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Transição demográfica e

desigualdades sociais no Brasil

Fausto Brito*

O artigo analisa a originalidade da transição demográfica no Brasil


determinada pelos fortes desequilíbrios regionais e sociais. Ainda que única,
enquanto um processo global que atinge toda a sociedade brasileira, a transição
demográfica apresenta-se como múltipla, pois se manifesta diferentemente
segundo as diversidades regionais e, principalmente, sociais. Nessa perspectiva,
a transição demográfica está longe de ser considerada neutra: pode tanto criar
possibilidades demográficas que potencializem o crescimento da economia e do
bem-estar social da população, quanto ampliar as graves desigualdades sociais
que marcam a sociedade brasileira. Essa situação torna-se mais complexa em
função de o Brasil ainda estar inserido no grande ciclo de crescimento absoluto
da sua população. Devido às desigualdades sociais e às correspondentes
diferenças nas taxas de fecundidade total, a população mais pobre é a que
mais tem crescido, com fortes conseqüências sobre as mudanças na estrutura
etária. As relações entre os diversos indicadores da transição demográfica e a
renda domiciliar per capita mostram que as diferenças sociais levam, no Brasil,
a “desigualdades demográficas” maiores do que aquelas observadas entre
as diferentes regiões. Seus benefícios, ou bônus demográficos, são distintos
segundo os níveis sociais. Desse modo, a capacidade de a transição demográfica
potencializar as transferências intergeracionais de recursos está intimamente
associada à implementação de políticas que potencializem as transferências
sociais desses mesmos recursos.

Palavras-chave: Transição demográfica. Bônus demográfico. Desigualdade


social.

Introdução pela sua relevância, mais do que rastrear


dados, apelando, permanentemente, a
Este artigo não tem a pretensão de desafios para sua compreensão. Se não
superar os limites de um ensaio. O seu bastasse a vereda de enigmas a serem deci-
objetivo é combinar as exigências impostas frados pela imaginação criadora, a transição
pela imaginação analítica com a referência demográfica no Brasil ainda reserva aos que
necessária às evidências empíricas, sem a analisam a oportunidade de se defronta-
perder o fio condutor do rigor lógico. O tema rem com caminhos sociais alternativos pos-
– transição demográfica no Brasil – exige, tos por ela. Ao rigor lógico, indispensável,

* Professor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) e do Departamento de Demografia da


UFMG. O autor agradece a leitura atenta do seu colega José Alberto Magno de Carvalho, porém as idéias nele contidas
são de inteira responsabilidade do autor. Este artigo não poderia ser escrito sem a colaboração de Camila do Couto Seixas
na elaboração dos dados. Agradeço, também, a Cíntia Simões Agostinho pela organização da base de dados.

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ela acrescenta uma demanda normativa: e sociais, ampliando as graves desigual-


como melhor aproveitá-la, na perspectiva de dades sociais que marcam a sociedade
melhorar as condições sociais da maioria da brasileira.
população brasileira. Questão decisiva para Se não há neutralidade, não se pode
este ensaio, pois a transição demográfica no fugir de uma abordagem normativa da
Brasil poderia contribuir tanto para reduzir transição demográfica. Em outras palavras,
as desigualdades sociais quanto para man- como ela pode favorecer caminhos sociais
tê-las ou, até, exacerbá-las. Evidências diferenciados, sua análise não deve se
empíricas, imaginação analítica e, conse- abster dessa questão decisiva. Seria um
qüentemente, análise das políticas sociais grande equívoco reduzir as preocupações
são os objetivos buscados por este ensaio analíticas e políticas com a transição de-
na compreensão da transição demográfica mográfica às suas lógicas conseqüências
no Brasil. Certamente, ficará aquém deles. atuariais, muitas vezes resumidas às meras
Contudo, procurá-los adequadamente já implicações sobre as relações custos-be-
será um êxito deste ensaio. nefícios. Desse modo, a análise, bem como
A transição demográfica é um dos suas inevitáveis conseqüências políticas,
fenômenos estruturais mais importantes ficaria restringida às sugestões sobre a “ra-
que tem marcado a economia e a sociedade cionalidade dos meios”, desconsiderando
brasileiras desde a segunda metade do os objetivos sociais a serem alcançados.
século passado. Trata-se de um fenômeno Esses, inevitavelmente, obedecem a uma
caracterizado pela sua universalidade, mas moldura normativa da transição que ilumina
fortemente condicionado pelas condições o projeto social preferido pelo analista.
históricas em que se realiza nos diferentes Isso é fundamental, pois, se a transição
países. Sua diferença em relação aos países não é neutra e pode favorecer conseqüên-
desenvolvidos e sua semelhança com os cias sociais diversas, ela depende de políti-
outros em desenvolvimento não esgotam a cas que podem colocá-la nos trilhos que a
sua originalidade. levará a um destino ou outro. Trata-se de
A originalidade da transição demográ- uma opção; não se está diante de uma fatali-
fica no Brasil está definida pelas par- dade histórica, em que a lógica do mercado
ticularidades históricas onde ela se insere, da economia contemporânea globalizada
permeadas pelos fortes desequilíbrios amarraria o destino da sociedade brasileira à
regionais e sociais. Nessa perspectiva ela sua rigorosa seletividade, traçando os limites
é única, enquanto um processo global que para as políticas públicas. Pelo contrário,
atinge toda a sociedade brasileira, mas, ao as possibilidades abertas pela transição
mesmo tempo, múltipla, pois se manifesta demográfica devem significar o desafio
diferentemente segundo as diversidades de ultrapassar esses limites, ampliando os
regionais e, principalmente, sociais. caminhos que podem levar à redução das
Inserida e intensamente articulada a desigualdades sociais.
esse contexto de desenvolvimento dese- A transição demográfica leva décadas.
quilibrado, a transição demográfica não é A princípio, isso coloca problemas diante
autônoma. Ela é um processo social que da perspectiva temporal dos formuladores
não se resume aos efeitos combinados das de políticas públicas, que normalmente
variáveis estritamente demográficas. Pelo planejam considerando um período muito
contrário, imersa nas profundas mudanças inferior. Para os demógrafos, normalmente,
sociais e econômicas pelas quais tem pas- meio século corresponde a médio prazo,
sado o Brasil, é, simultaneamente, uma de mas, do ponto de vista da formulação de
suas causas e um de seus efeitos. Como tal políticas, meio século é uma eternidade.
está longe de ser considerada neutra: pode É necessário mudar as atitudes dos for-
tanto criar possibilidades demográficas que muladores de políticas, assim como dos
potencializem o crescimento da economia, demógrafos, na direção de serem com-
aumentando o bem-estar social, quanto preendidas, articuladamente, as visões de
potencializar as adversidades econômicas curto, médio e longo prazos. Muitas vezes,

