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Ocupações Pré - Coloniais no Litoral e nas Bacias Lacustres do Maranhão.

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Deusdédit Carneiro Leite Filho

Resumo
A passagem e eventual fixação de grupos caçadores-coletores-pescadores e populações ceramistas
ao longo do litoral e entorno do Golfão maranhense, sistema lagunar associado as bacias dos rios Pindaré,
Pericumã e Turiaçu, sinalizam a exploração e adaptação dessas sociedades a diferentes domínios
paisagísticos: ambientes equatoriais úmidos, manguezais, campos inundáveis, dunares e áreas de transição
para segmentos morfoclimáticos mais secos. A região se caracteriza por grande complexidade paisagística,
climática e morfológica possibilitando inferir-se a existência de uma diversidade significativa de recursos
arqueológicos, embora a limitada frequência de pesquisas na área delineie um painel de ocupação pouco
conclusivo. As referências ao patrimônio arqueológico relatadas pelos cronistas, viajantes e principalmente
os estudos pioneiros realizados pontualmente nos últimos oitenta anos possibilitam a formulação de uma
visão genérica sobre os padrões de assentamento verificados no território maranhense. Sambaquis, estearias,
aldeamentos, sítios que refletem a variedade de componentes sócio-culturais, e estratégias adaptativas
adotadas pelos grupos pré-históricos. O desenvolvimento de projetos de pesquisa associados ao
gerenciamento preventivo de bens arqueológicos, a consolidação de instituições regionais, o incremento de
prospecções e salvamentos atrelados ao licenciamento ambiental e a produção acadêmica permitirão a
inserção de dados na construção de modelos explicativos consistentes relativos ao processo de deslocamento,
antiguidade e diversidade cultural dos povos que habitaram o Maranhão.

Palavras-chaves: Arqueologia Maranhense, Sambaquis, Estearias.

Abstract
The peopling and settlement by hunter-gatherer-fisher and pottery makers groups along the coast,
the Maranhão gulf surrounding areas and the lake system associated to the basins of the Pindaré, Pericumã
and Turiaçu rivers points to the exploitation and adaptation by these societies to different kinds of
environments: humid equatorial, mangroves, floodplains, dunes and transitional areas to drier
morphoclimatic segments. The region is characterized by complex landscape, climate and morphology that
lead to the existence of a significant diversity of archaeological resources though the lack of research in the
area has not provided a conclusive settlement pattern configuration. Early chroniclers, travelers and
especially pioneering works developed in the last 80 years provided only a generic idea about the actual
settlement patterns that were developed in Maranhão. Shell-middens, estearias (dwellings erected on bodies
of water) and open air settlements are some types of archaeological sites that convey a variety of social and
cultural components and strategies of adaptation adopted by the prehistoric groups. The development of
research projects in association to preventive management of archaeological assets, the consolidation of local
institutions, the implementation of field surveys, salvage projects and academic production will bring about
new data and solid illustrative models of the migration, antiguity and cultural diversity of the people that first
inhabited Maranhão.

Key words: Archaeology, Maranhão, Shell middens, Estearias.

Introdução
A construção do conhecimento sobre a fixação e o deslocamento de populações pré-
coloniais ao longo do litoral do Maranhão se estruturou, inicialmente, a partir da percepção da
existência de vestígios materiais humanos decorrentes de antigas ocupações observados durante a

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Diretor do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão.
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exploração dos recursos naturais regionais. Posteriormente, através da atuação de intelectuais da
época, foram elaboradas descrições desses locais questionando-se a natureza e antiguidade dos
achados, adotando-se modelos explicativos adaptados e acrescidos de dados oriundos dos trabalhos
esporádicos de pesquisa arqueológica efetuados nos últimos 80 anos.
Apesar da baixa frequência de pesquisas, o que configura o conhecimento precário sobre o
potencial arqueológico da região, a riqueza e diversidade dos seus ecossistemas litorâneos e
continentais lacustres associados às informações preliminares, ainda não quantificadas
cientificamente, indicam a existência de um patrimônio significativo, praticamente desconhecido.
As referências documentadas ao longo do tempo, e principalmente os estudos pioneiros
efetuados em diferentes momentos da história recente, possibilitaram delinear um quadro bastante
fragmentário sobre os padrões de ocupações litorâneas, seus componentes sócio-culturais e
processos adaptativos desenvolvidos pelos grupos pré-históricos que habitaram a região.
O Maranhão se situa numa grande área de transição entre ambientes equatoriais úmidos e
áreas gradualmente mais secas, apresentando segmentos morfoclimáticos característicos desse
processo de transição. O Estado compreende um litoral de 640 km entre a foz do Gurupi e o Delta
do Parnaíba. Esta longa faixa litorânea pode ser classificada como área de planícies flúvio-
marinhas ou costeiras que, por sua vez, pode ser subdivida em dois sub-setores distintos, cujo
limite é o golfão maranhense e a própria ilha de São Luís: o ocidental com predominância de
manguezais, denominado costa de rias, com reentrâncias, baias, ilhas e pontas; e o segmento
oriental com acumulação de grandes manchas de sedimentos arenosos, conjunto de dunas
conhecidas como lençóis maranhenses, fruto da ação eólica e da devolução de sedimentos
carregados para a costa pelos rios da região. (AB’ SÁBER, 2001; RIOS, 2005).
O Golfão maranhense, que abrange a ilha de São Luís, 831,7 Km2 entre a baía de São
Marcos e a baía de São José, além da ilha dos Caranguejos (40 x 11 km de extensão), se caracteriza
por inserir-se em uma planície fluvio-marinha constituída por estuários afogados dos rios Mearim,
Itapecuru e Munim, moldados a milhões de anos e configurados pela ingressão marinha holocênica.
(ESPÍRITO SANTO, 2006; AB’ SÁBER, 2006). O prolongamento das características
geomorfologicas e ambientais desde o estuário amazônico e a convergência das bacias
hidrográficas do Itapecuru, Mearim, Pindaré e Munim para o golfão, interliga diferentes domínios
paisagísticos e ecossistemas (amazônicos, cerrados, cocais, etc.) o que qualifica a região como
cenário estratégico para o assentamento de populações pretéritas.
A partir do séc. XVI navegadores e comerciantes europeus promoveram as primeiras
expedições de reconhecimento da costa norte da porção sul das terras do Novo Mundo, assinalando
as características geográficas e mantendo os primeiros contatos com as populações que então
habitavam as áreas litorâneas. A dificuldade de acesso, os naufrágios frequentes e a tenaz

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resistência de grupos indígenas na Serra de Ibiapaba impossibilitaram a instalação das primeiras
ocupações portuguesas, de caráter religioso, civil ou militar.
No início do século XVII negociantes franceses estabeleceram feitorias na região
incrementando o comércio de produtos tropicais, especialmente as madeiras de tinta, e fortalecendo
as relações com alguns grupos Tupinambá fixados na região. Em 1612, construíram na ilha de
Upaon Açu (ilha grande) o forte Saint Louis com participação ativa dos grupos indígenas locais,
formando uma colônia de comercialização e reconhecimento assegurando, desta forma, as bases
para o controle territorial, político e econômico da região.
Os primeiros relatos etnográficos foram de autoria dos capuchinhos Claude d’Abbeville e
Yves d’Evreux que acompanharam, em missão de catequese, a expedição sobre o comando de
Daniel de La Touche. Abbeville descreveu detalhadamente a história da fixação dos franceses, as
aldeias e o modo de vida dos índios e, assim como seu companheiro d’Evreux, deixou registros
importantes para o conhecimento da religião, língua e etnografia dos grupos que habitavam o litoral
do Maranhão entre 1612 e 1615 (OBERMEIER, 2005).
Os missionários atestaram a existência de 27 aldeias dispersas por toda a ilha do
“Maranhão”, enumerando-as e citando seus respectivos chefes2 (ABBEVILLE, 1945). A
estimativa da população era de aproximadamente 12 mil pessoas distribuídas em aldeias, variando
seus habitantes entre 200 e 600 indivíduos. Os assentamentos eram criteriosamente localizados em
topos de colinas, planos e ventilados, de acesso fácil a nascentes de água ou igarapés e a diferentes
compartimentos ambientais com recursos alimentares diversificados. As moradias abrigavam
metades ou grupos de parentescos afins, em casas de até 100 metros, segundo alguns cronistas, que
se organizavam em torno de um grande pátio onde se desenvolvia a maior parte das atividades
sociais, rituais ou cotidianas. Somando-se os aldeamentos da ilha de São Luís, Tapuitapera, Cumã e
Caeté calcula-se uma população na época do contato de aproximadamente 35 mil indivíduos
linguística e culturalmente ligados que mantinham fortes relações de parentesco e amizade entre si
(FERNANDES, 1989).
Após o confronto das tropas portuguesas com os franceses, batalha de Guaxenduba, os
primeiros assumiram o controle da região estabelecendo estratégias de ocupação local, como a
implantação do plano urbanístico do engenheiro militar Frias de Mesquita e planejando ações que
garantiram o controle da região Amazônica. Nas resoluções de Jerônimo de Albuquerque aparecem
as primeiras referências aos sambaquis como fonte de matéria prima para produção de cal a ser

