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ARTIGO

O POVO DAS ÁGUAS:


carta arqueológica das estearias da porção centro-norte da baixada maranhense

THE PEOPLE OF THE WATERS:


dwellings archaeological chart of the north-central portion of Maranhão’s baixada

LOS HABITANTES DE LAS AGUAS:


carta arqueológica de los palafitos de la parte norte-central de baixada maranhense

Alexandre Guida Navarro

Resumo: Este artigo apresenta os resultados iniciais acerca do projeto de pesquisa “O Povo das Águas:
carta arqueológica das estearias da porção centro-norte da Baixada Maranhense”. Tais resultados refer-
em-se ao levantamento bibliográfico acerca do tema que nos ocupa, levantamento de alguns sítios arque-
ológicos para escavação e alguns questionamentos acerca do processo de ocupação pré-histórica na área
de estudo.
Palavras-chave: Arqueologia. Pré-história maranhense. Estearias. Padrão de assentamento.

Abstract: This article presents the initial results of a research project on "The People of the Waters: Ar-
chaeological Project about Dwellings on the North Central Portion at Baixada Maranhense." These results
relate to the literature on the subject that we are studying, lifting some archaeological sites for excavation
and questions about the process of prehistoric occupation in the study area.
Keyboards: Archaeology. Prehistory of Maranhão. Dwellings. Settlement Pattern.

Resumen: Este artículo presenta los resultados iniciales acerca del proyecto de investigación “El Pueblo de
las Águas: carta arqueológica de los palafitos de la porción centro norte de la Baixada Maranhense”. Estos
resultados dicen respecto al levantamento bibliográfico para excavaciones y cuestionamientos acerca del
proceso de ocupación en el área de estudio.
Palabras clave: Arqueología. Pre-historia de Maranhão. Palafitos. Patrón de asentamiento.

1 INTRODUÇÃO 2 LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

Este artigo apresenta os resultados pre- Em Arqueologia temos que fazer um recorte
liminares do projeto acadêmico O Povo das geográfico para iniciar as pesquisas. Geral-
Águas: carta arqueológica das estearias da mente, são as circunstâncias metodológicas
porção centro-norte da Baixada Maranhense, que norteiam a escolha da área a ser estuda-
a ser desenvolvido nos municípios de Nova da. Neste caso, optamos pelas estearias mara-
Olinda do Maranhão e Santa Helena (MA), sob nhenses por quatro motivos: primeiro porque
a minha coordenação. é um tipo de sítio arqueológico, até onde se
Trata-se de projeto acadêmico e multidis- sabe único no contexto da Pré-História bra-
ciplinar que tem como objetivo a realização sileira; segundo, por terem sido muito pouco
de pesquisa arqueológica, com a realização estudadas; terceiro, porque ainda estão muito
de delimitação dos sítios arqueológicos me- bem preservadas dado seu contexto aquático
diante as atividades interventivas e não inter- e, por fim, por apresentar iminentes riscos de
ventivas; escavação arqueológica, coletas de destruição, como a coleta indevida de artefa-
amostras, análises de laboratório e educação tos por moradores da região ou a possibilidade
patrimonial. de construção de barragens e/ ou diques.
O resultado esperado é uma Carta Arqueo- A região onde ocorre Estearias no Mara-
lógica das Estearias localizadas na porção cen- nhão é denominada de Baixada Maranhense,
tro-norte da Baixada Maranhense, Estado do trata-se de uma microrregião situada a oeste e
Maranhão, Brasil. sudeste da ilha do Maranhão; compreende uma
Além disso, buscar-se-á compreender a di- área de aproximadamente 20 mil km2 dentro
mensão temporal e espacial dessas comunida- da Amazônia Legal, sendo uma região que
des pré-históricas, tendo em vista a ocupação conta com mais de 500 mil habitantes (INS-
e adaptação desses povos na região geográfica TITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTA-
em análise. TÍSTICA, 2006). É um território muito pobre,
*Artigo recebido em agosto de 2013
Aprovado em outubro de 2013

