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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE ANGOLA

Centro de Estudos e Investigação Científica

RELATÓRIO
ECONÓMICO
DE ANGOLA

2013
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE ANGOLA
Centro de Estudos e Investigação Científica

RELATÓRIO
ECONÓMICO
DE ANGOLA

2013
CENTRO DE ESTUDOS E INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA
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DIRECTOR – Alves da Rocha


RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013
COORDENADOR – Alves da Rocha
João Fonseca
Fernando Pacheco
Regina Santos
Francisco Paulo
Ana Duarte (Instituto Superior Politécnico Lusíada de Benguela)
Judite Valente
Carlos Leite
Luís Bonfim
COM A COLABORAÇÃO DO CHRISTIAN MICHELSEN INSTITUTE
Ivar Kolstad
Arne Wiig
Odd-Helge Fjeldstad
Soren Kirk Jensen
Aslak Orre
PESQUISA E RECOLHA DE INFORMAÇÃO
Paxote Gunza
Carlos Vaz
Vissolela Gomes
Wilson Fonseca da Silva
INVESTIGADORES PERMANENTES
Alves da Rocha
Carlos Vaz
Cláudio Fortuna
Francisco Paulo
Nelson Pestana
Osvaldo Silva
Paxote Gunza
Precioso Domingos
Regina Santos
Vissolela Gomes
Wilson Silva
INVESTIGADORES COLABORADORES
Albertina Delgado
Carlos Pinto
Eduardo Sassa
Fernando Pacheco
Gilson Lázaro
Luís Bonfim
Margareth Nanga
Milton Reis
Salim Valimamade
ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS
Margarida Teixeira
Lúcia Couto
Evadia Kuyota
Afonso Romão
Leonardo Monteiro
ÍNDICE

APRESENTAÇÃO ............................................................................................... 7

INTRODUÇÃO .................................................................................................. 15

1. A economia mundial e o enquadramento externo


da economia angolana .................................................................................. 23

2. Política Orçamental e Política Monetária .................................................... 26


2.1 Considerações gerais ............................................................................... 26
2.2 Política Fiscal ............................................................................................ 27
2.3 O Programa Executivo para a Reforma Tributária (PERT) ........................ 44
2.3.1 Situação actual da reforma ............................................................. 44
2.3.2 Contribuição do PERT na arrecadação das receitas
não petrolíferas ............................................................................... 46
2.3.3 Nível de abertura e de participação ................................................ 47
2.3.4 Reforma Legislativa ......................................................................... 48
2.3.4.1 Códigos Transversais ........................................................... 49
2.3.4.2 Códigos do IRT & do Imposto Industrial .............................. 51
2.3.5 Reforma Administrativa .................................................................. 53
2.4 Política Monetária e Cambial ................................................................... 55
2.4.1 Objectivos da Política Monetária e Cambial ................................... 55
2.4.2 Títulos do Tesouro ........................................................................... 58
2.4.3 Operações de Política Monetária .................................................... 62
2.4.4 Taxas de juro ................................................................................... 64
2.4.5 Política Monetária .......................................................................... 65
2.4.5.1 Mercado Monetário Interbancário...................................... 67
2.4.5.2 Crédito e depósitos ............................................................. 67
2.4.5.3 Mercado Cambial e taxas de câmbio................................... 69
2.4.6 Agregados monetários .................................................................... 72
2.4.7 Meios de pagamento ...................................................................... 76
2.4.8 Passivo do BNA................................................................................ 78
2.4.9 Sistema Bancário ............................................................................ 79
2.4.9.1 Principais desenvolvimentos na supervisão ........................ 79
2.4.9.2 Estrutura do Sector Bancário .............................................. 79
2.4.9.3 Indicadores de solidez do Sistema Bancário ....................... 80

3. Nível geral da actividade económica............................................................. 85


3.1 Considerações gerais ................................................................................ 85
3.2 Actividade económica .............................................................................. 86
3.3 Produto Interno Bruto: uma análise geral................................................ 97
3.4 Análise sectorial do Produto Interno Bruto.............................................. 100
3.4.1 Agricultura, pecuária e florestas ..................................................... 100
3.4.1.1 Comportamento da produção ............................................. 101
3.4.1.2 As políticas agrárias ............................................................. 110
3.4.2 Indústria transformadora ................................................................ 118
3.4.2.1 Comportamento da produção ............................................. 119
3.4.2.2 As políticas industriais ......................................................... 122
3.4.3 Extracção de petróleo ..................................................................... 123
3.4.3.1 Comportamento da produção ............................................. 124
3.4.3.2 As políticas petrolíferas ....................................................... 129
3.4.4 Construção e Obras Públicas ........................................................... 130
3.4.4.1 Comportamento da produção ............................................. 131
3.4.5 Transportes ..................................................................................... 133
3.4.5.1 Considerações gerais ........................................................... 133
3.4.5.2 A prestação de serviços de transporte ................................ 135
3.4.5.3 A política de transporte ....................................................... 142
3.4.5.4 Cenários de Privatização para o Sector Ferroviário ............. 148
3.5 O sector externo ...................................................................................... 151

4. Diversificação da economia ........................................................................... 153


4.1 Diversification, income, and democracy: a descriptive overview ............ 153
4.1.1 Introduction .................................................................................... 153
4.1.2 Relation to literature ....................................................................... 155
4.1.3 Empirical strategy and data ............................................................. 158
4.1.4 Results ............................................................................................. 160
4.1.5 Conclusion ....................................................................................... 162
4.2 Experiências internacionais (Coreia do Sul e Malásia) ............................. 164
4.2.1 Experiência da Coreia do Sul ........................................................... 164
4.2.2 Experiência da Malásia.................................................................... 171
4.3 Experiência colonial ................................................................................ 176
4.4 Indicadores de diversificação da economia nacional ............................... 187

5. A distribuição do Rendimento Nacional em Angola ..................................... 192


5.1 Considerações prévias.............................................................................. 192
5.2 Rendimento Nacional e a componente salarial ....................................... 197
5.3 O papel dos diferentes sectores de actividade no processo
de distribuição do Rendimento Nacional ................................................. 209
6. Emprego e produtividade .............................................................................. 215
6.1 Introdução ................................................................................................ 215
6.2 Estimativas do desemprego e do valor da produtividade ........................ 219
6.3 Estimativas do desemprego até 2017 ...................................................... 235
6.4 Políticas públicas de emprego e formação profissional ........................... 241

7. Inflação ........................................................................................................ 250


7.1 Nota prévia............................................................................................... 250
7.2 O comportamento da inflação nos últimos dois anos.............................. 252
7.3 Correlação entre os preços, a moeda, a taxa de câmbio e o crescimento
económico................................................................................................ 255
7.4 Competitividade de Angola pelos preços ................................................. 259

8. Perspectivas de crescimento ......................................................................... 264


8.1 A economia mundial e os principais parceiros económicos de Angola .... 264
8.2 A economia angolana............................................................................... 266

9. Recapitulação dos principais acontecimentos económicos de 2013............ 271

10. Monografia da província do Bié .................................................................. 349

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 401


APRESENTAÇÃO RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Um dos temas que hoje mais têm sobressaído nos discursos oficiais e nas abor-
dagens de diferentes instituições nacionais e estrangeiras é o do desenvolvimento
sustentável. Passou a ser um jargão e ao mesmo tempo uma quase-reivindicação
social e política, baseada no princípio simples de equilíbrio inter-geracional.

É uma temática interessante e o relevo da sua discussão começou há muitas


décadas (40 anos atrás) com a publicação de um estudo, encomendado pelo Clube
de Roma em 1972, sobre o esgotamento dos recursos naturais do planeta e as
agressões sobre as florestas, os animais, a camada de ozono, etc. Este estudo foi
elaborado por uma vasta equipa de jovens investigadores do Massachusetts Insti-
tute of Technology, de onde se destacam os nomes de Donella Meadows (falecida
em 2011) e Dennis Meadows. Esta pesquisa estabeleceu, pela primeira vez, as con-
sequências dramáticas de um crescimento económico exponencial, incompatível
com uma quantidade finita de recursos, capacidades e conhecimento (ainda que
sujeito a uma lei de rendimentos marginais crescentes, de acordo com o modelo
de desenvolvimento com progresso tecnológico endógeno).

A conclusão que chocou o mundo foi a seguinte: “se as actuais (para a época)
tendências de crescimento da população mundial, da industrialização, da poluição,
da produção alimentar e do desperdício de recursos permanecerem sem alteração,
os limites do crescimento no nosso planeta serão alcançados dentro dos próximos
100 anos”1.

A generalidade dos países interessa-se por aplicar um modelo de crescimento


que disponibilize às gerações futuras a mesma quantidade e igual qualidade de
recursos que a geração presente recebeu da geração passada. Significa, em última
instância, que a responsabilidade de cada geração é a de gerir estrategicamente os
recursos existentes e que são envolvidos em cada ciclo económico.

De que forma esta gestão estratégica dos recursos pode ser assegurada e
garantida? Com a intervenção do Estado (vulgarmente designada por regulação
económica) ou dando-se primazia aos mecanismos de mercado, que em condições

1 Clube de Roma, Report on The Limits to Growth, 1972.

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CEIC / UCAN

normais devem assegurar uma racional e eficiente alocação de recursos e facto-


res de produção? A discussão é interminável e passa pelo modo como as “falhas
de mercado” e as “falhas de Governo” devem ser resolvidas no contexto de uma
economia de mercado, em que a liberdade das decisões de produzir, consumir e
investir tem de ser um dos seus axiomas fundamentais.

Numa economia rendeira como a angolana, um dos vectores por onde tem
de passar a sustentabilidade é a transformação da mentalidade de renda numa
cultura de lucro, de salário (como contrapartida de trabalho produtivo e útil) e de
produtividade. Não é o que se passa, por enquanto. A repartição política da renda
petrolífera é que determina a participação dos agentes no processo produtivo e
não os valores de trabalho, de empreendedorismo e de inovação. O acesso a essa
renda não é democrático e os critérios são essencialmente políticos. Nestas con-
dições, a sustentabilidade não está garantida, nem pela intervenção do Estado na
economia, nem pelos mecanismos de mercado.

Em qualquer país, o desenvolvimento tem de ser o resultado de uma dinâmica.


Para que este processo se desencadeie, algumas condições devem estar reunidas,
porque o desenvolvimento não é, apenas, a soma de factores necessários:

ͻ Estabilidade institucional e governativa.

ͻ Uma vontade real de promover o crescimento económico e o desenvolvi-


mento social da parte da nomenclatura política: os comportamentos res-
tritivos e administrativos provam que a defesa dos interesses individuais
tem prevalecido.

ͻ Uma muito maior autonomia da sociedade civil, de modo a que o sector


privado possa dispor de uma margem de manobra para empreender con-
forme entender.

Angus Maddison refere que o crescimento económico resulta de um conjunto


de variáveis, como o direito de propriedade, as instituições políticas e a educação,
a tecnologia, o desenvolvimento dos conhecimentos e da administração, o capital
e a expansão das trocas internacionais (abertura das economias). Paul Romer sus-
tenta que o crescimento económico depende do investimento e dos conhecimen-
tos adquiridos pela experiência (o progresso tecnológico, ao contrário de Robert
Solow, não é exógeno, é o próprio crescimento económico que o engendra). Con-
jugando as duas teses pode, então, dizer-se que o crescimento é a soma de facto-
res necessários (população e recursos naturais), de factores decisivos (instituições
políticas, líderes, tribunais, direito de propriedade, administração pública, educa-
ção) e de factores endógenos (tecnologia).

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RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Pelo menos até 20192 a retoma do crescimento económico em Angola não se


fará com a mesma intensidade da verificada durante a “mini-idade de ouro” de
crescimento da economia nacional. Entre 2004 e 2008, a taxa média anual de cres-
cimento do PIB foi de 12,5%3, (uma das maiores de África e do mundo, em ter-
mos tendenciais), com picos em 2005 (15,0%) e em 2007 (14,0%)4. Dito de modo
diferente: não estará a economia angolana a entrar num período de crescimento
menos intenso, ainda que positivo5?

Algumas razões:

ͻ O país não dispõe de verdadeiras instituições políticas e a sua criação demora


gerações (o direito de propriedade e as instituições políticas desempenham
um papel fulcral no desenvolvimento das forças de mercado).

ͻ O direito de propriedade privada não está consolidado, sendo, outrossim


fundamental uma revolução nos arquétipos culturais da sociedade rural
tradicional.

ͻ O sistema de educação não está estruturado, sendo provavelmente necessário


implementar-se uma verdadeira revolução educativa a 30 anos (universalização
do Ensino Primário, acentuação do Secundário e do Técnico e consolidação
do Universitário); o sector da educação deve absorver, no mínimo, 6,5% do
PIB por ano.

ͻ Não existem estruturas que promovam a produção de conhecimentos (uma


sociedade só consegue progredir se for capaz de produzir conhecimento e,
por outro lado, a produção de conhecimentos não está sujeita à lei dos ren-
dimentos marginais decrescentes).

2 International Monetary Fund – Angola Second Post-Program Monitoring, March 2014.


Também o Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 apresenta taxas de cresci-
mento até 2017 em redor de 6,5%, sem se levar em atenção as correcções em baixa que
o Governo tem feito.
3 Já corrigida pelas informações das Contas Nacionais do INE.

4 É sempre bom ter-se destas constatações uma visão relativa das situações. No caso
vertente importa saber em que condições é que esse facto ocorreu e se as condições
futuras o irão permitir de novo.
5 Tanto quanto é possível estimar no momento presente – sempre aleatoriamente
†‡˜‹†‘’‘••‹„‹Ž‹†ƒ†‡†‡‹ϐŽ—²…‹ƒ†‡ˆƒ…–‘”‡•‡š–‡”‘•ƒ†˜‡”•‘•‘—ˆƒ˜‘”ž˜‡‹•ǡƒ•
sempre incontroláveis – algumas instituições internacionais estabeleceram as seguin-
tes taxas reais prospectivas de variação do PIB angolano para 2014: EIU = 6,4%;
FMI = 5,3%; Banco Mundial = 6%.

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CEIC / UCAN

ͻ O país ainda não dispõe de infra-estruturas em quantidade e qualidade para


alavancar o crescimento económico em bases sistémicas e sustentáveis nos
domínios rodoviário, portuário, ferroviário, telecomunicações, redes de infor-
mação e sistemas de saúde.

ͻ Generalizada fraqueza da capacidade científica e tecnológica nacional, o que


limita a qualidade dos quadros e mão-de-obra nacional6.

Mas também a distribuição do rendimento em moldes completamente dife-


rentes dos actuais é um tema presente na discussão do futuro da Nação e da socie-
dade angolana.

As desigualdades sociais continuam a dominar a realidade nacional, em diver-


sas vertentes. Parece que à medida que o tempo for passando, tornar-se-á cada
vez mais difícil garantir um estatuto de igualdade de oportunidades e de conver-
gência de níveis de vida a todos os cidadãos, tal como consagra a Constituição. As
várias periferias das cidades apresentam condições de vida degradantes, sendo
o mais frustrante a aparente falta de esperança de as reverter no curto prazo.
Os contrastes com as várias cidades-condomínio do asfalto são, na verdade, gri-
tantes, levando, na realidade a pensar-se que os angolanos só são iguais perante
a lei.

Muitos estudos internacionais, sérios e confiáveis, têm constatado que a glo-


balização/mundialização foi, de facto, um factor que permitiu reduzir as desigual-
dades entre os países. A China, a Índia, o Brasil, uma parte significativa de África
(com destaque para a África Subsariana) são hoje espaços económicos com uma
participação relativamente importante no comércio mundial, no PIB global e na
geoestratégia das nações. A China, em 30 anos, tornou-se na segunda potência
económica e o Brasil caminha para tirar a liderança às “velhas” economias indus-
triais da Europa. Tudo isto teve uma influência indelével da globalização e da aber-
tura das economias.

No entanto, dentro de cada país, mesmo nas economias mais estruturadas,


organizadas e desenvolvidas, as desigualdades têm aumentado. A China, a despei-
to do recentramento do seu modelo de crescimento – mudança de alavancas, das
exportações para o consumo interno – continua a ser, provavelmente, o país mais
desigualitário do mundo, com assimetrias gritantes entre regiões e classes sociais.
O Brasil tem saído à rua para dizer “basta” às desigualdades e às aparentemente
erradas opções de política económica de um partido de esquerda que governa o

6 Ver análise e considerações sobre o Knowledge Economy Index (KEI) do Banco Mun-
†‹ƒŽ‡ƒ‹’‘”–Ÿ…‹ƒ“—‡ƒ“—ƒŽ‹ϐ‹…ƒ­ ‘†‘•”‡…—”•‘•Š—ƒ‘•–‡’ƒ”ƒ‘…”‡•…‹‡–‘‡
ƒ†‹˜‡”•‹ϐ‹…ƒ­ ‘†ƒ•‡…‘‘‹ƒ•Ǥ

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RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

país há mais de 10 anos. Aqui a luta é por mais investimentos públicos na saúde
e na educação e por dinâmicas renovadas de distribuição do rendimento. O país
tem crescido, mas a mancha de pobreza e exclusão social não diminui na mesma
proporção.

Quando as economias atravessam fases de crescimento do PIB e de quase-ple-


no emprego, o agravamento das desigualdades – que normalmente ocorre em
proporções relevantes, embora disfarçáveis pelo conhecido efeito de contágio –
acaba por ser mais ou menos aceitável (é isto o que tem acontecido no nosso país,
que possa explicar o relativo apaziguamento social?), não sucedendo o mesmo em
situações de crise económica e de desemprego elevado.

Em Angola, os índices de desigualdade são, também, elevados: 20% da popula-


ção concentra 60% do rendimento nacional (não se têm estatísticas sobre a rique-
za, mas seguramente que neste item as desigualdades são manifestamente muito
mais significativas) e cerca de 2/3 da população tem menos de 2 dólares por dia
para viver.

A distribuição do rendimento é um processo económico normal, com mecanis-


mos e procedimentos próprios que garantem a remuneração dos factores de pro-
dução envolvidos nos processos anuais de criação do PIB. No entanto e na maior
parte dos casos, as regras de mercado não são nem suficientes, nem eficientes
para garantirem uma relativa igualdade no acesso às fontes de rendimento, falan-
do-se em falhas de mercado na remuneração dos factores de produção. Por isso, o
Estado tem uma função supletiva a desempenhar no sentido de promover e garan-
tir uma repartição mais equilibrada do rendimento nacional, de modo a preservar
a estabilidade social e política.

Os instrumentos a accionar passam pela progressividade dos impostos cobra-


dos pelo Estado às pessoas singulares e pelas transferências para as famílias a dife-
rentes títulos. Estes são alguns dos mecanismos de compensação contemplados
pela Teoria Económica e algumas das práticas encontradas nos países de elevado
Índice de Desenvolvimento Humano. Estas sociedades são das mais igualitárias do
mundo (índice de Gini em torno de 0,25), das politicamente mais estáveis e das
economicamente mais saudáveis.

Não é isso que se encontra na maior parte dos países em desenvolvimento


– emergentes e não emergentes – e em especial nos produtores de petróleo.
O Estado, nestes países, não tem sido competente na aplicação dos adequados
instrumentos macroeconómicos e políticas correctoras dos mecanismos de mer-
cado de repartição do rendimento e as respectivas sociedades apresentam índi-
ces elevados de desigualdade. De acordo com determinadas visões, os Estados

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CEIC / UCAN

petrolíferos têm promovido e facilitado uma acumulação de riqueza concentrada


numa pequena elite ligada ao poder político pela via do conhecido rent-seeking7.

Em que condições Angola parte para construir a sustentabilidade do modelo de


repartição equilibrada (e justa) do rendimento nacional?8

Certamente desfavoráveis em termos presentes: pobreza e fome, democracia


limitada (apesar das liberdades garantidas pela Constituição da República), elevado
desemprego (na vizinhança de 25% a respectiva taxa), regime internacionalmente
considerado autoritário, elevados níveis de corrupção e de falta de transparência,
do que resultam diferenças significativas no acesso às oportunidades (de estudar,
de direito à habitação condigna, de criar riqueza, de inovar, de empreender) e na
escala social entre quem tudo tem (várias vivendas e apartamentos, várias viatu-
ras, várias contas bancárias) e quem nada tem.

Ética e responsabilidade social das empresas começam a apresentar-se como


duas preocupações da sociedade civil angolana, no sentido de se alargar ao tecido
empresarial deveres de transparência nas suas actividades e contas e de inserção
positiva no seu relacionamento com as comunidades.

Do ponto de vista moral, a responsabilidade social das empresas pode coin-


cidir com a ética dos negócios, com a lealdade de intenções face a parceiros e a
terceiros, o fornecimento de bens e serviços dentro de normas de qualidade e de
respeito das preferências dos consumidores, a publicidade não enganosa. Deste
ângulo de análise, a responsabilidade social empresarial é a dedicação contínua

7—ƒ†‡ϐ‹‹­ ‘•‹’Ž‡•‘rent-seeking é um conjunto de práticas administrativas e


regulamentares que visam distribuir a renda petrolífera por um conjunto restrito de
agentes ligados ao poder político, através de favorecimento nas privatizações, nas com-
pras do Estado, no acesso ao crédito, nos concursos públicos, na criação de empresas,
nos patrocínios estatais, etc.
8 Antes das eleições de 2012, o MPLA encomendou um estudo-sondagem sobre a per-
…‡’­ ‘“—‡‘•…‹†ƒ† ‘•–‹Šƒ“—ƒ–‘ƒ†‡–‡”‹ƒ†‘•‹–‡••‘…‹ƒ‹•Ǥ‘…‘…‡”‡–‡
repartição da riqueza, a ideia-força percebida pelos inquiridos era a de que a riqueza
era mal repartida em Angola: “o país apresenta crescimento económico, mas a população
se auto percebe como não fazendo parte da distribuição da riqueza, assim como das deci-
sões políticas do país. Em Angola há os ricos e os pobresdzǤ•—ŽŠ‡”‡•†‘•‡…–‘”‹ˆ‘”-
ƒŽƒϐ‹”ƒ˜ƒ“—‡Dzo nosso país é muito rico, mas a população é muito pobre”. Os jovens
estudantes queixavam-se de que “todo o dinheiro de Angola vai para os bolsos dos gover-
nantes angolanos e nada para o povo”. (ProSensus, Sensus e Centro de Estudos Estraté-
gicos de Angola – Relatório Grupos Temáticos, Eleições Gerais Angola 2012ǡͷȀͳͳ†‡ —ŽŠ‘
†‡ʹͲͳʹȌǤ•–ƒ•ƒϐ‹”ƒ­Ù‡•‡‘—–”ƒ•…‘””‡Žƒ–‹˜ƒ•…‘…‡–”ƒ­ ‘†ƒ•ˆ‘”–—ƒ•‡‰‘Žƒ
dão um sinal claro sobre a insatisfação social quanto às condições de vida da grande
ƒ‹‘”‹ƒ †ƒ ’‘’—Žƒ­ ‘ǡ  ‘ •‡†‘ǡ ’‘”–ƒ–‘ǡ †‡ ‡•–”ƒŠƒ” ‘ •ï„‹–‘ †‡•’‡”–ƒ” ’ƒ”ƒ ƒ•
questões sociais através de discursos e declarações dos mais altos dirigentes do país.

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RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

da empresa a comportamentos éticos, contribuindo para o desenvolvimento eco-


nómico e melhorando as condições de vida dos trabalhadores e das suas famílias,
assim como das comunidades em que estão inseridas.

A componente moral da responsabilidade social exige que os negócios se façam


com honestidade, seriedade e sinceridade e no respeito dos compromissos assu-
midos. Igualmente determina que não se tenham salários em atraso e se paguem
as remunerações do trabalho de acordo com os contratos assinados.

Um ponto particular: por que se pede que as empresas se comportem com


responsabilidade social e a mesma postura não é exigida às pessoas ricas? Estas
classes possidentes afectam somas consideráveis a gastos de extravagância e
sumptuosidade privadas9. Estes cidadãos e classes sociais distanciam-se da imen-
sa maioria da população, em vez de a ajudarem na caminhada para uma prosperi-
dade comum. Uma sociedade harmoniosa10 caracteriza-se pela democracia, pelo
imperativo da lei, pela equidade, pela justiça, pela sinceridade, pela amizade e pela
vitalidade.

Do ponto de vista económico, os empresários e as empresas são quem deve


operar a melhor combinação produtiva dos factores de produção, com diferentes
finalidades: maximizar os retornos dos investimentos, poupar recursos escassos (e,
por isso e em alguns casos, caros) e acautelar uma repartição justa do rendimento
gerado no decurso do exercício da actividade produtiva. Percebem-se elementos
sociais nesta função económica do empresário.

Assim como se adivinham zonas de contradição e conflito entre a função eco-


nómica das empresas e o que desejavelmente deveria ser a sua função social. E
uma delas é quando, por razões de eficiência (poupança de recursos) e de maximi-
zação de lucros, as combinações factoriais favorecem o capital (e as suas diversas
componentes) em desfavor do trabalho, optando-se, portanto, por processos de
produção intensivos em tecnologia e capital.

Observada do ponto de vista da empresa, a responsabilidade social das empre-


sas pode ser entendida como parte da gestão de risco, isto é, tomando diferentes
medidas estratégicas para assegurar a sobrevivência da empresa no futuro pre-
visto. Isto faz parte da responsabilidade dos gestores para com os accionistas e a
melhor maneira de o fazer é lutar por um modelo operacional que crie valor para

9 Ver Revista Sábado, de Setembro de 2011, sobre as extravagâncias dos ricos de Angola.

10Muitos dirigentes políticos angolanos gostam de utilizar o termo “desenvolvimento


Šƒ”‘‹‘•‘dz’ƒ”ƒ–”ƒ†—œ‹”ƒŽ‰—ƒ•†ƒ••—ƒ•‹†‡‹ƒ•“—ƒ–‘ƒ‘•†‡•‡“—‹ŽÀ„”‹‘•†ƒ•‘…‹‡-
dade e da economia.

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CEIC / UCAN

todos os stakeholders, que, de outra maneira, poderiam, no longo prazo, tornar a


empresa vulnerável.

A criação de emprego pode ser, provavelmente, a mais importante responsabi-


lidade social das empresas e dos empresários, embora seja a consequência econó-
mica natural da constituição de actividades produtivas.

Mas a responsabilidade social, assumindo formas e modalidades materiais,


pode ser uma forma de escamotear a fuga e a evasão fiscais da parte das empre-
sas: cumpre-se uma determinada responsabilidade social a troco de pagamento de
impostos mais baixos. Ou então, compram-se descontos fiscais com responsabili-
dade social, o que não deixa de ser um contra-senso, perdendo todo o carácter de
responsabilidade social.

Distribuição do rendimento (e melhoria significativa e sustentável das condi-


ções de vida dos cidadãos) e desenvolvimento sustentável (muito forte capacidade
de se continuar a crescer e a preservar para as gerações futuras o que as gerações
presentes receberam das gerações passadas) são os temas fortes da edição 2013
do Relatório Económico do CEIC/UCAN. Ética e Responsabilidade Social das Empre-
sas é um dos projectos de pesquisa do CEIC em fase de execução e cujos resultados
serão divulgados no Relatório Económico do próximo ano.

As abordagens clássicas da política económica, o estudo do emprego e da pro-


dutividade do trabalho, as referências à inflação, as previsões sobre o crescimen-
to futuro do PIB, a síntese informativa sobre os acontecimentos económicos e a
monografia económica provincial continuam a fazer parte do conteúdo do Relató-
rio Económico de 2013.

14 |
INTRODUÇÃO RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Embora se não reporte a 2013, a disponibilização das Contas Nacionais de An-


gola 2002/2010 acaba por ser um facto de enorme relevância, pois a partir de
agora passamos a ter apenas uma economia e não mais tantas economias como as
que a nossa imaginação puder propor.

O Sistema de Contas Nacionais de qualquer país é uma das bases estatísticas


fundamentais para o conhecimento e análise do sistema económico, nas vertentes
que os manuais de Macroeconomia e de Contas Nacionais dividem as economias.

O passo que o Instituto Nacional de Estatística deu com a apresentação das


Contas Nacionais de Angola é significativo. Para as instituições públicas, para as
empresas e sistema bancário, para os Governos provinciais e, em geral para os
tomadores de decisão. As Contas Nacionais são o retrato dos resultados do funcio-
namento do sistema económico. Fornecem informações essenciais e indispensá-
veis sobre o circuito de produção – de que modo a produção interna é criada e em
que proporções entram os consumos intermédios e os factores de produção –, o
modelo de formação de valor agregado interno, o modo como os rendimentos são
gerados no processo de produção, em termos de remuneração dos factores, como
são aplicados nas componentes da despesa nacional e finalmente sobre a reparti-
ção primária do rendimento nacional. A partir das Contas Nacionais vai ser possível
elaborar diferentes estudos sobre a realidade económica e social do país, conhecer
determinadas debilidades do sistema produtivo e avaliar com maior precisão os re-
sultados da actividade económica. Sendo as Contas Nacionais elaboradas de forma
relativamente exaustiva, a partir de informações oriundas das empresas (balanços
e demonstrações de resultados, inquéritos, etc.) fica-se com a garantia de que a
avaliação do PIB e de outras grandezas macroeconómicas está bem mais próxima
da realidade do que se fosse por meras estimativas.

As diferenças entre as informações das Contas Nacionais do INE e os valores


até agora apresentados oficialmente são significativas, em alguns casos11. Desde

11ƒžŽ‹•‡”‡’‘”–ƒǦ•‡ƒʹͲͲʹǦʹͲͳͲǡ‡„‘”ƒ‘ Œž–‡Šƒ’—„Ž‹…ƒ†‘ƒ•‘–ƒ•ƒ…‹‘-

ƒ‹•ƒ–±ʹͲͳʹǤ2“—‡‘‡Žƒ–×”‹‘…‘×‹…‘–‹Šƒ†‡•‡”ˆ‡…Šƒ†‘‡–‡’‘Ž‹‹–ƒ†‘’‘”
naturais imposições editorais de tempo.

| 15
CEIC / UCAN

logo no valor do Produto Interno Bruto os diferenciais são expressivos, chegando


a atingir, em 2006, 10,6 mil milhões de dólares para mais e em 2009, também
10,6 mil milhões de dólares, mas para menos. Ou seja, e para este ano, a inci-
dência da crise económica e financeira internacional sobre a economia angolana
foi absolutamente devastadora, muito acima das estimativas apresentadas então
pelas autoridades: os impactos negativos apresentados na altura sobre o PIB na-
cional foram estimados em 8,7 mil milhões de dólares, quando agora as Contas
Nacionais revelam um prejuízo global de cerca de 23,5 mil milhões de dólares.
Perante estas discrepâncias tem de ser colocada a questão da consistência e coe-
rência das políticas económicas entretanto implementadas pelo Governo entre
2002 e 2010.

DIFERENÇAS ENTRE OS PIB EM MILHÕES DE DÓLARES


ANOS 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
PIB 4716,7 3291,8 5065,7 9619,0 10608,1 6020,2 4143,3 -10627,4 -1597,8
FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

Em valores absolutos, o PIB nacional passou de 16 mil milhões de dólares em


2002, para 82,7 mil milhões de dólares em 2010, sobretudo devido ao excelente
comportamento da economia petrolífera nacional e dos preços internacionais do
petróleo.

COMPARAÇÃO ENTRE PIB CONTAS NACIONAIS E O ANTERIOR


100000

80000

60000

40000

20000

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
-20000

PIB milhões de dólares correntes PIB ango milhões dólares correntes


Diferença entre os PIB
FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

Mas as diferenças projectam-se igualmente noutras variáveis macroeconómi-


cas e sectoriais.

16 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

A dinâmica de crescimento do PIB no período em apreço foi menor do que a


apresentada pelo Governo e aceite por algumas instituições internacionais, como
o Fundo Monetário Internacional12. Foi amplamente divulgada a ideia de Angola
ser a economia que mais crescia no período considerado, quando agora as Contas
Nacionais revelam que, afinal, não foi assim.

COMPARAÇÃO ENTRE CONTAS NACIONAIS


E OS DADOS EXISTENTES SOBRE O CRESCIMENTO DO PIB
25
Valores em percentagem

20

15

10

5 Variação real
Variação real
0 usada até hoje
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

Os estudos e a definição das políticas macro e microeconómicas trabalharam


com uma taxa média de crescimento de 12,1% entre 2002 e 2010, quando na rea-
lidade das Contas Nacionais o deviam ter feito sobre uma cifra de 8,6% em taxa
média anual. Mesmo em relação ao mini-período dourado do crescimento da eco-
nomia nacional (2004/2008) as diferenças são, do mesmo modo, relevantes: 12,5%
nas Contas Nacionais e 17,4% nos dados utilizados até hoje.

DINÂMICAS DE CRESCIMENTO (%)


1998-2013 2002-2013 2002-2010 2004-2010
W/ĂŶƟŐŽ 8,4 9,97 12,1 17,4
Contas Nacionais – – 8,6 12,5

Também no domínio das variações reais do PIB dos sectores de actividade ocor-
rem desvios significativos. As duas seguintes tabelas são disso reveladoras.

12No seu mais actual World Economic Outlook ĚĞ ďƌŝů ĚĞ ϮϬϭϰ͕ Ž &D/ ĂŝŶĚĂ ŶĆŽ ƟŶŚĂ
adoptado as novas taxas de crescimento do PIB dadas pelas Contas Nacionais do INE.

| 17
CEIC / UCAN

DINÂMICAS DE CRESCIMENTO SECTORIAL DAS CONTAS NACIONAIS


^ĞĐƚŽƌĞƐĚĞĂĐƟǀŝĚĂĚĞ 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
Agricultura Pecuária 8,38 9,59 4,35 13,42 5,42 6,05 4,76 9,46
e Florestas
Pescas 7,22 7,83 5,10 24,32 5,94 1,64 6,21 -13,28
Petróleo e Gás -3,80 13,88 25,49 13,07 21,76 10,27 -4,97 -0,54
Diamantes e Outros 19,83 7,48 -16,57 28,59 18,76 -1,79 5,59 6,46
Indústria Transformadora 5,35 16,58 6,13 6,55 2,02 5,91 7,02 19,16
Electricidade 12,41 14,16 7,09 33,46 9,54 8,11 23,68 9,50
Construção 16,32 24,08 12,91 11,65 17,69 8,93 12,78 25,95
Serviços 5,17 7,48 8,61 8,62 5,60 12,92 8,17 4,23
Comércio 6,19 6,24 10,36 4,06 13,56 17,60 2,30 -9,73
Transportes/Armazen. 0,10 7,91 10,84 7,97 8,54 19,95 3,34 10,53
Correios/Telecomunic. 4,74 3,60 -20,89 10,72 9,49 37,87 29,89 6,51
Bancos e Seguros 6,99 2,95 18,56 14,83 4,95 10,45 3,31 5,15
Estado 6,93 8,47 11,46 11,53 9,63 7,97 9,64 10,03
Serviços Imobiliários 3,00 2,24 4,97 6,22 4,91 10,38 7,40 5,05
Outros Serviços 4,24 12,32 5,55 12,11 -5,54 7,91 11,92 9,04
PIB 2,37 11,25 14,86 11,70 13,85 10,48 2,01 4,61

DIFERENÇAS EM PONTOS PERCENTUAIS


^ĞĐƚŽƌĞƐĚĞĂĐƟǀŝĚĂĚĞ 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
Agricultura Pecuária 3,30 4,51 12,65 -3,62 21,98 -4,15 24,24 -3,46
e Florestas
Pescas
Petróleo e Gás 1,60 -0,78 0,51 0,03 1,54 2,03 -0,12 -2,46
Diamantes e Outros -0,01 -6,68 32,77 2,31 -16,06 -6,41 -0,99 -16,76
Indústria Transformadora 6,56 -3,08 18,77 38,15 30,58 5,09 -1,72 -8,46
Electricidade -12,17 -2,66 10,31 -20,26 -0,94 17,99 -2,38 1,40
Construção -3,69 -10,08 3,99 18,35 19,41 16,67 11,02 -9,85
Serviços 4,70 2,92 -0,11 29,48 16,20 13,98 -9,57 4,47
PIB 2,83 0,05 5,74 6,90 9,35 3,32 0,40 -1,21

Os valores positivos significam que as estimativas usadas até hoje superam as


das Contas Nacionais e os valores negativos o contrário. Por exemplo, as sobresti-
mativas de crescimento da agricultura atingiram 24 pontos percentuais em 2009.
Em relação à indústria transformadora, o diferencial percentual a mais foi de 38
pontos em 2006. Para o sector dos serviços, o valor mais elevado registou-se em
2006, com um diferencial positivo de 29 pontos, enquanto o sector da construção
– indiscutivelmente o mais dinâmico de acordo com as informações das Contas
Nacionais – averbou o maior registo em 2007, com 19 pontos percentuais a mais
do que o seu verdadeiro crescimento.

18 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Também se anotam casos em que os registos com que se trabalharam até à


publicação das Contas Nacionais são inferiores (ou seja, cresceu-se mais do que se
pensava): Electricidade em 2006, Diamantes e Outros Minérios em 2007, os Servi-
ços em 2009 e o próprio PIB em 2010.

Naturalmente que estes novos registos do crescimento da economia angolana


têm reflexos nas taxas tendenciais de crescimento, nas dinâmicas de transforma-
ção estrutural da economia nacional e no próprio processo de diversificação da
estrututa produtiva do país.

Conforme anteriormente referido, as actividades ligadas à Construção foram as


que maiores variações percentuais reais apresentaram entre 2002 e 2010, segun-
do as Contas Nacionais, com uma taxa média anual de crescimento de 15%.

LINHAS TENDENCIAIS DE CRESCIMENTO DOS SECTORES ESTRUTURANTES


DA DIVERSIFICAÇÃO
20

15

10

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Agricultura, Pecuária e Florestas Indústria transformadora


Construção PIB

FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

Também em termos da estrutura do Produto Interno Bruto se notam diferen-


ças muito significativas com a composição sectorial que vinha sendo usada. Por
exemplo, o sector “Agricultura, Pecuária e Florestas” que se pensava ter uma par-
ticipação relativa no PIB de cerca de 8% a 10%, aparece agora na Contabilidade
real da economia do país, dada pelas Contas Nacionais, com um peso percentual
médio, entre 2002 e 2010, de apenas 4%. O que pode ter diferentes leituras:

ͻ Considerado como sector estruturante das transformações económicas estrutu-


rais e peça importante da diversificação produtiva do país, 4% de participação
é muito pouco.

ͻ No entanto, este valor pode também significar que a margem de progressão


é elevada, não se apresentando esta actividade próxima dos seus limites de
expansão e contribuição para o valor agregado nacional.

| 19
CEIC / UCAN

ͻ As actividades de extracção mineral, excepto o petróleo, têm, de facto, uma


representatividade marginal na estrutura produtiva nacional, com um indica-
dor médio de 1,5% e com uma tendência de decréscimo entre 2002 (2,6%)
e 2010 (0,9%).

ͻ A produção de electricidade – área de actividade fundamental para a diver-


sificação da economia e o incremento da sua competitividade – permanece
igualmente marginal no contexto da sua contribuição relativa para o PIB, com
um valor médio de tão-somente 0,6%. Isto a despeito de ter sido, a par da
construção, o sector com uma das mais elevadas taxas de crescimento real
entre 2002 e 2010. Ou seja, a economia nacional continua a funcionar na
base dos geradores.

ͻ A indústria transformadora – agora falsamente defendida pela nova pauta


aduaneira, altamente penalizadora dos consumidores e facilitadora da acu-
mulação de rendimento dos empresários – não foi capaz de aumentar o valor
do seu coeficiente de representatividade para além de 4%, em média anual.
Significa, assim, que o sector mais importante da diversificação da economia
tem uma participação pífia no processo de crescimento da economia.

ͻ Conforme se tem dito por várias vezes, o sector da construção – para onde
convergem os investimentos públicos em infra estruturas e os investimentos
privados em imobiliário – foi o que maiores ganhos de representativida-
de apresentou entre 2002 (5,4% do PIB) e 2010 (8,8%). Por isso, tem sido
um dos esteios do elevado crescimento económico do país. Os dados mais
recentes (2008/2013) mostram, no entanto, que este sector tem vindo a
perder vitalidade, por força, por um lado do intenso crescimento registado
no passado e, por outro, de dificuldades relacionadas com os atrasos dos
pagamentos das obras do Estado e de uma certa retracção da procura final
de imobiliário.

ͻ A actividade petrolífera (extracção de petróleo e gás e produção de refinados)


foi a dominante neste período, com uma percentagem média de 44%. Ou seja,
ainda a mais importante actividade para a criação do PIB.

ͻ Finalmente, os serviços, posicionaram-se como o segundo mais importante


sector de actividade gerador de valor agregado nacional. A sua proporção
passou de 38,2% em 2002, para 37,4% em 2010.

A tabela seguinte apresenta os valores relacionados com a nova estrutura sec-


torial da economia angolana.

20 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

^ĞĐƚŽƌĞƐĚĞĂĐƟǀŝĚĂĚĞ 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010


Agricultura Pecuária 4,38 4,58 3,71 3,61 3,67 3,39 4,64 4,64
e Florestas
Pescas 1,84 1,65 1,34 1,59 1,54 1,51 1,74 1,41
Petróleo e Gás 40,58 41,30 48,21 45,31 48,24 49,70 39,05 43,48
Diamantes e Outros 2,63 2,44 2,26 1,62 1,34 0,98 0,66 0,94
Indústria Transformadora 4,01 4,66 3,90 3,62 3,38 3,53 3,72 4,04
Electricidade 0,64 0,56 0,29 0,82 1,09 0,56 1,05 0,84
Construção 5,40 5,44 5,61 6,87 7,40 6,69 8,25 8,79
Comércio 12,14 12,22 10,99 9,39 9,39 8,97 9,89 8,72
Transportes/Armazen. 1,99 1,84 1,61 1,75 1,94 2,39 1,91 2,12
Correios/Telecomunic. 1,06 0,81 1,34 1,42 1,42 1,61 2,91 2,07
Bancos e Seguros 1,78 1,74 1,45 1,39 1,63 1,74 2,37 1,80
Estado 10,69 9,62 8,56 8,63 8,87 9,62 13,47 10,71
Serviços Imobiliários 4,97 6,25 4,37 4,23 4,32 3,77 5,02 4,32
Outros Serviços 8,67 7,68 7,12 10,44 6,80 6,93 7,29 7,68

O gráfico seguinte mostra exactamente que a importância relativa dos sectores


estruturantes da diversificação da economia tem muito pouco significado.

TRANSFORMAÇÕES ECONÓMICAS ESTRUTURAIS ENTRE 2002 e 2010


50

40
30
20
10
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Agricult. Pecuá. Florestas Pescas Petróleo e Gás Diamantes e outros


Indústria transformadora Electricidade Construção Serviços

FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

Focalizando a atenção apenas nos anos de 2002 e 2010, verifica-se que os sec-
tores estruturantes da diversificação permaneceram estáticos no processo de in-
cremento do seu peso relativo no PIB.

| 21
CEIC / UCAN

ESTRUTURA ECONÓMICA EM 2002


4% 2%
Agricultura, Pecuária e Florestas
Pescas
Petróleo e Gás
Diamantes e outros
38% 44%
Indústria transformadora
Electricidade
Construção
5% Serviços
0%
4% 3%

FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

ESTRUTURA ECONÓMICA EM 2010

4% 1%
Agricultura, Pecuária e Florestas
Pescas
Petróleo e Gás
Diamantes e outros
37% 43%
Indústria transformadora
Electricidade
Construção
9% Serviços
1%
4% 1%

FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

22 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

1. A ECONOMIA MUNDIAL E O ENQUADRAMENTO EXTERNO DA


ECONOMIA ANGOLANA

De acordo com as mais renomadas instituições internacionais, a economia


mundial continuou a ser negativamente afectada, no seu comportamento em
2013, pelos fracos desempenhos da maior parte das chamadas economias avança-
das, com destaque para os Estados Unidos e a Zona Euro. Na verdade, o FMI apon-
ta para uma contínua degradação do crescimento do PIB mundial entre 2011 e
2013 – de 3,9% para 2,9% – com destaque para as economias mais desenvolvidas,
ainda a braços com as consequências das suas crises financeiras. Os Estados Uni-
dos, depois de uma recuperação em 2012 (2,8%), voltaram a apresentar registos
menos estimuladores (1,6% em 2013). Já o The Economist, na sua edição de 18 de
Janeiro de 2014, aponta para uma quebra menos pronunciada (2% de crescimento
do PIB em 2012 e 1,8% em 2013).

A Zona Euro continuou, em 2013, com os mesmos problemas do ano anterior,


não tendo, durante cerca de 3 anos, os programas de austeridade financeira conse-
guido uma reconciliação entre consolidação orçamental e crescimento económico.
É nesta parte do globo onde se registam as mais elevadas taxas de desemprego, em
alguns países com níveis históricos, como na Grécia, em Espanha e em Portugal.

TAXAS DE CRESCIMENTO (%)

Mundo Economias avançadas Estados Unidos Euroárea

5,2 4,8
3,9
2,7 2,9 2,8 3 2,8 3,1 3,1
1,9 1,7 1,71,71,4 1,51,2 1,21,2
0,2 0 0,4

2007 2008 -0,6 2009 2010 2011 2012 -0,3 2013 -0,4

-2,6
-3,4
-4,1
FONTE: IMF, World Economic Outlook, November 2013.

| 23
CEIC / UCAN

O Fundo Monetário Internacional continuou a classificar a sua situação eco-


nómica como depressiva, com registos de - 0,6% em 2012 e - 0,4% em 2013, com
destaques para Espanha (- 1,6% e - 1,3% respectivamente), Itália (- 2,4% e - 1,8%),
Grécia (- 6,4% e - 4,2%) e Portugal (- 3,2% e - 1,8%).

Estes países têm aumentado as suas relações comerciais com Angola, sendo
mesmo Portugal o que mais depende das exportações para o nosso país, com mon-
tantes médios anuais de cerca de 3,8 mil milhões de dólares, que representam
mais de 17% das suas vendas totais ao exterior.

CRESCIMENTO ECONÓMICO NOS PRINCIPAIS PARCEIROS


ECONÓMICOS EUROPEUS DE ANGOLA (%)

6
4
2
0
lia

ia
ha

da

al

ça
nh

-2
éc

ug

an
Itá
an

an

pa
Gr

rt

Fr
em

Irl

Po
Es

-4
Al

-6
-8

2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013


FONTE: IMF, World Economic Outlook, November 2013.

Conforme assinalado anteriormente, as denominadas economias emergentes


foram as que evitaram uma crise económica mundial mais acentuada no período
2011/2013.

A China – um dos actuais grandes parceiros económicos de Angola, de onde


provêm cerca de 20% das importações e para onde se exportam grandes quanti-
dades de petróleo, fazendo deste país asiático o primeiro importador do petróleo
angolano – continuou a desempenhar o papel de país âncora do crescimento eco-
nómico mundial, com uma contribuição de quase 1,5 pontos percentuais. Atra-
vés das linhas de crédito concedidas ao nosso país – segundo declarações oficiais
chinesas conhecidas, estes financiamentos foram estimados em 14,5 milhões de
dólares no final de 2011 – e dos investimentos directos na exploração do petróleo,
a China era, no final de 2013, o principal parceiro económico de Angola.

A Índia é outro dos mais importantes países emergentes e começa a realizar


investimentos em Angola em domínios eventualmente mais estruturantes do que
outros parceiros estrangeiros.

24 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013
2012

As empresas brasileiras, tal como as chinesas, actuam no mercado angolano


apoiadas em poderosas linhas de crédito dos respectivos Governos. A economia
brasileira também tem absorvido alguns dos efeitos negativos da crise internacio-
nal, principalmente devido às estreitas relações económicas com os Estados Uni-
dos e algumas das economias mais desenvolvidas da Europa.

TAXAS DE CRESCIMENTO EM ALGUMAS ECONOMIAS EMERGENTES (%)

10,4 10,5
9,2 9,3 8,5
7,7 7,6 7,5
6,3
4,5 4,3 3,4
3,2 3,8 2,72,2 2,2 3,1 3,5 2,5
1,5 2

Rússia China Índia -0,2 Brasil -1,5 África


do Sul
-7,8
2009 2010 2011 2012 2013
FONTE: IMF, World Economic Outlook, November 2013.

As informações mais recentes sobre o crescimento económico da África Sub-


sariana estão, naturalmente, influenciadas pela crise financeira que persiste em
muitos países europeus da Zona da moeda única, ainda o espaço mais represen-
tativo das relações comerciais e financeiras africanas (em vias de ser substituída
pela China e Índia), embora alguns países estejam a ser bem sucedidos em resistir
aos efeitos mais nefastos, mormente os não-petrolíferos e na base de um com-
portamento positivo dos preços das matérias-primas e dos termos de troca. Entre
2007 e 2013, a economia subsariana cresceu a uma taxa média anual de 5%, uma
excelente cifra, tendo em linha de conta a taxa de 2,6% averbada em 2009 (uma
quebra de 50% face ao registo de 2008).

TAXAS ANUAIS DE CRESCIMENTO DO PIB (%) NA ÁFRICA SUBSARIANA

7,1

5,7 5,6 5,5


4,9
5,0

2,6

2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

FONTE: IMF, World Economic Outlook, November 2013.


.

| 25
CEIC / UCAN

2. POLÍTICA ORÇAMENTAL E POLÍTICA MONETÁRIA

2.1 Considerações gerais

O Ministério das Finanças aponta para 2013 uma cobrança previsional de


4535,7 mil milhões de Kwanzas a título de receitas tributárias, uma percentagem
de 38,6% do PIB. Dentro deste montante sobressaem as receitas fiscais petrolíferas
com 3448,2 mil milhões de Kwanzas, equivalentes a 76% do total. As receitas fis-
cais não petrolíferas amentaram 29% desde 2011, representando em 2013 20,2%
da receita total do Estado.

A despesa fiscal total em 2013 correspondeu a cerca de 38,3% do PIB (uma


redução de quase 1,5 pontos percentuais em relação a 2012). O peso relativo das
remunerações com os funcionários públicos, civis, militares e paramilitares, man-
teve-se estável face a 2011 e 2012, tendo-se notado uma diminuição do montante
das transferências para a economia, em particular dos subsídios a preços.

POSIÇÃO DAS FINANÇAS PÚBLICAS EM ANGOLA – RESUMO


Em mil milhões de kwanzas Em percentagem do PIB
RUBRICAS
2010 2011 2012 2013 2010 2011 2012 2013
Impostos totais 3094,5 4776,1 5053,8 4535,7 40,8 47,8 41,1 38,6
Impostos petrolíferos 2500,4 3817,1 4102,7 3448,2 33,0 39,3 37,7 29,3
Despesas correntes 2046,2 2928,4 3184,7 3368,2 27,0 29,9 29,3 28,6
Remunerações 713,8 877,3 1031,0 1203,0 9,4 9,0 9,5 10,2
Transferências correntes 623,8 925,7 751,5 592,8 8,2 9,5 6,9 5,0
Saldo global de caixa 442,5 1002,3 724,6 30,5 5,8 10,2 6,7 0,3
FONTE: Ministério das Finanças, Relatório de Fundamentação do OGE 2013 e 2014.

Para financiar os programas de investimento optou-se por recorrer a finan-


ciamento interno e externo, dentro dos limites internacionalmente reconhecidos
como sustentáveis. As estimativas para 2013 apontam para um stock da dívida
pública total de 30540 milhões de dólares, 31,5% do qual constituída por dívida
interna.

26 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

PANORAMA DA DÍVIDA PÚBLICA DE ANGOLA (Milhões de dólares)


ANO TOTAL INTERNA EXTERNA şǀŝĚĂͬW/;йͿ
2007 15.256,0 5.334,0 9.922,0 25,7
2008 27.998,0 13.991,0 14.007,0 33,2
2009 27.406,5 12.306,5 15.100,0 36,2
2010 30.363,0 13.389,0 16.974,0 36,0
2011 31.546,6 12.233,8 19.312,8 30,3
2012 33.314,0 13.180,0 20.134,0 29,2
ϮϬϭϯ;ĞƐƟŵĂƟǀĂƐͿ 34.205,5 13.291,2 20.914,3 28,0
FONTE: Relatórios de Fundamentação do OGE do Ministério das Finanças.

Um dos grandes ganhos da gestão macroeconómica foi o controlo da inflação.


A articulação entre a Política Orçamental e a Política Monetária e as opções de
disciplina fiscal – controlo dos gastos públicos das unidades orçamentais e escolha
mais criteriosa dos projectos de investimento público – permitiu a remoção de um
dos maiores flagelos da economia nacional, com consequências indeléveis na per-
da de poder de compra dos rendimentos de mais baixa expressão, em particular
da população mais pobre.

TAXA DE INFLAÇÂO ANUAL (%)

105,59

75,56

31,03
18,53
12,21 13,17 13,99 15,32 11,38 9,65
11,78 7,69

2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

2.2 Política Fiscal

Como economia dependente do petróleo e com mercados financeiros subde-


senvolvidos, o progresso de Angola em relação aos seus objectivos de desenvolvi-
mento depende fundamentalmente da sua Política Fiscal.13 Como país pós-conflito,

13†‡’‡†²…‹ƒ†‡‰‘Žƒ‡”‡Žƒ­ ‘ƒ‘•‡…–‘”’‡–”‘ŽÀˆ‡”‘ǡ†‘“—ƒŽ…‡”…ƒ†‡ͻͷΨ†ƒ•

receitas de exportação são derivadas, é extrema, mesmo entre os países produtores de


petróleo.

| 27
CEIC / UCAN

o desafio de reconstrução é enorme, mas as restrições de capacidade ainda limitam


a eficiência dos gastos públicos, e, enquanto o sector do petróleo pode gerar recei-
tas substanciais para os cofres públicos, a volatilidade do sector de petróleo afecta
fortemente os resultados económicos (veja-se o gráfico abaixo) e apresenta riscos
significativos para a estabilidade macroeconómica e a execução da Política Fiscal.

LIGAÇÕES DO PETRÓLEO: PREÇO INTERNACIONAL E PIB ANGOLANO, 2000-13


140
120
100
80
60
40
20
0
2000 1 2 3 4 5 6 7 8 9 2010 11 12 13
PIB angolano (USD; mil milhões) Preço petróleo (USD por barril)
FONTE: World Economic Outlook (FMI; Abril 2014).

Desde o fim da guerra civil, em 2002, Angola enfrentou um ambiente externo


geralmente favorável (com preços do petróleo geralmente a subir e taxas de juros
globais a níveis historicamente baixos) e ainda beneficiou de aumentos sustentados
na produção de petróleo (com a produção a passar de menos de 1 milhão para
quase 2 milhões de barris por dia (vide o gráfico que se segue). Ao elevar Angola às
fileiras dos países de renda média,14 a benesse do sector de petróleo tem gerado re-
cursos fiscais substanciais, mas os caprichos da produção de petróleo e dos preços
do petróleo continuam a complicar a gestão macroeconómica e fiscal (como ocor-
reu durante a crise financeira mundial de 2009-10) e ainda apresentam o risco mais
forte para o desenvolvimento económico e social daqui para frente (como mostra o
gráfico “Ligações do Petróleo: Preço e Política Fiscal, 2000-13” na página seguinte).

Para ser claro, os riscos da dependência extrema no sector de petróleo não


advêm apenas da volatilidade dos preços do petróleo (que são amplamente reco-
nhecidos como mais voláteis de entre as commodities), mas também da imprevisi-
bilidade da produção de petróleo, como mais à frente se documenta.

14 ’ƒ”–‹”†‡„”‹ŽǦʹͲͳͶǡ‰‘Žƒ‡•–ž…Žƒ••‹ϐ‹…ƒ†ƒ’‡Ž‘ƒ…‘—†‹ƒŽ…‘‘—’ƒÀ•†‡
renda média alta com base no Rendimento Nacional Bruto de 2012 (Método Atlas) de $
4.580 em comparação com o nível de renda limite de 4.086 dólares (um limite recalcu-
Žƒ†‘ƒ—ƒŽ‡–‡’‡Ž‘ƒ…‘—†‹ƒŽ‡ͳ†‡ —ŽŠ‘ȌǤ

28 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

PETRÓLEO: PREÇO INTERNACIONAL E PRODUÇÃO ANGOLANA, 1960-2013


120 Periodo pós-guerra
2.000

1.800
100
1.600

Produção (’000 barris por dia)


Preço (USD por barril)

1.400
80
1.200
60 1.000
800
40
600
400
20
200
0 0
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
2006
2008
2010
2012
Preço internacional (eixo esq.) Produção angolana (eixo dir.)
FONTE: World Economic Outlook (FMI; Abril 2014), World Bank Commodity Price Data (The Pink Sheet).

LIGAÇÕES DO PETRÓLEO: PREÇO E POLÍTICA FISCAL, 2000-13


120 20
15
100
10
80
5
60 0
-5
40
-10
20
-15
0 -20
2000 1 2 3 4 5 6 7 8 9 2010 11 12 13

Preço petróleo (USD por barril; eixo esq.) ĂůĂŶĕŽ&ŝƐĐĂů;йW/͖ĞŝdžŽĚŝƌ͘Ϳ


Despesa total (% PIB; eixo esq.)
FONTE: World Economic Outlook (FMI; Abril 2014).

| 29
CEIC / UCAN

PETRÓLEO BRUTO: VARIAÇÃO NA PRODUÇÃO, 1965-2012


3.000 400

2.500 350
300
2.000 250
1.500 200

1.000 150
100
500
50
0 0
1965
1967
1969
1971
1973
1975
1977
1979
1981
1983
1985
1987
1989
1991
1993
1995
1997
1999
2001
2003
2005
2007
2009
2011
2013
Angola (eixo esq.) Guiné Equat. (eixo dir.) Argélia (eixo esq.)
Rep. do Congo (eixo dir.) Nigéria (eixo esq.) Gabão (eixo dir.)

A presente secção discute o resultado fiscal de 2013 e o orçamento fiscal para


2014 no contexto das prioridades de desenvolvimento a médio prazo e do desem-
penho de economias comparáveis. Em termos de um breve resumo:

ͻ Estima-se que a execução fiscal para 2013 tenha gerado um pequeno superavit
fiscal (em vez do défice orçamental programado), em grande parte com base
na subutilização das despesas de capital. No geral, o país está numa posição
mais forte para afastar os efeitos de um choque externo do que no início da
crise mundial de 2008-09.

ͻ As mudanças nas prioridades de gastos fiscais ao longo da última década


fornecem provas mistas de um dividendo de paz: um menor aumento no
investimento em capital humano, mas um aumento mais forte no investi-
mento em capital físico. Ainda assim, em comparação com outros países
africanos, Angola investe relativamente menos tanto em capital físico como
humano.

ͻ O orçamento para 2014, que foi aprovado pelo Parlamento Nacional em


12 de Dezembro de 2013, é expansionista e vai começar a reduzir o espa-
ço fiscal e o stock de amortecedores financeiros acumulados durante os
últimos 3 anos. Estruturalmente, o espírito dos dois últimos orçamen-
tos arriscam consolidar ainda mais a prática de uma Política Orçamental
pró-cíclica e aumentar a vulnerabilidade do país para a próxima crise do
sector de petróleo.

30 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2013: Execução Fiscal

Com condições favoráveis a nível internacional, incluindo o preço do petróleo


bruto mais alto do que programado, a economia de Angola cresceu um pouco mais
do que 5% em 2013, aproximadamente a mesma taxa de crescimento do que em
2012 (como se documenta na tabela apresentada na página 44 – Contas Fiscais,
2011-14). Nestas circunstâncias, estima-se que o défice fiscal, orçamentado em cer-
ca de 4% do PIB, se transformou num pequeno excedente de cerca de 0,5% do PIB.

Do lado da receita, estima-se que:

ͻ as receitas de petróleo estão em linha com o orçamento como um mau desem-


penho no volume de produção de petróleo (de aproximadamente 4%) a ser
compensado por um preço de petróleo bruto mais elevado do que esperado
(USD 100,5 por barril em comparação com um preço orçamentado de USD
96,0 dólares por barril);

ͻ as receitas não-petrolíferas sejam inferiores em aproximadamente 18% face ao


nível orçamentado, devido principalmente a uma taxa de crescimento inferior
da economia não-petrolífera e fraquezas continuadas na cobrança de impostos
e atrasos na aplicação da reforma fiscal. De notar que houve um mau desempe-
nho semelhante na arrecadação de receitas fiscais não-petrolíferas em 2012.15

Do lado da despesa, estima-se que:

ͻ as despesas correntes estão em linha com o orçamento, com gastos mais


altos do que orçamentados em bens e serviços compensados por gastos mais
baixos em transferências;

ͻ as despesas de capital estão cerca de 50% abaixo do orçamento, principalmente


devido a atrasos no financiamento externo, contratação e implementação. Este
mau desempenho não foi inesperado, tendo em conta as restrições de capaci-
dade e o grande aumento no orçamento na área de despesas de investimento.

Do lado do financiamento:

ͻ Internamente, as emissões de Bilhetes do Tesouro e Obrigações foram supe-


riores aos reembolsos em cerca de 150 mil milhões de kwanzas; e externa-
mente, as obrigações de dívida aumentaram em cerca de 325 mil milhões de

15 Conforme discutido num resumo de política (policy brief) publicado em Fevereiro,


2014 pelo CMI e CEIC, os esforços de reforma em matéria de impostos não-petrolíferos
estão paralisados desde o início de 2012 por causa de atrasos inesperados no lado
administrativo e legislativo.

| 31
CEIC / UCAN

kwanzas numa base líquida (com adiantamentos de empréstimos a excederem


as amortizações de empréstimos).

ͻ Nenhum progresso foi feito em termos de reembolsar os substanciais atrasos


acumulados em 2011 e 2012 (que ultrapassaram o equivalente a 4% do PIB).
É provável que estes atrasos constituam uma fonte importante de crédito
malparado do sector bancário comercial.

ͻ Com um pequeno excedente orçamental global (em regime de caixa), o Tesouro


aumentou seus depósitos, tanto no Banco Central (por alguns 437 mil milhões
de Kwanzas) como noutras instituições financeiras (por alguns 106 mil milhões
de Kwanzas).

No geral, um orçamento que prometeu um retorno a défices fiscais, pela pri-


meira vez, desde 2009 acabou por ficar equilibrado. Embora o resultado constitua
um melhor resultado do ponto de vista da estabilização macroeconómica, os gas-
tos inferiores na área de projectos de capital (o principal motivo para a ausência
de um défice fiscal) destaca a necessidade premente de investir em capacidade de
absorção antes de mais aumentos significativos em gastos de desenvolvimento.

Do lado do financiamento, os amortecedores económicos e financeiros do país


estão melhor preparados para lidar com o próximo choque externo do que no iní-
cio da crise global de 2008-09. Tanto as reservas externas como a conta corrente
estão em posições mais fortes no final de 2013 do que no final de 2007. Durante
este período, as reservas internacionais aumentaram do equivalente de 2,6 meses
de importações para cerca de 7,0 meses de importações no final de 2013; e a conta
corrente passou de um superavit de 1,8% do PIB para atingir 5,0% do PIB no final
de 2013. A dívida externa mantém-se inalterada em relação ao mesmo período de
tempo, num nível administrável de menos de 20,0% do PIB.

No entanto, existem algumas notas de cautela. Externamente, as condições


económicas globais permanecem ténues devido aos riscos geopolíticos na Europa,
Ásia e África e também às transições económicas na Europa e na China; e, a longo
prazo, as projeções do preço do petróleo têm sido mais moderadas. Internamente,
os níveis de produção de petróleo estagnaram ao longo dos últimos anos, e as
projeções de médio prazo no Plano Nacional de Desenvolvimento são igualmen-
te moderadas (com uma projeção de cerca de 1,78 milhões de barris por dia até
2017, que é aproximadamente igual à produção em 2013). Como se verá adiante,
as autoridades expressaram a intenção de rapidamente aumentar os com infra-es-
trutura e conduzir com mais força um programa de industrialização (que também
pode incluir transferências substanciais dirigidas às empresas públicas para pro-
mover a sua conversão em “clusters estratégicos”, como brevemente discutido no

32 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Plano Nacional de Desenvolvimento). Na medida em que estes planos anunciam


o retorno a défices fiscais significativos e resultam em aumentos significativos nas
importações, os amortecedores financeiros do país serão reduzidos (tanto através
da redução de reservas cambiais como do balanço da conta corrente) o que au-
mentará a vulnerabilidade a choques externos.

Além disso, parece que o fundo soberano (Fundo Soberano de Angola), está
estabelecido estritamente na forma de fundos de investimento a longo prazo que
não vão gerar liquidez de curto prazo disponíveis para fazer face a necessidades
inesperadas de financiamento orçamental. Por isso, a contribuição do capital inicial
para o fundo soberano vai mesmo reduzir o estoque de amortecedores financeiros
disponíveis para fins de estabilização das flutuações das receitas petrolíferas.

Finalmente, parece que, na ausência de uma nova fonte significativa de cresci-


mento, a economia não-petrolífera não vai voltar aos seus dias inebriantes de taxas
de crescimento real de dois dígitos como no período imediatamente a seguir ao
fim da guerra. Em vez disso, é provável que estejam esgotados os ganhos fáceis a
partir de uma nova paz e da onda inicial de investimentos em infra-estrutura e que
existe agora uma necessidade urgente de reforçar os incentivos empresariais por
intermédio de melhorias no clima de negócios (consistentes com as preocupações
manifestadas por empresários locais, como discutido abaixo). Outra opção seria
as autoridades confiarem no financiamento directo das actividades empresariais
(que também é discutido longamente no Plano Nacional de Desenvolvimento),
mas esta correria o risco de uma redução substancial nos amortecedores financei-
ros, e em qualquer caso, a intervenção directa do Governo não é susceptível a um
resultado sustentado sem melhorias complementares destinadas a promover usos
mais produtivos, tanto de capital físico como humano.

2013: Rumo dos Objectivos de Desenvolvimento Nacional – Peace Dividend

Uma década após o fim da guerra civil, Angola tem registado um grande pro-
gresso em termos de crescimento económico, incluindo a sua ascensão às fileiras
dos países de renda média. Na área do desenvolvimento socioeconómico, o pro-
gresso tem sido mais lento, como evidenciado pelas pontuações persistentemente
baixas em vários índices internacionais, como o Índice de Desenvolvimento Huma-
no do PNUD (em que Angola fica em 148 de 186 países) e o Índice de Competiti-
vidade Global do Fórum Económico Mundial (em que Angola fica em 142 de 148
países, apenas à frente do Haiti, Serra Leoa, Iémen, Burundi, Guiné e Chade).

Nesta secção avaliamos os esforços de Angola para a construção de seu stock de


capital físico e humano (dois dos principais insumos para o crescimento económico
sustentável). Em primeiro lugar, analisamos as mudanças nas prioridades de gastos

| 33
CEIC / UCAN

para o surgimento de um “dividendo da paz”. Em segundo lugar, avaliamos essas prio-


ridades de gastos à luz dos padrões de gastos em economias africanas comparáveis.

Como indicado no gráfico abaixo, o período desde o fim da guerra civil não pro-
duziu uma mudança significativa na alocação de recursos fiscais da área de defesa
e segurança para os sectores prioritários de saúde e educação.16 Na prática, a par-
ticipação dos gastos atribuídos ao sector da defesa e segurança aumentou de uma
média de 10% em 2001 e 2002, para pouco mais de 15% até 2013 – o que é clara-
mente ao contrário das expectativas de um “dividendo da paz”. Conforme relatado
pelo SIPRI, Angola é hoje “o maior gastador militar na África Subsariana”.17 Durante
o mesmo período, a participação dos gastos destinados à saúde e educação têm
aumentado ligeiramente: passando de cerca de 10% em cada um dos anos 2001
e 2002, para cerca de 13% até 2013. Dito de outra maneira, o aumento esperado
do investimento em capital humano tem sido mais gradual do que seria de esperar
para um país com recursos financeiros substanciais e com muitas necessidades de
desenvolvimento social a satisfazer.

PRIORIDADES ORÇAMENTAIS: SECTOR DA DEFESA VERSUS CAPITAL HUMANO, 2001-14

25%
Percentagem de despesa total

20%

15%

10%

5%

0%
01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

11

12

20 st.

E
OG
20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

E
13

14
20

Defesa e Segurança (% de despesa total) Educação e saúde (% de despesa total)


Tendência (Defesa e Segurança) Tendência (Educação e Saúde)

FONTE: Resumo da Despesa por Função, 2001-14 (Ministério das Finanças).

16 Esta análise baseia-se em dados orçamentais que estão mais facilmente disponíveis

na forma de alocações sectoriais do que dados de execução.


17 “... Angola, que se tornou o segundo maior gastador militar em África – e o maior da Áfri-

ca Subsariana – em 2013, com um aumento de 36% em 2013 (e 175% desde 2004), para
…Š‡‰ƒ”ƒ͸ǡͳ„‹ŽŠÙ‡•Ǥ•–ƒ±ƒ’”‹‡‹”ƒ˜‡œ“—‡‘•‰ƒ•–‘•†‡‰‘Žƒ—Ž–”ƒ’ƒ••ƒ”ƒ‘•
†ƒˆ”‹…ƒ†‘—Žǡ“—‡‰ƒ•–‘—Ͷǡͳ„‹ŽŠÙ‡•‡ʹͲͳ͵ǡ—ƒ—‡–‘†‡ͳ͹Ψ†‡•†‡ʹͲͲͶǤ
‰‘Žƒ‡”‰±Ž‹ƒƒ„‘•–²ƒ‰‘”ƒ‡…ƒ”‰‘•‹Ž‹–ƒ”‡•†‡ͶǡͺΨ†‘ ǡ‘ƒ‹•‡Ž‡˜ƒ†‘‡
ˆ”‹…ƒ’ƒ”ƒ‘•’ƒÀ•‡•…‘†ƒ†‘•”‡…‡–‡•†‹•’‘À˜‡‹•Ǥdzȋ ‘ŽŠƒ†‡  ǡ„”‹Ž†‡ʹͲͳͶȌǤ

34 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Além disso, referenciado contra economias africanas comparáveis e contra a mé-


dia da África Subsariana, o investimento de Angola em capital humano ao longo da
última década também parece menor do que o esperado: como se vê no gráfico se-
guinte, o nível dos gastos públicos alocados à saúde e educação em Angola é inferior
a 6% do PIB, enquanto a média da Africa Subsariana é acima de 6% do PIB com as
economias africanas comparáveis a gastarem entre 8% a 12% do PIB na área de saúde
e educação. Parte da explicação decorre claramente do aumento sustentado (e ines-
perado) na alocação de defesa e segurança em Angola durante o período 2001-13.

CAPITAL HUMANO NA ÁFRICA SUBSARIANA, 2001-14


14%
12%
Percentagem do PIB

10%
8%
6%
4%
2%
0%
01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

11
20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

20
África do Sul Cabo Verde Angola
Gana Namíbia África Subsariana
FONTE: World Development Indicators, (Banco Mundial 2013).

CAPITAL FÍSICO NA ÁFRICA SUBSARIANA, 1990-2011


Formação Bruta de Capital, total Formação Bruta de Capital, sector privado
45
40
Percentagem de PIB

35
30
25
20
15
10
5
0
ar ica

ar ica
la

ia

Su Á l

na

ia

Su Á l
e
na

e
na

na
Su

Su
an

l
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Ga

Ga
bs fr

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ia

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Ve

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do

do
m

m
w

w
An

An
ts

ts
Na

Na
bo

bo
a

a
Bo

Bo
ric

ric
Ca

Ca
Áf

Áf

1990-2011 2001-05 2006-11


FONTE: Africa Development Indicators, (Banco Mundial, Dezembro 2013).

| 35
CEIC / UCAN

Uma segunda forma em que um dividendo de paz geralmente aparece é na


forma de um maior investimento em capital físico, com uma mudança nas priori-
dades de gastos que tende a reduzir despesas correntes e a aumentar despesas de
capital. No geral, o gráfico abaixo confirma que as despesas correntes continuam a
dominar a estrutura dos gastos fiscais em Angola, com a participação das despesas
correntes a rondar os ¾ do total das despesas (incluindo pagamentos de juros) até
ao final de 2013. Cerca de metade das despesas correntes são para a aquisição de
bens e serviços e transferências; com o volume das transferências a tomarem a
forma de subsídios (incluindo transferências para as empresas estatais), que são
notavelmente ineficientes em termos de segmentar os necessitados ou construir
uma abrangente rede de segurança social.18

PRIORIDADES ORÇAMENTAIS: DESPESAS CORRENTES VERSUS DESPESAS DE CAPITAL, 2001-14


100%
Percentagem de despesa total

90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

11

12

t.

d.
Es

Bu
20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

20
13

14
20

20

Capital Corrente Tendência (Capital) Tendência (Corrente)


FONTE: Relatório de Fundamentação do OGE, 2001-14 (Ministério das Finanças).

No entanto, o gráfico acima mostra também uma mudança nos gastos priori-
tários a partir de 2006. As despesas correntes ficaram na média dos 85% do total
das despesas ao longo do período 2001-05, mas apenas 73% no período 2006-13.
Nos mesmos subperíodos, a participação das despesas de capital quase dobrou,
passando de 15% para 27% do total das despesas. Portanto, durante o período
que se iniciou quatro anos após o fim da guerra civil, Angola tem experimentado

18‘”‡š‡’Ž‘ǡ…‘ˆ‘”‡‘„•‡”˜ƒ†‘‘Dz‰‘ŽƒȂ…–—ƒŽ‹œƒ­ ‘…‘×‹…ƒǡ —Š‘†‡

2013” do Banco Mundial (2012): “O custo dos subsídios a combustíveis em Angola


é estimado como o mais alto em SSA, estimado em cerca de 5% do PIB em 2012,
equivalente a metade de todos os gastos de capital. O programa de subsídio a com-
„—•–À˜‡‹•±„ƒ•‡ƒ†‘‡’ƒ”–‡‡‘„Œ‡…–‹˜‘•†‡„‡Ǧ‡•–ƒ”•‘…‹ƒŽǡƒ•ƒ‡š’‡”‹²…‹ƒ
internacional sugere que apenas uma pequena fracção desses subsídios atinge os
pobres.”

36 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

um dividendo de paz significativo na forma de um aumento do investimento em


capital físico. Referenciada com um grupo de economias africanas comparáveis e
também à média para a África Subsariana, Angola tem um fraco desempenho em
termos de investimento em capital físico, quando consideramos o efeito combi-
nado do sector privado e público; mas, surpreendentemente, a razão para o mau
desempenho sustentado ao longo do período 2006-11 decorre do desempenho re-
lativamente fraco em termos de contribuição do sector privado. Além disso, o mau
desempenho de Angola em termos de investimento do sector privado foi maior no
período 2006-11 do que no período 2001-05. Em termos de investimento público
em capital físico, Angola (com 6,2% do PIB) superou ligeiramente a média da África
Subsariana (com 5,1%) ao longo do período 2001-05 e fortemente superou (11,6%
versus 7,1%) em relação ao período 2006-11.

Significativamente, enquanto a necessidade de uma melhor infra-estrutura pa-


rece óbvio no terreno, o último inquérito realizado pelo Fórum Económico Mundial
indica que os empresários não consideram a pobreza da infra-estrutura como a
sua principal preocupação. Em vez disso, as pesquisas identificam quatro outras
preocupações à frente da qualidade das infra-estruturas, ou seja, a corrupção, a
falta de trabalhadores adequadamente treinados, a ineficiente burocracia gover-
namental e o acesso ao financiamento. Isto é consistente com um dos resultados
do Ease of Doing Business Index, segundo a qual uma das dimensões com classi-
ficação mais baixa para Angola foi «iniciar um negócio», uma confirmação que a
promoção do desenvolvimento não-petrolífero privado também precisa de um im-
pulso de reformas estruturais para garantir que os investimentos em capital físico e
humano sejam produtivamente utilizados.19 Estas preocupações são consistentes
com a observação que os países que registam progresso sustentado no desenvolvi-
mento econômico e social melhoram em várias dimensões, incluindo a qualidade
institucional, governação, ambiente de negócios e níveis de educação, bem como
a qualidade da infra-estrutura física.

Orçamento Fiscal: 2014

O orçamento para 2014, que foi aprovado pelo Parlamento Nacional em 12


de Dezembro de 2013, é expansionista. Ao projectar um aumento significativo de
subsídios e despesas de capital (com cada item a aumentar à volta dos 50% em
comparação com os resultados de 2013), o orçamento tem como alvo um défice

19 Doing Business”‡‰‹•–ƒ–‘†‘•‘•’”‘…‡†‹‡–‘•‡š‹‰‹†‘•‘ϐ‹…‹ƒŽ‡–‡ǡ‘—…‘—‡–‡

feito na prática, para um empresário iniciar e operar formalmente uma empresa indus-
trial ou comercial, bem como o tempo e os custos para concluir esses procedimentos e o
mínimo capital integralizado. (Starting a Business Methodology , como acedida em 30 de
Abril de 2014 no Š––’ǣȀȀ™™™Ǥ†‘‹‰„—•‹‡••Ǥ‘”‰Ȁ‡–Š‘†‘Ž‘‰›Ȁ•–ƒ”–‹‰ǦƒǦ„—•‹‡•• ).

| 37
CEIC / UCAN

global de cerca de 5% do PIB (vide tabela na página 44). Embora a projecção do


défice esteja perto do orçamento de 2013 (o que na prática se transformou em um
pequeno excedente), os riscos de uma surpresa desvantajosa em 2014 são exacer-
bados por dois pressupostos agressivos do lado da receita:
1. O alvo sobre a receita não-petrolífera parece excessivamente ambicioso,
dada a previsão optimista para o crescimento do sector não-petrolífero e
os atrasos em curso na reforma tributária não-petrolífera (como anterior-
mente mencionado).
2. O preço do petróleo orçamentado (nos EUA USD 98 por barril) está muito
perto das previsões de mercado, o que não deixa espaço para riscos des-
cendentes sobre a meta de receita do petróleo.20

Do lado da despesa, a diminuição projectada na área de transferências sociais


(de 172 mil milhões de kwanzas em 2013 para o montante previsto de 102 mil
milhões de kwanzas no orçamento de 2014), ao mesmo tempo que os subsídios
aumentam em mais de 50% parece incongruente com as necessidades sociais (e
até mesmo com declarações do Governo sobre a necessidade de uma forte rede
de segurança social).

Como análise de sensibilidade, pode-se considerar que, ceteris paribus: (i) se


a cobrança das receitas não-petrolíferas segue mais de perto o resultado de 2013,
o défice projectado agravaria por 1,2% do PIB; e (ii) se as transferências sociais
atingirem o nível de 1,4% do PIB como na média dos últimos três anos, o défice
projectado agravaria em mais 0,7% do PIB. A combinação destas duas mudanças
deixaria o défice global em 6,8% do PIB e o défice primário não petrolífero em
49,1% do PIB não petrolífero.21

20’”ž–‹…ƒ†‡—•ƒ”’”‘Œ‡……Ù‡•…‘•‡”˜ƒ†‘”ƒ•’ƒ”ƒ‘’”‡­‘†‘’‡–”׎‡‘’ƒ”ƒϐ‹•†ƒ’”‡-

paração do orçamento parece ter sido abandonada com o orçamento de 2013 e de ter
coincidido com a adopção do cenário macroeconómico fornecido pelo Plano Nacional
de Desenvolvimento.
21 Se a taxa de crescimento real do PIB não-petrolífero em 2014 (que é projectada em
9,9%) permanece no mesmo nível que em 2013 (6,5%) e um pouco abaixo da média
para 2010-12 (7,5%), e se a receitas não-petrolíferas como percentagem do PIB
 ‘Ǧ’‡–”‘ŽÀˆ‡”‘ȋ“—‡‡•–ž’”‘Œ‡…–ƒ†‘‡ͳͶǡͷΨȌƒ–²Ǧ•‡…‘‘‡ʹͲͳ͵ȋͳ͵ǡ͵ΨȌ‡
essencialmente como a média de 2010-12 (13,4%), então: (i) a receita não-petrolífera
•‡”ž‡‘”’‘”ͳ͵ͷ‹Ž‹ŽŠÙ‡•†‡™ƒœƒ•Ǣȋ‹‹Ȍ‘†±ϐ‹…‡ϐ‹•…ƒŽ˜ƒ‹’‹‘”ƒ”ƒ’ƒ”–‹”†‡
ͶǡͻΨȋ‘”­ƒ†‘Ȍ’ƒ”ƒ͸ǡͳΨ†‘ Ǣ‡ȋ‹‹‹Ȍ‘†±ϐ‹…‡’”‹ž”‹‘ ‘Ǧ’‡–”‘ŽÀˆ‡”‘˜ƒ‹’‹‘”ƒ”†‡
ͶͷǡͳΨȋ‘”­ƒ†‘Ȍ’ƒ”ƒͶͺǡͳΨ†‘  ‘Ǧ’‡–”‘ŽÀˆ‡”‘Ǥ‡ǡƒŽ±†‹••‘ǡƒ•–”ƒ•ˆ‡”²…‹ƒ••‘-
…‹ƒ‹•ƒ—‡–ƒ”‡ƒ’ƒ”–‹”†‘À˜‡Ž’”‘Œ‡…–ƒ†‘†‡ͳͲʹ’ƒ”ƒͳͺ͹‹Ž‹ŽŠÙ‡•†‡™ƒœƒ•
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38 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Como discutido anteriormente, Angola tem actualmente suficientes amortece-


dores financeiros (em virtude do baixo endividamento, superavit na conta corren-
te e níveis de reservas internacionais historicamente elevados) para acomodar o
aumento previsto das despesas de capital em 2014, a menos que haja uma queda
significativa (e sustentada) no preço do petróleo bruto. No entanto, o superavit
na conta corrente já está a diminuir e pode facilmente tornar-se um défice nos
próximos dois anos com as importações mais elevadas por causa do aumento nos
gastos com infra-estrutura. Além disso, ao longo dos dois últimos anos, o Tesouro
já acumulou dívidas internas significativas que estão a começar a afectar os níveis
de dívidas incobráveis no sistema bancário.

Mais importante ainda, o espírito dos dois últimos orçamentos corre o risco de
entrincheirar ainda mais a tendência pré-2009 no sentido de uma Política Fiscal
pró-cíclica (o que contraria o papel crucial da política de estabilização fiscal). Embo-
ra as prioridades políticas e sociais poderem levar a um esforço para aumentar os
níveis já elevados de investimento em infra-estrutura e um desenvolvimento mais
rápido do sector não-petrolífero, há limites obrigatórios para a estratégia de atirar
simplesmente recursos financeiros ao problema. Com o alto nível de dependência
do sector petrolífero em Angola, mesmo uma pequena diminuição dos preços do
petróleo conduzirá a uma queda substancial nas receitas fiscais. Na ausência de
um stock de activos financeiros (líquidos) ou com acesso restrito aos mercados
de crédito, as necessidades de financiamento não satisfeitas vão necessariamente
forçar uma redução acentuada (e caótica) nos níveis de gastos fiscais – por ou-
tras palavras, a falta de amortecedores financeiros impediria a Política Fiscal de
desempenhar um papel eficaz de estabilização com mudanças nos gastos seguir
os movimentos da receita fiscal e PIB. A curto prazo, estes ajustes fiscais pró-cí-
clicos tipicamente tomam a forma de redução de transferências (prejudicando os
pobres) ou cortes em projetos de capital (prejudicando o crescimento de longo
prazo). Estudos recentes do FMI confirmam que os países produtores de petróleo,
incluindo Angola, tendem a ter políticas fiscais pró-cíclicas e de enfrentar um au-
mento substancial das necessidades de financiamento, mesmo com um pequeno
decréscimo nos preços do petróleo.22

Estruturalmente, há uma necessidade premente de continuar a aumentar a


qualidade e a eficiência dos gastos públicos, reforçando a capacidade de prepara-
ção dos orçamentos fiscais e a avaliação da sua execução. Nesta área, as reformas

22Respostas de Política Fiscal de Países Produtores de Petróleo para o Recente Ciclo


do Preço do Petróleo, ’‘” ƒ—”À…‹‘ ‹ŽŽƒˆ—‡”–‡ ‡ ƒ„Ž‘ ‘’‡œǦ—”’Š› ȋ‘…—‡–‘
†‡ ”ƒ„ƒŽŠ‘ †‘   ͳͲǦʹͺȌǢ ‡ A Política Fiscal é Procíclica nos Países Produtores
de Petróleo em Desenvolvimento?,’‘”‡•‡”„‹Žȋ‘…—‡–‘†‡”ƒ„ƒŽŠ‘†‘  ǡ
11-171).

| 39
CEIC / UCAN

orçamentais emergentes, incluindo o uso do documento de planeamento recen-


temente elaborado pelo Ministério do Planeamento e Desenvolvimento Territorial
(conhecido como o Plano de Desenvolvimento 2013-2017), prometem mais rigor,
transparência e responsabilidade na preparação e implementação do orçamento,
o que ajudará a proteger contra a volatilidade dos preços do petróleo. Ao mesmo
tempo, os esforços em curso para a geração de um conjunto coordenado de planos
de desenvolvimento e planos sectoriais23 estão a começar a melhorar as funções
de planeamento, mas precisam de ser reforçados com realização consistente, bem
como uma maior transparência e participação pública. Esses esforços devem tam-
bém ser complementados por relatórios de execução rigorosos e avaliações de
custo-benefício. Correntemente, por exemplo, dados de séries temporais sobre a
execução fiscal por função não estão devidamente disponíveis, e o acompanha-
mento plurianual e avaliação de programas e projectos específicos de investimen-
to também não são acessíveis. Relatórios reforçados e disponibilidade de dados irá
melhorar a qualidade de selecção de projectos bem como a sua implementação, e
ao fim, aumentar a eficiência dos gastos públicos.

Dado os desafios que se manifestam com altos níveis de dependência das re-
ceitas do petróleo, a Política Fiscal de médio prazo deve ser orientada por:
1. A adopção de um quadro fiscal transparente de médio prazo que pode ancorar
as decisões de gastos em face da volatilidade do preço do petróleo e fixar
uma trajectória para o balanço primário não-petrolífero, que estabeleceria
amortecedores fiscais e refletiria restrições de financiamento e de absorção.
No imediato, isto inclui orientar a composição das despesas públicas para
aumentar as despesas de capital e reduzir as despesas correntes de uma
maneira que não desestabilize as finanças públicas. A médio prazo, isto inclui
atingir um equilíbrio entre o investimento em esforços de desenvolvimento
imediato e em activos financeiros.
2. A necessidade de aliviar as restrições de absorção, investindo nas funções
de planeamento e monitoramento. Isso inclui monitoramento de despesas

23 Incluindo documentos orientadores, tais como (i) Plano Nacional de Desenvolvi-


mento 2013-2017, e (ii) Estratégia Nacional – Angola 2025, juntamente com alguns
documentos de implementação, tais como (i) Estratégia Nacional de Desenvolvimento
de Recursos Humanos, e (ii) Plano de Médio Prazo (Ministério da Indústria) de/para
2009-13. Esses documentos incluem tipicamente listas de objectivos e indicadores de
medida, mas eles não são estritamente derivados de estratégias sectoriais e programas
de investimento plurianuais nem eles obrigam a preparação ou publicação de relatórios
regulares sobre a implementação. Além disso, a participação do público na preparação
desses documentos de planeamento é limitada, se existente, e também não existem es-
tudos de base publicados para informar a concepção e gestão dos programas de inves-
timento seleccionados.

40 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

e elaboração de relatórios sobre o desempenho para avaliar o impacto das


despesas. Sequenciamento cuidadoso dos investimentos públicos em todos
os sectores é fundamental para minimizar os custos de alcançar as metas
de desenvolvimento e grande adiantamento de projectos inevitavelmente
confronta as restrições actuais de absorção.

Variabilidade na produção de petróleo


Os preços do petróleo bruto são notoriamente voláteis, conforme amplamente
discutido na literatura,24 mas verifica-se que há também uma variação substancial
nos níveis de produção a nível de cada país. As fontes da volatilidade de preços
surgem não apenas de eventos imprevisíveis, tais como distúrbios macroeconó-
micos e políticos bem como mecanismos de feedback (com, por exemplo, os picos
dos preços do petróleo observados em 1973, 1980, 1991, 2001 e 2007 contribuin-
do de alguma forma para as recessões económicas de 1973-4, 1980-81, 1991-92,
2001-2003 e 2007-08 e a relacionada desaceleração de consumo de petróleo), mas
também a variação nos níveis de produção.
Como um caso em questão, o registo histórico da produção de petróleo em
Angola apresenta variação significativa no nível de produção de petróleo. Como
mostrado no gráfico da página 30, o país recentemente passou por um período
inesperado de estagnação na produção de petróleo. Apesar das previsões opti-
mistas de Angola rapidamente ultrapassar a marca dos 2 milhões de barris por
dia, uma vez que atingiu 1,9 milhões em 2008, a produção, desde então caiu para
abaixo de 1,8 milhões de barris por dia, uma queda de cerca de USD 2 biliões por
ano em receitas fiscais . A tabela da página seguinte confirma o grau de variabi-
lidade de ano para ano na produção nacional, incluindo períodos sustentados de
desaceleração dos níveis de produção que ocorrem mesmo em países com uma
história de produção de petróleo mais longa do que Angola. Como confirmado
na tabela, os preços reais do petróleo (em 2012 USD) foram relativamente mais
variáveis do que os níveis de produção ao longo do período 2000-12, mas alguns
países, incluindo Angola, ainda exibiram variações substanciais na produção anual.