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As aldeias mencionadas são: Timboú,Tapari, Carnaupió, Euaíne, Itaendaue, Araçui-Ieuue, Pindotuue,
Uatimbup, Juniparâ, Toroiepeep, Januarém, Uarapirã, Coieup, Eussauap; Maracanã-pisip, Taperuçu, Torupé,
Aqueteuue, Caranavue, Ieuireé, Eucatu, Jeuireé, Uri-Uaçueupé, Maiue ou Maioba, Pacuri-euue, Euapar e
Meurot-euue. (Abbeville,1945).

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utilizada nos reparos do forte e nas construções das novas casas fora do perímetro da fortaleza:
“Deverá restaurar e aumentar a fortaleza segundo as plantas do engenheiro Frias, fabricará cal
necessária, mandando os seis pedreiros que dispõe queimem as conchas de ostra que se encontram
em abundancia nessas praças” (PIANZOLA, 1991).
A população Tupinambá da ilha de São Luís foi rapidamente dispersada ou dizimada e em
poucos anos, por volta de 1620, quando se estabeleceram as primeiras levas de açorianos, existiam
somente nove aldeias (SILVEIRA, 1979). Na primeira metade do séc. XVIII a Companhia de Jesus
mantinha diversas propriedades na ilha, destacando-se os colégios, os engenhos e outras atividades
produtivas, além das práticas missionárias junto a grupos remanescentes de indígenas ou oriundos
de descimentos que eram agrupados em aldeamentos, controlados e administrados pelos religiosos.
Existiam a aldeia da Doutrina, Uçaguaba, Anindiba e Aldeia São José (LEITE, 1943). Essas
localidades, após as reformas pombalinas, passaram ao controle das autoridades coloniais e foram
elevadas à condição de vilas, sendo chamadas a partir de então de Vinhais (1757), Paço do Lumiar
(1761) e São José de Ribamar (1757).
A utilização de cal na construção civil, seja como elemento de liga na argamassa ou na
pintura de paredes, impulsionou por todo o período colonial, imperial e republicano, a procura e
exploração dos sambaquis. Estes sítios foram paulatinamente desmontados para atender a crescente
demanda por matéria prima à medida que o padrão construtivo tornava-se mais sólido e ocorria a
estruturação gradativa ou remodelação dos núcleos urbanos da região.
No século XIX existiam propriedades rurais na própria ilha que produziam e comercializavam cal a
partir da queima de sarnambi oriundo dos sambaquis, como mencionado em Marques (1970):
“Os fornos, onde ainda se faz a cal que a província consome, são os do sítio
chamado Bacuri de Gentil Homem de Almeida; Outeiro, de Francisco dos
Santos Franco de Sá; Santo Antônio, dos herdeiros de João Antônio da Costa
Rodrigues; Bacanga, de Luis José Joaquim Rodrigues Lopes; Laranjeiras, de
Luis Paulino Homem de Loureiro Cerqueira; Piranhenga, de Luís Antônio
Pires”.

Era um negócio lucrativo, mas questionava-se a qualidade do produto, existindo alguns


cidadãos que solicitavam a instalação de fábricas para produzir cal a partir da exploração de
depósitos calcários encontrados em diversas localidades da província.

Fig.1: Antigo forno para queima de Fig.2: Forno de alvenaria de pedra e


4 sarnambi e produção de cal. Sítio cal para produção de cal. Sítio do
Piranhenga (início séc.XIX). Físico (início do séc. XIX). Foto:
Foto: Deusdédit F. Deusdédit F.
Ocupações Litorâneas
Uma das primeiras descrições de um sambaqui foi fornecida pelo historiador Francisco
Adolfo Varnhagen que antes de 1840 visitou a região. Nos primeiros anos após a fundação do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, diversos intelectuais discutiram exaustivamente a
situação do índio, produzindo trabalhos sobre as características linguísticas, etnográficas, as
migrações e a antiguidade da ocupação do território. O referido historiador descreveu também a
provável dinâmica de construção de um sambaqui através de associações a práticas dos Caribe do
norte das Antilhas. Comentou que as “casqueiras” ou “ostreiras” existentes no litoral do Brasil,
algumas com cobertura vegetal centenária, o que caracterizaria sua antiguidade, eram testemunhos
do hábito de coleta para alimento dos grupos anteriores a descoberta do Brasil e que tais áreas eram
fontes promissoras de riqueza para seus proprietários que poderiam produzir cal para a
comercialização (VARNHAGEN, 1978).
Na descrição de um sambaqui nos arredores de São Luís, Varnhagen refere-se a um
“mausoléu”, onde se encontravam igaçabas, machados líticos e grande quantidade de conchas; mas
não os considerou vestígios de uma cidade antiga, encantada, como defendiam alguns autores da
época. (FERREIRA, 1999).
Outro registro atesta a existência de grandes depósitos conchilíferos ao norte da ilha de São
Luis, conforme o relato do Pe. José Inácio Portugal, vigário de São José dos Índios, que em 1857
observou que na região: ”Abundam cascas de sernambi por toda parte, havendo-as em grande cópia
nos cabeços dos morros, o que denuncia ter sido este terreno inundado em remotas por algum
dilúvio parcial” (MARQUES, 2008).
No início do século XX o pesquisador maranhense Raimundo Lopes se destacou como
grande conhecedor da geografia regional e de forma pioneira iniciou estudos sobre os
assentamentos de populações pré-históricas e sua interação com as paisagens circunvizinhas,
apontando as especificidades dos sítios lacustres, as estearias da Baixada Maranhense e os
sambaquis identificados por ele na ilha de São Luís.
Lopes estabeleceu estudos comparativos entre as cerâmicas das Américas Central e do Sul,
e sua possível correlação amazônica, considerando os exemplares encontrados nos sambaquis de
fabricação e decoração originários de um estágio inferior ao observado nas estearias, que por sua
vez seriam suplantados pela cerâmica Marajoara. Formulou modelos explicativos, evolucionistas,
associando informações geomorfológicas aos locais de interesse arqueológico e seus achados,
propondo “seriações hipotéticas”, nas quais os sambaquis seriam frutos da ocupação de grupos com
técnicas menos elaboradas, adaptados a ambientes no período em que houve regressão marinha.
Descreve também, as “civilizações extintas”, assentamentos lacustres e marajoaras, que ocorreram
no final da regressão do nível do mar e uma última fase de ocupação, a proto-histórica, coincidindo