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tendências de longo prazo se manifestam asiáticos, tem sido muito mais acelerada
de maneira aparentemente contraditória no do que naqueles desenvolvidos. No caso
curto e médio prazos. Um bom exemplo, e do Brasil, o declínio da fecundidade, após
que será o objeto de análise neste artigo, é 1965, teve impacto, lógico, na redução do
o crescimento populacional. crescimento da população. Resultados re-
Apesar de levar décadas, a transição centes levaram a uma revisão, para baixo,
demográfica no Brasil tem sido acelerada, das estimativas de fecundidade, pois a
como em outros países em desenvolvi- PNAD de 2004 indicou uma taxa de fecun-
mento, com um declínio rápido dos níveis didade total (TFT) de 2,1 filhos por mulher,
de fecundidade e do ritmo de crescimento ou seja, no nível de reposição da população
demográfico. Entretanto, como um pro- (IBGE, 2006). O horizonte da fecundidade
cesso recente, apesar de ter reduzido futura para o IBGE, considerando a TFT
o ímpeto do crescimento populacional, de 2030 como tendência, passou de 1,92
ele ainda será expressivo nessa primeira para 1,59 filho.
metade do século XXI, com o grande ciclo Esses dados levariam a uma revisão das
de incrementos absolutos da população projeções da população para o século XXI,
brasileira que se iniciou nos anos 70 do o que ainda não foi realizado. Portanto, as
século passado. projeções aqui utilizadas, a partir da fonte
Conseqüentemente, a transição da es- oficial, podem ser consideradas conserva-
trutura etária, ainda que tenha diminuído a doras. Segundo esses dados, alcançando
proporção de jovens e aumentado a dos uma fecundidade de 2,1 filhos por mulher,
idosos, possibilitará que no final dessa dé- entre 2010 e 2020, a população brasileira
cada, em 2010, a população jovem tenha chegaria à situação estacionária em torno
o seu maior tamanho absoluto. O cresci- de 2063, quando começaria a diminuir em
mento da população em idade ativa (PIA), termos absolutos. Tudo indica, com a re-
acompanhando a população total, ainda visão do IBGE, que o Brasil poderia alcançar
se manterá até 2040-2050. Isso, por um uma taxa de crescimento zero entre 2045 e
lado, pode ser um benefício, favorecendo 2055(IBGE, 2006).
as relações de dependência demográficas Não obstante, ainda devemos esperar
e, conseqüentemente, as transferências um crescimento expressivo da população
intergeracionais, quando o número de brasileira nas próximas décadas, em razão
dependentes, jovens e idosos, em relação dos efeitos da fecundidade passada sobre
à PIA, será extremamente baixo, mas, por a estrutura etária da população, marcada
outro, se o crescimento da economia e as por uma grande proporção de mulheres
mudanças na regulação do mercado de em idade reprodutiva, o que favorece o
trabalho não superarem seu comportamento crescimento populacional, a despeito dos
recente, a proporção de desempregados baixos níveis de fecundidade atualmente
e empregados na informalidade compro- predominantes. As projeções indicam para
meterá as oportunidades demográficas. 2050 que o tamanho da população brasileira
Permeando as discussões sobre cresci- será de 253 milhões de habitantes, a quinta
mento populacional e transição da estrutura maior do planeta, inferior apenas às da Índia,
etária, neste artigo, estão os agudos dese- China, EUA e Indonésia.
quilíbrios sociais que afetam o Brasil, com Haveria, então, um acréscimo de 90
a coexistência de diferentes etapas da tran- milhões de habitantes à população brasileira
sição demográfica, que caracterizam, como nessa primeira metade do século XXI, o
mencionado, a sua originalidade histórica. equivalente a 2,5 vezes a população da
Argentina em 2005, ou seja, 18 milhões de
Crescimento populacional e a transição habitantes por década, em média. Não se
da estrutura etária trata de se assombrar com a possibilidade
de uma explosão demográfica, mas o cresci-
A transição demográfica nos países mento populacional será, todavia, bastante
em desenvolvimento, latino-americanos e expressivo (Gráfico 1).

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GRÁFICO 1
Incremento médio anual da população total
Brasil – 1940-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

Da década de 70 até a atual, que se a maioria dos nascidos na primeira metade


encerrará em 2010, a população brasileira desse século seja pobre.
ainda encontra-se em seu grande ciclo de Tomando-se como indicador da fecun-
crescimento absoluto, com aumentos mé- didade a relação entre crianças de zero a
dios anuais superiores a 2,5 milhões de ha- quatro anos e as mulheres entre 15 e 39
bitantes. Na próxima década, os incremen- anos, essas suas diferenças sociais podem
tos ainda serão superiores a dois milhões. ser bem observadas (Gráfico 2). Ainda
No entanto, como as taxas de crescimento que a diferença entre os valores para a
vêm se reduzindo neste mesmo período, população mais pobre – renda domiciliar
espera-se que, na última década dessa per capita inferior a um salário mínimo –,
primeira metade de século, ou seja, entre nos dois últimos censos, seja inexpressiva
2040 e 2050, o incremento médio anual seja e tenha se reduzido, ela é muito significativa
inferior a um milhão de habitantes, segundo quando se consideram os valores extremos
as estimativas do IBGE. da distribuição de renda.
Em síntese, entre 2005, quando a taxa de Portanto, não é surpreendente que a
fecundidade total brasileira atingiu 2,1 filhos distribuição da população brasileira, segun-
por mulher – nível necessário e suficiente para do a renda domiciliar per capita, revele uma
se alcançar um crescimento demográfico profunda desigualdade social (Tabela 1).
sustentado nulo, no longo prazo – e o período Evidentemente, essa distribuição é função
em que se constatará o crescimento verda- não só dos diferenciais de fecundidade,
deiramente nulo da população brasileira, mas, também, da mobilidade social entre
serão necessários pelo menos 40 anos. os diferentes estratos. A rigidez estrutural
Estes resultados remetem a uma primeira da sociedade brasileira não é favorável à
grande questão a ser considerada na formu- mobilidade social, cujas possibilidades têm
lação de políticas públicas: devido ao ritmo ficado, em grande parte, nos últimos tem-
diferenciado de crescimento dos diversos pos, na dependência das políticas públicas
grupos sociais, a probabilidade maior é que de transferência de renda (BRITO, 2007).

