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APRESENTAÇÃO

Eis um convite autêntico...


. . . à perspicácia, ao crescimento, ao encon­
tro da identidade própria.. . e à própria vida!
Este livro apresenta uma perspectiva com­
pletamente diferente com relação aos pro­
blemas fundamentais de homens e mulheres
de todas as convicções religiosas.
A Arte de Compreender-se a Si mesmo tem
uma mensagem universal porque trata de
elementos humanos universais:
ansiedade
culpa
frustração
amor
necessidade de melhor relacionamento.
O livro deixa bem claro que há ALGUÉM que
nos ouve, compreende e perdoa. Quando o
indivíduo crê, abre o caminho para a plena
realização de sua personalidade através da
fé, e para uma nova e mais rica compreensão
do seu próprio ser e dos outros.

Departamento de Publicações Gerais


SUMÁRIO

Apresentação ................................................ 5

1. Seu Ser Solitário ................................. 9

2. União Redentora ................................ 31

3. Ansiedade ............................................ 51

4. A Cura da Ansiedade ...................... 75


5. Alcançamos o Que Realmente Dese­
jamos ............................................ 93

6. Confissão ............................................ 111

7. A Culpa e o Castigo ...................... 143

8. Culpa e P e rd ã o .................................... 163

9. A Guerra entre os S e x o s ................... 189

10. Levando Avante LutasJá Vencidas 221

11. A Sua Auto-lmagem ......................... 237

12. Que Acontece num Grupo? ........... 253

13. A Cura nos Grupos ........................... 281

14. Amor ..................................................... 309

Citações Documentadas .............................. 339

índice ............................................................. 345


]

SEU SER SOLITÁRIO

Se você quiser ser infeliz, deve pensar em si mes­


mo, no que você deseja, no que você gosta, em qual
o respeito que os outros lhe devem dar, e então para
você nada será puro. Você estragará tudo que tocar;
você fará pecado e miséria com tudo que Deus lhe
enviar. Você pode ser tão desgraçado quanto esco­
lher. — Charles Kingsley

Talvez você nunca pensou qus é solitário.


Você pode ter amigos, interesses vários e nume­
rosas atividades que ocupam seu tempo e pen­
samento. Mas a verdade é que ninguém co­
nhece você realmente. Um amigo pode saber
algumas coisas acerca de você, e pode ter
consciência de algum dos desejos secretos do
seu coração, mas ninguém jamais sentiu preci­
samente o que você sente, e, portanto, ninguém
pode conhecê-lo inteiramente.
Você sente que ninguém o ouve realmente.
Enquanto você está tentando compartilhar al­
guns dos seus sentimentos mais profundos,
você tem a sensação de que a pessoa a quem
você se dirige está esperando com impaciência
mal contida para dizer: “Sim, e isto me faz
lembrar de algo que me aconteceu outro dia.”
Há outra razão por que não somos realmente
conhecidos por ninguém mais. A razão disto,

9
como aponta Pau! Tournier, é que cada um de
nós está num estado de tensão entre a neces­
sidade de nos revelarmos e a necessidade de nos
encobrirmos. Temos o impulso de compartilhar
iossos sentimentos verdadeiros, mas tememos
nos tornar vulneráveis e sermos rejeitados ou
criticados. E, como resultado disto, nos limita­
mos às observações banais acerca da superfi­
cialidade da vida:
"Que coisa! Como o tempo tem mudado
ultimamente!” ou fazemos outro comentário
qualquer, igualmente banal. "Cada um de nós
faz o melhor que pode para se esconder atrás
de um escudo”, diz Paul Tournier, no livro The
Meaning of Persons. i (O Significado das Pes­
soas). "Para uns pode ser um silêncio miste­
rioso que se constitui seu retiro impenetrável.
Para outros é a conversinha fácil, que nunca
permite que nos aproximemos deles, ou às
vezes ó a erudição, citações, abstrações, teo­
ria s ... trivialidades”.
Quem é que nos ouve no universo inteiro? Nosso
amigo ou professor, pai ou mãe, irmã ou vizinho,
filho, rei ou servo? Escutam-nos, nosso advogado,
ou nossos esposos e esposas, aqueles que são mais
caros a nós? Ouvem-nos as estrelas, quando nos vol­
tamos, desesperadamente, para longe do homem, ou
os grandes ventos, ou os mares ou as montanhas?
A quem pode o homem dizer — Eis-me aqui! Con­
templa-me em minha nudez, com minhas feridas,
meu mal secreto, meu desespero, minha traição, mi­
nha dor, minha língua, que é incapaz de expressar
meu pesar, meu terror, meu abandono?
Ouça por um dia, uma hora! Um momento!
Silêncio solitário! ó Deus, não há alguém que
escuta?
Não há alguém que escuta? — você pergunta.
Ah! sim.
Há um que ouve, que sempre ouvirá!
Apressa-te a ele, meu amigo! Ele espera na
montanha por você.
Sêneca

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Sim, há Um que ouve, e muitos têm apren­
dido a derramar suas almas diante de Deus
em oração sincera e satisfatória. Mas milhões
de outros — talvez a grande maioria — não
têm certeza de que Ele ouve realmente, e assim
não procuram o ouvido daquele que ouve.
Ele responde verbalmente, não há resposta
simpática e imediata, e eles, afinal de contas,
duvidam que haja de fato alguém que ouça.
Taylor Caldwell, em The Ustener (“O
Ouvinte”), diz:
O homem não precisa ir ã lua ou a outros sis­
temas solares. Ele não necessita de maiores e me­
lhores bombas e misseis. Ele não morrerá se não con­
seguir melhor habitação ou mais vitaminas... Suas
necessidades básicss são poucas, e custa pouco sa­
tisfazê-las, a despeito dos propagandlstas. Ele pode
sobreviver com uma pequena quantia de pão e no
abrigo mais deplorável...
Sua necessidade real, sua mais terrível necessi­
dade, é alguém que o ouça, não como um paciente,
mas como alma humana...
Nossos pastores ouviriam — se nós lhes désse­
mos o tempo para eles nos ouvirem, mas nós os so­
brecarregamos com as tarefas que deviam ser nossas.
Nós exigimos que eles não somente sejam nossos
pastores, mas que carreguem nossas trivialldades,
nossas aspirações sociais, a “graça” de nosso filhos,
em suas costas afadigadas. Exigimos que eles sejam
peritos negociantes, políticos, contadores, colegas de
jogo, diretores da comunidade, “bons amigos", jui­
zes, advogados e apaziguadores de brigas locais. Da­
mos a eles pouco tempo para ouvir, e nós tampouco
os ouvimos.. . 2

Este livro é, em parte, a estória de gente,


constituída a princípio de um pequeno grupo,
mas que agora chega aos milhares, que apren­
deu a ouvir; a estória da cura da mente, do
espírito, do corpo e a circunstância em que foi
alcançada, porque estas pessoas aprenderam
a partilhar mais profundamente as suas expe-

11
riências e, no processo, descobriram que o
amor de Deus é mediado através de pessoas;
é a estória de pessoas que chegaram a conhe­
cer a Deus, a si mesmas e aos outros de um
modo mais satisfatório do que jamais tinham
pensado ser possível.

Joe Dandini * era um homem muito soli­


tário. Ele apareceu em meu estúdio uma tarde.
Eu nunca o havia visto antes. Era um homem
de grande estatura, cordial, extrovertido, que
exalava amizada pelos poros. — Olhe — disse
ele — eu nem sei bem por que estou aqui. Eu
sou católico romano, entende? Mas eu tenho
problemas, tenho-os há muito tempo. Bem, há
uma mulher que mora nesta rua. Ela era uma
pessoa muito confusa, mas de repente se endi­
reitou, e a mudança é tão notável que eu resolvi
descobrir como foi que isto aconteceu. Fiquei
sabendo que ela assistiu com um grupo aqui
na sua igreja. É tudo o que sei. Preciso de
ajuda de alguma forma. Talvez eu precise do
que ela tem. Já fui a psiquiatras, médicos, psi­
cólogos, e não melhorei em nada. Corro aos
médicos com todos os tipos de sintomas, mas
o que eles me dizem é que são meus nervos.
Eu acho que eles querem dizer que são mi­
nhas emoções. Dizem que nada há de errado
fisicamente comigo, mas eu me sinto terrivel­
mente mal a maior parte do tempo.

Além disto, eu tenho dificuldade de per­


manecer num emprego. Minha muiher é quem
realmente está sustentando a família. Eu não
me sinto bem com isso, mas nem bem arranjo

• Este nome, assim como outros usados através


desta obra, em casos típicos, são fictícios, embo­
ra as estórias sejam verdadeiras ou reais.

12
um emprego e já o perco. Brigo com o patrão
ou, se estou indo bem, por algum motivo, ar­
ranjo uma briga com um empregado, e pronto!
Sou despedido de novo. Não consigo ficar num
emprego por mais que alguns meses. Não sei
qual é o meu problema. Será que esses gru­
pos, sejam lá o que forem, podem ajudar um
cara como eu?
— Um grupo desses com o tempo pode­
ría ajudá-lo — respondi — se você trabalhar
com ele. O grupo oferece a oportunidade. O
resto depende de você. Os resultados depen­
dem de sua honestidade para consigo mesmo e
de quão profundamente você estiver motivado.
— O que acontece nessas reuniões de
grupo? — Joe perguntou.
— É difícil de descrever. Você terá que
experimentar por si mesmo. Mas uma coisa é
importante — sua esposa deve assistir tam­
bém. Muitas vezes ajuda se ambos, marido e
mulher, assistirem juntos,
— Ela não viria — disse Joe enfaticamen­
te. — Eu gastei dinheiro demais com psiquia­
tras e médicos, no esforço de conseguir ajuda,
e agora eia não quer saber de nada com esta
espécie de coisa. Além disso, eu não sei como
ela se sentiría vindo a uma reunião numa igreja
protestante.
Sugeri-lhe que a convidasse, de qualquer
modo, e insistisse para que ela assistisse pelo
menos por um mês. E na primeira reunião Joe
trouxe mesmo sua esposa, uma pessoa agra­
dável e tranqüilamente eficaz. Joe nos declarou
durante a reunião: “Fui para casa e disse a
ela que eu ia me juntar a um grupo lá na Igreja
Batista de Burlingame. E acrescentei: Falei
pra eles que você não assistiría. Ela respondeu:

13
r

"Lá vem você, tomando decisões por mim ou­


tra vez. Claro que vou!”
Não houve nenhuma solução milagrosa ou
repentina para o problema de Joe. Ele com­
partilhou seus profundos sentimentos de rejei­
ção quando menino, o medo que sentia para
com seu pai autoritário, que era policial. Quan­
do tomamos conhecimento de tudo sobre sua
infância, entendemos por que ele reagia da­
quele modo. Seu progresso foi lento, mas fir­
me. Não há método conhecido pelo qual uma
estrutura emocional imatura possa ser mudada
da noite para o dia. Entretanto, dentro de um
ano Joe estava trabalhando de novo para um
homem que o havia despedido. Ele permaneceu
no emprego desta vez e começou a sentir au­
to-afirmação pela primeira vez na vida. Depois
de dois anos ele foi promovido a auxiliar de ge­
rente. Isto não significa que seu crescimento
emocional e espiritual estava completo. Cres­
cimento espiritual é um processo contínuo.
Mas a experiência de grupo que Joe teve re­
sultou em dividendos concretos, que incluíam
a habilidade de ganhar a vida, um novo sentido
de auto-respeito, melhor comunicação com sua
família e uma profissão de fé que a família toda
fez quando pediram para serem membros da
igreja. Joe, esposa e filha devotam agora uma
grande parte de seu tempo em atividades cris­
tãs.
A solidão de Joe, sua auto-rejeição e o
sentimento de fracasso; sua alienação de Deus,
de si mesmo e do próximo eram, em parte, o
resultado de forças ambientais. Pode-se tam­
bém dizer que foi o pecado que produziu as
dificuldades dele. Pecado era a soma total
das forças que faziam com que ele tivesse uma
personalidade distorcida. O pecado estava por

14
detrás dos fatores que fizeram seu pai austero
e autoritário, o que o tornava incapaz de se
comunicar com o filho. Pecado, no caso de Joe,
era uma combinação de forças sociais, psicoló­
gicas e espirituais que o deixavam incompleto,
incapaz de funcionar adequadamente como
pessoa, pai e marido. A resposta para Joe foi o
amor de Cristo mediado por um grupo de pes­
soas que genuinamente se intessaram por ele.
No seu grupo, Joe e sua esposa vieram a sen­
tir-se amados e aceitos. O grupo era a igreja
em ação, a família de Deus, através da qual o
amor pode ser canalizado para abençoar, curar
e orientar.
É extremamente ingênuo pensar-se do
pecado simplesmente como um ato isolado,
uma mentira, um roubo, imoralidade, desones­
tidade — porque pecado é tudo aquilo que fica
aquém da perfeição, é rejeição de Deus —
“destituir-se” da perfeição que Deus nos pre­
parou. Pecado é ser distorcido, e não sim­
plesmente o praticar um ato mau. É ter relação
e atitudes distorcidas. É ser menos que a in­
tegridade. é ter motivos confusos. Pecado é a
racionalização inteligente pela qual procuramos
escapar de nos encontrarmos conosco mesmos.
Ele pode consistir de um punhado de “obriga­
ções” moralísticas e rígidas, em vez de obe­
diência ao Espírito de Deus, que habita em nós,
em agir somente em resposta a códigos lega­
listas {e sentir-se virtuoso em assim fazer), em
vez de aprender a agir espontaneamente em
resposta ao impulso divino.
Muitos membros de grupo se tornam ca­
pazes de deixar de lado seu conceito limitado
e infantil de pecado como alguma coisa confi­
nada a “atos maus” ou “pensamentos maus” e
descobrir que pecado é o que nós somos,

15
r

cheios de faltas, distorcidos, não tendo sufi­


ciente maturidade espiritual. Eles descobrem
uma nova qualidade de amor, porque, onde o
repartir acontece num ambiente apropriado, as
relações de amor geralmente se seguem. Eles
aprendem a orar por uma outra pessoa diaria­
mente e com interesse sincero. Para muitos,
as pessoas dos seus grupos tornam-se sua fa­
mília, como alguns já o expressaram, porque
eles frequentemente sentem laços mais ache-
gados a eles do que os de seus parentes car­
nais.
A idéia de grupo pequeno é uma das for­
ças espirituais mais dinâmicas do século vinte.
Desde a Segunda Guerra Mundial temos redes-
coberto seu tremendo poder. Sob vários no­
mes, pequenos grupos são formados com gran­
de rapidez em igrejas de muitas denominações.
Homens e mulheres estão descobrindo que os
serviços e atividades rotineiras da igreja local
não trazem motivação suficiente para um cres­
cimento espiritual significativo.
Uma hora por semana gasta na igreja nun­
ca teve o objetivo de providenciar respostas
para as nossas necessidades espirituais mais
profundas. A igreja do primeiro século indubi­
tavelmente consistia de grupos pequenos, além
das reuniões semanais para adoração e ins­
trução .
Muitos, erroneamente, assumem que o
cristianismo se preocupa somente com a ver­
dade "bíblica” {que definem estreitamente), e
que as verdades psicológicas de alguma forma
não têm nada a ver com assuntos espi­
rituais. Eles esquecem, naturalmente, que toda
verdade é divina em sua origem, quer seja uma
lei científica, um principio filosófico ou uma
verdade bíblica. A teologia em geral lida com

16
a natureza de Deus e Sua vontade para com o
homem. A psicologia trata do homem e sua
natureza interior. Precisamos conhecer a Deus.
Precisamos conhecer tudo o que podemos
acerca de Deus, a fonte de nosso ser, e tudo o
que for possível acerca do homem, criado à
imagem divina.
Portanto, através de todo o livro não faço
distinção entre verdade sagrada e secular, por­
que todo aspecto da vida é sagrado. O homem,
criado à imagem de Deus, é sagrado; e seu
corpo físico, nos diz a Bíblia, é o templo do
Espírito Santo. O mesmo Deus que criou o
homem projetou o universo com intenção san­
ta. Cada árvore e cada folha de grama, cada
átomo e molécula, todo fragmento de verdade
é sagrado. Cada lei cientificamente descoberta
pelo homem originou-se em Deus, e é sagrada.
Não há distinção entre “sagrado” e “profano” ,
“santo” e “comum” .
A ordem de Deus a Moisés no Monte Sinai
— “Tira as sandálias, porque o lugar onde
pisas, é terra santa” 3 — não significava que só
aquele determinado pedaço de terra sobre o
qual Moisés estava era santo. A implicação é
que Moisés tinha procurado encontrar Deus em
algum lugar “sagrado” especial. Deus estava
dizendo a ele que, onde quer que ele se encon­
trasse, ali era um lugar santo, e Deus o podia
encontrar lá.
Muitos têm a tendência de pensar que o
trabalho de um ministro é um tanto sagrado
porque ele deve estar interessado principal­
mente em assuntos espirituais, enquanto de um
médico, que trata de corpos físicos, raramente
se diz que está engajado num trabalho santo.
Toda pessoa, qualquer que seja sua vocação,
pode ter o sentimento de realizar uma missão

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divina, se ela estiver cônscia do amoroso in­
teresse de Deus por todos os aspectos da vida.
Jesus não fez distinções artificiais entre
sagrado e profano. Ele tratou de cada aspecto
das vidas dos homens e assim santificou a
vida toda. Ele curou seus corpos e fez da cura
uma função sagrada para sempre. Ele falou
da natureza de Deus e das relações cotidianas
entre os homens ao mesmo tempo. No Sermão
do Monte, ele ensinou princípios espirituais,
filosóficos, psicológicos e sociológicos; discu­
tiu processos, oração, divórcio, ansiedade,
amor, perdão, reconciliação, raiva, e um pu­
nhado de outras coisas que pertenciam à vida
de cada dia. Jesus estava interessado em todas
as coisas concernentes aos homens, e seu inte­
resse amoroso nos diz que esta é a natureza
de Deus — que ele está interessado em cada
detalhe de nossas vidas. Com Deus não há
categorias, tais como ciência e religião, o sa­
grado e o profano
No livro de Marc Connely, The Green
Pastures (Os Pastos Verdejantes), quando “o
Senhor * se prepara para deixar o Céu e descer
à terra para ver como seus filhos estão pas­
sando, ele dá algumas instruções finais a Ga­
briel: “Gabriel, não te esqueças daquela estre­
la que não tem funcionado direito. Toma conta
disto.” Gabriel concorda. “E, Gabriel, lembras-
-te daquele pequeno pardal de asa quebrada?
Toma conta disto também, sim?” Neste drama
deleitoso o autor muito corretamente retrata
Deus como estando igualmente interessado no
cosmos e nos pardaís. Aquele que já compre­
endeu a bela harmonia que existe em toda a
natureza, que já teve um vislumbre da unidade

* No original, “o Sinhô”.

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peculiar do universo todo, e sentiu que Deus
está em nós e nós nele, e que todas as coisas
om nosso universo são uma parte de Deus —
esse nunca mais poderá fazer distinção entre
sagrado e profano. Porque “toda a Terra está
cheia da glória de Deus", e todas as coisas nele
são santas, exceto quando tocadas pelo pe­
cado e despojadas de sua perfeição divina.
Os místicos, que adentraram o véu da cons­
ciência humana e tiveram um vislumbre do in­
finito, confirmam que há uma unidade em todas
a3 coisas muito além do poder de compreensão
da mente humana no seu estado comum. Mui­
tos que têm explorado algumas drogas que ex­
pandem o consciente, tais como LSD-25, em­
bora suas experiências variem largamente em
muitos aspectos, relatam uma percepção mís­
tica: a lucidez repentina, mais sentida que
percebida pela mente, de que o universo 6 um
de um modo impossível de ser descrito por
palavras. Todos eles contam de eles mesmos
experimentarem ser uma parte do todo, de ser
um só com Deus e a natureza, e ainda assim
estarem separados e serem autônomos.
Muita gente tem descoberto, em graus va­
riados, que para o cristão não há linha divisó­
ria entre religião e vida, que toda vida é sa­
grada, e que o cristianismo deve ser aplicado a
todos as aspectos da vida. Jesus nunca usou
a palavra "religião” (que aparece somente duas
vezes no Novo Testamento). Parece que ele
nunca pensou na relação da pessoa com Deus
como se ela envolvesse "um dever religioso”
ou mesmo um ato religioso no sentido em que
muita gente usa tais termos. Ele não separou a
vida em sagrada e profana. Os cristãos eram
chamados de "os seguidores do caminho,” e
Cristo era Aquele que ensinou o Caminho, que

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era ele mesmo o caminho, o caminho para
viver, e ter vida abundante e eterna.
Se pudéssemos ver de uma vez por todas
que o cristianismo é um modo de vida, não só
para o domingo e emergências, e não só
um conjunto de princípios morais; se pudésse­
mos nos despojar da crença de que Deus se in­
teressa principalmente em que sejamos bons,
teremos dado um grande passo para frente.
Deus não está interessado só na necessidade
de seus filhos serem decentes, morais e hones­
tos, embora sejam desejáveis esses traços. Ele
está interessado, Jesus ensinou, em que nossas
vidas sejam ricas, cheias e criativas; em que
descubramos nosso potencial mais alto; em que
tenhamos amor, alegria, paz, felicidade, uma
vida abundante, a vida eterna. Jesus falou dis­
to tudo várias vezes durante seu ministério.
No Evangelho de João, por exemplo, estão re­
gistradas estas palavras
“Um novo mandamento vos dou, que vos
ameis uns aos outros como eu vos am ei.’’
"Pedi, e recebereis, para que a vossa ale­
gria seja completa."
"Minha paz vos dou. . . ”
"Se sabeis estas coisas, felizes sereis se
as cumprirdes.”
“Eu vim para que tenhais vida, e a tenhais
em abundância.”
"E esta é a vida eterna, que eles te conhe­
cem a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus
Cristo, a quem enviaste."
Ele ofereceu isto e muito mais. A maioria
de nós se contentaria com uma ou duas destas
seis grandes bênçãos que ele ofereceu aos
seus seguidores. Ao fazer do cristianismo ou­
tra religião em vez de o Caminho da Vida, per­
demos o centro da mensagem dEie.

20
Parece que falta alguma coisa na igreja
orunnlzada de hoje, algo que estava muito em
ovldôncia entre os cristãos do Novo Testamen­
to A Igreja Cristã é a maior força do bem que
tninos na terra, e, embora fraca, não deve ser
douucreditada. Mas nós, que amamos a Igreja,
podemos avaliar suas fraquezas. Pois são, na
realidade, as nossas próprias fraquezas.
Na igreja média, dez por-cento dos mem­
bros faz noventa por-cento do trabalho. Trin­
ta por-cento sustenta noventa por-cento do
orçamento. Quarenta por-cento assiste à igre­
ja aos domingos de manhã. Isto está muito
aquém da Igreja Vitoriosa.
O amor entre os membros de uma igreja
média é pouco maior do que entre os rotaria-
nos ou Kiwanos. De fato, há uma espécie de
comunhão mais aberta entre membros de clu­
bes de serviço do que a que é encontrada em
algumas igrejas, Na igreja média de cem ou
mil membros, a maioria deles não conhece uns
aos outros, a não ser de uma maneira muito
casual. Não podemos amar as pessoas sem
antes as conhecermos, e é impossível conhecer
cem ou mil pessoas, a não ser em um nível
muito superficial. Mesmo assim o amor é que
devia ser o distintivo do cristão. “Nisto conhe­
cerão todos que sois meus discípulos, se vos
amardes uns aos outros.”
Elizabeth O’ Connor reconta uma experi­
ência de Gordon e Mary Cosby. Gordon é pas­
tor duma igreja mais conhecida como Igreja
do Salvador em Washington, D. C. Ele tinha
pregado numa igreja onde a atmosfera não
era nada vibrante. Conforme nos conta Miss
O’ Conner:
Gordon disse: “Enquanto eu olhava para aque­
las figuras de granito, tive que reprimir o impulso

21
de rasgar minhas vestes e sair da igreja para den­
tro da noite, onde o ar fosse límpido e eu pudesse
me sentir purificado. Eles tinham-se juntado, como
tudo indicava, para comemorar uma data significa­
tiva da igreja, mas a única evidência de vida era o
tilintar de moedas caindo na bandeja de ofertas.”
Quando o culto terminou, naquela noite, ele e
Mary foram de carro bem longe. Finalmente para­
ram num pequeno hotel, onde o último quarto vago
ficava acima de uma taverna. Vozes barulhentas e
melodias alegres de vitrola entravam em seu quarto
e não os deixavam dormir. Refletindo sobre os sons
que vinham de baixo e a igreja de que haviam saído,
Gordon ponderou: “ Compreendí que havia mais ca­
lor e comunhão naquela taverna do que na igreja.
Se Jesus de Nazaré tivesse que fazer sua escolha, ele
pessoalmente teria ido à taverna, e não à igreja que
visitamos.”
No dia seguinte eles tomaram o café da manhã
num bar do outro lado da rua do hotel. As pessoas
que entravam e saiam cumprimentavam umas às
outras, liam seus jornais e comentavam sobre as no­
ticias do dia. ‘‘Pensamos outra vez” , disse Gordon,
“ que Cristo se sentiria muito mais em casa no bar."»

Muitos membros de igreja, se pensas­


sem seriamente, teriam que admitir que eles
estão solitários e que não se sentem parti­
cularmente amados por um número apreciável
de pessoas na igreja. Ninguém tem culpa;
acontece que a igreja simplesmente se tornou
gradativamente uma instituição, em vez de
uma comunhão amorosa. Mas não é impossível
mudar isto. Nos últimos anos esta situação tem
sido mudada para milhares de pessoas.
Quando uma pessoa visita uma igreja pela
primeira vez, ela participa dum culto de ado­
ração, e o que é dito no sermão pode ou não
ser aplicado às suas necessidades particula­
res. Ela pode ser cumprimentada e convidada
a voltar, mas nada além disso, nada de impor­
tância real ocorre para levá-la a acreditar que
aquele é um grupo de pessoas que tem pro-
lundo interesse por ela. As manifestações de
■imor são geralmente limitadas a uma saudação
imistosa, e a gente pode conseguir isto quase
que em toda parte.
Em certa época, se alguém tivesse per­
guntado a Margarida qual era seu problema, ela
teria dito: “Todo o problema é o meu marido.
Ele é alcoólatra." Não me lembro da primeira
vez que ela apareceu na igreja ou o que a le­
vou a vir ver-me. Ela revelou parte de sua ne­
cessidade e disse-me que estivera consultando
um psiquiatra. Como resultado do seu aconse­
lhamento ela veio a compreender que nem
tudo era falta de seu marido. É verdade que
ele bebia em excesso è as dificuldades resul­
tantes eram suficientes para causar depressão
a qualquer pessoa. Mas Margarida tinha enca­
pado o fato de que no íntimo ela era o que
o psiquiatra chamava de “coieoionadora de
njustiças”. Mesmo quando as coisas iam ra-
.oavelmente bem em casa, ela sempre encon-
rava razão para reclamar e aborrecer seu ma-
ido, e por causa disso ele bebia até ficar em­
briagado. Ela era uma masoquista psíquica,
com uma necessidade profunda, mas inconsci­
ente, de ser punida. Inteiramente inconsciente
do que fazia, ou da razão de fazê-lo, ela
conseguia sentir-se ferida em seus sentimen­
tos ou inventar maneiras pelas quais podia ser
rejeitada. Acabou vendo, pelo menos intelectu­
almente, que era ela que estava trazendo a
maioria de seu sofrimento sobre si mesma.
Na sessão de aconselhamento com ela eu
limitei-me a ouvir, e no final da nossa conversa
sugeri que ela participasse de uma de nossas
sessões de grupo. Ela fora membro de igreja
por vários anos, e gradativamente revelou as
recordações de sua infância. Seu pai tinha sido

23
uma pessoa de moral elevada, rígido e autori­
tário. Ela nunca fora capaz de se relacionar
com ele, ou de sentir a mínima afeição por ele.
De fato, todo sentimento de que ela tinha cons­
ciência era de hostilidade e rejeição, emoções
que havia parcialmente escondido. Ela sempre
se sentiu vagamente culpada quando criança,
em parte por causa dos padrões de conduta
não alcançáveis que lhe foram impostos, em
parte porque se sentia rejeitada. A criança
rejeitada sempre se sente culpada. Embora
uma criança não ordene seu pensamento desta
forma, o sentimento resultante é: “Sou rejei­
tada, e não amada. Se eu fosse uma criança
boa’, eles me amariam. Não sou amada por­
que devo ser m á." O resultado é um senti­
mento profundo de culpa e inutilidade. A cri­
ança simplesmente não se sente digna de ser
amada. Por razões tais, Margaret “mergulhou
nos sentimentos de autocompaixão e auto-re-
jeição”, como ela mesma o disse. Mas, saben­
do da rejeição por ela experimentada em sua
infância, a gente só podia sentir compreensão
e compaixão, particularmente porque ela esta­
va fazendo um esforço heróico para se tornar
um adulto maduro.
A transformação de Margaret foi tão no­
tável que seu irmão decidiu juntar-se ao grupo.
Na primeira sessão, Jeff, uma pessoa agradá­
vel e amistosa, contou sua estória. Ele tinha
gasto cerca de Cr$ 210.000,00 com psiquiatras,
sabia tudo o que estava errado consigo mesmo
e jorrava termos psiquiátricos à menor provo­
cação. Ele estava sofrendo de uma “paralisia
de análise” . Contou que depois de ter passado
por nove anos de tratamento psiquiátrico Freu­
diano, ainda era uma pessoa muito confusa.
Sua esposa uma vez lhe dissera pessoalmente:

24
"Jeff, por que você não faz um seguro bem
grande e dá cabo de si, a seguir, com um tiro?"
i le contou isto sem nenhum rancor, e acres­
centou: "Na realidade, ela tinha dado uma
boa sugestão. Eu não prestava nem pra mim
mesmo nem para minha fam ília.”
Seis meses mais tarde, Jeff havia feito
progresso significativo, tanto assim que disse:
"Tenho feito mais progresso espiritual e emo­
cional nestes seis meses do que em nove anos
de tratamento psiquiátrico. Aprendi a orar e
me relacionar com Deus como um Pai Celes­
tial amoroso, e me comunico com ele frequen­
temente durante o dia.” Seu progresso continua
e ele está descobrindo que não há limite para
o crescimento espiritual.
Ao relatar a experiência de Jeff, não tenho
nenhuma intenção de prejudicar os psiquia­
tras. Muitos que descobriram que a psiquia­
tria não os ajudaria também assistiram em
igrejas por muitos anos sem serem capazes de
resolver seus problemas pessoais.
Nem todos os que participam dessas ses­
sões de grupo têm dificuldades pessoais sé­
rias. Muitos se reúnem a fim de aprender a
orar, ou ser cristãos mais efetivos, e, conquan­
to estas sejam necessidades significativas, elas
não constituem para a maioria das pessoas uma
crise real.
Ocasionalmente, alguém diz: "Eu não pre­
ciso desse tipo de grupo, pois não tenho pro­
blemas reais.” O que eles querem dizer, na­
turalmente, é que não experimentam nenhuma
crise pessoal grande. Eles são capazes de
cuidar dos problemas menores da vida sem
muita dificuldade. Mas eles têm problemas re­
almente. Toda pessoa tem conflitos íntimos,
porque a dificuldade de se alcançar estado

25
mais elevado de nosso ser constitui-se em um
grande problema. Dr. LerneJ. Jane, professor
de psiquiatria da Escola de Medicina da Uni­
versidade de Pensilvânia, diz: "Ninguém é to­
talmente maduro emocionalmente, ou está em
perfeita harmonia com seus desejos, sua cons­
ciência e o mundo exterior ao seu redor. Esta
discrepância entre o desejo e a realização é
expressa por infelicidade, tensão emocional e
neurose, que todos carregam 6.
Como Fritz Kunkel apontou, ninguém fa;
uma mudança significativa de sua personali­
dade ou situação de vida até que seja motivado
por uma dor de alguma espécie. Rollo May
diz: "As pessoas, então, deviam regozijar-se
no sofrimento, por mais estranho que isto pa­
reça, porque isto é um sinal da disponibilidade
de energia para transformar seus caracteres. O
sofrimento é o meio da natureza mostrar uma
atitude enganosa ou um modo de comporta­
mento, e . . . para a pessoa não egocêntrica,
todo momento de sofrimento é oportunidade
para crescimento." i
Aqueles para os quais a vida corre mais
ou menos numa paz serena, que não se sentem
ameaçados por doenças físicas, tensão conju­
gal ou sofrimento mental, geralmente estão
contentes em manter o status quo. Eles não
são motivados a uma entrega espiritual signifi­
cativa ou a um crescimento além do seu nível
atual.
Entretanto, além da facada aguda de uma
crise como força motivadora para a procura
do alívio, há também a sombria pulsação da
frustração. Muitas pessoas aos seus trinta' ou
quarenta anos começam a descobrir, pela pri­
meira vez, que a vida é consideravelmente mais
frustradora do que jamais sonharam possível

26
jOs seus vinte anos. Pelo menos três quartos
de todos os casais experimentam tensão e lu­
tas ocasionais ou contínuas. Eles, na maioria
das vezes, só procuram um conselheiro matri­
monial depois de haver tantas cicatrizes e re­
cordações dolorosas que é difícil, se não
impossível, conseguir uma reconciliação, v
Em nossos grupos no Oeste temos cente­
nas de casais que não têm dificuldade mais
séria do que a de aprender a se comunicar
melhor, de selecionar seus sentimentos e au­
mentar o nível de sua tolerância pela frustra­
ção, através de aplicação de leis espirituais.
Ninguém podia imaginar que houvesse um
casal mais feliz do que Chuck e Henrietta. Eles
se juntaram a um grupo na esperança de al­
cançarem maior crescimento espiritual. Depois
de alguns meses de discussão baseada num
livro devocional, o grupo votou fazer um dos
inventários de crescimento espiritual. Estes
são basicamente inventários psicológicos, aos
quais foi adicionado um sistema de folhas de
avaliação, que os membros do grupo recebem
semanalmente, ou de duas em duas semanas.
Uma folha recebida por Chuck revelou que
havia nele muita hostilidade enterrada, da qual
ele estava, na maior parte, inconsciente. Ele
havia partilhado com o grupo seus terríveis
ataques de asma e febre, e começou a imagi­
nar se sua hostilidade reprimida e sentimentos
de dependência não tinham alguma ligação
com seus problemas respiratórios, que mais
ou menos o incapacitavam por uma parte do
ano.
Eles deixaram o grupo depois de mais ou
menos um ano, e algum tempo mais tarde
perguntei-lhe de sua asma e febre. Ele disse,
surpreso: "Oh! você não sabia?! Eu venci isto

27
assim que descobri tudo sobre minha hostili­
dade enterrada. Quando aprendi a lidar com
a hostilidade minha asma desapareceu.” Ele
não tinha se juntado ao grupo por causa da
asma, mas quando resolveu alguns de seus
problemas emocionais, através de uma forma
de oração mais madura, seus sintomas físicos
desapareceram. Em tempo algum ele orou por
sua asma. Em vez disso, tratou da causa subja­
cente, sua hostilidade enterrada e não reco­
nhecida.
Duas mulheres, membros de grupos dife­
rentes, estavam procurando crescimento espi­
ritual e um grau maior de paz interior. Eu não
tinha conhecimento, então, de que ambas so-
friam de enxaquecas, uma delas por vinte e
cinco anos, e a outra por um período de tempo
mais curto. Embora elas não orassem pelo
alívio de seus sintomas físicos, ambas foram
curadas como resultado do novo crescimento
espiritual que alcançaram. A medida que se
relacionaram em amor e confiança com o Deus
de paz, seus sintomas físicos simplesmente
desapareceram. Ao invés de orar por seus sin­
tomas físicos, elas focalizavam-se em Deus na
sua meditação diária. No grupo encontravam
uma oportunidade de partilhar seus sentimentos.
Enquanto pensavam mais em suas próprias
pessoas não compartilharam nenhum detalhe
íntimo de suas vidas. A cura se efetuou quan­
do obedeceram literalmente ao mandamento
de Jesus: “Buscai primeiro o reino de Deus
e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão
acrescentadas.”
Uma das descobertas gratificantes feita
durante os primeiros oito anos em que estes
grupos de compartilhamento estiveram em ope­
ração no Oeste é a maneira pela qual

28
as barreiras entre as pessoas são quebradas
(ôcil e naturalmente. Estas barreiras invisíveis
fazem com que nós não conheçamos nem
umemos uns aos outros e trazem a solidão ou
o sentimento de isolamento experimentados
pela relutância em nos revelarmos aos outros,
por medo de rejeição. Dentro do grupo, bar­
reiras são desfeitas e nos descobrimos amando
pessoas de que antes nem mesmo gostáva-
mos. Descobrimos que quanto mais os outros-------
aprendem de nós, mais fácil se torna para
eles nos aceitarem e amarem. Ninguém pode
amar uma máscara. Quando tiramos nossas
máscaras, descobrimos que somos aceitos
num nível novo.
Numa sessão de um grupo principiante,
enquanto várias pessoas partilhavam seus sen­
timentos, um homem disse: “Acabei de experi­
mentar uma inversão completa de meus senti­
mentos para com alguém. Eu o conheço por
muito tempo numa base muito superficial.
Sempre pensei que ele agia como se fosse
superior, sendo, talvez, um pouco esnobe.
Agora mesmo, quando ele partilhou alguns dos
seus sentimentos de inadequação eu gostei
dele realmente porque tenho os mesmos senti­
mentos para comigo mesmo. Eu não mais sinto
rejeição da parte dele. Somos iguais. Talvez
eu também cubra alguns de meus sentimentos
de inadequação com a pretensão de superiori­
dade, que realmente não sinto. De qualquer
modo, Alan, eu o tenho, por assim dizer, su­
portado até este instante. Agora e u . . . bem,
acho que posso dizer que o am o.”
Você pode nunca ter pensado ser solitário,
mas o sentimento está lá da mesma maneira,
a menos que você tenha quebrado a barreira
do seu medo de rejeição. E quando você con-

29
seguir revelar seu ser verdadeiro, mesmo em
pequena parte, você se encontrará aceito e
amado em novo nível. E, além disto, você virá
a se conhecer, à proporção que se revelar aos
outros, porque nosso medo de sermos conheci­
dos por outros não é maior do que o medo de
conhecermos a nós mesmos.
Não é “por força nem por poder”, nem por
organização, cruzada ou campanha que o Rei­
no de Deus virá à terra ou a qualquer pessoa
humana. Ele só vem pelo amor — amor a
Deus e aos outros — que constrói uma ponte
no nosso isolamento e desfaz nossa solidão.

30
2

UNIÃO REDENTORA

Jesus indica que não há absolutamente nenhum


ailistltuto para a pequena sociedade redentora. Se
i il.a falhar, ele dá a entender, tudo será fracasso;
nlio existe outro meio.1
Elton Trueblood

Cristina, uma jovem senhora, casada, com


seus trinta anos, tinha três anos de idade
quando seu pai foi preso. Por toda a vida ela
tem suportado um sentimento de vergonha por
seu pai ter sido condenado. Enquanto ele esta­
va na cadeia, Cristina e sua mãe viveram com
seus avós. Ela se recorda de que eles eram
muito pobres e que seu avô era um homem
durão, autoritário e sem amor, que irradiava
hostilidade.
Quando seu pai voltou para casa, solto por
fiança, ela ficou com muito medo dele. Ele
tinha explosões de raiva terríveis, e ela não se
lembra de ele tê-la alguma vez elogiado ou
expressado amor de alguma maneira. Ele re­
petidamente lhe dizia que ela era estúpida.
Quando ela se tornou adolescente, ele a avisou
duramente que ela nunca devia “arranjar com­
plicações com rapazes” . Isto foi toda a edu­
cação sexual que teve de seus pais; mas, quan­
do tinha cerca de 15 anos, seu pai tentou mo-

31
lestá-la sexualmente. Ela ficou chocada e des-
gostosa.
Cristina se casou com vinte anos de idade.
Seu marido queria filhos, mas ela opos-se
fortemente à idéia de criar uma família. Quan­
do veio o primeiro filho, ela experimentou um
sentimento profundo de prazer no primeiro mês,
depois começou a perder o interesse pela cri­
ança. Seu médico a ajudou neste ponto. Ele
havia-lhe dito: “Os pensamentos são um há­
bito, e você pode mudar o seu padrão de pen­
samentos pensando de outra maneira.’’ Ela se
esforçou muito neste sentido e eventualmente
teve sucesso e aceitou seu primeiro filho. Pos­
teriormente ela conseguiu manter uma relação
maravilhosa com ele. Quando o segundo filho
nasceu, a mesma coisa começou a manifestar-
-se, mas ela descobriu desta vez que era muito
mais fácil amar a criança.
Cristina era uma pessoa muito pacata e
tímida. Num retiro, onde a encontrei pela pri­
meira vez, percebi que ela estava lutando com
algum confltto interior profundo. Depois de
uma das sessões, aconteceu de eu ir com ela
para o refeitório, e, de repente ela se desaba­
fou: “Estou cansada e doente de carregar a
culpa de meu pai!” Encorajei-a a contar-me o
seu problema, e vagarosa quão dolorosamente,
ela me expôs, com detalhes consideráveis, os
acontecimentos que já relatei. Antes de termi­
nar o retiro, ela começou, pela primeira vez, a
sentir a extensão da sua violenta hostilidade
para com o pai. Ela nunca havia se permitido
sentir isto antes. A maior parte da coisa estava
enterrada logo abaixo da superfície. Vergonha,
culpa, ódio, inferioridade, tudo isto se mistura­
va num sentimento violento de raiva. Eu lhe
assegurei que não havia problemas em sentir

32
qualquer das emoções que ela experimentava
então, e eventualmente ela pôde admitir no
consciente toda a hostilidade reprimida, dores
e frustrações que ela nunca havia partilhado
com ninguém nem totalmente admitido a si
mesma. Cristina sentiu um alívio considerável
oo contar sua estória, que envolvia a aceitação
de que ela possuía sentimentos que nunca ha­
via ousado confrontar antes. No processo ela
pôde perdoar seu pai, e isto foi uma experiên­
cia curadora. Mas, inexplicavelmente, sua re­
lação com o esposo se tornou pior. Às vezes
ela mal podia suportar ficar no mesmo aposen­
to com ele. Ela experimentava um antagonis­
mo violento e desarrazoável para com ele, o
que o deixava intrigado e magoado.
Na igreja a que Cristina pertencia, alguns
grupos se reuniam semanalmente; cada um
consistia de oito a uma dúzia de pessoas. Al­
guns grupos estudavam um livro e partilhavam
seus sentimentos acerca do mesmo. Outros
estavam fazendo um inventário de crescimento
espiritual e recebiam folhas de avaliação se­
manais. O propósito dos grupos era o cresci­
mento espiritual, o que significava não somen­
te a aquisição de conhecimento bíblico, como
requeria maturidade emocional. Alguns pro­
curavam resolver problemas pessoais: outros
queriam simplesmente tornar-se mais maduros
na sua entrega e experiência cristã.
Cristina havia se juntado a um dos grupos
antes que eu a encontrasse, e sua experiência
foi o passo inicial, que resultou em seu interes­
se em revelar algumas de suas emoções pro­
fundamente enterradas. Depois de voltar para
casa, após o retiro, profundamente perturbada
por causa de sua hostilidade para com seu
marido, ela partilhou alguma coisa a respeito

33
disto com seu grupo. Ela não sentia necessi­
dade de contar toda a dolorosa estória de sua
vida anterior. Eles ajudaram-na a ver que ela
simplesmente havia transferido a hostilidade
que sentia em relação ao seu pai para seu es­
poso. Até onde podia ver, ela havia perdoado
seu pai, mas a dor do passado não lhe permi­
tia abandonar seu ódio inteiramente. Ao des­
cobrir o que estava fazendo, deu um passo novo
e significativo, entregando toda a sua hostili­
dade a Deus.
Como mais tarde ela me descreveu; “Deus
se tornou uma realidade para mim pela pri­
meira vez. O Deus que eu conhecia antes es­
tava ‘lá em cima', em algum lugar. Agora
encontrei o Deus que estava aqui dentro de
mim e que era uma parte de mim. Foi a maior
descoberta da minha vida. Fiquei exuberante.
Quase nem consigo me lembrar do meu ‘velho
ser’ do passado. Descobri que sou muito mais
tolerante com os outros, e procuro não me
apropriar de sua confusão. Gosto de ajudar
onde posso, ao passo que antes eu tinha medo
das pessoas — medo demais para ajudá-laa.
É maravilhoso ser capaz de amar, ser capaz de
amar tanto os homens como as mulheres, e não
me sentir culpada. Hostilidade, medo e culpa
foram substituídos por amor.
Cristina está ativa em sua igreja e tem diri­
gido grupos efetivamente. Ela quer que sua
vida seja tão útil quanto possível. A vontade
de Deus é seu mais alto ideal na v id a ./ ~
Comparativamente, poucas pessoas expe­
rimentam os problemas que marcaram a v'da
de Cristina, mas a estória dela revela vivida-
mente a maneira pela qual uma comunhão
amorosa pode prover discernimento e o clima
no qual a pessoa fica livre para crescer espi-

34
rltunlmente. Não é preciso se identificar com
< rlstina para se sentir a dificuldade que apten-
dor a amar e perdoar envolve. A maioria de
nós tem sua hostilidade, qualquer que seja
nua origem, e sente-se culpada por ela.
Durante os últimos anos, mais de doze
mil pessoas participaram dos nossos grupos
de companheirismo — * na costa oeste.
Nosso propósito é o de ajudar as pessoas
n tornarem o cristianismo relevante a todos os
problemas da vida e ajudar os cristãos no sen­
tido de uma entrega maior. Usando várias cen-
tunas de grupos como experiência, começamos
n descobrir alguns fatos importantes:
Primeiro, que uma pessoa só pode entre-
unr a Deus a parte de si mesma que ela com­
preende e aceita; segundo, que uma pessoa
nflo pode orar eficazmente enquanto não do­
minar suas barreiras emocionais; terceiro, que
em grande parte não se tem consciência da
maioria destas barreiras; quarto, que os cristãos,
de modo geral, não estão mais bem integrados
como personalidades do que os não-cristãos;
quinto, que não faz diferença se uma pessoa é
metodista, luterana, pentecostal, batista, epis­
copal, liberal ou conservadora em sua teologia
— todos têm as mesmas necessidades espiri­
tuais e emocionais. Os membros dos grupos
perdem de imediato todo o sentido do perten-
cer a denominações diferentes. Quase que
logo de início eles sentiram que trabalham num
nível mais profundo do que o oferecido pelas
bonitas distinções teológicas. Sem negar ne­
nhuma de suas doutrinas, eles simplesmente
passam a um outro terreno, onde a realidade de

* No original, "yokefellow groups” .

35
Deus e do amor transcende às insignificantes
diferenças teológicas.
Outro aspecto da experiência é o uso de
inventários espirituais, que são feitos por, apro­
ximadamente, três mil pessoas por ano, só na
costa Oeste. Esta idéia originou-se da experi­
ência do Dr. William R. Parker. Ele cha­
mou a isto de “terapia da oração” . Os inven­
tários são basicamente testes psicológicos fei­
tos para ajudar o crescimento espiritual e emo­
cional pelo uso de um sistema de “feedback” ,
ou realímentação, com folhas de avaliação se­
manais, entregues aos membros dos grupos.
As foihas, distribuídas regularmente por um
período de quinze a vinte e duas semanas,
colocam em destaque algum aspecto da per­
sonalidade e freqüentemente apontam para uma
emoção ou atitude não percebida que constitui
uma séria barreira para o crescimento espiri­
tual.
Num grupo de ministros, um dos membros
recebeu uma folha indicando que ele experi­
mentava medo intenso de suas emoções, o que
o impedia de poder dar e receber amor. Ele
teve um pouco de dificuldade, a princípio, em
aceitar o que afirmava a folha, pelo que disse:
“Eu não tenho consciência de nenhum medo
intenso, como diz a folha. É verdade que sou
um pouco reservado, e mantenho minhas emo­
ções bem controladas, mas sempre considerei
que isto fosse uma virtude, não um defeito.”
Disseram-lhe que lesse sua folha de vez em
quando, por que às vezes leva semanas ou
meses, e mesmo mais tempo, para a pessoa
aceitar uma emoção que enterrou bem abaixo
do nível do consciente.
O ministro disse a seu grupo, alguns meses
mais tarde: “Vocês se lembram daquela folha

36
<iuu recebi acerca do ‘medo das emoções’?
I-1a dizia que eu não tinha nenhuma consciên­
cia de minhas emoções, e, francamente, fiquei
um pouco embaraçado, porque eu não podia
vor nenhum valor nisso. Eu pensei que o
pnlcólogo que verificara meu teste havia come­
tido um erro.
“Bem, na semana passada, fui pego de
•mrpresa e sem preparo para falar extempora-
neamente, coisa que já tinha feito algumas ve­
ros. Pela primeira vez na minha vida tive cons­
ciência da emoção de pânico. Verdadeiro pâ­
nico. Devo ter experimentado isto freqüente-
monto reprimindo-o. De fato, desta vez quase
mo surpreendí subjugando a emoção. No entan­
to, em vez disso, permiti-me sentir o pânico, ou
medo, ou o que quer que fosse. Admiti,
n mim mesmo que era capaz de sentir medo
Intenso, e, em conseqüência, de alguma forma
uinto-me liberto. Não tenho mais que me escon­
der disso.
“Quando menino, me ensinaram a nunca
demonstrar temor. Não era coisa de homem; de
modo que suponho ter mentido a mim mesmo
todos estes anos. No processo de subjugar o
medo, acho que reprimi com ele outras emo­
ções. Talvez seja por isso que eu sou tão
reservado. Algumas pessoas me consideram
inibido. Talvez eu tenha tido medo todos estes
anos de que as pessoas descobrissem quão
apavorado realmente me sinto. Acho que só
enganei a mim mesmo.’’
No decorrer dos meses seguintes observa­
mos que ele começou a perder um pouco de
sua tensão. Ele estava muito mais descontraí­
do e mais comunicativo. Alguém disse-lhe:
"Você está muito mais humano.” Ele sorriu e
disse: “Os membros de minha igreja me dizem

37
que prego melhor também. Sinto-me muito mais
livre agora, e menos inibido.”
Neil tinha problema com o álcool e estava
assistindo às reuniões dos Alcoólatras Anôni­
mos, quando, pela primeira vez, se juntou ao
nosso grupo, a fim de apressar sua cura. Ela,
sem querer, veio, uma noite à reunião um pou­
co intoxicada. O grupo aceitou-a amorosamen­
te, não tendo um sentimento de nem exprimindo
a menor crítica.
O alcoolismo dela, naturaimente, era sim­
plesmente umá manifestação exterior de seus
sentimentos de auto-rejeição. Ela era incapaz
de aceitar e amar a si mesma adequadamente,
e também não podia dar nem receber amor. De­
pois de seis meses de crescimento espiritual e
emocional firme, ela fez este comentário por
escrito acerca das foihas de avaliação que havia
recebido:
No dia que íiz o teste, sentia-me mais otimista
do que deprimida. Entretanto, sete das onze folhas
que recebi indicavam mais necessidades emocionais
do que tinham os outros do grupo. Eu sabia disto
há muito tempo, penso, mas não queria admitir estes
“fracassos” — que é o que eu sentia que eram —
diante de ninguém mais, nem de Deus, nem de mim
mesma. Tenho sempre tentado fugir dos meus sen­
timentos, tranqüilizando-me com álcool ou com pí­
lulas. Hoje admito e aceito estas emoções como par­
te de mim mesma. Pedi a Deus para aceitá-las e
ajudar-me, e sinto que Ele o fez. Sei que o grupo
as aceitará e me aceitará também. E agora faço
um plano de ação para o dia-a-dia. Com a ajuda
de Deus e a compreensão do grupo e meus próprios
esforços, espero continuar meu progresso crescen­
te. O teste descreveu-me com precisão. Embora eu
tenha levado seis meses para admitir essas verdades
acerca de mim mesma, é sempre melhor seis meses
do que nunca.

Os seis meses seguintes foram seu maior


período de crescimento. Ela havia aceito a si

38
mesma como era. Aceitação não implica em
aprovação. Eia estava admitindo diante de si
mosma, de Deus e dos outros o tipo de pessoa
que era. Depois de quatorze meses no grupo,
Neil revelou uma maturidade emocional admi­
rável, bem como um equilíbrio espiritual admi­
rável. Ela havia se tornado "uma nova pessoa
om Cristo” — através de sua decisão.
Jung disse a um grupo de ministros em
1932:
Não podemos mudar nada, a menos que o aceite­
mos. A condenação não liberta, oprime. A aceitação
do si mesmo é a essência do problema moral e o
teste de fogo de toda uma maneira de ver a vida.
Alimentar um mendigo, perdoar um insulto, amar
o inimigo em nome de Cristo — todas estas são in ­
dubitavelmente grandes virtudes... Mas, se eu des­
cobrir que o menor deles, o mais pobre de todos os
mendigos, o mais mal-educado de todos os ofenso-
res, sim, o próprio demônio — que estes estão em
mim, e eu mesmo tenho necessidade das esmolas de
minha própria bondade, que eu mesmo sou o inimi­
go que deve ser amado — que fazer então?

Aceitar e amar a mim mesmo adequada­


mente — aí está a dificuldade. Podemos desa­
fiar um cristão a uma entrega mais profunda
a Cristo, mas, se no íntimo de seu coração
ele não pode suportar a si mesmo, não pode
amar a si mesmo, ele não será capaz de amar
alguém mais adequadamente. Embora possa­
mos fazer com que ele se envolva ardorosa­
mente no serviço do Reino de Deus, ele trará
consigo sua própria auto-rejeição, seus próprios
padrões neuróticos de comportamento, e enve­
nenará, em certo grau, tudo o que tocar.
Um dos milagres de pequena monta que
vemos acontecer repetidamente ncs grupes é
a força transformadora do amor divino, me­
diado pelos membros dos grupos, possibilitan-

39
do a pessoa aceitar a si mesma. É neste ponto
que o verdadeiro crescimento, espiritual co­
meça.
Rollo May diz que “O ser humano não mu­
dará seu padrão de personalidade, apesar de
todo esforço, enquanto não for forçado a fazê-lo
pelo seu próprio sofrimento... De fato, muitos
indivíduos neuróticos preferem agüentar a mi­
séria de sua situação atual, a arriscar a incer­
teza do que viria com a mudança.” 2 A dor ou
0 sofrimento a que ele se refere pode ser sen­
tida por um golpe repentino de uma crise ou
pelo lento pulsar de uma frustração; e a frus­
tração pode vir de uma conscientização cres­
cente da insignificância da vida da pessoa, ou
como conseqüência de um sentimento de cha­
teação.
Antes de começar a procurar, por todos os
lados, maneiras de ajudar alguma causa digna,
é melhor procurar saber primeiro quem você
é. Depois de sua conversão, 0 apóstolo Paulo
não se apressou a voltar para Jerusalém e se
ocupar imediatamente de um ministério inten­
sivo de evangelismo. Aparentemente, primeiro
ele passou três anos na Arábia, e só alguns
anos mais tarde conseguiu fazer alguma coisa
significativa. Os doze que Jesus escolheu gas­
taram três anos de preparação intensiva antes
de serem considerados suficientemente madu­
ros para continuar 0 trabalho que Jesus come­
çou. Mesmo depois de três anos, absorvendo
0 espírito e os ensinamentos de Jesus, na últi­
ma ceia, eles se incomodavam sobre quem
teria os lugares de honra — pouca evidência
de maturidade espiritual.
Laurel se uniu a um grupo somente para
encorajar seu marido, cujo problema pressio-
nante era a perda do emprego de engenheiro

40
por causa de doença emocional. Ela escreveu
à sua mãe alguns meses depois de ter-se
juntado ao grupo e mostrou-me a carta. Parte
desta dizia assim:
Primeiramente, quero contar-lhe as coisas que
estão acontecendo comigo neste grupo de compa­
nheirismo. Fui com o Rob porque pensava que éle
precisava do meu encorajamento. Agora sinto que
estou sob o bisturi do cirurgião e, até que se comple­
te a operação, eu não sou nem o meu velho ser nem
o novo ser que, espero, emergirá.
Este momento diário de devoção a que nos sub­
metemos, de cerca de trinta minutos diários de me­
ditação e oração, alguns dias se torna difícil. Dr.
Osborne diz que, quando resistimos à hora de medi­
tação, é porque estamos inconscientemente com medo
do que Deus está tentando nos revelar. Eu tenho
resistido freqüentemente ao meu momento de de­
voção. Tanto tem sido revelado a mim até aqui que
às vezes não posso agüentar mais alguma coisa por
alguns dias. Descubro que as descuLpas que tenho
Inventado para as coisas, a vida inteira, não são
desculpas de modo nenhum; são só mentiras que
preguei a mim mesma para tentar explicar os meus
problemas.
Um perfeito exemplo, mamãe, é esta autodecep-
ção que você e eu mantemos pelo fato de sermos
gordas. Estou trabalhando para a aceitação de eu
ser gorda. Quando finalmente aceitar isto, poderei
perder peso simplesmente por não recusar a enfren­
tar mais o problema; mas perder peso não é o obje­
tivo principal.

Só depois de seis meses é que Laurel fez


algum esforço para diminuir o peso. Três ou
quatro meses depois ela perdeu mais de
dez quilos sem ou quase nenhuma dificuldade.
Isto foi uma simples manifestação externa do
seu crescimento espiritual interior. Começou
quando ela “cortou o cordão umbilical”, como
ela disse, e parou de depender emocionalmente
de sua mãe e seu marido. Outras evidências
de seu crescimento foram reveladas pelo seu

41
admirável novo senso de auto-aceitação, perda
do modo das pessoas e o abandono do com­
plexo de mártir que havia estragado sua vida
caseira e sua felicidade. Agora ela gasta vo­
luntariamente várias horas diariamente no ser­
viço cristão.
O crescimento de Rob por alguns meses
não foi significativo, embora ele tenha feito um
esforço razoavelmente consistente para manter
uma hora devocional, apesar da depressão, que
praticamente o imobilizava. Mas, antes que
o grupo comemorasse o seu primeiro aniversá­
rio, Rob estava de volta ao trabalho, com ape­
nas, alguns traços de sua velha doença emocio­
nal. Igualmente importante foi o novo senti­
mento de paz interior que ele manifestou.
A cura espiritual, emocional e física que
se operou nas vidas dos membros do grupo foi
o resultado de uma série de coisas:
Primeiro, um sentimento de amor genuíno
permeava o ambiente. Os membros oravam
uns pelos outros diariamente.
Segundo, seu amor uns pelos outros era
incondicional e honesto. Eles aceitavam uns
aos outros justamente como eram. Não davam
conselhos, mas diziam "a verdade em amor” ,
como o Novo Testamento ordena.
Terceiro, eles fizeram dois inventários es­
pirituais durante seu primeiro ano. Algumas das
folhas de avaliação não foram aceitas imedia­
tamente. Em outras ocasiões, levou tempo para
eles aceitarem emocionalmente as coisas que
lhes foram reveladas.
Quarto, eles lembravam uns aos outros
semanalmente o período devocional diário. To­
dos liam, durante o período devocional, o mes­
mo material geral recomendado e obtinham, fre-
qüontemente, grandes discernimentos de suas

42
necessidades básicas. Mais importante, desco­
briam dentro de si mesmos as barreiras ao seu
próprio crescimento espiritual. No seu período
devocional, eles, então, apresentavam a Deus
essas barreiras recém-descobertas.
O jovem pastor de uma igreja metodista
oscreveu acerca de sua experiência com gru­
pos pequenos:
Quase que a metade dos nossos membros adultos
estiveram em grupos, porque agora exigimos que
todos aqueles que se juntam à igreja devem passar
I>or um grupo de Aventura Espiritual de oito sema­
nas. Esta medida foi posta em prática nos dois últi­
mos anos, e assim todos os membros que entraram
para a igreja neste período passaram por um grupo
destes. Muitos deles continuaram em nosso progra­
ma dos grupos de companheirismo.
O Grupo de Aventura Espiritual é basicamente
uma introdução aos grupos pequenos, e possibilita,
ao indivíduo que esteja algo hesitante em se entre­
gar a um grupo de longo período, experimentar a
.significação e valor desse grupo num período mais
curto.
Em todos os casos, quando um indivíduo parti­
cipou de um grupo e desistiu, por uma razão ou
outra, ou o grupo deixou de funcionar, estes indi­
víduos acabaram pedindo para se unirem a outro
grupo. Eles reconheceram que as necessidades ge­
nuínas estavam sendo tratadas enquanto estavam
no grupo e que o grupo é uma parte essencial de
sua experiência cristã,
Temos tido inúmeros casos de vidas serem es­
pantosamente tocadas pelo poder do Espirito Santo
trabalhando através do grupo. Os seus componen­
tes têm encontrado sentido e propósito em suas pró­
prias vidas, e casais têm achado uma nova espe­
rança. Estou convencido de que o verdadeiro reavi-
vamento dos membros de nossas igrejas quanto ao
que significa ser “ a Igreja” pode ser atribuído à
experiência inicial que cada pessoa teve com grupos
pequenos.
É importante acrescentar que resultados
como estes podem ser melhor alcançados

43
quando o próprio pastor é um participante ativo
e dá supervisão pessoal à operação geral dos
grupos.
Os dividendos de encontrar “'Deus como
uma realidade viva”, em vez de “uma Divin­
dade distante”, teve resultados impressionan­
tes para muitos membros daquela igreja, e a
experiência foi curadora e espiritualmente es­
timulante para virtualmente todos os que parti­
ciparam.
Uma das tragédias da Igreja hoje é que
temos a tendência de medir nosso sucesso em
termos de tamanho. E nisto temos sido víti­
mas do que Jung chama de “a mentalidade da
massa”.
O indivíduo que não está firmado em Deus não
pode oferecer nenhuma resistência, por meio de seus
próprios recursos, às atrações que o mundo oferece
nos sentidos físico e moral. Para isto ele precisa da
evidência da experiência interior transcendente, que
é a única coisa que pode protegê-lo contra a inevi­
tável imersão na massa. 3

Ao falar das “atrações do mundo” , Jung


não se refere primariamente a uma forma de
comportamento escandalosa e espalhafatosa.
Ele tem em mente algo muito mais sério do que
um lapso moral. É antes o terrível perigo de
sermos engolfados pela mentalidade da massa,
a ponto de pensarmos o que a massa pensa,
sentirmos o que ela sente e sermos levados pe­
los mesmos objetivos materialistas que compe­
lem a massa humana.
A esta mentalidade da massa, sua principal
disposição, seus objetivos, deve-se opor resis­
tência tão zelosamente quanto à ameaça à mo­
ral pessoal. Podemos estar muito mais consci­
entes da tentação do pecado moral óbvio —
roubo, adultério, cobiça e coisas assim — do

44
que da tentação insidiosa de ser igual aos ou­
tros: comprar o que eles compram, procurar o
que eles procuram, louvar o que eles louvam e
desculpar o que eles desculpam.
Jung comenta acerca das tentações que
,i Igreja experimenta deste modo:
Por mais estranho que pareça, as igrejas tam­
bém querem se apropriar da ação das massas... as
próprias igrejas, cuja função é a salvação da alma
Individual. Elas, também, parecem não terem ouvido
nada do axioma elementar da psicologia das mas-
:;as, de que o indivíduo se torna moral e espiritual­
mente inferior nas massas, e por esta razão não se
preocupa muito com a sua real tarefa de ajudar
o indivíduo a alcançar uma metanoia ou renasci­
mento do espírito... ínfelizmente, é demasiadamente
claro que, se o indivíduo não for verdadeiramente
regenerado no espírito, a sociedade também não o
pode ser, porque esta é a soma total de indivíduos
carentes de redenção. Posso, portanto, perceber que
c só ilusão quando as igrejas tentam, como aparen­
temente o fazem, amarrar o indivíduo numa organi­
zação social e reduzi-lo a uma condição de respon­
sabilidade diminuída., em vez de erguê-lo da massa
lorpe e sem consciência e tornar claro para ele que
o fator importante é ele e que a salvação do mundo
consiste na salvação da alma individual.4

Quando eu estava na universidade pude


uma vez observar a mentalidade da massa em
ação. Um homem havia sido preso por algum
crime sórdido e a cidade estava consideravel­
mente excitada pelo incidente. E me disseram
que uma multidão estava se formando no centro
da cidade, e, como eu estudava psicologia nesse
tempo, fiquei ansioso para ver de perto a ação
da multidão. Um colega e eu corremos para o
local da cena, e, de um ponto vantajoso e se­
guro, observamos a mentalidade da massa fun­
cionar. Não havia um só líder para dirigir a
ação, mas parecia como se gradualmente emer­
gisse, não um milhar de mentes individuais ca-

45
pazes de pensamento racional, mas uma única
mente movendo toda a turba.
Podíamos ouvir vozes da multidão gritan­
do: “Vamos pegá-lo na cadeial” Outros aderi­
ram ao grito, e, ainda sem líder, a multidão
avançou em direção à cadeia que ficava a al­
guns quarteirões de distância. Nós fomos jun­
tos. Aqueles que iam na frente não estavam
liderando mais do que sendo empurrados por
aqueles que estavam atrás. Os gritos mais rai­
vosos vinham dos homens que estavam segu­
ramente imersos no centro da tur!'a. Eram eles
que impeliam a turba para frente. Eles avança­
ram em direção aos degraus da cadeia, porém
de repente uma figura calma emergiu da por­
ta e ali parou com a mão erguida.
Era um homem de tamanho médio, que
não tinha atitude de domínio nem inspirava
terror; mas havia algo terrivelmente autoritário
em sua voz: “Parem onde estão! Não se mo­
vam, ou alguém poderá se fe rir.”
A turba parou de imediato. Ouvia-se al­
guns resmungos irados, mas eles se detiveram
para ver o que o xerife tinha para dizer. Ele
começou a falar em tom comedido e calmo. O
mais notável nele era que parecia não ter
medo. A turba não lhe impunha ameaça al­
guma porque ele estava certo, e sabia disto.
Falou a eles em termos simples sobre os tribu­
nais, o sistema americano de justiça que cada
homem quer para si mesmo e deve querer para
os outros.
Ele fez uma pausa e depois disse: “Agora,
todos vocês irão para casa, e nossos tribunais
tomarão conta deste réu.” E, voltando-se cal-
mameníe, entrou no edifício.
Um homenzinho bem atrás gritou: “Vamos
pegá-lo de qualquer maneira!” Mas a multidão

46
tintava se desfazendo, e o homenzinho desa­
pareceu no meio da turba. Uma pessoa que
■mbla que estava certa, sem amparo de meios
visíveis quaisquer para manter a lei, havia pa-
i.ido uma turba raivosa de homens que esta­
vam temporariamente insanos.
Coisas como esta têm acontecido em todas
as épocas, onde quer que os homens se reú-
nnm. Alguém grita: "Hosana ao Filho de Davi” ,
o a multidão acena com ramos de palmeira
pura saudar o Messias. Mais tarde alguns
homens começam a bradar: “Crucifica-o”, e a
turba entra em coro. Ou, em nossos dias, os
propagandistas clamam: “Comprem isto!” ou:
"F novo e audacioso!” ou apontam para esta
ou aquela suposta panacéia como indicada
para o bem-estar físico e mental.
Se uma voz é ouvida mais persuasivamente
s com mais frequência que outras, pela televi­
são, rádio ou imprensa, uma multidão invisível
é formada: a mentalidade de massa começa a
funcionar. Logo, milhares, talvez milhões, jun­
tam-se ao canto do refrão, quer seja de louvo­
res a um líder, a condenação de uma causa que
antes fora popular ou a exigência desta ou da­
quela mudança social. Algumas das causas pro­
movidas são louváveis porque a mentalidade de
massa não é de todo má. Mas, como Hitler de­
monstrou com zelo demoníaco e genialidade
Insana, é muito mais fácil atirar a mentalidade
da massa para o ódio do que para o amor.
Jesus dava grande importância à conver­
são do indivíduo. Ele não conduziu nenhuma
marcha de protesto em Roma ou Jerusalém
advogando reforma social. As injustiças sociais
dos seus dias devem tê-lo angustiado. A po­
breza e miséria das massas oprimidas contras­
tavam com os prazeres dos ricos. A doença e

47
enfermidade, os capatazes de fazendas livres
de impostos, a injustiça gritante em todos os
lados, o pesado jugo de Roma — tudo isto deve
ter sido uma fonte da mais profunda dor pes­
soal para ele. Mesmo assim, ele resistiu à ten­
tação de fazer uma exigência dramática por
justiça social. Ele não mandou que seus segui­
dores se preocupassem primariamente com
esses males óbvios. Pelo contrário, logo antes
de sua ascensão, ele disse ao pequeno grupo:
“Esperai aqui na cidade até que sejam reves­
tidos do poder do alto.” 5 Nenhuma outra ins­
trução lhes foi dada, a não ser que esperassem
em oração até que o Espírito Santo de Deus
houvesse unido, purificado e dado poder a eles.
Ele os julgou incapazes da tarefa de levar as
boas-novas do Reino enquanto algo vital não
tivesse acontecido a eles pessoalmente!
Vemos injustiça e sofrimento ao nosso re­
dor. As pessoas dotadas de compaixão sen­
tem-se constrangidas a se apressarem em orga­
nizar, angariar fundos e lançar novos movimen­
tos para erradicar a pobreza, a doença ou os
muitos tipos de sofrimento que afligem a hu­
manidade. Este zelo é louvável. Eu gastei
tantos anos como um ativista, mergulhado em
boas obras para aliviar a necessidade humana,
que só posso encontrar simpatia em meu co­
ração pelo autor zeloso de boas obras.
É com dificuldade que consigo controlar
o impulso de participar em toda causa digna.
Entretanto, aqui, como em todo lugar, o bom
pode se tornar inimigo do melhor. O bem
óbvio de levar comida ao faminto ou conforto
ao aflito pode ser inimigo do melhor — que
pode ser simplesmente fazer o que Jesus man­
dou. De fato, ele disse: “Não se apressem a
espalhar as boas-novas da ressurreição ou a

48
mudar o mundo, até que vocês tenham um
tipo especial de poder do céu.” Ele não des­
creveu o efeito que este poder teria sobre eles.
□ e simplesmente lhes disse para esperarem,
l los saberiam quando o poder chegasse. E
nles esperaram horas e dias, em obediência
perfeita, até o poder chegar.
Tendo orado juntos em calma receptivi­
dade, eles estavam prontos para serem purifi­
cados de interesse pessoal, mesquinharias,
dúmes, egocentrismo e outras centenas de
pecados espirituais que estragam a eficácia
do um povo zeloso. Jesus, evidentemente, de­
dicou uma parte considerável de seu ministério
A lida com indivíduos e ao preparo dos doze
para sua missão. Embora ele tenha pregado
várias vezes à multidão, os seus resultados mais
efetivos vieram do trabalho com indivíduos e
com o pequeno grupo de discípulos.
Com os indivíduos ele começava no ponto
da necessidade: “Que queres que te faça?” Ele
era solícito em perguntar. Começava no ponto
crítico — doença física, pecado, cegueira.
Quando os discípulos discutiram sobre qual
deles seria o maior, ele aproveitou a ocasião
não para apaziguar uma briga, mas para dar-
-Ihes uma lição sobre humildade, que seria
lembrada por muito tempo.
Elton Trueblood, fundador do movimento
Yokefellow, expressou isto muito bem:
O mundo precisava de uma fé salvadora, e a
fórmula para uma fé assim vem através de um tipo
particular de comunhão. Jesus tinha um profundo
Interesse pela continuação de seu trabalho reden­
tor após sua existência terrena, e seu método esco­
lhido foi a formação de uma sociedade redentora.
Ele não alistou nenhum exército, não estabeleceu
nenhum quartel-general, nem sequer escreveu um
livro. Tudo o que ele fez foi ajuntar alguns homens

49
de futuro não muito promissor, inspirar neles o sen­
tido da sua vocação e da vocação deles, e construir
a vida deles numa comunhão intensiva de afeição,
adoração e trabalho.
Uma das passagens realmente chocantes do
Evangelho é a em que Jesus mostra que não há ab­
solutamente nenhum substituto para a pequena so­
ciedade redentora. Se isto falhar, ele sugere, tudo
será fracasso; não há outra maneira. Ele disse, para
a pequena comunidade enlameada, que eles, na rea­
lidade, eram o sal da terra e que, se este sal falhasse,
não haveria preservação adequada, de modo nenhum.
Ele estava colocando tudo numa só jogada.«

50
3

ANSIEDADE

O coração puro é livre, sem preocupação, não


está comprometido e não deseja a sua própria von­
tade em coisa alguma, antes se encontra imerso na
vontade amorosa de Deus. Não pode haver inquie­
tação, a não ser aquela resultante da vontade pró­
pria.
Meister Eckhart

Um psiquiatra de renome afirma, cate­


goricamente, que todos estão gastando pelo me­
nos cinqüenta por-cento de sua energia psí­
quica, conservando recordações reprimidas sob
o consciente. Pelo menos, pode-se dizer se­
guramente que cada um de nós gasta uma
quantidade enorme de energia psíquica tentan­
do evitar a ansiedade. Se essa energia fosse
colocada à disposição da ciência criadora, po­
deriamos mudar as nossas vidas e nossos des­
tinos.
Por de trás de cada atividade, cada deci­
são, cada plano, a longo ou curto prazo, há um
esforço inconsciente de evitar a ansiedade.
Por ser a ansiedade uma experiência dolorosa,
tomamos todas as precauções para evitarmos
situações que poderão produzi-la. Planejamos,
racionalizamos, trabalhamos, até mentimos a

51
nós mesmos e aos outros, no esforço de evi­
tá-la.
Os psicólogos, em geral, concordam que
cada ação é um esforço para evitar a ansiedade.
O homem que trabalha diariamente em uma ta­
refa de que não gosta e que cria ansiedade
está fugindo da ansiedade maior de enfrentar
o desemprego e a miséria financeira. A mulher
que não gosta de limpar a casa, mas mesmo
assim o faz, deseja evitar a ansiedade ainda
maior que seria produzida por morar em uma
casa suja. Há dados momentos, sejam quais
forem, em que fazemos a coisa que preferimos.
A maneira como racionalizamos a nossa
conduta a fim de evitar a ansiedade é ilustrada
por um homem que não gostava de aconteci­
mentos sociais. Fora tímido e retraído quando
criança, sem amigos achegados com quem
pudesse se relacionar. Lembrava-se de um sen­
timento de alienação do seu pai e dos irmãos
mais velhos. Agora, já cinqiientão, experimen­
tava um desgosto intenso por todos os aconte­
cimentos sociais. Até em assistir aos cultos se
sentia mal.
Sua esposa fazia a sugestão de assistirem
a algum acontecimento sociai, mas ele resistia
com qualquer desculpa entre uma dúzia de ra­
cionalizações muito usadas: estava cansado e
queria ficar em casa, assistindo à televisão ou
ouvindo uma boa música; as pessoas, via de
regra, eram enfadonhas; as suas conversações
fúteis eram cansativas; havia poucas pessoas
inteligentes com quem alguém podia verdadei­
ramente se comunicar, e assim por diante.
Havia, de fato, alguma verdade em cada uma
das suas alegações, mas nenhuma delas era
o real motivo, conforme chegou a descobrir no
grupo. De início, resistiu à possibilidade de

52
que simplesmente estivesse fugindo da ansie­
dade do contato pessoal mais achegado com
as pessoas. Resistiu de forma ainda mais for­
te à idéia de que isso poderia ter começado nos
primeiros anos da sua vida. Depois de algum
tempo, entretanto, chegou ao ponto de ver que
a verdadeira razão de evitar o contato pessoal
com outros, em ambientes sociais, prendia-se
ao fato de que eles despertavam nele senti­
mentos de inferioridade e insegurança. Sim­
plesmente encontrava razões para fugir da si­
tuação que provocava a ansiedade.
O ajuntador, seja de dinheiro, barbanle ou
sortimentos esquisitos de coisas consideradas
desnecessárias por sua família, está atendendo
a um sentimento de ansiedade enterrada pro­
fundamente no subconsciente. Ele poderá ra­
cionalizar facilmente o seu hábito. A gente
pode precisar de barbante; sempre há neces­
sidade de dinheiro; e não é economizar uma
grande virtude? É claro que é, e, possivel­
mente, um dia haverá alguma necessidade de
todos esses restinhos que ele tem guardado,
mas a verdadeira razão é mais profunda. Ele
ó motivado por um sentimento de ansiedade
que tem a sua origem na infância. Pode ser o
resultado de ter sido privado de amor quando
muito pequeno. A insegurança, o medo de não
ser amado e bem cuidado, experimentados
quando criança, agora tomam a forma do medo
de não possuir suficiente dinheiro para cuidar
de si nos anos vindouros. A insegurança finan­
ceira no lar de uma criança, criadora de uma
ansiedade generalizada, pode manifestar-se na
forma de ajuntar coisas, ser mesquinho ou ter
medo de dar ou amar — e tudo isso são mani­
festações de ansiedade.

