Você está na página 1de 65

COLEÇÃO "SABER ATUAL,.

Do mesmo autor:

M1'1l11alala1le écaaomJque, 1 vol. in-8.0 do "Bibliothêque de


Philosophle Contemporaine", Paris, P. U. F. , 19155.
/a RAZÃO
por
._ malMmatique 80Ciole du marquis de Condorcet, 1 vol. in-8.0
''Blbhothêque de Philosophie Contemporcine", Paris, P. U. F., Gfiles-Gaston GRANGER
1956. At;JTiOI de l'Unloenltl
, _ _ fonaelle 9t adeacea de l'homme, 1 vol. in-8.0 Paris, PTO/euetll 4 la FaculU de Phllolophie d• a.ntaea
Aubier, 1960.
1 vol., São Paulo, Comp. Melho-
*
Tradufio de
LÚCIA SmxAS PaADO

Scanned by CamScanner
mu10 11C f~Oilftlt
1 cOCIAS socw5 Titulo do origino!:
DL.l?TECA
LA RAISON

*
INDICE

Póg
INTRODUÇÃO • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • . • • • • • • 7
Pluralidade de vias de aproximação, 9. - A
razão segundo os Antigos. 11. - A razão medieval,
15. - Descartes, 16. - Kant, 1 8. - Hegel, 20.

CAPÍTULO 1. - Trh atitwldea negativas • • • • • • • • • • • • 25


Da escolha de uma aproximação negativa, 25.
- O misticismo religioso, 27. - Magia e mitos, 30.
- Romantismo e valores..."vltols", 34. - Duas manl-
festoções de um romantismo contempon\neo, 36. -
"O homem 6 uma paixão Inútil",. 34.

Scanned by CamScanner
CAPITULO IV - "Homo sopiens" ...............• 106
Os limites do rocionol: Julien Sendo e o Mi-
nerva imóvel, 106 - A rozõo e o relig1õo, 108. -
A arte, 111. - A paixão, 1 16. - Razão e mó-
qumas, 121.
CONCLUSOES • . . • . . • • . . . . . . . . . . . . • . . • • . . . . • • • . . . 127
INTBODUÇAO
BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA . • • • • • . . • . . . . . . . • • . . • • • • 129

de Fuo e Ciências Hum: .as

Scanned by CamScanner
Esta razão é ao mesmo tempo um id l e um mé
A razão de que fala aqui Pascal é uma espécie todo, o nome que dó Renan ao pensamento critico
de consciência que o homem tem de sua pr6pria dig- medido, reduzin~o às dimensões do homem as mirage~
rudade e dos fins para os quais êle teria nascido, que que sua fantasia se aventura a criar.
lhe apresenta a cada instante como que um modêlo
ideal daquilo que deve fazer e do que deve ser. "A , Sem dúvida, podemos dizer que tantn uns como
razão subsiste, acusando a baixeza e a injustiça das os outros dêstes usos da palavra razão m entre si
paixões, perturbando o repouso daqueles que a elas relações estreitas, que exprimem talvez, numa época
dada, num núcleo determinado de civilização, uma
se abandonam ... " maneira comum de pensar a situação do homem frente
Mas, quando o mesmo autor afirma que a geo- aos acontecimentos de sua pr6pria história e das
metria nos ensina "o verdadeiro método de conduzir coisas das quais êle se quer tomar senhor, pela espe-
a razão", êle quer então dizer outra coisa, que é et;lação ou pela ação t que, precisamente, a razão
nossa faculdade de conhecer o verdadeiro. Neste sen- nao pode ser utilmente definida senão num contexto·
tido, a geometria, esta "ciência admirável", é a pr6pría ela não é uma noção simples e imediatamente dadd,
rmão(l). mas um dos complezos culturais mais ricos de sentidos
que possam se oferecer à observação e à rellexão.

Pluralidade de vias de apro.mnação

Scanned by CamScanner
de seu valor, nos quadros em que o homem vive hoJ
noções peremptas, inversões de camadas, dep6sitos A razão se propõe não somente como uma técmc:_a. ou
fásseís de civilizações aparentemente mortas. como um fato, mas como um valor. Ela s;: opo ou
29) t claro entretanto que esta interpretação se- se justapõe a outros valores e esta concorrencia deve
mântica não basta para nos faze- compreender filosõ- necessàriamente ser discuhda em nosso estudo
ficmnente o que é para nós a rc 5:0. Uma descrição A indicação desta plurahdade de vias de apr x -
das formas efetivas do pensamento e da ação consi- mação não serviró no entanto de plano para esta
deradas normalmente racionais é seu complemento e pequena obra. A fim de fazer ressaltar fortemente
antidoto. Entre o sentido intencional expressa ou con- uma unidade de concepção indispensável na maténa
fusamente concebido, e a aplicação da razão nas ciên- tentaremos utilizar paralelamente éstes diversos méto-
cias e na prática, o intervalo é amiúde considerável. dos de análise no interior de uma exposição sintética,
A observação das operações da ciência e das técnicas cujo esquema é o seguinte:
' indispensável e deve esclarecer-nos sôbre o exato Uma pnmeira sondagem histórica perm1t r nos-á
alcance e a eficácia real da razão. esboçar lnlcialmente, neste preâmbulo, uma genealogia
3") Mas seria inútil querer descrever os atos de sumória da n~o de razão. O prune1ro capitulo
um pensamento racional destacando-os radicalmente poderá em seguida consagrar-se ao esbôço de uma
do contexto de estruturas e de funções sociais que lhes espécie de imagem por contraste do conceito excmn
.-ve de suporte. Não se poderia compreender ver- nando três atitudes negativas em relação à MJIJO
llJi7.lllEfli:leJ0mi111ente o que é para nós a razão se nos limi- misticjsm.o, "romantismo', .eXlBtenc:iaHamo No . . . . .,.
111!1~~ a,Jorm.ular uma lógica. t-nos necessária uma caP[tulo, estu aremos bastam.e a: vontade as
xm.ão. Somos de bom grado levados mCDS marcantes do racioncrl>uno da cilncicr ·~
MM"ID.lPJl5DlenlO racional é ~ O cc:(pltulo sepwnte tratará
ljj~~~· skm mms{o~ da · do que aa pode chamar a rcszão ~bs.d6J'9'°'
~l!9 ~ nio é Q811Jp..

._ ..
titimo capitulo ~ Cl _ .. . . . ...
• ~Q, -'....lliUlll raaJilo. 411118 ~ ~ wJ•Mlrt-
~- ~•----*~

Scanned by CamScanner
mcns nos arcanos frequentemente enganosos da e timo- articulado em juízos encadeados, como uma de..... u . .~­
logia, é licito estabelecer um quadro simples segundo tração matemática.
filiações semânticas:
A razão intuitiva, ao contrário, a preende as ver-
folar -+ pensar
dades numa única operação. Percebe diretamente as
1dé10 de ligor.;if" / "essências", sem que haja necessidade de um processo
1dé1a de calcular -+ medir demonstrativo fragmentado
Essa distinção entre uma forma baixa e uma forma
alta da razão é constante no pensamento grego clás-
sico e pós-clássico. Será a origem de uma séne de
mal-entendidos, de amibigüidades, e de jôgo de pala-
vras, graças aos quais o pavilhão da razão cobrirá
mais tarde mercadorias assaz estranhas. Não é
tentador, com efeito, batizar com o nome de ra zão
intuitiva as mais obscuras formas de pensamento, re-
servando no pensamento claro o titulo menos glonoso
de conhecimento discursivo(!)? Teremos QCCISlão de
voltar a isso. Por outro-lado, a estreita ligaçao, aqui
estabelecida, entre essa última forma da razãe e «
linguagem, autorizou em certos casos uma ~
tação puramente verbal do racional.
excessos da filosofia escol6slica. Em :IA1
Noel, Jesuita, define ainda a luz aamo "-" • ••
luminar de raios coJ11postos de corpl!ià lat!~C"Mef.
lummcsos". O mecanismo d.a ~daJ•(:.>­
cxnuWça vema, 81.il:IJmlJijµ a 'lhllS'i•Ui
da -

Scanned by CamScanner
se referem a ação (Ética a N1cómaco, hv. VI, li, 2). é membro de uma comunidade restrita da qual parti-
cipa apenas urna minoria de homens livres e bem
E a virtude da prudenc1a (gip6vYj~~ç) consiste em · visar nascidos. Todo o organismo social repousa sôbre urna
o que o homem pode realizar de melhor, seguindo os exploração dominial dos recursos agrícolas, o comércio,
c:ólculos da razão" (xai:?t t~v Àoytoµ6v) (ibid., VI, VII, uma indústria artesanal e o uso de um pequeno número
6) tsses c6lculos da razão são regidos, segundo o de máquinas simples. Os trabalhos manuais estão
mesmo autor, por uma regra que permanece em nossos a cargo quase exclusivo de uma classe de escravos
eaplritos como uma das expressões mais marcantes que não são absolutamente cidadãos. Nesse sistema
da sabedoria dos gregos: procurar em tudo o justo florescem o gôsto e o culto do conhecimento desinte-
me o t a própna definição da virtude e Aristóteles ressado, não sendo os progressos da técnica acele-
ens a que não se poderia ser prudente, isto é, razoável rados pela necessidade de tomar mais eficaz o trabalho
em seus atos em por isso mesmo ser virtuoso (ibid. humano. Tôda obra da razão aplicada se concentra
VI xm io>. ' então no aperfeiçoamento das técnicas de govêrno,
sendo a ciência política considerada por Aristóteles
ciência dominadora, "arquitetônica".

A razão medieval
O problema do pensamento medieval é inteiramente outro. A
inupção do cristianismo modifico profundamente os temas cl•
sicos que, entretanto, são assimilados pelo escolástica. Doravante,
o filosofia se desenvolve coma variação sõbre dois temos maiores:
o tema da razão e do fé. As duas fontes da conhecimento e
da ação humana sao opostas, Justapostos, hierarquizadas, segundo
as regras de um contraponto que caracterizo cada pensador da
Escola.
Poro uns, o ff no palavra revelada dirige a .JnteliglnQ.~
NW cr...._.. DDll ............. E a ~. ~ j cxinbeGfmentQ
purameaite humana, .se acha subordinada e n~ _..
~_.. provelJO .m ~a:.m1~•:ri;co:;·: rl!:lgmll!l:;.

Scanned by CamScanner
à verdade pr1me1ro, chegamos o conhecê-los à nosso maneiro, por dições, nada de mais inútil, escreve o Jovem Descarte
um discurso que vo1 de princípios o conclusões" (Gilson). As das Regulae (1), "do que se ocupar de números vazios
verdades revelados constituem um ponto de partido e umo garantia; e de figuras imaginárias, a ponto de dar a impressão
mos o conhecimento racional permanece, no escola humano, capaz de querer se comprazer no conhecimento de seme-
de atingir o verdadeiro.
lhantes bagatelas" (Regra IV) Mas ta matemática
Qualquer que seja, de resto, o solução adotado, os pensa-
dores medievais concebem a razão como uma faculdade natural, escolar é apenas a casca e o invólu o de uma ma-
um princfpio essencial ao homem. E como é preciso doravante temática mais profunda, que é um método geral de
distinguir o natureza humano ao mesmo tempo da animal e da análise e de pensamento. Refletindo sôbre a geometria
divino, 6 sob sua forma ãascarsiva que a razão terá seu direito dos Antigos, Descartes dela retira ao mesmo tempo
de adadon10 "Raciocinar, diz Santo Tom6s (1), é ir de um
obJeto do inteligência o um outro visando apreender a verdade
o modêla e o instrumento de todo o conhecimento
intehgtvel. Assim, os an1os, que possuem perfeitamente êsse demonstrativo. As matemáticas efetivamente nos pro-
conhecimento por suo natureza, não têm necessidade de ir de põem verdades bem encadeadas e certas, seguindo
um elemento 1ntellgível o um outro, mos apreendem o verdade o mesmo método, deve-se poder enfim fundar, sôbre
das coisos por uma intuição simples e não de uma maneiro cada tema, uma ciência racional: elas devem "conter
c19curslva."
Dessa maneira, impõem-se à razão limites cuja interpretação os primeiros rudimentos da razão humana e ter apenas
ectrelta ser6 a OCQSIÕO do conflito entre o pensamento cientffico que se desenvolver para retirar verdades de qualquer
MUIWCllpada e o autaritorismO do Escola. tema" (ibid ).

