico)
que ocorre ao longo do primeiro ano de vida. Para ele trata-se de urna
com os objetos (meio - objeto epistêmico).
neoformação que marca urna etapa ou período no processo de desen-
Para Wallon, preocupado com a transformação da criança sob a volvimento da criança e que produz importantes mudanças nas suas
ação do meio social, a função motora (motricidade) é objeto de uma relações com o mundo externo. Nesses textos, o autor não entra na
(
metamorfose que faz com que a criança passe da condição de um ser análise específica da função sensório-motora, Como o fazem Piaget e
biológico para a de um ser simbólico. A motricidade é uma atividade Wallon; seu objetivo principal é mostrar que na progressiva matura-
( natural, biológica, mas eminentemente plástica, pois é portadora de uma ção das áreas neocorticais e na criação de conexões que as ligam com
( dupla funcionalidade, a tônica e a postural, as quais, sob a ação do meio as primitivas áreas sub-corticaís, as funções biológicas vão sendo cada
( social, permitem à criança transformá-Ia em posturas e gestos expressi- vez mais comandadas pelas novas áreas corticais; ao mesmo tempo
vos - base do que a psicologia chama de comunicação corporal _ e, que as novas funções culturais vão se constituindo. Vigotski está cha-
(
depois, em síÍnbolos, constitutivos da atividade mental. Nesse processo mando a atenção ao fato, fundamental no desenvolvimento, da exis-
( de metamorfose da motricidade, a imitação é para Wallon uma espécie tência de uma estreita relação entre, de um lado, a maturação das es-
{ de paradigma da passagem da criança do plano natural (o ato motor) ao truturas do cérebro e a multiplicação das conexões entre as áreas pri-
( plano simbólico (pensamento), pois é o mecanismo inicial no processo mitivas e as novas e, de outro lado, a transformação das funções ele-
de desenvolvimento mental pelo desdobrafIlento que ela opera da coisa mentares ou biológicas e a constituição das funções superiores ou cul-
(
na sua representação simbólica. turais. Em outros termos, ele está apontando no sentido de que existe
(

(
(

(
64
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 65

no desenvolvimento infantil uma espécie do que poderíamos chamar,


CRIANÇA ~ LINGUAGEM CORPORAL q ADULTO
( de forma metafórica, de encontro das águas" dos dois rios que inte-
U

gram a vida humana: a natureza e a cultura. Este é o cerne da questão CRIANÇA \===l LINGUAGElV1 SIMBÓLICA ~ ADULTO

principal que nos ocupa neste trabalho e que será objeto, mais adiante,
Figura 2: Diagrama da dupla via de comunicação criança-adulto.
de uma análise mais detalhada.
De umaou de outra forma, os autores mostram que: 1) a atividade
sensório-motora, nas suas primeiras formas de aparição na vida da crian- Em tal situação, apesar de o bebê estar inserido num meio social e
ça, é uma atividade eminentemente biológica que revela as origens an- culti.ual, seus movimentos, ainda fora de controle, enquadram-se mais
cestrais da espécie humana; 2) essa atividade está ligada, nas suas ori- no plano dos mecanismos primitivos (instintivos?) de reação do que dos
gens, à articulação de duas áreas primárias do cérebro, a sensorial e a dispositivos culturais. As coisas começam a mudar quando a articula-
motora; e 3) que essa atividade passa, durante o primeiro ano de vida ção das áreas sensoriais e motoras permite o surgimento de um circuito
do ser humano, por transformações tais que fazem dela a base da emer- relativamente integrado dessas duas semióticas.
gência de estruturas ou funções psicológicas novas claramente distintas
Seguindo no caminho de análise apontado por Vigotski (1998:223-
das biológicas.
( 225),poder-se-ia concluir que a progressiva integração desses dois tipos
Mesmo nas suas 'formas mais primitivas, a sensorialidade e a de semióticas, a sensório-motor a e a simbólica, conduz, paradoxalmen-
motricidade constituem a via de uma comunicação de mão dupla dos te, à independência de uma em relação à outra, uma vez que cada uma
(
organismos com o seu meio. Por intermédio dos sensores, cujo grau delas é comandada por princípios diferentes, A razão de fundo disso
( de acuidade varia de uma espécie a outra em razão de uma seletivida- seria que sua integração propiciaria à criança a percepção da significação
( de funcional-adaptativa, eles captam os inúmeros sinais emitidos por das próprias ações, passando de uma à outra. O exemplo do "ato de
( esse meio, os quais lhes permitem orientar-se nele e desencadear as apontar", ao' qual me referirei mais adiante, deixa bem claro o jogo de
ações apropriadas a cada situação. Ações que, por sua vez, servem de articulação dessas duas semióticas: de um lado, a comunicação natural,
(
sinais para outros organismos. No caso do bebê humano recém-nasci- própria da criança dessa idade, comandada pelos sinais; de outro, a sim-
( do, uma situação que pode durar várias semanas, a falta de integração bólica, própria do adulto, comandada pela significação que, ao ser incor-
das áreas sensoriais e motoras primárias impede a articulação da per- porada pela criança, desloca o eixo da ação do determinismo dos sinais à
cepção e do movimento; isso explica suas reações bruscas e descom- indeterminação dos signos.
passadas às variações do meio, acompanhadas de gritos, choros ou Trazendo esta reflexão para o campo do assunto que nos ocupa
espasmos. Apesar das dificuldades que o Outro (mãe, pai, parentes) neste trabalho, pode-se dizer que, em síntese, o "nascimento cultural",
tem, sobretudo se for pouco experiente no trato com bebês, de decifrar cujos indícios procuro, nada mais é do que o processo pelo qual o grupo
(
a razão de seus choros e espasmos, estes constituem sinais significati- social trata de introduzir no circuito comunicativo, sensório-motor, da
vos dos estados internos do bebê. Digo sinais porque não parece que, criança a significação do circuito comunicativo, semiótico, do adulto. Dessa
neste momento da sua vida, o bebê humano possa funcionar com signos forma, as duas funções, a sensorial e a motora, uma vez articuladas,
propriamente ditos, uma vez que a comunicação bebê ~ adulto ainda mesmo nas suas formas mais elementares, constituiriam o primeiro cir-
(
é assimétrica, pois ocorre por intermédio de vias diferentes, como in- cuito de comunicação da criança com o Outro, por meio do qual ela pode
( dicado na figura 2: (
estabelecer os primeiros contatos com o mundo estranho da cultura.
66 ANGELPINO
AS MARCAS DO HUMANO 67

Esse circuito seria o ponto de partida, ao mesmo tempo, da cons- • Nesse processo, a criança não desempenha um papel passivo, muito
tituição da rede de relações sociais da criança e do processo de cons- pelo contrário, pois é a iniciativa dela (o ato de apontar) que constitui
( tituição cultural. Com efeito, na medida em que as ações da criança a razão e origem da ação do Outro. Com efeito, são os sinais emitidos
( vão recebendo a significação que lhe dá o Outro - nos termos pro- por ela que desencadeiam a ação interpretativa do Outro. O ato de
postos pela tradição cultural do seu meio social - ela vai incorpo- apontar constitui um caso particular do princípio geral do desenvol-
rando a cultura que a constitui corno um ser cultural, ou seja, como vimento cultural, o qual não é uma simples incorporação de padrões
(
um ser humano. de comportamento dos outros, mas o resultado de um complexo pro-
( cesso de conversão da significação das relações sociais em que a crian-
ça vai se envolvendo e no qual as ações de cada um dos integrantes
(
da relação desencadeiam as ações dos outros. Parece então razoável
CRIANÇA ~
ligar o nascimento cultural da criança à necessidade básica que tanto
mediação semiótica do Outro
ela quanto o Outro (mãe, pai etc.)" têm de estabelecer vínculos sociais
CULTURA por meio do "canal" de comunicação de que dispõe cada um deles:
~
( natural ou biológico no caso da criança (espasmos, choros, movimen-
Figura 3: Mediação do Outro na interação criança-cultura
tos etc.), cultural ou simbólico no caso do adulto:

Fica claro assim por que tudo o que é interno nas formassuperiores foi
Vale lembrar aqui, para encerrar estas reflexões, algumas das con- necessariamenteexterno,isto é, foi para os outros o que agora é para si
clusões a que a análise do "movimento de apontar"lO conduziu Vigotski, mesmo. (id.)
uma vez que elas nos fornecem elementos para entendermos a dinâmi-
• As funções superiores constitutivas da pessoa foram antes relações sociais:
ca do processo de desenvolvimento cultural:
• O desenvolvimento humano passa, necessariamente, pelo Outro; por- Todafunção mentalsuperior- afirma Vigotski- foiexternapor que foi
( tanto, a história de cada uma das funções psíquicas é uma história socialantes de tornar-seinterna, urna funçãoestritamentemental; ela foi
( social: primeiramente uma relaçãosocial de duas pessoas.(id.)

Por isso poderíamos dizer que é por meio dos outros que nos tornamos Nesta linha de argumentação, podemos concluir que a criança só
( nós mesmos e esta regra se aplica não só ao indivíduo como um todo, terá acesso à significação dos objetos culturais, ou seja, só poderá tornar-
( mas também à história de cada funçãoseparadamente.Issotambémcons- se um ser cultural, por intermédio da mediação do Outro.
titui a essênciado processo do desenvolvimentocultural traduzido numa
De tudo o que acaba de ser exposto, como o leitor já poderá ter
forma puramente lógica. O indivíduo toma-se para si o que ele é em si
percebido, surgem algumas indagações teórico-conceituais a respeito dos
pelo que ele manifesta aos outros. (1997:105)
termos usados por Vigotski nas suas elaborações teóricas sobre o desen-
volvimento cultural- sem dúvida, a sua maior contribuição à psicolo-
( 10. O "movimento de apontar", que aparece na criança pré-verbal, é considerado por gia e às ciências humanas em geral- e que ele não explicitou ou, pelo
( Vigotski como uma espécie de paradigma do processo de internalização, Ele será objeto de menos, não de forma suficiente para permitir aos seus leitores uma com-
análise num capítulo posterior. preensão clara do que ele pensava a respeito deles. Refiro-me, de forma

(
68
( ANGELPINO @~~ 69

(
mais específica, aos termos "cultura", "função", "conversão" e "relação
( social". Dada a sua importância para a compreensão do pensamento do
( autor e para a análise do objeto desta investigação, tentarei discuti-Ias
nos dois próximos capítulos. Inicialmente, tratarei do conceito de "cul-
tura" (Capítulo li), em razão do papel central que ele ocupa numa pers-
pectiva psicológica que define o desenvolvimento humano como "cultu-
ral". Os outros termos serão tratados no capítulo seguinte (Capítulo Ill),
alertando o leitor que se tratará de uma espécie de ensaio interpretativo
do pensamento do autor, uma vez que não se dispõe de elementos con- Capítulo II
sistentes a respeito do sentido que têm para ele.
f
\
Natureza e cultura

RAíZES ETIMOLÓGICAS DO TERMO "CULTURA"

Do ponto de vista etimológico, a palavra cultura é uma transposi-


ção ao português do termo latino cultura, substantivo derivado do ver-
bo colere, cuja significação "trabalhar a terra" nos remete ao campo da
produção humana. Por extensão, o termo remete ao método de fazer
crescer micr6organismos em ambiente apropriado (cultura bacterioló-
gica). G. [ahoda (1992) lembra que, na Antigüidade latina e durante
muitos séculos depois, o termo cultura estava ligado também à idéia
de desenvolvimento de certas faculdades do espírito, como na expres-
são cultura mentis (cultivo da mente) usada por Cícero para referir-se,
de forma figurada, à filosofia. Na tradição grega existem dois termos
( diferentes para significar essas duas coisas: o de georgia, para signifi-
car o trabalho de lavoura, e o de mathema, para significar o conheci-
(
mento. De qualquer maneira, estes dois termos conduzem também à
( idéia de produção humana, material ou mental. Trata-se de uma idéia
( que merece ser retida, pois retornarei a ela mais adiante ao delimitar
{ os contornos da significação com que o termo cultura será entendido
neste trabalho.
(
Em época muito posterior, numa tradição cujas raízes podem. ser
(
encontradas no pensamento iluminista do século XVIII,o termo cultura

(
-, I

70
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 71

passou a ser usado para expressar a idéia de um certo refinamento do Os termos cultura e civilização aparecem como sinônimos em al-
~ espírito, como resultado do desenvolvimento de certas qualidades pes- guns dos primeiros trabalhos antropológicos do século XIX, como o
( soais valorizadas em certos meios sociais. Fala-se então de "pessoa cul- mostra a definição dada por E. B. Tylõr na abertura do seu livro Primitive
ta" para dizer de alguém que tem costumes refinados (bom gosto, senso culture (1871): "Cultura ou civilização [...] todo complexo que inclui co-
estético, julgamento crítico. certos conhecimentos ou habilidades etc.), nhecimento, crença, arte, leis, moral, costumes e quaisquer outras capa-
características atribuídas a certos segmentos sociais facilmente identifi- cidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade".
cáveis com a burguesia nascente. Mesmo nesta outra acepção, o termo Mas, de forma geral, esses termos não foram usados como sinônimos.
cultura serve para designar coisas diferentes, certamente, mas que têm Em certos países europeus, como França, Inglaterra e Alemanha, o ter-
em comum a idéia de algo que é produzido ou desenvolvido pela ação mo civilização era reservado para expressar o progresso material e tec-
humana que se estende num espectro amplo, o qual vai do "cultivo da nológico de certos povos, ao passo que o de cultura expressava, de pre-
terra" ao "cultivo da mente".
ferência, os valores e aspectos espirituais de qualquer povo.
A partir da segunda metade do século XIX, surgem novos campos Como se pode ver, o termo cultura está ligado a tradições diferen-
( de conhecimento - como a sociologia, a arqueologia, a antropologia e a tes, o que explica a diversidade de sentidos que ele acumula historica-
( paleontologia - junto com um grande interesse científico para conhe- mente e as diferentes acepções com que é usado pelos autores. Isso per-
cer as origens do homem e a organização das sociedades humanas. O mitiria pensar que a dispersão semântica revelada no uso do termo pe-
(
termo cultura passa a ser usado para designar o conjunto de bens mate- los autores tem muito mais a ver com pontos de vista divergentes, filo-
riais e/ ou espirituais dos povos (técnicas, artes, mitos, tradições, conhe- sóficos e ideológicos, a respeito da natureza humana e às diferenças en-
cimentos, modo de organização social etc.). tre os homens, que com meras diferenças conceituais. Uma coisa, po-
( Em paralelo com essa idéia significada pelo termo cultura, surge rém, parece ser consensual, como diz G. [ahoda (1992: 4): do conceito de
( outra significada pelo termo civilização, cuja raiz latina civis dá origem a cultura são excluídos os aspectos do ser humano que são inatos ou de-
uma série de termos que designam a "cidade" (civitas) ou outras coisas terminados pela genética. Em outros termos, natureza e cultura repre-
relacionadas com ela, como nos substantivos "civil" (civilis), para desig- sentam campos distintos que se contrapõem, sendo este último o
nar o membro de uma coletividade nacional, "civilidade" (civilitas), para definidor da especificidade do humano.
( designar o respeito às boas maneiras da sociedade e "cidadão"
(civitatanus), para designar na antigüidade latina a pessoa que gozava

(
dos direitos de cidade, como "cidadão romano", quando a cidade de o CONCEITO DE CULTURA NA LITERATURA ESPECIALIZADA
Roma era o símbolo do império. O termo civilização passa a ser entendi-
(
do, na modernidade, em três sentidos: corno "ação de civilizar" ou me- Teoria do "contrato social"
( lhorar as condições materiais e espirituais dos povos; como o "estado de
( desenvolvimento" material, econômico e técnico de um país; e como A discussão da relação entre natureza e cultura remete-nos a um
"conjunto de características" próprias a uma sociedade. O "estado de debate secular, cujos primeiros ecos nos chegam da Grécia antiga, em
civilização" opõe-se, portanto, ao "estado de barbárie" e ao "estado sel- particular de Platão e Aristóteles, que é retomado nos tempos modernos
vagem", com todos os ingredientes negativo~ e preconceituosos que estes pelas teorias políticas denominadas com o termo de "contratualismo".
carregam na mente do civilizado.
Em sentido amplo, esse termo designa todas as teorias políticas que
, )
/

72
ANGElPINO 73
AS MARCAS 00 HUMANO
(
fazem do "contrato" a razão explicativa da origem da sociedade e do
( A doutrina do contratualismo clássico situa-se, preferencialmente,
fundamento do poder político. Num sentido mais restrito, porém, o ter-
( no segundo nível de explicação, o jurídico, o qual está estreitamente
mo "contratualismo" designa, corno diz Matteucci (1986: 272), urna es-
relacionado com a escola de "direito natural" que floresceu no século
( cola que floresceu na Europa, nos séculos XVII e XVIII, tendo corno prin-
XVIII. Historicamente, a origem da doutrina contratualista está influen-
( cipais expoentes J. Althusius (1557-1638), Th. Hobbes (1588-1679), B.
ciada tanto pela necessidade de fundar a legitimidade do Estado e das
Spinoza (1632-1677), S. Pufendorf (1632-1694), J. Locke (1632-1704), J. J.
( suas leis numa época em que o direito do soberano tendia a substituir o
Rousseau (1712-1778) e r. Kant (1724-1804). Apesar de todos esses auto-
direito consuetudinário, quanto pela exigência de construir o sistema
(
res usarem urna mesma estrutura conceitual para explicar racionalmen-
jurídico na base do direito privado, princípio sagrado para a nova socie-
te o fundamento do poder político, não seguem uma mesma orientação
dade burguesa, ao qual é subjacente à idéia de contrato.
( política. Eles diferem entre si quanto à maneira de conceber a natureza
do "contrato" e de entender o hipotético "estado de natureza", esse es- O flores cimento do contratualismo, no contexto mais amplo do
(
tado que precede o "estado de sociedade" e origina o contrato. A neces- debate do fundamento do poder político, pode ser explicado pela exis-
sidade de encontrar um princípio fundante da sociedade e do poder tência, na época, de certas condições históricas, tais como: a tendência a
político mostra que, para eles, a natureza não constitui a origem da so- criar novas formas e novos processos de governo em substituição à so-
ciedade humana; esta deve ser procurada alhures. ciedade tradicional que se legitimava simplesmente pelos costumes do
passado; a existência de uma nova visão secular (independente do pen-
Podemos dizer então que existem dois pontos consensuais entre
samento eclesiástico) da sociedade e da política que permitia discutir
esses autores, mesmo divergindo sobre vários aspectos específicos: a
racionalmente a origem e finalidade do governo, não aceitando o princí-
necessidade da passagem de um estado ao outro e a existência de um
( pio da tradição ou da sua origem divina; e a existência na sociedade de
ato de vontade e de racionalidade que explica essa passagem. Esta é a
uma certa c~msciência da idéia e das implicações concretas do contrato
( razão de trazer à tona aquia questão político-filosófica do contratualismo. ou pacto social.
( Nicola Matteucci aponta três níveis de explicação da passagem do Dentre os autores da escola contratualista, Thomas Hobbes e J.
estado de natureza ao estado de sociedade (ib.: 272-273). O primeiro é o Jacques Rousseau são, sem dúvida, aqueles que consagram um espaço
( antropológico, pois sustenta que essa passagem teria sido um fato histó- mais amplo nas suas obras à discussão da questão da existência de um
rico que pode ser demonstrado com dados antropológicos, os quais re- "estado de natureza" anterior ao "estado de sociedade". Apesar das se-
velam a necessidade que os homens tinham no estado de natureza de melhanças que existem entre eles a respeito da necessidade do contrato
( encontrar urna forma de vida social mais complexa e organizada, na social para explicar racionalmente as origens da sociedade política, exis-
( qual o monopólio do poder político se fundasse no consenso, ou pacto tem também importantes divergências quanto à maneira de conceber a
( social. O segundo é jurídico, pois faz do direito o fundamento da racio- condição humana no "estado de natureza" e o próprio conceito de con-
nalidade das relações sociais e do poder político. Neste nível, contraria- trato e do poder que dele resulta. As condições históricas em que cada
mente ao anterior, a passagem é vista como uma hipótese lógica para um deles analisa essa questão têm muito a ver, certamente, com a ma-
fundar essa racionalidade no consenso, expresso ou tácito, dos indiví- neira como eles a abordam e se posicionam teoricamente frente a ela.
( duos. O terceiro é político propriamente dito e traduz a posição daqueles
Hobbes viveu na Inglaterra dos Tudors, os quais fizeram do poder
que vêem no contrato um instrumento de ação política capaz de estabe-
monárquico, em particular com Henrique VIII, o sistema de governo
lecer os limites do poder.
( político mais centralizador da Europa, "criando a única ordem social,
75
74 ANGELPINO tó MARCAS DO HUMANO

em todo o ocidente, onde todas as subordinações competitivas - aristo- ascensão ao trono de Carlos li o verdadeiro novo soberano da Inglater-
cracia, Igreja, guilda, mosteiro, Universidade e comunidade local - ha- ra. Segundo Nisbet, teríamos que ir até A República de Platão para en-
viam sido subjugadas, destruídas ou firmemente amalgamadas ao es- contrar um livro tão exato e completo' como o Leoiaiã em sua apresenta-
quema nacional unificado". (R. Nisbet, 1982: 145) Em 1637, retomando à ção dos elementos essenciais da comunidade política. "Todos estão lá:
Inglaterra após uma longa estadia em Paris, Hobbes encontra um país monopólio da força pelo Estado; soberania centralizada; supremacia de
em convulsão em razão dos conflitos que opunham a Monarquia de valores territoriais nacionais sobre aqueles do regionalismo ou do inter-
..Carlos I, o Parlamento e os militares e que levariam à Guerra Civil (1644- nacionalismo; cidadãos reduzidos ao atomismo; e, em conseqüência disso
1646) provocada, em parte também, pela hostilidade do Partido Purita- tudo, hostilidade implacável a todos os grupos ou submissões interme-
no, apoiado por O. Cromwell, militar e membro do Parlamento, contra a diárias entre soberano e cidadão". (idem: 144)
Igreja e o Estado constituídos. Três anos depois, Hobbes deixa de novo a A análise da existência de dois estados, o de natureza e o de socie-
Inglaterra e vai a Paris, onde em 1646 aceita o convite para ser o instru- dade, e da passagem de um a outro por força do contrato social, permite
tor do filho de Carlos 1, futuro Carlos II, que estava refugiado na França, a Rousseau explicar a origem da "autoridade", da "desigualdade so-
pois a situação na Inglaterra estava difícil para a Monarquia. Com efei- cial" e do "poder político", temas interligados que ele trata, respectiva-
to, o fracasso do esforço para convencer o Monarca a aceitar as condi- mente, no Émile, no Discours sur l'inégalité e no Ou contrat sociai', No
ções de moralização acertadas no Parlamento, levou Cromwell, vence- Emz1io ele se coloca a questão de por que existem homens que dão or-
dor da Guerra e membro do Parlamento e do Conselho militar, a aceitar dens e comandam e outros que os obedecem. Após descartar uma série
a condenação à morte de Carlos I (1649), a expurgar o Parlamento e a de razões possíveis, algumas delas presentes já em A República de Platão,
fechar a Câmara dos Lordes, concentrando nas suas mãos o verdadeiro Rousseau sustenta a tese de que só existe autoridade legítima se con-
poder da Inglaterra. É nesse clima que Hobbes publica o Leviatã (1651), sentida. Um homem só pode ter autoridade sobre outro se este aceitou
no qual a principal preocupação é justificar racionalmente a necessida- previamente que ele lhe dê ordens ou se lhe delegou a responsabilidade
de de que a comunidade política esteja fundada no poder absoluto do de tornar decisões. Essa idéia de Rousseau faz lembrar o Discurso sobre a
soberano, seja ele quem for, e na total obediência dos indivíduos, os servidão voluntária de La Boétie (1530-1563)2. Evidentemente, essa tese
súditos a ele. O problema que leva Hobbes a esta posição tão radical é de Rousseau pressupõe o princípio de que o homem nasce livre, mesmo
explicar como os homens no "estado de natureza", ou seja, na sua con- se "por toda parte está acorrentado":', como conclui na famosa frase que
dição de seres individuais, sem vínculos sociais e culturais e guiados abre o Contrato. Como ocorreu essa mudança? O que torna esta mudan-
pelo próprio desejo e pelo instinto de sobrevivência, que os colocaria em ça legítima? São questões que ele trata de responder de forma diferente
estado de permanente conflito e de luta de uns contra os outros, pode- de outros contratualistas, como Hobbes. Rousseau exclui o princípio do
riam chegar a constituir uma comunidade política. A resposta é que os "poder da força", porque quem está forçado a aceitar o jugo desse poder
homens, combinando instinto e razão natural, as duas forças motrizes o sacudirá quando puder, para recuperar sua liberdade. Ora, isso põe
fundamentais, teriam conseguido antever as vantagens de uma associa- em risco a ordem social" que, segundo ele, é um direito sagrado, base
/I

ção política sob a autoridade de um soberano absoluto capaz de contro-


lar os conflitos e assegurar a paz. Tal é, em essência, o conceito que tem 1. Jean-Jacques Rousseau, Oeuvres completes. Edition de Ia Pléiade, Paris: Callimard. t. III
Hobbes do "contrato social". Isso explicaria por que ele abandonou o e IV, 1964-1969.
monarca a quem tanto devia (pois foi preceptor do filho de Carlos I) 2. La Boétie, Discours de Ia servitude volontaire. Paris: Payot, 1976.
3. "L'homme est né libre et partout il est dans les fers" (Du Contrat Social, 1977: 172).
para aderir ao poder absoluto de Cromwell que foi até a sua morte e a
76 /J5MARCAS DO HUMANO 77
ANGELPINO

de todos os outros direitos. Uma vez que tal direito não vem da nature- abaixo daquela da qual surgiu, deveria abençoar sem cessar-o instante
za, ele tem que ser o resultado de "convenções", conclui Rousseau, opon- feliz que o arrancou dela para sempre e que, de um animal estúpido e
do-se claramente a Hobbes. Explicar quais são essas convenções consti- limitado,fez um ser inteligentee'um homem. (1977:187-188)
tui a questão central que ele desenvolve no Contrato.
Creio que fica :"astante claro, nesta e em outras passagens da obra
O tema principal do Discurso é o da origem da desigualdade.
de Rousseau, que o que ele está dizendo, com outras palavras, é que o
Rousseau distingue a desigualdade "natural" - resultante do fato bio-
acessoao estado de sociedade é o que faz de um ser natural um ser huma-
lógico das diferenças orgânicas em razão das particularidades biológi-
no ou, corno eu venho repetindo, um ser cultural.
cas de cada um - da desigualdade "política" (social, econômica etc.).
Ao passo que a primeira é da ordem da natureza, a segunda é da ordem
da sociedade, ou da cultura, diria eu. Esta desigualdade não decorre
A cultura no pensamento sociológico
daquela, pois ambas são independentes. Explicar a origem da desigual-
dade política constitui o objetivo dessa obra, na qual Rousseau se pro-
A questão da cultura é central também nos grandes sistemas teóri-
põe marcar o momento no qual o direito sucede à violência e, dessa
(
cos que, na seqüência dos trabalhos pioneiros de E. Durkheim (1968) e
forma, a lei passa a comandar a natureza. Na medida em que o Discurso
dos inspirados neles, surgem no campo sociológico. Basta destacar, a
( tenta explicar a origem da desigualdade política, ou seja, a realidade da
título de exemplo, duas obras de dois grandes sistematizadores da ciên-
sociedade histórica, constitui uma espécie de antítese do Contrato, o qual
cia sociológica, representantes de duas importantes correntes de pensa-
tenta dar a fórmula de urna sociedade (utópica?) que, contrariamente à
( mento sociológico: refiro-me a TalcotParsons (1966) ea Pitirim A. Sorokin
sociedade real e histórica, não se funde na desigualdade política nem
seja a fonte desta. (1962). A razão principal do destaque é que estes dois autores, traba-
lhando em perspectivas teóricas diferentes e até opostas, concebem a
( Pode ser que J. P. Siméon (1997) tenha razão quando sustenta que o cultura como o componente simbólico do sistema social.
"estado de natureza" de que fala Rousseau deve ser entendido, não como
No modelo de T. Parsons, o sistema cultural é um dos três sistemas
um fato real, mas como um instrumento conceitual que lhe permite ex-
estruturais constitutivos dos Sistemas Sociais de Ação, junto com o sistema
plicar a origem da sociedade política e do Estado. Todavia, certas passa-
social e o sistema da personalidade. Segundo ele, a cultura consiste em "sis-
gens do Discurso dão margem para pensar que ele não descarta essa
possibilidade. temas de símbolos pautados ou ordenados" que orientam a ação. Esses
sistemas constituem as pautas institucionais dos sistemas sociais que,
A leitura de Rousseau nessas três obras permite concluir que o es- por um processo de internalização, tornam-se parte integrante das per-
tado de sociedade representa, em contraposição ao de natureza, o esta- sonalidades dos atores sociais individuais (1966: 33). Por tratar-se de
do próprio do homem. Diz ele no Contrato: pautas de ação e de interação dos atores sociais, os "sistemas de símbo-
los" devem ser compartilhados e, por isso mesmo, suficientemente ge-
Esta passagem do estado de natureza ao estado civil produz no homem
néricos e estáveis, cuja significação não dependa predominantemente
uma mudança extraordinária(...JMesmo se ele se priva neste estado de
de situações muito particulares (idem: 30). Esses "sistemas de símbo-
muitas vantagensque ele temda natureza, ganha outras igualmentegran-
los" formam a tradição cultural.
des, suas faculdades se exerceme desenvolvem,suas idéias se ampliam,
seus sentimentosse enobrecem,toda a sua-alma se elevaa tal ponto que, Pode-se dizer então que, na medida em que o sistema cultural é
se os abusos desta nova condição não o degradassem com freqüência constituído, segundo Parsons, por sistemas de símbolos, o que torna algo
\
(

78
ANGELPINO 79
AS MARCAS 00 HUMANO

um objeto cultural é a significação que tem para os atores sociais. A signi- do das informações que vão se acumulando, a partir dos séculos XV e
ficação constitui uma espécie de "valor agregado" aos objetos físicos (rea- XVI,a respeito dos novos povos que vão sendo descobertos e coloniza-
lidade natural), sociais (relações entre atores sociais) e culturais (valores, dos nos outros quatro continentes. ~egundo Mercier (1966: 25),no século
idéias, crenças e símbolos). Portanto, para ele, a cultura traduz a dimen- XVIIIdispõe-se já de uma primeira visão geográfica global do mundo e
são semiótica da sociedade ou do sistema de ação de que fala o autor. de uma farta documentação sobre os povos descobertos, iniciando-se a
Pitirim A. Sorokin (1962), por seu lado, coloca a cultura como um época de expedições organizadas de forma mais sistemática para preen-
dos aspectos do universo superorgânico que se observa, principalmente,
11 cher as lacunas deixadas pelos relatos incompletos e pouco sistemáticos
no reino dos seres humanos em interação e nos produtos desta intera- dos colonizadores e obter conhecimentos mais precisos das regiões já
ção". O outro aspecto é o social, (idem: 4-5). Segundo ele, a cultura con- exploradas. As idéias reinantes nessa época de Iluminismo e de império
siste em significados, valores e normas, os quais se concretizam em três da razão sobre os mitos e as crenças religiosas explicam os rumos ini-
( níveis: o ideológico (totalidade de significados, valores e normas que pos- ciais da antropologia nascente que>na segunda metade do século XIX
suem os indivíduos e os grupos), o comportamental (totalidade das ações levaram à elaboração das primeiras teorias antropológicas gerais. No
século XVIII, predomina a visão científica do universo. construída pela
significativas) e o material (objetos ou veículos materiais por meio dos
física de Isaac Newton (Principia, 1687). Trata-se de uma visão harmo-
quais se exterioriza o nível ideológico).
niosa e grandiosa na qual a explicação de tudo (natureza humana, histó-
Pode-se concluir, portanto, que, na linha de análise desse autor, a ria dos povos, funcionamento das sociedades etc.) é relativamente sim-
cultura faz parte do modo de ser, de agir e de expressar-se dos indiví- ples, pois tudo faz parte de um movimento universal cujas leis, eternas
duos e dos grupos humanos e que o que a caracteriza é a significação que e universais, não deixam espaço para surpresas e sobressaltos. Essa vi-
os significados sociais, os valores e as normas têm para eles. são newtoniana, de conteúdo fortemente religioso, persistirá mesmo
quando a fonte dessas leis é transferi da do Ser divino para a Natureza,
como faz o Iluminismo, tomando as "leis divinas" "leis da natureza"
o conceito de cultura no pensamento antropológico igualmente deterministas. O aparecimento de The origin of species (1859)
de Charles Darwin, constituirá o começo de um movimento no campo
(, No pensamento contemporâneo, o conceito de cultura está particula- das ciências biológicas, mas com implicações no campo das outras ciên-
rmente associado à antropologia, esse novo campo do saber que toma cias, que acabará minando a solidez da visão harmônica e perene do
corpo no século XIXa partir, especialmente, dos trabalhos de Franz Boas universo e dos mundos que ele inclui.
e Marcel Mauss. É razoável pensar que todas as sociedades humanas,
A entrad~ das idéias evolucionistas no campo dos estudos sociais
( qualquer que tenha sido seu nível de evolução, tiveram algum tipo de e antropológicos trouxe à nova ciência uma complexidade que o pen-
interesse em conhecer e explicar suas origens, seus costumes e tradições
samento iluminista não imaginava. No contexto científico de um en-
e suas diferenças em relação a outras sociedades vizinhas, o que dera contro das idéias newtonianas e ilurninistas, abrem-se diferentes cami-
origem ao surgimento de diferentes mitologias e cosmogonias. Entre- nhos para a nova ciência antropológica que surge no apagar das luzes
tanto, quando se fala em pensamento antropológico e num campo espe- do século XIXcom a tarefa principal de classificar as diferentes socie-
cífico de conhecimento que define como seu objeto de estudo o homem dades e culturas e estudar as fases ou etapas por que passam os gru-
(sua natureza e modos de existência social e cultural), está se falando de pos humanos, numa visão linear da história. Exemplo disso é a obra
um pensamento que começa a surgir na Europa ocidental como resulta- de L. Henri Morgan (Ancient society, 1877), com os seus três estágios de
<.

80
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 81
(
evolução: o selvagem, o de barbárie e o de civilização. Em contraparti- fio que se acentua no mundo contemporâneo da era da globalízação. A
da, surge também no fim desse século outro tipo de visão evolucionis- luta pelo reconhecimento das diferenças culturais, particularmente das
ta da história humana, preconizada pela obra de K. Marx e F. Engels,
minorias, e pela procura de mecanismos políticos que viabilizem a con-
fazendo do modo de produção a causa explicativa da evolução históri-
vivência com essas diferenças surge com toda força na época contempo-
ca das sociedades (Crítica da política econômica, 1959). Nesse fim de século
rânea de globalização.
XIX, surgem também algumas coleções enciclopédicas, como as de
O essencial inacabamento biológico do ser humano no momento
james Frazer (Golden bough, 1890) e Emest Crawley (Mistic rase, 1902),
com abundantes informações fornecidas, na sua maioria, por missio- do nascimento, sua plasticidade e abertura para o mundo (Berger e
nários, sobre costumes e práticas religiosas e mágicas, além de muitos Luckman, 1972), levam à conclusão, corno diz Gilberto Velho (1981), de
outros fatos curiosos. que a cultura é a instância propriamente humanizadora. A hum aniza-
(
ção do homem não se faz, entretanto, por meio de uma humanidade
Finalmente, no século XX, a antropologia consolida-se como nova
abstrata (Lévi-Strauss), mas segundo-modalidades próprias a cada gru-
ciência, com duas grandes vertentes: a antropologia física e a antropolo-
po cultural, como o entende M. Mauss, O pensamento antropológico e
gia cultural; esta última é a que nos interessa aqui.
paleontológico contemporâneo aponta no sentido da interpenetração
A história da antror.0logia cultural mostra que as pesquisas na pri- entre o estado de evolução final do organismo do homo sapiens e as pri-
meira metade do século XX seguiram duas orientações principais. Num meiras aquisições culturais. Isso quer dizer que as curvas da evolução
primeiro momento, foram orientadas pelo princípio da unidade biológi- biológica e cultural (mais especificamente no campo da técnica), relati-
ca da natureza humana e da igualdade natural dos homens, levando a vamente paralelas até a emergência do homo sapiens, depois se distan-
procurar as características comuns aos diferentes povos, minimizando ciam progressivamente e ao passo que a primeira atinge uma certa esta-
suas diferenças culturais e especificidades próprias. Não seria difícil ver bilidade, a segunda acelera-se atingindo nos últimos séculos propor-
nessa orientação a presença ainda das idéias do Iluminismo. Num se- ções exponenciais,
gundo momento, foram orientadas pelo princípio oposto de que os po- Segundo Paul Mercier (1966), se os começos da antropologia, nas
vos são culturalmente diferentes, predominando a preocupação de mos- últimas décadas do século XIX, estão marcados pelo evolucionismo, o
trar, com estudos sobre o terreno, que as diferenças culturais entre os período que precede à segunda Guerra Mundial é o período, por exce-
(
povos acabam sendo mais de terminantes da sua história que qualquer lência, da história cultural. De fato, a preocupação é a história da origem
unidade ou semelhança biológica. Isso não quer dizer que seja negada a e da evolução das sociedades e das culturas. O que não quer dizer que o
( unidade biológica fundamental, mas que é o impacto das diferenças tema da história cultural não tivesse sido colocado nos primeiros traba-
culturais o que caracteriza cada povo. Essas pesquisas contribuíram de lhos antropológicos, alguns deles clássicos, antes mesmo que tal concei-
maneira decisiva para a superação da visão etnocêntrica e colonialista to seja submetido a um exame mais minucioso. Todavia, a visão de his-
que marcara os ·primeiros trabalhos antropológicos. tória dominante nesse momento é urna visão linear, a qual não ajuda a
Tudo indica que, nessas duas concepções do homem e das socieda- entender como e por que as transformações ocorrem.
des próprias da antropologia nos seus começos, o grande desafio que se Sem querer simplificar demais, pode-se dizer que a antropologia
(" colocava à nova ciência antropológica era conciliar a unidade biológica e do começo do século XX apresenta duas grandes tendências ou escolas,
a diversidade cultural da espécie humana.jou seja, a importância da identifica das com certos países ou regiões. De um lado, a escola deno-
ação da natureza ou a importância da ação da história do homem; desa- minada de antropologia cultural, a qual se desenvolve na América do
(
t. 82 ANGElPINO ASMARCAS DO HUMANO 83

Norte, sob a liderança de Franz Boas (1858-1942)4, cientista alemão natu- salientes da corrente funcionalista da antropologia. Em La sexuoliié et sa
( répression, Malinowski afirma que no estado anterior à vida civilizada
ralizado americano. Com sua forte influência, Boas substitui a pesquisa
evolucionista por uma pesquisa de fatos selecionados, abrindo várias não existia meio susceptível de servir" de molde para as instituições so-
áreas de pesquisa sem quebra de unidade, e visando a identificar como ciais, a moral e a religião. O que significa que o comportamento típico
esses fatos ocorrem na história das sociedades, predominantemente, das da vida civilizada difere essencialmente do comportamento animal no
"primitivas". Ele é reconhecido como o fundador da escola histórico- estado de natureza. As diferenças que ele aponta entre ambos os esta-
cultural que marca a antropologia americana e que é formadora de gran- dos o levam a identificar quatro grupos de elementos principais que
des pesquisadores, como Ruth Benedict, Alfred L. Kroeber, Margareth totalizam as conquistas culturais do homem civilizado: bens materiais,
Mead e Edward Sapiro. Sob a influência do empirismo americano e dos uma organização social, a linguagem para comunicar-se e sistemas de

(
ares procedentes da sociologia de Emile Durkheim, os trabalhos de Boas valores espirituais onde o homem alimenta os móveis de sua ação (1967:
e muitos dos seus seguidores inclinaram-se para uma visão funcionalis- 151-153). Portanto, fica relativamente explicitada a contraposição entre
ta da sociedade, concebendo esta como uma unidade orgânica e sistêrni- o estado de natureza e o estado de cultura.
ca, em que a cultura é praticamente identificada com a organização so- Todavia, nas suas várias obras, mas em particular na última de-
cial, parecendo se impor aos indivíduos como o meio ambiente se im- las consagrada a elaborar uma "teoria da cultura", não deixa sufi-
põe aos animais. Esta tendência, marca da "escola culturalista'", invade cientemente clara a idéia que ele tem a respeito da natureza da cultu-
uma grande área da sociologia americana, a chamada escola de Chicago ra (1962: 43-47), embora deva-se reconhecer que produz uma abertura
(
liderada por Robert Merton". no conceito que permite incluir nele o conjunto das produções huma-
De outro lado, surge na Inglaterra a escola denominada antropolo- nas. Assim se expressa no capítulo dedicado a responder à pergunta "o
\, gia sociológica. Esta escola foi profundamente influenciada pelas idéias que é cultura"?
de MareeI Mauss (1872-1950)7, do círculo sociológico de Durkheim. Como
Boas, Mauss propõe também o estudo dos fatos, mas entendidos como Quer consideremos uma cultura muito simples ou primitiva, ou uma
(
fenômenos sociais completos. extremamente complexa e desenvolvida, deparamo-nos com uma vasta
( aparelhagem, em parte material, em parte humana, em parte espiritual,
Na perspectiva da antropologia sociológica destacam-se os traba-
( com a ajuda da qual o homem é capaz de lidar com os problemas concre-
lhos de Bronislaw Malinowski (1950, 1962, 1967), um dos nomes mais
tos, específicos com que se defronta.
(
( Apesar de chamar esta formulação de "despreocupada e despre-
4. Algumas das obras de Franz Boas: The k:wakiutl of Vancouver island, 1909; Contribution
( to the ethnology of lhe Kwakiul, 1925; The mind of primitive man, 1938; Race, language and culture, tensiosa", o autor não esconde que o seu objetivo é elaborar, "peça por
1940. peça", uma teoria da cultura, a qual, segundo ele, deve levar em conta
(
5. Cf., como exemplo, R. Benediet, Paterns of culture, Boston: Mougthon illin, 1961; M. duas coisas fundamentais: o fato biológico - pois os homens constituem
Mead, Adolescencia y cultura en Samoa, trad. espanhola, Buenos Aires: Ed. Paidós, 2. ed., 1961. uma espécie animal, sujeita a condições elementares que devem ser res-
( 6. Robert K. Merton, autor, dentre outros trabalhos, do clássico "Social theory and social
peitadas para que os indivíduos possam sobreviver, a raça continuar e
siructure", 1957.
os organismos em conjunto ser mantidos em condições de funciona-
7. Mareei Mauss só deixou uma obra acabada, o seu famoso Éssai sur le don, forme et
raison de I'échange dans les sociêtes archaiques, 1925, o qual é reproduzido em Sociologie et mento - e o ambiente secundário, criado pelo homem, uma vez que ele
anthropologie, 1968. dispõe de artefatos e de capacidade para produzi-los e apreciá-los. Não
(

84 ANGELPINO 85
ASIMRCAS 00 HUMANO

há nada de novo nisso, como ele mesmo diz, pois o específico da espécie Analisando O "trance balinês", C. Geertz (1973: 48-51) pergunta-se:
humana é ter-se tornado capaz de criar seu próprio meio.

