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MEMORIAL INDÚSTRIA

Sinopse da Indústria Cerâmica em Goiás


O setor industrial cerâmico dedica-se à atividade de produção de artefatos a
partir de argila, matéria-prima plástica de fácil moldagem quando umedecida.

Depois de submetida a uma secagem lenta para retirar a maior parte da umidade,
a peça moldada é submetida a altas temperaturas que lhe proporcionam rigidez e
resistência e, em alguns casos, a fusão de certos componentes, fixando os esmaltes das
superfícies. Trata-se de um conhecimento milenar.

Indústria Cerâmica Induspina, em Anápolis, hoje desativada


(Foto: Acervo de Nena de Pina)

Há diversas espécies de argila, utilizadas para diversos fins e a partir de


diferentes meios de produção; de utensílios domésticos a peças de arte e artesanato, de
louça sanitária a isolantes elétricos, de elementos refratários a isolantes térmicos e
acústicos.

A indústria cerâmica que vamos abordar neste memorial é a que produz artefatos
destinados à construção civil, justamente o segmento que vivencia hoje maiores
desafios a serem vencidos, em vários aspectos, principalmente no ambiental e no da
normalização técnica estabelecida.

Na chamada cerâmica vermelha (blocos de vedação e estrutural, telhas, lajes e


manilhas), grade parte da produção no estado é realizada por empresas de pequeno e
médio porte; muitas delas ainda em regime familiar. Essas empresas constituem a maior
parte das unidades industriais do setor.

A exposição a seguir pretende traçar um esboço resumido da atividade


empresarial desse setor ceramista em Goiás. Um estudo mais aprofundado poderá ser
realizado, trazendo mais informações e aperfeiçoando os dados aqui apresentados.

O INÍCIO
No início do século XX, poucas eram as construções em Goiás edificadas com
produtos cerâmicos, e as poucas que existiam destinavam-se a sediar órgãos públicos e
as primeiras estações ferroviárias que a partir de 1909 adentravam o estado goiano, logo
servindo de inspiração para muitas moradias urbanas que também passariam a surgir.
Não há registro de produção empresarial de cerâmica no estado antes disso.

O marco inicial para a fabricação desse produto foram as olarias, que também
passaram a existir em outras localidades goianas, embora em menor quantidade. Eram
pequenos estabelecimentos familiares com produção praticamente artesanal. Justamente
a partir das olarias, coube ao município de Anápolis ser pioneiro em estabelecer no
estado um parque industrial do segmento ceramista de construção.

A distância dos centros fabricantes que precederam Goiás na produção cerâmica


profissionalizada, notadamente o Triângulo Mineiro, foi, possivelmente, o que
favoreceu o surgimento desse pólo, a partir dos anos 1930, com crescimento vertiginoso
a partir da chegada da ferrovia, em 1935.

As partes mais ao sul de Goiás contavam com maior facilidade de acesso às


fontes produtoras daquela região mineira. Por outro lado, nas partes mais ao norte do
estado, uma demanda que garantisse uma produção viável ainda aguardaria por alguns
decênios para surgir.

Também é importante registrar, que grande parte desses estabelecimentos


pioneiros funcionou até por várias décadas, mas na informalidade. Em outros, os
proprietários dividiam a atenção com diversas atividades que exerciam, muitas vezes na
agropecuária. Muitos vieram a encerrar atividades sem deixar registros.
PIONEIROS
A inauguração da rodovia Roncador-Anápolis, em 1920, serviu de motivação
para que surgissem na cidade de Anápolis construções mais aprimoradas
urbanisticamente. Até então, as casas locais e em toda a região eram de adobe ou de
pau-a-pique. As telhas, quando havia, eram produzidas no local, moldadas manualmente
e em quantidade apenas suficiente para cada casa, no momento da construção.

Para construir uma residência inovadora, o empresário Francisco Silvério de


Faria contratou os construtores Antônio Vento e Jacob Macchiavelli, vindos da cidade
paulista de Ribeirão Preto. E para colocar em prática o projeto, Faria precisou construir
a primeira olaria de que se tem registro em Anápolis, e uma das primeiras de Goiás.

