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CONSELHO EDITORIAL

FOLHA
Alcino Leite Neto EXPLICA
Ana Luisa Astiz
Antonio Manuel Teixeira Mendes
Arthur Nestrovski
Carlos Heitor Cony
Gilson Schwartz
Marcelo Coelho
Marcelo Leite
Otavio Frias Filho
Paula Cesarino Costa

A MAGIA
A I

ANTONIO FLAVIO PIERUC

PUBLIFOLHA

-I
© 2001 Publifolha Divisão de Publicações do Empresa Folha da Monhé Ltdo.
© 200 J Antônio Flóvio Pierucci
SUMÁRIO
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicaçõo pode ser reproduzida,
arquivado ou transmitido de nenhuma formo Ou por nenhum meio sem permissão expresso
e por escrito do Publi{olha - Divisão de Publicações da Empresa Folha da Manhã Ltda.
INTRODUÇÃO: YO NO CREO, PERO ...
Editor
Arthur Nestrovski
1. MAGIA ESPONTÂNEA: DEFESA E PREVENÇÃO 1
Assistência editoriol
Paulo Nascimento Verona

Capa e projeto gráfico


2. MAGIA PROFISSIONAL: CURA E PREDiÇÃO ......... 2
Silvia Ribeiro

Coordenaçõo de produçõo gráfica 3_ O DIAGNÓSTICO MÁGICO .4


Marcio Soares

Assistência de produção gráfico 4. POR QUE A MAGIA? 5


Soreia Pouli Scarpa

Revisão
Mário Vilela 5_ AS LEIS DA MAGIA
Editoraçóo eletrônico
Picture studio & fotolito 6. UMA DISTINÇÃO CURIOSA:
BRUXARIA E FEITiÇARIA 7

7. UMA DIS~INÇÃO N EC_ESSÁRIA:


Dados intemodol\ois de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileiro do Uvro, Sp, Brasil) MAGIA NAO E RELlGIAO 8
Plerucd, António Fkivio
A magia I Antônio Flávio Pierucci. - Séo Paulo : 8. OCIDENTE: A RELIGIÃO CONTRA A MAGIA ..... _... 8
Publifolho, 200 I. - {Folha explico)

Bibliogrofio.
ISBN 85-7402-29O-X
CONCLUSÃO 9

I. Magia 2. Ocultismo I. Titulo. II. Série. BIBLIOGRAFIA 10


01-2124 COD-133,43
índices porQ catálogo sistemótico:
1. Magia: Ocultismo 133.43

PUBLIFOLHA
Divisão de Publicações do Grupo Folha

Av. Dr. Vieira de Carvalho, 40, 1]° andor; CEP 01210-010, Sôo Paulo, SP
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Introdução 9

pratIca aos povos prinutIvos, às épocas arcaicas e às


camadas mais baixas da população. Convém, portanto,
iniciar este livro falando das três atitudes básicas que os
nossos contemporâneos podem tomar a respeito da
existência ou não de poderes mágicos: a crença, o [eti~
cismo e a semicrença.
A crença mágica reside na suposição. de que al-
guns seres humanos são capazes de controlar forças
ocultas (pessoais ou impessoais) e intervir nas leis da
natureza por intermédio de técnicas rituais. Trata-se
de um poder extraordinário - um carisma, no senti-
do forte do termo - que, segundo se crê, capacita
quem é mago, bruxo, feiticeiro ou xamã a impor sua
vontade às forças supra-sensíveis (tanto faz se divinas
ou demoníacas) e direcioná-las para a concretização
dos objetivos para os quais é solicitada sua compe-
sola!", falou, e foi batendo três vezes na tente performance profissional: predizer o destino de
madeira. alguém, curar uma doença, defender dos invejosos,
I
[TI Eis um breve ritual de magia, muito atacar os inimigos.
difundido em todas as camadas da popu- Nas sociedades tribais e em outras formas de so-
lação brasileira. Rápido, lépido: três toques na madeira ciedade tradicional de pequena escala, a crença na
com os nós dos dedos da mão direita fechada, en- nlagia envolve a coletividade inteira, sendo justamen-
quanto se pronuncia o signo lingüístico adequado "Iso- te a fé coletiva o que assevera a eficácia dos ritos da
la!", fórmula mágica em tempo de interjeição. l magia primitiva, sua eficácia simbólica. 2
A onipresença dos gestos de magia espontânea Diferentemente do que ocorre naquelas socie-
elTI nossa época, as forn1as n10dernas de difusão na dades, o que se observa enl todos os casos de nlagia ou
111ídia e o consumo regular da consulta aos astros (o feitiçaria registrados pelos estudos antropológicos e
horóscopo diário e o mapa astral informatizado), sem históricos das sociedades modernas ou em vias de
flbr da nova onda de profissionalização de 111agos e 111odernização é apen<;ts unl círculo estreito de pessoas
bruxas no bojo dos circuitos globalizados de terapias que não tên1 vergonha .de confessar sua crença e ade-
alternativas estilo Nova Era, definitivamente nos proí-
be111 de continuar associ;mdo a crença na I1ugia e sua
• l.l·vi-Strams. I ()SX; M:ttl.'~. I <J74; Mo!ltçro, I ()')(1,I':lr:1 L'COI)Ollliz:lr t'Sp:1ÇO !las notas,
;ldotalllo,; L'S~l' Si~!l'llla abrevi.ldo tk rd<:rência:[()<.bs as obras lIlcIlCiolladJs COnsr.1tl1
I I 1;'1 P;l!Sl'~ {'III 'ltl~· se h;ltc 110 ';:rro. II.io 11.1 Illadcir:l. da Bihli()~l~di;!. ;10 flJlal do livro.

.l __ ~, __
10 A introduçáo 11

são ao magismo. Um grupo social de referência, que pretação mágica da desgraça ou felicidade. Desse
partilha com a pessoa que se diz enfeitiçada a crença ponto de vista, a crença na magia é desvalorizada como
na causalidade mágica e no poder especial feiti- credulidade ou crendice} julgada debochadamente
ceiros. Em geral, pessoas próximas: gente da família, como ingenuidade, ignorância, atraso mental, Falta de
uma roda afetiva de vizinhos, sócios, colegas instrução ou, no mínimo, falta de 5Para os
de trabalho, correligionários de clube esportivo, parti- cetIcos, em magia ou feitiçaria é não apenas
político ou comunidade religiosa} pessoas enfim ser mas também parecer primitivo, estúpido, ln1:antl1.
conhecem de perto o e talvez saibam A atitude mais generalizada, porém, é a da meia
do feiticeiro, dividindo com ambos os perso- crença. A expressão consagrada entre os Clé~ntlst::tS
nagens as mesmas conjecturas e Têm na sociais anglófonos - half-belief.6 Tendo de um lado
mesma mentalidade mágica o seu quinhão e o fazenl grupo dos que acreditam e outro o bloco dos céti
vicejar no contexto restrito dos dramas relacionais e cos, a posição majoritária nos tempos atuais é a do
antagonismos 3 São indivíduos que sem semícrentes. São indivíduos "acreditam se
pestanejar a existência de elementos "sobrenaturais" aC]~edllta.r , ou "desacreditam acreditando". Impossíve
para explicar de tangível oias e o nefas, as ocor- não a propósito, o citadíssimo adágio espanho
rências boas e as sem causa racionalmente que diz: Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las
conhecida ou determinada. ("Não acredito em bruxas, mas que existem, ex:istem~').
É gente que acredita mesmo em feitiço. Dada Essa é uma das muitas atitudes (o
essa condição, que abriga uma disposição, eles fazem nem tão lúdicas assim) que, para além de
de si mesmos clientes preferenciais dos magos profls- firme e incondicional, confessável sem rodeios ou
SICmalS ou, quem sabe, feiticeiros ocasionais eles pró- palavras, denotam a influência que sobre corações
prios, praticantes eventuais da magia espontânea. Dessa mentes exerce ainda hoje a magia, "essa grande se
que se aprende no boca-a-boca ou, com mais deta- nhora extraordinariamente , no dizer de Andr
lhes, nos livros e receituários vendidos em Breton, o grande teórico do surrealismo. 7 Semicrenç
lojas de u111banda ou nas seções de esoterismo das boas éo se vê naquele "Eu sou de Escorpião)), "Eu so
livrarias. 4
E há os céticos. oposição direta à crença ex-
plícita nos feiticeiros e sua magia, está o ceticismo
5 o t!ngraçado é que: esse mesmo tipo de crítica pode ser encontt:l.do na boca d
queles indivíduos que, tendo adotado o espírito da muitos não-cético$, s.aber: padres, pastores, rabinos e outras lidermças religiosa
nloderna racionalidade recusam toda inter- doutrinárias. que por profissão admitem a crença na religião. mas não a crença n
rn.agia. Durante os primeiros séculos do cristianismo, a [greF ocidental. oficial. be
antes de ter dado início à caça às bruxas na baixa [dade Média, proibia que se ~credi
tasse na existência de magia e bruxaria (Castiglioni, t 993). Depois mudou de teori
e partiu para o ataque morcaI aos feiticeiros e feítiÇc~iras, devidam~nte assimilados ao
.\ Camus. 19H8. espíri[Q~ diabólicos. queimando-os nas fOh'Ueiras da Inquisição.
, V;,:r tr~s bons C'xC'lIlplos na lJibliogr.\fi:l: Fardli, 1999; R.ajahn, t 999; e o mais com- I. Ver Campbdl, 1996.

pleto d~ todos. Reza!, Betlzeduras, Simpatíal' (São Paulo: Editora Três., s..d.). 7 Apud Morin, 1972.

•_____ ..... ...ia-...


12 A Magia Introdução 1.3

de Aquário", dito em tom irônico, duvidoso. É a "cren- o chute? Muitos brasileiros fazem isso. Muitos ingle-
ça crítica ou~ enfim, pseudocrítica", esc~eveu Philippe ses também. E franceses. 9 E italianos, argentinos e
Defrance, referindo-se à astrologia. 8 E a atitude de outros. Quantos acreditam? E atirar sal por cima do
alguém que, dada a impossibilidade que experimenta ombro sem olhar para trás para secar verrugas? E co-
de ser "racional", cede à contingência de ser apenas locar vassoura atrás da porta a fim de botar fora a visit
"razoável". É a atitude daquele sujeito que, moderno, inoportuna? Quantos dos próprios indivíduos engajados
aceita reconhecer todas as insuficiências da explicação nesses rituais mágicos banalizados crêem que eles "fun-
lnágica dos fatos, mas tanlbém, pós-moderno, se recu- cionamH , que de fato dão resultado?
sa a pôr fundamentalmente em questão a realidade Na sociedade contemporânea, dos países mai
bruta e a um só tempo nebulosa das interferências pobres aos economicamente mais avançados, são inú
místicas e ocorrências encantadas que arrastam a ima- meras as pessoas que praticam atos supersticiosos ma
ginação humana ... Que las hay, las hay. declaram não crer que possa dar certo o emprego des
Semicrença é assim: constante oscilação, dança sas fórmulas mágicas, orais e gestuais. Praticam-se com
sem repouso. Parte da descrença desses indivíduos vem pulsivamente atas de magia trivial, sem acreditar-s
de sua adesão ao valor estratégico do conhecimento inteiranlente neles. Práticas irracionais? Não necessa
científico, do reconhecimento do legítimo lugar de riamente. Jl} O filósofo francês Henri Bergson chamo
dominância cultural ocupado pela ciência moderna e certa vez a atenção para a grande semelhança que h
pelo espírito crítico, marcadores básicos da moderni- entre o gesto do homem que, de raiva, aperta os dedo
dade. CaIu toda a boa vontade cultural de que são como se estrangulasse de longe um inimigo e a práti
capazes, tentam integrar-se plenamente à mentalida- ca da feitiçaria de ataque, a magia negra. Para Bergson
de dominante, mas suas próprias experiências e em ambos os atos está presente o sentimento verda
vivências os fazem desconfiar de toda essa racionalidade deiramente mágico de que, uma vez executados cer
do moderno, que se pretende total e que, no entanto, tos gestos simbólicos, as coisas ficam carregadas de um
parece não dar conta de tudo o que acontece na vida. força que obedece aos desejos do ser humano. 11 D
Quando cruzamos os dedos em favor do time um ponto de vista muito mais crítico, e sem a devid
do coração na hora do pênalti, ou quando com a mão ênfase na eficácia ritual, o pai da psicanálise, Sigrnun
no bolso fazemos figa para nos defender do mau agouro Freud, foi encontrar sua definição de magia na "oni
de um colega, da inveja de um vizinho, da praga rogada potência do desej 0".12
por um concorrente, estamos de fato acreditando que
essas magias dão certo? E o que dizer do jogador
que de longe tenta impelir a bola na direção pretendi-
da e a aco111panha corn sua ll1Ínlica depois de ter dado
" CUllpbdl. llJ96; l30y & Mícht:bc, 19~6.
lI} Bt:attic. 1970; l3ourdieu. 1980;Jarvie & A),,7<lS$í. 19~7; Sperber, 1982.

Bergson, 1932.
I ~ Freud, 192-1-.
,. I )crranci.'. ! 972.

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Magia Bpontânea lí

calos e depois deitar a peça de gordura num formi-


gueiro, isso repetido por três sextas-feiras seguidas.
Na maioria das vezes, o rito pode ser bem com-
plicado, de execução difícil. Como aquela receita má-
gica para confecção de um amuleto de amarração
amorosa que, entre outros ingredientes, vai exigir do
interessado que use na elaboração do patua o primei-
ro ovo de uma galinha virgem, façanha quase impos-
sível na cidade grande. O antropólogo francês que mais
estudou a magia, Marcel Mauss, gostava de dizer que
conhecia "um grande número de ritos mágicos mui-
tíssimo complexos" .14 O mínimo a ser dito dos ri-
tuais de magia, completava, é que" em geral não se trata
de atas simples, nem desprovidos de solenidade" .15
Fácil ou dificil, a ação mágica é sempre estereo-
tipada. Fixa. InvariáveL Não por inércia, mas por tabu.
ara obter o efeito esperado, o ritual de ma- O formalismo mágico é um traço bem conhecido.
gia precisa ser executado à risca, não im- No universo da magia, o espírito de repetição e imi-
portando a duração. Para não "gorar o tação predomina fortemente sobre a inovação e a
P resultado pretendido, deve-se evitar qual- criatividade: a coisa se faz assim e pronto; se mudar,
[fJ
quer falha ou elisão na execução do rito. Qualquer des- desanda. Quando há mudança, é muito mais por adi-
cuido pode deitar tudo a perder. A garantia de ção e sincretismo do que por subtração e substituição.
preservação da linguagen1 especifica da ll1agia con1 a Para unl feiticeiro que se preze, cortar coisas de unl
eficácia que lhe é própria - a ificácia simbólica, na célebre rito ao qual se está amarrado na condição fiel de-
enunciação de Lévi-Strauss (1958), a qual depende do positário é um risco que ele não vai querer correr.
reconhecimento da coletividade - reside principalmente Tudo se passa como se, nas entrelinhas de cada ritual
no respeito meticuloso às prescrições do ritual. Que de magia, estivesse inscrita, ameaçadora - "Não ousa-
pode ser muito simples, feito aquele dos três toques na rás!" -, a proibição de Joda alteração por corte ou es-
lnadeira. 13 Ou um pouco mais complicado e demora- quecimento. Afinal, é a· transmissão (traditío) daqueles
do, COIUO a simpatia para tirar calos dos pés, que de- precisos rituais que faz de um ser humano comum
lnanda três selnanas e consiste en1 passar toicinho no~
I, Mauss, 1974: 75.
ISlnfelizmente. não há espaço neste livro para falarmos da curiosa mistura de soleni-
IS Essa mesma simpatia admirt: versiio mais complexa da fórmula mágica sonora: em dade e írreverêncía nos rimais de magia, irreverência muít.:ls vezes beirando a obsce-
nidade. O tema é bem interessante. Magia ~ cxcravagância.
vez dt: "I~ota!". pode-s~ dizér "Pé UI.' pato mang:!lô três Vt."ZL'~!".