A partir desses dois pontos, o autor tira as seguintes conclusões: 1) O que se pode aprender sobre a natureza humana a partir dessa espécie
( satisfazer as necessidades orgânicas é uma condição imposta a cada cul- de coisa e dos milhares de coisas igualmente peculiares que os antropó-
tura; 2) os problemas apresentados por essas necessidades são solucio- logos descobrem, investigam e descrevem? Que os balineses são espécies
nados pela criação de um novo ambiente secundário ou artificial; 3) esse peculiares de seres, marcianos dos Mares do Sul? Que eles são iguais a
( nós, no fundo, mas com alguns costumes peculiares, verdadeiramente
ambiente, que não é nem mais nem menos que a cultura propriamente
( incidentais, que não nos agradam? Que eles são mais dotados inatarnente
dita, tem de ser permanentemente reproduzido, mantido e administrado. Isso
ou mais instintivamente dirigidos em certas direções que outros? Ou que
cria, diz ele, um novo padrão de vida cultural. Mas, novas necessidades
a natureza humana não existe e que os homens são pura e simplesmente
( surgem e novos imperativos ou determinantes são inculcados no com-
o que a sua cultura faz deles?
portamento humano.
Apesar da ausência de uma concepção clara do que seja a cultura, Segundo o autor, são interpretações insatisfatórias como essas que
Malinowski é um dos autores que mais contribuíram para aprofundar levaram a antropologia a procurar o caminho para um conceito de ho-
essa questão. mem em que a cultura e a variabilidade cultural sejam levadas em conta
c Entre as duas grandes guerras, duas perspectivas teóricas vão se mais do que o são quando concebidas como capricho ou preconceito e
definindo na pesquisa antropológica, descartando, total ou parcialmen- que permita, ao mesmo tempo, que o princípio da "unidade básica" da
te, a análise histórica da primeira época: a perspectiva funcionalista, cujos humanidade não seja uma expressão que caia no vazio. Mas, em con-
principais representantes são os britânicos Arnold R. Radcliffe-Brown trapartida, isso pode levar também à idéia de que "a humanidade é tão
(1881-1955)8 e Malinowski (1884-1942), e a perspectiva estruturalista, que variada em-sua essência como em sua expressão", possibilitando o
(
tem no francês Claude Lévi-Strauss (1908-)9 seu representante mais ilus- afrouxamento de alguns "ancoradouros filosóficos bem amarrados".
( tre ainda vivo. Quais são os perigos de tudo isso? Confundir o "Homem", com letra
( maiúscula, que está presente nos seus costumes, com o "homem", com
Se o princípio que norteava os trabalhos antropológicos no fim do
letra minúscula, que deve ser visto dentro deles. O perigo é perder a
século XIX era o da existência de uma natureza humana universal, cujas
perspectiva do homem ou porque ele se dissolve completamente no seu
( diferenças observadas entre os povos são atribuídas aos diferentes ní-
tempo e no seu espaço, ou porque "ele se torna um soldado recrutado
veis de desenvolvimento, o princípio da multiplicidade de formas cul-
( num vasto exército tolstoiniano, engolfado em um ou outro dos terrí-
turais e da importância das características culturais de cada povo dá
( veis determinismos históricos com que fomos assolados a partir de
origem, no século XX, a novas interrogações sobre a natureza do ho-
Hegel". Não só na antropologia, mas também nas ciências sociais, er-
( mem que nem sempre encontram a resposta adequada.
guem-se as bandeiras seja do relativismo cultural seja da evolução cul-
tural. Mas existe a possibilidade de ignorar as duas procurando nos
( 8. A. R. Radcliff-Brown, cujas obras mais importantes são Os ilhéus andamanesses, 1922;
"próprios padrões culturais os elementos definidores de uma existência
Organização social das tribos australianas, 1931 e Estrutura e função das sociedades primitivas,
1952. humana", conclui Geertz, sustentando que não é que não existam gene-
9. Claude Lévi-Strauss, Structures élémentaires de Ia parente, 1949; La pensée sauvage, 1962; ralizações que possam ser feitas sobre o homem, mas que "elas não po-
Anthropologie struciurale, v. I, 1958 e v. Il, 1973 e Le cru et le cuii, 1964. dem ser descobertas por meio de uma pesquisa baconiana dos univer-
(

(
86 ANGElPINO 87
AS MARCAS DO HUMANO

sais culturais", pela simples razão de que levam ao relativisrno que se A CULTURA EM VIGOTSKI
pretende evitar.

Ao perguntar-se sobre as razões que levam os antropólogos a fu- Vigotski introduz a questão da cultura quando discute, especifica-
gir das particularidades culturais, el= diz que é porque são perseguidos mente, o problema do desenvolvimento da criança, em particular em
"pelo medo do hístoricismo": medo de perderem-se no relativismo cul- dois textos: um de 1929 (Vigotski, 1994) e outro de 1931 (Vigotski, 1997),
tural que lhes retiraria o apoio numa base sólida. nos quais ele justifica a necessidade de analisar a gênese das funções
psicológicas, uma vez que os psicólogos do seu tempo ainda não ti-
( Após analisar diferentes posições a respeito da relação do binômio
nham dado a devida atenção ao que constitui a verdadeira natureza do
( "biologia x cultura", cuja presença na antropologia se reflete nas várias
desenvolvimento das formas superiores de conduta: a natureza do de-
concepções de homem, Geertz conclui que as pesquisas mais recentes
( senvolvimento, afirma ele, é cultural. Trata-se de uma concepção inédi-
sugerem "não existir o que chamamos de natureza humana indepen-
( ta para a psicologia do desenvolvimento humano da sua época e, quem
dente da cultura". "Os homens sem cultura", diz ele, "não seriam os
sabe, ainda também da nossa! Diz ele:
( selvagens inteligentes de Lord af ihe flies, de Golding [...] ou até mesmo,
( como a antropologia insinua, os macacos intrinsecamente talentosos que, o desenvolvimentocultural da criança [...J representa um nível de de-
por algum motivo, deixaram de se encontrar. Eles seriam monstruosi- senvolvimento completamente novo, o qual não só é insuficientemente
dades incontroláveis, com muito poucos instintos úteis, menos senti- estudado como geralmente não é distinguido na psicologia da criança.
mentos reconhecíveis e nenhum intelecto, verdadeiros casos psiquiátri- (1997: 97)
cos". (1973: 61)
( Neste texto, do início dos anos 1930, Vigotski dedica várias páginas
Concluindo o capítulo consagrado a examinar "o impacto do con-
à análise crítica, com uma certa ironia, das várias concepções de desen-
( ceito de cultura sobre o conceito de homem", Geertz deixa claro que a
volvimento que circulavam no seu tempo, fundadas em modelos bioló-
( cultura é, para ele, um "conjunto de mecanismos simbólicos para con-
gicos e em visões deles decorrentes, como o pré-formismo e o
trole do comportamento" ou "sistemas de significados criados histori-
( maturacionismo. Numa espécie de formulação geral, ele sustenta ali que
camente em termos dos quais damos forma, ordem, objetivo e direção
( a essência do desenvolvimento cultural está na colisão das "formas cul-
às nossas vidas". Razão por que a cultura "fornece o vínculo entre o que
turais maduras" de conduta com as "formas primitivas" que caracteri-
( os homens são intrinsecamente capazes de se tornar e o que eles real-
zam a conduta da criança. O que poderia ser interpretado como colisão
( mente se tornam, um por um" (idem: 64). Vista dessa forma a cultura, entre a "ordem da cultura" e a "ordem da natureza", ou, melhor, entre
( os fatos que compõem seu campo têm que ser objeto de interpretação. É as legalidades que regem cada uma dessas duas ordens. Isso o leva a
interessante lembrar que uma das particularidades do enfoque do tra- estabelecer a "lei genética geral do desenvolvimento cultural (1997:106)
( 11

balho de M. Mauss é ter aberto no campo antropológico a necessidade que estabelece a origem social das funções psicológicas superiores, in-
(
de interpretar os "fatos sociais totais", justamente porque eles têm uma validando todas as correntes psicológicas que colocam essa origem ou
( dimensão simbólica, como ele tentou mostrar em pesquisas célebres como na própria natureza (geneticismo, maturacionismo), ou no meio natural
( a realizada no norte 'da Polinésia sobre "o dom" como razão do sistema ou ainda em qualquer outro princípio metafísico ou religioso. Sua ori-
( de trocas em sociedades arcaicas. Afinal de contas, os fatos são fatos se gem não está no plano biológico em que a criança nasce, mas no plano
alguém puder interpretá-los. cultural ao que ela tem que aceder para chegar às "formas culturais
(
(
(

(
(

(
88 fó MARCAS DO HUMANO 89
ANGELPINO

(
maduras" de conduta que caracterizam a sociabilidade humana. Dessa Nesse enunciado tão simples, Vigotski está afirmando duas coisas:
(
forma, o conceito de desenvolvimento cultural fica colocado em termos 1) que a cultura é urna "produção humana" e 2) que essa produção tem
de conversão do biológico em cultural, coisa bem mais complexa do que duas fontes simultâneas: a "vida social" e a "atividade social do ho-
parece à primeira vista. mem". Analisando em separado estas duas afirmações, pode-se verifi-
Apesar de que a cultura constitui uma peça central nas elaborações car que, ao dizer que a cultura é o "produto" da vida social e da ativida-
mais avançadas do pensamento de Vigotski, não se encontra nos seus de social, está afirmando que ela é obra do homem e, por conseguinte,
escritos uma discussão propriamente dita desse conceito. Ignora-se a que não é obra da natureza. Isso quer dizer que entre cultura e natureza
razão disso, mas como ocorre a mesma coisa com outros conceitos im- existe uma linha divisória que as separa e que as une e essa linha passa
portantes que ele utiliza, poder-se-ia pensar que não considerava neces- pelo homem, ao mesmo tempo natureza e agente da sua transformação;
sário para os seus objetivos dar definições e discutir os conceitos utiliza- portanto alguém capaz de produzir cultura, mas incapaz de criar a na-

dos. No caso da cultura, porém, o fato é mais surpreendente, pois o autor tureza. Dessa forma Vigotski recoloca,.de outra maneira e em outro con-

faz dela a natureza do desenvolvimento psicológico que ele define, coe- texto, o debate filosófico da passagem do "estado de natureza" ao "esta-
(
do de sociedade". Ele coloca agora esse debate em termos da passagem
rentemente, corno desenvolvimento cultural; coisa que na sua época re-
( do plano biológico para o plano da cultura.
presentava (e ainda representa hoje) urna mudança radical de rumo na
( A leitura das obras de Vigotski mostra que uma das suas maiores
psicologia em geral e na psicologia do desenvolvimento em particular,
( deslocando o eixo da análise do plano biológico para o simbólico. preocupações ao longo dos seus escritos é mostrar que entre o plano das
funções elementares ou biológicas - plano da natureza - e o das fun-
Todavia, Vigotski deixou-nos algumas pistas, poucas, é verdade,
ções superiores - plano da cultura - existe, ao mesmo tempo, ruptura
( que nos permitem urna aproximação relativamente segura do que ele
e contirruidade, Ruptura pela ação transformadora que o signo (sistemas
( estava entendendo quando falava de cultura, tanto na forma substanti-
simbólicos) exerce sobre as funções naturais que passam a operar sob as
vada quanto na adjetivada. Uma dessas pistas é uma afirmação, extre-
( leis da história. Continuidade porque as funções superiores (culturais)
mamente lacônica, que ele faz quase de passagem e que pode muito
( pressupõem, necessariamente, urna base natural, biológica, que as tor-
bem ser considerada uma definição. Diz Vigotski (1997: 106): "Cultura é o
ne possíveis e concretas. "A cultura - diz Vigotski - não cria nada,
( produto, ao mesmo tempo, da uida social e da atividade social do homem".
apenas modifica os dados naturais para adaptá-los aos objetivos do ho-
( Apesar de não vir acompanhada de outros comentários, há razões mem". (1994: 59) A expressão "a cultura não cria nada" deve ser enten-
( para pensar que esta afirmação tem um sentido mais profundo do que dida, logicamente, no sentido de que ela pressupõe a natureza. A cultu-
( parece à primeira vista, estando longe de ser. mais urna definição entre ra transforma o dado natural, não o cria, entendendo o verbo transfor-
as muitas que já engrossam o repertório conceitual existente. Com efei- mar no seu sentido etimológico, de conferir uma "forma" nova, e a pala-
to, lembrando que a matriz que inspira o pensamento de Vigotski é o vra "forma" no sentido aristotélico do termo. A natureza continua sen-
( materialismo histórico e cíialético, corno ele deixa claro em vários dos do uma realidade "natural" mesmo após adquirir um modo simbólico
( seus textos, pode deduzir-se facilmente que Vigotski está afirmando, de de existência. O homem transforma a natureza adaptando-a aos objeti-
( maneira lacônica, algumas das teses mais importantes de Marx e Engels vos que ele se propõe. E quais são esses objetivos senão a construção
a respeito da Natureza e do Homem e que é.nesse contexto que a ques- das próprias condições de existência que determinam seu modo de ser
(
tão da cultura adquire- em Vigotski sua verdadeira dimensão. humano? Justamente aqui reside a diferença fundamental entre a espécie
(

(
\
(
90 fú MARCAS DO HUMANO 91
ANGELPINO

homo sapiens e as outras espécies geneticamente mais próximas dela: ao mesma ação humana. Ora, o que define o produto da ação humana é que
(
passo que para sobreviverem estas devem adaptar-se às condições de ele é a concretização da idéia que dirige a ação. Por exemplo, um produ-
( existência dadas pela natureza, a espécie homo sapiens cria suas próprias to, agrícola ou industrial, traduz, como diz Marx, a idéia ou projeto que
( condições transformando, em função de objetivos próprios, as que lhe o operário tem em mente ao realizar essa ação. No caso da ação técnica
são dadas pela natureza. (realizada com ajuda de instrumentos) o produto é uma forma material
Historicamente, a transformação da natureza pelos homens está portadora de uma idéia (ou significação); no caso da ação simbólica (rea-
ligada, intrinsecamente, à invenção de instrumentos e de símbolos. Ape- lizada com ajuda de símbolos) o produto é uma idéia à procura de uma
( forma material de expressão. Isso quer dizer que o que caracteriza a ação
sar da sua natureza diferente, tudo indica que o instrumento e o símbo-
( lo são duas criações contemporâneas e complementares, como afirma criadora do homem é conferir à matéria uma forma simbólica e ao sim-
( Leroi-Gourhan: bólico uma forma material. Trata-se de algo que, em geral, parece não
chamar mais a atenção como efeito tal:rez da habituação, ou seja, do fato
(
Não existe,provavelmente, razão de separar, nos estágiosprimitivos dos de lidar cotidianamente com as produções humanas que constituem o
( Antropianos, o nível da linguagem e o do instrumento, já que atualmente meio em que vivemos.
( e ao longo de toda a história o progresso técnicoestá ligado ao progresso
No caso das produções materiais, aquelas de que trata mais especi- .
dos símbolos técnicosda linguagem". (1964: 163)
( ficamente a teoria do trabalho social de Marx, se o produto do trabalho
( Segundo este autor, instrumentos e símbolos decorrem de um mes- preexiste como idéia na mente do trabalhador (Marx, 1977, livro I: 136)10,
mo equipamento fundamental no cérebro. O que o leva a considerar então ele é a materialização dessa idéia, a qual lhe confere significação.
que não só a linguagem (símbolos) é tão característica do homem como No caso das produções simbólicas, feitas exclusivamente de idéias (como
( a filosofia, a matemática, a literatura etc.), para que elas possam ter exis-
o instrumento técnico, mas que ambos são expressão de uma mesma
( propriedade humana: a capacidade de agir sobre a natureza e transfor- tência social (sair do casulo da subjetividade) precisam ter uma forma
( má-Ia, não esquecendo que esse homem é parte integrante da natureza material de expressão, pois, a materialidade é uma exigência da nature-
que ele transforma. Isso quer dizer que, como o mostra a história, evolu- za do signo, como será discutido mais adiante.
(
ção técnica e evolução simbólica marcham juntas ao longo da história do À guisa de conclusão deste capítulo, podemos afirmar que todas as
('
homem permitindo a construção dessa mesma história. produções humanas, ou seja, aquelas que reúnem as características que
( lhes conferem o sentido do humano, são produções culturais e se caracte-
Instrumentos e símbolos constituem os dois meios de produção da
( cultura. A dúvida que poderia ocorrer é sobre a maneira como esses rizam por serem constituídas por dois componentes: um material e ou-
meios se articulam. Dúvida não totalmente carente de sentido uma vez tro simbólico, um dado pela natureza e outro agregado pelo homem.
que, como o mostra a história moderna, existe uma certa dificuldade Isso explica por que as "funções psicológicas" são funções culturais, como
(
para articular o mundo técnico e o mundo simbólico. Entretanto, essa diz Vigotski, ou seja, funções constituídas por esses dois componentes.
( O conceito de cultura assumido neste trabalho pretende interpretar
dúvida pode facilmente dissipar-se se forem levados em conta dois pon-
( tos: primeiro, que esses dois meios, de natureza tão diferente, têm em corretamente o pensamento de Vigotski sobre esta questão. É um con-
( comum o fato, já apontado por Vigotski, de serem mediadores da ação
humana - sobre a natureza, no caso do instrumento, e sobre as pes- 10. "O resultado ao qual chega o trabalho preexiste idealmente na imaginação do traba-
soas, no caso do símbolo -; segundo, que ambos são já produtos dessa lhador." (Tradução minha).

1.
(

{ 92 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 93

(
ceito que contraria, entre outras coisas, o costume tão difundido de re- subconjunto de produções culturais em relação ao primeiro é a natureza
( duzir o conceito de cultura a uma ou outra forma de produção, de prefe- e o objetivo do produto final. Neste o produto é um objeto material com
( rência à produção estética (literatura, arte, folclore etc.). Dizer que a cul- j..IIf' urna forma de expressão simbólica; naquele o produto é um objeto sim-
tura é o conjunto das produções humanas equivale a dizer que estamos bólico concretizando-se numa forma material.
diante de um conceito que engloba uma multiplicidade de coisas dife-
O segundo subconjunto de produções culturais pode ser subdivi-
rentes que têm em comum o fato de serem constituídas dos dois compo-
dido em vários outros, em função das particularidades da sua forma
nentes que caracterizam as produções humanas: a materialidade e a signi-
material de expressão:
ficação. As diferenças que existem entre essas produções são então fun-
a) produções artísticas, nas quais a forma material de expressão é
ção da maneira como esses dois componentes se combinam. Isso nos
algo essencial desse tipo de produção;
permite estabelecer dois grandes subconjuntos de produções humanas
(
ou objetos culturais. b) instituições sociais, nas quais as significações (idéias, valores,
normas etc.) concretizam-se em'formas materiais de organização
O primeiro é formado pelos produtos da ação física do homem so-
( bre a natureza conferindo-lhe, com a mediação de meios técnicos, uma das relações sociais e dos comportamentos dos sujeitos dessas
( forma material que veicula uma significação (agregado simbólico) que relações. Por exemplo, as formas de organização dos indivíduos
expressa o objetivo dessa ação, ou seja, para que foi realizada (por exem- na família, no Estado e na sociedade traduzem a significação que
plo, trabalhar a madeira com a ajuda de meios técnicos para dar-lhe a a cultura de cada sociedade atribui às relações sociais entre os
forma de "cadeira" é significar o que é esse objeto e para que ele foi membros que a integram;
feito). Neste caso, o produto é uma materialidade cuja forma revela a in- c) tradições (mitos, lendas, ritos, costumes etc.), nas quais as signi-
tenção que dirigiu sua fabricação (sua significação). ficações se concretizam em formas materiais de expressão que ser-
( Guardadas as devidas proporções, algo semelhante ocorre com as vem para conservar as significações que lhes dão origem. A di-
funções orgânicas: a ação da cultura (através das práticas sociais) confe- ferença entre as tradições e as instituições sociais é que naquelas
(
re formas a essas funções-que revelam a sua significação cultural (os obje- as formas materiais de expressão se impõem também como for-
( mas estéticas;
tivos da sociedade). Por exemplo, a função biológica da alimentação não
perde nada das suas características naturais quando adquire formas que d) sistemas de idéias (sistemas mitológicos, filosóficos, religiosos,
( representam a significação (valores e idéias da sociedade) das práticas jurídicos, científicos etc.) nos quais a forma material de expres-
( alimentares de um grupo cultural. são é a própria do signo, como será visto mais adiante.
O segundo subconjunto é formado pelas produções resultantes da
Na figura 4, os dois grandes subconjuntossão indicados com os números
atividade mental do homem sobre objetos simbólicos (idéias), com o uso
romanos I e II, respectivamente,e as divisões deste último vão seguidas
de meios simbólicos (diferentes tipos de linguagem), cuja exteriorização
das letras a, b, c, d. Na tentativa de dar visibilidade a cada um dos dois
(comunicação aos outros) se faz por intermédio de formas materiais de
componentesde toda obra cultural- o material e o simbólico- as dife-
expressão (fala, escrita, formas sonoras, formas gráficas, formas estéti- rentes áreas de produção cultural foram alinhadas em nível crescente,
cas etc.). Numa grande parte destas produções, a criação da forma mate- daquelas em que predomina o componente material a aquelas em que
rial exige uma atividade com o uso de meios tfcnicos - de maneira aná- predomina o componente simbólico, sendo que ambos estão presentesem
loga ao que ocorre com a produção técnica. O que diferencia este todas elas.
94 ANGElPINO
@~~ 95

SISTEMAS
TRADIÇÕES DE IDÉIAS
INSTITUIÇÕES
IVc IVd
ARTE SOCIAIS
TÉCNICA I1Ib I
lIa
I I
I
(
Componentematerial ~ ~ Componentesimbólico
(

Figura 4 - Representação gráfica dos diferentes tipos de produção cultural


Capítulo III

Revendo conceitos. Problemas conceituais


o grande desafio que se coloca ao estudioso e ao pesquisador que
na obra de- Vigotski
trabalha na perspectiva psicológica inaugurada por Vigotski é tentar
explicar como a cultura, sob todas essas formas em que se apresenta,
pode tornar-se constitutiva da natureza humana do homem. Como será INTRODUÇÃO
visto mais adiante, a chave está na mediação semiótica, uma vez que a
significação é o grande conversor da natureza em cultura e da cultura em Uma das coisas que mais chamam a.atenção ao leitor que lê a obra
natureza. de Lev S. Vigotski com a intenção de conhecer o seu pensamento é a
quase total ausência de definições dos termos que ele utiliza, mesmo
tratando-se de termos-chave para a construção desse pensamento. Isso
é tanto mais estranho que alguns desses termos são usados em psicolo-
gia e em outras áreas do conhecimento com um sentido que não corres-
ponde ao que parecem ter nas obras do autor. Um exemplo disso foi
visto no capítulo anterior dedicado à questão da "cultura", uma questão
central, pois confere à obra de Vigotski seu caráter inovador em psicolo-
gia, com possíveis implicações em outras áreas do conhecimento. O
mesmo pode-se dizer dos termos "função", "relações sociais" e "con-
versão" que, apesar de serem também essenciais na elaboração das idéias
do autor, em particular aquelas que são a base do assunto investigado
neste trabalho, não foram objeto de uma análise conceitual por parte
dele, razão pela qual fiz deles o objeto de análise neste capítulo.
A falta de um tratamento conceitual destes termos por parte de
( Vigotski impõe-nos uma grande vigilância ao tentar analisá-los, para
evitar interpretações inadequadas que poderiam comprometer a leitura
(

(
(

96 ANGELPINO Ió /lARCA5 DO HUMANO 97

(
compreensiva dos seus textos. A solução é tentar contextualizar tais con- tema das "funções", elementares e superiores, constitui o fulcro do de-
ceitos no quadro das idéias que constituem o locus das suas análises. bate dele com a psicologia da sua época. Razão pela qual aparece com
( Como venho sustentando em outros trabalhos (Pino, 2000a, 2000b, 1994), tanta freqüência na sua obra, tendo-fhe dedicado um dos seus textos
urna leitura correta da obra de Vigotski deve levar em conta a matriz mais densos e importantes (Vigotski, 1997). Todavia, o surpreendente é
(
que serve de referência às suas idéias. e à qual se refere, de maneira que ele utilize tanto esse termo e não se detenha a definir o sentido que
explícita, em diferentes ocasiões: o materialismo histórico e dialético. A tem para ele. Isso coloca ao leitor alguns problemas, não só pelos vários
( referência a essa matriz como contexto para interpretar conceitos ou idéias significados que o termo recebe na literatura como também por ele o ter
( cujo sentido não foi claramente explicitado pelo autor parece-me ser urna usado, indistintamente, junto com outros termos que aparecem como
garantia de fidelidade a esse pensamento. Este é o recurso que aqui será equivalentes ou, até mesmo, sinônimos, como "formas superiores de
(
utilizado sempre que for necessário.
conduta", "formas mentais" e "processos mentais superiores".
(
Caberia perguntar-se: qual teria sido a razão que levou Vigotski a
(
Paradoxalmente, a maneira indefinida ou vaga com que esse termo
não explicitar ou definir o sentido que ele dava a esses termos? É difícil
aparece, por falta de uma devida delimitação do seu sentido, abre a pos-
( saber. Será que eles seriam tão bem conhecidos pelos seus interlocutores
sibilidade de imaginar a "psique" humana - a qual, segundo o autor, é
da época que achasse desnecessário explicitá-los? Seria urna prática ha-
um complexo de funções - como algo dinâmico e em contínuo movi-
bitual do autor por não pensar, em princípio, na edição dos seus traba-
( mento; algo que não se cristaliza em formas acabadas, mas que se cons-
lhos? Ou será que ele pensava que o próprio contexto literário em que
( aparecem tais termos era suficientemente claro para não precisar analisá- titui de maneira constante; algo que, falando em termos metafóricos, se
los porque o leitor captaria facilmente seu sentido? situaria "entre a fumaça e o cristal".' ou seja, entre a fluidez de uma e a
(
fixidez do outro. Algo que nos faz pensar em fluxos criativos, fluxos de
( Na falta de uma resposta satisfatória a essas perguntas, parece mais
produção do ~elho no novo, do significado dado na flutuação do senti-
razoável pensar que o autor, simplesmente, não considerava necessário
( do. Entendida' assim a função, o ato de funcionar e o resultado desse ato
fazê-Ia, seja qual for a razão disso. O fato é que nós, leitores seus, temos
( fundem-se sem se confundirem. Por exemplo, as funções de "pensar" e
necessidade de saber que sentido esses termos têm para Vigotski, de for-
ma a poder ter a garantia suficiente de estarmos fazendo urna leitura dos "falar" só se concretizam no ato de pensar ou de falar alguma coisa; fora
(
seus textos que seja a mais próxima possível do seu pensamento. A análi- desses atos nada mais são do que meras capacidades de pensar e de
se conceitual que faço neste capítulo não pretende, de forma alguma, ser falar e mero registro da coisa pensada e falada. Isso permitiria ver a
a interpretação certa e única do sentido que esses termos têm para Vigotski. "psique" corno um complexo de atividades "virtuais", por usar a metá-
( Procuro apenas encontrar-lhes um sentido que seja minimamente coeren- fora da informática, que têm que se concretizar ou atualizar (no sentido
te com o seu pensamento nas questões em que tais termos estão clara- de mise en acte) para poderem funcionar. Por conseguinte, o termo fun-
(
mente implicad()s, de forma a poder trabalhar as idéias do autor. ção remeteria mais ao verbo funcionar do que ao substantivo função. De
(
que serve, com efeito, ter um soberbo equipamento eletrônico se ele não
( funciona? De que serve dispor de áreas de Broca e de Wernicke perfeita-
( SENTIDO DO TERMO "FUNÇÃO" mente normais se o indivíduo é surdo-mudo profundo? Pense-se o que
(
O termo junção é, sem dúvida, o mais freqüentemente usado por 1. Título de uma das obras do conhecido biólogo Henri Atlan, autor da teoria formal da
(
Vigotski na sua obra. Isso nada tem de estranho, pois, afinal de contas, o auto-organização, Entre le cristal et Ia fumée, Paris: Ed. du Seuil, 1979.

(
98
ANGELPINO AS MARCft5 00 HUMANO 99

se quiser a este respeito, é inegável que o verbo "funcionar" é um bom Num primeiro posicionamento, Vigotski refere-se à relação
( indicador para definir a "função". Embora não seja o único. Mas perma- interfuncional, ou seja, entre as diferentes funções psicológicas superio-
( nece a dúvida do leitor: até que ponto este é o sentido que teria para res que constituem a psique humana.tEssa relação, diz ele no "Manus-
( Vigotski? Exprimindo diferentes formulações em que esse termo apare- crito de 1929", outrora foi "relação real entre pessoas":
ce, em contextos temáticos diferentes, creio que a ausência de uma cris-
talização ontológica do conteúdo expresso por esse termo traduz me- Em forma geral: a relação entre as funções psicológicas superiores foi outrora
lhor que outra coisa o que são, para Vigotski, as funções psicológicas relação real entre pessoas. Eu me relacionocomigo tal como as pessoas se
"superiores", uma vez que as "elementares" aparecem ligadas a uma relacionaramcomigo [...]. A relação das funções psicológicas é geneticamente
estrutura orgânica, o que não impede todavia que também estas pos- correlacionada com as relações reais entre as pessoas. (2000:25,grifasdo autor)
(
sam ser vistas de forma semelhante.
( Parece-me que o sentido destas afirmações, em si mesmas, não é
Existem, porém, diversos textos na obra de Vigotski em que o ter- totalmente claro. O que é claro é que essas "funções" se organizam numa
mo "função" (no singular ou no plural) aparece em contextos temáticos rede interfuncional à maneira como as relações reais entre as pessoas se
que sugerem tanto o sentido de posição social, à qual vão associados organizam. Mas não é só, porque o autor afirma que essas relações fun-
determinados papéis, qu~nto o de correspondência entre elementos de cionaisforam outrora "relação real entre pessoas". O que explica que ele
dois conjuntos matemáticos. É verdade que a ausência de qualquer ex- diga que a gente se relaciona consigo mesmo como os outros se relacio-
plicitação por parte do autor não autorizaria a entender o termo dessa naram conosco. O que nos permitira pensar que a nossa maneira de ser,
forma. Todavia, é verdade também que com essa interpretação é possí- de pensar e de agir tem a ver com a maneira como os outros são, pen-
vel encontrar um aspecto original do pensamento do autor em concor- . sam ou agem em relação a nós. As funções não só têm sua origem no
( plano social mas recompõem, no plano pessoal, as relações de que par-
dância com a matriz teórica que serve de marco de referência à sua ela-
( boração da psique humana. ticipamos no plano social. Existe entre arnbas uma" correlação" de tipo
genético, ou seja, uma correlação entre a forma como ambas emergem.
Embora estes dois sentidos, o sociológico e o matemático, sejam
Num segundo posicionamento, Vigotski serve-se do exemplo da
muito diferentes, podem ser combinados numa perspectiva dialética se
função da palavra, de que fala Janet (1929), para explicar como as fun-
admitirmos que toda posição social é função de outra posição que, opon- ções funcionam.
( do-se a ela e negando-a, a constitui. É assim que podemos entender, por
exemplo, a relação do "mestre" e do "servo" de que fala Hegel em outro Ela (a palavra) é sempre comando. Portanto, é o meio fundamentalde do-
(
contexto. A posição de cada um se opõe e nega a do outro, mas, ao mínio [...]. Atrás do poder psicológicoda palavra sobre as funçõespsico-
( lógicasestá o poder real do chefee do subordinado. (Vigotski,2000:25,
mesmo tempo, é constitutiva dela, ao ponto de não poder existir uma
( sem a outra. Isso quer dizer que a posição social de "mestre" - a qual grifas do autor)
( define as funções que ele deve desempenhar na sua relação com o "ser-
Mas, o que pode significar "a palavra é sempre comando" se a ex-
( vo" - é função da posição social do "servo" - a qual define as funções
periência diária nos mostra que nem sempre utilizamos a palavra para
que ele deve desempenhar na sua relação com o "senhor". Vejamosal-
"comandar"? Por trás do aparente caráter enigmático de tal afirmação,
gumas passagens de Vigotski nas quais esta interpretação do termo fun- existem duas explicações complementares - na discussão que Vigotski
(
ção encontra uma razoável sustentação.
faz no texto de 1931, consagrado a discutir a questão das funções supe-
(
101
100 ANGELPINO AS MARCAS 00 HUMANO

riores (1997: 102-104) - que nos remetem à função da palavra, aquilo "funções superiores" e "relações sociais". Trata-se, sem dúvida, de urna
( que faz com que ela seja uma "função superior": posição totalmente nova em psicologia e que dá coerência ao conjunto
( • A palavra - signo por excelência - é o "meio básico de controlar o com- das idéias do autor. c

portamento" (1997: 103), tanto o dos outros, quanto o seu próprio. É o


Paráfrase de Marx: a natureza psicológica da pessoa é o conjunto das rela-
(
que Janet chama de "lei fundamental da psicologia", a qual, em essên- ções sociais, transferidas para dentro e que se tornaram funções da personalida-
cia, aplica-se ao signo, diz Vigotski, pois como é mostrado na análise da de e forma da sua estrutura. (idem: 27, grifas do autor)
(
estrutura do "movimento de apontar" - "lei geral" do desenvolvi- Indo mais longe, podemos dizer que todas as funções superiores se for-
mento cultural - as funções naturais só se tomam significativas para a maram não na biologia, não na história da pura filogênese, mas que o
criança graças à mediação do Outro que lhes atribui a significação. próprio mecanismo que é a base das funções mentais superiores é uma
cópia do social. Todas as funções mentais superiores são a essência de
A história do desenvolvimento de signos nos conduz à lei geral que con- relações intemalizadas de uma ordem social, uma base da estrutura so-
trola o comportamento. P. Janet a chama de lei fundamental da psicolo- cial do indivíduo. Sua composição, estrutura genética, método de ação
gia. A essência desta lei está em que, no processo de desenvolvimento, a _ numa palavra, toda a sua natureza - é social. (idem: 106)4
criança começa aplicando a si mesma as mesmas formas de comporta-
(
mento que os outros lhe aplicaram primeiramente. (1997: 102)2 • Finalmente, completando a idéia evocada pela VI Tese sobre Feuerbach,
( Vigotski faz uma afirmação que, no seu caráter extremamente lacônico,
( • A palavra tem como função primeira a comunicação entre pessoas, o como ocorre com freqüência nos seus escritos, parece reforçar a inter-
( que quer dizer que ela acontece num sistema de relação entre duas pretação do conceito de função que estou propondo aqui. Continuan-
pessoas (SI <=> S2) - toda relação implica dois sujeitos de relação, não do o texto citado acima, Vigotski afirma: "O homem, como indivíduo,
mais - cujo exemplo mais significativo é a relação entre alguém que conserva as funções de socialização"." Ora, numa outra tradução do
( manda e alguém que é mandado (o que não tem a ver, necessaria- mesmo texto russo feita por J. Wertsch (1981: 164), em vez de "fun-
( mente, com a questão da obediência). ções da socialização" fala-se em "funções da interação". Mera ques-
tão de detalhe? Certo, mas que ajuda a ver como o texto original está
(
Inicialmente, o signo é sempre um meio de contato social, um meio de se referindo ao que é essencial na constituição da relação que consis-
afetar os outros e, só depois, torna-se um meio de afetar-se a si mesmo. te, fundamentalmente, em ocupar uma posição de sujeito da relação
( (idem: 103)3 que é função da posição do outro.
(
Num terceiro posicionamento, retomando a "VI Tese sobre A afirmação "conservar as funções da socialização" sugere que o
( Feuerbach", Vigotski afirma, claramente, a identidade que existe entre que é internalizado das "relações sociais" não são as relações eITIsi, mas
(

2. The history of the development of sígns, leads us to the general law that controls 4.Going further, we might say that ali higher functions were formed not in biology, not in
behavior, P.Janet calls it the fundamentallaw of psychology. lhe essence of his law is that in the history of pure phylogenesis, but that the mechanism itself that is the basis of higher
(
the process of development, the child begins to apply the same forms of behavior to himself mental functions is a copy from the social. All higher mental functions are the essence of
( that the others initially applíed to him. internalized relations of social order, a basis for the social structure of individual. Their
3. lnitially, the sign is always a means of social connection, a means of affecting others, composition,genetic structure, method of action - ín a word, their entire nature - is social.
and only later does become a means of affecting oneself. 5. Man as an individual maintains the functions of socialization.
(
102 ANGELPINO 103
AS MARCAS 00 HUMANO

as funções que elas determinam e que os sujeitos da relação devem de- ceituais, não temporais). Um é quando ele fala da origem social dessas
sempenhar para que esta possa existir. Sim, porque uma relação não funções e da necessária mediação social (do Outro) no processo de sua
existe pelo simples fato de pôr duas pessoas juntas. A simples contigüi- constituição na criança. De forma cada vez mais enfática, Vigotski vai
dade gera agrupamento, mas não relações sociais. Estas supõem que o introduzindo nas suas análises a idéia de que a relação "Eu q Outro" é
indivíduo assuma, de forma espontânea ou impositiva, a posição que o fundamento da constituição cultural do ser humano. Outro momento
lhe cabe frente ao outro dentro da relação. é quando ele identifica essas funções com "relações sociais internaliza- .
(
Evidentemente, isso coloca a questão do que se entende por "rela- das", definindo assim a sua natureza e deixando claro que está falando
( ção social", a qual não pode ser definida como social se este último ter- de "relações sociais" tais como elas são entendidas por Marx, cuja refe-
rência é explícita. Podemos, portanto, concluir que estamos diante de
( mo não tiver uma conotação própria, pois, em si, toda relação entre pes-
dois conceitos diferentes de relação que traduzem duas formas concre-
soas é necessariamente social. Portanto, esperar-se-ia de Vigotski que
explicitasse o sentido dos termos "relação" e "relação social", devendo tas diferentes.
ser considerado este último um caso particular do outro, o qual é um No primeiro momento, Vigotski fala de "relações sociais" entendi-
conceito mais geraL Como o leitor pode ter constatado através das cita- das no sentido da sociabilidade humana em geral, a qual, por ser huma-
ções apresentadas acima" Vigotski não é suficientemente explícito a res- na, implica uma certa consciência de que essa sociabilidade se concreti-
peito da significação que ele atribui a todos esses termos. Isso não impe- za em relações ou vínculos do tipo Eu q Outro (não-Eu). É neste senti-
de, porém, que nós possamos arriscar uma significação que, se não é do que poderia ser entendida a seguinte afirmação de Vigotski: "Eu me
exatamente a que teria para o autor, pelo menos atenda ao sentido geral relaciono comigo tal como as pessoas se relacionaram comigo". (2000:
dos seus textos. 25) Isso nos remete ao princípio geral enunciado na discussão do "mo-
( vimento de apontar", ao qual já me referi várias vezes. Se o significado
( das próprias ações passa pela significação que o Outro lhes atribui, pode
SENTIDO DA EXPRESSÃO "RELAÇÕES SOCIAIS" concluir-se que o significado da condição de "eu" passa pela significa-
(
ção que lhe atribui o Outro. Voltando ao exemplo das funções da "pala-
( Nos trabalhos de Vigotski, duas idéias chamam particularmente a vra" em J anet, Vigotski fala da existência em cada um de nós de um
atenção pelo seu caráter inédito no pensamento psicológico: uma é a "Eu" e de um "Mi" (o outro do Eu), ou seja, que é a mesma pessoa que
( origem e a natureza sociais das "funções psicológicas superiores", ou ordena e que executa, que olha e que é olhada, que pensa e que é pensa-
seja, aquilo que a tradição psicológica identifica como a própria essência da etc. Antiga idéia em psicologia da dupla dimensão, ativa e passiva,
(
do psiquismo: inteligência, fala, memória, consciência etc.; a outra é que da pessoa. Por conseguinte, segundo Vigotski, não é correto atribuir ao
( essas funções, na sua origem, são "relações sociais entre pessoas", as cérebro (como se poderia deduzir-se dos trabalhos de Pavlov) ativida-
( quais, ao sereminternalizadas, tornam-se funções da pessoa, sem per- des que são funções da pessoa, como sonhar (no exemplo "eu tive um
derem seu caráter "quase social", como diz Vigotski. Surgem então duas sonho lindo"), pensar (no exemplo "tenho uma idéia"), sofrer (no exem-
questões: que sentido tem para Vigotski a expressão "relações sociais" e plo "estou com dor de cabeça") etc. O que significa que a pessoa é uma
(
como estas podem transformar-se em funções da pessoa? unidade "biológico-cultural" complexa que funciona de diferentes ma-
Vigotski coloca a questão da natureza spcial das "funções mentais neiras (por exemplo, sonha, tem consciência de que sonhou, sabe o que
superiores" em dois momentos diferentes da sua obra (momentos con- sonhou, conta o que sonhou e se alegra ou se angustia com seu sonho).
104
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 105

É por isso que, se sonhar, pensar, sofrer, ser consciente etc. são funções mostrar é que a relação entre pessoas se transforma em relação entre
comuns a todas as pessoas, o que se sonha, o que se pensa, como se funções na unidade de uma mesma "pessoa", o que confere às decisões
(
sofre e qual o nível de consciência que se tem variam de pessoa para humanas o caráter de drama. •
pessoa e na mesma pessoa em razão das circunstâncias. "Uma vez que No segundo momento, porém, Vigotski fala de relações sociais
a pessoa pensa - diz Vigotski - perguntamos: que pessoa?" (idem: em outro sentido que, embora não exclua o primeiro, confere-lhe uma
( 33). Por que é tão importante perguntar-se isso? - poderia indagar o outra dimensão: a que lhe é conferida na "VI Tese sobre Feuerbach".
leitor. Ao que o autor responde: "Porque, se as leis do pensar são as Isso nos permite afirmar que não só está assumindo que as "relações
mesmas, os processos são diferentes dependendo da pessoa em que eles sociais" se convertem em funções psicológicas, mas que elas são en-
(
ocorrem". Em outras palavras, não se trata de processos neurológicos tendidas no sentido marxista, pois nada autoriza a pensar que a refe-
( autônomos que obedecem a um padrão comum a todos os organismos rência à tese de Marx seja um mero efeito de linguagem, urna vez que
( humanos, mas de atividades personalizadas. Não é o cérebro que sonha essa tese tem um sentido claro rio- contexto teórico em que aparece.
ou pensa, mas a pessoa. Claro que se o cérebro não funcionasse, a pes- Com efeito, como já tive oportunidade de discutir em outro lugar (Pino,
soa não poderia nem sonhar nem pensar. Mas não basta que o cérebro 2000b), ela sintetiza a crítica que Marx faz à concepção de homem,
funcione para que poss!'lmos falar de sonho ou de pensamento. Para genérico e abstrato, que Feuerbach apresenta na sua crítica ao idealis-
tanto é necessário que alguém sonhe ou pense. Sonhar e pensar são mo dos neo-hegelíanos." Marx critica Feuerbach por ter feito do ho-
funções da pessoa, porque só ela pode sonhar ou pensar isto ou aquilo, mem, na sua crítica ao idealismo, um simples produto das circunstân-
desta ou daquela maneira, em função da posição que ela ocupa no cam- cias materiais, esquecendo-se que são os.homens que transformam essas
po das suas relações sociais. circunstâncias com o seu trabalho e não ao contrário, e que, ao fazê-lo,
(
Na afirmação de Vigotski "Eu me relaciono comigo tal como as transformam-se eles mesmos. Ou seja, Marx critica o materialismo re-
(
pessoas se relacionaram comigo" existe urna referência, mais ou menos ducionista ~ que chega Feuerbach. Em contraposição, ele vai propor
explícita, a uma outra problemática que permite avançar na discussão um materialismo histórico, segundo o qual a maneira como os homens
do sentido da relação social: é a problemática da mediação da palavra na produzem/reproduzem pelo trabalho social seus meios de existência,
relação Eu <=> Outro; na qual o Outro, de realidade física externa, torna- física e social, representa o seu modo de vida próprio, o qual reflete mais
se realidade psicológica interna, formando com o Eu duas dimensões de precisamente o que eles são. Existe, portanto, urna estreita dependência
uma mesma e única pessoa. Em outros termos, a relação interpessoaZ con- entre o modo de produção (trabalho social), o tipo de relações sociais que
( daí decorrem e o modo de ser dos homens (sua essência). Isso quer dizer
verte-se em relação intrapessoal. Numa interpretação simples das palavras
( de Vigotski, alguém poderia pensar que o que ocorre no nível da pessoa que se, de um lado, eles entram, por meio do trabalho, em contato com
( é urna imitação do que ocorre no nível da relação social Eu <=> Outro. a natureza para transformá-Ia, de outro, a divisão do trabalho e o tipo
Porém, numa interpretação mais precisa, pode-se perceber que se trata de intercâmbio que ela cria geram relações sociais que eles não contro-
(
de algo bem mais profundo: é o Outro tornando-se parte da pessoa, o U
lam. Nesta perspectiva, o que impulsiona a história é a maneira como
{
eterno sócio do eu", corno diz Wallon. Ou, em termos mais precisos, éa
( significação que a palavra do Outro tem para o Eu. O que lembra, em 6. "Mais l'essence humaine n'est pas une abstraction inhérente à l'individu singulier.
Dans sa réalité, cest l'ensemble des rapports sociaux" (A essência humana, porém, não é
( parte, a idéia freudiana de superego, e que permite a Vigotski trazer à
uma abstração inerente ao indivíduo singular. Na sua realidade, é o conjunto das relações
tona a idéia de homo duplex. Concluindo, o que Vigotski está procurando sociais). Marx e Engels, UIdéologíe allemande, teses de Feuerbach, Paris: Ed. Sociales, 1976.
(
.>

107
106 ANGELPINO AS MARCAS 00 HUMANO
(

( então que essas funções se constituem no sujeito à medida em que ele


ocorre o processo da produção, o qual está na origem da transformação
~ das relações sociais, das diferentes formas de dominação e dos modos de participa das práticas sociais do seu grupo cultural.
e
( existência material e moral. 'I Mas que entendo por práticas sociais?
( Ao assumir que as funções mentais superiores, definidoras do caráter Em termos bastante genéricos, por práticas sociais estou entenden-
humano da natureza do homem, são relações sociais, Vigotski muda os do as várias formas - socialmente instituídas ou consagradas pela tra-
rumos do pensamento psicológico indicando a verdadeira natureza do dição cultural dos povos - de pensar, de falar e de agir das pessoas que
psiquismo. A idéia de Marx, de que não é a consciência que determina a integram uma determinada formação social. Poderíamos dizer que, em
vida, mas a vida que determina a consciência (1976),Vigotski estende a realidade, são representações sociais acerca da maneira como um deter-
todas as funções superiores. Assim, pensamento, linguagem, consciên- minado grupo cultural entende que devam ser as relações entre as pes-
cia, percepção, memória ete. não preexistem às condições reais de exis- soas; representações que tomam corpo e se realimentam no pensar, no
(
tência criadas pelos próprios homens, mas emergem a partir delas. Em dizer e no agir concretos das pessoas.-Dois aspectos parecem caracteri-
( zar as práticas sociais em relação a outras formas de conduta social: de
outros termos, isso quer dizer duas coisas: primeiro, que são as condi-
ções de existência criadas pelo homem (qualquer que seja a sua possível um lado, terem uma certa configuração (o que as torna identificáveis)
conotação), não as condiç?es naturais, que podem dar origem a essas que se perpetua num certo tempo e num certo espaço; e, de outro lado,
funções, embora estas condições constituam os alicerces delas; segun- veicularem uma significação partilhada pelos integrantes de um mesmo
(
do, que essas funções não são anteriores ao desenvolvimento histórico grupo cultural, como se pode observar, por exemplo, nas "práticas dis-
( cursivas" próprias de uma determinada ~/formaçãodíscursiva"." Estas
do homem, mas que se constituem nele, ao mesmo tempo que elas o
características transformam as práticas sociais em formas significantes
constituem. Seria, portanto, ingênuo pensar que Vigotski fala de rela-
de modos de falar, de pensar de agir etc., o que faz com que o cotidiano
ções sociais como se fossem relações naturais decorrentes de uma socia-
seja um grande e complexo sistema de ritualizações.
( bilidade regida pelas "leis" da natureza e, portanto, ideologicamente
neutras. Muito longe disso, Vigotski está falando de relações que vão Pode-se concluir que as funções mentais superiores não são sim-
(
além do que pode ser entendido como uma intersubjetividade "priva- ples transposição no plano pessoal das relações sociais, mas a conversão,
(
da" (relações espontâneas entre pessoas em razão de interesses subjeti- no plano da pessoa, da significação que têm para ela essas relações, com
vos ou sentimentos particulares). as posições que nelas ocupa e os papéis ou funções que delas decorrem
e se concretizam nas práticas sociais em que está inserida.
Um sistema de relações sociais é um sistema complexo de posições e
de papéis associados a essas posições, as quais definem como os atores Existe uma semelhança estrutural entre o conceito geral de "rela-
(
sociais se situam uns em relação aos outros dentro de urna determinada ção" e o conceito de "signo" tal como é entendido por autores como
c.
formação social e quais as condutas (modos de agir, de pensar, de falar e Peirce (1990). A razão disso é que todo "signo", como veremos com
( detalhe mais adiante, é uma relação entre dois elementos (Signo Ç::::>
de sentir) que se'espera deles em razão dessas posições. As relações
Objeto) em função de um terceiro (Interpretante), princípio ou razão
sociais concretizam-se,'portanto, em práticas sociais. Resumindo, nos ter-
dessa relação. Como pode ser observado graficamente nas figuras a
I
\
mos em que fala Vigotski, as "funções mentais superiores" traduzem a
seguir, ambos os conceitos, o de signo (1) e o de relação em geral (2),
maneira como os indivíduos se posicionam uns em relação aos outros
(
no interior do sistema de relações sociais de uma determinada socieda-
(
de e esse posicionamento se concretiza nas práticas sociais. Conclui-se 7. Cf. M, Foucault. A arqueologia do saber, 1986.
(

-"
(

108 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 109

constituem uma estrutura em T, na qual dois elementos entram em "",_. • a razão ou princípio de toda relação é, portanto, da ordem da
relação em função de um terceiro ("]" e "Z" respectivamente) cuja posi- significação;
(
ção na estrutura é, ao mesmo tempo, razão e resultado da relação dos •
• pode-se concluir, portanto, comparando os diagramas (1) e (3),
( outros dois elementos: que o que define a relação social é o elemento "Z", ou seja, a
razão ou princípio que define essa relação (historicamente, não é

(1)1 S<T O
I (2) I X<T" I
difícil perceber que grande parte dos sistemas de relações sociais
instituídos nas sociedades arcaicas e modernas tem como princí-
pio "Z" a dominação, sob as mais variadas modalidades. O que
não pode ser afirmado, em princípio, sobre outras formas de re-
Figura 5 - Diagramas das estrutura do "signo" (1) e da "relação" em geral (2). lação intersubjetiva).