Depoimentos diversos relataram que, na época, os pedreiros locais não se


encorajaram a construir a casa. Eram hábeis em fazer construções, mas com os
resistentes esteios em madeira de lei servindo de coluna.

“A olaria montada para esse fim foi melhorada pelos construtores, e em 1921 a
residência estava concluída. A casa foi dotada de água encanada, vindo de uma chácara
localizada onde hoje é o bairro Maracanã. Próximo à casa, o Sr. Francisco Silvério
instalou ótimo chuveiro, aonde muitas pessoas iam diariamente tomar banho mediante
módico pagamento mensal (João Luiz de Oliveira. Subsídios à história de Anápolis).

A construção localizava-se na Praça Americano do Brasil. Depois ali funcionou


o Hotel Faria e, a partir de 1950, a Clínica Hospitalar Dom Bosco, implantada por
Anapolino de Faria, filho de Francisco Silvério, que se formou em medicina, no Rio de
Janeiro. O conjunto funcionou até 2004, quando foi demolido.

O Hotel Faria, junto à Praça Americano do Brasil, em Anápolis


(Foto: Garcez)
Francisco Silvério de Faria foi um homem empreendedor; também naquela
época ele partiu para implantar o primeiro sistema de energia elétrica da cidade (1924),
em parceria com o engenheiro Ralf Colemann.

DÉCADA DE 1930 - CONSTRUÇÃO DE GOIÂNIA


Outro empreendedor daquela época, inclusive também no segmento cerâmico,
foi o empresário Licardino de Oliveira Ney, que na antiga cidade de Campinas (de
Goiás) promoveu importantes modernizações, inclusive, “foi sua olaria que forneceu os
primeiros tijolos para o soerguimento de Goiânia” (Ubirajara Galli. “A História do
Comércio Varejista em Goiás”).

Como precursor do comércio, “Licardino trouxe para Campinas a primeira


bicicleta (1912), o primeiro telefone de manivela (1913), a primeira maquina de
escrever (1914) e foi ele quem construiu a primeira casa de tijolos da cidade (Ubirajara
Galli. Obra citada).

Não sabemos qual dos dois produziu tijolos primeiro, se Licardino ou Francisco
Silvério. Ambos podem ter trazido a idéia de suas idas às paragens onde ainda se
demorava a linha férrea, no sudeste do estado; ou um pode ter tido contato com o outro,
uma vez que Campinas e Anápolis ficavam uma da outra, em época de seca, a menos de
cinco horas de automóvel.

Campinas foi incorporada à nova capital, e hoje é um de seus bairros, ou


“setores”, como se convencionou referir aos distritos urbanos de Goiânia. Outros
municípios também cederam parte de suas terras para formação da nova capital do
estado.

Trabalhadores de uma olaria em Goiânia


(Foto: IBGE 1942)
Pelo Decreto n° 327, de 2 de agosto de 1935, em seu artigo 1°, “ficam fundidos
em um único os atuais municípios de Campinas, Hidrolândia e parte dos territórios de
Anápolis, Bela Vista e Trindade, que passarão a constituir o município de Goiânia, com
sede na cidade do mesmo nome, ora em construção no município de Campinas,
desaparecido por efeito deste decreto....”

Há notícias de que as olarias de Anápolis e região, localidade produtora e


comercial mais próxima, além de Campinas, forneceram expressivo volume de material
para as obras de Goiânia, nos anos 1930 e seguintes.

Referindo-se aos materiais de construção, o governador Pedro Ludovido


Teixeira escreveu: “Entre os elementos que mais influem na expansão de uma cidade
figuram a pedra, a areia, a argila, a cal, a madeira etc. Segundo informações que me
foram prestadas e pelo que em parte observei, há possibilidade de se obter pedra, areia,
argila para cerâmica e madeira em quantidades suficientes, sendo, entretanto, mister que
a indústria de tais materiais seja estimulada por uma série de medidas, sendo preferível
que a ação do fisco não incida sobre ela durante largo período....” (Pedro Ludovico
Teixeira. “Memórias”).