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18 AMagia Magia Bpontânea 19

um feiticeiro reconhecido como tal, um mago profis- a vida humana como sujeita a ataques de todos os
sional. Compete a ele memorizar, não compreender. pos, a defesa mágica torna-se logicamente imprescin-
Dobrar-se às regras e repeti-las, antes que modificar- dível. Não a toda hora, não a todo momento sobrevém
lhes o curso, O molde ou o teor. o ataque - mas é preciso estar prevenido Atento
Muita gente que pratica esses singelos rituais de e forte. Principalmente se as agressões forem, também
simpatia o faz basicamente para proteger-se. Há quem elas, ações mágicas intencionais e competentes de
evite pronunciar o nome do câncer, só se referindo a magos ou feiticeiros profissionais a soldo de algum
ele por eufemismo, "aquela doença", como que para dos nossos inimigos que os há, disso nos assegura o
se precaver do poder maléfico de uma palavra. Eis aí pensamento magIco capazes de acionar contra nós
un1 tabu em forma de eufemismo. "Sabe-se lá o peri- uma feitiçaria de ataque, um malencio.
go de certas palavras ... " Dizem que, quando proferi- Defesa e prevenção são necessárias também contra
das - "Vai sabed" -, podem agourar. Viram mau os ataques mágicos involuntários, do tipo mau-olha-
presságio, "chamam" a doença. "Melhor evitar." Isso é do, jetatura, bruxaria. Ou, ainda, contra as energias
magia, pensamento mágico. Evita-se aquela palavra negativas, os maus eflúvios, as larvas astrais, as más vi-
como se evita passar debaixo de escada~ mirar-se -em brações, como hoje dizer o jargão neo-esoté-
espelho quebrado, viajar na sexta-feira 13, passar vas- rico das terapias mágico-místicas da Nova Era. O
soura nos pés de moça solteira. próprio feiticeiro, ao dispor-se a realizar um ato qual-
Isso é magia. Nesses casos, magia branca. Que é fei- quer de magia benéfica, precisa antes precaver-se
ta para afastar desgraça. Muita pensa que magia influências maléficas, combater os nefastos, iso-
branca é somente a magia positiva, aquela que se faz no interior do chamado círculo mágico, que ele
para provocar efeito favorável, mas na verdade a maio- próprio risca no chão. como se não bastass~ o cír-
ria das vezes que se pratica a magia branca é para evitar culo mágico, não deixa nunca o mago de trazer, em
U111 evento desfavorável, tirar o azar, neutralizar o efeito cima do próprio corpo ou en1 volta de si, vastíssimo
eh magia Quando a feitiçaria é acionada, seja arsenal de armamentos defensivos: amuletos e talismãs,
para favorecer e promover, seja prevenir e defen- fetiches, mascotes e patuás. "Isola!"
as pessoas e seus bens, diz-se magia branc'a; se é para Chama-se talismã o objeto que serve para atrair
lesar, deprimir ou mesmo matar, chama-se magia negra. a boa sorte. Entre nós, brasileiros, os objetos porta-
A idéia de difesa mágica está presente na maior dores de sorte mais' usados são o pé de coelho e a
parte desses rituais mágicos trivializados que são as ferradura. Chama-se amuleto aquele objeto cuja
simpatias, bem como em todos os rituais de cura, !idade é proteger, afastar a infelicidade, repelir a
benzeção e pajelança. É ela, e nenhuma outra, a idéia- .urucubaca; o pé-frio, a inveja, o mau-olhado. 16 Con-
que se encontra condensada na fórmula verbal
imperativa "Isola!", inteljeição que de propósito encima
a abertura deste livro, por ser absolutamente central Ir. Segundo o historiador Arruro Castiglioni, a palavra amuleto vem do verbo latino
ao pensamento mágico. Com efeito, quando se pensa amoliri, que quer dizer afastar. afugentar. desviar, refug-ar (Castiglioni. 1993: 83).
20 A Magia Magia Espontânea 21

feccionado OU preparado magicamente com O fim de


prevenir seu portador das influências malignas, um Exemplo de conjuro contra
amuleto funciona como uma espécie de escudo, um "pre- tempestades usando o número 4
servativo mágico". Não por acaso uma das ativida-
des profissionais do feiticeiro é fabricar esses objetos Eu te conjuro, nuvem , furacão, granizo) chuva de pedra,
e petrechos de usar, para distribuir entre os clien- tormenta e tromba-d'água, em nome do Grande Deus
tes ou para uso pessoal. A idéia por trás de cada Vivente, Adonai, EZoisin, Teobac) Metraton, que te dissolvas
amuleto é sempre a mesma: neutralizar a potência como sal na água, e te retires às selvas inabitadas e barrancos
dos feitiços, arredar as forças hos'tis. Esconjurar a in- incultos, sem causar dano ou estrago a ninguém.
felicidade) enfim.
Na linguagem do magismo, conjuro (ou conjura) Faço o sinal-da-cruz às 4 partes do mundo, e se é
é a invocação mágica proferida em tom autoritário tromba-d' água se cortará da mesma forma, mas é preciso
para enxotar os demônios, as almas do outro mundo, ter um punhal de revés na mão esquerda. E com ele eu
os quebrantos, enguiços e bruxarias. Conjurar (ou faço o sinal-da-cruz, 4 vezes, e corto as 4 partes do
esconjurar, dá no mesmo) é enfrentar o mal: postar- mundo e esconjuro as tormentas efenômenos agressivos
se na frente dele para barrar-lhe o caminho, vedan- da natureza com as 4 palavras que Deus falou a Moisés:
do-lhe todo acesso, em frente, por trás, em cima, Uriel SeraphJ]osaphá, Ablaty, AgIa Caila.
embaixo, à direita, à esquerda, não importa em que
direção. É por isso que os trabalhos de contrafeitiçaria, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.Amém. 17
tal como os de feitiçaria, costumam ser colocados
nas encruzilhadas. Ou nas passagens. Ou nas abertu- É a mesma insistente idéia de defesa mágica que
ras. Nos pontos de comurucação em resumo. A no-
t
explica o hábito, ainda hoje vigente entre pessoas de
ção de pontos cardeais - que se ajusta perfeitamente todas as nacionalidades e camadas sociais, de trazer con-
à divisão espacial em cruz, quer dizer, em quatro: sigo certos signos mágicos - quando não diretamente
não tem o mundo quatro cantos? - adquire aqui va- na pele, em forma de tatuagem -, de ter no bolso ou na
lor sagrado estratégico, logístico. Literalmente, valor bolsa, pendurado no pescoço, nas orelhas, nos braços,
crucial. Com efeito, é em espaços protegidos por um tornozelos e dedos, pel,o menos um amuleto ou talismã:
"círculo mágico" dividido internamente pelos eixos anéis (em magia, anel 'é, básico), pulseiras e braceletes,
de uma cruz que se desenrolam as práticas mágicas correntes, brincos e ping~ntes em forma de gota, figa,
I11Jléficas, assin1 conlO as perfonnances destinadas a ferradura, falo, folha, vulva, aranha, escaravelho,
neutralizá-Ias. Não dá para esquecer que na língua sala tnandra , flecha, estrela, meia-lua, lua inteira, rosa,
portuguesa as inttrjeições "Cruz-credo!)', "Credo-
em-cruz!" ~ "Cruzesl" constituem expressões espon-
tâneas de conjuro e aversão. Na üninência do perigo, 17 Es[~' c: (}lUTOS ~'xc:m~~lm dL' rczas c lWl)zeduras brasileiras (oram extraídos de Reza,;,
.. C redo-em-cruz, isola!". /li'II,~j·dllrtl.\. Sim/J,lIiil~(Sião I';lldo: r:.diIOTa TrL's. s/tl).

L,
22 A
Magia Bponrdm:a 23

rosácea, rosa-das-ventos, coroa, coração, chave, trevo de


quatro folhas, régua e compasso, naipes do baralho; Reza forte contra feitiços e bruxarias
moedas de todo e material; fetiches e bibelôs feitos
Esta oração de auto-aplicada deve ser rezada às seis
de ouro, prata, ferro, osso, chifre, marfim, obsidiana, ce-
horas da tarde seounda-{eiraC hora do ;11/1ITp11l<'
ó "J )
râmica, porcelana, vidro, madrepérola; e pedra: pedras
preciosas, senuprecíosas, cristais e cristalinas, frag- jazendo-se vezes o sinal-da-cruz:
mentos quartzo, lascas de pedra-d'ara, seixos de rio,
({Se eu tenho olhado, vento ruim, vento mau, sezão, maleíta,
pedras raio, pedras de carvão, lava de vulcão, pedras
furadas, pedras roladas; sementes de romã, sementes de impaludismo, malvadezas, coísas1eitas, rastro apanhado) credo
cabaça, olho-de-cabra, olho-de-boi, nozes de obi, erumzado, para que tu não me digas que vou rezar,]esus é
mamo na, favas-de-quebranto ou mangalô e mui- vai me curar. Com me botaram, com três
tas outras espécies de grãos e sementes; sachês, caixinhas,
Do meu corpo eu arretiro o olhado, quebranto,
J
ruindade, mofineza, calacanga olhos maus) vistas cresddas,
pequenos frascos e ânforas com raízes e ervas e folhas e
pétalas secas ou socadas, cinzas, fios de cabelo, pedaços credos encruzados. estes males apartados pras águas do
de pele humana, migalhas de pão bento, de unha, tuar sagrado, e cá nunca maÍs voltarão, que a meu lado Deus
pêlos e penas de animais; ou então conchas, pérolas, estará pra me salvar de todo mal. Olhado olhado preto,
búzios, caracóis, estrelas-da-mar; cintos, faixas, fitas e olhado estuporado, olhado excomungado, olhado amaldiçoado!
fitinhas, bandagens e todo de atadura, pre- Todos esses males do meu corpo apartados) botados pras ondas
gos, terços, rosários, guias e colares e outras enfiadas de do mar. Se botaram olhado pelas minhas costas) São Costa.
contas e miçangas, fios ou cordões com nove nós, com foi pela minhafrente, São Vicente. Sangue deJesus me lavou,
cinco, sete ou 21, garras de leopardo, dentes de jacaré, me limpou, estou lavado] estou limvado. estou curado.
vértebras de cobra, patas de gafanhoto, pés de coelho; salvo em nome de Deus. Amém".
escapulários, relicários, camafeus, breves e hentinhos com
rezas ou responsórios ou mantras ou versículos bíbli- Indissociável da idéia de maleflcio, a designação
cos, um signo cabalístico, uma palavra mágica, o "Salmo magia negra poder~a ser apenas uma forma setorial de
91", escritos no ou em parte em pano ou papel, nomear o fenômeno mágico. Mas é. Nesse ato
pílulas de papel (as de Frei Galvão estão na moda), pi- de particularizar a designação, muita deixa de po-
menta, sal grosso, sal fino, principalmente o sal usado nos der ser dita. Talvez o" "principal. Como reconhecem os
batizados católicos; e as mandalas, medalhas, medalhões, clássicos antropólogos fI:anceses Hubert e Marcel
medalhinhas, crucifixos e cruzes. Todo tipo de cruz. Mauss, mesmo quando '~ presença dos demôruos
Haja proteção, haja magia de defesa. E haja magia de ,_ vem expressamente assinalada no rito mágico, ela
ataque também, porquanto não há magia branca que não . manece quase sempre possível. 18 Como se a virtualidade
esteja, sempre-já, tensionada por ato prévio de magia ne-
gra, um "'trabalho" da pesada. Tecido por atas de ataque e
o universo mágico é essencialmente agonístico. (g M:\uss. 197-+.

i
24 A Magia

do n1al pairasse sobre o universo do magismo como


um todo e, enl efeito metonímico (a parte pelo todo),
terminasse por refenr qualquer feitiço ao maleficio, con-
taminando de malignidade todo o complexo das práti- 2. MAGIA PROFISSIONAL:
cas de feitiçaria, levando de roldão a imagem benevolente
da feiticeira que só faz o bem, do feiticeiro que só es- CURA E PREDIÇAO
conjura o mal.
Afinal, toda e qualquer magia acaba sempre por
renleter-nos à sua verdade objetiva última, sua realida-
de subjacente, sua identidade recorrentemente recalcada:
a magia negra, origem moléstias e infelicidades e,
por isso mesmo, razão ser do feiticeiro bom. 19

I')
Há dois tipos básicos de f~iticeiro bom: o I!lt:dídw: mail (isto ~,o curador) e o witch.
d,)(fQT(isto é. o dc:sf::tzr:dor de trabalhos c: bruxedos, quebrador de demandas,
de$l'nfl.'itkador. cOlljurador til" Illaldióos),

