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A construção do conceito de incerteza:

uma comparação das contribuições de Knight, Keynes, Shackle e Davidson

Rogerio P. de Andrade
Instituto de Economia/Unicamp

Resumo Abstract
O objetivo deste artigo é discutir o concei- The purpose of this paper is to discuss the
Palavras-chave to de incerteza através da reconstituição das uncertainty concept through a reconstitution of the
incerteza, Knight, Keynes, formas como o mesmo aparece nas versões ways in which this notion emerges in the works by
Shackle, Davidson. de Knight, Keynes, Shackle e Davidson. O Knight, Keynes, Shackle and Davidson.
Classificação JEL B20, B50. artigo procura se concentrar nas peculiarida- It focuses on the uniqueness of each approach.
des de cada uma destas abordagens da noção It is unquestionable that these authors’ theories
de incerteza. É indubitável que as teorias da of uncertainty have meaningful resemblances.
incerteza destes autores apresentam parale- Nevertheless, although all these treatments share
lismo e afinidades significativas. Ainda que an emphasis on the conceptual distinction between
estes vários tratamentos comunguem de uma (probabilistic) risk and uncertainty, as well as on
ênfase na diferença conceitual entre risco their immeasurability, it is fair to say that these
(probabilístico) e incerteza, assim como no authors’ approaches to the conceptualisation of
aspecto da não mensurabilidade, suas abor- uncertainty are distinctive in many respects. Thus,
dagens e realces na conceituação da incerteza the paper evaluates and contrasts their analyses,
são distintos. Diante disso, o artigo compara concentrating on their peculiarities. It was from this
e contrasta estas análises, concentrando-se “classical” view of uncertainty (Knight, Keynes,
nos aspectos que lhe são únicos e singulares. Shackle and Davidson) that a “modern” approach
Foi a partir da visão “clássica” de incerteza to uncertainty could originally be constructed and
de Knight, Keynes, Shackle e Davidson que further developed, and it is now rooted in current
Keywords se pode construir a hoje já consolidada visão heterodox approaches.
uncertainty, Knight, Keynes, “moderna” do “princípio da incerteza”, ir-
Shackle, Davidson. reversivelmente enraizada em boa parte do
JEL Classification B20, B50. pensamento econômico heterodoxo.

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1_ Introdução similaridades, analisaram a incerteza de


Visões incompatíveis sobre o termo “in- perspectivas e pontos de partida distin-
certeza” proliferam na literatura econô- tos. Assim, o objetivo central deste arti-
mica. Contudo, é possível encontrar nas go é o de comparar a visão de cada um e
obras de Frank Knight, John Maynard de examinar as diferenças de enfoque em
Keynes, George Shackle e Paul David- cada uma dessas teorias.
son versões importantes desse conceito,
que representam uma visão mais abran- 2_ Knight: risco calculável X
gente do “princípio da incerteza”. incerteza não mensurável
Dar o devido destaque às inter- A versão de Knight de incerteza é pro-
pretações de Knight, Keynes, Shackle e vavelmente a mais citada na literatura. O
Davidson significa transcender as visões próprio Knight afirma ter sido o primei-
limitadas que reduzem a incerteza ao ris- ro a enfatizar a diferença conceitual entre
co probabilístico, em que situações ge- risco e incerteza (Knight, 1921, p. 19). De
nuinamente incertas são expressas em fato, a importância de sua teoria deriva
termos de certeza ou equivalentes de dessa distinção em que o risco é conside-
certeza. Se, como apontado originalmen- rado como uma probabilidade mensurá-
te por Knight, a diferenciação concei- vel, e a incerteza, como uma situação ex-
tual entre risco e incerteza for relevan- pressa por valores indeterminados e não
te, a consequência analítica é o reexame quantificáveis, isto é, refere-se a uma si-
das teorias convencionais de “incerte- tuação de “probabilidade numericamen-
za”, uma vez que essas são, na verda- te imensurável” (Knight, 1921, p. 19).
de, teorias da decisão sob risco, confor- Knight distingue “incerteza men-
me admitido até mesmo por alguns de surável” ou risco (associados às circuns-
seus partidários.1 tâncias nas quais o que denomina de
É moeda corrente que as aborda- “probabilidade a priori” e “probabilidade
gens de Knight, Keynes, Shackle e Da- estatística” são, em princípio, factíveis)
vidson apresentam inúmeros pontos em de “incerteza imensurável”, circunstância
1
Ver, por exemplo,
comum. Entretanto, não foi dada ainda Hirshleifer e Riley (1992,
em que só é possível fazer “uma estimati- p. 10), que consideram
a devida ênfase aos aspectos singulares va de uma estimativa”, em que o fenôme- incerteza e risco como
que cada autor ressaltou. A despeito das no em questão é único: conceitos idênticos.

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It will appear that a measurable uncertain- to be thrown back from the ‘dynamic’ theory
ty, or ‘risk’ proper, as we shall use the term, to the Uncertainty of the Future, a condi-
is so far different from an unmeasurable tion of affairs loosely designated by the term
one that it is not in effect an uncertainty at ‘risk’ in ordinary language and in business
all. We shall accordingly restrict the term parlance (Knight, 1921, p. 38).
‘uncertainty’ to cases of the non-quantitati-
Knight (1921, p. 224-225) fornece
ve type. It is this ‘true’ uncertainty, and not
uma taxonomia com três categorias de
risk [...] which forms the basis of a valid
probabilidade. As duas primeiras são a
theory of profit (Knight, 1921, p. 20).
“probabilidade a priori” e a “probabilida-
A discussão de Knight sobre in- de estatística”; ambas são quantificáveis.
certeza está associada à sua teoria de de- A terceira ele chama de “estimativa”,
terminação do lucro – os lucros surgem que é não quantificável. Probabilidades
apenas em uma situação de incerteza. O a priori (ou lógicas) são aquelas utilizadas,
lucro é visto como uma receita residual, por exemplo, em jogos de azar (dados,
não predeterminada, cujo montante se- cara ou coroa, roleta, etc.). Esse tipo de
rá conhecido numa data posterior à to- probabilidade expressaria uma “classifi-
mada da decisão econômica. A frustração cação absolutamente homogênea de ca-
de expectativas tem papel importante a sos” e situa-se “no mesmo plano lógico
desempenhar: das proposições da matemática” (Kni-
ght, 1921, p. 224). Julgamentos de pro-
Dynamic changes give rise to a peculiar form babilidade desse tipo são, em sua essên-
of income only in so far as the changes and
cia, “induções da experiência” (Knight,
their consequences are unpredictable in cha-
1921, p. 225).
racter. [...] Change may cause a situation
out of which profit will be made, if it brings
A probabilidade estatística é uma
ignorance of the future (Knight, 1921, p. 37). generalização empírica que diz respeito a
um grupo de casos observados no pas-
sado. Ela se baseia na análise indutiva de
It is not dynamic change, nor any change, as
such, which causes profit, but the divergence um grande grupo de casos. Knight defi-
of actual conditions from those which have ne-a como uma “avaliação empírica da
been expected and on the basis of which bu- frequência de associação entre predica-
siness arrangements have been made. For a dos” (Knight, 1921, p. 225). Esse tipo de
satisfactory explanation of profit we seem probabilidade não pode ser analisado em

