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Mulheres e a Literatura Brasileira

Identidade feminina e sufragismo


no teatro brasileiro do século XIX
Isamabéli Barbosa Candido1

Um pouco da história

A literatura dramática de autoria feminina ganha os


palcos apenas na segunda metade do século XX, o que não
significa afirmar que as mulheres durante esse período não
escrevessem. Foi durante o século XIX que os periódicos,
tanto dirigidos por homens como por mulheres contaram com
a presença maior dessa literatura. De forma que se torna quase
impossível estudar a literatura produzida pelas mulheres no
século XIX sem se fazer um levantamento do que havia sido
lançado durante aquela época.
De acordo com Souto-Maior (2001), além da produção em
jornais, as mulheres publicaram livros e peças. O movimento
pela conquista dos direitos políticos das mulheres ensaia seus
primeiros passos na segunda metade do século XIX, marcada
pelo início do processo de formação de uma nova consciência
acerca das relações sociais entre os sexos. Uma forte voz sobre
a questão da conquista dos direitos femininos nesse período
foi Josefina Álvares de Azevedo, Zefa, pseudônimo que
utilizava para assinar alguns de seus escritos no jornal A
Família. Sua única peça, O Voto Feminino, símbolo do
pioneirismo da luta sufragista, mesmo que ainda lhe seja
negada tamanha importância, marca a insatisfação de Josefina

1
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) -
Doutoranda em Estudos da Linguagem pelo Programa de Pós-
Graduação em Estudos da Linguagem (PPGEL).
E-mail: isamabelibc@gmail.com
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diante de uma sociedade opressora. Pouco se sabe sobre seu


perfil biográfico, todos os registros de sua vida ficam a cargo
de sua trajetória como escritora e intelectual. Mesmo pouco
reconhecida, ao lado de Nísia Floresta (1810-1885), lhe cabe a
história do pioneirismo do feminismo brasileiro 2.
Conforme Souto-Maior (2001, p. 17), durante muito
tempo, as mulheres não podiam participar de ocupações
artísticas. Em Atenas, quando grandes nomes femininos
tinham que ser representados no teatro, os homens assumiam
o papel, pois tal direito era negado às mulheres. Na Idade
Média, a exclusividade era masculina “na representação dos
mistérios cristãos”, nesse caso, eram os padres que assumiam
os papeis. As mulheres só entraram em cena na segunda
metade do século XVI, com o advento da Commedia dell’arte
que representava a realidade cotidiana, em contradição com
um teatro acostumado com o conflito baseado na mitologia
heroica da Antiguidade. A partir do século XVII, as mulheres
passam a fazer parte das atuações teatrais na Inglaterra e
França, todavia, estas atividades ainda as confundiam com
prostitutas.
A grande problemática, com base nas pesquisas de Souto-
Maior (2001), era em relação à mulher que assumisse um
personagem teatral, pois estaria usando o corpo em
discordância com o discurso oficial, que tinha como base a
constituição familiar. Tais mulheres, ao interpretarem algum
personagem, poderiam assumir diversas personalidades e até
mesmo viverem diversas formas de convivência conjugal, o
que poderia provocar possibilidades infinitas de uma nova
percepção de mundo e de hábito.

2
Tendo em vista a exiguidade de fontes sobre Josefina Álvares de
Azevedo, para reconstruirmos seu percurso, vamos nos valer da
pesquisa apresentada por Valéria Andrade, em O Florete e a Máscara.
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Durante o período entre 1855 e 1865, de acordo com Faria


(1993, p. 123-127), muitas atrizes passaram pelos palcos
brasileiros, em especial na cena do Ginásio, entre elas Gabriela
Cunha, a moça “ingênua”, ou seja, que interpretava
personagens delicados; e Adelaide Amaral, elogiada por suas
interpretações em papeis cômicos, ou nos secundários da
comédia realista francesa que vinham ao Rio de Janeiro.
O velho discurso da Igreja deve ter afrontado muitas
dessas mulheres, mas mesmo sendo apontadas como
“mulheres de mal proceder”, entre elas, as prostitutas, não
deixaram passar a chance de ganhar algum “extra”; já às
outras, consideradas de família, as do “bem proceder”, cujo
trabalho não interessava, ou não era permitido, deixaram o
caminho aberto às que se permitiam atuar. Segundo Souto-
Maior (2001), às mulheres também era negado o direito de
assistir as peças, uma vez que “mulher decente” não
frequentava teatro, principalmente pela presença feminina
nos palcos, o que poderia colocar em risco sua reputação. De
outro lado, surge a voz feminina na imprensa, na segunda
metade do século XIX, em periódicos que divulgaram a fala e
o movimento feminista que ganhava lugar. É nesse espaço que
encontramos Josefina Álvares de Azevedo. Uma das
discussões é o direito do voto feminino, culmina na publicação
de sua peça O Voto Feminino.
Devemos considerar que a partir da chegada da Família
Real, em 1808, no Brasil, o teatro começa a ganhar espaço,
porém as pessoas o frequentavam mais para serem vistas, do
que para assistirem aos espetáculos, uma vez que tal hábito se
tornou um importante costume social. O comportamento das
brasileiras se altera, e, já na segunda metade do século, os
primeiros periódicos dedicados ao público feminino aparecem.
É inegável a luta que as mulheres traçam, neste momento, pela
ampliação do exercício de sua cidadania, que ao longo dos
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tempos foi motivo de discussões em diversos ramos do