L
Magía Profissional 27

e, depois dele, Pierre Bourdieu21 , denominam-se sacerdo-


tes os funcionários qualificados de uma empresa religiosa
permanente, especializada em exercer influência sobre
os deuses e os corações dos homens através do culto
regular e organizado. Em torno do serviço divino admi-
nistrado rotineiramente pelos sacerdotes, forma-se e se
reúne periodicamente uma comunidade religiosa de ir-
mãos instituída na forma de igreja - isto é, comunidade
moral permanente e permanentemente moralizável pela
ação pastoral de proselitismo insistente e endoutrinação
incansável dos seguidores, a fim de fazê-los e mantê-los
fiéis.Já os serviços oferecidos pelos magos e feiticeiros são
procurados eventualmente pelos clientes, dos quais não se
espera nem constância, nem regularidade, nem muito
menos fidelidade.
Ao contrário dos sacerdotes-funcionários, os agen-
e existe por toda parte e é praticada em tes mágicos exercem uma profissão sem vínculo
larga escala a magia espontânea das sim- institucional. O feiticeiro é um pequeno elnpresário in-
S patias, rezas fortes, benzeduras e outros ri- dependente, cuja atividade econômica consiste em pro-
tos mágicos acessíveis aos não-iniciados, duzir e oferecer a uma clientela avulsa nada permanente
está claro desde logo que quem pratica magia nem - nunca uma igreja, portanto - serviços que aos olhos
00
senlpre é mago profissional. Mas, quando o caso é sé- dos sacerdotes e profetas, seus concorrentes na adminis-
rio, para o bem ou para o mal, o jeito é recorrer aos tração do sobrenatural e na oferta de serviços de acesso
saberes técnicos e aos poderes extraordinários, social- ao sagrado, são" apenas aparentemente" religiosos, ou seja,
mente reconhecidos, de um bom profissional da feiti- "pseudo-religiosos''-, "religiosos ilegítimos ou ilícitos")
çaria devidamente iniciado e treinado nessas artes. "manipulações profanas e profanadoras" do divino. 22
Os profissionais da magia ficam mais bem recorta- O feiticeiro profi~sional é o detentor de um métier.
dos sociologicamente quando comparados com os pro- Ele detém o traquejo c4l.s artes próprias de um oficio
fissionais da religião, os sacerdotes. Segundo MaxWebero independente. Portador de saber especializado, em gran-
de parte secreto, ele faz e sabe fazer, pode e tem a vontade

~" Max Wl!ber (1864-1920) é o maior sociólogo alemão de todos os tempos. Sua
21 Pierre Bourdieu é tido hoje como o maior sociólogo francês vivo. Professor no
obra !ll:lís famos:I ~ A Ética Protes/allte e o Espírito do Capitalismo, na qual de aborda o
proccs:m de dL:$\ll:t~ific:\(ão do cristi~tlisll\o. na transição do c~co\icisl11o, ti..; feitio Colleg~ de France,c:n París, sua obra maí~ importante: é Úl
DisLÍnaion (paris: Minuit,
S;ICr;\ml.'l!t:l) é ~n!;\~l' ritualístic:l. para o protl'sr:UltlslllO plIrit:H\{) dos sl:culos J6 c 17. \979), Seu livro mais n:ccntc é LI! Domillali,lJl Mllswlíl/(.' (Paris: Sc::uil, 1998).
12 W{!bcr. !l)l)1: 294; BourdíC'lI, 1974: (,0.
de I~·;tio as.Etico c :lCl'nco llIür;\Ií$ca.

...;L
28 A Magia Magia profissional 29

de acertar. As ciências que ele controla são ditas "ocul- das aflições do cliente. Isso pode ser conseguido de
tas", e as artes que ele domina, na condição de produtor várias maneiras, como, por exemplo, a partir de dicas
independente, envolvem multiplicidade complexa de do próprio cliente, mas o desenfeítiçador vai mesmo é
operações. São elas que lhe possibilitam oferecer aos inte- recorrer artes da adivinhação. Feiticeiro bom tem
ressados duas classes de produto: em troca de remuneração que ser bom na prestação destes dois serviços básicos:
1110netária cobrada sem subterfUgios ou eufemismos,23 desfazer a coisa-feita e identificar o autor da maldade.
o feiticeiro produz bens e presta serviços. As manhas de desmanchar e as artes de adivinhar muitas
Entre os serviços, contam-se curas e descarregos, vezes se confundem. Não só na mesma pessoa, como
trabalhos e amarrações, feitiços e sortilégios, ebós, também no mesmo processo: conjuros e mandas an-
macumbas, mandingas, conjuros e sacudimentos, além dam de braços dados. No limite, quase toda adivinha-
de presságios e oráculos, segredos e revelações, adivi- ção se enreda na lógica circular da magia e termina
nhações e vidências, previsões e retrovisões, dedfra- adivinhando ... um feitiço. Magia diagnostica magia.
ção de sinais e achamento de coisas perdidas. Entre As artes da adivinhação são também chamadas
os bens, podemos citar receitas e preparados diversos de artes mântícas ou mandas (do grego mantéia = adivi":'
(cocções, filtros, poções, beberagens, infusões, banhos, nhação e mántis = adivinho, termos derivados de ma-
garrafadas, pastas, emplastros, pós), além de amuletos, nia). São tantas as especialidades mânticas praticadas
talismãs, patuás e preservativos mágicos de todo tipo desde os tempos mais remotos e nas mais diferentes
e formato. culturas que vale a pena, aqui, a ·tentativa de listá-las o
mais exaustivamente possível. Não só para demons-
trar sua enorme variedade e a vastíssima extensão de
seu uso, mas também para explicar por que os profis-
VIDENTES E ADIVINHOS sionais da magia mais procurados costumam ser os
adivinhos. É qu~ a oferta de 1110dalidades é generosa:
o feiticeiro bom é assim considerado antes de tudo acrimancia (adivinhação por meio do fogo), actino-
porque peita a maldade, desmancha feitiço, desfaz tra- manda (pelo brilho das estrelas), aeromancia (por si-
balho, levanta o carrego, daí decorre que um dos nlais nais observados no ar), agromancia (pelo aspecto dos
freqüentes serviços que os magos oferecem é o de campos), aleuromancia ou alfitomancia (pela farinha
localizar um feitiço e identificar o sujeito causador de trigo), amniomah.cia (pela membrana que envolve
o feto, o saco amniótico), antracomancia (pelo carvão
em brasa)) apantomancia (por tudo o que de improvi-
lJ Assim procedendo, o feiticeiro explicita diante do cliente o papel de vmdedor que , so apresentar-se aos olhos), aritmomancia ou numero-
todo líder rdigioso, no fundo, desempenha na rdação objetiva que estabelece com os Iogia (pelos números e técnicas aritméticas), astromancia
que demandam seus préstimos. Papel esee que, como aponta criticamente o sociólo-
go francês Pierre Uourdíeu, constitui a verdade objetíva de toda rdação entre espe-
ou astrologia (pela conjunção dos astros e outros fenô-
rialisl:;l.~ n:lí~ios()s l' leigos. I.."l\.tl"l\. seres humanos comuns, c()n~umídores de bens c menos celestes), axinomancia ou ascinomancia (ba-
>cr\'k,-'~ ~\~r;\do$ (UollrdiC't1. 1974: ú( l~~).
seada na profundidade, forma e direção do golpe do
,30 A Magia Magia Profíssíonal 31

machado nunl tronco), bibliomancia (por livro aberto do número de filhos que uma mulher vai' ter pelo
ao acaso, que pode ser a Bíblia, particularmente o "Li- número de nós do cordão umbilical do primeiro filho),
vro dos Salmos"), botanomancia (por plantas e ervas), orllcomancia (pelo formato das unhas), ouiromancia
capnomancia (pela fumaça das vítimas queimadas em chave dos sonhos), onomancia ou onomatomancia
sacrificio), cartomancia (pelas cartas do baralho ou do (pelos nomes próprios ou comuns, pelo valor de suas
tarô). catoptroluancia (por espelhos), cefalaionomancia letras e possíveis combinações), oomancia (por ovos),
(por cabeça de burro), ceromancia (por figuras feitas ornitomancia (pelo vôo e piado das aves, como os
com cera derretida), clidomancia (por chaves), cosci- auspícios e augúrios), ostracomancia (por conchas
nomanda (por peneira giratória, ou coador), cristalo- mar, sendo o melhor exemplo entre nós o jogo de
mancia (por bola de cristal, cristais de rocha ou mesmo búzios), palmomancia (pelos gestos instintivos),
pedras de gelo), cronomancia (por combinação de da- pegomancia (pelo movimento das águas fontes),
tas), dactilonlancia (pela fornla dos dedos do consulente, pelon1ancia (pela observação da lanla), piromancia (pela
ou por anéis), dafuomancia (por folhas louro quei- forma, altura, intensidade e direção das chamas do fogo
madas), enomancia (pela cor e consistência do vinho), sacrificial), quiromancia (pelas da palma da
fisiognomancia ou fisiognomonia (pela forma do ros- rabdomancia (por meio de varinha mágica, pauzinhos
to e pelo aspecto geral da pessoa), gastromancia (por ou pêndulos, tipo de radiestesía empregado também
vasos de vidro bojudos), geomancia (por sinais forma- na detecção subterrânea fontes, tesouros, minas etc.),
dos ao acaso deitando-se pedregulhos sobre terra ou rapsodomancia (por trechos de poemas), sagitomancia
areia espalhada na mesa), glifomanda (pela escrita), (oráculo da flecha), salimancia (pelas figuras formadas
hepatomancia ou hepatoscopía (inspecção do fígado pelo sal quando lançado sobre a mesa), sicomancia
da vítima sacrificial), hidromanda ou hidroscopia (pelas folhas da figueira), sideromancía (por meio de
(inspecção dos sinais formados por movimentos na barra de ferro em brasa sobre a qual são atirados peda-
água), iatromancia (pelas enfermidades), ictiomancia ços de palha para ver como ardem e em que direção
(pelas vísceras dos peixes), lecanomancia (por objetos vai a fumaça), tefromancia (pela cinza dos sacrifícios),
ogados numa bacia ou alguidar),lacomancia (pelo jogo teratomancia observação monstruosidades
de dados), lampadomancia ou licnomancia (pelas va- físicas ao nascer, tanto de humanos como de animais),
riações da chama de uma tocha, vela ou candeia, um tiromancia (pelo queijo), xilomancia (pela disposição
tipo de radiestesia). líbanomancia (pela forma e dire- dos gravetos e pauzinhos secos achados no canúnho),
ção da fumaça do incenso), litomancia (por pedras), zoomancia (por inspecção de animais).
meteoromancia (pela observação dos meteoros), A adivinhação pode ser feita usando-se técnicas
nlolibdomancia (por figuras formadas pelo chumbo e habilidades diversas e manipulando-se os mais
derretido que se lança na água ou em superncie lisa), rentes signos, objetos e petrechos, orgânicos ou Ínor-
necromancia ou nigromancia (por consulta aos mor- gânicos, materiais (cartas, búzios, manchas) ou mentais
tos autorirariaIuente convocados a nlanjfestar-se), (nún1eros, cálculos, sonhos, palpites). tecnologias
ofiomancia (pelas serpentes), onfalornancia (previsão lnântícas Illais difundidas são a astrologia, a numerolo-

... ~
32 A Ma,gía Magia prifissional 33

gia, a interpretaçã.o dos sonhos e dos presságios, a lei- ção não tinha a ver somente com o desejo de prever o
tura das cartas e das linhas das mãos. Sem falar na bola futuro. No decorrer da história ocidental, esclarecem,
de cristal, ícone por excelência das artes adivinhar. a adivinhação foi procurada principalmente três
N o Brasil, o melhor exemplo é o jogo de búzios, finalidades nluito concretas: predição do futuro ime-
1110dalidade de oráculo que se cultiva no contexto diato; achamento de coisas perdidas ou iden-
cultural das religiões afro-brasileiras 24 e que nos últi- tificação da autoria de um feitiço.
mos anos tem-se tornado,juntamente com o tarô, cada Antes mais nada, portanto, adivin.hação é um
vez nlais acessível ao grande público, em especial nas termo que designa o conhecimento paranormal
"feiras místicas", praças, parques, shopping centers e do futuro (previsão, precognição, prognose, predição),
outros lugares públicos não-religiosos. 25 do passado (retrospecção ou retrocognição) , do distan-
Praticantes artes mânticas são conhecidos des- te (telestesia, telepatia). E ainda, não menos útil, o co-
de a mais remota Antiguidade. Da Grécia, os mais fa- nhecimento do que está oculto: desvendar coisas e tra..rnas
mosos são os oráculos (o de Apolo, em Delfos; o de secretas, inclusive as deuses, achar o que foi
Zeus, em Dodona; o de Hermes, em Patras) e as sibilas do ou roubado, localizar o desaparecido per-
ou pitonisas. Cassandra, a pitonisa amaldiç"oà- tence, pessoa querida; criminoso foragido, feitiço
da por Apolo, é um nome inesquecível. Em Roma enterrado, bruxa enrustida). O futuro, o passado, o
eram conhecidos os áugures ou áuspices (praticantes tante e o oculto - tudo isso é da alçada da adivinhação
da ornitomancia, que vaticinavam observando as lato sensu.
26 os hanolos ou arúspices (que praticavam o "Há duas espécies de adivinhação", já dizia
haruspícium, arte de interpretar as entranhas dos Cícero, filósofo e político romano que viveu no sécu-
mais desventrados sacrificialmente, também chamada lo "Uma se deve à arte, e a outra, à natureza."28
extispícium) e os "caldeus" (chaldaeí era o nome os Isso significa, noutras palavras, que é possível fazer adi-
romanos davam aos astrólogos e astromantes). Insis- vinhação de duas maneiras: direta ou indiretamente.A
tem os historiadores das mentalidades que adivinha- saber: por impressão imediata ou por artes e
Quando é f~ita diretamente (por intuição,
impressão, sonho, pressentimento), costuma-se atribuir-
~~ Prandi. 19%.
lhe o estatuto espécie autônoma entre as práticas
:>s Cardoso, 1999; Magnani, 1999. divinatórias. Recebe "então o nome de vidência.Vidência
21, O prefixo aus- vem da palavra latina aviso Auspex: (avis + specío) na Roma antiga era
é percepção díreta, uma faculdade para a qual
aqude que vaticinava obsavando Q vôo, o canto ou o modo de comer das aves.
Assim tamMm o au.'t!"r, Nào ~ à toa que: existe at~ hoje a expressão "ave de mau
os franceses reservam uina palavra, extra-Iucidité, que se
;1g0urO". as.'ioci:mdo :1... palavras aJ'e e al~'Çú,il). traduz literalmente como extra lucidez. Em português,
~7 Com efeito. a origem da ;mrologia praticada no Ocidente remonta J astrologia assim conlO em francês e inglês, dizemos também cla-
Glldaic:l.da qual existe dOCUlllelH:lção datadaj:í do terceiro lllíl~nio ances de Cristo.
Foi sô d,,'poís da conquis.ta de Alexandre Magno (3()() a.c.) que a. astrologia, de
(.tl&ÜC1. p;'~sou :1 IIll'dicar:il1k;\ e :;e csp:llhou pdo mundo helenístico t: romano
(l'~·tro~~í.\ll, 1971). ,X De' DiviJJdlÍ(llll'. r. 6, apud Ritt·'lrd. 1987.