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termos de combinações variadas de al- Take as an illustration any typical business


ternativas equiprováveis. decision. A manufacturer is considering the
Por fim, a “estimativa” (estimate) é advisability of making a large commitment
um tipo de “probabilidade” que não se in increasing the capacity of his works. He
baseia em uma classificação empírica de ‘figures’ more or less on the proposition,
taking account as well as possible of the va-
casos. Nesse caso,
rious factors more or less susceptible of mea-
there is no valid basis of any kind for surement, but the final result is an ‘estima-
classifying instances (Knight, 1921, p. 225); te’ of the probable outcome of any proposed
[…] there is no possibility of forming in course of action. What is the ‘probability’
any way groups of instances of sufficient of error (strictly, of any assigned degree of
homogeneity to make possible a quantitative error) in the judgment? It is manifestly me-
determination of true probability (Knight, aningless to speak of either calculating such
1921, p. 231). a probability a priori or of determining it
empirically by studying a large number of
Uma estimativa é um julgamento instances. The essential and outstanding fact
intuitivo que orienta o processo de toma- is that the ‘instance’ in question is so
da de decisão dos agentes; estes agem, de entirely unique that there are no others or
modo geral, com base em estimativas e not a sufficient number to make it possible
não inferências, valendo-se de “julgamen- to tabulate enough like it to form a basis
tos” ou “intuição”, e não de raciocínio ló- for any inference of value about any real
gico estrito (Knight, 1921, p. 223). probability in the case we are interested in.
Essa classificação em termos de The same obviously applies to the most of
probabilidade do terceiro tipo e os outros conduct and not to business decisions alone
dois tipos enfatiza a necessidade de uma (Knight, 1921, p. 226; grifos adicionados).

diferenciação conceitual crucial entre ris- Portanto, para Knight, as de-


co e incerteza. Essa preocupação é clara- cisões na vida econômica, especial-
mente expressa na passagem seguinte, em mente aquelas relacionadas ao inves-
que Knight ressalta também o caráter de timento, lidam com situações que são
singularidade (uniqueness) de alguns acon- singulares ou únicas. Elas fazem com
tecimentos que engendram situações de que todo tipo de “tabulação estatísti-
incerteza: ca” careça de qualquer orientação prá-

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tica ou serventia. Em tais circunstân- 1936) e o artigo “A Teoria Geral do Em-


cias, “uma probabilidade objetivamente prego” (Keynes, 1937a). No capítulo 12,
mensurável é simplesmente inaplicável” Keynes se propõve a examinar os deter-
(Knight, 1921, p. 231). Embora os agen- minantes da “renda esperada de um ati-
tes formulem opiniões sobre o futuro vo” (Keynes, 1936, p. 147), ou seja, um
que julgam válidas e possam acreditar dos elementos da eficiência marginal do
que tais julgamentos tenham a mesma capital, que influencia, junto com a taxa
forma que um julgamento de probabili- de juros, o montante de investimento.
dade, não tem sentido afirmar que um Keynes adverte que os temas abor-
julgamento de probabilidade esteja obje- dados no capítulo 12 estão em um “ní-
tivamente correto. vel diferente de abstração” (Keynes, 1936,
Knight chama o terceiro tipo de p. 149) em relação à maior parte do livro.
probabilidade de “incerteza verdadeira” No restante do livro, não apenas as expec-
(true uncertainty). Sua análise da incerteza tativas de longo prazo são consideradas
realça ainda a propensão ao erro ineren- relativamente constantes, mas também as
te em nossos julgamentos. É uma análise expectativas de curto prazo são, em ge-
que descarta raciocínios baseados na su- ral, satisfeitas. O capítulo 12, porém, trata
posição de que as pessoas possuam co- da frustração das expectativas (portanto, da
nhecimento completo sobre a situação divergência de opiniões e conjeturas so-
econômica relevante. E, além disso, se bre o futuro incerto). Esse capítulo e o
a incerteza assim definida não for passí- material pós-TG relatam a história de um
vel de medição, então não é razoável fa- mundo diferente, qual seja, o mundo on-
lar de sua eliminação (por exemplo, por de a existência da incerteza tem implica-
meio de dispositivos atuariais); as pesso- ções na conduta humana, sobretudo na
as precisam, portanto, encontrar outras esfera econômica. Ademais, ressaltar que
formas de enfrentá-la. os temas abordados estão num “nível di-
ferente de abstração” implica afirmar que
3_ Keynes: conhecimento incerto uma teoria acerca da natureza e dos usos
Keynes elabora sua versão de incerteza do conhecimento na vida econômica pre-
em dois textos estratégicos, a saber: o ca- cisa recorrer a uma abordagem mais am-
pítulo 12 da Teoria Geral (“O Estado da pla e interdisciplinar, em que são indis-
Expectativa a Longo Prazo”) (Keynes, pensáveis reflexões de cunho filosófico.

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Para Keynes (1936, p. 147), os fa- mação de expectativa de longo prazo so-
tores que influenciam as expectativas cor- fre alguma influência do estado presente
rentes das rendas esperadas são tanto os das coisas, a menos que justificativas bem
eventos correntes que os agentes supõem fundadas mudem nossa opinião sobre a
serem conhecidos “com maior ou menor situação corrente. A “prática usual” (uma
certeza” – por exemplo, o volume exis- convenção!) dos agentes consiste em ob-
tente de capital e de ativos de capital em servar a situação atual e depois projetá-la
geral, o nível presente de consumo, etc. – no futuro, modificando-a apenas à medi-
e os eventos futuros que só podem ser da que tenham motivos claros para espe-
previstos “com maior ou menor confian- rar mudanças (Keynes, 1936, p. 148).
ça” – a saber: futuras mudanças no esto- As decisões de investimento de-
que de ativos de capital e nas preferências pendem do estado das expectativas de
dos consumidores, as condições de de- longo prazo, que, por sua vez, dependem
manda efetiva nos diversos períodos da tanto da formulação de um “prognósti-
vida do investimento em questão, assim co mais provável” como da confiança nes-
como mudanças futuras nos salários no- sa predição (Keynes, 1936, p. 148). O grau
minais. O “estado da expectativa psico- de confiança está, portanto, associado ao
lógica” em relação a esses eventos futu- grau percebido de incerteza do conheci-
ros é o “estado da expectativa de longo mento relacionado a um possível even-
prazo” e é diferenciado da “expectativa to futuro.
de curto prazo”, que diz respeito a prog-
Contudo, as estimativas de even-
nósticos correntes sobre as receitas da co-
tos no futuro distante podem significar
mercialização da produção com as instala-
pouco, já que o conhecimento em que se
ções existentes.2
baseiam é escasso:
A formação das expectativas não
leva fortemente em consideração os fato- The outstanding fact is the extreme preca-
res “muito incertos”. Embora, em deter- riousness of the basis of knowledge on whi- 2
Keynes define as
minadas situações, fatos muito incertos ch our estimates of prospective yield have expectativas de curto prazo
possam se tornar decisivos, um guia razo- to be made. Our knowledge of the factors como “expectations as to the cost
ável para as decisões correntes é levar em of output on various possible scales
which will govern the yield of an investment
and expectations as to the sale-
conta os eventos a que se atribui um grau some years hence is usually very slight and proceeds of this output” (Keynes,
elevado de confiança. Assim sendo, a for- often negligible (Keynes, 1936, p. 149). 1936, p. 47).