E um relatório de janeiro de 1935, encaminhado ao governador pelo arquiteto e


urbanista Atílio Correia Lima, alertava, dentre outras coisas, que: “Estão a iniciar
algumas construções em desacordo com as boas regras construtivas, com o emprego de
minerais para alicerces tais como o denominado de “Tapiocanga” [rocha ferrosa]; adobe
em panos de parede e assentamento de tijolos com argila etc.” (Atílio Correia Lima.
“Plano diretor da cidade - Parte final do contrato para o estabelecimento do projeto da
nova capital do Estado)”.

Naquela década, na Região da Estrada de Ferro, sudeste goiano, o produto


cerâmico passou a fazer parte da lista de materiais para construção. Foi lá, por certo, que
surgira no estado de Goiás, a primeira edificação privada com paredes de tijolos. Mas
agora eram produzidos no próprio município.

Naqueles anos, a imprensa de Pires do Rio anunciava: “tijolos incomparáveis, na


Olaria Laranjal”. “A existência de grande quantidade de terrenos abertos, ocupados ou
não, constituía-se em fator negativo.... Assim, fazia-se a obrigatoriedade de seu
fechamento, .... utilizando-se tijolos. Essa exigência tornou-se mais rigorosa em 1934,
quando foi fixada uma taxação para a situação irregular....” (Aroldo Márcio Ferreira.
“Pires do Rio, a consolidação de uma cidade ferroviária”)
Olaria. Processo de pré-secagem dos tijolos
(Foto: Arquivo de Nena de Pina)

DÉCADAS SEGUINTES E BRASÍLIA


No encerramento daquela década, chegava a Anápolis o agricultor Guarino
Miotto, de 50 anos. Convidado pelo irmão Emílio, que chegara antes, vinha com a
família, da cidade mineira de Ouro Fino. Lá, já exercera atividade de oleiro. Em
Anápolis, iniciou com o plantio de café, mas logo estabeleceu uma olaria; parece que
com a denominação de Vale das Antas, onde trabalhava ele com toda a família; a
esposa, Adelaide Bonini, e os nove filhos: Geraldo, Oscar, José Neto, Hélio, João,
Nelson, Jandira, Almerinda e Elza.

Em 1948, a olaria se converteria na Cerâmica Aparecida e, dez anos depois, na


Cerâmica Miotto e Irmãos, produzindo telhas do tipo francês e colonial, além de tijolo
comum e furado e outros produtos cerâmicos. Foi uma empresa inovadora em muitos
sentidos, inclusive disponibilizava residências para os funcionários.

A construção da Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG) no início dos


anos 1940, por iniciativa do Governo Federal, e dirigida pelo engenheiro Bernardo
Sayão Carvalho de Araújo iria viabilizar o surgimento das vizinhas cidades de Céres e
Rialma, então a cerca de 190 quilômetros da capital e 140 de Anápolis.

As duas já nasceram na era do produto cerâmico. Léa Araújo, filha de Bernardo


Sayão, referindo-se a 1941, escreveria mais tarde: “Cada família de colono tinha direito
a uma casinha tipo popular em alvenaria” (Léa Araújo de Pina. “Meu Pai, Bernardo
Sayão”).

Naquele mesmo ano de 1948, tiveram início as atividades da que se tornaria


mais tarde a Cerâmica São Vicente, também no pólo de Anápolis, por iniciativa de
Vicente Carrijo de Mendonça. Ele havia chegado de Araguari, Minas, em 1940. Seu pai,
Joaquim, viera em 1936. A família dedicava-se inicialmente à pecuária.

Como quase sempre acontecia, a Cerâmica São Vicente começou como olaria,
produzindo na pipa tijolos e telhas meia cana. Com o tempo, o movimento cresceu de
tal forma, que a empresa tornou-se uma das principais do estado. A primeira maromba
(extrusora para argila) foi instalada em 1958.