24‡”ǡ’‘”‡š‡’Ž‘ǣ ‡‹ˆ‡”ǡ‹…Šƒ”†‡ƒ†ƒŽ‹‘•Š‹–ƒǡAs Diferenças entre as Com-

modities na Variabilidade do Preço Real’’ The Journal of Agricultural Economics Re-


searchͶͷȋ͵ȌȋͳͻͻͶȌǣͳͲǦʹͲǤǢ‡ƒ‹•”‡…‡–‡‡–‡ǡ›ƒœǤ‘Ž‡†‹ƒǡ‡””›Ǥ‘‡
‡ƒ–Š‡™Šƒ‡ǤDzMedir a Volatilidade dos Preços das Commodities e as Consequên-
cias para o Bem-estar de Eliminar a VolatilidadedzǤ ‘…—‡–‘ †‡ ”ƒ„ƒŽŠ‘ǡ 
/ ERS e do Centro de Desenvolvimento Econômico, da Universidade de Minnesota
(2003).

| 41
CEIC / UCAN

sZ//>/K^WZK^KWdZM>KWZKhKKW1^͕ϮϬϬϬͳϭϮ
Produção Anual (‘000 barris por dia)
Média Desvio Padrão ŽĞĮĐŝĞŶƚĞĚĞsĂƌŝĂĕĆŽ
Argélia 1787 163 0.09
Angola 1381 433 0.31
República do Congo 251 30 0,12
Guiné Equatorial 282 69 0,25
Gabão 256 13 0,05
Nigéria 2312 143 0.06
Os preços do petróleo (2012 USD) 67.78 28.71 0,42

Fonte: BP Statistical Review of World Energy, Junho 2013; cálculos próprios.

Previsões do preço do petróleo no longo prazo

A médio e longo prazo há razões substantivas para esperar que os aumentos


nos preços do petróleo serão relativamente contidos, incluindo:
1. Preocupações relativas às alterações climáticas e a possibilidade de taxas
de carbono e regulamentação mais rigorosa das emissões.
2. Aumentos contínuos na produção de óleo de xisto com tecnologias novas
consistentemente a desbloquear fontes e tipos de recursos anteriormente
não considerados recuperáveis.
3. Melhorias no nível de eficiência energética.

No seu Oil Market Outlook 2012, a Agência Internacional de Energia (AIE) pre-
via que, até 2035, os preços do petróleo chegariam a USD 145 por barril. No en-
tanto, o relatório de Medium Term Oil Market 2013 da AIE prevê que os preços em
2035 só cheguem a USD 128 por barril, mesmo sem levar em conta o potencial
adicional para a produção substancial de óleo de xisto de outras regiões do que os
EUA. Já está previsto que os EUA se vão tornar o maior produtor mundial de petró-
leo em 2016 e os preços do gás nos EUA são mais do que 1/3 inferiores aos preços
na Europa, e portanto outras regiões estão agora a começar a explorar vantagens
similares.

O impacto fiscal da crise financeira global de 2008

Os orçamentos para 2006 e 2007 projectaram aumentos substanciais nos gas-


tos, principalmente por meio duma rápida ampliação de projectos de infra-estru-
tura, com défices fiscais (base de compromisso) a atingir, na média, 5% do PIB. A
execução destes dois anos foi marcada por receitas de petróleo substancialmente

42 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

superiores às projeções (devido, principalmente, ao uso, na elaboração do orça-


mento, de estimativas muito conservadoras para o preço do petróleo) e uma su-
butilização importante nas fasquias destinadas a projectos de infra-estrutura. Para
ambos anos, o equilíbrio fiscal acabou por ser bastante positivo (por uma média
superior a 7% do PIB).

Neste contexto de desempenho fiscal a exceder substancialmente as projec-


ções, o orçamento de 2008 foi ainda mais expansionista do que os dois orçamen-
tos anteriores, com uma ampliação adicional e substancial de despesas de capital.
Com receitas do petróleo novamente baseadas numa projecção conservadora do
preço do petróleo (USD 55 por barril em comparação ao preço real de USD 70 em
2007), o orçamento de 2008 projectava um défice fiscal (base de compromisso) de
8,6% do PIB. A execução foi novamente marcada por preços do petróleo superiores
às projecções, mas por uma margem menor do que nos dois anos anteriores e por
gastos de capital apenas ligeiramente inferiores do que o valor orçamentado. Mes-
mo que os resultados tenham voltado a um desempenho a exceder as projecções
o equilíbrio fiscal foi um défice de 4,5% do PIB.

Então veio 2009. O orçamento para este ano foi construído de uma forma
semelhante à de 2008. No rescaldo da crise financeira global, o preço do petró-
leo caiu para uma média em 2009 de apenas USD 61 por barril (ainda superior à
projecção orçamentária de EUA USD 55 por barril), mas volumes de exportação
mais baixos, mais do que eliminaram o efeito do aumento de preços (com a pro-
dução caindo para 660,0 milhões de barris contra uma projecção do orçamento
de 710,6 milhões de barris). Para 2009, as receitas do petróleo recebidos pelo
Tesouro atingiram pouco mais de 75% do valor orçamentado (1.449 mil milhões
de kwanzas em vez dos orçamentados 1.861 mil milhões de kwanzas); e nem
mesmo uma taxa de execução sobre os gastos de capital de apenas 50% con-
seguiu evitar que o défice orçamental atingisse 7,4% do PIB. Como resultado,
as reservas financeiras de Angola ficaram desgastadas e o FMI foi chamado no
último trimestre de 2009.

Com a ajuda do FMI, a ordem financeira foi restaurada: superavits fiscais atin-
giram uma média de 7,5% do PIB em 2010-12 e os amortecedores financeiros,
incluindo as reservas externas, foram reconstruídos.

| 43
CEIC / UCAN

KEd^&/^/^͕ϮϬϭϭͳϭϰ
2012 2013 Mudança
2011 ϮϬϭϰ
Mil milhões de Kwanzas
Exec. OGE Exec. OGE Exec. OGE (2013 Est. ;ϮϬϭϰK'
2013 OGE) 2013 Est.)
Receitas ϰ͘ϳϳϲ ϯ͘ϳϲϭ ϱ͘Ϭϱϰ ϰ͘ϱϳϭ ϰ͘ϱϯϲ ϰ͘ϳϰϱ -0.8% ϰ͘ϲй
Impostos 4.528 3.564 4.826 4.401 4.365 4.540 -0.8% 4.0%
Petrolíferos 3.817 2.560 4.103 3.282 3.448 3.313 5.1% -3.9%
Não-petrolíferos 711 1.004 723 1.119 917 1.227 -18.1% 33.9%
Outras 248 196 228 170 171 205 0.9% 19.8%
Despesas ϯ͘ϳϳϱ 3.501 ϰ͘ϯϮϵ 5.021 ϰ͘ϱϬϱ ϱ͘ϯϳϱ -10.3% ϭϵ͘ϯй
Correntes 2.928 2.578 3.185 3.341 3.368 3.674 0.8% 9.1%
Remuneração dos empregados 877 1.061 1.031 1.296 1.203 1.369 -7.2% 13.8%
Bens e serviços 1.031 850 1.297 1.156 1.480 1.431 28.1% -3.3%
Juros 95 111 106 65 93 128 42.9% 37.8%
Transferências correntes 926 557 752 824 593 746 -28.1% 25.9%
das quais: subsídios 766 383 548 577 353 537 -38.8% 52.0%
Capital 846 922 1.145 1.680 1.137 1.701 -32.3% 49.6%
Saldo corrente ϭ͘ϴϰϳ 1.182 ϭ͘ϴϲϵ 1.230 ϭ͘ϭϲϴ ϭ͘Ϭϳϭ -5.1% -8.3%
Saldo global (compromisso) 1.001 ϮϲϬ ϳϮϱ ͲϰϱϬ 31 ͲϲϯϬ ͲϭϬϲ͘ϴй ͲϮϭϲϲ͘ϵй
Variação de atrasados 152 0 Ϯϴϵ 0 -18 0 – –
Saldo global (caixa) 1.153 ϮϲϬ ϭ͘Ϭϭϰ ͲϰϱϬ 12 ͲϲϯϬ ͲϭϬϮ͘ϳй ͲϱϮϲϳ͘Ϯй
Financiamento líquido -1.153 ͲϮϲϬ Ͳϭ͘Ϭϭϰ ϰϱϭ -12 ϲϯϬ ͲϭϬϮ͘ϳй ͲϱϮϲϳ͘Ϯй
Financiamento interno (líquido) -1.204 -324 -1.232 -145 -337 -103 131.7% -69.5%
Financiamento externo (líquido) 51 64 218 596 325 733 -45.5% 125.8%
Memo:
Despesas de capital (% do PIB) 8.7 9.5 10.5 14.1 9.7 13.3 -31.3% 37.3%
Saldo primário não-petrolífero -2.475 -2.010 -3.272 -3.667 -3.325 -3.816 -9.3% 14.8%
Produto Interno Bruto (nominal) 9.780 9.753 10.876 11.951 11.764 12.823 -1.6% 9.0%
do qual: não-petrolífero 5.895 6.060 5.895 7.342 6.913 8.461 -5.8% 22.4%
Exportações de petróleo 606 673 632 674 648 655 -3.8% 1.0%
(milhões de barris)
Preço médio do petróleo 110.1 77.0 111.6 96.0 100.5 98.0 4.7% -2.5%
(USD por barril)
Taxa real de crescimento 3.4 11.4 5.3 7.1 5.1 8.8 -28.2% 72.5%
do PIB (%)
FONTE: Relatórios do Ministério das Finanças.

2.3 O Programa Executivo para a Reforma Tributária (PERT)

O PERT é um organismo público especializado e temporário liderado pela Secre-


ƚĂƌŝĂĚĞƐƚĂĚŽƉĂƌĂĂƐ&ŝŶĂŶĕĂƐĞĐŽŶƚĂĐŽŵŽĂƉŽŝŽĚĂhŶŝĚĂĚĞdĠĐŶŝĐĂdžĞĐƵƟǀĂ
para a Reforma Tributária (UTERT), que funciona no Ministério das Finanças e que
ĂƌƟĐƵůĂĐŽŵŽƐDŝŶŝƐƚĠƌŝŽƐĚĂ:ƵƐƟĕĂ͕ĚĂĐŽŶŽŵŝĂ͕ĚŵŝŶŝƐƚƌĂĕĆŽWƷďůŝĐĂdƌĂďĂ-
ůŚŽĞ^ĞŐƵƌĂŶĕĂ^ŽĐŝĂůĞŽƵƚƌŽƐDŝŶŝƐƚĠƌŝŽƐĞŵĚĞƚĞƌŵŝŶĂĚĂƐŵĂƚĠƌŝĂƐĞƐƉĞĐşĮĐĂƐ͕
ĞƋƵĞƚĞŵĐŽŵŽďũĞĐƟǀŽƉƌŝŶĐŝƉĂůŽĚĞĐŽŶĚƵnjŝƌĞĚŝŶĂŵŝnjĂƌĂŝŵƉůĞŵĞŶƚĂĕĆŽĚĂ
ƌĞĨŽƌŵĂƚƌŝďƵƚĄƌŝĂĚŽƐĞĐƚŽƌŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞƌŽĞŵŶŐŽůĂ͘

2.3.1 Situação actual da reforma

ŵϮϬϭϭŽWZdƌĞĂůŝnjŽƵƵŵĂƐĠƌŝĞĚĞĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐ;ĂĂůƚĞƌĂĕĆŽĚŽƉĂĐŽƚĞƉƌĞ-
ĚŝĂů͕Ž/ŵƉŽƐƚŽWƌĞĚŝĂůhƌďĂŶŽ͖ĂƉƌŽǀĂĕĆŽĚŽZĞŐŝŵĞ^ŝŵƉůŝĮĐĂĚŽĚĂƐdžĞĐƵĕƁĞƐ

44 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

&ŝƐĐĂŝƐͿ ƋƵĞ ƉƌŽĚƵnjŝƌĂŵ ƌĞƐƵůƚĂĚŽƐ ƐŝŐŶŝĮĐĂƟǀŽƐ Ğ ƋƵĞ ĞǀŝĚĞŶĐŝĂƌĂŵ Ƶŵ ĂƉŽŝŽ


ƉŽůşƟĐŽĨŽƌƚĞĚĂůŝĚĞƌĂŶĕĂƉŽůşƟĐĂĚŽƉĂşƐĂŽƉƌŽĐĞƐƐŽĚĂƌĞĨŽƌŵĂ25. Mas infeliz-
ŵĞŶƚĞ͕ĂƉĞƐĂƌĚĞƚŽĚŽƐŽƐĞƐĨŽƌĕŽƐĞĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐƌĞĂůŝnjĂĚŽƐĞŵϮϬϭϯ͕ĂƌĞĨŽƌŵĂ
tributária sofreu uma série de atrasos (em especial no que diz respeito à reforma
ůĞŐŝƐůĂƟǀĂͿ͘

KŵĂŝŽƌƉƌŽďůĞŵĂĞƐƚĄƌĞůĂĐŝŽŶĂĚŽĐŽŵĂĂƉƌŽǀĂĕĆŽĚŽƉĂĐŽƚĞůĞŐŝƐůĂƟǀŽĐŽŵ-
posto por três códigos transversais (o Código Geral Tributário, o Código do Proces-
so Tributário e o Código das Execuções Fiscais), o Imposto Industrial (II) e o Imposto
de Rendimento do Trabalho (IRT). O pacote foi apresentado pela primeira vez em
Outubro de 2011 ao Conselho de Ministros, que o aprovou e indicou que deveria
ƐĞƌƐƵďŵĞƟĚŽăƐƐĞŵďůĞŝĂEĂĐŝŽŶĂůƉĂƌĂĚŝƐĐƵƐƐĆŽĞĂƉƌŽǀĂĕĆŽŶŽŵĞƐŵŽĂŶŽ͘
/ƐƚŽůĞǀŽƵĂĞdžƉĞĐƚĂƟǀĂĚĞƋƵĞĞŶƚƌĂƐƐĞŵĞŵǀŝŐŽƌŶŽĚŝĂϭĚĞ:ĂŶĞŝƌŽĚĞϮϬϭϮĞ͕
por alguma razão, tal não aconteceu.

K ƉĂĐŽƚĞ ĨŽŝ ƐƵďŵĞƟĚŽ ŶŽǀĂŵĞŶƚĞ ĂŽ ŽŶƐĞůŚŽ ĚĞ DŝŶŝƐƚƌŽƐ Ğŵ :ƵŶŚŽ ĚĞ
ϮϬϭϯĞĞŵEŽǀĞŵďƌŽĚĞϮϬϭϯĨŽŝ ĮŶĂůŵĞŶƚĞƐƵďŵĞƟĚŽ ăƐƐĞŵďůĞŝĂ EĂĐŝŽŶĂů
onde, até ao segundo trimestre de 2014, ainda estava sendo analisado na especia-
ůŝĚĂĚĞ͘EĆŽĞƐƚĄĐůĂƌŽŽƋƵĞĐĂƵƐŽƵĞƐƐĞƐŝŐŶŝĮĐĂƟǀŽĂƚƌĂƐŽĞƋƵĂůĨŽŝĂƌĂnjĆŽƉĞůĂ
qual os códigos não foram enviados à Assembleia Nacional em 2011.

Uma das razões que poderia explicar o atraso na aprovação dos códigos e a
ƌĞĚƵĕĆŽĚŽĂƉŽŝŽƉŽůşƟĐŽăƌĞĨŽƌŵĂĠĂŝŶƋƵŝĞƚĂĕĆŽĐŽŵŽŝŵƉĂĐƚŽƋƵĞĂŶŽǀĂ
legislação poderia ter sobre o crescimento económico. Há preocupações de que
a reforma tributária poderia impor no curto prazo limitações ao crescimento do
PIB, tendo em conta os custos de transacções que as empresas irão incorrer no
processo de se adaptar ao novo regime e ao reforço na cobrança dos impostos.
,ĄŝŶĚŝĐĂĕƁĞƐƋƵĞĂƉƌŝŽƌŝĚĂĚĞĚŽdžĞĐƵƟǀŽŶĞƐƚĞŵŽŵĞŶƚŽĠĂĚĞĂƵŵĞŶƚĂƌ
as taxas de crescimento económico através do aumento da taxa de execução do
ŝŶǀĞƐƟŵĞŶƚŽƉƷďůŝĐŽƋƵĞ͕ĚĞƐĚĞŚĄĂůŐƵŶƐĂŶŽƐ͕ĞƐƚĄĂďĂŝdžŽĚŽƐŶşǀĞŝƐƉƌŽũĞĐ-
tados.

ĐůĂƌŽƋƵĞŽĂƚƌĂƐŽƋƵĞƐĞǀĞŵǀĞƌŝĮĐĂŶĚŽŶĂĂƉƌŽǀĂĕĆŽĮŶĂůĚĞƐƚĞƐĚŝƉůŽŵĂƐ
tão importantes neste processo da reforma tributária, afectou ou está afectar o
dinamismo da própria reforma, tendo em conta que a Administração Fiscal precisa
de leis actuais e modernas que lhe possibilitem cumprir o seu papel de uma forma
mais justa e legal.

25 Fjeldstad, Jensen e Orre (2012): “Análise do Processo de Reforma Fiscal em Angola”.

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Briefǡ —Š‘ʹͲͳʹǡ
Volume 2, n.o 2.

| 45
CEIC / UCAN

2.3.2 Contribuição do PERT na arrecadação das receitas não petrolíferas

ƉĞƐĂƌ ĚŽƐ ĂƚƌĂƐŽƐ͕ Ă ƌĞĨŽƌŵĂ ƚƌŝďƵƚĄƌŝĂ ũĄ ĞƐƚĄ ƚĞƌ Ƶŵ ŝŵƉĂĐƚŽ ƉŽƐŝƟǀŽ ŶŽ
ŶşǀĞůĚĞĂƌƌĞĐĂĚĂĕĆŽĚĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞƌĂƐĚĞǀŝĚŽ͕ĞŵƉĂƌƚĞ͕ĂŽƐƌĞƐƵůƚĂĚŽƐ
ƐĂƟƐĨĂƚſƌŝŽƐĚĂƐĂĐĕƁĞƐƋƵĞĞƐƚĆŽĂƐĞƌĚĞƐĞŶǀŽůǀŝĚĂƐ͘

ƚĂďĞůĂĂƐĞŐƵŝƌĂƉƌĞƐĞŶƚĂĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐƚƌŝďƵƚĄƌŝĂƐŶĆŽ ƉĞƚƌŽůşĨĞƌĂƐƚŽƚĂŝƐ ĞŽ


ƌĞƐƉĞĐƟǀŽŵŽŶƚĂŶƚĞƋƵĞĠĂƚƌŝďƵşĚŽĂŽŝŵƉĂĐƚŽƉŽƐŝƟǀŽĚĂƌĞĨŽƌŵĂƚƌŝďƵƚĄƌŝĂŶŽ
ĂƵŵĞŶƚŽĚŽŶşǀĞůĚĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐĚĞƐĚĞϮϬϭϭ͘

sK>hK^Z/d^EKWdZK>1&Z^ΈϮϬϭϭͳϮϬϭϯΉ

ZĞĐĞŝƚĂŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞƌĂ ŽŶƚƌŝďƵŝĕĆŽĚŽWZd
ŶŽ
;DŝůŵŝůŚƁĞƐĚĞ<ǁĂŶnjĂƐͿ DŝůŵŝůŚƁĞƐĚĞ<ǁĂŶnjĂƐ WĞƌĐĞŶƚĂŐĞŵ
ϮϬϭϭ 766 66,3 8,7%
ϮϬϭϮ 778,8 39,4 ϱ͕ϭй
ϮϬϭϯ ϵϳϬ͕ϭ ϭϬϵ͕Ϯ ϭϭ͕ϯй
FONTE: DNI e Relatório de Fundamentação, OGE 2014.

ŽŵŽƉŽĚĞŵŽƐǀĞƌŶĂƚĂďĞůĂ͕ĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞƌĂƐĂƌƌĞĐĂĚĂĚĂƐĞŵϮϬϭϭ
ĞϮϬϭϮƉƌĂƟĐĂŵĞŶƚĞĞƐƚĂŐŶĂƌĂŵ͕ĐŽŵƵŵŵşŶŝŵŽĐƌĞƐĐŝŵĞŶƚŽĞŵƚĞƌŵŽƐŶŽŵŝ-
ŶĂŝƐ͕ŵĂƐĚĞϮϬϭϮĂϮϬϭϯŚŽƵǀĞƵŵĐƌĞƐĐŝŵĞŶƚŽŶŽŵŝŶĂůĚĞϮϰ͕ϲйĞŵƌĞůĂĕĆŽăƐ
ƌĞĐĞŝƚĂƐĂƌƌĞĐĂĚĂĚĂƐĞŵϮϬϭϮ͘

CONTRIBUIÇÃO DO PERT PARA A RECEITA NÃO-PETROLÍFERA

100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
2011 2012 2013

FONTE: DNI e Relatórios de Fundamentação, OGE, 2014.

WŽƌĠŵ͕ŽƋƵĞƐĞƋƵĞƌĚĞƐƚĂĐĂƌĂƋƵŝĠĂǀŽůĂƟůŝĚĂĚĞŶĂƐĐŽŶƚƌŝďƵŝĕƁĞƐĚŽWZd͕
ƉŽŝƐĞŵϮϬϭϭĞƌĂŵϲϲ͕ϯŵŝůŵŝůŚƁĞƐĚĞŬǁĂŶnjĂƐ;ϴ͕ϳйĚĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞ-
ƌĂƐƚŽƚĂŝƐͿĞĞŵϮϬϭϮďĂŝdžĂŵƉĂƌĂŽƐϯϵ͕ϰŵŝůŵŝůŚƁĞƐ;ϱ͕ϭйĚĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐƚŽƚĂŝƐͿ͘EŽ
ĞŶƚĂŶƚŽ͕ĞŵϮϬϭϯǀĞƌŝĮĐŽƵͲƐĞƵŵĂƵŵĞŶƚŽƐŝŐŶŝĮĐĂƟǀŽŶĂĐŽŶƚƌŝďƵŝĕĆŽĚŽWZd
ŶŽŝŶĐƌĞŵĞŶƚŽĚĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐƚƌŝďƵƚĄƌŝĂƐŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞƌĂƐ͕ϭϬϵ͕ϮŵŝůŵŝůŚƁĞƐĚĞŬǁĂŶ-
njĂƐ͕ŝƐƚŽĠ͕ϭϭ͕ϯйĚĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐƚŽƚĂŝƐ͘

46 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Segundo a DNI, o baixo nível de contribuição do PERT na arrecadação das recei-


ƚĂƐƚƌŝďƵƚĄƌŝĂƐŶĆŽƉĞƚƌŽůşĨĞƌĂƐĞŵϮϬϭϮ͕ĚĞǀĞƵͲƐĞĞŵƉĂƌƚĞăƐŝƐĞŶĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐƋƵĞ
foram atribuídas naquele ano26͘ũƵƐƟĮĐĂĕĆŽĚĂE/ƉŽĚĞƐĞƌǀĄůŝĚĂŵĂƐůĞǀĂŶ-
ta algumas questões: será que as isenções concedidas foram assim tão elevadas27
ƋƵĞĮnjĞƌĂŵĐŽŵƋƵĞŚŽƵǀĞƐƐĞƵŵĂƌĞĚƵĕĆŽĚĞƋƵĂƐĞϰϭйĞŵƌĞůĂĕĆŽăĐŽŶƚƌŝ-
buição de 2011? E em 2013 será que não foram concedidas isenções? Também
ĐŽŶƐƚĂƚĂŵŽƐƋƵĞϮϬϭϮĨŽŝƵŵĂŶŽĞůĞŝƚŽƌĂů͕ĂŝŶĚĂƋƵĞƉŽƐƐĂŶĆŽƚĞƌŝŶŇƵĞŶĐŝĂĚŽ
o processo de arrecadação de impostos. De qualquer forma, há toda uma neces-
ƐŝĚĂĚĞĚĞƐĞĚĞƚĞƌŵŝŶĂƌŽĐƵƐƚŽĮƐĐĂůĚĂƐŝƐĞŶĕƁĞƐƋƵĞĞƐƚĆŽĂƐĞƌĐŽŶĐĞĚŝĚĂƐĞ
ĂŝŶŝĐŝĂƟǀĂĚĞĨĂnjĞƌŝƐƚŽĞdžƉůŝĐŝƚĂŵĞŶƚĞŶŽKƌĕĂŵĞŶƚŽ'ĞƌĂůĚŽƐƚĂĚŽĚĞϮϬϭϱĠ
muito bem-vinda.

2.3.3 Nível de abertura e de participação

WĂƌƟĐŝƉĂĕĆŽ Ğ ƚƌĂŶƐƉĂƌġŶĐŝĂ ƐĆŽ ĐŽŶĚŝĕƁĞƐ ŝŵƉŽƌƚĂŶƚĞƐ ƉĂƌĂ Ž ƐƵĐĞƐƐŽ ĚĞ


uma reforma tributária moderna. Ao tomar em consideração os pontos de vista
dos diversos segmentos dos contribuintes, é mais fácil chegar a um consenso
ƐŽďƌĞƋƵĞƐƚƁĞƐĚĞWŽůşƟĐĂ&ŝƐĐĂů28͘džƉĞƌŝġŶĐŝĂƐĚĞƌĞĨŽƌŵĂƐĮƐĐĂŝƐĞŵŽƵƚƌŽƐƉĂş-
ses29 mostra que tais consultas também podem contribuir para melhorar o cum-
ƉƌŝŵĞŶƚŽĚĂƐŽďƌŝŐĂĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐ͕ĐƌŝĂŶĚŽƵŵĂƌĞůĂĕĆŽŵĂŝƐĐŽŽƉĞƌĂƟǀĂĞŵĞŶŽƐ
ĐŽŶŇŝƚƵŽƐĂ͘KWZdĚĞǀĞ͕ƉŽƌƚĂŶƚŽ͕ǀĞƌĂƐĐŽŶƐƵůƚĂƐĐŽŵŽƐĐŽŶƚƌŝďƵŝŶƚĞƐĐŽŵŽ
ƵŵŝŵƉŽƌƚĂŶƚĞŵĞĐĂŶŝƐŵŽĚĞĂƉƌĞŶĚŝnjĂŐĞŵƐŽďƌĞŽƐĚĞƐĂĮŽƐĚŽƐŝƐƚĞŵĂĮƐĐĂů͕
educando assim o contribuinte, e fortalecer a coalizão em favor de uma boa Polí-
ƟĐĂ&ŝƐĐĂů͘

Um elemento central na estratégia de auscultação por parte da administração


ĮƐĐĂůĠĂƌĞĂůŝnjĂĕĆŽĞƉƌŽŵŽĕĆŽĚĞĐŽŶĨĞƌġŶĐŝĂƐ͕ĞŶĐŽŶƚƌŽƐĚĞƚƌĂďĂůŚŽƐĞĚŝƐĐƵƐ-
são com a classe dos contribuintes.

26–±ƒ‘‘‡–‘ǡ ‘•‡•ƒ„‡‡šƒ…–ƒ‡–‡“—ƒŽ–‡•‹†‘‘‘–ƒ–‡†ƒ•‹•‡­Ù‡•ϐ‹•-

…ƒ‹•“—‡• ‘ƒ–”‹„—À†ƒ•–‘†‘•‘•ƒ‘•Ǥ‘‡–ƒ–‘ǡ—ƒ†ƒ•…‘ˆ‡”²…‹ƒ••‘„”‡–”‹„—–ƒ-
ção realizada em Fevereiro de 2014 o Ministro das Finanças anunciou que na proposta
‘”­ƒ‡–ƒŽ’ƒ”ƒ‘ƒ‘ʹͲͳͷ‹”ž…‘•–ƒ”ǡ’‡Žƒ’”‹‡‹”ƒ˜‡œǡ‘‘–ƒ–‡†ƒ•‹•‡­Ù‡•ϐ‹•-
cais concedidas como despesa orçamental.
27 Procurou-se saber perante a DNI o montante de isenções concedidas em 2012 e 2013

tendo-nos dito que o primeiro exercício de divulgação dessa informação será feito na
proposta orçamental para 2015.
28‡” Œ‡Ž†•–ƒ†ǡǤǦ Ǥǡ…Š—ŽœǦ ‡”œ‡„‡”‰ǡǤƒ† ‘‡Œ—”•‡ǡ ǤʹͲͳʹǤDz‡oples’ views

of taxation in Africa: a review of research on determinants of tax compliance.” ICTD


Working PaperʹͲͳʹǣͺǤ”‹‰Š–‘ǣInternational Centre for Tax and Development.
29Ver Fjeldstad, O.-H. and Heggstad, K. 2012. “Building taxpayer culture in Mozambi-
que, Tanzania and Zambia: Achievements, challenges and policy recommendations.’ CMI
‡’‘”–ʹͲͳʹǣͳǤ‡”‰‡ǣŠ”ǤMichelsen Institute.

| 47
CEIC / UCAN

Em 2013 o PERT promoveu e realizou a primeira Conferência Internacional


ƐŽďƌĞdƌŝďƵƚĂĕĆŽŝŶƟƚƵůĂĚĂ͗͞ĮĐĄĐŝĂĚŽƐƐơŵƵůŽƐĂŽĞƐĞŶǀŽůǀŝŵĞŶƚŽĐŽŶſŵŝ-
ĐŽʹƉƌŽďůĞŵĄƟĐĂĚĂƐ/ƐĞŶĕƁĞƐ&ŝƐĐĂŝƐ͘͟ĐŽŶĨĞƌġŶĐŝĂĨŽŝƌĞĂůŝnjĂĚĂŶŽƐĚŝĂƐϭϰĞ
ϭϱĚĞDĂŝŽĚĞϮϬϭϯĞĨŽŝƉƌĞƐŝĚŝĚĂƉĞůĂ^ĞĐƌĞƚĄƌŝĂĚĞƐƚĂĚŽĚĂƐ&ŝŶĂŶĕĂƐ͕sĂůĞŶƟ-
na Filipe, e contou com a presença de mais de 600 pessoas.

Para além da conferência, o PERT realizou ainda cerca de 15 encontros de aus-


cultação e trabalho com diversos organismos privados tais como: o Grémio dos
Produtores Agrícolas, a Ordem dos Advogados de Angola, a Comissão Instaladora
da Ordem dos Contabilistas, a Federação das Mulheres Empresárias de Angola, a
ąŵĂƌĂĚŽƐĞƐƉĂĐŚĂŶƚĞƐKĮĐŝĂŝƐĚĞŶŐŽůĂ͕ƐƐŽĐŝĂĕĆŽĚŽƐWƌŽŵŽƚŽƌĞƐ/ŵŽďŝůŝĄ-
rios de Angola e Associação de Bancos de Angola.

Obviamente os encontros que estão a ser realizados são relevantes para o


sucesso e o nível de aceitação da própria reforma por parte dos contribuintes em
ƉĂƌƟĐƵůĂƌĞĚĂƐŽĐŝĞĚĂĚĞĞŵŐĞƌĂů͘DĂƐƉĂƌĂƋƵĞĂƉĂƌƟĐŝƉĂĕĆŽƚĞŶŚĂƐĞŶƟĚŽĞ
ƐĞũĂƉƌŽĚƵƟǀĂ͕ŽƐŐƌƵƉŽƐĐŽŶƐƵůƚĂĚŽƐĞŽƵƚƌĂƐƉĂƌƚĞƐŝŶƚĞƌĞƐƐĂĚĂƐĚĞǀĞŵƚĞƌĂĐĞƐ-
ƐŽƉƌĠǀŝŽăŝŶĨŽƌŵĂĕĆŽƐŽďƌĞŽƐĂƐƐƵŶƚŽƐĂƐĞƌĞŵĚŝƐĐƵƟĚŽƐ͘WĂƌĂĞƐƚĞĞĨĞŝƚŽŽ
ƉƌŽĐĞƐƐŽĚĂƌĞĨŽƌŵĂƚƌŝďƵƚĄƌŝĂŶĆŽƚĞŵƐŝĚŽƐƵĮĐŝĞŶƚĞŵĞŶƚĞĂďĞƌƚŽ͘

Uma nota que vale a pena destacar é o facto de os relatórios trimestrais de pro-
gresso do PERT não estarem disponíveis ao público, nem no site do PERT, nem no
site do Ministério das Finanças, nem mesmo depois da sua apresentação ao Con-
selho de Ministros. Estes relatórios deveriam estar à disposição do público, pois
todos os contribuintes devem estar informados quanto ao progresso da reforma,
ǀŝƐƚŽƋƵĞĞƐƚĄƐĞƌĮŶĂŶĐŝĂĚŽĐŽŵŽĞƌĄƌŝŽƉƷďůŝĐŽ͘

A publicação dos relatórios de progresso iria, com certeza, aumentar o nível de


abertura e transparência da reforma, pois assim todos poderiam acompanhar os
ƚƌĂďĂůŚŽƐƋƵĞƚġŵƐŝĚŽĨĞŝƚŽƐĞŽƐƌĞƐƵůƚĂĚŽƐƋƵĞĞƐƚĆŽĂƐĞƌĂůĐĂŶĕĂĚŽƐ͘WŽƌƷůƟ-
mo o site do PERT, em termos de fornecer acesso à informação relevante sobre a
reforma é muito pobre e desactualizado.

2.3.4 Reforma Legislativa

Dado o nível de desactualização do sistema legal tributário do país, a sua


ŵŽĚĞƌŶŝnjĂĕĆŽĠƵŵĚŽƐŽďũĞĐƟǀŽƐƉƌŝŶĐŝƉĂŝƐĚĂƌĞĨŽƌŵĂƚƌŝďƵƚĄƌŝĂĞŵĐƵƌƐŽ͕ƉŽŝƐ
há uma toda necessidade de se ajustar a legislação tributária em vigor com a nova
realidade económica e social que o país está agora a viver.

ƉĞƐĂƌĚŽĚŝİĐŝůĂĐĞƐƐŽĂŽƐƉƌŽũĞĐƚŽƐͲůĞŝ͕Ž/ĂƉƌĞƐĞŶƚĂŶĞƐƚĞZĞůĂƚſƌŝŽĐŽ-
nómico uma análise breve do pacote tributário que até o segundo trimestre de
ϮϬϭϰĂŝŶĚĂĞƐƚĂǀĂĂƐĞƌĚŝƐĐƵƟĚŽŶĂƐƐĞŵďůĞŝĂEĂĐŝŽŶĂů͘KŽďũĞĐƟǀŽĠƉƌŽŵŽǀĞƌ
um debate franco e aberto sobre a reforma.

48 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2.3.4.1 Códigos Transversais

Aos códigos transversais referem-se os três novos códigos do Sistema Tributá-


rio angolano, nomeadamente o Código Geral Tributário (CGT), o Código do Proces-
ƐŽdƌŝďƵƚĄƌŝŽ;WdͿĞŽſĚŝŐŽĚĂƐdžĞĐƵĕƁĞƐ&ŝƐĐĂŝƐ;&Ϳ͕ƋƵĞŝƌĆŽƐƵďƐƟƚƵŝƌŽƐ
ĂŶƟŐŽƐ͕ƋƵĞĂŝŶĚĂĞƐƚĆŽĞŵǀŝŐŽƌŚŽũĞ͕ĞƋƵĞũĄĞƐƚĆŽĐŽŵƉůĞƚĂŵĞŶƚĞĚĞƐĂĐƚƵĂůŝ-
zados e desfasados da realidade, pois datam todos do período colonial.

O novo Código Geral Tributário͕ĞŵƚĞƌŵŽƐĚĞĂƌƟŐŽƐ͕ĠĚƵĂƐǀĞnjĞƐŵĂŝŽƌĚŽ


ƋƵĞŽĂŶƟŐŽ͕ƵŵĂǀĞnjƋƵĞƚĞŵϮϯϯĂƌƟŐŽƐ͕ĐŽŶƚƌĂϭϬϬĚŽĐſĚŝŐŽĂŶƟŐŽĞĠŵƵŝƚŽ
ŵĂŝƐďĞŵĞƐƚƌƵƚƵƌĂĚŽĚŽƋƵĞŽĂŶƟŐŽ͖ĠĐůĂƌŽƋƵĞŽƉƌŽďůĞŵĂŶĆŽĠƋƵĆŽďĞŵ
estruturado é, mas sim a forma como será aplicado e cumprido.

EĞƐƚĞŶŽǀŽĐſĚŝŐŽĚĞƐƚĂĐĂŵͲƐĞĚŽŝƐĂƌƟŐŽƐƋƵĞƐĆŽƉĞƌƟŶĞŶƚĞƐ͘KƉƌŝŵĞŝƌŽĠ
ŽĂƌƟŐŽϰ͘o͕ƋƵĞĞƐƚĂďĞůĞĐĞŽƐĮŶƐĞŽƐůŝŵŝƚĞƐĚĂƚƌŝďƵƚĂĕĆŽ͘ĞĂĐŽƌĚŽĐŽŵĞƐƚĞ
ĂƌƟŐŽ͕Ž͞ƐŝƐƚĞŵĂƚƌŝďƵƚĄƌŝŽǀŝƐĂƐĂƟƐĨĂnjĞƌĂƐŶĞĐĞƐƐŝĚĂĚĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐĚŽƐƚĂĚŽ
ĞĚĞŵĂŝƐĞŶƟĚĂĚĞƐƉƷďůŝĐĂƐ͕ĂƐƐĞŐƵƌĂƌĂƌĞĂůŝnjĂĕĆŽĚĂƉŽůşƟĐĂĞĐŽŶſŵŝĐĂĞƐŽĐŝĂů
ĚŽƐƚĂĚŽĞƉƌŽĐĞĚĞƌăƌĞƉĂƌƟĕĆŽũƵƐƚĂĚŽƐƌĞŶĚŝŵĞŶƚŽƐĞĚĂƌŝƋƵĞnjĂŶĂĐŝŽŶĂůĞ
ĚĞǀĞƚĂŵďĠŵƉƌŽŵŽǀĞƌĂĞƐƚĂďŝůŝĚĂĚĞĮŶĂŶĐĞŝƌĂĚŽƐƚĂĚŽ͕ĂƚƌĂǀĠƐĚĂĚŝǀĞƌƐŝĮ-
ĐĂĕĆŽĚĂƐĨŽŶƚĞƐĚĞƌĞĐĞŝƚĂƐ͘͟ƐƚĂĚŝǀĞƌƐŝĮĐĂĕĆŽƐſƐĞƌĄƉŽƐƐşǀĞůĐŽŵĂĚŝǀĞƌƐŝĮ-
cação da estrutura económica do país, por isso a reforma deve contribuir para a
ĚŝǀĞƌƐŝĮĐĂĕĆŽ ĚĂ ĞĐŽŶŽŵŝĂ ŶĂĐŝŽŶĂů ƉŽƌ ŝŶĐĞŶƟǀĂƌ ŽƐ ŝŶǀĞƐƟĚŽƌĞƐ Ă ŝŶǀĞƐƟƌĞŵ
ŶĂƐŵĂŝƐĚŝǀĞƌƐĂƐĄƌĞĂƐƉƌŽĚƵƟǀĂƐ͘YƵĂŶƚŽĂŽƐůŝŵŝƚĞƐ͕ŽĂƌƟŐŽƌĞĐŽŶŚĞĐĞƋƵĞ͞Ă
obrigação do imposto depende da capacidade económica do contribuinte reve-
lada pelo seu rendimento e que a tributação respeita os princípios da legalidade,
ŐĞŶĞƌĂůŝĚĂĚĞ͕ŝŐƵĂůĚĂĚĞĞĚĂũƵƐƟĕĂŵĂƚĞƌŝĂů͕͟ŽƋƵĞŝƌĄŐĂƌĂŶƟƌŽƐĚŝƌĞŝƚŽƐĚŽƐ
contribuintes.

KŽƵƚƌŽĂƌƟŐŽĠŽϲϬ͘o͕ƋƵĞŝĚĞŶƟĮĐĂĂƐŵŽĚĂůŝĚĂĚĞƐĚĞƉĂŐĂŵĞŶƚŽĚĂƐƉƌĞƐ-
tações tributárias, que podem ser feitas “em numerário, por cheque, débito em
ĐŽŶƚĂ͕ƚƌĂŶƐĨĞƌġŶĐŝĂĐŽŶƚĂĂĐŽŶƚĂ͕ǀĂůĞƉŽƐƚĂů͘͟ƐƚĞĂƌƟŐŽĚŝnjĂŝŶĚĂƋƵĞŽƐŝŵƉŽƐ-
tos “são pagos em moeda nacional e só podem ser pagos em moeda estrangeira
nos casos e termos expressamente previstos na lei” e que “o pagamento em espé-
cie é autorizado com a concordância da Administração Fiscal nos casos e termos
ƉƌĞǀŝƐƚŽƐŶĂůĞŝ͕ƐĞŶĚŽĐŽŶƚĂďŝůŝnjĂĚŽĐŽŵƌĞĐĞŝƚĂĮƐĐĂůĂƉĞŶĂƐŶŽŵŽŵĞŶƚŽĚĂƌĞĂ-
ůŝnjĂĕĆŽĞĨĞĐƟǀĂĚŽǀĂůŽƌĚŽƐďĞŶƐƉĞůŽſƌŐĆŽĐŽŵƉĞƚĞŶƚĞĚŽƐƚĂĚŽ͘͟

Quanto à modalidade de pagamento dos impostos proposta no novo CGT,


achamos que não é usual em sistemas tributários modernos, na medida em que
ĂƵŵĞŶƚĂŽƌŝƐĐŽĚĞĐŽŵƉŽƌƚĂŵĞŶƚŽĚŝƐĐƌŝĐŝŽŶĄƌŝŽƉŽƌƉĂƌƚĞĚŽƉĞƐƐŽĂůĚŽĮƐĐŽ͘
Países que implementaram reformas tributárias profundas reduziram o número
ĚĞŝŶƚĞƌĂĕƁĞƐĞŶƚƌĞĐŽŶƚƌŝďƵŝŶƚĞƐĞĐŽůĞĐƚŽƌĞƐĚĞŝŵƉŽƐƚŽƐ͕ĂƵƚŽŵĂƟnjĂŶĚŽƚŽĚŽŽ

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CEIC / UCAN

ƉƌŽĐĞƐƐŽĚĞƉĂŐĂŵĞŶƚŽƉŽƌŵĞŝŽĚĞƐŝƐƚĞŵĂďĂŶĐĄƌŝŽŽƵƌĞƉĂƌƟĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐ͘dĂŝƐ
medidas contribuíram para a redução da corrupção.

Quanto ao Código das Execuções Fiscais, em comparação com o actual regime


ƐŝŵƉůŝĮĐĂĚŽ͕ĠŵĂŝƐĐŽŵƉůĞƚŽ͕ƌŽďƵƐƚŽĞĐŽŵƉůĞdžŽ͘KƌĞŐŝŵĞƐŝŵƉůŝĮĐĂĚŽĨŽŝŝŶĐŽƌ-
porado no novo código sem quaisquer alterações relevantes.

A proposta de lei do CEF indica que a Direcção Nacional de Impostos e o Serviço


EĂĐŝŽŶĂůĚĂƐůĨąŶĚĞŐĂƐƉŽĚĞŵƚĞƌƵŶŝĚĂĚĞƐŽƵƐĞƌǀŝĕŽƐĞƐƉĞĐşĮĐŽƐĚĞƉĂŐĂŵĞŶ-
ƚŽĐŽĞƌĐŝǀŽĚĞŝŵƉŽƐƚŽƐŽƵŵƵůƚĂƐĮƐĐĂŝƐ͘K&ĂƉŽŶƚĂĂŝŶĚĂƋƵĞĂƉſƐĂŝŵƉůĞ-
ŵĞŶƚĂĕĆŽĚĂƌĞĨŽƌŵĂĮƐĐĂů͕ŚĂǀĞƌĄƵŵĂƷŶŝĐĂĞŶƟĚĂĚĞĂĚŵŝŶŝƐƚƌĂƟǀĂƌĞƐƉŽŶƐĄǀĞů
ƉĞůĂƐƌĞĐĞŝƚĂƐƚƌŝďƵƚĄƌŝĂƐ͕ŝŶƚĞŐƌĂŶĚŽĨƵƚƵƌĂŵĞŶƚĞĂE/ĞŽ^EŶƵŵĂƷŶŝĐĂĞŶƟ-
dade.

KĂƌƟŐŽϭϱ͘oĚŽ&ĞƐƟƉƵůĂŽƉĞƌşŽĚŽĚĞƚĞŵƉŽƋƵĞŽƉƌŽĐĞƐƐŽĚĞĞdžĞĐƵĕĆŽ
ĮƐĐĂůĚĞǀĞĚƵƌĂƌ͕ĚŝnjĞŶĚŽƋƵĞĂƵŶŝĚĂĚĞĂĚŵŝŶŝƐƚƌĂƟǀĂĚĞĞdžĞĐƵĕĆŽĚĞǀĞĐŽŶĐůƵŝƌ
ŽƉƌŽĐĞƐƐŽĚĞĞdžĞĐƵĕĆŽĮƐĐĂůƵŵĂŶŽĂƉſƐĂƐƵĂŝŶƐƚĂƵƌĂĕĆŽ͘

K ĂƌƟŐŽ Ϯϲ͘o ĂĮƌŵĂ ƋƵĞ ǀĂŝ ƐĞƌ ŽƌŐĂŶŝnjĂĚŽ Ƶŵ ĂƌƋƵŝǀŽ ĞůĞĐƚƌſŶŝĐŽ ŶĂĐŝŽŶĂů
ĚĞƚŽĚĂƐĂƐĞdžĞĐƵĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐůĞǀĂĚĂƐĂĐĂďŽ͘ƐƐĞƐĂƌƋƵŝǀŽƐĞůĞĐƚƌſŶŝĐŽƐĐŽŶƚĞƌĆŽ
ĚĞƚĂůŚĞƐ͕ƚĂŝƐĐŽŵŽ͗ŶƷŵĞƌŽĚŽƉƌŽĐĞƐƐŽ͕ĂŝĚĞŶƟĚĂĚĞĚĂƉĞƐƐŽĂ͕ĂƋƵĂŶƟĚĂĚĞĚĞ
impostos e/ou multas envolvidas e a data em que o processo começou. Mas, de
ĂĐŽƌĚŽĐŽŵŽĂƌƟŐŽϮϳ͘o, apenas um grupo restrito de pessoas (advogados, juízes
ĮƐĐĂŝƐĞŽƵƚƌĂƐƉĞƐƐŽĂƐƋƵĞƚġŵƌĞůĂĕĆŽĞĐŽŶſŵŝĐĂĐŽŵŽĞdžĞĐƵƚĂĚŽͿƚĞƌĆŽĂĐĞƐƐŽ
a esses arquivos electrónicos.

KĂƌƟŐŽϰϴ͘oĞƐƟƉƵůĂŽƉĂŐĂŵĞŶƚŽĚĂƐĐƵƐƚĂƐĂŽƚƌŝďƵŶĂůŽƵĂƵŶŝĚĂĚĞĚĞĞdžĞ-
ĐƵĕĆŽĮƐĐĂůƉĞůŽĂĐƵƐĂĚŽŶŽƉƌŽĐĞƐƐŽĚĞĞdžĞĐƵĕĆŽĮƐĐĂů͗ƋƵĂŶĚŽŽǀĂůŽƌĚŽŝŵƉŽƐ-
to devido é igual ou inferior a Kzs 5 milhões, a taxa é de 5% do montante; e quando
o valor é superior a Kz 5 milhões, a carga é de 5% mais 2500 kwanzas por cada
1.000.000 kwanzas.

Por sua vez, o Código do Processo Tributário,ŶŽƐĞƵĂƌƟŐŽϭϲ͘o͕ĞƐƟƉƵůĂƋƵĞŽ


“impugnante ou outro interveniente processual que não dispuser de recursos eco-
ŶſŵŝĐŽƐƉĂƌĂĂĐŽŶƐƟƚƵŝĕĆŽĚĞĂĚǀŽŐĂĚŽƉŽĚĞƌĞƋƵĞƌĞƌĂŶŽŵĞĂĕĆŽŽĮĐŝŽƐĂĚĞ
advogado e pedir dispensa de pagamento das custas judiciais, nos termos da lei.”
ŽĂƌƟŐŽϱ͘o reconhece o direito do contribuinte de impugnar todo o “acto lesivo
dos seus direitos e interesses legalmente protegidos”, o que com certeza garante a
ƉƌŽƚĞĐĕĆŽĚŽĐŽŶƚƌŝďƵŝŶƚĞĚĞƋƵĂůƋƵĞƌĂďƵƐŽƉŽƌƉĂƌƚĞĚŽĮƐĐŽ͘

ƉĞƐĂƌĚĞƚĞƌŵŽƐĂƉƌĞƐĞŶƚĂĚŽƵŵĂĂŶĄůŝƐĞƐƵƉĞƌĮĐŝĂů͕ƌĞĐŽŵĞŶĚĂŵŽƐĂĂƉƌŽ-
vação dos códigos pela Assembleia Nacional. Esta recomendação deve-se à extre-
ŵĂĚĞƐĂĐƚƵĂůŝnjĂĕĆŽĚŽƐĐſĚŝŐŽƐƋƵĞƐƵďƐƟƚƵĞŵ͘ŝŵƉůĞŵĞŶƚĂĕĆŽĚĞƐƚĞƐĐſĚŝŐŽƐ

50 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

deve ser monitorizada de perto durante os próximos dois a três anos e subsequen-
temente dever-se-á fazer uma revisão com base nos resultados da sua execução.

2.3.4.2 Códigos do IRT & do Imposto Industrial

No ano passado esteve ainda em agenda de trabalho do PERT a actualiza-


ĕĆŽĚĂƐƉƌŽƉŽƐƚĂƐůĞŐŝƐůĂƟǀĂƐĚŽſĚŝŐŽĚŽ/ŵƉŽƐƚŽ/ŶĚƵƐƚƌŝĂů;//ͿĞĚŽ/ŵƉŽƐƚŽ
^ŽďƌĞZĞŶĚŝŵĞŶƚŽƐĚŽdƌĂďĂůŚŽ;/ZdͿ͘ƐƚĞƐĚŽŝƐƉƌŽũĞĐƚŽƐͲůĞŝĨŽƌĂŵƐƵďŵĞƟĚŽƐă
Assembleia Nacional juntamente com os três códigos transversais.

Em seguida, apresentaremos uma breve análise das principais alterações que


constam nos projectos-lei do IRT e do Imposto Industrial.

Ao nível do código do Imposto Industrial, dentre as principais alterações pro-


postas, destacam-se a redução da taxa do imposto industrial de 35% para 30% e
ƚƌĂƚĂŶĚŽͲƐĞ ĚĞ ƌĞŶĚŝŵĞŶƚŽƐ ƉƌŽǀĞŶŝĞŶƚĞƐ ĚĞ ĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐ ĞdžĐůƵƐŝǀĂŵĞŶƚĞ ĂŐƌşĐŽ-
las, silvícolas, avícolas, pecuárias e piscatórias a taxa única foi reduzida de 20%
para 15%.

A redução da taxa do Imposto Industrial é uma medida que vai de acordo com
ĂƐĞdžƉĞĐƚĂƟǀĂƐĚĂĐůĂƐƐĞĞŵƉƌĞƐĂƌŝĂů͕ĂƉĞƐĂƌĚĞŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĐŽŵŽĂ/ƌĞƋƵĞƌĞ-
rem uma maior redução da taxa. A redução proposta irá, pelo menos, diminuir a
ĂĐƚƵĂůĐĂƌŐĂĮƐĐĂůƋƵĞĂƐĞŵƉƌĞƐĂƐƋƵĞƌĞĂůŵĞŶƚĞƉĂŐĂŵŽƐƐĞƵƐŝŵƉŽƐƚŽƐƐƵƉŽƌ-
ƚĂŵĞŐĂƌĂŶƟƌƋƵĞƚĞŶŚĂŵƵŵĂŵĂŝŽƌƌĞƚĞŶĕĆŽĚĞůƵĐƌŽƐƉĂƌĂŶŽǀŽƐŝŶǀĞƐƟŵĞŶ-
tos. Se essa redução da taxa do imposto for acompanhada com um aumento na
qualidade das infra-estruturas e do ambiente geral de negócios, isso poderá fazer
ĐŽŵƋƵĞŽŶşǀĞůĚĞĐŽŵƉĞƟƟǀŝĚĂĚĞĚĂƐĞŵƉƌĞƐĂƐƋƵĞŽƉĞƌĂŵŶŽƉĂşƐĂƵŵĞŶƚĞ͕Ž
ƋƵĞƉŽƌƐƵĂǀĞnjƉŽĚĞƌĄĂƚƌĂŝƌŵĂŝƐŝŶǀĞƐƟŵĞŶƚŽƐĞƐƚƌĂŶŐĞŝƌŽƐ͘

Os grupos de tributação poderão sofrer também alteração passando a com-


portar apenas dois grupos, A e B, já que o grupo C passa a ser tributado na esfe-
ra do Imposto sobre os Rendimentos de Trabalho. Integram obrigatoriamente o
grupo A30: as empresas públicas e entes equiparados; as sociedades comerciais ou
unipessoais de capital social igual ou superior a 1.100.000 de Kwanzas (cerca de
11.000 USD), ou as sociedades com proveitos totais anuais de valor igual ou supe-
rior a 30.000.000 (cerca de 300.000 USD); as Associações, Fundações e Coopera-
ƟǀĂƐĐƵũĂƐĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐŐĞƌĞƉƌŽǀĞŝƚŽƐĂĚŝĐŝŽŶĂŝƐăƐĚŽƚĂĕƁĞƐĞƐƵďƐşĚŝŽƐƌĞĐĞďŝĚŽƐ
dos seus associados.

hŵĂŽƵƚƌĂĂůƚĞƌĂĕĆŽƋƵĞƐĞǀĞƌŝĮĐĂŶŽŶŽǀŽſĚŝŐŽĚŽ/ŵƉŽƐƚŽ/ŶĚƵƐƚƌŝĂůĠŽ
ĨĂĐƚŽĚĞĞƐƚĞŶĆŽŵĞŶĐŝŽŶĂƌĞdžƉůŝĐŝƚĂŵĞŶƚĞƋƵĞĞŶƟĚĂĚĞƐĞƐƚĆŽŝƐĞŶƚĂƐĚĞƉĂŐĂƌ

30 De Acordo com o Artigo 8.o do CII revisto.

| 51
CEIC / UCAN

Ž/ŵƉŽƐƚŽ/ŶĚƵƐƚƌŝĂů͖ŽĐſĚŝŐŽůŝŵŝƚĂͲƐĞĂƉĞŶĂƐĂĚŝnjĞƌƋƵĞ͞ĂƐŝƐĞŶĕƁĞƐĞďĞŶĞİ-
ĐŝŽƐĮƐĐĂŝƐƌĞƐƵůƚĂŶƚĞƐĚĞĂĐŽƌĚŽĐŽŵŽƐƚĂĚŽ͕ŽƵĞŶƟĚĂĚĞƉƷďůŝĐĂĚŽƚĂĚĂƉŽƌůĞŝ
desse poder, mantêm-se nos termos da legislação ao abrigo da qual foram concedi-
das”31͕ŵĞĚŝĂŶƚĞĂĂƉƌĞƐĞŶƚĂĕĆŽĚĂĚŽĐƵŵĞŶƚĂĕĆŽĐŽŵƉƌŽǀĂƟǀĂ͘EŽŶŽƐƐŽĞŶƚĞŶ-
ĚĞƌ͕ŝƐƚŽĚĄăƐĂƵƚŽƌŝĚĂĚĞƐƵŵĂŇĞdžŝďŝůŝĚĂĚĞƐƵďƐƚĂŶĐŝĂůĚĞĐŽŶĐĞĚĞƌŝƐĞŶĕƁĞƐ͕Ž
que pode em certos casos causar a atribuição de isenções discricionárias e a pos-
ƐŝďŝůŝĚĂĚĞƐĚĞĐŽƌƌƵƉĕĆŽ͘KĐſĚŝŐŽƋƵĞĂĐƚƵĂůŵĞŶƚĞĞƐƚĄĞŵǀŝŐŽƌ͕ŶŽĂƌƟŐŽϭϯ͘o
ĂƉƌĞƐĞŶƚĂĞdžƉůŝĐŝƚĂŵĞŶƚĞĂƐĞŶƟĚĂĚĞƐƋƵĞĞƐƚĆŽŝƐĞŶƚĂƐĚŽŝŵƉŽƐƚŽ/ŶĚƵƐƚƌŝĂů͘

Quanto ao código do IRT as alterações principais propostas referem-se à res-


truturação dos grupos de tributação que passam a ser: grupo A (para as remu-
nerações dos trabalhadores por conta de outrem), grupo B (remunerações dos
ƚƌĂďĂůŚĂĚŽƌĞƐƉŽƌĐŽŶƚĂƉƌſƉƌŝĂƋƵĞĚĞƐĞŵƉĞŶŚĂŵĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐƉƌŽĮƐƐŝŽŶĂŝƐ ĚĞ
forma independente) e o grupo C (remunerações resultantes do desempenho de
ĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐŝŶĚƵƐƚƌŝĂŝƐĞĐŽŵĞƌĐŝĂŝƐƋƵĞĐŽŶƐƚĂŵŶĂƚĂďĞůĂĚŽƐůƵĐƌŽƐŵşŶŝŵŽƐͿ͘

A taxa de tributação do grupo B manteve-se, isto é, 15% sobre os 70% da matéria


colectável. O grupo C terá uma taxa de 30% sobre a matéria colectável constante da
tabela dos lucros mínimos (TLM) e esta taxa pode ser 6,5% caso os proveitos do contri-
buinte sejam 4 vezes superiores ao valor máximo constante da TLM da sua categoria.

DĂƐĂŐƌĂŶĚĞĞdžƉĞĐƚĂƟǀĂĠƐĞĂƚĂďĞůĂĚŽ/Zd͕ĞŵƋƵĞĐŽŶƐƚĂŵĂƐƚĂdžĂƐĂĂƉůŝ-
car às remunerações dos trabalhadores do grupo A será alterada ou não. A tabe-
la em vigor tem 14 categorias de rendimentos, os trabalhadores que auferem até
25.000 Kwanzas (cerca de 250 USD) mensal estão isentos do IRT, enquanto os que
auferem mais de 230.001 Kwanzas (cerca de 2.300 USD) pagam 25.750 kwanzas
ĐŽŵŽƵŵĂƉĂƌĐĞůĂĮdžĂ͕ŵĂŝƐϭϳйƐŽďƌĞŽĞdžĐĞƐƐŽĚĞϮϯϬ͘ϬϬϬ<ǁĂŶnjĂƐ͘

Surpreendentemente, a nova lei não apresenta uma revisão da tabela do IRT,


ĂƉĞƐĂƌĚĞŝƐƚŽĐŽŶƐƟƚƵŝƌƵŵĚŽƐĂƐƉĞĐƚŽƐŝŵƉŽƌƚĂŶƚĞƐŶĂƌĞĨŽƌŵĂĚŽ/Zd͘ŵƉƌŝŵĞŝ-
ƌŽůƵŐĂƌŽŶƷŵĞƌŽĚĞĞƐĐĂůƁĞƐĚĞǀĞƌŝĂŵƐĞƌƌĞĚƵnjŝĚŽƐĞĂƐƉĂƌĐĞůĂƐĮdžĂƐĞůŝŵŝŶĂĚĂƐ
ƉĂƌĂƐŝŵƉůŝĮĐĂƌŽƐŝƐƚĞŵĂ͕ƚĂŶƚŽƉĂƌĂŽĐŽŶƚƌŝďƵŝŶƚĞĐŽŵŽƉĂƌĂĂE/͘ŵƐĞŐƵŶĚŽ
lugar, o Governo poderia promover o seu slogan eleitoral de uma “melhor distribui-
ção da riqueza nacional” aumentando o limite pelo qual a remuneração está isenta
do IRT e aumentar a taxa para as remunerações de maior escalão. O limite do salário
ĂƉĂƌƟƌĚŽƋƵĂůƐĞĞƐƚĂƌŝĂŝƐĞŶƚŽĚĞƉĂŐĂƌŽ/ZdƉŽĚŝĂƐĞƌĚĞĮŶŝĚŽĞŵĨƵŶĕĆŽĚŽƐĂůĄ-
rio médio nacional32, pois isto poderia aumentar o rendimento disponível das famí-
ůŝĂƐĞŽƐĞƵƉŽĚĞƌĚĞĐŽŵƉƌĂĞƉŽƌƐƵĂǀĞnjĞƐƟŵƵůĂƌŽĐŽŶƐƵŵŽƉƌŝǀĂĚŽ͘

31 Conforme o Artigo 6.o.

32Segundo dados das Contas Nacionais publicadas pelo INE, o salário médio nacional
‡ʹͲͳʹˆ‘‹…‡”…ƒ†‡͵͸‹Ž™ƒœƒ•Ǥ

52 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

KƵƚƌĂĂůƚĞƌĂĕĆŽĚŝnjƌĞƐƉĞŝƚŽĂŽƋƵĞĐŽŶƐƟƚƵŝĂŵĂƚĠƌŝĂĐŽůĞĐƚĄǀĞů͘KŶŽǀŽĐſĚŝ-
ŐŽĚŝnjƋƵĞŽĂďŽŶŽƉĂƌĂĨĂůŚĂƐĞƉĂƌĂĂĨĂŵşůŝĂŶĆŽĐŽŶƐƟƚƵŝŵĂƚĠƌŝĂĐŽůĞĐƚĄǀĞů͕
desde que seja até 5% do salário base mensal do trabalhador, estando os valores
acima deste limite sujeitos a tributação, enquanto os subsídios de férias e de natal
ŶĆŽĐŽŶƐƟƚƵĞŵŵĂƚĠƌŝĂĐŽůĞĐƚĄǀĞůĂƚĠĂŽůŝŵŝƚĞĚĞϭϬϬйĚŽƐĂůĄƌŝŽďĂƐĞĚŽƚƌĂďĂ-
lhador. Os subsídios diários de alimentação e transporte não serão tributados até
ao limite de 25.000 kwanzas do seu valor mensal global.

No que diz respeito às isenções, o novo Código do IRT traz uma novidade: “os
ƌĞŶĚŝŵĞŶƚŽƐĚĞĐŽƌƌĞŶƚĞƐĚŽĞdžĞƌĐşĐŝŽĚĂƐĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐƉƌĞǀŝƐƚĂƐŶŽƐŐƌƵƉŽƐĚĞƚƌŝ-
ďƵƚĂĕĆŽĞĂƵĨĞƌŝĚŽƐƉĞůŽƐĂŶƟŐŽƐĐŽŵďĂƚĞŶƚĞƐ͕ĚĞĮĐŝĞŶƚĞƐĚĞŐƵĞƌƌĂĞĨĂŵŝ-
liares do combatente tombado ou perecido, desde que devidamente registados
no Ministério de tutela”33, estão isentos do imposto. Não conseguimos entender
a lógica desta isenção, pois os impostos devem ser pagos por todos em função do
rendimento de cada um. Não seria melhor reduzir a taxa de tributação desta franja
da sociedade em vez de isentá-los completamente de pagarem o imposto? Supo-
nhamos que venham a auferir rendimentos superiores em relação a outros cida-
ĚĆŽƐ͕ƐĞƌĄƋƵĞŵĞƐŵŽĂƐƐŝŵĞƐƚĂƌĆŽŝƐĞŶƚŽƐ͍WŽƌŝƐƐŽ͕ĂƐƵŐĞƐƚĆŽĚĞƐĞĚĞĮŶŝƌĂ
isenção de pagamento do IRT em função do salário médio nacional poderia em
parte resolver essas questões.

É recomendável que a actual tabela do IRT seja alterada, reduzindo o número


ĚŽƐĞƐĐĂůƁĞƐĚĞƌĞŶĚŝŵĞŶƚŽƐ͕ĞůŝŵŝŶĂŶĚŽĂƐƉĂƌĐĞůĂƐĮdžĂƐ;ĞƵƐĂƌĂƉĞŶĂƐƉĞƌĐĞŶ-
ƚĂŐĞŶƐͿ͕ĂũƵƐƚĂƌĂƐƚĂdžĂƐĚĞŝŵƉŽƐƚŽƐĂƉůŝĐĄǀĞŝƐĂĐĂĚĂĞƐĐĂůĆŽĞĚĞĮŶŝƌĂŝƐĞŶĕĆŽ
ao pagamento do IRT em função do actual salário médio nacional, ou seja todos os
cidadãos que auferem um salário mensal inferior ou igual ao salário médio nacio-
ŶĂůĞƐƚĂƌŝĂŵŝƐĞŶƚŽƐĚŽ/Zd͕ŽƋƵĞďĞŶĞĮĐŝĂƌŝĂĞƐƉĞĐŝĂůŵĞŶƚĞŽƐŐƌƵƉŽƐĐŽŵƌĞŶ-
dimentos baixos e contribuiria para uma melhor redistribuição do rendimento
nacional e aumento do poder de compra dos cidadãos.

2.3.5 Reforma Administrativa

EŽƋƵĞƌĞƐƉĞŝƚĂăƌĞĨŽƌŵĂĂĚŵŝŶŝƐƚƌĂƟǀĂ͕ĂƉĞƐĂƌĚĞƐĞƚĞƌĞŵƌĞĂůŝnjĂĚŽŵƵŝ-
ƚĂƐĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐŶĞƐƚĞĚŽŵşŶŝŽĚĂƌĞĨŽƌŵĂƉĞůŽWZdĞŵϮϬϭϯ͕ŶŽƋƵĞĐŽŶĐĞƌŶĞă
futura Administração Geral Tributária (AGT) que irá integrar a Direcção Nacional de
/ŵƉŽƐƚŽƐĞŽ^ĞƌǀŝĕŽEĂĐŝŽŶĂůĚĂƐůĨąŶĚĞŐĂƐŶƵŵĂƷŶŝĐĂĞŶƟĚĂĚĞ͕ŽWZd͕ƋƵĂŶ-
to a isso, ainda não avançou muito.

Apesar de terem sido já elaborados a proposta do modelo e o Estatuto Orgâni-


ĐŽĞĚĞWĞƐƐŽĂůĚĞƐƚĂĨƵƚƵƌĂĞŶƟĚĂĚĞĞŵϮϬϭϯ͕ŶĆŽŚŽƵǀĞƋƵĂƐĞŶĞŶŚƵŵĚĞďĂƚĞ

33 Conforme o Artigo 6.o 1. f do novo Código do IRT.

| 53
CEIC / UCAN

ou discussão pública sobre a futura AGT. Os contribuintes deveriam ser ouvidos de


ŵŽĚŽĂƋƵĞƉŽƐƐĂŵĞŵŝƟƌĂƐƵĂŽƉŝŶŝĆŽƋƵĂŶƚŽĂŽŵŽĚĞůŽĨƵƚƵƌŽĚĞƐƚĂĞŶƟĚĂ-
de tributária única. É de realçar que até momento ainda não existe um calendário
ĚĞĮŶŝĚŽƉĂƌĂĂƚƌĂŶƐŝĕĆŽ͕ŽƵƐĞũĂ͕ƋƵĂŶĚŽĠƋƵĞĂ'dĞŶƚƌĂƌĄĞŵĨƵŶĐŝŽŶĂŵĞŶƚŽ͕
visto que o modelo ainda está em aprovação. Esperamos que antes da sua aprova-
ĕĆŽ͕ŽŵŽĚĞůŽĞŽƐĞƐƚĂƚƵƚŽƐƐĞũĂŵƐƵĮĐŝĞŶƚĞŵĞŶƚĞĚŝƐĐƵƟĚŽƐ͘

Para melhor promover a cobrança coerciva das receitas tributárias, em 2013 foi
ĂŝŶĚĂƉƌŽƉŽƐƚŽƵŵŵŽĚĞůŽŝŶƚĞƌŵĠĚŝŽĚĞƚƌĂŶƐŝĕĆŽŽƌŐĂŶŝnjĂƟǀĂ͕ƚĞŶĚŽͲƐĞĂǀĂŶ-
ĕĂĚŽ ũĄ Ă ĞƐƐĞ ŶşǀĞů ŶĂ ĐĞŶƚƌĂůŝnjĂĕĆŽ ĚĞ ĂĐƟǀŝĚĂĚĞƐͲĐŚĂǀĞ͕ ŶŽŵĞĂĚĂŵĞŶƚĞ ĐŽŵ
a criação da Unidade Central de Fiscalização, da Unidade Central de Contencioso
e da Unidade Móvel de Execuções Fiscais (UMEF)34. Esta unidade permite que as
ĞdžĞĐƵĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐƐĞũĂŵĨĞŝƚĂƐĚĞƵŵŵŽĚŽŵĂŝƐĐĠůĞƌĞĞĐŽŶƚƌŽůĂĚŽ͘

ŵŽĚĞƌŶŝnjĂĕĆŽĚĂƐƌĞƉĂƌƟĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐĂŶşǀĞůŶĂĐŝŽŶĂůĠĚĞĨĂĐƚŽƵŵĂŽƵƚƌĂ
ŐƌĂŶĚĞ ƚĂƌĞĨĂ ƋƵĞ Ă ƌĞĨŽƌŵĂ ĂĚŵŝŶŝƐƚƌĂƟǀĂ ĞƐƚĄ Ă ůĞǀĂƌ Ă ĐĂďŽ͘ EŽ ĂŶŽ ƉĂƐƐĂ-
do alargou-se o programa da expansão da reforma a 8 províncias (Bengo, Ben-
guela, Cabinda, Huambo, Huíla, Luanda, Malange e Namibe), tendo-se concluído
Ă ŝŶƚĞƌǀĞŶĕĆŽ Ğŵ ϲ ZĞƉĂƌƟĕƁĞƐ &ŝƐĐĂŝƐ35 durante o 1.o trimestre de 2013 (Ben-
guela, Cabinda, Huambo, Namibe, Malange e Lobito) e procedido à abertura das
ŶŽǀĂƐŝŶƐƚĂůĂĕƁĞƐĚĂZĞƉĂƌƟĕĆŽ&ŝƐĐĂůĚŽƵŝƚŽ͘ƐƚĞƚƌĂďĂůŚŽĚĞǀĞĐŽŶƟŶƵĂƌĂƐĞƌ
ĨĞŝƚŽĞŵƚŽĚŽƚĞƌƌŝƚſƌŝŽŶĂĐŝŽŶĂůƉĂƌĂƋƵĞƚŽĚĂƐĂƐƌĞƉĂƌƟĕƁĞƐĮƐĐĂŝƐǀĞŶŚĂŵĂƐĞƌ
modernizadas e dotadas de pessoas capazes, bem formadas e informadas quanto
ao novo regime tributário.

ŵƐƵŵĂ͕ŽWƌŽŐƌĂŵĂĚŽdžĞĐƵƟǀŽƉĂƌĂĂZĞĨŽƌŵĂdƌŝďƵƚĄƌŝĂ;WZdͿũĄƚĞǀĞƵŵ
maior dinamismo do que tem hoje. O atraso na aprovação dos códigos transversais
e dos novos códigos do IRT e do Imposto Industrial, bem como a demora na apro-
vação do modelo da futura Autoridade Geral Tributária mostra claramente que a
ƌĞĨŽƌŵĂĞƐƚĄĂƉĞƌĚĞƌŽĨƀůĞŐŽƋƵĞƚĞǀĞŶŽŝŶşĐŝŽ͘^ĞĂƐĐŽŝƐĂƐĐŽŶƟŶƵĂƌĞŵĂĞƐƐĞ
passo, receia-se que até 2015 os termos de referência do PERT sejam na íntegra
ĐƵŵƉƌŝĚŽƐŽƵĞdžĞĐƵƚĂĚŽƐ͘EŽĞŶƚĂŶƚŽ͕ĞƐƉĞƌĂŵŽƐƋƵĞŽƐŽďũĞĐƟǀŽƐƉĞůŽƋƵĂůŽ
PERT foi criado sejam cumpridos e que a economia nacional e os cidadãos venham
ĂƐĞƌŽƐŵĂŝŽƌĞƐďĞŶĞĮĐŝĂĚŽƐ͘

34 Esta unidade foi criada em Novembro de 2012 e tem como objectivos principais: ace-

Ž‡”ƒ”ƒ‹•–ƒ—”ƒ­ ‘†‡’”‘…‡••‘•†‡‡š‡…—­ ‘ϐ‹•…ƒŽ’ƒ”ƒƒ…–—ƒŽ‹œƒ”ƒ„ƒ•‡†‡†ƒ†‘•†‡
’”‘…‡••‘• ‡ ƒ–”ƒ•‘ ‡ ƒ’‘‹ƒ” ƒ• ‡’ƒ”–‹­Ù‡• ƒ ‹•–ƒ—”ƒ­ ‘ ‡ ƒ…‘’ƒŠƒ‡–‘ †‘•
processos; Formar on-the-job‘•–±…‹…‘•†ƒ•”‡’ƒ”–‹­Ù‡•ϐ‹•…ƒ‹•Ǣ‘”ƒŽ‹œƒ”‘•’”‘…‡-
dimentos entre as várias repartições.
35 Actualmente, encontram-se em funcionamento no país 46 Repartições Fiscais e 15
Postos de Atendimento Fiscal que oferecem um menor número de serviços. Segundo o
site†‘‡ʹͲͳͳ‡š‹•–‹ƒ…‡”…ƒ†‡͵ͳ”‡’ƒ”–‹­Ù‡•ϐ‹•…ƒ‹•‡‰‘ŽƒǤ

54 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2.4 Política Monetária e Cambial

2.4.1 Objectivos da Política Monetária e Cambial

Com a inflação em baixa, tendo atingido no ano o valor mais baixo de sempre,
a Política Monetária continuou a ser menos restritiva ao longo de 2013, com o BNA
a reduzir (i) por três vezes as taxas de referência, (ii) a taxa de redesconto, que pas-
sou a corresponder à taxa de facilidade de cedência de liquidez e (iii) o coeficiente
de reservas obrigatórias para os depósitos em moeda nacional de 20% para 15%,
ficando alinhado com o coeficiente de moeda estrangeira (ver tabela da Evolução
das Reservas Obrigatórias no período 2009-2013, na página seguinte).

No que se refere à política Cambial, o ano foi marcado pela entrada em vigor
em pleno do NRCSP. Os principais impactos na economia do NRCSP verificaram-se
desde a entrada em vigor da 3.a fase, em 1 de Julho, que estabelece que as com-
panhias petrolíferas estão obrigadas a efectuar os pagamentos de bens adquiridos
e de serviços prestados por entidades residentes cambiais em moeda nacional:

ͻ Ocorreram alterações significativas na constituição dos depósitos, tendo-se


registado uma transferência de depósitos em moeda estrangeira para os depó-
sitos em moeda nacional (o peso dos depósitos em moeda estrangeira sobre
o total de depósitos reduziu 7 pontos percentuais, para 38%).

ͻ O BNA deixou de ser o fornecedor principal de divisas, passando a exercer


uma função reforçada de monitoramento e intervenção no mercado cambial,
com o objectivo de assegurar a estabilidade de preços e garantir o bom estado
das contas externas.

ͻ A taxa de câmbio nominal do Kwanza relativamente ao dólar norte-americano


(USD) adoptou um comportamento diferente. Ao passo que, até ao início do
3.o trimestre de 2013, era habitual ver um movimento contínuo de depreciação
da moeda nacional nos mercados primário e secundário, passou a registar-se
uma maior volatilidade da taxa a partir de então.

ͻ Aumentaram as transacções no mercado interbancário.

Embora a oferta de moeda estrangeira tenha aumentado com o NRCSP, ainda


assim, manteve-se o sentido de depreciação da moeda nacional, de 1,9% no ano,
superior à verificada em 2012 (0,6%), indicando portanto, que a procura por divi-
sas continua a ser maior do que a oferta.

No final do ano, iniciou-se capitalização parcial do Fundo Soberano de Angola


(FSDEA), tendo implicado que as reservas internacionais líquidas ficassem sensivel-
mente ao mesmo nível de Dezembro de 2012.

| 55
CEIC / UCAN

Na sequência do trabalho que o BNA tem vindo a realizar, de revisão da regu-


lamentação cambial, as operações de invisíveis correntes foram mais liberalizadas
(Aviso 13/13). Por exemplo, quanto aos serviços contratados ao exterior, o limite
de execução sem intervenção prévia do BNA passou de 30 para 100 milhões de
Kwanzas, enquanto para os serviços decorrentes de contratos cujos ordenadores
sejam empresas prestadoras de serviços ao sector petrolífero, devidamente regis-
tadas e com contrato-programa celebrado com o Ministério dos Petróleos, o limite
passou a ser de 300 milhões de Kwanzas.

Por sua vez, as casas de câmbio deixaram de poder fazer a venda livre de moe-
da estrangeira36, tendo em vista reduzir a sua procura para as transacções no
mercado interno e as regras e procedimentos aplicáveis foram reforçados tendo
em vista o efectivo monitoramento do fluxo das operações de compra e venda de
moeda estrangeira.

O BNA procedeu ainda à emissão da nova família de notas e moedas (“série


2012”) a partir de Fevereiro de 2013, tendo o valor das notas e moedas emitidas e
em circulação aumentado, respectivamente, 15% e 22%, acima da taxa de inflação.
Para além de aspectos de segurança, a introdução da nova família também esteve
relacionada com as medidas de desdolarização da economia em curso, em particu-
lar o novo regime cambial para o sector petrolífero (NRCSP).

sK>hK^Z^Zs^KZ/'dMZ/^ϮϬϬϵͳϮϬϭϯ
Instrutivo n.o ϯͬϮϬϬϵ ϴͬϮϬϬϵ ϯͬϮϬϭϬ ϮͬϮϬϭϭ ϯͬϮϬϭϯ
Entrada em
4-Mai-09 2-Jun-09 14-Jun-10 3-Mai-11 01-Jul-13
vigor
Período de
Semana T-2 Semana T-1 Semana T-1 Semana T Semana T
cálculo
Período de
Semana T Semana T Semana T Semana T Semana T
cumprimento
Depósitos, Depósitos Depósitos Depósitos
Depósitos, ĐŽŶƚĂƐĐĂƟǀĂƐͬ (DO,DP,outros), (DO,DP,outros), (DO,DP,outros),
ĐŽŶƚĂƐĐĂƟǀĂƐͬ caução dsDĞŵŝƟĚŽƐ dsDĞŵŝƟĚŽƐ dsDĞŵŝƟĚŽƐ
Base de
caução cheques cheques ou endossados, ou endossados, ou endossados,
incidência
visados, resp. visados, Resp. REPOS, obrig. REPOS, obrig. REPOS, obrig.
ƌĞƉƌ͘ƉŽƌơƚƵůŽƐ repr. por op.pendentes op.pendentes op.pendentes
ơƚƵůŽƐ͕ZWK^ liq., rel.corresp. liq., rel.corresp. liq., rel.corresp.
Deduções 20% do saldo de
20% do saldo 20% do saldo 25% do saldo de 25% do saldo de
antes do caixa MN (excl.
de caixa MN de caixa MN caixa MN caixa MN
ĐŽĞĮĐŝĞŶƚĞ cheques)
ŽĞĮĐŝĞŶƚĞ
30% 30% 25% 20% 15%
sobre MN

36 O Instrutivo 7/10, que foi revogado pelo Instrutivo 4/13, permitia a venda livre de moeda

estrangeira até ao limite de 5.000 USD por cliente (sujeita à apresentação de documento de iden-
–‹ϐ‹…ƒ­ ‘ȌǤ

56 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

ŽĞĮĐŝĞŶƚĞ
30% 30% 15% 15% 15%
sobre ME
Outros
ĐŽĞĮĐŝĞŶƚĞƐ͗
Governo
100% 100% 100% 100% 100%
Central
Governo Local 50% 50% 50% 50% 50%
Administração
- - 50% 50% 50%
Municipal
Moeda de Primariamente Primariamente Na moeda de Na moeda de Na moeda de
cumprimento em Kwanzas em Kwanzas captação captação captação
Cumprimento
em espécie
Não Não Não Não Não
com
remuneração
Cumprimento
Sim, até 1/3 da
em Títulos Não Não Não Não
exigibilidade
Públicos
Restrições no
cumprimento
N/A Sem restrições N/A N/A N/A
com Títulos
Públicos
Cumprimento
Sim, até Sim, até Sim, até
em Programas
Não 5 pontos 5 pontos 5 pontos Não
ĞƐƉĞĐşĮĐŽƐĚŽ
percentuais percentuais percentuais
Governo
FONTE: Instrutivos do BNA. Elaboração do CEIC.

O quadro seguinte apresenta os regulamentos relevantes publicados pelo BNA


em 2013:

Regulamento Data resumo


ZĞŐƵůĂĂƐŽďƌŝŐĂĕƁĞƐĚĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐŶŽąŵďŝƚŽĚĂŐŽǀĞƌŶĂĕĆŽ
Aviso 1/13 19/04
ĐŽƌƉŽƌĂƟǀĂ
Regula a obrigação de estabelecimento de um sistema de controlo interno
Aviso 2/13 19/04
ƉĞůĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐ
Aviso 3/13 22/04 Estabelece o âmbito da supervisão de base consolidada
Aviso 4/13 22/04 ZĞŐƵůĂĂĂĐƟǀŝĚĂĚĞĚĞĂƵĚŝƚŽƌŝĂĞdžƚĞƌŶĂŶĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐ
ĞĮŶĞĂĞƐƚƌƵƚƵƌĂĚŽZĞůĂƚſƌŝŽƐŽďƌĞĂŐŽǀĞƌŶĂĕĆŽĐŽƌƉŽƌĂƟǀĂĞƐŝƐƚĞŵĂ
/ŶƐƚƌƵƟǀŽϭͬϭϯ 22/03
de controlo interno
Estabelece que todas as transferências interbancárias a crédito passam a
Aviso 5/13 22/04
ser efectuadas através do STC ou SPTR
Aviso 6/13 22/04 Regula a prestação do serviço de remessa de valores
ZĞŐƵůĂŽƉƌŽĐĞƐƐŽĚĞĂƵƚŽƌŝnjĂĕĆŽƉĂƌĂĐŽŶƐƟƚƵŝĕĆŽ͕ĨƵŶĐŝŽŶĂŵĞŶƚŽ
Aviso 7/13 22/04
ĞĞdžƟŶĕĆŽĚĞĐĂƐĂƐĚĞĐąŵďŝŽ
ƐƚĂďĞůĞĐĞŽƐƚĞƌŵŽƐĞĐŽŶĚŝĕƁĞƐƋƵĞĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐďĂŶĐĄƌŝĂƐ
Aviso 8/13 22/04
ĚĞǀĞŵŽďƐĞƌǀĂƌƉĂƌĂƐƵďƐƟƚƵŝĕĆŽĚŽĂƌƋƵŝǀŽİƐŝĐŽĚĞĐĞƌƚŽƐĚŽĐƵŵĞŶƚŽƐ
/ŶƐƚƌƵƟǀŽϯͬϭϯ 1/07 WŽůşƟĐĂDŽŶĞƚĄƌŝĂʹĂůƚĞƌĂĂƐƌĞƐĞƌǀĂƐŽďƌŝŐĂƚſƌŝĂƐ

| 57
CEIC / UCAN

ŝƌĞĐƟǀĂϮͬ Recomenda um Guia de implementação de um programa de prevenção de


1/07
DSI/13 ďƌĂŶƋƵĞĂŵĞŶƚŽĚĞĐĂƉŝƚĂŝƐĞĚĞĮŶĂŶĐŝĂŵĞŶƚŽĚŽƚĞƌƌŽƌŝƐŵŽ
Estabelece i) os requisitos e procedimentos para a autorização de
ĐŽŶƐƟƚƵŝĕĆŽĚĞŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐďĂŶĐĄƌŝĂƐĞŝŝͿŽƐƌĞƋƵŝƐŝƚŽƐĞ
Aviso 9/13 8/07 ƉƌŽĐĞĚŝŵĞŶƚŽƐƉĂƌĂĂĂƵƚŽƌŝnjĂĕĆŽĚĞĐŽŶƐƟƚƵŝĕĆŽŶŽĞƐƚƌĂŶŐĞŝƌŽĚĞ
ĮůŝĂŝƐ͕ƐƵĐƵƌƐĂŝƐĞĞƐĐƌŝƚſƌŝŽƐĚĞƌĞƉƌĞƐĞŶƚĂĕĆŽĚĞŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐ
bancárias com sede em Angola
ĞĮŶĞŽƐƌĞƋƵŝƐŝƚŽƐĞƉƌŽĐĞĚŝŵĞŶƚŽƐƉĂƌĂĂĂƋƵŝƐŝĕĆŽĞĂƵŵĞŶƚŽĚĞ
ƉĂƌƟĐŝƉĂĕĆŽƋƵĂůŝĮĐĂĚĂĞŵŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐƐŽďƐƵƉĞƌǀŝƐĆŽĚŽ
Aviso 10/13 9/07
BNA, bem como os requisitos e procedimentos para a fusão ou cisão das
ƌĞĨĞƌŝĚĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐ
Estabelece os requisitos e procedimentos aplicáveis ao registo especial
junto do BNA dos membros dos órgãos sociais, directores com funções
Aviso 11/13 10/07
ĚĞŐĞƐƚĆŽƌĞůĞǀĂŶƚĞƐŶĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐ͕ŐĞƌĞŶƚĞƐĞĚŝƌĞĐƚŽƌĞƐĚĞ
ƐƵĐƵƌƐĂŝƐŽƵĞƐĐƌŝƚſƌŝŽƐĚĞƌĞƉƌĞƐĞŶƚĂĕĆŽĚĞŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐ
Estabelece os requisitos e procedimentos para a autorização de alterações
Aviso 12/13 11/07
ĂŽƐĞƐƚĂƚƵƚŽƐĚĂƐŝŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐĮŶĂŶĐĞŝƌĂƐƐŽďĂƐƵƉĞƌǀŝƐĆŽĚŽE
/ŶƐƚƌƵƟǀŽϰͬϭϯ 31/07 ĂƐĂƐĚĞĐąŵďŝŽʹĚĞĮŶĞĂƐƌĞŐƌĂƐŽƉĞƌĂĐŝŽŶĂŝƐ
ŝƌĞĐƟǀĂϯͬ
1/08 ĞĮŶĞĂƚĂdžĂĚĞƌĞĚĞƐĐŽŶƚŽ
DSI/13
ĞĮŶĞĂƐƌĞŐƌĂƐĞƉƌŽĐĞĚŝŵĞŶƚŽƐƋƵĞĚĞǀĞŵƐĞƌŽďƐĞƌǀĂĚŽƐŶĂƌĞĂůŝnjĂĕĆŽ
Aviso 13/13 6/08 de pagamentos de invisíveis correntes por residentes cambiais e de não
residentes cambiais
/ŶƐƚƌƵƟǀŽϴͬϭϯ 20/11 ^ŝƐƚĞŵĂĚĞƉĂŐĂŵĞŶƚŽƐʹĐŽŵƉƌŽǀĂƟǀŽĚĞƚƌĂŶƐĨĞƌġŶĐŝĂ
/ŶƐƚƌƵƟǀŽϵͬϭϯ 19/11 Limites de valor – cheques e subsistemas de compensação
ĞĮŶĞŽǀĂůŽƌŵşŶŝŵŽĚŽĐĂƉŝƚĂůƐŽĐŝĂůĞĚŽƐĨƵŶĚŽƐƉƌſƉƌŝŽƐ
Aviso 14/13 2/12 regulamentares (FPR) em Kz 2.500.000.000 e a obrigatoriedade do capital
social ser integralmente realizado em moeda nacional

FONTE: BNA.

2.4.2 Títulos do Tesouro

Obrigações do Tesouro

A implementação do Plano Anual de Endividamento (PAE) para 2013 come-


çou apenas em Maio de 2013 devido à aprovação tardia do OGE em resultado da
realização de eleições em 201237. O limite global do PAE para a emissão de dívida
interna titulada situou-se em 578 mil milhões de Kwanzas, 7% acima do valor do
ano anterior.

