Você está na página 1de 354

APRESENTAÇÃO

Eis um convite autêntico

. tro da identidade própria

e à própria vida!

Este livro apresenta uma perspectiva com­ pletamente diferente com relação aos pro­ blemas fundamentais de homens e mulheres de todas as convicções religiosas.

A Arte de Compreender-se a Si mesmo tem uma mensagem universal porque trata de elementos humanos universais:

ansiedade culpa frustração amor necessidade de melhor relacionamento.

à perspicácia, ao crescimento, ao encon­

O livro deixa bem claro que há ALGUÉM que nos ouve, compreende e perdoa. Quando o indivíduo crê, abre o caminho para a plena realização de sua personalidade através da fé, e para uma nova e mais rica compreensão do seu próprio ser e dos outros.

Departamento

de

Publicações Gerais

SUMÁRIO

Apresentação

 

5

1.

Seu Ser Solitário

9

2.

União

Redentora

31

3.

Ansiedade

51

4.

A Cura da Ansiedade

75

5.

Alcançamos o Que Realmente Dese­ jamos

93

6.

Confissão

111

7.

A Culpa e o Castigo

143

8.

Culpa e Perdão

163

9.

A Guerra entre os S exos

189

10.

Levando Avante LutasJá Vencidas

221

11.

A Sua Auto-lmagem

237

12.

Que Acontece num Grupo?

253

13.

A Cura nos Grupos

281

14.

Amor

309

Citações Documentadas

339

SEU

SER

]

SOLITÁRIO

Se você quiser ser infeliz, deve pensar em si mes­ mo, no que você deseja, no que você gosta, em qual o respeito que os outros lhe devem dar, e então para você nada será puro. Você estragará tudo que tocar; você fará pecado e miséria com tudo que Deus lhe enviar. Você pode ser tão desgraçado quanto esco­ lher. — Charles Kingsley

Talvez você nunca pensou qus é solitário. Você pode ter amigos, interesses vários e nume­ rosas atividades que ocupam seu tempo e pen­ samento. Mas a verdade é que ninguém co­ nhece você realmente. Um amigo pode saber algumas coisas acerca de você, e pode ter consciência de algum dos desejos secretos do seu coração, mas ninguém jamais sentiu preci­ samente o que você sente, e, portanto, ninguém pode conhecê-lo inteiramente. Você sente que ninguém o ouve realmente. Enquanto você está tentando compartilhar al­ guns dos seus sentimentos mais profundos, você tem a sensação de que a pessoa a quem você se dirige está esperando com impaciência mal contida para dizer: “Sim, e isto me faz lembrar de algo que me aconteceu outro dia.” Há outra razão por que não somos realmente conhecidos por ninguém mais. A razão disto,

como aponta Pau! Tournier, é que cada um de nós está num estado de tensão entre a neces­ sidade de nos revelarmos e a necessidade de nos encobrirmos. Temos o impulso de compartilhar iossos sentimentos verdadeiros, mas tememos nos tornar vulneráveis e sermos rejeitados ou criticados. E, como resultado disto, nos limita­ mos às observações banais acerca da superfi­ cialidade da vida:

"Que coisa! Como o tempo tem mudado ultimamente!” ou fazemos outro comentário qualquer, igualmente banal. "Cada um de nós faz o melhor que pode para se esconder atrás de um escudo”, diz Paul Tournier, no livro The Meaning of Persons. i (O Significado das Pes­ soas). "Para uns pode ser um silêncio miste­ rioso que se constitui seu retiro impenetrável. Para outros é a conversinha fácil, que nunca permite que nos aproximemos deles, ou às

vezes ó a erudição, citações, abstrações,

ria s

trivialidades”.

teo­

Quem é que nos ouve no universo inteiro? Nosso amigo ou professor, pai ou mãe, irmã ou vizinho, filho, rei ou servo? Escutam-nos, nosso advogado, ou nossos esposos e esposas, aqueles que são mais caros a nós? Ouvem-nos as estrelas, quando nos vol­ tamos, desesperadamente, para longe do homem, ou os grandes ventos, ou os mares ou as montanhas? A quem pode o homem dizer — Eis-me aqui! Con­ templa-me em minha nudez, com minhas feridas, meu mal secreto, meu desespero, minha traição, mi­ nha dor, minha língua, que é incapaz de expressar meu pesar, meu terror, meu abandono? Ouça por um dia, uma hora! Um momento! Silêncio solitário! ó Deus, não há alguém que escuta? Não há alguém que escuta? — você pergunta. Ah! sim. Há um que ouve, que sempre ouvirá!

Apressa-te a ele, meu amigo! montanha por você.

Ele espera na

Sêneca

Sim, há Um que ouve, e muitos têm apren­ dido a derramar suas almas diante de Deus em oração sincera e satisfatória. Mas milhões de outros — talvez a grande maioria — não têm certeza de que Ele ouve realmente, e assim não procuram o ouvido daquele que ouve. Ele responde verbalmente, não há resposta simpática e imediata, e eles, afinal de contas, duvidam que haja de fato alguém que ouça.

em The Ustener (“O

Taylor

Caldwell,

Ouvinte”), diz:

O homem não precisa ir ã lua ou a outros sis­ temas solares. Ele não necessita de maiores e me­ lhores bombas e misseis. Ele não morrerá se não con­

seguir melhor habitação ou mais vitaminas

Suas

necessidades básicss são poucas, e custa pouco sa­ tisfazê-las, a despeito dos propagandlstas. Ele pode sobreviver com uma pequena quantia de pão e no abrigo mais deplorável Sua necessidade real, sua mais terrível necessi­ dade, é alguém que o ouça, não como um paciente, mas como alma humana Nossos pastores ouviriam — se nós lhes désse­ mos o tempo para eles nos ouvirem, mas nós os so­ brecarregamos com as tarefas que deviam ser nossas. Nós exigimos que eles não somente sejam nossos pastores, mas que carreguem nossas trivialldades, nossas aspirações sociais, a “graça” de nosso filhos, em suas costas afadigadas. Exigimos que eles sejam peritos negociantes, políticos, contadores, colegas de jogo, diretores da comunidade, “bons amigos", jui­ zes, advogados e apaziguadores de brigas locais. Da­ mos a eles pouco tempo para ouvir, e nós tampouco os ouvimos . 2

Este livro é, em parte, a estória de gente, constituída a princípio de um pequeno grupo, mas que agora chega aos milhares, que apren­ deu a ouvir; a estória da cura da mente, do espírito, do corpo e a circunstância em que foi alcançada, porque estas pessoas aprenderam a partilhar mais profundamente as suas expe-

riências e, no processo, descobriram que o amor de Deus é mediado através de pessoas; é a estória de pessoas que chegaram a conhe­ cer a Deus, a si mesmas e aos outros de um modo mais satisfatório do que jamais tinham pensado ser possível.

Joe Dandini * era um homem muito soli­ tário. Ele apareceu em meu estúdio uma tarde. Eu nunca o havia visto antes. Era um homem de grande estatura, cordial, extrovertido, que exalava amizada pelos poros. — Olhe — disse ele — eu nem sei bem por que estou aqui. Eu sou católico romano, entende? Mas eu tenho problemas, tenho-os há muito tempo. Bem, há uma mulher que mora nesta rua. Ela era uma pessoa muito confusa, mas de repente se endi­ reitou, e a mudança é tão notável que eu resolvi descobrir como foi que isto aconteceu. Fiquei sabendo que ela assistiu com um grupo aqui na sua igreja. É tudo o que sei. Preciso de ajuda de alguma forma. Talvez eu precise do que ela tem. Já fui a psiquiatras, médicos, psi­ cólogos, e não melhorei em nada. Corro aos médicos com todos os tipos de sintomas, mas o que eles me dizem é que são meus nervos. Eu acho que eles querem dizer que são mi­ nhas emoções. Dizem que nada há de errado fisicamente comigo, mas eu me sinto terrivel­ mente mal a maior parte do tempo.

Além

disto, eu tenho dificuldade

de per­

manecer num emprego. Minha muiher é quem realmente está sustentando a família. Eu não me sinto bem com isso, mas nem bem arranjo

Este nome, assim como outros usados através desta obra, em casos típicos, são fictícios, embo­ ra as estórias sejam verdadeiras ou reais.

um emprego e já o perco. Brigo com o patrão ou, se estou indo bem, por algum motivo, ar­ ranjo uma briga com um empregado, e pronto! Sou despedido de novo. Não consigo ficar num emprego por mais que alguns meses. Não sei qual é o meu problema. Será que esses gru­ pos, sejam lá o que forem, podem ajudar um cara como eu?

— Um grupo desses com o tempo pode­

ría ajudá-lo — respondi — se você trabalhar com ele. O grupo oferece a oportunidade. O resto depende de você. Os resultados depen­ dem de sua honestidade para consigo mesmo e de quão profundamente você estiver motivado.

nessas reuniões de

grupo? — Joe perguntou.

Você terá que

experimentar por si mesmo. Mas uma coisa é importante — sua esposa deve assistir tam­ bém. Muitas vezes ajuda se ambos, marido e mulher, assistirem juntos,

— O

— É

que

difícil

acontece

de descrever.

— Ela não viria — disse Joe enfaticamen­

te. — Eu gastei dinheiro demais com psiquia­ tras e médicos, no esforço de conseguir ajuda, e agora eia não quer saber de nada com esta espécie de coisa. Além disso, eu não sei como ela se sentiría vindo a uma reunião numa igreja protestante.

Sugeri-lhe que a convidasse, de qualquer modo, e insistisse para que ela assistisse pelo menos por um mês. E na primeira reunião Joe trouxe mesmo sua esposa, uma pessoa agra­ dável e tranqüilamente eficaz. Joe nos declarou durante a reunião: “Fui para casa e disse a ela que eu ia me juntar a um grupo lá na Igreja Batista de Burlingame. E acrescentei: Falei pra eles que você não assistiría. Ela respondeu:

r

"Lá vem você, tomando decisões por mim ou­ tra vez. Claro que vou!”

Não houve nenhuma solução milagrosa ou repentina para o problema de Joe. Ele com­ partilhou seus profundos sentimentos de rejei­ ção quando menino, o medo que sentia para com seu pai autoritário, que era policial. Quan­ do tomamos conhecimento de tudo sobre sua infância, entendemos por que ele reagia da­ quele modo. Seu progresso foi lento, mas fir­ me. Não há método conhecido pelo qual uma estrutura emocional imatura possa ser mudada da noite para o dia. Entretanto, dentro de um ano Joe estava trabalhando de novo para um homem que o havia despedido. Ele permaneceu no emprego desta vez e começou a sentir au­ to-afirmação pela primeira vez na vida. Depois de dois anos ele foi promovido a auxiliar de ge­ rente. Isto não significa que seu crescimento emocional e espiritual estava completo. Cres­ cimento espiritual é um processo contínuo. Mas a experiência de grupo que Joe teve re­ sultou em dividendos concretos, que incluíam a habilidade de ganhar a vida, um novo sentido de auto-respeito, melhor comunicação com sua família e uma profissão de fé que a família toda fez quando pediram para serem membros da igreja. Joe, esposa e filha devotam agora uma grande parte de seu tempo em atividades cris­ tãs.

A solidão de Joe, sua auto-rejeição e o sentimento de fracasso; sua alienação de Deus, de si mesmo e do próximo eram, em parte, o resultado de forças ambientais. Pode-se tam­ bém dizer que foi o pecado que produziu as dificuldades dele. Pecado era a soma total das forças que faziam com que ele tivesse uma personalidade distorcida. O pecado estava por

14

detrás dos fatores que fizeram seu pai austero

e autoritário, o que o tornava incapaz de se

comunicar com o filho. Pecado, no caso de Joe, era uma combinação de forças sociais, psicoló­ gicas e espirituais que o deixavam incompleto, incapaz de funcionar adequadamente como pessoa, pai e marido. A resposta para Joe foi o

amor de Cristo mediado por um grupo de pes­ soas que genuinamente se intessaram por ele. No seu grupo, Joe e sua esposa vieram a sen­ tir-se amados e aceitos. O grupo era a igreja em ação, a família de Deus, através da qual o amor pode ser canalizado para abençoar, curar

e orientar.

É extremamente ingênuo pensar-se do pecado simplesmente como um ato isolado, uma mentira, um roubo, imoralidade, desones­ tidade — porque pecado é tudo aquilo que fica aquém da perfeição, é rejeição de Deus — “destituir-se” da perfeição que Deus nos pre­ parou. Pecado é ser distorcido, e não sim­

plesmente o praticar um ato mau. É ter relação

e atitudes distorcidas. É ser menos que a in­

tegridade. é ter motivos confusos. Pecado é a racionalização inteligente pela qual procuramos escapar de nos encontrarmos conosco mesmos. Ele pode consistir de um punhado de “obriga­ ções” moralísticas e rígidas, em vez de obe­ diência ao Espírito de Deus, que habita em nós, em agir somente em resposta a códigos lega­ listas {e sentir-se virtuoso em assim fazer), em vez de aprender a agir espontaneamente em resposta ao impulso divino.

Muitos membros de grupo se tornam ca­ pazes de deixar de lado seu conceito limitado

e infantil de pecado como alguma coisa confi­ nada a “atos maus” ou “pensamentos maus” e descobrir que pecado é o que nós somos,

r

cheios de faltas, distorcidos, não tendo sufi­ ciente maturidade espiritual. Eles descobrem uma nova qualidade de amor, porque, onde o repartir acontece num ambiente apropriado, as relações de amor geralmente se seguem. Eles aprendem a orar por uma outra pessoa diaria­ mente e com interesse sincero. Para muitos, as pessoas dos seus grupos tornam-se sua fa­ mília, como alguns já o expressaram, porque eles frequentemente sentem laços mais ache- gados a eles do que os de seus parentes car­ nais.

A idéia de grupo pequeno é uma das for­ ças espirituais mais dinâmicas do século vinte. Desde a Segunda Guerra Mundial temos redes- coberto seu tremendo poder. Sob vários no­ mes, pequenos grupos são formados com gran­ de rapidez em igrejas de muitas denominações. Homens e mulheres estão descobrindo que os serviços e atividades rotineiras da igreja local não trazem motivação suficiente para um cres­ cimento espiritual significativo. Uma hora por semana gasta na igreja nun­ ca teve o objetivo de providenciar respostas para as nossas necessidades espirituais mais profundas. A igreja do primeiro século indubi­ tavelmente consistia de grupos pequenos, além das reuniões semanais para adoração e ins­ trução . Muitos, erroneamente, assumem que o cristianismo se preocupa somente com a ver­ dade "bíblica” {que definem estreitamente), e que as verdades psicológicas de alguma forma não têm nada a ver com assuntos espi­ rituais. Eles esquecem, naturalmente, que toda verdade é divina em sua origem, quer seja uma lei científica, um principio filosófico ou uma verdade bíblica. A teologia em geral lida com

16

a natureza de Deus e Sua vontade para com o homem. A psicologia trata do homem e sua natureza interior. Precisamos conhecer a Deus. Precisamos conhecer tudo o que podemos acerca de Deus, a fonte de nosso ser, e tudo o que for possível acerca do homem, criado à imagem divina. Portanto, através de todo o livro não faço

distinção entre verdade sagrada e secular, por­ que todo aspecto da vida é sagrado. O homem,

criado à imagem de corpo físico, nos diz

Espírito Santo. O mesmo Deus que criou o homem projetou o universo com intenção san­ ta. Cada árvore e cada folha de grama, cada átomo e molécula, todo fragmento de verdade é sagrado. Cada lei cientificamente descoberta pelo homem originou-se em Deus, e é sagrada. Não há distinção entre “sagrado” e “profano”, “santo” e “comum” . A ordem de Deus a Moisés no Monte Sinai — “Tira as sandálias, porque o lugar onde pisas, é terra santa” 3 — não significava que só aquele determinado pedaço de terra sobre o qual Moisés estava era santo. A implicação é que Moisés tinha procurado encontrar Deus em algum lugar “sagrado” especial. Deus estava dizendo a ele que, onde quer que ele se encon­ trasse, ali era um lugar santo, e Deus o podia encontrar lá.

Muitos têm a tendência de pensar que o trabalho de um ministro é um tanto sagrado porque ele deve estar interessado principal­ mente em assuntos espirituais, enquanto de um médico, que trata de corpos físicos, raramente se diz que está engajado num trabalho santo. Toda pessoa, qualquer que seja sua vocação, pode ter o sentimento de realizar uma missão

Deus, é sagrado; e seu a Bíblia, é o templo do

divina, se ela estiver cônscia do amoroso in­ teresse de Deus por todos os aspectos da vida. Jesus não fez distinções artificiais entre sagrado e profano. Ele tratou de cada aspecto das vidas dos homens e assim santificou a vida toda. Ele curou seus corpos e fez da cura uma função sagrada para sempre. Ele falou da natureza de Deus e das relações cotidianas entre os homens ao mesmo tempo. No Sermão do Monte, ele ensinou princípios espirituais, filosóficos, psicológicos e sociológicos; discu­ tiu processos, oração, divórcio, ansiedade, amor, perdão, reconciliação, raiva, e um pu­ nhado de outras coisas que pertenciam à vida de cada dia. Jesus estava interessado em todas as coisas concernentes aos homens, e seu inte­ resse amoroso nos diz que esta é a natureza de Deus — que ele está interessado em cada detalhe de nossas vidas. Com Deus não há categorias, tais como ciência e religião, o sa­ grado e o profano No livro de Marc Connely, The Green Pastures (Os Pastos Verdejantes), quando “o Senhor * se prepara para deixar o Céu e descer à terra para ver como seus filhos estão pas­ sando, ele dá algumas instruções finais a Ga­ briel: “Gabriel, não te esqueças daquela estre­ la que não tem funcionado direito. Toma conta disto.” Gabriel concorda. “E, Gabriel, lembras- -te daquele pequeno pardal de asa quebrada? Toma conta disto também, sim?” Neste drama deleitoso o autor muito corretamente retrata Deus como estando igualmente interessado no cosmos e nos pardaís. Aquele que já compre­ endeu a bela harmonia que existe em toda a natureza, que já teve um vislumbre da unidade

* No original, “o Sinhô”.

peculiar do universo todo, e sentiu que Deus está em nós e nós nele, e que todas as coisas om nosso universo são uma parte de Deus — esse nunca mais poderá fazer distinção entre sagrado e profano. Porque “toda a Terra está cheia da glória de Deus", e todas as coisas nele são santas, exceto quando tocadas pelo pe­ cado e despojadas de sua perfeição divina.

Os místicos, que adentraram o véu da cons­ ciência humana e tiveram um vislumbre do in­ finito, confirmam que há uma unidade em todas a3 coisas muito além do poder de compreensão da mente humana no seu estado comum. Mui­ tos que têm explorado algumas drogas que ex­ pandem o consciente, tais como LSD-25, em­ bora suas experiências variem largamente em muitos aspectos, relatam uma percepção mís­ tica: a lucidez repentina, mais sentida que percebida pela mente, de que o universo 6 um de um modo impossível de ser descrito por palavras. Todos eles contam de eles mesmos experimentarem ser uma parte do todo, de ser um só com Deus e a natureza, e ainda assim estarem separados e serem autônomos. Muita gente tem descoberto, em graus va­ riados, que para o cristão não há linha divisó­ ria entre religião e vida, que toda vida é sa­ grada, e que o cristianismo deve ser aplicado a todos as aspectos da vida. Jesus nunca usou a palavra "religião” (que aparece somente duas vezes no Novo Testamento). Parece que ele nunca pensou na relação da pessoa com Deus como se ela envolvesse "um dever religioso” ou mesmo um ato religioso no sentido em que muita gente usa tais termos. Ele não separou a vida em sagrada e profana. Os cristãos eram chamados de "os seguidores do caminho,” e Cristo era Aquele que ensinou o Caminho, que

era ele mesmo o caminho, o caminho para viver, e ter vida abundante e eterna. Se pudéssemos ver de uma vez por todas que o cristianismo é um modo de vida, não só para o domingo e emergências, e não só um conjunto de princípios morais; se pudésse­ mos nos despojar da crença de que Deus se in­ teressa principalmente em que sejamos bons, teremos dado um grande passo para frente. Deus não está interessado só na necessidade de seus filhos serem decentes, morais e hones­ tos, embora sejam desejáveis esses traços. Ele está interessado, Jesus ensinou, em que nossas vidas sejam ricas, cheias e criativas; em que descubramos nosso potencial mais alto; em que tenhamos amor, alegria, paz, felicidade, uma vida abundante, a vida eterna. Jesus falou dis­ to tudo várias vezes durante seu ministério. No Evangelho de João, por exemplo, estão re­ gistradas estas palavras “Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros como eu vos am ei.’’ "Pedi, e recebereis, para que a vossa ale­ gria seja completa." "Minha paz vos "Se sabeis estas coisas, felizes sereis se as cumprirdes.” “Eu vim para que tenhais vida, e a tenhais em abundância.” "E esta é a vida eterna, que eles te conhe­ cem a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." Ele ofereceu isto e muito mais. A maioria de nós se contentaria com uma ou duas destas seis grandes bênçãos que ele ofereceu aos seus seguidores. Ao fazer do cristianismo ou­ tra religião em vez de o Caminho da Vida, per­ demos o centro da mensagem dEie.