Outro grupo de cerâmicas próximo ao de Carrijo foi constituído pela família de


José Fidélis Peixoto, também vinda de Araguari na mesma época, e já com laços de
parentesco. Depois, Vicente veio a casar-se com Carmélia, uma das filhas de José
Fidélis. Além dos próprios filhos de Vicente, também os de Fidélis atuaram na São
Vicente por vários anos. Vicente Carrijo faleceu em 1971, aos 44 anos.

Prensa para telha francesa


(Foto: Arquivo de Nena de Pina)

Dois dos filhos de José Fidélis montaram depois empresas próprias: Antônio
(Nenê), as cerâmicas Andorinha (1972), Eldorado e Caçula; João, as cerâmicas Fidélis
(1973), Mineira e Peixoto.

Wilson, filho de José Fidélis, após a experiência adquirida trabalhando com os


parentes, tornou-se consultor em técnica produtiva e na administração cerâmica,
levando seu conhecimento para empresas de várias outras partes do país, com destaque
para Várzea Grande, MT; Pimenta Bueno, RO; Presidente Epitácio, SP; e sul de Goiás.

Naquela época, quase todas essas empresas produziram também, e em escala


industrial, artefatos decorativos e de utilidade doméstica, como vasos, jarras, potes,
moringas e filtros para água. Ao buscar informações nesse sentido, surge o nome do
português Nogueira, exímio oleiro nessa área. Ele chegou a trabalhar em várias firmas.

Outro empreendedor, Agripino Montalvão, natural de Posse, ao nordeste do


estado, conviveu desde menino com o setor cerâmico, transferindo-se ainda criança com
a família para Anápolis. Aí passou a trabalhar e a se desenvolver profissionalmente com
o irmão mais velho, Sebastião.

Em 1950, aos 27 anos, e com apoio da esposa, Antonieta de Freitas, Agripino


inicia negócio próprio, abrindo a Olaria Montalvão. Foi uma época próspera no passado
ceramista da região, quando as obras de Goiânia e da Colônia Agrícola ainda
perduravam.

Oito anos depois a olaria é transformada em Cerâmica Montalvão, no momento


em que o ramo ceramista goiano era solicitado a atender a grande demanda advinda com
a construção de Brasília, a nova capital da República.

“A empresa cresceu bastante, com filas de caminhões embarcando telhas, tijolos


e lajotas para o novo Distrito Federal que surgia”, lembra a filha do casal, Jersolina. A
Cerâmica Montalvão ainda atua no mercado.

Empresa também de grande porte na área pertenceu ao grupo empresarial


Induspina, então um dos maiores do Centro-Oeste, de propriedade de Agostinho de
Pina, natural de Pirenópolis. Em 1952, o conglomerado elevou uma olaria, pequena
fábrica de telhas que havia adquirido, a condição de grande indústria cerâmica. Na
fábrica de telhas inicial, Agostinho contou com a participação de seu sobrinho afim Ítalo
Naghettini.

A cerâmica tornou-se a maior da região, com a produção de telhas, tijolos


aparentes, e tubos, sendo a primeira fabricante de manilhas no estado, e a primeira a
produzir telhas marselhesas (francesas) em prensa elétrica. Para conseguir
desenvolvimento, também Agostinho contou com o apoio da esposa, Maria Batista,
lembra a filha Nena.

A primeira construção de alvenaria erguida na nova capital foi a Ermida Dom


Bosco, cuja pedra fundamental foi lançada em novembro de 1957 (Léa Araújo de Pina.
Obra citada).
Todas as partes do Palácio da Alvorada, em Brasília, que receberam tijolos
cerâmicos, o foram com produtos Induspina, como também outros materiais de
construção, que o grupo comercializava. Existe a esse respeito uma carta escrita pelo
próprio presidente Juscelino Kubitschek, datada de 26 de janeiro de 1961, em que
agradece a Agostinho de Pina pela contribuição na construção da nova capital.

