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MATERIAL DE APOIO - DIREITO CIVIL

TEORIA GERAL DOS CONTRATOS - Apostila 01

Prof. Pablo Stolze Gagliano

1. VISÃO GERAL DOS CONTRATOS NO NOVO CC

O Código Civil de 2002 disciplinou os contratos da seguinte forma:

a) Título V – Dos contratos em Geral, subdividido em dois Capítulos (Capítulo I - “Das Disposições
Gerais” - e Capítulo 2 - “Da Extinção do Contrato”). Tais capítulos são ainda estruturados em Seções, que
versam sobre aspectos gerais da matéria contratual;
b) Título VI – Das Várias Espécies de Contratos, subdividido em 20 capítulos, compartimentados em
1
várias outras Seções, cuidando dos Contratos em Espécie .

Nota-se, no estudo dessa disciplina, que o codificador inovou, ao tratar de temas não regulados
pelo Código anterior, a exemplo do contrato preliminar, do contrato com pessoa a declarar, da
resolução por onerosidade excessiva (aplicação da teoria da imprevisão), da venda com reserva de
domínio, da venda sobre documentos e do contrato estimatório.

Além disso, disciplinou contratos novos, como a comissão, a agência/distribuição, a corretagem e


o contrato de transporte, deixando de fazer referência a alguns outros institutos, como, por exemplo, a
cláusula comissória na compra e venda (art. 1163 do CC-16).

Perdeu-se, todavia, a oportunidade de se regular, pondo fim a infindáveis dúvidas, algumas


importantes modalidades contratuais já de uso corrente, como o leasing, o franchising, o factoring, o
consórcio, os contratos bancários e os contratos eletrônicos.

Apesar dessas omissões, entretanto, devemos reconhecer que, em geral, o trabalho do


codificador, na seara contratual, foi bem desempenhado, sobretudo por haver realçado a necessidade
de imprimir socialidade à noção de contrato.

2. PRINCÍPIOS DO DIREITO CONTRATUAL

Segue o painel dos princípios que analisaremos em sala de aula:

a) o princípio da autonomia privada ou do consensualismo;


b) o princípio da força obrigatória do contrato (pacta sunt servanda);
c) o princípio da relatividade subjetiva dos efeitos do contrato;

1
“Contratos em Espécie” integram outra grade do Curso LFG.

1
d) o princípio da função social do contrato;
e) o princípio da boa-fé objetiva;
f) o princípio da equivalência material.

2.1. Observações acerca do princípio da função social do contrato

Devemos, de logo, ressaltar que a função social do contrato traduz conceito sobremaneira aberto e
2
indeterminado, impossível de se delimitar aprioristicamente.

HUMBERTO THEODORO JR., citando o competente professor PAULO NALIN, na busca por delimitar as
3
suas bases de intelecção, lembra-nos, com acerto, que a função social manifestar-se-ia em dois níveis :

a) intrínseco – o contrato visto como relação jurídica entre as partes negociais, impondo-se o
respeito à lealdade negocial e à boa fé objetiva, buscando-se uma equivalência material entre os
contratantes;

b) extrínseco – o contrato em face da coletividade, ou seja, visto sob o aspecto de seu impacto
eficacial na sociedade em que fora celebrado.

2.2. Observações acerca do princípio da boa-fé objetiva

Além das finalidades interpretativa, integradora e delimitadora de direitos subjetivos, o princípio da


boa-fé objetiva ainda tem a função constitutiva (normativa) de deveres anexos ou de proteção, implícitos
4
em qualquer contrato .

CONTRATO VÁLIDO RELAÇÃO OBRIGACIONAL

(fonte primordial de obrigações)

A) Dever jurídico principal: prestação de DAR, FAZER ou NÃO FAZER


B) Deveres jurídico anexos ou colaterais: (decorrentes da BOA-FÉ OBJETIVA):
lealdade e confiança, assistência, informação, confidencialidade ou sigilo,
etc.

2
Sobre o tema, confira-se a excelente obra: Função Social dos Contratos, do Código de Defesa do Consumidor ao
Código Civil de 2002. Coleção: Rubens Limongi França, 2ª Ed. São Paulo: Método, 2002, FLÁVIO TARTUCE.
3
THEODORO JR., Humberto. O Contrato e sua Função Social. Rio de Janeiro: Forense, 2003, pág. 43.
4
Sobre a o tema: CORDEIRO, Antônio Menezes. Da Boa-Fé Objetiva no Direito Civil. Portugal: Almedina, 2001. Em
nosso sentir, obra máxima, em língua portuguesa, no estudo do princípio.

2
A boa fé objetiva, pois, é o principio ou norma reguladora desses deveres, cuja enumeração não
5
pode ser considerada taxativa .

3. FORMAÇÃO DOS CONTRATOS

O contrato se forma quando as manifestações de vontade, em geral contrapostas,


contemporizam-se, conciliando os interesses divergentes, e formando o denominado consentimento.

O consentimento das partes é a pedra de toque de todo contrato:

PARTE 1 CONSENTIMENTO PARTE 2

Na denominada “fase de puntuação”, as partes discutem, ponderam, refletem, fazem cálculos,


estudos, redigem a minuta do contrato, enfim, contemporizam interesses antagônicos, para que possam
chegar a uma proposta final e definitiva.

No dizer de GUILLERMO BORDA,

Muchas veces las tratativas contractuales se desenvuelven através de um


tiempo más o menos prolongado, sea porque el negocio es complejo y las
partes quieren estudiarlo em todas sus consecuencias o porque quien lo firma
6
no tiene poderes suficientes o por cualquier otro motivo”

A característica básica desta fase é justamente a não vinculação (formal) das partes à
uma relação jurídica obrigacional, muito embora possa, em tese, haver responsabilidade civil pré-
contratual por quebra de boa-fé objetiva, caso haja lesão à legítima e firme expectativa de contratar

5
“Entre os deveres com tais características encontram-se, exemplificativamente: a) os deveres de cuidado,
previdência e segurança, como o dever do depositário de não apenas guardar a coisa, mas também de bem
acondicionar o objeto deixado em depósito; b) os deveres de aviso e esclarecimento, como o do advogado, de
aconselhar o seu cliente acerca das melhores possibilidades de cada via judicial passível de escolha para a satisfação
de seu desideratum, o do consultor financeiro, de avisar a contraparte sobre os riscos que corre, ou o do médico, de
esclarecer ao paciente sobre a relação custo/benefício do tratamento escolhido, ou dos efeitos colaterais do
medicamento indicado, ou ainda, na fase pré-contratual, o do sujeito que entra em negociações, de avisar o futuro
contratante sobre os fatos que podem ter relevo na formação da declaração negocial; c) os deveres de informação,
de exponencial relevância no âmbito das relações jurídicas de consumo, seja por expressa disposição legal (CDC,
arts.12, in fine, 14, 18, 20, 30 e 31, entre outros), seja em atenção ao mandamento da boa-fé objetiva; d) o dever
de prestar contas, que incumbe aos gestores e mandatários, em sentido amplo; e) os deveres de colaboração e
cooperação, como o de colaborar para o correto adimplemento da prestação principal, ao qual se liga, pela negativa,
o de não dificultar o pagamento, por parte do devedor; f) os deveres de proteção e cuidado com a pessoa e o
patrimônio da contraparte, v.g., o dever do proprietário de uma sala de espetáculos ou de um estabelecimento
comercial de planejar arquitetonicamente o prédio, a fim de diminuir os riscos de acidentes; g) os deveres de
omissão e de segredo, como o dever de guardar sigilo sobre atos ou fatos dos quais se teve conhecimento em
razão do contrato ou de negociação preliminares, pagamento, por parte do devedor etc” (COSTA, Judith Martins-. A
Boa-Fé no Direito Privado. São Paulo: RT, 1999, p.439).
6
BORDA, Guillermo A. Manual de Contratos. 19 ed. Buenos Aires: Abeledo-Perrot, 2000, pág. 33.

3
alimentada por uma das partes, à luz do princípio da confiança. Dependerá da análise do caso concreto à
luz da principiologia constitucional aplicada às relações de direito privado, consoante veremos em sala.

Esses atos preparatórios, característicos da fase de puntuação, não se identificam com o


denominado contrato preliminar, figura jurídica que é especialmente – posto não apenas - estudada no
âmbito da “promessa de compra e venda”.