Se esta leitura estiver correta, isso significa que, para Vigotski, a es-
Se a "relação", em geral, tem a mesma estrutura do "signo", pode- sência das relações sociais, aquilo que constitui a base da estrutura social
se dizer que a função do terceiro elemento em ambos os casos é de natu- da pessoa, são as "funções" das interações que ocorrem entre os sujeitos
reza semiótica, ou seja, da ~ordemda significação. Além disso, se a "rela- da relação. O que, no meu modo de ver, é o jogo determinado pelas posi-
( ção social" (3) é um tipo particular de relação, então sua estrutura deve ções sociais que os sujeitos ocupam nela e as respectivas "funções sociais"
ser a mesma, o que faz com que a função do seu terceiro elemento seja ou papéis a elas associados. É fácil entender que a posição de "emprega-
também de natureza semiótica. do" que uma pessoa ocupa numa relação "empregado <=:} empregador"
determina uma "função social" que é função da "função social" do "em-
pregador" e .vice-versa:funções ou papéis bem diferentes dos determi-

I s,' 1 • s, I
nados pela posição que essa mesma pessoa ocupa como "pai" numa
(3) relação "pai Ç::} filho". Mas, nos dois casos, as posições e as funções a
elas associadas são determinadas (dependem da) pela significação que
lhes é atribuída numa determinada formação social, caracterizada por
Figura 6 - Diagrama da estrutura da "relação social" um determinado modo de produção que define como às relações devem
funcionar ("ordem social"). Isso permite dizer que a significação que cada
(
um atribui às possíveis "posições" que ele ocupa nas relações sociais de
( Comparando entre si estes três diagramas, pode-se concluir várias que participa determina a dinâmica de suas posições e das "funções" a
(
coisas: elas atribuídas, dinâmica que, em última instância, é função da dinâmica
• o diagrama (2) define o que seja a relação em geral e, por conse- determinada pelas "posições" e "funções" do Outro com quem entra
(
guinte, define também uma relação social (3) que é um caso par- em relação. Isso quer dizer que a relação social é de natureza dialética, o
ticular dela. Dessa maneira, o que diferencia os inúmeros tipos de que se aplica a cada uma das funções mentais superiores e à relação
relação, espontânea ou institucional, é o elemento Z, que na estru- delas entre si ou interfuncional.
tura do signo (1) equivale ao Interpretante, ou seja, à razão ou Esta maneira, nada comum, de conceber a "função" (como expres-
( princípio que rege a relação dos dois elementos que o constituem; são da "posição social" ou como princípio que rege as "funções" dela
110
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 111

" decorrentes) não exclui a idéia de "funcionar" a que me referi no início, e gênese das funções psicológicas superiores, ao passo que conversão
pois para que os sujeitos possam entrar em relação, as "posições" e as conduz a pensar na ocorrência nas funções de algum tipo de mudança
( "funções" ou papéis a elas associados têm que funcionar ou, em outras I;
).1
ao passar de um plano para o outro: indicando o que parece ser a condi-
palavras, têm que ser operantes e não meramente platônicos, como o ção para que a passagem possa ocorrer, ou seja, a natureza do processo,
mostra a história social dos homens. não apenas sua existência. Se o termo internalização coloca o problema
Poder-se-ia concluir então que as "funções mentais" nos refeririam, do risco de dualismo que representa a afirmação de dois espaços físicos,
ao mesmo tempo, ao "princípio da relação" - o que faz que um certo S1 apesar de não ser essa a intenção de Vigotski (Pino, 1992),por sua vez, o
entre em relação com um certo S2- e às suas conseqüências sociais. termo conversão, se bem que não se presta para interpretações dualis-
Nesta linha de raciocínio, podemos então dizer que as funções mentais tas, exige todavia uma explicação mais apurada em razão dos seus di-
superiores de que fala Vigotski são a conversão, no plano pessoal, da signi- versos sentidos.
ficação que os "princípios" constitutivos das relações sociais e suas con- Diante do fato de Vigotski usar, o termo conversão sem explicitar o
seqüências têm numa determinada sociedade. Em outras palavras, as sentido que ele lhe atribui, restam ao leitor duas opções: ou descartá-lo
funções mentais constituiriam a projeção no plano pessoal (da subjetivi- por falta de suficiente explicitação, ou tentar encontrar, no contexto em
dade? da consciência?) d~ trama da complexa rede de relações sociais em que é utilizado, um sentido que estejaem consonância com o pensamento
c. que cada ser humano está inserido no interior de uma determinada so- de quem o utiliza. Como este assunto já foi tratado em outro trabalho
ciedade com um determinado modo de produção e de acesso aos seus (Pino,2000a:67-69),retomarei aqui as principais idéias desenvolvidas nele.
produtos materiais e imateriais. Nos vários sentidos em que o termo "conversão" é utilizado na
Não é difícil perceber quanto esta concepção do desenvolvimento e linguagem comum e erudita existe a idéia de que nesse processo o que é
da constituição do ser humano difere das outras concepções psicológí- objeto de c,?nversão perde algo do que era para adquirir algo que não
cas, ou mesmo sociológicas e antropológicas. Trata-se, na realidade, de era, conservando, todavia, algo do que era, pois do contrário não se
um paradigma bem diferente daquele que tem orientado os trabalhos poderia falar de conversão no sentido etimológico do termo. Do verbo
no campo da psicologia e, de forma geral, das ciências humanas. latino convertere, o sentido básico de conversão é "voltar-se para ..." ou,
por analogia, "passar de uma crença para outra", trate-se de idéias, cau-
sas políticas ou princípios morais. Nesta última acepção, o objeto da
o SENTIDO DO TERMO "CONVERSÃO" crença muda, mas nem a pessoa deixa de ser ela mesma nem o ato de
( acreditar desaparece.
Em alguns textos, Vigotski (1997, 2000) utiliza com freqüência o Outro sentido em que o termo conversão tem sido utilizado mais
termo "conversão" no lugar de "internalização". Embora essa substitui- recentemente é o de "transformação" de uma coisa em outra, como a
ção indique que, mesmo sendo diferentes, os dois conceitos dizem res- mudança de estado social das pessoas - por exemplo, passar do estado
(
peito a um mesmo fenômeno que ocorre na subjetividade dã pessoa, o jurídico de solteiro ao de casado, do estado leigo ao estado religioso e
( termo conversão parece mais adequado que o de internalização para vice-versa - e a mudança de um estado físico para outro - por exem-
( traduzir a natureza do fenômeno a que Vigotski se refere. Com efeito, o plo, a passagem dos corpos do estado líquido para o gasoso ou para o
( termo internalização conduz a pensar na existência de dois espaços físi- sólido. Também na acepção de transformação de estado a conversãopres-
cos - um externo, ou social, e um interno, ou pessoal- na constituição supõe a idéia de aquisição de algo novo e a conservação de algo já exis-
(
(

(
112 ANGELPINO @ffi!M~ 113

tente: a composição química da água não se altera apesar das diferenças


de estado por que passa.
~
Segue-se dessa breve análise que o termo conversão, em quaisquer
destas duas acepções, implica uma "diferença" de uma semelhança. No
campo psicológico em que se colocao processo ao qual se refere Vigotski,
esse termo leva seja à idéia de réplica, de que fala Wallon (1942)ao ana-
lisar o fenômeno de imitação de modelos pela criança, seja à idéia de
mudança do sentido atribuído às coisasou, ainda, de re-significação,como
Capítulo IV
ocorre no processo de "conversão religiosa". Parece-me que esta última
acepção do termo conversão é a mais adequada para entender o que Questão semiótica e desenvolvi mento
Vigotski quer dizer quando afirma, de maneira surpreendente para a cultural em. Vigotski
psicologia de época: "Todas as funções mentais superiores são a essên-
cia de relações da ordem social internalizadas, base da estrutura social
do indivíduo". (1997: 106) Isso significa que a internalização das rela- SEMIÓTICA: ASPEOOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS
ções sociais consiste numa conversão das relações físicas entre pessoas
em relações semióticas,dentro da pessoa. Em outros termos, algo que ocorre
A etimologia do termo "semiótica" nos remete aos termos gregos
no mundo público passa a ocorrer também no mundo privado. Isso
sêmeion (traduzido em latim por signum e em português por signo),
implica duas coisas: uma transposição de planos, como indicado pelo sêmasia (significação) e ao verbo sêmainein (significar). Os radicais sêmeio
termo internalização, e a ocorrência, nessa transposição, de uma mu- (latinizado semio-) e outros da mesma família, como sêma- e sêman-, cons-
dança de sentido nas relações sociais. Não podemos esquecer que a pala-: tituem a base morfológica de uma série de vocábulos utilizados no cam-
vra sentido implica não só "modo de ver" as coisas, mas também" dire- po genérico da serniótica (como semântica, semiologia, semasiologia,
ção" ou orientação de um móvel ou conduta. sematologia etc.), os quais rivalizam, do ponto de vista terminológico,
A conversão supõe a mudança de um estado ou condição "x" para com termos como semiótica e semiologia, este último ligado, desde o
um estado ou condição "y" onde algo essencial permanece constante. século passado, à tradição lingüística estruturalista de Ferdinand de
Na conversão das relações sociais em relações intrapessoais, o elemento Saussure, continuada por autores corno Louis Hjelmslev e Roland
que permanece é a significação dessas relações, tanto no plano social Barthes. A esse respeito Winfried Nõth afirma (1995: 25): "Semiologia
quanto no pessoal. Mas essa significação muda de estado e de direção: de permaneceu durante muito tempo como o termo preferido nos países
social torna-se pessoal- incorporando-se na pessoa como base da sua românicos, enquanto que autores anglófonos e alemães preferiram o
estrutura social -:- e de agente externo - imposição social - torna-se termo semiótica". Evidentemente, não se trata apenas de preferências
agente interno - orientador da própria conduta. Cabe lembrar a função terminológicas, mas de concepções que se opõem a respeito do papel
que o signo desempenha, como lembra Vigotski repetidas vezes, de "con- respectivo da semiótica- vista como a "ciência mais geral dos signos",
trole" externo que passa a ser interno (auto-controle). Dessa forma, a tal como a entende Charles S. Peirce (1990) - e da semiologia lingüística,
significação que as relações sociais têm para quem delas participa permi- a qual seria a intérprete final de qualquer sistema sígnico. Nas últimas
te a este a realização da sua condição de peqsoa que vive, ao mesmo décadas, porém, a tendência a fazer da semiótica a ciência dos signos
tempo, na esfera do mundo público e na esfera do mundo privado. tem prevalecido entre os autores.
"
( 114 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 115

(
Segundo Umberto Eco (1988), a idéia de uma doutrina dos signos signos, ao responder à questão de se existe ou não adequação dos sons
( teria surgido com os estóicos e o termo sêmeíotíké teria sido usado pela dos nomes às coisas que eles evocam e
ou se eles apenas refletem o uso
primeira vez por Galiano. Desde então, diz ele, cada vez que na história das pessoas ou a convenção social. A posição de Platão é a de que a
do pensamento ocidental surge a idéia de uma ciência semiótica é defi-
linguagem é um instrumento do pensamento e de que a prova de sua
nida como "doutrina dos signos".
veracidade não está na convenção social, mas na sua propriedade de
Para Tzvetan Todorov (1977), assumindo como ponto de partida a expressar corretamente o pensamento verdadeiro.
noção genérica de semiótica, entendida como teoria geral dos signos, é
possível destacar nela dois componentes: 1) referir-se a um discurso cujo Pode-se dizer, como afirma Nõth (1995: 29-30), que, em Piatão, o
objetivo é o conhecimento e 2) ser constituída de signos diferentes, não conceito de signo - o signo oral, pois ele era um forte opositor da lín-
apenas de signos lingüísticos. Portanto, falar em teoria geral dos signos gua escrita - envolve três elementos: o nome (nomos); a idéia (efdos) e a
(
implica que existem diferentes tipos de signos, lingüísticos e não lin- coisa (pragma). Mas como ele atribui ~s idéias uma forma de existência
/

güísticos, e que o objetivo do signo é o conhecimento. Todavia, esta é independente da realidade, constituindo um mundo próprio de onde
" uma questão polêmica até hoje. elas emigram para a mente humana quando esta se depara com a reali-
( Segundo Todorov,a história da semiótica pode ser dividida em dois dade das coisas (sombras projetadas no fundo da caverna), deduz-se
períodos: que os nomes das coisas, ou seja, os signos, convencionais ou naturais,
• o clássico, que se estende desde os gregos - período do nasci- representam as coisas só parcialmente e que, portanto, o conhecimento
mento da semiótica corno "ciência dos signos" - até o fim do mediado por palavras é inferior ao conhecimento direto das coisas for-
século XVIII- momento de crise do simbolismo - e cujas prin- necido pelas idéias (concepção racionalista do conhecimento). Isso daria
( cipais linhas de pensamento são Platão, Aristóteles, os estóicos e um esquema parecido com este:
( Santo Agostinho;

--.
• e o romântico, a partir do século XVIII, quando se opera urna
mudança radical na reflexão sobre o símbolo.
.
l,

\ Ao longo desses períodos, o conceito de signo é objeto de formula-


NOMES DAS COISAS
nomos
IDÉIAS
eidos ••• • COISAS
pragma
ções diferentes; todavia, com Santo Agostinho, adquire já uma formula-
ção que o aproxima do conceito de signo de certos autores contemporâ-
( Figura 7 - Diagrama do signo em Platão
neos como Peirce.
(

( Período clássico
( Contrariamente a seu mestre Piatão, Aristóteles (384-322 a.C.)2con-
( Num dos seus "diálogos", o Crâiilo, dedicado à discussão da lin- sidera que a linguagem (o lagos) é a característica distintiva da espécie
guagem, Piatão (428:-347 a.c.)! aborda vários aspectos da teoria dos humana e sua função - como aparece nos primeiros capítulos do De
(

(
1. Cf. o verbete "Plato" in Encuclopaedia Briiannica, 1978, v. 14: 531-539. 2. Cf. o verbete "Aristotle" in Encyc/opaedia Britannica, 1978, v. 1: 1.162-1.171.
(
(
(

( 1
( 116 ANGELPINO /J5 MARCAS DO HUMANO 117

(
interpretatione, um dos textos mais importantes do conjunto de estudos Como em Aristóteles, a teoria do signo nos estóicos" é aparentada à
(
sobre lógica que compõe o Organon - é expressar os estados da alma. teoria da lógica das proposições que. tem por objetivo o conhecimento,
( Os sons emitidos pela voz são os símbolos desses estados, da mesma diferente da perspectiva lingüística que está interessada na comunica-
forma que as palavras escritas o são das palavras faladas. A partir daí é ção. A lógica das proposições capta os fatos no seu devir na condição de
(
possível deduzir que as palavras são signos com uma estrutura triádica, eventos. Ora, como o salienta Todorov (1977:21),são justamente os even-
como já pensava Platão, mas na qual a relação entre os termos é um tos - e não as relações entre os elementos verbais da lógica silogística
(
pouco diferente, como é mostrado na figura abaixo: - que serão tratados como signos, de forma que ao signo lingüístico
acrescenta-se o não-lingüístico. O problema da articulação dessas duas
( teorias do signo define a essência dos debates sobre semiótica ao longo
( dos séculos.

( I SONS J ~
ESTADOS
DA ALMA
~ l-COISAS I Para Urnberto Eco (1984:38-42),·'osestóicos não parecem ligar cla-
ramente a doutrina da linguagem e a doutrina dos signos. Quando se
(
referem à linguagem oral eles distinguem, de forma clara, expressão,
( (símbolos) (imagensdo real) (real)
conteúdo e referente. O que daria um esquema mais ou menos como o
( indicado na figura 9, o qual é semelhante ao que é apresentado no signo
Figura 8 - Diagrama do signo em Aristóteles
( em Vigotski:

--.
(

( Cabe notar que nessa concepção da linguagem os "sons" são dife-


rentes entre os homens, ao passo que os "estados da alma" - dos quais
eles são os signos imediatos - e as "coisas" - das quais os estados da
alma são as imagens - são sempre os mesmos.
EXPRESSÃO"
sêmainon

Figura 9 -
CONTEÚDO
sêmainómenon --.
Diagrama do signo lingüístico nos estóicos
REFERENTE
tngxánon

Segundo nota Todorov, quando Aristóteles se refere à linguagem,


( símbolos e signos são usados indistintamente, os primeiros sendo um
( tipo particular dos segundos. Porém, quando ele se refere à lógica - No concemente à expressão, ainda segundo esse autor, eles distin-
( como nas Primeiras analíticas e na Retórica - o signo tem um caráter téc- guem na palavra o "som" propriamente dito (o elemento acústico em si
( nico mais preciso, permitindo pensar uma semiótica que não seja lin- mesmo) daquilo que permite relacionar um som específico (variável se-
güística. Nesse caso, o signo é a "premissa" de um silogismo em que a gundo as línguas) com o conteúdo.
"conclusão" é a coisa designada que está ausente e que o signo torna-a
( presente (exemplo: afirmar que "esta mulher está tendo leite" é o signo
3. O estoicismo é uma escola de pensamento que floresceu na Grécia e em Roma no
( de que ela "deu à luz"); portanto a conclusão está implicada na premis- período que vai do século II a. C. até o século II d. C. O nome dessa escola vem de 5 toaPoikile,
( sa, ou seja, o signo representa a coisa. Este conceito de signo abre o cami- lugar onde lecionava seu fundador, Zenon de Citium (Chipre). Alguns de seus representantes
são: Cleantes de Assos, sucessor de Zenon à frente da escola; Panetius e Poseidoriio, de Ro-
nho para uma semiótica equiparada à lógica, corno dirão os estóicos e,
das, durante o segundo período da escola, e Sêneca, Epítetus e Marco Aurélio, no último
muitos séculos depois, Peirce. período romano.
(
(

(
l
( 118 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 119

(
Dos três elementos, a expressão e o referente são corpóreos, ou seja, • "Quando se escreve uma palavra, apresenta-se para os olhos um
(
realidades perceptíveis, ao passo que o conteúdo é incorpóreo, ou seja, é signo, que desperta na mente o que se percebe com o ouvido";
e.
( um "ente de relação", uma maneira de ver as coisas (o referente). Entre • "A função do signo é significar (signum facere) coisas ou estados
( os entes incorpóreos os estóicos incluem o lekton, o qual, segundo os da alma".
( intérpretes do pensamento estóico, é uma categoria do pensamento, uma
"proposição". Os estóicos falam de dois tipos de lekton: o incompleto, Referindo-se especificamente à palavra (verbum), ele diz que as pa-
(
como o sujeito e o predicado (categorias gramaticais e léxicas) e o com- lavras são signos das coisas ou de outros sinais e que sua finalidade é
pleto, que é uma representação do pensamento, aquilo que pode ser ensinar algo (conhecimento) ou recordar algo a respeito das coisas. O
( dito pelo discurso (o "dicível", de Santo Agostinho), mas que se situa no som indica à mente do ouvinte a coisa que por ele é significada. Isso
( nível da própria linguagem, não no nível dos interlocutores. Embora nos permite dizer que o signo agostiniano tem uma estrutura triádica:
dependa do pensamento, o lekton não é, porém, o pensamento, mas aqui- signo q significado q coisa. Em De Doutrina cristã (lI, 1, 1), ele se refere
(
lo sobre o qual este opera. Trata-se de uma proposição, uma categoria ao signo como sendo uma coisa que, além de produzir uma impressão
semiótica. Segundo Umberto Eco, quando os estóicos se referem ao signo sensível nos sentidos, evoca outra coisa na mente. Segundo ele, existem
( coisas que são usadas como signos e coisas que não o são porque sua
(sêmeion), parecem referir-se a "algo que é djretamente evidente e que
conduz a concluir a respeito da existência de algo que não é imediata- natureza não o permite (corno pedra, madeira etc.). Mas, se nem todas
mente evidente". (Idem: 39) Embora referindo-se a eventos físicos (como as coisas são signos, todo signo deve ser uma coisa, ou seja, ter alguma
ocorre no exemplo: "se fumaça ... logo fogo") o modelo estóico de signo materialidade para que possa existir. O que aproxima seu conceito de
(
signo do de contemporâneos como Peirce.
tem a forma de uma implicação em que as variáveis são proposições
(
pelas quais se expressam os eventos. Após o que foi exposto e levando em conta as análises que faz
Todorov (1977: 34-58) sobre a semiótica agostiniana, pode-se dizer que,
Caberá a Santo Agostinho (354-430) realizar, alguns séculos de-
originalmente, o signo tem um duplo aspecto: é uma coisa sensível, pois
pois, a junção entre "teoria da linguagem" e "teoria do signo". Para
deve ser captado pelas pessoas corno sinal de alguma coisa, e é de natu-
ele, os signos constituem o gênero do qual os signos lingüísticos são
reza inteligível, pois veicula um conhecimento a respeito dessa coisa. As
uma espécie. No seu "De magistro" (1980), ele introduz uma série de
palavras nada mais são do que um tipo ou uma espécie de signo. Qual é
conceitos que constituem os elementos básicos de uma semiótica enten-
então o lugar dos signos lingüísticas no seio dos signos em geral? Pode-
dida como teoria dos signos; ao mesmo tempo, deixa claro que a lingua-
( se responder dizendo que, enquanto a interrogação for apenas sobre a
gem faz parte dessa teoria. Eis algumas afirmações suas no seu diálogo
(
linguagem verbal, permanece-se dentro do quadro de uma ciência da
com Adeodato:
linguagem; somente a eclosão do quadro lingüística possibilita a instau-
• "Chamamos signos a tudo o que significa algo, e entre estes en- ração de uma semiótica, como ciência geral dos signos. É nisso que reside
( contramos também as palavras"; o gesto inaugural de Agostinho: o que se dizia das palavras, no quadro de
( • "Toda palavra é signo, mas nem todo signo é palavra"; uma retórica ou de uma semântica, ele o transportara ao plano dos sig-
• "Ainda chamamos signos (insígnias) às bandeiras militares, que nos, no qual as palavras ocupam um lugar no meio de outros signos.

( são signos em sentido próprio, coisas que não se poderia dizer Como aponta W. Nõth na sua visão panorâmica da semiótica até o
das palavras"; século XIX(1995: 36-57),a "teoria geral dos signos" foi tema de diversos
(
(

(
120 ANGELPINO . 'I AS MARCAS 00 HUMANO 121

filósofos - como aparece, por exemplo, no "De signis" de R. Bacon (1215- lidade; de um lado, um modelo que ignora toda referência da semiótica
1294) e no "Tractaius de signis" de João de São Tomás (1589-1644).Esse ao mundo real concreto; de outro, um modelo que permite explicar esse
tema está intimamente ligado às grandes disputas filosóficas que atra- mundo que o signo representa. Não·é exagerado dizer que essas duas
vessam a história da filosofia, como o realismo e o nominalismo, o racio- linhas de pensamento marcam, de alguma forma, todos os trabalhos de
nalismo e o empirismo. Dentre as obras principais dessa época, desta- semiótica no século XX.
cam-se o Éssai sur l/origine dês connaissances humaines (1746), de Etienne
Dado que o objetivo deste capítulo não é discutir a semiótica, mas
B. Condillac (1715-1780),para quem o uso dos signos revela a fonte de
apenas contextualizar o trabalho de Vigotski - que pela maneira como
todas as nossas idéias; Semiótica (1746), primeiro tratado geral do signo,
ele aborda esta questão parece ter bastante a ver com alguns dos aspec-
de Johann H. Lambert (1728-1777); An essay concerning human
tos das concepções desses dois autores, sem, todavia se identificar com
understanding (1690),de [ohn Locke (1632-1704),onde o autor descreve
nenhuma delas -, limito-me a tecer algumas breves considerações so-
os signos como o grande instrumento do conhecimento, distinguindo
bre a semiótica e o signo em Saussuree Peirce a fim de ajudar a entender
dois tipos: as palavras e as idéias, estas representando as coisas na men-
melhor a concepção de signo na obra de Vigotski e o papel que ele lhe
te de quem as contempla (empirismo) e aquelas representando as idéias
reserva na sua teoria do desenvolvimento humano e, quando necessá-
na mente de quem as utiliza; Elements of philosophy concerning body (1655),
rio, complementá-Ia,
de Thomas Hobbes (1588-1679),para quem as palavras são os signos
das nossas concepções, não das coisas, portanto, a semiose é uma rede
de tramas mentais; e Lettres sur les aveugles (1748)e Lettres sur les sourds o signo em Ferdinand de Saussure
et muets (1751), de Diderot (1713-1784),que nas suas duas obras coloca
a questão da importância dos signos gestuais, chegando a sustentar Ferdinand de Saussure é conhecido, particularmente, pelas suas
que a linguagem gestual é mais expressiva e lógica que a verbal, a qual idéias sobre 9. teoria geral da linguagem, elaborada nos anos de 1881-
é linear. 1891, período em que ele era ainda professor catedrático na Sorbonne,
Paris, antes de sua ida para Genebra. Sua teoria está contida no célebre
Curso de lingüística geral (1969).4
Período moderno
Dois pontos principais podem ser destacados do pensamento de
Saussure que interessam mais particularmente a este trabalho: sua con-
No período moderno, o debate da questão semiótica está marcado
cepção da semiologia e sua teoria do signo língüístico,
pelo pensamento dos dois maiores nomes que emergiram no final de
século XIX e cujas obras influenciaram decisivamente a lingüística e a
semiótica do século seguinte: Ferdinand de Saussure (1857-1913) e 4. Suas idéias sobre a teoria da linguagem e dos sistemas sígnicos foram apresentadas
Charles Sanders Peirce (1839-1914).Eles representam duas escolas com em três cursos dados entre 1907 e 1911. A publicação dos ensinamentos desses cursos foi feita
em 1916, sob o nome de Cours de lenguistique générale, por seus alunos C. Bally, A. Sechehaye
concepções fundamentalmente diferentes sobre a questão semiótica: de e A. Riedlinger, com anotações de sala de aula revistas pelo próprio Saussure. A tradução
um lado, o estruturalismo lingüístico, de outro, o pragmatismo filosófi- brasileira foi feita pela Cultrix em 1969. Segundo W. Nõth (1996: 16-17), existem outras ver-
co; de um lado, uma concepção essencialmente lingüística de signo que sões dessa primeira edição: a de Mario de Tullio, 1972, que completa aquela; a edição comen-
tada de Rudolf Engler, de 1968, em dois volumes, e uma nova edição publicada em Tóquio,
encerra a semiótica no campo da linguagem; de outro, uma concepção
em 1973, com o título Trosiême cours de linguistique générale, acrescentando as anotações de
lógica que a abre ao campo das idéias ou da significação na sua genera- outro aluno descobertas mais tarde.
Ir!.

(
AS MARCAS 00 HUMANO 123
( 122 ANGELPINO

( ti'
Quanto ao primeiro, os escritos de Saussure permitem concluir
( CONCEITO SIGNIFICADO
que ele considerava que a serniologia, diferente da semântica ou estu-
(
(
do do significado na língua, seria no futuro a nova ciência dos siste-
mas sígnicos (parecendo ignorar o que já fora escrito a respeito desde
a época grega).
SIGNIFICANTE 1 IMAGEM ACÚSTICA r
(
(
Segundo ele (1969: 24), essa ciência, a chamar-se semiologia (do Figura 10 - Unidade do signo lingüístico de Ferdinand de Saussure
grego sêmeion, signo), ocupar-se-ia da "vida dos signos no seio da vida
(
social" e constituiria uma "parte da psicologia social" e, por conseguin-
( te, da psicologia geral. Essa ciência ensinaria "em que consistem os sig- Da breve exposição feita, pode-se tirar algumas conclusões. Pri-
( nos, que leis os regem". A lingüística seria então "uma parte dessa ciên- meiro, quando fala de "unidade lingüística" o autor está se referindo ao
cia geral", de forma que "as leis que a semiologia descobrir serão aplicá- "signo lingüístico" unicamente, não a outros signos, embora na tradição
veis à lingüística", a qual estará vinculada a um domínio específico dos saussuriana esse modelo tenha sido transferido a outros signos, como
fatos humanos. no caso de Roland Barthes." Segundo, quando fala de signo no lugar de
( "conceito" ou de "significante", como fazem outros autores, continua
Fica claro então que Saussure reconhece a existência de muitos ou-
tros sistemas sígnícos além da lingüística. O que não fica tão claro é o falando de uma estrutura de dois termos, não de três, o que faz do signo
lingüístico uma estrutura diâdica, diferente do conceito de outros auto-
pensamento do autor a respeito dos vínculos da semiologia nem com a
res como Peirce e Vigotski. Terceiro, o "signo lingüístico" de que ele fala
( psicologia social, como afirma nesta parte das conferências, nem com "a
é uma categoria mental, pois envolve duas funções psíquicas. Isso deixa
( ciência das instituições sociais" (sociologia), como diz em outros luga-
dúvidas sobre, a real função do "som", condição tanto da comunicação
res, pois sustenta também que "a lingüística pode erigir-se em padrão
( oral (sinal) quanto da formação da "imagem acústica", sobretudo por-
de toda a semiologia", uma vez que a língua é "o mais completo e mais
que pouco depois vai chamar o som de "significante". Quarto, a realida-
difundido sistema de expressão e também o mais característico de to-
de "em si" está excluída nesse modelo, o que torna a língua um código,
dos", embora continue dizendo que a língua nada mais é que um siste-
visão que pouco antes ele mesmo chama de "simplista", referindo-se à
ma particular (1969: 82). Entretanto, quando ele analisa a natureza do
idéia que as pessoas em geral têm do signo. (1969:79)
signo, se refere, unicamente, ao signo lingüístico, ao qual atribui carac-
( Tudo indica que o interesse maior de Saussure, pelo menos nos
terísticas que o excluem como unidade semiótica mais ampla.
( últimos anos, era tentar estabelecer as características da língua em rela-
Ao falar da natureza do signo, Saussure refere-se a ele em termos
( ção a outros sistemas sígnicos, o que o levou a definir seus "princípios
de "unidade lingüística" constituída da união de dois termos, ambos
(
gerais" (ibid.: 79 e ss.):
psíquicos, unidos no cérebro por um vínculo de associação: uma imagem
• o signo lingüístico é arbitrário, já que arbitrário é o laço que une o
( acústica e um conceito.
significante ao significado, o qual poderia ser outro. Arbitrário
( "O signo lingüístico" - diz ele - "une, não uma coisa a uma pala- não quer dizer que o significado depende da livre escolha de
( vra, mas um conceito:a uma imagem acústica", a qual não é O som físico,
"mas a impressão (empreinte) psíquica desse, som" ou, em outros ter-
(
mos, é a representação que nossos sentidos nos dão dele. 5. Cf. Roland Barthes (1982, 1985).
(
(
"
(
124
( ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 125

(
quem fala, pois ele está socialmente definido, mas apenas que A semiótica em Peirce tem como ponto de partida a procura de
( não há motivo para que um dado significante seja associado a categorias que lhe permitam fazer uma classificação das idéias, enten-
( um dado significado; dendo o termo idéia num sentido amplo, como é usado na vida ordiná-
( • dado o caráter sonoro dos significantes, estes se desenvolvem ria (ex.: "é uma boa idéia", "não faço a menor idéia", "que idéia que
no tempo e tomam características do tempo: a extensão e a você teve!"). Não é difícil perceber que, mesmo num sentido amplo, a
(
mensurabilidade numa única direção, ou seja, os significantes for- idéia é da ordem da significação. "Não ter idéia" de alguma coisa é admitir
( que não se sabe o que a coisa é, ou seja, não se sabe o que o signo que a
mam "cadeias lineares", idéia que permitirá a J. Lacan" construir
( sua interpretação do "inconsciente". representa significa. Parece que o conceito de fenomenologia não aten-
(
dia aos objetivos de Peirce para denominar a análise das idéias, o que o
teria levado a cunhar o termo de ideoscopia, palavra grega composta do
(
o signo em Charles Peirce termo eidos (idéia) e do verbo skopein (ver).

Intelectual erudito, versado em diferentes disciplinas (filosofia, A ideoscopia consiste em descrever e classificar as idéias que estão na
matemática, lógica), Charles S. Peirce é um dos principais fundadores experiência ordinária, ou que naturalmente brotam em conexãocom a
da moderna serniótica geral. Sua concepção da semiótica e da natureza vida comum, independentemente de serem válidas ou não-válidas e in-
dependentemente de sua feiçãopsicológica.(1975:135)
do signo é de grande utilidade para o estudo das questões tratadas neste
trabalho, no qual a semiótica constitui a chave explicativa das grandes
Segundo o autor, todas as idéias podem ser classificadas dentro de
questões levantadas. Da semiótica de Peirce três tópicos reterão minha
uma das seguintes categorias:
atenção, os quais serão tratados de forma sucinta em razão das exigên-
- a primariedade: "modo de ser daquilo que é tal como é, positiva-
cias deste trabalho: a relação entre lógica e semiótica; a concepção que o
mente e sem referência a qualquer outra coisa" - as qualidades em si
autor tem da natureza e divisão dos signos; e problemas gerais de
semiose. mesmas, independentemente de sua concretização em realidades con-
cretas, constituem idéias típicas de primariedade;
(
- a secundidade: "modo de ser daquilo que é tal como é, com res-
( a) Lógica e semiótica peito a um segundo, mas independentemente de qualquer terceiro" -
( a secundidade genuína corresponde à simples ação de uma coisa sobre
Para poder compreender a concepção que Peirce tem da semiótica outra, sem referência a nenhuma lei que explique essa ação; uma idéia
(
deve-se lembrar que, para ele, serniótica e lógica são dois nomes de urna típica de secundidade é a experiência de esforço que supõe a de resistên-
(
mesma coisa, como ele mesmo afirma: "Em seu sentido geral, a lógica é, cia, sem referência a um terceiro elemento;
( corno acredito ter mostrado, apenas um outro nome para semiotica
- a terciedade: "modo de ser daquilo que é tal como é, colocando
( (smeiôtikej, a quase-necessária, ou formal, doutrina dos signos". (1990:
em relação recíproca um segundo e um terceiro" - em todo sistema de
45) Portanto, Peirce situa-se na perspectiva de Aristóteles e dos estóicos, relações triádicas existe um componente mental (lei) que estabelece a
(
apontando para uma concepção cognitiva do signo. razão ou princípio dessas relações.
(
Para Peirce, a forma genuína de terciedade é a relação triádica que
(
6. J. Lacan, Écrits, Paris: Éd. du Seui!, 1966. existe entre um signo, seu objeto ~ o interpretante (ibid.: 142).A análise
(

(
126 ANGEL PINO AS MARCAS DO HlJMANO 127

das idéias de terciedade leva Peirce a classificar as relações triádicas em talvez a mais ampla delas, aparece na correspondência de Peirce com
( três categorias: Lady Welby:
( • de comparação, as quais participam da natureza das possibilida-
Um Signo é um Cognoscível que, por um lado, é determinado [...] por
des lógicas;
algo que não ele mesmo, denominado seu Objeto, ao passo que, por outro
• de desempenho, as quais participam da natureza dos fatos lado, determina alguma Mente concreta ou potencial, determinação esta
(
concretos; que denomino de Interpretante criado pelo Signo, de tal forma que essa
• de pensamento, as quaisparticipam da natureza das leis. Mente Interpretante é assim determinada mediatamente pelo Objeto.
(
(1990: 160, grifos do original)
( Essa análise conduz a três "modos gerais de ser" das idéias e/ou
( coisas, que constituem o eixo de todas as suas análises sobre os signos Outra definição, mais precisa e a mais sintética do signo, dada por
e suas combinações; como simples possibilidade, corno fato concreto e Peirce, é:
(
corno lei.
Um Signo, ou Representamen, é algo que, sob certo aspecto ou de algum
Dentro de urna tríade, cada elemento da relação - ou correlaio, modo, representa alguma coisa para alguém. (1990: 46, grifo do autor)
segundo Peirce - pode participar de qualquer um desses modos de ser
e as relações entre os três elementos obedecem a uma hierarquia em Duas funções do signo merecem ser destacadas.
função do modo de ser de cada um deles. Assim, ternos: A primeira, essencial, é tornar eficazes relações não-eficazes (ibid.: 143),
• o Primeiro," o de natureza mais simples - pura possibilidade; o que, talvez, possa ser interpretado dizendo que só o signo cria rela-
( • o Segundo, de complexidade intermediária - fato concreto; ções significativas ou propriamente ditas.