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GRÁFICO 2
Quociente entre a população de 0 a 4 anos e a população feminina de 15 a 39 anos, segundo renda domiciliar
per capita (em salários mínimos)
Brasil – 1980-2000

Fonte: IBGE. Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000.

TABELA 1
População total, segundo renda domiciliar per capita
Brasil – 1980-2000

Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000.

Não há dúvida de que qualquer com- não é uma solução que ultrapasse seus pró-
promisso com a redução das desigualdades prios limites, como muitos ainda acreditam,
sociais passa, necessariamente, por reforçar servindo como único remédio para as maze-
na agenda política a necessidade de ações las sociais. Contudo, não se pode separar
visando o apoio à população mais pobre, a reprodução estritamente demográfica da
para que tenha condições de regular sua população da sua reprodução social. Elas
fecundidade, pois é este o segmento so- estão intimamente articuladas. No que se
cial com menos informação e acesso à refere ao segmento pobre, então, esta as-
contracepção. Para ter o exercício de sua sociação não pode ser desprezada quando
cidadania plena, as mulheres, em geral, se pensa em políticas sociais. Mesmo com
e as mais pobres, em particular, devem declínio da sua fecundidade, a dimensão
ter acesso às informações e aos meios de dessa população é tão grande que qualquer
regulação da sua fecundidade, para que incremento torna-se significativo. Pensando
possam decidir, segundo seus interesses, o na situação extrema, otimista do ponto de
número adequado de filhos. Evidentemente, vista demográfico, até mesmo no longo

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prazo, quando a taxa de crescimento da públicas (Gráfico 3). Em 2010, a população


população pobre alcançasse seu nível de jovem alcançará seu maior volume em toda
reprodução, se as condições sociais atuais a história brasileira (53 milhões), permane-
se mantivessem, ela estaria apenas se cendo praticamente constante entre 1990 e
reproduzindo, mas como uma população 2030, com oscilação de valores ligeiramente
pobre (BRITO, 2006). superiores a 50 milhões de indivíduos.
No que se refere à transição demográ- No caso dos serviços relativos à popu-
fica, mais importante ainda que a população lação jovem, como os educacionais, a
pobre, em seu conjunto, são os jovens po- redução do ritmo de crescimento da de-
bres. O peso relativo do total do segmento manda pode favorecer a universalização
jovem – aquele abaixo de 15 anos – tem da cobertura e a melhoria da qualidade do
diminuído, em função do declínio da fecun- ensino. Além disso, seria menos onerosa
didade. Essa redução teria sido ainda maior a ampliação do tempo durante o qual os
se não tivesse ocorrido queda significativa jovens deverão estar inseridos no sistema
da mortalidade infantil. Entre 1970 e 2000, escolar, facilitando, por exemplo, a imple-
a mortalidade infantil passou de 115 para mentação da escola em tempo integral.
30 óbitos de crianças com menos de um Entretanto, do ponto de vista das políticas
ano por 1.000 nascidas vivas (IBGE, 2006). públicas, não pode ser desconsiderado
A queda da proporção de jovens acontece que a população-alvo, os jovens, terá na
em ritmo mais acelerado do que o aumento próxima década o seu maior tamanho
da de idosos, pois a substituição de jovens absoluto. Atualmente, há consenso quanto
por idosos é mediatizada pelo crescimento à necessidade de políticas que garantam a
da população adulta. Contudo, a visão universalização efetiva do atendimento dos
exclusiva do decréscimo proporcional dos ensinos fundamental e médio. O ensino fun-
jovens pode obscurecer a compreensão damental, exclusivamente, em nada garante
da sua importância em termos absolutos, a inclusão social, via mercado de trabalho,
fundamental para a definição das políticas cujos requisitos para a entrada tornam-se

GRÁFICO 3
População total jovem e idosa
Brasil – 1940-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

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cada vez mais rigorosos. O ensino médio seu maior tamanho absoluto na próxima
assume uma importância fundamental, prin- década. Entretanto, incrementos menores
cipalmente o profissionalizante. ou negativos significam, realmente, um alívio
O grupo etário que constituiria essa de- na pressão sobre o crescimento da oferta da
manda potencial para os ensinos fundamen- capacidade instalada para os serviços edu-
tal e médio, ou seja, a população entre 5 e 19 cacionais, o que deve ser aproveitado, como
anos, ainda crescerá, lentamente, até 2020, um benefício, pelas políticas públicas.
quando alcançará seu tamanho máximo, No entanto, a questão não é eleger
cerca de 53,5 milhões de pessoas (Gráfico uma nova panacéia, em que as condições
4). O atendimento ao ensino médio passa a da estrutura etária garantiriam o êxito das
ser o grande gargalo da educação brasileira, políticas educacionais. A situação demográ-
não somente pela pressão demográfica, fica favorável, por si só, pouco significará se
mas, também, pelo aumento significativo não for aproveitada com eficiência, quanto
da população que completa o ensino fun- aos meios, e com objetivo social de ampliar,
damental e deseja continuar os estudos. O pela qualidade, a capacidade de mobilidade
ensino médio enfrentará, dessa forma, dois social da maioria da população pobre,
grandes desafios: atender a toda a demanda reduzindo, desse modo, as desigualdades
e aumentar a qualidade do ensino, sem se sociais.
beneficiar, no curto e médio prazos, com a No caso brasileiro, os benefícios de-
redução da população-alvo. mográficos estão fortemente condicionados
Torna-se evidente que os benefícios pela gravidade da situação social. Isso fica
demográficos, no que se refere à demanda nítido quando se constata que a maioria
pelo ensino, ocorrem devido ao menor ritmo da população jovem, no Brasil, é pobre.
de crescimento do tamanho da população- Nos três últimos censos, a porcentagem
alvo. O passivo demográfico, determinado de jovens de família com renda domiciliar
pelo longo período de fecundidade alta, per capita inferior a um salário mínimo tem
ainda proporcionará à população jovem o diminuído, mas situava-se, em 2000, acima

GRÁFICO 4
População de 5 a 19 anos
Brasil – 1940-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

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TABELA 2
População de 0 a 14 anos, segundo renda domiciliar per capita
Brasil – 1980-2000

Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000.