A proposta de contratar, também denominada de policitação, consiste na oferta de contratar que


uma parte faz à outra, com vistas à celebração de determinado negócio (aquele que apresenta a oferta é
chamado de proponente, ofertante ou policitante).

Trata-se de uma declaração receptícia de vontade.

O Código Civil, ao disciplinar o tema, na Seção II, do Capítulo I, Título V (Da Formação dos Contratos),
embora não haja elencado os seus elementos constitutivos, regulou-a, nos seguintes termos:

Art. 427. A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não


resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso.

Observe-se, portanto, que a proposta de contratar obriga o proponente ou policitante, que não
poderá voltar atrás, ressalvadas apenas as exceções capituladas na própria lei (arts. 427 e 428).

Cuida-se, no caso, do denominado princípio da vinculação ou da obrigatoriedade da proposta,


diretriz normativa umbilicalmente ligada ao dogma da segurança jurídica.

Da análise desse dispositivo, concluímos que o legislador reconhece a perda da eficácia cogente da
oferta, nas seguintes situações especiais:

a) se o contrário (a não-obrigatoriedade) resultar dos termos dela mesma – é o caso de o


proponente salientar, quando da sua declaração de vontade (oferta), que reserva o direito de retratar-se
ou arrepender-se de concluir o negócio. Tal possibilidade, entretanto, não deverá existir nas ofertas feitas
ao consumidor, na forma da Lei n. 8078/90 (CDC);
b) se o contrário (a não-obrigatoriedade) resultar da natureza do negócio – é o caso, por exemplo,
segundo o pensamento de CARLOS ROBERTO GONÇALVES, “das chamadas propostas abertas ao público,
que se consideram limitadas ao estoque existente” 7;
c) se o contrário (a não-obrigatoriedade) resultar das circunstâncias do caso – nesse caso, optou o
legislador por adotar uma dicção genérica, senão abstrata, que dará ao juiz a liberdade necessária para
aferir, no caso concreto, e respeitado o princípio da razoabilidade, situação em que a proposta não
poderia ser considerada obrigatória.

Nessa mesma linha, vale registrar ainda que a proposta pode ter prazo de validade.

É o que dispõe o art. 428 do CC-02 (correspondente ao art. 1.081, CC-16):

Art. 428. Deixa de ser obrigatória a proposta:

7
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito das Obrigações – Parte Especial – Tomo I – Contratos (Sinopses Jurídicas). 6. ed.
São Paulo: Saraiva, 2002, pág. 16.

4
I - se, feita sem prazo a pessoa presente, não foi imediatamente aceita.
Considera-se também presente a pessoa que contrata por telefone ou por meio
de comunicação semelhante;
II - se, feita sem prazo a pessoa ausente, tiver decorrido tempo suficiente para
chegar a resposta ao conhecimento do proponente;
III - se, feita a pessoa ausente, não tiver sido expedida a resposta dentro do
prazo dado;
IV - se, antes dela, ou simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra parte
a retratação do proponente.

Para que entendamos tais situações, é preciso definir o que se entende por “pessoa presente” e
“pessoa ausente”.

Presentes são as pessoas que mantêm contato direto e simultâneo uma com a outra, a exemplo
daquelas que tratam do negócio pessoalmente, ou que utilizam meio de transmissão imediata da
vontade (como o telefone, por exemplo). Observe-se que, em tais casos, o aceitante toma ciência da
oferta quase no mesmo instante em que a mesma é emitida.

Ausentes, por sua vez, são aquelas pessoas que não mantém contato direto e imediato entre si,
caso daquelas que contratam por meio de carta ou telegrama (correspondência epistolar).

Não tendo regulado os contratos eletrônicos, entendemos que tais regras, constantes no Código
Civil, devem, mutatis mutandis, lhes ser aplicadas.

Nessa linha de raciocínio, poderemos considerar, entre presentes, o contrato celebrado


eletronicamente em um chat (salas virtuais de comunicação), haja vista que as partes envolvidas
mantêm contato direto entre si quando de sua formação, e, por outro lado, entre ausentes, aquele
formado por meio do envio de mensagem eletrônica (e-mail), pois, nesse caso, medeia um lapso de
tempo entre a emissão da oferta e a resposta.

Fora dessas hipóteses (arts. 427, segunda parte e art. 428), portanto, a proposta obriga o
proponente e deverá ser devidamente cumprida, caso haja a conseqüente aceitação.

E o que se sentende por aceitação?

Trata-se da manifestação de vontade concordante do aceitante ou oblato que adere à proposta que
lhe fora apresentada.

Cumpre-nos observar que se a aceitação for feita fora do prazo, com adições, restrições, ou
modificações, importará em nova proposta. Ou seja, caso a aquiescência não seja integral, mas feita
intempestivamente ou com alterações (restritivas ou ampliativas), converter-se-á em contraproposta, nos
8
termos do art. 431 do Código Civil.

8
Norma muito semelhante vem prevista no Código Civil Argentino: “Art. 1152. Cualquiera modificación que se
hiciere em la oferta al aceptarla, importará la propuesta de um nuevo contrato”.

5
Nessa mesma linha, se a aceitação, por circunstância imprevista, chegar tarde ao conhecimento do
proponente, este deverá comunicar o fato imediatamente ao aceitante, sob pena de responder por
perdas e danos (art. 430). Aqui está mais uma aplicação do “dever de informar” decorrente da boa fé
objetiva!...

Finalmente, vale salientar que a aceitação poderá ser expressa ou tácita, consoante se pode
concluir da análise do art. 432 do Código Civil:

Art. 432. Se o negócio for daqueles em que não seja costume a aceitação
expressa, ou o proponente a tiver dispensado, reputar-se-á concluído o contrato,
não chegando a tempo a recusa.

Por fim, importante questão a ser enfrentada diz respeito à formação do contrato entre ausentes,
especialmente o pactuado mediante correspondência epistolar.

Aliás, como carecemos de uma disciplina específica dos contratos eletrônicos, consoante já
dissemos, a matéria aqui exposta poderá, mutatis mutandis, ser adaptada àqueles negócios pactuados via
e-mail.

Fundamentalmente, a doutrina criou duas teorias explicativas a respeito da formação do contrato


9
entre ausentes :

a) teoria da cognição  para os adeptos dessa linha de pensamento, o contrato entre ausentes
somente se consideraria formado, quando a resposta do aceitante chegasse ao conhecimento do
proponente.
b) teoria da agnição (dispensa-se que a resposta chegue ao conhecimento do proponente):

b.1.  sub-teoria da declaração propriamente dita – o contrato se formaria no momento em


que o aceitante ou oblato redige, datilografa ou digita a sua resposta. Peca por ser extremamente
insegura, dada a dificuldade em se precisar o instante da resposta.

b.2.  sub-teoria da expedição - considera formado o contrato, no momento em que a


resposta é expedida.

b.3.  sub-teoria da recepção – reputa celebrado o negócio no instante em que o proponente


recebe a resposta. Dispensa, como vimos, que leia a mesma. Trata-se de uma sub-teoria mais segura do
que as demais, pois a sua comprovação é menos dificultosa, podendo ser provada, por exemplo, por
meio do A.R. (aviso de recebimento), nas correspondências.

Mas, afinal, qual seria a teoria adotada pelo nosso direito positivo?

9
Cf. PEREIRA, Caio Mário da Silva, ob. cit., pág. 25 e RODRIGUES, Silvio. Direito Civil – Dos Contratos e Declarações
Unilaterais de Vontade. vol 3. 25 ed. São Paulo: Saraiva, 1997.

6
CLÓVIS BEVILÁQUA, autor do projeto do Código Civil de 1916 era, nitidamente, adepto da sub-teoria
da expedição, por reputá-la “a mais razoável e a mais jurídica”. 10

Por isso, boa parte da doutrina brasileira, debruçando-se sobre o art. 1086 do Código revogado,
concluía tratar-se de dispositivo afinado com o pensamento de BEVILÁQUA:

Art. 1086 (caput). Os contratos por correspondência epistolar, ou telegráfica,


tornam-se perfeitos desde que a aceitação é expedida, ... (grifamos)

Na mesma linha, se cotejarmos esse dispositivo com o correspondente do Código em vigor,


teremos a nítida impressão de que foi adotada a vertente teórica da expedição:

Art. 434. Os contratos entre ausentes tornam-se perfeitos desde que a aceitação
é expedida, exceto:
I - no caso do artigo antecedente;
II - se o proponente se houver comprometido a esperar resposta;
III - se ela não chegar no prazo convencionado.
(grifamos)

Note-se, entretanto, que o referido dispositivo enumera situações em que o contrato não se
reputará celebrado: no caso do art. 433; se o proponente se houver comprometido a esperar a resposta
(nesta hipótese, o próprio policitante comprometeu-se a aguardar a manifestação do oblato); ou,
finalmente, se a resposta não chegar no prazo assinado pelo policitante.