( • o Terceiro, de natureza mais complexa -lei. A segunda é tornar possível o conhecimento, sua produção e seu
uso: "Um Signo é algo por meio de cujo conhecimento conhecemos algo
(
A natureza de cada um deles na tríade depende da natureza dos mais a respeito do Objeto". Para isso, é necessário que o intérprete este-
( ja, de alguma forma, familiarizado com esse Objeto (pois não pode cap-
outros, constituindo uma espécie de combinação algébrica (por exem-
( plo: o Primeiro Correlato é possibilidade, só podendo ser lei se os outros tar o que o signo significa se não tiver um "mínimo" de conhecimento
( dois forem lei). Isso leva a um quadro de dez combinações das tríades, o sobre o Objeto).
mesmo acontecendo com a tríade genuína que é o Signo. O Signo admite diversos Objetos e com diversas características (1975:
(
Os três correlatos numa tríade-sigrio são relacionados com as res- 97). O Objeto pode ser "imediato" (a coisa em si) e "dinâmico" (como é
(
pectivas funções deles na tríade: o Primeiro é o Representamen; o Segun- representado no signo). Da mesma maneira, o Interpretante pode ser
do é seu Objeto, e o Terceiro é o Interpretante. Esses três correla tos apare- "imediato" (dado pelo próprio Objeto), "dinâmico" (interpretação do
( cem nas definições que o autor dá do Signo. Uma dessas definições, intérprete) e "final" (implicações outras externas ao Objeto).
( As duas definições que o autor dá do signo mostram que se trata
( de uma estrutura triádica, que eu denomino em "T", como é mostrado
7. Por fidelidade ao texto do autor, manterei com maiúscula todos os termos que Peirce
usa com essa grafia. Quando não estou referindo-me diretamente ao seu texto, utilizarei no diagrama que se segue, no qual o terceiro elem~nto (z) é o que torna
minúscula. possível que os outros dois (x, y) entrem em relação:

L
128 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 129

(
(
SIGNO
(X)
T OBJETO
(y)
especial com esse objeto ou com um interpretante; a terceira é quando é
considerada a maneira como o interpretante representa o signo.
e
( De acordo com a segunda tricotomia, aquela que interessa mais
INTERPRETANTE
( (Z) especificamente a este trabalho, o signo pode ser denominado de:

Figura 11 - Estrutura triádica do signo em Peirce .~ • Ícone: quando a relação entre o Signo e o Objeto é unicamente de
1 semelhança, ou seja, ambos possuem caracteres próprios que são
os do outro;
• Índice: quando a relação entre o Signo e seu Objeto é em razão de
( Isso merece alguns comentários: aquele ser afetado por este, o que acaba constituindo uma rela-
(
1) o Signo ou Represeniamen é aquilo que está no lugar do Objeto e, ção de equivalência;
( como tal, tem que ser algo material, perceptível (som, imagem, impres-
• Símbolo: quando o Signo se refere ao Objeto em virtude de uma
são tátil ou olfativa), para poder servir de sinal da presença desse Objeto
lei ou princípio que leva a que seja referido a esse Objeto.
ausente;
(
2) o Objeto é a realidade material ou imaterial representada pelo Como se pode ver, é a função do interpretante (z) que define o
(
Signo sob "algum aspecto ou modo", não sob todos os modos possí- símbolo, chamado por Peirce de signo "genuíno" em contraposição ao
veis, o que quer dizer que, em pr incípio, é uma fonte permanente de índice e ao ícone que chama "degenerados", A diferença entre eles é
conhecimento do Objeto, não esgotando a totalidade do saber a seu que, no símbolo, o que une o signo e seu objeto é uma lei ou razão
respeito; convencional, não existindo nada que os una naturalmente comoocorre
( 3) o Interpretante
é algo naturalmente diferente do Objeto do qual nos outros dois tipos de signos: no caso do índice, a existência de uma
é "0 aspecto ou modo" sob o qual o Signo o representa. Na medida em ' "conexão dinâmica" física (como a que existe entre "força" e "resistên-
que a relação entre o Signo e o Objeto não é natural, mas convencional, cia" dos corpos, relação de "equivalência"); no caso do ícone, uma cone-
( xão de semelhança ou analogia (como a que existe entre a imagem e a
a razão ou princípio da sua relação (o Interpretante) não é imediata-
( mente evidente, devendo ser objeto de interpretação. Isso supõe que o coisa reproduzida nela). Diferente destes, o símbolo está conectado com
Signo seja interpretável, ou seja, que forneça elementos que possibili- o objeto "por força da idéia da mente-que-usa-o-símbolo, sem a qual
tem sua interpretação. O Interpretante não se confunde com a ação de essa conexão não existiria". (Peirce, 1990:73)
(
interpretar, mas é a condição necessária para que esta possa ocorrer. A Procurando justificar o significado que ele dá ao termo "símbo-
( ação de interpretar é uma função subjetiva do intérprete, desencadea- 10", Peirce (ibid.: 72) conclui que, na tradição grega, o (JUIl~OAOll
( da nele pelo Signo que, como diz Peirce, cria na sua mente outro signo (sümbolon) deveria significar "uma coisa que corre junto com", como
( equivalente. o mostra a raiz etimológica -!3oAOll (-bolo) que varia em função do pre-
( Segundo Peirce (1990: 51-52), os signos são divisíveis em três fixo EIl(em-) ou napa (pará-) que a acompanha (como êmbolo » coisa
tricotomias: a primeira é quando o signo é considerado em si mesmo; a que corre dentro de outra; parábola> coisa que corre ao lado de outra).
(
segunda é quando a relação do signo com q seu objeto consiste em que Entretanto, os gregos usavam muito freqüentemente o termo
o signo tem algum caráter em si mesmo ou mantém alguma relação crull!3aAAEtIl
(sümballeirn) para designar a celebração de um contrato
(
130 ANGElPlNO AS MARCAS DO HUMANO 131
(

( . .,
ou convenção e Aristóteles chama o substantivo de O"UIl~OÀOll, ou seja, \,
I
ção porque é o princípio ou razão que a torna possível. Efeito porque ele
um "signo convenciortal"." I só existe na própria relação. O interpretante desempenha a função de
'li
No estudo que Umberto Eco faz do termo "símbolo" (1984: 191), mediação entre o signo e seu objeto,'mas trata-se de uma mediação se-
começa dizendo que, originariamente, O"\)J..l~oÀOll era "0 meio de reco- miótica, diferente das outras formas de mediação em que a função do
nhecimento", formado pelas duas metades de uma moeda ou medalha mediador é apenas de articulação das posições das partes (como o me-
(
quebrada, e que, na concepção tradicional de signo, uma está no lugar diador diplomático). Na mediação semiótica, o tertium não ocupa lugar
( intermediário, pois, sem se confundir com nenhum dos dois elementos
da outra, sendo que a realização plena de cada uma só ocorre quando
( da relação (x <=> y), está em cada um deles como princípio que os une,
ambas se juntam reconstituindo sua unidade original. Mas esta analo-
( gia, como ele mesmo diz, deveria alertar os autores de léxicos, pois pode como se deduz das análises de Peirce. Ele diz:

( levar a interpretações muito diferentes, como o mostra a história da se-


Mas, para que algo possa ser um Signo, esse algo deve "representar",
( miótica. Se, segundo a dialética do significante/significado, aquela união como costumamosdizer, alguma outra coisa,chamadaseu Objeto [...]. Se
nunca aparece completa, pois a interpretação de um signo remete a ou- um Signoé algo distinto do seu Objeto, devehaver,no pensamento ou na
(
tro signo, em contrapartida existe no símbolo, segundo ele, a idéia de expressão,alguma explicação,argumento ou outro contextoque mostre
( que "remeter" encontra, de alguma forma, seu próprio fim. como, segundo que sistema ou por qual razão o Signorepresentao Obje-
Não creio que o pensamento de Peirce passe por aí. Ao contrário, to ou conjunto de Objetosque representa. (1990:47 grifo do autor)
( embora ele sustente a estrutura triádica do símbolo e não a diádica signi-
Corno se pode ver no exemplo da palavra estrela" usado por Peirce,
11

( ficante/ significado, é talvez por isso que a função do interpretante é re-


a idéía de estrela não está nem na palavra ou signo (x) nem na coisa ou
(
meter sempre a outro aspecto do objeto, tornando o encontro "pleno" do
objeto (y), mas na relação entre elas. Sem a idéia, a palavra é um som
signo e do seu objeto muito mais uma necessidade teórica que uma possi-
vazio e a coisa é uma realidade opaca. A idéia une e, ao mesmo tempo,
bilidade concreta. É isso que constitui a dinâmica da semiose, conferindo
separa a palavra e a coisa, permitindo àquela representar esta. A idéia
a esta a característica de um processo "ilimitado". Como diz Peirce, omne
está, portanto, no interpretante (z) o qual, na semiose de Peirce, torna-se
( símbolum de símbolo, ou seja, todo símbolo vem de outro símbolo.
signo do mesmo objeto na mente do intérprete, dando origem a outro
( interpretante e assim indefinidamente. O interpretante constitui, por-
b) Semiose tanto, o gerador de uma "rede de significações" que caracteriza a dinâ-
mica da semiose. É o que quer dizer Peirce quando acrescenta às outras
(
Dos três elementos que compõem a estrutura do signo em Peirce, o duas modalidades de interpretante (o imediato e o dinâmico) o que ele
( interpretante (z) é, sem dúvida, o de mais difícil compreensão. Embora chama de "interpretante final":
pareça ser um terceiro elemento, na realidade não é, pois os elementos
da relação são dois (x <=> y ) e só podem ser dois. Qual é, então, sua Final porque é aquilo que finalmente se decidiria ser a interpretaçãoverda-
(
deira se se considerasseo assunto de um modo tão profundo que se pu-
função? Como pode integrar uma tríade sem fazer parte dela? O
( desse chegar a uma opinião definitiva. (1990:164,grifo do autor)
interpretante é, ao mesmo tempo, condição e efeito da relação. Condi-
(
Mas afirmar que a idéia está no interpretante pode também induzir
8. De Interpretatione, II, 16", 12, citado por Peirce, 1990; 72. a erro se por isso for entendido que a idéia tem existência própria. É

(
_--1
132 ANGaPINO AS MARCAS DO HUMANO 133
(.

visível que o conceito de interpretante coloca o complexo e antigo pro- mente, em função do que o intérprete é capaz de captar dele no ato de
blema da origem das idéias. Platão colocava-as fora das coisas. Aristóte- interpretar. Isso faz do interpretante uma fonte permanente de saber
les dentro delas. K Popper (1982: 119-164),na pista de Platão, coloca-as que se acrescenta ao que o intérpreteJá tem (lembrando que o "saber" é
( num terceiro mundo, o "dos conteúdos objetivos de pensamento", em JI uma produção social, ou seja, obra de muitas mentes diferentes). É des-
contraposição ao segundo mundo, o dos estados de consciência ou da sa maneira que os signos veiculam idéias das coisas, constituindo-se em
subjetividade, e ao primeiro mundo, o das coisas em si. Embora parta do fonte de um "saber mais". Isso explica que o signo que se constitui na
princípio de que esse terceiro mundo representa a produção humana, mente do intérprete possa ser, como diz Peirce, equivalente ou até mais
sustenta sua autonomia e vida própria, o que lhe permite opor a uma desenvolvido que aquele com o qual ele se confronta. Mas isso também
( epistemologia que trata do conhecimento em sentido subjetivo (episte- explica que as idéias possam estar simultaneamente em muitas mentes
('
mologia de Descartes, Locke, Berkeley, Hume, Kant e Russell) uma ou- sem serem domínio privado de nenhuma delas. Ninguém é mestre ab-
tra que o trata em sentido objetivo; contrapondo uma filosofia da argu- soluto da significação, pois ela é uma produção sociaL
(
mentação crítica a uma filosofia da crença.
Como se pode ver, trata-se de um problema difícil de equacionar, a
( menos de admitir que tem a ver com a natureza interpretativa do signo,
VIGOTSKI E A QUESTÃO SEMIÓTlCA
tal como este é proposto por Peirce. As entidades que constituem o ter-
ceiro mundo de que fala Popper (idéias científicas, poéticas e artísticas), Quem percorre as obras de Vigotski percebe facilmente que a ques-
produzidas pela mente humana, adquirem, sim, uma existência objeti- tão semiótica constitui uma espécie de núcleo central em tomo do qual
va e autônoma em relação a ela, mas na forma de signos que aguardam as idéias do autor tomam corpo e se integram de urna forma coerente,
a ação interpretativa da mente para revelar sua significação. Os signos, quaisquer que sejam os temas tratados.
"
( como boa parte de seus objetos, constituem realidades materiais e, como Para ajudar a entender por que essa questão ocupa um lugar cen-
(
tais, têm uma existência objetiva independente da subjetividade que os tral na obra de Vigotski é preciso levar em conta dois fatos importantes
produz, mas só adquirem o seu status de signo pela dinâmica da ativi- da sua trajetória intelectual, os quais revelam as circunstâncias que o
(
dade interpretativa do intérprete, pois o interpretante de Peirce só opera levaram a interessar-se pela questão semiótica e a razão teórica do cami-
( pela mente do intérprete. As idéias residem no ato de interpretar, o qual nho que ele seguiu na elaboração do seu conceito de signo.
( envolve o signo e seu intérprete. Sem interpretação não há signo e sem O primeiro fato é sua ligação com a literatura, o teatro e a arte.
(
intérprete não há interpretação. Mas, para poder interpretar o signo, o Segundo Iames Wertsch, (1985a: 4-8), Vigotski teria mostrado, desde sua
intérprete tem que ter, como diz Peirce (íbid.: 47), alguma "familiarida- infância, um claro interesse por teatro e literatura; interesse que, segun-
(
de com o Objeto", ou seja, deve ter um conhecimento prévio ou do pessoas muito ligadas a ele, sempre o teria acompanhado, pois nun-
( "colateral" dele, do contrário não lhe dirá nada. Surge então a questão: ca teria deixado de pensar e de escrever sobre teatro nem de ler as obras
( qual é a função cognitiva do signo? Em que ele contribui ao saber que o literárias de autores como os poetas Pushkin, conhecido dos estudantes
( intérprete tem do seu objeto? russos, Tyuchev, Blok, Mandel'shtam e escritores como Tolstoi,
( É evidente que, no exemplo anterior, a palavra "estrela" representa Dostoievski, Bely e Bunin. Esse interesse é atestado, não só pelos estu-
um saber construído (o interpretante) a respeito desse objeto. Um saber dos que ele realizou em literatura, a partir de 1914, na Universidade do
que, nos termos de Peirce, não é dado de uma vez no signo, mas parcial- Povo, em Shanyavskü (fundada em 1911 por professores e alunos ex-
(
I
~
r; ) 134 ANGELPINO ASMARCAS DO HUMANO 135

(
pulsos da Universidade de Moscou pelas suas idéias antitzaristas), como procura dessa explicação, Vigotski encontra, no papel que a mediação
(
\ também pelos primeiros trabalhos sobre Hamlet, em 1916, e A psicolo-
/I
instrumental desempenha na teoria do trabalho social de Karl Marx e
gia da Arte", em 1925, dissertação apresentada no Instituto de Psicolo- Friedrich Engels, a referência para (azer da mediação semiótica um equi-
gia Experimental de Moscou. Além disso, Vigotski teria sofrido também valente daquela no plano psicológico.
( 1:1
a influência de obras de autores que fazem parte do "formalismo rus-
( Assim como Marx e Engels fizeram do instrumento técnico o media-
so", principal força de crítica literária na URSS nessa época, o qual sus-
dor das relações dos homens com a natureza, Vigotski faz do signo o
tentava que o estudo da literatura devia começar com a identificação do
mediador das relações dos homens entre si. O paralelismo entre instru-
( I seu próprio objeto, ou, em outros termos, que a questão principal "não
mento técnico e signo vai, porém, muito além da sua função de mediação,
é como estudar a literatura, mas qual é atualmente o sujeito-matéria
privilegiada por Vigotski, pois uma análise mais apurada permite-nos
do estudo literário". (B. M. Eikhenbaum, 1965)9 Outros autores como
perceber que a mesma pessoa que manipula a ferramenta de trabalho
L. P. Yakubinski, R. O. Jakobson, A. A. Potbnya, crítico do simbolismo
<. imprime à sua ação uma significação, sem a qual a atividade humana
etc., também estão direta ou indiretamente presentes nas análises
dificilmente poderia ser criadora de novas realidades. O interesse de
semióticas de Vigotski, o que explicaria o fato de o autor concentrar
Vigotski pela "semiótica" extrapola, portanto, suas preocupações com a
( suas análises, quase que exclusivamente, no signo lingüístico e nas
arte e a literatura. Ele fala do signo lingüístico não como lingüista, mas
funções da linguagem. ~
como pensador da natureza simbólica do ser humano.
Entretanto, creio que M. Yaroshevsky (1989: 69-70) tem toda razão
Para os fins desta obra, proponho-me a discutir, de forma bastante
em afirmar que é um erro dizer, como fazem alguns." que a concepção
de Vigotski sobre o signo e a natureza semiótica das funções psicológi-
sintética, apenas dois aspectos relativos à questão semiótica na obra de
(' cas e da consciência é resultado da influência que sobre ele exerceu a Vigotski: sua concepção do signo e a função que ele desempenha na
teoria e a prática do "simbolismo russo", ignorando ou querendo igno- constituição cultural da criança, assunto deste trabalho.
(
rar que o que fundamenta as análises e as elaborações de Vigotski sobre
(
o signo e essas funções psicológicas é o materialismo histórico e dialéti-
co de Marx e Engels.
Elaboração do conceito de signo
O segundo fato é a maneira como a questão semiótica entra nas
Tendo como preocupação maior explicar, na perspectiva do mate-
preocupações de Vigotski, mesmo sabendo do seu interesse por litera-
rialismo histórico e dialético, a natureza e a origem social das funções
tura, teatro e arte. À diferença de outros autores cujo interesse pela se-
psicológicas superiores, a grande descoberta de Vigotski não foi o signo
miótica está ligado a razões lingüísticas ou cognitivas, Vigotski se inte-
( propriamente dito, do qual se fala desde a época grega, como acabamos
ressa por ela por uma espécie de necessidade de encontrar uma explica-
de ver, mas a sua natureza e função em paralelo com a natureza e função
( ção para a natureza social e cultural das funções mentais superiores. À
do instrumento na teoria do trabalho social de Marx e Engels. Evidente-
( mente, para fazer isso, Vigotski deveria montar uma argumentação con-
9. B. M. Eikhenbaum, "The theory of the 'formal rnethod", in L. T. Lemon e M. E. Reis
sistente do signo capaz de dar conta da nova concepção que ele propu-
(ed.) Russian [ormalistic criticism: four essays, Lincoln: Nebraska UniversityPress, 1965 (pub.
( em 1927), citado por Wertsch, 1985: 82. nha, totalmente inédita no campo da psicologia e dos estudos de semió-
10. V. P. Zinchenko e V.V. Davidov, Prefácio ao livro de Wertsch, [arries, Vygotsky and the tica. É em razão disso que ele vai decantando o conceito de signo para
(
social formation af mind, Cambridge: Mass Harvard University Press, 1985,p. VII. fundamentar sua natureza materialista e histórica. Ele faz isso levando

(
136 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 137

em conta, de maneira crítica, o que na sua época discutia-se nos campos tureza. Vigotski procura mostrar que o caráter humano da atividade
( da psicologia, da antropologia e da lingüística sobre a especificidade da não depende do uso de instrumentos mas da transformação que a pala-
( natureza humana em relação às outras espécies. Esse será o percurso vra opera nela. A razão principal qúe o leva a tratar esta questão é que
( que seguirei nesta breve discussão da questão semiótica em Vigotski. (1~1
para a opinião científica não existe uma relação entre a atividade prática
O tema do signo aparece em Vigotski em três momentos particular- inteligente e o desenvolvimento de operações simbólicas, sendo ambas
mente. Um é quando discute a passagem da "atividade prática", aquela tratadas de forma separada, o que, segundo ele, está errado.
~I
realizada com o uso de instrumentos, para a atividade especificamente Vigotski sustenta que a união da atividade prática com o signo ou
humana, com o uso de signos. (Vigotski, 1994)Outro é quando analisa o palavra constitui "o grande momento do desenvolvimento intelectual
( modelo naturalista (materialista) E - R da reflexologia russa e do em que ocorre uma nova reorganização do comportamento da criança".
( behaviorismo de Watson, mostrando por que ele não é adequado para Mas é errado pensar que essa união é um processo natural ou resultado
analisar o comportamento humano, sendo necessário introduzir no do hábito, como dizem certos psicólogos. Muito pelo contrário,essa união
modelo um estímulo artificial" que permita ao indivíduo humano con-
/I
"é o produto de um processo profundamente enraizado de desenvolvi-
trolar suas reações aos estímulos do meio. Essa análise conduz Vigotski mento em que a história do sujeito individual está completamente liga-
a identificar o signo nesse estímulo artificial. (Vigotski, 1997) Finalmen- da à sua história social". (1994:115)
( te, quando analisa as relações genéticas e funcionais entre pensamento e A posição de Vigotski nesse debate pode ser sintetizada em três
( fala. (Vigoski, 1987) Trata-se de momentos diferentes, mas intimamente idéias principais: 1) a união do signo (palavra) e da ação prática modifica
( articulados, que revelam a maneira como a questão semiótica vai sendo radicalmente a relação entre o homerne a natureza (sentido do traba-
elaborada por Vigotski com o objetivo de explicar a natureza das fun- lho); 2) a presença do signo (palavra) na ação prática introduz nesta a
(
ções especificamente humanas. mediação do Outro, ou seja, a mediação social; pois a palavra é palavra
( do Outro antes de ser palavra própria; 3) o controle da ação prática pelo
( signo (palavra) confere ao ser humano a autodeterminação, tornando-o
(
Atividade prática e signo senhor das suas ações, mas sem esquecer que a palavra foi antes contro-
le social, ou seja, algo exercido pelo Outro.
(
o tema do signo surge no interior do debate desencadeado na épo-
ca pelas pesquisas comparativas entre as condutas dos símios superio-
( res e as da criança pré-verbal, em especial as pesquisas de Kõhler sobre o signo e o modelo E- R
( o uso de instrumentos pelos chimpanzés e pelas crianças da mesma ida- -~I
de. O objetivo de Vigotski neste debate, como ele mesmo diz, é trazer à A análise do modelo E - R permite a Vigotski mostrar a falha fun-
(
luz os traços especificamente humanos na conduta da criança e como damental da psicologia da sua época (reflexologia e behaviorismo, par-
( eles são estabelecidos historicamente (1994:106), mostrando que, se es- ticularmente): o uso de urna mesma metodologia naturalista para expli-
( sas pesquisas permitiam estabelecer uma ligação entre atividade animal car o comportamento animal e humano. Servindo-se de algumas situa-
( e atividade humana, não levavam em conta o aparecimento de formas ções experimentais ou da vida prática, Vigotski mostra que o que dife-
novas de atividade que conduziram ao trabalho, atividade especifica- rencia as ações naturais, funções elementares comuns aos animais e ao
(
mente humana que determina urna nova relação do homem com a na- homem, das ações humanas, funções superiores, é que nestas o homem
(
(

(
138
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 139

introduz estímulos artificiais (X)- denominados signos - que lhe con-


( homem". Um novo princípio de regulação, diz Vigotski, deve necessaria-
ferem o controle da própria ação (1997:27-63),como é mostrado na figu- ~I
mente corresponder a um novo tipo de conduta. Ora, de todos os siste-
( ra abaixo:
mas de comunicação social, a fala tem uma significância central. Idéia
(li reconhecida por Pavlov que vê na fala a interconexão entre todos os estí-
( mulos externos e internos que entram nos hemisférios cerebrais. O pro-

[S2j
(1)~ (2)
( R blema é que para Pavlov a palavra é um estímulo condicionado como
(
X
/ qualquer outro, comum ao animal e ao homem, o que toma impossível a
passagem do plano natural ou biológico para o plano cultual ou simbólico.
(
Figura 12 - Os dois modelos de ação: o determinista (1) e o voluntário (2) Se a função do signo, especificamente a palavra, é o controle das
(
ações e se os signos são criações dos homens, então, antes de o signo
tornar-se o meio pelo qual o indivíduo controla suas próprias ações (au-
tocontrole), ele foi um meio pelo qual a sociedade exerceu controle sobre
Duas coisas são necessárias, segundo Vígotskí, para definir o con-
( suas ações, no sentido em que fala [anet, citado várias vezes por Vigotski,
ceito de signo: sua origem e sua função (ibid.: 54). Isso coloca a questão
o qual vê na palavra a função de "comando".
( da diferença entre os "sistemas de sinalização", de origem natural ou
( biológica, e os "sistemas de signos", de origem cultural ou simbólica.

( Segundo Vigotski (ibid.: 55), Pavlov" mostra que a sinalização é "a Pensamento e fala
base mais geral da conduta", comum ao animal e ao homem. Mas a
conduta humana "distingue-se exatamente em que cria estímulos artifi- Na análise das relações existentes entre pensamento e fala, Vigotski
ciais para sinalizar, antes de tudo, a grandiosa sinalização da lingua- tenta responder a duas questões: a das raízes genéticas de cada uma
( gem, dominando assim a atividade de sinalizar dos hemisférios cere- . dessas duas funções e a das relações funcionais existentes entre elas.
( brais", o que escapou a Pavlov. Esta atividade de sinalizar própria do Para tanto, analisa as questões em dois planos: no da filogênese e no da
homem é a significação, isto é, a criação e o uso de signos. ontogênese. Antes, porém, de iniciar a análise em ambos os planos, faz
(
(
Isso permite dizer que o signo tem como base o sinal natural, mas uma afirmação que tem o ar de uma espécie de "princípio geral" aplicá-
supera-o na medida em que aquele é controlado pelo homem, enquanto vel por igual aos dois. Diz ele:
(
que este controla o animal. Os sinais permitem aos animais a adaptação
( às condições do meio, tendo por isso mesmo um importante valor bioló- o fato mais importante que encontramos na análise genéticada relação
gico. Entretanto, eles são insuficientes para o homem que cria seu próprio entre pensamentoe fala é que estarelação não é constante.A significância
(
meio; para a adaptação humana, diz Vigotski, retomando urna das mais quantitativa e qualitativa desta relação muda no curso do desenvolvi-
( mento do pensamento e da fala. Essas funções não se desenvolvem em
famosas teses de Marx, "é essencial uma mudança ativa na natureza do
( paralelo, nem sua relação é constante. As curvas que representam seu
(
desenvolvimentoconvergem,divergem e se cruzam. Num ponto do pro-
11.Em 1923,Ivan Pavlov publicou seu livro Vinte anos de experiência no estudo da atividade cesso essas curvas podem deslocar-se uniformemente ao longo de um
nervosa superior dos animais,recebido como o último triunfd do pensamento científico natura- curso paralelo, por vezes mesclando-se uma com a outra. Num outro,
lista diante da antiga psicologia idealista.
elas podem separar-se uma da outra novamente. Essa é a verdade do

1
(

(
(

(
141
AS MARCAS 00 HUMANO
( 140 ANGELPINO

( análise por unidades, entendendo por unidade um elemento que retém as


desenvolvimento da fala e do pensamento tanto na filogênese quanto na
( ontogênese. (1987:101) propriedades do todo. Ora, a unidade que, segundo ele, retém as pro-
(
I; priedades do pensamento verbal é o' significado da palavra, o qual é um
il
A questão da origem dessas duas funções é fundamental para mos- amálgama tão estreito de pensamento e fala que fica difícil dizer se esta-
(
trar que elas são de natureza diferente, mesmo quando suas trajetórias mos diante de um fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamen-
( caminhem juntas ou cheguem a fundir-se em algum momento da to. Com efeito, a palavra sem significado é um som vazio que não diz
ontogênese. A prova de que elas têm raízes genéticas diferentes e, mes- nada, portanto é um critério da "palavra". Mas, o significado da palavra
( mo assim, podem manter estreitas relações entre elas, coloca a questão, é uma generalização ou conceito, inegavelmente atos do pensamento.
central para a construção teórica de Vigotski, do princípio explicativo Conclui-se, portanto, que o significado da palavra é um fenômeno, ao
(
dessas relações. mesmo tempo, do pensamento verbal e da fala significativa, ou seja, é o
( nexo que liga um e outra. (ibid.: 10~)
As curvas de desenvolvimento dessas duas funções são bastante
( A discussão do significado da palavra pressupõe urna discussão do
semelhantes na filogênese e na ontogênese. Mas a grande diferença é
( que num certo momento da ontogênese, mais ou menos por volta dos 2 signo lingüístico, urna modalidade do signo em geraL Como em outros
( anos de idade da crianç~, essas curvas - que até então caminhavam assuntos, aqui também as informações de Vigotski sobre a natureza do
separadas - cruzam-se e começam a coincidir. "Isso produz", diz signo são extremamente parcas, devendo recorrer-se às "dicas" que ele dá
(
Vigotski, "0 aparecimento de uma forma de comportamento totalmente nos seus textos para recompor um quadro minimamente confiáveL
\.
nova, a qual é uma característica essencial do homem." (ibid.: 110) Em- O signo lingüística ou palavra, ao qual Vigotski se refere de forma
(
bora essas duas funções não estejam ligadas por um elo primário ou gerae tem urna estrutura triádica, ou seja, composta de três elementos, à
( genético, seria errado pensar que o pensamento e a fala são dois proces- maneira dosigno de Peirce e diferente do signo de Saussure:
( sos independentes, paralelos, que se cruzam em determinados momen-
(
tos e se influenciam mecanicamente. A ausência de um elo primário não

(
(
(
significa que uma conexão entre eles só possa estabelecer-se de uma
forma mecânica. Muito pelo contrário, ao longo da sua evolução, vai
criando-se entre pensamento e fala uma conexão que toma diferentes
formas à medida que se desenvolvem.
PALAVRA

-,
SIGNIFICADO
/
REFERENTE

( Para Vigotski, o fracasso da maior parte das investigações de sua


Figura 13 - Modelo do signo lingüístico em Vigotski
( época sobre a relação entre pensamento e fala devia-se, em grande par-
te, ao pressuposto de que se tratava de dois elementos distintos e inde-
(
pendentes e de que ambos se relacionavam de forma puramente exter-
na. A falha estava, segundo ele, na metodologia utilizada pelos autores, O modelo que daí resulta lembra, em parte, aquele visto anterior-
( a análise por elementos, ou seja, tentavam explicar as propriedades do mente, quando foi discutido o signo no modelo E - R, e, mesmo sendo
pensamento verbal por meio da análise de cada um dos seus elementos triádico como o modelo de Peirce, é bastante diferente dele. Nesse mo-
(
tomados separadamente, sendo que nenhum deles possui, em si mes- delo, o primeiro elemento é um sinal (sonoro ou visual dependendo de
( tratar-se de fala ou escrita); o segundo, o referente, é uma realidade (ma-
mo, as propriedades do todo. Por isso ele propõe outro método, o da
(
(
(
143
142 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO
(
( Isso quer dizer que as primeiras palavras utilizadas pela criança
terial OU irnaterial, concreta ou abstrata); e o terceiro, o significado, é
( aquilo em que o primeiro representa o segundo e este define sua nature- servem para nomear coisas concretas, como se a palavra estivesse fun-
( za. Isso quer dizer que o significado neste modelo não é totalmente equi- dida com a coisa. Numa fase posterior, a palavra é separada da coisa e a
valente ao interpretante do outro, uma vez que o significado é dado pela criança passa a nomear diferentes coisas com uma mesma palavra, em
(
própria língua ("significado das palavras"), embora admita variações função das semelhanças que percebe nelas (por exemplo, identificada a
(
de sentido por parte de cada um dos locutores. palavra "maçã" com a fruta correspondente, a criança passa a chamar
( "maçãs" outras frutas diferentes, mas semelhantes sob alguns aspec-
Na análise do desenvolvimento do significado das palavras, Vigotski
( tos). Finalmente, com a progressiva constituição da fala, a criança sepa-
aponta dois aspectos importantes. O primeiro é que os significados das
ra os diferentes componentes do signo e passa a combiná-los como ela
( palavras são formações dinâmicas e, como tais, evoluem ao longo da his-
bem entende. É o início do "jogo simbólico" (do faz-de-conta), em que
( tória dos povos e também ao longo do desenvolvimento da criança. O
ela "joga" com o significado das palavras, conferindo-lhes outro senti-
que mostra que as línguas não são formações estáticas mas produções
( do. O exemplo clássico é o brinquedo com um cavalo-de-pau.
históricas, o que explica que a relação entre o pensamento e a palavra
<: também se modifique. O segundo é que a relação entre os três elemen- Evidentemente, a língua é feita de palavras ou signos articulados
( tos que compõem a estru~ra do signo lingüística também se altera. Se- segundo regras próprias a uma determinada comunidade lingüística.
( gundo Vigotski, a estrutura da palavra tem a seguinte configuração: Mas só existe língua porque há sujeitos falantes e "atos de fala". A fala
não é nem simples articulação de palavras segundo as regras da língua
\
_ pois, como diz Bakhtin (1988: 95), não são palavras o que pronunciamos
( ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou
SIGNO ou [ PLANO FONÉTICO
( PALAVRA ,[ SIGNIFICADO - Função Significativa triviais, agradáveis ou desagradáveis etc. - nem mera expressão dos vários
PLANO SEMANTICO '
( estados da consciêrtcia individual, como dizia Aristóteles. A fala não se
REFERENTE - Função Nominativa
reduz ao código nem é uma produção do indivíduo. A fala é um evento
(
Figura 14 - Estrutura do signo lingüístico em Vigotski social, resultado da interação verbal de um locutor e de um interlocutor.
( Como diz Bakthin, "a palavra é o território comum do locutor e do inter-
( locutor". (ibid.: 113) É esse caráter interlocutório da fala que faz dela o
Comparando as relações desses planos e funções nos estágios ini- lugar de produção de sentidos.
ciais, médios e avançados do desenvolvimento da fala da criança, o autor Como componentes do repertório da língua, as palavras veiculam
(
descobre uma regularidade genética, que enuncia nos seguintes termos: significados socialmente instituídos, ao longo da história dos povos, que
(
permitem a comunicação entre os membros de uma mesma comunida-
( No princípio só existe a função nominativa; e, semanticamente, só existe
de lingüística. Entretanto, na sua articulação no ato da enunciação, elas
a referência objetiva; a significação independente da nomeação e o signi-
permitem a emergência de múltiplos sentidos em função da realidade
ficado independente da referência surgem posteriormente e se desenvol-
( vem ao longo de trajetórias que tentamos rastrear e descrever. Só quando pessoal dos interlocutores e das condições concretas em que ocorre a
este desenvolvimento se completa é que a criança se torna de fato capaz interlocução. Foucault lembra (1992) que uma língua é um sistema que,
(
de formular o seu próprio pensamento e de compreender a fala dos ou- com um número finito de regras, possibilita um número infinito de enun-
(
tros, (1987: 112) ciados. O campo dos acontecimentos discursivos, porém, é finito, pois é
(

(
(
( \

144 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 145


(
( \
constituído pelo conjunto de enunciados formulados. Como Bakthin e Se isso já torna o conhecimento do mundo algo extremamente com-
( outros, Vigotski distingue entre significado e sentido na fala. Aquele está plexo, ele o é ainda muito mais quando à imagem sensorial agregamos
ligado à história de um povo ou comunidade lingüística, este à história

uma representação simbólica, a qual está ligada à invenção de sistemas
(
( pessoal dos sujeitos falantes, emergindo na relação discursiva. de signos, ou seja, de formas abstratas, convencionais (assim chamadas
por serem inventadas pelos homens e aceitas socialmente), que substi-
(
tuem a realidade. Se a transformação dos sinais naturais em imagens sen-
( Significação e desenvolvimento cultural soriais constitui ainda um problema para os especialistas, a representa-
( ção das imagens sensoriais por signos constitui um problema ainda maior.
Vigotski não aprofundou a análise da questão da significação. To-
A relação dos organismos com o seu meio depende de duas estru-
davia, fica daro, tanto na sua discussão do significado das palavras quan-
( turas articuladas no nível neurológico: a sensorial, que lhes permite captar
to nas suas análises do aspecto semântico da fala, que a significação
os sinais (físico-químicos) procedentes do meio, e a motora, que lhes
( ocupa um lugar central na sua obra, assim como na dos outros autores
permite agir sobre este em função do processamento que eles fazem
( da mesma corrente teórica. Por isso, os trabalhos de autores como Peirce
desses sinais. Pode-se dizer, então, que a relação organismo/meio de-
(1990), Ginzburg (1980),Bakhtin (1988), Barthes (1982), Eco (1984)e ou-
( pende da existência naquele de um equipamento receptor/emissor, de
tros podem ser de grande ajuda para repensar e ampliar a questão da
( um sistema sinalético e de um mecanismo de processamento. O que nos
significação na teoria histórico-cultural.
interessa aqui é destacar o papel fundamental que os sistemas sinaléticos
A partir do que já se conhece a respeito da relação dos organismos próprios a diferentes espécies desempenham na relação organismo/meio.
portadores de um sistema nervoso com o mundo externo, físico e social, Como já o apontei em outro lugar (Pino, 1991:33), a especificidade des-
( conclui-se que essa relação não é direta, mas mediada por sinais físico- ses sistemas, ~aturais e geneticamente programados, reside no caráter
químicos procedentes desse meio. Ela envolve, por conseguinte, com-
( fixo e unívoco dos sinais e, conseqüentemente, das reações que eles indu-
plexos processos de codificação e decodificação desses sinais determi-
zem. O que parece ser uma limitação é Uma vantagem, pois é o que
( nando diferentes formas de ação. No caso dos mamíferos superiores,
garante sua eficiência comunicativa, evitando erros de interpretação que,
( esses processos conduzem à reconstituição interna do mundo externo
no mundo animal, poderiam ser fatais para a sobrevivência dos indiví-
em forma de imagens sensoriais. Os seres humanos não são uma exceção
duos e das espécies.
à regra, com a diferença, porém, de que essas imagens se tornam neles
( Se a evolução das espécies se assenta nos" ganhos" evolutivos das
objeto da consciência, a qual traduz a capacidade nova adquirida por
( eles que lhes permite distanciar-se da imagem do real que neles se for- que as precederam, pode-se afirmar que os sistemas de signos, inventa-
( ma. Isso quer dizer que, à diferença do que parece ocorrer nos outros dos pela espécie humana, têm na sinalética animal as bases materiais
níveis evolutivos, o homem não se confunde com suas próprias ima- em que eles se assentam. Ou seja, os signos são sinais (físico-químicos)
(
gens. A percepção consciente dá a nítida impressão de que existe uma aos quais, uma vez padronizados (o que faz, por exemplo, de uma onda
( correspondência, ponto a ponto, entre o que é percebido nas imagens e acústica contínua uma série de sons diferenciados), os homens confe-
( os objetos da realidade que elas representam; entretanto, entre a percep- rem uma nova função: significar algo, o que pela sua natureza eles não
( ção e a realidade existe um abismo profundo cuja extensão mal conhece- podem fazer. É por isso que se diz que o signo é de natureza convencio-
mos. Todavia, é por meio das imagens que Q homem tem acesso ao nal (não propriamente arbitrária). Dessa forma, se os movimentos
(
mundo real e ao mundo do imaginário. ritualizados (sinais) dos machos dos patos selvagens, estudados por

(
(

{ 146 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 147

(
Lorenz (1969), induzem movimentos complementares nas fêmeas para cial do Outro (no duplo sentido de "outro do eu" e de "eu do outro").
(
constituir NO ritual de acasalamento", isso não ocorre porque esses mo- Como o mostra Vigotski em texto dedicado à análise destas duas fun-
( vimentos signifiquem algo para estas, mas porque desencadeiam nelas, •
ções (1987), não é possível saber (pensar) sem dizer (falar), mesmo se o
( de forma automática, mecanismos de reação regulados geneticamente. contrário nem sempre é verdadeiro. Essa dupla função dos sistemas de
( O mesmo pode ser dito a respeito dos movimentos das fêmeas indutores signos de serem meios de dizer o que se sabe das coisas e de saber o que
da reação dos machos. No caso humano, ao contrário,se o movimento se diz, diferentes por natureza, tem em comum a significação. Mas o que
(
da criança pré-verbal de apontar com o dedo (sinal) o objeto produz na é significar?
( mãe uma reação complementar, isso não é porque esse movimento de-
Para além do estrito significado etimológico (signum facere, fazer
( sencadeie nela, de forma automática, um movimento complementar, mas
sinal a alguém), significar é encontrar para cada coisa o signo que a re-
( porque ele significa algo para ela, a qual o interpreta dentro de uma pauta
presenta para si e para o Outro. É passar do plano do perceptível ao do
de padrões culturais como indicador do desejo da criança. Tanto o mo-
( enunciável e do inteligível. É encontrar a razão que permite relacionar
vimento da fêmea quanto o do bebê são sinais. Mas ao passo que o pri-
as coisas entre si e, dessa forma, conhecê-Ias. É dizer o que elas são. Em
meiro produz uma reação complementar automática no parceiro, o mo-
suma, é conferir-lhes outra forma de existência. Isso é obra, ao mesmo
( vimento do bebê funciona como indutor no Outro (como a mãe) de um
tempo, da palavra e da idéia. O que nos permite dizer que é a ordem
( processo de significação' que lhe permite descobrir a relação que pode
simbólica que confere à atividade biológica do homem sua capacidade
existir entre o sinal (movimento de apontar) e o objeto sinalizado. Ao
\ criadora.
atribuir-lhe uma significação, o Outro transforma o sinal em signo.
( A ordem simbólica emerge no momento insondável em que alguma
Dizer que os signos são invenções do homem para representar as espécie do gênero Roma (talvez a espécie sapiens) se tomou capaz de dis-
imagens que ele se faz da realidade equivale a dizer que eles são o meio tanciar-se da natureza, o mínimo necessário para não perder o contato
( pelo qual o homem expressa a idéia que se faz da realidade que as ima- com ela e o suficiente para poder fazer dela um objeto de representação.
( gens reproduzem nele. Isso é algo extremamente complexo que traduz Representar-se a natureza é encontrar-lhe um equivalente, mas isso im-
(
não apenas a capacidade do homem de distanciar-se de algo que faz plica, antes de mais nada, a capacidade de agir sobre ela produzindo nela
parte de seu próprio ato de percepção, mas também a capacidade con- as transformações desejadas em função de objetivos específicos. Por isso,
(
comitante de pensar a realidade, ou seja, procurar saber o que ela é, a compreende-se que deva existir uma estreita relação entre representação
( razão da sua existência, coisa que não é dada imediatamente no ato da - ou seja, a produção de objetos simbólicos - e trabalho social - ou
( percepção. Mas como saber o que é a realidade, seu lado imperceptível, seja, a produção de objetos materiais. Transformar a natureza em cultu-
( e para que saber isso se não puder compartilhar com os outros o que ele ra é produzir nela mudanças que, na sua materialidade, veiculem uma
supõe saber? A questão de fundo que está em jogo aqui, como na análi- idéia ou significação, de maneira que possa ser pensada e comunicada.
(
se das outras funções especificamente humanas, ou seja, daquelas que Portanto, a ordem cultural pressupõe a ordem natural, mas esta pressu-
( põe aquela para transcender seus próprios limites e adquirir uma nova
não dependem exclusivamente da ação das forças biológicas, é'a da na-
( tureza social do processo de humanização, o qual, historicamente, é obra forma de existência. Ordens diferentes e opostas, natureza e cultura são
( de um coletivo. Isso quer dizer que, no caso específico do saber que esca- mutuamente constitutivas. Elas se entrelaçam no universo do signo.