de 70%, mais de 32 milhões de pessoas. com 65 anos de idade ou mais é uma ca-
No nível mais baixo de pobreza ainda se racterística marcante da transição da estru-
encontravam 45%, cerca de 23 milhões de tura etária brasileira. Essa proporção será de
jovens. 7,0% em 2010, pouco mais de 13 milhões
Os investimentos maciços em edu- de idosos. Comparativamente, naquele ano,
cação, inclusive a escola integral com for- um grupo com 40 milhões de pessoas a
mação técnica até o ensino médio, implicam menos do que os jovens.
uma grande vontade política. Como foi Durante a primeira década deste
mencionado, o público-alvo ainda se man- século, a população idosa tem aumentado,
terá muito alto nas duas próximas décadas. em média, 387 mil pessoas por ano. Mas,
Numa hipótese pessimista, se for mantida, nos últimos dez anos da primeira metade
em 2010, a mesma proporção de jovens do século, estima-se que esse crescimento
pobres de 2000, ou seja, aqueles com renda corresponderá a mais de um milhão de
domiciliar inferior a meio salário mínimo, eles indivíduos por ano. Em 2050, a população
seriam mais de 24 milhões, quase a metade idosa será cerca de 3,7 vezes maior do
de todos os jovens. que a de 2000, próxima de 49 milhões. As
Por outro lado, a população idosa conseqüências deste grande incremento
tem apresentado uma velocidade no seu serão enormes, exigindo uma redefinição
incremento absoluto maior do que a da de todas as políticas públicas voltadas para
população total, aumentando, conseqüen- esse segmento populacional.
temente, sua participação relativa. Associe- A questão mais importante para as políti-
se, a esse fenômeno do envelhecimento da cas públicas, de fato, é a situação social dos
população, o aumento da sua longevidade, idosos. A proporção deles no estrato mais
bem traduzida pelos ganhos na esperança pobre da população tinha aumentado entre
de vida ao nascer, que já alcançava 72,1 1980 e 1991, mas teve uma grande redução
anos em 2005. Deve-se lembrar que os entre os dois últimos censos. Em 2000, 12%
países desenvolvidos, quando estavam na da população idosa possuía renda domiciliar
fase atual da transição demográfica brasilei- per capita inferior a meio salário mínimo, ou
ra, tinham não apenas uma economia com seja, uma situação inequívoca de pobreza.
crescimento sustentado, mas também um Ampliando a faixa de pobreza até um salário
Estado do Bem-Estar Social consolidado. mínimo, tem-se um terço dos idosos, cerca
O Brasil, ao contrário, não tem registrado de 3,5 milhões.
taxas satisfatórias de crescimento da sua Há uma relação positiva entre a pro-
economia, assim como se apressa em refor- porção de idosos e o nível de renda, quando
mar seu sistema de seguridade social, que se considera cada um dos grupos. Ela
ainda se encontra a uma enorme distância aumenta, certamente, devido a uma maior
da experiência dos países desenvolvidos. longevidade e menor fecundidade dos gru-
O envelhecimento da população, ou pos economicamente mais favorecidos da
seja, o aumento da proporção de pessoas população. O segmanto com mais de dez

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Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

TABELA 3
População de 65 anos e mais, segundo renda domiciliar per capita
Brasil – 1980-2000

Fonte: IBGE. Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000.

salários mínimos de renda per capita familiar, solução. Todavia, não há como fugir às suas
em 2000, tinha 10% de idosos, enquanto os incógnitas, pois, fazendo um mero exer-
mais pobres possuíam apenas 2%. cício, os 57% de idosos (5,6 milhões) que
O fato mais notável, entretanto, quando em 2000 podem estar recebendo benefícios
se observa a distribuição de renda da dos programas de transferência de renda
população idosa, na última década, é a serão, em 2050, segundo estimativas do
diminuição, tanto em termos absolutos IBGE, 28 milhões. Sendo realista, a situação
quanto relativos, dos idosos mais pobres. social de parte da população idosa do Brasil
Por outro lado, aumentaram aqueles com será insustentável no futuro, se continuar a
renda domiciliar entre meio e um salário depender, como agora, de transferências
mínimo e, fundamentalmente, o grupo entre maciças de renda originárias do orçamento.
um e dois salários mínimos, em que se situa- Os contornos dessa situação ficam ainda
vam, em 2000, 57% dos idosos, contra 38% mais complexos quando se considera que
em 1991. Essas mudanças, provavelmente, a maioria dos jovens pobres, hoje, poderá
devem ter sido causadas pelas políticas de ser os idosos pobres de amanhã.
transferência de renda definidas pela Cons- Desse modo, ainda que aparentemente
tituição de 1988. Boa parte dessa parcela possa parecer contraditório no curto prazo,
da população tem sido objeto de políticas pois são segmentos etários com demandas
de transferência de renda, como a aposen- competitivas de receitas públicas, não é
tadoria rural e o Benefício de Prestação possível pensar as políticas para os idosos,
Continuada (BPC). no médio e longo prazos, separadas das
A título de exemplo, tome-se o Benefí- políticas para os jovens. Será decisivo, para
cio de Prestação Continuada (BPC). Seria equacionar a questão dos idosos, uma rigo-
razoável esperar que o volume de recursos rosa política de investimentos no curto prazo
a serem dispensados nesse programa de na população jovem pobre, com o objetivo
transferência de renda varie em proporção não só de garantir sua sobrevivência hoje,
muito semelhante àquela da população como pobre, mas, principalmente, que
idosa (CEDEPLAR/MDS, 2006). Por se tratar crie condições para sua mobilidade social,
de transferências puras, o BPC não envolve possibilitando sua definitiva inclusão social,
contrapartida por parte dos beneficiários, no futuro.
mas sim recursos orçamentários. Em outras Por outro lado, o sistema de previdên-
palavras, esse benefício é financiado por cia social, no qual, em princípio, haveria uma
recursos fiscais pagos por outros segmen- contrapartida adequada da parte dos futuros
tos sociais. A continuidade das políticas de beneficiários, precisa se compatibilizar com
transferência de renda deve ser equaciona- o padrão demográfico emergente. A situa-
da, politicamente, no contexto de um projeto ção demográfica é favorável, o número de
fiscal – fundamentalmente social – de trans- contribuintes potenciais, em 2010, é quase
ferência de renda favorável aos segmentos dez vezes maior do que o de idosos. A
mais pobres da população. Não se trata, dificuldade, então, não se encontra, neste
no caso brasileiro, de uma equação de fácil momento, nas relações intergeracionais,

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Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

GRÁFICO 5
População ocupada e contribuinte, segundo faixa etária
Brasil – 2000

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 2000.