Ocorre que se nós observarmos a ressalva constante no inciso I desse artigo, que faz
remissão ao art. 433, chegaremos à inarredável conclusão de que a aceitação não se reputará existente,
se antes dela ou com ela chegar ao proponente a retratação do aceitante.

Atente para essa expressão: “se antes dela ou com ela CHEGAR ao proponente a retratação
do aceitante”.

Ora, ao fazer tal referência, o próprio legislador acabou por negar a força conclusiva da
expedição, para reconhecer que, enquanto não tiver havido a RECEPÇÃO, o contrato não se reputará
perfeito, pois, antes do recebimento da resposta ou simultaneamente a esta, poderá vir o
arrependimento do aceitante.

Dada a amplitude da ressalva constante no art. 433, que admite, como vimos, a retratação do
aceitante até que a resposta seja recebida pelo proponente, entendemos que o nosso Código Civil adotou
11
a sub-teoria da recepção, e não a da expedição .

Nessa linha, inclusive, enunciado da Terceira Jornada sufraga a tese da recepção, aplicando-a
para a contratação pela via eletrônica:

10
BEVILÁQUA, Clóvis. Direito das Obrigações.São Paulo: RED, 2000, pág. 238.
11
Nesse sentido, tb., GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito das Obrigações – Parte Especial – Tomo I – Contratos
(Sinopses Jurídicas). 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p.20/21.

7
E. 173 – Art. 434: A formação dos contratos realizados entre pessoas ausentes,
por meio eletrônico, completa-se com a recepção da aceitação pelo
proponente.

4. CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS

a) Quanto à Natureza da Obrigação.

a.1) Contratos Unilaterais, Bilaterais ou Plurilaterais - na medida em que o contrato implique em


direitos e obrigações para ambos os contratantes ou apenas para um deles, será bilateral (ex.: compra e
venda) ou unilateral (ex.: depósito), podendo se falar em contrato plurilateral (ou multi-lateral), na
medida em que haja mais de dois contratantes com obrigações (contrato de constituição de uma
sociedade ou de um condomínio);

a.2) Contratos Onerosos ou Gratuitos – Quando a um benefício recebido corresponder um sacrifício


patrimonial (ex: compra e venda), fala-se em contrato oneroso. Quando, porém, fica estabelecido que
somente uma das partes auferirá benefício, enquanto a outra arcará com toda obrigação, fala-se em
contrato gratuito ou benéfico (ex: doação pura (sem encargo) e comodato).

a.3) Contratos Comutativos ou Aleatórios. Quando as obrigações se equivalem, conhecendo os


contratantes, ab initio, as suas respectivas prestações, como, por exemplo, na compra e venda ou no
contrato individual de emprego, fala-se em um contrato comutativo. Já quando a obrigação de uma das
partes somente puder ser exigida em função de coisas ou fatos futuros, cujo risco da não ocorrência for
assumido pelo outro contratante, fala-se em contrato aleatório, previsto nos arts. 458/461, como é o
caso, por exemplo, do contratos de seguro, jogo e aposta, bem como como o contrato de constituição de
renda.

Sub-divisão dos Contratos Aleatórios:

a) Contrato de Compra de Coisa Futura, com Assunção de Risco pela Existência (emptio spei):
nessa primeira espécie, prevista expressamente no art. 458, o contratante assume o risco de não vir a
ganhar coisa alguma, deixando à sorte propriamente dita o resultado da sua contratação;
b) Contrato de Compra de Coisa Futura, sem Assunção de Risco pela Existência (emptio rei
speratae): nessa segunda hipótese, prevista no art. 459, CC-02 (art.1.119, CC-16) 12, não há a assunção
total de riscos pelo contratante, tendo em vista que o alienante se comprometeu a que alguma coisa
fosse entregue;

12
CC-02: “Art.459. Se for aleatório, por serem objeto dele coisas futuras, tomando o adquirente a si o risco de virem
a existir em qualquer quantidade, terá também direito o alienante a todo o preço, desde que de sua parte não tiver
concorrido culpa, ainda que a coisa venha a existir em quantidade inferior à esperada.
Parágrafo único. Mas, se da coisa nada vier a existir, alienação não haverá, e o alienante restituirá o preço
recebido”.

8
c) Contrato de Compra de Coisa Presente, mas Exposta a Risco assumido pelo Contratante: a
última modalidade codificada é a que versa sobre a venda de coisa atual sujeita a riscos, prevista nos
13
art.460 .

a.4) Contratos Paritários ou por Adesão - Na hipótese das partes estarem em iguais condições de
negociação, estabelecendo livremente as cláusulas contratuais, na fase de puntuação, fala-se na
existência de um contrato paritário, diferentemente do contrato de adesão, que pode ser conceituado
simplesmente como o contrato onde um dos pactuantes pré-determina (ou seja, impõe) as cláusulas do
negócio jurídico

a.5) Contratos Evolutivos - Classificação proposta pelo Prof. ARNOLDO WALD, para se referir a
figuras contratuais, próprias do Direito Administrativo, em que é estabelecida a equação financeira do
contrato, impondo-se a compensação de eventuais alterações sofridas no curso do contrato, pelo que o
mesmo viria com cláusulas estáticas, propriamente contratuais, e outras dinâmicas, impostas por lei.

b) Classificação dos Contratos quanto à Disciplina Jurídica (civis, comerciais, trabalhistas,


consumeristas e administrativos).

c) Classificação dos Contratos quanto à Forma.

c.1) Solenes ou Não-Solenes - Quanto à imprescindibilidade de uma forma específica para a


validade da estipulação contratual;

c.2) Consensuais ou Reais - Em relação à maneira (forma) pela qual o negócio jurídico é
considerado ultimado, ainda nesta classificação quanto à forma, os contratos podem ser consensuais, se
concretizados com a simples declaração de vontade, ou reais, na medida que exijam a entrega da coisa,
para que se reputem existentes.

d) Classificação dos Contratos quanto à Designação (nominados e inominados) - pode-se falar na


existência de contratos nominados e contratos inominados, na medida em que tenham terminologia ou
nomenclatura definida e prevista expressamente em lei ou, em caso contrário, sejam apenas fruto da
criatividade humana.

e) Classificação dos Contratos quanto à Pessoa do Contratante.

e.1) Pessoais ou Impessoais – Quanto à importância da pessoa do contratante para a celebração e


produção de efeitos do contrato, podem tais negócios jurídicos ser classificados em contratos pessoais ou
contratos impessoais. Os primeiros, também chamados de personalíssimos, são os realizados intuitu
personae, ou seja, celebrados em função da pessoa do contratante, que tem influência decisiva para o
consentimento do outro, para quem interessa que a prestação seja cumprida por ele próprio, pelas suas
características particulares (habilidade, experiência, técnica, idoneidade etc). Nessas circunstâncias, é
razoável se afirmar, inclusive, que a pessoa do contratante torna-se um elemento causal do contrato (ex:
13
CC-02: “Art.460. Se for aleatório, por se referir a coisas existentes, mas expostas a risco, assumido pelo adquirente,
terá igualmente direito o alienante a todo o preço, posto que a coisa já não existisse, em parte, ou de todo, no dia
do contrato”

9
contrato de emprego). Já os contratos impessoais são aqueles em que somente interessa o resultado da
atividade contratada, independentemente de quem seja a pessoa que irá realizá-la.

e.2) Individuais ou Coletivos - Tem-se como parâmetro também o número de sujeitos


envolvidos/atingidos. No contrato individual, sua concepção tradicional se refere a uma estipulação entre
pessoas determinadas, ainda que em número elevado, mas consideradas individualmente. Já no contrato
coletivo, também chamado de contrato normativo, tem-se uma transubjetivização da avença, alcançando
grupos não individualizados, reunidos por uma relação jurídica ou de fato.