conhecimento. Um deles é o teatro, que a partir da segunda
metade do século XIX passa por muitas mudanças,
provocadas basicamente pela explosão do Realismo e do
Naturalismo, que se confundiram, constituindo momentos
quase simultâneos.
O Rio de Janeiro, especificamente em 1860, sentia o peso
de uma miséria cultural, indicada na falta de público para
manter as peças em cartaz. O interesse pelos espetáculos só
começava a aumentar depois de umas doze apresentações,
mas, nem todas as peças eram aceitas, diante disso, as
companhias buscavam sempre se diferenciar nos espetáculos,
fator fundamental, pois foi dessa forma que o público começou
a se interessar e frequentar o Ginásio, a partir daí, os
espetáculos realistas franceses começaram a fazer parte do
repertório. Faria (1993, p. 107) revela que subiram no palco do
Ginásio as pequenas comédias, no entanto, sua preocupação
maior era a comédia realista e o drama “moderno”, não o
romântico.
Os autores brasileiros também foram responsáveis por
uma produção que se manteve em cartaz no Ginásio. Faria
(1993) afirma que, de algumas peças que foram encenadas,
poucas merecem destaque e estas são: Túnica de Nessus, de
Sizenando Barreto Nabuco de Araújo; Gabriela e Cancros
Sociais, de Maria Angélica Ribeiro; Punição, de Pinheiro
Guimarães; Os Miseráveis, de Agrário de Meneses; e O
cativeiro Moral, de Aquiles Varejão. Maria Angélica Ribeiro
foi a única mulher que fez parte desse quadro de artistas que
tinham suas peças encenadas e bem aceitas na época, mesmo
com sucesso desde o século XIX, sua dramaturgia, com
Cancros Sociais, só é publicada em livro para leitor
contemporâneo em 2006, na Antologia do teatro realista.

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Segundo Faria (2006, p. 12), o realismo no teatro é um


tanto prejudicado pela visão maniqueísta que assume, ou seja,
os heróis são sempre pais e mães de família, bem comportados,
o amor não é o ardente como o do romantismo, mas sim, o
conjugal, e os vilões são sempre os personagens
marginalizados da sociedade: a prostituta, um agiota,
entendidos como ameaças à instituição familiar. Por isso, o
teórico expõe que as peças assumem esse caráter moralizador,
e para que o público não vá para casa sem saber distinguir a
lição do espetáculo há um porta voz do autor o raisonneur,
responsável por enfatizar ainda mais o que o autor da peça tem
a dizer.
A produção cultural brasileira do século XIX muito
dependia dos modelos europeus, principalmente dos franceses,
que trouxeram para os palcos brasileiros o retrato de uma
sociedade moderna, civilizada, moralizada, conduzida pela
burguesia que defendia o casamento, a família, a honra e a
inteligência, uma espécie de tribuna voltada para o debate das
questões sociais. É nesse espaço importante que encontramos
O Voto Feminino.

A mulher e o século XIX

Josefina Álvares de Azevedo 3 fora instigada, sobretudo,


pela negativa do governo em incluir a lei do voto feminino no
Projeto da Constituição que se elaborava. Contrariando a
concepção a respeito das mulheres como seres frágeis,
subordinadas aos homens, passivas, procriadoras, nessa

3
Vamos nos valer das pesquisas apresentadas por Valéria Andrade
Souto-Maior como fonte sobre Josefina Álvares de Azevedo, bem
como sobre a literatura dramática de autoria feminina.

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mesma época, uma voz tentava ser abafada, nesse caso uma
mulher, Josefina Álvares de Azevedo, e mesmo sem saber que
demoraria muito para que seu pedido de direito ao voto fosse
aceito, o que só aconteceu em 1932, quando o governo brasileiro
decreta um novo código eleitoral, incluindo as mulheres no
exercício de sua cidadania, criticava e lutava contra a
esmagadora sociedade patriarcal.
Um meio encontrado por elas para exporem suas ideias,
foram os jornais, e, para isso, Josefina Álvares fundou o jornal
A Família, de acordo com Souto-Maior (2001). Sempre
preocupada em escrever em suas páginas, principalmente
dirigidas às mulheres, a respeito de uma educação mais
consistente, enfatizava a instrução, entendida como
instrumento de libertação efetiva das mulheres, uma porta que
se abria para fora do lar. Consequentemente, isso traria
benefícios, como o exercício de novas funções em esferas
diversas como na economia, na política e na cultura.
Essa corrente que se cria, através dos jornais e escritoras
espalhadas pelo país, começa a despertar nas mulheres o
sentimento de igualdade em relação aos homens, de forma que
crescia a divulgação de exemplos de sucesso feminino
conquistados, não só no Brasil, como também em vários
outros países, em diversas áreas profissionais, tais como a
advocacia, medicina, artes plásticas, teatro, além das letras e
do magistério.
Souto-Maior (2001) em seus estudos revela que as
mulheres cariocas do século XIX assumiram um novo papel
na esfera social, o de dama de salão, o que lhes permitia a
transitoriedade entre a casa e a rua. Os salões, além de oferecer
às mulheres maior desenvoltura de ação nos domínios
domésticos, davam-lhes essa possibilidade de transitar com
mais liberdade entre o público e o privado, participando das
atividades culturais como os recitais poéticos, de música de
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câmara, de canto e representação de trechos de peça teatral;


