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A R E A L ID A D E I N C O M O D A

DI FUSÃO E U R O P É I A DO L I V R O • SÃO PAULO


A VELHICE
S lM O N K DE B líA U V O lR

( (ini o mritmo nrrfljo e a mesma compe­


tência com que estudou, faz alguns anos, as
1 1 iii(lii,ofs i l.i .... Ilicr, Simone de Beauvoir se
dispôs ,i dissnar cm suas minúcias os proble­
ma'. d.i vclliuc I'. o resultado de tal tarefa
1 0 comubltinclou nesta obra intensa, honesta
r pc u m iciiic, (iiio, em razão de sua natureza,
vem provocando impacto semelhante ao provo­
c a d o quando da publicação de O Segundo Sexo.
A partir de agora, podemos afirmar que, graças
à ensaísta, a velhice já não é um tabu e a solu­
ção dos fatos a ela relacionados terão de mete-
ccr mais atenção por parte dos governos e da
sociedade que se crê civilizada.
Simone de Beauvoir não hesitou diante da
amplitude de tal empreendimento. Atacou-o
em extensão e em profundidade. À luz dos
dados fornecidos pela ciência, a arte e a litera­
tura — e sobretudo pela vida — esvurma a
hipocrisia individual e coletiva que finge igno­
rar ou que se esforça por minimizar a realida­
de incômoda representada pelos velhos, ao
mesmo tempo que desfaz os mitos engendrados
pelo sentimentalismo ou pela observação super­
ficial no que respeita às relações dos velhos
com o mundo. Pessimista na aparência, êste
ensaio recoloca em termos sócio-culturais a
integração das pessoas idosas numa sociedade
que ainda as vê, unicamente, sob o ângulo da
produção e do lucro. É um chamamento à
responsabilidade e à justiça, porque, “ a velhice
não é a conclusão necessária da existência hu­
mana” . Na sociedade ideal evocada pela auto­
ra, a velhice, por assim dizer, não existiría. O
velho findaria seus dias sem haver sofrido essa
degradação a que, presentemente, está subme­
tido. . A velhice seria, apenas, “ uma fase da
existência, diferente da juventude e da maturi­
dade, mas dotada de um equilíbrio próprio e
deixando aberta ao indivíduo uma ampla gama
de possibilidades” . Para tanto não é o bastante
recorrer-se a novos e mais generosos paliativos.
É necessário — di-lo a autora — pôr em pauta
uma reivindicação radical': “ mudar a vida” .
SIMONE DE BEAUVOIR

A VELHICE
I. A Realidade Incômoda

Tradução de
H e l o y sa de L im a D a n t a s

Capa de
M a r ia n n e P e r e t t i

DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO


Rua Bento Freitas, 362
Rua Marquês de Itu, 79
SÃO PAULO

f
Título do òriginal:

La Vieillesse
(Le point de vue de Vextériorité)

1970

Copyright by
Librairie Gallimard, Paris
Direitos exclusivos para a língua portuguêsa:
Difusão Européia do Livro, São Paulo
INTRODUÇÃO

Quando Buda ainda era o príncipe Sidharta, encerrado


por ordem de seu pai em magnífico palácio, daí escapou
várias vêzes a fim de passear de carro pelos arredores. En­
controu logo da primeira vez um homem doente, desdentado,
todo encarquilhado e encanecido, alquebrado, apoiando-se
numa bengala, tartamudeante e trêmulo. Espantou-se e o
cocheiro explicou-lhe o que vinha a ser um velho. E o
príncipe exclamou: “Que desgraça é não enxergarem a velhice
os sêres fracos e ignorantes, ébrios do orgulho da juventude!
Voltemos depressa para casa. De que valem folguedos e
alegria se a velhice vindoura já habita em mim!,,
No ancião, Buda reconheceu seu próprio destino pois,
tendo nascido para salvar os homens, quis assumir a totali­
dade da condição humana. Diferia deles neste ponto pois
os homens escamoteiam os aspectos que nela lhes desagra­
dam. E, estranhamente, a velhice. A América eliminou a
palavra morto de seu vocabulário: fala-se em caro desapa­
recido; evita-se igualmente qualquer referência à idade pro-
vecta. Esta constitui também na França atual, um assunto
proibido. Que celeuma levantei quando infringí este tabu
no final de La force des choses! a Admitir que me encon­
trava no limiar da velhice significava que esta se acha à
espreita de tôdas as mulheres, que muitas já estavam à sua
mercê. De maneira ora gentil, ora irritada, muitas pessoas,
sobretudo as idosas, repetiram-me exaustivamente que a ve-

( * ) Obra publicada em português com o título de Sob o Signo


da História. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1965, 2 vols. (N.
do E.).

\
Ihice ê coisa que não existe. Existem apenas pessoas menos
jovens que outras, e pronto! A velhice surge aos olhos da
sociedade corno uma espécie de se credo vergonhoso do qual,
é indecente falar. Em todos os campos existe uma vasta
dáteratura versando sôhre a mulher, a crianca. o adolescente:
são extremamente raras as alusões h velhice^ íqjul d.os tra­
balhos especializados. Üm autor de desenhos para histórias
'em quadrinhos foi obrigado a refazer uma série inteirinha
pelo fato de haver incluído um casal de avós entre os perso­
nagens: “ Elimine os velhos!” foi a ordem que lhe deram ( 1).
A exclamação que ouço com maior frequência sempre que
menciono o fato de estar elaborando um ensaio sôbre a
velhice é a seguinte: “Que id éia!... Você não é nenhuma
velha!. . . Mas que assunto triste !...”
Ê exatamente esta a razão pela qual estou escrevendo
este livro: quebrar a conspiração de silêncio. Como observa
Marcuse, a sociedade de consumo substituiu uma consciên­
cia infeliz por uma consciência feliz e reprova todo e qual­
quer sentimento,de culpa. Ê necessário turvar semelhante
tranquilidade que, no respeitante às pessoas idosas, deixa de
ser apenas culpada para se tornar criminosa. Acobertada
pelos mitos da expansão e da abundância, a sociedade trata
os velhos como párias. Na França, onde a proporção de
velhos é a mais elevada do mundo — 12% da população já
ultrapassou os 65 anos de idade — êles se vêem condenados
à miséria, à solidão, às enfermidades e ao desespêro. Nos
Estados Unidos, êles não são mais afortunados. A fim de
conciliar semelhante barbárie com a moral humanista por
ela professada, a classe dominante toma a cômoda decisão
de não os considerar homens; sua voz, se fôsse ouvida,
forçá-la-ia a reconhecer que se trata de uma voz humana.
Obrigarei meus leitores a escutá-la. Descreverei a situação
que lhes é imposta e sua maneira de vivê-la; contarei aquilo
que — desfigurado pelas mentiras, mitos e chavões da cul­
tura burguesa — realmente se passa em sua cabeça e em
seu coração.

(1) Relatado por François Garrigue. Dernières nouvelles d’Alsace,


12 de outubro de 1968.

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Ê, aliás, profundamente dúplice a atitude da sociedade
com relação ao velho. A velhice, em geral, não é por ela
encarada como uma classe de idade hem delimitada. A crise
da puberdade permite traçar entre o adolescente e o adulto
uma linha divisória que só passa a ser arbitrária dentro de
limites muitos estreitos: os jovens são admitidos à sociedade
dos homens logo que atingem 18 ou 21 anos. Esta promo­
ção é quase sempre cercada de “rituais de transição” . Ê mal
definido o momento em que começa a velhice, variando de
acordo com as épocas e os lugares. Em parte alguma se
encontram “rituais de transição” que estabeleçam um nôvo
estatuto ( 2). Na política, o indivíduo conserva durante tôda
a existência os mesmos deveres e os mesmos direitos. O Có­
digo Civil não estabelece distinção alguma entre um cente­
nário e um quadragenário. Os juristas consideram tão in­
tegral a responsabilidade penal de homens idosos quanto a
de jovens, salvo em casos patológicos ( 3). Na prática, êles
não constituem uma categoria à parte, coisa que aliás, não
desejariam; existem livros, publicações, espetáculos, emissões
de rádio e televisão destinados a crianças e adolescentes:
para os velhos, nada (4). Em todos êsses planos, êles se vêem
assimilados aos adultos mais jovens. No entanto, quando
se trata de seu estatuto econômico dir-se-ia que os conside­
ramos como pertencentes a uma espécie estranha: não expe­
rimentam nem as mesmas necessidades nem os mesmos sen­
timentos que os outros homens já que nos é suficiente con­
ceder-lhes uma mísera esmola para nos considerarmos deso­
brigados a seu respeito. Economistas e legisladores endossam
tão cômoda ilusão quando lamentam o pêso que, para os
ativos, representam os inativos: como se os primeiros não

(2) As festas celebradas em certas sociedades no dia em que o


indivíduo atinge os 60 ou os 80 anos não têm nenhuma caráter de ini­
ciação.
(3) O procurador-geral Mornet, ao iniciar a acusação contra Pétain,
lembrou que a justiça não considerava de modo algum as idades. De al­
guns anos para cá, os “inquéritos de personalidade” que precedem o
processo podem salientar a idade do réu: mas apenas como uma particula­
ridade entre outras tantas.
(4) La Bonne Pr esse lançou recentemente uma publicação desti­
nada às pessoas idosas; restringe-se a fornecer informações e conselhos
práticos.
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constituíssem futuros inativos e não estivessem garantindo
o 'próprio futuro ao instituírem a pensão às pessoas idosas.
Já os sindicalistas não se deixam iludir: ao apresentarem
suas reivindicações, sempre estabelecem larga margem para
a questão da aposentadoria.
Os velhos que não constituem nenhuma potência econô­
mica, não dispõem de recursos para fazer valer seus direitos:
os empresários têm todo interêsse em destruir a solidarie­
dade entre trabalhadores e inativos de modo que estes não
sejam defendidos por ninguém. Os mitos e chavões divulga­
dos pelo pensamento burguês empenham-se em revelar um
outro, no velho. “Ê com adolescentes que duram um número
suficiente de anos que a vida fabrica velhos” observa Proust;
êles conservam as qualidades do homem que persiste neles.
E a opinião pública insiste em ignorá-los. Os velhos pro­
vocara escândalo quando manifestam os mesmos desejos; sen­
timentos e reivindicações dos jovens; o amor e o ciúme, nêles,
parecem ridículos ou odiosos, a sexualidade é repugnante, a
violência derrisória. Têm obrigação de dar exemplo de todas
as virtudes. Acima de tudo, dêles se exige serenidade: afir­
ma-se que a possuem e isto autoriza um desinteresse pelo
seu infortúnio. A imagem sublimada que de si mesmos lhes
é proposta apresenta-os como sábios aureolados de cabelos
brancos, dotados de rica experiência, veneráveis, pairando
muito acima da condição humana; decaem quando fogem a
esta imagem: a que se lhe opõe é a do velho doido, caduco
e gagá, objeto de mofa por parte das crianças. Seja como
fôr, quer por sua virtude, quer por sua abjeção, êles se
situam fora da humanidade. Pode-se, portanto, sem o menor
escrúpulo, negar-lhes o mínimo considerado necessário a uma
vida de homem.
Levamos tão longe êste ostracismo que chegamos a voltá-
-lo contra nós mesmos: não nos queremos reconhecer no velho
que haveremos de ser. “ Talvez seja (a velhice) dentre tôdas
as realidades, aquela cuja noção puramente abstrata mante­
mos durante maior lapso de tempo”, afirmou Proust com
muita justeza. Todos os homens são mortais e êles se lem­
bram disso. Muitos se tornam velhos: quase nenhum encara
semelhante avatar com alguma antecipação. TSlão há nada
que devesse ser tão esperado, nada é tão imprevisto quanto

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a velhice. Quando interpelado a respeito de seu futuro,
os jovens, e sobretudo as moças, interrompem a vida aos
60 anos, no máximo. Afirmam algumas: “Não chegarei até
lá, morrerei antes.” E há as que chegam a dizer: “Matar-me-
-ei antes.” O adulto se comporta como se não devesse nunca
envelhecer. O operário, muitas vêzes, sente-se estupefato
quando soa a hora da aposentadoria, cuja data estava fixada
de antemão, era por êle conhecida e para ela devería estar
preparado. Na realidade — a não ser quando verdadeira­
mente politizado — êste conhecimento lhe tinha permanecido
estranho.
Chegada a hora, e mesmo quando dela nos vamos apro­
ximando, em geral preferímos a velhice à morte. A distância,
entretanto, é a esta última que consideramos com maior
lucidez. Ela faz parte de nossas possibilidades imediatas,
ameaça-nos em todas as idades; sucede até lhe escaparmos
por um triz, receamo-la muitas vêzes. Ao passo que ninguém
envelhece de repente: quando jovens ou em plena fôrça
da idade, não pensamos, como Buda, que em nós já habita
nossa futura velhice: esta se acha apartada de nós por um
lapso de tempo tão prolongado que se confunde a nosso ver
com a eternidade; êsse porvir tão longínquo se nos afigura
irreal. Além disso, os mortos não são coisa alguma; podemos
experimentar uma sensação de vertigem metafísica diante
dêsse nada mas êle, de certa forma, nos tranqüiliza, não
suscita nenhum problema. “ Eu não mais existirei” : minha
identidade se mantém neste desaparecimento (5). Imagi-
nar-me velha aos 20 ou aos 40 anos é o mesmo que imaginar
que sou outra. Em tôda metamorfose existe um elemento
assustador. Quando criança, sentia-me estupefata e até mes­
mo angustiada sempre que me dava conta de que havería
de me transformar, um dia, em adulta. Entretanto, o desejo
de permanecer idêntico a si mesmo é geralmente compen­
sado, na juventude, pelas consideráveis vantagens do esta­
tuto do adulto. Ao passo que a velhice surge como uma
desgraça: mesmo entre os indivíduos considerados bem con­
servados, a decadência física por ela acarretada patenteia-se

(5) Com ainda maior razão, esta identidade é garantida àqueles que
acreditam possuir uma alma imortal.

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à vista de todos pois é na espécie humana que são mais
espetaculares as alterações provocadas pelos anos. Os ani­
mais emagrecem, debilitam-se, não se metamorfoseiam. Mas
nós, sim. Nosso coração se confrange quando vislumbramos
ao lado de uma bela jovem o seu reflexo no espelho dos
anos vindouros: sua mãe. Os índios Nambiquara, conta Lévi-
-Strauss, só dispõem de uma palavra para designar “ jovem
e belo” e uma para “velho e feio” . Permanecemos incrédulos
diante da imagem que, para nosso futuro, nos propõem as
pessoas idosas; dentro de nós, uma voz fica a murmurar de
maneira absurda que aquilo não acontecerá conosco: quando
acontecer, já não seremos mais nós mesmos. Antes de desa­
bar sôbre nós, a velhice é coisa que só diz respeito aos outros.
Pode-se, assim, compreender que a sociedade consiga evitar
que enxerguemos semelhantes nossos nos velhos.
Deixemos de trapaças: o sentido de nossa vida está em
pauta no futuro que nos aguarda. Não poderemos saber
quem somos se ignorarmos quem seremos: devemo-nos reco­
nhecer na pessoa dêste velho ou daquela velha. Não o pode­
remos evitar se quisermos assumir nossa condição humana
em sua totalidade. Isto nos levará a deixarmos de aceitar
com indiferença o infortiínio da idade final; sentir-nos-emos
envolvidos, como de fato o somos. Êste desvalimento denun­
cia de maneira eloqüente o sistema de exploração em que
vivemos. O velho incapaz de prover a suas necessidades
representa sempre uma carga. Entretanto, nas coletividades
onde predomina uma certa igualdade — no seio de uma
comunidade rural, entre alguns povos primitivos —, embora
a contragosto, o homem maduro se dá conta de que amanhã
sua condição será a mesma que êle hoje atribui ao velho.
É êste o sentido do conto de Grimm, cuja versão é conhecida
em tôdas as regiões rurais. Um camponês obriga o velho pai
a comer numa gamela e apartado da família; surpreende
um dia seu próprio filho entretido em juntar pedaços de
madeira: “isto é para você, quando ficar velho” , explica o
menino. O avô, depois disso, recuperou o lugar à mesa.
Os membros ativos da coletividade inventam situações de
acomodação entre seu interesse imediato e o interêsse a
longo prazo. Necessidades urgentes levam alguns primiti­
vos a matar seus velhos pais, cientes de que mais tarde

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;poderão sofrer o mesmo destino. Nos casos menos extremos,
a previdência e os sentimentos filiais amenizam o egoísmo.
O interêsse a longo prazo já não funciona no mundo capita­
lista: os privilegiados, que decidem o destino das massas,
não receiam ter de compartilhá-lo. E os sentimentos huma­
nitários, a despeito das tagarelices hipócritas, não intervém
em coisa alguma. A economia baseia-se no lucro, é pràtica-
mente a êle que está subordinada tôda a civilização: o mate­
rial humano só desperta interêsse na medida em que pode
ser produtivo. Ê, em seguida, rejeitado. “ Num mundo em
processo de mutação, no qual as máquinas funcionam durante
períodos muito curtos, os homens não devem prestar serviços
durante um tempo longo demais. Tudo que ultrapassa os
55 anos deve ser pôsto de lado, como refugo” , afirmou recerí-
temente ( é) o Doutor Leach, antropólogo da Cambriclge,
durante um congresso.
A palavra “refugo” exprime claramente o que êle pre­
tende dizer. Afirmam-nos que a aposentadoria constitui a
época da liberdade e dos lazeres; poetas têm enaltecido as
“delícias do porto” (67). Mentiras deslavadas. A sociedade
impõe à imensa maioria dos velhos um padrão de vida tão
miserável que a expressão “velho e pobre” quase chega a
ser pleonasmo; e vice-versa, a maior parte dos indigentes
é constituída de velhos. Os lazeres não oferecem possibili­
dades novas ao aposentado: na hora em que se vê liberado
de constrangimentos, roubam-se ao indivíduo os meios de
utilizar sua liberdade. Condenam-no a vegetar na solidão e
no tédio, corno um legítimo refugo. O fato de ser um homem
reduzido à condição de “sobra”, de “resto” , durante os últi­
mos quinze ou vinte anos de sua existência, comprova a
falência de nossa civilização: semelhante evidência nos deixa­
ria interditos se considerássemos os velhos como sêres huma­
nos, tendo às suas costas uma existência humana, e não
como cadáveres ambulantes. Aqueles que denunciam êste
nosso sistema mutilador deveríam chamar a atenção para
semelhante escândalo. Só se consegue abalar uma socie­
dade através de uma concentração de esforços na questão

(6) Escrito em dezembro de 1968.


(7 ) A expressão é de Racan.

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do destino dos menos favorecidos. Para demolir o sistema
de castas, Gandhi atacou a condição dos párias; para des­
truir a família feudal, a China comunista emancipou a mu­
lher. Exigir que os homens permaneçam homens quando
avançados em anos implicaria uma transformação radical.
Ê impossível chegar a este resultado através de algumas
reformas restritas que deixem o sistema intato: é a explora­
ção dos trabalhadores, a atomização da sociedade, a miséria
de uma cultura apanágio de um mandarinato que levam a
essas velhices desumanizadas. Isto comprova a necessidade
de tudo rever, desde o princípio. E é por êste motivo que a
questão é tão cuidadosamente silenciada; é por isto que se faz
necessário quebrar êste silêncio; peço a meus leitores que
me ajudem a fazê-lo.
PREÂMBULO

Falei até agora da velhice como se esta palavra encer­


rasse uma realidade bem definida. Na verdade, quando
se trata de nossa espécie, não é fácil delimitá-la. É um
fenômeno biológico; o organismo do homem idoso apresenta
certas singularidades. Acarreta conseqüências psicológicas:
determinadas condutas, com justa razão, são consideradas
típicas da idade avançada, dem uma dimensão existencial
como tôdas as situações humanas: modifica a relação do
homem no tempo e, portanto, seu relacionamento com o
mundo e com sua própria história. Por outro lado, o homem
nunca vive em estado natural: set estatuto lhe é imposto
tanto na velhice como em tôdas as idades, pela sociedade
a que pertence. A complexidade da questão é devida à
estreita interdependência desses pontos de vista. Sabe-se,
hoje em dia, que considerar isoladamente os dados fisiológi­
cos e os fatos psicológicos constitui uma abstração: êfes
são interdependentes. Veremos que, na velhice, esta relação
é particuiarmente evidente: é ela, o domínio por excelência
do psicossomático. Todavia, o que denominamos vida psí­
quica de um indivíduo só pode ser compreendido à luz de
sua situação existencial; também esta, portanto, tem reper­
cussões no organismo e vice-versa: o relacionamento com o
tempo é sentido de maneira diferente, segundo esteja o corpo
mais ou menos alquebrado.
Finalmente, a sociedade determina o lugar e o papel
do velho, levando em conta suas idiosincrasias individuais:
sua impotência, sua experiência; reciprocamente, o indivíduo
é condicionado pela atitude prática e ideológica da socie­
dade a seu respeito. De modo que, uma descrição analítica
dos diversos aspectos da velhice não pode ser suficiente:

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cada um deles reage sobre todos os outros e é por êles afe­
tado. É no movimento indefinido desta circularidade que
temos de apreendê-la.
É por este motivo que um estudo sôbre a velhice deve
procurar ser exaustivo. Sendo meu objetivo essencial focalizar
o que é hoje, no seio de nossa sociedade, o destino das pes­
soas idosas, pode parecer estranho que eu dedique tantas
páginas à condição que lhes é imposta nas assim chamadas
comunidades primitivas, assim como àquela em que se viram
inseridas nas diferentes fases da história humana. Todavia,
muito embora seja a velhice, na sua qualidade de destino bio­
lógico, uma realidade trans-histórica, ainda assim subsiste o
fato de que êste destino é vivido de maneira variável, segun­
do o contexto social. Inversamente, o sentido ou o contra-
-senso que reveste a velhice no seio de uma sociedade,
coloca tôda esta sociedade em questão, visto que, através
dela, se desvenda o sentido ou o contra-senso de tôda a
vida anterior. A fim de poder julgar a nossa, torna-se neces­
sária comparar as soluções por ela escolhidas com as que
foram adotadas *p o r outras coletividades, através do tempo e
do espaço. Esta comparação tornará possível apreender
os aspectos inelutáveis da condição do velho, descobrir em
que medida e por que preço seria possível paliar às difi­
culdades e qual é, por conseguinte, a parte de responsabili­
dade que cabe ao sistema em que vivemos, com relação
aos velhos.
Tôda situação humana pode ser encarada em exteriori-
dade — tal como se apresenta nos demais — ou em interio-
ridade, na proporção em que o sujeito a assume, ultrapas­
sando-a. Para os demais, o velho constitui objeto de um
conhecimento; para si mesmo êle possui de seu próprio es­
tado, uma experiência vivida. Adotarei o primeiro ponto de
vista, na parte inicial dêste livro. Examinarei a contribuição
que a biologia, a antropologia, a história, a sociologia con­
temporânea trazem ao estudo da velhice. Na segunda parte,
procurarei descrever a maneira pela qual o homem idoso
interioriza seu relacionamento com o próprio corpo, com
o tempo, com os demais. Nenhuma dessas duas pesquisas
tornará possível definir a velhice; verificaremos, pelo contrá­
rio que ela assume múltiplos aspectos, irredutíveis uns aos
outros. No decorrer da história, tal como hoje em dia, a luta
de classes determina a maneira pela qual um indivíduo se
torna presa da velhice; um abismo separa o velho escravo
e o velho eupátrida, um antigo operário que recebe uma
pensão miserável e um Onassis. A diferenciação das velhices
individuais ainda tem outras causas: saúde, família etc. São,
entretanto, duas categorias de velhos, uma extremamente
ampla e outra restrita à pequena minoria, e criadas pela
oposição de exploradores e de explorados. Qualquer alega­
ção que pretenda referir-se à velhice em geral deve ser
recusada, visto constituir uma tentativa no sentido de mas­
carar êste hiato.

Propoe-se imediatamente uma questão. A velhice não


é um fato estático: é o término e o prolongamento de um
processo. Em que consiste êsse processo? Em outras pala­
vras, que é envelhecer? Esta idéia se acha ligada à de trans­
formação. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da
criança, constitui uma incessante transformação. Seremos
levados a concluir, como o fizeram alguns, que nossa exis­
tência é uma morte lenta? Certamente não. Semelhante pa­
radoxo desconhece a^ verdade essencial da vida: ela é um
sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio
a cada instante; a inércia é que é sinônimo de morte. A lei
da vida é mudar. O que caracteriza o envelhecimento é um
certo tipo de mudança irreversível e desfavorável, um declí­
nio. Eis a definição proposta por Lansing, gerontólogo ame­
ricano: “ Um processo progressivo de alteração desfavorável,
ligado habitualmente à passagem do tempo, tornando-se
aparente após a maturidade e invariàvelmente terminando
com a morte.”
Topamos imediatamente, entretanto, com uma dificul­
dade: que significa a palavra desfavorávelp Implica um
julgamento de valor. Não existe progresso ou regressão, a
não ser relativamente a um objetivo visado. No dia em
que esquiou menos bem que as mais jovens, Marielle Goi-
tschel deve ter-se considerado velha, no plano esportivo. •
É no âmago do empreendimento de viver que se estabelece
a hierarquia das idades e o critério é muito mais incerto.
Seria preciso conhecer a meta visada pela vida humana para
decidir quais são as transformações que dela a afastam, e
quais as que dela a aproximam.

15
O problema é simples quando, no homem, só se consi­
dera o organismo. Todo organismo tende a subsistir. Para
isto, é-lhe necessário restabelecer o equilíbrio todas as vezes
que êste se vê comprometido, defender-se contra as agres­
sões externas, apreender o mundo da maneira mais ampla e
mais firme. Em semelhante perspectiva, as palavras: favo­
ráveis, indiferentes, prejudiciais, têm um significado muito
claro. Do nascimento até a idade de 18 a 20 anos, o desen­
volvimento do organismo tende a aumentar suas probabili­
dades de sobrevivência: fortifica-se, torna-se mais resistente,
crescem seus recursos, multiplicam-se suas possibilidades. O
conjunto das capacidades físicas do indivíduo se acha no ápice
da expansão, por volta dos 20 anos. Assim, considerada em
sua totalidade, a mutação do organismo é benéfica, durante
os primeiros vinte anos.
Algumas alterações não acarretam nem melhoria nem
diminuição da vida orgânica, são indiferentes: assim, a invo-
lução do timo que ocorre logo na primeira infância; a dos
neurônios cerebrais cujo número é imensamente superior às
necessidades,do indivíduo.
Muito cedo, produzem-se alterações desvantajosas. A
amplitude da margem de acomodação se reduz depois dos
10 anos. Já antes da adolescência baixa o limite da altura
de sons audíveis. A partir dos 12 anos, vai-se enfraquecendo
uma certa forma de memória bruta. Segundo Kinsey, a
potência sexual do homem decresce depois dos 16 anos.
Estas perdas, bastante limitadas, não impedem o desenvolvi­
mento infantil e juvenil de prosseguir em sua linha as­
cendente.
Depois dos 20 e sobretudo a partir dos 30 anos, tem
início uma involução dos órgãos. Dever-se-á falar em enve­
lhecimento desde êsse momento? O corpo mesmo, no homem,
não é produto exclusivo da natureza. Perdas, alterações,
desfalecimentos, podem ser compensados por montagens,
automatismos, um conhecimento prático e intelectual. Não
se falará em envelhecimento enquanto as deficiências per­
manecerem esporádicas e forem facilmente remediadas. Quan­
do elas adquirem importância e passam a ser irremediáveis,
e o corpo se toma frágil e mais ou menos impotente, pode-se
afirmar, sem equívoco, que está declinando.

16
A questão se torna muito mais complexa quando consi­
deramos o indivíduo inteiro. Começa-se a declinar depois
de se haver atingido um apogeu: onde situá-lo? Apesar de
sua interdependência, o físico e o moral não seguem uma
evolução rigorosamente paralela. O indivíduo pode sofrer
perdas morais consideráveis antes que tenha início sua degra­
dação física; pode, ao contrário, suceder que no decurso
desta decadência êle consiga importantes ganhos intelectuais.
A qual dêles atribuiremos maior valor? Cada qual dará uma
resposta diferente, segundo valorize mais as aptidões corpo­
rais ou as faculdades mentais, ou então um feliz equilíbrio
entre elas. É de acordo com opções desta ordem que os
indivíduos e as sociedades estabelecem uma hierarquia das
idades: não existe nenhuma universalmente aceita.
A criança vence o adulto pela riqueza de suas possibili­
dades, pela imensidão de suas aquisições, pelo frescor de suas
sensações: será isto suficiente para considerar que se degrada
quuando avança em anos? Parece ter sido esta, até certo
ponto, a opinião de Freud: “Pense no contraste entristecedor
que existe entre a inteligência brilhante de uma criança sadia
e a fraqueza intelectual de um adulto médio” , escreveu êle.
É a idéia desenvolvida com freqüência por Montherland:
“Quando se extingue o gênio da infância, é para sempre.
Sempre se afirma que é de um verme que sai a borboleta;
com o homem, é a borboleta que se torna verme” , diz Fer-
rante em La Reine Morte.
Ambos tinham razões pessoais — que muito divergiam
de um para o outro — para valorizar a infância. Sua opi­
nião não é geralmente compartilhada. A própria palavra
maturidade é um indício de que habitualmente se concede
ao homem feito uma proeminência sôbre a criança e sobre o
jovem: acumulou conhecimentos, experiência, capacidades.
Sábios, filósofos, escritores colocam em geral o apogeu do
indivíduo no meio da existência (1). Alguns consideram a

(1) Segundo Hipócrates, êle a atinge aos 56 anos. Para Aris­


tóteles, a perfeição do corpo seria alcançada aos 35 anos, a da alma
aos 50. Segundo Dante, atinge-se a velhice aos 45 anos. É geralmente
aos 65 anos que as sociedades industriais modernas aposentam os tra­
balhadores. Denominarei velhos e pessoas de idade àqueles que já hou­
verem atingido os 65 anos. Quanto aos outros especificarei o número
de anos que contam, quando a êles me referir.

í
própria velhice como a época privilegiada: traz, julgam eles,
experiência, sabedoria e paz. A vida humana não conhecería
declínio.
Definir o que representa para o homem progresso ou
regressão, implica que nos estamos referindo a determinado
fim: porém nenhum é dado a priori, no absoluto. Cada so­
ciedade cria seus próprios valores: é no contexto social que
a palavra declínio pode adquirir um sentido preciso.
JE stê discussão confirma o que eu havia afirmado antes:
/ã velhice só poderia ser compreendida em sua totalidade^
Vnão representa somente um fato biológico, é também um
fato cultural.
CAPÍTULO I

VELHICE E BIOLOGIA

Cj om o acabamos de ver, é claro o sentido da noção de deca­


dência, no plano biológico. O organismo entra em declínio
(|nando se reduzem suas probabilidades de subsistir. Os ho­
mens sempre tiveram consciência da fatalidade de semelhante
alteração cujas causas buscaram, como sabemos, desde a
Antiguidade. A resposta esteve na dependência da idéia que
a medicina, encarada como um todo, fazia da vida.
No Egito, e entre todos os povos antigos, a medicina
confundiu-se com a magia. Na Grécia antiga, ela não se
desligou logo da metafísica religiosa ou da filosofia. Foi
somente com Hipócrates que adquiriu originalidade e se tor­
nou uma ciência e uma arte, construindo-se pelo raciocínio
e pela experiência. Hipócrates retomou a idéia pitagórica
dos quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela, atrabí-
lis; a doença resulta de uma ruptura de seu equilíbrio; como
também a velhice, que, para êle começava aos 50 anos, Foi
o primeiro a estabelecer um paralelo entre as etapas da vida
humana e as quatro estações da natureza, comparando a
velhice com o inverno. Vários livros seus, particularmente os
aforismos, contêm observações exatas sobre os velhos. (Têm
menos necessidade de alimento que os jovens. Padecem de
dificuldades respiratórias, de catarros que acarretam acessos
de tosse, de disuria, dores nas articulações, doenças dos rins,
vertigens, apoplexia, caquexia, prurido generalizado, sonolên­
cia; eliminam água pelos intestinos, pelos olhos e pelas na­
rinas; têm, muitas vêzes, catarata, sua vista é fraca, ouvem
pouco.) Recomenda-lhes moderação em todos os domínios

19
mas aconselha-os também, a não interromperem suas ativi­
dades.
Foram medíocres os sucessores de Hipócrates. Aristóteles
impôs seus pontos de vista, baseados na especulação e não
na experiência: a seu ver, a condição da vida era o calor in­
terno e comparava a senectude a um resfriamento. Roma
herdou as noções pelas quais os gregos haviam explicado os
fenômenos orgânicos: temperamentos, humores, crase, pneu-
ma. Os conhecimentos médicos em Roma, no tempo de
Marco Aurélio, não estavam mais adiantados que os da
Grécia de Péricles.
Foi no século II que Galeno estabeleceu uma síntese
geral da medicina antiga. Considerou a velhice como um
intermediário entre a doença e a saúde. Ela não constituiría
exatamente um estudo patológico, contudo, tôdas as funções
fisiológicas do velho se veriam reduzidas e enfraquecidas.
Galeno explica êste fenômeno conciliando a teoria dos humo­
res e a do calor interno. Êste é alimentado por aqueles: ex­
tingue-se quando o corpo se desidrata e os humores se eva­
poram. Em suâ Gerocomica êle oferece conselhos de higiene
que foram respeitados na Europa até o século XIX. Admite
que, segundo o princípio contraria contrariis, é preciso aque­
cer e umedecer o corpo do velho: deve êste tomar banhos
quentes, beber vinho e manter-se ativo. Prodigaliza-lhe con­
selhos pormenorizados sôbre dietética. Dá como exemplo
o velho médico Antíoco que, aos 80 anos, ainda visitava seus
pacientes e participava de assembléias políticas, assim como
o velho gramático Telefos que conservou uma excelente
saúde até quase os 100 anos.
Durante séculos, a medicina limitou-se a parafrasear sua
obra. Autoritário, certo de sua infalibilidade, êle triunfou
numa hora em que se achava mais prudente crer que dis­
cutir. Viveu, sobretudo, numa época e num ambiente em
que o monoteísmo vindo do Oriente afirmava-se contra o pa­
ganismo. Suas teorias são impregnadas de religiosidade.
Acredita na existência de um Deus único. Considera o corpo
instrumento material da alma. Os Padres da Igreja adota­
ram seus pontos de vista, assim como os judeus e os árabes
do Islão. Isto explica porque foi quase nulo o desenvolvi­
mento da medicina durante tôda a Idade Média: a velhice,
por conseguinte, permaneceu pouco conhecida. Entretanto,

20
um discípulo de Galeno — Avicena — fêz no século XI inte­
ressantes observações sôbre as doenças crônicas e os distúr­
bios mentais dos velhos.
Os escolásticos se aferraram à comparação da vida com
a chama alimentada pelo óleo de uma lâmpada: é uma ima­
gem mística, tendo sido a alma freqüentemente representada
por uma chama, durante a Idade Média. No plano profano,
a preocupação primordial dos médicos era prevenir, mais do
que curar. A Escola de Salerno, onde se originou e se desen­
volveu a medicina ocidental, empenhou-se em elaborar “re­
gimes de saúde e longevidade” , tendo-se desenvolvido abun­
dante literatura sôbre este tema. No século XIII, Roger
Bacon, que considerava a velhice uma doença (*), redigiu
para Clemente VI uma higiene da velhice na qual atribuía
uma parte bastante significativa à alquimia. Foi, entretanto,
o primeiro a quem ocorreu a idéia de corrigir a visão por
meio de vidros de aumento — (fabricados na Itália logo
após sua morte, em 1300; o uso de dentes postiços já era
conhecido entre os etruscos; durante a Idade Média iam-se
recolher os dentes dos cadáveres de jovens e de animais).
Até o fim do século XV, todos os trabalhos sôbre a velhice
eram tratados de higiene. A Escola de Montpellier também
redigiu “regimes de saúde” . No fim do século XV produziu-se
na Itália, paralelamente ao das artes, um renascimento da
ciência. O médico Zerbi escreveu uma Gerontocomia, que
foi a primeira monografia consagrada à patologia da velhice;
nada inventou, porém.
A anatomia foi o ramo da medicina em que se realizou
imenso progresso, no início da Renascença. Durante mil
anos fôra proibida a dissecação do corpo humano. Esta se
tornou possível, de maneira mais ou menos aberta, em fins
do século XV. É notável, embora não surpreendente, que
o criador da anatomia moderna tenha sido Leonardo da
Vinci; como pintor, êle se havia interessado de maneira
apaixonada pela representação do corpo humano e desejou
conhecê-lo com exatidão. “ Dissequei mais de dez corpos
humanos para deles obter um conhecimento pleno e verda­
deiro”, escreveu êle. Na realidade, chegou a dissecar mais

(1 ) Concordava com a opinião manifestada na Antiguidade por


Terêncio.

21
de trinta cadáveres, até o fim de sua vida; e entre eles,
alguns corpos de velhos. Desenhou muitos rostos e corpos
de anciãos; também representou seus intestinos e artérias,
de acordo, com suas próprias observações. (Deixou, além
disso, anotações sôbre as alterações anatômicas que obser­
vou; êsses textos, porém, só foram conhecidos muito mais
tarde.)
Continuam os progressos da anatomia com Vesálio,
seu grande mestre. As outras disciplinas, entretanto, per­
manecem estagnadas. A ciência continua imbuída de me­
tafísica. O humanismo tenta lutar contra a tradição mas não
consegue dela se libertar. No século XVI, Paracelso re­
dige suas obras em alemão e não em Latim, por uma ques­
tão de modernismo. Tem algumas intuições novas e extraor­
dinárias porém mergulhadas em teorias complicadas, segun­
do as quais o homem é um “composto químico” e a velhice,
conseqüência de uma autointoxicação.
Os trabalhos consagrados até então à velhice cuidavam
apenas da higiene preventiva; sôbre o diagnóstico e a tera­
pêutica, enconfravam-se somente algumas indicações espar­
sas. David Pomis, médico veneziano, foi o primeiro a tratar
dessas questões com método e clareza. Algumas de suas
descrições de moléstias senis são muito acuradas e exaus­
tivas, sobretudo a da hipertensão arterial.
No século XVII, já se encontravam numerosos traba­
lhos sôbre a velhice, todos eles, entretanto, desprovidos de
interesse. Galeno ainda conta com discípulos no século XVIII,
entre os quais, Gerard Van Swieten. Considera êste a
velhice como uma espécie de moléstia incurável; ridiculariza
os remédios inspirados pela alquimia ou pela astrologia, des­
creve com exatidão algumas alterações anatômicas por ela
acarretadas. Entretanto, a ascensão da burguesia, o racio-
nalismo, o mecanicismo aos quais ela se prende dão ensejo
à criação de uma nova escola: a iatrofísica. Borelli, Baglivi
introduzem na medicina as concepções de La Mettrie: o
corpo é uma máquina, um conjunto de cilindros, de fusos,
de rodas. O pulmão é um fole. Voltam, assim, às teorias
mecanicistas da Antiguidade (2) sôbre a velhice: o orga­

(2) De Demócrito e Epicuro, entre outros.

22
nismo se degrada, da mesma forma como se desgasta uma
máquina, após longo uso ( 3). Esta tese encontrou defensores
até o século XIX, época aliás, em que conheceu maior
voga. A noção de “usura” , no entanto, sempre permaneceu
bastante vaga. Por outro lado, Stahl inaugura a teoria
conhecida sob a designação de vitalismo: existiría no ho­
mem um princípio vital, uma entidade, cujo enfraqueci­
mento acarretaria a velhice, e seu desaparecimento, a morte.
Havia inúmeras e estéreis disputas entre os defensores
da tradição e os partidários dos sistemas modernos. A me­
dicina enfrentava graves dificuldades teóricas. Não mais
a satisfazia a velha patologia dos humores e ainda não havia
descoberto novas bases. Achava-se num beco sem saída.
Continuava, entretanto, a progredir empiricamente. Tinharn-
-se multiplicado as autópsias, a anatomia progredira sensi­
velmente. O estudo da velhice com isto se beneficiou. Na
Rússia, Fischer, diretor do Serviço de Saúde, rompeu com
Galeno e descreveu, de maneira sistemática, a involução
senil dos órgãos. Apesar das deficiências, seu livro marcou
época. A portentosa obra do italiano Morgagni, publicada
em 1761, teve também grande importância: estabelecia,
pela primeira vez, uma correlação entre os sintomas clínicos
e as observações feitas no decorrer das autópsias. Ã velhice
consagrava-se toda uma seção.
Sobre este assunto, apareceram no último decênio três
livros onde se viam antecipadas algumas descobertas dos
séculos XIX e XX. O médico americano Rush, publicou
alentado estudo fisiológico e clínico, baseado em suas obser­
vações. O alemão Hufeland também reuniu num tratado
numerosas observações interessantes e gozou de grande po­
pularidade. Era vitalista. Achava que todo organismo é
dotado de certa energia vital que se esgota com o tempo.
O trabalho mais importante, porém, foi o de Seiler, publi­
cado em 1799: era inteiramente consagrado à anatomia
dos velhos e apoiava-se em autópsias. É desprovido de ori­
ginalidade mas constituiu durante dezenas de anos um apre-

(3) A assimilação é inteiramente errônea; longe de se desgastarem,


os órgãos se conservam sem o funcionamento; atrofiam-se quando in­
terrompem sua atividade.

23
ciadíssimo instrumento de trabalho, tendo sido utilizado
até meados do século XIX.
No início do século XIX, os médicos de Montpellier
continuavam adeptos do vitalismo ( 4). Entretanto, o pro­
gresso da fisiologia e de tôdas as ciências experimentais
começava a beneficiar a medicina. Os estudos sôbre a
velhice tornaram-se precisos e sistemáticos. Rostan estudou,
em 1817, a asma dos velhos, descobrindo sua relação com
um distúrbio cerebral. Em 1840, Prus escreveu o primeiro
tratado sistemático sôbre as enfermidades da velhice.
Foi a partir de meados do século XIX que a geriatria
— ainda não designada desta maneira — começou a real­
mente existir. Viu-se favorecida na França pela criação de
vastos asilos onde se achavam reunidos numerosos velhos.
A Salpêtrière era o maior asilo da Europa; abrigava oito
mil doentes, dos quais dois ou três mil eram pessoas de
idade, cujo número também era elevado em Bicêtre. Tor­
nou-se, portanto, fácil coligir fatos clínicos a êles referentes.
A Salpêtrière pode ser considerada o núcleo da primeira
instituição geriátrica. Charcot ali pronunciou célebres com
ferências sôbre a velhice, as quais, publicadas em 1886,
alcançaram enorme repercussão. Surgiram então muitos tra­
tados de higiene, estereotipados e sem interêsse. Mas a
medicina preventiva, de modo geral, cedeu lugar à tera­
pêutica: houve, daí por diante, a preocupação de curar os
velhos. Tanto mais que êstes foram se tornando cada vez
mais numerosos, primeiro na França e, depois, noutros
países: os médicos viram aumentar entre seus pacientes
o número de enfermidades degenerativas que se desenvol­
vem em terreno senil. Já antes do livro de Charcot tinham
aparecido, em 1847, um trabalho de Pennock, em 1852, um
tratado de Reveillé-Parise em que eram estudados a fre-
qüência do pulso e o ritmo da respiração nas pessoas idosas.
Entre 1857 e 1860, Geist publicou uma boa síntese da lite­
ratura geriátrica divulgada na Alemanha, na França e na
Inglaterra.

(4) A teoria dos humores estava abandonada, mas persistia num


plano mítico. Faraday, numa célebre conferência, comparou a velhice e
a morte à chama de uma vela que vacila e se apaga. A imagem continua
viva até hoje.
As pesquisas se multiplicaram em fins do século XIX
e no século XX. Boy-Tessier em 1895, Rauzier em 1908,
Pic e Bamamour em 1912 publicaram na França importantes
trabalhos de síntese. De grande valor também foram, na
Alemanha, o trabalho de Bürger, na América, os tratados de
Minot e de Metchnikoff, ambos publicados em 1908, e o do
zoologista Child, publicado em 1915. Como havia sucedido
nos períodos anteriores, alguns cientistas esperavam ainda
explicar o processo da senescência por uma causa única.
Em fins do século XIX alguns deles sustentaram que ela é
devida à involução das glândulas sexuais. Brown-Séquard,
professor do Collège de France, injetou em si mesmo, aos
72 anos, extratos de testículos de cobaias e de cães, sem
resultado duradouro. Voronoff, também professor do Col­
lège de France, imaginou enxertar glândulas de macacos
em homens de idade: fracasso total. Bogomoletz preten­
deu fabricar um sôro rejuvenescedor à base de hormônios:
fracasso. Metchnikoff por sua vez retomou sob uma forma
moderna a idéia de que a senilidade resultaria de uma auto-
intoxicação. No início do século XX, numa fórmula de
grande sucesso, Cazalis afirmou: “Temos a idade de nossas
artérias”, fazendo da arteriosclerose o fator determinante
do envelhecimento. A concepção mais difundida sustentava
que êste depende de uma diminuição do metabolismo. Con­
sidera-se o americano Nascher como sendo o pai da geriatria.
Nascido em Viena — importante centro de estudos sôbre a
velhice — veio quando criança para Nova Iorque onde
estudou medicina. Visitando um asilo em companhia de
um grupo de estudantes, ouviu uma velha queixar-se ao
professor de diversos distúrbios. Explicou-lhe aquele que
sua doença era a idade avançada. “ O que é que se pode
fazer?” — quis saber Nascher. — “ Nada” . Tão impres­
sionado ficou com esta resposta que se consagrou ao estudo
da senescência. Voltando a Viena, visitou uma casa de
velhos; impressionou-se com sua longevidade e com seu ex­
celente estado de saúde. — “ É porque tratamos os pacien­
tes idosos como os pediatras tratam as crianças” , explica­
ram-lhe os colegas. Aquilo levou-o a criar um ramo espe­
cial da medicina a que deu o nome de geriatria. Publicou
em 1909 seu primeiro programa; em 1912, fundou a Socie­
dade de Geriatria de Nova Iorque e publicou em 1914 outro

25
livro sobre o assunto; foi-lhe difícil arranjar um editor pois
a matéria tratada não era considerada interessante.
Desenvolveu-se recentemente, ao lado da geriatria, uma
ciência hoje denominada gerontologia. que não estada a
patologia da velhice mas sim o próprio processo do enve­
lhecimento. No início do século, as pesquisas biológicas
sôbre a velhice não eram mais que subprodutos de outros
trabalhos: ao se examinar a vida das plantas e dos animais,
era-se levado, subsidiàriamente, a um interesse pelas alte­
rações por êles sofridas com a idade. Enquanto a juventude
e a adolescência constituíam o objeto de inúmeros trabalhos
especializados, a velhice não era estudada de per si, devido,
em grande parte, aos tabus que já apontei ( 5). Tratava-se
de assunto desagradável. Entre 1914 e 1930, a única coisa
importante que suscitou foram os trabalhos de Carrel, cujas
concepções foram amplamente difundidas na França; vol­
tava êle à idéia de que a velhice é uma autointoxicação
provocada pelos produtos do metabolismo das células.
A situação modificou-se depois. Nos Estados Unidos,
o número de peSsoas idosas havia dobrado entre 1900 e 1930,
e tornou a dobrar entre 1930 e 1950; a industrialização da
sociedade acarretou a concentração de grande número desses
velhos nas cidades, fato este que redundou em graves pro­
blemas: realizaram-se numerosos inquéritos para buscar-lhes
alguma solução. Êsses inquéritos atraíram a atenção para
os velhos e começou-se a desejar conhecê-los. A partir de
1930, desenvolveram-se nos campos da biologia, da psicolo­
gia, da sociologia, pesquisas que conheceram evolução se­
melhante em outros países. Em 1938 realizou-se em Kiev
uma conferência nacional sôbre a senescência. No mesmo
ano, publicou-se na França a grande obra de síntese de
Bastai e Pogliatti, tendo aparecido na Alemanha o primeiro
periódico especializado. Em 1939 um grupo de sábios in­
gleses a de professôres de medicina resolveu fundar um
clube internacional de pesquisas sôbre a velhice. Foi pu­
blicado nos Estados Unidos o monumental livro de Cowdry,
Problems of ageing.

(5 ) O gerontólogo americano Birren insinua que as pesquisas sôbre


a velhice podem “provocar um mal-estar” . Entretanto, diz êle, a ciência
hoje em dia não se deixa deter.

2fí
Durante a guerra, o ritmo dos trabalhos decresceu, ten­
do sido retomado logo que ela terminou. Fundou-se uma
sociedade de gerontologia nos Estados Unidos em 1945 e,
em 1946, foi ali editado o segundo periódico consagrado à
velhice. Essas publicações multiplicaram-se em todos os
países. Na Inglaterra, Lord Nuffield criou a Nuffield Foun­
dation que dispõe de créditos consideráveis e estuda a geria­
tria, assim como a condição dos velhos na Grã-Bretanha. Na
França, estimulados por Léon Binet, os estudos sobre a
velhice tomaram nôvo alento. Criou-se em Liège, em 1950,
uma associação internacional de gerontologia que ali realizou
congressos naquele mesmo ano e, depois, em Saint-Louis,
do Misúri, em 1951, em Londres em 1954 e muitos outros
a seguir. Fundaram-se sociedades de estudos em muitos
países. Em 1954, um índice bibliográfico sobre a gerontolo­
gia organizado nos Estados Unidos indicava 19 000 referên­
cias. Segundo o Doutor Destrem, atualmente seria preciso
duplicar esse número. Quanto à França, a Sociedade Fran­
cesa de Gerontologia foi fundada em 1958, tendo sido cria­
do no mesmo ano o Centro de Estudos e Pesquisas Geron-
tológicas, dirigido pelo Professor Bourlière. Importantes
tratados foram editados na França: o de Grailly e Destrem
em 1953, o de Binet e Bourlière em 1955. A Revue fran-
çaise de Gérontologie foi fundada em 1954. Finalmente,
constitui-se em Paris uma comissão especial de higiene so­
cial para enfrentar os problemas da velhice. Nos E .U .A .
a Universidade de Chicago publicou em 1959 e 1960 três
tratados que representam verdadeiras súmulas sôbre a ve­
lhice, tanto do ponto de vista individual como social, na
América e na Europa Ocidental.
A gerontologia desenvolveu-se em três planos: o bio­
lógico, o psicológico e o social. Em todos estes três campos,
ela se mantém fiel a um mesmo ponto de vista positivista:
não se trata de explicar por que motivo se produzem os
fenômenos, mas sim de descrever suas manifestações, de
maneira sintética e com a maior exatidão possível.

A medicina moderna já não pretende determinar a causa


do envelhecimento biológico: considera-o inerente ao pro­
cesso da vida, tal como o nascimento, o crescimento, a re­

27
produção, a morte. As experiências realizadas com ratos ( 6),
por Mc Cay, inspiraram ao Doutor Escoffier-Lambiotte um
interessante comentário: “ O envelhecimento e, em seguida
a morte, não se acham pois em relação com um certo nível
de desgaste energético, com um dado número de batidas
do coração, mas sobrevêm quando um determinado pro­
grama de crescimento e de maturação chega a seu têrmo.”
Quer dizer que a velhice não é um acidente mecânico; tal
como a morte que, segundo Rilke “ cada qual traz em si,
como o fruto ao seu caroço” , parece que cada organismo
contém, logo de saída, sua velhice, conseqüência inelutável
de sua realização ( 7).
Admite-se hoje que ela seja um processo comum a
todos os sêres vivos. Até pouco tempo atrás, acreditava-se
que as células fossem imortais: apenas as suas combinações
iriam sendo desfeitas no decorrer dos anos. Carrel susten­
tara esta tese e julgava tê-la demonstrado. Mas experiências
recentes provaram que também as células se modificam
com o tempo. Segundo o biologista americano Orgel, a
idade acarretaria desfalecimentos no sistema que, habitual­
mente, determina e planifica com precisão a produção das
proteínas celulares. Todavia, ainda estão pouco adiantadas
essas pesquisas de ordem bioquímica.
No homem, o que caracteriza fisiològicamente a senes-
cência é aquilo que o Doutor Destrem qualifica de “trans­
formação pejorativa dos tecidos” . Diminui a massa dos
tecidos metabòlicamente ativos enquanto aumenta a dos
tecidos metabòlicamente inertes: tecidos intersticiais e fi-
broesclerosos, que são objeto de uma desidratação e de uma
degenerescência graxa. Verifica-se uma acentuada redução
da capacidade de regeneração celular. O progresso do te­

(6) Mc Cay demonstrou que os ratos cujo crescimento havia sido


retardado quando novinhos por uma “ restrição calórica de alimentos”
vivem muito mais tempo que os ratos alimentados normalmente. Um dos
ratos subalimentados atingiu quase o dôbro da duração média da vida
dos animais tomados como testemunhas.
(7 ) Naturalmente acidentes e desvios de tôda espécie podem inter­
romper a vida antes que o programa se tenha cumprido, sobretudo no
homem; a propósito dêste seria absurdo estudar isoladamente seu destino
biológico, visto jamais viver êle em estudo puramente natural sendo
seu desenvolvimento condicionado pela sociedade em que se situa.
cido intersticial em detrimento dos tecidos nobres eviden­
cia-se sobretudo ao nível das glândulas e do sistema nervoso.
Acarreta uma involução dos principais órgãos e um enfra­
quecimento de certas funções que vão em contínuo declínio
até a morte. Produzem-se fenômenos bioquímicos: aumento
do sódio, do cloro, do cálcio; diminuição do potássio, do
magnésio, do fósforo e das sínteses protéicas.
Transforma-se a aparência do indivíduo possibilitando
atribuir-se-lhe uma idade, com pequena margem de êrro.
Os cabelos embranquecem e tornam-se mais ralos; não se
sabe por quê: o mecanismo da despigmentação do bulbo
capilar continua desconhecido; também os pêlos embran­
quecem embora entrem a proliferar em certos lugares —
como por exemplo, no queixo das velhas. A pele se enruga
em conseqüência da desidratação e da perda de elasticidade
do tecido dérmico subjacente. Caem os dentes. Em agosto
de 1957, contavam-se 21,6 milhões de desdentados nos Es­
tados Unidos, ou seja, 13% da população. A perda dos
dentes provoca um encurtamento da parte inferior do rosto,
de modo que o nariz, que se alonga verticalmente devido
à atrofia de seus tecidos elásticos, se aproxima do queixo.
A proliferação senil da pele ocasiona um espessamento das
pálpebras superiores, enquanto se cavam bolsas sob os olhos.
O lábio superior se adelgaça, cresce o lóbulo da orelha.
Também o esqueleto se modifica. Os discos da coluna ver­
tebral se empilham e descaem os corpos vertebrais: entre
os 45 e os 85 anos, o busto se reduz, diminuindo 10 centí­
metros nos homens e 15 nas mulheres. Reduz-se a largura
dos ombros e aumenta a da bacia; o tórax tende a adquirir
uma forma sagital, sobretudo nas mulheres. A atrofia mus­
cular, a esclerose das articulações acarretam distúrbios da
locomoção. O esqueleto padece de osteoporose: a subs­
tância compacta dos ossos torna-se esponjosa e frágil, o que
explica a freqüência das fraturas do colo do fêmur, que
suporta o pêso do corpo.
O coração não sofre grandes alterações mas seu fun­
cionamento se vê alterado: vai progressivamente perdendo
suas faculdades de adaptação e o indivíduo deve reduzir
suas atividades a fim de poupá-lo. O sistema circulatório
é atingido; a arteriosclerose não é a causa da velhice mas
constitui uma de suas características mais constantes. Não

29
se sabe com exatidão o que é que a provoca: desequilíbrios
hormonais, afirmam uns; tensão sangüínea exagerada, sus­
tentam outros. Admite-se, geralmente, que a causa princi­
pal seja um distúrbio do metabolismo dos lipídeos. Suas
conseqüências são variáveis. Atinge por vezes o cérebro; em
todo caso, a circulação cerebral se torna mais lenta. Os vasos
perdem a elasticidade, o rendimento cardíaco decresce, di­
minui a velocidade da circulação, eleva-se a tensão. Obser­
ve-se, aliás, que a hipertensão, tão perigosa para o adulto,
pode ser perfeitamente tolerada pelo homem idoso. Reduz-
-se o consumo de oxigênio pelo cérebro. A caixa torácica
se torna mais rígida e a capacidade respiratória que é de
5 litro^ aos 25 anos, cai para 3 litros, aos 85. Decresce a
força muscular. Os nervos motores transmitem as excita­
ções com menos rapidez e as reações são mais lentas. Os
rins, as glândulas digestivas, o fígado entram em involução.
Os órgãos dos sentidos são atacados. Diminui a capacidade
de acomodação; a presbitia é fenômeno quase universal nos
velhos; a vista “ se cansa” , decai sua capacidade discrimi-
nativa. Assim somo a do ouvido, chegando com freqüência
até a surdez. O paladar, o tato, o olfato perdem a primi­
tiva acuidade.
A involução das glândulas de secreção endócrina é uma
das conseqüências mais generalizadas e mais manifestas da
senescência; é acompanhada por uma involução dos órgãos
sexuais. Neste ponto, estabeleceram-se recentemente alguns
fatos precisos ( 8). No homem idoso, não se verifica nenhuma
anomalia especial dos espermatozóides; teoricamente, é in­
definidamente possível a fecundação do óvulo pelo esperma
senil. Não existe nenhuma lei geral sôbre a interrupção
da espermatogênese, mas somente casos específicos. Entre­
tanto, a ereção torna-se duas ou três vêzes mais lenta que
na juventude (as ereções matinais observadas mesmo em
idade bastante avançada não têm caráter sexual). Pode ser
conservada durante muito tempo sem ejaculação, devendo-se
êste controle tanto à experiência coital quanto à redução
da intensidade da resposta sexual. Depois do orgasmo, a
detumescência é extremamente rápida e o homem idoso

(8) Particularmente por Masters e Johnson em 1966: Les Réac-


tions sexuelles.

30
permanece muito mais tempo que o jovem refratário a
novas excitações.
A ejaculação se desenvolve entre os jovens em duas
etapas: a expulsão do fluido seminal na uretra prostática;
sua progressão através da uretra até o meato uretral e para
o exterior; na primeira fase, o indivíduo sente que a ejacula­
ção vai se produzir inevitavelmente. O homem idoso, em
geral, não experimenta nada disso; as duas etapas se redu­
zem a uma só e êle tem freqüentemente a impressão de
que está havendo antes um gotejar que uma expulsão.
As possibilidades de ejaculação e de ereção diminuem com
a idade e chegam a desaparecer. Mas a impotência nem
sempre acarreta a extinção da libido.
Na mulher, a função reprodutora é brutalmente inter­
rompida relativamente cedo. Fato único no processo de
senescência que se desenvolve continuamente em todos os
outros planos, ocorre por volta dos 50 anos um súbito corte:
a menopausa. Há uma interrupção do ciclo ovariano e da
menstruação, os ovários se esclerosam, a mulher já não pode
ser fecundada. Desaparecem os esteróides sexuais ( 9) e os
órgãos sexuais entram em involução.
Os velhos dormem mal, segundo um preconceito bas­
tante difundido. Em realidade, de acordo com um inqué­
rito realizado nos asilos franceses em 1959, eles dormem
mais de sete horas por noite. Observam-se, entretanto,
perturbações do sono, em muitos deles. Ou custam a ador­
mecer ou acordam cedo, ou seu sono é intercalado de breves
interrupções; os motivos de tais anomalias podem ser fisio­
lógicos ou psicológicos. Depois dos 80 anos, quase todos
cochilam durante o dia.
O conjunto da involução orgânica do homem idoso
acarreta uma fatigabilidade a que nenhum escapa: o esforço
físico só lhe é permitido dentro de estreitos limites. Oferece
maior resistência às infecções que os jovens, mas seu orga­
nismo depauperado defende-se mal contra as agressões do
mundo exterior: a involução dos órgãos reduz a margem de
segurança que permite a elas resistir. Certos médicos che­
gam ao ponto de assimilar a velhice a uma doença; foi o

(9) Produtos das glândulas endócrinas.

31
que íêz recentemente ( 101) a famosa geriatra romena, a
Doutora Aslan, em entrevista por ela concedida na Itália.
Não acredito que esta confusão seja legítima: a doença é
um acidente; a velhice constitui a própria lei da vida. En­
tretanto, a expressão: “Velho e doente” , é quase um pleo-
nasmo. “ Esta enfermidade resumida, o envelhecimento” ,
escreveu Péguy. Samuel Johnson afirmou: “ Minhas doen­
ças são uma asma, uma hidropisia e, o que é menos curável,
setenta e cinco anos de idade” . Um médico perguntou,
certa feita, a uma velha que usava óculos: “ Que tem a
senhora? presbitia ou miopia?” — “ É velhice, doutor.”
Existe uma relação recíproca entre velhice e doença;
esta acelera a senescência e a idade avançada, por sua vez,
predispõe a distúrbios patológicos, especialmente aos pro­
cessos degenerativos que a caracterizam. Raramente se
encontra aquilo que se poderia denominar “velhice pura” .
As pessoas idosas sofrem de uma polipatologia crônica.
Consideremos uma centena de doentes idosos e uma
centena de jovens: a proporção daqueles que consultam
médicos ou compram medicamentos é muito mais elevada
entre os últimos. Por outro lado, os velhos constituem apro­
ximadamente apenas 12% da população. Representam, en­
tretanto, um têrço das entradas nos hospitais da França e,
em termos de permanência por dia, constituem mais da
metade dos doentes pois ali se demoram mais tempo que
os outros. Na América, em 1955, quando só constituíam
1/12 da população, ocupavam 1/5 dos leitos dos hospitais.
Um inquérito realizado na Califórnia em 1955 revelou que
o número de consultas médicas elevava-se com a idade.
Eram 50% mais numerosas entre os velhos que no conjunto
da população, e duas vezes mais freqüentes para as mulhe­
res idosas, que constituem também a maioria entre os inter­
nados em hospitais. Elas vivem mais que os homens, mas
no decorrer de sua existência adoecem com mais freqüência
que eles (“ ). No conjunto, o número de doentes crônicos

(10) Escrito em outubro de 1969.


(11) Nos E .U .A . O National Health Survey verificou que no
ano de 1957-1958 as pessoas de 45 a 64 anos haviam permanecido imo­
bilizadas por doenças, durante 25 dias, em média; as de mais de 65,
durante 50 dias; além dos 75 anos, durante 72 dias.
nos E .U .A . é, em média, quatro vêzes mais elevado entre
as pessoas idosas. Resultados análogos eram obtidos em
inquéritos realizados na Austrália e na Holanda.
As afecçÕes mais freqüentes entre os velhos são as “ in­
disposições mal definidas” e os reumatismos. Uma estatís­
tica americana aponta entre as principais enfermidades se­
nis: artrites, reumatismo, doenças cardíacas. Uma outra:
doenças cardíacas, artrite, reumatismo, nefrite, hipertensão,
arteriosclerose. Outra ainda: desordens da coordenação,
reumatismo, doenças respiratórias, digestivas e nervosas. O
Doutor Vignat, estudando, em Lyon, casos de velhos hos­
pitalizados, observou que padeciam, em ordem decrescente,
de moléstias cardiovasculares, respiratórias, mentais; ma­
rasmo biológico, enfermidades vasculares, neurológicas, cân­
cer (12), perturbações de aparelho locomotor, distúrbios di­
gestivos. Sendo a velhice o domínio por excelência do
psicossomático, as doenças orgânicas dependem também
estreitamente de fatores psicológicos.
Em inúmeros casos, torna-se, a bem dizer, impossível
dissociar as duas séries de causas. Nos casos, por exemplo,
de acidentes, que são relativamente freqüentes entre os
velhos. Resultam de determinadas condutas que põem em
jôgo faculdades mentais — atenção, percepção — e atitudes
afetivas: indiferença, desprendimento, má vontade; eles se
explicam, entretanto, em grande parte, por perturbações
de orientação, vertigens, rigidez dos músculos, fragilidade
do esqueleto. É portanto conveniente citá-los aqui. No
grupo examinado pelo National Survey, 33% dos homens e
23% das mulheres tinham sofrido um acidente qualquer
durante o ano, o qual lhes valera um ou mais dias de inva­
lidez. Entre os 45 e os 55 anos de idade, observa-se uma
média de 52 acidentes por ano em cada grupo de 100 000
pessoas; acima dos 75 anos, a média se eleva para 338.
Trata-se, sobretudo, de quedas no interior das casas, redun­
dando por vêzes em morte. Os velhos são também vítimas

(12) O câncer, em si, não tem relação com a idade. Se ocorre, em


geral, entre os 50 e os 80 anos, é devido ao modo de ação dos agentes
cancerígenos. O índice de mortes devidas ao câncer elevou-se porque a
medicina atualmente combate eficazmente um grande número de outras
doenças sem ter ainda conseguido vencer esta.

3 33
do trânsito pois se locomovem com dificuldade e enxergam
pouco. Muitos desistem de sair.
Certos inquéritos fornecem informações otimistas sôbre
a saúde dos velhos: seria necessário, entretanto, apurar qual
o sentido exato que os entrevistadores atribuem às palavras.
De acordo com o relatório elaborado nos Estados Unidos
em 1948 por Sheldon, em cada grupo de 471 pessoas de
mais de 60 anos, somente 29,3% situavam-se abaixo da
normalidade: entre estas contavam-se muitos octogenários
dos quais 2,5% estavam acamados, 8,5% não saíam de casa,
22% só se locomoviam nas circunvizinhanças, 46% eram
indivíduos inteiramente normais, sendo que 24,5% eram par­
ticularmente vigorosos. Admitamo-lo. A que Norma porém,
se refere Sheldon? Será a que êle aplicaria a um quadra-
genário? Não, sem dúvida. Um inquérito realizado em
Sheffield em 1955 fornece-nos uma informação mais precisa:
entre 476 pessoas de mais de 61 anos, 54,9% das mulheres
e 71,2% dos homens ainda se achavam em plena atividade.
Encontraram-se resultados análogos em 1954 e 1957, na Ho­
landa. A atividade implica, com efeito, uma certa dose
de saúde, porém muitas razões, tanto de ordem psicológica
como social, podem levar a prolongá-la mesmo em condi­
ções físicas precárias.
Todas as observações têm salientado as importantes
diferenças existentes entre indivíduos de mesma idade. A
idade cronológica e a idade biológica estão longe de coinci­
dir invariavelmente: a aparência física do número de anos
que contamos: êstes não pesam igualmente sôbre todos os
ombros. A senescência, afirma o gerontólogo americano
Howell, “não é uma ladeira que todos descem com igual
velocidade. É um lanço de degraus irregulares pelos quais
alguns se despencam mais depressa que outros” (13). Existe
uma enfermidade, a “progeria” , que provoca o envelheci­
mento prematuro de todos os órgãos do paciente ( 14). No
dia 12 de janeiro de 1968, faleceu no hospital de Chatham,

(13) “As medidas do próprio tempo para certas pessoas podem


ser aceleradas ou retardadas” , observou Proust.
(14) A existência desta enfermidade sugere a de um agente de
envelhecimento desconhecido mas bem definido. Talvez fôsse, portanto,
possível, se se chegasse a descobri-lo, interromper ou pelo menos retardar
sua ação, de maneira apreciável.

34
no Canadá, uma menina de 10 anos que apresentava todas
as características exteriores de uma mulher de 90 anos. Um
de seus irmãos tinha sucumbido da mesma moléstia, aos
11 anos de idade. O Doutor Dénard-Toulet citou-me o
caso de uma mulher falecida aos 45 anos em conseqüência
da involução senil de seus órgãos. Excetuando-se esses ca­
sos, extremamente raros, o declínio pode ser acelerado ou
retardado por diversos fatores: saúde, hereditariedade, am-
biência, emoções, antigos hábitos, padrão de vida. Assume
formas diferentes, de acordo com as funções que se degra­
dam em primeiro lugar. É, por vezes, um processo con­
tínuo; em alguns casos, o indivíduo, que até certo momento
mal aparentava a própria idade, quando não um pouco
menos, envelhece subitamente. Em caso de doença, de
stress, de luto ou de um sério percalço, não são os órgãos
que bruscamente se deterioram: o que desmorona é o arca­
bouço que lhes dissimulava as insuficiências. Na realidade,
o corpo do indivíduo tinha sofrido a ação da involução
senil, mas havia conseguido compensá-la através de recor­
rer a essas defesas, revelando-se então sua velhice latente.
Esta queda moral repercute nos órgãos e pode ocasionar a
morte. Citaram-me o caso de uma mulher de 63 anos, muito
bem conservada, que suportava corajosamente as dores vio­
lentas devido às quais vinha sendo tratada; tendo-lhe um
interno revelado levianamente que jamais ficaria curada,
ela envelheceu vinte anos de uma hora para outra e as dores
se agravaram. Uma contrariedade muito forte, como a perda
de um processo, por exemplo, pode transformar um homem
de 60 anos num ancião, tanto física quanto moralmente.
Se nenhum choque desta natureza se produzir, se a
saúde continuar boa, pode suceder, ao contrário, que o indi­
víduo consiga compensar até avançada idade, as capacidades
perdidas. Graças a uma técnica experimentada, no exato
conhecimento de seu corpo, alguns esportistas mantêm-se
em excelente forma durante muito tempo. Ted Meredith,
às internacional do futebol, aos 52 anos de idade ainda foi
indicado para uma seleção. Eugène Lenormand, aos 63
anos, fazia exibições de natação; aos 56 anos, Borotra era
campeão mundial de tênis.
Observava-se outrora, com freqüência, um contraste
flagrante entre a evolução mental do indivíduo e sua evo­

35
lução física. Montesquieu lamentou semelhante divórcio:
“ Infeliz condição dos homens! Mal atinge o espírito o ponto
de maturidade e começa o corpo a enfraquecer!” Delacroix
observa em seu Diário: “ Esta singular discrepância entre a
força do espírito, conseqüência da idade, e o enfraqueci­
mento do corpo, que dela também decorre, impressiona-me
sempre e parece-me uma contradição nos decretos da natu­
reza!”
O progresso da medicina modificou esta situação. Pro­
tegido contra inúmeros achaques e doenças, o corpo resiste
durante um tempo mais longo. Consegue-se habitualmente
manter a saúde física do indivíduo enquanto seu espírito
conserva equilíbrio e vigor. A saúde se estraga quando
baqueia o moral. E vice-versa: as faculdades mentais se
alteram quando a vida fisiológica se degrada sèriamente:
em todo caso, elas sofrem com as transformações corporais.
As mensagens são transmitidas com menor rapidez e defor­
madas pela má qualidade dos receptores. O funcionamento
do cérebro é menos flexível; como já vimos, diminui seu
consumo de oxigênio: ora, o baixo teor de oxigênio no
sangue provoca uma redução da memória imediata e da
retenção, um retardamento dos processos ideativos, uma
irregularidade nas operações mentais simples, violentas rea­
ções emocionais: euforia ou depressão. Pode-se considerar
a senescência como um exemplo da “ amputação difusa”
a que se refere Goldstein, a propósito dos acidentes cerebrais
póstraumáticos. Também nesse caso existe perda de células
cerebrais. Sendo elas muito abundantes, se a situação não
exigir do indivíduo um esfôrço excessivo, êle poderá facil­
mente enfrentá-lo. Mas se houver desequilíbrio em sua
vida, estará exposto a catástrofes: de qualquer forma, can­
sa-o qualquer esfôrço intelectual, reduz-se a capacidade de
trabalho e de atenção, pelo menos a partir dos 70 anos.
Em suas pesquisas sôbre a psicologia da velhice, os
gerontólogos adotam os "mesmos métodos que empregam
ao estudar-lhe a fisiologia. Tratam os indivíduos em exte-
rioridade, baseando-se essencialmente na psicometria, dis­
ciplina que me parece muito contestável. O indivíduo sub­
metido a um teste encontra-se em situação artificial e os
resultados obtidos são puras abstrações muito diferentes
da realidade prática e viva. As reações intelectuais de um
homem dependem, na verdade, do conjunto de sua situação:
sabe-se de sobejo que os conflitos familiares podem fazer
com que uma criança anteriormente precoce pareça obtusa.
Quando estudar mais adiante a psicologia dos velhos, eu o
farei dentro de uma perspectiva totalista, ligando-a a um
contexto biológico, existencial, social, segundo o princípio
de circularidade a que me referi. Por enquanto, visto dese­
jar transmitir a meus leitores uma idéia exata dos trabalhos
realizados pelos gerontólogos, devo indicar seus métodos e
os resultados que julgam ter alcançado.
Em 1917, o exército americano pretendeu estabelecer
o nível mental dos candidatos a oficiais: com este objetivo,
inventaram-se os primeiros testes de inteligência, tendo-se,
em seguida, multiplicado os estudos deste gênero. Em 1927,
Willoughgby retomou alguns testes utilizados no exército
americano e aplicou-os a um grupo de famílias residentes
nos arredores da Universidade de Stanford. Jones e Conrad,
em 1925-1926 reuniram os resultados obtidos na Nova In­
glaterra, após o exame de 1191 indivíduos. As pesquisas
prosseguiram na América, na Alemanha, na Inglaterra. Em
1955, na França, Suzanne Pacaud estudou as reações de
4 000 empregados de estradas de ferro, de 20 a 55 anos de
idade, e de aprendizes de 12 anos e meio a 15 anos e meio.
O Professor Bourlière organizou recentemente, em Sainte-
Périne, uma “bateria de testes” destinados às faculdades
intelectuais. Por exemplo, pede-se ao indivíduo que aponte
os erros numa série de desenhoS, que trace num labirinto
o trajeto mais rápido para a saída; que termine desenhos
inacabados, reúna ou dissocie elementos semelhantes e des­
semelhantes; que assinale os sinônimos, indique as nuanças
que os diferenciam; será também solicitado no sentido de
manejar associações de letras e de algarismos (teste do có­
digo), reproduzir de memória figuras geométricas; reagir
a um sinal; responde “ certo” ou “errado” a afirmações re­
ferentes ao comportamento e à personalidade; fazer desenhos
diante de um espelho. Verifica-se que a memória imediata
não é nada atingida; a memória concreta (aplicada a dados
bem conhecidos) se reduz entre os 30 e os 50 anos, assim
como a memória lógica. A mais alterada é a memória que
implica a formação de novas associações como, por exemplo,
a aquisição de uma língua. Existem, aliás, grandes diferenças,

37
segundo o grau de cultura dos indivíduos. Testes de memó­
ria, aplicados a 3 000 pessoas, em Groningue, revelaram que
ela decresce em todos com o avanço da idade, porém de
maneira menos acentuada entre os intelectuais que entre os
trabalhadores braçais, menos entre os operários especializados
que entre os não-especializados, menos entre as pessoas ativas
que entre as aposentadas.
As reações motoras são mais rápidas e mais precisas aos
25 anos: sua presteza e precisão diminuem a partir dos 35
anos e mais ainda depois dos 45. Quanto à rapidez das ope­
rações mentais, verifica-se progresso até os 15 anos, estabili­
zação dos 15 aos 35 e, em seguida, diminuição. O indivíduo
de mais de 60 anos reage mal a testes de inteligência em
que o tempo é medido: pode equiparar-se e até mesmo supe­
rar o adulto quando não há limitação cronométrica. As pes­
soas idosas adaptam-se com grande dificuldade a situações
novas: reorganizam fàcilmente as coisas conhecidas mas re­
sistem às mudanças. Adquirir o que se denomina um set —
isto é, uma atitude, uma orientação de espírito — exige um
esforço muito grande de sua parte: são escravos de hábitos
anteriormente adquiridos, falta-lhes flexibilidade. Uma vez
adotado o set, dificilmente o abandonam. Agarram-se a êle,
mesmo diante de problemas nos quais já não convém de
modo algum. Suas possibilidades de aprendizagem se acham,
portanto, muito reduzidas. Tôda faculdade que implica adap­
tação declina a partir dos 35 anos, sobretudo quando não é
alimentada: observação, abstração e síntese, integração, es­
truturação. O cálculo mental, a organização espacial são
deficientes, assim como o raciocínio lógico. Quanto ao voca­
bulário, são controversos os resultados dos testes. Empobrece
entre as pessoas incultas de mais de 60 anos, mantém-se e
chega por vezes a enriquecer entre as de nível intelectual
elevado. No conjunto, os conhecimentos bem assimilados,
o vocabulário, a memória imediata ou remota de palavras
ou algarismos, não sofrem alteração. Em suma, existem no
indivíduo um potencial fluido, adaptativo, que envelhece e
uma fração cristalizada, composta de mecanismos adquiridos,
que não envelhece.
Do conjunto de testes e estatísticas ressalta uma impor­
tante conseqüência: quanto mais elevado o nível intelectual
do indivíduo, mais fraco e lento o decréscimo de suas facul­

38
dades. Se continuar a exercitar a memória e a inteligência,
ser-lhe-á possível conservá-las intatas. Voltarei a esta ques­
tão que só poderá ser explicada ligando-se a inteligência e
a memória de um indivíduo à atenção que presta à vida, a
seus interêsses neste mundo, ao conjunto de seus projetos.
Limitemo-nos por enquanto a observar que certas pessoas
muito idosas mostram-se mais eficientes que as jovens. Com
efeito, muitos trabalhos intelectuais são realizados sem limi­
tação de tempo. A profissão, a técnica, o critério, a organiza­
ção de tarefas podem suprir os lapsos da memória, a fadiga-
bilidade, a dificuldade de adaptação. Muitas pessoas idosas
se mantêm ativas e lúcidas até sua hora final.
Entretanto, à semelhança de seu organismo com o qual
se acha em ligação estreita, o psiquismo do velho é frágil:
os casos de doenças mentais são mais freqüentes nêle que
nos jovens (15). Segundo um relatório do Instituto Nacional
de Saúde Mental dos Estados Unidos, entre 100 000 indivíduos
pertencentes a um mesmo grupo etário, o número de doentes
mentais é de 2,3 abaixo de 15 anos, 76,3 entre 25 e 34 anos,
93 entre 35 e 54 anos, 236,1 entre os velhos. Na Suécia, em
7 milhões de habitantes há 9 000 casos de demência senil,
no sentido estrito do termo. Nos Estados Unidos, de um
modo geral, o número de doentes mentais quadruplicou entre
1904 e 1950, sendo que o número de admissões de velhos
em hospitais psiquiátricos tornou-se nove vêzes mais elevado:
isto se deve em parte ao fato de se hesitar menos em recor­
rer a- êles. Não houve alteração na Suécia nos últimos vinte
e cinco anos.
Os velhos têm, hoje, menos handicaps que antigamente;
é menor o número de inválidos presos ao leito. Pode até
suceder quando se comparam vários grupos etários que se
encontre entre os mais antigos uma aparência de antideclínio,
devido ao fato de que, para viver tanto tempo, foi neces­
sário de início um potencial de saúde excepcional. Via de
regra, entretanto, todo indivíduo se acha diminuído a partir
de certo momento. Quando se fala numa “bela velhice”
ou num “velho sacudido” quer-se dizer que o homem idoso

(15) Estudá-los-ei mais adiante, depois de haver examinado a con­


dição dos velhos de maneira global.

39
encontrou um equilíbrio físico e moral e não que seu orga­
nismo, sua memória, sua capacidade de adaptação psicomo-
tora sejam iguais aos de um jovem. Homem algum, tendo
vivido muito tempo, pode escapar à velhice; é ela um fenô­
meno inelutável e irreversível.
A velhice termina sempre com a morte. Mas é raro
que ela sozinha a acarrete, por si mesma e sem a intervenção
de algum elemento patológico. Schopenliauer afirma ter
conhecido pessoas extremamente idosas que se teriam extin­
guido sem causa precisa. O Professor Delore narra a história
de uma centenária que chegou a pé ao hospital pedindo um
leito para nele morrer, pois se sentia muito cansada. Fa­
leceu no dia seguinte e a autópsia não revelou nenhum
distúrbio orgânico. Trata-se, no entanto, de um fato quase
único. As chamadas mortes “naturais” — por oposição às
mortes por acidentes — são na realidade provocadas por
uma deterioração orgânica.
A longevidade do homem é superior à dos outros mamí­
feros. Em fontes fidedignas só encontrei um caso de indiví­
duo que houvesse ultrapassado os 105 anos: Antoine-Jean
Giovanni, de 108 anos ( 10) e vivendo em Grossa. Admite-se,
sem que haja certeza, que a hereditariedade desempenhe
algum papel, direto ou indireto, na longevidade: muitos
outros fatores intervém, a começar pelo sexo. Em todas as
espécies animais, as fêmeas vivem mais que os machos: a
média de sobrevivência feminina na França é sete anos maior
que a masculina. Vêm, a seguir, as condições de crescimento,
alimentação, ambiência, e as condições econômicas.
Estas exercem uma influência muito importante sôbre
a senescência. Os gerontólogos verificaram tal fato no decor­
rer de inúmeros inquéritos. Aquele já aqui citado e realizado
em Sheffield demonstrou que a saúde depende, estreitamente,
do nível de vida. É também esta a conclusão que ressalta
do estudo levado a cabo pela equipe do Professor Bourlière
entre camponeses e pescadores bretões. Afirma-se que o cam-16

(16) O fato foi apontado em France-Soir no início de 1969. A.-J.


Giovanni nasceu no dia 1 de agosto de 1860, em Zicavo, na Córsega,
tendo passado tôda a vida em Grossa. Consultar o apêndice 1: "O s Cen­
tenários", vol. II.

40
po produz muito mais velhices sadias que as cidades: na
realidade, todos os indivíduos examinados eram menos sau­
dáveis que os parisienses de mesma idade bem situados na
vida ( 17).
O papel dos fatôres econômicos nos revela os limites da
gerontologia como ciência que busca definir biologicamente
a senescência individual. Os resultados a que chega são do
mais alto interesse: é impossível compreender a velhice sem
levá-los em conta. Mas não podem ser suficientes. No es­
tudo da velhice, êles só representam um momento abstrato.
A involução senil de um homem sempre se produz no seio de
uma sociedade: depende muito da natureza desta e do lugar
que nela ocupa o indivíduo em questão. O próprio fator
econômico não poderia ser isolado das superestruturas sociais,
políticas, ideológicas que se lhe sobrepõem; encarado de
maneira absoluta, o nível de vida é ainda apenas uma abs­
tração; com recursos idênticos, um homem será considerado
rico no seio de uma sociedade pobre e pobre no seio de uma
sociedade rica. Para compreender a realidade e o significado
da velhice é, portanto, indispensável examinar qual o lugar
nela atribuído aos velhos, qual a imagem que deles se tem
em diferentes épocas e em diferentes lugares. Como já disse,
êste confronto é de grande interêsse pois permitirá, senão
fornecer, pelo menos entrever uma resposta a esta questão
essencial: o que existe de realmente inelutável na condição
do velho? Em que medida é a sociedade responsável por
isto? Começaremos nosso exame pelas chamadas sociedades
sem história ou “primitivas” .

(17) Um estudo efetuado em Marselha em 1969, pelo Professor


Desanti, abrangendo 17 000 segurados sociais, demonstrou que os grupos
profissionais não envelhecem da mesma maneira. Levou a uma classificação
por ordem de desgaste decrescente:
— professores de ensino primário, secundário e técnico;
— quadros superiores;
— quadros médios;
— agentes paramédicos e sociais;
— funcionários de escritórios e municipais;
— motoristas, representantes de produtos, desempregados;
— patrões;
— serviçais;
— contramestres, operários qualificados, operários especializados;
— serventes.

41
CAPÍTULO II

OS DADOS ETNOLÓGICOS

existe coletividade humana alguma que não possua,


por mais rude que seja, uma certa cultura: as atividades
exercidas pelo homem com o auxílio de instrumentos por êle
fabricados constituem um trabalho a partir do qual se
estabelece pelo menos um embrião de organização social.
Não busquemos, pois, imaginar o que seria uma velhice
natural. Pode-se, entretanto, observar o que acontece entre
os animais, embora, mesmo tratando-se deles, a palavra na­
tureza se preste a controvérsias. Em muitas espécies — e
quanto mais evoluídas melhor —- os animais idosos e expe­
rientes gozam de grande prestígio: transmitem aos demais as
informações que adquiriram no decurso de sua experiência.
A posição ocupada por cada um deles no grupo acha-se em
relação direta com o número de anos que contam. Os
zoólogos relatam um certo número de observações curiosas
a êste respeito. Quando uma jovem gralha manifesta sinais
de mêdo, as outras não lhe dão atenção, mas se o alarme
fôr dado por um velho macho, todas as aves levantarão vôo.
São as velhas gralhas experientes que ensinam as outras a
identificar os inimigos. Os colaboradores do zoólogo Yerkes
ensinaram um jovem chimpanzé a conseguir bananas mani­
pulando um complicado aparelho: nenhum de seus congê­
neres tentou imitá-lo. Submeteram ao mesmo aprendizado
um chimpanzé idoso e, por conseguinte, de categoria
superior: todos os outros o observaram e imitaram. Por
princípio, êles só imitam seus congêneres de categoria
superior.