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com os menores índices IDH não só do Estado Lago do Armíndio e a do Lago Coqueiro (vide
do Maranhão, como de todo o Brasil, cuja po- explicação em justificativa).
pulação vive da subsistência da agricultura
tradicional, da pesca, da criação de pequenos 3 CARACTERIZANDO AS ESTEARIAS
animais e extrativismo vegetal, especialmente
do coco do babaçu. As principais cidades dessa
área são Penalva, Pinheiro, Viana, São Bento e As estearias foram moradias lacustres
Santa Helena. construídas com esteios de madeira que
Dentro desta grande área, esta pesqui- serviam de sustentação para as construções
superiores, dando origem, assim, às palafitas
sa se concentra na porção centro-norte da
pré-históricas (LOPES, 1924; LIMA; AROSO,
Baixada. Isso se justifica pelo recorte espacial
1991; LEITE FILHO, 2010). Sítios palafíticos
que garante realizar com eficiência o projeto e ocorrem com alguma frequência em algumas
pelo motivo da localização da cidade de Pinhei- regiões da Europa, como a Itália, França, Ale-
ro, onde existe um campus da Universidade manha e Suíça. Estão localizados parte no con-
Federal do Maranhão (UFMA) e um dos parcei- tinente e parte nos lagos e foram datados entre
ros desta pesquisa, o geógrafo e professor Ms. 5 mil a 800 a.C., sendo que, atualmente, mais
José Raimundo Campelo Franco. de mil sítios desta natureza já foram cataloga-
Portanto, os municípios envolvidos na pes- dos (RENFREW; BAHN, 2007). No continente
quisa são: Santa Helena, Palmeirândia, Nova americano, são muito menos frequentes. Esse
Olinda do Maranhão, Pedro do Rosário, Presi- tipo de sítio arqueológico aparece em casos
dente Sarney, Pinheiro, Peri Mirim, São Bento isolados na América do Sul, como nos relatos
e São Vicente Férrer, totalizando, uma área de Vespúcio em 1499 sobre comunidades que
viviam em palafitas na costa venezuelana.
correspondente a um terço da Baixada (Figura No Brasil, diversos autores consideram
1). No entanto, como caráter metodológico, que as estearias são os sítios arqueológi-
selecionamos duas estearias para o início dos cos menos conhecidos no território nacional
trabalhos de escavação arqueológica, a do (PROUS, 1992; MARTIN, 1996; BANDEIRA,

Figura 1 - Delimitação da área a ser trabalhada neste projeto

Fonte: Farias Filho, 2012

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O povo das águas

2005). No entanto, há relatos de palafiteiros palafíticas do Alto Amazonas, Venezuela e