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com o declínio da cultura marajoara, a subida do nível do mar, e permanência das culturas
derivadas. (LOPES, 1924).
Pesquisou em São Luís os sambaquis da Maiobinha (1922) e do Pindaí (1927). O primeiro
localizado próximo a um conjunto de brejos e terrenos alagadiços interligados ao Rio Paciência, no
interior da ilha a cerca de 8 km do mar e o outro, distante cerca de 4 km do primeiro, no vale do
Rio São João, a 4 km da Baia de São José. Classificou esses sambaquis como mistos, uma vez que
detectou em sua base depósitos de restos marinhos naturais, ao qual se sobrepuseram camadas de
restos alimentares e artefatos “... como um estabelecimento humano sobre uma praia conchilífera”
(LOPES, 1970); cuja paisagem foi sendo modelada desde então pela deposição de sedimentos
eólicos, as altas variações da maré e da linha de praia no decorrer do tempo, o que teria propiciado
a sedimentação, assoreamentos e aterramento dessas áreas.
Em suas publicações o autor propõe a hipótese de idades mais antigas para essas
ocupações, baseando-se nas suas observações de caráter geomorfológico, nas características dos
assentamentos e da cultura material encontrada: alguns fragmentos de rochas lascadas e cerâmicas
mais rústicas, sem pintura o que diferencia esses sítios dos sambaquis tradicionais encontrados no
litoral do sudeste e sul do país: “Trata-se provavelmente, a nosso ver, de formações naturais mais
ou menos remodeladas pela ação humana” (LOPES, 1931). Continuando explica melhor suas
hipóteses:
“Estamos assim convencidos de que os sambaquis da Ilha do Maranhão são do
tipo mixto, isto é, formados pela concomitante presença do homem em pontos
onde o litoral foi recuando, depositando-se, ao longo das praias que
abandonava, sobre os bancos das lagunas e esteiros e pontos rasos em geral,
lastros de conchas, aos quaes se misturaram, em maior ou menor escala, as
conchas provenientes dos restos da alimentação dos habitantes da orla
marítima, fragmentos dos seus utensílios e até dos esqueletos. Por um lado, não
é plausível a hipótese de um sambaqui monumento ali. O aspecto de plano
inclinado, sem relevo especial sobre os matos vizinhos, apezar da apreciável
espessura dos lastros, a extensão dos vestígios de conchas mato adiante, tudo
impede de admitir uma origem direta” (LOPES, 1931)).

Como pesquisador pertencente ao quadro do Museu Nacional (LOPES, 1956) Raimundo


Lopes teve atuação destacada ao propor a adoção de posturas por parte do poder público visando à
implantação de uma política de preservação e gerenciamento do patrimônio cultural brasileiro, em
especial sobre a proteção e preservação dos sítios arqueológicos (SILVA, 1996). No seu artigo “A
Natureza dos Monumentos Culturais”, publicado em 1937 na Revista n° 1 do Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, propôs 12 itens visando tornar mais efetiva a
preservação dos bens culturais. Ressalta-se a atualidade de algumas das suas propostas relativas à
interação natureza-cultura, proibição da exploração e destruição dos sambaquis, tratamento
paisagístico do entorno dos monumentos e sítios, diminuição dos impostos dos proprietários de

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terras onde porventura existiam sítios arqueológicos, além da implantação de ações de educação
patrimonial.
Especificamente sobre o sambaqui da Maiobinha reivindicou a melhoria do acesso, a
construção de abrigos para receber estudantes e turistas e a divulgação junto à comunidade da
necessidade da preservação e conhecimento sobre o local. Sugeriu que fosse efetuado “O preparo,
no talude a beira de estrada, de um corte do sambaqui, onde pudessem ser vistas as suas camadas
características, sobre abrigo conveniente, ficando o resto protegido por um revestimento relvoso,
faria dessa jazida uma verdadeira lição prática sobre a natureza e as origens indígenas” (LOPES,
1937). Como consequência da sua atuação o primeiro bem patrimonial, oficialmente tombado no
Maranhão pelo antigo Sphan, foi o sambaqui do Pindaí, em janeiro de 1940 (VIANA L, 2005).
Com a criação do Instituto de História e Geografia do Maranhão em 1920, diversos
intelectuais passaram a se interessar pelos vestígios arqueológicos da região destacando-se, entre
outros, Antônio Lopes, irmão do pesquisador mencionado, que esteve à frente da instituição desde
a sua fundação, sendo responsável pela publicação dos primeiros volumes da Revista de Geografia
e História.
Antônio Lopes acompanhado de alguns membros do instituto investigou a notícia de um
achado fortuito ocorrido na estrada do Anil nas proximidades do riacho do Cutim. No local,
agricultores encontraram alguns vasos de barro, o maior teria 50 cm de diâmetro, verificando-se em
seu interior ossos humanos, e no entorno, machados de pedra e contas de vidro de um colar. Na
ocasião realizaram escavações na área da descoberta encontrando também machados líticos, restos
de conchas, contas espalhadas e carvão. Sobre a origem do material, o pesquisador admitiu a
possibilidade de serem remanescentes de mais um sambaqui. “A hypothese, mais simples, de um
cemitério de índios não é inviável e mesmo nesta o material deve ser reputado muito antigo,
porquanto desde o século XVII não há índios em estado selvagem, usando armas de pedra, na Ilha
do Maranhão” (LOPES A, 1926).
Na mesma época, foi organizado no Instituto de História e Geografia um museu tendo em
seus acervos exemplares de objetos arqueológicos, material histórico e artefatos etnográficos
representativos de todo o território maranhense. Pessoas “cultas e dedicadas” na maioria das
cidades do interior foram os agentes responsáveis pela coleta e envio de objetos com instruções
pré-estabelecidas, relativas à origem e relevância do material arqueológico: enviar artefatos e
instrumentos de pedra lascada ou polida encontrados no solo ou subsolo, cavernas, lagos ou rios,
ossadas humanas, fragmentos ou peças de “loiça” de barro, esteios, desenhos ou fotografias de
inscrições e desenhos encontrados em cavernas e paredões de serras. (LOPES A, 1926)
A instituição passou por uma séria crise a partir da Revolução de 30, sofrendo diversas
intervenções restritivas como: a destituição da sua sede, a retirada de auxílios financeiros oriundos
do estado e a desarticulação do seu museu. Entretanto, em 1948 o Instituto editou novamente sua

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revista denunciando a destruição dos sambaquis e dos recursos naturais da Ilha e em diversas partes
do estado: “Os sambaquis da ilha do Maranhão vêm sendo desmontados para revestimento de leitos
de rodovias desde muitos anos. Ignoramos se o material que pra tal fim deles se extraiu é dos
melhores em consistência, mas não é civilizado destruir jazidas arqueológicas para capear
estradas”. Continuando, o autor solicita imediata ação por parte das autoridades competentes: “É
inadiável providenciar para que não continuem semelhantes descalabros na terra maranhense.
Comecemos pela ilha onde está situada a capital, protegendo eficientemente o seu revestimento
vegetal, sua fauna silvestre, a sua escassa reserva de água e os seus sambaquis. É mister agir não
somente sem demora, porém com máxima energia” (LOPES A, 1948).
Em 1928 o etnólogo alemão Curt Unckel, Nimuendaju, passou por São Luís e andando
pelos bairros periféricos da cidade encontrou o sambaqui da Maiobinha quando obteve, junto a um
morador da região, informações sobre os artefatos arqueológicos encontrados no local, bem como
recebeu a doação de fragmentos cerâmicos pertencentes a uma igaçaba. Relata que apesar do
estado fragmentado do material:
“(...) achei muito interessante ornamentos naqueles cacos. Consistem em
labirintos e volutas de linha e pontinhos de tinta preta sobre fundo de esmalte
branco, e barras vermelhas. Arrumei mais três instrumentos de pedra. Estas
coisas foram encontradas na beira do dito sambaqui. A louça que se acha
misturada com os conchílios é quase toda lisa e, quando enfeitada, os
ornamentos são gravados. Disseram-me que foram encontradas outras igaçabas
lisas e sem pintura dentro do próprio sambaqui” (HARTMAN, 2000).