possibilitava conhecer uma diversidade de pessoas, mesmo
que isso não contribuísse para articulações em torno da
independência. Toda essa movimentação gerava, nas
mulheres, a vontade de deixarem o papel de meras
espectadoras, para assumirem o papel de atuantes na
sociedade. De acordo com Souto-Maior (2001), nessa mesma
época, os salões concorriam com os teatros, que começavam a
ser invadidos pela presença feminina, assumindo um caráter
político, palcos de articulações para a luta por seus direitos.
Como se percebe, há uma distância entre a esfera pública
e privada entendida para Scholz (1996, p. 18) como a estrutura
básica da relação de valor, sendo a primeira ocupada por
homens, já que estes são os responsáveis pelo Estado, política,
trabalho, ciência e arte, e a segunda ficando a cargo das
mulheres: a família, a sexualidade, a fraqueza, o que consiste
em uma diferenciação “histórica do patriarcado”. Afirma-se
que o termo patriarcado refere-se ao domínio arbitrário dos
homens sobre as mulheres, porém, tal ideia, assume mais um
valor propagandístico, tendo em vista que sempre contrapõem
o homem à mulher, sujeitando ambos de modo equivalente.
Assim, os homens não comandam um regimento patriarcal,
eles são responsáveis por executar a relação fetichista de poder
que é pressuposta.
As divergências que decorrem da esfera feminina, o
contexto de vida delas e o domínio de atividades impostas a
elas, como a administração do lar, educação dos filhos,
convívio social, são elementos integrantes da socialização pelo
valor, porém, são também, exteriores a elas. Como afirma
Scott (2005, p.6), quando diz que nunca foi aceitável pensar nas
mulheres abandonando seus pios cuidados de suas casas, os
berços de seus filhos, para virem a espaços públicos,
discursarem nas galerias, nos foros do Senado.
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De acordo com Souto-Maior (2001, p. 16), as mulheres


sempre foram vítimas de opressão, em se tratando do meio
artístico, nos séculos XVII e XVIII, as mulheres que
pintavam e que, já desde o século XVI, tentavam
reconhecimento, ficaram restritas à pintura floral, à natureza
morta e ao retrato, gêneros considerados de menor valor
artístico. Na música, também tiveram que enfrentar alguns
obstáculos, pois eram proibidas de cantar nos coros da igreja
desde a Idade Média. Só no final do século XIX, garantiram o
direito de produzir composições, e o acesso ao treinamento
musical, que só era possível aos rapazes. Com relação à escrita,
as mulheres sempre foram barradas, pois se a elas não era
garantido o direito à educação em escolas, era retirado também
o direito da escrita literária.
Do mesmo modo aconteceu com o teatro durante o século
XIX: as mulheres foram impedidas de atuar. Fruto dessa
marginalização do teatro, a dramaturgia escrita por mulheres
ainda é praticamente desconhecida. O único papel de destaque
que elas recebiam eram nas produções teatrais elaboradas por
homens. Gomes (2008, p. 397) apresenta em sequência
cronológica: Antígona e Medeia, das tragédias homônimas,
respectivamente, de Sófocles e Eurípedes; Lady Macbeth, da
tragédia Macbeth de Shakespeare; Nora, de Casa de Bonecas, de
Ibsen. Entre as personagens femininas do teatro brasileiro, as
mais lembradas são Leonor de Mendonça, da peça homônima
de Gonçalves Dias; Carolina, de As asas de um anjo, de José de
Alencar; Berenice, da peça homônima de Roberto Gomes;
Alaíde e Zulmira, respectivamente de Vestido de Noiva e A
Falecida, de Nelson Rodrigues, entre outras.
O cenário pobre do teatro brasileiro começa a ser mudado:
agora, o público passava a lotar os teatros. As mulheres, por
imitação do exemplo europeu oferecido pelas princesas
começavam a se tornar espectadoras, mesmo que, em seus
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camarotes, houvesse uma reprodução temporária da casa de


família, visto a maneira como os pais e maridos “zelosos”
tinham de “protegê-las”. Agora era permitido que as mulheres
de “bem proceder” frequentassem outro lugar além da igreja,
de modo que, por consequência, conheciam outras mulheres e
homens, aprendiam novas músicas, deixando seu meio social
mais amplo, respirando outros ares além do restrito convívio
doméstico.
O teatro brasileiro recebe fortes influências do teatro
europeu que muito alterara a imagem do ator e da atriz, o que
contribuiu para aumentar o número de pessoas, sobretudo das
mulheres interessadas em se tornarem profissionais do palco,
de elemento vulgar e marginal, o teatro transforma-se em
propagador da civilização. Porém, ainda era negado às
mulheres criar os próprios personagens e seus enredos, pois, a
primeira metade do século XIX, um dos maiores problemas
enfrentados por elas foi o analfabetismo: até 1827, as meninas
não tinham direito ao ensino primário no Brasil, de acordo
com Souto-Maior (2001, p. 17).
O cenário habitual do teatro, já na segunda metade do
século XIX, começava a ser alterado com a chegada da
comédia realista, ameaçando o teatro romântico. O novo
gênero chega ao Brasil por volta de 1855 e seu primeiro palco
foi o Ginásio Dramático, sendo bem recebido por boa parte do
público e pelos jovens intelectuais do Rio de Janeiro, conforme
também apresenta Faria (2006, p. 12-13).
Vale salientar que as mulheres não ficaram de fora do
movimento de reorganização do teatro brasileiro, mesmo que
suas contribuições mais ativas fossem nas representações, um
número, mesmo que pequeno, teve participação ativa, como
tradutoras e até autoras de peças teatrais. A partir de então, a
carreira artística de atriz já passava a ser apontada por