f) Classificação dos Contratos quanto ao Tempo.

f.1) Instantâneos (execução imediata ou execução diferida) - Por contratos instantâneos,


compreendam-se as relações jurídicas contratuais cujos efeitos são produzidos de uma só vez (ex: compra
e venda a vista de bens móveis, em que o contrato se consuma com a tradição da coisa). Tal produção
concentrada de efeitos, porém, pode se dar ipso facto à avença ou em data posterior à celebração (em
função da inserção de um termo limitador da sua eficácia), subdividindo-se, assim, tal classificação em
contratos instantâneos de execução imediata ou de execução diferida. Tal subclassificação também tem
interesse prático, tendo em vista que, nos contratos de execução diferida, é aplicável a teoria da
imprevisão, por dependerem de circunstâncias futuras, o que, por óbvio, inexiste nos contratos de
execução imediata.

f.2) De duração (determinada ou indeterminada) - Já os contratos de duração, também chamados


14
de contratos de trato sucessivo, execução continuada ou débito permanente , são aqueles que se
cumprem por meio de atos reiterados, como, por exemplo, o contrato de prestação de serviços, compra e
venda a prazo e o contrato de emprego. Tal duração pode ser determinada ou indeterminada, na medida
em que haja ou não previsão expressa de termo final ou condição resolutiva a limitar a eficácia do
contrato.

g) Classificação dos Contratos quanto à Disciplina Legal Específica (típicos e atípicos) - Quando há uma
previsão legal da disciplina de determinada figura contratual, estaremos diante de um contrato típico; na
situação inversa, ou seja, em que o contrato não esteja disciplinado/regulado pelo Direito Positivo,
vislumbraremos um contrato atípico.

h) Classificação pelo Motivo Determinante do Negócio (causais e abstratos) - Classificação (lembrada


por SILVIO RODRIGUES), que toma, por base, o motivo determinante do negócio, para dividi-los em
contratos causais e contratos abstratos. Os primeiros estão vinculados à causa que os determinou,
podendo ser declarados inválidos, se a mesma for considerada inexistente, ilícita ou imoral. Já os
contratos abstratos seriam aqueles cuja força decorre da sua própria forma, independentemente da causa
que o estipulou. Seriam os exemplos dos títulos de crédito em geral, como um cheque.

14
“Débito permanente é o que consiste em uma prestação tal que não é possível conceber sua satisfação em um só
momento; mas, do contrário, tem de ser cumprida durante certo período de tempo, continuadamente. A
determinação de sua duração resulta da vontade das partes, mediante cláusula contratual em que subordinam os
efeitos do negócio a um acontecimento futuro e certo, ou da declaração de vontade de um dos contratantes pondo
termo à relação (denúncia). São, por conseqüência, por tempo determinado ou indeterminado” (GOMES, Orlando.
Contratos, 24 ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2001, p.79).

10
i) Classificação pela Função Econômica (de troca, associativos, de prevenção de riscos, de crédito e de
atividade)

a) de troca: caracterizado pela permuta de utilidades econômicas, como, por exemplo, a compra e
venda
b) associativos: caracterizado pela coincidência de fins, como é o caso da sociedade e da parceria;
c) de prevenção de riscos: caracterizado pela assunção de riscos por parte de um dos contratantes,
resguardando a possibilidade de dano futuro e eventual, como nos contratos de seguro, capitalização e
constituição de renda;
d) de crédito: caracterizado pela obtenção de um bem para ser restituído posteriormente, calcada
na confiança dos contratantes e no interesse de obtenção de uma utilidade econômica em tal
transferência. É a hipótese típica do mútuo feneratício (a juros);
e) de atividade: caracterizado pela prestação de uma conduta de fato, mediante a qual se
conseguirá uma utilidade econômica. Como exemplos, podem ser lembrados os contratos de emprego,
prestação de serviços, empreitada, mandato, agência e corretagem.

j) Contratos Reciprocamente Considerados

j.1. Classificação quanto à Relação de Dependência (principais e acessórios) - Os contratos


principais são os que têm existência autônoma, independentemente de outro. Por exceção, existem
determinadas relações contratuais cuja existência jurídica pressupõe a de outros contratos, a qual servem.
É o caso típico da fiança, caução, penhor, hipoteca e anticrese.

j.2. Classificação quanto à Definitividade (preliminares e definitivos) - Por fim, quanto à


definitivamente, podem ser os contratos ser classificados em preliminares e definitivos. Os contratos
preliminares (ou pactum de contrahendo), exceção no nosso ordenamento jurídico, nada mais são do que
negócios jurídicos que têm por finalidade justamente a celebração de um contrato definitivo.

OBS.: Este tópico (classificação dos contratos) foi elaborado por RODOLFO PAMPLONA FILHO (co-autor da
obra Novo Curso de Direito Civil – Saraiva), a quem registramos o nosso agradecimento.

Contato: rpamplonafilho@uol.com.br

OBS.: Sobre os princípios da função social e da boa-fé objetiva em face da nova Súmula 381 do STJ,
confiram, meus amigos, o artigo que escrevemos juntamente com o Prof. Salomão Viana, disponível no:
http://www.pablostolze.com.br/pabloStolze_meusArtigos.asp

5. Fique por Dentro

Maternidade socioafetiva é reconhecida em julgamento inédito no STJ

31/05/2010

11
A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a maternidade socioafetiva deve ser
reconhecida, mesmo no caso em que a mãe tenha registrado filha de outra pessoa como sua. “Não há
como desfazer um ato levado a efeito com perfeita demonstração da vontade daquela que, um dia,
declarou perante a sociedade ser mãe da criança, valendo-se da verdade socialmente construída com
base no afeto”, afirmou em seu voto a ministra Nancy Andrighi, relatora do caso.

A história começou em São Paulo, em 1980, quando uma imigrante austríaca de 56 anos, que já tinha um
casal de filhos, resolveu pegar uma menina recém-nascida para criar e registrou-a como sua, sem seguir
os procedimentos legais da adoção – a chamada “adoção à brasileira”. A mulher morreu nove anos depois
e, em testamento, deixou 66% de seus bens para a menina, então com nove anos.

Inconformada, a irmã mais velha iniciou um processo judicial na tentativa de anular o registro de
nascimento da criança, sustentando ser um caso de falsidade ideológica cometida pela própria mãe. Para
ela, o registro seria um ato jurídico nulo por ter objeto ilícito e não se revestir da forma prescrita em lei,
correspondendo a uma “declaração falsa de maternidade”. O Tribunal de Justiça de São Paulo foi contrário
à anulação do registro e a irmã mais velha recorreu ao STJ.

Segundo a ministra Nancy Andrighi, se a atitude da mãe foi uma manifestação livre de vontade, sem
vício de consentimento e não havendo prova de má-fé, a filiação socioafetiva, ainda que em
descompasso com a verdade biológica, deve prevalecer, como mais uma forma de proteção integral à
criança. Isso porque a maternidade que nasce de uma decisão espontânea – com base no afeto – deve ter
guarida no Direito de Família, como os demais vínculos de filiação.

“Permitir a desconstituição de reconhecimento de maternidade amparado em relação de afeto teria o


condão de extirpar da criança – hoje pessoa adulta, tendo em vista os 17 anos de tramitação do processo
– preponderante fator de construção de sua identidade e de definição de sua personalidade. E a
identidade dessa pessoa, resgatada pelo afeto, não pode ficar à deriva em face das incertezas,
instabilidades ou até mesmo interesses meramente patrimoniais de terceiros submersos em conflitos
familiares” disse a ministra em seu voto, acompanhado pelos demais integrantes da Terceira Turma.

Fonte:
http://www.stj.jus.br/portal_stj/objeto/texto/impressao.wsp?tmp.estilo=&tmp.area=398&tmp.texto=97
469 acessado em 31 de maio de 2010.

STJ apresenta novas súmulas

29/10/2009

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) define temas importantes nas súmulas que edita. Confira a
seguir os enunciados das recentes súmulas lançadas pela Corte e acesse a notícia com detalhes
sobre a aprovação de cada texto:

12
- Súmula 409: “Em execução fiscal, a prescrição ocorrida antes da propositura da ação pode ser
decretada de ofício”.