Descartes

Scanned by CamScanner
remos que a c1enc1a moderna, herdeira em muitos coperniciana" que faz doravante depender da estru
aspectos do ideal cartesiano, rejeita a concepção de tura dita "transcendental" do sujeito a percepção e
uma construção unilinear a partir de "naturezas sim- a ciência dos objetos e não mais da natureza dos
ples", proposta como objetivo à fisica. A ciência atual objetos as categorias do conhecimento.
comporta de bom grado esquemas múltiplos, aceita Em seu sentido mais geral, o pensamento racional
estruturas m6veis, dá direito de cidade ao provisório consiste aos olhos de Kant, em reduzir à unidade os
reconhecido como tal. t entretanto por ser, num dados ~sparsos do conhecimento. A faculdade de
sentido, mais cartesiano que Descartes que o sábio sintese que permite a passagem das intuições sensiveis
moderno mantém ainda viva esta imagem da razão. às experiências ligadas relativas aos objetos de um
mundo, é o que Kant chama o Entendimento (Ver-
Kant stand). Os princípios do entendimento puro que êle
enuncia nada mais são do que uma codificação sis-
temática dos axiomas do pensamento físico tal como
podia concebê-lo. Eis, disto, um célebre exemplo·
"tôdas as mudanças acontecem segundo a lei da li-
gação dos efeitos e das causas" (Crítica da Razão Pura,
Analltica transcendental,....segunda Analogia da expt-
riência). É claro que a nosso ver esta esp6cie de
fisica do objeto qualquer faz parte de uma tentativa
de definição do conte6.do do penacn:unto zacianâl
Kant entretanto reserva o nome de Ramo CVemPO.ft)
~~~ a um grau superior de sfntese doa conh.eclmD.toa IM
o Entendimento é a '"faculdade das regpm"i 11
seria a •faculdade doa p~b11P.fpper.• Tidt> 1r-.·áíjj~*"
"WXJ,a maneira d.e d9lllv.ar wn c:m1b.,.puto ti.
um~~º· ·~
QU Q' ®t•~-u~
.M.
-
LnJ*I

Scanned by CamScanner
que um ob1eto, que o experiência é capa de dar, possa corres- materialmente preponderante corno motor do iste
ponder-lhes ( 1). econômico, assume o JXq:>el de classe re1vmd1cadora e
se apresta para fazer as grandes revoluções europé as
Mas se a razão quer-nos fazer conhecer objetos O pensamento dos filósofos se volta então espontâ-
de- cm:iem. superior que não estariam de maneira al- neamente em dueção da coisa politica, e se esforçam
m.u:na }i>L'esentes em nossa experiên, a, ela ultrapassa por tôda parle por edilicar uma teoria racional do
Sl!llS direitos. Deus, a alma imortal, são idéias que govêmo, da liberdade, da justiça. O kantismo, a êste
cr mzéic forma legltimamente mas às quais ela não respeito, considerado em sua estrutura e s1gmhcação
paferia aplicar os processos de demonstração e de externa, é um curioso traço de união entre o pensa
análise que caracterizam seu uso cientifico. Kant de- mente cientifico de seu tempo - que consagra o pen-
n1mcinr aqui a impostura da razão metafisica. Mas samento de Newton - e o pensamento poH.bco dos
é emêW que faz surgir uma outra forma da razão, fil6sof os franceses {1)
q;m ê a Razão prática, faculdade não de conhecer Embora em muitos aspectos a doutrina de Hegel (2)
iehjetcs. mas de apreender máximas de ação moral. tenha-se originado na de Kant, sua mgn1ficaçao na
Os .P.JStulados da razão prática se impõem à cons- filosofia da cultura -e sua contribwção a uma id61a
pm;Jg: como imperativos categóricos incondicionais, da razão é bem diferente. Hegel p&ie asslStir ao semi-
torna a fonte não de um conhecimento. mas de malôgro das revoluções burguesas; participa em larga
1:1......~-o ic;QxdQJ:me ao destino do homem. As teses medida da reação A ia6ia de um SlSlema detinitW
_,_,,...~=-'"'"m então reaparecer. mas sõmente e universal da rozão faliu nos últimm a:um do 16allra..
_ _ .. e pos$ibili.dade supostas das móximas A burguesia est6 agom no pocim', e de daase,~..ft!ll,1•
clonárla toma-Be pouco a pouco a êkiwe JIO
U;i,a]~Lte CQllll81'Ytdom. DO Ilho GJWJf.J!J
Apmàd~aa_.m~~----
••IJAJ 1

.-.u ~
.............
n'fl!lst6lllkD' da lllliD
ã~uJnin•taa~ • - • •

Scanned by CamScanner
Isto quer dizer amda que: a un intima da forma e do conteúdo A estat á
do tempo de Péricles constitui disto a expressão mais
tudo que é racional é real, tudo que é real é racional (Filosofia perfeita. "Enquanto Beleza da Arte clássica, o caról r
do Direito). do deus preciso e determinado em si não é somente
espiritual: aparece também ao ôlho e ao espirito sob
A razão é uma f-rma exterior, corporalmente visival."
o unidade mais alto do conhecimento de um objeto e do conheci- Mus êste perfeito equilíbrio é apenas um mo-
mento de si (Propedêutica). mento transitório no desenvolvimento racional da cul-
tura. "Dir-se-ia que os deuses bem-aventurados es-
Ela é e: tomada de consciência de uma harmonia tão desolados por se sentirem felizes e por terem um
fundamental entre a verdade objetiva e nossos pensa- corpo." A arte clássica, em sua decadência, vai ela
mentos sub1etivos. Mas esta consciência não é dada; mesma ser negada para dar lugar a uma espécie de
ela é uma conquista de que a história da humanidade retômo sôbre si mesma da arte que retorna e concilia
ietraça as etapas. os traços opostos do simbolismo e do class1c1smo
Será a arte romântica (isto é, a arte cristã), que é
o triunfo da subjetividade; ..a beleza toma se uma
beleza puramente espiritual, a da interioridade como
tal, da subjetividade infinita e espiritual em si".

Scanned by CamScanner
J9)_ A raz.ão designa leis do pensamento e leis
da ~çao refletida e o problema que se formula 'é 0
relativo a seu caróter a priori isto é à sua ant · · ,
dad à . ' ' enon-
e e sua independência em relação à experiência.
d 29 ) A ra~ão se refere igualmente a uma ordem
_as COlSClS, se1a ela dada, ideal, ou realizada progres-
sivamente
d no curso de uma históri·a· É a est e quadr0
A
CAPfTULO 1
e pensamento que nos será preciso referir amiúde
para compreender os avatares da razão na cul t TRtS ATITUDES NEGATIVAS
contemporanAa. ura

Da escolha de uma aproximação negativa

O problema da razão, de sua significação, de sua


forma e de seu uso foi o mais das vêzes abordado,
nos quadros do ~nsCJl!lento atual, por seus aspectos
polêmicos. O inicio do século, em particular, legou-nos
uma herança .muito brilhante de argumentos contra a
razão. O gôsto das filosofias anti-racionais, no perlo-
do contemporâneo; remonta, mais ou menos, entre nós,
a Bergson ( l); mas o pensador francês tem su.a ~­
partida na Alemanha aom Frederico Nietzsebíi '{lflU..
1900), nos paisea aql<HIC3ÔeS com Willkixm J . -
{1842-1930) O positivismo de Augusta Com.te (J71S
1857) e os pr~ ~tqcmimteS h aêJidJs â
~.;Dlnllreza contrib:rdram parq crim na :s.et~tdi

Scanned by CamScanner
~ovimen_to e da intu~ção, embora proclamando sua Poder-se-ia espantar com a escolha esta apr
vmculaçao com a razao, inaugura uma poderosa cor- ximação negativa no estudo da rc;izão. ~la se j~s ~h~a,
rente de pensamento que tende a reservar à razão no entanto, não somente pela importanc1a h1stonca
uma por~o e:igua num sistema onde 0 sentimento efetiva da polêmica anti-racionalista, mas ainda pela
e o élan vital tem os primeiros papéis. virtude explicativa dos contrórios, por onde ':enhcamos
Poder-se-á se~ nas histórias da filosofia 0 por- ' o aforismo spinoz1sta segundo o qual :>da deter
menor desta ev~luJClo ( 1). As três atitudes que vamos minação é negação".
apresentar aqui nao constituem, propriamente falando, A palavra mística, na linguagem filos6fic<:' usual,
escolas nem mesmo movimentos filosóficos. São ati- é muito ambigua. Admitiremos que ela possui grosso
tudes, modos de pensamento e de ação, que apesar modo dois sentidos, distintos, mas não sem profundas
de serem menos sistemáticos que as doutrinas dos relações. O primeiro é o sentido religioso estr1t~, que
dif_er~ntes filósofos, não deixam de ser dotados de uma designa a crença na eficácia de ce~tas exper1enc1as
emstencia. e de uma consistência históricas provàvel- psicologicamente bastante bem d:~cntas. sob o nome
mente ~ais densas. Seria pueril, sem dúvida, querer de êxtases, para realizar uma uruao intim<:t, d~eta e
persomficá-las, fazendo delas protagonistas de um dra- inefável do espirita humano com Deus, pnnclp10 su-
ma cultural; são mentalidades, às quais os homens premo do Ser. O segundo, muito meno~ P1:eciso, mas
vit.Pe tomam traços de empréstimo, quadros clínicos também mais próximo .de nossa e:xpenencia comum,
~di:i se v.êm enquadrar, bem ou mal, os tipos de relaciona-se com as crenças "em fôrças, em infhdn
iiMdP. ccmh:ci a razão. cias, em ações imperceptiveis aos sentidos e, ne
entanto, reais" (Lévy-Bruhl), e também em pntiima
do tipo ritual ou mágico.
Ambos chocam48 contia a razão Um . . . . .
ihe limita de 1ure o im:PéJio, o oulro PI~ aB.~
tringe e lhe c:ontradiz de lac:lo a apli~ ~

Scanned by CamScanner
de admiração e lhe foz&m compreender, sem discorrer e sem
da ezperiência religiosa, William James, desta assi- raciocinar, mais coisos, no espaço de um credo, do que poderíamos
nala, por exemplo, quatro caracteres essenciais: aprender com nosso estudo em muitos anos ( 1)
19 ) Os estc:dos místicos são inefáveis: não se
podena descreve-los ~ não por imagens e sugestões t claro que a experiência mística é recebida como
alusivas; ·consciência de um contacto direto com uma realidade
sobrenatural, que, no caso de Santa Teresa, é a pre-
29) São e~!ªd?5 de conhecimento, em que o su- sença pessoal do Cristo. t preciso ler, a êste propósito,
)ed~ tem COD.SClenc1a de receber a revelação de uma as páginas em que ela descreve suas primeiras expe-
realidade que escapa à experiência comum; riências; é pela certeza da presença de Cristo à sua
39) São efêmeros; volta, inicialmente sem mesmo imagens visuais, que
49 ) São passivos: o sujeito em êxtase sofre a se manifesta então o estado de oração. A fusão intima
experiência mística antes do que a efetua, propria- de um aspecto emocional profundo e de um aspecto
mente. intelectual, cognitivo, é característica. Sabe-se qual é
a fôrça que os mistices buscaram nas metáforas da
Bastar-nos-á citar, para ilustrar êstes diversos pon- linguagem erótica para apreender seus transportes. t
tos, dois curtos textos de um dos grandes misticos que esta linguagem fornece, sem contestação, as mais
eapc:mh.6is, que melhor descrevem êstes estados: Santa violentas imagens afetivas. Assim, o próprio êxtase
Tt1111Ba d'Avila. é um gôzo perfeito, uma "felicidade que compMende
todos os bens imagináveis" e que ocupa todos os sen-
tidos. Mas ela ' também conhecimento contemplativo,
se.xp. racioclnio nem discurso. Alguns minutos de Axtaaé
nos podem ensinar mais coisas do que poded.amdlr
saber através de anos de estudo. A expenência ~
ca ,, pois, em certo sentido, um substituttvo da rC!l!dio
JXJ,.elhp.r cdnda, a ~o não 6 àênão um JtJ.eiG dGltil•
adq,~ ~o CQJDÜJbo ~ qµ.e ~o ·~~~
tcs tr aos atA:lll~I:.: •il

Scanned by CamScanner
alcance. Mas são, todavia, as rnes aas palavras de O Homo rnagicus
que se continua a fazer uso: a inteligência, a ciência, constrói oqui os relações dos coisos sôbre o tipo dos relações
a razão. . . Daí a ambigüidade constante do racio- que criam entre os sêres vivos não seus podêres psíquicos em
nalismo. Semelhante ao paguro, o misticismo pode geral, mos os podêres de uma olmo crepuscular cujo característica
habitar-lhe a casca ap6s haver-lhe e' ·varado a subs- é de se difundir espontâneamente e de agir normalmente à
distância o despeito daquele o quem ela pertence (Prodines).
tância. Mas há um traço distintivo irrecusável que
permite rejeitar finalmente esta anexação: o "conheci-
É êste poder difuso de interação das coisas que os
mento" místico é inexoràvelmente individual, subjetivo.
tle não convence jamais senão aquêles que são os sociólogos chamaram participação e de que alguns
quiseram fazer a marca distintiva de uma forma de
seus sujeitos. Ora, é pr6prio do conhecimento racio-
pensamento radicalmente separado do pensamento
nal prestar-se essencialmente a uma validação inter-
-subJetiva. tle é discussão, diálogo, mesmo que o seja racional.
"da alma consigo mesma", como o quer Platão. rue Em que medida há, com efeito, separação radical,
se transmite, se prova, se verifica no comércio de em que medida pode-se dizer que a atitude mágico-
muitas consciências. :t: neste sentido de irúcio, sem mistica é de UJilO outra ordem que a atitude racional?
dúvida, que é filho da sociedade. Mas convém. não Duas teses aqui se opõem. Para uns, tais como Tylor,
confundir esta inter-subjetividade como troca de idéias Frazer, Pradines, há identidade fundamental das duas
c:xm1rdláveis, com uma sorte de comunhão e de senti- atitudes, que uma evolução lenta ou uma brusca mu-
mmito co1etivo. O ac8rdo se faz, nesse caso, não mais tação teria separado. Para outros, com Lévy.&otml,
• Jimlo das idéias, mas no dos mitos. existe uma mentalidade •pré-lógica", irredutlvel c?I
mentalidade racional. A medida que são melhor m-
Dhecidas as formas de civili7.ação ditas pr-imitivas, a u
rituais, seus mitos e suas linguagens, ~~XD.C!lll
entmtanto que uma distinQáo tão marca.da entre
gerias de um pensamente de participaQáo e ~
=--
iaa.onais é msu.stentável Uma a GU.tra, e~
sameutoa, ~~m :uma ur.ãem cil.Gr wáY~. ardlill'._
'.p ~Q~§"• --

Scanned by CamScanner
isto que não há de maneira nenhuma engendramento
pelo conteúdo de conhecimento que ela mshtu1 n
de um pelo outro. Parece antes que a ordem mágica por seu pr6prio movimento critico A atitude mish a
é uma culminação, a atitude racional um encami-
e a ordem racional coexistem no espírito do homem
desde as primeiras idades. Mas a técnica é aberta nhamento. Quaisquer que sejam as aparências de
fixidez do pensamento racional - sob sua forma 16-
suscetível de progresso, enquanto que o pensament~
gica, por exemplo - êle sempre tem "movimento para
mítico e mágico é fechado. ~le não pode enriquecer-se
se não falando poeticamente e os mitos sucedem aos 'ir mais longe".
Jilltos, os rituais aos rituais sem que haja verdadeira . Compreende-se, portanto, que seria imprudente
renovação. A razão, ao contrário, consiste inicialmente acreditar numa substituição histórica pura e simples
nesta abertura que quebra o circulo dos mitos e dos da mentalidade mistica pela mentalidade racional
ritos De maneira que é ao mesmo tempo o desejo Nossas civilizações contemporâneas não são menos
de ordem do pensamento mistice e o gôsto da férteis, talvez, que as primitivas, em mitos e ritos de
fabricação causal que se reencontrarão na inteligência tôda espécie. Mas em lugar de se apresentar na luz
cambiante da poesia, ou no claro-escuro prof ndo das
racional.
doutrinas rebg1osas, os nutos modernos serpenteiam
sub-reptlciamente sob o manto da razão. Em nossa
vida econômica, por exemplo, quase tudo o que toca
o dinheiro indica uma mentalidade mitica, o poder
do dinheiro e seu poder de estratificação social envol-
v~se de uma mitologia.
Quanto à vida polltica dêste meio século, ela se
desenvolveu num universo de DlltOB poderosos E mto
ocoITe at6 mesmo com as ciências que em suas ap1i
cações e seus conceitos germs misturam suas 6guaB
racionalS mwto llmp das àrs vagem mais ~
das mitologias A p'6fu:a m6dica e smgulánllênj[lf,
prática mo
pslqQ.látriccr
'algo da'itrtmn~co? )rar;;
oonsel"ftt m1ae:=~=~
com un1t0.

Scanned by CamScanner
sua tarefa que é a tomada de posse dos mitos, a
anexação da magia. A lei, d1i: êle, é feita pelos fracos poro conter os mo1
fortes que se deixam tomar por elo. Mos encontre-se um
homem bastante felizmente datada poro sacudir, quebrar, recusar
Romantismo e valores "vitais" tôdos estas cadeias, e estou certo de que, pisando com os pés
nossos escritos, nossos encantações e nossos sortilégios, nossos
Fala-se comumente de romantismo a propósito de leis, inteiramente contrários à natureza, êle se revoltaria, se
' 1;; rgueria como senhor diante de nós, êle que era no so escravo,
um período determinado da hist6ria da sensibilidade e então brilharia com todo seu fulgor o direito do natu-
européia, e particularmente da hist6ria das artes. Não reza (1) •••
é neste sentido que aqui tomamos a palavra. Também
é corrente empregá-la para designar uma categoria t romântica ainda certamente a exaltação do
geral de: história literária, e não somente um periodo amor quando reivindica seus direitos contra a justiça,
particular de seu desenvolvimento. Pôde-se f~lar, sem a razão e a sabedoria. Mais sutilmente, mas não menos
demasiado abuso de linguagem, do romantismo. de profundamente, é também a exaltação da intuição,
Comeille, ou de Pascal, por exemplo. O período d~ esta espécie de conhecimento imediato comparável,
civilização européia que cobre essencialmente a pri- em sua forma, à VCi'ÍJOtÇ antiga, mas orientada essen-
meira metade do século XIX reunia sem dúvida as cialmente para o vivo. Bergson opõe-na, então, à
condições necessárias à expansão, dominante nas artes, inteligência das coisas inertes, que reina nas ciências
d.a atitude romântica. Desta época, data o conceito A intuição é certamente definida pelo filósofo como
~~tlll& -.romantismo enquanto tomada de consciên~a _de uma "visão direta do esphito pelo espirita", mas o
-.i-a. eerto iestilo de existência e de ce~as tenden~as que no espirito se diferencia da maténa e se lhe
• Mrm êste conceito pode seI'Vll' de protótipo opõe, é em primeiro lugar a vida, da qual êle 6, em
-~~ci~ gµe lhe são ligadas e procedem <.tltima cm61ise, a culmin09áo. Apreendemos então em.
que sentido a atnude proteiforma do romantiamo ae
empenha contra a razão e a expulsa. Ela tenclà Cf
pro:mpver um estilo de existência no qual a ~ CI
emoçQo, Q P'i~9,, desem~am as prilnefDM
n.o dominio da. pro~ c:onledmen e elc:i ~

Scanned by CamScanner
monstrar. M s a imaginação, senhora dos erros, filos6fico é tlpicamente romântico no sentido em que
am1ude a êle se substitui e nos engoda.
n6s o definimos. Ela deprecia os valores intelecturus
Todo nosso roc1ocín10 se reduz o ceder ao sentimento (o em proveito dos valores vitais, denunciando o jôgo
coração). Mas o fantasia (o imaginação) é semelhante e contrória· onipotente dos primeiros sob o refulgir sublimado dos
o nt1mento, de sorte que não se pode distinguir entre êstes , segundos. Ela institui uma espécie de pansexualismo
c;ontrórios Um diz que meu sentimento é fantasia, o outro que descobrindo o movimento da libido na origem de tô-
sua fantasio é sentimento. Mister serio dispor de uma regra.
A rm:ão se oferece, mas elo é flexível em todos os sentidos. Não das as nossas construções sentimentais ou intelectuais.
há regra, pois ( 1>. ' Trata-se, é verdade, não de uma declaração aos direi-
tos da sexualidade - como está presente na obra
O p oblema de um conhecimento certo está assim de um D. H . Lawrence, de um H. Miller - mas da
e t re v do pelo mais penetrante, pelo verificação de um fato. E o pansexualismo freudiano
oso de todos aquêles que representam por não pode ser senão de segundo grau, por assim dizer,
aspecto a a · ude romântica. Sem que nos um I pansexualismo de esteta. A psicanálise insiste I
coiastraJ1ja a ab açar seu partido, êste romantismo crl- além disto, no papel cultural primordial do sim.bolo
tieo pode mwto be nos esclarecer, como vemos, sôbre e do mito. Favorece, enfim, uma concepção do verbo
:tea e o sentido da pr6pria razão. curador. Seria interessante comparar então a influ-
ência da psicanálise sôbre -uma civilização de forte es-
trutura intelectual como a francesa, e sôbre uma civili-
zação essencialmente técnica, de base puritana, como

v:.
a dos Estados Unidos. Verificarlamos que o freudismo
e a espécie de romantismo que êle envolve quase JJio
teve influência na França, entre as wc::rs gue:rras a
não ser sôbre a criação arlistica, sem tocar
:.deirame.n.te a mentalidad.e coletivcx .Nos. Est.~!!!SW··'i!Hl!'l'll
__....._dos,, ao co;otró;riô, Pode-~ dizer:
~~~1U DS çp.s NéiP ~~~~~·~
~~i~-~~~~~-~--