53
Pode-se afirmar, com segurança, que todo
comportamento caracterizado por sobrecarga
de ansiedade não é o resultado de um processo
bem pensado e racional, mas de fatores emo­
cionais, cujas raízes geralmente se estendem ao
passado, à infância da pessoa.
Se agíssemos de outra maneira do que
agimos, isto criaria ainda maior ansiedade. Se
mudarmos nosso padrão de comportamento de
forma significativa, sem compreendermos nossa
natureza básica, haverá a tendência de criar­
mos ansiedade adicional, e por isso nossa pro­
pensão é de nos agarrarmos a um modo de
agir bem conhecido.
O alpinista é tão motivado pela ansiedade
quanto a pessoa que não consegue olhar a
borda de um precipício sem entrar em pânico.
O alpinista tem, simplesmente, um tipo diferente
de ansiedade, que o leva a alcançar os picos
das montanhas.
O modo de agir tomado por alguém pode
nos dar a impressão de ser precipitado, teme­
rário, tolo, ou simplesmente irracional; mas para
a pessoa em questão, sendo quem é e o que é,
parece ser a melhor escolha possível. Ela está
agindo na base de certas necessidades emocio­
nais, certas suposições e respostas. Para ela,
o agir de outra forma lhe traria ansiedade e
tensão notáveis.
Isto não quer dizer, entretanto, que toda
ansiedade seja destrutiva. Há uma forma de
ansiedade criadora que faz com que um homem
saia da cama de manhã para ir ao trabalho.
A mãe atende ao choro de seu filho em resposta
a uma ansiedade interna, que também é cria­
dora. Nossa reação a um perigo repentino, que
requer todos os nossos recursos internos, esti­
mula a secreção de adrenalina adicional na

54
corrente sanguínea e nos prepara para “fuga
ou luta”. Esta é uma resposta instintiva ao
medo, dada por Deus. Só quando o medo se
torna uma ansiedade dominante e impede
nossa eficácia é que ela cessa de ser criadora
e se torna destrutiva.
O alcoólatra, ou o que tem problemas com
a bebida sofre ansiedade profunda. Seu pro­
blema básico não é beber demais; o beber em
excesso é sintoma externo de uma ansiedade
ou necessidade muito forte. Ele quase não
tolera as situações que produzem ansiedade e
quando ele se sente ameaçado por alguma si­
tuação ele só pode suportar a ansiedade com a
ajuda do álcool, que complica o problema fa­
zendo-o sentir culpa e inferioridade.
O álcool tende a paralisar o centro supe­
rior do cérebro, onde a faculdade de juízo resi­
de. O que tem problema com a bebida não é
mais capaz de resolver a situação antes de ter
tomado seus vários drinques; de fato, sua atua­
ção geralmente se processa num nível mais
baixo do que antes, mas, desde que seu juízo
está prejudicado, ele se sente um pouco mais
efetivo.
Sermões por parentes, ameaças, condena­
ções, criticismo e importunação só servem para
tornar as coisas piores. Ele já se sente culpado
e fora de lugar. A crítica simplesmente inten­
sifica esses sentimentos, e ele sente uma ne­
cessidade mais forte de beber a fim de apazi­
guar temporariamente seus sentimentos de
cuipa. O método de ação dos Alcoólatras Anô­
nimos providencia uma solução criadora para
um grande número de alcoólatras. O progra­
ma é psicológica e espiritualmente saudável.
Infeiizmente, muitos alcoólatras não podem
admitir que são bêbados problemáticos e que

55
não podem ser ajudados enquanto não admiti­
rem, com toda a humildade, que não são capa­
zes de se ajudar se não estiverem prontos a
pedir ajuda a um Poder Maior. A própria acei­
tação deste fato é o passo absolutamente
essencial a ser tomado, antes de mais nada.
Muita ansiedade é produzida por hostili­
dade reprimida. Há várias maneiras de se lidar
com a hostilidade ou com outra emoção nega­
tiva qualquer: Pode-se exprimi-la, suprimi-la,
reprimi-la ou entregá-la a Deus em completa
submissão. Há situações em que a hostilidade
pode ser expressa para o bem de todos os en­
volvidos. E, em outras situações, exprimir pro­
fundo ressentimento seria insensato e destru­
tivo. Em tais casos, aprendemos a suprimir o
sentimento. Sabemos que o sentimento existe
e estamos cônscios dele, mas o suprimimos. O
procedimento mais perigoso e que é muito usa­
do inconscientemente, é o de reprimi-la; isto
é, fingimos que não sentimos hostilidade. Por
exemplo, uma criança pode sentir hostilidade
contra seus pais, mas ela aprende a enterrar
ou reprimir esse sentimento. Afinal, “não de­
víamos odiar nossos pais”. A expressão da
hostilidade frequentemente não é aceita em
casa, e a criança pode aprender a enterrá-la
profundamente no inconsciente.
Ângela é um caso desses. Ela era um
desses modelos de virtude que é caro ao cora­
ção paterno: uma criança inteiramente obedi­
ente. Nunca lhe ocorreu rebelar-se abertamen­
te, mesmo na adolescência. Depois de se for­
mar, deu aulas por vários anos, depois se tor­
nou secretária particular.
Seu pai, por quem ela sentia um misto de
amor e ódio, dominava sua vida. Ele nunca
fora muito bem sucedido nos negócios. Ângela,

56
o epítome da generosidade, contribuiu com
uma boa parcela do seu salário para sustento
da família por muitos anos. Ela morava em
casa a maior parte do tempo, freqüentemente
com um guarda-roupa bem limitado e uma vida
social muito restrita, por causa do seu senti­
mento de que devia ajudar a família.
Ela recebeu várias propostas de casamen­
to, mas não ousou aceitar nenhuma até perto
dos quarenta anos. Depois de se casar com um
homem de boa paz, continuou a ajudar seus
pais ainda por muitos anos. Sua generosidade
não conhecia limites. Mas agora que ela tinha
uma vida separada dos pais, a ansiedade come­
çou a se mostrar. Houve várias idas ao hospi­
tal, tratamento freqüente com vários médicos
e complicações repetidas com leves infecções,
das quais ela não podia se livrar.
Para cúmulo, seus pais foram morar com
ela, intensificando seu conflito interior. Ela ti­
nha dois empregos e ainda cuidava da casa.
Finalmente, tendo sido os pais colocados num
asilo de velhos, onde eram bem cuidados, a
vida de Ângela, julgaríamos, deve ter-se torna­
do um pouco mais plácida. Mas, pelo contrá­
rio, a ansiedade de toda a sua vida começou a
piorar; pois não era, na realidade, a presença
de seus pais, ou suas exigências, que produ­
ziam a ansiedade; era o seu próprio sentimento
de auto-rejeição e de culpa que ela experimen­
tava por causa das suas emoções confusas
de amor e ódio para com seus pais que a pro­
duzia.
Suas doenças físicas não eram imaginá­
rias. Eram doenças orgânicas e que lhe pro­
porcionavam considerável sofrimento. Ela su­
portava todas com um misto de jovialidade,
sabedoria e estoicismo. Estava vagamente

57
consciente de que, de algum modo, seu amor e
hostilidade para com seus pais — especialmen­
te para com seu pai — fazia parte disto tudo,
mas a coisa toda era dolorosa demais para que
ela pudesse torná-la criativa. Ela só aceitava
o aconselhamento, de uma maneira transitória
e superficial. Os sentimentos de culpa de Ân­
gela por “ter desertado” de seus pais por causa
do casamento produziram nela ansiedade, e
ansiedade é conflito. Este conflito interno foi
suficientemente grande para acarretar um de­
sequilíbrio endócrino, que era a principal fonte
de todas as suas moléstias.
Ângela havia sido um membro de igreja
ativo e fiel por toda a sua vida. Cria firmemente
em Deus, em Cristo e na oração. Não é que
não possuísse fé religiosa na qual confiar. Mas,
sim, que o padrão de vida religiosa nada tinha
para oferecer a uma pessoa cercada por pro­
fundas ansiedades. Se ela orava, era pela mo­
léstia física; mas esta forma de oração provou
ser inútil, porque sua doença era somente um
sintoma do problema básico: hostilidade re­
primida, que criava ansiedade insuportável.
Ela podia discutir suas emoções confusas
para com seus pais, mas só de modo superfi­
cial. Ela recusava procurar aconselhamento ou
terapia de grupo de qualquer espécie. Era
óbvio que as dores que suas moléstias fre-
qüentes provocavam eram mais suportáveis que
o sofrimento que se apresentaria se encarasse
seus sentimentos verdadeiros. Ela simplesmen­
te escolheu o modo de agir que inconsciente­
mente achava que produziria o mínimo de an­
siedade possível; mas a mente tem a tendência
de transmitir sua própria dor — sentimento de
culpa e ansiedade — ao corpo. No caso de
Ângela, parecia preferível suportar a doença

58
física por muitos anos do que encarar a fonte
de sua ansiedade profundamente enraizada,
infelizmente, o seu caso não é um caso in-
comum; é altamente típico.
Uma das coisas mais difíceis para muitas
pessoas aceitarem é que, embora consciente­
mente elas queiram se libertar de seus sintomas
físicos, elas possuem uma necessidade incons­
ciente de sentir esses mesmos sintomas. Nós
escolhemos nossos sintomas — inconsciente­
mente e com uma finalidade inexorável. Os es­
pecialistas no campo da medicina psicossomá-
tica acreditam que cinquenta a oitenta por-cen-
to de todas as moléstias físicas têm sua origem
em nossas emoções. De fato, todas as emoções
têm algum efeito sobre o organismo físico de
maneira criativa ou destrutiva. Sintomas fabri­
cados emocionalmente podem, com o tempo,
se desenvolver em moléstias orgânicas reais.
Já há muito tempo atrás a Bíblia reconhe­
ceu isto. Ela nos admoesta que "uma mente
tranquila é saúde para o corpo”, * O apóstolo
Paulo escreve aos crentes de Filipos: “Não
andeis ansiosos por coisa alguma; antes em
tudo sejam os vossos pedidos conhecidos di­
ante de Deus pela oração e súplica, com ações
de graças; e a paz de Deus, que excede todo o
entendimento, guardará os vossos corações e
os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” A
paz de Deus só pode ser nossa quando lhe
entregamos nossa ansiedade e medo.
A maneira em que o amor misturado com
ódio opera na vida diária é ilustrada pela jo­
vem que escreve a seu namorado: “Querido
George: Odeio-te! Com amor, Alice.” Estas emo­
ções confusas, sempre presentes conosco, têm
pape! importante não somente em nossas re-

59
lações humanas, mas tem muito a ver com nos­
so bem-estar ou falta dele.
Karl Menninger descreve o processo pelo
qual nossos impulsos agressivos são reprimi­
dos:

É um dos objetivos reconhecidos da educação


lidar com a agressividade existente em a natureza
da criança, isto é, no decorrer dos primeiros quatro
ou cinco anos, mudar a atitude própria da criança
para com este impulso nela inerente. A vontade de
machucar as pessoas, e mais tarde o desejo de des­
truir os objetos sofrg todas as formas de mudanças.
Ela é primeiro, geralmente, restringida, então supri­
mida por mandamentos e proibições; um pouco mais
tarde, é reprimida, 0 que significa que ela desa­
parece do consciente çla criança. A criança não ousa
mais tomar conhecimento destas vontades. Há sem­
pre o perigo de que elas possam voltar do incons­
ciente; portanto, toda medida de proteção é tomada
contra elas. A eriança cruel desenvolve a capacidade
de ter dó, a criança destruidora se torna hesitante
e cuidadosa demais. g e a educação for dirigida in­
teligentemente, o principal destes impulsos destrui­
dores será dirigido para longe do seu propósito pri­
mitivo de prejudicar alguém ou alguma coisa, e será
usado para combater as dificuldades do mundo ex­
terior: realizar tarefas ne toda espécie no sentido
de... “ fazer o bem’’, em vez de “ ser mau” , como o
impulso original exigia. 3

A paz e a harmonia interior, a ausência de


ansiedade destrutiva providenciam 0 clima emo­
cional em que os qossos corpos podem funcio­
nar melhor e as possas vidas se desenvolver
de forma mais criadora. A Bíblia afirma esse
fato e é confirmado pela ciência moderna. Nem
sempre é possível descobrir a causa da ansie­
dade. Alguém poderá afirmar que não tem
preocupação alguma, e pode ser que de fato
não a tenha, entretanto, experimenta um senti­
mento de ansiedade difusa. Talvez esta tenha
começado na infância, como resultado de um

60
pai autoritário, ou de padrões não realistas, ou
de sentimentos de rejeição. A criança de qua­
tro anos pode enfrentar a exigência de se com­
portar como se tivesse seis anos; a criança de
dez, como de doze. Se o boletim escolar traz
a nota 4, pelos padrões dos pais, deveria ser
pelo menos 6 ou 7. Se for mais de 7, então
deveria ser 9 ou 10. Se todas as notas não fo­
rem 10, a conclusão é que poderíam ser, hou­
vesse mais diligência por parte do menino.
Uma criança em tal situação aprende que
nunca poderá alcançar a plena aprovação dos
seus pais, por mais que se esforce. Jamais o
que fizer será o suficiente. Nunca se sentirá
aceita, e nunca poderá aprender a se aceitar,
enquanto não conseguir um trabalho perfeito.
Então poderá passar a vida inteira sem nunca
ser capaz de atingir coisa alguma que satisfaça
à sua própria exigência implacável de perfei­
ção. Não criou esse perfeccionismo com sua
f.losofia de vida. Foi-lhe incutido quando cri­
ança. Pode ser que ninguém lhe tenha ensi­
nado isto, mas ele o adquiriu por uma espécie
de “osmose ambiental” .
O padrão demasiadamente alto de ação
pode ser adquirido de um dos pais que real­
mente nunca exige demais de crianças. As
crianças aprendem não somente do que se lhes
diz, mas também imitando as atitudes dos pais.
A criança tem a tendência de desenvolver sua
“tonalidade emocional” simplesmente por estar
com seus pais.
Há pais que tentam inconscientemente fa­
zer com que seus filhos alcancem certos obje­
tivos para compensar seus próprios sentimen­
tos de fracasso ou de inadequação. Um estu­
dante de faculdade, cujos pais expressaram
insatisfação com suas notas, estava na mesma

61
universidade em que seus pais haviam estu­
dado. Ele pediu a um colega que trabalhava na
secretaria para verificar as notas de seus pais.
Eram bem mais baixas do que as dele!
Uma mãe, que não teve sucesso como can­
tora, forçava sua filha a tentar a carreira artís­
tica. A família toda trabalhava para este fim e
sacrificou-se para assegurar à jovem cantora
em formação um treinamento vocal. A menina
possuía uma voz bonita, mas não notável. Por
vinte anos ela lutou por um objetivo totalmente
irreal, e acabou doente física e emocionalmen­
te, desiludida da vida e como pessoa comple­
tamente frustrada.
Uma ansiedade toda dominante na vida de
uma pessoa adulta freqüentemente provém de
acontecimentos que tiveram lugar cedo na vida
da criança e desde então enterrados profunda­
mente no inconsciente. Na idade de quatro
anos uma criança um pouco rebelde, mqs mui­
to ativa, foi taxada de “teimosa” por sua mãe
e forçada à submissão. A partir daí não lhe deu
mais trabalho. Tornara-se um “bom menino”,
nunca abertamente desobediente, mas os seus
pais não conseguiram entender por que ele não
gostava de ser mimado, nem por que ele manti­
nha quase que constantemente uma expresão
de hostilidade, a qual nunca dava vazão verbal­
mente ou de qualquer outra forma. Exteriormen­
te era submisso. Interiormente fervia nele a
hostilidade reprimida. Rebe!ar-se significaria
ser privado de amor, ou abandono, o que para
a criança representa aniquilamento total. As
poucas vezes que mostrou alguns sinais de
rebelião foi surrado por seu pai, até que desis­
tiu e de novo se tornou “um bom menino"!
A agressão reprimida do menino podia ter
tomado várias direções, dependendo isto de

62
muitos fatores. No seu caso, no primeiro dia de
aula, ele ameaçou uma meninazinha no recreio,
e foi castigado na escola e em casa. Dal ele de
novo aprendeu a futilidade de mostrar agressão.
No ginásio, se envolveu em vários tipos de com­
portamento anti-sociais, tais como furto, mas
nunca foi apanhado.
A esta altura, algo de “positivo” aconte­
ceu. Sua família o havia sempre levado à Esco­
la Bíblica Dominical e à igreja. Lá ele entrava
em contato com uma espécie de religião mora­
lista, na qual havia pouco amor, mas que dava
uma forte ênfase a se “fazer o que é direito” .
Sua agressão reprimida e as exigências rígidas
de retidão sustentadas por um Deus vingador
entraram em luta, em sua alma, e Deus — o
Deus que ele havia aprendido a conhecer —
foi o vitorioso. O jovem entrou para o minis­
tério e procedeu segundo os padrões adotados.
Mas seu evangelho foi moralista e destituído
de amor por muitos anos, até que ele veio a
compreender a causa de sua hostilidade repri­
mida. Então ele desenterrou seus sentimentos,
admitiu-os diante de sua consciência e os en­
tregou a um Pai Celeste amoroso, que não
era mais um Deus moralista, exigente e vinga­
tivo. Ele começou a sentir e exprimir amor num
grau muito maior. Sua pregação moralista foi
substituída por uma ênfase ao amor redentor
e perdoador de Deus, revelado em Jesus Cris­
to. Ele sempre havia crido nisto intelectuai-
mente. Havia sido uma parte de sua teologia.
Agora se tornara parte de sua vida.
A mudança se processou principalmente
pela participação em um grupo de comunhão,
onde a honestidade para com os sentimentos
dos outros era um dos requisitos básicos. Antes
de a mudança ocorrer ele nunca havia podido

63
entender por que não sentia afeição especial
por seus pais. Ele sentia um leve laço familiar,
preocupação e compaixão, mas sem a mínima
afeição.
Ele estava agora muito mais cônscio de
uma ansiedade sem nome, para a qual não
havia causa aparente. Essa ansiedade teve o
seu quinhão de nervosismo, ataques ocasionais
de colite, artrite e uma sucessão de outros sin­
tomas vagos, mas desconfortáveis. Ao fazer as
pazes com seus sentimentos — alguns deles
enterrados de há muito — a maioria dos sinto­
mas desapareceu.
Ele começou a ver como um relacionamen­
to familiar rígido, autoritário e punitivo havia
feito com que ele sentisse a hostilidade, que
havia enterrado em sua mente inconsc ente.
Lá ele lutava contra o amor e a obediência.
Uma parte dele queria amar e ser amada, mas
a outra parte de sua natureza sentia rejeição
e hostilidade. A agressão resultante tendo sido
transformada e então permeada com amor e
compaixão, tornou-se criadora.
A agressão pode manifestar-se»de duas
maneiras: pode ser abertamente hostil e possi­
velmente destruidora, ou pode ser criadora —
sendo um impulso que muda as circunstâncias,
constrói e cria.
Às vezes as forças antagônicas criadoras
de ansiedade podem ser parcialmente reconhe­
cidas. Se sentimos, ao mesmo tempo, o desejo
de assistir a um concerto e jogar boliche na
mesma noite, um certo grau de ans:edade se
apresenta, até que o problema seja soluciona­
do. A necessidade de tomar uma decisão é
criada, em parte, pela necessidade de aliviar
a ansiedade, que persiste numa forma leve até
que uma decisão seja tomada. A ansiedade é

64
conflito interior. Se, em dada ocasião o marido
quer jogar boliche e a esposa quer assistir a
um concerto, a ansiedade pode tornar-se um
conflito conjugal, a menos que o caso seja
resolvido de modo que satisfaça a ambos.
Se a pessoa desiste com dificuldade e
apenas finge uma pronta aquiescência, surge
nela uma ansiedade interior. A necessidade de
amar e a necessidade de agir à sua própria
maneira estão em conflito. Só a autocompre-
ensão madura e o perdão e amor cristão genuí­
nos podem expulsar o demônio da hostilidade
neste sentido.
A ansiedade pode tomar formas mil. Um
amigo meu poucas vezes pôde brincar na infân­
cia. Ele tinha de estar sempre ocupado. Seus
liais estavam em aperto e cheios de dívidas. A
ansiedade deles foi transmitida aos seus três
filhos, cada um dos quais reagindo de um modo
diferente. Meu amigo tornou-se um trabalhador
compulsório, raramente permitindo-se um des­
canso, e sentindo-se culpado se tirasse um dia
de folga. Às vezes ele se recusava a tirar fé­
rias, sob a alegação de que havia coisas demais
para fazer. Seus pais, do mesmo modo, rara­
mente haviam tirado férias, mas ele não conse­
guia ver nenhuma ligação entre o seu procedi­
mento e o deles.
Suas duas irmãs reagiram à atmosfera car­
regada do lar de maneiras diversas. Uma delas
tomou a determinação de ser bem sucedida
num campo altamente competitivo e arruinou
sua saúde, destruiu seu casamento e não al­
cançou nem sucesso nem felicidade. Seu im­
pulso para realizações era tão grande que ela
não podia ter outra coisa em vista senão obter
um grande sucesso. Quando este lhe foi nega­
do, ela ficou doente e assim permaneceu por

65
toda a vida, embora os médicos, uns após ou­
tros, nada pudessem encontrar de errado com
ela. A outra irmã trabalhava durante horas, in­
crivelmente longas, e economizava seu dinhei­
ro, para gastá-lo generosamente com os outros,
e trabalhava compulsoriamente em empregos
diferentes em sucessão, e ainda cuidava da
casa, acabando por ficar prostrada, em pura
exaustão física e emocional.
Não há aqui nenhuma intenção de pôr a
culpa nos pais. Eles eram produtos de seu
próprio ambiente, e usaram do melhor crité­
rio que possuíam. Atribuir nossas doenças pes­
soais às suas origens de modo algum lança a
culpa sobre nossos pais. Se formos culpar al­
guma coisa, que sejam os males da sociedade,
ou o pecado original; ou um inconsciente cole­
tivo inseguro e perturbado — e tudo isto vai
dar na mesma coisa.
Muitas pessoas que sofrem forte ansiedade
preferiríam submeter-se a uma operação ou se­
rem hospitalizadas, ou sofrerem tratamento do­
loroso a encararem o fato de que o problema
é de origem emocional ou espiritual. Inconsci­
entemente, sem qualquer conscientização do
mecanismo envolvido, elas escolhem suportar
a dor física ao conflito emocional. O Dr. Alvarez,
da Clínica Mayo, disse que a grande maioria
dos pacientes que reclama de sintomas diges­
tivos não tem doença orgânica que seja res­
ponsável por seus sintomas. A maioria prefere
uma operação ou um tratamento dispendioso a
saber que suas “doenças” são causadas por
suas emoções. Não que essas moléstias sejam
inteiramente imaginárias; pelo contrário, geral­
mente há dor genuína envolvida, ou pelo menos
desconforto. Mas o paciente insiste: “A dor é
aqui, doutor; nada mais há de errado comigo."

66
A dor está lá, mas frequentemente sua origem
ó a ansiedade, que é simplesmente outra ma­
neira de dizer que o problema é basicamente
espiritual.
Quer o chamemos de problema de saúde
mental, problema espiritual ou desajustamento
emocional, estaremos falando da mesma coisa.
O homem é corpo e espírito, e o que afeta a
um, afeta a todos. Se há conflitos e tensões
internas, ansiedade e sentimento de culpa em
algum ponto em sua vida, o indivíduo tende a
manifestar este mal-estar espiritual por meio
de algum sintoma físico. Se não o fizer, seu mal-
-estar pode assumir a forma de masoquismo
psíquico — uma necessidade inconsciente de
punir-se a si mesmo. Ele pode tornar-se dado
a acidentes, a dificuldades, a desastres ou a
mau juízo. Sabe-se de homens que tomam uma
série de decisões incrivelmente más e que re­
sultam em fracasso inevitável, apesar de todos
os seus amigos e parentes unidos os avisarem
prevenindo-os dos resultados de tais decisões.
Este é, naturalmente, um mecanismo totalmen­
te inconsciente, pelo qual o eu se pune por
culpa real ou imaginária.
A culpa, quer real ou falsa, só pode ser
tratada de duas maneiras. Deve ser punida ou
perdoada. Se não pudermos nos assegurar do
perdão, encontraremos um modo de nos punir­
mos física, mental ou circunstancialmente —
isto parece ser uma lei cósmica inexorável.
Mas então não é Deus quem está punindo, mas
o próprio eu condenador.
Isto nos leva à pergunta feita durante sé­
culos, do porquê do sofrimento do justo. Ne­
nhuma resposta completamente satisfatória ja­
mais pôde ser oferecida, embora volumes e
volumes tenham sido escritos sobre o assunto,

67
desde o livro de Jó até o último trabalho teoló­
gico sobre o problema do bem e do mal. O
justo sofre realmente. Jesus disse: “No mundo
tereis aflições.” 4 Sofremos não só os males
organizados da sociedade (guerra, fome, doen­
ça, catástrofe), mas também sofremos, tanto
quanto o “injusto”, por causa dos nossos con­
flitos internos, se não tivermos alcançado a
maturidade emocional e espiritual. O mero co­
nhecimento dos fatos bíblicos e da moralidade
cri&tã não nos garantirá isenção do conflito in­
terior, e muito menos de desastres naturais.
Uma senhora idosa e boa ficou aleijada
por uma artrite reumatóide. Suas mãos ficaram
deformadas, e a espinha, torcida. Vive em dor
constante. Seus amigos não podem entender
por que esta querida velhinha, que gastou tanto
de sua vida ao serviço dos outros, que nunca
faltou à igreja, cuja vida moral tem sido sempre
livre de qualquer suspeita, possa sofrer tanto.
é um espírito meigo e gentil. Por quê? — per­
guntamos — por quê?
Embora os médicos n^o estejam de acordo
quanto à causa real da artrite reumatóide, há
evidências clínicas suficientes para confirmar
que a hostilidade reprimida frequentemente
produz artrite, desde leves a severas. Muitos
dos pacientes que sofrem de artrite são plá­
cidos e gentis externamente. Raramente têm
consciência de que abaixo do nível do cons­
ciente sempre tem havido hostilidade, que
aprenderam a reprimir cedo na vida.
Loring T. Swaim ex-professor de artrite na
Escola de Medicina de Harvard e que tem sido
um especialista no campo da ortopedia por
cinquenta anos, ó autor de um livro notável,
Arthrítfs, Medicine, and the Spirttual Laws (Ar­
trite, Medicina e as Leis Espirituais), no qual

68
cita um grande número de casos que foram
curados só depois que ele levou os indivíduos
a lidarem com seus ressentimentos reprimidos,
ou com outras emoções negativas, à luz dos
ensinamentos de Cristo.
A Sra. Blandon, uma excelente professora
de Escola Bíblica Dominical, tinha um conheci­
mento notável da Bíblia. Ela falava de assuntos
espirituais com calma e autoridade e sempre
expressava uma doce paciência em suas ma­
neiras. Ela se tornou quase que totalmente inca­
pacitada pela artrite nos seus últimos anos, e
aqueles que a visitavam sempre saíram com o
sentimento de que era quase uma bênção estar
na presença dela. Ela nunca reclamava.
Ela foi criada numa atmosfera religiosa rí­
gida. Quando bem jovem, aprendeu que expri­
mir o ressentimento era pecaminoso, e assim
se tornou uma criança complacente, respeitosa
e obediente. A rebeldia normal do adolescente
nunca foi expressa por ela. Cresceu acreditan­
do que nôo sentia hostilidade. “Um crente nun­
ca odeia”, dizia. “Nunca responde mal. Deve­
mos vencer o mal com o bem.” Suas citações
eram boas, seu conhecimento de teologia ex­
tenso. mas a conscientização de suas emoções
era quase inexistente. Ela havia aprendido a
reprimir (negar e olvidar) toda consciência de
hostilidade; mas o conflito interior prosseguiu
nas câmaras subterrâneas de sua alma, crian­
do ansiedade desequilíbrio metabólico e, com
o tempo, uma doença que lhe produziu alei-
jamento.
A Sra. Blandon jamais sonharia em contar
uma mentira a alguém, mas foi ensinada, quan­
do criança, a mentir a si mesma acerca de
seus verdadeiros sentimentos, é igualmente er­
rado quer mintamos a Deus, aos outros ou a nós

69
mesmos. Uma mentira ó simplesmente a nega­
ção, repressão ou distorção da verdade. O uni­
verso de Deus depende de leis espirituais de
amor e verdade. Não é o simples conhecimento
da verdade que nos liberta, mas o desejo de
oncarar a verdade acerca de nós mesmos.
Não só a artrite, que usamos simplesmen­
te como ilustração, mas centenas de outras per­
turbações físicas resultam da ansiedade nas­
cida da nossa recusa em sermos honestos
para com nossas emoções. Dependendo de
coisas tais como sensibilidade orgânica, fato­
res ambientais, ou a necessidade inconsciente
de a pessoa escolher algum sintoma particular,
a ansiedade pode manifestar-se de centenas
de modos diferentes.
Por exemplo, muitos dos que sofrem de
úlcera gástrica são pessoas dependentes e
hostis. Elas geralmente não parecem depen­
dentes. Pelo contrário, com freqüência mos­
tram evidência de serem duronas, de terem per­
sonalidade cheia de recursos. Interiormente
estão divididas. Uma parte de sua personali­
dade se tornou complacente e dependente, ge­
ralmente por causa de dominação materna for­
te, e a outra parte da personalidade está bus­
cando liberdade. O conflito inteiro cria ansie­
dade, que pode ser devastadora. Alguns paci­
entes que sofrem de úlcera não podem jamais
aceitar o fato de que eles sentiram, tanto amor
quanto ódio para com um ou ambos os pais; e
seu complexo de culpa reprimido pelos seus
sentimentos hostis para com um dos pais cria
tensão e ansiedade interior.
O simples reconhecimento deste conflito
interior não é sempre suficiente para se conse­
guir a cura. Muitos descobrem que precisam,
primeiro, de conscientização da causa básica;

70
segundo, de aceitação destas emoções como
válidas e reais, e, terceiro, de ação. Isto é,
elas precisam “ventilar” seus sentimentos num
lugar apropriado.
É claro que algumas ansiedades têm ou­
tras causas. Em The Dynamics of Personal
Adjustment (A Dinâmica do Ajuste Pessoal),
Lehner e Kube dizem que a ansiedade pode
provir de:

Discrepâncias entre o nível de realização de- um


Indivíduo e as metas e prêmios que uma sociedade
diz serem desejáveis. Assim, um indivíduo que é
membro de uma sociedade que enfatiza a riqueza
material e a posição social pode se tornar ansioso,
preocupado e desalentado, se ele falhar em conse­
guir muito dinheiro e em melhorar sua posição so­
cial. Isto será verdade especialmente se seus amigos
Íntimos e associados esperam que ele alcance estes
objetivos... A necessidade de expressar a agressivi­
dade, ou hostilidade pode ser também uma fonte de
ansiedade quando tal expressão é afogada por res­
trições culturais ou conseqüências ameaçadoras...
Deveras, qualquer exigência que o indivíduo sente
que não pode preencher ou que está em conflito com
suas necessidades pode ser fonte de ansiedade. *

Lehner e Kube sugerem que a ansiedade é


o centro comum, do qual todo comportamento
neurótico surge. Eles mencionam moléstias tí­
picas como úlceras, dores de cabeça e aler­
gias com sintomas de ansiedade.
Karl Menninger cita Ali ibn Hazm, que viveu
de 994 a 1064; “Ninguém é levado a agir ou
resolve dizer sequer uma única palavra se não
esperar, por meio desta ação ou palavra, libe­
rar a ansiedade de seu espírito.” 6 Novecentos
anos atrás este antigo escritor antecipou a des­
coberta que a psicologia moderna faria, de que
evitar a ansiedade é a motivação primária da
ação humana.

71
O. Hobart Mowrer apresenta o sentimento
de culpa não solucionado como a maior fonte
de ansiedade destrutiva e conseqüente neu­
rose. Diz ele:
Manifestamente nem todos os erros ou “ peca­
dos” levam a dificuldades neuróticas. Algumas pes­
soas “ficam presas” aos mesmos, e algumas volun­
tariamente os confessam e arcam com as suas con-
seqüências. Outras simplesmente não têm consciên­
cia suficiente para serem incomodadas. Mas as pes­
soas de bom caráter que não são nem afortunadas
o suficiente para se encobrirem, e nem sábias o su­
ficiente para confessarem, desenvolvem uma dispo­
sição crescente, com o correr do tempo, de experi­
mentarem as emoções e cometer ações que cha­
mamos de “sintomas” . .. Por um pouco de tem­
po a neurose pode permanecer dormente, la­
tente — “o Senhor é tardio em irar-se” . Mas,
eventualmente, o período da “ graça” expira, “ a
paciência” se acaba e o indivíduo descobre que a
consciência não é mais um amigo confortador, mas,
ao contrário, um critico severo e inimigo. O Indiví­
duo, por assim dizer, vira-se contra si mesmo, e,
quando isto acontece, ele está na espécie de “ difi­
culdade” que chamamos de psicopatologia.7

Quer o chamemos de pecado, complexo de


culpa, neurose da ansiedade, ou “uma ilusão
da mente mortal”, estaremos falando exata­
mente da mesma coisa. Estaremos descreven­
do um indivíduo que está fora da harmonia das
leis divinas e, assim, alienado de Deus, do seu
próximo e de si mesmo. Ele pode libertar-se de
sua alienação e de seus sintomas se resta­
belecer uma relação amorosa com Deus e os
homens. Ele poderá vir a sentir-se perdoado e
aceito. Seu autodesprezo, consciente ou in­
consciente, pode ser substituído por uma auto-
-aceitação. Milhares descobriram que um grupo
pequeno, sob condições adequadas, pode criar
o ambiente no qual esta transformação espiri­
tual pode efetuar-se. Aqui pode-se aprender a

72
confiar em suas emoções, em seu próximo e em
Deus. No processo dá-se um grande passo na
direção da obediência à suprema lei do amor;
porque, no seu âmago, a ansiedade é ausên­
cia de amor.

73
4

A CURA DA ANSIEDADE

Todas as doenças do corpo proce­


dem ou da mente ou da alma —
Platão.

A psiquiatra Karen Horney apresenta qua­


tro maneiras principais de escapar à ansiedade:
negá-la, evitar o pensamento ou o sentimento
que a desperta, racionalizá-la e "narcotizá-la”. i
A estas quatro acrescentarei uma quinta, que
me parece a única maneira criativa de lidar com
a ansiedade de um modo definitivo.
O primeiro método, que consiste em negar
a existência da ansiedade, é geralmente um
processo inconsciente. O indivíduo pode ter
consciência de certos sintomas depressivos ou
dolorosos, que podem ser físicos ou emocio­
nais, e estar desapercebido do verdadeiro mo­
tivo da ansiedade.
Uma mulher certa vez me pediu que orasse
por ela porque tinha medo de um ataque car­
díaco. Antes de orar eu perguntei quais eram
seus sintomas. Ela contou-me que sofria de for­
te palpitação do coração, que o seu médico
havia dito que a causa era emocional, e não
orgânica. Ela estava certa, entretanto, de que
as batidas violentas do coração, que surgiam

75
quando menos esperava, eram o indício de que
ela estava prestes a sofrer um ataque cardíaco.
Perguntei-lhe quando o problema havia
começado. Ela replicou que tinha notado as
palpitações pela primeira vez em março do ano
anterior. Então se lembrou de que sua mãe, já
idosa, havia falecido nesse mês. Ela até o
momento de falarmos, não notara nenhuma li­
gação entre os dois acontecimentos. Então
agora começamos o demorado processo de
tentar descobrir o que, acerca da morte de sua
mãe, havia provocado esta tremenda ansiedade.
Ela assegurou-me que apenas sentia imensa­
mente a morte da mãe. Aparentemente, não ha­
via medo da morte e nenhuma conscientização
de outra causa qualquer de ansiedade indevida.
Quando procuramos o que se ocultava sob
o consciente, encontramos a fonte do proble­
ma dela. E aconteceu que eram duas coisas re­
lacionadas, e não apenas uma. Ela pôde ver que
havia conscientemente temido a morte de sua
mãe, mas inconscientemente a tinha desejado.
Ela havia escondido este sentimento da sua
mente consciente. Ninguém deseja st morte de
sua mãe! Quando este pensamento surgia peri­
gosamente no consciente, ela o afastava e ne­
gava que o tivesse tido. “A gente não deve ter
tais pensamentos!” ela dizia, excitada. “Eu não
sou, de modo nenhum, desse tipo de pessoas
que os admitem. Eu amava minha mãel’’ Even­
tualmente, entretanto, ela aceitou o fato de que
tinha tido emoções confusas acerca da morte
de sua mãe, querendo-a e temendo-a. E como
ela havia reprimido o desejo de que sua mãe
morresse, não podia obter o sentimento de
perdão. Nunca poderemos nos sentir perdoa­
dos por uma emoção que não admitimos ter.

76
é impossível confessar a Deus o que não con­
fessamos a nós mesmos.
Outra causa de sua ansiedade era o medo
não reconhecido de que ela também devia mor­
rer. Era assaltada por certos sentimentos de
culpa. Ela sentia-se culpada como se tivesse
culpa genuína perante Deus. Sabia intelectual­
mente que Deus a havia perdoado, mas não
aceitava isto emocionalmente. Em seu incons­
ciente, ela começara a temer a morte como um
castigo para seus pecados. O inconsciente não
funciona numa base lógica. Ele atua em relação
aos sentimentos primitivos e frequentemente
infantis. Ela conscientemente não pensava todas
estas coisas, mas as sentia. Ela “sabia” me­
lhor com seu consciente, mas, não conhe­
cendo o funcionamento do inconsciente, pen­
sava que o que “sabia” intelectualmente era
precisamente o que sentia. Ela pensava que
estava dizendo a verdade quando dizia que
não tinha razão para a ansiedade.
Então ela pôde entender que possuía uma
ansiedade profunda acerca da morte de sua
mãe, a qual em parte tinha desejado, e, em par­
te, temido; era um sentimento profundamente re­
primido de que devia ser punida, por seus mal-
-feitos e “maus” pensamentos, e a morte podia
ser a forma de punição. A morte de sua mãe
havia feito aflorar um dilúvio de memórias par­
cialmente esquecidas de sua infância: ameaças
tremendas do que lhe aconteceria se ela deso­
bedecesse ou fizesse algo mau. Pela primeira
vez ela compreendeu o motivo pelo qual devia
orar. Não era um funcionamento cardíaco er­
rado, ou ameaça de um ataque, mas sentimento
de culpa, medo e ansiedade. Quando ela pôde
encarar seu verdadeiro sentimento com hones­
tidade e humildade, conseguiu alívio para seus

77
sintomas físicos. Mais importante ainda, ela foi
aliviada de grande parte da ansiedade que ha­
via estragado sua vida até este ponto porque
compreendeu que a oração não ó um modo
mágico de obter a ajuda de Deus numa crise,
mas que envolve completa honestidade para
com Deus, para com os outros e para conosco
mesmos.
Evitar é a segunda maneira de lidar com a
ansiedade. Quando usamos este artifício pro­
curamos evitar os sentimentos, situações ou
pensamentos que despertam ansiedade. Não
surte mais efeito do que negar a ansiedade.
Uma pessoa excessivamente tímida pode
achar que as relações sociais causam ansie­
dade, de modo que ela faz todo esforço para
evitar as pessoas; o indivíduo que tem medo das
alturas evita pontes e edifícios altos; a pessoa
que experimenta ansiedade indevida ao dirigir
em lugares montanhosos, estar entre a multi­
dão, falar em público, pode simplesmente evitar
estas situações. Mas com isto nada é solucio­
nado permanentemente. A ansiedade básica
ainda persiste.
Algumas de nossas ansiedades são nor­
mais. é somente quando a ansiedade — medo
difuso — permeia a vida e destrói nossa paz
mental que precisamos procurar a causa sub­
jacente.
É normal que uma jovem mãe fique um
pouco apreensiva quanto ao seu novo papel.
Uma dessas mães, grandemente angustiada,
revelou-me seu medo terrível de que pudesse
fazer alguma coisa prejudicial ao seu filho.
Medo e sentimento de culpa haviam feito com
que ela ficasse quase que emcionaimente do­
ente. Ela amava seu bebê. Como é possível

78
que tivesse esses pensamentos terríveis de pre­
judicá-lo?
Na primeira sessão de aconselhamento, ela
foi levada a ver que não era a criança que ela
odiava, mas as responsabilidades novas, das
quais sentia-se incapaz de se desincumbir.
Esta descoberta minorou seus sentimentos de
culpa, e a ansiedade anormal decresceu, sem
necessidade de mais ajuda.. Eia pôde, então,
prosseguir adequadamente como mãe.
Ela havia estado em choque com os pen­
samentos de prejudicar seu filho, e primeiro ti­
nha procurado negar o sentimento e depois
evitá-lo; mas não havia maneira de evitá-lo.
Ele devia ser enfrentado e solucionado.
A pessoa que adia as coisas está lidando
com a ansiedade pela evitação, embora ela não
esteja consciente disto. Não é a preguiça que
faz com que as pessoas adiem indevidamente o
escrever uma carta, ir ao médico, ou fazer uma
chamada telefônica. Nós chamamos isto de
procrastinação, o que realmente é, mas a pro-
crastinação aparecé basicamente por causa de
ansiedade. Por alguma razão, geralmente en­
contrada no inconsciente, nos encontramos com
a ansiedade de fazer outra coisa, em vez de
escrever a carta, telefonar ou ir ao médico.
Portanto, “solucionamos” o problema tempo­
rariamente, evitando-o. A dificuldade é que o
problema não é resolvido de verdade.
Algumas pessoas têm grande dificuldade
com o que chamam de “maus” pensamentos.
Estes pensamentos, com freqüência relaciona­
dos com sexo ou hostilidade, vêm às suas
mentes espontaneamente. Estas pessoas sen­
tem-se embaraçadas e envergonhadas por abri­
garem tais pensamentos. Tentam expulsá-los
de suas mentes, mas quanto mais se esforçam

79
por expulsá-los tanto mais eles se arraigam, e
nessa luta entre a vontade e a imaginação, esta
geralmente vence.
Em primeiro lugar, não existe uma tal coisa
como um “mau” pensamento. Há pensamentos
destrutivos, pensamentos sem objetivo e pensa­
mentos absurdos. Se, em vez de colocar todos
os pensamentos em duas categorias, de “bons”
e “maus”, a pessoa puder dizer pensamentos
“criativos” e “destrutivos”, terá tomado o pri­
meiro passo para a solução.
Quando muitos pensamentos sem objetivo
assaltam a mente a gente pode dizer: “Este não
ó um ‘mau’ pensamento. É um pensamento des­
trutivo, porque destrói minha paz mental. Não
sei a sua origem, não o convidei, não me im­
portarei com ele, nem me sentirei culpado por
causa dele. É um hóspede não convidado, por­
tanto, darei atenção a outra coisa qualquer
sem um sentimento de culpa ou auto-condena-
ção.” Com o tempo este processo de deixar de
lado tem muito mais poder sobre os pensa­
mentos sem objetivo e não desejados do que
todo o poder da vontade poderia exercer.
A dificuldade em usar a evasão como so­
lução é que a pessoa tende a evitar somente
o sintoma, o que deixa o verdadeiro problema
escondido e não resolvido; ele então persiste
e se manifesta de outro modo.
Um homem, certa vez, contou seu medo
paralizador de ir além de determinada distância
em suas atividades diárias. Ele estava limitado
a uma área de uns dez quarteirões. Passar a
fronteira de sua "prisão” ocasionava-lhe medo
muito forte — batidas do coração, agitação ex­
trema e outros sintomas, tão severos que ele
simplesmente não se podia forçar a ir além de
seus limites auto-impostos. Em algumas oca­

80
siões, sem aviso, seu mundo inteiro o restrin­
gia tanto que ele sentia dificuldade em sair de
casa. Quando, finalmente, se forçava a sair,
um sintoma secundário, como dor de cabeça
severa, aparecia.
A origem de seu problema estava em fortes
sentimentos de culpa, que ele tinha cuidadosa­
mente negado e escondido de si mesmo. Seu
sentimento de culpa não resolvido pedia perdão
ou auto-punição de alguma forma. Assim, seu
primeiro passo foi negar e reprimir seus senti­
mentos de culpa, empurrando-os para o incons­
ciente, e foi então que seus numerosos sintomas
apareceram. Embora negasse o fato, ele acha­
va que sua limitação de espaço era menos
ameaçadora do que encarar o verdadeiro pro­
blema, que era o seu sentimento de culpa.
A segunda tentativa que ele fez para solu­
cionar seu problema foi evitar a situação que
provocava a ansiedade. Quando ir além de um
ponto determinado causava medo intenso, ele
simplesmente parava. Evitando o sintoma ele
sentia alivio da ansiedade por uns momentos,
mas isto não resolvia o problema básico. Nes­
sas ocasiões em que achava difícil mesmo sair
de casa, se ele se forçava a fazer isto (não evi­
tando mais a situação), respondia inconscien­
temente com outro sintoma — dor de cabeça.
Todos os esforços no sentido de fazê-lo
procurar a causa real falharam, quer no grupo,
quer no aconselhamento particular. Ele queria
remover o sintoma, mas recusava-se obstina­
damente a encarar a causa real — o sentimento
de culpa — ou mesmo admitir a possibilidade de
que esta podia ser a fonte de seu problema.
Era como se ele dissesse, na profundeza do
seu inconsciente: “ Prefiro antes sofrer a dor e
o embaraço de meus sintomas do que a dor

81
maior de olhar para dentro e encarar meu sen­
timento de culpa.”
É fácil ter um espirito crítico neste ponto
e difícil entender o conflito real travado em sua
mente. Ele realmente não podia suportar a dor
e examinar a culpa que sentia, qualquer que
fosse. Em vez de encará-la e confessá-la, ele
simplesmente a negava e então tentava evitar
as situações que despertavam todos os seus
sintomas. Provavelmente, não há esperança de
aliviar tal situação enquanto a pessoa não en­
contrar o problema verdadeiro. A Bíblia o cha­
ma de pecado. Os psicólogos o chamam de
ansiedade e conflito. O nome pouco importa.
Não obstante, independente de como o chame­
mos, para ficar livre, todo ser humano precisa
encarar e confessar o que quer que seja que
o separa de seu ser verdadeiro, de Deus e de
seu próximo.
Um terceiro método de lidar com a ansie­
dade é racionalizá-la. Todas as racionalizações
são, em grande parte, processos inconscientes.
O que dizemos através da racionalização pode
ser verdadeiro, total ou parcialmente, mas não
será uma explicação do modo de agir.
Ouvi dois homens discutindo os méritos
de seus carros novos e dispendiosos. Um deles
deu uma explicação por que comprou um carro
tão c a ro .. O motor novo, recém-lançado pelo
fabricante, dava quilometragem surpreenden­
temente boa. Ele dirigia muito e precisava do
conforto que o carro proporcionava. A direção
hidráulica fazia com que as viagens longas
fossem muito menos fatigantes, e assim por
diante. Seu amigo ouviu atentamente toda a
lista de racionalizações, sorriu e disse: “Com­
prei o meu, em parte, porque é um símbolo de
posição social!” O outro negou evidentemente

82
que a posição social tivesse qualquer coisa a
ver com sua escolha do carro.
Séries constantes de interrupções, como
uma sucessão de chamadas telefônicas, criam
ma s tensão em mim do que em muitas pessoas
que conheço. A tensão cria ansiedade e a an­
siedade cria tensão. Por muitos anos a minha
racionalização era que eu tinha trabalho para
fazer e não teria tempo para fazê-lo se tivesse
que ser interrompido tantas vezes. Minha racio­
nalização era verdadeira até onde se podia
perceber, mas eu sempre evitara o problema
básico.
O problema real, depois pude ver, era que
eu ficava com um sentimento de culpa e autro-
crítica se não conseguisse dar conta de certo
trabalho proposto. Por exemplo, uma manhã,
incumbi-me da tarefa de ditar um certo número
de cartas. Houve uma série de interrupções
inesperadas: a campainha parecia tocar a cada
segundo; o telefone tilintava a cada instante,
até que pedi para não ser interrompido; mem­
bros da diretoria entravam, e em cada caso
parecia que a interrupção envolvia algo impor­
tante que não podia esperar. Minha irritação ia
aumentando. Eu tinha completado só uma fra­
ção do trabalho de que me incumbira, quando
a secretária anunciou que uma mulher estava
à minha espera. Embora tivesse marcado uma
consulta para ela, eu havia-me esquecido. En­
quanto olhava para o trabalho não terminado,
mandei que a senhora entrasse. Sob minha cor­
dialidade havia uma subcorrente de irritação
por não ter terminado o trabalho planejado.
Estou certo de que a visitante notou minha
frustração, porque vi isto refletido em seu modo
de agir.

83
Examinando meus sentimentos mai9 tarde,
senti-me um pouco culpado por não ter sido ca­
paz de completar meu trabalho, que agora teria
que ser feito à noite; culpado por não ter conse­
guido dar conta, ao mesmo tempo, da diretoria,
visitas, chamadas telefônicas e interrupções.
Então percebi que estava racionalizando minha
ansiedade. Eu a havia atribuído ao meu zelo
de terminar a tarefa, e a um conseqüente sen­
timento de fracasso, por não ter sido capaz de
fazer tudo o que havia proposto a mim mes­
mo.
A verdade, como depois percebi, consistia
em uma série de coisas. Quando era menino,
eu me sentia aceito por meus pais somente
quando fazia bem meus deveres e a tempo.
Na infância, eu ficava possuído de sentimento
de culpa se não estivesse em constante ação.
A ansiedade paterna foi transmitida a mim.
Já como adulto, descobri que só poderia me
aceitar se terminasse a tempo minhas tarefas
auto-impostas. Eu me sentia vagamente culpado
e incapaz quando não as terminava. Não havia
pai para criticar, a não ser o pai “interno” que
mora em cada um de nós. Meus sentimentos
de culpa não constituíam, em sentido algum,
de “culpa real” ; eram de “culpa falsa”. Eu era
culpado só perante a consciência acusadora,
que fora assim condicionada em minha infân­
cia. Por uma série de inteligentes racionaliza­
ções, eu tinha quase conseguido fazer virtude
do que era uma reação levemente neurótica,
baseada em condicionamentos da infância. O
trabalho, então, que me propus foi o de insis­
tir que “o adulto de agora” tomasse as deci­
sões, e não mais a “criança interior do pas­
sado” .

84
Um quarto método de lidar com a ansie­
dade é “narcotizá-la”. Isto pode ser feito pelo
uso de drogas, álcool, super-ocupação e de
vários outros modos. Bilhões de dólares são
gastos anualmente em álcool e drogas num
esforço para escapar da ansiedade. Pode ser
a ansiedade produzida pela solidão, pelos sen­
timentos de inferioridade, de culpa ou de frus­
tração, ou pela ameaça de fracasso. O álcool
paralisa os centros cerebrais superiores, onde
o juízo é produzido, e tende a minorar a ansie­
dade temporariamente. A pessoa não tem mais
coragem do que antes; sua capacidade de to­
lerância para com a ansiedade não foi aumen­
tada. Nada, de fato, aconteceu, a não ser que
ela se narcotizou. Alguns dos tranqüilizantes
funcionam da mesma maneira. A pessoa não
se torna mais capaz de enfrentar a vida, talvez,
mas a vida parece-lhe menos ameaçadora no
momento. Ninguém duvida do valor de certas
drogas como soluções temporárias para o pro­
blema da ansiedade, mas elas não proporcio­
nam cura para o mal-estar básico, que é o pro­
blema da ansiedade não aliviada.
Um processo menos consciente, e muito
respeitado socialmente, ó o de narcotizar a
ansiedade pela super-ocupação. A maioria dos
trabalhadores pertence a esta categoria. Quer
seja a devoção compulsiva da pessoa pelo seu
trabalho, a atenção exagerada da mãe para
com detalhes inumeráveis do trabalho domés­
tico, ou a fadiga de quem trabalha na igreja,
cujo trabalho nunca termina, sendo compulsão
orientada para Deus, tudo deve ser reexami­
nado.
Uma jovem esposa e mãe reclamou que não
podia entender como seu marido, muito des­
cansado, mas altamente competente, podia

85
“ficar sentado, oihando pela janela”. Exaspe-
radamente ela disse: “Ele pode ficar sentado
sem fazer nada. Eu não posso simplesmente
me sentar. Há coisas demais para serem fei­
tas. O trabalho da mulher nunca termina."
Acontecia que o problema dela era uma
mistura de racionalização e narcotização.
Quando criança, ela nunca tivera permissão
para ficar à toa ou lendo um livro. Seu pai
insistia em que as crianças deviam estar sem­
pre ocupadas, mesmo quando não havia traba­
lho para ser feito. Além disso, como jovem
esposa, ela estava tendo dificuldades conside­
ráveis no casamento. A comunicação teria sido
interrompida. A ocupação constante com a
casa, acrescida de muita atividade social, cons­
tituía um escape, para ela, da ansiedade de
contato mais íntimo com seu marido. Ele, por
sua vez, começou a devotar mais e mais tem­
po ao seu escritório, o que também era um es­
forço inconsciente para evitar a ansiedade ge­
rada em casa.
Há também pessoas que procuram minorar
a ansiedade envolvendo-se em atividades so­
ciais. Tais pessoas não estão sendo sociais de
verdade; estão é procurando escapar de ansie­
dade produzida pela solidão, procurando res­
posta para sua própria auto-alienação. Seus
esforços podem consistir em constante ida a
festas, visitação, divertimento; ou podem to­
mar a forma de “boas obras” na comunidade ou
na igreja local. Todos ou alguns destes podem
ser ou esforços criativos ou esforço inconsci­
ente de silenciar a pequena voz que nos enco­
raja a avaliar nossa vida íntima e nossas me­
tas.
Um sábio escreveu: “Precavenha-se da
estabilidade da ocupação” ; e outro provérbio,

86
muito repetido, diz: “Quando se está ocupado
demais para orar, então se está ocupado de­
mais.” Super-ocupação é uma característica da
nossa sociedade e-é muito claro que, por melhor
que nos possam parecer muitas de nossas ati­
vidades frenéticas, muito do que passa por ativi­
dade digna é simplesmente um esforço para
aliviar a ansiedade. O bom pode tornar-se
inimigo do melhor.
Certa senhora, membro de um grupo, em
uma sessão inicial, fez um inventário pessoal
simples (o teste de desenhar uma pessoa), o
qual foi interpretado na hora. O lídsr disse,
depois de examinar a figura: — Parece que
você está tentando fugir do universo, por quê?
Ela replicou: Bem, na verdade eu sou uma
das pessoas mais ocupadas que se possa ima­
ginar. Longe de fugir, estou ocupada o dia
inteiro, todos os dias da semana, tentando so­
correr as pessoas necessitadas à minha volta.
Há tanto que precisa ser feito, tantas pessoas
que necessitam de ajuda. Há algo de errado
nisto?
O líder respondeu: — Claro que não há
nada de errado em ser útil. Este teste simples
não revela o que você está fazendo, mas nos
revela que você está insatisfeita com suq vida
ou com algum aspecto dela, que você gostaria
de se retirar e desistir de tudo. Por quê?
Então ela disse, pensativamente: — Bem,
realmente eu fico terrivelmente fatigada. Estou
sempre cansada das minhas muitas atividades.
Às vezes me pergunto como é que eu poderia
sair disso tudo e simplesmente ir embora para
algum lugar e . .. — ela fez uma pausa.
Alguém disse: — E fugir do universo, de
você mesma e dos seus problemas interiores?

Ô7
— Sim, talvez seja isso. Eu simplesmente
fico tão cansada!
Discussão posterior revelou que ela estava
frenética e neuroticamente ocupada com uma
dúzia ou mais de atividades na igreja e na
comunidade. Ela, era amável e prestativa, a
própria compaixão e compreensão personifi­
cadas. Mas sua fadiga, que não era tanto física
como psicogênica, procedia de sua ansiedade
interior. Ela não sabia de outra maneira de solu­
cionar essa ansiedade a não ser narcotizando-a
com excesso de ocupação. Ela ajudava muita
gente e muitas causas boas; mas sentia-se
frustrada e internamente desligada da vida. Ela
estava resolvendo os problemas dos outros,
mas sua própria ansiedade ficava sem solução.
Quando chegou o dia de verificar se o
grupo deveria continuar, ela foi a primeira a
objetar se seu horário tão cheio lhe permitiría
continuar Ela estava tentando evitar a neces­
sidade dolorosa de examinar a verdadeira fon­
te de sua ansiedade, que estava baseada num
profundo sentimento de inaptidão.
A quinta possibilidade e a única solução
criativa é procurar e remover a causa da ansie­
dade. Outra vez pode ser enfatizado que não
há nada de errado com a ansiedade em si
mesma. É somente quando nossa ansiedade
adquire tão grandes proporções de modo a li­
mitar a eficácia do que fazemos, que precisa­
mos procurar a sua origem. Isto é mais fácil
de sugerir do que realizar, porque freqüente-
mente as suas raízes estão profundamente en­
terradas no inconsciente. A pessoa pode estar
totalmente inconsciente dos acontecimentos
que lhe criaram um grau indevido de ansie­
dade. Freqüentemente, entretanto, é possível

88
procurar e lidar com a causa dessa ansiedade
anormal.
Uma jovem senhora que pôde descobrir a
causa de sua ansiedade em reuniões de grupo,
não estava nem mesmo cônscia de que a an­
siedade era um problema em sua vida. Ela
estava levando uma vida normal e criativa sob
todos os pontos de vista. Ela era benquista,
altamente competente no seu trabalho, e um
fiel membro de igreja. Era, para todos os efei­
tos, uma jovem senhora totalmente normal.
Num retiro, onde os presentes participa­
vam de sessões de grupo, ela parecia estar
enfrentando algum problema interior, cuja natu­
reza não sabia. Depois da sessão, ela veio a
mim para discutir certas ansiedades que a in­
comodavam. Sugeri a possibilidade de que
tais ansiedades geralmente se originavam de
sentimento de culpa e pedi-lhe que trouxesse
para nossa próxima sessão uma lista em rela­
ção a que ela sentia o tormento do complexo
de inferioridade, vergonha, rejeição ou culpa.
Expliquei-lhe que tudo isto tende a ser regis­
trado na natureza interior como sentimento de
culpa. Ela trouxe a lista, e bem grande, na se­
mana seguinte. Demostrava angústia conside­
rável, ao revelar sua lista. Seu sofrimento era
causado pelo fato de ter escondido estas coisas
por muito tempo. Ela não podia acreditar que
alguém pudesse jamais respeitá-la, muito me­
nos amá-la, se conhecesse todas as coisas a
seu respeito ali contidas.
Sentimento de vergonha e medo, de infe­
rioridade e rejeição estavam todos misturados.
Quando ela terminou, eu disse: — Eu não acho
que você tenha pecado tanto, mas que tantos
pecaram contra você. Sair-se de tudo isto e
tornar-se a pessoa maravilhosa que você é,

89
para mim, é um feito extraordinário. Eu sempre
pensei bem de você. Agora que conheço a sua
vida anterior, sinto uma admiração muito maior,
e amor também.
Ela, surpresa, perguntou: — Como é que
alguém pode me respeitar e amar sabendo tudo
isto a meu respeito?
Ao que eu disse: — Eu posso. E qualquer
outra pessoa também.
Da próxima vez que a vi percebi uma mu­
dança radical. Havia franqueza nela, uma nova
alegria e vivacidade. Ela era uma personalida­
de aliviada, e ainda permanece assim. A ansie­
dade causada pelo sentimento de culpa tinha
mantido uma grande porção de sua personali­
dade sob disfarce; ou melhor, uma grande
quantia de sua energia psíquica estava sendo
gasta em dissimular. Agora ela não tinha nada
para esconder. Não precisava mais gastar gran­
de parte dos recursos espirituais combatendo a
ansiedade. Essa energia agora estava à dispo­
sição para a vida criativa.
Dr. Mowrer diz que as pessoas necessitam
de outras pessoas; e “quando esta necessidade
é frustrada — como sói acontecer pela de­
cepção e negação da identidade contínua —
há em cada pessoa socialmente ajustada um
desejo poderoso de voltar às relações humanas
satisfatórias e confortadoras”. Ele chama a
atenção para o conflito entre o nosso medo de
sermos descobertos e o forte desejo interior de
jogar nossas máscaras fora e procurar relações
criativas com os outros. “Como resultado de
uma política de duplicidade, os seres humanos
têm evitado detenção e castigo; e . . . a condi­
ção que chamamos de doença mental é o mal-
-estar que vem de uma consciência intranqülla
e . . . sentimento de culpa não resolvido!” 2

90
O tempo não diminui nossos sentimentos
de culpa. A passagem do tempo pode embaçar
a memória da culpa, ou ela pode mesmo ser
“esquecida” — enterrada no inconsciente.
Mas ainda está lá, criando seu fardo de ansieda­
de desnecessária. Mesmo que o sentimento de
culpa não seja, de modo nenhum, a única causa
da ansiedade, ele contribui grandemente para
a criação da ansiedade destrutiva. Por culpa,
queremos dizer, não somente pensamentos,
atitudes e atos culposos, mas o sentimento
geral de “inadequação”.
As generalizações são perigosas, como
descobriu o estatista que começou a atravessar
um rio cuja média de profundidade seriam dois
pés, e adentrou-se em água de doze pés de
profundidade! Assim, tendo em mente os riscos,
façamos as seguintes generalizações:
1. A ansiedade até certo ponto é necessá­
ria e criativa. Além desse ponto é destrutiva.
2. Se a tolerância do indivíduo para com
as situações normais que produzem ansiedade
é pequena, ela pode ser aumentada com o tem­
po pelo processo de amadurecimento emocio­
nal.
3. A ansiedade insuportável, que excede
nosso nível de tolerância, tenderá sempre a
produzir ou sintomas físicos, ou depressão
emocional, ou ambos.
4. As causas de nossa ansiedade serão
encontradas em uma ou mais destas áreas:
(a) Tentativa de alcançar alvos incompa­
tíveis.
(b) Sentimento de culpa, recente ou de
muito tempo, real ou falso (muito sentimento de
culpa está centralizado em sexo e hostilidade).
(c) Condicionamento da infância.
(d) Fracasso em alcançar algum ideal.

91
Em média, a pessoa que experimenta an­
siedade indevida encontrará a causa de sua
dificuldade em uma ou mais destas áreas.
Isto requer, entretanto, um desejo de se abrir
e não ser defensivo; de correr o risco de se
expor, com consequente rejeição (que quase
nunca acontece); e ser cruelmente honesto
para consigo mesmo e para com os outros.
O processo não é fácil, e raramente pode
ser levado a cabo sozinho. Nossa capacidade
para auto-decepção é enorme. Outros, em um
grupo pequeno, podem ajudar-nos, gentil e
amorosamente a encarar nossa tendência de
racionalizar. Nós não só precisamos de dis­
cernimento psicológico, mas também da pre­
sença curadora de Alguém que disse: “Porque
onde dois ou três estiverem reunidos em meu
nome, ali estarei no meio deles.” 3 De alguma
maneira mística, a presença e o poder de Cris­
to são experimentados quando um pequeno
grupo de pessoas se reúne em Seu nome a fim
de serem honestos para com ele, para consigo
mesmos e umas para com as outras. Seu poder
então é ajuntado ao nosso discernimento hu­
mano, e não estamos sós em nossa procura.
Somos fortalecidos e sustentados por Seu espí­
rito e pelos outros engajados na mesma busca.