!
.1..:.'
34 A Magía
35

rividência. O vidente se distingue dO aCUV1nhO stYlcto sensu produzido pelo acaso ou pelas natureza exter-
tanto quanto o indivíduo superdotado na: o cordão un1bilical, a conjunção astros) a se-
distingue do técnico qualificado por \..L'I• .-J,J.J.<1 ............ 'LJ.\.V
qüência das cartas, a borra de no fundo da xicara,
tico ou aprendizado teórico. Ninguém é por- as chamas de um archote, o movimento das águas.
que quer. Inata ou precoce, a condição de vidente é sempre Nesses casos, o profissional procurado para deitar a
involuntária e às vezes inconsciente. Conlo no caso das sorte ou predizer o destino só o papel de lei-
dormeuses, sonâmbulas clarividentes. 29 Como as m:':lnIl- tor-intérprete, e não de produtor-emissor signos
tapereras da pajelança amazônica. 30 Como as bruxas mágicos. 32
do povo azande. 31 Entre os magos que a
Já a adivinhação propriamente dita é a...... U .....JL<1
interpretativa, sobressai visivelmente a dos
se faz indiretamente: ou apoiando-se em astrólogos, para cuja função se ,-."... ".,,~ ......
nos e materiais, tais como cartas, búzios, linhas além de talento e traquejo, anos
ou por intermédio de cálculos técnicos, como ção tecnológica permanente.33
a astrologia, a numerologia, a gematria; ou por
interpret!ção de sinais fortuitos do mundo externo,
como o vôo dos pássaros, o aspecto dos campos, a
direção das labaredas. Somente quando mediada por CURANDEIROS E TERAPEUTAS
uma arte, uma especialização formal, um know-how que
proceda indutivamente com base em suportes mate- Nenhuma civilização até hoje pôde
riais (as lâminas do tarô) ou mentais (as de um que curasse. Por isso o segundo ,...,_~.. __.~
sonho), é que a adivinhação leva o nome ~""J.J.,",.L"'''''''V gos profissionais é o dos curadores.
manda, mântíca ou arte mântica. Se a vidência é o diferentes termos nativos, nem ~·""Tn"'"r.......... ...., ........"'... '.... "',.............. .
nio das revelações dadas espontaneamente sem me-
diação, as artes mânticas são o dOllÚnio dos
se podem ler, ou interpretar.
~ Noth, 1996.
Enquanto em outras especialidades en- 33
As origens da astrologia sà~ .extremamente amigas. Sabe-se que na Europa, apesar da
cantatórias ou medicinais de feitiçaria o poder condenação da Igreja, a astrologj3 foi muito prestigiada e se desenvolveu pelo menos
co reside num signo emitido pelo feiticeiro (a fórmula até o século 17. Depois de ter ·sido excluída da Academia das Ciências francesa por
Colbext. ministro das Finanças' ~e Luís 14, passou por um longo período de
mágica), em grande parte das práticas mânticas o marginalização até o final do século' 19. Quase desapareceu dos circuitos educados. O
no a ser decifrado (o signo mântico) é, por sua vez 1 início do século 20 assistiu tlOV;llllcme .ao aparecimento de obras de :.IscroIogia erudita.
As ~cçõt,'S astrológica." dos jornais surgil':lm na década de 1930 e se multiplicaram rapi-
damente após a Segunda GU\!rld Mundial. na forma moderna dI;'! horóscopo diário,
formato que foi imediatamente cons:lgndo pelas rádios. Nos anos 60 e 70. em meio à
H h
nova atmosfera alternativa n legitimada pela contraculcura ". a astrologia ganhou novo
Camus. 19HM.
impulso c 110VO status culmldl. sem no entanto jamais rccupeldr o Starus cit:mífico
.v. M:mt'!\. 1995.
pcnJido (Morin. 1972; Maitrc. 1'.>l-i3). Dt'sde en60. no Inundo inteiro, parece que 0'\
ii Ev:ms-Prilchanl. 1'>:'7.
:lstros todos tl:lIl sido 6voráveis ;\ difilsi'io desS:1 mallei.l ch:ullada Jstrologia .

.~
36 A Magia 37

curandeiros, bruxas boas, herboristas, herbolários, A característica maior dos mágico-


erveiros, ervanários, rezadores, benzedores, ""...",..,. ..,..·."fo.... " terapêuticos tradicionai5 é o contato epidérmico, a
conjuradores, médiuns que aplicam passes, ocultistas, proximidade física, exatamente como no velho mo-
macumbeiros, quimbandeiros, babalaôs, pais-de-san- delo das consultas médicas feitas com a saudosa figura
to, mães-de-santo, pajés, xamãs e taumaturgos. do clínico geral: tocar, apalpar, olhar, cheirar,
Esses agentes mágicos são procurados por causa sugar. Em suma, sentir de perto. a
tanto de seus conhecimentos práticos (see:n~d()s lei da contigüidade.
nhas) quanto de sua capacidade pessoal esoeC1:a.t As benzeduras conjugam a
"dons espirituais", "sobrenaturais", segredo das ervas com a mistica dos conju-
viar as dores dos seres humanos, bem como ração ou exorcismo. Benzedura é uma das espécies de
mais. Mas é graças a sua faculdade incomum magia branca popularmente mais estimadas e legíti-
em contato com o mundo dos espíritos que se mas. E, como em toda magia, aqui também o centro
sentem autorizados a oferecer tratamento para os males das atenções é a perversidade alheia. afastar o
do corpo e do espírito: sofrimentos :usicos, aflições psí- malefício ou interceptar seu curso na do
quicas, perturbações espirituais e prenlências sociais. 34 cliente, o benzedor recorre ess,enClalm.ente
Trata-se aqui de um conjunto de práticas se gredo - uma receita medicinal, uma reza uma
inscrevem no âmbito de uma consulta ter'aoeuoca. fórmula verbal- que ele recebeu outro curandeiro,
é, da relação - não-duradoura - entre um ,T\rn"Tl,rt" antepassado, parente, amigo ou o pe-
portador de doença e um indivíduo capaz ríodo em que passou pelos ritos É isso
Não por acaso, ao sublinhar que as relações que o leva a respeitar textualmente o ritual fixado por
clientes da magia estabelecem com o mago aquela tradição.
mente acidentais e passageiras, o pai da ;)UI",.lU'.lUj;lc1 O curandeiro é, assim, diferentemente do médico,
cesa, Én1ile Durkheinl,já dizia que "elas são enl tudo un1 intern1ediárÍo entre o hOlnenl e o sag:raCLO . . . H .... , .............. ..:>.

sernelhantes às relações de um doente C0111 o médi- um espírito, Unla energia), sendo seu
CO".35 Como o médico, um curandeiro ou benzedor escrupulosamente. aquele preciso
é um homem que "trata" e "cura". Só que~ d11:erlente- 'c;L...)
constitui de bênçãos em forma de cruz . . . a.,,..""' . . .
mente do médico, para curar ele primeiro entra em manipulação gestuàl de ervas ou ramos
transe. E então benze em cruz, ou sopra, ou ou prescindível a recitação de uma fórmula COJ111U.ratbn,a,
defuma, ou chupa, ou cospe - ou seja, retira o mau- de extensão variável, \:~omposta não raro de palavras
olhado, esconjura o malefício, exorciza os maus versificadas, sonoras, às vezes extravagantes, ao mesmo
ritos, desfaz as coisas-feitas. " tempo solenes e ingênuas, dispostas em e
bem marcado. 36 Vejamos alguns exemplos:

J'" Loyola. 1984; Motta, 1986; Montero. 1990.


Durkhcim. 1989: 77. .1<. Laplanrinc. 19H9: 52.

,l
38 A Magia Magia profissÍonal 39

Benzedura para curar cobreiro


Benzedura contra o olhar excomungado
Enquanto benze com um raminho de funcho ou de
Com três ramos de arruda,fazer o sinal-da-cruz sobre a
vassourinha-de-varrer molhado em água benta a parte do
pessoa) enquanto se reza a reza:
corpo afetada o benzedor fará esta reza:
J

((Fulano) se foi mulhe" se foi moça, se foi velha, se foi


UNa proteção do Senhor, que fez o céu e a terra,
negra ou se foi menino que te botou olhado nos teus
eu entrei em Roma, em romaria,
olhos, no teu cabelo, na tua cor, na tua boniteza) na tua
J
benzendo cabra cobraria.
feiúra, na tua magreza) nos teus braços, nas tuas pernas,
Corto cabeça, corto meio, corto cabreiro.
na tua esperteza) para que não me dissesses que eu te
lvlal entrei em Roma, romaria,
curaria com os poderes de Deus e da Virgem Maria,
benzendo lagartixa, lagartixaria,
com um pai-nosso e uma ave-maria,fulano, Deus te
corto cabeça, corto meio, corto rabo, corto cabreiro.
fez, Deus te criou, Deus acanhe quem te acanhou.
Mal entrei em Roma, romaria,
Olhado vivo, olhado morto, olhado excomungado,
benzendo sapo} saparia)
vai-te pras ondas do mar sagrado JJ.
corto cabeça, corto nleio, corto rabo, corto meio, corto cabeça,
corto cabreiro com os poderes de Deus e da Virgem Maria.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém". Além dos terapeutas mágicos de estilo tradi-
cional, cujas práticas se inscrevem num contexto
Benzedura para estancar sangue escorrendo de sobrevivência de subculturas populares hoje
quase residuais, proliferam no contexto metropo-
o benzedor fará três vezes o sinal-da-cruz no lugar da litano das sociedades contemporâneas os moder-
hemorragia e recitará: nos curandeiros:?7 o magnetizador, o radiestesista,
o hipnotizador, o parapsicólogo, o massoterapeuta,
{Jesus subiu o horto, o iridologísta e Qutros. Eles são os representantes
sangue picura o corpo. de um movimento contracultural auto denominado
Sangue pieura aveia, "holístico", tambéÍJ:1 "neo-esotérico", também "al-
assim como Jesus atou-se ternativo", cuja pn:!~ensão, no acertado dizer do
l'la hora da Santa Ceia. antropólogo francês François Laplantine, é a plena
San<~lle pieIlra (l veia, integração do pensam'ento mágico no espaço da
sarz}!ue pícura a veia". -ciência moderna. 38

_\(~I1ida, rezar cinco pais-nossos em intenção do san(f!ue


IJllcJc.ms dcrm11loll. 17 Que pn:fcrl'l1l ser chamado$. de cllr:!(I()n:~, c ll5:ü de cur.l!ldciros.
Ix Lapblltinc. !(JW).

L
40 A Magia Magia Profissional 41

o próprio jargão profissional usado nesses siste- terapêuticas mágico-esotéricas de todas as origens cultu-
mas terapêuticos "alternativos" submete a velha ter- rais.E para todas as letras do alfabeto:acupuntura,aikidô,
minologia do magismo de cura a uma transmutação alongamento, alquimia, antíginástica, antroposofia,
científica apenas aparente. Na verdade, um processo de apometria, arteterapêutíca, aromaterapia, astro diagnose,
mimetização fragmentária e lacunar da linguagem da aura-soma, auriculopuntura, automassagem dirigida,
ciência. Não se cura mais com "garrafadas" à base de" er- biodança, bioenergética, bíifeedback, bio-one, .biorritmo)
vas e folhas", mas se pratica a "fitoterapia". Não se faz cabala, corpo-análise, cristais ou cristaloterapia, cromo te-
mais a "imposição das mãos") porém se prescreve a rapia, cromopuntura, cronobiologia, cura natural, cura
"cura prânica" ou o reiki. Não se trata mais das doen- prânica, dança do ventre, dança circular sagrada, dança
ças e achaques com "benzeduras" e "rezas", mas com dervixe, dança flamenca, defumação, do-in ou acupressão,
H energizações}' ou "vibrações eletromagnéticas". Não don-pedrito, elementais, energização, eubiose, eutorna,
é mais uma questão de "espíritos bons ou maus" ~ mas n.toterapia, florais de Bach, florais da Califórnia, fluxo de
de "energias positivas ou negativas", de "freqüências consciência, gemoterapia,gestalt, hidrologia, hidroterapia,
H
energéticas altas ou baixas Não se recorre mais ao • hipnoterapia, holística, hologinástica, homeopatia, inter-
"escudo mágico" dos amuletos, mas, para defesa e pre- pretação de sonhos, ioga, iridologia,jin-schin-jyutsu,joreí,
venção, apela-se ao "bloqueio áurico", também cha- kirliangrafia, kem-pô, kum-nye, liangong, macrobiótica, mag-
mado "escudo eletromagnético".39 E assim por diante. netismo, magnetoterapia, massagem áuríca, massagem
N essa "nebulosa ITÚstico-esotérica", 40 "o feiticeiro tor- indiana ou ayurvédica, massagem californiana,
na-se um radiestesista; o vidente, um parapsicólogo; o massoterapia, medicina ayurvédica, meditação, medita-
benzedor, um quiroprático", arremata Laplantine:H ção transcendental, mesmerismo, método Alexander, mé-
A gama de terapêuticas usadas pelos "modernos todo Bates, moxaterapia, musicoterapia, naturoterapia,
curandeiros" ou "médicos paralelos" é extremamente neoxamaniSl1l0, neurolingüística ou PNL, numerologia,
diversificada. Senl exagero, Uln exelnplo inequívoco de OCultiSlll0, pajelança, percepção díreta,peyote, pirâmides,
consumismo multicultural globalizado. Há em oferta psicologia transpessoal, psicossíntese, psicoterapia
holística, qí-gong, quiropatía, quiropraxia, radiestesia,
retlexologia, reflexoterapia, regressão, reiki, relaxamen-
.\" Veja-se o que está dito elll matéria publicada na revista m:o-c:sô Gauesha:" A aura
to, reprogran1ação do I;?NA sutil,respiração holotrópica,
humana, na freqüência correta, nos protege de todas a5 energias externas, formando rituais druídicos, rituai~ tântricos) roda da medicina
um escudo eletromagnétíco. Quando ocorre qualquer problema e a freqüência baixa, 60.- tibetana, rolfing, santo-daime, self-healing, shantala, shíatsu,
mos suscetíveis a todos os ataques energéticos, que podem ser de ordem psíquica, de
entidades astrais, doenças (bactérias, germes) etc." (GaJlesha, s.d., apud Tavares, 1999:
su.fismo, tai-chi-chuan, talassoterapia, taoísmo, tarô, tele-
123). Em artigo explicando o "Poder MáglcO da Chama Violeta", pode-se ler: "Quan- patia, telestesia, teosofia, terapia do eu superior, terapia
do estamos nervosos, censos e angustiados. esta freqüêncía de vibração decrônÍca dimi- em sincronicidade, terapia holográfica, terapia
nui ainda mais, causando fissuras no bloqueio Aurico, permitindo a insralação dos vírus e
bactéria., nos órg;íos, debitit;\ndo,assim, nosso corpo" {ibidem. grifo nosso).
nutricional, termo terapia, toques sutis, tui-ná, ufologia,
;ll Champion. 1989. veganismo, vegetarianismo, vidas passadas, wicca,
~: Laplamine.l ':.iH9. Ver Tavares, 1999: Magn::mí, 1999,2000. xamanlS1110, zen.

