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Universidade​ ​Federal​ ​Fluminense

Instituto​ ​de​ ​Artes​ ​e​ ​Comunicação​ ​Social


Departamento​ ​de​ ​Cinema​ ​e​ ​Vídeo
Análise​ ​de​ ​Filmes​ ​I​ ​2017.2
Professor:​ ​Tunico​ ​Amâncio
Aluna:​ ​Priscila​ ​Santos​ ​Paixão

MEU​ ​AMIGO​ ​NIETZSCHE


Uma​ ​análise

Ano:​ ​2012.​ ​Gênero:​ ​curta-metragem.​ ​Direção:​ ​Fáusto​ ​da​ ​Silva,​ ​com​ ​André​ ​Araújo​ ​Bezerra,
Juliana​ ​Drummond,​ ​Abaetê​ ​Queiroz,​ ​Alessandra​ ​da​ ​Silva,​ ​Andrade​ ​Jr.,​ ​Simone​ ​Marcelo,
Alex​ ​Ferro,​ ​Ana​ ​Cristina​ ​França,​ ​Mariana​ ​Nunes,​ ​André​ ​Deca​ ​e​ ​Larissa​ ​Carvalho.​ ​Produtora:
Aquarela​ ​Produções​ ​Culturais.​ ​Classificação​ ​Indicativa:​ ​Livre.​ ​Duração:​ ​15​ ​min.

Dirigido por Faustón da Silva, o curta pode ser entendido como uma bela alegoria da
Educação no Brasil: “NIETZSCHE: filósofo alemão do século 19. LUCAS: estudante
brasileiro do século 21. O improvável encontro entre os dois será o começo de uma violenta
revolução dentro da mente de um garoto1”. Faustón é formado em Audiovisual na
Universidade de Brasília e dirigiu ​outros curtas-metragens como Arma, Bola e Joe (2007) e O
egresso (2010) e longas como Branco sai Preto fica (2014), também é professor de cinema do
programa​ ​social​ ​Picasso​ ​Não​ ​Pichava.
Meu amigo Nietzsche foi totalmente filmado na Cidade Industrial - DF. e mostra o
acidental encontro entre Lucas, uma criança em idade escolar com dificuldade no colégio e o
livro Assim falava Zaratustra do filósofo alemão num lixão do bairro, momentos antes vemos
o protagonista na sala de aula onde a professora o alerta que se não treinasse a leitura
reprovaria de ano “você tem que ler tudo que aparecer” aconselha a professora. Ao sair da
escola Lucas, correndo atrás de uma pipa e lendo tudo que aparecia, acaba encontrando o
livro e o levando pra casa, curioso com as letras na capa. É muito importante citar a
referência do filme do livro como uma grande ferramenta ou instrumento de educação da
humanidade, no momento que o estudante encontra o livro entra a música Also sprach

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​ ​Sinopse​ ​do​ ​curta​ ​no​ ​site​ ​Filmow.com
Zarathustra de Richard Strauss também utilizada em um dos filmes mais famosos da história
do Cinema: 2001 uma odisséia no espaço de Stanley Kubrick no momento em que o
‘homem’ ainda no início de sua evolução descobre a ferramenta, assim por essa grande
referência​ ​podemos​ ​perceber​ ​a​ ​importância​ ​do​ ​encontro​ ​do​ ​menino​ ​com​ ​este​ ​livro:
“Oh​ ​bendito​ ​o​ ​que​ ​semeia
Livros…​ ​livros​ ​à​ ​mão​ ​cheia…
E​ ​manda​ ​o​ ​povo​ ​pensar!
O​ ​livro​ ​caindo​ ​n’alma
É​ ​germe​ ​-​ ​que​ ​faz​ ​a​ ​palma,
É​ ​chuva​ ​-​ ​que​ ​faz​ ​o​ ​mar”.2
Menino que quase desiste da leitura por não entender o que estava escrito na capa, o nome do
autor alemão, e pergunta para várias figuras de seu cotidiano o que significavam aquelas
letras “O que tá escrito aqui? Sei não menino” chegando a abandonar o livro entre as coisas
de um catador de papelão, este se mostrando um grande sábio explica que na verdade é o
nome do autor: Nietzsche e com brincadeiras consegue despertar de novo o interesse do
menino na leitura do livro, pedagogia que nem a professora na escola de Lucas teve, essa
tática de despertar interesse no aluno não apenas pelo medo da reprovação. Podemos perceber
toda a ​Jornada do Herói aí: o chamado para aventura, a recusa do chamado, encontro com o
mentor​ ​etc.
A partir da aí Lucas começa a devorar o livro, lendo-o avidamente e mobilizando toda
comunidade e seu repertório para poder compreendê-lo, pergunta ao pastor o que é santo, a
vizinha o que é aurora e quando pergunta a sua mãe se Deus morreu começa a primeira
repreensão, a censura posta ao conhecimento e o medo do desconhecido. A própria professora
que havia instigado a leitura começa a temer o menino “Não é mais um menino é uma
dinamite” mesmo suas notas melhorando o perigo de “contaminação” era maior, mesma
atitude tomada pela mãe, que o proíbe de encontrar esse tal amigo Nietzsche que só fala
coisas estranhas e ainda chega a tomar a atitude extrema de mandar jogar o livro fora, de
volta para o lixo. Lucas que no início era repreendido por não ser bom no mundo escolar,
agora que mostrava real interesse pelo conhecimento foi dele apartado, incompreendido. Aqui
acho importante citar pensadores como Lev Vygotsky e Alain Bergala, que ressaltam a
importância da entrada da arte na escola e afirmam a escola como local privilegiado apontado