Com base no seu conhecimento sobre as sociedades indígenas e a Arqueologia Brasileira


de então, o etnólogo formulou uma hipótese sobre os achados, em sua opinião: “Todas as igaçabas
ai encontradas serviram para enterro secundário: aquela da qual eu trouxe os fragmentos podia ter
tido uns 60 cm em diâmetro no máximo. Todas pertencem claramente às (diversas?) populações
pré-tupi da ilha” (HARTMAN, 2000). Observe-se que Raimundo Lopes não faz referência a
artefatos cerâmicos pintados oriundos desse sambaqui. O material foi encaminhado ao senhor
Carlos Estevão de Oliveira, diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Por volta de 1950, José Silvestre Fernandes publicou artigos sobre a existência de
sambaquis no litoral ocidental maranhense. Percorrendo a costa, baia e as ilhas entre os municípios
de Cururupu e Turiaçu, observou a existência de pelo menos três sambaquis nos lugares conhecidos
como Areia Branca, Ilha das Moças e Mocambo.
Na ocasião verificou que não obstante a anterior exploração dos “sarnambizais”, como são
conhecidos popularmente na região, os componentes destes sítios ainda eram abundantes e
utilizados como matéria prima para a fabricação de cal. Em seu relato informa que “muitas ossadas
humanas” foram exumadas em Areia Branca, assim como “amostras de cerâmica rudimentar”.
Fernandes compartilhou a hipótese de Raimundo Lopes sobre os referidos sambaquis que teriam

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uma origem híbrida, fruto da deposição natural e artificial de restos alimentares de grupos pré-
coloniais.
O “casqueiro” da ilha das Moças, entre outros existentes nas proximidades, era bastante
antigo, existindo muito antes das primeiras moradias do local. No sítio visitado, se estendendo por
cerca de 50 metros com 6 de largura e 1,20 de altura, foram encontrados amostras de cerâmica mal
cozida. O sambaqui do Mocambo era a maior “mina” de sarnambi encontrada na região, segundo o
autor, estendia-se cerca de 2 km alcançando até 5 metros de altura, com largura irregular. Lá teriam
sido encontradas, segundo informantes, ossadas humanas e uma urna com esqueleto. O pesquisador
em questão levou ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vista uma raspadeira de pedra que recebeu
de presente, além de algumas amostras de material. (FERNANDES, 1950).
Em 1957 o prof. João Braulino de Carvalho, do Instituto Histórico e Geográfico do
Maranhão, publicou “Nota Sobre a Arqueologia da Ilha de São Luís”, onde menciona o material
oriundo das escavações efetuadas por ele e A. Lopes: uma coleção de urnas, em forma de
alguidares, que apresentavam desenhos “circulares e traços finíssimos” e duas faixas vermelhas no
interior. Continham cinzas e ossos humanos fragmentados, e numa delas, em que os restos
esqueletais estavam mais íntegros, contas de vidro nas cores vermelha e azul escuro com franja
branca; seriam contas fabricadas em Veneza e trocadas por navegantes com as populações que
habitavam o litoral. Para o autor, os fabricantes desses utensílios seriam as mulheres Nu-Aruaks, as
oleiras das cerâmicas mais conhecidas da região amazônica. Baseado em informações colhidas por
Barbosa Rodrigues, E. Goeldi e P. Ehrenreich propôs uma datação relativa para os achados:
“somos de parecer que a Urna contendo ”Perolas de Veneza” pertencente à jovem do Cutim
Grande, tem cerca de 400 anos de idade” (CARVALHO, 1957). Atualmente se desconhece o local
em que tais objetos se encontram.
A literatura arqueológica brasileira das décadas 40 a 60 que relata a existência de
sambaquis no litoral do Maranhão e estearias na região da Baixada foi fundamentada nas
publicações de Raimundo Lopes, onde aparecem dados sobre “o homem do sambaqui” e o “homem
das esteiarias”. (RIBEIRO 1954; PEREIRA J, 1967; COSTA, 1959). Frederico Barata refere-se ao
trabalho de Lopes no Maranhão, mas acredita que a cerâmica encontrada nos sambaquis “devia
corresponder a uma das tribos fixadas nas proximidades” como sugere que seja o caso de
Taperinha, na região de Santarém. Discorda de Lopes que propôs duas áreas distintas de
distribuição cultural dos grupos pré-históricos:
“Os objetos de cultura material indígena que foram até aqui recolhidos,
esporadicamente e sem qualquer sistematização de pesquisas, nos sambaquis
conhecidos ou nas imediações, não justificam, porém e antes desmentem a
divisão que Raimundo Lopes estabeleceu no Brasil em duas zonas de cultura
material primitiva, diversificada pelo meio físico e que seriam a do sul, ou da
pedra e a da Amazônia, ou da cerâmica, do osso e da madeira”. (RIBEIRO,
1954).

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Nos anos 60 o arqueólogo Igor Chmyz da Faculdade de Filosofia da Universidade do
Paraná, elaborou o projeto “Pesquisa Arqueológica da Região do Pericumã-Pindaré” que
aparentemente não foi executado. Entretanto, realizou escavações no Sambaqui do Pindaí, onde
evidenciou grande deposição de conchas e material cerâmico, conforme a documentação
fotográfica e gráfica realizada na ocasião.

Fig.4: Iconografia Fig. 5: Croqui da


Fig. 3: Planta do Sambaqui de índio distribuição espacial do
da Maiobinha. São Luís. Tupinambá da Sambaqui do Pindaí.São
Raimundo Lopes, 1957 ilha de São Luís. Luís. Igor Chmyz (?).
Kleedinghe van Iphan.
Marangnan. 1667.
Almeida,1977.

Por volta de 1970 o Museu Paraense Emílio Goeldi desenvolveu no Maranhão dois
projetos de pesquisas arqueológicas com o intuito de melhor conhecer os recursos arqueológicos
pré-coloniais já identificados na região: as estearias da Baixada e as ocupações litorâneas,
sambaquis. O Projeto Cajari (1971) buscava levantar dados mais aprofundados sobre a antiguidade
e origem das hipóteses levantadas por Raimundo Lopes; e o Projeto São Luís (1971) objetivava
detectar e estudar antigos e novos sambaquis na ilha de São Luís, procurando estabelecer estudos
comparativos, culturais e cronológicos, com os sambaquis da Fase Mina já estudados no litoral do
Salgado no Pará, e os da Fase Periperi já conhecidos do litoral do Recôncavo Baiano. (Simões,
1981). Excetuando os sambaquis do Pindaí e da Maiobinha, que já eram conhecidos, foram
localizados também os sambaquis da Boa Viagem, Jaguarema, Iguaíba,Tendal, Marval, e Pau
Deitado (SIMÕES & ARAÚJO-COSTA, 1978).
Oito sambaquis foram localizados na ilha de São Luís, mas somente o Maiobinha, Pindaí e
Iguaíba eram passíveis à realização de investigações arqueológicas. Nos outros cinco sítios foram
feitos levantamentos topográficos, planialtimétricos e coletas superficiais.
Os sítios, que foram alvo da pesquisa, apresentaram uma cerâmica decorada com pintura
ou banho em vermelho, uma pasta temperada com acréscimo de conchas trituradas, areia associada

