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Irmão Heraldo,

Desculpe-me o atraso, mas só agora tive uma folga no trabalho para poder ler
com atenção o documento que o irmão me enviou.
Em primeiro lugar, o texto está muito mal traduzido. Só isso já demonstra
que não foi feita por gente séria. Além disso, as passagens dos livros mórmons não
estão citadas corretamente. O livro A Pérola de Grande Valor, por exemplo, é
formado por cinco livros, e o autor do texto, ao citar as passagens mórmons, não
cita o livro, só o capítulo e versículo. Só isso já demonstra que ele não teve o
cuidado de referenciar adequadamente suas citações ou não se familiarizou o
suficiente com os textos.
Tirando, porém, esses relaxos do autor (e do tradutor), percebe-se que a
comparação que ele fez entre a adventista do sétimo dia Ellen Gould White e
mórmon Joseph Smith é muito artificial. Ambos afirmaram serem cristãos e terem
recebido visões e revelações sobrenaturais. Portanto, encontrar frases
semelhantes na obra de cada um desse dois autores, tendo em vista que ambos
escreveram consideravelmente, não é muito difícil. Se um escreveu sobre o Céu, é
muito provável que o outro também haja escrito sobre o Céu. Seu um contou que
viu Jesus Cristo em uma visão, o outro também pôde muito bem ter escrito que
teve a mesma experiência, usando inclusive quase as mesmas palavras. O que o
autor fez ao pinçar frases parecidas não prova muita coisa. Se alguém tiver
paciência, poderia fazer a mesma comparação com a obra de quaisquer outros dois
escritores e encontrar muitas frases parecidas. Se, por exemplo, alguém comparar
o programa de governo de dois dos candidatos desta próxima eleição geral, muito
provavelmente vai encontrar frases parecidas. No entanto, todos sabemos que os
dois candidatos não têm o mesmo pensamento nem a mesma maneira de governar.
Se há semelhanças bastante superficiais entre o mórmon Joseph Smith e a
adventista do sétimo dia Ellen Gould White, há também diferenças profundamente
abissais. Uma das principais é que Smith ensinava existência eterna da alma
humana. Para ele, as almas existem previamente antes do nascimento e existirão
eternamente. Já Ellen White negava que a alma humana fosse naturalmente
imortal, acreditando que somente quando salva por Cristo uma pessoa poderia
conquistar a vida eterna. “Vida e imortalidade seriam produzidas por meio do
sacrifício de Cristo Jesus” (A Verdade Sobre os Anjos, p. 63; ver também
Evangelismo, p. 247).
Mas a diferença mais importante entre Ellen White e Joseph Smith é a
autoridade que as revelações proféticas de ambos têm para suas respectivas
igrejas.
Para os membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias
(mórmons), as obras O Livro de Mórmon: Outro Testamento de Jesus Cristo, além de
A Pérola de Grande Valor: Coletânea de Revelações, Traduções e Relatos de Joseph
Smith e Doutrinas e Convênios de a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias
têm tanta autoridade quanto a Bíblia Sagrada, e junto com ela formam as Obras-
Padrão dos Santos dos Últimos Dias. Na introdução de O Livro de Mórmon está
escrito: “O livro de Mórmon é um volume de escrituras sagradas comparável à
Bíblia. […] contém a plenitude do evangelho eterno.” “Com respeito a este registro
o profeta Joseph Smith declarou: ‘Eu disse aos irmãos que o Livro de Mórmon era o
mais correto de todos os livros da Terra e a pedra fundamental de nossa religião; e
que seguindo seus preceitos o homem se aproximaria mais de Deus do que
seguindo os de qualquer outro livro.’” Além disso, todos os presidentes e apóstolos
da igreja mórmon são considerados profetas. O mesmo não acontece entre os
adventistas do sétimo dia.