92
5

ALCANÇAMOS O QUE
REALMENTE DESEJAMOS

Se desejares somente Deus, poderás


possuir, além dele, tudo o mais —
Meister Eckhart

Fiz um sermão num domingo de manhã


sobre os vários níveis da oração. Toquei bre­
vemente num aspecto particular da oração,
dizendo algo mais ou menos assim: “A visuali­
zação tem uma parte vital na oração eficaz. A
comunhão com Deus tém muitos outros as­
pectos, mas pode ser sumariada deste modo:
Se o que você deseja estiver em harmonia com
a vontade básica de Deus; se for coerente com
os ensinamentos de Jesus; se não prejudicar
ninguém e puder contribuir grandemente para
o seu bem-estar ou dos outros; e se você admi­
tir a vontade de Deus em sua vida, poderá re­
ceber o que você quer se o visualizar.
Visualizar alguma coisa implica em ver essa
coisa na tela de sua mente como um fato
consumado. Isto é o que Jesus queria dizer
quando afirmou: ‘Se podes crer, tudo e possível
ao que crê!’ Crer significa que você sabe que
isso é um fato.” Continuei sobre este assunto

93
um pouco mais e talvez a maioria das pessoas
presentes tenha concordado intelectualmente
com a idéia.
Mas houve pelo menos uma das pessoas
presentes que aceitou a idéia num nível mais
profundo. Depois do culto, quando todos ti­
nham saído, este jovem, um estudante univer­
sitário, disse: — O Senhor vai à Terra Santa
neste verão, não é?
Eu repliquei — Sim, partirei em julho.
Ele disse casualmente: — Se importaria
se eu fosse com o senhor?
Respondí: — De modo algum. Ficaria en­
cantado se o tivesse comigo.
Eu o conhecia havia alguns anos e nesta
época ele estava trabalhando com os jovens
da igreja.
Então eu me surpreendí dizendo: — Es­
pere aí! Onde você vai arranjar o dinheiro para
a viagem?
— Não sei — respondeu ele — mas, en­
quanto o senhor estava falando esta manhã
o assunto da visualização, de repente me vi
na Terra Santa. Eu o ajudei a editar muito do
seu filme feito em viagens anteriores à Terra
Santa, e muitas das cenas são bem reais para
mim. Enquanto o senhor estava falando, de
repente me senti desejando poder ir à Terra
Santa, e repentinamente comecei a me visua­
lizar andando pelo Portão de Damasco para
dentro da velha cidade de Jerusalém. Não sei
como vou chegar lá, mas sei que vou. Não pedi
isto a Deus. Só apliquei os testes que o Senhor
sugeriu, e acho que passei em todos. Eu quero
realmente a vontade de Deus em minha vida e
acredito que isto é basicamente bom. Não pre­
judicarei ninguém e acho que isso abençoará
minha vida.

94
Algumas semanas mais tarde eu lhe per­
guntei — Jerry, como vão seus planos para ir
à Terra Prometida?
— Bem. Continuo pretendendo ir.
— Descobriu uma maneira de arrumar di­
nheiro?
— Não, mas ele aparecerá. Ainda posso
ver-me entrando pela porta de Damasco.
Um mês mais tarde perguntei-lhe sobre
isso outra vez. Ele me assegurou que seus pais
não iam ajudá-lo. Para deixar bem claro, eu
lhe disse que eu tinha certeza de que a igreja
não poderia ajudá-lo. Ao que ele disse:
— Eu sei. Mas eu vou.
Cerca de seis semanas antes do dia da
partida, comecei a ficar um pouco preocupado
com o Jerry. Afinal de contas, fora ele quem
tinha visualizado a viagem, não eu. Disse-lhe
que ele precisava se vacinar e arranjar seu pas­
saporte e o visar logo. Ele ainda não possuía
sequer um dóíar para a viagem, mas parecia
despreocupado. “Eu vou”, era tudo o que dizia.
Parecia não haver dúvida, nem incerteza de
qualquer espécie. Ele disse que se soubesse o
que fazer para arranjar dinheiro o faria, mas
não recebera orientação neste sentido. Não pre­
tendia tomar dinheiro emprestado ou pedir a
alguém. — O Senhor terá que resolver isto —
dizia ele. — Estou pronto a fazer tudo o que
devo. Mas eu não saberia por onde começar.
Quando eu parti para a Terra Santa de
avião, Jerry estava lá ao meu lado, enfeitado
de máquinas fotográficas como um bom turista.
Visitamos cidades na Europa, passamos algum
tempo em Cairo, explorando uma pirâmide re-
cém-descoberta, e finalmente chegamos à velha
cidade de Jerusalém, na Jordânia. Enquanto
entrávamos pela antiga Porta de Damasco, na

95
cidade de Jerusalém eu perguntei: — Jerry, foi
assim que você visualizou isto? Ao que ele
respondeu: Precisamente. É o modo exato
como o visualizei.
Jerry não pediu dinheiro emprestado. Nin­
guém lançou uma campanha para angariar
fundos dos amigos dele, mas ele foi à Terra
Santa em cumprimento de um sonho visualiza­
do que se tornou oração. Não era o tipo de
oração em que se implora a Deus algum favor.
Era, antes, a quieta resposta às condições divi­
nas, e a vivida visualização da coisa como rea­
lidade, e ele realizou o que tinha visualizado.
Quando conto este caso as pessoas sem­
pre argumentam: “Mas o senhor não nos disse
como ele chegou lá. De onde saiu o dinheiro?”
Minha resposta sempre foi: “Pouco adiantaria
contar-lhes os detalhes, porque, se vocês tives­
sem o mesmo objetivo e orassem como Jerry
fez, Deus provavelmente respondería de uma
maneira diferente.”
O que realmente transpareceu foi mais a
evidência de que Deus freqüentemente respon­
de às nossas orações através das pessoas, e
que quando estamos compietamente de acordo
com Sua vontade, ele é capaz de fazer o que
sempre tem procurado fazer — abençoar-nos
além dos nossos mais belos sonhos. A Bíblia
declara que “Ele é capaz de fazer muito mais
abundantemente do que tudo o que lhe pedi­
mos ou pensamos.” Foi assim no caso de
Jerry.
Um dia, não muito antes da data da parti­
da, os preparativos de Jerry ainda estando por
serem feitos, eu disse: — Jerry, falta pouco
tempo, e você não tem o dinheiro. — E meio
piiheriando perguntei: — Você tem algum pa­
rente rico?

96
— Não, nenhum. Oxaiá tivesse.
— Nenhum tio rico?
— Não, nem tias.
Ainda a título de piada, perguntei: — Ne­
nhum amigo rico?
— Não, nenhum. Bem, sim e não. Quando
criança, tive uma professora de Escola Bíblica
Dominical que era rica, mas eu nem sonharia
em pedir-lhe dinheiro.
Então ele falou-me a respeito dela. Eu a
conhecia um pouco, embora ela morasse em
outra cidade a centenas de quilômetros de dis­
tância. Perguntei a Jerry se ele se incomodava
se eu pedisse a ela. Ele disse: — Não, mas não
levantarei um dedo para ajudá-lo. Eu não vou
pedir a ajuda de ninguém para isto. Tudo o
que sei é que eu vou, de alguma maneira.
Dinheiro não cai do céu em cestos. As pas­
sagens devem ser pagas à vista e são vendidas
somente às pessoas que possuem dinheiro. Eu
sabia que se Deus realmente quisesse que Jerry
fosse — e eu tinha começado a sentir algo da
segurança tranquila dele — então a resposta
teria que vir por meio de aiguma pessoa. Es­
creví para sua antiga professora de Escola Bí­
blica Dominical, que, mais tarde vim a saber,
lembrava-se dele muito e com saudade. Eu
simplesmente disse a ela que precisava vê-la
por causa de um assunto de importância para
mim e Jerry e perguntei-lhe quando poderia­
mos nos encontrar. Ela respondeu que estaria
em nossa localidade na semana seguinte, para
um jantar numa das institituições de nossa de­
nominação.
Eu também fora convidado para esse jan­
tar e disse a ela que a veria lá, então. Ao entrar
no salão, ela se aproximou, vindo de outra
direção, e nos encontramos na porta. Verifica-

97
mos nossos convites e sentamos juntos duran­
te o jantar. Durante um breve intervalo no pro­
grama eu lhe contei que planejava outra visita
à Terra Santa num projeto que levaria várias
semanas e que Jerry queria ir comigo. Eu não
lhe falei da convicção segura dele de que ia.
Expressei minha opinião de que seria uma ex­
periência significativa e proveitosa para ele.
Houve uma pausa momentânea, e então ela per­
guntou: — Quanto custará?
— Eu Iho disse. Ela respondeu: — Enviar-
Ihe-ei um cheque dentro de alguns dias.
E enviou. Toda a conversa não demorou
mais de dois minutos.
Mais tarde fiquei sabendo a razão da pausa
momentânea. Ela ma revelou da vez seguinte
em que a vi. Foi que no momento em que eu
fiz o pedido ela estava passando por algum
aperto financeiro devido a erros de seu con­
tador ao arquivar seus recibos de imposto de
renda. — Mas — ela acrescentou — era algo
que eu sentia que devia fazer.
Talvez que um ou dois incidentes pudes­
sem ser atribuídos à coincidência ou outros fa­
tores, mas, depois de descobrir, através de ex­
periência pessoal, a relação entre visualização
e fé, tenho visto este princípio dinâmico em
ação vezes demais para atribuí-lo à mera coin­
cidência.
A igreja da qual eu sou pastor tem patrocina­
do várias igrejas missionárias através dos anos.
Depois da guerra, verifiquei novas áreas resi­
denciais se formarem em bairros vizinhos. Numa
dessas, que pareceu surgir da noite para o dia,
falei com o responsável sobre adquirir um ter­
reno para uma igreja. Ele me afirmou, um tanto
impolidamente, que não tinha interesse algum

98
em igrejas e nem tinha intenção de providen­
ciar lugar para isso. Recusou-se até mesmo a
vender lotes separados que oferecessem lugar
para uma igreja. Explicou que necessitava não
somente do lucro da venda dos lotes como
também das casas. “Se o povo quiser ir à igreja,
que se dirija até a comunidade mais próxi­
ma”, disse ele.
Retirei-me, sentindo que era uma causa
perdida, mas, algumas semanas mais tarde,
enquanto dirigia através do novo bairro, orei:
“Senhor, se tu quiseres uma igreja aqui, tu
podes nos mostrar a maneira de consegui-lo.
Portanto, deixo isto em tuas mãos.” No dia
seguinte, falei com um dos membros de nossa
igreja sobre isto, um homem aposentado e en­
tendido em propriedades. Eu disse: “Sinto que
Deus quer uma igreja nesta área. Se assim é,
deve haver algum modo de realizá-lo. Vou dei­
xar isto com você e com Deus. Veja o que é
que pode fazer.
Poucos dias depois ele veio me ver. “En­
contrei um pedacinho de terra na forma de um
pedaço de torta de maçã, que o responsável
pôs à venda, mas é pequeno demais para uma
igreja. Dei uma olhada no mapa da cidade e
descobri que um dono particular possuía um
pequeno pedaço de terra adjacente ao pedaço
em questão. Ele comprou essa terra antes que
o loteador comprasse a propriedade em volta.
Se conseguirmos comprar dele, acho que tere­
mos terreno suficiente para uma igreja. Nesta
altura, preciso de algum dinheiro para a entra­
da, porque não posso fazer uma oferta bona
fide sem algum dinheiro em mãos. Há fundos
disponíveis para este projeto?”
Disse-lhe que os fundos para a extensão
de nossa igreja estavam esgotados, mas que

99
eu havia descoberto um pr ncípio básico algum
tempo atrás: quando Deus quer que algo seja
feito, a gente vai e faz, que o dinheiro e as
outras coisas necessárias estão a caminho.
Disse-lhe para pedir à Comissão de Finanças,
permissão para usar 1.000 dólares temporaria­
mente como depósito para a propriedade. Eles
concordaram com a condição de que eu seria
o responsável, em última análise, para repor
o dinheiro.
Uma oferta foi feita pelos dois pedaços de
terra adjacentes e foi aceita. A entrada foi de­
positada. Tínhamos noventa dias para encon­
trar 12.000 dólares.
Alguns dias mais tarde, eu estava almo­
çando com um membro da igreja e a conversa
caiu sobre o rápido aumento do valor das pro­
priedades. Eu disse: “Sim, e está afetando nos­
sa possibiTdade de estabelecer novas igrejas
nesta área. Por exemplo, há um pequeno pe­
daço de terra que queremos para construir uma
igreja num bairro novo. Cinco anos atrás pode­
riamos tê-lo comprado por 5.000 dólares. Hoje
estão pedindo 12.000 e, na medida em que os
preços estão subindo, custará 25.000 daqui a
cinco anos.” Contei-lhe os planos para a nova
igreja e ele disse pensativamente: “Vou ven­
der um pedaço de terra, e a venda será com­
pletada em menos de noventa dias. Eu dou
trinta por-cento do meu lucro para Deus, e
trinta por-cento de meu lucro por esta proprie­
dade será um pouquinho mais de 12.000 dóla­
res. Eu lhe remeterei um cheque quando fe­
char o negócio.” Continuamos com o nosso al­
moço.
Eu não podia saber que meu amigo tinha
12.000 dólares para dar. Não tenho certeza se
ele pretendia dar todo o dinheiro para a igreja,

100
ou parte dele, porque, além de suas ofertas
generosas à igreja, ele possuía outros interes­
ses vários. Mas, por alguma razão — certa­
mente que não foi coincidência — eu me en­
contrei falando com o homem certo na hora
certa acerca de uma necessidade para que não
havia os meios de solução.
Quando o cheque chegou, foi suficiente
para pagar o terreno, e com sobra suficiente
para a entrada de uma casa, onde a igreja
poderia funcionar temporariamente até que o
templo fosse construído.
O jovem ministro designado para fundar a
igreja também era responsável para encontrar
uma residência apropriada para reuniões. Ele
procurou ,por várias semanas, mas as casas à
venda ou estavam em lugar inconveniente ou
eram caras demais, ou pequenas demais. Final­
mente, eu disse: “George, vamos deixá-lo com
Deus. Ele tem mais interesse nisto do que nós,
e Ele está pronto a dar a orientação. Paremos
de procurar. Não faça nada enquanto você não
tiver uma convicção interior segura de que deve
agir. Entrementes, visualize tudo isto como já
realizado. Veja na tela mental interior o fato
consumado. Veja a casa certa, do preço certo,
no local certo. Projete isto na sua tela mental
diariamente e o conserve lá. Não faça mais
nada.”
Algumas semanas mais tarde ele me tele­
fonou e estava consideravelmente excitado.
“Encontrei a casa! Ontem à noite quando ter­
minava de jantar, de repente lembrei-me de
uma casa que tínhamos tentado comprar algum
tempo atrás e que não quiseram vender. Está
no local certo e é do tamanho certo. Senti que
devia visitar os donos da casa outra vez e ver
se eles mudaram de idéia. Bem, eu fui, e eles

101
me disseram que justamente na noite anterior
eles tinham decidido colocar a casa à venda e
planejado chamar um corretor de imóveis na
manhã seguinte. Cheguei lá justamente na noi­
te anterior à colocação da casa à venda. Econo­
mizaremos a comissão, e, o mais importante,
é a casa certa, no tempo certo e local certo."
A casa foi comprada.
O pequeno grupo de pessoas que ele havia
conseguido pela visitação começou a se reunir
na casa nova. Eles planejaram começar uma
Escola Bíblica Dominical e mandaram convites
para todas as casas da vizinhança. Tinha pla­
nejado ter classes funcionando em vários cômo­
dos da casa, na garagem e nas salas de estar
dos membros que moravam perto.
No primeiro domingo, quase 150 crianças
apareceram para a Escola Bíblica Dominical!
Tudo o que puderam fazer foi matriculá-las e
pedir para que voltassem no domingo seguinte.
Na semana seguinte estavam preparados para
os cento e cinqüenta jovenzinhos. Pediram ga­
ragens na vizinhança e, de um modo ou de
outro, conseguiram fazer a Escola Bíblica Do­
minical funcionar. Os recursos não eram os
melhores, mas ninguém reclamou.
O culto de adoração era realizado na sala
de estar e na sala de jantar adjacente até que
estes aposentos ficaram pequenos demais para
isto. Em tempo, George disse-me que a resi­
dência tinha ficado pequena para a igreja e
eles estavam longe ainda de conseguir dinheiro
suficiente para começar a construção do tem­
plo. Verifiquei as acomodações e disse: — Ge­
orge, faça uma demarcação aqui atrás da casa.
Marque uma área suficientemente grande para
acomodar setenta e cinco pessoas, um coro
pequeno e um púlpito. Deixe a demarcação aí e

102
pergunte a Deus se ele quer que você construa
um templo provisório no local.
— E, que faremos para conseguir o di­
nheiro?
— Justamente o que fizemos antes. Colo­
cá-lo-emos numa tela mental, visuá-lo-emos e
deixaremos que Deus nos ajude a consegui-lo.
Este negócio é dele, você sabe.
Alguns dias mais tarde, verifiquei que
George havia traçado uma área retangular no
fundo do lote. Não parecia muito grande, mas
ele me assegurou que podia acomodar 75 pes­
soas. Sugeri que fizesse o orçamento com um
construtor. — Quando Deus providenciar o di­
nheiro — eu lhe disse — você deverá estar
com o custo do material em mãos. Você e seu
povo poderão fazer a construção. Só pagare­
mos o material.
Decidiram que podiam construir um templo
pequeno e provisório pegado à casa, de modo
que parte da congregação poderia ficar na
casa e parte no templo. E tudo por uma quan­
tia razoavelmente pequena.
Alguns dias mais tarde, uma de nossas ir­
mãs da igreja me telefonou. Ela disse: Fui lá
na igrejinha nova para ver o que eles poderíam
precisar na cozinha e vi aqueles cordões, ou o
que quer que sejam, lá fora, no fundo. Per­
guntei ao George o que eram, e ele me disse
que eram "linhas de fé”, que representavam o
novo templo. Disse quanto o material vai custar
e então decidi lá mesmo que daria metade da
quantia. Desde então tenho pensado nisto e
sinto que o Senhor quer que eu dê a quantia
toda.”
Mas houve outros obstáculos. Quando fo­
ram tirar a licença para a construção disseram-
-Ihe que não podiam construir um templo, mes-

103
mo provisório, num terreno em que havia uma
casa. Isso violava todos os códigos da cidade.
George me perguntou o que deviam fazer. Eu
disse: — Não sei. Acho que você podia apelar
para a Comissão de Planejamento da Cidade.
Tente isto, mas continue a ver este templo ter­
minado na sua tela mental. Se for a vontade
de Deus, ninguém poderá impedi-lo.
Assisti à sessão da Comissão de Planeja­
mento com ele, mas insisti que era ele quem
devia falar. Ele fez uma exposição excelente,
mas, como eles apontaram, o plano era uma
violação clara dos códigos de construção da
cidade. Certamente que haveria objeções do
povo da comunidade, como tinha havido quan­
do a igreja começou a se reunir na residência.
George, em pé na frente dos membros da comis­
são, finalmente disse: “Bem, o que os senhores
acham que devemos fazer?”
1 Os membros, a esta altura, eram unânimes
na crença de que aquilo não podia ser. Mas
quando George ficou de pé, perguntando-lhes o
que eles achavam que ele devia fazer, um dos
homens da Comissão de Planejamento disse:
"Vocês sabem que precisamos de mais igrejas
na comunidade. Todos sabemos disto. Eu de­
testo sinceramente ter que negar esse pedido.
Gostaria de achar alguma maneira em que eles
pudessem fazer sua construção.” Um segundo
membro concordou: “Sim, é uma vergonha, uma
verdadeira vergonha. Devíamos encorajar as
igrejas o mais que pudermos.” Os outros mem­
bros da Comissão assentiram com a cabeça.
Tentaram fazer George dizer quanto tempo fica­
riam no templo provisório, mas ele disse que
não podia saber. Podia ser um ano, ou seis
meses, ou dois anos. A'comissão esperava po­
der basear sua decisão no fato de que seria

104
uma iniciativa apenas provisória. George não
podia prometer nada.
"Bem”, disse um dos membros, “propo­
nho que vamos adiante e deixemo-lo construir
esse templo.de qualquer forma, quer seja legal
ou não. É algo certo, mesmo que não seja
legal, e talvez o certo deva ter a precedência.”
0 voto foi unânime.
“Tudo é possível ao que crê.” * George
descobriu isto e a igreja também. Finalmente e
sem muito esperar, um pequeno templo, com
algumas salas para a Escola Bíblica Dominical,
foi construído no terreno da igreja.
Se tão-somente pudéssemos obter o con­
ceito de um Deus pessoal que trabalha atra­
vés de leis e princípios impessoais; se pudésse­
mos ver que esses princípios nos cercam por
todos os lados, esperando que estendamos a
mão e os recebamos, se tão-somente pudésse­
mos crer que Deus é infinitamente bom, e que
espera que confiemos nEle e o amemos —
então poderiamos receber bênção sobre bên­
ção, milagre sobre milagre.
Há aqueles que argumentam que isto é
"usar a Deus”. O medo de "usar a Deus” está
baseado numa verdade parcial. Nós não deve­
mos nunca desejar as bênçãos de Deus sem
desejarmos o próprio Deus. Ele não é um Papai
Noel celeste que traz os presentes que pedi­
mos nos nossos apelos infantis. Ele quer nosso
amor, como Jesus apontou na frase tão citada
e tão pouco obedecida: “Mas buscai primeiro
o seu (de Deus) reino e a sua justiça, e todas
estas coisas vos serão acrescentadas” 2 — ou
— “serão decorrências naturais”. Procurar o
Seu Reino deve significar, entre outras coisas,
procurar Sua vontade para nossas vidas. Signi­
fica que devemos confiar nEle completamente.

105
Se não pudermos confiar nEle, não pudermos
crer que Sua vontade para nós é boa e maravi­
lhosa além do nosso poder de compreensão,
como poderemos jamais nos aproximarmos
dele, querê-lo, amá-lo? Por que esperar dádivas
de uma divindade distante na qual não pode­
mos confiar inteiramente?
Buscar o Reino significa darmos prioridade
ao Reino de Deus em nossas vidas. Implica em
querermos a vontade de Deus acima da nossa,
sabendo que o que Ele deseja é bom e certo
e leva a maior felicidade e realização do que
poderiamos descobrir sozinhos. Não querer
a Sua vontade é recusar a confiar nEle. Rejeitar
Sua vontade e desejar a nossa própria é estar
em rebelião contra Deus, que nos fez e nos
ama.
Parte da relutância em querer Sua vontade
completa vem do medo de que, se entregarmo-
-nos a Ele completamante, Ele poderá nos man­
dar ao Afaganistão como missionários ou fazer
com que abandonemos alguns de nossos pra­
zeres. Parte de nossa dificuldade nasce de nos­
sas vontades teimosas e egocêntricas. Quere­
mos as coisas à nossa maneira. Tememos per­
der nossa autonomia, nossa liberdade de esco­
lha e parte de nossa individualidade como pes­
soas. É, basicamente um medo inconsciente de
perder a nossa condição de ser. Alguém mais
estaria dirigindo nossas vidas, e não queremos
isto, mesmo se esse alguém seja Deus.
Uma criança depende de seus pais. Quan­
do adolescente, luta para ser uma pessoa à sua
própria maneira, e, a fim de se tornar indepen­
dente, rebela-se contra a autoridade. Ao passo
que vai amadurecendo vê que há algo melhor
do que dependência ou independência — a
interdependência.

106
Muilas pessoas, na vida cristã, nunca
passam da fase da adolescência espiritual, esse
período de independência irriquieta que carac­
teriza os jovens. Mas, à proporção que nos
amadurecemos espiritualmente, descobrimos a
alegria da interdependência com Deus. Ele
deixa conosco o livre arbítrio com que nos
adotou. Ele nunca violará nossa liberdade de
escolha.
Querer a vontade completa de Deus em
nossas vidas é simplesmente outro modo de
dizer que aceitamos o universo da maneira
como foi criado; que o aceitamos com alegria;
que nos regozijamos em saber que Deus é
amor infinito e quer o melhor para nós; que
estamos desejosos de confiar na Sua maneira
de dirigir o universo; que queremos experi­
mentar a satisfação de ter Suas leis universais
operando a nosso favor.
Quando eu tinha mais ou menos seis anos
de idade, alguém morreu numa casa do outro
lado da rua. Foi a minha primeira experiência
com a morte, e me recordo de ter ouvido al­
guém dizer: “ Devemos nos resignar com a
vontade de Deus.” Associei, então, a vontade
de Deus com a morte. Talvez muitos cristãos
tenham formado concepções erradas sobre a
vontade de Deus de algum modo como esse.
Há uma frase que é usada pelos que tra­
balham com seguros, “Um ato de Deus”, refe-
rindo-se usualmente a um desastre, tal como
furacão, terremoto ou um acontecimento além do
controle dos homens. O sentido original da fra­
se não traz a implicação de que Deus quer que
coisas más aconteçam aos homens, mas que
tais acontecimentos não são causados pelos
homens. Eles podem nos levar a sentir, incons­
cientemente, que a vontade de Deus significa

107
alguma coisa catastrófica ou pelo menos ina­
ceitável.
Na oração, como na vida, temos a tendên­
cia de colocar o que realmente desejamos no
centro de nossas naturezas. O neurótico nos
diz que fará tudo para se ver livre dos seus
sintomas, mas é um fato consumado que ele
fará tudo, exceto abandoná-los. Para ele, é pre­
ferível ficar com seus sintomas do que encarar
e lidar com o problema verdadeiro. Deste modo
ele obtém o que mais quer.
Pela oração recebemos o que desejamos
mais ardentemente. Pode ser o que não esta­
mos pedindo, mas é o que desejamos, porque
‘‘oração é o desejo sincero da alma, expresso
ou não”. Se o que pedimos em oração verbal
estiver em conflito com o que queremos basi­
camente no nível do sentimento, recebemos,
não o que pedimos, mas o que realmente dese­
jamos.
Alguém pode orar: “ó Senhor, abençoa os
missionários nos campos estrangeiros”, mas se
estiver indiferente quanto ao bem-estar deles,
então essa será a natureza e extensão de
sua oração. Alguém pode orar para que algum
sintoma físico desapareça, mas se, no coração,
estiver relutante em mudar a atitude emocional
básica que causou o sintoma, estará dizendo:
"Quero que o sintoma seja removido, mas não
a causa real.” Como o sintoma não pode ser
removido verdadeiramente sem a causa, ele
consegue precisamente o que realmente pre­
fere, sob tais circunstâncias, que é antes sofrer
o sintoma do que correr o risco de uma mu­
dança de personalidade ou atitude.
Oração não é mera verbalização. As pala­
vras que proferimos não terão significado real,
a menos que sejam um reflexo verdadeiro do

108
que sentimos ou pensamos. Quando o que dize­
mos e o que sentimos estão em conflito, então
o que sentimos é a oração verdadeira.
Oração, então, não é meramente palavras.
Oração não é um esforço para mudar Deus
ou Sua vontade para conosco.
Oração é um esforço para colocar nossas
vontades teimosas, relutantes e egocêntricas
em harmonia com Seu propósito amoroso e
beneficente. Ele quer o melhor para nós. Quan­
do pudermos confiar nos Seus propósitos sá­
bios e criativos para nossas vidas, teremos
começado a orar eficazmente.

109
c~ ■
6

CONFISSÃO

A pessoa não é feita de atos, mas


somente de desejos. Igual ao seu
desejo é sua resolução; igual à sua
resolução é a ação que ela pratica;
o que pratica ela procura para si
mesma. — Upanishadas

Só Deus sabe quantos milhões de seus


filhos confessam seus pecados e erros sem
nunca terem conseguido qualquer sentimento
real de perdão e purificação. Seu número deve
ser incontável: Após trinta e seis anos como
pastor, durante os quais aconselhei centenas
de pessoas, me parece que o fracasso em
aceitar o perdão e sentir-se perdoado consti­
tui o maior problema para a maioria das pes­
soas, embora elas possam estar desapercebi­
das parcial ou totalmente da dificuldade básica.

Todos os crentes acreditam intelectualmente


no perdão, e muitos são capazes de citar a pas­
sagem, tão familiar: “Se confessarmos os nos­
sos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar
os nossos pecados e nos purificar de toda in­
justiça.” Muitos dos que citam esta passagem,
entretanto, não conseguem experimentar o sen­
timento de perdão. Freqüentemente, o próprio

111
vigor do seu protesto: “todos os meus pecados
foram lavados” nos mostra que ainda há dú­
vida em suas mentes. Somos poucos os que
nos sentimos inteiramente limpos e perdoados
ao ponto de nos perdoarmos inteiramente e de
perdoarmos os outros.
Existe um “zelo falso” com que muitas pes­
soas bondosas praticam seu dever cristão.
Isto nos mostra que elas estão procurando in­
conscientemente uma compensação para um
sentimento de culpa específica ou vago e di­
fuso. A mesma coisa podemos ver operando
nos trabalhadores compulsórios.
Em um de nossos grupos um jovem mi­
nistro revelou-nos seu sentimento de culpa por
não ter sido fiel no cumprimento de seu mo­
mento devocional diário. Tinha um horário mui­
to cheio, mas pressentira que esta não era a
causa verdadeira. Ele disse: “Ocasionalmente,
eu tenho tempo para televisão, mas não con­
sigo achar tempo para conversar com Deus.
Não sei qual é a barreira real.”
Há, freqüentemente, em tais grupos, uma
percepção extraordinária. Alguém disse: “Será
que você não se sente culpado por causa de
outra coisa que você recusa examinar, e não
pode encarar a Deus por causa dessa coisa
que você se recusa a encarar?”
O jovem ministro sorriu, mas havia uma
certa tensão no sorriso, como se ele estivesse
tentando encontrar a resposta, mas estivesse
com medo de achá-la. Então algüém fez esta
pergunta penetrante:
“Será que você não se sente inquieto pela
falta de tempo que dedica à sua família, e sua
esposa, de modo que você sente culpa genuína
por isto, mas não quer encará-la? E talvez,
se você realmente encarasse isto em oração,

112
você teria que fazer alguns ajustes no seu ho­
rário.” Havia uma conscientização intuitiva no
grupo de que a pergunta havia atingido o alvo.
"Sim”, disse ele, “agora vejo que este é
o meu problema. Se eu separasse um período
diário especificamente para meditação e oração
eu teria que encarar este problema. Eu sei que
minha esposa tem um pouco de razão. Existem
as exigências do meu trabalho da igreja, e as
exigências de minha família. Eu cumpro as exi­
gências do meu trabalho da igreja porque, se
eu não o fizesse, isto criaria mais ansiedade do
que a provocada pelas necessidades legítimas
de minha família.
Com a faculdade inventiva caracteristica-
mente humana ele havia escondido cuidadosa­
mente de si mesmo a verdadeira razão de sua
recusa em encontrar-se com Deus diariamente.
Ele nem mesmo tinha permitido que a causa de
seu problema viesse à consciência, mas ela
estava lá, logo sob a superfície. Uma investi-
gaçãozinha de leve, por parte dos outros, não
menos culpados neste ou em outros sentidos,
havia ajudado a determinar seu problema.
E com que compreensão e interesse amo­
roso o grupo inquire, ajudando uns aos outros a
descobrir o que estava sendo evitado incons­
cientemente! Numa sessão de grupo, eu revelei
uma certa culpa que sentia por causa do res­
sentimento que experimentava quando pessoas
importunas se aproximavam de mim e interrom­
piam uma conversa, apresentando alguma ne­
cessidade obviamente inventada, a fim de obte­
rem atenção. Alguém (não muito elegantemen­
te) se referiu a tais pessoas como “poços sem
fundo” — pessoas que precisam de amor e
atenção em doses tão desmedidamente gran­
des que é como se fossem sem fundo, nunca

113
sendo satisfeitas, sempre voltando com novas
desculpas para obter atenção, não importando
quão inconsistente é o pretexto que usam.
Havia uma tendência da parte de alguns
no grupo de se identificarem comigo nisto, ten­
do sofrido, como eu, por causa de tais pessoas;
mas um jovem perspicaz perguntou: “Não será
você mesmo uma espécie de poço sem fundo,
e precisa de amor com a mesma intensidade,
mas não deixa isto se tornar conhecido a si
mesmo? Será que você não está simplesmente
projetando sua própria necessidade interior so­
bre elas, odiando-as em você mesmo, e, por
conseqüência, nelas?’’
Minha reação imediata foi de rejeitar a
sugestão. A própria enfase com que a rejeitei
me mostrou que ela havia tocado algo doloroso.
Ocupei-me disto mais tarde e cheguei à conclu­
são embaraçosa de que eu realmente estava
projetando o que sentia sobre outros. Eu sentia
necessidade igual de amor em um nível bem
profundo, e o havia reprimido.
Mas ela estava lá, entrètanto. Não tendo
resolvido completamente minha própria neces­
sidade insatisfeita de receber amor, eu reagia
demais contra os outros que tinham o mesmo
problema. Agora eu podia confessar o pecado
real. Não era ressentimento que eu precisava
confessar. Eu podia confessar isto indefinida­
mente sem conseguir um sentimento de liber­
tação, porque estaria confessando a necessida­
de errada. O que eu agora havia partilhado
com o grupo era algo que não estava querendo
encarar: minha própria necessidade de amor.
Eu não queria admitir que desejava e precisava
de amor. Na realidade, eu percebi que era par­
cialmente incapaz de aceitar amor. Depois que
admiti isto para mim mesmo e para o grupo, eu

114
não mais reagi desfavoravelmente quando as
pessoas importunas me procuravam. Eu havia
confessado o verdadeiro problema.
Um homem, certa vez, me confessou que
tinha um gênio terrível. Ele havia orado por
longo tempo por libertação, mas sem resultado.
Eu disse: “Talvez você esteja confessando o
pecado errado. Examine seus sentimentos mais
íntimos e veja se não consegue descobrir uma
grande porção de temor dentro de si. Este sen­
timento pode estar tão profundamente enterra­
do ao ponto de ser totalmente irreconhecível.”
Ele não aceitou esta possibilidade, mesmo
eu explicando que muito de nossa hostilidade
procede do medo, e então tememos a hostilida­
de. Mais tarde, ele desenvolveu uma fobia que
o prejudicou seriamente no praticar as coisas
mais simples da vida contidiana. O medo havia
começado a se manifestar de outro modo. En­
tão ele procurou minha ajuda a fim de se livrar
da fobia. Eu disse: “Procure dentro de você a
culpa, que talvez esteja parcialmente enterrada.
Quando você a descobrir terá achado a causa
de sua fobia.” Ele não se interessou muito por
isto, querendo só se livrar da fobia, mas sem
a dor de procurar a culpa enterrada. Ele ainda
sofre a fobia.
Isto não quer dizer que todas as fobias se­
jam resultado de sentimento de culpa, ou que
uma pessoa que sofre de uma fobia seja mais
culpada do que qualquer outra. É simplesmen­
te uma forma que o sentimento de culpa adqui­
re. A pessoa prefere a fobia a ter que encarar
o sentimento de culpa!
Um homem, certa vez, me contou uma ex­
periência perturbadora. Ele estava fazendo pro­
gresso significativo num grupo, mas disse, se­
gundo o seu julgamento: “As pessoas não se

115
achegam a mim prontamente, e eu acho que
elas não confiam em mim de verdade." Ele
mantinha certa reserva, que constituía uma
barreira que e!e havia levantado inconsciente­
mente entre si e os outros, sem perceber.
Ele tinha percebido que havia “ matéria"
profundamente reprimida no seu inconsciente.
Em uma sessão com um conselheiro ele se
lembrou repentinamente de uma experiência
traumática que tinha tido quando era menino e
que havia esquecido até aquele momento. Ele
havia sido molestado sexualmente e tinha sen­
tido vergonha e culpa por causa disto, como ge­
ralmente acontece, mesmo quando a criança
não é culpada em sentido algum. Numa sessão
posterior ele recordou de uma experiência ain­
da mais chocante. Seu próprio pai o havia mo­
lestado sexualmente. Enquanto recordava a ex­
periência e a revivia emocionalmente, ele expe­
rimentou profunda angústia.
A experiência dele ilustra o fato de que
nós sentimos culpa não somente pelo que fize­
mos, mas, freqüentemente, por vergonha do
que foi feito a nós. Quando criança, ele havia
participado de alguma coisa que achava que
era vergonhosa, e tinha-se sentido culpado e
que errara. O acordar da memória foi para ele
uma experiência curadora espiritualmente.
Confissão, no caso dele, não foi o ato moral de
admitir algum ato ou atitude culposa, mas em
simplesmente admitir à consciência a memória
de um acontecimento que havia criado senti­
mento de culpa falso.
Em certo sentido, todos nós somos neuró­
ticos. Segundo o grau com que reagimos a uma
dada situação, somos neuróticos. É só uma
questão de grau. Nandor Fodor diz: “O neuró­
tico só tem um inimigo — sua consciência. Ela

116
nunca lhe dá paz, e a tragédia da neurose é
que, sozinho, por seus esforços, o neurótico ó
incapaz de descobrir por que sua consciência
o persegue, como as Fúrias da tragédia grega.
Notáveis e patéticos são os modos pelos quais
tenta escapar dela, para simplesmente desco­
brir que não importa o que ele fizer, será
sempre a coisa errada.” i
O verdadeiro neurótico é simplesmente um
indivíduo que ainda não deu solução ao senti­
mento de culpa que o perturba; mas, a fim de
levar uma vida efetiva, eie deve enfrentar a
consciência acusadora para sua solução.
Ocasionalmente há pessoas que são capa­
zes de controlar seu sentimento de culpa e ter
vida normais, até que uma situação mais pe­
sada de “stress” entorte a balança e então elas
são apossadas pelo que é erradamente chama­
do de “esgotamento nervoso" e se tornam inca­
pazes de fugir normalmente.
Um homem desconhecido para mim, alta­
mente inteligente, veio um dia ver-me, para
aconselhamento, num estado de profunda de­
pressão. Havia 'pêrdido todo o gosto pela vida
e estava possuído de ansiedades inomináveis.
Ele via o mundo através da cortina dos seus
medos obsessivos. Eu disse: “Meu amigo, talvez
tenhamos de recuar na sua vida e descobrir o
que é que lhe ocorreu no passado, porque pa­
rece haver um sentimento de culpa não resol­
vido em você. Nós devemos mexer com isto."
Ele me afirmou que tinha feito coisas das quais
estava envergonhado, como todos os outros
seres humanos, mas que Deus Iho havia per­
doado. Ao que reafirmei: “Eu não tenho dúvida
alguma de que Deus lhe perdoou, mas é visível
que você não se perdoou. Quando digo ‘senti­
mento de culpa”, que acontecimento lhe vem à

117
mente?” Instantaneamente ele relatou uma ex­
periência do passado longínquo que, disse ele,
não podia estar lhe causando problema porque
havia acontecido há muito tempo atrás. Expli-
quei-lhe que o tempo não diminui nosso senti­
mento de culpa, mas ele relutou em acreditar
que o sentimento de culpa tinha alguma coisa
que ver com sua depressão profunda.
Ultimamente ele passou considerável tem­
po num sanatório, onde foi-lhe aplicada a tera­
pia do eletrochoque. O resultado deste trata­
mento drástico foi-lhe de algum alívio, de modo
que eíe era capaz de agir normalmente ou­
tra vez, mas a experiência tem mostrado que
um grande número daqueles que fazem o tra­
tamento de eletrochoque no fim retorna à velha
condição, a menos que adquiram novos recur­
sos espirituais para enfrentar os problemas da
vida. Ele ainda tem que solucionar seu proble­
ma de sentimento de culpa do passado; e há
uma grande possibilidade de que, quando a
pressão da vida cotidiana aumentar e ocorrer
depressão física e mental, se encontre sofrendo
dos mesmos sintomas. As pressões acumuladas
da vida, ou algum acontecimento traumático,
freqüentemente fazem vir à tona o velho senti­
mento de auto-rejeição que está sempre pre­
sente, até que nos asseguremos do sentimento
de perdão divino e sejamos consequentemente
capazes de perdoarmo-nos a nós mesmos.
Jung mostrou que quando, por não poder­
mos encarar o pecado maior, confessamos o
pecado menor com mais fervor, falhamos em
obter perdão. Não que Deus se recuse a nos
perdoar. É que nós estamos confessando o
problema errado.
A maneira como confessar é muito menos
importante do que o confessarmos a coisa cer­

118
ta. Dizer: “Senhor, perdoa meus muitos peca­
dos” pode ter efeito, se houver no coração um
profundo sentimento de contrição por todos os
pecados que se cometeu. A oração do publica-
no: “Senhor, tem misericórdia de mim, peca­
dor”, foi altamente eficaz, porque era evidente
na mente do homem um profundo sentimento
de contrição. Ele estava admitindo a si mesmo
e a Deus que ele se sentia indigno em sentido
geral. Outra pessoa poderia proferir as mesmas
palavras e sentir pouca ou nenhuma dor por
seus pecados.
Como Paul Tournier ressaltou em Guilt
and Grace (“Culpa e Graça”) 2, a pessoa pode
recontar de maneira precisa e metódica a na­
tureza dos seus erros, mas sem qualquer sen­
timento real de remorso; enquanto outra pessoa
pode ver repentinamente, pela primeira vez, a
verdadeira natureza de sua culpa, e, quase
sem palavras, exprimir a mais profunda humi­
lhação e tristeza por seus pecados. É o estado
mental, o intento do coração que conta, não
as palavras ou a forma em que é feita a confis­
são.
Alguns protestam enfaticamente: “Eu con­
fesso meus pecados somente a Deus!” e a pró­
pria veemência com que proferem isto nos diz
que estão totalmente na defensiva. Mas a Bí­
blia diz claramente: “Portanto, confessai vos­
sos pecados uns aos outros, e orai uns pelos
outros, para que sejais curados.” 3 isto não quer
dizer que devemos revelar nossos pecados ao
primeiro ser humano que apareça, mas que uma
cura espiritual genuína pode ser encontrada
quando nos desabafamos com uma pessoa ou
pessoas apropriadas — quer seja ministro, sa­
cerdote, conselheiro, um amigo compreensivo
ou membros de um grupo.

119
Um dos doze passos dos Alcoólatras- Anô­
nimos trata do compartilhar a natureza precisa
dos erros da pessoa, porque os AA descobri­
ram o tremendo valor implícito em compartilhar
nossos fracassos com uma pessoa que não gos­
te de julgar os outros. As vezes isto pode ser
feito num grupo. Obviamente, há coisas que
seria inconveniente partilhar com um grupo,
mas tenho observado centenas de vezes o pro­
veito tirado por homens e mulheres que discuti­
ram em um grupo os erros de suas vidas.
Nós temos cuidado em estipular em nossos
grupos que não nos interessamos tanto em pe­
cados sintomáticos quanto em pecados do es­
pírito. Pode-se compartilhar com o grupo sua
hostilidade, seu medo, seu sentimento de infe­
rioridade e seu sentimento de necessidade em
geral. São basicamente os pecados do espí­
rito — avareza, materialismo, orgulho, con-
cupiscência, inveja — que devemos confessar
em tais grupos; não necessariamente as mani­
festações sintomáticas desses fracassos espi­
rituais. Entretanto, muito freqüentemente, al­
guém que percebe a natureza de sua neces­
sidade espiritual e a compartilha com o grupo
sentirá uma necessidade mais profunda de con­
tar os detalhes mais específicos a um conse­
lheiro. Ao fazer isso, experimenta, freqüente­
mente, um profundo alívio. Ele se desabafou,
por assim dizer, se descarregou, botou tudo
para fora finalmente.
Mas por que a gente precisa fazer isto em
um grupo ou com um conselheiro? O fato de
que poucas pessoas sentem-se genuinamente
perdoadas nos dá a resposta. Elas confessam
ao Deus invisível, e, se a concepção delas de
Deus fosse vital o suficiente, teriam sentido o
sentimento de perdão. Mas para muitas pessoas

120
Deus é, como disse um estudante universitário,
"uma espécie do borrão oblongo”. Ele é invi­
sível, “lá em cima em algum lugar”, e não um
Pai Celeste vivo, compassivo e amoroso.
Davi confessou a Natã, quando desafiado
pelo profeta. Então compôs o belo e triste Sai-
mo 51, no qual ele confessa sua culpa e pede
perdão. Com honestidade dolorosa ele com­
partilha sua confissão com toda a humanidade:
Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua
benignidade; apaga as minhas transgressões,
segundo a multidão das tuas misericórdias.
Lava-me completamente da minha iniqüidade,
e purifica-me do meu pecado.
Pois eu conheça as minhas transgressões, e o
meu pecado está sempre diante de mim.
Contra ti, contra ti somente, pequei, e fiz o que
é mau diante dos teus olhos; de sorte que és
justificado em falares, e inculpável em julgares.
Eis que eu nasci em iniqüidade, e em pecado
me concebeu minha mãe.
Eis que desejas que a verdade esteja no Intimo;
faze-me, pois, conhecer a sabedoria no secreto
da minha alma.
Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-
-me, e ficarei mais alvo do que a neve.
Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que se re­
gozijem os ossos que esmagaste.
Esconde o teu rosto dos meus pecados, e apaga
todas as minhas iniqüidades.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e re­
nova em mim um espirito estável.
Não me lances fora da tua presença, e não re­
tires de mim o teu Santo Espírito.
Restitui-me a alegria da tua salvação, e sus
tém-me com um espírito voluntário...
Pois tu não te comprazes em sacrifícios; se eu
te oferecesse holocaustos, tu não te deleitarias.
O sacrifício aceitável a Deus é o espírito que-
brantado; ao coração quebrantado e contrito
não desprezarás, ó Deus.

A confissão verdadeira é dolorosa. Se não


for dolorosa, é quase certo que não terá valor.

121
Não há dor específica em dizer: "Eu acho difícil
perdoar.” Estas são generalizações e, na maio­
ria, evasões; porque elas poderíam se aplicar a
quase todos os seres humanos na terra. É só
uma maneira de dizer: “Eu não sou como devia
ser, sou como os demais.”
Como já foi dito antes, há dentro de nós
uma tensão entre a necessidade de esconder
e a necessidade de revelar. A verdade de nossa
culpa exige expressão. Precisamos contá-la a
alguém, mas temos medo de sua condenação
ou julgamento e rejeição. É comum, portanto,
sentir uma grande relutância em encarar nossa
culpa verdadeira.
Eu já era ministro por bastante tempo an­
tes que descobrisse um fato aparentemente
óbvio. Alguém que marcasse uma hora para
ver-me, poderia sair com algo como: “Eu não
entendo a natureza da Trindade. O senhor po­
deria explicá-la?” 3 Ou seria uma questão con­
cernente a um ponto obscuro do Apocalipse.
Perdi muitas oportunidades maravilhosas de
ajudar as pessoas por cair nessas evasivas que
apresentam. Quando elas iam embora, era sem­
pre, como percebi mais tarde, com uma esp&qie
de relutância que me fazia sentir que não havia
tornado claro o ponto teológico. Na realidade,
elas esperavam que ej*'dissesse: “Agora veja­
mos o que mais lhe está incomodando. Se você
não se importar de me contar, eu não pensarei
menos bem de você, e talvez pudesse ajudá-lo.”
Uma jovem senhora veio ver-me com algu­
mas dessas evasivas inconscientes, depois que
eu havia descoberto meu erro. Logo depois de
nossa discussão de sua suposta dúvida teoló­
gica, eu disse: — Mas eu percebo que alguma
coisa mais está lhe incomodando. A senhora
se importaria de me contar?

122
Ela pareceu genuinamente surpresa, e dis­
se: — Sim, suponho que haja alguma coisa
mais, mas eu não estava realmente cônscia
dela até este momento. Tenho um problema
sério, e penso que esperava que o senhor o
solucionasse para mim.
Ela então contou sua dificuldade. Em visi­
tas posteriores, ela dizia, rindo: “Hoje eu não
quero falar sobre a Trindade, mas sobre um
problema real.” A esta altura ela já havia des­
coberto que eu não a julgava, que eu ainda
gostava dela do mesmo modo e que estava
partilhando fatos culposos de sua vida com um
companheiro pecador.
De vez em quando os pais vêm para dis­
cutir um problema pertinente a seus filhos. A
seu ver, é sempre o filho, nunca o pai, que
precisa de ajuda. Raramente passa pela cabeça
deles que a relação entre os pais e entre pai
e filho tem alguma coisa a ver com o compor­
tamento errado do filho. Eles freqüentemente
ficam irritados, se lhes pergunto sobre suas
relações pessoais como, pais, sua vida espiri­
tual, ou sobre o grau de serenidade interior e
paz que possuem. “Mas se trata de nosso filho,
e não de nós! Nós vamos muito b e m . .. Bem,
o senhor sabe como é, há diferenças inevitáveis
que surgem entre todos os casais, e o trabalho
do meu marido o deixa realmente tenso e eu
acho que o irrito um pouco. Diante disto, qual
é o pai que não reage assim?”
Isso não era uma confissão, mas, sim, um
álibi, uma racionalização, um esforço, da parte
do pai, em fazer o conselheiro concordar que
é realmente muito difícil criar um filho nestes
tempos laboriosos, e que os pais não podiam
ser responsáveis no menor grau, ocasional­
mente, entretanto, é possível ajudar os pais a

123
verem que estão confessando os pecados do
filho, não os próprios, e que o ponto certo —
e de fato o único — para começar é com a
confissão das necessidades deles mesmos.
Uma mãe, que queria, a princípio, partilhar
só os feitos terríveis de seu filho de quatorze
anos de idade, finalmente foi conduzida a com­
preensão chocante de que nunca havia real­
mente amado seu filho. Quando ele nasceu, o
fato de que ela tinha outros filhos para cuidar
e que não havia dinheiro suficiente já para es­
tes causou-lhe um ressentimento, que foi rapi­
damente reprimido. “Mãe nenhuma deve sentir
assim”, foi sua reação instantânea. Ela não
podia admitir a si mesma, então, nem nos anos
posteriores, que realmente ressentia o nasci­
mento de seu quinto filho. Agora o pensamen­
to lhe viera com um repente terrível e ela ficou
chocada. “Mas eu o amava e o amo! Eu o amo
muito. Eu faria tudo por ele, tudo!” Então ela
se houve com esta questão: “Será que eu podia
tê-lo amado e odiado ao mesmo tempo?" Não,
essa era uma sugestão intolerável. A gente
não odeia os próprios filhos.
Você por acaso odeia e ama seu marido
ao mesmo tempo?
— Oh! sim, freqüentemente!
— Você acha que pode ter tido os mesmos
sentimentos confusos para com o menino?
Ela relutou por algum tempo com isto e
finalmente foi capaz de ser honesta: — Sim,
agora compreendo. Eu o tenho odiado tanto
quanto amado, talvez odiado mais do que
amado.
Então começou o processo de ajudá-la a
aceitar seus sentimentos, não como ideais, mas
como reais. Ela disse: “Eu tentei apagar esses
sentimentos da minha mente.” Mas nada pode

124
ser apagado da mente. Sentimentos inaceitáveis
acerca de que nos sentimos culpados são sim­
plesmente rejeitados e empurrados para o fun­
do do inconsciente, onde proliferam e reprodu­
zem sua própria ninhada, desde males psicos-
somáticos até acessos de raiva incontáveis.
A maneira pela quai projetamos nossa cul­
pa sobre outra pessoa envolve um mecanismo
totalmente singular, inconsciente e automático.
Uma esposa assegurou-me, com lágrimas, que
seu marido lhe era infiel. Ela não podia provar
isto, embora tivesse muitas coisas de que sus­
peitava e que a levavam à conclusão de que ele
se encontrava às escondidas.
Depois de ligeiro interrogatório, ela final­
mente olhou para dentro de si e achou por si
mesma parte da resposta. “Será que suspeito
indevidamente porque comecei a sair com o
meu marido quando ele ainda era casado e
antes que seu divórcio fosse definitivo?” Pe­
di-lhe que me falasse sobre isto e ela pareceu
aliviada por ter uma oportunidade de compar­
tilhar o problema, embora fosse doloroso enca­
rá-lo. Ela havia ajudado seu marido a ser infiel
à sua esposa e tinha-se sentido mal por esse
relacionamento. Agora ela pôde perceber o
que estava sentindo: “Se ele foi infiel à sua
primeira esposa, pode ser infiel a mim.” Em
um nível mais profundo ela estava sofrendo a
dor de uma culpa não resolvida. Ela sentia que
“merecia” perder seu marido, pois que era
culpada de suas relações com ele antes do
casamento. Neste ponto um ministro, ou conse­
lheiro, ou amigo que estiver ouvindo a confissão
(o que é exatamente) pode estragar tudo ou por
justificar ou por julgar. Mesmo se o sentimento
de julgar não for expresso, pode ser revelado
por algum gesto, e a pessoa o notará. Ninguém

125
que goste de julgar ou que tenha o detestável
hábito de censurar tem o direito de ouvir uma
confissão, a revelação de uma fraqueza ou mes­
mo o problema de um amigo.
A gente não deve confessar somente os
pecados evidentes da carne, mas também ati­
tudes mentais, sentimentos hostis ainda não
transformados em ação, sentimentos de culpa
secretos, motivos errados, objetivos falsos e
reações prejudiciais — tudo que não for per­
feito. Igualmente importante, é claro, são os
pecados de omissão, as coisas que deixamos
de fazer e que devíamos ter feito. Podemos
dizer que o homem rico da parábola de Jesus,4
que ignorava o mendigo à sua porta diariamen­
te, acabou no seu próprio inferno particular.
Ele vivia em tormentos, conforme é descrito.
Talvez tenha sido o tormento do remorso quase
insuportável; a compreensão das oportunida­
des perdidas, as boas intenções nunca prati­
cadas, o amor nunca expresso. Não se diz que
ele havia feito alguma coisa flagrantemente má;
seu pecado parece ser o de omissão. Ele fa­
lhou em mostrar compaixão.
Quem de nós é culpado de milhares de
feitos não realizados, pelos quais nos senti­
mos culpados? Isto não deve nos sobrecarre­
gar de culpa desnecessária: não podemos car­
regar os fardos do mundo inteiro, nem podemos
morrer em toda cruz. É uma necessidade neu­
rótica de atuar como Deus que faz-nos sentir­
mos culpados em todos os aspectos. Mas sa­
bemos que houve vezes inumeráveis quando
negligenciamos fazer ou dizer as coisas que
teriam expressado amor. “Aquele que não ama
não conhece a Deus, porque Deus é amor”,5
declara João.

126
E, quando acabamos de confessar os pe­
cados conhecidos, é hora de confessarmos os
desconhecidos, aqueles sentimentos cuidado­
samente enterrados, que não ousamos enfren­
tar quando ocorreram e então os reprimimos.
Há centenas de coisas que racionalizamos. O
inconsciente não pode aceitar racionalizações,
porque ele lida com conceitos abstratos. En­
tão, quando racionalizamos cuidadosamente
algum comportamento, sob o pretexto de que
não podia ser de outro modo, ou porque todo
o mundo faz o mesmo, ou outra evasiva inteli­
gente qualquer, podemos convencer a nós
mesmos no nível intelectual, mas não no nível
emocional e espiritual. O seu interior sabe me­
lhor!
Eu estava em meditação certa manhã, e
me sentia em paz com Deus e os homens. Então
disse: “Senhor, estou contente porque não
sinto nenhuma hostilidade para com qualquer
alma vivente.” Eu não estava cônscio no mo­
mento de que isto era verdade e estava-me
parecendo com o fariseu de antanho, que agra­
deceu a Deus por estar em perfeitas condições
espirituais, ao contrário dos outros homens.
No momento em que essa idéia me cruzou a
mente, repentinamente vi uma face na tela do
pensamento. Era o rosto de alguém de quem
nunca tinha gostado em particular. Eu não esti­
vera cônscio até aquele momento da hostilidade
que abrigava. Todas as pessoas que eu conhe­
cia sentiam o mesmo por aquela pessoa e eu
tinha inconscientemente racionalizado minha
hostilidade. Subitamente reconhecí que não en­
tendia a Deus na proporção em que eu não
amava; que não podia orar efetivamente en­
quanto não sentisse amor incondicional por to­
dos — mesmo por uma pessoa antipática.

127
Eu sabia o que tinha que fazer, e, na pri­
meira oportunidade, encontrei uma maneira de
exprimir amor. Antes que pudesse ser capaz de
mostrar amor tive que orar diariamente pelo po­
der de fazê-io, reconhecendo que não tinha essa
capacidade dentro de mim mesmo. Orei: “Se­
nhor, ajuda-me a querer amar.” Dita sincera­
mente todos os dias, esta é uma oração podero­
sa, porque é também uma confissão de fraqueza
e pedido de ajuda para vencer a hostilidade.
Logo comecei a sentir que eu queria querer
amar a pessoa antipática, e uma relação mara­
vilhosa foi estabelecida como resultado.
“Santo é aquele que peca menos e confes­
sa mais e mais”, tem sido dito freqüentemen-
te. Nunca é tempo de parar de confessar.
Muito tempo depois que os pecados carnais
são confessados, ainda restam todos os peca­
dos destrutivos do espírito: orgulho, inveja,
avareza, concupiscência, ciúme. E, se alguém
estiver quase certo de ter dominado os peca­
dos do espírito e estiver se congratulando por
esse sucesso digno, ficará horrorizado ao des­
cobrir o pecado do orgulho operando com novo
vigor!
Devemos lutar sempre, mesmo sem ganhar,
mesmo sem nunca alcançar a meta? A respos­
ta é um simples sim. A luta aqui nunca cessa,
mas a cada passo da peregrinação terrena há
um novo sentimento de paz e calma interior,
o sentimento crescente de uma Presença tra­
balhando conosco e dentro de nós. “Porque
Deus opera em vós.” Nós não estamos na luta,
não somos condenados pelos nossos fracassos.
Embora caiamos milhares de vezes, se nos
levantarmos de novo e seguirmos a Luz, sere­
mos aceitos e perdoados. Não há limite para
Seu amor e Seu perdão.

128
Veja como Jesus reprovou tão gentilmen­
te os fracassos dos doze. Quando rejeitados
pelos habitantes de uma aldeia, Tiago e João
perguntaram: “Senhor, queres que peçamos que
caia fogo do céu e os consuma?” Não tenho
certeza se Jesus sorriu, mas acho que sim,
enquanto disse: “Vós não sabeis de que espí­
rito sois.”6 Em outras palavras: “Vocês não
devem brincar com Deus, e, além disso, por
que toda esta hostilidade?” Mais tarde Ele se
referiu a estee dois como “filhos do trovão”,
humoristicamente, suponho, mas com efeito
marcante. Ele cuidou da hostilidade intensa de­
les, mas não os condenou nem os rejeitou.
Quando os mesmos discípulos pediram para se
sentarem, um à direita e o outro à esquerda do
trono, quando ele entrasse no Seu reino, não
os condenou pelo orgulho colossal deles. Ele
simplesmente disse que o que eles pediam não
estava ao seu alcance lhes dar. Os outros dez
discípulos ficaram indignados, mas Jesus foi
compreensivo e paciente para com a cegueira
e o egoísmo espiritual de Tiago e João.
Houve também o protesto inconsiderado
de lealdade e fidelidade de Pedro: “Mesmo que
eu morra contigo, não te negarei.” Um pouco
mais tarde o vemos negando veementemente
que conhecia Jesus. O galo canta, e Jesus se
volta e olha para ele. Tenho certeza que não
foi um olhar de condenação — “Eu não lhe
disse que você não resistiría? Vê como você
é fraco?” — mas, ao contrário, foi um olhar
de infinito amor, compaixão e perdão, porque
esta era Sua natureza.
Jesus nos considera da mesma maneira, e
Jesus é a manifestação de Deus. "Se me vistes,
vistes também a Deus”, ele declarou. De modo

129
que em sua compaixão e perdão vemos a na­
tureza de Deus, porque é igual a Jesus.
Uma das dificuldades básicas não é que
sejamos relutantes em confessar a Deus, mas
o sermoá incapazes de crer inteiramente que
Deus pode nos perdoar instantaneamente, sem
merecimento. Achamos quase incrível que
Deus pudesse dedicar-nos amor incondicional,
especialmente à vista de todas as nossas fra­
quezas anteriores. “Mas eu faço isto frequente­
mente” , disse um homem para mim, “Como é
que Deus pode perdoar um homem tão fraco e
faltoso como eu?” Eu disse: “Você está pensan­
do que Deus não é melhor que você. Você tem
dificuldade em perdoar os outros, especialmen­
te depois que eles lhe decepcionam numerosas
vezes, e você imagina que Deus é igual a você,
capaz de perdoar uma ou duas faltas, mas não
cinqüenta. Deus é melhor que você, meu amigo.
Seu amor é infinito.”
Como, especificamente, a gente deve con­
fessar para obter um sentimento de segurança
interna de perdão? O que se deve dizer? Quan­
do e quantas vezes deve-se confessar? Muito
mais importante que isto é o que temos consi­
derado: nosso conceito de Deus e Sua natu­
reza; porque pouco importa o que dizemos ou
como confessamos se não tivermos a poderosa
convicção de que Deus perdoa instantânea e
voluntariamente, e que é por amor que ele não
nos condena. Se nosso conceito de Deus for
adequado, nossa oração de contrição será ade­
quada. Se tivermos um fraco conceito de Deus
e do Seu amor, nunca nos sentiremos inteira­
mente perdoados. Mas, pressupondo-se que se
é capaz de crer e sentir profundamente que
Deus está ansioso para perdoar, como é que
se deve confessar para ter um sentimento de

130
pureza? Há muitos passos e muitas maneiras
de fazê-lo. Aqui estão alguns deles:
Primeiro, não se deve ir às pressas à pre­
sença de Deus e vociferar um pedido de per­
dão, ou fazer qualquer outra espécie de peti­
ção, sem preparação conveniente. Não que
nossa pressa e rudeza pudessem ofender a
Deus. Ele está acima disto. Mas nós precisa­
mos de período preparatório. Comece primeiro
com um período de meditação. Isto faz parte
da oração. Pense acerca da natureza de Deus.
Afirme o que você sabe que é verdade a respei­
to dele. “O amor de Deus é sem limite, por­
tanto, seu perdão também é sem limite. Nada
que eu tenha feito é tão mau que ele me ame
menos. Nada de bom que eu já tenha feito é
suficiente para que ele me ame mais. Seu amor
ó algo fixo e imutável. Eu não aumento o seu
amor por mim por qualquer boa obra que rea­
lize e nem o diminuo com minhas faltas. Porque
ale me ama, eu posso pedir e receber perdão
Instantâneo. Foi prometido que ‘se nós con-
fe»6armos nossos pecados, ele é fiel e justo,
para nos perdoar e lavar-nos de toda a injus­
tiça’."? Eu creio nisto acerca de Deus. Este tipo
de meditação afirmativa é um aspecto da ora­
ção.
Segundo, que a confissão seja completa
e implacavelmente honesta. Uma jovem senho­
ra disse-me que ela e seu marido tinham esta­
do tão cheios de problemas financeiros a ponto
de ficarem quase fora de si de preocupação.
Os credores telefonavam e iam à sua casa em
fila constante. Havia ameaças de processo. Ela
orava por uma solução, mas não obtivera res­
posta.
Certa noite ela saíra e andara alguns qui­
lômetros e finalmente dissera: “Deus, eu te

131
odeio! Pedi ajuda, e tu não ma deste. Eu te
odeio!”
Esta foi uma confissão honesta e uma ora­
ção genuína! Deus sabia como ela se sentia
antes de ela Iho contar e o que ela fez naquele
momento foi admitir diante de si mesma e de
Deus o que ela nunca havia admitido antes.
Sua crítica contra Deus durou algum tempo e
finalmente, esgotada emocionalmente, ela vol­
tou para casa.
Ela desistira de orar por um dilúvio mila­
groso de dinheiro, que resolvería os proble­
mas deles. Ao invés disso, disse: “ Deus, se tu
queres que alguma coisa seja feita, tu terás
de fazê-la. Eu desisto.” Esta foi uma oração
verdadeira, uma oração de renúncia. Ninguém
poderia dizer que esta é a melhor forma de
oração, mas a honestidade dela tem o seu mé­
rito e ao abandonar a luta, a jovem senhora
estava, pela primeira vez, entregando a mesma
a Deus.
Ela desistira de sua oração infantil, em que
pedia um milagre fácil e rápido; e encarara
seus verdade;ros sentimentos.
Embora fosse fraca e humana, foi uma ora­
ção honesta, e a honestidade para consigo e
para com Deus é o ponto de partida. É o pri­
meiro passo absolutamente essencial. Se não
formos honestos para conosco mesmos, como
o seremos para com Deus? E, se não podemos
ser honestos para com Ele acerca dos nossos
sentimentos, como é que Ele nos poderá aju­
dar? Dentro de uma semana ela teve uma sú­
bita “ inspiração”, que sabia ser um sinal. Isto
trouxe-lhe um alívio temporário e em questão
de poucos meses o problema todo estava resol­
vido. Mais importante ainda, ela e seu marido

132
cresceram espiritualmente no correr do pro­
cesso.
Fritz Kunkel não somente lança luz sobre
um aspecto importante da confissão, mas ao
mesmo tempo sugere uma resposta ao misté­
rio que envolve os salmos deprecatórios, nos
quais a hostilidade e o desejo de vingança são
expressos. Ele escreve:

Se nós pudermos estender ante Ele todas as raí­


zes ocultas de nossas virtudes e vícios, se for­
mos honestos e corajosos o suficiente para exi­
birmos perante ele a alta voltagem de nosso
ódio e amor inconscientes, poderemos descobrir
que todo o nosso poder, em última análise, per­
tence a E le...
Seja mais honesto. Dê expansão às suas emo­
ções. Você odeia seu irmão: Imagine-se na sua
presença. Perante Deus, diga-lhe como você se
sente. Dê-lhe pontapés, arranhe-o. Você está
com dez anos de idade. Levante-se de sua ca­
deira. Não pretenda ser um Buda velho e sábio.
Ande pra lá e pra cá. Grite, arranhe, bata nos
móveis. Dê vazão a si mesmo... Deus está pre­
sente. Diga-lhe ,a verdade, seja tão honesto como
aqueles velhos hebreus; “ Sejam a uma enver­
gonhados e confundidos os que buscam a minha
vida para destruí-la...” (Salmos 40:14). Ore
para que Deus castigue seu irmão, o torture, e
ajude você a derrotá-lo... Veja: durante toda
a sua raiva, Deus estava presente, ouvindo a
sua oração furiosa. Sua presença o cercava, com
o sorriso calmo e criativo de um pai que sabe
que seu filho dará vazão à fúria e então desco­
brirá a verdade e encontrará o caminho certo.
Você só encontrará o caminho certo quando ti­
ver gasto suas forças... Isto levará, talvez, se­
manas ou meses... E finalmente você encon­
trará o Deus das tempestades interiores.8

Então diz Kunkel: “A tempo virá ‘a paz de


Deus que excede todo o entendimento’ (Fili-
penses 4:7).”

