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Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Disciplina: Desenvolvimento Sustentável e Ecologia Política


Aluna: Gabriela Velloso Terenzi

PRODUÇÃO, CONSUMO E SUSTENTABILIDADE: O BRASIL E O


CONTEXTO PLANETÁRIO
Por José Augusto Pádua

O autor afima ser necessário adotar o “novo realismo ecológico” (Ekins e Max- Neef, 1992)
como forma de pensar a transição para um futuro sustentável e eqüitativo, de forma a superar o
enfoque “flutuante”, em que as sociedades tendem a ser vistas acima da Terra e de seus
ecossistemas.
A dinâmica da vida social humana, no enfoque flutuante, é entendida como sendo um universo
auto-explicativo, que depende do planeta apenas na medida em que dele retira recursos naturais. A
oferta desses recursos está sempre disponível ou pode ser substituída tecnologicamente, permitindo
um crescimento ilimitado da produção humana. Esta visão apresenta dois problemas fundamentais:
a) o fluxo de energia do mundo físico necessário em todas as ações humanas, mesmo por meio de
tecnologias, que possui limitações de cada biorregião e do planeta como um todo; b) ignora o fato
de que as desigualdades entre os seres humanos, fruto de conflitos históricos e do estabelecimento
de configurações de classe e de dominação intra e intersociedades, também se expressam
materialmente e precisam ser enfrentadas no contexto desta mesma materialidade.

A ideologia do desenvolvimento disseminou a expectativa de que o modelo de alto consumo


poderia ser replicado universalmente, gerando sociedades afluentes em todas as partes do planeta. O
caráter ilusório desta expectativa, contudo, torna-se cada vez mais evidente: em primeiro lugar,
devido ao fato dos tempos históricos nunca serem homogêneos ou perfeitamente replicáveis. As
oportunidades e circunstâncias históricas disponíveis para os países que iniciaram na
industrialização não estão mais presentes no mundo de hoje; o segundo elemento de crítica à
ideologia refere-se ao tema dos limites ecológicos que pareciam superados. Este fato ficou claro
com o forte ressurgimento na agenda política do final do século XX da discussão sobre os riscos à
sobrevivência, provocada por novas ameaças trazidas pela crise ecológica e pelos armamentos
nucleares.
Nos últimos anos têm ocorrido alguns avanços na quantificação dos fluxos materiais, buscando
aproximar o cálculo econômico do cálculo ecológico. Esses fluxos apenas materializam estruturas,
processos e conflitos sociais, sendo sua quantificação bastante útil para desvendar estas mesmas
relações.

Política Ambiental x Política de Sustentabilidade:


A primeira se concentra em limpar aspectos pontuais do sistema de produção e consumo,
tornando o ambiente vivido menos degradado, enquanto a segunda supõe uma transformação das
próprias estruturas e padrões que definem a produção e o consumo, avaliando a sua capacidade
integral de sustentação.

Espaço Ambiental:
Significa, de maneira sintética, a busca de um espaço apropriado para a vida humana no planeta
entre o mínimo requerido para as necessidades sociais básicas e o máximo que pode ser assimilado
pelas dinâmicas da ecosfera. O cálculo efetivo do espaço ambiental tem sido feito com base em
cinco elementos básicos: energia, solos, água, madeira e recursos não-renováveis.
O planeta não está sendo destruído pelo conjunto da humanidade. A responsabilidade por esta
destruição cabe, de forma quase total, a uma minoria de 1/5 da humanidade. É sobre este setor que
deve incidir de maneira mais forte as políticas de restrição do consumo material e da emissão de
diferentes formas de poluição. Nem todo o crescimento produtivo ou impacto transformador sobre o
planeta deve ser condenado como parte do processo destrutivo. As sociedades e populações mais
pobres possuem o direito moral e o espaço disponível para aumentar consideravelmente a sua
produção e o seu nível de consumo material.
É fundamental, contudo, que os caminhos econômicos destas sociedades sejam cada vez
mais democráticos, melhorando as condições de vida da população como um todo. O que se faz
necessário, dessa forma, é superar a ideologia convencional do desenvolvimento em favor de um
debate ético-político sobre o desenvolvimento enquanto direito das sociedades à melhoria das suas
condições de vida em um contexto de eqüidade e sustentabilidade planetárias.

INIQUIDADE NO BRASIL

O Brasil é um exemplo patente de como podem ser ilusórias as análises puramente quantitativas,
que reduzam a discussão apenas à recomendação abstrata de que as sociedades em geral precisam
diminuir o seu consumo de recursos naturais. O caráter iníquo do mercado brasileiro cria uma
grande distorção nos padrões de consumo, pois os recursos naturais são utilizados basicamente para
atender a uma elite internacionalizada que quer replicar os padrões perdulários dos mercados do
Norte, ao passo que as necessidades básicas deixam de ser atendidas.
É preciso, em primeiro lugar, combater a insustentabilidade social. Isso significa democratizar a
renda e o acesso à terra, aos recursos naturais, aos serviços básicos e aos bens de consumo úteis.
Um segundo movimento fundamental, na medida em que a cidadania e o senso de comunidade
nacional se fortaleça, é combater o desperdício, o elitismo, o descaso com o espaço comum e a
alienação tecnológica que vem caracterizando a economia urbano-industrial no Brasil. - Esta última
foi um dos componentes básicos da modernização conservadora. O progresso técnico no caso de
países dependentes como o Brasil, é importado como um processo fechado, desde o seu padrão de
produção até o seu padrão de consumo, passando pelo aumento a qualquer custo das exportações e,
quando isso já não é suficiente, pela formação da dívida externa em substituição à poupança interna.
O enfrentamento da dívida social brasileira vai exigir uma utilização considerável de recursos
naturais. Os recursos, em geral, poderão ser obtidos na própria diversidade do território brasileiro,
criando de fato uma grande oportunidade de geração de emprego, renda e produção. Este esforço
não deve ser criticado com base em um ambientalismo superficial, já que se trata de uma
necessidade crucial de sustentabilidade social e de um uso perfeitamente legítimo de espaço
ambiental, visto que a maioria da população brasileira a ser beneficiada consome uma parcela
pequena dos recursos planetários.
Para que tal esforço não seja danoso ao equilíbrio ecológico do território e do planeta, contudo, é
necessário adotar novos padrões de tecnologia, produção e consumo, que superem a alienação e
enfatizem o uso cuidadoso, apropriado e descentralizado dos recursos renováveis, assim como a
proteção da qualidade e da saúde ambiental do espaço comum.