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a cacos moídos e cariapé. No sambaqui da Maiobinha, onde era maior a camada deposicional,
foram evidenciados, nos níveis mais profundos, dois sepultamentos primários, em posição fletida,
decúbito dorsal: uma mulher e uma criança, ambas portando colares de contas líticas. Amostras de
carvão indicaram datações de 545 e 705AD (SIMÕES, 1973; 1981).
As análises preliminares efetuadas nos outros sambaquis estabeleceram semelhanças com
aqueles do Salgado do litoral do Pará. Com base nos achados malacológicos, foram associados à
fase Mina, Castalia, do Baixo Amazonas, e Alaka das Guianas. (MACHADO; CORREIA &
LOPES, 1987). O material arqueológico proveniente dessas pesquisas foi incorporado ao acervo do
Museu Paraense Emílio Goeldi devendo seu potencial informativo ser reavaliado à luz de novas
descobertas objetivando, assim, o melhor conhecimento do contexto arqueológico regional.
O professor de antropologia Olavo Correia Lima, da Universidade Federal do Maranhão,
de 1970 a 1980 realizou diversas pesquisas de campo, acompanhado de alunos do curso de
Geografia, em sítios no interior do estado e na ilha de São Luís. Em 1971, participou dos trabalhos
desenvolvidos pelos profissionais do Goeldi e realizou escavações em São Luís, Ribamar, Quebra
Pote, Jaguarema, Turu e principalmente no sambaqui do Bacanga (LIMA & AROSO, 1989). Parte
do material arqueológico coletado pelo professor se encontra no acervo do Centro de Pesquisa de
História Natural e Arqueologia do Maranhão, órgão vinculado a Secretaria de Estado da Cultura,
criado em março de 2002.
Os trabalhos de abrangência regional ou nacional fazem referências aos grupos de
caçadores-coletores-pescadores do litoral do Maranhão como ocupantes de uma área de potencial
pouco conhecido, embora de grande importância estratégica para o estabelecimento das rotas de
migração e dispersão desses grupos ao longo do litoral nordestino, uma vez que a costa a partir do
Delta do Parnaíba assume características bastante diferenciadas, onde os testemunhos foram
perdidos pela ação de mudança da linha do mar, registrando-se ocorrências em alguns pontos
isolados e principalmente a partir do Recôncavo Baiano.
A existência dos sambaquis maranhenses foi a princípio discutida a partir dos trabalhos
realizados por Raimundo Lopes, acrescidos de dados produzidos pelos pesquisadores do Museu
Paraense Emílio Goeldi na década de 70, sendo recentemente objeto de releituras e adaptações a
enfoques mais atualizados (MARTIN, 1996; PROUS, 1992; GASPAR, 2000; LIMA, 2000). A tais
dados foram também incorporadas informações sobre a base alimentar desses grupos, com ênfase
especial nos hábitos alimentares identificados nos sambaquis do litoral nordeste do Pará (GASPAR
& IMÁZIO, 1999).
As pesquisas arqueológicas efetuadas em áreas amazônicas nos últimos anos sinalizam
indicativos de ocupações mais antigas do que se admitia até então. Acredita-se que a fixação na
paisagem e o desenvolvimento tecnológico dos grupos que habitaram a floresta tropical sejam fruto
de uma complexa relação de exploração de recursos naturais e adaptação ao meio ambiente no

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decorrer de uma sequência temporal muito antiga; destacando-se além da descoberta de diversos
sítios com datações anteriores há 10 mil anos, as obtidas nos substratos mais inferiores do
sambaqui fluvial de Taperinha, sudoeste do Pará, cuja cerâmica de até 8.000 mil anos seria a mais
antiga descoberta no continente Americano (ROOSEVELT, 1992). Diante desse contexto, alguns
estudiosos trabalham com hipóteses de que grupos ceramistas de idades bastante recuadas podem
ter chegado ao litoral, se expandindo até a costa do Maranhão (NEVES, 2006).
Em todo o território maranhense foram obtidos registros da ocorrência de sítios
arqueológicos que apresentam diferentes padrões de assentamento, diversificados suportes de
memória com morfologia e características distintas, abrangendo uma escala temporal bastante
recuada. A idade mais antiga que dispomos até o momento foi obtida a partir do resgate
arqueológico efetuado às margens do rio Flores (bacia do rio Mearim) na linha de Transmissão
Tucurí-Presidente Dutra de um sítio pré-cerâmico, caçadores-coletores, onde foram encontrados
artefatos lascados e vestígios de fogueiras. A datação efetuada pelo laboratório Beta Analitic
(USA) com calibragem recuou até 9.000 anos AP. (CALDARELLI & LEITE FILHO, 2003).
Ao longo das bacias hidrográficas dos Rios Mearim, Pindaré, Itapecuru, Turiaçu, Grajaú,
Balsas e Munim existiram ocupações de grupos ceramistas de acordo com vestígios materiais,
informações orais e relatos etnográficos. Na região centro-sul do estado já foram localizados mais
de 50 sítios contendo representações rupestres, em sua grande maioria gravuras, principalmente nos
municípios de Carolina, Tasso Fragoso, Grajaú, Tuntum, São Domingos, Colinas e Parnarama,
dentre outros. Segundo informações colhidas junto aos moradores da região ainda existem muitos
sítios não inventariados. Na Baixada Maranhense, região de lagos associados aos rios Pindaré,
Pericumã e Turiaçu, são encontrados vestígios de habitações lacustres com cerâmica característica,
apresentando apliques e alças zoomorfas, material lítico, inclusive muiraquitãs, conforme descrito
por Raimundo Lopes e os pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi. (LEITE FILHO &
LEITE, 2005). Também existem informações acerca da existência de sambaquis no litoral oriental
do estado, municípios de Humberto de Campos, Tutóia e no Delta do Parnaíba.
Em 2005, um conjunto de vasilhas cerâmicas foi encontrado durante a construção de uma
fossa séptica no Alto do Calhau, em São Luís que parece corroborar a existência de grupos de
origem tupi anteriores aos aldeamentos Tupinambá, descritos por antigos viajantes. A cerâmica
Tupiguarani tem sido encontrada no Nordeste do Brasil em assentamentos inseridos em diferentes
compartimentos ambientais. (ALBUQUERQUE, 2008). Os recipientes em questão, de dimensões
variadas, são decorados na parte interna com motivos de grande elaboração estética e apurado
domínio técnico na aplicação da pintura policrômica. Os desenhos se apresentam em forma de
arabescos, labirintos e volutas, desenvolvidos a partir de traços finos e pontos pretos sobre fundo
branco; nas bordas reforçadas se destacam bastonetes pretos e faixas vermelhas. Tendo em vista
que a pintura dos utensílios é solúvel em água, indicando que a sua aplicação foi feita após a

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queima, acentua-se a hipótese da sua função ritualística, provavelmente associada a práticas
funerárias (LEITE FILHO & LEITE, 2005). Posicionadas sequencialmente, de forma que as
maiores encobrissem as menores, estavam associadas a uma pequena tigela e outro recipiente
cilíndrico, em forma de cálice. Segundo análise preliminar efetuada por André Prous, a partir de
desenhos e fotos, esses achados estariam associados a ocupações Prototupi, descritas por ele
(PROUS, 1992; 2006), embora somente datações por carbono 14 possam fornecer cronologias
precisas. Na ocasião como a peça maior, medindo 57 cm, havia sido fragmentada durante a
execução da referida obra, foi solicitado ao IPHAN a ampliação da área da intervenção objetivando
efetuar um salvamento expedito do restante do material e configurar melhor o entorno do achado.
O local em questão, de considerável valor informativo, se encontra densamente ocupado por casas
populares.

Fig.6,7,8,9: Conjunto de vasilhas cerâmicas com dimensões e decorações internas diferenciadas


associado a tradição Tupiguarani. Alto do Calhau-São Luís. Acervo CPHNA-Ma. Desenho:
Zacarias C. Fotos: Eliane Gaspar/Deusdédit F.

Associado ao universo Tupiguarani também foram localizados no continente fragmentos de


uma urna com restos esqueletais no povoado de Tatuaba, no município de Icatú e em Alto Alegre
na micro bacia do Rio Tapuio, médio Mearim (2008) um conjunto de urnas retangulares, uma delas
com pintura interna e linhas avermelhadas que foram encaminhadas ao Centro de Pesquisa.

Fig.10: Urna funerária contendo restos Fig.11: Urna funerária com decoração
esqueletais. Icatú (2007). Foto: Eliane Gaspar interna. Alto Alegre, (2008). Acervo
CPHNA-Ma. Foto: Deusdédit Filho.

