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A alegria vem da alma

"A vontade é um motor que faz pouco caso do carro que transporta".

Esta frase, do poeta francês Fernand Divoire, é capaz de resumir o que significa vencer apesar das
condições que nos são impostas. Exprime a essência do próprio sentimento de superação e, de forma
geral, o que é a tão falada "atitude".
A partir de agora, você vai conhecer a história de uma pessoa que venceu porque não se conformou
com o que o destino lhe reservou. Ela olhou para a vida, não com olhos de rancor, mas de
entendimento, e passou a criar sua própria realidade. Seu nome é Eliana Zaghi.
Eliana, hoje com 29 anos, nasceu em Guariba, interior de São Paulo e com apenas 1 ano e 9 meses
conheceu uma força limitadora que poderia tê-la anulado para sempre: contraiu poliomielite em uma
forma severa, que a deixou paralisada do pescoço para baixo, obrigando-a ainda a ficar 24 horas ligada
a um aparelho respiratório. Desde então, por conta das condições financeiras de seus pais, que não
conseguiriam manter uma estrutura de semi-UTI em sua casa, passou morar no Hospital das Clínicas de
São Paulo. E lá vão 27 anos.
Imagine então que aquele convívio familiar com os pais, com o irmão e demais parentes ficou reduzido
a algumas visitas ao logo do ano, durante as quais, por falta de intimidade, fica até difícil encontrar
assuntos para conversar e outras afinidade. Como ela mesmo diz: "Amo muito meus pais e parentes,
mas costumo dizer que minha verdadeira família são aqueles com quem convivo diariamente: as
auxíliares de enfermagens, atendentes, enfermeiras, médicos, faxineiras, copeiros, voluntários, entre
outros".
Um certo alívio vem do fato de que Eliana não fica sozinha no quarto, dividindo-o com um rapaz que
ela já considera como um grande irmão: Paulo Henrique Machado. Paulo tem 35 anos e também teve
paralisia infantil, mas no caso dele a doença não foi tão grave pois consegue mexer os braços e dirigir
sua cadeira de rodas motorizada. Adora informática, cinema e músicas. "Como todo irmão, também
temos nossos dias de brigas, de crises de paixonite aguda, desilusões e fantasias. Formamos uma boa
dupla, como muitos objetivos, alguns em comum e outros individuais", comenta ela.
Para piorar, muitos médicos e funcionários do hospital não lhe davam uma expectativa de sobrevida
além dos 10 anos de idade. Por um lado, esse sentimento negativo os motivou a tentar fazer com que
Eliana tivesse uma infância alegre, para que ela realmente pudesse se sentir aconchegada. O esforço de
todos permitiu que ela brincasse com coisas de uma criança normal, do tipo: panelinhas, bonecas,
esconde-esconde. "Teve uma brincadeira que eu mesma inventei em cima da realidade que eu estava
vivendo na época, que foi ligar soro em uma das minhas bonecas. Achava o máximo, pois vi que eu não
era a única que estava numa condição limitada", diz Eliana.
Volta por cima. Acontece que Eliana não acreditou no más notícias nem na expectativa limitadora, e
passou a aproveitar cada oportunidade oferecida para se desenvolver, levar seu espírito além daquelas
quatro paredes de seu quarto. Com muita fé e determinação, aprendeu a ler, escrever, virar páginas de
livros e revistas, pintar, usar o telefone, o computador e tudo mais.
Toda essa motivação a ajudou a superar questionamentos e momentos conturbados próprios da
adolescência. Afinal, como todo adolescente, Eliana teve seu primeiro amor frustrado e muitas
perguntas sem respostas. Também fez amigos de todos os tipos, reais e virtuais. "Meus amigos são
como um jardim, com os quais tenho de ter o maior cuidado para não machucar e muito menos destruir,
pois uma amizade destruída é algo que também me destrói", conclui ela.
Hoje, sua visão da vida é uma lição para muitos. Apesar das muitas angústias que já passou (e às vezes
ainda passa), procura ver a vida sobre a perspectiva de Deus, ou seja, acreditando que Ele está no
controle de todos os seus sentimentos e desejos, tendo sempre a esperança de que as coisas podem
melhorar. E se não melhorar, que Ele possa ajudá-la a aceitar. Para Eliana, é importante lutar, pois “a
vida é como um quadro, onde sempre está faltando alguma coisa ou cor para que se possa viver melhor
o dia-a-dia”.
Acreditando numa relação como essa entre a vida e a arte, ela só poderia se tornar dona de seu destino.
Embora desde pequena tenha demonstrado um interesse pelo desenho com canetinhas coloridas, foi
através da seções de Terapia Ocupacional que teve oportunidade de experimentar várias formas de
pintar: em papel, cerâmica e madeira pirografada. O gosto pelo resultado a fez esquecer as dificuldades
(ela precisa pintar colocando o pincel na boca e de ponta cabeça): "Estou pintando telas há quase oito
anos e através delas, pude descobrir que posso criar mais do que imagino. Basta eu botar a cabeça para
funcionar e acabo expressando todos os meus sentimentos e sonhos através de cores e formas".
De lá para cá foram muitos quadros, exposições, um site na internet e o artesanato (isso mesmo, ela faz
porta-jóias e aceita encomendas). Porém, é bom deixar claro que Eliana, como qualquer pessoa digna de
seu sucesso, não gosta que pensem nela com sentimento de piedade. Muito menos como exemplo de
comparação para que digam: "Está vendo, você tem de agradecer a Deus porque é normal. Podia ser
como aquela moça que está no hospital ou o menino que explodiu com a bomba no Iraque". Eliana
simplesmente faz a parte dela para ser feliz. Não tem vergonha de dizer até que gostaria de achar um
companheiro que a visse como mulher. E o primeiro que disser que ela não pode ou não vai conseguir,
deve ser da mesma turma dos que disseram que ela iria morrer com 10 anos ou que nunca conseguiria
pintar.

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