Parece que falta alguma coisa na igreja orunnlzada de hoje, algo que estava muito em ovldôncia entre os cristãos do Novo Testamen­ to A Igreja Cristã é a maior força do bem que tninos na terra, e, embora fraca, não deve ser douucreditada. Mas nós, que amamos a Igreja, podemos avaliar suas fraquezas. Pois são, na realidade, as nossas próprias fraquezas.

Na igreja

média, dez por-cento dos mem­

bros faz noventa por-cento do trabalho. Trin­ ta por-cento sustenta noventa por-cento do orçamento. Quarenta por-cento assiste à igre­ ja aos domingos de manhã. Isto está muito aquém da Igreja Vitoriosa. O amor entre os membros de uma igreja média é pouco maior do que entre os rotaria- nos ou Kiwanos. De fato, há uma espécie de comunhão mais aberta entre membros de clu­ bes de serviço do que a que é encontrada em algumas igrejas, Na igreja média de cem ou mil membros, a maioria deles não conhece uns aos outros, a não ser de uma maneira muito casual. Não podemos amar as pessoas sem antes as conhecermos, e é impossível conhecer cem ou mil pessoas, a não ser em um nível muito superficial. Mesmo assim o amor é que devia ser o distintivo do cristão. “Nisto conhe­ cerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” Elizabeth O’ Connor reconta uma experi­ ência de Gordon e Mary Cosby. Gordon é pas­ tor duma igreja mais conhecida como Igreja do Salvador em Washington, D.C. Ele tinha pregado numa igreja onde a atmosfera não era nada vibrante. Conforme nos conta Miss O’ Conner:

Gordon disse: “Enquanto eu olhava para aque­ las figuras de granito, tive que reprimir o impulso

de rasgar minhas vestes e sair da igreja para den­ tro da noite, onde o ar fosse límpido e eu pudesse me sentir purificado. Eles tinham-se juntado, como tudo indicava, para comemorar uma data significa­ tiva da igreja, mas a única evidência de vida era o tilintar de moedas caindo na bandeja de ofertas.” Quando o culto terminou, naquela noite, ele e Mary foram de carro bem longe. Finalmente para­ ram num pequeno hotel, onde o último quarto vago ficava acima de uma taverna. Vozes barulhentas e melodias alegres de vitrola entravam em seu quarto e não os deixavam dormir. Refletindo sobre os sons que vinham de baixo e a igreja de que haviam saído, Gordon ponderou: “Compreendí que havia mais ca­ lor e comunhão naquela taverna do que na igreja. Se Jesus de Nazaré tivesse que fazer sua escolha, ele pessoalmente teria ido à taverna, e não à igreja que visitamos.” No dia seguinte eles tomaram o café da manhã num bar do outro lado da rua do hotel. As pessoas que entravam e saiam cumprimentavam umas às outras, liam seus jornais e comentavam sobre as no­ ticias do dia. ‘‘Pensamos outra vez”, disse Gordon, “que Cristo se sentiria muito mais em casa no bar."»

Muitos

membros

de

igreja,

se

pensas­

sem seriamente,

teriam

que

admitir

que eles

estão solitários e que não se sentem parti­ cularmente amados por um número apreciável de pessoas na igreja. Ninguém tem culpa; acontece que a igreja simplesmente se tornou gradativamente uma instituição, em vez de uma comunhão amorosa. Mas não é impossível mudar isto. Nos últimos anos esta situação tem sido mudada para milhares de pessoas. Quando uma pessoa visita uma igreja pela primeira vez, ela participa dum culto de ado­ ração, e o que é dito no sermão pode ou não ser aplicado às suas necessidades particula­ res. Ela pode ser cumprimentada e convidada a voltar, mas nada além disso, nada de impor­ tância real ocorre para levá-la a acreditar que aquele é um grupo de pessoas que tem pro-

lundo interesse por ela. As manifestações de ■imor são geralmente limitadas a uma saudação imistosa, e a gente pode conseguir isto quase que em toda parte.

Em

certa

época,

se

alguém

tivesse

per­

guntado a Margarida qual era seu problema, ela

teria dito: “Todo o problema é o meu marido. Ele é alcoólatra." Não me lembro da primeira

vez que ela apareceu

vou a vir ver-me. Ela revelou parte de sua ne­ cessidade e disse-me que estivera consultando um psiquiatra. Como resultado do seu aconse­ lhamento ela veio a compreender que nem

tudo era falta de seu

ele bebia em excesso è as dificuldades resul­ tantes eram suficientes para causar depressão a qualquer pessoa. Mas Margarida tinha enca­ pado o fato de que no íntimo ela era o que o psiquiatra chamava de “coieoionadora de njustiças”. Mesmo quando as coisas iam ra- .oavelmente bem em casa, ela sempre encon- rava razão para reclamar e aborrecer seu ma- ido, e por causa disso ele bebia até ficar em­ briagado. Ela era uma masoquista psíquica, com uma necessidade profunda, mas inconsci­ ente, de ser punida. Inteiramente inconsciente do que fazia, ou da razão de fazê-lo, ela conseguia sentir-se ferida em seus sentimen­ tos ou inventar maneiras pelas quais podia ser rejeitada. Acabou vendo, pelo menos intelectu­

marido. É verdade que

na igreja ou o que a le­

almente, que era ela que estava trazendo a maioria de seu sofrimento sobre si mesma.

Na sessão de aconselhamento com ela eu limitei-me a ouvir, e no final da nossa conversa sugeri que ela participasse de uma de nossas sessões de grupo. Ela fora membro de igreja por vários anos, e gradativamente revelou as recordações de sua infância. Seu pai tinha sido

uma pessoa de moral elevada, rígido e autori­ tário. Ela nunca fora capaz de se relacionar com ele, ou de sentir a mínima afeição por ele. De fato, todo sentimento de que ela tinha cons­ ciência era de hostilidade e rejeição, emoções que havia parcialmente escondido. Ela sempre se sentiu vagamente culpada quando criança, em parte por causa dos padrões de conduta não alcançáveis que lhe foram impostos, em parte porque se sentia rejeitada. A criança rejeitada sempre se sente culpada. Embora uma criança não ordene seu pensamento desta forma, o sentimento resultante é: “Sou rejei­ tada, e não amada. Se eu fosse uma criança boa’, eles me amariam. Não sou amada por­ que devo ser má." O resultado é um senti­ mento profundo de culpa e inutilidade. A cri­ ança simplesmente não se sente digna de ser amada. Por razões tais, Margaret “mergulhou nos sentimentos de autocompaixão e auto-re- jeição”, como ela mesma o disse. Mas, saben­ do da rejeição por ela experimentada em sua infância, a gente só podia sentir compreensão

e compaixão, particularmente porque ela esta­

va fazendo um esforço heróico para se tornar

um adulto maduro. A transformação de Margaret foi tão no­

tável que seu irmão decidiu juntar-se ao grupo.

Na primeira sessão, Jeff, uma

pessoa agradá­

vel e amistosa, contou sua estória. Ele tinha gasto cerca de Cr$ 210.000,00 com psiquiatras, sabia tudo o que estava errado consigo mesmo

e jorrava termos psiquiátricos à menor provo­

Ele estava sofrendo de uma “paralisia

de análise” . Contou que depois de ter passado por nove anos de tratamento psiquiátrico Freu­ diano, ainda era uma pessoa muito confusa. Sua esposa uma vez lhe dissera pessoalmente:

cação.

"Jeff, por que você não faz um seguro bem grande e dá cabo de si, a seguir, com um tiro?" i le contou isto sem nenhum rancor, e acres­ centou: "Na realidade, ela tinha dado uma boa sugestão. Eu não prestava nem pra mim mesmo nem para minha família.” Seis meses mais tarde, Jeff havia feito progresso significativo, tanto assim que disse:

"Tenho feito mais progresso espiritual e emo­ cional nestes seis meses do que em nove anos de tratamento psiquiátrico. Aprendi a orar e me relacionar com Deus como um Pai Celes­ tial amoroso, e me comunico com ele frequen­ temente durante o dia.” Seu progresso continua

e

ele está descobrindo que não há limite para

o

crescimento espiritual.

Ao relatar a experiência de Jeff, não tenho nenhuma intenção de prejudicar os psiquia­ tras. Muitos que descobriram que a psiquia­ tria não os ajudaria também assistiram em igrejas por muitos anos sem serem capazes de resolver seus problemas pessoais.

Nem todos os que participam dessas ses­

sões de grupo têm dificuldades pessoais sé­

rias.

orar, ou ser cristãos mais efetivos, e, conquan­ to estas sejam necessidades significativas, elas não constituem para a maioria das pessoas uma

crise real. Ocasionalmente, alguém diz: "Eu não pre­ ciso desse tipo de grupo, pois não tenho pro­ blemas reais.” O que eles querem dizer, na­ turalmente, é que não experimentam nenhuma crise pessoal grande. Eles são capazes de cuidar dos problemas menores da vida sem muita dificuldade. Mas eles têm problemas re­ almente. Toda pessoa tem conflitos íntimos, porque a dificuldade de se alcançar estado

Muitos se reúnem a fim de aprender a

mais elevado de nosso ser constitui-se em um grande problema. Dr. LerneJ. Jane, professor de psiquiatria da Escola de Medicina da Uni­ versidade de Pensilvânia, diz: "Ninguém é to­ talmente maduro emocionalmente, ou está em perfeita harmonia com seus desejos, sua cons­ ciência e o mundo exterior ao seu redor. Esta discrepância entre o desejo e a realização é expressa por infelicidade, tensão emocional e neurose, que todos carregam6. Como Fritz Kunkel apontou, ninguém fa; uma mudança significativa de sua personali­ dade ou situação de vida até que seja motivado por uma dor de alguma espécie. Rollo May diz: "As pessoas, então, deviam regozijar-se no sofrimento, por mais estranho que isto pa­

reça, porque isto é um sinal da disponibilidade de energia para transformar seus caracteres. O sofrimento é o meio da natureza mostrar uma atitude enganosa ou um modo de comporta­

para a pessoa não egocêntrica,

todo momento de sofrimento é oportunidade para crescimento." i Aqueles para os quais a vida corre mais ou menos numa paz serena, que não se sentem ameaçados por doenças físicas, tensão conju­ gal ou sofrimento mental, geralmente estão contentes em manter o status quo. Eles não são motivados a uma entrega espiritual signifi­ cativa ou a um crescimento além do seu nível atual. Entretanto, além da facada aguda de uma crise como força motivadora para a procura do alívio, há também a sombria pulsação da frustração. Muitas pessoas aos seus trinta' ou quarenta anos começam a descobrir, pela pri­ meira vez, que a vida é consideravelmente mais frustradora do que jamais sonharam possível

mento, e

jOs seus vinte anos. Pelo menos três quartos de todos os casais experimentam tensão e lu­ tas ocasionais ou contínuas. Eles, na maioria das vezes, só procuram um conselheiro matri­ monial depois de haver tantas cicatrizes e re­ cordações dolorosas que é difícil, se não impossível, conseguir uma reconciliação, v Em nossos grupos no Oeste temos cente­ nas de casais que não têm dificuldade mais séria do que a de aprender a se comunicar melhor, de selecionar seus sentimentos e au­ mentar o nível de sua tolerância pela frustra­ ção, através de aplicação de leis espirituais. Ninguém podia imaginar que houvesse um casal mais feliz do que Chuck e Henrietta. Eles se juntaram a um grupo na esperança de al­ cançarem maior crescimento espiritual. Depois de alguns meses de discussão baseada num livro devocional, o grupo votou fazer um dos inventários de crescimento espiritual. Estes são basicamente inventários psicológicos, aos quais foi adicionado um sistema de folhas de avaliação, que os membros do grupo recebem semanalmente, ou de duas em duas semanas. Uma folha recebida por Chuck revelou que havia nele muita hostilidade enterrada, da qual ele estava, na maior parte, inconsciente. Ele havia partilhado com o grupo seus terríveis ataques de asma e febre, e começou a imagi­ nar se sua hostilidade reprimida e sentimentos de dependência não tinham alguma ligação com seus problemas respiratórios, que mais ou menos o incapacitavam por uma parte do ano.

Eles deixaram o grupo depois de mais ou menos um ano, e algum tempo mais tarde perguntei-lhe de sua asma e febre. Ele disse, surpreso: "Oh! você não sabia?! Eu venci isto

assim que descobri tudo sobre minha hostili­ dade enterrada. Quando aprendi a lidar com a hostilidade minha asma desapareceu.” Ele não tinha se juntado ao grupo por causa da asma, mas quando resolveu alguns de seus

problemas emocionais, através de uma forma de oração mais madura, seus sintomas físicos desapareceram. Em tempo algum ele orou por sua asma. Em vez disso, tratou da causa subja­

cente,

nhecida.

sua

hostilidade

enterrada e

não

reco­

Duas mulheres, membros de grupos dife­ rentes, estavam procurando crescimento espi­ ritual e um grau maior de paz interior. Eu não tinha conhecimento, então, de que ambas so- friam de enxaquecas, uma delas por vinte e cinco anos, e a outra por um período de tempo mais curto. Embora elas não orassem pelo alívio de seus sintomas físicos, ambas foram curadas como resultado do novo crescimento espiritual que alcançaram. A medida que se relacionaram em amor e confiança com o Deus de paz, seus sintomas físicos simplesmente desapareceram. Ao invés de orar por seus sin­ tomas físicos, elas focalizavam-se em Deus na sua meditação diária. No grupo encontravam uma oportunidade de partilhar seus sentimentos. Enquanto pensavam mais em suas próprias pessoas não compartilharam nenhum detalhe íntimo de suas vidas. A cura se efetuou quan­ do obedeceram literalmente ao mandamento de Jesus: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”

Uma das descobertas gratificantes feita durante os primeiros oito anos em que estes grupos de compartilhamento estiveram em ope­ ração no Oeste é a maneira pela qual

as barreiras entre as pessoas são quebradas (ôcil e naturalmente. Estas barreiras invisíveis fazem com que nós não conheçamos nem umemos uns aos outros e trazem a solidão ou o sentimento de isolamento experimentados pela relutância em nos revelarmos aos outros, por medo de rejeição. Dentro do grupo, bar­ reiras são desfeitas e nos descobrimos amando pessoas de que antes nem mesmo gostáva- mos. Descobrimos que quanto mais os outros ------- aprendem de nós, mais fácil se torna para eles nos aceitarem e amarem. Ninguém pode amar uma máscara. Quando tiramos nossas máscaras, descobrimos que somos aceitos num nível novo. Numa sessão de um grupo principiante, enquanto várias pessoas partilhavam seus sen­ timentos, um homem disse: “Acabei de experi­ mentar uma inversão completa de meus senti­ mentos para com alguém. Eu o conheço por muito tempo numa base muito superficial. Sempre pensei que ele agia como se fosse superior, sendo, talvez, um pouco esnobe. Agora mesmo, quando ele partilhou alguns dos seus sentimentos de inadequação eu gostei dele realmente porque tenho os mesmos senti­ mentos para comigo mesmo. Eu não mais sinto rejeição da parte dele. Somos iguais. Talvez eu também cubra alguns de meus sentimentos de inadequação com a pretensão de superiori­ dade, que realmente não sinto. De qualquer modo, Alan, eu o tenho, por assim dizer, su­

portado até este instante. Agora eu acho que posso dizer que o am o.”

Você pode nunca ter pensado ser solitário, mas o sentimento está lá da mesma maneira, a menos que você tenha quebrado a barreira do seu medo de rejeição. E quando você con-

bem,

seguir revelar seu ser verdadeiro, mesmo em pequena parte, você se encontrará aceito e amado em novo nível. E, além disto, você virá a se conhecer, à proporção que se revelar aos outros, porque nosso medo de sermos conheci­ dos por outros não é maior do que o medo de conhecermos a nós mesmos. Não é “por força nem por poder”, nem por organização, cruzada ou campanha que o Rei­ no de Deus virá à terra ou a qualquer pessoa humana. Ele só vem pelo amor — amor a Deus e aos outros — que constrói uma ponte no nosso isolamento e desfaz nossa solidão.

2

UNIÃO REDENTORA

Jesus indica que não há absolutamente nenhum ailistltuto para a pequena sociedade redentora. Se i il.a falhar, ele dá a entender, tudo será fracasso; nlio existe outro meio.1

Elton Trueblood

Cristina, uma jovem senhora, casada, com seus trinta anos, tinha três anos de idade quando seu pai foi preso. Por toda a vida ela tem suportado um sentimento de vergonha por seu pai ter sido condenado. Enquanto ele esta­ va na cadeia, Cristina e sua mãe viveram com seus avós. Ela se recorda de que eles eram muito pobres e que seu avô era um homem durão, autoritário e sem amor, que irradiava hostilidade. Quando seu pai voltou para casa, solto por fiança, ela ficou com muito medo dele. Ele tinha explosões de raiva terríveis, e ela não se lembra de ele tê-la alguma vez elogiado ou expressado amor de alguma maneira. Ele re­ petidamente lhe dizia que ela era estúpida. Quando ela se tornou adolescente, ele a avisou duramente que ela nunca devia “arranjar com­ plicações com rapazes” . Isto foi toda a edu­ cação sexual que teve de seus pais; mas, quan­ do tinha cerca de 15 anos, seu pai tentou mo-

lestá-la sexualmente.

gostosa. Cristina se casou com vinte anos de idade. Seu marido queria filhos, mas ela opos-se fortemente à idéia de criar uma família. Quan­ do veio o primeiro filho, ela experimentou um sentimento profundo de prazer no primeiro mês, depois começou a perder o interesse pela cri­ ança. Seu médico a ajudou neste ponto. Ele havia-lhe dito: “Os pensamentos são um há­ bito, e você pode mudar o seu padrão de pen­ samentos pensando de outra maneira.’’ Ela se esforçou muito neste sentido e eventualmente teve sucesso e aceitou seu primeiro filho. Pos­ teriormente ela conseguiu manter uma relação maravilhosa com ele. Quando o segundo filho nasceu, a mesma coisa começou a manifestar- -se, mas ela descobriu desta vez que era muito mais fácil amar a criança.

Ela ficou chocada e des-

Cristina era uma pessoa muito pacata e tímida. Num retiro, onde a encontrei pela pri­ meira vez, percebi que ela estava lutando com algum confltto interior profundo. Depois de uma das sessões, aconteceu de eu ir com ela para o refeitório, e, de repente ela se desaba­ fou: “Estou cansada e doente de carregar a culpa de meu pai!” Encorajei-a a contar-me o seu problema, e vagarosa quão dolorosamente, ela me expôs, com detalhes consideráveis, os acontecimentos que já relatei. Antes de termi­ nar o retiro, ela começou, pela primeira vez, a sentir a extensão da sua violenta hostilidade para com o pai. Ela nunca havia se permitido sentir isto antes. A maior parte da coisa estava enterrada logo abaixo da superfície. Vergonha, culpa, ódio, inferioridade, tudo isto se mistura­ va num sentimento violento de raiva. Eu lhe assegurei que não havia problemas em sentir

qualquer das emoções que ela experimentava então, e eventualmente ela pôde admitir no consciente toda a hostilidade reprimida, dores e frustrações que ela nunca havia partilhado com ninguém nem totalmente admitido a si mesma. Cristina sentiu um alívio considerável oo contar sua estória, que envolvia a aceitação de que ela possuía sentimentos que nunca ha­ via ousado confrontar antes. No processo ela pôde perdoar seu pai, e isto foi uma experiên­ cia curadora. Mas, inexplicavelmente, sua re­ lação com o esposo se tornou pior. Às vezes ela mal podia suportar ficar no mesmo aposen­ to com ele. Ela experimentava um antagonis­ mo violento e desarrazoável para com ele, o que o deixava intrigado e magoado.