Scanned by CamScanner
as Í~ntes da poesia, mas ainda para resolver os pnn
:1pais problemas da vida. Eis como Bréton defme
reconhecidos, por outro lado, êle está por tôda parte, este método no Primeiro manifesto do surrealismo
sôhr.e o menor reclame, sôbre as gravuras das efe- (1924):
mépdes, nos desfiles e procissões. Curioso aspecto de
uma sorte de romantismo conduzindo q1 · 'lSe a umà . Automatismo J'.>SÍquico p~ro pelo quol se propõe exprimir
eKCillaçã.a ritual, que é bem o contrário de .Jla tomada se1a v~rbalmente, seio por escrito, seja de qualquer outro maneiro,
da J.DQSSe racional do objeto de nossos terrores e de o ~nc~onomento reol do. pensamento. Ditado do pensamento no
ausenc10 9e todo. controle exercido pelo razão, foro de t&fa
nnssos:. desejos. preocupoçoo estético ou moral... Tende a orruinor definitiva-
mente todos os outros mecanismos psíquicos e substituir se o iles
29) O flamejar surrealista no re:;olução dos principais problemas do vida.

Originado de um movimento de revolta contra o Não é de duvidar que o surrealismo expnme


cutfo farismco dos valores burgueses em literatura, o uma reação explosiva contra uma forma falsificada
smrealismo é impehdo novamente pelo tédio das da razão. Seu furor iconoclasta se volta contra uma
pavens gerações ao sair da primeira guerra mundial. sociedade mal edificada que impudentemente invoca
t!te eldge na arte uma volta à espontaneidade, ao o•apoio da razão e da inteligência. Em certo sentido
~jlllllmlialt.o, ao inconsciente ( 1) . evoca portanto, não em sua intenção, mas no tato
um apêlo a uma razão mais eficaz, p&to que viva.
Veremos como a ciência contemporânea põde .res-
ponder a esta invocação furiosa

Scanned by CamScanner
filósofos da existência, uma teoria da ciê a e, por
Sem duvida, o ex1stenc1ahsmo se engiu como
conseguinte, urna filosofia da razão.
doutrina muito antes de se tornar uma moda hlosóhca
Descobnr lhe antepassados é um jôgo fácil, e pode-se Mas podemos caracterizar ainda o existenc1ahsmo
dizer que o existencialismo é, com efeito, um dos modos como metafísica do inacabado. O A6yoç dos gregos
de pensamento permanente na história da filosofia. inaugurava na história do pensamento a noção de
Não é menos significativo para êle, no entanto, que delimitação, de precisão, de análise dos co eitos A
a tomada de consciência de seu alcance, de sua auto- cada realidade, sua natureza, sua essência, que a in-
noIIlla doutrinal, e a extensão de seu êxito a um audi- teligência deve apreender. O fato de existir híc et
tono popular, se situem precisamente em nossa época nunc para os sêres é apenas secundário à sua natu-
t sobretudo neste sentido particular que nos aparece reza, nada mais faz do que cunhar sua essência Os
como um dos episódios do diálogo entre o irracio- existencialismos acentuam, ao contrário, o fato de
alismo e a razão existir.
Podemos contentar-nos, dêste ponto de vista, com Hó pelo menos um ser, diz Sartre, no qual a exrstêncra
cara t rizá lo sumànamente como uma metafísica da precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido
emoção Substituindo as experiências intelectuais dos por algum conceito.
filtlllOfOll por experiências essencialmente afetivas, os
aistencialismos tomam como ponto de enraizamento
emCJÇD"9 cxmsideradas fundamentais, como a angústia.
qu.e falta à nossa época, dizia extravagantemente
Mr'Jii!raaáld. pm yolta de 1830, não é a reflexão, mas
~ e a pabdio seriam mais reve-
IDSJldlil do que o pensamento e a inteli-
aio adste, é a angústia do ser
.,._ ~.. ao qual Jhe é preciso dar
••~8 ~ existe, é o terror do
~P.iGt do ser ª'1perleito

Scanned by CamScanner
autor de O Ser e o Nada chama a "paixão do homem,
que se perde enquanto homem para que Deus nasça.
Mas a idéia de Deus é contraditória e nós nos perdemos
em vão; o homem é uma paixão inútil".
Tal é o aspecto mais desesperado e mais niilista
do existencialismo sartriano. É justo dizer que êle
não esgota de maneira nenhuma o conteúdo desta
atitude, e que outros aspectos, no próprio Sartre, fa-
zem dêle uma doutrina de ação e de cooperação entre
os homens ( l). Mas sempre, talvez, de maneira equi-
vocada, na medida precisamente em que se encontra
ai desqualificado metaflsicamente o pensamento ra-
c10nal.
Percebemos agora a que se opõe a razão. tste
clichê negativo era necessário para destacar a posição
concreta do pensamento racional no seio de uma cul-
tura multiforme e sempre em trabalho. Começar por
uma descrição da atividade racional na ciência teria
sido fechar os olhos para a condição secular da razão.
Afastada esta falsa óptica, apresentaremos agora o
aspecto mais "clerical" do pensamento racional, que
é seu uso cientifico.

Scanned by CamScanner
da natureza de seu obJeto Ora, a história da ciéncia Estranho razão, portanto, que se hm to o apreender esquema
quase sombras de pensamento. . . Não é duvidoso, no entonto
mostra ~e .esta presunção tão naturcl e ião simples, que esta lógico formal não represente uma dos faces do razão.
na ~parencia, tomada ao pé da letra, é votada ao Os desenvolvimentos medievais do escolostica deram-lhe um as-
malogro. t que uma anóhse formal do pensamento pecto particularmente ort1f1ciol reborbotivo, mult1plicondo-lhe os
racional s6 tem sentido se aí distinguirmos diferentes fórmulas e os nomes. Mos nõo está oi simplesmente uma mon1-
festoção dessa tendência mágico-mítico que invade paradoxalmente
n1veis que tentaremos separar. o pensamento ;acional até no exposição de suas formos' Os
modos e os figuras do silogismo, os regras que governam suo
construção constituem quase uma Cobaio, um formulário mágico,
O nível combinatório da razão formal uma ciência misterioso reservado aos iniciados.
t bem verdade que existem esquemas de racio- Despojemo-lo, em poucos palavras, de seu mistério, e tent:-
mos apreender-lhe o exato alcance. Vê-se bem que o 1dé10-mae
clnio nos qucns sendo postas certas proposições outras do silogismo é o possogem necessária de um sistema de premissas,
seguem-se delas ne:essàriamente: a razão nos obriga ou dados, o uma conclusão. Mos esta necessidade_ é obtida
a aceitar as conclusoes de um silogismo se admitirmos por meio de um esquema muito especial. duas propos1çoes servem
suas premissas. Examinemos êste gênero de encadea- de premissa, uma único é concluído; além disso, três ob1etas
de pensamento, ou têrmos, sõo postos em jôgo, e apenas três.
mento de mais perto. São êstes, no exemplo de Port-Royol: Ser mau, ser numa grande
fortuna, ser miserável. Do arranjo dêstes três têrmos nas três
De inicia tomemo de empréstimo à Lógica de Port-Roya l ( 1) proposições depende suo virtude demonstrativo. Vemos, de resta,
um exemplo de silogismo: que um dentre êles desempenha o papel de instrumento de
*'H6 maus ~ fazem as maiores fortunas." mediação: êle desapareceu da conclusão. O têrmo médio é aqui
ser mau. Dos dois outros, o que aparece no segundo premissa
"'Todas .os maus são miseráveis." deve ser sujeito do conclusão. Concebe-se que uma closs1f1cação
'"El6, pois~ mlseníveis, nas maiores fortunas."
sistemática dos silogismos posso ser feito segundo o papel exata
desempenhado por êste têrmo médio e pela forma das proposições.
No exemplo escolhido, o médio é sujetto dos duas premissas, e o
primeira dentre elas é uma afirmativa particular lAlt-
maus .•• ), assim como a conclusão, enquanto que a segunda
premissa é afirmativo universal (Todos os maua .•• )(1 ).
Mos quando tivermos inventariado, assim, t6dos as combi-
nações posslvels de três firmas em três proposições, verificaremos
que apenas alguns esquemas - dezenove em duzentos e cin-
qüenta • seis - levam à convicç&>. Um silogismo como o
seguinte:

Scanned by CamScanner
' Alguns maus soo m1scróve1s "
"Todo ser miserável é lost1móvel." O desenho do figuro l esquematizará, portanto, os duo premi
"Todos que são lost1móve1s são maus." de nosso silogismo.
Uma simples interpretação do grof1co nos fornece el'lt
não a\ conclud~nte. não podemos dizer que a terceiro proposição, nosso conclusão. Existe uma porte comum à classe dos m1serove1s
mesmo que fosse verdodeiro, decorro dos duo5 precedentes ( l ). e à dos afortunados, que é pelo menos 1guol à inters~çoo do
Deve pois haver regras poro discernir os silogismos concludentes classe dos afortunados com a dos maus. A virtude do silogismo
daqueles que não o sõo, e estas regras devem ser os mesmos encontro se portanto aqui reduzido à leíturo 111tu1t1va de um
que definem o pensamento roc1onol. Estas regras existem, é diagramo convenientemente construído. Ver-se-á, do mesma ma-
verdade, e encontrá-las-emos enunciados em todos os trotados de neiro, no figura 2, que o silogismo da página precedente nodo
16gaco, mas elas decepc1onarõo o leitor, quer por seu c:mteúdo demonstro, pôsto que é possível representar os premissas sem
demas1adamente particular, quer por seu caráter enigmático (2). fazer aparecer o conclusão adiantado.
A razão vista através dos regras do silogismo é Paris vista do Mos o exame atento do figuro 1 nos ensino ainda mais
resp redouro de um porão. Tentemos entretanto, a propósito de
nosso exemplo, penetrar o mecanismo demonstrativo do silogismo. O silogismo de Port-Royol conclui simplesmente o ex1stênc1a de
maus afortunados Ora, a inspecção do grofico nos mostro que
Cada proposição cons stando em afirmar - ou em negar - esta proposição e somente o conclusão minimale que e pode
f11tJe uma classe de and1vi duas coincido com uma outra classe
total ou parctolmente, é natural e cômodo representá-lo pelo füor dos premissas com certeza Diversas d1spos1çães port1culores
r"alll!rislNIO -obaaxo. Um circulo (3) simbolizará uma classe de indi- dos três círculos, tôdas compatíveis com o enunciado dos premas os,
permitem precisar mais ainda o situação relativo dos tr6s classe ,
isto é, dos três conceitos Leremos, por exemplo, no coso da
figuro adotada, que existem miseróveis afortunados que não soo,
absolutamente, maus; é posslvet- cindo que todos os afortunados
sejam miseróve1s ou que s6 os afortunados maus sejam mise-
ráveis (Cf. fig. 3).

Scanned by CamScanner
nalmente uma comb nal6ria. Não se àeve concluir Considerando duas proposições p e q, é possível entõo enu-
meror tôdos os situoçõe<; concebíveis que nascem de suo combino
dai que as nom:: :::s de razão que governa:n o silcgismo çõo: p verdadeiro e q falso; p falso e q verdadeiro etc Encon-
sejam simplesm nte leis do mundo sensível: digamos tramos quatro casos:
sõmente que o pensamento racional é, de inicio, a
p q
esquematização e ma experiência referente a objetos
mu to pobres de conteúdo que são aqui "classes" ou V V
con1unto. No n'vel em que nos colocamos, a razão V F
conslSte em combinar êstes objetos segundo certas F V
regras, ela se man·festa finalmente como um cálculo, F F
a combmat6r a Outrossim, a silogística não apa- Se concordarmos em dizer que cada uma destas situações,
rece senãc como uma das formas par cubres dêste elo me:_mo, define uma novo proposição complexo referente ao
culo 1 ada, de maneira no fundo arbitrária, à es- por p, q elos são suscct1\iC1 , então, de serem verdadeiros au
a de trAs ob e os combmados dois a deis. t uma falsos Por exemplo, o eventualidade: p fal so, q verdadeiro pode
ser verC::odeiro, enquanto que a eventualidade: p verdadeiro, q
es e e de arte poét ca muito formalista, e os silogismos falso se ia falso. . . A escolha de um valor de verdade ou de
&ao poemas de forma fixa. De fato, é evidente que falsidade poro cada uma das situações determina uma certa
pensamos as mms das vêzes "em prosa", e que uma ligação entre os duas proposições primitivas. Assim é que a
v}l&IÚJ.Cl formal geral deve iluminar as normas de tôdas escolha seguinte:
:mm.Dinações de conceitos, fora dos modelos estri- p q
.fixadas do silogismo.
V V V
V F t=
F
F
V
F li F
F

Scanned by CamScanner
( l ) não p ou q
(2 ) p - q
A ligação ou é oqu1, como vemos, uma oltemot1vo não Demonstra-se fàcalmente suo equivalência pelo simples exaus-
exclusiva (o vel lot1_noH 1), quanto à ligação "se, então" elo tão de tôdos os situações possíveis. t suficiente encontrar os
recobre quase a 1dé10 complexa de implicação de foto entre valores do expressão composta poro todos os valores possíveis
duas proposições, mas sem, de maneiro nenhuma envolver a
noção de uma 1ust1f1coção do elo que os junto: trot~-se sómente
dos constituintes p e q; percebemos que o valor resultante de
<l) e de (2) determinado pelos quadros precedente o mesmo.
do desc:nçãa de um foto ou, mais exatamente, de uma série
de fatos possíveis As proposições p e q são tais que nunca
se tem p verdadeiro sem que q o seia também· de outro lodo
ambas podem, perfeitamente, ser falsas ' '
p q 1 Não p Não p ou q
li p -+ q

De maneiro geral, possuímos aqui umo deKrição das li 1 V V


formas do pensamento lógico, sem que apareçam ainda regras
• raaodn10 um calculo ~ste cálculo se introduz fàcrlmente
V
V
V
F li ~ 1 F
V
F
V

li ~
F V V
S suf ccente def1n r uma equ1valênc1a entre proposições: é uma F V
F
ckls dezesseis hgoções ja anunciadas: 11 11

q p equiva lente a q
p

V V
F F
V F
F V

Scanned by CamScanner
A se runda p::xrte do rac1oc1mo, que deve cont a
Para mostrar num coniunto u complexidade do
balançar o dos Jesuítas, formula-se então de maneira
rac1ocímo vivo, tentaremos analisar, neste espirita, um
texto simples e curto àas Provinciais. Pascal fala nêle simétrica·
dos jesuitas e do afrouxamento de sua doutrina: 3x (x z não a) - nilo (x) (x é a)
(x) (x ~ a) ~ não 3x (x a não a)
Pensais muito fazer em seu favor, mostrando que éles
tlm, entre êles, Podres tão conformes às máximos evongéhcos O nervo da demonstração é fácil de ser desco-
quanto os outros lhes são contrários; e doí concluís que e-rotos
opiniões largos não pertencem o tôdo sociedade. Eu o sei bem, berto: tudo decorre da definição do todos e do alguns,
pois se assim fôsse, êles não suportoriom que o elos fô:;.sem que é aqui suposta. Chamando A (x} uma proposição
tão contrór1os. Mos porque os há também que admitem umo onde .\j entra como suieito ( l) põe-se impllc1tamente
doutrino tão licenc1oso, doí concluís do mesmo mone1ro que o
espfrlto do sociedade não é o do severidade cristã; pois se a~sim 3x (A (x)) equirnle a: não (x) (não A (.r))
f6sse, êles não suportariam que o elo fôssem tão opostos (sexto
e (x) A (x) equhale a: não 3x (não A (x)) (2)
Carta Provincial>
Entrevemos a necessidade de um cólculo do todos e
do alguns, equivalente, de resto, à combmat6n~ das
classes, de que tratamos micialmente. A .razao se
exprime assim pela observância de regras simples,
finalmente redutíveis a enumerações exaustivas de
situações poss1ve1s Mas, não poderíamos ir mais
longe e trazer à luz alguns princ1p1os priJaejrQa de
todo cálculo? Existem, em última análise, ~­
elementares governando e onentcmdP o oálmdo d~
cional?