no Alto Amazonas realizados pelas expedições europeias, pois a dos lagos maranhenses está
de Ursua e Aguirre (1516). Além disso, fran- carcterizada pela construção no meio ou dis-
ceses estabelecidos no Maranhão no início do tante da margem destes espaços lacustres, o
século XVII, ao realizarem um reconhecimento que demonstra diferentes maneiras de ocupar
no rio Amazonas, fizeram referência às popu- este meio aquático. Tampouco sabemos por
lações que viviam em palafitas sobre lagos (D’ que estas comunidades decidiram construir
EVREUX apud LEITE FILHO, 2010). suas moradias neste tipo de ambiente lacustre.
As estearias estão localizadas ao longo Cabe ressaltar, também, que Simões e Costa
dos diversos lagos que se caracterizam pela (1978) conseguiu uma datação radiocarbônica
formação de um sistema hídrico composto de que indica que a estearia de Penalva teria sido
rios, campos inundáveis e lagos de variados construída em 570 d.C.
tamanhos que se definem pela sazonalidade Com relação à indagação anterior, podemos
do clima (as inundações ocorrem no primeiro afirmar, em nível hipotético, que, em princípio,
semestre de cada ano) (FRANCO, 2012). Os a existência de farta alimentação nesses lagos
lagos da Baixada Maranhense têm origem ge- pôde criar uma situação favorável à habitação
ológica recente, pleistocênica, e se caracteri- sedentária dos grupos humanos que ocuparam
zam por inundações periódicas na época das a região. Embora não queiramos cair nas ar-
chuvas, pois acabam recebendo as águas flu- madilhas de uma elaboração conceitual do de-
viais, além de que auferem, inclusive, as águas terminismo ecológico e cultural para a explica-
dos rios da região quando de seu transborda- ção da ocupação do território lacustre, negar a
importância do rico ecossistema lacustre seria
mento, como o Pindaré, Pericumã e Turiaçu
uma displicência por parte do pesquisador.
(CORRÊA; MACHADO; LOPES, 1991; AB’SÁ-
Pesquisas arqueológicas atuais realiza-
BER, 2006). Pertencem, também, a um bioma das na região amazônica vêm demonstran-
típico da região amazônica que se caracteriza do que as várzeas dos rios da região foram
por campos de várzea. densamente povoadas por sociedades de tipo
A Baixada Maranhense, úmida, assenta-se cacicado na Pré-Histórica amazônica (HECKE-
sobre um terreno baixo exposto às inundações NBERGER, 2005; Neves, 2006). Embora ainda
periódicas de uma complexa rede fluvial que, seja muito incipiente inferir o tipo de organiza-
durante as cheias, forma uma ampla depres- ção social das estearias, é importante ressal-
são de águas estacionárias (FRANCO, 2012). tar que o bioma aquático e as condições ideais
Segundo Franco (2012), essa complexa rede de obtenção de alimentos são parecidos com o
fluvial faz parte, ainda, de um amplo bioma das várzeas amazônicas, o que nos faz inferir,
e paisagem natural que mescla rios, lagos, que este rico ambiente foi fundamental para
campos inundáveis, áreas estuarinas e terra o desenvolvimento das sociedades palafíticas.
firme. Esta rica biodiversidade, como a exis- Evidência dessa adaptação é fornecida pelo
tência de inúmeras espécies de peixes, é fun- relato de Simões (1981) que mediu uma das
damental na vida das comunidades que vivem estearias e conseguiu delimitar sua área em
na Baixada, e, com certeza, o foi também na 2km, portanto, um sítio de dimensões consi-
Pré-História. deráveis.
As estearias foram estudadas por alguns Por outro lado, fica sem responder quem
pesquisadores como Raimundo Lopes (1924). eram essas comunidades lacustres. Para Rai-
Os resultados de suas pesquisas foram publi- mundo Lopes (1916), são populações tardias
cados na obra Torrão Maranhense. Depois de de filiação amazônica que estão migrando para
seus estudos houve um grande lapso de pes- a região da Baixada. Para Lima e Aroso (1991),
quisas na região. Nas décadas de 1970 e 1980, são grupos Nu-aruaque que foram expulsos,
o antropólogo Olavo Correia Lima realizou, mais tarde, pela ocupação Tupiguarani. Já para
juntamente com seus alunos, algumas pros- Leite Filho (2010, p. 255), as estearias foram
pecções e escavações na cidade de Penalva. formadas por “grupos intrusivos na região que
No entanto, as pesquisas de maior enverga- se organizaram em aldeias autônomas ou in-
dura foram realizadas por Mário Simões, ar- versamente em um conjunto de habitações
queólogo do Museu Emílio Goeldi, no Pará. O com algum vínculo político entre si dado sua
material arqueológico foi enviado para aquela homogeneidade cultural e contemporaneida-
instituição, além do Museu Nacional do Rio de de.”
Janeiro. Atualmente, o arqueólogo Deusdédit A cultura material prospectada e esca-
Carneiro Filho também realiza um projeto de vada indica uma cerâmica de boa qualidade,
pesquisa na Baixada. porém quase sempre sem pintura, modelada
Estes pesquisadores estão de acordo que e com apliques zoomorfos (como coruja e o
a principal característica da formação arque- urubu) e antropozoormorfos, dando forma a
ológica destes sítios é a utilização de esteios, assadores circulares, fusos e vasos em minia-
geralmente construídos com madeira de lei, tura (LIMA; AROSO, 1991). Segundo Corrêa,
como o pau d’arco (Tabebuia dasp), que sus- Machado e Lopes (1991), a cerâmica encontra-
tentavam as habitações das moradias das po- da em Cajari é temperada com areia e conchas
pulações que ali residiam. O padrão de ocu- moídas, sendo o cauixi utilizado em poucas
pação parece ser diferente das habitações ocasiões. Foram coletados vasos com gargalos