( pa à percepção sensível, ele é necessariamente solidário do dizer, pois Segundo Vigotski (1994, 1997b), a função original do signo é a de
nada se sabe que não seja dito a alguém alguma vez, daí o papel essen- comunicação entre as pessoas. Mas o conceito de comunicação de que

(
-,

148 ANGEL PINO AS MARCAS 00 HUMANO 149

fala tem um significado diferente da simples transmissão. de mensagens forma pessoal, salvaguardando-se assim a individualidade e a singula-
de um emissor para um receptor através de um canal, como.reza a teoria ridade do "sujeito.".
clássica da comunicação. Ao. contrário, Vigotski sustenta nesses e em ou- ~i~.
Falar em signo implica em falar em processos de significação, pois
( tros textos, que a exemplo do que ocorre com o uso de instrumentos téc-
os signos ou sistemas de signos não são dados de uma vez por todas e
nicos no plano da natureza, o.uso de signos permite agir sobre as pessoas
( o que os caracteriza é serem meios criados para significar, ou, em ou-
e sobre si mesmo, produzindo mudanças nelas e em si próprio. Basta
tros termos, para produzir significação. Esta é, talvez, a maior diferen-
lembrar o.poder da palavra sobre as pesso.as. Ela comanda suas ações. ça que existe entre o instrumento técnico - o qual, uma vez fabricado,
<' Mas a comunicação não. é a única função do signo. Pela sua nature- permanece sempre o mesmo, só variando pela sua substituição por
( za, ele exerce também a função. de representação, ou seja, a de estar no outro mais complexo - e o signo - cujo sentido é sempre refeito pela
lugar de outra coisa. Como diria Henri Lefebvre (1980), o signo é "pre- interpretação, mesmo quando se conserva por longo tempo nas práti-
sença da ausência". Com a invenção de signos, o homem pode distan- cas humanas.
ciar-se do concreto e do singular e encontrar-lhes equivalentes abstratos A expressão "processos de significação" não. é freqüente na litera-
(,
e genéricos que os representem, sem os quais a natureza e ele mesmo tura especializada. Ela aparece ocasionalmente em alguns autores quando
( seriam impensáveis. Graças à sua capacidade representativa, o homem discutem a questão da significação. Falando da dispersão que existe entre
pode, através dos signos, objetivar a subjetividade e subjetivar a objeti- os autores a respeito da natureza do signo, Umberto Eco (1984:23) diz
vidade, como dizem Berger e Luckmann (1972).Os signos permitem ao que a única coisa que parece estar fora de discussão é a existência da
o
homem" domesticar tempo e o espaço", como.diz Leroi-Gourhan (1965: atividade semiótica, essa capacidade que 'os homens têm de substituir
139), ou seja, criar um tempo e um espaço humanos, não mais biológi- umas coisas por outras. Segundo ele, os processos de significação se-
( cosoEnfim, graças à invenção dos signos tornou-se possível a passagem riam um artifício que os homens teriam inventado para suprir a ausên-
( do estado de natureza para o estado de cultura, pois o que caracteriza a cia das coisas, na impossibilidade de poder ter o mundo inteiro (real e
( produção cultural, como foi visto anteriormente, é conferir uma signifi- possível) ao alcance das mãos. É uma conclusão fascinante, como ele
cação. à natureza da qual o homem é parte integrante. mesmo reconhece, mas que só faz deslocar o problema: o que são e como
(
Representação e comando constituem as duas funções, respectiva- funcionam esses processos?
(
mente, do pensar e do falar articuladas na unidade do signo. Se no. pri- Por "processos de significação" estou entendendo aqui os modos
( meiro caso o signo tem mais a ver com os conteúdos" culturais - que,
1/
de produção, circulação e (re)elaboração de significação, tomado este ter-
( rios termos de T. Parsons, se situam principalmente no nível cognitivo mo no sentido pleno. que engloba tanto.os vários modos de interpretante
( -, no. segundo tem mais a ver com a interação entre as pessoas, enten- a que se refere Peirce, quanto os que recobrem os termos "significado" e
dida esta como. a dinâmica das relações sociais. Dessa forma, o signo "sentido", utilizados po.rVigotski e outros (Bakhtin, Lúria, Leontievetc.).
(
torna possível não só a circulação das significações dos objetos culturais Os processos de significação concretizam-se na vida cotidiana das pes-
e a sua contínua re-significação, mas também a constituição do indiví- soas, nas diferentes formas de práticas sociais, uma vez que a significa-
( duo como. ser cultural. É aqui que a individualidade e singularidade do ção é uma produção social. Eles traduzem assim a natureza semiótica e
( "sujeito" assujeitado ao Outro (Althusser, 1976), parecem estar ameaça- dinâmica da sociabilidade e da criatividade humanas. Em outros ter-
das, não fosse a exigência de interpretação decorrente da própria natu- mos, os processos de significação traduzem a dinâmica da semiose hu-
reza do.signo. Os significado.s historicamente constituídos adquirem urna mana, expressão da capacidade criadora do homem.
(

( ANGELPINO ~~ 151
150

(
Aplicado ao complexo processo de constituição cultural da criança
~.
(do ser humano) que constitui o núcleo central da obra de Vigotski e que
(
orienta este trabalho, os processos de significação são aquilo que possi-
( bilita que a criança se transforme sob a ação da cultura, ao mesmo tem-
po que esta adquire a forma e a dimensão que lhe confere a criança, pois
as significações que a sociedade lhe propõe (impõe?) adquirem o senti-
do que elas têm para a criança.
(
( Capítulo V
(
O nascimento cultural da criança
(

(
(
SIGNIFICADO CULTURAL DO NASCIMENTO BIOLÓGICO
(

( o ato biológico de nascer tem, no mundo humano, o caráter de um


evento cultural, embora não deixe de ser uma celebração da vida. Antes
mesmo de ser concebido, o futuro ser já faz parte do universo cultural
(
dos homens, seja como objeto do desejo de quem aguarda ansiosamente
( sua chegada seja como objeto do medo ou da recusa de quem considera
( sua chegada uma eventualidade indesejada. De qualquer forma, é um
fato inegável que a simples expectativa do nascimento de uma criança
(
sacode profundamente o mundo das relações sociais no âmbito do gru-
(
po familiar, o que permite afirmar que no imaginário social, antes mes-
( mo de nascer, aquela ocupa já um lugar na sociedade humana, estando
( sua existência atrelada às condições reais de existência que lhe oferecerá
seu meio culturaL Mas o que é este meio?
(

(
Em termos gerais, por meio cultural- o próprio da espécie sapiens
- entende-se aqui a totalidade das condições de existência criadas pe-
f
\.
los homens ao longo da história de cada povo. Entre essas condições
( destaca-se, sem dúvida, a peculiaridade do sistema de relações sociais
( que define a convivência humana de cada povo em cada época históri-
ca, uma vez que dessas relações depende, de maneira eminente, o futu-
(
ro dessas comunidades humanas e dos seus integrantes. Em termos mais
(
(
152 AHGQPINO AS MARCAS DO HUMANO 153

restritos, por lm~i~_;uI;~ntende-se o conjunto de c~nd.~~<?es reais de manos") a qual atingiu na época atual uma significação tão grande, cons-
existência gue cada grupo familiar - restrito ou ampliado - oferece tituindo talvez o principal valor humano, que é difícil imaginar que tan-
• --_._._ ••.•.~ ..••. ~ __ .._._..._ _ ---r'"""~

( aos seus membros. Sabe-se por experiência quão variáveis são essas con- tas pessoas vejam pisados sua digríicíade e seus direitos pela mesma
dições nas sociedades modernas, devido não a uma suposta ordem na- sociedade que os proclama. Esses poucos exemplos, ao mesmo tempo
tural, corno tentam nos convencer. certas ideologias, mas à uma ordem que ajudam a esclarecer o que se entende aqui por apropriação das sig-
social construída por decisões humanas tomadas, via de regra, por gru- nificações culturais, revelam a radical contradição que atravessa as so-
(
pos detentores do poder (econômico e político) em função dos seus inte- ciedades humanas: o abismo profundo que separa a significação que os
( resses. Sabe-se que a história social humana, a geral e a particular de bens culturais, materiais e imateriais, têm, particularmente hoje, par<!.os
( cada povo, é feita de relações sociais conflituosas produzidas por siste- homens e o número absurdamente elevado dos que são excluídos do
(
mas sociais geradores de desigualdades entre os homens (em particular, acesso a eles, não por obra da natureza, mas por obra exclusiva dos
sociais e econômicas) que os afetam desde o berço. Desigualdades que próprios homens. Chega-se à paradoxal conclusão que o homem -
determinam, em grande medida, as possibilidades que cada um deles demiurgo do mundo novo - é o maior inimigo do homem. Thomas
tem de acesso aos bens culturais, materiais e espirituais, necessários para Hobbes teria ironicamente razão? Não creio, mas o seu ceticismo radical
uma existência humana. a respeito do homem é um alerta das exigências que a humanização
( Como já foi dito anteriormente, Vigotski entende o desenvolvi- impõe a Roma.
( mento psicológico da criança como um processo de natureza cultural Colocando entre parênteses a realidade da história social, profun-
(Vigotski, 1989-1997).Ora, na medi~q!:!~.ª cultura é o CQpjyptodé!!?"" damente trágica sob muitos aspectos, parece normal ver o desenvolvi- Jx.,...(,.,
(
J obras humanas e o específico des-;as obras é a sua significação, o desen~- mento da cria~.<L~~omo um processo d.t:.tr~nsformação, mediac!~elo v..z'-;h
(
.' Jy! volvimento cultural da criança é o processo pelo qual ela deverá apro- Outro, da sua condição de ser biológico num ser cultural, ou seja, um ser
(
(
~~\}:~
()}
/r
UJ •.
/
priar-se, pouco a pouco, nos limites de suas possibilidades reais, das
f significações atribuídas pelos homens às coisas (mundo, existência e
~-;nte ios
outros homens. Isso supõe duas condições fund amen-
tais: que, no momento do nascimento, a criança possua o equipamen-
( / /' \ c~ndições de ~xistência h~m~na). Mas ,0 desenvolvimento cultu~~l esta- to genético e neurológico da espécie - o que, em princípio, é garanti-
.. i ra comprometido se ela nao tiver tambem acesso aos bens materiais pro- do pela natureza no próprio ato da gestação - e que, com a ajuda do
( t duzidos pelos homens e que são portadores dessas significações. Exem- Outro, integre-se, progressivamente, nas práticas sociais do seu grupo
( plos concretos desses bens constitutivos das condições de existência cultural.
( humana podem ser citados em profusão. Por exemplo, as condições de Falar em equipamento ..::::...------
genét.ifo e neurológico da espécie sgpõe
---._---------_.
( moradia, de higiene e de alimentação que o desenvolvimento científico admitir a hipótese científica que a biologia e a neurologia dos homens
e tecnológico tornou possível adquiriram nas sociedades modernas sig- estão marcadas pela história cultural da espécie, cujos efeitos são con-
(
nificação tão grande que se tornaram valores essenciais da vida huma- servados em memória genética. A presença dessas marcas é o que faz do
na; o conhecimento adquiriu no mundo contemporâneo uma significa- organismo um organismo humano, diferente de qualquer outro, mesmo
( ção tão fundamental - mesrno quando é visto não como um bem cons- de espécies mais próximas dele filogeneticamente. A presença dessas
titutivo do homem, rnas COIllO um bem instrumental - que é inaceitá- marcas é o que garante que todos os recém-nascidos dessa espécie pos-
vel que possa ser negado a alguém em particular; a mesma coisa pode- sam adquirir um dia as funções culturais que a caracterizam. Em outras
se dizer da pessoa humana e seus direitos (os chamados "Direitos Hu- palavras, a presença dessas marcas faz do recém-nascido um candidato
AS MARCAS DO HUMANO 155
154 ANGELPINO
(

à condição humana; esta condição não lhe vem de graça, mas é resultado Tomando todos os cuidados para não afirmar mais do que atual-
\ de uma conquista na convivência humana. mente pode ser demonstrado cientificamente, Changeux reconhece ex-
plicitamente que a "cultura" deixa marca (que ele chama de "empreinie
( 'V D A constituição da criança como um ser humano é, portanto, algo
culturelle") no encéfalo humano no curso da ontogênese - como ocor-
( Cj;0 &que depende duplamente do Outro: primeiro, porque a herança genéti-
reu na filogênese - fruto do prolongamento, após o nascimento, do
( \:).:s ca da espécie lhe vem por meio dele; segundo, porque a internalização
tempo do seu desenvolvimento, o que implica uma mais longa exposi-
das características culturais da espécie passa, necessariamente, por ele,
( ção dele aos efeitos da cultura. Se algo parecido ocorre com outras espé-
como o deixa claro a análise de Vigotski. Isso não significa que a criança
( cies, embora em escala diferente, nas quais os ganhos com a experiência
.'seja um agente passivo no processo que a converte num ser humano. Muito
social vão além das mudanças genéticas, o caso do ser humano é um
jJpelo contrário, ela participa ativamente desse processo, de maneiras e
caso ímpar na história da evolução biológica. "A continuação, por longo
c t,tem graus diferentes em função do próprio amadurecimento biológico.
( .:J I . A mediação necessária do Outro não impede que seja ela o sujeito do
tempo após o nascimento, da proliferação sináptica, permite que o teci-
do cerebral seja impregnado, de maneira progressiva, pelo meio ambien-

('?t
s-, ~ processo de internalização das funções culturais,
da história social dos homens
as quais já fazem parte
(Vigotski, 1997). Como já vimos anterior-
te, físico e social", diz Changeux. (ibid.: 320, grifos do autor) desafio °
que se coloca aos especialistas não é só conseguir encontrar argumentos
( \' mente, a mediação do Outro é condição necessária, mas não suficiente
científicos para a confirmação do que, por enquanto, não passa de uma
( para ue ocorra esse processo, pois ele implica uma transformação ou
hipótese bastante provável, mas também explicar como a cultura pode
J9 conversão a qual ela é o principal agente, tenha ou não consciência dis-
afetar a fisiologia e a bioquímica do cérebro.
",;::1Y~so. Todavia, essa conversão tem lugar no quadro das possibilidades reais
Essa impregnação do encéfalo humano como resultado da sua
( ~. / que o seu meio social e cultural lhe oferece. Pesquisas neurológicas apon-
"abertura" ao meio cultural se manifesta, segundo Changeux, no au-
tam no sentido de que deva existir uma inter-relação entre a maneira
mento crescente das arborizações neuronais, organizando-se em redes
( corno se organizam as complexas redes neuronais dos indivíduos e as
condições culturais reais do seu meio. cada vez mais complexas.
(

( o desenvolvimentofulgurante do córtex cerebral nos ancestrais "A sucessão das etapas de crescimento sináptico e de estabilização seleti-
fósseis do homem, diz Changeux (1983: 342), nada mais é que uma ilus- va [...] criam uma imbricaçãocada vez mais estreita entre a montagem da
(
tração, espetacular, do paradoxo da não-linearidade evolutiva entre a 'complexidade' anatômica do cérebro do homem e o seu meio. As mar-
( organização do genoma e a do encéfalo. De fato, as últimas descobertas cas deste se encadeiam e sobrepõem umas nas outras", diz ele. (Changeux,
( da seqüenciação do genoma parecem comprovar que as diferenças 1983: 352)
genômicas entre o homem, o chimpanzé e o rato são extremamente pe-
(
quenas, conservando a mesma estrutura topológica dos genes dentro Tomados todos os cuidados para respeitar os limites teóricos e
( metodológicos que esta matéria coloca à investigação científica, pode-se
do cromossomo; entretanto, as diferenças de organização e de comple-
( xidade do encéfalo humano em relação ao dessas outras espécies são dizer que, uma vez que o encéfalo humano é urna máquina biológica de
( extraordinárias. É um fato evidente que o desenvolvimento do encéfalo r to de informações e que essas informações são portadoras
humano não é fruto de nenhuma mudança profunda do material gené- de significação fazendo do encéfalo u:rna máquina semiótica, é razoável
(
tico. Por quê? Sem dúvida porque o meio cultural do homem tomou o pensar que, por cima da estrutura básica herdada da espécie, o encéfalo
lugar dos genes. hum,\\no desenvolva um design de configuração de redes em função da

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156 ANGElPINO AS MARCAS DO HUMANO 157


(

( quantidade e da qualidade da informação que recebe e deve processar. teria acesso por si mesma. Dizer que é um organismo em formação não
( Como essa '::'informaçãoyigni!icativa" não faz parte da estrutura básica significa que seja biologicamente incompleta ou imperfeita, mas apenas
(
herdada, mas é algo que vai ser montado pela inserção progressiva da que o seu equipamento bioneurológico não está ainda suficientemente
criança no seu meio cultural, por conseguinte, algo que faz parte do preparado para permitir-lhe enfrentar, por conta própria, os desafios
(
devir e não do passado, é razoável pensar que exista uma auto-organiza- das novas condições de existência. Isso explica as limitações que ela ex-
ção do sistema neuronal em função dessa informação. Isso confere sen- perimenta nos primeiros meses de vida para manter o contato com o
( tido à idéia da impregnação de que fala Changeux. Em outros termos, a seu meio. Tudo nela está por ser feito, a começar pela descoberta de si
( maneira como o cérebro humano vai se configurando, em especial na mesma corno um ser corpóreo, o que implica a emergência da represen-
infância e na adolescência, deve estar diretamente relacionada com as tação simbólica da sua realidade orgânica.
(
condições concretas que o meio cultural oferece à criança. Sabe-se que as primeiras áreas do córtex minimamente desen-
(
Isso pode conduzir a assumir posições que talvez não sejam do volvidas no início da vida são as sensitivas e as motoras primárias -
( agrado de muitos teóricos e políticos. Com efeito, se as condições de ainda independentes umas das outras - seguidas das visuais e audi-
( existência que a criança encontra no seu meio cultural não são direta- tivas. Ora, isso não é ainda suficiente para que a criança possa relacio-
mente responsáveis pelas suas diferenças genéticas, elas parecem sê-lo, nar-se de forma plena com o seu meio cultural. Seu estado é de quase
(
de forma direta, pelas desigualdades sociais e culturais, com suas possí- completo isolamento, de um não-ser psicológico, segundo a expressão
veis conseqüências, em que ocorre o seu desenvolvimento. Particular- de R. Zazzo. Surge então a questão: corno se explica que desse estado
( mente, se admitirmos, com Vigotski e sua escola, que o que a criança possa emergir um ser psicologicamente maduro, integrado ao meio
( internaliza do meio cultural se torna parte integrante da sua constitui-
social-cultural?
ção como pessoa, isso tem implicações bem mais importantes do que se
( Uma resposta bastante plausível e em consonância com a realida-
pode imaginar. Por exemplo, se "privar" a criança totalmente da possi-
( bilidade de falar e de pensar - coisa praticamente impossível - impe- de humana é que a sensorialidade e a motricidade, que vão articulando-
( diria que ela se tornasse semelhante aos outros homens, o que colocaria se progressivamente ao longo dos pnmelfos meses, permitem a crianÇE
em alto risco sua condição humana; privá-Ia das condições básicas de expressar ~~::;:~-'~êcessldãdes'--p-C;~-~~io
-d~--~~vimer;tõsque;aC;- s~m
(
existência humana (aquelas que definem os Direitos Humanos), coloca interpretados pelo Outro (em particular, a mãe) como sinais dessas ne-
( também em alto risco sua realização como uma pessoa humana. Pense o cessidades, se transformam em atos significativos, mesmo se a criança _
( que quiser a psicologia tradicional, as características humanas não fazem ainda o ignora. Cria-se dessa forma um primeiro circuito de comunica- ~_
parte do que o homem tem, mas do que ele é. Neste ponto, o humano não ção gestual que modelará as primeiras relações da criança com o Outro.
(
se conjuga com o verbo ter, mas com o verbo ser. E por intermédio desse circuito inicial de comunicação, o qual irá am-
(
pliando-se cada vez mais, que a criança é introduzida de forma progres-
siva no universo cultural dos homens; um universo que funciona com
( ACESSO DA CRIANÇA AO MUNDO CULTURAL formas muito mais complexas de comunicação-expressão, como é o caso
da fala. Os intercâmbios da criança com o meio cultural tornar-se-ão
(
Pouco se sabe ainda sobre o estado da criança no momento do nas- cada vez mais intensos, permitindo-lhe urna progressiva apropriação
(
cer, a não ser que é um organismo em formação e que o meio cultural da cultura. Como isso ocorre? A resposta está no processo de internaliza-
( em que está inserida é algo totalmente estranho para ela, ao qual nunca ção ao qual voltarei mais adiante.
(

(
\

158
ANGELPINO AS MARCAS 00 HUMANO 159

r--
Se o ser humano define-se como um ser cultural, como sustentam dos homens, da qual aquela é parte integrante. É um processo que, se
[0\ I
r' Vigotski e os autores da corrente histórico-cultural, o desenvolvimento não passa pelas mesmas etapas por que passou o da humanização de
( <r: ! da criança é um processo de constituição nela dos modos de funcionar homo sapiens, passa por etapas equivalentes. Com efeito, a criança deve-
I\'<..•, humanos (falar, pensar, agir etc.) e do saber necessário para esse funcio- rá transpor as fronteiras da sensorialidade - necessária para estar em
(
" ~~~\jCYnar,já que "falar" pressupõe que algo seja dito e "pensar" que algo seja contato permanente com a realidade material do mundo - para chegar
(
nJ~:" pensado, pois não há falar sem coisa falada nem pensar sem coisa pen-
\ j
ao plano da representação simbólica - via de acesso a essa outra forma
..' sada. Isso quer dizer que o desenvolvimento cultural da criança, mais de existência da realidade que é a forma simbólica, campo sem frontei-
( do que inserção dela na cultura, é inserção da cultura nela para torná-Ia ras da cultura. Se a invenção dos sistemas simbólicos não faz parte do
um ser cultural. desenvolvimento cultural da criança - tarefa já cumprida pela espécie
Sabe-se que o contato natural do organismo humano com o meio e que continuará cumprindo nos tempos vindouros -, faz parte dele a
(
se dá, como ocorre com outros seres vivos, por meio de complexos pro- sua apropriação ou internalização - o que equivale à sua re-criação no
( plano pessoal - como condição do seu acesso à cultura.
cessos neurológicos de decodificação / codificação dos sinais físicos e
químicos procedentes desse meio; sinais captados pelos órgãos senso- Contrariamente ao que pensa a tradição psicológica, a origem da
( riais. Dessa forma, a realidade, composta de diferentes tipos de objetos, atividade simbólica da criança não é o resultado nem de uma descoberta
<.
seres e' eventos, é reconstituída nele em forma de imagens mentais. Essa espontânea dela, nem de certas operações intelectuais, nem de um pro-
forma de captar a realidade não teria sido, porém, suficiente para fazer cesso de condicionamento ou formação de hábitos, mas "de uma histó-
(
de Homo um homo sapiens, pois o conhecimento que ela fornece é inca- ria independente dos processos do signo", como afirmam Vigotski e
paz de possibilitar a transposição das "meras aparências" do real im- Luria. (1994: 137-138) Sua origem deve ser procurada no campo social,
postas pelos limites próprios da percepção sensorial. Transpor esses li- campo das relações sociais em que os sistemas sígnicos inventados pe-
mites pressupõe a capacidade de ver a realidade num outro plano, aquele los homens nos revelam a verdadeira significação que as coisas têm para
em que à imagem mental o homem contrapõe uma representação simbóli- eles e que, portanto, terão para a criança; pois é com os homens e por
ca, ou signo, com a qual pode saber e dizer o que percebe e o que pensa intermédio deles que ela descobrirá a significação e o valor das coisas
a respeito dessa realidade. que fazem parte do mundo criado por eles. Isso coloca a questão da
( ,{{0J'l. Q...-A transformação doeai;~aturais
em:signos algo inédito na his- "mediação serniótica" - à qual já me referi anteriormente de um ponto
~ ..\j)):Mfia da evolução das especles, cons 1 umdo o grande diferencial na de vista genérico e à qual me refiro aqui num ponto de vista mais espe-
cífico -, caminho de passagem da criança do estado de ser biológicopara
i'\()J~'franeira como o mundo existe para os animais e a maneira como ele
( o de ser cultural.
'-,,;,:;;("
,~ ~ existe para os homens. Enquanto os signos possibilitam aos homens ver
,

I"\ o mundo na representação simbólica que eles se constroem dele, os sinais


\J apenas (o quejá é muito!) permitem aos animais reproduzir o mundo
MEDIAÇÃO SEMIÓTICA
QJ~ [ nas imagens sensoriais que se constroem neles, imagens cujo poder de
wvtfu"v conhecimento da realidade não consegue transpor, pelo menos assim o A questão da "mediação semiótica" é central na obra de Vigotski,
~l Qw\.0 cremos, as fronteiras do singular concreto.
como lembra Wertsch (1981), tanto para explicar a relação entre o mun-
'Yjj)J2, Falar de desenvolvimento cultural da criança (do ser humano) é do da biologia e o mundo da cultura - mundo da nat?;:e-zéf~i" e da
J"\J~,J'(al~r da construção de uma história pessoal no interior da história social natureza "para o homem" -, como para explicar ~onversã:~s fun-
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160 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 161

ções naturais da criança em funções culturais. A expressão "mediação ~ plano para outro, ao passo que o segundo presta-se mais
í\ semiótica" traduz a natureza e a função do signo, esse meio genial in- a denominar a natureza dessa passagem.
ventado pelos homens ao qual me referi no capítulo anterior. A existência de um processo de"internalização que permita a passa-
(
No plano do desenvolvimento cultural da criança, o mecanismo da . /} gem do plano social para o da subjetividade é uma necessidade lógica, o
"mediação semiótica" explica o que é essencial na natureza desse pro- que o torna fundamental na constituição cultural do ser humano. Em-
cesso: 1) a re-constituição em si das características da espécie, o que im- bora o autor nos forneça poucos elementos que nos permitam ter clare-
plica a "transposição" de planos a que já me referi e 2) a capacitação da za a respeito da maneira como ele entende a natureza desse processo -
criança para utilizar os meios simbólicos, de maneira que possa tornar- . assunto já tratado mais detalhadamente em outro lugar (Pino, 1992) -
se intérprete do mundo e comunicadora com os outros homens. ele deixou, sem dúvida, algumas pistas que nos permitem recompor,. ' i~CO
No primeiro caso, o mecanismo da "mediação semiótica" opera com um bom grau de confiabilidade, o que ele pensa a respeito. A mais ~~/
(
importante delas é a análise que ele faz da história do "movimento
..------- de /3---:
como o conversor que permite a transposição de planos das funções hu-
apontar" (Vigotski, 1997: 104-105), o qual constitui um exemplo para-
manas. À maneira como os impulsos elétricos tomam possível a trans-
digmático do desenvolvimento cultural, segundo afirmação do próprio
posição dos sinais procedentes do mundo externo para o mundo interno
( autor. Graficamente, pode ser representado da seguinte forma:
do cérebro que eles ativam, assim também (guardadas as devidas dife-
renças) os signos permitem transformar o que é alheio à criança - os
(
modos de falar, de agir, de pensar etc. dos outros - em algo que lhe seja
próprio, sem deixar de ser próprio dos outros. O signo realiza esse por- FUNÇÃO ATRIBUIÇÃO DE
tento porque não é um mero veículo ou canal da significação - como o BIOLÓGICA ."... SIGNIFICAÇÃO
tem entendido a teoria clássica da comunicação -, mas seu conversar, Dado "em si" Dado "para o outro"
( ou seja, aquilo que permite que as significações culturais possam ser
( incorporadas por cada pessoa, adquirindo suas peculiaridades, mas con-
servando o que faz delas "significações sociais", algo que é comparti-
( FUNÇÃO
lhado por todos, sem confundir isto com qualquer forma de homoge- CULTURAL .
"
I
neização. Dado "para si"
(
No segundo caso, a "mediação semiótica" permite à criança apro-
Figura 15 - Estrutura "trifásica" do desenvolvimento cultural da criança
( priar-se do saber humano que a capacita a interpretar o mundo e lhe dá
condi~es para comunicar-se com os outros.
( ,~\!,.-~ diversos textos de Vigotski (1997, 1989) encontramos dois ter- Como é mostrado na figura 15, esse processo é composto de três
( . A',(./-.l~.J~os
que ele usa de maneira indistinta para denominar o mecanismo da fases ou momentos diferentes que Vigotski relaciona com a dialética t== \J{ G-
. \~Vf "transposição" de planos das funções humanas: internalização e conver- hegeliana. Ele se inicia no plano natural das funções biológicas, para ...---------
( ~_ . "são. Poder-se-ia dizer, embora o autor não o diga, que o primeiro tem terminar no plano cultural das funções simbólicas, após a mediação do 'J:\j ~
(
/?~m sentido mais topológico, ao passo que o segundo tem um sentido Outro que, ao atribuir significação à ação da criança, indica-lhe, mesmo ' t V
( rJ)'\ ::)I~ais semiótico. Explico-me: o primeiro presta-se mais a expressar a pas:..-- que ela ainda não se dê conta disso, que está sendo incorporada no re-
(
r. ~-----.------------~ /Y
..f \J)D ( ''i.<P à/\' ,~\- -. -' )
( . , )~ Cií;d;·'? '(:, ~. ~~Jj)'
\)j~}-~

(
--',', 't~ ()
(
\
(
1&2 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 163

(
pertório das funções humanas, as quais conferem às ações finalidades e Embora o raciocínio de Vigotski seja extremamente lógico e coeren-
(
intencionalidades que podem ser interpretadas pelos outros. Isso é indi- te, ele nem sempre é suficientemente claro. Mas é evidente o esforço de
cador da entrada da criança no circuito das relações sociais. Dada a impor- reflexão que ele faz para encontrar uma "lei geral" que dê conta da ori-
tância teórica deste processo, passo a analisá-lo seguindo as linhas gerais gem e da natureza do desenvolvimento cultural que transforma a crian-
traçadas por Vigotski. Antes, porém, creio que é interessante chamar a ça num ser humano. Sigamos seu raciocínio. Diz ele: "da mesma forma
atenção do leitor para as reflexões que Vigotski faz nas páginas que pre- que o pensamento verbal representa a intemalização da palavra e que a
cedem sua breve exposição e que poderiam ser consideradas prelimina- reflexão é uma internalização do argumento, assim também a função
res para a sua compreensão. psíquica da palavra - de acordo com Ianet - não pode ser explicada
Ele vem falando das diferentes contribuições de autores da sua época de outro modo que introduzindo na explicação um sistema mais amplo
ao entendimento da "história do desenvolvimento", até chegar a Blonski que o próprio homem" (idem). Esse sistema mais amplo que o próprio
(Psychological essais), ao qual se refere COIn freqüência e do qual retém homem só pode ser a história da palavra na história geral humana.
u.ma das suas idéias preferidas: a de que a compreensão de um compor- Continuando na sua análise, Vigotski retoma a idéia de [artet de
tamento supõe o conhecimento da história desse comportamento, a qual que "a palavra é sempre comando porque é um meio fundamental de
articula a história pessoal e a história geral dos homens. Após analisar controlar o comportamento". Parece-me que isso é um caso concreto da
( algumas outras contribuições, Vigotski conclui que só a história do de- natureza das chamadas funções superiores, ou culturais, a qual reside na
( senvolvimento dos signos permite chegar à "lei geral de controle do com- função que realiza, ou seja, fazendo aquilo para que ela serve. No caso
(
portamento", chamada por P. [anet (1859-1918) de "lei fundamental da da idéia de que "a palavra é sempre comando" - lembrando que o
psicologia" . próprio Vigotski adverte que o que interessa não é saber se a teoria de
(
Percebe-se que Vigotski está atrás de "leis gerais" que expliquem Janet é certa.imas o seu método de análise - fica claro que a palavra, em
os fatos psicológicos e não atrás dos fatos em si mesmos. Essas leis têm si mesma, não exerce função alguma. Ela só funciona quando é dirigida
. ;}Wa
ver com a história geral e pessoal desses fatos, como aparece clara- a outra pessoa com uma finalidade específica. Portanto, ela só funciona
\{OY,\~V""
.~ mente na referência a Blonski. Essencialmente, essa "lei geral" diz que, no interior das relações sociais, como o mostra o exemplo do superior
( \..~. no processo de desenvolvimento, "a criança começa por aplicar a si for- dando ordens ao subalterno. Nesse caso, semelhante ao que ocorre em
,\y \ d . . . I li I " inúmeros outros, a palavra exerce urna função social, inscrevendo-se
( \) .Ó»:mas e comportamento _~~e, rrucia mente:~~_.<?.~:t.:~~_ ..~Plcaram ~~
fi.. y ..éi-{1997: 102) Em outros termos;ã-diãnçã-ãssimila formas sociais de com- numa relação entre pessoas.
( '/t ~{
5)'-
'~ 0 -portamento que passam a integrar seu repertório de condutas. Essa lei Isso me permite afirmar - e Vigotski dá urna "deixa" para isso
f\ G~/\
(,,_(0-' fica mais clara, diz Vigotski, se for aplicada ao uso do signo, pois o signo
é, primeiro, um meio de contato social- um meio de afetar os outros -
quando diz que" o homem, enquanto indivíduo, conserva as funções da
interação social" - que as funções psicológicas são a reconstituição, no
t~\
,
( e só depois torna-se um meio de afetar-se a si mesmo. Ora, se isso é plano pessoal, das funções das relações sociais; pois o que são "as fun-
( assim, "fica absolutamente claro - diz Vigotski - que o desenvolvi- ções da interação social" senão as formas corno ocorrem as relações so-
mento cultural está baseado no uso de signos". O que quer dizer, como ciais concretas? No caso visto acima, a palavra põe em relação duas pes-
(
ele repete inúmeras vezes, que as funções psicológicas foram antes fun- soas e, por conseguinte, exerce ao mesmo tempo duas funções diferen-
(
ções entre pessoas, portanto, funções de relações sociais. tes e correlativas: a de comandar, de um lado, e a de executar, de outro.

(
(

( 1
~
(
164 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 165
(

(
o fato de que o indivíduo possa surpreender-se "dando-se ordens" a si A primeira fase é constituída por um ato natural - o movimento
( mesmo explica que a relação entre duas pessoas na vida social possa ser físico de apontar um objeto externo (" operação externa"). Portanto é a
( reconstituída no plano pessoal ou subjetivo, ao assumir o indivíduo o fase do dado "em si", do dado da natureza e, por conseguinte, de uma
duplo papel do "eu" e do "Outro" da relação, com suas respectivas fun- função biológica da criança, ser biológico, totalmente insuficiente para
(
permitir que ela possa funcionar fora dos Iimites da natureza. Como um
( ",,-,..,.ções de mandar e executar.
dado da natureza, é um mero deslocamento orgânico no espaço físico -
e . h \~( Ao falar das relações reais entre pessoas, Vigotski lembra que elas resultado da articulação da percepção da realidade e da motricidade
\l Y" j1 podem ser de duas formas: diretas, sem nenhuma mediação interposta, impulsionada pelo "desejo", se é que podemos falar assim - que emite
( 1\:f)Y ~ e mediadas. As primeiras são naturais, as encontramos na sociabilidade sinais que outro organismo pode, eventualmente, captar e reagir a eles
e ,,,,,-D v ~o mundo animal; as segundas são culturais, obedecendo às formas da- de uma determinada maneira, mas totalmente carente de significação.
( ':\10 [das pelo homem a essa sociabilidade.
\j
(~y .,.". Até um determinado nível de desenvolvimento, diz Vigotski, as [...] Inicialmente, o gesto indicativo representa um simples movimento
malogrado de apanhar dirigido a um objeto e denotando uma ação futu-
( relações da criança com o seu meio social são diretas - por médio de
ra. A criança tenta apanhar um objeto que está demasiado distante, suas
contatos corporais, sons, choros etc. - al~ ao que ocorre
mãos estendidas na direção ao objeto param e ficam suspensas no ar, os
na vida social dos animais mais próximos do homem. Pode-se deduzir
dedos fazem movimentos de apontar. (Vigotski, 1997: 104-105)
( então que, nessa fase, a criança age muito mais como um ser biológico
( do que como um ser cultural. Todavia, a coisa não é tão simples assim e A segunda fase não altera a condição do dado "em si", mas os si-
( talvez Vigotski possa ter se deixado influenciar mais que o necessário nais emitidos pelo movimento corporal da criança, ao serem captados
I'~
. u~ pelas idéias de alguns dos seus contemporâneos. Posteriormente, po- pelo Outro, tornam-se o dado "para o Outro", ou seja, significativos para
(
S /rém, à medida que a criança se desenvolve, suas relações com os outros ele, o que constitui o ato de interpretação: encontrar uma significação ao
( "~ / passam a ser mediadas, interpondo entre ela e eles um terceiro elemento. movimento. Mais do que dizer à criança o que o seu movimento signifi-
e '\/ - Que elemento é esse? - cabe perguntar-se. A resposta de Vigotski é ca para ele, o Outro, em certa forma, finaliza seu movimento, seja apro-
( clara: o signo ou, em outras palavras, a significação das funções desempe- ximando dela o objeto apontado, seja negando-lhe o acesso a ele (se for
nhadas pelos sujeitos da relação (criança ~ Outro). algo que não convém à criança). Tudo dependerá da interpretação que
Espero que tenham ficado claros dois pontos: de um lado, que as ele fizer da situação. Qualquer que seja o resultado da intervenção do
relações sociais humanas - aquelas que decorrem das formas de socia- Outro, esta deve causar um determinado impacto na criança (como bem-
( estar, desconforto, desinteresse ete.), o que não quer dizer que a criança
bilidade criadas pelos homens - implicam necessariamente a mediação
( semiótica; de outro, que as chamadas "funções superiores" são as funções entenda o significado do seu movimento nem da reação do Outro. A
( das relações sociais tornadas pessoais graças ao processo de internaliza- criança funciona ainda no plano biológico, ao passo que o Outro funcio-
ção do qual o signo é o mediador. na no simbólico.
(
( Após este desvio necessário, retomo o exemplo da história do "mo- Quando a mãe vem em ajuda da criança e reconhece seu movimento
vimento de apontar" usado por Vigotski, lembrando que é um processo como indicador, a situação muda essencialmente. O gesto indicativo tor-
(
em três fases ou momentos (figura 15), na linha da análise dialética de na-se gesto para os outros. Em resposta ao movimento malogrado de
( Hegel. apanhar da criança, a resposta emerge não da parte do objeto mas da
(
(

(
(
..
(

(
166 ANGELPINO
( AS MARCAS DO HUMANO 167

( parte de outra pessoa. Dessa forma, os outros realizam a idéia inicial do


movimento malogrado de apanhar. (Idem)
o PAPELDO OUTRO
(
( Particularmente nos primeiros ineses de vida, os contatos da criança
A terceira fase ocorre quando a criança internaliza a situação "mo-
( com o mundo que a rodeia, mundo físico e mundo social-cultural, são
vimento-reação do Outro" - o que pode exigir a vivência de outras
( necessariamente mediadas pelo Outro, em particular pelos membros da
situações semelhantes - em que a intervenção do Outro permite que

II
família. Como diz Vigotski, "0 caminho do objeto (mundo externo) à
( entre a criança (5) e o objeto (O) visado por ela se interponha um terceiro
criança e desta ao objeto passa por outra pessoa". (1994: 116)
elemento (Z), a significação do movimento. Quando isso tem lugar, o
(
próprio ato biológico torna-se para a criança um ato simbólico. Isto pode Não se trata unicamente da presença "supletiva" do Outro à insu-
(
levar mais tempo do que se pensa. Ora, a introdução desse elemento ficiência física da criança, sem a qual esta não conseguiria sobreviver.
( intermediário entre a criança e o objeto permite àquela descolar-se cada Numa visão de mundo do tipo "ciência-ficção" isso poderia ser garanti-
( vez mais da realidade "em si" (quebrando seu estado de simbiose com a do por robôs mecânicos. Trata-se, está claro, de outro tipo de insuficiên-
( natureza da qual é parte integrante) e tornar-se capaz de representar-se cia mais radical: poder situar-se no mundo estranho feito pelos homens,
essa realidade como realidade "para si". tão diferente daquele da natureza em que foi gerada e se desenvolveu
(
nos nove meses de vida intra-uterina. Diferente do que ocorre nessa
( E somente mais tarde, a partir do fato de que o movimento malogrado de vida biológica - resultado da ação da genética num meio natural favo-
( apanhar é relacionado pela criança com a situação objetiva completa, ela rável, em princípio -, o princípio de fu~cionamento da vida cultural, à
começa a ver seu movimento como um indicador. [...] Aqui, a função do
( qual o nascimento biológico abre as portas, é a significação que esse mundo
próprio movimento muda: de movimento dirigido ao objeto, torna-se
( tem para os seus construtores. Significação que traduz a postura do ho-
movimento dirigido a outra pessoa por meio de uma conexão. [...] Mas
mem perante a natureza quando ele se tornou capaz de nomeá-Ia, en-
( esse movimento só se torna um gesto para si mesmo se primeiro for para
tender como funciona, interpretar seus sinais criando modelos explica ti-
( si mesmo um indicador, ou seja, tendo objetivamente todas as funções
IV-' necessárias de indicador e gesto para os outros. (idem) vos e dizer aos outros o que ele percebe, sente e pensa dela e dele mes-
( mo. Tarefas todas essas que a criança deverá desempenhar, mas para as
( 00J)--LJ Is~o quer ~~zer. qt.I~él.criél!!Ç~.~_~ últ~
1" ••••.•• "\ \ - _·· ••• w"" •• _ •• w····
a tomar
~
consciência
_
da quais é imprescindível o "monitoramento" do Outro, detentor da signtLv-â
( "\'D~"(',t~~i~~f~~~~~? d~.~:~_~<:=,-~~:~~_~..:.:.ode-seafirmar então que o que a criança ficação ~~.t.I_gui~!:..a aventura da existência cultural. 1(\{)J'.,v.,lo ()JJ'
( .0).... internaliza não são as ações, nem dela (o movimento de apontar) nem 21~scimen!~ral}.a criança começa quando as coisas _~ue !__
X-:?o Outro (o ato de entregar-lhe o objeto apontado), mas a razão (expres-

I
',.~.l,:
rod~~-ª--ID_(Ql?ietQ.?.~_Eessoas
e situações) e suas próprias ações naturais _
(
. ::)j~<SãO do desejo dela) que leva o Outro a relacionar movimento Ç::} objeto. ~eçam a adquiri~--;igrllficáçao~parilê1ãporque primeiro tiverã~ sig;i-
( "..:-~'::'.j,Y) Em outras palavras, é pela reação do Outro que a criança descobre a ficação p~~~'-~-6~t~-;;:-co~õ-virnosno movimento deaponfãr-:Fãrã-iàntõ~---
( ,.;ç.;t significação do seu movimento, o qual, na ausência da fala, torna-se um é necessário' que a criança vá apropriando-se dos meios simbólicos que
meio de comunicar aos outros Seus desejos. O uso da palavra mais tarde
( \D lhe abrem o acesso ao mundo da cultura, que deverá tornar-se seu mun-
">\~,,C> não excluirá, necessariamente, o uso simultâneo do gesto. Palavra e gesto do próprio. Mas apropriar-se do mundo da cultura - ou seja, o desen-
(
C~J/ constituem duas formas diferentes de significação que, freqüentemente, volvimento cultural- é algo m.uito diferente de desenvolver as funções
se articulam no discurso humano.
biológicas, o que, em si mesmo e dentro de certos limites, é obra da
(

(
\.