Scanned by CamScanner
O nível lmgüistico objeto de pensamento. Esta regra de interpretação
da linguagem é evidentemente um dos fundamentos
A ambição dos filósofos sempre foi reduzir a razão
do simbolismo, pôsto que os signos, enquanto obJe-
a princlpios Mas o exame destas proposições primiti-
tos materiais, variam sempre mais ou menos de uma
va fàcilmente nos revela sua ambiguidade. ocorrência a outra, não satisfazem em si mesmos ao
Seja o prmclpio de identidade, que se enuncia principio de identidade; o princípio de permanência
freqüentemente sob a forma : A é A e que no Sofista de designação funda então imp1lcitamente seu valor
Ratão formulava: O Ser é. Para quem o considera como signos. Poder-se-ia juntar, de resto, a êste prm
como uma regra de pensamento, êle apresenta de dpio, um princípio de substituição dos equivalentes,
fato um duplo sentido. Metafísico em primeiro lugar. que desempenha um papel capital no decorrer dos
:a saber, que a realidade, enquanto tal, é imutável. cálculos lógicos. Num raciocínio, duas proposições de
Na medida em que esta lâmpada, esta mesa são sêres que se mostrou a equivalência de um certo ponto de
reaul elas são apenas o que são. É enunciar um vista (por exemplo, no cálculo elementar das propo-
.PQ.BtUlado de permanência e de imobilismo universais, sições, será a equivalência precedentemente dehnida),
se pode naturalmente temperar acrescentando são de direito intercambiáveis. E poder-se-ia levar
as aparências do Ser, os fenômenos ( 1), são mu- mais longe a pesquisa das especificações do principio
:J)al vem que esta lâmpada se embacia, que
f)lja.és!CX muda de côr. Mas seria neste sentido
de identidade.
:f1Ue ae deve tomar êste principio, se qui- Passemos antes a um segundo principio clássico
~ uma das expressões do pensamento do pensamento racional, o principio do terceiro ex-
'8Jblllénte não, polS sua afirmação é con- cI_u.ído: um objeto é ou não é, não há terceira possi-
m~tte!! contestada no curso da his- bilidade. Em seu sentido metafisico, o terceiro excluldo
gn,qr-.se a emprestar-lh9 um exprime uma rejeição das gradações do Ser Cons-
~m mais eficaz, que titui, pois, um compromisso filos6fico na mesma dire\iia
• 'O J)liilc:lpio de tden- que o principio de identidade. me pode da m~
~~~ç;ão deve maneira ser expulso pela apresen~o dCla ~~
~ discUJ:BQ
~~I· doa .~'4io Se!!.. ~. ~UIP.··~~~~lúi~tl

Scanned by CamScanner
de· o (1 ) . Mas a validade do esquema àeoende da primeiro armadilho do linguagem A razão cor.si te oqu
ace tação do prmcípio Outrossim, alguns matemáticos policiar esta linguagem, tornando 1mpossíve1s tais enunciados
Formular-se-ó, por exemplo, a regro seguinte· é pro1b1do que
cuidaram de recusar tôda demonstração d·;:.ste tipo um juízo se tome o s1 mesmo como ob1eto. Ne,,tos condições
como msufic1entemente fundada (2). Pode-se, de resto, o proposição: eu minto, é inoce1tóvel, pôsto que afirmo uma
construir mecanismos de r ..iocínio que admitem um propriedade que se refere o seu próprio enunoodo.
Eis o outro exemplo. Consideremos catalogas de b1bhotecos,
terceuo valor. Considerar-"'e-á, por exemplo, que uma o respeito dos quais suporemos que não se mencionam o si mesmos.
proposição pode ser verdadeira, falsa ou "absurda", Queremos acrescentar-lhes um catálogo geral que os mencione a
JSto 6 que sua negação seja verdadeira; ou ainda todos. Deverá êle mencionar-se o s1 mesmo? Coso o fizer, não
que uma proposição é quer verdadeira, quer falsa, quer mais corresponderá à defm1ção adotado poro os catálogos; é pre-
-""'"t"\vmr,el" Falamos então a linguagem da "rnoda- ciso pois que êle não se mencíone a bsolutamente Mos se não
se menciono a si mesmo, torno-se membro do série, e convém
llclacte·' q e é, de algum modo, um filt:o mais ímo que seio incluído... É pois impossível construir sem incoerência
e a linguagem de dois valores, pa:=-a decompor êste catalogo de todos os catálogos que não se mencionam o s1
nê Cla mas também um instrumento de demons- mesmos. Ainda aqui, é mister pol1cíor a linguagem; o razão con-
menos poderoso, menos decisivo. siste em impedir de funcionar no vazio, de levar ao absurdo o
uso de seus processos de construção legítimos.
pois, desta exposição dos dois princípios
da rm.ão formal, que êles são, em primeiro Podemos pois dizer que êste pensamento racional,
ii"'llg!!DB lmgillsticas e que êste aspecto da razão tão freqüentemente acusado de formalismo verbal, é
i111NliD :mmUpular correl'amente uma linguagem. antes uma função reguladora e dominadora da lin-
~va que compreenderemos melhor a guagem; é uma fonte da linguagem coerente, mas
-àe .alguns paradoxos lógicas cuja origem não se confunde de maneira alguma com mecanismos
àda a Eubúlido de Mileto, filósofo lingüisticos inteiramente montados. tle é, veremoa,
m antes de nossa era, e para os a função que mantém o contacto entre a linguagem
-o dos matemáticos e dos ló- e a experiência.
~ eu;mplos nos

Scanned by CamScanner
te ne,..essar s, a partir das quais, por meio de
regra de demonstração precisa, e por assim dizer tafísi .J, como costumamos entendê-lo, a resposta é
ir.e anca, possam s extrair todos os esquemas válidos negativa. Podemos mostrar com. efeito que é fácil
de encadeamentos rigorosos. Estas condições serão de encontrar vários sistemas de moamas equivalente~,
inicio regras de construção de expressão formais do a que tôda arquitetura proporcional pode ser cons1-
cál o, depois proposições primitivas, elas próprias derad'1 ora como um prmcipio, ora como um teorema
expressas nesta lmguagem Chamamos geralmente ' suscc. ~el de demonstração em um sistema. de moa-
CJZJoma.s estas proposiçoes tomadas como i:xmto de mas convenientemente escolhido. De maneira que a
partida e assumidas sem demonstração. São, de algum axiomática do pensamento racional não é absoluta,
modo, os pontos fixos de todo raciocínio estruturado, mas relativa.
que se substituem aos antigos "prmc'pios" da razão. A obra da razão formal se apresenta, pois, final-
~ deram naturalmente teclo valor metafisico, não têm mente, como 0 esbôço de um sistema cujos elementos
stif1cação além de sua propriedade de bastar principais seriam
dem nstrar todos os esquemas de ra::;iocínios }9 Regras de construção da linguagem _formali-
mtJctu1de tes 1). Não poderiamas extrair daí r:enhuma zada, constituindo uma espécie de smtaxe 16g1ca,
verdadeira dos obJetos da experiência, mas
a certeza de que as manipulações e!etuadas 29 Regras de dedução ( 1), ou passagem demons-
-~PJ:~lil·~-)es que têm conteúdo serão coerentes. trativa de uma proposi.ciio a outra;
39 Axiomas ou proposições primitivas.
O critério de validade de um tal SJStema é a un-
possibilidade de demonstrar ai, ao ~esmo tempo, ~
proposi~o qualquer e sua negaçao t a e~
formal de um terceiro princ{pio clássioo da nmm e
!
principio de não-contradi~o Mas, se relcil:tiYC!JjlD8Dte
muito fácil assegurar-se por enumeraçoes ~as,
recorrêilcias sun~ {2) e consf.($:1~ imAKW!ltfll!J~

Scanned by CamScanner
um mecanismo sem programa. ~eu funcionamento
zirmos na hnauagem formal as noçoes da aritmética, no vazio não poderia nos proporcionar o sentido da
isto é, a idé a tão familiar de uma série infinita de atividade racional, e justifica os ataques de que é
números inteiros. O pensamento racional, procurando . t É na obra do conhecimento científico, enquanto
o b Je o. - lab - d
então 1ustificar-se a si mesmo, é impotente para fazê-lo instrumento de transformaçao, de e oraç~o . a
por outra forma que não uma petição de principio, ·e"nci·a que a razão encontra sua verdadeira sig-
fazendo uso das regras de demonstração do mesmo expen
·f· - ,É aí que nos é necessár"io, agora, t entar
m icaçao.
tema cuja validade é preciso demonstrar. Todos apreendê-la.
cs esforços dedicados até hoje, pelos lógicos, para *
superar a d ficuldade de uma certa maneira não * *
podem fazer esquecer a existência dessa espécie
de limite r.atural que encontra o pensamento demons- O projeto do conhecimento cientifico é o de se
trattvo propor 0 conhecimento, e eve_:itualmente a tomada de
Se considerarmos o conjunto das pesquisas lógicas posse, de um objeto. tle nao é um sa~er de pura
•.U!ftuadas neste sentido, perceberemos que constituem forma. As próprias matemáticas,. na med1~a em que
1Sltativa para. reduzir o pensamento racional às não se confundem com o exerdc10 da lógica formal,
•rcii5..Y:is .de uma móquina; não, sem dúvida, inteira- constroem um objeto que enriquecem constantemente
~ª clássico da palavra máquina, mas. e cujas propriedade:::: revelam. Se a razão é â função
-~rgLllarmente mais rico que revela a téc- operante na elaboração das ciências, que poderiam.os
la. ªcérebros eletrônicos" (1), capazes concluir de sua história, de seus êxitos, de suas vicis-
~- e .re,sultados em uma "memória", situdes?
IQJlllíii- • maformes a um programa pre-
iilm!~n'a sérle de signos. t licito A fi.rista da razão cientffiat:1
wollbo de Raimundo Lúlio (2),
siêulo XVII, por Stanley
J~;ij"QOl:I mader-
~ ~-

Scanned by CamScanner
negativo), de quantidade (particular ou un v s
poder clossificor os diferentes maneiras pelos quais podemos des- expressa ou não uma relação a outros 1uizos (c t
crever um objeto. Enumero assim ora oito, oro dez categorias: rico ou hipotético); é afetado de uma modalidade
o essência, o quantidade, o qualidade, a relação, o lugar, o (enuncia um fato ou urna necessidade) (1) Tôdo a
tempo, o situação, o ~stado, o ação, a paixão. Troto-se como
vemos, de uma espécie de protocolo de descrição dos sêre~ e dos anatomia do entendimento se constrói sôbre esta qu6-
coisos, fornecendo, como num formul6rio todo preparado os drupla consideração. Os princípios a priori que de
grandes linhos do invest1goção roc1onol de um objeto. Tôdo ~iên­ vemos ler em hhgrana em tóda posição de uma 1 i
c10 se moldaria, portanto, nesta formo prévio. Qual o suo cientifica, em tôda descrição precisa de um fenômeno
ongem' Sucintamente esboçado, o teoria aristotélico do conheci-
mento se reduz o uma explicação do passagem dos dados sensíveis vêm preencher os quatro compartimentos das cate-
às idéias, em três etapas: gorias. O gôsto da sunetna e das divisões escolásticas
1° A apreensão dos qualidades senslveis individuais; é muito vivo em Kant, que ergue uma imagem siste-
2° A percepção dos "sensiveis comuns", espécie de esque- matizada da razão cientifica. O modêlo que tem d ante
mas sintetizam o exercido de vários sentidos, como o mo- de si é a geometria clássica e a fis1ca newtoruana, inter-
pretadas como prolongamentos imediatos da percepção
e da expenência usual Resulta dai que o esq ma
kantiano da razão cientifica constltui uma espécie de
instantâneo fotográfico de um estado do conhecunento
que não tardaria a ser ultrapassado sabre um ponto
essenaal, a evolu9áo cantempor&lea das ciênC108
desmente de maneua lormal a teona kantiana lt o
. . . .~ias -ralCJ9Óe8 entre a fisionmnia o mundo 88DBlval
rr,dtU'DEIClQa l)ela ~ e a comrtruc;ao ci811t1Bca de
~ ldmau b largm medlcia

Scanned by CamScanner
gem familia- s não pe: sar em partículas de ma- filosófico não seguem imediatamente os do conheci-
téna md1vidual zadas, dotadas de uma forma e de mento cientHico, que o pnmeiro deve, como mISsão
um movimento debmdcs, d1scerniveis entre si, por essencial, refletir.
pequenos que se)am suas supostas · dimensões Ora, Vemcc; o quanto a idéia de um p-ogresso da
não mais é pernut do ao Us1co conceber o elétron rozão, no duplo plano da construção intelectual e da
desta maneira, sem contradizer-se. Nestas condições, reflexão, é aqui fundamental. Todavia, éstes progres-
não é malS um objeto, no sentido usual do têrmo, scs da razão são então julgados em função de um
que a c ência marupula Conscientemente ou não, ideal determinado que restringe muito o alcance filo-
ela eve q e r nevar seus conceitos e a hlStória das s6hco, e por vêzes altera a perspectiva hIStónca, da
as nstra uma evolução da razão doutnna Tudo converge, para Léon Brunschvicg, em
direção de um ideallSmo matemático, tudo se desdobra
As metamo foses da razão a seus olhos em bons e maus elementos na história
do pensamento· são bons, naturalmente, aquêles que
contribuem para uma visão idealista ( 1) do universo.
A marcha progressiva da razão deve demonstrar que
o obJeto do conhecimento resolve-se finalmente em
relações do tipo matemótico, que constituem o que hó
de réal em t&:km as coUICIB. Esta filosofia, 1ão atenta
aos movimentos mms matimàoa da mtelig8naia oirgcs-
dmdora dClá tdlkm, d11ma ascapar :qume comp)ata-
• •auta ~~-~·
~ hfllti§dít

Scanned by CamScanner
A obra de G. Bachelard, ainda que se inscreva portanto, aqui, uma espécie de idealismo operat6no,
em um quadro idealista que prolonga e torna mais uma doutrina da colaboração com as coisas CUJO
sutil o quadro brunschvicgiano, restitui, aos obstáculos presença não é mais possível exorcizar. A ciência é
de todo tipo com os quais se choca a razão, seu ver- trabalho e não pura especulação; a razão cientlhca
dadeiro papel e seu verdadeiro .tlor. O ponto de é uma inteligência labonosa.
partida é aqui uma psicanálise do pensamento objetivo, Em última análise, o ponto de culminação de G.
Bachelard é uma filosofia do materialismo técnico e
isto é, o esclarecimento dos preconceitos, dos arcaís-
mos, dos desejos inconscientes de um pensamento do racionalismo aplicado.
que, na própria operação do pensamento cientifico, O pensamento contemporâneo considera, pois, a
não se reduz a uma pura inteligência matematizante. razão como um movimento construtivo e não um sis-
Bachelard mostra como estão presentes no pensamento tema de prindpios
racional as diversas tendências de uma filosofia in-
gênua, e como a história de um conceito, o de massa
ou tôrça, revela as progressivas conquistas do racio-
nalismo.

Scanned by CamScanner
que tonto mais vos agradará, escreve êlc o Carcavi, quanto mais nestes dominios, da criação miraculosa e espontânea
é ele universal, pois serve igualmente para encontrar os centros ex mhilo, de uma concepção totalmente nova Francis
de gravidade de planos, sólidos, superfícies curvas e linhos
curvas.
Bacon (1561-1626) e Descartes (1596-1650), Galileu
(1564-1642) e Newton (1642-1727) não dentaram de
De uma maneira geral, hó problema quando apa- ter precursores Uns e outros, no entanto, a titulos
rece no sistema existente de sêres matemáticos um fato diversos, deram uma vida própria a um conjunto de
aparentemente irredutível, uma propriedade que sofre 1dé1as que tomaram eficazes.
exceções indesejáveis; uma desordem qualquer enfim. Sabe-se que Galileu é o iniciador de uma ciência
Riemann ( 1) define com precisão a integral de uma mecânica fundada na exper1ênc1a e desenvolvida sob
função; percebe-se que, aos têrmos de sua definição, uma forma matemática
certas funções não podem ser mtegradas, inventam-se
polS muitas outras concepções de integração, das quais
A filosofia, diz ele, - entendo-se o c1~nc:10 do natureza -
a primeira concepção nada mais é que uma espécie, é escrito neste grande hvro que estó constantemente aberto a
até que a operação assim definida tenha tôda a nossos olhos Quero d zer, o universo Mos fie não pode ser
generalidade dese1ada: rusto conslSte a aspiração e o compreendido sem que antes se aprendam a Hngua e os caracteres
moVJID.ento da razão Pode-se portanto, dizer que o nos quaas Ale foi escrito Foi escrito em língua ma"""6tlca e
os caracteres são os tri4ngulos,..drculos e outras figuras geem6-
conllecimenlo matemático consiste em inventar estru- tricas sem os quais 6 humanamente hnposslvel c:omprHnder dite
~-~" ,,em definir operações que façam aparecer uma uma a6 palavra (li S...llllOl'e)
~~~ ~OJi em wn CODJWltG> de fatos J.emxd.oa por
lillilil~~--·At'""da tmltma dantifüw,