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e tigelas. Com relação ao material lítico foram Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e
encontrados machados polidos e adornos de uma linha de pesquisa dentro da área de con-
pedra verde, conhecidos como muiraqui- centração Poder e Sociabilidade, do Programa
tãs (LIMA; AROSO, 1991). Nos trabalhos de de Pós-Graduação em História Social da UFMA.
Corrêa, Machado e Lopes (1991) foram cole- Além disso, contamos com um Laboratório de
tados batedores de seixo e de arenito, contas Arqueologia (LARQ), recém-construído, que
cilíndricas, lascas, raspadores, quebracôcos e nos trará as condições ideais para o estudo
um artefato feito de ágata vermelha. do material arqueológico coletado em campo,
Aqui temos que mencionar a importância além das atividades de ensino, pesquisa e ex-
da estearia de Cacaria, no lago Cajari, assim tensão.
denominada pela população local por contar Neste sentido, a Arqueologia aproxima-se
com grande concentração de cerâmica. A da História no sentido de que se busca enten-
Cacaria foi estudada por Raimundo Lopes em der as transformações sociais, políticas e de
1919 numa grande seca que afetou a região e outras diversas naturezas pertencentes a uma
que, por conseguinte, o material arqueológico determinada sociedade. No entanto, o modo
ficou evidente. Lopes (1924) chega a afirmar a como se obtém os resultados da pesquisa rela-
construção de calçadas na estearia, indicando ciona-se com a função do artefato ou conjunto
um sofisticado arranjo urbano pelas popula- de artefatos que foi utilizada por aquele grupo
ções que ali habitaram. humano (TILLEY, 1990; HODDER, 1994).
Simões e Costa (1978) também a pesqui- Por outro lado, o artefato não fala por si
sou, pontuando a importância dos estudos de próprio, é o arqueólogo que lhe dá um sig-
Lopes e desta estearia em específico, que foi nificado a partir de seu contexto. Ao fazer
medida alcançando os 2km. Nos trabalhos de isso, o arqueólogo transforma o artefato em
Corrêa, Machado e Lopes (1991), a Cacaria texto, que pode ser lido dentro de seu con-
voltou a ser estudada e obteve-se a medição texto (HALL, 1997; BERARD; DURAND, 1984;
de 8000 m2 de área, abrangendo esteios de SHANKS; TILLEY, 1987; HODDER, 1994;
sustentação em troncos de pau d’arco (Tabe- UCKO, 1995; FUNARI, 2003). Assim, dentro de
buia dasp), cuja datação radiocarbônica forne- uma perspectiva contemporânea, o estudo da
ceu a data de 570 d.C. cultura material se faz dentro de uma Arque-
Cabe mencionar que o acúmulo de artefa- ologia Contextual (HODDER, 1987). Portanto,
tos nos lagos compreende uma área deposicio- o artefato, isolado, sem seu contexto, não tem
nal de 20 a 40 cm, sem haver uma estratigra-
uma função social apreciativa pelo arqueólogo.
fia aparente, indicando, uma área de descarte
Neste sentido, a principal justificativa
de materiais (LEITE FILHO, 2010). Outro im-
desta pesquisa é construir uma carta arqueo-
portante relato é a existência de “ilhas e tesos”
lógica das estearias dos lagos centro-norte da
(LIMA; AROSO, 1991) em algumas áreas dos
Baixada Maranhense, a partir da pesquisa de
lagos, cujas comparações geográficas, e, por
conseguinte, dos mounds foram feitas por campo e laboratório. O trabalho iniciará com o
Lopes (1924) com a região marajoara, sem, estudo de duas estearias em específico (vide
no entanto, estabelecer discussões mais pro- fotografia 1). A escolha deste cenário se dá por
fundas. dois motivos. O primeiro deles é que uma das
O próprio Correia Lima e Aroso (1991) estearias, a do Lago Coqueiro, deverá secar no
diz que exumou uma igaçaba em um destes fim do ano de 2013. Este aspecto ambiental é
tesos, evidenciando, deste modo, que foram essencial para os trabalhos arqueológicos, já
utilizados pelas comunidades que habitaram a que, atualmente, a maioria dos lagos não seca
região. Deste modo, como relatado anterior- na época da estiagem. Já na estearia do Lago
mente, as estearias ocupam um quadro pecu- do Armíndio, a escolha para a escavação foi
liar na Pré-História brasileira; elas foram pouco o fato de que recebemos uma doação de 324
pesquisadas, e, portanto, requerem maior fragmentos arqueológicos de uma moradora
atenção acadêmica. da região. Este material está sendo estuda-
do por nós no Laboratório de Arqueologia da
4 O ENFOQUE DO ESTUDO UFMA (LARQ) e as escavações nesta estearia
será estratégica, pois já temos alguma fami-
Nosso projeto de pesquisa tem dois focos liaridade com os vestígios materiais que ela
principais. A partir dela pensa-se mapear os apresenta.
sítios palafíticos do centro-norte da Baixada A carta arqueológica fornecerá um catálo-
Maranhense. Será uma contribuição impor- go de sítios arqueológicos, que, depois de in-
tante para a Arqueologia maranhense, ainda ventariados, servirão como base de dados para
pouco estudada, mas que vem ganhando a elaboração de pesquisas pontuais futuras.
espaço dentro da discussão nacional, como foi Com isso, teremos a informação não somente
o caso da realização do I Seminário Nacional da totalidade da área ocupada e a localização
Arqueologia e Sociedade (2010), com a pre- exata dos sítios arqueológicos nela existentes,
sença de arqueólogos de todo o Brasil. mas também o mapeamento da região que
Este projeto também tem uma importância guiará as ações arqueológicas e/ou patrimo-
com a introdução de uma linha de investiga- niais que venham a ser implantadas na área a
ção em Arqueologia no curso de História da ser estudada.