-. -_ .. ..-'-"""""--
_
42 A Magia

Com tamanha variedade de especialidades terapêu-


ticas sendo operadas por agentes não raro polivalentes,
não é de admirar que sejamos cada vez mais assediados
ou atraídos pela magia profissionalizada. Nestes tempos 3. O DIAGNÓS-rICO MÁGICO
que nos toca viver, de globalização acelerada dos fluxos
culturais, parece que não pára mais de crescer a oferta
plural e multicultural de saídas mágicas para todo tipo de
problema. 42 Soluções que, de resto, só valem a pena se
forem "garantidas" ,"tiro e queda","aqui e agora". Como
convém a todo encantamento que se preze.

':Vn C.lf~loso, 11)<)<).


o Díagnó5tico Mágíco 4S

Tire um tempo para você mesmo, faça agora


mesmo uma consulta com a Prof Beatriz [ ..
Em apenas uma consulta de poucos minutos, ela
lhe dará a solução dos seus problemas, e depois
você verá a vida de outra maneira.
Porque a vida é boa, mas às vezes pessoas atrapa-
lham a nossa vida.

"Às vezes pessoas atrapalham a nossa vida ... )' De


saída a propaganda da magia levanta a suspeita funda-
mental. De cara ela dirige a mente do potencial inte-
ressado para a causalidade mágica típica:"alguém".Esta
é a regra básica seguida por qualquer feiticeiro ou fei-
ticeira, quando consultados para diagnosticar sem erro
(e sen1 medo de errar!) a causa de um problema espe-
cífico: "alguém".
s tipos mais comuns de feiticeiro profis- Qualquer que seja o problema - doença de pele,
sional que acabamos de considerar reme- uma ferida, coceira no corpo todo, a esterilidade da
tem-nos imediatamente à questão do esposa, a paralisia de um membro, moleza, leseira ou
O
QJ diagnóstico mágico, isto é, à etiologia que prostração e tantos outros padecimentos corporais;
magismo tem a oferecer para nossos achaques, re- uma dificuldade social, uma briga, desemprego, dívi-
eses e infortúnios. Para melhor nos acercarmos de da financeira, causa judicial, complicações com a bu-
mais esse aspecto da magia, vale a pena ler um pan- rocracia; ou ainda questões de amor e desamor,
fleto publicitário distribuído em movimentado lar- obstáculos a remover na relação conjugal, a mulher
go de São Paulo: desejada mas inalc~nçável, o ser amado que uma vez
partiu e nunca lnais voltou, o animal de estimação
TENS PROBLEMAS? que desapareceu, o marido violento, a esposa assanha-
A solução está em tuas mãos. da, a esposa frígida -, sempre e indefinidamente se
Caro Leitor, estás desiludido, desanimado, deso- recoloca a etiologia: "alguém". À primeira vista pode
rientado, tens caso íntinlo a resolver, muita inve- p~recer que as etiologias mágicas são muitas, e a di-
ja, mau-olhado no amor, nos negócios, no teu 'versidade cultural responde por grande parte da varie-
trabalho. tens anl0r não correspondido ou rOTI1- dade encontrada nos repertórios mágicos de causas
n
pido, desejas fazer voltar alguén1 à tua conlpa- "naturais e "sobrenaturais" dos problenlas que Ínter-
nhia ou qualquer assunto que te preocupe? mitenten1ente acon1eten1 os seres humanos. Na ver-
Pode ser unl 111al espiritual e você n5.o sabe. dade, porén1, elas se reduzenl a unu explicação decisiva:

__- L -
46 A Magia o Díagn6stico ivfágico fi

a verdadeira causa deflagradora de qualquer lnal é, senl- A etiologia oferecida é a unl só tempo genénca
pre-já, a própria magia - um "trabalho feito", uma e casuística: vale para tudo, para todos e para sempre;
H coisa-feita", UUl "feitiço". Entenda-se: um malefício só que cada caso é um caso singular. Em sua estrutu-
encomendado a um feiticeiro, ou espontaneamente ra sinlples e circular - feitiço causa contrafeitiço, que
produzido, por um inin1igo. causa outro feitiço e assim por diante -, dá conta de
A clareza dos termos de um pai-de-santo do encadear respostas oferecidas no varejo; enquanto
Ceará, entrevistado pelo antropólogo ISlnael Pordeus garante no atacado a sustentação dessa difusa menta-
Jr. em 1991, não deixa nlargem t1 dúvidas quanto a lidade mágica universal, feito um sistema glandular
isso. Sua declaração a respeito de quem o busca é sim- que secretasse sua própria justificação.
plesmente reveladora:" As pessoas que nos procuram, Os azandes do sul do Sudão apelam para a bru-
elas vêm com trabalhos feitos, carregadas, então as xaria a fim de explicar a quase totalidade dos infortú-
entidades procuranl desmanchar o trabalho feito em nios que podem lnjuriar uma pessoa. Trata-se de
cima da pessoa. Trabalho é levante, é ajuda, é cura e esquema explicativo que não coloca a bruxaria como
até trabalho de orientação espirituaL Às vezes a pessoa causa eficiente dos infortúnios, pois os azandes sabem
está sob efeito de unl trabalho por um inimigo, e aí a nluito bem que eles fazenl parte da vida e da natureza:
pessoa fica sob efeito desse trabalho. E o trabalho só sabem, por exenlplo, que as casas podem ser devoradas
desmancha com outro" .43 por cupins e aí elas desabam; sabem que as pessoas
O mesmo diagnóstico sempre, que resulta na ficam doentes se bebem água contaminada, e assim
mesma receita de base: "Trabalho só desmancha com por diante. Entretanto, as idéias de bruxaria vêm ex-
outro", sentencia Babá Ivo, enunciando a seu modo a plicar por que uma particular desventura acontece para
lei do retorno. Isso é fato muito comum no Brasil: o deternlÍnada pessoa numa hora particular da vida. Ou
pai-de-santo de umbanda (ou de qualquer outra reli- seja, elas respondem a uma questão que é básica, vital:
gião afro-brasileira), que na nUlor parte do tel11po é "Por que eu? Por que comigo? E por que justamente
um líder religioso, sacerdote à frente de uma comuni- agora? Por que os cupins destruíram justamente a mi-
dade religiosa, revela-se objetivamente como agente da nha casa e não outra?"44 Bruxaria, olho-grande, malencío
nlagia no nlomento eln que profere o diagnóstico de " I' "
aguem.
mágico por excelência: o sofrimento é resultado de Ora, dado que um único motor pode acionar
molestamento mágico da parte de pessoa inimiga. Do todas as outras etiologü;s específicas, segue-se que é
ponto de vista da magia, portanto, a causa de todos os a própria magia que produz a maldade que ela sabe
[ltO$ desfavoráveis é a ação humaJla. Isso posto, a única c.olnbater. E a crença na feitiçaria outra coisa não
pergunta que na perspectiva do n1agislllo tenl cabi- , faz senão levar o indivíduo a pensar que ele pode
111ento não é "Por quê?", e sim "Por quem?". nluito bem estar sendo vítima ... da feitiçaria. Se-

4.\ B:thá (VO. Forral<:za .•1plld Pord~tlSJr.. 1993:95. •• Marshall. 1994: 299.

L
8 A Magia
o Diagnóstico Mágico 49

undo O historiador Robert Rowland, a vítima de- ro, sua "força", e, por conseguinte, crença na viabili-
onstra que partilha da mentalidade mágica ao fa- dade das soluções mágicas.
er a pergunta "Quem poderá me desejar o mal?", Falta ao pensamento mágico a idéia metafísico-
alavras que não têm outro sentido a não ser encucar religiosa do mal absoluto, assim como falta uma noção,
om suspeitas a suposta vítima e projetá-la em situa- aproximada que seja, de salvação final.A salvação mági-
ão de ter que fazer a todo monlento o balanço ca é parcial por natureza. Quem pretende dar a solução
bjetivo de suas relações pessoais: "Com quem será total, alegando estar de posse da chave geral que leva à
ue minhas relações não são o que deveriam ser?"45 explicação global da vida e do universo, é a religião.
rata-se de pessoas próximas, porquanto o enfeiti- Para a mentalidade mágica, cada doença, desavença,
amento não ousa ir muito além da esfera dos rela- transtorno, tormento ou atropelo - em suma, cada cri-
ionamentos interpessoais, domínio em que também se do indivíduo - encontra sua explicação especial num
atina o diagnóstico que a magia é capaz de ofere- malefício individualizado e localizável, no ato malévolo
er. E isso traz, por sua vez, dupla vantagem: linúta singular de um agente singular, cuja identidade a crença
rasticamente o alcance do acaso, do fortuito e do mágica prevê a possibilidade de descobrir mediante
rbitrário como explicação dos nossos males e ma- procedimentos também mágicos, condição para que a
elas, ao mesmo tempo que facilita a aceitação da coisa-feita possa ser efetivamente desfeita e revidada pelos
xplicação mágica do mal como plausível. Se não poderes extraordinários do mago, que, nesse caso, é sem-
racional", pelo menos "razoável". pre um conjurador. O mundo da feitiçaria é, assim, in-
N o universo do magismo, o diagnóstiCo está teiramente auto-referido, circular.
ronto desde sempre. Está ali, prêt-à-porter, revelando Antes mesmo de ser proferido pelo especialista, o
os observadores externos uma estrutura de cons- diagnóstico já está feito, embutido em qualquer ato de
iência fechada em círculo sobre si mesma que, ape- procura por solução emergencial fora da ordem natu-
ar de suas fragilidades lógicas, sustenta no mundo ral: buscar a cura lllágica é buscar sempre-já o desman-
nteiro e através da história esse universo difuso das che de um trabalho, a remoção do efeito daninho de
crenças e práticas de magia ou feitiçaria .. No exato Uln sortilégio. Através da manipulação de alguma das

momento em que alguém decide procurar um agente artes de adivinhar, cabe ao feiticeiro consultado desco-
a magia, nesse momento o cliente potencial já co- brir onde foi posto o feitiço, já que o trabalho feito não
meça a reafirmar (e confirmar) na mente do agente pode deixar de ser desfeito.Vale a pena ler a transcrição
mágico,46 tanto quanto em sua própria cabeça, a cren- de um caso de feitiço localizado. O resultado foi trans-
ça que ambos compartem na validade da etiologia mitido por fax ao interessado:
mágica dos males, na capacidade pessoal do feiticei-
São Paulo. Cemitério da Quarta Parada. Entre pelo
portão principal e vire à direita e vá pelo paredão
-15 Rowland, 1996: 21. do seu lado esquerdo, conte oito túmulos, no oi-
"I, L':vi-Str.luSS, 1949. tavo tÚ111ulo vire à esquerda, na primeira travessa à

I··
A "'vfagin

direita conte seis túmulos.·Está em:eáado do lado


esquerdo dos pés, na quúla do túmulo.
Urgente: perigo crianç~s. .
1. Não pode levar ninguénl.
2. O que achar, não mostrar e trazer imediata-
mente para Manaus.
3. Precisa acender dois nraços de velas pras mor-
tos do local. . . '
Coloque no carro e não leve para sua casa.

Para o funcionamento ÓtÍll10 do desmanche e,


emais, para a possibilidade, de 'contra-atacar, é ne-
ssário identificar, além da coisa-feita, o responsável
r ela. É por isso que, no uníversQ da quase
do diagnóstico deságua enl acusação contra algum
ente suspeito, Nas sociedades tribais, há procedinlen-
s tradicionais para identificar o responsável por um
itiço. "Normalnlente esses procedirnentos são sufi-
entemente flexíveis para permitir a identificação pre-
a de uma ou mais pessoas cujas' relações com a vítinu
o são o que deveriam ser."47 Qúem acreqita em ma-
sempre suspeita, sempre desç.onfia.Émíle Durkheirn
Marcel Mauss insistiram muito' neste aspecto: a ma-
a é objetivame~te anti-sodaI.

Rowbnd, 1996: 22.

......:.I
Por Que a Magia? 53

atrás não da racionalidade teórica das crenças mágicas)


sabidamente fragmentárias, desordenadas, lacunares,
mas sim de sua racionalidade prática. É a atenção às
práticas que leva tal indagação a receber dos cientistas
sociais e historiadores resposta bem mais plausível do
que se a pergunta se referisse à racionalidade formal
das crenças mágicas.
O conjunto extravagante e incoerente de cren-
ças do magismo é dominio onde reina, absoluto, o
irracional. Seu universo teórico está longe de consti-
tuir-se num sistema de crenças. Ele não dispõe, nem
pleiteia dispor, de nenhuma ordem intelectual inter-
na. 49 Veja-se o caso típico da Nova Era, a maior con-
centração mágica da modernidade tardia - e a maior
dispersão teórica. 50
É, portanto, na racionalidade das práticas mágicas
orque viver é muito perigoso", responde- que se pode encontrar a racionalidade da magia "em
ria certeiro o jagunço Riobaldo Tatarana, si", dado que a escancarada racionalidade instrumental
P personagem central do livro Grande Ser- e utilitária de toda ação mágica facilita enormemente a
tão: Veredas. explicação da própria existência da magia, de seu
[f] H ,
"E o amanhã, incerto e duvidoso viria arrema- surgimento já na aurora da humanidade, como tam-
tar, cheio das cautelas de sempre, com as quais costu- bém de sua persistência até hoje, em eterno retorno,
mava alertar seus mais de 20 mil seguidores no Alto recriando-se e regenerando-se, enquanto vai atravessan-
Solimões, Amazonas, o líder messiânico brasileiro José do toda a extensão da modernidade. Da modernidade
Francisco da Cruz. 48 . clássica e pré-industrial à atual sociedade pós-industrial
Do ponto de vista da antropologia, da sociolo- ou pós-moderna, não por acaso chamada de "sociedade
gia, da história social e da psicologia, estamos diante de risco",51 a magia vem afrontando o preconceito e a
de duas excelentes respostas. Têm tudo a ver com as repressão sem jamais deixar-se extinguir. Pelo contrá-
melhores explicações teóricas que as ciências huma- rio: a magia se dá muito bem em situações de risco. O
nas já conseguiram dar à questão que indaga da racio- ~~óprio Max Weber, teórico da desmagificação do
nalidade das práticas mágicas. Notar bem: das práticas.
A magia é essencialmente prática. Trata-se, pois, de ir
~'} Jarvie & Ab":lssi, 1987{a), 1987(b).
5u Carozzi, 1999,2000; Magnani. 199(); Tavar.:s, 1999.
·'Om.It)~9. ,I Jkck. 1992.