(
168 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 169 1
criança. O desenvolvimento cultural, de natureza simbólica, só pode a forma de natureza -. Entretanto, pensando melhor, talvez pudesse
(
ocorrer graça à mediação do Outro. Nisto ninguém é totalmente auto- ser: - As duas, pois cada uma delas se converte na outra sem perder
( suficiente a ponto de poder prescindir do Outro. Essa é a grande dife- suas características próprias. É claro que também é possível negar a ra-
rença que existe entre o desenvolvimento biológico e o desenvolvimen- zão de ser de tal pergunta, considerando que natureza e simbólico são
( to cultural e que me permite pensar na existência de um duplo nasci- realidades independentes que só se unem na mente do homem. Na pers-
mento, por mais estranha que possa soar esta expressão; o que nos re- pectiva histórico-cultural em que se situa este trabalho, a resposta lógica
(
mete àquilo que chamei de "momento zero cultural", interstício lógico entre é a terceira: a conversão recíproca de uma e de outra, pois, do contrário,
( ou o simbólico se diluiria na materialidade da natureza ou esta se redu-
esses dois. nascimentos.
( ziria a uma simples Idéia carente de realidade objetiva. Em outros ter-
Isso quer dizer que, diferentemente do que ocorre no nascimento
( mos, seria cair seja no materialismo mecanicista mais grosseiro seja no
biológico, no qual o Outro (a mãe) é mero intermediário na "cadeia de
idealismo abstracionista, ambos a-históricos.
( produção" da vida, no nascimento cultural o Outro é guia e monitor da
criança, não um agente de produção de cultura. Esta já existe no plano Como vimos no Capítulo IIr, o conceito de conversão, em qualquer
(
social e deve passar a existir no plano pessoal. É nesse processo que a das modalidades ali discutidas, implica que algo mude em algo sem
( perder completamente o que era antes da mudança. Portanto, duas coi-
mediação do Outro - detentor da significação - é essencial, mesmo se a
criança é o agente desse processo. sas mudam uma na outra se cada uma delas conservar elementos essen-
( '~ ._~ ciais dela mesma. Isso é algo muito diferente do que ocorre, por exem-
plo, na transposição de um arquivo de computador a outro, ou na gra-
(
CONVERSÃO D~ FUNÇÕES SOCIAIS EM FUNÇÕES PESSOAIS vação de um discurso sobre outro, pois ainda não conseguimos gravar
(
um texto em cima de outro sem destruir nenhum deles nem gravar um
( O exemplo do "movimento de apontar" revela-nos duas coisas discurso sobre outro sem que este desapareça. Consegue-se, isso sim,
essenciais: primeiro, que a base e ponto de partida dessa operação é alterar o sentido de um texto ou de um discurso ao introduzir mudan-
(
uma função natural ou biológica - no caso desse exemplo é a função ças neles. O fantástico da junção semiótica é tornar possível que o objeto
motora; segundo, que o que transforma essa função numa função cultu- de conversão torne-se outra coisa sem deixar de ser o que é. Agregar à
(
ral é a significação que ela adquire para a criança após, e somente após, natureza uma significação transforma seu modo de existência, mas não
ter-se tornado significativa para o Outro. Poder-se-ia dizer então que altera a sua essência. Encontrar ao simbólico_&e..uSU12oI.t~gtaterj;:J.Lde.
( esse processo, que Vigotski estende à constituição de todas as funções existência transforma também seu-~do de existência mas não altera a
( superiores, representa de forma exemplar a quinta essência do proces- sua essência. A natureza..... torna-se
:-----_ _
_-- -_ .....simbólica e o simbólico
_ .. --.-._.
.... --_..
toma-se
...
riatu-.... r:
,-,_ .._-
,

sos de humanização, tanto da natureza quanto do homem, parte dessa reza sem anular-se mutuamente. Esse parece ser o último nível atingi-
(
natureza: o encontro da ação da natureza e da ação simbólica do homem. Qõ,·Por·-e-nq~~t~~-p'~lo processo evolutivo da matéria inerte e viva. O
( Surge então a pergunta: qual é o objeto da conversão: a natureza ou o 'ãütõidessa proeza é essa porção da natureza - denominada Homo - qu~
( simbólico? Ou em outras palavras: o que se converte em quê? inv'enta ô sÚnbólico e dessa fo~~a ~e transforma sem perder 'sua condi- I '

( Uma resposta talvez pudesse ser: - Evidente que é a natureza, ção êf~·~~t~e~a.
( pois é ela que adquire uma forma de existência simbólica. Ou então, Tudo isso para tentar pensar o que Vigotski talvez pensou, mas
talvez pudesse ser - Não, é o simbólico que só se concretiza adquirindo disse de um modo que não deixou claro o que estava pensando. Refiro-
(

(
170 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 171

me ao que ele afirma no começo da discussão do problema da criança natural habilidoso? Para um observador sem nenhuma sensibilidade
( dita "anormal": artística (a "familiaridade com o Objeto" de que fale Peirce) talvez não
( se diferencie em nada. Para um mestre da dança, diferencia-se em tudo.
Começaremosda posiçãobásicaadotada ao analisar as funçõesmentais Este capta a significação do movimento. Aquele não, .?e i~f~2~nti...d9.,
(
superiores,a qual consisteem reconheceruma base natural para as for-
pode-se concluir então que o que converte a função natural em cultural
( mas culturaisde conduta. (1997: 197)
e permite-que esta'apãreçânaq~~ia é "o ~iha.~do Óutro'~quandà ele se
( torna "olhar 'doE~---" ',. ..' . -."..' ---'--0." '--

Vigotski sustenta aqui, como o fez em outros lugares, que as fun-


(
ções superiores, cuja origem e natureza sabemos que são sociais, têm -~d~ em mente estas considerações, tentarei mostrar, nos próxi-
( uma base naturaL Isso quer dizer que a significação, que é o lado "não- mos capítulos, a existência de indícios da ação da cultura nas funções
( natural" da natureza, não pode existir fora dessa mesma natureza, na biológicas da criança, ou, em outros termos, da ação do simbólico na
qual encontra o suporte da sua própria existência. Por isso, Vigotski tem natureza.
toda razão ao dizer que "a cultura nada cria", entendendo por "criar"
(
produzir o que é natural, o que é obra da natureza. O que ela faz é
( conferir ao "dado natural" (a natureza "em si", mas já na forma de vida,
( "natureza biológica") uma nova função: a "consciência de ser natureza"
( (natureza "para si" ou "natureza simbólica"). Isso sig:t1J#ca.sue não se
pode esquecer q~~_,ess~_~c:.9~5.9._~~_ vida" que é' Ramo é funda~e_n.t~l-,
mente natureza: Este é o sentido que adquire em Vigotski, creio eu, a
( tese do "materialismo histórico e dialético". Isso permite entender por-
( que a motricidade pode tornar-se produtora de obras, de ginástica olím-
( pica e de formas de expressão artística etc.; a emissão de sons tornar-se
discurso e música; a percepção da realidade tornar-se conhecimento cien-
(
tífico e sabedoria; o olhar tornar-se expressão de amor, de ódio, de medo
( e de alegria, ou visão diferente das coisas. Retire-se a essas funções su-
( periores as funções naturais que lhes permitem funcionar (mover-se,
( emitir sons, perceber o mundo, olhar) e elas não passarão de meras
virtualidades que nunca se atualizarão. Mas retire-se a essas funções
(
naturais o que faz delas o que elas não são "em si" mesmas e retornarão
(
ao seu estado original, aquele que precedeu o estado de cultura.
,_T--Cabe então perguntar: o que é que a cultura faz na natureza do
( i mundo e do próprio homem? Confere-lhes significação, isso que elas não
( , têm e que ao tê-Io não são mais simplesmente o que eram antes. Assim,
'---
ficando numa das funções mais primitivas, o movimento, podemos nos
perguntar: em que se diferencia o movimento artístico do movimento
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@~~ 175

Capítulo VI
(
A análise semiótica

(
PREMISSAS DO TRABALHO

( Como disse na introdução, o objetivo principal deste livro é anali-


sar, com base em dados empíricos, um' aspecto específico do que, no
(
meu entender, constitui a tese principal do modelo teórico elaborado
por Vigotski; a natureza cultural do desenvolvimento da criança, ou seja,
( do ser humano. Tese explicitada por ele ao enunciar o que chamou de
( "lei genética geral do desenvolvimento cultural", à qual já me referi em
( capítulos anteriores.
( Para tanto, parti de duas idéias, centrais na obra de Vigotski, pois
(
fazem parte da estrutura da sua elaboração teórica do desenvolvimento
humano. Essas idéias constituem as premissas que conduzem à conclu-
(
são lógica que orienta o trabalho:
(
1) se o homem é constituído de duas séries de funções, as naturais,
(
que fazem parte da estrutura genética herdada da espécie, e as culturais,
que fazem parte da história social humana (Vigotski, 1997: 15-20);
( 2) se a constituição das funções culturais segue a "lei genética ge-
( ral", a qual pressupõe a existência de um certo tipo de "transposição"
de planos, do social - no qual operam - para o pessoal - ern que
devem começar a operar - (ibid.: 1997: 106);

(
(
176 AHGEL PINO AS MARCAS DO HUMANO 177
(

(
3) então, o processo de desenvolvimento cultural tem que ter um via, um erro grosseiro confundir as duas coisas, tanto quanto é difícil
( começo que deve situar-se em algum momento após o nascimento bio- separá-Ias quando a obra de arte está acabada .
( lógico, ato pelo qual o bebê humano entra em contato, como individua- •
É dentro deste quadro teórico que encontra justificação a escolha
(
lidade biológica, com o meio social-cultural. do objeto de investigação proposto corno assunto do presente trabalho.
É a pressuposição da existência desse começo que me levou a colo- Procura-se, no início da vida da criança, a existência de indícios que nos
car a hipótese lógica da existência de um momento zero cultural. Tal é a permitam inferir que as funções biológicas estão em processo de trans-
razão de ter escolhido como objeto de investigação detectar, nos primei- formação sob a ação da cultura. Trata-se, portanto, de uma tentativa de
( verificação empírica de uma tese teórica, num esforço de compreensão
ros meses de vida da criança, a existência de indícios que atestem o início
( desse processo de desenvolvimento cultural- de conversão das funções da maneira como ocorre a constituição cultural da criança ou da sua
( biológicas em funções culturais - e por meio dos quais seja possível ana- humanização, algo que o conceito de desenvolvimento da tradição psicoló-
lisar como ocorre tal processo. gica parece escamotear.
(
Acrescente-se a isso a pressuposição razoável de que as funções bio- Feita ao longo da primeira parte do trabalho a análise das princi-
(
lógicas se transformam lentamente à medida que vai acontecendo o pro- pais questões teóricas colocadas pelo objeto da pesquisa - uma análise
( necessária para saber do que estamos falando -, a questão agora é sa-
cesso de "transposição" das funções culturais e temos, em síntese, os con-
( ber como abordá-Ia para chegar àquilo que estou procurando.
tornos do quadro teórico em que opera este trabalho de investigação.
(
Não se deve esquecer de que a relação entre funções biológicas e
( funções culturais é uma relação bastante complexa, pois se, de um lado, A QUESTÃO DOS INDíCIOS
( são diferentes por natureza, de outro, se amalgamam de tal forma que,
( sob certos aspectos, são inconfundíveis e, sob outros, inseparáveis. Como Como já foi dito no começo do trabalho, a razão de procurar indí-
não distinguir, com efeito, a dor física, provoca da pela dilaceração do cios é dupla: não só porque no começo da vida da criança o desenvolvi-
(
corpo, da alegria de sofrer por uma razão superior? Mas como separar a mento orgânico é feito de mudanças contínuas quase imperceptíveis, só
(
alegria da dor física da qual aquela se nutre? Como confundir o ato sexual sendo visíveis após um certo lapso de tempo, mas também porque é
( de um casal com a sua paixão amorosa? Mas como separar a paixão extremamente difícil distinguir diretamente os efeitos da ação da cultu-
( amorosa do próprio ato sexual que ela incendeia? Enfim, como não dis- ra das próprias mudanças biológicas que ocorrem nessa idade. uma)
tinguir a fome, resultante de uma necessidade biológica, do prazer da coisa porém parece certa: se realmente existe essa ação, devem existir /
(
comida? Mas como separar o prazer da comida do ato fisiológico de indícios disso, mesmo se sua identificação não é tão fácil no plano con- K.
(
comer quando se está com:muita fome ou a comida é esquisita? Tudo ereto quanto parece ser no plano abstrato.
(
isso para dizer que se, no plano teórico, é relativamente fácil estabelecer Lembrando o que foi dito no princípio do trabalho, a idéia da ne-
( \ a demarcação entre realidades naturais e realidades culturais, no plano cessidade da existência de um começo do processo de desenvolvimento
~ ( empírico é muito difícil determinar onde terminam umas e começam as cultural - que não seja confundido com o próprio desenvolvimento
outras. A relação entre função biológica e função cultural sugere a ima- orgânico que tem início desde a fecundação - levou ao postulado lógi-
(
gem da produção escultural: a matéria vai configurando-se numa forma co de um momento zero cultural, ou seja, do lapso de tempo que se esten-
(
estética à medida que a idéia estética adquire forma material. Seria, toda- de desde o nascimento biológico até o início desse processo (horas? dias?
(

(
(

178 ANGELPINO AS IMRCAS DO HUIMNO 179

/
(
(
semanas?). É um postulado muito difícil de ser detectado diretamente, o método em Vigotski
daí a necessidade de procurar indícios desse processo.
( •
Todavia, procurar indícios de um processo é muito diferente de pro- Uma das idéias básicas a respeito do método de investigação apon-
( curar relações causais entre fatos. Isso coloca-nos diante de opções me- tadas por Vigotski - a qual parece-me estar plenamente de acordo com
( todológicas também diferentes. Com efeito, procurar indícios implica em a matriz filosófica que sustenta todo o seu pensamento, o materialismo
(. . \ optar por um tipo de análise que siga pistas, não evidências, sinais, não fi
histórico e dialético - é que deve ex~stircoerência entre o méto<!.~ad().:-_.
. \~ 1 significações, inferências, não causas desse processo. Mas, por outro lado, tado pelo investigador e a sua posi5ã~~~. Na perspectiva histórico-
( \' .verificar a existência de um processo não é, simplesmente, mostrar os cultural que decorre da sua matriz de referência, essa coerência implica
( 1~< fatos que façam parte dele, mas seguir o curso dos acontecimentos para
duas posturas metodológicas:
( verificar as transformações que se operam nesse processo, concretamente,
a conversão das funções biológicas sob a ação da cultura. Isso pressupõe a) O objetivo da pesquisa não é a análise de fatos, mas de proces- _
uma visão dialética dessas transformações pois, corno já vimos anterior- "sos, ou ~a, d~ história da gênese desst:~J.<:.~<?.~.__ tV
( :mente, a conversão supõe que algo novo emerge, mas que algo permane-
A análise de coisas deve ser diferenciadada análise de processos,a qual
( ce daquilo que é objeto d~ conversão.
leva atualmente a um desdobramento dinâmico dos principais pontos
( A investigação de indícios aponta para uma metodologia de análise que formam o curso histórico de um processo.Neste sentido, somoscon-
( que se distancie, igualmente, de pesquisas que procuram a existência de duzidos a um novo entendimento da análise, não pela psicologiaexperi-
relações diretas (por exemplo, do tipo causa Ç:::> efeito) entre dois conjun- mental, mas pela psicologiagenética.Gostaríamos de apontar a mudan-
(
tos de fatos de natureza diferente - no nosso caso, fatos biológicos (F) ça mais importante que a psicologiagenética introduz na psicologiage-
( e fatos culturais (F) - e de pesquisas definidas corno "estudo de caso". ral [...] a introdução do ponto de vista genéticona psicologiaexperimen-
J

!
( O que se procura aqui é diferente: são elementos observáveis cuja rela- tal. A principal tarefa da análise é reconstrução do processo desde o seu.
ção lógica com o objeto que se persegue permite inferir a presença desse estágio inicial ou, em outras palavras, converter a coisa no processo.
(
~ objeto, ou seja, do processo de conversão de um tipo de funções em ou- (Vigotski,1997:68)
( tras. Mas não é só, pois o processo do qual se procuram os indícios é de
( natureza semiótica, o que equivale a dizer que estamos procurando in- Para o estudioso do pensamento de Vigotski, estas palavras, no
(
-l dicios de um fenômeno serniótico, o que torna o trabalho de investigação contexto do conjunto da sua obra, significam que a idéia de processo é
[ mais sutil.
equivalente à idéia de gênese histórica do fato pesquisado. É no estudo
(
dessa gênese que capturamos a natureza e a significação desse fato. Isso
(
equivale a dizer que o procedimento metodológico é histórico-genético,
( A QUESTÃO DO MÉTODO uma vez que o processo de gênese de um fato humano constitui a histó-
ria desse fato.
Dois aspectos reterão minha atenção sobre a questão do método: as
( idéias de Vigotski sobre essa questão e as análises semióticas feitas num b) ContrªE0J;:_ª_ªDálise.descritiva dos problemas a análise explicati-
( dos capítulos precedentes deste trabalho. Sem pretender alongar-me y;;t.- A primeira fica na exterioridade dos -fe~Ô~e-;::;~~:
ouseja, no seu as-
( demasiadamente neste assunto, limito-me a discutir apenas alguns pon- pecto fenomenal ou aparente; a segunda penetra no interior deles, na
tos que considero mais relevantes para os fins deste trabalho. sua dinâmica e gênese histórica ou essência.
(
180 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 181

A psicologia nos ensina a cada momento que duas ações podem apresen- emergem na criança, sob a ação da cultura, funções culturais ou, em
tar semelhança do ponto de vista externo, mas podem diferir profunda- outros termos, como ocorre a conversão de umas em outras.
mente uma da outra na sua gênese, essência e natureza. Em tais casos são •
necessários meios especiais de análise científica que ponham em evidên-
cia as diferenças internas que estão ligadas às semelhanças externas [...]
(Toda a dificuldade da análise científica está em que a essência das coisas,
o paradigma indicial
I
I isto é, sua relação verdadeira e real, não coincide diretamente com a for- A forma de abordagem escolhida para dar conta da análise indicial
! ma de suas manifestações externas; por esta razão, o processo deve ser
é aquela que se aproxima do que alguns autores, como Carlo Ginsburg
\I analisado. (Ibid.: 70-71)
(1980: 13)1, denominam de "modelo iridícial". Esse modelo surge, nos
De maneira extremamente sintética, pode-se dizer que a aborda- tempos modernos, como resultado de uma feliz convergência de dife-
gem metodológica coerente com a perspectiva histórico-cultural que rentes procedimentos de investigação utilizados em diferentes campos
orienta este trabalho de procura de indícios de um processo deve ser, ao de atividade por investigadores relativamente contemporâneos: Giovanni

mesmo tempo, histórico-genética, dialética e interpretativa. Morelli (1811-1891), Arthur Connan Doyle (1859-1930), Sigmund Freud
,, (1856-1939) e Charles S. Peirce (1839-1914), e que revelam a emergência,
• Histórico-genética porque o processo de cuja existência se pro-
no fim do século XIX, "de um paradigma do índice que, apoiando-se pre-
curam os indícios é um processo de geração de formas novas que
cisamente na semiótica, começou a se impor no domínio das ciências
tenham por base formas anteriores nas condições históricas con-
humanas" (idem). Um paradigma cujas origens podem ser rastreadas
cretas que definem o desenvolvimento da criança.
nas memórias dos povos de um passado muito longínquo.
• Dialética porque o que constitui a essência desse processo é o
Com efeito, num sentido amplo, o "paradigma indicial" inclui uma
encontro de dois tipos de funções que se opõem e, ao mesmo grande variedade de recursos utilizados, ao longo da história humana,
tempo, constituem-se mutuamente. na tentativa de desvendar o lado oculto dos fatos naturais, inertes ou
• Interpretativa porque mesmo se toda análise implica alguma for- animados, e dos fatos culturais: desde a observação das pegadas dos
ma de interpretação, no caso concreto do objeto deste trabalho, é animais, do movimento das aves e dos astros e dos vários objetos de
a única forma de analisar indícios de um processo, não o proces- adivinhação, até a observação das marcas do corpo, das pistas deixadas
so em si mesmo. pelo homem e dos sintomas que conduzem à doença. É claro que são i

Na via apontada por Vigotski, este trabalho procura descobrir, por


1. Car lo Ginsburg procura mostrar no seu belíssimo texto Signes, traces, pistes que o pro-
meio de indícios observáveis, a existência do processo de constituição cul- cedimento utilizado por Giovanni Morelli, médico italiano, para identificar a autenticidade
tural da criança: não para simplesmente constatar fatos que mostrem a da autoria de obras de arte pelo estudo de detalhes físicos das pessoas dos quadros; a perícia
existência desse processo, mas para revelar a dinâmica da sua constitui- do detetive Sherlock Holmes, personagem ficcional criado por Connan Doyle, famoso pelo
recurso à observação dos pequenos "detalhes" para decifrar crimes, e a "técnica" utilizada
ção. Não se trata, portanto, de uma mera descrição de indícios, mas de pela psicanálise - a qual, nas palavras de S. Freud, "acostumbra deducir de rasgos poco
uma tentativa de descobrir na sua trama não apenas a existência mas estimados o inobservados del resíduo, 10 refusé de Ia observación, cosas secretas o encubiertas"
(Obras Completas, versão espanhola, Madrid: Ed. Biblioteca Nueva, 1967 - texto sobre
também a natureza do processo, ou seja, corno ele ocorre. Isso porque,
Michelangelo, v. Il, p. 1.075) - revelam a emergência de um "paradigma índícíal", cujas
em última análise, o que queremos saber é como das funções naturais raízes podem ser procuradas muito mais atrás na história. (Le Débai, 1980, n. 6: 1-44)
\
(
182

recursos bem diferentes, pois, como lembra oporftmamente Ginsburg


-. AHGELPINO AS MARCAS DO HUMANO

formas e os deslocamentos das presas invisíveis a partir dos sinais visí-


183

I
I

(ibid.: 35), entre a análise de impressões, rastros e m~cas, e a das escri- veis deixados por elas nas suas correrias (pegadas, estercos, penas, tu- \
turas, pinturas e discursos, existe uma diferença fundamental: a mesma fos de pêlos, odores etc.). Foi assfm que o homem, como observa
( que existe entre natureza e cultura. Se os meios utilizados para este tipo Ginsburg, aprendeu a sentir, registrar e interpretar os sinais e a realizar . 1
de investigação variam de acordo com o objeto investigado, existe algo operações mentais com rapidez fulminante. Gerações inteiras de caça- I "-
em comum em todos eles que constitui a característica principal do pa- dores enriqueceram e transmitiram este patrimônio cognitivo às gera-
radigma indicial: utilizar como elemento decisivo de prova o que, em ções posteriores.
geral, é descartado pelo modelo científico dominante nas ciências da Em épocas mais recentes, o homem foi criando novos sistemas de
natureza desde Galileu até os nossos dias. sinais (os signos) que lhe permitiram deixar suas próprias marcas em
( Não há lugar aqui, pois não faz parte dos objetivos deste trabalho, monumentos, sepulturas, utensílios domésticos e inscrições gráficas nas
para aprofundar as complexas e interessantes questões envolvidas no cavernas como testemunhas silenciosas de um passado cultural que,
"paradigma indicial". Em razão disso, remeto o leitor à bibliografia es- interpretadas pelas gerações posteriores, permitiriam reconstituir a his-
pecializada nesta matéria", assim como às obras dos autores referidos tória e abrir o caminho para novas conquistas culturais.
( acima. Não obstante, deter-me-ei em alguns dos aspectos mais impor- É interessante pensar, como o faz Ginsburg, que esses traços, pistas
tantes desse paradigma, a fim de justificar devidamente a escolha desse e marcas não são fatos isolados, dispersos no tempo e no espaço, mas, ;
(
modelo e de estabelecer os limites em que será utilizado neste trabalho. ao contrário, são elementos articuláveis capazes de compor a tessitura I
É sabido que desde a Antigüidade, provavelmente desde os pri- de um "texto" que pode ser "lido" e interpretado. Eles se situam, por-I
( I
mórdios da humanização da espécie homo sapíens, penetrar nos insondá- tanto, no campo da semiótica humana. Tecendo textos dos fios forneci-l
veis mistérios do mundo e do próprio destino fazia parte da existência dos pelos sinais, o homem passa do plano de uma sensibilidade opera- \
cultural do homem. Homem que, de um lado, situa-se na linha evoluti- tiva, ainda dá ordem da natureza, para o de uma atividade simbólica, da 1
va que leva os animais a conhecer seu meio, físico e social, como uma ordem da cultura. Se não fosse assim, pouco teria representado o adven- f
\
necessidade biológica inscrita nas condutas de demarcação, defesa e re- to da espécie homo na história da evolução.
(
conhecimento do território, assim como nas várias formas de sinaliza-
ção que lhes permitem regular as interações inter e íntra-específicas: e,
o caçador teria sido o primeiro a "contar uma história" porque só ele
(
estava em condiçõesde ler numa série de eventos coerentes,nos traços
de outro lado, está dentro de uma nova linha de evolução, a evolução
silenciosos (ou mesmo imperceptíveis)deixados pelas presas. "Decifrar"
( cultural, que lhe permite transpor os limites do biológico e criar meios
ou "ler" os traços dos animais são metáforas.Entretanto, a gente é tenta-
(
novos para desvendar os mistérios da natureza e novos espaços de re- da a tomá-Ias ao pé da letra como a condensação verbal de um processo
presentação simbólica da realidade. histórico que conduziu, num lapso de tempo talvez muito longo, à in- ,
(
Em épocas remotas o homem foi, durante milênios, um caçador venção da escritura. (Ginsburg,1980: 14)
que, no curso de suas inumeráveis caçadas, aprendeu a reconstituir as
( É esse caráter de "texto" que explicaria as surpreendentes analo-
( gias que existem entre o modelo subjacente às práticas da arte de decifrar
2. Na impossibilidade de elencar aqui essa abundante bibliografia, remeto o leitor à que
os traços animais pelos povos caçadores e o modelo implícito nas práti-
( consta na obra organizada por Umberto Eco e Thomas A. Sebeok, O signo de três, a qual, sem
dúvida, não é completa, mas é importante. cas divínatórías dos povos da Mesopotâmia três milênios antes de Cris-
(

L
184 ANGELPINO />5MARCAS DO HUMANO 185

to. Ambos pressupõem o reconhecimento minucioso de realidades con- conhecimento humano. A incerteza existente na medicina, desde
\ cretas, mesmo corriqueiras, como meio para desvendar eventos que o Hipócrates até hoje, sobre o recurso a um saber indicial (pelo sintoma) ou
( observador não pode conhecer diretamente nem reconstituir. O que dis- a um saber científico rigoroso de cau~as e efeitos, é bastante reveladora.
tinguiria esses dois tipos de práticas seria a diferente orientação tempo-
O caráter conjectural do conhecimento humano legitimaria, impli-
ral que eles implicam: as práticas da arte de decifrar estão preocupadas
citamente, o recurso ao "paradigma indicial" em esferas muito diferen-
em desvendar eventos presentes ou passados, ao passo que as práticas
(
tes da atividade humana. Entretanto, ele foi excluído da esfera do saber
divinatórias voltam-se para desvendar eventos que ocorrerão no futuro.
construído a partir do "paradigma científico",.o qual tem como eixo a
( Todavia, as operações mentais envolvidas em ambas as práticas são muito
física de Galileu. Criou-se assim uma cisão no campo das ciências: de
(. semelhantes. São elas, principalmente, a observação atenta dos sinais, sua
um lado, aquelas que têm por objeto casos, situações e elementos singu-
articulação e relação com o evento e sua classificação em função dos even-
( lares e que conduzem a resultados que comportam alto grau de incerte-
tos que eles sinalizam. Pode-se falar então que existe um saber decor-
( za; de outro, aquelas que têm por objeto chegar à lei geral e à certeza.
rente dessas práticas, relativo, particularmente, à história natural e às
Certeza à qual se contrapõe, nos tempos contemporâneos, a incerteza
( características fisionômicas de diferentes espécies naturais.
que decorre das novas teorias científicas como a teoria da relatividade
( Ginsburg pensa qu~ a invenção da escrita teria modelado profun- de Einstein, a mecânica quântica de W. Heisenberg, N. Bhor, D. Bhom,
damente as práticas divinatórias mesopotâmicas, pois incumbiria às di- Schrbdinguer, a teoria dos estados dissipativos de 1. Prigogini, todas
vindades, entre outras prerrogativas próprias dos soberanos, a de co- elas prenunciando a emergência de um novo paradigma científico.
municar-se com os seus súditos por meio de mensagens "escritas" (nos
Parece que o dilema que se coloca hoje à ciência não é escolher
astros, nos corpos, por toda parte) que os adivinha dores deveriam deci-
entre o conhecimento do singular, menos rigoroso, ou o conhecimento
frar. As características pictográficas da escrita cuneiforme teriam, segundo
do geral, da rígorosidade das leis, mas tentar construir um conhecimen-
esse autor, reforçado a identificação da adivinhação com a arte de deci-
to que possibilite a inserção do singular no campo do saber científico, o
frar os sinais divinos inscritos na realidade, pois à semelhança com a
\ que pressupõe uma revisão do próprio conceito de ciência. Tudo indica
adivinhação, a escrita designava coisas por intermédio de outras coisas.
( que a ciência contemporânea caminha, mesmo a passos pequenos, nes-
Com a passagem da civilização mesopotâmica para a civilização ta última direção, convencendo-se de que as singularidades não podem
(
grega, o corpo, a linguagem e a história tornam-se, pela primeira vez, ser sacrificadas, sem mais nem menos, às leis gerais e à estatística dos
( objeto de um tipo de investigação que exclui, em princípio, a interven- grandes números. Particularmente quando as singularidades nos reve-
( ção de fontes não-humanas de conhecimento, como ocorre nas diferen- lam os misteriosos processos da natureza repetindo-se indefinidamente
( tes formas de adivinhação. O caso da medicina hipocrática é bastante de um singular a outro.
esclarecedor, F(Jis desenvolveu seus próprios métodos baseados no con-
l ceito elaborado de "sintoma" (o sêmeion, o mesmo termo grego para
( designar o signo), fazendo da análise minuciosa dos sintomas o cami- ESPECIFICANDO O DESIGN DA PESQUISA
( nho para chegar à história precisa da doença, inacessível em si mesma.
( A insistência no sintoma se explicaria, segundo Ginsburg, pela oposição Esta pesquisa tem como sujeito-alvo uma única criança, do nasci-
enunciada por Alcméon, médico do círculo de Pitágoras, entre o caráter mento até um ano de idade, antes da emergência da fala, embora o pe-
de imediaticidade do conhecimento divino e o caráter conjectural do ríodo crítico para o objetivo desta investigação seja os seis primeiros
(

(
186 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO
187
,
meses. A razão de ser só uma criança se justifica pela natureza do objeto Peirce (1990: 30)4, que de qualquer um dos outros dois: a indução e a
da pesquisa, o qual, como já foi dito, é a procura de indícios da origem dedução. Com efeito, a abdução parece ser o mais adequado para os es-
do processo de constituição cultural da criança após o nascimento. A tudos conjecturais que o de argumentáção dedutiva, pois trabalham com
multiplicação dos casos seria inútil, pois não agregaria nada de essen- suposições lógicas e não com "leis" científicas. Segundo Peirce, uma par- ('
cial ao conhecimento do início desse processo. Neste tipo de pesquisa, ticularidade do argumento por abdução é a relação de semelhança que
cada caso é exemplar, pois o que se procura já é da ordem dos fenôme- existe entre o fato enunciado na conclusão e os fatos das premissas. Mas,
(
nos gerais, visto que, se o início desse processo pode apresentar aspec- como adverte esse autor, as premissas poderiam perfeitamente ser ver-
(
tos específicos singulares, em razão da história pessoal de cada criança, dadeiras sem que o fosse a conclusão. Assim, no nosso caso, existir ou
( o processo em si é um fenômeno geral porque é constitutivo da própria não indícios do processo de constituição cultural da criança nesses pri-
( condição humana. Não se trata, como é evidente, de uma característica meiros momentos da vida não compromete a veracidade nem da pre-
que se distribua de forma aleatória no conjunto da população humana. missa (1) "existência de vínculo real entre o fenômeno e seus indícios",
(
Não se trata de procurar uma lei que explique todas as possíveis ocor- nem da premissa (2) "existência de vínculo real entre o processo de cons-
(
rências de um fenômeno, mas de verificar se esse fenômeno, de caráter tituição cultural e os indícios de tal processo". O que a existência ou não
( geral ou universal, ocorre, num momento dado e saber como ele ocorre. de indícios permite concluir é se ocorre ou não ocorre esse processo tal
Se um único" caso" não gera uma lei geral (segundo o modelo científico como foi suposto.
I
vigente), o princípio geral da constituição cultural do homem - pressu-
posto teórico - deve revelar-se nele como se revelaria no conjunto de
casos que formam o universo de que esse" caso" singular faz parte.
Na qualidade de investigação semiótica, a análise de indícios é cons-
tituída de atos de interpretação, não de mera descrição dos fatos em que
tais indícios se concretizam. Se interpretar é a função específica de toda
I
Feitas as análises teóricas da primeira parte e estas considerações análise de fenômenos não evidentes, ela é a única adequada quando o
( metodológicas, devo lembrar que o design pensado para esta pesquisa objeto de investigação é indícios.
( parte das seguintes premissas: 1) existe já uma grande experiência
O procedimento utilizado neste trabalho não está, entretanto, pau-
I acumulada - fato explicitado mais recentemente por diversos autores-
(
-,
tado, especificamente, em nenhum dos vários modelos utilizados pelos
'----na interpretação de rastros, pistas, marcas e sintomas que permite
autores a que me referi anteriormente. A razão é simples. Aqui não se
( t"~ estabelecer como princípio a existência de um vínculo real entre um fe-
( J; nômeno e os indícios que atestam a sua existência; 2) o processo de cons- trata de descobrir nem a autenticidade de objetos, como as pinturas,
pela interpretação das marcas identificadoras de seu autor, como no caso
( ~',,);:-)tituição cultural do homem é um fenômeno ao qual se pode aplicar esse de Giovanni Morelli, nem a autoria de crimes pela seqüência de pistas
\ ~ / princípio, o que permite pensar que existe um vínculo real entre ele e a que levam a ela, como no caso de A. Connan Doyle, nem ainda a natu-
\ { presença de indícios que atestam a sua existência; 3) pode-se esperar,
( ~ \ portanto, que, observados e devidamente examinados esses indícios, seja
( ,l possível afirmar, com suficiente segurança, a ocorrência de tal processo. 4. "Um argumento originário, ou Abdução, é um argumento que apresenta fatos em suas
Premissas que apresentam uma similaridade com o fato enunciado na Conclusão, mas que
( Em termos da lógica crítica, este design aproximar-se-ia mais de poderiam perfeitamente ser verdadeiras (as Premissas) sem que esta última (a Conclusão)
( um caso de abdução, um dos três tipos de argumentação apontados por também o fosse [...] de tal forma que não somos levados a afirmar positivamente a Conclu-
são, mas apenas inclinados a admiti-Ia como representando um fato do qual os fatos da Pre-
( missa constituem um Ícone [... ] Uma Abdução é Originária quanto ao fato de "sero único tipo
3. Cf. O Signo de Três, obra citada anteriormente. de argumento que começa uma nova idéia".
(
(
(

188 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 189

reza da patologia de uma pessoa pela interpretação de seus sintomas, que cada indício deve apresentar sucessivas formas que traduzam não
{ como no caso de Sigmund Freud. Em todos esses casos e talvez em muitos só as mudanças biológicas que ocorrem nessa fase do desenvolvimento,
( outros similares, existe uma relação, quase material, entre marcas, pis- mas também - e sobretudo - a sua evolução em formas novas, em
tas, sintomas e os respectivos fatos cuja presença eles atestam. É verda- função da ação do meio social-cultural. É isso que confere ao processo
de que o caminho que leva de uns a outros é um caminho lógico, mas os sua dinâmica estruturaL
fatos (descobrir a autoria de uma pintura ou de um crime ou ainda a Na perspectiva histórico-cultural, o processo de constituição cultu-
( existência de uma doença) são fenômenos singulares e únicos: marcas,
ral é um processo dialético, pois é encontro de duas realidades distintas
pistas e sintomas não se repetem da mesma maneira em todos os casos
e opostas, a biológica e a cultural, que se constituem mutuamente ao
que a perícia humana é capaz de desvendar.
longo de um tempo histórico. Assim, se interpretar indícios é procurar a
,, . O caso que nos ocupa neste trabalho é diferente de todos aqueles, significação que eles têm para o olhar interpretativo do pesquisador, I'
.ais os indícios não são materialidades como ocorre neles (um traço na esse olhar deve levar em conta a natureza dialética do processo de que r..,.''t
pintura, uma minúscula porção de areia amarela no sapato, um gesto, os indícios participam. Dessa maneira, o olhar do pesquisador no ato de r<
( ação ou palavra), mas variações de sentido no continuum de um processo interpretá-los será coerente com o quadro teórico de referência, não só
( biológico que afeta a natureza do processo; mesmo ocorrendo na ordem com o método.
da materialidade, ultrapassam-na como fenômenos da vida.
Tentando delimitar ainda mais os procedimentos de análise, deve
Falar em indícios de um processo, na perspectiva histórico-cultural ser levado em conta que os indícios se apresentam como elementos uni-
em que se insere este trabalho, é falar de algo que faz parte desse mes- tários discemíveis na totalidade do processo. Dessa forma, eles consti- v:
mo processo e participa de suas características específicas. Como já vi- tuem uma espécie de microprocessos que revelam a estrutura e a dinâ-
{
mos, duas coisas caracterizam o processo de desenvolvimento cultural mica da totalidade de que fazem parte (o grande processo). Por outro
( nessa perspectiva: ser histórico e dialético.
lado, esses indícios constituem, em si mesmos, micros-situações da vida
( Se como diz Blonski, citado por Vigotski e ao qual já me referi ante- real da criança, nas suas condições naturais de existência (em contrapo-
riormente, "O comportamento só pode ser entendido como história do sição às condições artificiais de certos métodos experimentais), ou seja,
(
comportamento", então podemos dizer que um processo só pode ser tais como aparecem à observação do pesquisador no contexto da vida
(
entendido como história desse processo.l~:>~_q!1~:':_9:.i.?;~Lq~_"?~
indícios cotidiana da criança. Daí que este procedimento de pesquisa se enqua-.J Ih,
devem ser interpretados na mesma perspectivahistórica que caracteri- dre no que alguns autores, com maior ou menor propriedade, chamam 0\ r'~'1~
, za ;proc"esso.·Cõmo 'e;;;t~,eles também se transform:~-o~; -iêmgo-ao---
\, também de método "micro-etnográfico".
(
1/
Y'
tempo de observação, revelando ~ssim a dinâ~k~'dõ-pro~~;oo: Ma;o~ -0-
o'·· '.. • ""' •• _o' • ..' •• ,. • •••••••• _~ .--

o processo é histórico, ele é gênese de formas nováscom base em for-


(
mas antigas. Isso permite interpretar os indícios como elos de uma cor- PROCEDIMENTOS DE INVESTIGAÇÃO
( rente evolutiva de formas culturais que marcam o processo. O que faci-
( lita bastante o trabalho de interpretação, pois o significado de um indício Em função da perspectiva metodológica aqui adotada, optou-se por
(
está ligado à sua evolução genética no período estudado da vida da selecionar momentos da vida da criança, no período escolhido, que pos-
criança. Diferentes de marcas, pistas e sintqmas, os indícios não são os sam fornecer os indícios que se procura. A escolha desses momentos não
mesmos ao longo do processo, mas significam o mesmo. Isso quer dizer é totalmente aleatória, uma vez que o processo de que se fala aqui, sem
(
(
\

190 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 191


~
( ser linear, segue a direção do que Prigogini (1996) chama de "flecha do menino que desde o nascimento e durante todo o tempo que duraram
tempo", ou seja, é um movimento irreversível, condição para poder fa- as observações e os registros apresentou um quadro clínico geral consi-
lar em história do desenvolvimento. Mas a escolha tampouco é sistemá- derado excelente, continuando até o fim da pesquisa com um estado de
_ tica e previamente determinada segundo um calendário rigoroso. E isso saúde muito bom. As observações começaram a ser feitas já na materni-
(
~ I por duas razões: primeiro, p.2rque o processo é suficientemente lento e dade, seguindo-se depois na casa dos pais da criança e dos parentes
ri- as mu~~ças ocorrem quase que imperceptivelmente; segundot-J2Qrque~ próximos dela.
'a'U1";;sti~ está-condicionada, grand~p~~te, tanto ao ritmo social -êm:-
da vida familiar da criança quanto a seus próprios ritmos biológicos de
(
desenvolvimento. QUADRO DE ANÁLISE
Se, corno já foi salientado anteriormente, na perspectiva histórico-
t. Para a análise do material registrado, considerou-se necessário cons-
cultural, o que constitui o objeto de interesse da pesquisa não é o fato
( truir um quadro de "indicadores de desenvolvimento" orgânico, à se-
em si, mas o processo que dá lugar à existência desse fato, o que interes-
melhança do que já foi feito em trabalhos já clássicos de alguns investi-
sa nesta investigação. é o processo de transformação das funções bioló-
gicas pela ação da cultura, transformações que só podem ser detectadas gadores do desenvolvimento infantil no primeiro ano de vida da crian-
(
por meio dos indícios da sua ocorrência. O objeto de análise neste traba- ça, embora com objetivos e em contextos teóricos diferentes. Um desses
lho não é a criança na sua singularidade, mas o processo por que ela trabalhos bem conhecido é o de René Spitz (1968), que utiliza como re-
pas~~o q~é:!Lª]2.e_sªr.d9:~.yjlriaçÕ~s..idi~s!'il)crásicas de cada uma ~ curso de análise alguns indicadores de desenvolvimento denominados
crianças, deve ser similar em todas elas. em embriologia de "organízadores" e que ele descreve nos seguintes
____ ~~. • __ ._.' "'_ ••• _ ••• __ ••••••.• _... '-'0 ".". •

\\ Para possibilitar a análise detalhada das observações realizadas termos:


em diferentes momentos da vida da criança, utilizou-se o registro em Em embriologia,o conceitode organizadorrefere-seà convergência,num
vídeo, o qual tem a vantagem de permitir que a observação, tal como foi lugar definido do organismoembrionário,de diferenteslinhas de desen-
feita pelo pesquisador, possa perpetuar-se e ser reproduzida tantas ve- volvimento biológico. Esses processos de convergência conduzem à
zes quantas forem necessárias para realizar sua interpretação, a qual é indução de agentes e de elementosreguladores chamados "organizado-
( dinâmica corno dinâmica é a percepção do objeto observado, o que pos- res", os quais por sua vezinfluirãono desenvolvimentofuturo. (1968: 88,
( (" sibilita a emergência de aspectos novos. Os registros em vídeo permi- tradução minha)
,! tem fazer não só observações muito mais longas e detalhadas que as

~~A I
)
\\ feitas no ato do registro, como também observações "novas", pois no-
vas são as situações em que cada exposição aos dados registrados colo-
Spitz lembra que J. Needman" fala de organizador embriológico
corno um regulador do ritmo de progressão sobre um eixo particular de
( ca o pesquisador. Isso não quer dizer que se incida numa espécie de desenvolvimento que se constitui num centro de influência em torno
"relativismo interpretativo ", o que impediria a análise real do processo. dele. Antes da sua aparição, é possível, por exemplo, enxertar um frag-
Finalmente, os registros são breves, como o exigem as condições desse mento de tecido ocular na epiderme dorsal que se desenvolve corno a
tipo de observação. epiderme que o rodeia. O que não acontecerá se o enxerto for feito depois
(
Os dados registrados ocupam o período de maio de 1996 a maio de
1997, primeiro ano de vida da criança. Quanto a esta, trata-se de um 5. J. Needman, Chemical embnjology, London: MacMillan, 1931.
(
(
192 AI'lGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 193

(
que o organizador estiver constituído. Mais ou menos na mesma época, Os "indicadores" escolhidos têm a característica de revelarem a ação
Spitz levantou a hipótese de que processos similares ocorreriam no de- integrada de várias funções, como poderá ser verificado no momento
senvolvimento psicológico da criança, hipótese confirmada por diver- da sua análise. Por exemplo, o "cheio" das primeiras semanas é visto
sas pesquisas realizadas depois. Paralelamente, como lembra o autor, ou interpretado pelo observador como expressão da emergência de si-
trabalhos empíricos paralelos, como os de Scot e Marston" com ani- nais de ocorrência de diferentes tipos de alteração do estado funcional
mais e de Bowlby? sobre o desenvolvimento humano em geral, confir- da criança, vividos por ela como urna sensação de algum tipo de des-
mam a existência de "períodos críticos" do desenvolvimento, nos quais conforto ou de sofrimento orgânico. Além disso, esse" choro" envolve
Spitz mostra que há uma integração de diferentes correntes de desen- diferentes funções fisiológicas desencadeadas de forma autônoma. Pode-
( volvimento que produzem uma re-estruturação do sistema psíquico, se dizer então que o choro do bebê é "indicador" do (dis)funcionamento
num nível superior. É um processo que conduz ao conceito de "orga- integrado de diversas funções e pode ser observado por meio dos gradi-
nizador". entes de evolução que nos fornecem medidas observáveis de variação
É evidente que o conceito de "organizador" de que fala Spitz não no desenvolvimento dessas funções. Não deixa de existir uma certa se-
corresponde ao conceito de "indicador" que uso aqui, pois, como os melhança entre os termos "organizador" e "indicador" de desenvolvi-
próprios termos o indicam, trata-se de conceitos diferentes; uma coisa é mento, uma vez que este último atua como sinalizador da evolução de
( falar de agentes de organização do desenvolvimento embriológico (das funções integradas por algum tipo de "organizador" funcional, não mais
células, dos tecidos, dos órgãos e de suas funções orgânicas) e outra, embriológico.
(