Os limites de emissão foram revistos em Outubro de 2013, através da con-


versão de parte do limite programado para a emissão de dívida externa “face às
condições mais vantajosas e dinâmicas que se apresentam para o endividamento

37 A Lei-Quadro da Dívida Pública Directa (Lei 16/02) foi revogada em 2014 pela Lei do Regime

Jurídico de Emissão e Gestão da Dívida Pública Directa e Indirecta (Lei 1/14), acomodando meca-
‹•‘• ’ƒ”ƒ “—‡  ‘ ‘…‘””ƒ ƒ–”ƒ•‘• ƒ ‡‹•• ‘ ‘• …ƒ•‘• †‡ ’‡†²…‹ƒ †‡ ƒ’”‘˜ƒ­ ‘ ‘— †‡
publicação do OGE.

58 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

interno”38, implicando um aumento de 578 mil milhões de Kwanzas para 756 mil
milhões de Kwanzas (correspondendo este novo limite a um crescimento de 39%
comparativamente a 2012).

Parte do aumento do limite para a emissão de Obrigações do Tesouro em moe-


da nacional não reajustáveis (OTMN-NR) teve por finalidade a emissão de obriga-
ções para a regularização de atrasados da execução orçamental dos exercícios de
2010, 2011 e 2012, no valor de 144,5 mil milhões de Kwanzas.

RESUMO DAS EMISSÕES DOS TÍTULOS DA DÍVIDA PÚBLICA INTERNA EM 2013


Mil milhões de Kwanzas
Instrumento Finalidade PAE inicial PAE revisto Executado % execução
BT Dívida fundada 135,8
BT şǀŝĚĂŇƵƚƵĂŶƚĞ 104,9
sub-total 240,7 306,4 305,7 100%
OTMN-TXC PIP 144,5 100,0 70,8 71%
OTMN-NR PIP/Atrasados 144,5 301,2 96,4 32%
sub-total 289,0 401,2 167,2 42%
OTMN-NR Capitalização do BNA 48,2 48,2 48,2 100%
Total OT e BT 577,9 755,8 521,1 69%

FONTE: Diplomas e SIGMA. Nota: PAE – Plano Anual de Endividamento; OTMN – Obrigações do tesouro em moeda na-
…‹‘ƒŽǢȂ‹ŽŠ‡–‡•†‘‡•‘—”‘ǢȂ‹†‡šƒ†ƒ•–ƒšƒ†‡…Ÿ„‹‘ǢȂ•‡”‡ƒŒ—•–‡†‘˜ƒŽ‘”‘‹ƒŽǢ Ȃ”‘‰”ƒƒ
de Investimentos Públicos.

Em 2013, as vendas de Obrigações do Tesouro em moeda nacional (OTMN)


através dos leilões do BNA nas modalidades de indexada à taxa de câmbio do dólar
(OTMN-TXC) e não reajustáveis (OTMN-NR) atingiram o total de 167 mil milhões
de Kwanzas, correspondente ao dobro das vendas em 2012 e a 42% do limite de
endividamento revisto para 2013.

KZ/'O^Kd^KhZK͵D/^^O^͕WZKWK^d^sE^
Mil milhões de Kwanzas
2012 2013 Var. %
ŵŝƟĚŽ 187 249 33
Propostas 105 205 95
Vendido 84 167 99
Rácios (%)
Procura/Oferta 56 82
Vendas/Procura 80 82
FONTE: BNA (SIGMA).

38 Preâmbulo do Decreto Presidencial 163/13, de 22 de Outubro.

| 59
CEIC / UCAN

As vendas de OTMN centraram-se nas maturidades de 2, 3 e 4 anos, represen-


tando, no seu conjunto 85% do total vendido.

VENDA DE OTMN NO MERCADO PRIMÁRIO POR MATURIDADE (2012)

20% 31%
2 anos
3 anos
4 anos
5 anos
21% 28%
FONTE: BNA.

VENDA DE OTMN NO MERCADO PRIMÁRIO POR MATURIDADE (2013)

10%

27% 5%
1 ano
2 anos
29% 3 anos
4 anos
5 anos
29%

FONTE: BNA.

Em 2013, o valor dos resgates de OTMN atingiu 202 mil milhões de Kwanzas,
do qual 78% foi efectuado no 2.o trimestre. O maior valor dos resgates ocorreu em
Dezembro de 2013, no valor de 81 mil milhões de Kwanzas, do qual 72% foi relativo
à emissão em Dezembro de 2010 de OTMN-TXC para financiamento do OGE do
respectivo ano e o remanescente (28%) relativo à emissão em Dezembro de 2009
de OTMN-JTC (sem indexação ao valor nominal) com igual finalidade.

Tendo o volume de vendas de OTMN sido superior ao dos resgates, a existência


de OTMN aumentou de 736 para 860 mil milhões de Kwanzas no final do período39.

39 É de notar que, contrariamente ao que se passa com os BT, a informação publicada pelo BNA da

‡š‹•–²…‹ƒϐ‹ƒŽ†‡ƒ’”‡•‡–ƒ†ƒ‘‰”žϐ‹…‘ ‘”‡…‘…‹Ž‹ƒ…‘ƒ•˜‡†ƒ•ȋDz‡‹••Ù‡•dzȌ‡”‡•‰ƒ–‡•Ǥ
͵ͳ†‡‡œ‡„”‘†‡ʹͲͳ͵ǡƒ†‹ˆ‡”‡­ƒ‡”ƒ†‡ͳ͸ʹ‹Ž‹ŽŠÙ‡•†‡™ƒœƒ•ȋƒƒ‹•ƒ‡š‹•–²-
cia comparativamente ao valor resultante da reconciliação). Esta diferença poderá ser explicada
pelo facto da informação das emissões apenas incluir os leilões – excluindo as emissões directas,
como sejam as resultantes dos acordos de subscrição com os bancos ou as destinadas à realização
do capital do BNA.

60 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

TÍTULOS DO TESOURO - EXISTÊNCIA NO FINAL DO ANO


1.000
Mil milhões de Kz

800
860
600
462 736
400 528
564

200
256 266
162 102 104
0
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13
OTMN BT
FONTE: BNA.

Foi ainda feita uma emissão especial de OTMN correspondente ao aumento de


capital do BNA previsto no artigo 4.o da Lei Orgânica do BNA, aprovada em 2010,
no valor de 270 mil milhões de Kwanzas. O Ministério das Finanças realizou em
2013 mais 48 mil milhões de Kwanzas que, considerando a emissão feita no ano
anterior, no valor de 95 mil milhões de Kwanzas, corresponde a 53% do total do
aumento. O prazo de resgate destas obrigações é de 20 anos, não havendo lugar ao
abono de juros de cupão e podendo o BNA transaccionar estas obrigações com as
instituições financeiras no mercado aberto de títulos, através de vendas definitivas
ou com compromissos de recompra, a preços do mercado.

Bilhetes do Tesouro

Em 2013, as vendas de BT atingiram 306 mil milhões de Kwanzas, representan-


do um aumento de 112% face a 2012, correspondente a 100% do limite autorizado
no OGE para 2013 (o grau de execução em 2012 foi de 90%). Por sua vez, o volume
de resgates de BT atingiu 144 mil milhões de Kwanzas.

/>,d^Kd^KhZK͵D/^^O^͕WZKWK^d^sE^
Mil milhões de Kwanzas
2012 2013 Var. %
ŵŝƟĚŽ 157 337 114
Propostas 349 744 113
Vendido 144 306 112
Rácios (%)
Procura/Oferta 222 221
Vendas/Procura 41 41
FONTE: BNA (SIGMA).

| 61
CEIC / UCAN

Tendo o volume de vendas de BT sido superior aos dos resgates, a existência de


BT aumentou de 104 para 266 mil milhões de Kwanzas entre Dezembro de 2012 e
Dezembro de 2013 (vide gráfico anterior).

VENDA DE BT POR MATURIDADE (2012) VENDA DE BT POR MATURIDADE (2013)

62% 57%
21% 22%

364 dias 364 dias


91 dias 91 dias
182 dias 182 dias

17% 21%

2.4.3 Operações de Política Monetária40

Títulos do Banco Central

O BNA manteve ao longo do ano de promover activamente as operações de


mercado aberto para gestão da liquidez dos bancos, em detrimento da emissão de
TBC, tendo por base os títulos emitidos pelo Tesouro Nacional para a capitalização
do BNA.

Desta forma, foram realizados apenas 3 leilões de Títulos do Banco Central


(TBC) e o valor das emissões sido substancialmente reduzido em 91% comparati-
vamente a 2012. O valor acumulado da oferta, procura e vendas foi de, respectiva-
mente, 106, 62 e 30 mil milhões de Kwanzas.

d1dh>K^KEKEdZ>͵D/^^O^͕WZKWK^d^sE^
Mil milhões de Kwanzas
2012 2013 Var. %
ŵŝƟĚŽ 1.154 106 -91
Propostas 1.011 62 -94
Vendido 757 30 -96
Rácios (%)
Procura/Oferta 88 59
Vendas/Procura 75 48
FONTE: BNA (SIGMA).

40Por falta de dados publicados em 2013, apenas são analisadas as operações do mer-
cado primário – Títulos do Banco Central – e as operações de mercado aberto – opera-
ções de absorção de liquidez.

62 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

As vendas de TBC centraram-se na maturidade de 63 dias, representando 95%


do total vendido, seguida da maturidade de 182 dias (5% do total). O volume de
resgates de TBC foi de 109 mil milhões de Kwanzas.

VENDA DE TBC POR MATURIDADE (2012) VENDA DE TBC POR MATURIDADE 2013
0% 0% 0% 0%
0% 84% 0% 95%
16%
63 dias 0% 63 dias
182 dias 5% 182 dias
0%
91 dias 91 dias
14 dias 14 dias
28 dias 28 dias
34 dias 364 dias

Tendo o volume de emissões de TBC sido inferior aos dos resgates, a existên-
cia de TBC reduziu de 88 mil milhões de Kwanzas em Dezembro de 2012 para 9
mil milhões de Kwanzas em Dezembro de 2013. O maior volume de resgates de
TBC ocorreu no 1.o semestre de 2013, tendo representado 96% do total de TBC
resgatados no ano. De forma a garantir a esterilização monetária, os resgates
de TBC neste período foram substituídos por operações de absorção de liquidez
(explicado mais à frente, nas Operações com o BNA e no mercado monetário
interbancário).

O rácio entre o valor acumulado solicitado (procura) e da emissão (oferta)41 dos


TBC atingiu 59% em 2013, abaixo do rácio verificado no ano anterior (88%). Por sua
vez, o rácio de colocação de TBC (vendas sobre procura) diminuiu de 75% em 2012
para 48% em 2013.

Operações de mercado aberto (OMA)

Em 2013, foram emitidas operações de absorção (REPOs), em termos acu-


mulados, 2.580 mil milhões de Kwanzas (mais 61% comparativamente a 2012) e
vendidos 853 mil milhões de Kwanzas (mais 17% comparativamente a 2012). As
emissões concentraram-se na maturidade de 63 dias, com um peso de 48% relati-
vamente ao total, seguido das maturidades de 180 a 182 dias, representando 14%
do total.

41Dz„‹†Ǧ–‘Ǧ…‘˜‡””ƒ–‹‘dzƒ–‡”‹‘Ž‘‰‹ƒ‡‹‰Ž²•Ǥ

| 63
CEIC / UCAN

REPOs͵D/^^O^͕WZKWK^d^sE^
Mil milhões de Kwanzas
2012 2013 Var.%
ŵŝƟĚŽ 1.600 2.580 61
Propostas 867 2.601 200
Vendido 730 853 17
Rácios (%)
Procura/Oferta 54 101
Vendas/Procura 84 33
FONTE: BNA (SIGMA).

REPOs MATURIDADES
3%
7%
48%
63 dias
8%
64 - 179 dias
180 -182 dias
10%
7 dias
10-15 dias
14%
28 dias
31 - 60 dias
10%

2.4.4 Taxas de juro42

Títulos do Tesouro

Sendo a colocação das OTMN-TXC feita através de leilão de quantidade, as ta-


xas nominais de juro estão previamente definidas, situando-se entre 7% para a
maturidade mais curta (2 anos) e 7,75% para a maturidade mais longa (5 anos). No
caso OTMN-NR, a sua colocação é feita através de leilão de preço, tendo as taxas
de juro se situado acima das taxas de juro das OTMN-NR e apresentado um ligeiro
aumento ao longo do 4.o trimestre de 2013.

dy^:hZK͵D/^^O^KdDEϮϬϭϯ
2 anos 3 anos 4 anos 5 anos
OTMN-TXC 7,00% 7,25% 7,50% 7,75%
OTMN-NR
Out-13 7,01% 7,44% 7,82% 8,10%
Nov-13 7,03% 7,73% 7,99% 8,24%
Dez-13 7,05% 7,75% 8,00% 8,25%
FONTE: BNA.

42As taxas de juro apresentadas neste capítulo são taxas de juro nominais correspon-
dentes ao período de um ano.

64 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

As taxas de juro dos Bilhetes do Tesouro (BT) apresentaram uma tendência de


aumento no final do ano, tendo o prazo de 182 e 364 dias atingido, respectivamen-
te, 4,60% e 5,75%. O aumento das taxas de juro no final do ano deve-se ao aumen-
to das necessidades de financiamento do Tesouro, devido ao aumento sazonal da
execução fiscal.

BT - TAXAS DE JURO
30

25

20

15

10

0
10

11

12

13
9

3
z-0

z-1

z-1

z-1

z-1
n-

n-

n-

n-
De

De

De

De

De
Ju

Ju

Ju

Ju
91 dias 182 dias 364 dias
FONTE: BNA.

2.4.5 Política Monetária

Ao longo do período em análise, as taxas de juro de referência43 relativas às


operações de Política Monetária – facilidades de cedência e absorção de liquidez
e TBC – continuaram a descer em 2013 em função dos objectivos do BNA em pro-
mover a redução das taxas de juro activas dos bancos (isto é, relativas a crédito) e
de controlar a inflação.

A taxa básica do BNA observou três descidas ao longo do ano, nomeadamen-


te de 10,25% para 10% em Fevereiro, de 10% para 9,75% em Agosto e de 9,75%
para 9,25% em Novembro mantendo-se inalterada até ao final do ano. A taxa da
Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez overnight (FCO) também observou
3 descidas nos mesmos períodos de 11,50% no início do ano para 11,25% em Fe-
vereiro, 11,00% em Agosto e 10,25% em Novembro. A taxa de redesconto, que se
situava em 20% até Julho, passou a estar sujeita ao pagamento da taxa de juro da
Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez (FCO) a partir de Agosto.

43De acordo com a Directiva N.o 03/DSI/2013, de 1 de Agosto, as operações de redes-


…‘–‘’ƒ••ƒ”ƒƒ‡•–ƒ”•—Œ‡‹–ƒ•–ƒšƒ†‡Œ—”‘†ƒ ƒ…‹Ž‹†ƒ†‡‡”ƒ‡–‡†‡‡†²…‹ƒ†‡
Liquidez.

| 65
CEIC / UCAN

O Comité de Política Monetária baixou também em três momentos a taxa da


Facilidade Permanente de Absorção de Liquidez (FCA), de 1,5% para 1,25% em
Fevereiro, para 1% em Abril e para 0,75% em Agosto, tendo permanecido a partir
daí inalterada até ao final do ano.

TAXAS DE JURO DE REFERÊNCIA - POLÍTICA MONETÁRIA


35%
30%
25%
20%
15%
10,25%
10%
9,25%
5%
1,50%
0%
9

Ju 0
Se 0
De 0

Se 1
De 1

Ju 3
Se 3
M 0

Ju 1

M 1

Ju 2
Se 2
De 2

M 2

De 3
3
1
t-1

t-1

1
t-1

-1

1
z-0

-1

z-1

-1

z-1

-1

z-1

t-1
z-1
n-

n-

n-

n-
ar

ar

ar

ar
De

Redesconto &ĂĐŝůŝĚĂĚĞƐĚĞĂďƐŽƌĕĆŽĚĞůŝƋƵŝĚĞnj
&ĂĐŝůŝĚĂĚĞƐĚĞĐĞĚência de liquidez KƉĞƌĂĕões de mercado aberto
Taxa básica de juro - Taxa BNA

FONTE: BNA.

No mercado primário, as taxas de juros dos Títulos do Banco Central (TBC) re-
gistaram uma diminuição ligeira de 4,10% em Dezembro de 2012 para 4,00% em
finais de 2013 (maturidade de 63 dias), enquanto as taxas dos Bilhetes de Tesouro
(BT) registaram aumentos nas maturidades de 91, 182 e 364 dias tendo-se situado,
respectivamente, em 3,6%, 4,6% e 5,8%.

TBC - TAXAS DE JURO (%)


30

25

20

15

10

0
10

13
9

3
-1

-1
z-0

z-1

z-1

z-1

-1
n-

n-
n

z
De

De

De

De

De
Ju

Ju

Ju

Ju

14 dias 28 dias 63 dias 91 dias 182 dias 364 dias


FONTE: BNA.

66 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2.4.5.1 Mercado Monetário Interbancário

As taxas de juros LUIBOR no Mercado Monetário Interbancário (MMI) desceram


para todas as maturidades44 em função do aumento da liquidez do Sistema Bancário
e da redução das taxas de juro directoras. A maior descida em 2013 verificou-se na
taxa de juro overnight, em 1,5 pontos percentuais, tendo-se situado em 4,7% no final
do ano. As taxas para as restantes maturidades tiveram descidas que variaram entre
0,7 pontos percentuais para 1 mês, tendo-se situado em 7% no final do ano, até 1,4
pontos percentuais para 9 meses, tendo-se situado em 8,8% no final do ano.

LUIBOR
TAXAS DE JURO DO MERCADO INTERBANCÁRIO EM KWANZAS
14%
12%
10%
8%
6%
4%
2%
0%
1

12

12

12

13

13

13

3
t-1

r-1

t-1
z-1

r-1

z-1

z-1
v-

n-

o-

v-

n-

o-
Ou

Ou
Ab

Ab
De

De

De
Fe

Fe
Ju

Ju
Ag

Ag

12 meses 9 meses 6 meses 3 meses 1 mês Overnight

FONTE: BNA.

2.4.5.2 Crédito e depósitos

As taxas de juro de crédito em moeda nacional (MN) para empresas apresen-


taram de uma forma geral uma tendência decrescente para todas as maturidades,
com destaque para mais de 1 ano, que registou um decréscimo significativo de 3,2
pontos percentuais fixando-se em 12,6% no final do ano.

Por sua vez, as taxas de juro de crédito em moeda estrangeira (ME) para empre-
sas revelaram uma tendência de aumento para as maturidades até 180 dias e de
181 dias a 1 ano, tendo atingido no final do ano, respectivamente 11,8% e 12,1%,
e uma descida para a maturidade mais de 1 ano, tendo-se situado em 9,7% em
Dezembro de 2013.

44 A taxa LUIBOR overnight ”‡ϐŽ‡…–‡ –”ƒ•ƒ…­Ù‡• ‡ˆ‡…–‹˜ƒ• ”‡ƒŽ‹œƒ†ƒ• ‡–”‡ ‘• „ƒ…‘•Ǥ
A taxa de juro LUIBOR para as restantes maturidades (1, 3, 6, 9 e 12 meses) corresponde
ƒ—˜ƒŽ‘”‹’ŽÀ…‹–‘•–”ƒ•ƒ…­Ù‡•ȋ‘—•‡Œƒǡ‹–‡­Ù‡•†‡–”ƒ•ƒ…­Ù‡•“—‡ ‘•‡…Š‡-
gam a concretizar).

| 67
CEIC / UCAN

TAXAS DE JURO - CRÉDITO A EMPRESAS MN (%)


25

20

15

10

0
Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13

Até 180 dias De 181 dias a 1 ano Mais de 1 ano


FONTE: BNA.

TAXAS DE JURO - CRÉDITO A EMPRESAS ME (%)


16
14
12
10
8
6
4
2
0
Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13

Até 180 dias De 181 dias a 1 ano Mais de 1 ano


FONTE: BNA.

As taxas de juro de depósitos a prazo apresentaram uma tendência diversa em


2013, quer em moeda nacional quer em moeda estrangeira. As taxas de juro de
depósitos a prazo em moeda nacional para as maturidades até 90 dias e de 181
dias a 1 ano subiram ambas 0,2 pontos percentuais situando-se, respectivamente
em 3,1% e 5%, enquanto para as maturidades de 91 a 180 dias e mais de 1 ano
caíram para, respectivamente 3,8% e 4,1%. Para os depósitos a prazo em moeda
estrangeira, a taxa de juros na maturidade de 91 a 180 dias caiu de 2,3% em finais
de 2012 para 1,9% em Dezembro de 2013, enquanto nas restantes maturidades
registaram subidas, com destaque para mais de 1 ano, que aumentou 1,9 pontos
percentuais, situando-se em 5% no final de 2013.

68 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

TAXAS DE JURO - DEPÓSITOS A PRAZO MN (%)


14
12
10
8
6
4
2
0
Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13

Dep. prazo até 90 dias Dep. prazo 91 a 180 dias


Dep. prazo de 181 dias a 1 ano Dep. prazo mais de 1 ano
FONTE: BNA.

TAXAS DE JURO - DEPÓSITOS A PRAZO ME (%)


8
7
6
5
4
3
2
1
0
Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13
Dep. prazo até 90 dias Dep. prazo 91 a 180 dias
Dep. prazo de 181 dias a 1 ano Dep. prazo mais de 1 ano
FONTE: BNA.

2.4.5.3 Mercado Cambial e taxas de câmbio

Em 2013, verificou-se uma alteração fundamental no funcionamento do merca-


do cambial com a entrada em vigor em Julho da 3.a fase do regime cambial aplicável
ao sector petrolífero, no qual os pagamentos por parte dos operadores a residentes
cambiais passaram a ser exclusivamente feitos em Kwanzas. Desta forma, o sec-
tor bancário deixou de depender exclusivamente do mercado primário (BNA) para
a aquisição das divisas. De acordo com as estatísticas disponíveis de Agosto45 a

45²•‡“—‡‘‘‹–±†‡‘ŽÀ–‹…ƒ‘‡–ž”‹ƒ…‘‡­‘—ƒ’—„Ž‹…ƒ”‡•–ƒ‹ˆ‘”ƒ­ ‘Ǥ ‘

existem dados disponíveis anteriores a esta data.

| 69
CEIC / UCAN

Dezembro de 2013, o total de divisas transaccionado no mercado secundário, onde


se incluem as transacções realizadas entre o sector petrolífero e os bancos, corres-
pondeu a 43% do total.

VENDAS DE USD NO MERCADO CAMBIAL – Milhões USD


Ago-13 Set-13 Out-13 Nov-13 Dez-13 Total Peso
Mercado primário 1.265 1.477 1.906 1.500 1.550 7.697 57%
Mercado secundário 1.378 1.652 1.115 1.317 406 5.868 43%
Total 2.643 3.129 3.021 2.817 1.956 13.565 100%
FONTE: BNA.

Por sua vez, o BNA disponibilizou 19,3 mil milhões de dólares no mercado pri-
mário, acima do verificado em 2012 (18,2 mil milhões de USD), representando um
aumento de 6%. A venda média mensal aumentou de 1,5 para 1,6 mil milhões de
USD.

COMPRA E VENDA DE DIVISAS PELO BNA E VARIAÇÃO


DA TAXA DE CÂMBIO DE REFERÊNCIA
25.000
18.1%
20.000 19.282
Milhões de USD

18.201

15.000 14.888
11.613
10.636
10.000
4.1%
5.000 2.8% 1,9%
57 0,6%
0
0
2009 2010 2011 2012 2013
Vendas de divisas Compras de divisas Variação cambial USD/Kz
FONTE: BNA.

A taxa de câmbio do Kwanza face ao dólar registou uma depreciação de 1,9%


no ano, acima da depreciação verificada no ano anterior (0,6%). A taxa de câmbio
manteve uma tendência linear de depreciação de Janeiro a Julho de 2013, seguin-
do-se um período de maior volatilidade de Agosto a Outubro, durante o qual se
apreciou em dois meses (Agosto e Outubro) e teve a maior depreciação do ano
(Setembro).

Na base da maior volatilidade da taxa de câmbio esteve a implementação da


3.a fase do novo regime cambial aplicável ao sector petrolífero, em que o BNA alte-
rou a metodologia de cálculo da taxa de câmbio de referência, passando a divulgar,
a partir de 8 de Julho, a taxa de câmbio média apurada com base nas transacções

70 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

diárias reportadas pelas instituições bancárias por considerar que estas reflectem,
de forma abrangente, o custo das operações com o exterior do país, relacionadas
com a importação de bens e serviços46.

LEILÕES DE DIVISAS DO BNA - VENDA MENSAL E TAXA DE CÂMBIO 2013


2.500 98,0

Taxa de câmbio/USD/kz
2.000 97,5
Milhões de USD

97,0
1.500
96,5
1.000
90,0
500 95,5

0 95,0
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez

Vendas Taxa de câmbio de referência


FONTE: BNA.

TAXAS DE CÂMBIO DE REFERÊNCIA


(EVOLUÇÃO DIÁRIA DE 1 DE JULHO A 31 DE DEZEMBRO DE 2013)
1 USD =
98.5 Kz
98.0 Kz
97.5 Kz
97.0 Kz
96.5 Kz
96.0 Kz
95.5 Kz
95.0 Kz
94.5 Kz
n

26 l
9- l
o
go

go

et

9- t
23 t

6- t
v
ov

z
ez
-Ju
-Ju

e
Ou

De
No
Ju
-Ju

-Ju

Ag

-S

-S

-O

-D
-A

-A

-N
3-

12

9-
13

27
14

28

23
20

30

22

Mercado primário (venda nos leilões do BNA) Mercado secundário


FONTE: BNA.

A estabilidade da taxa de câmbio de referência continuou a ser reforçada à


custa da apreciação real do Kwanza de 5% no ano, devido à depreciação nominal
da taxa de câmbio no ano inferior à taxa de inflação.

46Segundo a metodologia anterior, a taxa de câmbio era calculada com base na média
ponderada da taxa paga pelos bancos nos leilões do BNA (n.o 7 do Instrutivo 1/11 de
ͳʹ†‡„”‹ŽȌǤ‡–‘†‘Ž‘‰‹ƒ†ƒ–ƒšƒ†‡”‡ˆ‡”²…‹ƒ‡…‘–”ƒǦ•‡‡…‹‘ƒ†ƒ‘ •–”—–‹˜‘
3/14 de 3 de Abril.

| 71
CEIC / UCAN

TAXA DE CÂMBIO REAL - VAR. ACUMULADA NO ANO (%)


(+) DEPRECIAÇÃO/(-) APRECIAÇÃO
6
4
2
0
-2
-4
-6
-8
-10
-12
n

ar

ai

l
r

z
Ju

Se

Ou
Ab

De
Fe

No
Ja

Ju

Ag
M
M

2009 2010 2011 2012 2013


FONTE: BNA.

O diferencial entre o câmbio informal e do mercado secundário, que teve um


aumento em Fevereiro de 2013 de 8% para próximo de 10%, voltou a situar-se no
mesmo patamar de 8% no período de Abril a Junho de 2013. O diferencial reduziu
progressivamente a partir de Agosto, tendo atingido 4% no final do ano.

TAXAS DE CÂMBIO USD/KWANZA


110
105
100
95
USD/Kz

90
85
80
75
70
Ju 0
Se 0
De 0

De 2

Ju 3
Se 3
9

M 0

Ju 1
Se 1
De 1

M 1

Ju 2
Se 2

M 2

De 3
3
-1

1
t-1

1
t-1

t-1

-1

1
z-0

z-1

-1

z-1

-1

z-1

t-1
z-1
n-

n-

n-

n-
ar

ar

ar

ar
De

Referência Mercado Secundário Mercado Informal


FONTE: BNA.

2.4.6 Agregados monetários

A liquidez na economia (M3) teve um crescimento de 14%, superior ao cres-


cimento verificado no ano anterior de 6%. O aumento do M3 em 2013 é explica-
do pela expansão dos activos internos líquidos (AIL) em 85%. Os activos externos

72 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

líquidos (AEL) tiveram um decréscimo de 2% comparativamente a 2012, tendo


atingido 3.116 mil milhões de Kwanzas (equivalente a 32,5 mil milhões de USD) em
Dezembro de 2013, como resultado da redução dos AEL dos bancos em 4% e do
ligeiro aumento das reservas internacionais líquidas (RIL).

Síntese Monetária

Em mil milhões de Kz Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13 sĂƌ͘ϭϯͬϭϮ


ĐƟǀŽƐĞdžƚĞƌŶŽƐůşƋƵŝĚŽƐ 1.129 1.698 2.902 3.163 3.116 -2%
Em mil milhões de USD 12,6 18,3 30,5 33,0 31,9 -3%
Reservas internacionais líquidas 1.128 1.605 2.485 2.935 3.021 3%
Em mil milhões de USD 12,6 17,3 26,1 30,6 30,9 1%
KƵƚƌŽƐĐƟǀŽƐĞdžƚĞƌ͘ůşƋ͘ĚŽĂŶĐŽ
-2 78 82 79 76 -4%
Central
ĐƟǀŽƐĞdžƚĞƌŶŽƐůşƋƵŝĚŽƐĚŽƐďĂŶĐŽƐ 2 14 335 149 19 -88%
Em mil milhões de USD 0,0 0,2 3,5 1,6 0,2 -88%

ĐƟǀŽƐŝŶƚĞƌŶŽƐůşƋƵŝĚŽƐ 1.419 1.031 755 713 1.316 85%


Crédito interno líquido 1.728 1.782 1.748 1.733 2.276 31%
Crédito ao Governo Geral 395 106 -407 -931 -653 -30%
Crédito ao Governo Central (líq.) 395 96 -409 -932 -655 -30%
ĐƟǀŽƐ 979 957 1.231 1.197 1.445 21%
Depósitos -584 -861 -1.640 -2.129 -2.100 -1%
Crédito à economia 1.332 1.676 2.156 2.664 2.929 10%
KƵƚƌŽƐĐƟǀŽƐĞWĂƐƐŝǀŽƐ -309 -751 -994 -1.021 -960 -6%

M3 2.547 2.728 3.657 3.876 4.432 14%


FONTE: BNA.

FACTORES DE VARIAÇÃO DA LIQUIDEZ NA ECONOMIA


VARIAÇÃO EM % DO VALOR INICIAL DO M3

2013 -1% 7% 7% ĐƟǀŽƐĞdžƚĞƌŶŽƐůşƋƵŝĚŽƐ


ƌĠĚŝƚŽĂŽ'ŽǀĞƌŶŽ'ĞƌĂů;ůşƋ͘Ϳ
Crédito à economia
KƵƚƌŽƐĂĐƟǀŽƐĞƉĂƐƐŝǀŽƐ
2012 -14% 7% 14%

-20% -10% 0% 10% 20% 30%

| 73
CEIC / UCAN

As RIL atingiram 30,9 mil milhões de USD em Dezembro de 2013, tendo a sua
evolução sido afectada pela transferência, no final do ano, de cerca de 3,6 mil mi-
lhões de USD para a capitalização parcial do Fundo Soberano de Angola (FSDEA).

De forma a atender as necessidades de esterilização por parte do Tesouro,


para a execução orçamental, e procurar acompanhar o aumento da procura, a
oferta de dólares nos leilões do BNA aumentou 6% face a 2012 (contra um au-
mento no ano anterior de 22%). Este menor crescimento na venda de cambiais
nos leilões terá sido influenciado pelos seguintes factores: (i) o impacto do novo
regime cambial para o sector petrolífero, (ii) a redução das importações de bens
no ano em 5,4%47 e (iii) a necessidade de se manter um nível de RIL próximo do
ano anterior.

EVOLUÇÃO DAS RIL E ACTIVOS EXTERNOS DOS BANCOS

0,2
Dez - 13 30,9

Dez - 12 1,6
30,6

3,5
Dez - 11
26,1

Dez - 10 0,2
17,3

0,0
Dez - 09 12,6

Mil milhões de USD

ĐƟǀŽƐĞdžƚĞƌŶŽƐůşƋƵŝĚŽƐĂŶĐŽƐ ZĞƐĞƌǀĂƐŝŶƚĞƌŶĂƐůşƋƵŝĚĂƐE

A expansão dos AIL em 2013 é decorrente do aumento do crédito líquido ao


Governo, através do aumento da emissão de títulos (explicada anteriormente), e
do aumento do crédito à economia em 10%.

O crédito líquido ao Governo Geral diminuiu 30% – de 931 mil milhões de


Kwanzas em 2012, para 653 mil milhões de Kwanzas em 2013 – devido ao au-
mento dos activos48 em 21% (278 mil milhões de Kwanzas), decorrente do au-
mento das emissões de títulos, e da redução dos depósitos em 1%. Os depósitos
na Conta Única do Tesouro em moeda estrangeira (CUT-ME) tiveram uma redu-
ção de 13% no ano. Os depósitos na CUT-MN tiveram uma redução de 8%, tendo

47 ‘–‡ǣ‡Žƒ–×”‹‘†‡‹ϐŽƒ­ ‘†‘ͶǤo trimestre de 2013.

48 Os activos são essencialmente compostos por títulos (MN e ME).

74 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

atingido 141 mil milhões no final de 2013, abaixo da existência de Bilhetes do


Tesouro (266 mil milhões de Kwanzas). Por sua vez, os depósitos do Governo nos
bancos comerciais tiveram um aumento de 37% no ano, tendo atingido 637 mil
milhões de kwanzas em Dezembro.

A expansão do crédito à economia foi de 10% em 2013 face ao ano anterior,


abaixo da expansão verificada em 2012 (24%). A expansão do crédito ao sector pri-
vado foi de 11%, enquanto o crédito ao sector público empresarial (SPE) diminuiu
15% (representando este sector apenas 3% do crédito à economia em Dezembro
de 2013).

O crescimento do crédito à economia foi sustentado pelo aumento do crédito


em moeda nacional, em 23%, uma vez que o crédito em moeda estrangeira teve
uma redução de 7%. Desta forma, o peso do crédito em moeda estrangeira dimi-
nuiu de 43,4% em 2012 para 36,7% em 2013. Para a redução do peso do crédito
em moeda estrangeira tem contribuído o limite de exposição cambial49 e os limites
qualitativos à concessão de crédito em moeda estrangeira50.

CRÉDITO À ECONOMIA
2.000 70%
1.800
60%
Mil milhões de Kz

1.600
1.400 50%
1.200 40%
1.000
800 30%
600 20%
400
10%
200
0 0%
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 113
Crédito MN Crédito ME Crédito ME/Crédito total (esc. direito)
FONTE: BNA.

Em 2013, o crédito a empresas teve um crescimento inferior ao crédito a par-


ticulares (4% contra 44%). O crescimento no crédito a empresas foi impulsionado
pelos sectores que se seguem.

49 Aviso n.o 5/2010, de 10 de Novembro.

50Aviso n.oͶȀʹͲͳͳǡ†‡ͺ†‡ —Š‘ǡ“—‡‹–”‘†—œ‹—ƒ’”‘‹„‹­ ‘†ƒ…‘…‡•• ‘†‡…”±†‹–‘


em ME a curto prazo (até 1 ano) para todos os sectores – excepto Estado e entidades
com receitas comprovadas em moeda estrangeira – e o encerramento de todas as con-
tas nesta condição até 31 de Dezembro de 2012.

| 75
CEIC / UCAN

ͻ Actividades de educação, saúde, acção social e outras, com uma variação


anual de 30%, tendo o seu peso no total de crédito aumentado de 19% em
2012 para 22% em 2013.

ͻ Agricultura e pescas, com uma variação anual de 26%, tendo o seu peso no
total do crédito aumentado de 2,6%, em 2012, para 3%, em 2013.

ͻ Actividades imobiliárias, aluguer e serviços prestados às empresas, com uma


variação anual de 18%, tendo o seu peso no total do crédito aumentado de
10% em 2012 para 11% em 2013.

ͻ Comércio por grosso e a retalho, com uma variação anual de 11%, tendo o seu
peso no total de crédito mantido em 17% em 2013.

2.4.7 Meios de pagamento

Em 2013, o crescimento do M3 de 14% foi impulsionado pelo aumento da liqui-


dez em moeda nacional, em 29,8%, uma vez que a liquidez em moeda estrangeira
teve uma diminuição de 3%. Desta forma, a dolarização da economia, medida pelo
peso da moeda estrangeira (ME) sobre o M3, reduziu em 7 pontos percentuais face
a 2012, tendo-se situado em 40% no final de 2013.

MASSA MONETÁRIA - TAXA DE VARIAÇÃO ANUAL


70%
60%
50%
40% 34,0%
30%
21,5%
20% 14,3%
7,1% 6,0%
10% 266

0%
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13

M1 M2 M3
FONTE: BNA.

76 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

MEIOS DE PAGAMENTO
Mil milhões de Kz Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13 sĂƌ͘ϭϯͬϭϮ
Meios de Pagamento M3 2.548 2.728 3.657 3.876 4.432 14,3%
Meios de Pagamento M2 2.304 2.626 3.506 3.799 4.379 15,3%
Moeda M1 1.635 1.700 2.151 2.215 2.574 16,2%
Notas e moedas em poder do público 170 172 209 245 276 12,9%
Notas e moedas em circulação 214 229 288 336 410 22,3%
- Caixa nos bancos comerciais -44 -58 -79 -91 -134 47,5%
Depósitos à ordem – MN 609 733 956 1.041 1.463 40,5%
Depósitos à ordem – ME 857 795 986 929 835 -10,1%

Quase-moeda 669 926 1.356 1.584 1.805 13,9%


Depósitos a prazo – MN 260 409 596 724 899 24,2%
Outras Obrigações – ME 32 15 27 3 2 -29,2%
Depósitos a prazo – ME 377 501 732 858 904 5,4%
Outros Instrumentos Financeiros 244 102 151 77 53 -31,5%
ŵƉƌĠƐƟŵŽƐĞĂĐŽƌĚŽƐĚĞZĞĐŽŵƉƌĂ
232 83 112 39 20 0,0%
– MN
ŵƉƌĠƐƟŵŽƐĞĂĐŽƌĚŽƐĚĞZĞĐŽŵƉƌĂ
12 20 39 38 32 0,0%
– ME
DƵůƟƉůŝĐĂĚŽƌŵŽŶĞƚĄƌŝŽ;DϯͬZDͿ 3,0 2,4 3,2 3,5 4,4
FONTE: BNA.

O crescimento do M2 foi próximo ao do M3, de 15,3%, induzido pelo aumento


dos depósitos a prazo em moeda nacional em 24% e moeda estrangeira em 5%.
O M1 cresceu cerca de 16%, influenciado pelo aumento dos depósitos à ordem
em moeda nacional, em 41% e das notas e moedas em poder do público em 13%.

ESTRUTURA DOS MEIOS DE PAGAMENTO - M3


70%
60
60%
51 51 53
50 50 49 49
50% 47
40
40%

30%

20%

10%

0%
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13
MPME MPMN
FONTE: BNA.

| 77
CEIC / UCAN

2.4.8 Passivo do BNA

Em 2013, a reserva monetária teve um aumento de 7%, resultante do efeito


líquido da expansão da base monetária em 17% e da redução dos títulos do Banco
Central (TBC) em poder dos bancos comerciais em 89%.
A expansão da base monetária resultou do aumento (i) das notas e moedas em
circulação de 22%, influenciado pelo aumento das notas e moedas emitidas em
15%, e (i) dos depósitos dos bancos junto do BNA, para o cumprimento das reser-
vas obrigatórias, aumentaram em 11,7%51.
O BNA procedeu à introdução, de forma progressiva, da nova família de notas e
moedas metálicas do Kwanza a partir de Fevereiro de 2013 tendo em vista a subs-
tituição da série de 1999 e atender ao esperado aumento da procura da moeda
nacional devido às medidas de desdolarização em curso, com destaque para en-
trada em vigor, a partir de Julho, da 3.a fase do regime cambial aplicável ao sector
petrolífero (pagamentos a residentes cambiais exclusivamente em Kwanzas).

PASSIVOS SELECCIONADOS DO BNA


EVOLUÇÃO DOS SALDOS NO FIM DO ANO
1.600
1.400
1.200
Mil milhões Kz

1.000
800
600
400
200
0
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13

Notas de circulação Depósitos dos Bancos Comerciais


Títulos em poder dos Bancos Comerciais CUT-MN CUT-ME
FONTE: BNA.

Com a redução das emissões de títulos do Banco Central (TBC), explicada ante-
riormente, a existência atingiu 9 mil milhões de Kwanzas em Dezembro de 2013.
O multiplicador monetário52 aumentou de 3,5 em Dezembro de 2012 para 4,6
em Dezembro de 2013 devido ao maior efeito da expansão nos meios de pagamen-
to sobre a reserva monetária.

51•”‡•‡”˜ƒ•Ž‹˜”‡•ƒ’Ž‹…ƒ†ƒ•’‡Ž‘•ƒ…‘•‘ϐ‹ƒŽ†‘†‹ƒ‡ˆƒ…‹Ž‹†ƒ†‡•†‡†‡’ו‹–‘

não se encontram incluídas nesta rubrica. Apenas através da consulta ao Relatório e


‘–ƒ•±’‘••À˜‡Ž‹†‡–‹ϐ‹…ƒ”Ǧ•‡‘•ƒŽ†‘ƒ’Ž‹…ƒ†‘‡•–‡‹•–”—‡–‘Ǥ
52 Relação entre a massa monetária e a reserva monetária (M3/RM).

78 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2.4.9 Sistema Bancário

2.4.9.1 Principais desenvolvimentos na supervisão

Com o objectivo de adequar a regulamentação relativa à constituição de insti-


tuições financeiras às práticas internacionais, e a reforçar os poderes de supervisão,
o Banco Nacional de Angola (BNA) aprovou regulamentos relativos à governação
corporativa, o controlo interno, a supervisão em base consolidada e a auditoria
externa (Avisos 1/13, 2/13 de 19 de Abril e 3/13 e 4/13 de 22 de Abril).

Por sua vez, foram estabelecidos novos requisitos e procedimentos para:

ͻ a autorização de constituição de instituições financeiras bancárias, estando


incluído o estabelecimento de filiais, sucursais e escritórios de representação
de instituição financeira (Aviso 9/13);

ͻ a aquisição ou aumento de participações qualificadas, bem como para a fusão


ou cisão das instituições financeiras sob supervisão do BNA (Aviso 10/13);

ͻ a inscrição em registo especial de instituições financeiras sob a supervisão do


BNA e dos respectivos membros dos órgãos sociais aos candidatos a directores
com funções de gestão das instituições com sede em Angola e aos gerentes e
directores de sucursais ou escritórios de representação sujeitos à supervisão
do BNA (Aviso 11/2013);

ͻ o processo de instrução do pedido de autorização de alterações estatutárias,


especialmente no âmbito do aumento do capital social de instituições finan-
ceiras (Aviso 12/2013).

Por último, para efeito de reforço da solvabilidade do sistema, o BNA procedeu


ao aumento do capital social e dos fundos próprios regulamentares mínimos de
AKZ 600 milhões para AKZ 2,5 mil milhões, dispondo os bancos até 30 de Junho de
2014 para estarem em observância com esta exigência (Aviso 14/13).

2.4.9.2 Estrutura do Sector Bancário

Em 31 de Dezembro de 2013 o sistema bancário era composto por 28 institui-


ções financeiras bancárias autorizadas, dos quais encontravam-se 22 em activida-
de e as restantes em processo de início de actividade ou de conclusão do registo
especial53.

53ƒ…‘’ƒ”ƒƒ”‘‘­ ‘‡‡•‡˜‘Ž˜‹‡–‘ȋȌǡ…Žƒ••‹ϐ‹…ƒ†‘…‘‘„ƒ…‘‹•–‘ǡ

 ‘…Š‡‰‘—ƒ‹‹…‹ƒ”ƒƒ…–‹˜‹†ƒ†‡ǡ–‡†‘•‹†‘ˆ‘”ƒŽ‡–‡‡š–‹–‘‡ʹͲͳ͵Ǥ

| 79
CEIC / UCAN

N.o DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS BANCÁRIAS AUTORIZADAS


͵WKZd/WK>K'/KEdZK>K/KE/^d
2009 2010 2011 2012 2013
Públicos 3 3 3 3 4
Mistos - 1 1 1 -
Privados nacionais 10 12 12 12 16
Filiais de bancos estrangeiros 6 7 7 7 8
Total, dos quais: 19 23 23 23 28
ŵĂĐƟǀŝĚĂĚĞ 19 22 22 22 22
FONTE: BNA.

2.4.9.3 Indicadores de solidez do Sistema Bancário

O rácio de liquidez do Sistema Bancário, medido pela relação entre os activos


líquidos e os passivos exigíveis a curto prazo teve um aumento comparativamente a
Dezembro de 2012, de 3 pontos percentuais, atingindo 37% em Dezembro de 2013.

Para o aumento do rácio de liquidez no ano, contribuiu em parte o facto do


crédito concedido pelos bancos ter tido um crescimento inferior ao crescimento
dos depósitos de, respectivamente, 10% e 23%, e que resultou numa redução do
rácio entre crédito e depósitos em 2 pontos percentuais, para 63% em Dezembro
de 2013.

INDICADORES DE LIQUIDEZ (%)


100

80

60

40

20

0
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13

ĐƟǀŽƐůşƋƵŝĚŽƐͬĐƚŝǀŽƚŽƚĂů ĐƟǀŽƐůşƋƵŝĚŽƐͬWĂƐƐŝǀŽƐĚĞĐƵƌƚŽƉƌĂnjŽ
ƌĠĚŝƚŽƚŽƚĂůͬĞƉſƐŝƚŽƐƚŽƚĂŝƐ
FONTE: BNA.

No que respeita ao risco de crédito, o crédito total aumentou 10% no ano,


enquanto o crédito vencido (definido como crédito com prestações em atraso há
mais de 60 dias) aumentou cerca de 50% em igual período. Por conseguinte, o rácio
de crédito vencido sobre o total de crédito aumentou de 6,8% para 9,8% no ano.

80 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

QUALIDADE DO ACTIVO (%)


25

20

15

10

0
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13
Crédito vencido/Crédito total
(CrĠĚŝƚŽǀĞŶĐŝĚŽͲƉƌŽǀŝƐƁĞƐĞƐƉĞĐşĨŝĐĂƐͿͬ&ƵŶĚŽƐƉƌſƉƌŝŽƐ
FONTE: BNA.

Este aumento do risco de crédito não foi, no entanto, acompanhado pelo re-
forço das provisões – conforme revela o indicador de cobertura do crédito vencido
líquido de provisões por fundos próprios regulamentares, que teve um aumento
de 12% em Dezembro de 2012 para 22% em Dezembro de 2013 – o que poderá
indicar a necessidade de um maior reforço no futuro para fazer face ao risco da
carteira actual54.

A exposição ao risco cambial sobre os fundos próprios regulamentares aumen-


tou de uma posição longa55 de 7% em Dezembro de 2012 para 16% em Dezembro
de 2013, mantendo-se dentro do limite regulamentar de 20%.

54 Um indicador é a manutenção, de ano para ano, das reservas nos pareceres dos audi-

–‘”‡•‡š–‡”‘••‘„”‡ƒ•…‘–ƒ•†‡ƒŽ‰—•„ƒ…‘•ǡ”‡Žƒ–‹˜ƒ•‹•—ϐ‹…‹²…‹ƒ†‡’”‘˜‹•Ù‡•
para crédito.
55  ‡š’‘•‹­ ‘ …ƒ„‹ƒŽ …‘””‡•’‘†‡  †‹ˆ‡”‡­ƒ ‡–”‡ ƒ…–‹˜‘• ‡ ’ƒ••‹˜‘• ϐ‹”‡• ȋ‹•–‘

é, do balanço) denominados em moeda estrangeira ou indexados a ME, incluindo uma


percentagem de passivos contingentes em ME. A posição cambial corresponde apenas
†‹ˆ‡”‡­ƒ‡–”‡ƒ…–‹˜‘•‡’ƒ••‹˜‘•ϐ‹”‡•‡Ǥƒ–‘ƒ‡š’‘•‹­ ‘…ƒ„‹ƒŽ…‘‘ƒ
posição cambial diz-se longa (curta) quando os activos são superiores (inferiores) aos
passivos e nula quando os activos são iguais aos passivos.

| 81
CEIC / UCAN

INDICADORES DE EXPOSIÇÃO AO RISCO CAMBIAL (%)


100

80
65,3 64,9
60
50,9
42,7
37,8
40

20

0
Dez-09 Dez-10 Dez-11 Dez-12 Dez-13

Crédito ME/Crédito total ExposiçĆŽĂŵďŝĂůďĞƌƚĂ>şƋƵŝĚĂͬ&ƵŶĚŽƐWƌſƉƌŝŽƐ


FONTE: BNA.

A variação da exposição ao risco cambial no ano foi afectada por vários fac-
tores:

ͻ A redução do crédito em moeda estrangeira (ME) em 7% o, que, conjugado


com o aumento do crédito em moeda nacional em 23%, implicou a diminui-
ção do peso do crédito em ME em 5 pontos percentuais no ano, para 38%.
A redução do crédito em ME foi essencialmente feita por conversão em MN,
tendo implicado uma redução da exposição cambial longa.

ͻ O aumento da disponibilidade de divisas para o sector bancário, com a entrada


em vigor da 3.a fase do regime cambial aplicável ao sector petrolífero;

ͻ O resgate em Dezembro de 2013 de um elevado valor OT indexado à taxa de


câmbio (59 mil milhões de Kwanzas, explicado anteriormente), tendo implicado
uma redução da exposição cambial longa.

ͻ A redução da posição cambial longa do balanço agregado do sector bancário


de 3,7 mil milhões de USD em Dezembro de 2012 para 1,8 mil milhões de USD
em Dezembro de 2013, essencialmente explicada pela conversão de crédito
acima referida e de outros activos.

82 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

FACTORES DE VARIAÇÃO DA POSIÇÃO CAMBIAL DO SECTOR BANCÁRIO


VARIAÇÃO DEZEMBRO 2013/12 EM MILHÕES DE USD

Posição cambial -1.879


Outras responsabilidades -891
Outras recursos
Depósitos 1.114
KƵƚƌŽƐĂĐƟǀŽƐ -1.299

Crédito à economia -1.053

ƌĠĚŝƚŽĂŽ'ŽǀĞƌŶŽ'ĞƌĂů
Disponibilidades e aplicações -50

-3.000 -2.000 -1.000 0 1.000 2.000


FONTE: BNA, Cálculos CEIC.
ȗƒ˜ƒ”‹ƒ­ ‘’‘•‹–‹˜ƒȋ‡‰ƒ–‹˜ƒȌ†ƒ•”—„”‹…ƒ•†‘ƒ…–‹˜‘•‹‰‹ϐ‹…ƒƒ—‡–‘ȋ”‡†—­ ‘Ȍ†ƒ’‘•‹­ ‘…ƒ„‹ƒŽǢ
—ƒ˜ƒ”‹ƒ­ ‘’‘•‹–‹˜ƒȋ‡‰ƒ–‹˜ƒȌƒ•”—„”‹…ƒ•†‘’ƒ••‹˜‘•‹‰‹ϐ‹…ƒ”‡†—­ ‘ȋƒ—‡–‘Ȍ†ƒ’‘•‹­ ‘…ƒ„‹ƒŽ

O risco cambial pode aumentar futuramente, à medida que se vencem as pres-


tações do crédito em moeda estrangeira, com a redução da disponibilidade desta
para transacções no mercado interno decorrente da entrada em vigor do novo
regime cambial aplicável ao sector petrolífero. No entanto este impacto negativo,
resultante destas restrições, poderá eventualmente vir a ser atenuado através do
aumento da oferta de moeda estrangeira ao sector bancário decorrente da entra-
da do referido regime cambial, compensando as posições curtas decorrentes da
conversão do crédito para Kwanzas ou liquidação das prestações em Kwanzas.

A rentabilidade dos capitais próprios (ROE), medida pelo rácio entre os resul-
tados líquidos e os fundos próprios, reduziu de 12,5% para 10,9%, que poderá ser
explicada pelo crescimento dos resultados líquidos do exercício de 5%, inferior ao
crescimento dos fundos próprios de 17%. O rácio da rentabilidade dos activos re-
duziu de 1,6% em Dezembro de 2012 para 1,4% em Dezembro de 2013 devido
ao aumento do activo superior ao aumento dos resultados líquidos. O reduzido
aumento dos resultados líquidos é explicado pelo crescimento dos custos opera-
cionais superiores ao produto bancário (reflectido no aumento do rácio de custos
sobre proveitos, de 41% para 54%) e das provisões para crédito.

| 83
CEIC / UCAN

INDICADORES DE RENTABILIDADE E EFICIÊNCIA (%)


100 4

80
3
60
2
40
1
20

0 0
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13
Rentabilidade do capital (ROE) Custos/proveitos)
ZĞŶƚĂďŝůŝĚĂĚĞĚŽƐĂĐƟǀŽƐ;ZKͿ;ĞƐĐĂůĂĚĂĚŝƌĞŝƚĂͿ
FONTE: BNA.

Por último, o rácio de solvabilidade regulamentar de Dezembro de 2013 mante-


ve-se próximo de 20%, tendo subido 1,2 pontos percentuais face ao ano anterior (o
limite mínimo regulamentar é de 10%). A participação dos fundos próprios de base
(de melhor qualidade) nos activos ponderados pelo risco também manteve-se em
14% no período em análise.

INDICATIVOS DE SOLIDEZ (%)


25

20

15

10

0
Dez - 09 Dez - 10 Dez - 11 Dez - 12 Dez - 13

&ƵŶĚŽƐƉƌſƉƌŝŽƐĚĞďĂƐĞ;ŶşǀĞůϭͿͬWZ ^ŽůǀĂďŝůŝĚĂĚĞс&WZͬ;WZнZͬϬ͕ϭϬͿ
FONTE: BNA.

84 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

3. NÍVEL GERAL DA ACTIVIDADE ECONÓMICA

3.1 Considerações gerais

O processo de diversificação da economia nacional, em que o Governo, o sec-


tor empresarial e o sistema bancário estão empenhados, ainda não deu resultados
palpáveis, continuando o sector petrolífero a dominar, com um peso relativo en-
tre 43% e 46% o Produto Nacional Bruto. De resto, esta dominância ocorre igual-
mente em outros indicadores, como as receitas fiscais (as de origem petrolífera
representaram mais de ¾ do total das receitas tributárias em 2013), as receitas de
exportação (95% do total) e as reservas internacionais do país. No entanto, numa
perspectiva dinâmica, começam a ser notórios alguns sinais de diversificação das
fontes de financiamento fiscal do Estado, registando-se aumentos noutras rubricas
das receitas orçamentais, que têm sido objecto de reestruturação no âmbito do
PERT.

O efeito contágio proveniente da economia petrolífera tem contribuído para o


aumento do rendimento de algumas faixas da população, melhorando o seu poder
aquisitivo, com reflexos imediatos no aumento da actividade comercial.

As informações disponíveis mostram, por outro lado, que a preferência por


moeda externa se mantém bastante viva, sendo prova a proporção, nos dois tipos
de depósitos, entre moeda nacional e divisas. Na verdade, entre 2009 e 2013, a
fracção média de moeda externa nos depósitos a prazo cifrou-se acima de 55%,
mostrando que a confiança no Kwanza ainda não é a que a moeda nacional deveria
ter no funcionamento normal de uma economia (o mesmo se passa nos depósitos
à ordem, onde aquela proporção média é de 52%). Mas acaba, igualmente, por ser
o reflexo de a economia nacional ser de enclave e beneficiar das receitas em divi-
sas de um produto que continuam a ser dominantes na matriz energética mundial,
portanto, com procura assegurada.

Tem sido no domínio das macro-variáveis onde os resultados se mostram, não


apenas mais expressivos, mas igualmente mais sustentados. O comunicado do Co-
mité de Política Monetária do Banco Nacional de Angola de 27 de Janeiro de 2014
relativamente à situação de 2013 dá justamente conta desses progressos: estabi-
lidade do mercado cambial, aumento de 9,3% do crédito à economia (em moeda

| 85
CEIC / UCAN

nacional a taxa foi de 20,5%), taxa de inflação de 7,7% (um ganho de 1,3 pontos
percentuais em relação a 2012), representando uma trajectória segura para a es-
tabilidade dos preços no país e taxas de juro de 7,5% e 9,3% nas maturidades de 3
e 12 meses respectivamente.

Na tabela anterior pode verificar-se que a situação externa da economia ango-


lana, medida pelo stock de reservas internacionais líquidas e pela sua dinâmica de
variação média anual, é salutar (30,6 mil milhões de dólares no final de 2013 e uma
taxa média anual de variação de 24,8%), representando “grosso modo” 9 meses de
importações de bens e serviços.

3.2 Actividade económica

A economia nacional tem beneficiado de uma série de factores positivos e


incentivadores para o seu crescimento. Não apenas as medidas de política eco-
nómica implementadas no âmbito dos programas de Governo – está em curso
a execução o Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017, aguardando-se os
respectivos resultados referentes a 2013 –, como factores de natureza externa
(comportamento altista da procura e do preço do petróleo no mercado interna-
cional, incremento das relações comerciais com as mais importantes e dinâmicas
economias emergentes) e de apoio interno, condensadas na disponibilização pelo
sistema bancário e pelo próprio Estado de meios financeiros para financiar o in-
vestimento privado.

Com efeito, o montante global de crédito concedido à economia tem-se com-


portado de uma maneira muito aceitável, tendo atingido cerca de 33 mil milhões
de dólares no final de 2013.

CRÉDITO (M USD)
32928,3
27930,4
22932,4
18102,6
14904,6

2009 2010 2011 2012 2013

FONTE: Relatório de Fundamentação do OGE 2014.

86 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Também a taxa de crédito à economia tem-se comportado de uma forma as-


cendente e a sua dinâmica média de variação situou-se em 20% por ano.

26,7 27,0
24,5
21,5
19,7 22,0
21,1 21,8
17,9
15,8

Taxa de crédito (%)


Taxa de variação do crédito (%)

2009 2010 2011 2012 2013


FONTE: Relatório de Fundamentação do OGE 2014.

Apesar destas condições, a economia angolana continua a sofrer de insufi-


ciências estruturais que o próprio sistema bancário tem tentado ajudar através
de assistência e apoio à formulação correcta de projectos de investimento que
sejam bancáveis. A falta de competitividade de praticamente toda a economia
não petrolífera é um facto generalizadamente reconhecido, não apenas pelas
instituições internacionais (o Banco Mundial através do Doing Business identi-
fica, para cada um dos países membros da organização, as razões, positivas e
negativas, que influenciam os ambientes nacionais de negócios e Angola tem sis-
tematicamente ocupado os lugares mais baixos), mas igualmente pelas institui-
ções nacionais vocacionadas para o apoio ao crescimento. A prova mais recente
desta falta de competitividade foi dada por mais um adiamento à adesão à Zona
de Livre Comércio da SADC56.

De acordo com as informações existentes, o PIB nacional deverá ter crescido a


uma taxa média anual de 3,3% entre 2009 e 2013, bem distante dos cerca de 10%
registados no período 2002/2008.

56Agora para 2017, como se 3 anos e uma pauta aduaneira muito proteccionista fos-
•‡•—ϐ‹…‹‡–‡•’ƒ”ƒ”‡•‘Ž˜‡”’”‘„Ž‡ƒ•‡•–”—–—”ƒ‹•‡–‘†‘•‘•†‘À‹‘•ǡ”‡Žƒ…‹‘ƒ-
dos com a capacidade de vender barato, com qualidade e com lucro.

| 87
CEIC / UCAN

COMPARAÇÃO DO CRESCIMENTO ECONÓMICO


16
14
12
10
8
6
4
2
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Taxa crescimento PIB Taxa tendencial
FONTE: CEIC, icheiro Índice do PIB.

O sector da energia e água continuou a ser, em 2013, um dos principais obs-


táculos de uma retoma mais firme e continuada da actividade económica, dado o
seu papel estruturante a montante de todo o funcionamento de produção. Apesar
de registos estatísticos positivos (uma taxa média real anual de variação de 16%
entre 2002 e 2013), a produção nacional e a prestação de serviços continuaram
a ser prejudicados pelas faltas sistemáticas de electricidade, tornando o recurso
constante e permanente aos geradores uma alternativa muito cara, reduzindo-se a
competitividade e as possibilidades de diversificação das exportações (entre 2009
e 2013 ocorreu uma redução para 12,3% na taxa de crescimento da produção de
energia, de acordo com os dados das Contas Nacionais do INE).

COMPARAÇÃO ENTRE O CRESCIMENTO DO PIB E DA ENERGIA

450
400
350
300
250
200
150
100
50
0
98 999 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Índice do PIB Índice da energia


FONTE: CEIC, icheiro Índice do PIB.

88 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Aparentemente, só depois de 2006 é que a energia se coloca como sector de


retaguarda e de apoio ao crescimento da economia, ao situar a sua dinâmica de
variação acima da do PIB.

O Governo tem em fase de implementação um ambicioso programa de produ-


ção e fornecimento de electricidade – envolvendo as actividades produtivas e as
famílias – do qual se esperam resultados significativos sobre as condições de vida
da população e a redução dos custos de produção da economia.

Mas os sectores convencionalmente considerados como bases estruturais de


transformações produtivas sustentáveis – agricultura, manufactura e construção
(sem considerar-se, evidentemente, áreas institucionais e transversais de relevân-
cia indiscutível, como a educação, a ciência, a pesquisa e a inovação, para as quais
a cobertura estatística é mais do que pobre e a afectação de verbas quase pífia)
– também não conseguiram num ano (nem tal seria possível) ultrapassar milhares
de escolhos limitativos da obtenção de ganhos competitivos de valor acrescentado
nacional.

Os investimentos públicos têm sido uma das molas impulsionadoras do cres-


cimento da economia não petrolífera e uma das modalidades mais importantes
de criação de emprego (através dos quais se pode distribuir mais rendimento na-
cional), sendo que os reflexos no comportamento do sector da construção foram
importantes.

INVESTIMENTO PÚBLICO (milhões de dólares)


2008 2009 2010 2011 2012 2013
Invest.Público 11874,4 8314,3 7682,1 8994,7 11996,9 11806,9

As exportações de petróleo continuaram a ser um dos mais importantes fac-


tores de crescimento da economia em 2013, com uma contribuição de um pouco
menos de 2 pontos percentuais para a taxa de crescimento de 4,1% do PIB, apesar
do decréscimo verificado de 2012 para 2013, segundo informações do Relatório
de Fundamentação do OGE 2014. O seu valor, em 2013, foi de 65124 milhões de
dólares, contra 68960 milhões de dólares em 2012, um decréscimo percentual de
5,6%. A diminuição do preço médio do barril de petróleo (quase 3,4%, de acordo
com informações do Ministério dos Petróleos) foi a principal razão, já que a pro-
dução se incrementou em 0,6%. A sua representatividade nas exportações totais
manteve-se na vizinhança de 96%. Usando o coeficiente de Hirschman, o grau de
concentração das exportações nacionais é de 0,98.

| 89
CEIC / UCAN

COMPORTAMENTO DA ECONOMIA ANGOLANA: TAXAS REAIS DE CRESCIMENTO EM %


2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Agricultura, Pecuária,
5,42 6,05 4,76 9,46 3,70 -2,35 5,87
Florestas
Pescas 5,94 1,64 6,21 -13,28 -15,02 -14,31 3,54
Petróleo e Gás 21,76 10,27 -4,97 -0,54 -8,43 7,41 0,60
Diamantes e Outros 18,76 -1,79 5,59 6,46 44,15 -48,77 6,60
Indústria Transformadora 2,02 5,91 7,02 19,16 45,83 16,81 7,65
Electricidade 9,54 8,11 23,68 9,50 -0,34 31,80 10,61
Construção 17,69 8,93 12,78 25,95 8,37 31,00 6,87
Serviços 5,60 12,92 8,17 4,23 5,92 -0,82 5,41
PIB não petrolífero 21,5 15,0 8,1 10,0 9,5 5,6 5,8
PIB 13,9 10,5 2,0 4,6 1,9 5,3 4,1
PIB (milhões de dólares) 65457,5 88377,7 64915,9 82744,4 110813,6 124172,4 128055,4
População (INE) 15889 16368 16889 17430 17901 18384 18880
PIB por habitante (USD) 4119,7 5399,4 3843,7 4747,2 6190,5 6754,4 6782,5
FONTE: INE – Contas Nacionais 2002-2012; Ministério das Finanças – Relatório de Fundamentação do Orçamento Geral
do Estado 2014; Fundo Monetário Internacional – Angola: Second Post-Program Monitoring, March 2014.

Como ilustrado na tabela acima, 2009 e 2011 – na série estatística 2002-2012


– ficam registados como os piores do período depois de conseguida a paz, com re-
gistos de crescimento de apenas 2,0% e 1,9%57, insuficientes para cobrir os custos
de reprodução da população, cuja taxa de variação foi de cerca de 3,2%58. Daí a
regressão no valor do rendimento médio por habitante em 2009, e que no final de
2013 poderá ter-se aproximado dos 6800 dólares.

O processo de diversificação da economia nacional – no contexto do qual se


pretende reduzir o excessivo peso relativo da economia petrolífera – pode ser ana-
lisado pela comparação entre as dinâmicas de crescimento do PIB petrolífero e não
petrolífero, ainda que não seja, na verdade, um dos sinalizadores mais relevantes
e aceites na literatura científica.

57 Crise Económica em Angola em 2011 e 2012? Os factos que ninguém percebeu, Alves da

‘…Šƒǡ‡ƒž”‹‘Expansão, 9 de Maio de 2014.


58INE – Estatísticas Sociais de Angola 2010 (com estimativas e previsões da popula-
ção até 2015).

90 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

COMPORTAMENTO DO PIBp e PIBnp

25,5 25,9
21,8
20,6 21,5
13,9
15,0
12,8 13,6 13,1
10,0 8,1 10,0
6,2 9,5
9,3 10,3 7,4
5,8
0,4 4,3 5,6
0,6
-1,0 -0,54
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
-3,8 -4,97
-8,43
PIB petrolífero PIB não petrolífero
FONTE: CEIC, icheiro Índice do PIB.

Apesar de a economia não petrolífera patentear uma maior dinâmica de cres-


cimento do que o sector petrolífero – que pode não corresponder a qualquer alte-
ração estrutural substancial e sustentável, por enquanto – é evidente, pelo gráfico
anterior, a persistência do seu padrão de dependência da produção e exportação
de petróleo, de onde saem as receitas e as poupanças para financiar os investi-
mentos públicos e os investimentos privados. Isto quer dizer que a economia não
petrolífera ainda não conseguiu criar bases de auto-sustentação (poupança e in-
vestimento, produtividade e competitividade) que a autonomizem do petróleo.
Aliás, como será sublinhado mais à frente, a agricultura e a manufactura conti-
nuam a não conseguirem uma posição relevante na estrutura económica nacional
(4% em média para cada uma delas no período 2002-2012, o que deve ser um caso
verdadeiramente singular de rigidez morfológica às mudanças na África Subsaria-
na, de que os empresários em actividade são os principais responsáveis, porque o
Estado tem procurado criar as condições exógenas – estradas, caminhos-de-ferro,
crédito bonificado – para o desenvolvimento destes sectores).

Os registos sistemáticos do crescimento económico podem ser visualizados


através do primeiro gráfico da página seguinte, que retrata o índice de crescimen-
to do PIB no período compreendido entre 1998 e 2013, onde se constata, depois
de 2008, uma evidente quebra na dinâmica de crescimento dos anos 2003 a 2008.

| 91
CEIC / UCAN

ÍNDICE DO PIB BASE 100 = 2002


250

200

150

100
Índice do PIB
50

0
1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013
FONTE: CEIC, icheiro Índice do PIB.

O comportamento exponencial do crescimento do PIB, registado entre 2002 e


2008, provavelmente não se registará novamente tão cedo, pelo menos enquanto
se não corrigirem as inúmeras imponderabilidades sobre o sector produtivo, ex-
pressas na publicação do Banco Mundial Doing Business 2014 e sentidas no quo-
tidiano do exercício da gestão empresarial nos domínios das infra-estruturas, do
fornecimento de água e electricidade, da carência de mão-de-obra especializada e
qualificada, da falta de espírito empreendedor, etc. Os menores crescimentos do
PIB verificados depois de 2008 contribuíram para uma diminuição da taxa média
de variação a longo prazo, conforme o gráfico seguinte.59

TENDÊNCIAS DE CRESCIMENTO DE LONGO PRAZO


16
14
12
10
8
6
4
2
0
98 999 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Taxa crescimento PIB Linha tendencial


FONTE: Centro de Estudos e Investigação Cientíica da UCAN, icheiro Índice do PIB.

O sector agrícola, como se referiu atrás, ainda não entrou numa trajectória
de crescimento sistemático e muito menos sustentado. Para além de problemas

59 Entre 2002 e 2008 o valor foi de 14,8%.

92 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

relacionados com as suas características próprias, o montante de investimentos,


públicos e privados, não tem sido suficiente para criar as condições para a sua des-
colagem e posterior sustentabilidade. Este sector tem um peso relevante para mais
de 50% da população60. Os registos estatísticos oficiais relativos à actividade agrí-
cola no país têm merecido análises muito atentas e construtivas há alguns anos a
esta parte dos Relatórios Económicos do CEIC, bem assim como a pouca relevância
dada em matéria de financiamentos do Orçamento Geral do Estado. A agricultura
familiar continua amplamente sujeita às influências aleatórias do clima, assim se
explicando a extraordinária quebra geral da sua actividade em 2012. Aliás, as taxas
médias anuais de crescimento do sector da agricultura, pecuária e florestas des-
de há muito tempo que são claramente baixas e insuficientes para distribuir mais
rendimento às famílias e melhorar as suas condições de vida (ver gráfico anterior).

OSCILAÇÃO DO CRESCIMENTO AGRÍCOLA


20

15

10

0
98 999 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2
-5
Taxa crescimento PIB Linha tendencial
FONTE: Centro de Estudos e Investigação Cientíica da UCAN, icheiro Índice do PIB.

O sector das Obras Públicas e Construção continua a ser um dos motores do


crescimento do sector não petrolífero – graças ao investimento público –, arras-
tando, pelos efeitos a montante e a jusante, outras actividades. No entanto, a sua
velocidade vem diminuindo, em particular depois de 2010. Na verdade, ocorreu
um evidente boom em 2001, talvez o ano de ouro desta actividade, mas igualmen-
te em 2002 e 2006. A partir daí, a sua dinâmica quebrou significativamente, apesar
do investimento público ter aumentado, em termos nominais, 53,7% entre 2010 e
2013. Talvez a razão principal esteja relacionada com as menores taxas de cresci-
mento do PIB e de alguns dos seus componentes (agricultura, manufactura). Entre
2011 e 2013 o sector estagnou na vizinhança de uma taxa de variação real de 7%.

60 Mais de 52% do emprego total da economia é assegurado pela agricultura e activida-

†‡•…‘‡šƒ•ǡ†‡ƒ…‘”†‘…‘†ƒ†‘•‘ϐ‹…‹ƒ‹•Ǥ

| 93
CEIC / UCAN

PERDA DE DINÂMICA DO SECTOR DA CONSTRUÇÃO


35

30

25

20

15

10

5
0
99 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Taxa crescimento PIB Linha tendencial


FONTE: Centro de Estudos e Investigação Cientíica da UCAN, icheiro Índice do PIB.

As Contas Nacionais 2002-2012 apresentam taxas de crescimento do sector da


Indústria Transformadora muito abaixo das estimativas oficiais com que se analisa-
va a performance desta actividade até presente. O seu peso relativo na estrutura
económica não foi além de 4% durante aquele período de tempo. E não há razões
válidas que justifiquem qualquer alteração substantiva depois de 2012.

O gráfico seguinte sugere uma correlação muito estreita entre o crescimento


da economia e da indústria transformadora.

CRESCIMENTO ACUMULADO NA MANUFACTURA


400
350
300
250
200
150
100
50
0
98 999 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Índice da manufactura Índice do PIB


FONTE: Centro de Estudos e Investigação Cientíica da UCAN, icheiro Índice do PIB.

94 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Segundo as Contas Nacionais, a taxa média anual de variação do Valor Agre-


gado da Manufactura entre 2002 e 2010 foi de 8,5% e uma taxa de 11,6% entre
2002 e 2012 (com as informações das Contas Nacionais 2002-2012). A subida de
3 pontos percentuais fica a dever-se à verdadeiramente extraordinária taxa de
crescimento da manufactura, de 45,8% em 201161, mas que imediatamente nos
anos seguintes, baixou para 16,8% em 2012 e possivelmente para 7% em 2013.
Estes movimentos muito sinuosos revelam estar-se perante uma actividade ainda
muito pouco estruturada e atreita a influências externas sobre a sua dinâmica.
A manufactura é um sector que deve ter uma inserção forte no tecido económico e
produtivo como o grande pólo aglutinador da integração económica interna e dos
ganhos de competitividade internacional.

Mas o mais importante a assinalar é que estas muito elevadas taxas, afinal, em
nada afectaram a representatividade da Indústria Transformadora no PIB, que em
2012, feitas as correcções aos valores do INE62, se ficou por 4,1%.

Em síntese, a Indústria Transformadora ainda não reuniu as condições básicas


para o take off final que a (re)coloque como a peça central do puzzle da diversifi-
cação da economia.

TENDÊNCIAS DE CRESCIMENTO DE LONGO PRAZO DA MANUFACTURA (%)


50

40

30

20

10

0
98 999 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Taxa crescimento PIB Linha tendencial


FONTE: Centro de Estudos e Investigação Cientíica da UCAN, icheiro Índice do PIB.

É necessário chamar-se a atenção para as dinâmicas temporais parcelares do


comportamento da Indústria Transformadora, sendo curioso assinalar-se o con-
traciclo da manufactura nacional em relação à crise económica e financeira de

61 Em 2010 foi de 19% e 2009 de 7%.

62INE, Contas Nacionais 2007-2012, páginas 37, 59 e 61 onde se mede a participação


deste sector no nível geral de actividade económica do país.

| 95
CEIC / UCAN

2008/2009. Com efeito, a mais elevada taxa média anual de crescimento da In-
dústria Transformadora ocorreu entre 2009 e 2013, sobretudo devido ao valor im-
pressionante de 45,8% de crescimento em 2011, afinal registos estatísticos bem
superiores à média nacional, o que não significa que a manufactura esteja no bom
caminho, como mais adiante se comprovará através dos índices de concentração
da actividade industrial.

TAXAS MÉDIAS ANUAIS DE CRESCIMENTO DO VAB INDUSTRIAL


ϭϵϵϴͬϮϬϭϯ ϮϬϬϮͬϮϬϬϴ ϮϬϬϵͬϮϬϭϯ
Taxas tendenciais %) 8,7 6,4 15,1

Assim, verifica-se que, a despeito das medidas de Política Industrial tomadas


pelo Governo (Zonas Económicas Especiais, Pólos de Desenvolvimento Industrial,
Pólos Regionais, apoios financeiros diversos, incremento geral do crédito à econo-
mia, etc.), a taxa média anual de crescimento real deste sector, no período mais
recente, ficou-se pelos 8%.

O sector dos serviços tem sido outra actividade de alavancagem da economia


nacional, em especial pelo apoio concedido ao funcionamento do sector produti-
vo. O seu crescimento em 2013 – na parte relativa aos bancos e seguros – já tem
contabilizado os efeitos da nova lei cambial para o sector petrolífero.

TENDÊNCIAS DE CRESCIMENTO DE LONGO PRAZO DOS SERVIÇOS


14
12
10
8
6
4
2
0
-2
98 999 000 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
19 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Taxa crescimento PIB Linha tendencial


FONTE: Centro de Estudos e Investigação Cientíica da UCAN, icheiro Índice do PIB.

Observa-se uma descolagem dos serviços mercantis da actividade económica


geral depois de 2005/2006, coincidindo com a reorganização dos serviços finan-
ceiros e da actividade bancária e com o efeito contágio sobre o comércio e a cons-
trução. Uma boa parte da construção imobiliária tem sido financiada pela banca.

96 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

3.3 Produto Interno Bruto: uma análise geral

Uma questão deixada em aberto no Relatório Económico de 2011 foi a da capa-


cidade de a economia nacional retomar níveis médios elevados de crescimento do
PIB, semelhantes aos ocorridos durante o que se pode designar a “mini-idade de
ouro”. Em concreto, perguntava-se sobre a possibilidade de fixar a rota de cresci-
mento futuro em 17% ao ano (taxa média ocorrida entre 2004 e 2008 de acordo com
os dados oficiais antes das Contas Nacionais 2002-2012), servindo 2012 como tes-
te63. Apontavam-se algumas dúvidas sobre se isso poderia, de facto, verificar-se64.
Embora ainda não esteja fechado 2013, em matéria de Contabilidade do Cresci-
mento, o Governo estimou em 7,4% a taxa de crescimento do PIB65, corrigida, mais
tarde, para 7,1% e estimada agora pelo Fundo Monetário Internacional em 4,1%66.
Parecem, portanto, confirmar-se os receios expressos no Relatório Económico de
2011 sobre a capacidade de se manterem as elevadas taxas de crescimento do PIB
do passado (2003/2008), atendendo à ainda prevalência de muitas impondera-
bilidades sobre o ambiente geral de negócios no país e de alguns factores de ris-
co67. Com taxas anuais médias de crescimento do PIB de 5,2%68 e de crescimento
da população de 3,2%69 pouco restará para distribuir e assim atingir-se o grande
propósito do Governo de melhorar substancialmente e de forma sustentada as
condições de vida da população até 2017, a não ser que profundas alterações no
actual modelo de acumulação primitiva do capital ocorram. Taxas de crescimento
em torno de 5% só permitem a duplicação do PIB em 14 anos.70.
Angola, desde 1998, apresenta diferentes fases e dinâmicas de crescimento
relacionadas com a influência dos gastos da guerra civil – 1975/2012 – as políticas

63Os períodos de crescimento da economia angolana foram: a fase longa, 1998/2013,


com uma taxa média anual de 5,9%, a fase antes da paz, 1998/2001, com uma varia-
ção média anual de 4,1%, a fase gloriosa, 2004/2008, com a taxa média anual de
ͳʹǡͺΨ‡ƒˆƒ•‡†ƒ…”‹•‡‡…‘×‹…ƒ‹ϐŽ—‡…‹ƒ†ƒ’‡Žƒ‡š…‡••‹˜ƒ†‡’‡†²…‹ƒ†‘’‡–”׎‡‘
(2009/2013 com 3,7% ao ano).
64 UCAN/CEIC , Relatório Económico 2011, páginas 74 e 75.

65República de Angola, Relatório de Fundamentação do Orçamento Geral do Estado


para 2013, Luanda, Dezembro de 2012.
66
International Monetary Fund, Angola Second Post-Program Monitoring, March 2014 e
World Economic Outlook, April 2014.
67 World Bank, Doing Business 2014.

68 International Monetary Fund, Angola Second Post-Program Monitoring, March 2014.

69 INE , Projecção da População 2009-2015, Fevereiro de 2012.

70 Na óptica do “estado estacionáriodz†‡‘Ž‘™ǡ…‘‡…‡••‹†ƒ†‡†‘…”‡•…‹‡–‘…‘„”‹”

ƒ–ƒšƒ†‡˜ƒ”‹ƒ­ ‘†‡‘‰”žϐ‹…ƒ‡ƒ–ƒšƒ†‡ƒ‘”–‹œƒ­ ‘†‘•–‘…†‡…ƒ’‹–ƒŽϐ‹š‘ǡ‘”‡†‹-
‡–‘±†‹‘’‘”Šƒ„‹–ƒ–‡˜ƒ‹’‡”ƒ‡…‡”…‘•–ƒ–‡ƒ–±ʹͲͳ͹Ǥ

| 97
CEIC / UCAN

macroeconómicas mal calibradas e o comportamento da procura e do preço inter-


nacional do petróleo.

DIFERENTES DINÂMICAS E FASES DE CRESCIMENTO EM ANGOLA


PIB PIBnp
12,8

10,1
9,3
7,6
6,9
5,7
4,1
3,3

1998/2013 1998/2001 2002/2008 2009/2013


FONTE: CEIC, icheiro Índice do PIB (na base das Contas Nacionais).

O período 2002/2008, já com as informações das Contas Nacionais, continua


a ser a “mini-idade de ouro” do crescimento económico de Angola, com uma taxa
média anual de 12,8%. Igualmente, é o que regista a maior taxa média anual para
o sector não petrolífero (10,1%). A fase mais negativa é 2009/2013, em que a taxa
média anual de variação do PIB se ficou por 3,3%, devido às circunstâncias conhe-
cidas que afectaram negativamente o funcionamento da economia petrolífera.

Entre 1998 e 2001, o preço médio do barril de petróleo situou-se em 20 dóla-


res, enquanto no período 2009/2013 foi de 89,5 dólares.

As mais reduzidas taxas médias anuais de variação do PIB, no último período


considerado, estão relacionadas com a crise internacional e as inércias de recupe-
ração dos seus efeitos.

EVOLUÇÃO DO PREÇO DO PETRÓLEO


100
90
80
70
60
50 BRENT
40
30
20
10
0
1998/2013 1998/2001 2002/2008 2009/2013
FONTE: CEIC, icheiro O Petróleo no Mundo.

98 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Entre 2009 e 2013, conforme a tabela seguinte, a taxa de crescimento média


foi de 3,3%, como se assinalou já mais atrás, não sendo suficiente para permitir
ganhos no rendimento médio por habitante, admitindo uma taxa de crescimen-
to populacional de 3,2% (INE). Portanto, pode estar-se numa situação de perfeita
estagnação das condições de vida da população, no contexto da qual nem se dis-
tribui mais, nem muito menos melhor. Ou então, a coerência e consistência dos
dados não estão asseguradas. Na verdade, segundo as Contas Nacionais, o PIB por
habitante, a preços do ano anterior, aumentou a uma cadência de 10,9% ao ano
durante aquele período. Assim, algo de não normal se passa.

AGREGADOS DA CONTABILIDADE MACROECONÓMICA


2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
PIB (MMusd) 16,8 23,6 39,9 52,5 65,5 88,4 64,9 82,7 110,8 124,2 128,1
PIBp (MMusd) 7,1 10,2 14,8 23,3 33,0 47,6 38,3 37,3 49,6 53,3 56,9
PIBnp (MMusd) 9,7 13,4 25,1 29,2 32,5 40,8 26,6 45,4 61,2 70,9 71,2
Tx. cresc. PIB (%) 3,0 11,0 15,0 11,6 13,85 10,48 2,01 4,61 1,86 5,3 4,1
Tx. cresc PIBp (%) -3,80 13,88 25,49 13,07 21,76 10,27 -4,97 -0,54 -8,43 7,41 0,60
Tx. cresc. PIBnp(%) 12,80 9,30 13,60 25,90 21,50 15,00 8,10 10,03 9,50 5,60 5,80
W/ƉͬW/;йͿ 40,58 41,30 48,21 45,31 48,24 49,70 39,05 43,48 47,49 46,19 46,8
ǣ  ‹…Š‡‹”‘•DzA†‹…‡†‘ dz‡DzžŽ‹•‡†ƒˆ‹…‹²…‹ƒ†ƒ”‘†—­ ‘ƒ…‹‘ƒŽdzǡ…‘„ƒ•‡ƒ•‘–ƒ•ƒ…‹‘ƒ‹•Ǥ
International Monetary Fund, Angola Second Post-Program Monitoring, March 2014.

A dimensão do problema da falta de competitividade da economia nacional


fica mais completa se se acrescentar os elevados custos associados à limitação das
infra-estruturas e da sua qualidade, reduzida dotação de capital humano e dificul-
dades diversas associadas ao clima de negócios.
A posição geral de Angola no Doing Business Index 2014 piorou, tendo passado
da colocação 171.a em 2011, para 179.a em 2014, com os parciais seguintes:

CLIMA DE NEGÓCIOS EM ANGOLA


N.o Custo (% RNB
ATRIBUTOS Dias Posição
procedimentos por habitante)
Iniciar um negócio 8 66 130,1 178
Obtenção de licenças
12 204 28,6 65
de construção
Acesso à electricidade 7 145 689,7 170
Registo de propriedade 7 191 3% valor obra 132
Acesso ao crédito - - - 130
WƌŽƚĞĐĕĆŽĚŽƐŝŶǀĞƐƟŵĞŶƚŽƐ - - - 80
Pagamento de impostos 30 282 horas/ano - 155
Liberdade de comércio - - - 169
Contratos 46 1296 44,4% s/ contrato 187
Resolução de insolvências - - - 189
FONTE: World Bank, Doing Business 2014.

| 99
CEIC / UCAN

3.4 Análise sectorial do Produto Interno Bruto

3.4.1 Agricultura, pecuária e florestas

Como tem sucedido em anos anteriores, o CEIC faz recurso das informações
oficiais do Ministério da Agricultura (MINAGRI). Contudo, para a análise funda-
mentada do sector da Agricultura, Pecuária e Florestas, tais informações são in-
suficientes, o que obriga à utilização, sempre que possível, de outras fontes cuja
fiabilidade, nas nossas condições, é questionável, como acontece com a das fontes
oficiais, facto frequentemente reiterado.

A análise do sector a partir da informação oficial é dificultada também pelo


facto de não haver uma lógica na definição dos programas a cargo do MINAGRI.
Na realidade, o relatório do MINAGRI, que respeita ao 4.o trimestre de 2013, re-
fere a implementação de um conjunto de programas (Apoio ao Desenvolvimento
da Agricultura Familiar, Agro-negócio, Reabilitação e Construção de Infra-estrutu-
ras, Extensão e Desenvolvimento Rural, Campanha Agrícola 2012/2013, Fomento
Pecuário, Promoção de Pólos Agro-industriais, Apoio à Produção Comercial) que
depois não tem correspondência com alguns dos inscritos no OGE, como Meca-
nização, Segurança Alimentar, Investigação, entre outros. Isto, a par de outras evi-
dências, denota uma certa descoordenação nas acções do sector e na sua gestão.

Mais grave é a comparação dos dados que se encontram nos relatórios do MI-
NAGRI e do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), o que resulta em contradi-
ções nos indicadores das explorações agrícolas familiares difíceis de entender, quer
em termos de áreas trabalhadas, quer de produtividade e produções, retirando
toda a credibilidade ao conjunto das cifras apresentadas. É justo, no entanto, re-
conhecer que, apesar dessas flagrantes contradições e das deficiências ainda exis-
tentes, há um esforço notável na melhoria dos relatórios, que, no seu todo, contêm
agora muito mais informação.

Como se fez notar no Relatório Económico de 2012, após as últimas eleições,


foi retirada ao MINAGRI a responsabilidade pela coordenação do Desenvolvimento
Rural, que passou para o Ministério da Família e Promoção da Mulher. Esta mudan-
ça é questionável, fazendo de Angola, possivelmente, o único país do mundo onde
isso acontece. Na realidade, a agricultura é a actividade económica dominante nas
áreas rurais, daí que tradicionalmente sejam os Ministérios da Agricultura chama-
dos a liderar as estratégias e processos de desenvolvimento rural. Por outro lado,
o tempo decorrido desde essa decisão não revela mudanças de qualquer tipo que
sugiram a sua bondade. O que está a acontecer, a par de outras evidências de que
se fará menção ao longo desta secção, pode indiciar a preocupante redução da im-
portância da agricultura no contexto político, económico e social de Angola e põe
em causa a manifesta vontade política de diversificação da economia.

100 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

3.4.1.1 Comportamento da produção

Agricultura

Caracterização dos produtores

Continua por se fazer um estudo que permita a caracterização científica – pelo


menos em termos económicos e sociológicos – dos agricultores angolanos71. A Lei
n.o 30/11, das Micro, Pequenas e Médias Empresas, ou um seu possível regulamen-
to, teria sido uma boa oportunidade para tal72. Como consequência, mantém-se a
anacrónica divisão entre agricultores familiares e empresariais. O CEIC tem vindo
a questionar esta classificação porque a mesma não tem correspondência na rea-
lidade, pois, além do mais, trata a agricultura familiar de modo preconceituoso,
considerando-a “tradicional” ou “de subsistência”, quando, na realidade, ela é res-
ponsável pela maioria dos produtos agro-pecuários de origem nacional que che-
gam ao mercado, como aconteceu, em certa medida, no passado, se exceptuarmos
os produtos que então eram exportados (café e algodão, principalmente)73.