Na igreja a que Cristina pertencia, alguns grupos se reuniam semanalmente; cada um consistia de oito a uma dúzia de pessoas. Al­ guns grupos estudavam um livro e partilhavam seus sentimentos acerca do mesmo. Outros estavam fazendo um inventário de crescimento espiritual e recebiam folhas de avaliação se­ manais. O propósito dos grupos era o cresci­ mento espiritual, o que significava não somen­ te a aquisição de conhecimento bíblico, como requeria maturidade emocional. Alguns pro­ curavam resolver problemas pessoais: outros queriam simplesmente tornar-se mais maduros na sua entrega e experiência cristã.

Cristina havia se juntado a um dos grupos antes que eu a encontrasse, e sua experiência foi o passo inicial, que resultou em seu interes­ se em revelar algumas de suas emoções pro­ fundamente enterradas. Depois de voltar para casa, após o retiro, profundamente perturbada por causa de sua hostilidade para com seu marido, ela partilhou alguma coisa a respeito

disto com seu grupo. Ela não sentia necessi­ dade de contar toda a dolorosa estória de sua vida anterior. Eles ajudaram-na a ver que ela simplesmente havia transferido a hostilidade que sentia em relação ao seu pai para seu es­ poso. Até onde podia ver, ela havia perdoado seu pai, mas a dor do passado não lhe permi­ tia abandonar seu ódio inteiramente. Ao des­ cobrir o que estava fazendo, deu um passo novo e significativo, entregando toda a sua hostili­ dade a Deus. Como mais tarde ela me descreveu; “Deus se tornou uma realidade para mim pela pri­

meira vez.

tava

encontrei o Deus que estava aqui dentro de mim e que era uma parte de mim. Foi a maior descoberta da minha vida. Fiquei exuberante. Quase nem consigo me lembrar do meu ‘velho ser’ do passado. Descobri que sou muito mais tolerante com os outros, e procuro não me apropriar de sua confusão. Gosto de ajudar onde posso, ao passo que antes eu tinha medo das pessoas — medo demais para ajudá-laa. É maravilhoso ser capaz de amar, ser capaz de amar tanto os homens como as mulheres, e não me sentir culpada. Hostilidade, medo e culpa foram substituídos por amor.

Cristina está ativa em sua igreja e tem diri­ gido grupos efetivamente. Ela quer que sua vida seja tão útil quanto possível. A vontade de Deus é seu mais alto ideal na vida./ ~

O Deus que eu conhecia antes es­

cima',

em

algum

lugar.

Agora

‘lá

em

Comparativamente,

poucas pessoas expe­

rimentam os problemas que marcaram a v'da de Cristina, mas a estória dela revela vivida- mente a maneira pela qual uma comunhão amorosa pode prover discernimento e o clima no qual a pessoa fica livre para crescer espi-

rltunlmente. Não é preciso se identificar com < rlstina para se sentir a dificuldade que apten- dor a amar e perdoar envolve. A maioria de nós tem sua hostilidade, qualquer que seja nua origem, e sente-se culpada por ela.

os últimos anos, mais de doze

mil pessoas participaram dos nossos grupos de companheirismo — * na costa oeste. Nosso propósito é o de ajudar as pessoas

n tornarem o cristianismo relevante a todos os

problemas da vida e ajudar os cristãos no sen­ tido de uma entrega maior. Usando várias cen- tunas de grupos como experiência, começamos

Durante

n descobrir alguns fatos importantes:

Primeiro, que uma pessoa só pode entre- unr a Deus a parte de si mesma que ela com­ preende e aceita; segundo, que uma pessoa nflo pode orar eficazmente enquanto não do­ minar suas barreiras emocionais; terceiro, que em grande parte não se tem consciência da maioria destas barreiras; quarto, que os cristãos, de modo geral, não estão mais bem integrados como personalidades do que os não-cristãos; quinto, que não faz diferença se uma pessoa é metodista, luterana, pentecostal, batista, epis­ copal, liberal ou conservadora em sua teologia — todos têm as mesmas necessidades espiri­ tuais e emocionais. Os membros dos grupos perdem de imediato todo o sentido do perten- cer a denominações diferentes. Quase que logo de início eles sentiram que trabalham num nível mais profundo do que o oferecido pelas bonitas distinções teológicas. Sem negar ne­ nhuma de suas doutrinas, eles simplesmente passam a um outro terreno, onde a realidade de

* No original, "yokefellow groups” .

Deus e do amor transcende às insignificantes diferenças teológicas.

Outro aspecto da experiência é o uso de inventários espirituais, que são feitos por, apro­ ximadamente, três mil pessoas por ano, só na costa Oeste. Esta idéia originou-se da experi­ ência do Dr. William R. Parker. Ele cha­

mou a isto de “terapia

da oração” . Os inven­

tários são basicamente testes psicológicos fei­ tos para ajudar o crescimento espiritual e emo­ cional pelo uso de um sistema de “feedback”,

ou realímentação, com folhas de avaliação se­ manais, entregues aos membros dos grupos. As foihas, distribuídas regularmente por um período de quinze a vinte e duas semanas, colocam em destaque algum aspecto da per­ sonalidade e freqüentemente apontam para uma emoção ou atitude não percebida que constitui uma séria barreira para o crescimento espiri­ tual.

Num grupo de ministros, um dos membros recebeu uma folha indicando que ele experi­ mentava medo intenso de suas emoções, o que o impedia de poder dar e receber amor. Ele teve um pouco de dificuldade, a princípio, em aceitar o que afirmava a folha, pelo que disse:

“Eu não tenho consciência de nenhum medo intenso, como diz a folha. É verdade que sou um pouco reservado, e mantenho minhas emo­ ções bem controladas, mas sempre considerei que isto fosse uma virtude, não um defeito.” Disseram-lhe que lesse sua folha de vez em quando, por que às vezes leva semanas ou meses, e mesmo mais tempo, para a pessoa aceitar uma emoção que enterrou bem abaixo do nível do consciente. O ministro disse a seu grupo, alguns meses mais tarde: “Vocês se lembram daquela folha

<iuu recebi acerca do ‘medo das emoções’? I-1a dizia que eu não tinha nenhuma consciên­ cia de minhas emoções, e, francamente, fiquei um pouco embaraçado, porque eu não podia vor nenhum valor nisso. Eu pensei que o pnlcólogo que verificara meu teste havia come­ tido um erro. “Bem, na semana passada, fui pego de •mrpresa e sem preparo para falar extempora- neamente, coisa que já tinha feito algumas ve­ ros. Pela primeira vez na minha vida tive cons­ ciência da emoção de pânico. Verdadeiro pâ­ nico. Devo ter experimentado isto freqüente- monto reprimindo-o. De fato, desta vez quase mo surpreendí subjugando a emoção. No entan­ to, em vez disso, permiti-me sentir o pânico, ou medo, ou o que quer que fosse. Admiti, n mim mesmo que era capaz de sentir medo Intenso, e, em conseqüência, de alguma forma uinto-me liberto. Não tenho mais que me escon­ der disso. “Quando menino, me ensinaram a nunca demonstrar temor. Não era coisa de homem; de modo que suponho ter mentido a mim mesmo todos estes anos. No processo de subjugar o medo, acho que reprimi com ele outras emo­ ções. Talvez seja por isso que eu sou tão reservado. Algumas pessoas me consideram inibido. Talvez eu tenha tido medo todos estes anos de que as pessoas descobrissem quão apavorado realmente me sinto. Acho que só enganei a mim mesmo.’’ No decorrer dos meses seguintes observa­ mos que ele começou a perder um pouco de sua tensão. Ele estava muito mais descontraí­ do e mais comunicativo. Alguém disse-lhe:

"Você está muito mais humano.” Ele sorriu e disse: “Os membros de minha igreja me dizem

que prego melhor também. Sinto-me muito mais livre agora, e menos inibido.” Neil tinha problema com o álcool e estava assistindo às reuniões dos Alcoólatras Anôni­ mos, quando, pela primeira vez, se juntou ao nosso grupo, a fim de apressar sua cura. Ela, sem querer, veio, uma noite à reunião um pou­ co intoxicada. O grupo aceitou-a amorosamen­ te, não tendo um sentimento de nem exprimindo a menor crítica. O alcoolismo dela, naturaimente, era sim­ plesmente umá manifestação exterior de seus sentimentos de auto-rejeição. Ela era incapaz de aceitar e amar a si mesma adequadamente, e também não podia dar nem receber amor. De­ pois de seis meses de crescimento espiritual e emocional firme, ela fez este comentário por escrito acerca das foihas de avaliação que havia recebido:

No dia que íiz o teste, sentia-me mais otimista do que deprimida. Entretanto, sete das onze folhas que recebi indicavam mais necessidades emocionais do que tinham os outros do grupo. Eu sabia disto

há muito tempo, penso, mas não queria admitir estes “fracassos” — que é o que eu sentia que eram — diante de ninguém mais, nem de Deus, nem de mim mesma. Tenho sempre tentado fugir dos meus sen­ timentos, tranqüilizando-me com álcool ou com pí­ lulas. Hoje admito e aceito estas emoções como par­

aceitá-las e

ajudar-me,

as aceitará e me aceitará também. E agora faço um plano de ação para o dia-a-dia. Com a ajuda de Deus e a compreensão do grupo e meus próprios esforços, espero continuar meu progresso crescen­ te. O teste descreveu-me com precisão. Embora eu tenha levado seis meses para admitir essas verdades acerca de mim mesma, é sempre melhor seis meses do que nunca.

Sei que o grupo

te de mim mesma. Pedi

a Deus para

o

fez.

e sinto

que Ele

Os seis meses seguintes foram seu maior

período de crescimento.

Ela havia aceito

a

si

mesma como era. Aceitação não implica em aprovação. Eia estava admitindo diante de si mosma, de Deus e dos outros o tipo de pessoa que era. Depois de quatorze meses no grupo, Neil revelou uma maturidade emocional admi­ rável, bem como um equilíbrio espiritual admi­ rável. Ela havia se tornado "uma nova pessoa om Cristo” — através de sua decisão. Jung disse a um grupo de ministros em

1932:

Não podemos mudar nada, a menos que o aceite­ mos. A condenação não liberta, oprime. A aceitação do si mesmo é a essência do problema moral e o teste de fogo de toda uma maneira de ver a vida. Alimentar um mendigo, perdoar um insulto, amar o inimigo em nome de Cristo — todas estas são in­

dubitavelmente grandes virtudes

cobrir que o menor deles, o mais pobre de todos os mendigos, o mais mal-educado de todos os ofenso-

res, sim, o próprio demônio — que estes estão em mim, e eu mesmo tenho necessidade das esmolas de minha própria bondade, que eu mesmo sou o inimi­ go que deve ser amado — que fazer então?

Mas, se

eu des­

Aceitar e amar a mim mesmo adequada­

mente — aí está a dificuldade. Podemos desa­ fiar um cristão a uma entrega mais profunda

a Cristo, mas, se no íntimo de seu coração

ele não pode suportar a si mesmo, não pode amar a si mesmo, ele não será capaz de amar alguém mais adequadamente. Embora possa­ mos fazer com que ele se envolva ardorosa­ mente no serviço do Reino de Deus, ele trará consigo sua própria auto-rejeição, seus próprios

padrões neuróticos de comportamento, e enve­ nenará, em certo grau, tudo o que tocar.

que

é

vemos acontecer repetidamente

Um dos milagres

de pequena monta

ncs grupes

a força

diado pelos membros dos grupos, possibilitan-

transformadora

do

amor

divino,

me­

do a pessoa aceitar a si mesma. É neste ponto que o verdadeiro crescimento, espiritual co­ meça. Rollo May diz que “O ser humano não mu­

dará seu padrão de personalidade, apesar de todo esforço, enquanto não for forçado a fazê-lo

De fato, muitos

indivíduos neuróticos preferem agüentar a mi­ séria de sua situação atual, a arriscar a incer­ teza do que viria com a mudança.” 2 A dor ou

0 sofrimento a que ele se refere pode ser sen­ tida por um golpe repentino de uma crise ou pelo lento pulsar de uma frustração; e a frus­ tração pode vir de uma conscientização cres­ cente da insignificância da vida da pessoa, ou como conseqüência de um sentimento de cha­ teação.

Antes de começar a procurar, por todos os lados, maneiras de ajudar alguma causa digna, é melhor procurar saber primeiro quem você é. Depois de sua conversão, 0 apóstolo Paulo não se apressou a voltar para Jerusalém e se ocupar imediatamente de um ministério inten­ sivo de evangelismo. Aparentemente, primeiro ele passou três anos na Arábia, e só alguns anos mais tarde conseguiu fazer alguma coisa significativa. Os doze que Jesus escolheu gas­ taram três anos de preparação intensiva antes de serem considerados suficientemente madu­ ros para continuar 0 trabalho que Jesus come­ çou. Mesmo depois de três anos, absorvendo 0 espírito e os ensinamentos de Jesus, na últi­ ma ceia, eles se incomodavam sobre quem teria os lugares de honra — pouca evidência de maturidade espiritual. Laurel se uniu a um grupo somente para

problema pressio-

encorajar seu

pelo seu próprio sofrimento

marido, cujo

nante era a perda do emprego de

engenheiro

por causa de doença emocional. Ela escreveu à sua mãe alguns meses depois de ter-se juntado ao grupo e mostrou-me a carta. Parte desta dizia assim:

Primeiramente, quero contar-lhe as coisas que estão acontecendo comigo neste grupo de compa­ nheirismo. Fui com o Rob porque pensava que éle precisava do meu encorajamento. Agora sinto que estou sob o bisturi do cirurgião e, até que se comple­ te a operação, eu não sou nem o meu velho ser nem o novo ser que, espero, emergirá. Este momento diário de devoção a que nos sub­ metemos, de cerca de trinta minutos diários de me­ ditação e oração, alguns dias se torna difícil. Dr. Osborne diz que, quando resistimos à hora de medi­ tação, é porque estamos inconscientemente com medo do que Deus está tentando nos revelar. Eu tenho resistido freqüentemente ao meu momento de de­ voção. Tanto tem sido revelado a mim até aqui que às vezes não posso agüentar mais alguma coisa por alguns dias. Descubro que as descuLpas que tenho Inventado para as coisas, a vida inteira, não são desculpas de modo nenhum; são só mentiras que preguei a mim mesma para tentar explicar os meus problemas. Um perfeito exemplo, mamãe, é esta autodecep- ção que você e eu mantemos pelo fato de sermos gordas. Estou trabalhando para a aceitação de eu ser gorda. Quando finalmente aceitar isto, poderei perder peso simplesmente por não recusar a enfren­ tar mais o problema; mas perder peso não é o obje­ tivo principal.

Só depois de seis meses é que Laurel fez algum esforço para diminuir o peso. Três ou quatro meses depois ela perdeu mais de dez quilos sem ou quase nenhuma dificuldade. Isto foi uma simples manifestação externa do seu crescimento espiritual interior. Começou quando ela “cortou o cordão umbilical”, como ela disse, e parou de depender emocionalmente de sua mãe e seu marido. Outras evidências de seu crescimento foram reveladas pelo seu

admirável novo senso de auto-aceitação, perda do modo das pessoas e o abandono do com­ plexo de mártir que havia estragado sua vida caseira e sua felicidade. Agora ela gasta vo­ luntariamente várias horas diariamente no ser­ viço cristão.

O crescimento de Rob por alguns meses

não foi significativo, embora ele tenha feito um

esforço razoavelmente consistente para manter uma hora devocional, apesar da depressão, que praticamente o imobilizava. Mas, antes que

o grupo comemorasse o seu primeiro aniversá­

rio, Rob estava de volta ao trabalho, com ape­

nas, alguns traços de sua velha doença emocio­ nal. Igualmente importante foi o novo senti­ mento de paz interior que ele manifestou.

A cura espiritual, emocional e física que

se operou nas vidas dos membros do grupo foi

o resultado de uma série de coisas:

Primeiro, um sentimento de amor genuíno permeava o ambiente. Os membros oravam uns pelos outros diariamente. Segundo, seu amor uns pelos outros era incondicional e honesto. Eles aceitavam uns aos outros justamente como eram. Não davam conselhos, mas diziam "a verdade em amor”, como o Novo Testamento ordena. Terceiro, eles fizeram dois inventários es­ pirituais durante seu primeiro ano. Algumas das folhas de avaliação não foram aceitas imedia­ tamente. Em outras ocasiões, levou tempo para eles aceitarem emocionalmente as coisas que lhes foram reveladas. Quarto, eles lembravam uns aos outros semanalmente o período devocional diário. To­ dos liam, durante o período devocional, o mes­ mo material geral recomendado e obtinham, fre- qüontemente, grandes discernimentos de suas

necessidades básicas. Mais importante, desco­ briam dentro de si mesmos as barreiras ao seu próprio crescimento espiritual. No seu período devocional, eles, então, apresentavam a Deus essas barreiras recém-descobertas.

metodista

O jovem pastor

de uma

igreja

oscreveu acerca de sua experiência com gru­ pos pequenos:

Quase que a metade dos nossos membros adultos estiveram em grupos, porque agora exigimos que todos aqueles que se juntam à igreja devem passar I>or um grupo de Aventura Espiritual de oito sema­ nas. Esta medida foi posta em prática nos dois últi­ mos anos, e assim todos os membros que entraram para a igreja neste período passaram por um grupo destes. Muitos deles continuaram em nosso progra­ ma dos grupos de companheirismo. O Grupo de Aventura Espiritual é basicamente uma introdução aos grupos pequenos, e possibilita, ao indivíduo que esteja algo hesitante em se entre­ gar a um grupo de longo período, experimentar a .significação e valor desse grupo num período mais curto. Em todos os casos, quando um indivíduo parti­

ou

cipou de um grupo e desistiu, por uma razão

outra, ou o grupo deixou de funcionar, estes indi­ víduos acabaram pedindo para se unirem a outro grupo. Eles reconheceram que as necessidades ge­

nuínas estavam sendo tratadas enquanto

essencial de

sua experiência cristã, Temos tido inúmeros casos de vidas serem es­ pantosamente tocadas pelo poder do Espirito Santo trabalhando através do grupo. Os seus componen­ tes têm encontrado sentido e propósito em suas pró­ prias vidas, e casais têm achado uma nova espe­ rança. Estou convencido de que o verdadeiro reavi- vamento dos membros de nossas igrejas quanto ao que significa ser “a Igreja” pode ser atribuído à experiência inicial que cada pessoa teve com grupos pequenos.

no

estavam

grupo

e que

o

grupo

é uma parte

É importante acrescentar que resultados

como estes podem ser melhor alcançados

quando o próprio pastor é um participante ativo

e dá supervisão pessoal à operação geral dos grupos.

“'Deus como

uma realidade viva”, em vez de “uma Divin­ dade distante”, teve resultados impressionan­ tes para muitos membros daquela igreja, e a experiência foi curadora e espiritualmente es­ timulante para virtualmente todos os que parti­ ciparam.

Uma das tragédias da Igreja hoje é que temos a tendência de medir nosso sucesso em termos de tamanho. E nisto temos sido víti­ mas do que Jung chama de “a mentalidade da massa”.

O indivíduo que não está firmado em Deus não pode oferecer nenhuma resistência, por meio de seus próprios recursos, às atrações que o mundo oferece nos sentidos físico e moral. Para isto ele precisa da evidência da experiência interior transcendente, que é a única coisa que pode protegê-lo contra a inevi­ tável imersão na massa. 3

Ao falar das “atrações do mundo”, Jung não se refere primariamente a uma forma de comportamento escandalosa e espalhafatosa.

Ele tem em mente algo muito mais sério do que um lapso moral. É antes o terrível perigo de sermos engolfados pela mentalidade da massa,

a ponto de pensarmos o que a massa pensa,

sentirmos o que ela sente e sermos levados pe­ los mesmos objetivos materialistas que compe­ lem a massa humana. A esta mentalidade da massa, sua principal disposição, seus objetivos, deve-se opor resis­ tência tão zelosamente quanto à ameaça à mo­ ral pessoal. Podemos estar muito mais consci­ entes da tentação do pecado moral óbvio — roubo, adultério, cobiça e coisas assim — do

Os

dividendos

de

encontrar

que da tentação insidiosa de ser igual aos ou­ tros: comprar o que eles compram, procurar o que eles procuram, louvar o que eles louvam e desculpar o que eles desculpam.