(
muito distinta, é falar de "indicadores" de desenvolvimento das fun- Apesar da rapidez com que ocorre a evolução da criança nos pri-
ções biológicas tal como são concebidos neste trabalho. meiros meses de vida e ao longo dos primeiros anos, a um observador
(
que acompanhasse de maneira contínua e seguida essa evolução pare-
De maneira mais precisa, os "indicadores" apenas nos sinalizam o
( ceria que esses "indicadores" de desenvolvimento permanecem cons-
curso evolutivo das funções biológicas, permitindo visualizá-Io ao lon-
tantes, tal é a maneira quase imperceptível em que ocorre a mudança.
go de um determinado período de tempo por meio de observações sis-
Outra, porém, seria sua percepção se fizesse essa mesma observação de
temáticas. Em vez de observações contínuas, de pouco ou nenhum inte-
tempos em tempos, por exemplo, de três em três meses. Ora, seguindo
( resse para os objetivos a que me proponho aqui, são feitas observações
com atenção os registros em vídeo feitos ao longo desses meses, é possí-
e registros em determinados recortes de tempo, o que permite estabele-
vel detectar gradientes de evolução nesses "indicadores". Usando esses
cer "gradientes'? de evolução.
( gradientes é mais fácil visualizar os indícios das transformações que ocor-
( rem no desenvolvimento das funções biológicas sob a ação da cultura.
6. J. P. Scot e M. V. Marston, Critica I periods affecting development of normal and maladjusiatiue
( social behavior of puppies, [ournal Genetic Psychology, 77, 1950. Todavia, é necessário especificar de que desenvolvimento está-se
7. J. Bowlby, "Critica I phases in lhe development on social responses in Man", New Biology, falando, pois é essa especificação que caracteriza a natureza desses indí-
London: Penguin Books, 1953. cios. O term.!:>..~~og~!,~nvolvimento"
~_~jenq.i.c!Q..-ªq.uLc.omQ..lJ.~ce_~Q 1 y:--o
"medida
8. No Novo Dicionário
de variação
Aurélio,
de-determinada
o termo "gradiente"
característica
tem, entre outros significados,
de um meio (tais como a pressão atmosféri-
o de que engr~~ _~?tran~~~~açõês··q~~ ocorrem nas diferentes funções 99
-----=- o._.o .o
'... ··_·····
__·_·_,--0' ..-- .. - -"
0<:
(
ca, a temperatura etc.) de um ponto para outro desse meio". Trata-se, portanto, de um conceito
.organismo
~o_._ humano,
o-o _as quais,
_ .mesmo-oseiido
_ .....relativamente autôn0!!lª~t.
0. ··_·-_ •• • _ •• _.- ••••••• ---

(' de medida, adequado para pesquisa em áreas corno a geofísica. No entanto, será usado aqui de constituem um todo funcional integrado. Mesmo correndo o risco de
forma metafórica, pois traduz a idéia de "medida de variação" nos "indicadores". ser repetih;~~ lembro que o desenvolvimento ao qualme refiro aqui é o
(

(
( 194 ANGELPINO @~ 195

(
desenvolvimento cultural" de que fala Vigotski, o qual, como espero
/I

(
ter deixado claro ao longo deste trabalho, é de natureza simbólica. Isso
( quer dizer que aquilo que se busca são indícios da ação transformadora
( que o simbólico opera nas funções naturais ou biológicas do bebê, herda-
( das dos antepassados, as quais trazem a "marca" (empreinte ou imprint)
da história cultural dos homens. A seleção e definição dos "indicadores"
(
e dos respectivos gradientes constitui o corpus do próximo capítulo.
(
( Capítulo VII
(
(
Indicadores das funções biológicas e
(
gradientes de evolução
('

(
INTRODUZINDOO TEMA
(
( Foi visto nos capítulos anteriores que a "internalização" das fun-
( ções superiores ou culturais, como diz Vigotski, ocorre por meio de um
processo de conuersão das funções biológicas em culturais, o que signifi-
(
ca que o curso evolutivo dessas funções não só não é interrompido, mas
( segue um rumo novo, determinado pelas condições históricas concretas
( do meio cultural em que a criança está inserida. Este é, sem dúvida, o
( núcleo duro da teoria, pois coloca o difícil problema da articulação de
funções de natureza diferente que, conservando sua especificidade pró-
(
pria, dão origem a um outro tipo de funções. Que tipo é esse? Eisa
( questão. Espero que o trabalho de identificação dos indícios ajude a es-
( clarecer essa questão nada fácil.
( A escolha de "indicadores" de desenvolvimento obedeceu ao se-
( guinte princípio: que constituíssem manifestações primordiais ou pri-
meiras da atividade biológica em curso na criança e que fossem de fácil
(
observação, ponto extremamente importante quando o que se procura
( são indícios de algo que é difícil de ser detectado, como é a ação da cultu-
( ra sobre essas funções desde os primeiros momentos (horas? dias? me-
( ses?) de vida da criança. Com efeito, os "indicadores", como o termo o

(
(
(
L
(
196 ANGElPINO AS MARCAS DO HUMANO 197
(
(
diz, nos revelam como as funções biológicas vão se desenvolvendo, o se comparado com os bebês de outras espécies próximas à espécie hu-
( que pode ser melhor visualizado nos gradientes de evolução, nos quais mana. Não se trata, portanto, de discutir aqui o grau de amadurecimen-
( procuram-se indícios de transformações devidas à ação da cultura por to funcional do recém-nascido, mas de tentar delimitar as condições
intermédio da mediação do Outro. mínimas de funcionamento do organismo humano no primeiro confronto
(
Os "indicadores" selecionados, apresentados por ordem de apari- com a realidade social e cultural do seu meio, pois não se pode esquecer
ção, são: que o bebê humano, além de ter que enfrentar as condições do novo
meio físico como qualquer outro organismo, tem que enfrentar as con-
• o choro; dições peculiares do meio humano, o seu meio, para poder iniciar a aven-
(
• o movimento (de mãos, de pés, de rosto ou "caretas", de braços, tura da sua constituição como ser humano, a qual depende totalmente
(
de tronco, de pernas etc.). Trata-se de diversos tipos de movi- da solidariedade do Outro.
( mentos que, sendo na sua origem de caráter espasmódico, são Questionar-se sobre o "estado geral do bebê humano" no momen-
susceptíveis de se tomarem, depois de algum tempo, movimen- to do nascimento, algo que vem sendo feito já há algum tempo por es-
tos expressivos e, mais tarde, gestos significativos; pecialistas do desenvolvimento infantil, não tem nada a ver, em princí-
• o olhar; pio, com a hipótese levantada neste trabalho do momento zero cultural,
• o sorriso; uma vez que aqui se está falando de "desenvolvimento cultural" que
tem um início que não se confunde com o início da vida do bebê já no
• uma espécie de combinação de vários deles que resulta numa
útero materno. Tal não é o caso, de forma geral, dos pesquisadores que
configuração visual do rosto de "brilho" e "exaltação de alegria".
tratam da questão do "estado geral do bebê humano" no momento do
nascimento. Entretanto, a questão pode dar sustentação à minha hipó-
QUESTÕES PRELIMINARES tese, nem qU,eseja de maneira indireta, pois mostra o estado orgânico
do recém-nascido onde é totalmente improvável encontrar indícios de
mudanças culturais nas funções biológicas,
Antes de entrar na análise dos "indicadores" do desenvolvimento
escolhidos, parece-me importante tecer algumas considerações sobre o Por "estado geral" do recém-nascido entende-se aqui seu estado
estado geral do bebê humano, do ponto de vista do desenvolvimento, do ponto de vista das funções orgânicas vitais, mesmo no caso de exis-
(
nos primeiros instantes após o nascimento. Trata-se de considerações tirem já problemas funcionais graves mas que não o impedem de interagir
bem gerais, com o intuito exclusivo de visualizar o contexto em que os com o meio físico. Duas perguntas preliminares ao seu trabalho os estu-
"indicadores" vão ser considerados. Quero, entretanto, alertar o leitor diosos da infância têm se colocado, independente da concepção que eles
que não se trata de abrir um antigo debate sobre o que o recém-nascido têm do desenvolvimento psicológico: qual é o estado inicial do sistema
é ou não capaz de fazer. É sabido que a idéia que se tem atualmente comportamental do recém-nascido? Que eventos e processos determi-
sobre as suas "habilidades" contrasta com a estreita visão antiga de um nam a transformação desse estado?
recém-nascido passivo e desprovido de qualquer manifestação de ativi- Estas perguntas revelam por si só que existe um certo consenso a
dade sensorial. Admite-se hoje que no momento do nascimento o bebê respeito do fato de que o nascimento constitui uma mudança profunda
( humano está provido de uma atividade sensorial que, embora ainda entre as condições do meio em que o ato de nascer coloca o recém-nasci-
inicial, é suficientemente desenvolvida como para poder fazer face aos do e as condições do meio intra-uteririo onde foi concebido e se desen-
desafios fundamentais do novo meio físico, mesmo estando em retardo volveu. Parece ser então perfeitamente pertinente querer saber qual é o
(

(
( 198 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 199

(
estado inicial do recém-nascido, antes que a ação física e social do novo cologia por neurologistas influenciados por esses trabalhos e a penetra-
(
meio interfira nele. Esta interrogação conduz, logicamente, à segunda, a ção, especialmente na psicologia americana, dos estudos da reflexologia
( saber: como ocorre a transformação desse estado inicial para dar origem russa".
( ao início do percurso que levará o bebê ao estado adulto.
Foi surgindo assim uma lista de reflexos primitivos que acabou
( Tudo indica, todavia, que o ponto de convergência dos autores nas tomando-se uma pequena bateria de testes neurológicos para avaliar o
suas interrogações pare por aí, pois, como o mostram os debates infin- estado do recém-nascido, partindo-se do princípio de que eles fazem
dáveis em torno da questão da relação entre "o inato e o adquirido", as parte do equipamento inicial do bebê. Os principais reflexos levantados
divergências são muitas, em razão do conceito que cada um tem de cada são: reflexo de Babinski (reflexo plantar do pé); reflexo de Moro (reflexo de
( um desses termos. Felizmente, esta não é uma questão do interesse di- abraço, função encontrada em certas famílias de símios); e reflexo de
( reto deste trabalho. O que interessa é ver o que os pesquisadores, ao preensão (reação do recém-nascido a agarrar-se ao dedo do adulto quan-
tentar responder àquelas interrogações, pensam a respeito do que cons-
( do este o suspende no ar, suportando o peso do próprio corpo).
titui o equipamento de cada bebê humano nesse estado inicial.
( A existência dos reflexos no recém-nascido apenas mostra a pre-
No segundo volume do "Tratado da Criança" de Carmichael e pri-
(
sença, nesse estado inicial, de mecanismos fisiológicos arcaicos, resíduos
meiro de dois dedicados, ao primeiro ano de vida e às experiências ini-
de estruturas de condutas de origem animal.
ciais, W. Kessen, M. M. Haith e Ph. H. Salapatek começam reconhecen-
do que a variedade de enfoques metodológicos e de pontos de vista dos Outra linha de pesquisa está voltada para a análise de alguns com-
(
pesquisadores é grande, justificando o fato pelas próprias dificuldades portamentos cuja evolução durante o primeiro ano de vida apresenta
( um caráter universal, o que levou alguns pesquisadores, como A. Gesell
da pesquisa empírica nessa idade, a variedade de teorias sobre a nature-
( za humana que orientam as pesquisas e a rapidez com que ocorrem as (1928) e Trettien (1900)4,entre outros, a apontar a existência de certos
( mudanças no bebê. Após examinar uma extensa bibliografia sobre o assun- padrões universais de desenvolvimento motor que dão origem à apari-
to, até os anos de 1970, os autores sintetizam em vários itens os achados ção seqüenciada de fases desse desenvolvimento (locomoção em posi-
(
mais importantes desse levantamento. Limito-me a apresentar aqui al- ção de bruços, a progressão supina, o engatinhar e o andar).
( guns deles, retidos em função exclusiva do objetivo deste trabalho. Outro campo de pesquisas está relacionado com a reatividade do
( Uma ampla linha de pesquisa foi o estudo do papel que os reflexos recém-nascido aos estímulos sensoriais, especialmente, os procedentes
( desempenham no estado do recém-nascido e como evoluem posterior- do meio externo. De forma geral, esses estudos se limitam a dar uma
( mente. Entre os fatores que, segundo esses autores, teriam influenciado visão descritiva da sensibilidade aos estímulos externos da criança ao
o interesse por esta linha de pesquisa em psicologia, enumeram-se: a nascer e nos meses posteriores. Os estudos abrangem as funções da vi-
(
importância do reflexo em fisiologia, como nos trabalhos dos grandes são, da audição, do olfato, do paladar e da sensibilidade tátil. Na opi-
( fisiologistas Helmholtz! e du Bois-Raymonds, sua incorporação em psi-
(
3. Entende-se por U escola de reflexologia russa" o conjunto dos trabalhos em neurologia
( 1. Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz, (1821-1894), famoso físico e fisiologista realizados, no início dos anos de 1920, por autores como Ivan Pavlov, Alexei Ukhtomski e
alemão (Potsdam). Seus trabalhos na área da fisiologia da visão e da audição levaram-no a Vladimir Bekterev, voltados para o estudo da atividade nervosa que tem no reflexo sua uni-
( medir a velocidade do impulso nervoso. dade de análise. Esses trabalhos representavam o triunfo do pensamento científico naturalis-
( 2. Emil du Bois-Raymond (1818-1896), fisiologista alemão, um dos criadores da fisiolo- ta diante de uma psicologia idealista ultrapassada.
gia experimental. 4. A W. Trettien. Creeping and walking, Ame. [ournal of Psychology, 1900,12: 1-57.

( 1
(
200 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO
(
( Concluindo, como afirmam os autores desse trabalho, que
nião dos autores do trabalho, os resultados das pesquisas examinadas
( são interessantes, porém desanimadores. De um lado, fica evidente que resultados das pesquisas, apesar de serem confortantes, são frusti
o recém-nascido normal responde a todas as modalidades de estimula- pois constatam que "a complexidade do bebê humano continua <
(
ção sensorial; de outro, porém, não são fornecidas informações sobre bar da simplicidade de seus estudiosos" (ibid.: 135),fica claro que é
tão central, que nem sempre encontra urna resposta adequada, '
como a resposta se modifica em razão da variação dos estímulos apre-
gunda interrogação a que me referi no início deste capítulo: como
sentados.
a transformação do estado inicial? Penso que não existam dúvidas
Finalmente, são destacados, de forma mais detalhada, estudos es- to ao fato de o recém-nascido vir equipado, no momento do nascii
pecíficos sobre três tipos de comportamento: a sucção, a habituação e a de um complexo sistema de funções biológicas cuja origem an
( reação aos estímulos visuais. está enraizada no passado da evolução biológica dos organism
( O reflexo de sucção é, sem dúvida, a reação biológica mais primiti- precederam a Homo e que, ao longo da filogênese, foram altera
( va entre os mamíferos e a mais organizada, o que se justifica pela sua em função das diferentes condições ambientais porque passou ca
função primária na amamentação no momento de nascer. Todavia, é dos grandes agrupamentos da espécie homo sapiens ao espalhar-i
mostrado como a sucção do bebê humano não se limita à ingestão do Terra. Mas penso também que esse equipamento, por mais cor
leite, como a anatomia e a fisiologia da sucção poderiam dar a entender. que seja, não garante ao bebê humano enfrentar o meio que a su,
(
Ao contrário, suportada ou não pela função alimentar, a sucção desem- cie transformou, não porque é um ser biologicamente prematuro
( penha outras funções como o mostram os movimentos de sucção no explicaria parte da questão e não toda ela, senão porque todo ess
vazio e os efeitos de apaziguamento que sua provocação artificial pro- pamento tem que se ajustar (Nadaptar"'seria a palavra correta?)
(
duz, por exemplo, com a chupeta. danças ambientais que cada um desses agrupamentos humanos
ziu no seu hábitat para construir seu próprio meio, meio cultur
Os estudos sobre a habituação aos estímulos, não simplesmente a essência é da ordem do simbólico. São estas últimas mudanças (
reação a eles, caminharam inicialmente na direção de verificar a aquisi- perspectiva deste trabalho, constituem o princípio de resposta
ção de novas respostas e a combinação das antigas à medida que a criança interrogação, embora devam ser adequadamente examinadas p
se desenvolvia. Após um período em que a atenção dos pesquisadores ber como, efetivamente, dá-se "a transformação do estado inicial"
se voltou para a análise do vigor seletivo das respostas não aprendidas, cém-nascido até tornar-se um ser plenamente humano, ou seja,
( aquelas que resultam da apresentação de estímulos novos, mais recen- cultural.
temente os estudos orientaram-se a verificar se é a condição de novidade
( Feitas essas observações, passo à identificação dos "indica
dos estímulos o que desperta a atenção do bebê ou se é a significação que
que vão ser analisados. Só parcialmente, eles se situam dentre
podem ter para ele. Indicando que, quando eles são significativos, ocor- campo de investigação que acabo de apresentar de forma extremo
( re a habituação, caso contrário, não. sumária, mesmo porque a opção aqui é outra. O mais important
( Finalmente, muitas pesquisas interessaram-se pelo mecanismo do saber, apesar da importância desse saber, qual é a condição inicia
reflexo ocular e pelas condições específicas de estimulação visual (Iumi- cém-nascido, mas como ocorre a transformação das funções recon
nosidade, cor, movimento, distância, profundidade e tamanho, reação mente biológicas desde o primeiro instante após o nascimento
aos estímulos em função da sua complexidade, forma, tempo de dura- permite poder estabelecer, de alguma forma, o marco do fim do
ção, parte e todo etc.). to zero cultural.

("

(
202 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 203

(
OS "INDICADORES" DE DESENVOLVIMENTO no que parece ser o núcleo duro da perspectiva histórico cultural, o qual
\.
constitui a questão central deste trabalho. Afinal, que significa falar de
A exemplo do que ocorre com a célula, o organismo constitui um funções biológicas e funções culturais? Com efeito, podemos facilmente
todo ou "unidade múltipla" de estruturas e de funções. Tudo nele, corno pensar, por exemplo, na existência simultânea no homem de uma fun-
num sistema auto-organizado, deve estar integrado num equilíbrio ins- ção cognitiva natural, compartilhada com outros organismos, e de uma
tável, resultado da interação das partes com o todo e delas entre si. Isso outra função reflexiva que seja própria dele; o difícil é pensar que arnbas
não quer dizer, porém, que os ritmos de funcionamento sejam os mes- possam constituir uma e única função. Com efeito, embora a função
mos. Cada elemento, de acordo com a sua constituição e função no todo, natural de conhecer e a função simbólica de pensar (refletir, raciocinar
( tem seu próprio ritmo. Como sistema aberto e auto-organizado, o orga- etc.) sejam funções de um único e mesmo organismo humano, elas não
( nismo está em permanente interação com o meio externo: captando dele constituem duas funções paralelas - como parecem insinuar as dife-
os seus nutrientes, transformando-os internamente por processos quí- rentes formas de dualismo que encontraram acolhimento na psicologia
(
micos variados (metabolismo basal), incorporando-os às suas estrutu- - mas uma única função, resultado da história de um tipo de organis-
( mo cuja especialização evolutiva foi transcender os limites da natureza
ras e eliminando os detritos resultantes da sua metabolização, para, fi-
< nalmente, converter a ene!gia produzida no seu interior em energia ci- fazendo surgir formas biológicas novas cujas características, devemos
( nética, ou seja, em ação sobre o meio. Penetrar no que, até épocas relati- reconhecer, nos perturbam, pois nos colocam diante de um tipo de rea-
( vamente recentes, constituía o mundo misterioso da vida fala, claramente, lidade que não encaixa na nossa maneira habitual de pensar.
do longo percurso que o pensamento humano precisou realizar (e ainda Da mesma forma que as funções biológicas operam no mundo ocul-
(
não terminou) para desvendar esse mundo oculto. to dos organismos, as funções próprias do organismo humano operam
(
Tudo isso para dizer que, ao querer observar a evolução do orga- também nesse mundo oculto, não nos permitindo saber o que se passa
( lá a não ser pelo que vem do próprio organismo na forma genérica de
nismo para acompanhar o seu desenvolvimento, o caminho que preten-
( do seguir é olhar para o que vem do interior dele na forma de resultados reatividade (modo próprio de operar das funções estritamente biológi-
(ou "produtos") da sua maneira de funcionar. A razão disso é que as cas) ou na específica de expressividade (modo próprio de operar das fun-
funções se revelam no que elas produzem no ato de funcionar. Foi por ções humanas). A característica do tipo de organismo denominado huma-
(
isso que escolhi trabalhar com "indicadores" desse funcionar (ou desen- no é que, num dado momento (aquele que segue o hipotético momento
( zero cultural de que venho falando desde o início), as várias formas de
volvimento, .nos termos tradicionais) porque eles são a expressão exter-
( na de processos internos. Por meio deles é possível visualizar, de algu- reatividade tornam-se expressivas, isto é, portadoras de significação.
( ma maneira, como o organismo integra e processa tudo o que capta do Os "indicadores" informam-nos sobre os "produtos" da ação das
meio externo, natural e cultural.
( funções, mais do que propriamente sobre o seu funcionar. Mas é por
Em si mesmos, os "indicadores" permitem-nos obter informações meio desses "produtos" que explicações plausíveis sobre o seu funcio-
a respeito da evolução das funções biológicas, mas não das transforma- nar podem ser pensadas. Na medida em que esses "produtos" são por-
(
ções pelas quais passam sob a ação da cultura, ainda mais numa idade tadores de significação, os "indicadores" são susceptíveis de interpreta-
. em que a criança ainda não dispõe do uso da fala. Para obtermos este ção. O que explica por que a análise que vai ser feita aqui procura cap-
tipo de informações devemos recorrer aos indícios dessas transforma- tar, simultaneamente, a ação da natureza e a ação da cultura sobre ela. O
ções. Como explicar isso? Bem, não é nada fácil, pois estamos tocando grande desafio é conseguir captar quando os "indicadores" começam a

(
204
ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 205
')
(
dar sinais da presença de elementos de significação, uma vez que estes tisfação de novas necessidades - corno a necessidade de presença hu-
( não são da ordem do biológico, mas do simbólico. mana, sobretudo da mãe, a resistência a dormir no período noturno, a
( necessidade de maior movimento e mudança nas posturas corporais, o
surgirnento de novas experiências sensoriais etc. Tais necessidades re-
(
o choro velam alteração no quadro da sensorialidade e motricidade da criança
(
pela sua progressiva articulação no nivel do sistema nervoso central.
( Embora existam, no mundo animal, formas sonoras de expressão .Um aspecto dessa alteração é a variação no timbre e na freqüência do
( que podem assemelhar-se ao choro, espécie de gemidos produzidos por choro ("musicalidade") conforme o tipo de necessidade que o provo-
ferimentos graves ou por outras causas, chorar em sentido próprio é uma cou, coisa bem conhecida por aqueles que cuidam da criança.
(
característica do homo sapiens, é uma das marcas da espécie humana.
( À medida que os meses passam, ainda no primeiro ano de vida, o
O choro não é um tema de estudo freqüente entre os especialistas, choro vai adquirindo o valor de meio de expressão (ou simbolização) dos
(
em particular, pediatras e psicólogos. Nas raras vezes a que a ele se mais variados sentimentos, ligado plenamente ao sistema nervoso cen-
( referem é de forma conjuntural, para descrever o comportamento do tral e apenas conservando da sua estrutura original a base fisiológica de
< bebê nas primeiras semanas. Entretanto, ele constitui um indicador in- sustentação. Existe, portanto, uma transformação perceptível cuja natu-
teressante para o objetivo deste trabalho. A razão é simples. Nos primei- reza deve ser investigada. É urna simples evolução da função biológica
ros instantes da vida e mesmo durante as primeiras semanas, o choro é, em razão da influência do meio ou é algo mais do que isso? O que é fácil
sem dúvida alguma, uma função nitidamente orgânica, de origem de observar é que, no início, o choro é uma reação de tipo compulsivo
(
bioenergética. Ele surge espontaneamente corno forma de descarga de que' só pára quando é eliminada a causa física que o provocou. Mais
tensão, ligada ao sistema proprioceptivo, produzida pelo estado de des- tarde, porém, ele se toma uma representação, algo próximo da teatralidade.
conforto fisiológico decorrente de várias causas, principalmente a fome, O choro toma-se uma reação, por vezes difícil de interpretar, da criança
a irritação da pele, em especial pela urina e as fezes, as mudanças térmi- ao meio social, não ao meio natural. O que evidencia a existência na
(
cas do corpo, a posição corporal etc. Eliminadas as causas do desconfor- criança de mecanismos de controle que lhe permitem chorar ou parar de
(
to, o choro termina naturalmente. Em caso contrário, é de se imaginar chorar em função de objetivos que não são mais determinados pela or-
( que a causa permanece por desconhecimento dos que tomam conta do
dem biológica. As variações do choro permitem, portanto, falar em ação
( bebê. Portanto, o choro das primeiras semanas de vida é um bom "indi-
do meio cultural sobre uma função biológica.
(
cador" de funções biológicas relacionadas com o sistema nervoso autô-
nomo, o que o aproxima do reflexo.
(
Todavia, como o mostram a experiência cotidiana e os trabalhos o movimento
de alguns pediatras e psicólogos da infância (A. Gesell e F.L. Ilg, 1967;P.
Osterrieth, 1972;R. Spitz, 1968; D. E. Papalía e S. W. Olds, 1975, dentre Não existe hoje a menor dúvida de que todos os bebês nascem
( outros), após as primeiras três ou quatro semanas, uma das modalida- diferentes em razão de sua história genética e das suas condições pré-
des mais primárias do choro, o "choro de fome", como o chama Gesell, natais. Todavia, existem alguns patterns biológicos e neurológicos co-
vai diminuindo de freqüência, ao passo que outras continuam e algu- muns a todos eles que adquirem um valor de freqüência generalizada,
mas outras aparecem provocadas por causas novas em reação à não sa- como fixar a luz, reagir diferentemente aos vários tipos de cores, odores

1
(

( 206 ANGElPINO AS MARCAS DO HUMANO 207

(
e sabores, reagir de maneira diferenciada ao calor e ao frio, ter uma sen- A condução da excitação de um sistema a outro é realizada por
(
sibilidade táctil concentrada, sobretudo, na região bucal, realizar certas células especializadas nessa função, as células nervosas ou neurônios,
( funções elementares básicas - como mamar, engolir, bocejar, espirrar, as quais a conduzem em forma de Impulsos elétricos que circulam de
gemer, chorar, desviar a cabeça para respirar -, apresentar diversos uma célula à outra através dos seus prolongamentos: os dendritos - que
reflexos motores etc. Em suma, o bebê nasce munido de um equipamen- constituem a via aferente pela qual o impulso chega até o corpo celular
to sensório-motor que prenuncia inúmeras possibilidades de ação, mas, - e o axônio - que constitui a via eferente pela qual o impulso sai do
por falta de um quadro de referência para situar suas impressões, sua corpo celular e segue em direção à outra célula. A passagem do impulso
"vida psíquica" inicial reduz-se, ao que tudo indica, a um conjunto de de um neurônio ao outro ocorre através da sinapse sob a ação dos rieuro-
( "quadros" visuais, auditivos e tácteis imprecisos, difusos e instáveis, transmissores.
( sem relação entre eles. Todavia, como diz Osterrieth (1972: 58-61), um Tudo isso para dizer que o equipamento fundamental do bebê no
come~o de organização surge logo mais em função da repetição de cer- nascimento, mesmo estando ainda em fase final de maturação, é sufi-
tas rotinas ligadas a necessidades básicas, em especial à de alimentação, ciente para que ele possa entrar em contato com o mundo físico - rea-
( \
na qual nem tudo se reduz ao simples ato de ingestão de alimento, uma lidades materiais e pessoas, até serem discriminadas como tais - mas é
(
vez que este é apenas o c~ntro aglutinador de uma variedade de impres- totalmente insuficiente para entrar em contato com a dimensão cultural
( sões sensoriais e sinestésicas, possibilitando sua primeira organização. desse mundo. Entretanto, é através dessas duas grandes vias de intera-
( Na medida em que a sobrevivência de um organismo depende da ção com o meio, a sensorial e a motora, que vai ser construído todo o
( sua adaptação ao meio onde está a sua principal fonte de energia, é edifício da sua constituição cultural. Essencialmente, isso começa a acon-
( natural que as suas estruturas básicas sejam aquelas que permitem a tecer a partir do momento em que a criança começa a perceber que o que
realização de trocas de quantidades de energia entre ele e esse meio. chega a seus receptores em forma de sinais converte-se em signos. Isto
(
Essas estruturas a fisiologia geral as identifica com dois sistemas: o re- permitirá que suas reações tomem-se também ações significativas, ou
( seja, expressão de suas experiências subjetivas.
ceptor e o reator. (Crossrnan, 1967:8-10)
( Um dos autores que mais contribuíram para entender o processo
O primeiro é formado por células que desenvolveram, seletivamen-
( te, a propriedade da excitabilidade que lhes permite converter a energia de transformação da atividade sensório-motora em atividade de riature- I I
( física captada no meio em reações químicas. Para captar as várias for- za simbólica foi, sem dúvida, Henri Wallon. Com efeito, ele conseguiu vat1d
estabelecer vínculos interessantes entre o movimento e as funções psíco- - '<-CfJ;
( mas de energia produzidas no meio, os organismos desenvolveram di-
ferentes tipos de receptores especialmente sensíveis, mas não exclusiva- lógicas superiores, em particular a afetividade e o pensamento. Num
( dos capítulos de um dos seus livros tornado clássico (Wallon, 1941), exern-
mente, a cada uma dessas formas de energia: mecânica, química, térmi- _ ••_~ r.-"-:--~

( ca ou visual. pIo de simplicidade e clareza de conceitos, Wallon fornece-nos preciosos


elementos sobre a função e desenvolvimento da atividade humana. Co-
( O segundo sistema é formado por dois tipos de reatores: o músculo, meça lembrando que, entre os recursos de que dispõe o ser vivo para
( nas suas várias formas, cujas células se especializaram na propriedade reagir ao meio, o movimento é aquele que, tanto no mundo animal como
( da contratilidade, e a célula glandular que responde à estimulação da no mundo humano, deve ao progresso da sua organização sua grande
membrana celular produzindo novas substâncias químicas que são eficácia e preponderância, a ponto de ter sido considerado por alguns,
secretadas eventualmente através dessa membrana. como os behavioristas, o único objeto da psicologia. Em seguida, Wallon

(
208 ANGELPINO AS MARCAS 00 HUMANO 209

alerta sobre o fato de que, se o movimento for reduzido às contrações o órgão de todas as formas de movimento é a musculatura estriada,
musculares e ao deslocamento no espaço não passará de uma abstração cujas atividades estão relacionadas, de um lado, com a junção ciônica do
fisiológica ou mecânica. "O psicólogo, diz ele, não pode dissociá-lo de músculo, encolhimento ou alongamento simultâneo das miofibrilas que
( conjuntos que respondem pelo ato do qual é o instrumento". (ibid.: 129) o compõem, e, de outro, com a função tônica, que mantém o músculo
Para Wallon, antes da emergência da palavra, o movimento é, nos num estado permanente de tensão. O tono muscular é o material de que
primeiros meses de vida da criança, o único testemunho da vida psíqui- são feitas, segundo Wallon, as atitudes que estão em relação com a aco-
ca que a traduz plenamente. modação ou expectativa perceptiva e com a vida afetiva. Seus compo-
nentes aparecem cada um a seu tempo, permitindo à criança modificar
( Na criança cuja atividade começa por ser elementar, descontínua, espo- suas relações com o meio.
rádica, cuja conduta não tem objetivos de longo prazo, a quem falta o
( Nos recém-nascidos, os movimentos apresentam-se como meras
poder de diferir as suas reações e de escapar assim às influências do
descargas de energia muscular ineficierites, nas quais se misturam sem
(
\ momento, o movimento é tudo o que pode dar testemunho da vida psí-
quica e traduzi-Ia completamente, pelo menos até o momento em que se combinarem reações clônicas e tônicas, espasmos e a brusca expan-
(
aparece a palavra. Antes disso, a criança, para se fazer entender, apenas são de gestos descoordenados e de automatismos como o pedalar das
possui gestos, ou seja, movimentos relacionados com as suas necessida- primeiras semanas. Toda esta agitação está relacionada, diz Wallon, com
des, ou o seu humor, assim como com as situações que sejam suscetíveis os estados de bem-estar e mal-estar resultantes das necessidades da crian-
de as exprimir. (Wallon, 1975: 75) ça. Os primeiros gestos úteis são gestos de expressão afetiva, que po-
(
dem responder a toda uma gama de emoções e, por meio dela, de situa-
( Pela sua natureza, o movimento contém em potência, diz Wallon, as ções variadas das quais a criança apenas tem urna consciência confusa e
( diferentes direções que poderá tomar a vida psíquica. Essencialmente, ele global, mas contundente.
( é deslocamento no espaço. Três tipos de movimento podem ser distingui-
ParaJXallo1}J,.flunidade do movimento é o~~~~gue ele anali-
dos: o passivo, o ativo e o deslocamento de segmentos do corpo.
( sa em detalhe. É o que toma possível o movimento, inserindo-o no ins-
O movimento passivo está sob a influência de forças externas como tante presente. Pelas suas condições e objetivos, o movimento tanto pode
(
a gravidade, as quais apenas provocam reações de re-equilíbrío. regula- pertencer ao meio concreto como se orientar a fins irrealizáveis no mo-
( das por um aparelho muito arcaico nos vertebrados, e que desaparecem mento presente ou supor meios que não dependem nem das circunstân-
( no nascimento. Mas essas forças, junto com outras, conduzem a criança, cias brutas nem das capacidades motrizes do sujeito. No primeiro caso,
por meio da procura de posições e de pontos de apoio adequados, da trata-se do "ato motor" propriamente dito. No segundo, o movimento
(
posição horizontal à posição de sentado, depois à de joelhos e, final- torna-se técnico e simbólico, coisa que só ocorre com a espécie humana.
(
mente, à posição em pé, própria da sua espécie.
O movimento tem seu início na vida fetal, quando suas funções se
(
O movimento ativo, locomoção e preensão, é feito de deslocamen- esboçam com o desenvolvimento dos tecidos e órgãos correspondentes,
( tos autógenos do próprio corpo no meio externo ou de objetos que se antes de poderem entrar em uso. Mas é só a partir do quarto mês de
( encontram nesse meio. gravidez que começam os primeiros deslocamentos percebidos pela mãe.
O deslocamento de segmentos corporais ou frações deles, uns em rela- Segundo Wallon, no nascimento persistem sistemas definidos de gestos
ção aos outros, são reações posturais que se confundem, parcialmente, e de atitudes em reação a determinadas estimulações, como os ritmos
com as de equilfbrío do movimento passivo. cervicais e os reflexos labirínticos. Estes provocados pela excitação
(

(
(

( 1
(
( 210 AHGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 211

(
vestibular produzida pelos deslocamentos rápidos do corpo e aqueles comprimento de sua onda. Como ocorre com outros receptores biológi-
(
pelas sacudidas das vértebras cervicais. Também aqui o efeito não segue cos, o foto-receptor apenas capta uma pequena parte das ondas que com-
( põem o espectro de energia radiante, aquela que se situa entre as ondas
sempre à excitação apropriada, em razão da possível ação de centros
( inibidores. ultravioletas e as infravermelhas.
No nascimento, existem gesticulações espontâneas atribuídas seja Os objetos que constituem o meio externo ao organismo são fontes
a mudanças repentinas e rítmicas de atitudes, seja a automatisrnos, pois secundárias de energia, pois eles apenas refletem as radiações proce-
as atividades musculares ainda estão mal limitadas. É muito peque- dentes das fontes que as produzem. Isso impõe condições à visão das
no ainda o intervalo que existe entre a sacudida clônica e a contração diferentes espécies, cuja acuidade visual varia de umas a outras.
muscular, sendo que ainda ocorre facilmente fusão entre o encurtamen- Os olhos constituem um dos componentes do órgão da visão cuja
( to e o tônus e entre o movimento propriamente dito e a postura. Sema- função é captar estímulos visuais que, uma vez transformados em impul-
( nas e meses se passarão antes que existam condições para o exercício sos elétricos, caminham para a área visual do cérebro onde são processa-
plenamente eficaz e diferenciado do movimento. dos para dar origem às imagens visuais, as quais possibilitam a percepção
Mais que função, o movimento é a expressão da própria vida a que cada organismo tem do mundo. Portanto, a visão é urna função natu-
(
qual ajuda a organizar. A observação atenta da sua evolução desde o ral que, por isso mesmo, não constitui um "diferencial" da espécie homo
( sapiens, como não o constituem quase todas as outras funções antes de se
nascimento revela, como o mostra Wallon de forma magistral nos seus
( escritos, que ele é o arquiteto da vida emocional que prepara a criança tomarem simbólicas. Nada, a não ser a experiência histórica do homem,
ao estabelecimento de vínculos sociais. Quando o movimento se torna poderia atestar no nascimento do bebê humano o papel que o "olhar",
(
expressão, o ato motor torna-se o signo de humanidade que permite não propriamente a visão, está destinado a desempenhar na sua história
(
diferenciar, sem sombra de dúvidas, a criança de qualquer filhote de pessoal, como forma singular de expressão e de comunicação.
(
mamífero. No estado atual do conhecimento, ainda pairam muitas incertezas
( a respeito da "percepção" do bebê humano logo após o nascimento. Tudo
( o que se diz a respeito é inferido. Urna coisa, porém, parece certa: a
(
o olhar percepção tal corno a entendemos no adulto não existe no nascimento; é
algo que deverá ser construído. Tudo isso para dizer que ver e perceber
( são modos diferentes de funcionar de urna mesma função. Ver é função
A visão é uma função biológica comum a inúmeras espécies porta-
( doras de um sistema nervoso, mesmo elementar. Como outras funções natural de órgãos formados ao longo da evolução; perceber é função de-
( biológicas, a visão é o resultado de um complexo processo neurofisioló- senvolvida pelos homens, portanto cultural, concomitantemente à cons-
gico de processamento de sinais específicos procedentes do meio físico tituição nele da consciência do mundo, dos outros e de si mesmo.
(
externo e que são captados por receptores próprios para cada tipo de R. Spitz (1968)acreditava que a criança ao nascer não poderia re-
sinal. No caso da visão, os sinais são quanta de energia radiante capta- conhecer· nenhum estímulo visual, qualquer que fosse a fonte da sua
( dos pelos foto-receptores que constituem a parte externa do órgão da vi- visão e que até os 6 meses só registraria apenas alguns poucos sinais sob
( são: o olho. a forma de traças rnnemônicas. Portanto, os estímulos visuais que inva-
Do ponto de vista da física, a energia radiante caminha no espaço a dem o sistema sensorial do bebê lhe seriam tão estranhos quanto os que
uma velocidade constante cuja medida é o produto da freqüência e do procedem de outros sentidos. Entretanto, cabe lembrar que para ele só

(
212 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 213

se pode falar de percepção quando o estímulo é transformado em expe- aparelhopsíquico.O estabelecimentoda resposta pelo sorriso mostra que
riência significativa. Antes disso, existe, segundo ele, uma espécie de essas correntes estão agora integradas, organizadas e que operarão no
"blindagem" que preserva o bebê da maioria dos estímulos que chegam devir como uma unidade discreta do sistema psíquico. A aparição da
em grande quantidade até seus receptores. Por isso, o autor manifesta resposta pelo sorriso abre urna nova era no mundo da vida da criança;
reticências para falar de percepção na criança antes que os estímulos, nasceuuma nova maneirade ser,essencialmentediferente daquela que a
mesmo sendo suficientemente intensos para atingir o sistema nervoso precedia.É UIIl marco claramentevisível no comportamentoda criança.
central, não sejam ainda significativos, o que, segundo ele, ocorre num (Spitz,1968:89, grifo.do autor)
ciclo de ação-reação-ação no quadro das relações mãe-filho.
Em que consiste, cabe perguntar, o poder dessa reação para consti-
tuir uma virada na vida psicológica da criança? A resposta, segundo
o sorriso Spitz, fundada em pesquisa bem conhecida (1946), é que o "sorriso é a
primeira manifestação ativa, orientada e intencional, do comportamen-
Parece pouco provável que algo novo possa ser acrescentado às to da criança, sem contar que, desde o segundo mês, ela segue com seus
descrições e análises, já clássicas, de Spitz (1968: 66-80), sobre a "respos- olhos o rosto humano" (ibid.: 66). Portanto, é a primeira descoberta do
ta pelo sorriso". Como ocorre com todos os outros "indicadores" de que Outro, sem clara consciência ainda do que está vendo. Uma descoberta,
estou tratando, o sorriso é u.ma reação primitiva do bebê humano da porém, essencial para a sua existência.
qual o observador adulto pouco pode apreender dela mesma, mas ape- Essa descoberta apresenta, ao longo do primeiro ano de vida da
nas tentando interpretá-Ia (afinal, trata-se de um sinal) com base na ex- criança, três momentos principais que constituem os "gradientes" da sua
periência de adulto, própria e alheia. Com efeito; todos sabemos o valor evolução.
simbólico - por vezes tornado dramaticamente real - de um olhar, de O primeiro é o de ausência total de sorriso que não seja uma sim-
um sorriso, de um movimento gestual, de uma palavra ou de um choro. ples excitação da sensitividade oral (até por volta de 2 meses).
Todas estas expressões da sensibilidade humana surgem em nossa ex-
periência carregada de múltiplos sentidos, o que permite que possam O segundo é o sorriso em resposta não à pessoa que o provoca,
mas à gestalt da face, qualquer face, formada pelo conjunto "olhos em
ser transportadas ao campo imaginário e lá reconstruídas livremente.
Olhar o sorriso de um bebê nas suas diferentes formas evolutivas - movimento e boca". Essa gestalt constitui um simples sinal sem referên-
sem se deter na sua composição morfológica, anatômica e neurológica cia ainda à pessoa do Outro, mas que já é precursor dessa presença. Não
- é como olhar um quadro à espera do que nele vai pôr o nosso próprio é fácil perceber a natureza própria desse sinal fora do universo de sinali-
olhar. Na ausência da palavra esclarecedora, o sorriso nada nos diz que zação preexistente no mundo animal. Mundo onde diferentes espécies
nós já não saibamos. mostram a existência precoce da impregnação (imprinting) que o objeto
em movimento desencadeia nos seus filhotes. Mundo também onde o
O sorriso é uma reação primitiva que, talvez mais que outras, tem
olhar gélido de outros animais se fixa nos olhos do outro, animal ou
um caráter integrador, o que a torna um marco na vida psíquica em
humano, em razão do sentido de sinal que sua presença pode ter (de 2 a
formação.
6 meses).
A resposta pelo sorriso enquanto tal nada mais é que um sintoma visível Segundo Spitz, essa gestalt-sinal anuncia a transição da percepção
da convergênciade várias correntesde desenvolvimento no quadro do de coisas - ou o objeto no sentido psicológico - para a constituição do

1
214 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 215

que a psicanálise entende por "objeto libidinal", dotado de carga afetiva Reações combinadas ("brilho" e "exaltação")
í. nos intercâmbios que se estabelecem, principalmente, entre a criança e
( sua mãe. Graças a esses intercâmbios, o Outro, no caso a mãe, torna-se Incluí esse tipo de reações, atribuindo-lhe denominações no minimo
objeto de investimento afetivo da criança, reforçando a relação social. inusitadas, apesar do significado familiar dos termos "brilho" e "exalta-
Mas isso pode também fracassar, desencadeando um clima de "desen- ção", para traduzir observações que beiram quase as fronteiras do sublime
cantamento" e de "frustração" da criança em relação à face "adversa" estético, dada a dificuldade de expressá-Ias de forma racional. Inútil que-
do Outro. Reações cujas raízes filogenéticas mergulham na evolução da rer descrever o que só é claramente perceptível olhando as transforma-
sociabilidade no mundo animal. ções do rosto da criança e a sua agitação alegre diante de certas situações.
O terceiro é o sorriso como reação à presença da face "amiga", ou É voltando a olhar a criança ao vivo, como ficou nos registros, que temos
seja, da pessoa com quem a criança já estabeleceu seus primeiros vín- urna idéia desse tipo de reações que todos conhecemos por experiência.
(
culos. Via de regra, são as pessoas, especialmente a mãe, que formam o
quadro social cotidiano da criança (depois dos 6 meses), incluindo aqui
GRADIENTES DE EVOLUÇÃO DAS FUNÇÕES
a reação negativa (por volta dos 8 meses) à "face" estranha, a qual serve
para consolidar o sistema de "relações sociais" em que a criança se vai
Após apresentar os "indicadores" das funções biológicas e descre-
( integrando ativamente.
ver (justificar?) o âmbito da sua ação, discutirei rapidamente o conceito
Desde o começo da vida, é a mãe, companheira da criança, que medeia de gradiente de evolução dessas funções, ao qual me referi, de forma
cada uma das suas percepções, das suas ações, das suas intenções, de sucinta, no fim do capítulo anterior. Esse termo remete a uma espécie de
{ seus conhecimentos [...]. Quando a criança segue com os seus olhos cada unidade de medida, portanto à idéia de algo quantitativo. Uma vez que
um dos movimentos da mãe; quando consegue separar e estabelecer uma ele é utilizado aqui para estabelecer níveis de evolução de funções que
(
Gestalt - sinal na sua face -, então, por seu intermédio, consegue distin- não podem ser quantificadas, segue-se que esse termo só pode ter aqui
guir uma entidade significativa no meio do caos das "coisas" do seu en- um sentido metafórico. Mesmo assim, creio que é adequado para repre-
torno. Em razão da continuidade dos intercâmbios afetivos, esta entida- sentar o processo de evolução (desenvolvimento?) das funções biológi-
de, a face da mãe, assumirá para a criança uma significação sempre cres- cas. Com efeito, os gradientes constituem intervalos de tempo e de ma tu-
(
cente. (Spitz, 1968: 72) ração, implicando, portanto, quanta de crescimento.
O ponto principal da concepção sustentada neste trabalho conduz
\ Finalizando esta breve descrição da "resposta pelo sorriso", lem- à idéia de que esse processo de evolução (desenvolvimento) tem uma
( bro que este trabalho não caminha pela trilha psicanalítica de Spitz nem dupla dimensão: de amadurecimento biológico (anatômico, fisiológico
pelo sentido q:ue o conceito de significação (decorrente de um conceito e neurológico) e de transformação cultural. Um está ligado intrinseca-
(
de signo diferente do que é utilizado neste trabalho) adquire no texto do mente ao outro. Conforme o pressuposto de partida deste trabalho, a
(
autor. O ponto de convergência, entretanto, é importante, desde que dimensão cultural (ou simbólica) só começa a emergir após o nascimen-
( seja analisada em profundidade a questão da "relação social" que cons- to - quando as funções biológicas já estão presentes na sua forma ini-
( titui o ponto de partida - mediação social do Outro - eo ponto de cial - e vai ocorrendo junto com o amadurecimento biológico destas
chegada - reconstituição progressiva na s.ubjetividade da criança da funções cujo curso passa a comandar. Mostrar isto constitui, justamen-
(
significação dessa relação. te, o assunto do próximo capítulo.
(