Cartaz da década de 1960


(Foto: Arquivo de Henrique Mendonça)

Também documento significativo no acervo de família é uma cópia da “nota


fiscal n° 175.561, de 25 de outubro de 1956, cujo material nela constante fora enviado à
comissão encarregada da construção de Brasília, a pedido do saudoso Dr. Bernardo
Sayão, de quem o fundador da Induspina era amigo particular” (Nena Batista de Pina
Siqueira. “Induspina, meio século de existência”).
Além de disponibilizar habitação para os funcionários, a empresa tornou-se
participativa na sociedade local chegando a manter o Atlético Clube Induspina, equipe
de futebol muito atuante na década de 1950.

Uma publicação da época dizia: “Time fundado em 1952, patrocinado pela firma
Induspina S/A, cuja diretoria é composta de elementos da mesma firma, tendo
personalidade jurídica e com grandes possibilidades para a conquista do título de
campeão da primeira divisão do campeonato anapolino de 1955....” A agremiação era
presidida por Walter de Oliveira Santos.

O Atlético Clube Induspina


(Foto: Arquivo de Nena de Pina)

A planta industrial do setor cerâmico do grupo Induspina S. A. localizava-se no


bairro Vila Fabril, antigo bairro Catingueiro (nome popular do capim-gordura), em
Anápolis. De fato, essa região da cidade estendendo-se em direção aos municípios de
Campo Limpo de Goiás e adjacentes, tornou-se importante parque ceramista. Todas as
empresas aí instaladas na época tiveram relevante papel na construção de Brasília, antes
e depois da inauguração, fornecendo milhões de tijolos e telhas para a nova capital da
República, como já haviam feito em relação a Goiânia e à CANG.

Em 1957, havia, nessa região, 11 empresas do setor cerâmico (João Luiz de


Oliveira. “Subsídios à história de Anápolis”), as maiores ainda mantinham vilas de
casas para seus funcionários. Em 1985, funcionavam aí 19 indústrias cerâmicas maiores
e 22 olarias, algumas de porte relativamente grande. Trabalhavam nessas fábricas mais
de mil funcionários (Guia de Anápolis).

Desde então, uma rede ceramista foi se estabelecendo por todo o estado de
Goiás, inclusive na parte norte, hoje Tocantins. Parece que foi no município de Mara
Rosa, e em 1955, que houve a primeira industrialização de tijolos na região, em
localização próxima de onde, quatro anos mais tarde, haveria passagem da rodovia BR
153 (Belém Anápolis Brasília). Essa empresa se tornaria em 1978 na Cerâmica Santo
Antônio.

Hoje, entre grandes e pequenas, existem naquela parte do estado cerca de 30


empresas cerâmicas, das quais seis produzem também telhas. Uma delas é Cerâmica
Estrela, mais jovem, no município de Estrela do Norte, sob direção de Belmonte Amado
Rosa Cavalcante.

Com atividades voltadas à inovação e desempenho, Cerâmica Estrela investe em


cursos para os funcionários, qualificação dos produtos e desenvolvimento. Um novo
projeto de telha está sendo desenvolvido por ela em parceria com a Fundação de
Pesquisa de Goiás, o Instituto de Pesquisa de Santa Catarina e a FINEP (Financiadora
de Estudos e Projetos). O novo produto deve ser colocado no mercado em 2017.

Manilhas Induspina aguardando embarque (Foto: Arquivo de Nena de Pina)


A parte mais ao sul do estado teve um crescimento ceramista menos intenso,
pelas razões supostas anteriormente quanto à disponibilidade de fontes vizinhas. Assim
é que, em Goiatuba, só em 1959 viria a surgir uma empresa cerâmica de porte maior, a
Cerâmica Santa Inês, criada por Petrônio de Aquino. Depois de seu falecimento, a
empresa ainda funcionou até 1992, sob a direção do genro, Luiz Pinheiro, o qual
também veio a falecer. Atualmente funciona naquele município a Cerâmica São Judas
Tadeu, fundada há 20 anos por José Tadeu Oiano.