- Súmula 408: "Nas ações de desapropriação, os juros compensatórios incidentes após a Medida
Provisória n. 1.577, de 11/6/1997, devem ser fixados em 6% ao ano até 13/09/2001, e, a
partir de então, em 12% ao ano, na forma da súmula n. 618 do Supremo Tribunal Federal”.

- Súmula 407: “É legítima a cobrança da tarifa de água, fixada de acordo com as categorias de
usuários e as faixas de consumo”.

- Súmula 406: "A Fazenda Pública pode recusar a substituição do bem penhorado por
precatórios".

- Súmula 405: “A ação de cobrança do seguro obrigatório (DPVAT) prescreve em três anos”.

- Súmula 404: "É dispensável o Aviso de Recebimento (AR) na carta de comunicação ao


consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros”.

- Súmula 403: “Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada da
imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais”.

- Súmula 402: “O contrato de seguro por danos pessoais compreende danos morais, salvo
cláusula expressa de exclusão”.

Para acessar a lista completa de súmulas do STJ no site da Corte (www.stj.jus.br), basta clicar em
“Consultas”, no menu à esquerda da tela inicial do site, e acessar o link “Súmulas”.

Fonte:
http://www.stj.gov.br/portal_stj/objeto/texto/impressao.wsp?tmp.estilo=&tmp.area=682&tmp.
texto=94439

STJ aprova Súmula que permite juros superiores a 12% ao ano

29/05/2009

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) aprovou a Súmula de n.º 382, que define que a estipulação de juros
remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não caracteriza abuso. A Súmula foi editada nesta
quarta-feira (27) pela Segunda Seção. Os ministros entendem que é necessário analisar caso a caso o
abuso alegado por parte da instituição financeira.

13
A Seção tomou por base inúmeros precedentes. Um dos casos foi julgado em 2004 pela Quarta Turma e
teve como relator o ministro Raphael de Barros Monteiro Filho (Resp 507.882/RS). O julgamento foi em
favor da empresa Itaú Leasing de Arrendamento Mercantil. Em outro precedente, também do Rio Grande
do Sul (Resp 1.042.903), foi julgado no último ano pela Terceira Turma e teve como relator o ministro
Massami Uyeda.

Nesse processo, contra a BV Financeira S.A Crédito Financiamento e Investimento, o juiz de primeiro grau
julgou procedente a ação de revisão de contrato de alienação fiduciária em garantia para limitar os juros
em 12 % ao ano e excluir a inscrição do devedor no cadastro de inadimplentes. Segundo a decisão do STJ,
não incide essa limitação, exceto em hipóteses legais e específicas.

O ministro esclareceu nesse julgamento que não há sequer o reconhecimento de ofício da nulidade de
cláusulas contratuais consideradas abusivas, sendo necessário o pedido expresso do interesse da parte. A
Segunda Seção do STJ entende que, no caso, não existia a limitação prevista no Decreto 22626/33, salvo
nas hipóteses legais específicas, visto que as instituições financeiras, integrantes do Sistema Financeiro
Nacional são regidas pela Lei 4595/64.

Cabe ao Conselho Monetário Nacional, segundo Súmula 596, do STF, limitar os encargos de juro e esse
entendimento não foi alterado após a vigência do Código de Defesa do Consumidor (CDC), cujas normas
também se aplicam aos contratos firmados por instituições bancárias. A autorização do Conselho
Monetário Nacional para livre contratação dos juros só se faz em hipóteses específicas, como cédula de
cartão de crédito rural, industrial ou comercial.

A Segunda Seção consagrou com a Súmula o entendimento de é possível a manutenção dos juros
ajustado pelas partes, desde que não fique demasiadamente demonstrado o abuso. O teor do texto é: “A
estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade”.

DECISÃO

Cabe indenização por danos morais quando banco envia cartão de crédito sem solicitação

Cabe indenização por danos morais quando uma instituição financeira, na ausência de contratação dos
serviços, envia cartão de crédito e faturas de cobrança da respectiva anuidade ao consumidor. A Terceira
Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) não atendeu ao recurso de um banco e manteve a decisão de
segunda instância que condenou a instituição ao pagamento de uma indenização por danos morais a uma
consumidora gaúcha.

Segundo dados do processo, a consumidora recebeu um cartão de crédito não solicitado e mais três
faturas no valor de R$ 110 cada uma, referentes à anuidade. Ela tentou cancelar o cartão e as cobranças
indevidas, mas o banco se negou a efetuar os cancelamentos.

A consumidora, então, ajuizou ação de indenização por danos morais cumulada com declaratória de
inexistência de débito contra a instituição financeira, alegando abalo moral, já que o banco não cancelou
o cartão e as cobranças, conforme ela havia requerido.

14
O banco, por sua vez, argumentou que o cartão foi solicitado pela consumidora, que os valores relativos à
anuidade foram estornados e que dos fatos narrados não adveio qualquer prejuízo moral a ensejar a
reparação pretendida.

Em primeira instância, o pedido foi julgado procedente, declarando a inexistência do débito. Além disso, o
banco foi condenado a pagar uma indenização no valor de R$ 10 mil a título de danos morais, a ser
corrigida pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) desde a decisão, somando os juros legais
moratórios de 1% ao mês, a partir da citação, ambos até a data do efetivo pagamento.

A instituição financeira apelou da sentença. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) deu parcial
provimento à apelação, somente para reduzir o valor da indenização. Para o TJ, o ato de enviar o cartão
de crédito sem a devida solicitação da consumidora, bem como as faturas para a cobrança da anuidade
viola o Código de Defesa do Consumidor (CDC), caracterizando prática abusiva, passível de indenização a
título de danos morais.

Inconformado, o banco recorreu ao STJ, argumentando que não foi comprovado o dano moral, não
havendo, conseqüentemente, o dever de indenizar. Sustentou, ainda, que a situação vivenciada pela
consumidora, o recebimento de um cartão de crédito e de algumas faturas que posteriormente foram
canceladas, configura um mero aborrecimento, não podendo ser considerada como uma das hipóteses
em que a simples prova do ato ilícito gera o dever de indenizar, sendo necessária a prova do dano
efetivamente sofrido.

Ao analisar a questão, o relator, ministro Sidnei Beneti destacou que o envio de cartão de crédito não
solicitado é conduta considerada pelo CDC como prática abusiva. Para ele, esse fato e os incômodos
decorrentes das providências notoriamente dificultosas para o cancelamento significam sofrimento moral,
já que se trata de uma pessoa de idade avançada, próxima dos cem anos de idade à época dos fatos,
circunstância que agrava o sofrimento moral.

O ministro ressaltou também que, para presumir o dano moral pela simples comprovação do fato, este
tem de ter a capacidade de causar dano, o que se apura por um juízo de experiência. Por essa razão, é
presumido o dano moral em casos de inscrição indevida em cadastros de proteção ao crédito ou de
recusa indevida de cobertura por plano de saúde.

6. Jurisprudência do STJ e o Princípio da Boa-Fé Objetiva

DIREITO CIVIL. CONTRATOS. RESCISÃO. PRÉVIA CONSTITUIÇÃO EM MORA. NECESSIDADE. EXCEÇÃO


DE CONTRATO NÃO CUMPRIDO. REQUISITOS. NULIDADE PARCIAL. MANUTENÇÃO DO NÚCLEO DO
NEGÓCIO JURÍDICO. BOA-FÉ OBJETIVA. REQUISITOS.

- A ausência de interpelação importa no reconhecimento da impossibilidade jurídica do pedido,


não se havendo considerá-la suprida pela citação para a ação resolutória. Precedentes.

- A exceção de contrato não cumprido somente pode ser oposta quando a lei ou o próprio
contrato não determinar a quem cabe primeiro cumprir a obrigação. Estabelecida a

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sucessividade do adimplemento, o contraente que deve satisfazer a prestação antes do outro
não pode recusar-se a cumpri-la sob a conjectura de que este não satisfará a que lhe corre. Já
aquele que detém o direito de realizar por último a prestação pode postergá-la enquanto o
outro contratante não satisfizer sua própria obrigação. A recusa da parte em cumprir sua
obrigação deve guardar proporcionalidade com a inadimplência do outro, não havendo de se
cogitar da argüição da exceção de contrato não cumprido quando o descumprimento é parcial
e mínimo.