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A localização dos sambaquis residuais pesquisados na década de 70: Boa Viagem,
Jaguarema, Iguaíba, Tendal, Marval e Pau Deitado é detalhadamente descrita por Simões & Costa-
Araújo (1978) estando a localização dos mesmos também indicada num mapa da ilha de São Luís
produzido por Machado, Correia & Lopes (1987).
Outros sítios já conhecidos são: o sambaqui da Maiobinha situado no retorno da Forquilha,
no início da estrada São Luis - São José de Ribamar, hoje pertencente à região metropolitana de
São Luís e ocupado de forma intensa devido à expansão desordenada da cidade. O sambaqui do
Pindaí, na estrada estadual Ma-201 São Luís - São José de Ribamar, a 250 metros do rio Pindaí, no
entroncamento de acesso a sede do município de Paço do Lumiar (N) e a Praia de Boa Viagem (S)
que está fortemente impactado por décadas de exploração de seus recursos. Também, o sambaqui
do Bacanga inserido no Parque Estadual do Bacanga (decreto 7.545/1980) a cerca de 1000 metros
do rio do mesmo nome. O sítio em questão foi identificado por Olavo Correia Lima na década de
70, e recentemente apresentou datações a partir de Carbono 14, obtidas de conchas e TL de
fragmentos cerâmicos, de aproximadamente 6.600±1400 anos AP para a ocupação local
(BANDEIRA, 2008). O sambaqui do Itapari, encontrado pelos arqueólogos do Centro de Pesquisa
em 1992, no município de S. José de Ribamar na área do loteamento Ponta Verde, próximo à praia
de Coroa Vermelha, abrange cerca de 300 metros por 100 de largura, apresentando diferentes graus
de degradação por ocupação de eventuais grupos de “sem terras” e principalmente pela retirada
contínua de terra preta.
Durante a coleta de dados para a elaboração do Relatório de Avaliação Arqueológica na
área da Alumar (CALDARELLI & LEITE FILHO, 2003), foi identificado um sítio cerâmico
assentado no topo de uma colina, em Quebra Potes, próximo ao Rio Tibiri. Na ocasião foi
detectado um afloramento de grande volume de material próximo a um campo de futebol. Outros
trabalhos mais recentes também localizaram os sítios cerâmicos da Antiga Tupi e do Sítio
Madureira, ambos na região Itaqui-Bacanga (CALDARELLI & LEITE FILHO, 2007; 2008), ao sul
da ilha de São Luís. Ao norte da ilha também foi identificado o sítio cerâmico do Caúra; localizado
em propriedade privada, parcialmente impactado pela abertura de estradas vicinais.
Em região de expansão da cidade de S. José de Ribamar, no bairro J. Câmaras, na
localidade Sarnambi, também se observam vestígios de ocupações pré-coloniais. O sítio atualmente
ocupado por moradias ostenta nos espaços vazios, jardins e quintais onde há terra preta, fragmentos
cerâmicos e grande concentração de restos alimentares, com predominância de malacológicos. Em
situação bastante semelhante ao anterior, o sambaqui do Gapara se encontra bastante
comprometido pela implantação de um conjunto de moradias populares, denominado Cohatab.

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Fig.13: Sambaqui Alto do
Fig.12: Sambaqui do Itapari. São
Sarnambi.S. José de Ribamar.
José de Ribamar. foto:Deusdédit F.
foto:Deusdédit F.

Fig.14: Sambaqui lacustre do Sarnambi. Fig.15: Sítio do Achuí, que est sendo
São João Batista. Foto:Deusdédit F. gradativamente destruído pelo avanço do
mar. Humberto de Campos. Foto:
Deusdédit F.

Fig. 16: Alça antropomorfa. Fig.17: Urna funerária Fig.18: Borda com
Sambaqui do Jaguarema. antropomorfa. São José de decoração externa incisa.
Acervo:CPHNA-Ma. Ribamar. Acervo: Sambaqui do Itapary. São
Na ilha de Curupu, aCPHNA-Ma.
Foto: Eliane Gaspar leste de São Luís, exist José de Ribamar. Acervo:
Foto: Deusdédit F. CPHNA-Ma. Foto: Eliane
Gaspar.

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Na ilha de Curupu, a leste de São Luís, existe um sítio dunar a cerca de 400 metros da
praia de Tarumã próximo a uma lagoa temporária que se encaixa entre as dunas. No local foram
observados fragmentos cerâmicos associados a restos alimentares, especialmente cascas de
moluscos. As dunas, que segundo os moradores, se movem até 10 metros por ano deverão cobrir
totalmente o sítio em um futuro próximo.
O sambaqui do Alto do Sarnambi situa-se entre os povoados de Cumbique e Mocajituba,
acerca de 700 metros do braço do mar. Explorado intensivamente por mais de 30 anos, apresentava
originalmente depósitos conchilífero de mais de 10 metros de altura com grande quantidade de
material cerâmico, estendendo-se originalmente por mais de 600m segundo informantes locais.
Deve-se ressaltar que além dos sambaquis e sítios litorâneos aqui listados e cadastrados
durante o projeto Piatam-Mar (SCHAAN et al, 2008), existem outros já conhecidos a partir de
informações coletadas junto aos frequentadores e pesquisadores do Centro de Pesquisa de História
Natural e Arqueologia do Maranhão, além daqueles evidenciados em levantamentos em campo
efetuados em variadas localidades do território maranhense como nos municípios de Guimarães,
Cururupu, Bacuri, Porto Rico, Turiaçu, Tutóia, Bequimão, Alcântara, Apicum-Açu e Icatu, (LEITE
FILHO e GASPAR, 2008) fato que corrobora o alto potencial dos recursos arqueológicos
regionais.
No litoral leste, no município de Humberto de Campos, a erosão costeira em função do
aumento significativo do nível do mar nos últimos anos, vem ameaçando seriamente a integridade
do sitio pré-colonial Achuí que apresenta grande quantidade de líticos polidos e fragmentos
cerâmicos. O referido sítio já perdeu cerca de 50% de sua área e artefatos são encontrados na praia
e coletados esporadicamente pelos pescadores que frequentam a região.
Especial atenção deverá ser direcionada pelos técnicos do Centro de Pesquisa ao estudo
detalhado dos sambaquis lacustres e de campos inundáveis, recentemente localizados na Baixada
Maranhense durante a realização de levantamentos do potencial arqueológico local. Os sambaquis
do Sarnambi e o da Ilha Grande, distantes cerca de 1 km entre si, assentados às margens do Lago
Coqueiro, município de São João Batista e o sambaqui Ostra encontrado nos campos de São
Vicente de Férrer, que não contem vestígios cerâmicos, característica que o diferencia dos demais
sambaquis existentes na região.

Ocupações Lacustres
Durante o Quaternário a porção norte do Maranhão, o entorno do Golfão maranhense,
passou por grande reestruturação paisagística e ecossistêmica em função dos processos neo-
tectônicos, flutuações eustáticas e instabilidades climáticas. A área, de transição entre as bacias
sedimentares do Parnaíba e São Luís, modelou-se em ambiente de pré-chapadas interiores a um
complexo sistema de colmatagem flúvio-marinha. (AB’ SÁBER, 1960)

16
O soerguimento da faixa costeira propiciou a gênese na formação dos lagos durante o
Pleistoceno, tornando-se a região receptora de sedimentos carreados pelos rios Pindaré, Grajaú e
Mearim e das vertentes dos tabuleiros costeiros, configurando os ambientes de sedimentação que
são as bacias lacustres. As unidades de paisagem características dessa região são os lagos, campos
inundáveis, campos não - nundáveis, aterrados, tesos inundáveis e terra firme. (DIAS, 2007).
No início do século XIX moradores da Baixada e viajantes que passaram pela região,
área da planície fluvio-marinha caracterizada por rios perenes e um mosaico de lagos e campos
inundáveis, observaram e descreveram restos construtivos, esteios de diferentes dimensões fixados
em “croas”, associados a grande quantidade de fragmentos cerâmicos, líticos e restos alimentares,
que afloravam nas margens ou nos “tesos” dos lagos nos períodos de estiagem mais prolongadas.
Reflexões mais recentes sobre a importância de tais assentamentos apontam à necessidade de
estudos locais mais conclusivos. Esses remanescentes de habitações construídas sobre esteios são
considerados totalmente originais dentro do quadro atual da Arqueologia Brasileira (PROUS,
1992).
Relatos dos primeiros navegantes, que exploraram o litoral sul americano, fazem
referência a padrões de assentamentos similares encontrados na costa da atual Venezuela, como
descrito por Américo Vespúcio na expedição de 1499 sob comando de Alonso de Ojeda :
... encontramos uma população, isto é, um distrito ou vila, colocada sob as
águas, como Veneza, na qual havia cerca de 20 grandes casas, construídas a
guisa de sinos, como já se referiu, e firmemente fundadas sobre estacas de
madeira, sólidas e fortes, diante de cujos portais se estendiam pontes levadiças
por meio das quais se passava de uma casa à outra como se por uma
estabilíssima calçada. (VESPÚCIO, 2003).