133
John B. Corbun escreve de um pai que ficou
de cara feia durante o culto fúnebre de seu
filho de 4 anos de idade, que havia morrido de
poliomielite. Ao ouvir as palavras de abertura:
“Eu sei que o meu Redentor vive”, ele começou a
murmurar entre os dentes: “Deus, eu me vin­
garei disto! Eu me vingarei disto!” Esta foi a
primeira conversa honesta que teve com Deus.
Mais tarde, ele comentou: “Aquilo foi uma coisa
ridícula para dizer, acho. Como é que eu pode-
ria me vingar de Deus? Mas foi honesta e con­
servou funcionando a minha relação com Deus.
Era isso que eu sentia, e estava certo para cla­
rear o ambiente e me desabafar. Porque então
eu voltei a mim mesmo gradativamente, e vi que
a morte tem que se encaixar em alguma estru­
tura finai, e só Deus pode absorvê-la... E agora
eu sei que o meu Redentor vive realmente. E
acho que não poderia ter conhecimento disto,
bem fundo lá dentro, se não tivesse ficado com
raiva de meu Redentor uma vez — e se não
lhe tivesse dito que estava com raiva.9

O pecado básico é a emoção, o sentimen­


to, a atitude que induz à ação. Diga a Deus
como se sente. Se você sente hostilidade, diga-
-Ihe isto. Ele sabe tudo sobre a hostilidade
humana em geral, e sobre a sua em particular.
Não a justifique ou racionalize — confesse-al
Fale-lhe a respeito da sua inveja ou ciúme e
ganância, e sentimento de cobiça em relação
às pessoas e coisas. Confesse seu medo e
falta de fé e sentimento de auto-justiça, suas
atitudes de críticas, que fazem com que você
julgue os outros e se justifique. Confesse seu
sentimento de auto-suficiência, que tem feito
você confiar mais em si do que em Deus. Fale-
-Ihe de seu sentimento de autocomiseração,
que você usa para obter simpatia. Conte-lhe
toda a sórdida estória dos seus artifícios. Volte
ao passado, e recapitule todas as suas tagare­
lices e a insegurança emocional que as causou.
Conte-lhe as mentiras que você pregou ou os

134
artifícios de que você usou, embora mentira
nenhuma fosse dita. Acima de tudo, diga-lhe
quão rancoroso e desamoroso você tem sido.
Vez por outra você pode ser assaltado pe­
los pensamentos de quão mal os outros o têm
tratado. Sua mente pode entrar por uma dúzia
de desvios, ao você recordar os acontecimentos
passados, em que a falta parecia ser de outro,
e não sua. Mas lembre-se: você não é respon­
sável pelo que as pessoas lhe fazem; você só
é responsável pela maneira como reage em
relação a elas.
Tenho ouvido muitas vezes de como as
pessoas se sentem maltratadas. Meu primeiro
Impulso humano é de julgar o marido ofensor
por causar dor e pesar à sua mulher. Um pouco
mais tarde o marido conta o seu lado da his­
tória, e abandono minhas reações iniciais. Ve­
rifico que ambos têm culpa! Ninguém pode
discernir a culpa, ninguém pode julgar, a não
ser Deus. Tudo que posso encorajá-los a fazer
é que ofereçam suas naturezas hostis, críticas
e rancorosas a Deus, e procurem o perdão di­
vino para suas imperfeições. Cada um havia
apenas contado o pecado do outro, nada mais.
Na confissão, contar os pecados e falhas
dos outros nada mais é do que perda de tem­
po. Não podemos resolver nossos problemas
simplesmente apresentando os defeitos dos ou­
tros. Embora quem nos tenha ofendido possa
estar 90% errado e nós somente 10% (do nosso
ponto de vista), nosso dever é examinar nossa
própria culpa no assunto e confessá-la.
Na confissão, podemos estar certos de que
a princípio — ou talvez por anos — atingire­
mos só a superfície. Os pecados mais profun­
dos ficarão escondidos. A pobreza de espírito,
a maldade e a pequenez, a obstinação e o or-

135
gulho — estes nos enganarão, a não ser que
os desmascaremos desapiedadamente. Não
deve haver racionalização, desculpas, recla­
mações de que os outros também eram cul­
pados.
Mas também não devemos nos afogar num
mar de remorsos e auto-acusações. Nossa au-
tobusca deve ser como se estivéssemos pro­
curando uma válvula estragada em nosso rádio
ou tentando achar um objeto que não sabemos
onde colocamos. Não há razão para condenar,
e sim, somente para achar a causa do pro­
blema.
Ao admitir diante de mim mesmo e de
Deus que tenho sido culpado de lascívia ou
ganância, de orgulho e do hábito de julgar, de
uma natureza rancorosa, de hostilidades, não
estou dizendo à minha alma que sou pior do
que os outros e que mereço ser condenado.
Estou simplesmente me ajuntando à raça hu­
mana e confessando que não sou melhor do
que os outros que condenei, e que preciso do
perdão de Deus. Não há mais virtudes em se
condenar do que em condenar os outros. “Não
julgueis, para que não sejais julgados”, certa­
mente se aplica a mim mesmo tanto quanto
aos outros. Eu também sou uma pessoa. Não
estou mais qualificado para julgar a mim mes­
mo que aos outros. Não posso pesar e avaliar
todos os muitos fatores da hereditariedade e
de ambiente que me predispuseram a cometer
esta ou aquela falta. Não preciso julgar. Devo
simplesmente dizer: “Eis o que sou. Não sei
precisamente como cheguei a ser assim. Con­
fesso-o e o aceito como verdade, e me arre­
pendo. Aceito o perdão amoroso de Deus, e
perdoo a mim mesmo.” Talvez eu tenha que
me perdoar centenas de vezes, dependendo do

136
Urnu de minha recusa em aceitar Sua purifica-
çflo. Há um certo orgulho sutil que nos impede
de aceitar o perdão divino. Ele se apresenta
como humildade, mas na realidade, é um modo
do dizer: “Devo resolver isto por mim mesmo.
Nflo posso depender do perdão divino. Pelo
que, devo fazer expiação.” Isto nada mais é
que uma recusa de aceitar o sentido real da
cruz, o símbolo do amor e aceitação divinos.
Quahdo crianças, aprendemos que, quan­
do fazíamos alguma coisa errada, alguma for­
ma de castigo seria geralmente aplicada. Este
podia ser desde um franzir de testa paternal
atá a rejeição total por algum tempo. Porque
nrnm humanos, nossos pais às vezes acha­
ram difícil usar de amor incondicional. Muitas
vozes castigavam por leve ressentimento.
Aprendemos a esperar castigo pelos mal-feitos,
lalvez mesmo a recusa de amor, a rejeição
que a criança teme mais do que qualquer for­
ma de castigo físico.
A criança não morreu no adulto; está bem
viva. A estrutura emocional da criança está
•umplesmente encerrada nas camadas posterio-
ros da adolescência, juventude, idade adulta,
o finalmente numa camada externa dos anos
mnduros. As dores que sofremos quando cri-
mças ainda estão lá. Elas existem como cica­
trizes e, porque os conceitos de nossa infância
estão parcialmente vivos, temos a tendência de
projetar em Deus os sentimentos que tínhamos
para com nossos pais. Duvidamos que Deus
seja mais perdoador que eles foram.
Meister Eckhart insiste em que Deus está
mais pronto a perdoar do que estamos a rece-
bor o perdão, e que, quanto maior nosso pe­
cado, tanto mais depressa ele nos perdoa.
Jesus parece que nunca colocou os pecados

137
em diferentes categorias. As pessoas que ele
particularmente condenou foram os líderes re­
ligiosos, justos e morais externamente, e inter­
namente manchados de orgulho e outros peca­
dos do espírito. Leia outra vez sua denúncia
severa dos fariseus no capítulo 23 de Mateus
Ele, finalizando, diz: “Serpentes, raça de ví­
boras, como escapareis da condenação do In­
ferno?” 10
Eram, então, os pecados do espírito, e não
simplesmente os da carne, que mais pareciam
tirar a pessoa da presença de Deus, segundo
Jesus; e são estes pecados básicos que temos
que confessar, e não somente os feitos conhe­
cidos da carne. Devemos examinar a vida por
causa de ações acerca das quais nos sentimos
culpados e depois seguir estas até a atitude que
as provocou, e, em seguida, até a emoção da
qual elas surgiram.
Por exemplo, um homem diz alguma coisa
para mim, à qual respondo irritado, usando ter­
mos mais fortes do que comumente empregaria.
Mais tarde sinto-me culpado pela resposta dura.
Confessar a expressão da irritação é pratica­
mente inútil, a menos que eu volte um pouco
além da expressão, para ver por que reagi as­
sim. Revivo a experiência e tento sentir outra
vez o que senti durante o encontro. Subita­
mente percebo que estava me sentindo amea­
çado pelo que meu amigo tinha dito. Não foi
indignação justa, coisa nenhuma, como tinha
pensado a princípio. Foi uma ameaça à minha
segurança, e eu reagi com hostilidade.
Eu podia justificar a mim mesmo. Ele esta­
va errado e eu certo. Posso encontrar uma
dúzia de pessoas que dirão que eu tenho razão,
mas isto não tem nada a ver com o assunto.
Não podemos chamar testemunhas neste en­

138
contro com Deus! Só nós dois em tal momento
- Deus e eu; e Deus está perguntando gentil­
mente:
— Você se sentiu ameaçado?
Eu sei a resposta. Assim me senti.
— Isto ameaçou sua segurança ou posição?
— Sim, não resta dúvida.
— Então você estava realmente com medo
nfio é?
— Não, eu nunca tenho medo! Eu não tenho
medo.
— O medo é uma emoção humana. Não o
condeno por ela. Pedro ficou com medo e fugiu,
lombra-se? E Jesus não o condenou. Pedro foi
perdoado; e você o pode ser. Você pode admitir
que foi medo, não indignação justa, e desistir
tle sua pretensa virtude?
— Não, o homem estava errado, ele não
tinha r azão. .. esquece Senhor. Tu sabes, Se­
nhor, que eu sei que o homem ter ou não ter
rnzão não vem ao caso. Eu fiquei com medo.
Agora vejo que toda a minha hostilidade vem
do medo — medo de ser dominado, medo de
estar errado. Medo de alguma coisa. Encararei
este medo e cuidadei dele em todas as mihhas
relações. E quando o encontrar, admiti-lo-lei e
procurarei tentar obter voto popular sobre quem
está certo ou errado.
Isto é confissão verdadeira, nascida de um
diálogo com Deus.
A confissão pode ajudar imensuraveimente
se pudermos sentir, em um nível emocional pro­
fundo, que pecado é essencialmente um erro
contra si mesmo ou contra outro ser humano.
Em seu amor infinito, o que Deus tem a ver
neste assunto de retidão não é que ele esteja
com raiva de nosso pecado, mas que ele sofre
porque estamos machucando e destruindo a

1 39
em diferentes categorias. As pessoas que ele
particularmente condenou foram os líderes re­
ligiosos, justos e morais externamente, e inter­
namente manchados de orgulho e outros peca­
dos do espírito. Leia outra vez sua denúncia
severa dos fariseus no capítulo 23 de Mateus
Ele, finalizando, diz: ‘‘Serpentes, raça de ví­
boras, como escapareis da condenação do in­
ferno?” 10
Eram, então, os pecados do espírito, e não
simplesmente os da carne, que mais pareciam
tirar a pessoa da presença de Deus, segundo
Jesus; e são estes pecados básicos que temos
que confessar, e não somente os feitos conhe­
cidos da carne. Devemos examinar a vida por
causa de ações acerca das quais nos sentimos
culpados e depois seguir estas até a atitude que
as provocou, e, em seguida, até a emoção da
qual elas surgiram.
Por exemplo, um homem diz alguma coisa
para mim, à qual respondo irritado, usando ter­
mos mais fortes do que comumente empregaria.
Mais tarde sinto-me culpado pela resposta dura.
Confessar a expressão da irritação é pratica­
mente inútil, a menos que eu volte um pouco
além da expressão, para ver por que reagi as­
sim. Revivo a experiência e tento sentir outra
vez o que senti durante o encontro. Subita­
mente percebo que estava me sentindo amea­
çado pelo que meu amigo tinha dito. Não foi
indignação justa, coisa nenhuma, como tinha
pensado a princípio. Foi uma ameaça à minha
segurança, e eu reagi com hostilidade.
Eu podia justificar a mim mesmo. Ele esta­
va errado e eu certo. Posso encontrar uma
dúzia de pessoas que dirão que eu tenho razão,
mas isto não tem nada a ver com o assunto.
Não podemos chamar testemunhas neste en­

138
contro com Deus! Só nós dois em tal momento
— Deus e eu; e Deus está perguntando gentil­
mente:
— Você se sentiu ameaçado?
Eu sei a resposta. Assim me senti.
— Isto ameaçou sua segurança ou posição?
— Sim, não resta dúvida.
— Então você estava realmente com medo
não é?
— Não, eu nunca tenho medo! Eu não tenho
medo.
— O medo é uma emoção humana. Não o
condeno por ela. Pedro ficou com medo e fugiu,
lembra-se? E Jesus não o condenou. Pedro foi
perdoado; e você o pode ser. Você pode admitir
que foi medo, não indignação justa, e desistir
de sua pretensa virtude?
— Não, o homem estava errado, ele não
tinha ra z ã o ... esquece Senhor. Tu sabes, Se­
nhor, que eu sei que o homem ter ou não ter
razão não vem ao caso. Eu fiquei com medo.
Agora vejo que toda a minha hostilidade vem
do medo — medo de ser dominado, medo de
estar errado. Medo de alguma coisa. Encararei
este medo e cuidadei dele em todas as mifihas
relações. E quando o encontrar, admiti-lo-lei e
procurarei tentar obter voto popular sobre quem
está certo ou errado.
Isto é confissão verdadeira, nascida de um
diálogo com Deus.
A confissão pode ajudar imensuravelmente
se pudermos sentir, em um nível emocional pro­
fundo, que pecado é essencialmente um erro
contra si mesmo ou contra outro ser humano.
Em seu amor infinito, o que Deus tem a ver
neste assunto de retidão não é que ele esteja
com raiva de nosso pecado, mas que ele sofre
porque estamos machucando e destruindo a

139
nós mesmos e os outros através de emoções e
ações distorcidas. Erich Fromm sugere que
“pecado não é primariamente pecado contra
Deus, mas pecado contra nós mesmos.” 11 Mui­
tos de nós temos focalizado a nossa atenção
sobre a verdade de que “todo pecado é contra
Deus” e tido tanto medo de estar nas mãos dos
relativistas que temos sido incapazes de perce­
ber em um nível profundo que o interesse de
Deus é que não firamos a nós ou aos outros e
que pecado é também “o que o homem faz ao
homem”. Tentar solucionar o parodoxo aparen­
te aqui não nos ajudará a enfrentar a nós mes­
mos, mas poderá nos ajudar grandemente se
pudermos ver o pecado como uma violação do
ser divinamente criado.
Fromm prossegue, dizendo que a reação
adequada para a conscientização de culpa é
“ não o auto-ódio, mas um estímulo ativo para
fazer melhor”. O auto-ódio não somente não é
uma virtude, é um grande mal. Odiarmo-nos a
nós mesmos é desprezarmos alguém que Deus
ama; é tão pecado quanto odiar outra pessoa.
Deus não fica enraivecido porque alguém
perde a paciência, comete adultério, rouba um
banco ou espanca seus filhos. O interesse de
Deus em tudo isto, ou em qualquer outro con­
junto de pecados manifestados externamente,
está em que estas coisas são destruidoras da
personalidade e das relações humanas. Nós da­
mos muito mais valor às propriedades que à
personalidade humana, ao ponto de esquecer­
mos que o ladrão de banco fez mais mal a si
mesmo do que a qualquer outra pessoa. O di­
nheiro que ele levou pode ser coberto pelo
seguro; o consumidor pode perder alguma
coisa, mas isto não é fatal, embora infeliz. O
que aconteceu não é simplesmente que alguém

140
roubou algum dinheiro, mas que uma persona­
lidade humana se prejudicou.
A mãe que confessa que se sente culpada
por gritar com seus filhos não fez Deus ficar
com raiva por causa dessa irritação diária. Ela
falhou em nível muito mais profundo. Ela falhou
om estabelecer a relação diária com o Eterno,
que lhe daria calma para lidar com seus filhos
com paciência amorosa; ou eia está tão pertur­
bada com tantas “boas razões” que tem pouca
energia e pouco tempo para sua tarefa primá­
ria. Seu pecado básico está num nível muito
mais profundo do que o de gritar com seus fi­
lhos. Ele vai de encontro com Deus. Pode ser
isto que ela precise confessar. Ela pode mesmo
descobrir, em confissão, que simplesmente está
desabafando nos filhos a hostilidade que sente
para com seu marido.
O adultério violou uma lei divina, mas Deus
não está enraivecido por que Seu código moral
foi violado. É a personalidade humana que foi
violada. Adultério não é errado simplesmente
por ser proibido nos Dez Mandamentos; é proi­
bido nos Dez Mandamentos porque é destrutivo
da personalidade humana. O homem não foi
feito por causa do sábado; o sábado não foi
criado para servir nele como se fosse uma ja­
queta apertada. Antes, o sábado foi feito por
causa do homem; foi-lhe dado como um dia
de descanso, de que ele precisa.
O estudante que cola num exame não
comete nenhuma grave injúria contra Deus.
Ele simplesmente dá início a um hábito preju­
dicial à sua fibra moral e espiritual. Deus é
"contra” tudo que é prejudicial para nós. Seu
amor para conosco é tão grande que Ele não
pode ver-nos destruindo-nos a nós mesmos
sem que ele sofra também. É o sofrimento de

141
Deus, simbolizado pela cruz, que está em jogo
no pecado. Nós sofremos em nossos pecados;
Cristo sofreu por causa deles. Seu sofrimento
se torna redenção para nós quando somos ca­
pazes de confessar o pecado certo em contri­
ção verdadeira.
Isaac Meir de Ger, citado por N. N. Glatzer,
diz: “Quem quer que fale acerca de, ou reflita
sobre uma coisa má que fez, estará pensando na
vileza que cometeu; e no que a gente pensa,
nisto é apanhado. . . E certamente ele não será
capaz de voltar, porque seu espírito se endure­
cerá e seu coração, e, além disso, um senti­
mento de tristeza lhe sobrevirá. Mexa a sujeira
desta ou daquela maneira, continuará a ser su­
jeira. Ter-se pecado ou não — o que é que
isto ros aproveita no Céu? O tempo que gasto
pensando nisto eu poderia estar usando para
fazer um colar de pérolas das alegrias do céu.
Por isso é que está escrito: ‘Apartai-vos do mal,
e fazei o bem’. Volte-se completamente do mal.
Você fez algo errado? Então o contrabalanceie
fazendo algo correto.” 12
A nossa “estabilidade” não está na auto-
justificação, mas numa alternativa em se delei­
tar na culpa perdoada.

142
7

A CULPA E O CASTIGO

Não nos odiamos por sermos inúteis, mas por


sermos impelidos a nos estender além de nós
mesmos... A autotortura é subproduto, em par­
te, do auto-ódio. Qualquer que seja o método
usado pelo neurótico — chicotear-se para al­
cançar uma perfeição impossível de ser atingida,
arremessar contra si acusações, ou se desprezar
e frustrar — efetivamente está torturando a si
mesmo.
Karen Homey 1

Larry esteve, por dois períodos de reclusão,


em San Quentin por roubo e falsificação de as­
sinaturas. Quando foi solto, depois do segun­
do período, parece que estava impelido por
alguma compulsão interna a continuar a sua
vida de criminoso. Passou novamente a falsi­
ficar cheques, mas por algum motivo desconhe­
cido por ele na ocasião, começou a assinar o
seu próprio nome nos cheques. Foi mais do
que fácil achá-lo, sendo preso e mandado pela
terceira vez a San Quentin.
Há dentro de nós um mecanismo interior
que tem a tendência de executar o seu próprio
julgamento: “confessa, ou serás castigado” .
Precisamos conseguir um senso de perdão e
purificação, ou descobrir algum modo de ser-

1 43
mos punidos, ou punirmo-nos a nós mesmos. No
caso de Larry, enquanto servia no segundo pe­
ríodo, experimentou um alívio temporário da
culpa — estava sendo punido. Mas não se sen­
tiu plenamente perdoado, nem por Deus, nem
pela humanidade e nem por si mesmo. Conse­
quentemente, quando foi solto, o seu ser judi­
cial, no seu íntimo, o condenou a castigo adicio­
nal. Quando assinava o próprio nome nos che­
ques, estava dizendo inconscientemente: “Ainda
sou culpado. Achem-me e castiguem-me.”
“A alma correrá impulsivamente ao seu
juiz”, conforme disse Platão. O homem é cons­
tituído de tal forma que a sua culpa precisa ser
plenamente perdoada, ou ele encontrará, por
um mecanismo interno implacável, meios de
se castigar.
A polícia observa que o criminoso, muitas
vezes involuntariamente, deixa vestígio óbvio
no lugar do crime — um recado inconsciente
para a polícia, dizendo: “Eu sou a pessoa cul­
pada. Venha e me prenda” ! Conscientemente,
deseja escapar; inconscientemente sente a ne­
cessidade de ser punido. Quando apreendido,
talvez sinta algum alívio temporário, mas não
será um sentimento permanente de ter a sua
culpa expiada.
Enquanto estiver na prisão, talvez abrigue
em seu íntimo um misto de hostilidade consci­
ente contra as autoridades e de senso de alívio,
pois foi preso, julgado, e está pagando a pena
do seu crime. Mas, quando solto, ainda sentin­
do-se sem perdão da parte de Deus, da huma­
nidade e do seu ser judicial interior, muitas
vezes fará um grande esforço a fim de ser
novamente preso. Uma vez fora das muralhas
da prisão, a sua culpa ainda não resolvida pre­

144
domina, e ele sente a necessidade de ser pu­
nido a fim de aliviar o seu senso de culpa.
Deus nos fez de tal maneira que o senti­
mento de culpa precisa ser resolvido. Preocupa-
mo-nos, neste momento, não apenas com algum
ato exterior que provoque o sentimento de
culpa, mas com tudo que se registra no nosso
ser interior como culpa: vergonha, sentimento
de inferioridade, de rejeição e de inutilidade;
junto com os pensamentos, desejos e impulsos
que sentimos como sendo “maus”. Deus insti­
tuiu o perdão divino, e, se a nossa concepção
do amor de Deus, dado sem condições, for ade­
quada, podemos aceitar o seu perdão, e nos
perdoarmos. Todavia, se não pudermos crer
em um Deus de amor infinito e aceitarmos o
Seu perdão, então sentimentos de culpa vão
persistir de alguma forma até que sejam resol­
vidos, de um modo ou outro.
Castigamo-nos tão implacavelmente tanto
por um sentimento de culpa falso quanto por
uma culpa real. Uma senhora que sofrerá de
Insônia durante anos disse-me que não tinha
consciência de qualquer sentimento de culpa
não resolvido em sua vida, mas um inventário
de crescimento espiritual claramente revelou
sentimento de culpa. Finalmente, lembrou-se de
três coisas diferentes que se relacionavam ao
seu problema. Uma referente a um fato parcial­
mente esquecido de ter sido molestada sexual­
mente quando pequena. Outra, concernente a
sentimentos de culpa, nos primeiros anos, re­
ferentes ao sexo, baseados em informações
erradas; e a terceira se relacionava à hostili­
dade reprimida que sentia contra o marido.
Ela tinha sido cristã durante a maior parte
de sua vida, tinha ensinado uma classe na Es­
cola Bíblica Dominical durante os cinco ou seis

145
anos anteriores, e sabia tudo acerca do perdão
divino no sentido intelectual. Um senso de ver­
gonha referente à experiência da infância ti­
nha-se registrado como sentimento de culpa;
todavia, uma vez que nunca se considerou cul­
pada de coisa alguma, nunca pensou na neces­
sidade de tratar daquela experiência, em parti­
cular. Quanto à hostilidade reprimida que sentia
em relação ao marido, nunca tinha admitido
que guardasse tais sentimentos indignos. Não
era Deus que a condenava, e sim, algo em seu
ser interior — o sistema judicial — que ainda
a declarava culpada. Quando se tornou capaz
de descobrir essas causas de sentimento de
culpa — algumas reais e outras falsas — e
tratar delas de maneira criadora, deixou de so­
frer de insônia.
Freud afirma que muitas pessoas voltam-se
deliberadamente para as coisas erradas porque
é certo que essas coisas trazem castigo de al­
guma espécie. Isto alivia o sentimento de cul­
pa, que tem sua origem em algum outro fato
na vida da pessoa. Freqüentemente o ato, o
pensamento ou o desejo é totalmente reprimi­
do. Assim vemos o doloroso espetáculo de uma
pessoa conscientemente cometer erros, num
esforço inconsciente de ser punida por uma
culpa inconsciente!
As pessoas que têm a tendência para aci­
dentes, dificuldades, doenças ou desastres per­
tencem a esta categoria. Há mesmo exemplos
de pessoas com tendência para mau juízo que
constantemente tomam decisões erradas, num
esforço inconsciente de falharem, para que se­
jam punidas, através do fracasso, por seu sen­
timento encoberto de culpa. Deve ser ressal­
tado, entretanto, que tais pessoas não precisam
ser necessariamente mais culpadas que as ou-

146
trus. A dificuldade delas pode ser nada mais
que um profundo sentimento de inferioridade,
ou um sentimento de inutilidade generalizada
que veste a máscara de culpa.
Como podemos obter o perdão divino, a
única alternativa para o autocastigo? Isto nem
sempre é tão simples como se pensa. Um se­
nhor amável, gentil, porém patético, aparentan­
do ter dez anos mais que a sua verdadeira
Idnde, veio contar a sua história de angústia e
dnpressão. Ele sabia que era o resultado de
culpa, da qual não conseguia qualquer alívio.
As maldades confessadas por ele não foram
piores do que as de milhões de outras pessoas,
todavia, para ele eram enormes, tão grandes
quo tinha a certeza de que Deus nunca poderia
pordoá-lo. Foi capaz de citar vários trechos da
lllblia referentes à disposição divina de per­
doar-nos, mas não podia aplicá-los a si. Pen-
•.íiva no suicídio como a única saída de um
monte de dificuldades morais, sociais e finan-
coiras. Parece certo que ele estava castigan­
do-se pelos erros dos seus pecados, entretanto,
a sua necessidade de ser punido era tão gran­
de que não tomaria em consideração a solução
proposta. Ele estava resoluto na sua decisão
de sofrer. Não podia e se recusava a tomar as
providências que poderíam aliviá-lo.
Jesus, no seu único comentário acerca do
Pal Nosso, deixou bem claro que não podemos
ser perdoados por Deus, a menos que esteja­
mos dispostos a perdoar os outros. Ele disse:
‘‘Porque, se perdoardes aos homens as suas
ofensas, também vosso Pai Celestial vos per­
doará a vós; se, porém, não perdoardes aos
homens as suas ofensas, também vosso Pai
não perdoará as vossas ofensas.” 2 Este era o
problema básico do homem, que não podia ter

147
a segurança do sentimento de perdão: ele não
queria lidar com seu pecado básico, que era a
recusa em perdoar os outros.
Outro aspecto do amor perdoador de Deus
é revelado na experiência de Jó, que, numa
série de desastres, perdeu todas as suas pos­
sessões, depois seus filhos, e, finalmente, a
saúde. Sentado nas cinzas, ele procurou desco­
brir a causa da sua miséria. Três amigos vieram,
ostensivamente, confortá-lo. Em vez disso, eles
argumentaram que ele devia ter pecado, pois
doutro modo Deus não teria permitido que lhe
tivessem acontecido todos aqueles desastres.
Jó insistia que não havia pecado, pelo menos
não no sentido em que eles entendiam o peca­
do. A crença deles, comum naquele tempo e
que ainda existe hoje, é que nesta vida Deus
sempre pune o mau e recompensa o justo.
Portanto, diziam eles, a dor de Jó devia ter um
ponto de relacionamento com fracasso moral
em alguma esfera de sua vida. Obviamente,
eles queriam ter a satisfação de forçá-lo a reve­
lar a natureza precisa do seu pecado.
Ele teria sido mais que humano, se não se
tivesse ressentido com as insinuações deles.
Quase veementemente ele protestou a sua ino­
cência: não tinha feito nada digno das tragédias
que o haviam atingido. Já no fim do drama,
Deus convence os três amigos a irem a Jó. E
“oferecei holocausto por vós; e o meu servo
Jó orará por v ó s . . . ” E ”o Senhor virou o cati­
veiro de Jó, quando orava pelos seus ami­
gos. . . ” (o grifo é nosso). 3 Há, penso eu, uma
relação entre a disposição de Jó em orar por
seus amigos, de quem se ressentia, e a restau­
ração de sua saúde e fortuna.
Não poderemos experimentar a bênção de
Deus — ou seu perdão, ou Sua direção — en­

148
quanto estivermos cheios de ressentimento. Só
quando aceitarmos e amarmos os outros é que
nos tornaremos capazes de receber o que Deus
sempre está procurando nos outorgar. Seu de­
sejo de nos abençoar é constante e imutável.
Nossa capacidade de receber seu amor depende
de nossa disposição de amar. Assim, Jesus
explica que cumpriremos toda a lei quando
amarmos a Deus com todo o nosso ser, e amar­
mos ao nosso próximo como a nós mesmos.
Nós temos o direito de nos amarmos apropria­
damente. É tão errado odiarmos a nós mesmos,
culparmos ou julgarmos a nós mesmos, quanto
rejeitar e condenar os outros.
Dizer que “a culpa exige punição ou per­
dão” pode parecer como se disséssemos que
Deus nos castiga por nossos malfeitos e, por
dedução, que todo desastre ou tristeza que so­
fremos deve ser evidência de que Deus nos está
punindo por nossos pecados. O livro de Jó foi
escrito, principalmente, para reprovar esta
crença, porque Jó é descrito como um homem
reto que amava a Deus, mas nem por isso dei­
xou de sofrer toda sorte de infortúnios. Fumar
pode causar câncer, mas nem todas as vítimas
do câncer são fumantes. Todos os malfeitos,
enganos, erros de julgamento ou pecados tra­
zem em si uma penalidade inevitável, mas nem
todos os sofrimentos ou desastres são o resul­
tado dos nossos próprios delitos. Podemos so­
frer dos males sociais coletivos, como uma pra­
ga, por exemplo. Nossas casas podem ser des­
truídas por um furacão. Nossos filhos podem ser
atropelados por um motorista bêbado. Podemos
perder nossos empregos ou economias por uma
falta que não seja nossa. Tais desastres ou afli­
ções não podem ser interpretados como se se

149
originassem dos nossos próprios pecados ou
erros, ou de uma necessidade de autopunição.
Mas há uma outra espécie de aflição, que
é resultado de nossos próprios erros, quer o
chamemos pecado ou erro, pouco importa no
momento. Os erros podem ser resultado de
uma maneira de vida errada, e os pecados po­
dem ser voluntários ou inconscientes. O lavra­
dor que plantar milho numa fundura de um
metro ou de um centímetro não terá colheita
de milho. Ele cometeu um engano. Ele violou
a lei universal do plantio de milho. Deus não
está enraivecido. Ninguém foi prejudicado a
não ser o agricultor e sua família. Deus não o
castigou. Ele, simplesmente não entendeu os
princípios de agricultura, ou era preguiçoso
demais para aprendê-los ou descuidado demais
na aplicação do que sabia.
Quando dizemos que o pecado deve ser
perdoado ou punido, não estamos dizendo que
Deus traz a punição diretamente, mas que há
uma lei inexorável que executa uma espécie de
justiça impessoal. O agricultor que plantou seu
milho de maneira errada não estava sendo cas­
tigado, a não ser no sentido de que podemos
sempre contar com os resultados de nossas
ações. Este é um universo fidedigno. “O que
o homem semear, isso também ceifará.” Não
se trata de vingança divina, mas de resultado
inevitável: causa e efeito. Todos nós devemos
esperar um banquete de conseqüências.
Reconhecer e confessar erros não apaga
suas conseqüências naturais. Um motorista des­
cuidado faz marcha-à-ré e bate no lado de ou­
tro carro no estacionamento. Ele tem a tentação
de ir embora por um momento porque parece
que ninguém está prestando atenção. Ele se
sente culpado por seu descuido e também apre­

150
ensivo pelo custo dos estragos. Sua natureza
melhor triunfa, e ele decide deixar seu cartão
de visitas sobre o pára-brisa do carro estragado,
indicando, assim, que ele era o culpado e se
responsabilizará pelos reparos.
Ele teve a culpa do descuido, confessou
sua falta, e agora deve estar preparado para
pagar a penalidade do seu descuido. Sua culpa
foi confessada e “punida” — punida no sentido
de que ele vai pagar pelo acidente. Mesmo se
ele fosse embora sem ser visto, ainda seria
punido — não diretamente por um Deus irado,
mas por uma voz interior que dizia, dia e noite:
"Você foi desonesto.” Sua punição, então, ja­
zería no fato de ter que viver como uma pessoa
desonesta. Ele não só teria feito uma coisa
desonesta, mas ter-se-ia tornado uma pessoa
desonesta e destruído, com isso, seu auto-res-
peito.
O funcionário que comete uma desonesti­
dade de vez em quando e que a racionaliza
na base de receber pouco pode estar certo em
seu argumento, mas no âmago do seu ser há
um eu interior que nunca aceita uma raciona­
lização, porque conhece a verdade. Ele não
faz meramente uma coisa desonesta, ele se
tornou uma pessoa desonesta, e sabe disto. A
firma da qual ele roubou pode ser que não
sofra grande prejuízo. A empresa pode reco­
brar-se, o funcionário não — enquanto ele não
se arrepender não só do feito, mas também da
prática de racionalizar.
O governo possui reservas enormes e a
quantia insignificante que a gente pode deduzir
ilegalmente do imposto de renda faz pouca
diferença comparada com os bilhões recebidos
pela Recebedoria Federal de Rendas. O paga-

151
dor de imposto desonesto pode racionalizar
que milhões são desperdiçados pelo governo
de uma ou outra maneira; mas ele sofre porque
se tornou uma pessoa desonesta. Pode ser que
o governo nunca descubra o roubo, mas o paga­
dor de imposto não está livre. O ser interior
inexorável sabe da verdade. Deste tribunal inte­
rior não há escapatória. Ele exige arrependi­
mento e perdão, ou punição; e este ser não
espera o dia do juízo; ele julga constantemente.
"Se nosso coração não nos condena, temos
confiança perante Deus.” A culpa não resol­
vida nos priva da intimidade com Deus, o que
torna nossa oração sem efeito. De alguma
maneira sutil a culpa nos condena a usar
máscara para escondermos o nosso verdadeiro
ser do olhar dos outros. Este é um mecanismo
totalmente inconsciente. Ato por ato, dia após
dia, mentira após mentira, nos tornam progres­
sivamente mais e mais opacos e menos aber­
tos. Tornamo-nos pessoas que não podem se
abrir para não mostrarem a desonestidade in­
terior.
A desonestidade, porém, não está limitada
a mentiras ou roubos abertos. Pior desonesti­
dade consiste em mentir a nós mesmos, negar
nossos sentimentos verdadeiros, fingir que sen­
timos de um modo, quando, na realidade, sen­
timos de outro; em uma recusa sutil de encarar
a espécie de pessoa que realmente somos.
Entre as formas mais comuns de autopu-
nição estão: stress emocional, sintomas físicos
e doenças mentais. T.S. Szasz diz que uma pes­
soa assim “está dizendo de fato, ‘admitindo’:
‘Pequei, ai de mim, e agora estou sofrendo
pela expiação do meu pecado’, naturalmente
com a implicação: ‘de modo que você não
precisa me punir. Eu mesmo o estou fazendo’.” 4
O. Hobart Mowrer escreve que “um ho­
mem nunca estará completo enquánto não esti­
ver ‘aberto para o mundo’. Isto não quer dizer
que a pessoa tem que proclamar os seus peca­
dos ‘de cima do telhado’. De modo algum. Mas
ela não estará totalmente ‘salva’, no sentido de
estar fora de perigo, enquanto não tiver mais
medo de que outrem saiba a verdade a seu
respeito.” 5
Em outro lugar ele diz: “O sentimento de
culpa, em suma é o temor de ser descoberto e
punido. E persiste precisamente pela razão de
q u e . .. a mera passagem do tempo não reduz
a culpabilidade... O pecado original é, além
disso, composto de decepção, o que o torna um
pecado contínuo, que não foi cometido só na­
quele tempo, mas que ainda está sendo prati­
cado e perpetuado aqui e agora.” 6
Sidney S. Jourard diz: “Toda pessoa desa­
justada é uma pessoa que não se deu a conhe­
cer a um outro ser humano, e, em conseqüência
disso, não se conhece, nem pode ser ela mes­
ma. Mais do que isto, ela luta ativamente para
evitar tornar-se conhecida por outro ser humano.
Ela trabalha nisto incessantemente, vinte e
quatro horas por dia; e isso é trabalho!” ?
Alguns anos atrás uma senhora pediu-me
que orasse com ela pelo alívio de um mal
físico muito doloroso, que os médicos não pu­
deram aliviar. Antes de concordar em orar,
perguntei-lhe das suas relações e atitudes para
com as pessoas de sua intimidade.
Acontecia que ela guardava um ressenti­
mento muito forte contra seu marido. Ele lhe
havia sido infiel. “Eu posso perdoá-lo por qual­
quer coisa, menos por isso”, disse ela, e havia
uma certa determinação na sua declaração.
Suspeitei de uma relação direta entre sua ve-

1 53
emente hostilidade e seu problema físico. Per­
guntei-lhe se preferia o sofrimento contínuo a
perdoar seu marido. Ela disse: “Jamais o per­
doarei!”
“Então”, eu disse, “acho que não vale a
pena orar pela senhora, porque a senhora não
preenche uma das condições básicas para que
a oração seja respondida. Jesus torna bem
claro que não se pode ser perdoado (curado
espiritual, emocional e fisicamente) enquanto
não se tenha a disposição de perdoar a qual­
quer que nos tenha prejudicado.” Ela saiu triste
e rebelde. Claro que eu não tinha certeza defi­
nitiva de que sua dor física tinha uma relação
direta com sua natureza não perdoadora, mas
o veredicto da Bíblia sobre este assunto e as
descobertas da ciência moderna apontam uma
correlação definida. A mente simplesmente
transfere sua dor e mal-estar para o corpo.
É um grande erro pensar que, como hu­
manos, consistimos de três partes ma! ajusta­
das entre si — corpo, mente e espírito. Pelo
contrário, o homem é uma unidade, e, o que
afetar a mente ou o espírito, afetará, sem som­
bra de dúvida, o corpo, de alguma maneira.
Precisa ser dito que nós não temos todos o
mesmo tipo de consciência. Ações que fariam
com que uma pessoa sentisse o mais profundo
remorso podem, para outra, trazer pequeno ou
nenhum sentimento de culpa. Alguém já fez o
contraste entre Benevenuto Cellini e John
Bunyan neste sentido. Cellini era muito devoto a
suas meditações diárias, mas cruel e imoral. Pa­
rece que ele não experimentava nenhum senti­
mento de culpa. Bunyan, pelo contrário, basica­
mente moral, espiritualmentet sensível e altamen­
te ético, era torturado constantemente por um
sentimento de dúvida e remorso. Ele sentia-se

154
culpado pela mais pequena ação que lhe pare­
cesse menos que perfeita. Em certo sentido,
poder-se-ia dizer que Cellini era mais saudável
psicologicamente, embora Bunyan tivesse, em
todos os sentidos, melhor caráter.
O princípio aqui pode ser resumido deste
modo: Pecado não é simplesmente o ato aber­
to, mas qualquer atitude ou emoção que ficar
aquém da maneira de Cristo. O sentimento de
culpa deve ser considerado. Ele deve ser to­
mado como um sinal de aviso indicador de um
funcionamento espiritual errado.
Quando o problema do conflito interior é
resolvido, a dor do sentimento de culpa deve
cessar; sua função de prevenir foi realizada.
Se não resolvermos a culpa pela seguran­
ça do perdão (ato judicial de Deus e autoper-
dão de nossa própria responsabilidade), um
mecanismo interior entrará em ação. Sofremos
de um mal-estar interior na forma de remorso,
depressão ou outra manifestação mental ou
emocional. Quando esta se torna grande de­
mais, a mente transfere sua dor para o corpo,
e doença física real pode ocorrer.
A vítima de “stress” mental ou emocional
geralmente recebe pouca simpatia; mas quando
transferimos o problema para o corpo, ganha­
mos grande atenção, desde a expressão de
simpatia até recebimento de cartões e flores.
O interesse amoroso de Deus, entretanto, é que
nós, como pessoas, estejamos intatos e bem.
"Queres ficar bom?” Jesus perguntou. Estar
bem é estar aberto com Deus por meio da con­
fissão, transferir a dor da culpa para Ele e acei­
tar Seu perdão divino. Para alguns, pode signi­
ficar compartilhação de sentimentos com um
indivíduo ou com um grupo. Podemos escolher:
abrirmo-nos com Deus e os homens e livrar-

155
mo-nos da maior parte de nossas doenças do
corpo e da mente, ou escondermos nosso fra­
casso, e assim nos separarmos do poder cura­
dor, perdoador e redentor de Cristo.
Iniciamos este capítulo com a estória de
Larry, que fora mandado a San Quentin para
cumprir pena pela terceira vez. Ele começou
uma procura da sua dificuldade básica, experi­
mentando este ou aquele encontro espiritual.
E, finalmente, através da sábia direção do ca­
pelão, ele começou a procurar as causas de
seu problema. Em um grupo de comunhão, na
cadeia, ele continua seu crescimento.
Ao lhe ser concedida liberdade condicio­
nal, ele nos escreveu, perguntando se nossa
igreja podia se responsabilizar por ele e tam­
bém encontrar-lhe um emprego. Isto foi feito.
Logo ao chegar à igreja, ele foi convidado a se
juntar a um grupo. Dentro de alguns meses ha­
via ganho confiança suficiente para contar a
estória de sua vida. Ninguém sabia até então
que ele era um ex-condenado. Ele contou isto
com hesitação, esperando ser rejeitado de al­
guma forma. Ao invés disso, houve expressões
calorosas de amor e aceitação. Sua auto-acei-
tação aumentou gradativamente. O amor e o
perdão de Deus foram, de alguma forma, me­
diados através dos membros do grupo.
Dentro de alguns meses Larry manifestou
o desejo de despender o resto de sua vida
ajudando presos e ex-presidiários. A fim de se
preparar, ele matriculou-se num seminário
como aluno especial. Embora não tivesse ter­
minado o segundo grau, ele pôde fazer os tra­
balhos de pós-graduação com certa facilidade.
Enquanto ainda no seminário ele foi instru­
mento em começar uma instituição de recupe­
ração de prisioneiros recém-saídos da cadeia,

156
e, depois de se formar, conseguiu começar
uma segunda instituição, com o mesmo fim.
Um donativo à fundação permitiu-lhe, então, dar
tempo integral ao estabelecimento de grupos
de comunhão nas prisões e casas de reabilita­
ção para presos recém-soltos. Ele dá mostras
evidentes de ter aceitado completa e livremente
o perdão de Deus e de ter perdoado a si mesmo.
Os que entram em contato com ele ficam im­
pressionados por seu esforço evidente de ser
honesto para consigo mesmo, para com Deus
e para com os homens.
Delia foi criada num ambiente altamente
moralista. Seus pais eram estritamente religio­
sos, e Delia foi cumulada de uma carga anor­
mal de “deve” e “tens que” neuróticos. Na
faculdade ela se associou a dois grupos gran­
demente divergentes de amigos — um altamen­
te moral, e o outro, de alunos decididos a jogar
fora quaisquer restrições.
Mais ou menos um ano depois que saiu da
faculdade, com seu conflito interior ainda não
resolvido, ela começou a beber muito. Final­
mente foi internada numa instituição por alco­
olismo agudo. Quando Delia teve alta, embora
tivesse tido o benefício de longos períodos de
terapia com um psiquiatra, era ainda uma jovem
muito doente emocionalmente. Houve uma ou­
tra breve internação numa instituição de doen­
ças mentais.
Quando a encontramos pela primeira vez,
ela tinha sido “secada” , como dizem, através
da assistência fiel aos Alcoólatras Anônimos,
mas tinha substituído a bebida por tranqüli-
zantes que tomava na razão de oito doses por
dia, e era incapaz de conseguir um emprego.
Eventualmente um emprego de meio horário lhe
foi oferecido, o qual ela pôde aceitar, embora

1 57
trabalhasse uma ou duas horas por dia no
começo: Finalmente ela conseguiu entrar para
um grupo de comunhão. Ela rejeitara a religião
moralista de sua infância, que a havia sobre­
carregado com toda espécie de sentimentos de
culpa neuróticos, mesmo assim, estava obvia­
mente procurando a Deus. Tinha medo e sen­
tia-se terrivelmente culpada por sua grande hos­
tilidade. Para encurtar, ela estava algemada
por culpa real, sentimento de culpa falso, medo,
hostilidade e sentimentos de inutilidade.
Ela, finalmente, tornou-se capaz de expres­
sar um pouco de sua hostilidade reprimida num
grupo e quando descobriu que o céu não veio
abaixo por causa disso, gradativamente come­
çou a aceitar suas emoções como uma parte
válida de si mesma. Seu sentimento de auto-
-rejeição era tão grande que a princípio não
podia dar nem receber amor. Eventualmente,
enquanto a cura de Deus era mediada através
do grupo, Delia veio a aceitar a si mesma.
Seu falso sentimento de culpa diminuiu, e ela
aprendeu a lidar com a culpa verdadeira. Em
breve estava trabalhando em período de tempo
integral e indo maravilhosamente. Ela está
“bem”, “perfeita”, no sentido em que o amor
divino lhe foi mediado. Seu nível de auto-acei-
tação é bom, e seus relacionamentos são todos
criativos. Ela é uma dona-de-casa que trabalha
com tempo integral, numa causa cristã alta­
mente significativa.
Larry e Delia são exemplos externos da
compulsão que todos nós temos, em alguma
medida, de punirmos a nós mesmos por culpa
real ou imaginária. A culpa é um fenômeno
universal. “Todos pecaram e destituídos estão
da glória de Deus.” 8 Portanto, todos precisam

158
descobrir e aceitar a graça de Deus — seu amor
e aceitação incondicional.
Um ministro relatou a jornada espiritual
de Irene — uma excelente ilustração da ma­
neira em que a graça de Deus é mediada atra­
vés do amor de crentes compreensivos:
‘“Ela era uma das jovens atraentes que
conheci. Eu nunca a havia visto antes. Ela
estava derreada numa cadeira, quase sem fala.
Perguntei-lhe o que eu podia fazer por ela.
Parecia amedrontada, sentindo-se culpada e
‘perdida’ de um modo estranho. Disse: ‘Eu não
sei realmente por que estou aqui. Preciso de
alguma coisa, mas não sei o que é.’
“Ela enfrentava o problema da bebida,
mas parecia haver algo muito mais profundo.
Na primeira sessão de aconselhamento, tudo
o que pude conseguir dela foi a revelação de
um sentimento de rejeição completa da parte
de seus pais, uma hostilidade intensa para com
eles, e um sentimento de total autodesprezo,
que ela não conseguia traduzir em palavras.
Ela expressou uma hostilidade quase venenosa
para com seus pais, especialmente para com
seu pai. Ela havia querido o seu amor e tinha
se sentido completamente rejeitada. Sua apa­
rência indicava uma rejeição do papel feminino.
Ela estava masculinizada na aparência. Na ten­
tativa de se identificar com seu pai que a rejei­
tou, ela aparentemente tinha adotado ‘modos
de sentir’ masculinos.
"Eu não pude acreditar em tudo o que me
contou, e depois ela confessou que muito do
que havia dito era falso, mas levou um ano
ou mais para admitir isto.
“No grupo ao qual foi destinada, ela se
relacionava com os outros com dificuldade. Ge-

159
ralmente um grupo aceita totalmente um indi­
víduo, não importando quão desagradáveis se­
jam seus traços de personalidade, mas eles não
podiam acreditar nela e tinham dificuldade em
aceitá-la completamente. Ela havia, aparente­
mente, se tornado uma mentirosa patológica,
e acontecimentos posteriores revelaram que
era uma ladra patológica também, e ainda uma
beberrona cumpulsiva. Seu progresso foi lento.
Ela havia levado mais de vinte anos para se
tornar a pessoa confusa que era, e nós reconhe­
cemos que, mesmo que a pudéssemos ajudar,
isso levaria muito tempo. E levou mesmo.
“Eu tive mais ou menos uma dúzia de ses­
sões de aconselhamento com ela durante os
quatro anos que esteve no grupo. Descobri
que havia mentido a si mesma por tanto tempo
que era praticamente impossível para ela dis­
tinguir entre a verdade e a falsidade. Um teste
de crescimento espiritual revelou que ela ha­
via, aparentemente, mentido no teste, mas quan­
do fez outro teste, no qual era impossível men­
tir até a si mesma, havia evidência inconteste
de homosexualidade latente. Deixei que ela
marcasse os pontos do teste no meu estúdio.
Quando ela finalmente olhou os resultados ficou
espantada, lutando com o problema de tentar
ser honesta para com seus sentimentos verda­
deiros.
“Naquela sessão ela finalmente confessou,
sob pressão gentil, que muito do que me havia
dito no passado tinha sido uma rede de men­
tiras, contadas num esforço para amparar um
ego terrivelmente fraco. Ela confessou a sua
desonestidade e todas as atitudes erradas que
haviam marcado sua vida. E lhe disse que não
a condenava, que Deus a aceitava, a perdoava
e que, se ela pudesse entregar sua vida a Cris­

160
to, ela conseguiría encontrar auto-aceitação e
o sentido da vida — salvação para o presente
e também a vida eterna.
“A luta para inverter suas atitudes tomadas
havia tanto tempo continuou por algumas se­
manas. Então notei uma mudança na sua apa­
rência. Ela começou a se vestir de uma maneira
muito mais feminina. Para a surpresa de todos,
ela se tornou uma pessoa muito atraente. A
maior parte dos traços e maneirismos que era
a causa de ela ter sido rejeitada, e pelo que
ela rejeitava os outros com uma espécie de
hostilidade malcriada, havia desaparecido.
“ Irene esforçou-se para estabelecer um re­
lacionamento criativo com seus pais. Isto em
si mesmo equivalia a uma redenção. Agora ela
podia aceitá-los e eles podiam se relacionar
com ela, porque sua hostilidade havia desapa­
recido quase que totalmente. Ela começou a
participar da vida da igreja. Tornou-se mais
calma, mais ajustada às pessoas e se auto-a-
-ceitava com mais facilidade.
“Sua jornada espiritual não terminou. A
viagem de ninguém tem fim. O crescimento deia
continua; mas eu posso testemunhar do proces­
so redentor que transformou uma jovem hostil
e terrivelmente infeliz numa pessoa atraente e
criadora. A igreja providenciou o ambiente bá­
sico no qual seu drama pessoal foi desenrolado,
mas sua transformação moral e espiritual ocor­
reu em grande parte por causa do grupo.
“Ela é ativa na igreja, e também em vá­
rios grupos sociais. Parou de punir-se, fazen­
do-se repelente e agindo de modo não aceitá­
vel. Sua nova auto-aceitação, manifestada de
muitas maneiras, é simplesmente o resultado
de aceitar o amor de Deus revelado em Cristo
e mediado através do grupo.”

161
Pode não ser fácil uma pessoa bem ajus­
tada se identificar com Irene e Larry, e alguns
dos outros cujas vidas estão descritas neste
capítulo. Eles são usados como ilustrações,
principalmente porque seus problemas nada
mais são do que uma intensificação da dificul­
dade experimentada por todo ser humano —
a de tentar alcançar metas incompatíveis, um
processo que a Bíblia chama de pecado e que
os psicólogos chamam de conflito interior ou
neurose. Quer o conflito interior da pessoa seja
severo o bastante para ser chamado de neuro­
se, quer ele se manifeste em relacionamentos
danosos, sintomas físicos ou uma desilusão ge­
ral da vida, a solução para cada um de nós é
a mesma: colocar as nossas vidas desorgani­
zadas sob o controle do Cristo vivo. Poucos são
capazes de fazer isto sozinhos. A maioria, en­
tretanto, requer a comunhão e a força, a acei­
tação amorosa e a inspiração providas por um
grupo de espíritos irmanados que se esforçam
por atingir o mesmo ideal, que é a maturidade
espiritual.

162
8

CULPA E PERDÀO

Santos são os homens que permitem que o per­


dão de Deus se lhes entranhe tão completamen­
te que não só seus pecados são lavados, mas
também seus próprios seres, seus egos e o âma­
go do querer... Eu perdoo na medida em que
sou perdoado e, se esse nível for pequeno (por­
que. .. eu só quis perder meus vícios, e não a
mim mesmo), posso perdoar só as pessoas que
ofenderam pouco e o meu perdão pouco as aju­
dará.
Anônimo

Num esforço de apanhar Jesus numa ar­


madilha, os escribas e fariseus trouxeram-lhe
uma mulher que diziam haver sido apanhada
em adultério. Arremessaram-na perante ele e
pediram-lhe que a julgasse. A Lei Mosaica di­
zia que tal mulher devia ser apedrejada até a
morte. Se Jesus se recusasse a apoiar a Lei
de Moisés, seus inimigos podiam acusá-lo de
ensinar contra a lei deles. Jesus curvou-se (tal­
vez para não ficar mais alto do que a mulher
prostada) e escreveu alguma coisa na areia.
Então disse: “Aquele dentre vós que está sem
pecado seja o primeiro que lhe atire uma pe­
dra.” Deve ter havido muitos olhares para os
lados, de uns para os outros. Quem seria o pri-

163
meiro a se declarar sem pecado? Deve ter ha­
vido um silêncio embaraçador, enquanto, um a
um, se retiraram sorrateiramente.
Sozinho com a mulher, Jesus perguntou-
-Ihe:
— “Ninguém te condenou?”
— “Ninguém, Senhor” — respondeu ela.
Jesus disse:
— “Nem eu te condeno; vai-te e não pe­
ques mais.”t
Não há aqui julgamento da parte de Jesus.
Ele não procura determinar o grau da culpa
dela. Ele não apoia o pecado, mas também não
faz com que ela sinta rejeição, passando-lhe
um sermão sobre os males de uma vida imoral.
Geralmente sentimo-nos prontos a criticar
aqueles que caem em tal tentação, mas neste
incidente nossa simpatia está toda com a mu­
lher. Encontramo-nos condenando o círculo de
homens mal intencionados. Nisto vemos nossa
tendência inata de achar o culpado: descobrir
as pessoas “boas” com quem nos identifica­
mos, e as pessoas “más”, que rejeitamos. Fazer
isto é julgar. Mas precisamos nos identificar
tanto com a mulher como com seus acusado­
res, porque todos eles eram pecadores, talvez
nem mais nem menos do que nós somos. Pode
ser que não cometamos adultério, mas não te­
mos nós pecado da mesma forma com o nosso
orgulho, ciúme, lascívia, materialismo e ódio?
Ninguém de nós já arrastou uma mulher as­
sim ante um juiz, mas quem dentre vós está sem
culpa de julgar os outros de serem “maus” ou
de tentar descobrir o malfeitor e determinar de
quem é a culpa?
Para entender o perdão divino, devemos
voltar-nos para os ensinamentos de Jesus. Sua
parábola do Filho Pródigo é a melhor ilustração

164
desse amor.2 O mais moço de dois filhos deixa
a casa, em desconsideração atrevida e própria
da juventude pelo amor do pai. Num país dis­
tante, eie esbanja seu dinheiro com companhei­
ros dissolutos, que o abandonam quando seu
dinheiro acaba. Reduzido a guardador de por­
cos — baixeza inexprimível para um judeu —
ele começa a comparar sua fome e solidão com
a abundância e amor que havia experimentado
em casa. De repente ele resolve voltar para
casa: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai
e dir-lhe-ei: — Pai, p equei.. . ”
O pai corre ao encontro do filho que retor­
na. O jovem começa seu discurso de arrepen­
dimento cuidadosamente ensaiado, mas o pai
o interrompe com seu bem-vindo. O arrepen­
dimento do filho é óbvio, mas o que importa
ao pai é que seu filho voltou. O pai não tinha
esperado até então para conceder o perdão.
Em sua mente o filho sempre fora perdoado.
Mas ele não poderia saber desse perdão ou
aceitá-lo ou ser por ele curado enquanto não
retornasse arrependido.
Ao passo que nos tornamos mais morais
e decentes, temos, freqüentemente, a tendên­
cia de nos tornarmos mais críticos. Vemos a
diferença óbvia entre o bem e o mal, e insisti­
mos em condenar o mal. Automaticamente, nos
colocamos como juizes do que é certo e errado,
bom e mau, e citamos as Escrituras para con­
firmar nosso julgamento. Mesmo que não ver­
balizemos nosso julgamento, sentimo-nos arbi­
trários e pronunciamos a sentença no coração.
Somos, assim, tão culpados de julgar como se
tivéssemos dito algo em voz alta. O doloroso
é que os outros podem sentir o nosso julga­
mento silencioso. Pela expressão facial incons­
ciente, no mínimo franzir dos sobrolhos, na mu-

165
dança do tom de voz, traímos nossa atitude
julgadora. E quando somos críticos ou conde-
nadores sempre despertamos hostilidade nos
outros.
Uma mulher de uma outra cidade veio ver-
-me um certo dia. Ela sofria de depressão pro­
funda e tinha passado um ano ou mais sob cui­
dados psiquiátricos, num esforço para desco­
brir a razão do seu estado. O problema superfi­
cial era evidente: havia aflição conjugal e as
providências para o divórcio estavam penden­
tes. Mas eu percebi uma angústia de alma
muito maior do que a que podia ser atribuída
ao divórcio.
Ela havia sido criada num lar excessiva­
mente moralista, onde a atmosfera religiosa era
rígida e carregada. O amor nunca era expresso
entre os membros da família; toda a ênfase era
dada em ser “bom”. Enquanto criança ela fora
totalmente submissa, nunca desobedeceu em
nada. Entretanto, quando saiu de casa ela se
apaixonou por um homem de fé diferente e
com uma ocupação que seus pais teriam con­
denado. A conduta dela, ao deixar a casa,
embora não tivesse sido rebelde ou impetuosa,
foi, de muitas maneiras, uma violação de tudo
o que lhe fora ensinado em casa.
Chamei a atenção dela para o que eu su­
punha ser óbvio para ela — que o seu casa­
mento com um homem com uma educação re­
ligiosa diferente, cuja ocupação seria uma
afronta a seus pais, juntamente com suas outras
manifestações de rebeldia, constituíam uma re­
jeição dos padrões religiosos paternos. Ela
jamais havia pensado que fosse rebelde e que
em certa esfera profunda de sua natureza sen­
tisse algum conflito que estava se manifestando
como sentimento de culpa. Ela sentia-se cut-

166
pada perante seus pais, embora soubesse que
de alguma forma eles estavam errados; culpa­
da perante Deus porque havia violado seus
velhos padrões religiosos; e culpada perante
o tribunal de sua própria alma. Ela jamais fora
capaz de distinguir entre o sentimento de culpa
falso e a culpa real, e muito menos de conse­
guir um sentimento de perdão.
Ela havia se esforçado por um ano, com a
ajuda de um psiquiatra, para descobrir a fonte
de seu problema, mas ainda sentia que sua di­
ficuldade básica não estava solucionada. Ela
não poderia ter um sentimento de perdão en­
quanto não enfrentasse o problema do senti­
mento de culpa. E a cura que se efetuou não
foi tanto o resultado de perspicácia de minha
parte, mas foi obtida pelo fato de eu poder sen­
tir com ela, e ser um canal através do qual ela
pôde experimentar a graça de Deus, manifes­
tada no perdão.
A maioria de nós não se compenetra de
quão freqüentemente criticamos, julgamos e
tentamos achar o culpado — pois são tantas
as maneiras que essa tendência encontra para
se expressar. Podemos dizer a uma criança:
“Será possível que você tem sempre de proce­
der assim?” Ou ainda pior: “Eu já Iho disse
um milhão de vezes!” Desta forma a sentença
é pronunciada. O que estamos dizendo é: “Você
é uma pessoa muito estúpida, e eu não sei como
consegui agüentá-lo esse tempo todo.” Não
importa o modo em que arranjamos as pala­
vras, a criança sempre pega o sentido real e
se sente condenada e rejeitada.
Com os adultos, que poderão retaliar, e
deste modo se defender, nós tomamos mais
precaução do que com a criança indefesa.
Afinal, não queremos entrar numa briga verbal

167
com um nosso igual, que poderá nos derrotar,
e assim somos mais cuidadosos. Mas para a
criança podemos dizer: “Por que é que você
fez isso desse jeito?” com a implicação de que
um idiota mongolóide saberia fazer melhor. Di­
zemos: “Olhe, deixe-me mostrar-lhe!” ou em­
pregamos outras centenas de expressões, e
cada uma delas é um julgamento e uma conde­
nação, que desperta hostilidade. Válido ou não,
todo julgamento levanta uma barreira entre nós
e os outros. E a nossa maneira de dizer: “Acho
difícil gostar de você quando age desse mo­
do”, é muito comum, muito humana, mas está
muito longe do amor incondicional. Todo cri-
ticismo é destrutivo, quer seja expresso ou só
sentido. Podemos chamá-lo de crítica constru­
tiva, mas a vítima o ouve como julgamento.
Falando numa igreja em Los Angeles, num
domingo, eu disse que é impossível mudar os
outros através da crítica, por mais bem intecio-
nada que ela seja; que nossas atitudes de crí­
tica erguem barreiras e destroem amizades.
Eu disse que não podemos mudar os outros
diretamente, que só podemos mudar a nós mes­
mos, e que, quando nos mudamos, os outros
têm a tendência de mudar por causa de nossa
reação. Depois do culto, um homem disse que
queria falar comigo. Sentamo-nos num banco
da igreja e ele disse: “Eu vi num relance esta
manhã o que está errado com minha vida fami­
liar. Por trinta anos tenho tentado modificar
minha esposa e filhos. Eu o fazia só para o bem
deles, mas eles se ressentiam disto. Meus fi­
lhos me odeiam e se casaram cedo só para
saírem de casa. Minha esposa não fala comigo
e eu pensei que era só porque eles não querem
aceitar minha sabedoria superior em muitos as­

168
pectos. Agora, pela primeira vez percebo que
eu os alienei com o meu criticismo.”
Conversamos por algum tempo e ele se foi.
Naquela noite voltou para o culto e no final
encaminhou-se para mim de braço dado com
uma mulher, que me apresentou como sua es­
posa. Ela sorriu e disse: — Eu não sei o que
foi que o senhor disse para o meu marido esta
manhã, mas ele já é um homem diferente.
Respondí: — Simplesmente disse a ele que
não podemos mudar os outros pela ação direta
ou pela crítica, e que isto produz hostilidade e
destrói os relacionamentos.
Ela voltou-se para ele com olhar flame­
jante, sacudiu o dedo no rosto dele e disse com
hostilidade genuína: — Há trinta anos venho
tentando dizer-lhe isto!
De modo que o caso não era unilateral;
duas pessoas críticas tinham tentado mostrar
os defeitos um do outro.
Muitas vezes tenho perguntado a mim
mesmo por que sou capaz de ajudar em algu­
mas situações de aconselhamento e em outras
não. Cheguei à conclusão de que quando fui
genuinamente útil, quando alguma coisa criati­
va aconteceu, foi porque eu não fiz crítica,
porque não dei nenhum conselho direto, e
principalmente porque fui capaz de sentir acei­
tação e amor total e incondicional.
Por que Jesus parecia preferir os pecado­
res aos líderes sociais e religiosos dos seus
dias? Por que ele preferia se juntar aos despre­
zados da humanidade? Seus inimigos diziam
que ele sempre comia com os párias sociais,
com as prostitutas e os desprezíveis coletores
de impostos, com os pescadores sem cultura,
que muitas vezes eram dados ao xingo. Além
disso, Jesus e aqueles que estavam com ele

1 69
nem sempre obedeciam aos costumes cerimo­
niais como as “pessoas decentes” faziam. Eles
até mesmo faziam coisas no sábado que os
sacerdotes diziam que eram proibidas.
Se nos associássemos a tais pessoas por­
que aprovamos sua conduta, podíamos bem
sentir vergonha do nosso gosto. Mas Jesus
parece ter-se associado com elas porque, entre
os dois tipos de pecadores, ele achou que esses
eram muito preferíveis. Estas pessoas eram re­
ceptivas. Elas haviam pecado, sabiam disto e
não havia segredo do seu pecado. Mas os fa­
riseus, os moralistas do dia, não se sentiam
pecadores. Eles eram decentes, iam à igreja,
davam o dízimo e obedeciam a todos os requi­
sitos externos da lei. E, porque não podiam ver
que eram pecadores, não podiam também
aceitar a graça de Deus, porque nunca lhes
ocorria que precisavam dela. Só um pecador
que se reconhece pecador poderá sentir a
graça do perdão de Deus, porque tem a cons­
ciência de que precisa dela.
Note-se a quem Jesus revelou sua divin­
dade. Não foi para os moralistas dos seus dias,
os líderes religiosos da nação, mas para uma
mulher desmazelada, à beira de um poço em
Samária — uma “estrangeira”, além de tudo,
com a qual os judeus respeitáveis não se co­
municavam. Ela não esperava que Jesus falasse
com ela, muito menos que lhe pedisse água
para beber, porque uma rixa religiosa, de sé­
culos, existia entre os judeus e os samaritanos.
Essa mulher viera ao poço sozinha, porque não
havia dúvida de que as outras mulheres a des­
prezavam por causa do seu relaxamento moral.
E também elas tinham receio dela, porque ela
havia tido uma sucessão de maridos e deste
modo era uma ameaça às outras mulheres. Mas

170
aqui estava um Judeu conversando com ela.
A voz dele era amiga e calorosa, e seu sorriso
era tão amigo quanto sua voz.
A conversa caiu no campo religioso e,
eventualmente, acerca das diferenças religio­
sas entre os judeus e os samaritanos. Pronta
para partir, ela disse:
“Quando o Messias vier, ele nos ensinará
todas estas coisas.” Jesus disse: “Eu o sou,
eu que falo contigo.” 3
Não foi para os líderes religiosos, que ti­
nham orgulho de sua moralidade exterior, mas
a uma mulher casada muitas vezes e que então
vivia com um homem que não era seu marido,
que Jesus revelou sua messianidade. Eu faço a
mim mesmo, com um sentimento quase dolo­
roso, a pergunta: “Se Jesus andasse entre nós
hoje, incógnito, escolhería ele para se revelar,
as pessoas que vão às igrejas, ou iria ele pro­
curar um desleixado moral consciente de seu
estado?” Não ouso responder à pergunta —
eu não sei. Vemos que “Cristo amou a Igreja
e deu-se a si mesmo por ela”. Mas isto não sig­
nifica que ele poderia aprovar o moralismo com­
placente e as atitudes julgadoras que muitas
pessoas religiosas manifestam hoje.
Certa vez eu dirigia um retiro interdeno-
minacional num alojamento bonito dos escotei­
ros no nordeste dos Estados Unidos. Meu olhar
deu com uma parede, onde em letras grandes
estavam escritos o Juramento do Escoteiro e a
Lei do Escoteiro. Li-os em voz alta e disse:
“Se todos nós fôssemos obrigados a obede­
cer a esses princípios ao pé da letra, e também
se fôssemos obrigados a obedecer ao Código
de Hamurabi, que nasceu séculos antes de
Moisés, e aos Dez Mandamentos, seríamos
mesmo melhores pessoas do que a maioria de

171
nós é agora.” Ninguém discordou. Eu pergun­
tei: “Então por que é que Jesus veio? Foi sim­
plesmente para nos dar alguns preceitos éti­
cos e morais? Certamente que a vinda dele não
deve ter sido só para nos conduzir a padrões
mais altos de conduta, mas também por um
outro propósito.”
A Bíblia não é basicamente um livro sobre
costumes. No Sermão da Montanha, que con­
tém os preceitos éticos e morais mais eleva­
dos que o homem conhece, Jesus não ensina
que é só pelo esforço em atingir estes princí­
pios éticos que alcançaremos o céu. Eu não
consigo aplicar todos os ensinamentos de Je­
sus à minha vida e nem conheço alguém que
o faça em todas as circunstâncias. Mesmo as­
sim, espero entrar no céu, e espero encontrar
lá muitos outros que tiveram, talvez, uma vida
muito menos inocente do que eu. Espero con­
seguir a vida eterna, não porque eu seja bom,
mas porque Deus é bom; não porque eu tenha
sido capaz de demonstrar amor incondicional
em todas as circunstâncias, mas porque ele é
capaz de fazer isto; não porque eu sempre fui
capaz de perdoar, mas porque Deus o pode fa­
zer e me perdoou.
A característica principal do cristão mora­
lista é que, embora ele fale ardorosamente da
graça (favor imerecido) de Deus, ele se afunda
num esforço palpitante, nervoso, apreensivo e
cheio de culpa, na tentativa de ser “bom” e de
“evitar as coisas do mundo” (e não há dois
moralistas que tenham listas idênticas das
ocupações mundanas). Os moralistas têm um
verso bíblico para atirar em qualquer pessoa
que se ocupa de uma atividade qualquer que
eles pessoalmente não gostam ou não aprovam.
O seu “não” é, freqüentemente, um tabu cultu­

172
ral, aprendido um século ou mais atrás, nos
joelhos de um pai carregado de culpas, que
falava da graça, mas que vivia sob o domínio
da lei.
Mesmo depois de eu conseguir — através
da orçção, de paciência e da graça de Deus —
colocar minha vida um pouco em harmonia
com os ensinos de Jesus, vejo alguém que
ainda não chegou a este ponto e me encon­
tro julgando-o automaticamente porque ele não
é tão paciente ou moral ou generoso quanto
eu. Ao fazer isto, estou pecando — da mesma
maneira que ele. Ele pode ser culpado de hos­
tilidade ou imoralidade; eu me torno culpado
de juízo e orgulho espiritual. Não estou certo,
de maneira alguma, de quem é mais pecador;
ele ou eu, mas é bem possível que, se con­
siderar minha oportunidade e vantagens, eu
seja mais pecador do que ele. Minha autojus-
tiça pode ser pecado maior à vista de Deus do
que o pecado carnal momentâneo dele, o qual
eu me inclino a julgar tão apressadamente.
A Bíblia, portanto, não é necessariamen­
te um livro de padrões morais tais que, se ade­
rirmos a eles, nos tornaremos pessoas “boas” ,
que merecem o céu; é, antes, a maravilhosa
história da graça inacreditável de Deus, do seu
perdão amoroso, extendido incondicionalmente
a todos que o quiserem receber. É as boas-
-novas de que Deus não nos condena, mesmo
quando falhamos, que ele nos ama, deu seu
Filho por nós e nos aceita, embora não nos sin­
tamos aceitáveis a nós mesmos.
Mas, mesmo quando falamos do amor in­
condicional de Deus, começamos a nos sentir
vagamente inquietos: não é o arrependimento
uma condição para sermos perdoados? Não
devemos arrepender-nos antes que Deus possa

173
nos perdoar? Como resposta, quero sugerir que
há diferença entre a idéia de um Deus que nos
força (parecido com um chefe de uma organi­
zação) até que seus requerimentos sejam pre­
enchidos e um Deus que criou o universo de
tal maneira que certas causas produzem certos
efeitos. As leis morais de Deus são muito pare­
cidas com suas leis naturais — a lei da gravi­
dade, por exemplo. Não são “regras” exter­
nas com penalidades arbitrárias anexas; elas
descrevem como as coisas funcionam. O amor
e o perdão de Deus são ta te e s imutáveis —
tão imutáveis quanto a gravidade ou a pressão
atmosférica. Nossa “bondade” ou “ ruindade”
não afetam estas leis divinas de modo algum.
Elas operam como leis fixas do universo, o
que quer simplesmente dizer que são aspectos
imutáveis da natureza de Deus.
Nosso arrependimento não é uma "condi­
ção” na nossa concepção humana e legalista
do termo. Deus não espera, para extender per­
dão e amor, até que nos arrependamos, ao con­
trário, nós é que somos incapazes de aceitar
a graça que ele eternamente extende até que
nos arrependamos. “Eu não mudo”, disse Deus
através do profeta. Ele fez tudo que era neces­
sário para nos perdoar. A cruz permanece como
um símbolo disto para sempre. Ele tomou a
iniciativa; o resto depende de nós. Nosso ar­
rependimento é simplesmente o meio pelo qual
nos colocamos em harmonia com o amor e o
perdão preexistente de Deus. E mesmo nossa
resposta é, de certo modo, o resultado de sua
iniciativa divina, mas nossas vontades fazem-na
operante quando abrimos nossas vidas para
ele numa resposta alegre.
Se não alcançamos o céu por sermos bons,
pela obediência aos ensinamentos éticos de

174
Jesus, então não existem nenhuns padrões mo­
rais? Claro que existem. Mas a lei suprema é
a do amor, não da moral. Quando pergunta­
ram a Jesus que lei considerava suprema, ele
disse: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de
todo o teu coração, e de toda a tua alma, e
de todo o teu entendimento, e de todas as tuas
forças. E o segundo é este: Amarás o
teu próximo como a ti mesmo.” 4 Ele, assim,
mostrou que alguém que cumprir esta lei su­
prema do amor terá, ao fazê-lo, cumprido tam­
bém todas as outras.
Se você deseja ajudar as pessoas, quer
sejam amigos, ou membros de sua família, ou
conhecidos, não os julgue nem os critique. Não
somos nós os discernidores do bem último em
todos os assuntos. Julgar, condenar ou criticar
pode bem ser um dos piores pecados. Se você
quer ajudar as pessoas, deixe que um pouco
do amor não julgador de Deus seja canalizado
através de você. Não é de nossa admoestação
que o mundo precisa, e por mais bem que al­
guém consiga colocá-la em fraseologia bíblica,
ainda assim é fazer uma admoestação egocên­
trica e implica numa virtude que o outro não
possui. A chave é o amor, não a admoestação.
Há alguns anos atrás, recebi uma carta in­
teressante. Era uma carta de onze páginas, de
uma mulher que dizia que Deus a havia man­
dado levantar-se no meio da noite para me es­
crever. Na carta, ela se esforçava para corrigir
minha teologia, vida pessoal, atitudes e prega­
ção. Continha alguma verdade. Seria muito
difícil escrever onze páginas sem se tropeçar
com alguma verdade. Mas, sendo muito huma­
no, recusei-me a aceitar a suposição olímpica
de que ela tivesse sido autorizada por Deus
para ordenar minha vida pública e particular.