Tendo em linha de conta estas considerações e as reservas que o CEIC vem


levantando ao modo como o MINAGRI trata a questão demográfica74, decidiu-se,

71‘”ƒ•‹Žǡ’‘”‡š‡’Ž‘ǡƒƒ‰”‹…—Ž–—”ƒˆƒ‹Ž‹ƒ”‡•–ž†‡ϐ‹‹†ƒ‡…‘–‡’Žƒ†ƒ‡Ž‡‰‹•-

Žƒ­ ‘ǡ’‘ŽÀ–‹…ƒ•’ï„Ž‹…ƒ•‡•’‡…Àϐ‹…ƒ•ǡ…‘‘ƒ…‘–‡…‡…‘•—„•À†‹‘•ǡ…”±†‹–‘•ǡ–”‹„—–ƒ­ ‘ǡ
entre outras.
72‡‹†‡ƒ•‡†‘‡•‡˜‘Ž˜‹‡–‘‰”ž”‹‘ȋ‡‹ͳͷȀͲͷȌŽ‹‹–ƒǦ•‡ƒ‡•–ƒ„‡Ž‡…‡”–”²•

tipos de empresas agrícolas (familiar, pequena e média e grande) de modo vago, pois
 ‘†‡ϐ‹‡‘…‘…‡‹–‘†‡ƒ‰”‹…—Ž–—”ƒˆƒ‹Ž‹ƒ”‡‘†‡‡’”‡•ƒƒ‰”À…‘Žƒˆƒ‹Ž‹ƒ”ǡŽ‹‹-
tando-se a estabelecer para esta que ela é “suportada pela exploração agrícola assegu-
rada predominantemente pelo agregado familiar do respectivo titular”. Um tratamento
adequado desta questão seria um progresso visando a reconversão da economia infor-
mal, uma intenção expressa do Executivo.
73‘‡Žƒ–×”‹‘…‘×‹…‘†‡ʹͲͳʹ‘ ˆ‡œ”‡ˆ‡”²…‹ƒƒ—‡•–—†‘”‡ƒŽ‹œƒ†‘‡ƒŽƒŒ‡

que constatou que, de um grupo de dezenas de agricultores familiares entrevistados, qual-


quer deles canalizava mais de 30% da sua produção para o mercado, percentagem que
poderia aumentar caso o mercado de produtos agrícolas estivesse mais estruturado. No
âmbito do Projecto Terra, assistido pela FAO, foram feitos diagnósticos agrários no Huambo
‡‘‹±“—‡‘•–”ƒ”ƒƒ‡š‹•–²…‹ƒ†‡“—ƒ–”‘–‹’‘•†‡ƒ‰”‹…—Ž–‘”‡•ˆƒ‹Ž‹ƒ”‡•†‹ˆ‡”‡…‹ƒ-
dos, sendo um critério de diferenciação a intensidade na ligação ao mercado.
74‡Žƒ–×”‹‘†‘ 
 †ƒƒ’ƒŠƒ‰”À…‘ŽƒͳʹǦͳ͵”‡ˆ‡”‡“—‡ƒ’‘’—Žƒ­ ‘‡•–‹ƒ†ƒ

para 2012 era de 18.576.570 e que o universo de explorações familiares era de 2.124.693, a
partir do qual foi estabelecida amostra que serviu de base ao inquérito e estimados os indi-
cadores, principalmente de áreas cultivadas, produções e produtividades. Isto mostra que
•‡ˆ‘••‡˜‡”†ƒ†‡‹”‘‡•–‡—‹˜‡”•‘ǡ–‡”Àƒ‘•—ƒ’‘’—Žƒ­ ‘”—”ƒŽ’”ך‹ƒ†‡ͳͳ‹ŽŠÙ‡•
ȋ—ƒ±†‹ƒ†‡ͷ’‡••‘ƒ•’‘”ˆƒÀŽ‹ƒǡ“—‡±‘ï‡”‘†‡”‡ˆ‡”²…‹ƒ†ƒ Ȍ‡ƒ’‡ƒ•…‡”…ƒ
†‡͸ǡͷ‹ŽŠÙ‡•†‡Šƒ„‹–ƒ–‡•—”„ƒ‘•Ǥ‡†‘ƒ’‘’—Žƒ­ ‘‡•–‹ƒ†ƒ†‡—ƒ†ƒ†‡ƒ‹•†‡
…‹…‘‹ŽŠÙ‡•±ˆž…‹Ž…‘…Ž—‹”“—‡–ƒŽ—‹˜‡”•‘†‡ˆƒÀŽ‹ƒ•”—”ƒ‹• ‘ˆƒœ“—ƒŽ“—‡”•‡–‹†‘Ǥ

| 101
CEIC / UCAN

uma vez mais, trabalhar com os elementos usados pelo ministério de tutela do
sector até à divulgação dos resultados do Censo Populacional de 201475.

Em 2012, segundo o MINAGRI, existiam cerca de 2,6 milhões de agricultores fami-


liares – número que vinha crescendo desde 2010 (1,9 milhões) e 2011 (2,1 milhões) –
dos quais 1,5 milhões (58%) terão sido assistidos pelo PEDR – Programa de Extensão
e Desenvolvimento Rural (MINAGRI, 2013)76. Tal assistência consistiria na transferên-
cia de tecnologias, introdução de boas práticas e estabelecimento de ligações com o
mercado. A área média de cada agricultor foi de 2,1 hectares (2,4 em 2011).

Em 2013, o universo de famílias, segundo o MINAGRI, foi de 2,1 milhões (por


vezes referem-se 2,2 milhões). Porém, na linha da nota introdutória desta secção,
de acordo com o Relatório da Campanha Agrícola 2012-2013, do IDA, o número de
famílias “identificadas” foi de 2.210.478, das quais terão sido assistidas 1.156.586
(52%) por dois programas de intervenção no meio rural (PEDR – Programa de Ex-
tensão e Desenvolvimento Rural e Programa de Fomento), mas sobretudo pelo
primeiro, pois o seguinte está praticamente restringido às acções dos Governos
Provinciais ou aos Programas Municipais Integrados de Desenvolvimento Rural e
Combate à Pobreza, onde a agricultura tem normalmente muito pouca expressão.
Para além da assistência através destes programas principais, junta-se a prestada
por outros actores, nomeadamente ONGs.

Esta tentativa de diferenciação entre agricultores “identificados” e “assistidos”


poderia ajudar a clarificar a questão do número de agricultores existentes. Com
efeito, o número de “identificados” em 2013 (2,2 milhões) é quase igual ao total
referido em 2011 (2,1) – o que pode indiciar a inexistência do crescimento de que
se deu notícia em 2012. Interessante é também verificar que o número de “assis-
tidos” em 2013 representa apenas um pouco menos de 80% dos manifestados em
2012. Se a análise fosse feita com base nos “assistidos”, estar-se-ia seguramente
numa lógica mais realista.

Mantém-se a dificuldade de conhecer-se o número de agricultores empre-


sariais. Porém, esta dificuldade seria simples de ultrapassar, caso houvesse uma
coordenação entre as Repartições de Finanças (onde, em princípio, todos os

75 Em 2012 o MINAGRI anunciou a realização de um Censo Agrícola em 2013 que não se

concretizou e não se deu explicação ao assunto. O CEIC entende que é fundamental, na


†‡ϐ‹‹­ ‘†‡’‘ŽÀ–‹…ƒ•ƒ‰”À…‘Žƒ•ƒ†‡“—ƒ†ƒ•ǡ‘”‡…‡•‡ƒ‡–‘ƒ‰”À…‘Žƒ†‡‰‘ŽƒǤ
76A fonte é omissa em relação à situação das famílias que não foram assistidas pelo
Ǥ‡†—œǦ•‡“—‡‡••‡•ͳǡͷ‹ŽŠÙ‡•†‡ˆƒÀŽ‹ƒ•„‡‡ϐ‹…‹ƒ†‡ƒ’‘‹‘•ƒ–”ƒ˜±•†‘•”‘-
‰”ƒƒ•†‡ ‘‡–‘†‘•
‘˜‡”‘•”‘˜‹…‹ƒ‹•‡†‘•”‘‰”ƒƒ•—‹…‹’ƒ‹• –‡‰”ƒ†‘•
†‡‡•‡˜‘Ž˜‹‡–‘—”ƒŽ‡‘„ƒ–‡‘„”‡œƒȋ Ȍǡ‘—ƒ‹†ƒ ‘„‡‡ϐ‹…‹ƒ
de qualquer tipo de assistência.

102 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

agricultores devem estar registados para efeitos tributários) e as estruturas locais


das Direcções Provinciais da Agricultura.

Na campanha agrícola 2010/11 havia 8.360 explorações agrícolas empresariais


(8.319 em 2009/10) (MINADER, 2012). Este número foi posto em causa pelo CEIC,
pela sua pouca fiabilidade, visto dar uma ideia irrealista do potencial de produção
que essas empresas representam77. Assim sendo, perante a falta de informação
actualizada, o CEIC decide manter a cifra de 2011.

Finalmente, ao contrário do que seria expectável pelo enunciado na Estraté-


gia 2025 e noutros documentos reitores da política agrícola angolana, a produção
agro-pecuária assenta ainda em vários projectos empresarias públicos de larga es-
cala, num total de 17, todos, ou quase, com financiamento e assistência técnica
externa, de empresas chinesas, espanholas/argentinas e israelitas.

Área cultivada
O Relatório Económico de 2012 fez menção a uma área cultivada de 5,6 mi-
lhões de hectares no ano agrícola 2010-2011, com base nas cifras indicadas pelo
MINAGRI (MINAGRI, 2013). De acordo com informação do IDA, a área cultivada
pelos agricultores familiares, supostamente apenas pelos “assistidos”, pois que dos
restantes dos identificados não deverá existir informação, no ano de 2013, foi de
3,6 milhões de hectares. Porém, se tivermos em conta os dados do MINAGRI, a
área cultivada pelos agricultores familiares foi de 4,9 milhões de hectares, a que
acresceriam 742 mil hectares de agricultores empresarias, outro número muito
pouco credível, se tivermos em conta que a área semeada pelos agricultores em-
presariais era de aproximadamente 300 mil hectares em 2011, sempre de acordo
com o MINAGRI, e não deve ter crescido para o dobro em dois anos. A serem con-
sideradas estas cifras do MINAGRI, a área semeada total é de 5,6 milhões, ou seja,
idêntica à de 2010-2011, o que não é aceitável, pois não teria em conta o suposto
aumento das áreas dos agricultores empresariais.

Esta dificuldade de apuramento do número de agricultores e da área cultivada


mostra bem que são justificadas as reservas com que o CEIC vem encarando os
dados fornecidos pelo MINAGRI e em particular os relativos à produção agrícola.
A primeira tabela da página seguinte, sobre a terra cultivada, deve, pois, ser en-
carado com muitas reservas e representa apenas uma tentativa de sistematização
da informação disponível, que, como se tem vindo a frisar, não merece total cre-
dibilidade78.

77‡‘–ƒ”“—‡ƒ–‡•†ƒ‹†‡’‡†²…‹ƒǡ‘•ƒ‘•͹Ͳǡƒ‹•• ‘†‡ “—±”‹–‘•‰”À…‘Žƒ•

†‡‰‘Žƒȋ Ȍ‹†‹…ƒ˜ƒ“—‡‘ï‡”‘†‡‡’”‡•ƒ•ƒ‰”À…‘Žƒ• ‘…Š‡‰ƒ˜ƒƒ͸ǤͷͲͲǤ
78 ‘‡•– ‘‹…Ž—À†ƒ•ƒ•’ƒ•–ƒ‰‡•…—Ž–‹˜ƒ†ƒ•‡ƒ•ϐŽ‘”‡•–ƒ•‡š×–‹…ƒ•Ǥ

| 103
CEIC / UCAN

dZZh>d/sWKZd/WKDWZ^DϮϬϭϯΈ^d/DΉ
Sector Familiar Sector Empresarial
Item
N.o/ ha % N.o/ ha %
2.124.693
&ĂŵşůŝĂƐͬŵƉƌĞƐĂƐ;Ŷ͘o) ? 8.360* ?
(1.156.586)
4.937.076
Área Total (ha) 87 742.432 13
(3.610.565)
2,3
Área Média (ha) - ? -
(3,1)
ǣ Ȃ‡Žƒ–×”‹‘†‡…–‹˜‹†ƒ†‡•†‡ʹͲͳͳǢ 
 Ȃƒ’ƒŠƒ‰”À…‘ŽƒͳʹǦͳ͵Ǣ Ȃ‡Žƒ–×”‹‘‘‰”À…‘Žƒ
ʹͲͳʹȀʹͲͳ͵ȗ‡ˆ‡”‡Ǧ•‡ƒ‹ˆ‘”ƒ­ ‘†‡ʹͲͳͳǤ•ï‡”‘•‡–”‡’ƒ”²–‡•‹•ˆ‘”ƒ‘„–‹†‘•†‘‡Žƒ–×”‹‘†‘ Ǥ

A área total cultivada, tendo como referência a informação do MINAGRI, será,


pois, de 5.678.696 hectares, o que, se considerarmos que a superfície de terra ará-
vel é de 58 milhões de hectares, representa quase 10% desse total79.

Produção agrícola alcançada

O ano agrícola 2012-2012 não foi tão mau como o anterior do ponto de vista
da irregularidade climática, pelo que os seus efeitos na produção não foram tão
significativos, embora se tenham registado períodos de estiagem mais ou menos
prolongados em diversas regiões.

Os resultados obtidos podem ser constatados no quadro que se segue.80

ÁREAS E PRODUÇÕES DAS EXPLORAÇÕES AGRÍCOLAS FAMILIARES (EAF)


E DAS EXPLORAÇÕES AGRÍCOLAS EMPRESARIAIS (EAE)
ÁREA PRODUÇÃO
FILEIRAS
EAF EAE TOTAL EAF EAE TOTAL
CEREAIS 2.222.715 186.923 2.409.638 1.324.500 347.684 1.672.183

LEGUMINOSAS 1.218.506 84.596 1.303.102 463.939 50.102 514.041

RAÍZES E TUBÉRCULOS 1.336.715 109.311 1.446.026 16.762.784 1.518.774 18.281.558

HORTÍCOLAS 124.300 305.602 429.902 1.114.722 4.334.259 5.448.981


FRUTA 183.808 55.188 238.996 2.647.070 1.469.981 4.117.051
CAFÉ s/d s/d s/d s/d 12.250
TOTAL 5.086.044 741.620 5.827.664
FONTE: MINAGRI 2014.

79—–”ƒ•ˆ‘–‡•–²…‹–ƒ†‘‘ï‡”‘†‡͵ͷ‹ŽŠÙ‡•†‡Š‡…–ƒ”‡•Ǥ‡•–‡…ƒ•‘ǡƒž”‡ƒ…—Ž-

tivada representaria 11,1% da terra arável total.


80‘‘•‡’‘†‡˜‡”‹ϐ‹…ƒ”‡•–ƒ–ƒ„‡Žƒǡƒž”‡ƒ–‘–ƒŽ…—Ž–‹˜ƒ†ƒ ‘…‘‹…‹†‡…‘ƒƒ–‡-

”‹‘”ȋ”‡‰‹•–ƒ—ƒ†‹ˆ‡”‡­ƒ•—’‡”‹‘”ƒʹͻͻ‹ŽŠ‡…–ƒ”‡•Ȍǡ‘“—‡‘•–”ƒǡ—ƒ˜‡œƒ‹•ǡƒ
‹…‘•‹•–²…‹ƒ†ƒ•ˆ‘–‡•Ǥ

104 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

O novo quadro dá uma ideia da evolução da produção agrícola familiar nos


últimos três anos com base em dados oficiais.

sK>hKWZKhK'Z1K>WKZ'ZhWK^h>dhZ^ΈϮϬϭϭͳϮϬϭϯΉ
Produção
Produtos ϮϬϭϮͬϮϬϭϯ
ϮϬϭϬͬϭϭ ϮϬϬϭϭͬϭϮ
EAF EAE TOTAL
CEREAIS 1.408.826 505.706 1.324.500 347.684 1.672.183
LEGUMINOSAS 472.380 171.533 463.939 50.102 514.041
RAÍZES E TUBÉRCULOS 12.219.865 11.935.414 16.762.784 1.518.774 18.281.558
HORTÍCOLAS 5.188.006 4.945.898 1.114.722 4.334.259 5.448.981
FRUTA 3.388.993 3.612.827 2.647.070 1.469.981 4.117.051
CAFÉ 10.758 9.833* 12.250
FONTE: GEPE-MINADERP (2012), MINAGRI (2014).

*n.o estimado, dado que o Relatório do MINAGRI de 2012 apenas mencionava que a produção de 2012
havia diminuído 13%.

Produtividade

Pondo em causa as áreas semeadas e as produções, o CEIC põe em causa


igualmente as produtividades divulgadas pelo MINAGRI para as diferentes cul-
turas, pelo que se mantém a análise feita pelo CEIC no Relatório Económico dos
anos de 2011 e 2012 no que respeita aos factores que explicam os baixos níveis
de produtividade, como sejam o fraco nível de conhecimentos técnicos dos agri-
cultores, a energia utilizada (tendo em conta os dados disponíveis, mais de 95% é
manual), a fragilidade da assistência técnica, a falta de operários especializados,
a pobreza dos solos (em matéria de fertilidade, matéria orgânica e elevados ní-
veis de acidez), o baixo nível de consumo de fertilizantes, a fraca qualidade das
sementes e a quase inexistência de sistemas de defesa das plantas contra pragas
e doenças.

PRODUTIVIDADE DAS PRINCIPAIS CULTURAS


ϮϬϭϮͬϮϬϭϯ
Cultura WƌŽĚƵƟǀŝĚĂĚĞ;ŬŐͬŚĂͿ
EAF EAE
Milho 869 1.941
Massango 194 319
Massambala 240 402
Arroz 994 1.741

| 105
CEIC / UCAN

Trigo 0 0
Mandioca 13.906 16.558
Batata-rena 4.534 10.033
Batata-doce 7.125 10.587
Feijão 382 570
Amendoim 567 787
Soja 364 667
Bananeira 20.997 33.405
Citrinos 7.126 14.685
Mangueira 8.647 15.648
Ananás 9.433 15.869
Abacateiro 10.585 14.580
Alho 3.412 7.857
Cebola 11.743 15.239
Tomate 12.717 18.778
Repolho 10.653 14.416
Cenoura 12.111 16.828
Pimento 3.026 6.323
FONTE: MINAGRI 2014.

No que respeita à produtividade, o CEIC reitera a sua opinião de que a maior


parte destes indicadores são exagerados e injustificados, pela situação da agricul-
tura do país. Se não há evolução dos serviços, nomeadamente por ausência de
recursos financeiros, quer de assistência técnica e prestação de serviços, quer de
investigação e protecção sanitária, não se percebe como se continuam a registar
aumentos de produtividade.

De notar que persiste a falta de informação sobre pragas e doenças durante o


ano, quando se sabe que, para além da mandioca, outras culturas têm sido muito
prejudicadas, como o feijão, a batata e diversos hortofrutícolas, com realce para
a banana e a manga, o que, seguramente, afecta as respectivas produtividades,
estando algumas delas, como a conhecida fumagina, a revelar-se um problema
muito sério.

O CEIC salienta novamente que um esforço financeiro perfeitamente ao alcan-


ce das actuais capacidades financeiras e técnicas poderiam aumentar os níveis
de produtividade do milho para uma média de duas toneladas, o que significaria
quase triplicar a produção actual e tornar possível o alcance da meta de 3,5 ou
4 milhões de toneladas, estabelecida para 2017 no Plano Nacional de Desenvol-
vimento. O mesmo poderá acontecer com outras culturas, pois com as médias

106 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

actuais de produtividade, que para além de serem baixas, mostram que não se
está a registar progresso tecnológico, não se podem esperar aumentos de pro-
dução agrícola. Isto só não poderá acontecer se persistir a inexplicável falta de
atenção à agricultura familiar que se tem verificado quando finalmente pareciam
reunidas as condições para o efeito.

Pecuária

Os indicadores do subsector pecuário são tão pouco fiáveis e contraditórios


quanto os outros, tanto no que respeita aos efectivos, como com a produção e
com as campanhas de vacinação. A tal ponto que o Relatório do Ministério da
Agricultura de 2012 referia, para esse ano, efectivos idênticos aos de 2011 para
todas as espécies.

Em 2013, apenas se podem citar os números aproximados, mas incompletos,


de efectivos pecuários controlados em algumas províncias ao nível do sector fa-
miliar.

&d/sKWhZ/KK^'Z/h>dKZ^&D/>/Z^DϮϬϭϮ͵ϮϬϭϯ
Províncias Bovinos Caprinos Ovinos Suínos Aves Equinos Asininos
Bengo 5.387 3.444 1.383 234 - 0 0
Benguela 149.132 86.530 321.180 48.467 378.070 0 0
Bié 28.733 94.418 5.228 54.572 - 0 0
Cabinda 1.428 26.383 8.794 69.757 - 0 0
Cunene 1.200.000 - - - - - -
Huambo 111.699 86.186 7.316 50.638 - 0 0
Huíla 1.243.073 1.227.100 261.700 316.100 472.800 0 0
K. Kubango 297.305 180.525 27.618 100.400 36.000 670 0
Kuanza Norte 20.886 61.070 16.556 18.342 - 0 0
Kuanza Sul 121.468 148.616 44.593 55.354 572.485 0 0
Luanda 12.859 5.115 1.491 1.548 - 0 0
Lunda Norte 5.343 13.181 18.720 21.206 21.860 0 0
Lunda Sul 4.103 26.769 1.268 1.455 - 0 0
Malange 11.942 18.553 4.342 9.272 - 0 0
Moxico 2.737 8.317 5.140 4.210 61.850 0 0
Namibe 500.500 1.250.000 570.000 3.000 8.960 69 259
Uíge - - - - - - -
Zaire 1.454 38.654 17.472 22.788 47.550 0 0
NACIONAL 3.718.049 3.274.861 1.312.801 777.343 1.599.575 739 259
FONTE: IDA – Relatório Ano Agrícola 2012-2013.

| 107
CEIC / UCAN

Por falta de informação, a evolução dos efectivos não refere o ano de 2013.

EVOLUÇÃO DOS EFECTIVOS PECUÁRIOS

Espécie N.o de cabeças


pecuária ϮϬϬϵͬϭϬ ϮϬϭϬͬϭϭ ϮϬϭϭͬϭϮ
Bovinos 4.487.838 4.586.570 4.586.570
Caprinos
4.827.996 4.958.351 4.958.351
e ovinos
Suínos 1.934.764 2.135.979 2.135.979
Galináceos 17.118.618 19.977.427 19.977.427
FONTE: MINADER/CA/2009/10; MINADER/RCA 2010/11; MINAGRI (2013).

Os criadores de gado ditos tradicionais ou familiares possuem a esmagadora


maioria dos efectivos de bovinos (76% em 2011, representando 4,6 milhões de
cabeças), caprinos e suínos. O sector empresarial, com apenas 24% dos efectivos
bovinos, dedica-se predominantemente à criação extensiva e semi-intensiva de
bovinos e caprinos e intensiva de suínos e aves. A maior concentração do efec-
tivo pecuário bovino encontra-se nas províncias da Huíla (27%), Cunene 24%) e
Namibe (9%).

As quantidades de carne de bovino, suíno e caprino produzidas em 2013 foram


de 11,8 mil, 19,5 mil e 169 mil toneladas, respectivamente. Verifica-se, pois, que
a carne de caprino é, de longe, a que maior significado tem, por isso não é com-
preensível que tenha tão pouca atenção do sector, pelo menos em relação aos
bovinos.

O CEIC tem vindo a referir que a aposta e o investimento na pecuária em geral,


em larga ou pequena escala, não faz sentido sem o fortalecimento dos serviços
de veterinária e assistência técnica, quer públicos, quer privados, sem o que ela
se torna uma actividade económica de grande risco, como provam os elevados
índices de mortalidade que se registam em muitas explorações com gado impor-
tado, incluindo os caprinos adquiridos em países vizinhos como a RDC. Os casos
mais preocupantes são a dermatofilose, este ano alastrada ao Uíge, e a dermatite
nodular contagiosa, provocadas possivelmente pela importação inadequada de
animais, e as quais o Instituto de Serviços Veterinários não parece ter capacidade
de enfrentar com eficácia, para além disto, as enfermidades que afectam os ca-
prinos com origem em países vizinhos e surtos de peste suína africana em várias
províncias.

Há dois anos o Instituto de Investigação Veterinária foi dotado de um labora-


tório de produção de vacinas contra a doença de Newcastle, a mais devastadora
das aves de criação doméstica e que prejudica enormemente as famílias rurais, já

108 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

tão fustigadas pela pobreza. O Relatório Económico de 2012 saudou tal realização
e preconizou novas esperanças para os pobres rurais. Acontece que os serviços de
veterinária não têm capacidade para realizar campanhas de vacinação, o que torna
o investimento realizado ineficaz e ineficiente.

Tal com aconteceu em 2012, não é possível fornecer informação sobre o núme-
ro de animais vacinados.

Como foi referido no Relatório Económico de 2012, o Ministério da Economia


decidiu apadrinhar o relançamento da produção, visando uma redução da im-
portação de leite até 2015, de modo a que se passe de uma participação da pro-
dução nacional dos actuais 5% do leite consumido (cifra que parece inexistente
segundo os dados do MINAGRI) para 55%, o que se afigura totalmente irrealista.
O único empreendimento leiteiro com alguma expressão, inserido na Aldeia
Nova, que parecia estar em recuperação, retrocedeu, com uma redução impor-
tante do número de animas (de 800 para 150) e da produção (5 litros de leite por
vaca). Entretanto, está a ser feito um novo estudo para relançamento da produ-
ção, depois de ter sido elaborado um outro há cerca de dez anos que não chegou
a sair do papel.

A avicultura, na versão de produção de ovos, parece conhecer progressos,


principalmente na Aldeia Nova, que, com um efectivo de 240 mil aves, atingiu no
final do ano a produção de cerca de 200 mil ovos por dia, tornando-se a empresa
líder nacional. Os novos projectos na Lunda Norte (Cacanda), Moxico (Sacassanje)
e Zaire (Nzeto), também com assistência israelita na mesma modalidade encontra-
da agora para a Aldeia Nova, também parecem estar a produzir em maior escala.
A produção de ovos está a beneficiar das medidas restritivas à importação, tor-
nando-a mais atractiva do ponto de vista económico-financeiro. O projecto avícola
para pequenos produtores no Kuanza Norte e em Malanje, referido como um pés-
simo exemplo de planeamento no Relatório Económico de 2012 (sem equaciona-
mento dos diferentes elos da cadeia, desde a concepção até à articulação entre
a produção de rações e de frangos e o abate), não sofreu qualquer evolução. Na
produção familiar persistem os males ligados à ausência de combate à doença de
Newcastle, já referidos.

Florestas

O MINAGRI não revelou os dados de 2012 relativos à produção florestal, pelo


que se apresentam os dados das duas campanhas anteriores no quadro que se
segue.

| 109
CEIC / UCAN

PRODUÇÃO FLORESTAL
WƌŽĚƵĕĆŽŇŽƌĞƐƚĂů 2011 2012 2013
Madeira em toro (m3) 84.394 91.467 s/d
Carvão vegetal 103.540 189.339 s/d
Lenha (esteres) 5.174 s/d s/d
Produção de plantas (un.) 1.758.165 1.641.835 s/d
Área plantada (ha) 785 1.390 s/d
FONTE: MINAGRI 2014.

Como se tem vindo a referir, o sector florestal não tem merecido a atenção
adequada, o que representa uma perda de oportunidade de diversificação da eco-
nomia. O abate e transformação da madeira nas províncias produtoras poderiam
ser encarados como medidas de grande impacto económico e social, pelas oportu-
nidades de emprego que poderiam gerar.

Continuam sem solução as dificuldades de transporte de madeira de Cabinda


para Luanda por via marítima, o que leva muitos empresários, principalmente in-
formais, a voltarem-se para o Uíge e Bengo.

3.4.1.2 As políticas agrárias

O CEIC reitera que as políticas agrárias do Executivo angolano e respectiva


implementação desde o alcance da paz têm sido, por vezes, confusas e contra-
ditórias.

O Plano 2013-2017 estabelece como grande objectivo do sector da agricultura


“promover o desenvolvimento integrado e sustentável do sector agrário tomando
como referência o pleno aproveitamento do potencial de recursos naturais pro-
dutivos e a competitividade do sector, visando garantir a segurança alimentar e o
abastecimento interno, bem como realizar o aproveitamento das oportunidades
relacionadas aos mercados regional e internacional”. Como principais objectivos
específicos o Plano refere:
1. Desenvolver uma agricultura competitiva, assente na reorientação da pro-
dução familiar para o mercado e no relançamento do sector empresarial.
2. Reabilitar e expandir as infra-estruturas de apoio à produção agro-pecuária.
3. Estimular práticas de natureza associativa e empresarial no quadro de es-
tratégias integradas com vista ao desenvolvimento das fileiras de produção
agro-pecuária.
4. Alcançar a auto-suficiência dos produtos alimentares de base.

110 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

5. Relançar culturas de rendimento com perspectivas de rentabilidade e com


tradição no território, de forma a promover o aumento do rendimento dos
produtores e das exportações nacionais.
6. Reduzir as importações e contribuir para a diversificação da actividade eco-
nómica.
7. Promover a prática do regadio para o aumento da produtividade e compe-
titividade da agricultura e como meios capazes de mitigar de forma efectiva
os efeitos das mudanças climáticas.
8. Fortalecer o sistema de investigação agrária como instrumento para o de-
senvolvimento técnico, tecnológico e científico.
9. Promover a criação de emprego e contribuir de forma significativa para o
aumento dos rendimentos da agricultura familiar e para o relançamento
do sector empresarial.

Findo o primeiro ano de execução do Plano Nacional 2013-2017, e de acordo


com a informação disponível e as evidências reveladas, destes objectivos específi-
cos apenas o segundo pode ser considerado como tendo estado a ser trabalhado
satisfatoriamente, de modo a permitir o seu alcance. O sétimo também tem me-
recido atenção, na linha de uma estratégia que vem sendo implementada desde
2006. De notar que se trata de dois objectivos que têm em comum o investimento
em infra-estruturas, o que está alinhado com outras opções de políticas públicas
em diferentes sectores.

De acordo com o Relatório Económico de 2012, os principais programas defini-


dos para o alcance desses objectivos eram: o fomento da actividade produtiva, o
desenvolvimento da agricultura familiar, segurança alimentar e nutricional, inves-
tigação e desenvolvimento tecnológico, desenvolvimento da agricultura comercial,
Programa de Saúde Pública Veterinária, desenvolvimento da fileira de carnes e lei-
te, apoio e fomento da produção animal, construção e reabilitação de perímetros
irrigados, relançamento da fileira da madeira e de produtos não lenhosos, gestão
sustentável de recursos naturais.

Porém, uma visita ao OGE de 2013 e 2014, bem como ao esboço do Plano
de Desenvolvimento de Médio Prazo (2013-2017) e ao Relatório de Balanço das
Actividades do Sector Agrário referentes ao IV Trimestre de 2013 revela uma cer-
ta perplexidade no que respeita ao enunciado nos mesmos, com ausências, so-
breposições e utilização de diferente nomenclatura. Isto pode explicar, em parte,
as dificuldades financeiras que enfrentam vários programas de fundamental im-
portância, com destaque para o Programa de Extensão e Desenvolvimento Rural
(PEDR), que nunca é mencionado e o que se liga à Investigação.

| 111
CEIC / UCAN

As debilidades do Executivo em termos do uso de metodologias de planea-


mento e programação explicam as dificuldades e incoerências no estabelecimento
correcto das relações entre medidas de política, objectivos e programas e projec-
tos. A consulta do OGE nesta matéria é suficientemente esclarecedora da confusão
reinante no que respeita aos programas e projectos.

Na impossibilidade de analisar as medidas de política e os programas na sua


globalidade, foram escolhidos alguns temas que, pela sua pertinência, podem dar
uma ideia do modo como o desempenho do sector pode ser avaliado.

1.o Desenvolvimento da agricultura familiar e transformação gradual


dos agricultores familiares em empresários agrícolas

Os progressos tímidos assinalados no Relatório Económico de 2012 faziam crer


que se poderia esperar passos mais audazes em 2014. Infelizmente tal não acon-
teceu, pois as verbas atribuídas à campanha agrícola foram muito exíguas e não
permitiram melhorar e aumentar, como se deveria, os níveis de fornecimento de
sementes de qualidade e de fertilizantes, admitir mais técnicos e dotá-los de mais
meios de trabalho, dar continuidade ao trabalho introdutório da prática de correc-
ção de solos em campos de demonstração e aprofundar e expandir a metodologia
de extensão rural, através das Escolas no Campo do Agricultor (ECA). Exceptua-se,
neste último caso, o trabalho no âmbito do Projecto MOSAD, com financiamento
externo (Banco Mundial, FIDA e Governo do Japão), um dos poucos dirigidos à
agricultura familiar e que, depois de um longo período de dificuldades, conheceu
melhorias significativas, o que mostra que é possível avançar neste tipo de agricul-
tura quando estão reunidas as condições necessárias.

A falta de progressos na agricultura familiar pode ser constatada através de


alguns indicadores. Um é relativo ao trabalho de mecanização agrícola. O Relatório
da Campanha Agrícola do IDA não relata progressos nos níveis de utilização de
energia mecânica com tractor ou tracção animal, o que significa que a percenta-
gem de superfície cultivada apenas com uso exclusivo de energia humana ainda
deve ser superior a 95%, apesar das reservas com que devem ser encaradas as
cifras relativas ao sector. Outro indicador é o crédito de campanha aos agricultores
familiares que, de modo incompreensível, continua praticamente suspenso pelo
segundo ano consecutivo. Um terceiro é a situação em que continuam as estradas
secundárias e terciárias, vitais para a ligação entre as áreas rurais e os centros de
consumo, o que arrasta um outro indicador que é a dificuldade de solução do pro-
blema do comércio rural. Com efeito, doze anos decorridos desde o fim da guerra,
e após sucessivas experiências sem sucesso, as áreas rurais continuam sem co-
mércio estruturado. Só desde 2009 já foram aprovados o Programa de Promoção
do Comércio Rural e o Plano Integrado de Desenvolvimento do Comércio Rural e

112 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Empreendedorismo, que quase não chegaram a sair do papel. As novas soluções


propostas têm sido encaradas com bastante cepticismo, por se insistir em soluções
administrativas, se terem em conta os actores que têm estado ligados ao processo.

Como vem sendo reafirmado, as associações e cooperativas constituem um


meio importante para fazer chegar aos agricultores familiares serviços indispensá-
veis para alavancarem os seus processos produtivos, incluindo o acesso a créditos
e assistência técnica. Porém, as cooperativas e associações não são suficientemen-
te valorizadas e não beneficiam da ajuda necessária por parte do Estado. A situa-
ção poderá alterar-se com a previsão para breve e aprovação de nova legislação
sobre cooperativas e se o Programa Angola Investe, associado à ideia de promoção
do empreendedorismo, for devidamente implementado, incluindo o tratamento
das cooperativas como micro empresas.

De igual modo, o CEIC tem insistido em considerar a reduzida verba atribuí-


da aos programas de extensão e investigação agrícola por parte do Orçamento
Geral do Estado como um dos obstáculos à transformação da agricultura familiar.
Este facto é invocado, por exemplo, para justificar a inoperância dos investigado-
res. Contraditoriamente, o OGE continua a inscrever verbas para a construção ou
reabilitação de Estações Experimentais, quando as que existem não dispõem de
recursos para trabalharem. É o caso do Centro de Malanje do Instituto de Investi-
gação Agronómica, cuja construção de raiz foi concluída em 2006, foi apetrechado
e equipado, recebeu técnicos treinados no Brasil, mas praticamente não funciona
porque não tem orçamento para os seus programas.

Um dos efeitos mais notórios da política seguida em relação à agricultura fa-


miliar é o cada vez mais notório esvaziamento das áreas rurais, principalmente
de jovens masculinos que, perante a estagnação tecnológica do sector, procuram
nos centros urbanos as soluções para os seus problemas81. Deste modo, insiste-se,
está-se a hipotecar o futuro da agricultura angolana.

2.o Pólos Agro-industriais e Fazendas de Larga Escala


Contrariamente ao previsto na Estratégia de Longo Prazo 2025, o Executivo
angolano fez uma aposta forte no agro-negócio, com o objectivo de se alcança-
rem elevados níveis de produção e de modernizar a agricultura. Era suposto que
tal aposta assentasse no sector privado, particularmente através da captação
de investimento estrangeiro. Todavia, o ambiente de negócios no sector agrário

81 A observação pelo CEIC do que ocorre em vários municípios de diversas províncias


permite concluir que, em regra, mais de 50% da sua população se concentra nas respec-
tivas sedes. Uma comuna no Kuanza Sul tem actualmente 20% da população que tinha
em 1975, mas este facto não pode ser de imediato atribuído apenas à guerra, pois outra
…‘—ƒƒ‡•ƒ’”‘˜À…‹ƒ’‡”†‡——–‡”­‘†ƒ’‘’—Žƒ­ ‘†‡’‘‹•†‘ϐ‹†ƒ‰—‡””ƒǤ

| 113
CEIC / UCAN

angolano é muito pouco atractivo e as manifestações de interesse não têm ex-


pressão. Ao mesmo tempo, o Executivo decidiu criar vários pólos agro-industriais,
começando pelo de Capanda (Malanje), a cargo da Sociedade de Desenvolvimento
do Pólo com o mesmo nome (SODEPAC), a que se seguiram outros, num total de
17 empreendimentos de larga escala, que se encontram em diferentes fases de
execução. Alguns desses projectos enfrentam dificuldades de vária ordem, como
é o caso, muito citado, da cultura do algodão no Kuanza Sul, onde já foram gastos
mais de 40 milhões de dólares nos últimos quatro anos sem que se tivesse iniciado
a produção, por problemas de energia, assim como o do Cubal, onde a primeira se-
menteira de milho no ano 2012/2013 foi um desastre porque não se teve em conta
as condições climatéricas da região. Agora procuram-se áreas onde se possa fazer
recurso ao regadio. Tais pólos e empreendimentos são financiados pela Luminar
Finance (Grupo LR, de Israel), o Banco de Desenvolvimento da China, o Exim Bank,
igualmente da China, o Deutsche Bank, SA, de Espanha, e o Exim Bank da Coreia
do Sul. Regra geral, a grande percentagem dos custos de tais projectos reside na
construção de infra-estruturas e na assistência técnica, ambas muito dispendiosas.
Além disso, trata-se de empreendimentos com organização e gestão complexas e
que geram poucos empregos. À medida que o tempo passa, vai-se confirmando
que esta aposta é desadequada à actual realidade da agricultura angolana.

O objectivo do Executivo com estes projectos é de desenvolver a empresa e


a produção com participação de um parceiro estrangeiro numa perspectiva de
parceria público-privada, estando prevista a elaboração dos estudos de viabilida-
de respectivos que permitam uma decisão com base em três cenários possíveis:
alienação do património em favor de empresários privados, estabelecimento de
contratos de gestão igualmente com privados e manutenção do asseguramento
da gestão pelos actuais parceiros tecnológicos. Enquanto tal não acontecer, o em-
preendimento continuará, por falta de condições técnicas e de gestão, a necessitar
do suporte do Estado e da referida assistência.

3.o Crédito agrícola

O Executivo implementa, desde 2011, um programa de crédito que beneficia


cooperativas, associações e pequenos e médios produtores através de duas mo-
dalidades.

A primeira diz respeito à Linha Especial de Crédito de Campanha, no valor de


USD 150 milhões, contemplando sobretudo agricultores familiares através de as-
sociações e cooperativas, com uma taxa de juro de 5%, graças ao facto de o Estado
subsidiar o diferencial para os 21% praticado pelos bancos comerciais através de
um fundo governamental atribuído aos bancos operadores que serve de garantia
aos empréstimos. Destina-se, por exemplo, à compra de insumos como bois para

114 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

tracção animal, sementes, fertilizantes e outros factores de produção, em montan-


tes não superiores a cinco mil dólares por agricultor.

Segundo fontes do Ministério da Economia e do Instituto de Desenvolvimento


Agrário (IDA), no final da campanha agrícola 2011/2012, altura em que a Linha de
Crédito deixou de estar operacional, o universo de beneficiários era de, aproxima-
damente, 100.000 agricultores familiares integrados em 2092 cooperativas e as-
sociações, que beneficiaram de créditos num montante de Kz 16.449.831.135,34,
equivalentes a aproximadamente 170 milhões de dólares, o que significa que foi
ultrapassada a previsão. Foram contemplados agricultores de apenas 95 municí-
pios, maioritariamente nas províncias de Uíge, Huambo, Kwanza Sul e Moxico, o
que mostra que nem sempre as províncias com maior potencial são contempladas.
O valor médio dos empréstimos por beneficiário foi de 2.106,19 dólares.

Estudos realizados concluem que o Crédito Agrícola de Campanha é pertinen-


te e tem impactos positivos. Muitos dos agricultores contemplados conseguiram
acesso a in-puts agrícolas (sementes, instrumentos de trabalho, fertilizantes), gado
(de tracção ou para criação), equipamentos (charruas, motobombas, pulverizado-
res), meios de transporte (motorizadas), serviço de preparação de terras, entre ou-
tros benefícios. Conseguiram aumentar as áreas de cultivo e consequentemente as
produções obtidas e as rendas familiares. Porém, tais impactos poderiam ter sido
maiores se o programa tivesse sido melhor desenhado. Por exemplo, não se teve
em conta a realidade agrícola do país, nem o carácter sazonal desta actividade,
nem sequer a falta de experiência da maior parte dos actores envolvidos, incluin-
do os bancos e os empresários responsáveis pelo aprovisionamento de meios de
produção e pela prestação de serviços.

A segunda modalidade diz respeito ao crédito ao investimento. Trata-se de uma


outra linha, no montante equivalente a 200 milhões de dólares, disponibilizados
pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento e gerida pelo Banco de Desenvolvimento
de Angola (BDA). Parte desse montante (cerca de 25%) foi cedido pelo BDA a ban-
cos comerciais (BPC, BCI, BMF e BSOL), que aprovaram 90 projectos no valor su-
perior a 30 milhões de dólares. Esta modalidade é destinada a pequenos e médios
agricultores com o objectivo de contribuir para a promoção de uma agricultura
comercial e sua modernização.

Para a operacionalização dos créditos a conceder pelo BDA, este definiu duas
formas de intervenção. Uma contempla projectos avulso que podem atingir cerca
de um milhão de dólares cada, tendo sido aprovados, até 2013, 87 projectos, num
total de 32 milhões de dólares, dos quais apenas cerca de 50% foram desembol-
sados, em todas as províncias, com destaque para Kuanza Sul, Malanje, Kuanza
Norte, Huambo, Luanda, Huíla, Uíge e Bengo.

| 115
CEIC / UCAN

A segunda forma de intervenção visa a criação de “manchas dinâmicas de de-


senvolvimento”, ou pólos agrários ou agro-industriais, em regiões de reconhecido
potencial agrícola. Este tipo de intervenção tem o suporte de empresas de con-
sultoria contratadas que apoiam os pequenos e médios agricultores envolvidos
na tramitação dos processos de candidatura e na prestação de assistência técnica
na fase de implementação e desenvolvimento dos projectos, engobando não ape-
nas os aspectos técnicos, mas também de gestão, em paralelo com formação em
serviço. Foram escolhidas áreas de concentração para este tipo de intervenção as
províncias do Kuanza Sul, Lunda Norte, Lunda Sul, Kuando Kubango, Bengo e Huíla,
os financiamentos concedidos atingem cerca de 96 milhões de dólares.

Em resumo, o crédito agrícola de investimento disponibilizou cerca de 200 mi-


lhões de dólares e estão em execução 426 projectos, em todas as províncias do
país, sendo a do Kuanza Sul de longe a mais contemplada. Contudo, três notas
se oferecem para permitir uma análise desta linha. A primeira é que era suposto
que o montante engajado correspondesse a um ano de actividade, mas na prática
acabaram por ser cerca de três, aguardando-se que ela venha a ser reforçada para
que o processo não seja suspenso, como aconteceu com o crédito de campanha.
A segunda é que se afigura bastante questionável a escolha das províncias para a
implantação das manchas dinâmicas, na medida em que, exceptuando a do Kuan-
za Sul, nenhuma das outras parece ter o elevado potencial agrícola mencionado.
A terceira, decorrente da anterior, é que a estratégia das manchas dinâmicas do
BDA não parece estar concertada com a dos Pólos do MINAGRI, pelo que resulta
um desfasamento e o correspondente desaproveitamento de possíveis sinergias.

4.o A situação da agricultura no OGE

Uma vez mais se chama a atenção para o facto de o OGE não estar a traduzir, na
prática, a anunciada preocupação do Executivo com a diversificação da economia.
Como se tem vindo a referir, a análise das verbas atribuídas ao sector nos últimos
anos mostra que, quer em percentagem em relação à totalidade do orçamento,
quer em termos absolutos, se assiste a uma deterioração da situação desde 2008,
de 4,45% em 2008 – a decisão sobre a diversificação é de 2009 – para menos de 1%
em 2014, ano em que a redução, em percentagem relativa ao total do OGE, atinge
praticamente metade da cifra de 2013 . Para além disso, é sabido que a percenta-
gem de execução dos investimentos no sector agrícola praticamente nunca atin-
ge os 50% nos últimos anos. Estas constatações vêm, uma vez mais, confirmar as
análises de vários estudiosos sobre a vontade política em diversificar a economia,
nomeadamente no que respeita ao papel do sector agrícola nessa diversificação.

116 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

KZDEdK'Z>K^dK͕^dKZ'Z/h>dhZΈϮϬϬϴͳϮϬϭϰΉ
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Mil Milhões de AKZ 147, 5 174, 7 68, 8 67, 4 53, 33 73, 3 41,9
% OGE total 4,5 4,1 2,0 1,4 1,2 1,1 0,6
FONTE: OGE.

AGRICULTURA NO OGE

5
4,5
4,1 % total
4

3
2,0
2
1,4
1,2 1,1
1
0,6

0
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
FONTE: World Bank – World Development Report, vários anos. IMF, Regional Economic Outlook.

Estes aspectos são agravados pela falta de coordenação sectorial e pela ausên-
cia de uma visão holística do desenvolvimento, quer entre sectores, quer no inte-
rior do próprio sector. Isto explica que se façam investimentos como o do Cubal,
onde não havia condições para a cultura do milho e se fez um investimento esti-
mado de cerca de 30 milhões de dólares, bem como os já referidos para o algodão
no Kuanza Sul (onde continua sem solução o problema da energia para suportar
o regadio, para além do facto de estar em fase de instalação um complexo fabril
algodoeiro e uma fábrica têxtil em Malanje) e para a avicultura no Kuanza Norte e
em Malanje, e ainda com o anunciado projecto de construção de um matadouro
industrial em Camabatela para o abate de 200 animais por dia, quando o efectivo
da região é de poucos milhares de cabeças e o repovoamento do Planalto do mes-
mo nome não poderá ser tão rápido quanto seria de desejar dadas as dificuldades
com que se tem deparado o desenvolvimento da pecuária no país em geral, e em
particular em regiões de maior tradição.

O OGE não traduz, pois, as políticas expressas, mas sim outras decorrentes de
interesses e prioridades conjunturais ou mesmo pontuais e o mesmo ocorre, pos-
teriormente, na sua execução.

Neste contexto, será difícil a criação de um ambiente atractivo para o investimento


estrangeiro em Angola. Não surpreende, pois, que nos últimos anos os investimentos

| 117
CEIC / UCAN

privados no sector agrícola tenham representado apenas menos de 2% do investimen-


to global e em 2012 deve ter sido praticamente inexistente.

Todas estas constatações explicam a baixíssima contribuição da agricultura


para o PIB, que, com os dados actualizados pela disponibilização das Contas Nacio-
nais, não ultrapassa os 4%, um número verdadeiramente inusitado para um país
africano intertropical.

3.4.2 Indústria transformadora

Na Primeira Conferência sobre a Indústria Transformadora, realizada em 21 de


Novembro de 2013, intitulada “Os Caminhos da Industrialização de Angola”, ficou
patente a preocupação da Senhora Ministra da Indústria em dar-se um impulso
definitivo à manufactura nacional, depois de “falhados”(?) os planos de reindus-
trialização elaborados em anos anteriores (de resto, a titular da pasta preferiu falar
de industrialização do país e já não em reindustrialização, com a evidente preocu-
pação de se encontrar um modelo próprio de estruturar a indústria nacional, dan-
do-lhe maior coerência e mais elevada competitividade. Reindustrializar poderia
ser confundido com a recuperação do modelo colonial de industrialização, ainda
que para a época tenha dado resultados muito positivos).

É sabido que a indústria transformadora é uma das três peças fundamentais de


um processo sustentado de diversificação de qualquer economia, sendo necessá-
rio encontrar-se o modelo certo, a estratégia adequada e as políticas mais eficazes.
Os outros dois sectores-chave são a agricultura e actividades conexas e a constru-
ção. Para além, evidentemente, da “destruição criadora” de Schumpeter, no cerne
dos processos incessantes de inovação/criação.

Em termos da estrutura do Produto Interno Bruto, a manufactura e a agricul-


tura não têm representatividade. Por exemplo, o sector “agricultura, pecuária e
florestas”, que se pensava ter uma participação relativa no PIB de cerca de 8% a
10%, surge agora na contabilidade real da economia do país, dada pelas Contas
Nacionais, com um peso percentual médio, entre 2002 e 2010, de apenas 4%. O
que pode ter diferentes leituras:

ͻ Considerado como sector estruturante das transformações económicas e peça


importante da diversificação produtiva do país, 4% de participação é muito
pouco.

ͻ No entanto, este valor pode também significar que a margem de progressão


é elevada, não se apresentando esta actividade próxima dos seus limites de
expansão e contribuição para o valor agregado nacional.

118 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Pesquisas recentes sugerem que o processo de crescimento económico é muito


tributário de reformas estruturais permanentes e sistemáticas e apresenta um pa-
drão comum em termos de produtividade: a passagem de actividades produtivas
de baixa para as de maior eficiência económica. A produtividade é, na verdade, a
questão nuclear da industrialização, da diversificação e das transformações estru-
turais. Todos os casos de crescimento rápido e sustentado apresentam como de-
nominador comum um sector industrial estruturado e de elevado valor agregado.

3.4.2.1 Comportamento da produção

A indústria transformadora continua a defrontar-se com problemas que têm


atrasado a tomada de uma posição determinante e central para o tecido económi-
co nacional. Em vários Relatórios Económicos, o CEIC tem apresentado estudos e
reflexões sobre a indústria manufactureira em Angola, as causas da desindustriali-
zação depois da independência e que se prolongam até hoje (as Contas Nacionais
do INE – as mais recentes e confiáveis estatísticas macroeconómicas do país – atri-
buem a este sector 4% do PIB nacional (no tempo colonial chegou a ser de 20% e
nos países que têm a industrialização como suporte dos processos de diversifica-
ção económica, criação de emprego e geração de rendimento o seu peso relativo
é de 25%82)), as condições necessárias para a sua diversificação e incremento das
respectivas exportações (a sobrevalorização da taxa de câmbio do Kwanza é um
entrave, ainda que muitos sectores de opinião a defendam como meio de controlo
da inflação, num país que importa 70% do que necessita para produzir e consumir
e que ainda tem muito poucos bens industriais transaccionáveis) e o seu papel na
criação dum mercado interno integrado e com índices de densificação produtiva
elevados. Enquanto, do ponto de vista institucional, a indústria transformadora
mantiver várias e diferentes subordinações, continuará a ser difícil definir políticas
industriais coerentes, consistentes e rigorosas. Igualmente a falta de estatísticas in-
dustriais confiáveis entrava o conhecimento real e efectivo da situação da indústria
transformadora e consequentemente o desenho de formas de intervenção pública
e de apoio ao sector privado eficazes83.

O Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 elege como objectivo estra-


tégico para a indústria transformadora a criação do cluster da alimentação e em
termos muitos gerais “o seu papel de suporte à diversificação da economia, ge-
ração de emprego em bases sustentáveis e aproveitamento das matérias-primas
agrícolas e minerais ”. Da lista de 30 produtos cujas metas de crescimento estão

82Ž˜‡•†ƒ‘…ŠƒǡAs Transformações Económicas Estruturais na África Subsariana, Edi-

–‘”ƒƒ›ƒ„ƒǡ‡–‡„”‘†‡ʹͲͳ͵Ǥ
83 Aguardam-se os resultados do CIANG – Censo da Indústria em Angola, efectuado em

2013.

| 119
CEIC / UCAN

definidas (pág. 85), apenas 3 são alimentares, provavelmente insuficientes para


se construir um tecido de relações industriais e comerciais intensas e expressi-
vas de modo a dar-se corpo ao cluster. As taxas médias anuais (2012/2017) de
crescimento aí estabelecidas são: 18,3% para o óleo alimentar, 16,9% para o leite
pasteurizado, 5,9% para o leite em pó e 5,5% para os iogurtes. Na verdade, uma
gama muito reduzida de produtos e ainda que as taxas de crescimento de alguns
deles expressem uma duplicação durante o período do Plano, a capitação das suas
quantidades é muito baixa.

A indústria transformadora continua a apresentar índices inconvenientes de


excessiva concentração da sua produção nas bebidas, pelo menos desde 1998.
Apesar disso, são positivos os sinais de uma maior participação percentual de ou-
tras actividades de transformação, sobretudo em áreas ligadas aos materiais de
construção.

ESTRUTURA INDUSTRIAL RESUMIDA EM 2001

3%

Alimentares
32% 65% Bebidas
Outras

FONTE: CEIC, estudos sobre a Diversiicação da Economia.

ESTRUTURA INDUSTRIAL RESUMIDA EM 2013

17% 27%

Alimentares
Bebidas
Outras

56%

FONTE: CEIC, estudos sobre a Diversiicação da Economia.

As informações oficiais sobre a execução do PND 2013/2017 para 2013 dão


conta das taxas de crescimento que se seguem (base 100 em 2012) para alguns
produtos industriais.

120 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

TAXAS DE CRESCIMENTO
DE ALGUNS PRODUTOS INDUSTRIAIS
Produtos Índice em 2012 Índice em 2013
Enchidos de carne 100 70,3
Óleo alimentar 100 101,8
Leite pasteurizado 100 86,6
Leite em pó 100 95,5
Iogurtes 100 102,8
Manteiga 100 96,4
Farinha de milho 100 41,4
Pão 100 3,5
Cerveja 100 108,9
Refrigerantes 100 90,1
Água de mesa 100 114,3
Bebidas espirituosas 100 112,3
Cimento 100 86,5
Varão de aço 100 89,8
Tintas e similares 100 83,9
Calças 100 151,5
Camisas 100 103,4
Saias 100 81,1
Papel 100 130,3
Livros escolares 100 113,1

Na generalidade, parece ter ocorrido uma diminuição da produção industrial


no país em 2013, com excepções relacionadas com as confecções e as bebidas
espirituosas.

De um outro ângulo de análise, a produção industrial pode ser observada atra-


vés de informações de natureza macroeconómica.

INDÚSTRIA TRANSFORMADORA
2002 2007 2009 2011 2012 2013
VAB (milhões USD) 584,3 2225,2 2360,2 4797,2 5996,7 6207,8
EMPREGO 56255,0 58138,0 63292,0 69051,4 69051,4 72454,4
PRODUTIVIDADE USD 10386,5 38274,9 37291,0 115758,9 172399,9 173130,2
TAXA DE CRESCIMENTO 10,3 2,0 7,0 19,2 3,8 6,5
VAB POR HABITANTE 42,9 140,0 139,7 266,6 322,8 323,6
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘‡Žƒ–×”‹‘…‘×‹…‘†‡ʹͲͳ͵Ǥ

| 121
CEIC / UCAN

Duas notas de realce:

ͻ A aparente contradição entre a taxa de crescimento de 6% em 2013 e as


informações parcelares que constam da tabela anterior.

ͻ O baixo valor da capitação do Valor Acrescentado Bruto da Indústria Transfor-


madora, atestando a existência de uma margem enorme de progressão a ser
ocupada pela produção nacional eficiente, isto é, sem defesas tarifárias que
acabam por proteger os empresários mais ineficientes.

3.4.2.2 As políticas industriais

Do Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017 constam as seguintes medi-


das de Política Industrial (as mais relevantes dentre as 30 aí propostas):
a) Assegurar-se o funcionamento do Conselho Nacional de Qualidade, das
Comissões Técnicas de Normalização e de outros Grupos de Trabalho.
b) Aprovar-se o Acordo de Crédito com o Japan Bank for International Coo-
peration para viabilizar o financiamento da reabilitação e modernização
da empresa África Têxtil.
c) Criar-se um sistema de gestão do cadastro industrial, estatística e infor-
matização geral do Ministério da Indústria.
d) Promover-se a criação de um Centro de Tecnologias de Informação e de
um Centro Industrial de Tecnologia Avançada para o sector industrial de
Viana.
e) Reforçarem-se os Institutos de Desenvolvimento Industrial de Angola, de
Normalização e Qualidade, de Propriedade Industrial e as Direcções Na-
cionais do Ministério.
f) Elaborar-se um Programa de Industrialização de Angola abrangente e com
estratégias bem definidas para se atingirem os objectivos de desenvolvi-
mento industrial.
g) Apoiar-se a criação de Centros de Inovação e Competência.
h) Elaborar-se um estudo específico para a indústria dos materiais de cons-
trução.
i) Elaborarem-se estudos visando a criação de pólos de desenvolvimento
industrial da Matala, Kunge, Dondo, Soyo, Uíge, Lunda Sul, Malanje e Kas-
singa.
j) Construírem-se os pólos de desenvolvimento industrial de Viana, Bom Jesus,
Lucala, Caála, Catumbela e Fútila.

122 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

k) Promover-se a criação de fábricas de descaroçamento e fiação de algodão.


l) Reabilitarem-se as empresas Textang II, África Têxtil e SATEC.
m) Acompanhar-se a montagem de 23 cerâmicas promovidas pelo Ministério
do Urbanismo e Construção84.
n) Apoiar-se a criação de um Instituto de Formação Técnica Industrial.

3.4.3 Extracção de petróleo

A extracção de petróleo continua a ser a mais importante actividade produtiva


e económica do país, com cifras expressivas nas receitas em divisas (96% do total),
nas receitas fiscais (70-75% do OGE), na contribuição para as reservas internacio-
nais líquidas (90%), no peso no PIB (entre 40-45% nos últimos anos) e o maior
contribuinte para o Fundo Soberano de Angola.

DEPENDÊNCIA DAS EXPORTAÇÕES TOTAIS DAS EXPORTAÇÕES DE PETRÓLEO

80 000

60 000

40 000

20 000

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Exportações totais mercadorias (milhões USD)


Exportações de petróleo (milhões USD)
FONTE: CEIC, icheiro Quadro Macroeconómico Comparativo.

É também o sector por onde passa o essencial e o mais importante do que se


convencionou chamar “processo de acumulação primitiva do capital”, através do
rent-seeking, fenómeno amplamente tratado na literatura económica e comprova-
do por estudos empíricos sobre as origens da desigual distribuição do rendimento
nacional, o enriquecimento ilícito e a perpetuação das assimetrias sectoriais, re-
gionais e pessoais nos países produtores de petróleo. Estas desigualdades, associa-
das às falhas de mercado em economias capitalistas, são ampliadas pelo fenómeno
a que se convencionou chamar “maldição dos recursos naturais”. O peso excessivo
da actividade petrolífera na economia de um país provoca a doença holandesa,

84Aqui está um exemplo claro da múltipla subordinação da indústria transformadora


‘’ƒÀ•ǡ‹˜‹ƒ„‹Ž‹œƒ†‘”ƒ†ƒ†‡ϐ‹‹­ ‘‡‹’Ž‡‡–ƒ­ ‘†‡’‘ŽÀ–‹…ƒ•‹†—•–”‹ƒ‹••×Ž‹†ƒ•‡
consistentes.

| 123
CEIC / UCAN

uma espécie de atrofiamento dos restantes sectores produtivos, e uma apreciação


das moedas nacionais, que dificulta a diversificação das exportações.

Oficialmente, as reservas comprovadas, prováveis e possíveis de petróleo estão


estimadas em 13,749 mil milhões de barris85, correspondentes, para uma produ-
ção diária de 1,9 milhões de barris, a 20 anos de duração. As reservas comprovadas
efectivamente parecem que estão em 11 mil milhões de barris, o que se traduz
numa vida útil de 15 anos.

A diversificação da economia nacional tem de estar estrategicamente ligada à


exploração do petróleo em diferentes dimensões: financiamento dos investimen-
tos necessários à alteração da actual estrutura produtiva, fornecimento de maté-
rias-primas e intermédias, fomento de actividades e de serviços relacionados com
a extracção do crude e partilha de tecnologia.

3.4.3.1 Comportamento da produção

Nos últimos anos, a produção de petróleo tem sido afectada por problemas
técnicos e também pelos efeitos da recessão económica mundial de 2008/2009, o
que concorreu para uma redução da sua dinâmica de crescimento.

EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE PETRÓLEO

250

200

150

100

50

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Índice de base móvel Índice de base fixa


FONTE: CEIC, icheiros Estudos sobre o Sector Petrolífero, Índice do PIB, Quadro Macroeconómico Comparativo e
Relatório Económico 2013 com base nas informações do Ministério dos Petróleos.

Entre 2002 e 2013 a produção de petróleo aumentou 91%, com perdas inter-
médias devido aos condicionalismos técnicos que em alguns anos provocaram
quebras significativas na produção.

85 Relatório de Execução de 2013 do Ministério dos Petróleos, página 3.

124 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

É uma actividade completamente virada para o exterior, estando assim muito


condicionada pelas oscilações da economia mundial e da procura das economias
mais desenvolvidas e de algumas das emergentes.

Justamente por causa desta dependência do exterior e de alguns problemas


técnicos que por vezes afligem as empresas responsáveis pela extracção de petró-
leo, a trajectória de crescimento apresenta algumas oscilações em alguns anos do
período longo 1998/2012.

TEMPO E MODO DO SECTOR PETROLÍFERO


30
25
20
15
10
5
0
-5 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
-10
Taxa crescimento PIB Linha tendencial
FONTE: CEIC, icheiro Índice do PIB.

Depois de 2008, o que aparentava ser um crescimento sustentável do PIB pe-


trolífero, com especial ênfase no período 2002/2008, transformou-se num com-
portamento errático a partir de 2009, em que se alternam crescimentos positivos
com variações negativas.

Nota-se claramente, através do gráfico anterior, que entre 2008 e 2013 a taxa
média de crescimento do PIB petrolífero se tem situado na vizinhança de 5%. Uma
fase fortemente regressiva ocorreu entre 2009 e 2011 (-5%, -0,5% e –5,6%, res-
pectivamente para 2009, 2010 e 2011), a que se seguiu uma ligeira recuperação
em 2012 (4,3%). Em 2013 voltou-se a perder dinâmica, com a taxa de variação da
produção a situar-se em 0,6%.

De acordo com as projecções do Fundo Monetário Internacional86 e do Go-


verno87 a taxa anual de crescimento deste sector poderá situar-se em redor de 3%
até 2019, a confirmar a fase descendente assinalada no gráfico anterior sobre a
chamada linha tendencial de crescimento a longo prazo.

86 International Monetary Fund , Angola Second Post-Reform Monitoring, March 2014.

87 Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017.

| 125
CEIC / UCAN

Os últimos 4 anos têm sido difíceis para a indústria petrolífera, com taxas nega-
tivas de variação do respectivo valor acrescentado ou com taxas reduzidas, longe
do fulgor dos anos 2002/2007 e mesmo de alguns que antecederam a paz.

PRODUÇÃO DE PETRÓLEO
2002 2007 2009 2011 2012 2013
VAB (milhões USD) 7035,1 31797,7 24755,3 49613,7 49613,7 49613,7
EMPREGO 14223,0 17729,0 19249,3 26134,7 32378,7 37773,7
PRODUTIVIDADE (USD) 494630,7 1793540,2 1286037,3 3127833,6 3234408,4 2427689,8
TAXA DE CRESCIMENTO 20,6 21,8 -5,0 -5,6 4,3 0,6
VAB POR HABITANTE 516,0 2001,3 1465,8 2757,5 2670,8 2586,3
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘‡Žƒ–×”‹‘…‘×‹…‘†‡ʹͲͳ͵Ǥ

Apesar de uma quebra de 5,5% na produção em 2011, o ganho no preço do


petróleo, relativamente a 2010, de cerca de 30%, permitiu arrecadar mais de 64,2
mil milhões de dólares. O que parecia ser uma recuperação em 2012 esfumou-se e
converteu-se numa taxa de variação de apenas 0,6%.

Confirma-se a reduzida capacidade de criação de emprego do sector petrolífe-


ro (extracção de petróleo e produção de derivados, conforme a classificação das
Contas Nacionais do INE) (0,38% do total em 2012 e 0,47% do total em 2013) e
mesmo que se adicionem os postos de trabalho nas empresas prestadoras de ser-
viços às companhias petrolíferas – em rigor esta força de trabalho deve ser conta-
bilizada nos “serviços mercantis” das Contas Nacionais – a sua contribuição fica-se
por 1,9%. Compreende-se que assim seja dado o seu elevado índice de intensidade
de capital e tecnologia.

Também se confirma, pelas mesmas razões de intensidade capitalística e tecno-


lógica, que esta actividade é a de maior valor da produtividade bruta aparente do
trabalho, com um valor, em 2013, próximo de 2,4 milhões de dólares. As diferenças
para os restantes sectores de actividade são quase incomensuráveis, conforme se
mostrará no capítulo “Emprego e Produtividade” deste Relatório.

Devido a isso, a sua capacidade de criação de emprego é mais reduzida, as-


pecto já anteriormente sublinhado. Não se pode contar com este sector para o
processo de repartição funcional directa do rendimento nacional. A sua inserção
num novo modelo de distribuição tem de ser feita através do efeito contágio e de
uma real vontade política de limitar os apetites vorazes de acumulação de riqueza
numa classe reduzida de políticos e empresários.

126 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

COMPARAÇÃO ENTRE EMPREGO E PRODUTIVIDADE

93,9
77,7

36,9
32,2 21,8 29,3
26,0 23,9
15,2 16,7
8,8 7,5 5,0
-0,3 1,6 1,0 1,0
3,4
2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
-24,9
-43,1

Taxa crescimento emprego Taxa crescimento produvidade


FONTE: CEIC, icheiro Estudos de Produtividade e Emprego.

Para além da crise económica mundial de 2009, outros problemas, sobretudo


de natureza técnica, têm limitado a obtenção de níveis de produção mais compatí-
veis com as potencialidades do sector.

PRODUÇÃO E EXPORTAÇÃO DE PETRÓLEO

2,0

1,5

1,0

0,5

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Produção de petróleo (milhões barris/dia)


Exportação de petróleo (milhões barris/dia)
FONTE: CEIC, icheiros Quadro Macroeconómico Comparativo e Estudo sobre o Sector dos Petróleos em Angola
com base em dados do Ministério dos Petróleos.

A exportação de petróleo continua a representar mais de 96% das exportações


totais, expondo-se, assim, às vicissitudes dos mercados internacionais, não apenas
o financiamento das actividades do Estado, como o dos outros sectores económi-
cos. Apesar de existirem efeitos de contágio sobre o resto da economia, os custos
inerentes à incerteza das receitas provenientes do exterior acabam por ser muito
elevados. Daí que a diversificação seja absolutamente fundamental.

| 127
CEIC / UCAN

VOLATILIDADE DOS PREÇOS DO PETRÓLEO


120
100
80
60
40
20
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Exportações petróleo (mil milhões USD)


Preço petróleo angolano (USD/barril)
FONTE: CEIC, icheiros Quadro Macroeconómico Comparativo e Estudo sobre o Sector dos Petróleos em Angola
com base em dados do Ministério dos Petróleos.

No gráfico anterior observa-se a volatilidades das receitas do petróleo, bem


expressa em 2009 quando o preço do barril desceu até 61 dólares, depois de ter
estado, em 2008, ao nível de 95 dólares.

Os investimentos mantêm-se firmes no sector dos petróleos, visando aprovei-


tar as novas reservas descobertas no país.

A nota mais saliente neste domínio é a crescente participação da Sonangol nos


investimentos totais, tendo em 2013 assumido praticamente 30% dos investimen-
tos assegurados pelas operadoras estrangeiras. Aliás, entre 2006 e 2013 os inves-
timentos da Sonangol foram multiplicados por 3,2, factor equivalente a uma taxa
média anual de 21,2%.

INVESTIMENTOS NA PRODUÇÃO DE PETRÓLEO (milhões USD)

26120
Sonangol Privado
22380

15114
12744
10438
8254 8585 7527
6565 6449
3824 4646 4868
2258 2497
805

2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

128 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

3.4.3.2 As políticas petrolíferas

O Plano Nacional de Desenvolvimento o Governo estabelece como objectivo es-


tratégico para este sector “assegurar a inserção estratégica de Angola no conjunto
dos países produtores de energia e desenvolver o cluster do petróleo e gás natural,
contribuindo para financiar o desenvolvimento da economia e sua diversificação”
e define como áreas prioritárias da política petrolífera o aumento da capacidade
de refinação de petróleo bruto, o desenvolvimento da indústria de gás natural, o
desenvolvimento da fileira do petróleo e a promoção da indústria petroquímica.

Enquanto sustentabilidade da produção de petróleo, o Plano prevê:


a) Controlo do ritmo de exploração.
b) Garantia da auto-suficiência nacional em produtos refinados.
c) Criação de um Fundo de Apoio às empresas privadas nacionais ligadas ao
sector petrolífero.
d) Intensificação do grau de angolanização dos recursos humanos das empresas
petrolíferas.

As cautelas quanto ao controlo do ritmo de extracção de petróleo bruto estão


expressas por dois indicadores importantes:
a) A taxa média de aumento anual da produção entre 2012 e 2017 está estimada
em 1,6%. Como o PND 2013-2017 prevê uma queda de 13,8% no preço do
barril, as receitas de exportação cairão, e com aquelas, as receitas fiscais,
não sendo de contar, pelo menos por enquanto, com uma compensação de
igual valor na colecta dos impostos não petrolíferos, mesmo contando com os
efeitos passageiros da aplicação da nova pauta aduaneira. Pode advir daqui
uma pressão do Orçamento Geral do Estado em matéria de crescimento das
receitas para financiar os ainda ambiciosos programas de infra-estruturas, de
pólos de desenvolvimento industrial, de apoio à agricultura familiar, de elec-
trificação do país, de melhoria de fornecimento de água, etc., que vai pôr em
risco a intenção de controlar a extracção de crude em limites sustentáveis88.
a) Os investimentos no sector vão cair de 19932 milhões de dólares em 2012,
para 7401 milhões em 2017, uma retracção de 62,8%89. Mesmo que se
admita a sua volatilidade no tempo, uma cadência de regressão anual de
praticamente 18% pode traduzir uma diminuição da confiança no desen-
volvimento do sector.

88‡ƒ’”‘†—­ ‘†‹ž”‹ƒ’ƒ••ƒ”’ƒ”ƒʹ‹ŽŠÙ‡•†‡„ƒ””‹•ǡƒ†—”ƒ­ ‘†ƒ•”‡•‡”˜ƒ•…‘’”‘-

vadas baixa para 18 anos.


89 Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017, página 83.

| 129
CEIC / UCAN

3.4.4 Construção e Obras Públicas

O valor da actividade deste sector está estreitamente ligada aos investimentos


públicos, mesmo que esteja em fase de crescimento um sector privado relevante
relacionado com o imobiliário, especialmente de renda média-alta e renda alta. O
gráfico seguinte, com taxas reais de variação anual, mostra essa correlação próxima.

VARIAÇÃO REAL ANUAL DA CONSTRUÇÃO E DO INVESTIMENTO PÚBLICO (%)


300

250

200

150

100

50

0
2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
-50
Variação real invesmento público Taxas anuais
Eficácia invesmento público
FONTE: CEIC, icheiros Índice do PIB e Quadro Macroeconómico Comparativo.

Depois de resgatada a recessão dos investimentos públicos entre 2008 e 2010,


tudo indica que agora e face ao ainda positivo comportamento do preço do pe-
tróleo e da renovação das mais importantes linhas de crédito da China e do Brasil,
se está a entrar numa fase de recuperação. O investimento público ainda é muito
importante para a dinamização da economia nacional, dada a fraqueza do investi-
mento privado fora da economia petrolífera. Aliás e conforme se referiu mais atrás,
mesmo na extracção de petróleo está prevista uma diminuição considerável do
investimento petrolífero privado, a uma cadência média anual de 18%.

IMPORTÂNCIA DO INVESTIMENTO PÚBLICO EM ANGOLA

14,1
13,0 12,4
11,5
9,7 10,0
8,7 9,0
7,5
6,2
4,9 5,5

2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Invesmentos públicos/PIB (%)


FONTE: CEIC, icheiro Quadro Macroeconómico Comparativo.

130 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

A taxa de investimento média do Estado na economia pelo investimento públi-


co directo está estacionária, em 9%.

ESTABILIZAÇÃO DO INVESTIMENTO PÚBLICO


16
14
12
10
8
6
4
2
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012

Invesmentos públicos/PIB (%) Média tendencial


FONTE: CEIC, icheiro Quadro Macroeconómico Comparativo.

Entre 2002 e 2013 a taxa média anual de variação dos investimentos públicos,
situou-se em 28,5%, mas com uma nítida desaceleração no período 2008/2013
(0,46% ao ano).

11896,0 12172,1
10378,9
9371,6 9023,8
7979,3
6926,4
5425,2

1545,7
769,6 1059,5 969,0

2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Invesmentos públicos (milhões USD)


FONTE: CEIC, icheiro Quadro Macroeconómico Comparativo.

3.4.4.1 Comportamento da produção

Em temos gerais e de acordo com informações oficiais (Contas Nacionais, Re-


latório de Fundamentação do OGE de 2014 e de Execução de 2013), a economia
deste sector caracterizou-se pelos valores patentes na tabela da página seguinte.

| 131
CEIC / UCAN

SECTOR DA CONSTRUÇÃO
2002 2007 2009 2011 2012 2013
VAB (milhões USD) 862,6 4878,3 5227,7 7755,7 7841,9 8277,0
EMPREGO 169722 308646 339688 394335 406184 410931
PRODUTIVIDADE (USD) 5082,2 15805,6 15389,7 19667,9 19306,2 20142,2
TAXA DE CRESCIMENTO 10,0 17,7 12,8 26,0 6,8 7,5
VAB POR HABITANTE 63,3 307,0 309,5 431,1 422,1 431,5
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘‡Žƒ–×”‹‘…‘×‹…‘†‡ʹͲͳ͵Ǥ

Está em fase de execução um vasto e importante programa de reconstrução e


reabilitação de infra-estruturas económicas90, destacando-se os domínios de inter-
venção que se seguem.
a) Rede rodoviária fundamental: na sua configuração final vai oferecer 26000
Km de extensão. Em 2013 foram asfaltados 1042 Km, perfazendo um total
de 11127 Km de estradas asfaltadas.
b) Construção/reconstrução/reabilitação de vias de ligação entre as sedes pro-
vinciais e as sedes municipais: por aqui vai passar muita da sustentabilidade
do crescimento económico futuro, bastante das condições para a integra-
ção do mercado interno e, consequentemente, para o desenvolvimento da
agricultura. Está delineado o respectivo programa de reabilitação para 4590
Km, com um custo de 3539,3 milhões de dólares até 2017.
c) Programa estratégico de recuperação de estradas terciárias: durante o ano
de 2013 foram executados trabalhos de manutenção em Benguela, Luanda
e Cuando-Cubango numa extensão de 2769 Km. A extensão total da rede
terciária a ser intervencionada até 2017 é de 50643 Km em todo o país,
sendo as províncias do Cuando – Cubango (8963Km), Bengo (4764 Km), do
Bié (4340 Km), da Huíla (3764 Km) e do Uíge (3135 Km) as mais importantes
deste programa. Para 2014 está prevista uma intervenção em 17500 Km.
Em 2013 foram reabilitados 776 Km.
d) Programa de reabilitação de infra-estruturas aeroportuárias: foi dado segui-
mento à execução dos trabalhos nos aeroportos do Kuito (92%), Saurimo
(100%), Luena (100%) e Ondjiva (85%).
e) Projecto de construção de infra-estruturas integradas: que consiste em redes
de drenagem de águas pluviais e residuais, abastecimento de água, forneci-
mento de electricidade e arruamentos em localidades urbanas. Cabinda (4%
de execução), Soyo (100%), Mbanza Congo (97%), Nzeto (100%), Malanje

90 Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017, página 94.

132 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

(36%), Benguela, Lobito, Catumbela e Baía Farta (100% em cada província)


e Kwanza Sul (66,5%).

3.4.5 Transportes

3.4.5.1 Considerações gerais

O sector dos transportes em Angola encontra-se, de acordo com os discursos


oficiais, num ponto de viragem da história económica e social do país, em que as
oportunidades de investimento representam um número muito significativo e em
áreas e segmentos de actividade muito diversificados. Em paralelo, esses inves-
timentos apresentam-se como consistentes no que respeita às opções estratégi-
cas do Executivo para o sector dos transportes e da logística e às grandes linhas
de desenvolvimento de curto, médio e longo prazos. Existe também uma forte
convicção por parte das entidades governamentais quanto à indispensabilidade
e prioridade de envolver o sector privado no investimento e na exploração dos
activos afectos às actividades transportadora e de logística. Foram já apresentados
diversos estudos estruturantes do sector dos transportes, dos quais se destacam
os seguintes:
1. Estudo da rede ferroviária nacional, que contempla a solução de ligação
das três linhas existentes, a construção de novas linhas e a ligação aos
países vizinhos em mais dois pontos, para além da actual ligação com a
República Democrática do Congo, na fronteira do Luau (caminho-de-ferro
de Benguela).
2. Estudo da rede ferroviária ligeira de Luanda, que inclui a rede de metro
ligeiro de superfície, que totaliza mais de 150 km e que dotará a capital
do país com um sistema ferroviário de elevada capacidade e fiabilidade.
3. Estudo da rede de cabotagem no norte de Angola, ligando a província de
Cabinda à província do Zaire e com todo o restante território nacional,
com terminais previstos em Cabinda, no Soyo, na Pedra do Feitiço, em
N’Zeto e em Nóqui.
4. Estudo das privatizações no sector ferroviário, que define os princípios, o
âmbito e as modalidades de privatização a empreender, bem como a tipolo-
gia das soluções de partenariado entre o sector público e o sector privado.
5. Estudo da rede nacional de plataformas logísticas e das condições para
Angola poder assumir-se como uma plataforma logística continental.
6. Estudo do modelo institucional do sector ferroviário, que permitiu criar as
bases gerais para o lançamento das privatizações.

| 133
CEIC / UCAN

7. Estudo da nova regulamentação para o sector ferroviário, que adequa o


quadro legal e operativo às condições infra-estruturais saídas do processo
de reabilitação e modernização do sistema ferroviário nacional.
8. Estudo dos planos estratégicos dos Portos do Namibe, do Soyo e do Lobito
(este em fase de acabamento) que articulam as acções fundamentais para
o desenvolvimento destes.
9. Estudo das bases gerais da Marinha Mercante, portos e actividades conexas,
que vem dispor sobre todas as actividades relacionadas com as diversas
componentes do negócio marítimo-portuário.
10. Estudo dos planos directores de transportes e logística de algumas pro-
víncias, tais como Kwanza Sul, Huambo, Kuando Kubango e Luanda (em
fase de acabamento).

De acordo com o Balanço de Execução do Plano Nacional referente ao exercício


económico de 2013, produzido pelo Ministério dos Transportes de Angola, o sector
dos transportes, no período de 2013-2017, deverá concentrar-se em dotar o país de
uma rede de transportes adequada aos objectivos do crescimento do mercado na-
cional e regional, que seja facilitadora do processo de desenvolvimento económico e
potenciadora das políticas de base territorial e populacional. Entre os objectivos para
2013 e 2017 também se destaca a necessidade de consolidar uma rede estruturada
de transporte público de passageiros aos níveis municipal, provincial e interprovincial
que garanta maior mobilidade das pessoas e assegure a intermodalidade no sector.

Nesse Balanço ficou também determinado que deverão ser adoptadas diferen-
tes medidas, tais como:
1. Desenvolver e melhorar de modo significativo o transporte público de pas-
sageiros em todo o território nacional.
2. Concluir a recuperação e o lançamento da rede de transportes ferroviários.
3. Construir o novo aeroporto de Luanda e proceder à reabilitação dos restantes
aeroportos e aeródromos.
4. Alargar o transporte marítimo de cabotagem a toda a costa angolana.
5. Concluir o programa de recuperação, modernização e alargamento dos por-
tos existentes e iniciar a construção dos novos portos de Luanda (Dande)
e Cabinda.
6. Repor o transporte marítimo internacional de bandeira angolana.
7. Expandir a rede de táxis no país.
8. Implantar os centros de inspecção de viaturas.

134 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

3.4.5.2 A prestação de serviços de transporte

Referente ao exercício económico de 2013 do Ministério dos Transportes,


apresentam-se os dados relativos aos indicadores de produção e emprego para os
quatro trimestres do ano.

INDICADORES DE PRODUÇÃO REFERENTES AO SECTOR DOS TRANSPORTES


Indicadores de Produção Passageiros Transportados Carga Transportada (ton)
1.o Trimestre 2013
Realizado ano 2012 57 436 12 490
Plano ano 2013 49 631 19 131
Programado 10 167 3 814
Realizado 5 356 3 925
Executado 53% 103%
2.o Trimestre 2013
Realizado 5 471 3 314
3.o Trimestre 2013
WůĂŶŝĮĐĂĚŽ 13 330 5 106
Realizado 6 309 3 579
4.o Trimestre 2013
WůĂŶŝĮĐĂĚŽ 14 385 5 536
Realizado 4 008 3 111
FONTE: Balanço de Execução do Plano Nacional Referentes ao 1.o, 2.o, 3.o e 4.o trimestres do Exercício Económico de 2013,
Ministério dos Transportes, República de Angola.

No 1.o trimestre de 2013 o número de passageiros transportados correspondeu


a 53% do programado. Este decréscimo está relacionado com o cancelamento de
comboios expressos nos serviços de médio e longo curso por falta de disponibilida-
de de tracção; com a falta de acessórios no sector rodoviário para manutenção da
frota e com a falta de mobilidade no tráfego e a existência de vias congestionadas.
Quanto ao transporte de carga, foi executado 103% do programado.

Durante o 2.o trimestre de 2013 registou-se um aumento insignificante (2%)


de passageiros transportados relativamente ao 1.o trimestre. Esta ocorrência está
associada à redução de locomotivas, carruagens e vagões e à inactividade da frota
rodoviária (mais de 50%) devido ao mau estado das estradas e à falta de peças de
substituição. O decréscimo da carga transportada (16%) comparativamente ao 1.o
trimestre está associado com a não utilização, nesse período, do sector ferroviário
para o transporte de carga.

No 3.o trimestre de 2013 registou-se um aumento de passageiros transporta-


dos (15%) em relação ao 2.o trimestre, que derivou do serviço de transporte de

| 135
CEIC / UCAN

passageiros ter-se realizado para além das 18 horas. Outra razão deste aumento
foi a chegada do comboio até à estação do Bungo e a utilização de novas carrua-
gens para o comboio expresso, também a melhoria das vias de transitabilidade, a
recuperação de alguns autocarros e o reforço da frota da TCUL com consequentes
impactos positivos na produtividade. Relativamente à carga transportada, regis-
tou-se um acréscimo (8%) comparativamente com o 3.o trimestre.

Finalmente, no 4.o trimestre de 2013 registou-se um decréscimo no número de


passageiros transportados e na carga transportada (44% e 38% respectivamente).
A esta redução estão associados factores tais como o cancelamento de 34 com-
boios e a não realização de 72 comboios de passageiros; a diminuição do número
de contentores transferidos para o porto seco de Viana e a redução acentuada
do transporte de mercadorias no caminho-de-ferro de Moçâmedes, em particular
no troço Menongue-Namibe. No sector rodoviário registaram-se dificuldades na
manutenção e reparação dos autocarros e a existência de vias em mau estado
de conservação. No ramo marítimo é de referir uma redução do fluxo de navios
atracados, da carga contentorizada, a existência de calemas e o assoreamento nos
portos de Porto Amboim, Cabinda e do Soyo.

O quadro seguinte sintetiza os dados produzidos pelo Ministério dos Transpor-


tes relativos ao emprego, aos profissionais e ao número de empregos criados.

EMPREGO NO SECTOR DOS TRANSPORTES


Indicador Emprego no sector WƌŽĮƐƐŝŽŶĂŝƐŶŽƐĞĐƚŽƌ N.o empregos criados
1.o Trimestre 2013
Realizado ano 2012 16 181 - -
Plano ano 2013 16 550 - -
Programado 16 100 - -
Realizado 15 988 621 5 854
Executado 99% - -
2.o Trimestre 2013
Realizado 16 302 496 3 024
3.o Trimestre 2013
WůĂŶŝĮĐĂĚŽ 16 160 755 -
Realizado 16 374 - 5 764
4.o Trimestre 2013
WůĂŶŝĮĐĂĚŽ 16 140 - -
Realizado 16 748 - -
FONTE: Balanço de Execução do Plano Nacional Referentes ao 1.o, 2.o, 3.o e 4.o Trimestres do Exercício Económico de 2013,
Ministério dos Transportes, República de Angola.

136 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

De acordo com o Balanço de Execução, no 1.o trimestre houve um decréscimo


no emprego em 1% em relação ao programado, por razões de aposentação, fale-
cimentos e a uma ligeira diminuição nas admissões. Durante o 2.o trimestre houve
um aumento em 2% comparativamente ao trimestre anterior, que está relacio-
nado com as admissões realizadas nas empresas. Quanto ao emprego criado no
sector através do Programa dos Investimentos Públicos, gerou-se um total de 5 854
novos postos de trabalho durante o 1.o semestre. Estes empregos representam
mão-de-obra angolana envolvida nos projectos afectos ao sector dos transportes,
mais concretamente nas empreitadas relacionadas com os caminhos-de-ferro e os
aeroportos. Durante o 3.o trimestre houve um aumento ligeiro em 0,4%, compara-
tivamente ao trimestre anterior, derivado das admissões realizadas nas empresas.
Neste trimestre, relativamente ao emprego criado, também através dos projectos
inscritos no Programa dos Investimentos Públicos de 2013, foram gerados 5 764
novos postos de trabalho. Quanto ao emprego no 4.o trimestre, o total dos traba-
lhadores existentes nas empresas revelou um acréscimo de 4%, comparativamente
ao planificado.

Assim, o número total de empregos criados foi de 14624, menos 6115 do que
os apontados no Relatório de Balanço de 2013 do MAPTSS.

Foram identificados alguns problemas e constrangimentos no ano de 2013.


Estes incluem, por exemplo, a necessidade de definir, com outros ministérios, a
inserção de verbas para manutenção dos programas de investimentos públicos
(aeroportos reabilitados, caminhos-de-ferro e peças de reposição dos autocarros
da TCUL); a inexistência de infra-estruturas ou equipamentos de integração modal;
a necessidade de actualização do preço do bilhete de transporte urbano de passa-
geiros; o défice de recursos humanos especializados; a ausência de infra-estrutu-
ras e equipamentos de suporte ao transporte público e colectivo de passageiros,
entre outros.