Os franceses estabelecidos no Maranhão no início do século XVII efetuaram em 1613


uma expedição de reconhecimento ao Rio Amazonas sob o comando de La Ravardiere, entrando
nos Rios Pacajares e Parisop onde guerrearam com os índios Camarapin, inimigos dos Tupinambá,
que moravam em aldeias e habitações aéreas chamadas iuras “que são casas feitas à imitação dos
Ponts aux changes de S. Miguel de Paris, colocadas no cume de grossas árvores plantadas n´água”.
(EVREUX, 2002).
Também há referências de vastos territórios tribais densamente ocupados no Alto
Amazonas, nas proximidades da aldeia que os espanhóis chamaram de Louça, devido à grande
quantidade de cerâmica policrômica de beleza e qualidade encontrada no local. Relatos da
expedição de Ursua e Aguirre (1615) registram informações sobre a ocupação da região na época
do contato:
“Atrás deste povoado, a um tiro de balestra da barranca do rio, há uma lagoa
ou esteiro grande junto ao qual o povoado vai também se estendendo de
maneira a ficar como numa longa e estreita ilha. Altamirano acrescenta que a
grande aldeia “de tempos em tempos se alagava quando vinha a enchente do
rio que inundava a terra por 200 légoas e mais, para esse tempo tinham outras

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casas feitas como palafitas sobre as árvores, com todo o necessário para poder
viver..” (PORRO, 1996).

O militar português Antônio Bernardino Pereira do Lago, descrevendo um conjunto de


lagos que se interligavam durante o período das cheias na Baixada Maranhense, observou no lago
Cajari a existência de remanescentes de restos construtivos de antigas aldeias, sem associação
direta aos Gamela que ainda habitavam a região naquele momento: Na beira deste lago, em partes
que de inverno se cobre d’água, aparecem restos e sinais de que ali havia edifícios e até
alinhamentos em forma de rua (LAGO, 2001).
O historiador César Marques, assinala que nos verões de 1825 e 1855, nos lagos Cajari e
dos Fugidos, após um período de seca, apareceram restos de estruturas de casas e arruamentos,
como atestado pelo relato de um engenheiro da companhia Mineração Maranhense que
“assevera existirem neste lago ainda hoje muitos esteios lavrados, os quais por
ocasião de grandes sêcas ficam descobertos e assim atestam a existência de
antigas moradas, que pelo arruamento, claramente visível, indicam ter feito
parte de uma povoação, outrora existente à margem de algum rio, custos
vestígios indubitáveis o mesmo engenheiro pretende ter reconhecido. Os
moradores mais antigos do lugar, e os próprios índios descendentes dos
primeiros povoadores nenhuma notícia dão dessa povoação, que por certo foi
habitada por gente civilizada” (MARQUES, 1970).

No final do século XIX, atendendo a solicitação da Biblioteca Nacional de fornecer


informações sobre o município, o morador da cidade de Penalva, Mariano Raimundo Correia,
ofereceu o seguinte relato sobre as curiosidades naturais existentes na região:
“Há no fundo do Lago Cajary uma longa esteiaria, que se estende de Leste a
Oeste em quase toda a largura do lago. Nesse lugar achão-se grandes
quantidades de pedaços de louça de barro e até panellas ainda inteiras: o que
faz presumir que fora alguma povoação submergida por algum cathaclismo.
Parece que havia nelle algum policiamento a vista do arruamento, fabrico de
loiça e escolha de madeiras de âmago para a iditificação, o que não se nota nas
taperas dos gentis actual. Estas madeiras só são vistas no rigor das grandes
sêcas. Hoje são ellas mais curtas do que em outros tempos; naturalmente
porque, tendo as águas feito novos sangradouros, o lago não conserva
constantemente a grande profundidade, como o Formoso e o Buritiatá, que
cubertos de grandes balseiros, em que crescem buritis, jussareiras,
ambaubeiras e outras plantas, formando ilhas ambulantes, que mudam de logar
conforme os ventos, conservão em todo o anno uma profundidade de mais de
cinco metros. Nem por escripto, nem por tradição consta por quem fosse
abitada essa povoação: o que faz julgar que o fora antes da colonização
européia”( BIBLIOTECA NACIONAL, 1994).

A partir de 1919, o pesquisador Raimundo Lopes elaborou as primeiras hipóteses sobre


essas ocupações, atribuindo sua vinculação a grupos amazônicos tardios que se deslocaram até o
limite ocidental de ambiente de floresta equatorial úmida. Durante dez anos Lopes investigou a
área da Baixada e localizou as “estearias” do Lago Cajari, no município de Penalva, do Encantado,
em Pinheiro, e outras ocorrências no rio Turiaçu, no município de Santa Helena. Os ambientes
característicos da região, incluindo os campos, rios e lagos foram percorridos com base nas
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informações colhidas junto às populações regionais. Foram então identificados os primeiros locais
de interesse arqueológico e recolhida uma diversificada coleção de artefatos e fragmentos,
destacando-se uma cerâmica variada com decoração antropomorfa e em grande parte zoomorfa.
Também foram coletadas vasilhas com pintura interna vermelha, pequenas tigelas em formato de
meia calota, muiraquitãns, cunhas e lâminas de machado, tortuais, pesos de redes, assadores
circulares e uma grande quantidade de fragmentos de cerâmica utilitária, muitas com marcas de
fogo. Esta coleção se encontra no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro e foi
a base para a elaboração de uma série de artigos que fundamentaram a concepção dos modelos
explicativos sobre os grupos pré-coloniais que se estabeleceram nesses ambientes, levando a
construção das abordagens que possibilitaram a caracterização da então denominada “civilização
lacustre do Brasil”, muito em voga no país até meados de 1950 (LOPES, 1916; 1924; 1970).
Em 1971, com fundamentação nesses dados preliminares, foi efetuado um trabalho de
campo nas proximidades da cidade de Penalva, no Lago Cajari, sob o patrocínio do SPHAN e do
Museu Paraense Emílio Goeldi com a coordenação do arqueólogo Mário F. Simões. Foram
executados registros e prospecções em áreas alagadas, de pouca profundidade, onde se realizou a
coleta de material depositado no leito de lama entre os esteios nos sítios Cacaria e Igarapé do
Baiano, ambos anteriormente descritos e visitados por Raimundo Lopes. Tais esteios, distante entre
si cerca de dois metros, foram intencionalmente fixados nesses ambientes e seriam a base de
sustentação do antigo piso das moradias, provavelmente de grupos que tinham a sua dieta alimentar
baseada na pesca e coleta de recursos lacustres, caça de pequenos animais e agricultura incipiente
nos terraços fluviais ou áreas ribeirinhas. O material coletado tem as mesmas características já
descritas anteriormente, sendo a cerâmica classificada em 3 tipos simples e 2 decorados,
apresentando nas peças mais elaboradas adornos modelados aplicados à borda ou corpo dos vasos.
Considerando-se a análise dos achados foi estabelecida à fase Cajari, obtendo-se a datação, por
Carbono 14, de 1385 ± 95 anos, a partir de um fragmento dos troncos de sustentação de pau d’arco
(Tabebuia dasp). O acervo proveniente dessas intervenções se encontra no Museu Paraense Emílio
Goeldi (CORRÊA, 1991).
Entre 1970 e o início da década de 80, Olavo Correia Lima também coletou material
lítico e cerâmico aflorado nas estearias da Baixada Maranhense, principalmente em áreas secas
entre os esteios, que foi em grande parte disperso. Na ocasião levantou a hipótese que esses sítios
foram ocupados por grupos da “nação” Nu-uraque que teriam sido expulsos por grupos Tupi, mais
especificamente pelos Guajajara, que historicamente ocupavam a região durante os primeiros
contatos com os europeus. (CORREIA LIMA, 1989).

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Fig.19: Lago Cajari durante estiagem. foto: Fig.20: Afloramento dos esteios
Gurão. 1983. durante o período de seca. Foto:
Raimundo Balby. 1983.

Fig.21: Estatueta cerâmica antropomorfa Fig 22: Estudo preliminar das formas dos
coletada por Raimundo Lopes em 1920. recipientes cerâmicos do Lago Cajari.
Estearia do Encantado, Pinheiro. Acervo: Fonte: Museu Paraense Emílio Goeldi.
Museu Nacional. Desenho: Deusdédit Filho Desenho: Sophia Gaspar.