- Nos termos do art. 184 do CC/02, a nulidade parcial do contrato não alcança a parte válida,
desde que essa possa subsistir autonomamente. Haverá nulidade parcial sempre que o vício
invalidante não atingir o núcleo do negócio jurídico. Ficando demonstrado que o negócio tem
caráter unitário, que as partes só teriam celebrado se válido fosse em seu conjunto, sem
possibilidade de divisão ou fracionamento, não se pode cogitar de redução, e a invalidade é
total. O princípio da conservação do negócio jurídico não deve afetar sua causa ensejadora,
interferindo na vontade das partes quanto à própria existência da transação.

- A boa-fé objetiva se apresenta como uma exigência de lealdade, modelo objetivo de


conduta, arquétipo social pelo qual impõe o poder-dever de que cada pessoa ajuste a própria
conduta a esse modelo, agindo como agiria uma pessoa honesta, escorreita e leal.

Não tendo o comprador agido de forma contrária a tais princípios, não há como inquinar seu
comportamento de violador da boa-fé objetiva.

Recurso especial a que se nega provimento.

(REsp 981.750/MG, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em


13/04/2010, DJe 23/04/2010)

Direito civil. Contrato de locação de veículos por prazo determinado. Notificação, pela locatária,
de que não terá interesse na renovação do contrato, meses antes do término do prazo
contratual. Devolução apenas parcial dos veículos após o final do prazo, sem oposição
expressa da locadora. Continuidade da emissão de faturas, pela credora, no preço
contratualmente estabelecido.

Pretensão da locadora de receber as diferenças entre a tarifa contratada e a tarifa de balcão


para a locação dos automóveis que permaneceram na posse da locatária. Impossibilidade.
Aplicação do princípio da boa-fé objetiva.

Honorários advocatícios. Julgamento de improcedência do pedido.

Aplicação da regra do art. 20, §4º, do CPC. Inaplicabilidade do §3º desse mesmo dispositivo
legal. Precedentes.

- A notificação a que se refere o art. 1.196 do CC/02 (art. 575 do CC/02) não tem a função de
constituir o locatário em mora, tendo em vista o que dispõe o art. 1.194 do CC/16 (art. 573 do
CC/02). Ela objetiva, em vez disso, a: (i) que não há a intenção do locador de permitir a
prorrogação tácita do contrato por prazo indeterminado (art. 1.195 do CC/16 - art. 574 do

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CC/02; (ii) fixar a sanção patrimonial decorrente da retenção do bem locado. Na hipótese em
que o próprio locatário notifica o locador de que não será renovado o contrato, a primeira
função já se encontra preenchida: não é necessário ao locador repetir sua intenção de não
prorrogar o contrato se o próprio locatário já o fez. A segunda função, por sua vez, pode se
considerar também preenchida pelo fato de que é presumível a ciência, por parte do locatário,
do valor das diárias dos automóveis pela tarifa de balcão. Haveria, portanto, em princípio,
direito em favor da locadora à cobrança de tarifa adicional.

- Se o acórdão recorrido estabelece, contudo, que não houve qualquer manifestação do credor
no sentido da sua intenção de exercer tal direito e, mais que isso, o credor comporta-se de
maneira contraditória, emitindo faturas no valor original, cria-se, para o devedor, a expectativa
da manutenção do preço contratualmente estabelecido.

- O princípio da boa-fé objetiva exerce três funções: (i) a de regra de interpretação; (ii) a de
fonte de direitos e de deveres jurídicos; e (iii) a de limite ao exercício de direitos subjetivos.

Pertencem a este terceiro grupo a teoria do adimplemento substancial das obrigações e a


teoria dos atos próprios ('tu quoque'; vedação ao comportamento contraditório; "surrectio';
'suppressio').

- O instituto da 'supressio' indica a possibilidade de se considerar suprimida uma obrigação


contratual, na hipótese em que o não-exercício do direito correspondente, pelo credor, gere no
devedor a justa expectativa de que esse não-exercício se prorrogará no tempo.

- Nas hipóteses de improcedência do pedido, os honorários advocatícios devem ser fixados


com fundamento no art. 20, §4º do CPC, sendo inaplicável o respectivo §3º. Aplicando-se essa
norma à hipótese dos autos, constata-se a necessidade de redução dos honorários
estabelecidos pelo Tribunal.

Recurso especial parcialmente provido.

(REsp 953.389/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 23/02/2010,
DJe 15/03/2010)

DIREITO CIVIL. CONTRATO DE INCORPORAÇÃO. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.


APLICABILIDADE. RESTITUIÇÃO DE PARCELAS PAGAS. SÚMULA N. 7/STJ.

1. Em que pese o contrato de incorporação ser regido pela Lei n.

4.591/64, admite-se, outrossim, a incidência do Código de Defesa do Consumidor, devendo


ser observados os princípios gerais do direito que buscam a justiça contratual, a equivalência
das prestações e a boa-fé objetiva e vedam o locupletamento ilícito.

2. Aplica-se a Súmula n. 7 do STJ na hipótese em que a tese versada no recurso especial


reclama a análise dos elementos fáticos produzidos ao longo da demanda.

3. Recurso especial não-conhecido.

17
(REsp 747.768/PR, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em
06/10/2009, DJe 19/10/2009)

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. CIVIL. LOCAÇÃO. IMÓVEL LOCADO PELO


NU-PROPRIETÁRIO. BOA-FÉ OBJETIVA. LEGITIMIDADE DO LOCADOR PARA EXECUTAR OS ALUGUÉIS
EM ATRASO. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.

1. Na espécie, não se aplicam os Enunciados 5 e 7 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça,


porquanto a decisão agravada, ao decidir a matéria, não interpretou cláusula contratual nem
reexaminou o quadro fático dos autos, pois cingiu-se a analisar a legitimidade do nu-
proprietário para executar débitos relativos a contrato de locação de imóvel objeto de usufruto.

2. Uma das funções da boa-fé objetiva é impedir que o contratante adote comportamento que
contrarie o conteúdo de manifestação anterior, cuja seriedade o outro pactuante confiou.

3. Celebrado contrato de locação de imóvel objeto de usufruto, fere a boa-fé objetiva a atitude
da locatária que, após exercer a posse direta do imóvel por mais de dois anos, alega que o
locador, por ser o nú-proprietário do bem, não detém legitimidade para promover a execução
dos aluguéis não adimplidos.

4. Agravo regimental improvido.

(AgRg no AgRg no Ag 610.607/MG, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA
TURMA, julgado em 25/06/2009, DJe 17/08/2009)

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AO ARTIGO 535 DO CPC. NÃO-
OCORRÊNCIA. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE AJUIZADA EM VIRTUDE DE INADIMPLEMENTO
DE CONTRATO DE COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA. IMPOSSIBILIDADE DE DEFERIMENTO DE
ANTECIPAÇÃO DE TUTELA SEM QUE TENHA HAVIDO MANIFESTAÇÃO JUDICIAL ACERCA DA
RESOLUÇÃO DO CONTRATO, AINDA QUE ESTE CONTE COM CLÁUSULA RESOLUTÓRIA EXPRESSA.
PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA.

1. Não há violação ao artigo 535 do CPC quando a Corte de origem aprecia a questão de
maneira fundamentada, apenas não adotando a tese do recorrente.

2. É imprescindível a prévia manifestação judicial na hipótese de rescisão de compromisso de


compra e venda de imóvel para que seja consumada a resolução do contrato, ainda que
existente cláusula resolutória expressa, diante da necessidade de observância do princípio da
boa-fé objetiva a nortear os contratos.

3. Por conseguinte, não há falar-se em antecipação de tutela reintegratória de posse antes de


resolvido o contrato de compromisso de compra e venda, pois somente após a resolução é
que poderá haver posse injusta e será avaliado o alegado esbulho possessório.

4. Recurso provido em parte, para afastar a antecipação de tutela.

18
(REsp 620.787/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
14/04/2009, DJe 27/04/2009, REPDJe 11/05/2009)

DIREITO CIVIL E CONSUMIDOR. SEGURO SAÚDE. CONTRATAÇÃO ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI


9.656/98. DOENÇA PRÉ-EXISTENTE. OMISSÃO IRRELEVANTE. LONGO PERÍODO DE SAÚDE E
ADIMPLEMENTO CONTRATUAL ANTES DA MANIFESTAÇÃO DA DOENÇA.