De entre os documentos produzidos pelo Ministério dos Transportes, desta-


cam-se os Balanços do Programa de Investimentos Públicos referentes aos pri-
meiros três trimestres do ano de 2013. Estes balanços apresentam informações
relativas aos projectos implementados nos diversos subsectores pelo Ministério
dos Transportes, ao seu valor, ao empreiteiro, bem como à entidade fiscalizadora.
As tabelas que se seguem sintetizam a informação mais relevante.

| 137
CEIC / UCAN

WZK:dK^/E^Z/K^EK^WZK:dK^/Es^d/DEdK^Wj>/K^ΈW/WΉ
1.o TRIMESTRE 2013
Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
Reabilitação Siemens/Zagope/
35 758 069,81 EUR GB Consultores
Aeroporto Soyo ŶĚƌĂĚĞ'ƵƟĞƌƌĞnj
Ce Aurecon –
Reabilitação
53 882 468,87 USD Tecnovia Africon e Dracon
Aeroporto Uíge
ǀŝĂƟŽŶ
Reabilitação
Siemens/Zagope/
Aeroporto 9 703 623,88 USD -
ŶĚƌĂĚĞ'ƵƟĞƌƌĞnj
Dundo
Reabilitação
Aeroporto 49 606 333,08 USD Zagope/Quantum GB Consultores
Huambo
Ramo Aéreo Reabilitação Siemens/Zagope/
35 758 069,81 USD
Aeroporto Luena ŶĚƌĂĚĞ'ƵƟĞƌƌĞnj
Reabilitação
Aeroporto 50 720 406,52 USD Imbondex Fiscom
Menongue
Reabilitação 125 012 186,88USD
Odebrecht/Somague/
Aeroporto 41 577 972,17 EUR GB Consultores
Imbondex/Angolaca
Catumbela 443 142 837,00 Akz
Construção
Aerogare Siemens/Zagope/
34 263 765,67 EUR GB Consultores
Aeroporto ŶĚƌĂĚĞ'ƵƟĞƌƌĞnj
Saurimo
Fiscalização do
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ 15 750 000,00 EUR - A1V2
Porto do Lobito
Construção
China
de passagens
6 339 109,16 USD Tec Construções e -
superiores
Materiais Lda
Ramo Ferroviário Boavista/´Bungo
Fiscalização CFB 20 494 180,00 EUR A1V2 CFB
Fiscalização CFM 14 956 000,00 A1V2 CFM
Sistema
Integrado
Monitorizado 9 925 000,00 USD - .
Tráfego
Rodoviário
Ramo Rodoviário Construção
Centros
205 792 679,00 Akz Jotapeças -
Manutenção
Regionais
Sistema
206 689 188 USD - -
Transporte BRT1

FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao 1.o Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

138 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

WZK:dK^EK/E^Z/dK^EKW/W͵ϭ͘O TRIMESTRE 2013


Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
Construção Terminal
505 968 275,76 Akz
ǀŽŽƐĚŽŵĠƐƟĐŽƐ Somague -
Ramo Aéreo Aeroporto Luanda
Reabilitação INAVIC
15 903 180,00 Akz Cercea Lda -
AIL
Reabilitação Ponto 138 556 697,77 Akz CGGC Engenharia H3P Engenharia
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ
Cais Porto Cabinda Angola Gestão
'ĞƐƚĆŽKĮĐŝĂůdĐƵů 1 380 000,00 USD - -
Ramo Rodoviário Fornecimento Antenas
ZĞƉĞƟĚŽƌĂƐZĄĚŝŽƐ 25 660 000,00 - -
Centrais
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao 1.o Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

WZK:dK^KD&/EE/DEdKydZEK͵ϭ͘O TRIMESTRE 2013


Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
Terminal Contentores Porto
244 248 000,02 USD CHEC -
Lobito
Terminal Minério Porto
328 155 520,08 USD CHEC
Lobito
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ
Aquisição
19 939 200,00 EUR - -
6 Lanchas
Aquisição
55 824 960,00 USD - -
3 rebocadores
Ramo Ferroviário Aquisição Material Circulante 169 389 951,85 USD - -
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao I Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

WZK:dK^/E^Z/K^EK^WZK:dK^/Es^d/DEdK^Wj>/K^ΈW/WΉ
2.O TRIMESTRE 2013
Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
Reabilitação
Ramo Aéreo 9 033 868 317,00 Akz Odebrecht
Aeroporto Namibe
Obras Reabilitação Cercea Engenharia
79 496 820,00 Akz -
INAVIC e Construção Lda
Fiscalização do
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ 15 750 000,00 EUR - A1V2
Porto do Lobito
Aquisição Peças
Acessórios 118 745 595,00 Akz - -
Ramo Rodoviário ABAMAT
Aquisição
108 839 630 USD - -
Autocarros
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao 2.o Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

| 139
CEIC / UCAN

WZK:dK^KD&/EE/DEdKydZEK͵Ϯ͘O TRIMESTRE 2013


Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ Reabilitação Porto Lobito 34 301 547,00 USD CHEC -
Reabilitação CFB 1 804 382 859,00 USD China Hyway -
Ramo Ferroviário
Reabilitação CFM 931 237 676,00 USD CR20
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao 2.o Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

WZK:dK^/E^Z/K^EK^WZK:dK^/Es^d/DEdK^Wj>/K^ΈW/WΉ
3.o TRIMESTRE 2013
Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
Construção novo Sector
- -
aeroporto Luanda dos Transportes/CIF
Ramo Aéreo Informação Sistema
teste pessoal 99 038 755,70 USD - -
ĂĞƌŽŶĄƵƟĐŽ
Construção duplicação
58 952 465,61 USD CMEC -
troço Bungo Baia
Ramo Ferroviário
Estudo caminho-de-ferro
65 000 000,00 Akz - -
do norte de Angola
Ramo Rodoviário Aquisição peças TCUL 1 876 063,86 USD - .
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao III Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

WZK:dK^EK/E^Z/dK^EKW/W͵ϯ͘O TRIMESTRE 2013


Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
Ramo Rodoviário 'ĞƐƚĆŽKĮĐŝĂůdh> 2 760 000,00 USD - -
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ Avaliação Património Porto Soyo 8 996 000,00 Akz - -
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao 3.o Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

WZK:dK^KD&/EE/DEdKydZEK͵ϯ͘O TRIMESTRE 2013


Projecto Valor Empreiteiro Fiscalização
ZĂŵŽDĂƌşƟŵŽ Reabilitação Porto Lobito 34 301 547,00 USD CHEC -
Reabilitação CFB 1 804 382 859,00 USD China Hyway -
Ramo Ferroviário
Reabilitação CFM 931 237 676,00 USD CR20
FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos Referente ao 3.o Trimestre do Exercício de 2013, Ministério dos
Transportes, República de Angola.

Os montantes relativos ao Programa de Investimentos Públicos (PIP) no 1.o trimes-


tre ascenderam à quantia de 23 898 596 398,73 Akz e foram executados nos subsec-
tores, destacando-se o ramo marítimo, conforme representado no gráfico seguinte.

140 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

INVESTIMENTOS (PIP) NO SECTOR DOS TRANSPORTES – 1.O TRIMESTRE DE 2013

16%

Transportes aéreos
Transportes rodoviários
53% 19%
Transportes ferroviários
Transportes marímos

12%

FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos referente ao 1.o trimestre do Exercício de 2013,
Ministério dos Transportes, República de Angola.

Os montantes relativos ao Programa de Investimentos Públicos (PIP) no 2.o tri-


mestre ascenderam à quantia de 6 166 658 772,02 Akz e foram executados nos sub-
sectores, destacando-se o ramo aéreo, conforme representado no quadro abaixo.

INVESTIMENTOS (PIP) NO SECTOR DOS TRANSPORTES – 2.O TRIMESTRE DE 2013

8%

12%
Transportes aéreos
Transportes rodoviários
8% 44% Transportes ferroviários
Transportes marímos
Serviços gerais
28%

FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos referente ao 2.o trimestre do Exercício de 2013,
Ministério dos Transportes, República de Angola.

Os montantes relativos ao Programa de Investimentos Públicos (PIP) no 3.o tri-


mestre ascenderam à quantia de 2 721 873 224,98 Akz e foram executados nos
subsectores, destacando-se novamente o ramo aéreo, conforme representado no
quadro que se segue.

INVESTIMENTO (PIP) NO SECTOR DOS TRANSPORTES – 3.O TRIMESTRE DE 2013

12%

Transportes aéreos
Transportes rodoviários
24% 55%
Transportes ferroviários
Transportes marímos

9%

FONTE: Balanço do Programa de Investimentos Públicos referente ao 3.o trimestre do Exercício de 2013,
Ministério dos Transportes, República de Angola.

| 141
CEIC / UCAN

3.4.5.3 A política de transporte

O corredor do Lobito – da reconstrução ao desenvolvimento

O conflito em Angola teve um impacto devastador nas infra-estruturas do país.


No final do conflito, os sistemas rodoviário e ferroviário estavam amplamente
destruídos. Por exemplo, aproximadamente 350 pontes ferroviárias e rodoviárias
foram destroçadas. Desde o acordo de paz, em 2002, Angola empreendeu um im-
portante programa de reconstrução e desenvolvimento das infra-estruturas des-
truídas. A paz e a estabilidade política estabeleceram as bases para um crescimento
económico alimentado por receitas provenientes da produção de petróleo. Foram
registados avanços significativos na reabilitação das estradas, caminhos-de-ferro,
portos e aeroportos. Entretanto, apesar do progresso no processo de reconstru-
ção, Angola ainda enfrenta algumas limitações. Isso é particularmente evidente
em relação à qualidade dos serviços de transporte prestados e ao impacto do pro-
cesso de reconstrução na redução da pobreza. Essas limitações são visíveis no caso
particular do corredor de transporte do Lobito.

O caminho-de-ferro de Benguela

A construção do conhecido caminho-de-ferro de Benguela (CFB) começou em


1902, quando a administração colonial portuguesa concedeu ao capitalista britâni-
co Robert Williams uma concessão para construir um caminho-de-ferro a partir do
porto atlântico do Lobito (Angola), seguindo pelo Planalto Central de Angola até
à área de produção de cobre do Shaba (Katanga), na fronteira entre o que é hoje
a República Democrática do Congo (RDC) e a Zâmbia. O caminho-de-ferro ficou
pronto em 1929. O principal objectivo deste projecto era controlar a exportação
de minerais a partir de Katanga, no entanto, a receita proveniente do transporte
doméstico angolano representou uma importante fonte de rendimento para o ca-
minho-de-ferro durante todo o seu período de funcionamento (Katzenellenbogen,
1973). O CFB mostrou-se eficiente e lucrativo e a sua importância intensificou-se
especialmente depois de 1973, quando a Rodésia (actual Zimbabué) fechou a sua
fronteira com a Zâmbia.

A importância económica e estratégica do caminho-de-ferro de Benguela tor-


nou-o alvo de sabotagens durante o período colonial. A linha férrea foi seriamente
danificada pela primeira vez na véspera de Natal, em 1966, quando a UNITA em-
preendeu a sua primeira grande ofensiva. Após diversos ataques e interrupções
de tráfego, o caminho-de-ferro foi quase completamente encerrado em Agosto de
1975. Naquela altura, embora grande parte da linha estivesse sob o controlo do
MPLA, outra parte estava ocupada pelas forças da UNITA. Mercenários de Katanga,
no Zaire (actual RDC) tomaram o controlo de outras partes. A quase paralisação do

142 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

caminho-de-ferro naquele período representou um desastre não só para a própria


empresa ferroviária e para Angola, mas também para a Zâmbia e o Zaire, que tive-
ram de encontrar canais alternativos de transporte por meio de rotas mais caras,
para os portos da África Oriental e Austral.

O conflito pós-1975 também danificou dramaticamente todo o sistema rodo-


viário, em particular as estradas na zona costeira, entre os municípios do Lobito e
Benguela, no Planalto Central e no interior do país.

Reconstrução: as prioridades e o financiamento do Governo

A reconstrução das infra-estruturas de transporte tem sido a principal priori-


dade do Governo. A maior parte dos investimentos têm sido garantidos por recur-
sos do próprio Governo, em particular pelas receitas provenientes da produção
de petróleo. De acordo com estimativas de um estudo recente do Banco Mundial
(Pushak e Foster, 2011), apenas aproximadamente 20% dos investimentos foram
financiados por empréstimos estrangeiros.

O financiamento estrangeiro tem origem numa variedade de fontes e é con-


cedido sob a forma de linhas de crédito, créditos à exportação e empréstimos.
A China representou um financiador importante de recursos, em particular quan-
do os países ocidentais estavam relutantes ou se recusaram a conceder financia-
mento (Corkin, 2013). Em 2004, a China abriu a sua primeira linha de crédito para
a reconstrução das infra-estruturas de transporte no valor de US$ 2 mil milhões. O
acordo foi assinado com o Export-Import Bank of China, um banco estatal chinês,
e os pagamentos angolanos estavam vinculados ao fornecimento de petróleo. Es-
ses acordos de “petróleo por infra-estruturas” passaram a ser conhecidos como
o “Modelo de Angola”. A primeira linha de crédito foi seguida por uma série de
outras linhas de crédito chinesas. Os projetos identificados para receber financia-
mento incluíram a reconstrução das três linhas férreas que vão no sentido leste
a partir dos três principais portos da costa (portos de Luanda, Lobito e Namibe).
Outros projectos envolveram a reabilitação de estradas, de unidades habitacionais
em Luanda e noutras 17 províncias, o pólo industrial de Viana e o novo aeroporto
de Luanda. Neste contexto, um grande número de empresas chinesas, a maior par-
te delas estatais, entrou no mercado angolano. Entre elas a China Road and Bridge
Corporation, a China State Construction Engineering Corporation, a China Guangxi
International Construction e a Jiangsu.

Créditos à exportação, linhas de crédito e empréstimos também foram for-


necidos por outros Governos entre eles Portugal, Brasil, Espanha, Alemanha,
Canadá e África do Sul. O papel do Brasil é particularmente importante e as
empresas brasileiras envolvidas incluem a Petrobras, Odebrecht, Vale, Andrade

| 143
CEIC / UCAN

Gutierrez e Camargo Corrêa. Tal como as outras linhas de crédito, o principal


objectivo das brasileiras é o estímulo ao empenho das empresas brasileiras na
promoção da indústria de construção e na reconstrução das infra-estruturas em
Angola.

A súbita expansão da actividade de construção representou um teste à capa-


cidade do Governo de planear, implementar e gerir todo o processo. Neste con-
texto, existem indícios que apontam para uma supervisão relativamente precária
e procedimentos de contratação menos adequados que contribuíram para uma
menor eficiência das construções (Søreide, 2011). Apesar disso, o volume total dos
investimentos e o número de projectos de construção são representativos do êxito
do processo de construção e reconstrução. Em paralelo, o sucesso está também
traduzido no facto de que actualmente o foco está a mudar no sentido de assegu-
rar que as infra-estruturas possam fornecer os serviços pretendidos e funcionem
como um motor para o crescimento e o desenvolvimento (cf. African Development
Bank, 2013).

O Corredor multimodal do Lobito abrange não só o caminho-de-ferro de Ben-


guela, mas também um porto, estradas, aeroportos e plataformas logísticas. Es-
tima-se que 26% da população de Angola viva dentro da área de influência desse
corredor. Até 2010, o Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN) era responsável
pela reconstrução do corredor. A tutela foi, então, transferida para o Ministério
dos Transportes. Actualmente, um gabinete especial dentro do Ministério – o
Gabinete do Corredor do Lobito – é responsável pelo desenvolvimento e gestão
do corredor.

CONGO
Luacano
Jimbe

OCEANO LOBITO HUAMBO MOXICO


BIÉ
ATLÂNTICO
BENGUELA
ANGOLA ZAMBIA

É importante destacar também a importância do corredor do Lobito numa


perspectiva regional, já que representa a rota mais curta até um porto a partir das
áreas ricas em minerais da RDC e da Zâmbia. Para a organização de cooperação
regional SADC, o corredor de transporte do Lobito é visto como um importante
corredor de desenvolvimento na África Austral, com benefícios não só para Angola
e os países vizinhos (RDC e Zâmbia), mas também para o resto da região (Caholo &
Bingandadi 2012, Tjønneland 2011). Neste contexto, os Governos de Angola, RDC

144 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

e Zâmbia planeiam desenvolver e assinar um memorando aplicável à cooperação


desses três países no desenvolvimento do corredor.

O sistema ferroviário é uma das componentes principais do corredor do Lobito.


A reabilitação do caminho-de-ferro de Benguela, que inicia no porto do Lobito até
ao posto fronteiriço Luau – Dilolo entre Angola e RDC, numa extensão de 1 344 km,
começou em 2006 e foi completada em 2013. Esta reabilitação também incluiu a
aquisição de locomotivas, vagões e a construção de 107 estações e 35 pontes ao
longo da linha. Actualmente, o sistema ferroviário não está em funcionamento na
RDC a partir da fronteira com Angola. Assim, a Zâmbia já começou a planear uma
nova ligação ferroviária com o CFB, com início na zona mineira de exploração de
cobre (copperbelt) e que ligará directamente Angola à Zâmbia, cruzando o posto
fronteiriço de Jimbe. Uma vez operacional, o corredor do Lobito representará a
rota mais curta para um porto (no Lobito) a partir da região de Katanga (sul da RDC)
e do copperbelt (Noroeste da Zâmbia). Além do minério, a linha férrea permitirá a
importação de petróleo por parte da Zâmbia.

O Porto do Lobito foi modernizado e alargado com um terminal de contento-


res, um terminal mineiro e um terminal de petróleo. Para além do financiamento
da China, o Governo investiu US$1.2 mil milhões. A reabilitação e modernização
do porto foram feitas pela China Harbor Engineering Company Lts. O porto terá
capacidade para movimentar 3.7 milhões de toneladas, que será ampliada para
4.1 milhões quando o caminho-de-ferro de Benguela estiver a funcionar em todo
o seu potencial.

O corredor também tem um aeroporto internacional no município da Catum-


bela, entre o Lobito e Benguela. O aeroporto foi construído por um consórcio de
empresas que incluiu a Odebrecht (Brasil), a Somague (Portugal) e a Imbondex
(Cuba) e foi financiado por meio de fundos próprios e linhas de crédito estrangeiras.
O Executivo considera que este aeroporto se tornará uma componente crucial do
corredor do Lobito. Diversos aeroportos provinciais ao longo do corredor, incluin-
do Benguela, Huambo, Cuito e Luena, também foram reabilitados e modernizados.

O corredor do Lobito também inclui uma significativa rede rodoviária do Lo-


bito até à RDC e à Zâmbia, passando pelo posto fronteiriço Luau-Dilolo. A estrada
está igualmente ligada ao sistema rodoviário da RDC, em Kolwezi, e a uma estrada
que tem início no Luena (província do Moxico, Angola), passa por Cazombo e vai
até Solwezi, na Zâmbia. Esta via está projectada para tornar-se uma auto-estrada,
chamada Transafricana 9 (TAH 9), que ligará o Lobito à Beira em Moçambique.
A estrada é praticamente paralela ao Caminho-de-Ferro de Benguela. Entretanto,
a construção da estrada ainda não está terminada. A mesma só estará reabilitada
no troço entre o Lobito e o Cuito (província do Bié). O troço de aproximadamente

| 145
CEIC / UCAN

710 km do Cuito até ao Luau (província do Moxico), na fronteira da RDC com Ango-
la, ainda está numa situação bastante precária. As comunidades que vivem nessa
área estão ainda bastante isoladas e são altamente dependentes do transporte
ferroviário, que passa duas vezes por semana entre o Cuito e Luena (província do
Moxico), uma distância de 409 km, que demora aproximadamente 17 horas a ser
percorrida.

Os Governos das províncias são responsáveis pela reconstrução, financiamen-


to e manutenção das estradas secundárias e terciárias ao longo do corredor do
Lobito. Isto é feito sob a supervisão técnica do Instituto Nacional de Estradas de
Angola (INEA). Desde 2012, o INEA tem um programa estratégico para a reabilita-
ção de estradas secundárias e terciárias (Programa de Reabilitação das Estradas
Secundárias e Terciárias) que fornece as diretrizes relativas à utilização de mão-de-
-obra e de empresas de construção locais num esforço para não só aumentar as
oportunidades de emprego mas também melhorar a articulação e integração das
comunidades rurais no processo de reconstrução.

Uma componente final do corredor do Lobito são as plataformas logísticas que


estão a ser planeadas e desenvolvidas para facilitar uma melhor utilização dos di-
ferentes sistemas de transporte do corredor. De acordo com a visão das entidades
oficiais envolvidas, estas plataformas irão assegurar que o Lobito possa, em algum
momento no futuro, vir a tornar-se um eixo logístico continental num corredor
operacional do Oceano Atlântico até ao Oceano Índico.

Ainda que no corredor do Lobito se tenha verificado um progresso notável na


reconstrução e modernização das infra-estruturas de transporte, há ainda muito
trabalho a ser feito para assegurar o seu funcionamento eficiente. O porto, embora
importante, ainda não exporta nenhum mineral. Tal não acontecerá antes que a
ligação directa à Zâmbia seja construída. Finalmente, a maioria dos bens do porto
e provenientes da zona costeira ainda são transportados para o interior do país por
meio de estradas.

No entanto, o caminho-de-ferro está a tornar-se cada vez mais importante para


o transporte de passageiros, já que representa um serviço essencial às comuni-
dades que vivem ao longo da linha, em particular aquelas que estão em áreas
mais remotas. Tal é por demais evidente no Bié e no Moxico, províncias nas quais
as estradas estão ainda altamente danificadas e são frequentemente difíceis de
transitar.

O fornecimento de serviços de transporte ferroviário também facilitou o res-


tabelecimento de ligações comerciais entre as áreas urbanas e rurais e entre as
áreas do interior e da costa. Isto levou igualmente ao aparecimento de “centros

146 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

intermediários de troca” que funcionam como pontos de recolha e de distribuição


de produtos às famílias de baixo rendimento. Esses centros também representam
uma infra-estrutura social fundamental, já que informações e ideias podem agora
circular mais livremente. Finalmente, “os centros intermediários de troca” repre-
sentam não só uma base para a distribuição mais equitativa de serviços sociais
básicos, mas funcionam também como pontos de atracção para pequenos comer-
ciantes, operadores de transporte e para as pessoas que migram das zonas rurais
para as zonas urbanas. A importância desses centros também favoreceu a recons-
trução da rede de estradas secundárias e terciárias, aumentando a mobilidade das
comunidades rurais.

Desafios: Fazer do corredor um instrumento de desenvolvimento

Já é possível testemunhar importantes transformações sociais ao longo do


corredor do Lobito. O desenvolvimento das infra-estruturas, combinado com as
respostas e a adaptação das pessoas e das comunidades que vivem ao longo do
corredor, estão a ter importantes impactos. É possível identificar, entre outras coi-
sas, a emergência de dinâmicas associadas ao empreendedorismo local, à tran-
sição para uma economia de mercado e novas divisões sociais e económicas nas
comunidades.

O desenvolvimento do corredor também está a chegar a um ponto de viragem.


É possível reconhecer a passagem da era da reabilitação para a era do desenvol-
vimento das infra-estruturas necessárias para o futuro crescimento e desenvolvi-
mento do país. No entanto, a reabilitação – embora seja um sucesso em muitos
casos – também sofreu fraco planeamento, falta de estudos de viabilidade eco-
nómica e financeira, pouca fiscalização por parte dos órgãos públicos e reduzidos
níveis de concorrência. Estas circunstâncias implicaram custos de produção mais
elevados e menor qualidade das infra-estruturas. Outra consequência poderá es-
tar traduzida na possibilidade das necessidades das pessoas e das comunidades
mais pobres terem recebido pouca atenção.

Desafios futuros a serem enfrentados por Angola e pelas autoridades respon-


sáveis pelo corredor incluem a reabilitação e construção de estradas secundárias e
terciárias que aumentem os níveis de mobilidade e acessibilidade às comunidades
rurais. Novas questões como, por exemplo, as respeitantes à segurança das infra-
-estruturas de transporte e à sua manutenção também precisam de ser considera-
das. A regulamentação relativamente à segurança não tem acompanhado o ritmo
da melhoria das infra-estruturas. Tal é relevante nas duas principais áreas urbanas
do corredor, nomeadamente Lobito e Benguela, onde os utilizadores dos serviços
de transporte reclamam que os veículos (incluindo o transporte motorizado e não
motorizado) usados pelos prestadores de serviços, em muitos casos, não estão

| 147
CEIC / UCAN

em condições de circular, estão sobrelotados e são frequentemente conduzidos


de maneira irresponsável, com motoristas que não cumprem as regras de trânsito
mais básicas. Isto tem resultado numa série de acidentes rodoviários fatais.

Um melhor sistema de regulamentação tem de ser colocado em prática de


modo a garantir que os prestadores de serviços motorizados operem igualmente
nas rotas menos movimentadas, mais remotas e por isso menos lucrativas. Além
disso, mais esforços terão de ser feitos para assegurar que os novos serviços de
transporte também sejam acessíveis aos mais pobres. De igual modo, é preciso
melhorar as condições do mercado de trabalho do sector dos transportes. Mais di-
ligências devem ser feitas no sentido de contratar trabalhadores das comunidades
locais, de facilitar a formação dos motoristas e de outros trabalhadores do sector,
bem como promover uma maior adequação dos serviços às necessidades locais.

Finalmente, será necessário acelerar a preparação para integrar o corredor na


rede de transportes da SADC, especialmente a ligação ferroviária ao copperbelt na
Zâmbia.

3.4.5.4 Cenários de Privatização para o Sector Ferroviário

De acordo com o Relatório do Ministério dos Transportes de Angola, onde se


apresenta uma abordagem técnica e metodológica sobre a problemática da pri-
vatização de actividades e serviços no âmbito do Sector Ferroviário em Angola, o
modelo institucional para o sector ferroviário veio introduzir no ordenamento jurí-
dico deste sector várias disposições que rompem formalmente com o paradigma
do normativo antecedente. No novo modelo institucional, de entre as principais
novas áreas de regulação avulta, uma das mais estruturantes, é a abertura do sec-
tor ferroviário à iniciativa privada. O acesso de empresas privadas à gestão da acti-
vidade transportadora neste modo de transporte é um dado novo, que deve ser
convenientemente interpretado à luz das disposições regulamentares vigentes e
dentro de um contexto de coexistência temporal de recursos, de meios e de ser-
viços (públicos e privados), que deve ser gerido com moderação, de forma a asse-
gurar uma transição de modelo sem sobressaltos e permitindo a convivência sem
conflitualidades entre o sector público e o sector privado na exploração do trans-
porte ferroviário.

O Estado Angolano, ciente da importância de potenciar o aproveitamento da


capacidade de gestão do sector privado, melhorar a qualidade dos serviços públi-
cos prestados e gerar poupanças consideráveis na utilização dos recursos públi-
cos, instituindo princípios gerais de eficiência económica, designadamente através
de uma mais cuidada repartição do risco e da criação de incentivos à definição de
parcerias financeiramente sustentáveis e bem geridas aprovou as bases gerais do

148 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Regime Jurídico das Parcerias Público-privadas, plasmado na Lei n.o 2/11 de 14 de


Janeiro.91

O novo modelo institucional define quais os limites impostos formalmente


ao acesso da iniciativa privada ao universo das actividades e funções inerentes à
indústria do transporte ferroviário e quais as condições que deve preencher, que
compreendem basicamente três componentes essenciais. A primeira diz respeito
à actividade de prestação de serviços de transporte ferroviário de passageiros e de
mercadorias. A segunda relaciona-se com a gestão das infra-estruturas, o coman-
do e controlo da circulação e a segurança ferroviária. Finalmente, a terceira inclui a
manutenção ferroviária (das infra-estruturas e do material circulante).

No que diz respeito às questões legais, o novo modelo institucional baseia-


-se no Decreto Presidencial n.o 195/2010, de 2 de Setembro. Assim, é legalmente
assegurado o acesso de empresas privadas à actividade transportadora ferroviária.
É garantido o acesso dos privados à infra-estrutura ferroviária, mediante o paga-
mento das contrapartidas previstas na legislação. Para esse efeito, foi criada na lei
o mecanismo da taxa de utilização das infra-estruturas (taxa de uso) que depois
de estabelecida a fórmula de cálculo para a sua aplicação corresponderá ao valor
a pagar pela circulação nas infra-estruturas ferroviárias, independentemente de
se tratar de empresas públicas ou privadas a efectuar o transporte. Em princípio,
a aplicação da taxa de uso pressupõe a prévia criação de empresas de gestão de
infra-estruturas, que concretizem na prática a separação das actividades ferroviá-
rias em actividades de transporte e as relacionadas com a construção, reconstru-
ção e modernização das infra-estruturas.

A abordagem técnica e metodológica sobre a problemática da privatização de


actividades e serviços no âmbito do sector ferroviário apresentada no relatório do
Ministério dos Transportes identifica três grandes questões. São elas as condicio-
nantes do contexto nacional a atender no caso de Angola, a caracterização do sec-
tor ferroviário na actualidade e, finalmente, a chave para o sucesso.

Relativamente à primeira questão, de acordo com o relatório citado, inte-


ressa considerar o histórico e a cultura dos caminhos-de-ferro em Angola com a

91 A lei angolana (Lei n.o 2/11, de 14 de Janeiro) entende por “… parceria público-pri-
vada, o contrato ou a união de contratos, por via dos quais entidades privadas, desig-
nadas por parceiros privados, se obrigam, de forma duradoura, perante um parceiro
público, a assegurar o desenvolvimento de uma actividade tendente à satisfação de
—ƒ‡…‡••‹†ƒ†‡…‘Ž‡…–‹˜ƒǡ‡‡“—‡‘ϐ‹ƒ…‹ƒ‡–‘‡ƒ”‡•’‘•ƒ„‹Ž‹†ƒ†‡’‡Ž‘‹˜‡•-
timento e pela exploração incumbem, no todo ou em parte, ao parceiro privado (n.o 1
do art.o 2.oȌǤǡƒ•‡‰—‹”ǡ‹†‡–‹ϐ‹…ƒ…‘‘’ƒ”…‡‹”‘•’ï„Ž‹…‘•ǣƒȌ‘•–ƒ†‘‡ƒ•—–ƒ”“—‹ƒ•
Locais; b) Os Fundos e os Serviços Autónomos; c) As Entidades Públicas Empresariais
(ibidem, n.o 2).

| 149
CEIC / UCAN

consolidação de três eixos ferroviários fisicamente separados e autónomos, de


ligação dos principais portos marítimos ao interior concebidos à data para o escoa-
mento e exportação de matérias-primas continentais com destino aos grandes
centros de industrialização de outros continentes. Verifica-se a necessidade de
uma mudança do paradigma colonial, para uma visão do caminho-de-ferro como
um factor de desenvolvimento económico, de coesão territorial e de agente de
eliminação das assimetrias regionais. Interessa também a interligação das três
linhas existentes numa lógica de rede de transportes e de “fecho de malha”, de
modo a conferir maior capacidade de transporte, maior permeabilidade territo-
rial da rede, maior abrangência de mercado e actuando de forma integrada com
os demais modos de transporte.92 Formar-se-á neste contexto, uma rede integra-
da de infra-estruturas e de um sistema de transportes integrado, que disponibi-
lize soluções optimizadas de acessibilidade e de mobilidade a pessoas e bens de
grande capacidade, qualidade, fiabilidade e segurança. O mesmo relatório destaca
ainda a necessidade de adaptar o sistema ferroviário angolano a novos modelos de
desenvolvimento económico e à natureza dos mercados potenciais de transporte
de âmbito nacional e internacional, considerando, no primeiro caso, as exigências
que a economia irá necessariamente colocar já a muito curto prazo, dada a dinâmi-
ca emergente e, no segundo caso, tendo presente que o caminho-de-ferro poderá
actuar como factor privilegiado de coesão regional no seio da SADC e como dina-
mizador das trocas comerciais entre países deste espaço económico.

Relativamente à segunda questão, ou seja, quanto à caracterização do sec-


tor ferroviário na actualidade identificam-se aspectos tais como a existência de
um novo modelo institucional, a recente intervenção nas infra-estruturas das três
linhas de caminho-de-ferro e a publicação de nova regulamentação ferroviária que,
entre outras matérias, actualiza as normas de segurança, a sinalização, o comando
e o controlo da circulação.

As empresas concessionárias são três e, todas se encontram numa situação


que carece de reestruturação para criação das condições de viabilidade económi-
ca e equilíbrio financeiro, que lhes assegurem a indispensável sustentabilidade.93
Finalmente, o mercado ferroviário onde estas três empresas se inserem encontra-
-se ainda pouco desenvolvido e a procura só poderá começar a emergir depois de

92 A interligação será inicialmente com os portos com os quais se estabelecem relações

†‡’”‡ˆ‡”²…‹ƒǡ†ƒ†ƒƒ…‘’Ž‡‡–ƒ”‹†ƒ†‡†‘•–”žˆ‡‰‘•‡†‘•‹–‡”‡••‡•‡’”‡•ƒ”‹ƒ‹•
subjacentes; depois, com o modo rodoviário e com o transporte aéreo, através de inter-
faces e terminais estrategicamente localizados.
932—ƒ‡’”‡•ƒ’‘”…ƒ†ƒŽ‹ŠƒȂƒ’”‡•ƒ†‘ƒ‹Š‘Ǧ†‡Ǧ ‡””‘†‡—ƒ†ƒȋ Ȍǡƒ

’”‡•ƒ†‘ƒ‹Š‘Ǧ†‡Ǧ ‡””‘†‡‡‰—‡Žƒȋ Ȍǡ‡ƒ’”‡•ƒ†‘ƒ‹Š‘Ǧ†‡Ǧ ‡””‘


de Moçâmedes (CFM). Todas elas possuem o estatuto orgânico de Empresas Públicas.

150 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

estabilizado o quadro produtivo e as condições de oferta de transportes (passagei-


ros e mercadorias) com carácter regular e com a disponibilização de capacidade
compatível com as expectativas do mercado.

A terceira questão abordada no relatório identifica três requisitos fundamentais


para o sucesso das privatizações assentes no figurino das concessões.94 O primeiro
requisito é a existência de um modelo económico consistente cobrindo todo o
período da concessão. O segundo, um quadro de financiamento que satisfaça ade-
quadamente as necessidades de fundos, seja para investimento, seja para suporte
da exploração quando se verificam situações de inviabilidade da exploração, mas
onde o serviço público impõe a continuidade das operações. O terceiro diz respeito
à existência de uma partilha adequada de responsabilidades e de risco entre o sec-
tor público e o sector privado.

3.5 O sector externo

Como consequência directa do peso do sector petrolífero na economia nacio-


nal, a balança comercial e as reservas internacionais líquidas têm mostrado com-
portamentos muito positivos. No final de 2013, as RIL davam para quase 9 meses
de importação, o que confere à economia nacional uma margem muito confortável
para articular a sua estratégia de crescimento a médio prazo e constitui um moti-
vo adicional de atracção do investimento estrangeiro. Nos últimos 4 anos, as RIL
cresceram quase 100%.

SALDOS DA BALANÇA DE RESERVAS INTERNACIONAIS


W'DEdK^ΈD/>,O^h^Ή LÍQUIDAS
PERÍODOS
Balança Balança
Global Milhões de USD Meses importação
Comercial Capitais
2010 6010,3 33928,0 986,8 19340 6,6
2011 8598,5 45859,1 2582,3 28390 7,6
2012 6457,3 40541,5 1297,9 33010 8,1
2013 6543,2 15672,1 1100,1 36510 8,7
FONTE: Ministério das Finanças, Relatório de Fundamentação do OGE 2013.

94‘†‡Ž‘†‡ϐ‹ƒ…‹ƒ‡–‘†‘•‹•–‡ƒˆ‡””‘˜‹ž”‹‘†‡˜‡”ž–‡”•—„Œƒ…‡–‡‘“—ƒ†”‘

legal das parcerias público-privadas (PPP), já vigente no ordenamento jurídico-legal


de Angola. O modelo contratual a adoptar nestas parcerias será preferencialmente o da
concessão, nos termos da legislação nacional vigente sobre esta matéria, podendo esta
•‡” …‘ϐ‹‰—”ƒ†ƒ …‘…‡’–—ƒŽ‡–‡ …‘ˆ‘”‡ ƒ“—‹Ž‘ “—‡ •‡ ‘•–”‡ ƒ‹• ƒ†‡“—ƒ†‘ ƒ‘
interesse particular das partes, às características de cada rede e ao objectivo de viabi-
lidade e rentabilidade de cada empreendimento em particular. Admite-se que a matriz
das concessões assente em dois tipos: a concessão de construção e exploração e a con-
cessão de exploração.

| 151
CEIC / UCAN

A Balança Comercial apresentou sempre saldos positivos nas suas contas e,


graças ao comportamento muito positivo das exportações de petróleo, o seu mon-
tante tem aumentado sistematicamente desde 2002, embora depois de 2011 a
intensidade de variação tenha vindo a diminuir.

Em 2013, o saldo cifrou-se em 39,6 mil milhões de dólares. O gráfico seguinte


mostra as diferentes componentes desta balança.

COMPONENTES DA BALANÇA COMERCIAL


60 000
50 000
40 000
30 000
20 000
10 000
0
-10 000
-20 000
-30000
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Importações totais (milhões USD) Outras importações (milhões USD)


Importações p/ sector petrolífero (milhões USD) Saldo Balança Comercial (milhões USD)
FONTE: CEIC, icheiro Quadro Macroeconómico Comparativo.

152 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

4. DIVERSIFICAÇÃO DA ECONOMIA95

4.1 Diversification, income, and democracy: a descriptive overview

4.1.1 Introduction

Diversification of the economy is claimed to be important for a number of re-


asons; it is argued to reduce economic volatility, increase the potential for pro-
ductivity growth and hence economic growth, and provide some shelter against
deteriorating terms of trade. Understanding how diversification evolves as coun-
tries change is important in assessing such claims, and in informing our views of
and approaches to diversification. Previous studies argue that there is a pattern
to diversification where countries tend to get more diversified as their economies
grow richer and then to concentrate again as they pass a certain threshold (Klin-
ger and Lederman, 2006; Cadot, Carrère and Strauss-Kahn, 2011). In other words,
the relation of concentration to income takes the form of a U, the relation is first
negative and then turns positive for higher incomes. While the empirical approach
used in these kinds of studies means that the results cannot be seen as evidence
for a causal impact of income on diversification, or of diversification on income, the
u-shaped pattern seems to be an established empirical regularity that has some
general recognition in the empirical literature.

A question that has so far received far less attention is how diversification re-
lates to political institutions, in particular democracy. In a sense, diversification
can be viewed as a form of de-concentration of economic power, and democracy
as a form of de-concentration of political power, so a relation between the two is
not unlikely. The lack of discussion of this topic is particularly glaring in relation to
resource rich countries, where diversification is often suggested as an important
policy tool to reduce problems related to the so-called resource curse, in particular
the Dutch disease. This literature tends to ignore the observation that a central
problem behind the resource curse is the lack of good institutions, and in particular

95 •–‡ …ƒ’À–—Ž‘ ± ’”‡‡…Š‹†‘ ‹–‡‰”ƒŽ‡–‡ …‘ ‘• ”‡•—Ž–ƒ†‘• ƒ–± ƒ‰‘”ƒ ‘„–‹†‘• ‘

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†‡•‡˜‘Ž˜‹†‘’‡Ž‘•‹˜‡•–‹‰ƒ†‘”‡•Ž˜‡•†ƒ‘…Šƒǡ‡‰‹ƒƒ–‘•ǡ ”ƒ…‹•…‘ƒ—Ž‘ǡ—À•
‘ϐ‹ǡ ˜ƒ”‘Ž•–ƒ†‡”‡‹‹‰Ǥ

| 153
CEIC / UCAN

a lack of democracy, which permits country elites to use patronage as a strategy


to remain in power and capture resource rents (Robinson et al, 2006; Kolstad and
Wiig, 2009). Understanding how diversification relates to democracy then beco-
mes essential to assessing its role in addressing the resource curse (Wiig and Kols-
tad, 2012).

For Angola, this is a particularly relevant concern. As shown in Table 1, Angola


has the second most concentrated economy in the world in terms of exports, only
Iraq is more concentrated. And this high level of concentration has been fairly con-
sistent in recent years, and has even shown a considerable increase after the civil
war ended in 2002, as seen in figure on page 155. This raises questions of whether
Angola could be in a better situation economically and politically if the country
was more diversified. It also raises questions of whether the political situation,
with little democracy and high levels of elite capture of rents, is in itself a factor
which inhibits the country from having a more diversified economic base, since
this might also undermine the power of the ruling elite. These are questions that
cannot be answered using the few data points available on Angola in Figure 1. It is
also challenging to assess the causal impact of diversification on democracy, and
vice-versa. But these observations nevertheless point to a need to better unders-
tand the political economy of diversification in oil rich countries, and outlining the
association between diversification and democracy is a useful starting point in this
discussion.

TWELVE MOST CONCENTRATED ECONOMIES


IN THE WORLD IN TERMS OF EXPORTS, 2010
Country hEd/ŶĚĞdžŽĨŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ
Iraq 0.972
Angola 0.970
Micronesia 0.940
Guinea-Bissau 0.887
Azerbaijan 0.866
Andorra 0.838
Equatorial Guinea 0.819
Chad 0.809
Vanuatu 0.795
Libya 0.795
Nigeria 0.768
Congo 0.762

154 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

SCORE ON UNCTAD CONCENTRATION INDEX FOR ANGOLA, 1995-2010


1,0

Concentraon
0,95

0,9

0,85
1995 2000 2005 2010

This point presents new descriptive evidence on the relation between income
and democracy on the one hand, and diversification on the other. We present resul-
ts that suggest that the u-shaped relationship between income and concentration
found in previous studies is due to oil-rich outliers with high incomes. When these
outliers are dropped from the sample, the relationship between concentration and
income is negative for all levels of income; countries get more diversified as they
get richer. We also present results suggesting that more democratic countries are
more diversified. We stress that these results are descriptive in nature, and hence
do not prove causal effects from income or democracy to diversification, or vice
versa. The results on democracy can mean that a lack of democracy hinders diver-
sification, that diversification increases the chances of democracy, or both, or nei-
ther. Causal effects need to be assessed in further studies. Our results do suggest,
however, that further analysis of the political economy of diversification is needed.

4.1.2 Relation to literature

One can measure diversification in an economy in different parts of the value


chain: Diversification of imports and intermediary production, of factor endow-
ments, of technology, of production and of exports of goods and services (or even
the destinations of exports). At all levels diversification implies a lower level of
concentration, whether in imports, production or exports. Here, we focus on di-
versification in terms of exports, since success in exports indicates that companies
and industries are able to compete on world markets.

Diversification can take place within a particular sector such as the manufac-
turing sector, or denote less concentration across sectors. It can take the form of
selling more of existing products to new markets, or of producing new products
or improving the quality of existing products (Brenton et al. 2009). Diversification
along the “intensive margin” refers to increasing volumes on active or existing

| 155
CEIC / UCAN

product lines. Production of new product lines is referred to as diversification along


the “extensive margin”. Hummels and Klenow (2005) show that export growth is
mainly driven by growth at the extensive margin – i.e. through new products, al-
though this finding is disputed in the literature (see for instance Brenton et al 2009).

A very rough proxy of diversification in natural resource rich countries is the


natural resource export as a share of total exports. There are also more fine- tuned
indices for diversification of exports or production. Most of these are taken from
the income-distribution literature such as the Gini, Theil and Herfindahl indices
(see an overview in Carrère et al. 2009). Reported concentration measures are
usually based on measuring inequality of export shares. Here we use a Herfindahl
concentration index compiled by Unctad.

Two questions are raised in the following: Does increasing the income of a
country also increase diversification? And are there institutional constraints to di-
versification? As for the first question, Cadot et al. (2011) show that the number of
new export lines peaks for middle income countries, and then falls as economies
develop further. They accordingly find a hump or u-shaped relationship between
income and concentration. Diversification along the extensive margin increases in
the early development process partly due to an entrepreneurial trial and error
process. As times passes, comparative advantage catches up with old product lines
and they slowly die, reducing diversification. High diversification is consequently a
transitory phenomenon observed at middle income levels (Cadot et al 2011).

Applying the UNCTAD concentration index and more updated time series we
find indications of a similar U-shaped relationship between income and concentra-
tion. Figure 2 presents a bivariate plot between GDP per capita and concentration
as measured by the UNCTAD concentration index for the countries for which we
have data on both variables. The full line shows the best quadratic fit in the data.
This line suggests that concentration is decreasing with income at low incomes,
and then increasing with income at higher incomes. In other words, there is a su-
ggestion here of the u-shaped relationship previous studies have found. We have,
however, also highlighted a few countries in the sample. Angola, Norway, and the
United Arab Emirates are all at higher concentration levels than countries at com-
parable income levels. This conforms to the expectation that oil rich countries are
more concentrated since oil tends to increase costs of other industries, making
them less internationally competitive. We note, however, that having oil does not
necessarily entail being fully concentrated, Norway for instance does have some
degree of diversification in exports. An extreme outlier in our sample is oil rich Qa-
tar. It is possible that the oil rich countries with high incomes are the ones driving
the apparent upward sloping relationship between income and concentration at

156 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

high incomes. The U-shaped relationship could thus be less of a general pattern
that previous studies suggest, and one more driven by a few idiosyncratic cases.
Visually, if a few of these cases are excluded, the relation seems mostly downward
sloping throughout the graph.

CONCENTRATION AND INCOME, 2009


1,0
Angola

0,8
Concentraon

0,6

Norway Qatar
0,4
United Arab Emirates
0,2

0
0 20 40 60 80
GDP/capita

Our second main question is whether there are institutional constraints to


diversification. This question is partly motived by the puzzle of why countries,
and in particular resource rich countries, do not diversify more if there are gains
from diversification (Wiig and Kolstad, 2012). Could it be the case that diversifica-
tion is not always easy to attain due to political interests? According to Dunning
(2005), resource dependence is the outcome of strategic decisions by incumbent
elites to limit the extent to which political opponents can challenge their power.
In a model of Acemoglu and Robinson (2006a), the elite faces a clear trade-off in
deciding whether or not to pursue a strategy that would lead to the introduction
of new industries. On the one hand, this could help elites access new sources
of income, for instance from manufacturing or services. On the other hand, the
elite will likely foresee that these new areas of industry will make them more
vulnerable to popular revolt, and hence make it more likely that they will lose
political power and access to rents over which they previously had control. In
other words, if current sources of income are sufficiently important to the ruling
elite, it is unlikely to introduce a strategy of diversification into industries whose
existence would undermine the elite’s hold on political power. To the extent that
an elite will introduce industrial policies of diversification in this case, it will likely
focus on diversification into industries that shore up the political power of the
elite. There is however little existing empirical analysis of institutional or political
constraints to diversification.

A plot of concentration and political constraints as measured by democracy levels


for the countries in our sample is presented in the figure next page. Concentration

| 157
CEIC / UCAN

is again measured by the UNCTAD index, and democracy by the Polity IV democracy
index. It is perhaps hard to see a general pattern here, but we note that none of the
highly democratic countries have very high levels of concentration in exports. And
the most diversified countries are highly democratic. In contrast, countries at lower
levels of democracy have levels of concentration that are scattered all over the sca-
le. The full line in the figure represents the linear fit, and suggests that the relation
between democracy and diversification is a negative one. Again, we highlight a few
interesting cases, in this instance Angola and Norway. Similarly to the figure on
income, oil rich countries such as these tend to have higher levels of concentration
compared to countries at similar levels of democracy. Angola scores higher on the
concentration index than any of the countries at comparable levels of democracy.
And Norway is at the high end of concentration for countries with a perfect score
of 10 for democracy.

CONCENTRATION AND DEMOCRACY, 2009


1,0
Angola
0,8
Concentraon

0,6

0,4
Norway
0,2

0
0 2 4 6 8 10
Democracy

4.1.3 Empirical strategy and data

The analysis focuses primarily on the relation between concentration, and


income and democracy. We use OLS estimation with robust standard errors, esti-
mating the relationship given by equation (1), where concentration in country c is
regressed on GDP per capita and democracy in country c. To assess the u-shaped
relationship with GDP per capita, we include both the individual term and its
square. The robustness of the u-shape is tested by dropping the outlier Qatar.
Since small states in the sample tend to have a low degree of diversification, we
also control for population size in the estimations. We use data from 2009 for
concentration, which was the latest available data at the time of the analysis.
All independent variables are lagged one period. To make sure that the results
do not depend on choosing the year 2009, we also perform between effects pa-
nel data estimations, which essentially use the average of the data for the years
available.

158 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Concentrationc = a1 + E1 · GDP capitac + E2 · (GDP capitac)2 + E3 · Democracyc +


+ E4 · Populationc + Hc

It should be noted that this empirical approach only permits us to capture cor-
relations between the variables in question. There are likely to be unobserved va-
riables that affect income or democracy on the one hand, and concentration on
the other. This means that our estimates are highly likely to be biased, and cannot
be used to make causal statements. We therefore interpret all results as capturing
correlations, rather than impacts of income and democracy on concentration. Cap-
turing causal effects would require a more complicated empirical setup, for instan-
ce using instruments for income and democracy. We leave this issues for further
research, but see the results here as an indication of issues and relationships that
can be probed further.

Our main variables are presented in the table below. The concentration index is
taken from Unctad, and is computed as a Herfindahl index of merchandise export
concentration (for details on the index, see Wiig and Kolstad (2012)). The index
runs from 0 to 1, with higher numbers capturing greater concentration. A country
whose export is fully concentrated in one sector will hence get a value of 1, whe-
reas the more diversified the country is across sectors, the closer the index is to 0.
As our measure of income, we use GDP per capita, PPP adjusted and in constant
2005 USD. Our main measure of democracy is the Policy IV democracy index, whi-
ch runs from 0 to 10, with higher values representing greater democracy. To assess
the robustness of our results for the democracy variable, however, we also use the
Freedom House political rights index. We have rescaled this index so that it also
runs from 0 to 10, making the results comparable across estimations. Our demo-
cracy indices are standardly used in the empirical literature on democracy (see for
instance Kolstad and Wiig (2013)). We control for total population in billions, from
the World Development Indicators.

MAIN VARIABLES
Variable džƉůĂŶĂƟŽŶ Source
Dependent variable
ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ ,ĞƌĮŶĚĂŚůŝŶĚĞdžŽĨŵĞƌĐŚĂŶĚŝƐĞĞdžƉŽƌƚ UNCTAD
ĐŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ
Independent variable
GDP/capita GDP per capita, PPP adjusted, 1000 World Development Indicators
GDP/capita squared constant 2005 USD, lagged World Development Indicators
Democracy Policy Polity Democracy Index YƵĂůŝƚLJŽĨ'ŽǀĞƌŶŵĞŶƚ/ŶƐƟƚƵƚĞ
Democracy FH &ƌĞĞĚŽŵ,ŽƵƐĞWŽůŝƟĐĂůZŝŐƚƐ/ŶĚĞdž͕ƌĞƐĐĂůĞĚ YƵĂůŝƚLJŽĨ'ŽǀĞƌŶŵĞŶƚ/ŶƐƟƚƵƚĞ
;ϬʹůŝƩůĞĚĞŵŽĐƌĂĐLJ͕ϭϬͲŚŝŐŚĚĞŵŽĐƌĂĐLJͿ
WŽƉƵůĂƟŽŶ dŽƚĂůƉŽƉƵůĂƟŽŶ;ŝŶďŝůůŝŽŶƐͿ͘ World Development Indicators

| 159
CEIC / UCAN

Descriptive statistics for the variables are shown in Table 3. Our main sample
includes 151 countries, which increases to 174 when using the Freedom House
democracy index instead of the Polity IV index. See Table A1 in the appendix for the
list of countries in the main sample. The mean level of concentration in our sample
is 0.32; there is substantial variation in the sample, which contains both highly
diversified and highly concentrated countries, such as Angola. Our sample consists
of both poor and wealthy countries, Qatar being the richest with an average GDP
per capita of 84000 USD, and the average country having a GDP per capita of 12000
USD. The average country in the sample is borderline democratic, with a score on
the democracy indices of about 6.

SUMMARY STATISTICS
Variable Obs Mean Std. dev. Min Max
ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ 151 0.32 0.22 0.05 0.96
GDP/capita 151 12.17 13.81 0.29 84.04
Democracy Policy 151 5.81 3.80 0.00 10.00
Democracy FH 174 6.08 3.44 0.00 10.00
WŽƉƵůĂƟŽŶ 151 0.04 0.15 0.00 1.32

4.1.4 Results

Results from our main estimations are presented in table on page 161. In the
first column are the results from the full sample of 151 countries using the Polity IV
index as the measure of democracy. The results suggest that there is a u-shaped re-
lationship between concentration and income, as suggested by Figure 1. However,
the second column in Table 4 shows results when the outlier Qatar is dropped from
the sample. The squared GDP per capita term is then no longer significant, making
the non-linearity of the relation between income and concentration appear not
very robust. Column three in Table 4 presents results when using the Freedom
House democracy index instead of the Polity IV index, and when excluding Qatar,
and the result is the same for this larger sample of countries. In other words, it is
likely that the u-shaped relationship documented in previous studies is driven by
countries with some highly specific characteristics, in particular large petroleum
endowments. This means that a hypothesis that countries that grow richer first
diversify and then re-concentrate need not be as fruitful a line of inquiry as past
studies have argued. Instead, there seems to be a consistently negative relation
between income and concentration, outside of oil rich economies, richer econo-
mies seem to be more diversified.

160 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

RESULTS, OLS
OLS 1 OLS 1 OLS 1
Dependent Variable ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ
GDP/capita –0.007*** –0.008* –0.007**
(0.00) (0.00) (0.00)
GDP/capita squared 0.000** 0.000 0.000
(0.00) (0.00) (0.00)
Democracy Policy –0.022*** –0.022**
(0.01) (0.01)
WŽƉƵůĂƟŽŶ –0.247*** –0.248*** –0.289***
(0.06) (0.06) (0.06)
Democracy FH –0.018***
(0.01)
ŽŶƐƚĂŶƚ 0.509*** 0.513*** 0.513***
(0.04) (0.04) (0.04)
R-sq. 0.286 0.283 0.209
N 151 150 174
Robust standard errors in parentheses, for robust standard errors. *** indicates significance at the 1% level, ** at 5%, * at 10%.

dŚĞƌĞƐƵůƚƐĨŽƌƚŚĞĚĞŵŽĐƌĂĐLJǀĂƌŝĂďůĞƐŝŶƚŚĞƚĂďůĞĂďŽǀĞĂƌĞŶĞŐĂƚŝǀĞ͕ƐƵŐ-
ŐĞƐƚŝŶŐƚŚĂƚŵŽƌĞĚĞŵŽĐƌĂƚŝĐĐŽƵŶƚƌŝĞƐĂƌĞŵŽƌĞĚŝǀĞƌƐŝĨŝĞĚ͘dŚĞƌĞƐƵůƚƐĂƌĞǀĞƌLJ
ƐŝŵŝůĂƌŝŶĂůůƚŚƌĞĞĐŽůƵŵŶƐ͕ĂŶĚƐŽĚŽŶŽƚĚĞƉĞŶĚŽŶǁŚŝĐŚŽĨƚŚĞƚǁŽĚĞŵŽĐƌĂĐLJ
ŝŶĚŝĐĞƐŝƐƵƐĞĚ͘ŽŶĞƐƚĂŶĚĂƌĚĚĞǀŝĂƚŝŽŶŝŶĐƌĞĂƐĞŝŶĚĞŵŽĐƌĂĐLJƌĞĚƵĐĞƐĐŽŶĐĞŶ-
ƚƌĂƚŝŽŶďLJĂďŽƵƚĞŝŐŚƚƉĞƌĐĞŶƚĂŐĞƉŽŝŶƚƐ͕ƐŽƚŚĞƌĞůĂƚŝŽŶŝƐĂůƐŽĞĐŽŶŽŵŝĐĂůůLJƐŝŐ-
ŶŝĨŝĐĂŶƚ͘dŚŝƐŽĨĐŽƵƌƐĞĚŽĞƐŶŽƚŝŵƉůLJĂĐĂƵƐĂůƌĞůĂƚŝŽŶ͕ǁĞĐĂŶŶŽƚƚĞůůĨƌŽŵƚŚĞƐĞ
ƌĞƐƵůƚƐ ǁŚĞƚŚĞƌ ĚĞŵŽĐƌĂĐLJ ĂĨĨĞĐƚƐ ĐŽŶĐĞŶƚƌĂƚŝŽŶ͕ Žƌ ǀŝĐĞ ǀĞƌƐĂ͕ Žƌ ǁŚĞƚŚĞƌ ƚŚĞ
ĐŽƌƌĞůĂƚŝŽŶďĞƚǁĞĞŶƚŚĞƚǁŽŝƐĚƌŝǀĞŶďLJƐŽŵĞƚŚŝƌĚǀĂƌŝĂďůĞƚŚĂƚǁĞŚĂǀĞŶŽƚĐŽŶ-
ƚƌŽůůĞĚĨŽƌ͘EĞǀĞƌƚŚĞůĞƐƐ͕ƚŚŝƐĨŝŶĚŝŶŐŝƐĂŶŽǀĞůŽŶĞŝŶƚŚĞůŝƚĞƌĂƚƵƌĞŽŶĚŝǀĞƌƐŝĨŝĐĂ-
ƚŝŽŶ͕ĂŶĚŐŝǀĞŶƚŚĞŝŵƉŽƌƚĂŶĐĞŽĨƉŽůŝƚŝĐĂůĞĐŽŶŽŵLJĐŽŶƐŝĚĞƌĂƚŝŽŶƐŝŶĂƐƐĞƐƐŝŶŐƚŚĞ
ƉŽƚĞŶƚŝĂůĨŽƌĂŶĚŝŵƉĂĐƚƐŽĨĚŝǀĞƌƐŝĨŝĐĂƚŝŽŶ͕ƚŚŝƐŽƉĞŶƐƵƉŝŶƚĞƌĞƐƚŝŶŐŚLJƉŽƚŚĞƐĞƐ
for further studies.

dŚĞƉŽƉƵůĂƚŝŽŶǀĂƌŝĂďůĞƐŚŽǁƐĂŶĞŐĂƚŝǀĞĐŽĞĨĨŝĐŝĞŶƚ͕ǁŚŝĐŚŵĞĂŶƐƚŚĂƚůĂƌŐĞƌ
ĐŽƵŶƚƌŝĞƐŚĂǀĞůĞƐƐĐŽŶĐĞŶƚƌĂƚĞĚĞĐŽŶŽŵŝĞƐŝŶƚĞƌŵƐŽĨĞdžƉŽƌƚƐ͘dŚŝƐŝƐŝŶůŝŶĞǁŝƚŚ
ĞdžƉĞĐƚĂƚŝŽŶƐ͘

dŚĞƌĞƐƵůƚƐŝŶůĂƐƚƚĂďůĞĂƌĞďĂƐĞĚŽŶĐŽŶĐĞŶƚƌĂƚŝŽŶĚĂƚĂĨƌŽŵϮϬϬϵ͘dŽĂƐƐĞƐƐ
ǁŚĞƚŚĞƌƚŚĞƌĞƐƵůƚƐĂƌĞĚƵĞƚŽƵƐŝŶŐĚĂƚĂĨƌŽŵƚŚŝƐƉĂƌƚŝĐƵůĂƌLJĞĂƌ͕ǁĞĂůƐŽƌƵŶ
ďĞƚǁĞĞŶ ĞĨĨĞĐƚƐ ƉĂŶĞů ĚĂƚĂ ĞƐƚŝŵĂƚŝŽŶƐ͘ dŚĞ ƌĞƐƵůƚƐ ĂƌĞ ƉƌĞƐĞŶƚĞĚ ŝŶ ƚŚĞ ƚĂďůĞ
ŶĞdžƚƉĂŐĞ͕ĂŶĚĞĂĐŚĐŽůƵŵŶŝƐĐŽŵƉĂƌĂďůĞƚŽƚŚĞĐŽůƵŵŶƐŽĨƚŚŝƐƉĂŐĞ͛ƐƚĂďůĞ͘/Ŷ
ŽƚŚĞƌǁŽƌĚƐ͕ĐŽůƵŵŶƐŽŶĞĂŶĚƚǁŽƉƌĞƐĞŶƚƌĞƐƵůƚƐƵƐŝŶŐƚŚĞWŽůŝĐLJ/sĚĞŵŽĐƌĂ-
ĐLJŝŶĚĞdž͕ǁŝƚŚYĂƚĂƌĞdžĐůƵĚĞĚĨƌŽŵƚŚĞƐĂŵƉůĞŝŶĐŽůƵŵŶƚǁŽ͕ĂŶĚĐŽůƵŵŶƚŚƌĞĞ
ƵƐĞƐƚŚĞ&ƌĞĞĚŽŵ,ŽƵƐĞĚĞŵŽĐƌĂĐLJŝŶĚĞdžĂŶĚŽŵŝƚƐYĂƚĂƌĨƌŽŵƚŚĞƐĂŵƉůĞ͘dŚĞ

| 161
CEIC / UCAN

uncovered relationships are more or less the same as in the OLS regressions pre-
sented above. There is a negative relation between income and concentration. In
contrast to the OLS estimations, the second order GDP per capita term is not sig-
nificant in any estimation, again suggesting that the u-shaped relationship found
in previous studies is not very robust. Democracy and concentration are negatively
related, as in the above results. And more populous countries have less concen-
trated economies.

RESULTS, BETWEEN EFFECTS


BE 1 BE 2 BE3
Dependent Variable ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ ŽŶĐĞŶƚƌĂƟŽŶ
GDP/capita –0.006*** –0.008* –0.007**
(0.00) (0.00) (0.00)
GDP/capita squared 0.000** 0.000 0.000
(0.00) (0.00) (0.00)
Democracy Policy –0.029*** –0.029**
(0.00) (0.00)
WŽƉƵůĂƟŽŶ –0.281*** –0.248*** –0.345***
(0.10) (0.10) (0.11)
Democracy FH –0.024***
(0.00)
Constant 0.537*** 0.542*** 0.543***
(0.03) (0.03) (0.03)
R-sq. 0.382 0.379 0.274
N 2322 2312 2743
–ƒ†ƒ”†‡””‘•‹’ƒ”‡–Š‡•‡•Ǥȗȗȗ‹†‹…ƒ–‡••‹‰‹ˆ‹…ƒ…‡ƒ––Š‡ͳΨŽ‡˜‡Žǡȗȗƒ–ͷΨǡȗƒ–ͳͲΨǤ

4.1.5 Conclusion

Analyzing how diversification relates to central characteristics of countries


such as income and democracy are important in assessing the merits and pre-
conditions of diversification, and in informing our views of and approaches to di-
versification. While the empirical analyses in this paper are not used for causal
inference, the results presented do suggest that oil rich countries deserve some
special attention in discussions of diversification. Firstly, oil rich countries tend
to be more concentrated than countries at comparable levels of income, which
should be taken into account when discussing patterns of industrialization. Our
results show that a u-shaped relationship between concentration and income is
due to a single oil rich country, making this less of a general and robust pattern
than the previous literature would suggest. Instead, it seems for the most part
that with higher average incomes come more diversification. Secondly, the resour-
ce related problems in oil producing developing countries means that we need to
focus on the political economy of diversification, and specifically its relation to

162 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

democracy. The paper has presented some initial evidence on this suggesting that
across countries, and controlling for income and population size, diversification
increases with democracy.

The result that there is a negative relation between concentration and demo-
cracy can mean either of four things. Firstly, it is possible that no causal relation
exists between democracy and concentration, and the negative relation uncovered
above simply reflects some underlying third variable which influences both de-
mocracy and diversification. Secondly, it could be that our results reflect a causal
effect of democracy on diversification. This would be consistent with a hypothesis
that elites in undemocratic countries would be reluctant to promote diversifica-
tion of the economy, as this would reduce their power and ability to extract rents.
Thirdly, the results could reflect a causal effect of diversification on democracy,
consistent with a hypothesis that when economic power is more widely distributed
this also leads to pressure for more de-concentrated political power. Fourthly, our
results could reflect causal effects in both directions, from democracy to diversi-
fication and from diversification to democracy. Which of these four possibilities
actually underlies our results cannot be inferred from the results given the approa-
ch we have taken. This would require a different methodological approach. But
our results do present some useful working hypotheses which can form the basis
of such studies of causal effects. In particular, they do suggest that the political
economy of diversification is an important and so far under-explored topic in the
relevant literature.

Some caution is therefore advised in suggesting diversification as a key policy


to improve the situation in resource rich countries such as Angola. While there are
arguments that diversification has positive economic and political effects, these
effects so far remain insufficiently proven to provide a firm basis for policy. More
research is needed before we can conclude on this matter. Even with the descrip-
tive results we present here, it remains possible that diversification policies and
narratives can be captured and used by political elites to increase their hold on
power, by focusing on sectors conducive to this end (see Wiig and Kolstad, 2012).
Our results could also be taken to suggest that the scope for any form of benefi-
cial diversification likely depends on the incentives facing the political elite, which
needs to be explored further in future work, quantitative and qualitative. What we
do not need in the context of resource rich countries such as Angola is more policy
advice based on assumptions of a benevolent or fully accountable government.
Political economy considerations need to be taken into account when analyzing
the potential of diversification or any other policy in improving the situation in
these countries.

| 163
CEIC / UCAN

4.2 Experiências internacionais (Coreia do Sul e Malásia)

Angola enfrenta o desafio de diversificar a sua economia que actualmente de-


pende de um único produto de exportação, o petróleo. Em 2012, cerca de 96%
das exportações totais de Angola foram de produtos relacionados com o petróleo.
A posição dominante deste produto na economia é um sinal claro da falta de diver-
sificação da estrutura económica do país.

No processo da diversificação da economia nacional, Angola pode aprender


das experiências de outros países que tiveram resultados positivos na diversifica-
ção das suas economias, por intermédio da industrialização e da promoção das
exportações. Apresentamos a experiência de dois países asiáticos: a Coreia do Sul
e a Malásia.

4.2.1 Experiência da Coreia do Sul

As reformas que permitiram a “decolagem económica” da Coreia do Sul ocorre-


ram na década de 1960 e foram motivadas pelas opiniões daqueles que achavam
que a única maneira de mudar a estrutura económica do país era alterar a trajec-
tória da economia, colocando o foco no mercado internacional, em vez de uma
industrialização virada para o mercado interno, o que acontecia até então.

A estrutura da economia

Segundo Westphal, “em 1960, a economia sul-coreana era dominada pela agri-
cultura e a mineração. Com poucas excepções, o sector industrial fornecia apenas
produtos simples de consumo”96. Desde 1980 que a economia é dominada pelo
sector da indústria e da manufactura e em 2010 o peso do sector industrial no PIB
representou 39,4%. As principais indústrias estabelecidas (desde 1960) vão desde
indústrias de produtos químicos e electrónicos até automóveis e equipamentos
eléctricos de alta tensão.

De acordo com Alice Amsden97 para a Coreia alcançar taxas notáveis de cres-
cimento económico e uma forte diversificação da sua economia, o país usou de
modo eficiente e racional as seguintes instituições:

ͻ Um Estado intervencionista moderado.

96ƒ””›ǡ‡•–’ŠƒŽǤIndustrial Policy in an Export-Propelled Economy: Lessons from South

Korea´s Experience, page 43, Journal of Economic Perspective (1990).


97Amsden, Alice. Asia’s Next Giant: South Korea and Late Industrializationǡ‡™‘”ǣ
šˆ‘”†‹˜‡”•‹–›”‡••ȋͳͻͺͻȌǤĝěĎ page 38

164 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

ͻ Grandes grupos empresariais diversificados, que actuavam em vários negócios98.

ͻ Uma oferta abundante de gestores competentes.

ͻ Uma farta oferta de força de trabalho qualificada e de baixo custo.

A intervenção do Estado

O que ocorreu na Coreia mostra que, em alguns casos, para se alcançar a ex-
pansão da actividade económica, a intervenção do Estado é necessária, pois esta
pode direccionar mais investimentos para a actividade económica. Por exemplo,
o Governo coreano interveio para proteger a indústria têxtil de algodão local da
competição japonesa. A intervenção ocorreu sob diversas formas, tarifas, quotas,
subsídios à exportação, crédito subsidiado, e assim por diante. Esta mediação foi
necessária, uma vez que as forças de mercado por si só não podiam desenvolver a
economia e a diversificação da sua estrutura.

A protecção concedida às empresas por parte do Estado, não era arbitrária e


aleatória, visto que as empresas tinham que alcançar uma série de objectivos pre-
viamente estabelecidos no que dizia respeito ao volume de exportação que tinham
que alcançar, à performance da sua actividade empresarial e ao nível da transpa-
rência da gestão.

Investindo na Educação

Segundo Alice, na Coreia do Sul, no início do processo da diversificação, “não


havia especialistas no sector industrial tendo em conta os padrões mundiais”99;
logo, os engenheiros de produção que eram os guardiões da transferência de tec-
nologia vieram das escolas. Para isso, o Estado teve que investir fortemente na
qualificação da força de trabalho, desde o nível primário até ao superior.

98 Os grandes grupos empresariais coreanos surgem de uma forma impressionante. De

acordo com Alice, “as grandes empresas consolidaram o seu poder em resposta a incen-
–‹˜‘•†‘
‘˜‡”‘…‘„ƒ•‡‘„‘†‡•‡’‡Š‘†ƒ•‡’”‡•ƒ•Ǥ’”‡•ƒ•“—‡–‹Šƒ
†‡•‡’‡Š‘•‹’”‡••‹‘ƒ–‡•ƒ•ž”‡ƒ•†‡‡š’‘”–ƒ­ ‘ǡ Ƭǡ‘—‹–”‘†—­ ‘†‡‘˜‘•
produtos, eram recompensadas com mais licenças para expandir os seus negócios,
ampliando assim a escala das grandes empresas em geral. Em troca de entrarem em
indústrias especialmente arriscadas, o Governo recompensava-as com outras licenças
industriais em sectores mais lucrativos”, promovendo assim o desenvolvimento de gru-
’‘•‡’”‡•ƒ”‹ƒ‹•…‘‡‰×…‹‘•†‹˜‡”•‹ϐ‹…ƒ†‘•Ǥ’”‡•ƒ•…‘ˆ”ƒ…‘†‡•‡’‡Š‘‡”ƒ
’‡ƒŽ‹œƒ†ƒ•ƒ‘’‘–‘†‡ŽŠ‡••‡”‡”‡–‹”ƒ†ƒ•ƒ•Ž‹…‡­ƒ•Ǥ
99Amsden, Alice. Asia’s Next Giant: South Korea and Late Industrializationǡ‡™‘”ǣ
šˆ‘”†‹˜‡”•‹–›”‡••ǡͳͻͺͻǤĝěĎ, page. 215.

| 165
CEIC / UCAN

O Governo assegurou que suficientes engenheiros fossem formados para garan-


tir que um certo número deles seguisse a carreira pretendida pela sua formação.
Esse grande número de engenheiros fez com que houvesse competição entre eles
para a obtenção dos melhores empregos e mais rápidas promoções, aumentando
assim a produtividade e diminuindo o seu custo para as empresas. O sucesso da Co-
reia em diversificar a sua economia deveu-se em parte ao esforço de investimento
na formação da sua população em geral e na qualificação da sua força de trabalho
em particular, categorizada e bem treinada, pois havia muitas escolas no país.

Foco da Política Industrial

Desde o início dos anos 1960, a Política Industrial sul-coreana teve dois objec-
tivos principais e interligados: incentivar as exportações e promover as indústrias
nascentes. As exportações das bem estabelecidas indústrias têm sido incentivadas
com o recurso a políticas neutras, isto é, políticas que não afectam negativamente
as relações comerciais com os países parceiros100. Já na promoção de indústrias
nascentes aplicaram-se políticas não-neutras.

Incentivando as exportações

As reformas políticas que colocaram a Coreia no caminho da industrialização


foram centradas na forte promoção das exportações.

Estabeleceu-se um regime de livre comércio para as actividades de exportação,


de modo a que os bens de capital e intermediários utilizados na produção para
exportação pudessem ser importados livremente e isentos de quaisquer tarifas
aduaneiras, isto é, independentemente da sua origem, estes bens estavam deso-
brigados de impostos indirectos.

Para apoiar as empresas com falta de recursos para financiar as exportações,


o Governo garantiu a disponibilidade de financiamento adequado, permitindo aos
exportadores obterem empréstimos na proporção da sua actividade de exportação.

Devido às circunstâncias do mercado, quando uma sobrevalorização da moeda


ocorresse, as empresas exportadoras afectadas recebiam incentivos, tais como a
redução directa de impostos, taxas de juro preferenciais e acesso privilegiado aos
certificados de importação para compensar a sobrevalorização da moeda101.

100 O Governo coreano concedia às empresas exportadoras créditos com taxas de juros

„‘‹ϐ‹…ƒ†ƒ•ǡ”‡†—­ ‘†‡‹’‘•–‘•ǡ•—„•À†‹‘•‡‘—–”ƒ•ˆƒ…‹Ž‹†ƒ†‡•ǡƒϐ‹†‡’”‘‘˜‡”ƒ•
exportações.
101•–ƒƒ„‘”†ƒ‰‡†‡…‘…‡•• ‘†‡‹…‡–‹˜‘••‡’”‡•ƒ•”‡˜‡Ž‘—Ǧ•‡‡ŽŠ‘”†‘“—‡

a desvalorização da taxa de câmbio, evitando reacções de países terceiros que se sentis-


sem prejudicados com o aumento dos preços dos seus produtos no mercado coreano.

166 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

A fim de encorajar as empresas a exportarem cada vez mais, Westphal observa


que “o Governo anunciava publicamente as metas trimestrais de exportação das
mercadorias, dos mercados e das empresas”. O progresso em direcção às metas
e a situação do comércio externo eram revistas regularmente numa Conferência
Mensal de Promoção Comercial presidida pelo Presidente da República e com a
presença de ministros, banqueiros e os exportadores de maior sucesso, grandes e
pequenos. A relação entre os exportadores e funcionários do Governo era tão pró-
xima que “uma grande equipa mantinha contacto quase diário com os principais
exportadores”102.

Promovendo indústrias nascentes

As indústrias nascentes precisam de apoio do Governo, principalmente na fase


inicial do seu desenvolvimento. Na Coreia, tendo em vista o processo de diversi-
ficação da economia, indústrias criteriosamente bem selecionadas, em função da
relevância interna e das necessidades do mercado interno e externo, beneficiaram
de protecção absoluta por meio de controlos de importação destinados a garan-
tir-lhes um nível adequado de vendas no mercado interno, bem como uma taxa
satisfatória de retorno sobre o investimento. Esses controlos têm assumido, na
maior parte dos casos, a forma de quotas que estabelecem limites máximos para
as importações. Noutras situações os controlos manifestam-se sob a forma “de
uma lei sob a qual uma licença de importação será concedida apenas se pudesse
ser demonstrado que um determinado bem não pode ser adquirido em termos
razoáveis no mercado interno”103. Esta política foi usada para promover várias in-
dústrias de produção de maquinaria.

Compromisso político

Um outro factor-chave que ajudou a Coreia a diversificar a sua economia foi o


compromisso pessoal do líder político da Nação.

Segundo Westphal (1990), “antes das reformas, o rent-seeking em relação às li-


cenças de importação e isenções de tarifas tinham fornecido uma importante fon-
te de receitas ilícitas para os empresários e alguns funcionários do Governo. Para
redireccionar o foco de suas actividades, o Presidente Park ordenou que muitos
empresários proeminentes fossem presos pouco depois de assumir o poder, e, em
seguida, ameaçou-os com a confiscação de seus bens ilícitos”104. Só depois destes

102ƒ””›ǡ‡•–’ŠƒŽǡIndustrial Policy in an Export-Propelled Economy: Lessons from South

Korea´s Experience, page. 45, Journal of Economic Perspective (1990).


103 Ibid.

104 Journal of Economic Perspectives – Volume 4, Number 3, 1990, page 58.

| 167
CEIC / UCAN

empresários terem concordado investir estas mais-valias ilícitas, e mesmo ilegais, é


que foram libertados, isto num contexto de envolvimento de todas as forças vivas
do país num esforço nacional e patriótico de industrialização e diversificação da
economia nacional. Este episódio mostra que o compromisso político foi importan-
te no processo de diversificação da economia feita pelo Governo sul-coreano, uma
vez que ajudou a alcançar resultados efectivos.

Lições para Angola

Definir prioridades sobre os sectores industriais

Angola tem que definir prioridades em relação ao tipo de indústrias que o país
realmente precisa. Indústrias leves, como a do processamento de alimentos, bebi-
das, têxteis e outras são importantes. No entanto, a indústria pesada também deve
ser levada em conta. O censo industrial que está a ser realizado pelo Ministério da
Indústria de 16 Outubro 2013 a Outubro de 2014 é uma grande oportunidade para
se conhecerem, efectivamente, o tipo de indústrias existentes e para se determi-
nar o tipo de indústria o país precisa desenvolver a fim de sustentar o processo da
diversificação da economia nacional.

A participação do sector manufactureiro no PIB angolano é ainda muito bai-


xo, tendo sido de cerca de 4%, em média anual, entre 2002 e 2012. Tal como se
sublinha noutros capítulos deste Relatório Económico, esta percentagem configu-
ra mais uma situação de desindustrialização do que um processo seguro rumo a
uma crescente industrialização. Sem um sector industrial forte e representativo
não haverá nem industrialização sustentável, nem diversificação da economia. A
experiência coreana prova, na verdade, a existência de uma forte correlação entre
industrialização e diversificação.

Apoio e incentivo às exportações

Muito esforço deve ser feito a fim de incentivar as empresas nacionais a produ-
zirem, não só para o mercado interno, que é relativamente pequeno, nem tão pou-
co para a substituição de importações (daí o CEIC, em diferentes estudos, reflexões
e intervenções públicas, duvidar que uma política de substituição de importações
seja exitosa e difunda ganhos substanciais para a economia e a sociedade. Segun-
do a Teoria Económica, a substituição de importações pela protecção tarifária au-
menta substancialmente o excedente do produtor em detrimento do excedente do
consumidor, podendo o efeito final ser negativo para o bem-estar nacional), mas
principalmente para a exportação.

Produzir para exportar vai ajudar as empresas nacionais a aprender com os


seus concorrentes internacionais, aumentar a sua capacidade de produzir com

168 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

qualidade e praticar preços competitivos, como ocorreu com as empresas sul-co-


reanas.

Como no caso da Coreia do Sul, o Governo angolano deve assegurar a dispo-


nibilidade de financiamento adequado que permita aos exportadores obterem
empréstimos de capital de giro ou fundo de maneio na proporção da importância
da sua actividade de exportação. E, de facto, esse apoio é realmente necessário
tendo em conta que o país precisa de fomentar as exportações do sector não
mineral pois a maioria destas empresas não tem tanto dinheiro quanto as em-
presas que operam no sector mineral (petróleo e diamantes) para financiarem
as exportações.

A intervenção do Governo para incentivar e promover as exportações é ex-


tremamente importante. É bom saber que o Ministério da Economia tem um
departamento que lida com a promoção das exportações, mas a questão é se o
departamento é realmente funcional e dá a ajuda e o apoio que as empresas ex-
portadoras necessitam.

Ao Departamento de Promoção de Exportações devem ser dados os recursos


necessários que lhe permitam identificar os exportadores de pequena escala e tra-
balhar com os mesmos para determinar as suas reais necessidades e ajudá-los a
superar os desafios que enfrentam para exportarem maiores quantidades e para
mais mercados.

Investir na Formação

A qualificação do capital humano é a chave para o desenvolvimento e susten-


tabilidade de qualquer processo de transformação económica, tal como a diversifi-
cação. A Coreia do Sul investiu seriamente na formação para que não dependesse
de estrangeiros (já que eles vêm e vão) para sustentar o processo de diversificação
económica.

É interessante que o Governo sul-coreano primeiramente determinou as ne-


cessidades do país em termos da qualidade e da conveniência da força de trabalho
que o país precisava, naquele momento, para arrancar com o processo da indus-
trialização do país. Angola tem de seguir o mesmo padrão. O Governo, juntamente
com o sector privado, devem determinar as reais necessidades do país em termos
de mão-de-obra qualificada necessária para desenvolver e sustentar o processo de
diversificação económica. Por exemplo, será que Angola tem engenheiros locais
qualificados suficientes? O que está a ser feito a esse respeito? A política educacio-
nal do país é definida de acordo com as reais necessidades da sociedade em geral
e das empresas em particular?

| 169
CEIC / UCAN

A Estratégia Nacional de Recursos Humanos105 estima também que entre


2010-2020 Angola irá necessitar entre 31500 a 39000 engenheiros (civis, mecâni-
cos, ambientais, químicos, etc.) Para satisfazer essas necessidades muito esforço
deve ser feito, uma vez que a oferta interna de engenheiros previstos no mesmo
período é de apenas 15100 a 19500 engenheiros.

Tendo sido determinadas as necessidades em termos da força de trabalho, o


passo seguinte é o da certificação de que o sistema nacional de educação trabalhe
seriamente para atender às necessidades do país. Oportunidades de emprego de-
vem ser garantidas, a fim de permitir que o recém-formado possa ter o seu primei-
ro emprego, sem a exigência de experiências passadas.

Em Angola há muitos estrangeiros que trabalham para diferentes tipos de em-


presas, o que é compreensível, já que o país não tem mão-de-obra qualificada o
suficiente. Mas a questão que se levanta é: estão os trabalhadores angolanos a
aprender com eles? Como está a decorrer o processo de transmissão do conhe-
cimento? As empresas que contratam trabalhadores estrangeiros qualificados
devem ser persuadidas a terem “programas de aprendizagem no trabalho” que
facilitem os trabalhadores nacionais a aprenderem com os trabalhadores estran-
geiros mais qualificados.

Política Monetária

Um dos objectivos da Política Monetária em Angola é o de manter a taxa de


inflação sob controlo, usando a taxa de câmbio como âncora para estabilizar o nível
de preços internos, dado que a maior parte dos bens consumidos (quase 70%) são
importados e qualquer variação da taxa de câmbio afecta o nível de preços.

Neste caso, qualquer depreciação da moeda angolana vai afectar dramatica-


mente os preços internos, influenciando, assim, o nível de inflação. Se tivéssemos
uma parte significativa das exportações não-minerais, a desvalorização da moeda
teria, até certo ponto, impulsionado essas exportações, uma vez que os preços re-
lativos ao importador teriam sido relativamente mais baixos devido à depreciação
da taxa de câmbio.

A principal função do Banco Nacional de Angola, como indicado na sua declara-


ção de missão, “é assegurar a preservação do valor da moeda nacional”106. Esta po-
lítica é geralmente chamada política do “kwanza forte”, que evita a todo o custo a
depreciação da moeda. Mas é importante ressaltar que a sobrevalorização da taxa

105 Estratégia Nacional Formação de Quadros, Governo da República de Angola, Casa


‹˜‹Ž†ƒ”‡•‹†²…‹ƒ†ƒ‡’ï„Ž‹…ƒǤ
106Š––’ǣȀȀ™™™Ǥ„ƒǤƒ‘Ȁ‘–‡—†‘•Ȁ”–‹‰‘•Ȁ†‡–ƒŽŠ‡̴ƒ”–‹‰‘Ǥƒ•’šǫ‹†…αͳ͵ͻƬ‹†•…αͳ͸ͻƬ‹†Žαͳ

170 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

de câmbio afecta negativamente a competitividade das exportações angolanas,


especialmente as não-minerais, em que os preços são definidos internamente.

O Banco Central poderia conduzir a Política Monetária para promover as ex-


portações não-minerais. Juntamente com o Governo, o Banco Nacional poderia
compensar (como fez a Coreia do Sul), as empresas exportadoras afectadas pela
sobrevalorização da moeda, concedendo-lhes incentivos, tais como taxas de juros
preferenciais, redução de impostos, acesso privilegiado directo aos certificados de
importação para compensar a sobrevalorização da moeda.

4.2.2 Experiência da Malásia

Como a Malásia, Angola também é um país produtor de petróleo, mas diferen-


temente de Angola, a Malásia não depende apenas da produção de petróleo ou
gás natural, visto que a sua economia é bem diversificada.

Este país fez um tremendo esforço para diversificar a sua estrutura económica
e usou bem as receitas provenientes da agricultura e do sector mineral para desen-
volver a indústria manufactureira, intermediária e pesada.

A chamada de alerta ou atenção para o Governo da Malásia iniciar o processo


de diversificação da economia após a independência ocorreu com “as flutuações
do preço da borracha durante os anos 1950 e da queda dos preços da borracha
na década de 1960, combinado com a antecipação do inevitável esgotamento
dos depósitos de estanho”107. No caso de Angola, a crise financeira internacional
2009/2010, que levou à redução dos preços do petróleo nos mercados interna-
cionais, foi um ponto de viragem para o Governo angolano começar a pensar em
diversificar a economia.

Em 1957, quando a Malásia conseguiu a independência da Grã-Bretanha, a sua


economia dependia de dois principais produtos de exportação: estanho e borra-
cha; e naquele tempo a indústria transformadora era inferior a 10% do PIB, devido
ao facto de as autoridades coloniais não permitirem o desenvolvimento de indús-
trias locais, visto que as colónias eram consideradas uma fonte, fornecedores de
matérias-primas e importadores de bens manufacturados. No entanto, em 2011,
a Malásia já era a 29.a maior economia do mundo, com o sector industrial res-
ponsável por cerca de 25% do PIB e 74% do total das exportações, o que ilustra o
tremendo esforço que foi feito para industrializar o país.

107 ‘‘ǤǤǢ‘…ǡ‹…Šƒ‡Ž ȋͳͻͻͺȌ…‘‘‹…‹˜‡”•‹ϔ‹…ƒ–‹‘ƒ†”‹ƒ”›‘‘†‹–›

Processing the Second-tier South-East Asian Newly Industrializing Countries, page 6.

| 171
CEIC / UCAN

Hoje, a Malásia é o segundo maior produtor de petróleo e gás natural no Su-


deste da Ásia e o segundo maior exportador de gás natural liquefeito no mundo108.
Apesar de ser um país produtor de petróleo, tem hoje uma economia bem diver-
sificada com o sector mineral pesando cerca de 9% do PIB. Diferentemente de
Angola, a Malásia não depende apenas do petróleo, da produção de gás natural e
da exploração de estanho.

A Malásia usou bem as consideráveis receitas de exportação e estas garanti-


ram que não sofresse de escassez de poupança ou de divisas, contribuindo para o
investimento, crescimento e mudança estrutural da economia. Estes ganhos finan-
ciaram parte do processo de diversificação, explorando novas actividades econó-
micas e produzindo novos produtos agrícolas e industriais.

Diversificando o sector agrícola

Segundo Jomo e Rock (1998), no início de 1970 foram intensificados os esforços


para diversificar as exportações agrícolas. A Malásia, no tempo colonial, foi mun-
dialmente hegemónica no comércio de borracha, estanho e pimenta. Mas nos anos
1980 apostou na produção de óleo de palma, madeiras tropicais e cacau, ou seja,
diversificou a produção do sector primário. O Óleo de palma e a produção de cacau,
por exemplo, foram encorajados com incentivos para culturas específicas e tal fez
da Malásia o maior exportador do mundo de ambos os produtos agrícolas em 1980.

O Governo percebeu que também era necessário olhar para o desenvolvimen-


to rural pós-colonial e “ várias reformas foram introduzidas para promover coope-
rativas rurais e para limitar os juros cobrados sobre os empréstimos de crédito”109.
Desde o início de 1980, no entanto, mais importância tem sido dada ao desenvol-
vimento da agricultura comercial para exportação.

As receitas provenientes do petróleo, gás natural, estanho, madeira e outros


produtos agrícolas têm sido “alocadas de modo a promover investimentos em no-
vas actividades produtivas, que aceleraram a diversificação da economia a partir
de sua herança colonial. Grande parte destes investimentos têm sido canalizados
para a diversificação, especialmente a industrialização, inicialmente com base na
substituição de importações, em seguida para promoção das exportações”110 bem
como o fomento da indústria pesada.

108Š––’ǣȀȀ™™™Ǥ‡‹ƒǤ‰‘˜Ȁ…‘—–”‹‡•Ȁ…‘—–”›Ǧ†ƒ–ƒǤ…ˆǫϐ‹’•α›Ǥ  †‡ ƒ…‘”†‘ …‘ ‡•–ƒ


fonte, a Malásia produz cerca de 513 mil barris de petróleo bruto por dia.
109 ‘‘ǤǤǢ‘…ǡ‹…Šƒ‡Ž ȋͳͻͻͺȌ…‘‘‹…‹˜‡”•‹ϔ‹…ƒ–‹‘ƒ†”‹ƒ”›‘‘†‹–›

Processing the Second-tier South-East Asian Newly Industrializing Countries, page. 6.


110 Ibid page 9.

172 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Políticas de Substituição de Importações e de Promoção das Exportações

O crescimento industrial da Malásia foi impulsionado, quer pelas políticas de


industrialização orientadas para a substituição de importações, quer pelas políti-
cas de industrialização orientadas para a promoção das exportações. No que diz
respeito à substituição de importações, os bens de capital e intermediários, como
produtos químicos, cimento, alumínio, aço e equipamentos de transporte foram a
prioridade. As taxas nominais e efectivas de protecção desses bens aumentaram, a
fim de proteger as empresas locais e as indústrias nascentes.

Mas de acordo com Okamoto (1994), em meados de 1980, o Governo da Ma-


lásia decidiu “reduzir gradualmente a taxa de protecção”, porque apercebeu-se de
que as indústrias de substituição de importações não estavam a funcionar confor-
me o esperado e “uma série de indústrias nascentes nunca cresceu, apesar de te-
rem sido protegidas por mais de dez anos, o que impediu a indústria de exportação
de reforçar a sua competitividade no mercado internacional”111.

Um dos mecanismos utilizados pelo Governo para promover as exportações


de produtos manufacturados foi o de “admitir 100% de propriedade de capital
estrangeiro para as empresas que exportavam mais de 50% de seus produtos”112,
o que possibilitou a entrada no país de empresas estrangeiras orientadas para a
exportação que eram mais produtivas e competitivas no mercado internacional do
que as empresas locais. As empresas locais beneficiaram das empresas estrangei-
ras voltadas para a exportação, pois foram induzidas a melhorar a sua produção e
gestão de tecnologia sob a crescente pressão da concorrência.