Jung

comenta

acerca

das

tentações

que

,i Igreja experimenta deste modo:

Por mais estranho que pareça, as igrejas tam­

as

próprias igrejas, cuja função é a salvação da alma Individual. Elas, também, parecem não terem ouvido

nada do axioma elementar da psicologia das mas- :;as, de que o indivíduo se torna moral e espiritual­ mente inferior nas massas, e por esta razão não se preocupa muito com a sua real tarefa de ajudar

o indivíduo a alcançar uma metanoia ou renasci­

mento do espírito

ínfelizmente, é demasiadamente

bém querem se apropriar da ação das massas

claro que, se o indivíduo não for verdadeiramente regenerado no espírito, a sociedade também não o pode ser, porque esta é a soma total de indivíduos

carentes de redenção. Posso, portanto, perceber que

c só ilusão quando as igrejas tentam, como aparen­

temente o fazem, amarrar o indivíduo numa organi­ zação social e reduzi-lo a uma condição de respon­ sabilidade diminuída., em vez de erguê-lo da massa

lorpe e sem consciência e tornar claro para ele que

o fator importante é ele e que a salvação do mundo consiste na salvação da alma individual.4

Quando eu estava na universidade pude uma vez observar a mentalidade da massa em ação. Um homem havia sido preso por algum crime sórdido e a cidade estava consideravel­ mente excitada pelo incidente. E me disseram que uma multidão estava se formando no centro da cidade, e, como eu estudava psicologia nesse tempo, fiquei ansioso para ver de perto a ação da multidão. Um colega e eu corremos para o local da cena, e, de um ponto vantajoso e se­ guro, observamos a mentalidade da massa fun­ cionar. Não havia um só líder para dirigir a ação, mas parecia como se gradualmente emer­ gisse, não um milhar de mentes individuais ca-

pazes de pensamento racional, mas uma única mente movendo toda a turba. Podíamos ouvir vozes da multidão gritan­ do: “Vamos pegá-lo na cadeial” Outros aderi­ ram ao grito, e, ainda sem líder, a multidão avançou em direção à cadeia que ficava a al­ guns quarteirões de distância. Nós fomos jun­ tos. Aqueles que iam na frente não estavam liderando mais do que sendo empurrados por aqueles que estavam atrás. Os gritos mais rai­ vosos vinham dos homens que estavam segu­ ramente imersos no centro da tur!'a. Eram eles que impeliam a turba para frente. Eles avança­ ram em direção aos degraus da cadeia, porém de repente uma figura calma emergiu da por­ ta e ali parou com a mão erguida.

Era um homem de tamanho médio, que não tinha atitude de domínio nem inspirava terror; mas havia algo terrivelmente autoritário em sua voz: “Parem onde estão! Não se mo­ vam, ou alguém poderá se ferir.”

A

turba

parou

de

imediato. Ouvia-se al­

guns resmungos irados, mas eles se detiveram

dizer. Ele

começou a falar em tom comedido e calmo. O

para ver o

que o xerife

tinha para

mais notável

nele

era

que

parecia

não

ter

medo.

A turba

não

lhe

impunha

ameaça

al­

guma porque ele estava certo, e sabia disto. Falou a eles em termos simples sobre os tribu­ nais, o sistema americano de justiça que cada homem quer para si mesmo e deve querer para os outros.

Ele fez uma pausa e depois disse: “Agora, todos vocês irão para casa, e nossos tribunais tomarão conta deste réu.” E, voltando-se cal- mameníe, entrou no edifício. Um homenzinho bem atrás gritou: “Vamos pegá-lo de qualquer maneira!” Mas a multidão

tintava se desfazendo, e o homenzinho desa­ pareceu no meio da turba. Uma pessoa que ■mbla que estava certa, sem amparo de meios visíveis quaisquer para manter a lei, havia pa- i.ido uma turba raivosa de homens que esta­ vam temporariamente insanos. Coisas como esta têm acontecido em todas

as épocas, onde quer que os homens se reú-

nnm. Alguém grita: "Hosana ao Filho de Davi”,

o a multidão acena com ramos de palmeira

pura saudar o Messias. Mais tarde alguns homens começam a bradar: “Crucifica-o”, e a turba entra em coro. Ou, em nossos dias, os propagandistas clamam: “Comprem isto!” ou:

"F novo e audacioso!” ou apontam para esta ou aquela suposta panacéia como indicada para o bem-estar físico e mental.

Se uma voz é ouvida mais persuasivamente s com mais frequência que outras, pela televi­ são, rádio ou imprensa, uma multidão invisível é formada: a mentalidade de massa começa a funcionar. Logo, milhares, talvez milhões, jun­ tam-se ao canto do refrão, quer seja de louvo­ res a um líder, a condenação de uma causa que antes fora popular ou a exigência desta ou da­ quela mudança social. Algumas das causas pro­ movidas são louváveis porque a mentalidade de massa não é de todo má. Mas, como Hitler de­ monstrou com zelo demoníaco e genialidade Insana, é muito mais fácil atirar a mentalidade da massa para o ódio do que para o amor.

Jesus dava

grande

importância à conver­

são do indivíduo. Ele não conduziu nenhuma marcha de protesto em Roma ou Jerusalém advogando reforma social. As injustiças sociais dos seus dias devem tê-lo angustiado. A po­

breza e miséria das massas oprimidas contras­ tavam com os prazeres dos ricos. A doença e

enfermidade, os capatazes de fazendas livres de impostos, a injustiça gritante em todos os lados, o pesado jugo de Roma — tudo isto deve ter sido uma fonte da mais profunda dor pes­ soal para ele. Mesmo assim, ele resistiu à ten­ tação de fazer uma exigência dramática por justiça social. Ele não mandou que seus segui­ dores se preocupassem primariamente com esses males óbvios. Pelo contrário, logo antes de sua ascensão, ele disse ao pequeno grupo:

“Esperai aqui na cidade até que sejam reves­ tidos do poder do alto.” 5 Nenhuma outra ins­ trução lhes foi dada, a não ser que esperassem em oração até que o Espírito Santo de Deus houvesse unido, purificado e dado poder a eles. Ele os julgou incapazes da tarefa de levar as boas-novas do Reino enquanto algo vital não tivesse acontecido a eles pessoalmente!

Vemos injustiça e sofrimento ao nosso re­ dor. As pessoas dotadas de compaixão sen­ tem-se constrangidas a se apressarem em orga­ nizar, angariar fundos e lançar novos movimen­ tos para erradicar a pobreza, a doença ou os muitos tipos de sofrimento que afligem a hu­ manidade. Este zelo é louvável. Eu gastei tantos anos como um ativista, mergulhado em boas obras para aliviar a necessidade humana, que só posso encontrar simpatia em meu co­ ração pelo autor zeloso de boas obras.

É com dificuldade que consigo controlar o impulso de participar em toda causa digna. Entretanto, aqui, como em todo lugar, o bom pode se tornar inimigo do melhor. O bem óbvio de levar comida ao faminto ou conforto ao aflito pode ser inimigo do melhor — que pode ser simplesmente fazer o que Jesus man­ dou. De fato, ele disse: “Não se apressem a espalhar as boas-novas da ressurreição ou a

mudar o mundo, até que vocês tenham um tipo especial de poder do céu.” Ele não des­ creveu o efeito que este poder teria sobre eles. □e simplesmente lhes disse para esperarem, l los saberiam quando o poder chegasse. E nles esperaram horas e dias, em obediência perfeita, até o poder chegar. Tendo orado juntos em calma receptivi­ dade, eles estavam prontos para serem purifi­ cados de interesse pessoal, mesquinharias, dúmes, egocentrismo e outras centenas de pecados espirituais que estragam a eficácia do um povo zeloso. Jesus, evidentemente, de­ dicou uma parte considerável de seu ministério A lida com indivíduos e ao preparo dos doze para sua missão. Embora ele tenha pregado várias vezes à multidão, os seus resultados mais efetivos vieram do trabalho com indivíduos e com o pequeno grupo de discípulos. Com os indivíduos ele começava no ponto da necessidade: “Que queres que te faça?” Ele era solícito em perguntar. Começava no ponto crítico — doença física, pecado, cegueira. Quando os discípulos discutiram sobre qual deles seria o maior, ele aproveitou a ocasião não para apaziguar uma briga, mas para dar- -Ihes uma lição sobre humildade, que seria lembrada por muito tempo.

Elton

Trueblood,

fundador

do

movimento

Yokefellow, expressou isto muito bem:

O mundo precisava de uma fé salvadora, e a fórmula para uma fé assim vem através de um tipo particular de comunhão. Jesus tinha um profundo Interesse pela continuação de seu trabalho reden­ tor após sua existência terrena, e seu método esco­ lhido foi a formação de uma sociedade redentora. Ele não alistou nenhum exército, não estabeleceu nenhum quartel-general, nem sequer escreveu um livro. Tudo o que ele fez foi ajuntar alguns homens

de futuro não muito promissor, inspirar neles o sen­ tido da sua vocação e da vocação deles, e construir a vida deles numa comunhão intensiva de afeição, adoração e trabalho. Uma das passagens realmente chocantes do Evangelho é a em que Jesus mostra que não há ab­ solutamente nenhum substituto para a pequena so­ ciedade redentora. Se isto falhar, ele sugere, tudo será fracasso; não há outra maneira. Ele disse, para a pequena comunidade enlameada, que eles, na rea­ lidade, eram o sal da terra e que, se este sal falhasse, não haveria preservação adequada, de modo nenhum. Ele estava colocando tudo numa só jogada.«

3

ANSIEDADE

O coração puro é livre, sem preocupação, não está comprometido e não deseja a sua própria von­ tade em coisa alguma, antes se encontra imerso na vontade amorosa de Deus. Não pode haver inquie­ tação, a não ser aquela resultante da vontade pró­ pria.

Meister Eckhart

Um psiquiatra de renome afirma, cate­ goricamente, que todos estão gastando pelo me­ nos cinqüenta por-cento de sua energia psí­ quica, conservando recordações reprimidas sob o consciente. Pelo menos, pode-se dizer se­ guramente que cada um de nós gasta uma quantidade enorme de energia psíquica tentan­ do evitar a ansiedade. Se essa energia fosse colocada à disposição da ciência criadora, po­ deriamos mudar as nossas vidas e nossos des­ tinos.

Por de trás de cada atividade, cada deci­ são, cada plano, a longo ou curto prazo, há um esforço inconsciente de evitar a ansiedade. Por ser a ansiedade uma experiência dolorosa, tomamos todas as precauções para evitarmos situações que poderão produzi-la. Planejamos, racionalizamos, trabalhamos, até mentimos a

nós mesmos e aos outros, no esforço de evi­ tá-la.

Os psicólogos, em geral, concordam que

cada ação é um esforço para evitar a ansiedade.

O homem que trabalha diariamente em uma ta­

refa de que não gosta e que cria ansiedade

está fugindo da ansiedade maior de enfrentar

o desemprego e a miséria financeira. A mulher

que não gosta de limpar a casa, mas mesmo assim o faz, deseja evitar a ansiedade ainda maior que seria produzida por morar em uma casa suja. Há dados momentos, sejam quais

forem, em que fazemos a coisa que preferimos.

A maneira como racionalizamos a nossa conduta a fim de evitar a ansiedade é ilustrada por um homem que não gostava de aconteci­ mentos sociais. Fora tímido e retraído quando criança, sem amigos achegados com quem pudesse se relacionar. Lembrava-se de um sen­ timento de alienação do seu pai e dos irmãos mais velhos. Agora, já cinqiientão, experimen­ tava um desgosto intenso por todos os aconte­ cimentos sociais. Até em assistir aos cultos se sentia mal. Sua esposa fazia a sugestão de assistirem a algum acontecimento sociai, mas ele resistia com qualquer desculpa entre uma dúzia de ra­ cionalizações muito usadas: estava cansado e queria ficar em casa, assistindo à televisão ou ouvindo uma boa música; as pessoas, via de regra, eram enfadonhas; as suas conversações fúteis eram cansativas; havia poucas pessoas inteligentes com quem alguém podia verdadei­ ramente se comunicar, e assim por diante. Havia, de fato, alguma verdade em cada uma das suas alegações, mas nenhuma delas era o real motivo, conforme chegou a descobrir no

grupo.

de

De início,

resistiu

à

possibilidade

que simplesmente estivesse fugindo da ansie­ dade do contato pessoal mais achegado com as pessoas. Resistiu de forma ainda mais for­ te à idéia de que isso poderia ter começado nos primeiros anos da sua vida. Depois de algum tempo, entretanto, chegou ao ponto de ver que

a verdadeira razão de evitar o contato pessoal

com outros, em ambientes sociais, prendia-se ao fato de que eles despertavam nele senti­ mentos de inferioridade e insegurança. Sim­ plesmente encontrava razões para fugir da si­ tuação que provocava a ansiedade.

O ajuntador, seja de dinheiro, barbanle ou sortimentos esquisitos de coisas consideradas desnecessárias por sua família, está atendendo

a um sentimento de ansiedade enterrada pro­

fundamente no subconsciente. Ele poderá ra­

cionalizar facilmente o seu hábito. A gente pode precisar de barbante; sempre há neces­ sidade de dinheiro; e não é economizar uma grande virtude? É claro que é, e, possivel­ mente, um dia haverá alguma necessidade de

todos esses restinhos que ele tem guardado, mas a verdadeira razão é mais profunda. Ele

ó motivado por um sentimento de ansiedade

que tem a sua origem na infância. Pode ser o resultado de ter sido privado de amor quando muito pequeno. A insegurança, o medo de não ser amado e bem cuidado, experimentados quando criança, agora tomam a forma do medo de não possuir suficiente dinheiro para cuidar

de si nos anos vindouros. A insegurança finan­ ceira no lar de uma criança, criadora de uma ansiedade generalizada, pode manifestar-se na forma de ajuntar coisas, ser mesquinho ou ter medo de dar ou amar — e tudo isso são mani­

festações de ansiedade.

Pode-se afirmar, com segurança, que todo comportamento caracterizado por sobrecarga de ansiedade não é o resultado de um processo bem pensado e racional, mas de fatores emo­ cionais, cujas raízes geralmente se estendem ao passado, à infância da pessoa. Se agíssemos de outra maneira do que agimos, isto criaria ainda maior ansiedade. Se mudarmos nosso padrão de comportamento de forma significativa, sem compreendermos nossa natureza básica, haverá a tendência de criar­ mos ansiedade adicional, e por isso nossa pro­ pensão é de nos agarrarmos a um modo de agir bem conhecido.

O alpinista é tão motivado pela ansiedade

quanto a pessoa que não consegue olhar a

borda de um precipício sem entrar em pânico.

O alpinista tem, simplesmente, um tipo diferente

de ansiedade, que o leva a alcançar os picos

das montanhas.

O modo de agir tomado por alguém pode

nos dar a impressão de ser precipitado, teme­ rário, tolo, ou simplesmente irracional; mas para

a pessoa em questão, sendo quem é e o que é,

parece ser a melhor escolha possível. Ela está

agindo na base de certas necessidades emocio­ nais, certas suposições e respostas. Para ela,

o agir de outra forma lhe traria ansiedade e

tensão notáveis.

Isto não quer dizer, entretanto, que toda ansiedade seja destrutiva. Há uma forma de ansiedade criadora que faz com que um homem saia da cama de manhã para ir ao trabalho.

A mãe atende ao choro de seu filho em resposta

a uma ansiedade interna, que também é cria­

dora. Nossa reação a um perigo repentino, que requer todos os nossos recursos internos, esti­

mula a secreção de adrenalina adicional na

corrente sanguínea e nos prepara para “fuga ou luta”. Esta é uma resposta instintiva ao medo, dada por Deus. Só quando o medo se torna uma ansiedade dominante e impede

nossa eficácia é que ela cessa de ser criadora

e se torna destrutiva.

O alcoólatra, ou o que tem problemas com

sofre ansiedade profunda.

blema básico não é beber demais; o beber em excesso é sintoma externo de uma ansiedade ou necessidade muito forte. Ele quase não tolera as situações que produzem ansiedade e quando ele se sente ameaçado por alguma si­ tuação ele só pode suportar a ansiedade com a ajuda do álcool, que complica o problema fa­ zendo-o sentir culpa e inferioridade.

a bebida

Seu pro­

O álcool tende a paralisar o centro supe­

rior do cérebro, onde a faculdade de juízo resi­

de. O que tem problema com a bebida não é mais capaz de resolver a situação antes de ter tomado seus vários drinques; de fato, sua atua­ ção geralmente se processa num nível mais baixo do que antes, mas, desde que seu juízo está prejudicado, ele se sente um pouco mais efetivo. Sermões por parentes, ameaças, condena­ ções, criticismo e importunação só servem para tornar as coisas piores. Ele já se sente culpado e fora de lugar. A crítica simplesmente inten­ sifica esses sentimentos, e ele sente uma ne­ cessidade mais forte de beber a fim de apazi­ guar temporariamente seus sentimentos de cuipa. O método de ação dos Alcoólatras Anô­ nimos providencia uma solução criadora para um grande número de alcoólatras. O progra­ ma é psicológica e espiritualmente saudável. Infeiizmente, muitos alcoólatras não podem admitir que são bêbados problemáticos e que

não podem ser ajudados enquanto não admiti­ rem, com toda a humildade, que não são capa­ zes de se ajudar se não estiverem prontos a pedir ajuda a um Poder Maior. A própria acei­ tação deste fato é o passo absolutamente essencial a ser tomado, antes de mais nada.

Muita ansiedade é produzida por hostili­ dade reprimida. Há várias maneiras de se lidar com a hostilidade ou com outra emoção nega­ tiva qualquer: Pode-se exprimi-la, suprimi-la, reprimi-la ou entregá-la a Deus em completa submissão. Há situações em que a hostilidade pode ser expressa para o bem de todos os en­ volvidos. E, em outras situações, exprimir pro­ fundo ressentimento seria insensato e destru­ tivo. Em tais casos, aprendemos a suprimir o sentimento. Sabemos que o sentimento existe e estamos cônscios dele, mas o suprimimos. O procedimento mais perigoso e que é muito usa­ do inconscientemente, é o de reprimi-la; isto é, fingimos que não sentimos hostilidade. Por exemplo, uma criança pode sentir hostilidade contra seus pais, mas ela aprende a enterrar ou reprimir esse sentimento. Afinal, “não de­ víamos odiar nossos pais”. A expressão da hostilidade frequentemente não é aceita em casa, e a criança pode aprender a enterrá-la profundamente no inconsciente.

um

desses modelos de virtude que é caro ao cora­ ção paterno: uma criança inteiramente obedi­ ente. Nunca lhe ocorreu rebelar-se abertamen­ te, mesmo na adolescência. Depois de se for­ mar, deu aulas por vários anos, depois se tor­ nou secretária particular.

Seu pai, por quem ela sentia um misto de amor e ódio, dominava sua vida. Ele nunca fora muito bem sucedido nos negócios. Ângela,

Ângela

é

um

caso

desses.

Ela

era

o epítome da generosidade, contribuiu com uma boa parcela do seu salário para sustento da família por muitos anos. Ela morava em casa a maior parte do tempo, freqüentemente com um guarda-roupa bem limitado e uma vida social muito restrita, por causa do seu senti­ mento de que devia ajudar a família. Ela recebeu várias propostas de casamen­ to, mas não ousou aceitar nenhuma até perto dos quarenta anos. Depois de se casar com um homem de boa paz, continuou a ajudar seus pais ainda por muitos anos. Sua generosidade não conhecia limites. Mas agora que ela tinha uma vida separada dos pais, a ansiedade come­ çou a se mostrar. Houve várias idas ao hospi­ tal, tratamento freqüente com vários médicos e complicações repetidas com leves infecções, das quais ela não podia se livrar.

Para cúmulo, seus pais foram morar com ela, intensificando seu conflito interior. Ela ti­ nha dois empregos e ainda cuidava da casa. Finalmente, tendo sido os pais colocados num asilo de velhos, onde eram bem cuidados, a vida de Ângela, julgaríamos, deve ter-se torna­ do um pouco mais plácida. Mas, pelo contrá­ rio, a ansiedade de toda a sua vida começou a piorar; pois não era, na realidade, a presença de seus pais, ou suas exigências, que produ­ ziam a ansiedade; era o seu próprio sentimento de auto-rejeição e de culpa que ela experimen­ tava por causa das suas emoções confusas de amor e ódio para com seus pais que a pro­ duzia.