42
Achamos particularmente interessante observar o que se
passa entre os antropóides, os animais mais próximos de nós.
Em todas as hordas, o macho idoso desempenha um papel
de dominador junto às fêmeas e aos jovens. Às vêzes acon­
tece que um grupo de machos exerce o poder e compartilhe
as fêmeas; às vêzes, o chefe é um só e concorda com a par­
tilha. Nos dois casos, êles não suscitam agressividade alguma
e morrem de morte natural. Mas pode suceder que o macho
mais velho monopolize todas as fêmeas, das quais os jovens
só podem se aproximar clandestinamente e arriscando-se a
severos corretivos. Vigoroso ainda aos 50 anos, êle defende
as fêmeas e os filhotes contra os ataques das feras. Cres­
cendo em idade e em força, os jovens contra êle se rebelam.
Espreitam-no. Êle vai enfraquecendo, quebram-se e apodre-
cem-lhe os dentes, que constituem sua arma mais temível.
Quando os jovens sentem chegado o momento, quer por
encontrar-se esgotado pela luta contra alguma fera, quer
pelo fato de submeter-se a seu destino, o mais velho lança-se
contra êle. Mata-o muitas vêzes ou fere-o mortalmente.
Mesmo quando apenas levemente ferido, o velho sabe que
está vencido, sente-se amedrontado. Afasta-se do grupo que
passa a ser governado pelo agressor e vai viver solitário.
É-lhe difícil alimentar-se e começa a definhar. Torna-se en­
tão, freqüentemente, prêsa de animais ferozes ou adquire
doenças mortais, ou ainda se enche de achaques e fica in­
capaz de prover a seu sustento, morrendo de fome. É ainda
vigoroso quando os jovens se descartam dêle. E não repre­
senta um fardo para a comunidade, de um lado porque é
ainda ativo e, por outro lado, porque essa comunidade pode
ser considerada uma sociedade de abundância: levando-se
em conta a natureza tão rica no meio da qual evolui a horda
e a facilidade com que esta se desloca, o problema da ali­
mentação não existe. Se o velho macho é maltratado — tal
como sucederá a seu substituto — é porque havia monopo­
lizado as fêmeas e tiranizado os jovens. Em nenhum caso
as macacas idosas são mortas: a horda se encarrega delas.
Veremos que nas sociedades humanas, como em muitas
outras espécies a experiência e os conhecimentos acumulados
constituem um trunfo para os velhos. Veremos também que
êles são freqüentemente expulsos da coletivadade de maneira
mais ou menos brutal. Todavia, o drama da idade se dá,

43
não no plano sexual, mas sim no econômico. O velho não é,
como entre os antropóides, um indivíduo que se tornou inca­
paz de lutar mas sim aquêle que já não pode trabalhar;
uma bôca inútil, portanto. Sua condição jamais depende
apenas dos dados biológicos: intervém também fatores cul­
turais. Para o antropóide monopolizador de fêmeas a velhice
representa um mal absoluto que o põe à mercê de seus seme­
lhantes e o impede de se defender contra as agresssões ex­
teriores. Acarreta uma morte brutal ou um definhamento
solitário. Ao passo que, nas comunidades humanas êsse
flagelo natural, a velhice, se acha integrado numa civilização
que conserva, embora em fraca proporção, o caráter de uma
antiphysis e que lhe pode, portanto, modificar profunda­
mente o sentido. Assim, em certas sociedades, vemos os
velhos monopolizarem as mulheres num momento em que já
perderam sua força física e isto graças a um prestígio que
os coloca ao abrigo da violência.
Entretanto, os dados biológicos permanecem, seja qual
fôr o contexto. A velhice traz para todo indivíduo uma
degradação temida. Contradiz o ideal viril ou feminino
adotado pelos jovens e pelos adultos. A atitude espontânea
consiste em recusá-la na medida em que ela se define pela
impotência, pela fealdade e pela doença. A velhice dos
outros inspira também uma repulsa imediata. Esta reação
elementar subsiste mesmo quando reprimida pelos costu­
mes. É esta a origem de uma contradição de que encon­
traremos múltiplos exemplos.

A tendência de tôda sociedade é viver, é sobreviver;


exalta o vigor e a fecundidade associados à juventude: teme
o desgaste e a esterilidade da velhice. Tal é a noção que
decorre dos trabalhos de Frazer, entre outros. Em muitas
comunidades, afirma êle, venera-se o chefe como uma encar­
nação da divindade que, após sua morte, irá habitar o corpo
de seu sucessor. Mas se ela se achar então debilitada pela
idade, já não poderá proteger a comunidade de maneira
eficaz; torna-se, portanto, imprescindível matar o chefe antes
que se inicie o declínio. Frazer explica desta forma o assas­
sínio do sacerdote de Nemi na Antiguidade, assim como o
que se observava ainda no início do século, entre os Shiluques

44
do Nilo Branco: aos primeiros indícios de doença, de fra­
queza, de impotência, matava-se o chefe ( 1). Assim era
morto o pontífice do Congo, o Chitumé, logo que sua saúde
dava mostras de estar comprometida; se morresse natural­
mente, esgotadas suas fôrças a divindade morreria com êle
e o mundo se aniquilaria imediatamente. Assim também era
eliminado o rei de Calicute. Sacrificado em tôda a sua pu­
jança, o chefe transmite a seu sucessor uma alma cheia de
vigor.
Segundo Frazer, crenças análogas levam os velhos das
ilhas Fidji e de vários outros lugares a buscarem voluntà-
riamente a morte: acreditam que hão de sobreviver com a
idade que tiverem ao abandonar este mundo; não aguardam,
por conseguinte, a decrepitude que, não fôra isso, lhes estaria
reservada por tôda a eternidade.
O “enterro em vida” praticado pelos Dinka (2), segundo
diversos observadores, pertence à mesma categoria de cos­
tumes. Certos anciãos, cujo papel é tão importante que são
considerados como que responsáveis pela existência da co­
munidade — fazedores de chuva, senhores da lança de
pesca — logo que revelam sinais de fraqueza, são enterrados
vivos, no decorrer de cerimônias em que tomam parte volun-
tàriamente. Segundo creem, a vida da comunidade se extin-
guiria com êles se exalassem naturalmente o último alento
em vez de conservá-lo no interior de seu corpo. As festas

f l ) Evans Pritchard contesta a interpretação de Frazer. A nação


está dividida, afirma êle, em duas regiões, Sul e Norte; não existe linhagem
real em nenhuma das duas sendo o rei escolhido alternativamente numa
e na outra. É êle a encarnação do grande ancestral em quem se reúnem
os interesses das antigas partes da nação. Na idéia de regicídio se ma­
nifesta pelo contrário a fragmentação da sociedade. Significa que se
alguma desgraça suceder ao país, ela será atribuída a uma diminuição
do poder do rei, sendo, neste caso encorajada a rebelião de um príncipe
da outra linhagem contra êle. Ocorrem efetivamente rebeliões quando
sobrevem algum desastre, perecendo então o rei de morte violenta. A
realeza encarna uma contradição entre o cargo e a pessoa, contradição
resolvida pelo regicídio tradicional. Esta explicação é mais complexa que
a de Frazer mas não a desmente. O enfraquecimento não está ligado ao
envelhecimento de maneira direta: êste último pode ser alegado para
justificar a rebelião cuja constante possibilidade está inscrita na organização
social. Isto não impede que, nas duas teses, a velhice esteja afetada por
um sinal negativo.
(2) Cêrca de 900 000 indivíduos, habitantes do Sul do Sudão.
fúnebres, pelo contrário, representam para a coletividade
uma espécie de renascimento, um rejuvenescimento do prin­
cípio vital.
A passagem do tempo traz consigo desgaste e enfraque­
cimento: esta convicção se manifesta nos mitos e rituais de
regeneração cujo papel é tão importante em todas as socie­
dades de repetição: os antigos, os primitivos e até nas socie­
dades rurais mais adiantadas. Caracterizadas pela ausência
de progresso técnico, não concebem o passar do tempo como
um prenúncio do futuro mas como o afastamento da juven­
tude: o que se deve fazer é tentar recuperá-la. Muitas mito­
logias admitem que a natureza e a raça humana têm a capa­
cidade de viver e de se perpetuar porque a juventude lhes
é restituída em determinado momento: o mundo antigo foi
aniquilado, tendo surgido êste. Era esta a crença dos babi­
lônios: um dilúvio submergiu a humanidade e, ao emergir
das águas, a Terra foi repovoada. O mesmo mito é encon­
trado na Bíblia. Adão recomeça na figura de Noé, os animais
da arca repetem os do Éden e o arco-íris assinala o início
de uma nova era. Os povos que hoje habitam a orla do
Pacífico, acreditam ter sido a Terra inundada em conseqüên-
cia de uma falha nos rituais: o clã atribui sua origem a um
ser lendário que teria escapado à catástrofe. Sua terra,
periodicamente fertilizada pelas enchentes do Nilo, inspirou
aos egípcios a idéia de uma permanente regeneração: Osíris,
deus da Vegetação, perecia todos os anos com as colheitas
e renascia quando a semente germinava, com tôda a pujança
de uma juventude indefinidamente ressuscitada ( 3).
Inúmeros ritos tinham, ou ainda têm, como objetivo
apagar o tempo decorrido durante determinado ciclo: po­
de-se, então, começar uma nova existência livre do pêso
dos anos. Entre os babilônios, durante as cerimônias do
ano nôvo, lia-se o poema da Criação. Entre os Hititas, reno­
vava-se o combate da serpente contra o deus Teshup e a

(3) Sonhando com uma idade do ouro na qual a espécie humana


teria escapado à morte, os Bambara acreditam que a vida era, então,
um perpétuo retorno da velhice à infância. Os velhos subiam a uma
árvore sagrada e cortavam as veias; tornavam a descer quando esgotado
todo o seu sangue. Os jovens lhes arrancavam os pêlos e lhes batiam.
P.les perdiam os sentidos e voltavam a ser crianças de sete anos.

Iti
vitória que deu a este a possibilidade de organizar e gover­
nar o mundo. Em muitos lugares, comemora-se o fim do
ano com festas durante as quais o liqüidam: queimam-no
em efígie, apagam-se fogos para se acenderem outros, de-
sencadeiam-se orgias renovadoras do caos primordial. As
Saturnais constituíam verdadeira subversão das hierarquias
sociais, com tendência à negação da ordem estabelecida: a
sociedade e o mundo se desagregam, devem, portanto, ser
recriados em sua pureza original. Aquelas festividades ti­
nham lugar tanto no decorrer quanto no início do ano: ~as
festas da primavera conferem a esta estação um sentido de
rejuvenescimento cósmico. A coroação de um soberano é
tida muitas vezes como o alvorecer de uma nova era. O im
perador da China, ao subir ao trono, estabelecia um nôvo
calendário: desmoronava a ordem antiga, uma outra surgia.
Um dos costumes do culto xintoísta no Japão pode ser
explicado pela idéia de regeneração: os templos xintoístas
devem ser periodicamente reconstruídos na íntegra e seus
móveis e decoração inteiramente renovados. O grande tem­
plo de Isé, centro da religião, é reconstruído de vinte em
vinte anos; êste trabalho já se repetiu cinqüenta e nove
vezes desde que a Imperatriz Jito ordenou a primeira ope­
ração (686-689), o mesmo tendo sucedido à enorme ponte
que a êle conduz e aos quatorze templos subsidiários. Os
templos xintoístas manifestam ativamente a relação de con-
sangüinidade que liga o indivíduo ao mundo inteiro: re­
construindo-se o edifício, evita-se que o tempo enfraqueça
êste laço. São ainda mais significativas as cerimônias des­
critas por Frazer e nas quais algumas coletividades simulam
expulsar de seu seio a velhice. O quarto domingo da Qua­
resma na Itália, na França e na Espanha era o dia de “ serrar
a velha”, quando se fingia serrar pelo meio uma velha de
verdade. Esta pretensa execução ocorreu pela última vez
em Pádua, em 1747. Noutros casos, queimavam-se real­
mente bonecas representando velhos.
No plano mítico, as sociedades repetitivas receiam, por­
tanto, o desgaste da natureza e das instituições e procuram
escapar-lhe. Para elas, não se trata de caminhar para um
porvir diferente mas sim de conservar intato, reanimando-o
ritualmente e de maneira incessante, um passado reveren­
ciado, segundo o qual se modela o presente.

47
O problema muda por completo quando a comunidade
lida com indivíduos de carne e osso, com os quais deve
entabolar relações reais. A velhice é detestável? Pois vamos
expulsá-la! Mas quando o velho não significa o envelheci­
mento do grupo, como é o caso geral, não existe a priori
nenhuma razão para suprimi-lo. Estabelecer-se-á empiri-
camente seu estatuto, de acôrdo com as circunstâncias. Re­
duzido pelos anos a uma situação de improdutividade, êle
representa um fardo. Mas, como já disse, ao decretar seu
destino em determinadas sociedades, o adulto estará deter­
minando o próprio futuro e levará em conta seu interesse a
longo prazo. Pode também suceder que fortes laços afetivos
o prendam aos velhos pais. Por outro lado, os anos con­
ferem ao homem aptidões que o podem tornar muito útil.
A comunidade humana primitiva, mais complicada que as
sociedades animais, tem ainda mais necessidade de um sabor
que somente a tradição é capaz de transmitir. Inspira
respeito o ancião que, graças a sua memória, se tornou de­
positário da ciência ou que conserva a lembrança do passa­
do. Estando já com um pé no mundo dos mortos, é-lhe
atribuído o papel de intermediário entre a Terra e o além,
o que também lhe confere terríveis poderes. Êsses fatores
intervém na definição de seu estatuto. Observemos, aliás,
que são raros entre os primitivos os que atingem os 65 anos:
seu número raramente vai além de 3% da população. Em
geral, as pessoas de 50 anos são consideradas idosas, muito
idosas mesmo. Neste capítulo serão qualificados como ve­
lhos, idosos ou anciãos, aqueles que são assim considerados
pela coletividade e que, biologicamente o são, realmente,
na maioria das vezes.
Para estudar sua condição busquei apoio nos trabalhos
dos etnólogos. Utilizei essencialmente os Human relation
area files, gentilmente colocados a minha disposição pelo
Laboratório de Antropologia Social. As informações obtidas
são, por vezes, muito antigas, às vezes incompletas ou de
valor pouco seguro. Terei de proceder portanto, com pru­
dência. São raros os observadores que, ao descreverem
uma comunidade procuram adotar-lhe os valores. Êles a
enxergam e a julgam através de sua própria civilização, sem
sequer imaginar que possam deliberadamente afastar-se de
suas normas e de seus costumes. São também raros os

48
que, a propósito da velhice, organizam sintèticamente suas
observações; nem estes demonstram maior interesse, forne­
cendo fatos muitas vezes ininteligíveis, quando não contra­
ditórios. Procurarei relacionar os dados que possuímos sobre
a condição dos velhos com a estrutura geral da comunidade.
Sei que toda amostragem corre o risco de ser arbitrária
mas a estatística também não foge a isto e nada esclarece.
Ao passo que, por meio de aproximações e de contrastes,
pode-se esperar que fiquem elucidadas relações significa­
tivas.
As suas condições de vida determinam que os primiti­
vos sejam ora caçadores coletores, ora pastores, ora cam­
poneses; as duas primeiras categorias são nômades, a ter­
ceiro, sedentária. Existem também os seminômades, pas­
tores com diversos pontos de parada, agricultores que des-
bastam sucessivamente várias partes da floresta. Não os
classificarei segundo sua situação geográfica mas sim de
acordo com seus métodos de trabalho e com sua ambiência:
há mais analogias entre os coletores da Austrália e os da
África que entre estes últimos e os camponeses africanos.

Vai, muitas vezes, grande distância entre os mitos en­


gendrados por uma coletividade e seus costumes reais.
Êste fato é particularmente evidente no tocante ao papel
dos velhos nas sociedades primitivas. Entre as mais desam­
paradas, muitas são as que enaltecem miticamente a velhice.
Inúmeras lendas esquimós relatam o milagroso salvamento
de um ancião: terrível castigo fere os que haviam combi­
nado desembaraçar-se dele. Outras narrativas descrevem
as pessoas de idade como mágicos poderosos, como inven­
tores ou curandeiros. As divindades dos primitivos assumem
com freqiiência o aspecto de imponentes velhos cheios de
vigor e sabedoria. A deusa Nerwick dos esquimós é uma
velha que reside sob as águas com os espíritos dos mortos:
nega-se, por vêzes, a proteger os caçadores de focas até que
um xamã venha pentear-lhe a cabeleira. Noutros lugares é
uma velha que controla os velhos. Para os Hopi, foi uma
mulher-aranha muito idosa quem inventou o artesanato.
Não faltam os exemplos. Veremos, entretanto, que a prá­
tica não foi de modo algum influenciada por essas fábulas.

4 49
A pobreza extrema leva à imprevidência: quem manda
é o presente, o futuro lhe é sacrificado. Quando o clima é
inclemente, difíceis as circuntâncias ou insuficientes os re­
cursos, a velhice do homem assemelha-se com freqüência
à das fadas. Assim acontecia entre os Yakute que levavam
uma existência seminômade no Nordeste siberiano, criando
gado e cavalos, suportando gélidos invernos e tórridos verões.
A maioria passava fome durante tôda a vida.
Nesta civilização rudimentar, de nada podiam valer
conhecimentos ou experiência. A religião mal existia. A
magia desempenhava seu papel: era bastante desenvolvido
o xamanismo (4). A revelação e a iniciação xamânicas ge­
ralmente ocorrem em idade pouco avançada, mas os podêres
adquiridos não diminuem com o tempo. Dentre todos os
anciãos, os velhos xamãs eram os únicos respeitados. A or­
ganização da família era patriarcal. O pai era o dono dos
rebanhos. Exercia sôbre os filhos uma autoridade absoluta,
podia vendê-los ou matá-los; livrava-se muitas vezes das
filhas. O filho que insultasse ou desobedecesse a seu pai,
era deserdado. Enquanto permanecesse vigoroso, êste podia
tiranizar a família, mas assim que enfraquecia os filhos lhe
arrebatavam os bens e o abandonavam mais ou menos à
morte. Maltratados durante a infância, não sentiam a me­
nor piedade por seus velhos pais. Censurado por maltratar
a mãe anciã, respondeu um Yakute: “ Que chore! Que sinta
fome! Ela me fêz chorar mais de uma vez e me regateava
a comida. Espancava-me por qualquer ninharia! “ Segundo
Trostchansky, que viveu vinte anos exilado entre os Yakute,
os velhos eram expulsos de casa e reduzidos à mendicância;
ou então escravizados pelos filhos que os espancavam e os

(4) É bastante incerta a fronteira entre a magia e a religião. Ambas


pretendem controlar fôrças sobrenaturais. Segundo Mauss, a religião só
as utiliza para o bem da coletividade; a magia é com freqüência dotada
de uma dimensão social mas também pode desviar os podêres sobrena­
turais em proveito do indivíduo capaz de os captar, e isto algumas vêzes
de modo maléfico. Segundo Lévi-Strauss, a religião é uma humanização
das leis naturais, a magia uma naturalização das ações humanas: trata-se
de dois componentes, sempre apresentados juntos, e cuja única variante
é a dosagem. Tôda magia comporta pelo menos um mínimo de religião.
A sobrenatureza só existe para uma humanidade que atribui a si própria
podêres sobrenaturais e que empresta à natureza os podêres de sua
sobre-humanidade.

50
forçavam a um duro labor. Outro observador, Sieroshevski,
relata: “Até em casas prósperas vi esqueletos vivos, encar-
quilhados, seminus ou inteiramente despidos, escondidos nos
cantos de onde só se afastavam na ausência de estranhos e
para se aproximar do fogo e disputar às crianças restos de
alimentos.” A situação é ainda pior quando se trata de pa­
rentes afastados. “ Êles nos deixam morrer nalgum canto,
lentamente, de frio, de fome, não como homens mas como
animais.” Para escapar a tão horrível destino êles suplica­
vam muitas vêzes a seus filhos que os matassem com uma
facada no coração. Carência de alimentos, baixo nível cul­
tural, ódio pelos pais gerado pela severidade patriarcal:
tudo conspirava contra os velhos.
Situação análoga encontrava-se entre os Ainos do Japão,
antes de exercer-se sôbre êles a influência da civilização
japonesa. Sua sociedade também era muito rudimentar,
o clima gelado e insuficiente a alimentação, baseada em
peixe cru. Dormiam no chão, possuíam poucos utensílios,
caçavam ursos e pescavam. De pouco lhes servia a experiên­
cia das pessoas de idade. Grosseiro animismo constituía
sua religião: não tinham templos, nem culto; achavam sufi­
ciente erguer, em honra dos deuses, ramos de salgueiro
denominados inau, considerados sagrados. Conheciam al­
gumas canções mas não tinham festividades nem cerimônias.
Embriagar-se era sua principal e quase única distração. Os
velhos, portanto, não tinham tradições a transmitir. Final­
mente, as mães descuidavam-se dos filhos que, depois da
puberdade, não lhes mostravam mais o menor apego. Quan­
do os pais envelheciam, eram deixados de lado. As mulhe­
res, tratadas a vida toda como párias, trabalhavam dura­
mente e não participavam das orações, piorando-lhes a sorte
com os anos. Lan dor(56) narrou a visita que fêz a uma
cabana em 1893: “Ao aproximar-se, descobri uma massa
de cabelos brancos e duas garras semelhantes a magros pés
humanos com longas unhas recurvadas; algumas espinhas
de peixe espalhavam-se pelo chão e amontoava-se imun-
dície naquele canto; o mau cheiro era insuportável. Ouvi
uma respiração sob aquela massa de cabelos. Toquei-os,

(5) Alone with the hairy Ainu. O livro de Batchelor mais compla­
cente que o de Landor, pinta dos Aíno um retrato bastante semelhante.

51
afastei-os e, num grunhido, dois braços ossudos estenderam-
-se para mim e agarraram minha m ão. .. ela era só pele e
ossos e seus longos cabelos e unhas a tornavam pavorosa...
Era quase cega, surda, muda; parecia sofrer de reumatismos
que lhe haviam anquilosado os braços e as pernas; apresen­
tava marcas de lepra. Era uma visão horrível, repugnante
e deprimente. Não era nem maltratada nem cuidada pela
aldeia ou pelo filho que vivia na mesma choça; constituía
um rebotalho e como tal a tratavam; de vez em quando lhe
atiravam um peixe.”
A miséria, quando extrema, é um fator determinante:
sufoca os sentimentos. Os Siriono, habitantes da floresta
boliviana, jamais eliminam seus recém-nascidos, embora
muitos deles sejam aleijados. Amam os filhos e são por
êles amados. Esta tribo seminômade, no entanto, é uma
vítima constante da fome. Vivem em estado selvagem,
quase nus, sem adornos nem instrumentos; dormem em
redes, fabricam arcos porém não possuem canoas e deslo­
cam-se a pé. Já nem sabem mais acender o fogo: trans­
portam-no consigo para onde vão. Não possuem animais
domésticos. Abrigam-se em cabanas poeirentas durante a
estação das chuvas; cultivam algumas plantas mas se ali­
mentam sobretudo de legumes e frutos silvestres. Pescam
e caçam durante a estação sêca. Não conhecem mitos nem
feitiçarias, não sabem nem contar nem medir o tempo. Não
possuem organização social nem política e a justiça não é
aplicada por ninguém. Brigam constantemente por ques­
tões de alimentos: cada qual luta pela própria vida. É tão
penosa esta existência que já nos 30 anos as forças lhes
começam a faltar e aos 40 estão velhos. Os filhos, então,
descuram os pais, esquecem-se dêles no momento da dis­
tribuição dos víveres. As pessoas idosas caminham devagar,
atrapalham as expedições. Conta Holmberg que, na véspera
de uma migração coletiva “minha atenção foi atraída por
uma velha que se achava doente, deitada numa rede, não
podendo nem falar. Perguntei ao chefe da aldeia o que
iriam fazer com ela. Mandou-me falar com o marido e êste
disse que a deixariam morrer ali m esm o... No dia seguinte,
a aldeia tôda se foi sem nem sequer lhe dizer adeus. . .
Três semanas d ep ois... tornei a encontrar os restos da
doente na rêde.”

52
Não tão despojado quanto os Siriono, os Fang — cerca
de 127 000 — habitam a parte superior do Gabão e vivem
quase todos na maior insegurança. Mais ou menos evange-
lizados e aculturados pelos brancos, encontram-se numa fase
de transição entre costumes que perderam e que já não lhes
convêm e uma ética moderna ainda não elaborada.
Deveram sua subsistência durante muito tempo às con­
quistas guerreiras e econômicas; o poder político estava nas
mãos dos anciãos mas era um conselho de jovens quem
dirigia as expedições. A mobilidade exigida por estas opôs-
-se ao estabelecimento de uma organização hierárquica de
modo que, os Fang constituem ainda hoje uma sociedade
na qual os chefes são incessantemente substituídos. Distri­
buem-se em várias aldeias que se deslocam com freqiiência.
Suas atividades principais são, atualmente, a caça e a pesca.
Existe também uma classe sedentária de camponeses dedi­
cada sobretudo ao cultivo do cacau e relativamente prós­
pera. Em todas essas comunidades, os indivíduos mais ricos
são também os mais cercados de honras. Sua religião — em
grande parte destruída pelo cristianismo — baseia-se num
culto prestado aos antepassados através dos crânios conser­
vados numa cesta cuja posse confere o poder. É obtida
quer por filiação, quer devido a capacidades intelectuais e
morais; a idade constitui um trunfo, menor que a capaci­
dade, mas desde que não seja avançada demais. O chefe
da família é o mais velho dos adultos ativos. Os pais vivem
com êle e mantêm uma certa autoridade moral enquanto
se conservam “verdadeiros homens” e “verdadeiras mulhe­
res” . Nunca é muito grande, entretanto, a que cabe a
estas últimas: meros instrumentos de produção e de repro­
dução, são temidas quando velhas as que passam por feiti­
ceiras, o que pode ocasionalmente voltar-se contra elas
mesmas. Seu declínio começa muito cedo, logo que não
podem mais ter filhos, ao passo que o homem atinge o
apogeu quando, aos 50 anos mais ou menos, os netos come­
çam a nascer e a viver sob seu teto. Depois, com a redução
das forças, os anciãos vão perdendo todo prestígio. Os Fang
acreditam que a vida humana descreve uma curva ascen­
dente da infância até a maturidade; desce, em seguida, até
o nível mais baixo para tornar a elevar-se para além da
morte. A riqueza, os conhecimentos mágicos podem com-

53
pensar a diminuição senil, porém, de um modo geral, os
velhos se veem afastados da vida pública: levam uma exis­
tência marginalizada e não são objeto de nenhuma consi­
deração. Quando decrépitos, são tão desprezados que depois
de mortos, seu crânio não é utilizado nas cerimônias do
culto. É muito dura sua condição, quando não têm filhos.
São desprezados e miseráveis, sobretudo as viúvas, até
mesmo entre os convertidos ao cristianismo. Outrora eram
abandonados na floresta durante as migrações; hoje em
dia, ainda são deixados para trás, em completa penúria,
quando a aldeia se transfere para outro lugar, como é fre-
qüente acontecer. Aceitam seu destino e conta-se que
chega a pilheriar a respeito dele. Alguns se declaram
“ cansados da vida” e se fazem queimar vivos. Por vêzes,
são os herdeiros que se desembaraçam deles.
Os Thonga não são nômades: esses Bantos estão ins­
talados em terras áridas na costa oriental da África do Sul.
A população é dispersa. O solo pertence ao chefe que o
distribui entre os membros da comunidade; cada um é
senhor absoluto dos frutos do trabalho próprio ou executa­
do por suas esposas, sendo muitas tarefas reservadas ritual­
mente às mulheres. Cultivam o milho, frutas e legumes.
Caçam e pescam. Fazem algumas esculturas em madeira
e cerâmica. Em seu folclore encontramos danças e cantos.
Conhecem períodos de abundância mas não escapam aos
de fome em conseqüência de inundações ou de nuvens de
gafanhotos. As refeições são tomadas em comum. Os ma­
ridos são servidos primeiro, depois as crianças e, finalmente,
as mulheres: em princípio, os enfermos e os velhos tam­
bém recebem seu quinhão. Os velhos são pouco consi­
derados; economicamente desprovidos, não inspiram ne­
nhuma afeição. Dos 3 aos 14 anos, as crianças vivem em
companhia dos avós que as deixam crescer ao deus-dará;
são pequenos gatunos, sempre esfomeados e a iniciação dos
meninos é uma prova muito severa. Os jovens dos dois
sexos vivem, em seguida, numa choça a eles reservada.
Poucos laços os prendem aos pais e êles alimentam um
certo rancor contra a geração que os criou com descaso.
Tornando-se adultos, mostram-se grosseiros para com as
pessoas idosas. As próprias crianças condenadas a coabitar
com os avós não apreciam os velhos: zombam deles e
comem seu quinhão de alimentos. Os Thonga não têm qua­
se nenhuma tradição cultural ou social: a memória dos
anciãos não serve para nada. Sua religião é rudimentar,
cabendo ao irmão mais velho a função de ofertar sacrifícios
aos antepassados que, por vezes, lhes aparecem nos sonhos,
podendo ser interrogados por meio de “ ossos divinatórios” .
Algumas velhas cantam e dançam em certas cerimônias,
de maneira muitas vezes obscena. Não estão mais sujeitas
a determinados tabus; somente elas e as meninas impúberes
podem comer a carne do veado imolado no sacrifício. Es­
capam à maldição de seu sexo sem, contudo, pertencer à
comunidade dos homens. Devido a esta singular situação,
a velha não precisa recear certos perigos sobrenaturais: é
a ela que recorrem para purificar a aldeia e as armas dos
guerreiros. Quando porém já não pode trabalhar na agri­
cultura — à qual se aferra até que as forças a abandonam
— torna-se um pêso inútil, despreza-se sua decrepitude.
As cerimônias são, com freqüência, oficiadas por homens
idosos mas isto não basta para lhes conferir algum prestígio.
Os indivíduos, que entre os Thonga impõem maior respeito,
são os mais gordos, os mais fortes e os mais ricos; para
enriquecerem, desposam várias mulheres visto serem elas
sobretudo que trabalham. O marido dispõe então de ali­
mento abundante, oferece banquetes aos filhos, recebe es­
trangeiros, é admirado e exerce grande influência. Quando,
porém, suas esposas morrem, o homem enrugado, desdentado,
enfraquecido e pobre não passa de um rebotalho, de um
fardo impacientemente suportado. Raros são aquêles a
quem os filhos manifestam alguma dedicação. De um modo
geral, sua condição é bastante infeliz e eles dela se queixam.
São abandonados quando a aldeia se desloca. Perecem em
grande número durante as guerras. Escondem-se nas matas
nos momentos de pânico, enquanto os outros fogem: são
encontrados e massacrados pelo inimigo ou então morrem
de fome.
Contudo, a maioria das sociedades não deixa que os
velhos morram como animais (°). Sua eliminação é cercada

(6) Num trabalho de síntese publicado em 1945 — The role of


the aged in primitive society •—- Simmons mostra que, em 39 tribos estu-

55
por um cerimonial e exige-se ou finge-se exigir seu consen­
timento. Era o que acontecia ( 7), entre os Koriak, por exem­
plo: viviam eles no Norte da Sibéria, em condições tão
ásperas quanto os Yakute. Seu único recurso eram os reba-
-nhos de renas que pastoreavam através da estepe; os in­
vernos são rigorosos e as longas marchas esgotam as pessoas
de idade. Raramente acontecia uma delas desejar sobreviver
após a exaustão de suas forças. Eram mortas como tam­
bém mortos eram os doentes incuráveis. Tal comporta­
mento parecia tão natural que os Koriak se gabavam de sua
habilidade, apontando os lugares do corpo onde pode ser
fatal um ferimento de lança ou de faca. A imolação era
realizada na presença de tôda a comunidade depois de
longas e complicadas cerimônias.
Entre os Chukchee, tribos siberianas que mantinham
relações com os mercadores brancos, aquêles que viviam da
pesca, tinham grande dificuldade em encontrar alimento.
As crianças deformadas ou que pareciam difíceis de criar
eram sacrificadas logo ao nascer. Os poucos velhos que
houvessem conseguido adquirir algum capital por meio do
comércio eram respeitados. Os outros constituíam encargos
e obrigavam-nos a levar uma existência tão penosa que
eram fàcilmente persuadidos a optar pela morte. Ofere­
ciam em sua honra um grande festim de que participavam:
comia-se carne de foca, bebia-se uísque, cantava-se, tocava-
-se tambor. O filho ou algum irmão mais jovem esgueira­
va-se em dado momento às costas do condenado e estran­
gulava-o com um osso de foca.
Os Hopi, os índios Creek e Crow, os Bosquimanos da
África do Sul costumavam levar o velho para o interior de
uma choça construída fora da aldeia expressamente para
o fim de ali o abandonarem com um pouco d’água e alguns
alimentos. Os esquimós, cujos recursos são extremamente
precários, costumam solicitar aos velhos que se deitem na
neve para aí aguardar a morte, ou então os “esquecem”

dadas sob êste ponto de vista, a negligência e o abandono dos velhos


eram habituais em 18, não somente entre as nômades mas também nas
sociedades sedentárias.
(7 ) Estamos muito mal informados sôbre a condição atual dos p
mitivos que vivem na Sibéria.

56
numa banquisa durante uma expedição de pesca, quando
não os encerram num iglu onde morrem de frio. Os esqui­
mós de Amassalik, na Groenlândia, costumavam suicidar-se
quando se sentiam pesados à comunidade. Faziam, uma
noite, uma espécie de confissão pública e dois ou três dias
depois embarcavam em seu caíque e afastavam-se da terra
para sempre ( 8). Paul-Emille Victor conta que um doente,
incapaz de entrar em seu caíque, havia pedido que o ati­
rassem no mar, visto constituir a morte por imersão o
caminho mais curto para o outro mundo. Os filhos aten­
deram ao pedido mas, retido pelas roupas, sucedeu que
ficou a flutuar. Uma das filhas, que muito o amava, acon­
selhou-o, cheia de ternura: “ Mergulha a cabeça pai, o
caminho será mais curto.”
Muitas sociedades respeitam as pessoas de idade en­
quanto estas se mantêm lúcidas e robustas, desembara­
çando-se delas quando se tornam decrépitas e caducas. É
o que sucede entre os Hotentote que levam vida semi-
nômade na África. Cada família possui sua choça e seus
rebanhos, sendo muito estreitos os laços entre os membros.
As palavras “avô”, “ avó” pertencem ao vocabulário da ami­
zade e são empregadas independentemente de qualquer
parentesco; os contos, as sagas, mostram a reverência com
que são tratados os anciãos. Entram muito cedo em deca­
dência: estão velhos aos 50 anos. Já não podem então
trabalhar e são sustentados pelos outros. Seu saber, sua
experiência são úteis à comunidade. São consultados pelo
Conselho que lhes leva em conta a opinião. Protegidos pela
idade contra as potências sobrenaturais, podem desempe­
nhar um papel singular e de grande relevância na vida
social. Presidem, especialmente, aos rituais de transição.
O indivíduo que se encontra numa situação transitória —
viuvez recente, convalescença — já não pertence a nenhum
grupo; está em perigo e é perigoso: está inau. Somente as
pessoas que atravessaram tôdas as idades da vida, achan­
do-se além do bem e do mal, podem acercar-se impune­
mente e reintegrá-lo na comunidade. É imprescindível, en­
tretanto, que pertençam à mesma categoria que o inau:

(8) Segundo R. Gessain.

57
um viúvo cuidará do viúvo e, do convalescente, alguém
que se tenha curado após grave enfermidade. Todas as
pessoas de idade se acham qualificadas para a iniciação
dos adolescentes. É, assim, graças aos velhos que se man­
tém a coesão da comunidade; isto não os livra de se verem
relegados quando a perda de suas faculdades os torna inú­
teis. Até o início do século passado ( 9), seus filhos che­
gavam mesmo a solicitar o direito de se desembaraçarem
deles, sendo sempre atendidos. A aldeia despedia-se do
velho após um festim oferecido pelo filho: colocavam-no
no dorso de um boi e uma escolta o conduzia até uma choça
distante onde o abandonavam com alguns alimentos. Mor­
ria de fome ou nas garras dos animais selvagens. Era êste
o costume, sobretudo entre os pobres, mas também os
ricos assim procediam pois atribuíam-se poderes mágicos
aos velhos, sobretudo às mulheres e tinha-se medo deles.
Os Ojibwa do Norte — habitantes das proximidades
do lago Winnipeg — são hoje muito influenciados pela
civilização branca. Entretanto, no início do século, ainda
conservavam seus antigos costumes e era impressionante o
contraste entre o estatuto dos homens de idade ainda vigo­
rosas e o dos “ decrépitos” . Vivem numa região de inver­
nos rigorosos mas de clima saudável e de solo fértil onde
colhem arroz, legumes e frutas. No verão, as famílias se
reúnem em acampamentos de 50 a 200 pessoas, espalhan­
do-se em pequenos grupos, no inverno, a fim de caçarem
animais cujas peles vendem. As crianças são muito bem
tratadas: desmamadas somente aos 3 ou 4 anos, são carre­
gadas pelas mães a tôda parte. Recebem muitas demons­
trações de carinho, nunca são castigadas, vivem em total
liberdade. De um modo geral, nessa sociedade, ninguém
castiga ninguém. Os doentes são tratados pacientemente.
O cuidado de não ofender o vizinho deriva em parte da
desconfiança que êste inspira: teme-se a feitiçaria. A ten­
dência da religião é, sobretudo, a de proteger contra ma­
lefícios e atender aos interesses individuais.
Em geral, os avós vivem com os filhos e os aconselham.
Dá-se o nome de um dêles a um recém-nascido. São pra-

(9) São anteriores a 1900 as relações que alardeiam êste costume.

58
zenteiras suas relações com os netos: os avós tratam os
netos de igual para igual, assim como as avós às netas:
espicaçam-se mutuamente, auxiliam-se uns aos outros. Isto
não impede que as crianças os respeitem: são ensinadas
a respeitar todos os velhos. Participam estes do Conselho,
onde também têm assento os adultos, que lhes manifestam
grande deferência. Êste respeito é sobretudo exterior e
verbal. Entretanto, em algumas tribos existe uma “grande
sociedade de medicina” que se dedica ao estudo das ervas:
acredita-se que algumas proporcionam saúde e longevidade.
Os jovens são introduzidos e iniciados nesses conhecimentos
pelos anciãos. Êstes são considerados detentores de grandes
podêres mágicos, podem ser perigosos. Oficiam, por vezes,
como sacerdotes. É entre êles que se recrutam os “gritado-
res” que anunciam à noite o programa de trabalho do dia
seguinte e dão instruções. A longevidade é admirada en­
quanto se mantém saudável. É conquistada pela virtude e
pelas ervas, segundo crêem.
Ao chegar a idade avançada e a impotência, observam-
-se grandes diferenças de tratamento de família para família;
mas acontece com freqüência verem-se os velhos relegados
e pode até suceder que os jovens roubem os alimentos a
êles destinados. Deixaram de ser temidos: julga-se que per­
deram seus podêres mágicos. Acontecia-lbes serem aban­
donados nalguma choça afastada da aldeia ou numa ilha
deserta. O parente que pretendesse socorrê-los, era ridi­
cularizado e impedido de acudir-lhes. Optavam geralmente
por uma morte cercada de solenidade. Oferecia-se uma
festa, fumava-se o cachimbo da paz, entoava-se um canto
fúnebre, dançava-se, cantava-se de nôvo e o filho matava
o pai com uma pancada de tomhawk.

Os etnólogos não hesitam em afirmar que os velhos se


conformam facilmente com a morte que lhes é infligida:
assim o quer a tradição, seus filhos não podem agir de
outra maneira; talvez êles próprios tenham outrora feito
o mesmo com seus pais e podem até sentir-se prestigiados
com a festa oferecida em sua honra. Até que ponto se
justifica tal otimismo? Ê difícil saber. São extremamente
raros os documentos relativos a esta questão. Encontrei
apenas dois. O primeiro é um belo romance japonês, Na-

59
rayama, no qual Fukasawa evoca o fim de uma anciã, ins­
pirando-se em fatos reais. Até bem pouco tempo atrás, em
certos recantos do Japão, as aldeias eram tão miseráveis
que, para poderem sobreviver, se viam obrigadas a sacri­
ficar os velhos. Transportavam-nos para o alto de mon­
tanhas denominadas “montanhas da morte” e lá os aban­
donavam. No início da história, 0 ’Rin, uma velha quase
septuagenária, de abnegação e piedade exemplares e muito
amada por seu filho Tappel, ouve cantarem na rua a canção
de Narayama (10), onde se diz que a cada três anos que
passam, os homens envelhecem três anos. Com isto se
pretende fazer com que os velhos se dêem conta da aproxi­
mação do tempo da “peregrinação” . Na véspera da festa
dos Mortos, aqueles que devem “ ir para a montanha” con­
vocam as pessoas da aldeia que para lá já levaram os pais.
É a única festa importante do ano: come-se arroz branco,
o alimento mais precioso de todos, e bebe-se vinho de
arroz. 0 ’Rin resolve celebrá-la naquele mesmo ano: todos
os seus preparativos já estão feitos e, além disso, seu filho
vai tornar a casar-se; haverá uma mulher para cuidar da
casa. 0 ’Rin ainda está forte e trabalha, conserva todos
os dentes; isto, aliás, constitui para ela ou motivo de preo­
cupação: é uma vergonha poder na sua idade devorar seja
lá o que fôr, numa aldeia onde faltam alimentos. Um de
seus netos compôs uma canção zombando dela e chaman­
do-a de “velha dos trinta e três dentes” e todas as crianças
a cantarolam. Conseguiu quebrar dois, batendo-os com
pedras, mas as zombarias continuaram. O neto mais velho
se casou: há agora duas mulheres jovens na casa, ela se
sente inútil e pensa cada vez mais na peregrinação. O filho
e a nora choram quando ela lhes anuncia a decisão. Rea-
liza-se a festa. 0 ’Rin espera que esteja nevando lá em
cima: isto significará que ela será bem acolhida no além.
Ao alvorecer, instala-se numa tábua que Tappei carrega
nas costas. Obedecendo à tradição, deixam a aldeia às
escondidas e não trocam mais nenhuma palavra. Escalam
a montanha. Ao aproximarem-se do cume, vêem cadáveres
e esqueletos ao pé dos rochedos. Voam corvos ao redor.

(10) Nome da montanha onde são abandonados os velhos: mon­


tanha dos pinheiros.

60
O cume está coberto de ossadas. Tappei deposita a velha
no chão; ela estende ao pé do rochedo uma esteira que
trouxe consigo, aí coloca um bôlo de arroz e senta-se. Não
pronuncia uma só palavra mas expulsa o filho com largos
gestos. Êste se afasta chorando e, enquanto desce, a. neve
começa a cair. Volta para avisar a mãe. Neva também
lá em cima e ela, tôda recoberta de flocos brancos, está
salmodiando uma oração. Êle grita: “ Está nevando! a oca­
sião é propícia!” De nôvo ela lhe faz sinal para que se vá
e êle parte. Êle ama a mãe com grande ternura, mas o
amor filial se desenvolve no quadro que lhe fornece a socie­
dade; já que a necessidade impôs êsse costume, é transpor­
tando a mãe para o alto da montanha que Tappei demonstra
sua dedicação filial. \
Contrastando com esta morte conforme à tradição e
abençoada pelos deuses, o romance apresenta a do velho
Matayan: tem êle mais de 70 anos e não prepara sua partida
para a montanha. O filho, entretanto, deseja livrar-se dele
e o amarra com uma corda de palha no dia da festa de
Narayama. O pai corta os laços com os dentes, rompendo
desta maneira a “relação” com o filho, com a comunidade,
com os deuses. Foge mas o filho o recaptura. No dia
seguinte, ao descer da montanha, Tappei vê o velho amar­
rado da cabeça aos pés, à beira de um abismo para onde
o filho o atira, como se fôsse um saco, e os corvos se
precipitam voando para o vale. É uma morte ignominiosa.
O filho de Matayan procedeu como um criminoso porém
o pai mereceu semelhante destino ao pretender eximir-se
ao costume estabelecido pelos deuses.
Gostaríamos de saber se os velhos sacrificados reagem
com freqüência de maneira semelhante à de Matayan, isto
é, com medo e revolta. O fato de Fusakawa conceder-lhe
no romance um lugar tão importante significa que sua ati­
tude devia ser bastante representativa e não excepcional.
Talvez a edificante submissão de 0 ’Rin é que constituísse
uma exceção.
Existe um documento impressionante que prova terem
os velhos amaldiçoado muitas vezes sua triste sina: é a
epopéia dos Narta, criada há muito, muito tempo entre
os Osseta e transmitida aos Tcherkesse por tradição orral.

61
Certas passagens (n ) descrevem a angústia dos velhos diante
da iminência da execução. Os Narta eram os ancestrais mí­
ticos dos Osseta que lhes atribuíam seus próprios costu­
mes. Segundo a epopéia, os Narta distribuíam-se em três
famílias escalonadas do sopé até o cume de uma montanha.
Os que viviam no cume eram guerreiros, os de baixo eram
os “ricos” . Nas encostas estavam instalados os Alaegatae,
caracterizados por sua inteligência e detentores das mais
altas dignidades. Todos os Narta juntavam-se a êles quan­
do tinham necessidade de tomar deliberações de interesse
público e para os banquetes de cunho religioso. No decor­
rer da festa, eram mortos os velhos das três famílias, desig­
nados pela “ assembléia de execução dos velhos” . Eram
envenenados ou abatidos a pancadas. Plínio o Velho e
Pompônio Mela contam que era praticado o assassinato
dos velhos citas, parentes dos Osseta do Norte. Se a “satietas
vitae” não bastasse para convencê-los a saltar para o mar
do alto de determinado rochedo, eram dali precipitados à
iôrça. A epopéia narta descreve um caso análogo de morte
voluntária: “ Urizmaeg tinha envelhecido. Tornara-se objeto
de escárnio para os jovens nartas que cuspiam nele e limpa­
vam em suas vestes a sujeira das flechas. . . Êle decidiu
morrer. Degolou seu cavalo, ordenou que com o couro se
fizesse um saco, meteu-se dentro e atiraram-no ao mar” .
Mas, em geral, os velhos votados à morte não a aceitavam
de boa mente: eram forçados a sujeitar-se à lei comum,
baseada no direito e na religião. Os anciãos eram respei­
tados e desempenhavam importante papel, mas, quando
atingiam uma idade bastante avançada os Nartas — conta
a epopéia — os amarravam num berço como a criancinhas
e lhes entoavam a canção de ninar para adormecê-los.

Canta a nora para o sogro:


Dorme, dorme, meu pai príncipe,
Dorme, dorme, meu papaizinho.
. ..S e não dormires, meu papaizinho,
Far-te-ei levar para os Aleg.1

(11) Relatados por Dumé2 il em Mythes et épopées.

62
E para a sogra:
Dorme, dorme, princesa minha,
Dorme, dorme, mamãe princesa.
Se não dormires, minha velha mamãe,
Far-te-ei levar para os Aleg.

A velha:
Não me faças levar para os Aleg, minha princesa
[de ouro!
Lá êles matam os velhos...

Em outra cena, um velho está dialogando com a mulher;


diz a mulher:
Malvada nora que tanta dor provoca!
Praza aos céus que não te levem para os Aleg!
Os que êles levam para os Aleg
São atirados ao vale do alto da montanha.

O marido:
Pu, por uma vez ao menos, fecha a bôca!
Mesmo que não pensem em me levar tão bem
[agirás que me levarão.
Dizem que o que se repete com freqüência acontece.
Ah! Quem me dera ter escapado de ti uma vez
[por tôdas!

Aos homens que vêm precisamente para o levar:


Para ser roído, atirai-me à goela das feras!

Outra cena reproduz a última briga de dois velhos es­


posos: “ O chefe da assembléia de matadores de velhos
perguntou: — Qual dos dois é o mais velho?
— A mais velha é a mulher, naturalmente, disse o homem
entredentes. A velhinha então não mais se conteve e explo­
diu em palavras, sacudindo-se a ponto de romper as correias
do berço: — Ai! Deus me feriu! Pode-se lá falar como
falas? Chegada a hora de ser morto, êle diz que sou eu a
mais v elh a... Olhai nossos dentes, se não me acreditais;

63
meus dentes não estão ainda partidos, os dêle o estão duas,
três vezes. . .
“ Quando a assembléia examina seus dentes, decidiu
que o marido era o mais velho. Levaram-no, embora res­
mungasse, fizeram-no beber cerveja e atiraram-no ao vale.”
Os Osseta atuais respeitam os velhos e modificaram
certos episódios da epopéia. Os assassinatos de velhos são
apresentados como conluios criminosos e não como a apli­
cação de um costume ancestral. No meio do festim, chega
um jovem herói que salva o velho.

Existem tribos paupérrimas que não eliminam as pes­


soas de idade: será interessante procurar compreender de
onde provém esta diferença, comparando-as com os exem­
plos precedentes. Os Chukchee do interior respeitam seus
velhos, ao contrário dos do litoral. Como o fazem os Koriak,
pastoreiam seus rebanhos de renas pelas estepes nórdicas;
sua existência é tão áspera que se tornam muito cedo de­
crépitos; o enfraquecimento senil, entretanto, não acarreta
nenhuma quebra de prestígio social. São muito fortes os
laços de família. É o pai quem a governa e é o dono dos
rebanhos, mantendo esta posse até morrer. Por que motivo
lhe é outorgado tal poder econômico? Certamente porque,
de uma maneira ou de outra, deve ser êste o interesse da
comunidade, talvez pelo fato de repugnar aos adultos mais
jovens a idéia de se verem por seu turno espoliados, talvez
por verem nisto uma garantia de estabilidade social que
lhes parece desejável. De um modo especial — e talvez
seja aqui o caso — o ancião desempenha com freqüência
um importante papel nos entendimentos econômicos matri­
moniais: possuir rebanhos ou terras significa para êle estar
encarregado de partilhá-las entre os filhos e genros, segun­
do o costume. Mais que proprietário, é êle um mediador
entre os beneficiários legais de sua fortuna. Nem se pensa,
portanto, em lhos arrebatar, qual sucede entre povos atra­
sados como os Yakute. Seja como fôr, os bens possuídos
pelo velho conferem-lhe grande prestígio. Pode acontecer
que, já quase caduco, êle continue a governar o acampa­
mento: é quem decide das migrações, a localização do
acampamento do verão. Durante as migrações, os velhos

64
tomam assento nos trenós, com os demais; quando a neve
é insuficiente, os jovens os transportam nos ombros. Bogo-
ras relata que um dêles se dirigia todos os anos, na prima­
vera, ao rio Wolverene a fim de adquirir utensílios dos co­
merciantes das aldeias árticas. Comprava indiscriminada­
mente, trazendo facas de mesa em lugar de facas de caça.
Os jovens riam sem maldade: “ Velho caduco!... Mas, tam­
bém, é tão v e l h o ! . B o g o r a s cita o caso de um sexagená­
rio capenga, agarrado a sua muleta, que, não obstante, con­
tinuava senhor de sua casa e de seu rebanho. Ia anualmente
à feira e gastava em bebida quase todo o seu dinheiro. Nem
por isto o respeitavam menos.

Cêrca de 3 000 Yahgan, que vivem (1213*) no litoral da


Terra do Fogo, podem ser incluídos entre as tribos mais
primitivas que se conhecem: não possuem machados, nem
anzóis, nem cerâmica, nem utensílios de cozinha. Não
acumulam provisões (1S), sendo assim constrangidos a cuidar
de sua sobrevivência, dia após dia. Desconhecem jogos,
cerimônias e qualquer religião de verdade, acreditam vaga­
mente num ser supremo e no poder dos xamãs. Possuem,
entretanto, cães e canoas. Vivem como nômades, sobre a
água, caçando e pescando. Gozam de excelente saúde mas
sua condição é extremamente precária; estão quase sempre
esfomeados, dedicando todo o tempo à procura de alimen­
tos. Dividem-se em famílias conjugais que se agrupam em
acampamentos durante os períodos de inatividade mas que
não são governados por nenhuma autoridade superior. Nin­
guém é encarregado da aplicação da justiça. Os numerosos
filhos constituem sua razão de viver e eles os adoram; tam­
bém os avós são afeiçoados aos netos. O infanticídio só é
praticado quando a mãe foi abandonada pelo marido ou
quando o recém-nascido é disforme, anormal, o que rara­
mente acontece. Meninos e meninas são muito bem trata­
dos, sentem grande afeição pelos pais e insistem em viver,

(12) Estão aqui descritos no presente, mas já desapareceram. Estas


observações datam do fim do século passado.
(13) Acumular provisões já implica um grau bastante elevado de
civilização. A comunidade pode então se propor outros objetivos além
da subsistência. Veremos que os fncas tinham imensos celeiros.

5 65
quando nos acampamentos, na mesma choça que eles. Per­
siste êste amor até quando os pais atingem idade avançada,
sendo respeitados todos os velhos. O alimento é comparti­
lhado por toda a comunidade: são êles os primeiros a serem
servidos e os melhores lugares nas choças lhes são atribuí­
dos. Nunca são deixados sozinhos, havendo sempre um dos
filhos presente para cuidar deles. Não são jamais ridicula­
rizados. Sua opinião é ouvida com atenção. Quando inteli­
gentes e honestos, exercem grande influência moral. Algumas
velhas viúvas são chefes de família e a elas se obedece
rigorosamente. A experiência das pessoas de idade é posta
a serviço da comunidade: conhecem a melhor maneira de
conseguir alimentos e de executar as tarefas domésticas.
São elas que transmitem e fazem respeitar a lei não escrita.
Dão o bom exemplo, fazem admoestações e, quando neces­
sário, castigam os que procedem mal.
Êste estatuto se inscreve num conjunto harmonioso.
Os Yahgan adaptaram-se maravilhosamente a seu rude am­
biente. Apreciam a companhia de seus semelhantes, fre-
qüentam-se, auxiliam-se mútuamente e acolhem de bom
grado os estranhos. A luta pela vida entre êles é difícil po­
rém isenta de aspereza egoísta. Acontece-lhes praticar a
eutanásia para abreviar os sofrimentos de algum moribundo.
É preciso, entretanto, que o estado do mesmo seja deses-
perador e que todos estejam de acordo.
Os observadores que descreveram os costumes dos
Yahgan não lhes explicaram o caráter idílico. Mas o fato
é que êste não é isolado. Também entre os Aleúta,
não obstante a precariedade de sua condição, é agradável
a condição dos velhos. Por causa, sem dúvida, do valor que
se atribui a sua experiência e do carinho recíproco què
une pais e filhos. Os Aleúta, são mongóis, robustos e de
belo arcabouço, habitantes das ilhas Aleútas. Deslocam-se
em canoas e vivem da pesca; alimentam-se de carne de
baleia e de cabeças fermentadas de peixe. Não acumulam
provisões e desperdiçam alimento, embora não disponham
dele em abundância. São resistentes e conseguem privar-se
dele durante dias a fio. Dividem-no entre tôda a comuni­
dade. Vivem em cabanas. Executam seus trabalhos com
lentidão porém de maneira habilidosa e infatigável. Têm
muito boa memória: são capazes de imitar o artesanato

66
russo e de jogar xadrez. Alguns observadores os considera­
ram preguiçosos, mas é que seus valores diferem dos das
sociedades mercantilistas; não desejam acumular bens; os
ricos são respeitados, não por suas posses, mas sim pela habi­
lidade técnica que lhes possibilitou o enriquecimento. To­
davia, são muito valiosas as jóias das mulheres, empreendem
por vezes, grandes expedições para irem em busca de cristal
de rocha ou de outros minerais preciosos. Dão festas:
danças, representações, banquetes. Não têm muita religião
porém acreditam no poder dos xamãs. É muito raro o in-
fanticídio entre áles. Sentem profundo amor pelas crianças:
tudo fazem por elas, dão-lhes o que há de melhor. Pode
suceder que um homem se suicide de desespero por ter
perdido um filho ou um sobrinho. E, reciprocamente, os
filhos adoram os pais e empenham-se em suavizar-lhes a
velhice: é uma desonra abandoná-los; deve-se ajudá-los,
tudo compartilhar com êles e, quando necessário, sacrificar-
-se por êles; dedicam-se de modo especial à sua mãe, mesmo
quando inválida e decrépita. Acreditam que serão recom­
pensados os que tratarem bem aos pais e derem ouvidos a
seus conselhos: sua pesca será abundante e chegarão a
envelhecer. Envelhecer é transmitir um grande exemplo à
posteridade. Os anciãos instruem a juventude: cada aldeia
contava com um ou dois velhos encarregados da educação
dos jovens; eram ouvidos com respeito, mesmo quando já
caducos. O calendário está a seu cargo: trocam de lugar
o palito que indica o dia do mês, As mulheres de idade
cuidam dos doentes: todos confiam nelas. Estabeleceu-se,
de modo geral, um feliz equilíbrio entre a economia e o
amor filial. A natureza oferece recursos suficientes para que .
os pais alimentem bem a seus filhos e disponham de tempo
para cuidar dêles: em retribuição, estes nada deixam faltar
a seus velhos pais.

As sociedades até agora examinadas só dispõem de téc­


nicas rudimentares; a religião e até mesmo a magia aí
encontram pouca guarida. Ambas se desenvolvem quando
a vida econômica requer um mais vasto saber, quando é
menos áspera a luta contra a natureza, possibilitando um
certo recuo a seu respeito: torna-se então mais completas
o papel do velho em cujas mãos poderão se enfeixar grandes

67
poderes. Os Aranda constituem o caso mais típico de todos:
haviam estabelecido uma verdadeira gerontocracia antes da
chegada dos missionários. São caçadores-coletores que vi­
vem quase nus nas florestas australianas. Geralmente bem
nutridos, embora atravessem períodos difíceis. Cada família
se compõe de um homem, uma ou várias espôsas, crianças
e cães; os grupos totêmicos englobam diversas famílias.
Pratica-se o infanticídio quando o fato de estar amamen-
tando outro filho torna a mãe incapaz de criar o recém-
-nascido; os gêmeos são eliminados (14); pode acontecer que
se mate alguma criança para alimentar uma mais velha e
de saúde precária (e a mãe participa do banquete). As
restantes são, entretanto, muito bem tratadas. As mães são
generosas; jamais recusam o seio ao lactente e só o des­
mamam bastante tarde. As crianças são deixadas na maior
liberdade e é só quando atingem idade bem adiantada que
se vêem obrigadas a respeitar os tabus sexuais. Contudo,
sua iniciação é bastante dolorosa. Os membros mais respei­
tados da comunidade são os “homens de cabelos grisalhos” .
Os “ quase mortos” , damasiadamente decrépitos para levar
uma existência consciente e ativa, são bem nutridos, cuida­
dos, cercados (15), mas já não exercem nenhuma influência,
enquanto os “grisalhos” desempenham um papel prepon­
derante. Sua experiência prática é necessária à prosperi­
dade do grupo. Com efeito, os caçadores-coletores precisam
saber uma infinidade de coisas: o que é comestível, e o que
não o é, quais os indícios que revelam a presença dos
inhames, como descobrir águas ocultas, como preparar
certos alimentos de modo a lhes retirar as propriedades
nocivas. Existem golpes de vista, gestos que só se adquirem
após longo aprendizado. Quando, além disso, os homens
de idade conhecem as tradições sagradas — cantos, mitos,
cerimônias, costumes tribais — sua autoridade se torna
imensa. Entre os primitivos, saber e magia são inseparáveis;
o conhecimento das propriedades das coisas permite sua

(14) Matar os dois ou um dos gêmeos é um costume bastante


difundido. Tôda anomalia assusta.
(15) Contudo, como a caça e a coleta exigem incessantes desloca­
mentos, êles são abandonados quando se tornam fardos demasiadamente
incômodos.

68
utilização de acordo, ao mesmo tempo, com as leis da cau­
salidade racional e com suas afinidades mágicas; por outro
lado, as técnicas são indissolüvelmente ligadas a ritos má­
gicos, sem os quais permaneceríam ineficazes. O saber dos
“grisalhos” coincide com a posse de um poder mágico:
tanto um como outro crescem com os anos. Tornando-se
yenkon, quase impotentes, atingem êles o apogeu. São ca­
pazes de fazer adoecer enormes grupos de indivíduos: são
temidos. Já não se veem constrangidos a obedecer aos tabus
alimentares ( 10). Com efeito, pairam de certa forma acima
da condição humana, imunizados contra os perigos sobre­
naturais que a esta ameaçam. Já não lhes é proibido o que é
interdito ao homem normal -— tanto em seu próprio bene­
fício como no de tôda a comunidade. Sua condição excep­
cional os designa para desempenhar um papel religioso.
O melhor intermediário entre êste mundo e o outro é
aquêle cuja idade o aproxima do além. São as pessoas de
idade que dirigem a vida religiosa e esta domina tôda a
vida social. Acha-se de posse dos objetos sagrados utiliza­
dos nas cerimônias. Somente êles têm o direito de tocar
nos Churinga, pedras sagradas que simbolizam ao mesmo
tempo os antepassados míticos e os totens. Quanto mais
antigas, maior o seu valor e mais atuantes se mostram no
sentido de aproximar a comunidade viva dos heróis dos
tempos idos. Os velhos dirigem as cerimônias durante as
quais elas são expostas. Recebem marcas da maior defe­
rência: os jovens só falam no decorrer destas festas quando
os anciãos a êles se dirigem. Cabe-lhes a missão de instruir
seus descendentes; transmitem-lhes os cantos, os mitos e
rituais mas reservam para si mesmos alguns segredos (1617).
São temidos pelos jovens colocados sob sua autoridade pelos
rituais de passagem. A êles também são impostas pesadas
restrições alimentares, em benefício dos velhos. Em certas
tribos, os jovens dão sangue para fortalecê-los: colhem-no
numa veia do braço, no dorso da mão ou debaixo das unhas,
para entorná-lo sôbre o corpo dos velhos ou para que êstes

(16) Esta característica pode ser encontrada em inúmeras socie­


dades.
(17) Para castigá-los, êles recusam instruir os jovens que trabalham
para os brancos, tendo-se perdido por êste motivo muitas tradições.

&9
o bebam. Os velhos recebem alimentos como dádivas por
seu conhecimento das cerimônias, por suas atividades rituais
e por seus cantos. Sua riqueza e prestígio os impõem como
chefes da comunidade. Em princípio, é o mais idoso quem
a dirige. Todavia, quando suas faculdades declinam êle
conserva apenas um poder nominal: arranjam-lhe com gran­
de sutileza um suplente mais jovem. Aconselha-se com os
homens de sua idade. Mesmo nas tribos em que a chefia
se transmite por hereditariedade ■—• e nas quais o chefe pode,
portanto, ser um jovem — os verdadeiros senhores são os
anciãos. São os árbitros em tôdas as pendências, apontam
os sítios onde devem ser instalados os novos acampamentos,
organizam os festins. Nada se faz sem o seu consentimento.
Êles se aproveitavam outrora de sua autoridade para mono­
polizar as mulheres. Exigiam que se lhes reservassem tôdas
as jovens. O motivo era menos de ordem sexual que eco­
nômica e social. As jovens devem se casar assim que atingem
a puberdade e os rapazes precisam aguardar a iniciação.
O ancião e sua velha espôsa tinham interesse, sobretudo, em
se fazer alimentar por uma mulher jovem. Dizia a velha:
“ O pobre velho precisa ter uma jovem espôsa que lhe vá
buscar mel e água.” Os jovens não encontravam com quem
casar.
Magia, religião e técnica constituem a essência da cul­
tura nas sociedades primitivas. Êstes três setores se acham
intimamente ligados, relacionando-se a magia ao mesmo
tempo, com a técnica e com a religião. Ambas são bené­
ficas à comunidade: a magia é ambivalente. Entre os Aran-
das, o “ grisalho” impera nos três campos. Seu valor é ines­
timável enquanto se revela detentor do saber e apto às
funções religiosas, inspirando a um tempo respeito e temor
devido a seus poderes mágicos. É análogo o esquema en­
contrado entre os Zanda do Sudão, porém a magia aí pre­
domina e o homem de idade baseia sua autoridade sobre­
tudo no temor. Vivem nas savanas do produto da caça, da
pesca, de colheitas e culturas: milho, mandioca, batata-doce,
banana. A caça é abundante. Seu artesanato, bastante de­
senvolvido. Acreditam num deus, Mbori, mas sua preocupa­
ção mais constante é a feitiçaria. Admitem que cada indiví­
duo possui um poder a que dão o nome de mangu: é uma
substância que tem relação com o fígado e cresce com os

70
anos. Como entre os Aranda, os homens de idade possuem
conhecimentos úteis; são também os feiticeiros mais pode­
rosos: ao porem em prática seus malefícios, são menos
tolhidos pelo escrúpulos que os demais, pois a proximidade
da morte os torna mais indiferentes aos riscos de represálias.
Daí resulta ficar o controle da comunidade entre suas mãos.
Pedem-lhes que abençoem as expedições de caça: estas fra­
cassariam se eles as amaldiçoassem. Sua benevolência é
comprada com distribuições de carne, sempre que a expedi­
ção é coroada de êxito. O filho achava-se outrora muito
subordinado ao pai. Os anciãos aproveitavam-se da situação
para tomarem para si tôdas as mulheres, a ponto de se tornar
difícil o casamento de um jovem. As coisas mudaram um
pouco, sob êste aspecto, em conseqiiência dos contatos com
os brancos.
É indiscutível que, sob a influência destes, surgiram
discrepâncias entre as crenças da geração mais nova e as
da mais antiga. Esta sempre atribui a morte a algum ma­
lefício. Quando o morto é muito idoso, admite-se que se
haja esgotado o tempo que lhe fora outorgado sobre a terra
tendo bastado um fraco mangu para matá-lo. A morte é
atribuída, por vêzes, a Deus. Afirma-se: “ Mbori o levou” ;
a vida é comparada a uma haste que Mbori vai roendo pou­
co a pouco: quando chega ao fim, a pessoa morre; mas não
sem a intervenção de algum feiticeiro, do qual a família
procura vingar-se. Os jovens, entretanto, associam a morte
à decrepitude. Dizem do morto: “ Já comeu sua parte” .
Acreditam na feitiçaria, porém a morte de um velho lhes
parece natural e não vêem necessidade de se fazerem tantas
histórias a respeito. Assim se exprimem em particular, com
todo o cinismo, enquanto cumprem em público os deveres
prescritos para com os mortos.
É considerável o papel da magia entre os índios do
Grande Chaco — Xorati, Mataco, Toba — que constituem
tribos seminômades, vivendo dos abundantes frutos da flo­
resta e da criação de avestruzes. Contentam-se com pouco
e não armazenam provisões pois confiam no dia de amanhã:
não lhes faltará alimento. O chefe é um homem avançado
em anos, eleito por ocasião da morte do chefe precedente,
pelos pais de família mais idosos. Seu poder é mais norni-

71
nal que real. A influência exercida pelo velho é devida
sobretudo ao cunho sagrado a êle conferido pela idade.
Sendo fácil a sua subsistência, esses índios dispõem de mui­
tos lazeres que consagram à vida religiosa, orientada pelos
velhos, já desobrigados dos tabus alimentares. São temidos
pelos podêres mágicos de que podem lançar mão e capazes
de enfeitiçar os inimigos. Acredita-se que, depois de mortos,
êles se tomam espíritos maléficos: é sempre sob a figura
de um velho que os índios afirmam ter visto um dêsses
espíritos. Admitem que sua nocividade aumenta com os
anos: matam-no com uma flechada no coração e queimam
o cadáver, quando se torna fraco e impotente. Como nas
histórias de zumbis, parece que êste aniquilamento total
do corpo evita que êle se transforme em fantasma.
A relação entre saber e poder mágico é muito aparente
entre os índios Navajo e confere a alguns velhos grande
autoridade. Constituem uma sociedade bastante complexa,
de cultura muito desenvolvida, influenciada pela civilização
dos brancos, com os quais mantêm contatos permanentes ( 18).
Habitam ao Noroeste do Arizona um vasto território árido
que irrigações e chuvas abundantes conseguem fertilizar.
Possuem cavalos, rebanhos e dois ou três pontos de parada
onde se reúnem, segundo as estações. É uma sociedade de
abundância. Comem pão, carne, conservas adquiridas dos
brancos. Possuem belas vestimentas adornadas com tur­
quesas e prata; sabem tratar êste metal, tecem e pintam.
São muito desenvolvidos entre êles a poesia, o canto, a
dança, as artes imaginativas. A família é matrilinear, sendo
as mulheres muito respeitadas; seus rebanhos são, com
freqüência, mais importantes que os de seus maridos. São
calorosas as relações entre avós e netos; os pais da mãe são
os que têm maior participação na educação das crianças.
Estas vivem por vezes, a partir dos 9 ou 10 anos, em com­
panhia dos avós a quem prestam serviços. O neto mantém
com o avô “ relações de brinquedo” . Apostam corridas
e o vencedor ganha uma sela para cavalo. É, com freqüên­
cia, o jovem quem desafia o avô a rolar na neve ou a saltar

(18) Vendem-lhes os produtos de seu artesanato, e deles compram


objetos manufaturados etc.

72
um vaiado. Diverte-se gentilmente às suas custas (19). Os
avós tratam as crianças de maneira admirável porém as
tarefas que lhes são impostas suscitam freqüentes ressenti­
mentos entre elas.
Esta sociedade civilizada e próspera se encarrega de
todos os enfermos, dos fracos e inadaptados. Cuida com
muito carinho dos velhos, mesmo quando decrépitos e cadu-
cos. Sucede de vez em quando que algum deles se deso­
riente, deixe seu domicílio e fique a vagabundear: trazem-no
de volta para casa. Entretanto, de que maneira compensarão
êles o recalque provocado pelo respeito que são obrigados
a lhes demonstrar? Os jovens e os homens maduros zom­
bam dos inválidos e dos gagos: fazem-no às escondidas,
receando sua vingança. Com efeito, a idade os promove do
domínio profano ao sagrado, sendo-lhes atribuído extraordi­
nário poder sobrenatural, sobretudo aos homens. Durante
um processo movido a 222 feiticeiros, contaram-se entre êles
38 mulheres todas idosas, e 184 homens, sendo 122 velhos.
Todos êles são temidos. Ninguém se atreve a recusar hos­
pitalidade a um ancião, por mais importuno que seja. Mui­
tos, todavia, não exercem a menor influência e são margina­
lizados. Pouca consideração merece o velho ignorante. Aci­
ma de tudo, são respeitados os cantores capazes de conservar
e transmitir as tradições: contos, mitos, rituais, cerimônias,
danças, fórmulas. São tidos como seres sagrados, deten­
tores de imensos poderes. Graças a sua memória, êles ga­
rantem o perpetuamento da comunidade através dos tem­
pos. Mas, os “ cantos” têm também o valor de sortilégios:
permitem que se controlem as condições atmosféricas, que
se curem os doentes ou se preveja o futuro. Êsses cantos
constituem propriedade privada de quem os conhece e êste
recebe presentes dos jovens aos quais os ensina: cavalos,
quantias em dinheiro. É também presenteado quando uti­
liza sua ciência em benefício de um indivíduo, de um grupo
ou da coletividade.
É na velhice que o cantor adquire maior reputação.
Os cantores idosos são, portanto, duplamente poderosos:

(19) Roheim vê neste costume uma maneira de derivar na pessoa


do avô a agressividade habitualmente manifestada pelos filhos contra
o pai.
pelo número de anos e por sua ciência. São os membros
mais ricos da comunidade, situando-se no ápice da escala
social.
Após a morte, o velho se transforma em perigoso fan­
tasma: todos os primitivos partilham da crença de que os
mortos subsistem sob a forma de fantasmas mais ou menos
temíveis. Contudo, enquanto os índios do Grande Chaco
admitem que quanto mais idoso o morto, mais se deverá
recear sua maldade póstuma, existe entre os Navajo uma
crença oposta sôbre a qual muito têm insistido os observa­
dores. Se um indivíduo morre, tendo “ esgotado sua vida” ,
isto é, sem sofrimentos, em estado de seniliddade — incapaz
de andar ou de fazer coisa alguma sem o auxílio de outra
pessoa — isto constitui uma grande felicidade tanto para
ele quanto para a família: é o que há de mais desejável,
pois não se transformará em fantasma. Reencarnar-se-á e
tornará a viver o bastante para renascer; e isto indefinida­
mente. Nem sua agonia nem seu entêrro são cercados
pelos ritos habituais, destinados a proteger a família e a
comunidade contra o espírito do defunto. Os próprios pa­
rentes se encarregam do sepultamento, como se se tratasse
de uma tarefa doméstica qualquer e não guardam o luto
costumeiro. Isto nos sugere que para os Navajo — e certa­
mente para os outros primitivos — a malignidade dos fan­
tasmas deriva do rancor: morto a contragosto e mais cedo
que teria desejado, o defunto se vinga; sua agressividade
se volta especialmente contra os familiares: os Navajo só
veem os fantasmas de pessoas que lhes são ligadas por laços
de parentesco. O homem que morre pacificamente, depois
de cumprido seu tempo, não tem de que se vingar. A morte
de uma criancinha navaja de menos de um mês também
não traz conseqüências perturbadoras: sua existência foi
demasiado breve para se tornar fantasma.
Os Jivaro, também, constituem uma sociedade prós­
pera; vivem de horticultura, de caça e de pesca, na floresta
tropical, no sopé dos Andes. Os homens caçam, as mulhe­
res executam os trabalhos agrícolas; a terra é fértil, a caça
abundante, nunca lhes falta alimento. Tecem e fabricam
elegantes cerâmicas. Não têm vida política; as famílias vi­
vem dispersas. As crianças são muito queridas, só as anor­
mais são suprimidas. Os homens de idade são respeitados.

74
Foi graças a sua experiência que se desenvolveram a ciência
dos animais e a das plantas, assim como a farmacologia.
Transmitem os mitos e as canções. Além desta sabedoria
possuem um poder sobrenatural sempre crescente, mesmo
quando se acham decrépitos. São as pessoas mais idosas
da família que dão nome às crianças, integrando o recém-
-nascido no círculo familiar. Os anciãos interpretam os
sonhos dos jovens e promovem sua iniciação; ensinam-lhes
o uso do tabaco e de narcóticos. Homens e mulheres de
idade, sem serem sacerdotes, dirigem as cerimônias e as
festividades religiosas. A guerra constitui o passatempo
favorito dos Jivaro — em geral, o chefe da expedição é
um homem bastante entrado em anos. Sucede, às vezes,
os velhos guerreiros trazerem para casa prisioneiras escolhidas
nas tribos inimigas; dormem com elas, que freqüentemente
os enganam com homens mais jovens, sendo então espan­
cadas, não raro, até à morte. Também entre os Jivaro se
teme a vingança póstuma dos anciãos. Se maltratados, êles
reencarnariam nalgum animal perigoso (jaguar, anaconda...)
e voltariam para castigar os culpados.
Entre os Lelê, tribo que povoa uma área de florestas
e savanas na vizinhança do Congo, até por volta de 1930
foram consideráveis as prerrogativas dos homens de idade.
A tribo era muito menos rica que a dos Bushong que viviam
nas suas proximidades e em condições análogas, dedican­
do-se, como êles, à agricultura, à caça, à pesca, à tecelagem.
Seu solo é um pouco mais pobre, a estiagem um pouco mais
prolongada, mas essas diferenças não bastam para explicar
o desnível de vida, proveniente, essencialmente, do contexto
social. São menos trabalhadores, relatam os etnólogos que
os observaram no início do século, e empregam técnicas
mais rudimentares. Não buscam triunfos pessoais por te­
merem ser invejados e especialmente pelo fato de não ser
o acúmulo de riquezas e sim a idade que lhes confere pres­
tígio. A divisão do trabalho só lhes atribui algumas poucas
tarefas; praticam a poligamia, açambarcando as mulheres, e
estas trabalham para êles; seus genros também são obriga­
dos a lhes prestar serviços. Os jovens só têm direito a uma
espôsa coletiva: em troca de vestimentas tecidas, o velho
dá uma de suas filhas de presente à classe jovem da aldeia,
que se torna desta maneira, inteirinha, seu genro. Não existe

75
colaboração amistosa entre as classes de idade. Os jovens
não podem rivalizar com os velhos; o homem de idade
tem o monopólio da profissão que exerce: tocar o tambor,
trabalhar na forja, esculpir madeira. Em dado momento,
abandona-a após a haver ensinado a um jovem a quem
caberá daí por diante o monopólio.
Nenhum cargo político de projeção é confiado aos ve­
lhos, mas estes conservam uma autoridade religiosa que lhes
assegura grandes privilégios. A fim de não os perder, cui­
dam ciosamente de permanecer indispensáveis à comunidade.
Guardam segrêdo a respeito dos rituais das cerimônias e dos
remédios; são os únicos, no seio do clã, a conhecer as dívi­
das contraídas por êste ou aquele, assim como as negocia­
ções matrimoniais: êste conhecimento é indispensável ao
bom andamento dos negócios. Precisam, entretanto, dos
jovens, únicos detentores da força física necessária à caça,
à pesca e ao transporte das bagagens dos europeus. Quando
se consideram maltratados os jovens ameaçam ir embora.
Os velhos castigam os indisciplinados, privando-os de mu­
lheres, excluindo-os do culto. Estabelece-se um certo equi­
líbrio, apesar deste conflito. Os jovens sabem que os velhos
acabarão morrendo, que herdarão as viúvas e obterão os
privilégios da idade provecta. Tudo se passa como se os
Lelê houvessem sacrificado seu status geral para criar uma
espécie de previdência social que os ampare na velhice.
Em 1947 a situação se achava bastante mudada: os jovens
se haviam convertido ao cristianismo e sentiam-se protegidos
pelas missões e pelo govêmo. Desposavam jovens cristãs e
trabalhavam para os europeus. Já quase não existiam classes
de idade.
Entre os Tiv, a contribuição cultural dos velhos cons­
titui a fonte de seus privilégios. São Bantos estabelecidos
na Nigéria, dedicados ao cultivo da terra, à criação de gado
em pequena escala, à caça, à tecelagem, à cerâmica e à
colheita de plantas úteis. Criam os filhos na maior liber­
dade e êstes, quando crescidos, trabalham com os pais.
São também bastante ligados aos avós que lhes transmitem
com freqüência sua experiência religiosa e mágica. A idade
adulta é considerada a mais completa; o calor é seu apaná­
gio, sendo frio o corpo das crianças e o dos velhos. Diz-se
das pessoas muito idosas que “ estão acabando o corpo” ,

76
(contudo, nem a impotência nem o dessecamento senis lhes
parecem relacionados com a velhice: atribuem a primeira
à magia e a segunda a alguma doença). Oficialmente, são
todos respeitados mas só possuem realmente influência os
dotados de conhecimentos e de capacidade; aos demais não
se confia nenhuma função: são alimentados, recebem tra­
tamento respeitoso mas não contam para nada. A família é
patriarcal: seu chefe é o homem mais velho quando êste
dispõe das qualidades necessárias. O chefe da comunidade
também é o mais idoso, caso preencha a mesma condição;
se não, atribuem-lhe um título mas nenhuma autoridade
real. Os que são capazes de julgar com discernimento, que
sabem falar bem e conhecem as genealogias e os rituais são
considerados sábios e dirigem o povo. Êles “ conhecem as
coisas” e controlam as forças mágicas. Zelam pela fertili­
dade da terra. Tôdas as atividades sociais — tratados, paz
e guerra, heranças e processos — dependem da magia, es­
tando, portanto, em suas mãos (20). Curam os doentes, são
os árbitros de tôda as pendências e o sustentáculo das estru­
turas sociais. Por estarem tão próximos dos ancestrais,
desempenham relevante função religiosa e pronunciam
oráculos. Os Tiv veneram pedras sagradas: cozinhar os
alimentos a elas oferecidos constitui tarefa reservada às
velhas: homens e mulheres de idade dirigem as cerimônias.
Ao perderem a força e as faculdades, os velhos se afastam
da vida social, conservando, no máximo, um cargo honorí­
fico. Alguns continuam a exercer funções religiosas. Pode
acontecer que um velho se canse da vida: reúne então os
parentes e distribui entre êles seus fetiches, antes de se
suicidar.
É também no respeito inspirado por sua sabedoria que
os velhos Kikuyu assentam sua autoridade. São Bantos
que vivem no sopé e nas encostas do monte Quênia: eram
mais de um milhão em 1948 e mantêm contatos freqüentes
com a civilização moderna; foram escravos de fazendeiros
europeus. Vivem da agricultura e da criação de gado. Sua
civilização se construiu em torno do sistema tribal que re-

(20) A magia manifesta aqui o caráter coletivo que Mauss lhe


reconheceu. O indivíduo não é suspeitado de a desviar em proveito pró­
prio.

77

\
pôusá, por sua vez, no grupo familiar; todos trabalham
juntos no seio da Grande Família. Atribuem extrema im­
portância às “classes de idade” que compreendem todos
os homens circuncisos no mesmo ano; a mais antiga tem
primazia sobre as outras. São estreitos os laços entre avós
e netos que pertencem simbolicamente ao mesmo grupo de
idade. A avó chama o neto de “meu marido” e o avô à
neta, “minha espôsa”. Os filhos respeitam seus progenitores,
representando a maldição do pai ou da mãe a mais horrível
desgraça: nenhuma purificação a poderá apagar. Encar­
regam-se dos pais quando estes envelhecem e dêles cuidam
muito bem. Quando não tem filhos, o velho é amparado
pelos do vizinho e os considera como se fôssem seus. A or­
ganização militar é confiada aos jovens. A geração mais
velha governa os assuntos públicos. Cada geração exerce
o poder durante vinte ou trinta anos, findos os quais ela
se demite em favor da geração seguinte, durante uma ceri­
mônia denominada itwika. Uma geração compreende, por­
tanto, todas as classes de idade incluídas entre duas itwika.
O homem cujos filhos todos já foram circuncisos e cuja
mulher ultrapassou a idade de procriar, não governa mais
os negócios públicos mas ascende ao mais elevado grau da
hierarquia social e faz parte do conselho supremo. Êste
desempenha altas funções religiosas, a que só têm acesso
os que se submetem a uma iniciação (21). Os iniciados têm
o direito de oferecer sacrifícios às divindades e aos espíritos
dos antepassados; apagam as máculas rituais, amaldiçoam
os maus, sendo temível sua maldição. Determinam a data
da circuncisão e da itwika. Cabe-lhes distribuir a justiça
pois admite-se que estejam livres das paixões e julguem
com imparcialidade. Existe também um conselho de velhas,
detentoras de um poder mágico e encarregadas de zelar
pelos costumes e de punir os jovens delinqüentes. Homens
e mulheres de idade representam um papel essencial nas
cerimônias de iniciação. Os velhos são considerados “ Santos
Homens”, serenos e desprendidos do mundo. Sua influên­

(21) Esta iniciação não é um “rito de passagem” semelhante àquele


a que são submetidos todos os adolescentes numa sociedade. É uma ins­
trução reservada apenas a uma elite. Para aí chegar e se tornar membro
do conselho supremo, é preciso haver atingido um certo estágio da exis­
tência. Ela não revalida a mudança de idade em si.

78
cia depende de suas capacidades, mas suàs posses também
são levadas em conta. De maneira geral, são tidos como
sábios: “ Um bode velho não cospe à tôa”, costumam dizer,
e também: “ Gente velha não mente jamais” . As velhas
desdentadas inspiram grande respeito; julgam-nas “cheias
de inteligência” e enterram-nas de maneira pomposa, em
lugar de abandonar seus cadáveres às hienas.
É graças a sua memória que as pessoas de idade alcan­
çam freqüentemente um estatuto privilegiado. É o que
sucede entre os Miao que vivem em elevada altitude nas
florestas e cerrados da China e da Tailândia. Êsses povos
estavam a caminho de uma cultura bastante desenvolvida
mas sua evolução foi interrompida, devido, provavelmente,
a guerras. A família é de cunho patriarcal: o filho não
deixa a casa paterna antes de completar 30 anos. Em prin­
cípio, o chefe tem direito de vida e de morte sobre todos
os membros da família; na prática, são excelentes as relações
entre pais e filhos que se aconselham reciprocamente. Têm
muitos filhos; os avós cuidam dos netos. Crianças, mulheres
e pessoas de idade são todas muito bem tratadas. Quando
uma das últimas se vê só no mundo, tendo sobrevivido a
todos os seus descendentes, coloca-se sob a proteção do
chefe de uma grande família: é sempre aceita, embora re­
presente um encargo. Acredita-se que a alma dos mortos
vive na casa e a protege, reencarnando-se nos recém-nasci­
dos. O respeito tributado aos velhos está em relação com
o fato de serem êles os transmissores das tradições; sua
memória dos antigos mitos lhes vale um grande prestígio.
São os guias e conselheiros da coletividade. As decisões
políticas são executadas pelos jovens cuja aprovação se
torna, portanto, necessária; mas em geral êles se dobram à
vontade dos anciãos.
O papel da memória é ainda mais evidente entre os
Mende, cuja organização política tem raízes em longínquo
passado. São um povo muçulmano que, em 1931 (22), con­
tava 572 000 membros, habitantes da Serra Leoa. As famí­
lias vivem em regime patriarcal, com várias gerações abri­
gadas sob o mesmo teto. Seu chefe é o homem mais idoso:

(22) Devem ser hoje cêrca de um milhão.

79
à mesa, é o primeiro a ser servido, fazendo a partilha, em
primeiro lugar com os de sua geração. Há duas classes
bem definidas: a classe superior, constituída pelos descen­
dentes dos caçadores e guerreiros que ocuparam inicial­
mente a terra; a ela pertencem os chefes e suas famílias;
os mais idosos são denominados “ os grandes” . A segunda
classe é a dos adventícios e descendentes de escravos. Os
primeiros são donos da terra, transmitida como herança, do
pai para o filho mais velho. Os segundos são meros ocupan­
tes. O proprietário tem direito aos serviços de todos na
casa; êstes executam os trabalhos da fazenda, cultivam
arroz, fabricam óleo de palmeiras, caçam e pescam. Êle
lhes tece as vestimentas. À frente de cada grupo acha-se,
na qualidade de chefe, uma pessoa de idade: não será ne-
cessàriamente a mais idosa mas sim a que exercer maior
influência; poderá ser uma viúva cujo falecido marido tenha
sido dotado de personalidade marcante. Quando o chefe
se torna senil, designa-se um regente, como suplente. So­
mente a memória permite estabelecer a classe a que per­
tence cada indivíduo. Aquele que aspira à chefia deve
conhecer a história do país, as genealogias, as biografias dos
fundadores e de seus descendentes, e este saber lhe é neces-
sàriamente transmitido por seus avós. É nas mãos dêles
que está a tradição, de modo que é sôbre eles que repousa
a organização política. Os Mende, por outro lado, vivem
em estreita intimidade com o espírito dos antepassados mais
próximos: os das duas gerações precedentes. Chamam-nos
de “ avós” e acham que êles participam da vida da família.
Mais próximos dos antepassados que o resto da comunidade,
aos velhos cabe um papel de mediadores entre esta e aquê-
les. É o membro mais idoso da família quem dirige o culto.
É conselheiro muito acatado em questões religiosas, sendo
pronunciada a sua influência em todos os domínios.