Em resumo, o Governo da Malásia, nos primeiros anos após a independência,


viu necessidade de desenvolver e diversificar a estrutura económica do país. Fo-
ram feitos esforços no sector da agricultura para a produção de outras culturas,
além da borracha, diversificando, desta forma, este sector; o Governo criou tam-
bém um plano para desenvolvimento da área rural que permitiu que os campone-
ses se tornassem pequenos agricultores orientados para o mercado e mais ênfase
foi dada ao desenvolvimento da agricultura comercial – envolvendo agricultores
de grande escala.

O desenvolvimento do sector industrial teve um papel fundamental no pro-


cesso de diversificação. A Política de Substituição de Importações permitiu a
promoção de indústrias de bens intermediários e de capital, tais como produtos

111 ƒ‘–‘ǡ —‹‘ ȋͳͻͻͶȌǢ Impact of Trade and FDI Liberalization Policies on the
Malaysian …‘‘›ǡ’ƒ‰‡Ͷ͸͵Ǥ
112 Ibid page 464

| 173
CEIC / UCAN

químicos, cimento, alumínio, aço e equipamentos de transporte. Além desses sec-


tores, o Governo, juntamente com o sector privado, procurou desenvolver outras
indústrias, como a de processamento de alimentos, fabrico de máquinas eléctricas
e máquinas em geral, indústrias de ferro e aço, têxteis, refinarias de petróleo e
indústrias de produtos metálicos.

Empresas orientadas para a exportação ajudaram a economia da Malásia a


ganhar competitividade no mercado internacional, tornando-se mais produtiva e
eficiente. Produzir apenas para satisfazer a procura interna não era suficiente se
o país quisesse realmente consolidar o processo da diversificação da economia.

Possíveis lições para Angola

Angola pode aprender com a experiência da Malásia, olhando mais atentamen-


te para o padrão de diversificação económica feita por este país e seguir os bons
exemplos que se adaptam ao contexto angolano.

A Malásia começou por diversificar o sector agrícola, investindo na produção


de outras culturas além de borracha, tais como óleo de palma, cacau e outros. O in-
teressante é a atitude de orientação para o mercado que foi incutida entre os agri-
cultores; a produção não foi apenas para o mercado interno, mas essencialmente
para exportação. Esta atitude ajudou a desenvolver os agricultores comerciais de
grande porte que produzem para exportar.

Angola pode bem seguir o mesmo exemplo. O desenvolvimento da agricultura


em Angola é crucial para promover o processo de diversificação da economia mas
para tal, o país precisa de incentivar a agricultura comercial, que é orientada para
o mercado, e não apenas a de subsistência. Agricultores de pequena escala devem
ser apoiados para vender parte dos seus produtos no mercado interno e outra
para exportar e receber qualquer ajuda que possam necessitar para que alguns se
tornem grandes agricultores e ganhem competitividade no mercado internacional.
A participação da agricultura no PIB angolano é relativamente pequena, cerca de
5% em média, de acordo com as Contas Nacionais do INE, um número que mostra
que muito trabalho pode ser feito neste sector.

O sector industrial foi outra prioridade da Malásia. Em 1967, o Governo da Ma-


lásia estabeleceu The Malaysian Industrial Authority, instituição agora conhecida
como The Malaysian Investment Development Authority (MIDA), que tem a missão
especial de promover e apoiar o investimento no sector industrial e dos serviços.
Na sede desta instituição altos representantes de agências governamentais-chave
estão presentes para aconselhar os investidores sobre as políticas e procedimentos
do Governo.

174 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

O Governo da Malásia investiu seriamente no desenvolvimento de infra-estru-


turas que permitiram a expansão do sector industrial no país. Infra-estruturas tais
como estradas, portos, aeroportos, telecomunicações e parques industriais podem
ser facilmente encontrados na Malásia e são de grande importância para o de-
senvolvimento da economia local e do comércio internacional. Para promover as
exportações, zonas industriais ou económicas livres (ZIL) foram desenvolvidas para
atender às necessidades de indústrias orientadas para a exportação.

As empresas em zonas industriais têm direito a duty free de importações de


matérias-primas, componentes, peças, máquinas e equipamentos directamente
necessárias ao processo da produção. Há cerca de 18 zonas industriais livres na
Malásia que estão totalmente equipadas com infra-estruturas, como estradas,
energia eléctrica e abastecimento de água e telecomunicações.

Em geral, as indústrias na Malásia estão localizadas principalmente em par-


ques industriais e há mais de 200 em todo o país, estando continuamente a ser
desenvolvidos não só pelo Governo, mas também por promotores privados para
satisfazer a procura.

Para diversificar a sua economia, Angola tem de investir no desenvolvimento de


boas infra-estruturas que permitirão que as indústrias funcionem sem sobressaltos
ou problemas. É verdade que um grande esforço vem sendo feito pelo Governo
para reconstruir as infra-estruturas, mas também devem ser feitas diligências para
garantir a qualidade e durabilidade destas infra-estruturas.

O desenvolvimento de Zonas Económicas / Industriais Livres deve ser outra


prioridade do Governo para apoiar a expansão de indústrias em todo o país.
Nestas zonas, infra-estruturas tais como estradas, energia eléctrica, telecomu-
nicações e água devem ser de boa qualidade. As indústrias que operam nestas
zonas devem ser incentivadas a produzir não só para o mercado interno, mas
também para exportação, para forçá-las a ganhar competitividade no mercado
internacional.

Até ao momento, há somente uma zona económica em Angola, que é conheci-


da como Zona Económica Especial Luanda-Bengo. Esta zona económica foi criada
em 2009 pelo decreto presidencial n.o 50/09, de 11 de Setembro, e um dos seus
principais objectivos é diversificar a estrutura económica, reduzir o nível de impor-
tações e promover as exportações. A zona económica Luanda-Bengo cobre uma
área de 8.300 hectares e tem a capacidade de albergar 73 fábricas, mas actualmen-
te apenas 22 fábricas estão efectivamente em funcionamento.

| 175
CEIC / UCAN

Olhando para o exemplo da Malásia, parece que a criação de zonas económicas


em todo o país é uma boa política para promover a industrialização e diversificação
da economia.

4.3 Experiência colonial

Introdução

A estrutura económica de Angola, até final da década de 1950, reflectia o desíg-


nio a que o território estava votado como colónia e integrado no chamado espaço
comum português: fornecedor de produtos primários, economia de exploração e
mercado privilegiado da indústria transformadora e de vinhos portugueses. Não
existiam, praticamente, infra-estruturas industriais, os investimentos eram desen-
corajados e a penetração de capitais estrangeiros igualmente desencorajados por
via de uma forte regulamentação.

A incipiente indústria transformadora baseava-se na refinação do açúcar, na


manipulação do tabaco, na produção de cerveja e refrigerantes, na fabricação de
cimento, nos têxteis e confecções, na saboaria e refinação de óleos alimentares, no
desfibramento do sisal e do algodão e nos derivados da pesca (conservas, farinha
e óleo de peixe); uma indústria assente em processos tecnológicos simples, com
pouco valor acrescentado e concentrada em produtos de consumo final, com pre-
domínio do capital português uma vez que o capital internacional se concentrava
no sector mineiro (diamantes, ferro, manganês e cobre) e no caminho-de-ferro de
Benguela.

Na ausência de informação sobre indicadores globais sobre a produção com


que habitualmente se caracteriza a estrutura económica de uma região, recor-
reu-se, pela relativa abundância de dados, à análise da estrutura do comércio
externo, por a composição das exportações e importações de um dado território
evidenciar os bens, cuja produção esse território goza de superioridade ou in-
ferioridade. Por outro lado, ao traduzir o sentido em que as condições de custo
orientaram a especialização da produção, reflectiram, de certo modo, as disponi-
bilidades de factores produtivos do território. Assim, apresentamos em seguida
a análise da estrutura do comércio externo de Angola, com base na classificação
pautal, de uma média amostral representativa das mercadorias transaccionadas
entre 1953 e 1957.

176 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

(Médias de 1953-1957)
COMÉRCIO POR CLASSES PAUTAIS
Importação Exportação
Classes pautais
Contos % Contos %
I Animais vivos 2 397,00 0,08% 419,00 0,01%
1 032
II Matérias-primas 419 041,00 14,35% 32,38%
855,00
II &ŝŽƐ͕ƚĞĐŝĚŽƐ͕ĨĞůƚƌŽƐĞƌĞƐƉĞĐƟǀĂƐŽďƌĂƐ 456 656,00 15,63% 317,00 0,01%
2 140
IV ^ƵďƐƚąŶĐŝĂƐĂůŝŵĞŶơĐŝĂƐ 546 371,00 18,70% 67,09%
050,00
Aparelhos, instrumentos, máquinas (...),
V 926 019,00 31,70% 3 817,00 0,12%
ĞŵďĂƌĐĂĕƁĞƐĞǀĞşĐƵůŽƐ
VI Manufaturas diversas 570 548,00 19,53% 12 142,00 0,38%
3 189
Total 2 921 032,00 100,00% 100,00%
600,00
FONTE: Estrutura do Comércio Externo de Angola, Junta de Investigação do Ultramar, n.o 28, Centro de Estudos Políticos
e Sociais,1959.

ƚĂďĞůĂĠĚĞŵŽŶƐƚƌĂƚŝǀĂĚĞƋƵĞĐĞƌĐĂĚĞϯϮйĚŽǀĂůŽƌĚĂŝŵƉŽƌƚĂĕĆŽĠĐŽŶƐƚŝƚƵşĚŽ
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ZĞĐŽƌƌĞŶĚŽ ă ĐůĂƐƐŝĨŝĐĂĕĆŽ ƋƵĞ ĚŝƐƚŝŶŐƵĞ ŽƐ ďĞŶƐ ƚƌĂŶƐĂĐĐŝŽŶĂĚŽƐ ĐŽŶƐŽĂŶƚĞ
ƐĂƚŝƐĨĂnjĞŵĚŝƌĞĐƚĂŽƵŝŶĚŝƌĞĐƚĂŵĞŶƚĞĂƐŶĞĐĞƐƐŝĚĂĚĞƐĚŽĐŽŶƐƵŵŝĚŽƌ͕ŽƵƐĞũĂ͕ƌĞƐ-
ƉĞĐƚŝǀĂŵĞŶƚĞ͕ ďĞŶƐ ĚĞ ĐŽŶƐƵŵŽ ŽƵ ĚŝƌĞĐƚŽƐ Ğ ďĞŶƐ ĚĞ ƉƌŽĚƵĕĆŽ ŽƵ ŝŶĚŝƌĞĐƚŽƐ͕
ĐŽŵŽĂƵdžşůŝŽĚĂƚĂďĞůĂƐĞŐƵŝŶƚĞ͕ĞƐŵŝƵĕĂŵŽƐĞƐƐĂĐĂƚĞŐŽƌŝĂĚĞďĞŶƐ͘

(Médias de 1953-1957)
COMÉRCIO POR GRANDES CATEGORIAS DE BENS
Importação Exportação
ůĂƐƐĞƐĚĞďĞŶƐ
Contos % Contos %
Bens de Produção 817021 38,66 889621 28,89
ŶĞƌŐŝĂ 157993 7,48 0
Matérias-primas 123482 5,84 889621 28,89
Equipamento 535546 25,34
Bens de Consumo 1296412 61,34 2189868 71,11
Alimentos 454460 21,50 2189868 71,11
KƵƚƌŽƐďĞŶƐĚĞĐŽŶƐƵŵŽ 841952 39,84
Bens de Produção e de Consumo 2113433 100,00 3079489 100,00

| 177
CEIC / UCAN

Regista-se um predomínio dos bens de consumo sobre os bens de produção,


tanto na importação como na exportação, sendo este predomínio mais acentuado
no caso das exportações e que a participação dos bens de consumo nos totais da
importação e da exportação traduz-se, respectivamente, em 61% e 71%.

Com relação à importação, o grupo principal, que atinge cerca de 40%, é o de bens
de consumo não alimentares, e, apesar de terem sido incluídos catorze produtos nes-
te grupo, só aos tecidos de algodão cabem 14,4% do valor da amostra considerada.

Relativamente aos grupos seguintes, o da energia é constituído na sua maior


parte — 86% do valor do grupo — por combustíveis líquidos, e o das matérias-pri-
mas inclui três produtos semi-manufacturados, isto é, matérias-primas em sentido
amplo: ferro fundido, aço em bruto e cimentos113.

Relativamente à composição das exportações, a observação da respecti-


va amostra permite constatar que os alimentos — 71% — e as matérias-primas
— 29% — constituem quase a totalidade da exportação. É de registar, segundo
Ferreira dos Santos & Gaspar Rabaça, que não obstante no grupo dos alimentos
estejam incluídos onze produtos, só o café representa 50% do valor da amostra
considerada para a exportação. Observa-se ainda que alguns produtos incluídos
por esse grupo não são bens alimentares acabados, mas matérias-primas para de-
terminadas indústrias alimentares. Inserem-se neste grupo as ramas de açúcar,
de amendoim, de milho e, em certa medida, de café. Por outro lado, os alimentos
exportados são, em grande parte, constituídos por produtos semiacabados, ao in-
vés do que acontece com os alimentos importados, que, à excepção da farinha de
trigo, são, na maior parte dos casos, produtos acabados.

Uma melhor percepção da estrutura económica subjacente na década de 1950


pode ser retida recorrendo à composição das exportações patentes na tabela abaixo.

(Percentagens médias de 1953-1957)


CONTRIBUTO DOS DIVERSOS SECTORES ECONÓMICOS
PARA O COMÉRCIO DE EXPORTAÇÃO
ĞƐƟŶŽƐ Matérias-primas
Alimentos Para indústrias Para outras Totais
Origem
alimentares indústrias
Agricultura, silvicultura e pecuária 50,9 9,6 14,1 74,6
Pesca 10,6 0 1,3 11,9
Subsolo 0 0 13,5 13,5
Total 61,5 9,6 28,9 100
FONTE: Junta de Investigações do Ultramar, Centro de Estudos Políticos e Sociais, n.o 28,1959.

113 ƒ–‘•ǡ ‡””‡‹”ƒ†‘•Ƭ


ƒ•’ƒ”ǡƒ„ƒ­ƒǡͳͻͷͻǡEstudos de Ciências Sociais e Políticas,
28, Estrutura do Comércio Externo de Angola.

178 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Verifica-se que perto de 75% da exportação tem origem na agricultura, silvi-


cultura e pecuária e que o contributo deste sector é constituído em grande parte
por alimentos — 50,9% da exportação —, uma vez que o café foi incluído nesta
categoria e não na categoria de matérias-primas. De realçar que a exportação ori-
ginária da agricultura, além de incluir produtos que são exportados sem qualquer
transformação — como o milho, coconote, feijão e amendoim — inclui igualmente
produtos sujeitos a pequenas transformações — como café, sisal, ramas de açúcar,
óleo de palma, arroz, madeira serrada e outros.

A exportação originária das indústrias extractivas ronda os 13,5%, e a prove-


niente da actividade piscatória 11,9%, constituída na totalidade por produtos desta
actividade resultantes de transformação local (conservas, farinhas e óleo de peixe).

Da tabela em análise igualmente se constata que as exportações provêm quase


exclusivamente do sector primário e que a participação de produtos resultantes da
laboração de indústrias transformadoras é reduzida ou inexistente.

Por outro lado, verifica-se que, em última análise, a especialização interna da


produção se operou sob a influência de um forte predomínio do factor produtivo
terra — ou natureza — , relativamente aos restantes factores de produção. Com
relação ao factor capital, dada a exiguidade do mercado interno, determinada por
um baixo rendimento per capita e pelas reduzidas necessidades da maior parte da
população, aliadas a incipientes infra-estruturas, os capitais privados dirigiram-se
preferencialmente para o sector exportador, ou seja para aquele em que existe
um mercado já formado, ficando a cargo do principal exportador de capitais — a
metrópole — a missão de satisfazer uma importante parcela da procura interna de
bens industriais114.

Processo de industrialização

A partir da década de 60 verificou-se uma viragem na política colonial portu-


guesa, especialmente no que se refere a Angola, que, segundo Torres115, constituiu
a passagem do pacto colonial tradicional para um novo pacto colonial, em que a
industrialização do território, apesar de paradoxal, passou a ser condição básica.
Essa mudança de paradigma da política portuguesa se deveu ao facto de Portugal
estar a confrontar-se com novos desafios decorrentes da mundialização progres-
siva da economia internacional e pela necessidade de responder aos imperativos
da integração progressiva na CEE, que começava a preparar. Neste contexto, para

114 ƒ–‘•ǡ ‡””‡‹”ƒ†‘•Ƭ


ƒ•’ƒ”ǡƒ„ƒ­ƒǡͳͻͷͻǡEstudos de Ciências Sociais e Políticas,
28, Estrutura do Comércio Externo de Angola.
115 Torres, A. 1983, Análise Socialǡ˜‘ŽǤ ȋ͹͹Ǧ͹ͺǦ͹ͻȌǡ͵Ǥo,4.o 5.o, 1101-1119.

| 179
CEIC / UCAN

poderem suportar com certa margem de manobra económica e também política,


a concorrência da chamada nova ordem económica internacional, as autoridades
portuguesas propõem alterar algumas coordenadas do espaço económico metro-
politano-colonial, que consistia numa restruturação simultânea da economia da
metrópole e da colónia, e passava pela deslocação das indústrias no interior do
chamado espaço económico português. Por outro lado, a alteração da correla-
ção de forças na arena internacional devido à entrada dos recém-independentes
países africanos, veio exercer uma pressão externa considerável sobre a política
colonial em África e na estratégia de reestruturação, situação que foi agravada e
complementada, em 1961, com o início das lutas armadas de libertação dos Povos
das Colónias Portuguesas.

Como reacção às revoltas de Fevereiro e Março de 1961, as autoridades colo-


niais apressadamente antecipam o processo de reformas e dão início à viragem
que se vai caracterizar por modificações importantes nos aspectos político, social
e económico.

Do ponto de vista político intensificaram acções conducentes ao aumento da


imigração europeia no território que se consubstanciaram no aumento da pre-
sença de militares e suas famílias e na criação de colonatos. Foram instituídos os
mercados rurais como instrumentos destinados a estabilizar a produção agrícola
camponesa que passou a ser apoiada através das campanhas de estabilização da
agricultura itinerante e de subsistência, com a finalidade de organizar a vida rural
e criar uma classe de pequenos agricultores estabilizados.

No campo social as reformas permitiram um maior acesso dos angolanos ao


sistema de ensino e aos postos intermédios da Administração Pública, a relações
de trabalho mais justas e maior apoio à agricultura camponesa.

O território foi aberto aos investimentos nacionais (portugueses) e estrangei-


ros e os Planos de Fomento, com particular destaque para o III e IV planos, a con-
sagrarem parte dos investimentos previstos em infra-estruturas.

No âmbito legislativo, foram igualmente tomadas diversas medidas de forma a


permitirem ao Governo-geral, maior poder decisório sobre certas matérias relati-
vas ao fomento económico e a industrialização. Merecem destaque, pelo papel es-
truturante na economia e no processo de industrialização, as seguintes medidas116:

ͻ O Decreto-Lei n.o 46666, de 24 de Novembro de 1965, que definiu as novas


regras e filosofia a seguir no tocante ao condicionamento industrial, sujeitando

116 Ferreira, Manuel Ennes, ƒ…‹‘ƒŽ‹œƒ­ ‘‡‘ϔ‹•…‘†‘ƒ’‹–ƒŽ‘”–—‰—²•ƒ †ï•–”‹ƒ

Transformadora de Angola (1975-1990), 2002, Análise Socialǡ˜‘ŽǤ ȋͳ͸ʹȌǡͶͲǦ͹ͲǤ

180 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

determinadas indústrias ao condicionamento nacional e outras ao condiciona-


mento territorial, o que permitiu a implantação de novas indústrias. A título
de exemplo, refira-se que com esta lei, 99% das indústrias passaram a ficar
abrangidas pela competência directa do governador-geral de Angola em matéria
de autorização de instalação.

ͻ O Decreto-Lei n.o 478, de 8 de Novembro de 1971, da província de Angola, que,


ao regular o novo sistema de pagamentos interterritorial, irá traduzir-se num
importante instrumento proteccionista das actividades económicas provinciais.

ͻ Paralelamente, e entre diversa legislação, registem-se ainda o Decreto-Lei


n.o 46 312, de 26 de Abril de 1965, relativo a um novo código de investimentos,
o Decreto-Lei n.o 48 581, de 16 de Setembro de 1968, que oferecia isenções
fiscais às indústrias a implantar nas colónias, o Diploma Legislativo n.o 3945,
de 21 de Outubro de 1969, isentando de pagamento da contribuição industrial
as novas empresas que instalassem novas unidades na província, o Decreto
n.o 177 de 1971, concedendo isenção automática de direitos aduaneiros para
matérias-primas e bens de equipamento, e o despacho e o aviso do Gover-
no-Geral de Angola datados, respectivamente, de 17 e 18 de Janeiro de 1972.
O primeiro, ao inserir disposições sobre a concessão de licenças de bens de
equipamento, e o segundo, estabelecendo os critérios de prioridade a con-
siderar na emissão de boletins para importação de mercadorias, pagamento
de invisíveis correntes e exportação de capitais privados.

Apesar de não haver consenso entre os estudiosos da economia angolana so-


bre quando é que verdadeiramente a industrialização começou, todos são unâ-
nimes em reconhecer, e os registos estatísticos o evidenciam, que ocorreu em
Angola, não obstante o contexto político de contestação da presença portuguesa,
um espectacular crescimento económico no período de 1961-1973, em particular
no sector industrial, com uma taxa anual de crescimento VBP de 19% e de 22% no
período de 1965-73, depois de publicada a nova legislação sobre o condiciona-
mento industrial117. É de realçar que este processo de crescimento dos sectores
económicos se realiza com sanidade das finanças públicas, transparência da gestão
macroeconómica e, ainda de acordo com Costa Oliveira, é resultado do grande
propósito estratégico que foi a industrialização da colónia, a mais representativa
do “Império Colonial Português” pela quantidade, diversidade e riqueza dos seus
recursos naturais. Que esse propósito estratégico teve dois períodos temporais
de implementação: o primeiro, de 1961 até 1969, consagrado ao lançamento das
bases para a grande arrancada industrial e o segundo, de 1969 a 1973, dedicado às

117 Prefácio do Dr. Costa Oliveira, in I†—•–”‹ƒŽ‹œƒ­ ‘†‡‰‘Žƒǣ‡ϔŽ‡šÙ‡••‘„”‡ƒš’‡”‹-

ência da Administração Portuguesaǡͳͻ͸ͳǦͳͻ͹ͷǡƒƒ”‹ƒ‡–‘Ǥ‹•Š‡”ǡͳͻͻͳǤ

| 181
CEIC / UCAN

políticas de crescimento económico e de industrialização. São do primeiro período,


a publicação do primeiro manual sobre o sector mineiro (4 volumes), um estudo
sobre o aproveitamento dos excedentes de energia pelo sector industrial, um es-
tudo aprofundado sobre o desenvolvimento regional de Angola, um outro virado
para a industrialização do território e dois extraordinários trabalhos sobre desen-
volvimento económico de Angola, ainda hoje referências incontornáveis para a
História Económica de Angola118. No segundo período e até 1973, a nível institu-
cional ocorreram reformas e ajustamentos como a criação da Secretaria Provincial
de Planeamento e Finanças (tentativa de união do curto e a perspectiva de estra-
tégica de longo prazo) e a elaboração da Estratégia de Desenvolvimento Industrial.

É neste contexto de reformas que a estrutura económica de Angola experi-


menta transformações significativas e a indústria transformadora emerge e, aos
poucos, passou a satisfazer parte da procura interna.

As transformações estruturais entre 1960-1973

Entre 1960, prelúdio da guerra de libertação e 1973, prólogo da independência,


ocorreram, de acordo com Ana Maria Neto e Escher119, algumas transformações
estruturais na colónia. O peso do sector primário baixou de 32% em 1966, para
23% em 1970, sinais de ganhos de produtividade, enquanto se incrementava a
participação relativa das actividades dos sectores secundário (14% em 1966 e 2%
em 1970) e terciário (para os mesmos anos , 54% e 56%).

No sector secundário, conforme ilustra a tabela abaixo, foi a indústria transfor-


madora que mais cresceu, com uma taxa média de variação anual de 19,3% (com
dinâmicas interessantes das indústrias alimentares, têxtil, bebidas, tabaco, papel e
pasta de papel, produtos minerais não metálicos e química).

O fenómeno da urbanização é uma parte da explicação para os níveis de in-


formação ilustrados pelos indicadores da tabela anterior, uma vez que em 1960,
o coeficiente de urbanização rondava pelo valor de 9%, e em 1970 atingiu os 15%.
Ou seja, importantes contingentes de população rural deslocaram-se para os gran-
des centros urbanos, em particular Luanda, Lobito, Benguela e Huambo.

O coeficiente de industrialização apresentou valores relevantes, com 41%; con-


siderando-se a extractiva e 25% só com a indústria transformadora, o que é o mais
importante.

118Walter Marques, Problemas do Desenvolvimento Económico de Angola 1965/1966,


Imprensa Nacional de Angola.
119 In obra acima citada.

182 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

INDICADORES ECONÓMICOS E DA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA


PIB Prod. Grau Indust. Grau Exp. džƉ͘ŝŶĚͬ
(mil contos) indust. indust. trans. indust. indust. Pr.ind
1960 11607 2453 21,1 1420 12,2 142 10,0
1963 14820 3858 26,0 2450 16,5 198 8,1
1965 19200 4841 25,2 3024 15,8 389 12,9
1968 28299 7964 28,1 4918 17,4 379 7,7
1970 40076 13915 34,7 8240 20,6 1181 14,3
1971 42078 15670 37,2 9540 22,7 1418 14,9
1972 45865 18851 41,1 11359 24,8 1045 9,2
1973 58707 24317 41,4 14539 24,8 1513 10,4
Tx. cresc. (%) 13,3 19,3 5,3 19,6 5,6 20 0,3

Do mesmo modo, as exportações industriais começaram a ganhar relevo, em-


bora com um desempenho médio no período inferior a 0,5% em crescimento mé-
dio anual. O processo de industrialização, reclamado pelos empresários lusos em
Angola, justificado pelas potencialidades do território em recursos naturais, exigido
pelas necessidades de melhoria das condições de vida da população, reivindicado
pelos objectivos de unidade territorial, legitimado pelos imperativos metropolita-
nos de criação de uma zona de trocas livres entre os territórios da “nação“ por-
tuguesa, assentava no modelo de crescimento de substituição das importações;
era fortemente dependente de importações, dada a incipiência do tecido empre-
sarial local e beneficiou, no seu início, da criação do Fundo Monetário da Zona
do Escudo, que garantia a cobertura financeira das compras feitas ao estrangeiro
(predominantemente à metrópole), em situação de saldo devedor da Balança de
Pagamentos. Este Fundo era parte integrante do Sistema de Pagamentos Interter-
ritoriais criado em 1962 e da Zona Monetária do Escudo, dentro do propósito da
instituição do Mercado Único Português.

Foi durante os anos 60 que a indústria transformadora se modernizou e se tor-


nou capaz de satisfazer crescentemente uma procura interna de maior valor agre-
gado, reforçada pela melhoria geral dos rendimentos, pelos contingentes militares,
pela emigração portuguesa e pelas melhorias, relativas, de rendimento da popula-
ção negra derivadas da crescente monetarização dos circuitos comerciais dos pro-
dutos agrícolas e da produção agrícola familiar. Porém, as estatísticas revelam que
nem tudo correu como seria de esperar e desejar, de acordo com os objectivos po-
líticos e as potencialidades de recursos. A estrutura industrial transformadora não
mostrou excepcional habilidade de deixar de estar assente em indústrias ligeiras
de processamento tecnológico simples.

| 183
CEIC / UCAN

ESTRUTURA DA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA EM ANGOLA


1962 1965 1968 1971 1973 Tx. cresc.120
Alimentação 25 28 33 42 36 3,37%
Produtos derivados do petróleo 12 10 10 5 4 -9,50%
Têxteis 12 13 10 13 12 0,00%
Bebidas 11 14 12 10 11 0,00%
Químicos 11 11 8 7 5 -6,92%
Tabaco 7 7 6 5 5 -3,01%
Produtos minerais 6 8 6 6 5 -1,64%
Pasta de papel e derivados 2 4 3 4 3 3,75%
ƌƟŐŽƐĚĞďŽƌƌĂĐŚĂ 1 1 3 3 2 6,50%
Produtos metálicos 1 2 3 3 4 13,43%
Material eléctrico 0 1 1 1 1 –
Material de transporte 0 0 0 3 2 –
Diversos 11 5 3 9 8 -2,85%

Conforme ilustra a tabela anterior, a maior parte das actividades de transfor-


mação regrediram na sua participação relativa no tecido industrial, em especial as
químicas e os derivados do petróleo. Como referências de destaque em termos de
acrescento de valor agregado relativo surgem as indústrias dos produtos metáli-
cos, os artigos de borracha e a pasta de papel e derivados.120

A grande maioria das empresas e estabelecimentos industriais era de pequena


dimensão e o capital investido por trabalhador, a despeito de um crescendo no
seu valor entre 1956 e 1970, correspondia a tecnologia de média complexidade,
ajustada, de resto, às habilidades trabalhistas existentes na época (veja-se tabela
abaixo).

;ĐĂƉŝƚĂůĞŵŵŝůŚĂƌĞƐĚĞĐŽŶƚŽƐĞĐŽĞĮĐŝĞŶƚĞĐĂƉŝƚĂůͬƚƌĂďĂůŚŽĞŵĐŽŶƚŽƐͿ

FACTORES DE PRODUÇÃO NA INDÚSTRIA


ĂƉŝƚĂůͬ dƌĂďĂůŚŽͬ
Estabelecimentos Empregados Capital
trabalho estabelecimentos
1956 1960 41834 1692 40,45 21,3
1960 2725 55068 2429 44,11 20,2
1965 3886 67991 3894 57,27 17,5
1970 5587 58736 6289 107,07 10,5

120 Estas taxas de variação média anual referem-se à participação relativa de cada acti-

˜‹†ƒ†‡”‡ˆ‡”‹†ƒƒ–ƒ„‡Žƒ‡‡†‡ǡƒϐ‹ƒŽǡƒ…ƒ’ƒ…‹†ƒ†‡†‡‘†‹ϐ‹…ƒ­ ‘‡•–”—–—”ƒŽ†‡
cada uma delas no seu posicionamento relativo face às demais. Não são taxas de cresci-
mento da produção ou valor dessas atividades de transformação.

184 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

A análise da relação da industrialização e a importação de todo o tipo de bens


mostrou que a importação de bens de equipamento e intermédios estabeleceu-se
em torno de 34% das importações totais em 1973, conforme ilustra a tabela que
em seguida se apresenta.

IMPORTAÇÕES DE BENS DE EQUIPAMENTO E INTERMÉDIOS (mil contos)


Tipo de bens 1955 1960 1965 1968 1971 1973 Tx. cresc.
Veículos auto e acessórios 261 332 560 878 1332 1243 9,1%
Aço, ferro fundido e macio 216 210 370 864 996 1111 9,5%
Material para caminho-de-ferro 59 147 176 192 58 171 6,1%
Tractores 50 83 149 149 290 212 8,4%
Máquinas e aparelhos industriais 133 237 167 439 721 1245 13,2%
Máquinas e aparelhos agrícolas 35 35 28 39 89 85 5,1%
Ferramentas 18 35 49 78 171 195 14,2%
Motociclos, velocíp. e acessórios 9 16 51 49 61 70 12,1%
Fios e cabos eléctricos 20 21 16 47 48 65 6,8%
Produtos químicos diversos 11 24 28 33 58 85 12,0%
Adubos 32 34 38 48 139 202 10,8%
% nas importações totais 25 31 26 32 32 34 1,7%

As importações mais dinâmicas no período considerado foram as de equipa-


mentos industriais, ferramentas, adubos, motociclos e produtos químicos diversos,
comprovando-se que a colónia estava ainda em processo de construir a sua base in-
dustrial. Com efeito as indústrias que sustentam a industrialização — a metalomecâ-
nica, a química, a siderurgia — tinham ainda um carácter incipiente, ou não existiam.
Com relação às exportações, não se verificou alteração do padrão dos períodos
anteriores. Nas principais exportações em 1973, não constavam muitos produtos
de transformação interna: petróleo (30% do total exportado), café (27%), diaman-
tes (10%), minério de ferro (6%), algodão em rama (3%) e sisal (2%)121.

FORMAÇÃO BRUTA DE CAPITAL FIXO NA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA (mil contos)


1966 1967 1968 1969 1970 Tx. cresc.
ĚŝİĐŝŽƐĞŽƵƚƌĂƐĐŽŶƐƚƌƵĕƁĞƐ 95 140 222 222 233 25,1%
Material de transporte 44 38 48 66 70 12,3%
Máquinas e outro material 126 347 375 483 529 43,1%
Outros bens de capital 57 6 13 11 10 -35,3%
TOTAL 322 531 658 782 842 27,2%

121 Faziam também parte da pauta de exportação o tabaco, a pasta de papel, o cimento,

os derivados de petróleo, a cera (em bruto ou preparada), os óleos essenciais para per-
fumaria, os couros e as peles.

| 185
CEIC / UCAN

Em relação à formação bruta de capital fixo, os investimentos que mais cres-


ceram entre 1966 e 1970 foram da área das máquinas e equipamentos industriais
(43,1% em taxa anualizada) e os edifícios e outras construções com 25,1%. A va-
riação média anual da FBCF foi de 27,2% no mesmo período (ver tabela anterior).

Conclusões

As taxas de crescimento patenteadas pela indústria transformadora, mesmo


considerando a modéstia dos valores da base de partida e a gama de produtos
industriais produzidas no período, representaram o início do processo de diversi-
ficação da economia.

Os resultados conseguidos, — em situação de contestação da presença portu-


guesa, com energia cara122, mão-de-obra especializada excepcional onerosa e de
origem metropolitana, mão-de-obra não qualificada instável e de baixa produti-
vidade, ausência de economias externas e carência de crédito de médio e longo
prazo —, foram espectaculares.

As indústrias transformadoras apresentavam, de um modo geral, baixos níveis


de complexidade tecnológica e fracos coeficientes de valor acrescentado bru-
to-produção, em virtude da grande maioria das aquisições intermédias importadas
serem produtos acabados ou semiacabados.

O modelo de industrialização seguido assentava na satisfação da procura inter-


na e na substituição das importações e era fortemente dependente de importa-
ções, dada a incipiência do tecido empresarial local.

O modelo de industrialização teve como suportes:

ͻ As antigas e a nova Lei do Condicionamento Industrial.

ͻ A descentralização industrial, que permitiu delegar nos Governadores de Dis-


trito a competência de autorização de determinados ramos da indústria e a
criação de Serviços de Economia nos Distritos.

ͻ O alargamento da competência do Governador-Geral e Governo Provincial em


domínios relacionados com o licenciamento industrial (antes reconhecidos
apenas a certos órgãos metropolitanos).

ͻ A elaboração e divulgação de diversos estudos sobre a problemática da indus-


trialização da colónia.

122 …‘•—‘†‡‡‡”‰‹ƒ•—„‹—†‡ͳ͸ͷ‹ŽŠÙ‡•†‡Š‡ͳͻ͸ʹǡ’ƒ”ƒͶͲ͸‹ŽŠÙ‡•†‡

Š‡ͳͻ͸ͺǡ—ƒ–ƒšƒ±†‹ƒƒ—ƒŽ†‡…”‡•…‹‡–‘†‡ʹͶΨǤ

186 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

ͻ A isenção de direitos aduaneiros sobre a importação de matérias-primas e


equipamentos industriais.

ͻ As restrições quantitativas e determinadas medidas protecionistas face a acti-


vidades congéneres da metrópole.

ͻ A concepção de garantias e do aval do Estado nas situações em que o inves-


timento/financiamento assumia proporções avultadas.

ͻ A isenção de direitos sobre as exportações.

ͻ As isenções de imposto para as indústrias de condicionamento nacional a


instalar na colónia.

ͻ A isenção da contribuição industrial, por cinco a dezoito anos, às indústrias a


instalar ou a reorganizar não sujeitas a condicionamento nacional.

ͻ A definição de zonas de desenvolvimento industrial.

ͻ A revisão das tarifas ferroviárias e de electricidade.

ͻ A construção de infra-estruturas essenciais (apropriadas ligações rodoviárias


às zonas industriais).

4.4 Indicadores de diversificação da economia nacional

A agricultura e a indústria são os suportes de um processo de industrialização


com diversificação, eficiência e sustentabilidade. Naturalmente, também as polí-
ticas correctas e ajustadas no domínio macroeconómico, como a monetária e a
orçamental. Os processos angolanos de industrialização – sem repetir o modelo co-
lonial, baseado na indústria ligeira e em salários baixos – e de diversificação estão
numa fase muito preliminar, provando-o a dificuldade aparentemente estrutural
de a indústria transformadora assumir uma representatividade forte no Produto
Interno Bruto e os obstáculos até aqui intransponíveis para a agricultura assumir o
essencial dos fornecimentos de matérias-primas transformáveis para a indústria.
As Contas Nacionais 2002-2012 do INE reportam um valor médio de 4,5% para o
peso relativo da manufactura no PIB e de cerca de 5% para a agricultura.

No Relatório Económico do CEIC aborda-se a questão da diversificação da eco-


nomia nacional desde 2009, quando, pela primeira vez, se apresentaram indicado-
res sobre as transformações estruturais dentro da manufactura e da economia em
geral. Um aspecto recorrente das análises do CEIC refere-se ao tempo, porquanto
as transformações conducentes à diversificação de qualquer economia requere-
rem (muito) tempo e, evidentemente, políticas ajustadas e eficazes.

| 187
CEIC / UCAN

O trade-off entre curto prazo e longo prazo em Angola coloca-se do modo se-
guinte:

a) No curto prazo, terão de ser estritamente mantidos os equilíbrios financeiros


conseguidos, ainda que dependentes em excesso do petróleo, e ganhar-se
competitividade pelos preços, sendo para isso fundamental reduzir os custos
de contexto acima enunciados. Esta abordagem pode permitir a manuten-
ção de ritmos de crescimento do PIB em redor de 7-8% ao ano, com efeitos
interessantes sobre a capacidade de geração de emprego e renda.

b) No longo prazo, a rota é a do aumento sustentado da produtividade e da


negociação de um contrato social sustentável de partilha justa dos ganhos
da diversificação entre trabalho, capital e tecnologia. A sustentabilidade
exige, simultaneamente, eficiência e crescimento económico, sem o qual
não haverá novos recursos para distribuir.

c) Os ganhos de eficiência podem, no entanto, ser exigentes em flexibilidade


salarial e mobilidade laboral, premissas algo incompatíveis com um contrato
social de pendor fortemente redistributivo. De resto, a elasticidade dos des-
pedimentos é, adicionalmente, reclamada pela equidade inter-geracional,
que pode pôr em causa o direito ao emprego permanente.

A vulnerabilidade do país deve-se a duas ordens de razões: a excessiva concen-


tração da actividade produtiva no petróleo e a falta de competitividade geral da
economia.

Como se tem sublinhado muitas vezes nestes Relatórios do CEIC, é insuficiente,


e mesmo arriscado, avaliar o processo de diversificação da economia pelo viés do
peso do PIB petrolífero na actividade económica global. Este indicador é muito
atreito às variações do mercado petrolífero internacional, pelo que as correspon-
dentes variações podem não corresponder a alterações estruturais internas.

O gráfico que em seguida apresentamos – extensão até 2013 das linhas tenden-
ciais apresentadas mais atrás, também em representação gráfica para o período
2002/2013 – permite confirmar estar-se ainda nas fases preliminares do processo
de transformações estruturais efectivas e consolidadas.

188 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

LINHAS TENDENCIAIS DE CRESCIMENTO DOS SECTORES ESTRUTURANTES


DA DIVERSIFICAÇÃO
20

15

10

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2007 2009 2010 2011 2012 2013

Agricultura, Pecuária e Florestas Indústria transformadora


Construção PIB

FONTE: CEIC, icheiro Estudo e Análise da Eiciência da Produção Nacional.

As informações seguintes pretendem estabelecer uma comparação entre o


comportamento do preço do petróleo e a evolução do rácio do PIB petrolífero.

A INSUFICIÊNCIA DA ANÁLISE DO PROCESSO DE DIVERSIFICAÇÃO


PELO PESO DO SECTOR PETROLÍFERO
2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
W/ƉͬW/ 40,58 41,3 48,21 45,31 48,24 49,7 39,05 43,48 47,49 46,19 46,76
Preço petróleo 28,2 36,1 50,0 61,4 72,4 93,9 60,9 77,8 110,3 111,5 107,7
FONTES: CEIC, Quadro Macroeconómico Comparativo, com base no Ministério dos Petróleos e nas Contas Nacionais.

Verifica-se que a variação da percentagem de participação do sector petrolífero


no Produto Interno Bruto está muito conectada com o preço do barril de petróleo
no mercado externo e seguramente também com a procura mundial.

Outro ângulo de análise que recoloca em discussão a validade do peso relati-


vo da actividade petrolífera como indicador de diversificação é dado pelo índice
da sua contribuição para o crescimento económico. Numa perspectiva de diver-
sificação, o seu valor deve tendencialmente diminuir, para se dar espaço a outros
sectores.

| 189
CEIC / UCAN

CONTRIBUIÇÕES PARCELARES PARA O CRESCIMENTO ECONÓMICO


14
12
10
8
6
4
2
0
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
-2
-4
-6
PIBp PIBnp PIBnm

As assimetrias na distribuição das despesas entre os cinco escalões de rendi-


mento considerados no IBEP e aglutinando-os em rural, urbano e nacional, mos-
tram que entre os 20% mais pobres e os 20% menos pobres as diferenças são
abissais, em redor de 850% em termos nacionais.

DIFERENÇAS ENTRE A DESPESA MÉDIA MENSAL DOS 20% MENOS POBRES


E DOS 20% MAIS POBRES
Média nacional Média urbana Média rural
Em número de vezes 9,5 7,3 6,7
Em percentagem 851,5 630,2 569,1
FONTE: INE, IBEP.

Não havendo, ou sendo exígua a dimensão económica do mercado interno, a


solução está na abertura ao exterior, colocando-se problemas essenciais no domí-
nio do controlo da inflação, da pauta aduaneira, da livre circulação de capitais e ren-
dimentos factoriais, da política cambial – como se sabe, uma das vias de melhorar
a competitividade aparente das economias –, da taxa de juro e da produtividade.

Um breve relance sobre a inflação comparada de alguns países europeus, la-


tino-americanos, asiáticos e sadcianos permite concluir que, na generalidade, An-
gola não é competitiva com nenhum deles, decorrendo, portanto, dificuldades em
disputá-los pela via dos preços, caso existisse alguma produção exportável de bens
transaccionáveis, com excepção do petróleo e dos diamantes. No capítulo sobre a
inflação está feita uma análise circunstanciada sobre a competitividade da econo-
mia nacional pela via dos preços.

Só em relação a alguns (poucos) países da África Subsariana os preços nacio-


nais são relativamente aproximados, embora as diferenças sejam, ainda assim,

190 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

elevadas no período 2005/2013 (a única excepção é a RDC). São necessários es-


forços mais contundentes de combate à alta de preços para que se possa, por esta
via, preparar terreno para o fomento de outras exportações de transaccionáveis.

A tabela seguinte mostra os valores de quatro indicadores que, usualmente,


se utilizam para medir o grau de diversificação das economias123. Qualquer deles
mostra um índice muito baixo de diversificação da actividade produtiva do país,
razão pela qual o seu grau de exposição a choques externos é muito maior, sem
que, na maior parte das vezes, a política económica nacional consiga contrariar os
seus efeitos negativos.

INDICADORES DE DIVERSIFICAÇÃO DA ECONOMIA ANGOLANA


2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
ÍDIEC 0,529 0,524 0,525 0,530 0,531 0,530 0,520 0,519 0,520 0,530 0,527
ITEI 0,363 0,313 0,938 1,615 1,510 1,996 3,044 0,118 0,175 0,253 0,275
ITEE 0,964 0,334 0,956 -0,141 0,963 0,148 2,195 1,104 0,811 -0,127 -0,299
ICAE 0,359 0,367 0,441 0,410 0,441 0,457 0,342 0,390 0,433 0,419 0,425
ǣ ǡ ‹…Š‡‹”‘Estudos sobre a Diversificação da Economia.

NOTAS: IDIEC – Índice de diversificação da economia; ITEI – Índice de transformação da estrutura in-
dustrial; ITEE – Índice de transformação da estrutura económica; ICAE – Índice de concentração da
actividade económica.

123À†‹…‡†‡ ‹”•…Šƒǡ—•—ƒŽ‡–‡—–‹Ž‹œƒ†‘’ƒ”ƒ‡†‹”‘‰”ƒ—†‡…‘…‡–”ƒ­ ‘

das exportações de um país, foi adaptado para medir o nível de concentração da activi-
†ƒ†‡‡…‘×‹…ƒ‡‰‘ŽƒǤÀ†‹…‡†‡†‹˜‡”•‹ϐ‹…ƒ­ ‘†ƒ‡•–”—–—”ƒ‡…‘×‹…ƒˆ‘‹…ƒŽ-
…—Žƒ†‘Ȃ†‡”‡•–‘ǡ…‘‘‘ƒ–‡”‹‘”ǡ–‡†‘‡ƒ–‡­ ‘ƒ•ͳͺʹƒ…–‹˜‹†ƒ†‡•‹†‡–‹ϐ‹…ƒ†ƒ•
na CTCI – sobre as actividades de extracção mineral. Os restantes índices comparam, no
tempo, as transformações ocorridas e foram calculados com base na estrutura econó-
mica e na estrutura industrial do país.

| 191
CEIC / UCAN

5. A DISTRIBUIÇÃO DO RENDIMENTO NACIONAL EM ANGOLA124

5.1 Considerações prévias

A desigualdade é uma situação em que uma parte substancial dos cidadãos não
tem condições de auferir um nível de rendimento compatível com a satisfação das
suas necessidades materiais e imateriais mínimas. E parece que o crescimento eco-
nómico, ainda que condição indispensável, não tem sido o factor suficiente para
se reduzirem as assimetrias entre pessoas e mesmo entre países. Este assunto foi
retirado do último livro de Joseph Stiglitz, intitulado The Price of Inequality (W. W.
Northen Company, 2013), no qual autor analisa o estado (e o preço) da desigual-
dade em vários países do mundo, com especial incidência nos Estados Unidos e
nos países petrolíferos, onde o modelo de acesso à renda do petróleo é a principal
fonte de desigualdade entre as pessoas, com não mais de 3% da população a deter
mais de 50% do rendimento nacional.

Angola é dos países mais desiguais do mundo, tomando 2012 como referência
e as tendências dos mais relevantes indicadores de desigualdade dos últimos 10
anos. Os progressos registados depois de 2002 são manifestamente insuficientes
para se perceberem alterações estruturais sustentáveis em direcção a uma maior
igualdade da repartição do rendimento nacional. As pessoas ricas são cada vez
mais ricas e as pobres e remediadas aumentam a um ritmo superior ao do cresci-
mento do PIB por habitante, numa base real. Mantendo-se este cenário durante
muito tempo, as bases da sustentabilidade do crescimento e da diversificação da
economia não chegam a ser construídas.

Não se trata apenas de trabalhar para que o país deixe as listas internacionais
que o classificam como least development country, mas principalmente de alterar
o modelo vigente de acesso e repartição da renda petrolífera, que tem claramente
beneficiado a elite política e empresarial. Os mecanismos de mercado não têm
capacidade de, só por si próprios, alterarem este modelo. Quanto mais se aprofun-
dar a economia de mercado, maiores serão as diferenças de rendimento entre os

124 Este capítulo do Relatório Económico de Angola de 2013 integra alguns dos resulta-

†‘•†‘–”ƒ„ƒŽŠ‘†‡‹˜‡•–‹‰ƒ­ ‘‡ˆƒ•‡†‡ϐ‹ƒŽ‹œƒ­ ‘‹–‹–—Žƒ†‘DzƒŽž”‹‘•ǡ‹•–”‹„—‹­ ‘
do Rendimento e Crescimento Equitativo”.

192 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

cidadãos angolanos e se não houver vontade política de liberalizar o rent-seeking


nacional – tornando-o mais transparente e inclusivo por intermédio de políticas
e medidas de democratização efectiva de oportunidades – então os progressos
serão sempre marginais.

Para Stiglitz, o rent-seeking é o processo político que ajuda os ricos a sê-lo a


expensas do resto da sociedade e pode assumir diversas facetas: transferências e
subvenções ocultas e públicas por parte do Estado, leis que tornam os mercados
menos competitivos, aplicação negligente de leis da concorrência existentes, aces-
so privilegiado a informação diversa e ao crédito, etc. Todas estas modalidades
existem em Angola, sendo por aqui que a maior parte da renda do petróleo se
transfere para a elite política e empresarial.

E evidentemente que na ausência de um Estado Social em Angola, a tendência


é para o agravamento da desigualdade nos próximos anos. Esta é a minha grande
preocupação para as gerações de jovens que se preparam para entrar na vida ac-
tiva e aceder à franja a que têm direito do rendimento nacional. A construção de
um Estado Social – na designação social-democrata de Bismark e nas concepções
mais refinadas que se seguiram e que foram facilitadas pelas políticas e resultados
dos 30 Gloriosos Anos – demora bastante tempo e é apelativo de uma efectiva e
inabalável vontade política em o fazer, que aparentemente inexiste no nosso país.
Se assim não fosse, o país tem, por enquanto, recursos financeiros suficientes para
tornar os cidadãos mais iguais entre si e nas oportunidades de criar rendimento.

Como se sabe, o Estado Social está em discussão numa Europa afectada por
uma crise de crescimento económico que não tem permitido a reprodução alarga-
da das suas principais componentes: educação, saúde e previdência, e segurança
social. Mas não só. A discussão ideológica entre Neoliberalismo e Estado Social
tem-se tornado dominante em contextos em que o crescimento económico pare-
ce escasso face às necessidades de aumento do emprego e dos impostos, fontes
importantes para a reprodução do sistema em bases alargadas. Mesmo nos países
nórdicos da velha Europa – Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca – o debate
está aceso. E o mais preocupante é que as teses de redução da intervenção social
do Estado parecem estar a ganhar adeptos, para quem a competitividade, numa
economia cada vez mais global, é o aspecto mais determinante da sobrevivência
dos países.

A Suécia, por exemplo, está a pôr em causa o seu secular modelo social de
desenvolvimento. O sintoma do aumento das desigualdades sociais neste país de
elevado índice de desenvolvimento humano tem sido as reivindicações e as mani-
festações populares que, desde 2006, têm-se registado em algumas das suas cida-
des. O mote tem sido a aumento da desigualdade social expressa nos indicadores

| 193
CEIC / UCAN

seguintes: o índice de Gini passou de 0,22 para 0,33 entre 1990 e 2011, a parte
do rendimento das famílias mais abastadas aumentou consideravelmente no ren-
dimento nacional, o rendimento disponível das 20% de famílias mais pobres tem
estagnado ou mesmo baixado nos últimos 20 anos e a taxa de pobreza relativa
passou de 6,5% em 1995 para 14% em 2011. Tudo isto apesar do Estado Social. Es-
tas tendências marcam uma profunda ruptura na história do modelo social sueco.
A sua força principal foi colocar no centro do seu desenvolvimento o investimento
social e o Estado-Providência generoso e universal, desconectando-se o acesso aos
serviços públicos de qualidade do poder de compra individual. Também a aplica-
ção de uma política voluntarista de redução das desigualdades – de que eu falava
mais atrás – que aumentou consideravelmente a mobilidade social dos suecos, de
um diálogo social vigoroso e de uma política de criação de emprego efectivo.

Angola está muito longe deste modelo, sendo portanto muito incerto que a de-
sigualdade deixe de aumentar no país. Por exemplo, a taxa de desemprego tem-se
mantido muito alta nos últimos 10 anos, apesar das elevadas taxas médias anuais
de variação do PIB. E este desemprego tem um custo económico e um custo social,
que pode ser avaliado de várias maneiras.

Para a economia, uma taxa de desocupação da população economicamente


activa de 25% a 30% pode significar a perda de oportunidade de se gerar um di-
ferencial de PIB da ordem de 50 mil milhões de dólares. Do ponto de vista social,
este desemprego equivale a uma perda de poder de compra das famílias pobres e
remediadas da ordem dos 6 mil milhões de dolares. E do ângulo das finanças públi-
cas, uma desutilidade de 900 milhões de dólares. Por isso é que o aumento do em-
prego e dos salários médios é um imperativo social e uma necessidade económica.

A análise e as discussões sobre o mercado de trabalho estão, desde há algum


tempo na agenda dos sindicatos, empresários e Governo: flexibilização do seu fun-
cionamento (acredita-se ser a melhor forma de incrementar a criação de emprego
líquido), regulação de alguns dos mecanismos de formação dos respectivos preços
(salários) e incremento da produtividade geral da economia. As posições dos dife-
rentes sindicatos sobre matéria salarial foram tornadas públicas depois do Diário
da República ter publicado o Decreto Presidencial 64/13 de 14 Junho, que aprovou
o reajustamento do vencimento mensal do Presidente da República e dos titulares
de cargos da Função Executiva do Estado: o salário mensal de base do Chefe de
Estado está fixado em 575500 kwanzas, acrescido de despesas de representação
de 345 mil kwanzas, um total de 920500 kwanzas.

O funcionamento do mercado de trabalho é algo complexo, sendo insuficiente


interpretá-lo na estrita abordagem da lei dos mercados de Jean-Baptiste Say. O sa-
lário, enquanto preço do trabalho (taxa horária, semanal ou mensal), não depende

194 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

apenas das quantidades oferecidas e procuradas desta mercadoria no respectivo


mercado. Existem outros factores a serem considerados no mecanismo de forma-
ção dos preços, como o custo de oportunidade do lazer (relacionado e integrado
na chamada “restrição orçamental familiar”) e a influência dos sindicatos.

Num mercado concorrencial perfeito – muitos ofertantes e demandantes de tra-


balho, sem poder de mercado relevante e em contexto de simetria de informação – o
valor do trabalho é determinado pela igualização do salário ao valor da sua produtivi-
dade marginal. No entanto, mercados perfeitos não existem e, portanto, a teoria eco-
nómica tem de incorporar, nos seus raciocínios, outras componentes. Na verdade,
pode acontecer que o aumento de uma unidade de salário no mercado de trabalho
não induza um incremento proporcional de oferta de trabalho da parte dos trabalha-
dores, devido à ocorrência de dois efeitos: o efeito-rendimento e o efeito-substitui-
ção, associados ao custo de oportunidade do lazer, anteriormente referido.

O papel dos sindicatos no funcionamento do mercado de trabalho é outro as-


pecto de enorme relevância. E a questão essencial é: com sindicatos, o mercado de
trabalha funciona melhor ou pior?

Olhando para o suporte teórico neoclássico, a actuação dos sindicatos repre-


senta uma interferência no livre funcionamento deste mercado e, consequente-
mente, na maximização da eficiência da alocação deste factor de produção. Nestas
abordagens mais liberais, o salário é um dado, não podendo o trabalhador influen-
ciá-lo, mas tão-somente ajustar a quantidade oferecida de trabalho, tendo em con-
ta os dois efeitos referidos mais atrás. Esta situação modifica-se com a introdução
dos sindicatos no mercado e com a crescente sindicalização dos trabalhadores,
que por esta via, podem negociar outros níveis salariais. Com efeito, a intervenção
dos sindicatos pode ajudar a manter ou mesmo criar emprego, mas com um custo
reflectido no aumento do desemprego a longo prazo: melhora-se a situação dos
trabalhadores actuais em detrimento de mais emprego no futuro.

Para as doutrinas mais intervencionistas e de maior pendor social, a actuação


dos sindicatos pode ajudar a melhorar a repartição do rendimento nacional pela
via da negociação de aumentos salariais que reponham o poder de compra dos
rendimentos do trabalho e consintam um diferencial de poupança para resguar-
do das vicissitudes do futuro125. Vale referir que os aumentos do consumo das
famílias consentidos por aumentos salariais contribuem para o crescimento das
economias, já que esta componente do Produto Interno Bruto é um dos factores

125…‘–”ƒ’ƒ”–‹†ƒ†‡•–ƒ•‡ŽŠ‘”‹ƒ••ƒŽƒ”‹ƒ‹•’‘†‡•‡”‘‡‘”‡‰ƒŒƒ‡–‘†‡–”ƒ„ƒ-

ŽŠƒ†‘”‡•’‘”’ƒ”–‡†ƒ•‡’”‡•ƒ•ǡƒ ‘•‡”“—‡ƒ’”‘†—–‹˜‹†ƒ†‡ƒ—‡–‡Ǥ2‘…‘Š‡…‹†‘
trade-off incremento salarial/diminuição de emprego.

| 195
CEIC / UCAN

de crescimento económico126. Mas o papel dos sindicatos também se tem revela-


do na melhoria das condições de trabalho nas empresas, associadas ao progresso
tecnológico e à maior qualificação dos trabalhadores.

Em Angola, os sindicatos são fracos, não dispondo de grande poder de reivin-


dicação. A maior central sindical é do partido político que tem o poder e a go-
vernação, não operando, portanto, como um verdadeiro centro de discussão do
mercado de trabalho nacional e das suas condições de funcionamento. Os resulta-
dos mais plausíveis são de aceitação das políticas do Governo e dos valores sala-
riais, por exemplo, do salário mínimo nacional. Os outros sindicatos ainda têm uma
reduzida expressão numérica em termos de associados e a sua capacidade de dis-
cussão política, avaliada de acordo com a sua dimensão em trabalhadores, é fraca.

Muitas vezes, defende-se que um dos meios de redução da pobreza é a cria-


ção de emprego. No entanto, o fenómeno da pobreza (extrema e não extrema)
é um fenómeno que se está a generalizar entre a população empregada, o que
remete parte da sua explicação para o valor económico dos salários praticados na
economia. Por isso, tenho defendido que uma das questões cruciais para melhor
se distribuir o rendimento nacional em Angola é a valorização dos rendimentos
do trabalho. Não se deve pensar apenas em criar novos empregos, porque se as
respectivas remunerações forem de pobreza, os efeitos sobre a repartição do ren-
dimento serão inexpressivos.

Não existem, em Angola, estatísticas sobre a pobreza entre os trabalhadores,


por conta própria ou por conta de outrem. Estudos mostram algumas evidências
em África:

ͻ Em Madagáscar, em 2005, mais de 80% dos trabalhadores por conta de outrem


eram pobres (menos de 2 dólares por dia) e mais de 50% sobreviviam com
salários inferiores a 1,25 dólares por dia.

ͻ Em Moçambique, no Burundi e no Congo mais de 50% não tinham consegui-


do franquear as barreiras da pobreza absoluta pela via dos salários auferidos
enquanto trabalhadores dependentes de patrões.

ͻ Camboja, Paquistão, Indonésia e Índia são outros casos de salários de miséria


para a maior parta da população empregada na economia.

126•„”—–ƒ‹•…‘”–‡••ƒŽƒ”‹ƒ‹•ȋƒ••‘…‹ƒ†‘•ƒ…”‡•…‡–‡•†‡•’‡†‹‡–‘•†‡–”ƒ„ƒŽŠƒ†‘-

”‡•ǡ“—‡”‘•‡…–‘”’”‹˜ƒ†‘ȂˆƒŽ²…‹ƒ†‡‡’”‡•ƒ•‡”‡†—­ ‘†ƒƒ…–‹˜‹†ƒ†‡‡…‘×‹…ƒ
Ȃ“—‡”‘’ï„Ž‹…‘Ȍ“—‡ƒŽ‰—•’ƒÀ•‡•‡—”‘’‡—•†ƒœ‘ƒ†‘‡—”‘–²ˆ‡‹–‘†‡•†‡Šž–”²•
ƒ‘•ǡ’‘”‹’‘•‹­ ‘†‡—ƒƒ—•–‡”‹†ƒ†‡“—‡’ƒ”‡…‡ ‘–‡”ϐ‹ǡ†‡ϐŽƒ…‹‘ƒ”ƒ†‡–ƒŽ
forma a procura interna, que as respectivas economias colapsaram no seu crescimento
‡…‘×‹…‘ǡ‡–”ƒ†‘—„—”ƒ…‘‡‰”‘†‡’”‡••‹˜‘†‡‘†‡•‡”ž†‹ϐÀ…‹Ž•ƒÀ”‡Ǥ

196 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

É nestas circunstâncias que tem sentido o salário mínimo nacional. O seu


impacto sobre a economia pode ser relevante, por diversas formas, mas essen-
cialmente pela incidência que seguramente tem na garantia de rendimentos do
trabalho acima dos limiares de pobreza. O Brasil (assim como a China, a Índia e
outros países asiáticos) tem sido o país mais citado na obtenção de relevâncias
positivas associadas à prática do salário mínimo. A sua estratégia de revalorização
do salário mínimo tem mais de 20 anos, mas acelerou-se depois de 2005, altura
em que, como parte do seu plano para promover o consumo interno – enquanto
alternativa às oscilações do mercado internacional e das exportações – os ajustes
regulares foram sistematicamente ligados à inflação e ao crescimento do PIB. Este
procedimento continuou a ser adoptado mesmo durante os anos da mais recente
crise económica e financeira internacional, quando a política salarial fazia parte do
pacote de medidas anti-cíclicas adoptadas em vários países.

5.2 Rendimento Nacional e a componente salarial

Os salários são a grande fonte de rendimento das famílias, seja em que país for,
e um factor de estímulo ao crescimento económico pela via do consumo privado.
Daí que todas as políticas tendentes ao aumento do seu valor – pelo controlo da
inflação, pela educação, pela valorização profissional, pela organização e reivindi-
cação sindical – contribuem para incrementar a sua participação no rendimento
nacional e assim melhorar a sua repartição funcional.

Via de regra, nas economias de mercado de forte pendor capitalista, as políticas


económicas estão muito mais viradas para o fomento e apoio do investimento pri-
vado do que para a valorização da componente salarial do processo produtivo127.

127 O sector empresarial angolano não tem sido capaz de aproveitar as excepcionais

…‘†‹­Ù‡•‡‘•”‡Ž‡˜ƒ–À••‹‘•ƒ’‘‹‘•“—‡‘•–ƒ†‘–‡’‘•–‘•—ƒ†‹•’‘•‹­ ‘Šž—‹-
tos anos: infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias, mas principalmente muitas e dife-
renciadas modalidades de crédito ao investimento. A despeito da taxa geral de crédito
à economia ter vindo anualmente a aumentar, nota-se, porém, um enviesamento na sua
estrutura, sendo o sector do comércio e de alguns serviços os mais representativos per-
centualmente no seu montante global. Os gestores e directores bancários queixam-se
de que os projectos de investimento apresentados pelos empresários não são bancá-
veis, isto é, estão mal formulados e não oferecem as garantias mínimas de reembolso.
‡”‡•–‘ǡƒ–ƒšƒ†‡‹ƒ†‹’Ž²…‹ƒƒ—‡–‘—ƒ‹•†‡ͷͲΨ‡ʹͲͳ͵‡ͺ͵ǡͷΨ‡ʹͲͳʹǡ
de acordo com relatórios sobre a situação bancária em Angola da KPMG – Angola e da
Deloitte (a construção e o comércio respondem por mais de 1/3 deste valor). Apesar
de uma redução do montante de crédito mal parado, a percentagem de aumento de
2012 para 2013 é muito elevada, com repercussões nos lucros bancários (aumento das
suas provisões para a cobertura de riscos) e no peso do crédito vencido no total de cré-
†‹–‘…‘…‡†‹†‘Ǥƒ†ƒ•”ƒœÙ‡•’ƒ”ƒ‡•–ƒ‡Ž‡˜ƒ†ƒ’”‡˜ƒŽ²…‹ƒ†‡…”±†‹–‘ƒŽ’ƒ”ƒ†‘±
o atraso dos pagamentos do Estado às empresas, situação recorrente desde que o pro-
cesso de reconstrução do país se iniciou em 2002.

| 197
CEIC / UCAN

Implicitamente, admite-se que o modelo de competitividade produtiva deve ter


como base salários baixos, aumentando-se a mais-valia e as margens de remunera-
ção do capital e da tecnologia. Acolhe-se a ideia de que esta forma de abordagem
da alocação dos factores de produção pode ter como efeito indirecto e secundário
maior criação de emprego, que também favorece – como se explicou no parágrafo
anterior – uma maior participação do trabalho no PIB. Ver o problema da competi-
tividade e da repartição do rendimento nacional desta forma pode ter, em Angola,
consequências graves sobre a intenção do MPLA e do seu Governo de “crescer
mais para distribuir melhor”, podendo os efeitos perversos associados a esta vi-
são pôr em causa o crescimento económico, a melhoria das condições sociais e
a redução da pobreza. A economia angolana tem de ser capaz, com os recursos
naturais de que dispõe e das fantásticas receitas que a sua exploração proporciona,
de moldar um crescimento económico inclusivo, mais nacional e mais equitativo.
A via do emprego e dos salários pode ser a única para isso, ou pelo menos a de
efeitos mais mediatos128.

As tendências dos salários variam de região para região e de país para país
e acabam por ser sempre afectadas pelas turbulências e incertezas da economia
internacional. Quando os países entram em crise, a primeira medida de política é
ajustar o valor dos salários para baixo, seja do seu montante global (promoven-
do-se despedimentos com a justificação de se adequarem as estruturas dos custos
empresariais aos novos condicionalismos), seja pela via da redução do seu poder
de compra através da correcção dos valores nominais pela inflação129.

A crise económica e financeira mundial de 2008/2009 (com prolongamentos


em 2010 e 2011) afectou a tendência de crescimento dos salários em termos glo-
bais, ainda que neste período a respectiva taxa de crescimento se tenha mantido
positiva. No entanto, a sua expressão numérica se situou bem abaixo da verificada
no período pré-crise. Apesar disso, o seu movimento secular tem seguido o do
PIB por habitante, querendo-se significar que ao longo do tempo têm-se registado
aumentos no valor médio dos salários130.

128 A sustentabilidade de um modelo com estas características depende, evidente-

‡–‡ǡ†ƒ’”‘†—–‹˜‹†ƒ†‡‡†‘•”‡•’‡…–‹˜‘•‰ƒŠ‘•ƒ‘Ž‘‰‘†‘–‡’‘Ǥ‘”‹••‘ǡ‰ƒŠƒ
‹’‘”–Ÿ…‹ƒƒ˜ƒŽ‘”‹œƒ­ ‘†‘•”‡…—”•‘•Š—ƒ‘•‡”‡Ž‡˜Ÿ…‹ƒƒ‡•–”ƒ–±‰‹ƒƒ…‹‘ƒŽ†‡ϐ‹-
nida pelo Governo.
129‡”‹ϐ‹…ƒǦ•‡ǡ’‘”–ƒ–‘ǡ“—‡‡•‹–—ƒ­Ù‡•†‡…”‹•‡•†‡…”‡•…‹‡–‘†‘ ǡ‘••ƒŽž”‹‘•

são directa e imediatamente afectados, por diferentes vias. Mas a inversa não é automa-
ticamente verdadeira, isto é, o crescimento da economia pode não proporcionar aumen-
tos salariais representativos.
130 Maddison, Angus, DZ2…‘‘‹‡‘†‹ƒŽ‡ǡ‡‡”•’‡…–‹˜‡‹ŽŽ±ƒ‹”‡ǡ2–—†‡•†—‡–”‡

†‡±˜‡Ž‘’’‡‡–†‡DZǡ2001.

198 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

COMPARAÇÕES INTERNACIONAIS ENTRE AS TAXAS REAIS DE VARIAÇÃO


DOS SALÁRIOS MÉDIOS MENSAIS
20

15
10
5
0
a

ia

..

e. na

a
e. te

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-5

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io
pa

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Ec

ro

Am

M
Eu
2006 2007 2008 2009 2010 2011

No geral e de acordo com as informações do gráfico anterior, os incrementos


salariais anuais, além de variarem muito de região para região, têm-se situado em
níveis baixos, como são manifestamente os casos das economias desenvolvidas, da
América Latina e Caraíbas, do Médio Oriente e de África (em face do que Angola
mostra um grande contraste)131.

No quadro seguinte tem-se uma visão mais ampla da situação dos salários no
mundo (com referência comparativa com Angola, mas dentro de alguns limites
dadas as possíveis diferenças de conceitos e metodologias) do crescimento real
acumulado dos salários desde 2000 (para o país desde 2002, de acordo com as
Contas Nacionais).

CRESCIMENTO ACUMULADO DOS SALÁRIOS (2000 = 100)


2000 2006 2007 2008 2009 2010 2011
África 100,0 103,9 105,7 108,1 108,6 115,4 117,8
Ásia 100,0 149,0 158,8 165,1 174,6 185,6 194,9
Economias desenvolvidas 100,0 103,3 104,5 104,1 104,9 105,5 105,0
ƵƌŽƉĂ>ĞƐƚĞͬƐŝĂĞŶƚƌĂů 100,0 204,4 233,9 253,4 244,4 257,9 271,3
ŵĠƌŝĐĂ>ĂƟŶĂĞĂƌĂşďĂƐ 100,0 105,4 108,5 109,3 111,0 112,6 115,1
Médio Oriente 100,0 98,3 100,1 97,2 95,8 94,6 94,4
Angola (base 100=2002) 100,0 147,3 159,5 187,6 188,8 179,6 176,0
Mundo 100,0 112,8 116,1 117,3 118,8 121,3 122,7
FONTES: INE, Contas Nacionais para Angola. ILO – Global Report On Salaries 2012-2013 para o restante.

131 • …‘’ƒ”ƒ­Ù‡• ‡–”‡ ‰‘Žƒ ‡ ‘• ‡•’ƒ­‘• ‰‡‘‰”žϐ‹…‘• …‘•‹†‡”ƒ†‘• †‡˜‡ •‡”

rodeada de muitas cautelas, tendo em atenção as diferenças de metodologia que prova-


velmente existem.

| 199
CEIC / UCAN

Constatações:
a) Entre 2000 e 2011 os salários médios mensais reais globais aumentaram
cerca de ¼, mas com diferenças muito marcantes entre as diferentes regiões.
b) Na Ásia, os salários médios reais paticamente duplicaram, provavelmente
explicado pela influência da China cujo espectacular crescimento económico
deve ter pressionado os salários para cima.
c) Na Europa de Leste e Ásia Central os salários reais médios mensais quase
triplicaram durante o período em referência. As explicações para tão es-
pectacular incremento devem ser encontradas na recuperação do terreno
perdido na fase inicial das suas transições para as economias de mercado
durante a década de 1990.
d) Em África os aumentos foram muito reduzidos, claramente inferiores à média
mundial e aos limites considerados como adequados à redução da elevada
taxa de pobreza do continente e de muitos dos respectivos países. Um au-
mento inferior a 18% em 11 anos é muito pouco para as suas necessidades
de melhoria das condições de vida da população. O peso do trabalho indife-
renciado e não qualificado (o qualificado escasseia e a demanda acaba por
ser suprida pelos expatriados, cujos salários são várias vezes o salário médio
dos africanos) pode ser uma explicação para esse padrão de comportamento.
e) Com era de esperar, nas economias mais estabilizadas e em que os níveis
salariais mensais são já elevados (em termos reais beneficiam da estabilidade
dos preços) o aumento não foi além de 5% no período considerado.
f) Na América Latina e Caraíbas os aumentos salariais também foram come-
didos e explicados pela importância estratégica das exportações (produtos
competitivos no mercado internacional) no seu modelo de crescimento.
g) No Médio Oriente as estimativas do Bureau International du Travail (com
sede em Genève) sugerem que os salários possam até ter diminuído no pe-
ríodo 2000/2011, o que não deixa de ser paradoxal em países de elevadas
receitas de exportação do petróleo. Acaba, porém, de se aceitar devido à
marcante influência do rent-seeking e de muitos trabalhadores emigrantes
da Índia e da China.
h) Angola alinha com as variações percentuais mais altas constantes da tabela.
As remunerações do trabalho aumentaram 76% entre 2002 e 2011 (também
devido à fraca base de partida depois de alcançada a paz em 2002), mas o
problema essencial continua a ser o da repartição do rendimento nacional,
pois, como se irá ver mais adiante, apesar desta variação, os rendimentos
do trabalho representam em média 25% a 30% do Rendimento Nacional.

200 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Para efeitos da presente investigação foram utilizados dois indicadores: salários


totais anuais (Contas Nacionais) e salários médios mensais, correspondentes a 12
meses de actividade laboral, mais ½ do 13o mês e ½ do subsídio de Natal, de acor-
do com a legislação laboral em vigor.

As mudanças nos salários médios decorrem de mudanças, a nível empresarial


ou sectorial, nas taxas salariais horárias e no número de horas trabalhadas, em es-
pecial as prestadas fora do horário normal de trabalho (horas extraordinárias)132.
Esta modalidade corresponde, na prática, a um alargamento do horário de traba-
lho, como forma de se compensarem as horas extraordinárias. Afinal, medidas de
ajustamento às crises de crescimento do PIB, mas sempre pelo lado mais fraco e
penalizador de uma melhoria na repartição do rendimento nacional.

Os efeitos das situações de crise económica sobre o trabalho e a sua remunera-


ção podem assumir as modalidades seguintes:
a) Aumento da proporção dos trabalhadores a tempo parcial em relação a
trabalhadores a tempo completo, afectando-se negativamente os salários
médios mensais globais.
b) Redução do tempo de trabalho como forma de evitar o lay-off.
c) Encerramento temporário de fábricas por períodos de várias semanas ou
meses.
d) Redução da semana de trabalho de cinco para três dias com o consequente
ajustamento negativo dos salários.

As remunerações do trabalho são, na verdade, a mais importante componente


do processo de criação de rendimento de uma economia e deveriam representar
uma proporção significativa do PIB para que a distribuição dos frutos do cresci-
mento se faça de uma forma mais justa e equitativa.

O mais recente estudo do BPI sobre a economia angolana133 destaca que a


distribuição do rendimento nacional é extremamente assimétrica, perpetuando
diferenças significativas no acesso a oportunidades de melhoria de condições de

132—•‘†‡†ƒ†‘••ƒŽƒ”‹ƒ‹•ƒ‰”‡‰ƒ†‘•’”‘†—œ‘…‘Š‡…‹†‘Dzefeito composição”: a alte-

ração nos níveis salariais resultam mais de uma mudança na composição do segmento
†ƒ ’‘’—Žƒ­ ‘ ƒ…–‹˜ƒ ”‡Žƒ…‹‘ƒ†‘ …‘ ‘• –”ƒ„ƒŽŠƒ†‘”‡• ’‘” …‘–ƒ †‡ ‘—–”‡ǡ †‘ “—‡
aumentos salariais efectivos de quem permanece no emprego (ILO, Global Report on
SalariesʹͲͳʹǦʹͲͳ͵ȌǤ—•‡Œƒǣ‰Ž‘„ƒŽ‡–‡‘ˆ‡×‡‘‡‘„•‡”˜ƒ­ ‘’‘†‡–‡”‡ŽŠ‘-
”ƒ†‘•‡“—‡•‹‰‹ϐ‹“—‡—ƒ‡ŽŠ‘”‹ƒ†‡ƒŽ‰—ƒ•†ƒ••—ƒ•’ƒ”–‡•Ǥ
133 BPI, Departamento de Estudos Económicos e Financeiros: Angola – Vulnerabilidade

…‡–—ƒǦ•‡‡„‹‡–‡
Ž‘„ƒŽ …‡”–‘dzǡ‹•„‘ƒǡ —ŽŠ‘†‡ʹͲͳ͵Ǥ

| 201
CEIC / UCAN

vida e de mobilidade social, o que dificulta a promoção de um crescimento susten-


tado e a manutenção da estabilidade social. O estudo acentua ainda que “os níveis
de pobreza são ainda elevados, com cerca de 37% da população a viver abaixo do
limiar da pobreza nacional (4793 kwanzas por mês ou 37 euros/mês)”.

Um documento do Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança


Social – remetido ao CEIC em 16 de Abril de 2013, em resposta amável à solici-
tação de informações da Universidade Católica de Angola para a elaboração do
Relatório Económico 2012 – apresenta uma dicotomia salarial no país assombrosa.
Uma amostra de 351 empresas privadas e públicas envolvidas num estudo sobre
emprego e salários, conduzido pelo Grupo Técnico Multisectorial para o tratamen-
to de dados numéricos sobre o mercado de emprego apresenta, por exemplo, no
ramo de actividade dos serviços, um diferencial entre a remuneração mais alta e a
mais baixa de 304 vezes. O quadro onde constam estas informações é muito con-
fuso, não se sabendo se as remunerações aí contempladas são anuais ou mensais.
Por isso, entendemos transcrever a tabela.

RAMOS DE NÚMERO DE NÚMERO DE REMUNERAÇÕES


ACTIVIDADE EMPRESAS TRABALHADORES MAIS BAIXA MÉDIA MAIS ALTA
COMÉRCIO 66 2007 10000,00 - 2290188,00
SERVIÇOS 228 24292 10000,00 105981,86 3041580,00
CONSTRUÇÃO CIVIL 22 5288 11000,00 - 1167904,61
INDÚSTRIA 16 1176 10765,00 91918,81 1221620,41
TELECOMUNICAÇÕES 6 851 20870,00 142806,72 822672,50
TRANSPORTES 13 4426 11051,06 48711,96 570000,00
FONTE: MAPTSS, Abril de 2013.

Se os salários são anuais, é impossível qualquer trabalhador viver com menos


de 1000 kwanzas por mês na classe das remunerações mais baixas e mesmo nas
médias com menos de 12000 kwanzas.

Caso as remunerações sejam mensais, então no sector dos serviços há quem


receba mais de 30000 dólares como remuneração do seu trabalho. São na verdade
discrepâncias monumentais.

As Contas Nacionais de Angola apresentam estimativas sobre a composição


do PIB na óptica do Rendimento Nacional, considerando três variáveis: o exceden-
te bruto de exploração, as remunerações dos empregados e os impostos líquidos
de subsídios sobre a produção e a importação. O gráfico que se segue apresenta
essa decomposição, sendo visível a desigualdade entre rendimentos do trabalho e
do capital (em média durante o período os retornos para o capital representaram
4 vezes mais as remunerações dos trabalhadores).

202 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

DECOMPOSIÇÃO DO PIB (milhões USD)


100 000

80 000

60 000

40 000

20 000
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
-20 000
Produto Interno Bruto Remuneração dos empregados
Impostos (líquidos de subsídios) Excedente bruto de exploração
FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

A rubrica dos impostos líquidos de subsídios é, como se sabe, a que possibilita


a passagem do Produto a preços de mercado para o Produto a custo de factores
(que é a óptica do rendimento). Mas tem também uma leitura económica: valores
positivos simbolizam que as transferências para a economia (produção) suplan-
tam os quantitativos que o Estado recolhe a título de imposto (o que pode tornar
os preços mais baixos e contribuir para uma melhoria do poder de compra dos
rendimentos), enquanto valores negativos sinalizam maiores entregas líquidas da
economia para o Estado.

VALORES DOS IMPOSTOS LÍQUIDOS (milhões de kwanzas)


2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
9454 7113 -5291 -193 20351 -9530 156428 162622 111178
FONTE: INE, Contas Nacionais 2002-2010.

Os ganhos do crescimento económico têm sido a favor do excedente bruto de


exploração, onde se incluem os lucros (como rubrica de maior peso), as rendas e
os rendimentos de capital. Comprova-se pelo gráfico anterior que depois de 2003
– justamente quando a economia nacional começou a apresentar ritmos eleva-
dos de crescimento do PIB – as desigualdades na distribuição do rendimento se
acentuaram, em desfavor dos rendimentos do trabalho. As facilidades concedidas
pelo Estado ao sector privado – políticas de incentivo ao investimento, construção
de infra-estruturas económicas, juros bonificados ao crédito, etc., – tiveram como
efeito principal o aumento dos rendimentos do capital. Como em todo o processo
de crescimento económico, tem estado presente o rent-seeking, ou seja a existên-
cia das enormes fortunas acumuladas por uma minoria de cidadãos relacionada
com o círculo familiar do poder político.

| 203
CEIC / UCAN

REPARTIÇÃO PRIMÁRIA DO RENDIMENTO (milhões USD)

Remuneração dos empregados 68355 61890


Excedente bruto de exploração
52975
45187
42496
32641
17942 19654
12147 18575
12855 17910
9813 12885
5112 7358
3583 3857
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

A despeito de a taxa de desemprego se ter mantido relativamente estável, a


criação líquida de emprego ocorrida durante o período em análise não foi sufi-
ciente para aumentar a participação dos rendimentos do trabalho no rendimento
nacional.

REPARTIÇÃO PRIMÁRIA DO RENDIMENTO (% do PIB)

78,8 81,8 81,0 80,9


76,1 76,5 77,3 74,8
69,6

27,6 23,8
22,5 23,0 21,7 19,7 20,3
18,4 18,7

2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Remuneração dos empregados Excedente bruto de exploração


FONTE: INE, Contas Nacionais, 2002-2010.

O gráfico anterior mostra a desproporção entre as remunerações dos empre-


gados e o excedente bruto de exploração. Em 2010, a participação das primeiras
no Rendimento Nacional foi de apenas 23,8% (a maior percentagem do período),
depois de ter atingido 22,3% em 2002. Por outro lado, a taxa média anual de varia-
ção destas rubricas do Rendimento Nacional, durante o período 2002/2010, foram
bem diferentes: 5,7% para as compensações salariais e 22,6% para o excedente
bruto de exploração. Com estes ritmos tão diferenciados de crescimento e na au-
sência de políticas salariais activas e inclusivas dificilmente se registarão alterações
consistentes e sustentáveis na repartição do rendimento.

204 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Deve acrescentar-se que os ganhos de produtividade que se têm conseguido,


por razões várias e explicadas mais adiante, são quase integralmente absorvidos
pelo crescimento do excedente bruto de exploração, ficando as remunerações do
trabalho em níveis não compagináveis com as necessidades da economia e com a
melhoria das condições de vida:

ͻ A taxa real média de crescimento do PIB entre 2002 e 2010 (Contas Nacionais)
foi de 8,6%, enquanto a do emprego de apenas 3,5%.

ͻ A taxa nominal média de variação do excedente bruto de produção, no mesmo


período, foi de 22,6% e a dos salários de tão-somente 5,7%.

Estas constatações querem significar que logo à partida – repartição funcional


do rendimento nacional – existem enviesamentos tremendamente desfavoráveis à
força de trabalho nacional, potencialmente remediáveis pela melhoria substancial
dos níveis de conhecimento técnico e profissional da mão-de-obra, mas sobretudo
através da alteração do paradigma de crescimento, devendo dar-se primazia às tec-
nologias de produção intensivas em trabalho, multiplicadoras de emprego e criado-
ras de muitas pequenas e médias empresas. No entanto, a urgência em construir-se
uma economia baseada na competitividade – evidentemente não completamente
incompatível com processos de fabrico intensos em mão-de-obra, desde que for-
mada, capacitada e experimentada – apela sobremaneira ao capital e à tecnologia.

A flexibilização do mercado de trabalho em Angola – actualmente em fase de


estudo, análise, reflexão e discussão – terá, seguramente, consequências perver-
sas sobre os níveis salariais (que, por arrastamento, poderão agravar a repartição
do rendimento nacional, favorecendo os factores de produção assentes no capi-
tal), sendo incertos os efeitos sobre o incremento do emprego. Basta estudar expe-
riências históricas e as actuais políticas de austeridade em Portugal, Grécia, Irlanda
e Espanha para se perceber que a competitividade pela desvalorização salarial (e
mesmo fiscal) atrofia a procura interna, gera pobreza e exclusão social e adia o
crescimento económico baseado em factores internos (que podem ser os mais
permanentes, pois as exportações estão sempre sujeitas aos riscos e incertezas de
um vasto mercado internacional que não se controla, tendo de se aceitar as regras
e os preços).

Basear o modelo de competitividade nacional em baixos salários reais é, na


verdade, perder tempo, porque este tipo de estratégia existe “aos pontapés” por
esse mundo fora, incluindo em África. Além disso, levará Angola a exportar para
países sem indústria ou com sectores industriais fracos e que acabam por pouco
ter para dar em troca (conhecimentos, tecnologia). Este perfil coincide com o pen-
samento de muitos empresários angolanos.

| 205
CEIC / UCAN

Uma comparação internacional permite ter uma melhor e mais ampla dimen-
são deste problema de repartição primária do rendimento nacional em Angola.

PARTICIPAÇÃO RELATIVA (%) DAS REMUNERAÇÕES DO TRABALHO


NO RENDIMENTO NACIONAL
1995 2005 2010
ARGÉLIA 29,9 22,8 20,4
BRASIL 48,8 46,7 49,1
EGIPTO 24,4 27,2 26,1
FRANÇA 58,0 58,0 58,4
QUÉNIA 35,1 41,4 40,4
LESOTO 57,4 48,8 48,4
MAURÍCIAS 43,3 38,7 38,4
MOÇAMBIQUE 16,9 27,7 27,3
NAMÍBIA 47,6 46,4 44,4
ÁFRICA DO SUL 54,9 49,9 49,8
FONTE: World Bank, World Development Report, 2013.

As tendências de participação das remunerações do trabalho no rendimento


nacional em Angola são melhor compreendidas quando se atenta no valor do sa-
lário, nominal e real.

De acordo com as informações das Contas Nacionais, é possível concluir que


o salário médio nacional é muito baixo (em redor de 26100 kwanzas mensais em
2010) e as assimetrias sectoriais são colossais. A UNTA tem razão nas suas reivin-
dicações quanto ao salário mínimo nacional e na sua relação perdedora quando
comparado com o nível de preços praticados para os produtos de um cabaz básico
de bens e serviços.

Acresce um aspecto tremendamente importante: as remunerações do trabalho


são brutas, incidindo sobre elas os impostos sobre o rendimento do trabalho, as
cotizações sociais obrigatórias, as cotizações sindicais para quem esteja inscrito
em Sindicatos, e eventualmente outras obrigações diversas. No final das contas, o
salário líquido que chega às mãos dos trabalhadores e alimenta os agregados fami-
liares é inferior ao calculado através dos dados das Contas Nacionais.

206 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

26117,3
23805,5
Salários médios mensais (Kz)
20759,3

15591,8
12878,1
10109,7
7525,6
5602,5
2842,6

2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010


FONTE: INE, Contas Nacionais 2002-2010.

Mas o que choca mais são, na verdade, as tremendas discrepâncias entre al-
guns sectores de actividade134. As Contas Nacionais 2002-2010 permitem apro-
fundar as assimetrias e diferenças entre os sectores económicos aí contemplados.
Conforme esclarecido em parágrafos anteriores, o salário médio foi calculado pelo
quociente entre as remunerações totais sectoriais das Contas Nacionais e o tempo
anual de trabalho (12 meses mais os subsídios).
Os resultados constam da tabela seguinte.

EVOLUÇÃO DOS SALÁRIOS MÉDIOS MENSAIS EM ANGOLA


POR ALGUNS SECTORES DE ACTIVIDADE (valores em kwanzas)
Salário Salário Salário no sistema Salário nos Salário no
ANOS
nacional manufactura ĮŶĂŶĐĞŝƌŽ correios e telec. petróleo
2002 2842,6 5239,9 91755,6 34205,3 116901,7
2003 5602,5 9973,8 171468,7 51747,2 144023,6
2004 7525,6 14614,6 211370,4 98849,2 170414,7
2005 10109,7 19105,5 208833,4 118097,8 196931,2
2006 12878,1 23999,6 316750,4 107025,7 271989,1
2007 15591,8 28988,1 340206,8 127169,0 319077,4
2008 20759,3 35874,3 229730,0 107160,9 357644,5
2009 23805,5 38333,9 253706,3 91189,3 432248,3
2010 26117,3 40970,8 270208,3 79786,8 543370,8
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘Estudo dos Salários e Remunerações em Angola, com base nas Contas Nacionais 2002-2010.