Em período anterior àquele, funcionou em Itumbiara a Cerâmica Vilela, que


após décadas funcionando encerrou atividades há trinta anos ou mais. No município de
Inhumas, Cerâmica Saleiro iniciou a produção em 1960 e encontra-se em atividade.

No sudoeste, surgiu em 1981, no município de Mineiros, a Cerâmica Rezende


Maia, hoje dirigida pelo genro dos fundadores, Onildo Rocha.

Como Cerâmica Estrela, a Rezende Maia é uma empresa que investe em


inovação e qualificação em todos os setores, procurando atualizar-se tecnologicamente e
assumindo responsabilidade nos âmbitos social e ambiental.

Um novo mercado surgiu para o setor de cerâmica vermelha em Goiás com o


advento da tecnologia de cerâmica estrutural, iniciado nos anos 1990, promovendo o
barateamento com qualidade das construções, e de modo menos predatórios ao ambiente
que os produtos concorrentes.

Goiás produz, atualmente, todos os produtos de cerâmica vermelha para


construção, necessários ao suprimento interno, abastecendo também sete outros estados.

Em 1976, veio juntar-se às empresas de cerâmica vermelha em Goiás uma


importante unidade de cerâmica para revestimento do grupo Cecrisa, de Santa Catarina,
instalando-se no Distrito Industrial de Anápolis. Os dois segmentos cerâmicos (de
revestimento e vermelha) apresentam características distintas em termos de matéria
prima mineral, tecnologia produtiva, mercado e potencialidades para desenvolvimento.
A tabela a seguir é de 2002.

PÓLOS PRODUTORES DE CERÂMICA VERMELHA EM GOIÁS


Região Quantidade Produção Peças/ano Faturamento por Ano
de Plantas (mil) (R$ mil)
Industriais
NORTE 18 64.800 6.000
ANÁPOLIS 95 342.000 32.000
GOIÂNIA-NAZÁRIO 81 290.000 32.000
SILVÂNIA-VIANÓPOLIS 31 112.000 11.200
FORMOSA-CABECEIRAS 22 79.000 7.900
SUL (CATALÃO) 42 151.000 16.600
SUDOESTE(SÃO SIMÃO) 15 72.000 7.000
OUTROS 96 1.890.000 86.300
TOTAL 400 3.000.000 200.000
Fonte: Diagnóstico do Setor Mineral do Estado de Goiás - Fev. 2002 - Ministério de
Minas e Energia / Governo do Estado de Goiás

NOVOS TEMPOS

Em 2016, há um total de 345 empresas cadastradas pelo Sindicato das Indústrias


Cerâmicas do Estado de Goiás. Existe ainda um contingente de pequenas empresas que
atuam informalmente. No setor formal, estima-se a quantidade de postos diretos de
trabalho em 20 mil.

O segmento da indústria cerâmica, assim sendo, assume grande importância na


economia como fornecedor de produtos para a cadeia da construção civil, utilizando
matéria-prima, capital e mão-de-obra goianos (Diagnóstico do Setor Mineral do Estado
de Goiás - Fev. 2002).

SINDICER-GO
O Sindicato das Indústrias Cerâmicas do Estado de Goiás foi oficialmente
constituído em 6 de novembro de 1989, no distrito de Rodrigues Nascimento (hoje
município de Campo Limpo de Goiás). Foi precedido pela criação da Associação das
Indústrias Cerâmicas de Anápolis, em 1984.

Em dezembro de 2003, com atualização estatutária e orientações obtidas junto à


FIEG (Federação das Indústrias do Estado de Goiás), nova gestão foi estabelecida, e o
Sindicato transferiu-se para o recém-criado Núcleo da FIEG (hoje FIEG Regional
Anápolis), nas dependências do Senai Roberto Mange, onde pouco antes haviam se
instalado outros sindicatos da área industrial. Até então, a entidade havia funcionado na
sede da Associação Comercial e Industrial de Anápolis.