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jornalistas brasileiras como uma das possibilidades


profissionais para as mulheres.
A arte dramática estava ganhando espaço, e nesse período
começa a ensaiar o importante papel que irá influenciar,
algumas décadas mais tarde, no que concerne à batalha das
mulheres em torno da conquista por seus direitos na
sociedade. Gabriela pode ser pensada como uma das primeiras
manifestações cênica em defesa da mulher, bem como Cancros
Sociais e Um dia de opulência, como também em A Ressurreição
do Primo Basílio, Maria Angélica Ribeiro não deixará de se
posicionar, ainda que seja pelas entrelinhas, como uma
dramaturga empenhada em retratar, discutir e protestar contra
os equívocos referentes à situação opressiva vivida
socialmente pelas mulheres de sua época.
De acordo com Magaldi (2004, p. 15), as peças desse
período no Brasil advogaram a fusão das raças, a
Independência, o Abolicionismo, a República, e
estigmatizaram os diversos erros da sociedade. Sempre
ampararam os oprimidos, combatendo qualquer forma de
tirania. É desta forma que a “nova geração” começa a despertar
e recusa o teatro como simples entretenimento, proclamando
o seu elevado alcance social.
Se o nome feminino mais conhecido na literatura
dramática é o de Maria Angélica Ribeiro, que possui uma vasta
obra teatral com mais de vinte peças, quase todas inéditas, ou
perdidas, outro nome é de Josefina Álvares de Azevedo, pouco
conhecida no país, cuja única peça, O Voto Feminino, serve
como um significativo grito para que as mulheres naquele
momento despertassem do aprisionamento em que viviam
superando a visão de que elas eram inferiores. Devemos
compreender que se propagava uma imagem do feminino que
“sofre o mundo” ao invés de agir sobre ele. Essa ideia ganha
mais força no século XIX, quando o modelo do ideal feminino
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será ampliado pela valorização da maternidade, o que sofre


grandes influências da igreja que sustentava o ideal de mulher
associados à figura mariana. É no confinamento da casa, que a
mulher fundamentará sua autoridade sobre a família, sobre o
homem. Simbólica e praticamente lhes é dado tanto mais
poder quanto mais elas abandonassem quaisquer pretensões
políticas e/ou sociais externas ao âmbito doméstico,
limitando-se ao papel de educadoras de seus filhos, quando
assim o marido o desejasse, pois nem todos lhes garantiam tal
capacidade. Como afirma Beauvoir (1949, p. 165), “o destino
que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o
casamento. Em sua maioria, ainda hoje, as mulheres são
casadas, ou o foram, ou se preparam para sê-lo, ou sofrem por
não ser”.
Scholz (1996, p. 18) acredita que ao caracterizar o
patriarcado, as diferenças sociais entre homens e mulheres
tornam-se produtos de uma cultura, portanto, deixam de ser
resultante de dados biológicos. Isso não significa dizer que as
diferenças biológicas entre os sexos não tenham importância.
Assim, com base em Scott (2005, p. 21), ao legitimarem a
exclusão das mulheres, tomando como fundamento as
diferenças biológicas entre elas e os homens, “a diferença
sexual” foi estabelecida não apenas como um fator natural,
mas também como uma base ontológica para diferenciá-los
nas esferas políticas e sociais.
Os movimento feministas, que começaram a aparecer no
século XIX, surgem para tentar derrubar os conceitos que
consideram a mulher como apenas “procriadoras”, e lutam
para que a mulher seja vista também como um ser humano
que possui suas particularidades, assim como todos os outros.
O feminismo enfatizou, como uma questão política e social, o
tema da forma como somos formados e produzidos como
sujeitos generificados.
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A busca da identidade feminina é uma questão


amplamente discutida e que ainda não gerou soluções. Poucas
foram as mulheres que conseguiram destaque, ainda assim
sofreram com os preconceitos impostos. A força do
movimento feminista teve também sua importância no que
Stuart Hall (2005, p. 45) chamou de “crise de identidade”, que
faz parte de um processo amplo de mudanças, deslocando as
estruturas e processos centrais de sociedades modernas,
transformando aquilo que os indivíduos tinham como
referência estável no mundo, no caso, as concepções machistas
acerca das mulheres, os velhos preconceitos. Assim, “a
identidade surge não tanto pela plenitude da identidade que já
está dentro de nós, mas de uma falta que é preenchida a partir
do nosso exterior, pelas formas nas quais imaginamos ser
vistos pelos outros” (HALL, 2005, p. 39).
A reflexão sobre a identidade feminina no século XIX e
as formas pelas quais ela se exprime, revela esse
entrecruzamento, ou seja, uma busca pela identidade de um
lado, e, de outro, um procedimento histórico, entendido como
um percurso no interior do qual o indivíduo desenvolve a sua
identidade, mas, pelo contrário, como a pedra a qual assenta a
cada vez mais precária constituição de sua procura. Isso
significa dizer que a história não é sentida,
predominantemente, como o fluir do exterior do tempo, ao
qual o indivíduo seria necessariamente alheio, mesmo se
constituindo como ser atuante. Nesse caso, Buescu (2001, p.
85) afirma que a identidade seria, pelo contrário, constituída
através da história e é esta história que permite a
autoconsciência e a auto-expressão do sujeito enquanto tal:

Não basta reconhecer alguém (ou algo) como sujeito: torna-


se necessário compreender de forma precisa como é que tal
reconhecimento é mantido, ou mesmo preservado, através

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do tempo, especialmente no caso em que surjam diferentes


figurações, que poderiam diminuir a capacidade de
compreensão de como, sendo diferentes, apesar de tudo
manifestam uma mesma identidade e de alguma forma
constituem sobretudo “modalidades” dela. Isto significa
também que a identidade pode (mesmo se paradoxalmente)
diferir de si própria, manifestando-se sob a forma de
desidentificações aparentes (BUESCU, 2001, p. 87).