É menos importante o papel dos velhos entre os povos su­


ficientemente adiantados para não acreditar na magia e para
fazer pouco caso da tradição oral. É o que acontece entre
os Lepcha do Himaláia: sabem ler e praticam o lamaísmo;
trabalham em plantações de chá, cultivam milho, arroz e
alpiste; criam gado e caçam. Seu padrão de vida é muito
elevado sob o aspecto de alimentação e bebidas. A família

80
é patriarcal e as crianças, muito felizes, são afeiçoadas aos
pais. A idade é reverenciada no seio da família. Em sinal
de respeito, tratam-se as pessoas de uma geração como se
pertencessem à precedente: chama-se os sogros de avô e avó,
aos irmãos e irmãs mais velhos, pai e mãe. Com o mesmo
intuito, qualifica-se alguém de velho. Os filhos cercam seus
velhos pais de cuidados. É muito ditosa a sorte do ancião
que possui numerosos descendentes vivos. Sua saúde e
prosperidade são admiradas: consideram-no uma espécie
de talismã. Levam-lhe presentes, com a esperança de adqui­
rir suas virtudes. Mas se não tiver filhos nem fôrças para
trabalhar, o velho não passará de um restolho: tratam-no,
quando muito, com polidez, mas é encarado como uma
praga. A atitude é idêntica com relação aos dois sexos.
G. Gorer, que conviveu algum tempo com os Lepcha, conta
terem-lhe mostrado um velho muito piedoso porém des­
prezado por não saber ler; não tinha filhos e estava coberto
de feridas. Todo mundo caçoava dele e dizia que faria
melhor se morresse: “ Por que não morre enquanto os eu­
ropeus estão aqui? Poderíam assim assistir a seus fune­
rais . . . ” O único trunfo de que dispõem os velhos nessa
sociedade são os filhos; por si mesmos nada valem.
Já encontramos diversos casos em que os velhos se
achavam no ápice ou no ponto mais baixo da escala social,
dependendo isto de suas capacidades e de sua fortuna.
Os Tai constituem um exemplo eloqiiente de discriminação
devida à riqueza. Trata-se de adeptos do budismo, habi­
tando as fronteiras do Yunan e de Burma. Dividem a exis­
tência humana em quatro períodos; a passagem de um para
o outro é assinalada por um serviço religioso, o Pai. Para
atingir o quarto grau, estando os filhos já criados, é preciso
celebrar o Grande Pai, prolongada cerimônia com acompa­
nhamento de cantos, danças, jogos, procissões e sacrifícios
e que dura pelo menos três dias. Extremamente onerosa,
somente os ricos a podem custear. Dispondo de recursos
para tanto, êles a celebram não uma porém várias vêzes,
o que lhes acarreta um aumento de prestígio. O número
de anos não é suficiente para conferir superioridade social;
mas é venerado o homem que se arruina celebrando doze
vêzes o Grande Pai. Seu título de Paga não lhe traz ne­
nhum poder econômico ou político; porém, ao consumir sua

6 81
fortuna ritualmente, êle se alça até o pináculo da hierarquia
social.
Existem sociedades prósperas e equilibradas nas quais a
idade não constitui nem decadência nem fonte de prestígio.
É o que vamos verificar em três exemplos, muito diferentes
sob outros aspectos.
Os Cuna, cêrca de 25 000, vivem no litoral do Panamá
e em algumas ilhas do Atlântico onde o clima é temperado,
apesar de as aldeias se verem de qunndo em quando var­
ridas pelas marés. Transportam-se em canoas através da
mata virgem. Dotados de excelente saúde, muitos chegam
aos cem anos. Vivem em aldeamentos e trabalham em
grupos; as mulheres labutam nos campos e em casa; os
homens pescam, caçam, derrubam árvores; as colheitas são
abundantes de milho, bananas e cocos e êles comerciam
com êstes produtos. As mulheres guardam o dinheiro com
que os homens compram, entre outras coisas, barcos a
motor; mulheres e crianças usam bonitas roupas; os homens
se vestem à moda européia. Todos êles são muito cuidadosos
com a própria aparência, lavam-se e suas casas e as ruas
de suas aldeias são muito limpas. Sua cultura é bastante
adiantada: cantos, um sistema de cálculo, duas línguas eso­
téricas de uso exclusivo do chefe e dos xamãs, uma escrita
incipiente. A religião é sumária: ligados à saúde do corpo
são venerados somente divindades e espíritos. Os xamãs e
os feiticeiros defendem as pessoas contra as moléstias. As
famílias são conjugais e reunidas num grupo matrilocal en­
cabeçado pelo marido da irmã mais velha. Têm muitos
filhos. Graças a sua excelente saúde, as pessoas de idade,
mesmo quando muito avançadas em anos, continuam a
levar uma existência ativa; as velhas são responsáveis pela
casa e pela venda dos cocos. São os homens que se espe­
cializam nos assuntos religiosos, daí não lhes advindo, en­
tretanto, nenhum prestígio especial. A idade só confere
valor particular quando acompanhada de inteligência e ex­
periência. Obedece-se ao chefe de família, geralmente idoso,
quando êste se mostra capaz. A primeira coisa que se
exige do chefe da aldeia presidente das assembléias é a
instrução: a idade só conta até certo ponto. De um modo
geral, os velhos se acham nas mesmas condições que os
jovens e não suscitam problemas especiais.

82
Os incas tiveram uma grande história. No espaço de
um século, conquistaram e perderam um império. Sua civi­
lização, no entanto, era repetitiva, fundada em tradições
orais. Das civilizações arcáicas, é uma das que melhor co­
nhecemos. Será interessante apurar o lugar ocupado nela
pelos velhos.
Os incas tinham costumes brutais, mas técnicas e uma
organização social notàvelmente desenvolvidas. Os homens
consagravam boa parte de seu tempo à guerra e tratavam os
prisioneiros com grande selvageria. Agricultores notáveis,
sabiam preparar terraceamentos nas encostas das montanhas
e adubavam o solo com guano; cultivavam a batata, o milho
e outros cereais, uma infinidade de plantas; haviam domes­
ticado o lhama e o alpaca, seus rebanhos prosperavam. Guar­
davam os cereais em vastos armazéns. Exploravam minas de
ouro, de prata, de chumbo e de mercúrio. Empreendiam
importantes trabalhos hidráulicos: canais, reservatórios, re­
presas. Seis grandes estradas cortavam seu território; pon­
tes suspensas feitas com cordas eram lançadas sobre os rios.
Construíram magníficos edifícios: cidades, palácios, templos.
O artesanato era muito desenvolvido, sobretudo o do ouro
e da prata. Muito animada a vida econômica: havia feiras
onde os camponeses iam trocar seus produtos. As terras se
achavam divididas em três lotes: um dêles, consagrado ao
Sol, o segundo, pertencente ao Inca e o terceiro, às castas
mais elevadas que o faziam cultivar pelos camponeses.
O aspecto mais digno de nota nesta civilização é a sua
característica de civilização de aproveitamento integral. A
partir dos 5 anos, todos tinham o dever de se tornar úteis.
Os homens dividiam-se em dez classes, as mulheres, noutras
dez; em nove dentre elas, o agrupamento se fazia por idade
e uma reunia todos os enfermos e inválidos. A cada cate­
goria cabiam tarefas próprias e o dever de servir a comu­
nidade da melhor maneira possível. A mais respeitada era
a dos guerreiros, homens de 25 a 50 anos. Estavam a serviço
do rei e dos senhores, sendo alguns dêles enviados para as
minas. Casavam-se por volta dos 35 anos e as mulheres
aos 33. Antes dos 25, deviam obedecer aos pais, prestar-lhes
assistência e servir aos caciques. A partir dos 9 anos, meni­
nas e môças serviam a família, teciam, cuidavam dos re­
banhos.

83
A idade não suprimia a obrigação de trabalhar. Depois
dos 50 anos, os homens ficavam isentos de serviço militar
e de tôdas as tarefas penosas. Deviam, contudo, trabalhar
na casa do chefe e nos campos. Conservavam a autoridade
no seio da família. As mulheres de mais de 50 anos teciam
vestimentas para a comunidade; punham-se a serviço de
mulheres ricas na qualidade de amas, cozinheiras etc. Dos
80 anos em diante, já surdos, a única coisa que sabiam
fazer era comer e dormir. Mesmo assim eram utilizados:
fabricavam cordas e tapetes, guardavam as casas, criavam
coelhos e patos, juntavam folhas e palha. As mulheres te­
ciam e fiavam, guardavam as casas, ajudavam a criar as
crianças e continuavam a servir as ricas; vigiavam as servas
jovens. Nada lhes faltava, quando possuíam campos: caso
contrário, recebiam esmolas. O mesmo ocorria com os ho­
mens: davam-lhes comida e vestimenta, guardavam-lhes as
cabras, tratavam deles quando adoeciam. De um modo
geral, os homens de idade eram temidos, venerados e obe­
decidos. Podiam aconselhar, ensinar, dar bons exemplos,
pregar o bem, ajudar no serviço do culto. Serviam de
guardas para as môças. Tinham o direito de vergastar os
meninos e as meninas que não se mostrassem dóceis.
Os habitantes de Bali não podem ser considerados pri­
mitivos; conheceram durante séculos uma adiantada civi­
lização, que permaneceu livre de qualquer influência estran­
geira, graças ao isolamento da ilha. Os holandeses gover-
naram-na por intermédio da aristocracia que explorava a po­
pulação rural sem lhe modificar a estrutura social nem a
maneira de viver. Uma cultura arcaica aí se manteve até
nossos dias, transmitida por tradição oral, visto não saberem
os balineses nem ler nem escrever. Estamos pois autori­
zados a alinhá-la ao lado das sociedades sem história.
Os balineses plantam arroz, levaram esta cultura a um
grau de perfeição não atingido por nenhum outro povo.
Possuem gado de excelente qualidade, porcos e galináceos.
São variados e abundantes os produtos da terra, os frutos
e os legumes. Vendem-nos nas grandes feiras que se rea­
lizam freqüentemente. As aldeias são bem construídas e
ainda melhor conservadas; muito desenvolvido o artesanato,
assim como a música, a poesia, a dança, o teatro. O povo
respeita a aristocracia que com êle não se mistura. Cada

84
aldeia constitui, pràticamente, uma pequena república. É
dirigida por uma assembléia de que devem participar todos
os homens casados, donos de uma casa ou de um terreno.
Os chefes são geralmente eleitos mas, algumas vêzes, a
hereditariedade influi. Representam na terra a autoridade
dos deuses: controlam as terras, as casas e toda a vida
social. São muito estreitos os laços de cada indivíduo com
a comunidade: a expulsão é o maior castigo que se pode
infligir a um de seus membros. São hospitaleiros e bastante
corteses uns com os outros. Muito inteligentes, têm corpos
elegantes do que são extremamente cônscios: seus gestos
são ponderados e harmoniosos. Afustam-se de boa mente
aos papéis que lhes são atribuídos: criança, adolescente,
mulher, adulto, velho.
Pais e avós acarinham e mimam os filhos. A idade é
respeitada embora não confira nenhuma virtude mágica.
A posição ocupada por cada um nos conselhos eleva-se com
o decorrer dos anos. Todos os meses se reúnem os anciãos
da aldeia e participam de um festim com as divindades.
Próximas dos homens, estas os visitam de bom grado.
A religião dos balineses é sincrética, colhida nas fndias, na
China, em Java e toda impregnada de animismo. Adoram
o Sol, a Lua, a água e todos os princípios da fertilidade.
Criou-se um culto em tômo do arroz. Acreditam na exis­
tência de fantasmas que exercem podêres maléficos sobre
os vivos.
Conta-se em Bali que, outrora, numa aldeia perdida nas
montanhas, os velhos eram sacrificados e comidos. Chegou
uma época em que já não existia um só e as tradições
estavam se perdendo. Pretendeu-se construir uma grande
sala para abrigar o Conselho. Entretanto, ao se examinarem
os troncos das árvores derrubadas para aquele fim, ninguém
foi capaz de distinguir a parte de baixo da de cima, se
fôsse invertido o sentido das toras, terríveis catástrofes
seriam desencadeadas. Um jovem declarou que saberia
resolver o problema se lhe prometessem nunca mais comer
os velhos. Prometeram. E êle trouxe o próprio avô que
havia escondido, o qual ensinou a comunidade a distinguir
a base da parte superior.
Os habitantes da aldeia protestam afirmando que tal
costume jamais existiu. Seja como fôr, os velhos são muito

85
respeitados em todo o país: isto se dá, em parte, por esca­
parem à decadência senil, graças à existência livre de pri­
vações que puderam levar. Conservam-se cheios de saúde
durante muito tempo; não se apresentam encarquilhados
nem desajeitados; mantêm o domínio do corpo e a facili­
dade de movimentos que adquiriram na juventude. Mu­
lheres de 60 anos e até mais conservam uma bela silhueta
e a fôrça necessária para transportar sôbre a cabeça pesa­
dos potes d’água e cestas de frutas de 40 a 50 libras (20
a 25 quilos). Só deixam de trabalhar quando atacados
por graves enfermidades; consideram a ociosidade perni­
ciosa para sua saúde física e moral e propícia à investida
de forças sobrenaturais. A atividade das mulheres chega
até, pelo contrário, a aumentar com os anos; podem-se ver
algumas, com mais de 60 anos, dirigindo a casa e executan­
do pessoalmente a maioria das tarefas domésticas. Os ho­
mens idosos trabalham pouuco, discutem e mascam betei,
mas são-lhes atribuídas numerosas obrigações: dirigem a
associação da aldeia, são médicos, contadores de histórias,
ensinam arte e poesia aos jovens. Encarregam-se, também
com freqüáncia, de levar os patos aos campos. Desempe­
nham relevante papel nas cerimônias religiosas. Há homens
e mulheres muito idosos que são excelentes dançarinos.
Entram em transe e pronunciam oráculos. É muito impor­
tante o papel tanto de homens como de mulheres pois as
distinções de sexo são abolidas pela idade. São consultados
a propósito de tudo. Quando se tornam muito velhos e in­
capazes, passam a ser chamados avô e avó. Pelo fato de
serem desdentados, consideram-nos próximos das crianças;
admite-se que reencarnarão dentro em breve sob a forma
de um recém-nascido. Perdem, então, tôda influência mas
continuam a ser bem tratados e alimentados. Mesmo quan­
do fraco e impotente, o velho pode ser sacerdote de um
templo; mas terá, neste caso, um assistente mais jovem e
sua função se torna puramente honorífica.
Não parecem ser temidos. Todavia, Ranga, a feiticeira
devoradora de crianças, aparece nas representações de peças
mágicas, sob a forma de uma velha de seios caídos, coberta
de cabelos brancos que lhe descem até os pés. É perso­
nificada por um velho ator: graças à idade, êle está imuni­
zado contra o espírito maléfico da feiticeira.

V 56
No que diz respeito à condição dos velhos, os mate­
riais que tive a minha disposição, não me permitiram iden­
tificar um fator a que os etnólogos atribuem enorme im­
portância: a organização social. Certas comunidades cons­
tituem hordas, bandos, agrupamentos pouco estruturados.
Mas quando os clãs ou as tribos se fixam em determinado
território — significando isto que a sociedade se torna
agrícola — surge com freqüência a necessidade de deter­
minar com precisão as diferentes linhagens a fim de definir
os direitos de sucessão, os intercâmbios matrimoniais, as
relações entre indivíduos. A linhagem nos faz retornar ao
ancestral, é por ele legitimada e constitui seu prolongamento.
Os ancestrais não são relegados ao passado; a comunidade
— família, clã, tribo — a que pertence a terra, abrange
tanto os vivos como os mortos; alicerça misticamente seus
direitos sobre os dos mortos de quem se considera herdeira.
Admite-se, por vêzes, a reencarnação do ancestral na pessoa
de um recém-nascido, seu descendente, de modo que as
novas gerações revivescem as antigas. Não se pratica o
culto dos ancestrais em todas as sociedades de linhagem:
todavia, é isto cpie ocorre na maioria dos casos. O ante­
passado é um espírito benévolo que reside debaixo do teto
de seus descendentes ou que, pelo menos se lhes mostra
propício quando recebe o culto que lhe é devido. Cabe
ao homem de idade dirigir as cerimônias e os sacrifícios
executados em sua honra. Achando-se mais próximo do
ancestral que os jovens, também destinado a se tornar den­
tro em breve um ancestral, é-lhe atribuído um caráter
sagrado. Sua estirpe nele se encarna e é graças a êle que se
podem estabelecer relações corretas com as outras estirpes:
é o símbolo e o artífice da ordem. Existe, por conseguinte,
nestas sociedades, uma imagem bem determinada do velho,
sendo-lhe reconhecido oficialmente um estatuto. Ao passo
que nas hordas e nos bandos — tal como em nossas socie­
dades industriais modernas — esse estatuto é contingente.
Tanto varia de grupo para grupo, como no interior do
próprio grupo.

Percebe-se a necessidade de evitar qualquer simplifi­


cação no que diz respeito à condição do velho nas socie­
dades primitivas. Não é verdade que em tôda a parte se

87
“ sacuda o coqueiro”; também não é justo alimentar uma
imagem idílica de seu destino. Êste se explica pelos fatores
que indicamos de passagem e dos quais devemos agora es­
clarecer o papel e as relações.
É mais que evidente o fato de contar o velho com
melhores possibilidades de sobrevivência nas sociedades
ricas do que nas pobres, sedentárias mais do que nas nôma­
des. Para as sedentárias só se propõe o problema da ali­
mentação; para as nômades existe além disto o do transporte,
talvez ainda mais difícil. Mesmo quando desfrutam de
certo bem-estar, só o conquistam graças a incessantes des­
locamentos; não podendo as pessoas de idade acompanhá-
-los, são abandonadas. Nas sociedades agrícolas uma abun­
dância igualmente relativa teria bastado para alimentá-las.
Todavia, a situação econômica não constitui um fator abso­
lutamente dominante: trata-se, em geral de uma opção
efetuada pela sociedade e que pode ser influenciada por
diferentes circunstâncias. O fato é que, não obstante a
rudeza de sua existência, os Chukche do interior dão um
jeito de levar os velhos quando transferem seus acampa­
mentos. Em compensação, sociedades agrícolas que não
podem ser incluídas entre as mais deserdadas, deixam seus
velhos morrerem de inanição, sem que se altere sua indi­
ferença.
Poder-se-ia supor que a magia e a religião interviessem
em favor dos velhos nas sociedades menos prósperas. Isto,
entretanto, não acontece. Precisamente pelo fato de vive­
rem na penúria, entre elas não se desenvolve quase nenhuma
cultura religiosa. A magia, em tais casos, não constitui um
“conhecimento das coisas” mas sim um conjunto de grossei­
ras receitas, monopolizadas pelos xamãs. Êstes, quando
velhos, são respeitados, mas a velhice não confere podêres
mágicos. Também pode acontecer que exista uma religião,
servindo esta, entretanto, apenas para ratificar e sacralizar
a tradição imposta pela necessidade; com um só gesto, a
comunidade instaura os costumes imprescindíveis a sua so­
brevivência e os justifica ideologicamente. Foi o que vimos
entre os Narta; em Narayama, 0 ’Rin julga estar obedecen­
do à vontade dos deuses.
A proteção mais eficaz deriva do amor dos filhos por
seus velhos pais. Roheim salientou a correspondência entre

SS
a felicidade da primeira idade e a da última. Ninguém
ignora a importância que tem no desenvolvimento ulterior
de sua personalidade a maneira como é tratada uma crian­
ça. Carente de alimento, de proteção e de ternura, ela
cresce cheia de rancor, de mêdo e até de ódio; quando
adulta, suas relações com os demais são agressivas e não
cuidará de seus velhos pais quando êstes se tornarem in­
capazes de cuidarem de si mesmos. Ao contrário, quando
os pais alimentam convenientemente e dão carinho a seus
filhos, fazem deles criaturas felizes, expansivas, benevolen­
tes e nas quais se desenvolvem sentimentos altruístas: serão
especialmente apegadas a seus ascendentes, reconhecem e
cumprem seus deveres para com êles. Em todos os casos
por mim examinados — em número muito maior que os
aqui citados só encontrei um exemplo de crianças felizes
transformarem-se em adultos cruéis para com seus velhos
pais: é o dos Ojibwa. Enquanto os Yakute e os Aíno cuja
infância é maltratada, se mostram selvagemente descuidados
de seus anciãos, os Yahgan e os Aleúta, que vivem em
condições quase idênticas mas entre os quais a criança é
soberana, veneram os seus. Entretanto, os velhos são vítimas
freqüentes de um círculo vicioso: uma penúria excessiva
leva os adultos a alimentarem mal as crianças, a se descui­
darem delas. Observemos também que o amor filial assume
a forma que lhe é imposta pelo costume e pela religião.
O filho demonstra respeito e afeição pelos pais, cumprindo
da maneira mais escrupulosa possível as cerimônias no de­
correr das quais êles são sacrificados.
Os velhos poderíam contar com uma sobrevivência se
conservassem a capacidade de trabalho. Mas se tiverem
sido mal alimentados, mal cuidados e desgastados pelo tra­
balho, tornar-se-ão muito cedo impotentes. Neste caso tam­
bém se estabelece, muitas vezes, um círculo vicioso e, para
êles, nefasto.
Nas comunidades pobres, o velho raramente possui bens
que lhe permitam bastar-se a si mesmo. A propriedade
privada não existe entre os caçadores-coletores: nem sequer
armazenam alimentos. Entre os pastores e os agricultores,
ela é, freqüentemente coletiva: o indivíduo possui apenas
os frutos do trabalho realizado por êle próprio ou por suas
mulheres. Quando sobrevive a elas, quando se tornam im­

59
potentes e êle próprio já não pode trabalhar, ou quando
a tradição lhe proíbe um labor reservado ao outro sexo,
êle se encontra totalmente desprovido. O chefe de família
é, às vezes, senhor de seu rebanho, de sua terra; mas quan­
do suas forças decaem, os herdeiros lhe arrebatam as pro­
priedades e chegam a desembaraçar-se dele para se torna­
rem mais depressa os proprietários. Só encontramos dois
casos em que os homens de idade conservam suas proprie­
dades: entre os Chukche do interior e entre alguns rarís-
simos Chukche do litoral que haviam tido relações comer­
ciais com os brancos.
Pode-se concluir que a opção mais habitual das socie­
dades, tanto agrícolas como nômades, cujos recursos são
insuficientes, é o sacrifício dos velhos.
Quanto à maneira pela qual êstes se submetem a tal
destino, ignora-se a verdade. Aos informantes, aos socio-
lógos agrada afirmar que perecem alegremente: invoquei
testemunhos literários que permitem pô-lo em dúvida.
Quando uma sociedade goza de certa margem de se­
gurança, pode-se supor a priori que sustente seus velhos:
os adultos têm interesse em garantir seu próprio futuro.
O encadeamento das circunstâncias atua em sentido favo­
rável, em lugar de constituir um círculo vicioso: os filhos
são bem tratados e tratarão igualmente bem aos pais; a
alimentação e a higiene convenientes protegem o indivíduo
contra uma decrepitude precoce. A cultura se desenvolve
e, graças a ela, as pessoas idosas conseguem adquirir gran­
de influência. A magia passa a ser então um sistema de
pensamento que se aproxima da ciência.
Os primitivos reconhecem uma “vocação mágica” aos
indivíduos marcados por alguma singularidade: aleijados,
criminosos etc. A velhice também constitui uma categoria
à parte. Mas é sobretudo por sua memória que os velhbs
se revelam indispensáveis neste setor. Êste fato é bem
evidenciado pela lenda balinesa que relatei: privada da
tradição, a coletividade se tornaria incapaz de exercer suas
atividades. Estas não requerem apenas técnicas que pode-
riam ser reinventadas pelos adultos: devem atender a pres­
crições rituais que não se acham, no presente, inscritas nas
coisas, mas que são impostas pelo passado e conhecidas

90
somente pelos anciãos. É sempre possível construir alguma
coisa com troncos de árvores: mas se estes não forem dis­
postos de uma certa maneira, não especificada pela prática,
desencadear-se-ão catástrofes. É impossível lançar flechas
com eficácia quando não se conhecem as encantações que
as conduzem ao alvo. Êste segredo pertence aos velhos
que só o transmitem com grande prudência. Vimos de que
maneira os velhos Lelê se asseguram da dependência da
aldeia: só comunicam seu saber o mais tarde possível.
Sentindo-se necessário, o velho se torna perigoso, pois
tem o poder de desviar o conhecimento mágico em proveito
próprio. Sua ambivalência tem ainda outra causa: estando
próximo da morte, êle se acha também próximo do mundo
sobrenatural. O pensamento dos primitivos hesita neste
ponto. Salvo no caso de crianças muito pequenas, a morte
nunca lhes parece natural. Mesmo na mais avançada idade,
ela resulta sempre de algum malefício (23). Sabem, entre­
tanto, perfeitamente, que o velho deverá em breve morrer,
tanto que alguns o denominam “um quase morto” . Já está
começando a se libertar da condição humana: é um fan­
tasma em sursis, imunizado contra os fantasmas. O relacio­
namento com o ascendente morto é considerado ambiva­
lente: em muitas sociedades, é êle encarado como um an­
cestral que deseja o bem de seus descendentes. Para todas,
é um fantasma e, como tal, temido. Quase em tôda parte
atribui-se aos fantasmas, todo o mal que sucede ao indivíduo
e ao clã. É incerto o seu tempo de sobrevivência: dissipam-
-se ao cabo de um lapso mais ou menos longo e dêles
nada resta. Enquanto subsistem, porém, é preciso tentar
conquistar-lhes as boas graças por meio de ritos e de sacri­
fícios, ou, pelo menos, procurar proteção contra êles. Em
todas as situações em que podem se mostrar ameaçadores
— passagem de um grupo para outro, de uma idade para
outra, mácula proveniente de uma infração ritual — somente
por um velho poderão ser exorcizados. Tendo sido transfe­
rido do mundo profano para o sagrado, é o velho dotado de
poderes análogos aos do fantasma que êle próprio virá a
ser dentro em pouco.

(23) Exceto quando, entre os Navajo, um ancião “ esgotou sua vida” .

91
E é assim que o ancião inspira ao mesmo tempo res­
peito e medo. Nas sociedades em que a magia se encon­
tra mais próxima da feitiçaria que da ciência, onde os
fantasmas são muito temidos, o que prevalece é este último
sentimento. É o que possibilita a ascensão de homens
idosos a altas posições e lhes dá meios para tiranizarem os
jovens. Todavia, a atitude não é a mesma com relação ao
“grisalho” e com relação ao homem muito entrado em
anos. A longevidade inspira às vêzes, admiração. É a prova
de que a pessoa soube levar a vida de maneira sábia,
constituindo, então, um exemplo. Para conseguir resistir
a todas as provações naturais e sobrenaturais, é preciso ser
dotado de singular virtude mágica. Todavia, quando chega
a decrepitude, muitos julgam que essa virtude se debilita
como as outras faculdades e o mêdo já não protege o in­
divíduo . Outros admitem, ao contrário, que o poder mágico
aumenta incessantemente com os anos. Ainda neste caso
são possíveis duas atitudes. O terror que inspira quando
vivo ou, preventivamente, na sua qualidade de futuro fan­
tasma faz com que o velho seja tratado de maneira res­
peitosa, mesmo numa fase de extrema impotência. Ou então,
apressam-se em deter a escalada que o toma cada vez mais
perigoso, tanto no presente quanto no futuro: matam-no e
destroem seu cadáver. Nas ilhas Trobriand, na Polinésia,
e em certos recantos do Japão, os adultos tinham por
costume comer os velhos que atingiam certa idade; acre­
ditavam estar assim assimilando sua sabedoria e, ao mesmo
tempo, impedindo-os de se tornarem, primeiro, feiticeiros
e, em seguida, adivinhos demasiadamente poderosos.
Na qualidade de sacerdote ou de oficiante, o ancião
não tem ambivalência. Seu papel é positivamente da mais
alta importância. É, mais uma vez graças a sua memória
que êle se vê qualificado. Por seu intermédio se transmi­
tem as cerimônias, ritos, danças e cantos indispensáveis à
celebração do culto. Êle os ensina aos demais mas se
vê designado de modo especial para os executar êle mesmo,
devido ao seu saber. Além do motivo já apontado, é êle
o intermediário entre êste mundo e o sobrenatural.
Na qualidade de detentor das tradições, de intercessor,
de protetor contra as potências sobrenaturais, o homem de
idade garante, através do tempo e no momento presente,

92
a coesão da comunidade. A êle cabe a função de nela
integrar os recém-nascidos, escolhendo-lhes um nome. Tam­
bém pode suceder, quando a comunidade é dotada de uma
organização política complexa, que seja êle o incumbido
de lhe garantir o funcionamento: somente êle sabe de cor
as genealogias, o que lhe permite atribuir a cada indivíduo
e a cada família o lugar que lhes é devido.
O conjunto de serviços prestados pelos velhos, graças
ao conhecimento das tradições, lhes vale, geralmente, além
do respeito, apreciável prosperidade material. Recebem
presentes como recompensa pelos serviços prestados. Im­
portância especial é atribuída aos que acolhem neófitos, a
quem transmitem seus segredos. Está aí a mais segura fonte
de riqueza individual. Só aparece nas sociedades suficiente­
mente prósperas para desenvolverem uma cultura e com
indivíduos também por outros motivos, cercados de grande
prestígio.
Diminui porém a influência das pessoas idosas nas
sociedades ainda mais desenvolvidas, onde se dá menos cré­
dito aos fantasmas e até mesmo à magia: já não se tem
tanto mêdo dos “ quase mortos” . O prestígio dos velhos
repousa, então, na contribuição cultural positiva que tra­
zem. Êste prestígio se reduz nas comunidades em que a
técnica se dissocia da magia e, de maneira ainda mais acen­
tuada, naquelas que conhecem a escrita.
A sociedade harmoniosamente equilibrada assegura aos
velhos um lugar decente, confiando-lhes tarefas adequadas
a suas forças. Não mais os distingue, no entanto, com nenhum
privilégio.
A velhice não tem nem o mesmo sentido nem as mesmas
conseqüências para os homens e para as mulheres. Apresenta
para estas uma vantagem especial: após a menopausa, a mu­
lher se torna assexuada, assemelha-se à menina impúbere e,
como esta, encontra-se liberada de certos tabus alimentares.
São levantadas as interdições que sobre ela pesavam devido
à nódoa mensal. É-lhe permitido tomar parte nas danças,
beber, fumar, sentar-se ao lado dos homens. Os fatôres que
militam a favor do velho macho também intervém para lhe
assegurar certos benefícios. Seu papel cultural, religioso, social
e político é de grande relevância, sobretudo nas sociedades

93
matrilineares. Nas outras, reconhece-se o valor de sua expe­
riência. Os poderes sobrenaturais a elas atribuídos podem
proporcionar-lhes prestígio mas são também passíveis de
se voltar contra elas. Seu estatuto, de um modo geral, per­
manece inferior ao dos homens. São mais negligenciadas;
abandonam-nas com mais facilidade.
Em muitas sociedades, homens e mulheres idosos estão
em estreita relação com as crianças. Existe uma certa ana­
logia entre a impotência de um lactente e a de um decrépito,
analogia esta salientada na epopéia dos Narta, onde se
conta que os velhos eram atados a berços. A criancinha
mal está emergindo dos limbos e o velho, prestes a nêle
mergulhar; entre os Navajo, o bebê que mal começa a
viver e o velho que já quase não vive morrem sem ressen­
timentos e não se transformam em fantasmas. Na prá­
tica, todos êles são bocas inúteis e bagagens incômodas:
existem tribos paupérrimas, na maioria nômades, afeitas
tanto ao infanticídio quanto ao extermínio de velhos. Êste
último costume aparece, às vêzes, sem o primeiro mas não
o inverso, pois a criança representa o futuro e tem priori­
dade sôbre o velho, mero restolho. São ambos parasitas, o
que chega a ocasionar eventuais rivalidades nas situações
de maior penúria: as crianças furtam os quinhões dos velhos.
Mas quando cercados de prestígio, êstes se assenhoreiam de
boa parte dos alimentos, graças aos severos tabus alimen­
tares. Netos e avós vêem-se, freqüentemente, em estreita
associação: pertencem simbolicamente à mesma classe de
idade; a educação dos netos é confiada aos avós aos quais
prestam serviços. Na criança repousam as esperanças do
porvir; o velho, ancorado no passado e detentor da sabe­
doria, está incumbido da formação de herdeiros que, graças
à memória, hão de lhe garantir a sobrevivência, por m eio.
do culto dos antepassados ou gerando mulheres nas quais
êle irá se instalar para renascer. Esta ligação consolida a
unidade da comunidade através dos tempos. Na prática,
liberado das tarefas dos adultos, o velho dispõe de tempo
suficiente para dedicar-se aos jovens, os quais, por sua vez,
têm ocasião de prestar a seus avós os serviços de que êstes
necessitam. Êste intercâmbio de favores é acompanhado
de relações lúdicas: devido a sua inadequação prática e
ao fato de serem indivíduos marginais, isentos portanto de

94
muitas obrigações sociais, crianças e velhos se distanciam
da seriedade dos adultos: divertem-se juntos, participam
de jogos, desafiam-se uns aos outros.
Entre os primitivos, o velho constitui realmente o
Outro, com tôda a ambivalência acarretada por semelhante
termo. Sendo Outra, a mulher é tratada nos mitos mas­
culinos, a um tempo como ídolo e espantalho. Por outras
razões e de maneira diversa, o velho nessas sociedades cons­
titui um super-homem e um sub-homem. Impotente e inú­
til, êle é ao mesmo tempo intercessor, mágico e sacerdote:
acha-se aquém ou além da condição humana e, com fre-
qüência, nas duas situações simultâneamente.
Como em todas as sociedades, essas atitudes são vividas
de maneira singular e contingente. O destino das pessoas
idosas depende em boa parte de suas capacidades e do
prestígio e das riquezas que essas capacidades lhes trou­
xeram. A sorte dos privilegiados difere da sina vulgar.
Existe igualmente uma diversidade de tratamentos, segundo
o grupo e as famílias. Teoria e prática nem sempre se con­
jugam: a velhice pode ser ridicularizada em particular e
receber demonstrações públicas de atenção e respeito. É
mais encontradiça a situação oposta: os velhos são honrados
verbalmente e, na prática, deixados ao deus-dará.
O fato mais importante e que precisa ser assinalado é
que não é jamais o velho quem conquista seu estatuto:
êste lhe é outorgado. Demonstrei no Segundo Sexo que,
sempre que as mulheres adquirem grande prestígio graças a
suas faculdades mágicas, é na realidade aos homens que o
devem. É válida a mesma observação para os velhos com
relação aos adultos. Sua autoridade se baseia no temor
ou no respeito que inspiram no dia em que os adultos saco­
dem êste jugo; os anciãos não contam com mais nenhum
trunfo. É o que acontece com freqüência ao entrarem os
primitivos em contato com a civilização dos brancos. Os
Zanda, os Aranda já não monopolizam as mulheres. Muitos
jovens, como os Lao da África têm abandonado suas aldeias
onde cuidavam dos velhos pais, para se dirigirem às cidades
em busca de empregos. Os jovens Lelê libertaram-se do
jugo dos anciãos convertendo-se ao cristianismo e passando
a trabalhar para os europeus.

95
A autoridade dos velhos continua a se afirmar quando
o conjunto da comunidade pretende manter suas tradições
através deles. O destino dos velhos é decidido pela cole­
tividade e de acordo com as possibilidades e os interesses
da mesma: êles se submetem a sua sina, mesmo quando
julgam ser os mais fortes ( 24).

Embora sumário, êste estudo é suficientemente para


demonstrar até que ponto a condição do velho depende do
contexto social. Sobre êle se exerce um destino biológico
que acarreta fatalmente uma conseqüência econômica: tor­
na-se improdutivo. Sua involução, entretanto, é mais ou
menos precipitada, segundo os recursos da comunidade: a
decrepitude começa em alguns, aos 40 anos, em outros,
aos 80. Por outro lado, são possíveis algumas opções, quan­
do uma sociedade é relativamente próspera: para um homem
de idade, é muito diferente ser encarado como um fardo
incômodo ou ver-se integrado numa comunidade cujos mem­
bros decidiram sacrificar até certo ponto suas riquezas para
lhes garantir a velhice. Não é apenas sua situação material
que está em jôgo, mas também o valor que lhe é atribuído:
tanto pode ser bem tratado e desprezado, como bem trata­
do e venerado ou temido. Êste estatuto depende dos obje­
tivos visados pela coletividade. Já afirmei que a palavra
declínio sé tem sentido com relação a uma determinada
meta de que nos aproximamos ou nos afastamos. Quando
um grupo busca exclusivamente a subsistência de cada dia,
tornar-se uma bôca inútil significa declinar. Mas quando,
misticamente ligado a seus antepassados, êle aspira a uma
sobrevivência espiritual, o grupo passa a encarnar-se no
velho, que pertence ao mesmo tempo ao passado e ao
além, chegando mesmo, neste caso, a extrema decadência
física a ser considerada como o ponto culminante da vida.
Êste apogeu é situado, na maioria das vezes, na idade “ gri-

(24) Simmons parece dizer o contrário, mas isto não se dá, na


realidade. Demonstra que, tendo sido estabelecido um estatuto, certos
velhos conseguem explorá-lo melhor que outros em seu benefício: empe­
nham-se em trabalhar, encontram meios de se tornarem úteis etc. Mas o
estatuto mesmo é sempre estabelecido pelo conjunto da comunidade.

96
salha” , sendo a decrepitude considerada um declínio; mas
nem sempre.
O que define o sentido e o valor da velhice é o sen­
tido atribuído pelos homens à existência, é o seu sistema
global de valores. E vice-versa: segundo a maneira pela
qual se comporta para com seus velhos, a sociedade des­
venda, sem equívocos, a verdade — tantas vezes cuidadosa­
mente mascarada — de seus princípios e de seus fins.
São muito diversas as soluções práticas adotadas pelos
primtivos com relação aos problemas suscitados pelos ve­
lhos: matam-nos, deixam-nos morrer, concedem-lhes um
mínimo vital, proporcionam-lhes um fim confortável, ou
mesmo cumulam-nos de honrarias e respeito. Veremos que
os chamados povos civilizados lhes aplicam os mesmos tra­
tamentos; só é proibido o assassinato, quando não disfar­
çado.

7 97
CAPÍTULO III

A VELHICE
NAS SOCIEDADES HISTÓRICAS

N*> ® nada fácil estudar a condição dos velhos através


dos tempos. Os documentos de que dispomos fazem raras
alusões a êste assunto: o ancião é incluído no conjunto
dos adultos. As mitologias, a literatura e a iconografia
transmitem uma imagem da velhice que se altera segundo
as épocas e os lugares. Mas, até que ponto se aproxima
esta imagem da realidade? É difícil determiná-lo. Tra­
ta-se de uma imagem de contornos pouco definidos, con­
fusa e contraditória. Ê importante observar, nos diversos
testemunhos invocados, os dois sentidos totalmente dife­
rentes da palavra velhice: é uma certa categoria social, mais
ou menos valorizada, segundo as circunstâncias, mas é
também, para cada indivíduo, um destino singular: o seu.
Compartilham do primeiro ponto de vista legisladores e
moralistas; o segundo, é o dos poetas. Colocam-se, na maio­
ria das vezes, em posições radicalmente opostas. Moralistas
e poetas pertencem sempre às classes privilegiadas, sendo
esta uma das razões que invalidam em parte suas palavras:
costumam dizer apenas verdades incompletas e mentem,
com freqüência. Contudo, por serem mais espontâneos, os
poetas são também mais sinceros. Os ideólogos criam con­
cepções da velhice conformes aos interesses de sua classe.
Impõe-se imediatamente outra observação: é impos­
sível escrever-se uma história da velhice. A história implica
uma circularidade. A causa que produz determinado efeito
é, por sua vez, por êle modificada. A unidade diacrônica

98
produzida por tal encadeamento é dotada de certo sentido.
Pode-se falar, a rigor, numa história da mulher pois esta
constituiu o símbolo e a ocasião de certos conflitos mas­
culinos : entre sua própria família e a do marido, por
exemplo. Na aventura humana, ela jamais foi sujeito mas
constituiu pelo menos pretexto e móvel; sua condição evo­
luiu, obedecendo a uma linha caprichosa porém significa­
tiva. O velho, como categoria social, nunca interferiu no
curso do universo ( x). Permanece integrado na coletividade
e dela não se distingue enquanto conserva suas faculdades:
é um adulto do sexo masculino, de idade avançada. Surge
como um outro a partir do momento em que perde essas
faculdades, tornando-se então, e de maneira muito mais
radical que a mulher, um puro objeto. A mulher é neces­
sária à sociedade, ele não serve para nada: nem moeda
de câmbio, nem reprodutor, nem produtor; é apenas um
fardo. Já vimos que seu estatuto lhe é outorgado; jamais
provoca, portanto, a menor evolução. Costuma-se dizer que o
problema dos negros é um problema de brancos; o da
mulher, um problema masculino. Ela, entretanto, luta para
conquistar a igualdade, os negros se batem contra a opres­
são; os velhos não dispõem de nenhuma arma e seu pro­
blema consiste estritamente num problema de adultos ativos.
Estes decidem, segundo seu próprio interesse prático e ideo­
lógico, qual o papel que convém atribuir aos anciãos.
Mesmo em sociedade mais complexas que as que aca­
bamos de examinar, esse papel poderá ser ocasionalmente
importante quando, para se defenderem da turbulência dos
jovens, os homens maduros buscarem apoio na velha gera­
ção. Tendo sido investida de tal poder, esta recusará vê-lo
retirado de suas mãos e dele se servirá para tentar retê-lo
quando lhe pretenderem arrebatar. Confrontam entos desta
ordem encontram eco em todas as mitologias, crônicas e
literaturas. Os anciãos acabam fatalmente vencidos pois
^constituem uma minoria ineficaz cuja força advém, exclu­
sivamente, da maioria que deles se utiliza. Visto constituir
um problema de poderio, a velhice só se propõe como
problema no seio das classes dominantes. Até o século

(1) Bem entendido, individualmente falando, mulheres e homens


têm desempenhado papéis ativos.

99
XIX nunca se faz referência aos “velhos pobres” ; muito
pouco numerosos, pois a longevidade só era possível entre
as classes privilegiadas, não representavam absolutamente
nada. Tanto a história como a literatura os ignoram por
completo. A velhice é desvendada, até certo ponto, apenas
nas classes privilegiadas.
Evidencia-se ainda outro fato: trata-se de um problema
masculino. Como experiência pessoal, as mulheres são
atingidas pela velhice na mesma proporção que os homens,
e talvez até mais, já que vivem mais tempo. Todavia,
quando passa a constituir objeto de especulação, é à condi­
ção do elemento masculino que se dedica uma real atenção.
Deve-se isto, em primeiro lugar, ao fato de serem êles que
se exprimem nos códigos, nas lendas e nos livros; mas é
sobretudo porque a questão do poder só interessa ao sexo
forte. Os jovens macacos o arrebatam ao velho macho:
somente êle é morto, as macacas velhas são poupadas.
As sociedades que têm história são dominadas pelos
homens; as mulheres jovens e as velhas podem se desen­
tender na vida privada por questões de autoridade, mas
na vida pública é idêntico o estatuto de todas: permane­
cem eternamente na minoridade. A condição masculina,
pelo contrário, é modificada com o decorrer do tempo; o
rapaz se torna adulto, cidadão, e, de adulto, passa a ser
velho. Os machos formam classes de idades cujas fronteiras
naturais são imprecisas mas que poderíam ser bem delimi­
tadas pela sociedade, como acontece atualmente no caso
da aposentadoria. Passar de uma classe para outra tanto
pode representr uma promoção como um rebaixamento.
Biologia e etnologia demonstram que a contribuição
positiva trazida à coletividade pelas pessoas idosas deriva
de sua memória e de sua experiência: esta, no campo da
repetição, multiplica a capacidade de executar e de julgar.
O que lhes falta é fôrça e saúde, além de uma certa capa­
cidade de adaptação às novidades e, com ainda maior razão,
a de criar ou de inventar. Pode-se presumir, a priori, que
os adultos devam apoiar-se nêles nas sociedades fortemente
organizadas e repetitivas. Nas sociedades fragmentadas,
nos períodos conturbados ou revolucionários, a juventude
assumirá o comando. O papel desempenhado na família
pelos homens de idade é um reflexo do que lhes é confe-

100
rido pelo Estado. Examinando a condição dos velhos através
dos tempos, obteremos uma confirmação deste esquema.

Limitar-me-ei, nas próximas páginas, a estudar as so­


ciedades ocidentais. Impõe-se, entretanto, uma exceção:
a China, devido à condição singularmente privilegiada que
criou para os velhos. Em nenhum outro país a civilização
se manteve, durante tantos séculos, tão estática e tão forte­
mente hierarquizada quanto ali. Civilização hidráulica, exi­
gia um poder centralizado e autoritário. Dadas as condi­
ções geográficas e econômicas, para a população não se
propunha a questão de evoluir mas sim de sobreviver; a
administração se limitava a conservar o que sempre havia
existido. Estava nas mãos de letrados cujas responsabili­
dades e qualificação iam aumentando com os anos: no pi­
náculo, encontravam-se automaticamente os mais antigos.
Tão eminente posição refletia-se no seio da família. Tendo
regulamentado de maneira rigorosa as relações entre infe­
riores e superiores, Confúcio modelou segundo a imagem
da coletividade, o microcosmos que havia dado a esta como
base, isto é, a família. A casa tôda devia obediência ao
homem mais velho. Suas prerrogativas não sofriam con­
testação pois a cultura intensiva praticada na China requer
mais experiência que fôrça. Os costumes não permitiam
a introdução de nenhum princípio de contradição pois a
mulher estava submissa ao marido e não tinha nenhum
recurso contra êle. O pai tinha direito de vida e de morte
sobre os filhos e, com bastante freqüência, suprimia as
filhas recém-nascidas ou as vendia, mais tarde, como escra­
vas. O filho devia obedecer ao pai, o irmão mais môço
ao mais velho. Os jovens se desposavam sem se terem
jamais visto pois os casamentos eram decididos a sua re­
velia permanecendo o casal subordinado aos ascendentes
do marido. A autoridade do patriarca não decrescia com a
idade. A promoção trazida pelos anos beneficiava até mesmo
à mulher, que era, no entanto, duramente oprimida: quan­
do velha, seu estatuto era muito mais elevado que o dos
jovens de ambos os sexos. A educação dos netos estava-lhe
inteiramente confiada, e ela os tratava em geral com grande
rudeza. Desforrava-se nas noras da opressão que sôbre ela
exercera sua própria sogra. O respeito estendia-se, fora

101
dos limites da família, a todas as pessoas de idade, havendo
até quem se pretendesse mais velho apenas para ter direito
a tais atenções. O qüinquagésimo aniversário marcava
época na vida de um homem. Todavia, depois dos 70 anos,
os homens se afastavam de seus cargos oficiais a fim de se
prepararem para a morte. Conservavam a autoridade po­
rém entregavam ao filho mais velho o governo da casa.
Venerava-se em sua pessoa, o ancestral a quem dentro em
breve se prestaria um culto. A autoridade dos anciãos era
suportada com resignação ou com desespêro — como o
revela a literatura, sobretudo as antigas óperas — pelos
jovens cujo único recurso para dela se libertarem era o
suicídio, bastante freqüente, especialmente entre as môças.
Confúcio justificava-a moralmente, assimilando a velhice à
posse da sabedoria: “Aos 15 anos, dedicava-me ao estudo
da sabedoria; aos 30, nela me confirmei; aos 40, já não
tinha dúvidas; aos 60, nada mais no mundo me poderia
chocar; aos 70, podia seguir os ditames de meu coração
sem transgredir a lei moral.”
Na realidade, eram raros os anciãos visto não serem
as circunstâncias propícias à longevidade. Esta, para o
taoísmo, constituía por si mesma uma virtude. A doutrina
de Lao-tsé situa aos 60 anos o momento em que o homem
é capaz de libertar-se de seu corpo através do êxtase e de
se tornar um santo. Para o neotaoísmo chinês, o fim su­
premo do homem é a busca da “longa vida”, a que se refe­
rem todos os pais do taoísmo. Tratava-se de disciplina
quase nacional. Podia-se alcançar, através da ascese e do
êxtase, uma santidade capaz de proteger o indivíduo con­
tra a própria morte. A santidade era a arte de não morrer,
a posse absoluta da vida. A velhice representava, portanto,
a vida sob sua forma suprema. Se se prolongasse suficien­
temente, admitia-se que acabaria em apoteose. Tchuang-
-tsé evoca velhas crenças ao contar que, “ cansados do
mundo após mil anos de vida, os homens superiores se
elevam à categoria dos gênios” .

A literatura chinesa apresenta, por vêzes, jovens que


deploram a opressão a que estão sujeitos. A velhice, entre­
tanto, jamais é apresentada como um flagelo. Em compen­
sação, no Ocidente, o primeiro texto a ela consagrado e

102
de que temos notícia, apresenta-nos um quadro bastante
sombrio. Encontra-se no Egito e foi escrito 2 500 anos antes
de Cristo por Ptah-hotep, filósofo e poeta:
“Quão penoso é o fim de um ancião! Vai dia a dia
enfraquecendo: a vista baixa, as orelhas se tornam surdas;
a força declina; o corpo não encontra repouso, a bôca se
torna silenciosa e já não fala. Suas faculdades intelectuais
se reduzem e torna-se-lhe impossível recordar hoje o que
foi ontem. Doem-lhe todos os ossos. As ocupações a que
outrora se entregava com prazer só as realiza agora com
dificuldade e desaparece o sentido do gôsto. A velhice é a
pior desgraça que pode acometer um homem. O nariz se
obstrui e nada mais se pode cheirar.”
Tão desolada enumeração das enfermidades da velhice
será reiterada em tôdas as épocas e é importante salientar
a permanência do tema. O sentido e o valor atribuídos à
velhice variam com as sociedades mas nem por isto deixa
ela de permanecer como um fato trans-histórico, suscitan­
do um certo número de reações idênticas. Orgânicamente
falando, ela representa um declínio insofismável e, como
tal, a maioria dos homens a tem receado. Já os egípcios
acalentavam a esperança de vencê-la. Pode-se ler num
papiro: “ Início do livro sobre a maneira de transformar
um homem velho em jovem.” Recomenda-se a ingestão de
glândulas frescas retiradas de animais jovens. Êste sonho
de rejuvenescimento há de perdurar até nossos dias.

É muito conhecido o respeito tributado pelo povo ju­


daico à velhice. Qual será a parte correspondente ao mito
e qual a da realidade nas narrativas reunidas na Bíblia
a partir do século IX? É difícil responder. Elas se inspi­
raram ao mesmo tempo em antigas tradições orais e na
situação do momento. Naquela época, os hebreus se acha­
vam instalados na Palestina; os nômades se haviam tornado
agricultores, transformara-se a velha tradição tribal, familiar
e patriarcal. Existiam classes sociais: os ricos eram ao
mesmo tempo juizes, detentores do poder administrativo,
senhores do comércio e prestamistas. Os autores dos livros
sagrados conservavam a nostalgia do passado e nele pro­
jetavam os valores que teriam gostado de ver reconhecidos

103
por seus contemporâneos. Embora se encontrem entre
eles vestígios de uma antiqüíssima filiação matrilinear o que
realmente descreveram foi uma sociedade patriarcal onde
os grandes antepassados, os quais atribuíam idades fabulo­
sas, eram os eleitos e os arautos de Deus. Viam na velhice
a recompensa máxima da virtude. “ Se observardes os pre­
ceitos que vos dito — declara Deus no Deuteronômio —
vossos dias e os dias de vossos filhos na terra prometida
pelo eterno a vossos pais serão tão numerosos quanto os
dias do céu o serão sôbre a terra” . Lê-se no Livro dos Pro­
vérbios: “ O temor do Eterno aumenta os dias mas serão
abreviados os anos dos maus.” E continuam: “ Os cabelos
brancos são uma coroa de honra; é no caminho da Justiça
que se pode encontrá-la.” Abençoada por Deus, a velhice
impõe obediência e respeito e, como prescreve o Levítico:
“ Levantar-te-ás diante dos cabelos brancos e honrarás a
pessoa do velho” . Os mandamentos de Deus ordenam aos
filhos que honrem seu pai e sua mãe. Quando um filho
recusa a obedecer ao pai e tendo sido vãs todas as ten­
tativas para obrigá-lo a ceder, o pai deverá, diz o Deute­
ronômio, conduzi-lo à presença dos anciãos da cidade: “ E
todos os homens da cidade o apedrejarão e ele morrerá” .
Gostaríamos de saber se tais castigos foram realmente apli­
cados. Mas podemos, com certeza, concluir, pelo fato de
terem sido prescritos, que a docilidade dos filhos era me­
nos absoluta que na China: a sociedade era organizada de
maneira muito menos rigorosa e permitia maior grau de
individualismo. Os anciãos tinham uma ação política. Se­
gundo o Livro dos Números, Jeová teria dito a Moisés:
“ Reúne setenta anciãos de Israel. Levarão contigo o en­
cargo dêste povo e já não o carregarão sozinho” . Ignora-se
se tal conselho realmente foi dado. A Bíblia também relata
que Roboão foi castigado por não ter dado ouvidos aos
anciãos que lhe recomendavam generosidade para com Israel:
as tribos oprimidas se desligaram da casa de Davi. Todas
essas tradições foram, sem dúvida, invocadas para apoiar
o costume. Na Palestina, como em tôdas as sociedades
agrícolas adiantadas, os anciãos representavam, certamente,
um papel de grande relevo na vida pública e, enquanto
conservasse algum vigor físico e moral, era o homem mais
idoso da família quem a governava. Josefo, sob Antíoco

104
o Grande (223-181), fala de uma Gerúsia presidida pelo
Sumo Sacerdote e dominada pela aristocracia sacerdotal:
o Sinedrim. Parece que êste só apareceu nos últimos séculos.
Era composto de 70 membros: os príncipes dos sacerdotes
(sumos sacerdotes afastados de seus cargos), os represen­
tantes das 24 classes sacerdotais dos escribas, dos doutôres
da lei e dos anciãos do povo. Era o supremo tribunal que
proclamava as leis e intervinha nas relações com os domi­
nadores romanos. Controlava tudo que se relacionasse com
a religião, isto é, pràticamente tudo. Os anciãos tinham,
portanto, um papel importante. Todavia, para ser consi­
derado perfeito, o juiz não devia ser nem muito jovem, nem
velho demais. Só existe na Bíblia um episódio em que à
velhice se associa o vício e não a virtude; encontra-se em
obra composta bastante tarde — entre 167 e 164 a.C — o
Livro de Daniel (2). É a célebre história de Susana e dos
dois velhos. Juizes respeitados pelo dono da casa, apaixo-
naram-se os dois pela beleza de sua esposa. Esconderam-se
uma tarde no jardim para surprendê-la no banho. Ela re­
cusou atender a seus desejos e, em represália, eles afirma­
ram tê-la visto deitar com um rapaz. Suas afirmações en­
contraram crédito e Susana foi condenada à morte. Mas
Daniel, muito jovem ainda, conseguiu salvá-la, interrogando
separadamente os dois juizes cujos testemunhos foram con­
traditórios, sendo êles, então condenados ( 3). Talvez hou­
vesse naquela época uma certa dose de ressentimento contra
os velhos, alguns dos quais se prevaleciam de sua fortuna,
de suas elevadas funções, do respeito que os cercava.
O Eclesiastes — obra enigmática, de data incerta e
composta de partes discrepantes — contrasta com o resto
do pensamento judaico. Encontra-se aqui um eloqüente
exemplo da mencionada oposição entre a atitude oficial da
sociedade com relação à velhice e as reações espontâneas
que inspira os poetas. Entre as desgraças que afligem o
homem, o Eclesiastes aponta a idade avançada e descreve
a decrepitude com amarga crueza, a darmos crédito à in­
terpretação do exegeta judeu Maurice Jastrow:

(2) Êste episódio foi suprimido na Bíblia protestante. Certamente


por causa do imenso respeito com que os puritanos cercaram os velhos.
(3) Livro de Daniel, cap. X III.

105
“Lembra-te de teu criador durante os dias de tua ju­
ventude, antes que cheguem os maus dias e que se apro­
ximem os anos em que dirás: Não encontro aí nenhum
prazer. Antes que se obscureçam o sol e a luz, a lua e as
estréias, e que retornem as nuvens após a chuva (redução
da acuidade visual, extinção das forças intelectuais); tempo
em que os guardiões da casa (os braços) se põem a tremer,
em que os homens fortes (as pernas) se curvam, em que
aqueles que moem (os dentes) se detêm por estarem dimi­
nuídos; quando os que olham pelas janelas (os olhos) se
acham obscurecidos e os dois batentes da porta se fecham
para a rua (distúrbios da digestão e da micção); quando
amortece o ruído do moinho (surdez) e nos levantamos ao
canto dos passarinhos (sono perturbado, madrugar); quan­
do enfraquecem as filhas do canto (distúrbios da elocução),
quando tememos o que é elevado (falta de fôlego nas
subidas), quando nos assaltam terrores pelo caminho, quan­
do floresce a amendoeira (cabelos brancos) e se torna
pesado o gafanhoto (diminuição da potência gen ital)...
antes que se desprenda o cordão prateado (desvio da co­
luna vertebral), que se quebre o vaso de ouro, se parta o
balde na fonte e quebre a roda na cisterna (insuficiência
do fígado e dos rin s). . . ”

Muito poucas informações temos a respeito do lugar


ocupado pelos velhos entre os outros povos da Antiguidade.
Diante de tal penúria, não podemos deixar de recorrer às
mitologias, embora seja extremamente incerta a relação
entre os costumes e a fábula: quase tôdas tratam da ve­
lhice sob o aspecto de conflito de gerações. A civilização
mais antiga de que temos notícia é a de Sumer e de Alcad.
Para ela, existiam, no começo, primeiro Apsu, deus da água,
e Tiamet, deusa do mar. De sua união nasceram Mumur
(o marulho) e depois Lahmu e Iahamu; unindo-se, geraram
êstes a Ansshar, o céu, e Kishar, a terra, os quais, por sua
vez, geraram Anu, Bel-Marduk, Ea e outras divindades da
terra e dos infernos. Êsses jovens deuses tumultuosos per­
turbaram o repouso do velho Apsu que se queixou a Tiamet
e ambos combinaram aniquilar seus descendentes. Porém
Ea se apoderou de Apsu e de Mumu. Tiamet deu à luz,
então, enormes serpentes e grande quantidade de monstros

106
cujo comando entregou a Quingu, um dos deuses seus
aliados. Marduk, nomeado deus pelos outros deuses, desa­
fiou Tiamet para um combate e matou-a (4). Em seguida,
organizou o mundo e criou a humanidade. Seqüência aná­
loga é encontrada entre os fenícios, segundo as pranchetas
de Ras-Shamas. Filon de Biblos, no fim do século I de
nossa era, transmitiu-nos um eco destas crenças. Conta de
que maneira Kronos matou seu pai Epigeios, cujo nome
passou a ser depois Uranos.
O esquema se ajusta ao que encontramos em diversas
religiões: existe, na origem do mundo, uma divindade ura-
niana, princípio único, sempre longínquo e abstrato, sem
relação com os homens que não lhe prestam culto. O Sa­
grado desce, em seguida, numa pluralidade de divindades
concretas, diretamente relacionadas com o mundo e ado­
radas pelos homens através de sacrifícios, de orações e
cerimônias. É muito significativo, entretanto, o fato desta
passagem assumir aqui o aspecto de uma filiação, ficando
o ancestral relegado para longe do mundo que seus des­
cendentes governam.
Nem para os gregos Uranos constitui uma mera enti­
dade abstrata: surge como o grande fecundador mas tam­
bém como um pai desnaturado e destruidor. Há uma luta
entre gerações que termina com o triunfo dos jovens. Esta
mitologia sofreu a influência fenícia: gostaríamos de saber
a que realidade correspondia. Encontramos, tanto na his­
tória como na mitologia grega, inúmeros ecos dos conflitos
em que se defrontaram jovens e velhos, filhos e pais. Teriam
eles ocorrido nas épocas em que se formaram os mitos?
Deveremos supor terem sido os velhos dotados de um
prestígio de que foram mais tarde despojados? Ou teriam
os jovens, em cujas mãos estava na realidade o poder,
reformulado e enriquecido os mitos que justificavam sua
supremacia? Não dispomos de elementos que nos permitam
uma escolha entre estas hipóteses. Limitar-nos-emos a exa­
minar os dados que se acham a nossa disposição, tanto no
domínio dos mitos como no dos fatos.

(4) Êste crime simboliza sem dúvida a transição de uma sociedade


matriarcal para uma sociedade patriarcal.

107
Segundo Hesíodo, antes de tudo existiu Caos, depois
Gaia e Eros. Gaia “gerou um ser igual a ela própria, Ura-
nos” , capaz de cobri-la por completo. Dos amplexos de ambos
nasceu a segunda geração, a dos Uranidas, que compreen­
dia: l.°, os doze Titãs e Titanidas; 2.°, os três Ciclopes;
3.°, os três Hecatonchiras, cada um dêles dotado de cem
braços e de cinqüenta cabeças: Gaia odiava Uranos devido
a sua inesgotável fecundidade e êste, por sua vez, odiava
os próprios filhos. Escondia-os, logo que nasciam, no seio
de Gaia, isto é, sepultava-os no seio da terra. Esta, revol­
tada, criou um metal duro e cortante, o aço, com o qual
fêz uma foice e ordenou aos filhos que castrassem o pai.
Kronos foi o único que obedeceu, castrando Uranos com
a foice. Os gregos descrevem, portanto, o grande ances­
tral Uranos como um procriador descomedido, um soberano
tirânico e odioso. Tendo-lhe arrebatado o poder, seu filho
Kronos desposou Réa, sua irmã. Tiveram muitos filhos.
Também êle, entretanto — talvez por ter castrado o pai —,
desconfiava dos próprios filhos, detestava-os e os devorava.
Réa ocultou seu último filho, Zeus, e em seu lugar entregou
a Kronos uma grande pedra enfaixada. Depois de crescido,
Zeus entrou em luta contra o pai. Obrigou-o a vomitar os
filhos que havia engolido; declarou guerra tanto a Kronos
como aos Titãs, seus irmãos. Foi auxiliado nesta luta pelos
Cem-Braços. Depois de terrível refrega — a Titanomaquia
— os Titãs sucumbiram.
No entanto, o sangue vertido por Uranos quando mu­
tilado, havia fecundado Gaia que deu à luz os Gigantes.
Eram estes meio-irmão de Kronos, pertencendo, portanto,
à mesma geração, e se ergueram contra Zeus. Píndaro foi
o primeiro a narrar esta Gigantomaquia da qual Zeus saiu
vencedor. Venceu também a Tifeu.
Existem inúmeras versões dêsses acontecimentos mí­
ticos. O interesse maior reside na idéia geral que inspirou
tais narrativas; à medida que vão envelhecendo, acentuam-
-se a maldade e a perversão dos antigos deuses. Pelo me­
nos torna-se cada vez mais intolerável sua maldade tirânica
que acaba desencadeando uma revolta que os destitui do
poder. A partir de então, quase todos os deuses que reinam
sobre o mundo são jovens, salvo algumas poucas exceções:
Caronte, o barqueiro dos Infernos, representado pelos gre-

108
gos sob os traços de um velho hediondo ou, na melhor
hipótese, taciturno. E algumas divindades marinhas: Nereu,
o “velho do mar”, filho de Ponto e de Géa, bom e silencioso.
Seu irmão Forcis, o “velho que governa as vagas” , no dizer
de Homero; Proteu, o “velho do mar”, filho de Urano e
de Tétis. Também se podem citar as três Gnéas, horríveis
megeras que só possuíam um dente e um ôlho, os quais
passavam de uma para a outra.
Podemos colher algumas outras indicações sobre a ati­
tude dos antigos gregos a respeito da velhice nas poucas
narrativas míticas onde ela transparece. A lenda de Filemon
e de Baucis apresenta um casal idoso: usa generosa hospi­
talidade, sua fidelidade conjugal lhes valem uma longa e
venturosa velhice e uma metamorfose que lhes perpetua o
amor. A recompensa é devida a suas virtudes e a longevi­
dade representa aqui uma vitória contra a morte, vitória,
aliás, precária: torna-se necessário um milagre de Zeus
para os imortalizar. O mito de Tirésias estabelece uma
relação — que encontraremos com freqüência — entre a
idade, a cegueira e a luz interior. Tendo a cólera de Hera
cegado Tirésias, Zeus, para compensá-lo, lhe concedeu o
dom da profecia, de modo que pudesse dar a tôdas as
perguntas respostas infalíveis. Foi também assim que os
gregos imaginaram o velho Homero cego: como no caso do
profeta, é tanto maior a inspiração do poeta, quanto menos
existência tiver para êle o mundo exterior. As lendas mais
significativas são as de Titon e de Eson. A primeira revela
que a decrepitude constituía aos olhos dos gregos um
flagelo pior que a própria morte. Quando Aurora obteve
a imortalidade para o marido, esqueceu-se de pedir que
lhe fosse dada também a eterna juventude; debalde ali-
mentou-o com ambrosia: a decrepitude atingiu-o. Miserável
e solitário, a tal ponto êle se encarquilhou e secou que os
deuses misericordiosos o transformaram em cigarra. A his­
tória de Eson, rejuvenescido às portas da morte pelas artes
mágicas de sua nora Medeia, dá vazão ao velho sonho de
eterna juventude. Equivale à de Titon: de nada vale a
imortalidade sem a juventude; ao contrário, eternizar a ju­
ventude constituía para o homem a suprema ventura. Exis­
tiam, para os gregos, diversas fontes de Juvência, sendo a
de Caratos, perto de Náuplia, a mais famosa de tôdas.

109
Qual era, de fato, a condição dos velhos na Grécia
arcaica? Não há nada que nos leve a crer que as pessoas
idosas fôssem eliminadas, ao passo que, mesmo em tempos
bastante próximos e não somente em Esparta, havia o
costume de se desfazerem das crianças mal conformadas
ou indesejáveis. De acôrdo com a semântica, a idéia de
honra esteve ligada à de velhice, na remota antiguidade.
Gera, gerôn: palavras que significam velhice, também têm
o sentido de privilégio da idade, direito de ancianidade,
deputação. Examinando em seu estudo Kouroi et Kouretes,
os vestígios da civilização grega arcaica, Jeanmaire chega
à mesma conclusão: as antigas instituições relacionavam
a idéia de honra à velhice. Nos tempos heróicos o rei, chefe
da Cidade, contava com a assistência de um conselho de
anciãos, aos quais, entretanto, segundo Homero, só cabia
um papel consultivo. O rei lhes entregava também, por
vêzes, a tarefa de distribuir a justiça: nem sempre se saíam
bem e seus equívocos desencadeavam catástrofes naturais.
Segundo Homero, no entanto, a velhice está associada
à sabedoria e se encarna em Nestor, o conselheiro supremo;
o tempo lhe conferira experiência, autoridade, a arte de
falar. Vemo-lo, contudo, fisicamente diminuído e não é
êle quem assegura aos gregos a vitória. Somente um homem
em plena fôrça da idade seria capaz de inventar um ardil
mais eficaz que tôdas as táticas tradicionais. Ulisses su­
planta, e muito, a Nestor, assim como a seu pai Laerte,
que lhe cede a realeza. Também Príamo se vê eclipsado
por Heitor. Podemos, então, deduzir que foi mais hono­
rífico que eficiente o papel desempenhado na Grécia pelos
velhos, durante o período feudal. Era indispensável o vigor
físico de Ulisses para expulsar os pretendentes que a fra­
queza forçava Laerte a suportar. Como veremos quando
estudarmos a Idade Média, sempre que a propriedade não
se acha garantida por instituições estáveis, sendo, ao con­
trário, merecida e defendida pela fôrça das armas, os velhos
se vêem relegados à sombra: o sistema repousa nos jovens,
são eles que dispõem do poder real. Por outro lado,
Homero zomba dos demogerontes de Tróia. Evoca o “ li­
miar maldito da velhice” . Num hino cuja autoria a tra­
dição lhe atribui, Afrodite afirma: “Também os deuses
odeiam a velhice”.

110
No século VII, a colonização de um nôvo mundo provo­
ca uma revolução econômica. Os bens de raiz já não são
a única fonte de riqueza: esta pode decorrer também da
indústria, do comércio, da moeda. Altera-se o caráter da
aristocracia. Prospera a classe subalterna dos demiurgos —
artesãos, trabalhadores independentes. Uma plutocracia
domina a Cidade, a realeza é abolida ou conserva apenas
um caráter honorífico. A Cidade é pequena e pouco povoa­
da: de 5 000 a 10 000 cidadãos, aos quais se somam os
escravos e os metecas que não tinham direitos políticos.
Sua constituição assumiu diversas formas que se alteravam
à medida que os ricos iam enriquecendo ainda mais, os
pobres empobrecendo e se exacerbava a luta de classes.
Fôsse ela uma oligarquia, uma tirania, ou uma democracia,
a sua frente havia sempre um Conselho. É muito significa­
tivo o fato de terem sido sempre Gerúsias os conselhos
das oligarquias — forçosamente autoritárias e conservado­
ras, visto que uma minoria de ricos pretendia manter-se
no poder. Ingressava-se tarde na Gerúsia e aí se perma­
necia até a morte. Assim era em Éfeso, em Crotona, em
Creta, em Cnida, e em muitos outros lugares. Havia 90
gerontes na Élida e 80 em Corinto. As oligarquias vedavam
aos jovens o acesso às magistraturas importantes. Tratava-se
de manter a ordem estabelecida: temia-se a ambição dos
homens jovens, seu espírito de iniciativa.
Em muitas cidades antigas, a velhice constituía, por­
tanto, uma qualificação. Mas não era apreciada como avatar
individual — e disso os poetas são testemunhas.
Entre os gregos, observa Burckhart, a “velhice ocupa
um lugar inteiramente especial no conjunto de queixas ins­
piradas pela vida terrestre”. Na Jônia hedonista e volup­
tuosa, Minermo, sacerdote em Colofos, exprime, 630 anos
antes de Cristo, os sentimentos de seus concidadãos: canta os
prazeres, a juventude, o amor; e detesta a velhice: “Que
vida! qual o prazer sem Afrodite de ouro?” Lastima Titon:
“ Desgraçado! feriram-no os deuses com eterno mal!” Repete
incessantemente que preferiría morrer a envelhecer: “ Se­
melhantes às folhas que a estação florida aos raios do sol
faz crescer, durante breve instante gozamos da flor de nossa
juventude e já as negras Parcas nos cercam, trazendo uma,
a velhice dolorosa, a outra, a morte. Depressa apodrece o

111
fruto da juventude; não dura mais que o clarão de um dia.
E, atingido este término, a vida se torna pior que a morte.
Uma vez escoada a hora da juventude, até a filhos e ami­
gos causa piedade aquele que outrora fôra belo.” E ainda:
“ É melhor morrer que viver, quando desaparece a moci­
dade. Pois muitas desgraças se apossam da alma humana:
destruição do lar, miséria, morte dos filhos, enfermidades;
a ninguém deixa Zeus de enviar abundantes desgraças.”
Mais ainda: “Tendo chegado a velhice dolorosa que torna
o homem feio e inútil, os maus cuidados já não lhe deixam
o coração e os raios do sol não lhe trazem nenhum recon-
fôrto. Às crianças parece antipático e as mulheres o des­
prezam. Foi assim, cheia de dores, que a velhice foi dada
por Zeus.” Desejava não chegar a envelhecer: “ Quem me
dera encontrar, aos 60 anos, sem moléstias e sem tristeza,
a Parca e a morte!” Com Arquilóquio, sacerdote de Tasos,
surge um tema que continuará a ser explorado nos séculos
seguintes: namorado despeitado (°), prediz êle à cruel ama­
da a decadência futura: “Já tua pele estiola e a triste
velhice aí cava seus sulcos.” Lamenta-se Teógnis de Megara:
“Ai de mim! Ai juventude! ó velhice que tudo altera!
Aproxima-se esta, aquela se afasta!” A exemplo de Miner-
mo, cuja origem jônia compartilhava, Anacreonte cantou
no século VI o amor, os prazeres, o vinho, as mulheres;
envelhecer é perder tudo que constitui a doçura da vida;
descreve, cheio de pesar, seu reflexo no espelho: cabelos
baços, têmporas grisalhas, dentes esburacados e lastima-se
pela proximidade da morte. O otimismo de Píndaro soa
muito mais acadêmico. Fôra tôda a vida um oportunista.
Embora tebano, pregou a colaboração quando da batalha de
Salamina para, em seguida, cantar a libertação de sua pá­
tria. Rico e famoso, fazia da própria pessoa o mais alto
juízo e interessava-lhe antes suscitar inveja que piedade.
Declarou que a velhice, para êle, era fonte de calmas satis­
fações: agradecia aos deuses por lhe haverem concedido
glória e fortuna.
Como já vimos, à atitude dos poetas diante da aventura
individual, que é para êles a velhice, contrapõem-se as5

(5) Ele havia cantado a beleza de Neubudé, filha de um dos notá­


veis, e pretendia desposá-la, mas o pai se opôs ao casamento.

112
ideologias que a têm como categoria social. É assim que
Sólon rejeita a melancólica imagem que Minermo faz da
senectude. Retruca-lhe afirmando ser desejável viver até
os 80 anos: “Ao avançar em anos nunca deixo de aprender.”
Isto se explica, pois seu sistema de valores era muito dife­
rente. A voluptuosidade e os prazeres a seus olhos pouco
contavam. Seu problema era político. Pretendia arbitrar
entre os Eupátridas e os Tetas: na realidade, êle favoreceu
a aristocracia. Como todos os conservadores, contava apoiar-
-se nos anciãos e concedia-lhes um lugar importante na
constituição da Cidade.

Entre os privilegiados, a condição dos velhos se acha


ligada ao regime da propriedade. Quando esta deixa de
se basear na fôrça para ser institucionalizada e firmemente
garantida pela lei, a pessoa do proprietário já não é essencial
e se torna indiferente; está alienado a sua propriedade e
esta é nêle respeitada. Suas capacidades individuais não
são levadas em conta mas sim os seus direitos. Pouca im­
portância terá assim o fato de ser êle velho, débil ou mesmo
impotente. Como a riqueza aumenta, via de regra, com os
anos, quem ocupa o ápice da escala social são os mais
idosos e não os jovens. Foi o que aconteceu nas cidades
gregas a partir do momento em que as suas instituições
se tornaram estáveis. Entre os Eupátridas, confundiram-se
os interesses da propriedade e os da velhice.
Sabe-se do prestígio que envolvia a velhice em Esparta.
A casta dos militares — conhecidos como os “ iguais” , em­
bora houvesse entre êles enormes desigualdades de fortuna
— era mantida por uma multidão de não-cidadãos: hilotas
e periecos. Constituía um vasto acampamento onde os
adultos levavam até os 60 anos uma vida de caserna; tanto
os homens como as mulheres estavam sujeitos a implacável
disciplina. Quando liberados de suas obrigações militares,
os homens acima dos 60 anos se viam como que predesti­
nados a manter a ordem a que tinham estado sujeito: tôda
a casta dos exploradores se achava interessada em conservar
o status quo, particularmente os grandes proprietários. Esta
sociedade oligárquica, opressiva e cristalizada, devia forçosa-
mente confiar grande parte do poder aos cidadãos simul­
tâneamente mais idosos e mais ricos entre os quais eram

8 113
escolhidos os 28 membros da Gerúsia. Reuniam-se quando
solicitados pelos éforos — cinco magistrados mais jovens —
que desta forma exerciam sôbre êles um certo contrôle;
não obstante isto, o poder estava em suas mãos. Os velhos
encarregados da formação da juventude inculcavam-lhe o
respeito pelos cabelos brancos.
Em Atenas, as leis de Sólon entregavam todo o poder
às pessoas de idade; o Areópago, ao qual era confiado o
governo dos negócios públicos, constituía-se de antigos
arcontes. A velha geração manteve suas prerrogativas en­
quanto o regime se manteve aristocrático e conservador.
Perdeu-as quando Clístenes estabeleceu a democracia. Pro­
curou, entretanto, defender-se. Encontramos nas obras de
Tucídides e de Isócrates ecos de uma luta de gerações.
As pessoas de idade conservavam alguns resquícios do po­
der. Quando filhos eram acusados de mau procedimento
para com seus pais — não prestação de cuidados necessá­
rios, pancadas, ferimentos — os juizes, perante os quais era
apresentada a queixa, deviam contar mais de 60 anos. Era
esta também a idade requerida aos exegetas encarregados
de interpretar o Direito. Por outro lado, reconheciam-se
faculdades sobrenaturais a alguns anciãos de ambos os
sexos. Apareciam por vezes em sonhos, revelavam verda­
des ou forneciam úteis conselhos. Outras vezes, eram-lhes
narrados sonhos e oráculos e êles os interpretavam. Sua
autoridade, não obstante, achava-se bastante enfraquecida
e poucas demonstrações de respeito lhes eram tributadas na
vida particular. Queixa-se Xenofonte: “Quando aprenderão
a respeitar seus maiores, a exemplo dos lacedemônios, esses
atenienses cujo desprezo pelos velhos começa na pessoa dos
próprios pais?” Segundo narrativa feita por Cícero em De
senectude, tendo um velho ateniense chegado atrasado aos
jogos públicos, seus concidadãos se negaram a lhe ceder um
lugar; ergueram-se os deputados da Lacedemônia e o fize­
ram sentar. A Assembléia aplaudiu êste espetáculo, dizendo,
então, um dos espartanos: “Parece que os atenienses sabem
o que devem fazer, mas não querem fazê-lo!” ou, segundo
uma fórmula que ficou célebre como exemplo de seu pro­
verbial laconismo: “ Sabem, mas não fazem.” Esta atitude
se nos afigura, com efeito, desconcertante. Busquemos na
literatura esclarecimentos sôbre o assunto.

114
A tragédia não retrata os costumes com exatidão: por
razões estéticas, sendo todos os seus protagonistas investidos
de grandeza sobre-humana, ela atribui aos velhos magnitude
e nobreza. Entretanto, o desgosto por êles demonstrado
soa com maior sinceridade que os elogios convencionais a
êles dirigidos.

Nós, velha carne, insolvente,


abandonados vela expedição,
permanecemos, guiando
com nossos bordões nossa fôrça pueril;
pois a jovem seiva do coração
quando começa a brotar parece senil;
Ares não tem aí lugar. Que é um velho?
Sua fronte se resseca.
Sôbre três pés êle caminha e,
débil como uma criança,
como um sonho, divaga, em pleno d ia ( <>).

diz o Corifeu no Agamênon de Ésquilo. Em Os Persas,


os velhos se referem, angustiados, a sua barba branca. Es­
creve Sófocles:
“Quando se é velho, extingue-se a razão, a ação se
torna inútil e vãos cuidados nos ocupam.” Mostrou, en­
tretanto, de maneira soberba, a grandeza que se pode asso­
ciar a tal infortúnio. Aos 89 anos, na peça “ Êdipo em Co­
lona, êle retrata Édipo, chegando ao término de sua vida,
mísero e cego vagabundo.

Apiedai-vos do pobre fantasma de Êdipo


Pois êste velho corpo já não é mais êle.

Meu corpo não tem mais a fôrça para caminhar


[sozinho sem alguém que o conduza ( *).

Ainda vibram nêle paixão, ira e ódio contra os filhos


e uma cálida ternura pelas filhas:

( * ) Os versos isolados ou grupos de versos assinalados com


asterisco foram traduzidos por Rolando Roque da Silva.

115
Mesmo morrendo
Não me sentirei desgraçado demais se a meu lado
[ estiverdes.

No entanto, no plano profano, êle é apenas uma sombra


de si mesmo. Não sabe que se transformou em personagem
sagrado; tal como o encarava o público desde que apare­
cia em cena. A beleza da peça deriva do contraste entre a
aparente degradação de Édipo e o caráter sobrenatural a
êle conferido, a sua revelia, pelos deuses. Graças a êle, o
território que o acolhe faz jus aos favores divinos: é um
Redentor e morre numa apoteose. A ambivalência da idade
avançada ie, assim, magnificamente focalizada: fonte de
desgraças, parece lastimável; revestia, entretanto, aos olhos
dos gregos e em certos indivíduos, um aspecto sagrado.
Eurípides, com sua visão pessimista da existência, re­
veste a velhice de sombrio colorido. Em Alcestes, Admeto
censura àsperamente ao pai por recusar-se a morrer em
seu lugar. Exclama, cheio de cólera:
“A lhes darmos crédito, os velhos chamam a morte,
acabrunha-os a idade, já viveram demais. Palavras, somente
palavras! Aproxime-se a morte e já nenhum quer partir,
a idade deixou de pesar” .
Em Hécuba, a velha rainha exige o amparo das outras
prisioneiras:

Vinde, minhas filhas, trazei a velha para a frente da casa.


.. .Vinde tomar-me, carregar-me, ajudar-me; sustentar
[ meu corpo enfraquecido,
E eu, apoiando a mão à muleta de teu cotovelo fletido
Menos lentos meus passos farei.

Amaldiçoa, nas Troianas, sua impotência. Interpela-se


a si mesma: “Inútil moscardo!” Mas também ela, como
Édipo, se reveste de um caráter sagrado. Sua fraqueza
física, seu infortúnio, servem apenas para salientar sua
grandeza sobre-humana.
Em lon, o velho escravo lastima sua dificuldade em
caminhar e Jocasta, nos Fenícios, avança com passos trôpe­

116
gos. Eurípides, entretanto, põe em seus lábios a defesa
da velhice:

Nem tudo, na velhice, é desprezível,


Etéocles, meu filho, a experiência tem algo a dizer,
bem mais sábio que o que dizem os jovens.

Dá, com efeito, excelentes conselhos que não são ouvidos.


Contudo, predomina em Eurípides a visão pessimista
da velhice. Geme o côro: “ Nós outros, os velhos, não pas­
samos de um rebanho, de uma aparência; perambulamos
como imagens de sonho; por inteligentes que nos julgue­
mos, já não nos resta bom-senso.”
O velho, na tragédia, é sujeito: vemo-lo tal como existe
para si mesmo. Ao florescer com Aristófanes, cinqüenta
anos após Eurípedes, a comédia o propõe como objeto. O
público ateniense continuou a vibrar com a grandeza de
Édipo e de Hécuba mas divertia-se a valer assistindo ao
espetáculo de velhos ridículos.
Aristófanes defende em suas comédias teses políticas
e morais: Atenas era, então, governada por Cleon, demagogo
contrário à influência das classes superiores e partidário
de uma política belicista. Prêso às velhas tradições e aca­
tando a aristocracia, Aristófanes detesta Cleon e tôdas as
inovações por êle introduzidas na cidade: o espírito parti­
dário, as denúncias, os processos, a guerra, assim como a
filosofia. A velhice desempenha apenas um papel secun­
dário em intrigas cujo objetivo é denunciar as taras da
época. E assim sendo, é bastante variável sua atitude com
relação aos personagens^ idosos de suas peças.
Sendo conservador, exige respeito para com êles. Em
Os Acranianos embora não lhes dissimule a decadência,
toma o partido dos anciãos contra os jovens: deve-se-lhes
justiça, em nome dos serviços por êles prestados à República.
Põe em seus lábios as seguintes palavras: “ Nós, os anciãos,
os ancestrais, temos queixas a apresentar conira nossos con­
cidadãos. Longe de haver recebido recompensa e trata­
mento dignos de nossos feitos nas batalhas navais, vemo-nos
sujeitos a miserável destino. Em nossa idade, somos por
vós arrastados perante os tribunais; permitis que orado­

117
res ainda fedelhos zombem de nós, quando já nossa surdez
e nossa trêmula elocução nos reduzem a nada. . . Decré­
pitos velhos, permanecemos diante da mesa de pedra, vis­
lumbrando apenas as sombras da justiça” . Estendem-se
em longos e indignados protestos pelo fato de se verem
atormentados pelos jovens advogados e pelos ardis em que
buscam enredá-los.
Aristófanes, entretanto, não hesita em escarnecê-los em
outras peças: a idade constitui para êle um recurso cômico.
Em As Nuvens, um velho solicita a Sócrates a ciência do
raciocínio capcioso que lhe tornará possível livrar-se dos
credores. O público ria dos sofistas mas também ria daquele
aluno caduco demais para aprender. Manda êle o filho
em seu lugar: êste aproveita as lições de Sócrates e surra
o pai, demonstrando-lhe quanta razão tinha em fazê-lo.
Aristófanes inaugura aí o tema, tão repisado a seguir, do
velho surrado e escarnecido.
Em As Ves-pas, Aristófanes fustiga uma instituição por
êle encarada como um flagelo: os processos. O regime
tinha por suspeitos todos os cidadãos ricos ou poderosos e
contra êles movia inúmeros processos. Os juizes eram re­
crutados no seio da coletividade de cidadãos. Cleon havia
estipulado em três óbolos a soma a êles devida por cada
julgamento. Os atenienses de posses não se interessavam
por êste ganho e se negavam a exercer a função. Os heliastas
eram, portanto, gente humilde e os julgamentos refletiam a
mentalidade das classes inferiores. Aristófanes compartilhava
dos sentimentos da classe superior para com êles: pelo
seu gosto, deixar-se-ia de alimentar milhares de juizes inú­
teis, freqüentemente velhos, pois os homens mais jovens
estavam retidos por suas ocupações.
Assim, velhos desprovidos de bens são, no início da
peça, incitadas por Cleon a condenar Laches, por êle acusada
de venalídade e de malbaratamento dos dinheiros públicos:
havia, com efeito, muita solidariedade entre o demagogo
e os juizes. Entre êstes não se encontra o velho Filocleon ( 6),
pois seu filho, Bdelicleon ( 7) o havia trancado para impe­

(6) Êste nome significa: o que ama Cleon.


(7) Êste nome significa: o que detesta Cleon.

118
di-lo de se juntar a eles. Filocleon consegue, entretanto,
fugir e pronuncia um grande elogio dos tribunais, elogio
que é, na realidade, uma sátira. Seu filho replica e convence
os velhos heliastas. Mas não seu próprio pai, obstinado
no propósito de ir julgar. Tranca-o de nôvo e o força a
julgar um processo cujo réu é um cão. Busca, em seguida,
distraí-lo. Sendo mais rico que o pai, leva-o a banquetes.
O velho se embriaga, expõe-se ao ridículo, delira, espanca
os escravos, leva para casa uma bailarina que dança nua
ao som de uma flauta e a acaricia lübricamente. E passa a
noite em danças absurdas. Na peça, o bom senso é encar­
nado pelo jovem. Os velhos heliastas são desconsiderados
em sua qualidade de instrumentos de Cleon.
O mesmo acontece em Lisístrata, peça contra a guerra.
Aristófanes ansiava pela paz entre Atenas e a Lacedemônia,
ao passo que Cleon continuava as hostilidades. Aristófanes
imagina todas as mulheres da cidade encerradas na cida­
dela, com o objetivo de fazer cessar a guerra. Os velhos
aceitam o ponto de vista de Cleon e tentam retomar a
cidadela. Seu belicismo os torna odiosos e êles se cobrem,
além disso, de ridículo: embora impotentes, ficam a perse­
guir as jovens, atraindo os sarcasmos de tôdas elas. Também
em Plutus, Aristófanes faz sua caricatura.
Por que motivo aplaudia-o o público? Era êste cons­
tituído sobretudo de pequenos proprietários que viviam em
suas terras nos arredores de Atenas e que se divertiam vendo
ridicularizados os homens das cidades. Também eles se mos­
travam hostis à demagogia de Cleon. A seus olhos, os an­
ciãos de Atenas, tradicionalmente respeitados e investidos
de certa autoridade, eram culpados de colaborar com seu
inimigo pois o faziam ganhar os processos e apoiavam sua
política de conquista. Por duas vezes, como podemos obser­
var, o homem de idade surge no papel de pai ridículo: com
certeza, os filhos constrangidos a obedecer ao chefe da
família, divertiam-se vendo-o escarnecido.
Aristófanes também fustiga a lubricidade dos velhos,
tema que será incansàvelmente explorado no decorrer de
séculos, especialmente pelo teatro cômico. Por que motivo
há de parecer êste traço tão repugnante ao adulto? Por
ser ainda o velho capaz de fazer amor ou por já não o

119
ser? Surge, no primeiro caso, como um rival temível pela
fortuna e pelo prestígio; além disso, fere o narcisismo dos
adultos, componente muito significativo e quase obrigatório
do amor, mesmo venal: quando dissociado da juventude,
do vigor e da sedução, o ato sexual é reduzido à categoria
de mera função animal; ao prestar-se a êle, a mulher desva­
loriza as carícias de seus parceiros mais jovens. Mas é so­
bretudo o velho libidinoso e impotente que provoca a revolta
dos homens em plena fôrça da idade pois nêle se encarna
o fantasma que obseda até os mais viris. Na opinião dos
psicanalistas, o complexo de castração jamais se vê total­
mente extirpado; o espetáculo de um velho impotente rea­
viva no homem maduro a ameaça que tanto havia assustado
outrora o garoto. Em outras palavras, o macho adulto
jamais se vê isento de ansiedade quanto a seu vigor sexual;
detesta imaginar o dia em que, conservando todos os seus
desejos, êle se vir incapaz de saciá-los. Odeia na pessoa
do velho sua própria condição futura; repudia-a através do
riso; facilmente se convence de que jamais se assemelhará
ao personagem grotesco que está se movimentando no
palco.
Na obra de Aristófanes, encontram-se poucas mulheres
e estas mesmas carecem de relêvo; podemos apontar apenas
algumas alcoviteiras e, na Assembléia das Mulheres, três
velhas em luta para obter as boas graças de um belo jovem.
Cem anos após Aristófanes, obtinha Menandro o favor
do público mostrando-se tão pouco indulgente quanto seu
antecessor com relação à velhice. Em sua opinião, seria
melhor não atingir idade muito avançada.
“Aquele que se atarda demais, morre desgostoso; é-lhe
penosa a velhice, vive na penúria. A girar daqui e dali,
encontra inimigos; conspira-se contra êle. Não se foi em
tempo; não teve uma bela morte ( 8).”
Também êle considera entristecedoras as pretensões do
homem de idade a uma vida sexual. “Não é possível haver
ente mais infeliz que um velho apaixonado a não ser outro
velho apaixonado. Como poderia deixar de ser infeliz aquêle

(8) Fragmentos.