.·,áil
54 A Magia Por Que a Magía? 55

Inundo ocidental, adnlite com todas as letras que a ll1agia consegue fazer. Qualquer encantamento usado para
é inextirpáveL A magia, diz ele, é uma base inerradicável um fim tecnicamente já assegurado acabaria por reve-
da religiosidade popular. 52 lar-se uma prática supérflua, redundante, excessiva para
Por que a nlagia? A melhor explicação é a do os resultados práticos que racionalmente se esperam
antropólogo polaco-inglês Bronislaw Ma1inowski do bom manejo técnico dos instrumentos e da obe-
(1884-1942), que agora vanlOS ver. Ulna resposta diência às regras racionais da experiência, Ot;L do saber
tranchã. Explicação tão certeira e parcimoniosa que, tradicional.
nos dias atuais, passou a ser revisitada com renovado A magia não é da ordem do cotidiano, da repeti-
interesse pelos cientistas sociais ocupados enl pensar ção rotineira e previsível. Ela é do mundo vivido, sim,
o futuro da religiosidade na sociedade contemporâ- nlaS não se alimenta da rotinização da vida. A racionali-

nea. 53 A tese de Malinowski teln, de quebra, a gran- dade do cotidiano não segue a lógica mágica. Pelo con-
de vantagem de ser realisticamente materialista: a trário: a magia, quando se dá, põe-se sempre no plano
lnagia é UHla prática que tem uma finalidade emi- do extraordinário, do extracotidiano, do imprevisível
nentemente prática. ou, quando menos, daquilo que não deixa de ser duvi-
Consideremos, pois, a tese nada romântica de doso no nlundo da vida. O selvagem, relata Malinowski~
Malinowski. Ela afirma que os selvagens do Pacífico pratica magia porque acredita nela como alternativa
Suljamais recorrem à magia quando dispõem de meios eficaz a determinada incapacidade sua, experimentaàa
racionais e conhecimentos técnicos adequados para em situações não-cotidianas de muita incerteza,
alcançar os objetivos visados enl suas atividades. Eles in1previsibilídade e, portanto, tensão e ansiedade. É
nunca recorrenl à magia, por exemplo, para carpir a paradígnlática, nesse sentido, a atividade náutica:
terra, plantar o inhame, consertar as cercas, ordenhar
as vacas, pescar nas águas rasas e tranqüilas de Uln atol. Navegar é o mais arriscado de todos os empre-
Não precisam. Malinowski observou que, durante a endinlentos conhecidos do homem primitivo. Na
maior parte do tempo, o agricultor das ilhasTrobriand fabricação de suas embarcações e no traçado de
de fato não precisa lançar mão de nenhu,m recurso seus planos, o selvagem se vale da ciênCIa. O es-
extraordinário - um feitiço, um conjuro, uma reza forte, mero no trabalho e as tarefas inteligentemente
um rito mágico, enfim - para fazer o que ele sabe e organizadas, tanto- na construção dos barcos quan-
to no próprio navegar, atestam a confiança que o
selvagem deposita ná.ciência, sua submissão a ela.
Entretanto, o vento adverso ou a falta total de
'.~ Weber. JI)91: 292. Is.'\o signitic,:t qtK' tl deSL'IIC;l!l[;UlIL'IItO (ou dcsllIagíficaçiio) do
vento, o mau tenlpo, as correntes marítimas e
IlltHldo não chega a atingir plenamente a religião popubr, a religiosidade dos pobres
~'d<:st~vOTecido$. os qtl:li~ t':m todo o interesse num objçw religioso próximo,stlscC!-
arrecifes podem muito bem frustrar seus melho-
tívd de intlucnci:lr magicamente. Se um dcst:jo Dão ~ prontamente atendido, v:Jle res planos e suas mais cuidadosas precauções.
ca:itib"ar a pequena imagem de Santo Antônio (ou Santo Onofre) virando-a de cabe-
Então ele tem que admitir que nem seu conhe-
(a pa!':l baixo ~k'mm de um poço mI numa garr;ll~ de c:H:haça.
.< SGlrk &: Bainbrillgl'. j{)'J(). citnento nenl seus nlai" eSI11erados esforços cons-

~
56 A Magia Por Qpe a Magia? 57

tituem garantia de sucesso. Algo de imprevisível "Magia deve ser esperada, e geralmente será en-
de repente sobrevém e balda suas antecipações. contrada, onde quer que o ser humano chegue a uma
[... ] O indivíduo sente então que pode fazer algo lacuna intransponível [an unbridgeable gap]) a um hiato
para peitar aquele misterioso elemento de força em seu conhecimento e em seus poderes de controle
a finl de ajudar e t:1vorecer sua própria sorte. Por prático, quando ele, apesar dos pesares, tem que pros-
isso é que exÍstenl selnpre sistelnas de supersti- seguir naquela etnpreitada."55
ção e de ritual l11aÍs ou n1enos desenvolvidos as- Noutras palavras, recorre-se à magia quàndo se
sociados à navegação. 54 manifesta urna defasagem invencível entre o que se deve-
ria tecnicamente fazer numa situação determinada e
Não é preciso apelar para a magia todo dia, toda o que de fato se sabe ou se consegue fazer. Quando se
hora, por qualquer coisinha. Magia é para ser aciona- está, objetivamente falando, perante sério descompasso
no momento oportuno, quando se tem que en- entre o controle real que se tem das forças da nature-
frentar, com sucesso, dificuldades não-usuais, situações za e o controle que se acredita precisar naquele mo-
específicas fora do trivial, quando o inexplicável te.i- mento. Nessa hora, sob a Hpressão psicológica do
lHa em acontecer e o inlprevisto pode sobrevir. Quando indeterminisn10" ,56 apela-se para a magia. a teo-
não se dispõe de outra solução viável, magia é feita ria do gap, segundo a qual o ato mágico preenche o
para concretizar o extraordinário. vazio do desconhecido e, com isso, reduz a ansiedade
O pensamento mágico in1agina que neste mun- do ser humano. 57
do existem forças ocultas portadoras de infortúnios e Apesar de criticada por Ruth Benedict (1935),
adversidades, provocadoras de baques e acidentes Radcliffe-Brown (1952) e Lévi-Strauss (1962), a ex-
imprevisíveis, do tipo emboscada, incêndio, seca, pragas plicação que Malínowski encontrou para o magismo
na lavoura, doenças e epidenlias que se abatem sobre primitivo representou in1portante descoberta empírica.
seres hUlnanos e ;:minlais. Forças supra-sensíveis costu- E não se trata de descoberta relativa apenas aos povos
lllam ter o desagradável condão de frustrar os melhores primitivos ou tribais. Basta lembrar a historiografia
esforços do nativo trobriandês, produzindo aconteci- inglesa, americana e francesa sobre o período clássico
U1entos inesperados que interferem negativamente em da modernidade (do século 16 ao 18). Esses historia-
sua vida e ultrapassam as explicações armazenadas no dores, na verdade, têm registrado um infindável rosá-
conhecimento técnico que seu grupo compartilha. São rio de exemplos concretos do uso generalizado que se
eventos além do poder de controle técnico de que ele faz da nlagia. Sua simples enumeração bastaria para
se sabe portador. É para controlar essas interferências- demonstrar a vasta difusão geográfica e a longuíssima
e sonlente essas, sublinha Malino"vski que o agricul-
tor primitivo recorre à n1agia.
Idélll, 1925: 44.
;.r. G<:t:rtz. 1973: 140.
" M:\liílO\Vskí, t ()s?!: H~. i] CUllpbdl. 19%: 154; Middlcton, 19X7: H6 .

.. __..Â.
FOI' Q}/e aMagía? 59
58 A Magia

duração histó~ica dessa atitude genericamente huma- propenso a acompanhar suas atividades normais
na de recorrer a uma ação simbólica substitutiva na com alguma precaução mágica. Havia todo tipo
tentativa de controlar acontecimentos que se mostram de ritos tradicionais de fertilidade e observâncias
incontroláveis pelos meios técnicos à mão. Não por sazonais: guardar a segunda-feira da Epifania para
acaso, fazer chover tem sido até hoje objetivo recor- assegurar o crescimento do trigo; cair na" bebe-
rente da vontade mágica,5H essa vontade de superação deira para energizar as macieiras; procissões de
dos limites humanos dados, essa vontade de potência. rogação e fogos de São João para ajudar a safra
A pesquisa conlparada enl história social, an- agrícola; bonecas de milho no tempo da colhei-
tropologia, sociologia e psicologia social demonstra ta. [ ... ] Na ausência de herbicidas, havia encan-
que a forte referência empírica contida nesse legado tamentos para manter a erva daninha distante das
teórico de Malinowski pode ser generalizada para plantações, e, em lugar de inseticida e raticida,
além das culturas primitivas, estendendo-se às cultu- havia fórmulas mágicas para afastar as pestes.
ras históricas conhecidas, inclusive às sociedades oci- Havia também sortilégios para aumentar a ferti-
dentais modernas. O testemunho do historiador inglês lidade da terra. [ ... ] Precauções rituais rodeavam
Keith Thomas confirma (e valoriza) os achados de a caça e a pesca, atividades "especulativas"; isto é,
Malinowski: incertas ambas. No comércio de peixe, o medo
da bruxaria vigorou até o século 19. 59
Quando essa explicação é aplicada aos fatos da
sociedade dos séculos 16·e 17, ela faz d~sde logo Diante disso) a relação empírica observada por
enorme sentido. Os objetivos pelos quais a mai- Malinowski parece de fato universal. E em todas as
oria dos homens daquele período da história in- culturas conhecidas as pessoas comuns só recorrem
glesa recorria a sortilégios e a feiticeiros eram aos poderes sobrenaturais, só se socorrem dos bons e
precisamente aqueles para os quais não havia al- maus espíritos, das forças supra-sensíveis, quando os
ternativa técnica adequada. Assim, na agricultu- problemas concretos que enfrentam não encontram
ra, o lavrador normalmente confiava em suas outras soluções mais rotineiras, mais ordinariamente
próprias habilidades e perícias. Não existiam en- hUtllanas. Isso se comprova perfeitanlente, para o Bra-
cantamentos mágicos presidindo tarefas tão au- sil de hoje, nos socorros mágicos que as pessoas en-
tomáticas quanto a ceifa dos grãos ou a ordenha contram no candomblê, lla umbanda e no espiritismo,
das vacas. Quando, porém, o camponês ficava no catolicismo popular e no catolicismo carismático, no
dependente de circunstâncias fora de seu con- holismo neo-esotérico e nos cultos orientais, no
trole - a fertilidade do solo, as condições meteo- p~ntecostalismo e entre os neopentecostais. 60 Se ne-
rológicas, a saúde do gado -, ele se n10strava mais

"ITIlOJl\;l.'\, 1')1) I: 775-7.


,., Mariauo. 1~()6. 2000; Pr:mdí. 19%~ Frigcrío. 2000.
" Adkr.1 <)I{ll.

.J
80 A Magia

side em sua execução, mas na causalidade imaginária


H
que lhes é atribuída e que, do ponto de vista científi-
co", não poderia resultar naquelas conseqüências que
a crença mágica lhes empresta. 87 Leach parece apre-
ciar as vantagens cognitivas trazidas pelo esforço de
pesquisa dos que o precederam, particularmente Evans-
Pritchard, quanto à distinção entre feitiçaria e bruxa-
ria. Só que ele organiza melhor os termos da distinção:
"Feitiçaria é o desempenho consciente de um ato tec-
nicanlente possível, que tem a conseqüência imaginá-
ria de trazer o mal a uma vítima. A feitiçaria, portanto,
é o oficio da magia negra; pode ser aprendida por
qualquer um.A bruxaria é qualidade inata da bruxa, e
todas as manifestações de bruxaria são intrinsecamen-
te sobrenaturais". 88
Dois exemplos ilustram bem a diferença: espetar
de maneira correta um boneco de cera que representa
a vítima visada é feitiçaria; mas yoar em cabo. de vas-
soura é habilidade "natural", q~e as bruxas européias
trazem da mais tenra infância, quando não do ventre
materno. Bruxaria é uma espécie de possessão; feitiça-
ria, uma espécie de profissão .

.' j
Lt:ach, 19H6(a): -1-72.
", Idem, ibidem.


Uma Distinção Necessdría 8;

1. A magia visa a fins especificos. Seus objetivos são


bem delimitados e precisos. A mulher que vai atrás de
feiticeira para lançar um sortilégio amoroso não está que-
rendo "amarrar" a si um homem qualquer: ela deseja
aquele homem determinado, com nome, endereço, iden-
tidade e fotografia de corpo inteiro, não o primeiro que
aparecer. O curandeiro tradicional trata somente daque-
le aspecto da enfermidade sobre o qual tem controle.
Magia tem a ver com resultados tópicos e parciais. Além
de lirrútados, os resultados desejados costumam ser avul-
sos, sen1 constituir sistema unitário. E, além de limitados
e avulsos, devem ser de ordem material, ou temporal.
Oferecendo miracles and orades,90 a magia deve servir para
melhorar a vida "aqui e agora", não no "outro mundo";
no futuro, só se for o imecliato,jamais na "vida eterna".
Muito mais sublimada e espiritualizada que a
ais importante que as sutilezas e incons- magia, a religião caracteriza-se por alçar vôos mais
cindas das distinções internas ao magismo ousados: promete a salvação eterna, a paz espiritual, o
(entre magia branca e magia negra, feiti- bem-estar geral. Por isso a religião se dedica a especu-
M
[MJ çaria e bruxaria, para não falar de pajelan- lações metafísicas em torno dos ultimate concerns - os
ça e xamanismo) é a distinção bipolar entre magia e valores últimos, os sentidos definitivos, os acontecí-
religião - conceitualmente mais estratégica e mais bem nlentos finais -, voltada que está para o "outro mun-
do",o "outro lado", a "outra vida", oAlém, oAbsoluto,
resolvida pelos teóricos.
Magia não é religião. Não se acredita em magia o Principio e o Fim. Enquanto a religião protela, a
do nlesmo modo que se crê numa religião, não se magia é imediatista. Se a religião é metafísica, a magia
pratica magia do mesmo modo que se segue uma re- é terra-a-terra. A religião, definiram recentelnente os
ligião. O sociólogo norte-americano William Goode sociólogos Rodney Stark e William Bainbridge, está re-
fez um apanhado geral dos critérios apontados pelos ferida a sistemas de compensadores genéncos baseados
estudiosos das mais diferentes culturas para distinguir em pressupostos sobrenaturais, enquanto a magia se re-
os dois modos de acessar o sobrenatural: a abordagem fere a compensadores específicos que prollletem pro-
mágica e a via religiosa. Dentre os 11 traços distinti- ." ver aqui e agora as recompensas desejadas. 91
vos que ele reuniu,89 vamos nos deter nos principais:

'lU Wilson, 1973: 25.