Para a referida autora, um dos problemas fundamentais


para o pensamento romântico foi a constituição da identidade
individual, por ter relação não apenas com a tentativa de
“equacionação do que “eu” sou”, mas, reciprocamente, de
como este “eu” se diferencia de outros. De forma que o sujeito
formula sua identidade através ainda de uma outra atividade
comparativa, com relação à temporalidade humana, ou seja,
como uma forma de memória pessoal que é, acima de tudo, a
memória da história familiar.
É através da reflexão voltada para o conceito e imagem da
família, cujo sentido para uma visão burguesa do mundo é
evidentemente essencial, que o construto histórico da noção
de sujeito enquanto identidade se formula e desenvolve. A
família pode ser interpretada como o primeiro lugar em que os
indivíduos constroem sua identidade, e, no século XIX, a
educação das mulheres ainda acontecia no seio familiar, sendo
geralmente exercida por mulheres. Resultado: as mulheres
acabavam respirando a atmosfera de um mundo totalmente
feminino, em que lhes era ensinado que o casamento e os
filhos são, de fato, indispensáveis para sua condição social,
algo que faz parte do destino de todas, tornando-as cada vez
mais subordinadas aos homens. Ou seja, o patriarcado do valor
foi obrigado a criar para si um refúgio onde pudesse
resguardar-se de si próprio a privacidade abstrata da família,
considerada como a esfera de ação preferida da mulher.
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Mulheres e a Literatura Brasileira

A mulher pode ser considerada por muitos como um ser


inteiro, mas, mesmo com as mudanças que vinham ocorrendo
desde a época de Josefina Álvares de Azevedo, elas ainda são
afastadas e bloqueadas pela sociedade, vivendo em uma
dicotomia: por um lado, buscam sua individualidade e direitos
como ser humano, por outro, ainda são responsáveis por
obrigações que dizem ser de caráter apenas feminino, ligadas
às estruturas familiares que permanecem praticamente
inalteradas. Todavia, não estão mais ancoradas na total
dominação masculina, e nem caracterizadas pela total
indiferença.

Identidade e sufragismo

O Voto Feminino foi uma peça utilizada como instrumento


de propaganda na luta pelos direitos políticos das mulheres,
por isso, assume um caráter simbólico da origem do
sufragismo brasileiro. Pensada para revelar a necessidade de
abolir a desigualdade social entre homens e mulheres, a partir
da garantia dos seus direitos. O conflito da peça está centrado
na aprovação do sufrágio feminino defendido ora por um
grupo de personagens, ora por outro, envolvendo sempre os
casais Anastácio e Inês (que representa a voz de Josefina na
peça), Rafael e Esmeralda, Joaquina e Antonio e o Dr.
Florêncio, único homem a favor do sufragismo. Mesmo que o
resultado primeiro da peça seja a negação do ministro, a
esperança ainda tem força e ganha continuidade com
Constituinte.
Em suas iniciativas na luta pela garantia dos direito da
mulher, a ativista afirma que a diferença sexual não é sinal de
diferença na capacidade da mulher em dividir com os homens
tanto a direção da família como a do Estado, pois era às
mulheres que cabia o papel principal, e não aos homens:
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Mulheres e a Literatura Brasileira

Até hoje têm os homens mantido o falso e funesto princípio


de nossa inferioridade. Mas nós não somos a eles inferiores
porque somos suas semelhantes, embora de sexo diverso.
[...] Portanto, em tudo devemos competir com os homens –
no governo da família, como na direção do Estado. [...]
As sociedades assentam suas bases sobre dois princípios
cardeais: o princípio da força e o princípio da ordem. O
princípio da força é o homem, o princípio da ordem a
mulher. Assim pensado, até me parece que compete-as de
preferência a direção das sociedades. Porque o homem é e foi
sempre a negação da ordem, sem a qual não há sociedade
possível. E em abono desta opinião eu vos trarei um exemplo
muito vulgar – o governo de uma casa. É raro o homem que
sabe dirigi-la: pois bem, ele que não é capaz de governar uma
casa, que se compõe de algumas pessoas, poderá governar
um estado, que se compõe de muitas centenas de casas?
Entretanto não é nosso o domínio dos povos e das nações
(AZEVEDO apud SOUTO-MAIOR, 2001, p. 51-52).

Ainda, de acordo com Souto-Maior (2001, p. 53-54), nomes


como Narcisa Amália (1852-1924), Júlia Lopes de Almeida
(1862-1934) e Ignez Sabino (1853-?), escritoras e poetisas de
renome, outras como Anália Franco (1859-1919) e a belga Marie
Renotte (séc. XIX), que ganhavam destaque como
educadoras, todas da mesma época que Josefina, foram
mulheres que contribuíram com seus escritos, para as
possibilidades de modificação da visão que se propagava sobre
elas na sociedade, ao se mostrarem capazes de nivelamento
social com os homens.
Porém, desde os inícios das atividades à frente do seu
jornal, Josefina sentiu uma grande dificuldade em relação à
indiferença com que algumas mulheres tratavam as leituras
desses periódicos.

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A existência de outros periódicos dirigidos por homens,


dedicados às mulheres nessa época, fez com que a concorrência
aumentasse, todavia, esses jornais não tinham nenhuma
intenção de alterar a ordem social instituída. Isso fez com que
os jornais feministas assumissem outra roupagem, sendo
obrigados a incluir entre seus artigos, alguns com intenção
pró-emancipação feminina, como também assuntos sobre
figurino de moda, receitas de beleza e culinária, notícia de
teatro e de leituras consideradas amenas.
Josefina não se deixou abater, tampouco, se sentiu
obrigada por tal imposição, mesmo provando os efeitos de tal
decisão. É o que revela em um de seus primeiros artigos sobre
a educação da mulher, publicado em janeiro de 1890. O fato de
redigir uma folha exclusivamente para mulheres aparecia-lhe
como prova da capacidade feminina de construir sua
autonomia.
Nessa mesma época, A Família, traz duras críticas não só
às leitoras e suas leituras, mas também ao outro único jornal
do Rio de Janeiro, dedicado à causa da emancipação feminina,
dirigido por Francisca Senhorinha da Motta Diniz, que em
novembro de 1873, na cidade de Campanha de Princesa - MG,
editou pela primeira vez, o jornal literário chamado O Sexo
Feminino, tendo como propostas principais, “difundir à
educação pelas mulheres e de servir de veículo para a instrução
e ilustração feminina” (MARQUES, 2009, p. 442). A partir da
edição de 15 de dezembro de 1889, no Rio de Janeiro,
Senhorinha mudou o nome do jornal para O 15 de Novembro do
Sexo Feminino, de forma que marca expressivamente o tom da
mensagem, que passou a incluir a defesa do voto feminino.
Os estudos de Souto-Maior (2001) revelam que temas
políticos não faziam parte dos assuntos abordados em O Sexo
Feminino, pois Senhorinha revelava ceticismo quanto aos
efeitos positivos da mudança de regime sobre a condição
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Mulheres e a Literatura Brasileira