1984. Fundação da Associação das Indústrias Cerâmicas de Anápolis


(Foto: Arquivo do Sindicer-GO)

A entidade foi, nas últimas gestões, presidida pelos empresários ceramistas


Laerte Simão (Cerâmica União, de Campo Limpo de Goiás) e Henrique Wilhelm Morg
de Andrade (Cerâmica Monte Castelo, de Nazário), falecido em 2014.

Em 2004, seguindo a proposta de padronização da Anicer (Associação Nacional


da Indústria Cerâmica), o Sindicato adotou a sigla Sindicer-GO e também o logotipo
unificado nacionalmente, estilizado pelo pássaro joão-de-barro e sua morada.
Anteriormente a entidade utilizara a sigla “Sinceram Goiás”.

Henrique Morg (e), Laerte Simão e Fernando Rocha, da AG Ceram


(Foto: Henrique Mendonça)
ENCONTRO NACIONAL

Em 2006, realizou-se em Goiânia o 35° Encontro Nacional da Indústria de


Cerâmica Vermelha e a Expoanicer (Exposição de Máquinas, Equipamentos, Serviços e
Insumos para a Indústria Cerâmica), com participação de empresários de todo o país, e
até estrangeiros. O evento, promovido pela Anicer (Associação Nacional da Indústria
Cerâmica), foi organizado pelo Sindicer-GO em parceria com várias entidades.

_Lances do 35° Encontro Nacional

Conforme registrou o informativo do Sindicato, Ceramista Goiano, em sua


edição de número 12:

“Mais de 1200 pessoas, entre empresários e colaboradores, fornecedores,


pesquisadores, técnicos e estudantes compareceram ao 35° Encontro Nacional da
Indústria de Cerâmica Vermelha, realizado entre os dias 26 e 29 de setembro, em
Goiânia. Tomaram parte no evento, além dos congressistas brasileiros, participantes
vindos da Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai e Alemanha.

O evento superou as expectativas dos organizadores e trouxe novidades em


informações técnicas e equipamentos. Outro ponto de grande destaque foi o sucesso da
nona edição da feira Expoanicer, realizada simultaneamente com o encontro, e que
rendeu um volume de negócios de cerda de R$ 10 milhões.

Para César Vergílio Gonçalves, [então] presidente da Anicer, „o evento


surpreendeu, ao mostrar para um grande número de ceramistas os principais assuntos
ligados à qualidade e à sustentabilidade que buscamos para nossas indústrias‟. César
Vergílio disse também que „para orgulho de nós, ceramistas, tivemos a maior feira já
realizada no setor, crescente a cada ano, com investimentos significativos de nossos
fornecedores, tecnologias de ponta e dezenas de negócios fechados‟.

O presidente do Sindicer-GO, Laerte Simão, por sua vez, destacou a grande


contribuição dada por todos os parceiros, incluindo as várias entidades co-irmãs, a
Secretaria da Indústria e Comércio do Estado de Goiás, o Sistema FIEG, dentre outras
entidades, além dos companheiros ceramistas que vieram de todo o país.”

QUALIFICAÇÃO
O setor industrial cerâmico em Goiás utiliza grande variedade de processos
produtivos, índices de produtividade e grau de mecanização. A maioria dos fabricantes
emprega a melhor tecnologia disponível, e quase a totalidade da produção está em
conformidade com as normas.

Qualidade do produto cerâmico, segurança individual e coletiva dos envolvidos


no processo produtivo e sustentabilidade ambiental são bandeiras do Sindicer-GO nos
dias de hoje.

O Sindicato incentiva a qualificação do segmento, promovendo o Programa


Setorial de Qualidade (PSQ) e a integração delas ao Programa Brasileiro da Qualidade e
Produtividade do Habitat (PBQP-H), através dos institutos competentes.

Várias empresas ceramistas no estado já aderiram ao processo e há crescente


envolvimento dos empresários nesse sentido.

_
Março de 2014. Casa da Indústria da FIEG. Seminário do DNPM
(Fotos: Henrique Mendonça)
DIFICULDADES
Por outro lado, o setor cerâmico no estado ressente-se, nos dias de hoje, quanto a
várias dificuldades que vêm se avolumando, principalmente a partir da primeira década
deste século.

