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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

BACHARELADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS


DIÁLOGOS ETNOGRÁFICOS
FICHAMENTO

Aluno: Aurelano Estevam de Sousa Silva

O tabu do corpo, introdução e capitulo III

Todavia, sabemos hoje que a ciência não se faz no plano dos eventos físicos e
materiais e que os objetos das diferentes ciências são construídos teoricamente pelo
próprio exercício da atividade científica, e que as diferenças entre as ciências são, antes',
de "pontos de vista" e de "estratégias". (pag. 02)

Então, a minha consciência pode ser objeto de minha própria consciência, desde
que eu a ponha como objeto do meu pensamento e como objeto de um método particular
de análise, dissociando-a de si, em um nível, para objetivá-la, e subjetivando-a, em outro,
para compreendê-la. (pag. 03)

Se, nesse esforço de observar e interpretar, modificamos a realidade observada,


não é menos verdade que também somos modificados pela observação; (pag. 06)

O que queremos é compreender como é que um sistema de oposições entre


"órgãos" e "funções" foi tomado como modelo para plasmar a representação das relações
sociais, e, por outro lado, como um sistema de relações sociais serviu de modelo para se
pensar as relações entre os "órgãos" e as "funções" do corpo humano. (pag. 129)

Como parte do comportamento social humano, o corpo é um fato social. É parte de


um fato social "total", em que cada parte depende da totalidade para extrair o seu sentido.
(pag. 129)

A reação do nojo é exatamente o produto dessa troca de qualidades entre o


sensível e o inteligível; é, como pretendemos mostrar, a expressão, ao nível
psicofisiológico, de agramaticalidades ao nível sociológico. (pag.130)
O corpo significa ao mesmo tempo a Vida e a Morte, o Normal e o Patológico, o
Sagrado e o Profano, o Puro e o Impuro. Ocupa, como diria Victor Turner (71, p. 59), uma
"posição nodal com referência às séries entrecruzadas de classificação" (pag.131)

É este código das codificações, esta estrutura fundamental, abstrata e geral, que
queremos compreender, a partir da análise das práticas e das crenças que identificam os
produtos do corpo humano como "nojentos". (pag 133)

A sociedade codifica o corpo e as codificações do corpo codificam a sociedade. As


relações da sociedade com o corpo são relações da sociedade com ela mesma; são
codificações lógicas tanto quanto morais. (pag 137)

Uma coisa nojenta é sempre uma coisa que cruza indevidamente uma linha
demarcatória, estabelecendo-se em um lugar impróprio e deslocado no sistema de
ordenação. A reação do nojo é uma reação de proteção contra a transgressão da ordem.
(pag.. 140)

O nojo representa regras culturais que dizem respeito ao corpo (no caso específico
em estudo) e que produzem seus efeitos imediatos no próprio corpo. Como tal, o nojo não
pode ser visto, como frequentemente acontece com as emoções, como puras
perturbações correspondentes a desordens fisiológicas. (pag. 150)

Se o nojo é um problema de consciência para o psicólogo, como quer Sartre, é, na


maior parte das vezes, um problema de inconsciente para o cientista social. (pag. 151)

Todo o problema do nojo é, em última instância, o de uma dialética entre a


aceitação e recusa de eventos, em função de um esquema conceptual. O nojo, a repulsa,
é a recusa daquilo que corroeria a estruturação de ideias e conceitos que mantém erguido
o edifício social. (pag. 152)

Na recusa de se pronunciar o nome das coisas nojentas, está expresso o temor de


seu contágio, mas também o temor de sua realidade, porque falar de uma coisa aumenta
o grau de realidade dessa coisa. (pag. 153)
Isto significa que, na prática, existe sempre certa diferença entre o que a regra
prevê para o comportamento das pessoas e o que as pessoas realmente fazem quando
se encontram a sós, o que se exprime no ditado "Não há grande homem para seu criado
de quarto".

A estrutura somática humana abriga uma sacralidade fasta e uma sacralidade


nefasta, uma sacralidade pura e uma sacralidade impura. Eis o porquê de o corpo ser
tabu: entre o que tem de Fasto e o que tem de Nefasto, nenhuma mistura pode ocorrer.
(pag. 159)

No nojo, encontramos os mesmos processos contagiosos fundamentais da magia,


isto é, as associações simpáticas e as associações homeopáticas. Uma coisa pode se
tornar impura e nojenta, pela contiguidade a outras coisas nojentas, ou pela similaridade
que mantém com coisas impuras. (pag. 161)

No nojo, as 'emoções expressam, mas não explicam. São consequências de um


sistema de ordenação, ou da ausência dele, e, portanto, manifestações afetivas na
superficialidade, mas intelectuais na profundidade. (pag. 161)

O homem é o único animal que se horroriza do seu sangue, do seu vômito, de suas
secreções sexuais, e que se sente cruelmente atingido por eles, porque é o único a
possuir Cultura. (pag.162)

O Homem, então, não pode reconhecer-se integralmente na sua corporalidade, e é


obrigado a rejeitá-la e afastá-la como decaída e perigosa. O Homem aprende a detestar
em si, metaforicamente, aquilo que em si a sociedade necessita odiar: a expressão latina,
que está na origem da palavra "nojo", exprime-o claramente: in adio habere. (pag. 167)

Considerações pessoais

A dicotomia entre natural e social (sagrado e profano) vista em Durkheim e Mauss


e, principalmente em Hertz (no texto a predominância da mão direita) ajudou bastante na
absorção do texto. A idealização do corpo como extensão do social e do nojo como
ferramenta de controle, de ordenação do natural mostra como a cultura nos afeta
inconscientemente, além disso pensar no corpo como um fato social lembrou-me da ideia
de Durkheim sobre o totemismo:

“Há para isto uma razão muito simples. É que se o totemismo é, de um lado, um agrupamento de
homens em clãs de acordo com os objetos naturais, é também, inversamente, um agrupamento
dos objetos naturais, segundo os agrupamentos sociais”

No caso do texto lido, o nojo funciona como ferramenta de manutenção da cultura moral de
uma sociedade, da mesma forma que os totens eram essa ferramenta nas sociedades estudadas por
Durkheim e Mauss.

Questionamentos

O texto cita Sade como transgressor da ordem moral por invertê-las de forma
extrema. Nos 120 dias de Sodoma, as inversões morais vão crescendo de acordo com o
enredo do livro, de pequenos fetiches do corpo (até concebíveis dentro da concepção
moral moderna) até atos extremos de transgressão. Pensando no Nojo como ferramenta
de manutenção social e moral, poderia colocar os 120 dias de Sodoma como uma
tentativa de quebrar valores morais ainda fortemente ativos na contemporaneidade? Ou
pode-se pensar no mesmo apenas como enaltecimento do natural?