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Assim, para Keynes, a incerteza não há elementos para especificar uma


diz respeito a uma característica do co- distribuição de probabilidade, prevale-
nhecimento dos eventos futuros que, cendo uma espécie de “estado de igno-
pela própria natureza, não pode ser ex- rância”. Portanto, a incerteza é um atri-
presso em termos de uma distribuição de buto do conhecimento, não da realidade
probabilidade quantificável: (cf. a demarcação proposta por Law-
son, 1988).
By ‘uncertain’ knowledge, let me explain, I Há uma sequência lógica e tem-
do not mean merely to distinguish what is
poral implícita nessa argumentação. Ha-
known for certain from what is only proba-
verá situações futuras em que acontecerá
ble. The game of roulette is not subject, in
this sense, to uncertainty; nor is the prospect algo imprevisto, algo que afetará o cur-
of a Victory bond being drawn. Or, again, so subsequente dos eventos, mas não te-
the expectation of life is only slightly uncer- mos nenhuma possibilidade ou meio de
tain. Even the weather is only moderately descobrir o momento ou o evento críti-
uncertain. The sense in which I am using cos. Nesse caso, os agentes lidam com
the term is that in which the prospect of a algo ignorado, apesar de agirem com ba-
European war is uncertain, or the price of se em algo que sabem (ou, pelo menos,
copper and the rate of interest twenty years acreditam que sabem). O futuro tornar-
hence, or the obsolescence of a new invention, se-á presente e comprovará (ou não) as
or the position of private wealth owners in crenças anteriores acerca dos possíveis
the social system in 1970. About these
resultados das decisões no presente. O
matters there is no scientific basis on which
conhecimento é “flutuante, vago e incer-
to form any calculable probability whate-
to” (Keynes, 1937a, p. 113) no momen-
ver. We simply do not know (Keynes, 1937a,
p. 113-114).
to do processo de tomada de decisão em
razão da existência de um fluxo de tem-
Em outras palavras, somos con- po que é irreversível e que contém os
frontados com uma taxonomia (implíci- germes de situações ignoradas. O conhe-
ta) que propõe um continuum entre conhe- cimento é limitado por causa do alcance
cimento e ausência de conhecimento, de ilimitado de possibilidades rivais que po-
situações não sujeitas à incerteza (temos dem tomar forma no futuro como resul-
algum conhecimento) a outras do tipo tado tanto de nossas decisões como das
“simplesmente nada sabemos”, em que de outras pessoas. Por conseguinte, o

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conceito de incerteza de Keynes diz res- at a comparatively distant, and sometimes


peito a um estado corrente de (escassez at an indefinitely distant, date. Thus the fact
de) conhecimento falível e contingente, that our knowledge of the future is fluctua-
no presente real em que as decisões são ting, vague and uncertain, renders wealth a
tomadas, com relação a multiformes e peculiarly unsuitable subject for the metho-
ds of the classical economic theory (Keynes,
indeterminados futuros.
1937a, p. 113).
A abordagem de Keynes é um
ataque às hipóteses “clássicas” em que O endosso metodológico da ver-
Ricardo, Marshall, Edgeworth e Pigou são de Keynes de incerteza altera a pers-
basearam suas teorias. No esquema clás- pectiva da análise. A análise da incerteza
sico, eventos importantes eram conheci- é um dos campos que demonstram mais
dos “com mais ou menos certeza” (Key- claramente as diferenças entre o método
nes, 1937a, p. 112). As expectativas são de Keynes e a abordagem (neo)clássica.
determinadas, e o futuro, calculável. O Esta última é uma
risco está sujeito a “exatos cálculos atu- pretty, polite technique which tries to deal
ariais”. Pressupõe-se que os julgamen- with the present by abstracting from the fact
tos baseados em distribuições de pro- that we know very little about the future.
babilidade poderiam reduzir a incerteza […] The orthodox theory assumes that we
“à mesma posição calculável da própria certeza” have a knowledge of the future of a kind
(Keynes, 1937a, p. 112-113).3 quite different from that which we actually
Em vez disso, retruca Keynes, a possess. This false rationalisation follows the
lines of the Benthamite calculus. The hypo-
questão é avaliar até que ponto é pos-
thesis of a calculable future leads to a wrong
sível, no processo de acumulação da ri-
interpretation of the principles of behaviour
queza, reunir conhecimento sobre as which the need for action compels us to adopt, 3
“[A] mythical system of probable
consequências mais diretas e mais remo- and to an underestimation of the concealed knowledge was employed to reduce
tas das ações dos indivíduos. Os proces- factors of utter doubt, precariousness, hope the future to the same calculable
sos de acumulação da riqueza lidam com status as the present. No one has
and fear (Keynes, 1937a, p. 115, p. 122).
ever acted on this theory. But even
decisões que terão repercussão relevante today I believe that our thought
em um futuro longínquo. O objetivo das A versão de Keynes de incerteza is sometimes influenced by some
decisões de investimento é a realização pode, portanto, substanciar uma teoria such pseudo-rationalistic notions”
de (possíveis) resultados baseada em uma “hipótese de um futuro (Keynes, 1937b, p. 124).

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não-calculável”, no sentido de que, sob Das funções básicas da moeda,


determinadas circunstâncias, não é fac- Keynes enfatiza a de reserva de valor,
tível reunir informação suficiente para em oposição ao foco (neo)clássico na
justificar o uso de probabilidades quan- moeda como meio de troca. Os agen-
tificáveis. Uma situação de incerteza ex- tes demandam dinheiro como reserva
pressa aqueles casos em que não se dis- de valor como uma reação defensiva, ra-
põe da relação de probabilidade para os cional, diante do futuro incerto. Dúvidas
processos de tomada de decisão. A in- crescentes acerca da validade das con-
certeza é identificada não com o conhe- venções reinantes levam os indivíduos
cimento probabilístico, mas sim com “a a procurarem um lugar seguro, e a pos-
ausência de conhecimento probabilístico” se do dinheiro (ou quasi-moedas) apazi-
(Lawson, 1988, p. 48).4 gua essa necessidade. É por isso que esse
comportamento constitui “um barôme-
Incerteza, dinheiro e investimento
tro do grau de desconfiança em nossos
Mas como a incerteza afeta a tomada de
próprios cálculos e convenções em rela-
decisão? Tanto a teoria da preferência
ção ao futuro” (Keynes, 1937a, p. 116).5
pela liquidez como a teoria do empre-
A taxa de juros é o prêmio para persua-
go com base no princípio da demanda
dir os agentes a não entesourar dinheiro,
efetiva, com ênfase nos determinantes
mantendo, em vez disso, uma forma al-
do investimento, são as áreas em que se
ternativa (não geral) de riqueza.
observam os maiores contrastes entre
Keynes e a visão “clássica”. Para Key- O determinante básico da produ-
4
“[I]n Keynes’s account ção de ativos de capital é a relação entre
uncertainty is associated with a nes, a incerteza ronda decisões econômi-
situation wherein numerically cas estratégicas, como a preferência pela seus rendimentos futuros esperados e seu
determinate probabilities are liquidez e o investimento em capital fixo, custo de produção (a eficiência marginal
not to be had” (Lawson,
ou seja, decisões relativas à composição do capital). O volume do investimento
1988, p. 46). Para uma corrente depende do nível da taxa de ju-
abordagem semelhante, de um portfólio de ativos (isto é, à ges-
ver Carvalho (1988). tão da riqueza). ros avaliado em conjunto com conjeturas
5
“The possession of actual Na teoria monetária de Keynes, a sobre o rendimento esperado dos ativos
money lulls our disquietude; and the taxa de juros é vista como “um incentivo de capital. É por esse motivo que, para
premium which we require to make Keynes, o investimento oscila no tempo,
us part with money is the measure
a não entesourar” (Keynes, 1937a, p. 110)
– maior preferência por liquidez ocasiona gerando ciclos. As flutuações econômi-
of the degree of our disquietude”
(Keynes, 1937a, p. 116). maior taxa de juros. cas resultam, basicamente, da dificulda-

