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Análise da relação entre ansiedade, tensão emocional e consumo


alimentar em pacientes com sobrepeso e obesidade atendidos em
X Salão de uma clínica de Porto Alegre entre os anos de 2000 a 2006.
Iniciação Científica
PUCRS

Kalinca da Silva Oliveira1, Patrícia Sauer1, Luiz Carvalho2, José Luís Schifino Ferraro2, Márcia
Keller Alves2
1
Faculdade de Nutrição, PUCRS; 2 Clínica Nutrissoma Profissionais de Nutrição

Resumo
O excesso de gordura é um dos maiores problemas de saúde em muitos países,
principalmente os industrializados, pelo fato de atingir um elevado número de pessoas e
predispor o organismo a vários tipos de doenças e à morte prematura. Indivíduos com excesso
de peso apresentam sofrimento psicológico decorrente de problemas relacionados à
discriminação e ao preconceito social quanto a sua condição. Logo, estes pacientes tendem a
consumir mais alimentos em situações de estresse emocional, como ansiedade e quando estão
sob algum tipo de tensão. Neste trabalho, a obesidade foi classificada de acordo com o Índice
de Massa Corporal dos pacientes, e para tal, avaliou-se clinicamente a relação entre o peso e a
altura de cada indivíduo. A análise da relação entre ansiedade, tensão emocional e consumo
alimentar nestes pacientes foi feita através de questionário.

Introdução
A obesidade emergiu nas últimas décadas do século XX como uma epidemia, em
países desenvolvidos e vem aumentando sua incidência nos países em desenvolvimento, não
estando limitada a uma região, país ou grupo racial/étnico. É um fenômeno mundial que afeta
todos os níveis sócio-econômicos e é resultante da ação de fatores ambientais (hábitos
alimentares, atividade física e condições psicológicas) sobre indivíduos geneticamente
predispostos a apresentar excesso de tecido adiposo (Popkin, 1998). A diferença básica entre
obesidade e excesso de peso (sobrepeso) é que no primeiro caso o peso corporal como um
todo excede a determinados limites e no segundo caso é a condição na qual apenas a
quantidade de gordura corporal ultrapassa os limites desejados (Guedes, 1995).
O indivíduo obeso apresenta sofrimento psicológico decorrente tanto dos problemas
relacionados ao preconceito social e à discriminação contra a obesidade, como das

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características do seu comportamento alimentar (Stunkard, 1992). A ingestão alimentar, em


diferentes condições emocionais, parece ocorrer mais evidentemente na vigência de excesso
de peso, pois os indivíduos obesos consomem mais alimentos em situação de estresse
emocional. Essa teoria é chamada de Modelo Psicossomático da Obesidade (Faith, 1997).
Seguindo estes conceitos, temos como objetivo principal deste trabalho analisar a
relação entre ansiedade, tensão emocional e consumo alimentar em pacientes com sobrepeso e
obesidade, de ambos os sexos, que foram atendidos na Clínica Nutrissoma Profissionais de
Nutrição, em Porto Alegre, entre os anos 2000 e 2006.

Metodologia
No momento da consulta, cada paciente preencheu um questionário padrão da clínica
Nutrissoma sobre seus hábitos alimentares. Os aspectos comportamentais em relação ao
consumo alimentar em situações de ansiedade e tensão destes pacientes foi traçado a partir da
análise de perguntas que fazem parte deste questionário, em que o paciente expõe de maneira
objetiva o seu comportamento frente a estas situações.
Para a classificação de obesidade, utilizou-se a medida de Índice de Massa Corporal
(IMC), definido pelo peso em quilogramas dividido pela altura em metros quadrados (WHO,
1998). Fez-se a subdivisão de obesidade em diferentes graus (I, II e mórbido) de acordo com a
classificação sugerida pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome
Metabólica (ABESO). A avaliação antropométrica (peso e altura), a fim de obter os dados
para o cálculo do IMC, foi feita pelos nutricionistas da clínica.
Os dados foram organizados em uma tabela e para a análise estatística foi utilizado
software SPSS 16.0.

Resultados (ou Resultados e Discussão)


O número total de pacientes atendidos entre os anos de 2000 e 2006 foi de 1205
pacientes. Destes 69,2% eram do sexo feminino e 30,8% do sexo masculino. Deste total de
pacientes atendidos, analisamos somente os pacientes com sobrepeso e obesidade que
responderam às perguntas do questionário referentes à presença ou ausência de ansiedade
(n=574), bem como seu comportamento alimentar (se come mais, menos ou igual) quando
sob tensão emocional (n=528).
Com a finalidade de conhecer o perfil dos 574 pacientes que responderam a pergunta
referente à ansiedade, verificamos que 62,36% têm sobrepeso, 19,33% têm obesidade grau I,

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9,58% têm obesidade grau II e 3,83% têm obesidade mórbida. Pouco mais da metade dos
pacientes com sobrepeso (54,14%) dizem ser ansiosos. Entre os pacientes obesos, os grupos
que mais referem sofrer de ansiedade são os grupos com obesidade grau II e mórbidos, em
que, respectivamente, 70,90% e 68,18% dos pacientes dizem-se ansiosos.
Também foi traçado o perfil dos pacientes que responderam a questão sobre seu
comportamento alimentar quando sob tensão emocional (se come mais, menos ou igual). Dos
528 pacientes, 67,80% têm sobrepeso, 20,26% têm obesidade grau I, 8,52% têm obesidade
grau II e 3,40% têm obesidade mórbida. Em relação ao comportamento alimentar verificou-se
que a maior parte dos pacientes (69,31%) come mais quando está sob tensão emocional. Este
comportamento aumenta de modo proporcional ao aumento de peso, de modo que 67,03%
dos pacientes com sobrepeso responderam que comem mais, enquanto que 88,88% dos
obesos mórbidos deram a mesma resposta.

Conclusão
Neste estudo, encontramos uma relação entre ansiedade, tensão emocional e consumo
alimentar em pacientes com excesso de peso. Ou seja, pacientes com sobrepeso e obesidade
em sofrimento psicológico (ansiosos ou sob tensão emocional) tendem a comer mais. Este
comportamento pode estar alimentando um ciclo vicioso: sofrimento psicológico versus
comer mais versus aumento de peso versus mais ansiedade e tensão emocional (e assim por
diante). Com isso, concluímos que o tratamento destes pacientes deve incluir não somente a
terapia nutricional, mas também auxilio psicológico, que pode ser oferecido através de uma
equipe multidisciplinar.

Referências
ABESO – disponível em http://www.abeso.org.br/.

GUEDES, D. P. & GUEDES, J. E. R. P. Prescrição e orientação da atividade física direcionada à promoção


de saúde. Londrina: Miograff, 1995.

FAITH, M.S., ALLISON, D.B, GELIEBTER, A. Emotional eating and Obesity: Theoretical considerations and
practical recommendations. In: Dalton S. Overweigth and weight management. Maryland: Aspen Publishers;
1997.

POPKIN, B.M.; DOAK CM. The obesity epidemic is a worldwide phenomenon. Nutrition Reviews. Vol. 56, Nº
4 (1998), pp. 106-14.

STUNKARD, A.J.; WADDEN T.A. Psychological aspects of severe obesity. American Journal of Clinical
Nutrition. Vol. 55, Nº 2 (1992), pp. 524S-32S.

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