feminina. O fato de Senhorinha publicar em seu periódico


entretenimentos demais para as mulheres, fez com que
Josefina não considerasse seu jornal como sendo da mesma
natureza que o seu, pois só este era dedicado, de fato, às
questões femininas/feministas, e talvez, por isso, não tenha
despertado tanto interesse nas leitoras.

A primeira condição essencial da emancipação das pessoas é


a instrução. Instruída a mulher, todos os direitos se lhe
antolham com o da posse razoável de todos os seres da
espécie. A lei restritiva não lhes parece senão como um
despotismo tirânico da força contra o direito, do homem
sobre a mulher. E a mulher será instruída e emancipada, com
todos os direitos inerentes às personalidades humanas, ou
não será instruída e, por conseguinte, tornada inferior pelo
egoísmo dos seus semelhantes, o que é uma monstruosidade.
Repito: - A emancipação da mulher é um direito concernente
à sua instrução. Mulher instruída é mulher emancipada.
Instruída, porém conservá-la atada a todas as penas da
ignorância, da superstição e da inferioridade social é absurdo
preconceito que não pode senão produzir males sociais
(AZEVEDO apud MARQUES, 2009, p. 446).

Os artigos escritos por Josefina Álvares de Azevedo


indicam que ela participou da articulação mais ampla que
levou à queda do regime monárquico, já considerando a
possibilidade de ver alterada a situação do estatuto feminino
no novo regime:

O direito de voto das mulheres é uma necessidade latente,


de que há muito ressente se não o nosso, como muitos outros
países. Alguma nação deverá ser a primeira a iniciar-se nesse
grande melhoramento, por que não será o Brasil? O Dr.
Lopes Trovão propõe-se a pugnar pelo direito eleitoral da
mulher. É seu programa combater para que possamos ter
51
Mulheres e a Literatura Brasileira

parte direta nos destinos do país. Por que não envidarmos


todos os esforços para que possa esse cavalheiro realizar uma
tão justa quão útil aspiração de dar-nos o verdadeiro lugar
que nos cabe na sociedade? (AZEVEDO apud MARQUES,
2009, p. 446).

A referência a Lopes Trovão indica o alinhamento de


Josefina Álvares de Azevedo a tais propostas, tornando-se
uma das formas de participação política mais decisiva dentre
as praticadas no campo político carioca. Em um de seus
artigos, conforme apresenta Souto-Maior (2001, p.64)
publicado no dia 30 de novembro, revela sua certeza de que
sem o exercício do direito eleitoral, a igualdade prometida pelo
novo regime não passava de utopia:

O país, vai, sob a nova fase de existência inaugurada a 15 do


corrente, consultar os espíritos emancipados sobre as leis
sociais que hão de preparar o advento de todas as grandezas
pátrias.
É necessário que a mulher, também como ser pensante,
como parte importantíssima da grande alma nacional, como
uma individualidade emancipada, seja admitida ao pleito,
em que vão ser postos em jogo os destinos da pátria.
A liberdade e a igualdade são sempre uma.
À mulher, como ao homem, deve competir a faculdade de
preponderar na representação da sua pátria. Queremos o
direito de intervir nas eleições, de eleger e ser eleitas, como
os homens, em igualdade de condições.
Ou estaremos fora do regime das leis criadas pelos homens,
ou teremos também o direito de legislar para todas. Fora
disso, a igualdade é uma utopia, senão um sarcasmo atirado
a todas nós. (AZEVEDO apud MARQUES, 2009, p. 446).

Posteriormente, como apresenta Souto-Maior (2001, p.


64), a autora inicia uma série de novos artigos sob o título de
52
Mulheres e a Literatura Brasileira

“O direito de voto”, defendendo ainda o direito eleitoral da


mulher. Assumindo-se contrária à posição que era defendida
por alguns legisladores referente à incapacidade sobrevinda do
sexo, a exemplo da menoridade, demência, o que revelaria a
ação de votar como um perigo social. A ativista discorda e
assume a posição de que a emancipação das mulheres as
tornará licenciadas ao exercício do direito do voto. Tal posição
é exposta de forma clara em seu último artigo dessa série:

Em geral, os casos de incapacidade política são estes-


menoridade, demência, inabilitações, restrições de liberdade
por pena cominada, etc., etc. A esses aduzem os legisladores
a “diferença do sexo”. Mas em que essa diferença pode
constituir razão de incapacidade eleitoral?
A mulher educada, instruída, em perfeito uso de suas
faculdades mentais, exercendo com critérios as suas funções
na sociedade, é uma personalidade equilibrada, apta para
discernir e competente para escolher entre duas idéias aquela
que melhor convém. Não pode por conseguinte estar em pé
de igualdade com os dementes, com os menores, com os
imbecis.
Assim sendo, é absurdo o princípio de sua incapacidade
eletiva.
Opõem os homens que a diferença de sexo estabelece
incapacidade para as funções públicas! Está provado, com a
moderna faculdade do exercício de algumas dessas funções,
que a tal incapacidade não existe em absoluto. [...]
O direito de voto é um direito de escolha; e todos que
possuem o necessário critério de escolha devem possuir o
direito do voto. [...] [...] (AZEVEDO apud SOUTO-
MAIOR, 2001, p. 64-65).