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​ ​Trecho​ ​do​ ​poema​ ​O​ ​livro​ ​da​ ​América,​ ​ ​de​ ​Castro​ ​Alves,​ ​o​ ​primeiro​ ​do​ ​livro​ ​Espumas​ ​Flutuantes.
por Vygotsky como único local onde o encontro do aluno oriundo das camadas mais pobres
da população, trabalhador ou filho de trabalhadores com as artes, com a “alta cultura” poderia
ocorrer, ora é claro que é muito importante que esse acesso seja garantido através da escola,
por exemplo a escola de Lucas deveria ter uma biblioteca onde pudesse conhecer o mundo da
leitura, dentres outros aparatos que aumentariam o interesse do aluno em participar do
ambiente escolar como aulas de cinema, e no entanto, esse encontro, no filme se dá num
lixão, onde estão as coisas e idéias jogadas fora, o proibido, o apartado, o que está à margem,
como​ ​o​ ​próprio​ ​Lucas.
Depois que abre os olhos não tem como voltar atrás, e Lucas vai atrás de seu bem
mais precioso, porém no lixão encontra outro grande clássico da lista de ideias perigosas,
com a máxima “trabalhadores do mundo, uni-vos!” o estudante dessa vez encontra o livro
Manifesto Comunista do também filósofo alemão Karl Marx, livro ainda muito mais
polêmico (imaginem se Lucas encontrasse O Anticristo de Nietzsche) e o filme termina com
o hino Internacional Comunista “De pé ó vítimas da fome, de pé famélicos da terra”, se com
o primeiro livro e a ideia de quando crescer ser um ​übermensch ​traduzido no filme como
super-homem e em outras traduções como além-homem ou homem superior já chocava
docentes e convocava colegas a esse entusiasmo, desta vez o livro convocava a união e à
revolta as classes oprimidas, que pode ser interpretado no filme de diversas maneiras, os
alunos ou suas ideias oprimidas pela professora até uma referência da situação
econômico-social do protagonista e sua comunidade. Isso também me lembra Foucault em
seu livro Vigiar e Punir, onde compara as escolas a ambientes prisionais, onde o aluno ou o
indivíduo é considerado uma massa amorfa a ser moldada pelo Estado, pelo “adestramento
militar”​ ​ou​ ​no​ ​caso,​ ​pela​ ​escola​ ​ou​ ​sociedade.
O filme não tem grandes inovações estéticas, mas as referências e argumento são
geniais. A revolução que ocorre na mente de Lucas que acabou se transformando em boas
notas, aumentou seu interesse pelos assuntos estudantis, que passou a gostar de avaliações e
desenvolveu um senso crítico em relação a outros aspectos da vida e da sociedade que
mobilizou colegas e amedrontou sua família e professores. Uma crítica às instituições
consideradas os pilares formadores da sociedade - a família, a escola e a igreja - que também
são os pilares do conservadorismo na sociedade. O protagonista antes considerado um mal
aluno, ao invés de ser admirado frente a sua melhora e desenvolvimento, colhe da mãe revolta
por não entender a decisão de Nietzsche de “matar Deus” e leva o menino para exorcismo na
igreja e colhe da professora medo de ter em Lucas uma liderança “nociva”, ainda hoje
ideologias políticas econômicas como anarquismo e comunismo são considerados por muitas
pessoas como assuntos proibidos ou anti-sociais, querem a barbárie, quando na verdade tais
afirmações só mostram a ignorância sobre o tema e a falta de discussão. Essa atitude da
professora também lembra o projeto Escola sem Partido (que já foi arquivado no senado, falta
na câmara) onde há a intenção de colocar uma mordaça de censura aos professores que ao
contrário da de Lucas, incentivariam-no. O curta é um sopro de autenticidade se percebermos
que a maioria dos filmes sobre ou com periferia focam na violência para discutir
desigualdade​ ​social​ ​e​ ​aqui​ ​o​ ​foco​ ​é​ ​a​ ​educação.

Referências​ ​Bibliográficas:

BARROS-CAIRO, Cecília. O nascimento de um super-homem - Linguagem e subjetividade


em “Meu amigo Nietzsche”. Linguagem - Estudos e Pesquisas. Vol. 17 nº 02, p. 81-99.
jul/dez​ ​2013.

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema - Pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e


fora​ ​da​ ​escola.​ ​Coleção​ ​Cinema​ ​e​ ​Educação.​ ​UFRJ,​ ​2008.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. História da violência nas prisões. 4º edição. Editora
Vozes,​ ​1986.

MARTINS, Lígia Márcia e RABATINI, Vanessa Gertrudes. A concepção de cultura em


Vigotski: contribuições para a educação escolar. ​Rev. psicol. polít. vol.11 no.22 São Paulo
dez.​ ​2011.

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