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180 A construção do conceito de incerteza

de de os agentes reunirem conhecimen- level of output and employment as a whole


to satisfatório sobre o futuro para tomar depends on the amount of investment. I put
suas decisões de investimento. Assim, it in this way, not because this is the only
tanto o volume do investimento como factor on which aggregate output depends,
suas oscilações dependem de dois tipos but because it is usual in a complex system
to regard as the causa causans that factor
de opinião acerca do futuro,
which is most prone to sudden and wide fluc-
neither of which rests on an adequate or tuation. More comprehensively, aggregate
secure foundation – on the propensity to ho- output depends on the propensity to hoard,
ard and on opinions of the future yield of on the policy of the monetary authority as
capital assets. Nor is there any reason to it affects the quantity of money, on the state
suppose that the fluctuations in one of these of confidence concerning the prospective yield
factors will tend to offset the fluctuations in of capital assets, on the propensity to spend
the other. When a more pessimistic view is and on the social factors which influence the
taken about future yields, that is no reason level of the money wage. But of these several
why there should be a diminished propensity factors it is those which determine the rate of
to hoard. Indeed, the conditions which ag- investment which are most unreliable, since
gravate one factor tend, as a rule, to aggra- it is they which are influenced by our views
vate the other. For the same circumstances of the future about which we know so little
which lead to pessimistic views about future (Keynes, 1937a, p. 121).
yields are apt to increase the propensity to
hoard. The only element of self-righting in
A análise de Keynes enfatiza a na-
the system arises at a much later stage and
tureza cognitivamente inalcançável dos
in an uncertain degree (Keynes, 1937a, p. 118).
eventos futuros. É da natureza de uma
Trata-se de uma visão que explica “economia monetária” (Keynes, 1933) que
as causas do ciclo de forma bem distinta transcorra algum tempo entre a toma-
da economia “clássica”. De acordo com da de decisão e os seus resultados des-
Keynes, a demanda efetiva governa a pro- conhecidos. As decisões de investimento
dução e o emprego. Os fatores que afetam são as mais afetadas pelo futuro, já que,
a demanda efetiva são os gastos em inves- nesse caso, o lapso de tempo entre as de-
timento e em consumo, sendo o primeiro cisões e os resultados é maior, e as ten-
considerado a variável mais importante: tativas de escapar de posições ilíquidas
The theory can be summed up by saying demandam mais tempo e possuem cus-
that, given the psychology of the public, the to elevado.

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4_ Shackle: experimentos cruciais, Como alternativa à abordagem de


desconhecimento e inspiração processos de tomada de decisão basea-
dos nas distribuições de probabilidade,
Um dos seguidores mais consistentes da
Shackle elabora uma visão fundamen-
tradição Knight-Keynes é Shackle, que
tada no conceito de “experimentos cru-
também ressalta a tomada de decisão
ciais”. Um experimento crucial é, por de-
sob incerteza como algo distinto de de-
finição, “auto-destrutivo”, único; é um
cisões sob risco baseadas nas distribui-
experimento “não-divisível e não-seriá-
ções de probabilidade. O que o diferen-
vel” (Shackle, 1958, p. 35). Tais experi-
cia é sua ênfase no papel das “decisões
mentos não são capazes de se reproduzir
cruciais”, “não-vazias”, assim como na
indefinidamente, uma vez que alteram o
“imaginação criadora” humana.
contexto original no qual se fez a “esco-
Para Shackle, a incerteza pressu-
lha singular”, trazendo novas informa-
põe a passagem irreversível do tempo e
ções que os agentes precisarão levar em
o caráter essencialmente dinâmico dos
conta em seus futuros cursos de ação.7
sistemas econômicos.6 Shackle refere-se
Decisões genuínas são não vazias
à incerteza como “desconhecimento” ou
no sentido de que suas consequências
“ausência de conhecimento”; conheci-
poderão ser inesperadas. Para Shack-
mento e incerteza são os lados opostos
le, uma escolha não vazia é a “germina-
de um espectro:
ção de novidade essencial”, “um ato de cria-
6
“Uncertainty enters only in [W]here there is knowledge there is not un- ção”, de invenção inspirada, isto é, algo
regard to the temporal sequence certainty. Uncertainty, unknowledge, is
in which the various outcomes will
que emerge a despeito de “limitações de
occur, a matter which [...] is quite
what confronts the chooser of action – when pensamentos e experiências pré-existen-
inadmissible when we are considering his act of choice is going to be once-for- tes” (Shackle, 1958, p. 104).
a static model” (Shackle, 1990c, all, when it is going to be crucial, when it A versão de Shackle de incerteza
p. 87, n. 1). is going to be an experiment the making of
sugere que o conceito de probabilidade
7
“Many experiments are self- which will destroy the possibility of ever
destructive in the sense that the como substituto do conhecimento não
making that experiment again. In such a
performance of the experiment is case we cannot say what will happen, even pode ser amplamente aplicado à esco-
logically bound to alter irretrievably
if we only claim to say it half-heartedly, as lha humana. A incerteza requer a inclu-
the situation in which it was são de todos os resultados, imaginados
performed, so that repetition is a ‘probability’. We can only attain some no-
logically impossible” (Shackle, tion of the kind of thing that can happen e não imaginados. Já as decisões basea-
1958, p. 37). (Shackle, 1988a, p. 109). das numa distribuição de probabilidade

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182 A construção do conceito de incerteza

bem especificada têm de se confrontar tido atribuir uma probabilidade quantita-


com a exclusão de muitos resultados pos- tiva aos seus resultados. Não é possível
síveis, visto que o conjunto de resulta- especificar uma probabilidade quantitati-
dos é completo e conhecido ex ante, de va para cada resultado hipotético de tal
forma predeterminada. Nesse caso, o experimento. Não é possível também as-
agente depara-se com uma lista finita de sociar probabilidades ao “desconheci-
alternativas, e sua tarefa torna-se, meca- mento”. O que o empresário precisa é
nicamente, a de procurar a melhor: de uma “base de comparação simples e
If a person felt himself to have in mind clara”, cuja descoberta está mais ligada
a complete specification of the entire set or à intuição do que a um processo men-
range of action-schemes open to him, and tal de cálculo preciso, pois as decisões de
for each of these action-schemes, a complete investimento não se baseiam em cálculos
and certain knowledge of its entire conse- elaborados de probabilidades, mesmo se
quences as far as these were of interest to estiverem disponíveis dados para tal (cf.
himself, and if also he could order these ou- Shackle, 1990a, p. 118).
tcomes, one for each action-scheme, according
Para fundamentar sua visão, Sha-
to his preferences; then his selection of one
ckle sugere, metaforicamente, que as
action-scheme out of all those open would,
pessoas tomam decisões em dois “mun-
we should surely say, be mechanical and
inevitable, and would have no content of dos”. Há um “mundo da ordem”, no
the kind which makes our working ideas qual o agente pode imaginar que
about decision interesting. Decision would if his immediate act were different the sequel
be empty, the mere registering of a formal would be in some respects different, where, in
solution to a purely formal problem (Shackle, fact, the course of the game can be influenced
8
1990d, p. 20). and affected, but not determined, by the in- 8
“Probability operates with the
dividual player (Shackle, 1990d, p. 22). indispensable supposition that the
Em vista disso, a crença conven-
Mas há também um “mundo da action-chooser has for each course
cional de que é possível descobrir a atra-
of action a list known to be
tividade de um investimento simples- inspiração”, onde deve haver espaço para complete of possible outcomes of
mente com base em probabilidades deve o “processo criativo”. Nesse caso, é im- that action. Inventive expectation
ser reexaminada. A singularidade dos plausível o prognóstico exato das conse- [the domain of ineradicable
uncertainty] implies that no such
eventos torna tal cálculo problemático. quências das ações humanas. As decisões
list can in logic be available to the
A decisão de adquirir novos equipamen- cruciais constituem e afetam a própria decision-maker” (Shackle, 1965,
tos é um experimento único; não faz sen- configuração e direção deste mundo: p. 195).