mas sim na maioria da PIA que não con- ser objetivo prioritário do Estado. Caso isso
tribui, gerando graves problemas para o seu não ocorra agora, a situação previdenciária
financiamento. ficará comprometida, pois, no médio prazo,
O Censo de 2000 mostra uma relação provavelmente, haverá maior proporção de
entre população ocupada e população trabalhadores não-contribuintes e, no longo
contribuinte muito desfavorável à política prazo, mais dependentes de programas de
previdenciária: praticamente, a metade dos transferência de renda.
ocupados não contribuía para a Previdência Equacionar o sistema de previdência
(Gráfico 5). social, sem que o país tenha alcançado os
O cenário para a definição das políti- primeiros degraus de um Estado do Bem-
cas de previdência social, em particular, e Estar Social, é um desafio para as políticas
da seguridade social, em geral, não pode que visem aumentar a justiça social e reduzir
deixar de levar em conta quem são os as desigualdades sociais, sem as quais as
idosos hoje e como serão no futuro, do oportunidades demográficas serão des-
ponto de vista da sua renda. Atualmente, perdiçadas. Deve-se sublinhar, novamente,
a dimensão absoluta da população idosa, que, apesar de as implicações da transição
vis-à-vis a da população em idade ativa, demográfica sobre o sistema previden-
ainda não é tão relevante como será no ciário serem observáveis, elas ainda estão
futuro e, só por isso, a situação dos idosos distantes de expressar uma das principais
ainda pode ser minimizada pelas políticas causas da sua crise, ao contrário da situação
de transferência de renda definidas pela atual dos países desenvolvidos.
Constituição. Já a situação futura dependerá Correntemente, enquanto se aumenta
das possibilidades criadas pelo crescimento o peso relativo dos idosos, também cresce
da economia, principalmente da geração de a população em idade ativa, de quem se
mais empregos e ocupações que aumentem espera, pela produção, poupança e inves-
o número de contribuintes, somando-se, timentos, que seja a fonte de transferência
como mencionado, as políticas públicas de renda para os idosos, pelo menos
referentes aos jovens pobres, que devem teoricamente (TURRA; QUEIROZ, 2005).

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Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

GRÁFICO 6
População em Idade Ativa
Brasil – 1940-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

Entre 1950 e 2000, foram acrescentados desenvolvidos investimentos maciços em


88 milhões de pessoas ao seu contingente educação.
populacional. O passivo demográfico, de- Voltando ao crescimento da PIA e
terminado pelo longo período de fecundi- considerando a população de 15 a 24 anos
dade alta, ainda irá incorporar à PIA cerca aquela que potencialmente poderia se incor-
de 54 milhões de pessoas entre 2000 e porar ao mercado de trabalho no decênio,
2050 (Gráfico 6). suas estimativas para um futuro próximo não
O Brasil está muito distante da realidade podem, propriamente, ser entendidas como
dos países desenvolvidos que, desde o um benefício demográfico. Seu incremento
final da Segunda Guerra Mundial, precisam decenal tem sido negativo nesta primeira
suprir parte das suas necessidades de mão- década do século XXI, mas será positivo
de-obra através da migração internacional. entre 2010 e 2030. Novamente, o passivo
Pelo contrário, desde 1980, o país passou demográfico possibilitará que, de 2000 a
a transferir população para nutrir o mercado 2050, a população jovem, potencialmente
de trabalho internacional. Entretanto, essa demandante de um lugar no mercado de tra-
emigração é, relativamente, pouco expres- balho, varie em tamanho absoluto, em cada
siva, insuficiente para reduzir a pressão uma das décadas, entre 32 e 34,7 milhões.
sobre a oferta de empregos. Contudo, Números extremamente grandes, distantes
uma nova corrente emigratória começa a de aliviar a economia de uma grande neces-
se estabelecer, transferindo para os países sidade de geração de emprego.
desenvolvidos mão-de-obra qualificada, Simultaneamente à expressiva incorpo-
com educação superior ou mais, visando su- ração de mão-de-obra jovem, a população
prir as necessidades daquelas economias, em idade ativa ficará mais velha, ainda que
cujos mercados de trabalho, cada vez mais gradualmente, dentro do processo geral de
exigentes quanto à formação profissional, envelhecimento da população brasileira.
não têm a quantidade de oferta de força Durante a primeira metade do século XXI,
de trabalho demandada. Embutida nessa a idade média da PIA aumentará em sete
emigração, transfere-se para os países anos, passando de 30, em 2000, para 37

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008 15


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

GRÁFICO 7
População de 15 a 24 anos
Brasil – 1940-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

GRÁFICO 8
Incremento decenal da população em idade ativa e dos dependentes (jovens e idosos)
Brasil – 1940-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

anos, em 2050, bem abaixo do envelheci- O aumento do tamanho absoluto e


mento do total da população, que no mesmo do peso relativo da população em idade
período terá um acréscimo de 15 anos, pas- ativa, em relação aos dependentes, jovens
sando de 25 para 40 anos (BRITO, 2007). e idosos, do ponto de vista estritamente

16 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

demográfico, pode ser considerado um sideradas dependentes da população em


fator positivo para a economia (Gráfico 8). idade ativa, de 15 a 64 anos. Ainda que os
Essa seria a população que, teoricamente, limites etários dos diferentes grupos possam
produz, poupa, investe e contribui com ser contestados como arbitrários, trata-se de
impostos e para a previdência social. Em uma aproximação razoável e reconhecida
outras palavras, o pressuposto é de que os internacionalmente. A razão de dependência
jovens e os idosos, provavelmente, con- total (RDT) seria a proporção dos jovens e
sumam mais do que produzem e a popu- idosos em relação à PIA. Os dependentes,
lação em idade ativa produza mais do que teoricamente, consumiriam mais do que
consome. Isso, em tese, seria mais verda- produzem e a população adulta produziria
deiro quanto mais envelhecida se torna a PIA mais do que consome. Essa seria a relação
(BLOOM; CANNING; SEVILLA, 2003). básica que expressa a transferência entre as
Fala-se em tese porque, se as con- gerações. A RDT pode ser desdobrada em
dições demográficas são favoráveis, elas seus componentes: a razão de dependência
são dependentes de políticas públicas dos jovens (RDJ) e a dos idosos (RDI). A
que garantam a efetividade dos benefícios primeira seria a proporção dos jovens em
demográficos. Essas políticas deveriam relação à PIA e a segunda a dos idosos.
proporcionar o emprego da mão-de-obra Até 1970, antes do declínio acelerado
disponível com uma remuneração con- e generalizado da fecundidade, a RDT
dizente, a sua regulação pela legislação tinha valores extremamente altos (Tabela
trabalhista, uma política fiscal e previden- 4). Em 1960, por exemplo, o seu valor era
ciária adequada, dentro de um contexto de de 83%, isto é, para cada 100 pessoas na
crescimento da economia. Caso contrário, PIA, havia 83 jovens e idosos, ou, mais es-
a abertura das janelas de oportunidades pecificamente, 78 jovens e cinco idosos. De
demográficas pode passar desapercebida fato, a grande “carga” para a PIA eram os
e o crescimento da PIA não terá o retorno jovens. Não se poderia esperar outra coisa
econômico e social desejado. de um país, naquele momento, com uma
fecundidade alta e crescimento acelerado da
As relações intergeracionais e os população, que contava com 30 milhões de
benefícios demográficos jovens e apenas 1,9 milhão de idosos. Um
outro indicador das relações intergeracio-
As razões de dependência demográfica nais é o índice de idosos, isto é, o quociente
partem do pressuposto, antes exposto, de entre o número de idosos e o de jovens. Em
que a população jovem, de 0 a 14 anos, e a 1960, esse valor era de 6,4 idosos para cada
idosa, de 65 anos e mais, podem ser con- 100 jovens, o que só confirma a situação da