- As disposições da Lei 9.656/98 só se aplicam aos contratos celebrados a partir de sua


vigência, bem como para os contratos que, celebrados anteriormente, foram adaptados para
seu regime. A Lei 9.656/98 não retroage para atingir o contrato celebrado por segurados que,
no exercício de sua liberdade de escolha, mantiveram seus planos antigos sem qualquer
adaptação.

- O segurado perde direito à indenização, nos termos do art. 766, CC/2002, (art.
1.444/CC1916) se tiver feito declarações inverídicas quando poderia fazê-las verdadeiras e
completas. E isso não se verifica se não tiver ciência de seu real estado de saúde.
Precedentes.

- Excepcionalmente, a omissão do segurado não é relevante quando contrata seguro e


mantém vida regular por vários anos, demonstrando que possuía, ainda, razoável estado de
saúde quando da contratação da apólice.

- Aufere vantagem manifestamente exagerada, de forma abusiva e em contrariedade à boa-fé


objetiva, o segurador que, após longo período recebendo os prêmios devidos pelo segurado,
nega cobertura, sob a alegação de que se trata de doença pré-existente.

Recurso Especial provido.

(REsp 1080973/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em


09/12/2008, DJe 03/02/2009)

DIREITO CIVIL. VIZINHANÇA. CONDOMÍNIO COMERCIAL QUE ADMITE UTILIZAÇÃO MISTA DE SUAS
UNIDADES AUTÔNOMAS. INSTALAÇÃO DE EQUIPAMENTO POR CONDÔMINO QUE CAUSA RUÍDO.
INDENIZAÇÃO DEVIDA. DANO MORAL FIXADO EM QUANTUM RAZOÁVEL.

- O exercício de posições jurídicas encontra-se limitado pela boa-fé objetiva. Assim, o


condômino não pode exercer suas pretensões de forma anormal ou exagerada com a
finalidade de prejudicar seu vizinho. Mais especificamente não se pode impor ao vizinho uma
convenção condominial que jamais foi observada na prática e que se encontra completamente
desconexa da realidade vivenciada no condomínio.

- A 'suppressio', regra que se desdobra do princípio da boa-fé objetiva, reconhece a perda da


eficácia de um direito quando este longamente não é exercido ou observado.

- Não age no exercício regular de direito a sociedade empresária que se estabelece em


edifício cuja destinação mista é aceita, de fato, pela coletividade dos condôminos e pelo

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próprio Condomínio, pretendendo justificar o excesso de ruído por si causado com a imposição
de regra constante da convenção condominial, que impõe o uso exclusivamente comercial,
mas que é letra morta desde sua origem.

- A modificação do quantum fixado a título de compensação por danos morais só deve ser
feita em recurso especial quando aquele seja irrisório ou exagerado.

Recurso especial não conhecido.

(REsp 1096639/DF, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em


09/12/2008, DJe 12/02/2009)

CIVIL. CONDOMÍNIO. É POSSÍVEL A UTILIZAÇÃO, PELOS CONDÔMINOS, EM CARÁTER EXCLUSIVO, DE


PARTE DE ÁREA COMUM, QUANDO AUTORIZADOS POR ASSEMBLÉIA GERAL, NOS TERMOS DO ART.
9º,§ 2º, DA LEI Nº 4.591/64. A DECISÃO DO TRIBUNAL DE ORIGEM, BASEADA NO CONJUNTO
PROBATÓRIO, NÃO PODE SER REEXAMINADA, EM FACE DA SÚMULA 7/STJ.

1. O Tribunal "a quo" decidiu a questão com base nas provas dos autos, por isso a análise do
recurso foge à mera interpretação da Lei de Condomínios, eis que a circunstância fática influi
na solução do litígio. Incidência da Súmula 07/STJ.

2. O alcance da regra do art. 3º, da Lei nº 4.591/64, que em sua parte final dispõe que as
áreas de uso comum são insuscetíveis de utilização exclusiva por qualquer condômino",
esbarra na determinação da própria lei de que a convenção de condomínio deve estabelecer o
"modo de usar as coisas e serviços comuns", art. 3º, § 3º, "c", da mencionada Lei. Obedecido o
quorum prescrito no art. 9º, § 2º da Lei de Condomínio, não há falar em nulidade da
convenção.

3. Consoante precedentes desta Casa: " o princípio da boa-fé objetiva tempera a regra do art.
3º da Lei nº 4.591/64" e recomenda a manutenção das situações consolidadas há vários
anos.(Resp' nº.s 214680/SP e 356.821/RJ, dentre outros).

Recurso especial não conhecido

(REsp 281.290/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
02/10/2008, DJe 13/10/2008)

SISTEMA FINANCEIRO DA HABITAÇÃO. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. FINANCIAMENTO. RELAÇÃO


DE CONSUMO. COMISSÃO DE CONCESSÃO DE CRÉDITO. INCIDÊNCIA MENSAL QUE VIOLA A BOA-FÉ
OBJETIVA.

- A comissão de concessão de crédito, cobrada pela instituição financeira para fornecer crédito
ao mutuário, incide apenas uma vez, no início do contrato. Qualquer outra cobrança do
referido encargo é ilícita. A cobrança mensal do referido encargo viola preceitos de boa-fé
objetiva, razão pela qual não deve ser admitida.

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Recurso Especial provido.

(REsp 908.835/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 27/05/2008,
DJe 20/06/2008)

DIREITO CIVIL E CONSUMIDOR. SEGURO SAÚDE. CONTRATAÇÃO ANTERIOR À VIGÊNCIA DO CDC E À


LEI 9.656/98. EXISTÊNCIA DE TRATO SUCESSIVO. INCIDÊNCIA DO CDC, MAS NÃO DA LEI
9.656/98. BOA-FÉ OBJETIVA. PRÓTESE NECESSÁRIA À CIRURGIA DE ANGIOPLASTIA. ILEGALIDADE
DA EXCLUSÃO DE “STENTS” DA COBERTURA SECURITÁRIA. DANO MORAL CONFIGURADO. DEVER
DE REPARAR OS DANOS MATERIAIS.

- As disposições da Lei 9.656/98 só se aplicam aos contratos celebrados a partir de sua


vigência, bem como para os contratos que, celebrados anteriormente, foram adaptados para
seu regime. A Lei 9.656/98 não retroage, entretanto, para atingir o contrato celebrado por
segurados que, no exercício de sua liberdade de escolha, mantiveram seus planos antigos sem
qualquer adaptação.

- Embora o CDC não retroaja para alcançar efeitos presentes e futuros de contratos celebrados
anteriormente a sua vigência, a legislação consumerista regula os efeitos presentes de
contratos de trato sucessivo e que, por isso, foram renovados já no período de sua vigência.

- Dada a natureza de trato sucessivo do contrato de seguro saúde, o CDC rege as renovações
que se deram sob sua vigência, não havendo que se falar aí em retroação da lei nova.

- A cláusula geral de boa-fé objetiva, implícita em nosso ordenamento antes da vigência do


CDC e do CC/2002, mas explicitada a partir desses marcos legislativos, impõe deveres de
conduta leal aos contratantes e funciona como um limite ao exercício abusivo de direitos.

- O direito subjetivo assegurado em contrato não pode ser exercido de forma a subtrair do
negócio sua finalidade precípua. Assim, se determinado procedimento cirúrgico está incluído
na cobertura securitária, não é legítimo exigir que o segurado se submeta a ele, mas não
instale as próteses necessárias para a plena recuperação de sua saúde.

- É abusiva a cláusula contratual que exclui de cobertura a colocação de “stent”, quando este é
necessário ao bom êxito do procedimento cirúrgico coberto pelo plano de saúde. Precedentes.

- Conquanto geralmente nos contratos o mero inadimplemento não seja causa para ocorrência
de danos morais, a jurisprudência desta Corte vem reconhecendo o direito ao ressarcimento
dos danos morais advindos da injusta recusa de cobertura de seguro saúde, pois tal fato
agrava a situação de aflição psicológica e de angústia no espírito do segurado, uma vez que,
ao pedir a autorização da seguradora, já se encontra em condição de dor, de abalo psicológico
e com a saúde debilitada.