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Rogerio P. de Andrade 183

[A] decision ... is a cut in the logical con- of materials that were in his mind before,
nectedness of past and future. [...] [P]art but manifesting [...] ‘inspiration’ [...] [that
of what enters into a decision is uncaused is] the birth of the fundamentally unpredic-
(Shackle, 1990d, p. 23). table thoughts (Shackle, 1958, p. 22-23).
[I]f decision involves essential novelty, pre- São essas “inspirações” – em ou-
diction of human conduct is logically impos- tra ocasião Shackle (1965, p. 194) refere-
sible (Shackle, 1958, p. 21). se à “improvisação” em vez de inspira-
[P]redicted man is less than human, ção – que tornam o sistema dinâmico.
predicting man is more than human. [...]
[M]an in his true humanity can neither pre- 5_ Davidson: a hipótese
dict nor be predicted (Shackle, 1958, p. 105) da não ergodicidade
A materialização inesperada de A análise de Davidson da incerteza per-
possibilidades futuras não previamente tence à linhagem das três versões ante-
imaginadas, conhecíveis somente ex post, riores. A inovação de sua abordagem
torna o prognóstico preciso das ações hu- consiste no uso dos conceitos de “er-
manas uma tarefa vã e talvez inútil. Em godicidade” e “não-ergodicidade”.9 Nos
outras palavras, o “mundo da ordem” é sistemas ergódicos, a realidade externa é
condicionado e governado pelos humo- imutável. O futuro é simplesmente uma
res do “mundo da inspiração”. réplica estatística do passado. Do ponto
A inspiração, ou o ato de criar al- de vista metodológico, a hipótese ergó-
go a partir do estado presente dos even- dica fundamenta a economia neoclássi-
tos, revoluciona desde dentro uma or- ca. Nos processos não ergódicos, a reali-
dem determinada das coisas. A “decisão dade é criativa. Decisões cruciais geram
inspirada” (Shackle, 1990d, p. 25) é uma ambientes não ergódicos, incertos, em
iniciativa imprevisível. Ela é capaz de ge- que o tempo é irreversível. Em um sis-
rar mudanças irrevogáveis e recriar o es- tema não ergódico, a realidade externa é
tabelecido e o familiar. Um ato de cria- “transmutável ou criativa no sentido de
ção original é visto, portanto, como que o futuro econômico pode ser criado
the sudden presence in a man’s thoughts of por ações humanas correntes e futuras”
something essentially novel, something not (Davidson, 1995, p. 108).
9
Ver, e.g., Davidson
(1982-1983, 1988, 1991, 1992, arising, in its completeness and its essence, Em um mundo ergódico, as rela-
1994 e 1995). merely from some materials or arrangements ções entre variáveis são atemporais, ou

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184 A construção do conceito de incerteza

a-históricas, no sentido de que o futu- (otherwise the rate of change is stationary


ro é meramente uma reprodução esta- hence predictable), then[...] and any estima-
tística do passado. O conhecimento so- ted statistical average (which represents ra-
bre o futuro consiste na projeção (com tional expectations) can be persistently and
confiança) de médias estatísticas basea- nonsystematically different from the future
time averages actually occurring in the eco-
das em observações passadas e presentes
nomy (Davidson, 1982-1983, p. 187).
às circunstâncias vindouras. Se as causas
das mudanças permanecerem inalteradas Sistemas não ergódicos requerem
à medida que o sistema move-se no tem- a existência de decisões cruciais, concei-
po, então a teoria ergódica pode ter algo a to emprestado de Shackle, e resultam em
dizer. Os sistemas ergódicos, como mo- parte de sua operação. As escolhas cru-
delos econômicos atemporais, tendem a ciais dizem respeito a situações em que a
especificar uma quantidade suficiente de própria performance da escolha destrói as
equações para determinar todas as incóg- funções de distribuição existentes. O fu-
nitas no sistema simultaneamente (e en- turo é, portanto, construído por decisões
dogenamente). Esses sistemas são atem- cruciais (Davidson, 1982-1983, p. 192). A
porais em um sentido claro: escolha crucial é o conjunto de todas as
decisões importantes em que os resulta-
All decisions and actions that can affect the
dos ocorrem no futuro e em que os “esta-
solution are taken at the initial instant; in
essence all contracts are signed in the Gar-
dos da natureza” nunca podem ser total-
den of Eden without any false trades (Davi- mente reproduzidos ao longo do tempo.
dson, 1992, p. 14). Experimentos cruciais alteram as circuns-
tâncias econômicas, os “parâmetros”, de
Por outro lado, a realidade é não forma não previsível.
ergódica se a economia move-se no tem-
A incerteza é concebida como o
po histórico irreversível. Isso requer que
inverso do conhecimento. A probabilida-
os processos econômicos sejam não es-
de é uma forma de conhecimento, não
tacionários, isto é,
incerteza do futuro. Davidson define in-
if one conceives of underlying stochastic pro- certeza da seguinte forma:
cesses whose distribution functions are not
independent of historical time, and if the [A]ny economic situation where decision-
rates of change in the distribution functions makers believe that sufficient information
are also not independent of calendar time does not exist today to form the basis for

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Rogerio P. de Andrade 185

predicting future events by means of fre- Na mesma linha de Keynes, Davi-


quency distributions (Davidson, 1995, p. 110). dson ressalta que, na presença da incer-
teza, os agentes econômicos recorrem
In a stochastic world, uncertainty is defined
in terms of the existence of nonergodic pro- ao dinheiro (o ativo mais líquido) co-
cesses. More generally, in a world where eco- mo um comportamento preventivo típi-
nomic observations need not be generated by co. Processos não ergódicos e a existên-
any stochastic process, uncertainty about cia do dinheiro enquanto um ativo estão
future relationships can be defined in intrinsecamente ligados; a análise desses
terms of the absence of governing fenômenos revela a relação estreita entre
ergodic processes. [...] [I]n a nonergo- contratos em moeda e incerteza.
dic environment, past observations do not
Na abordagem de Davidson, a
produce knowledge regarding current and/
moeda não é neutra, mesmo no longo
or future events, while current observation
prazo. A não neutralidade da moeda re-
of events provides no statistically credible es-
timate of future time and/or space averages sulta do fato de que os agentes sabem que
(Davidson, 1988, p. 332).
a retenção de moeda e/ou ativos mais lí-
quidos proporciona maior grau de liber-
No intervalo de tempo entre a dade e flexibilidade de resposta, o que,
decisão e os resultados, podem ocor- em tese, lhes permite lidar com situações
rer mudanças imprevisíveis. Os agentes imprevistas. Esse comportamento é uma
acreditam não existir hoje informações proteção contra acontecimentos indese-
confiáveis sobre as perspectivas futuras. jáveis. Os contratos monetários facultam
O futuro não é calculável, mesmo se o certo grau de previsibilidade aos agentes,
agente for capaz de realizar as operações como, por exemplo, contratos em que
matemáticas necessárias para calcular as o fornecimento e o pagamento são pre-
probabilidades de eventos condicionais viamente definidos para uma data futura
10
“[M]oney has its niche only when dadas as informações disponíveis. Quan- específica ou contratos salariais monetá-
we feel queasy about undertaking to maior o intervalo de tempo entre de- rios fixos. É somente em uma realidade
actions that will commit our claims cisões e resultados, maior a probabilida- econômica marcada pela incerteza que o
on resources onto a path that can de de os agentes acreditarem que estão
only be altered, if future events
dinheiro atua como um mecanismo por
require this, at very high costs (if at tomando uma decisão em circunstâncias excelência propiciador do diferimento
all)” (Davidson, 1994, p. 94). incertas (Davidson, 1994, p. 89). das decisões.10