175
Ela tinha razão em muita coisa que disse,
mas errara na suposição de que admoestar
fosse a maneira de ajudar as pessoas. Os seres
humanos não precisam tanto das nossas admo-
estações como do nosso amor. Claro que há
ocasião em que necessitam e querem nossa ori­
entação; quando perdem seus objetivos, quan­
do estão confusos, quando estão a ponto de
arruinarem suas vidas; quando precisam do
apoio de uma pessoa que não está envolvida
emocionalmente, para ajudá-los a verem uma
saida. Entretanto, muitos dos nossos conselhos
bem intencionados são nascidos não do Espí­
rito Santo, mas de uma necessidade egocên­
trica de dirigir as vidas dos outros. Jesus dis­
se: " . . . tira primeiro a trave do teu olho, e
então cuidarás em tirar o argueiro do olho do
teu irmão.” 5 Ele estava dizendo: “Quando tua
vida pessoal, relacionamentos e motivos esti­
verem bem ordenados, então poderás ver cla­
ramente a maneira de ajudar a outrem.”
Jesus não nos chamou para julgar, mas
para confessar — e continuamos julgando. Ele
nos urge à confissão, e nos recusamos. A Bí­
blia ordena: “Confessai as vossas culpas uns
aos outros, e orai pelos outros, para que sa­
reis”. 6 Poucos sermões foram feitos baseados
neste texto e não sei se existe um texto mais
impopular.
Confessar a outrem não significa que se
deve parar uma pessoa na rua e dizer: “Tenho
alguns segredos culposos que quero compar­
tilhar com você”, ou desabafar com um conhe­
cido fortuito algum aspecto sórdido de nossa
vida. Quer dizer, sim, que no ambiente de um
grupo pequeno e amoroso, ou com um amigo
adequado, que seja sábio e cheio de amor e
compreensão, podemos compartilhar nossas

176
deficiências e fracassos espirituais. Algo o
incomoda? Então pode ser que você esteja per­
turbado e necessite compartilhar com alguém
alguns dos seus problemas.
Ao compartilhar e orar uns pelos outros
dentro de um grupo unido, obedecemos ao
mandamento. E mais, conseguimos alívio das
culpas reprimidas; porque as emoções e ati­
tudes erradas (não necessariamente os atos
sintomáticos) devem ser partilhadas, para que
possamos experimentar a cura que vem da acei­
tação dos outros. A culpa carregada por muito
tempo assume, freqüentemente, um valor neu­
rótico, fora de todas as proporções da sua im­
portância. Quando partilhamos nossa dificulda­
de, descobrimos que os outros também sofrem
dos mesmos problemas ou de problemas simi­
lares. O amor de Deus é mediado através deles.
Sentindo a sua compreensão e aceitação, po­
demos começar a aceitar o perdão de Deus,
que estava disponível o tempo todo.
Gostaria que fosse possível mudar a ima­
gem da Igreja. Muitas pessoas que não se
relacionam bem de perto com a igreja pensam
de nós como religiosos respeitáveis, éticos, só­
brios e um pouco obtusos, dando duro para
sermos morais; e presumem, com muita razão,
que não somos tão bons assim. Talvez alguns
imaginem que o objetivo primário da igreja é
produzir tais pessoas. Nisto estão errados. O
evangelho que nos dispusemos a aceitar, viver
e proclamar, são as boas-novas do amor reden­
tor de Deus; boas-novas de um amor divino,
que está disponível para todos os seres huma­
nos. Muitas vezes os que estão fora da igreja,
com uma visão confusa do que seja a cris-
tandade, não se sentem bem-vindos à igreja
porque não se sentem “boa” gente. Se tão-so-

177
mente pudéssemos esclarecer que a função
primária da Igreja, como sendo de Cristo, é se
preocupar não com os justos, mas com os injus­
tos, não com os sãos, mas com os doentes. É
nossa responsabilidade levar ao conhecimento
dos outros que a Igreja não é para as pessoas
“boazinhas”, mas para os pecadores, e é isto o
que nós todos somos.
Na igreja em que trabalho, sempre digo:
“Quero que os alcoólatras saibam que são bem-
-vindos aqui. Gostaria que as prostitutas sou­
bessem que aqui encontrarão amor sem jul­
gamento e aceitação, e também todas as ou­
tras pessoas que são culpadas da mesma ma­
neira em outros sentidos. Jesus disse às pes­
soas de mais moral dos seus dias que os
coletores de impostos, traidores pagos por
Roma, e as prostitutas, entrariam no reino dos
céus antes deles.
“Devia-se desejar que todos os solitários e
sem amigos, as pessoas que se sentem culpa­
das, inferiores e confusas, pudessem desco­
brir que na Igreja de Cristo seriam bem-vindas,
juntamente com as pessoas prósperas, cultas e
confusas, que de igual modo necessitam da
graça de Deus. Antes que o mundo possa per­
ceber isto, entretanto, teremos que mudar nossa
própria maneira de pensar e de sentir, abando­
nar nossas atitudes julgadoras e reconhecer,
num nível emocional profundo, que alguns dos
piores pecados não são pecados da carne, mas
do espírito.”
Jesus procurou mostrar ao povo do seu
tempo que eles tinham um falso conceito do
pecado; e uma grande parte da Igreja hoje ain­
da precisa de convicção neste ponto. Jesus en­
fatizou que pecado não era simplesmente o
ato, mas o motivo e a emoção que levaram ao

178
ato. A Bíblia nos diz que o homem que odeia
já é um assassino, embora não tenha matado;
que o que cobiça já cometeu adultério, e assim
é culpado perante Deus e perante o tribunal
interior de seu próprio coração, i Orgulho, co­
biça, lascívia, ciúme, materialismo — todos es­
tes são enfatizados na Bíblia como pecados
corrosivos do espírito, e aquele que encontrar
estas emoções em seu coração está, dependen­
do do grau do controle destas emoções sobre
ele, nas garras do pecado, embora sua vida ex­
terior pareça imaculada.
A projeção ou ação de exteriorizar aquilo
que é essencialmente subjetivo é um dos pe­
cados “indiretos” mais praticados e um dos
menos entendidos, porque é um artifício total­
mente inconsciente. Consiste em evitar que a
pessoa se conscientize de traços ou sentimen­
tos indesejáveis, atribuindo-os aos outros. O
traço que achamos mais detestável nos outros
é, freqüentemente, um dos nossos próprios pro­
blemas, ou um problema latente.
É óbvio que nem sempre é assim; mas
quando descobrimos um traço de personalida­
de agressivo numa outra pessoa, que fez com
que reajamos de maneira exagerada a ele, há
probabilidade de que não solucionemos intei­
ramente essa tendência em nossas próprias vi­
das. Não podemos ver isso em nós mesmos, é
claro, porque achamos que o traço é tão ofen­
sivo que fechamos os olhos para não vê-lo ou
o empurramos para a mente inconsciente.
Por exemplo: descobri, depois de muitos
anos, que um traço que acho detestável nos ou­
tros é um que possuo. Eu não gosto de inter­
rupções, quer sejam causadas pelo telefone ou
por um ouvinte impaciente. Fico desarrazoada-
mente aborrecido quando alguém é interrom-

1 79
pido. Minha racionalização é que quando uma
pessoa está falando eu quero ouvi-la até o fim.
Acho de mau gosto interromper um convidado
para jantar no meio de uma estória com a su­
gestão de que ele se sirva de mais batatas.
Embora eu goste de pensar que não inter­
rompo os outros indevidamente, descobri, por
verificação cuidadosa, que não tenho hesitação
alguma em interromper uma conversa ou em
parar uma secretária uma dúzia de vezes no
meio do seu trabalho, para dar-lhe algumas ins­
truções ou fazer uma pergunta. Observando a
mim mesmo por um período de alguns meses,
percebi que o que eu detestava intensamente
nos outros era algo que eu detestava em mim
mesmo e não tinha-me preocupado em encarar
completamente.
Interromper uma pessoa sem necessidade,
no meio de uma conversação, é outro modo de
dizer: “O que você tem para dizer é de tão
pouca importância que a vez me cabe. Agora
deixe-me falar!” É uma atitude egocêntrica, e
eu a desprezo fortemente nos outros. Eu a
havia suportado inconscientemente em mim
mesmo, mas o fato de eu reagir com uma quan­
tia de ressentimento indevida a este traço nos
outros me disse que eu era um dos principais
pecadores. Ainda que eu não interrompesse os
outros tão freqüentemente ou tão evidente­
mente quanto muitos, tenho certeza de que
sentia uma exigência interior de fazê-lo.
A pessoa que é rápida em condenar e bo­
tar culpas geralmente está projetando. O indi­
víduo que suspeita excessivamente está, na
realidade, contando sua própria luta interior
com a coisa que ele suspeita nos outros.
O Sr. Pontus era um homem assim. Seus
parentes diziam que nunca o haviam visto admi­

180
tir quaisquer defeitos próprios, embora ele pas­
sasse uma grande parte de seu tempo conde­
nando virtualmente todo mundo na cidade pe­
quena onde moravam. E!e suspeitava enorme­
mente dos motivos dos outros. Ele recusava dei­
xar suas filhas irem a bailes, porque, como ele
cuidadosamente explicava, a dança tinha for­
tes conotações sexuais e ele não queria que
suas filhas se envolvessem sexualmente. Não
havia instrução sexual em casa, só advertências
ameaçadoras.
Sua conduta pessoal era impecável, mas a
gente sentia que havia uma grande luta em seu
interior. Ao atacar os que estavam ao seu redor,
ele revelava aos observadores perceptivos o
seu ódio às suas próprias emoções inaceitáveis.
Sua natureza suspeitadora indicava que ele
duvidava de sua habilidade em controlar seus
próprios impulsos. Embora um senhor de
idade, ele recusava deixar sua esposa, de oiten­
ta anos de idade, falar com o jardineiro porque
ele tinha certeza de que o jardineiro tinha pen­
samentos lascivos para com ela. Este é um
exemplo espantoso de projeção, que dura toda
a vida. Confissão no caso dele devia significar
não a confissão de atos externos, mas de peca­
dos da mente e do espírito, a raiz de todo pe­
cado.
Vale a pena repetir que a nossa capacidade
de enganar a nós mesmos é enorme. Nossa
cegueira para com os defeitos dentro de nós,
tão manifestos aos outros, é uma das evidências
mais espantosas da nossa incapacidade de
nos vermos no total; não podemos ver a nós
mesmos como vemos os outros, e racionaliza­
mos e justificamos a nós mesmos, enquanto
condenamos os outros. É uma espécie de cor­
tina de fumaça psicológica que empregamos

181
inconscientemente, como que para dizer: “É
doloroso demais examinar minha vida pessoal.
Olhemos para ele.” Ao focalizarmos a atenção
na culpa de outrem, desviamos nossa atenção
da culpa inconsciente que sentimos, mas que
não queremos encarar.
Um consulente certa vez me disse que ele
tinha quase certeza de que sua mulher lhe era
infiel. Ele havia mandado segui-la. Depois de
algumas sessões de aconselhamento, durante
as quais ele persistia na crença de que sua es­
posa esfava “andando por aí” com outros ho­
mens, ele repentinamente descobriu o proble­
ma real. Então perguntou: — O senhor acha
que o fato de eu ter tido alguns casos antes de
me casar poderia ter alguma coisa a ver com
minha crença de que minha mulher me tem sido
infiel?
Eu disse: — Por que você não pensa seria­
mente nisto?
Ele discutiu essa possibilidade durante al­
gum tempo e então eu perguntei-lhe: — Pode­
ria haver aqui uma combinação de duas coisas
em ação — os casos reais que você teve antes
do casamento mais um medo real de que você
possa sucumbir a uma tentação similar agora?
Ele hesitou por uns instantes, porque a
mente frequentemente bloqueia as possibilida­
des dolorosas. Então perguntei: — Será que
você não está interessado em alguém mais no
momento?
Ele ficou muito pensativo por alguns ins­
tantes, então disse que, embora nada definido
houvesse acontecido, havia uma mulher, onde
ele trabalhava, em quem ele poderia estar in­
teressado. Insistia, entretanto, que não havia
feito nada de errado.

182
Ele chegou à conclusão de que sua própria
culpa anterior era o fundo diante do qual o
presente drama se desenrolava. Seu interresse
por outra mulher, parcialmente suprimido, es­
tava despertando as velhas memórias e a dor
do sentimento de culpa. Por uma curiosa inver­
são, ele então suspeitava de sua esposa.
Quando Sócrates, o mais sábio dos ateni­
enses, declarou: “A vida não examinada não é
digna de ser vivida”, ele não estava se refe­
rindo a um exame casual, de uma vez por to­
das, mas à necessidade de um reexame diário
dos nossos motivos, à necessidade urgente e
constante de se cavar numa camada mais fun­
da, abaixo dos níveis da pretensão, orgulho e
racionalização.
Há vários tipos de culpa que exigem per­
dão. Há, em primeiro lugar, culpa perante Deus
— aquelas violações das leis espirituais, éticas
e morais básicas, que na maioria das culturas
seriam também consideradas como violações
da personalidade humana ou dos relacionamen­
tos. Estas envolvem princípios básicos, como
os rigores dos Dez Mandamentos contra tais
coisas como assassinato, roubo, adultério e co­
biça. O que distingue este tipo de culpa é que
ela foi especificada por Deus na Bíblia.
Uma segunda categoria (as categorias de
certa forma se sobrepõem) é a culpa perante o
homem, a qual implica na violação de uma éti­
ca social ou um tabu de uma determinada cul­
tura. Isto incluiría a violação das leis estabele­
cidas pela sociedade em que a pessoa vive,
feitas para estabilizar os relacionamentos entre
as pessoas pertencentes a essa cultura. Aqui
estaria incluído tudo, desde leis reguladoras do
casamento e divórcio até as leis do trânsito,
regulamentos do imposto de renda e milhares

183
de leis urbanas, estaduais e federais similares.
O que distingue este grupo de leis das leis
morais básicas de Deus é que estas são de
natureza social e podem variar de cultura para
cultura. Na América, a gente dirije do lado di­
reito da estrada. Na Inglaterra isto seria uma
violação da lei.
Há muitas destas chamadas regras e regu­
lamentos “culturais”, a violação das quais pode
despertar sentimento de culpa. Pode-se come­
ter uma pequena violação neste sentido e sen­
tir-se culpado perante os homens, mas não,
necessariamente, perante Deus. Um amigo nos
convida para irmos à sua casa, e decidimos
que iremos às sete horas. Chegar uma hora
atrasado, sem uma desculpa ou explicação, é
uma violação flagrante do código social, e a
pessoa que faz isto sem qualquer sentimento
de culpa não só é carente de sensibilidade so­
cial, mas, além disso, é rude. Se, para completar,
ela não agradece seu anfitrião pela boa recep­
ção, viola outra regra importante de conduta so­
cial. Ele poderá lembrar-se durante a noite que
falhou neste aspecto e sentir remorsos. Isto não
constitui culpa perante Deus, mas perante os
homens. Ela é registrada, entretanto, simples­
mente como culpa, porque nosso tribunal inte­
rior não tem categorias reservadas para tipos
específicos de culpa.
Outra categoria diz respeito a sentimentos
de culpa falsos. Isto se refere aos nossos senti­
mentos de culpa onde não há culpa real, quer
seja de comissão ou omissão. Pode-se não ter
violado conscientemente uma lei de Deus ou
dos homens e mesmo assim experimentar um
profundo sentimento de culpa. Este sentimento
de culpa falso geralmente procede de fatos
como rejeição na infância, fazendo com que a

184
criança sinta-se não desejada, não amada, e,
portanto, inútil. Isto pode persistir pela vida afo­
ra de alguma forma difusa, indefinida. O indiví­
duo não está certo se pode chamar a isso de
sentimento de culpa, de inferioridade, inadequa­
ção, vergonha ou alienação. Ele simplesmente se
sente vagamente “inútil”, “que não presta”, um
“rejeitado”. Cada um destes sentimentos é re­
gistrado na mente inconsciente como culpa.
Uma criança cujos pais lhe propuserem
ideais altamente fora da realidade pode por isso
sentir que nunca vai ter sucesso e assim se
julgar um fracasso. Ela se sente vagamente cul­
pada e indigna. E porque não foi aceitável a
seus pais, se torna inaceitável a si mesma. A
causa pode ter sido desprazer contínuo da par­
te dos pais em relação ao seu boletim escolar
ou por seu fracasso em não alcançar muitas das
exigências e expectações da parte dos adul­
tos. Ela poderá ir pela vida afora com um sen­
timento de inutilidade mal definido.
Se teve pais perfeccionistas, ela poderá
nunca ser capaz de satisfazer às exigências
inexoráveis do seu super ego (a grosso modo,
consciência ou sentimento de dever). Chega­
mos ao mundo com uma consciência que diz
simplesmente: “Faça o que é certo." Ela não
nos diz o que é certo ou errado. Isto vem na
maior parte dos pais e é aumentado pelos pro­
fessores, irmãos e irmãs, e nossa cultura em
geral. Na maioria dos casos, entretanto, a cons­
ciência é produto da mãe e do pai.
Num grupo, uma senhora altamente inteli­
gente disse: “Sempre me sinto culpada ou ina­
dequada, não sei dizer qual das duas coisas.
Não importa o que eu faça ou quão bem o faça,
minha primeira pergunta instintiva é: ‘O que
papai pensaria?’” — Acontece que o pai dela

185
estava morto há anos, mas ela ainda sentia que
ele estava olhando por cima dos seus ombros.
Ela disse: “Se eu trazia para casa um boletim
escolar com a nota sete ele achava que devia
ter sido oito. Quando eu tirava oito ele tornava
bem claro que as filhas dele deviam tirar so­
mente dez. Quando finalmente eu conseguia
um dez, ele apontava outras deficiências -—
meu estudo de piano não estava progredindo
suficientemente, ou meu cabelo estava desar­
rumado ou minha postura não estava correta.
Nunca pude agradar-lhe, não importa o que eu
fizesse. Ainda não posso, e ele morreu há
anos.”
Para o mérito do grupo, ninguém deu a
sugestão imbecil: “Já que seu pai está morto
e você é uma adulta responsável, joque fora
esses padrões idiotas e crie os seus próprios.”
Ninguém disse isso, em parte, porque todos
sentiam dentro de si o mesmo problema, e, em
parte, porque sabiam que ela levaria bastante
tempo para superar totalmente o sentimento de
culpa e de inadequação que lhe foram confe­
ridos por um pai perfeccionista.
Ao traçar a culpa do passado até nossos
pais, não quer dizer que de algum modo esta­
mos colocando a culpa neles. Eles fizeram o
seu melhor. Eles foram os pais de seus filhos.
Ao viver segundo a luz que eles possuíam, cum­
priram sua responsabilidade. Não devemos cul­
par nem os pais nem os professores, nem os
irmãos nem às irmãs e nem a nós mesmos. Não
há culpa a ser tributada.
Mesmo assim, a responsabilidade persiste.
Nós a sentimos fortemente, mesmo depois de
dizermos que não há culpa. A verdadeira res­
ponsabilidade faz com que se comece neste
ponto para distinguir entre culpa falsa e real,
confessando a última.
Dentro do círculo compreensivo de um gru­
po que compartilha, a pessoa aprende a dis­
tinguir. Descobrimos gradativamente o ser real
por trás da máscara de fingimento e racionali­
zação, e aprendemos a tempo como oferecer
este ser recém-descoberto a Deus. Isto é confis­
são verdadeira.
As vezes, alguém, ao ouvir acerca de nos­
sos grupos pela primeira vez, demonstra an­
gústia considerável em vista da perspectiva de
se envolver em “confissão de grupo”. O temor
é totalmente infundado.
Freqüèntemente, é verdade, defesas que
duraram toda uma vida são esmigalhadas por
alguma perspicácia no grupo, e um membro
pode partilhar uma atitude ou sentimento do
qual se sente culpado. Nada que pode ser con­
siderado um bom bocado para fuxico é parti­
lhado. Longe de ser um problema, o inverso é
que é verdadeiro. Nossa relutância em nos ex­
pormos geralmente é tão grande que não há
perigo de um grupo assim se tornar um “cen­
tro de mexerico” . O perigo não é partilharmos
demasiado profundamente, mas o tratarmos
com superficialidade.
O que é partilhado é a emoção faltosa, a
atitude defeituosa, o relacionamento menos que
cristão, é o ser pecador, e não o ato pecamino­
so, que é confessado. Freqüentemente, como re­
sultado de novas visões e sensibilidade espiri­
tual crescente, a pessoa sente necessidade de
partilhar mais profundamente. Em tais casos, o
indivíduo faz isto numa sessão de aconselha­
mento com um ministro ou com um conselheiro
profissional.

1 87

.
9

A GUERRA ENTRE OS SEXOS

Ninguém pode dar amor maduro sem ter alcan­


çado um certo grau de maturidade; e não pode­
mos alcançá-lo enquanto estivermos reagindo a
impulsos inconscientes originados na infância e
que ainda não se tornaram maduros na sua
expressão.
Lucy Freeman1

A história registra a Guerra dos Cem Anos,


mas há um conflito que está em ação há muito
mais tempo. É a guerra entre os sexos. Alfred
Adler determina a origem desse conflito.

A falácia da inferioridade da mulher e seu co­


rolário, a superioridade do homem, constantemente
perturba a harmonia dos sexos. Como resultado, uma
tensão incomum é introduzida em todas as rela­
ções eróticas, assim ameaçando, e frequentemente
aniquilando inteiramente, toda “ chance” de felici­
dade entre os sexos. Nossa vida inteira é envenena­
da e corroída por esta tensão. Isto explica por que a
gente raramente encontra um casamento harmo­
nioso. . . 2

Tendo-lhes sido conferido um status infe­


rior por incontáveis séculos, somente em tempos
recentes as mulheres alcançaram algo pare­
cido com igualdade, A favor de oportunidades
educacionais iguais, longamente negadas, e

1 89
inumeráveis vantagens sociais, as mulheres
acharam uma campeã na pessoa de Mary
Wollstonecraft, a primeira feminista ardorosa,
que lançou sua cruzada em 1792. Infelizmente
seu zelo elogiável não foi seguido de igual
percepção.
Dois relevantes estudiosos do feminismo,
Ferdinand Lundberg e Marynia F. Farnham, di­
zem que:
Longe de ser um movimento para maior rea­
lização por parte das mulheres, como professava ser,
o feminismo foi a própria negação da feminilidade.
Embora hostil aos homens e crianças, foi, no fundo,
hostil às mulheres. Obrigou mulheres a se mante­
rem como mulheres, na tentativa de viver como ho­
mens. .. Psicologicamente, o feminismo tinha um
único objetivo: alcançar a masculinidade peia mu­
lher, ou a aproximação maior dela. O que foi alcan­
çado só significou grande sofrimento para os ho­
mens e também para as mulheres.. . 3

Mary Wollstonecraft alegou, em seu livro,


A Vindication of the Rights of Women (Vindica-
ção dos Direitos das Mulheres), que os homens
e as mulheres eram essencialmente idênticos
em suas características fundamentais. Seguiu-
-se, então, que as mulheres não deviam ser
iguais só perante a lei e governadas pelas
mesmas leis morais, mas deviam também fazer
os mesmos trabalhos que os homens. Os filhos
deviam ser entregues a amas competentes ou
creches públicas e suas mães deviam correr
para o mercado e entrar em competição aberta
com os homens.
A vida das mulheres foi extremamente difí­
cil nos séculos 18 e 19 e a batalha por direitos
iguais fez melhorar muito sua condição. Algu­
mas das metas das feministas eram dignas, en­
quanto outras eram neuróticas. Embora a socie­
dade tenha se beneficiado grandemente com

190
algumas das conquistas feitas pelo movimen­
to, os males dos objetivos neuróticos ainda es­
tão conosco, e o seu fim não está à vista.
Marie N. Robinson, psiquiatra, escreveu
um livro notável, The Power of Sexual Surrender
(A Força da Entrega Sexual). Podia ter sido in­
titulado mais apropriadamente “A Força Dispo­
nível para a Mulher Que Se Entregar à Sua Pró­
pria Natureza Feminina”. Ela escreveu:
Até onde o movimento feminista se condola dos
homens e ao mesmo tempo aconselhava à mulher
se masculinizar ou desviar-se de sua natureza fem i­
nina, foi horripilantemente neurótico, e temos co­
lhido o torvelinho que este movimento começou
desde então. A ira da feminista foi dirigida contra
si mesma. Ela fala da lista comprida das metas
masculinas que as feministas advogam, e de outra
lista, igualmente longa, de objetivos que ignoravam
ou negavam a existência das características fem i­
ninas nas mulheres.4

A Dra. Robinson e outros estudiosos do


movimento de protesto feminista analisam a
hostilidade inconsciente que as mulheres sen­
tem para com os homens.

O antagonismo feminista Vitoriano contra os


homens também sobreviveu. Ele foi passado de mãe
para filha, numa linha ininterrupta, por tantos anos
que, agora, para milhões de mulheres, a hostilidade
para com o sexo oposto parece quase que uma lei
natural. Embora muitas mulheres modernas estejam
falando a favor de um casamento ideal, apaixonado
e produtivo, no fundo elas se ressentem do seu pa­
pel, têm uma concepção do homem como sendo fun­
damentalmente hostil para com elas — um aprovei­
tador. No fundo do seu coração elas desejam, e mui­
tas vezes sem a menor consciência do fato, suplan­
tá-lo, trocar de papéis com ele.5

Marie Beynon Ray diz acerca deste desejo


feminino inconsciente de troca de papéis: “To-

191
das — bem, quase todas — no seu íntimo, de­
sejariam ser homens.” 6 O fato de isto estar
bem escondido sob o nível do consciente e ter
origem na infância, na inveja da posição privi­
legiada dos meninos e homens, torna-o quase
impossível de uma mulher percebê-lo, muito
menos de enfrentá-lo.
Este protesto contra o homem, que Alfred
Adler descreve como o ressentimento da mu­
lher contra a arrogância da autoridade masculi­
na, que faz com que ela se recuse a aceitar seu
papel sexual como mulher, possui origens com­
preensíveis. Em épocas passadas, o marido
“possuía” sua esposa, e qualquer propriedade
que ela tivesse era dele por direito de casa­
mento. Isto acontecia por leis feitas exclusi­
vamente por homens. Hoje em dia, na América,
isto está um pouco mudado. As mulheres atual­
mente possuem entre 65 e 70% de toda a ri­
queza privada, mas que ainda é controlada pe­
los homens, como disse uma mulher. Mesmo em
nossa nação instruída, só recentemente pas­
saram-se leis assegurando às mulheres salário
comum para os trabalhos equivalentes. A bata­
lha continua, com promessa considerável de
que as mulheres ganharão vitórias sucessivas
em sua luta pela igualdade de oportunidade.
Uma advogada ardorosa e eloqüente desta cru­
zada, Marie Beynon Ray, diz, entretanto: “Quan­
to mais as mulheres ganham, mais intratáveis se
tornam. O lar é um campo de batalha, onde a
mulher, tendo-se casado com o homem “mais
macho” em que conseguiu botar as mãos, agora
quer estabelecer sua superioridade a ele, e
ele quer a todo custo manter a sua.” ?
Ashley Montagu, antropólogo da Universi­
dade de Princeton, apresenta alguns conceitos
interessantes no seu livro The Natural Superio-

192
rity of Women (A Superioridade Natural das Mu­
lheres). Ele argumenta que os homens alcançam
importância em mais áreas do que as mulheres
porque “eles estão tentando compensar uma
inferioridade natural, a inferioridade de não se­
rem capazes de dar à luz filhos” . Os homens
possivelmente não ficarão impressionados com
este argumento, mas Montagu contende que as
mulheres são biologicamente superiores, não
na força física, mas na capacidade de suportar
a dor, as vicissitudes, a fadiga, os choques e
a doença. Em toda faixa etária, a porcentagem
de mortes de homens é mais alta do que a de
mulheres. As mulheres sucumbem menos às do­
enças do que os homens e têm tendência de
as suportar com mais eqüanimidade. 8
As mulheres são também um pouco mais
emocionalmente estáveis do que os homens, a
despeito da prerrogativa masculina de se dar
o contrário. A proporção dos homens em ins­
tituições mentais é maior. Há mais alcoólatras
masculinos do que femininos. As mulheres res­
pondem melhor aos choques do que os homens.
Só porque as mulheres são mais emotivas não
significa que sejam menos estáveis emocional­
mente. A natureza, por causa da importância
da preservação da raça, parece ter dado às mu­
lheres algumas qualidades significativas não
possuídas pelos homens.
A luta das mulheres por direitos iguais
tem tido, infelizmente, alguns efeitos colaterais
sérios. Um destes é a falsa concepção de que,
desde que os homens e as mulheres agora são
mais ou menos iguais perante a lei, ambos são,
portanto, iguais quanto ao sexo e à personali­
dade. Mas os homens e as mulheres não são
"iguais” no sentido em que tenham qualidades
mentais e emocionais iguais e idênticas mais

193
do que uma maçã e uma laranja entre si. Não
foram feitos para serem iguais.
Uma mulher pode ser, por exemplo, inte­
lectualmente superior a um dado homem, mas
a mente dela funciona num comprimento de on­
das totalmente diferente. Não é uma questão de
superioridade ou inferioridade, mas de aproxi­
mação. Os homens e as mulheres simplesmente
são feitos diferentemente emocional e inte­
lectualmente. Em grande parte, por causa da
crescente luta pela igualdade, as mulheres ten­
dem a se sentir inseguras com sua recém-adqui-
rida liberdade. Motivadas pela necessidade, em
grande parte oculta, de competir com os ho­
mens, elas freqüentemente tendem a pressio­
nar e provocar, num esforço totalmente incons­
ciente de descobrir quanta força há nele, para,
se possível, vencê-lo. A mulher intelectual, in­
conscientemente procura confrontar, confundir,
opor-se e derrotar ou controlar o homem por
meios diretos ou indiretos; mas a parte femini­
na de sua natureza sente-se derrotada e frus­
trada quando ela alcança esta meta! Ela se
torna então irritadiça e sente-se muito mais
frustrada do que antes, porque ele não foi forte
o suficiente para enfrentá-la. Ela pode ter se
casado com ele, em parte, por sua qualidade
de ser gentil, e agora o despreza por essa mes­
ma qualidade. Ela ao mesmo tempo quer a vi­
tória, insiste em ser derrotada e deseja ter a
última palavra!
Carl Gustav Jung escreve sobre “essa
característica peculiarmente de protesto como
a que infelizmente é muitas vezes encontrada
nas mulheres intelectuais”.
Tal intelecto (diz ele) está sempre tentando
descobrir os erros dos outros; é preeminentemente
critico, com uma insinuação desagradavelmente pes-

194

i
soai, embora queira sempre ser considerado objetivo.
Isto invariavelmente fez com que o homem seja
mal-humorado, particularmente se, como tanto
acontece, a critica toca algum ponto fraco, que nos
interesses da discussão proveitosa seria melhor evi­
tar. Mas longe de desejar que a discussão seja pro­
veitosa, a peculiaridade infeliz deste intelecto fem i­
nino é descobrir os pontos fracos do homem, ater-se
a eles, e exasperá-lo. Isto não é geralmente uma
meta consciente, antes tem o propósito inconsciente
de forçar o homem a uma posição superior, assim
tomando-o objeto de admiração. O homem em ge­
ral não percebe que está desempenhando o papel
de herói que lhe foi imposto; ele meramente acha
que as reprovações dela são tão insuportáveis que,
no futuro, ele dará uma grande volta para evitar
encontrar-se com ela. No final, o único homem que
pode suportá-la é aquele que cede desde o começo,
e, portanto, nada possui de maravilhoso. 9

As mulheres têm características e qualida­


des importantes que os homens não possuem.
Elas são mais perspicazes que os homens.
São mais pessoais, mais intuitivas e percebem
coisas que os homens, com sua maior depen­
dência da lógica, deixam de lado.
Uma ilustração disto está contida na estó­
ria de um homem que, olhando por cima de sua
revista, disse à sua esposa: “Diz aqui que
o problema das mulheres é que elas tomam tudo
como atingindo a elas pessoalmente.” Ao que
sua esposa replicou prontamente: “Eu não!” É
essa própria qualidade de levar as coisas pes­
soalmente ou de relacionar idéias e experiên­
cias com si mesmas que tende a tornar as mu­
lheres mais intuitivas. Elas têm uma tendência
maior de passar cada experiência, comentário
e conceito através do misturador de suas pró­
prias emoções. Se elas são maduras emocional­
mente, o resultado freqüentemente pode ser
superior à conclusão chegada pelo homem, pelo
processo da pura lógica. Se elas são emocio-

195
nalmente imaturas, ou se o problema atinge al­
guma área de insegurança, os resultados po­
dem ser negativos — até explosivos.
Jung fala da tendência da mulher inte­
lectual para “uma disputa c rític a ... que, en­
tretanto, consiste essencialmente em tomar al­
gum ponto fraco irrelevante e desarrazoadamen-
te torná-lo o ponto principal. Ou uma discussão
perfeitamente lúcida se torna confusa da ma­
neira mais absurda através da introdução de um
ponto de vista completamente diferente e, se
possível, perverso. Sem o saber, tais mulheres
tencionam somente exasperar o h o m e m ...” 10
Os homens e as mulheres atacam os pro­
blemas de pontos de referência inteiramente
diferentes, e não admira que descubram que as
discussões são infrutíferas ou impossíveis.
Para a mulher, que sente e pensa muito mais
no campo pessoal, o mundo consiste de pes­
soas — pais e mães, irmãs e irmãos e primos,
maridos e vizinhos. Ela pode ter um interesse
ávido e bem formado pelos problemas nacio­
nais e internacionais e suas opiniões nestes as­
suntos podem ser iguais ou superiores às do
marido, mas interiormente e no nível do senti­
mento ela se preocupa mais com pessoas e fa­
mílias. Ela está interessada em detalhes que,
embora importantes para ela, podem ser uma
chateação cruciante para o homem.
O reino do homem é o seu negócio ou tra­
balho, a cidade e o mundo no seu todo. Seus
interesses são mais gerais do que específicos.
Detalhes, embora importantes, são de menos
significação para ele do que os conceitos ge­
rais.
Mary Esther Harding, psiquiatra e autora,
escreve a respeito do “desenvolvimento da
parte masculina da natureza da mulher,

196
que tem sido um fator bem observado nos
anos recentes. Este desenvolvimento mas­
culino está definitivamente relacionado com a
sua vida no mundo dos casos amorosos” . A
Dra. Harding enfatiza que isto “afeta sua per­
sonalidade total e tem causado mudanças pro­
fundas em sua relação consigo mesma e com
os outros”. 11
Camilla M. Anderson, diretora da Clínica
Ambulatória do Hospital do Estado de Oregon,
antevê a época quando as mulheres voltarão
ao trabalho de casa, ter e criar filhos, e viver
segundo os padrões que a natureza obviamente
estabeleceu para elas.
Eias farão isto (declara) porque são forçadas
a tanto. Não me surpreendería se o comportamento
neurótico começasse então a diminuir, porque as
mulheres teriam maior amor por seus filhos. Eles
não seriam mais vistos como um acidente, ou algo que
interfira no bridge, no divertimento, na carreira
ou no ganhar dinheiro ou manter a forma. Quando
as mulheres começarem a pensar na maternidade
como algo acima de tudo mais para elas, automati­
camente diminuirão o sentimento de desespero entre
os bebês e as crianças. As implicações são óbvias:
quando as mulheres se encontrarem como mulheres,
as doenças mentais diminuirão.” 12

Outra diferença significativa entre os sexos


é 0 fato de que, para a mulher, seu lar é uma
extensão de sua personalidade. Seu lar con­
siste da atual residência onde mora, junto com
todas as mobílias, seus filhos, seu marido, e
todos os interesses e preocupações relaciona­
dos com cada pessoa da casa. Sua segurança
está envolta nesta extensão da sua persona­
lidade. Onde e como ela vive e as relações fa­
miliares significam mais para ela do que para
seu marido. Entretanto, por mais que ele esteja
interessado em sua casa, a extensão de sua

197
personalidade é seu trabalho diário. Sua espo­
sa gasta uma proporção maior de tempo e in­
teresse na preocupação com a casa, e mesmo
se ela trabalha oito horas por dia, deixando a
casa de lado e possivelmente não gostando
disto, apreciando o mundo mais interessante
— para ela — dos negócios, depois de tudo, o
lar permanece sua preocupação maior, ao pas­
so que o emprego é um meio para um fim. O
homem, por outro lado, é basicamente condi­
cionado de tal forma que dá a maior proporção
de seu interesse e energia ao seu trabalho. Se
ele não fizer assim, tenderá a ficar para trás
no que tem se tornado uma sociedade altamen­
te competitiva.
A preocupação do marido com seu traba­
lho pode ser uma fonte de considerável ansie­
dade para sua esposa. Ele pode vir para casa
cansado e interiormente frustrado com aspectos
do seu trabalho, sua mulher querendo alguma
comunicação. A mente dele pode ainda estar
ligada aos acontecimentos do dia, e ele acha
difícil concentrá-la noutra coisa; está simples­
mente cansado demais para se interessar no
que ela tem para dizer.
Na sua preocupação em manter a casa, ela
pode lembrá-lo de algum reparo caseiro que
de há muito precisa ser feito. As exasperações
que ela suportou durante o dia podem fazer com
que lhe diga, com um pouco de aspereza, que
ele havia prometido cuidar daquilo há alguns
meses atrás. De todos os pontos de vista ela
parece estar justificada. O problema de fato
merece atenção. Do ponto de vista dele, ele já
ouviu o suficiente, e pode estar resistindo ao
assunto inconscientemente, talvez porque sua
esposa o fez lembrar da insistência de sua mãe
acerca dos trabalhos de casa quando ele era

198
menino. Faz com que ele se sinta inconscien­
temente como um menino outra vez, à mercê
de uma mulher, sendo forçado a ceder. De
modo que ele pode achar uma dúzia de des­
culpas.
Uma fonte muito maior de conflito no lar
provém do fato de que o marido e a mulher
diferem em sua natureza emocional como ho­
mem e mulher e cada um tem necessidades di­
ferentes. As necessidades de ambos são legíti­
mas, mas podem estar em conflito.
Depois de uma sessão de grupo num reti­
ro, um casal encantador veio me procurar para
aconselhamento. Ela estava impassível e infle­
xível e o modo tenso dele evidenciava algo da
frustração que tinha atrapalhado o seu casa­
mento. Ele descreveu o impasse. Havia chega­
do à meia — idade e tinha alcançado o alvo de
segurança financeira que, ele pensava, torná-
lo-ia feliz. Mas descobriu que não era feliz e
queria se lançar a outra espécie de empreendi­
mento. Isto importaria na venda da maior parte
das suas posses, inclusive sua bela casa, e
mudar para outro lugar. Ela o interrompeu para
dizer que tinham mudado 23 vezes em 22 anos
e não tinha intenção de se mudar outra vez.
Gostava da casa em que moravam, sua segu­
rança estava envolvida no todo que a casa re­
presentava. “Eu não vou mudar”, ela acres­
centou.
Em seu desespero, ela tinha começado
a . . . beber demais, o que fez ele ficar inquieto
e com raiva. Sua insistência inflexível em co­
meçar de novo a vida em outra comunidade,
essencial para suas necessidades interiores,
criou nela toda sorte de insegurança e hosti­
lidade.

1 99
Eles haviam consultado um psiquiatra e um
ministro na tentativa de verificar quem estava
certo, mas neste ponto nenhum dos dois que­
ria ceder nem um centímetro sequer. Ela disse
francamente que ia procurar o divórcio, se ele
insistisse no que ela chamava de “um caminho
temerário — o esforço dele em fugir da vida”.
Depois de ouvir os detalhes do seu pro­
blema por algum tempo, eu disse: “Eu não acho
que algum de vocês esteja errado. Ambos têm
necessidades legítimas, mas infelizmente cada
um está sendo pressionado pelas necessida­
des do outro.”
Então expliquei a ele que as necessidades
dela provinham de sua natureza feminina. Ela
precisava de um lar, um ninho, um sentimento
de segurança. Agora que finalmente tinha um
lar que era a realização de todos os seus so­
nhos femininos, o prospecto de outra mudança
criava nela toda sorte de ansiedade, resultando
em raiva e frustração. Ele não podia entender
o profundo apego que ela sentia por aquela
casa em particular, seus amigos e contatos so­
ciais. Ela tinha mudado tantas vezes que agora
a possibilidade de outra mudança era simples­
mente algo mais do que ela podia suportar.
Estas necessidades interiores dela, expliquei a
ele, foram implantadas por Deus, e não eram
exigências neuróticas de uma mulher desar-
razoada.
A ela expliquei como o sentimento de su­
cesso de seu marido não provinha tanto de ter
a casa e os contatos sociais, mas de realização.
Ele era um homem de consideráveis impulsos
e habilidades. Sua fé em que a segurança fi­
nanceira lhe daria um sentimento de paz estava
agora abalada. Ele era a espécie de homem que
sempre precisaria do desafio de novos em­

2 00
preendimentos. Aos quarenta e cinco anos
de idade ele não podia simplesmente sen­
tar-se e desfrutar do seu trabalho e manter o
status quo. Ele tinha que ter novos campos para
vencer, novos desafios a encontrar. Expliquei
a ela que a necessidade dele de realizar-se era
tão divina como a necessidade interior dela de
segurança.
“Está bem”, ele disse, “e que rumo toma­
remos? Admitindo que não podemos fazer o que
queremos, como procederemos em relação a
isto tudo?”
Eu disse: “Nem eu, nem ninguém mais
pode lhes dar uma simples resposta. Vocês têm
tentado descobrir qual dos dois está certo, e
qual está errado. Ambos estão certos. Nenhum
está errado. Mesmo assim suas necessidades
interiores estão em conflito. Portanto, a menos
que, ou até que, estas necessidades se modifi­
quem, deve haver um compromisso. Se um de
vocês ganhar a luta e o outro ceder, sempre
haverá um sentimento de frustração e raiva da
parte do que cedeu. Vocês não devem forçar
o outro a ceder. Uma alternativa é o divórcio, o
que ambos já consideraram. Eu acredito que
vocês podem, por vocês mesmos, encontrar
uma solução mais feliz.
“Em primeiro lugar, vocês podem reconhe­
cer a legitimidade das necessidades um do ou­
tro. O casamento, e, na realidade, todas as re­
lações humanas, envolvem uma série de com­
promissos.
“Onde as necessidades internas de um
consorte entram em conflito com as necessida­
des igualmente válidas do outro, uma espécie
de compromisso deve ser feito. Não compete a
mim sugerir como é que vocês devem entrar

201
nos detalhes deste compromisso. A decisão fi­
nal não deve operar muita violência aos desejos
e necessidades de cada um de vocês, embora
nenhum de vocês possa ficar inteiramente sa­
tisfeito com o resultado final. Vocês me disse­
ram que se amam, mas agora vem a prova se
o seu amor é maior do que sua necessidade de
obter uma vitória. Vocês não podem ter tudo o
que vocês querem. Ninguém de nós pode, nesta
vida.”
Ambos aceitaram o princípio, novo para
eles, de que cada um de nós possui necessida­
des interiores que são incompatíveis com as ne­
cessidades dos outros. Eu os vi outra vez num
retiro quatro meses depois. Ambos pareciam
felizes e descontraídos. Perguntei-lhes como ti­
nham conseguido resolver o dilema aparente­
mente insolúvel.
Ela disse: ‘‘Parece que conseguimos um
pouco de alívio ao descobrir que nenhum de
nós estava necessariamente errado, e desisti­
mos de lutar para resolver o problema imedia­
tamente. Gradativamente comecei a me
sentir diferente em relação à casa. Não
importava tanto se a vendéssemos ou se ficás­
semos com ela. Ele começou a sentir quase a
mesma coisa acerca de mudar e se lançar num
novo empreendimento. Finalmente nós dois
nos tornamos relativamente indiferentes ao
que acontecia. Eu cheguei ao ponto de estar
realmente querendo mudar, mas ele disse que
havia perdido muito do interesse na mudança.
Finalmente colocamos a casa à venda, porque
vi que ela era realmente muito grande. Quando
a venda fracassou, fiquei genuinamente desa­
pontada. Agora nenhum de nós se importa mui­
to em mudar ou não.”

202
Ele sorriu e disse: “É assim que eu sinto
também. Uma como outra coisa não tem tanta
importância.”
Mais significativo do que a solução de sua
crise era a mudança óbvia que havia se ope­
rado neles mesmos. Eles solucionaram os pro­
blemas externos quando resolveram seus sen­
timentos interiores.
Há muitas maneiras basilares pelas quais
os homens frustram as mulheres e as mulheres
frustram os homens, e cada casamento tem seu
próprio catálogo de variações. Seria necessário
um livro inteiro só para citar estas frustrações
inumeráveis, cada uma resultante da relação
pessoal íntima no casamento, composta pelas
diferenças emocionais essenciais entre os se­
xos. Entretanto, algumas das frustrações princi­
pais que mais encontramos nos grupos podem
ser catalogadas. Trataremos primeiro das ma­
neiras pelas quais os homens frustram as mu­
lheres.
Os homens frustram as mulheres por sua
recusa ou incapacidade de com unicar. As mu­
lheres podem experimentar uma dificuldade
similar na comunicação, mas é mais freqüente
o homem se retrair. Numa situação típi­
ca, uma discussão entre marido e mulher vira
em briga. As mulheres, de certo modo, têm
menos medo das suas emoções do que os ho­
mens, porque em nossa cultura os meninos são
ensinados cedo na vida a controlar as suas emo­
ções. Eles não podem chorar para não serem
considerados bebês chorões. As hostilidades
para com um dos pais são normalmente repre­
endidas ou rigorosamente proibidas. Institui-se,
então, um reflexo condicionado, cujo resultado
é o menino se tornar um homem que tem medo
de suas emoções. Em particular, ele tem medo

203
de sua própria hostilidade. Ele pode se tornar
quase totalmente incapaz de expressar uma
emoção negativa sem sentir que o teto está
prestes a desabar. Ele é interiormente aterro­
rizado pela aparente violência de suas emoções
Isto é um reflexo sobre o qual o consciente não
tem controle. Seu procedimento, então, em tai
casos, é sempre o de retrair-se. Ele pode saii
da sala ou simplesmente retirar-se em seu inte­
rior, mantendo um silêncio incomunicável. Isto
é extremamente frustrador para sua mulher, que
quer conversar, para resolver as coisas.
Algo mais contribui para este impasse. A
maioria dos homens é menos capaz de se ex­
pressar verbalmente do que as mulheres e acha
que isto é uma desvantagem. O homem pode
começar com o que ele acha que é uma análise
perfeitamente lógica do que quer que seja t
assunto. Logo em seguida ele descobre, para
sua consternação, que de algum modo seus pa­
rentes, seus fracassos aqui e ali como marido
e pai, e numerosos outros assuntos foram intro­
duzidos. Eles parecem relevantes à sua esposa,
mas ele se sente completamente incapaz de
discutir problemas neste nível. Sua raiva é des­
pertada especialmente se ele se sentir vulne­
rável em alguns pontos, e daquele momento
em diante ele se torna incapaz da se co­
municar. Ele e sua esposa nada mais estão
senão em canais diferentes. Ou a discussão
pode chegar a um ponto onde, no inconscien­
te, ele se sente como se sentia quando sua mãe
o acusava de alguma coisa. Ele era indefeso
então como criança; e a criança interior — sem­
pre existente no adulto — responde como fa­
zia quando era acusada por uma mãe domina-
dora e irada. Sentindo a ameaça de sua pró­
pria hostilidade e temendo as acusações, que,

204
verdadeiras ou falsas, aumentam ainda mais a
ira, ele se retira totalmente da discussão. Cons­
ciente ou inconsciente ele sente hostilidade
■para com as mulheres dominadoras. Sua espo-
: . sa pode ser ou não dominadora. O fator rele­
van te é que ele interpreta a maneira dela como
ídominadora.
Em muitos de nossos grupos, maridos e
mulheres, geralmente no mesmo grupo, freqüen-
temente aprendem pela primeira vez a se comu­
nicar. Há segurança numa comunidade maior,
que tende a manter a comunicação mais criativa
e menos emocionalmente carregada. Menos
problemas estranhos são trazidos. As acusa­
ções são dosadas suficientemente, de modo
.que o marido não se sente tão ameaçado por
I i s u a s próprias emoções e a esposa experimenta
'-m enos frustração, porque seu marido não vai
se retrair física ou verbalmente.
Quando uma mulher é dada ao excesso de
conversinhas, que o homem acha triviais, mui­
tas vezes significa que ela está chateada por
causa de algum problema muito mais importan­
te, do qual pode estar parcial ou totalmente in­
consciente. Ela pode ter um profundo sentimen­
to de ansiedade, originado de algum conflito
não solucionado dentro de si ou no casamento.
Pode “sentir-se” ansiosa pelos menores proble-
minhas do dia, mas sua tensão é freqüentemen-
te resultado de uma pequena “ansiedade volan­
te”, que pode se apegar a qualquer coisinha e
torná-la uma crise.
Uma sensação de inferioridade ou inade­
quação, embora difusa, pode manifestar-se no
falar demais. Pode resultar de um sentimento
de rejeição, pelo qual seu marido é responsá­
vel, ou de uma frustração generalizada, que

205
pode ser baseada em muitas coisas, conscien­
tes ou inconscientes.
Alguns casais são capazes de se comuni­
car em um nível inteiramente satisfatório quan­
do têm o sentimento de que essas coisas po­
dem ser resolvidas entre eles. Infelizmente, o
número desses casais é muito limitado. Geral­
mente é necessário que eles se envolvam em
um grupo competentemente dirigido, onde os
sentimentos básicos possam ser resolvidos. As
vezes algumas sessões com um conselheiro
matrimonial ou um hábil psicólogo clinico será
suficiente. Mas na mente de muitos maridos e
esposas persiste a infeliz idéia de que ninguém
precisa procurar um conselheiro até surgir uma
crise de maiores porporções. E os homens, por
causa de um sentimento falso de orgulho e au­
to-suficiência, podem rejeitar a idéia. As mulhe­
res, geralmente um pouco mais realistas nesta
área, são freqüentemente as primeiras a sugerir
tal passo.
O processo raramente envolve o desabafo
em público de coisas sujas. Há simplesmente
uma atmosfera na qual nem o marido nem a
esposa se sentem ameaçados, e uma discussão
aproveitável pode acontecer. Por exemplo, na
primeira sessão de um grupo, pedi a maridos
e esposas para citarem só uma coisa na qual
gostariam que seus parceiros mudassem. A
discussão prosseguiu com humor considerável,
e um marido mencionou algo que ele gostaria
que fosse mudado na sua esposa, ao que ela
disse, com surpresa genuína: “Ora, querido, nós
estamos casados há 14 anos e eu nunca soube
que você se sentia assim.” Ela ficou contente
em saber. Ele nunca havia sentido que podia
ou devia mencionar o assunto, mas, estando
cercado pela atmosfera de boa vontade e cria­

206
tiva do grupo, suas emoções se tornaram livres
de restrições.
Um dos nossos grupos de demonstração
consistia de três casais, cercados por cerca de
outros quarenta, que estavam descobrindo pela
primeira vez como os grupos funcionam. Os ca­
sais no centro eram desconhecidos uns dos ou­
tros, e o arranjo era semipúblico, pouco condu-
tivo à investigação profunda. Houve a aproxi­
mação levemente humorística do assunto, para
deixar os seis à vontade. Então pedi aos seis
que dissessem uma só coisa que gostariam de
mudar com respeito aos seus parceiros.
Uma esposa disse pensativa: “ Bem, eu
gostaria mais se ele não fosse tão hostil. Eu
nunca sei o que dizer para não provocar sua
hostilidade, de modo que só converso acerca
do que aconteceu durante o dia no escritório.”
Eu olhei para ele, que disse: “Uma das razões
de eu ser tão hostil é o fato de ter um trabalho
que considero como rotina. Minha esposa tem
um emprego administrativo e viaja muito. Quan­
do chego em casa do meu monótono e rotineiro
trabalho, tudo o que ouço é algo sobre as pes­
soas extremamente fascinantes que ela conhe­
ceu, os lugares por onde andou, e as viagens
que está planejando. Sou hostil porque ela me
faz sentir-me inferior.”
Aqui a comunicação estava num nível mais
profundo do que eles tinham sido capazes de
alcançar em casa, na presença de amigos e
estranhos e ainda sem qualquer sinal de em­
baraço. Depois de tudo, cada pessoa casada,
na sala, tinha problemas tão grandes quanto
ou maiores do que este. Eles discutiram sua
dificuldade no grupo por cerca de 10 minutos.
Mais tarde me disseram que, a despeito do fato
de eles terem ido a conselheiros, esta era a

2 07
primeira vez que tinham descido até o âmago
de um dos seus problemas. A comunicação
havia começado, não no secreto do lar, mas
numa reunião quase pública, com outros para
ouvir. Esta é a magia do grupo. É simplesmente
menos ameaçador e mais produtivo para muitas
pessoas do que fazer uma tentativa inicialmente
em casa.
Os homens frustram suas esposas ao re­
cusarem ouvi-las. Um marido pode esperar que
sua mulher ouça com arrebatamento e atenção
detalhes de negócios nos quais ela pode estar
só vagamente interessada ou não estar interes­
sada de maneira nenhuma; mas o mesmo ma­
rido pode responder com resmungos atrás de
um jornal ou revista quando ela quer compar­
tilhar com ele alguns detalhes do seu dia. Ele
acha que eles são triviais. Mesmo assim, são o
material do qual a vida dela é feita. Se ela for
uma mãe com crianças pequenas, deve querer
um pouco de comunicação adulta, para variar.
Se ela receber só atenção casual, será levada a
sentir que seu papel de esposa e mãe é não im­
portante para seu esposo.
Se ela for tão imprudente, ao ponto de
começar a falar no momento em que ele entra
em casa, na hora em que nada mais quer senão
um lenitivo para sua alma ferida, ela poderá
obter qualquer coisa, desde silêncio até atenção
dolorosa e aborrecida. A responsabilidade do
marido quanto ao casamento, neste ponto, é
aprender a ouvir com interesse. O que ela diz
pode não ser de fazer tremer a terra, do ponto
de vista dele. A conversa dela pode revelar
principalmente uma necessidade de falar com
alguém num nível adulto, de comunicar, de sen­
tir que seu marido se importa o suficiente com
ela para a ouvir.

208
Os maridos frustram as esposas por sua
preocupação com interesses fora de casa, seu
trabalho, esportes, ou qualquer das atividades
nas quais estão metidos. Quando a maior parte
ou quase todo o tempo do marido é gasto em
interesses não domésticos e ele falha em man­
ter um interessse igual no que acontece em
casa, sua esposa pode se sentir frustrada. Ela
pode interpretar a atitude dele como falta de
Interesse por ela, pois que o lar é uma extensão
de sua personalidade. A exclusão dele da vida
da casa pode ameaçar o sentimento de segu­
rança dela.
Os maridos frustram as esposas ao falhar
•m entender que “as coisinhas” como eles as
vôem são muitas vezes coisas grandes para elas.
O marido que não é sentimental pode não se
lembrar dos aniversários e outras datas e oca­
siões especiais, que podem parecer triviais para
ole, mas para ela são importantes. As nações
têm feriados especiais para comemorar acon­
tecimentos importantes. O Natal e a Páscoa
são ocasiões comemorativas. Indivíduos e fa­
mílias também precisam de comemorar dias es­
peciais, de reviver alguns dos acontecimentos
significativos do passado. Os homens que acham
que os aniversários não são importantes sim­
plesmente se recusam a reconhecer as neces­
sidades emocionais válidas dos outros. Um
simples senso de fazer a coisa apropriada, de
trazer felicidade um ao outro, é um requisito
para qualquer casamento feliz.
Há outras áreas onde o sentido de valores
difere entre os homens e as mulheres. Um ma­
rido que não é dado a consertos e arrumações
na casa pode se sentir completamente frus­
trado pela insistência da esposa acerca de al­
gum trabalho de reparação caseira. Para ele

209
parece insignificante. Para ela é importante,
tsto é uma grande parte do seu mundo. Mas
ainda, quer ela esteja cônscia ou não, sente
necessidade de saber que ele se importa com
o lar e com ela. O desejo dele de empreender
tal tarefa dá a ela um sentimento de segurança.
Eu estava presente quando um marido e
esposa estavam discutindo em boa paz o traba­
lho do quintal. Ela queria que ele aparasse a
grama, e ele insistia que isto devia ser feito por
um jardineiro. Ele disse: — Pagarei para ser
feito o serviço, mas não o farei eu mesmo.
Ela replicou: — Mas eu quero que você o
faça!
Intrigado, perguntei a ela: — Você sabe a
razão por que quer que ele, e não o jardineiro,
apare a grama?
Ela respondeu: — Claro. Vê-lo trabalhar
em casa me dá uma sensação de segurança!
Ele sorriu. — Dar-lhe-ei um sentimento de
segurança de outras maneiras, mas não apara­
rei a grama.
O ponto significativo da conversa deles
está não na questão de quem deve aparar a
grama, mas na conscientização dela de que lhe
é dado um sentimento de segurança por ele
estar envolvido pessoalmente na casa. Ele real­
mente manifestava grande interesse de outros
modos, talvez muito mais do que o marido nor­
mal faz.
Os homens frustram as mulheres por sua
incapacidade de entender as emoções um tanto
voláteis de suas esposas. As mulheres freqüen-
temente passam por fortes mudanças de hu­
mor, e podem ficar deprimidas ou felizes por
acontecimentos que não afetariam o homem.
Ele pode interpretar estas variações como evi-

210
déncia de instabilidade emocional. Os esposos
são freqüentemente incapazes de compreender
a cura que há num bom choro. Em nossos gru­
pos os homens algumas vezes chegam a com­
preender pela primeira vez que as mulheres
estão ligadas a uma base emocional inteira­
mente diferente, e eles aprendem a compreen­
der os altos e baixos do humor de suas esposas.
Há outras incontáveis variações. Qualquer
esposa podería dar uma lista muito maior, isto
dependendo de suas necessidades emocionais
particulares e do tipo de homem com quem está
casada. As mulheres não se entendem a si
mesmas e não há razão em o marido empreen­
der esta tarefa impossível. Mas o maridos po­
dem aprender a entender e aceitar as necessi­
dades das mulheres sem precisar entender as
mulheres.
Os modos principais pelos quais as mu­
lheres frustram os homens parecem ser os se­
guintes:
As mulheres frustram seus maridos por
serem ou parecerem dominadoras. Poucas ou
quase nenhuma mulher se acha personalidade
dominadora. Mesmo assim, os testes psicoló­
gicos usados por muitos do nossos grupos re­
velam uma tendência crescente, da parte da
mulher, de dominar. Durante um período de
três anos, quando quase 10 mil pessoas fizeram
os inventários de sua personalidade, foram des­
cobertos os seguintes fatos:
50,2% das mulheres eram significativa­
mente mais dominadoras do que seus maridos.
41,1% das mulheres fizeram mais pontos
quanto à agressão do que seus maridos.
10,3% das mulheres fizeram mais pontos
tanto quanto à agressão como quanto à domi­
nação do que seus maridos.

211
Em síntese, dominação é o impulso interior
de controlar as pessoas e circunstâncias, e
agressão é o impulso interior de mudá-las. Ne­
nhum desses traços de personalidade é “bom”
ou “mau” nem para o homem nem para a mu­
lher, mas em geral pode-se dizer que um ma­
rido demasiadamente passivo tende a frustrar
sua esposa por falta de “ impulso”, e uma es­
posa demasiadamente dominadora e agressiva
tende a frustrar seu marido por tentar contro­
lá-lo ou mudá-lo. Esta tendência numa esposa
geralmente lembra ao homem, no seu inconsci­
ente, de sua mãe, fazendo-o sentir-se um me­
nino pequeno outra vez. Ele pode reagir contra
este sentimento de impotência pela hostilidade
ou pelo retraimento, e as duas coisas frustram
sua esposa.
Este fenômeno, um tanto notável, que con­
tribui, em grande medida, para a preocupação
marital, está se tornando mais acentuado. Num
esforço para alcançar a igualdade, muitas mu­
lheres parecem ter passado além dos seus
limites. Freqüentemente terminam competindo
com os homens e certamente inconsciente­
mente. Os homens não querem competir com
as mulheres. Eles não rejeitam, em regra geral,
as mulheres intelectuais, como muitas mulheres
acreditam. Eles se ressentem da maneira pela
qual muitas mulheres intelectuais argumentam,
defendem sua posição e, por outro lado, pro­
curam superar o homem. As mulheres inte­
lectuais que aceitam seu papel completamente
não possuem esta tendência de competir.
Quando uma mulher não aceita totalmente
seu papel feminino, em seu inconsciente há
quase uma invariável tendência de competir
com o homem e tentar superá-lo. Os homens

212
náo gostam de lutar ou competir com as mu­
lheres.
Como as mulheres em nossa cultura se
tornam mais e mais dominadoras, elas criam
filhos que tendem a ser passivos. O filho pas­
sivo geralmente se casa com um mulher domi­
nadora. Em geral, os filhos em um lar assim
terão a tendência de serem passivos, e as fi­
lhas dominadoras.
Sabendo ou não, a mulher jovem, em re­
gra, deseja se casar com um homem que seja
forte e gentil. Ela pode se enganar, pensando
que a quietude dele seja força, e mais tarde
descobrir que se casou com um homem pas­
sivo. Em seus esforços em fazê-lo se achar, ela
pode fazer nada mais nada menos do que frus-
trá-lo. Ele se sente dominado. Sua própria pas­
sividade é uma barreira tão grande para um ca­
samento feliz quanto a dominação dela, embora
muitos casais tenham um casamento bem su­
cedido, onde existe uma esposa dominadora e
um homem passivo.
As mulheres têm a tendência de pensar
em dominação em termos de serem mandonas.
Ao contrário, algumas das mulheres mais do­
minadoras são gentis e de modo algum autori­
tárias, pelo menos quanto às aparências. Muitas
mulheres dominam pela persistência suave. Al­
gumas o fazem com um excesso de solicitude,
que o homem interpreta como dominação. Do­
minação é simplesmente a tendência de con­
trolar; e se isto é feito com mão levantada ou
voz alta ou com determinação silente, os resul­
tados são os mesmos.
Um homem relatou uma experiência con­
cernente a este tema. Ele havia economizado
por muito tempo para comprar uma estola de
marta para sua mulher no dia do seu aniversá-

213
rio de casamento, e ele queria ter a certeza de
comprar a espécie que eia queria. Uma noite,
enquanto iam de carro para algum lugar, ele
tocou no assunto e perguntou-lhe quanto custa­
ria uma boa estola de marta. Justo então ele
passou um desvio que devia ter aproveitado,
e ela disse com aspereza considerável: “Que é
que há com você? Você não viu aquele sinal de
trânsito ali atrás?” Ele ficou gelado, imobili­
zado emocionalmente. E num repente se lem­
brou de todas as vezes que ela usara o mesmo
tom de voz, querendo dizer que ele não era
nada inteligente. E seu interesse pela estola
de marta desapareceu.
Ele disse mais tarde: “Uma pessoa emocio­
nalmente madura teria esquecido a coisa e
continuado a discussão. Eu não era mais ma­
duro emocionalmente do que ela. Eu simples­
mente perdi todo o interesse pela estola de
marta. Não era um esforço para castigá-la. Eu
só não me sentia mais com vontade de comprar
uma estola de marta para uma esposa que fez
tanto alarde só porque eu tinha passado de
um desvio na estrada. E não comprei a estola
para ela."
Ao que ele estava reagindo, naturalmente,
não era o incidente isolado, mas à pressão
acumulada da atitude dominadora dela atra­
vés dos anos. Podia-se discutir que ambos es­
tavam errados — a esposa por adotar uma ati­
tude hostil e dominadora e o marido por reagir
de um modo tão imaturo. Ainda permanece o
fato teimoso e inevitável de que as mulheres
realmente frustram os homens por sua tendên­
cia para a dominação.
As mulheres frustram seus maridos por sua
tendência de se irritarem num a discussão. O
marido que tem algum ou considerável medo

2 14
de suas emoções teme qualquer discussão que
possa terminar numa briga que envolve senti­
mentos fortes. Se ele quiser uma discussão
calma e ela se transformar em argumento car
regado de emoções, ele se retrai não com o
sentimento de ter sido derrotado, mas com des­
gosto pelo seu casamento. Não há questão aqui
de certo ou errado. A esposa pode tembém não
ser capaz de controlar suas emoções, assim
como ele de lidar com o medo que tem delas.
As mulheres frustram os homens quando
elas se recusam a abandonar os sonhos român­
ticos da sua juventude. Uma mulher casada há
uns 18 anos descobriu, por suas folhas de ava­
liação, que ela era consideravelmente mais do­
minadora e agressiva do que seu marido. Numa
sessão de grupo, ela disse, com um pequeno
sorriso: “Eu gostaria de ter casado com um
homem muito forte e, ao mesmo tempo, muito
gentil. Ele devia ser forte o suficiente para me
botar no meu lugar quando eu saísse da linha,
mas compreensivo e sensível o suficiente para
saber quando preciso fazer a coisa à minha
maneira em certas áreas. Ele devia ser tole­
rante para com meus desabafos ocasionais e
xiliques emocionais, e suficientemente sábio
para verificar que preciso então de um bom
choro. Ele simplesmente me daria uns tapinhas
nas costas, e me consolaria sem discutir
comigo.”
Ela continuou, por um tempo considerável,
descrevendo esse modelo de virtude, força e
compreensão, enquanto o seu marido ouvia
atentamente. Quando ela terminou, ele disse,
com uma sombra de amargura: “Houve alguém
assim uma vez, mas foi crucificado entre dois
ladrões!” Ele não estava sendo irreverente, mas
apenas perceptivo. O grupo riu, e mesmo a es-

215
posa, que percebeu, intelectualmente, pelo
menos, que seus sonhos infantis eram irreais,
riu com eles.
Então ela teve um lampejo súbito de dis­
cernimento: “Se eu por acaso tivesse achado
um homem assim, o que é que ele veria em
mim?” Ela tinha encontrado a sua própria res­
posta para o sonho adolescente de se casar
com alguém que lhe fosse, ao mesmo tempo,
uma combinação de pai, amante, santo e homem
maleável. Tinha vivido com um homem por qua­
se 20 anos, que, segundo disse, ela mesma
havia escolhido, mas ainda mantinha seus so­
nhos de menina, de cavaleiro cavalgando o
cavalo branco.
As mulheres frustram seus maridos com a
sua tendência para o ataque, freqüentemente,
em relação a assuntos que os homens acham
não serem importantes. Karl Menninger escreve
a respeito desta característica:
Mais doloroso para o homem são esses ataques
Inumeráveis contra sua masculinidade, que a esposa
frustrada lhe inflige no curso da rotina diária da
v id a __negligenciando, reprovando... criticando, r i­
dicularizando, interferindo nos seus “ hobies” favo­
ritos” e hábitos, fazendo-se de mártir, e dando a
impressão de ser vítima da suspeita ou crueldade do
marido. Parece ofensivo fazer uma lista assim, que
necessariamente deve ser não só incompleta, mas
igualmente aplicável aos maridos... Todas as téc­
nicas que estiverem disponíveis à mulher inconscien­
temente hostil para com seu marido ela usará con­
tra ele. Ele reagirá a elas, que evocarão nele evidên­
cias ainda mais pronunciadas dos seus próprios ódios
semicontrolados, e ele modificará seu padrão infan­
til de hostilidade de maneira mais confortável para
se confrontar e se defender contra os ataques de
sua esposa. E, por que está ligado a ela por lei, por
convenção, ou por sua própria passividade, ele pode
permanecer na escravidão do matrimônio, mas en­
contrará satisfação para o seu amor frustrado em

216
algum outro lugar. Se ele não o fizer, sua própria
autodestrutibilidade o vencerá.. . 13

Um aspecto do problema foi enfocado


admiravelmente numa carta escrita por uma
esposa frustrada a Abigail van Buren, que diri­
ge uma coluna publicitária de consultas. A
mulher escreveu:
“Prezada Abby:
Meu problema é conseguir fazer o meu marido
•or homem! Eu não quero dizer que ele deva ser
cruel, mas se tão-somente ele me mostrasse que ele
é o chefe, eu ficaria tão feliz. Eu constantemente
tento tirar o melhor partido dele, mas bem no fun­
do não almejo de verdade ganhar a luta. Por que é
que os homens são tão bobos que não entendem isso?
Kstou cansada de tomar todas as decisões e de ser
o esteio... Toda vez que discordamos, eu secreta-
mente oro para que ele ganhe a vitória.’’