Ainda como base em Souto-Maior (2001, p. 66), o jornal


A Família assume um caráter agitador em favor da propaganda
sufragista, mas a preocupação de Josefina era nunca perder seu
53
Mulheres e a Literatura Brasileira

foco pela luta da educação das mulheres, empregando fortes


críticas àqueles que se opuseram à causa defendida por ela. Um
desses foi o Ministro dos Correios e Instrução, Benjamim
Constant, que proibiu a entrada das mulheres nas escolas de
nível superior. Dessa forma, a autora já antecipava o
retrocesso que tal decreto significaria para toda a sua luta, e
atacou severamente tanto o Ministro, como as ideias
positivistas defendidas por ele.

O decreto do ministro dos correios e instrução fechou às


senhoras brasileiras as portas das academias, desses
verdadeiros templos da ciência, em que a religião do
progresso faz a crença de todos os espíritos ávidos de saber.
Esse fato equivale a condenar-nos à mais completa
ignorância, a retrogradarmos muito além dos templos
históricos, pois que já na antiguidade as Hipatias floresciam
no Egito, as Safos e as Corinas na Grécia. [...]
Triste contingência a da mulher neste país, a permanecer de
pé e intacta a legislação reformada pelo positivismo do
governo!... (AZEVEDO apud SOUTO-MAIOR, 2001, p.
66).

Daí por diante, Josefina, não mais satisfeita com a luta


pela imprensa periódica, começa a procurar outros meios para
o seu engajamento sufragista. No início de 1890, imprime em
sua tipografia um folhetim chamado Retalhos, em que
reproduz vários de seus artigos já publicados em seu jornal: os
da série “O direito de voto”, concernentes à educação da
mulher, reunidos sob o título “A mulher moderna, conforme
Souto-Maior (2001, p. 67- 68).
Mesmo que tenha incluído outros textos que não fossem
relacionados à temática principal da coletânea, a jornalista, de
acordo com Souto-Maior (2001) mostra suas primeiras
intenções, que era fortalecer a propaganda sobre o voto e fixá-
54
Mulheres e a Literatura Brasileira

la em páginas menos transitórias que as de um jornal. Bastante


elogiada pela imprensa em geral, a publicação teve sua
magnitude destacada pelo redator da Gazeta de Notícias, que
mesmo sendo minoria na ala masculina, defendia
publicamente os direitos das mulheres, de acordo com Souto-
Maior (2001, p. 68-69).
Em abril de 1890, Josefina decide levar ao palco o debate
aberto pela imprensa sobre a questão do voto usando o espaço
cênico como palco de discussões, o que já havia acontecido no
Brasil entre 1855 a 1865, sob a inspiração do teatro realista
francês, discutindo nos palcos diversos problemas sociais
enfrentados pela emergente burguesia brasileira. No início de
fevereiro de 1890, a sociedade se movimentava para a
convocação de eleições e a instalação de uma assembléia
constituinte, o ministro do Interior, Cesário Alvim, havia
decretado a qualificação do eleitorado e os procedimentos
administrativos para promover o alistamento eleitoral4.
Tal decreto revelava que seriam leitores “todos” os
brasileiros natos, no gozo dos seus direitos políticos e
alfabetizados, sem excluir, claramente, as mulheres como
eleitoras. Mesmo assim, de acordo com Marques (2009, p.
449), a gaúcha Isabel de Souza Mattos, de São José do Norte,
teve sua solicitação de alistamento eleitoral, no distrito de
Engenho Velho, indeferida pelo ministro, gerando, uma
“jurisprudência” sobre pedidos de alistamentos feitos por

4
Lembrou Jorge Fernandes (1997) que um decreto de 21 de dezembro
de 1889 já havia a convocação de eleições para uma Assembléia
Constituinte. Por sua vez, o decreto doa alistamento foi o 200ª, de 8
de fevereiro de 1890, assinado pelo inimigo político de Aristides
Lobo, o mineiro Cesário Alvim. O chamado Regulamento Alvim,
de fevereiro, foi reeditado com alterações que não comprometem a
nossa linha de análise, a 23 de julho de 1890. [Decreto n. 511] apud
MARQUES, 2009. p. 448.
55
Mulheres e a Literatura Brasileira

mulheres. Sua qualificação de diplomada com nível superior,


como dentista, não foi suficiente para convencer Cesário
Alvim.
Impulsionada pela recusa do Ministro datada, em 9 de
abril de 1890, Josefina publica um comentário dias antes:

O direito de voto
A velha questão já vivenciada do direito do voto às pessoas
do meu sexo, teve, ao que me consta, uma solução provisória
pelo governo, a mais incompatível com o regime de
igualdade, como é republicano que agora possuímos.
O governo, resolvendo a questão apresentada, “não
considera nem oportuna, nem convincente qualquer
inovação na legislação vigente no intuito de admitir as
mulheres sui juris ao alistamento e ao exercício da função
eleitoral”.
A solução supra pode ser considerada como não tendo razão
de ser uma vez que se nos admitimos a votar, em virtude da
lei vigente, nada se inova, nem se concede fora da lei. A
grande questão está em saber se a mulher está ou não na letra
da lei para ser admitida à qualificação, e ninguém poderá
negar que a respeito não há nem uma só disposição que a
impeça de poder obter o título de eleitora (AZEVEDO apud
MARQUES, 2009, p. 449).