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186 A construção do conceito de incerteza

6_ Breve comparação: qual a incerteza é uma dimensão especí-


afinidade e singularidade fica), já que tenta conciliar o aparato da
teoria do equilíbrio competitivo com sua
Um aspecto distintivo da visão de Kni-
concepção de “incerteza verdadeira”. Es-
ght é que o lucro, “uma forma peculiar
se tipo de tratamento está totalmente au-
de renda” (Knight, 1921, p. 37), é o re-
sente nas outras versões de incerteza con-
sultado de uma “perturbação das condi-
cebidas por Keynes, Shackle e Davidson.
ções de concorrência perfeita” (Knight,
1921, p. 47), gerado pela incerteza. Sua Keynes dispensa pouca atenção a
teoria pressupõe uma noção de equilí- conceitos como equilíbrio de longo prazo
brio. Há forças gravitacionais em opera- e, nesse sentido, sua visão contrasta com
ção, mecanismos “naturais” que impul- a de Knight. O problema deriva do fa-
sionam o sistema para um determinado to de que não parece ser coerente enfati-
resultado, sabido de antemão, que será, zar a incerteza e pressupor que a econo-
por necessidade, alcançado (um estado mia tende, inevitavelmente, ao longo do
de equilíbrio). tempo, a um estado de repouso, ou que
Contudo, em seu esquema teórico, há um centro de gravitação impelindo-a
há também incerteza, ou seja, indetermi- para esse estado, em que sabemos de an-
nação, mudanças inesperadas e resultados temão o resultado final predeterminado.
“distantes do equilíbrio”. Knight reco- A incerteza supõe futuros em aberto, não
nhece a importância da incerteza, mas imaginados, e um escopo considerável
não crê ser necessário descartar a análi- para descoberta, mudança e “desconheci-
se em termos de um sistema gravitacio- mento” (unknowledge à la Shackle). Por sua
nal. A necessidade e a estabilidade de um vez, o equilíbrio, como geralmente defi-
equilíbrio competitivo não são questio- nido, demanda delimitação de possibili-
nadas, nem os princípios básicos da aná- dades, inevitabilidade e nenhum espaço
lise neoclássica (ver, e.g., Knight, 1921, para “escolha genuína”, uma vez que, no
p. 168). Em sua abordagem, a incerte- final, ele sempre prevalecerá.
za convive com um mecanismo endóge- A concepção determinista de um
no determinista que impulsiona o sistema equilíbrio requer o conhecimento ex an-
em direção a estados “naturais”. Esse é te de um resultado certo: sabemos que
o aspecto mais problemático e contradi- mecanismos serão acionados para pro-
tório da teoria econômica de Knight (da duzir resultados de equilíbrio específicos

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Rogerio P. de Andrade 187

(preços, quantidades). Nesse sentido, a vios de uma norma. O lucro é uma ca-
análise de Keynes não expressa uma re- tegoria que independe da existência de
alidade em que há simultaneidade e pre- forças gravitacionais atuando na eco-
determinação dos resultados. Possui, em nomia. Não há trajetórias tendenciais pa-
vez disso, uma preocupação com a sequ- ra um estado de equilíbrio. Keynes res-
ência temporal irreversível, a causalidade, salta a interação entre o ideal (imaginado)
a indeterminação e a ignorância a respei- e o real, o esperado e o realizado. A in-
to dos futuros possíveis (e impossíveis!). certeza vem à tona por meio da frustra-
Em seu sistema, se houver um resultado ção das expectativas. A visão de Keynes
de equilíbrio, ele é fortuito, não a expres- da determinação dos lucros opera em
são de dispositivos mecânicos que atuam duas dimensões, a saber: uma renda es-
no interior da economia para engendrar perada (expectacional) no início de um
um estado inescapável.11 período de produção (definição ex ante)
Nessa perspectiva, é possível afir- e uma renda residual e incerta, definida
mar que a abordagem de Knight é uma no final de um período de produção pe-
espécie de “meio-termo” entre o Treati- la demanda efetivamente realizada (de-
se on Money (TM) e a Teoria Geral (TG) de finição ex post). Tal tratamento inexiste
Keynes (1930 e 1936). A visão de Knight em Knight.
assemelha-se à do TM no sentido em que Outra diferença importante na ma-
o lucro é o resultado de perturbações de neira com que ambos tratam incerteza e
uma “norma” – na linguagem da TM, “ga- probabilidade é que Keynes considera as
nhos inesperados” (windfall gains). Por ou- probabilidades como crenças ligadas a
tro lado, tanto a TG como as intervenções proposições sobre eventos, e Knight, a
pós-TG reconhecem claramente a impor- eventos em si (cf. Runde, 1995). Enquan-
tância da incerteza (que está ausente no to para Knight a incerteza é um atributo
TM) e que é semelhante à visão de Knight da realidade material externa, para Key-
de que a incerteza deve ser contrastada a nes é um atributo do conhecimento e ex-
risco probabilístico e entendida como au- pressa graus de crença (Lawson, 1988).
sência ou escassez de conhecimento. Posto de outra forma, enquanto Kni-
Para uma discussão
11
Contudo, a análise de Keynes é ght concebe a incerteza em seu aspecto
adicional da ideia de equilíbrio,
determinismo e decisões mais abrangente. Tanto na TG como nos “ontológico”, Keynes ressalta sua forma
cruciais, ver Andrade (2009). trabalhos pós-TG, os lucros não são des- “epistêmica” (McCann, 1994, p. 52).

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188 A construção do conceito de incerteza