120
que pretende ainda gozar do que já o está abandonando —
se é o tempo a causa de tudo?”
Para êle — e êste tema será com freqüência retomado
— a velhice se apresenta como fôrça maléfica, atuando do
exterior sôbre o indivíduo: “Velhice, inimiga do gênero
humano, és tu que destroes a beleza das formas, que em
inerte massa transformas o esplendor dos membros e a
agilidade em lentidão.”
“ Uma vida longa é coisa penosa. Ó velhice pesada!
Nada trazes de bom para os mortais mas distribuis a man­
cheias dores e males. Não obstante, desejamos todos alcan­
çar-te e nos empenhamos em consegui-lo.”
Encontram-se vários personagens idosos nas comédias
de Menandro que chegaram até nós — em fragmentos
originais ou por intermédio de Terêncio. Em A Samniana
o autor trata do problema das gerações. O “herói positivo”
é Demeas, ancião afetuoso e pródigo, muito apegado ao
filho e cujas ilusões a respeito do mesmo se vão tristemente
dissipando. Conserva-se, entretanto, sereno em meio às
contrariedades. Niceratos, pelo contrário, é um dos ascen­
dentes de uma linhagem de velhos perversos, avarentos e
rudes. Há um casal análogo de velhos no Heauton-timo-
roumenos, retomado e desenvolvido mais tarde por Terêncio.
No Perikeiromené, o velho Pataicos assemelha-se a Demeas:
é sábio, bom, comedido e sensível. Existe, em compensação,
no Theophoroumene, um velho rabugento, Craton; e nos
Epitrepontes, encontramos Smicrines, velho avarento, car-
rancudo, detestável. Menandro levou ainda mais longe que
Aristófanes o personagem do velho ridículo e insuportável,
destinado a conhecer, mais tarde, tão grande voga. Mas
suas opiniões não são rígidas: julgava que a velhice tam­
bém pode vir acompanhada de sabedoria e bondade.

Platão e Aristóteles fizeram reflexões sôbre a velhice,


tendo chegado a conclusões opostas. A concepção de Platão
se acha estreitamente vinculada a suas opções políticas.
Quando escreveu A República a experiência o havia desgos­
tado da oligarquia e da tirania e criticava acerbamente os
homens, os costumes políticos, o espírito público da demo­
cracia ateniense: considerava-a anárquica e censurava-lhe

121
o igualitarismo. Ela não respeitava suficientemente a com­
petência. Apreciava a “democracia” espatana mas lamen­
tava que Esparta escolhesse seus magistrados entre os ho­
mens formados na escola da guerra e não entre os mais
sábios. No seu entender, a Cidade ideal é a que garante
a felicidade do homem; mas felicidade é virtude e a virtude
deriva do conhecimento da verdade. Portanto, somente os
homens egressos da caverna, os que contemplaram as idéias,
se acham qualificados para governar. Só podem ser con­
siderados aptos para tanto, após uma educação que deve
ter início na adolescência para atingir a plenitude da pro­
dutividade por volta dos 50 anos. A partir desta idade, o
filósofo se encontra de posse da verdade, tornando-se guar­
dião da Cidade. O reinado das “ competências” sonhado
por Platão, seria, portanto, ao mesmo tempo, uma geronto-
cracia. Sua filosofia o autorizava a desdenhar o declínio
físico do indivíduo. Com efeito, a verdade do homem, no
seu entender, reside em sua alma imortal, que pertence à
família das idéias: o corpo não passa de aparência. Platão
viu, a princípio, em sua união com a alma apenas um obs­
táculo; admitiu, mais tarde, que a alma possa explorar o
corpo em seu próprio benefício, mas sem ter necessidade
dêle. A degradação provocada pela idade não a atinge,
redundando até a diminuição dos apetites e do vigor do
corpo em maior liberdade para a alma. Quando escreveu
A Repiíblica, Platão era ainda jovem e fêz, pela bôca de
Céfalo, o elogio da velhice: “ Quanto às coisas do espírito,
crescem minhas necessidades e alegrias na proporção em
que enfraquecem os outros prazeres — os da vida corporal” .
E Sócrates acrescenta que o contato com os velhos é ins­
trutivo. É verdade que, como observa Céfalo, a maioria
deles quando se reúnem, expande-se em saudades dos pra­
zeres da juventude e em lamentações a respeito dos ultrajes
que lhes são infligidos pelos parentes. Contudo, lembra que
Sófocles diz, ao falar das coisas do amor: “ Foi com a maior
satisfação que dêle me livrei, como se me houvesse evadido
da casa de um amo loucamente selvagem.” Céfalo aprova
tais palavras: “A velhice. .. faz surgir em nós um imenso
sentimento de paz e liberação.” A concepção espiritualista
aqui expressa contradiz, radicalmente a dos autores satíricos,
no tocante à sexualidade dos velhos: a libido desapare-

122
ceria com a potência sexual; graças a esta harmonia o velho
teria acesso a uma serenidade vedada aos homens ainda
presas de seus instintos. Apesar de inúmeros desmentidos,
esta idéia se perpetuou até nossos dias devido a seu con­
teúdo tranqüilizador: permite-nos pôr de lado a desagra­
dável e inquietante imagem do velho lúbrico.
Uma vez estabelecido o valor da velhice, conclui Pla­
tão: “Aos mais velhos cabe comandar; aos jovens, obe­
decer.” Todavia, ao critério de idade, êle soma o do valor.
Em sua República, os corregedores sob cujo controle se
acham todos os magistrados, contam de 50 a 75 anos. Os
nomofilebros cujo papel é tão importante, têm de 50 a 70
anos. Os homens de mais de 60 anos já não tomam parte
nos cantos e libações dos banquetes. São êles, entretanto,
que os presidem, impedindo os excessos e tecendo considera­
ções a respeito dos assuntos morais que inspiram os cantos.
Aos 80 anos de idade, Platão volta a tratar demorada-
mente do assunto nas Leis: refere-se com insistência às
obrigações dos filhos para com os velhos pais. Devem-se
dirigir a êles com respeito e colocar a serviço dêles tanto
suas riquezas como sua própria pessoa. Presta-se culto aos
antepassados; o futuro ancestral já é sagrado: “Objeto algum
de culto poderemos possuir mais digno de respeito que um
pai ou um avô, uma mãe ou uma avó, cheios de idade.”
A filosofia de Aristóteles o leva a conclusões muito di-
ferentçs. Para êle, a alma não é apenas o puro intelecto.
Até os animais são dotados de uma alma e esta se acha
necessariamente em relação com o corpo; o homem só
existe devido à união dos dois: é ela a forma do corpo,
os males que afligem a êste, atingem todo o indivíduo.
Para que a velhice seja ditosa, o corpo deverá permanecer
intato: “Bela velhice é aquela que tem a lentidão da idade,
livre de enfermidades. Depende ao mesmo tempo das even­
tuais vantagens corporais e do acaso” , escreve êle em sua
Retórica. Na Ética, admite a possibilidade de conseguir o
sábio suportar todas as vicissitudes com equanimidade. Con­
tudo, tanto os bens exteriores como os do corpo são neces­
sários aos do espírito. Em sua opinião, o homem progride
até os 50 anos. É preciso atingir uma certa idade para
alcançar a frenosis, esta prudente sabedoria que nos ensina

123
uma justa conduta, e para acumular experiência, ciência
incomunicável visto ser vivida e não abstrata. Todavia, o
declínio do corpo acarreta a seguir o de tôda a pessoa.
Aristóteles, na Retórica, pinta a juventude com as mais
risonhas cores: entusiasta, apaixonada, magnânima, surgindo
a velhice, sob todos os aspectos, como seu oposto: “Por
terem vivido tantos anos, por terem sido tantas vêzes ilu­
didos, por terem cometido erros e por serem maus, com
tanta freqüência, os negócios humanos, êles não têm certeza
de nada e fazem tudo manifestamente aquém do que teria
sido preciso fazer.” São reticentes, hesitantes, timoratos.
Por outro lado: “Têm mau caráter, porque, no fundo, ter
mau caráter é supor que tudo está pior. Sempre imaginam
o mal, devido a sua desconfiança e são desconfiados devido
a sua experiência da vida” . Falta calor a seus amôres,
tanto como a seus ódios. São mesquinhos, pois a vida os
humilhou. Carecem de generosidade. São egoístas, me­
drosos e frios. Impudentes: desprezam a opinião alheia.
“Vivem mais de recordações que de esperança.” Tagarelas,
passam o tempo a repisar o passado. Suas cóleras são in­
flamadas mas falta-lhes força. Parecem moderados porque
não conhecem desejos, somente interêsses. Vivem para êstes
e não para a beleza. Se não se fecham à piedade, não é
por grandeza de alma e sim por fraqueza. Queixam-se,
já não sabem rir.
O aspecto mais interessante desta descrição, inspirada
não em uma tese a priori mas sim em observações extensas
e pertinentes, é a idéia de que a experiência constitui um
fator de involução e não de progresso. O velho é um homem
que passou tôda sua longa existência a cometer erros e
isto não lhe poderia conferir superioridade alguma sobre
pessoas mais jovens que não acumularam ainda tantos
enganos.
Aristóteles critica, por censeguinte, a Gerúsia de Es-
parta, na sua Política: “ Uma soberania vitalícia para as
decisões importantes constitui instituição bastante digna de
reparos; pois a inteligência tem sua velhice, tal como o
corpo; e a educação recebida pelos gerontes não é de molde
a evitar que sua virtude seja posta em dúvida pelo próprio
legislador.” Acusa-os de se deixarem muitas vêzes corrom­
per e de prejudicar ao interêsse público. Recomenda que

124
se liguem os velhos ao sacerdócio para que só lhes sejam
solicitados sábios conselhos e justas sentenças.
Sua concepção da velhice leva Aristóteles a afastar do
poder as pessoas idosas que são, a seu ver, indivíduos dimi­
nuídos. Por outro lado, à frente da Cidade, sua política —
muito diferente da de Platão — coloca uma polícia e não
intelectuais. O ideal seria que todos os cidadãos fossem
homens de insigne virtude e que cada qual, por seu turno,
governasse e fôsse governado. Êste sonho de perfeição,
entretanto, é irrealizável. Levando-se em conta a realidade,
segundo Aristóteles, a melhor constituição seria aquela que
conseguisse associar a democracia a uma forte dose de oli­
garquia. A mais indicada para exercer o poder seria a
virtude militar de uma classe média a quem caberia a
missão de manter a ordem. Mas os militares são homens
jovens ou em plena fôrça da idade. Não se iria recrutar
entre velhos a polícia de uma Cidade. Aristóteles os afasta
do poder, ao mesmo tempo, por razões psicológicas e por
coerência com suas concepções sociais.

A melancólica atitude dos gregos com relação à velhice


reproduzir-se-á no século I depois de Cristo, em Plutarco.
Tinha êste bastante experiência pess*oal, pois morreu aos
80 anos. Filósofo, moralista e, no fim da vida, extrema­
mente piedoso — era sacerdote em Delfos — é um repre­
sentante do médio platonismo. Todavia, aproxima-se mais,
neste ponto, da severidade de Aristóteles que do otimismo
de Platão. Compara a velhice a um triste outono (9). Es­
creve: “ Ora, dir-se-ia que o outono é a velhice do ano,
ao cabo de sua revolução; pois a umidade ainda não chegou
e o calor já se foi ou perdeu sua energia e — indício de
frieza e de secura — torna os corpos propensos e dispostos
às doenças. Ora, por que deverá a alma participar e se
ressentir das disposições do corpo e por que, estando os
espíritos cristalizados e lassos, se ofusca a faculdade divina­
tória e se embaça, tal espelho coberto de névoa?”

(9) O que deixa de ser insólito, porque, para os Antigos, era esta
a estação da abundância: Pomifer au tomnus.

125
Prolonga-se este pessimismo, com Luciano, até o século
II de nossa e r a ( 10). Interpela êle, num epigrama, uma
mulher idosa: “Debalde tinges teus cabelos, jamais tingirás
tua velhice nem farás desaparecerem as rugas de tuas fa­
c e s... Nunca vermelhão nem cerásia farão de Hécuba
uma Helena.” Nos Diálogos dos Mortos, êle se admira,
como Eurípedes, da obstinação com que os velhos se afer­
ram à vida. E deles traça, por duas ou três vêzes, um cruel
retrato: “ Um velho decrépito, a quem só restam três dentes
e que mal vive, arrimando-se para andar em quatro escravos;
seu nariz destila contínuo monco, seus olhos são cobertos
de remela; insensível a todas as volúpias, sepulcro animado,
objeto de escárnios da juventude.”
Mais uma vez, o desgraçado velho inválido, semimorto,
suscita risos e não piedade ou horror. Já vimos por quê.
A iconografia grega condiz com a literatura. Vemos
em vasos do século V e de séculos seguintes, Hércules
combatendo a velhice: representada pela figura de um anão
esquálido, ou por um personagem macilento, enrugado, qua­
se careca. Surge também, de vez em quando, como uma
figura muito alta, de longos cabelos e barbas, ajoelhada,
em atitude de súplica, diante de Hércules. No século IV,
Demétrio esculpiu uma Lisímaca com os traços de uma
velha hedionda.

A história romana demonstra a estreita relação exis­


tente entre a condição do velho e a estabilidade da socie­
dade. Os antigos romanos tinham provàvelmente o hábito
de afogar os velhos para dêles se desembaraçarem pois se
falava em enviá-los ad pontem e os senadores eram deno­
minados depontani. Deve ter havido, como em quase todas
as sociedades, um contraste radical entre o destino dos
velhos pertencentes à elite e o dos plebeus. Em todo caso,
quando ainda persiste o hábito de dispor do recém-nascido
segundo o capricho do pater famílias, já não mais se cogita
de atentar contra a vida dos anciãos. Já mostrei o respeito
que os cerca como proprietários, sempre que a propriedade

(10) Luciano pertence ao mundo antigo. Cético, satírico, irreligioso,


só tomou conhecimento do cristianismo para o ridicularizar.

126
privada é garantida pela lei. Tal foi o caso quando as ins­
tituições romanas se tornaram firmemente estabelecidas. A
propriedade assumiu diversas formas. A terra constituía o
fundamento dos bens do patrício, mas êste possuía, além
disso, outros estabelecimentos lucrativos e, não raro, ações
de grandes companhias financeiras que se encarregavam da
coleta de impostos e da realização dos trabalhos públicos.
Os cavalheiros constituíam uma aristocracia financeira; em­
prestavam dinheiro mediante juros usurários. O comércio
representa, enfim, uma fonte de riquezas. Em todos êsses
domínios, a fortuna estava normalmente acrescida ao cabo
de uma existência consagrada a sua administração e am­
pliação. Entre os ricos, contavam-se muitos velhos, repre­
sentando suas posses uma fonte de prestígio para êles.
Foram, de início, os detentores do poder: o Senado era
composto de ricos proprietários de bens de raiz, chegados
ao término de sua carreira de magistrados. Até o século II
antes de Cristo, a República foi poderosa, coerente, conser­
vadora; reinava a ordem; eram consideráveis os privilégios
da fortuna. Era governada por uma oligarquja onde a
velhice se via favorecida pois suas tendências conservadoras
se justapunham. O Senado gozava de imensas prerrogativas
e a êle cabia a direção de toda a diplomacia romana. Exer­
cia uma suprema autoridade sobre os comandos militares.
Cada chefe de exército era assistido por lugar-tenentes re­
crutados pelo Senado em seu próprio seio. Administrava as
finanças. A êle competia julgar os delitos graves: traição,
prevaricação. As altas magistraturas só eram atingidas em
idade bastante avançada: a “ carreira das honrarias” era
regulamentada com tanto cuidado que se tornava imprati­
cável qualquer carreira fulgurante. Por outro lado, o voto
dos velhos também tinha mais pêso que o dos outros cida­
dãos. Em Roma, votava-se por centúrias: as centúrias de
seniores, de igual valor eleitoral, compreendiam muito me­
nos indivíduos que as dos juniores; a maioria legal não cor­
respondia, portanto, à maioria numérica, com vantagem
para os homens idosos.
Esta situação política apoiava-se numa ideologia cujas
raízes se encontravam numa economia essencialmente rural.
Os camponeses costumam desconfiar das inovações e a vir­
tude essencial entre os romanos era a 'permanência. O mos

127
majorum (costume dos ancestrais) tinha fôrça de lei e pos­
tulava a crença na sabedoria arcaica. Os antepassados con­
tinuavam presentes na família: os manes retornavam do
inferno em determinadas datas e era preciso aplacá-los por
meio de sacrifícios. Era necessário obedecer-lhes, respei­
tando as tradições. A permanência era assegurada pela
pietas exigida de todo cidadão para com a pátria, os ma­
gistrados e, particularmente, para com o pai.
Um problema se propõe aos historiadores: aquela so­
ciedade tradicionalista, votada aparentemente à estagna­
ção, realizou, no entanto, no decorrer dos séculos, a con­
quista do mundo. Os guerreiros não constituíam uma casta,
não eram privilegiados: não obstante, o imperialismo ro­
mano, dirigido pelo Senado, continuou incessantemente a se
desenvolver. Por quê?
Os historiadores vacilam ao responder a esta pergunta.
Nos últimos tempos da República, a conquista havia criado
condições materiais e morais propícias a uma anarquia que
compelia a novas conquistas: mas de que maneira terá esta
engrenagem começado a funcionar? Alega-se a cupidez de
um povo de campônios; busca de segurança; orgulho roma­
no; desejo de enriquecer; ambições pessoais. O certo é que
a expansão militar se pôs a serviço da expansão econômica.
Roma enriqueceu de maneira considerável com os des-
pojos recolhidos, com as indenizações de guerra, com os
tributos exigidos. Também causa espanto o caráter da con­
quista: lenta, mas muito lenta mesmo, se a compararmos
com a de Alexandre. Salvo no fim da República, não foi
efetuado por indivíduos de marcante atuação política e so­
cial: mesmo cobertos de glória, os generais permaneciam
simples servidores de Roma. Dirigida pelo Senado, isto é,
por homens idosos, a obra coletiva prosseguiu, metódica e
contínua, sem se opor à permanência da ordem coletiva;
e não a perturbou durante séculos a fio.
A situação privilegiada do velho encontra confirmação
no seio da família. É quase ilimitado o poder do pater fa­
mílias. Seus direitos são idênticos, tanto sôbre as pessoas,
como sôbre as coisas: pode matá-las, mutilá-las ou vendê-
-las. Este poder só se extingue com a morte ou com a ca-
pitis diminutio que — em casos extremamente raros — des-

128
ligava o cidadão da vida civil. Era considerado um mons-
trum o filho que erguesse a mão contra o pai; deixava
de pertencer à sociedade dos homens sendo declarado
sacer, isto é, rejeitavam-no do mundo, matando-o. Preten­
dendo casar-se, o rapaz devia obter não somente o consen­
timento do pai, como também o do avô, se ainda vivo:
prova de que o patriarca conservava sua autoridade até o
fim.
Apesar de seus poderes teóricos, foi-se tornando cada
vez mais excepcional o fato de algum pai se dispor a vender
um filho como escravo. O exercício da autoridade parece
ter sido cercado pelos costumes, pelo uso. A matrona romana
exercia grande influência no lar (11) e esta divisão do poder
favorecia os filhos. É ambígua a relação da literatura com
os costumes. Todavia, não se concebe que Plauto os ridi­
cularizasse de tal forma em cena e com tamanho sucesso,
se os velhos fôssem poderosos e respeitados como na China.
Os Atelanes haviam retomado o personagem grego do velho
ridículo, apresentando-o com os nomes de Casnar e de
Pappus. Plauto lhe atribui um papel importantíssimo. Ima­
gina-o sempre com a figura de um pai cuja avareza atra­
palha os prazeres do filho; lúbrico como nas peças de Aris-
tófanes, torna-se seu rival e utiliza sua riqueza, assim como
sórdidas astúcias, para lhe arrebatar a mulher amada: com­
pra-a, por exemplo, e a dá em casamento a um escravo, que
lhe deverá ceder o lugar no leito nupcial. Suas artimanhas,
no entanto, sempre fracassam, graças a outro escravo muito
sagaz que vem em auxílio do filho. O velho é desmascarado
e sua esposa ■— feia e rabugenta como de costume — lhe
faz amargas censuras. Torna-se alvo de chacota, não só
para a casa tôda, como para a vizinhança. É êste o tema
do Asinário, no qual Demeneta é um senador despudorado,
humilhado pela espôsa, desprezado pelos escravos, repudia­
do pelo filho, escarnecido por uma cortesã. Em Casino,
Stalinon borrifa-se todo de perfumes para agradar à jovem

(11) Pelo fato de pertencer não somente ao clã do pai como ao do


marido, ela podia apelar tanto para um como para o outro. Sua inde­
pendência econômica foi completa no dia em que começou a receber um
dote do pai. Presente no lar, dirigindo o trabalho dos escravos, ela
desempenhava um importante papel na educação dos filhos.

9 129
amada por seu filho; em lugar dela, colocam um homem no
leito onde o velho espera encontrá-la. É também este o
tema de O Mercador. Em Bachis, dois velhos buscam sub­
trair os filhos à influência das cortesãs e terminam caindo
na orgia.
Mesmo quando honestos e amáveis, a idade é suficiente
para transformar os velhos em objeto de derrisão: não são
nem viciosos nem pervesos os dois velhos de Epídico: no
entanto, o aspecto cômico da peça advem do fato de serem
êles vítimas da astúcia de um escravo que lhes arranca
dinheiro. Divertimo-nos assistindo a O Fantasma, onde o
bom Teuropides é ludibriado por um escravo, cúmplice das
estroinices de seu filho.
Plauto criou numerosos personagens de velhos simpá­
ticos. Apesar de sua objeta avareza, Euclion se revela no
final de Aulularia, um bom pai, afetuoso e liberal; um
de seus amigos, igualmente idoso, afável e honesto, despo-
sa-lhe a filha, mesmo sem dote. São todos sorridentes, inte­
ligentes e bondosos os velhos apresentados em Pseodolus,
em Rudens, Trinumus e em O Cartaginês. O velho mais
perfeito é o de Miles gloriosus. O vilão odioso é o militar,
homem na fôrça da idade; Periplectomane, pelo contrário,
é um sábio, espirituoso, alegre, bondoso para com os jovens,
sendo êle próprio também jovem de coração e conhecedor
da arte de viver. Ajuda o namorado da heroína a prote­
gê-la contra o soldado fanfarrão. E, ao traçar, sorridente,
seu próprio retrato, aponta os erros que a velhice deve
evitar: “Â mesa, não atordoo as pessoas com minhas paro-
lagens sobre os negócios públicos; jamais, durante a refeição,
insinuo minha mão sob as vestes de uma mulher que não é
minha; não me apresso em arrebatar os pratos a meus vizi­
nhos ou em levantar a taça antes dêles; o vinho jamais me
excita a provocar briga durante um banquete.” No teatro
de Plauto, é o único a permanecer celibatário: congratula-se
por não ter mulher nem filhos. Há somente um velho —
em Os Menecmas — descontente com a própria idade:
“Péssima mercadoria são os maus anos que nos encurvam
o dorso; quantos aborrecimentos e dores trazem consigo!”
É muito reduzido o papel das velhas: esposas rabugen­
tas, velhas cortesãs mais ou menos alcoviteiras, quase não

130
entram em linha de conta. Planto discute, sobretudo, a
figura do pater famílias. Seu poder, com toda a certeza,
devia ser amargamente ressentido pelos jovens: em suas
mãos estavam os cordões da bolsa e podia dispor do destino
da juventude que sentia prazer em se desrecalcar vendo-os
caricaturados. Além disso, talvez tanto os jovens como os
homens maduros tolerassem com dificuldade a autoridade
dos velhos: o Demeneta do Asinário, não é apenas pai é
também um velho senador. Todavia, Plauto contrapõe aos
tiranos lúbricos e ridículos, figuras de amáveis velhos; a
idade provecta é, em si mesma, respeitável; são indignos
deste respeito apenas aqueles que abusam de sua autoridade
para satisfazer aos próprios vícios. Plauto não toma partido
pelos filhos de maneira incondicional: são estes, amiúde,
depravados, interesseiros e egoístas.
Mais culto e requintado, Terêncio tratou com maior
seriedade o problema do conflito das gerações, que enxer­
gava através de um prisma mais variado. Os personagens
idosos do Andrienne, inspirado em Menandro, são bastante
simpáticos porém demasiadamente apagados, alcançando
muito maior relêvo no Heautontimoroumenos. Os dois he­
róis são ricos e autoritários e contam, ambos, mais de 60
anos de idade. Menedemo, violento e apaixonado, opôs-se
ao casamento do filho e êste partiu para a Ásia onde se
alistou no exército. Desesperado e cheio de remorsos, o pai
se faz “ carrasco de si mesmo” , impondo-se trabalhos exaus­
tivos. Cremes, também em conflito com o filho, é um
pretenso filósofo cuja bôca está sempre cheia de belas pa­
lavras (12): persegue a esposa que é bem melhor que êle
e se deixa ludibriar pelos escravos. Queixa-se o filho de
Cremes, indivíduo bastante perverso; “Que juizes iníquos
são os pais para os jovens! Gostariam que fôssemos adultos
desde a infância!” A generosa magnanimidade de Mene­
demo, a intensidade de seu amor pelo filho não se alteram
até o fim da peça, nem mesmo quando preocupado com
sua conduta e receoso — erroneamente — de se ver arruina­
do por êle.

(12) Foi êle quem disse: “ Sou homem e nada do que é humano
me é estranho” ; mas isto porque desejava se intrometer nos assuntos de
seu vizinho, espantado pela sua curiosidade.

131
Encontra-se um casal parecido nos Adelfos. Demea teve
dois filhos e confiou um deles a seu irmão Micion, que não
era casado. Micion, indulgente e bondoso, compreende e
ama a juventude, de modo que seu filho adotivo o adora
e todos lhe são afeiçoados. Demea, tão duro para os outros
como para consigo mesmo, castiga o filho que se revolta
contra êle. Acaba compreendendo e se transforma: “Tam­
bém eu desejo que meus filhos me amem.” Em Phromion,
o pai do herói, Demifon, é homem autoritário e iracundo.
Provoca terríveis cenas quando toma conhecimento do casa­
mento do filho, realizado em sua ausência. Pretende obri­
gá-lo a romper este compromisso.
Mais didata que Plauto, Terêncio ensina aos pais como
deverão comportar-se se desejarem fazer a felicidade dos
filhos e a sua própria. Seu objetivo não é tanto ridicularizar
os velhos quanto preveni-los. Seu teatro nos leva também
à conclusão de que os filhos suportavam com impaciência
uma autoridade já limitada, aliás, pela pressão da opinião
pública.

Imp5e-se uma observação: com a decadência do sistema


oligárquico, diminuem e, em seguida, esboroam-se os privi­
légios dos velhos. A partir dos Gracos, já não existe
maioria governamental estável, mas somente maiorias de
coalizão. O fracasso da reforma agrária (13) e da reforma
italiana ( 14) representa a condenação à morte do regime
republicano. A conquista romana acarreta finalmente uma
decomposição política e social. Durante êsse agitado perío­
do, o Senado vai perdendo gradativamente o poder que cai
nas mãos dos militares, isto é, de homens jovens. Os ma­
gistrados se libertam da autoridade do Conselho. Uma vez
instaurado o poder pessoal, a influência do Senado entra
em contínua decadência. O imperador, homem jovem, go­
verna pràticamente sem êle, que se vê despojado de suas
funções políticas e administrativas. Com Galieno, por vol­

(13) Que teria consistido em distribuir terras no interior do corpo


cívico romano.
(14) Que teria consistido em distribuir terras aos italianos, conce­
dendo-lhes o direito de cidadania.

132
ta de 271, perde também os privilégios financeiros e mone­
tários. Restringe-se simultâneamente, o poder do pater
famílias. Os direitos sôbre pessoas deixam de ser assimila­
dos aos direitos sôbre coisas. Passa a ser considerado assas­
sinato o exercício do direito de vida e de morte. O escravo
idoso ou inválido, deixado pelo amo ao desamparo, torna-se
automàticamente liberto.
É nesta perspectiva que se deve ler o De Senectude
de Cícero. Senador e contando 63 anos de idade, compôs
uma defesa da velhice, com o objetivo de demonstrar a
necessidade de se reforçar a autoridade do Senado, de há
inuito abalada. Os nobres e ricos de seu tempo já não acre­
ditavam em nada: só se interessavam por seus prazeres e
ambições, embora, em público afivelassem uma máscara e
acatassem os valores estabelecidos, sôbre os quais Cícero
tenta apoiar-se. De um modo particular depois de iniciada
a decadência do Senado, o estoicismo se havia introduzido
em Roma, sob um aspecto deturpado. Os senadores o ha­
viam transformado em ideologia conservadora: o mundo é
harmonia; tudo que é natural é bom; cada elemento deve
se contentar com o lugar que lhe cabe no seio do todo; é
preciso respeitar o status quo deixando os privilegiados
gozarem de seus privilégios. Encontram-se no De Senec­
tude, vários ecos de tão cômodas idéias.
“ Na extrema miséria, nem por um sábio pode a velhice
ser suportada”, admite Cícero. Mas os miseráveis não são
senadores e é destes que se trata. Cícero pretende demons­
trar que a idade não os desqualifica, pelo contrário: só faz
é aumentar suas capacidades. Para tanto, simula dar a
palavra a Catão o Velho, o qual, com 80 anos, se acha em
plena posse de suas faculdades. Reconhece este a péssima
reputação da velhice, atribuindo-a a preconceitos que vai
procurar destruir.
Ela já nada mais produz costuma-se dizer. Errado.
As grandes coisas se realizam “pelo conselho, pela autori­
dade, pela sábia maturidade de que a velhice se acha tão
abundantemente provida e de modo algum despojada.”
“Os Estados sempre se viram arruinados pelos jovens, salvos
e restaurados pelos velhos.” Catão refuta a idéia de estarem
êstes diminuídos: “ O velho mantém intato seu espírito, con­

1S3
tanto que não renuncie nem a exercitá-lo nem a enriquecê-
-lo.” Cícero aponta os nomes de Sófocles, Homero, Hesíodo,
Simônidas, Isócrates, Górgias, Pitágoras, Demócrito, Platão
e muitos outros, para reforçar aquela afirmação. Contradiz
a opinião de Caecilius (“ ): “ O que me parece mais lamen­
tável na velhice é sentir que, nesta idade, as pessoas se
tornam odiosas aos olhos dos jovens.”
Fala-se, em segundo lugar, na fraqueza do velho. A
força física, entretanto, de pouco vale. Milon, lastiman­
do-se por causa dos braços: “Ai! já estão mortos!” , suscita
apenas desprêzo. “ Sejam quais forem a fraqueza e a
languidez de um homem que dá lições de sabedoria e vir­
tude, considerá-lo-ei sempre afortunado” . Aos 80 anos, Ca­
tão declara continuar lépido e bem disposto. Há velhos de
saúde precária; mas há também jovens nas mesmas condi­
ções. “ Esta imbecilidade da velhice, comumente chamada
segunda infância, não é encontrada em todos os velhos,
mas somente naqueles que já são naturalmente pobres de
espírito.”
Volta Cícer®, em seguida, ao repisado tema exposto
na República-, afirma-se que o velho desfruta poucos pra­
zeres: está êle, portanto, a salvo das paixões e dos vícios e
é este o privilégio mais digno de inveja. Para compensar
sua benéfica impotência, Catão lhe oferece os prazeres da
mesa, os da conversa, o estudo, a literatura, a agricultura.
Declara de maneira especiosa: “Não é muito dolorosa a
privação daquilo que não desejamos.” Podemos, contudo,
considerar muito mais penosa a mutilação que liqüida em
nós o desejo do que a própria frustração de um prazer.
Perder um sentido é muito mais desolador que o fato de
nem sempre poder saciá-lo.
Também afirma, esquecido das justíssimas observações
de Aristóteles, não serem provenientes da idade mas sim do
caráter, os defeitos atribuídos geralmente à velhice; um
dos velhos dos Adelfos é encantador enquanto o outro é
detestável. Extrai daí uma conclusão moralizadora: a ve-15

(15) Caecilius, autor de comédias, morto em 166 a .C . também


escrevia: “cáspite, velhice! mesmo que não trouxesses contigo nenhum
outro mal, só a tua vinda seria suficiente!”

134
lhice é feliz e amável, quando representa o final de uma
vida virtuosa.
Chega ao ponto de apelar para um argumento aberrante
como o seguinte: a morte atinge da mesma forma a jovens
e velhos e a prova está no escasso número destes últimos.
Aliás, a morte nada tem de temível: “Tudo que é natural
deve ser considerado bom” . Esta conclusão, inspirada pelo
estoicismo, deveria tê-lo dispensado de escrever seu tratado,
visto ser a velhice tão natural quanto a morte.
Cem anos mais tarde, Sêneca irá sustentar — de ma­
neira muito mais sucinta — as mesmas idéias que Cícero e
por razões análogas, nas Cartas a Lucilius. Era êle um dos
homens mais ricos de seu tempo. Exilado por Cláudio, foi
chamado de volta à Roma por Messalina e se tornou precep-
tor de Nero; utilizou sua influência, quando êste subiu ao
tronco para fazer ressurgir a autoridade do Senado, opon­
do-a à de Agripina. Tomou parte na divisão da fortuna
de Britannicus, foi nomeado cônsul e usou de todos os re­
cursos para impor sua política. Foi cúmplice do assassinato
de Agripina. Solicitou a aposentadoria por volta de 62,
porém Nero a recusou. Sêneca constituía uma garantia
para a opinião senatorial, por êle representada junto a Nero.
Continuou a desempenhar êste papel de refém (16); restrin­
giu, entretanto, sua atividade e passou a despender a maior
parte de seu tempo no recesso do lar. Foi então que escre­
veu, aos 61 anos, as suas Cartas. Era um adepto da moda­
lidade destorcida do estoicismo a que já me referi. Êste
otimismo interesseiro aliado e a atitude política favorável
ao Senado ditam-lhe as observações sobre a velhice. Como
tudo que é natural, ela é boa e não acarreta nenhuma deca­
dência: “ Devemos dar boa acolhida à velhice e estimá-la;
traz consigo abundantes doçuras, quando dela sabemos tirar
proveito. Os frutos são mais saborosos quando sazonados.
Deliciosa época esta em que deslizam no plano inclinado
dos anos, com movimento que nada tem ainda de brutal. . .
Se quisermos, isto chega até a substituir o prazer, a evitar
que experimentemos sua necessidade” (Carta 12). E na
20.a : “A alma viceja e desabrocha por já não manter com

(16) Até ser condenado à morte, por ter sido implicado na cons­
piração de Pison.

135
o corpo muito comércio.” Já vimos quais os interesses que
ditaram a Sólon, Platão, Cícero e Sêneca semelhantes elogios
tão complacentemente reiterados, século após século, pelos
privilegiados que neles pretenderam enxergar verdades. É
muito diferente o ponto de vista objetivo do estudioso.
Plínio o Velho acredita estar enunciando verdades já com­
provadas quando escreve, sem se deter no assunto: “A bre­
vidade da vida é, com certeza, o maior benefício da natu­
reza. Os sentidos perdem a agudeza, os membros se entor­
pecem, a vista, o ouvido, as pernas e até os dentes e os
instrumentos da digestão nos precedem na morte.”
Os poetas eram também muito mais sinceros que os
moralistas pois não esperavam obter vantagens com seus
versos. Cícero já estava morto e Sêneca ainda não havia
nascido quando Horácio e Ovídio escreveram suas obras.
Ainda jovens, não encaram a velhice como uma condição
geral mas sim como uma aventura individual e extravasam
a amargura que ela lhes inspira. Horácio revivesce um
tema muito caro aos poetas jônios: canta, como êles, o
vinho, as mulheres, os prazeres; desaparece, com a velhice,
tudo aquilo que constituiu a doçura de viver. Fala da
“melancólica velhice” . Escreve: “ Chega a triste velhice,
expulsando os doidos amores e o sono fácil”. Descreve o
ciclo das estações, da alegre primavera ao gélido inverno ( 17),
concluindo: “As rápidas estações tornam, pelo menos, a
encontrar nos céus, um renovar; quanto a nós, assim que
descemos para onde repousam o piedoso Enéas, Tullus,
Ancus, nada somos além de cinza e poeira.”
Ovídio, como tantos outros, vê no tempo e na velhice
uma força destruidora. “ Ó tempo devastador, e tu, velhice
invejosa, juntos destruis tôdas as coisas e, com vossos den­
tes, lentamente roendo, em lenta morte, tudo acabais con­
sumindo.”
Ninguém jamais descreveu a fealdade da velhice com
tanta selvageria quanto Juvenal. Na Sátira X, busca acau­
telar os homens contra desejos imprudentes, como o anseio
por uma longa vida:

(17) Colhe em Hipócrates um tema que há de ser indefinidamente


repisado até os nossos dias.

136
“A que seqüência de males — e que males! — está
sujeita uma longa velhice! A começar pelo rosto defor­
mado, hediondo, irreconhecível; em lugar de pele êste feio
couro, as faces caídas, rugas parecidas com as que velhas
macacas se distraem cocando em torno da bôca, nas som­
brias florestas de T ab arca... Os velhos todos se asseme­
lham; é trêmula a sua voz, assim como os seus membros;
seu crânio polido já não tem cabelos; úmido é seu nariz,
como o das criancinhas. Para triturar seu pão, ao pobre
velho só restam gengivas sem dentes. É um tal encargo
para a esposa, os filhos e para si mesmo que chegaria a
desgostar a Cossus, o captador de testamentos. Seu en­
torpecido palato já não lhe permite saborear como outrora
vinhos e iguarias. Quanto ao amor, dêle está esquecido de
há muito. . . Entre os velhos, a êste dói a espádua, àquele
o rim e, ao outro, a coxa. Perdeu êste os dois olhos e
inveja agora ao caolho. . . O velho já não domina a própria
cabeça. O preço de uma longa vida são perdas constante­
mente renovadas, lutos incessantes e a velhice envolta em
negras vestimentas, cercada de eterna triste za...”
Decadência biológica, enfermidades, mutilações, nada
vem compensar neste quatro as misérias da velhice. Encer­
ra-o Juvenal com uma idéia que ninguém havia até então
exprimido: envelhecer é ver morrer os que nos são caros,
é ser condenado ao luto e à tristeza (18).
Os poetas latinos se mostraram particularmente violen­
tos na denúncia da fealdade da mulher velha. Horácio,
nas Êpodas, descreve enojado uma velha loucamente ena­
morada, não se mostrando mais complacente para com Ca-
nídia, a feiticeira. É hedionda a aparência da mulher idosa:
“ É negro o teu dente. Velhice antiga cava sulcos de rugas
em tua fronte, teus seios, são flácidos como as tetas de uma
jumenta.” Seu odor é desagradável: “ Que suor, que hor­
rível perfume por toda parte desenvolvido sobre seus flá­
cidos membros.” Nos Tristes, Ovídio evoca com uma cruel­
dade mesclada de melancolia o futuro semblante da mulher
amada (19); diz êle a Perilla: “Gastos pelos anos, hão de

(18) Victor Hugo inspirou-se nestes versos. Numerosos escritores


encontraram espontaneamente o tema.
(19) Tema que já encontramos nos poetas gregos.

137
se alterar estes traços encantadores; esta fronte, fenecendo
como o tempo, será sulcada de rugas; tôda esta graça será
presa da implacável velhice que, passo a passo e sem ruído,
avança. Hão de dizer: ela era bela. E tu, desconsolada,
a teu espelho acusarás de infiel.” Mais severo ainda é o
retrato de Dipsas, a feiticeira, velha alcoviteira, cujos male­
fícios “maculam os pudicos amores” . Acantis, interpelada
por Propércio, é outra alcoviteira repugnante: “Através de
tua pele, contam-se todos os ossos. Pelos buracos de teus
dentes passam sanguinolentos escarros.” Nos Epigramas,
Marcial fustiga todo os velhos, mas sobretudo as mulheres:
“ Trezentos cônsules viste, Vetulsita, e só te restam três fios
de cabelos e quatro dentes” . “Tais fede mais que um velho
pilão, que uma ânfora estragada por salmoura apodrecida” .
Como o destino da mulher, aos olhos do homem, é constituir
um objeto erótico, ao se tornar velha e feia ela se vê desti­
tuída do lugar que lhe é atribuído na sociedade: passa a
ser um monstrum repelente e até mesmo temível. Como
sucede entre alguns primitivos, ao decair da condição hu­
mana, ela adquire um caráter sobrenatural: é uma feiticeira,
uma bruxa dotada de perigosas faculdades. Mas, apesar
destas invectivas, é contra os homens de idade, contra os
que possuem autoridade e fortuna que a sátira se desen­
cadeia com maior freqüência. A leitura dos autores gregos
e latinos confirma minhas afirmações do início do capítulo:
os velhos desprovidos de importância social não encontram
lugar algum em suas obras (20). A questão tôda gira em
tôrno do poder concentrado nas mãos da velha geração.
Com relação a esta, é ambígua a atitude dos homens madu­
ros: apóiam-se nela a fim de manter uma ordem proveitosa
para sua classe; respeitam na pessoa do velho rico os sa­
grados direitos da propriedade. Invejam, no entanto, o es­
tatuto que eles próprios conferem institucionalmente ao
ancião e odeiam os indivíduos por êle beneficiados. Entre
os gregos, a tragédia envolve os velhos numa aura quase
sobrenatural; o mesmo não acontece entre os romanos. Nas

(20) Em Ion há um velho escravo: mas educou a heroína, Creusa,


e esta o considera como seu pai. Nêle se encarna a continuidade da
Casa. É o confidente de Creusa, seu conselheiro, o executor de seus pro­
jetos. É um ser relativo, cuja importância deriva da princesa a quem é
dedicado. Não tem existência pessoal.

138
duas literaturas, os autores cômicos e os poetas satíricos
denunciam o contraste entre os privilégios econômicos e
políticos das pessoas de idade e sua degradação física:
revoltam-se — e com êles todo o público — pelo fato de
se concederem a êsses resíduos humanos o direito de deli­
berar, de julgar, de governar a coisa pública, de imperar
sôbre a família: em Plutus, são incapazes quase que até
de andar os velhos que se encaminham para a Assembléia
a fim de decidir o destino da República.
Os jovens são os que mais se rebelam contra o fato de
não ser socialmente sancionada a decadência senil. Plauto
colhe aplausos quando mostra velhos simpáticos vítimas das
astúcias dos filhos. Caecilius afirma que os jovens detestam
os velhos. Segundo Luciano, êles constituem “ alvo das
zombarias da juventude” . Os jovens, inegàvelmente, se sub­
metiam a sua autoridade com despeito, ressentimento e
ódio. A violência de Juvenal só encontra explicação se o
consideramos porta-voz da opinião pública. Cícero qualifica
de “preconceitos” as idéias difundidas sôbre a velhice, mas
não deixa de reconhecer que ela é, em geral, detestada.
Ridícula aos olhos dos autores cômicos e de seu público, a
velhice constitui para os poetas uma fôrça destruidora cujo
ataque é por êles receado. Alguns moralistas a defendem
por razoes políticas. Aristóteles, cujos interesses não se
achavam em jôgo, dela faz um sombrio retrato.

Dois fatos assinalam o fim do mundo antigo: a invasão


dos bárbaros e o triunfo do cristianismo. Qual teria sido,
entre os bárbaros, a situação dos velhos? Temos poucas
indicações a respeito. Encontramos em suas mitologias a
idéia de uma batalha de gerações, de resultado favorável
aos jovens. Assim foi na Escandinávia. Segundo os poetas
e contistas islandeses, na origem do universo havia um
bloco de gêlo. Dêsse gêlo nasceu um gigante, Ymir, debaixo
de cuja axila esquerda nasceu, enquanto êle dormia, um
casal de gigantes. Do gêlo também se originou uma vaca
que, lambendo os blocos gelados, pôs no mundo um ser
vivo, Buri, que teve um filho, Bor; casou-se êste com Bestia,
filha do casal gerado por Ymir e de sua união nasceram
três deuses: Odin, Villi e Vie. Êstes mataram Ymir, em

139
cujo sangue se afogaram todos os gigantes, salvo Bergelmir
que escapou com sua mulher. Os deuses criaram o mundo
e o governaram.
A mitologia germânica também afirma a supremacia da
juventude, invocando o crepúsculo dos deuses. Depois de
haverem durante muito tempo governado o mundo, o pode­
roso Odin e todos os antigos deuses enfrentam novos deu­
ses em terrível combate. Os últimos saem vencedores,
tendo todos os outros perecido e ficando o universo aniqui­
lado. A terra é submersa. Renasce, depois, o mundo; surge
um nôvo sol, filho do antigo. A terra emerge das águas.
Alguns indivíduos que haviam conseguido sobreviver geram
uma nova humanidade. Até para os deuses chega o mo­
mento em que o desgaste do tempo os força a ceder o
lugar. Entre os eslavos, Svarog, o Céu, transmite pacifica­
mente o poder a seus filhos, o Sol e o Fogo.
A história propriamente dita poucas informações trans­
mite a respeito dos povos conquistados por Roma e sobre
os invasores bárbaros. Afirma César que os gauleses mata­
vam os doentes e os velhos desejosos da morte. Procópio
diz o mesmo dos Hérulos. Podemos, sem dúvida, aplicar
à maioria dos bárbaros, hordas guerreiras e conquistadoras
que só viviam para a luta, as palavras de Ammien-Marcellin
a respeito dos alanos; “ Morrer de velhice ou por acidente
constitui opróbrio e covardia que êles cobrem de medonhos
ultrajes”. Em tais sociedades, os velhos deviam ser pouco
numerosos e desprezados. Pode-se presumir que sua exis­
tência tenha continuado penosa depois de as hordas se
haverem fixado à terra. Entre os germanos, era muito in­
tensa a solidariedade familiar; podemos admitir, por conse­
guinte, que êles se encarregavam de alimentar as “ bôcas
inúteis” . Há, entretanto, um fato preciso que demonstra a
desvalorização sofrida pelo indivíduo com o avanço dos
anos. Estou-me referindo à compensação monetária exigida
em caso de assassinato de um homem livre. No século VI,
o Direito visigodo cobrava:

60 soidos de ouro por uma criança de um ano;


150 por um rapaz de 15 a 20 anos;
300 por um homem de 20 a 50 anos;
200 por um homem de 50 a 65 anos;

140
100 por um homem de mais de 65 anos;
250 por uma mulher de 15 a 40 anos;
200 por uma mulher de 40 a 60 anos.

No Direito burgúndio o preço era: 300 soidos de ouro


dos 20 aos 50 anos; 200, dos 50 aos 65 anos; 150, acima
dos 65. A lei sálica exigia compensação idêntica para os
homens de qualquer idade.
O outro acontecimento marcante do fim do mundo
antigo é o triunfo do cristianismo: impondo-se no seio do
Império romano, esta religião se difundiu entre os bárbaros
e se tornou a ideologia do Ocidente. Terá ela conseguido
abrandar-lhes os costumes e, particularmente, terá suavizado
a sorte dos velhos? É-nos lícito duvidar. Para difundir-se,
foi-lhe necessário abandonar seu ideal primitivo de frater­
nidade e de auxílio mútuo. No século III, o espírito mun­
dano já campeia entre os cristãos. A nova religião quase
não exerce influência sôbre os costumes. Consegue proi­
bir o infanticídio em Roma, em 374, mas não chega a coibir
o costume de se enjeitarem as crianças; não acaba com a
escravidão. Só consegue ser adotada pelos diferentes povos
porque se adapta a seus costumes: foi particularmente con­
taminada pelos usos dos germanos. Os chefes eclesiásticos
ratificaram uma regressão da espiritualidade: o culto dos
santos revivesce as superstições pagãs. Pràticamente de­
gradado pelos costumes dos povos por êle convertidos,
o cristianismo é herdeiro ideológico do pensamento antigo,
ao qual se havia oposto inicialmente. Nada teve a ver, no
comêço, com o classicismo greco-latino: dirigia-se às classes
mais humildes e menos cultas. Mas, a partir do século III,
a Igreja assimilou a cultura clássica, embora a atomizasse
e deformasse. Já vimos como esta, salvo raríssimas exceções,
fazia da velhice uma idéia extremamente sombria, cujo eco
vamos encontrar na obra do grande compilador que foi
Santo Isidoro de Sevilha(21). Segundo O Grande Proprie­
tário de tôdas as coisas — enciclopédia publicada em 1556,
reunindo textos dos escritores do Baixo-Império — Santo
Isidoro distinguia sete idades na vida (por analogia com

(21) Nascido em Cartagena em 560; morto em 636.

141
os dias da semana). A juventude dura de 35 a 45 ou 50 anos.
Vem, em seguida a senecte. “ Depois desta idade, sobrevêm
a velhice que dura, segundo alguns, até os setenta anos e,
segundo outros, só acaba com a morte. Na opinião de
Isidoro, a velhice é assim chamada porque as pessoas se
apequenam, pois os velhos não têm o bom senso que haviam
tido anteriormente e estão caducos.
A contribuição da Igreja, num ponto, foi positiva: criou,
a partir do século IV, hospícios e hospitais. Assegurou em
Roma, tal como em Alexandria, a assistência aos órfãos e
aos doentes. Considerava a esmola um dever e o lembrava
com insistência. Os velhos foram, sem dúvida, beneficiados
por estas caridades, mas nunca se faz referência explícita
a êles.
O fim da Alta Idade Média, denominada pelos inglê-
ses the dark age, foi um período de destruição e confusão.
“ Só se vêem cidades despovoadas, monastérios arrasados ou
incendiados, campos reduzidos à solidão... Em toda a
parte, o poderoso oprime o fraco e os homens se asseme­
lham aos peixes do mar que, de cambulhada, se entredevo-
ram”, declaravam em 909 os bispos da Província de Reims.
Os séculos IX e X estrugem com lamentações desta ordem.
A vida material era muito mais áspera que na Antiguidade.
As técnicas tinham regredido, as castas se haviam degra­
dado, as cidades despovoadas: ruralizara-se a sociedade,
tendo desaparecido as classes médias. Era muito rude o
trabalho dos campos, não podendo dêle participar o homem
de idade. Também nesta época, sua sorte não parece ter
sido melhorada pela religião. Em princípio, o cristianismo
retomava a tradição do Decálogo que prescrevia honrar
aos pais; na realidade, o culto da família não encontrava
guarida numa época em que o ideal era ascético e antimun-
dano. “Deixarás teu pai e tua mãe para seguir-me” , disse
Cristo. Entre os cristãos, uma minoria buscava fugir ao
século: praticavam o celibato, refugiando-se nos desertos
ou enclausurando-se em conventos. Os outros se acomoda­
vam aos usos. A religião, para estes, constava apenas de
práticas exteriores: clérigos e leigos resgatavam com devo­
ções o desregramento de suas vidas. Acreditavam no poder
do demônio e na feitiçaria; respeitavam tabus sexuais e ali­
mentares baseados em superstições. Os tribunais seculares

142
e até mesmo os eclesiásticos se serviam de ordálios para o
pronunciamento de suas sentenças.
Durante o Baixo-Império e a Alta Idade Média, viram-
-se os velhos quase excluídos da vida pública: o mundo era
dirigido pelos jovens. Dividida, conturbada, ameaçada,
belicosa, a sociedade era governada muito mais pela for­
tuna das armas que por instituições estáveis. Pouco valor
tinha o homem de experiência. No século VII, Khindas-
wintz foi eleito rei dos Visigodos aos 79 anos de idade,
restaurando o prestígio da coroa. Carlos Magno reinou
até os 72 anos. São as únicas exceções de que tenho notícia.
Até os papas, naquela época, eram quase todos jovens.
Gregório I, o primeiro chefe verdadeiro da Igreja universal,
foi eleito papa, em 590, com a idade de 50 anos e morreu
aos 64: era relativamente idoso. Mas até o século VIII,
os papas foram jovens romanos de boa estirpe, destinados
à Igreja por serem órfãos e desprovidos de fortuna. Mais
tarde, sendo os papas detentores de riquezas materiais e
de um grande poder, os nobres entraram a cobiçar o trono
pontifício. Nos séculos IX e X, impuseram êles à Igreja
chefes, geralmente jovens, que eram destituídos pouco
tempo após a eleição. Não chegava a três anos a duração
média do pontificado. Durante os sessenta anos do período
conhecido como “Pornocracia” , o papado foi dominado pelas
mulheres.
Aconteceu serem nomeados papas alguns cardeais muito
idosos; mas João XII foi eleito aos 16 anos, Bento IX aos
12, Gregório V aos 23. Tanto os jovens como os velhos,
no entanto, não passavam de joguetes entre as mãos de
uma poderosa aristocracia.
Graças a uma feliz expansão econômica, por volta do
ano 1 000 a civilização começa a emergir das trevas. Orga­
niza-se a sociedade feudal cujas origens remontam ao sé­
culo VIII quando se vê aparecer a vassalidade. Ê muito
apagado o papel nela representado pelos homens idosos.
A posse de um feudo, para ser mantida, requeria a capaci­
dade de manejar uma espada para defendê-la. O vassalo
deve ao senhor a prestação do serviço das armas. É pre­
ciso “ que êle tenha armas e cavalos, que, salvo quando
impedido pela velhice, tome parte no ost (serviço militar)
e nas cavalgadas, nos plaids (assembléias judiciárias e polí­

143
ticas) e nas côrtes (22). O laço de vassalidade subsiste até
a morte e só é rompido quando a idade reduz o cavaleiro
à impotência, sendo êle então relegado à sombra. A here­
ditariedade do feudo surge na França logo no século X;
quem defende o feudo e serve ao senhor é o filho, armado
cavaleiro na época oportuna. A êle também compete, quan­
do necessário, defender a honra de sua estirpe. A sociedade
se considerava dividida em três ordens: a dos que rezam,
a dos que trabalham, a dos que se batem; colocava a espada
acima do trabalho e até mesmo da oração; quem ocupava
o proscênio era o guerreiro ativo, o adulto na fôrça da idade.
Tudo isto vem confirmado pela literatura da época.
Os heróis das canções de gesta são adultos ou mesmo ra­
pazes muito novos ainda. Nos romances corteses, jamais
intervém a idéia do envelhecimento. Os heróis são dotados
de enorme longevidade e seus anos não pesam. Em A Morte
de Artur, o rei conta mais de 100 anos, Lancelote, Ginevra,
Gauvain estão entre os 60 e os 80 anos e se comportam,
em todos os sentidos, como se estivessem na flor da idade.
O mesmo acontece hoje em dia nos romances da “ série
negra” e nas histórias em quadrinhos: a idade é abstrata.
As aventuras dos heróis são bastante numerosas e duram
um tempo suficiente para preencher um século: perma­
necem, entretanto, cristalizados para sempre em juventude
inalterável.
A literatura da alta Idade Média não se interessa pelos
velhos. Encontramos apenas uma exceção significativa:
Carlos Magno. Seu séquito — principalmente Alcuíno e An-
gilberto — tinham-se empenhado em lhe criar uma lenda,
mesmo em vida. Alcuíno equipara-o a um leão; mostra-o
aclamado por toda a terra, pelo mar, pelas aves e por todos
os animais e até mesmo pelos astros. Compara aquêle prín­
cipe, “cujo igual nunca se viu, desde o princípio do mundo” ,
a João Batista, o Precursor; descreve-o Angilberto, partindo
para a guerra “ com a fronte coberta por dourado capacete
e o corpo revestido de reluzente armadura, montado em
enorme cavalo, alteando-se sua cabeça sobre todos os com­
panheiros” . Êle próprio havia assumido o nome de Davi,

(22) Costumes catalãos.

144
com quem se identificava. Até os Anais, com tôda a sua
secura, narram a seu respeito inúmeros fatos miraculosos.
O maravilhoso cristão dele se apoderou, logo após a morte.
Os alemães fizeram-no santo. Na França, no tempo em
que ia se acentuando a decadência carolíngea — por con­
traste e também por necessidades de propaganda — sua
imagem foi sendo cada vez mais idealizada. Setenta anos
após sua moite, o monge de Saint-Gall escreveu sua bio­
grafia numa série de episódios edificantes e ingênuos. Um
texto composto em Spoleto em 897 descreve-o como “ o ter­
rível, o formidável Carlos” . Seus olhos fulguram de tal
forma que as pessoas desmaiam em sua presença. Sua
sagacidade penetra todos os enigmas. O mesmo texto, en­
tretanto, o mostra brincalhão, divertindo-se em pregar pe­
ças a seus acompanhantes. A mímica que lhe acompanha
os atos e as palavras empresta-lhe uma certa qualidade
caricatural, quando explode em risos incontidos ou quando
esfrega as orelhas ou infla as narinas.
No século X, compÕem-se nos monastérios inúmeras
narrativas que o apresentam constantemente ocupado em
perseguir os infiéis. No século XI, em La geste du roi (e
em muitos outros ciclos), surge com a figura de um magní­
fico velho de florida barba, cercado de veneração quase
religiosa. Uma Vida de Carlos Magno o apresenta alto,
robusto, de barbas e cabelos brancos e olhos brilhantes; vive
até os 200 anos. Outra imagem, todavia, se contrapõe a esta,
e na qual se exprime a atitude antimonárquica dos barões.
Em A Peregrinação a Jerusalém, no século XII, o imperador
é um ancião “ ambicioso” e “já abobado” . Em outras ges­
tas, o herói é um grande senhor feudal e Carlos, em cuja
figura se confundem vários soberanos carolíngeos, é injusto,
fraco, caprichoso, mero joguete nas mãos dos “lozengiers”
e acaba sendo castigado.
A transmissão dos podêres, das mãos do pai enfraque­
cido pelos anos para as do filho, inspirou no século XI a
primeira parte das lendas mais tarde transcritas na Espanha,
sob o título de Romancero do Cid. A mais antiga versão
escrita data do século XV mas a tradição remonta à época
em que viveu o Cid, membro da pequena nobreza a serviço,
primeiro de Sancho II e, depois, de Afonso VI. Tendo in­
corrido em desgraça e sido por êste rei exilado em 1081,

10 145
tornou-se uma espécie de condottiere, conquistou por sua
conta o distrito de Valença e deteve uma segunda invasão
moura, salvando desta maneira a Espanha. O início do
Romancero nos apresenta Don Diego Lainez lamentando a
desonra de sua raça: disputara uma lebre aos cães do
Conde Lozano -— primeiro conselheiro do rei e seu melhor
capitão — sendo por este ultrajado. A honra exigia que
esta afronta fôsse vingada. Conhecendo que, para a vin­
gança, lhe falecem as forças, sentindo-se velho demais para
brandir a espada, passa as noites em claro e nada lhe sabem
as iguarias.” Só tem um recurso: um de seus quatro filhos
deverá lavar a ofensa. Convoca-os, um após outro, aper­
tando na sua a mão direita de cada um deles. “A honra
ofendida, a despeito dos anos e dos cabelos brancos em­
prestando vigor a seu enregelado sangue e aos nervos en­
ferrujados”, apertou essas mãos com tamanha violência que
os três mais velhos gemeram: “ Chega” ! O caçula, Ruy
Diaz de Bivar, teve um assomo de cólera: “Ah! Se não
fôsseis meu p ai!. . . ” , bradou ameaçador. O velho, chorando
de alegria, incumbiu-o da vingança. O Cid desafiou o
conde e decepou-lhe a cabeça. Suplantou o pai com esta
façanha e este lhe transferiu pessoalmente os poderes, di­
zendo: “Toma assento aqui, na extremidade mais elevada
da mesa, pois quem carrega tal cabeça (23), cabeça será de
minha casa” .
Esta história, que gozou de imensa popularidade, ilus­
tra o relacionamento entre os nobres, velhos e moços, na
sociedade feudal. O bom cavaleiro é um atleta “ ossudo” ,
“membrudo” , de corpo “bem talhado” , dotado de vigoroso
apetite, amante da guerra, da caça, e dos torneios. A bra­
vura e a generosidade são as qualidades mais exaltadas nas
canções de gesta. O herói mais admirado é o que se desvela
sem contar: dá até o próprio sangue por seu senhor. De­
fende os órfãos e as viúvas, acode em socorro dos fracos,
lança reptos aos rivais. Também atira sua fortuna pelas
janelas; narra um cronista uma curiosa competição de pro­
digalidade: um cavalheiro manda semear moedas de prata
num campo arado; outro por pura “jactância” manda quei-

(23) A cabeça cortada do conde.

m
mar vivos trinta cavalos de sua propriedade. Exaltar êsses
valores — heroísmo, liberalidade — é exaltar a juventude;
êles não podem se encarnar em velhos de sangue enrege-
lado e nervos enferrujados.
Mesmo na plebe, a dureza da civilização afasta os velhos
da vida ativa. Os mercadores são, então, “pés empoeirados” ,
caravaneiros que circulam com a “ espada pousada na sela” ,
expostos a inúmeros perigos. Poder-se-ia afirmar, de muitos
burgueses, que eram “poderosos combatentes” . A deca­
dência física obrigava, portanto, o homem de idade a se
aposentar.
Nos campos, os jovens se insurgiam contra o pai quando
este pretendia manter a autoridade. Havia freqüentes con­
flitos, e o filho abandonava muitas vezes o lar paterno. Mas
na maioria dos países da Europa, o pai via-se suplantado
pelo filho na chefia da casa, sobretudo na Inglaterra. Cedia
o lugar ao filho mais velho quando atingia uma certa idade
e se sentia demasiadamente fraco para trabalhar na lavoura.
Depois de receber a herança, o filho se casava; a jovem
esposa substituía a sogra e o velho casal se transferia para
o quarto que lhe era tradicionalmente reservado: chamam-
-no, na Irlanda, o “ quarto do oeste” . O pai despojado era
muitas vezes maltratado pelos herdeiros. A lenda do rei Lear
era muito popular na Inglaterra medieval pois ilustrava uma
história corrente. Dela também se encontram ecos nos
contos recolhidos na Alemanha pelos irmãos Grimm. Os
velhos, que não tinham família ou cujos parentes não os
podiam sustentar, eram socorridos pelo senhor ou pelo
monastério: os monges mantinham enfermarias onde re­
colhiam enfermos e indigentes. Nas cidades, a Corporação
prestava auxílio aos membros incapacitados para o trabalho.
A preocupação precípua da Corporação era eliminar a con­
corrência: acompanhava-a amiúde uma confraria religiosa
que acudia aos necessitados em casos de doença ou de
morte. Os velhos se viam reduzidos à mendicância que,
em falta de coisa melhor, foi então tolerada como em
nenhuma outra época.
Sua situação se revela, portanto, extremamente desfa­
vorável em tôda a escala social. Era o primado da força,
tanto entre os nobres como entre os camponeses: não havia

147
lugar para os fracos. A juventude constituía uma classe
de idade muitíssimo importante. Os jovens faziam um
aprendizado e se submetiam a uma iniciação: para o jovem
nobre era a cerimônia que o armava cavaleiro, os jovens
camponeses se sujeitavam a provas no decorrer de cerimô­
nias campestres: saltar por cima de fogueiras nas festas de
São João, por exemplo. Os velhos não formavam nenhuma
classe particular.
Nas difíceis condições em que se debate, esta socie­
dade também não pode se dar o luxo de cogitar da sorte
das crianças: só lhe interessam os jovens que conseguiram
sobreviver às moléstias infantis e nos quais se encarna o
porvir e não as criancinhas, cuja grande maioria é votada
a uma morte precoce. A infância, aliás, quase não existe,
por assim dizer. Mal se desprendem das saias maternas,
as crianças começam a ser tratadas como pequenos adultos,
quer se dediquem a seu aprendizado militar, quer se vejam
sujeitas ao trabalho rural. Há muitas “infâncias” nas can­
ções de gesta, mas não nos deixemos iludir: trata-se das pri­
meiras façanhas de rapazinhos muito jovens ainda mas que
já são verdadeiros homenzinhos. Até o século XIII ou XIV,
quando surge a burguesia, somente o adulto é considerado.
Durante êste período, os jovens continuam a dirigir o
mundo. Excetuando-se Frederico Barbarroxa que governou
até os 68 anos, no século XII, o chefe supremo do Império
germânico foi sempre um homem na fôrça da idade. Depois
de haver Gregório VII reconquistado, em 1073, a autono­
mia do papado, também os papas foram quase todos jovens;
a luta travada então por eles contra o Império, exigia de
sua parte vigor, coragem e decisão. Houve alguns velhos:
Celestino III iniciou seu pontificado aos 85 anos, mas Ino-
cáncio III foi eleito aos 37 anos.
Veneza foi a única exceção: o doge era velho. Estando
a cidade submetida a Bizâncio, e transformada depois em
sua vassala, tinha crescido a autoridade de seu “muito hu­
milde duque” ; eleito a princípio pelo povo, êste cargo pas­
sou mais tarde a ser transmitido hereditàriamente e seu
poder foi tirânico até o início do século XI. Mas entre o
doge e a aristocracia declaravam-se antagonismos, ocasio­
nalmente sangrentos. Tornou-se esta cada vez mais pode­
rosa : adquiriu enormes riquezas, graças à somação de heran-

148
ças e ao comércio. Envidou esforços no sentido de restrin­
gir a autoridade ducal em proveito de uma república pa­
trícia. A lei de 1031 aboliu o regime hereditário e o doge
passou a ser eleito, não mais pelo povo, mas pela nobreza,
a ela ficando comprometido por juramento. Até meados
do século XIII, não lhe foi possível tomar decisões em as­
suntos de paz ou de guerra nem estabelecer tratados sem
o beneplácito do Colégio dos Quarenta. Não mais admi­
nistrou as finanças, nem nomeou juizes ou funcionários públi­
cos. Podia ocasionalmente dirigir operações militares e
comandar a armada: no fim do século XII, tendo sido eleito
aos 84 anos, e cego, o Doge Dandolo ilustrou-se atacando
vitoriosamente Constantinopla ( 24). Não passava, entretanto,
de um servidor do patriciado. O papel do doge tornou-se,
a seguir, puramente decorativo: revestia-se de títulos gran­
diloquentes e de magníficos trajes; era encarregado de re­
presentar pomposamente a República, sobretudo diante dos
embaixadores estrangeiros. Mas não dispunha de nenhum
poder. Era apenas o “primeiro, o mais vigiado, o mais obe­
diente de todos os servidores da República.” Ninguém mais
indicado para tal função que um velho: enfraquecido pela
idade, preso a antigos hábitos, era-lhe muito mais fácil que a
um jovem renunciar a tomar iniciativas, contentando-se com
as aparências da grandeza. Por outro lado, numa sociedade
onde as riquezas são garantidas por lei, a velhice pode
conferir um prestígio suplementar a seu possuidor: era o
caso de Veneza, onde a velhice era venerada precisamente
porque se lhe afigurava útil colocar um velho no pináculo
das honrarias. A idade não foi obstáculo à conspiração de
Marino Faliero, em 1354, contra a aristocracia ( 25). Mas,
de um modo geral, o sistema funcionou: os doges foram
dóceis instrumentos do patriciado. Com a única exceção
de André Dandolo, eleito aos 36 anos, no século XIV, foram
todos eles velhos. Não governavam.

A primazia da juventude, particularmente a transmissão


de poder do pai para o filho, tal como o demonstra a lenda

(24) Recusou aos 96 o trono do império do Oriente; morreu doge,


com 97 anos.
(25) Tinha 76 anos. Foi decapitado.

149
do Cid, influenciou de maneira muito profunda a ideologia
predominante na época medieval: o cristianismo. Desde os
primeiros séculos da Igreja, Cristo é a figura central da
nova religião — se não para os teólogos, sem dúvida para
as camadas populares. É difícil conceber a idéia da Trin­
dade: a atenção se prende às imagens do Pai e do Filho
assim como a seu relacionamento: o segundo destronou o
primeiro. Durante o período apostólico, o cristianismo foi,
antes de tudo, a religião de Cristo: não faz esquecer o Pai
mas é sobretudo ao Filho que se invoca. A Igreja é o “ corpo
de Cristo” . Sua carne, seu sangue estão presentes na Euca­
ristia e é com êles que se comunga. A partir de Cristo se
definem a missa e os sacramentos. A moral se inspira em
seus ensinamentos. É a êle que representam simbolicamente
as pinturas das Catacumbas: é o Bom Pastor, Orfeu descendo
aos Infernos, um cordeiro, uma fênix, um peixe (cujo nome
em grego constitui um acróstico do de Jesus). Também o
representam como um homem imberbe, de cabelos louros.
Evocam-no, igualmente, nas Igrejas sob a forma de um
moinho, ou de um místico lagar, de uma vinha, um cacho
de uvas, um leão, uma águia ou um unicórnio.
Vai se confirmando gradativamente esta supremacia do
filho sobre o pai a partir do século XI. Ê sua imagem que
se vê esculpida nos frontispícios das igrejas: no século XII,
representam-no em tôda a sua glória: é o Rei dos reis. Hu­
maniza-se no século XIII. Pintam-se Meninos Jesus e prin­
cipalmente Cristos crucificados, coroados de espinhos. Os
pintores reproduzem todos os episódios de sua vida. Ora,
êle morreu na fôrça da idade. Por conseguinte, o Eterno,
que não tem idade, passa daí por diante a ser pintado sob
o aspecto de um velho; imaginam-no semelhante aos patriar­
cas nos quais reconhecia sua imagem, visto delegar-lhes seus
poderes. É mais ou menos confinado no passado, na origem
do mundo e no longínquo céu. Torna-se o Senhor, o “ Dono
da fortaleza celestial”, tão distante quanto o senhor feudal
em seu castelo. Os iluminadores o representaram muitas
vezes nas Bíblias ilustradas e também podemos vê-lo nas
imagens piedosas populares. Sempre dotado de uma longa
barba branca. Os pintores, porém, menos ingênuos, só se
aventuraram a representá-lo mais tarde e muito raramen­

150
te ( 20). Limitaram-se, em geral, a indicar, emergindo das
nuvens, uma barba branca e uma mão executando um gesto
ao mesmo tempo ameaçador e abençoante. Certas esculturas
representam a Trindade: Deus é aí figurado sob a forma
de um velho barbudo, segurando o filho. Tôdas essas ima­
gens, pintadas ou esculpidas, revelam unicamente a evo­
lução que nas representações populares ia destronando o Pai
em proveito do Filho (2627), de maneira cada vez mais radical.

O que nos ensina a literatura dos séculos XII e XIII,


a respeito da velhice? Muito pouca coisa. A exemplo dos
séculos precedentes, não se interessa por ela. A atitude
dos copistas a seu respeito, na medida em que a ela fazem
alusão, permanece negativa. Por volta de 1150, Hugo de
Orléans, precursor dos Goliards — aqueles clérigos errantes
que cantavam em seus poemas o vinho e o amor — depois
de haver celebrado os prazeres da vida, lastima-se pelo
seu declínio: tinha então 60 anos.

Dives eram et dilectus


Inter pares praelectus
Modo curvat me senectus
Et aetati sum confectus.

Relembrando no século XV as idéias que haviam tido


curso na Idade Média, O Grande Proprietário de tôdas as

(26) Pelo que sei, Masaccio o fêz, em Florença; Miguel Ângelo,


no teto da Capela Sistina, dotou-o — como a seu Moisés — ao mesmo
tempo de uma barba branca e de músculos de atleta, visto ser êle o
Criador onipotente. Também foi pintado por Ticiano, pelo Tintoreto,
por um pintor de Ferrara, por Filippino Lippi em Roma, por Granach,
no Jardim do Éden: é um velho barbudo ainda têso e cheio de vigor.
Rafael o pintou aparecendo a Moisés dentro da sarça ardente. Na
pintura de Cosimo Rosselli e de dois ou três outros, êle é entrevisto
no meio das nuvens, entregando a Moisés as Tábuas da Lei.
(27) É interessante observar que no Oriente, o salvador dos ho­
mens, Buda, atravessou tôdas as idades da vida, atingindo o ápice da
perfeição na idade final: morre aos 80 anos. No Ocidente, o Salvador
atinge a perfeição entre os 30 e os 33 anos, idade em que morre. Vimos
que na mitologia antiga os antigos deuses também foram suplantados por
seus filhos, homens na fôrça da idade.

151
Coisas nos diz: “A última parte da velhice denomina-se
senies em latim, e em francês não tem outro nome, além
de velhice. O velho é cheio de tosse, de escarros e de su­
jeiras até que volte à cinza e à poeira de onde foi tirado.”
Em 1265, Filipe de Novara fala dos “ quatro tempos
da idade do homem” cada um deles composto de dois
períodos de dez anos. “A vida do velho não é mais que
trabalho e dor”, afirma êle, concluindo que, após os 80 anos
só nos resta desejar a morte. A Idade Média se comprazia
em estabelecer correspondências entre as diversas regiões
do mundo; os “ quatro tempos” foram então comparados
aos quatro elementos e às quatro estações. Nos calendários
populares, também se punham os meses em relação com as
idades da vida. Um poema do século XIII várias vezes
reimpresso nos séculos XIV e XV abre êste calendário:

Do mês que vem após setembro


a que chamam de mês de outubro
quem tem L X anos, não mais.
Tornado velho e encanecido
deve êle então se recordar
de que o tempo o leva a morrer ( 8).

Afirmei não ter o cristianismo penetrado o pensamento


popular que conservou suas raízes pagãs, reveladas pelo
folclore. No folclore alemão, cuja parte essencial foi reco­
lhida pelos irmãos Grimm, o velho aparece ocasionalmente
como um homem cheio de experiência e conhecedor de
preciosos segredos. Na maioria das vêzes, não passa de um
pobre diabo.
Um dos contos transcritos pelos irmãos Grimm propõe
curiosa interpretação das idades da vida. Havia Deus con­
cedido 30 anos de vida ao homem e a todos os animais;
parecendo-lhes penosa tão longa existência, o asno, o cão
e o macaco obtiveram dêle uma redução de 18, 12 e 10 anos
do prazo estabelecido: o homem é menos sábio que os ani­
mais: o desvario dêste ser pretensamente racional é um dos
temas favoritos do folclore. Não compreendeu, assim, que
o preço da longevidade seria a decrepitude. Pediu um
prolongamento, obtendo os 18 anos do asno, os 12 do cão
e os 10 do macaco. “Tem o homem, portanto, 70 anos de

152
vida. Os 30 primeiros anos lhe pertencem e passam de­
pressa. Chegam, em seguida, os 18 anos do asno, durante
os quais tem de carregar nas costas fardos e mais fardos;
é êle quem fornece trigo ao moinho para alimentar os
outros... Vêm depois os 12 anos do cão, no decorrer dos
quais não faz mais que rosnar, arrastando-se de um canto
para o outro, pois já não tem dentes para m order... De­
corrido êsse tempo, só lhe restam os 10 anos do macaco.
Já não é senhor de todo o seu juízo, torna-se meio esquisi­
to e faz coisas estranhas que provocam o riso e a zombaria
das crianças” . Cabe, assim, ao homem tôda a responsabili­
dade, por ser sua velhice mais longa e penosa que a dos
animais: sua própria avidez imprudente a tanto o condenou
Nesses contos, a mulher velha — já de antemão sus­
peita devido a sua feminidade — é sempre um ser maléfico.
Quando, porventura, pratica o bem, é porque seu corpo, na
verdade é apenas um disfarce e ela o põe de lado, sur­
gindo como uma fada de deslumbrante beleza e mocidade.
As verdadeiras velhas são como as dos poetas latinos —
ogras e feticeiras malévolas e perigosas. A misoginia me­
dieval exprime-se em todos os personagens de velhas en­
contradas na literatura: a das fábulas satíricas, particular­
mente o de La male femme qui conchia la prude femme,
e a Velha do Roman de la Rose. Como vimos, eram mu­
lheres expulsas ou mortas simbolicamente nos campos e nos
burgos a fim de livrar da velhice tôda a sociedade. No
Roussillon, a Quaresma era simbolizada por um boneco re­
presentando uma velha, a patorra, com sete pés (as sete
semanas da Quaresma) e queimada no dia de Páscoa.
É preciso lembrar, aliás, que eram muito raras as pes­
soas de idade avançada, tanto entre os homens quanto entre
as mulheres. Na plebe não se encontrava pràticamente
nenhuma. Dadas as condições de vida dos camponeses,
trinta anos, para êles, já representavam muita idade. Um
conto do século XIII afirma, gabando os méritos de uma
água de Juvência: “Não haverá mais então homem velho
e encanecido, nem igualmente mulher velha, alva ou gri­
salha, mesmo que haja atingido a idade de 30 anos.”
A Idade Média, tal como a Antiguidade, alimentou o
sonho de uma vitória sôbre a velhice. Obcecou-a a idéia
do rejuvenescimento. Um romance medieval, cujo herói

153
é Alexandre o Grande, a Alexandrecita, descreve um lago
maravilhoso que rejuvenescia os que nêle mergulhavam; e,
no Livro das Maravilhas, Jean de Mandeville conta a his­
tória de uma fonte de Juvência, oculta na selva indiana. Mas
a lenda se transmitiu sobretudo por tradição oral. Nos es­
critos, o tema jamais é central. Assume a forma de um
talismã rejuvenescedor: fruto, odre de ar, elixir da longa
vida. É encontrado, na maioria das vezes, associado ao
da Ilha da Vida, a ilha de Avallon, onde não se morre nem
se envelhece. No Perce-forest, os principais personagens
são transportados para a ilha de Avallon em plena fôrça e
conservam a juventude durante uma ou duas gerações. Vol­
tam, em seguida, para morrer no reino bretão. Assim que
tocam o solo, assumem o aspecto de velhos que teriam se
sua existência houvesse decorrido de maneira normal.

A iconografia medieval referente à velhice é mais rica


que sua literatura; o mesmo sucede, aliás, com referência
a muitos outros assuntos, e isto se explica: ela era muito
melhor comprendida por uma humanidade ainda analfabeta.
Como vimos, o destronamento do Pai pelo Filho se manifesta
com enorme evidência nas artes plásticas onde os velhos
se vêem representados com bastante freqüência. Os escul­
tores colocam nos pórticos das igrejas estátuas de velhos
barbudos: anciãos do Apocalipse (28), profetas ou veneran-
dos santos. Nas imagens pias, os eremitas e anacoretas eram
muitas vezes representados com o aspecto de homens es­
quálidos, de longas barbas e muito velhos. O tema das
fases da vida apareceu, pela primeira vez, num afresco
árabe do século VIII e depois, no século XII, nos capitéis
do batistério de Parma: a velhice é figurada por um traba­
lhador agrícola, repousando ao lado da enxada. No palácio
dos Doges — onde devia estar forçosamente no lugar de
honra — e em Pádua, no afresco dos Eremitani, a velhice

(28) No Apocalipse, 24 anciãos vestidos com túnicas brancas e


trazendo coroas de ouro cercavam Cristo. Admite-se que êles correspondem
aos 24 signos do Zodíaco, representados em Babilônia por anciãos, porque,
presidindo às 24 horas do dia, êles encarnavam o tempo. Manuscritos
ilustrados do Apocalipse inspiraram vários escultores que representaram
freqüentemente êsses velhos. Viam-se nêles sábios conselheiros.

154
assume o aspecto de um sábio de longas barbas, sentado
à mesa de trabalho, diante da lareira. É menos serena,
entretanto, a imagem popular criada pela Idade Média e
dominante nos séculos seguintes: a figura do Ancião-Tempo,
alado e ressequido, segurando uma foice. Parece óbvia a
assimilação das duas noções, pois a velhice resulta do acúmu­
lo de anos. No entanto, Erwin Panofsky mostra em seus
Essais diconologie que esta relação nem sempre existiu. O
tempo, na Antiguidade, é representado por duas séries de
imagens. As primeiras salientam sua fugacidade: é Kairos,
a Oportunidade, o momento que assinala uma mudança de
direção na vida do homem ou da humanidade. Apresen­
tam-no como um personagem fugindo velozmente, ou então
em equilíbrio precário, prenunciador de uma certa mudança
— como a Fortuna sôbre sua roda, imagem com a qual se
confundiu a partir do século XI. A segunda série salienta
a fecundidade de seu caráter: é Aion, princípio criador,
fertilidade infinita. O tempo passa, mas ao passar vai
criando. Os Antigos salientaram a ambivalência do tempo.
Ouvindo Olímpia proferir o elogio do tempo “no qual apren­
demos e recordamos” , o pitagórico Paron protestou pergun­
tando se não é nêle que se faz o esquecimento e procla-
mou-o rei da ignorância. Como vimos, os poetas evocaram-
-lhe sua força devastadora. A poesia grega se refere com
freqüência ao “Tempo de cabelos grisalhos” ; entretanto, a
representação plástica do tempo jamais evoca na Antigui­
dade nem declínio nem destruição.
Plutarco foi o primeiro a assinalar a contaminação pro­
duzida entre o nome grego do tempo, Cronos, e o de Kro-
nos, o mais temível dos deuses. Para êle, Kronos, que
devorava os próprios filhos significava o Tempo; os neo-
platônicos aceitaram esta assimilação, dando porém ao tempo
uma interpretação otimista. Em sua concepção, Kronos é o
Nous, o pensamento cósmico, o “pai de todas as coisas” ,
o “ sábio velho construtor” . Kronos era sempre represen­
tado segurando uma foice, considerada naquela época um
instrumento agrícola e símbolo de fertilidade.
Esta imagem viu-se abalada na Idade Média quando o
tempo começou a ser considerado como uma causa de deca­
dência. O macrocosmos, tal como o microcosmos, o homem,

155
passa por 6 idades, à semelhança dos dias da semana (29).
A última, à qual se admite ter o mundo chegado, é a da
decrepitude. Esta concepção pode ser encontrada tanto
num divulgador como Honorius Augustodunensis como em
Santo Tomás de Aquino. Mondus senescit: tal era o pensa­
mento do cristianismo primitivo diante das tribulações do
Baixo-Império, pensamento este, legado a seus herdeiros
e expresso no início da Vida de Santo Aleixo, no século XI:

Bom foi o século, não terá mais tal valor.


Velho está e frágil, tudo nêle vai declinando,
Está piorado; o bem, aqui, já não se faz ( 0).

Lê-se na versão feudal do século X II:

Bom foi o século no tempo dos antigos


E, de tão mudado, perdeu seu valor,
Não será mais igual ao de nossos avós
.. .Frágil é a vida, não durará muito tempo ( *) .

A mesma idéia foi amplamente desenvolvida na versão


do século XVIII:
O fim está próximo, pelo que sei ( 0).

No século XII, Othon de Fresing escreve em sua Crô­


nica: “Vemos o mundo desfalecido e, por assim dizer,
exalando o último suspiro da extrema velhice.” Na mesma
época, as miniaturas do Liber Floridus ( 30) revelam o sucesso
desta concepção. São Norberto chegava a acreditar que
sua geração presenciaria o fim do mundo.
No século XIII Hugues de Saint-Victor escrevia: “Apro-
xima-se o fim do mundo e o curso dos acontecimentos
já alcançou a extremidade do universo.” Ao envelhecer,
o mundo se vai estreitando e os próprios homens encolhem;
já não passam de crianças e de anões, afirma na mesma
época Guiot de Provins. Encontra-se nos Goliards esta mes­

(29) Distinguem-se às vêzes sete idades, às vêzes quatro.


(30) Compilação desordenada, de autoria de Lambert, cônego de
Saint-Omer.

156
ma idéia que se vê amplamente desenvolvida nos Carmina
Buranas: “A juventude já nada quer aprender, a ciência está
em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para
baixo, cegos guiam outros cegos. As coisas todas se acham
desviadas de sua rota.” Dante põe nos lábios de seu an­
cestral Cacciaguida lamentações sobre a decadência das
cidades e das famílias. O mundo se apequena como um
manto em torno do qual o “Tempo gira armado de tesouras” .
Raros são aquêles que vêem alguma vantagem neste enve­
lhecimento. Disse Bernard de Chartres: “ Somos como
anões trepados em espáduas de gigantes, mas enxergamos
mais do que êles.” Semelhante otimismo não é comparti­
lhado. Não é nada encorajador o panorama vislumbrado a
distância pela Idade Média: assemelha-se muito ao reinado
do Anticristo. Anunciada pelo Apocalipse, esta figura teve
seus contornos melhor definidos no século VIII por um
monge chamado Pierre e, em seguida, por Adson no século
X, tendo Albuíno no século XI adaptado ao Ocidente as
predições feitas no século IV pela sibila de Tibur. Tinha-se
tornado uma figura familiar a todos, graças ao teatro re­
ligioso. Nascera uma figura antagônica: a do “ rei justo” ,
um messias terrestre que viria inaugurar um millenium de
felicidade. Esta crença, entretanto, se difundira muito pouco.
A Idade Média estava convencida de que, em conseqüên-
cia do pecado original, a humanidade estava destinada a
uma infelicidade que não poderia deixar de se agravar com
o tempo. Convencidos de tão desanimadora idéia, os ho­
mens investidos da função de dirigir a sociedade limitavam-
-se a governar dia a dia, sem cogitar de nenhum porvir po­
lítico definido. Da História, ninguém esperava melhoras.
As esperanças da Idade Média eram intemporais: era pre­
ciso conseguir uma libertação da vida terrestre e trabalhar
pela salvação espiritual. O Tempo arrastava o mundo à
decadência, seguida em breve do fim.
Explica-se por êste contexto, o fato de ter sido a imagem
do tempo transformada sob a influência dos astrólogos. O
nome romano de Kronos, Saturno, foi atribuído ao pla­
neta mais distante e mais lento, considerado frio e seco,
associado à indigência, à senilidade e à morte. Nos trabalhos
de astrologia, aparece geralmente sob o aspecto de um
velho melancólico, de ar sofredor, segurando uma foice, uma

157
pá, uma enxada ou um cajado, apoiando-se numa muleta,
símbolo da decrepitude. Ou tem uma perna de pau ou é
castrado. (Lembrança de sua castração por Zeus, na nar­
rativa mitológica.) A propósito dele, a iconografia medie­
val desenvolve o tema do homem castrado e da criança de­
vorada. Sendo o mais maligno dos planetas, são repulsivas
as imagens de Saturno. Por outro lado, a Morte vem sendo
representada, desde o século XI, com uma foicinha na
m ão (31). Na sua qualidade de agente destruidor da vida,
o tempo se relaciona com a morte. E Kronos foi identi­
ficado com Cronos. Nada mais natural, portanto, que para
evocar o Tempo, o ilustrador de Petrarca — em cuja con­
cepção o tempo é destruidor — se tenha servido da imagem
de Saturno: decrépito, dotado de asas e segurando uma
ampulheta. Esta imagem há de prevalecer desde então.
Nos “triunfos da morte” tão numerosos no século XV, a
Morte surge como um esqueleto carregando uma foice e
uma ampulheta. Também o Tempo é dotado de uma foice
que deixou de ser símbolo de fertilidade: ela ceifa as vidas
como a Parca cortava o fio dos dias.