No passado, embora se desenvolvendo de modo praticamente empírico, o


segmento ceramista contribuiu de modo decisivo até no cenário nacional, com o
suprimento a projetos relevantes para o país.

Mas, conforme já mencionamos, parte das empresas cresceu atuando em regime


familiar; muitas no ambiente rural, utilizando práticas até centenárias, porém sem se
adequar aos padrões impostos pelas novas conjunturas tecnológicas. Em vista disso,
várias delas enfrentam dificuldade na atualização de seus sistemas produtivos e na
apresentação de seus produtos em relação às normas técnicas e operacionalidade.

No sistema produtivo, algumas normas determinadas chegam a causar


dificuldades até aos mais empreendedores e atualizados, como está ocorrendo em
relação à NR 12, por exemplo.

Outra dificuldade enfrentada pelo setor refere-se às questões ambientais,


principalmente quanto às jazidas fornecedoras de argila, que estão sendo objeto de
restrição governamental.

A cerâmica vermelha, principalmente, tem como base importante de seu custo a


distância da fonte de matéria-prima. Ao surgirem os vários pólos cerâmicos em Goiás,
essa distância não existia. Atualmente, principalmente no eixo Campo Limpo de Goiás,
Anápolis, Goiânia e o entorno de Brasília, o transporte chega, em alguns casos a mais
de 80 quilômetros. Esse fator eleva excessivamente o custo de produção, custo que não
tem como ser repassado, por diversos fatores.

O posicionamento do Sindicer-GO é a favor de uma fiscalização rigorosa que


penalize os empreendimento desenvolvidos de forma irresponsável, mas que facilite e
mantenha parcerias positivas com aqueles que promovem a revitalização do ambiente
que exploram e colaboram com as instâncias competentes do poder público.

Nesse sentido, é recomendável o combate ao exercício da informalidade, que é


uma prática prejudicial ao mercado em todos os sentidos. Economicamente prejudica as
empresas que atuam na legalidade, em termos de qualidade prejudica o consumidor
final. Na parte ambiental, produz devastação.

Entretanto, quando realizada com cuidados e dentro das normas, a produção


cerâmica é a atividade menos predatória. Pesquisas estão sendo desenvolvidas no Brasil,
para identificar o ciclo de vida do produto de cerâmica vermelha, sua reabsorção pelo
ambiente, bem como o tempo para recomposição das jazidas extintas. Todas têm
revelado este produto e seu processo de fabricação como menos lesivo ambientalmente.

Outro dos componentes do custo cerâmico que mais têm penalizado o


empresário é a energia elétrica. Atualmente, muitas empresas estão adotando medidas
para aferir a entrega desse insumo de forma correta, porém mesmo o valor cobrado de
forma exata já está sendo excessivo, tendo em vista o preço cobrado há pouco.

Henrique Mendonça
Sindicer-GO
Março de 2016

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FONTES CONSULTADAS
Ceramista Goiano. Sindicer-GO. Edições n° 12, 2006; nº 16, 2011 e nº 25, 2013.

Depoimentos verbais: Belmonte Amado Rosa Cavalcante / Carmélia Fidélis Carrijo de


Mendonça / Jersonita Montalvão da Cunha / José Tadeu Oiano / Luiz Sérgio Alves de
Souza / Nena Batista de Pina Siqueira / Onildo Rocha / Wilson Fidélis

Diagnóstico do Setor Mineral do Estado de Goiás. Ministério de Minas e Energia /


Governo do Estado de Goiás. Fevereiro de 2002.

FERREIRA, Aroldo Márcio. Pires do Rio, a consolidação de uma cidade ferroviária


(artigo). In: As cidades dos sonhos – desenvolvimento urbano em Goiás. UFG, Goiânia,
2004.

FERREIRA, Aydée Jayme. Anápolis, sua vida, seu povo. Gráfica do Senado, Brasília,
1981.

GALLI, Ubirajara. A História do Comércio Varejista em Goiás. Editora da UCG,


Goiânia, 2007.

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