Ellen White, que é reconhecida pelos adventistas como uma pessoa que em
tempos recentes recebeu o dom de profecia, jamais afirmou que seus escritos
estavam em pé de igualdade com a Bíblia Sagrada. Muito pelo contrário, ela sempre
deixou claro a superioridade da Bíblia como a Palavra de Deus. Leiamos o que ela
mesmo escreveu e perceberemos que há uma diferença muito grande entre o
profetismo de Ellen White e o do profeta mórmon.
“A Bíblia é a única autoridade infalível em matéria de religião” (O Grande
Conflito, p. 238).
“Mas Deus terá sobre a Terra um povo que mantenha a Bíblia, e a Bíblia
somente, como norma de todas as doutrinas e base de todas as reformas” (O
Grande Conflito, p. 595).
“Os Testemunhos [livros e demais escritos de Ellen G. White] não estão
destinados a comunicar nova luz; e sim imprimir fortemente na mente as verdades
da inspiração que já foram reveladas. Eles não têm por fim diminuir a Palavra de
Deus, e sim exaltá-la e atrair para ela as mentes, para que a bela singeleza da
verdade possa impressionar a todos. […] A Palavra de Deus é suficiente para
iluminar o Espírito mais obscurecido e pode ser compreendida por todo aquele
que sinceramente deseja entendê-la” (Conselhos Para a Igreja, p. 93).
“Vocês não estão familiarizados com as Escrituras. Se tivessem feito da Bíblia
o objeto de seus estudos, com o propósito de atingir o padrão bíblico e a perfeição
cristã, não necessitariam dos Testemunhos. E porque negligenciaram se
familiarizar com o Livro inspirado de Deus, Ele procurou alcançar vocês por meio
de testemunhos simples e diretos, chamando a sua atenção para as palavras da
inspiração que negligenciaram obedecer, e insistindo com vocês para modelarem a
vida de acordo com os seus ensinamentos puros e elevados” (Conselhos Para a
Igreja, p. 94).
“Recomendo-lhe, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de sua fé e prática.
Por essa Palavra seremos julgados. Nela Deus prometeu dar visões nos ‘últimos
dias’; não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir
os que se desviam da verdade bíblica” (Primeiros Escritos, pág. 78).
“A Bíblia é a única regra de fé e doutrina. E não há nada mais apropriado para
vigorizar a mente e fortalecer o intelecto do que o estudo da Palavra de Deus. Não
há outro livro que seja tão poderoso para elevar os pensamentos e dar vigor às
faculdades como as vastas e enobrecedoras verdades da Bíblia. Se a Palavra de
Deus fosse estudada como deveria ser, os homens teriam uma grandeza de
entendimento, uma nobreza de caráter e uma firmeza de propósito que raramente
se veem nestes tempos. Milhares de homens que ministram no púlpito carecem das
qualidades essenciais da mente e do caráter porque não se aplicam ao estudo das
Escrituras. Satisfazem-se com um conhecimento superficial das verdades repletas
de profunda significação e preferem continuar assim, perdendo muito em todo o
sentido, em vez de buscar com diligência o tesouro escondido” (Fundamentos da
Educação Cristã, p. 126).
“A Bíblia interpreta a si mesma. Uma passagem se revelará a chave que
esclarecerá outras passagens e, dessa maneira, será derramada luz sobre o
significado oculto da palavra. Comparando diferentes textos que tratam do mesmo
assunto, vendo sua influência sobre todos os lados, ficará evidente o verdadeiro
significado das Escrituras. Muitos acham que devem consultar os comentários
sobre as Escrituras a fim de compreender o significado da Palavra de Deus. Não se
deve presumir que os comentários não devem ser estudados; mas será necessário
muito discernimento para descobrir a verdade de Deus sob a multidão de palavras
humanas. […]. As joias da verdade jazem espalhadas sobre o campo da revelação;
mas foram enterradas sob as tradições humanas, sob os dizeres e mandamentos de
seres humanos, e a sabedoria do Céu é praticamente ignorada. Satanás conseguiu
levar o mundo a crer que as palavras e as realizações humanas são de grande
importância” (Review and Herald, 1º de dezembro de 1891).