Scanned by CamScanner
É verdade qu se cncontrorio em Arquimedes o efetuação
de um 1dcol roc1onol muito mais próximo do de Galileu do que conj~nto dos movimentos dos corpos siderais O esquema de co-
do de Aristóteles Arquimedes (287-212 o. A) é sem dúvida o nhecimento que a razão newtoniano se propõe como id ai é
fundador do mecânico clássico enquanto teoria dos equilíbrios, c~arom.ente esboçado no Prefácio cios Princípios MatemátiC::. do
estabelecido pelo experiência e pelo calculo. Mos o novidade F.1losof.•a Natural Cl 686): "Tôdo d1f1culdode da filosofia _
dos sob1os do século XVI 11 manifesto-se, de um lodo, em suo f1loso~1a natur~I, isto é, a clência física - parece consistir e~
abordagem do pro mo do movimento e, de outro, no alarga- pesquisar os forças da natureza a partir dos fenômenos de movi-
mento cósmico da ecônica racional. O mais moderno de todos mentos,. depoi~~ a par:ti~ destas fôr~as, em demonstrar 0 resto
os esp(ritos da Ant1gu1dode, o próprio Arquimedes, parece con- ?,o~ fen,~menos ·. A h1potese do razoo é, pois, aqui, que existem
formar se com os preconceitos helênicos, segundo os quais o .~orç:'s not~ro1s que se manifestam nas leis da movimento. A
repouso, a 1mob1hdade, o equilíbrio é uma perfeição maior do c1enc10 pesquisa estas leis numericamente exprimíveis, .e as cor-
que o movunento t evidente, para o Antigo, que a perfeição roboro_ explico~do o partir delas todos os outros fenômenos A
rac onal só pode encontrar-se no equilíbrio, a rigor, no movi- omb1ç~o do físico estende-se oqu1 ao conjunto da natureza: todos
mento uniforme c1rculor, que é um eterno retõmo. Estranho as feno?1:nos ~evem encontrar uma explicação racional no sentido
convenção da razão que Galileu teve o mérito extraordinário do meconico. Partindo destas fôrças, por proporções matem6t cas
de romper Estudará o movimento e o movimento não uniforme, deduzem-se os movimentos dos plonêtas dos cometas da lua ~
o movimento aparentemente 1rrac1onol de um corpo que cai ou do mor. Prazo aos céus que os outro; fen&nenos ~ natureza
desl za s6bre um plano mchnodo Para isso mtroduz1ró, um possam ser derivados de princípios mecânicos por um roclocfnlo
dGs primeiros na história das ciências fisicas, uma lei matemática on~logo Pois eu tenho algumas razões de supor que todos po-
. - não seja apenas hnear (1 ). IS a lei da queda dos corpos ou deriam bem depender de certos f6rços pelas quais as partfculas
• ~to UQiformemente a celerado: ~s corpos, segundo causas ainda desconhecidas, ou se atraem
mutuamente e se agrupam em figuras regulares, ou, ClO c:t>:ntróraa,
•= 1/2 . ts se repelem e se ~~ ~ da outra ~ a lgnor&1da ~
f6rgas qó'e faz com que, otf o presente, os -f{I~ fWJbaifi
-~ll@.dirKll ~ -.., .paJêf abcinéb10 êlii in.te~do em V&'c> a QAtul'e.m JI CPrilld....,.

Scanned by CamScanner
-emos, aqui, o destacar, sucinto e muito brutalmente, o seu
alcance filosófico, sem querer d1ssimulor-lhc, no entonto, o com-
traços de uma nova revolução do espinto científico, plexidade e o ombivolênc10. Tudo se iniciou quando Planck
resumamos brevemente o ideal de racionalidade descobriu, em 1900, o caráter descontínuo dos trocos de energia
irradiante. Tal foto controdiz10 a teoria ondulatório do luz, que
newtoniano· era então clássico. Desde 1905, Einstein propõe retomar uma
19 As leis da física são essencialmente de natu- concepção outrora adm1t1do: a luz propagar-se-ia por "grãos", ou
reza mecâmca, isto é, dizem respeito a relações de fótons, transportando a menor fração de energia que possa apa-
fôrças que agem sôbre corpos dotados de figura, massa recer nos trocos. Mos não deixo de ser verdade que o teoria
ondulatório permanece a chove de um grande número de fenô-
e grandeza. menos. O problema que se formulo aos flsicos, por volto de
29 O espaço e o tempo são os quadros universais 1920, é então o de conciliar as duas explicações, de fazer intervir
de maneiro plausível a onda e o corpúsculo num mesmo mod61o
e absolutos dos fenômenos. do fenômeno luminoso. Sabe-se que Louis de Broglle, em 1924,
3 propôs o primeiro tentativo de solução, que denomino mecânico
ondulatório Mos, se o pr0blemo está, até certa ponto, tecnica-
mente resolvido, não a está, de modo algum, quanto à interpre-
tação dos conceitos matemáticos postos em jôgo No espirita
da racionalidade newtoniana, desejar-se-ia saber o que é o onda
e o que é o corpúsculo. ~ imposslvel, ainda hoje, responder conve-
n ientemente o esta questão. Tudo se posso como se esta onda
ligado a um corpúsculo nodo fizesse senão representar o probo-
bdldade da p~o, em cada ponto do espaço, diste corp6sc:ulo
ouoc:lado. Quanto a Aste último o desenvolvimento coerente dll
teoria exige que seja 1mpossfvel focar ao . - ...,o ma
posição exata e suo velocidade; doutrD Jodoi sua lei dll probo
bU,f.rJc}dl de pewlAÇQ ~ pela onda associada est6 .sujeita
p ~ va~ bnsa cada wz ~ uma .,cperllnc:la eftltlvo

--~·~~~~--no
Os mera-
M\tldo ~nwm. ® tlr.nJ9
lflpdl,..m. . o~. ,...,.....
as
fbé:a um ou puJrO dlsilíS par6nietros. Dar asst1 l"IOÇfio de rideter-
~ ~da -mm lilic$idàl0 nu ...ncwo fletca

Scanned by CamScanner
9
3 _ Os modelos exphcahvos são superdetermma- tratas concernentes ao grupo dos fenômenos conside-
dos · 5?º precisos dois esquemas aparentemente mcom- rados. É racional, ao tempo de Aristóteles, í mular
pativeis e superpostos para dar conta dos fenômenos. a ques•ão - que é o movIIDento em geral? - e a ela
Nestas condições, é claro que a racionalidade cien- responder por um 1ôgo de conceitos abstratos subme-
~f~ca concebida à maneira clóssica acha-se insuficiente. tidos a regras precisas de significação e de coerência
ao é com agra'!_o certamente que muitos físicos li- O movimento é, então, "a efetivação daquilo que é
garam-se ~ teses !ªº chocantes e nada permite afirmar em potência enquanto é em potência" Mas as ações
que um novo .esforço da imagmação virá colocar em de atualização (b&pys:a, ãnsÀEXEltX) e de potência
outra perspectiva o paradoxo da microfísica, fazendo-a (ôu·J~µ.~;) não mais são para nós co?ceito~ plenos,
entrar nos quadros de uma interpretação mais satis- pois nos é impossível dar-lhes o conteudo eh~ que
fat6nc:1 para um espírito newtoniano De qualquer exigimos em nosso sistema de pensamento e d~ mstr:u-
maneira, de uns trinta anos para có é precISo constatar mental material Assim, relegamos a exphcac;ao arlS-
que esta forma escandalosa de pensamento é bem totéhca à categona dos artifícios de linguagem. Os
f~da que novas regras de coerênc a e de compre- artific.os de linguagem não deixam de representar uma
ensao governam a exploração dos modelos assllll cons- certa técmca suscetível de ordenar o universo de
truidos. Uma racionalidade de nôvo estilo nasceu nossas percepções, um pnmelI'o grau de explicação
das tentaüvas cada vez mam penetrantes do homem racional.
ipJ:ll'CI gprofundar sua compreensão das coisas e estender Para a ciência newtoniana, explicar um fenômeno
elas. Quando as ~ ~- ' construir um modêlo mec:Emico cujos elementos se
~~.~~ ~llllii~~m~máticas
tonaam49 mais encadeiam segundo regras fomecidas pelo cálcule j,nfi..
-~-~!~ ~ ~Orfl8 'V'JJilCI: a asais- mtemmal. Não mais é posslvel l'GCIG>tm)mente inter-
~ sôbre :a natmem do mnune.nto em -geral

1111~~-ll=ta~~ ~~
~~º~
:id:

Scanned by CamScanner
A verdadeira macionahdad aparece portanto para precisar e reforçar o que acaba de se dito a
antes como uma regressão para formas anacrônicas respeito da razão c1entihca nos parágrafos preced nte
de explicação do que como uma situação absoluta Em primeiro lugar, convém reconhecer que uma
ae conhecimento. Uma vez que um método de inves- das causas essenciais do atraso generalizado das c1ên
tigação mms poderoso e melhor adaptado se aplica cias do homem é o caráter singular de seu objeto
a um determinado campo, todo estilo de conhecimento seu valor sagrado. O homem é um mito para o pró-
que tome suas normas de empréstimo a um método prio homem. tle não se agrega, por si mesmo, ao
JDSDOB fecundo fará surgJ.r o irracional. t neste sentido rebanho dos sêres nalu}'ais, na medida em que envi e
flU9 a ramo é evolutiva e que seu progresso debuxa a natureza pelo conhecimento. !le se apreeada •~
Oll ~es traQOB do da ciência. Resta-nos ainda
quanto individuo livre e sujeito mon:d. Apli D1
G:fODQ>rOVÓ lo em um dominio bastante particular, onde
os processos de um conhecimento obJetivo a
Jll.i~das •tão ainda incertos e em pleno cresc1-
surge portanto, como uma espêçie de se11tUiltli
~~~o $3.ênc1as humanas
necellláuio um esfôrço tio md ~-q,j~­
quall~G~• Spin"1Jír f~8S~~~-

Scanned by CamScanner
de dessacral1zaçao, tendente a despoiar o ser humano Adaptar analogicamente os métodc e uma ciência
e suas obras do caráter sagrado de que se revestem já constituida às necessidades de u a c1ênc1a no a
oa consciência coletiva, a considerar o homem como é, entretanto, o procedimento mais natural do pensa-
uma parte da natureza. Notar-se-á paradoxalmente mento logo que êle abandona o plano do mito e do
que esta redução racionalista acha-se já realizada devaneio.
de uma maneira às vêzes radical em sistemas de t assim que em psicologia, por e mplo, o mod lo
pensamento tão profundamente religiosos quanto cer- da física seduziu alguns dos primei s defensores de
tas filosofias medievais. O tomismo, entre outros, uma dizciplma científica. Desde os meados do sé~o
fala de um homem natural, subordinado ao homem XIX, procura-se descobrir no domimo das sensaçoes
dignificado pela graça, cujo conhecimento dependeria leis comparáveis às leis simples que regem as varia-
de uma ciência ob1ehva Mas êste conhecimento, ções das grandezas físicas Mede-se a grandeza de
llil.ed atamente denvado da hlosoha de Arist6teles, um estimulo - como um pêso a energia de uma
não passa de um con1unto de observações e de dedu- vibração luminosa ou sonora - e tenta se medir a
ções l6g1cas a partir de prmcipios abstratos; é e não intensidade da sensação correspondente Uma vana
se podena inscrever em nenhum dos quadros racio- ção correlativa entre as duas medidas vai aparecer
nam que as ciências dos sêres da natureza mstituiram como acontece múmeras vêzes no domínio das gran
em nosso tempo. A razão exige doravante de todo dezas físicas? Weber (por volta de 1830) e F hner
:m'RJ;iBCUDento que tem por objeto uma parle da na- (1860) trazem à luz uma lei da vanação da senaação
---~~-~~dti contrôle experimental e de eficácia de uma forma particularmente &Jlllplea qucmdD •
l'l'..,..,.=-.:c""""' que camc.tenzam as Qênaas fiái.~ eatbnulos creacam em piegre11são geomMlim m w
d e~ to~ta ~ sei: 8C!lçãee tamb6m Cl'9IJOlll" mas em pragreaa&e tic111
ou, :edm~ llnnmente, Cil UJlllCl9IJ8 .....
:'ldiim~~ldfl1ifJJD~-.;1f!â

Scanned by CamScanner
deslocamento no estxrço ( l) . O característico do do- siado brutal dos métodos Parece assim que a xpe
néncia adquinda em outras d1sc1plmas não fornece
mínio considerado é que êle se presta mal a uma
redução espacial. D::xi as dificuldades São superadas imediatamente o molde rm:1onal próprio a uma c1énc1a
de diversas maneiras; determina-se, por exemplo, a recentemente emancipada. Ela constitui apenas o pon-
to de partida de uma transformação da razão cientifica.
menor diferença percepHvel entre duas sensações que
é tomada como variação unitária. (Mas esta "uni-
A história do ciência econômico fornecer-nos-ó, disto, um
dade" não é jamais comparável a si mesma e só outro exemplo. Entre 1860 e 1880 vários tentativas independentes
podemos postular sua constância ao longo de uma se debuxaram poro retomar sôbre uma base de rigor cient(f1co
escala de med'da) De qualquer maneira compre- o estudo dos fatos econômicos e, em port1culor, o da troco O
ende-se que uma lei psicológica assim estabelecida inglês Stanley Jevons e o francês Léon Wolros elaboram então,
codo um de seu lodo, uma teoria do troca em um mercado que
não possa ser exatamente comparada a uma lei refe- se refere, em substância, ao seguinte esquema. cada mercadoria
rente a grar. dezas físicas. É entretan•o legítimo pro- represento, a::is o hos dos que trocam um certo "valor" ou "ut1h-
ceder dessa maneua, na medida em que as grandezas dode". Como medir esta utilidade' Decompor-se-a o fenômeno
ps1qu1cas que se medem sejam definidas por meio de do apreciação econômico considerando a satisfação causada o
um dos sujeitos da troca por um certo acréscimo da quont dada
operações realizáve15 experimentalmente em condições de mercadoria de que êle dispõe 1n1c1olmente ConsJderodo bte
suficientemente estáveis. Ora, os desenvolvimentos acréscimo como 1nf1mtamente pequeno, o vanaçõo de sotisfoção
posteriormente dados ao método psicoHsico demons- que lhe corresponde pode ser considerado como prop0rciona à
ªª'''fflque não era possivel, em geral. isolar conve-
~l'f,ai:Aalà se~ de um contexto mais amplo do
.Intensidade de utilidade do quantidade do mercadoria lni
dalmente possufdo. A utilidade de uma certa quantidade
'*3me•- 0.Scd:iv&l'SOS el~entos de um sistema de mercadoria q acrescentada ao mtoque q a9r6 considerada
Igual ao produto desta quantidade pela Intensidade 'b q) Partindo
jjdil!idQiliit-:1a..e&ta segreg~. de t<id e1rct.
*-aro• e supando-aJnhecida esta fntmllklade. ou ••grau de ut1
~ .,,.,.,,•• 1sllo ~ .mtlda• 'fM111lnral" para ..mtfa. uma l!lal
. . . . . . . . . . . ~q:a~ dpr. pPld!J .....-bwte

-dféil~ âlta ~ m! : .
Mll'*lll ~ ~ v ___.._.
.............

Scanned by CamScanner
uma certo grandeza extrema. CA "ação", por exemplo, Que
<!> se torno mínimo em mecânico.) Assim derivem-se, de maneira
p bostante sot1!.fatória paro o espírito, tôdas os leis mais particulares
do mecânico o partir de um teorema geral A transposição do
racionalismo mecânico é, pois, inteiramente mercante no setor
do teoria econômico aqui esboçado.

Até que ponto revelou-se fecundo éste transplante


metodológico? Sem dúvida alguma, a preocupação
de introduzir, neste ramo das ciências humanas, formas
de racioclrúo rigoroso, idéias de grandeza mensuróvel
e de função, constituem uma aquisição defllllhva. Mas
pode-se perguntar se o esquematismo adotado, se a
escolha dos fatôres e de seu modo de intervenção
' corresponde exatamente aos fenômenos observados
O mercado das trocas pode ser descrito razoàvelmente
como um SJStema de tipo mecânico e mstantâneo? As
ligações entre os fatôres não se operam de outra ma
neua? Além do mms, a eiplicaçião psicológica indi-
vidualista da busca de uma utilidade mó:xima se aplica
ao h.\naonamento dos gmndes corpos ""llP1e:x:os que
afio as sPdedades econamicas reala? :TCXIS são ~
que ltfetl~ se formulmam l1D Clám
~~P..:"'• ).~~~d••• . a.-

Scanned by CamScanner
que o homem aperfeiçoa seus utensílios materiais e
se s progress s seriam notáveis e constantes Muito
sem duvida, resta a fazer, para que uma configuração mtelectuais.
o:r1gmal da razão cientifica se desenhe nlt1damente Quase não imaginamos outros tipos de conheci
nesse dom!ruo. Preconceitos de natureza mágico-mi- menta científico no domínio dos ob1etos fis1cos. Qual-
tim, sobrevivências de métodos antigos, fidelidade
quer outra "explicação" confunde-se em algum mo-
paralisante a um ideal de conhecimento impróprio a mento com o mito e a magia.
•u obJeto, tudo contribui ainda para frear a consti O mesmo não ocorre no caso dos atos humanos
'lldção de uma psicologia, de uma sociologia, de uma Aqui, quer-se compreender, isto é, reproduzir intuitiva
Mas, Já que nosso propósito é carac- mente um sentimento, uma apreciação, uma em~
a 1'CllZáo e não examinar em seu pormenor Os economistas como Jevons, Walraa, Pareio a âll4~~ii
atlibCJllJlO do umheamento cientifico, é Já posslvel austríaca, oonstroem um sistema abstrato de ~
. . . . .~l§IURB dos problemas ongmais aqui encon- à maneira dos J1sicos, mas que repousa sôb:re Jl@J!l'M~~~
dos mtuitivamente compreens veJS Oll~ ••r:Jt~
a quantidade da vinho que possuo, men
~'mim o 1itrb ele ~ 8 :mAf"" 1

Scanned by CamScanner
surgida na tela de um laboratório rl psicologia reog
msahsfe1to e desencoraiado diante das leis de evo- em grupo no sala de observação 3 um loborot6 o
lução precisas de uma população, estabelecidas pela
de ciência social, são atos bem mais definidos do que
expenência, pela hipótese e pelo cálculo, porque não
nossas ações quotidianas. A inteligência experimen-
conduzem aos movimentos de consciência que os redu-
tal deve aqui decidir em que medida o objeto de sua
zam a uma evidência interior. observação permanece inalterado por essa transforma
Qual deve ser a atitude racional? Parece que o ção do me· o em que o homem ag Não se trata de
desejo de compreender tudo desvia o conhecimento interromper o movimento das ciências do homem que
na direção do mito e da magia. A mentalidade pri- se orientam nessa direção experimental. Trata-se ape-
mitiva é precisamente aquela que tudo compreende, nas de descobrir, pela reflexão e pela prática, as regras
isto é, que reduz tôdas as coisas, Hsicas e mentais, a
do método que tornam fecunda tal investigação
movunentos da consc1ênc1a Sair dêsse embaraço é
uma das tarefas que atribui à razão o progresso 39 Sublinharemos enfim a elaboração, nas ciên-
c1ent1f co do conhecimento do homem. cias do homem, de um instrumento especifico do conhe-
crmento racional, que é aqui a noção de modelo
Certamente as ciências físicas constroem, elas também
modelos, isto é, representações esquemáticas do meca
nismo dos fenômenos. O ftsico isola as vanávelS que
considera principais, expliCita suas relações, formula
as condições iniciais e a evolução do s1Stema, prev1-
:slvel pelo cálculo, deve pwduzir com uma razoável
~~~-m~o os efeitos que se manifestam na obsar-

Scanned by CamScanner
Em primeiro lugar, o modêlo visa aqui figurar
o funcionamento de um setor localizado do conjunto
dos fenômenos. A originalidade do método provém
precisamente do fato de que o pensamento racional
abandona, ao menos provisoriamente, a ambição de
erguer um "slStema do mundo" no domínio dos fatos
humanos. A teoria newtoniana da gravitação é um
modêlo, no sentido dos fisicos, mas não é represen-
tativa do modêio no sentido das ciências humanas.
Esta renúncia, esta ascese da razão parece dever con-
dicionar os futuros progressos da ciência dos fatos
humanos Ela torna possivel uma concepção precisa e
operacional das noções consideradas, que tomaria in-
teuamente ilusório o projeto de uma descrição de con-
unto do comportamento humano. Ela acarreta4 6
verdade ao menos no estágio atual da ciência, um
~ ·~ld:imMio desconcertante dos modos de explicação.
umgnas apresentam-sa um pouco como
ii!I~~- piainas, 'feitas de peças multicores