Karen Horney descreve jovens que “não


podem amar um homem ‘fraco’ por sentirem
Irritação por qualquer fraqueza; mas também
não podem se entender com um homem ‘forte’
porque esperam que seu parceiro sempre ceda.
Portanto, o que elas procuram, sem o saber, é
o herói, o homem super-forte, que ao mes­
mo tempo seja tão fraco que se curve a
todos os desejos delas sem hesitação.” n
Uma variação deste conflito interior expe­
rimentado por tais mulheres é ilustrada pelas
táticas inconscientes de um certo tipo de mu­
lher que, como Karen Horney descreve, “casa-
ne com um homem porque seu sucesso do
momento ou em potencial exerce atração sobre
ela”.
Desde que em nossa cultura a esposa par­
ticipa, até certo ponto, do sucesso do marido,
Isto pode lhe dar alguma satisfação enquanto
durar o sucesso. Mas ela está numa situação

217
conflitiva: ama seu marido por causa do suces­
so dele, e ao mesmo tempo o odeia pelo su­
cesso; ela quer destruí-lo, mas fica inibida
p o rq u e... quer gozá-lo vicariamente pela par­
ticipação no mesmo. Tal esposa pode trair seu
desejo de destruir o sucesso de seu m arido...
destruindo a eqüanimidade dele através de bri­
gas enervantes, minando sua autoconfiança
através de uma atitude disparatadamente insi-
d io s a ... Todas estas atividades destrutivas
processam-se sob a camuflagem de amor e
admiração, is
Um problema enfrentado tanto pelo marido
como pela esposa foi ilustrado por um jovem
noivo, esperando em meu estúdio que come­
çasse a cerimônia de casamento. Ele parecia
descontraído e inclinou-se para apanhar um livro
para ler. Primeiro escolheu um com o título
Man Against Himself (O Homem Contra Si Mes­
mo). Folheou-o rapidamente, e colocou-o de
lado. Então pegou o livro Art of Loving (A Arte
de Amar), olhou-o por uns instantes, e final­
mente se acomodou com o livro How to Live
With a Neurotic (Como Viver com um Neuróti­
co). Em certo sentido todos nós temos ten­
dências neuróticas, que atrapalham o rela­
cionamento no casamento. O neurótico pode
ser definido livremente como “uma pessoa que
se sente incomodada desarrazoadamente”, ou
como “aquele que reage exageradamente”.
A solução pode ser encontrada numa ten­
tativa séria de aplicar os princípios a nós for­
necidos pelo apóstolo Paulo no capítulo 13 de I
Coríntios. Em certa parte, ele diz: “O amor é
sofredor, é benigno.. . não busca os seus pró­
prios interesses, não se irrita, não suspeita mal.
Tudo suporta.” Onde o amor é visto não sim­

218
plesmente como uma afeição romântica, mas
como um esforço contínuo na vida em ser
“muito paciente e benigno”, o casamento po­
derá ter sucesso.

219
10

LEVANDO AVANTE LUTAS


JÁ VENCIDAS

Quase todas as neuroses e psicoses


se manifestam como falhas nas re­
lações humanas. Só uma relação de
grupo para pessoa pode sanar tais
falhas.
Howard E. Colller

Conta-se a estória de um mergulhador que


em seu pesado traje de mergulho, estava inves­
tigando um desastre no fundo do oceano. Aci­
ma dele estava a nave-mãe, à qual estava ligado
por uma mangueira de ar. Depois de estar al­
gum tempo no fundo, ele ouviu pelo telefone
o grito de angústia: "Suba imediatamente! O
navio está afundando!”
Robert, um ministro dinâmico, que tem
uma posição importante em sua denominação,
uma vez encontrou-se face a face com uma si­
tuação igual. Ele cresceu num lar onde o pai
recusava-se a sustentar a família e por fim a
deixou. Seu pai nunca o havia encorajado- Ao
contrário, ele zombava de todos os empreendi­
mentos de Robert na sua infância. Deixado mais
ou menos por sua própria conta numa idade
inuito jovem, Robert saiu de casa e mais tarde

221
se uniu a uma igreja da redondeza, em parte
porque precisava de aceitação e contato social
em parte porque era religioso por natureza.
Ele possuía um talento incomum de liderança,
mas o ministro, muito conservador, desapro­
vava algumas das idéias que o jovem estava
pondo em prática nos programas da mocidade.
E, na controvérsia que se seguiu, disseram a
Robert que ele não mais podia ser membro da
igreja, que ele era um elemento perturbador, e
que não podia ser aceito em nenhuma outra
igreja daquela denominação. O rapaz não tinha
como saber se isto não era verdade. Então sen­
tiu-se total e completamente rejeitado pela famí­
lia e pela igreja.
Com a idade de dezesseis anos ele conse­
guiu um emprego em San Diego, Califórnia.
Por ser menor de idade não pôde conseguir
um quarto no hotel, e, não sabendo onde mais
ficar, passava suas noites no parque, dormindo
no banco. Freqüentemente era descoberto pela
polícia, despertado e repreendido por estar
quebrando a lei. Então ele ia para outra área
do parque para tentar de novo dormir um pouco.
Na redondeza havia um jardim zoológico, e de
vez em quando ele ouvia os urros dos animais.
Seus sonhos eram cheios de pesadelos, nos
quais animais que haviam escapado o ataca­
vam.
Aqui, então, estava um rapaz que tinha se
sentido inteiramente sem amor em casa, rejei­
tado por sua igreja, e agora nem lhe era permi­
tido dormir em paz num parque público. Os
seres humanos reagem diferentemente à adver­
sidade, e felizmente Robert tinha capacidade
de agressão criativa suficiente para encarar
suas dificuldades. Ele foi bem sucedido no seu
emprego e finalmente voltou à escola. Eventu-

222
almente, ele começou, a título de experiência,
a assistir a uma igreja, e um dia descobriu,
para sua grande surpresa, que o que seu pastor
anterior lhe havia dito era completamente erra­
do. Ele foi bem aceito, uniu-se à igreja e se
tornou ativo no programa da mocidade.
Finalmente ele decidiu entrar para o minis­
tério. Matriculou-se num seminário e quando
se formou recebeu convite de uma grande igre-
|a. Esta era uma coisa notável que acontecia a
um jovem recém-formado e dava evidência da
tremenda habilidade que ele possuía. Depois
de um pastorado relativamente curto, foi con­
vidado a assumir o cargo administrativo mais
elevado de sua denominação, onde está exer­
cendo liderança excelente.
No caso do mergulhador e de Robert, fo­
ram realmente os problemas daqueles que esta­
vam em autoridade sobre eles, e não os seus
próprios problemas, que fizeram com que fos­
sem tirados do trabalho.
Mas a rejeição sempre deixa cicatrizes.
Robert tem tido pesadelos regulares, nos quais
é perseguido por animais. Tem tido sonhos re­
correntes de andar pela rua principal despido
— um sonho não incomum, por sinal. Ele tem
sonhado estar falando a grandes assembléias
de pessoas, para descobrir que esquecera as
notas de seus sermões, não tendo noção do
que tinha a falar. Então verificava que a con­
gregação toda havia saído. Freqüentemente,
em seus sonhos, ele grita de terror.
Deve ter havido outras manifestações de
sua ansiedade interior, porque um dia sua es­
posa insistiu firmemente que ele fosse visitar
um psiquiatra. Ele contou ao psiquiatra a his­
tória de sua vida e a essência dos comentários
do psiquiatra foi: “Você ainda está levando

223
avante lutas já vencidas. Você está tentando
provar a seu pai que você pode ter sucesso a
despeito de todas as suas predições horríveis
de que você não conseguiría nada. Você está
tentando provar àquele pastor autoritário, que
o rejeitou, que você realmente vale alguma
coisa. Sua atividade frenética e sua vontade
incessante de efetuar alguma coisa de valor é
devida, em parte, à sua necessidade de provar
a elas e a você mesmo que você pode ter su­
cesso. Você já ganhou essa luta. Por que não
pára de lutar?"
Robert disse que esta foi uma grande reve­
lação para ele. Como trabalhador compulsório
com enorme vontade, ele havia racionalizado
sua excessiva ocupação. Havia muito para ser
feito, suas possibilidades eram imensas, e ha­
via inúmeras demandas do seu tempo. Agora
ele pôde ver que sempre haveria mais trabalho
do que ele podería efetuar, mais demandas do
seu tempo do que poderia dar contas. O mero
conhecimento disto não resolveu seu problema,
mas lhe deu um ponto de partida para cresci­
mento. O partilhar com outros seus sentimen­
tos de inferioridade trouxe um pouco de alívio
à sua tensão e o colocou no caminho de um
novo sentimento de paz interior.
Há, freqüentemente, um limite mui tênue
entre “ser dirigido" e “dirigir”. Se alguém é
dirigido por uma compulsão interior originada
de sentimentos de inferioridade, nunca estará
no comando total. Em vez de dirigir, é dirigido.
Se sua meta é fazer fortuna, se a alcançar,
isto não lhe dará nenhuma situação real. Ele
precisará de mais, mais e mais.
O pai de um dos homens mais ricos do
mundo disse-lhe: “Você jamais será capaz de
fazer a sua vida!” Levado por uma intensa ne-

224
cessidade de provar que seu pai estava errado,
ele se tornou milionário mesmo antes dos trinta
anos. Aos cinqüenta, ele possuía muitos mi­
lhões. Aos sessenta, era um dos homens mais
ricos da terra; mas, levado por um desejo insa­
ciável de ter mais, ele era incapaz de parar e
gozar as suas posses. Ele disse a um amigo,
certo dia: “Eu gostaria de ter tido tempo para
aprender a me dar melhor com as pessoas.
Eu me sínto socialmente fora de lugar.” Cabe
aqui dizer que provavelmente ele não encontrará
sentimento de paz ou segurança interior, não
importa quantos milhões acumule, a menos que
procure a fonte dessa compulsão, e, em vez
de “ser dirigido”, descubra que está levando
avante lutas já vencidas.
Jud, um homem, agradável e altamente com­
petente, de cerca de 35 anos, contou ao seu
grupo a compulsão interior que fazia com que
ele tentasse dominar toda conversação e ter
sempre a última palavra. Ele disse: “Chego em
casa e penso: o que fiz de novo. Dominei o
grupo inteiro, e baixo nlinha cabeça de vergo­
nha. E da próxima vez que estou com pessoas
faço a mesma coisa.” O grupo pediu-lhe que
contasse algumas de suas recordações mais
remotas. Por algum tempo ele trouxe à tona
muitos incidentes parcialmente esquecidos de
sua infância. Ele, com os pais, tinham vivido no
lado pobre da cidade, como disse. Ele nem
sempre se sentia aceito na escola por seus
colegas. Quando compreendeu a causa de seu
sentimento de inadequação, cessou de se culpar.
Ele não culpava seus pais ou seus colegas de
escola ou outros quaisquer. Ninguém tinha
culpa. Ele compreendeu que sua responsabili­
dade era aceitar a si mesmo como era, e se
entregar a um crescimento emocional e espiri-

225
tual. Observamos como gradativamente ele
tendia a dominar menos e menos a discussão
do grupe à medida que ia aprendendo um grau
maior de auto-aceitação e aprovação. Era como
se estivesse carregando sua auto-aprovação
com ele, e não precisasse de puxar as mangas
de seus sócios com o apelo não expresso:
"Olhem, amigos, eu estou aqui também. No­
tem-me. Aceitem-me!” Ele havia parado de le­
var adiante lutas já vencidas.
Louise cresceu em um lar onde a mãe,
sem que parecesse, dirigia a família, embora
o pai aparentasse fazê-lo. Ele era uma pessoa
um pouco ineficiente que tinha muito o que
dizer, sempre em tons dogmáticos; mas era a
mãe que sempre tomava as decisões. Louise
sentiu uma forte necessidade de se identificar
com seu pai e agradá-lo. Mas, por mais que ela
fizesse, devia ter feito melhor, segundo ele.
Não havia trabalho de casa que ela fizesse que
o deixasse satisfeito. Ele a criticava, a humi­
lhava e arrasava; e ainda ela tentava agradá-lo,
nunca certa se ele a amava.
Aos trinta e cinco anos, ainda solteira, Loui­
se se apaixonou — acho que era amor — suces­
sivamente por três alcoólatras. Todos eram pes­
soas agradáveis, afetuosas e aprazíveis. Cada
romance terminava por uma razão ou outra —
ela nunca tinha certeza do porquê. Em um dos
casos, ela esquivou-se no último instante; nou­
tro, o homem ficava adiando o casamento; e
Louise finalmente veio a um grupo, à procura de
ajuda. Em seus esforços para ganhar a aprova­
ção de cada homem, ela havia feito tudo o que
podia para agradá-los, para se adaptar, para
assegurar o amor que seu pai lhe havia negado.
Com o tempo ela compreendeu que estava
inconscientemente tentando ganhar não uma

2 26
luta que já tinha vencido, mas uma que nunca
podia ser ganha. Seu pai não vivia mais. E
mesmo se vivesse, ela nunca teria ganho sua
aprovação, porque ele jamais aprovava a quem
quer que fosse. Mas, em cada homem que ela
encontrava, via seu pai, e tentava ganhar sua
aprovação. Ela compreendeu, com o tempo,
como inconscientemente havia escolhido ho­
mens que eram dependentes e que procuravam
alguém do tipo maternal para se relacionar. A
necessidade de dependência deles fazia evocar
nela um sentimento de realização. “Agora fi­
nalmente alguém precisa de mim, alguém me
aprova”, era sua resposta inconsciente, que ela
Interpretava como amor. Louise finalmente des­
cobriu qual era o seu problema real e chegou
a um acordo quanto à profunda necessidade de
amor, aprendendo a auto-aceitação através da
aceitação do grupo.
A primeira experiência de Wendell com
um grupo foi num retiro de cinqüenta pessoas,
entre as quais uma meia dúzia de ministros,
alguns líderes de grupo e membros de várias
igrejas. Sendo ministro episcopal, Wendell se
apresentava aos outros com estas palavras:
"Eu sou o Padre McCIoud.” Durante as sessões,
ele se assentava no canto mais distante da
sala e de vez em quando compartilhava alguns
de seus verdadeiros sentimentos. Em dado mo­
mento, ele disse a uma das mulheres: “Por
alguma razão você me chateia. Acho que é
sua maneira dominante. Eu simplesmente não
posso agüentar mulheres dominadoras.” O sor­
riso dele escondia só parcialmente o alcance
de sua hostilidade. O líder do grupo pediu que
Wendell compartilhasse os seus sentimentos
com relação à sua mãe. A princípio relutante­
mente e gradualmente com mais liberdade, ele
falou do lar desfeito do qual procedia, dos sen­
timentos ambíguos que tinha para com seus
pais e o profundo ressentimento que sentia
contra sua mãe.
Nos dias que se seguiram, ele já falava
francamente de seu sentimento de rejeição em
relação a certas mulheres do grupo. Em cada
caso era alguém que o fazia lembrar-se de sua
mãe. Ele estava intelectualmente cônscio da
sua razão de não gostar destas mulheres em
particular, mas sentimentos que fizeram parte
de alguém por trinta ou quarenta anos não se
submetem instantaneamente a argumentos in­
telectuais.
Pelo fim do retiro, Wendell era apreciado
por todos. Ele tornara-se amistoso, e quando
superou o ser o Padre McCIoud e se tornou
Wendell — um ser humano com problemas
como todos os demais — ele provou ser uma
pessoa agradável. Quando voltou à sua igreja,
ele organizou um grupo, depois outro, e de_vez
em quando ele participava dum grupo para
ministros onde mostrou ser uma pessoa dis­
cernida e altamente perceptiva.
Um ano mais tarde, quando Wendell che­
gou para o retiro anual, estava muito mais des­
contraído. Ele se apresentava aos recém-che­
gados como Wendell McCIoud”, vestia-se in­
formalmente e, em vez de.sentar no canto mais
distante da sala, como antes, escolhia um as­
sento mais perto do centro. Sua participação
era natural e não mais lançava ataques verbais
às mulheres do grupo.
No curto espaço de um ano, ele havia co­
meçado a ajustar contas com a hostilidade
guardada por muito tempo em relação à sua
mãe e em relação às mulheres em geral. Ele
tinha começado a ver que tinha um misto de

228
sentimentos para com as mulheres: ele as ama­
va, temia, odiava e precisava delas. Seu casa­
mento, que terminara em divórcio, não havia
ajudado a resolver suas dificuldades neste sen­
tido. Agora que ele podia dizer que não culpava
mais sua mãe por causa dos erros dela, ou a
si mesmo, por sua raiva, ele estava livre para
se relacionar com as mulheres numa base in­
teiramente diferente. As farpas revestidas de
agradabilidades haviam desaparecido. Ele ces­
sou de levar avante lutas já vencidas. O grupo
o tinha ajudado a ver mais claramente a causa
de seu problema. Ninguém o havia repreendido
por suas observações hostis contra as mulhe­
res do grupo. Ele tinha sido tal como era, com
sua hostilidade e tudo, e havia se tornado uma
pessoa diferente.
Foi no mesmo retiro que Ben, o jovem
pacato, manifestou o desejo de dar um passeio
pela praia comigo. Eu esperei que ele se abris­
se, mas ele achava dificuldade. Eu disse final­
mente: “Você achou que o grupo foi um pouco
severo para com sua esposa ontem?” A esposa
dele era uma jovem senhora excessivamente
dominadora e agressiva e tinha demonstrado
desavisadamente alguns traços bem acentuados
de masculinidade, como também tendência
para a arrogância.
Em resposta à minha pergunta, Ben desa­
bafou: “Eu não tenho palavras para lhe dizer o
quanto odeio a minha mulher! E me sinto tão
terrivelmente culpado por sentir assim em rela­
ção a ela.” Esta foi uma expressão honesta de
seus verdadeiros sentimentos. Eu disse: "En­
tendo como você se sente e entendo por que
você se sente culpado por ter tais sentimentos.
Vejamos se podemos chegar ao âmago disto.
Fale-me acerca da sua mãe.”

2 29
A mãe dele tinha sido uma pessoa domi-
nadora, e inconscientemente ele havia procura­
do uma esposa muito parecida com ela. Ele
precisava de uma mulher forte em sua vida,
mas não tão forte assim! Enquanto falávamos
dos seus sentimentos e sua vida anterior, ele
compreendeu que não era à sua mulher que
ele odiava tanto, mas à sua própria fraqueza
e passividade. Compreendeu também ao longo
das sessões do grupo que não haveria uma
solução rápida e fácil. Ele era o produto final
de um ambiente tanto quanto ela. As atitudes
e as reações estavam firmemente plantadas.
Levaria tempo para ele desistir de sua depen­
dência e se tornar uma pessoa mais forte. Le­
varia tempo ela deixar algumas de suas agres­
sividades externas e se sentir bem fazendo um
papel menos dominante no casamento deles.
Como na maioria dos lares, o deles não
era tanto um vago problema de casamento,
mas, sim, um “problema pessoal” — o proble­
ma de duas pessoas tentando viver juntas em
harmonia.
Saber que a gente deve amar, deve perdoar,
deve ser sempre terno e compreensivo é de
pouca ajuda se houver uma incompatibilidade
basilar de personalidade. De fato, os nossos
“deves” e “tens que” podem se tornar tiranos
produzindo sentimentos de culpa, sem provi­
denciar soluções.
Quando nos separamos, depois de nosso
passeio pela praia, meu amigo disse: “Já me
sinto melhor. De fato, não me sinto mais tão
hostil como me sentia. Só em contar, admitir
isto diante de alguém, diminuiu sua intensidade.
Eu acho que com a ajuda de meu grupo posso
começar a crescer em direção de uma reação
mais madura para com a vida e mostrar mais

2 30
tolerância e compreensão para com minha es­
posa, enquanto que ela está crescendo em dire­
ção da mesma meta de maturidade espiritual.”
Ben não estava levando avante uma luta
já vencida, mas estava fazendo algo parecido:
ele estava lutando com sua mãe, que já não
estava mais em cena. A hostilidade guardada
que havia sentido para com sua mãe domina-
dora estava agora vindo ao consciente. Ele
estava cônscio, finalmente, de seu profundo
ressentimento e podia admiti-lo diante de si
mesmo, de Deus e de um colega ministro.
Eu descia a rua com um jovem de cerca
de trinta e cinco anos, que havia conhecido
pouco tempo antes, quando ele de repente
disse: “Espere um pouco. Entremos aqui.” Era
uma joalheria. Esperei, enquanto ele olhou uma
dúzia ou mais de anéis diferentes. Em dado
momento pensei que ele tinha encontrado jus­
tamente o que queria, mas afinal decidiu não
comprar, e saímos.
Alguns quarteirões mais adiante, paramos
para olhar as amostras da vitrine de outra joa­
lheria. Entramos. Gastamos cerca de dez mi­
nutos, enquanto ele olhava os anéis e os expe­
rimentava. Outra vez saiu sem comprar.
Quatro vezes naquele dia ele parou em
joalheria para olhar anéis. Finalmente eu disse:
— Que espécie de anel você está procurando?
Notei que você tem um belo anel em sua mão
esquerda.
Ele disse: — Oh! simplesmente gosto de
anéis! Eles sempre me fascinaram.
Por curiosidade, perguntei: — Você dedica
muito tempo a olhar anéis?
— Sim, vou a todas as joalherias em que
passo. Eu adoro anéis. Há alguma coisa errada
nisto?

231
— Não — eu disse, sorrindo — é um hobby
razoavelmente normal. Mas há um motivo por
trás de todas as nossas ações. Você gostaria
de tentar descobrir por que anda tão fascinado
por anéis?
— Claro, mas não vejo nada de neurótico
em gostar de coisas bonitas.
Repliquei: — Conte-me sua recordação
mais antiga de um anel ou anéis.
Ele pensou um pouco e então disse: —
Quase me tinha esquecido disto, mas minha
primeira experiência com um anel foi trágica.
Meu pai comprou um lindo anel. Pedi a ele
para usá-lo só uma vez, em minha ida à escola.
Ele concordou, mas disse: “Você vai perdê-lo!”
E eu o perdi. E nunca mais o encontrei e passei
um grande aperto por ter perdido a única jóia
cara que meu pai possuía.
— De modo que — eu disse — você tem
procurado o anel desde então!
Meu amigo ficou espantado. — E todos estes
anos eu não sabia que estava sendo impulsio­
nado por um desejo neurótico de encontrar o
anel perdido. Eu só pensava que gostava de
anéis. E gostava mesmo, mas não sabia por
quê.
Meu amigo estava tomado de uma compul­
são inofensiva, da qual agora está livre. Pelo
menos ele está livre para colecionar ou não
anéis. Ele não é mais levado por um impulso
inconsciente de apaziguar seu pai em achar o
anel perdido. Sua compulsão menor, dispen­
diosa como era e que consumia muito tempo
não interferia seriamente em sua vida. E!a ilus­
tra, entretanto, maneiras pelas quais continua­
mos a levar avante lutas já vencidas ou conti­
nuamos uma busca sem esperança de algo que
não necessitamos mais.

232
Norine, membro de um de nossos grupos,
cresceu espiritualmente de modo surpreenden­
te durante os primeiros seis meses em que o fre-
qüentou. Ela falava desinibidamente durante as
sessões e mantinha uma disciplina diária de lei­
tura e oração. O crescimento era evidente e dra­
mático. Sua máscara começou a cair e em seu
lugar surgiu uma pessoa muito adorável. Certa
noite ela disse ao grupo que nunca tinha tido
uma relação satisfatória com seu pai. Ela que­
ria muito sentir-se amada por ele, mas nunca
tinha conseguido nada além de um relaciona­
mento casual e um pouco distante. Isto parecia
ser uma fonte de grande pesar para ela.
Um dia ela veio me ver para contar algu­
mas coisas que não queria discutir no grupo.
Ela disse que, até onde podia recordar, tinha
se apaixonado por vários homens. Mesmo como
uma feliz senhora casada, sentia-se fisicamen­
te atraída por outros homens — dúzias deles,
centenas deles. Ela não sabia dizer se era
amor ou mera atração física. O que quer que
fosse, era uma força poderosa, muito além de
uma relação casual de flerte.
Pedi-lhe que investigasse sua relação com
seu pai. Veio à tona que, ela tinha feito tudo
quanto estava em seu poder para conquistar o
amor do seu pai, mas nunca fora bem sucedida.
“Ele simplesmente me ignorava”, ela concluiu.
Perguntei-lhe se podia ver alguma relação
entre suas tentativas frustradas de ganhar o
amor de seu pai e sua necessidade compulsória
de conquistar os homens, ou pelo menos ga­
nhar a afeição deles. Ela a via, naturalmente.
“Agora que você vê a conexão”, eu disse,
“você não estará necessariamente livre do im­
pulso de atrair, ganhar e conquistar os homens.
Mas não é necessário que seja uma compulsão

233
da qual você não tenha controle. Você será ca­
paz de controlá-la — se você quiser. Você
pode ser livre agora. No subconsciente você
estava profundamente desapontada com seu
pai, embora no consciente você pensasse que
estava procurando algo inteiramente diferente.
Você era dirigida. Agora você pode dirigir-se
se quiser. Você está livre para escolher seu
modo de agir, embora antes você estivesse sob
a força de uma coerção que você não podia
entender e que conduzia somente a uma suces­
são de incidentes “desagradáveis” .
Ela fez progresso notável no ano seguinte
e tornou-se livre para sempre de sua neces­
sidade coercitiva de “conquistar” homens.
é difícil para muita gente aceitar o fato de
que pelo menos 80% de nossas ações são
motivadas pelas necessidades inconscientes in­
teriores. Gostamos de sentir que somos racio­
nais; seres inteligentes em completo controle
de nossas ações, mas tem sido demonstrado
muitas vezes que a maioria de nossas ações
são resultado de impulsos totalmente incons­
cientes. Tendo feito a decisão, sentimos neces­
sidade imediata de racionalizá-la, de modo que
possamos manter o sentimento de que sempre
agimos na base da escolha lógica e racional.
Robert não tinha jeito de saber que seu
tremendo impulso para o sucesso, que o tor­
nara um trabalhador compulsório, nascia de
uma necessidade olvidada de provar seu valor
a seu pai e ao ministro, os quais o haviam hu­
milhado. Jud não sabia, até o momento em que
ele analisou seus sentimentos em grupo, que
sua necessidade coercitiva de dominar um gru­
po nascia da pobreza em sua infância. Louise
não sabia que, ao procurar um certo tipo de
homem e apresentar obstáculos ao casamento,

2 34
estava respondendo a impulsos postos em mo­
vimento desde quando procurava a aprovação
de seu pai. Wendell não tinha consciência de
que sua hostilidade para com as mulheres vi­
nha de uma relação prejudicada com a mãe.
Ben não sabia que a hostilidade que sentia por
sua esposa se apresentara desde quando ele
tinha sentimentos idênticos para com sua mãe.
Meu amigo que tivera a compulsão de com­
prar anéis não podia saber que seu impulso
neurótico vinha de uma necessidade olvidada de
apaziguar seu irado pai. Norine, a jovem espo­
sa com inclinação para casos amorosos, des­
cobriu que sua necessidade de conquistar ho­
mens estava baseada numa relação frustrada
com seu pai.
Somos, então, responsáveis? E se somos,
até que ponto? Esta pergunta é tratada com
detalhes em outro capítulo, mas neste ponto m-
podemos enfatizar a atitude de Jesus, que não
condenou o pecador e ordenou que não julgás­
semos. Ele, cuja pureza de mente e propósito
faziam com que fosse capaz de perceber os
impulsos interiores e os motivos dos homens,
não sentiu necessidade de julgar. Tratou o pe­
cador arrependido com compaixão infinita. Ele
orou por aqueles que tiraram a Sua vida. “Pai,
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” *
Só Deus pode saber como as incontáveis
contra-correntes de ambiente, hereditariedade,
vontade e fragilidade humanas, orgulho e sen­
timentos de inferioridade, ansiedade e tensão
emocional, têm moldado nossas vidas e deci­
sões. Só Deus pode julgar. Nós não podemos.
Podemos, entretanto, vir a conhecer-nos
em um grau muito profundo desenvolvendo uma
honestidade estrita para conosco mesmos,
para com os outros e para com Deus. Com essa

235
honestidade em um grupo amoroso, podem sur­
gir "discernimentos” que podem nos fazer mais
do que somos, mais semelhantes a Cristo, que
nos aceita como somos, mas espera que me­
lhoremos cada vez mais.

2 36
11

A SUA AUTO-IMAGEM

No porvir, não me será feita a per­


gunta: “Por que você não foi Moi­
sés?” Perguntar-me-ão: “Por que
você não foi Zusya?”
Rabino Zusya

Os sentimentos conscientes e inconscien­


tes que você tem acerca de si mesmo consti­
tuem a sua auto-imagem. Você vai viver essa
auto-imagem diariamente. Sempre terá a ten­
dência de agir em harmonia com ela.
A Bíblia reconhece este fato. O autor de
Provérbios escreve: "Como imaginou na sua
alma, assim ele é!”1 Quando a Bíblia usa o ter­
mo “alma”, refere-se às emoções, entre outras
coisas, “o centro do nosso ser”. A psicologia
moderna confirma a definição de Provérbios: "O
que você sente que é no centro da sua natureza
emocional é o que você realmente é existencial­
mente, e as suas ações estarão em harmonia
com seu autoconceito.”
Em Provérbios 4:23, lemos: “Sobre tudo o
que se deve guardar, guarda, o teu coração,
porque dele procedem as saídas da vida” 2, ou,
poderiamos parafraseá-lo: “Tenha muito cuida­
do com aquilo que você coloca na sua mente in-

237
consciente, pois isso vai determinar o seu des­
tino.”
As idéias acerca de nós mesmos, dadas por
nossos pais e outras figuras de autoridade du­
rante os nossos primeiros anos, grandemente
determinam a nossa auto-imagem~£erto mem­
bro de um grupo, cuja auto-imagêmerà^muito
fraca, relatou que não podia lembrar-se de
qualquer elogio que o pai ou a mãe alguma vez
lhe tivessem feito. Lembrava-se bem, entretanto,
do fato de que seu pai — uma figura austera e
implacável — dizia-lhe, vez após vez: “Você
nunca vai prestar para coisa alguma. Você não
vale nada. É isto, você nunca terá êxito na vida.”
Quando criança, não tinha outra alternativa
senão aceitar essa conclusão. Passaram-se
muitos anos de luta para que ele conseguisse
formar um conceito válido de si mesmo.
A criança não tem uma imagem definida
de si mesma. Ela só pode ver a si mesma no
espelho da avaliação que seus pais fazem dela.
Quando diz: “Eu fui um bom menino, mamãe?”
— manifesta, em parte, o desejo de afirmação
e amor e em parte um desejo de verificar, com
a autoridade última, se consegue adquirir um
conceito de “bondade” ou “ruindade”. A cri­
ança que ouve constantemente dizerem-lhe que
é um mau menino, ou que é preguiçosa ou que
não presta ou que é estúpida, tímida ou desa­
jeitada, terá a tendência de viver esse conceito
que o pai ou outra pessoa de autoridade lhe in­
cute. Ela tem a tendência de crer e de agir de
acordo com o que lhe é dito. A estrutura emo­
cional da criança já está formada aos seis anos
de idade/e, na opinião de muitos psicólogos,
provavelmente muito mais cedo. Alguns afir­
mam que o que acontece nos primeiros seis
meses de vida tem importância enorme na es-

238
trutura emocional em desenvolvimento da crian­
ça. Os acontecimentos posteriores afetam, alte­
ram, reencaminham as impressões anteriores,
mas não podem apagá-las completamente.
Por exemplo, a criatura demasiadamente
acanhada, que é assim por causa de uma mis­
tura sutil de fatores hereditários sobre os quais
o ambiente pressionou com maior força ainda,
poderá, mais tarde, tornar-se uma personalida­
de aparentemente extrovertida. Seus colegas
poderão dizer que ela é uma pessoa alegre,
espirituosa, dada, poderão dizer qualquer coi­
sa, menos que ela é tímida. Mas no fundo do
ser ainda sente a timidez, a tendência de fugir
do contato íntimo com os outros. Ela “recondi­
cionou num reflexo condicionado” ao agir con­
trariamente aos traços que detesta em si mes­
ma. Mas, até certo ponto, ela ainda é a mesma
pessoa inteiramente tímida e fugidia que fora
quando criança. Ela age diferentemente e pode
sentir-se razoavelmente à vontade com as pes­
soas, mas o antigo temor está lá, enterrado
fundo dentro dela. O conflito foi resolvido só
o suficiente para possibilitá-la a ter uma vida
criadora, em vez de uma vida de derrota.
Felizmente, não precisamos ser vítimas
permanentes de todos os condicionamentos
passados. Podemos mudar. As pessoas real­
mente vencem os empecilhos. Não somos ví­
timas cegas nem da hereditariedade nem do
ambiente, sem forças para mudar nossos desti­
nos. Existe uma capacidade interior, divina, que
nos possibilita sermos mais do que somos. É
importante, entretanto, que não nos enganemos
e que reconheçamos os sentimentos interiores
profundos plantados aí muito tempo atrás e
que lá ainda residem. Por que se incomodar?
Simplesmente porque a honestidade para con-

239
sigo mesmo é essencial à honestidade para com
Deus. Não podemos conhecer a Deus melhor
do que estamos dispostos a conhecer a nós
mesmos. Se tivermos medo de nossos senti­
mentos interiores profundos, teremos medo de
Deus da mesma maneira e no mesmo grau,
embora este medo possa ser repudiado e enter­
rado profundamente junto com as outras emo­
ções.
Paulo partilhou com um grupo o seu sen­
timento irracional de que podia ser despedido
do emprego a qualquer hora. Seu patrão nunca
havia criticado seriamente o trabalho dele e
ele achava que estava tendo um rendimento
relativamente satisfatório. “Sei que é irracio­
nal, mas simplesmente sinto aqui dentro que
posso ser despedido a qualquer momento. Nem
mesmo quero tirar férias, em parte porque não
sinto que as mereça.”
Paulo não havia participado das discus­
sões do grupo nas primeiras semanas. Parece
que ele temia a possibilidade de rejeição.
Quando pôde partilhar alguns sentimentos acer­
ca de si mesmo, começou a descobrir emoções
que nunca ousara admitir antes, nem mesmo
a si próprio. Ele escavou recordações meio
enterradas e finalmente descobriu sentimentos
fortemente hostis, tanto para com seu pai au­
toritário como para com sua mãe, cujas con­
vicções religiosas pareciam ser uma mistura
de temor e moralismo rígido. Ele se lembrou
de um profundo sentimento de fracasso, de
medo de castigo, de desagradar seus pais e de
não conseguir um rendimento satisfatório. Todo
o seu ambiente anterior havia lhe dado uma
imagem de si mesmo como fisicamente fraco,
mentalmente abaixo da média, e como uma pes­
soa destinada a fracasso quase certo.

2 40
Longe de ser incompetente, ele et a uma
pessoa muito capaz; mas sua auto-imagem,
imposta por seus pais, rigorosos demais, e um
irmão mais velho que se destacava, era a de
uma pessoa incapaz. Agora, aos trinta anos,
ele agia perfeitamente de acordo com a auto-ima­
gem — apavorado com seu patrão, constante­
mente passivo e com receio de um desastre
iminente.
Ao analisar seus sentimentos antigos acer­
ca de seu ambiente, Paulo aprendeu que não
havia razão para culpar seus pais, porque eles
haviam feito o melhor que podiam. Ele compre­
endeu que não era simplesmente o que eles
fizeram, mas a reação dele para com seus pais
que determinava sua auto-imagem. Ele progre­
diu tanto, dentro de um ano, na compreensão
de si mesmo que já dirigia o grupo e revelava
uma perspicácia rara para com os problemas
dos outros. Sua auto-imagem estava mudando.
Ele começava a ver-se como uma pessoa dife­
rente. Já não se sentia mais dominado pela
imagem formada quando criança. Até certo pon­
to, os sentimentos anteriores sempre estarão
presentes, mas agora ele está agindo em har­
monia com uma auto-imagem inteiramente di­
ferente.
A auto-imagem criada na infância não tem
que ser permanente, como uma espécie de
amuleto de má sorte pendurado em nosso pes­
coço para prejudicar o resto da nossa vida.
Pelo contrário, podemos, com a ajuda de um
grupo, descobrir nosso potencial mais alto e
agir de acordo com uma auto-imagem comple­
tamente diferente. A razão de isto ser alcança­
do mais facilmente em um grupo é que a acei­
tação amorosa de seus membros, mais a hones­
tidade total, ajudam-nos a vermos como somos

241
e como podemos ser. Se formos prejudicados
por uma auto-imagem que não tem relação com
as capacidades interiores verdadeiras que os
outros vêem em nós, o grupo dá-nos uma figura
verdadeira daquilo em que podemos nos tor­
nar.
“Pois onde se acham dois ou três reunidos
em meu nome”., Jesus disse, “aí estou eu no
meio deles.”3 Isto é citado com freqüência por
pessoas que não possuem a mínima idéia do
que significa, que acreditam que Jesus disse
isso, mas que jamais experimentaram tal coisa.
Jesus era Deus encarnado quando aqui esteve
na terra. Quando deixou a terra, ele disse: “Eis
que estou convosco todos os dias.”4 Deus em
Cristo deseja estar presente em poder onde
quer que dois ou três ou uma dúzia de seus se­
guidores se reunam em amor cristão genuíno.
A manifestação de sua presença parece
ser condicional. Só pelo fato de dois ou mais
cristãos estarem falando de futebol, ou se en­
contrarem numa sessão não siginifica neces­
sariamente que Cristo esteja ali em poder. Mas
quando alguns de seus seguidores estão dese­
josos de relaxarem suas tensões, de deixarem
seus preconceitos e barreiras e voltarem sua
atenção para Jesus Cristo, ele estará lá. A rea­
lidade e a intensidade de amor de uns para com
os outros parece ser uma das condições para
que a presença dele seja sentida. Num ambi­
ente assim, a honestidade pode florescer. O
grupo pode aprender o valor de “falar a ver­
dade em amor”.
Foi justamente num grupo assim que Jesus
deu a Simão uma nova auto-imagem. Jesus esta­
va a sós com os doze e de repente perguntou-
-Ihes: “Quem dizeis vós que eu sou?” — Simão
respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vi-

2 42
vo!” E Jesus respondeu: “Bem-aventurado és tu,
Simão Barjonas!.. . E eu te digo que tu és Pedro,
e sobre esta pedra edificarei minha igreja . . »
Desta forma dramática, Jesus mudou o nome
de Simão para Simão Pedro, que significa Si­
mão, a Rocha.
Isto foi dito a um homem que tinha sido e
continuou a ser por algum tempo notoriamente
fraco e vacilante, um homem de decisões apai­
xonadas e negações veementes. Ao dar-lhe um
novo nome, Jesus não queria dizer que o ins­
tável Pedro já havia se tornado uma rocha de
força dominante. Ele dava-lhe uma nova auto-
-imagem, que se tornaria realidade no decorrer
do tempo. Ele estava dizendo: “Os homens po­
dem ver em você evidências de grande instabi­
lidade emocional: Você está bem consciente
dela e a detesta. Mas eu vejo o Simão verda­
deiro, interior. Isto é o que você pode ver, o
que você será — uma Rocha. A instabilidade
será trocada por estabilidade, a fraqueza por
fortaleza.” E Pedro começou a amadurecer e
se transformar no novo ser que Jesus lhe
revelou.
Há recursos inexplorados em todos nós.
Podemos amar mais, ser mais, realizar mais e
adquirir mais força interior tranqüiía. Quando
aprendermos a colaborar com as le s de Deus
e nos tornarmos desejosos de ter o Seu me­
lhor, quando não temermos mais Sua vontade,
mas a procurarmos como o supremo bem para
nossa vida, poderemos crer no que Deus já crê
em nós — que podemos ser muito mais do que
somos. Podemos chegar a ter uma nova auto-
-imagem e agir em harmonia ccm esse novo
conceito.
Por quarenta anos Dave viveu em harmonia
completa com a auto-imagem que seu pai lhe

243
dera. Ele disse ao seu grupo: “Meu pai me disse
centenas de vezes — Você não presta — e eu
não prestava mesmo. Eu enganava e roubava.
Era apanhado pelos tiras e meu pai sempre me
tirava da cadeia. Ele tinha muito dinheiro e
aprendi duas coisas a respeito dele bem cedo
— que ele pensava que eu não prestava e que
não importava o que eu fizesse ele sempre me
livraria dos apuros. Comecei a sentir que não
somente não prestava, mas que também era
imune a qualquer espécie de castigo.
“Agora, aos quarenta anos, sou um joga­
dor imprestável e um mentiroso. Mas estou
começando a ter uma nova imagem de mim
mesmo. Ainda me sinto impelido para o jogo;
mas não minto mais como se a mentira fosse
um modo de vida aceitável. Posso dizer a ver­
dade à minha esposa, a mim mesmo e aos
meus fregueses. Estou começando a sentir cul­
pa por coisas que sempre aceitei como nor­
mais.”
O poder de Deus estava começando a
atuar em Dave, e, através da aceitação amorosa
do grupo, ele conseguiu ter um conceito muito
melhor de si mesmo. Ele ainda está crescendo.
é difícil abandonar os hábitos, as atitudes e a
auto-imagem de quarenta anos em poucos dias
ou semanas. Dave aprendeu o significado da
honestidade para consigo mesmo e para com
Deus e tornou-se capaz de se abrir no grupo
sem receio de rejeição. Enquanto seu receio de
rejeição diminuía, sua capacidade de auto-acei-
tação aumentava. Ele está a caminho.
Earl é um ministro que não tem a mínima
parcela de gagueira. Ele é um bom orador e a
pequena pausa que faz, a fim de procurar um
sinônimo ou tomar um fôlego rápido, na reali­
dade, realça seu estilo. Nem sempre foi assim.

244
Ele me contou que seus pais haviam sido duros
e exigentes. Eles haviam tomado a decisão de
que nenhum de seus filhos seria orgulhoso ou
convencido em consequência de elogios, e con­
sequentemente nunca louvaram seus filhos por
coisa alguma. Havia crítica em abundância, mas
não havia contrabalanceamento de louvor e
aceitação calorosos.
Como era de se esperar, Earl cresceu com
uma auto-imagem fraca. Felizmente era dotado
de agressão suficiente para reagir bem con­
tra seu ambiente. Quando livre do controle pa­
terno, começou a desenvolver o sentimento de
que poderia obter sucesso a despeito da as­
serção tantas vezes repetida de que ele jamais
prestaria para nada. Ele revisou gradativamente
sua auto-imagem e com o tempo se tornou uma
personalidade altamente eficiente. Uma pessoa
menos decidida poderia ter-se resignado a ser
tímida e passiva.
Há muitos fatores atuando em qualquer fa­
mília. Há o problema do lugar na constelação
da família — a pessoa pode ser filho único, o
segundo, o terceiro ou o quinto. Pode haver
amor silente misturado com rejeição aparente.
A atmosfera familiar pode ser aceitável a des­
peito da falta de demonstração. No caso de
Earl, havia também a questão de que ele se
identificava com seu pai e com o tipo de pes­
soa que seu pai era. Todas estas modalidades
tornam impossíveis julgar ou avaliar completa­
mente um relacionamento familiar. Deste modo
não pode haver culpa, nem da família nem da
pessoa, mas só a pergunta: Onde estou neste
momento e como posso deixar a graça de Deus
fluir em minha vida numa proporção maior para
que eu possa me tornar mais do que sou?

2 45
Roger, um jovem ministro de uma igreja
local, era completamente desafinado e nunca
tomava parte no cântico congregacional. Era
uma fonte de embaraço para ele ser a única
pessoa do grupo incapaz de cantar. Ele contou
a um ministro mais antigo a origem de seu
problema.
“Deve ter acontecido quando eu estava no
terceiro ou quarto ano”, ele disse. “A profes­
sora estava preparando a classe para participar
de um programa da escola e queria que nós fi­
zéssemos bonito. Tínhamos que cantar, e ela
nos treinava diligentemente. Finalmente ela ou­
viu algumas notas dissonantes vindas de um
lado da sala. Havia três de nós que não estavam
cantando de modo a satisfazê-la. Ela nos sepa­
rou dos outros e nos colocou no fundo da sala,
dizendo: “Aqueles lá do fundo são os pardais.
Vocês, crianças, aqui da frente são pássaros
canoros.”
Parece incrível que uma professora pudesse
ser tão insensível, mas aconteceu. Roger nunca
tentou cantar de novo. Fora-lhe dito por uma
figura de autoridade no assunto que ele não
podia cantar, e ele aceitou o veredicto. Agora,
aos vintes e cinco anos, ele tinha a certeza de
que não podia cantar uma melodia sequer. Mas
no trabalho com os jovens ele sentia uma gran­
de necessidade de poder dirigir o canto, e as­
sim procurou o diretor do coro, o qual lhe
assegurou que ele podia aprender a cantar sim.
Em algumas sessões com o diretor, ele desco­
briu que não era tão sem ouvido como supuse­
ra. Ele começou a participar do cântico con­
gregacional, e finalmente dirigia o canto para
grandes grupos de adultos, e o fez excelente­
mente. Ele me contou, entretanto, que ficava
emocionalmente exausto depois de cada expe-

246
riência dessas. Isto, é claro, diminuiu com o
tempo.
Roger fora vítima de um reflexo condicio­
nado. As palavras “música” e “canto” sempre
o deixaram com sentimentos profundos de in­
ferioridade. Quando adulto, ele simplesmente
recondicionou o reflexo condicionado pelo pro­
cesso de fazer a coisa que temia. A teoria Ja-
mes-Lange nos dá a pista para isto. Na sua
essência, ela diz: “Se controlarmos ou mudar­
mos a expressão de uma emoção, em assim fa­
zendo mudaremos a própria emoção. Em outras
palavras, se ‘agirmos como se’ — (sentíssemos)
de um modo certo, com o tempo nossos senti­
mentos alcançarão nossas ações.” Roger co­
meçou a “agir como se” — a fingir a si mesmo
que não tinha medo da música ou do som da
sua voz e com o tempo começou a jogar fora
o velho medo. Gradativamente ganhou um sen­
timento de confiança em si mesmo. O tremor
que ele sentia a princípio, ao dirigir o canto,
era um resquício do passado, que gradativa­
mente dimimuía com o passar do tempo. Ele
havia mudado sua auto-imagem.
Muitas pessoas protestam que agir contra
seus sentimentos faz com que se sintam hipó­
critas. Quando eu era novo no ministério, no
meu primeiro pastorado, senti algo parecido,
quando tentei, pela primeira vez, aplicar a
teoria James-Lange. Quando fazia visitas, sen­
tia vontade de falar a respeito da igreja. Ti­
nha pouco interesse pelos detalhes aparente­
mente triviais da vida das pessoas que visita­
va. Eu era um conversador pobre, com um gran­
de desprazer por conversinhas. Isto era um em­
pecilho evidente, porque, quando visitava os
membros da igreja, descobri'que eles queriam
conversar acerca das coisas que lhes interessa-

247
va — seus filhos, um móvel novo, os pequenos
acontecimentos do dia. Eu tinha lido o princípio
de “agir como se” de William James e queria
verificar se fucionava de verdade.
Ao entrar numa casa, comecei deliberada-
mente a prestar atenção nas crianças, a notar
detalhes, tais como quadros sobre a lareira, as
coisas antigas — tudo que parecia ter impor­
tância para a família, e a falar sobre estas coi­
sas. Tentei mesmo gostar dos gatos que solta­
vam pêlo no meu terno escuro. A princípio me
senti desconfortável e hipócrita — afinal, eu
não estava genuinamente interessado nesses de­
talhes. Eu queria chegar aos assuntos realmente
“importantes”, como o relacionamento deles
com Deus e a igreja; seus problemas e as res­
ponsabilidades que eu esperava que eles acei­
tassem na igreja. Mas com o tempo comecei a
gostar da minha experiência e me senti menos
hipócrita e insincero. Em pouco tempo eu es­
tava descobrindo um interesse genuíno nos de­
talhes da vida deles — o quadro do jovem ma­
rinheiro sobre a lareira, a criancinha que queria
atenção, o gato que queria pular na cadeira —
porque eles eram importantes para as pessoas
que eu estava visitando.
Finalmente isto se tornou uma segunda na­
tureza. Parei de pensar em mim mesmo como
um jovem profeta desabrochando e possuidor
da verdade transcendente que devia ser pro­
clamada a um mundo ansioso. Passei a ter um
interesse genuíno pelas pessoas e pelas coisas
que lhes interessavam. Não era simplesmente
um nova técnica, mas uma nova auto-imagem.
Comecei a “ver-me” como uma pessoa diferente
e a agir de acordo com minha nova imagem.
Há um “mecanismo procurador de ideal",
por assim dizer, dentro de cada um de nós,

2 48
muito parecido com um piloto automático. Deus
nos deu este impulso; ele só precisa ser en­
tendido e dirigido. Ele opera mais ou menos as­
sim:
Com a mente consciente podemos propor
alguma meta desejável. Pode ser a aquisição de
educação, a habilidade de fazer amigos, uma
mudança de personalidade ou mesmo a posse
de bens materiais. Isto é determinado pela
mente consciente e é o resultado de nossas am­
bições, desejos e senso de valores. A gente pode
desejar de todo o coração um ideal digno ou
indigno. O que se procura pode ser destrutivo
ou construtivo.
O universo, entretanto, está engrenado de
tal maneira a nos ajudar a alcançar os ideais
dignos e criativos. “As estrelas nos seus cur­
sos” estão do lado daquele que ousa ter gran­
des sonhos, se eles forem consistentes com a
vontade de Deus.
Só quando dedicamos tempo à análise ho­
nesta da alma na presença de Deus é que ousa­
mos ter sonhos grandes e pedir-lhe que nos
ajude a alcançá-los. Para uns pode ser ter um
lar mais feliz; para outros, conseguir um com­
panheiro de vida. Pode-se desejar servir a Deus
e aos homens de um modo significativo. A pes­
soa pode querer livrar-se de empecilhos de
personalidade evidentes. Qualquer que seja a
meta, desde que descubramos que ela está
dentro da vontade de Deus, o próximo passo é
visualizá-la. É vê-la claramente numa tela mental
e segurá-la ali dia após dia, mês após mês. Deve
ser mais do que pensamento ansioso. Deve ser
uma espécie de obsessão calma. Não em dúvi­
da e temeridade, mas em humildade, a pessoa
oferece este ideal a Deus com a comprensão de
que se isto for um ideal indigno ou impróprio,

249
ele será abandonado. A pessoa que honesta­
mente quer a vontade de Deus e que vê sua
vontade como o bem supremo, pode ousar ter
ideais além de qualquer coisa que já sonhou
antes: “Todas as coisas concorrem para o bem
daqueles que amam a Deus.” 6 “Deus opera
em nós, tanto o querer quanto o efetuar, segun­
do a sua boa vontade." ? isto nos diz que Deus
opera, não só no espaço exterior, mas em nosso
ser mais íntimo, ajudando-nos a querer o mais
elevado e melhor, e acrescenta Seu poder às
nossas capacidades humanas.
Outra promessa nos diz que Deus “é pode­
roso para fazer muitíssimo mais que tudo quanto
pedimos ou pensamos.” 8 o perigo não está em
pedirmos demais, mas em que nossos sonhos
sejam muito pequenos. “Ora, sem fé é impos­
sível agradar a Deus.” 9 Ele tem prazer quando
seus filhos ousam ter ideais dignos.
Quando, através de oração e de meditação,
chegamos à segurança de que estamos traba­
lhando com Deus por um ideal digno, o meca­
nismo que busca este ideal entra em operação.
Digamos que a gente deseja se tornar uma pes­
soa muito mais eficiente, livrar-se de seus te­
mores ou sentimentos de inferioridade; que se
quer aprender a dar e receber amor; que se
deseja tornar-se capaz de ser feliz e eficiente.
A nossa auto-imagem pode nos dizer que so­
mos inaptos, temerosos e basicamente uma pes­
soa infeliz e ineficiente. Se visualizarmos isto
viva e constantemente, o impulso que busca
o ideai fará com que continuemos neste ideal!
Por outro lado, se pudermos “ver” a nós mes­
mos como uma personalidade de potencial alta­
mente eficiente, capaz de dar e receber amor e
de alcançar muito mais do que conseguimos
até agora — se colocarmos este mecanismo que

2 50
busca o ideal em funcionamento, todas as for­
ças interiores e o poder de Deus operando em
nós estarão disponíveis para torná-lo realidade.
Quando Jesus deu a Pedro um auto-con-
ceito novo, simbolizado pelo nome Pedro —
uma rocha — ele fez funcionar este mecanis­
mo divino interior. Deus agora operava em Si-
mão, ajudando-o a se tornar Simão Pedro, Si-
mão, a Rocha de imenso Poder. ^ —
Várias condições devem ser preenchidas
para que isto se torne real. Deve haver motiva­
ção forte. Não deve haver qualquer dúvida acer­
ca do que se deseja. Isto só se tornará realida-'
de se a gente o colocar acima de tudo. Em se­
gundo lugar, deve-se trabalhar neste sentido.
Não há graça barata, nem caminho fácil para
a maturidade espiritual e nem um Papai Noel
celeste para nos garantir pedidos infantis. Re­
presenta trabalho. E o trabalho é simplesmente
o de conservar a nova auto-imagem vivamente
na tela mental, conservá-la ali consistentemen­
te por semanas e meses. O trabalho envolve
passar nosso desejo pela peneira fina da von­
tade de Deus e visualizar a mudança como se
já tivesse acontecido. Deve-se conservar o
sonho visualizado vivamente na tela. Deus faz
o resto, através deste mecanismo maravilhoso
de prosseguir para o ideal que ele construiu
dentro de nós.
Isto não é um modo barato e fácil de ‘‘con­
seguir as coisas”. A pessoa terá que passar
meia hora por dia em meditação quieta, “ven­
do” vivamente a pessoa que se quer tornar.
Nesta hora de meditação com Deus não pedi­
remos que ele nos modifique ou mude os ou­
tros. Antes devemos afirmar que a auto-imagem
desejada pode se tornar realidade porque Deus
o prometeu. Deve ser uma auto-imagem que

251
esteja em harmonia oom os ensinamentos de
Jesus.
Este mecanismo interior trabalha por nós,
e com um esforço no sentido do alvo que temos
proposto. O irmão Lawrence disse que aque­
les que estão em harmonia com a vontade de
Deus “vão adiante, mesmo dormindo”. Deus se
agrada quando ousamos sonhar, ter aspirações,
desejar ser mais, fazer mais, amar mais. Quando
a pessoa ousa ver a si mesma como sendo mais
do que é, com capacidade muito maior do que
jamais sonhou, pode se tornar assim.
Um membro de um grupo escreveu a res­
peito da sua luta para adquirir uma nova auto-
-imagem:
O meu maior problema foi a falta de auto-acei-
tação e amor-próprio. Estou quase crendo que me­
reço receber amor e alegria na vida tanto quanto
os outros, e que não tenho que ser perfeito para ser
aceitável... Também compreendi que posso ser eu
mesmo sem me justificar. Não tenho que preencher
um determinado padrão de comportamento a fim de
agradar as pessoas. Tudo que tenho a fazer é ser
eu mesmo enquanto uso a orientação de Deus para
dirigir minhas atividades.
Não sei como eu poderia ter conseguido isto sem
a ajuda maravilhosa e a nova visão de religião que
recebi deste grupo. Ele me deu uma vida completa­
mente nova. Olhando para trás, sinto que foi meu
distúrbio emocional que realmente causou meu cân­
cer. Agora compreendo que as curas de Jesus não
foram só um “conto de fadas” ou exagero de ima­
ginação, mas a conseqüência natural da paz e poder
interior — uma paz que eu também começo a sentir.

252
12

QUE ACONTECE NUM GRUPO?

A Vida não examinada não vale a pena


ser vivida.
— Sócrates

Há muitos tipos de grupos, e de discussões


em grupo, cada qual com seu iugar e propó­
sito. Alguns dos vários tipos são os seguintes:
1. A Comissão. Geralmente este grupo se
compõe de várias pessoas que têm uma função
a desempenhar em favor de uma organização
maior a que pertencem. A comissão pode ser
designada, por exemplo, com o propósito de
planejar um acontecimento social ou um pro­
grama social. Ela não lida tanto com princí­
pios gerais, como com detalhes específicos.
Pode haver difirenças de opinião, troca de in­
formações, e, finalmente, se tudo correr bem,
a comissão decide que curso de ação deve ser
tomado.
As comissões nem sempre funcionam rapi­
damente. Elas podem ser frustradoras. Conta-se
de um ministro que olhava o avião de Lindbergh,
“O Espírito de São Luís”, na Instituição
Smithsoniana. Uma pequena senhora no grupo
disse, com admiração: “Imaginem só, ele fez
tudo sozinho!” O ministro, que aparentemente

253
era vítima de muitas comissões na igreja, disse
de esguelha: “Ele nunca o teria feito se depen­
desse de uma comissão!” Isto é provavelmente
verdade, porque as comissões têm a tendência
de adotar o método conservador e tradicional,
que, em muitas situações, é precisamente o de
que se necessita. Para um projeto único, que
requeira espírito dinâmico e criador, uma pes­
soa só pode realizar muito mais. Mas as comis­
sões tem seu lugar específico.
2. O Grupo para Discussão. Geralmente
se reúne por causa de interesses comuns a se­
rem estudados, tais como, intolerância racial,
planos para melhorar a comunidade ou estudo
bíblico.
A troca de idéias, e de conceitos num
grupo assim torna-se estimulante e útil. Há o
dar, o receber e a ventilação de opiniões; e,
frequentemente, se desenvolve uma espécie de
opinião coletiva.
Existe uma tendência geral em acreditar
que um grupo de discussão ocupado-em falar
sobre a Bíblia, consagração ou envolvimento
. em movimentos religiosos importantes produ­
zirá, de alguma forma, crescimento espiritual.
Entretanto, não existe garantia de que tais dis­
cussões produzam, automaticamente, maturida­
de espiritual. Esses grupos, na maioria das ve­
zes, trocam meras opiniões. Um debate inte­
lectual sobre a Bíblia ou sobre os princípios
cristãos pouco tem a ver com o crescimento
espiritual. De fato, os membros de tais grupos,
com freqüencia, colocam os problemas básicos
de lado, tais como suas barreiras à maturidade
emocional e espiritual. Um grupo desta natureza
pode tornar-se um forum de debates modificado,
tacitamente concordando em evitar partilhar os
verdadeiros sentimentos. É muito menos amea­

254
çador lidar com opiniões do que com senti­
mentos básicos.
3 . O Grupo de Estudo Bíblico. As pessoas
que possuem mentalidade tradicional supõem
mais ou menos automaticamente, que, se conse­
guirmos reunir as pessoas em grupos para estu­
do da Bíblia, seu crescimento espiritual estará
assegurado. Por mais importante que seja o es­
tudo da Bíblia, permanece a verdade de que a
mera aquisição de fatos bíblicos não garante o
crescimento espiritual. A pessoa pode ser capaz
de recitar todos òs livros da Bíblia, contar todas
as viagens do apóstolo Paulo e citar muitos ver­
sículos, sem efetuar a mínima mudança em sua
natureza espiritual. Os fariseus não tinham falta
de conhecimento da Lei, mesmo assim repre­
sentavam evidentemente o grupo que Jesus
mais condenou. Nem tampouco lhes faltava re­
tidão moral. Eles eram líderes religiosos éticos,
decentes, piedosos e de reconhecimento social.
Mas suas atitudes estavam todas erradas. Pa­
rece que eles nunca haviam dado uma boa
olhada em si mesmos. Estavam completamente
satisfeitos com a moralidade externa e conhe
cimento completo do Velho Testamento.
Isto não vem desprestigiar o estudo bíblico,
porque a Bíblia é a fonte básica de nosso conhe­
cimento espiritual. Entretanto, se o ministro da
igreja a que você pertence anunciar uma série
de estudos bíblicos, provavelmente o templo
não se encherá. Como certo ministro disse: “As
pessoas me dizem freqüentemente: ‘Gostaria
de saber mais sobre a Bíblia’, mas quando anun­
cio um curso de estudo bíblico a maioria fica
de fora!”
4. Grupos de Oração. Uma ou duas gera­
ções atrás os membros das igrejas vinham jun­
tos, em pequenos grupos, para oração. Estes

255
eram, na maior parte, altamente eficazes, e
coisas espantosas eram conseguidas com fre­
quência. Há muitos grupos deste tipo operando
hoje, desde os trabalhos tradicionais das noites
de quarta-feira — freqüentemente uma mistura
de estudo bíblico e orações não edificantes por
pessoas que estão acostumadas com este tipo
de tradicionalismo — a grupos dinâmicos de
cristãos que se reúnem para oração eficaz.
Onde estas reuniões são vitais é sempre porque
a abordagem tradicional foi abandonada, e cres­
cimento espiritual genuíno se efetua nas vidas
das pessoas em questão.
Um dos problemas da maioria dos grupos
de oração é que muitos cristãos têm pouco co­
nhecimento do que seja a oração. Eles supõem
que oração consiste em contar a Deus os pro­
blemas aqui do nosso pequeno planeta; infor-
má-lo das necessidades de uma certa pessoa
ou de uma causa, e pedir-lhe que faça alguma
coisa por essa causa. Quando pouco ou nada
acontece como resultado, presumem que, ou
tinham falta de fé, ou que Deus não responde
às orações.
Os cristãos, em geral, acreditam na oração
e, mesmo os não cristãos, freqüentemente oram
quando em crise. Mas, se for anunciado numa
igreja cristã comum que um grupo de oração
está sendo formado, a participação é desenco-
rajadora. Ainda mais desencorajador é o fato
de que, se uma autoridade reconhecida no cam­
po da oração for trazida para dirigir um curso
sobre como orar, na maioria das igrejas, só um
punhado de crentes estará presente. Temos, en­
tão, a maioria constituída dos cristãos que
acreditam na oração, mas que são incapazes
de orar eficazmente e que não querem estudar
os princípios da comunhão com Deus.

256
5. Grupos de Partiihação. Estes grupos não
são estritamente grupos de discussão, grupos
de estudo bíblico, ou grupos de oração. Mesmo
assim, contêm elementos de todos os três. A
diferença está primariamente na maneira em
que o grupo é formado — que é na base da nes-
sidade — e como funciona.
Jesus lidou com as pessoas na base de suas
necessidades. Quer fosse cegueira, necessidade
espiritual, doença física, privação ou necessi­
dade de perdão, ele as enfrentava onde esta­
vam. Ele não se interessava só em resolver uma
crise pessoal, mas usava a crise como um pon­
to de partida. Alguém disse que Jesus v.a o
homem como uma ilha; Ele navegava ao redor
dela até encontrar um ponto de necessidade,
e ali desembarcava.
Rollo May, diz:
O ser humano não mudará o padrão de sua per­
sonalidade, a menos que seja forçado a fazê-lo pelo
próprio sofrimento. Conselho, persuasão, pedidos de
fora, só efetuarão mudanças temporárias na capa
da personalidade... O ego humano é algo reealci-
trante e teimoso; repele interferência, porque teme
sobremaneira a insegurança profunda que advém
quando seu estilo de vida é perturbado... Fellzmen-
te, as rodas da vida moem incessantemente e cau­
sam uma porção justa de sofrimento como penali­
dade para cada atitude neurótica. Quando esta mi­
séria se torna tão grande que o indivíduo deseja
abandonar sua atitude errada, e, na realidade, de­
sistir de tudo, ele chegou ao estado de desespera-
ção que Kunkel diz ser o pré-requisito essencial para
qualquer cura.1
A necessidade interior que leva à procura
de uma resposta pode ser a facada funda de
uma crise, ou o pulsar sombrio de uma frustra­
ção há muito tempo suportada. Pode ser a
crise da desarmonia conjugal, de doença ou
a dor difusa que chega quando a gente desco-

257
bre que a vida está indo embora sem ter expe­
rimentado nada significativo.
Relutamos em admitir a inaptidão. Para
muitos é doloroso confessar que possuem pro­
blemas que não podem resolver sozinhos. Admi­
tir isto muitas vezes é considerado como uma
confissão de fraqueza. Conhecí, literalmente,
centenas de maridos que, quando o casamento
parecia a ponto de desintegrar-se, não aceita­
vam a sugestão de suas esposas, de irem con­
sultar um ministro ou um conselheiro matrimo­
nial. “Somos adultos, e cuidaremos disto como
adultos”, é a atitude geral, que realmente es­
conde um profundo sentimento de insuficiência
e falta de vontade de encarar a necessidade de
mudança.
Os grupos de partilhação podem ser dife­
renciados dos outros tipos de grupos pelo fato
de os membros do grupo serem suficientemente
humildes para confessar a necessidade de aju­
da. A necessidade pode ser simplesmente um
desejo de maior crescimento espiritual. O indi­
víduo tem um conhecimento vago de que a vida
tem muito mais para aqueles que quiserem fa­
zer buscas. Alguns são motivados pela consci­
entização crescente de que sua religião não lhes
deu o amor, a alegria e a paz que Cristo prome­
teu a seus seguidores.
Outros são motivados a se unirem a um
grupo pela necessidade de maior felicidade
conjugal. Pelo menos quatro quintos de todos
os casamentos poderíam melhorar significati­
vamente se os parceiros aprendessem a se co­
municar mais eficazmente. Num grupo de par­
tilhação, eles aprendem a arte de comunicar
seus verdadeiros sentimentos.
O pulsar sombrio de uma frustração pode
providenciar a motivação para alguns. A vida é

258
frustadora. Os momentos de felicidade verda­
deira, genuína, são relativamente raros. O pro­
blema não é que a vida não ofereça mais ale­
gria e felicidade, mas que a maioria das pessoas
não aprendeu a se abrir a ela.
Os grupos de partilhação funcionam de
maneiras diferentes, dependendo das necessi­
dades das pessoas que os constituem. Alguns
grupos começam no ponto da procura de uma
entrega mais profunda a Cristo. Podem pensar
que esta é sua necessidade. No processo de
procurar esta entrega, geralmente descobrem
que não sabem orar eficazmente. Ao estudar os
ensinos de Jesus acerca da oração, e ao ler
alguns dos grandes clássicos no assunto, co­
meçam a descobrir que muitas vezes existem
barreiras interiores à oração eficaz, e se per­
guntam: “Qual é a barreira que me impede de
conhecer a Deus em nível mais profundo?”
Um marido confessou que havia se juntado
ao grupo, a princípio só por causa da insistên­
cia de sua mulher, pois ele não estava cônscio
de quaisquer necessidades. Ele sorriu triste­
mente, enquanto dizia: “Agora percebo que
tinha necessidades tão grandes quanto as de
minha mulher. Eu pensava que era ela que pre­
cisava mudar. Gradativamente estou compre­
endendo que toda pessoa precisa mudar, se
quiser descobrir a vontade completa de Deus
para sua vida.”
Outro membro disse: “Eu não sabia o que
esperar quando me uni ao grupo. Eu não tinha
problemas palpáveis, mas, nestes seis meses
passados, descobri dúzias deles. Antes, eles
eram uma espécie de borrão espiritual, entor­
pecendo minha capacidade de experimentar to­
das as bênçãos que Deus colocou à nossa dis­
posição. Descobri que tinha medo de Deus e

259
temia o que poderia acontecer se me subme­
tesse à sua vontade. Descobri que odiava meus
pais e que esse ódio inconsciente, que eu não
queria admitir a mim mesmo, havia embaçado
minha capacidade de ser alegre e feliz. Cheguei
à conclusão de que estou cheio de medo. Eu não
podia admitir isto a mim mesmo antes, porque
teria sido uma admissão de fraqueza; mas não
podemos lidar com uma emoção se não quiser­
mos encará-la. Estou aprendendo a encarar
meus medos enterrados.”
Mas, na verdade, que acontece num grupo
de partilhação? Tantas coisas diferentes acon­
tecem, de maneiras tão variadas, que não exis­
te uma reunião “típica” ; mas aqui vai uma ver­
são bem condensada de uma parte de uma
reunião:
O grupo dos doze consistia de quatro
casais, dois solteiros e duas esposas cujos ma­
ridos não eram membros do mesmo. As idades
variavam entre trinta e quarenta e dois anos. A
reunião era feita na sala de visitas da igreja. O
início se dava às 7h 30min da noite, e, ao che­
gar, cada pessoa pegava uma chícara de café na
mesa no canto da sala e tomava seu assento num
pequeno círculo. Conversavam por quinze mi­
nutos, e como era sua primeira sessão e não
sendo todos conhecidos, o ambiente era cons­
trangedor.
As 7h 45min, quando todos estavam presen­
tes, o líder disse: “Aqui estão alguns exempla­
res de livros que vamos ler. Paguem o seu
exemplar no mês que vem a qualquer hora. Al,
aqui, pode receber o dinheiro. Se abrirem na
página quarenta e três, encontrarão uma pas­
sagem imensamente estimulante, que podere­
mos discutir esta noite. Vamos ter um período
de cinco minutos de silêncio, durante o qual

260
poderão ler, meditar ou orar. Leiam esta pas­
sagem, se quiserem, e tentem manter-se aber­
tos e receptivos no período de silêncio, para
que Deus possa falar com vocês.”
Seguiu-se um período de silêncio, durante
o qual alguns leram e outros fecharam os olhos
em oração silenciosa e meditação. O ambiente
era de “permissividade estruturada” e calma.
Então o líder disse: — Na passagem para
a qual chamei sua atenção, o autor sugere que
a razão de muitas das nossas orações não se­
rem respondidas não é porque Deus não quer
responder, mas porque cada um de nós tem
barreiras que limitam nossa fé e capacidade de
receber. Ele sugere também que, em nossa ce­
gueira espiritual, freqüentemente oramos pela
coisa errada, como a remoção de um sintoma,
quando devíamos estar orando pelo problema
real, que geralmente é uma atitude faltosa.
“Por exemplo, ele menciona quatro bar­
reiras básicas: medo, ódio, sentimento de nfe-
rioridade e de culpa. Podereis sublinhar estas,
e podemos falar sobre elas. As únicas regras no
grupo são que seremos pessoais e não abstra­
tos. Digam o que sentirem, não o que pensa­
rem.”
Um dos membros interrompeu: — Que há
de errado em pensar? Caiu da moda?
O líder sorriu: — Não, mas o grupo que se
dedica ao ‘pensar’ teve sua reunião na noite pas­
sada. Este é um grupo que se dedica ao ‘sentir’.
Queremos descobrir nossos sentimentos e ofe­
recê-los a Deus. Por exemplo, estas quatro bar­
reiras ao crescimento espiritual são todas sen­
timentos. Vou partilhar o meu. Olhando para os
quatro sentimentos ou barreiras, descubro que
uma me perturba mais do que as outras. O res­
sentimento é uma barreira que me tem pertur-

261
bado até onde posso lembrar. E eu não sinto
ressentimento pequeno. Eu me ressinto com
toda a minha natureza. Não manifesto isto fre­
q u e n t e m e n t e , porque, se o fizesse, eu não teria
amigo, e, provavelmente, nem familia. Por exem­
plo, freqüentemente fico sentido com meus fi­
lhos. Amo-os e fico sentido com eles. Pelo me­
nos me ressinto com o barulho que fazem, com
suas^ brigas e sua desobediência.
— Você não devia sentir dessa maneira
— disse uma das mulheres. — Afinal, eles sâo
apenas crianças.
O dirigente disse: — No grupo não dizemos
que devíamos sentir. Sentimos o que sentimos.
Não fingimos que nossos sentimentos são bons,
ou certos, ou nobres, ou cristãos. Somente os
admitimos livre e honestamente."
— Bem, eu não me importo muito em fa­
zer investigações desta natureza — disse um
dos homens. — Eu sempre digo “passado é
passado”. Eu jogo fora estes pensamentos in­
dignos e tento pensar coisas boas acerca das
pessoas. Jesus ensinou isso, vocês sabem. Mas
vou contar qual é o meu problema real. Não
é nenhum destes quatro. Estas coisas não me
perturbam, mas uma oração não respondida me
chateia bastante. Eu sofro de artrite e tenho
orado a respeito há anos, e ela sempre vai
piorando. Não sei se talvez esta seja uma das
maneiras que Deus usa para tornar-me humilde.
Ou talvez eu não saiba orar. Gostaria de saber.
O dirigente olhou em volta para o grupo.
Houve um instante de silêncio. Uma das mulhe­
res disse: — Parece que li em algum lugar que
artrite tem algo a ver com nossas emoções.
Um dos homens replica: — Talvez você es­
teja se referindo a um livro escrito pelo Dr.
Loring T. Swain. Acho que se chama Arthritis

262
and Spiritual Laws (A Artrite e as Leis Espiri­
tuais). Minha mãe teve artrite e alguém lhe man­
dou esse livro. Eu o li. O autor é um especialista
em artrite, da Escola de Medicina de Harvard.
Ele afirma que a artrite reumatóide é resultado
de emoções negativas como o ódio, o medo e
o ressentimento.
O membro do grupo com artrite sorriu gen­
tilmente e disse: — Ora, isso pode ser verdade
para algumas pessoas, mas eu não tenho cons­
ciência de jamais haver odiado alguém. Minha
mãe sempre me ensinou que amor e perdão
eram as grande virtudes cristãs. Lembro-me de
que ela dizia que não se pode ser cristão e
odiar ao mesmo tempo. Ela era muito dura
nisto. Lembro-me de ter tido certa vez uma gran­
de briga com meu irmão mais velho e ter gri­
tado: ‘‘Jim, eu te odeio!” Mamãe entrou na sala
justamente a tempo de me ouvir e castigar.
Alguém perguntou: — Como é que ela o
castigou?
O que sofria da artrite deu seu sorriso gen­
til. — Bem, geralmente ela era bem dura nes­
ses assuntos. Ela possuía convicções cristãs
fortes; e, além disso ela tinha razão.
Outro membro do grupo disse: — Eu acho
que você está evitando a questão. Você não
disse como sua mãe o puniu.
— Oh! não disse? Bem, ela me bateu com
um pedaço de pau. Foi uma surra e tanto. Não
tinha pensado nisso há anos. Agora que isso
me veio a memória, lembro-me de que ficaram
uma porção de vergões nas minhas costas, que
ficaram feridas por uma semana ou mais. Mas
mamãe tinha razão, e eu o sabia. Não guardei
ressentimento.
Alguém disse: — Fale-nos acerca de seu
pai.