Ademais, ao contrário de Knight, sabe de antemão que a economia inevita-


as análises de Keynes na TG e na teoria velmente convergirá ou alcançará. Embo-
pós-TG enfatizam a interdependência en- ra Shackle insista na diferenciação concei-
tre o lado “real” e “monetário” da econo- tual de Knight entre risco e incerteza e na
mia, por meio da influência da incerteza inadequação da crença de que toda pro-
tanto na eficiência marginal do capital co- babilidade pode ser mensurada, em seu 12
É importante observar
mo na preferência pela liquidez. As deci- “esquema” de teoria econômica não há ainda que, na abordagem de
sões de investir em capital fixo ou de “en- lugar para uma ideia de equilíbrio compe- Knight sobre probabilidade
tesourar” obedecem à mesma lógica. Do titivo. Equilíbrio e determinismo, de um e incerteza, encontramos
ponto de vista analítico, uma não está se- lado, e imaginação, decisões cruciais e no- argumentos semelhantes à
crítica de Keynes (1939) a
parada da outra. vidade essencial, de outro, são conceitos Tinbergen acerca dos usos
Contudo, além da distinção con- incompatíveis. de técnicas econométricas
ceitual correta entre risco e incerteza, o Se decisões não vazias têm papel na análise econômica. Como
afirma Keynes, “the main prima
que realmente aproxima o pensamen- importante a desempenhar, então o futu-
facie objection to the application of
to de Knight e Keynes é a visão de que, ro deve estar aberto a possibilidades infi- the method of multiple correlation
sob condições de incerteza verdadeira, nitas. Há uma rejeição cabal de qualquer to complex economic problems
não é viável especificar probabilidades visão determinista, associada consequen- lies in the apparent lack of any
adequate degree of uniformity in
quantitativas. Para eles, não há garantia temente a uma exaltação do livre-arbítrio
the environment” (Keynes, 1939,
de que sempre haverá eventos suficientes e da imaginação humana. Nesse aspecto, p. 316). Como ressalta Knight:
que são semelhantes o bastante para for- o que está implícito em Keynes (a nega- “The paradox, which carries us at
mar uma classe de referência adequada de ção do determinismo) é fortemente frisa- once into the heart of the logical
problem of probability, is that if
eventos homogêneos.12 do em Shackle. A mente humana é criati-
we had absolutely homogeneous
A abordagem de Shackle possui va; ela é capaz de conceber (e pode vir a groups we should have uniformity
afinidade maior com a visão de Keynes realizar por meio da ação) resultados ima- and not probability in the result,
do que com a de Knight. Em primeiro lu- ginados que não estão limitados por for- or else we must repudiate the
dogma of the ultimate uniformity
gar, para Shackle a incerteza é epistêmica, ças objetivas predeterminadas.
of nature, the persistence of
isto é, está relacionada a graus de crença; Por outro lado, Shackle parece ser identity of things” (Knight,
é um atributo do conhecimento, não da mais “subjetivista” do que Keynes. Para 1921, p. 218). Ambientes
realidade (cf. Lawson, 1988). Em segundo Keynes, a imaginação individual não é a inerentemente instáveis
e mudanças recorrentes
lugar, em seu sistema teórico não há for- força motriz, mas a “expectativa” – uma
impedem a validade universal
ças naturais que atraem a economia para estrutura de crenças comuns comparti- da hipótese da “uniformidade
um estado de repouso (equilíbrio) que se lhadas e socialmente definidas. Na análi- da natureza”.

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Rogerio P. de Andrade 189

se de Keynes, o aspecto subjetivo da de- parte estejam inter-relacionados e pressu-


cisão é substituído por uma preocupação ponham um ao outro, um não é redutível
com a intersubjetividade, a interdependência ao outro (cf. Lawson, 1997).
das ações individuais, expressa na ênfase Em suma, o que é realmente dis-
recorrente em instituições e convenções tintivo na análise de Shackle da incerteza
que condicionam as decisões dos agentes. é a ênfase nas decisões cruciais, na ima-
Assim, um aspecto que chama ginação e na criatividade. Com frequên-
a atenção na análise de Shackle é a for- cia, deparamo-nos com expressões como
ma extrema de individualismo metodo- “decisões inspiradas”, “criação contí-
lógico subjacente a seu subjetivismo.13 nua”, “escolha criativa”, “germinação de
Há uma espécie de “soberania do indiví- novidade essencial”, etc. Esses aspectos
duo”, autônomo e isolado em suas deci- estão totalmente ausentes na análise de
sões. O “desconhecimento” é um resulta- Knight e, embora contemplados no “sis-
do de decisões cruciais, mas os processos tema aberto” (Dow, 1996 e 2002) de Key-
de tomada de decisão sob incerteza de- nes, estão apenas implícitos na ideia de
vem sua existência a fenômenos pura- “animal spirits”. Talvez o insight mais ade-
mente subjetivos. É como se tudo esti- quado seja afirmar que Shackle faz uma
vesse na mente do indivíduo; portanto, as síntese dos conceitos de incerteza (Kni-
relações sociais, as estruturas e as institui- ght, Keynes), com uma reflexão explícita
ções parecem não influir de maneira re- sobre os animal spirits (Keynes) e um pa-
levante sobre as escolhas individuais. É pel crucial para a novidade e a mudança
essa visão que exerce forte apelo nos se- (à la Schumpeter).
13
“The future matters to us [...]
because by appropriate choice of guidores da escola neoaustríaca (ver, e.g., Por sua vez, a abordagem de Da-
present action it can be made to Lachmann, 1990). vidson é como que uma síntese das três
yield this or that combination Contudo, é possível argumentar versões anteriores. Em primeiro lugar,
of enjoyment by anticipation que tanto a ação humana individual co- reconhece a importância da distinção
and distress by anticipation;
its importance is an essentially mo a estrutura socioeconômica, tanto a conceitual entre risco e incerteza, entre
subjective and imaginative one” parte individual como o todo hierárquico conhecimento provável e “desconheci-
(Shackle, 1972, p. 6). Ou ainda: complexo, têm papéis importantes a de- mento”. Em segundo lugar, ressalta o
“It is accordingly experiences by
sempenhar em uma análise não conven- poder criativo das decisões cruciais, não
imagination, subjective entities,
which guide decision” (Shackle, cional da conduta humana sob incerteza vazias, na construção da realidade pre-
1990d, p. 18). na esfera econômica. Embora o todo e a sente e futura. Por fim, associa a discus-

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190 A construção do conceito de incerteza

são sobre a incerteza a eventos que ocor- só pode ser observada ex post, ao final de
rem na esfera econômica, sobretudo as um período de produção (cf. Davidson,
decisões de investimento e a preferência 1994, cap. 2).
pela liquidez. Por fim, uma análise da economia
Contudo, a análise de Davidson “como um todo” (orgânico) também es-
representa, ao mesmo tempo, um pas- tá presente, no sentido de que não é pos-
so à frente. Esse autor incorpora a ideia sível analisar o sistema econômico em
shackleana de decisões cruciais, mas vi- termos de “partes”, separadas, estanques
ra Shackle de cabeça para baixo, minimi- e independentes, em termos de um lado
zando seu subjetivismo. Davidson des- “monetário” e um lado “real”, cada qual
carta o individualismo metodológico de com vida autônoma e sem influência re-
Shackle. A realidade não ergódica é uma levante sobre o outro. A moeda não é
realidade objetiva, definida por intera- meramente um numerário neutro que
ções sociais. A intersubjetividade, e não não afeta as decisões de produção e in-
a pura imaginação subjetiva na men- vestimento. A própria existência da mo-
te dos indivíduos, é o que condiciona as eda como reserva de valor (como um ati-
decisões dos agentes. As estruturas sub- vo) interliga de forma relevante ambos
jacentes de natureza não ergódica são lo- os “lados” do sistema econômico.
gicamente anteriores à ação individual.
Existe uma realidade não ergódica, uma
“estrutura profunda” subjacente aos fe- 7_ Observações finais:
nômenos que se manifestam ao nível da o princípio da incerteza no
“superfície”. Nesse sentido, a visão de pensamento heterodoxo
Davidson deriva de um Shackle mais O princípio da incerteza conforme for-
keynesiano, menos “neo-austríaco”. mulado pelo que se poderia denominar
Ademais, o lucro não é visto co- de visões “clássicas” de Knight, Key-
mo “forma peculiar de renda” (como em nes, Shackle e Davidson foi, no decorrer
Knight), o resultado de desvios de valo- dos anos, reconhecido como importan-
res naturais de equilíbrio. Neste sentido, te e aprofundado. É possível encontrar
a abordagem de Davidson é mais próxi- abordagens adicionais, ou versões “mo-
ma da de Keynes. O lucro do empresá- dernas” do conceito de incerteza, em um
rio é uma renda incerta e residual, que número significativo de contribuições,