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O povo das águas

5 PROBLEMÁTICA A SER ANALISADA Sítio 2 - Estearia do Coqueiro – Es-


cavação Arqueológica no sítio localizado em
A investigação dos processos de ocupa- Nova Olinda do Maranhão. A estearia fica
ção humana nas estearias, aliada à análise da dentro do lago do Coqueiro, nas proximidades
cultura material permitirá construir um pano- do povoado de mesmo nome, cujo lago não
rama cultural dessas populações, sua relação secava desde o início da década de 1980. Com
com a paisagem e o meio construído e a dis- a recente estiagem que vem afetando o Nor-
persão pelo território. deste brasileiro, e, por conseguinte a Baixada
O referido projeto está estruturado nos se-
Maranhense, a estearia do lago do Coqueiro
guintes eixos temáticos:
ficou completamente exposta no final de 2012
1. Quem eram as sociedades pré-históri- e depois de todos estes anos. Visitamos o
cas que habitaram a região lacustre da sítio algumas vezes e fizemos uma delimita-
ção espacial a partir de um GPS (Coordena-
Baixada Maranhense?
das 3°03’18.20’S e 44°53’48.60’O). Ela tem
2. Por que escolheram o ambiente lacustre uma extensão de quase 300 metros entre seus
para viver? pontos mais equidistantes e mais de dois mil
3. Como se deu o processo de adaptação esteios bem preservados pela condição aquá-
ambiental e paisagístico da região? tica do ambiente. Em determinada parte do
4. Que relações sócio-políticas existiam sítio, os esteios formam um alinhamento, o
entre estes grupos? Mantinham relações que poderia indicar, em nível hipotético, uma
cooperativas ou eram comunidades ins- ponte que ligasse duas aldeias elevadas (i.e.
táveis e inimigas? Quais são os vestí- as ruas que Raimundo Lopes menciona na
gios arqueológicos destas relações? estaria do lago Cajari).
5. Qual a área exata de ocupação do ter-
6 A CONFECÇÃO DA CARTA
ritório?
ARQUEOLÓGICA
6. Realizar datações absolutas para a de-
limitação temporal da ocupação do ter- Para a confecção da carta arqueológica
ritório. realizaremos um estudo sistemático da área
7. Estas sociedades estavam em contato geográfica compreendida pelas estearias da
com as demais da região amazônica? porção centro-norte da Baixada Maranhen-
se. Em primeiro lugar visitaremos a região na
8. Existiu o comércio de longa distância? época de seca, ou seja, no segundo semes-
9. Q
uando se dá o colapso dessas ocupa- tre de cada ano, dado que a zona permanece
inundada na época das chuvas (primeiro se-
ções e por quê? mestre). Faremos prospecções intensivas na
região com o objetivo de registrar e catalogar
O desenvolvimento deste projeto em os sítios com o GPS e Geographical Informa-
etapas se justifica pela sazonalidade dos lagos, tion System (GIS), com o objetivo de criar
pois parte do ano as estearias estão submer- um mapa topográfico das estearias. Uma vez
catalogados os sítios, criaremos um banco de
sas e no período de estiagem as mesmas estão
dados para entender o processo de ocupação
aparentes. da zona lacustre bem como sua expansão na
O recorte geográfico da pesquisa justifica- paisagem circundante. Além disso, nos sítios
-se pelas ótimas condições do sítio, e aprovei- que estiverem em lagos secos, utilizaremos
tando a estiagem da região, seria de grande a Estação Total como um método que forne-
riqueza uma intervenção arqueológica para cerá um modelo de distribuição espacial das
que se possam responder questões que per- estearias e a configuração espacial dos esteios
meiam a investigação. ao longo dos lagos. Com isso, saberemos o
Especificamente, sobre as escavações ar- tamanho exato destes esteios, sua altura, cir-
queológicas estão previstas atividades inter- cunferência e distância entre os mesmos.
ventivas nos seguintes contextos: É a partir do inventário de sítios que po-
Sítio 1 – Estearia do Armíndio - Esca- deremos entender como o espaço lacustre
vação arqueológica no sítio localizado no lago do centro-norte da Baixada Maranhense foi
do Bota, nas proximidades do povoado Armín- ocupado ao longo do tempo. Para realizar
essa tarefa, as prospecções serão realizadas a
dio, município de Santa Helena (Coordenadas
partir do estudo de cada estearia isoladamen-
2°19’35.56’S e 45°21’20.30’O). Essa escolha te. Depois de concluir esta atividade, unindo a
se deve ao fato de o lago ter pouca profundi- informação total das especificidades de cada
dade e ser mais viável para a prática da ar- estearia, teremos um panorama geral da ocu-
queologia subaquática. Por esse motivo, não pação humana da área em questão. Esta pro-
pudemos delimitar as dimensões do sítio, mas posta obedece a uma ação metodológica cuja
acreditamos que as condições de escavação sistematização dos dados leva à interpretação
submersa são boas. do significado do passado humano a partir da