Scanned by CamScanner
mLrvenção, de uma variável estratégica, segundo a
expressão dos economistas. É verdade, certamente,
que nem o economista, nem o psic6logo, nem o soció-
logo se confundem com o poli tico ou com o homem
de n g6c os No entanto, própria natureza do fato
humano parece ser tal que um conhecimento estnta-
me te peculahvo no antigo estilo será ilusório e falsi- CAPITULO Ili
f cado Eis, sem duvida, um dos grandes escândalos
da nova razão cientifica: êste casamento difícil de A BAZAO NA HISTORIA
d ar en re o conhecer e o agir G. Bachelard
aeSCJ·ev u lhe as formas no domínio das ciências fi-
s nça bnlhará ainda mais no das ciências Do fato de que a razão tem uma históna, mwtos
anas O homem contemporâneo deve criar para dese1ar1am concluir que ela é contingente e conven-
a ramo no sen do popular e no sentido literal cional. t bem verdade que o ideal de uma norma
do rm.o. a partir desta condição que alcançou o de conhecimento defrmtiva e universal é a Dlll'agem
,....,..,911to em seu estágio atual. natural para a qual tende o nosso espúito; e que,
disse lado, nossa esperanCtt 6 desiludida. Mas nadGt
diz que o própno desenvolvimento da biat6n~ e ~­
ticulmmen1e da hiBtêria das m.~s e das R!áim
:Qio axpnma um .certo progresso digno de ser cenai-
Q mcmal. ~ lón=t. am ~
~~~)Ee.iL

Scanned by CamScanner
mo acabamos de dizer, parece hgado ao m la
do mundo." Tal é a lmguagem do historiador. O
mas não é menos verdade que, para alguns a o d
físico dirá antes: João Sem Terra passou por aqui; isto
ao contrário é milagrosa t o tema apolog hco ba
me é indiferente, pôsto que não mms çassará aqui"
tente conhecido que demonstra a existência de Deus
(A C1encia e a Hipótese). Parece, com efeito, que a
pela ordem do mundo. A ordem é aqu1 um signo
essência do acontecimento histórico seja a de ser único
e ~igno de uma mtehg ncia, de uma vontade sobre
e singular. O nascimento de Martinho Lutero em uma
A

naturais; a diversidade, a inesgotável riqueza md1v1


pequena cidade da Turingia em 1483, eis um fato
bruto, isolado, inexplicável, no sentido em que o enten- dual das coisas apreendidas pelos nossos sentidos é
dem os físicos. O desenvolvimento do luteranismo no então igualmente percebida como o signo de uma
in1Clo do século XVI é, ao contrário, um fato que se ordem escondida, que escapa à nossa inteligência
pode ligar ao conjunto da situação das Alemanhas A história é obra de Deus, os acontecimentos enca
e da Europa, um fato da alçada da razão. deiam-se em seu pormenor segundo os ' decretos da
Providência" Há nesta atitude uma espécie de h per-
A velha distinção aristotélica entre substância e -racionalismo, no sentido de que aquilo q e e'socn:>a
acdente não deixa de corresponder à oposição ingênua à nossa razão é considerado como governado por um
entre o histórico e o racional. Cália é homem e inteligência e uma razão sôbre humanas Mas para
portanto, dotado de sentimento e de vida por esdncia; quem deseja manter a explicac;úo dos aconteClDlentos
6 branco ou maneta por acidente. Assim, o aconteci- nos limites do huma:io o problema permanece em sua
~to '11 bistoncidade pura acha-se ligada à varie- mtegridade Alccmçana a razão cientifica e como
~ . .gularidade das qualidades iDdiWiuais. A cxuáter tempmal das coisas?
~ grcmdes doutrinas filosólicas encontroU
"' Wms .-
a da:tq, -mt~defuúda

Scanned by CamScanner
O elemento propriamente histórico aparece entoo
se desenvolvem sot.1 uma forma racional a astronomia
não mais como o essencial da realidade, mas como o
_ e a medicina, ciên' a por excelência das transforma-
residuo de uma explicação racional. Residuo proviso
ções e das evoluço.M) biológicas. É preciso pois reco-
rio e relativo, irredutível sem dúvida, mas CUJO forma
nhecer que, se o ...cnsamento obtém seus primeiros
e CUJO conteúdo dependem de nosso modo de aproxi-
grandes êxitos por uma expulsão do tempo, a preo- mação dos fenômenos. O conhec.mento oscila entre
cupação com uma / 1énc1a dos objetos temporais não
dois pólos, o p6lo matemático e o hist6nco. A ambição
lhe é de modo al m estranha. De fato, uma boa da razão é de reduzir o que há de histórico, em todo
parte da hist6na as ciências pode ser apresentada fenômeno, aos dados mais simples, em cada dom1nio,
como uma conquista do tempo. e a construir o resto por encadeamento de conceitos
A atitude cientifica não é, pois, de modo algum, uma
demissão diante da onginal1dade e da irracionalidade
do tempo e da história Retomaremos logo a msishr
sôbre as limitações efetivamente impostas à razão
por esta temporalidade da eXI.Stência. Por ora nosso
prop6s1to é mostrar que a razão enfrenta a hist6na
e como o faz. Limitemo-nos, no entanto, a examinar
três pomções a respeito creste tema, t&las três bas-
ttmte complexas, aliás, e pejadas de elementos que
não caracterizam uma átitude m.cianal a hist6ria
~:omo zaahzÇo do •aÇfritoº, a hiat6ria como mam
~lftii-l@;.r!kl~Ãum biàt6ria como eans-
~o consc:itbite d

Scanned by CamScanner
Pode-se, assim, ligar a h1st6na e suas v1ciss1tudes a
as coisas de tal modo que deveria ser possivel deduzir uma razão superior. Sabemos com que ironia Voltaire
do conceito, suposto como perfeitamente conhecido, castiga, no Cândido, a doutrina do melhor dos mun-
de um ser qualquer, o conjunto completo de suas pro- dos. . . A idéia de uma racionalidade dos aconteci-
pnedades e, por conseguinte, sua história. me~tos da qual o homem não toma parte, da qual
sena apenas espectador ou passivo instrumento, não
A noção de umo substância individual encerra de uma vez é adequ51da para satisfazer inteiramente o espirito.
por tôdas tudo a que jamais lhe poder6 acontecer e, consi- Se a razoo se exprime na história, nos é dificil admi-
derando esta nação, nela se poderá ver tudo o que se poderá
verdadeiramente enunciar a seu respeita, assim como podemos
tir que o homem não seja, de alguma maneira, res-
ver na natureza do circula tôdas as propriedades que dêle se ponsável por ela e seu artesão.
pode deduzir (Discurso de metafísico, XIII). Desta maneira a atitude hegeliana em relação à
história concede mais ao homem. Ela se ap61a sôbre
o postulado fundamental segundo o qual "a razão do-
mina o mundo e que, por conseguinte a hist6na
universal, ela também, se desenvolve racionalmente"
Muito mais expressamente do que em Leibruz, acha~
aqui afirmada a racionalidade da hist6ria. •Tudo o
gue é...real ~ raaonal e tudo o que é l'C!lcional ' real".
ra ~o' identificada com o real e, porlG1%1to. mm 13
6Jico. Mas a verdadeira realizaCJáo de tôd.a eema
Qi;liólda., ~ l~ -de ~8nma pelo homem
M•llJ•tp~ -do .lapúttG. ""O dmnin19 dB
..&~~ª» 8J:Welve do, •
----~ gJftfA{;X\"'JiJ t•ª• do ~-­
"1tit . _ ~, 6 e aar
,. ~~ª

Scanned by CamScanner
de perto r ~ éste esquema O salto da antitese à tendem, conscientemente ou não, a assimilar a liber-
sintese parece, muito freqüentemente, como arbitrá- dade ao dado, ao absoluto e, finaimente, ao mcontro-
rio. .t bem verdade que êste aparente arbitrário lável. No entanto, o nascimento de Napoleão Bona-
poderia traduzir, em certos casos, o caráter dinâmico, parte não é seguramente um ato hvre, enquanto que
inovador da razão histórica. Tal é talvez o sentido se atribuirá com facilidade esta qualidade à declSáo
mCllS autêr. _o da doutrina hegeliana: a razão não tomada por Lucien de entrar no Conselho dos Qui-
poderia ser reduzida às normas mecânicas dos enca- nhentos no 19 Brumário. A distinção é aqui evidente
deamentos formais. Ela inventa e cria. Encontramo- É, no entanto, sôbre a confusão entre acontecimentos
-nos, pois, empenhados no dilema fundamental do dessas duas ordens que repousa o mais das vêzes uma
racional histórico: condicionamento determinado de filosofia da liberdade. A velha categoria da contin-
fatos, mas também manifestação do poder criador do gência (o que ocorre, mas que pocila, no entanto, não
espirita e, em última anáhse, da liberdade humana ocorrer) recobre, ao mesmo tempo, o dado, o irre-
dutível - e o que cria um ato decisório, uma escolha
entre diversos posslveis. A noção de arbitrário, que
A história como manifestação
pc:a1icipa das duas idéias, facilita a passagem e a
da liberdade do homem
confusão. Mas nem o dado da vida social e indivi-
dual é forçosamente o proQ.uto de algum livre-arbltrio
sobrenatural, nem a ·livre deClSáo" de um sujeito é
• eiramente independente de seus antecedentes Para
e o Jôgo da razão na lüstcf>ria conserva um sentido,
nos ~ é preciso ;compreender que o homem
~-~1~11Qi.,, que a liberdade de seus atos ê
:Istf> '~ que o oaniter de liberdade não

llll=li>!iiEa~-:---
em suas
d...-a
'1jr-Jfii!j~~
!IP~~~-~--~
.se.nsequências
a,
a
qllG!ldo, tendo
lJe JNrBO

!llf.llM~-.~

Scanned by CamScanner
ual resta, é verdade, determinar sues mensol dos vendes de uma grande loia, élc fornece, a
t6r1~~i:~de~. De outro lado, a história é. . ~ dos pro- com um grou de oprox1mação con emente 1nd1caç es
tíveis de orientar razoavelmente o dir tor come c1ol O con
mo do espirito humano, isto é, dos exltos e dcs mente que êle formulo é, não somente aproximado ma pro-
gressos da inteligência humana em sua tomada de vis6r10, no sentido de que novas anformoçõ s podem e devem,
reveses . . d - em geral, modificar-lhe o cont udo Poro retomar o expressao
posse do mundo : é a h1st6na a razao.
hegeliano sem conservar necessonom nte seu squemo rfg do,
diremos que êle é dialetico.
A laboração do noção de probabilidade é, o êste _respeito,
e . 1 traduz um e sfôrço de apreensoo rac10-
~t~1~tn::·v~~~~n~~e Sea o dete rminismo estrito, postula do pela Mas todo conhecimento assim e tab l cido uma
na. ev niona se revela inadequado paro descrever os a tos aposta, isto é, assume um nsco e depende de uma
fi$1CO newto , d bob' l'dades se revelou imediatamente
humo 0 cólculo as pro •1 . - do atitude do homem em face dêste nsco. O êxito do
nos, étodo possível para construir modelos d~ prdevi~o cálculo provém de que a natureza das colSCJS tal que
como um m homem As primeiros especulaçoes e asco.1
comportamento Po at ( 1601 _1665), de Jacques Bemoulh seja possível dispor de certos fat ... es de man 1J'CJ que
(1623- 1662), de ~e~ 11 (1 7 00- 1782), dizem respeito aos a grandeza dêste nsco possa ser collSCl t
(1654- 1705) e Do~iel ernou ~I dos "partidos". Conhecendo
Jogos e têm por ori~em o~r~z~:"º busca-se fixar u ma partição
reduzida à custa de algum outro sacrifício U a com
as regras de um JôgO . •odores que decidem abandonar panh1a de seguros bem administrada não se arruina
razoóvel das apostos entre os J09 Jamais com a condição de ter uma clian la baa te
a partida em curso. - levando numerosa Fmalmente. o a5lculo das pr bab dadel
Trata-se, pois,b1f.~:bo:r d:ir:: j~~~:,r~e1;,ecrºem. é uma tentativa por fazer SU[gll' a racionalidade do
10:tlta ~..;:.'par um cólculo racional um
~· ;e-.rtermente as 11bip6teses : . ; , de
desanVO= certa

c:gnr,,
decorrer hist6rico e uma mdam no conjunto dos mm
camndemdcs liv.rea. cm te raciona1ic:llo •CJClá..
~JlhCOdô.s 00. a>mpQrtQll'.I fíqliêf (1) conduz a uma PQão nexo contemn1a1na
· 11-~IP~ malkc:atos de góS, óbJ~ : ~
r.:I~li:Aftil: MIÃÕiilG o 1 Jàt6rla a bilt6ria mmo c:amtrugc10 tz;eufo

Scanned by CamScanner
do homem vivo, momentos da prax1s ( 1) e não formas
do pensamento a bstrato. A racionalidade da hist6-
na consiste então nu ma d ommação cada vez mais
pre~i7a e mais a mpla das fôrças tisicas e das fôrças
sociais pela vontade consciente dos homens. A ciên-
cia e a prática humana laceram progressivamente 0
véu do fetichismo no qual a humanidade permanece
prisioneira de seus fantasmas. As produções do
homem aparecem-lhe como realidades estranhas e
deixam-se perder no jôgo de suas determinações. O
sentido da história é a descoberta dessas alienações
e a libertação do homem, a "apropriação real da
essência humana pelo homem e para o homem". Dai
resulta que o curso da história não é de modo algum
o resultado de um determinismo mecânico. Sem dú-
vida, as bases materiais da civilização, as relações
de produção condicionam o desenvolvimento das
relações sociais, das ideologias, das artes. Mas
esta de~ação brutal-sômente se exerce nas fases
mais groSS8ll'CS do devir social. .A medida que se
::::;.msi[elnde o setor "dominado" pela mteligência humana,
o homem se toma cada vez mais o autor de sua bis-
t4riq, to~do consciência do encadeamento dos
we: idi meios de ação•
.....~,!;,.

Scanned by CamScanner
_a e precede uma época de regulamentação racio- absurdas ( l). Mas o liame que une o comportamento
nal definitiva, de ordem imposta pelas fôrças sociais dos individues às técnicas econômicas, às estruturas
chegadas ao seu pleno desenvolvimento. A ordem sociais, aos preconceitos coletivos, é racional t a
acabada do terceiro perlodo não pode ser conside- evolução de conjunto dêsses sistemas que constitui o
rada numa perspectiva marxista coerente; o movi- elemento racional da hist6ria.
r anto da hist6ria é indefinido, se é verdade que o De outro lado, os progressos das ciências do ho-
homem é um ser a fazer-se, que nenhuma modificação mem nos permitem compreender cada vez melhor os
poderia consumá-lo. limites e as coerções de cada civilização particular
discernir os fatôres "estratégicos" de nossa época e
* esperar tomar uma }XIrle sempre mais ativa no govêr-
* * no de nosso destino

Scanned by CamScanner
razão é estática; a ciência procede do im6vel ao im6-
vel e tôda tentativa de introduzir o movimento no
pensamento é uma manobra disfarçada do irracio-
nalismo. São as 'constantes do espirita humano" que
definem a atitude racional, garantem a clareza das
idéias, a validade das deduções e das con1ecturas
De tal maneira que a maioria das concepções apre-
CAPÍTULO IV
sentadas nos capitules precedentes vêem-se rejeitadas
por êle como fraudulentas e desvirtuadas, como ma-
·HOMO SAPIENs. nifestações quase demoníacas de um gôsto pelo irra-
cional que se disfarça de mil maneiras. Sem dúvida,
a permeabilidade de nossas sociedades às poderosas
Exammamos a razão em seu uso no conhecimen- correntes mibco-misticas de nosso tempo justifica, de
certa maneira, a reação de Julien Benda. Não é pos-
to cientlfico da natureza e do homem e, em seguida,
sível, todavia, aceitar sua concepção imobilista da
._. seu uso de interpretação de nosso devir coletivo. razão, desde que se toma contacto com as realidades
- . . permitido agora tentar uma apreciação das do pensamento cientilico; bem menos ainda, quando
maonms concretas que são efetivamente se acolhe a conduta real dos homens como um fato
lllillll.41mt â6s _nas condições atuais da civilização. .a se quer determinar a significação positiva, .o papel
e a eficácia da razão.
O que importa, em 6ltima cm.6:llse, ao seu triunfo
~"dl"'"'1"~ dos ebstáculm que lhe limitam
NliBmttdM~e um deminio dos pedires de que
ti'••~~ sem jmnms subaütut los.
M~-~-~ ~e detestari1 sad 1nteU1gere,
. - - se Ja:monim' nem odiar
•--l~ Se ~!l'famos e agir,
•8'~• ~ aceitável da ati-

Scanned by CamScanner
Convém então dirigir nossa atenção para alguns n.. . medida em que põe acima de tudo um valor su
dêsses obst6culos; escolheremos a religião, a arte e premo, incondicional, ao qual qualquer outro se su-
a paixão. bordina e se sacrifica. A história de Abraão, prestes
a imolar o filho que ama para atender ao apêlo de
A razão e a religião Deus, permanece sem dúvida alguma o símbolo mais
'Ir' cante e mais justo da atitude religiosa Para mmor
Falou-se, no capítulo I, da atitude mágico-mística precisão, seria preciso acrescentar que êste valor
como contrapêso da atitude racional. Mas não pode- supremo do homem relig1oso é de natureza supra-
rlamos confundir a religião com o gósto pelo mito e terrestre. Somente por exagêro poder-se-á falar de ..uma
pela magia de um lado, e com a prática de experi- "religião da honra", por exemplo, ou de uma ... reli-
ência mística de outro. Certamente, não cabe dúvida gião" política. t bem verdade, no. entanto, que esses
que participe do pnmeiro e exprima uma certa nos- dois elementos: pnmado mcond c1onal de um valor
talg·a pela segunda. Ela constituiu-se, no entanto, e caráter sobrenatural encontram-se frequentemente
em nossas civilizações modernas como um poder dissociados hoje em dia. De sorte que o homem con-
social racionalizado, ISto é, integrado no quadro das temporâneo ve sob seus olhos desenvolverem-se for
instituu;ões terra-a-terra, desempenhando seu papel mas de adesão apaixonada a ideais terrestres, que
muito lucidamente no concêrto dos executantes da fazem dêles verdadeiras religiões; religião do pro-
lDst6rla. Suas relações com a ramo são pois sensl- gresso material e social e da liberação do homem
dmífte mais complexas do que uma oposição pura •religião" da raça - •religião• do bem-estar meca-
Nlllidllés;'I s1aa devem esclarecer-nos sôbre os próprios 'ÍDZCldo O elemento sobrenatural desapareceu resta
nsamento racional preeminênaa mms ou menoa absOJ:uta de um ideal
Jflla!W~. .w.ç-es mtti.caa, pl'\itlcQs qoaae m4-
11.liw·~'*'~oa~~·-g~"'.- da~~-=--""'~~_. •~1'tõàiltiiiià:::;a~v.miiae eUl t&rno lia
,llíilialJ~~ 11
~r para
li
--
-~
lllitl:ir'
"*
'i níJ»l,b-

Scanned by CamScanner
temas de Julien Benda contra tôda forma não estática A arte
da razão, que éle denuncia como um abandono da
No que concerne à arte, não é de. esperar .u
-lucidez em favor da cegueira, da imaginação incon-
trolada, do entusiasmo. conflito tão violento. t entretanto mstrutivo exanunar
as relações entre a arte e a razão. "Que vaidade
Aqui reconheceremos antes a marca de uma a pintura, diz Pascal, que caus~ a_dmlI'_ação pela seme-
necessidade àe absoluto de que o homem não lhança com coisas CUJ os ongmais nao se adIDU'~
se pode desfazer e que é, talvez, mesmo, uma de (Pensé~, ed. Brunschvicg, II, 134). A atitude estética