Recurso especial a que se dá parcial provimento.

(REsp 735.168/RJ, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 11.03.2008,
DJ 26.03.2008 p. 1)

21
AGRAVO REGIMENTAL. COMPRA E VENDA. SOJA. PREÇO FIXO. ENTREGA FUTURA. ONEROSIDADE
EXCESSIVA. BOA-FÉ OBJETIVA.

- "Nos contratos agrícolas de venda para entrega futura, o risco é inerente ao negócio. Nele
não se cogita em imprevisão" (REsp 783.520/HUMBERTO).

(AgRg no REsp 884.066/GO, Rel. Ministro HUMBERTO GOMES DE BARROS, TERCEIRA TURMA,
julgado em 06.12.2007, DJ 18.12.2007 p. 270)

DIREITO CIVIL E AGRÁRIO. COMPRA E VENDA DE SAFRA FUTURA A PREÇO CERTO. ALTERAÇÃO DO
VALOR DO PRODUTO NO MERCADO. CIRCUNSTÂNCIA PREVISÍVEL. ONEROSIDADE EXCESSIVA.
INEXISTÊNCIA. VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO, BOA-FÉ OBJETIVA E
PROBIDADE. INEXISTÊNCIA.

- A compra e venda de safra futura, a preço certo, obriga as partes se o fato que alterou o
valor do produto agrícola não era imprevisível.

- Na hipótese afigura-se impossível admitir onerosidade excessiva, inclusive porque a alta do


dólar em virtude das eleições presidenciais e da iminência de guerra no Oriente Médio –
motivos alegados pelo recorrido para sustentar a ocorrência de acontecimento extraordinário –
porque são circunstâncias previsíveis, que podem ser levadas em consideração quando se
contrata a venda para entrega futura com preço certo.

- O fato do comprador obter maior margem de lucro na revenda, decorrente da majoração do


preço do produto no mercado após a celebração do negócio, não indica a existência de má-fé,
improbidade ou tentativa de desvio da função social do contrato.

- A função social infligida ao contrato não pode desconsiderar seu papel primário e natural,
que é o econômico. Ao assegurar a venda de sua colheita futura, é de se esperar que o
produtor inclua nos seus cálculos todos os custos em que poderá incorrer, tanto os decorrentes
dos próprios termos do contrato, como aqueles derivados das condições da lavoura.

- A boa-fé objetiva se apresenta como uma exigência de lealdade, modelo objetivo de


conduta, arquétipo social pelo qual impõe o poder-dever de que cada pessoa ajuste a própria
conduta a esse modelo, agindo como agiria uma pessoa honesta, escorreita e leal.

Não tendo o comprador agido de forma contrária a tais princípios, não há como inquinar seu
comportamento de violador da boa-fé objetiva.

Recurso especial conhecido e provido.

(REsp 803.481/GO, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 28.06.2007,
DJ 01.08.2007 p. 462)

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DIREITO CIVIL E AGRÁRIO. COMPRA E VENDA DE SAFRA FUTURA A PREÇO CERTO. ALTERAÇÃO DO
VALOR DO PRODUTO NO MERCADO. CIRCUNSTÂNCIA PREVISÍVEL. ONEROSIDADE EXCESSIVA.
INEXISTÊNCIA. VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO, BOA-FÉ OBJETIVA E
PROBIDADE. INEXISTÊNCIA. CLÁUSULAS ACESSÓRIAS ABUSIVAS.

IRRELEVÂNCIA.

- A compra e venda de safra futura, a preço certo, obriga as partes se o fato que alterou o
valor do produto agrícola não era imprevisível.

- Na hipótese afigura-se impossível admitir onerosidade excessiva, inclusive porque chuvas e


pragas – motivos alegados pelo recorrido para sustentar a ocorrência de acontecimento
extraordinário – são circunstâncias previsíveis na agricultura, que o produtor deve levar em
consideração quando contrata a venda para entrega futura com preço certo.

- O fato do comprador obter maior margem de lucro na revenda, decorrente da majoração do


preço do produto no mercado após a celebração do negócio, não indica a existência de má-fé,
improbidade ou tentativa de desvio da função social do contrato.

- A função social infligida ao contrato não pode desconsiderar seu papel primário e natural,
que é o econômico. Ao assegurar a venda de sua colheita futura, é de se esperar que o
produtor inclua nos seus cálculos todos os custos em que poderá incorrer, tanto os decorrentes
dos próprios termos do contrato, como aqueles derivados das condições da lavoura.

- A boa-fé objetiva se apresenta como uma exigência de lealdade, modelo objetivo de


conduta, arquétipo social pelo qual impõe o poder-dever de que cada pessoa ajuste a própria
conduta a esse modelo, agindo como agiria uma pessoa honesta, escorreita e leal.

Não tendo o comprador agido de forma contrária a tais princípios, não há como inquinar seu
comportamento de violador da boa-fé objetiva.

- Nos termos do art. 184, segunda parte, do CC/02, “a invalidade da obrigação principal
implica a das obrigações acessórias, mas a destas não induz a da obrigação principal”.
Portanto, eventual abusividade de determinadas cláusulas acessórias do contrato não tem
relevância para o deslinde desta ação. Ainda que, em tese, transgridam os princípios da boa-fé
objetiva, da probidade e da função social do contrato ou imponham ônus excessivo ao
recorrido, tais abusos não teriam o condão de contaminar de maneira irremediável o contrato,
de sorte a resolvê-lo.

Recurso especial conhecido e provido.

(REsp 783.404/GO, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 28.06.2007,
DJ 13.08.2007 p. 364)

CIVIL. BEM DE FAMÍLIA. LEI Nº 8.009, DE 1990. A impenhorabilidade resultante do art. 1º da Lei
nº 8.009, de 1990, pode ser objeto de renúncia válida em situações excepcionais; prevalência
do princípio da boa-fé objetiva. Recurso especial não conhecido.

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(REsp 554.622/RS, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, TERCEIRA TURMA, julgado em 17.11.2005,
DJ 01.02.2006 p. 527)

PROMESSA DE COMPRA E VENDA. CONSENTIMENTO DA MULHER. ATOS POSTERIORES. " VENIRE


CONTRA FACTUM PROPRIUM ". BOA-FE. PREPARO.

FERIAS.

1. TENDO A PARTE PROTOCOLADO SEU RECURSO E, DEPOIS DISSO, RECOLHIDO A IMPORTANCIA


RELATIVA AO PREPARO, TUDO NO PERIODO DE FERIAS FORENSES, NÃO SE PODE DIZER QUE
DESCUMPRIU O DISPOSTO NO ARTIGO 511 DO CPC. VOTOS VENCIDOS.

2. A MULHER QUE DEIXA DE ASSINAR O CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA


JUNTAMENTE COM O MARIDO, MAS DEPOIS DISSO, EM JUIZO, EXPRESSAMENTE ADMITE A
EXISTENCIA E VALIDADE DO CONTRATO, FUNDAMENTO PARA A DENUNCIAÇÃO DE OUTRA LIDE, E
NADA IMPUGNA CONTRA A EXECUÇÃO DO CONTRATO DURANTE MAIS DE 17 ANOS, TEMPO EM
QUE OS PROMISSARIOS COMPRADORES EXERCERAM PACIFICAMENTE A POSSE SOBRE O IMOVEL,
NÃO PODE DEPOIS SE OPOR AO PEDIDO DE FORNECIMENTO DE ESCRITURA DEFINITIVA. DOUTRINA
DOS ATOS PROPRIOS. ART. 132 DO CC.

3. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.

(REsp 95.539/SP, Rel. Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR, QUARTA TURMA, julgado em
03.09.1996, DJ 14.10.1996 p. 3901)

7. Bibliografia Básica do Curso e Mensagem

Bibliografia: Novo Curso de Direito Civil – Teoria Geral dos Contratos – vol. IV, tomo 01. Pablo Stolze
Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (Saraiva) (www.saraivajur.com.br ou www.editorajuspodivm.com.br)

Mensagem

“Quando idealizamos um projeto do Bem, que contribua com o nosso crescimento e o da


humanidade, o universo conspira a nosso favor!”.

Um grande abraço, amigos!

Tenham Fé sempre!

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Fiquem com Deus!

O amigo,

Pablo.

Revisado.2010.1ok C.D.S.

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