TABELA 4
Razão de dependência total, de jovens e de idosos, índice de idosos e idade mediana
Brasil – 1950-2050

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1950, 1960 e 1970.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008 17


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

população brasileira na época, jovem, com palavras, as transferências intergeracionais


50% da sua população com menos de 20 seriam favorecidas pela relação de um por
anos de idade. No final do século passado, a dois, ou seja, apenas uma pessoa depen-
razão de dependência total já tinha baixado dente para cada duas potencialmente pro-
para 54%, mesmo assim ainda mantendo dutivas. No intervalo mais amplo, entre 2000
um grande peso dos jovens. e 2040, as condições demográficas pode-
Na primeira metade deste século, a riam ser consideradas favoráveis: em 2000,
RDT permanecerá entre 49% e 57%, mu- a RDT era de, aproximadamente, 54% e, em
dando, no entanto, profundamente sua 2040, seria de 53%. Mesmo com uma razão
composição. Enquanto em 2000 a razão de dependência total de 54% – seu maior
de dependência dos jovens era quase seis valor – ter-se-ia 1,08 dependente para cada
vezes maior do que a dos idosos, em 2050, duas pessoas potencialmente produtivas.
as duas razões de dependência serão prati- Situação plenamente satisfatória do ponto
camente iguais. de vista da dependência demográfica.
Os demógrafos têm chamado atenção Como se sabe, a definição da população
para as oportunidades demográficas que em idade ativa é estritamente demográfica,
poderiam ser usufruídas pela sociedade e o que não dispensaria um exercício com os
economia, entre 2010 e 2030, em função, dados do Censo de 2000, verificando quem
principalmente, do crescimento da PIA, são aqueles que estão ocupados ou não e,
acompanhado pela redução da razão de no caso da previdência social, quais são os
dependência total, que, nesse período, ocupados que contribuem ou não, ou seja,
alcançará seus menores valores, em torno aqueles que participam ou não do mercado
de 50%, sendo que o peso relativo dos de trabalho formal. Pode-se, desse modo,
idosos ainda será bem menor do que o dos ter uma visão mais realista das razões de
jovens. Ter-se-ia, para cada 100 pessoas dependência e dos seus benefícios.
em idade ativa, apenas 50 jovens e idosos, Para simplificar a análise dos ocupados
com preponderância dos jovens. Em outras e dos contribuintes, segundo a estrutura

GRÁFICO 9
Razão de dependência total, de jovens e de idosos
Brasil, 1940-2050
Por 100 pessoas em idade ativa

Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica
Demográfica, 2004. Censos Demográficos de 1940, 1950, 1960 e 1970.

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Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

etária, serão utilizados os três grandes gru- Uma população em idade ativa, com
pos etários, os jovens, a população em essa dimensão, pode realmente constituir
idade ativa e os idosos. A PIA será subdi- um grande benefício? Do ponto de vista
vidida em três faixas: 15 a 29 anos; 30 a 49 estritamente demográfico não restariam
anos; e 50 a 64 anos. dúvidas, pois as razões de dependência são
A definição estritamente demográfica contundentes. Pelo menos teoricamente,
não está tão distante da realidade. Entre os poderia ser considerado um dividendo de-
ocupados, em 2000, 96% encontravam-se mográfico (GUZMAN, 2006) Como na PIA
entre 15 e 64 anos, sendo o grupo modal está a maioria dos que trabalham, geram
o de 30-49 anos (Gráfico 10). As pessoas receita, em tese, produzem mais do que con-
neste grupo, mais aquelas de 15-29 anos, somem e, ainda, transferem renda através
os jovens da PIA, correspondiam a 84% de impostos e contribuições, não haveria
dos ocupados. Apenas 4% estavam entre como discordar. Esse dividendo, chamado
os grupos dependentes. de primeiro, por alguns, é considerado
Considerando, ainda, a população ocu- transitório, pois depende do comportamento
pada em relação à não-ocupada, em termos favorável da razão de dependência. No
absolutos, nota-se que os não-ocupados caso brasileiro, pelo menos até 2040, esse
formam uma curva decrescente à medida benefício poderia ser usufruído. Se esse
que aumenta a idade (Gráfico 11). Na PIA, benefício é considerado transitório, o cha-
situavam-se 63 milhões de pessoas ocupa- mado segundo dividendo seria permanente,
das. Este contingente, somado ao pequeno já que depende do efeito combinado do en-
número dos ocupados nos grupos de jovens velhecimento e do aumento da longevidade.
e idosos fora da PIA, perfaz um total de 66 Populações mais envelhecidas e com maior
milhões de pessoas ocupadas, no Brasil, expectativa de vida, tendência inexorável
em 2000. da transição demográfica, estariam mais

GRÁFICO 10
Distribuição da população ocupada, segundo grupos etários
Brasil – 2000
Em %

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 2000.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008 19