Suas

doenças

físicas

não

eram

imaginá­

rias. Eram doenças orgânicas e que lhe pro­ porcionavam considerável sofrimento. Ela su­ portava todas com um misto de jovialidade, sabedoria e estoicismo. Estava vagamente

consciente de que, de algum modo, seu amor e hostilidade para com seus pais — especialmen­ te para com seu pai — fazia parte disto tudo, mas a coisa toda era dolorosa demais para que

ela pudesse torná-la criativa. Ela só aceitava

o

aconselhamento, de uma maneira transitória

e

superficial. Os sentimentos de culpa de Ân­

gela por “ter desertado” de seus pais por causa do casamento produziram nela ansiedade, e ansiedade é conflito. Este conflito interno foi suficientemente grande para acarretar um de­ sequilíbrio endócrino, que era a principal fonte de todas as suas moléstias. Ângela havia sido um membro de igreja ativo e fiel por toda a sua vida. Cria firmemente em Deus, em Cristo e na oração. Não é que não possuísse fé religiosa na qual confiar. Mas, sim, que o padrão de vida religiosa nada tinha para oferecer a uma pessoa cercada por pro­ fundas ansiedades. Se ela orava, era pela mo­ léstia física; mas esta forma de oração provou ser inútil, porque sua doença era somente um sintoma do problema básico: hostilidade re­ primida, que criava ansiedade insuportável.

Ela podia discutir suas emoções confusas para com seus pais, mas só de modo superfi­ cial. Ela recusava procurar aconselhamento ou terapia de grupo de qualquer espécie. Era óbvio que as dores que suas moléstias fre- qüentes provocavam eram mais suportáveis que

o sofrimento que se apresentaria se encarasse seus sentimentos verdadeiros. Ela simplesmen­

te escolheu o modo de agir que inconsciente­

mente achava que produziria o mínimo de an­ siedade possível; mas a mente tem a tendência de transmitir sua própria dor — sentimento de culpa e ansiedade — ao corpo. No caso de Ângela, parecia preferível suportar a doença

física por muitos anos do que encarar a fonte de sua ansiedade profundamente enraizada, infelizmente, o seu caso não é um caso in- comum; é altamente típico. Uma das coisas mais difíceis para muitas pessoas aceitarem é que, embora consciente­ mente elas queiram se libertar de seus sintomas físicos, elas possuem uma necessidade incons­ ciente de sentir esses mesmos sintomas. Nós escolhemos nossos sintomas — inconsciente­ mente e com uma finalidade inexorável. Os es­ pecialistas no campo da medicina psicossomá- tica acreditam que cinquenta a oitenta por-cen- to de todas as moléstias físicas têm sua origem em nossas emoções. De fato, todas as emoções têm algum efeito sobre o organismo físico de maneira criativa ou destrutiva. Sintomas fabri­ cados emocionalmente podem, com o tempo, se desenvolver em moléstias orgânicas reais. Já há muito tempo atrás a Bíblia reconhe­ ceu isto. Ela nos admoesta que "uma mente tranquila é saúde para o corpo”, * O apóstolo Paulo escreve aos crentes de Filipos: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos di­ ante de Deus pela oração e súplica, com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” A paz de Deus só pode ser nossa quando lhe entregamos nossa ansiedade e medo. A maneira em que o amor misturado com ódio opera na vida diária é ilustrada pela jo­ vem que escreve a seu namorado: “Querido George: Odeio-te! Com amor, Alice.” Estas emo­ ções confusas, sempre presentes conosco, têm pape! importante não somente em nossas re-

lações humanas, mas tem muito a ver com nos­ so bem-estar ou falta dele. Karl Menninger descreve o processo pelo

qual

nossos

impulsos

agressivos são

reprimi­

dos:

É um dos objetivos reconhecidos da educação lidar com a agressividade existente em a natureza da criança, isto é, no decorrer dos primeiros quatro ou cinco anos, mudar a atitude própria da criança para com este impulso nela inerente. A vontade de machucar as pessoas, e mais tarde o desejo de des­ truir os objetos sofrg todas as formas de mudanças.

Ela é primeiro, geralmente, restringida, então supri­ mida por mandamentos e proibições; um pouco mais tarde, é reprimida, 0 que significa que ela desa­ parece do consciente çla criança. A criança não ousa mais tomar conhecimento destas vontades. Há sem­ pre o perigo de que elas possam voltar do incons­ ciente; portanto, toda medida de proteção é tomada contra elas. A eriança cruel desenvolve a capacidade de ter dó, a criança destruidora se torna hesitante e cuidadosa demais. ge a educação for dirigida in­ teligentemente, o principal destes impulsos destrui­ dores será dirigido para longe do seu propósito pri­ mitivo de prejudicar alguém ou alguma coisa, e será usado para combater as dificuldades do mundo ex­ terior: realizar tarefas ne toda espécie no sentido

“fazer o bem’’, em vez de “ser mau”, como o

impulso original exigia. 3

de

A paz e a harmonia interior, a ausência de ansiedade destrutiva providenciam 0 clima emo­ cional em que os qossos corpos podem funcio­ nar melhor e as possas vidas se desenvolver de forma mais criadora. A Bíblia afirma esse fato e é confirmado pela ciência moderna. Nem sempre é possível descobrir a causa da ansie­ dade. Alguém poderá afirmar que não tem preocupação alguma, e pode ser que de fato não a tenha, entretanto, experimenta um senti­ mento de ansiedade difusa. Talvez esta tenha começado na infância, como resultado de um

pai autoritário, ou de padrões não realistas, ou de sentimentos de rejeição. A criança de qua­ tro anos pode enfrentar a exigência de se com­ portar como se tivesse seis anos; a criança de dez, como de doze. Se o boletim escolar traz

a nota 4, pelos padrões dos pais, deveria ser

pelo menos 6 ou 7. Se for mais de 7, então deveria ser 9 ou 10. Se todas as notas não fo­ rem 10, a conclusão é que poderíam ser, hou­ vesse mais diligência por parte do menino.

Uma criança em tal situação aprende que nunca poderá alcançar a plena aprovação dos seus pais, por mais que se esforce. Jamais o que fizer será o suficiente. Nunca se sentirá aceita, e nunca poderá aprender a se aceitar, enquanto não conseguir um trabalho perfeito.

Então poderá passar a vida inteira sem nunca ser capaz de atingir coisa alguma que satisfaça

à sua própria exigência implacável de perfei­

ção. Não criou esse perfeccionismo com sua f.losofia de vida. Foi-lhe incutido quando cri­

ança. Pode ser que ninguém lhe tenha ensi­ nado isto, mas ele o adquiriu por uma espécie de “osmose ambiental” . O padrão demasiadamente alto de ação pode ser adquirido de um dos pais que real­ mente nunca exige demais de crianças. As

crianças aprendem não somente do que se lhes diz, mas também imitando as atitudes dos pais.

A criança tem a tendência de desenvolver sua

“tonalidade emocional” simplesmente por estar com seus pais. Há pais que tentam inconscientemente fa­ zer com que seus filhos alcancem certos obje­ tivos para compensar seus próprios sentimen­ tos de fracasso ou de inadequação. Um estu­ dante de faculdade, cujos pais expressaram insatisfação com suas notas, estava na mesma

universidade em que seus pais haviam estu­ dado. Ele pediu a um colega que trabalhava na secretaria para verificar as notas de seus pais. Eram bem mais baixas do que as dele! Uma mãe, que não teve sucesso como can­ tora, forçava sua filha a tentar a carreira artís­ tica. A família toda trabalhava para este fim e sacrificou-se para assegurar à jovem cantora em formação um treinamento vocal. A menina possuía uma voz bonita, mas não notável. Por vinte anos ela lutou por um objetivo totalmente irreal, e acabou doente física e emocionalmen­ te, desiludida da vida e como pessoa comple­ tamente frustrada. Uma ansiedade toda dominante na vida de uma pessoa adulta freqüentemente provém de acontecimentos que tiveram lugar cedo na vida da criança e desde então enterrados profunda­ mente no inconsciente. Na idade de quatro anos uma criança um pouco rebelde, mqs mui­

to ativa, foi taxada de “teimosa” por sua mãe

e forçada à submissão. A partir daí não lhe deu

mais trabalho. Tornara-se um “bom menino”,

nunca abertamente desobediente, mas os seus pais não conseguiram entender por que ele não gostava de ser mimado, nem por que ele manti­ nha quase que constantemente uma expresão

de hostilidade, a qual nunca dava vazão verbal­

mente ou de qualquer outra forma. Exteriormen­

a

te

hostilidade reprimida. Rebe!ar-se significaria ser privado de amor, ou abandono, o que para

a criança representa aniquilamento total. As

poucas vezes que mostrou alguns sinais de rebelião foi surrado por seu pai, até que desis­

tiu e de novo se tornou “um bom menino"!

A agressão reprimida do menino podia ter tomado várias direções, dependendo isto de

era

submisso.

Interiormente

fervia

nele

muitos fatores. No seu caso, no primeiro dia de aula, ele ameaçou uma meninazinha no recreio, e foi castigado na escola e em casa. Dal ele de novo aprendeu a futilidade de mostrar agressão. No ginásio, se envolveu em vários tipos de com­ portamento anti-sociais, tais como furto, mas nunca foi apanhado.

A esta altura, algo de “positivo” aconte­

ceu. Sua família o havia sempre levado à Esco­

la Bíblica Dominical e à igreja. Lá ele entrava

em contato com uma espécie de religião mora­ lista, na qual havia pouco amor, mas que dava uma forte ênfase a se “fazer o que é direito” .

Sua agressão reprimida e as exigências rígidas de retidão sustentadas por um Deus vingador entraram em luta, em sua alma, e Deus — o Deus que ele havia aprendido a conhecer — foi o vitorioso. O jovem entrou para o minis­ tério e procedeu segundo os padrões adotados. Mas seu evangelho foi moralista e destituído de amor por muitos anos, até que ele veio a compreender a causa de sua hostilidade repri­ mida. Então ele desenterrou seus sentimentos,

admitiu-os diante de sua consciência e os en­ tregou a um Pai Celeste amoroso, que não era mais um Deus moralista, exigente e vinga­ tivo. Ele começou a sentir e exprimir amor num grau muito maior. Sua pregação moralista foi substituída por uma ênfase ao amor redentor

e perdoador de Deus, revelado em Jesus Cris­

to. Ele sempre havia crido nisto intelectuai- mente. Havia sido uma parte de sua teologia. Agora se tornara parte de sua vida. A mudança se processou principalmente pela participação em um grupo de comunhão, onde a honestidade para com os sentimentos dos outros era um dos requisitos básicos. Antes de a mudança ocorrer ele nunca havia podido

entender por que não sentia afeição especial por seus pais. Ele sentia um leve laço familiar, preocupação e compaixão, mas sem a mínima afeição.

Ele estava agora muito mais cônscio de uma ansiedade sem nome, para a qual não havia causa aparente. Essa ansiedade teve o seu quinhão de nervosismo, ataques ocasionais de colite, artrite e uma sucessão de outros sin­ tomas vagos, mas desconfortáveis. Ao fazer as pazes com seus sentimentos — alguns deles enterrados de há muito — a maioria dos sinto­ mas desapareceu. Ele começou a ver como um relacionamen­ to familiar rígido, autoritário e punitivo havia feito com que ele sentisse a hostilidade, que havia enterrado em sua mente inconsc ente. Lá ele lutava contra o amor e a obediência. Uma parte dele queria amar e ser amada, mas

a

outra parte de sua natureza sentia rejeição

e

hostilidade. A agressão resultante tendo sido

transformada e então permeada com amor e

compaixão,

A agressão pode manifestar-se»de duas maneiras: pode ser abertamente hostil e possi­ velmente destruidora, ou pode ser criadora — sendo um impulso que muda as circunstâncias, constrói e cria.

Às vezes as forças antagônicas criadoras de ansiedade podem ser parcialmente reconhe­ cidas. Se sentimos, ao mesmo tempo, o desejo de assistir a um concerto e jogar boliche na mesma noite, um certo grau de ans:edade se apresenta, até que o problema seja soluciona­ do. A necessidade de tomar uma decisão é criada, em parte, pela necessidade de aliviar a ansiedade, que persiste numa forma leve até que uma decisão seja tomada. A ansiedade é

tornou-se criadora.

conflito interior. Se, em dada ocasião o marido quer jogar boliche e a esposa quer assistir a um concerto, a ansiedade pode tornar-se um conflito conjugal, a menos que o caso seja resolvido de modo que satisfaça a ambos. Se a pessoa desiste com dificuldade e apenas finge uma pronta aquiescência, surge nela uma ansiedade interior. A necessidade de amar e a necessidade de agir à sua própria maneira estão em conflito. Só a autocompre- ensão madura e o perdão e amor cristão genuí­ nos podem expulsar o demônio da hostilidade neste sentido. A ansiedade pode tomar formas mil. Um amigo meu poucas vezes pôde brincar na infân­ cia. Ele tinha de estar sempre ocupado. Seus liais estavam em aperto e cheios de dívidas. A ansiedade deles foi transmitida aos seus três filhos, cada um dos quais reagindo de um modo diferente. Meu amigo tornou-se um trabalhador compulsório, raramente permitindo-se um des­ canso, e sentindo-se culpado se tirasse um dia de folga. Às vezes ele se recusava a tirar fé­ rias, sob a alegação de que havia coisas demais para fazer. Seus pais, do mesmo modo, rara­ mente haviam tirado férias, mas ele não conse­ guia ver nenhuma ligação entre o seu procedi­ mento e o deles. Suas duas irmãs reagiram à atmosfera car­ regada do lar de maneiras diversas. Uma delas tomou a determinação de ser bem sucedida num campo altamente competitivo e arruinou sua saúde, destruiu seu casamento e não al­ cançou nem sucesso nem felicidade. Seu im­ pulso para realizações era tão grande que ela não podia ter outra coisa em vista senão obter um grande sucesso. Quando este lhe foi nega­ do, ela ficou doente e assim permaneceu por

toda a vida, embora os médicos, uns após ou­ tros, nada pudessem encontrar de errado com ela. A outra irmã trabalhava durante horas, in­ crivelmente longas, e economizava seu dinhei­ ro, para gastá-lo generosamente com os outros, e trabalhava compulsoriamente em empregos diferentes em sucessão, e ainda cuidava da casa, acabando por ficar prostrada, em pura exaustão física e emocional.

Não há aqui nenhuma intenção de pôr a culpa nos pais. Eles eram produtos de seu próprio ambiente, e usaram do melhor crité­ rio que possuíam. Atribuir nossas doenças pes­ soais às suas origens de modo algum lança a culpa sobre nossos pais. Se formos culpar al­ guma coisa, que sejam os males da sociedade, ou o pecado original; ou um inconsciente cole­ tivo inseguro e perturbado — e tudo isto vai dar na mesma coisa. Muitas pessoas que sofrem forte ansiedade preferiríam submeter-se a uma operação ou se­ rem hospitalizadas, ou sofrerem tratamento do­ loroso a encararem o fato de que o problema é de origem emocional ou espiritual. Inconsci­ entemente, sem qualquer conscientização do mecanismo envolvido, elas escolhem suportar a dor física ao conflito emocional. O Dr. Alvarez, da Clínica Mayo, disse que a grande maioria dos pacientes que reclama de sintomas diges­ tivos não tem doença orgânica que seja res­ ponsável por seus sintomas. A maioria prefere uma operação ou um tratamento dispendioso a saber que suas “doenças” são causadas por suas emoções. Não que essas moléstias sejam inteiramente imaginárias; pelo contrário, geral­ mente há dor genuína envolvida, ou pelo menos desconforto. Mas o paciente insiste: “A dor é aqui, doutor; nada mais há de errado comigo."

A dor está lá, mas frequentemente sua origem

ó a ansiedade, que é simplesmente outra ma­

neira de dizer que o problema é basicamente

espiritual.

Quer o chamemos de problema de saúde mental, problema espiritual ou desajustamento emocional, estaremos falando da mesma coisa.

O homem é corpo e espírito, e o que afeta a

um, afeta a todos. Se há conflitos e tensões internas, ansiedade e sentimento de culpa em algum ponto em sua vida, o indivíduo tende a

manifestar este mal-estar espiritual por meio de algum sintoma físico. Se não o fizer, seu mal- -estar pode assumir a forma de masoquismo psíquico — uma necessidade inconsciente de punir-se a si mesmo. Ele pode tornar-se dado

a acidentes, a dificuldades, a desastres ou a

mau juízo. Sabe-se de homens que tomam uma série de decisões incrivelmente más e que re­ sultam em fracasso inevitável, apesar de todos os seus amigos e parentes unidos os avisarem prevenindo-os dos resultados de tais decisões. Este é, naturalmente, um mecanismo totalmen­ te inconsciente, pelo qual o eu se pune por culpa real ou imaginária.

A culpa, quer real ou falsa, só pode ser tratada de duas maneiras. Deve ser punida ou perdoada. Se não pudermos nos assegurar do perdão, encontraremos um modo de nos punir­ mos física, mental ou circunstancialmente — isto parece ser uma lei cósmica inexorável. Mas então não é Deus quem está punindo, mas

o próprio

Isto nos leva à pergunta feita durante sé­ culos, do porquê do sofrimento do justo. Ne­ nhuma resposta completamente satisfatória ja­ mais pôde ser oferecida, embora volumes e volumes tenham sido escritos sobre o assunto,

eu

condenador.

desde o livro de Jó até o último trabalho teoló­ gico sobre o problema do bem e do mal. O justo sofre realmente. Jesus disse: “No mundo tereis aflições.” 4 Sofremos não só os males organizados da sociedade (guerra, fome, doen­ ça, catástrofe), mas também sofremos, tanto quanto o “injusto”, por causa dos nossos con­ flitos internos, se não tivermos alcançado a maturidade emocional e espiritual. O mero co­ nhecimento dos fatos bíblicos e da moralidade cri&tã não nos garantirá isenção do conflito in­ terior, e muito menos de desastres naturais. Uma senhora idosa e boa ficou aleijada por uma artrite reumatóide. Suas mãos ficaram deformadas, e a espinha, torcida. Vive em dor constante. Seus amigos não podem entender por que esta querida velhinha, que gastou tanto de sua vida ao serviço dos outros, que nunca faltou à igreja, cuja vida moral tem sido sempre livre de qualquer suspeita, possa sofrer tanto. é um espírito meigo e gentil. Por quê? — per­ guntamos — por quê? Embora os médicos n^o estejam de acordo quanto à causa real da artrite reumatóide, há evidências clínicas suficientes para confirmar que a hostilidade reprimida frequentemente produz artrite, desde leves a severas. Muitos dos pacientes que sofrem de artrite são plá­ cidos e gentis externamente. Raramente têm consciência de que abaixo do nível do cons­ ciente sempre tem havido hostilidade, que aprenderam a reprimir cedo na vida. Loring T. Swaim ex-professor de artrite na Escola de Medicina de Harvard e que tem sido um especialista no campo da ortopedia por cinquenta anos, ó autor de um livro notável, Arthrítfs, Medicine, and the Spirttual Laws (Ar­ trite, Medicina e as Leis Espirituais), no qual

cita um grande número de casos que foram

curados só depois que ele levou os indivíduos

a lidarem com seus ressentimentos reprimidos, ou com outras emoções negativas, à luz dos ensinamentos de Cristo.

A Sra. Blandon, uma excelente professora

de Escola Bíblica Dominical, tinha um conheci­ mento notável da Bíblia. Ela falava de assuntos espirituais com calma e autoridade e sempre expressava uma doce paciência em suas ma­ neiras. Ela se tornou quase que totalmente inca­ pacitada pela artrite nos seus últimos anos, e aqueles que a visitavam sempre saíram com o sentimento de que era quase uma bênção estar na presença dela. Ela nunca reclamava.

Ela foi criada numa atmosfera religiosa rí­ gida. Quando bem jovem, aprendeu que expri­ mir o ressentimento era pecaminoso, e assim

se tornou uma criança complacente, respeitosa

e obediente. A rebeldia normal do adolescente

nunca foi expressa por ela. Cresceu acreditan­

do que nôo sentia hostilidade. “Um crente nun­ ca odeia”, dizia. “Nunca responde mal. Deve­ mos vencer o mal com o bem.” Suas citações eram boas, seu conhecimento de teologia ex­ tenso. mas a conscientização de suas emoções era quase inexistente. Ela havia aprendido a reprimir (negar e olvidar) toda consciência de

hostilidade; mas o conflito interior prosseguiu nas câmaras subterrâneas de sua alma, crian­ do ansiedade desequilíbrio metabólico e, com

o tempo, uma doença que lhe produziu alei-

jamento.