263
— Bem, ele era uma das pessoas mais
amáveis que já conheci, calmo e gentil. Que eu
saiba, ele nunca disse palavra dura a respeito
de alguém. Ele sofria de artrite também, e esta­
va bem paralítico quando morreu. Morreu de
ataque do coração aos quarenta. Mas, olhem,
estou tomando todo o tempo e não quero mo­
nopolizar a conversa. Deixemos que outra pes­
soa fale também.
O dirigente não tinha falado muito, mas
nesta altura disse: — Na realidade todos nós
estamos participando através de sua partilha-
ção. Talvez outros no grupo possam ordenar
alguns de seus sentimentos enquanto o ouvem.
Conte-nos mais acerca de sua mãe e dos seus
sentimentos para com ela. Talvez quando des­
cobrirmos exatamente como você se sente a res­
peito de seus pais saberemos como você se
sente a respeito de Deus.
O artrítico, um homem suave e modesto,
prosseguiu: — Você perguntou como eu me
sentia acerca de minha mãe. Nunca senti nada
a não ser o amor mais profundo por ela. Quando
criança, tive asma e a devoção dela,por tnim
foi incrível. Acho que realmente pensei, uma ou
duas vezes, que meu irmão mais velho — ele
é um advogado de grande sucesso — fosse o
favorito, mas é claro que todas as crianças
pensam que seus irmãos e irmãs são os favo­
ritos. Mamãe fez sacrifícios para mandar meu
irmão para a escola. Eu entreguei jornais duran­
te esses anos difíceis. Mas conseguimos manter
o Jerry na escola e estou orgulhoso do seu
sucesso como advogado.
Alguém perguntou: — O que você faz, Ted?
— Sou caixeiro numa mercearia e moro
com minha mãe. Nunca me casei por um motivo
ou outro. Mamãe precisa de mim. Ela sofre de

264
pressão alta e é inválida. Mas olhem, já gasta­
mos tempo demais comigo. Não tenho proble­
mas sérios. Só me juntei ao grupo para aprender
algumas técnicas de oração eficaz, e tenho
certeza de que com o tempo obterei algumas
respostas. Falemos de outra pessoa.
Nas reuniões subsequentes, à medida que
Ted se tornava mais e mais honesto para com
suas emoções, ele foi capaz de admitir a si
mesmo, pela primeira vez, que ele realmente
possuía ressentimento profundamente enterrado
contra sua mãe e seu irmão mais velho. Ele
descobriu que podia partilhar estes ressenti­
mentos com o grupo e que eles o aceitaram e
também à sua hostilidade.
Mais tarde, numa reunião, ele disse-lhes:
— O fato de o grupo aceitar-me e a minha carga
de hostilidade enterrada possibilitou-me acei-
tá-la mais completamente. Compreendí que a
gente não pode entregar a Deus o que não
admite a si mesma. Que eu não podia me livrar
de minha artrite enquanto não admitisse meus
verdadeiros sentimentos para com Deus e o
grupo. Pela primeira vez pude aceitar a mim
mesmo. Percebi que em parte era um senti­
mento de dependência que me conservava amar­
rado à minha mãe. Era verdade que ela pre­
cisava de mim, mas a necessidade dela me fi­
zera dependente. Agora estou ficando livre para
ser meu verdadeiro eu.
Na primeira sessão em que a discussão se
desviou de Ted, alguém mais levantou o assunto
dos sentimentos para com os pais. Foi Marjorie,
que disse: — Acho que me uni ao grupo, em
parte, porque eu nunca soube orar eficazmente
e pensei que talvez discutíssemos os princípios
da oração. Este negócio de investigar nossas
emoções me incomoda um pouco. Não vejo

265
a ligação disto com a religião. De fato, acho que
pode ser perigoso ficar mexendo com nossos
sentimentos profundos. Talvez não devéssemos
ser tão egocêntricos. Acho que talvez devíamos
só nos focalizarmos em Deus e aprendermos a
ser cristãos mais dedicados. O passado já pas­
sou, e, quanto a mim, acho que é uma perda
de tempo ficar investigando e se preocupando
com todas estas coisas mórbidas.
O dirigente disse: — Marjorie, você
disse que tem dificuldade em orar, em sentir
que chega até Deus. Você poderia nos dizer
como é que você imagina Deus?
— Bem, para mim, Deus é a maior coisa,
poder ou força que existe. Deus é amor. Mas às
vezes me sinto tão indigna e culpada — até
mesmo com medo — quando oro, que não o
faço com tanta freqüência quanto devia. Sei
que o problema está em mim, porque creio real­
mente que Deus responde às orações. E que
simplesmente não tenho fé.
Um membro do grupo disse: — Li em algum
lugar que por mais elevadas que sejam as idéias
que tenhamos a respeito de Deus, temos a ten­
dência de sentir para com ele como sentimos
para com nossos pais ou outra figura de auto­
ridade qualquer. Marjorie, conte-nos a respeito
do seu pai.
Marjorie disse: — Eu amava meu pai, mas
ele era muito severo. Quando eu era bem pe­
quena tinha medo dele. Quando eu estava com
quatro ou cinco anos tentava subir para o colo
dele mas geralmente ficava com o sentimento
de que ele estava ocupado demais para me dar
atenção. Lembro-me de ter sentado no seu colo
só uma vez. Eu não havia pensado nisto por
muitos anos, mas lembro-me de ter levado a

266
ele alguma coisa que eu tinha feito na escola.
Ele estava lendo o jornal. Eu disse: ‘‘Olhe papai,
o que eu fiz para o senhor na escola hoje. Ele
só deu uma espécie de grunhido, olhou-me por
alguns instantes, e disse: “Sim, é bonito. Agora
vá brincar”, ou coisa parecida. Acho que me
senti rejeitada. Sempre que eu presisava de
alguma coisa, preferia pedir à minha mãe.
Alguém disse: — Suponho que, se quando
criança aprendemos que o pai era ocupado de­
mais para prestar-nos atenção, tendemos a
projetar este mesmo sentimento sobre Deus,
como se ele não pudesse se interessar por
nossos pequenos feitos e problemas.
— O que é que isso tem a ver com o nos­
so caso? — perguntou um dos homens. —
Agora somos adultos e sabemos que Deus
nunca está ocupado demais para não se inte­
ressar em qualquer coisa concernente a seus
filhos. Eu não acho que o que aconteceu quan­
do éramos crianças tenha algo a ver com o
modo de sentirmos ou agirmos hoje. Aprende­
mos a verdade com Cristo, e ele disse: “A ver­
dade vos libertará."
Houve uma pausa e um dos membros per­
guntou:
— John, você sente que suas orações são
eficazes? Deus responde tanto a suas neces­
sidades menores quanto a suas crises?
John respondeu com rodeios:
— Bem, nem sempre, é claro. Não sou o
cristão que devia ser, mas tenho convicção de
que, se eu realmente cresse, Deus respondería
às minhas necessidades legítimas.
— Esse é um conceito intelectual ou um
sentimento profundo? — alguém perguntou.
— Intelectual, suponho — disse John. —
Mas eu não aceito a separação entre o inte-

2 67
lectual e os sentimentos. Os sentimentos po­
dem ser importantes, mas o que aconteceu
quando eu era guri não vai afetar minha vida
hoje. Agora sou adulto e pretendo agir na base
do que sei.
O dirigente disse:
— Os estudiosos da mente humana concor­
dam muito bem que nossas estruturas emocio-
cionais são formadas pelo menos até a idade
de seis anos, provavelmente muito mais cedo.
Alguns acham que os primeiros meses de vida
são tremendamente importantes. Voltemos ao
caso de Marjorie que sabe que Deus responde
às orações, mas sente que ele provavelmente
não está interessado nos pequenos detalhes de
sua vida. Podemos ver alguma ligação entre
este sentimento e os sentimentos dela para com
seu pai?
— Claro — alguém disse — se ela se sen­
tia rejeitada por seu pai quando se dirigia a
ele com uma necessidade infantil, ou mesmo
querendo expressar amor, talvez agora ela sinta
que Deus é uma espécie de deidade que dirige
o universo e está ocupado demais para se in­
teressar pelos detalhes mundanos do viver co­
mum; talvez precisemos educar tanto nossos
sentimentos como o alto de nossas cabeças. Sei,
há anos intelectualmente, que Deus não está
tão ocupado para não se importar comigo, mas,
por alguma razão, não oro enquanto não for
confrontado por uma crise. Não sei se isto acon­
tece porque sou egocêntrico e odeio admitir
que preciso de ajuda, ou se sinto para com
Deus o que sentia em relação a meu pai. Ele
era um empreiteiro muito ocupado, de modo
que ficava muito cansado e sempre ia descansar
quando chegava à casa de noite. Lembro-me de

2 68
mamãe sempre nos ter advertido para que fi­
cássemos quietos porque papai precisava re­
pousar antes do jantar. E depois da janta geral­
mente ele saía para sua sala de trabalho para
verificar sua papelada. Agora que sou adulto,
com minhas responsabilidades familiares, reco­
nheço o que ele fazia — tentava fazer entrar
dinheiro suficiente para alimentar uma família
grande; mas naquela época eu sentia que meu
pai era um ente bem remoto. Talvez sinta da
mesma maneira em relação a Deus — remoto,
e como alguém que não devo perturbar com
meus probleminhas.
— Tudo muito bom e certo — outro inter­
rompeu. — De modo que alguns de nós cresce­
mos com o sentimento de que nossos pais eram
figuras remotas e talvez alguns de nós sentís­
semos hostilidade, que olvidamos, contra as
nossas mães, que não podemos aceitar porque
sentimos então, e ainda sentimos, que, de al­
guma forma, não é certo admitir estes senti­
mentos. E daí? Aqui estou eu com trinta e oito
anos, apenas começando a abandonar alguns
de meus sentimentos imaturos em relação a
Deus. Em que vai me ajudar o conhecimento de
toda essa coisa acerca de minha infância? O
que acontecerá se eu realmente desenterrar to­
das essas coisas proibidas? Como é que isto
me pode ajudar? O que eu acho que todos nós
devíamos fazer é deixarmos de ser crianças e
nos tornarmos cristãos dedicados. O mundo
está numa bagunça; as pessoas odeiam-se mu­
tuamente, as nações estão prontas para a guer­
ra, e aqui estamos nós, sentados, no meio de
um mundo ameaçado pela extinção atômica,
mexendo com nossas emoções, tentando des­
cobrir se de fato odiamos nossos pais. Voltemos
ao presente e sejamos cristãos, para variar, e

2 69
tentemos dar a mão a uma civilização ameaça­
da.
Houve uma pausa, enquanto meditávamos
sobre isto. Então alguém disse:
— Joe, eu concordo com você, em parte.
Acho que devemos ser cristãos dedicados. O
pregador nos desafiou para uma entrega mais
profunda, domingo passado. Você estava lá. Por
que não respondeu ao apelo e não decidiu ser
um cristão mais dedicado?
Joe replicou:
— Por uma coisa. Ele não me disse especifi­
camente onde começar e como consegui-lo. Eu
gostaria de saber.
Uma das mulheres, amiga bem íntima da
esposa de Joe, perguntou:
— Joe, já que você parece querer um pon­
to de partida, e desde que não podemos solu­
cionar os problemas do mundo de um só golpe,
que tal começarmos em nossas próprias casas?
— Que você quer dizer?
— Bem, talvez eu não tenha o direito de
perguntar, mas acho que podemos ser tão fran­
cos quanto quisermos neste grupo, e por isso
pergunto: Como vão as relações familiares entre
você e Francine?
— Oh! tão boas quanto as do restante de
vocês — disse Joe, um pouco defensivamente.
— Todo casal tem suas diferenças. Temos as
nossas. As vezes eu estou errado e outras Fran­
cine está. Quando trabalho demais me torno
um pouco irritável, e, quando ela está nervosa,
tem pouca paciência com as crianças, e então
eu tenho uma explosão, e aí tudo começa.
Francine, que ainda não tinha dito nada,
falou.
— Acho que nossa vida familiar é mais ou
menos normal, com nossos altos e baixos. Mas

2 70
não estou satisfeita com eia. Eu estava pensan­
do, enquanto o ministro falava de uma entrega
mais profunda no domingo passado, que não
quero solucionar o problema racial ou me meter
em discussões sobre a paz mundial e tudo o
mais, quando estou tão cheia de ressentimento
em casa. Nem mesmo sei quem sou. Como é
que posso consagrar um “eu” que não com­
preendo? Como é que eu poderia ajudar a re­
solver os males do mundo, quando não posso
solucionar os meus próprios problemas? Acho
que essa conversa sobre dedicação “ lá fora” é
para os pássaros. Quero trabalhar na minha na­
tureza interior, na parte de mim que está “aqui
dentro”, e quando eu conseguir resolver alguns
dos meus problemas pessoais e domésticos po­
derei estar em condições de ajudar a resol­
ver os problemas dos outros.
“Neste instante eu gostaria de saber por
que é que Joe e eu brigamos por qualquer coi-
zinha, por que fico tão transtornada com as
crianças, por que estou cheia de ansiedade por
nada em particular, porque sou tão sensível e
porque digo coisas, para me arrepender depois,
e por que sou orgulhosa demais para pedir per­
dão. Para dizer a verdade, duvido que alguém
neste grupo, e porque não dizer em nossas
igrejas, tenha suas vidas suficientemente em or­
dem para que possa fazer algo de bom para
concertar os problemas do mundo.
Francine era geralmente uma pessoa bem
calma, mas estava realmente com as cordas sol­
tas e expressou seus sentimentos. Seu marido
disse:
— Francine, eu não sabia que você se
sente assim.
Ela disse:

271
— Claro que não. Nunca conversamos em
casa, pelo menos não sobre nada importante.
Nós não nos comunicamos de verdade. Falamos
de como os meninos estão fora de controle, ou
sobre o déficit no banco, ou gritamos um com
o outro. Isso não é comunicação. Se tentamos
de verdade nos comunicar um pouco sobre qual­
quer coisa de interesse, as crianças lá estão,
sempre exigindo atenção, e nunca chegamos a
nada realmente importante.
O dirigente disse:
— Este é um dos propósitos do grupo,
prover um lugar onde possamos realmente nos
comunicar uns com os outros. Aqui podemos
dizer qualquer coisa que quisermos. Podemos
ser nosso eu verdadeiro, ainda que esse não
seja sempre o eu bonito que mostramos para o
mundo geral. E o surpreendente é que sempre
sentimos mais aceitação e amor quando expres­
samos nossos sentimentos honestos. As pes­
soas não podem amar uma máscara ou comu­
nicar-se com uma máscara; e a maioria de nós
a usa a maior parte do tempo.
Joe disse:
— Olhem, eu não me juntei a um grupo
para lavar minha roupa suja em público. Se eu
tiver pecados, confessá-los-ei a Deus, não a
este ou a outro grupo qualquer. Jesus disse que
quando orássemos devíamos entrar em nosso
aposento e fechar a porta, e orarmos a nosso
Pai que está em secreto. Eu não sou a favor de
nenhuma confissão pública deste tipo.
Ele estava se sentindo um pouco ameaça­
do, aparentemente por Francine ter exposto
seus desajustes perante o grupo. Francine dis­
se:
— Joe, eu acho que as duas únicas pas­
sagens bíblicas que você conhece são sobre a

272
oração em secreto e a sobre não deixar sua mão
esquerda saber o que faz a direita. Há uma outra
passagem em algum lugar não me recordo exa­
tamente onde, que diz: “Confessai vossas
culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros,
para que sejais curados.” Eu não acho que isto
quer dizer que temos que desembuchar todos
os nossos pecados em algum grupo, mas deve
significar que os sentimentos de culpa que ti­
vermos a respeito de nós mesmos podem ser
— e devem ser — partilhados com os outros.
Talvez quando os trouxermos para fora e
descobrirmos que ninguém nos rejeita, possa­
mos começar a gostar mais de nós mes­
mos; e, se o grupo nos aceitar, talvez possa­
mos incutir em nossas mentes ou em nossos
sentimentos que Deus nos aceita, com pecado
e tudo. Acho que já falei demais, e, Joe, talvez
você esteja com raiva de mim por ter falado das
nossas brigas em casa, mas por um motivo
qualquer eu quero ser mais honesta aqui do
que sou em casa. Se eu disser o que penso
em casa você fica com raiva e sai e quando
você é realmente sincero para comigo eu pror-
rompo em lágrimas, e você se irrita quando
choro. Neste instante sinto que comuniquei
mais nestes poucos minutos do que o fiz em
casa durante os dez anos que estamos casados.
E me sinto bem com isto!
Uma das mulheres disse: — Francine, eu
a conheço há anos. Você sempre tem dito a
coisa na hora certa, e sempre apresentou um eu
doce e reservado. Nunca pude conhecê-la de
verdade, embora o quisesse. Agora que você se
desabafou, sinto-me como se a conhecesse re­
almente. Você tem sentimentos, afinal de con­
tas, e eu gosto maiji de seus verdadeiros senti-

273
mentos do que da máscara bonita e decente
que você sempre tem usado.
Francine sorriu, em agradecimento, e disse:
— Acho que me sinto uma pessoa mais real
agora que encontrei um lugar onde posso desa­
bafar-me e ser eu mesma sem aquele medo hor­
rível de rejeição que sempre tive, o medo de
que, se eu deixasse que as pessoas vissem a
bagunça que na realidade sou por dentro, elas
me rejeitassem.
Bert tomou a palavra. — Fico contente em
ouvir alguém mais falar sobre este assunto de
comunicação. Sinto-me um pouco melhor tam­
bém, sabendo que há outros lares onde há hos­
tilidade e falta de comunicação verdadeira. Eu
não tinha a intenção de botar isto para fora,
mas já que as regras o permitem, devo admitir
que Helen e eu temos as nossas brigas também.
Coisas realmente espantosas. Mais ou menos
uma vez por semana as coisas vão ao ponto
de crise e o teto desaba. Nunca sei o que vai
acender o estopim, mas, certo ou errado, fico
imaginando que ela me provoca e provoca, até
eu soltar palavrões, então ela prorrompe em lá­
grimas, e então fazemos as paze3 e as coisas
ficam bem de novo, por mais uma semana,
talvez.
Helen manifestou-se. — Acabo de ter uma
iluminação surpreendente. Nunca a tive antes.
Bert disse que eu o provoco até ele explodir.
Acabo de me lembrar de que mamãe fazia isso
com meu pai também. Meu pai era o tipo da
pessoa descansada, como Bert. Mamãe tinha
que tomar a maioria das decisões, e eu acho
que ela queria que papai fosse um pouco mais
ativo nos problemas da família. Suponho que a
chateação dela, por assim dizer, era um esforço
inconsciente para fazê-lo assumir um papel mais

274
masculino. Era necessário muita chateação para
papai explodir, mas quando ele o fazia era hor­
rível. Acabo de me conscientizar de que mamãe
chorava quando ele explodia, mas ela sempre
parecia sentir-se melhor depois. Eu achava que
era o bom choro que a ajudava. Suponho que
ela se sentia melhor simplesmente porque pa­
pai lhe dizia algumas verdades. Ora bolas! ê
isso o que tenho feito durante toda a minha vida
de casada?”
Bert sorriu: — Olhe aqui, nenen, se é disto
que você precisa, você vai ter o suficiente.
A seguir, de um modo mais sério: — Re­
conheço que sou um pouco passivo e detesto
isto de certa forma, mas é o único modo de ser
que conheço. Gostaria de ser mais dominador.
Acho que parte da dominância de Helen vem
de sua mãe e talvez a outra parte seja só inse­
gurança ou ansiedade. Talvez esteja só me agu­
çando para assumir um papel mais masculino
ou autoritário. Acho que a maioria das mulhe»
res dominadoras não sabe o que quer. Querem
dirigir as coisas e ser o chefe porque são hu­
manas, mas, sendo femininas, querem que al­
guém mais fique com o papel dominador. Elas
simplesmente não podem decidir o que querem
mais. Acho que querem fazer o bolo e ao mesmo
tempo comê-lo. Helen casou-se comigo, aoho
que porque é dominadora como sua mãe e eu
sou passivo e descansado como o pai dela.
Ela quer ser mandona como sua mãe, mas a
parte feminina dela quer que eu seja o mais
forte. Pessoalmente sinto muita hostilidade para
com essa coisa toda — o papel de maior domí­
nio que as mulheres estão assumindo quando
desejam que se seja mais agressivo e domina­
dor. Acho que as mulheres deviam decidir o que
querem.

2 75
Uma das mulheres perguntou: — Bert, você
é hostil para com as mulheres em geral por
este motivo, ou você está, na verdade, é com
raiva de você mesmo por ser tão passivo?
Bert pareceu espantado. A gente quase po­
dia ver as reviravoltas que se davam no seu in­
terior. Finalmente ele disse: — Bem, odeio ad­
miti-lo, mas acabo de ver que minha resposta é
"sim” para ambas as suas perguntas. Acho que
sentia, e ainda sinto muita hostilidade para com
a dominância calma de mamãe, e que por essa
razão sinto ressentimento contra todas as mu­
lheres dominadoras; mais profundo do que isso,
sinto raiva pelo fato de não poder ser mais se­
guro de mim mesmo. Acho que sou amável,
descansado e facilmente levado pelos outros.
Eu realmente gostaria de ser um homem forte,
confiante, mas não é assim que sou, pelo me­
nos não no presente.
O dirigente perguntou: — Bert, você acha
que se Helen deixar, pouco a pouco, o seu pa­
pel dominador, você poderá, gradativamente,
assumir o papel que procura para si mesmo?
— Está aí — disse Bert. — Acho que tal­
vez isso possa acontecer, especialmente se pu­
dermos vir aqui uma vez por semana e discutir
as coisas. Deus sabe que não podemos ou não
faremos isto em casa.
Já para o fim da reunião, que havia durado
perto de duas horas, alguém disse: — Demos
início falando sobre nossos problemas pessoais
e familiares. Estou começando a ver, ou me­
lhor, a sentir alguma coisa que mal consigo co­
locar em palavras. Talvez seja algo assim: que
a oração não é só um punhado de palavras e
pedidos, mas uma atitude mental, mais senti­
mentos profundos acerca de Deus e dos outros
e de nós mesmos.

276
— Talvez — disse, como se estivesse pen­
sando alto sobre seus sentimentos — seja como
Jesus afirmou, que devemos aprender a amar,
aprender a amá-lo e aos outros, e, no processo,
aprender a amar a nós mesmo adequadamente.
Eu senti algo durante esta reunião. Senti para
com cada um do grupo um misto de sentimentos
— compaixão e interesse, e acho que um co­
meço de amor genuíno para com cada um de
vocês. Eu conhecia bem alguns de vocês, mas
nestas duas horas conheço-os muito melhor do
que jamais julguei possível. Ao conhecê-los
num nível mais profundo, cheguei a amá-los.
Talvez aconteça que, quando desenvolvermos
a capacidade de amar as pessoas desinteres­
sadamente, possamos então amar a Deus tam­
bém num nível mais profundo. E talvez, perce­
bendo que os outros podem conhecer tudo a
nosso respeito, ou, pelo menos, um pouco mais
acerca de nós, e ainda nos amar, isto nos capa­
cite a amarmos a nós mesmos.
É certo que preciso de amor-próprio. Te­
nho sentido rejeição até onde posso me lem­
brar. Sempre me senti inferior e inadequada e
tinha quase certeza de que ninguém jamais
poderia me amar se realmente me conhecesse
por dentro. Mas sinto que este grupo pode amar-
-me mesmo quando souber tudo a meu respei­
to. Talvez os cristãos primitivos tivessem gru­
pos como e s t e . .. Eu não pretendia dizer tudo
isto, simplesmente s a i u . ..
O dirigente tomou a palavra: — Que belo
resumo do que esperamos conseguir neste gru­
po! Indo um pouco mais adiante, talvez todos
sintamos que temos menos vontade de orar
quando estamos carregados de sentimento de
culpa e de inferioridade. À medida que apren­
dermos a aceitar nossas emoções e pudermos

277
admitir a nossa aceitação por parte de Deus,
teremos mais vontade de orar porque sentire­
mos, num nível mais profundo, que ele nos ama
de verdade.
Agora vamos terminar com oração silencio­
sa, agradecendo a Deus por seu amor e ofere­
cendo-lhe, em entrega completa qualquer coisa
que descobrimos acerca de nós mesmos ou uns
nos outros aqui, hoje à noite.
Depois do período de oração silenciosa,
cada um pegou uma folha de papel e, sob a
orientação do líder, escreveu os nomes de to­
dos os membros do grupo. Oposto aos nomes
escreveram algum pedido de oração. Durante
a semana deviam dedicar algum tempo — trin­
ta minutos diários, se possível — a um período
de meditação, leitura e oração. Durante esse
período deveríam orar a favor de cada membro
do grupo, citando seu nome e lembrando-se do
seu pedido de oração.
O dirigente explicou que não era o pedido
verbal que constituiría a oração verdadeira, mas
o ato de levar a pessoa em atenção amorosa
perante Deus, pedindo a vontade perfeita de
Deus para essa pessoa e lembrando-se da ne­
cessidade expressa de cada membro do grupo.
Ao se separarem, às 10 horas da noite, era
como se eles tivessem sido amigos íntimos por
muitos anos. Havia um certo calor na sua des­
pedida, como raramente se vê num grupo nor­
mal de igreja. Eles começaram a conhecer uns
aos outros num nível profundo e haviam come­
çado a perceber um pouco do poder inerente
ao amor. Haviam experimentado, numa reunião,
que é possível partilhar num nível mais profun­
do, como jamais haviam imaginado, e serem
aceitos, amados e compreendidos.

278


Isto é o que basicamente cada um de nós
deseja bem no fundo: conhecer e ser conheci­
do, amar e ser amado. O grupo havia começado
sua procura de amor, compreensão e sentido
da vida.

279
13

A CURA NOS GRUPOS

O grande erro de nossos dias quanto ao


tratamento do corpo humano é que os
médicos separam o corpo da alma.

— Platão

Há um notável ressurgimento de interesse


pela cura espiritual hoje em dia. O interesse por
oste assunto havia diminuído consideravelmente
através dos anos, devido, em parte, às ativi­
dades dos charlatões e também ao fato de cer­
tos grupos religiosos o terem levado ao des­
crédito por causa de assertivas extravagantes e
usurpadoras. Mas hoje cultos de cura estão
sendo feitos nas igrejas de muitas denomina­
ções.
Deus não está limitado a um determinado
método de cura. Ele cura um dedo cortado atra­
vés de um conjunto de processos incrivelmente
Intricados e tão complexos, que, se ocorresse
só uma vez, nós o chamaríamos de milagre. O
fato de isto acontecer todos os dias tende a
tirar sua maravilha e mistério. Deus cura através
da habilidade médica competente, através de
descanso e dieta adequados, através de opera­
ções, e de muitas outras maneiras. Alexis Carrel,

281
ganhador do Prêmio Nobel, relata ter observa­
do, na cidade de Lourdes, a cura quase instan­
tânea de uma paciente cujas numerosas doen­
ças haviam sido diagnosticadas como incuráveis
por vários médicos competentes. A conclusão
dele foi que os processos normais de cura sim­
plesmente haviam sido apressados por forças
espirituais não entendidas hoje.
Jesus curava as pessoas instantaneamen­
te, e nós chamamos essas curas de milagres;
mas muita gente acredita que esses aconteci­
mentos não estavam fora da “lei natural"; que
Jesus era capaz de curar porque vivia num pla­
no espiritual onde energias de poderes tremen­
dos estavam à sua disposição; que “ele não vio­
lava a lei natural, mas, antes, invocava leis mais
altas, que não estão disponíveis aos, homens,
cujas forças espirituais são dissipadas por con­
flitos interiores. Visto assim, seus atos de cura
instantânea não seriam “milagres” no sentido
comum da palavra. O importante é que as mes­
mas forças usadas por Jesus para curar os doen­
tes estão disponíveis a nós. Isto é expresso clara­
mente no seu mandamento: “Curai os enfermos
e limpai os leprosos.” O apóstolo Paulo, escre­
vendo aos cristãos em Éfeso, disse: “ . . . quão
tremendo é o poder que temos disponível, des­
de que acreditemos em Deus. Esse poder é a
mesma energia divina, que se demonstrou em
Cristo, quando Deus o ressuscitou dos mor­
tos..."!
Em certa ocasião Jesus repreendeu seus
discípulos por falta de fé para efetuar uma
cura.2 Há ampla evidência bíblica que garante
nossa esperança de cura física através do exer­
cício do poder espiritual. Requer-se, entretanto,
que preenchamos certas condições.

2 82
A linha divisória entre doença emocional­
mente induzida e doença orgânica é quase im­
possível de ser percebida, porque o conflito
emocional pode, com o tempo, produzir doença
orgânica. Os homens da medicina concordam
em geral que corpo, mente e espírito são uma
unidade. O que afetar uma parte de nossa na­
tureza terá a tendência de afetar a pessoa in­
teira.
Em um grupo do qual eu era líder, teste­
munhei a cura completa de um caso que havia
sido diagnosticado por muitos médicos como
neurodermite crônica. A mulher tinha sofrido
disto por nove anos e havia sido hospitalizada
várias vezes. No grupo, ela nunca orou, pedin­
do cura física, mas à medida que crescia em
amor e autoconscientização e colocava suas
emoções sob o controle do poder curador de
Cristo ela foi curada.
No mesmo grupo, uma alcoólatra, parcial­
mente escrava do álcool, foi “curada” no senti'
do de encontrar um novo relacionamento com
Deus, com os outros do grupo e adquirir um
senso novo e maravilhoso de auto-aceitação e
perdão. Outro membro do grupo, um perito no
seu campo de trabalho, havia mais de ano sem
emprego, estava completamente incapaz de
ugir normalmente. Passava muito tempo em casa
chorando. O pensamento de sair e procurar
emprego era suficiente para produzir dor de
caDoça de rachar e outros sintomas físicos.
Depois tioi mais ou menos um ano de sua en­
trada para o grupo, ele sentou-se para fazer
um esboço do emprego ideal, em termos de
condições de trabalho, situação geográfica, sa­
lário e outros fatores. Um dia, pouco depois
disto, ele se apresentou, mais ou menos por
acaso, a uma firma que ficava bem perto de sua

283
casa. Foi empregado numa base temporária, e,
alguns meses mais tarde, foi contratado perma­
nentemente. Praticamente todos os sintomas fí­
sicos e emocionais que o haviam imobilizado
tinham desaparecido.
Sua esposa, que havia se juntado ao grupo
somente para encorajar o marido, disse, mais
tarde: “Descobri que os meus problemas eram
tão grandes quanto os dele. Meu crescimento
espiritual e emocional tem sido fenomenal.
Nosso relacionamento familiar melhorou de ma­
neira espantosa.”
Outro membro sofria de “medo de falar",
como ele dizia. Uma desconfiança muito grande
das pessoas, originada na infância, o havia
tornado extremamente tímido, e limitado sua
eficiência. Mais tarde ele escreveu: “Meu medo
de falar era vitalício. Quando o motivo dele sur­
giu nas discussões do grupo e, ao partilhar
meus sentimentos, senti a mudança. Às vezes
eu ainda gaguejo um pouco quando tento falar,
mas o velho medo nunca mais será o mesmo.
Minha fé foi fortalecida e vim a experimentar
boa vontade e compreensão simpatizante para
com os membros do grupo, e por todas as ou­
tras pessoas, que fico conhecendo.”
Anabela tinha sido uma criança muito de­
pendente. Ela estava com mais ou menos de­
zoito anos quando seu pai morreu. Logo depois
disto ela começou a mostrar sinais sérios de
doença emocional. Ela foi levada, por um curto
período, a uma instituição mental, mas nada de
específico lhe fizeram. Ela teve alta sob fortes
sedativos e mais tarde foi a um psiquiatra algu­
mas vezes. Ela continuou entorpecida, incomu­
nicável e incapaz de prosseguir com os estudos.
Ocasionalmente, sofria de alucinações. Num in­

284
tervalo bem lúcido ela tentou voltar à faculdade,
mas não conseguiu acompanhar a turma.
Anabela e sua mãe participaram de um
grupo dirigido por um leigo numa igreja local.
Lá ela começou a experimentar algo que nunca
havia encontrado antes — franqueza completa
e amor incondicional. Ela descobriu que qual­
quer coisa que revelasse ficaria guardada em
completa confiança; e, longe de rejeitá-la, os
membros do grupo expressaram grande amor
para com ela. Ela podia sentir esse amor! Em
certo sentido, o grupo se tornou sua família,
provendo a aceitação sem crítica de que ela
eompre necessitara, e ela começou a retribuir.
Invisivelmente e gradativamente, a mãe co­
meçou a experimentar, como a filha, um pouco
do mesmo crescimento. Ela se conscientizou
de algumas maneiras pelas quais havia feito
Anabela dependente demais. Compreendeu,
também que estava simplesmente repetindo o
gue sua própria mãe lhe tinha feito.
Enquanto mãe e filha cresciam para uma
Inteireza mental e espiritual, uma nova qualidade
adentrava suas relações. Anabela viu sua mãe
sob nova luz ao ouvi-la confessar que cristia­
nismo não é um credo, no qual se deve ter fé,
nem um conjunto de regras morais para serem
obedecidas, mas uma qualidade de vida que
deve ser recebida de Cristo, que é a fonte de
toda a saúde mental e espiritual.
Finalmente Anabela partilhou seu medo de
mpazes e seus fracassos na escola e percebeu
a aceitação e o amor completo e incondicional
do grupo — que era sua família, a família de
Deus. Ela continuou a visitar o psiquiatra de vez
um quando, mas tanto ela quanto sua mãe con­
cordaram que sua cura veio principalmente
pela perspicácia, amor e segurança providen-

285
ciados pelo grupo. Subseqüentemente, ela re­
tornou à escola, formou-se e conseguiu uma po­
sição, onde seu trabalho tem provado ser bem
satisfatório. Um pouco mais tarde ela se apai­
xonou por um excelente rapaz, com quem se
casou.
O crescimento da mãe foi paralelo ao da
filha. Ela começou a descobrir, enquanto explo­
rava seus sentimentos, que dependia emocional­
mente de sua própria mãe, uma senhora de no­
venta anos de idade, que dominava todos os
aspectos da vida da filha. Com o tempo ela
conseguiu resistir a essa dependência.
“Afinal”, ela disse, “simplesmente ganhei
coragem para parar de ter medo e de obedecer
à minha mãe. Gentil, mas firmemente, colo-
quei-a em seu lugar, e, para surpresa minha,
o teto não desabou.” Logo depois disto ela de­
cidiu fazer regime, porque estava com um peso
além do normal e poucos meses depois ela
perdeu vinte quilos. Livre, finalmente, da domi­
nação da mãe, não dependendo emocionalmen­
te mais dela, não teve dificuldade em perder
peso. Ela disse: “Sinto-me como se fosse uma
pessoa inteiramente nova, por fora e por dentro.
E Anabela é uma pessoa nova também.”
É um fato doloroso, mas inevitável, que
muitas das nossas dificuldades físicas e emo­
cionais são auto-impostas.
No livro Faith for Personal Crisis (Fé para
Crises Pessoais), Carl Michalson escreve: “Se­
g u n d o ... Freud muito de nosso sofrimento ó
auto-infligido.”
Esta é a nossa maneira de fugir ao fardo da
vida. Quando crianças, se as coisas ficavam difíceis,
podíamos correr para o lado de mamãe. Como ho­
mens, temos os mesmos desejos de correr, mas os
exprimimos de formas socialmente aceitáveis, como

286
doenças. Uma alergia paralisadora é mais fácil de
explicar a seus amigos do que um fracasso nos
negócios... A gente aprende a trocar as dores maio­
res pelas menores.. . 3
A mente e o espírito entregam sua dor ao
corpo. Mesmo quando estamos inconscientes
de qualquer aflição emocional, alguma incapa­
cidade física freqüentemente apontará que ela
existe. Um homem de cinqüenta e um anos, al­
tamente eficiente, escreveu o seguinte:
“O incidente mais inesperado foi causado
pela folha de avaliação que recebi referente à
saúde. Antes de me casar, negaram-me seguro
de vida por causa de pressão alta e funciona­
mento anormal do coração. Em anos mais re­
centes, tenho podido passar nos exames para
seguro de vida, mas tenho sido perturbado por
palpitação e fadiga extrema, que duram muito
ou pouco tempo quando faço exercício. Além
disso, eu estava sujeito a freqüentes e prolon­
gadas hemorragias pelo nariz. Minha folha so­
bre meu cuidado excessivo com a saúde foi uma
pílula amarga para engolir, porque eu sempre
ridicularizei as pessoas que pareciam ter mui­
tas doenças psicossomáticas.. .
“Ao encarar isto brava e penosamente, todos
os sintomas desapareceram de repente — Ins­
tantaneamente. Acabou a palpitação do cora­
ção, desapareceram as hemorragias e, mesmo
com o trabalho de longas horas, estou conven­
cido de que meu coração funciona tão bem
quanto os dos outros da minha idade. A Bíblia
e a Igreja tomaram novas feições para mim.
Agora os contatos casuais com as pessoas que
não vão além da conversa sobre o tempo, es­
porte e programas de TV são menos maçan-
tea. . . As pessoas tornaram-se tão mais inte­
ressantes!''

287
Como muitas autoridades no campo da me­
dicina psicossomática têm apontado, o apare­
cimento de algumas doenças freqüentemente
anda de mãos dadas com a redução da ansie­
dade. A mente simplesmente entregou sua an­
siedade ao corpo. A ansiedade agora está tem­
porariamente aliviada, pois está sendo supor­
tada pelo corpo sob a forma de um sintoma.
Quando e se o sintoma físico desaparecer, a
ansiedade acha um jeito de reaparecer, a me­
nos que a pessoa tenha lidado com a fonte da
mesma. Nada disto é consciente, é claro. Tudo
se passa na mente inconsciente e o fato de o
sofredor ficar indignado se alguém sugerir que
ele desenvolveu um sintoma físico como uma
fuga ao conflito mental ou emocional, é compre­
ensível.
Isto não quer dizer que toda dor e sofri­
mento são auto-infligidos. Muito do nosso so­
frimento vem-nos dos males comuns da socie­
dade, como no caso das doenças contagiosas.
O apóstolo Paulo fala da sua adversidade
inexplicável, o “espinho na carne”, pelo qual
ele havia orado três vezes para que fosse remo­
vido. Ele diz: “Foi-me dado um espinho na
carne, a saber, um mensageiro de Satanás para
me esbofetear.” Ele percebeu que seu proble­
ma não fora mandado por Deus, mas por Sa­
tanás. Jesus fala de uma mulher “que Satanás
tinha presa” pela doença. “O saber que Deus
não quer nosso sofrimento diminui a agonia da
era presente.. . ”, segundo apontou Carl Michal-
son. “Nossa aflição não durará para sempre
e a gente pode agüentar quase tudo, se souber
que não vai durar para sempre.” 4
Apesar de saber que nem todo sofrimento
se origina de nossas emoções, faz bem pergun­
tarmos a nós mesmos: “Sou eu um ‘coletor de

2 88
Injustiça’? Há alguma atitude de minha parte,
totalmente inconsciente, que me predispõe à
adversidade? É esta dor mental ou física que
suporto resultado de alguma necessidade inte­
rior de punir a mim mesmo por culpa ou confli­
to não solucionados?”
Em um grupo dirigido por um leigo, os
membros decidiram fazer um inventário do
•eu crescimento espiritual. Um membro do gru­
po, que havia participado da Segunda Guerra
Mundial, tinha toda sorte de sintomas físicos.
No livro que estava sendo estudado junto com
ns folhas de avaliação semanais, ele encontrou
a nssertiva de que muitos sintomas físicos se
originam de sentimentos de culpa não resolvi­
dos. Em uma reunião, ele sentiu-se compelido a
partilhar com os outros membros uma sua expe­
riência de vinte anos atrás. Ele tinha sido res­
ponsável por uma decisão que resultou em um
acidente de avião. Os corpos das vítimas foram
espalhados pelos lados de um morro. Agora
ele tornou-se cônscio do seu sentimento de cul­
pa, quase totalmente reprimido, que o havia
assombrado desde então. O sentimento de cul­
pa por sua decisão nunca tinha sido totalmente
resolvido, e a dor interior que ele sentia havia
sido passada para o corpo em forma de várias
doenças.
A folha de avaliação que ele recebeu per­
mitiu a libertação da memória parcialmente en­
terrada, e ele procurou a cura espiritual que
vem da compartilhação com um grupo compre­
ensivo. Que alívio ele sentiu ao descobrir a sua
aceitação dentro do grupo! Várias coisas inte­
ressantes se seguiram. O grupo “se abriu” como
resultado da partilhação dele, e coisas dinâmi­
cas começaram a acontecer. Ele não sentia mais
necessidade de punir a si mesmo por sua culpa

289
longamente suportada. Ele estava livre para dis­
por dos seus sintomas físicos; porque a dor do
sentimento de culpa interior e da auto-acusação
não estava mais lá. Ele se tornou em homem
liberto e sentiu-se “bem” pela primeira vez em
vinte anos.
Creio que seja uma inferência válida que
Jesus não curava os corpos dos homens sem
fazer-lhes alguma coisa de grande importância
espiritual. Jesus não estava tão somente deter­
minado a curar os corpos das pessoas, mas Sua
inteireza dinâmica, suportada pela compaixão
amorosa, fluía para a vida daqueles que ele
encontrava. Se a necessidade era física, ele a
satisfazia, se era uma outra necessidade, elo
a satisfazia também; mas em cada caso parece
que Jesus lidava com a pessoa inteira e não
simplesmente com a doença física do indivíduo.
Marcos registra o caso de um pai cujo
filho Jesus curou. O pai disse; “Se podes fazer
alguma coisa, tem piedade de nós e ajuda-nos!”
Jesus disse: “Se podes! — tudo é possível ao
que crê." O pai, então, exclamou: “Creio! Ajuda
a minha incredulidade.” 5 A meu ver, o pai não
cria só no fato de que Jesus tinha poder de
curar; ele cria em uma Pessoa. Algo significa­
tivo deve ter acontecido quando o pai desespe­
rado olhou para o rosto do Filho de Deus.
Na presença de Jesus, as pessoas ou se
recolhiam na culpa não arrependida e na incre­
dulidade, ou se ajoelhavam em submissão a
Alguém que sentiam que era mais que um ho­
mem. Algo de natureza transformadora ocorria
nas mentes e corações daqueles que Jesus
curava.
-Quando voltou para sua cidade natal, Na­
zaré, “ Ele não pôde fazer milagres l á . . . por
causa da incredulidade deles.” Marcos registra

290
que ele colocou as mãos sobre alguns e curou,
mas seu poder estava grandemente limitado pela
recusa deles em crer nele. 6 Pelo fato de ele
nflo poder alcançá-los espiritualmente, não os
podia curar fisicamente.
Praticamente todas as referências de cura
parecem ser acompanhadas por uma nova cons­
cientização espiritual. O homem é uma uni­
dade. Não podemos separar a mente, o corpo
e o espírito, porque são um. O British Medicai
Journal (Jornal Médico Britânico) uma vez disse
que “nenhum tecido do corpo humano está to-
tulmente imune à influência do espírito”. Mui­
tas pessoas acreditam, erroneamente, que só
há dois tipos principais de doenças: doença
orgânica e doença psicossomática. Trabalham
na suposição de que a doença orgânica é
"real” e que a doença psicossomática é larga-
rnente imaginária.
Pelo contrário, sabe-se hoje que as doen­
ças psicossomáticas podem se tornar orgâni­
cas. Não há dúvida da parte das autoridades
no campo da medicina psicossomática que as
omoções, tais como o medo, o ódio, o ciúme
e a ansiedade, produzem pressão sobre o cor­
po. Esta pressão cria um desequilíbrio quími­
co, resultando em mau funcionamento das glân­
dulas e outros órgãos. O corpo, então, torna-se
Incapaz de prover resistência aos germes, que,
doutra forma, seriam controlados. Quando Je-
aus mandou amar, em vez de odiar, e nos ins­
tou a evitar a ansiedade, ele não estava preo­
cupado com algum decreto arbitrário de Deus
referente a estas emoções. É simplesmente que
« mente, o espírito e o corpo do homem funcio­
nam muito mais eficazmente numa atmosfera
de amor e boa vontade.

291
Desde que a mente tende a ceder sua
dor, sentimento de culpa e tormento para o
corpo por um processo inconsciente, achamos
mais fácil suportar a doença física do que a an­
gústia mental. Principalmente porque recebemos
atenção carinhosa, que é uma forma de amor,
quando estamos fisicamente doentes; mas a
pessoa que sofre de angústia ou depressão men­
tal geralmente recebe conselhos para “reagir”
ou “não se entregar".
Temos registrado inúmeros casos de cura
física e emocional efetuada nos grupos. A cura
se deu quando as pessoas doentes lidaram com
causas subjacentes: sentimento de culpa, medo,
hostilidade e sentimento de inferioridade, que
resulta em auto-rejeição, ciúme, inveja ou o
que quer que seja. Estas e outras emoções ne­
gativas parecem se registrar na mente incons­
ciente (a natureza espiritual) como sentimento
de culpa ou de indignidade, que, na verdade,
são a mesma coisa. A culpa exige castigo ou
perdão. Não é Deus que o exige, mas um meca­
nismo interior. Enquanto não resolvermos a
questão de nossa culpa através da segurança
do perdão divino, ela persistirá como uma es­
pécie de companhia admoestadora. Se demorar­
mos a nos apossarmos do perdão e de uma
mudança de atitude, a culpa tirará sua parcela
na forma de autopunição.
Os sentimentos de culpa, assim como a
dor, têm por fim o aviso. O interior fica gri­
tando: “Você é culpado.” Quando crianças, se
tínhamos culpa por fazer coisas erradas, gerai-
mente éramos punidos, e por isso esperávamos
o castigo. A punição pode ter sido física ou sim­
plesmente o afastamento do amor paterno. A
mente inconsciente fez um relacionamento en­
tre os dois: “a malfeitos seguem-se castigos".

292
Um reflexo condicionado foi estabelecido, e no
adulto “a criança interior do passado” ainda
opera na velha base: culpa exige castigo. Po­
demos ser capazes de citar capítulo e versí­
culo sobre o perdão de Deus, mas, se num nível
profundo, equacionamos os erros com o castigo,
procuramos automática e inconscientemente
uma forma de autopunição para nossa culpa
real ou imaginária.
Hegel disse: “A alma pecadora tem direito
á sua punição.” As descobertas da psicologia
moderna confirmam a existência de um meca­
nismo judicial interior, que exige que assegure­
mos perdão ou suportemos o sofrimento como
punição.
Como dissemos antes, esta autopunição
pode tomar a forma de tendências a dificulda­
des, acidentes, doenças ou pode tomar uma
forma qualquer, porque o “eu” interior é, na
maioria das vezes, punitivo e acusador além
do que se pode acreditar. Freud afirma que al­
guns dos seus pacie;ites pareciam recorrer ao
erro deliberadamente porque o castigo viria
com certeza. O castigo diminui o sentimento de
culpa, que tem sua origem em outra parte, ge­
ralmente no inconsciente.
A pessoa que sofre dor ou desconforto
possivelmente dirá: “É muito fácil para você
dizer que isto se origina de muitas emoções,
mas sinto uma dor específica e quase insupor­
tável. Não me diga que são minhas emoções.
ê dor de verdade!” Claro que é. Uma senhora,
que veio para aconselhamento, disse-me que
tinha hora marcada com um cirurgião por causa
de dor intensa. Seu médico havia sugerido a
possibilidade de uma operação. Tempos atrás
ela havia obtido algum alívio ao compartilhar
comigo certos acontecimentos traumáticos de

293
sua vida quando mais jovem, mas eu tinha a
certeza de que ela ainda não se sentia per­
doada em um nível profundo. Sua necessidade
de perdão, assegurei-lhe, provavelmente não
era maior que a minha, mas por alguma razão
não havia sido capaz de obter um sentimento
de perdão suficiente para que pudesse perdoar
a si mesma. Eu estava bem seguro de que ha­
via uma correlação entre sua dor cruciante e
seu mal-estar espiritual. Isto se tornava eviden­
te mais por suas maneiras do que por qualquer
coisa que me havia contado.
Eu disse a ela: “Não sei nada acerca de
sua dificuldade física, mas conheço bem algo
de sua luta espiritual. Eu arriscaria um palpite
de que seu cirurgião lhe dirá que sua dor ori­
gina-se de ansiedade, que é um dos produtos
colaterais do sentimento de culpa consciente
e inconsciente.” Alguns dias mais tarde ela
relatou que seu cirurgião, depois de testes
exaustivos, tinha dito claramente que a condi­
ção dela era causada por ansiedade e tensão.
O sentimento de culpa não resolvido, um
sentimento difuso de inferioridade, vergonha,
ou rejeição na infância; tudo é registrado na
mente inconsciente como culpa e indignidade.
Esta é a causa de muitos sintomas físicos e
emocionais. Se tão-somente pudéssemos apren­
der a aceitar e sentir o perdão, que sabemos,
intelectualmente, que Deus oferece! Quando se
pode sentir, no centro de seu ser, que se é acei­
tável a Deus, ao homem, e a si mesmo, geral­
mente se pode ser curado. Muitos têm experi­
mentado este sentimento de aceitação pela
primeira vez em um grupo de partilhação. Te­
mos a tendência de suportar nossa culpa em
secreto, sentindo que de alguma forma somos
inaceitáveis e indignos.

294
é uma experiência curadora descobrir que
virtualmente todos os outros do grupo sentem
da mesma maneira. Quando nos tornarmos ca­
pazes de partilhar ao grupo, pouco a pouco,
alguns de nossos sentimentos de insuficiência
e de culpa, descobrimos que, em vez de sermos
rejeitados somos amados ainda mais; e o efei­
to curador do amor e da aceitação começa a
ser sentido. *
As pessoas perguntam frequentemente:
"Por que devo partilhar com os outros os as­
pectos sórdidos da minha vida? Confesso meus
pecados a Deus. Certamente isto é o bastan-
tel" A resposta é que estes não são “grupos
confissionais”, nos quais se requer que os
membros desnudem o passado. Em geral, são
as emoções destrutivas que são partilhadas e
não os atos sintomáticos. Entretanto, em cer­
tas ocasiões o indivíduo sente necessidade de
um maior desabafo, geralmente se dirigindo a
um conselheiro; entretanto, tenho estado em
numerosos grupos onde a atmosfera de acei­
tação amorosa era tão grande que tornava per-
feitamente natural um membro partilhar em ní­
vel ainda mais profundo, invariavelm ente, te­
nho observado, não rejeição ou surpresa, mas
compreensão e amor. Algumas pessoas são
Incapazes de experimentar o perdão de Deus,
n não ser que ele seja mediado através de um
grupo assim.
Um ministro metodista escreveu, contando
quatro exemplos de cura física e emocional
experimentadas em um grupo. Um dos casos
ele relatou com maiores detalhes. Certa esposa
foi vê-lo primeiro. Ela tinha certeza de que tudo
o que ocorria era por culpa do marido, e estava
planejando conseguir o divórcio. Suas manei­
ras eram altamente nervosas e compulsivas e ela

295
apresentava numerosos sintomas tísicos. Ela e
seu marido juntaram-se a um grupo, e, quando
suas folhas de crescimento espiritual começa­
ram a chegar, a esposa descobriu que não era
só o marido que tinha alguns problemas, mas
ela também possuía alguns, bem sérios. Através
de suas folhas de crescimento espiritual, desco­
briram, semana após semana, as áreas de suas
vidas que precisavam de atenção.
Descobriram também que ambos tinham
muito mais qualidades positivas que negativas
e que podiam-se complementar. Anteriormente,
o marido havia oscilado entre sentimentos de
dependência e determinação de dominar. A
medida que ele começou a se entender e en­
tender porque reagia assim, e à medida que ela
começou a ver a ligação entre suas necessida­
des espirituais e suas numerosas dificuldades
físicas, os sintomas começaram a desaparecer.
O ministro escreveu como conclusão: “As fo­
lhas de crescimento espiritual foram um meio
de reconciliação. Agora, juntos vivem felizes.”
Lee fornece uma ilustração gráfica da ma­
neira em que a culpa cobra seu preço. “Ida e
volta do inferno” era o modo como ele descre­
via sua experiência. “Se o inferno for pior do
que aquilo que passei, então a gente deve evi­
tá-lo a todo custo!” Sua recuperação da doença
mental através da experiência com seu grupo
é dramática por causa da intensidade da neces­
sidade dele.
Ele tinha trinta e oito anos quando entrou
para o grupo. Era üm profissional e não tinha
sido capaz de trabalhar por mais de dois anos
por causa de certa fobia paralisadora e terrifi-
cante de que sofria. “Cerca de seis anos atrás,
eie lhes disse: “Fui a uma festa, onde tinha
coisa demais para beber. Levei uma jovem se­

296
nhora para casa de carro e tentei ter relações
aoxuais com ela. Ela estava disposta, mas por
alguma razão — talvez por causa da minha
educação religiosa estreita — não fui capaz de
levar a relação sexual a cabo. Mas a intenção
estava lá do mesmo jeito, e mais tarde me senti
terrivelmente culpado e envergonhado, porque
hnvia desgraçado a mim mesmo e à minha fa­
mília.
“Nas semanas e meses seguintes, tentei
loprimir a recordação tanto quanto possível.
Pensar acerca daquilo me fazia sentir descon­
fortável, de modo que tentei tirar isso de minha
mente. Quando eu era criança vim a crer em um
Deus punidor, que responderá às nossas ora­
ções se formos bons, mas se formos maus, ele
certamente nos punirá de alguma forma. Era um
conceito muito imaturo e infantil acerca de
Deus.
“Eu havia sido um bom menino. Os vizi­
nhos freqüentemente elogiavam minha mãe
por eu ser tão bom. Eu nunca lhe desobedecí
nom lhe respondi. Agora percebo que ela era
superprotetora, e eu me tornei uma pessoa
passiva, obediente, reprimindo todo o meu res-
nontimento que sentia contra ela. Cheguei a
pensar que é normal uma criança sentir um
misto de ressentimento e amor para com seus
pais. O ressentimento, entretanto, foi parcial­
mente reprimido. Eu não poderia expressar-me
ô minha mãe sobre seu cuidado demasiado
porque não queria ferir seus sentimentos.
“No verão que seguiu minha experiência
com a mulher, fiquei terrivelmente deprimido,
mas não sabia por quê. Eu não via ligação en­
tre minha depressão e o fato de me sentir des­
graçado e de temer de alguma forma ser ex­
posto .

297
“No trabalho comecei a verificar as coisas
desnecessariamente. Depois tornava a verificar.
As vezes eu voltava para ver se tinha deixado
cair alguns papéis ou se tinha trancado a por­
ta. A verificação continuou a aumentar, mas eu
não a associava, é claro, com o meu senti­
mento de culpa não resolvido. Eu não compre­
endia que isto era o começo de uma compulsão
que ia, com o tempo, ameaçar minha própria
sanidade mental. A compulsão de verificar atin­
giu gradativamente todos os aspectos de minha
vida. Se, ao dirigir o carro, eu sofresse um pe­
queno solavanco, dava a volta na quadra e ia
inspecionar o lugar onde tinha se dado o sola­
vanco. Finalmente eu estava verificando e reve-
rificando tudo o que eu fazia, freqüentemente
até dez vezes.
“Mais ou menos um ano depois do aconte­
cimento de minha experiência faltosa, fiz um
exame físico de rotina. Disseram-me que o tes­
te de Wasserman ficara incompleto. Fizeram
outro teste, e esse também estava incompleto.
Agora eu tinha certeza de ter sífilis e que os
testes incompletos eram nada mais do que uma
evidência disto. O terceiro teste deu negativo
e o médico me assegurou que eu estava em boa
forma física em todos os aspectos. Mas a idéia
persistiu. Talvez eu tivesse sífilis mesmol Tal­
vez o teste fosse inexato.
“Então começou uma rotina de lavar as
mãos, tomar banho e de limpeza que ficava cada
vez pior. Eu verificava as coisas dezoito horas
por dia. Eu ficava sob o chuveiro diariamente
de meia hora a quarenta e cinco minutos, me
ensaboando. Lavava as mãos até ficarem bran­
cas do sabão. Gastava tanto tempo verificando
cada detalhe da minha vida, tomando banho e
me preocupando, que era incapaz de ir para

298
o trabalho. Fui morar com meus pais. Pouco a
pouco me afastei de todo contato social. Ir à
cidade era um sacrifício porque eu gastava
cada minuto desse tempo verificando, confe­
rindo e verificando. Finalmente fiquei totalmen­
te paralisado pelo medo e completamente in­
capacitado.
"Minha família estava preocupada e me
aconselhava a ‘deixar disso’, mas quando vi­
ram que o conselho não dava resultado, leva­
ram-me a um psiquiatra. Visitei-o por um ano.
Era um homem maravilhoso, e eu gostava dele,
mas cada vez eu ficava pior. Finalmente ele me
asseverou que a única esperança de cura era a
terapia de choque, e recomendou que me hos­
pitalizasse. Fiquei em uma instituição mental
por dez dias, mas os meus familiares não con­
cordaram com a terapia de choque. Finalmente
voltei para casa pior do que quando havia
começado a psicoterapia, um ano antes.
"Um cunhado meu descobriu, por intermé­
dio de um cliente, que resultados significativos
estavam sendo conseguidos por pessoas com
todo tipo de problemas através de uma espécie
de grupo, e, no meu desespero, fiz minha ins­
crição para juntar-me a um grupo novo.
“Gostei do grupo desde o começo. Mesmo
no meu estado mental meio paralisado eu cor­
respondí a eles. Havia um homem que tinha
perdido o emprego de engenheiro por causa de
um problema emocional severo; sua esposa,
que havia se juntado ao grupo principalmente
por causa de seu marido e depois havia desco­
berto várias áreas onde podia experimentar
crescimento espiritual e emocional; havia dois
ex-alcoólatras, procurando crescimento espiri­
tual; uma mulher de grande atração pessoal e
vasta cultura que finalmente revelou um gran-

299
de sentimento de inferioridade. Era nada mais
nada menos que uma parte da sociedade. To­
dos eles compartilharam suas necessidades,
pouco a pouco, mas eu não consegui induzir-me
a fazê-lo. O meu caso era pessoal demais. Dr.
Osborne o conhecia por que eu Iho havia reve­
lado antes de entrar para o grupo. Ele havia
dito: ‘Você não precisa partilhar nada com o
grupo, a menos que o deseje. Pode participar
muito ou pouco, conforme for sua vontade.’
“Nesse ambiente tolerante comecei a gos­
tar das pessoas. As reuniões muitas vezes du­
ravam de 7h 30min às 10h 30min da noite, e de­
pois permanecíamos conversando, em amor uns
para com os outros. O amor que cresceu no gru­
po era parecido com o que a gente experimenta
na família. Era uma família, e acho que eu fica­
va ressentido quando alguém faltava. Também
me ressenti quando Dr. Osborne trouxe um novo
casal para o grupo. Afinal de contas, que direito
tinha ele de introduzir outras pessoas na “famí­
lia" sem a nossa permissão? Mas em poucas se­
manas aprendi a aceitá-los também como mem­
bros da família. Cheguei à compreensão de que
estas pessoas também tinham problemas e pre­
cisavam de ajuda.
“Nas discussões e nas leituras recomen­
dadas, comecei a descobrir um tipo diferente
de Deus, em contraste com o da minha infância.
Cheguei a ver que ele não é um Deus vinga­
tivo e punidor, mas que nos quer perdoar mais
do que queremos perdoar a nós mesmos. Eu
tive algumas conferências com o Dr. Osborne
a respeito da natureza de Deus e do seu per­
dão, o que reforçou meu sentimento de cresci­
mento acerca de um Deus que nos perdoa e
nos aceita tal como somos.