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

propensas a gerar maior poupança e, por das duas curvas é semelhante, ficando,
hipótese, aumentar o potencial de cresci- logicamente, a de contribuintes mais abaixo.
mento da economia e do bem-estar social A modalidade permanece no grupo de 30
(QUEIROZ; TURRA, 2006). a 49 anos.
Entretanto, quando se considera a rea- Levando em conta a população con-
lidade da sociedade brasileira, em que o tribuinte da previdência social, 34 milhões
número de pessoas desocupadas é ainda em 2000, poder-se-ia calcular uma outra
muito grande, a razão de dependência razão de dependência, baseada na relação
demográfica pode não ser um indicador su- entre contribuintes e não-contribuintes de
ficiente. Considerando uma razão de depen- todos os grupos etários: para cada 100
dência mais restrita, quando se tomariam, contribuintes, haveria 506 não-contribuintes.
em todas as idades, os não-ocupados como Uma relação completamente adversa para
dependentes dos ocupados, a proporção o sistema de seguridade social. Sem au-
dos dependentes fica muito maior: 161% mentar o número de pessoas ocupadas e,
em 2000, ou seja, para cada cem pessoas conseqüentemente, o número de contribuin-
ocupadas, ter-se-iam 161 não-ocupadas, o tes, facilitando seu acesso ao mercado de
que significa que a carga econômica daque- trabalho formal, maiores serão os encar-
les que estão realmente ocupados é muito gos fiscais necessários para financiar as
maior do que revela a razão de dependência políticas relativas à seguridade social. Em
estritamente demográfica. outras palavras, o dividendo demográfico
Entre os ocupados, a população con- transitório só se efetivará, plenamente, se a
tribuinte da previdência social, 34 milhões razão de dependência demográfica estiver
em 2000, representava um pouco mais da próxima da relação entre não-contribuintes
sua metade, 52% (Gráfico 12). A quase to- de todas as idades e contribuintes. Uma ob-
talidade dos contribuintes está na PIA, com servação deve ser feita: o primeiro dividendo
uma grande concentração no grupo de 30 refere-se a uma relação entre produtores e
a 49 anos. Em termos absolutos, o formato consumidores, segundo seus respectivos
GRÁFICO 11
População total ocupada e não-ocupada, segundo grupos etários
Brasil – 2000

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 2000.

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Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

GRÁFICO 12
População total ocupada e contribuinte, segundo grupos etários
Brasil – 2000

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 2000.

perfis etários, não podendo, portanto, ser São Paulo, chega a 22 pessoas para cada
retratado, exclusivamente, pelos indicadores 100 indivíduos em idade ativa (Tabela 5).
do mercado de trabalho aqui analisados, As proporções de jovens em relação
apesar de estar intensamente condicionado à PIA da Região Norte e do Nordeste Se-
por eles. Trata-se somente de um exercício tentrional ultrapassavam 60%, enquanto a
para suscitar a imaginação analítica, sem do Rio de Janeiro, a mais baixa razão de
a pretensão de testar a validade ou não da dependência dos jovens, ficava próxima de
teoria dos bônus demográficos (BLOOM; 37%, em 2000. Próximos a esse último valor
CANNING; SEVILLA, 2003). situavam-se São Paulo e o Extremo Sul. A
diferença entre as razões de dependência
Desequilíbrios regionais e sociais: dos jovens nos dois casos extremos, o Norte
possíveis conclusões sobre a transição e o Rio de Janeiro, era de 26 jovens para
demográfica e as desigualdades sociais cada 100 pessoas na PIA.
Somente as Regiões Norte e a Centro-
No caso brasileiro, os desequilíbrios Oeste tinham uma razão de dependência
regionais tornam a discussão sobre as dos idosos menor do que a média nacional,
relações intergeracionais mais complexas. ambas próximas a 6%, contra 8% do total
A razão de dependência total, assim como do Brasil. Novamente, o Rio de Janeiro é
o índice dos idosos no Brasil, varia entre os o destaque, com 11 idosos para cada 100
Estados e regiões, segundo suas diferentes pessoas em idade ativa. No caso dos idosos,
etapas na transição demográfica. A dife- cuja proporção em relação à PIA cresce em
rença entre a maior razão de dependência velocidade menor do que diminui a dos jo-
total, o Nordeste Setentrional, e a menor, vens, a diferença entre os casos extremos, o

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008 21


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

TABELA 5
Razão de dependência total, de jovens e de idosos e índice de idosos, segundo regiões e
alguns Estados do Brasil – 2000

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 2000.

TABELA 6
Razão de dependência total, segundo renda domiciliar per capita
Brasil – 1980-2000
Por 100 pessoas em idade ativa

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 1980, 1991 e 2000.

Estado do Rio de Janeiro e a Região Norte, ciais. As medidas estritamente ligadas às


é menor: cinco idosos a mais, no Rio, para relações intergeracionais, como as razões
cada 100 pessoas na PIA. de dependência e o índice de idosos, estão
Deve-se destacar que a distribuição altamente correlacionadas aos níveis de
etária proporcional da população de cada renda per capita domiciliar. A tendência da
região ou Estado depende, além do com- razão de dependência total, no Brasil, inde-
portamento da fecundidade das diversas pendente dos grupos de renda, tem sido
unidades espaciais nas últimas décadas, de redução. Todavia, nos dois subgrupos
de suas histórias migratórias. O declínio por populacionais mais pobres, isto é, com
mais tempo e mais rápido da fecundidade renda domiciliar per capita inferior a um
leva a uma menor proporção de jovens salário mínimo, era bem superior, em todos
e maior de idosos, isto é, populações os períodos, à média nacional. No grupo
mais envelhecidas. Por outro lado, uma mais pobre, em 2000, por exemplo, para
forte e persistente imigração tem como cada 100 pessoas em idade ativa, havia 82
conseqüência o aumento da proporção dependentes. Entre os mais ricos, aqueles
da população jovem e daquela em idade com dez ou mais salários mínimos de renda
ativa, com a conseqüente diminuição do domiciliar per capita, havia em torno de 30
segmento de idosos. Já nas unidades com pessoas dependentes, uma diferença muito
forte emigração, seu efeito deveria ser um expressiva, para menos, de cerca de 52
maior envelhecimento populacional (WONG; dependentes, em relação ao grupo mais
CARVALHO, 2006). pobre (Tabela 6).
No caso do Brasil, mais importante A razão de dependência dos jovens
do que as diferenças regionais são as so- apresenta declínio acentuado, generalizado

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Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

e rapidamente decrescente à medida que a causa da queda da razão total. Entre aqueles
renda familiar per capita aumenta (Gráfico com renda familiar per capita acima de dez
13), o que seria de se esperar, sendo ela a salários mínimos, a RDJ era de 17 por 100,

GRÁFICO 13
Razão de dependência de jovens, segundo renda domiciliar per capita (em salários mínimos)
Brasil – 1980-2000
Por 100 pessoas em idade ativa

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 1980, 1991 e 2000.