A Sra. Blandon jamais sonharia em contar

uma mentira a alguém, mas foi ensinada, quan­ do criança, a mentir a si mesma acerca de seus verdadeiros sentimentos, é igualmente er­ rado quer mintamos a Deus, aos outros ou a nós

mesmos. Uma mentira ó simplesmente a nega­ ção, repressão ou distorção da verdade. O uni­ verso de Deus depende de leis espirituais de amor e verdade. Não é o simples conhecimento da verdade que nos liberta, mas o desejo de oncarar a verdade acerca de nós mesmos. Não só a artrite, que usamos simplesmen­

te como ilustração, mas centenas de outras per­

turbações físicas resultam da ansiedade nas­ cida da nossa recusa em sermos honestos para com nossas emoções. Dependendo de coisas tais como sensibilidade orgânica, fato­

res ambientais, ou a necessidade inconsciente de a pessoa escolher algum sintoma particular,

a ansiedade pode manifestar-se de centenas

de modos diferentes. Por exemplo, muitos dos que sofrem de úlcera gástrica são pessoas dependentes e hostis. Elas geralmente não parecem depen­ dentes. Pelo contrário, com freqüência mos­ tram evidência de serem duronas, de terem per­ sonalidade cheia de recursos. Interiormente estão divididas. Uma parte de sua personali­ dade se tornou complacente e dependente, ge­ ralmente por causa de dominação materna for­ te, e a outra parte da personalidade está bus­ cando liberdade. O conflito inteiro cria ansie­ dade, que pode ser devastadora. Alguns paci­ entes que sofrem de úlcera não podem jamais aceitar o fato de que eles sentiram, tanto amor quanto ódio para com um ou ambos os pais; e seu complexo de culpa reprimido pelos seus sentimentos hostis para com um dos pais cria tensão e ansiedade interior.

O simples reconhecimento deste conflito interior não é sempre suficiente para se conse­ guir a cura. Muitos descobrem que precisam, primeiro, de conscientização da causa básica;

segundo, de aceitação destas emoções como válidas e reais, e, terceiro, de ação. Isto é, elas precisam “ventilar” seus sentimentos num lugar apropriado. É claro que algumas ansiedades têm ou­

tras

causas.

Em The

Dynamics

of

Personal

Adjustment

(A

Dinâmica

do Ajuste

Pessoal),

Lehner e

Kube dizem

que a

ansiedade

pode

provir de:

Discrepâncias entre o nível de realização de- um Indivíduo e as metas e prêmios que uma sociedade diz serem desejáveis. Assim, um indivíduo que é membro de uma sociedade que enfatiza a riqueza

material e a posição social pode se tornar ansioso, preocupado e desalentado, se ele falhar em conse­ guir muito dinheiro e em melhorar sua posição so­ cial. Isto será verdade especialmente se seus amigos Íntimos e associados esperam que ele alcance estes

objetivos

dade, ou hostilidade pode ser também uma fonte de ansiedade quando tal expressão é afogada por res­ trições culturais ou conseqüências ameaçadoras Deveras, qualquer exigência que o indivíduo sente que não pode preencher ou que está em conflito com suas necessidades pode ser fonte de ansiedade. *

A necessidade de expressar a agressivi­

Lehner e Kube sugerem que a ansiedade é o centro comum, do qual todo comportamento

neurótico surge. Eles mencionam

picas

gias com sintomas de ansiedade. Karl Menninger cita Ali ibn Hazm, que viveu de 994 a 1064; “Ninguém é levado a agir ou resolve dizer sequer uma única palavra se não esperar, por meio desta ação ou palavra, libe­ rar a ansiedade de seu espírito.” 6 Novecentos anos atrás este antigo escritor antecipou a des­ coberta que a psicologia moderna faria, de que evitar a ansiedade é a motivação primária da ação humana.

moléstias tí­

e

aler­

como úlceras, dores de cabeça

O. Hobart Mowrer apresenta o sentimento de culpa não solucionado como a maior fonte de ansiedade destrutiva e conseqüente neu­ rose. Diz ele:

Manifestamente nem todos os erros ou “peca­ dos” levam a dificuldades neuróticas. Algumas pes­ soas “ficam presas” aos mesmos, e algumas volun­ tariamente os confessam e arcam com as suas con- seqüências. Outras simplesmente não têm consciên­ cia suficiente para serem incomodadas. Mas as pes­

soas de bom caráter que não são nem afortunadas o suficiente para se encobrirem, e nem sábias o su­ ficiente para confessarem, desenvolvem uma dispo­ sição crescente, com o correr do tempo, de experi­ mentarem as emoções e cometer ações que cha­

mamos de

po a neurose pode permanecer dormente, la­ tente — “o Senhor é tardio em irar-se”. Mas, eventualmente, o período da “graça” expira, “a paciência” se acaba e o indivíduo descobre que a consciência não é mais um amigo confortador, mas, ao contrário, um critico severo e inimigo. O Indiví­ duo, por assim dizer, vira-se contra si mesmo, e,

quando isto acontece, ele está na espécie de “difi­ culdade” que chamamos de psicopatologia.7

Quer o chamemos de pecado, complexo de culpa, neurose da ansiedade, ou “uma ilusão da mente mortal”, estaremos falando exata­ mente da mesma coisa. Estaremos descreven­ do um indivíduo que está fora da harmonia das leis divinas e, assim, alienado de Deus, do seu próximo e de si mesmo. Ele pode libertar-se de sua alienação e de seus sintomas se resta­ belecer uma relação amorosa com Deus e os homens. Ele poderá vir a sentir-se perdoado e aceito. Seu autodesprezo, consciente ou in­ consciente, pode ser substituído por uma auto- -aceitação. Milhares descobriram que um grupo pequeno, sob condições adequadas, pode criar o ambiente no qual esta transformação espiri­ tual pode efetuar-se. Aqui pode-se aprender a

Por um pouco de tem­

confiar em suas emoções, em seu próximo e em Deus. No processo dá-se um grande passo na direção da obediência à suprema lei do amor; porque, no seu âmago, a ansiedade é ausên­ cia de amor.

4

A CURA DA ANSIEDADE

Todas as doenças do corpo proce­

dem ou da mente Platão.

ou

da

alma —

A psiquiatra Karen

Horney apresenta qua­

tro maneiras principais de escapar à ansiedade:

negá-la, evitar o pensamento ou o sentimento que a desperta, racionalizá-la e "narcotizá-la”. i

A estas quatro acrescentarei uma quinta, que

me parece a única maneira criativa de lidar com a ansiedade de um modo definitivo.

O primeiro método, que consiste em negar

a existência da ansiedade, é geralmente um

processo inconsciente. O indivíduo pode ter consciência de certos sintomas depressivos ou dolorosos, que podem ser físicos ou emocio­ nais, e estar desapercebido do verdadeiro mo­ tivo da ansiedade. Uma mulher certa vez me pediu que orasse por ela porque tinha medo de um ataque car­ díaco. Antes de orar eu perguntei quais eram seus sintomas. Ela contou-me que sofria de for­ te palpitação do coração, que o seu médico havia dito que a causa era emocional, e não orgânica. Ela estava certa, entretanto, de que as batidas violentas do coração, que surgiam

quando menos esperava, eram o indício de que ela estava prestes a sofrer um ataque cardíaco. Perguntei-lhe quando o problema havia começado. Ela replicou que tinha notado as palpitações pela primeira vez em março do ano anterior. Então se lembrou de que sua mãe, já idosa, havia falecido nesse mês. Ela até o momento de falarmos, não notara nenhuma li­ gação entre os dois acontecimentos. Então agora começamos o demorado processo de tentar descobrir o que, acerca da morte de sua mãe, havia provocado esta tremenda ansiedade. Ela assegurou-me que apenas sentia imensa­ mente a morte da mãe. Aparentemente, não ha­ via medo da morte e nenhuma conscientização de outra causa qualquer de ansiedade indevida.

Quando procuramos o que se ocultava sob o consciente, encontramos a fonte do proble­ ma dela. E aconteceu que eram duas coisas re­ lacionadas, e não apenas uma. Ela pôde ver que havia conscientemente temido a morte de sua mãe, mas inconscientemente a tinha desejado. Ela havia escondido este sentimento da sua mente consciente. Ninguém deseja st morte de sua mãe! Quando este pensamento surgia peri­ gosamente no consciente, ela o afastava e ne­ gava que o tivesse tido. “A gente não deve ter tais pensamentos!” ela dizia, excitada. “Eu não sou, de modo nenhum, desse tipo de pessoas que os admitem. Eu amava minha mãel’’ Even­ tualmente, entretanto, ela aceitou o fato de que tinha tido emoções confusas acerca da morte de sua mãe, querendo-a e temendo-a. E como ela havia reprimido o desejo de que sua mãe morresse, não podia obter o sentimento de perdão. Nunca poderemos nos sentir perdoa­ dos por uma emoção que não admitimos ter.

é impossível confessar a Deus o que não con­ fessamos a nós mesmos.

Outra causa de sua ansiedade era o medo não reconhecido de que ela também devia mor­ rer. Era assaltada por certos sentimentos de culpa. Ela sentia-se culpada como se tivesse culpa genuína perante Deus. Sabia intelectual­ mente que Deus a havia perdoado, mas não aceitava isto emocionalmente. Em seu incons­ ciente, ela começara a temer a morte como um castigo para seus pecados. O inconsciente não funciona numa base lógica. Ele atua em relação aos sentimentos primitivos e frequentemente infantis. Ela conscientemente não pensava todas estas coisas, mas as sentia. Ela “sabia” me­ lhor com seu consciente, mas, não conhe­ cendo o funcionamento do inconsciente, pen­ sava que o que “sabia” intelectualmente era precisamente o que sentia. Ela pensava que estava dizendo a verdade quando dizia que não tinha razão para a ansiedade.

Então ela pôde entender que possuía uma ansiedade profunda acerca da morte de sua mãe, a qual em parte tinha desejado, e, em par­ te, temido; era um sentimento profundamente re­ primido de que devia ser punida, por seus mal- -feitos e “maus” pensamentos, e a morte podia ser a forma de punição. A morte de sua mãe havia feito aflorar um dilúvio de memórias par­ cialmente esquecidas de sua infância: ameaças tremendas do que lhe aconteceria se ela deso­ bedecesse ou fizesse algo mau. Pela primeira vez ela compreendeu o motivo pelo qual devia orar. Não era um funcionamento cardíaco er­ rado, ou ameaça de um ataque, mas sentimento de culpa, medo e ansiedade. Quando ela pôde encarar seu verdadeiro sentimento com hones­ tidade e humildade, conseguiu alívio para seus

sintomas físicos. Mais importante ainda, ela foi aliviada de grande parte da ansiedade que ha­ via estragado sua vida até este ponto porque compreendeu que a oração não ó um modo mágico de obter a ajuda de Deus numa crise, mas que envolve completa honestidade para com Deus, para com os outros e para conosco mesmos.

Evitar é a segunda maneira de lidar com a ansiedade. Quando usamos este artifício pro­ curamos evitar os sentimentos, situações ou pensamentos que despertam ansiedade. Não surte mais efeito do que negar a ansiedade.

Uma pessoa excessivamente tímida pode achar que as relações sociais causam ansie­ dade, de modo que ela faz todo esforço para evitar as pessoas; o indivíduo que tem medo das alturas evita pontes e edifícios altos; a pessoa que experimenta ansiedade indevida ao dirigir em lugares montanhosos, estar entre a multi­ dão, falar em público, pode simplesmente evitar estas situações. Mas com isto nada é solucio­ nado permanentemente. A ansiedade básica ainda persiste.

Algumas de nossas ansiedades são nor­

medo

permeia a vida e destrói nossa paz

mental que precisamos procurar a causa sub­ jacente.

É normal que uma jovem mãe fique um pouco apreensiva quanto ao seu novo papel. Uma dessas mães, grandemente angustiada, revelou-me seu medo terrível de que pudesse fazer alguma coisa prejudicial ao seu filho. Medo e sentimento de culpa haviam feito com que ela ficasse quase que emcionaimente do­ ente. Ela amava seu bebê. Como é possível

difuso —

mais. é somente quando a ansiedade —

que tivesse esses pensamentos terríveis de pre­ judicá-lo? Na primeira sessão de aconselhamento, ela foi levada a ver que não era a criança que ela odiava, mas as responsabilidades novas, das quais sentia-se incapaz de se desincumbir. Esta descoberta minorou seus sentimentos de culpa, e a ansiedade anormal decresceu, sem

Eia pôde, então, como mãe.

necessidade

de

mais ajuda

prosseguir adequadamente

Ela havia estado em choque com os pen­ samentos de prejudicar seu filho, e primeiro ti­ nha procurado negar o sentimento e depois evitá-lo; mas não havia maneira de evitá-lo. Ele devia ser enfrentado e solucionado. A pessoa que adia as coisas está lidando com a ansiedade pela evitação, embora ela não esteja consciente disto. Não é a preguiça que faz com que as pessoas adiem indevidamente o escrever uma carta, ir ao médico, ou fazer uma chamada telefônica. Nós chamamos isto de procrastinação, o que realmente é, mas a pro- crastinação aparecé basicamente por causa de ansiedade. Por alguma razão, geralmente en­ contrada no inconsciente, nos encontramos com a ansiedade de fazer outra coisa, em vez de escrever a carta, telefonar ou ir ao médico. Portanto, “solucionamos” o problema tempo­ rariamente, evitando-o. A dificuldade é que o problema não é resolvido de verdade.

Algumas pessoas têm grande dificuldade com o que chamam de “maus” pensamentos. Estes pensamentos, com freqüência relaciona­ dos com sexo ou hostilidade, vêm às suas mentes espontaneamente. Estas pessoas sen­ tem-se embaraçadas e envergonhadas por abri­ garem tais pensamentos. Tentam expulsá-los de suas mentes, mas quanto mais se esforçam

por expulsá-los tanto mais eles se arraigam, e nessa luta entre a vontade e a imaginação, esta geralmente vence. Em primeiro lugar, não existe uma tal coisa como um “mau” pensamento. Há pensamentos destrutivos, pensamentos sem objetivo e pensa­ mentos absurdos. Se, em vez de colocar todos os pensamentos em duas categorias, de “bons”

e “maus”, a pessoa puder dizer pensamentos

“criativos” e “destrutivos”, terá tomado o pri­ meiro passo para a solução.

Quando muitos pensamentos sem objetivo

assaltam a mente a gente pode dizer: “Este não

ó um ‘mau’ pensamento. É um pensamento des­

trutivo, porque destrói minha paz mental. Não sei a sua origem, não o convidei, não me im­ portarei com ele, nem me sentirei culpado por

causa dele. É um hóspede não convidado, por­ tanto, darei atenção a outra coisa qualquer sem um sentimento de culpa ou auto-condena- ção.” Com o tempo este processo de deixar de lado tem muito mais poder sobre os pensa­ mentos sem objetivo e não desejados do que todo o poder da vontade poderia exercer. A dificuldade em usar a evasão como so­ lução é que a pessoa tende a evitar somente

o sintoma, o que deixa o verdadeiro problema

escondido e não resolvido; ele então persiste e se manifesta de outro modo.

Um homem, certa vez, contou seu medo

paralizador de ir além de determinada distância em suas atividades diárias. Ele estava limitado

a uma área de uns dez quarteirões. Passar a

fronteira de sua "prisão” ocasionava-lhe medo muito forte — batidas do coração, agitação ex­ trema e outros sintomas, tão severos que ele simplesmente não se podia forçar a ir além de

seus limites auto-impostos. Em algumas oca­

siões, sem aviso, seu

gia tanto que ele sentia dificuldade em sair de

casa. Quando, finalmente, se forçava a sair, um sintoma secundário, como dor de cabeça severa, aparecia.

A origem de seu problema estava em fortes

sentimentos de culpa, que ele tinha cuidadosa­ mente negado e escondido de si mesmo. Seu sentimento de culpa não resolvido pedia perdão ou auto-punição de alguma forma. Assim, seu primeiro passo foi negar e reprimir seus senti­ mentos de culpa, empurrando-os para o incons­ ciente, e foi então que seus numerosos sintomas apareceram. Embora negasse o fato, ele acha­ va que sua limitação de espaço era menos ameaçadora do que encarar o verdadeiro pro­ blema, que era o seu sentimento de culpa.

mundo inteiro o restrin­

A segunda tentativa que ele fez para solu­

cionar seu problema foi evitar a situação que provocava a ansiedade. Quando ir além de um ponto determinado causava medo intenso, ele simplesmente parava. Evitando o sintoma ele sentia alivio da ansiedade por uns momentos, mas isto não resolvia o problema básico. Nes­ sas ocasiões em que achava difícil mesmo sair de casa, se ele se forçava a fazer isto (não evi­ tando mais a situação), respondia inconscien­ temente com outro sintoma — dor de cabeça.

Todos os esforços no sentido de fazê-lo procurar a causa real falharam, quer no grupo, quer no aconselhamento particular. Ele queria remover o sintoma, mas recusava-se obstina­ damente a encarar a causa real — o sentimento de culpa — ou mesmo admitir a possibilidade de que esta podia ser a fonte de seu problema. Era como se ele dissesse, na profundeza do seu inconsciente: “Prefiro antes sofrer a dor e o embaraço de meus sintomas do que a dor

maior de olhar para dentro e encarar meu sen­ timento de culpa.” É fácil ter um espirito crítico neste ponto

e difícil entender o conflito real travado em sua mente. Ele realmente não podia suportar a dor

e examinar a culpa que sentia, qualquer que

fosse. Em vez de encará-la e confessá-la, ele simplesmente a negava e então tentava evitar as situações que despertavam todos os seus sintomas. Provavelmente, não há esperança de aliviar tal situação enquanto a pessoa não en­ contrar o problema verdadeiro. A Bíblia o cha­ ma de pecado. Os psicólogos o chamam de ansiedade e conflito. O nome pouco importa. Não obstante, independente de como o chame­ mos, para ficar livre, todo ser humano precisa encarar e confessar o que quer que seja que o separa de seu ser verdadeiro, de Deus e de seu próximo.

Um terceiro método de lidar com a ansie­

dade é racionalizá-la. Todas as racionalizações são, em grande parte, processos inconscientes.

O que dizemos através da racionalização pode

ser verdadeiro, total ou parcialmente, mas não será uma explicação do modo de agir.

Ouvi dois homens discutindo os méritos

de seus carros novos e dispendiosos. Um deles deu uma explicação por que comprou um carro

O motor novo, recém-lançado pelo

fabricante, dava quilometragem surpreenden­ temente boa. Ele dirigia muito e precisava do conforto que o carro proporcionava. A direção hidráulica fazia com que as viagens longas fossem muito menos fatigantes, e assim por diante. Seu amigo ouviu atentamente toda a lista de racionalizações, sorriu e disse: “Com­ prei o meu, em parte, porque é um símbolo de posição social!” O outro negou evidentemente

tão caro

que a posição social tivesse qualquer coisa a ver com sua escolha do carro. Séries constantes de interrupções, como uma sucessão de chamadas telefônicas, criam ma s tensão em mim do que em muitas pessoas que conheço. A tensão cria ansiedade e a an­ siedade cria tensão. Por muitos anos a minha racionalização era que eu tinha trabalho para fazer e não teria tempo para fazê-lo se tivesse que ser interrompido tantas vezes. Minha racio­ nalização era verdadeira até onde se podia perceber, mas eu sempre evitara o problema básico. O problema real, depois pude ver, era que eu ficava com um sentimento de culpa e autro- crítica se não conseguisse dar conta de certo trabalho proposto. Por exemplo, uma manhã, incumbi-me da tarefa de ditar um certo número de cartas. Houve uma série de interrupções inesperadas: a campainha parecia tocar a cada

segundo; o telefone tilintava a cada instante, até que pedi para não ser interrompido; mem­ bros da diretoria entravam, e em cada caso parecia que a interrupção envolvia algo impor­ tante que não podia esperar. Minha irritação ia aumentando. Eu tinha completado só uma fra­ ção do trabalho de que me incumbira, quando a secretária anunciou que uma mulher estava à minha espera. Embora tivesse marcado uma consulta para ela, eu havia-me esquecido. En­ quanto olhava para o trabalho não terminado, mandei que a senhora entrasse. Sob minha cor­

dialidade

planejado.

irritação

havia

uma subcorrente

o

trabalho

de

por

não ter

terminado

Estou certo de que a visitante notou minha frustração, porque vi isto refletido em seu modo

de agir.