134•‡…–‘”†ƒƒï†‡‡‰‘Žƒƒ’”‡•‡–ƒ—ƒƒ–”‹œ‘†‡ƒ•…ŽÀ‹…ƒ•‡Š‘•’‹–ƒ‹•’”‹-

˜ƒ†‘• ’”‡‡…Š‡ —ƒ ’ƒ”–‡ •‹‰‹ϐ‹…ƒ–‹˜ƒ †ƒ ’”‡•–ƒ­ ‘ †‘• ”‡•’‡…–‹˜‘• …—‹†ƒ†‘•Ǥ 
‡˜‡”‡‹”‘ †‡ ʹͲͳͶǡ ͷͲͲ –”ƒ„ƒŽŠƒ†‘”‡• †ƒ š…‡Ž‡† ȋ—ƒ †ƒ• ‡’”‡•ƒ• •—„…‘–”ƒ–ƒ-
das pela Clínica Girassol para a prestação de serviços de saúde) entraram em greve por
‡ŽŠ‘”‡••ƒŽž”‹‘•Ǥ’‘‘†ƒ†‹•…×”†‹ƒ‡•–ƒ˜ƒ‘gap salarial entre os enfermeiros con-
–”ƒ–ƒ†‘•†‹”‡…–ƒ‡–‡’‡Žƒ
‹”ƒ••‘Ž‡‘•†ƒš…‡Ž‡†ǣͶͲͲͲͲͲ™ƒœƒ•‡•ƒ‹•’ƒ”ƒ
‘•’”‹‡‹”‘•‡ͳͶͲͲͲͲ™ƒœƒ•’ƒ”ƒ‘••‡‰—†‘•Ǥƒ„±‡•–‡’”‘…‡••‘‰”‡˜‹•–ƒ‘•
salários dos expatriados estiveram em contestação, dados os elevadíssimos valores em
causa. (Semanário Agora, “Greve Agita Clínica da Sonangol”, 28 de Fevereiro de 2014).

| 207
CEIC / UCAN

O sector que melhores salários tem praticado é o petrolífero, o que, de resto, já se


pressentia. A diferença entre o salário médio mensal deste sector e a média nacional
é de praticamente 21 vezes. Se se incluir o sector agrícola, sobretudo a agricultura
familiar, então as discrepâncias com a “aristocracia do petróleo” são de outra galáxia,
falando-se de 56 vezes a diferença (salário médio mensal agrícola de 6100 kwanzas).

O gráfico seguinte mostra a forma como estas discrepâncias se têm agravado


ao longo do tempo.

DISCREPÂNCIAS SALARIAIS EM ANGOLA


600000
Valores mensais em kwanzas

500000 Salários médios mensais


nacionais
400000 Salários médios mensais
na manufactura
300000 Salários médios mensais
no sistema financeiro
200000
Salários médios mensais
nos correios e tel.
100000
Salários médios mensais
no petróleo
0
2002 2003 2004 2005 20062007 2008 2009 2010
FONTE: CEIC, icheiro Salários e distribuição do rendimento, com base nas Contas Nacionais.

A África do Sul também se defronta com o problema de baixos salários, ten-


do sido essa a razão essencial – ainda que associada à reivindicação de melhores
condições de trabalho – das últimas greves, conhecidas umas (a dos mineiros),
mais escondidas outras (do sector rural). Não obstante os salários das diferentes
profissões e actividades económicas terem sofrido incrementos e ajustamentos ao
longo dos anos, as greves têm-se repetido, justamente porque o seu valor nomi-
nal não absorve a subida dos preços e mesmo em termos absolutos não viabiliza
uma melhoria sustentável das condições de vida135. O salário médio mensal está
estabelecido na vizinhança de 8000 rands, equivalente (ao câmbio médio de 8) a
cerca de 1000 dólares. Também com diferenças sectoriais significativas: o salário
médio mensal no sector mineiro, depois das atendidas reivindicações, está actual-
mente estabelecido em 11000 rands (1375 dólares), ao passo que no sector rural
não vai além de 2400 rands (300 dólares mensais)136. Seja como for, acima das

135Segundo um estudo do Institute of Race Relations de Janeiro de 2013, citado por


–—ƒ”–
”ƒŠƒ Ȃ Labour: Getting the Balance Right, The Wits Business School Journal,
ʹͲͳ͵Ȃ‘•ƒŽž”‹‘±†‹‘†‘•–”ƒ„ƒŽŠƒ†‘”‡•”—”ƒ‹•ˆ‘‹‡ŽŠ‘”ƒ†‘‡ͷͳǡʹΨ‡–”‡ʹͲͲ͸‡
2012, enquanto o dos mineiros em 47,3% entre 2005 e 2012.
136–—ƒ”–
”ƒŠƒǡLabour: Getting the Balance Right, The Wits Business School Journal, 2013.

208 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

médias angolanas e mesmo assim, a África do Sul consegue índices mundialmente


comparáveis de competitividade. A explicação está nos mais elevados valores de
produtividade média do trabalho, na maior qualificação média dos trabalhadores,
na maior capacidade de inovação, organização e disciplina.

5.3 O papel dos diferentes sectores de actividade no processo


de distribuição do Rendimento Nacional

A capacidade de se repartir (em termos primários ou também do chamado


rendimento base) mais rendimento nacional pelos factores de produção, em par-
ticular o trabalho, depende, como ressaltado mais atrás, do crescimento econó-
mico, da qualificação da mão-de-obra e dos ganhos de produtividade. A taxa de
variação do PIB nacional tem vindo a perder fulgor depois de 2008 e as previsões
até 2019 apontam para uma taxa média anual de crescimento económico na vizi-
nhança de 5%137.

No entanto, o objectivo do Governo de melhorar as condições de vida pelo


aumento dos rendimentos das famílias ainda pode ser conseguido através do ren-
dimento bruto e do rendimento disponível, isto é, pela repartição secundária do
rendimento (redistribuição pela via fiscal e das contribuições sociais).

A realidade actual, conforme sublinhado, é a de um peso muito desproporcio-


nado dos rendimentos do capital no PIB ou no Rendimento Nacional (depois de
operados os adequados ajustes), receando-se que se torne estrutural e se apre-
sente com uma elasticidade rígida na ausência de políticas sociais incisivas que
favoreçam os rendimentos do trabalho. Tal como se encontra a situação e face a
informações de outros países, Angola é um dos que mais discriminação negativa
consente às remunerações da força de trabalho.

A perda de fulgor do crescimento económico nacional também afecta os di-


ferentes sectores de actividade, ainda que de distintas maneiras. A agricultura e
actividades conexas, as pescas, a extracção de diamantes, a extracção de petró-
leo, a manufactura, a construção e os serviços não mercantis têm apresentado
tendências de atenuação do seu crescimento passado, sobretudo entre 2003 e
2008. Se estas tendências se mantiverem até 2017/2019, ao que se deve adicio-
nar a natureza capital/tecnologia intensiva de algumas das actividades económi-
cas enumeradas, então, o peso relativo das remunerações do trabalho no Valor
Agregado de cada sector poderá manter-se em redor da média registada entre
2002 e 2010.

137 International Monetary Fund, World Economic Outlook, April 2014 ; Angola – Second

Post-Program Monitoring, March 2014.

| 209
CEIC / UCAN

PESO DOS SALÁRIOS NO VAB


2002 2004 2006 2008 2009 2010
Agricultura Pecuária
100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Florestas
Pescas 12,4 12,6 10,6 9,2 10,7 10,5
Petróleo e Gás 7,4 4,1 2,9 2,7 4,9 4,3
Diamantes e outros 27,2 24,4 24,0 33,4 63,4 41,3
Indústria Transformadora 15,7 11,1 11,5 12,0 14,9 11,5
Electricidade 48,6 37,7 25,0 32,6 26,6 28,2
Construção 27,7 31,1 21,7 38,8 41,7 37,9
Comércio 18,6 22,8 21,1 18,7 22,5 21,7
Transportes/armazen. 50,1 40,7 32,0 22,2 35,1 26,4
Correios/telecomunic. 16,6 25,3 10,1 6,1 4,8 5,5
Bancos e Seguros 49,9 45,6 50,0 37,2 38,2 48,6
Estado 100,0 99,9 99,9 100,0 100,0 100,0
Serviços Imobiliários 0,2 0,1 0,1 0,2 0,2 0,2
Outros Serviços 40,1 33,0 26,6 44,6 55,5 44,4
ANGOLA 22,5 21,4 18,6 20,4 27,7 23,6
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘Salários Distribuição do Rendimento, com base nas Contas Nacionais.

No geral, a evolução do peso dos salários no VAB reflecte, também na eco-


nomia angolana, a sua típica natureza anti-cíclica (assemelhável a um estabiliza-
dor automático), que surge porque os salários tendem a ser menos voláteis do
que as restantes componentes do rendimento nacional em situações de recessão
económica e crise financeira. Baseados em expectativas positivas sobre a curta
duração das situações económicas atípicas, os agentes económicos e os empre-
sários mantêm trabalhadores e salários durante esse período como forma não só
de contribuírem para a sua ultrapassagem rápida pela procura global, como para
reter os melhores trabalhadores e assim não se perder investimentos em formação
e qualificação da mão-de-obra.

No caso da tabela anterior, o efeito anti-cíclico foi particularmente expressivo


na exploração de diamantes, tendo o Estado, perante a quebra dramática na pro-
cura mundial e nos preços internacionais, adquirido o excedente de produção não
colocado, de modo a que se tivessem mantido os postos de trabalho e os níveis
salariais. Foi uma boa medida anti-crise económica.

Na construção e nos transportes este efeito também se fez sentir, embora em


menor intensidade.

O caso da agricultura já foi anteriormente explicado pelo facto de as Contas


Nacionais não descriminarem o valor acrescentado bruto.

210 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

O valor médio de participação dos rendimentos do trabalho no rendimento


nacional é de 22% no período 2002/2010.

100

80

60

40

20

0
2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010
Peso dos salários Peso das remunerações do capital
FONTE: CEIC, icheiro Salários e distribuição do rendimento, com base nas Contas Nacionais.

Uma das formas de se avaliar a capacidade dos sectores contribuírem para a


melhoria na repartição do rendimento – ao seu nível do Valor Acrescentado Bruto
– é pelo diferencial entre a produtividade média bruta aparente do trabalho (ou
pela sua taxa de variação no tempo, ou sejam, os ganhos de produtividade) e o
salário médio.

DIFERENÇAS ENTRE PRODUTIVIDADE E SALÁRIOS MÉDIOS


SECTORES ONDE SE PODE DE IMEDIATO MELHORAR
A REPARTIÇÃO FUNCIONAL DO RENDIMENTO NACIONAL
2002 2004 2006 2008 2010
Agricultura Pecuária
0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Florestas
Pescas 391506,6 1000668,1 1294533,4 2670613,2 2572951,5
Petróleo e Gás 19106377,0 52206121,6 99590944,9 165200466,5 155952845,5
Diamantes e Outros 1158646,1 1120216,7 1568801,0 1847974,2 1909240,8
Indústria Transformadora 364998,7 1524030,1 1964962,2 3404029,0 4099683,9
Electricidade 555462,5 870410,4 557079,7 2110252,4 4440521,4
Construção 153191,7 342589,7 560679,5 832646,8 1130013,4
Comércio 72087,9 218861,3 317865,5 499892,1 514982,8
Transportes/armazen. 88132,4 296774,5 433103,8 1484903,6 1328527,3
Correios/telecomunic. 2235864,3 3786141,7 11586133,8 21572365,5 17811096,4
Bancos e Seguros 1199132,5 3273855,3 3922137,0 5043853,4 3708745,0
Estado 30,6 518,9 733,7 0,0 0,0
Serviços Imobiliários 116155688,6 385590625,0 419785714,3 577742924,5 661174089,1
Outros Serviços 95342,0 285723,9 418252,7 569146,9 672536,7
ANGOLA 127320,7 358976,3 588106,3 1051438,7 1096187,9
FONTEǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘Salários e distribuição do rendimento, com base nas Contas Nacionais.

| 211
CEIC / UCAN

Exceptuando os sectores de enclave – petróleo e diamantes – em que as dife-


renças entre produtividade e salários são, com efeito, abissais, tornando-os nos
mais aptos para proceder a aumentos salariais que concorram para melhorar a
participação das remunerações do trabalho nos respectivos Valores Agregados –
outros também se mostram com essa aptidão. São os casos dos serviços imobi-
liários – uma das actividades actualmente mais lucrativa do país – a banca e os
seguros, os correios e telecomunicações e, curiosamente, a electricidade. Ainda
que se tratem de actividades altamente intensivas em capital e tecnologia, cada
vez mais caros, mas com retornos marginais ainda significativos e em que as exi-
gências de lucros e dividendos da parte accionária são elevadas, é possível e de-
sejável que aumentem a sua contribuição para a redução das desigualdades na
repartição do rendimento, pela via directa, quer seja do incremento salarial ou do
aumento de emprego. Para além, evidentemente, das acções de responsabilidade
social que algumas empresas destes sectores efectivam.

SALÁRIO E PRODUTIVIDADE NA BANCA E SEGUROS


12000000
Valores em kwanzas

10000000

8000000

6000000

4000000

2000000

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Salário médio Produtividade


FONTE: CEIC, icheiro Salários e Distribuição do Rendimento, com base nas Contas Nacionais.

Com relação aos chamados “sectores directamente estruturantes da diversifi-


cação da economia” (agricultura, manufactura, construção e transportes), a res-
pectiva capacidade de distribuir melhor é variável.

Da forma como a actividade agrícola e conexas é contabilizada nas Contas Na-


cionais não emerge nenhum excedente entre produtividade e salários, o que não
que dizer que seja, ab initio excluída do painel das actividades que possam dar o
seu contributo para a melhoria das remunerações do trabalho.

A manufactura e a construção, apesar de, em termos absolutos, os valores das


respectivas produtividades serem baixos (em especial em comparações interna-
cionais), ainda assim apresentam diferenciais entre produtividade e salário que
devem ser estudados. Algumas aplicações podem ser possíveis, como segue.

212 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

a) Investimentos adicionais em modernização tecnológica dos equipamentos


(aparentemente a idade média da maquinaria em Angola ainda é elevada,
redundando numa indesejada obsolescência tecnológica de resultados nefastos
sobre a competitividade das empresas e do país), com consequências positivas
sobre o incremento da produtividade e dos retornos para o factor capital.
b) Incremento do emprego138. Pode estabelecer-se aqui uma espécie de trade
off entre aumento de salários e alargamento do emprego. A primeira opção
favorece quem actualmente trabalha, mas pode prejudicar quem precisa de
trabalhar (salários mais elevados podem retrair a procura de mão-de-obra). A
segunda via depende do coeficiente trabalho/capital das actividades produtivas.
c) Investimentos na maior qualificação dos empregados e empresários, com
efeitos igualmente benéficos sobre a produtividade.
d) Repartição proporcional dessas diferenças entre os factores de produção.

SALÁRIO MÉDIO E PRODUTIVIDADE MÉDIA NA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA


5000000
4500000
4000000
Valores em kwanzas

3500000
3000000
2500000
2000000
1500000
1000000
500000
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Salário médio Produtividade


FONTE: CEIC, icheiro Salários e Distribuição do Rendimento, com base nas Contas Nacionais.

138  ƒ••‹†—‹†ƒ†‡ ‘ –”ƒ„ƒŽŠ‘ ± — †‘• ˜ƒŽ‘”‡• ‡…‘×‹…‘• †ƒ• ‡…‘‘‹ƒ• †‡ ‡”-

cado, mesmo dentro de um paradigma mais suave de capitalismo denominado “eco-


nomia social de mercado”. Em Angola, praticamente em todas as actividades directa ou
indirectamente produtivas, a assiduidade é baixa e o absentismo elevado, o que contri-
„—‹ǡŒ—–ƒ‡–‡…‘‘—–”‘•ˆƒ…–‘”‡•ǡ’ƒ”ƒ—ƒ’”‘†—–‹˜‹†ƒ†‡†‘–”ƒ„ƒŽŠ‘„ƒ‹šƒ‡’ƒ”ƒ
a redução dos retornos dos proprietários do capital. Factores culturais, funcionamento
—‹–‘†‡ϐ‹…‹‡–‡†‘••‡”˜‹­‘•†‡‡†—…ƒ­ ‘ǡ•ƒï†‡‡–”ƒ•’‘”–‡•ǡƒ–‹–—†‡•†‡ƒ˜‡”• ‘ƒ‘
–”ƒ„ƒŽŠ‘ǡ ’‡•‘ …”‡•…‡–‡ †‘ ‡”…ƒ†‘ ‹ˆ‘”ƒŽ †‡ –”ƒ„ƒŽŠ‘ǡ ‘†‡ ‹‡š‹•–‡ Š‘”ž”‹‘•ǡ
regras e normas, etc., podem ser algumas razões explicativas destes fenómenos. A nova
‡‹
‡”ƒŽ†‘”ƒ„ƒŽŠ‘ǡ“—‡ƒ‰—ƒ”†ƒƒ’”‘˜ƒ­ ‘†‘‘•‡ŽŠ‘†‡‹‹•–”‘•ǡƒ’ו‘’‡”À‘†‘
de consulta e discussão pública, pode vir a proporcionar um importante contributo
para a mudança de comportamento dos empregados e empregadores, facilitando a ges-
– ‘†‘•”‡…—”•‘•Š—ƒ‘•‡ƒƒ’Ž‹…ƒ­ ‘†‡’‘ŽÀ–‹…ƒ•Žƒ„‘”ƒ‹•†‡’‡†‘”‡’”‡•ƒ”‹ƒŽǤ

| 213
CEIC / UCAN

SALÁRIO MÉDIO E PRODUTIVIDADE NA CONSTRUÇÃO


2000000
1800000
1600000
Valores em kwanzas

1400000
1200000
1000000
800000
600000
400000
200000
0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Salário médio Produtividade


FONTE: CEIC, icheiro Salários e Distribuição do Rendimento, com base nas Contas Nacionais.

No sector dos transportes, armazenagem e actividades conexas, depois de um


período áureo de crescimento muito intenso da produtividade, depois de 2010 es-
bate-se, como consequência, pelo menos em parte, dos efeitos da crise económica
mundial, mas também de alguns factores internos relacionados com as infra-estru-
turas rodoviárias, ferroviárias e portuárias.

SALÁRIO E PRODUTIVIDADE NOS TRANSPORTES, ARMAZENAGEM


E ACTIVIDADES CONEXAS
2500000

2000000
Valores em kwanzas

1500000

1000000

500000

0
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Salário médio Produtividade


FONTE: CEIC, icheiro Salários e Distribuição do Rendimento, com base nas Contas Nacionais.

214 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

6. EMPREGO E PRODUTIVIDADE

6.1 Introdução

No Relatório Económico de 2012 foi a analisada a possibilidade de a economia


nacional criar 1200000 novos postos de trabalho entre 2008 e 2012 e a conclusão
foi no sentido de ser pouco provável essa ocorrência, atendendo a uma série de
constrangimentos que afectam o funcionamento normal do sistema produtivo in-
terno. As informações oficiais, disponíveis nos Relatórios de Balanço do Ministério
da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, confirmam agora ter-se fi-
cado muito aquém dessa promessa eleitoral do MPLA em 2008.

As Contas Nacionais 2002-2010 referem a criação de novos postos de trabalho


em 2008, 2009 e 2010 nos valores seguintes, respectivamente, 135837, 176176
e 186410, cuja soma perfaz 498423 empregos, continuando por se entender que
no ano de maior intensidade dos efeitos da crise financeira e económica mundial
(2009) tenha sido possível gerar o maior montante de emprego líquido no país.

De acordo com as informações do MATPESS, em 2011 foram efectivadas 110391


novas vagas, enquanto em 2012 a quantidade adicional de emprego se situou em
104848 postos de trabalho adicionais (Relatório de Balanço de 2012)139.

Assim, entre 2008 e 2012 o total de novas oportunidades de trabalho gera-


das foi de 713662, menos 486338 empregos em relação à meta prometida. No
entanto, as dúvidas sobre a verdadeira cifra de não cumprimento continuam por
ter um cabal esclarecimento. Usando as cifras do emprego do INE (Contas Na-
cionais 2002-2010) e as do MAPTSS de 2011 e 2012 (compiladas dos respectivos

139 O Relatório do MAPTSS de 2013 corrige esta cifra para 221600 novos empregos

(para 2012), com um volume espectacular no sector dos transportes (97019), sem
•‡”‡ƒ†‹ƒ–ƒ†ƒ•ƒ•…‘””‡•’‘†‡–‡•Œ—•–‹ϐ‹…ƒ­Ù‡•ǤŽ‹ž•ǡƒ…”‹ƒ­ ‘†‡‘˜‘•’‘•–‘•†‡
–”ƒ„ƒŽŠ‘‡•–‡•‡…–‘”…ƒ‹’ƒ”ƒʹͲ͹ͷ͹Ž‘‰‘‡ʹͲͳ͵Ǥ–ƒšƒ”‡ƒŽ†‡…”‡•…‹‡–‘†‘ 
foi de 3,4% e de 5,2% respectivamente em 2012 e 2013. Para as cifras do MAPTSS a taxa
de crescimento do emprego foi de 3,1% em 2012 e de 2,1% em 2013. Num caso como
‘‘—–”‘‡•–‡•†ƒ†‘•ƒ’‘–ƒ’ƒ”ƒ‰ƒŠ‘•†‡’”‘†—–‹˜‹†ƒ†‡†‡Ͳǡ͵’‘–‘•’‡”…‡–—ƒ‹•
em 2012 e 3,1 pontos percentuais em 2013. De qualquer forma, mesmo com 221600
‘˜‘•’‘•–‘•†‡–”ƒ„ƒŽŠ‘ǡ…‘ƒ•”‡•‡”˜ƒ•†‡ƒ…‡‹–ƒ­ ‘ƒ–‡”‹‘”‡•ǡƒ’”‘‡••ƒ‡Ž‡‹–‘”ƒŽ
ˆ‘‹†‡•…—’”‹†ƒ‡͵͸ͻͷͺ͸‘˜‘•’‘•–‘•†‡–”ƒ„ƒŽŠ‘Ǥ

| 215
CEIC / UCAN

Relatórios Anuais de Balanço) o défice de cumprimento da meta de 1200000


novos postos de trabalho é de 505423 postos de trabalho. Para efeitos de cre-
dibilidade das estatísticas nacionais, o MAPTSS e o INE deveriam convergir para
um único valor para o emprego nacional, globalmente e também sectorialmente,
onde as discrepâncias entre os dados destas duas instituições são ainda maio-
res140.

Servem estas considerações preliminares para mostrar que a economia tem


mecanismos e mesmo até segredos que não podem ser simplesmente pervertidos
por promessas eleitorais infundamentadas. Depois, que o processo de criação, e
principalmente manutenção e preservação, de emprego é complexo, sendo por
isso definidas políticas públicas específicas de fomento e de criação de emprego,
exactamente porque nas economias de mercado é o sector privado – que tem
de ser correctamente enquadrado e estimulado – o principal gerador de empre-
go. Muitas vezes, confundem-se ou baralham-se propositadamente as funções
do Estado, reservando-lhe, para além da responsabilidade de gerar emprego na
prestação de serviços sociais e na produção de bens públicos, a obrigação de criar
emprego empresarial de uma forma substancial. O papel das empresas públicas –
constituídas para corrigir certas falhas de mercado ou para garantir o exercício de
funções de soberania nacional sobre a exploração de recursos naturais estratégi-
cos – não é o de substituírem as empresas privadas.

Os empregos são fundamentais para o desenvolvimento económico e social,


sendo a via mais directa para a melhoria do bem-estar individual com dignidade
e justiça. Mas também o emprego é o cerne de muitos objectivos globais das
sociedades, como a redução da pobreza, o aumento da produtividade e a coesão
social. Em países pós-conflitos armados internos a máxima criação de emprego
é o factor determinante – a par com a melhoria na distribuição do rendimen-
to nacional – da reconciliação nacional. Este desiderato, a despeito de a nova
Constituição ser das mais inovadoras em matérias relacionadas com a liberdade,
direitos e garantias gerais e direitos humanos, ainda está longe de se ter realizado
em Angola.

Os benefícios do desenvolvimento provenientes dos empregos incluem a aqui-


sição de aptidões, o empoderamento das mulheres e a estabilização da sociedade.
No entanto, os empregos, ao serem distintos, diferem também nos seus efeitos

140 Quanto à criação de emprego no sector público institucional parece existirem


‹…‘‰”—²…‹ƒ•‘•†ƒ†‘•†‘‘•‡—‡Žƒ–×”‹‘†‡ƒŽƒ­‘†‡ʹͲͳ͵ǣ‘“—ƒ-
†”‘†ƒ’ž‰‹ƒͷ‹†‹…ƒǦ•‡͵ͺͺ‘˜‘•Ǥ’‘•–‘•†‡–”ƒ„ƒŽŠ‘…”‹ƒ†‘•ƒ†‹‹•–”ƒ­ ‘
Pública em 2013. Contudo, na página 13 a diferença entre o número de funcionários
públicos em 2013 (335917) e 2012 (331261) é de 4656 novos funcionários públicos.

216 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

sobre a economia e a sociedade. Estudos do Banco Mundial141, da OCDE142 e da


Organização Internacional do Trabalho (OIT)143 revelam que empregos urbanos,
os que conectam as economias nacionais ao mercado global, os que protegem o
meio ambiente, os que promovem a confiança e o comprometimento cívico e os
que ajudam a reduzir a pobreza são os de maior benefício e impacto sobre o de-
senvolvimento económico. São chamados “empregos transformacionais”144. Isto
é, os empregos transformam o que se ganha, o que se faz e até quem se é. Obter
um bom emprego é motivo de enorme satisfação em qualquer parte do mundo,
sendo esta felicidade razão para se melhorar a atitude face ao trabalho e aumen-
tar, assim,a eficiência.

Não é, portanto, surpreendente que o emprego esteja no topo da agenda de


desenvolvimento ou do combate à recessão económica em alguns países desen-
volvidos afectados por crises de défice orçamental e de dívidas públicas e privadas
quase impagáveis.

A criação de emprego, em qualquer país, depende de vários factores: cres-


cimento da economia, modelo de organização e funcionamento do mercado de
trabalho (quanto menos transparente e rígido, menor quantidade de emprego se
gera, pelo menos na óptica neoclássica), natureza dos processos técnicos de pro-
dução (quanto menos intensivos em capital e tecnologia, menores as probabilida-
des de criação de quantidades relevantes de emprego), prática do salário mínimo
(que pode falsear as regras de mercado e introduzir elementos de distorção), in-
vestimento público e privado, tipo de emprego oferecido pelas famílias (qualifi-
cado ou indiferenciado, que também depende do estádio de desenvolvimento da
economia – estádios mais atrasados apelam, em princípio a uma maior propor-
ção de força de trabalho indiferenciada -, políticas públicas dirigidas à criação de
emprego, prática de subsídio de desemprego (que ao aumentar o custo empresa-
rial da mão-de-obra retrai a procura de empregados por parte do sector privado
empresarial), mobilidade sectorial e territorial da mão-de-obra dentro do espaço
nacional (quanto mais obstáculos existirem a esta transferência de força de traba-
lho, menores serão as oportunidades de trabalho), saturação de um determinado
sector de actividade, etc. O estudo sobre o emprego é um dos mais aliciantes para
os macroeconomistas e uma das peças centrais da compreensão e do estabeleci-
mento de modelos e políticas de distribuição do rendimento nacional.

141 World Bank – World Development Report 2013, Jobs.

142 OECD – Employment Outlook 2008.

143 –‡”ƒ–‹‘ƒŽƒ„‘—”ˆϔ‹…‡ – Global Wage Report 2008/2009, 2009/2010,2011/2012

e 2012/2013.
144 World Bank, World Development Report 2013, Jobs.

| 217
CEIC / UCAN

Por outro lado, não se está a lidar com uma variável de fácil definição: o que é
estar-se empregado? A OIT atribui a situação de empregado a quem, na altura do
respectivo inquérito, declarar que na semana anterior exerceu actividade remune-
ratória durante dois dias. É muito discutível esta aproximação, mas é a internacio-
nalmente usada145.

As políticas públicas de emprego debatem-se com um dilema importante: pro-


teger o emprego ou proteger o trabalho (trabalhador). Impasse dramático quando
as economias modernas não conseguem garantir “a job for life”, como nas décadas
dos anos 80 e 90 do século XX. Fala-se da liberalização do mercado de trabalho e
de redução dos seus custos empresariais ou, de uma forma mais mitigada, de des-
pedimentos ou desvalorização da mão-de-obra de “flexisegurança” como modelos
a seguir para criar o máximo de empregos.

A protecção do emprego consegue-se, segundo determinadas correntes de


pensamento económico, pela liberalização do mercado de trabalho, pela desvalo-
rização salarial, redução das contribuições patronais para os sistemas de segurança
social e através da formação e qualificação profissional.

A protecção do trabalho ou do trabalhador apela à prática de um salário mí-


nimo (para defesa ou mitigação da pobreza entre os trabalhadores empregados),
da existência de subsídio de desemprego (estabilizador automático das políticas
públicas em situações de crises de recessão da economia, ajudando a manter um
certo nível de procura agregada da economia, que pode ser fundamental para a
inversão da tendência de decrescimento do PIB), protecção social (subsídios de
reforma, pensões) e também maior qualificação do trabalhador (ajudando-o a pre-
servar o emprego actual ou a procurar outros níveis de exigência compatíveis com
a sua habilitação e experiência).

Num caso como no outro, maiores investimentos em educação e formação e


reciclagem profissional são um pré-requisito para a empregabilidade.

Mas a defesa dos postos de trabalho e do trabalhador também passa por ac-
tuações sobre a imigração de mão-de-obra de outros países, na maior parte dos
casos sem os perfis adequados, jovens sem experiência exercendo uma concorrên-
cia desleal para com a mão-de-obra nacional e auferindo salários muito acima da
média nacional.

145 Outra aproximação conceptual de emprego aponta por considerá-lo como uma activi-

†ƒ†‡“—‡‰‡”ƒ”‡†‹‡–‘ǡ‘‡–ž”‹‘‘—‡‡•’±…‹‡ǡ•‡˜‹‘Žƒ­ ‘†‘•†‹”‡‹–‘•Š—ƒ‘•Ǥ
•–ƒ”‡ˆ‡”²…‹ƒƒ‘•†‹”‡‹–‘•Š—ƒ‘•±‹’‘”–ƒ–‡ǡ’‘”“—ƒ–‘‘“—‡‹–‡”‡••ƒ‡…‘‘-
‹ƒ‡•‘…‹‡†ƒ†‡±‡’”‡‰‘•‡‡š’Ž‘”ƒ­ ‘†‘–”ƒ„ƒŽŠ‘ǡ•‘…‹ƒŽ‡–‡Ž‡•—ϐ‹…‹‡–‡-
mente remunerado, de acordo com a produtividade e as necessidades da sua reprodução.

218 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

6.2 Estimativas do desemprego e do valor da produtividade

O CEIC tem conseguido, através da conjugação de diferentes fontes de infor-


mação, com destaque para as provenientes do hoje Ministério da Administração
Pública, Trabalho e Segurança Social, estabelecer uma série longa sobre o empre-
go e o desemprego no sector formal da economia nacional. A recente publicação
pelo INE das Contas Nacionais 2002-2010 possibilita uma aproximação muito mais
efectiva à realidade do mundo do trabalho no país do que as informações coligi-
das pelo MAPTSS no âmbito da Comissão Interministerial para o Emprego. E as
diferenças são, em alguns anos, significativas, havendo, portanto, que tornar estas
duas fontes de informação mais consistentes e convergentes entre si. São fontes
de informação complementares, no sentido de que as do MAPTSS são de curto
prazo, revelando as tendências de criação de emprego em cada ano, enquanto as
das Contas Nacionais, para além de se inserirem numa lógica de médio/longo pra-
zo, estão correlacionadas com os principais indicadores macroeconómicos, como
o Produto Interno Bruto.

O Instituto Nacional de Estatística apresenta também nas Contas Nacionais


uma nova série sobre a população, contrariando todas as estimativas usadas até
agora, quer pelo CEIC, quer por muitas instituições internacionais que colocavam
o seu quantitativo em praticamente 20 milhões de habitantes, em 2012. Usando a
mesma taxa de crescimento demográfico, em 2013 a população de Angola poderia
ter chegado a 19,1 milhões de habitantes. Só o recenseamento geral da popu-
lação e habitação esclarecerá, definitivamente, todas as questões sobre o factor
demográfico em Angola (quantitativo de habitantes, dispersão/concentração ter-
ritorial, taxa de crescimento, migrações internas, características profissionais e de
qualificação da mão-de-obra, etc.). Espera-se que os resultados a serem apurados
sejam, efectivamente, verdadeiros, afastando-se qualquer pretensão política de os
influenciar, caso não correspondam ao que o poder político pensa ser a presente
situação146.

Em 2013, a quantidade total de emprego existente na economia nacional era


de 5,85 milhões de trabalhadores. Conjugando dados do MAPTSS com os do INE é
possível construir uma série estatística de 14 anos sobre o emprego no país.

146‹†ƒ’‡•ƒ•‘„”‡‘•”‡•—Ž–ƒ†‘•ϐ‹ƒ‹•†‘ †ï˜‹†ƒ•“—ƒ–‘•—ƒ‡ˆ‡…–‹˜ƒ…‘”-

”‡•’‘†²…‹ƒ …‘ ƒ ”‡ƒŽ‹†ƒ†‡Ǥ —‹–‘ ˆ‘‹ ‡•…”‹–‘ •‘„”‡ ƒ –ƒšƒ †‡ ’‘„”‡œƒ ƒÀ †‡–‡”‹-
nada e ainda recentemente alguns órgãos de comunicação escrita davam, uma vez mais,
conta dessas reservas através de artigos de opinião.

| 219
CEIC / UCAN

VOLUME DE EMPREGO CRIADO NA ECONOMIA ANGOLANA DESDE 2000

6000000
5000000
4000000
3000000
2000000
1000000
0
00 01 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013
20 20 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2
Emprego
FONTE: CEIC, icheiro Emprego e Produtividade em Angola, com base nas Contas Nacionais do INE.

Apesar de um movimento descendente, a taxa de desemprego continua muito


alta em Angola, significando a perda de oportunidades de se melhorar a repartição
funcional do rendimento nacional e a permanência de um hiato do produto signifi-
cativamente positivo (diferença entre o PIB potencial e o PIB real)147.

A taxa de desemprego tem vindo a diminuir desde 2002, como resultado con-
jugado de diferentes factores, dos quais se realçam o reassentamento definitivo
das populações que se encontravam deslocadas nas cidades do litoral, o com-
portamento positivo do investimento privado – ainda que muito concentrado
em sectores de tecnologia de ponta e intensivos em capital –, as políticas de
emprego aplicadas pelo Governo através do MAPTSS e os fortíssimos investimen-
tos públicos na reconstrução, reabilitação e modernização das infra-estruturas
físicas do país (o Estado aplicou nestas áreas praticamente 76910 milhões de
dólares entre 2002 e 2013, a despeito da acentuada quebra de praticamente
30% em 2009, por força do ajustamento induzido pela quebra das receitas fiscais
petrolíferas).148

No Inquérito ao Emprego em Angola (IEA), 2009, 2010 e 2011 do INE são apre-
sentadas as seguintes taxas de desemprego globais (formal e informal): 11%, 9% e
17% respectivamente. As séries estatísticas do CEIC são mais longas e relativamen-
te mais estáveis.

147 Em condições de uma taxa de desemprego natural de 4% e de produtividade de


…‡”…ƒ†‡ͶͲͲͲͲ†×Žƒ”‡•ǡ‘’”‘†—–‘’‘–‡…‹ƒŽ’‘†‡—Ž–”ƒ’ƒ••ƒ”ʹͻͶ‹Ž‹ŽŠÙ‡•†‡†×Žƒ-
res (o produto potencial corresponde ao uso pleno dos factores de produção sem ace-
Ž‡”ƒ­ ‘†ƒ‹ϐŽƒ­ ‘ȌǤ
148 Relatórios de Balanço dos Programas do Governo e os Relatórios de Execução Orça-

mental.

220 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

ESTIMATIVAS DA TAXA DE DESEMPREGO (%)


ANOS CEIC (Sector Formal) INE (Formal e Informal)
2000 40,9 -
2001 39,2 -
2002 25,6 -
2003 25,7 -
2004 29,8 -
2005 24,4 -
2006 23,7 -
2007 23,6 -
2008 23,7 -
2009 23,4 11,0
2010 23,1 9,0
2011 22,0 17,0
2012 21,4 -
2013 21,6 -
FONTE: ǡˆ‹…Š‡‹”‘Emprego e Produtividade; INE, Inquérito ao Emprego em Angola, 2009,2010 e 2011.

As estimativas do CEIC já tiveram em consideração os dados da população do


INE das Contas Nacionais 2002-2010 e as informações do MAPTSS revelando a cria-
ção de 221600 e 158865 novos postos de trabalho, respectivamente em 2012 e
2013. Já anteriormente estas cifras foram comentadas.

Assim, em 2013 a taxa de desemprego no sector formal da economia pode


ter sido de 21,6%, menos 0,4 ponto percentual que em 2012 (de acordo com o
MAPTSS, em 2013 registou-se uma diminuição de 28,3% no montante líquido de
geração de postos de trabalho), revelando-se uma elevada rigidez no processo de
geração de novos empregos. No entanto, tão ou mais importante do que a criação
líquida de emprego é a sua qualificação e a correspondente remuneração (mais
atrás já ficou sublinhado que estas componentes são determinantes para melhorar
a distribuição do rendimento nacional em Angola).

| 221
CEIC / UCAN

COMPORTAMENTO DA TAXA DE DESEMPREGO


45
40
35
Valores em %

30
25
20
15
10
Taxa de desemprego
5
0
2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013
FONTE: CEIC, icheiro Emprego e Produtividade em Angola, com base nas Contas Nacionais do INE.

O Governo prevê, até 2017, uma taxa média anual de desemprego de 26,3%,
superior à estimada pelo CEIC para 2013. No entanto, em termos absolutos, o
Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 fixa uma meta anual média de-
sejável de criação de emprego líquido de 321000 postos de trabalho, bem acima
do efectivamente registado no Relatório do MAPTSS de 2013: 221600 em 2012 e
158865 em 2013. Aquela meta corresponderá à criação, no final de 2017, de mais
de 1600000 novos empregos, o que se afigura bastante difícil, até porque o Fundo
Monetário Internacional prevê uma taxa média anual de crescimento do PIB de
5,2% entre 2013 e 2019149.
Provavelmente esperam-se efeitos significativos da liberalização do mercado
de trabalho, um elevado incremento do investimento, público e privado (embora
o Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 seja omisso quanto às expectati-
vas/previsões do Governo sobre o comportamento desta variável macroeconómi-
ca150) e resultados expressivos dos diferentes programas de apoio ao empresário
local (como o Angola Investe, mas que tem experimentado algumas dificuldades,
conforme relatos públicos e reportagens de alguns órgãos de comunicação social
independentes151).

149 International Monetary Fund, Angola, Second Post-Program Monitoring, March 2014.

150 O máximo que se aponta (pág. 31) é para o investimento externo líquido, diferença

entre entradas e saídas a título de remuneração dos capitais.


151 Em entrevista à estação de rádio LAC, durante o programa radiofónico “BANCA e

‹ƒ­ƒ•dz†‘†‹ƒ͹†‡„”‹Ž†‡ʹͲͳͶǡ ‡”ƒ†‘‡Ž‡•ǡ
†‘ƒ…‘ ǡƒϐ‹”‘—…ƒ–‡-
goricamente que o Angola Investe vai muito bem e que tem sido uma excelente medida
do Governo para incentivar a produção. No entanto, não deixou de referir a baixa qua-
Ž‹†ƒ†‡†‘•’”‘Œ‡…–‘•ƒ’”‡•‡–ƒ†‘•’ƒ”ƒ•‘Ž‹…‹–ƒ­ ‘†‡ϐ‹ƒ…‹ƒ‡–‘•‘Ÿ„‹–‘†‡•–ƒ
iniciativa governamental.

222 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Outra contrariedade pode ferir a política de criação abundante de emprego, tal


como o Plano de Médio Prazo prevê: com os significativos ganhos na inflação152, os
salários reais tenderão a elevar-se, podendo prejudicar a procura de trabalhadores
e provocar a retracção do investimento privado.

São trade-off com que a política económica tem de lidar e saber resolver. De
resto, o aumento do poder de compra das remunerações do trabalho é essencial
para melhorar a repartição do rendimento nacional, senão slogans políticos não
passarão de vãs promessas.

COMPARAÇÃO ENTRE CRESCIMENTO DO PIB E CRESCIMENTO DO EMPREGO


16
14
12
10
8
6
4
2
0
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Tx crescimento PIB Tx crescimento emprego


FONTE: CEIC, icheiro Emprego e Produtividade em Angola, com base nas Contas Nacionais do INE.

O gráfico anterior procura mostrar a correlação entre crescimento económico


e criação de emprego em Angola. Teoricamente, quanto mais elevada a taxa de
variação real do PIB, maior quantidade de emprego deveria ser criada. No entanto,
as evidências empíricas internacionais não confirmam a relação positiva entre em-
prego e crescimento. A abertura dos mercados e a crescente concorrência entre as
economias parecem obrigar a sacrificar a criação de postos de trabalho em favor
de processos de produção mais poupadores deste factor de produção e com maior
recurso ao capital e à tecnologia.

152•‡š’‡…–ƒ–‹˜ƒ•’ƒ”ƒʹͲͳͶ• ‘†‡ƒ—‡–‘†ƒ–ƒšƒ†‡‹ϐŽƒ­ ‘’‘”‡ˆ‡‹–‘†ƒ‘˜ƒ

Pauta Aduaneira, que já começou a arrasar a estabilidade de preços em muitos produ-


tos importados e de consumo popular generalizado e que a produção nacional não tem
…‘’‡–²…‹ƒ’ƒ”ƒ•—„•–‹–—‹”ƒ…—”–‘‡±†‹‘’”ƒœ‘ȋ‘’‘†‘ƒ•…‹‡–‘ǡ‡šǦ’”‹‡‹”‘
‹‹•–”‘ǡ ‡šǦ•‡…”‡–ž”‹‘ ‰‡”ƒŽ †‘  ‡ ‡šǦ†‡’—–ƒ†‘  ••‡„Ž‡‹ƒ ƒ…‹‘ƒŽ ƒϐ‹”‘—
no workshop “Agenda para o Desenvolvimento de Infra-estruturas de Angola” realizado
pelo BAD e Ministério das Finanças: “o país não conta com um sector privado como
•‡ †‹œdzȌǤ ‡ ‡•–‡• ‡ˆ‡‹–‘• ’”‘˜‘…ƒ”‡ ”‡‹˜‹†‹…ƒ­Ù‡• †‘• –”ƒ„ƒŽŠƒ†‘”‡• ’‘” •ƒŽž”‹‘•
mais altos, que absorvam o efeito marginal de aumento dos preços, então a criação de
emprego substancial estará irremediavelmente comprometida.

| 223
CEIC / UCAN

Nota-se que nos anos de maior variação real do PIB a taxa de desemprego re-
duziu. Este fenómeno é visível até 2008. É claro o paradoxo de 2009 – talvez o ano
em que maior número de empregos tenha sido criado – em que coabitam uma
reduzida taxa de variação da actividade económica global (2,4%) com baixa taxa
de desemprego (23,4%, a segunda mais baixa de sempre no período 2000/2013).

Atendendo às taxas de crescimento previstas no Plano Nacional de Desenvolvi-


mento 2013-2017, embora já ajustadas em baixa, a de 2013 (4,1% em vez de 7,1%)
e a de 2014 (5,3% em vez de 8%), e a relação próxima entre variação real do PIB e
o emprego (ainda que nem sempre linear e sempre a necessitar de ser ponderada
pela natureza mais ou menos capitalística-tecnológica dos processos de produção)
deveria esperar-se uma criação líquida de postos de trabalho mais intensa. Por
esta via pode estar em causa a promessa eleitoral de melhorar a distribuição do
rendimento e de aumentar a remuneração do factor trabalho.

Elascidade emprego/PIB 1,65

1,20
1,01
0,96
0,76
0,61
0,37 0,35 0,55
0,38
0,25
0,25 0,24

2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
FONTE: CEIC, icheiro Emprego e Produtividade em Angola.

O gráfico anterior mostra, no entanto, que a capacidade de criação de emprego


em Angola – reflectida na elasticidade emprego/rendimento (PIB) – é relativamen-
te baixa, para além de instável ao longo do tempo, justamente devido ao grau de
dependência do exterior e da fraca integração económica interna.

A taxa de desemprego de longo prazo (de certa maneira, o desemprego estru-


tural no sector formal da economia e que as entidades oficiais e as associações
empresariais estão convencidas que só poderá ser ultrapassado com a liberaliza-
ção do mercado de trabalho e o abaixamento – ainda mais – dos salários) pode ser
estimada em 28,3% – linha tendencial entre 2000 e 2017 –, (inferior à estimada no
Relatório Económico de 2012 (31,6%), devido à redução da taxa de desemprego
em 2012 e 2013, de acordo com as informações anteriores) muito elevada face às
necessidades de geração de rendimentos permanentes necessários para a melho-
ria das condições de vida da população.

224 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Utilizando-se outro instrumento científico de análise da taxa de desemprego,


dado pela lei de Okun, considerando uma taxa de crescimento tendencial da eco-
nomia de 8,8% (média geométrica das taxas anuais de crescimento do PIB entre
2000 e 2013153) e uma taxa de crescimento real do PIB em 2013 de cerca de 4,41%
(estimativa do Governo), a taxa de desemprego é de 29%.

TAXA DE DESEMPREGO - LEI DE OKUN


40
35
30
Em percentagem

25
20
15
Taxa de desemprego - lei de Okun
10
5
0
2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013
FONTE: CEIC, Estudos sobre a Lei de Okun.

Em conclusão, qualquer que seja o prisma metodológico de análise, o desem-


prego é um problema económico – potencial de crescimento não realizado – e
uma questão social séria, que provoca pobreza, indigência e exclusão. Mas não
só. Os empregos a criar devem ser “bons empregos”, significando remunerações
compatíveis com os ganhos de produtividade do trabalho, as condições de vida e a
qualificação das profissões154.

Vale a pena observar o comportamento sectorial do emprego em 2013, uti-


lizando-se as informações oficiais, já corrigidas pelos recentes dados das Contas
Nacionais para os anos 2002 a 2010155.

153Calculada com base nas informações do FMI, retiradas dos relatórios sobre o World
Economic Outlook referentes aos anos abarcados.
154ƒ•—„•–‹–—‹­ ‘‡ϐ‹…‹‡–‡†ƒ•‹’‘”–ƒ­Ù‡•±–”‹„—–ž”‹ƒ†ƒ†‹‡• ‘‡…‘×‹…ƒ†‘

mercado interno, que passa pelo nível de remuneração dos factores de produção nacio-
ƒ‹•ǡ‡’ƒ”–‹…—Žƒ”†ƒˆ‘”­ƒ†‡–”ƒ„ƒŽŠ‘ƒ‰‘ŽƒƒǤ‡˜‡”‡…‘Š‡…‡”Ǧ•‡“—‡‘••ƒŽž”‹‘•
médios mensais praticados pelo sector privado, angolano e estrangeiro, para algumas
’”‘ϐ‹••Ù‡•ȋ‡ƒŽ‰—•…ƒ•‘•ƒ„ƒ‹š‘†‘•ƒŽž”‹‘À‹‘Ž‡‰ƒŽ‡–‡‡•–‹’—Žƒ†‘Ȍ…‘ϐ‹‰—-
ram verdadeiras situações de exploração, incompatíveis com os preceitos constitucio-
nais e as regras de ética e solidariedade social.
155 ‘‡•–‹ƒ–‹˜ƒ•“—‡…‘„”‡ƒ’‡ƒ•‘•–”ƒ„ƒŽŠƒ†‘”‡•ƒ…‹‘ƒ‹•ǡ…‘‘†‡”‡•–‘±ƒ

norma para efeitos de cálculo da taxa de desemprego.

| 225
CEIC / UCAN

A agricultura e actividades conexas é o sector mais importante em matéria de


criação de emprego no país, representando os postos de trabalho uma média de
50% do total da economia. O segundo sector de maior criação de emprego é o co-
mércio e actividades correlacionadas com uma representatividade média de quase
19% no período 2007/2013.

EMPREGO SECTORIAL
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Agricultura, Pecuária,
2536849 2621107 2699741 2766221 2834338 2844201 2859460
Florestas
Pescas 30182 33447 35157 37052 39049 42197 44134
Petróleo e Gás 17729 19059 19249 20212 21222 22283 23398
Diamantes e Outros 36443 22904 20541 21827 23194 25526 43464
Indústria
58138 59419 63292 66109 69051 69051 72454
Transformadora
Electricidade 9160 11646 9820 10281 10764 24009 63312
Construção 308646 320191 339688 365993 394335 406184 410931
Comércio 938714 949645 980278 1005284 1030928 1061480 1085669
Transportes/armazen. 79159 81377 85615 88778 92058 189077 209834
Correios/telecomunic. 4801 4574 6713 8327 10329 10329 10329
Bancos e Seguros 7237 14138 15561 18925 23016 23016 23016
Estado 401447 420832 435269 469091 505541 531947 532335
Serviços Imobiliários 377 424 455 494 536 582 632
Outros Serviços 432885 438841 462400 481596 501589 526430 552693
ANGOLA 4861767 4997604 5173779 5360190 5555950 5776313 5931661
FONTE: INE, Contas Nacionais 2002-2010; Governo de Angola, Balanço de Execução do Plano Nacional vários anos; Re-
latório do MAPESS vários anos.

A actividade de transportes/armazenagem multiplicou por 2,7 o seu quantita-


tivo de emprego entre 2007 e 2013, uma cadência média anual de crescimento de
17,6%, o que é notável.

A tabela da página seguinte apresenta a estrutura do emprego em Angola.

226 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013


Agricultura Pecuária,
52,2 52,4 52,2 51,6 51,0 49,2 48,2
Florestas
Pescas 0,6 0,7 0,7 0,7 0,7 0,7 0,7
Petróleo e Gás 0,4 0,4 0,4 0,4 0,4 0,4 0,4
Diamantes e Outros 0,7 0,5 0,4 0,4 0,4 0,4 0,7
Indústria Transformadora 1,2 1,2 1,2 1,2 1,2 1,2 1,2
Electricidade 0,2 0,2 0,2 0,2 0,2 0,4 1,1
Construção 6,3 6,4 6,6 6,8 7,1 7,0 6,9
Comércio 19,3 19,0 18,9 18,8 18,6 18,4 18,3
Transportes/armazen. 1,6 1,6 1,7 1,7 1,7 3,3 3,5
Correios/telecomunic. 0,1 0,1 0,1 0,2 0,2 0,2 0,2
Bancos e Seguros 0,1 0,3 0,3 0,4 0,4 0,4 0,4
Estado 8,3 8,4 8,4 8,8 9,1 9,2 9,0
Serviços Imobiliários 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Outros Serviços 8,9 8,8 8,9 9,0 9,0 9,1 9,3

Exceptuando-se a agricultura – onde o conceito clássico de empregado tem


dificuldade em se encaixar – os sectores mais animadores do emprego têm sido
a indústria transformadora, as obras públicas e construção e os serviços denomi-
nados mercantis (comércio, bancos e seguros, transportes e telecomunicações,
hotelaria e turismo, serviços privados de educação e saúde), tipicamente áreas
de intervenção privada, embora permaneçam ainda muitas empresas públicas ou
estatais dominantes neste universo sectorial.

EMPREGO FORA DA AGRICULTURA


1400000
1200000
1000000
800000
600000
400000
200000
0
as leo s
s .. e ão s do s
sc te s ia. ad uç an ta iço
Pe e tróe Gá manutro ústr i c id t r r c Es e rv
P a ctr ns e ss
Di e o Ind Co m
tro
Ele i ç os u
rv O
Se
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
FONTE: CEIC, icheiro Emprego e Produtividade em Angola.

Uma maior visibilidade sobre a capacidade sectorial de criação de emprego


líquido é possível observar na tabela da página seguinte.

| 227
CEIC / UCAN

INCREMENTOS DE EMPREGO
2008 2009 2010 2011 2012 2013
Agricultura Pecuária,
84258 78634 66480 68117 9863 15259
Florestas
Pescas 3265 1710 1895 1997 3148 1937
Petróleo e Gás 1330 191 962 1011 1061 1114
Diamantes e outros -13539 -2363 1286 1367 2332 17938
Indústria Transformadora 1281 3873 2817 2942 0 3403
Electricidade 2486 -1826 461 483 13245 39303
Construção 11545 19497 26305 28342 11849 4747
Comércio 10931 30633 25006 25644 30552 24189
Transportes/armazena 2218 4238 3163 3280 97019 20757
Correios/telecomunica -227 2139 1614 2002 0 0
Bancos e Seguros 6901 1423 3364 4091 0 0
Estado 19385 14437 33822 36450 26406 388
Serviços Imobiliários 47 31 39 42 46 50
Outros serviços 5956 23559 19196 19993 24841 26263
ANGOLA 135837 176176 186410 195761 220362 155348
FONTEǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘Estudos sobre Produtividade e Emprego, com base em informações oficiais do INE, Governo de Angola,
Balanço de Execução do Plano Nacional vários anos. Relatório do MAPESS, vários anos.

São dificilmente explicáveis as brutais oscilações na criação de postos de tra-


balho na agricultura, pescas, florestas e pecuária, mas compreensível a aparente
perda de dinâmica do sector da construção, já anteriormente referida, a importân-
cia relativa praticamente marginal da indústria transformadora (de acordo com as
Contas Nacionais 2002-2010 o peso relativo da manufactura no PIB tem sido, em
média 4%-5%) e perfeitamente aceitável a crescente relevância do sector dos ser-
viços (com a abrangência dada). Já consideramos incompreensível o destaque da
energia eléctrica e águas, com um dos maiores incrementos de emprego em 2013.

Os dois gráficos seguintes apresentam, respectivamente para 2008 e 2013, a


repartição sectorial dos incrementos de emprego nesse período, percebendo-se a
perda de capacidade dos sectores primários, sendo uma fonte relevante de criação
de postos de trabalho.

228 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2008

4% Agricultura, Pecuária e Florestas


12% Pescas
Petróleo e Gás
4%
0% Diamantes e outros
1% Indústria transformadora
7% 52% Electricidade
Construção
7%
Comércio
1%
1% Transportes e armazenamento
8% Correios/telecomunicações
1% 2% Bancos e Seguros
Estado
Outros serviços

FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

2013

10% Agricultura, Pecuária e Florestas


17% Pescas
1%
0% 1% Petróleo e Gás
0% Diamantes e outros
0% 12% Indústria transformadora
13% 2% Electricidade
Construção
Comércio
Transportes e armazenamento
16% 25% Correios/telecomunicações
3% Bancos e Seguros
Estado
Outros serviços

FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

Conforme se assinalou já, o investimento público tem sido uma das alavancas
essenciais do crescimento económico desde 2002, pelos efeitos directos que de-
sencadeia e pelos efeitos indirectos de arrastamento sobre os investimentos pri-
vados (maior confiança na economia, externalidades que diminuem os custos de
produção, etc.). A consequência evidente sobre o emprego está patente no stock de
emprego no sector da construção e obras públicas, com uma cifra de 347 mil postos
de trabalho em 2013, de longe o terceiro maior sector empregador da economia.

Recuperando o Relatório do Ministério da Administração Pública, Trabalho e


Segurança Social – Balanço de Execução das Actividades do Sector no Ano de 2013
– vale a pena alinhar mais algumas observações sobre as informações aí contidas:
a) O total de funcionários civis do Estado aumentou de 375273 em 2012 para
380106 trabalhadores em 2013, um incremento de apenas 1,3%:

о Parece tender-se para uma situação em que o Estado vai deixar de ser um
dos maiores empregadores da economia, mais de acordo com os princípios
de uma economia de mercado centrada na iniciativa privada.

| 229
CEIC / UCAN

о Igualmente aparente a melhoria de produtividade no sector administrativo


do Estado, conseguindo-se, pelo menos, manter a quantidade dos servi-
ços com menos trabalhadores. No entanto, a realidade não é esta, sendo
conhecidos muitos episódios de queixas e críticas quanto à eficiência dos
funcionários na satisfação das necessidades de bens públicos da parte dos
cidadãos. Reconhecem-se os esforços dos Ministérios e em especial do MAPTSS
e os investimentos do Estado na melhoria do seu relacionamento com
a população, sobretudo a de menores rendimentos. Portanto, a questão
passa a ser cultural e do domínio da personalidade e comportamento dos
funcionários, eventualmente só alterável num contexto de forte disciplina
e de cumprimento rigoroso do estatuto da Função Pública.
b) O padrão oscilante do sector dos transportes que em 2012 criou 97019
novos empregos e em 2013 quase que os perdia integralmente (criação
de 20757 novos postos de trabalho). O que sucedeu? Reestruturação de
empresas, com despedimento de trabalhadores? Deficiente contabilização
do emprego? Esta actividade é das que mais emprego pode criar no estádio
actual de reorganização dos sistemas de transporte e distribuição do país.
c) A fraquíssima representatividade da indústria transformadora, uma das ac-
tividades cruciais para a diversificação da economia, o aumento da produ-
tividade geral do país e a melhoria na distribuição do rendimento: em 2013
criou tão-somente 3403 novos empregos. Esta informação contrasta com
as provenientes da Agência Nacional do Investimento, que constantemente
referem montantes extraordinários de investimento privado na manufactura.
d) A posição do sector de energia e águas, como um dos grandes empregadores
da economia: 13245 novos postos de trabalho em 2012 e 39309 em 2013.
O stock de emprego era de 70823 empregados, 46% mais do que a manu-
factura. Estar-se-á na eminência de uma nova especialização da economia
nacional?
e) A hotelaria e turismo parecem confirmar as expectativas que as autoridades
depositam enquanto actividade de enormes potencialidades de criação de em-
prego: 4152 em 2012 e 15497 em 2013. No entanto, devem ser caldeadas estas
esperanças, porquanto se trata de um emprego sazonal e provisório, sujeito,
mais do em outros sectores, à imposição “demosteniana” das leis do mercado.

A produtividade é outra das variáveis centrais do crescimento económico, da


diversificação da economia e da distribuição do rendimento.

A despeito de uma evolução francamente favorável desde 2000, com particular


destaque para 2008, 2011 e 2013, a produtividade geral do trabalho apresenta

230 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

ainda índices médios muito baixos, particularmente quando inseridos em contex-


tos internacionais.

COMPORTAMENTO DA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO


30000
25000
Valores em USD

20000
15000

10000
5000

0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2012 2013
FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

Em 2013, o valor médio da produtividade bruta aparente do trabalho foi de cer-


ca de 25000 dólares por trabalhador, o mais alto do intervalo temporal 2005-2013,
com uma influência evidente do sector de extracção de petróleo e de produção de
refinados, onde a produtividade foi de 3250 mil dólares por trabalhador. Em com-
pensação (?!) na agricultura o valor foi de apenas 3700 dólares por trabalhador.

Resta, porém, uma distância significativa para alguns países da SADC – a norma
de referência de Angola – como a África do Sul (onde o seu valor rondou os 75000
dólares por trabalhador empregado em 2010), o Botswana com 44000 dólares e
o Gabão com 55000 dólares por activo em funções produtivas. Para a União Euro-
peia, a produtividade bruta aparente do trabalho atingiu uma média de cerca de
300000 dólares por activo ao serviço.

VALORES DA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO EM USD (2010)


80 000
70 000
60 000
50 000
40 000
30 000
20 000
10 000
0
la

na
l

am a

lia

na

ria

fim
Su

co
i

qu

bu

ng
go

íb


ua

Ga


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Ga
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ba
An

Ar
ad

ts

Ni

M
ar
Na

Zim
Bo

M
ric

do

Áf

sta
M

Co

2010
FONTE: World Bank – World Development Development, 2013.

| 231
CEIC / UCAN

VALORES DA PRODUTIVIDADE MÉDIA DO TRABALHO EM USD (2010)


191 168
2010

98 399 106614
90 355

14000

Angola Brasil Argenna Venezuela México


FONTE: World Bank – World Development Development, 2013.

VALORES DA PRODUTIVIDADE MÉDIA DO TRABALHO EM USD (2010)


2010
569699 555585
492757 479021
420170
292153
191590 185432

14 000

Angola Portugal Espanha Grécia França Reino Alemanha Noruega Estados


Unido Unidos
FONTE: World Bank – World Development Development, 2013.

As diferenças sectoriais entre os valores da produtividade média do trabalho


são muito elevadas, conforme mostram as informações da tabela abaixo. Entre a
maior e a menor produtividade sectorial medeia uma distância de 1716 vezes156.
Dentro da economia não petrolífera este diferencial reduz-se em 91,3 vezes (entre
a manufactura e a agricultura). Assim, surgem igualmente evidentes as assimetrias
sectoriais no crescimento da economia nacional, podendo afirmar-se que as po-
líticas públicas de intervenção na economia – na agricultura e na indústria trans-
formadora – não têm sido desenhadas com o objectivo de se transformarem em
oportunidades de maior dinamismo de crescimento das actividades mais atrasa-
das neste item, nomeadamente pela via da irradiação de efeitos de arrastamento
(Teoria dos Pólos de Desenvolvimento, de François Perroux).

156 Não se pode perder de vista a circunstância de ser a produção de petróleo o sector

‘†‡ ‡•–‡ ‹†‹…ƒ†‘” ƒ–‹‰‡ ˜ƒŽ‘”‡• ˜‡”†ƒ†‡‹”ƒ‡–‡ ‰ƒŽž…–‹…‘•ǡ ‹ϐŽ—‡…‹ƒ†‘ǡ ƒ••‹ǡ


a média nacional. As disparidades sectoriais são, portanto, muito fortes e a diferença
para o sector petrolífero ainda não funcionou como factor de disseminação, absorção e
domínio das boas práticas de gestão empresarial corrente e estratégica, apanágio des-
tas indústrias de ponta.

232 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

PRODUTIVIDADES SECTORIAIS
h^ͬƚƌĂďĂůŚĂĚŽƌ
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2013
Agricultura
Pecuária, 549,0 1454,3 875,2 2447,8 2381,9 2911,9 3367,9 3728,7
Florestas
Manufact. 38141,1 61029,2 78769,7 97088,7 89986,1 103113,4 115758,9 173130,2
Diamantes 22228,5 31873,0 24787,7 21267,8 13747,5 32603,5 37470,0 47262,1
Construção 22639,0 7627,9 13701,2 18210,9 16546,9 20090,7 23469,9 23760,3
Serviços 29501,8 5629,7 36370,2 45000,9 30164,4 35204,9 38677,6 37418,5
Outros 10614,4 9554,9 12244,6 14241,5 12805,5 16795,5 16285,4 18004,8
Média 5722,9 10082,5 9315,4 22015,9 17840,6 20011,9 24188,2 24956,2
Petróleo 1384151,3 1736786,9 2581579,8 3699685,5 3035268,3 2561734,9 3127833,6 3253814,9
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘Estudos sobre Produtividade e Emprego, com base nos Relatórios do MAPTSS.

Conforme se anotou, as disparidades intersectoriais da produtividade são mui-


to elevadas, perdendo significado, por exemplo, a comparação entre a produti-
vidade bruta aparente do sector do petróleo e da agricultura. São dois mundos
diferentes e antagónicos. Consequentemente é difícil construir-se uma economia
nacional integrada nestas circunstâncias e com políticas públicas ainda desfocadas
desta realidade das assimetrias sectoriais. Enquanto não se construir uma matriz
de relações entre os sectores que engendre uma densidade intersectorial relevan-
te, a diversificação da economia não terá condições de se efectivar de uma forma
eficiente e a baixo custo.

As diferenças sectoriais de produtividade do trabalho confirmam os desequilí-


brios estruturais da economia angolana. Mesmo dentro da economia não petro-
lífera, os desequilíbrios são enormes, aparecendo o sector primário (agricultura,
pecuária, florestas e pescas) como o mais definhado, apesar das reconhecidas po-
tencialidades e dos meios estatais postos à sua disposição.

| 233
CEIC / UCAN

VALORES DA PRODUTIVIDADE BRUTA APARENTE NO SECTOR NÃO PETROLÍFERO


(Dólares por trabalhador)
20 000

15 000

10 000

5 000

0
ra

ra

ia
te

iço

tro
çã

éd
tu

tu

an

tru

rv

Ou
ul

ac

M
am

Se
ric

uf

ns
an
Ag

Di

Co
M

2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013


FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre a Produtividade e Emprego.

Não são evidentes as relações entre emprego e produtividade em Angola, tal


como se tem vindo a enfatizar. Nuns anos, cresce a produtividade e o emprego de
uma forma desproporcionada entre si, enquanto noutros o crescimento do em-
prego é feito com sacrifício da produtividade (uma vez mais, 2009 é o ano para-
digmático).

COMPARAÇÃO ENTRE EMPREGO E PRODUTIVIDADE


60
50
40
Em percentagem

30
20
10
0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
-10
-20
-30
Taxa crescimento produvidade Taxa crescimento emprego
FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

Quanto aos ganhos reais de produtividade, a situação em 2009 foi a mais dra-
mática desde 2002, registando-se perdas significativas na eficiência da economia,
pesando, negativamente, sobre a competitividade do país. Estas situações inviabi-
lizam a introdução de ajustamentos salariais positivos, que emendem a subida de
preços e melhorem a qualidade de vida das famílias dos trabalhadores.

234 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Apesar de um ganho geral médio de produtividade de 3% em 2013 (2,3% em


2012), em muitos sectores o emprego cresceu a taxas mais elevadas do que o res-
pectivo PIB. Tais foram os casos da extracção de diamantes, dos serviços e da elec-
tricidade. A agricultura (depois de uma quebra monumental em 2012) e as obras
públicas e construção averbaram os ganhos de produtividade mais expressivos em
2013, ou seja, conseguiram conciliar crescimento económico e aumento de pro-
dutividade.

GANHOS SECTORIAIS DE PRODUTIVIDADE


2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Agricultura, silvicultura, pescas 13,0 -1,9 25,6 12,2 8,8 -24,9 8,3
WĞƚƌſůĞŽĞƌĞĮŶĂĚŽƐ 23,2 12,1 -3,1 -18,2 -13,4 4,4 0,6
Diamantes e outros 0,8 -10,2 4,2 84,2 -4,8 -8,4 -24,8
Indústria transformadora 23,3 4,7 -1,1 5,1 5,3 23,1 0,4
Energia eléctrica e água 1,9 25,6 -65,6 -34,4 -21,9 -28,2 -45,5
Obras públicas e construção 32,5 11,8 -2,1 5,3 9,6 3,8 6,1
Comércio,Bancos,Seguros,Serv. -11,0 4,8 -28,3 5,6 3,1 -15,4 -4,9
Outros -5,7 -1,6 -3,7 23,3 -0,7 1,4 -3,8
MÉDIA 8,9 8,3 -3,2 3,6 2,3 2,3 3,0
ǣ ǡˆ‹…Š‡‹”‘Estudos sobre Produtividade e Emprego.

Uma economia em transição para a diversificação das exportações tem de


apresentar ganhos anuais de produtividade equivalentes a uma taxa de 10%, de
acordo com as evidências empíricas reveladas por estudos elaborados sobre séries
estatísticas relevantes. Se o emprego variar, em média igualmente anual, 7,5%,
então o PIB tem de crescer 18,25% anualmente. No entanto, pode não ser suficien-
temente estimulante para os investimentos privados, na medida em que a remu-
neração da iniciativa empresarial se restringiria a 2,3% (a sua parte na repartição
dos ganhos de produtividade).

6.3 Estimativas do desemprego até 2017

Como vai ficar o desemprego em Angola para os próximos anos? Haverá re-
dução sensível da taxa de desemprego, estimada entre 20% e 25% da população
economicamente activa em 2013157? E como se deverá comportar a produtividade

157‘‘ ‘‡š‹•–‡†ƒ†‘•ϐ‹ž˜‡‹•‡…‘ϐ‹ž˜‡‹••‘„”‡‘‡’”‡‰‘‡‰‘Žƒ‡ƒ’‡•ƒ”

de mais atrás se ter estimado uma taxa de desemprego em 2013 de 21,6%, é sempre
razoável situá-la dentro de um intervalo que cubra as incertezas associadas ao seu com-
portamento.

| 235
CEIC / UCAN

deste factor de produção, fundamental para a redução de custos de produção e


dos preços dos produtos (logo controlo da inflação em limites estreitos, econó-
mica e socialmente suportáveis) e essencial para a competitividade da economia
(subsequentemente, para o processo de diversificação da estrutura produtiva e de
adesão à Zona de Livre Comércio da SADC, que os empresários continuam a insistir
numa fuga através da nova pauta aduaneira)?

Produtividade e emprego podem ter uma relação conflituosa (ainda que não
completamente contraditória) – o que os economistas chamam de trade off entre
eficiência e equidade – tornando a sua convergência uma matéria de longo prazo
e sempre apelativa de políticas valorativas do factor trabalho (força de trabalho
especializada e qualificada aumenta o valor agregado das commodities – as que
competem no mercado internacional e tornam a diversificação mais valorizada e
sustentável – e é a única forma de aumentar o valor da sua remuneração sem pre-
judicar o controlo da inflação)158.

Ainda que por vários motivos a relação entre emprego (criação de) e cresci-
mento económico não seja verdadeiramente de “amizade” entre si, sem cres-
cimento económico não pode haver criação de emprego (sem destruição de
parte do existente) ou redução de desemprego. O que a Teoria Económica e as
evidências empíricas mostram é uma desproporcionalidade entre as taxas de
crescimento do PIB e do Emprego, enquanto variáveis macroeconómicas: 1% de
crescimento do Produto Interno Bruto não provoca, necessariamente, uma varia-
ção real de 1% na criação de emprego. É uma espécie de rendimentos de escala
decrescentes. E é isto que torna a problemática do emprego muito complicada,
incerta e imprevisível. Um dos factores que contribui para esta desproporciona-
lidade é a cada vez mais elevada intensidade tecnológica e de capital dos inves-
timentos.

Existem vários instrumentos da Teoria Económica úteis para relacionar o em-


prego e o crescimento económico. O CEIC socorreu-se de um deles para tentar pro-
jectar para além do fim da presente legislatura (até 2019), que se iniciou em 31 de
Agosto passado, o quantitativo de emprego possível, de acordo com as projecções
do PIB conhecidas159, partindo da constatação de que a promessa feita pelo regi-
me político actual em 2008 de criação de 1200000 novos postos de trabalho não

158‘ŽÀ–‹…ƒ•”‡†‹•–”‹„—–‹˜ƒ•’‡Žƒ˜‹ƒ†‡•—„•À†‹‘•‡–”ƒ•ˆ‡”²…‹ƒ•†‘•–ƒ†‘’ƒ”ƒƒ‡…‘-

‘‹ƒ‡ƒ•ˆƒÀŽ‹ƒ•’‘†‡ǡ‹‰—ƒŽ‡–‡ǡ•‡”—•ƒ†ƒ•’ƒ”ƒ‡ŽŠ‘”ƒ”‘’‘†‡”†‡…‘’”ƒ
†ƒ•”‡—‡”ƒ­Ù‡•†‘–”ƒ„ƒŽŠ‘Ǥ‘‡–ƒ–‘ǡŽ‡˜ƒ–ƒ’”‘„Ž‡ƒ•”‡Žƒ…‹‘ƒ†‘•…‘‘•
equilíbrios orçamentais e com o custo de oportunidade associado aos respectivos mon-
tantes.
159 IMF – Angola, 2012 Article IV Consultation and Post Program Monitoring.

236 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

foi cumprida, havendo mesmo, para muitos analistas desta problemática, reservas
quanto às informações oficiais sobre o emprego na economia nacional160.

Apesar do elevado crescimento económico – ainda que ensombrado pela crise


de 2008/2009, com prolongamentos, em Angola, durante 2010 e 2011 – não foi
possível criar um volume expressivo de emprego e muito menos garantir a sua
sustentabilidade no tempo. O emprego é uma das vias de promover melhorias
na distribuição funcional do rendimento – a que se estabelece entre os factores
de produção envolvidos no processo de geração anual de valor agregado – mas
as beneficiações na repartição pessoal do rendimento exigem outras abordagens,
políticas e medidas e dependem do estado e do modelo de acumulação de riqueza
prevalecente: quando o índice de Gini traduz uma elevada concentração de rique-
za e rendimento e os processos de acesso ao enriquecimento da parte das elites
políticas e económicas é opaco e dominado pelo tráfico de influências e pela cor-
rupção, torna-se muito difícil e demorado transferir uma parte dessa riqueza para
outras classes e grupos sociais. Tudo isto se agrava quando as taxas de crescimento
económico forem reduzidas.

PERSPECTIVAS DE CRIAÇÃO DE EMPREGO ATÉ 2019


(CENÁRIO DE REFORÇO DA COMPETITIVIDADE)
Taxa Taxa real de Taxa de
Taxa crescimento Empregos Volume de
crescimento crescimento da desemprego
do emprego a criar emprego
PIB ƉƌŽĚƵƟǀŝĚĂĚĞ (%)
2011 3,40 2,06 2,75 110391 5470581 22,0
2012 5,30 4,05 3,25 221600 5692181 21,4
2013 4,10 2,79 3,25 158865 5851046 21,6
2014 5,30 -0,19 5,50 -11092 5839954 26,3
2015 5,50 0,00 5,50 0 5839954 28,7
2016 5,90 0,38 5,50 22142 5862096 30,4
2017 3,30 -2,09 5,50 -122243 5739853 33,8
2018 6,60 1,04 5,50 59847 5799700 35,0
2019 6,70 1,14 5,50 65968 5865668 36,1
FONTES: IMF – Angola, Second Post-Program Monitoring, March 2014; CEIC (Departamento de Estudos Económicos):
Estudos sobre Emprego e Produtividade.

Para que a economia possa ganhar algum músculo competitivo e assim inte-
grar-se melhor na região da SADC e na economia-mundo (taxa anual de cresci-
mento da produtividade de 5,5% depois de 2014), o emprego teria (ou terá) de ser
sacrificado, atendendo aos limites previsíveis – ainda que incertos – impendentes

160 Continua a não acreditar-se que em 2009 tivessem sido criados 384 368 novos pos-

–‘•†‡–”ƒ„ƒŽŠ‘Ȃ…‘””‡•’‘†‡–‡ƒ—ƒ–ƒšƒ”‡ƒŽ†‡˜ƒ”‹ƒ­ ‘†‡ͷǡ͹ΨǦǡ“—ƒ†‘‘ 
aumentou tão-somente 2,4%.

| 237
CEIC / UCAN

sobre a capacidade nacional de crescimento económico161. Nesta hipótese, che-


gar-se-ia ao fim da nova legislatura com um balanço positivo acumulado de apenas
47672 novos empregos (somatório aritmético da quinta coluna da tabela anterior,
entre 2013 e 2017), ou seja, não teria sido possível criar emprego líquido relevan-
te e, consequentemente, distribuir, pela via funcional (dos factores de produção)
rendimento ao factor trabalho. Neste cenário, a taxa de desemprego poderia ultra-
passar 33% da população economicamente activa em 2017.

COMPORTAMENTO DA TAXA DE DESEMPREGO


45
40
35
Em percentagem

30
25
20
15
10
5
0
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
2017
FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

ÍNDICE DE DESEMPREGO BASE 100 EM 2000


9000
8000
7000
6000
5000
4000
3000
2000
1000
0
00 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013 014 015 016 017
20 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2
FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

161 IMF – Angola, 2012 Article IV Consultation and Post Program Monitoring e Angola –
Post-Program Monitoring March 2014.‡”–ƒ„±Ž˜‡•†ƒ‘…Šƒǡ•
”ƒ†‡•‡•ƒϔ‹‘•
de Angola até 2017, CEIC-UCAN, Agosto de 2012, mimeo ȋ’‘†‡•‡”…‘•—Ž–ƒ†‘‡™™™Ǥ
ceic-ucan.org).

238 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Sacrificando a produtividade e a competitividade – com consequências sobre


a natureza do processo de diversificação da estrutura produtiva e o respectivo
timing – a criação de emprego é possível, nos termos que se seguem.

PERSPECTIVAS DE CRIAÇÃO DE EMPREGO ATÉ 2019


(CENÁRIO DE PERDA DE COMPETITIVIDADE)
Taxa Taxa Taxa de
Taxa crescimento Empregos Volume de
crescimento crescimento desemprego
ĚĂƉƌŽĚƵƟǀŝĚĂĚĞ a criar emprego
PIB do emprego (%)
2011 3,40 2,06 2,75 110391 5470581 22,0
2012 5,30 4,05 3,25 221600 5692181 21,4
2013 4,10 2,79 3,25 158865 5851046 21,6
2014 5,30 2,98 2,25 174530 6025576 24,0
2015 5,50 3,18 2,25 191522 6217098 24,1
2016 5,90 3,57 2,25 221931 6439028 23,6
2017 3,30 1,03 2,25 66122 6505150 25,0
2018 6,60 4,25 2,25 276747 6781898 24,0
2019 6,70 4,35 2,25 295153 7077051 22,9
FONTES: IMF – Angola, Second Post-Program Monitoring, March 2014; CEIC (Departamento de Estudos Económicos):
Estudos sobre Emprego e Produtividade.

Nesta hipótese, o volume acumulado de emprego no final de 2017 poderia ser


de 812970 novos postos de trabalho (somatório entre 2013 e 2017 dos valores da
quinta coluna da tabela anterior), uma média anual de 162594 novos empregos,
mais próxima da admitida no Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 (pág.
57). Mesmo assim, a taxa de desemprego aumentaria face a 2013, podendo esta-
belecer-se na vizinhança de 25% em 2017 (ainda assim, muito menor do que na
hipótese de ganhos de produtividade anuais de 5,5%).

EVOLUÇÃO DA TAXA DE DESEMPREGO SACRIFICANDO A PRODUTIVIDADE


45
40
Valores em percentagem

35
30
25
20
15
10
5
0
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
2017

FONTE: CEIC, icheiro Estudos sobre Produtividade e Emprego.

| 239
CEIC / UCAN

O Governo projecta até 2017 um crescimento económico, em média mais op-


timista do que o Fundo Monetário Internacional. Na verdade, o Plano Nacional de
Desenvolvimento 2013-2017 considera uma taxa média anual de 7,1%, enquanto o
FMI a coloca em 5,5%. Com base nestes valores oficiais, a taxa de desemprego po-
derá ter a evolução seguinte, considerando-se um trade off favorável ao emprego
na sua disputa com a produtividade.

PERSPECTIVAS DE CRIAÇÃO DE EMPREGO ATÉ 2017 (hipótese do Governo)


Taxa de
Taxa crescimento Taxa crescimento Taxa crescimento Empregos Volume de
desemprego
PIB do emprego ĚĂƉƌŽĚƵƟǀŝĚĂĚĞ a criar emprego
(%)
2013 4,1 1,6 2,50 158865 5851046 21,6
2014 8,0 5,4 2,50 313959 6165004 22,2
2015 8,8 6,1 2,50 378922 6543926 20,1
2016 7,5 4,9 2,50 319216 6863142 18,5
2017 4,3 1,8 2,50 120523 6983666 19,4
FONTEǣŽƒ‘ƒ…‹‘ƒŽ†‡‡•‡˜‘Ž˜‹‡–‘ʹͲͳ͵ǦʹͲͳ͹Ǥ•Š‹’×–‡•‡•†‡‰ƒŠ‘•†‡’”‘†—–‹˜‹†ƒ†‡• ‘†‘ Ǥ

Um quantitativo global 2013-2017 de 1291485 novos postos de trabalho po-


derão ser criados até 2017, se as taxas médias anuais de crescimento forem as
admitidas pelo Governo, e abdicando-se de ganhos significativos de produtividade
significativos. Neste quadro de análise, a taxa de desemprego seria de 19,4% em
2017.

Basta que se admita uma progressão média anual de 5,5% na produtividade do


trabalho para que as taxas de crescimento do PIB do Governo originem menos em-
prego. Nesta hipótese, a taxa de desemprego em 2017 seria de 28,2% e o montan-
te líquido de criação de novos postos de trabalho de 530379, entre 2013 e 2017.

Claro que nesta contabilidade do emprego e da produtividade há sempre um


factor de incerteza, para além das políticas activas voltadas para a valorização pro-
dutiva da força de trabalho e que é a taxa de crescimento do PIB: uma parte não
depende das políticas nacionais, indexada que está à economia mundial e aos mer-
cados externos do petróleo, mas a outra pode ser gerida internamente, referida,
nomeadamente, aos sectores da agricultura e da indústria transformadora. No en-
tanto, as políticas públicas que têm sido implementadas não têm sido as melhores,
nem as mais focadas em objectivos tão ambiciosos como a diversificação, a com-
petitividade e a excelência das exportações162.

162‡”‡Žƒ–×”‹‘…‘×‹…‘†‡‰‘ŽƒȂʹͲͳͳǡ ȀǡŽƒ­ƒ†‘‡ —Š‘†‡ʹͲͳʹǡ

em especial as abordagens sobre a agricultura e a indústria transformadora nas verten-


–‡•†‘‡”…ƒ†‘‹–‡”‘‡†ƒ†‹˜‡”•‹ϐ‹…ƒ­ ‘Ǥ

240 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

O mercado interno ainda está longe de ser suficiente para garantir a sustenta-
bilidade do crescimento económico e combater as desigualdades económicas e
sociais. O sector petrolífero continuará a ser, por muito tempo, a bóia de salvação
da economia nacional e se o preço do barril de petróleo baixar até os 80 dólares
– aparentemente e nas condições actuais o preço que maximiza os lucros das com-
panhias petrolíferas e minimiza os custos do crescimento económico e as despesas
das famílias – os efeitos internos serão intensos e novos modelos, estratégias e
políticas terão de ser ensaiadas.

Verifica-se, portanto, que o emprego é uma variável económica muito sensível,


tendo de ter um enquadramento cientificamente correcto e politicamente respon-
sável, de modo a evitarem-se promessas excessivas.

6.4 Políticas públicas de emprego e formação profissional

Segundo as Contas Nacionais 2007/2012 do INE, o Valor Acrescentado do Esta-


do, exclusivamente representado pelas remunerações dos seus funcionários civis e
militares, representava, em média, 12% do Produto Interno Bruto, traduzindo-se,
em 2013, numa cifra de aproximadamente 14,5 mil milhões de dólares. A parte
civil da Administração do Estado é preenchida com 380106 trabalhadores, com os
parciais de 44419 da administração central e o resto da administração local. Depois
da agricultura e do comércio (formal e informal), onde o conceito de empregado é
muito particular, o Estado continua a ser o maior empregador da economia.

A Administração Pública continua a patentear níveis exagerados de burocracia


e coeficientes baixos de produtividade. Nas instituições de prestação de serviços
aos cidadãos as queixas continuam a ser recorrentes sobre a falta de qualidade de
atendimento e relacionamento com o público. Se é verdade que em algumas insti-
tuições que lidam com as matérias macroeconómicas as modificações têm sido re-
levantes e positivas, não é menos certo também que nos níveis intermédios e mais
básicos as alterações demoram a produzir efeitos afirmativos no funcionamento
da máquina civil do Estado. O excesso de burocratização no exercício das funções
administrativas do Estado tem sido apontado no Doing Business do Banco Mundial
como um dos entraves mais do melhoramento do ambiente de negócios no país.

A preocupação do Governo quanto a esta matéria tem sido expressa nos seus
diferentes Programas de Desenvolvimento e mais recentemente no Plano Nacional
de Desenvolvimento 2013-2017.

O Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 estabelece as balizas e objec-


tiva as prioridades na consecução das políticas de modernização da Administração
e Gestão Públicas. A Reforma Administrativa do Estado é proposta com o objectivo
de aproximar o Estado dos cidadãos resultando num serviço mais eficaz e facilitado.

| 241
CEIC / UCAN

A qualidade do serviço público é importante para o desenvolvimento porque garan-


te a sustentabilidade das medidas de reforma e de modernização do Estado.

Medidas de política

Segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 as seguintes medi-


das devem ser observadas na administração pública:
a) Construir uma Administração Pública baseada em estruturas flexíveis e sim-
plificadas, diversificada quanto a soluções organizacionais, adaptadas ao
serviço a prestar.
b) Promover uma nova imagem da Administração Pública, estimulando a cultura
da qualidade, eficiência e desburocratização, que considere os cidadãos, as
empresas e a sociedade civil como utente/cliente.
c) Aperfeiçoar políticas públicas em matéria de educação, formação, emprego
e remuneração dos recursos humanos para a Administração Pública e para
a economia.
d) Implementar tecnologias de informação e comunicação nas diversas áreas
da Administração Pública.
e) Consolidar o Sistema Nacional de Planeamento.
f) Melhorar a qualidade e oportunidade das estatísticas oficiais à disposição
do Estado, das empresas e dos cidadãos.

Em 2013 a economia angolana criou 158.865 empregos, contra 221.600 em


2012, uma variação de menos 28,3% de um ano para o outro.

Segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, muitas questões se


colocam à volta do emprego: o que deve vir primeiro no processo de desenvolvi-
mento, os empregos ou a formação de aptidões? Qual o papel dos empregos no
desenvolvimento? Quais são os empregos bons para o desenvolvimento? Todas
estas variáveis estão intrinsecamente relacionadas pois o desenvolvimento ocorre
através de empregos, os países evoluem quando as pessoas conseguem encontrar
formas de melhorar as suas condições de vida, aumentando, ao mesmo tempo, a
sua produtividade e gerando riqueza. “Assim, os empregos são transformacionais,
eles podem transformar o que ganhamos, o que fazemos e quem somos”.

“O conceito, a classificação e o valor atribuído ao trabalho são sempre questões


culturais. Cada sociedade cria um conceito próprio, divide o trabalho em certas
categorias e atribui-lhe um determinado valor. Quando essas condições se alteram,
o trabalho também se altera, seja pela forma como se realiza, seja pelos instru-
mentos-padrão que utiliza e assim por diante. Da mesma forma, a sociedade e os

242 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

seus agentes também variam na forma como organizam, interpretam e valorizam


o trabalho”.

Teoricamente a criação de emprego num país está directamente ligada à taxa


de crescimento do produto Interno Bruto (PIB): se este aumenta, sobem as opor-
tunidades de gerar mais emprego. Se o PIB recua, o efeito, geralmente, é o inverso.
O desenvolvimento ocorre através de empregos.

Segundo aquele documento, o mundo do trabalho é diverso nos países em de-


senvolvimento. Na África Subsariana um emprego nem sempre vem com um salário.
O rendimento é não assalariado em 80% das mulheres, uma parte desse rendimento
corresponde a actividades ligadas à agricultura e outra parte a trabalho autónomo.
Ao mesmo tempo o trabalho tem subjacente uma condição de informalidade.

E ainda, como se avaliam esses empregos? A meta de criação de empregos é o


objectivo das políticas públicas mas os tipos de emprego que podem criar desenvol-
vimento dependem da “tipologia dos desafios para os empregos” que serão deter-
minados pelos desafios económicos, sociais, geográficos e institucionais dos países.

Em Angola o sector petrolífero gera riqueza sem criar emprego e os jovens ca-
recem de emprego. Considerando o potencial de crescimento (uma taxa de fe-
cundidade de 2,4%) e a composição etária do país (60% da população tem menos
de 21 anos), esta realidade constituirá a longo prazo uma enorme aposta para o
Executivo. Então, quais os desafios para os empregos em Angola?

A falta de educação para o trabalho é o principal entrave para o emprego dos


jovens. Ainda que existam postos de trabalho, faltam requisitos para os empre-
gos. A educação e a formação técnica e profissional têm a faculdade de propiciar
aos jovens competências e maiores possibilidades no mercado de trabalho. O co-
nhecimento e a aprendizagem continuada estão a tornar-se nos mais importantes
factores de produção e os países, para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos
devem necessariamente aperfeiçoar os seus sistemas educacionais.

E ainda, quais as prioridades e que tipos de empregos podem melhor correspon-


der aos fundamentos das políticas macroestruturais, tendo em conta, como se disse,
o nível de desenvolvimento e as políticas de emprego subjacentes, conformando os
diferentes desafios à medida dos processos de crescimento e desenvolvimento. Como
responder em cada momento aos desafios do emprego através de uma abordagem
de política pública? Assim as políticas públicas de emprego devem-se conformar aos
diferentes estágios de crescimento, assegurando condições para o desenvolvimen-
to do sector privado, principal criador de emprego, e removendo barreiras e restri-
ções que impeçam a criação de um ambiente económico favorável ao investimento.
A Administração Pública responde por 3,2% do emprego criado em 2013.

| 243
CEIC / UCAN

NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS POR ÂMBITO


ÂMBITO 2012 % 2013 %
Administração Central 44.062 12 44.419 12
Administração Local 331.211 88 335.687 88
TOTAL 375.273 100 380.106 100

NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS POR GÉNERO


GÉNERO Ano 2012 % Ano 2013 %
Homens 242.781 65 243.388 64
Mulheres 132.492 35 136.948 36
TOTAL 375.273 100 380.336 100

Verifica-se uma forte concentração de funcionários nas províncias de Luanda,


Benguela, Huambo e Huíla. A estrutura verificada em 2012 é quase idêntica à de
2013, sendo as mesmas províncias a beneficiarem de um maior nível de emprego
público.

NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS POR PROVÍNCIA


2012 2013 Variação (%)
BENGO 8436 8686 3,0
BENGUELA 39245 40174 2,4
BIÉ 23247 23304 0,2
CABINDA 12973 13032 0,5
HUAMBO 33482 34518 3,1
HUÍLA 32708 32896 0,6
K. KUBANGO 9352 9449 1,0
KWANZA-NORTE 8902 8970 0,8
KWANZA-SUL 20824 20855 0,1
CUNENE 11204 11284 0,7
LUANDA 48207 48386 0,4
LUNDA-NORTE 8843 9313 5,3
LUNDA-SUL 6702 7324 9,3
MALANGE 13266 13490 1,7
MOXICO 14181 14201 0,1
NAMIBE 9662 9738 0,8
UÍGE 20469 20631 0,8
ZAIRE 9558 9666 1,1
TOTAL 331261 335917 1,4

244 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS POR PROVÍNCIAS E GÉNERO, EM 2013


30000

25000

20000

15 000

10000

5000
0
a

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Ca

L.
M

Homens Mulheres

Medidas de política

Emprego

O Governo reconhece que a taxa de desemprego no país é elevada (Plano Na-


cional de Desenvolvimento 2013-2017, pág. 66, parágrafo 92), mas sem precisar
o seu valor (conforme anteriormente assinalado, o CEIC estima-a, para 2013, em
21,6%). Esta situação de significativa desocupação de uma percentagem rele-
vante da população economicamente activa é agravada pela concorrência que a
mão-de-obra estrangeira (chinesa, portuguesa e brasileira principalmente) exer-
ce sobre um mercado de trabalho ainda não completamente estruturado e onde
muitas das obrigações legais dos contratadores não são cumpridas, ou são-no
em pequena escala.

A melhor distribuição do rendimento que o Governo pretende até 2017 (“cres-


cer mais e distribuir melhor”) passa, na verdade, pela máxima criação de emprego,
embora a mudança do actual padrão de distribuição da renda petrolífera seja, do
mesmo modo, uma componente relevantíssima deste processo.

A máxima criação de emprego no período do Plano 2013-2017, avaliada em


321000 novos postos de trabalho por ano (um total de mais de 1600000 empre-
gos durante o período do Plano, verdadeiramente ambicioso tendo em linha de
conta a quebra de velocidade da economia nacional), depende:
a) Da taxa de crescimento do PIB: quanto mais elevada, maiores as necessida-
des de força de trabalho. No entanto, essa proporção depende da natureza
dos processos de produção, isto é, se intensivos em capital/tecnologia ou
em trabalho. As mais recentes previsões do crescimento económico do

| 245
CEIC / UCAN

país apontam para uma taxa média anual até 2019 de cerca de 5%, não
sendo propriamente a mais adequada para que a economia tenha em
média anual uma taxa de desemprego de 20% até 2017 (Plano Nacional
de Desenvolvimento 2013-2017, pág. 66).
b) Do funcionamento do mercado de trabalho: acredita-se que quanto menos
intervencionado e mais liberal for, mais oportunidades de trabalho se po-
derão criar. É o trade-off geracional, entre emprego para toda a vida para
a geração presente e a criação de novo emprego para a geração futura.
Uma espécie de “flexisegurança” para todas as gerações.
c) Do valor do salário, o preço da força de trabalho: conforme se mostra no
capítulo sobre a Distribuição do Rendimento em Angola, o salário médio
nominal tem vindo a aumentar, mas também o salário real, por força do
abaixamento regular da taxa de inflação. Em situações de “ilusão monetária”,
os empregadores podem reagir negativamente, disponibilizando menos
postos de trabalho e tomando medidas de aumento da produtividade
dos trabalhadores existentes. Mas o aumento do salário real é outra peça
importante do puzzle da melhoria da distribuição primária do rendimento
nacional.
d) A (aparente?) contradição anterior pode ser mitigada pela formação:
mão-de-obra qualificada tem mais valor no respectivo mercado, mas,
porque é mais produtiva, pode diminuir a necessidade de se criarem mais
empregos.

Aparentemente, a medida mais saliente para a aceleração da taxa de criação


de emprego é a liberalização/flexibilização do mercado de trabalho, conferindo
aos seus mecanismos uma relativa autonomia para fixar os salários e determinar
as necessidades de criação de emprego. Já ficaram ressaltados os inconvenientes
de uma excessiva liberalização deste mercado, quando em questão está o grande
objectivo político da repartição do rendimento.

Mas existem outras que estão em fase de implementação (Relatório de Exe-


cução do MAPTSS e Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017):
a) Elaborar e implementar a Estratégia Nacional de Desenvolvimento de Re-
cursos Humanos, abrangendo todos os Níveis de Qualificação.
b) Implementar o Plano Nacional de Formação de Quadros (PNFQ), como
instrumento de execução da Estratégia Nacional de Formação de Quadros
(ENFQ) e parte da Estratégia Nacional de Desenvolvimento de Recursos
Humanos, e aperfeiçoar as medidas de política para que no curto/médio

246 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

prazo os trabalhadores angolanos possam ocupar a maior parte dos postos


de trabalho que exijam altas qualificações.
c) Incentivar a formação profissional ao longo da vida.
d) Estimular a modernização da organização do trabalho.
e) Realizar estudos de empregabilidade sobre diplomados do Ensino Superior,
em particular para as formações mais prioritárias.
f) Promover o emprego dos jovens e a sua transição adequada do sistema
de ensino para a vida activa.
g) Combater o desemprego de longa duração de adultos, em particular dos
activos mais vulneráveis e em situação de desvantagem, promovendo a
sua qualificação e reinserção sócio-profissional.
h) Adoptar medidas de política para que no curto/médio prazo, os traba-
lhadores angolanos possam ocupar a maior parte dos postos de trabalho
que exijam altas qualificações e implementar mecanismos de verificação e
controlo da aplicação do princípio de equidade e igualdade de tratamento
entre trabalhadores nacionais e expatriados.
i) Apoiar a aprendizagem e a formação ao longo da vida, actuando na
aprendizagem, formação inicial, formação qualificante e na educação-for-
mação.
j) Promover a igualdade de género no acesso ao emprego e à formação
profissional.
k) Incentivar a criação de adequadas condições de emprego, em particular
ao nível da segurança no trabalho.
l) Estimular a cooperação e parcerias na área do emprego-formação.
m) Capacitar a base institucional das políticas de emprego e de recursos
humanos.

| 247
CEIC / UCAN

SECTORES DE ACTIVIDADE ECONÓMICA 2012 2013 TOTAL


Total Geral 221600 158865 380465
A – Empresarial
Comércio 30552 24189 54741
Agricultura 9863 15259 25122
Pescas 3148 1937 5085
Transportes 97019 20757 117776
Geologia e Minas 2332 17938 20270
Indústria Transformadora 3403 3403
Energias e Águas 13245 39309 52554
Construção 11849 4747 16596
Urbanismo e Habitação 4036 4036
Hotelaria e Turismo 4152 15497 19649
Saúde 1612 1806 3418
Educação 19077 4924 24001
Sub-Total 192849 153802 346651
B – Administração Pública e Outros
Funcionalismo Público 26406 388 26794
Educação 18806 26 18832
Saúde 7600 0 7600
Outros 0 362 362
Projectos de Geração de Emprego 2345 4675 7020
Sub-Total 28751 5063 33814
FONTE: Relatório de Balanço do MAPTSS 2013.

EMPREGOS GERADOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


18806

7 600

26 0 0 362

Educação Saúde Outros


2012 2013
FONTE: CEIC, a partir dos dados presentes no Relatório de Balanço do MAPTSS 2013.

248 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

EMPREGOS GERADOS NO SECTOR EMPRESARIAL


100000
80000
60000
40000
20000
0

e
ria itaç o
cio

ra

as

an In as

ão
gi ado a

Tu o
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ua

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Ge ans

ns
e
e
Co

Ed
as
ia
Ag

e
Co
Tr

er
ol

la
Tr

te
2012 2013
FONTE: CEIC, a partir dos dados presentes no Relatório de Balanço do MAPTSS 2013.

EMPREGOS GERADOS EM 2013

24%

Sector Empresarial
Administração Pública e Outros

76%

FONTE: CEIC, a partir dos dados presentes no Relatório de Balanço do MAPTSS 2013.

TOTAL DE EMPREGO GERADO (2012-2013)


9%

Sector Empresarial
91%
Administração Pública e Outros

FONTE: CEIC, a partir dos dados presentes no Relatório de Balanço do MAPTSS 2013.

| 249
CEIC / UCAN

7. INFLAÇÃO

7.1 Nota prévia

O conhecimento do comportamento dos preços em qualquer economia é es-


sencial para que as políticas públicas incorporem medidas capazes de controlar a
inflação e manter o poder de compra dos salários e outros rendimentos em níveis
compatíveis com as expectativas dos cidadãos. Por esta razão é que existe uma
quase que obsessão da política económica pela manutenção da estabilidade dos
preços.

A inflação acarreta custos económicos e sociais; geralmente imputam-se à in-


flação os seguintes custos:

ͻ A inflação é um imposto camuflado (que possui efeitos devastadores sobre


os rendimentos); numa situação em que o Estado recorrentemente financia
o défice fiscal através de emissão monetária163 ocorre uma desvalorização
do dinheiro dos cidadãos (diminuição do valor real do dinheiro que já estava
em circulação) e o Estado “arrecada receitas”164 com esta operação como se
de cobrança de imposto se tratasse uma vez que o cidadão fica “realmente”
mais pobre.

ͻ Socialmente, a inflação introduz grandes injustiças, pelo facto de não afectar


todos os agentes da mesma forma (havendo inclusivamente quem ganhe com
a subida de preços) e por prejudicar mais intensamente os rendimentos mais
baixos;

ͻ Por ser imprevisível, a inflação é promotora de incerteza e criadora de ins-


tabilidade o que pode influenciar negativamente a percepção dos agentes
económicos sobre os indicadores de tomada de decisão e assim falsear o
normal andamento da economia, com resultados prejudiciais sobre a eficiência
económica;

163‡‹•• ‘Dz˜ƒœ‹ƒdz†‡‘‡†ƒ…‘‘‘„Œ‡…–‹˜‘†‡ϐ‹ƒ…‹ƒ”‘†±ϐ‹…‡ϐ‹•…ƒŽ‡•–žƒƒ‹‘”

parte dos países do mundo proibida por lei.


164‘Š‡…‹†ƒ…‘‘”‡…‡‹–ƒ•†‡•‡Š‘”‹ƒ‰‡Ǥ

250 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Em suma, a inflação torna mais difícil o cálculo económico (taxas de retorno


reais dos investimentos), diminui a competitividade interna e externa das econo-
mias, aumenta o risco do investimento, acresce os custos de produção, fomenta o
desemprego, faz com que os agentes tenham preferências por actividades especu-
lativa e acentua as desigualdades na distribuição dos rendimentos.

Por estas razões, a inflação é o fenómeno económico mais temido pelos gover-
nantes, empresários e trabalhadores. Manter a estabilidade dos preços tornou-se,
a partir de uns anos a esta parte, uma das funções mais importantes da interven-
ção do Estado na economia.

A estabilidade dos preços das economias é medida pelo intervalo de variação


dos preços, sendo a norma convencionalmente aceite a do intervalo 1,5% – 2,5%.
Ou seja, uma economia onde a taxa de inflação anual se situe no intervalo anterior
é uma economia estável, do que se espera resultados concretos em termos de
crescimento económico, aumento do emprego e melhoria das condições de bem-
-estar da população.

No entanto, o limite de 2,5% para a variação máxima anual do índice geral dos
preços tem de levar em conta as condições concretas de cada país. Em países onde
as estruturas económicas e sociais se encontram em reajustamento – na sequência
de situações de conflitos armados ou extremas catástrofes naturais por exemplo
– e que se defrontem com processos de reformas institucionais de mercado pro-
fundas, as adaptações nos preços acabam por ser mais expressivas e duradouras.
Ou seja, demora-se mais tempo a enquadrar a inflação em limites económicos
e sociais aceitáveis. A maior parte dos países da África Subsariana encontram-se
nestas condições.

Este capítulo compreende a apresentação do comportamento da inflação nos


dois últimos anos (2012 e 2013), destacando como relevante o facto de pela pri-
meira vez na história sobre a inflação em Angola ter-se atingido em Agosto de
2012 a taxa de inflação homóloga de 9,87% e naquele ano a inflação anual ter-se
situado em um dígito. A inflação anual em 2013 manteve-se a níveis de um dígito
o que pode levar a conjecturar que a estabilidade de preços em Angola começa a
ser alcançada e que a classificação de economia hiperinflacionada faz agora parte
de um passado longínquo.

A Política Monetária rigorosa, conjugada com um comportamento fiscal disci-


plinado e um ambiente macroeconómico global favorável são apontados como as
principais molas impulsionadoras da estabilidade de preços em Angola; se consi-
derarmos como verdadeira a ideia de que a estabilidade de preços sustentável só
pode ser conseguida num clima em que a estrutura de custos da economia permite

| 251
CEIC / UCAN

que a verdade dos preços relativos conduza o normal funcionamento dos merca-
dos, então, podemos afirmar que a estabilidade de preços em Angola não será
sustentável enquanto persistirem o conjunto de estrangulamentos que atiram a
economia para os últimos lugares dos diferentes rankings que medem o ambiente
de negócios, a competitividade das economias e até a qualidade da democracia, a
transparência e o respeito pelos direitos humanos nos países. Desta maneira, no
ponto seguinte utilizou-se uma análise de regressão para compreender “a grosso
modo” quais são as variáveis determinantes da manutenção da inflação em níveis
de um dígito. Para terminar o capítulo, analisou-se a discrepância na variação dos
preços em Angola e nalguns países seleccionados como forma de a “muito gene-
ricamente” quantificar a perda relativa do poder de compra em Angola e inferir
sobre o comportamento da competitividade da economia pelos preços.

7.2 O comportamento da inflação nos últimos dois anos

O ano de 2012 foi de viragem na história da inflação em Angola, uma vez que, a
variação no índice de preços no consumidor alcançou pela primeira vez desde que
o INE começou a mensurar o IPC de Luanda um dígito. Para que melhor se perceba
a relevância deste facto é necessário que se conte a história recente da inflação
em Angola.

A abordagem sistemática da inflação pela política económica remonta a 2000,


ano em que uma equipa económica do Governo, nomeada em Fevereiro de 1999,
aplicou uma economic policy mix, cujo propósito essencial foi o de se controlar as
elevadas taxas de inflação registadas nos anos anteriores e atribuíam à economia
a classificação internacional nada honrosa de economia hiperinflacionada. Perce-
beu-se que, ainda em clima de guerra civil, o controlo da inflação podia ser um fac-
tor crucial de resguardo do poder de compra dos baixíssimos rendimentos médios
da população e de atracção de investimento privado, nomeadamente estrangeiro,
para os sectores não minerais. Os sucessos foram claros: em 2000, a taxa média
anual de inflação foi de 344,5% e no final de 2002 apenas 109,3%. As variáveis mo-
netárias foram os principais instrumentos da política económica de estabilização
activa levada a efeito, atendendo à circunstância de não estarem reunidas condi-
ções necessárias para actuar sobre o lado da oferta agregada da economia.

A finalização da guerra civil potenciou a natureza da policy mix, tendo a taxa


média anual de inflação passado para 45,3% em 2004, equivalente a uma redução
de 86,8% em 4 anos e a uma cadência média anual de cerca de 17%.

Porém, a partir de 2006 – registo de uma taxa média anual de inflação de 13,4%
– o ritmo de desinflação da economia diminuiu consideravelmente, como se vê na
tabela seguinte, tendo-se invertido a tendência depois de 2007.

252 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

2006 2007 2008 2009 2010 2011


dĂdžĂĚĞŝŶŇĂĕĆŽĂŶƵĂů 13,4 12,3 12,5 13,7 14,5 11,38

Os números mostram, claramente, que havia uma resistência à redução dos


preços depois de 2006, começando a surgir, novamente, uma tendência para o
disparo da inflação, o que na altura estimulou os responsáveis pela condução da
política económica a concentrarem as suas atenções e preocupações sobre a esta-
bilidade dos preços.

Uma análise do comportamento da inflação desde 1999 (a taxa foi de 329%)


mostra um factor de resistência provavelmente equivalente aos obstáculos de na-
tureza estrutural que afectavam (muitos dos quais continuam a enfermar o sistema
económico) o normal funcionamento do sistema económico dos quais podemos
citar alguns estrangulamentos sectoriais, nomeadamente na agricultura, infra-es-
truturas económicas ainda insuficientes em quantidade e qualidade, circuitos co-
merciais deficientes, má gestão das redes de transporte e armazenagem, sistemas
de distribuição de água e electricidade intermitentes, empecilhos institucionais de
vária ordem, falta de coerência das reformas económicas, etc. No entanto, os nú-
meros mostram que este factor de resistência foi ultrapassado em Agosto de 2012
quando a inflação homóloga situou-se em 9,87%.

Como justificação para o rompimento do factor de resistência pode se con-


jecturar uma melhoria no ambiente de negócios do país, ou seja, melhorias nas
condições estruturais o que não corrobora com os resultados dos relatórios que
medem a competitividade e ambiente de negócios dos países165, desta maneira, a
explicação pode ser encontrada numa Política Monetária/Cambial muito rigorosa.
O gráfico abaixo é esclarecedor na ilustração da inflação em Angola.

COMPORTAMENTO DA TAXA DE INFLAÇÃO ANUAL


400
350 344,4

300
Tx inflação
250
200 169,3
150
109,3 100,2
100
50 45,3
23,2 13,4 12,3 12,5 13,7 14,5 11,38 9,04
7,69
0
2000 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 2013
FONTE: Cálculos do Departamento de Estudos Económicos do CEIC, com base no IPC do INE.

165 Vide Doing Business 2014 onde Angola sistematicamente ocupa as últimas posições

nos diferentes indicadores que medem o ambiente de negócios do país.

| 253
CEIC / UCAN

Como se vê, o ano de 2012 foi o que, pela primeira vez, registou uma taxa de
inflação com um dígito (a inflação homóloga no mês de Agosto foi de 9,87% e a
taxa de inflação acumulada naquele ano situou-se em 9,02%). Em doze anos, o
país passou de uma economia hiperinflacionada para uma economia com níveis
de inflação de um dígito. O controlo dos preços em Angola é resultado de uma
melhor articulação entre a Política Orçamental, Política Monetária e as opções de
disciplina orçamental que têm sido implementadas nos últimos anos, assim como
um ambiente de crescimento global favorável, um preço do barril de petróleo que
permitiu aumentar substancialmente as receitas orçamentais, contribuiu para es-
tabilidade cambial e assim diminuir a inflação importada através da utilização efi-
caz de uma âncora cambial.

O gráfico seguinte mostra diferentes períodos de desinflação da economia na-


cional. A maior quebra relativa da inflação ocorreu entre 1999 e 2004, coincidindo
com uma política monetária de relativo rigor, um ritmo significativo de crescimen-
to do PIB não petrolífero e um ambiente externo favorável que propiciou uma re-
colha de receitas externas e fiscais muito significativa. Os ritmos de desinflação
foram-se atenuando até 2007, deixando de ocorrer entre 2008 e 2010, período de
novas subidas da taxa de inflação. Como se pode verificar em 2011 o ritmo infla-
cionista no país voltou a diminuir e nos dois anos seguintes 2012 e 2013 as taxas de
inflação diminuíram chegando ao nível de um dígito, como já foi dito acima, mas a
ritmos de desinflação muito mais atenuados.

RITMO DE DESINFLAÇÃO DA ECONOMIA


20
10
0
2000 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 2013
-10
-20
-30
-40
-50
-60
-70

FONTE: Cálculos do Departamento de Estudos Económicos do CEIC, com base no IPC do INE.

Ainda hoje não existe uma teoria amplamente aceite acerca das causas da in-
flação. Tradicionalmente dava-se prevalência a factores monetários, na linha da
Teoria Quantitativa da Moeda, de acordo com a qual os preços variam no mesmo
sentido que a quantidade de moeda em circulação. A ideia monetarista teve um

254 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

ressurgimento importante com a escola de Chicago (1956/1963) e ainda hoje é


considerada uma boa aproximação à explicação – pelo menos de uma parte – do
aumento dos preços e praticamente todos os bancos centrais controlam restrita-
mente variáveis como quantidade de crédito e taxas de juro básicas. Esta política
tem sido implementada pelo Banco Nacional de Angola com resultados aparente-
mente positivos. A taxa de variação dos preços em Angola nos três últimos anos
representa um bom exemplo.

Como se sabe, a eficácia das variáveis monetárias enquanto instrumentos de


controlo da inflação foi positiva para níveis muito elevados de subida do índice pre-
ços no consumidor. Para níveis abaixo dos 10%, os elementos estruturais da infla-
ção assumem-se como os mais importantes para o seu controlo absoluto166. Foram
anteriormente referidos alguns aspectos do funcionamento do sistema económico
que se constituem em resistências a uma redução mais acentuada da inflação.

Como foi visto, uma Política Monetária rigorosa foi determinante no rompi-
mento do factor de resistência. Mas, será possível manter a mesma Política Mone-
tária como elemento determinante na manutenção da estabilidade de preços em
Angola?

Uma das formas de responder a esta questão é percebendo quais são as variá-
veis decisivas na manutenção da inflação em níveis de um dígito, uma análise de
regressão permite-nos compreender quais as variáveis que determinarão a manu-
tenção da estabilidade de preços alcançada.

7.3 Correlação entre os preços, a moeda, a taxa de câmbio e o crescimento


económico

De outros estudos feitos sobre os determinantes da inflação em Angola167 im-


portou-se a noção de que a taxa de câmbio, a massa monetária e o crescimento
económico, são estatisticamente boas variáveis para a explicação da inflação em
Angola. Partindo desta noção, estimou-se um modelo de previsão da inflação em
Angola que corrobora a noção importada.

166’”‘…‡••‘†‡†‡•‹ϐŽƒ­ ‘‘•‡–”‡ͳͻ͹ͻ‡ͳͻͺͶȋ“—ƒ†‘ƒ‹ϐŽƒ­ ‘’ƒ••‘—†‡

ͳ͵ǡ͵Ψ’ƒ”ƒͶΨƒ‘ƒ‘Ȍ‡‘”ƒ•‹Ž‡–”‡ʹͲͲʹ‡ʹͲͲ͸ȋ“—ƒ†‘ƒ‹ϐŽƒ­ ‘…ƒ‹—†‡ͳʹǡͷΨ
para 3,1% ao ano), baseou-se em políticas com foco no lado da oferta e que provocaram
transformações estruturais na economia.
167 ROCHA, Manuel José Alves da, Estabilização, Reformas e Desenvolvimento em Angola.

| 255
CEIC / UCAN

INFLAÇÃO PREVISIONAL VERSUS VERIFICADA


90
80
70
60
50
40
30
20
10 Taxa de inflação previsional
0 Taxa de inflação verificada
03

04

05

06

07

08

09

10

11

12

13
20

20

20

20

20

20

20

20

20

20

20
FONTE: Cálculos do Departamento de Estudos Económicos do CEIC.

O gráfico acima indica-nos que o modelo estimado representa uma boa ferra-
menta explicativa do comportamento da inflação em Angola168. A partir do modelo
estimado é possível prever o comportamento da inflação para o período 2014–2019.

A análise será feita considerando três cenários distintos – A, B e C, que passa-


mos a descrever.

1. Cenário A

Foi construído considerando que verificar-se-iam as perspectivas de crescimen-


to para Angola do CEIC e do FMI.

Assumindo, para o período em análise, uma taxa média de crescimento da


economia angolana muito próxima dos 6%, uma desvalorização cambial global em
torno de 1,7%, e um crescimento médio da massa monetária em torno dos 19%,
poder-se-á esperar que a taxa de inflação da economia abandone a tendência de
um dígito.

Em 2015, por exemplo, verifica-se que uma taxa anual de crescimento do PIB
de 6,8%, em comunhão com uma desvalorização cambial de 1,3% – taxa de câmbio
em torno de KZ 99 / USD – e um crescimento do agregado M2 de 19,5%, verifi-
car-se-á uma taxa de inflação correspondente a 10,9%.

O gráfico que a seguir se apresenta é fiel a esta observação.

168 Pelo menos para o período em análise.

256 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

CENÁRIO A

6,7
23,4
2019 2,6
11,9
6,6
20,9
2018 2,6
11,6
2,6
18,7 Taxa real de crescimento PIB
2017 2,6
12,4
6,7 Agregado monetário M2
16,7
2016 1,0
10,4 Desvalorização cambial
6,8
19,5
2015 1,3
10,9
Taxa de inflação previsional
6,5
15,7
2014 0,3
10,1

0 5 10 15 20 25

2. Cenário B

O Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 apresenta perspectivas de


crescimento para a economia angolana diferentes (e bem mais optimistas) daque-
las consideradas no cenário anterior. Assumindo estas previsões de crescimento
da economia vejamos qual será o comportamento da inflação de acordo com o
modelo estimado.

A taxa média de crescimento para Angola prevista no Plano Nacional de Desen-


volvimento para o período 2013-2017 é de 7%. Ceteris paribus, pode-se verificar
que a taxa inflação ao longo do período em análise abandona a banda de um dígito.

Espera-se, por exemplo, que em 2015 – ano em que se perspectiva um maior


crescimento – a inflação anual seja de 10,5%.

CENÁRIO B

6,75
23,4
2019 2,6
11,7
6,7
20,9
2018 2,6
11,5
4,3
18,7 Taxa real de crescimento PIB
2017 2,6
11,9
7,5 Agregado monetário M2
16,7
2016 1,0
10,2 Desvalorização cambial
8,8
19,5
2015 1,3
10,5
Taxa de inflação previsional
8,0
15,7
2014 0,3
9,7

0 5 10 15 20 25

| 257
CEIC / UCAN

3. Cenário C

Conhecendo a correlação negativa entre crescimento económico e inflação por


um lado, e a forte relação de causalidade entre os mesmos agregados por outro,
decidiu-se construir e analisar este terceiro cenário. Combinando uma média de
crescimento do PIB superior a 13%, uma variação global de M2 de 14%169 e uma
valorização cambial média de 0,3%, a taxa média de inflação referente ao período
situar-se-ia em torno dos 7,7%. A Política Cambial activa e um crescimento intensi-
vo seriam a alternativa para o problema.

CENÁRIO C

13,8
2019 -1,0 14,0
7,4
13,7
2018 -0,4 14,0
7,6
13,7 Taxa real de crescimento PIB
2017 -0,5 14,0
7,6
13,2 Agregado monetário M2
2016 -0,5 14,0
7,8 Desvalorização cambial
13,5
2015 -0,2 14,0 Taxa de inflação previsional
7,8
12,5
2014 0,3 14,0
8,2

-5 0 5 10 15 20 25

A Política Monetária possui ainda algum potencial como instrumento determi-


nante na manutenção da estabilidade de preços em Angola, porém, é necessário
que seja ajustada aos objectivos de crescimento económico estabelecidos.

A Política Monetária precisa ser ajustada aos objectivos de crescimento eco-


nómico estabelecidos, podendo quando muito restritiva constituir um entrave ao
crescimento económico e a capacidade de geração de emprego. Neste momento
está em curso no CEIC um estudo sobre a actualização dos determinantes da infla-
ção em Angola170. O referido estudo será muito útil para a compreensão da mar-
gem que a Política Monetária ainda possui como instrumento de manutenção da

169
Note que a variação de M2, neste cenário, é necessária na medida em que a massa
monetária deve crescer à níveis consistentes em relação ao crescimento económico.
170 Em 2000, foi elaborado um estudo visando determinar as componentes explicativas

do aumento dos preços no país, baseado na aplicação do modelo global de explicação


†ƒ‹ϐŽƒ­ ‘ǡ–‡†‘Ǧ•‡…Š‡‰ƒ†‘ƒ‘••‡‰—‹–‡•”‡•—Ž–ƒ†‘•ǣ͵͹ǡ͹Ψ†ƒ‹ϐŽƒ­ ‘‡”ƒ‡š’Ž‹…ƒ†ƒ
pelo excesso de despesa, 55,1% pelos custos de produção, 12,5% por razões aleatórias
e 28,2% por especulação.

258 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

estabilidade de preços. Servirá ainda para aferir as consequências que uma política
monetária não consistente com as metas de crescimento e formulada objectivan-
do única e exclusivamente a estabilidade de preços poderá ter sobre o crescimento
económico e sobre a sua capacidade de gerar emprego. Os resultados serão apre-
sentados na próxima edição do Relatório Económico de Angola.

O esforço de desinflação em Angola enfrentará no curto prazo alguns desa-


fios que poderão pôr em causa os resultados já alcançados. Uma Política Orça-
mental expansionista levada a cabo no corrente ano171 associada à adopção da
nova pauta aduaneira em Março de 2014, assim como, as expectativas de que
no médio prazo o preço do petróleo estará a níveis mais baixos relativamente
aos que se verificam actualmente imputarão pressões sobre as receitas fiscais,
o que fragilizará a capacidade de gestão cambial. Estes factores poderão cons-
tituir-se como uma forte pressão sobre os preços. Portanto, é imperioso que se
invista na melhoria das infra-estruturas físicas, humanas e institucionais de modo
a propiciar um ambiente de negócios sadio e capaz de viabilizar investimentos
nacionais e estrangeiros. Desta maneira, reduzir-se-ão os custos de contexto o
que tornará a estrutura de custos do país compaginável aos esforços necessários
à diversificação da economia, e aos anseios da melhoria das condições de vida
dos angolanos.

7.4 Competitividade de Angola pelos preços

A medição da competitividade dos países e/ou das empresas é um elemento


necessário do painel de informações para a decisão económica. Dada justamente
a importância de se conhecer, em determinados momentos, a dimensão e as pró-
prias características da competitividade económica entre países e/ou empresas,
a teoria económica dispõe de um conjunto de indicadores que permitem de uma
forma relativamente aproximada identificar as melhores performances económi-
cas. Estes indicadores de medição da competitividade costumam estar divididos
em dois grandes grupos: competitividade-preço e competitividade-qualidade.

A competitividade-preço depende dos custos de produção da economia, muito


especialmente dos custos do trabalho-salários172. Por isso é também conhecida
como competitividade pelos custos.

171 O Orçamento Geral do Estado aprovado pela Assembleia Nacional em Dezembro

†‘ ƒ‘ ’ƒ••ƒ†‘ ”‡‰‹•–ƒ — †±ϐ‹…‡ †‡ ͸͵Ͳ ‹Ž ‹ŽŠÙ‡• †‡ ™ƒœƒ• ȋͶǡͻΨ †‘ ”‘†—–‘
Interno Bruto) e um aumento de 49,6% relativamente a 2013 no investimento público.
172‘•‡–‹†‘†‘‘†‡Ž‘‹…ƒ”†‹ƒ‘†ƒ’”‘†—–‹˜‹†ƒ†‡†‘–”ƒ„ƒŽŠ‘‡˜ƒ–ƒ‰‡•…‘-

parativas.

| 259
CEIC / UCAN

A competitividade-qualidade é também conhecida como competitividade


estrutural e está relacionada com a eficiência das estruturas produtivas do país,
considerando factores como a qualificação da mão-de-obra, a flexibilidade do mer-
cado de trabalho, o ambiente legal e fiscal, as infra-estruturas de transporte e co-
municação, etc. O tempo é um factor determinante da competitividade estrutural.

A produtividade173 é o elemento mais determinante na avaliação da competi-


tividade e cresce sempre que a produção aumentar sem que haja um incremento
nos factores de produção. O que só se torna possível se a eficiência dos factores de
produção tiver aumentado, o que passa pelo uso de tecnologias inovadoras, pela
criatividade dos empresários e trabalhadores, pela qualificação dos recursos e pela
capacidade de organização empresarial.

A taxa efectiva de câmbio real, que combina de forma ponderada um índice


de preços/custos dos bens e serviços e a taxa de câmbio nominal, é um indicador
muito útil e muito utilizado na aferição da competitividade externa dos países.

A literatura económica e estatística oferecem outros indicadores para a ava-


liação da competitividade externa, tais como: o custo unitário da mão-de-obra, o
índice de preços no produtor, o índice de preços no consumidor, o índice relativo
dos preços de exportação, etc.

Nesta secção, usou-se a variação no índice de preços no consumidor para com-


parar a competitividade externa de Angola em relação aos seus parceiros comer-
ciais da Europa, América Latina, Ásia e África Subsariana (SADC).

A teoria da paridade relativa do poder de compra prevê que mudanças na taxa


de inflação entre dois parceiros comerciais tende a ser compensada por uma mu-
dança equivalente, mas contrária, na taxa de câmbio. Desta maneira, espera-se
que se um país possui taxas de inflação mais elevadas relativamente aos seus par-
ceiros comerciais, ceteris paribus, perderá competitividade face aos mesmos; uma
vez que se espera que a moeda deste país se deprecie face à dos seus parceiros
comerciais.

A seguir, analisamos a discrepância na variação dos preços em Angola e em


alguns países seleccionados, com o objectivo de, a “grosso modo”, quantificar a
perda relativa do poder de compra em Angola e inferir sobre o comportamento da
competitividade da economia pelos preços.

173‡Žƒ­ ‘‡–”‡‘’”‘†—–‘ϐ‹ƒŽ‡‘•inputs utilizados no processo de produção.

260 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

DISCREPÂNCIA DE PREÇOS (n.o de vezes acima da taxa de inflação de Angola)


– Alguns países da Zona Euro e EUA
14
12
10
8
6
4
2
0
Estado Unidos Alemanha França Itália Espanha Portugal

2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2018

FONTE: Cálculos do Departamento de Estudos Económicos do CEIC, com base no IPC do INE.

O gráfico acima mostra um comportamento muito sinuoso da inflação relativa


dos quatro países escolhidos. Em média, ao longo do período analisado, o rácio
situou-se muito acima da unidade174, o que denota que a perda de poder de com-
pra em Angola tem sido muito mais acentuada que nos países analisados. Isso
constitui uma explicação do facto de as importações da Zona Euro e dos Estados
Unidos serem muito atractivas e uma prova da capacidade do BNA (dependendo
obviamente das RIL) em manter a taxa de câmbio de Angola sobrevalorizada face
a estes países.

Quando a análise é feita considerando o México e dois países da América Lati-


na, Brasil e Argentina (gráfico da página seguinte), as conclusões não diferem mui-
to da anterior. Merecendo realçar que nos últimos anos a economia angolana tem
verificado ganhos de competitividade relativamente aos referidos países como re-
sultado da estabilidade macroeconómica em Angola e de uma certa convergência
das taxas de inflação dos países. O que seria vantajoso caso o peso destes países
no comércio com Angola fosse tão relevante quanto o comércio com a Zona Euro
e com os EUA. Daí a importância de manter a estabilidade de preços como forma
não só de conservar o poder de compra dos salários e outros rendimentos mas de
ganhar competitividade externa face aos seus parceiros comerciais.

174—ƒ–‘ƒ‹•˜‡œ‡•ƒ‹ϐŽƒ­ ‘†‡‰‘Žƒ‡•–‹˜‡”ƒ…‹ƒ†ƒ‹ϐŽƒ­ ‘†‘•‘—–”‘•’ƒÀ•‡•

implica que o poder de compra dos salários se deteriora mais rapidamente em Angola
…‘•±”‹ƒ•‹’Ž‹…ƒ­Ù‡••‘„”‡ƒ…ƒ’ƒ…‹†ƒ†‡†‡‡ŽŠ‘”‹ƒ†ƒ•…‘†‹­Ù‡•†‡˜‹†ƒ†‘•…‹†ƒ-
dãos.

| 261
CEIC / UCAN

DISCREPÂNCIA DE PREÇOS (n.o de vezes acima da taxa de inflação de Angola)


– Argenna, Brasil e México
7
6
5
4
3
2
1
0
Argenna Brasil México
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2018

FONTE: Cálculos do Departamento de Estudos Económicos do CEIC, com base no IPC do INE.

A comparação seguinte é feita com países africanos que são teoricamente mais
comparáveis pelo facto de estarem num estágio de desenvolvimento semelhante;
o gráfico abaixo fornece a discrepância de preços entre a economia de Angola e a
de outros países da SADC.

DISCREPÂNCIA DE PREÇOS (n.o de vezes acima da taxa de inflação de Angola)


– Países da SADC
14
12
10
8
6
4
2
0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2018
Botsuana RDC Lesoto Madagáscar Malawi Maurícias Moçambique
Namíbia África do Sul Suazilândia Tanzânia Zâmbia Zimbabué

FONTE: Cálculos do Departamento de Estudos Económicos do CEIC, com base no IPC do INE.

Quando comparada com a inflação dos países da SADC torna-se visível que An-
gola tem experimentado ganhos de competitividade ao longo dos anos face a estes
países o que demonstra que o problema da inflação alta é partilhado pela maior
parte dos países da África Subsariana175. Desta maneira, é fundamental que se

175 ROCHA, Manuel José Alves da, As Transformações Económicas Estruturais na África

Subsariana 2000–2010.

262 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

oriente a busca de parceiros comerciais com base no potencial de competitividade


da nossa economia, procurando intensificar as relações comerciais com aqueles
países onde a possibilidade de existirem ganhos mútuos com as trocas é maior.

A competitividade é uma questão económica, mas também do foro institucio-


nal, jurídico e social, expresso pela cultura social da disciplina – e principalmente
porque é um fenómeno de longo prazo, cuja ultrapassagem deve ser programa-
da permanentemente, por intermédio de instrumentos e medidas apropriadas.
A competitividade só pode ser referida a um período mais ou menos longo, na sua
criação e na sua avaliação, porque se trata de um fenómeno muito mais estrutural
do que conjuntural, quer no plano de medidas que visam promovê-la, quer no
plano dos resultados obtidos176.

A competitividade é uma noção relativa, comparativa, dinâmica, escrava da


interactividade entre diferentes economias, sociedades e modelos culturais, não
bastando progredir isoladamente em comparação com próprio passado, sendo
necessário fazê-lo por comparação com o presente dos outros países, desta ma-
neira, é função do Estado e dever de participação de todos (empresários, gesto-
res, funcionários públicos, estudantes, etc.) determinar o processo de aquisição de
competitividade assente na qualificação dos recursos humanos e aproveitamento
das aparentes vantagens comparativas que possuímos nomeadamente no sector
energético, da agricultura e da indústria alimentar e outros.

Daí a relevância de a estabilidade dos preços continuar a ser um objectivo


prioritário do Governo e do Banco Nacional como forma de preservar o poder de
compra dos salários nacionais, assim como para ganhar competitividade interna e
externa.

É fundamental que a estabilidade dos preços seja conseguida através de políti-


cas que melhorem o ambiente de negócios e que diminuam os custos de contexto
da nossa economia tais como: reforçar as estruturas de mercado (produção, distri-
buição e comercialização); diversificar a origem geográfica das importações, incen-
tivando-se as oriundas de países com moedas não tão valorizadas quanto o euro
ou o dólar (tal como já o demostramos acima); facilitar e tornar mais transparente
a entrada de novos agentes nos mercados (a concorrência é um meio de aumentar
o bem-estar social e de prevenção de comportamentos especulativos); fiscalizar
o comportamento dos preços, mas evitando-se torná-lo num instrumento de cor-
rupção e de inibição da concorrência; a existência de uma lei de concorrência e
preços é fundamental para se regularem os mercados, controlar o processo de
formação dos preços e privilegiar os mais competitivos.

176 Idem.

| 263
CEIC / UCAN

8. PERSPECTIVAS DE CRESCIMENTO

8.1 A economia mundial e os principais parceiros económicos de Angola

A principal preocupação do relatório da Primavera do Fundo Monetário Inter-


nacional177 está centrada na capacidade de recuperação das economias mais avan-
çadas, na generalidade ainda afectadas pela crise das dívidas públicas e dos défices
fiscais. Em 2013 algumas delas conseguiram mostrar sinais de recuperação, ainda
que muito ténues. A França, por exemplo, ainda que tenha conseguido evitar a
recessão, ficou-se por um crescimento nulo em 2013, evidentemente com impli-
cações negativas sobre os restantes países da União Europeia que mantêm com a
economia francesa próximas e intensas relações comerciais. A Alemanha, que não
apresentou problemas de gestão da dívida e dos saldos orçamentais, viu-se, no
entanto, na contingência de ter de apoiar os países do Sul da Europa em situações
de recessão económica e incremento assustador do desemprego, como na Grécia,
em Espanha, em Portugal e em Itália.

O FMI apresenta neste Relatório da Primavera de 2014 abordagens relativa-


mente optimistas quanto ao padrão de comportamento da economia mundial,
passados os momentos mais críticos da recuperação económica na Euro Área e
nos Estados Unidos, a ainda maior economia com uma influência decisiva no com-
portamento das economias mais e menos emergentes.

Em termos globais, esta instituição de Bretton Woods espera que o crescimen-


to da economia mundial passe de 3% em 2013 para 3,6 em 2014 e 3,9% em 2015.
Parece ser um crescimento consistente e que seguramente vai ajudar as econo-
mias emergentes e não emergentes a, pelo menos, manter as suas dinâmicas de
crescimento do passado, que têm sido muito interessantes.

Nas economias mais desenvolvidas, o FMI espera um crescimento no seu ou-


tput global de cerca de 2,25% entre 2004/2005, um ponto percentual mais do que
em 2013. A principal razão para este reduzido crescimento prende-se com a natu-
reza contraccionista da Política Monetária, ainda afectada pela necessidade de se
controlarem os canais que afectaram a explosão das dívidas públicas e privadas.
Nos Estados Unidos parece estarem afastados os “fantasmas” passados e o Fundo

177 International Monetary Fund – World Economic Outlook April 2013.

264 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Monetário Internacional estabelece uma taxa de crescimento do seu PIB de 2,75%


para 2014/2015. Ao contrário, a Euroárea não apresenta uma taxa de crescimento
homogénea, havendo países para os quais as taxas previstas para 2014 são ainda
muito baixas (Portugal é o caso mais flagrante).

Destes cenários afastam-se as economias emergentes e algumas em desen-


volvimento, que vão deixar a faixa de 4,7% de crescimento em 2013 para 5% em
2014 e 5,25% em 2015. O principal factor do crescimento destas economias é a
demanda das economias mais desenvolvidas, já que as procuras internas podem
ser afectadas por determinados factores que restringirão o seu aumento.

Na China espera-se um crescimento em 2014 de 7,5%, que se manterá mais


ou menos o mesmo em 2015. Começa a ficar-se longe das taxas médias obtidas
durante 30 anos e que se estabeleceram em redor dos 10,5% anuais. O Governo
chinês está consciente deste relaxamento, estando a preparar medidas de relan-
çamento da economia, mais centradas em factores internos e na alteração dos
modelos de distribuição do rendimento nacional.

Pelas informações anteriores constata-se que nos dois ou três últimos anos
assistiu-se a um comportamento da economia mundial a duas velocidades: a dos
países em desenvolvimento, (em especial as economias emergentes) e a dos paí-
ses desenvolvidos. A dinâmica de crescimento dos primeiros foi superior à dos
segundos, com destaque para a China, índia e a África Subsariana.

COMPORTAMENTO DAS ECONOMIAS AVANÇADAS


ΈdyZ^/DEdKKW/DйΉ
2012 2013 2014 2015
MUNDO 3,2 3,0 3,6 3,9
Economias avançadas 1,4 1,3 2,2 2,3
Estados Unidos da América 2,8 1,9 2,8 3,0
Euroárea -0,7 -0,5 1,2 1,5
Alemanha 0,9 0,5 1,7 1,6
França 0,0 0,3 1,0 1,5
Itália -2,4 -1,9 0,6 1,1
Espanha -1,6 -1,2 0,9 1,0
Japão 1,4 1,5 1,4 1,0
Reino Unido 0,3 1,8 2,9 2,5
FONTE: International Monetary Fund – World Economic Outlook, April 2014.

Depois de alguns anos de deflação dos preços, o novo Governo do Japão deci-
diu inverter esta situação por considerá-la prejudicial ao crescimento económico,
e o novo modelo centra-se numa meta de inflação (em redor de 2% ao ano), de

| 265
CEIC / UCAN

modo a estimular a produção e o investimento. É um caso curioso, num universo


em que as políticas monetárias são restritivas para que seja garantida a estabilida-
de dos preços.

Quanto aos principais parceiros de Angola – África Subsariana, África do Sul,


China, Brasil e Portugal – as perspectivas de crescimento até 2015 constam da ta-
bela seguinte.

COMPORTAMENTO DAS ECONOMIAS AVANÇADAS


(taxa de crescimento do PIB em %)
2012 2013 2014 2015
África Subsariana 4,9 4,9 5,4 5,5
China 7,7 7,7 7,5 7,3
Brasil 1,0 1,3 1,8 2,7
África do Sul 2,5 1,9 2,3 2,7
Portugal
FONTE: International Monetary Fund – World Economic Outlook, April 2014.

Quanto ao comportamento do preço do petróleo, o Fundo Monetário Interna-


cional projecta 104,07 dólares o barril em 2013, 104,17 dólares em 2014 e 97,92
dólares em 2015 (estes preços são uma média simples dos preços dos mercados
UK Brent, Dubai Fateh e West Texas Intermediate).

8.2 A economia angolana

A crise económica e financeira mundial de 2008/2009 (que em alguns países


importantes se prolongou até 2010) marcou indelevelmente a economia angola-
na. Apesar de uma boa reacção do Governo através de uma Política Económica de
ajustamento dos investimentos públicos e de algumas despesas orçamentais de
funcionamento à quebradas receitas fiscais petrolíferas (evidentemente discutível
numa estrita óptica de uma Política Orçamental contra-ciclo) não mais se consegui-
ram taxas robustas de crescimento do PIB. Em capítulos anteriores ficou assinalado
que no período 2009/2013 a taxa geral média anual de crescimento foi de apenas
3,3% fazendo conjecturar por uma estagnação do nível de vida da maioria dos
cidadãos, atendendo à taxa de crescimento demográfico (3,2% ao ano segundo o
INE) e ao modelo de distribuição do rendimento vigente, desigual na sua essência
e assimétrico no acesso às oportunidades de enriquecimento.

Não foi feita, por enquanto, nenhuma análise oficial ou não oficial sobre o que
poderá ter ocorrido em 2011 e 2012 sobre o comportamento geral da economia
e de alguns sectores de actividade essenciais na manobra e no processo de diver-
sificação.

266 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

RITMOS DE CRESCIMENTO ENTRE 2010 E 2012 (%)


2010 2011 2012
Agricultura 9,46 3,70 -2,35
Pescas -13,28 -15,02 -14,31
Petróleo -0,54 -8,43 7,41
Diamantes 6,46 44,15 -48,77
Transformadora 19,16 45,83 16,81
Construção 25,95 8,37 31,00
Comércio -9,73 -4,04 -24,11
Transportes 10,53 -6,99 -25,02
Correios e telecomunicações 6,51 87,65 42,42
Bancos e Seguros 5,15 3,14 -16,51
Estado 10,03 1,72 -7,97
PIB 4,61 1,86 6,03
FONTE: INE, Contas Nacionais 2007/2012.

De uma maneira geral, o comportamento de todos os sectores de actividade é


bastante errático, não sendo possível detectar uma tendência clara:

a) Tecnicamente, as pescas, o comércio e os transportes estiveram em estado


de crise de crescimento entre 2010 e 2012, com uma taxa negativa média
anual de crescimento de, respectivamente, -14,20%, -13,04% e -8,31%. Al-
guém se deu conta desta perturbação?

b) A intermediação financeira e de seguros, para além de apresentar taxas


reais de variação muito baixas para uma actividade que se julga de grande
dinâmica e representatividade na economia nacional, também apresenta
uma taxa média negativa de variação e estimada em -4,38% e uma tendência
de atenuação no seu crescimento (5% em 2010, 3% em 2011 e -17% em
2012).

c) O próprio Estado regista em 2012 uma significativa quebra na sua capacidade


de crescimento.

d) A agricultura, pecuária e florestas apresenta, no triénio em referência, uma


tendência de forte atenuação do seu crescimento, chegando mesmo a um
valor negativo de 2% em 2012. Mesmo assim, o Estado continua a relegar
para plano secundário um sector muito importante para a diversificação
da economia (sem a agricultura familiar e só com a chamada agricultura
empresarial, o aumento da densidade intersectorial da economia nacional
não ocorrerá na intensidade desejada e necessária), reservando-lhe cada

| 267
CEIC / UCAN

vez menos verbas e reduzindo a sua importância relativa no orçamento das


despesas.
e) O comportamento dos diamantes é, no mínimo, inabitual, admitindo que as
cifras estão bem calculadas: o crescimento averbado em 2011 foi totalmente
desperdiçado em 2012. Esta é uma actividade muito irregular e praticamen-
te desde que a sua contabilidade passou a ser estabelecida em termos de
contribuição para o crescimento da economia que este padrão assimétrico
se tem revelado.
f) Conhecida a fragilidade dos petróleos, dependente da excelência das con-
dições técnicas de exploração e do mercado mundial: entre 2010 e 2012 a
taxa real média de variação anual foi de -0,72%.
g) Igualmente bastante estranho o padrão de variação dos correios e teleco-
municações, com taxas verdadeiramente estratosféricas, em especial em
2011 (quando a economia apenas cresceu 1,89%), com uma variação de
88%. Mas logo no ano seguinte baixa para 42%, praticamente metade.
h) Finalmente, o PIB: entre 2010 e 2012 a taxa média de variação foi de apenas
4,2%, um ponto percentual acima do crescimento da população, podendo,
portanto, concluir-se que a taxa de variação do PIB por habitante foi tão-so-
mente 1%. Se estas tendências se mantiverem até 2017, o grande slogan da
campanha do MPLA “crescer mais para distribuir melhor” não se realizará.

O que é que, na verdade, se passou em 2011? A economia nacional atravessou


uma situação de crise sem se ter dado por isso? Será que já possui robustez, mús-
culo e energia suficientes para ter absorvido, de uma forma suave, estes pequenos
choques na oferta total?

Ainda durante muito tempo o funcionamento e o crescimento da economia na-


cional vão depender do petróleo: os investimentos públicos, as receitas em divisas,
as receitas fiscais, o crédito à economia (substancialmente aumentada pela nova
lei cambial do sector petrolífero) e a estabilização macroeconómica (redução da
taxa de inflação através da âncora cambial e estabilidade cambial).

Conforme se mostrou no capítulo sobre a diversificação da economia, a mais


importante conclusão nesta matéria é que entre 2002 e 2012 não se registaram
transformações estruturais que tivessem contribuído para sequer se iniciar o pro-
cesso de alteração sustentada da actual estrutura produtiva (na manufactura ain-
da são as actividades primárias as dominantes, ao representarem (alimentação e
bebidas) 83% da produção total) e económica (os transportes e armazenagem, o
comércio e a intermediação financeira – bancos e seguros) apresentaram uma re-
presentatividade no PIB em 2012 muito baixa, respectivamente, 3,5%, 5% e 1,1%).

268 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

E a intensificação e a sustentabilidade do crescimento económico futuro vão


depender bastante da capacidade de se entregar à agricultura, indústria transfor-
madora, construção e obras públicas, transportes e comunicações e produção de
energia o comando das transformações estruturais.

Em relação ao sector transformador provavelmente a questão central é a da


falta de eficiência, competitividade e competência das empresas, porque o Estado
tem feito investimentos nos pólos industriais, nas zonas económicas especiais, nas
estradas e pontes, nos caminhos-de-ferro, etc. Tem facilitado muito crédito e tem
criado um acervo de incentivos vários, de onde se destaca a nova pauta aduaneira,
que fecha a economia e a isola dos seus concorrentes.

Algumas medidas e projectos estão a ser tomados pelo Governo, ficando, no


entanto, a dúvida se serão as mais adequadas. No capítulo sobre a Agricultura
deste Relatório Económico foram identificados aspectos, factos e domínios de in-
tervenção ainda muito lacunares e que contribuem para o retardamento do desen-
volvimento deste sector.

O Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017, no quadro 4.2 da página 31


apresenta os pressupostos e os resultados das previsões do crescimento do PIB
até 2017. No entanto, alguns dos pressupostos e valores estão desactualizados,
necessitando do Governo urgente ajustamento. Duas notas sobre estas previsões:
a) O desempenho do sector petrolífero vai de 6,6% em 2013 até -9,8% em
2017, seguramente com efeitos negativos sobre toda a mecânica económica
e financeira do país.
b) A compensação que é pedida ao sector não petrolífero (10,4% de crescimento
em 2017) pode não ser factível, atendendo às considerações já feitas sobre
o percurso da diversificação económica em Angola.

O Fundo Monetário Internacional178 é muito mais cauteloso nas suas previsões


para Angola, averbando um valor negativo para o petróleo em 2017 de apenas
6,9%. Mas também a capacidade de compensação esperada do sector não petro-
lífera ajusta-se mais às considerações feitas neste Relatório Económico sobre a di-
versificação da economia nacional (7,7% de variação real em 2017).

178 International Monetary Fund – Angola, Post-Program Monitoring, March 2014.

| 269
CEIC / UCAN

A tabela seguinte compara os resultados previsionais das duas instituições.

dy^Z^/DEdKWZs/^/KE/^ΈйΉ
/ŶƐƟƚƵŝĕƁĞƐ Grandezas 2013 2014 2015 2016 2017
PIB 4,1 5,3 5,5 5,9 3,3
Fundo Monetário
PIB petrolífero 0,6 3,0 3,0 3,0 -6,9
Internacional
PIB n. petrolífero 5,8 6,4 6,7 7,1 7,7
PIB 7,1 8,0 8,8 7,5 4,3
Plano Nacional de
Desenvolvimento PIB petrolífero 6,6 4,5 4,0 3,8 -9,8
2013-2017
PIB n. petrolífero 7,3 9,7 11,2 9,2 10,4
FONTES: República de Angola, Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017; International Monetary Fund – Angola,
Post-Program Monitoring, March 2014.

O CEIC baseou as suas previsões nos pressupostos seguintes:

PRESSUPOSTOS DAS PREVISÕES


PRESSUPOSTOS 2013 2014 2015 2016 2017
PRODUÇÃO ANUAL DE PETRÓLEO (milhões
626,2 679,4 703,5 727,5 666,4
de barris)
PREÇO MÉDIO DO BARRIL PETRÓLEO (USD) 107,67 104,6 101,6 100,5 97,8
1E//sZ^/&/K;W/ƉͬW/Ϳ 47,76 39,7 38,5 37,3 33,3
TAXA DE INFLAÇÃO (%) 7,69 9,7 10,5 10,2 10,2

Constata-se que o CEIC trabalha na base de uma hipótese forte de diversifica-


ção da economia, admitindo-se que em 2017 o peso do petróleo esteja em torno
de 33%. Trata-se, portanto, de um modelo de previsão extremamente voluntarista,
exigindo do Estado e dos empresários uma postura pró-activa a favor do cresci-
mento da economia.

A produção anual de petróleo é uma hipótese intermédia entre o FMI e o Plano


Nacional de Desenvolvimento 2013/2017.

Admite-se que a diversificação possa pressionar os preços e que a nova pauta


aduaneira arraste o aumento dos preços dos insumos.

PREVISÕES DO CEIC (Taxas de crescimento em %)


VARIÁVEIS 2014 2015 2016 2017
PRODUTO INTERNO BRUTO 6,5 6,8 6,7 2,6
PRODUTO INTERNO BRUTO PETROLÍFERO 8,5 3,5 3,4 -8,4
PRODUTO INTERNO BRUTO NÃO PETROLÍFERO 5,3 12,9 12,2 20,8
PIB POR HABITANTE EM KWANZAS 3,7 4,0 3,9 -0,1
CONSTANTES

270 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

9. RECAPITULAÇÃO DOS PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS


ECONÓMICOS DE 2013

Janeiro
1
ͻ Uma nova família de notas de kwanza começa a circular já no início do ano,
anunciou em 2012 o Banco Nacional de Angola (BNA), dando conta que a intro-
dução vai ser progressiva, em particular no que respeita às denominações de
valor mais elevado. O banco emissor angolano indicou que estas últimas vão
ser emitidas e postas em circulação apenas quando as condições de desenvol-
vimento da economia nacional, assim aconselharem. A nova família de notas
tem os valores faciais de 50, 100, 200, 500, mil, dois mil, cinco mil e dez mil
kwanzas, tal como moedas metálicas de 50 cêntimos, um, cinco e dez kwanzas.
4
ͻ A reconstrução do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB), com conclusão pre-
vista para o primeiro trimestre de 2013 com a chegada das composições ao
Luau, vai custar ao Estado 1870 milhões de dólares. A linha, que parte do
Lobito, na costa do Atlântico, até ao Luau, província do Moxico, na frontei-
ra com a República Democrática do Congo recebeu a viagem inaugural a 17
de Agosto de 2012, e composições comerciais entre as cidades do Kuito (Bié)
e Luena (Moxico), uma de passageiros e outra de carga, a partir da segunda
quinzena de Novembro. Essas deslocações aceleraram as trocas comerciais
entre as províncias de Benguela, Huambo, Bié e Moxico, que formam o cha-
mado “corredor do Lobito”.
9
ͻ A empresa Score Media, proprietária das publicações Expansão, Estratégia e
Luxos, lança em Fevereiro a revista Distribuição em Expansão. A revista pro-
põe-se organizar o painel designado “VIP – Very Important Professional”, que
bimestralmente emite opinião sobre o que de “mais relevante acontece no
mercado” e também uma edição online que, numa primeira fase, pode ser
visitada no site do jornal Expansão.
12
ͻ A Aliança Cooperativa Internacional (ACI) criou um fundo de mil milhões de euros
para financiar cooperativas dos países africanos, incluindo Angola, anunciou

| 271
CEIC / UCAN

em Luanda o presidente da UNACA – Confederação das Associações e Coope-


rativas Agro-Pecuárias de Angola. Paulo Uime informou que o fundo, que vai
ser alimentado pela quotização dos associados da ACI, oriundos de todos os
países do mundo, pretende a materialização de projectos de desenvolvimen-
to das cooperativas, formação, modernização tecnológica e industrialização
dos produtos do campo.
14
ͻ A entidade britânica de pesquisa Economist Intelligence Unit considera que o
sector petrolífero angolano entrou em 2013 com um cenário brilhante, com a
produção próxima do nível recorde de 2008, devido ao começo da exploração
de um novo campo petrolífero e à superação de dificuldades técnicas noutros.
No seu mais recente relatório sobre Angola, a Economist Intelligence Unit refe-
re que o campo petrolífero Plutão, Saturno, Vénus e Marte (PSVM), em fase
inicial, e cujo primeiro carregamento deve ser despachado já em Janeiro, vai
acrescentar 150 mil barris de petróleo diários à produção do país. “O cenário
de curto prazo é brilhante”, refere no relatório os economistas da Economist.
Operado pela BP, o campo está localizado no nordeste do Bloco 31 do mar
angolano e dispõe de uma unidade flutuante de produção, armazenagem e
carregamento, com uma capacidade de 1,8 milhões de barris.
15
ͻ Uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) chega a Luanda para a
segunda Monitorização Pós-Programa (PPM, sigla inglesa) subjacente ao Acor-
do stand-by que concluiu em 2012, depois de ter sido assinado com o Execu-
tivo angolano, em 2009. A missão é chefiada por Mauro Mecagni, director do
FMI para Angola, e tem encontros agendados com os ministros das Finanças
e do Planeamento, Carlos Alberto Lopes e Job Graça, o governador do Banco
Nacional de Angola (BNA), José de Lima Massano, e outros representantes ins-
titucionais angolanos. A missão vai discutir o desempenho macroeconómico
de Angola ao longo do último ano e abordar as projecções adoptadas pelo Exe-
cutivo, incluindo o Orçamento Geral do Estado de 2013 e o quadro de médio
prazo, conformado no Plano Económico Nacional 2013-2017. Espera-se que
o Conselho Executivo do FMI discuta e emita um parecer sobre o relatório da
missão até dois meses depois de ter sido apresentado.
17
ͻ A norte-americana General Electric associou-se ao grupo angolano GLS Oil &
Gas, formando uma parceria para alargar as suas actividades no sector petro-
lífero em Angola, onde fornece serviços há mais de 50 anos. Os trâmites buro-
cráticos que levaram à conclusão da joint-venture denominada GE-GLS Oil &
Gas, Limitada, foram concluídos a 31 de Dezembro, depois de um longo período

272 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

negocial que culminou na associação entre as duas empresas, sendo a multi-


nacional norte-americana representada pela sua filial Nuovo Pignone Ango-
la, com sede em Itália. As duas partes acordaram em realizar um aumento do
capital social na ordem dos cinco mil milhões de kwanzas, selando legalmente
a relação entre a GE Oil & Gas e a GLS Holding que, numa primeira fase, prevê a
construção, na região do Soyo, Zaire, de uma fábrica para a produção de equi-
pamentos subaquáticos e prestação de serviços à exploração de petróleo e gás
em Angola. A unidade industrial deve estar concluída dentro de dois anos e,
pelo seu perfil tecnológico, projecta-se como a quinta maior do mundo e a pri-
meira em África, com um investimento inicial de 17,5 mil milhões de kwanzas.
18
ͻ O Ministério do Comércio pretende acabar com a especulação no tratamento
de alvarás com o lançamento, em breve, do novo modelo de alvará comercial
online, anunciou em Luanda a titular do pelouro. Rosa Pacavira, que falava
durante a tomada de posse dos novos responsáveis do Ministério e órgãos
tutelados pela instituição governamental, disse que o lançamento do novo
modelo vai ter como experiência piloto as capitais de província. A abertura de
empresas passa a ser facilitada através do sítio do Ministério do Comércio na
Internet, onde estão disponíveis todos os modelos requeridos e onde, tam-
bém, podem ser preenchidos e remetidos para tramitação. O alvará é impres-
so através do próprio sistema.
ͻ A ONU alertou para o “grave risco de uma nova recessão” se não forem adop-
tadas medidas de combate ao aumento do desemprego no mundo e manteve
a sua revisão em baixa das previsões de crescimento económico. O director
do relatório da ONU sobre a “Situação e Perspectivas da Economia Mundial
2013”, Rob Vos, afirmou que o “agravamento da crise na zona euro, o abis-
mo orçamental nos Estados Unidos e um abrandamento brusco da economia
chinesa poderão causar uma nova recessão global” e salientou que “cada um
desses riscos poderá causar perdas produtivas globais entre 1 e 3 %”.
20
ͻ O grupo De Beers acredita que vai encontrar um depósito de diamantes em
Angola que lhe permita recuperar os 250 milhões de dólares despendidos em
acções de prospecção. “Já encontrámos diamantes na concessão de Mulepe,
perto de Lucapa, onde o grupo tem uma participação de 49% e a Empresa
Nacional de Diamantes de Angola os restantes”, afirmou. O grupo De Beers
abandonou Angola em 2005 por lhe ter sido retirado o direito de comerciali-
zação de diamantes no valor de 800 milhões de dólares e regressou em 2011.
ͻ As obras de reabilitação, expansão e modernização da África Têxtil, que vão per-
mitir o relançamento da fiação de algodão e tecelagem em Benguela, decorrem

| 273
CEIC / UCAN

a ritmo satisfatório e ficam concluídas dentro de um ano, garantiu a directora


provincial da Indústria, Geologia e Minas na província. Augusta Pinto acres-
centou que a recuperação da indústria África Têxtil, enquadrada no progra-
ma do Executivo de relançamento deste sector, se encontra na sua terceira
fase, marcada pela reabilitação da antiga fábrica e construção de uma outra
unidade numa área de 30 mil metros quadrados. Depois de as obras ficarem
concluídas, a unidade fabril pode começar a laborar com duas linhas de con-
fecção, uma das quais com capacidade para produzir 350 mil toneladas de
colchas e 100 mil toalhas por ano.
22
ͻ O secretário de Estado da Agricultura, Amaro Tati, reconheceu no Huambo os
avanços registados pelo Instituto de Investigação Agronómica (IIA) ligados ao
aumento da produtividade agrícola no país, visando garantir a segurança ali-
mentar e o combate à fome e à pobreza. O reconhecimento foi feito na ceri-
mónia de encerramento da reunião do conselho de direcção alargado do IIA,
que durante dois dias analisou o actual funcionamento na área de investiga-
ção. O conselho de direcção alargado, que juntou especialistas das províncias
do Huambo, Kwanza-Sul, Malange, Luanda, Huíla, Kwanza-Norte, Cabinda e
Namibe, fez o balanço das acções desenvolvidas e perspectivou um conjunto
de actividades a aplicar em 2013.
ͻ A falta de incentivos ao sector pecuário e a insuficiência de ração para alimen-
tação dos animais têm influenciado de forma negativa a produção de leite no
país, afirmou em Luanda o director do Instituto de Serviços de Veterinária do
Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, António José. O responsá-
vel, que falava sobre a produção de leite e carne no país, disse que se regista
uma fraca produção destes alimentos na província que mais produzia a nível
do território nacional, o Kwanza-Sul, por carência de ração para os animais e
outros elementos fundamentais para a sua produção.
23
ͻ A Endiama Mining, subsidiária da Endiama-EP, vai ter a sua sede na cidade
do Dundo, província da Lunda-Norte, para garantir a gestão eficaz dos pro-
jectos mineiros e aumentar a sua produção, anunciou em Luanda, o ministro
da Geologia e Minas. Francisco de Queiroz, que falava durante a cerimónia de
tomada de posse dos novos responsáveis por vários sectores do Ministério da
Geologia e Minas, declarou que a diversificação da exploração mineira é uma
grande aposta do Executivo, com o objectivo de aumentar as receitas fiscais
e patrimoniais do Estado e melhorar as condições de vida das populações.
24
ͻ O ministro das Finanças, Carlos Alberto Lopes, informou aos deputados à Assembleia
Nacional que a petrolífera estatal Sonangol vai doravante deixar de realizar despesas

274 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

em nome do Estado angolano, passando a executar apenas dois tipos de gastos.


Carlos Alberto Lopes indicou que as únicas despesas que a empresa petrolífe-
ra está autorizada a executar são as decorrentes do pagamento de subsídios,
sobretudo de combustíveis, e referentes ao carregamento de petróleo dedi-
cado ao pagamento da dívida externa. “Trata-se de uma novidade no OGE do
presente ano económico”, referiu o ministro angolano das Finanças. Para o
Orçamento Geral de Estado (OGE) de 2013, segundo o site do Ministério das
Finanças, o Executivo vai consignar a receita correspondente à venda de cinco
mil barris de petróleo por dia, para acudir a situações específicas no domínio
das infra-estruturas e de projectos que integram o Programa de Investimentos
Públicos. O ministro das Finanças manteve um encontro com os deputados à
Assembleia Nacional, que analisam na especialidade o OGE/2013, depois de,
na semana anterior, os representantes do poder legislativo angolano terem
aprovado na generalidade o documento de previsão das contas públicas.
25
ͻ O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, actualizou por despa-
cho, a comissão ad-hoc que tem por finalidade estudar e monitorizar a apli-
cação das regras de comercialização dos imóveis das novas centralidades.
Segundo um comunicado da Casa Civil do Presidente da República, a referi-
da comissão é coordenada pelo ministro do Urbanismo e Habitação e integra
representantes do Ministério das Finanças, do Fundo de Fomento Habitacio-
nal, da Sonangol Imobiliária (SONIP) e do Gabinete de Quadros do Presidente
da República.
ͻ As remessas para Portugal de emigrantes portugueses em Angola dispararam
em 2012, superando, até Novembro, o total do ano anterior, a maior subida
entre as origens destas transferências financeiras, segundo dados do Banco de
Portugal. Até Novembro de 2012, as remessas de Angola ascenderam a 244,9
milhões de euros, quando em todo o ano de 2011 atingiram 147,3 milhões
de euros e representaram mais do dobro do valor de 2009 (103,4 milhões de
euros). Angola representa a maior fatia das remessas dos Países Africanos de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP), tendo os restantes países deste grupo assis-
tido a variações pouco significativas ao longo do ano 2012.
ͻ A operadora de telecomunicações Unitel anunciou que vai investir, entre 2013
e 2015, 130 mil milhões de kwanzas na instalação dos mais avançados servi-
ços de voz e dados, assim como na expansão da cobertura de rede e na distri-
buição de produtos em todo o país. A Unitel afirma que lidera o mercado das
telecomunicações móveis, detendo uma carteira de nove milhões de clien-
tes. Além disso, a companhia reclama possuir elevados padrões de qualida-
de, onde se incluem os seus contratos de roaming com centenas de empresas
congéneres em todo o mundo.

| 275
CEIC / UCAN

29
ͻ O Banco Nacional de Angola (BNA) lançou em Luanda as novas notas do Kwanza.
As moedas metálicas de 50 cêntimos, um, cinco e dez kwanzas começam a cir-
cular a 18 de Fevereiro, enquanto as novas notas de 50,100,200,500,1000,2000
e 5000 entram no mercado a 22 de Março e ao longo do primeiro semestre.
O governador do Banco Nacional de Angola, José Massano, assegurou que as
notas são introduzidas no mercado de forma progressiva e circulam em simul-
tâneo com as actuais. Esclareceu que não se trata de uma troca de moeda,
mas sim a substituição das actuais notas. As novas moedas e notas chegam
aos cidadãos por via da rede bancária e dos estabelecimentos comerciais,
além da sede e das delegações regionais do BNA que vão ter postos abertos
para a sua obtenção.
31
ͻ A Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol) e a BP Explo-
ration (Angola) Limited anunciaram o início de produção do projecto PSVM
(Plutão, Saturno, Vénus e Marte) de águas ultra-profundas do Bloco 31 do
offshore angolano. A produção nesta fase inicial é proveniente de três poços
do campo Plutão, prevendo-se atingir um nível de produção de 70 mil bar-
ris de petróleo por dia. De acordo com uma fonte da companhia petrolífera
nacional, o pólo de desenvolvimento PSVM atingirá uma produção máxima
de 150 mil barris de petróleo por dia, com a entrada em funcionamento dos
campos remanescentes, Saturno e Vénus, em 2013 e Marte em 2014. A pro-
dução do PSVM é feita através da Unidade Flutuante de Armazenamento e
Descarga (FPSO), com uma capacidade de armazenamento de 1,6 milhões
de barris de petróleo, a primeira a operar em águas ultra-profundas em
Angola. Um total de 40 poços produtores e de injecção de água e gás sub-
marinos serão conectados à FPSO, através de 15 colectores e equipamen-
tos associados. A BP Exploration Angola Limited é o operador da concessão
do Bloco 31, com 26,67 %, e tem como parceiros a Sonangol EP (25 %), a
Sonangol P&P (20 %), a Statoil Angola AS (13,33 %), a Marathon Petroleum
Angola Block 31 Limited (dez %) e a Sonangol Sinopec International Block
31 Limited (cinco %).
ͻ Encerra em Menongue, Kuando-Kubango, um fórum nacional organizado pela
Comissão do Mercado de Capitais (CMC) que discute temas sobre o plano
estratégico da Bolsa de Valores e Derivativos de Angola (BVDA). O encon-
tro decorreu sob a orientação do presidente do Conselho de Administração
da CMC, Archer Mangueira, tendo os participantes discutido temas como a
essência de mercado de obrigações, estatuto orgânico, avaliação de activos,
plano estratégico, governação corporativa e iniciativa de regulamentação e
de supervisão. Além disso, os participantes no encontro fizeram um balanço

276 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

das acções desenvolvidas em 2012 e perspectivaram outras, que serão con-


cretizadas pela CMC ao longo dos próximos quatro anos.

Fevereiro
1
ͻ Os técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que concluíram uma mis-
são a Angola elogiaram o Executivo por ter incluído no Orçamento Geral “as
despesas quase fiscais” da Sonangol em nome do Estado. A missão considerou
que a decisão constitui uma “reforma fiscal importante” e é reflexo do impac-
to de medidas destinadas a reduzir “o fardo fiscal das operações do conces-
sionário de hidrocarbonetos”. Os técnicos do FMI, que estiveram 15 dias em
Luanda, salientaram que o projecto de OGE de 2013 é “um passo importan-
te” para as contas públicas angolanas passarem a observar os dois princípios
básicos do orçamento: universalidade e unidade. Universalidade significa que
todas as receitas e despesas estão incorporadas na lei orçamental e unida-
de que todos os domínios do Estado devem ter apenas um orçamento. Tam-
bém há o princípio da anualidade. Nessa mesma acepção é também essencial
garantir uma transferência atempada e total da receita petrolífera da Sonan-
gol para o Tesouro nacional.
2
ͻ O Terminal Oceânico de Porto Amboim (TOPA), implantado nos arredores
daquela cidade, é actualmente o principal ponto de recepção, armazenamen-
to e distribuição de combustíveis na região centro e sul do país. Com uma
capacidade instalada de 35.450 metros cúbicos de combustíveis como gasó-
leo, gasolina e petróleo iluminante, o terminal fornece as províncias do Kwan-
za-Sul, Kwanza-Norte, Malanje, Lunda-Norte, Lunda-Sul e Moxico. Incluem-se
nessa lista clientes das províncias do Huambo, Benguela, Luanda e Huíla. Em
funcionamento desde 1984, o Terminal Oceânico de Porto Amboim é deti-
do pela Sonangol Logística, mas foi inicialmente criado para abastecimento
das Forças Armadas estacionadas no centro e sul de Angola, durante o perío-
do de guerra. Com a paz, o TOPA afirmou-se para responder aos desafios de
reconstrução nacional. Para corresponder aos padrões internacionais para
empreendimentos do género, o terminal passou por uma autêntica revolução
tecnológica que permite o seu funcionamento integral e eficaz.
ͻ O programa de relançamento da cultura do café no Kwanza-Sul tem a cola-
boração do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
desenvolvido no quadro do projecto “apoio ao relançamento da produção
e agro-negócio cafeícola”. A revelação foi feita pelo chefe de departamento
provincial do Instituto Nacional do Café (INCA) no Kwanza-Sul, que sublinhou
que o projecto, iniciado em Novembro com seis mil cafeicultores do Amboim,

| 277
CEIC / UCAN

Quilenda e de Cassongue, tem um financiamento de 60.570 milhões de kwan-


zas.Daquela verba, 50 milhões são provenientes do PNUD e o restante atri-
buído pelo Executivo, por intermédio do INCA.
6
ͻ As residências das novas centralidades erguidas em Luanda, no quadro de cinco
projectos imobiliários da SONIP (Sonangol Imobiliária e Propriedades) loca-
lizados nas circunscrições de Kilamba Kiaxi, Cacuaco, Capiri, Km 44 e Zango,
têm custos actualizados que variam entre 1,5 milhões e 18 milhões de kwan-
zas. As novas modalidades de aquisição apresentadas pela SONIP estabelecem
que qualquer cidadão pode comprar ou arrendar casa nesses locais, bastando,
para tal, reunir uma cópia do Bilhete de Identidade e do Cartão de Contribuin-
te, a declaração de rendimento, o último recibo do salário e o comprovativo
de pagamento atribuído ao concorrente.
ͻ A Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol E.P.) e a Cabinda
Gulf Oil Company Limited (CABGOC) vão investir 5,6 mil milhões de dólares
no Projecto Mamufeira Sul do Bloco 0, em Cabinda. Localizado a 15 milhas
(24 quilómetros), ao largo da costa da província de Cabinda, a uma profundi-
dade de 200 pés (60 metros), o Projecto Mamufeira Sul constitui a segunda
fase de desenvolvimento do Campo Mamufeira. O projecto inclui 50 poços,
duas plataformas de cabeça de poços, instalações de processamento e com-
pressão e aproximadamente 75 milhas (121 quilómetros) de condutas sub-
marinas. O início de produção do Mamufeira Sul está previsto para 2015 e
deve atingir uma produção diária máxima de 110 mil barris de petróleo por
dia e dez mil barris de gás petróleo liquefeito (LPG) por dia. O gás natural
associado vai ser comercializado através da fábrica do Angola LNG, localiza-
da no município do Soyo.
7
ͻ A moeda angolana, o Kwanza, vai passar a ser uma unidade de pagamento
no mercado português, depois de ter sido incluída na lista de três novas uni-
dades monetárias a serem convertidas para cartões de crédito e débito dos
sistemas de descontos internacionais Visa e MasterCard. Fonte da Dynamic
Currency Conversion (DCC), funcionalidade de conversão dinâmica de moeda
no ponto de venda, para cartões Visa e MasterCard, assegurou o alargamen-
to da possibilidade de conversão para Kwanza (Angola), Real (Brasil) e Rublo
(Rússia), transformando essas moedas em divisas internacionais.
ͻ A instalação dos alicerces dos primeiros três dos 15 edifícios projectados para
área reservada à construção de prédios na Baía de Luanda começou. A cons-
trução dos edifícios com apartamentos T2, T3 e T4, inserida na terceira fase
da requalificação da zona, iniciou em Novembro de 2012, num espaço de três

278 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

hectares, na primeira linha de água entre a Avenida Dr. Agostinho Neto e a


entrada da Ilha do Cabo.
8
ͻ A Sociedade Mineira de Catoca pretende investir noutros países, no âmbito do
seu actual projecto de internacionalização. O anúncio é do seu director-geral,
José Ganga Júnior, para quem esta intenção [internacionalização de investi-
mentos] foi razão suficiente para a presença da empresa na Feira Internacio-
nal de Minas, que decorreu em Cape Town, na África do Sul. Na feira da África
do Sul, a Sociedade Mineira de Catoca manteve vários encontros de trabalho
e constatou existirem empresas que querem desenvolver a actividade mineira
em Angola.“A intenção é recíproca, procuramos parceiros e tratamos da nossa
internacionalização”, afirmou.
11
ͻ Os governadores dos bancos centrais africanos, reunidos no Quénia, no qua-
dro de um Conselho de Regulamentação Financeira apoiado pelo G-20, resol-
veram reforçar o papel das autoridades regulamentares financeiras e controlar
com rigor o sector do micro crédito. O governador adjunto do Banco Central
da África do Sul e o governador do Banco Central queniano que presidiram à
reunião declararam ter discutido o endurecimento da regulamentação para
assegurar que o apoio dos ministérios das Finanças neste sector não cause
problemas. Segundo um comunicado do Banco Central do Quénia, os gover-
nadores dos Bancos Centrais de Angola, Botswana, Gana, Quénia, Maurícias,
Namíbia, Nigéria, África do Sul e Tanzânia, e os ministros das Finanças africa-
nos, decidiram fixar os objectivos específicos sobre os fluxos de capitais, o cres-
cimento rápido do crédito, nomeadamente para os sectores de crescimento
da economia, como o sector industrial. Os governadores debruçaram-se igual-
mente sobre os riscos de exposição às novas potências económicas – Brasil,
China e Índia – e reconheceram a importância de quadros macroeconómicos
prudentes para completar a “vigilância microprudencial tradicional”, a favor
das “lições tiradas da crise financeira mundial”.
12
ͻ A Sonangol EP anunciou, em comunicado, ter concluído por intermédio da
sua subsidiária Sonangol Finance Limited, a contratação de dívida de longo
prazo no valor de dez triliões de kwanzas com o Banco de Desenvolvimento
da China. A companhia petrolífera angolana refere no documento que, nos
termos daquele contrato, o empréstimo é reembolsável em dez anos a uma
taxa de juro anual de 3,5 % acrescida da taxa de juro de referência do merca-
do de Londres Libor. A Sonangol EP afirma ter emitido uma garantia corpora-
tiva a favor da sua subsidiária para as finanças com base na robustez dos seus
indicadores de desempenho operacional, comercial e financeiro. A petrolífera

| 279
CEIC / UCAN

angolana considera que o empréstimo demonstra a robustez do modelo de


financiamento de longo prazo para os seus projectos de investimento, o que
permitiu, nos últimos sete anos, contrair cerca de 18 triliões de kwanzas em
empréstimos.
ͻ As exportações angolanas atingiram, durante o primeiro trimestre do ano pas-
sado, 1,4 triliões de kwanzas devido ao boom do preço do petróleo comer-
cializado no mercado internacional, segundo dados divulgados pelo Instituto
Nacional de Estatística (INE). Os números do INE indicam que o valor das expor-
tações angolanas aumentou 23 % em relação ao período homólogo (2011),
tendo as importações crescido em apenas 2,3 %. Nos primeiros três meses do
ano passado, aponta a nota, a China tornou-se no principal parceiro comercial
do país, absorvendo 48 % das exportações angolanas, seguida da Índia, com
10,6 %, EUA com 10,5 %, Taiwan com 6,3 % e Canadá com 4,6 %. Os países
que mais exportaram para Angola são Portugal com 19,4 %, China com 12,3
%, EUA com 9,2 %, Brasil com 5,9 % e África do Sul com 4,9 %. O INE informa
que Angola adquiriu no estrangeiro equipamentos e aparelhos que represen-
tam 23,67 % do total. Os produtos agrícolas aparecem em segundo lugar com
14,63 % e os veículos e outros meios de transporte com 14,48 %. Integram
igualmente a lista dos produtos importados por Angola os metais comuns e
bens alimentares, com 12,90 % e 9,20 %, respectivamente.
ͻ O Governo da Alemanha pretende investir na província de Malanje nos sec-
tores geológico, turístico e agrícola, visando contribuir no desenvolvimento
e progresso da região e intensificar os laços económicos entre os dois países.
Uma delegação alemã chefiada pelo enviado especial da Chanceler Alemã
para África, Gunter Nooke, visitou Malanje para explorar as potencialidades
que a província tem e preparar um plano de intervenção. A comitiva foi rece-
bida pelo governador provincial tendo abordado assuntos relacionados com
a intenção do Governo Federal Alemão.
13
ͻ A presidente do conselho de administração da Agência Nacional de Investi-
mento Privado (ANIP) disse que Portugal devia investir mais nos sectores da
agricultura e pescas em Angola, como complemento aos investimentos na
construção civil, imobiliário e hotelaria. Maria Luísa Abrantes destacou a agri-
cultura e as pescas, por serem estes os sectores em que tradicionalmente os
portugueses trabalharam em Angola e porque o país tem carências nestas
áreas.“Os portugueses são mais fortes na construção civil e também estão a
entrar um pouco no sector imobiliário e na hotelaria. Gostaríamos de ver Por-
tugal mais envolvido na agro-indústria, na agricultura, nas pescas, tendo em
conta que temos muito interesse e necessitamos de reforçar a nossa pequena
e média indústria”, afirmou. Dos projectos de investimento estrangeiro privado

280 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

entrados na ANIP, totalizando 1,5 mil milhões de euros, Portugal figura como
um importante investidor estrangeiro em Angola, atrás da China.
ͻ O presidente executivo da Galp Energia admitiu que o grupo tem interesse
nos leilões de blocos de exploração de petróleo e gás natural em Angola.“Va-
mos estudar as oportunidades que esses leilões oferecem”, afirmou Manuel
Oliveira. O presidente executivo da Galp disse ter a intuição que a negociação
vai ser “muito competitiva”, mas que a decisão apenas é tomada em função
das condições concretas de cada licitação.
15
ͻ Em Angola existem mais de 50 mil pescadores artesanais que exercem a pesca
marítima e continental, produzindo anualmente mais de 100 mil toneladas
de pescado. O valor corresponde a cerca de 30% do total de capturas do país,
revelou a secretária de Estado das Pescas. Maria Antónia Nelumba, que fala-
va na cerimónia de lançamento do projecto de pesca artesanal continental,
explicou “que este tipo de pesca alimenta vários extractos da população, prin-
cipalmente em peixe fresco, salgado e fumado comercializado no mercado
interno e em algumas localidades de países vizinhos”. A governante referiu
ainda que a pesca artesanal promove mais de 80% de postos de trabalho no
sector das pescas.
ͻ O Banco Comercial Português (BCP), onde a Sonangol é o maior accionista indi-
vidual com mais de 15% das acções, apresentou um prejuízo histórico de 1 219
milhões de euros em 2012, resultado que a instituição explica com imparida-
des (registo de perdas) e a unidade do grupo na Grécia, cuja venda está nego-
ciar com o Piraeus. O banco acumula prejuízos pelo segundo ano consecutivo.
16
ͻ O programa de construção, reabilitação e modernização de infra-estruturas dos
transportes do Corredor de Desenvolvimento do Lobito já absorveu 120 mil
milhões de kwanzas. A revelação foi feita, no Lobito, pelo ministro dos Transpor-
tes, Augusto Tomás, que indicou que este investimento viabilizou empreendimen-
tos estratégicos localizados ao longo da linha e os transforma num importante
vector do tráfego internacional para o transporte de carga contentorizada, gra-
neis sólidos e combustíveis. “O Porto do Lobito, o Caminho-de-Ferro de Ben-
guela, o Aeroporto da Internacional da Catumbela, o Porto Seco e Mineiro, são
infra-estruturas competentes que estão prontas a conferir maior conectivida-
de à economia regional”, disse, acrescentando que “os equipamentos e servi-
ços disponíveis vão assegurar maior capacidade operativa, competitividade e
segurança na internacionalização das empresas e da economia”.
ͻ Angola assinou com a General Electric (GE), no Lobito, um acordo de aquisi-
ção de locomotivas e de motores para aviões fabricados pela companhia nor-
te-americana. O acordo entrou imediatamente em vigor e prevê que Angola

| 281
CEIC / UCAN

compre cerca de cem locomotivas e obtenha assistência técnica para elas e


para os motores dos aviões da TAAG fabricados pela General Electric. Rubri-
caram o acordo, pela parte angolana, a directora do Gabinete de Estudos, Pla-
neamento e Estatística do Ministério dos Transportes, Teresa Muro, e pela GE,
o presidente do Conselho Executivo, Lorenzo Simonelli. Teresa Muro disse à
imprensa que a compra e manutenção das máquinas é importante, tendo em
conta os novos desafios do Corredor de Desenvolvimento do Lobito, que vai
ligar Angola à RDC e Zâmbia por via-férrea, para facilitar o escoamento dos
produtos destes países, entre os quais minerais. O convénio vai beneficiar
todos os caminhos-de-ferro do país. Lorenzo Simonelli informou que o acor-
do vai durar vários anos e que ainda não tem valor fixado, sendo certo que
uma locomotiva pode custar 200 milhões de kwanzas.
ͻ As novas moedas metálicas de 50 cêntimos, 1, 5 e 10 kwanzas entram em
circulação em todo o mercado nacional, assegurou o governador do Banco
Nacional de Angola (BNA), José Massano, em Luanda. Para o fabrico da nova
família do kwanza, o BNA investiu quatro mil milhões de kwanzas, sendo três
mil milhões em notas e os restantes mil milhões em moedas metálicas.
18
ͻ O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) tem disponíveis cerca de 30
milhões de dólares para investir na agricultura em Angola. Segundo Septi-
me Martin, a sua instituição bancária empenhou já cerca de 20 milhões de
dólares (2.000 milhões de kwanzas) em projectos agrícolas na localidade do
Bom Jesus (Luanda) e na Calenga (Huambo), bem como no projecto de água
e saneamento do Sumbe (Kwanza-Sul). A cooperação estende-se ainda à rea-
lização de estudos que permitam ao Governo ter uma visão estratégica para
o desenvolvimento a médio prazo.
ͻ A criação de uma Agência para a Facilitação do Transporte de Trânsito (TTFA, na
sigla em inglês), com sede na cidade do Lobito, foi a grande novidade da reu-
nião ministerial sobre o desenvolvimento do Corredor do Lobito, que decorreu
naquela cidade comercial da província de Benguela. A TTFA irá assegurar a dis-
ponibilidade do Corredor do Lobito aos importadores e exportadores do inte-
rior da República Democrática do Congo (RDC) e da Zâmbia, como suplemento
eficiente e económico a outras rotas comerciais existentes na região austral.
22
ͻ Um programa de agricultura familiar que visa melhorar a qualidade de vida
dos agricultores do pólo agro-industrial de Capanda, província de Malanje, foi
lançado em Cacuso, numa iniciativa da SODEPAC. A ser desenvolvido em três
fases, o programa vai inserir os agricultores no mercado formal, por intermédio
de supermercados, refeitórios e restaurantes. Projectado para atender direc-
tamente até 600 famílias, o programa, a ser lançado no Centro de Formação

282 |
RELATÓRIO ECONÓMICO DE ANGOLA 2013

Profissional de Construção Civil e Indústria (Cefoprof) de Cacuso, tem como


investidores as empresas Sonangol, Odebrecht e Maersk. São parceiros ins-
titucionais o Governo Provincial de Malanje, a Administração Municipal de
Cacuso e respectivas direcções e departamentos.
ͻ A segunda Feira da Banana de Produção Nacional no Panguila, numa realiza-
ção destinada a realçar as potencialidades de Angola neste domínio da pro-
dução e que conta com a participação de representantes de sete províncias.
Realizada sob o lema “Banana de Angola, Orgulho Nacional”, a feira visa,
igualmente, proporcionar aos produtores e empresários nacionais ligados à
cadeia produtiva da banana uma oportunidade para exporem os seus pro-
dutos, estabelecerem parcerias, trocarem experiências, venderem e com-
prarem equipamentos e materiais utilizados na produção, processamento
e comercialização.
23
ͻ A gestão do Balcão Único do Empreendedor passa a ser exercida pelos Gover-
nos provinciais, no âmbito da descentralização dos serviços públicos e adminis-
trativos junto da população. O anúncio foi feito, na cidade de Be