Ao findar a Idade Média, a vida ainda continua precá­


ria e rara a longevidade. Ao morrer, em 1380, Carlos V
contava 42 anos de idade e deixava uma reputação de velho
sábio. A sociedade, no entanto, evolui. A partir do século
XIII e sobretudo do XIV, presencia-se um Renascimento
da vida urbana. A Igreja já não condena de maneira tão
severa a busca do lucro que acaba sendo legitimada e o
mercantilismo prestigiado. Em Veneza, em Pisa, os próprios
nobres se dedicam ao comércio. Noutros lugares, a aristo­
cracia permanece geralmente alheia ao mundo dos negócios:
traficar era sinônimo de decair. Mas a burguesia prospera.
E os grandes comerciantes, os grandes banqueiros adqui­
rem títulos através de compras de terras e de casamentos:
vai-se constituindo uma nova nobreza. Vemos assim desen­
volver-se um patriciado urbano. A propriedade vai se fun­
damentar daí por diante em contratos e não mais na fôrça

(31) No Evangeliário Uta. Carrega uma foice, na Bíblia de Gum-


pert, anterior a 1195.

158
física: aparece, então, o tipo tradicional do pequeno comer­
ciante avesso a brigas. Podem-se armazenar mercadorias e
dinheiro. Esta transformação modifica a condição dos velhos,
nas classes favorecidas: com o acúmulo de riquezas, eles
podem tornar-se poderosos. Manifesta-se maior interesse
para com eles. Coexistem na época duas correntes ideo­
lógicas: uma religiosa e espiritualista e uma tradição pes­
simista e materialista. A concepção da velhice descrita por
Dante no Festim encaixa-se na primeira destas perspectivas.
Compara êle a curva da vida humana a um arco que se
eleva da terra ao céu até um ponto culminante de onde
torna descer. Encontra-se o zênite aos 35 anos. Começa o
homem, em seguida, a declinar lentamente. O tempo da
velhice vai dos 45 aos 70 anos. Vem depois disto a velhice
avançada. Se fôr dirigido pela sabedoria, êste final poderá
ser tranqüilo. Dante compara o ancião a um navegante
a recolher suavemente as velas quando percebe a proximi­
dade da terra e atingindo lentamente o porto. Estando a
verdade do homem no além, deve êle aceitar serenamente
o fim de uma existência que não passou de breve jornada.
Atingir tranqüilamente o pôrto, tal deverá ser, no en­
tender dos clérigos e das almas piedosas, a principal preo­
cupação das pessoas de idade; a fase final da vida se lhes
afigura essencialmente o tempo em que nos devemos pre­
parar para a morte. Proliferam as artes moriendi. Gerson
redige uma “ breve instrução a um velho de como êle deve
se preparar para a morte” . Sem dúvida por ter perdido a
vista, êle lhe recomenda que chame para junto de si alguém
que lhe faça a leitura de livros de devoção, para afastá-lo
das coisas mundanas. Publicam-se trabalhos análogos em
tôda a Europa, e em número extremamente elevado na
Alemanha, a partir de 1400. Neles também se encontram
conselhos aos velhos, a respeito da maneira de elaborar
um testamento: é de muito bom aviso que os que possuem
bens, leguem uma parte dêles aos conventos ou aos hos­
pícios.
Para um cristão convicto, a velhice constitui, portanto,
o momento mais indicado para garantir a própria salvação.
Não é, entretanto, particularmente valorizada. Quem vai
cada vez mais se impondo à devoção dos fiéis, durante os
séculos XIV e XV, é Cristo; é trágico o século XIV: guer-

159
ras, pestes, períodos de fome, dramas provocados pela su­
perpopulação. Tôda a confiança do Ocidente, mergulhado
em terríveis provações, vai para a figura do Cristo Reden­
tor. Êste já não aparece sob os traços do Rei dos reis:
é como o Salvador que se vê exaltado. Eclipsados estão o
Pai e o Espirito Santo. A missa deixou de ser um sacrifício
ofertado a Deus Pai para se tornar a representação do Cal­
vário. Adora-se a Eucaristia, veneram-se as relíquias da
Paixão. Desenvolve-se consideràvelmente a fabricação de
crucifixos. Esboça-se o culto da Santa Face, assim como
a prática da via-sacra. Pinta-se e esculpe-se freqüentemente
a figura de Cristo em agonia no Hôrto das Oliveiras, aguar­
dando o suplício, solitário e cheio de angústia. A devoção
a Maria desenvolve-se simultâneamente. Redescobre-se a
Anunciação no início do século XV e ela passa a inspirar
uma quantidade enorme de quadros e de imagens. Uma
iconografia prodigiosa adota como tema a infância de Cristo
e a Santa Família, jamais representada até então. Santifi­
cam-se com estas evocações da vida de Jesus a infância, a
adolescência e sobretudo a maturidade. Esquece-se a velhice.
Desenvolve-se, por outro lado, uma literatura profana
nas côrtes dos nobres e entre o patriciado urbano. Satírica
e realista, ela ridiculariza tôda a sociedade: as mulheres e
seus maridos, os monges, mercadores e plebeus. Pouco
lugar concede aos velhos. Contudo — tal como fizera Plauto
outrora — Boccacio na Itália e Chaucer na Inglaterra zom­
bam dos velhos ricos que se valem de sua fortuna para
conseguir os favores das mulheres bonitas.
No conto de Boccacio ( 32), um juiz de Pisa, muito
idoso, desposa a jovem e bela Bartolomea. Mal consegue
êle desempenhar seu dever conjugal na noite de núpcias.
Acha-se tão esgotado na manhã seguinte que inventa um
pretexto para se eximir: vai mostrando, dia após dia, à
mulher, no calendário, que se trata da festa de um grande
santo em cuja honra deve ser evitado qualquer tipo de
relação carnal. A grandes penas, presta-se êle a isto uma
vez por más. Estavam êles, um dia, passeando de barco

(32) Retomado por La Fontaine em seus Contos. É o único


a pôr em cena um velho.

160
quando ela foi raptada por um corsário, que lhe dá provas
cotidianas de sua paixão, sem se preocupar com o calen­
dário. O marido consegue encontrá-la mas ela recusa voltar
para a sua companhia. Êle morre de desgosto e a cidade
tôda se diverte com o fato.
Nos Contos de Canterbury, Chaucer relata as desven­
turas de um velho mercador, Janeiro, que graças a sua
fortuna obtém a mão da linda Maio, de 20 anos de idade.
Os electuários por êle ingeridos na noite de núpcias possi-
bililam-lhe um comportamento ardoroso durante tôda a
noite.
Assim lida êle até que o dia desponte.
Toma então uma sopa de forte clarete
E senta-se na cama
E depois canta com alta e clara voz,
Beija a mulher e pratica mil loucuras.
Sentia-se todo como um potro galhofeiro
E tagarela como uma pêga marchetada.
Treme-lhe a mole pele do pescoço
Durante a sua canção, tanto êle canta e gorjeia.
Mas Deus sabe o que Maio no íntimo pensava
Quando o viu sentado, em camisa,
Com o gorro de dormir e o magro pescoço.
Nem o valor de uma ervilha a seu jôgo ela dá ( * ) .

Engana-o, pouco tempos depois, com um jovem e belo


assalariado, em circunstâncias burlescas. Faça êle o que fi­
zer, a sexualidade do velho causa repugnância, como já
indiquei. Boccacio zomba de sua impotência; Chaucer o
faz artificialmente vigoroso, mas sua fealdade e o ridículo
de suas atitudes transformam o amor físico em exercício
repulsivo.
Ao lado deste pessimismo realista, parece ter havido
na Idade Média, um pessimismo idealista. Um de seus
indícios, a meu ver, pode ser encontrado na importância
adquirida nos séculos XIV e XV pela figura de Belisário,
cercada mais tarde de tão grande popularidade (3S). Depois3

(33) Lembrado com frequência no século X V I. Inspirou a Rotrou


uma tragédia, a Marmontel um livro que se tornou célebre, além de
inúmeras alusões e comparações. Assim como numerosos quadros.

11 161
de ter levado uma existência cheia de glórias, de haver con­
quistado a Itália aos gôdos e de haver recusado o império
do Ocidente, o grande general que havia salvo Bizâncio
caiu em descrédito: viu-se implicado em 562 numa conspi­
ração contra Justiniano, que contava então 80 anos; foi en­
carcerado ncbinterior de seu palácio, tendo-lhe sido confis­
cados todos os bens. O processo ocorreu em 563. Segundo
Theophanas, que copiou documentos contemporâneos ein
sua Cronografia, no fim do século XVIII, sua inocência foi
provada: foram-lhes devolvidos os bens e a liberdade. Mais
tarde, no século XI, o autor anônimo das Antiguidades de
Constantinopla — trabalho eivado de erros — observa de
passagem que Belisário foi reduzido à miséria e teve os
olhos vazados. No século XIII. Tretzes, gramático de
Constantinopla, célebre pela erudição, adotou esta versão,
embora reconhecesse que muitos historiadores a negava.
Descreve Belisário, cego e velho, mendigando à porta do
palácio: “ Dai um óbolo a Belisário.” Era freqüente em
Bizâncio o suplício do vazamento de olhos, mas não há
provas de que Belisário o tenha sofrido. Por que motivo
se impõe esta imagem?
Podemos desde logo nos perguntar de que maneira ela
se popularizou, a ponto de todos os compiladores da Renas­
cença se haverem depois assenhoreado dela. Não devemos
esquecer que foi êste o destino de todas as lendas na Idade
Média: apesar da dificuldade de comunicações, a população
era muito móvel: mercadores e peregrinos eram os porta­
dores de histórias verdadeiras ou falsas, para todos os con­
fins do mundo. Os jograis coletavam estas narrativas, e
achavam-se, por outro lado, em incessante comércio com
os clérigos; não devemos opor o conhecimento científico e
a tradição popular, esquecendo-a e os anos que havia entre
ambos. Finalmente, nos séculos XIII e XIV, muita gente
sabia ler. Qualquer acontecimento de monta, fôsse êle
real ou mítico, era bem depressa e amplamente difundido.
O aspecto mais interessante da questão é o sucesso al­
cançado por esta lenda. Explica-o, sem dúvida, a presteza
com que a Idade Média acolhia tôdas as visões sombrias.
Ora, Belisário representa de maneira exemplar as misérias
da idade avançada: invalidez, dependência, passividade, e
sobretudo a decadência a que o condenam a dureza e a

162
Ingratidão dos homens. Além disso, esta trágica aventura
<• edificante, do ponto de vista religioso: um indivíduo exal­
tado até o pináculo da glória e que se vê projetado na
abjeção constitui uma ilustração da “Vaidade das vaidades”
da Escritura: não podemos nos considerar certos de nada
nesta terra: somente em Deus deve o homem confiar.
Na Idade Média, tal como na Antiguidade, existe um
laço mítico entre a velhice e a cegueira. Simboliza esta o
exílio a que são condenadas as pessoas idosas por uma
existência demasiadamente longa: acham-se separados do
resto dos homens e esta solidão os engrandece e os torna
espiritualmente clarividentes. Por outro lado, o mito, naquela
época, deitava sólidas raízes na realidade: não se sabia
operar a catarata e eram efetivamente cegos muitos homens
de idade.

Na França do século XV perpetua-se o pessimismo dos


séculos precedentes. Segundo a concepção ainda vigente,
o mundo se acha no ocaso. Gerso o compara a um velho
delirante, entregue a fantasias e ilusões sem conta. Eustache
Deschamps o visualiza como um velho na segunda infância:

Ora é covarde, fraco e muito


Velho, cúpido e mal-falante\
Eu só vejo loucos e loucas
Próximo está o fim, na verdade...
Tudo vai mal. ..( * * )

A lembrança da morte nunca esteve tão presente: as


“danças da morte” se tornam cada vez mais numerosas e ter-
rificantes. Cadáveres e carcassas são pintados da maneira
mais hedionda possível, contrapostos pelos pregadores às
enganosas graças da juventude. O homem é um morto em
sursis, a beleza não passa de aparência. Odin de Cluny
descreve com veemência raramente igualada a ignomínia dis­
simulada no interior de nosso corpo, por êle denominado
“ saco de excrementos” . Outros se encarregam de recordar
a decrepitude a que êle está votado e lhe descrevem a mi­
séria de maneira implacável. O velho não é então considerado
como o outro mas sim como o mesmo: só o descrevem,

163
entretanto, do exterior, com o único objetivo de lançar o
descrédito sôbre a juventude e sobre a beleza. Êsses lugares-
-comuns são repetidos complacentemente pelos poetas. Eus-
tache Deschamps só enverga na velhice mazelas e motivos
de desgôsto, decadência da alma e do corpo, ridículo, feiúra:
estabelece seu início aos 30 anos para as mulheres, aos 50
para os homens; para todos, aos 60 anos, só resta a morte.
Olivier de La Marche se acha perfeitamente de acordo com
seu tempo quando, retomando um tema já gasto, dirige
sombrias profecias a uma jovem beldade:

Doces olhares feitos para o agrado,


Pensai nisto: perderão seu fu lgo r...
Vossa beleza mudará em feiúra,
Vossa saúde numa doença escura ( °) .

A mulher idosa continua a ser objeto de repugnância e


derrisão. Na torre Sul da catedral de Bayeux pode-se ler
a seguinte inscrição, gravada naquela época a respeito de
Isabelle de Douvres e na qual o autor lamenta que não
se tenham enterrado cem velhas em lugar de uma só:

Quarte dies paschale erat


Que jacet hic vetule venimus exequias
Leticie diem magis amissise dolemus
quam centum tales si caderunt vetule.

Villon liga-se a esta tradição quando, em Les regrets de la


belle heaulmière lamenta a devastação operada pela velhice
sôbre o corpo feminino. Contudo, embora tenham sido tão
numerosos seus antecessores, êle a todos nos faz esquecer.
Revela em tôda a sua nudez aquilo que a literatura de má
qualidade disfarça com palavras ocas.
Villon amava o corpo feminino:

Corpo feminino, tão tenro. ..

Repugna-lhe imaginar, no Testamento, que êle possa


se decompor debaixo da terra, gostaria de vê-lo “ subir todo
vivo para os céus” . Também prediz, com melancolia, a
futura decadência de uma beldade indiferente:

164
Tempo virá que vos fará secar,
Desbotar a desabrochada flor.
. . . Eu, velho estarei; vós, feia e sem côr ( ° ) .

Nos célebres Regrets de la belle heaulmière uma terna


compaixão ameniza a crueza da descrição. Tinha sido muito
afeiçoado a sua mãe: “ Sou mulher, pobrezinha e anciã” .
Talvez por êste motivo, êle não se limita a olhar de fora,
friamente, a mulher decrépita em que se tornará um dia
a bela personagem dos Regrets e deixa-a falar; deve ter
igualmente compreendido que a degradação só é pungente
quando ressentida pelo sujeito.

Quando me vejo tôda nua


E me deparo tão mudada
Pobre, sêca, magra, miúda,
Fico quase desesperada! (*)

Enquanto a maioria dos escritores que falam dos velhos


nem sequer se dá ao trabalho de os observar, é de uma
exatidão impressionante o quadro pintado por Villon:
Orelhas pendentes, musgosas,
Rosto pálido morto e descorado
Queixo franzido, lábios pelanguentos
São da humana beleza o encerramento (*).

Não vai aí nenhuma alegoria; é um retrato preciso,


singular, que, no entanto, se refere a todos nós. A huma­
nidade inteira é posta em questão na pessoa daquela velha
decaída. A velhice não está reservada somente para os
outros: acha-se a nossa espera, assim como espera a bela
jovem cujas lamentações são antecipadas por Villon: é o
destino de todos nós. E é por ter tomado consciência deste
fato que o poema de Villon consegue tamanha ressonância.

No século XVI, enquanto a civilização permanece re­


petitiva e conservadora nas zonas rurais, um capitalismo
primário vai se desenvolvendo nas cidades italianas e começa
a surgir noutras cidades também: comércio, emprêsas in-

165
dustriais e operações financeiras. Esta nova prosperidade
possibilita um florescimento cultural imenso em todos os
setores: ciências, letras, artes e técnicas. Manifestam-se
correntes muito diversas. O Renascimento prolonga as tra­
dições da Idade Média. Continua a viver com a obsessão
do Anticristo e do Julgamento final ( 34). Busca, entretanto,
promover uma idéia nova e harmoniosa do homem. O hu­
manismo ao recuperar a Antiguidade, tenta ligá-la sincrèti-
camente ao Evangelho: deseja-se incorporar ao cristianismo
o amor pela vida e pela beleza. Erasmo pretendeu, de
maneira muito particular, levar avante esta tarefa e nos
proporcionou um ensinamento “ de moral e de civilidade” .
Um de seus Colóquios é consagrado aos velhos e nêle
descreve um velho-paradigma: aos 66 anos, não tem nem
rugas nem cabelos brancos, não usa óculos e sua tez é
rosada; os outros, cujas existências foram desregradas ou
aventurosas, aparentam ser seus pais. Cornaro, patrício
veneziano, irá retomar na Itália o mesmo tema: uma exis­
tência comedida leva a uma bela velhice. Apresenta-se a
si mesmo como exemplo no “tratado da vida sóbria e re­
grada” . O verdadeiro objetivo dêstes dois trabalhos é so­
bretudo fazer a apologia da virtude: afirma-se que sua recom­
pensa reside na saúde e na serenidade da idade final.
Quanto à velhice em si mesma, a literatura desta época
não se mostra mais complacente que a dos séculos prece­
dentes. A Idade Média menosprezava o farrapo humano e
o considerava particularmente repulsivo entre as pessoas
idosas. O Renascimento exalta a beleza do corpo: o femi­
nino, então, é exaltado até os cornos da lua. A fealdade
dos velhos parece, comparativamente, ainda mais odiosa:
a da mulher velha nunca foi tão cruelmente denunciada.
A misoginia medieval se perpetua no século XVI, prepon-
derando a influência da Antiguidade, sobretudo a de Ho-
rácio. Como reação aos excessos do petrarquismo, nasce
uma poesia satírica e chocarreira. Todas estas razões se
conjugam para explicar a freqüência e o caráter do tema
da mulher velha.

(34) Havia na Alemanha, um “jôgo do Anticristo” ; escreviam-se


Vidas do Anticristo. Muitos pregadores anunciavam sua vinda. Inspirou
os afrescos de Signorelli em Orvieto.

166
Os escritores que o exploram foram profundamente in­
fluenciados pela peça em que Rojas em 1492, descreve, a
sociedade espanhola de seu tempo: A Celestina. Pela pri­
meira vez atribuía-se o papel principal a um personagem
de mulher velha: uma alcoviteira, como de praxe, mas de
envergadura muito diferente daquelas que haviam sido até
então retratadas em cena. Antiga prostituta, proxeneta por
vocação, interesseira, intrigante e lúbrica, é também algo
feiticeira e dirige tôda a ação. Nela se concentram todos
os vícios atribuídos desde a Antiguidade às mulheres idosas
e ela é severamente castigada no final da peça, apesar de
sua habilidade. Embora de maneira menos brilhante, o
teatro francês se abeberou nesta fonte de inspiração: en­
contramos velhas alcoviteiras, cortesãs fanadas, em Jodelle,
Odet de Turnèbe e Larivey.
É muito clara em Erasmo a posição deliberadamente
antifeminista com relação às mulheres de idade. Ê normal
o fato de reprovar êste moralista aquelas que têm o des-
plante de ainda pensar em amor. Mas a maldade gratuita
de sua descrição causa espécie na pena de um humanista.
Evoca êle: “ Estas mulheres decrépitas, estes cadáveres
ambulantes, estas infectas carcassas que exalam por tôda
parte um odor sepulcral, exclamando a todo instante: Não
há nada mais doce que a vida. . . Ora exibem suas mamas
flácidas e repulsivas, ora se empenham em despertar o ardor
dos amantes com os ganidos de sua voz trêmula.” No meio
de tantos lugares-comuns, observamos um tema novo: o
contraste entre a mulher velha, ser hediondo aos olhos dos
outros, e seu inalterado prazer de viver (35). Erasmo lho
censura, embora se tenha por hábito louvar os homens cujo
amor pela vida não se deixa abater pela idade.
Marot manifesta idêntico desgosto diante da velha que
ambiciona ser amada:

Queres ouvir, velha enrugada,


Por que razão não posso amar-te? (**)

(35) É o tema de Ah! les beaux jours de Beckett, mas noutra


perspectiva,

167
E explica-o demoradamente. Rerefe-se à “feia têta”
da mulher velha e dela faz um retrato físico repugnante.
Descreve uma feiticeira que é uma “velha hedionda.” Des­
portes revela a mesma repulsa em Le mépris d’une dame
devenue vieille:
Com atrativos repugnantes
...Ju lg a s despertar meus sentidos ( *) .

Compara-se a mulher velha à jovem, para humilhá-la.


D’Aubigné faz um paralelo entre a linda cabeleira de sua
amada e a “tinhosa peruca” de horrenda velha.
Por que motivo terá Du Bellay voltado a estes temas
na Antérotique de la vieille et de la jeune? Acabara êle
de publicar UOlive, poema consagrado à glória da mulher
e ao amor, inspirado por Petrarca, e que obtivera enorme
sucesso. Podemos estranhar ter êle, em seguida, escrito
esta violenta diatribe contra uma mulher de idade:
Vê, ó velha imunda!
Velha desonra deste mundo,
Aquela que (se bem me lembro)
Mal aos quinze está chegando ( *) .

O primeiro motivo é de ordem literária: aborrecera-se


do petrarquismo, por êle próprio cultivado e dominante,
naquela época, na França: resolveu contrariá-lo. Perma­
necera durante algum tempo na Itália e ali havia lido, sem
dúvida, as invectivas freqüentemente endereçadas pelos poe­
tas daquele país às velhas damas de companhia tendo sido
por essas invectivas influenciado. Talvez uma dessas damas
lhe tivesse dado motivos de queixa não se prestando a
ajudá-lo em suas aventuras amorosas. A dama de compa­
nhia constituía aos olhos dos poetas um personagem odioso
e ambíguo: censuravam-na ora por servir de alcoviteira, ora
por lhes atrapalhar os amores.
É sobretudo por sua devassidão passada que se atacam
as mulheres idosas. Tida como imunda quando ainda ali­
menta pretensões ao amor, é acoimada de hipócrita quando
se torna carola. Du Bellay também escreveu um poema rea­
lista e cruel sôbre uma velha cortesão romana. Conta ela

168
mesma sua vida, o declínio de seus encantos, a pobreza, a
doença:
Senhora velhice
A mim só deixou areia nos rins,
A gota nos pés e a sarna nas mãos.

Mas êle não se priva de interpelá-la, cheio de ani­


mosidade:
Ês feiticeira e alcoviteira
Tu és hipócrita e carola (**).

Dever-se-á buscar nalgum ressentimento sexual a origem


deste acirramento dos poetas contra as antigas prostitutas?
A hipótese tem cabimento. Mas o que é preciso notar, em
todo caso, é que, seja êle macho ou fêmea, o velho amoroso
provoca repulsa. Mas quando se trata de homens, a lite­
ratura pega-se aos ricos, cujo prazer é comprado a peso de
ouro; ela ataca, ao contrário, as mulheres da categoria
mais baixa, aquelas que se vendem. Compreende-se facil­
mente o rancor despertado pelos primeiros; as velhas pros­
titutas são objeto de uma animosidade cujas razões são
menos óbvias, e que deveremos buscar talvez em alguma
frustração.
Como na Antiguidade e no folclore, a mulher de idade
é muitas vezes assimilada a uma feiticeira: Rabelais atribui
à sibila de Panzoust os traços de uma velha “mal conforma­
da, mal vestida, mal nutrida, desdentada, ramelenta, ranhosa,
toda encurvada e cheia de langor.”
Finalmente, a velha se parece com a morte. Sigônio ( 3S)
escreve:
Múmia respirante
Da qual se sabe a anatomia
Través de um couro transparente.
Imagem viva da morte, imagem morta da vida,
Carniça desbotada, do túmulo despojo.
Exumada carcassa, de um corvo acometida... (“ )

(36) Sigônio, antiquário latino nascido em Módena.

J69
Raramente se ouve tocar noutra tecla, no século XVI; toda­
via, paralelamente a uma ode em que explica o quão vergo­
nhoso é amar uma mulher velha, Pierre Le Noyer escreve
outra onde pinta, enternecido, a velhice feminina:

A velhice à maçã se assemelha


Sendo, a um só tempo, doce e saudável. .. (*)

Quanto mais enrugada, mais perfeita é a maçã: o mes­


mo sucede com a mulher velha. François Hulot contrapõe
a “velha desdentada, infame e desgraçada” à “velha cheia
de honra” ,
da qual a graça e a forma
À beleza dos jovens se conforma
.. .Velha, é verdade, mas de alto valor
Pela graça e a virtude cortejada ( * ) .

Era preciso separar a grande dama, entrada em anos,


do vil rebanho das velhas marcadas pelos maus costumes
ou pela pobreza. Brantôme, na Vie des dames galantes,
foi o único autor a assumir veementemente a defesa das
mulheres idosas. Parece-lhe normal que elas ainda se en­
treguem às delícias do amor; afirma que algumas continuam
belas e são amadas mesmo depois dos 70 anos.

Enquanto os poetas cobrem de injúrias a mulher idosa,


o velho se vê ridicularizado pelo teatro cômico. Já vimos,
com Aristófanes e Plauto, que o teatro cômico nega ao
velho a qualidade de sujeito; apresenta-o como o outro,
um mero objeto, com o qual, o riso impede que os especta­
dores se solidarizem. Ao trazer para a cena velhos engra­
çados, aos quais atribui papéis importantes, a commcdia
delVarte perpetua uma tradição que se havia mantido du­
rante o período do Baixo-Império e a Idade Média. No
século III de nossa era, Julius Pollux, no Onomasticon, ela­
borou uma lista dos diferentes tipos de máscaras utilizadas
nas comédias e nas tragédias. Há duas máscaras de avós,
muito idosos: “O primeiro é o mais idoso; apresenta a
cabeça completamente raspada, sobrancelhas suaves, longas
barbas, faces magras; mantém os olhos baixos, expressão

170
jovial e sua pele é clara. O segundo é mais magro, seu
olhar é mais tenso e mais triste: ligeiramente pálido, sua
barba é longa, os cabelos ruivos e as orelhas achatadas.”
Há um segundo par, colocado por Pollux em outra categoria:
“ O velho de maior importância ostenta uma coroa de cabelos
ao redor da cabeça, possui um nariz aquilino, um semblante
alongado, sobrancelhas retas e elevadas. O outro apresenta
uma longa barba em forma de leque e muito basta, além
da coroa de cabelos ao redor da cabeça; não alteia as so­
brancelhas e seu olhar é lento.”
Pollux fala em três máscaras de velhas: a velha gorda
e indulgente; a lôba, isto é, a velha alcoviteira, de nariz
esborrachado e dois molares em cada maxilar; a concubina,
empenhada em se fazer desposar.
A commedia delVarte comporta dois personagens de
velhos: Pantalão e o Doutor. O primeiro é o mais im­
portante: é um comerciante já afastado dos negócios, ora
rico, ora pobre, pai de família ou solteirão, mas sempre
avarento como o Euclion da Aulularia. Além de tudo, sem­
pre apaixonado. Uma gravura de 1577 o apresenta como
um velho alto e escanifrado, de barba pontuda e enorme
falo em ereção: este atributo fazia parte do traje habitual
de Pantalão. Era, entretanto, tinhoso, gotoso e catarrento. ..
Tenta corromper com ouro as mulheres jovens que o atraem.
É ludibriado pelos filhos, pelas empregadas, corneado pela
mulher quando casado e logrado pelas levianas. Acredita-
-se muito sábio, pretende dar conselhos, faz discursos em­
polados, busca envolver-se nos negócios do Estado: é tão
irritante que o sovam para obrigá-lo a calar-se. Segundo as
gravuras, os atores sempre procuravam contrapor seus aces­
sos de senilidade a crises de agilidade. Êste personagem
recebeu nomes diferentes nas diversas regiões da Itália:
foi denominado Pancrácio, Cassandro ou Zanóbio. Encar­
nou-se na França em Gaultier-Garguille e Jacquemin Jadot.
O outro velho é o Doutor, grande tolo pedante, mem­
bro de tôdas as academias. O homem idoso já não é apenas
o monopolizador das riquezas, tornou-se também — e êste
traço não havia sido ainda encontrado — o indivíduo que
pretende tudo saber. Isto o faz ainda mais ridículo pois
na verdade o Doutor não passa de um ignorante, contador
de enormes lorotas, estropiando citações gregas ou latinas

171
durante o dia todo. Chamam-no também Baloardo: o pa-
cóvio. Ê amigo de Pantalão e, como este, avaro e galan-
teador ao mesmo tempo. Todos caçoam dele.
A velha só é representada por um personagem: a alco-
viteira. A mulher velha e honesta, que perdeu os atrativos
sem conquistar o poder, não constitui nem objeto nem su­
jeito: não representa nada. As esposas são mulheres de
meia idade e seu papel é apenas relativo: são a compa­
nheira, a testemunha ou o censor das extravagâncias do
velho marido. A cortesã envelhecida, que adquiriu fortuna
pessoal e não depende de ninguém, passa a utilizar sua
experiência para conseguir seus próprios fins, isto é, enri­
quecer. É um indivíduo autônomo, um sujeito. Pouco
interêsse desperta, no entanto, pelo fato de representar ape­
nas uma utilidade, uma figura estereotipada.
São também bastante convencionais os homens idosos.
A commedia delVarte não nos fornece informes fidedignos
a respeito dos costumes da época: limita-se a utilizar em
intrigas pouco variadas as diversas máscaras de que é her­
deira tradicional e cujo papel se acha de antemão definido.
Não existe muito mais originalidade na Clizia, onde
Machiavel, no início do século XVI, se restringe a desmas­
carar Plauto. Nicomaro tem 70 anos e poucos dentes lhe
restam. Apaixonado por Clizia, resolve casá-la com seu
criado, que a deverá passar para seus braços. Prepara-se
para a noite de núpcias tomando um electuário denominado
satiricon. Acaba sendo esbulhado e se arrepende. O tema
focaliza mais uma vez o contraste entre o sensato compor­
tamento que convém aos velhos e os apetites sexuais que
continuam a agitá-los. Sua esposa descreve-o como tendo
sido um homem ideal antes de se apaixonar por Clizia e
deplora sua metamorfose: “ Era então um homem respei­
tável, grave e reservado. Empregava o tempo de maneira
honrosa; levantava-se muito cedo, assistia a missa e provi­
denciava os mantimentos para o dia; cuidava em seguida
dos negócios que aparecessem ... acabado o jantar, con­
versava com o filho, dando-lhe sensatos conselhos. A regula­
ridade de sua vida constituía um exemplo para todos na
c a sa ... Mas depois que se embeiçou por aquela rapariga,
anda descurando os negócios, suas terras estão se estra­
gando, seus negócios vão por água abaixo; grita constante-

172
menle, sem saber por q u ê ... Não responde quando lhe
falam ou então responde tudo errado.”
Afirma-se numa das canzone intercaladas na peça: “Tão
cheio de encantos é o amor num jovem coração quão cho­
cante num homem que já viu murcharem as flôres da
idade. . . Assim sendo, velhos enamorados, a melhor coisa
que podereis fazer será deixar para a ardente mocidade
os empreendimentos galantes.”
O teatro de Ruzzante é de inspiração muito mais ori­
ginal, é um teatro combativo: pouca coisa se conhece a
respeito de Ângelo Beolco que desempenhava o papel de
Ruzzante em suas próprias peças, tendo ficado conhecido
com êste nome. Filho natural de um médico de Pádua,
educado pela família do pai, mais tarde amigo e protegido
do rico patrício Cornaro, tomou posição muito decidida­
mente favorável aos camponeses, aos pobres e oprimidos
em suas Ocazione. Esta simpatia se manifesta em tôda a
sua obra. Não põe em cena máscaras estereotipadas: até
mesmo o personagem de Ruzzante é bastante variado. A
Pastoral se mantém dentro das convenções. O velho pastor
Milésio se enamorou de uma ninfa e lamenta esta loucura.
Repelido por ela, perde os sentidos a ponto de ser tido
por morto: “ Infeliz amante, até onde chegaste? A que
estás reduzida, idade desassisada!”
Mas em geral busca inspiração nos costumes e na lin­
guagem da gente de sua época, dos camponeses, especial-
ménte. Sendo jovem, ataca os velhos que se valem da
riqueza para oprimir os pobres. Em A Vaqueira, imitação
do Asinário, o velho Placídio não prejudica a ninguém,
sendo, por conseguinte, retratado de maneira indulgente:
parece-se com Demeneta, mas tem muito boas qualidades
e ama a seu filho: sua mulher o perdoa quando êle se vê
ludibriado e decepcionado. Em compensação, o herói do
Aconitário, um rico veneziano octogenário, é impiedosa­
mente vilipendiado ( 37). Cínico e devasso, cheio de en­
fermidades, ridículo, é um avarento mas sua lubricidade é
ainda maior, visto estar disposto a conquistar a peso de

(37) Ruzzante era amigo do patrício Cornaro; não foi sem dúvida por
acaso que êle zombou de um novo rico.

173
ouro a cortesã Dorália. Ê vaidoso a ponto de se acreditar
amado, e se deixa enganar pelo criado.
No Segundo diálogo riístico, Ruzzante leva ainda mais
longe a caricatura do velho enamorado: nenhum outro
autor o retratou com tão hediondo realismo. Sendo muito
rico, consegue que uma jovem, por ele raptada ao marido,
Bilora, consinta em viver em sua companhia. Mas ela se
lastima: “ É meio inválido, de tão doente. Tosse a noite
tôda como ovelha apodrecida. Não dorme nunca; está a
cada instante procurando abraçar-me e me cobre de bei­
jo s ... — É certo que seu hálito é mais fétido que um monte
de estrume, responde Bilora. Cheira a morte a mil léguas
de distância e tanta sujeira tem no cu que ela tem de lhe
sair pelo outro lado, não acha!” Bilora acaba retomando
a mulher depois de surrar o velho, conforme mandava a
tradição cômica.
Na Piovana, Ruzzante exprime por intermédio do velho
Tura o desagrado que lhe inspirava a idade avançada:
“A juventude se assemelha a um belo arbusto florido onde
buscam abrigo tôdas as aves para cantar: enquanto isto,
a velhice faz pensar num magro cão cujas orelhas são in­
vadidas e devoradas pelas môscas.”
“Tudo que diz respeito à velhice, está muito mais ex­
posto à desgraça. . . A velhice é, na verdade, um charco
onde se acumulam tôdas as águas malsãs, cujo único escoa­
douro é a morte. Quereis desejar mal a alguém! Basta
dizer-lhe: tomara que vivas até envelhecer.”
Por que motivo teria o século XVI atacado os velhos
com tanta veemência? A autoridade do pater famílias ro­
mano ultrapassara de longe a sua, de modo que não era
deles que se zombava mas sim do velho ricaço que pre­
tendia rivalizar com os jovens. Nesta época, tal como nas
precedentes, os anciãos das classes inferiores não desper­
tam o interêsse da literatura. Outro fato ainda deve ser
observado: os nobres, os patrícios não são alvejados: admi­
te-se que seu poder e sua fortuna se acham garantidos por
um direito divino. Não se contesta a hierarquia social esta­
belecida. Quem desperta rancor é o nôvo-rico, o burguês
que conseguiu elevar-se individualmente. Se seus negócios
foram prósperos, nos últimos anos da vida êle se vê de

174
posse de bens consideráveis: aos olhos do homem maduro,
empenhado na luta pela subsistência, assim como aos do
jovem tantas vêzes na dependura, êste açambarcamento
parece injusto: provoca uma inveja cheia de ódio e seu
sucesso é atribuído à avareza. O escândalo se torna into­
lerável quando os velhos utilizam seu ouro para comprar
mulheres jovens: os moços se sentem então sexualmente
frustrados. Vingam-se dêles, buscam desgostá-los de seus
“vícios” caricaturando-os de maneira cruel ou rindo de
suas caricaturas: autores e público acumpliciam-se contra
eles. Assim se explica a multiplicidade das encarnações de
Pantalão e seu êxito.

Ao lado destas obras onde os velhos, mulheres e ho­


mens, são apresentados como objetos, encontram-se algumas
onde êles são integrados à condição humana. Como na
ciranda citada por Jacques Yver no Le Printemps recomen­
da-se aos jovens que aproveitem seus belos dias pois a
velhice se acha à espreita e ela só lhes trará tristeza e
saudades:
Desgosto e ciúmes amam
O cabelo grisalho
Oli, não tem o delírio
Tão áspera prisão.

Juventude assaz louca


Que espera de ora avante
Pois a idade que voa
Não retorna jamais.

O fogo far-se-á cinza


Onde um pesar se aninha... ( #)

Em L'Esté, Poissenot — a exemplo de Plutarco — com­


para a velhice ao outono, considerando-a não como uma
naturidade fecunda mas como esterilidade; é como parte
integrante de seu destino que êle a encara: “ Quando se
quer curiosamente olhar todo o tempo que a natureza
atribuiu ao homem nesta vida, veremos que todos são como
as árvores cobertas de verdura e os prados no comêço de

175
seu renovar, pintalgados do esmalte de várias florinhas:
agradam, então, muito mais à vista do espectador do que,
na hora em que chega a maturidade, quando êste orna­
mento pouco a pouco deperece e morre, os frutos começam
a perder o adorno que lhes emprestava brilho e as ervas,
de mil cores matizadas, se preparam para fenecer. Ouso,
da mesma forma, afirmar que ninguém em seu são juízo se
há de mostrar tão inimigo de si mesmo que não reconheça
ser muito mais agradável que qualquer outra a estação
que tanto influi e em nós difunde um vigor alimentado
pela boa disposição e pronta alegria para qualquer em­
preendimento.”
É importante o lugar ocupado pela velhice na obra
de Ronsard. Influenciado pela Antiguidade e por sua pró­
pria época, pinta também com desgosto a decadência das
velhas prostitutas. Sua Catin ( *) é uma “imagem desbo­
tada”, de dentes “podres e negros” ; tem “ o ôlho ramelento
e o nariz ranhoso” . Explorou com freqüência o tema da
fugacidade da juventude, a cuja espreita se acha um porvir
de tristeza e de fealdade:
Colhei, colhei a mocidade!
A velhice, como a esta flor,
Desbotará vossa beleza

Mas êle também falou da própria velhice em tom pun­


gente e pessoal. É nos últimos anos de sua vida que atinge
o pináculo da glória e escreve suas mais belas obras. Re­
belava-se, no entanto, contra o pêso dos anos, sôbre êle
desabado prematuramente. Foi — quando jovem — belo,
sedutor e excelente cavaleiro. Atingiu-o, aos 38 anos, uma
moléstia por êle confundida com as devastações provocadas
pelo tempo: tinha a aparência de um velho desdentado,
de cabelos brancos; queixava-se de digestões difíceis, de má
circulação, de insônias e acessos de febre:
Minha mocidade passou
Tenho a antiga força alquebrada
Dentes prêtos, cabeça branca

(*) Mulher dissoluta. (N. da T.)

176
Nervos destruídos, e as veias,
De tão frio o corpo, só cheias
De uma água ruhra em vez de sangue ( * ) .

Nunca se pôde consolar, sobretudo por ter conservado


muita necessidade de atividade física e de amor. A artrite
e a gôta lhe vedavam a prática dos esportes; tornou-se irri­
tadiço, pouco sociável, julgando-se influenciado por “ Saturno
inimigo” sob cujo signo nascera e que o fazia:

Bravio, desconfiado, triste e melancólico.

Julgava-se amaldiçoado pelos astros. Depois de uma


mocidade, durante a qual acreditara no triunfo do huma­
nismo, presenciou a ruína de sua esperanças: a guerra civil
devastava a França; contava 48 anos por ocasião da Noite
de São Bartolomeu. É profunda a sua sinceridade quando
escreve:

Nosso real tesouro é a verde juventude.


Os demais anos do homem — apenas invernos ( *) .

Não é menos intensa a convicção de Agrippa d’Aubigné


ao enaltecer as doçuras da velhice; também êle a compara
ao inverno, mas apresenta-a como a estação do sereno lazer
e não da frigidez estéril (38). Levara uma existência agitada
e aventurosa: tinha guerreado, fôra ferido e aprisionado,
conquistara cidades e se vira forçado a libertá-las; conhecera
fadigas extremas e vivas decepções. Tinha amado e perdido
a primeira esposa. Aos 70 anos, ainda gostaria de lutar nas
fileiras dos protestantes para defender La Rochelle. Sua
contribuição foi recusada e êle se retirou em seu castelo
de Crest na companhia de Renée Burlamachi a quem amava
e que acabara de desposar. Era ela uma mulher de 50
anos, muito culta e a êle apaixonadamente devotada. Foi-
-lhe doce aquela existência de fidalgo letrado e camponês
que recebia estrangeiros de qualidade. Viu no inverno

(38) Havia escrito em Les Tragiques, o verso célebre: “Uma rosa


de outono mais encantos tem que qualquer outra” o que prova que a
juventude não era para êle o valor supremo.

12
177
de sua vida uma enseada de paz e cantou-o em alguns
poemas:

Temos menos prazer, mas também menos mágoas;


O rouxinol se cala e calam-se as sereias.
Já não vemos colher as flôres nem os frutos.
A esperança se foi, com frequência enganosa,
O inverno tudo goza; ditosa velhice
A estação do desfrute e não mais dos labores ( * ) .

Nem a sinceridade de Ronsard, nem a de d’Aubigné


excluem os clichês. Apenas um escritor daquele século
conseguiu eliminá-los radicalmente: foi Montaigne. Se­
guindo a própria experiência, interrogara-se a respeito da
velhice como se dela ninguém jamais houvesse falado antes.
E aqui está o segrêdo de sua profundidade: o olhar direto
e exigente, focalizando uma realidade que geralmente se
busca mascarar. Ao tempo em que elogia a velhice, a An­
tiguidade, faz a caricatura dos velhos. Montaigne recusa
tanto a zombaria quanto o enaltecimento. Pretende alcan­
çar a verdade. Pessoalmente, não se considera enriquecido
por ela. Invoca seu próprio testemunho, contrariando o
otimismo moralizador de Platão e de Cícero, contra a pre­
tensa sabedoria dos velhos. Conta pouco mais de 35 anos
quando escreve, examinando o período de sua vida ante­
rior aos 30 anos: “Quanto a mim, parece-me corto que
desde então meu espírito e meu corpo se acham mais di­
minuídos que aumentados, mais recuados que avançados.
Ê possível que cresçam com a vida a ciência e a experiên­
cia daqueles que empregam bem seu tempo; mas a viva­
cidade, a prontidão, a firmeza e outras partes bem mais
nossas, mais importantes e essenciais, se empanam e enlan-
guescem.”
Diz ainda:
“ Depois de prolongado lapso de tempo, acho-me en­
velhecido, mas, certamente, nem uma polegada ganhei em
sensatez. O eu de agora, e o eu de então somos dois: mas
qual o melhor? Não o posso dizer. Seria bom ficar velho
se só caminhássemos para o aperfeiçoamento. Ê um movi­
mento de ébrio, hesitante, vertiginoso, informe ou seme-

178
lhante ao de varetas que o ar maneja casualmente, a seu
talante.”
No terceiro livro, escrito muito mais tarde, Montaigne
continua a preferir a juventude a uma idade por êle já
encarada como velhice. Considera ter apenas diminuído
e não progredido. “ Em suma, tenho êste acidental arie-
pendimento que traz a idade. Aquele que se dizia outrora
agradecido aos anos que lhe haviam tirado a voluptuosi-
dade, tinha opinião outra que a minha; nunca serei grato
à impotência pelo bem que ela me fa ç a ... Nossos apetites
são raros na velhice; profunda saciedade nos toma depois;
nenhuma consciência vejo em tal; tristeza e fraqueza im­
primem em nós uma virtude covarde e catarrenta. Quanto
a mim que a sacudo viva e atentamente, acho que minha
razão é a mesma que eu tinha em idade mais licenciosa,
ou ainda pior, tanto mais que se acha enfraquecida e pio­
rada com o envelhecer. Por vê-la fora de combate, não a
considero mais valorosa. Não a vejo julgar nada por si
mesma, que já então não julgasse; nem nenhuma clareza
nova.
“ Envergonhado e invejoso ficaria se a miséria e o in­
fortúnio de minha decrepitude devesse ser preferida a meus
belos anos sadios, vivazes, vigorosos, e que se devesse esti-
mar-me não pelo que fui mas pelo que deixei de s e r ...
Minha sabedoria, igualmente, bem pode ser do mesmo
porte num e noutro tempo; mas era muito mais empreen-
dedorá e benevolente, galharda, alegre, ingênua, do que
agora: estagnada, rabugenta, laboriosa. . .
“Damos o nome de sabedoria, à dificuldade de nossos
humores, ao desgosto das coisas presentes. Mas, na ver­
dade, não abandonamos tanto os vícios quanto os trocamos
e, na minha opinião, para pior. E almas não se vêem que,
envelhecendo, não tresandem azedo e môfo. O homem
caminha inteiro para o crescer e para o decrescer.”
Causa-me admiração o fato de Montaigne, livrando-se
dos lugares-comuns tradicionais e suavizantes, recusar admi­
tir qualquer mutilação como se fôsse um progresso e de
não considerar enriquecimento o simples acúmulo de anos.
Mas verifica-se em seu caso um curioso paradoxo que, em­
bora lhe passe despercebido, salta aos olhos do leitor: os

179
Ensaios foram se tornando um livro cada vez mais rico,
íntimo, original e profundo à medida que o autor ia avan­
çando em idade. Aos 30 anos, êle não teria sido capaz de
escrever aquelas belas páginas amargas e desiludidas sôbre
a velhice. É no momento em que se sente diminuído que
se torna maior. Mas talvez não houvesse atingido tal gran­
deza sem a severidade com que se trata a si mesmo. A
complacência acaba debilitando: ao envelhecer, Montaigne
soube evitá-la. Se progrediu, foi porque sua atitude com
relação ao mundo e a si mesmo foi se tornando cada vez
mais crítica e o leitor se encontra na incômoda situação
de ter de aderir à crítica embora constate o progresso.

São muito vagos os ensinamentos colhidos na iconogra­


fia do Renascimento sôbre a idéia que este fazia da velhice.
Como na Idade Média, existem imagens que traduzem as
representações populares. Mas há uma pintura erudita na
qual os artistas se exprimem individualmente: até que ponto
sofrem eles a influência de seu tempo?
Nas imagens populares, tornou-se lugar-comum a com­
paração das diferentes idades com os momentos do ano.
Um calendário daquela época ilustra os meses com cenas
da vida doméstica. Em novembro, vemos o pai, velho e
doente. Em dezembro, está agonizante. Outras gravuras
evocam os “graus de idade” de uma maneira que subsistiu
até o século X IX : a vida aí é apresentada como uma escalada
seguida por uma descida. É representada por uma escada
dupla encimada por um patamar. Sôbre esta plataforma,
mantém-se um homem ou um casal de 50 anos; à esquerda,
a partir do solo onde está pousado um berço, sobem em sua
direção a criança, o adolescente, o jovem, o homem maduro;
à direita, descem de degrau em degrau, homens de 60, 70,
80, 90 anos; o centenário, pregado ao leito, repousa ao pé
da escada, no mesmo nível que o bebê. Os personagens estão
vestidos à moda da época. Sob a escada, fica a Morte ar­
mada de sua foice. O aspecto curioso desta representação é
o fato de serem muito raras, sobretudo naquele tempo, as
pessoas que morrem aos 100 anos. Na realidade, não se trata
nestas gravuras de descrever a vida humana tal como decorre
na realidade contingente, mas sim fixar uma espécie de

180
arquétipo. Seu pessimismo é de inspiração cristã: destinado
a uma triste degringolada, o homem deve cuidar antes de
tudo da salvação de sua alm a(39), mesmo durante sua
fase de prosperidade.
O tema das idades da vida tem inspirado muitos pin­
tores. Representam-nas habitualmente por um trio: um
rapaz, um homem maduro, um ancião. É o que vemos no
Concerto de Ticiano no qual o homem idoso aparece com
uma barba e a cabeça calva, conservando entretanto uma
aparência r ija (40).
Outro tema popular é o da fonte de Juvência. É o
motivo de muitas gravuras do século XV: uma delas nos
mostra mulheres idosas mergulhando numa piscina de onde
saem, rejuvenescidas, para os braços de belos jovens. No
século XVI, o mito continuava tão vivo que Ponce de Léon
ao organizar em 1512 a expedição de que resultaria o des­
cobrimento da Flórida, partia em busca da Fonte de Juvên­
cia. Temas análogos se repetem em muitas gravuras e
quadros. Há um, célebre, de Cranach o Jovem; vê-se no
centro uma vasta piscina onde nadam corpos nus; à esquerda,
alguns velhos estão sendo transportados até a borda da
água dentro de carroças ou nas costas de outros homens;
saem, à direita, alegres e felizes; homens e mulheres dançam
e brincam nos prados.

(39) Confirmam-no os textos que acompanham estas imagens. Numa


delas (do início do século X V II), o título, A Grande Escada do Mundo,
inscrito bem em cima se acha cercado por duas inscrições onde se pode ler:

Esta escada ê um
caminho batido; em todos os tempos
o Destino os mortais aí passeia.

A vida é para o Mau


uma queda aos Abismos. . .
E a vida ê para os Bons
uma subida aos céus.
Dois anjinhos assistem a agonia da velha.

(40) Aconteceu o mesmo, um século mais tarde, num quadro de


Van Dyck.
181
Contam-se numerosos retratos de velhos entre os qua­
dros do Renascimento. Seus caracteres diferem, segundo as
circunstâncias. Naquela época, os velhos ricos e venerados
se orgulham de sua velhice. Muitos deles, na Itália, voltam
à tradição antiga: encomendam seus bustos a Rossellino, a
Mino da Fiesole que os esculpem como êles gostariam de
ser. Os papas se fazem retratar por Rafael, por Ticiano; os
doges e patrícios de Veneza, pelo Tintoreto: ostentam nes­
ses retratos belas barbas brancas e uma expressão tranqüila.
Os velhos são muitas vezes idealizados nas composições
inspiradas pela Antiguidade ou pela Bíblia. Mas os pintores
também não se privam de escolher assuntos em que os velhos
aparecem de maneira pouco edificante: Noé em estado de
embriaguez, Sileno, grotesco e ébrio, Lot e suas filhas; este
último tema foi tratado, entre outros, por Dürer, pelo Guer-
chin e Tintoreto e, com lubricidade especial, por Lucas de
Leyde que muitas vezes colocou seus velhos em atitudes
ridículas; o velho hibrico também é evocado em telas que
representam o banho de Susana. Muitos pintores denun­
ciaram igualmente a fealdade da velhice. Na tela de Dürer,
Cristo entre os doutores vêem-se duas fisionomias de velhos
bastante bonitas e uma horrível. O mais hediondo dos Dois
cobradores de impôsto de Van Reymer Swaete é um homem
muito velho. O realismo chega às raias da crueldade no
célebre quadro de Ghirlandaio, O Velho e seu neto ( 41).
Tornamos a encontrar entre os pintores o tema da “velha
feia” . O belo estudo de Giorgione intitulado Col tempo
mostra uma mulher estragada pelos anos. A fealdade é mui­
tas vezes levada até a caricatura: Baldung pinta feiticeiras
esquálidas, fanadas, horrorosas que parecem saídas dos poe­
mas de Sigogne ou de Marot. Como disse um de seus con­
temporâneos, Quentin Metsys, amigo de Erasmo, pintou
“ algumas carrancas senis, monstruosas, masculinas e femi­
ninas” . A mais célebre é A Duquesa feia grotescamente
ataviada, hediondamente decotada, de fisionomia bestial.
Wengell Hollar retratou o mesmo personagem num quadro
intitulado O rei e a rainha de Túnis; o homem não é nada

(41) Crueldade tanto mais extraordinária porque o retrato foi pin­


tado depois da morte do modêlo e não inspirado num rosto vivo.

182
bonito mas não chama a atenção; a mulher é uma réplica
de A Duquesa feia.
O processo de trabalho dos artistas realmente grandes
constitui antes uma espécie de manejamento de seu tempo
que um testemunho dêle. Nos magníficos quadros que pin­
tou, sendo êle próprio bastante idoso, Os Regentes e sobre­
tudo As Regentes, Franz Hals, já no ápice de sua arte,
não se deixa levar pela banalidade; nem exalta nem des­
merece a velhice: busca apreender a verdade dos rostos
por êle representados. Também é o caso de da Vinci, de
Rembrandt, em cuja obra os velhos encontram muito lugar.
Ao estudar-lhes os traços, da Vinci chegou à caricatura, tendo
feito o mesmo com todas as idades. Todavia, emprestou
grande beleza a alguns velhos. Rembrandt, desde os 30 anos,
os pintou: uma de suas últimas obras foi o admirável Ho­
mero cego. Não se preocupa em coincidir com sua época:
procura transmitir sua própria visão.
Na medida em que vai se afastando das representações
populares para se tornar um conjunto de criações individuais,
a iconografia vai também perdendo grande parte de seu
valor como testemunha. Sob êste aspecto, seu interesse
diminui na medida em que cresce o da literatura. Não terei
mais oportunidade de voltar ao assunto.

Desde o antigo Egito até o Renascimento, vemos que o


tema da velhice foi quase sempre tratado de maneira este­
reotipada: mesmas comparações, mesmos adjetivos. É o
inverno da vida. A brancura dos cabelos e da barba evoca
a neve, o gelo: existe uma frieza no branco a que se opõem
o vermelho — o fogo, o ardor — e o verde, côr das plantas,
da primavera da juventude. Estes clichês se perpetuam
em parte porque o velho está sujeito a um destino biológico
imutável. Além disso, não sendo agente da História, o
velho não desperta interêsse, ninguém se dá o trabalho de
estudá-lo em sua verdade. Chega a haver na sociedade uma
palavra de ordem: silenciar a seu respeito. Quer o enalteça,
quer o avilte, a literatura o soterra debaixo de banalidades.
Esconde-o em lugar de revelá-lo. Consideram-no como uma
espécie de recurso para valorizar a juventude e a maturidade:
não é o próprio homem, mas sim seu limite; acha-se à margem

188
da condição humana; nêle ninguém a reconhece, ninguém
se reconhece (42).
Há no início do século XVII uma brilhante exceção: ao
escrever O Rei Lear, Shakespeare escolheu um velho para
encarnar o homem e seu destino. Por que motivo e como?
Em seus Sonetos, Shakespeare denunciou arrebatada-
mente as devastações do tempo. Compara a existência hu­
mana ora ao desenrolar do dia ora, ao do ano; ora aos
dois juntos; a velhice é um triste declínio.

“Reconheces em mim êste momento do ano


Em que pendem dos ramos trêmulos de frio
Coros nus em ruínas, as folhas fanadas,
Onde se ouvia antigamente a voz das aves;
Em mim tu vês também o fogo do crepúsculo
A declinar a oeste no ocaso do Sol
E que cedo trará consigo a noite austera” .

“Pois o tempo conduz sem trégua ao feio inverno


O estio, a fim de o destruir, e a seiva gela.
Não mais basto folhame; a neve recobriu
A beleza; e a aridez se estende a toda parte”.

“Não deixes, pois, o inverno, com a mão descarnada,


Devastar teu verão, sem o haver destilado” .

“ Quando o gracioso dia levanta no Oriente


A fúlgida cabeça, aqui os olhos saúdam
Sua santa m ajestade...
.. .Mas quando, velho e fraco, o zênite transposto,
Rola fora do dia em seu carro cansado,
Os solícitos olhos já estão apartados
Do seu curso em declínio e ora pousam alhures”.

“O tempo ora confunde todo bem que fêz;


Destrói da mocidade o brilhante ornamento
Cavando sulcos mil na face da beleza...
D a Natura êle pasta os mais belos tesouros,

(42) Exceto em Villon, Montaigne e alguns outros, muito raros.

184
à sua foice tudo aqui sucumbirá.
No futuro, porém, os meus versos rebeldes
Te louvarão malgrado a sua mão cruel” .

“O ferro cruel da idade destrutora” .

“ Quando vejo a mão rija do tempo abater


De rica idade antiga o orgulho amortalhado

Apesar de sua sincera amargura, êstes versos aplicam


à velhice os estereótipos clássicos: é o inverno, o crepús­
culo, onde irão mergulhar tôdas as riquezas da juventude;
a imortalidade conquistada pelo gênio é a única maneira
de lutar contra ela.
Não é nada complacente o olhar lançado por Shakes-
peare sôbre os velhos: “ Muitos velhos parecem já mortos;
são pálidos, tardos, pesados e inertes como o chumbo” , afirma
êle em Romeu e Julieta(is). E, em Como vos aprouver,
faz deles uma cruel descrição:

Magro bufão em chinelas,


óculos no nariz, a bolsa pendurada,
seus calções de rapaz, com atenção cuidados, são
[largos demais
para as pernas encarquilhadas; sua grossa voz viril,
tornando-se falsete e infantil, silva e range em sua
[garganta.
O último quadro desta história bizarra e agitada
é uma segunda infância e o puro esquecimento,
sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem nada (4i)-(°)

Suas tragédias emprestam grandeza a alguns velhos:


João de Gand, em Ricardo II; a extraordinária rainha Mar­
garida de Ricardo III. Mas são apenas personagens secun­
dários, representantes da antiga geração junto de um herói
em plena fôrça da idade.43

(43) Escrito em favor dos jovens contra os adultos de tôdas as idades.


(44) Escrito por volta de 1599.

185
O Rei Lear é a única grande obra, além de Êdipo em
Colona, cujo herói é um velho; a velhice aí não é conce­
bida como o limite da condição humana, mas como sua
verdade: é partindo dela que se deve conceber o homem
e sua aventura terrestre ( 4C).
A lenda, de origem muito remota, pertence ao folclore
anglo-saxão. Já mostrei por que motivo os costumes da
Inglaterra medieval lhe valeram tão grande popularidade.
Shakespeare deve ter-se inspirado numa chronicle play de­
nominada Leir, representada em 1594. Foi buscar a intriga
paralela de Gloucester e de seus dois filhos na história do
rei de Paflagônia, em A Arcádia, de Sidney. Elevando-se
porém, muito acima destes pretextos, êle exprimiu através
do drama do velho todo o absurdo horror de nossa existên­
cia. No início do drama, Lear não é louco mas a própria
velhice, nele, se parece com a loucura. Não adaptado à
realidade, decide imprudentemente, dividir seu reino en­
tre as filhas e é bastante insensato para exigir delas decla­
rações verbais a fim de avaliar o grau de sua afeição. Sendo
rei, acha-se habituado aos louvores mais exagerados e é
fàcilmente iludido por este incenso: acredita nas belas pa­
lavras das duas mais velhas e se irrita com a atitude de
Cordélia que recusa participar dêste jôgo senil; obstinado,
imperioso e de pouca visão a deserda. As duas filhas hipó­
critas o julgam com cruel lucidez: “Devemos esperar de
sua velhice não apenas os defeitos de há muito enraizados
mas também o desregramento caprichoso que anos de inva­
lidez e de cólera trazem consigo”, diz Goneril.
Paralelamente, a cegueira de Gloucester, que se deixa
imprudentemente convencer da perversidade de Edgar, cujo
amor filial é sincero, fiando-se no traidor Edmundo, con­
firma a impressão de que Shakespeare só via aberração e
não sabedoria na idade avançada. A maldade de suas filhas
condena Lear a errar, como Êdipo sem destino, em meio
a uma natureza hostil: o velho é um ente isolado, exilado;
Gloucester, cujos olhos foram vazados, também simboliza45

(45) Os pregadores do século X V incorporavam a velhice à condi­


ção humana, mas somente para a menoscabar e sem jamais tomar o velho
como tema.

186
— como Homero, Édipo, Belisário — essa ausência, que é
o quinhão da idade avançada. Mas é sobretudo Lear, des­
vairado, de tudo despojado, quem encarna o trágico desam­
paro do homem. No início do drama, êle se parece com
todos os heróis shakespeareanos, impelidos por uma paixão
teimosa — ambição, ciúme, ressentimento — a loucas e
funestas resoluções. O autor o retrata do exterior, com tanta
severidade quanto a Macbeth ou Otelo; mas tendo a miséria
e seu terrível desespero revelado a Lear sua verdadeira
condição, Shakespeare nêle se projeta e fala por seu inter­
médio: “ Será o homem apenas isto? O homem não orna­
mentado não passa de pobre animal desnudo e como tu,
chifrudo. Vamos! Abaixo os atavios! Vamos! despojemo-
-nos aqui!” exclama Lear, arrancando as vestes. Deseja
destruir a ordem antiga que, subjugando o homem à ri­
queza e às honrarias, lhe esconde sua própria humanidade:
entrevê uma nova ordem, onde o homem partiría do nada,
na nudez da infância. Mas é tarde demais. Mergulha numa
loucura em que fulguram por instantes, algumas verdades:
essas revelações o deslumbram mas de nada lhe podem
servir; elevam-no acima de si mesmo mas já não lhe resta
tempo para a elas adaptar sua vida. A Antiguidade e a
Idade Média atribuíam aos loucos um caráter sagrado e
uma espécie de clarividência. A velhice se aproxima muitas
vêzes da loucura e pode suceder que nela se conciliem as
duas imagens contraditórias tradicionais: o venerando sábio
e o velho louco. É o caso de Lear delirante e inspirado.
O momento em que atinge o sublime é também o momento
em que se decompõe. As vendas lhe caem dos olhos, final­
mente, e Cordélia lhe é restituída: mas é o cadáver dela
que êle aperta nos braços. Para êle também, a morte é a
única saída. Kott compara justificadamente ( 4G) êste drama
a Fin de partie. É a tragédia da velhice, quando esta nos
desvenda a falta de sentido de nossa inútil paixão. Se o
fim da existência deve ser esta impotência desvairada, a
vida inteira surge, a esta luz, como uma aventura toda feita
de miséria.
Tem-se indagado muitas vêzes que razões teria tido
Shakespeare para escrever o Rei Lear, isto é, para encarnar46

(46) Em Shakespeare, notre contemporain.

1S7
o homem numa figura de velho. Talvez a tanto o houvesse
movido o trágico destino da velhice nas cidades e nos cam­
pos da Inglaterra. A mendicância se alastrou a ponto de ser
proibida — salva sob Eduardo VI — quando o sistema
feudal se desmantelou sob o govêrno dos Tudors, tendo o
desemprego assolado as cidades. Não se pode excluir a
hipótese de ter a miséria daqueles velhos vagabundos —
despojados, desprovidos de tudo, desnorteados — inspirado
a Shakespeare o personagem do velho rei. Mas é preciso
lembrar também que êste herói não é — como o de Cor-
neille ou o de Racine — um homem entregue à procura
ativa de fins que emprestariam um sentido a sua existência.
Êle é movido por cegas paixões que fazem de sua vida
“ um monólogo ruidoso e colérico narrado por um idiota.”
Êste absurdo se revela com evidência especial quando se
adota, a respeito da humanidade, o ponto de vista do velho,
cortado do porvir, reduzido à pura passividade de seu estar-aí.
É normal que Shakespeare, depois de haver mostrado o
homem escravizado pela ambição, pelo ciúme, pelo ressen­
timento, tenha decidido retratá-lo esmagado pela fatalidade
dos anos. Ao indivíduo empenhado em empreendimentos
vários repugna reconhecer o sombrio aspecto de nossa am­
bivalente condição: de todos os grandes dramas de Sha­
kespeare O Rei Lear foi, geralmente, o que menos acolhida
encontrou e o menos compreendido.

No século XVII, os jovens detêm o poder real. A única


exceção entre os soberanos foi Luís XIV, que, idoso e
manobrado pela velha Mme de Maintenon, ainda tomou
parte ativa no govêrno. A partir do Concilio de Trento,
os papas também em geral foram velhos. A Igreja tinha-se
estabilizado: para contrariar as forças decentralizadoras, a
Santa Sé foi desde então com ela confundida. Sua influên­
cia se alastrou graças às ordens religiosas, sobretudo às
dos Jesuítas, aos teólogos, à rêde de nunciaturas, beneficiadas
pelas facilidades oferecidas por postos regulares. A Contra-
-Reforma conferiu aos papas grande prestígio e dêles se
exigiram costumes austeros: a idade contribuiu para lhes
emprestar um caráter sagrado e esperava-se que ela os
ajudasse a praticar a virtude. Também se contava com o
caráter conservador dos velhos. Podem-se recear iniciativas

188
embaraçosas por parte de um jovem papa de 40 anos; eleito
aos 70 ou 75 anos, espera-se — por vêzes erroneamente —
que êle há de permanecer conforme ao personagem esco­
lhido com conhecimento de causa, sem se afastar da sen da
traçada. Dos doze pontífices que se sucederam depois do
Concilio, dois foram eleitos aos 53 e 55 anos, três aos 60,
dois aos 64, quatro aos 70, um aos 77. Depois disto, foram
quase sempre muito idosos tanto os papas como os mem­
bros do Sacro Colégio.
Na França, o século XVII foi muito duro para as pessoas
de idade. A sociedade era autoritária, absolutista. Os
adultos que a regiam não concediam nenhum lugar aos
indivíduos não pertencentes à mesma categoria que eles:
crianças e velhos. A média de vida oscilava entre 20 e 25
anos. Metade das crianças morria antes de um ano; a maio­
ria dos adultos, entre os 30 e os 40 anos. As pessoas se
desgastavam imuito depressa, devido às duras condições
de trabalho, à subnutrição e à falta de higiene. As campo­
nesas de 30 anos eram mulheres velhas, enrugadas e cur­
vadas. Até mesmo os reis, os nobres e os burgueses morriam
entre os 48 e os 56 anos. Ingressava-se na vida pública aos
17 ou 18 anos, as promoções eram precoces. Os quadrage-
nários eram considerados velhotes. Os contemporâneos afas­
taram a possibilidade de ter Mme de La Fayette dormido
com La Rochefoucauld por contar ela 36 anos e êle 50 (47).
Aos 50 anos, não se tinha mais lugar na sociedade. Era
demasiadamente cansativo acompanhar a corte em suas
viagens, deslocar-se de uma cidade para outra, participar
de esportes. O qüinqüagénário se retirava para suas terras
ou entrava para algum convento. Respeitava-se o homem
opulento, o proprietário, o chefe, o dignitário, e não a idade
em si mesma. A memória, a experiência podiam conferir
valor a determinado indivíduos idosos: “ Um velho que
viveu na côrte, que tem bom senso e memória fiel, é um

(47) Todavia Ninon de Lenclos teve amantes até os 55 anos (E


não até os 80, como pretende a lenda). O Duque de Bouillon tinha 66
anos, quando nasceu seu filho Tutenne, em 1611. M. de Senneterre tinha
80 anos quando se casou em 1654; o Marechal d’Estrées 96 quando se
casou em 1663; ambos com mulheres jovens. Aos 70 anos, Mme de
Maintenon se queixava a seu confessor de ainda precisar dormir com muita
freqüência com o velho rei.

189
tesouro inestimável” , escreve La Bruyère. Mas só por si
a velhice não inspirava a menor consideração.
Entre os camponeses e artesãos, persistia o sistema de
organização familiar. A Igreja buscava auxiliar os miserá­
veis. Mas seu auxílio era insuficiente, devido à dureza da
vida: fornes, exploração dos camponeses pelos senhores, dos
operários pelos patrões.
Como a dos velhos, a condição das crianças era muito
dura. Tinha havido algum interesse por êles, durante a
Renascença: buscara-se preservá-las da corrupção do mun­
do adulto. Mas a vida era demasiadamente difícil para
permitir que se lhes consagrassem muitos cuidados. Nc
século XVII, as crianças foram mantidas fora da sociedade
e educadas com severidade. Até os 20 anos, açoitavam-se
os pajens, e os escolares sem distinção de classe: a infância
tôda era reduzida à categoria das mais baixas camadas da
população. A literatura a ignorou. La Fontaine observa:
“ Esta idade é impiedosa.” La Bruyère pinta as crianças
como se fossem pequenos monstros e conclui: “Não querem
suportar o mal e gostam de praticá-lo.” Bossuet chega a
dizer: “A infância é a existência de um animal.” Nenhum
outro autor a elas alude. Quando crescem, continuam sob
a autoridade paterna: na Idade Média, dela se livravam
desde os 14 anos. A maioridade é fixada aos 21 anos no
século XVI e XVII. A partir de 1557, o filho necessita do
consentimento do pai para se casar, quando antes daquela
data podia decidir livremente a este respeito. No século
XVII, o pai tem o direito de o deserdar em proveito de
outra pessoa, o que até então fora impossível.

No início do século XVII, a tradição misógina ainda


inspira imprecações contra as mulheres de idade. São par­
ticularmente violentas no poeta e romancista espanhol Que-
vedo,. Êste autor satírico, aristocrata e católico (í8), des­
creve a humanidade inteira sob formas grotescas. Todos os48

(48) Sabemos com que cores repugnantes o catolicismo espanhol


gostava de pintar a condição humana; reproduz-se em Quevedo a mesma
inspiração encontrada em certos quadros representando cadáveres roídos
por vermes.

190
seus personagens são fantoches inanimados, por vêzes mons­
truosos, muito raramente por sua inumana beleza mas geral­
mente, por sua fealdade. Quevedo se compraz em pintar a
degradação orgânica que os reduz a uma condição inferior
à dos animais. Sua repulsa visa, entre outras, à mulher.
A jovem é, a seus olhos “ um apetitoso demônio” ; e mesmo
quando bela, não a poupa: a própria feminidade é para êle,
repugnante. Compara as feias à morte. Mas são as velhas
que o obsedam. Acabrunha-as sob o pêso dos anos: “Tem
seis mil anos mais que os candeeiros, e, para contar sua
idade de ponta a ponta o número pode chegar a unidades
de milhar.” É hedionda, enrugada, abjeta, com a bôca
“ despavimentada” , buracos em lugar de molares, nariz en­
contrando-se com o mento; é fétido o seu hálito, é um saco
de ossos, a morte em pessoa. As rugas da fronte são “ sulcos
do curso do tempo e marcas de seus passos.” Ela, no
entanto insiste obstinadamente em se considerar jovem,
contra toda a evidência. “ Chilreias com teus maxilares bi­
savós e a tuas saias denominas cueiros” . Investe especial­
mente contra as feiticeiras, as governantes e ainda mais
contra as aias nas quais se encarna a própria essência da
velhice: “O nariz dialoga com o queixo e está tão perto de
se lhe juntar que, juntos, formam uma serra.” Destinadas
a proteger as jovens, elas, em vez disso, as pervertem. A
literatura espanhola irá explorar o tema da aia-alcoviteira,
durante mais de dois séculos após Quevedo.
Desenvolve-se na França, no início do século e à mar­
gem do classicismo, uma literatura que cultiva o grotesco,
o burlesco e se compraz em evocações da fealdade. Exem­
plo muito significativo é Saint-Amant que vê na mulher
idosa uma “imagem viva da morte” . Diverte-se acumulan­
do anos sobre suas costas: “ Embalastes outrora o avô de
Melusina” ( 40). Descreve também uma velha prostituta:

Perrette de rosto empoado,


Sua hôca é mais fedida
Que um emplastro tresandado.

(49) Cf. Martial, p. 133. E também Sigônio: “Vosso falar é mais


velho que Amadis” .

m
Mathurin Régnier também pinta em sua Marette, cujo
sucesso foi enorme, uma velha alcoviteira que virara carola.
Traçou, além disso, três retratos de velhas horrivelmente
esqueléticas. Em Théophile de Viau, a mulher velha é
gorda e retaca, mas isso em nada a beneficia:

O queixo penso sob um outro


Sobre o mole seio vos desce;
Sôbre o ventre êste seio pende
E em cima dos joelhos o ventre ( *) .

Como se observa, à retórica petrarquizante sucedeu


uma anti-retórica não menos convencional que se esvai na
primeira metade do século. Um único poeta toma a defesa
da velhice feminina: Maynard. Também êle evoca de
relance uma velha hedionda que desprende pela “ bôca
desdentada um odor infecto que faz espirrar aos gatos” ( 50).
Mas é o autor de uma bela Ode à une belle vieille na qual
louva as graças da velhice. Assegura à bem-amada que
ela lhe é tão cara com seus cabelos grisalhos quanto outrora
com a cabeleira dourada:

A graça que te segue desde a mocidade


Ao te ver declinar se recusa a deixar-te ( * ) .

É uma nota inteiramente nova na literatura e não des­


pertará nenhum eco.
A velhice dos homens se presta menos a sarcasmos.
Todavia, é muito pouco indulgente a descrição de um ho­
mem de 50 anos, feita por Rotrou em La soeur:

Não há quem não o julgue, em tôda a Natureza,


Do tempo de Saturno ou da era do Dilúvio.
Caminha com três pés, dois dos quais são gotosos,
Que a cada passo cambaleiam de velhice
E que é mister reter ou erguer com freqüência ( 0).

(50) Observa-se desde a Antiguidade até os séculos X V I e X V II a


persistência dêste clichê: os velhos cheiram mal, sobretudo as mulheres.
Pouco corresponde à realidade, visto que os indivíduos visados pertencem
às classes favorecidas. Trata-se de um chavão retórico, simplesmente.

192
Não obstante isso, a literatura da época atribui ao velho
um valor muito mais considerável que a dos séculos pre­
cedentes. Corneille criou com Don Diègue e Horácio im­
ponentes figuras de velhos.
Foi a atualidade quem o inspirou no sentido de retomar
o assunto tratado por Guillém de Castro depois do Roman-
cero. O Estado estava ainda inacabado, subsistindo uma
ética individualista e feudal. Não se haviam rompido os
laços vassálicos: os Grandes tinham ainda muitos apani­
guados; famílias inteiras se achavam a seu serviço e seus
deveres para com o •senhor sobrelevavam a obediência
devida ao rei. Corneille propugnava um equilíbrio entre
a realeza e a aristocracia; desejava conciliar os antigos
valores de generosidade e de “ prouesse” com o respeito
pela lei, encarnada na pessoa do monarca. Como no Roman-
cero e em Guilhém de Castro, é um conflito de gerações
que desencadeia o drama, cujo aspecto aqui é duplo. O
Conde, homem na fôrça da idade, opõe sua eficácia atual
ao passado de Don Diègue, agora abolido. “ Se um dia fôstes
valente, eu o sou hoje em dia.” Deve-se observar que êle
não leva absolutamente em conta as antigas proezas de Don
Diègue: não tem nenhum respeito pela velhice. Don Diègue
não pode tolerar que o passado esteja encerrado e que o
presente seja soberano:

Não vivi tanto assim senão por esta infâmia?


E não envelhecí em labutas guerreiras
Para ver tantos louros murcharem num dia? ( *)

A velhice, que deveria ser a apoteose de uma vida de


leais serviços, pelo enfraquecimento físico por ela acarre­
tado, ameaça arruinar-lhe tôda a glória. O único recurso
é o filho, idêntico ao pai, na medida em que nêle também
se encarna a linhagem. Apesar da pausa das Estâncias,
Rodrigo assume imediatamente esta identificação: irá vingar
a honra do pai, a dos antepassados, a sua própria. Todavia,
se a moral feudal cujo intérprete é o pai se impõe imediata-
inente, êle se dirige com rudeza a Dom Diègue como indi­
víduo: “ Seu nome? seria perder tempo em supérfluos co-
lóquios.” Nem no homem maduro nem no jovem se en­
contra deferência para com a velhice em si mesma. Vingando

13 193
o pai, Rodrigo o suplanta. O vencedor dos Mouros, o esteio
do reino, o herói é êle. O rei proclama:

Rodrigo, no momento, é nosso línico apoio,


O bastião de Castela e do mouro o terror! (*)

Entretanto, embora tenha perdido seu estatuto de homem


“ ativo”, Dom Diègue desempenha um papel importante.
É para o filho um sábio conselheiro. É êle quem impede
Rodrigo de se entregar ao desespero e o manda enfrentar
os Mouros para reconquistar o favor real. É êle quem obtém
que o rei se detenha para refletir antes de castigar Rodrigo,
permitindo assim ao Cid que se cubra de glória. Finalmente,
Rodrigo e Chimène, depois de cumprido o dever para com
sua linhagem se inclinam diante do rei. Corneille realiza
imaginàriamente seu sonho: reconciliam-se a nobreza e a
realeza, graças à intervenção de um velho aristocrata.
Êste papel de intercessor também é atribuído ao velho
Horácio: guardião da ordem romana, como Dom Diègue
o é da ordem feudal. A grande diferença é que nesta or­
dem não há lugar para o individualismo; quando a tragédia
começa, a transmissão dos poderes se havia realizado sem
incidentes, atendendo às instituições, e não existe humilha­
ção alguma para o pai em permanecer fora do combate
enquanto os filhos vão arriscar a vida. Aceita serenamente
o fato de estar nas mãos de seus descendentes, e não
mais nas suas, o sentido e a honra de sua vida. Sofre
entretanto, por seus filhos traírem Roma mas não o faz
somente por Roma como também por sua própria conta-
sente-se pessoalmente envolvido. E na verdade, não existe
distância entre a Cidade e êle: personifica os valores roma­
nos, o que lhe empresta um caráter quase sagrado. Êste
prestígio quase sobrenatural faz com que êle obtenha que
o filho não seja castigado pelo assassinato de Camila: a
justiça por êle reclamada é a justiça absoluta diante da
qual se inclina o legislador profano.
Corneille não se limitou a reconhecer — pelo menos
idealmente — o lugar significativo do velho na sociedade:
reivindicou o direito ao amor para o indivíduo que está
envelhecendo; como vimos, o século hesitava a êste respeito.

194
Corneille contava mais de 50 anos, idade avançada para a
época, quando se apaixonou pela Du Pare. Dedicou-lhe
diversos poemas célebres:
Eu sei de meus cabelos brancos, sei que os anos
Pouco mérito emprestam às almas mais nobres
. . . Que se em dias em flor pareci suportável
Por muito tempo amei para ainda ser amável
E que os pálidos sulcos de enrugada fronte
Mesclam um triste encanto aos mais dignos incensos ( *) .
Marquesa, se tem meu rosto
Traços de envelhecimento,
Lembrai-vos que, em minha idade,
Não valereis muito mais.
O tempo as coisas mais belas
Se compraz em afrontar;
Fará murchar vossas rosas,
Como enrugou minha fronte.

Entre a raça recém-vinda,


Onde um crédito terei,
Só sereis tida por bela
Dês que eu o venha a dizer ( * ) .
Também são conhecidos estes versos publicados depois
da morte da Du Pare:
Estou velho, Isis bela; êste é um mal incurável
Que cresce dia a dia e de em hora em hora abate;
Só a morte o curará; mas, se cada momento
Menos apto me torna a fazer-vos a côrte,
Um fruto colho enfim desta decrepitude:
Olhar-vos sem distúrbio ou qualquer inquietude ( * ) .

Sertorius pintou os tormentos de um velho apaixonado.


Descreveu o desgaste físico de seu herói, seus cabelos gri­
salhos coroando “as pálidas linhas da enrugada fronte” ( 61).51

(51) O verso é idêntico a una do poema dedicado à Du Pare.

195
É um tímido e trêmulo enàmorado:

Nesta idade tão feio é amar


Que o escondo até de quem me soube fascinar Q*).

Corneille, aos 66 anos, analisa em Pulchérie os senti­


mentos de um velho apaixonado. Como Sertorius, Martian
se recrimina pelo fato de os experimentar:

Jamais em meus iguais o amor é desculpável


Logo ao primeiro olhar, nos parece execrável ( * ) .
Causa ódio; e o mal que não ousamos descobrir
É mais difícil esconder que suportar.

Por nada pretender, não se tem menos zelos


. . . O mais leve retorno aos nossos jovens anos
Quanta amargura lança às almas contrafeitas!
. .. A lembrança nos mata e nós só a encaramos
— é preciso dizer — com uma espécie de raiva
. . .MinKalma, de calor tediosamente prêsa,
Não a reconheceu, a não ser pelo ciúme.
. . . Que suplício o de amar um objeto adorável
E de tanto rivais ver-se o menos amável ( 9).

Leal e discreto, Martian oculta seu amor à imperatriz


e insiste com ela para que despose outro. É ela quem
finalmente lhe propõe um casamento secreto. Muitos velhos
fidalgos se reconheceram neste personagem, no qual, se­
gundo Fontenelle, Corneille se havia retratado a si mesmo.
O Marechal de Gramont felicitou o poeta: ninguém até
então havia posto em cena um amante carregado de anos,
estava satisfeito por Corneille o ter feito e congratulava-se
por lhe ter servido de modelo, se isto fosse mesmo verdade.
A indulgência de Corneille para com os velhos se explica
por sua concepção otimista da sociedade: antiburguês, ape­
sar de suas origens, admira a aliança, duradoura segundo
espera, entre o Estado e a nobreza ( 62).52

(52) Racine escreveu Mitridates mais ou menos na mesma época.


O velho quer obrigar a mulher que ama porém que não o ama a despo-

196
Encontra-se um ponto de vista análogo em Saint-Evre-
mond, admirador de Corneille e partidário de muitas de
suas idéias. Exilado em Londres no fim da vida, em con-
seqüência de um violento ataque contra Mazatino, foi
tranqüila a sua velhice naquela cidade onde passou o tempo
lendo, escrevendo e sobretudo entregando-se aos prazeres
da conversação, postos por êle acima de todos os outros.
Discípulo de Montaigne, também não acreditava que a
velhice trouxesse sabedoria: “Perdi todos os sentimentos
do vício sem ficar sabendo se devo esta mudança à fraqueza
de um corpo abatido ou à moderação de um espírito que
se tornou mais sensato. Na minha idade, é difícil saber se
as paixões que deixamos de sentir se acham extintas ou
domadas.” Como Epicuro, sempre havia considerado que
a felicidade consiste essencialmente em não ser infeliz: como
sua saúde fosse boa, êle apreciava esta ataraxia e com ela
se contentava. Julgava, entretanto, que a idade tivesse suas
tristezas. Escreveu a Ninon de Lenclos, com quem manteve
longa e afetuosa correspondência, dizendo que não esperava
revê-la e que isto o desolava: “O que mais triste me parece,
em minha idade, é verificar que a esperança está perdida,
a esperança, a mais doce das paixões e a que mais contribui
para nos fazer viver de maneira agradável.” A amizade
sempre havia sido muito importante para êle que não a
distinguia de modo algum do amor: em sua opinião, o amor
devia ser regido pelo espírito, isto é, baseado na estima;
neste caso, êle não se torna paixão e não provoca sofri­
mento. É um sentimento de que nos podemos orgulhar,
mesmo em avançada idade. Sustenta o direito do velho
ao amor, contanto que, como Martian, não exija retribui­
ção. Aos 80 anos, amava com grande ternura à Duquesa
de Mazarin que foi para êle uma excelente amiga. Quando
ela morreu, êle se enamorou com a mesma discrição, da
Marquesa de La Perrine. “ Causa-vos um espanto fora de
propósito o fato de amarem ainda as pessoas de idade,
escreve êle, mas o ridículo não está em se deixar sensibili­
zar e sim em tôlamente pretender agradar... Viver é o
maior prazer que resta aos velhos; e nada os pode persuadir

sá-lo. Mas Racine o pinta muito mais como déspota do que como um
velho e nada nos informa a respeito dos sentimentos de sua época com
relação ao assunto aqui considerado.

197
tanto de sua própria vida quanto o am or... Amo, portanto
sou; é uma conseqüência viva, animada, pela qual recorda­
mos os desejos da juventude até o ponto de nos imaginar­
mos por vêzes ainda jovens.” Em seu tratado sôbre a ami­
zade, êle aprova os casamentos tardios de M. de Senneterre
e do Marechal d’Estrées. O próprio Salomão lhes serviu
de exemplo, diz êle. Chega a admitir que se é mais pro­
penso a amar na velhice que antes. Escreveu em 1663 (53):
“ Mal começamos a envelhecer e eis que começamos também
a nos desagradar com um desagrado de nós mesmos que
em nós se forma secretamente. Nossa alma, então, vazia
de amor-próprio, se enche fàcilmente do amor que alguém
nos inspira.” Assim, em sua opinião, o velho seria ferido
em seu narcisismo — idéia nova e interessante — e, por
isto, se veria indefeso perante uma criatura sedutora ( 54).
Como se vê, a imagem do velho vai se tornando mais
sutil que antes. Continua sendo homem e nenhum senti­
mento humano lhe é interdito. O amor de que falam Cor-
neille e Saint-Evremond é puramente platônico. Autoriza-o,
portanto, o código de amor mais ou menos explicitamente
elaborado na alta Sociedade para distinguir os aristocratas
dos burgueses. É sensibilizador na princesa de Clèves, uma
mulher casada constrangida à fidelidade; por que motivo
deveria êle escandalizar num homem idoso? E a sensibili­
dade do século se mostra ainda mais cordata pois que se
alguns os censuram, outros aplaudem os compromissos amo­
rosos dos octogenários.
Com Molière, recaímos no convencional: tratou o tema
da velhice sem nenhuma originalidade, seguindo os autores
antigos e italianos. Retomou o personagem do velho des­
confiado porém tolo, avaro porém crédulo, rabugento mas
pusilânime. É objeto de derrisão, e, sem disto se dar a
menor conta, alimenta grandes pretensões. Molière se mos­
tra ainda mais severo para com a velhice que Terêncio e até
mesmo que Plauto. Encontra-se em sua obra apenas um
velho simpático. Na Escola de maridos, cuja inspiração
colheu em Os Adelfos, Sganarelo sem dúvida quadragenário

(53) Êle tinha 49 anos.