Foi essa desilusão que fez a jornalista se aventurar como


autora de um dos gêneros considerados como mais difícil por
ela. No período de duas semanas, sua comédia foi criada,
recebendo o título de O Voto Feminino, indo à cena, no dia 26
de maio de 1890, no Teatro Recreio Dramático, um dos mais
populares do Rio de Janeiro da época.
Neste, Josefina teve como intuito denunciar o ridículo da
resistência masculina em aceitar a participação feminina nas
questões políticas das nações. De toda forma, enfatizou
também a confiança que as mulheres deveriam depositar nos
56
Mulheres e a Literatura Brasileira

congressistas, que estavam para elaborar a nova constituição


em Assembléia. À comemoração dos homens sobre a exclusão
das mulheres do universo de eleitores, uma de suas
personagens femininas na peça revela: “Não se entusiasmem
tanto. Ainda temos um recurso. Aguardemos a Constituinte!”
(AZEVEDO apud SOUTO-MAIOR, 2001, p. 74).
Mesmo que tenha sido bastante aplaudida, O Voto
Feminino, retrato da vida fluminense, só sobe aos palcos uma
vez, e, por isso, a jornalista procura outros meios para levar
sua ideia adiante. O Voto Feminino é uma comédia em um ato,
caracterizado como um texto resumido, único e protestador,
ganha significado no século XIX quando as mulheres
começam a lutar pelas conquistas dos seus direitos sociais e
políticos no Brasil. Retrato da vida doméstica fluminense, se
passa na casa de um conselheiro, num curtíssimo espaço de
tempo antes do jantar, três casais, nesse caso, os donos da casa,
a filha e o marido, e a empregada e seu noivo discutem e
aguardam a resposta do Ministro, tão esperada pelas mulheres,
mesmo que por motivos diferentes, a respeito da garantia do
direito ao sufrágio feminino.
Com base em Souto-Maior (2001, p. 74), em 1890 a peça
reaparece publicamente outras vezes no jornal A Família, de
agosto a novembro, em forma de livro, além de fazer parte da
coletânea, intitulada A mulher moderna: trabalhos de propaganda,
a segunda organizada por Josefina, editada no ano posterior,
ano em que a Constituinte ainda se encontrava reunida,
sempre com o intuito de fortalecer sua propaganda voltada
para o direito do voto feminino, em especial junto aos
parlamentares, ela apresenta seu livro:

Posso dizer com orgulho que ninguém com mais entusiasmo


e amor tem tratado do meu assunto no Brasil - A emancipação

57
Mulheres e a Literatura Brasileira

da mulher. Vai nisso, sei bem, o maior merecimento do meu


trabalho.
O assunto por natureza é grande.
Penas mais vigorosas, mais adestradas, tê-lo-iam explanado
com maior vantagem para a causa em si. Não o fariam com
mais dedicação.
[...]
A emancipação da mulher é um ideal. A ele foram
consagradas todas essas páginas que se seguem.
Boas ou más, elas são sem dúvida uma revelação – a de que
eu creio num futuro melhor para a mulher brasileira e de
regeneração para a humanidade (AZEVEDO, 2004, p. 78).

Um dos últimos escritos deixados por Josefina é a


publicação, em 1897, de sua terceira coletânea, Galeria ilustre:
mulheres célebres, diferente dos outros já publicados, nessa
galeria de celebridades femininas a autora sinaliza de forma
clara os novos papeis sociais imaginados por ela para as
brasileiras, de forma que expõe retratos de famosas, entre elas
rainhas e figuras políticas. Ainda em 1889, publica na revista
A mensageira o artigo “Solidariedade feminina” traduzido do
francês por ela mesma, depois nenhuma referência é feita a seu
respeito.
A questão referente à mulher é tudo menos uma
exclusividade delas, é urgente a luta de ambos os sexos contra
as formas de existência sociais, objetivadas e reificadas das
cisões patriarcais produzidas pelo valor. A superação do
patriarcado é, ao mesmo tempo, a superação da forma
fetichista da mercadoria, pois esta é o fundamento da
divergência patriarcal. Nesse caso, o objetivo seria buscar um
grau mais elevado de civilização, no qual homens e mulheres
fossem capazes de fazer pelas próprias mãos sua história,
construindo suas próprias identidades, para além do
fetichismo e de suas atribuições sexuais.
58
Mulheres e a Literatura Brasileira

O interesse em trazer à tona algumas dimensões da


trajetória e das ideias de Josefina Álvares de Azevedo deriva
de uma preocupação em desvendar universos femininos
relegados ao esquecimento. Josefina Álvares aproveita a ideia
de um teatro moralizador e civilizador que começava a se
difundir durante o século XIX entre os jovens intelectuais
brasileiros, e se apoia em tal pensamento para escrever uma
peça de um caráter ora cômico, ora sério, para contestar a
respeito da emancipação feminina, e dessa forma revela a nova
identidade feminina nesse período, a de uma mulher que não
aceita passivamente o que o social lhe impõe.
Ao contrário de alguns, penso que existem experiências
humanas dignas, que merecem ser transmitidas, como as
vividas por Josefina Álvares de Azevedo que lutou e desafiou
os limites da cultura de seu próprio tempo, resistindo até a sua
morte pelo acesso das brasileiras à cidadania social, política e
econômica. É preciso ressaltar que mesmo sob o poder das leis
e dos costumes patriarcais, algumas mulheres, enquanto
sujeitos históricos ampliaram os espaços de liberdade de ação
modificando os rumos da história da mulher, responsáveis por
construir uma nova identidade, a que busca o reconhecimento
de si.

Referências

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um ato. In: Acervo Histórico. São Paulo, n. 2, jul. – dez. 2004,
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Mulheres e a Literatura Brasileira

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