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Apêndice: Hegel e Platão sobre o outro

Algo e outro – O momento da natureza negativa do ser determinado começa a se fazer


valer a partir das categorias de algo e de outro. Numa primeira fase, algo e outro, em
decorrência do necessário atravessamento do ponto de vista do entendimento, estão
contrapostos como reciprocamente indiferentes. O algo, a partir de sua relação consigo,
gera logicamente seu próprio negativo, ou seja, um outro. A indiferença recíproca
resulta evidente pelo uso do artigo indefinido: “algo e um outro” (p. 122). Um outro é
qualquer outro, e também ‘algo’ significa um algo qualquer. Em si mesmos, algo e
outro são algos, isto é, eles subsistem na natureza afirmativa do próprio ser aí; por isso,
“a negação cai fora de ambos” (§1, p. 121). Algo é indiferente a um outro, porque está
numa relação meramente exterior com esse; propriamente, não se relaciona com outro.
A dialética de “algo e um outro” inicia do reconhecimento de que ambos são algo; o
algo e o outro são iguais em serem algos. Cada um dos dois, todavia, “é igualmente um
outro” (§4, p.122). Algo e outro são outros, sem que, aqui, possa-se dar algum substrato
ou definição ulterior dessa alteridade. É preciso dizer que cada um é um outro, no
sentido de que ambos são outros um para o outro. Em sua relação, são diferentes do que
são em si mesmos. Na relação, são outros; em si mesmos, são algos.

Para Hegel, é logicamente impossível pensar o algo sem remeter ao conceito de outro. A
implicação recíproca dessas duas determinações do pensar já é uma refutação eficaz da
crítica de Trendelenburg à dedução do outro a partir do algo, a qual seria obtida somente
através da intervenção da intuição sensível1. Inicialmente, o outro é, ele mesmo, fechado
em sua unilateralidade positiva, em seu ser em si. A dialética do algo e do outro entende
mostrar como a indiferença inicial dessas duas categorias é suprassumida por sua
progressiva identidade, sem extinguir, com isso, a diferença que é essencial para sua
estruturação opositiva.

O “outro de si mesmo” e o diverso (heteron) de Platão – O outro, além de ser algo e


outro do algo, “precisa ser tomado como isolado, em relação a si mesmo;
abstratamente, como o outro” (§7, p. 123). Trata-se da alteridade intrínseca ao outro, do
“outro nele mesmo”, isto é, do “outro de si mesmo” (ibid.). Do ponto de vista da
história da filosofia, o outro em e de si mesmo foi tematizado pela primeira vez nos
diálogos dialéticos de Platão. As expressões “como isolado” e “abstratamente”
assinalam o lado de aparência do outro de si mesmo, sua aparência como exterioridade
autossubsistente. A essa aparência Hegel refere o heteron de Platão, quando escreve que
o filosofo grego “o contrapõe, como um dos momentos da realidade, ao uno, e atribui,
dessa maneira, ao outro, uma natureza própria. Assim o outro, apreendido unicamente
como tal, não é o outro de algo, mas o outro nele mesmo, isto é, o outro de si mesmo”
(§7, p.123).

A referência não é ao Sofista, mas ao Parmênides. Mais precisamente, Hegel transfere o


conceito de heteron, o qual, no Sofista, significa que há ou se enuncia sempre um outro

1
TRENDELENBURG, F.A. Logische Untersuchungen, I. Leipzig: 1870; reimpressão. Hildesheim: Olms,
1964, pp.45-sgg.
em relação a um outro, para seu diálogo predileto, o Parmênides, saudado como a mais
famosa obra-prima da dialética platônica. No Sofista, de fato, o diverso não está
contraposto ao uno; nele, pelo contrário, afirma-se a superioridade do uno sobre o ser e
também sobre o diverso. Mas é no Parmênides que o uno se torna o tema central do
exercício dialético. Aqui, na primeira hipótese (se o uno é uno), Platão, segundo Hegel,
contrapõe ao uno, no modo da negação, o outro de si mesmo, o qual, como um dos
momentos da totalidade, isto é, do conjunto dos predicados que devem ser negados ao
uno, tem, portanto, uma natureza própria.

Quando se trata de anunciar o outro de si mesmo em seu significado verdadeiro, Hegel


chama em causa a natureza física como outro do espírito (§7, p. 123). O exemplo da
natureza como outro sugere que não é impossível que Hegel se refira de novo ao
Parmênides, especialmente à terceira hipótese, na medida em que os outros se
identificam com a multiplicidade da realidade (também física), submetida à ação
limitadora do uno (Parmênides 157 B sgg.).

A alteridade não é mais somente a propriedade negativa do algo de não ser o outro (ou a
propriedade de ser outro em relação a um algo), mas se torna parte constitutiva ou
momento do algo e, ao mesmo tempo, origem de sua alteração (Veränderung) e
finitude. A alteração do algo não é extraída, como pretende Trendelenburg, da
representação do movimento espacial, mas coincide com o passar lógico do conceito de
algo para aquele de outro, ou melhor, coincide com a passagem do algo para a
alteridade que lhe é imanente.

O outro nele mesmo é “o pura e simplesmente desigual em si, aquilo que se nega, aquilo
que se altera” (§8, p. 123). A alteridade é necessariamente alteração: o que se altera não
é igual a si, mas se torna outro de si. Ao mesmo tempo, aquilo que se nega permanece
idêntico a si, porque aquilo em que se muda tem sua mesma determinação, ou seja, a de
ser o outro. Desse modo, aquilo que se altera “está posto como refletido dentro de si
com o suprassumir do ser outro, como algo idêntico a si, do qual, com isso, o ser outro
que é, ao mesmo tempo, momento do mesmo, é um diferente, o qual não lhe compete
como ao próprio algo” (§8, p. 123). Isso significa que, pela primeira vez, num conceito
de negação, a duplicação da alteridade produz a autorrelação e a identidade consigo.
Aquilo que se altera é, portanto, a desigualdade que se relaciona consigo mesma. O
aspecto de positividade do algo, com efeito, se restabelece, mas através da negação que
se relaciona consigo, de modo que a alteridade se torna “momento” do algo.