(54) Discutiremos esta idéia mais adiante.

198
é um velhote ciumento e tirânico, mas seu irmão Aristo,
vinte anos mais velho, é liberal, sábio, cuidando de sua
pessoa sem vaidades excessivas. Consegue se fazer amar
pela mulher que deseja desposar ao passo que Sganarelo é
esbulhado por aquela que vinha cortejando. Retifiquemos,
de passagem, um êrro muito comum: não é verdade que
todos os velhotes de Molière sejam quadragenários. Ar-
nolphe conta, com efeito, 43 anos. Mas no Casamento for­
çado Sganarelo — que pretende, ridiculamente, conquistar
o amor de uma jovem, sendo castigado por isto — tem 53
anos. Géronte, nas Fourberies, é muito idoso. Harpagon
tem mais de 60 anos. Ainda mais odioso que o herói da
Aulularia êle não se limita a ser apaixonado por seu cofre:
é também um pai tirânico e exorbitante além de ridículo ena­
morado. O conflito entre pais e filhos levado à cena por
Molière correspondería à realidade? Como se trata mais de
imitação que de criação, não se pode ver em suas peças, sobre
este aspecto, nenhum testemunho dos costumes da época.

No início de seu reinado, em 1603, buscando combater a


horrível miséria que devastava a Inglaterra, Elisabeth criou
a “lei dos pobres” : o governo se fêz responsável pelos indi­
gentes, por intermédio das paróquias. Lançaram-se impostos
a fim de conseguir os fundos necessários. Os indivíduos con­
siderados aptos para trabalhar eram empregados nas work-
-houses ( 55) ; as crianças eram alugadas a camponeses ou artí­
fices; os aleijados e os velhos, recolhidos a asilos. O trabalho
nas work-houses era extremamente penoso. E as paróquias
só acudiam aos indigentes pertencentes a sua comunidade:
não cuidava dos adventícios e ainda menos dos vagabundos,
muito numerosos na época.
Durante os primeiros quarenta anos do século XVII, di­
versas instituições de caridade tentaram remediar esta situação
tão dura; asilos e hospitais foram fundados. A religião pre­
gava então o respeito pela pobreza e exigia esmolas dos ricos.
Mas a tomada do poder pelos puritanos acarretou, neste
ponto, uma revolução ideológica. Eram pequenos proprie-

(55) A expressão só apareceu em 1652, mas a coisa teve origem


com a “ lei dos pobres.”

1.9,9
tários, artesãos e sobretudo, comerciantes. Êstes, sufocados
pelos monopólios concedidos pelo rei, os haviam combati­
do: exigiam a liberdade do comércio e consideravam que
somente a República a poderia impor. Ao passo que a
França, dotada de uma burocracia eficiente, havia conse­
guido associar a burguesia ao governo sem que êste se
visse por isto abalado; na Inglaterra, onde a administração
era deficiente, estalou um conflito entre a burguesia humi­
lhada e a realeza: foi esta vencida. As classes médias se
empenharam em reerguer a economia pois a Inglaterra estava
neste plano em situação muito inferior à da Holanda. O
puritanismo fêz um esforço no sentido de adaptar o cristia­
nismo a uma sociedade industrial e comercial dominada
pelo espírito de competição. Deu ênfase particular ao pre­
ceito: “ Quem não trabalha não come.” Todos os pregadores
insistiram no tema do trabalho como um dever, pois os
burgueses admitiam que eram a preguiça e a embriaguez
que entravavam o progresso: “ Não existe condição pior
que a do preguiçoso, escrevia em 1632 Elizabeth Jocelyne.
Deus o considera um zangão inútil incapaz de o servir; e
o mundo o condena por sua pobreza extrema.” As mais
elevadas virtudes religiosas e morais consistiam em realizar
bons negócios. Trabalhar é a melhor maneira de orar: o
trabalho é uma espécie de sacramento e o lucro, o sinal
de uma proteção divina. Os pobres foram acoimados de
preguiçosos e imprevidentes e se decidiu não mais encorajar
êstes vícios. A mendicância foi condenada como sendo
imoral. Em lugar de esmola, praticou-se o empréstimo a
juros.
Os velhos indigentes padeceram. Na burguesia, pelo
contrário, a velhice foi valorizada. Na Idade Média, como
vimos, a família em si mesma não era idealizada: mas ela
o foi nas classes médias entre as quais se recrutaram os
puritanos. Seu símbolo e sua personificação era o avô:
foi respeitado. Desde o século XVI os pais exigiam dos
filhos estrita obediência; os casamentos lhes eram impostos,
tendo-se chegado ao ponto de casar um garoto de 5 anos
com uma menina de 3. No teatro elisabetano viam-se jo­
vens lutando pela liberdade de escolha matrimonial. Nunca
se afirmou de maneira mais explícita e rigorosa o princípio
de autoridade do que entre os puritanos da época. Em 1606,

200
a convenção anglicana adotou a idéia de um francês, Bodin,
cuja obra acabava de ser traduzida: os pais devem ter
direito de vida e de morte sôbre os filhos. O soberano
deve ser um pai para seus súditos, afirmavam os puritanos;
e o chefe de família deve poder exercer sôbre esta poderes
soberanos. Houve numerosos sermões sôbre o governo da
casa e sôbre a autoridade que era conveniente reconhecer
às pessoas idosas. Estando isentos de paixões — era pelo
menos o que se queria acreditar — estavam estas pessoas,
por assim dizer, naturalmente capacitadas para praticar o
ascetismo pelo qual pretendiam os puritanos que a vida
se pautasse: constituíam elas um exemplo digno de ser
imitado. E como o sucesso era o indício de uma bênção
divina, a longevidade surgia como penhor de virtude. Por
todos êstes motivos, os puritanos veneravam os velhos. Ao
conquistarem o poder, tentaram impor sua moral a todo
o país. Fecharam os teatros, por êles considerados lugares
de perdição.
A Restauração reagiu violentamente contra êles. A rea­
bertura dos teatros constituiu um grande acontecimento e,
pela primeira vez, os papéis femininos foram desempenhados
por atrizes. Pertenciam a um grupo de fidalgos muito
restrito, os autores que durante trinta anos haviam escrito
peças e os espectadores que as haviam aplaudido. Êstes
aristocratas menosprezaram os valores burgueses enalteci­
dos pelos puritanos. Seu teatro duro e cínico escarneceu a
virtude sob todos os seus aspectos. Investiu sobretudo, contra
a velhice.
Nas peças elisabetanas, os jovens lutavam pela liber­
dade mas as pessoas de idade eram retratadas com um
misto de simpatia e de ironia. No fim do século XVII,
pululam as comédias sôbre o conflito de gerações. Uma
das mais significativas é Love for love (56), de Congreve.
Os enamorados, Valentin e Angélica, se acham sob a tutela,
um de um pai a outra de um tio, ambos velhos odiosos e
ridículos. Foresight (07) é “iletrado, desagradável, supers­
ticioso, com pretensões a compreender a astrologia e a

(% ) O amor pelo amor.


(57) “Aquele que vê o futuro.”

201
quiromancia”, e vive enunciando profecias pedantemente.
Sua jovem esposa o engana. A sobrinha lhe diz grosseira­
mente a verdade e o ridiculariza. Sampson, por sua vez,
é um pai desnaturado. A fim de castigar Valentin por suas
prodigalidades, ále deseja obrigá-lo a abrir mão de sua
herança em favor do irmão mais môço, Ben, um marinheiro
recém-chegado de volta ao lar: somente com esta condição
concordará em pagar as dívidas do mais velho. Valentin
se vê forçado a ceder pois as dívidas são prementes e êle
as deverá liqüidar antes de desposar Angélica. Enfrenta,
todavia, o pai, numa cena violenta: censura-lhe a avareza
e o coração empedernido. O pai lhe responde com incrível
arrogância: “ Não posso eu fazer o que desejo? Não sois
por acaso meu escravo? Não fui eu quem vos gerou? Será
que viestes voluntàriamente ao mundo? Não fui eu quem
nele vos fiz entrar, com a autoridade legal de um pai?”
E, cúmulo dos cúmulos, êle pretende desposar Angélica.
Esta finge aceitar e se arranja hàbilmente para fazê-lo pagar
as dívidas do filho sem que êste tenha de renunciar à heran­
ça. Ri-lhe então na cara e explode: “Nunca deixei de amar
vosso filho e de detestar vossa natureza rancorosa. . . tendes
ainda mais defeitos que êle virtudes; e por maior que seja
minha alegria diante da idéia de viver feliz junto dêle,
fazendo-o também feliz, a que experimento ao vos ver
castigado é quase igual.” Valentin corrobora estas expres­
sões; delicia-se com a decepção de seu pai. Êste esquema
se reproduz em inúmeras peças. O jovem, cuja superioridade
se vai afirmando durante os quatro primeiros atos, acaba
triunfando no quinto. A hostilidade tradicional contra a
“idade tristonha” atinge uma violência até então desco­
nhecida. Filhos e filhas proclamam sua revolta. Negam
todos os valores morais e sociais impostos pelos puritanos.

No século XVIII a população aumentou e rejuvenesceu


em toda a Europa, graças à melhor higiene. Um inquérito
realizado em Villeneuve-de-Rivière, nos Comminges, revelou
que depois de 1745 a mortalidade de jovens, até então de
15 a 20 indivíduos por ano, desceu para 3 ou 4. Ao mesmo
tempo, melhores condições materiais favoreceram a longe­
vidade. Muito raros antes de 1749, os homens de 80 anos
e até mesmo os centenários se multiplicaram; êste pro-

202
gresso, entretanto, só se faz sentir nas classes privilegiadas.
Em 1754, um autor inglês falando dos camponeses franceses
observa: “ É uma espécie de homens que começa a decair
antes dos 40 anos por falta de uma compensação proporcional
a suas canseiras.” Em 1793, viajando pela Europa, escreve
um inglês: “ Apesar das doenças ocasionadas por uma ali­
mentação demasiadamente rica, pela falta de atividade e
pelo vício, êles (5859) vivem dez anos mais que os homens
de classe inferior pois êstes se desgastam antes do tempo
pelo trabalho, pela miséria e pela fadiga, impedindo-os a
pobreza de concederem a si mesmos o indispensável a sua
subsistência.” O pequeno número de explorados que conse­
guia sobreviver até uma idade avançada, era condenado à
indigência, por sua própria velhice. Sociedades de previ­
dência e auxílio mútuo haviam aparecido na Europa desde
o século XIV. Sua existência, na França, foi clandestina e
difícil, tendo sido interditas pela lei Le Chapelier, assim
como todos os agrupamentos profissionais. De qualquer
forma, seus recursos eram insuficientes: o velho não mantido
pela família só podia contar com o auxílio a êle prestado
pela Igreja.
Estas sociedades se haviam desenvolvido na Inglaterra,
sob a denominação de amigáveis. Na segunda metade do
século XVIII, a corrente sentimental que influenciou todo
o pensamento europeu levou a opinião pública a se emo­
cionar diante da miséria. Comprendeu-se que a responsa­
bilidade cabia à sociedade e não ao próprio indigente. A
lei de 1782 concedeu às paróquias o direito de formarem
uniões destinadas à coleta e à aplicação do imposto dos
pobres. O Estado reconhecia aparentemente que todo indi­
víduo tem direito à existência. (50) Afirmaram, em 1785,
os magistrados reunidos em Speehamland: quando um ho­
mem não pode ganhar a própria vida trabalhando, a socie­
dade deve se encarregar de sua subsistência. Neste sentido
foi reformada a Assistência pública: a miséria dos inválidos
e dos velhos se viu um tanto atenuada. Por outro lado,
também se multiplicaram as coalizões operárias a fim de

(58) As pessoas ricas.


(59) Isto não impediu, na ocasião, a atroz exploração das crianças
nas fábricas e nos ateliers.

203
lutar contra o patronato e também para se garantirem mu­
tuamente contra o desemprêgo e as doenças.
Nas classes privilegiadas, os homens de idade foram
beneficiados pela amenização geral dos costumes. Graças
ao progresso técnico, a vida material se tornou mais con­
fortável e menos cansativa, tanto na França como em
tôda a Europa: viajar, por exemplo, já não constituía uma
provação tão penosa. A vida social, mais complexa, requeria
qualidades de inteligência, experiência e menos esforço físico:
o Marechal de Saxe conquistou Fontenoy a despeito de sua
gôta. Prolongou-se o tempo de vida ativa. Os sexagenários
participavam da vida social: iam ao teatro, freqüentavam
os salões. Como no século precedente, uma bela memória
tornava seu trato apreciado. Os jovens escutavam estupe­
fatos as narrativas feitas por Fontenelle, que montava mais
de 90 anos. Quando êle dizia: “ Eu me achava em casa
de Mme de La Fayette; vi entrar Mme de Sévigné” , pare-
cia-lhes que estavam falando com um fantasma e se extasia­
vam. Não causava espanto excessivo o casamento de ho­
mens idosos com mulheres muito mais jovens, como sucedeu
com Marmontel e Marivaux. A burguesia ascendente criou
uma ideologia na qual a velhice foi valorizada.
Na Inglaterra sobretudo, o progresso da técnica trouxe
consigo o desenvolvimento da indústria, das finanças, do
comércio. Rica e poderosa, a nova classe tomou orgulho­
samente consciência de si mesma e se forjou a moral que mais
lhe convinha. Em Londres, desde o fim do século XVII,
multiplicaram-se as sociedades, as assembléias, os cafés —
cujo número alcançou mais de 3 000 — onde se foi plas­
mando através das conversas, a imagem do homem nôvo.
Steele e Addison podem ser considerados seus padrinhos.
O Tatler e sobretudo o Spectator empenharam-se em refor­
mar o homem antigo e em promover um tipo inédito: en­
carna-se êste de maneira muito especial, no comerciante:
amigo de todo o gênero humano, aventureiro e herói do
século; mas é um herói pacífico que substituiu a espada
pela bengala. Evita a ostentação: é simples e busca antes
a utilidade que o aparato. Não aprecia as mundanidades,
leva uma existência retirada, preferentemente no campo.
Coloca a moral acima da arte. O teatro revela esta
mudança de maneira ostensiva. Iniciou-se no fim do

204
século XVII uma cruzada de moralidade contra a caba­
la que dêle se havia apoderado. A austeridade puri­
tana já então pertencia a um passado longínquo, não
se experimentava mais a necessidade de lhe opor resis­
tência: a audácia dos autores em voga acabou escandali­
zando a opinião pública. Cellier, um pastor jornalista e
panfletário, escreveu contra êles um libelo cujo sucesso foi
considerável. Isto não impediu o triunfo de Le Train du
monde, de Congreve, dois anos mais tarde. Mas êste se
calou, em seguida. O teatro se tornou moral e sentimental:
punha em cena velhos empregados dedicados, pais e filhos
afeiçoados uns aos outros. Todos os personagens eram
simpáticos ( 00).
Estas tendências se difundiram na França. O homem
nôvo é o filósofo: professa uma moral laica e humanitária
da qual é Diderot o propagandista mais ouvido. Na reali­
dade, o século XVIII francês foi sombrio, atormentado,
entregue às desordens e aos conflitos que culminaram com
a Revolução. Nêle se desenvolveu uma literatura que re­
trata o homem com severidade e até com maldade: o Abade
Prévost, Marivaux, Laclos, Sade. A burguesia, no entanto,
professa o otimismo. Faz uma apologia cheia de emoção
do Homem, do qual se julga a mais perfeita encarnação:
a natureza humana é boa, todos os homens são irmãos, cada
qual deve respeitar a liberdade e as opiniões de seu pró­
ximo. Amai vosso próximo como a vós mesmos, por amor
de vós mesmos, torna-se o preceito fundamental da moral.
E a noção de próximo se amplia. O século XVIII explora
o tempo e o espaço: deixou de ser unicamente o reino do
adulto civilizado. Os “selvagens” despertam interesse. Rous-
seau lembra aos adultos as crianças que um dia foram e êles
nelas se reconhecem. As mães amamentam seus filhinhos.
A chibata foi combatida desde o início do século e acabou
sendo suprimida em 1767. A criança passou a desempenhar
um papel muito mais importante na família. Os adultos
reconhecem no velho sua futura imagem. O homem idoso
chega mesmo a adquirir uma importância especial pelo
fato de simbolizar a unidade e a permanência da família:60

(60) Consultar, entre outros, The conscious lovers de Steele, repre­


sentado em 1722.

205

A
esta, com a transmissão das riquezas possibilita seu acúmulo;
é a base do capitalismo, ao mesmo tempo, o terreno onde
floresce o individualismo burguês. Envelhecido, o chefe
de família continua sendo o detentor de suas propriedades
e goza de prestígio econômico; o respeito por êle inspirado
se reveste de sentimentalismo. Com efeito, o século é “sen­
sível”, buscá-se a verdade com o coração. Exalta-se a vir­
tude; os contos morais abundam; são “tratados de huma­
nidade” . Todos se debruçam complacentemente sobre os
fracos: a criancinha, o avô. Marmontel comove seus con­
temporâneos narrando sua infância rústica. Evoca as boas
avós: “Viviam ainda, aos 80 anos, bebericando seu golezinho
de vinho ao lado da lareira e recordando os velhos tempos.”
Greuze provoca emoções enternecidas pintando figuras de
velhos. A velhice de Voltaire aumentava-lhe o brilho: cha-
mavam-no “o patriarca de Ferney” . De julho de 1789 a julho
de 1790, em tôdas as festas da Federação, os velhos eram
as figuras centrais, eram êles que as presidiam ( 61). Na
festa de 10 de agôsto de 1793, as bandeiras dos 86 Depar­
tamentos foram carregadas por velhos.
Êste sentimentalismo trouxe algumas conseqüências prá­
ticas. Encorajou-se a beneficência, a “ Bienfaisance”, palavra
inventada pelo Abade de Saint-Pierre para substituir por
uma idéia laica a idéia religiosa de caridade. Consagrou-se
uma vasta literatura ao problema da mendicância. Nas co­
lunas dos jornais encontravam-se exemplos de beneficência,
de “traços de humanidade” . Em 1788 a lista das sociedades
beneficentes enche dois grossos volumes de La Bienveillance
française. São sobretudo as mulheres que fazem coletas e
distribuem socorros. S. Mercier as descreve, alivando as mi­
sérias dos “ octogenários, cegos de nascença, parturien-
tes etc.” Em 1786, a Sociedade filantrópica se congratulou
por ter prestado assistência a mais de 814 desgraçados: ve­
lhos, cegos de nascença, parturientes.

(61) Michelet relata: “Na grande federação de Rouen onde aparece­


ram guardas nacionais de 60 cidades, para presidir à Assembléia, foi-se
buscar em Andelys um velho cavalheiro de Malta de 85 anos de idade.
Em Saint-Andéol, a honra de prestar juramento à frente de todo o povo
foi atribuída a dois anciãos de 93 e de 94 anos. . . Em tôda a parte
se encontrava um velho, à frente do povo, ocupando o primeiro lugar,
planando sôbre a multidão.”

20S
Na realidade, praticar a filantropia se havia tornado
sobretudo uma maneira de garantir a felicidade pessoal.
Tornar pessoas felizes para ser feliz, foi um tema indefini­
damente repisado. Assegurar a própria felicidade é uma
das preocupações máximas do burguês: julga obtê-la por
meio da virtude, de uma mediocridade feliz, cultivando os
laços de família e de amizade. A felicidade é concebida
essencialmente com um repouso. É preciso temer os ex­
tremos, só experimentar paixões suaves. Isto significa que
a velhice é encarada como uma idade feliz e até mesmo
exemplar: o velho está livre das paixões violentas, é sereno,
sensato. A ausência de desejos vale mais que o gôzo dos
bens. Uma existência equilibrada termina na ataraxia, na
euforia.
É o que sustenta Buffon, entre outros tantos: “ Em
cada dia em que me levanto gozando de boa saúde, não o
usufruo eu de maneira tão presente, tão plena quanto a vos­
sa? Se conformo meus movimentos, meus apetites, meus
desejos aos únicos impulsos da sábia natureza, não sou eu
tão sábio e mais feliz que vós? E a vista do passado que
os velhos loucos tanto lastimam, oferece-me, pelo contrário,
prazeres de memória quadros agradáveis, imagens precio­
sas que se equiparam a vossos objetos de prazer.”
Este gênero de considerações deixa d’Alembert cético:
“ Têm-se feito elogios da amizade e da velhice; ninguém
teve necessidade de fazer o da juventude e do amor”, es­
creveu êle. Diderot observa: “Honra-se a velhice, mas nin­
guém gosta dela.” Em sua obra podem-se encontrar, entre­
tanto, velhos amáveis, começando por seu próprio pai. O
público acolheu da maneira mais favorável possível La vie
de mon père de Rétif de La Bretonne. Descrevendo com­
placentemente o “ venerando ancião” , êle gaba as virtudes e
doçuras da vida doméstica, num momento em que a família
começava a se desagregar ao passo que a maioria dos fran­
ceses dela conservava uma imagem nostálgica. Também
pinta os encantos da vida campestre cujos atrativos a bur­
guesia estava naquela ocasião redescobrindo. Conta, naquele
estilo “ sensível” então em moda, a agonia do pai, assistida
por todos os anciãos da aldeia: “ O quarto do doente estava
cheio de todos os anciãos em prantos.”

207
No fim do século XVII e no séc. XVIII, encetou-se no
teatro francês uma evolução da figura do velho. Destou-
ches, em Le triple Mariage compõe um Oronte autoritário
e avaro que coloca a fortuna acima dos filhos e pretende
lhes impor casamentos de conveniência. Em Vlngrat e
VObstacle imprévu, o pai é um tirano insuportável. Mas,
em UIrrésolu Pyrante adora o filho e cede diante de todos
os seus caprichos. Em Cénie de Mme de Graffigny, Dori-
mard é um velho encantador, devotadíssimo aos sobrinhos
que havia educado; é um pouco autoritário, um pouquinho
seguro de mais de si mesmo, o que o leva a cometer alguns
erros; mas sua bondade é muito maior que seus defeitos.
E um dos personagens arremata, depois do desenlace feliz:
“ Se a bondade excessiva é por vêzes enganada, nem por isto
deixa ela de ser a primeira das virtudes.” A concepção apre­
sentada por Beaumarchais em seu teatro a respeito da velhice
é cheia de nuanças e por vêzes surpreendente. Quando
Eugénie foi representada, sem nenhum sucesso, êle só con­
tava 35 anos. O papel mais simpático cabe ao pai da jovem,
o Barão Hartley. Diz Beaumarchais dêste velho fidalgo
do País de Gales ( 62) : “ O barão, homem de costumes justos
e simples, manterá sempre esta imagem e êste estilo, mas
se o animar uma forte paixão, êle se há de inflamar e dessa
fogueira sairão coisas verdadeiras, ardentes, inesperadas.”
É a primeira vez que se permite a um homem idoso uma
paixão interior cujas explosões surpreendem os que o cercam.
Em seu primeiro projeto, o pai era um fidalgo bretão, gran­
de amigo da caça, e de humor áspero e intratável: “Tomará
resoluções violentas a respeito de todos os incidentes, ao
pretender tudo fazer há de tudo estragar, será, enfim, um
personagem extremamente ruidoso e pouco sensato.” Êste
retrato era muito mais parecido com os tipos convencionais
de velhos encontrados nas comédias. Não sabemos por que
motivo Beaumarchais o transformou. Mas sua benevolência
para com as pessoas de idade se manifesta também em
Les deux Amis, representado três anos mais tarde. O per­
sonagem mais simpático é o pai, “filósofo sensato” ; sábio,
altruísta, generoso, é êle quem salva a situação. Contudo,
em O Barbeiro de Sevilha, cujo tom é tão diferente, êle

(62) Em seu Essai sur le Théâtre sérieux.

208
volta à imagem vulgar do velho enamorado: Bartolo se
parece com os velhotes de Molière (03). Seu papel é quase
nulo em O Casamento de Fígaro onde não aparece nenhum
outro velho. No fim de sua vida, em La Mère coupable —
representada sem o menor sucesso em 1792 — Beaumarchais
adota a respeito da velhice o ponto de vista confortador e
moralizante tão em voga na época. Escreve no prefácio,
falando do Conde Almaviva: “ No quadro de sua velhice e
assistindo La Mère coupable, havereis de vos convencer,
como nós, de que todo homem que não seja espantosamente
mau de nascença sempre termina se tornando bom quando
a idade das paixões se distancia e sobretudo depois de
experimentar a doce felicidade de ser pai.” O conde diz,
na peça: “Ah! meus filhos! chega sempre uma idade em
que as pessoas de bem perdoam seus erros recíprocos e
suas antigas fraquezas e, às tumultuosas paixões que as
haviam desunido, fazem suceder uma doce afeição.”
Em 1799, um certo Billy dedica uma peça ao Abade
de l’Épée tal como era aos 66 anos e por êle assim descrito
no prefácio: “ Uma penetração que nada deixa escap ar...
o gênio e a bondade. . . uma piedade suave e sem afeta­
ç ã o ... grande conhecimento da natureza.” São as carac­
terísticas do homem de idade, como as sonhavam os mo­
ralistas.
Inscrevem-se nesta linha os melodramas que pululam
no início do século XIX. Os velhos só representam nêles
papéis episódicos mas são comovedores e majestosos. Come­
tem erros, por vêzes, resgatando-os, todavia, pela nobreza
do coração. Assim, em Robert, chef des brigands de La-
martelière, o pai do herói comete o engano de preteri-lo em
favor de seu outro filho que o encerra numa tôrre, sendo
salvo por Robert. O velho aparece como um mártir cheio
de grandeza. Em La Femme aux deux Maris, escrito por
Pixérécourt em 1801, no velho cego Wemer se encarnam as
mais altas virtudes; seu inflexível sentido de honra o torna
duro e autoritário: amaldiçoa a filha, por êle considerada
culpada, sem lhe ouvir a defesa e se fecha num rancor obs-63

(63) Embora seja muito mais sabido e difícil de enganar, o que


torna a intriga mais interessante.

14 209
tinado. Perdoa, finalmente quando toma conhecimento da
verdade e todo mundo ao redor dêle chora de emoção. Con­
clui um dos heróis: “ Um pai que perdoa é a mais perfeita
imagem da Divindade” . O mesmo assunto volta a ser tra­
tado por Pixérécourt em 1821, em Valentine. Alberto, tam­
bém cego, mostra-se implacável para com a filha: acaba se
reconciliando com ela. Desprendido e intrépido, êle é quase
sublime e se impõe à admiração.
Surge um tema nôvo: o do velho servidor dedicado.
A relação feudal de senhor para vassalo, implicava, em
princípio, uma abnegação total da parte deste para com
aquele: a burguesia em ascensão pretendeu reviver em seu
proveito aquele laço. Em Misanthropie et repentir, inspi­
rado por Kotzebue, o velho Tobias provoca as lágrimas dos
outros personagens com sua nobre serenidade, sua tranqüila
resignação. Muito idoso e pobre, consegue descobrir uma
humilde felicidade no simples fato de estar vivo. Em Uilus-
tre Aveugle, escrito em 1806 por Caigniez, um dos principais
personagens é o velho Oberto, apaixonadamente dedicado
ao jovem príncipe cego, corajoso, cheio de dignidade e
personificação de todas as virtudes.
Encontra-se na obra de Pixérécourt uma enorme quan­
tidade de velhos servidores dedicados.
Estas obras de qualidade inferior, nem por isto são
menos significativas: atendem às exigências do público e,
por conseguinte, refletem seus fantasmas. Venera êle os
velhos no seio de sua classe; fora desta êle os admira na
medida em que personificam a longa fidelidade de um devo-
tamento incondicional à casta superior. Os velhos pobres
ingressam timidamente na literatura. Não despertam inte­
resse por si mesmos mas sim por sua relação feudal com
um amo que é o detentor da verdade de seu ser ( 64).

Pode-se observar uma evolução paralela, no teatro ita­


liano. Como vimos, no século XVI, Pantaleão era um velho
odioso, ainda rijo. Havia sofrido uma alteração no fim
do século XVII. Perruci diz a seu respeito, em 1699: “É

(64) Era o que sucedia com o velho escravo do lon de Eurípides.

210
um velho decrépito que pretende imitar a juventude.” Em
1728, entretanto, Riccoboni o descreve como “um bom pai
<!<• família, homem honrado, extremamente delicado em
questões de palavra e severo para com os filhos.” É “de
exterior rude” . Já não é avarento mas muito econômico e
ainda se deixa enganar, apesar de suas qualidades.
Esta mudança é particularmente ostensiva no teatro
de Goldoni. E isto porque em Veneza, cujos costumes des­
creve, também se assiste à promoção da burguesia e à
exaltação dos valores burgueses. A supremacia marítima
de Veneza havia diminuído, desde o século XVI, devido à
concorrência que lhe faziam o império turco, a Espanha e
Ragusa. Veneza se transformou num grande porto in­
dustrial: aí se fabricavam tecidos de melhor lã. Mas os
nobres consideravam degradante êste tipo de trabalho: com­
praram terras no interior e se afastaram dos negócios. No
século XVIII, a aristocracia ainda conserva o poder político,
mas só subsiste graças às riquezas acumuladas na cidade
pela classe dos comerciantes. O homem ideal é o comer­
ciante honesto, econômico, hábil: estas virtudes são de
maior utilidade para a cidade, para a família e para si pró­
prio do que os títulos de nobreza. Os nobres levam exis­
tências dissipadas e absurdas: o comerciante personifica o
bom senso e a retidão. Seu código moral repousa essencial­
mente no relacionamento familiar. Era esta a convicção da
classe burguesa a que pertencia Goldoni.
■ Pantaleão é, por tradição, comerciante. É convencional
a imagem que dele apresenta Goldoni, no início de sua obra,
a exemplo da commedia delVarte. Contudo, o homem idoso
é muito antipático, em Les Rabat-joie, obra muito mais
pessoal. Goldoni põe em cena quatro encarnações de
Pantaleão: quatro velhos misantropos, tirânicos, avaros, egoís­
tas e teimosos; suas idéias são antiquadas e detestam a
juventude; sua família é por êles oprimida, impedem as
mulheres e crianças de saírem, de se divertirem, de se
enfeitarem. Um clêles pretende casar a filha com o filho
do outro, mas ambos recusam permitir que os jovens se
encontrem antes do dia das núpcias. Todavia, êles conse­
guem entrevistar-se, graças à cumplicidade das mães.
No decorrer de sua carreira, Goldoni vai se aplicando
cada vez mais a retratar a sociedade veneziana tal como

211
êle a vê, e Pantaleão se aproxima da figura do comerciante
ideal. Não é, aliás, um velho mas sim um homem de
meia idade, que soube gerir sua fortuna, dirigir bem sua
vida e que dá sábios conselhos: Goldoni fala, freqüente-
mente por seu intermédio. Numa de suas peças de maior
sucesso, Le Bourru bienfaisant, a figura do pai é por êle
tratada de maneira um tanto irônica mas também com o
maior apreço. Géronte é rápido, autoritário, de tempera­
mento difícil; não ouve a ninguém; sem a consultar, decidiu
casar a sobrinha Angélica com um velho amigo. É, entre­
tanto, um homem generoso; mantém, com muita largueza,
a família de seu fâmulo. Concorda em pagar as dívidas
do sobrinho. Acaba compreendendo que deve deixar An­
gélica dispor livremente de seu coração e a autoriza a des-
posar o homem que ama.
Pode-se observar a evolução sofrida pela figura do
velho mercador rico, desde os tempos de Chaucer. Na­
quela época — e durante os séculos seguintes — sua riqueza
constituía objeto de inveja; consideravam-no injustamente
privilegiado e vingavam-se, zombando dêle. Foi somente
no século XVIII que uma melhor compreensão dos fatos
econômicos permitiu avaliar os serviços por êle prestados
ao conjunto da sociedade. O utilitarismo, professado em
primeiro lugar pelos puritanos, uma vez reconhecido o seu
papel, fêz com que lhe fôssem atribuídas tôdas as quali­
dades. Quando velho, será ainda mais respeitado: sua pros­
peridade é uma garantia de virtude e sabedoria.

Os autores do século XVIII, a exemplo de seus prede-


cessores, não conseguem escapar à influência de sua época.
Como esta, entretanto, favorecia o individualismo, as inova­
ções e a proliferação de idéias, surgiu então um grande
número de escritores de impressionante originalidade. Não
se pode deixar de citar Swift, a quem se deve o retrato
da velhice mais cruel jamais traçado. Tinha 55 anos e
atravessava um difícil período em sua vida — o fim de
suas relações com Vanessa — quando escreveu o terceiro
volume das Viagens. No quarto — redigido antes — havia
feito uma sátira feroz da espécie humana em geral, figu­
rada pelos Yahus. “ Odeio e detesto o animal chamado

212
homem” , escreve êle pouco tempo depois a Pope. Tinha
horror às mulheres: escreveu alguns anos depois o famoso
poema, A alcova, sôbre o tema “ Célia caga” . A velhice,
quando considerada, pelo menos em palavras, como sendo
o estágio mais nobre e mas aperfeiçoado da condição hu­
mana, não podia deixar de desencadear seu furor. Já era
êle próprio bastante idoso, de saúde precária e sua velhice
foi efetivamente uma dramática decadência física e moral:
êle parece tê-lo pressentido. Não teria podido descrever com
tamanha nitidez êsses imortais, que na realidade são apenas
grandes velhos, se não tivesse vivido obsedado por fantas­
mas em que decifrava, aterrorizado, seu próprio futuro. E
se, em seus últimos anos, êle se viu transformado em hor­
rendo Struldbrugg, isto não se deveu certamente apenas
ao acaso.
Gulliver fica maravilhado ao saber que alguns Luggna-
gianos nascem trazendo na testa uma marca que os torna
imortais: imagina-os felizes e liberados do terror da morte,
cheios de ciência, ricos, conversando sôbre problemas trans­
cendentais; se estivesse em seu lugar, explica êle, lutaria
contra a corrupção, buscaria realizar grandes descobertas.
Seu interlocutor responde que, em todos os outros lugares,
as pessoas idosas conservam o gôsto pela vida; exceto ali,
pois enxergam com os próprios olhos o destino a êles reser­
vado. “ Este plano de vida imortal é insensato e absurdo,
disse-me êle, pois implica a duração eterna da juventude,
da saúde e do vigo r... O problema não consiste em orga­
nizar uma existência sempre na primavera, sempre cumulada
de felicidade e de saúde, mas sim em suportar uma vida
perpètuamente em luta contra as misérias da velhice.” Com
efeito, por volta dos 30 anos, os Struldbruggs começam a
se tornar melancólicos e isto vai se agravando cada vez mais
até os 80. Aí então, “ cabem-lhes tôdas as enfermidades
físicas e mentais dos velhos, além de uma infinidade de
outras oriundas da atroz perspectiva de nunca se poderem
livrar. Não são apenas teimosos, rabugentos, cúpidos, sus­
ceptíveis, vaidosos, tagarelas, mas também incapazes de
amizade e até mesmo de qualquer afeição por seus des­
cendentes que perdem de vista após a segunda geração.
Têm duas paixões dominantes: a inveja e os desejos recal­
cados. Invejam os vícios dos jovens, desejam a morte dos

213
velhos. . . Suas únicas recordações não vão além de sua
juventude ou do início de sua maturidade; são aliás, bas­
tante vagas. O que de melhor se lhes pode desejar é a
perda de todas as suas faculdades e a caduquice total.
Pois então, já não sendo tão mau o seu caráter, êles pode­
ríam contar com um pouco de piedade e de assistência.”
Aos 80 anos, são considerados oficialmente mortos; os es­
posos se separam (caso sejam ambos imortais). Vivem de
uma rendazinha. Aos 90 anos perdem os dentes e os ca­
belos. Nesta idade já não distinguem o sabor dos alimentos.
“ Quando falam, já não encontram as palavras.” “ Por falta
de memória, nem ler podem mais.” Como a língua evolui,
já não a compreendem. “ Conhecem assim a desgraça de
viver como estrangeiros em seu próprio país.”
Esta última idéia é inteiramente nova. Antes disso, e
sobretudo na Idade Média, o tempo girava em círculos e
o velho se degradava no seio de um universo imutável. No
século XVIII, a burguesia em ascensão acredita no pro­
gresso e isto leva Swift a imaginar o velho estagnado e
se repetindo no meio de um mundo em alteração, inces­
santemente rejuvenescido. Incapaz de lhe acompanhar a
evolução, êle fica para trás, sozinho, murado, privado de
tudo aquilo que se vai afastando dele (65). É-lhe interdita
qualquer comunicação com as gerações mais novas. A ve­
lhice não é somente decrepitude mas também — como ia
ser para Swift — a solidão do exílio.
Um velho imortal: tal foi o triste destino de Titon,
lastimado pelo poeta jônio Minerma. Os homens nunca o
desejaram. Em compensação, sonharam com a Fonte de
Juvência. O rejuvenescimento é um dos temas do Fausto
de Goethe. Esta idéia não intervinha nem nas lendas antigas
de que Fausto era o herói, nem na peça de Marlowe.
Fausto era um sábio, mais tarde mágico, cuja alma se
perdia devido à sede de saber. A peça de Goethe também é
antes de tudo o drama do conhecimento e dos limites da
condição humana. Mas a noção de idade nela desempenha

(65) Ninon de Lenclos se referiu numa carta a êste isolamento do


velho num século que já não é o seu. O tema será muitas vezes retomado,
sobretudo por Chateaubriand. Tratarei dêle demoradamente. Mas esta
é a primeira vez que se trata desta questão püblicamente e com energia.

214
um importante papel. O velho Fausto não encontra mais
felicidade na ciência; dela já não extrai nenhum orgulho,
ela já não o embriaga; continua aberta, êle ainda poderia
aprender; mas êle se sente vítima de sua finitude: nêle
está morto o desejo de conhecer; já não tem nenhuma
razão para viver. Para reecontrá-la seria preciso que renas­
cessem em todo o seu frescor os prazeres, o amor, os enlevos,
apanágio da juventude; faz uma aposta: se Mefistófeles
lhe devolver a juventude, êle não se deixará iludir pelos
prazeres a ponto de desejar interromper o curso do tempo;
mas êste desafio só terá sentido se êle fôr novamente capaz
de os experimentar. Goethe concebe, portanto, a velhice
como uma idade gélida, abstrata e decepcionante. Só tinha
25 anos quando começou o Fausto e 48 quando o terminou
em 1807. Mas embora lhe faltasse experiência da idade
provecta, já havia tomado consciência da finitude humana.
Conservou sempre o desejo de mudar de pele como as ser­
pentes e isto porque se sentia por vezes apertado dentro
da sua que lhe parecia gasta. A questão está menos em
ser jovem que em poder rejuvenescer: escapar aos próprios
limites, reviver a vida como uma aventura sem deixar que
ela acabe num impasse.

A Europa se transforma, no século XIX: as alterações


nela produzidas exercem uma influência considerável sobre
a condição dos velhos e sobre a idéia que a sociedade faz
da velhice. Um fato deve ser notado logo de saída: o
extraordinário surto demográfico verificado em todos os
países: a população européia era de 187 milhões de indiví­
duos em 1800, tendo passado para 266 milhões em 1850 e
300 milhões em 1870. Disto resultou, pelo menos em al­
gumas classes da sociedade, um aumento no número dos
velhos. Êste acréscimo, associado ao progresso da ciência,
faz com que os mitos da velhice sejam substituídos por um
verdadeiro conhecimento: êste conhecimento, por sua vez,
permite à medicina um melhor atendimento e a cura de
pessoas idosas. São estas agora demasiadamente numerosas
para que a literatura continue a ignorá-las; na França, na
Inglaterra, na Rússia, os romancistas buscam traçar um
quadro completo da sociedade: vêem-se compelidos a des­
crever não somente velhos privilegiados mas também an-

215
ciãos pertencentes às classes inferiores, até então jamais
mencionados pelos escritores, salvo insignificantes exceções.
Isto está longe de implicar uma melhoria das circuns­
tâncias para o conjunto da população idosa. Haverá, pelo
contrário, como poderemos verificar, muitas vítimas da evo­
lução econômica processada no decorrer do século.
Três fenômenos estreitamente relacionados acompanha­
ram em tôda parte a progressão demográfica: a revolução
industrial, um exôdo rural acarretando um desenvolvimento
urbano, a aparição e o desenvolvimento de uma nova classe,
o proletáriado.
Na Inglaterra, o despovoamento das zonas rurais havia
tido início com o sistema de divisão de propriedades, res­
ponsável pela miséria de um grande número de camponeses.
As leis sôbre a assistência social provocaram, como reação,
no começo do século XIX, uma queda nos salários dos
camponeses, cujo efeito foi sua evasão dos campos. Ao ser
votada, em 1846, a lei de liberdade de comércio, a Ingla­
terra industrial e mercantil, triunfou definitivamente sôbre
a Inglaterra agrícola.
Na França, houve um importante êxodo rural no fim
do século XVIII. A população urbana que representava
1/10 da população total, passou a representar 1/5: cêrca
de 5,5 milhões de indivíduos. Os filhos de camponeses emi­
gravam sobretudo para as cidades pequenas onde conse­
guiam elevar-se socialmente tornando-se comerciantes, em­
pregados, ou funcionários. O início do século XIX repre­
sentaria antes uma interrupção neste movimento; de 1800
a 1851, 3 milhões e meio de indivíduos vêm aumentar a
população urbana mas, dado o crescimento global da po­
pulação, as cidades só mantêm 25% dos franceses. Tendo
sido aliviados os impostos, cresceram os recursos dos cam­
poneses, mas êste acréscimo se viu absorvido pelo cres­
cimento paralelo da população. Entre 1840 e 1850, os cam­
pos se revelam incapazes de alimentar todos os seus habi­
tantes, de modo que o êxodo se avoluma de 1850 a 1865.
Nos anos seguintes a indústria rural — fonte de renda
bastante considerável para os camponeses — entra em
declínio em conseqüência da concentração industrial. O
progresso técnico dificulta a exploração das terras pelos

216
pobres: êstes não podem enfrentar a concorrência dos pro­
prietários burgueses que introduzem na agricultura métodos
capitalistas. Além disso, a partir de 1880, graças ao pro­
gresso dos meios de comunicação, a América se acha em
condições de exportar trigo para a França; resultado: grave
crise econômica e o prosseguimento do êxodo rural. Em
1881, um terço da população se acha concentrado nas ci­
dades. No fim do século, é a indústria a única válvula que
se abre diante dos filhos de camponeses e êles vão engros­
sar as fileiras do proletariado.
As transformações foram nefastas para os velhos. Sua
condição nunca fôra tão cruel quanto na segunda metade
do século XIX, tanto na França quanto na Inglaterra. Não
havia proteção ao trabalhador: homens, mulheres e crian­
ças eram impiedosamente explorados. À medida que iam
envelhecendo, os operários, se tornavam incapazes de su­
portar o ritmo do trabalho. A revolução industrial se rea­
lizou mas seu preço foi um incrível desperdício de material
humano. O taylorismo provocou verdadeiras hecatombes
na América, entre 1880 e 1900: todos os operários morriam
prematuramente. Os que conseguiam sobreviver, ao se
verem privados de trabalho, ficavam em tôda parte redu­
zidos à miséria. Na França, as sociedades de auxílio mútuo
foram toleradas a partir da Restauração, e sua existência
reconhecida em 1835; um regime de estreita vigilância tor­
nou a pesar sôbre elas em 1850 e 1852. A Terceira República
lhes reconheceu inteira liberdade, com a lei de l.° de abril
de 1898. Todavia, mesmo nas melhores condições, seus
recursos sempre foram insuficientes quando se tratava de
garantir um risco oneroso como a velhice. O mesmo suce­
dia com as “amigáveis” da Inglaterra. “Procurem fazer mais
economias que filhos” , preconizava J .R . Say. Dirigido a
operários, semelhante conselho era uma ironia. Na França
e na Inglaterra, pululavam velhos vagabundos e indigentes.
Nas zonas rurais da França, continuou a ser de praxe
o seu sustento pelas famílias. Se o pai de família que co­
mandava tôda a casa era bastante vigoroso ou rico para
conservar a posse de suas terras — continuando a trabalhar
ou empregando trabalhadores agrícolas — sua autoridade
sôbre os filhos também se mantinha. A família patriarcal
continuava a existir nas zonas rurais, podendo até ser tirâ-

21.7
nica a autoridade do velho que a governava. Mas só era
encontrada entre camponeses abonados e estes eram raros.
Arcaica até 1815, a agricultura progrediu muito lentamente;
os rendimentos eram tão pequenos que os camponeses mal
conseguiam subsistir. Quando envelheciam, já não tinham
forças para continuar a cultivar suas terras e não haviam
podido economizar o suficiente para pagar uma mão-de-
-obra estranha. Ficavam à mercê dos filhos. Viviam estes
à beira da miséria, sem ter recursos para alimentar bôcas
inúteis. Desembaraçavam-se delas, às vêzes, abandonando
os velhos nos asilos. O diretor do asilo de Montrichard ( 66)
manifestava em 1804, sua indignação: “ Os velhos devem
trazer e deixar no asilo tudo que lhes pertence; no entanto,
descendentes desnaturados trazem seus velhos pais e os
despojam até de seu último traje antes de os abandonar nas
salas.” Conservavam-nos habitualmente, em casa; mas a
situação ilustrada na Idade Média pelo rei Lear havia
persistido no decorrer dos séculos: incapaz de constinuar a
tratar de suas terras, o pai as entregava aos filhos e êstes
os deixavam muitas vêzes à míngua e os maltratavam. Em
um Mémoire sur les paysans de VAveyron et du Tam, Rou-
vellat de Cussac escreve: “Não há nada tão freqüente quanto
o esquecimento, por parte de filhos de ambos os sexos,
de tôdas as obrigações para com seus progenitores envelhe­
cidos. Quando êstes cometem a imprudência de entregar
seus bens sem nenhuma reserva documentada, ou sem a
garantia de um testamento revogável, arriscam-se a se verem
desprezados e, muitas vêzes, privados até do indispensável.”
Encontra-se êste tema em numerosos romances, com
toda certeza inspirados pela realidade. Em Eusèbe Lom-
bard de Theuriet, escrito em 1885, depois da morte do
pai, a irmã acusa o irmão mais velho de haver seqües-
trado o defunto: “ Se êle veio para nossa casa, foi porque
você o alimentava com batatas podres. — E você o deixou
morrer num monte de palhas em pleno inverno.” Em Au-
tour du clocher, romance inspirado a Fèvre e Desprez pelos
camponeses de Rouvres, no Aube, o velho Bonhoure é mal­
tratado pelos filhos: “E assim vegetava êle, espancado, in-

(66) Estudo histórico de Montrichard pelo Abade C. Labreuille.

21S
sultado, alimentado com batatas estragadas, como os por­
cos.” Acabou se enforcando. Em UAveugle de Maizeroy,
os sobrinhos obrigam o velho tio a mendigar: “ Quando
voltava de sacola vazia, injuriavam-no violentamente e todos,
mesmo os menorezinhos, se encarniçavam em cima dêle,
ridicularizando-o, arrebatando-lhe a gamela, pregando-lhe
maldosas peças.” Até que morreu, um dia, na estrada. Em
Le Fere Amable, Maupassant descreve a triste e silenciosa
existência que levava, na companhia de seu filho, um pai
viúvo, surdo e semi-aleijado. O filho se casa, contra a von­
tade do pai, com uma mulher que já havia tido um filho
de outro homem. A existência do velho vai se tornando
cada vez mais mesquinha e lúgubre. Morre o filho; a
mulher não maltrata o sogro mas torna a se casar. E êle
então se enforca.
A legislação tem procurado defender os velhos contra
a dureza e a descaso de sua progenitura, substituindo uma
situação de fato por uma situação de direito. O pai que se
despojava por uma partilha inter vivos recebia em compen­
sação uma renda vitalícia, cujo montante era estabelecido
perante um notário; caso os filhos recusassem pagá-la, êle
podia intimá-los a comparecer diante dos tribunais. Em
princípio, portanto, êle já não ficava na dependência do
arbítrio da família. Infelizmente, muitas vêzes pagou caro
a proteção da justiça. Era outrora mais ou menos difuso
o interêsse dos filhos em gastar com o pai o menos pos­
sível: êste interêsse passou a ser mais preciso e mensurável;
havia-se materializado na pensão obrigatoriamente paga.
Tinham, por conseguinte, um poderoso motivo para o fazer
desaparecer: era a maneira mais simples de se eximir dos
rigores de uma coação legal. Não nos é possível saber
em que século os assassinatos — por métodos violentos ou
pela inanição — dos pais idosos foram proporcionalmente
mais numerosos. Quase todos ficaram sepultados no silên­
cio dos campos: todavia, devem ter sido bastante frequentes,
no século XIX, a ponto da opinião pública deles tomar
conhecimento e de se ter inquietado. Terá esta publicidade
significado um maior interêsse pelo destino dos velhos
campônios? Ou teria aumentado o número dos crimes e a
imprudência com que eram cometidos? Nenhum documento
nos autoriza a responder a estas indagações.

219
O certo é que foram muitas vezes denunciados os pe­
rigos a que estavam expostos os velhos pais despojados.
Bonnemère escreve a êste respeito em sua Histoire des
paysans, em 1874: “ Cheio de amargura, sentindo-se um
encargo para todos e para si mesmo, e um estranho em
casa dos filhos, êle arrasta de choupana em choupana o
tédio de seus últimos dias. Acaba morrendo. . . Mas êle
que se apresse, pois lá está a cupidez armando na sombra o
braço do parricida.” No dizer de Bonnemère, chega-se até
a enterrar o velho, muitas vezes, antes de êle estar verdadeira­
mente morto: “ É sob os tetos de colmo que se dá o nome
de morte à letargia, porque, como observa M. D u pu is(6768),
nem sempre se dispõe de dois quartos e se tem pressa em
tomar o lugar.” Bonnemère cita quatro casos de parricídio,
ocorridos todos num ano: 1855(GS). Eram tão habituais
êsses crimes, e tão conhecidos, apesar da obscuridade com
que buscavam encobrir-se, que um inquérito oficial levado
a cabo entre 1866 e 1870 sobre a agricultura francesa, não
hesita em proclamá-los. Êste inquérito foi resumido em
1877 por Paul Turot. Falando em nome da administração,
Turot aconselha aos ascendentes que não efetuem em vida
a partilha de seus bens. Lembra com veemência o miserá­
vel destino reservado aos velhos pais depois que abrem
mão do que é seu; evoca “ os crimes cometidos para apres­
sar a morte, e para os quais as obrigações contraídas devido
à partilha constituem um incitamento, uma espécie de en­
corajamento. Uma vez despojado de seus bens, o pai de
família se vê privado de qualquer autoridade. É relegado
à condição de criatura desprezada, repelido pelos filhos,
rejeitado de todos os lares, remetido de um para o outro

(67) Dictionnaire de la conversation. Verbete: “ Inhumations” .


(68) No Maine-et-Loire, um camponês chamado Guyomard assassinou
a sogra que havia dividido seus bens e à qual devia pagar 20 francos por
ano e 12 alqueires de centeio (Le Constitutionnel, 12 de fevereiro de 1855).
Em Gensac, perto de Libourne, um homem de 60 anos assassinou a
mãe, de 80 anos, com duas facadas na garganta, a fim de se dispensar
de lhe pagar uma pensão vitalícia {L a Presse, 22 de março de 1855).
Perto de Nemours, Pierre Besson, camponês, matou o pai que havia
tomado algumas disposições testamentárias em favor do filho mais nôvo.
Citarei ainda um caso que teve grande repercussão em 1886. Em
Luneau, no Loi-et-Cher, o casal Thomas queimou viva a mãe da Senhora
Thomas.

220
com uma renda vitalícia nem sempre paga ou com uma
habitação que não lhe é dada.”
Num artigo do Temps, de 5 de agôsto de 1885, Cher-
ville chama a atenção para a triste sina dos velhos pais a
cada instante humilhados, semimortos de fome, forçados
a mendigar. O avô se afeiçoa muitas vezes ao netinho mas
“ ao crescer, o garoto se distancia” para agir como os de­
mais. Como diz o jornalista, é grande a tentação de apres­
sar o fim dos velhos pais, sempre demasiadamente oneroso.
Em A Terra, Zola narra um destes dramas sombrios:
para escrevê-lo, bufscou o apoio de uma documentação
extremamente séria. Êste romance foi comparado ( 69) ao
Rei Lear, que Zola menciona, aliás, em suas notas. Com
efeito, apesar dos séculos que medeavam entre êles, Zola
e Sliakespeare descrevem situações semelhantes. No início
do romance, o velho Fouan reúne os filhos num cartório
a fim de dividir entre êles as propriedades que já não pode
cultivar; os filhos discutem asperamente a renda exigida
pelo pai. “A vida dos dois velhos foi vasculhada, exposta,
discutida, cada necessidade de per si. Pesou-se o pão, os
legumes, a carne... Quem já não trabalha, deve saber se
restringir.” Determina-se uma quantia. A princípio o velho
continua a viver em sua casa, com a mulher. Os filhos só
lhe entregam uma parte da pensão combinada. Isto provoca
uma cena terrível entre o pai e o filho caçula, Buteau, dela
resultando a morte da mãe, de desgôsto. Conseguem per­
suadir o velho a vender a casa para ir morar com a filha:
esta o persegue de maneira mesquinha. Tal como Lear,
vai êle sucessivamente para a casa de cada um dos filhos,
sofrendo sempre. Passam-se alguns anos, cheios de amar­
gura. Buteau o havia atraído para sua casa, com a espe­
rança de lhe roubar as economias e o trata com brutalidade.
Durante uma discussão o pai ergue a mão, num gesto amea­
çador que outrora amedrontava o filho: mas êste agora
a segura no ar, sacode o pai e o faz cair numa cadeira.
Como os velhos gorilas vencidos pelos jovens, o pai se sente
definitivamente vencido: ao fugirem as fôrças, havia perdido

(69) Especialmente Legouis, Revue de Uttêrature comparée, 1957.


A principal diferença está em que o velho Fouan não personifica a con­
dição humana.

221
também a autoridade. Nem a proteção da lei basta para
defendê-lo contra a violência bruta. Buteau consegue lhe
roubar o pé-de-meia. Agrava-se de tal forma o conflito
entre pai e filho que uma noite, tal Lear redivivo, o velho
foge e vagueia até o amanhecer no meio de uma tempestade.
Por haver presenciado um crime cometido pelo filho e pela
nora, mas sobretudo por não mais tolerarem o encargo de
sustentá-lo, estes o estrangulam e lhe ateiam fogo a enxêrga,
simulando um acidente. O médico faz vista grossa e dá
o atestado de óbito.
Zola se serviu do fato assinalado em Le Temps, refe­
rente ao relacionamento entre avó e neto. Durante algum
tempo, a desgraça do velho Fouan é compensada pela
afeição por êle dedicada à criança e aparentemente retri­
buída por ela. Mas um dia, tendo ido buscar o neto à escola,
o menino recusa acompanhá-lo e se junta aos companheiros
para caçoar do velho.

Pelo fato de se ter projetado no século XIX pelo menos


alguma luz sôbre o destino dos velhos explorados, o con­
traste entre eles e os privilegiados surge com uma nitidez
até então nunca vista. Ex-operários reduzidos à indigência
e à vagabundagem, velhos camponeses tratados como ani­
mais, os velhos pobres se situam no mais baixo nível da
escala social cujo ápice é ocupado pelos anciãos das classes
superiores. Chega a parecer que se trata de duas espécies
diferentes, de tão flagrante o contraste. As transformações
econômicas e sociais, tão nefastas para uns, beneficiaram,
pelo contrário, os outros.
A Restauração, e a volta dos emigrados provocaram no
início do século XIX, a instauração de uma verdadeira ge-
rontocracia. Os emigrados haviam resgatado terras, muitas
vêzes as mesmas que outrora lhes haviam pertencido: em
1830 já se havia reconstituído cerca de metade dos gran­
des domínios. Esta aristocracia latifundiária era pouco
numerosa mas contava com muitos clientes na burguesia.
Reunira-se em torno da figura do rei e havia conseguido
impor um sufrágio censitário, baseado nos bens de raiz, e
êste lhe conferia uma supremacia política. Havia 90 000

222
eleitores, isto é, em cada 100 franceses maiores de idade,
apenas um votava, havendo aproximadamente 8 000 cidadãos
clegíveis. Como esses emigrados eram pessoas muito idosas,
o país se achava numa situação que poderia ser qualificada
como patológica. Denunciou-a o panfletário Fazy, em 1829:
“A França foi reduzida a 7 000 ou 8 000 indivíduos elegíveis,
asmáticos, gotosos, paralíticos, de faculdades diminuídas e
cuja única aspiração é o repouso.” Critica enèrgicamente
a “ singular lei que só entrega a representação nacional a
velhos” . Esta prerrogativa dos velhos à Câmara dos Pares
se manteve depois de 1830; contou Talleyrand a Guizot,
em 1835: “ Fui ontem à Câmara dos Pares. Éramos apenas
se is... e tínhamos todos mais de 80 anos.”
Entretanto, a alta burguesia ia enriquecendo, explo­
rando os operários e muitos camponeses e emprestando
dinheiro a juros. Graças à supremacia econômica, conseguiu
arrebatar o poder político das mãos da aristocracia latifun­
diária. No govêrno de Luís-Filipe, o poder foi exercido,
na realidade pelos industriais, pelos banqueiros e pelos
grandes comerciantes, assim como pelos altos funcionários,
advogados e professôres. Eram quase todos idosos, pois
lhes havia sido preciso tempo para acumular os bens. Pode­
mos, portanto, continuar a falar em gerontocracia. Charles
Dupin afirma que metade dos eleitores contava mais de
55 anos. Segundo informa, os 54 000 eleitores liberais eram
apoiados por 28 milhões de cidadãos, e os 46 000 eleitores
de direita por 3 milhões de velhos. Os algarismos podem
ser aproximativos, mas a idéia geral é correta. Tratava-se
de uma plutocracia e a maioria dos ricos era formada por
velhos. As empresas eram familiares, sendo o chefe, em
geral o membro mais velho da família. O móvel da econo­
mia já não era a renda mas sim o lucro que se ia acumu­
lando, graças aos investimentos. Os membros da célula
familiar se achavam estreitamente ligados pelos interesses
e sua personificação era o avô.
' O poder político coube, a partir de 1848, aos bancos e
à indústria. Complementou-se, nesta época, a revolução
industrial: tomaram impulso as estradas de ferro, as indús­
trias têxteis, a metalurgia, as refinarias de açúcar e as minas.
Passou a ser cada vez mais importante o papel dos bancos.
Neste mundo em movimento, onde a figura mais conside­

223
rada era a do “ empresário” , a iniciativa era a qualidade
mais necessária: o filho, mais audacioso que o pai, con­
vencia-o a introduzir na fábrica máquinas mais modernas,
técnicas inéditas. Por outro lado, ao capitalismo familiar
sucederam sociedades anônimas de acionistas. O homem de
idade perdeu o prestígio econômico. O sufrágio universal
lhe arrebatou o prestígio político. Em 1871, todavia, a
Assembléia Nacional se compôs em grande parte de ele­
mentos da zona rural, todos idosos; havia 400 realistas con­
tra 200 republicanos e 50 deputados de tendências mal
definidas. O número de velhos no primeiro grupo era
muito superior.
De um modo geral, tanto na França como em todo o
Ocidente, o conflito de gerações foi abolido na burguesia:
estabeleceu-se entre elas uma espécie de equilíbrio. Sua
solidariedade se afirmava contra as classes “perigosas” . Era
freqüente ver-se, na pequena burguesia, o filho ocupar uma
posição social superior à do pai e êste se orgulhava desta
vitória: os ressentimentos se viam desarmados por esta
ascensão das gerações. Por outro lado, a sociedade nova
exigia a colaboração de jovens e de velhos. Sua complexi­
dade tornava necessários o acúmulo de conhecimentos e a
experiência para fazê-la viver e progredir; em muitos seto­
res o número de anos constituía uma qualificação. Os jo­
vens se impunham por sua audácia e por sua capacidade
inventiva, mas consideravam muitas vêzes útil resguarda­
rem-se por detrás da figura tranqüilizadora de um homem
de idade, com o qual estava aparentemente o poder: êle
representava a emprêsa cuja verdadeira direção ficava entre
as mãos de sócios mais dinâmicos.
Se o velho surge como uma garantia, isto se deve ao
fato de ser êle altamente valorizado pela ideologia burguesa
da época. Tanto na França como na Inglaterra da Rainha
Vitória as virtudes mais enaltecidas são as mesmas que ou-
trora haviam preconizado os puritanos: o rigorismo moral
caminhava de mãos dadas com o sucesso econômico: a
austeridade constituía uma regra, visto ser imprescindível
reinvestir os dividendos. Ora, a tradição representa o velho
como uma criatura naturalmente desprovida de apetites e
votado, por conseguinte, ao ascetismo. Além disso, o pen­
samento econômico que vê uma panacéia no acúmulo de

224
capitais se estende — abusivamente, aliás — ao domínio da
psicologia: admite-se ser sempre bom acumular; e acumular
anos é realizar um lucro, é adquirir um valor diante do qual
se inclina respeitosamente a burguesia do século X IX: a
experiência. O empirismo associacionista, considerado na
época como a verdade suprema, confirma êste ponto de
vista: quanto mais se avança em anos, mais se multiplicam
as associações, maiores se tomam os conhecimentos e a
sabedoria. É portanto, no fim da vida que o indivíduo atinge
normalmente seu apogeu.
A família, nas cidades, deixou de ser patriarcal. A
partir do final do século XVIII, a multiplicidade de em­
pregos, a ampliação da vida social, deram aos jovens casais
a possibilidade de constituírem lares próprios. Permanece,
entretanto, a tradição da família doméstica, tão cara ao
espírito da burguesia e idealmente perpetuada através da
veneração que cerca a figura do avô. Sua influência entra
em declínio com o desenvolvimento do capitalismo moderno,
mas mesmo então a opinião pública continua a exigir para
êle demonstrações exteriores de respeito e a segurança de
um fim de vida honroso.
A transformação da família modificou o relacionamento
entre netos e avós: ao invés de antagonismo, estabelece-se
entre êles uma aliança: já não sendo o chefe da família,
o avô se torna cúmplice dos netos, passando por cima dos
pais e vice-versa: as crianças encontram nêle um compa­
nheiro divertido e indulgente (70).
A importância social concedida aos velhos irritou alguns
escritores adultos. Lamennais investe violentamente con­
tra a idade provecta. Escreve, aos 36 anos: “ Nunca vi
nenhum velho cujo espírito não se achasse enfraquecido
pela idade, e muito poucos vi que o reconhecessem sincera­
mente.” E ainda: “ O que é um velho neste mundo? Um
sepulcro que se movimenta. A multidão se afasta: aproxi­
mam-se alguns poucos para ler o epitáfio” (71). Dickens

(70) Já vimos que, sob formas diversas, a relação dos avós com
os netos é muito importante entre muitos primitivos.
(71) Lamennais tinha uma opinião melancólica a respeito do con­
junto da condição humana. Atravessou, aos 36 anos, um período de
depressão. Talvez também alimentasse certos rancores contra alguns velhos:
era um homem rancoroso.

15 225
protesta veementemente contra a habitual aproximação en­
tre a infância e a velhice. Escreve, falando desta: “ A isto
chamamos estado de infância, mas desta é somente pobre
e vão simulacro, tal como o é a morte do sono. Onde estão,
nos olhos do homem senil a luz e a vida que riem nos olhos
das crianças?... Aproximai a criança e o homem recaído
em infância e corai desta vaidade que difama o feliz alvo­
recer de nossa existência emprestando seu nome a tão hor­
rível e convulsiva imitação.”
Expressões semelhantes são muito raras. Os escritores
que refletiram sôbre a velhice, dentro de perspectivas muito
variadas, dela propuseram apologias mais ou menos matiza­
das: a exemplo dos ensaístas dos séculos precedentes, eles
só se interessam pela velhice na medida em que ela diz
respeito a sua classe. Citarei os mais significativos.
No capítulo VI dos Aforismos sôbre a sabedoria na
vida, intitulado “ Sôbre a diferença das idades”, Schope-
nhauer examina os diversos momentos da existência, à luz
de sua filosofia. Ê conhecido seu absoluto pessimismo:
o único caminho que se abriría diante da espécie humana
seria a extinção do desejo de viver e o deslizamento para
o nada de maneira total, por meio da eliminação da repro­
dução. Quanto mais acirrada é a vontade no indivíduo,
tanto mais longe está êle da sabedoria: isto é, na juventude.
A criança, por ser contemplativa, é privilegiada: sua ati­
tude estética, mantém o mundo a distância; vê os objetos
sub specie aeternilatis, possui uma intuição de sua essência.
É êste o motivo pelo qual, mais tarde, se lamenta tão dolo­
rosamente a infância perdida: ela é feliz por ser represen­
tação e não vontade. O jovem, pelo, contrário, tem sêde de
viver; corre atrás da felicidade sem a encontrar porque o
fato de buscá-la significa que já a perdeu. Quando é sen­
sato, compreende pouco a pouco que a felicidade é uma
quimera enquanto o sofrimento é real e seu único desejo é
livrar-se dêle. A juventude é intelectualmente fecunda:
cabem-lhe por direito o conhecimento e a criação. As forças
intelectuais atingem o apogeu aos 35 anos. Vivemos, en­
tretanto, mergulhados na ilusão e no êrro. O instinto sexual
entretém no indivíduo uma demência benigna.
Tornamo-nos melancólicos depois dos 40 anos, pois,
sem haver ainda renunciado às paixões e às ambições, co­

226
meçamos a nos desiludir e a entrever a morte no fim de
nossa jornada ao passo que antes a ignorávamos. Os anos
que precedem a decrepitude constituem a fase mais feliz
da vida quando a saúde é boa e se dispõe de dinheiro
suficiente para compensar as forças em declínio: “A ve­
lhice pobre é a maior desgraça que pode existir." Preen­
chidas estas duas condições, a velhice “pode constituir uma
fase da vida bastante suportável.” O tempo começa a
passar tão depressa que já não se conhece o tédio. As
paixões se calam, o sangue arrefece; liberto do instinto
sexual, o indivíduo recupera a razão. E então, “ adquiri­
mos mais ou menos a convicção da inutilidade de tudo
neste mundo” . A descoberta desta verdade nos confere
uma tranqüilidade intelectual, “ condição e essência da feli­
cidade.” “O jovem acredita que poderia conquistar as
maiores maravilhas do mundo contanto que soubesse onde
ir buscá-las; o velho está compenetrado da veracidade da
máxima do Eclesiastes: tudo é vaidade e se acha agora
convencido de que tôdas as nozes são ôcas, mesmo as
mais douradas. Só em idade avançada consegue o homem
atingir plenamente o nil admirari de Horácio; isto é, a
sincera e firme convicção da vaidade de tôdas as coisas
e da inanidade das pompas deste mundo. Basta de qui­
meras! Ele está completamente desiludido” . Graças a
esta lucidez, é na idade avançada que o homem tira me­
lhor proveito dos valores nêle existentes. Entretanto, quase
todos os indivíduos se tornam autômatos, começam a se
repetir e se esclerosam: é então o caput mortuum da vida,
A decrepitude é benfazeja pois ajuda a suportar a morte.
Depois dos 90 anos, ao invés de morrer de doença, o
indivíduo se extingue sozinho.
Como se vê, Schopenhauer valoriza a velhice em con-
seqüência de seu pessimismo. No seu entender, a desi­
lusão que constitui sua essência, lhe confere “ um certo
colorido melancólico” . Mas tem um mérito: nela, o desejo
de viver se acha quase extinto; volta-se à atitude contem­
plativa da infância. Sendo a vida uma desgraça e pare­
cendo a morte preferível, a velhice, uma semimorte, leva
vantagem sôbre a idade das ilusões. A apreciação de Scho-
penhaeur é inteiramente negativa: “ O fardo da vida é, na
realidade, mais leve que na juventude.”

227
A Senhora Swetchin (72) teceu considerações muito
justas sôbre a velhice. Salientou o contraste entre a dig­
nidade da idade provecta e o descrédito que a cerca: “ O
velho é o pontífice do passado, mas isto não o impede de
ser o vidente do futuro” . Entretanto: “ Coisa espantosa! não
é o horror o que a velhice provoca, é o desprêzo.” Ela observa
com muita justeza: “ Não há nada que provoque mais contra­
dições no espírito dos homens que a velhice: é um fantasma no
qual a juventude não acredita; um espantalho para a plenitude
viril; no entanto. . . todos a esperam e transigem o quanto
podem com seus inconvenientes.”
Mais ainda: “A juventude não lhe dá a honra de
considerá-la um mal necessário, de aceitá-la como aceita
a morte: chega quase a prometer a si mesma que lhe
haverá de escapar e se jacta de não desejar prolongar a
vida ao preço de tanta ignomínia.”
Reconhece que no plano humano ela constitui uma
terrível provação e dela faz uma descrição horrorizada;
sua crueldade, entretanto, permite uma aproximação com
Deus: “ Se considerarmos o homem natural, a juventude
representa a verdadeira, talvez a única fase b o a ... A re­
ligião age em sentido diametralmente oposto ao da na­
tureza.” “A velhice, quanto ao mundo exterior, é real­
mente uma espécie de cegueira... Deus é o herdeiro de
todos os votos não mais formulados, de todos os impulsos
suprimidos e lhe abre cada vez mais o mundo interior.”
Lamenta que Cristo não tenha santificado esta idade da
vida, atravessando-a.
Existe em Schopenhauer como na Sra. Swetchin, um
esforço no sentido de encarar a velhice dentro de pers­
pectivas originais. Mas os velhos chavões são renitentes:
voltam a ser encontrados no rápido ensaio consagrado por
Emerson à velhice. Ideólogo conformista da burguesia
americano, êle leva até o exagero, no fim da vida, o otimis­
mo que sempre havia professado: abalado pela guerra
civil, preferiu se desmobilizar e ignorar a terrível época

(72) Esta russa, convertida ao catolicismo, vivia em Paris. Seu


salão era freqüentado por Montalembert, Lacordaire Dupanloup. Teve um
fim de vida muito penoso: lutos e horríveis sofrimentos físicos. Falloux
coligiu numa espécie de ensaio suas anotações sôbre a velhice.

228
da Reconstrução. Tinha-se convencido de que vivia no
melhor dos mundos, no melhor dos tempos. Enfraquecido,
diminuído, êle gabou os méritos e as doçuras da idade
final. Reconhecia, como Cícero, que “o credo popular
estabelece, não a desonra da velhice mas sim sua condição
extremamente desvantajosa”, e não recua diante de nenhum
argumento para provar o contrário. Evoca os velhos ilus­
tres da História, sem se preocupar, aliás, em saber se os
seus últimos anos foram felizes, ou não, pois cita de cam-
bulhada, o Cid, Dandolo, Miguel Ângelo, Galileu etc. O
velho é feliz, diz êle, em primeiro lugar por ter escapado
a inúmeros perigos e disto se regozija. Nada mais se tem
a temer: tem-se a vida tôda atrás de si e nada a poderá
apagar. Compreende-se, assim, que Emerson estava satis­
feito com sua posição, com sua fama mas nada o autorizava
a generalizar. Graças a isto, prossegue êle, o sucesso não
significa mais nada. Não há mais necessidade de buscar
uma realização. Pode-se descer impunemente abaixo de
si mesmo. O terceiro argumento reproduz o segundo: o
indivíduo já se manifestou, já deu sua medida, conquistou
o direito de repousar no passado. Está livre de dúvidas
e de inquietação. Aqui, o otimismo de Emerson se aproxi­
ma curiosamente do pessimismo de Schopenhauer: quando
velhos, deixamos de agir e até mesmo de pensar, deixamos
de viver e isto representa uma libertação que nos traz a
paz, finalmente, alega a experiência adquirida pelo velho,
endossando desta maneira a idéia tão do agrado da burgue­
sia e segundo a qual bastaria o acúmulo de anos para
gerar o conhecimento.
Em 1880, na Alemanha, Jacob Grimm pronunciou um
célebre discurso sobre a velhice, encerrado nestes termos:
“Julgo ter fornecido provas que corroboram a opinião
segundo a qual a velhice não representa uma simples queda
de virilidade mas carrega em si mesma sua própria potên­
cia que se expande segundo leis e condições próprias. É
uma fase de paz e de calma jamais até então existentes
e a êste estado devem corresponder efeitos particulares.”
Inspira-se aqui no organicismo em voga na sua época.
Cada idade possui sua própria organização, sua especifi­
cidade: o velho não é um adulto mais idoso e desvirilizado;
seu estado não deve ser descrito como uma deficiência,
mas sim de maneira positiva, como um equilíbrio diferente
do indivíduo e de seu relacionamento com o mundo.

Nunca e em nenhum outro escritor, a velhice ocupou


tanto lugar e foi tão enaltecida quanto na obra de Victor
Hugo. Por que motivo? Seria preciso conhecer intima-
mente sua história para compreender suas razões. O certo
é que ela constitui um de seus fantasmas favoritos. Era
ainda jovem quando representou o poeta como um mago,
um profeta reinando num firmamento glorioso: ora, quem
confere tradicionalmente prestígio e autoridade suprema é,
tradicionalmente, a idade provecta. Deve ter pressentido
que a velhice seria o momento em que lhe seria dado
realizar de maneira mais cabal seu destino. Conhece-se
sua predileção pelas antíteses: uma das que êle explorou
com mais prazer foi aquela que opõe um corpo deformado
a uma alma sublime: a velhice é uma de suas encarnações.
Existe um contraste romântico entre um corpo enfraque­
cido e um coração indomável. Assim, com menos de 40
anos, êle retoma a lenda da volta de Barba Ruiva, e põe
em cena nos Burgraves imponentes velhos, formidáveis e
terríveis; alquebrando-os fisicamente, a idade lhes exalta
a sombria grandeza. Para evocá-los, Hugo retomou os cli­
chês populares. Salienta a solidão da velhice, seu distan­
ciamento do mundo. Jó “ se mantém apartado... Conser­
va-se, durante meses, em silêncio.” Refugiado numa gruta,
Barba Ruiva está mergulhado no silêncio do son o... “Dor­
mia um sono bravio e surpreendente.” A barba simboliza
a longevidade: “A barba, outrora dourada, alva agora como
a neve, contornava três vêzes a mesa de pedra.” Na Lenda
dos Séculos, traçou, mais tarde, retratos épicos da velhice.
Eviradnus é o mais grandioso de seus heróis. Seu passado
é imaculado, cheio de façanhas maravilhosas e a idade não
o atinge.

Zomba dos an os...


Velho como êle está, pertence à grande tribo
A ave menos altiva não é a águia barbuda.
Que importa a idade! Luta. Vem da Palestina.
Não sente os anos que o perseguem, e se obstina ( * ) .

230
Parece haver um presságio nestes versos: como um lu­
tador, Hugo desafia antecipadamente o tempo e se apre­
senta como o vencedor dêste combate. Eviradnus mata
sozinho o imperador da Alemanha e o rei da Polônia, ambos
jovens e lutando juntos contra êle. Acobertado pela lenda,
atribui ao velho qualidades próprias da juventude: con­
fere-lhe a força de um gigante, e tanta graça quanta fôrça;
quando Mahaud desperta — havia sido narcotizada por
bandidos que a queriam roubar — êle lhe beija a mão:
“Dormistes bem, senhora?” pergunta.
Nos Miseráveis, cuja parte final Hugo escreveu entre
os 50 e os 60 anos, o avô de Marius é um homem que
se havia mostrado durante tôda a vida extremamente duro
para com os seus. Mas quando imagina o neto morto, des­
cobre tôda a extensão de seu amor por êle e fica transfi­
gurado pela alegria com que acolhe seu restabelecimento:
“É adorável a graça, quando unida às rugas. Existe uma
aurora indescritível na velhice feliz.” Concorda com o
casamento de Marius e de Cosette. Nesta ocasião, também
Jean Valjean está velho: aos 80 anos, continua, como sempre
foi, trágico e sublime. Tão indomável quanto Eviradnus,
tem íôrças suficientes para transportar nas costas, através
dos esgotos de Paris o corpo inanimado de Marius. Mas sua
fortaleza moral é ainda maior pois se julga no dever de con­
fessar a Marius sua condição de antigo grilheta, afastando-
-se pouco a pouco da vida de Cosette, seu único amor. Sua
morte é uma apoteose; êle se vê cercado de amor pelo jovem
casal pois Marius reconheceu nêle o homem que o havia
salvo.
Em Booz Adormecido, Hugo, com 57 anos e sentindo-se
no limiar da velhice, sublimou-a de maneira magnífica:

A barba era de prata, um riacho de ab ril...


.. .Pois o jovem é belo, mas o ancião é grande ( *)
. . . E vêem-se labaredas nos olhos dos jovens,
Porém no olhar do velho o que se vê é a luz.

A espiritualidade, aqui — luz, grandeza — é a principal


característica do patriarca, rejuvenescido pela comparação
de sua barba com um riacho em abril. Ainda é sexualmente

231
atraente pois Ruth se deita a seus pés, com “ o seio nu” ,
esperando despertar-lhe o desejo.
A Arte de ser Avô constitui um hino à velhice, muito
mais que à infância. Como tornaremos a ver, Hugo a
exalta através de sua própria figura. Mas também descreve
a profunda ligação existente entre o avô e os netos, tão
favorecida pela sociedade da época. Em Os Miseráveis,
êle já havia descrito, cheio de emoção, a dupla formada
por Jean Valjean idoso e pela pequena Cosette: “ Quando
se está velho, tem-se a impressão de ser avô de tôdas as
crianças.” No célebre Jeanne était au pain sec êle salienta
a reciprocidade do entendimento entre a menina e o avô
contra a rigorosa disciplina dos adultos. Ambos se acham
socialmente marginalizados, mas o laço que os une, pensa
êle, é mais profundo. Para os trágicos gregos, a criança e
o velho se assemelham na impotência. A assimilação vai
muito mais além, entre diversos povos primitivos: reúne-se
numa mesma classe de idade a criança recém-chegada do
além e o velho, prestes a voltar para lá. Ambos se encon­
tram numa situação de transição que os dispensa de deter­
minados tabus. Hugo utiliza uma linguagem diferente para
exprimir uma idéia análoga. É uma jactância a sua preten­
são de “haver inventado a criança” : descoberta no século
XVIII, a criança ocupou um lugar muito importante na
literatura e nas artes do século XIX. Mas ninguém antes
dêle soube apontar com tanta felicidade as afinidades entre
a infância e a velhice. No seu entender, existe uma comu­
nhão espiritual entre a criança ainda aquém da condição
humana e o velho que já está se elevando acima dela. Não
lhes convém nem a moral nem a mesquinha razão dos
adultos; acham-se todos dois próximos dos mistérios do
mundo, próximos de Deus, por sua ingenuidade e por sua
sabedoria:

Jeanne fala, diz coisas que ela própria ignora.


. . . Deus, o bom velho vovô, ouve maravilhado.

Ao lado da criança, o homem idoso recupera a infância.


A propósito do avô de Marius, Hugo falou na “ aurora” de
uma velhice feliz. Diz também: “ Sim, ser avô é voltar à
auròra.”

232
Como vimos, muitas vezes, o único consôlo dos velhos
camponeses eram os netos, até o momento em que estes
se punham a imitar os adultos. O sucesso de Hugo na
Arte de ser Avô consistiu em conferir a um fato social o
valor e a profundidade do mito.
A dupla velho-criança comovia o público. Foi enorme
o sucesso da Loja de Antiguidades de Dickens. O autor
narra neste livro a peregrinação através da Inglaterra da
pequena Nell e de seu avô, unidos por um profundo afeto.
O juízo do velho se acha enfraquecido pela desgraça, arruí-
na-se no jôgo, rouba Nell para tornar a jogar e premedita
um assalto; entretanto, no meio de tanto desvario, o leitor
se emociona com o amor por êle dedicado a Nell e por esta
retribuído. Quando ela morre, êle passa os dias debruçado
sobre seu túmulo e ali expira. Encontra-se um par seme­
lhante no Sans famille de Hector Malot, cuja popularidade
foi também muito grande. Uma criança enjeitada, cortada
da sociedade logo no limiar da existência, acompanha a vida
errante de Vitalis, um cantor outrora famoso, e que se vê
no fim de seus dias decaído e exilado da sociedade.
De um modo geral, a literatura do século XIX se mos­
trou muito mais realista ao encarar a velhice. Descreve
velhos pertencentes às classes superiores: nobres, ricos bur­
gueses, proprietários de terras, industriais, mas também se
interessa pelos membros das classes exploradas. Ainda é
do agrado da burguesia o laço feudal entre o amo e o ser­
vidor: em Madame Bovary e Um Coração Simples, Flaubert
apresenta criadas cuja existência inteira foi uma longa dedi­
cação. Na maioria das vêzes, entretanto, os velhos são
considerados assuntos de sua própria história. Em Balzac,
Zola, Dickens, assim como nos romancistas russos, quase
nunca se encontram velhos operários: isto, porém se explica:
é que, na verdade, o proletário não chega a envelhecer.
Mas, como vimos, são numerosos os velhos camponeses.
Os romancistas estudaram também os efeitos da idade nas
diversas categorias sociais: militares, empregados, comer­
ciantes etc. Hei de utilizar a abundante documentação por
êles fornecida quando estudar a experiência individual dos
velhos. Este problema foi tratado por vários escritores
idosos do século XIX; falaram de sua própria velhice: são
das mais belas as páginas inspiradas a Chateaubriand pela

233
sua. Estas confidências nos hão de ajudar a compreender
de que maneira as pessoas de idade suportam sua condição.

No século X X tem prosseguimento a urbanização da


sociedade e o conseqüente desaparecimento da família pa­
triarcal. Todavia, esta ainda subsistiu bastante tempo em
certos lugarejos da França. Em Le Crime des justes, Cham-
son descreve uma delas. O velho Arnal, cognominado o
Conselheiro, venerado por todos, o Justo por excelência,
governa na região dos montes Cévennes, um vasto e prós­
pero domínio. É o senhor absoluto em sua casa. Uma de
suas netas, uma retardada mental, foi engravidada por
um dos irmãos: o justo determina que a família mate e
enterre o recém-nascido, e sua ordem é obedecida. Êste
tipo de família não existe mais na França de hoje, embora
subsista em certos países. Nas zonas rurais da Iugoslávia
ainda recentemente se desenrolaram fatos análogos ao nar­
rado por Chamson. No Sul da Itália, na Sicília, no Sul
da Grécia, filhas ainda hoje são mortas pelos pais por
questões de honra. As leis o proíbem mas os costumes
o toleram. Na Córsega e na Sardenha, os filhos continuam
submissos aos pais.
Tendo em parte melhorado a situação dos camponeses
e estando mais ou menos quebrado o isolamento dos lavra­
dores devido à civilização técnica, o abandono dos velhos
estropiados, bem como seu assassinato se tornaram certa­
mente mais raros que no século XIX. Todavia, precisa­
mente nas regiões mediterrâneas onde é mais poderosa a
autoridade do patriarca, quando êste enfraquece, pode su­
ceder que o ajudem a morrer. Talvez como entre alguns
primitivos, sua posteridade oprimida experimente um certo
alívio impregnado de rancor ao se livrar dêle. Mas, também,
se trata de zonas tão pobres que uma bôca a mais constitui
pesado encargo. Estes casos são excepcionais. Em com­
pensação, na França, vê-se freqüentemente o filho cansado
da autoridade paterna abandonar o lar para ir trabalhar na
cidade ( 73).

(73) Mauriac, em um Bloc-Notes do outono de 1969, lembra a dura


condição dos velhos camponeses: “ Lembro-me de um velho meeiro de uma

234
De um modo geral, os progressos da industrialização
acarretaram uma dissolução cada vez mais profunda da cé­
lula familiar. O considerável envelhecimento da popula­
ção, que se vem verificando há meio século nos países in­
dustrializados, obrigou a sociedade a substituir a família,
tendo-se instaurado uma política da velhice que iremos
examinar mais adiante.
Sendo ainda necessárias a experiência e a criatividade,
manteve-se o equilíbrio que se havia estabelecido nas clas­
ses dirigentes durante o século XIX. Os grandes movimen­
tos políticos, novos e violentos, foram quase sempre diri­
gidos por homens jovens: a revolução russa, o fascismo
italiano, o nazismo, a revolução chinesa, a revolução cubana,
a guerra de independência argelina. Os homens de idade
têm ocupado lugares importantes nas sociedades conserva­
doras. Muitas vêzes, sua função é meramente representativa:
como a dos presidentes da República, na França (74). Mas
alguns velhos têm representado papéis ativos: Thiers con­
tava 76 anos em 1873; Clemenceau assumiu o poder, em
1917, aos 77 anos; Churchill afastou-se aos 81 anos e Ade-
nauer aos 87. Outros envelheceram no poder em países
onde a revolução havia triunfado: Stalin, Mao-Tsé-Tung
Ho Chi Minh. Hoje em dia, nos países em via de desen­
volvimento, os dirigentes são em geral jovens: excetua-se
o imperador Hailé Selassié que só conta um ano menos
que de Gaulle. São muitas vêzes idosos, em todos os ou­
tros: de Gaulle, Franco, Tito, Salazar (75). Contam, entre­
tanto, com a assistência de homens mais jovens: não é muito
elevada, na França, a idade média dos ministros. Em 1968,
a dos deputados era de 55 anos, a dos senadores, 63. No
seio dos partidos como no das nações, o poder está dividido

de nossas terras, obrigado a trabalhar, pelos filhos até o limite máximo


de suas forças; quando isto se lhe tornou impossível e teve de parar,
êles o censuravam pelo pão que com ia... e que não havia ganho, com
o que êle concordava gemendo e chamando a morte.”
(74) Jules Grévy se aposentou aos 80 anos, em 1887; René Coty
se demitiu aos 77 anos, em 1958; Paul Doumer foi assassinado aos 75 anos,
em 1932; Fallières terminou seu mandato aos 72 anos, em 1913. Mac-Mahon
deixou a presidência aos 71 anos, em 1879.
(75) Escrito em 1968.