GRÁFICO 14
Razão de dependência de idosos, segundo renda domiciliar per capita (em salários mínimos)
Brasil – 1980-2000
Por 100 pessoas em idade ativa

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 1980, 1991 e 2000.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008 23


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

ou seja, 59 dependentes jovens a menos, principalmente para aqueles com um e dois


para cada conjunto de 100 indivíduos em salários mínimos de renda domiciliar, em
idade ativa, do que na população mais po- que o índice dobra entre os dois últimos
bre, aquela com até um salário mínimo de censos. Aqueles com renda de cinco a
renda domiciliar per capita. dez salários mínimos, em 2000, tinham um
Ao contrário da razão dos jovens, a dos índice de idosos bastante alto, com quase
idosos é crescente com a renda e o seu um idoso para cada dois jovens. No grupo
aumento tem sido mais lento, no período dos mais ricos, essa relação aumenta mais
analisado (Gráfico 14). Entre os mais ricos, de valor, com aproximadamente 80 idosos
chegava, em 2000, a 14 idosos para cada para cada 100 jovens.
100 pessoas em idade ativa, 2,4 vezes maior Os dados sobre as relações entre diver-
do que entre os mais pobres. É importante sos indicadores da transição demográfica
observar a grande variação entre 1991 e e a renda familiar per capita mostram que
2000 na razão de dependência no grupo de as diferenças sociais acarretam, no Brasil,
um a dois salários mínimos, o que se deve, “desigualdades demográficas” maiores do
como foi mencionado anteriormente, a um que aquelas observadas entre as diferentes
grande aumento na proporção de idosos regiões. A transição demográfica aparece,
neste grupo, provavelmente em função nitidamente, nas suas diferentes etapas,
dos efeitos das políticas constitucionais de quando é analisada segundo as condições
transferência de renda. sociais e econômicas da população. Os
O índice de idosos – outro indicador benefícios ou os bônus demográficos, assim
ligado às relações intergeracionais – tam- como os desafios políticos, são distintos,
bém se mostra crescente com a renda em segundo os diferentes níveis sociais. So-
todos os períodos. Novamente, as dife- mente levando este fato fundamental em
renças entre 1991 e 2000 são significativas, consideração é que as políticas públicas,

GRÁFICO 15
Índice de idosos, segundo renda domiciliar per capita (em salários mínimos)
Brasil – 1980-2000
Por 100 jovens

Fonte: IBGE. Censo Demográfico de 1980, 1991 e 2000.

24 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

com o objetivo de justiça social, poderão associada à implementação de políticas


bem aproveitá-los. que potencializem as transferências sociais
Mesmo que as relações intergera- desses mesmos recursos. Caso contrário, a
cionais tornem-se, com o tempo, menos transição demográfica vai gradativamente
heterogêneas, mas sem que se alterem as perdendo sua eficácia social, cada vez que
diferenças sociais de hoje, o crescimento se distancia dos grupos de renda mais
demográfico diferenciado, segundo os altos.
grupos sociais, tornaria, no mínimo, estáveis Em síntese, não se trata de fechar os
as agudas desigualdades já hoje injus- olhos aos possíveis benefícios gerados
tificáveis. Os pobres de hoje, mesmo numa pelas mudanças demográficas, até porque,
hipótese otimista, reduzindo seu cresci- pela sua relevância estrutural, eles serão
mento demográfico, até mesmo à sua mera decisivos, positiva ou negativamente, do
reprodução, não deixarão de ser, somente ponto de vista social. Desse modo, cabe à
por isso, menos pobres amanhã. imaginação analítica e ao senso de justiça
A capacidade de a transição demográ- social colocá-los a serviço de políticas que
fica potencializar as transferências intergera- tenham como objetivo fundamental reduzir
cionais de recursos está intimamente as desigualdades sociais.

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R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008 25


Brito, F. Transição demográfica e desigualdades sociais no Brasil

Resumen

Transición demográfica y desigualdades sociales en Brasil

El artículo analiza la originalidad de la transición demográfica en Brasil determinada por los


fuertes desequilibrios regionales y sociales. Aunque único, es un proceso global que alcanza
a toda la sociedad brasileña, la transición demográfica se presenta como múltiple, pues se
manifiesta en forma diferente, según las diversidades regionales y principalmente, sociales.
Bajo esta perspectiva, la transición demográfica está lejos de ser considerada neutra: puede
tanto crear posibilidades demográficas que potencien el crecimiento de la economía y del
bienestar social de la población, como ampliar las graves desigualdades sociales que marcan
a la sociedad brasileña. Esta situación se torna más compleja en función de que Brasil aún
se encuentra inserto en el gran ciclo de crecimiento absoluto de su población. Debido a las
desigualdades sociales y a las correspondientes diferencias en las tasas de fecundidad total, la
población más pobre es la que más ha crecido, con fuertes consecuencias sobre los cambios
en la estructura etaria. Las relaciones entre los diversos indicadores de la transición demográfica
y los ingresos domiciliarios per cápita muestran que las diferencias sociales llevan en Brasil, a
“desigualdades demográficas” mayores que aquéllas observadas entre las diferentes regiones.
Sus beneficios, o bonos demográficos, son distintos según los niveles sociales. De este modo,
la capacidad de que la transición demográfica potencie las transferencias intergeneracionales
de recursos, está íntimamente asociada a la implementación de políticas que potencien las
transferencias sociales de esos mismos recursos.
Palabras-clave: Transición demográfica. Bono demográfico. Desigualdad social.

Abstract

Demographic transitions and social inequalities in Brazil

This article examines the idiosyncrasies of demographic transitions in Brazil caused by the
extreme disparities among regions and socioeconomic groups. While ubiquitous, demographic
transition in Brazil shows a number of different facets. It is far from being a neutral process and
creates opportunities as well as broad socioeconomic disparities. Because of differences in
fertility rates by SES, those in lower-income brackets constitute the fastest growing populational
group, as well as the group with the youngest age distribution. This article argues that
socioeconomic differences are related to demographic disparities. Therefore, the development
of public policies to improve the well-being of the poorest may help increase demographic
dividends for the entire population.
Keywords: Demographic transition. Demographic dividends. Social inequalities.

Recebido para publicação em 14/12/2007.


Aceito para publicação em 25/04/2008.

26 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 25, n. 1, p. 5-26, jan./jun. 2008