Fig.23: Cabeça Fig.24: Recipientes Fig.25: Aplique Fig.26: Recipiente


antropomorfa. Rio cerâmicos, formato zoomorfo, cabeça de com aplique
Turi, Santa Helena. meia calota. Rio urubu rei. Estearia zoomorfo. Estearia
Acervo: CPHNA- Turi. Acervo: do Encantado, Lago do Caboclo,
Ma. Foto:Deusdédit CPHNA-Ma. Foto: Pinheiro. Acervo: Santa helena.
Filho. Deusdédit Filho CPHNA-Ma. Acervo: CPHNA-
Foto:Deusdedit Ma. Foto: Deusdédit
Filho Filho

Os estudos desenvolvidos até o presente geraram dados bastante limitados sobre os doze
sítios atualmente conhecidos, encontrados dispersos em uma região de bacias lacustres abrangendo
cerca de 40.000 km. Alguns modelos explicativos podem ser sugeridos a partir de hipóteses
levantadas no passado e em tempos mais recentes sobre o padrão de assentamento e modo de vida
observado pelas populações que construíram as estearias. Provavelmente eram grupos intrusivos na
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região que se organizaram em aldeias autônomas ou inversamente em um conjunto de habitações
com algum vínculo político entre si dado sua homogeneidade cultural e contemporaneidade. Outra
possibilidade seria terem esses grupos se estabelecido através de várias ocupações seqüenciadas e
contextualizadas em espaços cronológicos diferenciados. Entretanto, informações sobre densidade
populacional, mobilidade espacial, organização social e práticas culturais particulares aos mesmos
só poderão ser inferidas a partir do desenvolvimento de pesquisas sistemáticas.
Os leitos desses lagos apresentam além das estruturas construtivas remanescentes
associadas a um lastro de lama, pacotes deposicionais de 20 a 40 cm sem estratigrafia perceptível,
produto do processo de vivência de grupos adaptados a esse tipo de ambiente. No seu cotidiano
essas populações praticaram o descarte intencional de refugos e material cultural. Também se
verificava a perda ocasional de objetos ou mesmo abandono no local ocasionando o que se
caracterizou na Arqueologia Subaquática como sítios depositários (RAMBELLI 2002). Nesses
ambientes ocorria, em escala menor, a deposição de objetos associados ao universo sagrado e
ritualístico, como atestado pela estatueta antropomorfa com uma abertura circular na caixa torácica
e marcas de fogo, existente no acervo do Museu Nacional.
Em ambientes aquáticos e solos constantemente alagados a madeira se conserva por
milhares de anos (WESTERN, 1982); no caso das estearias somente a base dos esteios, que em
alguns casos afloram até 1 metro acima do leito do lago, se preservaram. Os segmentos superiores
dos mesmos em contato com a variação de temperatura, ar e intempéries sofreram aceleramento de
degradação química e biológica levando-os a decomposição. No acervo arqueológico do Centro de
Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão existe, em perfeito estado de
conservação, uma haste de fuso com a ponta afiada observando-se uma cavidade na parte superior
para introdução do fio de algodão.
De função estrutural, a utilização dos esteios no leito do lago objetivava, em nível
hipotético, a amarração de barrotes acima do nível das águas de onde, a partir de uma plataforma
ou piso das habitações, eram erigidas as paredes e o teto provavelmente usando-se folhas de
palmáceas, como feito tradicionalmente entre os grupos amazônicos (FENELON COSTA e
MALHANO, 1986). A fixação do madeiramento e dos elementos construtivos ocorria,
provavelmente, através de encaixe com amarração de cipó, fibras maceradas ou trançadas, técnicas
de difícil comprovação no contexto arqueológico em questão.
Pela distribuição e organização espacial dos esteios nos sítios e tendo como base os
dados e levantamentos disponíveis até então, seria impreciso caracterizar a configuração desses
assentamentos cuja dispersão de unidades residenciais e agrupamentos, em função da extensão, não
poderiam caracterizar uma só unidade habitacional de ocupação multifamiliar. Entretanto, a
disposição dos vestígios permite aferir-se a dimensão de alguns desses assentamentos, existindo

21
uma grande variação entre sítios que abrangem de 10.000 m² até ocupações em área de mais de 2
km de extensão.
A hipótese mais plausível é que por questões de segurança esses grupos tenham se
estabelecido no interior dos lagos sobre as águas, em ocupações de caráter mais permanente,
excluindo-se em princípio serem habitações sazonais tendo em vista o esforço físico e o
investimento técnico na construção das mesmas.
As estearias do Lago Cajari ficam submersas durante o período em que não chove na
região em função de uma barragem de terra construída nas proximidades da cidade de Penalva em
1998 (BALBY, 2000); o que alterou substancialmente o volume de água retido no lago no período
da estiagem.
O padrão de subsistência desses grupos, as técnicas construtivas características de suas
moradias e a sua ambiência apontam para sociedades haliêuticas que exploravam os recursos
aquáticos, constituindo-se a pesca a base protéica da dieta, associada à caça e a coleta propiciada
pelos ecossistemas do entorno dos lagos. As práticas agrícolas complementavam as necessidades
alimentares com o fornecimento de carboidratos pelos alimentos derivados do plantio e
beneficiamento da mandioca, como atestado pelos assadores cerâmicos encontrados nos sítios
(SIMÕES 1972). Também, na área da base da estearia do lago Coqueiro, além dos esteios e da
cerâmica se verificou uma grande quantidade de epicarpo de babaçu (Orbignya speciosa)
calcinado, provavelmente utilizado na cocção de alimentos, prática evidenciada pelas marcas de
fogo, observadas nos fragmentos de cerâmica utilitária encontrados na lama ou debaixo d’água. A
estearia do Encantado, em Pinheiro, apresenta um diferencial em relação aos outros sítios por ter,
inserido em seu conjunto, um teso ou monte de terra de aproximadamente 10m x 10m, destacado
na paisagem onde foi encontrada uma igaçaba com os restos esqueletais de uma criança
(CORREIA LIMA, 1989).

Conclusão

O desenvolvimento de trabalhos de pesquisa sistemáticos que promovam a consolidação do


conhecimento sobre o potencial dos recursos arqueológicos do Maranhão é de importância
fundamental para o preenchimento de uma lacuna significativa existente no contexto pré-colonial
da região de transição entre o norte e o nordeste brasileiro.
O levantamento apresentado sobre a pesquisa e sítios arqueológicos já conhecidos no
Maranhão aponta a necessidade de ampliação nos estudos das ocupações litorâneas locais, como
também um aprofundamento nas investigações das estearias tendo em vista a fragilidade e o
desconhecimento acerca da gênese e processo de ocupação desses sítios.

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A recente retomada do interesse pela Arqueologia no Maranhão ocasionou a identificação
de outros sítios costeiros e lacustres através da incorporação de dados gerados anteriormente pelos
trabalhos realizados por equipes do Museu Paraense Emílio Goeldi e durante a execução de
prospecções e salvamentos associados a projetos de Arqueologia de Contrato, a partir da década de
90 do século passado.
Paralelamente, trabalhos em âmbito acadêmico têm sido incrementados pelo
desenvolvimento de projetos de identificação, cadastramento e estudo dos recursos culturais
regionais e pela criação de instituições voltadas ao conhecimento, valorização e salvaguarda dos
bens culturais maranhenses, como o Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do
Maranhão. Sob essa ótica, a realização de futuros projetos na região deverá contemplar ações de
Educação Patrimonial, inventários dos recursos arqueológicos locais, estudos incluindo enfoques
de Arqueologia da Paisagem e priorizando aspectos geo-arqueológicos, assim como informações
referentes, à organização espacial, tecnologias constritivas, e territoriedade, entre outras.
Em suma, somente a viabilização de programas de gerenciamento e resgate da memória
arqueológica em suas interfaces, alicerçados em valores preservacionistas e abordagens
multidisciplinares, poderá orientar a composição de um painel ilustrativo do processo de ocupação,
antiguidade e a dinâmica cultural vivenciada pelos grupos que originalmente habitaram o
Maranhão.

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