“A Bíblia interpreta a si mesma, uma passagem explicando a outra.
Comparando os textos referentes aos mesmos temas, você verá harmonia e beleza
com que nunca sonhou” (Youth’s Instructor, 30 de junho de 1898).
“No trabalho público, não tornem proeminente nem citem o que a irmã White
tem escrito como autoridade para apoiar suas posições. Fazer isso não aumentará
a fé nos Testemunhos. Apresentem suas provas, claras e simples, da Palavra de
Deus. Um ‘Assim diz o Senhor’ é o mais forte testemunho que vocês podem
apresentar ao povo. Que ninguém seja instruída a olhar para a irmã White, e, sim,
ao poderoso Deus, que dá instruções à irmã White” (Carta 11, 1894).
“Deus nos chama a um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e
da Bíblia somente, deveriam ser ouvidas do púlpito. Mas a Bíblia tem sido despida
de seu poder, e o resultado é ausência de vigor espiritual. Em muitos sermões de
hoje não existe aquela manifestação divina que desperta a consciência e traz vida à
alma. Os ouvintes não podem dizer: ‘Não estava queimando o nosso coração,
enquanto Ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?’ (Lucas 24:32).
Muitos estão clamando pelo Deus vivo, ansiando pela presença divina. Permitam
que a Palavra de Deus fale ao coração deles. Deixem que os que têm ouvido apenas
tradições, teorias e ensinos humanos ouçam a voz Daquele que pode renová-los
para a vida eterna” (Profetas e Reis, p. 626).
“Em Sua Palavra, Deus conferiu aos homens o conhecimento necessário à
salvação. As Santas Escrituras devem ser aceitas como autorizada e infalível
revelação de Sua vontade. Elas são a norma do caráter, o revelador das doutrinas, a
pedra de toque da experiência religiosa. ‘Toda Escritura é inspirada por Deus e útil
para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim
de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra’ (2 Timóteo 3:16, 17)” (O Grande Conflito, pág. 9).
Nessas passagens de Ellen White, fica evidente que ela teve uma atitude
muito diferente da atitude de Joseph Smith. Referindo-se a pretensos profetas de
sua época, ela escreveu: “Nestes dias muitos que ousadamente pretendem ser
profetas são uma vergonha para a causa de Cristo” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p.
32).
Enquanto o profeta mórmon ensinou que seus escritos tinham a mesma
importância que a Bíblia Sagrada, Ellen White ensinava a supremacia, a
singularidade e a suficiência da Bíblia Sagrada como revelação divina e norma de fé
e crença para o cristão. Inclusive Ellen White afirmou que pessoas que tivessem
“um bom caráter cristão” não deveriam “ser separadas dos benefícios e privilégios
de membro da igreja” caso não cressem que ela recebia visões de Deus. Ou seja, um
adventista do sétimo dia precisa apenas da Bíblia para fundamentar sua fé e seu
estilo de vida. No entanto, é impossível alguém ser mórmon e não crer nos escritos
de Joseph Smith.
Portanto, não são comparáveis a obra de Ellen White com a de Joseph Smith.
O fato de algumas frases dos escritos de ambos serem parecidas se deve
unicamente ao fato de que eventualmente escreveram sobre os mesmos assuntos.
Isso, no entanto, não prova de que a influência espiritual que cada um recebeu foi a
mesma. Se há semelhanças, há muito mais diferenças entre ambos. A principal é
que Ellen White defendia consistentemente o princípio protestante de “a Bíblia e a
Bíblia somente”. Seu dom profético é compatível com a teologia tanto do Antigo
Testamento (Joel 2:28, 29) quanto do Novo Testamento (ver 1 Coríntios 12 e 14).
Que a graça de Cristo esteja com o irmão!