235
entre os velhos e os homens maduros, pouca influência exer­
cendo em geral os jovens.
É preciso assinalar aqui um fato muito significativo e
sobre o qual voltarei com mais vagar: decresceu o pres­
tígio da velhice em conseqüência de se achar desacreditada
No entender da sociedade tecnocrática de hoje, o saber não
se acumula com os anos: torna-se, ao contrário, superado.
Com a idade, vem uma desqualificação. Os valores apre­
ciados são os que se acham ligados à juventude.
Considerando-se o número de documentos sobre a con­
dição atual dos velhos, é apenas secundário o interêsse des­
pertado pelos fornecidos pela literatura. São êstes, aliás,
bastante pobres. Proust, cujo tema essencial é a aventura
do tempo perdido e recuperado, falou longamente e com
muita propriedade a respeito da velhice. Constitui, entre­
tanto, uma exceção. Em Les Faux-monaijeurs, Gide atribui
ao velho La Pérouse as seguintes palavras: “ Por que motivo
se fala tão raramente dos velhos, nos livros? Talvez seja
porque os velhos já não são capazes de os escrever e os jo­
vens não se preocupam com êles. O velho não interessa a
ninguém.” Na verdade, quando encarado em sua subjeti­
vidade, o velho não constitui um bom herói para romance;
está acabado, cristalizado; nada tem a esperar, nem a dese­
jar; para êle, todos os jogos já estão feitos, e nêle já habita
a morte: e, assim sendo, nada do que lhe possa acontecer
tem importância. Por outro lado, o romancista pode se
identificar com um homem mais jovem pois já atravessou
sua idade mas, do velho, êle só conhece a exterioridade.
De modo que só lhe atribui em geral um papel secundário
e os retratos que dêle faz são muitas vêzes esquemáticos
ou convencionais. O século XX herdou os chavões dos
séculos precedentes. A noção de velhice tem-se enriquecido,
no decorrer do tempo, tanto no plano social, como psico­
lógico e biológico. Mas as banalidades se perpetuaram.
Pouco importam as contradições: o seu uso é tão generali­
zado, que são repetidos com uma indiferença total. A velhice
é um outono pejado de frutos maduros; é também um
inverno estéril, de que se evoca a gelidez, a neve, as geadas.
É doce como uma bela noite. Mas também lhe atribuem
a sombria tristeza dos crepúsculos. Casas bem juntas a
imagem do “bom velhinho” e a do “ velho birrento” . Existe

236
um mito particularmente desenvolvido hoje em dia: é o
do desligamento próprio da idade avançada. Montherlant,
que sempre aparentou uma atitude desdenhosamente dis­
tante com relação às coisas e às pessoas, atribuiu-a ao Rei
de La Reine morte, homem idoso que se vai “lentamente
apartando do humano”, como diz o autor em seu comentá­
rio. Vê grandeza na lúcida indiferença de Ferrante:
“ Para mim tudo é retomada, refrão, estribilho. Passo
os dias recomeçando o que já fiz, e recomeçando de maneira
menos perfeita. Para mim, têm hoje o mesmo sabor as
coisas em que fui bem sucedido e aquelas em que fracas­
sei. E parecidos demais também me afiguram os homens,
entre s i ... Uma depois da outra, as coisas vão me aban­
donando.”
“Afrouxou-se o arco de minha inteligência. Do que
escrevi, pergunto: “ De quem é?” O que havia compreendido,
deixei de compreender. E esqueci o que havia aprendido.
Morro, e me parece que tudo está por fazer e que me en­
contro no mesmo ponto em que estava aos vinte anos.
“Também me devo empenhar em fazer crer que ainda
sinto alguma coisa, embora já não sinta mais nada. O mun­
do me toca apenas de leve.”
“Na minha idade já não se tem gôsto em cuidar dos
outros. Só existe um imenso: “ Que me importa!” que, para
mim, recobre o mundo.”
O principal personagem do romance de Vailland, A Lei,
é um homem de 72 anos, Dom Cesaro, rico e respeitado
proprietário. Lê muito, possui objetos antigos, escreve a
história de uma antiga cidade grega, localizada outrora na
região da Itália onde vive. Gozando de excelente saúde, é
ainda o melhor caçador da redondeza e grande mulherengo:
desvirginou quase todas as môças da aldeia e vive cercado
de mulheres, uma das quais dorme em seu leito. Mas já
aprendeu há muito tempo a se desinteressar. Já não se di­
verte atormentando os herdeiros pois conhece o ilimitado
servilismo humano. Sua vida é aparentemente a mesma de
sempre. Dorme ao lado de Elvira mas não lhe fala e rara­
mente a toca. Caça, mas “ seu olhar nem sequer se ilumina” .
Fala, mas “ suas palavras ressoam num mundo sem eco” .
Ainda contempla suas antiguidades mas já não faz anotações.
Está sem amor, sem ódio, sem desejo, e se sente parecido

237
com aqueles “ desocupados” que passam o dia de braços
cruzados na praça da aldeia. Tudo leva a crer que, embora
ainda jovem, Vailland já começava a experimentar em si
mesmo aquele “ desinteresse” que se lhe afigura o indício
da “ qualidade” de um indivíduo.
Não se pode deixar de salientar a importância atri­
buída à velhice no chamado “teatro do absurdo” . Em Les
Cliaises de Ionesco, vemos um velho casal encerrado na
recordação — engrandecida e delirante — do passado que
buscam ressurgir. Oferecem uma recepção a que ninguém
comparece, acolhem convidados invisíveis, os fazem sentar,
circulam entre êles e contra eles esbarram enquanto o palco
se enche de cadeiras desocupadas; o que parece derrisório,
através de sua aberração, é a própria realidade que evocam
— brilhantes noitadas, reuniões mundanas. Acabam final­
mente por se atirar, pela janela, quando ao perder a signifi­
cação, a vida lhes revela que jamais havia tido um sentido.
Encontra-se em Beckett uma contestação análoga da
existência através de sua lamentável degradação final. O
velho casal, que, em Fim de Jôgo, busca nas latas de lixo
uma evocação da felicidade e do amor passados, constitui
uma condenação do amor e da felicidade. Em La Dernière
Bande e em Ah! les beaux jours!, o tema, cruelmente tra­
tado, é o esfacelamento da memória, e, por conseguinte, de
tôda a vida que ficou para trás. As recordações aparecem
em desordem, mutiladas, arruinadas e como que estranhas.
Como se cada houvesse acontecido e deste vazio emergiu
o momento presente, como uma vegetação corrompida. A
suprema irrisão está no fato de que, no meio de tôda esta
decepção, as criaturas se aferram ao mito segundo o qual
envelhecer é adquirir conhecimento, é progredir. Na ver­
dade, envelhecer é: “Descambar docemente para a vida
eterna recordando. . . tôda esta mesquinha desgraça. . . como
s e ... ela jamais houvesse existido” ( 76).
Em Molloy, o herói, já idoso no início do romance, vai
se degradando continuamente; as pernas estão paralisadas,
perde metade dos dedos dos pés. A princípio, não obstante
estas deficiências, êle ainda consegue andar de bicicleta;

(76) Tous ceux qui tombent. As reticências são do autor.

235
até isto se lhe torna impossível, e êle se arrasta a pé, apoian­
do-se em muletas; acaba reduzido a ter de rastejar. Durante
esta decomposição, entretém-se sobretudo em evocar recor­
dações: mas estas se esfacelam, são nebulosas, inconsistentes,
e, sem dúvida, falseadas. A vida consiste unicamente na
memória que dela conservamos e a memória não é nada.
Este nada consome tempo, o tempo corre sem ir para lugar
nenhum; estamos constantemente em movimento e, nesta
jornada sem destino, permanecemos imóveis. Ã luz da ve­
lhice, descobrimos esta verdade da vida que, no fundo, não
passa de uma velhice coberta de ouropéis. Em Ionesco e
em Beckett, a velhice não surge como o limite extremo da
condição humana mas, como no Rei Lear, ela é esta pró­
pria condição finalmente desmascarada. Eles não se in­
teressam pelos velhos em si mesmos: utilizam-nos como
recursos para exprimir sua concepção do homem.

Como havíamos anunciado, não tentamos esboçar neste


capítulo uma história da velhice; limitamo-nos a descrever
as atitudes das sociedades históricas com relação aos velhos
e as imagens que dêles forjaram. Todas as civilizações co­
nhecidas se caracterizam pela oposição entre uma classe
exploradora e as classes exploradas. A palavra velhice en­
cobre duas espécies de realidades profundamente diferen­
tes, segundo se considere esta classe ou aquela. As pers­
pectivas têm sido falseadas pois as reflexões, as obras, os
depoimentos relativos à idade final sempre refletiram a con­
dição dos eupátridas: são êles somente que falam e, até o
século XIX, só falaram de si mesmos. Comecemos encaran­
do ràpidamente a situação destes privilegiados.
Minoritários e improdutivos, seu destino dependeu dos
interêsses da maioria ativa. Quando esta desejava evitar
rivalidades anárquicas entre seus membros, manter a ordem
estabelecida, considerava conveniente escolher como inter­
mediários, árbitros ou representantes, homens de uma espécie
diferente e sobre cuja autoridade poderia haver acordo
geral. Os velhos pareciam perfeitamente indicados (77).

(77) Desempenham com freqüência, entre os primitivos esta função


de intermediário e de árbitro.

23.9
Eram, por vezes, detentores de um poder real; outras vezes,
desempenhavam o papel atribuído em certos cálculos aos
números imaginários: indispensáveis ao bom andamento das
operações, eles são eliminados assim que se chega ao resul­
tado. A velhice foi poderosa na China hierárquica e repe­
titiva; em Esparta e nas oligarquias gregas; em Roma até o
século II a .C . Não teve nenhuma participação política nos
períodos de mudanças, de expansão, de revolução. Nas épocas
em que a propriedade foi institucionalizada, a classe domi­
nante respeitou os proprietários alienados a sua propriedade;
a idade não constituía desqualificação; acumulando no de­
correr da existência bens imóveis, mercadorias ou dinheiro,
os velhos, em sua qualidade de homens ricos pesavam muito
na vida pública e na vida privada.
A ideologia da classe dominante visa justificar suas
condutas. Quando é governada ou influenciada por pessoas
idosas, ela valoriza a idade avançada. Filósofos e ensaístas
ligaram a noção de velhice à de virtude e enalteceram a
experiência por ela conferida. A velhice seria o duplo co-
roamento da vida: termina-a e constitui sua suprema realiza­
ção. Aquêle que acumula anos e anos de vida é o vivente
por excelência; representaria de certa forma uma concen­
tração de ser. A velhice será portanto honrada nesta quali­
dade. A idade representa uma qualificação para o acesso a
certos títulos e dignidades. O sentido de certos jubileus, tão
freqüentes sobretudo na Alemanha, é prestar uma homena­
gem à velhice: o 70.° o 80.° aniversário de um músico ou
de um filósofo dão ensejo a festividades solenes.
Todavia, mesmo quando em benefício da ordem social,
os jovens se vêem compelidos a reconhecer a autoridade
política ou econômica da geração mais velha, êles a supor­
tam muitas vêzes com impaciência. Sensíveis a uma deca­
dência física que temem para si mesmos, os jovens investem
contra os velhos e os ridicularizam ( 78). Ao mito do velho
imponente, enriquecido pelo número de anos, contrapõe-se
o do velho apequenado, ressequido, encolhido como Titon
e a sibila de Tibur. Esvaziado de sua substância, é êle um
homem diminuído e mutilado.

(78) Esta ambivalência também foi observada entre certos primitivos.

240
Por outro lado, embora se tenha silenciado a seu res­
peito, a condição dos velhos explorados influenciou pro­
fundamente a concepção dos privilegiados. Não dispomos
de dados seguros sôbre êste ponto. Parecem ter sido muito
pouco numerosos na Idade Média e até o século XVIII: os
trabalhadores morriam jovens, tanto nos campos como nas
cidades. Os que conseguiam sobreviver constituíam encar­
gos para as famílias, geralmente pobres demais para susten­
tá-los; recorriam à caridade pública, à dos castelos e dos
conventos. Em determinadas épocas, até estes recursos lhes
foram negados: seu destino foi particularmente penoso no
momento em que o capitalismo nasceu, na Inglaterra puri­
tana, e no século XIX, durante a revolução industrial. A
sociedade nunca os explorou diretamente, pois não tinham
força de trabalho para vender, mas isto não os livrou da
exploração. Durante sua juventude e sua maturidade, as
classes dominantes só lhes haviam concedido o estritamente
necessário para a reprodução de suas vidas: quando gastos
pelo trabalho, eram abandonados, de mãos vazias.
Inúteis e incômodos, sua sorte não diferia da que lhes
era reservada nas sociedades primitivas. Dependia essencial­
mente da família. Por afeição ou por receio da opinião
dos outros, algumas os tratavam de maneira solícita ou, pelo
menos, corretamente. Mas em geral, descuidavam-se deles,
abandonavam-nos em asilos, expulsavam-nos e chegavam a
eliminá-los clandestinamente.
A classe dominante presenciava estes dramas com indi­
ferença: sempre foram derrisórios os esforços por ela esbo­
çados no sentido de socorrer os velhos pobres. Êstes se
tornam numerosos, a partir do século XIX, e não foi pos­
sível continuar a ignorá-los. Ela foi obrigada a desvalori­
zá-los, para justificar sua selvagem indiferença. Ainda mais
que o conflito de gerações, foi a luta de classes quem con­
feriu ambivalência à noção de velhice.

16 241
CAPÍTULO IV

A VELHICE
NA SOCIEDADE ATUAL

^ J inguém o ignora: a condição das pessoas idosas constitui


hoje escândalo. Antes de examiná-la pormenorizadamente,
devemos procurar compreender por que motivo a sociedade
se acomoda com tanta facilidade a esta situação. De um
modo geral, ela fecha os olhos a todos os abusos, escândalos
e dramas que não abalam seu equilíbrio: não se preocupa
com o destino das crianças abandonadas, dos jovens delin-
qüentes, dos aleijados e deficientes, assim como não se
preocupa com o dos velhos. Neste último caso, entretanto,
sua indiferença parece, a priori, ainda mais espantosa. Cada
membro da coletividade deveria ter consciência de que seu
próprio futuro está em pauta; e quase todos têm relações
estreitas e pessoais com alguns velhos. Como explicar sua
atitude? Quem impõe o estatuto das pessoas idosas é a
classe dominante; conta, no entanto, com a cumplicidade
de tôda a população ativa. Na vida privada, filhos e netos
poucos esforços fazem no sentido de amenizar o destino de
seus ascendentes. Vejamos, portanto, qual é, em geral, a
atitude dos adultos e dos jovens com referência à velha
geração.
Uma sociedade é uma totalidade destotalizada. Os mem­
bros se acham separados porém unidos por laços de reci­
procidade: os indivíduos se compreendem uns aos outros,
não por serem todos homens abstratos, mas através da diver­
sidade de sua praxis. “ O fundamento da compreensão é a
cumplicidade de princípio com todo empreendimento: cada
fim, logo que manifestado, se destaca sôbre a unidade orgâ­

242
nica de todos os fins humanos.” ^ ) Diz Sartre: a recipro­
cidade implica, l.° que o Outro seja o meio de um fim trans­
cendente; 2.°, que eu o reconheça como praxis ao tempo em
que o integro como objeto ao meu projeto totalizador; 3.°,
que eu reconheça seu movimento em direção a seus fins
no movimento pelo qual eu me projeto em direção aos
meus; 4.°, que eu me descubra como objeto e instrumento
de seus fins pelo próprio ato que o constitui para meus fins
como instrumento objetivo. Nesta relação cada um rouba
ao outro um aspecto do real e lhe indica seus limites: o
intelectual se reconhece como tal em face do trabalhador
manual.
A reciprocidade exige essencialmente que a partir de
minha dimensão teleológica, eu aprenda a do outro. Quando,
em casos patológicos de despersonalização, o doente não
tem mais laços com seus próprios fins, os homens lhe apa­
recem como sendo representantes de uma espécie estranha.
É o oposto que se passa no caso do relacionamento do
adulto com o velho. O velho, com algumas exceções, não
faz mais nada. Define-se por uma exis e não por uma praxis.
O tempo o leva para um fim — a morte — que não é o
seu fim, nem é proposto por algum projeto. Surge, por isto,
diante dos indivíduos ativos, como uma “ espécie estranha”
na qual êles não se reconhecem. Afirmei que a velhice
inspira uma repugnância biológica; rejeitamo-la para longe
de nós, por uma espécie de autodefesa: mas esta exclusão
só se torna possível porque a cumplicidade de princípio com
todo empreendimento já não atua no seu caso.
Existe simetria, até certo ponto, entre esta condição
do velho e a da criança com a qual o adulto também não
estabelece reciprocidade. Não é por acaso que as famílias
fazem referência a uma criança “ extraordinária para sua
idade” assim como a velhos “extraordinários para sua idade” :
o extraordinário é o fato de terem êles condutas humanas
não sendo ainda, ou já não sendo mais homens. Como vimos,
várias comunidades primitivas os englobam na mesma cate­
goria de idade e, no curso da História, a atitude dos adultos
tem sido geralmente análoga com relação aos dois. Acon-

(1) Sartre, Critica da razão dialética.


lece, porém, que, sendo ela um futuro ativo ao fazer inves­
timentos sôbre a criança a sociedade garante seu próprio
futuro, ao passo que o velho, a seus olhos, é apenas um
morto em sursis.
A idéia de não-reciprocidade é insuficiente para definir
positivamente o relacionamento do adulto com as pessoas
idosas. Depende do relacionamento dos filhos com os pais
e sobretudo — visto vivermos num universo masculino e ser
a velhice antes de tudo um problema masculino — do relacio­
namento mantido pelos filhos, através da mãe, com seu pai.
É caracterizado, segundo Freud, pela ambivalência (2).
O filho respeita o pai, admira-o, deseja identificar-se com
êle e até mesmo assumir seu lugar; êste último desejo gera
ódio e temor. Os heróis míticos sempre se revoltam contra
o pai e terminam matai)do-o. Na realidade o crime é sim­
bólico. A imagem do pai é despojada de seu prestígio, po­
dendo o filho então reconciliar-se com êle. Mas a reconcilia­
ção só se completa quando lhe assume de fato o lugar. Assim,
no cristianismo, segundo Freud, houve uma reconciliação cujo
resultado foi a destituição do Pai, tendo Cristo passado para o
primeiro plano. O antagonismo, enquanto existe, não é recí­
proco; vive no filho, sob forma de agressividade, de rancor,
mas não aparece, em geral, no pai. O rancor agressivo-sexual
fornece, sem dúvida, o quadro em que se desenvolve a relação
unívoca dos jovens para os velhos. (O rancor dêstes para
com aquêles, quando aparece, é apenas uma reação secun­
dária.) Mata-se o pai, desvalorizando-o; mas para tanto, é
conveniente desconsiderar a velhice como tal.
A duplicidade é a principal característica da atitude
prática do adulto com relação aos velhos. Inclina-se êle,
até certo ponto, diante da moral oficial imposta, como vi­
mos, nestes últimos séculos, e pela qual êle se vê forçado
a respeitá-los. Convém-lhe, entretanto, tratá-los como sêres
inferiores e convencê-los de sua própria decadência. Empe-
nhar-se-á em fazer o pai sentir suas deficiências, sua falta
de habilidade a fim de que o velho lhe ceda a gestão dos
negócios, lhe poupe os conselhos e se conforme com um
papel passivo. Quando, pressionado pela opinião pública,

(2) 'lotem e Tabu, Moisés e o Monoteísmo.

244
êle se vê obrigado a dar assistência aos velhos pais, pretende
governá-los como melhor lhe parece: e quanto mais incapa­
zes de se dirigirem sozinhos êle os julgar, menos escrúpulos
terá.
É sorrateira a maneira pela qual o adulto tiraniza o
velho que se acha na sua dependência. Não se atreve a
lhe dar ordens abertamente pois êle não lhe deve obediência:
evita atacá-lo de frente, manobra-o. Alega estar agindo
em seu interêsse, evidentemente, e conta com a cumplicidade
de tôda a família. Desgasta-se a resistência do avô cumulan­
do-o de atenções que o paralisam, tratam-no com irônica
benevolência, dirigem-se a êle como se fôsse curto de inte­
ligência, chegando-se ao ponto de trocar olhadelas cúmplices
às suas escondidas, além das palavras ferinas de vez em
quando proferidas. Quando falham as astúcias e a persuasão,
não se hesita em recorrer a mentiras ou a forçá-lo a ceder
de maneira drástica. Tratam, por exemplo, de convencê-lo
a entrar provisoriamente para um asilo e aí o abandonam.
A mulher e o adolescente economicamente dependentes de
um homem adulto têm mais defesas que o velho: a esposa
presta serviços, tanto na cama como no lar; o adolescente
se tornará homem e poderá exigir uma prestação de contas;
ao velho só resta descambar para a decrepitude e para a
morte: não serve para nada. Mero objeto incômodo e inútil,
o que todos desejam é ter o direito de tratá-lo como uma
quantidade desprezível.
Os interêsses em jôgo nesta luta não são apenas de
ordem prática mas também de ordem moral: pretende-se
obrigar os velhos a se conformarem com a imagem dêles
formada pela sociedade. São-lhes impostas restrições em
questões de vestuário, decência de maneiras, respeito pelas
aparências. A repressão se exerce sobretudo no domínio
sexual. Em O Adolescente, quando o velho Príncipe Sokolski
pensa em tornar a se casar, a família inteira faz um cêrco
em tôrno dêle não somente por questões de interêsse, mas
também por se sentir escandalizada pela idéia em si. Amea­
çam colocá-lo num hospital de alienados; acabam seqües-
trando-o e êle morre. Conheci dramas parecidos em famílias
burguesas dêste século.
As filhas muitas vêzes experimentam ressentimento con­
tra as mães e sua atitude se assemelha à dos filhos para
com os pais. As afeições menos ambivalentes são as do
filho para com a mãe e as da filha para com o pai. Sen­
tem-se capazes de se dedicar a ele, quando o ascendente
querido envelhece. Se forem casados, entretanto, a influên­
cia do cônjuge muitas vêzes limita sua generosidade.
Quando o adulto não se acha ligado a êle por laços
pessoais, o velho suscita um desprezo mesclado de repug­
nância: vimos de que maneira os autores cômicos têm ex­
plorado êste sentimento no decorrer dos séculos. Surgindo
o homem idoso aos olhos do jovem como sua caricatura
êste se diverte caricaturando-o, com o objetivo de eliminar
qualquer tipo de solidariedade, através do riso. Nesta der-
risão chega a entrar, às vêzes, uma certa dose de sadismo.
Senti-me embaraçada quando vi, no Bowery, o célebre
cabaré onde cantam e dançam horríveis octogenárias er­
guendo as saias. O público ria a bandeiras despregadas:
que significaria exatamente aquela hilaridade?
Atualmente, os adultos se interessam pelos velhos de
maneira diferente: constituem um objeto de exploração.
Principalmente nos Estados Unidos, mas também na França,
proliferam as clínicas, sanatórios, residências e até cidades
e aldeias onde as pessoas idosas que possuem recursos para
tanto são forçadas a pagar o mais caro possível por um
conforto e por cuidados que, muitas vêzes, estão longe de
ser satisfatórios.

Os velhos são sempre os prejudicados, nas condições


extremas: sofrem o resultado da contradição de seu estatuto.
Nos campos de concentração eram as primeiras vítimas da
seleção: sendo nula sua fôrça de trabalho, não lhes era
concedida a menor oportunidade. Todavia, no Vietnã, os
americanos os “interrogam” de maneira tão selvagem quanto
aos adultos: êles são tão capazes quanto os outros de
fornecer informações.
O relacionamento dos jovens e dos adolescentes com
os velhos é mais um reflexo de seu relacionamento com o
avô do que com o pai: tem sido freqüente, desde o século
passado, uma recíproca afeição entre avô e neto. Revoltado
contra o adulto, as pessoas idosas se lhe afiguram oprimidas,

246
como êle próprio: solidariza-se, portanto, com elas. Na
Tchecoslováquia, a partir de janeiro de 1968, os jovens lan­
çaram uma campanha indignada em favor da velhice. A
gerontofilia manifestada por certas moças se explica por
uma fixação da imagem do avô. Esta gerontofilia não
existe nos rapazes: salvo em casos patológicos, em sua
parceira sexual eles buscam muitas vezes a figura materna,
mas não a da avó. Entretanto, quando os avós representam
um encargo para a família, os jovens consideram injustos
os sacrifícios que lhes são impostos para prolongar sua exis­
tência. No cruel mas encantador filme espanhol, o Cochecito,
a môça esperava com impaciência a morte do avô: cobiçava
o quarto por êle ocupado. Êste rancor muitas vêzes se
estende a todos os velhos. Os jovens lhes invejam os privi­
légios econômicos ou sociais; consideram soada a hora de
pô-los de lado. Menos hipócritas que os adultos, êles expri­
mem sua hostilidade com maior franqueza.
Muitas crianças adoram seus avós ( 3) e são ensinadas a
respeitar os velhos. Todavia, quando pertencem às classes
inferiores, a tendência da criança é zombar deles: vinga-se,
na pessoa deste adulto decaído, enfraquecido e bizarro, da
opressão sôbre ela exercida pelo universo dos adultos. Lem­
bro-me bem da maneira como em La Grillère, tanto minha
irmã como eu acompanhávamos as zombarias que meus pri­
mos não poupavam a seus velhos preceptores: devido a
sua inferioridade social, os adultos se mostravam indulgentes
para com nosso procedimento. Vian não se afastou muito
da verdade quando imaginou, em L ’Arrache-coeur, uma feira
de velhos: os velhos pobres aí são vendidos em liquidação
e os pais os oferecem às crianças para que com êles se
divirtam.

“De todos os fenômenos contemporâneos, o menos con­


testável, o de marcha mais segura, o mais fácil de ser pre­
visto com grande antecedência e talvez o mais pejado de
conseqüência é o envelhecimento da população” , escreveu
Sauvy.

(3) Ver, em La Bátarde, o amor de Violette Leduc por sua avó


Fidéline. Voltarei a tratar com mais vagar da relação entre netos c avós.
Tem crescido incessantemente, desde a Antiguidade, a
esperança de viver, ao nascer: não ia além dos 18 anos,
no tempo dos romanos e dos 25, no século XVII. O “filho
médio”, contava então 14 anos por ocasião da morte do pai.
(Contará, amanhã, 55 ou 60). De cada 100 crianças, vinte
e cinco morriam antes de completar um ano, vinte e cinco
antes dos 20 e vinte e cinco entre os 20 e os 45 anos. Somente
uma dezena atingia os 60 anos. Um octogenário — trans­
formado pela lenda em centenário — constituía uma exceção
extraordinária; era tido como um oráculo, sendo orgulhosa­
mente exibido pela comunidade a que pertencia. No século
XVIII, as probabilidades de vida chegavam aos 30 anos.
Durante longos séculos, pouco variou a proporção de in­
divíduos de mais de 60 anos: oscilou em tôrno dos 8,8%.
O envelhecimento da população teve início na França em
fins do século XVIII, tendo-se produzido o mesmo fenômeno
em outros países, um pouco mais tarde. Em 1851, havia
na França 10% de pessoas de mais de 60 anos; são atual­
mente cerca de 18%, isto é 9 400 000, metade das quais nas
zonas rurais. Isto significa que dobrou a proporção de
velhos na população, desde o século XVIII. Existiam na
França, em outubro de 1969, 6 300 000 pessoas de mais de
65 anos, isto é, mais de 12% da população, sendo 3/5, apro­
ximadamente, mulheres ( 4). Segundo um relatório estabe­
lecido em setembro de 1967, a proporção de pessoas de mais
de 65 anos passou, entre 1930 e 1962, de 7,6% para 10,6%
nos seis países do Mercado Comum; e de 7,8% para 11,5%
no conjunto dos países escandinavos, Inglaterra e Irlanda.
Nos Estados Unidos, contam-se 16 milhões de indivíduos de
mais de 65 anos, o que representa 9% da população, en­
quanto a proporção era de 2,5% em 1850 e de 4,1% em 1900.
O número de octogenários dobrou na França, desde o início
do século: chegam a 1 milhão, 2/3 dos quais são mulheres.
Êste envelhecimento deve se acentuar, segundo as previsões,
até 1980, quando deverão existir na França 19% de pessoas
de mais de 60 anos e 14% acima dos 65 anos. Admite-se
que, em 1980, tendo-se elevado a taxa de natalidade a partir
de 1946, a situação deverá estabilizar-se. Excetuando-se o

(4) Um recenseamento anterior indicava 2 milhões de homens e


1 300 000 de mulheres acima dos 65 anos.

248
caso da Alemanha Oriental, esvaziada de boa parte de seus
elementos jovens durante os últimos vinte anos, por uma
pesada emigração, o envelhecimento da população se revela
mais acentuado na França e na Suécia. Suas causas são as
mesmas em tôda a parte: diminuição da mortalidade infan­
til e diminuição da natalidade. A mortalidade infantil pas­
sou em um século de 40% para 2,2%. Êste fato elevou as
probabilidades de vida, na França, a 68 anos para os homens
e a 75 para as mulheres; nos Estados Unidos, a 71 para o
homem e 77 para a mulher. Na realidade, chegando à idade
adulta, o futuro que se estende diante do homem atualmente
não é muito mais extenso que o de seus avós: um francês
de 50 anos podia esperar mais 78 anos de vida em 1805 e
22, agora. O envelhecimento da população não implica,
portanto, um apreciável recuo do limite da vida, mas sim
um considerável aumento na proporção de pessoas idosas.
Esta alteração se produziu em detrimento da proporção de
jovens, tendo permanecido mais ou menos inalterada a dos
adultos. Tudo se passou, diz Sauvy, como se a população
tivesse oscilado em torno de um eixo central tendo sido os
jovens substituídos pelos velhos. Êste fenômeno pode ser
observado em quase todos os países ocidentais e se con­
juga com um crescimento absoluto das populações (salvo
na Irlanda, que se despovoou).
Os países subdesenvolvidos, são, pelo contrário, países
jovens. O índice de mortalidade infantil permanece muito
elevado, em muitos deles; mesmo naqueles em que é redu­
zida a subnutrição, a insuficiência de assistência médica, as
condições materiais, geralmente, constituem obstáculos para
a longevidade. Em alguns países, metade da população
conta menos de 18 anos de idade. Nas Índias, há, 3,6% de
velhos; cêrca de 2,45% no Brasil e 1,46% no Togo.
O envelhecimento da população suscita um nôvo pro­
blema para as democracias capitalistas. É “ o monte Eve-
rest dos problemas sociais atuais” , afirmou um ministro
inglês da Saúde, Ian Mac Leod. As pessoas idosas não são
somente muito mais numerosas que antigamente: elas se
integram também mais espontâneamente à sociedade; esta
se vê obrigada a decidir a respeito de seu estatuto e esta
decisão só pode ser tomada em nível governamental. A ve­
lhice se tornou objeto de uma política.
Com efeito, na sociedade antiga, composta essencial­
mente de camponeses e de artesãos, existia uma exata coin­
cidência entre a profissão e a existência; o trabalhador vivia
em seu local de trabalho; confundiam-se as tarefas domés­
ticas e as tarefas produtivas. Entre os artesãos altamente
qualificados, a capacidade crescia com a experiência e, por­
tanto, com os anos. Nas profissões em que ela declinava
com a idade, havia uma divisão de trabalho que permitia
adaptar as tarefas às possibilidades de cada um. Ao se tornar
inteiramente incapaz, o velho continuava a viver no seio
da família que lhe assegurava a subsistência. Nem sempre,
como vimos, sua sorte foi muito invejável. Mas a coletivi­
dade não precisava se preocupar com êles.
Hoje em dia, o operário mora num lugar e trabalha
noutro, em condições puramente individuais. A família
nada tem a ver com sua atividade produtora. Reduz-se a
um ou dois casais de adultos, carregados do filho ainda in-
pazes de ganhar sua subsistência; não podem, com seus
magros recursos, sustentar os velhos pais. Contudo, o
trabalhador atual se vê condenado à inatividade muito mais
cedo que o de outrora: a tarefa em que se especializou
permanece a mesma durante tôda a sua vida e não se adapta
às possibilidades de todas as idades.
Como já disse, no fim do século XIX, o velho operário
privado do emprego era dramàticamente entregue a seu
próprio destino. As coletividades se viram na contingência
de enfrentar o problema. Mas não o fizeram sem relutância.
Concebeu-se, a princípio, a pensão como uma recom­
pensa. Já em 1796, Tom Paine sugeria que se recompensas­
sem os trabalhadores de 50 anos com uma pensão. Na Bél­
gica e na Holanda, os setores públicos concederam pensões
desde 1844. Na França, durante o século XIX, os militares
e os funcionários também foram os primeiros a receber
pensões; o Segundo Império estendeu-as em seguida aos
mineiros, aos marinheiros, aos que trabalhavam nos arse­
nais, aos ferroviários. Eram considerados recompensas por
longos períodos de leais serviços prestados em profissões
perigosas. Duas condições presidiam à sua atribuição de
maneira organizada e habitual: longos anos de serviço e
uma idade determinada.

250
A Alemanha presenciou no fim do século XIX uma
rápida ascensão do capitalismo e uma considerável expan­
são industrial; a agitação socialista se avolumou paralela­
mente e se fortificou. Bismarck compreendeu a necessidade
de garantir ao proletariado um mínimo de segurança, para
contê-lo. Entre 1883 e 1889, êle criou o sistema de seguros
sociais completado e ampliado entre 1890 e 1910. Essencial­
mente destinado a fazer face aos riscos de acidentes de tra­
balho, este sistema também protegia os assalariados contra
a invalidez da velhice. Cobravam-se cotas tanto dos em­
pregadores quanto dos operários, entrando o Estado even­
tualmente com uma subvenção. Êste tipo de regime estabe­
leceu-se em seguida no Luxemburgo, na Romênia, na Suécia,
na Áustria, na Hungria, na Noruega. Existe outra concepção
da aposentadoria: a proteção aos assalariados é financiada
pelo imposto. Êste regime prevaleceu na Dinamarca em
1891, na Nova Zelândia em 1898, esboçou-se no Reino Unido
em 1908 e aí foi adotado em 1925. Na França, permaneceu
parcialmente inaplicada a lei de 5 de abril de 1910 sôbre as
aposentadorias tanto de operários como de camponeses: a
jurisprudência não se sentiu com forças para obrigar assa­
lariados e patrões a pagarem as respectivas cotas. A lei de
5 de abril de 1928, alterada pela de 30 de abril de 1930,
constituiu o primeiro esforço realmente sério no sentido de
garantir uma aposentadoria para os velhos trabalhadores.
Era um regime híbrido de capitalização e de divisão. Em
1933, quando a C. I. T. adotou as convenções de números
35 a 40 sôbre as aposentadorias de velhos, já havia vinte
e oito países, seis dos quais fora da Europa, que haviam
criado regimes de pensões. No dia 14 de maio de 1941,
na França, foi concedido por lei um abono especial aos
trabalhadores mais desfavorecidos. O seguro-velhice foi
organizado pelo decreto de 19 de outubro de 1945.
A pensão foi, a princípio, concedida aos assalariados
das empresas comerciais e industriais; deveria ter sido es­
tendida a tôda a população mas êste projeto abortou em
conseqüência da oposição das classes médias não assalaria­
das. Em 1956 criou-se um Fundo Nacional de Solidarie­
dade e atualmente 80% dos Franceses recebem aposenta­
dorias. Em 1964, dos 112 Estados-membros da C. I. T.,
68 haviam adotado regimes de aposentadorias. Um regime

251
nacional de seguro social revela-se, geralmente, demasia­
damente oneroso para os países em via de desenvolvimento.
A Irlanda não tem seguro social; apenas assistência.
O Estado determina a idade em que o trabalhador tem
direito à aposentadoria e que é também a mesma escolhida
pelos empregadores, públicos e privados, para dispensar
seu pessoal: a idade em que o indivíduo passa da categoria
de ativo para a de inativo. Em que momento sobrevem
esta alteração? Qual o montante dos pagamentos efetua­
dos? Para decidir estas questões, a sociedade deve levar
em conta dois fatores: seu próprio interesse e o interesse
dos pensionistas.
Há três nações capitalistas que consideram imprescin­
dível assegurar a todos os cidadãos um destino decente: a
Suécia, a Dinamarca e a Noruega. Sendo pouco povoados,
a vida política aí se desenvolve sem grandes conflitos e,
em pleno regime capitalista liberal, nêles se construiu uma
espécie de socialismo. A fim de garantir para todos uma
proteção tão completa quanto possível, pesam severos im­
postos sobre os rendimentos muito altos e sobre os artigos
de luxo. As pessoas de idade são beneficiadas por estas
disposições, sobretudo na Suécia onde os velhos represen­
tam 12% da população e onde a média de vida é a mais
elevada da Europa: 76 anos. A primeira legislação sôbre
a velhice data apenas de 1930, mas o sistema de seguros
cobre atualmente toda a população e se acha em constante
aprimoramento. Sejam quais forem os seus recursos, todo
cidadão recebe uma pensão a partir dos 67 anos, idade
limite para a aposentadoria. O mínimo fixado como base
é de 4 595 K .S . (5), por pessoa sozinha, e de 7150 por
casal. Em 1960 começou a vigorar um regime de pensões
suplementares: ao todo, o aposentado recebe dois terços
de seu salário médio anual, calculado sôbre os quinze anos
de sua vida em que foi melhor remunerado. Os funcioná­
rios e militares de carreira deixam a atividade aos 65 anos.
Alguns outros trabalhadores as interrompem na mesma oca­
sião, sendo amparados durante dois anos por seguros par­
ticulares. Mas, em geral preferem exercer até o fim sua

(5) 1 K .S = 0,96 F.

252
profissão, visto que as tarefas são adaptadas às diferentes
idades e nunca exigem um esforço excessivo. A situação
é análoga na Noruega, onde a idade limite é 70 anos e na
Dinamarca, onde é de 65 a 67 anos para os homens e de
60 a 62 para as mulheres.
Nos outros países capitalistas a situação é inteiramente
diferente. Neles se leva em conta quase exclusivamente
o interesse da economia, isto é, do capital, e não o dos
indivíduos. Eliminados muito depressa do mercado de
trabalho, os aposentados constituem um encargo que as so­
ciedades baseadas no lucro assumem de maneira mesqui­
nha. A solução mais correta seria permitir aos trabalhadores
que continuassem ativos enquanto pudessem, garantindo-lhes,
em seguida, uma existência decente. Aposentá-los cedo,
assegurando-lhes um nível de vida satisfatório, também seria
uma opção válida. Mas as democracias burguesas, quando
tiram ao indivíduo a possibilidade de trabalhar, condenam
a maioria deles à miséria. Particularmente na França, é
escandalosa a política adotada com relação à velhice. Após
o término da guerra, fêz-se um esforço para incentivar a
natalidade e boa parte do orçamento nacional foi consagrado
aos auxílios-família: a velhice foi descurada. O governo
se deu conta da situação e criou no dia 8 de abril de 1960
uma Comissão para estudar os problemas da velhice, sob a
presidência de Laroque que publicou um relatório sobre
a questão, sem nenhum resultado.
A idade da aposentadoria é 65 anos, para os dois sexos,
na Bélgica, na Alemanha Ocidental, no Luxemburgo e nos
Países-Baixos. Na Áustria, assim como no Reino Unido e
na Grécia é de 65 anos para os homens e 60 para as mu­
lheres. O limite é, geralmente, inferior para os mineiros
e, também freqüentemente, no exército, na polícia, na aviação
civil, nos transportes e no ensino primário. Na França, a
aposentadoria é concedida aos 55 anos para os policiais e
professores primários que podem recuá-la até os 60 anos, se
o desejarem: aos 60 anos, para um grande número de fun­
cionários, particularmente, para os que se dedicam ao ensi­
no; aos 65, para alguns outros, como, por exemplo, os fun­
cionários da Prefeitura do Sena. Em muitas empresas par­
ticulares o regulamento interno estabelece a aposentadoria
aos 65 anos; algumas poucas — 3% contra 97% — a con­

253
cedem aos 60 anos. Não existe por vezes regulamento algum:
e as saídas se situam por volta dos 65 anos.
Certos regimes de assistência pressupõem que a velhice
equivale a uma invalidez e a aposentadoria a um auxílio
concedido a necessitados: é então interdito ao aposentado
qualquer tipo de trabalho remunerado. Na Bélgica, até
1968, êle só podia trabalhar mediante remuneração durante
60 horas por mês, sendo-lhe concedidas atualmente 90.
Outros países consideram que a coletividade tem o dever
de se encarregar dos velhos trabalhadores. A acumulação
pensão-trabalho é autorizada sem restrições na França, na
Alemanha, no Luxemburgo, nos Países-Baixos e na Suíça
e os aposentados se valem desta tolerância, sempre que
lhes é possível. Um inquérito realizado na França pelo
Instituto Nacional de Estudos Demográficos, abrangendo
2 500 pessoas, revelou que 29% delas trabalhavam em média
durante 25 horas por semana, por vêzes, num setor relacio­
nado com aquêle em que haviam exercido sua atividade:
professores dando aulas; fiscais de rendas se tornando con­
selheiros financeiros em caráter particular. Calcula-se que
atualmente, para fazer face a tôdas as suas necessidades,
mais de um terço das pessoas de mais de 60 anos, um quarto
das de mais de 65 continuam a exercer trabalhos avulsos,
sobretudo as mulheres: dedicam-se a trabalhos domésticos,
com remuneração inferior às tarefas sindicais.
Em conjunto, verifica-se, de meio século para cá, uma
redução da mão-de-obra idosa. O número de trabalhadores
idosos diminuiu entre 1931 e 1951, enquanto a proporção
de velhos aumentava em tôda parte. Na França — um
dos países onde seu índice é mais elevado — reduziu-se, no
conjunto da população idosa de 59,4% para 36,1%; na Itália,
de 72% passou a 33%; na Suíça, de 62,%, para 50,7%.
É verdade que o número de septuagenários e de octogená­
rios é atualmente superior ao de outrora. Mas, mesmo
quando consideramos o grupo de idade que vai dos 65 aos
69 anos, observamos uma diminuição na proporção de tra­
balhadores. Encontram-se velhos ativos entre os agriculto­
res, os chefes de estabelecimentos, os pequenos empresários
os artesãos e trabalhadores independentes; entre as mu­
lheres, na agricultura, no pessoal doméstico, nos serviços
de saúde, no comércio. Mas, no setor industrial, a idade

254
acarreta uma desvalorização tanto entre os operários quanto
entre os empregados categorizados.
A priori, os empregadores se acautelam contra as pes­
soas de idade: êste fato se torna insofismável quando se
examinam as ofertas de empregos. Em quase todos os
países, o limite de idade estipulado oscila entre os 40 e os
45 anos. Nos Estados Unidos, a legislação de 23 Estados
interdiz qualquer discriminação de idade, porém os em­
pregadores fornecem instruções oficiosas às agências de
emprego e estas as levam em conta. Segundo um inquérito
realizado em Nova Iorque em 1953, 94 agências viam no
candidato idoso seu pior inimigo: “ Êle fala demais, nada
lhe convém, é esclerosado, não tem disciplina nem autocon­
trole.” Segundo outro inquérito realizado, em 1963, em
oito grandes cidades americanas, um quinto das agências
estabelecia 35 anos como limite de idade e um têrço o
levava aos 45 anos. Na Bélgica e na Áustria, há serviços
públicos onde o recrutamento só se opera abaixo dos 40
anos. No Reino Unido, 50% das ofertas de emprego rece­
bidas pelos escritórios de colocação estipulam: abaixo de
40 anos. Na França, em 41 000 oferecimentos de emprego
estudados no decorrer de um inquérito, 30% eram endere­
çados a pessoas de menos de 40 anos, 40% às de 20 a 29,
30% às de 50 a 65 anos. Nos jornais americanos, 97% dos
anúncios fixam o limite de 40 anos. Na França, segundo
outro inquérito, 88% dos anúncios impunham uma idade
inferior a 40 anos, tendo-se encontrado a mesma cláusula
em 80% dos casos, na Bélgica. Esta discriminação se observa
quase em tôda a parte mesmo em períodos de emprego
total. Evidentemente, quando há fusão de duas firmas
ou quando por uma razão qualquer uma empresa reduz
seu pessoal os despedidos são os engenheiros, os empregados
qualificados, e todos os de mais de 40 anos. Quanto mais
vastas as empresas e mais acelerado o seu ritmo de trabalho,
mais racionalizadas e normalizadas e mais impacientes em
eliminar as pessoas de idade. As fábricas localizadas em
regiões rurais conservam sua mão-de-obra durante mais
tempo que as dos centros industriais urbanos. As mulheres
de idade são ainda mais prejudicadas que os homens por
esta discriminação, embora seja superior sua probabilidade
de sobrevivência. Êste fenômeno, aliás, não é nôvo. Em
1900, uma mulher de 45 anos e um homem de 50 tinham
grande dificuldade em encontrar trabalho. Em 1930, tanto
em Nova Iorque como no conjunto dos Estados Unidos,
25% a 40% das emprêsas só admitiam empregados abaixo
de uma certa idade; em 1948, 39% das emprêsas ainda agiam
da mesma forma. O fato é muito generalizado.
Por conseguinte, bem antes da aposentadoria muitas
pessoas de idade se acham desempregadas. Em períodos
de crise, quando aumenta o número total de desempregados,
decresce o índice de desempregados idosos, crescendo nas
épocas de emprego total; os operários idosos são as vítimas
do desemprêgo residual. E uma vez dispensados, não mais
conseguem colocar-se. Segundo um relatório da O .I.T .
de 1955, na Bélgica e no Reino Unido, os desempregados
cuja situação assim se mantinha há vinte e quatro meses
tinham, em média, 50 anos. Não existe obrigatoriamente
nenhum laço entre a importância do desemprêgo e as apti­
dões. Os mais atingidos são os simples operários e os O.S.,
mas a modernização dos instrumentos de trabalho tem
acarretado a supressão de postos altamente qualificados.
Os jovens absorvem todos os serviços de escritório, dei­
xando para os homens de idade as tarefas mais penosas
e malsãs, sendo estes obrigados a moderarem suas preten­
sões a respeito de salários, natureza e condições de trabalho.
Não conseguem, por vêzes, conformar-se imediatamente com
isto de modo que, quando chegam a aceitar a situação,
encontram-se econômica, social e moralmente diminuídos.
Quais são as razões alegadas pelos empregadores? Serão
elas válidas? Numerosos inquéritos têm buscado responder
a estas perguntas.
Na França, Fernand Boverat estudou 250 emprêsas,
englobando 68 700 operários. Segundo a maioria dos em­
pregadores, a idade provoca uma diminuição do vigor mus­
cular e da acuidade visual e auditiva: outros, em menor
número, assinalaram habilidade reduzida, menor resistência
ao cansaço, ao frio, ao calor, à humidade, ao ruído, à tre­
pidação. Segundo um inquérito empreendido pela I . F . O . P .
em 1961, os empregadores consideram que os operários
começam a “ sentir a idade” , aos 50 anos; sua eficiência se
vê em boa parte reduzida pois já não sabem adaptar-se a

256
situações novas e já não são dotados da mesma fôrça e
rapidez. Êstes defeitos não são compensados pela experiên­
cia, pelas qualificações ou pela consciência profissional, su­
periores, entretanto, às dos jovens. Na mulher, a capacidade
declina mais depressa que no homem. A idade de envelhe­
cimento varia com as profissões: os mineiros são os que
envelhecem mais depressa: entre os 46 e os 47 anos; a velhice
dos contabilistas é a mais tardia: chega por volta dos 60
anos. Os chefes de serviço idosos são menos dinâmicos que
os jovens. Em todas as profissões, os trabalhadores idosos
carecem de interêsse pelas novidades; a rotina prejudica
seu rendimento.
Segundo os inquéritos inglêses, o rendimento dos ope­
rários é o mesmo e êles sofrem menos acidentes depois dos
50 anos. Tendo porém ultrapassado os 65 anos, 25% dos
homens (e depois dos 60, 40% das mulheres) padecem de
condições patológicas que lhes afetam a mobilidade (me­
tade deles em conseqiiência de moléstias cardiovasculares).
Um inquérito recente, na Grã-Bretanha, revelou que 85%
dos aposentados de 65 anos ou mais se achavam de fato
incapacitados para o trabalho, mesmo os que afirmavam
o contrário.
Um seminário realizado em dezembro de 1966, em
Heidelberg, chegou a conclusões análogas. Um dos relatores
declarou ter aumentado recentemente, a proporção de tra­
balhadores idosos incapazes de produzir o mesmo rendi­
mento ou de efetuar o mesmo trabalho que outrora.
Êste ponto, todavia, tem sido freqüentemente contro­
vertido. Não existe diferença muito acentuada entre as
possibilidades de um homem de 60 anos e as de um de 50.
A fôrça muscular chega ao máximo aos 27 anos; aos 60,
está 16,5% reduzida, isto é, só perdeu 7% com relação às
pessoas de 48 a 52 anos. Quanto à habilidade manual,
pouco varia dos 15 aos 50 anos. Entre os 60 e os 69 anos,
o tempo requerido para a execução aumenta 15%.
Êstes algarismos são, de fato, abstratos: só se referem
a indivíduos de boa saúde e a idade acarreta muitas vezes
perturbações patológicas. É mais interessante verificar os
resultados de inquéritos relativos a grupos de indivíduos
bem determinados. Na Noruega, em 1951, tendo examinado

17
5 000 assalariados idosos no setor industrial, os médicos
concluíram que entre os de 60 a 64 anos, 82,6% eram capa­
citados para um trabalho sem restrições; 7,3%, para traba­
lhos leves; 2,3% para um trabalho parcial e 7,7% já deveríam
estar aposentados. Entre os 65 e os 69 anos, os índices eram,
respectivamente; 81,5%, 7,7%, 2,1%, 8,7%. Depois dos 70
anos: 80,7%, 4,1%, 2,8%, 12,4%. Na Suécia, a maioria dos
operários trabalha de maneira satisfatória até os 67 anos.
Segundo um inquérito realizado em Birmingham por médi­
cos, a proporção de incapazes absolutos, aos 70 anos, era
apenas de 20%, e aos 65 anos não passava de 10% em
conseqüência de moléstias crônicas ou de enfermidades.
De acôrdo com importantíssimos trabalhos devidos à
Nuffielcl Foundation, na Inglaterra, as deficiências da ve­
lhice podem ser em grande parte compensadas e superadas
até uma idade bastante avançada. As indústrias têxteis do
Yorksliire fornecem um exemplo excelente: as operações
de dobrar e de passar os fios constituem trabalhos de pre­
cisão; ora, muitas mulheres idosas o executam com perfeição
apesar de sua vista deficiente; a profissão parece viver em
seus dedos.
Um gerontólogo contou-me o seguinte fato: alguns mo­
toristas submetidos a testes visuais manifestaram deficiências
de acomodação que os tornavam, em princípio, incapazes
de enfrentar à noite a luz dos faróis. Ora, quando obser­
vados na estrada, muitos demonstraram guiar de noite tão
bem ou mesmo melhor que os que haviam sido considera­
dos pelos exames de laboratório aptos a fazê-lo. Possuíam
recursos próprios para evitar o deslumbramento e para
buscar pontos de referência à margem das estradas. A pro­
fissão, a experiência, uma certa maneira de compensar as
deficiências as anulavam. Não se deve, por êste motivo,
confiar de modo absoluto nos resultados obtidos em labora­
tórios. As circunstâncias não são as mesmas que as do
campo de trabalho.
Um relatório inglês de 1947, abrangendo 11154 trabalha­
dores de mais de 65 anos concluiu que — salvo em profissões
penosas como a dos mineiros — existe pouca diferença de
rendimento de trabalho entre os operários de 50 e os de
59 anos, entre os de 60 e os de 69 anos. A eficiência con­
tinua elevada. Durante o congresso de gerontologia reali­

258
zado em Londres em 1954, um dos relatores, Patterson, con­
cluiu, comparado os trabalhadores de 60 anos aos mais
jovens: “ Seu rendimento quantitativo é quase o mesmo e
seu trabalho é de melhor qualidade. Para fins de aposenta­
doria, a idade de 70 anos seria preferível à de 60.” Por
outro lado, um inquérito efetuado sobre 18 000 empregados
revelou que, em vez de aumentar, o número de faltas ao
trabalho diminui com a idade.
A Nuffield Foundation, ao examinar o caso de 15 000
operários idosos, verificou que 59% dentre êles haviam
prolongado suas atividades anteriores, durante a última
guerra, trabalhando com tanta eficiência quanto antes dos
65 anos. De acordo com os dados fornecidos por ela, os
operários idosos encontram handicaps quando sua tarefa
os obriga a mudar continuamente de movimentos, quando
exige fôrça, quando o tempo é rigidamente medido como
nos trabalhos em cadeia. As que melhor lhes convêm são
as que requerem conhecimentos, cuidado e que permitem
uma certa amplitude de tempo. A qualidade do trabalho
por êles fornecido é geralmente reconhecida na indústria.
Sua consciência profissional é muito mais acentuada. Ava­
lia-se que, com a idade
Aumentam Diminuem
Gôsto — Regularidade do Vista e ouvido — Fôrça e
ritmo — Método — Pon­ precisão manuais — Robus­
tez e flexibilidade — Ra­
tualidade — Atenção con­ pidez do ritmo — Memória,
centrada e vigilante — Boa imaginação, criatividade,
vontade — Disciplina — adaptação — Atenção dis­
tribuída — Diligência —
Prudência — Paciência — Energia — Iniciativa — Di­
Acabamento do trabalho. namismo — Sociabilidade.

Geralmente se admite ser a iniciação a novas tarefas


a maior dificuldade levantada diante das pessoas idosas.
Um inquérito inglês empreendido em 1950 demonstrou que
elas executam muito bem trabalhos mesmo penosos, a que
estejam afeitas, adaptando-se porém, mal às mudanças.
Entretanto, também sôbre êste ponto, a discussão se
acha ainda aberta. Durante a guerra, o Canadá, os Esta­

259
dos Unidos e a Inglaterra empregaram em suas indústrias
grande número de velhos operários: muitos deles se defron­
taram com tarefas inteiramente novas e as executaram com
perfeição. Numerosos peritos os consideram capazes de
adquirir novas qualificações. Quando, em 1953, na região
sul de Londres, os bondes foram substituídos por ônibus,
os condutores foram obrigados a se tornarem motoristas:
foram bem sucedidos 93% dos que contavam de 56 a 60
anos; para se readaptarem, levaram somente de uma a quatro
semanas mais que os jovens; todavia, 44% o conseguiram,
como os outros, em três semanas. Foram bem sucedidos
63% dos que se achavam entre os 61 e os 67 anos. As
velhas operárias do Yorkshire a que já me referi, adquiri­
ram facilmente os rápidos reflexos necessários para lidar
com as máquinas.
Durante os períodos de aprendizagem, entretanto, as
pessoas idosas têm de superar alguns handicaps. O nervo­
sismo e a ansiedade provocam perdas de memória e esta
situação se agrava quando têm de competir com jovens.
Um homem de 72 anos realizou testes de maneira tão sa­
tisfatória quanto um de 35 enquanto julgou ser o único a
enfrentá-los; quando soube que tinha um rival mais jovem,
fracassou por complexo de inferioridade. O receio de co­
meter erros leva as pessoas de idade a se cristalizarem numa
atitude negativa. Tendem a persistir em seus erros e ficam
paralisadas pelas montagens adquiridas. Operários que
conhecem alguma coisa de eletricidade seguem cursos de
eletrônica com mais dificuldade que antigos mineiros: per­
turba-os a comparação de uma corrente elétrica com um
curso de água. Também lhes falta muitas vezes interesse
e curiosidade. Como vimos, acham difícil adotar novas
atitudes — novos sets. No início, suas decisões são menos
rápidas que as dos jovens, sendo, portanto, mais longo seu
tempo de reação. Mas conseguem freqüentemente superar
estas dificuldades. A repetição atua em seu favor: nas fá­
bricas, êles reiteram dia após dia os gestos aprendidos e
acabam executando-os automaticamente. Também aqui de­
vemos desconfiar dos resultados obtidos em laboratório: nem
sempre podem ser aplicados ao trabalho cotidiano.
Algumas das dificuldades acarretadas pela idade podem
ser facilmente contornadas: fornecer óculos ao operário,

260
instalar bancos que lhes permitam trabalhar sentados e não
em pé, são medidas que se revelam muitas vezes suficientes
para readaptá-los ao trabalho. Mas são raras as emprêsas
que procuram fazê-lo. As mais das vezes, o operário é trans­
ferido, logo que comete a primeira falta. Colocam-no na
categoria de porteiro, de vigia, contabilista, fiscal, distri­
buidor de instrumentos de trabalho, almoxarife etc. É, na
realidade, desclassificado. Passa a ganhar menos, sofrendo
material e moralmente. O número dêstes postos, aliás, tem
diminuído com a mecanização e o velho trabalhador é
condenado ao desemprego.
O conjunto dos inquéritos, o exemplo dos países escan­
dinavos provam que a inatividade imposta aos velhos não
é uma fatalidade natural mas a conseqüência de uma opção
social. O progresso técnico desqualifica o velho operário;
sua formação profissional, realizada há quarenta anos, é
geralmente insuficiente; uma reciclagem conveniente poderia
melhorá-la. Por outro lado, a doença e o cansaço
o fazem ansiar pelo repouso: não há aí nenhuma conse­
qüência direta da senescência. Um homem de 65 anos cujas
fôrças houvessem sido poupadas poderia desempenhar sem
dificuldade tarefas demasiadamente pesadas para um velho
operário desgastado. Podemos imaginar uma sociedade que
exigisse deles um esforço menor, menos horas de trabalho
durante sua vida adulta de modo que não estivessem re­
duzidos a farrapos humanos aos 60 ou 65 anos: é o que
se faz parcialmente na Suécia e na Noruega. Mas em nossa
sociedade onde só se leva em conta o lucro, os patrões pre­
ferem evidentemente, uma exploração intensiva dos assala­
riados: quando os esgotam, rejeitam-nos e admitem outros,
entregando ao Estado o cuidado de lhes outorgar uma
esmola.
De fato, esta discussão tôda seria ociosa se o aposen­
tado recebesse uma pensão suficiente. Poderia então se con­
gratular pelo fato de lhe concederem o mais depressa pos­
sível o direito de descansar. Mas considerando-se a miséria
a que o condenam, sua dispensa mais parece uma recusa
do direito ao trabalho. Em vez de descansar, êle é muitas
vêzes obrigado, como vimos, a aceitar trabalhos penosos e
mal remunerados. Quanto à idade da aposentadoria, podem

261
ser sustentados muitos pontos de vista, que iremos mais
adiante confrontar. Mas impõe-se a reivindicação de um
ponderável aumento das pensões.
É coisa notória, hoje em dia, a injustiça do sistema de
distribuição destas pensões. Com efeito, existem regimes
especiais que foram mantidos em 1945 e regimes comple­
mentares ao lado do regime geral. M. Laroque, em confe­
rência pronunciada no dia 7 de dezembro de 1966 declarou:
“ São chocantes, no momento atual, as desigualdades entre
os regimes; alguns concedem pensões bastante satisfatórias e
outros, pelo contrário, pensões muito reduzidas, sem que
existam para isto diferenças de justificação racional. As
razões são essencialmente históricas. É, entretanto, muito
difícil remediar esta situação, pois não seria economicamente
possível nivelar todos os regimes de acôrdo com os mais
generosos e é psicologicamente impossível pedir aos gene­
rosos que reduzam as vantagens por êles concedidas.”
O quadro seguinte poderá dar uma idéia da complexi­
dade do sistema:
QUADRO
DOS R E C U R S O S
DAS P E S S O A S I DOS AS

Podem assumir o encargo de uma pessoa de 60 anos:


— O Seguro Social, desde que a pessoa haja adquirido
direitos a isto;
— Os órgãos públicos (departamentos e prefeituras), se ela
não tiver direito ao Seguro Social.

O Seguro Social pode conceder:


1. Uma pensão à velhice;
2. Um abono aos velhos operários assalariados;
3. Uma renda;
4. Um abono suplementar;
5. Uma pensão ao viúvo ou viúva;
6. Um abono às Mães de família;

262
PENSÃO Ã VELHICE
Sua concessão está condicionada ao pagamento de cotas
durante trinta anos ao Seguro Social: recebe-se então a
pensão integral. A pensão pode começar a ser paga a
partir de quinze anos de cotização mas é, neste caso, pro­
porcional aos pagamentos efetuados. Só pode ser paga
no 60.° aniversário. É geralmente solicitada aos 65 anos,
por haver um acréscimo de 4% ao ano na taxa da pensão
depois dos 65 anos.
Exemplo: 20% pensão aos 60 anos.
24% ” ” 61 ”
28% ” ” 62 ”
32% ” ” 63 ”
36% ” ” 64 ”
40% ” ” 65 ”etc.
Cálculo da pensão
Depende:
1. ° da duração do seguro;
2. ° do salário médio anual;
3. ° da idade em que é requerida.
Salário médio anual
O salário médio anual é calculado de acordo com o
salário resultante das cotizaçoes pagas no decorrer dos
dez anos precedendo
quer a idade de 60 anos;
quer a data em que é requerida a pensão.
A importância da pensão depende portanto da idade
do solicitante.
A taxa da pensão varia segundo o salário submetido
à cotização.
As pensões e aposentadorias são anualmente reajustadas,
a l.° de abril, levando-se em conta o aumento dos salários.
f 65 anos
Taxa máxima anual: 5 472 fr. j
l 40 %
Não se leva em conta o teto dos recursos pessoais.

263
ABONO AOS ANTIGOS TRABALHADORES
Condições para concessão:
1. ° contar 65 anos de idade, ou 60, em caso de invalidez;
2. ° ser de nacionalidade francesa ou pertencer a um país
que tenha estabelecido uma convenção diplomática
com a França;
3. ° residir no território francês ou num Estado anterior­
mente submetido a sua soberania ou em algum terri­
tório de além-mar;
4. ° fornecer provas de haver trabalhado 25 anos durante
a existência;
5. ° haver contribuído para os Seguros Sociais, caso estes
anos de trabalho sejam posteriores a 31 de dezembro
de 1944.

ABONO ÀS MÃES DE FAMÍLIA


Condições para concessão:
1. ° contar 65 anos, ou 60, em caso de incapacidade para o
trabalho;
2. ° ser francesa ou pertencer a algum país que tenha con­
venção com a França;
3. ° residir em território francês;
4. ° ter educado pelo menos durante nove anos 5 filhos de
nacionalidade francesa.
Observação: Quanto aos abonos aos Antigos Trabalhado­
res e às Mães de família, será exigido um teto de recursos,
pelo fato de serem insuficientes as contribuições pagas:
Máximo de recursos para um casal: 5 400 fr. por ano.
Mínimo de recursos para uma pessoa só: 3 600 fr. por ano
(incluído o abono).

ABONO SUPLEMENTAR r - FUNDO NACIONAL DE


SOLIDARIEDADE, pago no caso dos dois abonos acima
expostos.
A tarifa anual é de 800 francos.

264
Os máximos e os mínimos continuam os mesmos. O teto
não pode ser ultrapassado.
As pessoas idosas, pensionistas, aposentadas ou abona­
das, são atendidas pelo Seguro Social quanto às questões
de assistência médica e de hospitalização. Conforme a gra­
vidade e a duração da moléstia, o atendimento será de 70%,
80% ou 100%. O ticket moderador (6) caberá ao segu­
rado. Os Fundos de Ação social do Seguro Social são
solicitados para a entrega dêsses tickets moderadores, e, em
caso de necessidade, para a concessão de auxílio em espécie,
com a intervenção do Serviço Social.

RENDAS DE SEGURO SOCIAL

Condições para concessão:


1. ° contar 65 anos de idade;
2. ° haver contribuído durante 5 anos ou menos de 15 anos;
3. ° quanto houver contribuído durante menos de 5 anos, o
solicitante só terá direito ao reembolso das contribuições.
Tarifa da renda: cêrca de 10% da metade das contribuições
pagas.
Observação: Existem atualmente pessoas idosas que não
têm direito nem a pensões, nem a abonos nem a rendas quer
por terem trabalhado sem contribuir para o Seguro Social,
quer por terem trabalhado apenas periodicamente, quer por
serem viúvas sem diieito a pensão reversiva, quer por terem
criado muitos filhos não tendo podido por isto exercer ne­
nhum emprêgo, o fato essencial é que os Seguros Sociais
não tomam possível nenhuma abertura de direito.
Os serviços públicos serão, portanto, solicitados:
1. ° Os departamentos
2. ° As prefeituras
3. ° A Assistência pública
4. ° As obras especializadas
5. ° As obras particulares

(6) Isto é, a quantia que não é paga pelo Seguro Social.

265
ABONO ESPECIAL À VELHICE pago pela Caisse de Dé-
pôts et Consignations

Condições de concessão:
1. ° não estar sendo socorrido pelo Seguro Social;
2. ° não ultrapassar um determinado teto de recursos;
3. ° não possuir propriedades;
4. ° não receber pensão alimentar dos filhos.

Tarifa do abono especial: 1 300 fr. por ano.


Teto dos recursos ( incluído abono especial):
3 600 fr. por ano ano para pessoa sozinha.
5 400 fr. por ano para casal.

Pelo fato de ser tão módico o orçamento, os Bureaux


d’Aide Sociale (Repartições de Auxílio Social) concedem
um auxílio complementar:
1. ° auxílio para aluguel ( 7) (metade do aluguel principal);
2. ° auxílio para aquecimento (de 150 a 180 fr. por ano);
3. ° auxílio mensal em espécie (de 50 a 150 fr.);
4. ° vales para gás, eletricidade — pacotes de alimentos —
refeições para velhos — reduções para os transportes.
Patrocínios de obras particulares;
5. ° assistência médica gratuita.

MAJORAÇÃO DAS PENSÕES, APOSENTADORIAS, ABO-


NOS A TERCEIROS (8), concedida quer pelo Seguro Social,
quer pelos departamentos.
Condições para concessão:
l.° contar 65 anos, ou depois dos 60, quando reconhecido
inapto ao trabalho;

(7 ) Só é concedido quando a moradia não é mobiliada e o aluguel


é inferior a 200 francos.
(8) Quando um doente grave necessita de cuidados constantes, o
órgão de assistência a que está filiado paga uma pensão à pessoa — mem­
bro ou não da família — que toma conta dêle. Representa uma “ terceira
pessoa”, com relação à dupla formada pelo doente e pelo órgão que lhe
paga a pensão.

266
2.° ser incapaz de prover sozinho aos atos ordinários da
vida (diversos tipos de invalidez).
Esta majoração é paga qualquer que seja a tarifa da
pensão, aposentadoria ou abono.
Tarifa anual: 6 700 francos.
Esta majoração só é concedida durante a vida do bene­
ficiário.
O auxílio médico é concedido 100%.

APOSENTADORIAS COMPLEMENTARES
Paga aos 65 anos.
Condição: ter trabalhado durante dez anos na mesma cor­
poração (comércio, indústria, profissões liberais).
O empregador está filiado a uma Caixa de Aposenta­
doria de sua corporação. (Cotas pagas pelo empregador e
pelo assalariado.)
A aposentadoria complementar pode ser paga aos 60
anos, no caso de invalidez.
Uma viúva pode receber a aposentadoria complementar
aos 50 anos.
Paga-se uma renda aos filhos menores.
A tarifa da aposentadoria complementar varia segundo
o montante das cotizações pagas.

APOSENTADORIA DOS CHEFES DE SERVIÇO ( Cadres)


1. ° Paga aos 65 anos ou aos 60 em caso de invalidez.
2. ° Condições idênticas às da aposentadoria complementar.
Esta categoria de pessoas de idade não se dirige ao
Serviço Social. Seu orçamento é relativamente satisfatório
pois inclui a pensão à velhice do Seguro Social à aposen­
tadoria dos quadros.

Devemos salientar dois pontos: o aposentado de 85 anos


só recebe 40% de seu salário; e o cálculo c feito de acordo

267
com a remuneração dos dez últimos anos a qual nem sempre
é a mais elevada. Seria normal tomar como referência a
mais elevada ou pelo menos a média. Quando o emprega­
dor rebaixa o trabalhador sob pretexto de readaptá-lo, a
aposentadoria é diminuída, o que constitui uma flagrante
injustiça. Por outro lado, o aumento das pensões está longe
de acompanhar o do custo de vida; é apenas de 10% ao
ano. Enquanto o S .M .I.G . é de 567,61 francos por mês,
por um trabalho de quarenta horas por semana, a soma con­
cedida aos velhos não chega à metade: o último decreto
publicado no Journal officiel (°) estabelece em 225 francos
por mês, ou 7,30 francos por dia, os recursos mínimos dos
velhos; cêrca de um milhão deles só dispõe desta quantia:
duas vêzes e meia menos que o sustento de um prisioneiro
comum. Um milhão e meio subsistem com 320 francos por
mês. Isto significa que aproximadamente metade da po­
pulação idosa vive na indigência. Os mais desamparados
são os velhos solitários. Nos serviços de assistência social,
as viúvas, muito mais numerosas que os viúvos, represen­
tam de 70 a 80% dos economicamente fracos. Um inquérito
da “ Caisse interprofessionnelle paritaire des Alpes” — abran­
gendo 6 234 aposentados de 50 ( 910) a 94 anos indica uma
renda média de 280 francos mensais por pessoa sozinha e
380 por casal, sendo que alguns aposentados se dedicam a
pequenos trabalhos. Para 1/5 dêles, esta renda desce a 200
francos. 15% dêles nem sequer se pode dar o luxo de
comprar um jornal.
Os filhos raramente ajudam aos pais: 2/3 dos velhos
não recebe nenhum auxílio da parte dêles. Movem-lhes às
vêzes processos para obterem pensões alimentares, todavia,
mesmo quando conseguem vencer a questão, nem sempre
estas lhes são pagas. Ê tanto maior o sofrimento infligido
aos velhos pais por esta abstenção pelo fato de que lhes
é recusado qualquer auxílio social quando seus filhos são
considerados aptos a sustentá-los. E isto também é um
escândalo: não se leva em conta o que os filhos lhes dão
realmente, mas sim o que lhes poderíam dar.

(9 ) Escrito em fins de 1969.


(10) A aposentadoria pode ser requerida antes do tempo quando
há incapacidade para o trabalho.

268
Le Journal du dimanche do dia 17 de novembro de
1968, divulgou um caso típico, sob a legenda: “ Sozinha em
Paris, aos 75 anos, com 317 francos por mês” (11). A Senhora
R. trabalhou em diversos restaurantes, servindo às mesas
e lavando pratos. Sendo o trabalho demasiadamente penoso,
ela o interrompeu aos 68 anos. Seus antigos padrões não a
haviam inscrito nos serviços de Seguro e ela se viu com
180 francos de aposentadoria por trimestre. Graças a suas
economias, conseguiu se manter durante quatro anos. Em
seguida, desesperada por ter de viver com 60 francos men­
sais, conversou com uma vizinha num dos bancos da Praça
des Vosges e esta a aconselhou a procurar uma assistente
social. Obteve, por intermédio desta assistente, o pagamento
dos atrasados da sua aposentadoria, conseguindo assim 870
francos por trimestre e mais 80 francos para aluguel. Vive
no sótão de um prédio do Marais: três andares com uma
bela escadaria e mais dois degraus estreitos e altos. Não
tem nem gás nem eletricidade em seu quartinho minúsculo,
iluminado e aquecido a querosene. O depósito de água
está localizado no fundo de uma reentrância elevada; descer
dali carregando um balde constitui uma acrobacia para uma
pessoa semi-inválida. As dependências sanitárias estão si­
tuados do outro lado da casa: é preciso descer meio andar,
subir outro e escalar mais quinze degraus íngremes: “ É
meu pesadelo, diz a Sra. R. Ãs vezes, no inverno, quando
não estou me sentindo muito bem, fico encostada à parede,
perguntando a mim mesma se conseguirei descer.” Paga
150 francos por trimestre, de aluguel: “ É isto o mais impor­
tante, porque os vizinhos gostariam de ficar com o meu
quarto e procuram me mandar para o asilo. Mas eu prefe­
riría morrer.” Restam-lhe 240 francos por mês, isto é, 8
francos por dia. Gasta o menos possível com aquecimento:
no inverno, fica até tarde na cama e passa os dias nas lojas
ou nas igrejas. Vai às vêzes ao cinema: um daqueles que
têm sessões mais baratas antes das 13 horas e aí permanece
durante duas ou três sessões; vai de metrô e volta a pé.
Não gasta quase nada em vestuário: todos os anos, na
primavera, manda limpar um casaco de dez anos atrás.

(11) Inquérito realizado por Annie Coudray.


Obteve dois “ auxílios” para calçados e um para uma saia.
Compra todos os anos três pares de meias de algodão, a
9,90 francos o par. Come muito pouco: três bifes a 2 fran­
cos, 3 ou 4 francos de queijo gruyère, dois quilos de batatas,
por semana. Seu jantar muitas vêzes consta de uma batata
com um pouco de açúcar e manteiga. Bebe dois litros de
vinho por mês e uma libra de café por semana. Tem dois
sobrinhos que ajudou quando crianças, mas que foram viver
na província e que ela nunca vê. Almoça quase todos os
domingos com uma amiga. Leva um doce e a amiga, que
possui um fogão de verdade, podendo assim preparar pratos
impossíveis de cozinhar num fogareiro a querosene, lhe
dá restos para requentar no dia seguinte. Não se aborrece,
diz ela. Passeia muito; lê os cabeçalhos dos jornais nas
bancas e os vizinhos lhe entregam os jornais da véspera
para ler. Sempre que pode, assiste às cerimônias parisien­
ses: compareceu às exéquias de Charles Munch mas não
se atreveu a entrar por causa de seu velho agasalho. A mo­
radia é a maior preocupação de sua vida: alguns amigos
lhe haviam prometido um alojamento de duas peças com
cozinha na casa onde moravam, em Mantes, e ela vivia
sonhando com aquilo. Mas êles morreram e os filhos aluga­
ram a outros o pequeno apartamento.
Depois de tomar conhecimento dêste caso particular,
poder-se-á compreender o alcance dos orçamentos estabele­
cidos por uma assistente social, em 1967.

270
ALGUNS ORÇAMENTOS
Responsabilidade médica assumida pelo Seguro Social ou
pela Assistência Pública.

Idade Situação Pensão Alojamento Aluguel Auxílio Social

63 anos Solteiro 260 F 1 cômodo e 70 F 100 F p/mês


Doença p/mês cozinha sem p/mês Média diária:
grave conforto 9,06 F
W . C ., pátio
76 anos Viúva 210 F 1 cômodo 90 F 120 F p / mês
Cardíaca: p/mês cozinha con­ p/mês Média 8 F
grave forto
82 anos Solteiro 230 F Quarto de 80 F 150 F p / mês
Trabalhou p/mês hotel desde p/mês Média: 10 F
até 77 anos 1930
78 anos Solteira 180 F Quarto de 100 F 150 F p / mês
Mental/ p/mês hotel argelino p/mês Média: 7,66 F
diminuída
Marido: Marido: 2 pens. 2 cômodos e 90 F 100 F p / mês
73 anos doente 450 F cozinha p/mês Média diária
Mulher: incurável p/mês por pessoa
74 anos 7,83 F
Marido: 70 Mulher: 690 F 2 cômodos 200 F Auxílio de fi-
Mulher: 69 hemiplégica p/mês conforto p/mês lhos: 150 F
3 filhos p / mês. Méd.
diária p / pes­
soa: 10,66 F
72 anos Solteira 280 F 1 cômodo e 130 F 60 F: auxílio
empregada p/mês cozinha. Des­ p/mês aluguel
doméstica: pejada e read­ 100 auxílio
50 anos mitida rociai, média:
11,35 F
82 anos Viúva de 320 F 2 comôdos 100 F 90 F por mês
guerra p/mês sem conforto p/mês Média 10 F
14-18
64 anos Solteiro 160 F 1 cômodo, 60 F 150 F p / mês
Doença p/mês cubículo, co­ p/mês Média: 8,33 F
óssea in­ zinha
curável 80 F
70 anos Solteira Pensão 2 cômodos p/mês 150 F p / mês
1 filho mãe: conf. médio Média diária
40 anos 210 F por pessoa:
Doente Pensão 7, 66 F
mental in­ filho:
curável 180 F
Total p /
mês:
390 F
Dispor de 7 a 10 francos por dia para se alimentar,
vestir e aquecer é ver-se condenado à subnutrição, ao frio
e a todas as moléstias conseqüentes; é ser forçado a com­
portamentos deprimentes: nas praças dos mercados, en­
quanto os varredores limpam a área desocupada pelos fei-
rantes, velhinhas de aspecto bem cuidado vasculham entre
os detritos e enchem suas cestas. Êste espetáculo é muito
comum em Nice onde são bastante numerosos os velhos:
um enxame de velhinhas se precipita sobre as frutas e
legumes meio estragados. Um inquérito realizado em Mar­
selha e em Saint-Étienne entre velhos que vivem sozinhos,
revelou que 10% dos homens e 19% das mulheres se acham
“à beira da fome” . Milhares de velhos morrem de fome,
todos os anos, na região parisiense, diz o Prof. Bourlière.
E em todos os invernos, os jornais noticiam casos de velhos
mortos de frio.
Os sobreviventes não padecem apenas de uma sinistra
penúria: a precariedade de sua situação constitui outro
motivo de sofrimento para eles. Seu orçamento está cons­
tantemente desequilibrado, forçando-os a apelar incessante­
mente para os serviços sociais. Os órgãos administrativos
a que recorrem carecem de compreensão, submetendo-os
com freqüência a inquéritos humilhantes, e exigem que
preencham uma papelada complicada onde êles se perdem.
Eliane Victor dedicou um programa de televisão à
velhice ( 12): uma câmera escondida ia registando os diálo­
gos das assistentes sociais com as velhinhas. Estas as rece­
biam da melhor maneira possível: era, entretanto, extrema­
mente penoso observar as velhas perdidas no meio de tantos
papéis, fazendo inúteis apelos à memória e desesperados
esforços para compreender a situação. Mais dolorosa ainda
era sua humildade, sua atitude súplice e acabrunhada. Os
velhos têm a impressão de que vivem a mendigar e muitos
não se conformam com isto. Não existem diferenças de
preços para ninguém, no entanto somente 20% dos velhos
buscam atendimento nos organismos de assistência a que
estão ligados, contra 40% dos segurados sociais: isto implica
uma recusa por parte deles do princípio mesmo de assistên­

(12) “Envelhecer ao sol” .

272
cia. De qualquer forma os socorros periódicos são apenas
paliativos e eles vivem na angústia do dia seguinte.
A situação é mais ou menos a mesma na Bélgica, na
Inglaterra, na Alemanha Ocidental e na Itália. Um decoro
hipócrita impede que a sociedade capitalista procure se
desembaraçar destas “bôcas inúteis” . Concede-lhes, entre­
tanto, o estritamente indispensável para se manterem às
portas da morte. Como dizia tristemente um aposentado:
“ É demais para morrer e muito pouco para viver.” E outro:
“ Quando a gente não pode mais ser operário, só pode é virar
cadáver.”
É menos penosa, sem chegar a ser satisfatória, a situação
dos chefes de sessão e dirigentes. Existe entre êles uma
categoria de grandes privilegiados: engenheiros, quadros
administrativos superiores, altos funcionários, membros das
profissões liberais, alguns dos quais chegam a ganhar 25
vezes o salário de um operário. Mas existem também os
quadros médicos, os pequenos funcionários, os técnicos,
cujos recursos são muito mais modestos. As mulheres, so­
bretudo, são muito mal pagas. Vivem constantemente na
expectativa de uma despedida e do desemprêgo. A apo­
sentadoria acarreta para a maioria uma perda de status e
uma queda no padrão de vida. De acordo com um trabalho
publicado em 1964, Les Cadres Retraités vus par eux-mêmes.
80% afirmam serem seus recursos suficientes, embora 77%
os considerem “ apenas suficientes” . Somente 2% podem
aspirar a coisas supérfluas. 19% se acham em situação pre­
cária, sobretudo as mulheres: de cada seis viúvas, uma só
dispõe de 250 francos por mês, e 58% devem contentar-se
com menos de 500 francos. Em conjunto, 8% dos quadros
aposentados recebem menos de 250 francos, 32% de 250 a
500 francos, 32% de 500 a 1000 francos, e 25%, mais de
1 000 francos. (Alguns não responderam). Para metade
deles, a aposentadoria constitui a única fonte de renda, e
para 26%, mais da metade dos rendimentos dela provém.
Todos gostariam de receber o dobro ou dois terços a mais.
Seja qual fôr a idade — dos 65 aos 75 anos — de dois
aposentados, um teria preferido continuar a exercer sua
atividade. Entretanto, dois terços se consideram adaptados
e somente um têrço — sobretudo os que não gozam boa
saúde e os pobres — dificilmente toleram a nova condição.

18 273
20% retomaram uma atividade qualquer; sendo que 52%
com o objetivo de aumentar sua renda; 16% buscaram um
derivativo; e em 26% dos casos, conjugaram-se as duas ra­
zões. Preferem descansar 83% dos que deixaram definiti­
vamente de trabalhar. Nenhum dêles deseja ir viver em
casas para pessoas idosas; preferem permanecer em seu
próprio lar.
Há uma categoria que suporta muito mal a aposenta­
doria: é a dos agentes executivos; no caso dêles, é muito
sensível a quebra de vencimentos. Não conseguem adap-
tar-se aos lazeres e buscam atividades complementares de
maneira quase obsessiva, embora lhes seja muito difícil
ajustarem-se a novas tarefas.

Para aumentar o lucro, o capitalismo busca a todo custo


incrementar a produtividade. Tornando-se mais abundantes
os produtos, o sistema exige uma elevação dos rendimentos.
Os velhos trabalhadores já não são capazes de se ajustarem
às cadências impostas aos operários. Caem no desemprego e
a sociedade os trata como párias. Isto se torna flagrante
quando examinamos a mais próspera de tôdas e que tem a
pretensão de ser a civilização do bem-estar: os Estados
Unidos.
Em 1890, 70% das pessoas idosas exerciam atividades
remuneradas; atualmente, somente 3 milhões, isto é, 20%
da população, recebem salários. Entre eles, há 2 milhões
de homens e 1 milhão de mulheres. São, em geral, escas­
samente remunerados. Torna-se difícil encontrar emprego
entre os 45 e os 65 anos. Sua subsistência é garantida pelas
aposentadorias, parcimoniosamente concedidas.
Durante muito tempo, a assistência foi praticada nos
Estados Unidos de maneira semelhante à da Inglaterra.
Os velhos ainda válidos eram alojados em casas de famílias
que exigissem o menos possível pelo seu sustento; os inca­
pazes eram recolhidos ao hospício do condado, que servia
ao mesmo tempo de asilo, de hospital psiquiátrico, de orfa­
nato, de abrigo para os velhos e aleijados. Não se reco­
nheciam direitos aos velhos incapacitados para o trabalho:
eram considerados preguiçosos, fracassados, rebotalhos. Seu
sustento incumbia essencialmente à família.

274
Em 1850, na Califórnia, grande número de trabalha
dores era constituído de pioneiros sem família e vindos do
Leste: formaram-se irmandades que obtiveram subsídios do
Estado em benefício das pessoas idosas. A partir de 1883,
o Estado da Califórnia atribuiu subsídios aos condados que
mantinham asilos para velhos e, mais tarde, aos que davam
assistência domiciliar aos indigentes. O sistema foi abolido
em 1895 devido aos abusos, e a Califórnia passou a finan­
ciar apenas as instituições oficiais.
No fim do século XIX, as estatísticas revelaram o número
de pessoas idosas pobres e a opinião pública começou a
ficar abalada. Em 1915, no Alasca, promulgou-se uma lei
autorizando o Estado a conceder um auxílio de 12,5 dólares
por mês a determinadas pessoas de 65 anos em diante. Leis
semelhantes foram votadas em outros Estados.
Em 1927, a Califórnia autorizou a realização de um
inquérito pela secretaria do Bem-estar Social; verificou-se
que somente 2% da população de mais de 65 anos de idade
recebia algum auxílio. A “ Irmandade das Águias” , que
sempre se dedicara a socorrer as pessoas idosas, empreen­
deu naquele ano uma campanha para impor a noção de
uma responsabilidade do Estado federal para com os velhos,
tendo contado com o apoio de outros grupos menos co­
nhecidos. Mas, por individualismo, por liberalismo e por
horror a qualquer tipo de “socialismo”, grande parte da
opinião pública se mostrou refratária. Todavia, o projeto
apresentado pelas “Águias” conseguiu ser estudado em 24
Estados. A Califórnia promulgou uma lei, em 1929, esten­
dendo a assistência a todas as pessoas de idade necessitadas.
Foi imitada, em 1930, por mais. 13 Estados. Em 1934, 30
Estados já haviam adotado um programa qualquer de as­
sistência; mas somente 10 o cumpriam integralmente; os
socorros eram dificilmente obtidos e muito insuficientes.
Filantropos, sindicatos e Igrejas também haviam começado
a construir abrigos para os velhos cuja situação se tomou
dramática em decorrência da grande crise de 1930. Tiveram
de enfrentar o desemprêgo e os Estados se revelaram inca­
pazes de os sustentar; muitos haviam visto esfumarem-se
tôdas as suas economias e tinham sido despejados de suas
habitações. Esta situação calamitosa provocou o estabeleci­
mento do Seguro Social, autorizando o govêrno federal a

275
conceder verbas aos Estados que se encarregavam de pres­
tar assistência aos velhos. Continuaram a ser aplicados os
programas dos diversos Estados, tendo entrado em vigor um
segundo princípio: o seguro. Muito poucas pessoas, entre­
tanto, com êle se beneficiaram e as quantias recebidas eram
insignificantes.
Em 1943, havia 23,4% de pessoas idosas recebendo
auxílios e apenas 3,4 recebiam aposentadorias. Seu padrão
de vida continuava dramático e visivelmente baixo. Desen­
volveram-se, então, serviços para socorrê-los. A partir de
1950, o Congresso elevou o montante dos benefícios conce­
didos e ampliou o número de beneficiários. No entanto, em
1951, a imensa maioria da população idosa dispunha de
recursos muito inferiores ao mínimo vital e não recebia
nenhum auxílio particular. Multiplicaram-se as conferências
para estudar os problemas da velhice. De 1950 a 1958,
aumentou-se o número de beneficiários do Seguro Social:
este só atingia 3/4 da população idosa passando, então, a
cobrir 9/10, tendo-se também elevado as pensões. Entre­
tanto, segundo uma pesquisa efetuada em 1957 por Steiner
e Dorfman, 25% dos casais, 33% dos homens sozinhos e
50% das mulheres sozinhas, contando mais de 65 anos, não
dispunham nem do mínimo vital.
“A pobreza de nossos velhos constitui um de nossos
problemas mais renitentes e mais difíceis”, escreveu Mar-
garet S. Gordon. Atualmente, em 16 milhões de velhos, há
mais de 8 milhões de pessoas paupérrimas. Um homem
aposentado aos 65 anos, depois de haver pago a contribuição
mais elevada, recebe mensalmente para êle próprio e para
a esposa 162 dólares; quando sozinho, 108,50 dólares. Em
1958, as estatísticas do “ Bureau of the Census” revelavam
que 60% das pessoas de mais de 65 anos recebem menos
de 1000 dólares por ano, quantia 20% inferior ao mínimo
vital nas cidades onde a vida é mais barata, e 40% nas
cidades onde ela é mais cara. As verbas fornecidas pelos
filhos ou por amigos só elevam 10% seus rendimentos e
só beneficiam os velhos cuja situação é relativamente está­
vel. Os mais desprotegidos são os que vivem sozinhos,
sobretudo mulheres, sendo o número de viúvas superior
ao de viúvos, como na França. Um quarto deles vive com
menos de 580 dólares anuais, quantia que mal cobre o orça-

276
mento alimentar mínimo estabelecido pelo ministro da Agri­
cultura. (E êles têm, além disso, de se vestir, de se alojar
e de se aquecer.)
Em seu livro A Outra América, M. Harriogton mostra
os milhões de velhos que vivem na indigência como sendo
vítima de um “turbilhão para baixo” . Os pobres adoecem
com mais freqüência porque vivem em miseráveis tugúrios,
insalubres, alimentam-se deficientemente e mal se podem
aquecer; não têm recursos para se tratar e suas doenças se
agravam, impedindo-os de trabalhar e exasperando-lhe a
pobreza; envergonhados de sua miséria, fecham-se em casa
e evitam qualquer contato social: não querem que os vizi­
nhos saibam que vivem de assistência; privam-se dos pe­
quenos favores e de um mínimo de cuidados que estes lhes
poderíam dar, e acabam ficando impossibilitados de deixar
o leito. Uma testemunha declarou perante uma Comissão
de senadores encarregada de um inquérito sobre a velhice
que êsses párias da sociedade são vítimas de “um tríplice
encadeamento de causas: saúde precária, indigência, soli­
dão.” Alguns se tornam “ recrutas da miséria” depois de
uma existência normal, durante a qual seu trabalho foi
corretamente remunerado. Com a idade, sua capacidade
se reduziu e êles já não encontram trabalho pois estão
tècnicamente superados; mesmo nas zonas rurais, a meca­
nização acarreta o afastamento das pessoas idosas. A apo­
sentadoria representa uma quebra brutal em seus recursos.
Entre o§ indigentes, contudo, a maioria sempre foi pobre.
Quando jovens, abandonaram os campos pelas cidades e
nelas não conseguiram prosperar. Por outro lado, os tra­
balhadores agrícolas não são amparados pelo Seguro Social.
O conjunto dêsses miseráveis — aposentados com recursos
insuficientes, ou trabalhadores sem aposentadoria — tem de
recorrer aos serviços de assistência. Existem Estados, como
o Mississípi, muito pobres e nos quais os auxílios conce­
didos são irrisórios. Em tôda a parte, as pessoas encarrega­
das de estudar os pedidos se mostram hostis aos solicitantes:
metade dos pedidos é rejeitada. Exigem-se documentos que
muitos não possuem; trata-se freqüentemente de indivíduos
semi-analfabetos ou que mal falam o inglês, aterrorizados
pelas formalidades e pelo aparelhamento do organismo de
assistência. Esta burocracia impessoal e ineficaz os humilha

277
sem lhes prover às necessidades. O Serviço de assistência
— o “ Welfare State” — funciona às avessas. As proteções,
as garantias e os auxílios são concedidos aos fortes e orga­
nizados e não aos fracos. Os mais necessitados de cuidados
médicos são justamente os que menos recebem. Sua solidão
agrava-lhes a situação. Os jovens habitantes dos slums saem
para as ruas e formam bandos. As pessoas idosas vivem
reclusas; e num país em que as distâncias, o ritmo de vida
não lhes permitem encontros, e em que as comunicações se
fazem essencialmente por telefone, cinco milhões deles se
acham privados deste aparelho. O Doutor Linden, da Saúde
pública de Filadélfia, escreve: “ Entre os fatôres mais po­
derosos para o desenvolvimento de problemas afetivos entre
nossos concidadãos avançados em anos, é preciso apontar
o ostracismo social de que são vítimas, a redução de seu
círculo de amizades, a intensa solidão, a diminuição e a
perda de respeito humano e o sentimento de desgosto com
relação a si mesmos.”
Somente uma sociedade opulenta pode ter tantos velhos,
conclui Harrington; mas ela lhes recusa os frutos da abun­
dância. Concede-lhes a “ sobrevivência bruta” e nada mais.