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Figura 2 - Estearia do Coqueiro, no lago de mesmo nome

Fonte: Franco (2013)

Figura 3 - Delimitação da estearia do Coqueiro

Fonte: Franco e Navarro (2013)

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O povo das águas

Figura 4 - Estearia do Coqueiro. Detalhe para os milhares de esteios

Fonte: Navarro (2013)

cultura material. REFERÊNCIAS


Assim, buscaremos identificar, com esta
abordagem, as semelhanças e diferenças AB’SÁBER, A. N. Brasil: paisagens
do registro arqueológico de cada estearia e de exceção: o litoral e o pantanal
das peculiaridades de cada lago, bem como matogrossense: patrimônios básicos. São
seus contextos específicos (HODDER, 1994; Paulo: Ateliê Editorial. 2006.
NAVARRO, 2007). Esta escolha metodológica
induz à construção de tipologias, frequente em BANDEIRA, A. M. O sambaqui do Bacanga
Arqueologia, cujos artefatos são agrupamen- na ilha de São Luis- Maranhão- inserção
tos segundo tipos. Deste modo, construiremos na paisagem e levantamento extensivo.
uma proposta de ocupação humana para a Caninde-Revista do Museu de Arqueologia de
área a partir das peculiaridades de cada es- Xingó, Aracaju, v. 8, n. 8. 2005.
tearia, num primeiro momento, e o panorama
geral de ocupação numa esfera macrorregio- BERARD, C.; DURAND, J. L. Entrer en
nal. Com isso, estaremos compreendendo os imagerie. La Citédesimages. Paris: Fernand
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pansão territorial destas sociedades lacustres. CORRÊA, Conceição G.; MACHADO, Ana
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AGRADECIMENTOS Cajari-MA. In: SIMPÓSIO DE PRÉ-HITÓRIA
DO NORDESTE BRASILEIRO, 1., 1991, Recife.
Anais... Recife: UFPE, 1991. P. 101-103 (Clio
Gostaria de agradecer à FAPEMA pelo
Série Arqueológica n. 4).
apoio financeiro (edital Universal processo
00368/12). Estendo os agradecimentos aos LIMA, Olavo Correia; AROSO, Olir Correia
meus bolsistas PIBIC: Cássia Betânia Ferreira, Lima. Pré-história maranhense. São Luís:
Karem Cristina, Thalisson Silva e Darlan Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.
Sbrana. 1991

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Alexandre Guida Navarro

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