'li Stark & Bainbridge, 1996: 326,328.
1!') Goode, 1951: 52-54; H:l!1lilton, 1995: 30.

~
84 A Magfa Uma Dístinçào Necessária

2. A magia é usada apenas instrumentalmente. O ca muitas vezes escondida, inconfessável. Daí su


tual mágico é ação racional-utilitária, que tem em vista íntima afinidade com o ocultismo e o esoterismo. Já
um fim muito bem delineado. Não há prática mágica profissional de uma religião dispensa a publicidade
que seja um fim em si mesma. no entanto, é isso que 5. O ritual religioso é divino; o ritual mágico
se passa com as práticas elas são fins em si. coação divina. a característica diferenciadora decisiva
Unl ritual realizado para a morte de unl bebê o modo de relacionamento com o ~-..r esse ite
durante o parto é totalmente diferente, quanto ao fim contam as maneiras, as estratégias, o Escreve
de um rito que celebra o de uma \l/"'."""".,.., "Um poder concebido de algum po
cn::lnça. O primeiro é um ritual mágico; O segundo, um analogia com o homem dotado de ahna pode ser
ritual religioso. Os praticantes do primeiro em çado a estar a dos homens: quem possui o CarlSrrl
função de uma finalidade extrínseca ao ato - .....,... ,~;:=..'"', ... ""... de empregar os meios adequados para isto é mais
a sobrevida criança -, ao passo que o segundo até mesmo que um e pode ímpar a este sua von
não tem outro propósito a não ser a comemoração en- tade. Neste caso, a não é 'serviço ao deus'
quanto tal, a confraternização, um ato social. A cele- mas sim 'coação sobre o ,a invocação não é um
bração religiosa contém em si sua própria finalidade, é oração, mas uma fórmula .93 O mago ou feiti
a expressão não-utilitária de sentimentos e credos com- ceiro não se preocupa em aplacar a cólera dos deuse
partilhados por toda uma comunidade religiosa. ou atrair para si seus favores - procura coagi-los.
3. A relação do mago com as que o procuram é Dizer que o traço diferencial
uma relação profissional/cliente. Também de natureza utili- a divina é dizer que a atitude da
tária. Já o mundo da religião se caracteriza em termos ção aos divinos é manipulativa e
ideais relação duradoura pastor/rebanho, sacerdote/ lizadora, ao passo que a relação religiosa com o
fiéis ou profeta/seguidores. O especialista em e de respeito, e veneração. A essência
seu cliente desempenham suas atividades como "''''''''1'",",,\C' gia é a dominação poderes supra-sensíveis, escreve
privados e desencaixados, não como mem- Prazer,94 ao passo da religião é o abando
bros de um grupo ou, menos ainda, como seus represen- no, a entrega de si, o a submissão à sua sobe
tantes. É nesse sentido Durkheim postulou ser a rana vontade. As religiões monoteístas - judaísmo
magia incapaz de formar uma igreja: "Não existe igreja cristianismo e islã - levam ao da letra. Não é
mágica. [... ] O mago tem clientela, não igreja".92 toa que, em árabe, à palavra íshlam dizer justamen
4. A magia, portanto, é assodal e) ao menos potendal- te "submissão".95 A religião, noutras palavras, é o con
anti-sodal, coisa que nem uma religião
pretende ser. De tão discreta que é, a é antes um
tópico da vida privada íntinla que da vida pública, práti- "'Weber, J')91:21)2.
-,.j Dewm05 primei ro ;l James Frazc=r, c depois a Ma:,< Weber, eS:i<l oporwnê. apropriaçã
tt!órica dl' uma intuição básica da tcologia purital1:1 (Godbe:lr. 1994: 7-23), a saber,
t:O:Jção divina como c.:ritério par;.! m~lrC:tr a fromr.:ir.J concr.:iru~J cr.rrc rdigi:io ç m:lgía.
"~ Durkheim, 19H9: 76. '11 (;:J;mkr ct ;11., 2(jOO: l1H. 12K

.::i
86 AMagía Uma Distínção Neassáría 8

junto de práticas que nos permitem motivar os seres Lingüistas, semióticos e filósofos da linguagem cos
supra-sensíveis, dotados não apenas de poderes sobre- tumam ilustrar o efeito do discurso mágico recorrendo
humanos, mas também de personalidade e vontade li- um conto de fadas: a história de Ali Babá.96 O efeito má
vre, enquanto a magia transforma os deuses em escravos gico é do tipo Ali Babá: ditas as palavras mágicas em form
do homem. Convoca-os e controla-os autoritariamen- de comando, "Abre-te, Sésamo!", a se move e a ca
te enl função do objetivo visado pelo cliente pagante. verna se abre. A só pode prometer o que promete
Ela não ora nem suplica; subnlete-os ao poder da fór- e promete para já, porque não reconhece como atribut
mula mágica. dos deuses o livre-arbítrio. Ela os manipula. Ela os coman
6. Religião e magia diferem aindà quanto à garantia do da. Ela os conjura. O mito Ali Babá descreve com per
efeito desejado. Na religião, o pedido feito enl oração de- feição a crença na efetivação infalível de urn desejo n1ágic
pende de a divindade aceitar ou não a solicitação ou a contrário às leis da natureza, graças à emissão correta e n
homenagem. Já no magismo, o efeito só depende de o momento correto um signo lingilistico que é quas
agente seguir à risca o ritual e pronunciar corretamente a puro significante: "Abre-te, Sésamo!", "Rabazagaia!"
fórmula. Isso, aliás, é o mínimo que se pede de um bom "S abaInUl.,ln "M anga 1o., A
I" "O m M anIpa . dme. H um., f"
profissional da lnagia. Todas as vezes, portanto, que~ enl "La roye.,
"P' "Adonay., r" "H ocuspocus., .
I" 97 "Nem-sel-que
vez de prostrar-se para suplicar um favor aos céus) o agente diga!", "Mandrake!", "Ressurrex!", "Abracadabrar'.98
religioso de um deus ou de um santo o efeito
sobrenatural pretendido, podendo por isso prometer com AB ACADABRA
segurança que o eftito buscado fotalmente se dará, estaremos ABRACA ABR
diante nnl ato de lllagia, não de religião. Promessa ABRA DAB
efeito garantido é promessa de feiticeiro. ABRACADA
Essa forma autoritária de abordar os deuses e espí- AB ACAD
ritos, sabendo-se fatídico o efeito da fórmula, será sem- BRACA
pre magia, mesmo que ocorra como parte de um ritual ABRAC
reconhecidamente religioso. Nos cultos neopentecostais, ABRA
os fiéis são estimulados a fazer seus pedidos em forma ABR
"desafios" ao Senhor. Na missa católica, a transubstan- B
ciação do pão em corpo de Cristo é outro exemplo de A
"magia religiosa": o padre celebrante diz Hoc est enim
corpus 111C1l111, e pronto. É o famoso efeito ex opere operato:
% Nõcn. 1996.
unla vez operado o ritual corretamente, segue-se o efei-
'fi Corruptcla da fórmula sagrada do catolicismo Hoc eSl corpus, proferida no momel:.-
to automaticamente. Não por acaso, a doutrina católica to da transubstanciação do pão em corpo de Cristo (Noth, 1996). Em ingl~s, ho[us-
da "graça sacramental", que afirma o efeito ex opere pocus é sÍnômimo de m.5gica, prestidigitaçiio, truque, embromação.
']x Abracadabra, a m:lÍs h1mosa d:\s palavras mágic:l$, era usrtda especirtlmt:nte na Pérsi~
operato dos sacranlentos, era repudiada pelos teólogos
e ll;! Síria. Qu;md(} escrita IlO formato aqui indic:1do c pendurada no pescoço feito
puritanos do século 17 COlHO "nlagia sacr:Ul1ent1l". ;uli lIlcto, acrcdit.1-Sc que espalHe a li...rm.'.

I.·~
8 A

Insubstituíveis por sinônin1os,()() as fórmulas má-


icas acham de ter senlpre algo de extravagante em
ua materialidade, um quê ininteligíveL Não preten-
em significar - elas agem. lOO 8

") Não se pode dizer"Descerra-cé. S~S3.JllO!" no hlg:1r de "Abre-te,Sés:nllO!" > pois !1:l.

m:lgia o qm' ílllpon:l n~() \: () sígniflc:ldo,Ill:;s () signific:mte,


1'" M:l! i!low... k i, I <)(,0; A llst i n, 1'Jú2: Todomv, 1'>7:'.

.,
A Religião Contra a lvfagia 91

vagens, desenha-se nítida. E aí não sobram dú-


vidas quanto a serem elas, realmente, duas institui-
ções diferentes conl duas estratégias diferentes
abordar o supra-sensível.
Quando Émile PQ~~he.ü:D. chama a atenção para
"a .a\1.e.!,são profunda da religião .pela m9.gi.a e, conse-
qüentemente, [para] a hostilidade da segunda com a
primeira", embora esteja se referindo a fenômeno
que ele considera universal, suas considerações na
verdade se aplicam tipicamente - ao caso particular
da história ocidental. Acrescente-se aos arrazoados de
Durkheím o complenlento de lugar "no Ocidente'~) e
que eles imediatamente entram nos eixos. Senão,
vejamos: "A magia [no Ocidente] põe uma espécie
de prazer profissional em profanar as coisas santas -
por exemplo, na missa negra a hóstia é profanada - e
eligião e magia não são apenas duas for- nos seus ritos ela assume posição oposta à das ceri-
l1laS distintas de lidar conl o sagrado.Alénl mônias religiosas. A religião, por sua vez, embora não
de diferentes, elas podem ser também ar- tenha sempre e em todo lugar condenado e reprimi-
R dorosas rivais. A hostilidade mútua entre do os ritos mágicos, olha-os de modo desfavorável.
[... ] Há nos procedimentos do mago [ocidental] algo
0
eligião e magia é característica acentuada da civili-
ação ocidental. Weber chamava o Oriente (parti cu- de profundamente anti-religioso. Ainda que possa
arnlente a China e a Índia) de Zaubergarten, "jardinl haver alguns pontos de contato entre essas duas es-
ncantado", ou seja, culturas em que a religião con- pécies de instituições) é, entretanto, difícil que [no
ive em simbiose com a magia. 101 Neste nosso lado Ocidente] elas não se oponham em algum ponto, e é
Ç> _p!aneta, no entarlto? u~~_ anti~ia f~nda.m_~ll-.tal tanto mais necessário encontrar o ponto em se
E§_~I'!!:.agiª__~!eligião, em alguns casos fazendo da distinguem" .102
iferença separação, em outros transformando a ten- Essa história de rivalidades acirrando a diferen-
ão implícita em expresso antagonismo. Transforma- ça, separando a magia da religião como o joio
a enl oposição recíproca, a fronteira entre all1bas, trigo, começou com a religião judaica, muitos sécu-
ue os antropólogos tiveram alguma dificuldade em los antes de Cristo:
eslindar com base na vida dos diferentes povos

Weber, 195 I ; 19SH. '''2 Durkheim, 19H9: 75.


92 A Magia A Religião Contra aMagia 93

Quando entrares na terra que Javé teu Deus te dará, bíblicos em sua pregação ética e eticizante deflagra, e
não aprendas a a abominação daqueles po- legitima, verdadeira guerra contra a magia. E a magia
vos. Que em teu se encontre alguém se vê, então, reduzida à ousadia blasfema de pretender
seu filho ou sua filha, forçar a Deus, ao invés de submeter-se à sua vontade;
•• L." .......... '-', encantamento, e então à magia negra; e então ao trato com os demô-
->V'.... que inter- .L.L'... " " .... ' - ' ' ' ' .
nios. A magia passa a ser concebida como pecado de
que consul- idolatria: atentado sacrílego à soberania e à onipotên-
cia divinas, prática de inspiração diabólica moralmente
condenada.
,..,.::>'0"".... '''"''...'''
em teu favor. Para o caso do judaísmo, assim como para o cris-
teu Deus. Eis que as tianismo moderno, faz sentido a concepção de Marcel
Mauss segundo a qual "há algo de profundamente anri-
religioso na magia", pois, relativamente aos olhos de
Javé, toda feitiçaria não pode ser senão arte do demô-
nio. Feitiçaria é sempre coisa-feita do coisa-ruim. Fei-
"Isso não te é " O dogma central da tiço é malefício. Malineza, diriam na Amazônia
religião de Israel, todos é o monoteísmo:Javé brasileira. 104 Abominação, diz a Bíblia. Por isso orde-
é um só, um Deus pessoal e único, absolutamente livre nou o Senhor a Moisés: "Não deixarás viver a
e soberano, totalmente transcendente ao mundo terre- ceira!" Malifzcam non patieris vivere, diz a Bíblia
no. O principal pecado para o judaísmo é a idolatria. chamando toda feiticeira de maléfica (Ex. 22,
No universo do magismo, assim como no das religiões Os principais responsáveis por essa postura de re-
com na Índia, na Mesopotâmia, na Pérsia, no jeição moralizante da magia foram os profetas de Israel,
na China, os deuses e espíritos são imanentes ao portadores de um tipo inédito de profecia na história
mundo, De origem chinesa, com das religiões - a profecia ética. Radicalmente
uma absolutamente "simpática" do univer- monoteístas e, por isso, visceralmente antiidólatras
so, o bem essa atitude. veen1entemente .moralistas, eles não se cansavam
por sua vez, introduzindo um condenar a n1agia presente no seio do próprio "povo
separa a figura de Deus da esfera eleito", exigindo das autoridades sua repressão e
natureza Deus é uma realidade, e o mundo nome da aliança comJavé,105
uma outra, totaln1ente outra, porquanto cria- Assin1 fazendo, os profetas bíblicos davam
a nova judaica repisada pelos profetas a unl10nguíssin10 processo histórico-cultural de

lul Mau('s. P)'):;.