300
“Eu cria intelectualmente nessa espécie de
Deus, mas o problema permanecia — como
perdoar a mim mesmo? Seis anos haviam de­
corrido desde o acontecimento que provocara
meu sentimento de culpa e meu medo, e incons­
cientemente durante todo este tempo eu estava
esperando que Deus me punisse. Já que ele
não o fez, comecei a punir a mim mesmo. Pude
ver, no grupo, como eu me punia pela verifi­
cação e reverificação pelo medo e pela depres­
são e por recusar permitir a mim mesmo viver
como uma pessoa normal. Se Deus não ia me
punir, então eu me puniria a mim mesmo; é mais
ou menos como a mente inconsciente funcio­
nava, suponho.
“Eu ainda não havia partilhado com o
grupo os detalhes do meu problema. Tudo o
que lhes havia dito era que eu sentia uma com­
pulsão e estava imobilizado pelo medo. Parti­
lhei com eles, sim, um medo de falar. Quando
eu tinha cinco anos de idade comecei a gague­
jar, e, embora isto tivesse diminuído gradativa­
mente através dos anos, eu ainda tinha uma
grande relutância em falar, com medo de ga­
guejar. Comecei a notar que no grupo eu esta­
va cada vez menos relutante em falar. Partilhava
mais, falava mais do que havia feito em muito
tempo. Comecei a me tornar menos passivo e
mais dominador.
“A princípio, quando expressei esta per­
sonalidade menos passiva em casa, minha mãe
ficou espantada. Descobri que eu não tinha di­
ficuldade em dizer-lhe quando ela estava sendo
mandona ou protetora demais. Meu pai, com se­
tenta e quatro anos de idade, observava e ouvia
com grande interesse quando eu era capaz de
dizer à minha mãe exatamente como me sentia
em relação a ela. A princípio eu falava com al-

301
gum ímpeto e irritação, depois, quando me acos­
tumei com minha natureza menos passiva, com
mais tato e compreensão. Finalmente, notei que
meu pai, que era passivo, começou a ser inde­
pendente. Até que enfim, depois de cinqüenta
anos de casamento, ele começou a ser capaz
de se defender só pelo fato de observar minha
recém-ganha liberdade de expressão.
“Mamãe ficou perturbada a princípio, mas
finalmente pude ver que ela estava gostando
do seu novo papel. Observei também que meu
cunhado, casado com uma de minhas irmãs,
ouvia com interesse e pasmo de como filho e
pai anteriormente passivos se defendiam. Em
visita à casa dele, algum tempo depois, vi que
ele havia começado a aprender a arte também.
Minha irmã é muito dominadora, e ele, pas­
sivo. Mas agora ele está tentando defender-se.
expressar-se e parar de bater em retirada.
“Estes eram dividendos importantes, mas
ainda permanece a verificação, o medo, a fo­
bia e o incessante lavar de mãos. É verdade
que os sintomas estavam diminuindo, mas eu
não era capaz de sair e procurar um emprego.
Eu já estava no grupo havia cerca de nove me­
ses quando comecei a ver o efeito cumulativo de
tudo que havia transparecido. Dr. Osborne ex­
plicou que se tratava do princípio ‘da pedra no
pântano’. A gente joga uma carrada de rochas
num pântano para fazer uma estrada e elas
desaparecem. Embora uma segunda, uma
terceira e talvez uma décima carga desapa­
reça, a décima primeira aparece e a gen­
te começa a ter uma estrada. No fim do décimo
mês eu tinha vontade de sair a entrevistar em­
pregadores em perspectiva, mas não conseguia
me impelir a ir. Porém gradualmente eu amplia­
va meu horizonte. Fazia viagens, praticava es­

3 02
portes, falava livremente com as pessoas, veri­
ficava menos; e, finalmente, cerca de um ano
depois que eu entrara para o grupo sabia que
estava pronto a voltar a trabalhar. Não experi­
mentava nenhuma dificuldade em procurar um
emprego. Conversar com possíveis empregado­
res era esforço muito menor do que jamais fora,
porque não tinha mais medo de falar.
“Tenho uma posição segura, agora, e sou
uma personalidade muito mais bem integrada
do que era mesmo antes de me tornar emocio­
nalmente doente. Em certo sentido, estou con­
tente de ter feito esta viagem ‘de ida e volta do
inferno”, por dolorosa que tenha sido, porque
cresci espiritual e emocionalmente. Tenho um
novo conceito de Jesus e de seu amor e aceita­
ção. Consigo ser menos egoísta. Ganhei com­
preensão nova, mais vasta, de mim mesmo, que
mudou minha personalidade. Tornei-me mais
Interessado nas outras pessoas e suas ne­
cessidades. Não sinto mais que devo ser per­
feito para merecer o amor de Deus. O efeito
paralisador de tentar ser ‘um bom menino’,
moral e espiritualmente, a fim de evitar a Ira
de Deus, abriu-me caminho para uma nova ma­
turidade, na qual, abaixo de Deus, quero ser
o mais e o melhor de mim mesmo, não para evi­
tar o castigo, mas porque esta é a maneira
criativa de viver.
“Tenho visto todos do grupo crescerem
também. A maturidade fabulosa deles, em cada
caso, tem-me feito sentir que eles fazem e sem­
pre farão parte de uma família muito especial.
Talvez esta seja a ‘família de Deus’ da qual
se ouve muito, mas pouco se vê.”
Certa enfermeira de uma cidade do Leste
escreve a respeito de sua cura, na qual um

3 03
grupo de crescimento espiritual teve parte sig­
nificativa:
“Após um acidente de carro, no qual rece-
bi um ferimento grave na cabeça, que me im­
pediu de trabalhar por seis meses, sofri um
esgotamento emocional completo e tentei co­
meter suicídio. Então fiquei quase um ano num
hospital do Estado. Enquanto estava no hospital
fui visitada, quase toda semana, por um minis­
tro de uma igreja onde eu havia assistido de
vez em quando.
“Saí do hospital num dia de fevereiro terri­
velmente frio, mas os problemas dos ex-pacien­
tes mentais como os meus são alucinantes —
sem casa de verdade, parentes que me consi­
deravam uma vergonha para o seu nome, sem
emprego, sem dinheiro e sem amigos. Este úl­
timo caso, falta de amigos, era tão ruim que
fingí ser alcoólatra e fui assistir às reuniões dos
Alcoólatras Anônimos, só para ficar perto de
gente que me aceitasse. Ia à igreja todo domin­
go, provavelmente por gratidão ao ministro que
se dispusera a dar-me tanto do seu tempo.
“Cerca de um ano atrás uni-me a um grupo
na igreja. Eu ainda tinha meu medo das pes­
soas, e em muitas sessões fiquei calada. Eu
conservava uma expressão vazia, que nada re­
velava; mas, com o correr do tempo, comecei
a gostar dessas pessoas e parei de ter medo
delas. Senti que elas me amavam e se preo­
cupavam pelo que me acontecia. Logo depois
disto, consegui meu primeiro emprego como en­
fermeira.
“Agora assisto a uma classe da Escola Bí­
blica Dominical, onde não tenho medo de par­
ticipar da discussão. Canto no coro, e faço
parte de várias comissões. A maior coisa que
aconteceu em tudo isto é o que aprendi a res­

304
peito do amor. Primeiro, aprendi nas sessões
de aconselhamento, que “Deus é amor, e me
ama’. Vejam, eu fora tão ferida por meus pais
que me haviam surrado tanto que jamais havia
aprendido a dar ou receber amor. Eles diziam
que me amariam se eu tirasse as melhores no­
tas na escola. Eles me batiam e depois diziam:
“Mas te amamos.” Amor baseado num “se” ou
num “mas” nunca foi amor. Foi uma coisa glo­
riosa compreender que o Deus do universo
inteiro me ama, e que o amor dele não depende
de coisa alguma. Eu não tinha que merecê-lo.
“Para concluir, o que ganhei no grupo foi
o primeiro amor genuíno que jamais conhecera,
e por causa disto adquiri a habilidade de amar
estas pessoas, e, posteriormente, muitas outras.
Muito tempo atrás um psiquiatra me perguntou:
‘Você acha que jamais poderá aceitar ou dar
amor?’ Então eu tinha que responder: ‘Não
sei.’ Hoje eu sei. A resposta é ‘sim!’ para as
duas perguntas.”
Vários fatores operaram na sua busca em
descobrir o poder curador do amor. Um minis­
tro compassivo e compreensivo teve uma parte
vital na visitação e no aconselhamento. Ela
teve cuidados psiquiátricos por um período de
tempo bem longo, mas ela sente que foi no
grupo que pôde entender pela primeira vez o
significado do amor. E é o amor que cura, por­
que é amor de Deus, e é através do amor que
ele faz seus milagres de cura.
Uma senhora, cujo ódio pela filha era tão
forte que resultou em um colapso físico e emo­
cional, escreveu, com alguns detalhes, acerca
da cura que experimentou no grupo:
‘‘Tivemos uma filha que saiu de casa, se
casou e se tornou uma enfermeira. Finalmente
ela largou o marido e voltou para casa com seu

305
bebê. Depois ela se casou de novo e saiu de
casa com seu filho. O segundo casamento se
desfez, e desta vez tentamos ajudá-la, mas ela
nos disse que ficássemos fora, que ela mesma
resolvería seu problema. Finalmente ela desco­
briu que não podia continuar no seu emprego
de enfermeira e cuidar de três filhos, de modo
que deu dois deles para seu marido, e pegamos
o mais velho, agora já adolescente, para criar.”
A lacuna entre mãe e filha se alargou. Cada
qual sentia-se rejeitada pela outra. A mãe des­
creveu sua hostilidade crescente contra a filha:
“O ódio cresceu em meu coração e eu disse
para as pessoas que minha filha estava morta.
Destrui a maioria das coisas que ela me havia
dado através dos anos, coisas sentimentais de
sua juventude. Eu a odiava e brigava com seu
pai, que tentava ajudar-me a pensar claramen­
te. Ele também estava com o coração partido,
mas ainda a amava e queria ajudá-la. Não a vía­
mos desde a última vez que ela nos mandara
embora e que a deixássemos em paz. Isto con­
tinuou por mais dois anos, e eu fiquei doente,
doente do coração, mente e corpo. Eu assistia
aos cultos na igreja, mas era incapaz de cantar.
Eu lutava com as lágrimas toda vez que tentava
cantar. Mesmo assim continuei indo à igreja a
fim de manter uma aparência de ambiente reli­
gioso para meu neto.
“Quando fomos convidados a juntar-nos a
um grupo ‘Yokefellow’ (grupo de companhei­
rismo), aceitamos. Eu sabia que tínhamos que
ter alguma coisa. Eu havia sofrido um ‘esgota­
mento nervoso’, tinha úlceras e havia sido hos­
pitalizada. Com ressentimento a ferver dentro
de mim, comecei a estudar e assistir às reuniões
do grupo. Eu me perguntava o que é que Deus

306
poderia fazer por mim agora, com todo o meu
ódio.
“Juntamo-nos ao grupo em setembro. Em
outubro fui chamada para depor na justiça con­
tra minha filha, que queria seus filhos de volta.
Ela havia se casado de novo, com um homem
mais velho, e estava feliz agora, e podia tomar
conta deles. Orei sobre isso, e expus meu res­
sentimento ao grupo. Enquanto eu estava pe­
rante o juiz, lutei com ressentimento e orgulho.
Era como entrar no céu para ser julgada. Com­
preendí, de repente, que não podia abandonar a
filha que havia dado à luz. Eu disse: ‘Senhor
juiz, eu não posso ser cristã, professar amor a
Deus e não dar outra oportunidade para minha
filha. Eu sei que ela fará tudo certo se outra
oportunidade lhe for oferecida. Eu devolvo a
criança que criei.’
“Meu fardo foi aliviado, meu coração puri­
ficado. Eu havia jogado fora todo o ressenti­
mento. Minha filha e eu nos tornamos amigas
de novo. No Natal, ela e seu novo esposo com­
praram uma poinsétia para mim. A vi crqpcer,
florescer e murcharem suas flores. Eu não pude
jogá-las fora. Então guardei-as. E a planta conti­
nuou a crescer, e de algum modo se tornou um
símbolo para mim. Reguei-a, e de novo ela cres­
ceu, forte e bela. No ano seguinte, floresceu
mais uma vez, e eu me regozijei com este sím­
bolo de vida nova que apresento à minha filha.
Agora ela e eu temos um relacionamento feliz,
e compreensão através do sofrimento. Nós duas
compreendemos quão distantes tínhamos an­
dado e fazemos tudo para que nosso ralaciona-
mento continue crescendo.
“Foi através do meu período de oração e
estudo, da força do grupo, que Deus operou a

307
mudança em mim. Como poderei alguma vez
decepcioná-lo? Encontrei de novo a felicidade.
Que bênção o grupo foi para mim! Muito obri­
gada por ter trazido a luz para minha vida. Que
Deus o abençoe no seu trabalho maravilhoso!”
14

AMOR

O amor é uma força tão grande que


une todas as coisas. Portanto, ame a
Jesus, e então tudo o que ele tem será
seu.
— The Cloud of Unknowing (A Nuvem
do Desconhecido)

Uma jovem senhora, distinta e multo atra­


ente tinha percorrido alguns milhares de quilô­
metros para assistir à Tenda de Trabalho de
Terapia da Oração anual realizada em Santa
Bárbara, Califórnia, pelo Dr. William Parker. Eu
era o dirigente do grupo a que ela foi designada.
Ela não participou da discussão durante a
primeira sessão. Na nossa segunda reunião em
grupo, dirigi-me a ela e perguntei-lhe se tinha
algo que queria compartilhar conosco. Ela dis­
se: “Não, acho que não. Só vou ouvir.’’ Houve
uma pausa. Grupos como este não têm medo
do silêncio. Finalmente ela disse, titubeante:
“Bem, o seguinte tem estado na minha mente."
Então ela falou, por quarenta e cinco minutos.
Ninguém interrompeu ou sentiu que ela estives­
se monopolizando o tempo. Ela partilhou sua
solidão, a sua dor por causa do casamento des­
feito, e sua frustração por causa de um relacio-

309
namento errado com sua mãe. Os membros do
grupo ouviram com profunda compreensão, e,
de vez em quando, alguém fazia uma pergunta
gentil, esclarecedora.
Houve cinco sessões de grupo durante a
Tenda de Trabalho, e em três delas ela partilhou
suas necessidades. Na última sessão, ela con­
tou um sonho que havia tido na noite anterior.
“Eu estava numa casa bem aquecida e confor­
tável”, ela disse. “Fui até a porta e olhei para
fora. Era noite e a lua brilhava sobre uma pai­
sagem escura e fria. Era terrivelmente desola­
dor. Finalmente fechei a porta e voltei para
dentro da casa agradável. Foi tudo.” Perguntei
o que o sonho significava para ela. Ela disse:
“Eu acho que significa que aqui, neste grupo,
eu encontrei aceitação calorosa, e suponho que
tenho horror de voltar para casa, que, no meu
sonho imaginei como um mundo ermo e frio.”
Assegurei-lhe que me esforçaria para aju­
dar a formar um grupo em sua cidade natal, onde
ela podería continuar o crescimento espiritual
começado na tenda de trabalho. O importante
é que em algumas sessões curtas de grupo ela
havia descoberto um relacionamento em que
havia mais amor e aceitação e compreensão do
que nunca conhecera na casa onde se criou
ou no relacionamento com o marido e os filhos.
Freqüentemente tendemos a exagerar nos­
sa própria culpa e insuficiência e descobrimos,
num relacionamento de grupo afetuoso, que
os outros podem saber tudo a nosso respeito
e ainda assim nos aceitar, o que nos possibilita
a aceitar-nos a nós mesmos. Isto havia aconte­
cido na casa desta senhora. Um amor-próprio
adequado, muitas vezes, começa em uma expe­
riência desse tipo, quando descobrimos que os

3 10
outros nos amam e nos aceitam a despeito dos
nossos fracassos.
Em uma sessão de grupo da qual eu estava
participando, a atenção foi focalizada, por al­
gum tempo, numa mulher que tinha tido um
grande número de pontos em “depressão".
Ela partilhou algo da dolorosa rejeição que ha­
via experimentado quando criança. Ela havia-se
sentido não amada e agora não podia sentir
amor algum por ninguém. Houve um silêncio,
e finalmente alguém, num esforço de ser útil,
disse: “ Deus a ama.” Ela então disse que não
tinha dúvida de que Deus a amava, mas que
queria ser amada pelas pessoas também. Ela
reconhecia que era realmente incapaz de rece­
ber tal amor, mesmo quando lhe era oferecido,
pois havia barreira, que a impedia inteira­
mente de sentir amor. De fato, ela não podia
sentir praticamente nada, a não ser depressão.
É provável que ninguém tenha desenvol­
vido uma personalidade perfeita, ou tenha tido
uma vida eficaz, a menos que tenha experimen­
tado o amor de uma outra pessoa. Normalmente
isto começa na infância. A criança aprende
acerca do amor, com os pais, irmãos e irmãs,
e os outros seres humanos à sua volta. Nunca
poderemos amar os outros ou experimentar
um amor-próprio adequado, a menos que tenha­
mos tido a experiência de sermos amados.
Desenvolvemos a capacidade de amar ao ser­
mos amados.
“Quer seja um sussuro leve ou alto clamor,
a essência do pedido é a mesma: “Estou sozi­
nho, sem amor, sem ninguém. Que posso fa­
zer? Como posso conseguir a m o r ? . . . ” i
Em seu esplêndido livro, The Art of Loving
(A Arte de Amar), Erich Fromm descreve como

311
o infante reage à experiência de ser amado nos
primeiros meses e anos de vida.
“Sou amado. Sou amado por ser o filho
de minha mãe: sou amado por ser belo, admi­
rável. Sou amado porque minha mãe precisa de
mim. . . Sou amado pelo que sou; ou talvez com
exatidão maior: Sou amado porque existo. Esta
experiência de ser amado pela mãe é passiva.
Nada tenho de fazer a fim de ser a mado. .. o
amor de minha mãe é incondicional. Tudo o
que tenho a fazer é ser o seu filho.” 2
O que acontece nesses primeiros anos, es­
pecialmente do nascimento aos seis anos de
idade, é de todo importante no desenvolvimento
da personalidade da criança. Muitos fatores são
envolvidos — o relacionamento entre os pais
e a criança, irmãos e irmãs; a maturidade emo­
cional dos pais; ou uma criança mais velha,
com a qual tem-se que competir. Inumeráveis
outros fatores invariavelmente afetam a criança
em crescimento. O grau em que ela será capaz
de dar e receber amor mais tarde na vida é de­
terminado quase que exclusivamente pelo que
acontece nestes primeiros anos.
Dois psicólogos da Universidade de Wis-
consin, Dr. Harry F. Harlow e sua esposa, Mar-
garet K. Harlow, têm estudado centenas de ma­
cacos no Primate Laboratory, num esforço para
descobrir clinicamente o lugar que o amor
ocupa entre os macacos. Os Harlows descobri­
ram ampla evidência que aponta à conclusão
de que se precisa aprender a amar antes de
se poder aprender a viver.
Descobriram também que era tão impor­
tante para os macacos terem relações sadias
com os outros macacos de sua própria idade,
quanto ter bons relacionamentos com seus pais.
Aprender a amar, como aprender a andar ou

312
faiar, não pode ser adiado por muito tempo sem
produzir efeitos prejudiciais na personalidade
da criança, crê o Dr. Harlow.
Um indivíduo cuja capacidade de dar e
receber amor é seriamente avariada, quase
sempre teve uma infância em que não se sentiu
amado. Ele pode ter sido até adorado por um
ou ambos os pais, mas pode ter sido incapaz
de receber o amor da maneira que foi ofere­
cido.
Pode alguém que carece da habilidade de
dar e receber amor, alguma vez aprender esta
arte, ou estamos prejudicados para sempre pe­
los fatores ambientais da infância? A resposta
é que podemos aprender a amar e receber
amor, embora com um esforço considerável.
Uma ilustração é dada pelas crianças que são
criadas num ambiente onde são faladas duas
línguas. Elas crescem bilíngües, capazes de fa­
larem as duas línguas com fluência mais ou
menos igual. Na Terra Santa, onde os filhos dos
missionários são criados entre os filhos dos de
fala árabe, eles falam inglês em casa e árabe
com seus colegas de brinquedo; e o árabe que
eles falam não possui o mesmo sotaque ameri­
cano. Entretanto, os missionários e outros que
estudam a difícil língua árabe em idade mais
adulta acham que esta é uma tarefa extrema­
mente difícil, e sempre a falarão com sotaque.
Da mesma maneira, aqueles que aprende­
ram a arte de amar quando crianças geralmen­
te não experimentam nenhuma dificuldade em
dar ou receber amor. Se, por alguma razão,
nossas relações amorosas foram prejudicadas
quando crianças, e sentimos rejeição, devemos
aprender a arte de amar como se aprende uma
língua depois de certa idade, do modo mais
difícil. Não seremos tão eficientes nessa arte

313
como se a tivéssemos aprendido na infância,
mas ela pode ser aprendida.
A criança que se sente rejeitada por um
sem-número de razões, descobre que é difícil
amar, e posteriormente poderá automaticamen­
te fugir de qualquer relacionamento íntimo. Sem
perceber, ela simplesmente reage negativa­
mente ao amor. Ela, por assim dizer, se tomou
vítima de um reflexo condicionado: ‘‘O amor é
igual à dor.” A ação reflexa é de evitar qual­
quer relacionamento em que amor ou afeto pos­
sam ser uma ameaça. Isto tudo está bem abaixo
do nível do consciente.
Todas as pessoas têm “ilhas de imaturi­
dade” dentro de si, tanto os santos quanto os
pecadores. Se uma dessas ilhas tiver algo a ver
com a inabilidade do amor da pessoa, não se
segue necessariamente que essa pessoa deva
ser considerada “imatura”. Ela pode ser, pelo
contrário, uma personalidade muito capaz e
madura. Mas a eficácia da vida inteira do in­
divíduo, em certo grau, depende da habilidade
do amor. Portanto, cumpre-nos aprender esta
arte difícil, mas compensadora. “O objetivo fi­
nal de toda terapia é produzir dentro do indi­
víduo uma capacidade maior de amor.” 3 Neste
sentido, a religião, a terapia de grupo, os gru­
pos de crescimento espiritual e a psicoterapia,
todos, possuem o mesmo alvo.
Um bom lugar para se começar é em grupo
pequeno. Infelizmente, os que resistem a esta
abordagem são geralmente os que mais dela
necessitam. Sua relutância em estabelecer qual­
quer tipo de relacionamento íntimo, mesmo
com oito a doze pessoas, é evidência do seu
medo subjacente das pessoas; e medo das pes­
soas é medo do amor. Paradoxalmente, os ho­
mens são menos realistas nesta área do que as

314
mulheres. Os esposos resistem mais freqüen-
temente à idéia de visitar um conselheiro ma­
trimonial do que suas esposas; e eles às vezes
relutam em tomarem parte de um grupo pela
mesma razão.
Os homens geralmente tem mais medo de
seus sentimentos do que as mulheres. Eles
aprenderam na infância a não chorar, que é a
expressão de uma emoção. Em nossa cultura,
é ensinado que é "coisa de homem” supri­
mir as emoções. Conseqüentemente, os homens
têm a tendência de temer qualquer experiência
em que sentimentos são envolvidos. Eles po­
dem racionalizar isto, dizendo: “Não, nós so­
mos adultos. Resolvemos isto por nós mes­
mos.” O que estão dizendo, na verdade é: “Eu
quero evitar qualquer situação em que os sen­
timentos sejam expostos. Sinto-me mais segu­
ro quando sou eu que estou lidando com eles.”
Como em algumas outras áreas, as mulheres
são mais realistas, e mais freqüentemente pro­
curam a ajuda de um conselheiro ou de um
grupo. O fato de esta reação masculina não
ser realista é evidente quando observamos que
o homem não hesita em entregar seu carro a
um mecânico que conhece mais de motores do
que ele; ou em ir ao dentista quando está com
dor de dente, ou em chamar um técnico em
televisão quando seu aparelho precisa de con­
serto. É só no campo das relações que os
homens mostram seu medo intenso das emo­
ções.
Adquirimos nossa auto-imagem, nosso
senso de identidade, cedo na vida. Se a criança
não crescer, poderá ficar limitada em sua ca­
pacidade de se relacionar criativamente com
os outros. Sua limitação pode tomar a forma
de timidez, ou ela poderá cobrir esse acanha-

315
mento inato com uma atitude exterior brusca ou
agressiva, sendo um modo de dizer: “Eu não
sou acanhado de modo algum." Ela poderá até
enganar-se desta forma. Poderá compensar a
inabilidade de amar alcançando alguma coisa
significativa, como ajuntar dinheiro ou emble­
mas. ("Eu realmente sou alguma coisa, afinal.
Se não posso ter amor, terei a admiração, ou a
inveja dos outros ou terei poder sobre as pes­
soas ou coisas.")
As mulheres possuem menos meios de
compensação para o sentimento de inferiori­
dade e para o sentimento de não serem ama­
das. Um homem pode compensá-lo, até certo
ponto, pelo sucesso nos negócios, esportes ou
adquirindo algumas distinções ou honrarias. O
alcance de suas oportunidades é maior. As
mulheres, por outro lado, são mais seriamente
prejudicadas se forem incapazes de amar e
serem amadas. Suas oportunidades são limita­
das, geralmente, ao domínio do lar e das reali­
zações domésticas. Embora possam arranjar
empregos, elas não competem, geralmente,
muito prontamente, nos negócios, que são do­
minados pelos homens. A perda de amor ou a
incapacidade de amar, portanto, tem uma parte
muito mais importante na vida da mulher do
que na do homem.
Os gregos tinham três palavras para desig­
nar aspectos diferentes do amor. Dizemos:
“Amo a Deus, “Amo minha familia”, e “Gosto
de sorvete.”* Em inglês há só a palavra love
para descrever o relacionamento amoroso com
Deus, amor físico, a consideração afetuosa que
temos para com nossos pais, filhos, marido e

* No original “I love ice-cream”

316
mulher, e o grau em que achamos que as coisas
são agradáveis.
Esta dificuldade semântica freqüentemen-
te confunde as pessoas que têm a admoesta-
ção do Novo Testamento: “Amai-vos uns aos
outros”, "Ama o teu próximo como a ti mes­
mo”. A dificuldade surge do fato de que muitas
pessoas confundem amor com afeição. O amor
que Jesus nos urge a manifestar pode não
ter nada com a afeição. É, antes, a atitude im­
plícita no termo grego agape, um interesse não
egoísta e ativo pelo bem-estar de outrem.
Erich Fromm mostrou que o teste final do
amor é se podemos amar o “estrangeiro”, que
pode não partilhar dos nossos valores, ou de
nossa cultura ou que, por isso mesmo, não pode
ser particularmente admirável em si mesmo.
Amá-lo não implica, de modo algum, na adoção
dos seus valores ou na aprovação de qualquer
de seus traços, que não gostemos.
Paul Tournier escreveu:
Amor não é só alguma idéia ou sentimento
grande e abstrato. Há algumas pessoas com essa
pomposa concepção do amor, que nunca conseguem
expressá-lo na simples amabilidade da vida comum.
Elas sonham com a devoção heróica e serviço auto-
-sacrificial. Mas, esperando pela oportunidade, que
nunca chega, elas se fazem bem indesejáveis para
aqueles que estão perto delas, e nunca percebem a
necessidade de seu próximo.
Amar é desejar o bem para o outro. Amar pode
significar escrever com cuidado suficiente de modo
que nosso correspondente possa ler sem gastar tem­
po em decifrar; isto é, pode significar gastar tempo
para não tomar o tempo dele. Amar é pagar nossa
conta; é conservar as coisas em ordem para que o
trabalho da esposa seja mais fácil. Significa chegar
mais ou menos na hora, significa dar toda a aten­
ção para quem estiver falando com você...” *
No relacionamento familiar, volvemos para
um outro aspecto do amor. Além do agape,

317
amor cristão, geralmente esperamos que um
certo grau de afeição seja expresso. Numa ses­
são de grupo uma senhora contou a aparente
incapacidade de seu marido em expressar afei­
ção. Ele havia sido criado em uma família re­
servada e sentia-se sem jeito ao tentar mostrar
afeição. Ela, pelo contrário, era uma pessoa
afetuosa, dada, que desejava demonstração fí­
sica de afeto como havia sido expresso na
casa em que fora criada. Para ela, havia al­
guma coisa errada com ele. Para ele, ela
parecia efusiva demais — “melosa”, como
ele dizia. Cada qual estava exigindo que
o outro agisse na base das suas memórias indi­
viduais da infância. Ele expressava seu amor
com presentes generosos, e era, ela admitia,
extremamente atencioso para com ela de todas
as maneiras. “Mas”, ela dizia, “eu quero que
ele mostre seu amor”. Ela nunca havia podido
expressar sua necessidade de maior afeição,
até que o grupo proveu ambiente adequado.
Fromm comenta:
Em qualquer número de artigos escritos sobre o
casamento feliz, o ideal descrito é o de um par que
age de modo bem “ lubrif içado” . O marido deve
“ compreender” sua mulher e ser-lhe de auxilio. Deve
fazer comentários favoráveis sobre seu vestido novo,
sobre um prato gostoso. Ela, por sua vez, deve com­
preendê-lo quando ele chega à casa cansado e res­
mungando. Deve ouvi-lo atentamente quando ele
fala de seus aborrecimentos nos negócios. Não deve
encolerizar-se, mas mostrar-se compreensiva, se ele
se esquece de que ela faz anos. Toda esta espécie
de relações, na verdade, vem dar na bem lubrifi-
cada relação entre pessoas que permanecem estra­
nhas a vida inteira, que nunca chegam a uma re­
lação central” , mas que mutuamente se tratam com
cortesia e que tentam fazer com que a outra pes­
soa se “ sinta melhor” . «
Que ninguém menospreze a “relação bem
lubrificada”, como diz Fromm, porque compa­

318
rada com um lar altercante, cheio de ódio, a
gente daria muito mais preferência à atmosfera
de respeito e tato mútuos. Entretanto, o que o
autor aponta, creio, é que a relação suave con­
seguida pelo tato é uma meta inadequada do
casamento. Muitos casais poderíam melhorar
muito o ambiente expressando discernimento
em casa como geralmente o fazem com os es­
tranhos a quem nunca mais verão. Mas deviam
fazer isto com o entendimento de que é só o
primeiro passo para uma relação mais profunda,
na qual procuram alcançar um senso cres­
cente de unidade de compreensão e de amor,
baseado na aceitação incondicional.
Se o marido e a mulher aprenderem a se
comunicar, os detalhes tomarão conta de si
mesmos. A comunicação é tudo. Se a comuni-
ção puder se estabelecer no nível do sentimen­
to, eles descobrirão que partilhar emoções
negativas não é fatal. Hostilidade ou irritação,
que é normal em qualquer relação humana, pode
ser expressa de tal maneira que nenhum dos
dois se sinta ameaçado por ela.
Em nossos grupos, centenas de casais têm
adquirido a arte da comunicação pela primeira
vez. Eles têm sido cercados pelo afetuoso calor
dos outros que possuem problemas idênticos ou
parecidos. O crescimento espiritual e emocio­
nal não precisa ser um caso solene. O humor e
a hilaridade, muitas vezes, aliviam a tensão.
Num ambiente assim, muitos que acham difícil
comunicar-se descobrem que podem ser eles
mesmos, expressar-se, e comunicar sentimen­
tos verdadeiros mais prontamente do que antes.
Nunca há qualquer temor em tais grupos
de que “as coisas vão se espalhar” e serem des­
cobertas fora do grupo, pois uma regra cardi­
nal é que nada do que for tratado na sessão

319
será partilhado em outro lugar. Os membros
chegam a sentir uns pelos outros como os
membros de uma família sentem; e uma leal­
dade afetuosa é gerada, que eficazmente impe­
de a partilhação das confidências fora do grupo.
É bom repetir que um amor-próprio adequa­
do é o ponto de partida para amar uma outra
pessoa. Se não amarmos a nós mesmos ade­
quadamente, nunca poderemos amar de verda­
de alguém mais; porque temos a tendência de
projetar nos outros nosso próprio descontenta­
mento disfarçado. O amor-próprio não implica
em narcisismo, egocentricidade, egoísmo ou
um auto-interesse distorcido. Ele implica, sim,
isto: Eu também sou uma pessoa amada por
Deus. Tenho tanto direito de amar a mim mesmo
quanto a amar outra pessoa. De fato, requer-se
de mim que eu ame a mim mesmo. Não há vir­
tude em desprezar ou depreciar a si mesmo.
É-nos ordenado amarmos nosso próximo como
amamos a nós mesmos. De fato, estimaremos
nosso próximo mais ou menos na mesma pro­
porção que estimamos a nós mesmos. Pressu­
pomos aqui, naturalmente, um amor-próprio
maduro, não egocêntrico, o amor a si mesmo
simplesmente como a uma pessoa que é ama­
da por Deus, que tem necessidade, alvos e
direitos.
O que significa amar a nós mesmos ade­
quadamente? Significa, antes de tudo, apren­
der a auto-aceitação. Teremos a tendência de
rejeitarmos a nós mesmos se não sentimos
aceitação incondicional quando pequenos. Tal
aceitação incondicional é relativamente rara,
e, de alguma forma, todos nós experimentamos
auto-rejeição. Podemos esforçar-nos para a
auto-aceitação madura e adulta aprendendo a
aceitar o perdão divino e então perdoando-nos

320
a nós mesmos. A única razão por que rejeita­
mos a nós mesmos é porque não nos sentimos
“aceitáveis”. Mesmo assim, Deus nos aceita,
e, se o Deus infinito pode aceitar-nos, podemos
aprender a aceitar e amar a nós mesmos. Jesus
manifestou esta aceitação incondicional quan­
do ele confraternizou com aqueles que eram
chamados “pecadores”. Embora ele tenha co­
locado o máximo como alvo — “Sede vós, pois,
perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está
nos céus”6 — aceitou sem hesitar e sem ques­
tionar aqueles que haviam fracassado comple­
tamente. Ele está nos dizendo com isto que
Deus concede aceitação incondicional; que en­
quanto ele nos atrai para o máximo na maturi­
dade espiritual nos toma na situação em que
nos encontra, sem condenação.
Podemos dar o primeiro passo para a au­
to-aceitação dizendo à nossa alma: “Tenho di­
ficuldade em aceitar-me, mas Deus me aceita
e, portanto, aceitarei a mim mesmo.” Podemos
precisar fazer esta oração de afirmação inúme­
ras vezes antes de conseguirmos neutralizar o
efeito de anos de auto-rejeição. O processo
pode ser acelerado imensamente numa expe­
riência de grupo, onde descobrimos que os
outros estão sofrendo os mesmos problemas;
que, surpreendentemente, quanto mais eles sa­
bem a nosso respeito, tanto mais fácil se torna
para eles nos aceitarem e amarem, que as
coisas que muitas vezes desprezamos em nós
mesmos estão também presentes nas vidas dos
outros. Não se pode amar uma máscara. A
gente só pode amar as pessoas; e enquanto
removemos gradativamente a máscara do fin­
gimento, atrás da qual temos escondido o ser
real, é gratificante descobrir, em vez da rejei-

321
ção que esperávamos, um afeio crescente e
aceitação da parte dos outros.
Soren Kierkegaard fez a sábia observação
de que:
Quando o mandamento (de amar o nosso pró­
ximo) é corretamente entendido, ele diz também o
oposto: “ Amarás a ti mesmo da maneira correta.”
Se alguém, portanto, não aprende, com o cristia­
nismo, a amar a si mesmo de maneira correta, tam­
pouco poderá amar o seu próximo. Amar a si mes­
mo da maneira correta e amar o seu próximo são
conceitos absolutamente análogos, e no fundo são
um e o mesmo.” i
Joshua Loth Liebman enfatiza a necessi­
dade de auto-aceitação:
Aquele que odeia a si mesmo, que não possui
respeito adequado para com sua capacidade... não
pode ter respeito para com os outros. Bem no fun­
do de si mesmo odiará seus irmãos, quando vir
neles sua própria imagem desfigurada. O amor a
si mesmo é o fundamento duma sociedade fraterna
e da paz mental.8
Este amor-próprio não é uma preocupação
mórbida para conosco mesmos e para com
nossos próprios interesses. Não é, para usar
o termo de Liebman, uma “egocentricidade
paralisante”. E conseguir o amor-próprio não
é uma tarefa fácil; requer disciplina e preocupa­
ção com este alvo como sendo o supremo es­
forço na vida. Mas vale o quanto custa.
Lembro-me de um fazendeiro desajeitado,
nos dias da minha infância, que tinha o hábito
de dizer, quando lhe perguntavam por que ele
não consertava as cercas e a casa: “Sabe,
estou quase decidido a fazer isso.” Por estar
quase decidido a fazê-lo ele nunca conseguia
nada a não ser uma existência precária, só
para não morrer de fome. “Buscar-me-eis e
me achareis quando me buscardes de todo o

322

\
vosso coração”, disse Deus pelo profeta Jere­
mias; e o Deus que devemos buscar de ‘‘todo
o coração” é o Deus de amor. Quando encon­
trarmos o amor, achá-lo-emos; e quando O en­
contrarmos, teremos achado o amor. Como
Rollo May diz: “Amar a si mesmo, amar os ou­
tros, amar a Deus — tudo isto requer um esfor­
ço quase transcendente para a maioria de nós.
O caminho é estreito e “poucos são 03 que o
encontram”.
No livro Existence (Existência) de Rollo
May, Ernest Engel e Henri F. Ellenberger, faz-se
a afirmação:

O conhecer outro ser humano, do mesmo modo


que amá-lo, envolve uma espécie de união. A gente
precisa pelo menos ter uma prontidão para amar
a outra pessoa, falando em termos gerais, se a gen­
te quiser entendê-la.9

Na experiência de grupo, quando a pessoa


é o centro, e não a idéia, torna-se possível es­
tabelecer esta espécie de união com os outros.
O próprio ato de participar de um grupo assim
indica a “prontidão em amar a outra pessoa",
e, deste modo, começa-se o processo emocio­
nal de entender as outras pessoas e ser com­
preendido por elas.
Thomas Kelly escreve:
No Agora Eterno, todos os homens são vistos
de modo diferente. Nós os envolvemos com nosso
amor, e eles e nós somos envolvidos juntamente no
grande amor de Deus como o conhecemos em Cristo.
Andando uma vez no Agora, os homens são modifi­
cados, à nossa vista, ao os vermos das alturas do
planalto. Não são simplesmente massas de seres em
luta, promovendo ou impedindo nossas ambições...
ou totalmente alienados e isolados de nós. Nos iden­
tificamos com eles, e sofremos quando eles sofrem,
e regozijamos quando eles se regozijam .10

323
Dora havia saído de um divórcio e estava
tentando reconstruir sua vida fragmentada. Ela
tinha bebido muito por vários anos, mas não
havia feito nenhum esforço para assistir aos
AA ou resolver seu problema da bebida de
outra maneira qualquer. Ela apareceu para a
primeira sessão do grupo levemente cambale-
ante, como aconteceu em todas as sessões
subseqüentes. Ela conservava, persistentemen­
te, sua partilhação ao nível da opinião, citando
passagens bíblicas e diversos livros devocio-
nais que, ela nos assegurou, lia diariamente.
Era óbvio para todos no grupo, especialmente
para dois ou três que haviam sido membros
dos AA, que ela era uma alcoólatra inveterada
que provavelmente consumia grande quantida­
de de álcool diariamente e permanecia num tor­
por constante.
De vez em quando o grupo tentava gentil­
mente fazer com que ela fosse pessoal, e não
abstrata, mas a ameaça de remover sua más­
cara era grande demais. Não que ela temesse
a rejeição dos outros, mas ela era incapaz de
olhar para si mesma. Ela havia se ocupado
com a autodecepção por tanto tempo que tinha
chegado virtualmente a acreditar em suas pró­
prias mentiras. Cuidadosamente, medindo a
“força do seu ego”, o grupo nunca pressionava
demais; mas eles persistiam na recusa de dei­
xá-la fugir com todas as suas fantasias. Depois
de seis ou sete meses, durante os quais ela
parecia ter feito pouco ou nenhum progresso, o
dirigente “abriu o portão”, por assim dizer, e
silenciosamente encorajou o grupo a trabalhar
com ela. Isto eles fizeram, inexorável e terna­
mente. Um dos homens disse: “Dora, nós a
amamos, mas poderiamos amá-la muito mais se
você parasse com todo esse fingimento acerca

324
de quanto você bebe. Nós não a rejeitamos por
causa da bebida. Se há, por acaso, alguma re­
jeição aqui é porque vccê não quer nos deixar
conhecer a você de verdade. Tudo que podemos
ver é sua máscara de fingimento. Por que você
não nos conta a verdade? Há mais três alcoóla­
tras no grupo. Um deles apareceu aqui uma
noite cheio até a garganta, e foi recebido com
o mais profundo amor e afeição. Por que você
não joga fora sua máscara e nos deixa conhe­
cê-la?”
Dora continuou assegurando ao grupo que
não era uma alcoólatra, nem mesmo tinha pro­
blema com a bebida. “É verdade que tomo um
trago à noite, antes do jantar, só para me rela­
xar, vocês sabem; não fazem todos assim?”
Como alguém disse mais tarde: “Se tivéssemos
riscado um fósforo na sala teria havido uma
explosão”, porque o hálito dela desmentia sua
insistência de que só tomava um trago por dia.
Mas, sob a pressão inexorável e amorosa do
grupo, que tomara a determinação de que ela
fosse honesta para consigo mesma, ela final­
mente disse: “Está certo, gente, vou contar a
verdade. Eu tomo um galão por dia! Pronto —
agora pelo menos me dêem crédito por ter dito
a verdade!”
Tinha havido risos durante toda a discus­
são, mas por baixo de tudo havia uma profunda
seriedade de propósito. Imediatamente tomou
lugar um ambiente de aceitação e de alivio.
“Dora, agora podemos relacionar-nos com você,
sabendo que você encarou a verdade”, uma
pessoa disse. Mas Dora tinha um longo cami­
nho a percorrer. Ela havia mentido a si mes­
ma, a Deus e a todos mais por tanto tempo que
a estrada de volta não era fácil. Seu médico lhe
disse que o fígado estava “em condições pre-

325
cárias”, e uma manhã ela foi encontrada em es­
tado de coma. No hospital, ela foi tratada por um
mês e quando voltou para o grupo, não camba­
leava ao entrar na sala. Havia uma nova apa­
rência de auto-respeito envolvendo-a, auto-se-
gurança mais calma, menos defensiva. O amor
expresso pelo grupo fora uma experiência cura-
dora para ela.
Mais tarde ela mudou-se para outra cidade.
Suas atitudes continuavam revelando algo da
mesma brilhante segurança e auto-honestidade
que ela tinha aprendido. O amor foi o fator Cria­
dor, porque num grupo amoroso ela teve, final­
mente, a coragem de olhar para si mesma, en­
contrar-se e oferecer esse ser a Deus.
Quando perguntaram a Jesus qual a lei
considerada a maior de todas, ele respondeu
que a suprema lei era amar a Deus com todo o
nosso ser, e amar nosso próximo como a nós
mesmos. A psicologia moderna revelou o motivo
da insistência de Jesus no amor como a virtude
suprema. Erich Fromm diz que o fracasso em
observar o mandamento de amar o próximo
como a nós mesmos é a causa básica da infelici­
dade e da doença mental. "Qualquer que sejam
as reclamações do paciente neurótico, quais­
quer que sejam os sintomas apresentados, es­
tão enraizados na sua incapacidade de amar,
se tomarmos o amor como a capacidade de
experimentar interesse, responsabilidade, res­
peito e compreensão para com outra pessoa,
e o intenso desejo do crescimento dessa pes­
s o a . . . Se este alvo não for alcançado, nada,
a não ser mudanças superficiais podem ser
efetuadas.” n
Fromm também salienta que “o amor por
sua própria natureza não pode ser restrito a
uma pessoa. Qualquer que amar só a uma pes­

326
soa e não “amar seu próximo” demonstra que
seu amor por uma pessoa é uma afeição de
submissão ou dominação, mas não é amor.” 12
Ralph W. Sockman salienta que Toyohiko
Kagawa, o líder cristão japonês, distinguia três
níveis de amor. O primeiro é o amor físico, que
conserva as pessoas reunidas em famílias.
Kagawa também classificava como amor físico
os laços que prendem os indivíduos à sua nação
ou a seu sindicato de trabalho ou a qualquer
grupo que os beneficiasse materialmente.
“Acima deste nível está um plano que ele
(Kagawa) chama de amor psiquíco. Todo casa­
mento verdadeiro ergue-se além da atração fí­
sica, em uma afinidade de mentes e interesses.
O amor psíquico também inclui nosso convívio
em amizades, em grupos profissionais e sociais,
e em todas as relações que repousam na co­
munhão de gostos mentais.”
Kagawa então designa um nível de amor
mais alto, baseado na consciência: “Se alguém
estiver andando pela estrada com um inimigo
à sua mão direita, e um pecador à sua esquer­
da, e poder andar com eles sem os acusar
ou se puder parar sua caminhada para ajudá-
-los, então ele terá se elevado ao plano do
amor consciente. Esse foi o amor que Jesus
manifestou, e ao qual convocou seus seguido­
res, mandando-os fazer o bem àqueles que os
odiavam.” is
Há muitas concepções erradas concernen­
tes ao amor e muitos métodos falsos pelos
quais procuramos exprimir ou ganhar amor.
Paul Tournier descreve o amor mal dirigido que
os pais, às vezes, oferecem a seus filhos, usan­
do presentes para suborná-los a um certo com­
portamento desejado. Este procedimento, con­
tinua Paulo Tournier, “minará todo o seu rela-

327
cionamento afetivo para com a criança. ‘Se você
se sair melhor em latim, ganhará uma bicicle­
ta.’ Não há relação alguma entre latim e bici­
cleta. Os pais ficam felizes em dar uma a seus
filhos, mas querem matar dois coelhos com
uma cajadada só; querem experimentar a ale­
gria de dar uma bicicleta e o progresso da
criança na escola. A criança, entretanto, não
entende isto, e ressente-se pelo presente con­
dicional por que significa amor condicional: ‘Eu
te amo se fores bem, se deres duro, e se fores
obediente.’ Uma criança assim não se sente re­
almente amada.” i*
Conhecer só o amor condicional enfraquece
a capacidade subseqüente da criança de acei­
tar o amor incondicional de Deus, e, até certo
ponto, limita sua capacidade futura de aceitar
o amor das pessoas; porque profundamente
enraizado dentro, no nível do sentimento, en­
contra-se o conceito de que a pessoa deve
“merecer” o amor, em vez de ser amada por
causa de si mesma. Tal pessoa jamais poderá
sentir-se completamente perdoada, completa­
mente merecedora do amor de Deus, a menos
que ela corresponda a algum padrão real ou
imaginário.
Outro conceito falso — na verdade, uma
perversão do amor — é encontrado na relação
de dependência freqüentemente observada en­
tre pais e filhos. Em um de nossos grupos, uma
mulher descreveu seu relacionamento com sua
mãe exigente e dominadora. À medida que a
mãe se tornava mais velha, suas exigências
cresciam, até que a filha não pôde mais sentir-
-se bem junto dela e de fato, se ressentia pro­
fundamente dessas exigências. Quando a filha
conseguiu o divórcio, a mãe fez planos para
morarem juntas. Esta possuía grandes proprie­

328
dades, e, ao correr dos anos, havia deixado
bem claro que, para herdá-las, sua filha devia
se submeter a ela. A filha nos disse: “Eu não
quero o dinheiro dela e não vou morar com
ela. Quero estabelecer minha própria identida­
de. Não quero ser dominada e controlada. Des­
te modo terei que ganhar minha vida e prefiro
muito mais fazer isto do que ser dependente,
em qualquer sentido, de minha mãe. Ela tem
sempre tentado me cobrir de presentes, mas
foram sempre condicionais. Quando eu não lhe
agradava, ela me pedia para devolver os pre­
sentes.”
Aqui estava um caso típico de uma relação
de mãe e filha baseada na dependência da mãe;
a mãe procurando dominar, mas, na realidade,
dependente de sua filha. Quanto mais ela pro­
curava dominar, tanto mais a filha se afastava
dela, deste modo aumentando a ansiedade e a
determinação da mãe de “ganhar o amor de
minha filha” . Ela confundia amor com depen­
dência.
Uma situação parecida é freqüentemente
observada quando a mãe opõe-se a deixar um
filho ou uma filha sair de casa para se casar.
No nível consciente, a mãe anseia que o filho
encontre a felicidade e construa um lar feliz;
mas inconscientemente ela sente a necessidade
de que o filho seja “dependente” dela. Desta
forma ela se torna a pessoa dependente. Isto
é uma coisa diferente do amor.
Os casais jovens muitas vezes tomam a
atração física, que é o impulso sexual dado por
Deus, pelo amor. Cada um é atraído pelo outro
por uma variedade de razões, algumas válidas
e outras simplesmente manifestações de suas
próprias necessidades, que o outro parece pre­
encher. Tentar explicar aos jovens tudo o que é

3 29
envolvido no amor e casamento, como faço fre­
quentemente quando eles vêm a mim para dis­
cutirem seus planos de casamento, parece, às
vezes, quase infrutífero; seus olhos estão cheios
de pó das estrelas. A possibilidade de seus so­
nhos românticos se tornarem hostilidade in­
tensa parece-lhes inacreditável, Frequentemen­
te me olham divertidame.nte quando sugiro al­
guns dos meios pelos quais eles podem evitar
os perigos mais óbvios do casamento. Geral­
mente só mais tarde, quando sua frustração e
dor se torna insuportável, é possível oferecer-
-Ihes assistência real; e muitas vezes é tarde
demais quando voltam para procurar ajuda.
Freqüentemente, em nossos grupos, o ca­
sal aprende a arte de amar descobrindo pri­
meiro como comunicar os verdadeiros senti­
mentos. É uma experiência profundamente com-
pensadora observar o afastamento das barrei­
ras entre marido e mulher, quando começam a
“conhecer” um ao outro pela primeira vez.
“É mais fácil amar a Deus do que às pes­
soas”, como apontou Frank Laubach. “O Deus
que vemos em Jesus Cristo é o Ser mais amável
do universo — mas as pessoas são muitas vezes
desprezíveis. Devemos treinar-nos para amar as
pessoas porque elas precisam de amor e não
porque sejam atraentes. . . As pessoas que mais
necessitam de nós são aquelas a quem os ou­
tros não amam. São irritantes. Muitas vezes são
mal-educadas e mal-humoradas.” «
Laubach também aponta a dificuldade que
os cristãos experimentam nesta área. Ele se
refere ao fato de que, quanto mais perto eles
se achegam a Deus, tanto mais claramente vê-
em os pecados e a fraqueza da natureza hu­
mana. E a maior tentação para a pessoa que
está tentando ser um cristão é criticar aqueles

330
que não compartilham dos seus ideais cristãos.
Por isso é que se diz que a pessoa mais difícil
de se conviver é o santo!... Como odiar o erro
e ainda sentir amor e tolerância para com a pes­
soa que o comete é um problema que todo
cristão deve encarar. O problema não diminui;
cresce com 0 desenvolvimento da dedicação a
Deus.”
Devemos nos lembrar continuamente de
que a pessoa não ama de verdade enquanto
não se amar a si mesma, e amar a Deus e, no
processo, adquirir a capacidade de amar os
outros incondicionalmente. Para alguns, a ha­
bilidade de amar começa no amar as pessoas;
para outros, parece que começa com a relação
amorosa com Deus. Talvez não seja tão impor­
tante onde se entre no círculo do amor — quer
consigo, com Deus ou com os outros.
Wendell McCIoud, um sacerdote episcopal
que assistiu a um de nossos retiros em Asilo-
mar, no norte da Califórnia, e cuja exeperiên-
cia foi contada no Capítulo 11, escreveu a res­
peito de sua jornada espiritual, a meu pedido:
“O meu forte é a hostilidade. E, por estar
tão cheio de hostilidade, sinto uma necessidade
coerciva de falar a respeito do amor. A melhor
maneira de falar sobre o amor é contar uma es­
tória de amor. A estória de amor que eu sei
contar melhor é a minha própria. Minha estó­
ria começou quando um douto advogado fez
uma pergunta a um Carpinteiro competente so­
bre assuntos técnicos legais.
"Por sua resposta mostrar familiaridade com
a gíria profissional legal e compreensão de prio­
ridade legal, o Carpinteiro espantou todo mun­
do, especialmente o advogado. A primeira par­
te da resposta do Carpinteiro à pergunta cap-
ciosa do advogado foi: ‘Amarás ao Senhor teu

331
Deus de todo o teu coração, e de toda a tua
alma e de todo o teu entendimento.’
“Por quarenta e oito anos lutei com a res­
posta do Carpinteiro, pois por quarenta e oito
anos tentei amar com todo o ser — de todo o
meu coração, alma e entendimento. Por qua­
renta e oito anos tentei este negócio de amor
e nunca cheguei a parte alguma. Não cheguei a
parte alguma porque me faltava a mínima noção
do que ele dissera. E não tinha a mínima noção
do que ele dissera porque aprendí errado a
lição do amor. Em sua relação de amor nossa
família aderiu a um sistema de trocas. Isto pa­
recia especialmente verdadeiro quanto à troca
entre minha mãe e eu. Permutar é trocar um bem
de consumo por outro. O bem de consumo de
mamãe era o ‘amor’ . Minha mercadoria era
“o bom menino”. Eu permutava com mamãe,
trocando meu ‘bom menino’ pelo ‘amor’ dela.
Estes riscos interpessoais claramente calcula­
dos foram preparação pobre para amar com
todo o meu ser. Inevitavelmente, minhas tenta­
tivas infantis de amar a Deus com todo o meu
coração, alma e mente falharam porque, na
economia do amor de Deus, ‘troca’ não signi­
fica nada, e, portanto, nada produz.
“O Carpinteiro continuou sua resposta ao
advogado, dizendo: ‘Amarás o teu p ró x im o ...’
e eu continuei respondendo ao Carpinteiro com
o fracasso em amar meu próximo da mesma
maneira que tinha falhado em amar a Deus.
Infelizmente escondi este segundo fracasso, e
o escondi tão bem que toda vez que odiava,
pensava estar amando. Nos meus dias de semi­
nário o evangelho social era o maior, e eu dava
tudo pelo evangelho social. Preocupava-me pela
vítima da injustiça social, desordenadamente, o

332
que, no meu caso, era uma maneira de odiar
desordenadamente os que estavam por cima.
“Por vinte anos enganei a mim mesmo,
crendo que fosse uma alma gentil e amorosa,
mas, na realidade, eu era um odiador de pri­
meira categoria. Eu odiava um grupo ao este
fingir amar outro grupo, oposto, ‘inimigo’ .
Sob o disfarce de amar um grupo, eu escondia
de mim mesmo que odiava muito mais do que
amava.
“Em 1956, quando minha esposa repenti­
namente me deixou, este fingimento terminou
abruptamente. Ela levantou vôo e eu caí. Este
colapso do meu mundo pessoal mais íntimo
convenceu-me, com o tempo, que eu devia dar
uma olhada conscienciosa em mim mesmo. Com
esta convicção, surgiu a consciência — a cons­
ciência de que eu tinha ouvido só uma parte
da resposta do Carpinteiro ao advogado. Por
quarenta e oito anos eu havia perpetuado esse
traço peculiarmente humano. Eu havia escuta­
do as palavras, mas não o significado delas. De
algum modo, aquelas últimas palavras, muito
importantes, ‘como a ti mesmo’ haviam me
escapado. Eu estava tentando amar a todos,
menos a mim mesmo. Havia ouvido o que o
Carpinteiro dissera, mas não o que e!e queria
dizer. O fato de o colapso do meu mundo ter-me
forçado a entender essas palavras foi uma gran­
de bênção.
"Tenho sido tão intolerante para com tanta
coisa que preenche a vida que fico espantado
com minha capacidade prodigiosa de tolerar
tanta coisa que frustra a vida. Mas, Deus seja
louvado, até um glutão, como castigo, eventual­
mente chega a este ponto de frustração super-
saturada. No meu quadragésimo oitavo ano eu
havia chegado a esse ponto. A vida me apavora

333
nesta conjuntura, porque ela me confronta com
a escolha no momento em que menos capaci­
dade tenho para escolher. Ela me aterroriza
porque neste momento decisivo o ódio na ba­
lança pesa contra o amor, a morte contra a vida,
e o ego contra Deus. Entro em pânico porque
tampouco pode fazer a balança pender tão de­
terminantemente. Entro em pânico porque te­
nho certeza de que a balança penderá para
minha destruição, contra o amor, contra a vida
e contra Deus. Neste ponto, eu descreio de que
a balança poderá pender, da mesma maneira e
facilmente, para o lado da minha redenção pelo
amor, pela vida e por Deus. Finalmente, havia
a pergunta suscitada por um padrão estabe­
lecido: Eu havia escolhido erradamente, até
aqui. Por que, então, faria uma escolha certa
agora neste ponto?
“Embora a lógica do passado garantisse
outra escolha errada, essa escolha errada jamais
foi feita. O que mostra quão ilógica a lógica po­
de ser. Essa escolha jamais foi feita, não porque
de repente eu ‘me tornasse esperto’; mas por­
que Deus cuida de mim, e ele me dirigiu para o
meu primeiro grupo de terapia. Em um grupo,
Deus abriu a minha mente e o meu coração para
o significado das palavras de seu. Filho: 'Ama­
rás o teu próximo como a ti mesmo.’ Três anos
em um grupo têm-me ajudado na minha busca
pelo significado, possibilitando-me: 1. A ver a
mim mesmo (autocompreensão); 2. A libertar-
-me (auto-aceitação); 3. A ser eu mesmo (amor-
próprio). Honestidade implacável para consigo
mesmo e amor crescente e constante para com
os outros acompanha este crescimento na signi­
ficação da vida.
“Um ano depois de minha primeira experi­
ência de grupo, eu liderava dois grupos

3 34
‘Yokefellow’. No ano passado, eu dirigi três gru­
pos. No próximo ano dirigirei quatro. Esta é
minha maneira de amar os outros como Cristo
me amou. Somos conseqüência de seu amor em
operação nestes grupos, tenho visto, no pas­
sado, e continuo a ver no presente, vidas huma­
nas acordarem para a vida de santidade para
a qual foram criadas. Como conseqüência deste
despertamento, tenho visto os impiedosos chei­
os de esperança, os tristes cheios de alegria,
os odiadores transformarem-se em seres amo­
rosos; de fato, eu tenho visto o casamento caó­
tico tornar-se matrimônio santo.
Quanto a mim mesmo, tenho a certeza de
que, em qualquer sentido em que isto é ver­
dade: Eu posso ver-me, libertar-me, ser eu
mesmo; posso amar a Deus com todo o meu
coração, mente e alma; posso amar o meu pró­
ximo como a mim mesmo; e só porque creio
em:
Deus — Pai, que me criou para o amor,
Deus — Filho, que me redimiu para o
amor,
Deus — Espírito Santo, que me capacita
para o amor,
Deus — Trindade Santa, que, através dos
grupos, estabelece seu Reino na
terra assim como no céu.”
Raynor C. Johnson, em Watcher on the
H llls (O Vigia sobre os Montes), dá um relatório
detalhado de muitas pessoas que experimenta­
ram a realidade máxima do amor de Deus. Em­
bora os detalhes de cada experiência difiram, um
fio comum percorre todas elas. A experiência
de Sir Francis Younghusband, relatada por
Johnson, é típica:
"Eu tinha um curioso sentimento de estar
literalmente apaixonado pelo mundo. Não há

335
outra maneira em que eu possa expressar o que
sentia então. Sentia como què mal podendo
conter a mim mesmo por causa do amor que
explodia dentro de mim. Parecia como que se
o mundo fosse nada mais do que o próprio
a m o r.. . Por tr á s ... das coisas eu tinha a cer­
teza de que estava o amor — e não mera bene­
volência plácida, mas amor, ativo, ardente, de­
votado, e nada mais. O mundo inteiro parecia
estar num esplendor de amor, e o coração dos
homens queimar no desejo de estarem ligados
uns aos outros”.
“Tenho motivos para aceitar a validez disto,
porque eu tive, uma vez, uma experiência Igual.
Estava preparando um sermão sobre o amor de
Deus. Por uma semana eu havia lido e pensado
sobre o assunto. Na manhã de domingo, repas­
sei minhas notas para o sermão; e então, por
alguma razão, decidi andar até a igreja, e não
ir de carro, como costumava fazer.
“Ao abrir a porta da frente de nossa casa,
a coisa aconteceu: Saí para um mundo que
jamais havia visto antes. As coisas familiares
estavam lá, como de costume, mas eram todas
diferentes — vestidas numa radiação e beleza
além da descrição. A grama estava infinita­
mente mais verde do que jamais a vira. Olhei
para as árvores, silhuetas contra o céu azul pro­
fundo, e sua beleza era comovente além da
imaginação. Tornei-me uma parte do todo, abra­
çando-o; e o todo abraçou-me. Quase tive medo
de respirar para que a experiência não se dis­
solvesse, mas a apreensão só existia em minha
mente, porque o resto de mim estava experi­
mentando uma alegria extática, que procedia
de algo mais que a beleza visual. Repentina­
mente eu soube o que era. Era amor! O mundo
inteiro era um vasto sistema de amor! Senti

336
isso mais do que pensei. O amor, eu percebí,
estava no centro de tudo, e Deus estava em
tudo, e tudo era Deus, e Deus era o amor inex­
primível.
Uma casa branca, que sempre achara ser
de aparência um tanto comum, agora parecia
espantosamente bela. As árvores da rua não
eram mais simples árvores, mas uma parte inte­
grante deste sistema de amor que permeia o
universo inteiro. Lembro-me de ter sentido amor
pelas árvores. Era um sentimento caloroso, afe­
tuoso, como se pertencéssemos um ao outro.
Olhei para a terra marrom escura entre a cal­
çada e o meio-fio. Lá estavam sementes de eu­
calipto em grande profusão, e senti, não pensei,
que eram as coisas mais adoráveis que eu já
tinha visto. Amei-as em sua beleza, porque eram
parte deste universo de amor. Dois estranhos
se aproximaram de mim e senti um repentino
impulso de afeição para com eles. Cumprimen-
tei-os cordialmente e a surpresa visível deles
não tinha a menor importância. O resto do cami­
nho para a igreja foi cheio de beleza e amor, e,
quando cumprimentei várias pessoas na entrada
da igreja, senti algo que só pode ser descrito
como amor, calor e afeição esmagadora. Todos
éramos um e entre nós não havia barreiras. Es­
tas pessoas eram parte do universo glorioso,
maravilhoso, regozijante de Deus e eram belas.
Foi uma conscientização da realidade últi­
ma do amor. Eu via as pessoas e coisas como
realmente são, não empanadas pelo ódio, sen­
timento de culpa, ansiedade e medo. A experi­
ência durou, em escala decrescente, por
uma hora, e no final do culto sentia um calor
ardente para com todos. Não importava que eles
e eu tivéssemos falhas. Todos estávamos per­
doados, éramos amados, unidos e nos amáva-

337
mos. Não era irmandade, pois essa palavra é
fraca demais. Era uma unidade na qual estáva­
mos ‘em’ Deus e Deus em nós. Não fiquei triste
pelo sentimento ter diminuído gradativamente,
porque senti que me havia sido dado um vis­
lumbre da realidade além do que nós, huma­
nos, chamamos de ‘normal’.
O amor está no centro do universo. Ele
pulsa em cada átomo e molécula. Palpita em
cada árvore. Está vivo em cada ser humano, no
pó da terra, no coração de Deus. Deus ó amor.
O céu é amor, e todos fomos feitos para amar,
para viver em amor com Deus e os homens.”
São João Crisóstomo, que teve muitos vis­
lumbres duradouros da realidade última, escre­
veu: "Quando a noite da vida chegar, serás
julgado em amor.” Porque o amor é tudo.

338
CITACÕES DOCUMENTADAS

CAPITULO 1
1 The Meaning of Persons, Paul Tournler, Har-
per & Row, 1960
a Extraído de The Listener by Taylor Caldwell. Co­
pyright © 1960 by Reback and Reback. Reprinted
by permisslon of Doubleday & Company, Inc.
3 Êxodo 3*5
* João 13:34; 16:24; 14:27; 13:17; 10:10, 17:3
6 Call to Commitment by Elizabeth 0 ’Connor, Har-
per & Row, 1963
• Emotional Maturity, by Leon J. Saul, J.B. Lippin-
cott Co., 1960
^ The Art of Counseling by Rollo May, Ablngdon
Press, 1949
CAPÍTULO 2
1 Alternativo to Futility by Elton Trueblood, Har-
per & Row, 1948
* The Art of Counseling by Rollo May, Abingdon
Press, 1949
3 Extraído de The Undiscovered Self by C.O. Jung,
Copyright © 1958, by C. J. Jung. Reprinted with
permission of Atlantic-Lttlle, Brown and Company
Publishers.
4 Ibidem.
3 Lucas 24:49
• Alterna tive to Futility by Elton Trueblood, Har-
per & Row, 1948
CAPITULO 3
1 Provérbios 14:30, An American Translatlon, unl-
versity of Chicago Press

339
3 Filipenses 4:6,7
3 Love Against Hate by Karl Menninger, Harcourt,
Brace & World, 1942
4 João 16:33
8 The Dynamics of Personal Adjustment, by George
F.J. Lehner & Ella Kube, Copyright C 1955. Re-
printed by permission of Prentice-Hall, inc., En-
glewood Cliffs, New Jersey
• The Vital Balance by Karl Menninger with Mar­
tin Mayman and Paul Pruyser, The Viking Press,
1963
7 The New Group Therapy by O. Hobart Mowrer,
D. Van Nostrand Co., Inc., Princeton, N.J., 1964

CAPITULO 4

1 The Neurotic Personality of Our Time by Karen


Horney, W .W . Norton & Co., New York, 1950
3 The New Group Therapy by O. Hobart Mowrer,
D. van Nostrand Co., Inc., Princenton, N .J., 1964
3 Mateus 18:20

CAPITULO 5

1 Marcos 9:23
3 Mateus 6:33

CAPÍTULO 6

1 New Approachcs to Dream Interpretation by


Nandor Fodor, Citadel Press, New York, 1962
3 Guilt and Grace by Paul Tournier, Harper &
Row, N .Y ., 1962
3 Tiago 5:16
* Lucas 16:19-31
8 I João 4:8
* Lucas 9:54,55
7 I João 1:9
8 In Search of Maturity by Fritz Kunkel, Charles
Scribner & Sons, 1943
* Prayer and Personal Religion by John B. Coburn.
Copyright, 1957, by W .L. Jenkins, The West-
minster Press. Used by permission.
30 Mateus 23:33
13 Psychoanalysis and Religion by Erich Fromm,
Yale University Press, New Haven, 1950

340
13 Time and Eternity, A Jewish Reader, N .N .
Glatzer, Editor, Schocken Books, New York, 1961

CAPITULO 7
1 Neurosis and Human Growth by Karen Horney.
W .W . Norton & Co., 1950
2 Mateus 6:14,15
a Jó 42:8,10
4 The Myth of Mental Illness by Thomas Stephen
Szasz, Hoeber-Harper, New York, 1961
5 The New Group Therapy by O. Hobart Mowrer,
D. van Nostrand Co., Inc., Princenton, N.J., 1964
* Ibidem.
7 The Transparent Self by Sidney M. Jourard, D.
Van Nostrand Co., Inc., Princenton, N.J., 1964
8 Romanos 3:23

CAPITULO 8
1 João 8:11
a Lucas 15:11-24
3 João 4:25,26
4 Marcos 12:30,31
5 Mateus 7:5
6 Tiago 5:16
7 Mateus 5:21,22,27,28

CAPITULO 9
1 Search for Love by Lucy Freeman, World Pu-
blishers, Cleveland, 1957
2 Understanding Human Nature by Alfred Adler,
Premier Brooks, Fawcett Publications, New York,
1954
3 Modem Woman, the Lost Sex, Ferdinand Lund-
berg and Marynia F. Farnham
4 Extraído de The Power of Sexual Surrender by
Marie N. Robinson. Copyrigth © 1959 by Marie
N. Robinson. Reprinted by permission of Double-
da_y & Company, Inc.
5 Ibidem.
8 The Importance of Feeling Inferior by Marie
Beynon Ray, Harper & Row, New York, 1957
7 Ibidem.
8 The Natural Superiority of Women by Ashley
Montagu, Macmillan

341
9 The Undiscovered Self by Carl G. Jung, Copy­
right © , 1958, by C.G. Jung. Reprinted witb
permissi^n of Atlantic-Little, Brown and Com-
pany, Publishers
10 Ibidem.
11 Woman’s Mysteries by Mary Eather Harding,
Random House, Inc., revlsed edition, 1955
13 Saints, Sinners and Psychiatry by Camila M. An-
derson, The Durham Press, Portland, Oregon,
1962
13 Love Against Hate by Karl Menninger, Harcourt,
Brace & Co., New York, 1942
14 Neurosis and Human Growth by Karen Horney,
W .W . Norton & Co., 1950
18 Ibidem.

CAPÍTULO 10
1 Lucas 23:34

CAPITULO 11
1 Provérbios 23:7
2 Provérbios 4:23
3 Mateus 18:20
4 Mateus 28:20
8 Mateus 16:17,18
6 Romanos 8:28
7 Filipenses 2:13
8 Eíésios 3:20
9 Hebreus 11:6

CAPÍTULO 12
1 The Art of Counseling by Rollo May, Abingdon
Press, Nashville, 1949

CAPÍTULO 13
1 Eíésios 1:19-20 (Phillips)
2 Marcos 9:19
3 Faith for Personal Crises by Carl Michalson,
Scribner’s Sons, New York, 1958
4 Ibidem.
8 Marcos 9:24
7 Mateus 13:58
342
C A P IT U L O 14
1 Search for Love by Lucy Freeman, World Pu-
blishers, Cleveland, 1957
a The Art of Loving by Erich Fromin, Harper &
Row, New York, 1956
3 Man, Animal and Divine, by Wm. R. Parker and
Enid Aldwell, Scrivener & Co., Los Angeles, 1956
* Extraído de The Strong and the Weak by Paul
Tornier, 1963, The Westmlnster Press. Usado com
permissão.
3 The Art of Loving by Erich Fromm, Harper &
Row, New York, 1956
• Mateus 5:48
7 Works of Love, Soren Kierkegaard, Trans. bj
David Swenson Harper & Row, New York, 1962
8 Peace of Mlnd by Joshua Loth Llebman, Sl-
mon & Schuster, New York, 1955
9 Existence, a New Dimension in Psychiatry and
Psychology by Rollo May, Emest Angel Henry
F. Ellenberger, Basic Books, Inc., N .Y ., 1958
10 A Testament of Devotion by Thomas Kelly, Har­
per & Row, 1941
11 Psychoanalysis and Religion by Erich Fromm,
Yale University Press, New Haven, 1950
12 Ibidem.
ia Man’s First Love by Ralph Sockman. Copyright
© 1958 by Ralph W. Sockman. Reprinted by per-
mission of Doubleday & Company, Inc.
ii The Meaning of Gifts by Paul Tournier, John
Knox Press, Richmond, Va., 1963
is Channels of Spiritnal Power by Frank Laubach,
Fleming H. Revell Co., Westwood, N.J., 1954
10 Ibidem.
11 Watcher on the Hilis by Raynor C. Johnson,
Harper & Row, N .Y ., 1959

343
A

Adler, Alfred, 189, 192


Alcoólatras Anônimos, 38, 55, 120, 157, 324
Alvarez, Dr. W.C., 66
Anderson, Oamilla M., 197
Arthritis, Medicine and the Spiritual Laws, 68, 262
Aventura Espiritual, Grupo de, 43

British Medicai Journal, 291


Bunyan, John, 155
Buren, Ablgall van, 217

Caldwell, Taylor, 11
Carrel, Alexis, 281
Cellinl, Benevenuto, 154
Cloud of Unknowing, The, 309
Coburn, John B., 134
Collier, Howard E., 221
Connelly, Marc, 18
Cosby, Gordon and Mary, 21

Dandini, Joe, 12
Davi (rei), 121
Desenhar uma Pessoa, Teste de, 87
Dynamies of Personal Adjustment, The, 71

3 45
£

Eckhart, Meister, 51, 93


Ellenberger, Henri F., 323
Engel, Ernest, 323
Espírito de São Luls, O, 253
Existence, 323

Farnham, Marynia P., 190


Fodor, Nandor, 116
Freeman, Lucy, 189
Freud, Sigmund, 24, 146, 286
Promm, Erich, 139, 140, 311, 317, 318, 326

Glatzer, N .N ., 142
Green Pastures, The, 18
Guerra dos Cem Anos, 189
Guilt and Grace, 119

Harding, Mary Esther, 196


Harlow, Dr. Haxr Margaret K., 312
Hazm, Ali ibn, 71
Hegel, Georg, 293
Hitler, Adolf, 47
Homey, Karen, 75, 143, 217

I
Igreja do primeiro século, 16

Jane, Lerne, J., 26


Jó, 148
João, Apóstolo, 126, 129
João Crisóstomo, São, 338
Johnson, Raynor C., 335
Jourard, Sidney S., 153
Jung, Carl G., 39, 44, 45, 194

3 46
K

Kagawa, Toyohiko, 327


Kelly, Thomas, 323
Klerkegaard, Soren, 322
Kingsley, Charles, 9
Kube, Ella, 71
Kunkel, Fritz, 26, 133

Laubach, Frank, 330


Lawrence, Brother, 252
Lehner, George, F.J., 71
Liebman, Joshua Loth, 322
Lindberg, Charles, 253
Listener, The, 11
LSD-25, 19
Lundberg, Ferdinand, 190

May, Rollo, 26, 40, 257, 323


McCloud, Wendell, 227
Meaning of Persons, The, 10
Meir, Isaac, 142
Mennlnger, Karl, 60, 71, 216
Michalson, Carl, 186
Montagu, Ashley, 192
Moisés, 17, 163
Mowrer, O. Hobart, 72, 90, 153

Natã (profeta), 121


Natural Superiority of Women, The, 192

0 ’Conner, Elizabeth, 21

Parker, Dr. Wllllam R., 36


Paulo, Apóstolo, 40, 59, 218, 282

3 47
Pedro, Apóstolo, 243, 251
Platão, 75, 281
Power oi Sexual Surrender, The, 181

R
Ray, Marie Beynon, 191
Rejeição de Deus, 15
Roblnson, Marie N., 191

S
Saul, Dr. Leon J.,
Segunda Guerra Mundial, 16
Smlthsoniana, Instituição, 253
Sokman, Ralph W., 327
Sócrates, 253
Swaln, Dr. Lorlng T., 68, 262
Szasx, T.S., 152

T
Terapia, da Oração, Tenda de Trabalho de, 309
Tiago, Apóstolo, 128
Tournler, Paul, 10, 119, 317, 327
Trueblood, D. EltoO, 31, 4o
U
Upanlshadas, 111
V

Vlndlcatlon of the Rlghts oi Womem, A, 190

W
Watcher on the Hllls, 335
Wollstonecraft, Mary, 190

Y
Yokefellow Movement, 35, 49, 306, 335
Younghusband, Sir Francls, 335

Z
Zusya, Rabino, 237

348

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