Propõe-se de maneira aguda o problema da habitação


das pessoas idosas, em conseqüência do estilhaçamento da
célula familiar, da urbanização da sociedade, dos miserá­
veis recursos dos velhos. A Inglaterra está 80% urbanizada;
a Alemanha, 70%; os E .U .A ., 65%; o Japão e o Canadá,
60%; a França, 58%. A solidez das tradições permitiu a
sobrevivência da família patriarcal no Japão; na Alemanha
Ocidental, muitos pais vivem com os filhos devido à escas­
sez de habitações. Nos E .U .A ., 25,9% dos homens de
idade vivem com seus filhos, 22,6% como chefes de família,
3,3% no lar dos jovens. Na França, 24% dos velhos coabi-
tam com os filhos, sobretudo nas zonas rurais: é somente
aí que ainda se podem encontrar ocasionalmente quatro
gerações reunidas sob um mesmo teto. Esta solução traz
suas vantagens. É pouco onerosa; garante o contato das
gerações; proporciona aos jovens casais o auxílio de seus
pais. Mas apresenta também graves inconvenientes. Caso
seja o pai o dono da casa e das terras — caso muito fre-
qüente na França de hoje — êle reluta em adotar os mé­

278
todos modernos e os filhos toleram mal sua autoridade. Em
seu estudo sobre a comuna de Plodemet (13), Morin salienta
o conflito das gerações. “ Um cruel conflito opõe os jovens
adultos e o pai, em companhia do qual vivem e trabalham.”
Um telhador de 28 anos afirma: “A gente gostaria de
se modernizar mas os velhos estão sempre no meio atra­
palhando.” O filho espera o afastamento do pai durante 30
ou 35 anos, roendo-se de impaciência durante 10 anos. Os
velhos se irritam: “ Êles falam de coisas de que nunca ouvi­
mos falar, querem passar por cima de nós, “ dizem, falando
dos jovens.
Muitos jovens camponeses partem para as cidades e,
em conseqüência deste êxodo, são muitos os lugarejos e
até mesmo aldeias habitados apenas por velhos que culti­
vam a terra segundo métodos arcaicos e sofrem com seu
isolamento. Quando, pelo contrário, um dos progenitores
vive em casa dos filhos, corre o risco de ser aí mal tratado
ou desleixado. Mas de uma maneira ou de outra, a depen­
dência sempre lhes é penosa. Sentem-se explorados ou ví­
timas do mau-humor do resto da família. E, reciproca­
mente, sua presença perturba as relações dos esposos: muitos
divórcios tiveram como origem esta coabitação. Algumas
sociedades camponesas optaram pela fórmula da “intimi­
dade a distância” . Nas regiões rurais da Suíça, da Alemanha
e da Áustria o casal de velhos deixa a casa da família para
ir se instalar numa “casinha”, situada nas proximidades,
porém independente. Em algumas regiões da França, obser­
vam-se costumes semelhantes. Por volta dos sessenta anos,
o pai entrega a exploração das terras aos filhos e vai viver
na aldeia. Continua a se interessar por suas propriedades,
toma parte nos trabalhos, dá conselhos. Um inquérito
realizado em Viena, em 1962, abrangendo mais de 1000
velhos demonstrou que êles preferiam a “intimidade a dis­
tância” à coabitação e ao isolamento.
O problema nas cidades se apresenta de maneira muito
diversa. É angustiante na França, onde existe uma crise
generalizada de habitação e onde o patrimônio imobiliário
é antigo, e lento o ritmo das construções: constroem-se so-

(13) Commune en France. La Métamorphose de Plodemet.

279
bretudo grandes conjuntos residenciais cujos aluguéis são
proibitivos para os economicamente fracos. Êstes recebem
um auxílio para aluguel quando vivem em alojamentos não
mobiliados, de aluguel não superior a 190 francos por mês.
Aos proprietários não desejosos de ter inquilinos idosos,
basta fixar o aluguel em 200 francos mensais e o velho, não
recebendo auxílio algum, estará na impossibilidade de pa­
gá-lo (14). Esta fórmula é de uso muito corrente em Nice,
por exemplo, invadida por inúmeros aposentados. Como
disse um sociólogo, os velhos em toda parte “ são relegados
aos tugúrios” . Segundo os inquéritos do I .F .O .P . apesar
do sonho de uma casinha no Sul, a maioria dos aposentados
continua a viver em seu antigo domicílio. 68% dos casais
dispõe pelo menos de dois cômodos e cozinha; mas são
velhas residências estragadas, desprovidas de água e de
aquecimento ou mesmo insalubres. Uma pesquisa efetuada
em 1968 pela C .N .R .O . ( 15), que conta com 1800000 as­
sociados e 340 000 pensionistas, revelou que apenas 15,5%
dos aposentados do setor da construção dispunham ao mesmo
tempo de água, gás, eletricidade, ducha e w .c. dentro de
casa. 34% dos velhos habitam sótãos de velhos edifícios
sem elevador, sendo obrigados a subir a pé de 4 a 6 andares.
O apartamento se torna, por vezes, grande demais depois
da saída dos filhos e sua manutenção fica difícil. Na maio­
ria dos casos, o habitat não corresponde às possibilidades
das pessoas idosas: a ausência de água, de aquecimento,
de elevador esgota os organismos enfraquecidos. De cada
duas pessoas, uma é proprietária: a estatística citada inclui
as zonas rurais, o que explica este elevado índice. Um terço
é de inquilinos e os outros são alojados gratuitamente ou
partilham do alojamento de alguém.
O problema da residência está ligado ao do isolamento.
Nos E .U .A ., 2/3 dos homens idosos vivem com as esposas,
16,2% vivem sozinhos; 3,5% em asilos; somente 1/3 das
mulheres ainda têm seus maridos; 1/3 vivem sozinhas; um

(14) Percebe-se a injustiça e o absurdo deste regulamento. Por um


aluguel de 190 francos o velho locatário pode receber uma ajuda de 95
francos, tendo de pagar somente 95. Por um aluguel de 200 francos,
será êle quem deverá pagar a quantia integral.
(15) Caisse Nationale des Retraites Ouvrières.

280
número bastante grande, em companhia dos filhos, 4,3%
em asilos. Na França, 35% das pessoas idosas vivem com
os cônjuges, 30%, sós: entre estas, predominam as mulheres;
9% vivem em casa de amigos ou de irmãos. Diz um relatório
elaborado em 1958 sôbre os aposentados nos setores da
construção e das obras públicas: 43% têm família nas vizi­
nhanças; as famílias de 23% vivem bastante perto e as de
25%, longe, 9% são completamente sós. A freqüência das
relações está na relação direta da proximidade.
Estes algarismos, entretanto, pouco nos elucidam sôbre
a importância real dos laços de família ou de amizade; os
inquéritos que buscaram responder a esta questão chega­
ram a resultados bastante contraditórios e muitas vezes dis­
cutíveis. Em Milão, 10% dos homens interrogados e 13%
das mulheres, consideravam-se “muito solitários” . 20% dos
homens e 22% das mulheres sentiam-se” por vezes solitários;
o sentimento de solidão aumentava com a idade. Na Cali­
fórnia, sentiam-se “muito solitários” 57% dos que não viviam
com um cônjuge e 16% dos que viviam em casal.
Pesquisas desta ordem foram numerosas sobretudo na
Inglaterra. As de Townsend, Young e Willmont, J. M. Mogey,
E. Bott demonstraram que a família, no sentido bem am­
plo da palavra, desempenhava um importante papel como
unidade de relações sociais e auxílio mútuo: sobretudo a
família materna cujo núcleo é constituído pela avó, pelas
filhas e netas. Os homens buscam sobretudo os cafés e
saem com os amigos. “ Os homens têm amigos, as mulheres,
parentes.” Teve uma importância especial o inquérito rea­
lizado em 1957, por Townsend, em Bethnal Green, na região
leste de Londres. Entre as pessoas de idade interrogadas,
5% se afirmaram “muito solitárias” , 25%, “ às vezes soli­
tárias” , 70% “não solitárias” . Na sua opinião, poucos velhos
eram verdadeiramente sozinhos; alguns chegavam a ter até
13 parentes vivendo nas proximidades; particularmente, sem­
pre havia um ou dois filhos morando a menos de uma
milha de distância dos pais; os avós, em Bethnal Green —
sobretudo as avós —- cuidavam assiduamente de seus netos:
levavam-nos à escola, assim como a passear, tomavam conta
dêles, davam-lhes de comer. 3/4 das pessoas entrevistadas
viam pelo menos um dos progenitores diariamente e êste
lhes prestava serviços. Uma pesquisa de Sheldon (diretor
do Hospital Royal) chegou à conclusão que 1/5 das pessoas
idosas sofre de solidão de maneira tão desoladora que chega
a doer, sobretudo os viúvos, muito mais que as viúvas.
Entre os que viviam sozinhos, quase 1/3 tinha parentes a
menos de meia milha de distância; 40% se consideravam
felizes, graças a suas boas relações com os filhos. Êstes
resultados, entretanto, devem ser encarados com cautela.
Um pesquisador americano observou que 92% dos velhos
se diziam respeitados e amados pelos filhos mas apenas
63% afirmavam que os filhos, em geral, amam e respeitam
os pais. Parece que em muitas destas respostas deve en­
trar um componente de mentira para consigo mesmo ou
de orgulho: não querem se revelar solitários ou desde­
nhados. Por outro lado, verificou-se que as relações fami­
liares não contribuíam para melhorar o moral entre os
velhos economicamente fracos. Os amigos têm mais valor
para os que se acham em melhor situação. A presença de
irmãos, irmãs, primos etc., nas vizinhanças em nada ajuda
o velho a viver. Para êle, contam apenas o cônjuge e os
filhos; mesmo assim, com um cônjuge, será possível sofrer
de solidão a dois. É isto que ressalta do inquérito recen­
temente efetuado no XIII arrondissement pelo Doutor Balier
e por L.-M. Sébillotte. Os casais se encerram no lar de
maneira mais acentuada ainda que os indivíduos isolados,
viúvos ou solteiros. O apego muitas vezes ciumento, manía­
co, tirânico de um pelo outro, leva-os a criar um vazio em
tôrno de si. Um inquérito ( 16) realizado em 1958 num bairro
populoso de Paris revelou que, de três pessoas idosas, uma
não mantinha mais nenhuma relação social, nunca recebia
cartas ( 17), não recebia nem fazia visitas nem conhecia mais
ninguém.
Para proteger os velhos, material e moralmente, contra
o desconforto e a solidão, tentou-se construir para eles resi­
dências agrupadas. Existe na Europa, sob este aspecto,
um impressionante contraste entre os países do Norte e os
do Sul. Quase nada se realizou na Itália nem na França.
Nestes últimos anos, na França, a C .N .R .O . construiu al­
gumas residências situadas nas proximidades das grandes

(16) Ver France-Soir, de 8 de novembro de 1968.


(17) Sem falar nas correspondências administrativas.

282
cidades para que os pensionistas não se sintam exilados.
São de tipo horizontal, ou semi-horizontal, com quatro an­
dares, no máximo, ou vertical: oito andares ou mais. São
projetadas de maneira muito inteligente; a primeira foi
inaugurada nos arredores de Bordéus em dezembro de 1964:
abriga uma centena de pessoas válidas e semiválidas. Foram
depois construídas mais cinco ou seis, abrigando cada uma
delas, em média, 120 pessoas. Os aposentados aí se sentem
bem: queixam-se somente por só ficarem com 10% de seu
dinheiro, servindo o resto para pagar o aluguel e a manu­
tenção. Quantitativamente, entretanto, os resultados obtidos
ainda são irrisórios. A Suíça e a Alemanha Ocidental foram
um pouco mais adiante; a Holanda e a Inglaterra realizaram
muita coisa neste sentido. Em 1920, construiu-se uma aldeia
para velhos num parque dos subúrbios de Londres: o White-
ley Village. O “ Comitê para o bem-estar das pessoas de
idade” edificou alguns outros em Londres, em Hackney e
noutras localidades. Em 1940, quase todos os tugúrios eram
habitados por velhos: muitos foram transferidos para novas
habitações construídas expressamente para eles.
O esforço mais significativo foi realizado pelos países
escandinavos. Em Copenhague, existe uma “ Cidade dos
Velhos” , construída em 1919, modernizada em 1955, con­
tendo 1 600 leitos e considerada durante muito tempo como
uma realização exemplar. Os raros casebres existentes na
Suécia em 1940, eram habitados por velhos: estes foram
todos transferidos para novas habitações. Existem cidades
para velhos muito bem organizadas. A Suécia já construiu,
desde 1947, 1 350 casas abrigando 45 000 pessoas. Os velhos
são também contemplados com alojamentos especiais de
outro tipo: apartamentos em imóveis reservados para uso
dos pensionistas. Alguns recebem “ suplementos comunais” ,
que os ajudam a pagar aluguéis bastante caros em aparta­
mentos normais.
Nos E .U .A ., em 1950, o Presidente Truman chamou
a atenção do público para os problemas da velhice e orga­
nizou uma comissão de 800 pessoas para estudá-los. Poucos
foram os resultados. As pessoas idosas foram, muitas vezes,
como em Saint-Louis, por exemplo, confinadas em espécies
de guetos: dividiram-se velhas casas em quartos mobiliados
e em minúsculos apartamentos e ali as amontoam. Funda-

28S
ram-se algumas sociedades de pessoas idosas — os Fósseis,
os Octogenários, as Viúvas felizes, os Jovens de 50 anos etc.
— e criaram-se casas para aposentados mas cujo preço médio
é de 150 dólares por mês (para pensão). Alguns alojamentos
coletivos foram construídos graças a empréstimos governa­
mentais e não visam lucro ou apenas um lucro mínimo;
outros são edificados por organizações particulares. Seus
preços são proibitivos para a maioria dos aposentados: em
Isabella House, uma das residências mais conhecidas, o alu­
guel mínimo sobe a 75 dólares por mês.
É preciso assinalar o êxito, infelizmente isolado, do
Victória Plaza, em San Antonio (1S). Construiu-se um grande
edifício moderno e aí se instalaram os velhos que viviam
mal alojados. Dentre 352 postulantes, foram escolhidos 204.
Quase 60% viviam sozinhos; os outros, em companhia de
um cônjuge, de parentes ou de amigos; muitos habitavam
casebres. Fizeram-nos visitar o imóvel antes de transferi-los
para lá: ficaram maravilhados. Ao cabo de um ano, a maio­
ria ainda lá estava. Havia um clube com biblioteca, jogos
diversos etc., freqiientado por 90% dos habitantes do edi­
fício. Pagavam 28 dólares por mês, quantia, em geral, ligei­
ramente superior à que pagavam por seu alguel anterior;
todavia, consideradas as condições de espaço e de confôrto
que lhes eram proporcionadas, o preço era julgado módico.
Sua existência tôda se transformou; a falta de dinheiro era
mais ressentida porque êles haviam passado a comprar mó­
veis e vestuário, em lugar de descurar o interior de suas
residências e sua própria pessoa. Entretanto, sentiam pra­
zer em dispor de lazeres e de tantas maneiras de os gozarem.
Inscreviam-se em grupos, entabolavam novas amizades, o
que não os impedia de cultivar as antigas, e de falar com
freqüência com seus familiares, pelo telefone. Considera­
vam a saúde melhor que antes e diziam ser de “meia idade”
enquanto seus contemporâneos que tinham permanecido
nas antigas habitações já se achavam idosos ou velhos. Tanto
sua vida ativa como a afetiva se haviam desenvolvido e
quase todos se sentiam felizes. Através desta experiência e
de algumas outras, a influência do habitat sobre a condição18

(18) Descrito em Future for th aged de Carp.

2SÍ
geral do velho se revela de suma importância. É, portanto,
uma lástima, que ela seja geralmente tão miserável.
Discute-se muito, hoje em dia, a questão de ser ou não
aconselhável para as pessoas idosas viverem unicamente
entre si. O sucesso do Victoria Plaza provém, em grande
parte, de sua localização no centro de uma cidade e de
não estarem os residentes cortados de suas famílias. Exis­
tem, nos Estados Unidos, diversas “ Cidades do Sol”, habi­
tadas exclusivamente por pessoas idosas, de elevado padrão
de vida. Os promotores e administradores afirmam senti­
rem-se êles muito felizes por viverem entre iguais. Trata-se,
porém, de empresas muito rendosas e os beneficiários têm
o maior interesse em gabar sua mercadoria. Calvin Trillin
que, em 1964, realizou uma reportagem para o New Yorker
sôbre uma destas cidades parece bastante cético quanto à
felicidade que se diz reinar aí. Seus habitantes haviam com­
prado as residências, investido muito dinheiro e cortado
todas as pontes: são obrigados a ali permanecer. A maioria
se acomoda, mas não se pode afirmar que o fariam se lhes
fôsse dado recomeçar.
Preconiza-se, hoje a criação de “béguinages” , seme­
lhantes aos de Bruges, formados de casinhas independentes
e situadas no centro da cidade, de modo que os velhos pos­
sam se sentir próximos dos filhos. Melhor ainda: seria
aconselhável criar no interior de imóveis habitados por pes­
soas de todas as idades grupos de alojamentos — lares des­
tinados aos velhos que ficariam independentes mas usufrui­
ríam de alguns dos serviços comuns a todos os inquilinos
do prédio.

O asilo constitui o único recurso dos velhos, quando já


não são nem física nem economicamente auto-suficientes.
Ê inteiramente inumano na maioria dos países: não passa
de um lugar para esperar a morte, um “ morredouro” , segun­
do a expressão usada recentemente numa emissão radiofô­
nica sôbre a Salpêtrière.
Na França, 1,45% dos velhos vivem em asilos. Contam,
em média, de 73 a 78 anos. 2% vivem em casas para apo­
sentados. Segundo demonstrou um inquérito, 74% dos ve­
lhos relutam em entrar para os asilos; 15% se conformam

285
com esta perspectiva por serem inválidos. Existem 275 000
leitos e, atualmente, de 150 000 a 200 0000 pessoas que dese­
jariam ser hospitalizadas mas não encontram vagas. Quatro
motivos principais levam os velhos a se candidatarem a
elas. Primeiro, a insuficiência de seus recursos. 3/4 da po­
pulação dos grandes asilos são constituídos de elementos
mantidos pela assistência, já que os pensionistas preferem
os pequenos estabelecimentos particulares. Em segundo lu­
gar, vem a impossibilidade de encontrar uma moradia ou
o cansaço decorrente de sua manutenção. Em terceiro lu­
gar, razoes de família: os filhos recusam encarregar-se do
velho ou resolvem se livrar dele. Durante uma transmissão
(janeiro de 1968) sobre o “morredouro” da Salpêtrière, o
diretor relatou, indignado, que sucede com freqüência as
famílias entregarem seus velhos ao hospital a fim de saírem
em gôzo de férias, esquecendo-se, em seguida, de os ir
buscar. Finalmente, alguns velhos necessitam de cuidados
médicos. Ingressam, geralmente, no asilo de seu departa­
mento, alguns como indigentes, outros pagando uma parte
de sua pensão. Há, também, os “ ambulantes” que vivem
trocando de asilo: no entretempo, vagabundeiam e bebem.
Alguns estabelecimentos recusam os velhos doentes; outros
aceitam os doentes mesmo que sejam jovens.
Segundo um inquérito realizado num asilo, em 1952,
por M. Delore, o número de mulheres ali era o dobro do
número de homens. Em 100 mulheres havia 74 viúvas,
22 solteiras, 4 casadas. 65 eram lúcidas e válidas, 35 invá­
lidas ou senis. 80 viviam anteriormente sozinhas em habi­
tações de um ou dois cômodos, em alojamentos de porteiras
ou em andares. Desses lugares, 21 eram verdadeiros tugú-
rios e, sobretudo, cubículos. Elas recebiam de 8 000 a 15 000
francos por mês (10). As 24 porteiras executavam pequenos
trabalhos. Em casa de uma delas encontraram-se 30 quilos
de açúcar, massas e arroz num armário. Em casa de outra,
200 000 francos escondidos em diversos lugares. Mantinham
boas relações com os filhos, com os parentes mais afastados,
amigos e vizinhos. 45 viúvas tinham filhos; e as relações
com eles eram boas, no caso de 32 delas. Em 30% dos19

(19) Trata-se dos francos de 1952.

286
casos, a ficha de hospitalização assinalava “miséria fisiológica”
ou “carência social” .
Hoje em dia, não se tem mais o direito de construir
retiros para aposentados de mais de 80 leitos que devem
ser obrigatoriamente colocadas em quartos individuais, des­
tinados a pessoas sozinhas ou a casais. Nestes últimos anos,
foram construídos alguns estabelecimentos atendendo a estas
normas: 35 000 leitos. É ainda pouco e a situação continua
precária.
Todos os depoimentos se acham de acordo a respeito
da “grande miséria dos asilos franceses”, recentemente de­
nunciada em relatório oficial pelo ministro da Saúde Pública.
Continuam sendo os mesmos “depósitos de mendigos” de
outrora. M. Laroque reconhece: “ Conhecia-se, antigamente
a fórmula de asilo onde se empilhavam inválidos, doentes
impossibilitados de deixar o leito e velhos válidos, com a
única preocupação de lhes fornecer um mínimo de abrigo,
muitas vezes no meio de uma promiscuidade escandalosa
e com um mínimo de alimentação. Infelizmente, esta fórmula
continua sendo largamente aplicada.” Em 1960, escrevia
o ministro da Saúde: “ São raros os asilos e retiros onde os
serviços sanitários são satisfatórios. Em muitos casos, po­
de-se falar sem exagero em verdadeiro abandono médico.”
No mesmo ano, relatava a Inspetoria geral da Saúde:
“A observação e os cuidados médicos são insuficientes
na maioria dos asilos e casas de retiro públicos. Os velhos
acamados aí acabam a vida no meio de uma indiferença
aparentemente generalizada. Esta situação se faz ainda mais
inadmissível pelo fato de, atualmente, conhecidos os resul­
tados satisfatórios conseguidos pela reeducação motora dos
hemiplégicos, podendo ser evitada na maioria dos casos a
permanência definitiva do paciente no leito.”
Na França se faz lamentável confusão entre asilo e
hospital. Na maioria dos asilos, acolhem-se inválidos e doen­
tes de todas as idades. Dos 275 000 leitos destinados às
pessoas de idade — 25% dos quais pertencem ao setor
privado — 17% são ocupados por jovens: débeis e porta­
dores de enfermidades motoras. 25,12% o são por inválidos.
Existe também a situação inversa. Além dos anciãos
entregues aos hospitais e que ninguém vem mais buscar,

287
chegam muitos velhinhos aos postos de pronto socorro tra­
zendo bilhetes de seus médicos: “ O Sr. (ou a Sra.) X pre­
cisa ser hospitalizado (a ), porque vive só e é idoso (a ).”
O hospital nunca os manda de volta. Na Salpêtrière e em
Bicêtre existem alguns que há vinte e quatro anos esperam
a morte nas salles-pourrisoirs de 50 leitos (20). Em Saint-
-Antoine, existem três salas de despejo onde os velhos espe­
ram que outros morram para lhes tomar o lugar nos novos
hospitais abertos nos arredores de Paris, e que são bem
aparelhados mas cujas diárias custam 51 francos. Seria pre­
ciso um aumento de pelo menos 16 000 leitos para se con­
seguir desafogar os serviços retirando os doentes “ agudos”
que os ocupam.
Quer se trate de asilos ou de hospitais, cerca de 178 000
leitos se encontram em edifícios centenários. São, freqüen-
temente, antigos hospitais, castelos, quartéis, prisões de todo
inadequados a suas novas funções. Contêm muitas escadas,
muitas vêzes sem elevador, de modo que alguns velhos ficam
impossibilitados de sair de seu andar. Nos dormitórios e
enfermarias — condenados desde 1958 mas onde na rea­
lidade se encontra a grande maioria dos leitos — doentes e
inválidos permanecem deitados durante o dia todo. Não
existem, amiúde, biombos entre as camas, nem mesinhas
de cabeceira ou armários individuais: o velho não dispõe
nem de uma polegada de espaço só para êle. Os sexos
são separados: velhos casais são impiedosamente apartados,
não sendo raro colocar-se o marido num hospital e a mulher
em outro. (Na primavera de 1967, um casal de octogenários
se afogou no Sena porque tinha sido separado). Quando
o asilo dispõe de quartos, estes são, em geral, reservados
aos pensionistas em condições de pagar as despesas. Quando
lhes sucede não mais poder enfrentá-las, transferem-nos para
os dormitórios e isto significa uma nova decadência. Os
locais são geralmente tão vetustos que os cômodos são muito
sombrios. Via de regra, o refeitório é guarnecido de grandes

(20) Numa reportagem publicada em France-Soir, em abril de 1968,


Madeleine Franck escreve: “Estas salas repugnantes estão desaparecendo.
Restam poucas na Salpêtrière. E no hospital-asilo de Bicêtre, o diretor,
M. Musière conseguiu suprimir nos últimos dezoito meses 500 dos 1 300
daquilo que êle denomina, “leitos-lixo”.

288
mesas e de bancos e serve também, com demasiada fre-
qüência, de sala de estar. Esta, quando existe, é pequena
demais e mal arrumada. Além disso, faz frio, muitas vezes,
e não existe aquecimento central ou êste só funciona par­
cialmente. As lavanderias e as cozinhas dispõem, em geral,
de aparelhamento mais moderno: mas o cardápio é idên­
tico para todos e não se leva em conta, de modo algum, as
dietas que teriam sido indicadas para os diversos casos.
As instalações sanitárias são deficientes: não há banheiras
somente duchas, que os pensionistas utilizam uma vez por
semana, quando não uma vez por mês. O estado de “ aban­
dono médico” é escandaloso. Habitualmente, há um médico
para 350 hospitalizados, mas acontece um único médico
ter a seu cargo 965 pensionistas. As despesas médias dos
asilos não ultrapassam 2,7% de seu orçamento, embora seja
enorme o número de situações patológicas graves.
Em tais condições, compreende-se que o ingresso num
asilo represente um drama para o velho. O trauma psicoló­
gico é particularmente violento para as mulheres, ainda
mais apegadas ao lar que os homens. Manifestam sinais
de ansiedade e tremores. Muitas acabam se resignando.
Às vezes, a hospitalização parece devolver ao velho o gôsto
pela vida: sente-se menos isolado, contrai amizades; passa
a cuidar mais de si mesmo, por uma espécie de emulação.
Mas isto é raro.
Uma estatística levantada pelo Dr. Pequignot, e con­
firmada por numerosos testemunhos, estabelece que entre
os velhos sadios recolhidos a um asilo:
8 % morrem dentro dos oito primeiros dias;
28,7% morrem no decorrer do primeiro mês;
45 % morrem no decorrer dos seis primeiros meses;
54,4% morrem no decorrer do primeiro ano;
65,4% morrem no decorrer dos dois primeiros anos.

Isto é, mais da metade dos velhos morrem antes de


completar um ano de admissão. Não se podem responsa­
bilizar apenas as condições de vida nos asilos: para os ve­
lhos, qualquer tipo de transplante acarreta freqüentemente
a morte. Deve-se antes lamentar o destino dos sobreviven­
tes, que pode ser resumido em poucas palavras, num grande

19 289
número de casos: abandono, segregação, decadência, de­
mência, morte.
Para começar, o pensionista se ressente das restrições
que lhe são impostas. O regulamento é muito severo e
rígidas as rotinas; deve se levantar e se deitar muito cedo.
Cortado de todo seu passado e do seu ambiente, vestindo
muitas vêzes um uniforme, êle se sente despersonalizado,
reduzido a um número. Habitualmente, são autorizadas as
visitas diárias, e a família comparace de vez em quando para
vê-lo: mas isto é raro, e não acontece nunca, em certos
casos. O acesso ao asilo é freqüentemente difícil, parentes
e amigos só podem ir até lá; aos domingos e desanimam
diante do tempo perdido em viagem. Êste dado é impres­
sionante com relação ao estabelecimento oficial de Nanterre:
para chegar lá, leva-se duas horas de metrô e de ônibus,
do centro de Paris. É necessário realmente haver muita
afeição para que se sacrifiquem as poucas horas de lazer.
O velho se vê, portanto, abandonado. O diretor de uma
importante casa de recolhimento em Nice afirmou em en­
trevista televisionada que somente 2% dos pensionistas re­
cebem visitas. Em geral, as saídas não são livres: em
Nanterre, o pensionista tem direito a uma tarde por semana.
Não sabe muito bem como encher os dias. Encarrega-se,
de vez em quando, de alguma tarefa no asilo a fim de
ganhar um pouco de dinheiro: algumas mulheres são em­
pregadas na rouparia ou na cozinha. Mas não sentem
nenhum interesse pelo trabalho. Quase todos são de baixo
nível intelectual, lêem muito pouco e não ouvem rádio.
A televisão, quando existe, lhes cansa a vista. Nem os jogos
de baralho os divertem: seu nível de interêsse se reduz a
zero e passam o dia todo sem fazer nada. Chegam até,
depois do desjejum, a voltar para a cama onde passam a
maior parte do tempo, a ruminar velhas idéias sôbre a doença
e a morte. Segundo o Prof. Bourlière, a única ocupação
capaz de interessar a uma coletividade de velhos é o traba­
lho manual. Existe em Londres, anexa a um asilo, uma
oficina onde êles fabricam instrumentos diversos, como mu­
letas etc., destinados aos membros impotentes da coleti­
vidade; têm assim a impressão de serem úteis. Alguns pou­
cos asilos nas zonas rurais são ladeados por hortas onde
alguns pensionistas gostam de trabalhar. Mas estes casos

290
são raros. Inativo, reduzido à condição de objeto, o velho
asilado se torna rapidamente senil. Só tem uma distração,
no dia em que lhe é permitido sair: a bebida. Muitos pen­
sionistas ingressam no asilo abstêmios e se tornam alcoó­
latras num mês. O dinheiro, que lhes é entregue para suas
pequenas despesas (21), assim como o que lhes rendem os
trabalhos por êles executados, é, muitas vezes, inteiramente
gasto em bebida. Por lei, devem medear pelo menos du­
zentos metros entre a porta do asilo e o local mais próximo
onde se venda álcool; em Nanterre, é proibido servir aos
velhos bebidas alcoólicas outras que não o vinho: mas êste
já é suficiente. As ruas de Nanterre, próximas ao Recolhi­
mento, ficam, no verão, cheias de velhos de ambos os sexos,
deitados no chão, sentados, encostados aos muros, aper­
tando contra o peito garrafas de vinho e em estado de
completa embriaguez. Seu organismo já debilitado suporta
muito inal estas bebedeiras, e êles voltam para o asilo
cambaleando, berrando, vomitando, esta promiscuidade é
muitíssimo penosa para os pensionistas que gostam de lim­
peza e de tranqüilidade. O vinho é muito favorável aos delí­
rios de grandeza, que compensam durante alguns instantes
a miséria de suas vidas. Libera também a sexualidade:
durante a embriaguez se formam, freqüentemente casais
hetero ou homossexuais que se arranjam como podem para
saciar seus desejos.
A vida em comum é muito mal suportada pela maioria
dos hospitalizados; sentindo-se infelizes, ansiosos, voltados
para dentro de si mesmos, vêem-se amontoados sem que
nenhuma vida social seja organizada para êles. Sua suscep­
tibilidade, suas tendências reivindicadoras, às vêzes até pa-
ranóides, provocam freqüentes reações violentas. No inte­
rior dos asilos, aceleram-se todos os processos patológicos
a que está sujeita a velhice.
Êste tipo de existência foi muito bem descrito por
Jacoba Van Velde em La Grande Salle: êste romance só
pode ser fruto de observações pessoais muito sérias (22).

(21) 25 francos por mês.


(22) JJn plat de porc aux bananes vertes, de Simone et André
Schwartz-Bart, tratando do mesmo assunto, tem muito menor valor documen­
tário.

291
O autor descreve um asilo holandês para mulheres, visto
pelo prisma de uma nova pensionista. Trazida por uma
filha muito carinhosa, mas que já não dispõe de recursos
práticos para cudar dela, a “ novata” se sente angustiada
diante da perspectiva de não ter mais nenhum momento
de solidão. “ Sempre detestei que prestassem atenção a mi­
nha pessoa. Atrair os olhares sempre foi um suplício para
mim!”, diz ela consigo mesma. Doravante, todos os atos
de sua vida, inclusive a morte, deverão realizar-se na pre­
sença de testemunhas, muitas vezes maldosas ou na melhor
das hipóteses, críticas. “Nunca se está sozinha; é horrível,
há sempre gente em volta de nós!”, comenta com ela o
pensionista de outro asilo. . . “ E eles nos tratam como se
todas as pessoas idosas, sem exceção, estivessem na segunda
infância. Falam conosco como se fôssemos criancinhas de
um ou dois anos.” A velha se ressente muito mais desta
privação de qualquer espécie de vida privada e da meta­
morfose que, de ser humano faz dela um puro objeto, do
que das amolações materiais.
Não pude ver Nanterre, cuja entrada me foi vedada:
visitei, entretanto, um asilo da Assistência pública, muito
bem localizado, em plena Paris. Abriga aproximadamente
200 pessoas, de ambos os sexos. É cercado por um grande
jardim cheio de árvores e de flores: foi por um belo dia
de outono e o sol penetrava a jorros em todas as salas.
Chão, paredes, lençóis, tudo estava cuidadosamente limpo.
Encontrei médicos atenciosos, enfermeiras jovens, amáveis
e dedicadas. No entanto, embora já estivesse muito bem
informada sobre a questão, não poderei esquecer o horror
daquela experiência: vi sêres humanos reduzidos a uma
abjeção total.
Alguns privilegiados, em condições de pagar uma pen­
são cara, moram em quartos particulares; outros, em salas
contendo quatro ou cinco leitos. Mas a imensa maioria se
acha amontoada em dormitórios. Cada um dispõe de uma
cama, uma mesa de cabeceira, uma poltrona e um armàrio-
zinho colocado aos pés da cama. O espaço entre duas camas
representa mais ou menos a largura de duas mesas de
cabeceira e é aí que os pensionistas passam o dia: não con­
tam nem com refeitório (exceto com um dormitório de
homens que tem uma sala de jantar como prolongamento).

2,92
As refeições são servidas sôbre uma mesinha, ao lado da
cama. Não têm sala de estar, salvo uma saleta tão incômoda
que eles não a utilizam nunca, nem mesmo para receber
as visitas. Por uma estranha anomalia que ninguém soube
explicar, os indivíduos válidos são alojados no andar térreo,
os semiválidos no primeiro andar e os inválidos no segundo.
Êstes são incapazes até de se mexerem: são alimentados e
limpos como as criancinhas; este gatismo, entretanto, não
tem nada de sereno: as fisionomias das velhas que vi esta­
vam convulsionadas pelo horror e pelo desespero, imobiliza­
das numa espécie de pavor imbecil. Talvez não se possa
fazer mais nada por elas. O primeiro andar constitui um
escândalo flagrante. Entre os semiválidos há muitos ca­
pazes de se movimentarem de um extremo ao outro do
dormitório e em condições de sair: não lhes é possível,
entretanto, descer as escadas, e, não existindo elevador, fi­
cam literalmente aprisionados. Desta maneira, até o jardim
lhes fica interdito. Para agravar a situação, no meio deles
são colocados velhos já incapazes de controlar as funções
de seu organismo e que passam o dia todo sentados em
cadeiras de assentos abertos; vivem todos juntos na mesma
sala cuja atmosfera se torna pestilenta. O andar térreo é
menos infecto e abafadiço, mas o coração do visitante se
confrange ao verificar a inércia gerada pela vida em asilo.
Sobretudo entre os homens, esta inércia é tão acentuada
que muitos dêles, embora ainda válidos, fazem tôdas as
suas necessidades na cama, como informou o médico: visto
que a sociedade os tomou a seu cargo, explicou-se êle, esses
indivíduos se entregam a ela de maneira total e levam a
passividade ao ponto mais extremo. (Suponho também
que eles suportam sua situação com ressentimento e buscam
vingar-se). Passam os dias inteiros sentados em suas pol­
tronas e não fazem nada. Vi um homem deitado no leito,
fazendo tricô, outros dois, sentados jogando baralho, e só.
Segundo fui informada, dentre vinte pensionistas, somente
um lê os jornais. Alguns ouvem um pouco de rádio. Caíram
em tal estado de letargia que recusam qualquer distração
que lhes seja porventura oferecida: cerca de quarenta mu­
lheres receberam uma proposta: foi-lhes oferecida uma
excursão de carro, gratuita, pelos arredores de Paris. So­
mente duas aceitaram. As discussões são seu único diverti­

293
mento: as mulheres sobretudo batem papo, se desentendem,
formam grupos, estabelecem alianças e as desfazem. Entre
os homens, alguns são agressivos e até violentos. Como em
Nanterre e em todos os outros lugares, não perdem uma
ocasião de beber. Gastam em vinho todo o dinheiro que
sobra da aposentadoria depois de pagar a pensão. Não têm
a menor dificuldade em consegui-lo pois não faltam no bairro
bares e adegas. Podem ser vistos, no verão, sentados nos
bancos de uma avenida próxima, segurando garrafas de
vinho. As mulheres também bebem. Quando voltam, de
tardezinha, mais ou menos embriagados, brigam com os
outros.
Os candidatos afluem todas as quartas-feiras: são admi­
tidos apenas os mais ou menos válidos. (E lá permanecem,
mais tarde, quando se tornam inválidos ( 23). O espetáculo
de sua angústia chega a ser doloroso, quando são admitidos,
disse-me o médico. Sabem que estão deixando o mundo
dos vivos e que, ao penetrar ali, sua única perspectiva é a
morte. As mulheres, depois de superarem a angústia da
mudança, conseguem se adaptar um pouco melhor. São mais
sociáveis: suas tagarelices e bisbilhotices as mantêm entre-
tidas. Os homens ficam solitários e é aguda sua sensação
de decadência. Um dos internos me contou: “ Eu lhes per­
guntava, no princípio, qual era sua ocupação antes; respon­
diam que tinham sido bilheteiros em estações de metrô ou
operários, e se punham a chorar: eram homens naquela
época, trabalhavam. . . Compreendi e nunca mais lhes fiz
perguntas.” Muitos pensionistas já não têm família. Os
que ainda têm recebem de uma a quatro visitas por mês.
É impressionante o contraste entre as mulheres aloja­
das em dormitórios e as que possuem um quarto próprio;
pude ver quatro: eram muito cuidadosas com sua própria
pessoa, liam ou faziam tricô e brincaram com o médico.
Numa sala de cinco leitos, bastante espaçosa, as pensionistas
me pareceram quase alegres: uma delas, antiga perita em
questões de estética facial, estava violentamente maquilada
embora só conservasse um dente. Numa grande sala com

(23) Existem muitos cegos e surdos. Uma mulher é cega e surda


inteiramente aprisionada dentro de si mesma. Existe uma enfermaria, mas
quando o caso é grave o doente é transportado para o hospital.

294
três leitos, uma mulher, bem cuidada e sorridente, tinha
organizado um cantinho para ela, com duas mesinhas e o
parapeito da janela cheio de plantas. A vida daquelas
criaturas podería, aparentemente, se transformar, bastando
para isto um pouco de espaço e de intimidade.
Pareceu-me monstruoso o abandono moral em que
a administração deixa aquela gente. Se houvesse salas onde
eles se pudessem reunir, onde lhes fôssem propostas algumas
distrações, com monitores cuidando dêles, certamente não
despencariam com tão assustadora rapidez no plano incli­
nado que os transforma em simples organismos. Mas, como
me disse uma enfermeira, no próximo ano serão tomadas
algumas medidas visando melhorar o padrão de vida no
asilo, preparar salas de estar etc. Só que a pensão passará
a custar muito mais caro. E, infelizmente, para os ocupan­
tes atuais, eles serão evacuados para os arredores de Paris,
para Nanterre e Ivry.

A situação não é nada melhor nos Estados Unidos.


Como já foi verificado pelos sociólogos, os asilos e as casas
de recolhimento pouco têm progredido nos últimos séculos.
Em 1952, declarava a Comissão encarregada de estudar as
necessidades sanitárias da nação: “Os serviços de saúde são
inteiramente inadequados, tanto em qualidade quanto em
quantidade, para as pessoas de idade, onde quer que se
encontrem” . No dia 10 de julho de 1965 surgiu uma nova
legislação, denominada Medicare, com vários capítulos de­
dicados às pessoas idosas. A corporação médica sentiu-se
inquieta com esta intervenção do Estado, tendo considerado
traidor o Doutor Spock, célebre pediatra, que concordou
em colaborar com o govêrno neste ponto. A razão desta
repugnância parece estar neste individualismo e neste mesmo
liberalismo que já haviam tornado tão difícil a adoção nos
Estados Unidos, de medidas de seguro social (24).

(24) Segundo inquérito feito por Tréanton em 1955, sobre 264


pessoas, 47% se haviam afastado por questões de saúde; 22% haviam
sido dispensadas, 4% somente haviam pedido espontaneamente a aposen­
tadoria. (Algumas não responderam).

295
Sentir-se brutalmente relegado da categoria dos indi­
víduos ativos para a dos inativos e classificado no meio dos
velhos, sofrer um corte lamentável em seus recursos e em
seu padrão de vida, constitui, na imensa maioria dos casos,
um drama pejado de graves conseqüências psicológicas e
morais. Atinge essencialmente os homens. As mulheres vi­
vem mais: são anciãs solitárias que constituem a camada
mais desfavorecida da população. Mas, em conjunto, a mu­
lher idosa se adapta melhor que o marido às circunstâncias.
Dona de casa, criatura de vida doméstica, sua situação é
idêntica à dos camponeses e artesãos de antigamente: tra­
balho e existência para ela se confundem. Nenhum decreto
exterior vem interromper brutalmente suas atividades. Estas
diminuem no momento em que os filhos adultos deixam a
casa paterna. Esta crise, que geralmente ocorre muito cedo,
as transtorna muitas vêzes. Mas não chegam a se ver in­
teiramente desocupadas e seu papel de avós lhes abre novas
possibilidades. Não é muito grande o número de mulheres
que, dos 60 aos 65 anos, trabalham fora do lar. Salvo raras
exceções, elas empenham em suas profissões uma parte
dç si mesmas muito menor que os homens. Considerando-se
o número de mulheres jovens que não trabalham, a aposen­
tadoria não as relega automàticamente a uma certa cate­
goria de idade. E o papel que desempenham no lar e na
família lhes torna possível manter sua identidade e uma
ocupação. A elas cabem as responsabilidades domésticas e
o entretenimento das relações ativas com a família, sobre­
tudo com os filhos e netos. A mulher toma então a frente
ao marido e, freqüentemente, esta superioridade lhe dá a
impressão de uma desforra. Algumas buscam, então, agres­
sivamente, humilhar o homem em sua virilidade. As pessoas
idosas têm muita consciência desta mudança de papéis.
Uma prancha utilizada, no T .A .T . representa dois homens,
um jovem e outro velho, e duas mulheres, também uma
jovem e uma velha; os intérpretes da imagem não atribuem,
quando jovens, um papel muito importante à mulher idosa
mas, quando são idosos, o velho lhes parece apagado, sub­
misso, esmagado pela espôsa. Esta lhes aparece como uma
dominadora e nela se encarna a lei. Esta interpretação re­
flete a evolução normal do casal médio.

296
A aposentadoria introduz na vida do homem uma des-
continuidade radical: existe uma ruptura com o passado;
êle precisa adaptar-se a um novo estatuto que llie traz certas
vantagens — descanso, lazer — mas também graves desvan­
tagens : empobrecimento, desqualificação.
Como escreveu Hemingway, “A pior morte para alguém
é a perda daquilo que constitui o centro de sua vida e
que faz dêle aquilo que êle é, na realidade. Aposentadoria
é a palavra mais repugnante da língua. Que isto se faça
por decisão própria ou porque o destino a tanto nos obriga,
aposentarmo-nos e abandonarmos nossas ocupações — essas
ocupações que fazem de nós o que somos — equivale a uma
descida ao túmulo.”
Como todos sabem, êle se suicidou, sem dúvida por
outras razões também, mas, em todo caso, no momento
em que se sentiu incapaz de continuar a escrever. Quando
o trabalho foi escolhido livremente e constitui uma comple-
mentação do próprio indivíduo, renunciar a êle equivale,
com efeito, a uma espécie de morte. Ser dêle dispensado
quando representou apenas um constrangimento, representa
uma libertação. Na realidade, existe quase sempre, uma
ambivalência no trabalho, que constitui ao mesmo tempo
uma servidão, um cansaço, mas também uma fonte de in­
teresse, um elemento de equilíbrio, e um fator de integração
na sociedade. Esta ambigüidade se reflete na aposentadoria
que pode ser encarada como umas férias muito prolongadas
ou como uma redução à condição de refugo.
A escolha entre esses dois pontos de vista e a maneira
pela qual eles se poderão combinar, dependerão de nume­
rosos fatores. Em primeiro lugar da saúde do indivíduo.
As organizações industriais e os agentes oficiais estabele­
ceram a idade da aposentadoria por meio de uma lei geral.
Ora, como vimos, a idade biológica está longe de coincidir
com a idade cronológica: um operário cansado e desgastado
não terá as mesmas reações de outro que se afasta em plena
forma física e moral. Os professores a quem se faculta a
aposentadoria mais ou menos cedo, em geral condicionam
sua decisão a seu estado de saúde. Consultam um médico
e sua escolha é influenciada pelo diagnóstico do mesmo.

297
Saint-Évremond já escrevia em 1680: “ O que se vê mais
habitualmente entre a gente de idade é o anseio pela apo­
sentadoria; e a coisa mais rara entre os que se afastaram
é a ausência de arrependimento por o haverem feito.” A
primeira parte da frase é verdadeira para muitos, mas não
para todos. É muito difundida a imagem da “ aposentadoria-
-milagre” que tornará finalmente possível a realização
de velhos desejos; mas existe, como contrapêso, uma ima­
gem da “aposentadoria-catástrofe”. Por encararem a aposen­
tadoria com muita apreensão, muitos trabalhadores evitam
pensar nela. Uma pesquisa levada a efeito entre os operá­
rios do setor da construção, revelou que, um ano antes da
aposentadoria, 85% ignoravam completamente com que re­
cursos poderíam contar. A C .N .R .O . lhes propôs a re­
messa das informações necessárias: 95% dos indivíduos de
64 anos as solicitaram, 40% dos de 60 anos e quase ninguém
abaixo desta idade. Desta maneira, a aposentadoria desaba
sobre o trabalhador como a lâmina de uma guilhotina.
“ Eu nunca tinha pensado em parar de trabalhar: julgava
que morrería antes disso, sentia-me tão cansada” , declarou
uma funcionária. “ Nunca pensei em parar: foi minha vista
que falhou”, disse uma doméstica. “Acordei, um belo dia,
e me vi aposentado” , afirmou um operário inglês. E outro:
“ Na terça-feira, às 7*4 horas, da noite, eu ainda estava
trabalhando; quando acordei no dia seguinte não tinha mais
nada que fazer.” Segundo um inquérito realizado nos
E .U .A . por Moore, em 1951, 41% dos professores aguarda­
vam a aposentadoria com impaciência, e 59% se mostravam
indiferentes ou refratários. Outro inquérito americano levado
a efeito entre operários da indústria do vestuário chegou à
conclusão de que 50% desejavam a aposentadoria, mas so­
bretudo por se sentirem incapazes de continuar a trabalhar.
Outros inquéritos americanos sobre trabalhadores manuais
demonstraram que apenas um quarto, quando muito a me­
tade deles, encaravam com satisfação a idéia de parar.
Foram recentemente interrogados, dois meses antes de
serem aposentados, 95 professores do departamento do Sena.
Perguntaram-lhes se receavam ter daí por diante a impres­
são de estarem envelhecendo mais depressa; a resposta de
55% foi sim; o futuro lhes parecia melancólico. Outros res­
ponderam não de maneira tão brusca que deu lugar à supo­

298
sição de que também eles receavam a aposentadoria. “Vou
começar a tomar conhecimento de minha idade” responde­
ram muitos. Sua profissão lhes agradava e sentiam-se reju­
venescidos pelo contato com as crianças. Tinham mêdo de
se aborrecer, de se cristalizarem em hábitos e idéias anti­
quadas; sentiam-se “postos de lado” . Tornando-se social­
mente inúteis, também lhes parecia inútil continuarem a
viver. Temiam a solidão. Quanto mais avançada era a
idade, mais intensa a sensação de envelhecimento. As mais
atingidas, neste grupo, eram as mulheres solteiras. Nalguns
casos, entretanto, a existência de um cônjuge aumentava a
angústia: havia o receio de vê-lo suportar mal a situação.
A existência de filhos não contribuía para ajudar a enfren­
tar o porvir, salvo quando viviam na companhia do futuro
aposentado: êste, então, não manifestava nenhum mêdo de
envelhecer. Os homens de 60 anos já avós, sentiam-se mais
velhos que os que ainda não o eram. Alguns professores
manifestaram de maneira aparentemente sincera que a pos­
sibilidade de descansar iria, pelo contrário, rejuvenescê-los.
Projetavam ir viver no campo e interessar-se por muitas
coisas. Alguns se limitaram a afirmar ser-lhes indiferente
envelhecer. Várias professoras interrogadas, embora ca­
sadas, trabalhavam por vocação e pela recusa da tradi­
cional condição feminina: era-lhes detestável a perspectiva
de se verem a ela reduzidas.
Consumada a aposentadoria, as atitudes continuam va­
riadas. Uma coisa deve ser observada: a disposição com
que o indivíduo entra nesta condição está relacionada com
a maneira com que a encarou. Interrogaram-se vários apo­
sentados a respeito do que haviam esperado da aposenta­
doria e do que achavam dela atualmente. 29% a estavam
achando mais agradável do que haviam esperado, 31% mais
penosa. Entre os primeiros, 51% a haviam aguardado com
idéias preconcebidas favoráveis; 66% dos que a estavam
achando pesada a haviam temido. Quando se é pessimista,
esta disposição de espírito geralmente se confirma e se
acentua; o mesmo se dá com o otimista.
Na maior parte dos casos, o trabalhador é constrangido
a se afastar do trabalho, o patrão o despede: ou então êle
próprio o faz por razões de saúde, por incapacidade. Na

290
verdade, êle não desejou esta nova condição (25). Prepa­
rou-se, algumas vezes, para ela, fazendo projetos. Começa
pondo-os em execução. Se morava na cidade, vai se instalar
no campo. Realiza algumas viagens. Mas isto nem sempre
o ajuda a se aclimatar: os próprios projetos por vêzes se
esclerosam; na hora de agir, já não se tem tanta vontade
de o fazer.
Muitas vêzes também se percebe a gravidade do êrro
cometido ao se mudar de vida. Por exemplo: voltam à
terra natal, muitos operários que trabalham em constru­
ções na região parisiense: aborrecem-se, em pouco tempo
e voltam para Paris. Muitos aposentados deixam sua resi­
dência para vir para junto dos filhos: estes não lhes dão
atenção, os velhos hábitos foram sacrificados em vão. Ou­
tros vão para a Côte d’Azur e descobrem que o clima é
ruim para seus reumatismos. Dão-se conta, além disso,
de que os aluguéis são elevados demais para suas posses
e se veem condenados a recorrer aos asilos. Não conhecem
ninguém e a solidão os faz sofrer. Mesmo quando os planos
são exeqüíveis, uma vez realizados, o indivíduo se vê de
mãos vazias: só havia conseguido adiar um pouco o mo­
mento da adaptação. São raros os que tiveram a possibili­
dade de elaborar um verdadeiro programa de vida. Para
os outros, “ a aposentadoria-guilhotina” constitui uma pro­
vação e alguns dificilmente a superam ( 26). Uma pesquisa
realizada em Prairy City, nos E .U .A . teve o seguinte re­
sultado: o tonus das pessoas que continuam a trabalhar é
muito superior ao dos aposentados: embora tenham menos
lazeres, suas atividades recreativas e sociais são muito mais
ricas.
Êste motivo, mas sobretudo a necessidade, como vimos,
leva muitos aposentados a buscarem um trabalho remune­
rado. Poucos o conseguem e não encontram nêle as satisfa­
ções proporcionadas por sua profissão anterior. É muito
raro que o lazer possibilite o desenvolvimento de uma vo­

(25) Dánuzière conta em seu livro Les Délices du port que um chefe
de estação aposentado encaminhava-se todos os dias para a estação ferro­
viária para contemplar melancòlicamente a passgem dos trens. Morreu
ao cabo de seis meses.
(26) Aconteceu em Phoenix, E .U .A ., no início de 1964.

SOO
cação até então sufocada. As pessoas, em geral, se conten­
tam com atividades qualitativamente inferiores à profissão
antes exercida e não tão bem remuneradas. Pouco consôlo
lhes advem delas.
Desenraizados de seu ambiente profissional, os aposen­
tados se veem na contingência de alterar o emprego de
seu tempo e todos os seus hábitos. Exaspera-se neles o
sentimento de desvalorização, tão freqüente na maioria das
pessoas idosas. Com efeito, êles não somente passam a
receber muito menos dinheiro, mas, mesmo o pouco que
recebem já não é ganho por seu trabalho. Quando forte­
mente politizados, consideram a pensão como um direito a
que fizeram jus. Muitos, entretanto, veem nela quase uma
esmola. Deixar de ganhar seu próprio sustento parece a
seus olhos uma decadência. É através de sua ocupação e
de seu salário que o homem define sua própria identidade;
ao se retirar, perde-a, um ex-mecânico não é mais um me­
cânico: não é nada. “ O papel do aposentado, diz Burgess,
consiste em não ter mais nenhum papel” . Significa portanto,
perder o lugar que lhe cabia na sociedade, a dignidade e
quase que até a realidade. Além disso, êles se aborrecem,
não sabem o que fazer de seu lazer. “A passagem da
atividade para a aposentadoria constitui, com efeito, um
período crítico para o empregado” escreve Balzac em Les
Petits Bourgeois. “Os aposentados que não sabem ou não
podem pôr outras funções no lugar das abandonadas, se
transformam de maneira estranha: alguns morrem, outros
se dedicam à pesca, distração cujo vazio lembra o de seu
trabalho nos escritórios.”
Segundo um inquérito feito em Bruxelas pelo Serviço
de identificação, 87% dos aposentados gostariam de tra­
balhar pelo menos de vez em quando. Outro, realizado em
Paris, afirma que dois terços dos aposentados se queixam de
tédio: “Não agüento mais, estou me aborrecendo.” Disse
uma balconista: “ Volto para ver minhas companheiras.
Procuro reencontrar a atmosfera que constituiu minha vida
durante quarenta anos e da qual não posso prescindir.” Em
geral, as lamentações são mais numerosas entre os trabalha­
dores manuais que entre os “colarinhos brancos” .
O inquérito de Tréanton revelou que um ano depois
de sua aposentadoria, entre 254 pessoas entrevistadas, havia

301
42,5% de insatisfeitas, 28,5% de satisfeitas, 16% contentes
com o repouso mas achando insuficientes seus recursos.
O maior número de satisfeitos estava entre os “ colarinhos
brancos” , cujo padrão de vida era melhor. O ódio pesa
mas o motivo essencial de descontentamento é a pobreza:
é por esta razão que os trabalhadores manuais são os que
mais lamentam ter deixado o trabalho, embora seu apego
à profissão seja menor que o dos “ colarinhos brancos” , cujo
padrão de vida era melhor. O ódio pesa mas o motivo
essencial de descontentamento é a pobreza: é por esta razão
que os trabalhadores manuais são os que mais lamentam
ter deixado o trabalho, embora seu apego à profissão seja
menor que o dos “colarinhos brancos” .
Os resultados de outro inquérito foram um pouco dife­
rentes. Perguntou-se a um grupo de homens idosos recen­
temente aposentados se êles tinham a intenção de continuar
trabalhando. Metade respondeu afirmativamente mas so­
mente 16% desejavam ver retardada a idade do afasta­
mento. Em outro grupo de aposentados, inquirido a res­
peito de sua situação material, metade declarou não se achar
satisfeita; contudo, 39% recusavam o recuo da idade de
aposentadoria; esta perspectiva desagradava sobretudo aos
“colarinhos brancos” e não tanto aos trabalhadores manuais,
1/4 dos quais teria concordado em retardar 5 anos a apo­
sentadoria, contanto que ganhassem 50% mais. Num grupo
de trabalhadores em construção, em 1968, verificou-se que
1/3 dos homens interorgados pediríam a liquidação de seus
papéis antes dos 65 anos. (No entanto, 8% continuam
trabalhado depois dos 65 anos sem reivindicar seu direito
à aposentadoria.) 82,5% dos homens gostariam de ver a
idade de aposentadoria fixada nos 60 anos. Todos recusavam
a idéia de um trabalho remunerado após o afastamento. Gos­
tariam de se aposentar devido às suas condições de saúde.
As contradições, ou as incertezas nas respostas obtidas
nos diversos grupos provêm de duas exigências do trabalha­
dor: o repouso e uma vida decente. Vê-se obrigado a sa­
crificar um dos dois. O operário fica satisfeito diante da
perspectiva de não mais trabalhar, mas os problemas de
dinheiro, de saúde, e de moradia o preocupam. Sofre mais
que os comerciários, com o isolamento a que o condena a
redução de seu nível econômico: “Agora que já não tenho

302
mais dinheiro a quem é que eu posso interessar?... Não se
acha mais ninguém, quando se está na m iséria... Não
quero receber convites, já que não posso retribuir... Acho
sempre um pretexto para recusar os convites, porque sei
que não vou poder retribuir” . Tréanton ouviu muitos co­
mentários deste gênero.
Tédio, sentimento de desvalorização, são traços que
também se observam no inquérito efetuado na zona leste de
Londres pela Nuffield Foundation. Um aposentado de 70
anos, ainda em condições de executar trabalhos leves, disse
com melancolia: “ Eu ainda não cheguei ao ponto de ter
de ficar num canto olhando os outros trabalharem, mas su­
ponho que isto terá de rne acontecer.” Disse outro, nas
mesmas condições: “Gostaria de trabalhar até os 100 anos.
Quando a gente está velha, o trabalho preenche o vazio.
Houve um tempo em que eu esperava o momento de des­
cansar, mas agora eu quero é trabalhar para encher o va­
zio.” Townsend inquiriu homens aposentados há quatro
anos, tendo ouvido de um deles a seguinte queixa: “Não
gosto de ficar aqui, sentado. Gostaria que minha perna
me deixasse voltar ao trabalho.” E de outro: “ Não agüento
mais. Não tenho nada que fazer. Minha mulher toma conta
da casa. Quando faço alguma coisa, ela acha sempre mal
feito.” Uma mulher recorda o dia em que o marido se
aposentou: “ Que dia! Êle chorou e os filhos também!” E o
marido continua: “ Eu não sabia o que havia de fazer. Era
como no exército, quando a gente é metido no xadrez. Eu só
enxergava estas quatro paredes. Costumava sair antigamente,
no sábado à noite, com os companheiros e com os genros.
Agora não posso mais. Estou como um indigente. Não
tenho nem uma libra no bôlso, não podería pagar minha
p a rte ... Não vale mais a pena viver quando a gente se
aposenta.” E um leitmotiv incessantemente repetido: “ Ê
ridículo o que eu dou a minha mulher. É trás vezes nada:
tenho até vergonha.” O aposentado já não dispõe de dinheiro
suficiente para manter a casa, depende da mulher, dos filhos;
sente-se inútil, diminuído, arrasta-se de um lado para o
outro, procura prestar alguns servicinhos, mas em geral a
mulher acha que êle está atrapalhando e o manda dar umas
voltas. Uma esposa disse aos entrevistadores: “ Ê irritante
tê-lo em casa. Êle quer saber de tudo que se está fazendo

303
e fica fazendo perguntas.” E outra: “ Em lugares como êste,
eles não podem fazer nada quando deixam de trabalhar.
Não é como quando se tem um jardim. Êles morrem quando
param. Não quero que êle fique aqui.”
Em geral, as mulheres temem o momento da aposen­
tadoria dos maridos: o padrão de vida terá de baixar, haverá
preocupações econômicas; êle ficará o dia inteiro atrás delas
e aumentará o trabalho dentro de casa. Somente em cír­
culos economicamente bem favorecidos podem-se encontrar
algumas mulheres satisfeitas com a perspectiva de conviver
mais tempo com os maridos. Êste se sente, geralmente,
importuno, humilhado diante da mulher, muitas vezes tam­
bém dos filhos, melhor adaptados que êle à vida moderna
e de padrão de vida superior ao seu. Têm-se visto chefes
de família tirânicos tornarem-se de um dia para o outro
tão tímidos que já não ousam nem cortar uma fatia de pão
sem pedir licença. Outros afundam na hipocondria.
Que influência exerce esta situação sôbre a saúde? As
opiniões divergem. A maioria dos gerontólogos franceses a
considera nefasta; o índice de mortalidade é muito mais
elevado, dizem êles, durante o primeiro ano de aposentadoria
que em qualquer outra época. Os americanos, aferrados
a um otimismo de encomenda, retrucam que isto só é
verdadeiro quando a aposentadoria é voluntária: quem a
provocou foi a saúde precária e não o contrário. Entre as
pessoas em boas condições de saúde, a aposentadoria com­
pulsória não altera seu estado físico, pelo contrário, pode
até melhorá-lo proporcionando ao indivíduo repouso e sono.
Contudo todos reconhecem as relações existentes entre o
físico e o moral. Ora, até na América se admite que o moral
dos homens de idade sofre uma queda de ano para ano,
sobretudo entre os 65 e os 69 anos, logo após a aposentadoria
e especialmente quando seu estatuto econômico é deficitário.
Seu estado físico se vê necessàriamente afetado.
As angústias geradas pela aposentadoria levam por
vêzes a depressões demoradas. Segundo o Dr. Blajan-Marcus,
estas depressões superpõem vários elementos: a aposenta­
doria vivida como um luto e um exílio, inscreve-se num fundo
de lutos mal liquidados, de dependência familiar, de tempe­
ramento depressivo e, sem dúvida, de perturbações circula­
tórias e glandulares, embora não seja fácil trazê-los à tona.
Quer dizer, o golpe desferido pela aposentadoria abate com­
pletamente aquêles cujo passado foi marcado de uma ma­
neira ou de outra. Eia revive as amarguras da separação,
o sentimento de abandono, de solidão, de inutilidade, gerado
pela perda de um ente querido.
Para se defender contra uma inércia nefasta em todos
os sentidos, o velho precisa se manter ativo: seja qual fôr
a natureza desta atividade, o conjunto de suas funções será
melhorado. O Professor Bourlière estudou um grupo de
102 ciclistas idosos: seu nível intelectual era muito superior
ao nível médio das pessoas de sua idade. Uma pesquisa
realizada por F. Clément e H. Cendron sôbre 43 octogená­
rios borguinhões, muitíssimo bem conservados, revelou estar
sua saúde relacionada com sua atividade. A idade média
entre eles era 86 anos. 34% continuavam a exercer sua
antiga profissão em regime de tempo integral. 40% traba­
lhavam com os filhos ou em empregos secundários. 26% já
não exerciam atividade profissional: mas se dedicavam à
leitura, à jardinagem etc. 61% nunca tinham considerado
seu trabalho cansativo. Todos levavam uma vida social
normal. No grupo mais ativo, a idade média era 87 anos;
era-o um pouco menos o grupo de 83 anos de idade média.
Os primeiros ainda exerciam muitas atividades físicas: bici­
cleta, caminhadas, caça. Entre os segundos, 25% nunca
liam, nem mesmo jornais. Os outros se mantinham infor­
mados. Em conjunto, 18% preferiam acima de tudo a leitura,
14% a caça. Somente 7% não tinham distrações.
Encontrar ocupações é, portanto, uma questão de suma
importância para as pessoas idosas. 40% a 60% deles cul­
tivam — segundo inquéritos americanos — o que êles lá
denominam hobbies; entre os 50 e os 70 anos consagra-se a
ástes mais tempo que antes, mas em seguida êles passam a
despertar menos interesse. Não sabemos muito bem de
que maneira as pessoas de mais de 70 anos passam o tempo.
De um modo geral, já não demonstram prazer em atividades
que exigem habilidade e audácia; gostam menos de ler e
de escrever e, sobretudo, de variar suas ocupações. Segundo
um estudo feito por Morgan (em 1937, nos E .U .A .) sôbre
381 pessoas de mais de 70 anos, as principais atividades
eram: para 32,9%, tarefas domésticas; para 31,5%, jogos e

20 305
divertimentos intelectuais; para 13,6%, passeios e visitas:
9,6% satisfaziam-se sentando-se ao sol e olhando pela janela;
8,1% divertiam-se trabalhando no jardim, cuidando de ani­
mais domésticos; 4,3% realizavam pequenos trabalhos re­
munerados.
Quanto mais elevado o nível intelectual do indivíduo,
mais ricas e variadas permanecerão suas atividades. Os tra­
balhadores braçais, entretanto, passam muito tempo sem
fazer nada. É elevada a porcentagem de velhos totalmente
inativos. Também neste sentido se pode falar em “turbilhão
para baixo” . A inatividade provoca uma apatia que mata
qualquer desejo de atividade. Carrel observou que o excesso
de lazeres é ainda mais perigoso para os velhos que para
os jovens: quanto mais prolongados, menos capazes serão
êles de os preencherem. O tédio lhes tira o desejo de
se distraírem. A um interlocutor que dizia, a propósito dos
pensionistas dos asilos: “ Mas êles, afinal, bem que poderíam
jogar baralho” , respondeu o Professor Bourlière: “ É a partir
dêste momento que se pode afirmar que êles se aborrecem:
quando têm possibilidade de se ocupar e não o fazem.”
É tão válida esta observação fora dos asilos quanto dentro
deles. O escritor inglês Angus Wilson estudou num romance,
L ’Appel du soir, a difícil acomodação de uma mulher de
65 anos, antiga gerente de um hotel, à sua condição de
aposentada. Instala-se em casa dos filhos que não têm, como
ela bem sabe, nenhuma necessidade dela: “Tinha como
que um momento de pânico quando lhe ocorria a idéia de
que sua nova existência só iria se compor de páginas em
branco.” Gostaria de se tornar útil mas não consegue apren­
der a manipular os aparelhos elétricos da cozinha. Sua falta
de habilidade a torna angustiada, e a angústia prejudica seu
aprendizado. O filho se comporta para com ela da maneira
habitual aos adultos, é atencioso, educado: todavia, impa-
cienta-se com freqüência e lhe fala com aspereza. Só lhe
dão poucas tarefas e ela se assusta com a perspectiva da
esterilidade dos anos vindouros. Não se entrosa na vida
dos filhos, nem busca fazê-lo, pois se sente uma estranha,
uma criatura marginalizada. A melancolia a domina, mal
se interessa pela televisão, pela leitura. Dorme durante o
dia, deita-se à noite sem jantar, passeia maquinalmente,
numa espécie de torpor. Reage, após um incidente que

306
lhe dá a impressão de se haver tornado útil; quando read­
quire um pouquinho de gôsto pela vida, começa a se inte­
ressar por muitas coisas, particularmente pelos trabalhos
do filho que havia até então ignorado. Resolve não con­
tinuar a viver como uma parasita e emigra para uma aldeia
de pessoas idosas. Não obstante esta conclusão timidamente
otimista, o fato digno de nota é que este romance descreve
uma situação sem saída.
Para defender os inativos contra a solidão e o tédio,
a Inglaterra, a Suécia e sobretudo os Estados Unidos in­
centivam seu ingresso em associações. Algumas destas reú­
nem homens de tôdas as idades. Outras, nos E . U . A ., foram
criadas especialmente para os velhos, quer por êles mesmos
quer por jovens. Organizam distrações: jogos, excursões,
representações teatrais etc. Também se criaram “ Centros
de dia”, fórmula sem equivalente na França; os primeiros
foram inaugurados durante a última guerra e seu número
chega a 40 em Nova Iorque. Aí se encontram os aposen­
tados do bairro que podem assim ter alguma vida social e
exercer certas atividades: executam trabalhos úteis, tocam
ou ouvem música, são levados em excursões e se organizam
debates. As Igrejas e os sindicatos criaram centros similares.
Os membros de Clubes e os freqüentadores desses Centros
sentem-se mais felizes que os outros. Mas é também pelo
fato de se sentirem mais felizes que encontram prazer em
freqüentá-los. Recai-se sempre no mesmo círculo vicioso:
o excesso de miséria física ou moral elimina os meios de
a remediar. Quanto mais elevado é o nível de vida, mais
intensa é a participação dos indivíduos à vida social. A
idade sempre a faz diminuir. A metade das pessoas idosas
entrevistadas afirmou terem suas atividades sociais começado
a declinar a partir dos 50 anos; somente 1% as declarou
aumentadas. Em Orlando, metade das pessoas de idade
não pertencia a nenhuma associação, o mesmo se dando com
2/3 das de Palm Beach. Somente por meio de uma radical
transformação da situação seria possível combater a melan­
cólica passividade da velhice. Demonstra-o a experiência
do Victoria Plaza: antes de serem para lá transportados,
quase todos os seus futuros habitantes passavam longas ho­
ras cochilando ou sentados sem fazer nada. Quando se
viram num ambiente que correspondia a suas preferências

307
e integrados a uma comunidade, puseram-se a ler a assistir
a programas de televisão, a participar de atividades sociais.
Todavia, sucessos desta ordem só atingem a um número
reduzidíssimo de indivíduos.
Deve-se mencionar, na França, a experiência que vem
sendo realizada há três anos em Grenoble pelo Office Gre-
noblois des Personnes Âgées (O .G .P .A .). Criou êste órgão
23 clubes recreativos dirigidos por duas profissionais contra­
tadas em regime de tempo integral, e por cerca de cinqüenta
voluntárias. Seus membros — aproximadamente 2 000 sendo
1 500 freqüentadores assíduos — exercem atividades cultu­
rais, manuais, físicas: tanto homens como mulheres de mais
de 80 anos seguem cursos de ginástica. O Office também
abriu um centro de preparo para a aposentadoria. O em­
preendimento é interessante mas só beneficia também a uma
minoria muito reduzida. A situação da maioria pode ser
resumida pelo slogam proposto por um clube recreativo
recentemente criado em Paris no XIII arrondissement:
“A aposentadoria é o tempo dos lazeres, mas é também o
tempo do tédio.”
“A aposentadoria e o esfacelamento da célula familiar
se adicionam para tornar solitária, inútil e sinistra a con­
dição do velho” , escreveu um sociólogo francês. Nos países
capitalistas — salvo nos escandinavos — e sobretudo na Fran­
ça, é assim que surge a nossos olhos a situação reservada
aos velhos; mas as duas causas apontadas só produzem efei­
tos a tal ponto desastroso devido ao contexto em que se
inserem. O destino dos velhos seria menos sinistro se o
orçamento a êles consagrado não fôsse tão ridiculamente
insuficiente. O aposentado que nem sequer pode tomar um
copo de vinho com os amigos, privado de um lugarzinho
exclusivamente seu e onde possa ficar, ou de um cantinho
de jardim que lhe seja possível cultivar e até de recursos
para comprar um jornal, sofre menos em conseqüência do
excesso de lazeres que da impossibilidade de os utilizar e
de sua própria decadência. Uma pensão e uma moradia
decentes lhe poupariam uma humilhação aniquiladora e lhe
permitiríam um mínimo de vida social.
Contudo, a inutilidade faz sofrer até mesmo os velhos
favorecidos pela fortuna. Paradoxalmente, em nossa época,

308
as pessoas de idade gozam de muito melhor saúde, ficam
“jovens” durante muito mais tempo e, com isto, a falta de
ocupação lhes parece ainda mais pesada. Na opinião de
todos os gerontólogos, é psicológica e sociologicamente im­
possível viver os últimos vinte anos de vida em boas con­
dições físicas sem desempenhar nenhuma atividade útil.
Êsses sobreviventes necessitam encontrar razões para viver:
a “ sobrevivência bruta” é pior que a morte. “Ninguém
pode ser aposentado e continuar a viver” , declarou um ex-
-mecânico quando lhe pediram que explicasse as razões
de seu gesto: havia ferido gravemente um policial atirando
duas vezes contra êle, sem nenhum motivo aparente.
Uma aposentadoria gradual apresentaria, com tôda cer­
teza, menos inconvenientes que a “ aposentadoria guilho­
tina” , a aposentadoria radical. Comprova-o o fato de pro­
curarem os trabalhadores independentes — exceto em casos
de doenças graves — organizar lazeres cada vez mais pro­
longados, continuando a trabalhar durante muito tempo,
pelo menos em pequenas doses. Houve uma sugestão no
sentido de se proceder por etapas também no caso dos 1
assalariados. Por exemplo: as funções seriam divididas em
várias categorias, de acordo com o esforço requerido, e o
operário descendo devagarinho da mais difícil para a mais
fácil. Seus horários seriam reduzidos. Salvo nos casos de
invalidez total ou de doenças graves, estas soluções pode­
ríam satisfazer a maioria pois a inatividade completa lhes
parece insuportável. Só que elas implicariam uma trans­
formação radical da sociedade. Para começar, seria neces­
sário calcular a aposentadoria tomando como base o salário
mais elevado; esta condição seria imprescindível para que
o operário pudesse aceitar no fim da vida um tipo de tra­
balho menos cansativo e não tão hem remunerado. Em
segundo lugar, não deveria pairar sobre os jovens e os adultos
a ameaça do desemprego.
Poucas questões são, hoje em dia, tão controvertidas na
França quanto a da idade da aposentadoria. Os gerontólogos
lamentam ver as pessoas de idade condenadas a uma inati­
vidade que lhes apressa a decadência. Os sindicalistas, en­
tretanto, se opõem à elevação da idade do afastamento,
pleiteando até sua redução. Como primeiro argumento, êles
alegam a necessidade de ropousar para o trabalhador. Tal-

309
vez o excesso de lazer constitua de fato um perigo, pensam
eles. Mas dadas as condições atuais de trabalho, é ainda
mais perigoso prolongar a atividade. O Doutor Escoffier-
-Lambiotte fêz referências a uma pesquisa sobre os ope­
rários parisienses, em Le Monde, em 1967. Segundo seus
resultados, as condições físicas e morais dos mesmos eram
menos satisfatórias que as do parisiense médio. Foram exa­
minados 102 operários qualificados, escolhidos ao acaso na
lista de pagamento de uma grande fábrica de automóveis.
Com menos de 55 anos, sua tensão arterial é mais elevada,
o ritmo cardíaco mais acelerado, a fraqueza muscular mais
acentuada, mais numerosos os distúrbios cardiovasculares,
assim como mais freqüentes os do sono. Observa-se tam­
bém um declínio prematuro de suas faculdades intelectuais.
Na medida em que requerem menos força muscular, os
trabalhos são menos penosos nas sociedades modernas; to­
davia, a aceleração das cadências, somada à extrema divisão
das operações, aumenta o desgaste. Como já disse, esta
degradação não se acha naturalmente relacionada com a
senescência mas sim com o regime de trabalho. Enquanto
esse não fôr modificado, será preciso reivindicar para os
velhos operários o direito ao repouso.
Por outro lado, como argumentam os sindicalistas, numa
economia baseada no lucro, não se pode pensar em criar
uma reserva de mão-de-obra barata, uma espécie de sub-
proletariado que viria superexplorar a classe patronal e
tornar muito menos eficazes as lutas operárias. Tais argu­
mentos são decisivos. A sociedade, tal como é, impõe uma
escolha monstruosa: devem-se sacrificar milhões de jovens
ou permitir que milhões de velhos vegetem miseràvelmente
Todo mundo está de acordo em rejeitar a primeira solução:
resta, portanto, a segunda. Não se trata somente dos hos­
pitais e dos asilos: a sociedade tôda constitui para os velhos
um imenso “morredor” .
Quando se pergunta às pessoas idosas se desejam con­
tinuar a trabalhar ou se preferiríam afastar-se, nota-se um
aspecto doloroso em suas respostas: são sempre de caráter
negativo as razões invocadas. Os que preferem continuar,
o fazem por medo da pobreza; os que escolhem o afasta­
mento, estão preocupados com a própria saúde: nenhuma
das duas modalidades de vida é encarada como fonte posi­

310
tiva de satisfação. Não se sentem realizados nem no tra­
balho nem no lazer: nem um nem outro dependem de uma
opção livre.
Em Lê Socialisme difficile, Gorz demonstrou perfeita-
mente que, ao trabalho forçado, corresponde o consumo
passivo. O “indivíduo molecular” não está à vontade nem
no trabalho nem no consumo. Ora, a velhice é o não-tra-
balho, o simples consumo: os “ lazeres passivos” de tôda a
existência só podem levar ao grande “lazer passivo” da
aposentadoria: vegeta-se esperando a morte.
A tragédia da velhice representa a condenação radical
de um sistema de vida mutilador: um sistema que não ofe­
rece à imensa maioria de seus componentes o menor incen­
tivo para viverem. O trabalho e o cansaço mascaram esta
ausência, mas ela se revela no momento da aposentadoria.
Ê muito mais grave que o tédio. Ao se tornar velho, o
trabalhador já não encontra lugar na Terra porque, na rea­
lidade, nunca lhe foi concedido lugar algum: êle, simples­
mente, ainda não havia tido tempo de o perceber. Ao des­
cobri-lo, mergulha numa espécie de desespero atoleimado.
À luz desta realidade, todos os “ elogios da velhice” sur­
gem como exercícios de retórica para uso exclusivo daqueles
que outrora eram denominados os “eupátridas” . Durante
séculos, os escritores só se preocuparam com êles. Cícero
e Schopenhauer reconheceram, de maneira muito rápida e
em pouquíssimas palavras, que, nem para o sábio, ser velho
e pobre representa uma situação suportável. Não se detêm
e se congratulam pelo fato de que a idade liberta o homem
das paixões. Sabemos hoje que a expressão “velho e pobre”
é quase pleonasmo. A velhice talvez liberte das paixões
mas exaspera as necessidades devido a sua incapacidade em
as atender: os velhos têm fome, têm frio e isto os pode matar.
Somente então se veem “libertos” de seu corpo pelo nada:
antes disso, êste corpo existe cruelmente e representa frus­
tração e sofrimento. Em nenhum outro aspecto se mani­
festa de maneira tão aberta a indecência da cultura que
herdamos.

Alguns velhos encaram sua situação como sendo de tal


forma intolerável que preferem a morte ao “ suplício de

311
viver” . O número de suicídios é muito maior na velhice
que em qualquer outra idade. Durkhein foi o primeiro
a fazer levantamentos estatísticos demonstrando a crescente
percentagem de suicídios, dos 40 aos 80 anos. Na França,
entre 1889 e 1891, era o seguinte o número de suicidas em
cada grupo de idade e de estado civil, contados sobre cada
milhão de habitantes:

HOMENS MULHERES

Solteiros Casados Viúvos Solteiras Casadas Viúvas


40 a 50 anos 975 340 721 171 106 168
50 a 60 ” 1434 520 979 204 151 199
60 a 70 ” 1768 635 1166 189 158 257
70 a 80 " 1983 704 1288 206 209 248
Além 1571 770 1 154 176 110 240

Como se pode verificar, o número de suicídios é muito


mais elevado entre os homens que entre as mulheres. As
estatísticas levantadas em outros países concordam com a
de Durkheim. Assim como com as levantadas mais tarde
por Halbwachs e com a da Revue lyonnaise de Médecine,
em 1957.
Novas estatísticas revelaram que o suicídio dos velhos
representa, na França, 3/4 das mortes voluntárias. Até os
55 anos, o número de suicidas é de 51 entre 100 000 indiví­
duos: depois dos 55, sobe para 158. Um relatório da
O . M . S ., de 1960, mostra que a maior incidência de suicídios
masculinos ocorre dos 70 anos em diante, na Grã-Bretanha,
França, Itália, Bélgica, Países-Baixos, Portugal, Espanha,
Suíça e Austrália. O índice máximo de suicídios femininos
ocorre dez anos antes, e é muito inferior. No Canadá, entre
os afro-americanos dos Estados Unidos, na Noruega e na
Suécia, o índice máximo aparece entre os 60 e os 69 anos.
Entre os velhos, o suicídio representa uma causa-mortis mais
importante que a tuberculose pulmonar, embora esta faça
numerosas vítimas. Os suicídios, de um modo geral, dimi­
nuíram depois da Primeira Guerra Mundial (nos E .U .A .
são, proporcionalmente, 1/3 menos numerosos) mas, entre
os indivíduos de mais de 60 anos, esta redução é muito
pouco sensível. Nos Estados Unidos, segundo S. Grazia,

312
22/100 000 quadragenários se suicidam: êste índice cresce
com a idade, chegando a 697/100 000 aos 80 anos. Alguns
velhos se suicidam em conseqüência de estados de depres­
são nervosa que resistiram a todos os tratamentos: mas a
maior parte são reações normais a uma situação irreversível,
desesperada, considerada intolerável. Em seu trabalho Sui­
cide in old age, (1941), Gruhle sustenta ser a psicose rara­
mente causa de suicídio dos velhos. Êste seria explicado
por fatores sociais e psicológicos: declínio físico e mental,
solidão, ociosidade, inadaptação, doença incurável. Em sua
opinião, o suicídio nunca resulta de um episódio depressivo
singular, isolado, mas sim da história de tôda a existência.

Um dos aspectos desesperados da situação dos velhos


decorre de sua incapacidade para modificá-la. Os 2,5 milhões
de velhos franceses necessitados vivem dispersos, sem laços
de solidariedade entre si, sem disporem de meios de pres­
são visto não representarem mais nenhum papel ativo na
vida econômica do país. Existe uma concentração de ve­
lhos em Nice: representam cêrca de 25% da população e
seus votos pesam nas eleições. Permanecem, contudo, na
ignorância uns dos outros e serializados. Assusta-os a idéia
de uma transformação social: sempre receiam o pior. Seus
votos vão para os candidatos conservadores. Nos Estados
Unidos, as pessoas idosas dispõem, às vezes, de um certo
poder político; quando aposentados, vão se instalar freqüen-
temente na Flórida ou na Califórnia e são bastante nume­
rosos em alguns lugares — principalmente em Saint-Peters-
burg, na Flórida — representando uma parte bastante pon­
derável do corpo eleitoral. Por outro lado, conseguiu-se
criar, no contexto da vida política americana, novas insti­
tuições político-econômicas onde as pessoas de idade exer­
cem certa influência. Estas observações, entretanto, dizem
respeito aos privilegiados. Os necessitados não podem emi­
grar para a Flórida, não exercem influência política. Não
passam de fracos, de esmagados, de incapacitados.

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ÍNDICE

Introdução.............................................................................. 5

Preâm bulo.............................................................................. 13

I. Velhice e Biologia ..................................................... 19

II. Os Dados Etnológicos ....................................... 42

III. A Velhice nas SociedadesHistóricas .................... 98

IV. A Velhice na SociedadeAtual ................................ 244


“A velhice não é um fato estático: é o término e
o prolongamento de um processo. Em que consiste
esse processo? Em outras palavras, que é envelhecer?
Esta idéia se acha ligada à de transformação. Mas a
vida do embrião, do recém-nascido, da criança, cons­
titui uma incessante transformação. Seremos levados
a concluir, como o fizeram alguns, que nossa existência
é uma morte lenta? Certamente não. Semelhante pa-
radoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é
um sistema instável no qual se perde e reconquista o
equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo
de morte. A lei da vida é mudar.”