1
216 ANGELPINO AS MARCAS DO HlJMANO 217

Os parâmetros utilizados para definir os gradientes são dois: da face), de tipo impulsivo, e pelo despertar da sensibilidade
• o grau de abertura do organismo infantil ao novo meio em que visual e auditiva, ainda muito vaga, aos estímulos externos.
foi colocado pelo ato de nascer, partindo do princípio de que Níve12 Vários aspectos novos caracterizam este nível, no qual progri-
existe uma diferença fundamental entre o meio intra-uterino, no de a abertura do bebê ao novo meio: o começo de estabilização
qual o embrião vive em simbiose com o organismo matemo, e o das funções fisiológicas fundamentais; a aparição de algumas
meio extra-uterino, físico e sociocultural, onde o bebê deve viver formas motoras ativas, (olhares, movimentos de mãos e pés e
de forma autônoma; emissão de alguns sons), embora ainda de uma forma difusa e
• e o grau de progressão e de estabilização das funções naturais desintegrada; o início de reação à presença do Outro conheci-
nas relações que a criança mantém com o novo meio, numa dire- do, em especial os pais; a·aparente total inexistência para o
ção que vai da dependência à autonomia. bebê do mundo dos objetos.
Nível 3 As características principais deste nível, no qual predomina
O papel dos gradientes é permitir visualizar a existência de mudan- ainda o estado receptivo, são as seguintes: a presença de movi-
ças na evolução das funções biológicas evidenciadas pelo aparecimento mentos de procura ativa da fonte de impressões auditivas ("lo-
de aspectos novos que, ou não apareciam antes, ou se apresentam agora calização das vozes") e de procura visual da fonte dessas vo-
sob formas ou características novas. O aparecimento de um aspecto novo zes ("varredura visual do espaço"); clara tendência à interação
nesses termos constitui, portanto, o critério para definir um determina- com pessoas (conhecidas),com olhares fixos, sorrisos bem fran-
do nível de evolução observável. cos e expressivos, movimentos de mãos e pés ainda desinte-
Tendo estes parâmetros como referência, a análise atenta dos regis- grados e emissão de sons desarticulados (tentativa de "imita-
tros conduziu à definição dos seguintes níveis ou gradientes, os quais ção" da voz humana?); aparição dosorriso como reação ao sor-
servirão, posteriormente, para detectar os indícios que procuro. Eles são riso do Outro (conhecido), o que produz a abertura do circuito
apresentados a seguir de forma crescente, do mais baixo ao mais alto. de uma primeira forma de comunicação com o Outro; a clara
ausência de interesse pelos objetos-brinquedo; o começo de
NívelO A característica deste nível, a qual justifica o grau "O",é a inexis- definição do pattern de fixação da "imagem do Outro" (gestalt
tência ainda de interação do recém-nascido com o novo meio olhos Ç::} boca), com reações pelo sorriso.
humano ou cultural, e o domíniototal da atividade interoceptiva. Nível 4 As características principais deste nível são: o começo de inte-
O estado do bebê é o de um organismo totalmente fechado so- gração motora nos movimentos dos membros superiores e in-
bre si mesmo, mesmo quando reage às mudanças que ocorrem feriores, do tronco e da face; o acesso à posição de sentado sem
nas condições físicas externas. Não se trata de passividade, mas apoio; o aumento da freqüência dos contatos com as pessoas,
de unl"trabalho" de adaptação interna do organismo às condi- provocados, principalmente, pela combinação da palavra, o
ções desse meio, tão diferentes das condições intra-uterinas. olhar direto e o contato físico; a resposta com sons, olhares,
Nível lOque caracteriza este nível, no qual predomina a atividade sorrisos e movimentos de mãos e pés etc. às "brincadeiras" do
proprioceptiva, é o início da abertura do organismo às condi- Outro; o pouco interesse ainda pelos objetos.
ções do novo meio. Isso se manifesta, principalmente, pela Nível 5 Características deste nível: a integração dos movimentos de
aparição de leves e fugazes reações motoras (de mãos, de pés e pés, mãos e tronco; a passagem do estado de sentado para o de
(
218 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 219

deslocamento no espaço engatinhando (com intenção clara de Ao construir esta escala dos níveis de evolução do desenvolvirnen-
aproximação dos objetos); o interesse crescente pelos objetos e to biológico no primeiro ano do beb~ não pretendi criar um modelo de
( pela sua manipulação, permanecendo por algum tempo "brin- estágios, fases ou tipologias. Reconhecendo sua possível importância,
cando" sozinho com eles; o começo da discriminação percepti- não faz parte da minha maneira de ver o desenvolvimento. Os níveis
va dos objetos, interesse seletivo por eles e um certo estranha- aqui apresentados não passam de um simples instrumento de trabalho
i
mento diante de objetos desconhecidos; interação com as pes- para organizar os registros de maneira a poder analisá-los. Eles repre-
soas, dando a impressão de existir, por vezes, uma espécie de sentam intervalos de tempo no processo de desenvolvimento da criança
"concorrência" do interesse pelos objetos em relação às pes- pelos quais este pode ser visualizado. Cada nível representa um ou mais
soas; começo da manipulação (brincar?) dos objetos com a par- gradiente de evolução orgânica num tempo determinado (dias, semanas
ticipação do Outro. ou meses), estando excluída qualquer idéia de fixar datas de início e fim
Nível 6 Características deste nível: motricidade bem controlada e inte- deles. Termino com as palavras de Ajuriaguerra, no seu célebre Manual
grada, o que se revela nas posturas como ficar em pé sem apoio, de psiquiatria da criança (1970: 125):
(
andar com facilidade sem apoio, começar a correr, subir e des-
( É difícil abordar o problema de um mundo não-formado com as noções
cer degraus, bater palmas, rir à vontade ("gargalhadas") e de
( de um mundo formado, de um mundo não-estruturado com a lingua-
forma descontraída; claro interesse pelos objetos e, simulta- gem do estruturado, de um mundo de pura vivência com critérios racio-
(
\ neamente, boa interação social; aparição do "diálogo" com nais. Regida por suas constantes fisiológicas e biológicas, nascida com
( emissão de sons próximos da fala; olhar direto; manifestações suas pulsões e necessidades, a criança ao nascer encontra-se num mundo
( de contentamento com sorrisos francos e gestos; gostar da com- que não tem forma nem figura, um mundo inefável e sem significação
panhia de pessoas amigas; acompanhar com interesse as ações [...] Ao nascer, a criança vive num fundo sem plano de frente, a não ser
(
dos outros; "participar" das atividades festivas, mostrando aquele que corresponde às variações cíclicas. As mudanças são emergên-
contentamento e alegria. cias sobre o fundo e não figuras significativas.

Para melhor visualizá-los foi construída a seguinte escala:


(

(
\

I' I 2'
sem.
I 4"
:sem.
I 6"
sem.
I 10'
sem.
I 3·
mês
I 5°
mês
I 6·
mês
I 'r
mês
I 8"
mês
I 9·
mês
I I()"
. mês
I 11°
mês
I 12·
mês
(
Figura 16 - Escala seqüencial dos diferentesníveis ou gradientes de evolução das
funções biológicas em Lucas.

(
(
I'.li!!!!.c.oRTEZ
220 '5"EDITORA AS MARCAS DO HUMANO 221
(
(
Uma vez organizados assim os registros, sua observação repetida
( permite perceber a ocorrência de lentas, mas contínuas, mudanças nas
funções biológicas da criança e, dentro delas, a presença de indícios das
marcas da ação da Cultura ou, em outros termos, das "marcas do Hu-
mano", como reza o título do trabalho. Esses indícios podem ser obser-
vados por qualquer pessoa que acompanhe o crescimento da criança
nesse período da vida, como é o caso dos pais. Mas, se qualquer pessoa
pode observá-los, o leitor poderá perguntar-se: então por que fazer dis-
Capítulo VIII
so um objeto de investigação? Por urna razão muito simples: porque o

Auscultando a linguagem dos indícios problema não está na ação de observar, mas na maneira como se obser-
va, ou seja, no que se procura ver nessa observação. A maneira como a
observação dos registros da vida da criança é feita aqui parte do princí-
pio, enunciado por Vigotski e assumido pelo autor deste trabalho, da
INTRODUÇÃO
origem social das funções superiores ou, em outros termos, da conversão
das funções naturais ou biológicas em funções simbólicas ou culturais.
Este último capítulo é dedicado à análise dos dados registrados.
Isso muda a maneira habitual de olhar a criança. O que se procura não é
Ao pensar na sua apresentação e discussão surgiram diferentes manei-
o que todo mundo observa, mas o que escapa à essa observação: indícios
ras de fazê-lo. Dentre elas escolhi aquela que me parecia a mais adequa-
dessa conversão.
da para os fins que me propus neste trabalho.
Os personagens que aparecem nesta investigação são identificados
Primeiramente, são apresentados os vários níveis ou gradientes de
da seguinte forma: Lucas (a criança), M (a mãe), P (o pai), AM (avó
evolução das funções biológicas anunciados no capítulo anterior, des-
materna), ÂM (avô matemo), AP (avó paterna), ÂP (avô paterno), AAP
crevendo as características de cada um deles em conformidade com os
(avós paternos), AAM (avós maternos) e Ps (parentes em geral).
parâmetros previamente definidos. Eles foram elaborados a partir dos
\
dados registrados em vídeo, tomados em diferentes momentos do pri-
<' meiro ano de vida da criança. Tratando-se de seqüências filmadas du-
IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DOS NíVEIS OU GRADIENTES DE EVOLUÇÃO
rante os primeiros meses de vida da criança, o procedimento foi conver- .
( ter esses dados em forma de uma narrativa que fosse, dentro do possí-
Nível O
vel, uma descrição dessas seqüências. Trata-se, portanto, da transposi-
(
ção de um texto sem palavras para o formato de um texto escrito. Im-
( Primeiras 72 horas
\ possível não reconhecer que, em certo sentido, constitui já uma primei-
ra interpretação dos registros, uma vez que o texto escrito traduz um Episódio 1 No .dia seguinte ao nascimento, ainda na maternidade, Lucas é
"modo de olhar" seqüências de cenas filmadas. 29.5.1996 levado pela enfermeira ao quarto da M para a amamentação.
( Meio adormecido, é entregue ao P que o mantém no colo en-
16:02h
( À continuação; segue-se uma discussão dos indicios observados quanto a M prepara-se para amamentá-lo no seio. Não conse-
nesses registros, os quais encerram os efeitos quase invisíveis da ação guindo pegar o bico do seio, Lucas chora. Após alguns minu-
\ sutil da Cultura na maturação biológica da criança. tos, consegue segurar o bico do seio na sua boca e pára de cho-
(

( 1
\
I

(
I 222 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 223
.'
(,

( raro Enquanto mama, ele está de olhos fechados, totalmente de estarmos diante de um ser vivo - nova vida brotando num pequeni-
alheio ao que ocorre no quarto, onde estão c<;>nversandovários no e frágil organismo - parece mais realista dizer que a vida acontece
parentes. Concluída a amamentação, Lucas adormece no colo nele do que ele na vida. Ele constitui mais um dos infinitos seres vivos,
daMo
de face humana, que integram o fluxo contínuo e sem retorno da vida.
(
\
Episódio 2 Lucas está sendo levado para casa. Ao chegar, a M o coloca no Navega nela, sem ser navegante.
31.5.1996 seu colo, onde ele fica de olhos fechados, boca entreaberta e mãos
( Levado para a residência dos pais, o quadro praticamente não se
13:18h no peito. Alguns minutos depois, começa a mexer as mãos, en-
( treabre a boca e abre os olhos por alguns instantes, fazendo le- altera. Nem mesmo a mudança de lugar com toda a agitação que a acom-
( ves movimentos com os lábios com ar de quem vai chorar. Num panha consegue tirá-lo do "silêncio" do seu mundo. O único sinal da
instante, enquanto a M o leva para a mesinha para trocar a fral- presença de Lucas no meio humano continua sendo o "choro" quando
( da, Lucas abre bem os olhos e olha de leve para ela. Talvez pela
acorda para mamar e nos raros momentos de mal-estar orgânico.
( primeira vez.
) Na realidade, essas 72 horas de vida outra coisa não são senão a
Estes dois primeiros e breves episódios, - ocorridos nos 2 dias se- luta de um organismo humano para conseguir passar o teste da vida
guintes ao nascimento - sintetizam o estado de Lucas nas primeiras 72 num mundo estranho, tão diferente daquele de onde veio. Não fosse a
horas de vida nas novas ,condições de existência em que o nascimento o forma humana desse organismo e o reconhecimento dos que o amam,
colocou: longos períodos de sono, alternados com breves períodos de pareceria um ser acabando de chegar à Terra, oriundo de outro mun-
vigília ou semi-sono para mamar e para ser submetido às rotinas de do. De fato, Lucas está chegando a um mundo onde as regularidades
(
higiene, das quais nem torna conhecimento. A única coisa capaz de que- biológicas, que se encarregavam de impulsionar a vida para frente,
( brar o silêncio da natureza, recém-acordada a uma nova forma de exis- começam agora a "falhar", ao serem substituídas por outras de ordem
tência, é o "choro", nas suas diferentes formas, em razão de qualquer cultural - mudança de ritmos no regime respiratório, o qual pode
tipo de mal-estar orgânico. O choro dos primeiros dias atrai particular- tornar-se até uma ameaça à seqüência da vida, alimentação e sono em
mente a atenção dos familiares, enquanto sinal de alterações de maior intervalos previstos pelo Outro, rotinas de higiene como exigência de
ou menor importância no silêncio do bebê, o qual naturalmente parece saúde, exames feitos por especialistas para garantir que a vida conti-
( ainda alheio ao que ocorre em volta dele.
<' Como no berçário, Lucas passa quase todo o tempo que está no isso não quero dizer que a vida dos bebês em outros meios sociais, em particular os das
quarto da M dormindo ou de olhos fechados, nas escassas horas de vigí- classes populares, mas em condições adequadas de saúde, sejam diferentes. Quero dizer, isso
(' lia, Não fosse o amor e consciência dos seres mais próximos (M, P, Ps) sim, que se trata de observações e registros em "condições naturais" da vida da criança,
excluindo-se toda e qualquer outra forma de registro em condições experimentais com a fina-
de que uma nova vida humana está acontecendo - com os sonhos que
( lidade de mostrar as habilidades de que é capaz um bebê, de menos de três dias, quando
cada um acalenta sobre o futuro do bebê =:: a presença de Lucas no mun- estimulado em condições experimentais específicas. Não se trata de negar aqui o fato rele-
<' do dos homens passaria tão despercebida quanto a de tantos outros "obje- vante, já afirmado por numerosos psicólogos da infância, de que o bebê dessa idade não é um
tos" que compõem o decoro do quarto hospitalar ou doméstico. 1 Cientes organismo carente ainda de sensações diferentes (auditivas, visuais ou outras), mas de cons-
tatar que, nos primeiros dias de vida, o bebê parece muito mais voltado para dentro de si
( num esforço natural de adaptação do organismo às novas condições ambientais. De qualquer
1. Como é fácil perceber, os registros disponíveis revelam a vida cotidiana de uma crian- forma, as possíveis performances realizadas em tais condições não deixariam de ser perfor-
(
ça comum, normal física e psicologicamente, com boa saúde, num meio familiar de classe mances orgânicas, às quais não caberia aplicar o adjetivo de culturais nos termos em que
( média, muito semelhante à vida cotidiana de outros bebês de condições semelhantes. Com trata este trabalho.

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224 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 225

nue, preocupações, compromissos e horários dos que cuidam dele, Ao completar sua primeira semana de vida (episódio 3), uma rea-
pouco a pouco reduzidos ao casal materno-paterno etc., surgindo dú- ção nova pode ser observada em Lucas, como se estivesse acordando de
vidas quanto ao que poderá perturbar o fluxo natural dessa vida que um longo e profundo sono sem saber onde está nem o que está aconte-
está começando. cendo. A função auditiva de localização dos sons parece começar a en-
( Tal é, em síntese, o começo da nova forma de existência do bebê no trar em ação, assumindo o comando da orientação do organismo no
mundo humano, no qual existe sem saber que nele está e sem saber o espaço físico e provocando uma movimentação de olhos que eu chama-
(
que é. A vida é ele na inconsciência do universo. Mas o Outro está lá, rei de agora em diante de "varredura visual do espaço", numa tentativa
(
pensando por ele, desejando por ele, agindo por ele, até que ele comece ineficaz de "ver" as "vozes humanas", os únicos sons que, nesse mo-
( a pensar, desejar e agir por si mesmo. mento da vida, parecem acordar Lucas do sono profundo da natureza.
( Esse fenômeno constitui a característica principal da sua primeira sema-
Nívell na de vida em contato com o meio humano. Trata-se, sem dúvida, de
um fenômeno que revela que Lucas está começando a sair do fechamen-
Primeira semana to no seu mundo orgânico, entreabrindo-se a porta do mundo dos ho-
Episódio3 Lucasestá acordado deitado/sentado no seu carrinho:bocejan- mens. Mas é só um leve começo que anuncia coisas maiores.
3.6.1996 do, mexendo as mãos de forma desarticuladae fazendo caretas. Nada nos autoriza a dizer que se trate de outra coisa que de um
( 22:10h Pessoasfalam em voltadele.Ao mesmo tempo,ouve-semúsica, início tímido de articulação de duas funções naturais, audição <=> visão,
falase ruídos vindos da rua. Lucasabre bem seus olhose orien-
( já observado por outros autores. A junção da audição e da visão, induzi-
ta seu olhar em voltacomose estivesseprocurando as vozesdos
( que falamem voltadele. Esfreganariz e lábioscom a mão, dan- da pela voz humana, começa a ocupar alguns instantes dos curtos pe-
do sinaisde fome,mas semchorar.A M pega-ono coloe começa ríodos de vigília de Lucas, o que ocorrerá com mais freqüência nas pró-
(
a amamentá-Ia. ximas semanas. O sinal de "alerta" parece ser dado pela audição, ao
(
passo que o sinal de "atenção" parece manifestar-se na abertura e na
( A partir do 5° dia, já é possível observar em Lucas sinais leves, mas movimentação dos olhos.
(
claros, de procura das vozes das pessoas que conversam em volta. Não
Na primeira semana, a motricidade de Lucas é ainda extremamen-
obstante, trata-se ainda de leves e rápidos lampejos de abertura dos olhos
(
para olhar o mundo que o rodeia, seu olhar permanece ainda totalmen- te reduzida: leves movimentos descoordenados de mãos, pés e de re-
( te distante, perdido no espaço, sem se fixar em nada em particular. Esse giões da face, com um tronco quase imóvel. O choro é pouco freqüente,
( mundo parece assemelhar-se a uma "imensa nebulosa". Nada do que limitado a expressar os estados de mal-estar, e não há sinais de sons. O
ocorre nele parece fazer parte do "outro mundo" de Lucas, o mundo caráter seletivo da atração pela voz humana - que parece começar a se
(
interior da vida orgânica constituído, essencialmente, de excitações desenhar como atividade em vias de estabilização -, sobretudo ocor-
sinestésicas. Tem-se a nítida impressão de que estamos diante de um rendo junto com outros sons procedentes do meio, não parece indicar
( organismo reagindo às mudanças que as condições do ambiente produ- que seja já o esboço de qualquer forma de ação comunicativa e de pro-
( zem no interior dele, num esforço de sobrevivência. É essa fragilidade, cura do Outro, mas, mais propriamente, trata-se da função natural do
em especial nos primeiros dias de vida, que parece inspirar essa idéia de olhar adaptando-se ao mundo da imagem, função esta comandada pela
(
prematuridade de que falam os especialistas. voz do Outro. Talvez revele, sim, um começo de percepção seletiva.
(

~
(

( ~
( 226 ANGELPINO Ib MARCAS DO HUMANO 227

(
É este conjunto de sinais de abertura ao meio social humano que Nível 2
( justifica pensar no começo do nível 1 de desenvolvimento.
Primeiro mês
(
Episódio 5 Acordado para tomar a mamadeira (complemento da amamen-
Segunda semana tação), Lucas está no colo da M, com os olhos ber-i abertos, olhan-
2.7.1996
( Episódio 4 Lucas está acordado no berço. Abre bem os seus olhos por al- 4:12h do para o P, que faz a filmagem. Depois, fixa longamente (um
minuto) seu olhar na M, mesmo sem esta estar olhando para ele.
( 11.6.1996 guns instantes e depois esboça um sorriso natural, em estado de
13:06h sonolência. De novo, agora com os olhos quase fechados, esboça 10:53h Lucas está deitado no sofá da sala, com os olhos bem abertos,
( outro belo sorriso, com a boca aberta em forma de triângulo. olhando as pessoas em volta dele, seguindo com o olhar as suas
vozes e fixando-as atentamente. De repente, ele esboça um belo
Poucas novidades aparecem ao longo da segunda semana de vida sorriso sem razão aparente para isso.
(
de Lucas, quando as rotinas da vida doméstica vão começando a organi- 11:08h Lucas está nos joelhos da AM que olha para ele e fala com ele
( zar a sua vida familiar. As pequenas novidades são praticamente imper- sem parar, fazendo gracinhas. Ele fixa seus olhos grandes nela,
como se tentasse entender o que ela fala.
( ceptíveis: trata-se de lentas e leves variações das atividades anteriores.
( No início da segunda semana, observa-se um leve aumento de sensibi- Ao completar o primeiro mês, pode-se dizer que, em geral, as ati-
lização à ação de elementos estimula dores do meio. Deitado em seu ber- vidades sensoriais e motoras das semanas anteriores continuam sem
(
ço, fica olhando indiscriminadamente para cima até que algo parece re- grande alteração, a não ser sua maior freqüência, facilidade de manifes-
(
ter sua atenção: são pequenas estrelinhas azul-claro pintadas no teto. tação e lenta estabilização. Entretanto, surgem alguns fatos novos que
( Após um breve instante de fixação do olhar nessas estrelinhas, esboça começarão a aumentar de freqüência nos próximos meses. Refiro-me,
( um leve movimento "exploratório" desses estranhos objetos. Quando o especificamente, a três:

( sono parecia que iria envolvê-lo, ameaçando fechar seus olhos, Lucas • Longa fixação de olhar (1 minuto) de Lucas na M, enquanto
abre-os de novo projetando-os no espaço e esboçando o que pareceria esta cuida dele, mesmo quando ela deixa de olhá-Ia. Embora se
(
ser um sorriso "espontâneo" (não puramente reflexo), como se algo in- trate ainda de um fenômeno mais fisiológico que comunicativo,
( teressante tivesse passado pela sua mente. De repente, com ar "pertur- tudo indica que estamos diante de um "reconhecimento" da fi-
( bado", ameaça chorar. Mas a voz da M que chega e que o segura no colo gura da M.

acalma-o. Sonolento, olha-a fixamente por alguns breves instantes e, • Olhar em direção ao P que o está filmando. Nesse caso, mesmo
(
depois, adormece. sem nenhum tipo de garantia na interpretação, parece tratar-se,
( pelo menos, de um vago reconhecimento da sua voz, pois está
( No fim dessa segunda semana, repetem-se os mesmos movimen-
distante e oculto atrás da filmadora.
tos da semana anterior, sem aportar nenhum elemento que permita di-
( • Deitado no sofá da sala, completamente acordado, Lucas parece
zer que passou para um nível superior. Continua parecendo que se trata
"distrair-se" acompanhando com o olharas pessoas (atraído pe-
( de um organismo à procura de uma lenta e progressiva adaptação às las suas vozes) que conversam e se movimentam na sala, fixan-
( condições do novo meio. A repetição do sorriso, agora "espontâneo", do seu olhar nelas e esboçando um belo sorriso espontâneo.
tanto no estado de vigília como no de semi-sonolência, parece ser ape-
nas a expressão de um leve começo de articulação da sensibilidade e da É por estas novidades que considero que Lucas passou a outro ní-
(
motricidade. vel mais avançado, um de cujos parâmetros é o início da "abertura ao
228 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 229

meio social", a qual ocorre neste momento pela articulação das funções gesticulando com gestos carinhosos. Lucas olha-o fixamente,
biológicas da audição ~ visão. cativado pelo seu olhar, fazendo movimentos de braços e esbo-
çando sorrisos espontâneos.
16:38 h Após um minuto, Lucas desvia o olhar para outras pessoas que
Sexta semana falam, sem se fixar em nenhuma em particular.
Episódio 6 Lucas está deitado no berço, com seus pais ao lado. Com os olhos 16:52 h Após um breve intervalo, Lucas fixa de novo seu olhar no ÂP
9.7.1996 bem abertos, ele fica olhando, alternadamente, o P e a M que que continua falando e brincando com ele carinhosamente. En-
22:40h falam com ele. Antes de mamar, enquanto a M troca sua fralda, tão, Lucas sorri várias vezes como quem está gostando, emitin-
ele olha para ela e depois para o P que brinca com ele, gesticulan- do sons (ah, ah, ah ...), como se quisesse "dialogar" com ele. Aos
do e emitindo alguns sons. Depois, toma a mamadeira (alimen- gestos e palavras do ÂP ele responde com "caretas" de conten-
to complementar) e adormece tranqüilamente. tamento e, às vezes, de estranhamento ou surpresa, mantendo
fixo o olhar nos olhos dele, até o momento em que algo o inco-
Do ponto de vista motor, Lucas não apresenta mudanças muito moda e começa a chorar.
visíveis. A sua motricidade ainda está pouco desenvolvida e pouco arti-
16:58 h A M pega Lucas no colo, em posição de tomar a mamadeira.
culada, mas sua atividade parece constante (movimentos de mãos, pés, Enquanto a toma mantém seu olhar fixo na M, mesmo quando
rosto e cabeça). Ele permanece todo o tempo deitado ou semideitado esta não olha para ele por estar falando com outras pessoas.
(meio sentado), no berço ou no carrinho, passando alguns momentos Depois, desvia o olhar que fica perdido no espaço, enquanto mexe
no colo de parentes. os braços de forma desarticulada, levando as mãos em direção
da boca, fazendo "caretas" (mexe os lábios, abre a boca, movi-
Ao completar a sexta semana de vida, pode-se observar a ocorrência
menta o rosto). Ao ouvir vozes, movimenta o olhar à procura da
em Lucas de algumas novidades, especialmente no nível da interação com
sua fonte, com aquele movimento característico que chamei de
o Outro. Ele dá sinais de aparente reconhecimento da figura da M e de "varredura visual do espaço".
reconhecimento da voz do P falando com ele à distância. Olha atento as
17:32 h Lucas está deitado numa cama, com a AP ao seu lado olhando-o
pessoas que se aproximam dele e lhe falam. Segue com o olhar a voz das
frente a frente, conversando com ele e gesticulando carinhosa-
pessoas que estão em volta dele. A voz conhecida parece começar a de- mente. Cabeça deitada de lado em direção a ela, Lucas acompa-
sencadear o "sorriso", com aparente aspecto comunicativo. Finalmente, a nha sua fala de olhos arregalados e fixos nos olhos dela, sorrin-
fluência de olhares, de movimentos faciais, com a emissão de alguns sons, do várias vezes, emitindo sons e fazendo movimentos com os
constitui, sem dúvida, um claro prelúdio de comunicação" e de entrada,
U braços. Quando ela deixa de falar com ele, ele desvia o olhar
cada vez mais intensa, de Lucas na vida social da família. dela, ficando perdido no espaço e não reagindo aos suaves asso-
bios que ela faz, só "re-conectando-se" quando ela retoma a fala.
17:43 h Lucas continua deitado na cama, apenas com a presença do ÂP
Nível 3 que filma, falando ao mesmo tempo atrás da câmera. A voz dis-
tante provoca apenas movimentos de "varredura visual do es-
Décima semana paço" à procura da fonte. Vez por outra, Lucas emite sons (res-
Episódio 7 Lucas está na casa dos seus AAP, onde está reunido um grupo posta? imitação sonora?) sem deter o olhar na pessoa que fala.
de famÚiares que conversam na área externa da casa. O ÂP 17:46 h A M se aproxima de Lucas, sentando-se ao seu lado e segurando
segura Lucas mantendo-o em pé sobre os seus joelhos, e olhan- sua mãozinha enquanto lhe fala. Isso produz nele uma reação de
do-o cara a cara e conversando com ele ao mesmo tempo, "encantamento", fixando o olhar nela e emitindo sons e sorrisos.
230 ANGELPINO AS MARCAS 00 HUMANO 231

Ouvem-se vozes e o P entra no quarto, falando alto e atraindo a


atenção de Lucas, que se volta para ele, como se reconhecesse Combinação
OLHAR FIXO + SORRISO
dinâmica
sua voz. O P continua a falar alto, brincando com Lucas; este OUTRO ---+ com movimentos CRIANÇA
fica olhando para ele, mas sem manifestar nenhuma reação es- OLHAR + FALA
do corpo + sons
pecial. Aí, o P chega perto, olhando-o atentamente enquanto fala do Outro conhecido
suavemente com ele. À presença do P falando com ele, Lucas
reage fixando nele seu olhar, com sorrisos, boca entreaberta, mo- Figura 17 - Esquema da articulação de diferentes funções do Outro que desenca-
vimentos de língua e emissão de sons. Quando o pai desvia sua deiam a reação das funções da criança
atenção dele, Lucas "desconecta-se", com o olhar perdido no
espaço.

Nesse longo episódio, incluindo pequenos episódios ao longo de reação de Lucas em função da proximidade e do modo de falar do
um mesmo dia, é bastante visível o progresso realizado por Lucas nas Outro. Dentro dessa "distância crítica", a voz distante do Outro com
últimas 4 semanas, não só nas funções motoras, mas, sobretudo, nas olhar, e a voz próxima sem olhar parecem produzir o mesmo efeito de
funções sensoriais da visão e da audição, as quais vão "puxando" a ati- procura. O que sugere o poder que a voz humana vai exercendo na
vidade motora e coordenando seus vários segmentos. criança.
Quanto à sociabilidade, dá a impressão de que Lucas vive peque- Estabelecida a ligação com o Outro, é visível o aparecimento de
nas explosões de "euforia" em relação ao Outro (ainda predominam as uma espécie de "diálogo" entre Lucas e o Outro. Aí a "voz carinhosa" e
pessoas mais próximas da família), numa espécie de "fascinação" pela o olhar do Outro parecem garantir, em ambiente tranqüilo, que Lucas se
sua presença, a qual parece, por vezes, que ele provoca com suas reações mantenha "conectado" com ele.
que encantam as pessoas que o rodeiam.
Em síntese, bastaram apenas dois meses e meio para que aquele
Aumentou a freqüência da "varredura visual do espaço" à procura
Lucas que mal conseguia abrir os olhos e quando o fez pela primeira vez
das vozes, mas de maneira cada vez mais concreta e precisa. A voz hu-
foi para perder seu olhar no espaço "vazio", sem objetos reais como
mana desperta cada vez mais sua atenção.
diria Piaget, se tornasse sensível à presença do Outro. Mesmo sem saber
Merecem destaque as gesticulações do rosto e os sorrisos francos ainda o que este representa, o Lucas de 2,5 meses já é capaz de entrar em
quando alguém conhecido se aproxima e fala com ele, dando a impres- diálogo com ele com os parcos recursos de que dispõe neste momento
são de estarmos assistindo a uma espécie de "jogo" de sedução - em- (olhares, movimentos de boca, de mãos e de pés, sons desarticulados,
bora seja ainda cedo para isso -, como aparece na fixação visual no sorrisos ete.) e que vão adquirindo, cada vez mais, o ar de "recursos
rosto da M. A fixação pelo olhar nas pessoas conhecidas parece estar humanos". Se ainda não sabe quem é o Outro, sabe já pela experiência
ligada, de forma geral, à associação dinâmica do olhar e da fala do Outro, sensível que é alguém que se faz presente a ele, possibilitando sua so-
os quais desencadeiam em Lucas um conjunto de reações mais ou me- brevivência nesse mundo ainda estranho e fazendo com que esse mun-
nos integradas, como mostrado a seguir: do torne-se pouco a pouco "seu próprio mundo humano". Se a natureza
A orientação do olhar de Lucas em direção ao Outro conhecido está lá, como sempre esteve desde os primórdios da existência do Lucas,
parece depender de uma "distância crítica", mesmo quando a presen- em apenas 2,5 meses ela se apresenta já com outra cara: a cara de uma
ça deste vem acompanhada da fala. Isso é sugerido pela diferença de "natureza humana".

1
AS MARCAS DO HUMANO 233
Z32 ANGEL PINO
)
3º mês Nível 4

Episódio 8 Lucas está sentado! deitado no seu carrinho, no exterior da casa 552 mês
(
18.8.1996 dos AAP. A AP aproxima-se dele, sentando-se ao seu lado, fa- Lucas está sentado na sua cadeirinha no jardim em companhia
( Episódio 9
16:58h lando com ele enquanto o olha atentamente. Lucas fixa seu olha: do P e da AP. O P pega-o no colo, conversando e brincando com
19.10.1996
( nela e responde com sorrisos e sons, numa espécie de "diálogo". ele. Depois, é a vez do ÂP, mas Lucas não "se liga", pois está
14:50h
( Ela segura suas mãozinhas acariciando-o delicadamente. Lucas olhando com certo interesse para coisas do jardim que parecem
fica fixado nela, olhando-a e emitindo sorrisos e sons durante causar-lhe urna certa "estranheza" ou apresentar alguma novi-
( dade, como as folhas de uma planta que ele puxa. De novo no
um longo período de tempo (5 minutos), de forma ininterrupta.
( De vez em quando mexe as sobrancelhas. Quando a AP se dis- colo do P, Lucas manipula um objeto, bastante concentrado.
trai, deixando de olhar para ele, "desconecta-se", dirigindo o Quando o P o tira das suas mãos, ele olha em volta como se o
(
olhar vago para o espaço. Mas "se reconecta" quando ela reto- estivesse procurando.

,
(

17:05h
ma o diálogo.

Pouco depois, Lucas está ainda no carrinho na companhia do


Episódio 10
3.11.1996
11:38h
Sentado sozinho na cadeirinha Lucas brinca com a chupeta,
manuseando-a e pondo-a na boca. Depois fica olhando o que
acontece em volta, movimentando mãos e pés, apresentando
C seu ÂP que o filma enquanto fala com ele. Então Lucas procura maior controle na articulação das duas mãos. A chegada do P
( com os olhos, num movimento de "varredura visual do espa- atrai a sua atenção, mas não "se liga" totalmente nele, continuan-
ço" como se procurasse a voz. Enquanto o ÂP faz a filmagem, do a olhar as coisas em volta (em especial a filmadora). Quando
(
apresenta-lhe um coelhinho de pelúcia, com os pontos dos olhos o P intensifica a fala com elel'Lucas "se liga", olhando-o e esbo-
( e da boca bem marcantes. O objeto, apresentado a Lucas pela çando sorrisos, ao mesmo tempo faz movimentos de boca como
( se estivesse imitando a fala do P. Quando o P se afasta, ele "se
primeira vez, logo chama sua atenção, ficando olhando-o com
desliga" voltando a olhar em volta, fazendo movimentos de mãos
( interesse e aparente curiosidade. Enquanto isso, é possível
e pés e emitindo sons. À aproximação do P brincando com ele,
observar o fenômeno da resposta pelo sorriso à gestalt da figu- Lucas "liga-se" de novo e fica brincando com os dedos da mão
ra humana. do P. Minutos depois, o P coloca Lucas sentado no jumping que
acabou de ganhar. Estranhando no começo essa nova situação,
Lucas adapta-se a ela rapidamente e começa a pular como se já o
Completando 3 meses, Lucas não apresenta, aparentemente, ne-
tivesse feito anteriormente. Ele mostra gostar da brincadeira do
nhuma novidade, a não ser a visível intensificação da interação com o "pula-pula", ficando bastante excitado. Quando alguém da fa-
( Outro conhecido. Intensificação em dois sentidos: aumento do tempo mília se aproxima dele e conversa de perto com ele, Lucas olha-
de intercâmbio na relação com ele e engajamento mais ativo com o uso o atento e sorri, voltando logo à brincadeira de "pula-pula".
(
dos seus ainda limitados recursos expressivos. Os olhares fixos, acom-
( Refletindo a evolução de Lucas no 5° mês de vida, esses dois episó-
panhados de francos sorrisos e de tentativas de emissão de sons, confe-
dios nos mostram três aspectos que chamam especialmente a atenção.
rem à face de Lucas uma espécie de "brilho" que testemunha, ao mesmo
tempo, um certo nível de estabilidade na interação com o meio externo • O primeiro é observar que está começando a despertar nele o
e uma forma nova, indescritível, de ver e de sentir a presença do Outro. interesse pelas coisas que estão em volta, deslocando para os
A única presença que, por enquanto, consegue cativar Lucas e tirá-Ia de objetos o interesse e a atração exclusivos pelas pessoas. Não é
dentro de si mesmo. muito ainda, mas já é suficiente para dar-se conta de que Lucas
(

( I

234 ANGEt PINO ASMARCASDO HUMANO 235


(
( está começando a perceber o mundo como constituído de coisas olhando para a máquina filmadora que está próxima dele, não
( \
diferentes que ele desconhece e que parece querer conhecer. É manifestandonenhuma outra reaçãoe mexendo como dedinho
na sua boca.Um pouco mais tarde, a AP pega Lucasno colo e
( visível o prazer que a primeira experiência do jumping produz
senta-secomele no tapete da sala, na frente de uma mesa baixa
nele, mostrando, nesse primeiro contato com um objeto estra- de vidro na qual há diversosobjetos,entre eles um conjunto de
(
nho, uma reação de contentamento. Evidentemente, o movimento "bonecasrussas" que ela vai abrindo e colocandodiante dele.
de pular é excitante por si mesmo e poderia sê-lo para outros Muito concentradoLucaspõe-sea manipular com as duas mãos
seres não humanos. Mas o interessante é que o próprio objeto as bonequinhas que estão espalhadassobre a mesa,sem prestar
também parece excitá-Io como algo estranho que ele quisesse atençãoaos que falame ao que se passa em torno dele.Só pára
de "brincar" quando é deitado no sofápara trocar de roupa.
(
conhecer. Tudo indica que está começando urna espécie de "com-
petição" entre estar ligado ao mundo das pessoas e estar ligado
( No fim do sexto mês, Lucas já atingiu um bom grau de controle
ao mundo dos objetos.
motor dos braços e das mãos conseguindo segurar bem os objetos e
(
• O segundo aspecto que chama a atenção em Lucas é o progresso manipulá-los com um mínimo de destreza. A interação social com o
( da articulação motora de braços e pernas - permitindo que ele Outro, mesmo tratando-se ainda do Outro conhecido, atinge já um nível
( tome impulso no ~hão com os pés para poder pular - e demais de "participação" bastante grande, produzindo em Lucas um certo en-
( movimentos da cabeça, do tronco e da face. gajamento nas "brincadeiras" que aquele prepara, tendo explosões de
( • O terceiro aspecto é a facilidade com que ele entra em relação sorrisos e dando gritinhos de alegria. Quanto à interação com os obje-
com o Outro, assim como o fato de "desligar-se" quando a rela- tos, mesmo sendo ainda incipiente, já 'é possível perceber que Lucas
ção "parece" não lhe interessar mais, podendo depois retomá-Ia apresenta uma espécie de atenção" concentrada" nas tarefas que realiza
( com eles, mostrando um certo prazer nas suas ações.
de novo. Isso produz uma espécie de alternância na iriteração
social que quebra a rigidez da atração pelo Outro dos meses an-
teriores. Além da progressiva estabilização dos mecanismos de Balanço geral dos 6 primeiros meses
( interação com o meio social e agora também com o meio físico,
Embora Lucas ainda esteja preso às limitações motoras da idade,
parece vislumbrar-se no horizonte um começo, ainda tímido, de
( ele já perdeu o ar de bebê e adquiriu o de uma criança em condições de
autonomia.
( conviver socialmente. O mundo vai surgindo lentamente diante dele e,
mesmo se ainda mal consegue ver o que acontece nele, sem ir além do
(
6 mês
Q
que os seus sentidos lhe mostram, o observador tem o sentimento de
(
Episódio 11 Lucas está sentado na sua cadeirinhaque o P colocouem cima que começa a ter lugar uma necessidade de tocar e manipular os objetos
( que compõem seu ainda estreito campo espacial. Percebe que as coisas
30.11.1996 do sofá, ficando de joelhosdiante dele e brincando com ele en-
12:03h quanto fala-lhe com o olhar fixo,ao mesmo tempo ri e lhe faz vão adquirindo contornos diferentes, o que provoca em Lucas reações
carícias. Lucas entra nas "brincadeiras" do P, permanecendo também diferenciadas.
"vidrado" nele, acompanhando-ocom o olhar fixoe responden-
do com' movimentos de braços e mãos com grandes sorrisos, Após 6 meses de vida, Lucas apresenta já um grande progresso nas
acompanhados de sons de contentamento.Quando o P pára de suas funções biológicas e na sua interação com o meio físico e social em
(
brincar com ele e se retirada sua frente, Lucas volta a ficarsério, que está inserido. Basta citar as principais funções: uma motricidade
(

(
'$

236 ANGELPINO AS MARCAS DO HUMANO 237

( liberar o braço que está preso debaixo do corpo. Colocado nova-


bastante integrada e balançada em fase de estabilização; urna tendência
\ mente em posição sentada, ele fica brincando sozinho com os
a tentar realizar pequenas "proezas" - corno "engajar-se" numa espé-
objetos que foram colocados dentro do parquinho.
( cie de diálogo com o Outro, manipular com as duas mãos pequenos
Episódio 13 Lucas está sentado no sofá, ao lado da M. Nesse momento, o ÂP
( objetos, achar graça com as brincadeiras (sorrisos, caretas, gestos) do
31.12.1997 fica agachado diante dele, incitando-o a vir nos seus braços es-
Outro etc.; boa interação com os objetos, em fase progressiva de estabi-
( 19:39h tendidos em direção a ele. Lucas hesita alguns segundos, mas
lização; sociabilidade crescente, respondendo cada vez mais às expecta- acaba respondendo à "incitação" do ÂP estendendo seus braços
( tivas de diálogo do Outro, diálogo ainda muito limitado em razão do em direção aos dele e querendo aproximar-se dele, ma