Ess,' í: o Vt'rd.Hleím ~'olllt't:n .1,1 idt'í:! .i<' des"IlCIIH.um'!HO do Illllllllo.;l s,lhn: ,'sl,'
ln, Wdwr. I (JS:!.
nllmd!) Il,in s..l~rado.
94 A Magía A Contra. a Magia 95

sencantamento religioso do mundo", o qual chegaria também a violência fisicà da perseguição, da prisão,
ao ápice do radicalismo com as seitas protestantes tortura e morte dos profissionais da magia. Caça às
surgidas na Europa dos séculos 16 e 17. 106 Antes desse bruxas no sentido material da expressão.
período, durante a vigência do catolicismo medieval No início pré-industrial dos tempos modernos, a
conlO religião do Ocidente, magia e religião viviam aversão do Deus bíblico pelas crenças e práticas mági-
enl Sill1biose, não podendo separar-se facilnlente. Foi cas transformou-se em verdadeira guerra. O passo de-
o surgimento das fornlas puritanas de protestantismo cisivo foi calçado com a dupla entrada em cena de uma
que precipitou a separação entre as duas, separação postura triunfalista de moralização religiosa, uma e
tornada reflexiva pela teologia calvinista do século seguida da outra, em curtíssimo espaço de tempo: de
17. 107 Desde então, reformadores e inquisidores, tanto um lado, a Reforma Protestante, sobretudo na forma
protestantes como católicos, saÍranl a canlpo decidi- do ascetis1110 ético intralTIUndano das seitas puritanas; 1D
dos a converter à "verdadeira" fé cristã seus contem- outro, a Contra-Reforma católica, capitaneada pe-
porâneos, tachados de "pagãos" em muitos de seus los padres jesuítas e outras ordens religiosas alinhadas
comportamentos "equivocadamente religiosos", "fal- com o papado em de guerra religiosa. 11o
U ,
samente religiosos na verdade apenas mágicos e, por É importante reter este fato: a Europa da mo-
isso, heréticos, pecaminosos. Dessa forma, tal como no dernidade nascente, berço e auge das reformas religi-
Antigo Testamento dos levitas e profetas, todo o osas protestante e católica, com seus inflamados
magismo se viu reduzido a pura feitiçaria, e esta, qua- pregadores no papel principal de "martelo das feiti-
lificada de saída como malencio, sacrilégio e idolatria, ceiras", foi o palco de um verdadeiro espetáculo de
apareceu no fil11 das contas conlO a anti-religião por recristianização determinado a mudar em 180 graus
excelência. lOS as regras de um jogo ancestral: no Ocidente europeu,
De um só golpe, satanizava-se todo tipo de ma- com sua crescente periferia colonial, em vez de "reli
fundamentando-se assim, nessa violência simbóli- gião com magia", como sempre tinha sido e assi
ca, o imperativo de sua erradicação. Remover a magia seguiria sendo no resto do mundo, a ortodoxia passa-
do mundo com base no ethos das seitas protestantes va a ser agora "religião contra magia".
puritanas implicava livrar-se de seus praticantes. En-
volvia não só a violência simbólica do ataque intelec-
tual e oratório ao pensamento mágico e às diversas
1110dalidades de exercício "pecanlinoso" da 11ugia, mas

llJ('Weber, 1967.
III' Godbeer, 1994.

!". o Illct":lIlisnw opcr.Hlor dessa opo$içào é f.1.cilmclltc identificávd: primeiro, {)li


prcg:ldorcs, t(.'()logos e rdormadore:; cristãos acusam a magia de ser anti-rdígião, para lIPíWeber, 1967.
em seguida fOíllluJar, agora 'Justificadamcnte", {) imperativo de uma rdigião ancimagia. !ln DeIumeau, 1971.
Conclusão 99

Na "vida real", na ordem dos fatos e não dos


conceitos, magia e religião convivem, formam um
ecossistema. Mundo afora a magia se forma, se enrama
e floresce em ambientes religiosos. Quase por
parte, o ritual religioso contém componentes mági-
cos evidentes. 114 Existem espaços religiosos que se
constituem em verdadeiros santuários de magia. Nas
mais diferentes religiões, sacerdotes agem às vezes como
se fossem magos ou adivinhos, curandeiros ou
conjuradores de demônios, e o relacionamento
gioso com deuses, santos, almas, anjos e espíritos cos-
tuma ter ingredientes mágico-coercitivos evidentes.
A imbricação é um fato inegável.
O que, de resto, não significa que a mistura real se
faça sempre e invariaveln1ente com iguais de am-
ado pesquisador social que conleça a es- bos os componentes. Há religiões mais penetradas de
T tudar religião logo depara com um caso magia do que outras. Por isso, em face da enorme diver-
!] concreto de magia praticada em pleno con- sidade histórica das religiões humanidade, é possível
texto rcl~,<ioso. Repercutindo conceitos clás- concluir que ~ggI11as delas são D1enos desencantadas do
cos, sociólogos latino-americanos não titubeianl em que outras, ou menos desencantadas numa fase histórica
assificar certas formações religiosas - os diferentes dó que noutras.A umbanda e o candomblé são religiões
ltos afro-brasileiros, por exemplo - como religiões mais encantadas que os vários ramos do cristianismo;115
ágicas. 111 Invertendo a ordem e a classe gramatical o catolicismo é menos desencantado que o protestantis-
as palavras, historiadores das mentalidades registram mo histórico, sobretudo o de feitio puritano; o .u.eopen-
tos que mesmos não hesitam em classificar como tecostalismo, mais encantado que os QJJtms ramos do
agias religiosas .11 2 É magia e religião de fato vão pentecostalismo e, a fortiori, do protestantismo. 116 -
isturadas no mundo vivido. Tanto assim que muitos
esquisadores insistem em usar o termo hifenizado
mágico-religioso" para designar as crenças e práticas 11.1 A bem da verdade, uma das razões para o quase esquecimento da magia na atuaJ

1ágicas e as religiosas conl um só sintagma. 113 sociologia da religião brasileira transparece na t!!nd~ncia muito pouco analítica de
embolar magia e religião no uso generalizado e preguíçoso do adjetivo composto
"mágico-rdigioso". Uso abusivo que mal disfarça a operaç3o traiçoeira e empobre-
cedora de reduzir magia a religião.
114 Exemplo: definir s.e o sinal-da-cruz deveria ser fdco com dois ou com três dedos
I Pr.lndi, 1991; 1996; Si!v;t, 1995; Frigerio, 2000.
foi uma das causas fimdamencaís do cisma na Igreja russa do século 17.
:2 Ddumcau, 1978; lI.' Roy-L'u.lmie, 1%3.
m Negrão, 1996(a}, 1996(b).
Mariano, 1996; 1999; Frigaio, 2000.
0 AMagia
COHclusão 101

As vertentes religiosas mais desencantadas, isto é, A partÍr de 1970, a sociologia produzic-a no Pri-
enos mágicas, são o judaísmo profético, o protestantis- i
meiro Mundo passou a discutir se nas sociedades de
o puritano e o catolicismo intelectual. Eles assumem capitalismo tardio e de consumo não estaria ocorren-
m relação às crenças e práticas mágicas uma postura do um "retorno do sagrado". O debate depressa con-
rimeiro superior, depois excludente. Repudiam a ma- tagiou diversos cientistas sociais brasileiros. 1 18 Ora,
ia 111uito mais do que costumanl f.:'1zer as outras formas ! muito ben1. Quando se fala em "retorno do sagrado",
eligiosas, nlais propensas à Inclusão e à hibridação, mais uma bruta diferença saber se o sagrado que supos-
omplacentes com os sincretismos e tolerantes com a tamente estaria retornando à - e à cena - é de
ustura mágico-religiosa (com hífen}, como o catolicis- caráter mágico ou de caráter religioso. Entre outros
o popular, o candomblé, a umbanda, o kardecismo, o atributos, o sagrado mágico tem íntima afinidade eleriva
induísmo, o taoísmo, o budismo tibetano, o xintoísmo. com o transe místico e o êxtase físico. Já, o sagrado
o fundo, porém, resta sempre o dado essencial, que se religioso, cá entre nós, ocidentais, tem fortes pendores
esvenda em situações de conflito: religião e magia não para a moralização conduta cotidiana, para o
ão a mesma coisa. ascetÍsmo e o recalque da sexualidade. Religião) no
Quando aqui se diz que religião e magia não são ó Ocidente, virou sinônimo de moral.
esmo, o emprego do verbo no presente do indicativo Daí a importância da distinção. definição
ão deve dar margem à opinião de fundo evolucionista, magia não pode ser confundida sem mais nem menos
stilo século 19, e ainda hoje abraçada por muitos, segun- com o conceito de religião. A própria dinâmica do
o a qual a religião um dia já foi magia. A magia,seria a campo religioso como um todo, sua lógica interna, só
recursora religião, quando não seu embrião. Olhada se deixa apreender com nitidez quando o observador
esse modo, a magia aparece como o passado primordial lança mão da distinção conceitual entre as duas.Ainda
a religião, sua balbuciante origem, seus albores, estágio que religião e magia dificilmente se separenl no
rinlevo e tosco vida religiosa destinado a desaparecer, das hifenadas experiências "nlágico-religíosas" real-
orma arcaica e residual daquilo que mais tarde atingiria a mente vividas, elas devem ser separadas analiticamen-
lenitude como religião e, muito depois, como ciência. l17 te. Hoje, na pesquisa social, não dá mais para abrir
mão dos ganhos teóricos trazidos pela distinção entre
l7 Na história das ciências sociais, os pomos mais ttmotO$ de teorização dessa visada
este de conceitos, magia e religião, e este outro
:\ioluóorUsta podem ser encontrados na obI<! de dois antropólogos ingleses da eI<! vitoriana, correlato, feiticeiro e ·sacerdote.
ir Edward BumettTylor (Cultura Primitiva. 1871) e Sir James George Frazer (O Ramo Magia ou religião? É fundamental entender os
ourado, 1890). Esse último elaborou uma tipologia evolutiva com base na tríade
pi~temológiCJ magia/religião/ciência. Trn.tando as três como fonms de conhecimento,
termos dessa disjuntiva cultural. É uma diferença que
razcr ;t'\ disp(~ scqikncialmeme t:Ill formato evolutivo como se fos.."C1ll três etapas de uma realmente conta no estudo das sociabilidades contem-
'fl)grt',:;;io hisróríca d.1 humanidade: da IllJg;ia :i. religião e, finalmente, à ciência (Fr:uer, porâneas. E que, de resto~ é indispensável avaliar
941 ;Bbckbum, ! 99-\.; b.lande, 1951 ;Marshall, 1994). O antropólogo fr.ancês Lucien L!vy-
3ruhl sustentava ponto de v1scr parecido: somente a "méntal.idade primitiva", modo pré-
ógico de pensar ínfc:rior ao pensamento lógico-cienófico, poderia não notar a falC.1 de
,kXI1l:lç:10 dos móo, us.1dos na nlagi~ para obter O~ fins dl..'Scjados (Lévy-Bruh1. 1922), IIS Pierw:ci. 1997.

--," _.... _------------------------------


Conclusão 10,3
02 AMagía

dequadamente a atual religiosidade do povo brasilei- sultados que promete. Nesse sentido, magia é empowerment
o. O esforço de distinguir deixa tudo muito mais cla- de foco ajustado, ambição delimitada, parcial. A religião ...
o nesse meio-de-campo. E os ganhos cognitivos ficam bem, enquanto a vida eterna não vem, mas em função
inda maiores quando magia e religião são encaradas dela, a religião procura moralizar nossa vida neste mun-
a perspectiva do desenvolvimento histórico de sua do.Já a magia, longe dela pretender introjetar nos huma-
onflituosa relação na cultura ocidental. nos quaisquer preceitos de moralidade. Longe dela
Religião ou magia? promessa da religião é ge- inocular em nós qualquer sentimento de culpa. Porque
érica; a da magia, específica. 119 A religião adia as re- ela simplesmente não pode, porque isso lhe escapa,
ompensas para um futuro messiânico, quando não para que não é "a sua". Sua regra de ouro, a única r~gra geral,
outro mundo.A magia, de sua parte, mais consciente é seguir à risca o figurino ritual. Na melhor ou na pior
os limites de sua utilidade, sabe-se e pretende-se mui- das hipóteses, a magia é amoral. Uma via de salvação difé-
o mais circunscrita nas soluções que pode oferecer aos rente da via moral, não necessariamente o seu contrário.
ranstornos e contratempos da vida humana. Para o pensamento mágico, não há o Mal com
Do extremo Oriente ao mais avançado Ocident.e letra maiúscula, assim como não há o Bem. São cate-
om sua vasta periferia) desde os tempos mais arcaicos, gorias próprias do pensamento metafisico-religioso,
magia tem prometido às pessoas que a ela recorrem a não do pensamento mágico. Sofrimento e desventura,
olução imediata de determinados problemas muito enfermidade e aflição, tudo é efeito de um feitiço cuja
oncretos, ao passo que a religião ... bem, o que cada solução só pode ser outro feitiço. Simples. Nada de
eligião promete é nada menos que a solução de tudo. culpas, nada de culpa. Magia é vontade de poder;
compensação definitiva para esses e para todos os gião, vontade de obedecer.
utros problemas do indivíduo e do mundo, a saber,
m outro mundo, uma vida eterna após a morte. Aos
Ull1anos) seres que sofrem necessidade, correm perigo
sentem medo, as duas fazem promessas que são dife-
entes. No conteúdo e no alcance. Isso fica muito claro
uando observamos os objetivos que suas práticas se
ão: específicos, precisos e utilitários - a magia; genéri-
os, abrangentes e metafísicos - a religião.
Ao tornar o mundo mais próximo das nossas pró-
rias n1ãos, ao deixar os poderes superiores mais acessÍ-
veis à nossa própria vontade, simbolicall1ente InaÍs
controláveis, a 111agia delÍlllÍta, define e aproxinla os re-

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SOBRE O AUTOR

Antônio Flávio Pierucci é professor do Departamen-


to de Sociologia da USP e editor da revista Novos
Estudos Cebrap.
Ocupou, por dois mandatos sucessivos, de 1993
a 1996, o cargo de secretário executivo da Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências
Sociais (Anpocs).
Publicou diversos livros. entre os quais Ciladas
da Diferença (São Paulo: Ed. 34, 2000) e, en1 co-autoria
COll1 R.eginaldo Prandi, A Realidade Social das Religiões
no Brasil (São Paulo: Hucítec, 1996).