Examinando meus sentimentos mai9 tarde, senti-me um pouco culpado por não ter sido ca­ paz de completar meu trabalho, que agora teria que ser feito à noite; culpado por não ter conse­ guido dar conta, ao mesmo tempo, da diretoria, visitas, chamadas telefônicas e interrupções. Então percebi que estava racionalizando minha ansiedade. Eu a havia atribuído ao meu zelo de terminar a tarefa, e a um conseqüente sen­ timento de fracasso, por não ter sido capaz de fazer tudo o que havia proposto a mim mes­ mo.

A verdade, como depois percebi, consistia em uma série de coisas. Quando era menino, eu me sentia aceito por meus pais somente quando fazia bem meus deveres e a tempo.

Na infância, eu ficava possuído de sentimento de culpa se não estivesse em constante ação.

A

ansiedade paterna foi transmitida a mim.

como adulto, descobri que só poderia me

aceitar se terminasse a tempo minhas tarefas auto-impostas. Eu me sentia vagamente culpado

e incapaz quando não as terminava. Não havia pai para criticar, a não ser o pai “interno” que mora em cada um de nós. Meus sentimentos de culpa não constituíam, em sentido algum,

de “culpa real”; eram de “culpa falsa”. Eu era

culpado só perante a consciência acusadora, que fora assim condicionada em minha infân­

cia. Por uma série de inteligentes racionaliza­ ções, eu tinha quase conseguido fazer virtude

do que era uma reação levemente neurótica,

baseada em condicionamentos da infância. O trabalho, então, que me propus foi o de insis­

tir

sões, e não mais a sado” .

que “o adulto de

agora” tomasse as deci­ “criança interior do pas­

Um quarto método de lidar com a ansie­ dade é “narcotizá-la”. Isto pode ser feito pelo uso de drogas, álcool, super-ocupação e de vários outros modos. Bilhões de dólares são gastos anualmente em álcool e drogas num esforço para escapar da ansiedade. Pode ser a ansiedade produzida pela solidão, pelos sen­ timentos de inferioridade, de culpa ou de frus­ tração, ou pela ameaça de fracasso. O álcool paralisa os centros cerebrais superiores, onde o juízo é produzido, e tende a minorar a ansie­ dade temporariamente. A pessoa não tem mais coragem do que antes; sua capacidade de to­ lerância para com a ansiedade não foi aumen­ tada. Nada, de fato, aconteceu, a não ser que ela se narcotizou. Alguns dos tranqüilizantes funcionam da mesma maneira. A pessoa não se torna mais capaz de enfrentar a vida, talvez, mas a vida parece-lhe menos ameaçadora no momento. Ninguém duvida do valor de certas drogas como soluções temporárias para o pro­ blema da ansiedade, mas elas não proporcio­ nam cura para o mal-estar básico, que é o pro­ blema da ansiedade não aliviada.

Um processo menos consciente, e muito respeitado socialmente, ó o de narcotizar a ansiedade pela super-ocupação. A maioria dos trabalhadores pertence a esta categoria. Quer seja a devoção compulsiva da pessoa pelo seu trabalho, a atenção exagerada da mãe para com detalhes inumeráveis do trabalho domés­ tico, ou a fadiga de quem trabalha na igreja, cujo trabalho nunca termina, sendo compulsão orientada para Deus, tudo deve ser reexami­ nado. Uma jovem esposa e mãe reclamou que não podia entender como seu marido, muito des­ cansado, mas altamente competente, podia

“ficar

radamente

sem

me sentar.

sentado,

fazer

oihando

pela janela”. Exaspe-

sentado

posso simplesmente

ela disse:

nada.

“Ele pode ficar

Eu não

Há coisas demais

para serem fei­

tas. O trabalho da mulher nunca termina." Acontecia que o problema dela era uma mistura de racionalização e narcotização. Quando criança, ela nunca tivera permissão para ficar à toa ou lendo um livro. Seu pai insistia em que as crianças deviam estar sem­ pre ocupadas, mesmo quando não havia traba­ lho para ser feito. Além disso, como jovem esposa, ela estava tendo dificuldades conside­ ráveis no casamento. A comunicação teria sido interrompida. A ocupação constante com a casa, acrescida de muita atividade social, cons­ tituía um escape, para ela, da ansiedade de contato mais íntimo com seu marido. Ele, por sua vez, começou a devotar mais e mais tem­ po ao seu escritório, o que também era um es­ forço inconsciente para evitar a ansiedade ge­ rada em casa. Há também pessoas que procuram minorar a ansiedade envolvendo-se em atividades so­ ciais. Tais pessoas não estão sendo sociais de verdade; estão é procurando escapar de ansie­ dade produzida pela solidão, procurando res­ posta para sua própria auto-alienação. Seus esforços podem consistir em constante ida a festas, visitação, divertimento; ou podem to­ mar a forma de “boas obras” na comunidade ou na igreja local. Todos ou alguns destes podem ser ou esforços criativos ou esforço inconsci­ ente de silenciar a pequena voz que nos enco­ raja a avaliar nossa vida íntima e nossas me­ tas.

Um sábio escreveu: “Precavenha-se da estabilidade da ocupação”; e outro provérbio,

muito repetido, diz: “Quando se está ocupado demais para orar, então se está ocupado de­ mais.” Super-ocupação é uma característica da nossa sociedade e-é muito claro que, por melhor que nos possam parecer muitas de nossas ati­ vidades frenéticas, muito do que passa por ativi­ dade digna é simplesmente um esforço para aliviar a ansiedade. O bom pode tornar-se inimigo do melhor. Certa senhora, membro de um grupo, em uma sessão inicial, fez um inventário pessoal simples (o teste de desenhar uma pessoa), o qual foi interpretado na hora. O lídsr disse, depois de examinar a figura: — Parece que você está tentando fugir do universo, por quê?

Ela replicou: Bem, na verdade eu sou uma das pessoas mais ocupadas que se possa ima­ ginar. Longe de fugir, estou ocupada o dia inteiro, todos os dias da semana, tentando so­ correr as pessoas necessitadas à minha volta. Há tanto que precisa ser feito, tantas pessoas que necessitam de ajuda. Há algo de errado nisto? O líder respondeu: — Claro que não há nada de errado em ser útil. Este teste simples não revela o que você está fazendo, mas nos revela que você está insatisfeita com suq vida ou com algum aspecto dela, que você gostaria de se retirar e desistir de tudo. Por quê?

Então ela disse, pensativamente: — Bem, realmente eu fico terrivelmente fatigada. Estou sempre cansada das minhas muitas atividades. Às vezes me pergunto como é que eu poderia sair disso tudo e simplesmente ir embora para

algum lugar e Alguém

— ela fez uma pausa.

E fugir do universo, de

você mesma e dos seus problemas interiores?

disse: —

Ô7

Sim, talvez seja isso. Eu simplesmente fico tão cansada!

Discussão posterior revelou que ela estava frenética e neuroticamente ocupada com uma dúzia ou mais de atividades na igreja e na comunidade. Ela, era amável e prestativa, a própria compaixão e compreensão personifi­ cadas. Mas sua fadiga, que não era tanto física como psicogênica, procedia de sua ansiedade interior. Ela não sabia de outra maneira de solu­ cionar essa ansiedade a não ser narcotizando-a com excesso de ocupação. Ela ajudava muita gente e muitas causas boas; mas sentia-se frustrada e internamente desligada da vida. Ela estava resolvendo os problemas dos outros, mas sua própria ansiedade ficava sem solução.

Quando chegou o dia de verificar se o grupo deveria continuar, ela foi a primeira a objetar se seu horário tão cheio lhe permitiría continuar Ela estava tentando evitar a neces­ sidade dolorosa de examinar a verdadeira fon­ te de sua ansiedade, que estava baseada num profundo sentimento de inaptidão.

A quinta possibilidade e a única solução criativa é procurar e remover a causa da ansie­ dade. Outra vez pode ser enfatizado que não há nada de errado com a ansiedade em si mesma. É somente quando nossa ansiedade adquire tão grandes proporções de modo a li­ mitar a eficácia do que fazemos, que precisa­ mos procurar a sua origem. Isto é mais fácil de sugerir do que realizar, porque freqüente- mente as suas raízes estão profundamente en­ terradas no inconsciente. A pessoa pode estar totalmente inconsciente dos acontecimentos que lhe criaram um grau indevido de ansie­ dade. Freqüentemente, entretanto, é possível

procurar e lidar com a causa dessa ansiedade anormal. Uma jovem senhora que pôde descobrir a causa de sua ansiedade em reuniões de grupo, não estava nem mesmo cônscia de que a an­ siedade era um problema em sua vida. Ela estava levando uma vida normal e criativa sob todos os pontos de vista. Ela era benquista, altamente competente no seu trabalho, e um fiel membro de igreja. Era, para todos os efei­ tos, uma jovem senhora totalmente normal.

Num retiro, onde os presentes participa­ vam de sessões de grupo, ela parecia estar enfrentando algum problema interior, cuja natu­ reza não sabia. Depois da sessão, ela veio a mim para discutir certas ansiedades que a in­ comodavam. Sugeri a possibilidade de que tais ansiedades geralmente se originavam de sentimento de culpa e pedi-lhe que trouxesse para nossa próxima sessão uma lista em rela­ ção a que ela sentia o tormento do complexo de inferioridade, vergonha, rejeição ou culpa. Expliquei-lhe que tudo isto tende a ser regis­ trado na natureza interior como sentimento de culpa. Ela trouxe a lista, e bem grande, na se­ mana seguinte. Demostrava angústia conside­ rável, ao revelar sua lista. Seu sofrimento era causado pelo fato de ter escondido estas coisas por muito tempo. Ela não podia acreditar que alguém pudesse jamais respeitá-la, muito me­ nos amá-la, se conhecesse todas as coisas a seu respeito ali contidas.

Sentimento

de vergonha e medo, de infe­

rioridade e rejeição estavam todos misturados. Quando ela terminou, eu disse: — Eu não acho que você tenha pecado tanto, mas que tantos pecaram contra você. Sair-se de tudo isto e tornar-se a pessoa maravilhosa que você é,

para mim, é um feito extraordinário. Eu sempre pensei bem de você. Agora que conheço a sua vida anterior, sinto uma admiração muito maior, e amor também. Ela, surpresa, perguntou: — Como é que alguém pode me respeitar e amar sabendo tudo isto a meu respeito? Ao que eu disse: — Eu posso. E qualquer outra pessoa também. Da próxima vez que a vi percebi uma mu­

dança radical. Havia franqueza nela, uma nova

alegria e vivacidade. Ela era uma personalida­ de aliviada, e ainda permanece assim. A ansie­ dade causada pelo sentimento de culpa tinha mantido uma grande porção de sua personali­

dade sob disfarce; ou melhor, uma grande

quantia de sua energia psíquica estava sendo

gasta em dissimular. Agora ela não tinha nada

para esconder. Não precisava mais gastar gran­

de parte dos recursos espirituais combatendo a ansiedade. Essa energia agora estava à dispo­ sição para a vida criativa. Dr. Mowrer diz que as pessoas necessitam

de outras pessoas; e “quando esta necessidade é frustrada — como sói acontecer pela de­ cepção e negação da identidade contínua — há em cada pessoa socialmente ajustada um desejo poderoso de voltar às relações humanas satisfatórias e confortadoras”. Ele chama a atenção para o conflito entre o nosso medo de sermos descobertos e o forte desejo interior de jogar nossas máscaras fora e procurar relações criativas com os outros. “Como resultado de uma política de duplicidade, os seres humanos

têm evitado detenção e castigo; e

ção que chamamos de doença mental é o mal-

a condi­

-estar

que vem de uma consciência intranqülla

e

sentimento de culpa não resolvido!” 2

O tempo não diminui nossos sentimentos

de culpa. A passagem do tempo pode embaçar

a memória da culpa, ou ela pode mesmo ser

“esquecida” — enterrada no inconsciente. Mas ainda está lá, criando seu fardo de ansieda­ de desnecessária. Mesmo que o sentimento de

culpa não seja, de modo nenhum, a única causa da ansiedade, ele contribui grandemente para

a criação da ansiedade destrutiva. Por culpa,

queremos dizer, não somente pensamentos, atitudes e atos culposos, mas o sentimento geral de “inadequação”. As generalizações são perigosas, como descobriu o estatista que começou a atravessar um rio cuja média de profundidade seriam dois pés, e adentrou-se em água de doze pés de profundidade! Assim, tendo em mente os riscos, façamos as seguintes generalizações:

1. A ansiedade até certo ponto é necessá­

ria e criativa. Além desse ponto é destrutiva.

2. Se a tolerância do indivíduo para com

as situações normais que produzem ansiedade é pequena, ela pode ser aumentada com o tem­ po pelo processo de amadurecimento emocio­

nal.

3. A ansiedade insuportável, que excede

nosso nível de tolerância, tenderá sempre a produzir ou sintomas físicos, ou depressão emocional, ou ambos.

serão

encontradas em uma ou mais destas áreas:

4. As causas

de nossa ansiedade

(a) Tentativa

de

alcançar alvos

incompa­

tíveis.

(b) Sentimento de culpa, recente ou de

muito tempo, real ou falso (muito sentimento de

culpa está centralizado em sexo e hostilidade).

(c)

Condicionamento da infância.

(d)

Fracasso em alcançar algum ideal.

Em média, a pessoa que experimenta an­ siedade indevida encontrará a causa de sua dificuldade em uma ou mais destas áreas. Isto requer, entretanto, um desejo de se abrir e não ser defensivo; de correr o risco de se expor, com consequente rejeição (que quase nunca acontece); e ser cruelmente honesto para consigo mesmo e para com os outros. O processo não é fácil, e raramente pode ser levado a cabo sozinho. Nossa capacidade para auto-decepção é enorme. Outros, em um grupo pequeno, podem ajudar-nos, gentil e amorosamente a encarar nossa tendência de racionalizar. Nós não só precisamos de dis­ cernimento psicológico, mas também da pre­ sença curadora de Alguém que disse: “Porque onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles.” 3 De alguma maneira mística, a presença e o poder de Cris­

pequeno

to

grupo de pessoas se reúne em Seu nome a fim de serem honestos para com ele, para consigo mesmos e umas para com as outras. Seu poder então é ajuntado ao nosso discernimento hu­ mano, e não estamos sós em nossa procura. Somos fortalecidos e sustentados por Seu espí­ rito e pelos outros engajados na mesma busca.

são

experimentados

quando

um

5

ALCANÇAMOS O QUE REALMENTE DESEJAMOS

Se desejares somente Deus, poderás possuir, além dele, tudo o mais — Meister Eckhart

Fiz um sermão num domingo de manhã sobre os vários níveis da oração. Toquei bre­ vemente num aspecto particular da oração, dizendo algo mais ou menos assim: “A visuali­ zação tem uma parte vital na oração eficaz. A comunhão com Deus tém muitos outros as­ pectos, mas pode ser sumariada deste modo:

Se o que você deseja estiver em harmonia com a vontade básica de Deus; se for coerente com os ensinamentos de Jesus; se não prejudicar ninguém e puder contribuir grandemente para o seu bem-estar ou dos outros; e se você admi­ tir a vontade de Deus em sua vida, poderá re­ ceber o que você quer se o visualizar. Visualizar alguma coisa implica em ver essa coisa na tela de sua mente como um fato consumado. Isto é o que Jesus queria dizer quando afirmou: ‘Se podes crer, tudo e possível ao que crê!’ Crer significa que você sabe que isso é um fato.” Continuei sobre este assunto

um pouco mais e talvez a maioria das pessoas presentes tenha concordado intelectualmente com a idéia.

menos uma das pessoas

presentes que aceitou a idéia num nível mais

profundo. Depois do culto, quando todos ti­ nham saído, este jovem, um estudante univer­ sitário, disse: — O Senhor vai à Terra Santa neste verão, não é? Eu repliquei — Sim, partirei em julho.

importaria

se eu fosse com o senhor?

casualmente: —

Mas

houve pelo

Ele

disse

Se

Respondí: —

De modo algum. Ficaria en­

cantado se o tivesse comigo.

Eu o conhecia havia alguns anos e nesta

jovens

época

ele estava

trabalhando

com

os

da igreja.

Então

eu

me surpreendí

dizendo:

Es­

pere aí! Onde você vai arranjar o dinheiro para

a viagem? Não sei —

quanto o senhor estava falando esta manhã o assunto da visualização, de repente me vi na Terra Santa. Eu o ajudei a editar muito do seu filme feito em viagens anteriores à Terra Santa, e muitas das cenas são bem reais para mim. Enquanto o senhor estava falando, de repente me senti desejando poder ir à Terra Santa, e repentinamente comecei a me visua­ lizar andando pelo Portão de Damasco para dentro da velha cidade de Jerusalém. Não sei como vou chegar lá, mas sei que vou. Não pedi isto a Deus. Só apliquei os testes que o Senhor sugeriu, e acho que passei em todos. Eu quero realmente a vontade de Deus em minha vida e acredito que isto é basicamente bom. Não pre­ judicarei ninguém e acho que isso abençoará minha vida.

respondeu ele —

mas, en­

Algumas

semanas

mais tarde

eu

lhe per­

guntei —

à Terra Prometida?

Jerry, como vão seus planos para ir

Bem. Continuo

pretendendo

ir.

Descobriu uma maneira de arrumar di­

nheiro?

Não,

mas

ele

aparecerá.

Ainda

posso

ver-me entrando pela porta de Damasco.

Um mês mais tarde perguntei-lhe sobre isso outra vez. Ele me assegurou que seus pais não iam ajudá-lo. Para deixar bem claro, eu lhe disse que eu tinha certeza de que a igreja não poderia ajudá-lo. Ao que ele disse:

— Eu

sei.

Mas

eu vou.

Cerca de seis semanas antes do dia da partida, comecei a ficar um pouco preocupado com o Jerry. Afinal de contas, fora ele quem tinha visualizado a viagem, não eu. Disse-lhe que ele precisava se vacinar e arranjar seu pas­ saporte e o visar logo. Ele ainda não possuía sequer um dóíar para a viagem, mas parecia despreocupado. “Eu vou”, era tudo o que dizia. Parecia não haver dúvida, nem incerteza de qualquer espécie. Ele disse que se soubesse o que fazer para arranjar dinheiro o faria, mas não recebera orientação neste sentido. Não pre­ tendia tomar dinheiro emprestado ou pedir a alguém. — O Senhor terá que resolver isto — dizia ele. — Estou pronto a fazer tudo o que devo. Mas eu não saberia por onde começar.

Quando eu parti para a Terra Santa de avião, Jerry estava lá ao meu lado, enfeitado de máquinas fotográficas como um bom turista. Visitamos cidades na Europa, passamos algum tempo em Cairo, explorando uma pirâmide re- cém-descoberta, e finalmente chegamos à velha cidade de Jerusalém, na Jordânia. Enquanto entrávamos pela antiga Porta de Damasco, na

cidade de Jerusalém eu perguntei: — Jerry, foi assim que você visualizou isto? Ao que ele respondeu: Precisamente. É o modo exato como o visualizei. Jerry não pediu dinheiro emprestado. Nin­ guém lançou uma campanha para angariar fundos dos amigos dele, mas ele foi à Terra Santa em cumprimento de um sonho visualiza­ do que se tornou oração. Não era o tipo de oração em que se implora a Deus algum favor. Era, antes, a quieta resposta às condições divi­ nas, e a vivida visualização da coisa como rea­ lidade, e ele realizou o que tinha visualizado. Quando conto este caso as pessoas sem­ pre argumentam: “Mas o senhor não nos disse como ele chegou lá. De onde saiu o dinheiro?” Minha resposta sempre foi: “Pouco adiantaria contar-lhes os detalhes, porque, se vocês tives­ sem o mesmo objetivo e orassem como Jerry fez, Deus provavelmente respondería de uma maneira diferente.” O que realmente transpareceu foi mais a evidência de que Deus freqüentemente respon­ de às nossas orações através das pessoas, e que quando estamos compietamente de acordo com Sua vontade, ele é capaz de fazer o que sempre tem procurado fazer — abençoar-nos além dos nossos mais belos sonhos. A Bíblia declara que “Ele é capaz de fazer muito mais abundantemente do que tudo o que lhe pedi­ mos ou pensamos.” Foi assim no caso de Jerry. Um dia, não muito antes da data da parti­ da, os preparativos de Jerry ainda estando por serem feitos, eu disse: — Jerry, falta pouco tempo, e você não tem o dinheiro. — E meio piiheriando perguntei: — Você tem algum pa­ rente rico?