suas características menos -fugidias e cujas manifes- se opõe à atitude racional ~a medida e~ que a con-
tações são o motor das realizações mais fecundas e templação fascinada se opoe ao conhecunento ob1e-
mais admiráveis, assim como dos malogros mais tivo. Em face da determinação paciente e t~eante. dos
dolorosos. Que o homem tenha necessidade de ab- objetos da ciência, a arte é uma libertaçao da ima-
soluto não compromete a razão, enquanto sua busca ginação.
permanecer objeto de um pensamento claro. A razão Sabe-se que Platão expulsa os poetas de sua
6 esmagada quando a fixação dêste valor absoluto República ideal: é que êle no-los descreve_como !k-
e -dos meios de promovê-lo entravam o exercício da nicos da ilusão. Se os verdadeiros obJetos sao aqu 1
Stáligéncia em qualquer domínio. O exemplo bas- que se atingem pela razão, então a arte lt, ~,m efeito,
•••~ itmiliecido de Galileu condenado oferece o es- criadora de ilusões a não nos seduz senao porque
g-.-iGcJ.~p:io de um valor sobrenatural no
nas liberta de nasaas preocupações imediatas Sem
-~~-~~'bemmento das coisas naturais. A dúvida as ficçóes da arte, sobretudo quando desen
IP'tD~•~lC!AlllNDPIUUD: é ia:l1 hoje como eutrora, que
M••-. ~ de: um ideal.( se dn bidcm par mek> da )inguag9111., pedem. em certaa
• to ,_, le~- • pensar • t.ir
~~Ili-~--~ 08..... ,
pen'
~i.m IJ~9~~r,:'"cro6J1sas ~18.CDJl9CID

Scanned by CamScanner
dominío interno de irracionalidade que a razão pode
abandonarmo-nos fictlciamente, poupar-nos-ia cair envolver, cercar, circunscrever inteiramente. O mesmo
realmente no excesso e tornaria mmto mais fácil a
ocorre com o outro aspecto psicológico de arte como
,sua dominação pela intelígência e pela razão. A
libertação pessoal. Descrevemos uma de suas formas
psicanólise retomou, como se sabe, sob forma cientí-
particularmente radical e exaltada ao nos referirmos
fica, a antiga idéia de catársis {purificação): a ener-
gia do artista ou do contemplador, originàriamente ao surrealismo. Mas era um caso tipice do pensa-
e inconscientemente orientada para a satisfação de mento sonhador e fantasmag6rico a transbordar na
dese1os recalcados pela educação social, metamorfo- vida. A indistinção total entre a arte e a vida é, com
sear se-ia em poder ct1ador, em amor pelo belo. Neste efeito, um dos sintomas mais claros de atitude irra-
sentido, pode-se dizer que a obra da imaginação ar- cional. Mas a libertação pessoal que o artlSta busca
tisbca é, de algum modo, paralela à do pensamento na criação, o amador na contemplação das obras de
racional. arte, pode resolver conflitos e inibições interiores sem
que necessàriamente o individuo rompa com a atitude
racional. Esta possibilidade depende evidentemente
dos temperamentos, mas também da sociedade em
que vivem os homens. Dai decorre que em certas
ápocas da história da arte o motivo estético dominante
~aa ser a razão. Numa sociedade em equillbrio, o
tista acha-se em ac&rdo com o funcionamento do or-
Mamsmo que o envolve. Exprime êsse ac6rdo em suas
ras e não .busca tanto evadir-se de seus quadros
~ima mw•lc3. JraiUzi~oa. O periodo do século XVll
· de C1d (1636) a Athalie (1691), cor-
-a--..
[;lpudá;:~iltinta

equlltbrio provis6rio que se
Bem entendido, não se trata
~-.uo de Lula XIV é O tempo de

....
EM~ '6:1 ~ade civil. Ouer-ae,
. .._.,_ d.ad.s a ~ do
-~~-~. ncio ck.ulG o
~--.

Scanned by CamScanner
para que o ideal da razão pareça senslvelmente con- por meio de modelos, o ato do artista é a pro1eção
fundir-se com um estado de fato. A literatura e as de uma obra que jamais é um simples modêlo das
artes plásticas se querem então razoáveis, equilibra- coisas ou dêle mesmo. Os artistas mais lúcidos com-
das, hé1s intérpretes da natureza, isto é, do homem preenderam-no perfeitamente bem, isto é, aquêles que
tal como o modela esta sociedade restrita mas es- se recusam a comentar seus poemas ou suas telas,
plêndida pois, uma vez criada, a obra não mais pertence ao
Assim a arte e a razão desenham no curso da his- artista, mas aos homens que a contemplam, ela é um
tória um contraponto que as faz ora entrar em acôrdo nôvo objeto do universo.
e ora em dissonância, segundo a trama das estru- Por isso, a querela entre a abstração e a figuração
turas coletivas profundas sôbre a qual se desenvolve em arte se reduz, no fundo, a um mal-entendido. Os
o seu jôgo. retratistas e paisagistas contemporâneos de Van Dyck
Retomemos à motivação essencial da atividade representam certos objetos reais; Ingres os enobrece,
estética comparada àquela da atitude racional. En- Picasso, Braque, Klee deformam-nos de maneira estra-
quanto o pensamento racional visa estabelecer um nha, Kandmski, Mir6, Mondrian não representam mcns
~adêlo do mundo, controlável à vista de todos e que
coisa alguma. Mas, admitindo-se igualdade quanto
cada um pode comprovar, a arte visa uma projeção à generalidade, os pintores e escultores se pro1etam
iQdilriduo '9Dl uma obra vólida em si mesma. A igualmente em suas obras;-sejam elas figurativas ou
---~o está na ordem do dia entre os psi-
abstratas Um retrato de Franz Hals, uma paisagem
••~. ~..SPKJ t&da atividade, consciente ou in:.
de Hobbema, não valem enquanto ritplicas de 8'res
~!ifP~W~"'de dai' corpo no mundo das co
e de objetos desaparecidos. Valem como proJeQáo
• ~ intenor, bnillStslb!mnentet viva do artista A habilidade técnica,
;;.;;m"'1P111R~ superadas para àtingu' a ilusão ou
;Q~,fpjji.~~ ,,..___.....,...
to de .encantamento que obtém, são valores li-
'1:>'Jett> ttaatm. 'Cl'lado, e não à c6p1a, repro-
lim.I~; 11 l:la VJdO: Assun ocorre com uma
onde o objeto não é re·
~~.~~:Qid::ira.cdo ob a Pºlifonia
~!í..5> mesino CQJQ. ~
- " dO'am ULatS ~
• aemA'li'dâ
::..:·~iíl. ...
-~~l::maD

Scanned by CamScanner
Se be v rdade uc o pensamento racional sua paixa o e não a d scnvoh e O cará:t r do co
s d shngue oa a titude estética na medida em que portamente apaixonado, tal como o opomos à atitude
aqui le se e plica e não se projeta não se deve, racional, é a perda do dom1n10 de s1. Sena ocioso
por lSSO, concluir por uma inccmp.::xtibilidade funda- resumir aqui as descrições dos romancistas e dos
mental entre razão e arte A obra do pensamento · dramaturgos. Todo trágico da paixão advém preci-
raClonal par larmente nas ci ~ n..1as, pede ser se- samente desta alienação do md1viduo por uma f8rça
cundàriamente projetiva O sistema do mundo de que lhe é aparentemente estranha e o ultrapassa
Newton um teorema de Euclides, são seguramente Observemos o avaro ou o ciumento Em raros
instrumentos do pensamento explicativo, mas são tam- momentos, em que nada vem despert~ sua pcnmo
bém produtos do gêruo humano e mesmo trazem, são talvez companheiros agradáveis s res finQS de-
cada um a marca de um gêruo mdividual Neste licados, compreeilSlVOS, espirituais Logo que sua
sentido são pro eções "concreçoes humanas , segun paixão é desencadeada, ao seu comporta to nor
do a estranha expressão que um escult r abstrato
mal substitui-se um comportamento radicalmente
aplica às suas obras Não se poderia e idente- distinto A conduta passional oé por assim dizar au-
le reconhecê-las sob êste aspecto e apreclá-las
tônoma. isolada; tudo se passa como se o mdividuo
ua realidade não se nos tivesse tomado suficiente-
._... lamiliar nenhum. atrativo senstvel nos facilitará
tinssa perdido o cantrôle de si e permanec:esae jo-
gulte de um peraonagem mteriar que o habitallle
não é o caso. em menor grau .,.,.__~ metamorfoses do camporlamento no apab:ana-
faram dw:dtaa com aatidão por Proust na amaoa
amm de uma maneira geral.
.........._..._ d.os do ,_-du 1rra-

Scanned by CamScanner
ce!ebro" ... (Lettre à la princesse Elisabeth de 6 de ou-
tenal". Se certas paixões têm eletivamente, na sua
tubro de 1645). Mas o uso quer que reservemos êste
base, os desejos carnais mais elementares, as paixões
maxs violentas, mais sisternóticas, mais usurpadoras nome aos "pensamentos que são causados por alguma
particular agitação do espírito" (ibid ) . Com uma
são o produto de uma elaboração complexa do pen- d r nição tão ampla, compreende-se que Descartes
samento e seus objetos estão muito afastados das
nao possa rejeitar em bloco tôdas as paixões e que
simples necessidades ammais. Ao contrório, sob sua distinga entre elas as boas e as mós. A moral car-
forma mms caracteristica, a paixão aparece antes tesiana está, pois, em luta contra os excessos das
como uma razão extraviada. paixões e não contra as paixões em si mesmas.
Quase tôdas as doutrinas filosóficas clóssicas A concepção spinozista das relações da razão
definiram a moralidade como uma restauração da com as paixões é bem diferente. É paixão, no sentido
hegemoma da razão. Para Platão, de quem conhe- spinozista, tudo o que implica num conhecimento
-cemos o m to do Cocherro (Fedro, 246 a), a alma incompleto dos efeitos e das causas Em particular,
é comparável a uma parelha cujo cocheiro é a inte- éstes movimentos da alma que de ordinário deno-
~cia J'ClClonal (voüti), conduzindo dois cavalos: um minamos paixões se caracterizam pela sua cegueira
~.:lilllillflll'"IU e outro vicioso e dificil. O primeiro representa em relação às suas causas A obra da razão consiste
~!l!l,._!1toda, o "coração", o outro os desejos incon- em conquistar um conhecimento cada vez mais com-
~ Conforme a orientação geral peto de t&ias as coJ.Sas e singularmente de mim mes-
-~~ "CIB ;:xmxões são aqui referidas essen.- mo que sou "'uma parte do universoH. O que suprime
~-lli!I cau~ terrestre, ao fato de ~ • a rmão, não é um impulso que anima o movi-
~· mm a insularidade do comporta-
...~~~~~~~~~~t;lll ~e dasttnmd.e.ie. O sábio se esforçará, por
@ en1id0 • oPJC>r as pc;mcões às paixões e
il~11;~:;;ente uma energia que 6 a
~-aos que nenhum entre
$'lllf"i!Qlt malh01" o pmblema daB
••V.aio,.....,..
flilm.111111Bd.J~o anmntr.m!i para as
*"'1i'CJ ...
b.c!4a
t~m;
.~~-,um~a

Scanned by CamScanner
Tal é a situação da razão num mundo que não
imposta e, de outro, que o seu exercício acarreta
consequências coletivas de maior repercussão. O lhe pertence absolutamente. A existência de aspira-
aparelho soc10l comporta, pois, um curioso aspecto ções religiosas, estéticas e passionais limita certa-
mente seu campo de aplicação. Mas é que, em seu
de direção passional que vai dos códigos repressivos
uso prático ( 1) como em seu uso de conhec:unento,
aos apelo~ publicitários. A racionalização das paixões
a razão é conquista e não simplesmente regra de-
se faz assim pelo efeito de um crescimento e de uma
evolução espontânea dos organismos jurldicos e eco- terminada de uma ação.
nômicos Mas, pouco a pouco, surge um desejo coletivo
de orgamzação centralizada Poder-se-ia ver aí a Razão e máquinas
realização progressiva de um ideal spinozista de ra-
cionalização em grande escala, se os ensaios de dire-
ção coletiva das paucões humanas não participassem
d8IllCISiado amiúde, êles mesmos, de uma orientação
pasmonal A exaltação coletiva de certas paucões por
'"""-...w1g1CS os meios de propaganda e de pressão de que
M!PQ-• as grandes unidades econômicas ou o Estada!
o maior perigo que impõe à ramo D.
BP~~ _Q -~ClO das p::uxões indi'ri
~-=Qtahxlente
~
ptlo >tem
~ n•nl1J1ple llDii

Scanned by CamScanner
,.
-se doravante aos sistemas operatórios do pensamento
lógico e que, de outro lado, uma revolução recente mente As trecos energéticas são aqui mimmas, ne
da técnica pernute dar à noção um sentido filosófico gligenciáveis mesmo, em vista do resultado obtido
nôvo, suscetível de esclarecer os caminhos do pensa- que é uma tranrnissão do som da voz humana, uma
mento racional. O destino dêste é muito bem figurado transmissão de informação cujas conseqüências ener-
pela fóbula de P1gmahão. Plgmalião, hóbil escultor, géticas podem ser consideráveis, uma vez a mensagem
modela uma estátua de formas perfeitas. Mas êle interpretada por um ser humano ( 1) Da mesma ma-
desejaria, em lugar de um simulacro inerte, ter cria- neira são aparentemente negligenciáveIS as perdas
do um ser vivo A obra do pensamento racional em energia elétrica ou química que acompanham os
moderno consiste, ela também, em criar modelos dos fenômenos de circulação nervosa, que se traduzem
fenômenos naturais e das ações humanas; tende a pelo pensamento O importante é neste caso a trens:
missão de mformação: noção que permanece aqui
ainda vaga Simples ehquêta que colocamos sôbre
©=nt'rgiaf T os fenômenos, como a passagem de um conjunto de
.•, _rnfor1110Çt10
________ 4 '
! letras ou de sons cochhcados de um ponto a outro,
no espaço ou no tempo - ou a trCJilSIIllssão de uma
"ordem" de flexão dada aos nossos músculos pelo
centro nervoso excitado Mas se levarmos em conta
lates processos e se soubermos reproduzi-los, con-
~-los a J;Joçáo de máquina toma se infinitamente
n'ca e maus complexa Não maus é essa
da ~.ica chcmmda Energética, que é a disci-
~ mec&n1cc;r, uma nova CJ.êllCla deve
~ar seus cxmceltca e particul ente
Dlt:ai~e,:o ~ e\ iàáia de informação, assun
~~...- ~da para ela A máquina
rgáQismo que até ce to pon-
ltlM~)~ .iuc:lui .seu própno pilôto -
~~ ~6Uoa dado à dia-

Scanned by CamScanner
Pode-se r~ 'Sentar grosseiramente o díogromo do máquina
de n6vo estilo, 1troduz1ndo no esquema energético um circuito matemóticos às outros disciplinas. Quel'"-se reduzir tôdo c1enc1a,
secundório de frced back que transporto certamente energia, uma vez constitulda, o um sistema de engrenagens nitidamente
mos em quantidade negligenciável, e como veículo de uma desenhados. Mos o móquino assim echficoda seró sempre uma
informação por meio do qual o m::iquino regulo e modifico seu máquina o verificar. A razão eficaz, o que crio o ciência, não
próprio funcionamento. O leme outomótico, por exemplo, ao girar é formal. Elo é construtora de formalismos cu10 uso, elo
num óngulo mo do que oquêle de marcho previamente esta- dirige, interpreto e domino. No domfnio do lógico puro, por
belecido, reage Intermédio de uma onda de feed baclt sôbre exemplo, êsse processo de formalização culmino no elaboração
seu próprio órgão de comondo que retifica sua posição por uma de .. lstemas cuja validade é necessário provar. O pensamento
espécie de tateio osc1lot6rio. racional imagino pois novamente, um formalismo de segundo
grau, máquina de verificar móquinos. . . Mos o. processo não
poderio repetir-se infinitamente; o virtude do formalismo se esgoto
nessa iteração. ~le sõmente constitui, portont«:, um dos aspectos
do pensamento racional, é apenas obra do razoo.

O perigo dessa proliferação constante das oJ:;>r~


da razão é que o seu mecanismo tende a substituu
a própria razão. As "móquinas". são estátuas. que
andam e é tentador deixá-las seguir. No dominio do
~nsamento puro, citaríamos o exemplo da lógica me-
Jdieval, bela e considerável máquina, soberbame~e
ta1m::iorada, cujo funcionamento traiu no entant~ a razao
lthlrc[l.lte muitos s6culos. Num umverso mCilS amplo,
e-se pensar na crescente importêmcia ~~da,
assem ..dvilimçóes, pelos :processos mecarucos, e
~ máquinas materi<ns e intelectuais, que
..filem nossa ai8naa e nossas técnicas. Em certos
~culmmente pnvilegiados de nossa ci~­
~ca a eficácia exigida às obras da razoo
liégmentação das tarefas intelectuais, que
.emp;cisa do conhecimento cole-
~~ti§ltí)Xiâ .cuJaB engrenagens são
1tdmente especializados e
~ª~' oa produtos do pensa-
QIS a serviço de fins não
em dire~o de
ar ..âimr.. .d.e c::om.;

Scanned by CamScanner
o homem .enfrentar enfim racionalmente o problema
do conhecunento do homem, de seu aoerfeiçoament0
_e de sua felicidade? -
Um viajante conta que, nas florestas do Equador
v1vem tribos ind1genas sem contacto com os civiliza~
dos . 01egam um dia em seu domínio centenas de CO:L~CLUSõES
caminhoes, de. escavadores, de bul-dozers que, para
uma companhia petroUfera, abrem estraàas, perfuram
poços, subvertem a floresta. Eis como os 5.ndios
éstupefatos, explicaram entre si o fenômeno: 1. Assim tentamos mostrar, apresentando a rc:t-
zão no contexto da civilização contemporânea, que
"Animais novos, disseram êles, surgiram. Do- ela não se reduz em nenhum caso a uma função
mesticaram os homens, que lhes obedecem e lhes psicológica. Querer fazer de uma descrição da ati-
servem como escravos. E os homens brancos os ali- vidade racional um capitulo de psicologia sena um
mentam e abrem-lhes caminhos através da floresta. . " "rro suficientemente grave para desfigurar os traços
mais significativos da razão. Há, é verdade, uma
"cologia da inteligência, mas não propriamente
mando .wna psicologia da rozão, porque ela é uma
tese -normas criadoras.
2.. Ao contrório, dêste esbôço ressalta que se im-
um -estudo S0C10l6gico doa diversos estados da
~~~~~·la das ciências e das técnicas, a his-
ntlmento religioso contribuiram bastante
~ p:over de materiais uma pesqw.sa
iitrm;i~ &Wemoa agora, passàvelmente, o
p-ambecim.ento racional de nosso tempo,
. _ ..outms épocas, ainda que nos se)a
bHn G>bseuro o elo que o liga aos
lldt:ial. Mas sena mister
bãéf as ou\roa aspectos do
:-G1i*C4oa pragm6:ticoa maia
d -

Scanned by CamScanner
uma incessante conquista. Em perpétua concorrência
com as atitudes ditas irracionais, ela constitui em
cada época uma figura de equilibrio provisório da
imaginação criadora, e enquanto tal, através de mil
vicissitudes permanecerá como uma das fôrças mais
vivas de nossa civihzação.
BiBIJOGBAFlA SUMARIA

0 R.\cIONALISKO NA BIBT6KIA DA FIL08Õl"IA

Scanned by CamScanner
A RAZÃO NAS CIDlCIAS

JIÃOll]ll.OD, Le tlOtWBJ esprit sclentifkjue.


,.,,. ~ appliqu4! •
....,..t&m, L ~ hMmaine et Za cauaaZité phyaique.

.......
:=.PA•"'-'·.ltdio,_PIO 4 aetn4tltica.
(Q.-0;) .Klt1&odologie koll0m4que.
~
-.:4'1•-- logftJue.

Scanned by CamScanner