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Rogerio P. de Andrade 191

como, por exemplo, Lawson (1985, 1988 mento (correspondendo a graus de cren-
e 1997), Carvalho (1988), Runde (1990, ça) (Lawson, 1988, p. 40; Carvalho, 1988,
1991 e 1995), Dosi e Egidi (1991), Dow p. 78). Existe uma incerteza “ontológica”
(1995 e 2004), Vercelli (1995 e 2002) e De- (ou “sistêmica”): a incerteza manifesta
quech (1997, 2000 e 2004).14 do ambiente, algo com que se defronta o
Em todas essas análises, há uma li- agente. E existe a incerteza “epistêmica”:
nha de raciocínio comum: o conceito de a incerteza de nossa compreensão do am-
incerteza está associado à ausência (ou li- biente, isto é, dos sinais produzidos pelo
mitação) de conhecimento e é contras- sistema (nossas crenças de que um even-
tado com a ideia de conhecimento na to ocorrerá) (McCann, 1994, p. 52-53).
forma de cálculo de risco probabilístico Knight pode ser incluído na primeira ca-
quantificável. tegoria, e Keynes e Shackle pertenceriam
Quando as circunstâncias futuras à segunda modalidade de incerteza. A vi-
pertinentes forem desconhecidas, ou pelo são de Davidson representaria, por assim
menos bastante incertas, formular prog- dizer, um ponto intermediário entre esses
nósticos não é tarefa trivial. O ambien- dois tipos de incerteza. Ele parece oscilar
te pode mudar de forma imprevisível. Os entre os dois tipos, pois, às vezes, tem-se
obstáculos com que se deparam os agen- a impressão de que a incerteza correspon-
14
Há uma ampla gama de tes que devem formular previsões são: de a uma característica do conhecimen-
referências bibliográficas sob to, e, às vezes, é como se não houvesse
o título incerteza na literatura i. o passado pode não ser um guia
um continuum de valores de probabilida-
recente. Contudo, vale lembrar relevante para o momento em
que o objetivo deste artigo de, mas apenas uma separação clara entre
que é formulado o prognóstico; e
não é fazer uma revisão crítica certeza absoluta e incerteza radical. Nes-
dessa literatura, mas, sim, ii. não há método confiável para
te último caso, a incerteza se manifestaria,
recuperar os elementos mais estimar as probabilidades das
então, como um atributo da realidade.15
importantes da discussão sobre diversas mudanças possíveis.
incerteza nas visões de Embora as interpretações de Kni-
Knight, Keynes, Shackle e Subjacente a todas essas interpre- ght, Keynes, Shackle e Davidson con-
Davidson, de forma a tações está a ideia de que nosso conhe- centrem-se principalmente na não men-
realçar as singularidades de
cimento sobre situações futuras é falível surabilidade, todos eles a contemplam
cada abordagem.
A respeito desta última
15 e contingente (cf., e.g., Andrade, 2004). como uma subclasse de problemas ou
questão, ver McCann (1994, A incerteza é um atributo tanto da reali- um caso especial de uma abordagem
p. 145, n. 156). dade material externa como do conheci- mais abrangente. Neste sentido, suas vi-

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sões transcendem as análises convencio- que se torna possível identificar tipos de


nais de probabilidade baseadas exclusi- eventos repetidos ou homogêneos. Seria
vamente no enfoque “quantitativo” (por possível especificar, então, probabilida-
exemplo, frequências relativas) e abrem des quantificáveis, como, por exemplo,
espaço para os casos em que a escassez na teoria das expectativas racionais (ver,
de conhecimento tornam as probabilida- e.g., Lucas e Sargent, 1981) ou na aborda-
des não mensuráveis e não comparáveis. gem subjetivista de Savage (1972). Nesse
É somente nesse subconjunto, que per- caso, a lista de resultados futuros é com-
tence a uma classe mais ampla de casos, pleta e finita, de forma que as probabili-
que se poderia implementar um con- dades associadas a cada um somam um.
ceito mais geral de probabilidade (per- Em um estado de incerteza, as
mitindo, assim, cálculos probabilísticos probabilidades são desconhecidas. Não é
numéricos). Mas, como se trata de um possível associar probabilidade mensurá-
subconjunto, não se pode dizer que é vel a todo resultado possível imaginado,
totalmente inclusivo, como o seriam os nem fazer comparação entre probabilida-
conceitos acima (ver Hicks, 1979, p. 114- des. Situações de incerteza são aquelas em
115). Nesse caso, torna-se necessário de- que os tipos de eventos repetidos ou ho-
finir a esfera própria de aplicabilidade mogêneos não existem ou, se existissem,
da abordagem “numérica”, ou seja, en- não poderiam ser identificados (Runde,
contrar a classe de referência adequada 1995, p. 3). A previsão do futuro baseada
e as condições necessárias para prevale- na observação passada é imperfeita, po-
cer a homogeneidade, a estabilidade e a dendo ser até mesmo inútil quanto mais
estacionaridade. distante for nossa tentativa de olhar no
Como visto, uma conclusão geral futuro. O futuro incerto pode ser muito
que deriva das análises anteriores é a ne- diferente do passado e do presente, como
cessidade de se fazer uma distinção cla- não raro tende a ser. O grande êxito con-
ra entre os conceitos de incerteza e ris- ceitual de Knight foi ter assinalado clara-
co. O risco corresponderia a situação em mente esse aspecto, a despeito de algu-
que um evento ocorre com uma proba- mas limitações de sua teoria.
bilidade com certo grau de conhecimen- Se não possuímos conhecimento,
to ou tem uma distribuição de probabi- então não somos capazes de quantificá-
lidade. Situações de risco são aquelas em lo. Nesse caso, o conhecimento probabi-

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Rogerio P. de Andrade 193

lístico não pode orientar com segurança cimento e sua relação com a conduta. As
nossas decisões, nem proporcionar uma pessoas não compreendem o presente
previsão acurada. Embora empregada de como ele é e em sua inteireza, não preve-
forma generalizada nas teorias da escolha em o futuro a partir do presente de for-
racional, tal hipótese é no mínimo pro- ma bastante acurada, tampouco sabem as
blemática. Mudança recorrente, compu- consequências dos próprios atos de for-
tabilidade mental limitada, conhecimen- ma infalível. Conforme observado tan-
to falível e contingente, etc., todos esses to por Knight como por Keynes, a pos-
fatores requerem a necessidade de rever sibilidade de previsão aparentemente se
e atualizar as informações que respaldam baseia na uniformidade da natureza e is-
nossas decisões. so está longe da realidade efêmera em
Os agentes se defrontam com “no- que vivemos.
vidades essenciais” e sabem, portanto, Por conseguinte, a seguinte ques-
por experiência própria, que seu conheci- tão poderia ser colocada: até que ponto o
mento do mundo é imperfeito. Podemos mundo é inteligível? Há dificuldades prá-
até mesmo afirmar que sabemos algo so- ticas quando se fazem inferências e jul-
bre o futuro, mas, em geral, as decisões gamentos baseados em conhecimento
na vida cotidiana baseiam-se no fato de contingente e falível. Uma forma de lidar
sabermos bem pouco sobre vários fato- com essas dificuldades que incidem sobre
res que nos afetam e nos afetarão. Assim as decisões é recorrer às instituições vi-
sendo, agimos sob a influência de crenças gentes em cada contexto da decisão, co-
instáveis, que estão sujeitas a mudanças mo convenções, regras, rotinas, etc.16 Mas
tão logo a situação demande uma revisão isto já é outra estória, que foge ao escopo
de nossas opiniões presentes. Isso signi- deste artigo.
fica que nem somos totalmente ignoran-
tes, nem completamente bem informa-
dos, mas que, em vez disso, temos algum
conhecimento limitado e imperfeito (fa-
lível e contingente) dos vários contextos
Para uma discussão
16
de decisão em que nos vemos imersos.
da natureza e dinâmica
das convenções, ver A análise da incerteza depara-se
Andrade (1998). com investigação da natureza do conhe-

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194 A construção do conceito de incerteza

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