— Não, nenhum. Oxaiá tivesse.

— Nenhum tio rico?

— Não, nem tias.

Ainda a título de piada, perguntei: — nhum amigo rico?

Ne­

— Não, nenhum. Bem, sim e não. Quando

criança, tive uma professora de Escola Bíblica Dominical que era rica, mas eu nem sonharia em pedir-lhe dinheiro. Então ele falou-me a respeito dela. Eu a conhecia um pouco, embora ela morasse em outra cidade a centenas de quilômetros de dis­ tância. Perguntei a Jerry se ele se incomodava se eu pedisse a ela. Ele disse: — Não, mas não levantarei um dedo para ajudá-lo. Eu não vou pedir a ajuda de ninguém para isto. Tudo o que sei é que eu vou, de alguma maneira. Dinheiro não cai do céu em cestos. As pas­ sagens devem ser pagas à vista e são vendidas somente às pessoas que possuem dinheiro. Eu sabia que se Deus realmente quisesse que Jerry fosse — e eu tinha começado a sentir algo da segurança tranquila dele — então a resposta teria que vir por meio de aiguma pessoa. Es­ creví para sua antiga professora de Escola Bí­ blica Dominical, que, mais tarde vim a saber, lembrava-se dele muito e com saudade. Eu simplesmente disse a ela que precisava vê-la por causa de um assunto de importância para mim e Jerry e perguntei-lhe quando poderia­ mos nos encontrar. Ela respondeu que estaria em nossa localidade na semana seguinte, para um jantar numa das institituições de nossa de­ nominação. Eu também fora convidado para esse jan­ tar e disse a ela que a veria lá, então. Ao entrar no salão, ela se aproximou, vindo de outra direção, e nos encontramos na porta. Verifica-

mos nossos convites e sentamos juntos duran­ te o jantar. Durante um breve intervalo no pro­ grama eu lhe contei que planejava outra visita

que levaria várias

semanas e que Jerry queria ir comigo. Eu não lhe falei da convicção segura dele de que ia. Expressei minha opinião de que seria uma ex­ periência significativa e proveitosa para ele. Houve uma pausa momentânea, e então ela per­ guntou: — Quanto custará?

Eu Iho disse. Ela respondeu: — Enviar-

Ihe-ei um cheque dentro de alguns dias.

à Terra

Santa num projeto

não demorou

mais de dois minutos. Mais tarde fiquei sabendo a razão da pausa momentânea. Ela ma revelou da vez seguinte em que a vi. Foi que no momento em que eu fiz o pedido ela estava passando por algum aperto financeiro devido a erros de seu con­ tador ao arquivar seus recibos de imposto de renda. — Mas — ela acrescentou — era algo que eu sentia que devia fazer.

Talvez que um ou dois incidentes pudes­ sem ser atribuídos à coincidência ou outros fa­

tores, mas, depois de descobrir, através de ex­ periência pessoal, a relação entre visualização

e fé, tenho visto este princípio dinâmico em

ação vezes demais para atribuí-lo à mera coin­ cidência.

A igreja da qual eu sou pastor tem patrocina­ do várias igrejas missionárias através dos anos. Depois da guerra, verifiquei novas áreas resi­ denciais se formarem em bairros vizinhos. Numa dessas, que pareceu surgir da noite para o dia, falei com o responsável sobre adquirir um ter­ reno para uma igreja. Ele me afirmou, um tanto impolidamente, que não tinha interesse algum

E enviou. Toda a conversa

em igrejas e nem tinha intenção de providen­ ciar lugar para isso. Recusou-se até mesmo a vender lotes separados que oferecessem lugar para uma igreja. Explicou que necessitava não somente do lucro da venda dos lotes como

também das casas. “Se o povo quiser ir à igreja,

que se dirija até a comunidade mais

próxi­

ma”, disse ele. Retirei-me, sentindo que era uma causa perdida, mas, algumas semanas mais tarde, enquanto dirigia através do novo bairro, orei:

“Senhor, se tu quiseres uma igreja aqui, tu podes nos mostrar a maneira de consegui-lo. Portanto, deixo isto em tuas mãos.” No dia seguinte, falei com um dos membros de nossa igreja sobre isto, um homem aposentado e en­ tendido em propriedades. Eu disse: “Sinto que Deus quer uma igreja nesta área. Se assim é, deve haver algum modo de realizá-lo. Vou dei­ xar isto com você e com Deus. Veja o que é que pode fazer. Poucos dias depois ele veio me ver. “En­ contrei um pedacinho de terra na forma de um pedaço de torta de maçã, que o responsável pôs à venda, mas é pequeno demais para uma igreja. Dei uma olhada no mapa da cidade e descobri que um dono particular possuía um pequeno pedaço de terra adjacente ao pedaço em questão. Ele comprou essa terra antes que o loteador comprasse a propriedade em volta. Se conseguirmos comprar dele, acho que tere­ mos terreno suficiente para uma igreja. Nesta altura, preciso de algum dinheiro para a entra­ da, porque não posso fazer uma oferta bona fide sem algum dinheiro em mãos. Há fundos disponíveis para este projeto?”

que os fundos para a extensão

que

de

Disse-lhe

nossa

igreja estavam esgotados,

mas

eu havia descoberto um pr ncípio básico algum tempo atrás: quando Deus quer que algo seja feito, a gente vai e faz, que o dinheiro e as outras coisas necessárias estão a caminho. Disse-lhe para pedir à Comissão de Finanças, permissão para usar 1.000 dólares temporaria­ mente como depósito para a propriedade. Eles concordaram com a condição de que eu seria o responsável, em última análise, para repor o dinheiro. Uma oferta foi feita pelos dois pedaços de terra adjacentes e foi aceita. A entrada foi de­ positada. Tínhamos noventa dias para encon­ trar 12.000 dólares. Alguns dias mais tarde, eu estava almo­ çando com um membro da igreja e a conversa caiu sobre o rápido aumento do valor das pro­ priedades. Eu disse: “Sim, e está afetando nos­ sa possibiTdade de estabelecer novas igrejas nesta área. Por exemplo, há um pequeno pe­ daço de terra que queremos para construir uma igreja num bairro novo. Cinco anos atrás pode­ riamos tê-lo comprado por 5.000 dólares. Hoje estão pedindo 12.000 e, na medida em que os preços estão subindo, custará 25.000 daqui a cinco anos.” Contei-lhe os planos para a nova igreja e ele disse pensativamente: “Vou ven­ der um pedaço de terra, e a venda será com­ pletada em menos de noventa dias. Eu dou trinta por-cento do meu lucro para Deus, e trinta por-cento de meu lucro por esta proprie­ dade será um pouquinho mais de 12.000 dóla­ res. Eu lhe remeterei um cheque quando fe­ char o negócio.” Continuamos com o nosso al­ moço. Eu não podia saber que meu amigo tinha 12.000 dólares para dar. Não tenho certeza se ele pretendia dar todo o dinheiro para a igreja,

ou parte dele, porque, além de suas ofertas generosas à igreja, ele possuía outros interes­ ses vários. Mas, por alguma razão — certa­ mente que não foi coincidência — eu me en­ contrei falando com o homem certo na hora certa acerca de uma necessidade para que não havia os meios de solução. Quando o cheque chegou, foi suficiente para pagar o terreno, e com sobra suficiente para a entrada de uma casa, onde a igreja poderia funcionar temporariamente até que o templo fosse construído. O jovem ministro designado para fundar a igreja também era responsável para encontrar uma residência apropriada para reuniões. Ele procurou ,por várias semanas, mas as casas à venda ou estavam em lugar inconveniente ou eram caras demais, ou pequenas demais. Final­ mente, eu disse: “George, vamos deixá-lo com Deus. Ele tem mais interesse nisto do que nós, e Ele está pronto a dar a orientação. Paremos de procurar. Não faça nada enquanto você não tiver uma convicção interior segura de que deve agir. Entrementes, visualize tudo isto como já realizado. Veja na tela mental interior o fato consumado. Veja a casa certa, do preço certo, no local certo. Projete isto na sua tela mental diariamente e o conserve lá. Não faça mais nada.” Algumas semanas mais tarde ele me tele­ fonou e estava consideravelmente excitado. “Encontrei a casa! Ontem à noite quando ter­ minava de jantar, de repente lembrei-me de uma casa que tínhamos tentado comprar algum tempo atrás e que não quiseram vender. Está no local certo e é do tamanho certo. Senti que devia visitar os donos da casa outra vez e ver se eles mudaram de idéia. Bem, eu fui, e eles

me disseram que justamente na noite anterior eles tinham decidido colocar a casa à venda e planejado chamar um corretor de imóveis na

manhã seguinte. Cheguei lá justamente na noi­

te anterior à colocação da casa à venda. Econo­

mizaremos a comissão, e, o mais importante,

é a casa certa, no tempo certo e local certo."

A casa foi comprada.

O pequeno grupo de pessoas que ele havia conseguido pela visitação começou a se reunir na casa nova. Eles planejaram começar uma Escola Bíblica Dominical e mandaram convites para todas as casas da vizinhança. Tinha pla­ nejado ter classes funcionando em vários cômo­ dos da casa, na garagem e nas salas de estar dos membros que moravam perto. No primeiro domingo, quase 150 crianças apareceram para a Escola Bíblica Dominical! Tudo o que puderam fazer foi matriculá-las e pedir para que voltassem no domingo seguinte. Na semana seguinte estavam preparados para os cento e cinqüenta jovenzinhos. Pediram ga­ ragens na vizinhança e, de um modo ou de outro, conseguiram fazer a Escola Bíblica Do­ minical funcionar. Os recursos não eram os melhores, mas ninguém reclamou. O culto de adoração era realizado na sala de estar e na sala de jantar adjacente até que estes aposentos ficaram pequenos demais para isto. Em tempo, George disse-me que a resi­ dência tinha ficado pequena para a igreja e eles estavam longe ainda de conseguir dinheiro suficiente para começar a construção do tem­ plo. Verifiquei as acomodações e disse: — Ge­ orge, faça uma demarcação aqui atrás da casa. Marque uma área suficientemente grande para acomodar setenta e cinco pessoas, um coro pequeno e um púlpito. Deixe a demarcação aí e

pergunte a Deus se ele quer que você construa um templo provisório no local.

— E,

nheiro?

que

faremos

para

conseguir o

di­

— Justamente o que fizemos antes. Colo­

cá-lo-emos

deixaremos que Deus nos ajude a consegui-lo. Este negócio é dele, você sabe. Alguns dias mais tarde, verifiquei que George havia traçado uma área retangular no fundo do lote. Não parecia muito grande, mas ele me assegurou que podia acomodar 75 pes­ soas. Sugeri que fizesse o orçamento com um

mental, visuá-lo-emos e

numa tela

construtor. — Quando Deus providenciar o di­

nheiro —

eu

lhe disse —

você deverá

estar

com o custo do material em mãos. Você e seu povo poderão fazer a construção. Só pagare­ mos o material. Decidiram que podiam construir um templo pequeno e provisório pegado à casa, de modo que parte da congregação poderia ficar na casa e parte no templo. E tudo por uma quan­ tia razoavelmente pequena. Alguns dias mais tarde, uma de nossas ir­ mãs da igreja me telefonou. Ela disse: Fui lá na igrejinha nova para ver o que eles poderíam precisar na cozinha e vi aqueles cordões, ou o que quer que sejam, lá fora, no fundo. Per­ guntei ao George o que eram, e ele me disse que eram "linhas de fé”, que representavam o novo templo. Disse quanto o material vai custar e então decidi lá mesmo que daria metade da quantia. Desde então tenho pensado nisto e sinto que o Senhor quer que eu dê a quantia toda.” Mas houve outros obstáculos. Quando fo­ ram tirar a licença para a construção disseram- -Ihe que não podiam construir um templo, mes-

mo provisório, num terreno em que havia uma casa. Isso violava todos os códigos da cidade. George me perguntou o que deviam fazer. Eu disse: — Não sei. Acho que você podia apelar para a Comissão de Planejamento da Cidade. Tente isto, mas continue a ver este templo ter­ minado na sua tela mental. Se for a vontade de Deus, ninguém poderá impedi-lo.

Assisti à sessão da Comissão de Planeja­ mento com ele, mas insisti que era ele quem devia falar. Ele fez uma exposição excelente, mas, como eles apontaram, o plano era uma violação clara dos códigos de construção da cidade. Certamente que haveria objeções do povo da comunidade, como tinha havido quan­ do a igreja começou a se reunir na residência. George, em pé na frente dos membros da comis­ são, finalmente disse: “Bem, o que os senhores acham que devemos fazer?” 1 Os membros, a esta altura, eram unânimes na crença de que aquilo não podia ser. Mas quando George ficou de pé, perguntando-lhes o que eles achavam que ele devia fazer, um dos homens da Comissão de Planejamento disse:

"Vocês sabem que precisamos de mais igrejas na comunidade. Todos sabemos disto. Eu de­ testo sinceramente ter que negar esse pedido. Gostaria de achar alguma maneira em que eles pudessem fazer sua construção.” Um segundo membro concordou: “Sim, é uma vergonha, uma verdadeira vergonha. Devíamos encorajar as igrejas o mais que pudermos.” Os outros mem­ bros da Comissão assentiram com a cabeça. Tentaram fazer George dizer quanto tempo fica­ riam no templo provisório, mas ele disse que não podia saber. Podia ser um ano, ou seis meses, ou dois anos. A'comissão esperava po­ der basear sua decisão no fato de que seria

uma

podia prometer nada.

um dos

nho que vamos adiante e deixemo-lo construir esse templo.de qualquer forma, quer seja legal ou não. É algo certo, mesmo que não seja legal, e talvez o certo deva ter a precedência.” 0 voto foi unânime. “Tudo é possível ao que crê.” * George descobriu isto e a igreja também. Finalmente e sem muito esperar, um pequeno templo, com algumas salas para a Escola Bíblica Dominical, foi construído no terreno da igreja. Se tão-somente pudéssemos obter o con­ ceito de um Deus pessoal que trabalha atra­ vés de leis e princípios impessoais; se pudésse­ mos ver que esses princípios nos cercam por todos os lados, esperando que estendamos a mão e os recebamos, se tão-somente pudésse­ mos crer que Deus é infinitamente bom, e que espera que confiemos nEle e o amemos — então poderiamos receber bênção sobre bên­ ção, milagre sobre milagre.

Há aqueles que argumentam que isto é "usar a Deus”. O medo de "usar a Deus” está baseado numa verdade parcial. Nós não deve­ mos nunca desejar as bênçãos de Deus sem desejarmos o próprio Deus. Ele não é um Papai Noel celeste que traz os presentes que pedi­

mos nos nossos apelos infantis. Ele quer nosso amor, como Jesus apontou na frase tão citada

iniciativa apenas

"Bem”,

disse

provisória.

George

não

membros,

“propo­

e

tão pouco obedecida: “Mas buscai primeiro

o

seu (de Deus) reino e

a sua justiça, e todas

estas coisas vos serão acrescentadas” 2 — ou — “serão decorrências naturais”. Procurar o Seu Reino deve significar, entre outras coisas, procurar Sua vontade para nossas vidas. Signi­ fica que devemos confiar nEle completamente.

Se não pudermos confiar nEle, não pudermos crer que Sua vontade para nós é boa e maravi­ lhosa além do nosso poder de compreensão, como poderemos jamais nos aproximarmos dele, querê-lo, amá-lo? Por que esperar dádivas de uma divindade distante na qual não pode­ mos confiar inteiramente? Buscar o Reino significa darmos prioridade ao Reino de Deus em nossas vidas. Implica em querermos a vontade de Deus acima da nossa,

sabendo que o que Ele deseja é bom

e leva a maior felicidade e realização do que

poderiamos descobrir sozinhos. Não querer

a Sua vontade é recusar a confiar nEle. Rejeitar

e certo

Sua vontade e desejar a nossa própria é estar em rebelião contra Deus, que nos fez e nos

ama.

Parte da relutância em querer Sua vontade completa vem do medo de que, se entregarmo- -nos a Ele completamante, Ele poderá nos man­ dar ao Afaganistão como missionários ou fazer com que abandonemos alguns de nossos pra­ zeres. Parte de nossa dificuldade nasce de nos­ sas vontades teimosas e egocêntricas. Quere­ mos as coisas à nossa maneira. Tememos per­ der nossa autonomia, nossa liberdade de esco­ lha e parte de nossa individualidade como pes­ soas. É, basicamente um medo inconsciente de perder a nossa condição de ser. Alguém mais estaria dirigindo nossas vidas, e não queremos isto, mesmo se esse alguém seja Deus. Uma criança depende de seus pais. Quan­ do adolescente, luta para ser uma pessoa à sua própria maneira, e, a fim de se tornar indepen­ dente, rebela-se contra a autoridade. Ao passo que vai amadurecendo vê que há algo melhor do que dependência ou independência — a interdependência.

Muilas pessoas, na vida cristã, nunca passam da fase da adolescência espiritual, esse período de independência irriquieta que carac­ teriza os jovens. Mas, à proporção que nos amadurecemos espiritualmente, descobrimos a alegria da interdependência com Deus. Ele deixa conosco o livre arbítrio com que nos adotou. Ele nunca violará nossa liberdade de escolha. Querer a vontade completa de Deus em nossas vidas é simplesmente outro modo de dizer que aceitamos o universo da maneira como foi criado; que o aceitamos com alegria; que nos regozijamos em saber que Deus é amor infinito e quer o melhor para nós; que estamos desejosos de confiar na Sua maneira de dirigir o universo; que queremos experi­ mentar a satisfação de ter Suas leis universais operando a nosso favor. Quando eu tinha mais ou menos seis anos de idade, alguém morreu numa casa do outro lado da rua. Foi a minha primeira experiência com a morte, e me recordo de ter ouvido al­ guém dizer: “Devemos nos resignar com a vontade de Deus.” Associei, então, a vontade de Deus com a morte. Talvez muitos cristãos tenham formado concepções erradas sobre a vontade de Deus de algum modo como esse. Há uma frase que é usada pelos que tra­ balham com seguros, “Um ato de Deus”, refe- rindo-se usualmente a um desastre, tal como furacão, terremoto ou um acontecimento além do controle dos homens. O sentido original da fra­ se não traz a implicação de que Deus quer que coisas más aconteçam aos homens, mas que tais acontecimentos não são causados pelos homens. Eles podem nos levar a sentir, incons­ cientemente, que a vontade de Deus significa

alguma coisa catastrófica ou

ceitável. Na oração, como na vida, temos a tendên­

ina­

pelo menos

cia de colocar o que realmente desejamos no centro de nossas naturezas. O neurótico nos diz que fará tudo para se ver livre dos seus sintomas, mas é um fato consumado que ele fará tudo, exceto abandoná-los. Para ele, é pre­ ferível ficar com seus sintomas do que encarar

e lidar com o problema verdadeiro. Deste modo

ele obtém o que mais quer. Pela oração recebemos o que desejamos mais ardentemente. Pode ser o que não esta­ mos pedindo, mas é o que desejamos, porque ‘‘oração é o desejo sincero da alma, expresso ou não”. Se o que pedimos em oração verbal estiver em conflito com o que queremos basi­ camente no nível do sentimento, recebemos, não o que pedimos, mas o que realmente dese­ jamos. Alguém pode orar: “ó Senhor, abençoa os missionários nos campos estrangeiros”, mas se

estiver indiferente quanto ao bem-estar deles, então essa será a natureza e extensão de sua oração. Alguém pode orar para que algum sintoma físico desapareça, mas se, no coração, estiver relutante em mudar a atitude emocional básica que causou o sintoma, estará dizendo:

"Quero que o sintoma seja removido, mas não

a causa real.” Como o sintoma não pode ser

removido verdadeiramente sem a causa, ele consegue precisamente o que realmente pre­ fere, sob tais circunstâncias, que é antes sofrer o sintoma do que correr o risco de uma mu­ dança de personalidade ou atitude.

Oração não é mera verbalização. As pala­ vras que proferimos não terão significado real,

a menos que sejam um reflexo verdadeiro do

que sentimos ou pensamos. Quando o que dize­ mos e o que sentimos estão em conflito, então o que sentimos é a oração verdadeira. Oração, então, não é meramente palavras. Oração não é um esforço para mudar Deus ou Sua vontade para conosco. Oração é um esforço para colocar nossas vontades teimosas, relutantes e egocêntricas em harmonia com Seu propósito amoroso e beneficente. Ele quer o melhor para nós. Quan­ do pudermos confiar nos Seus propósitos sá­ bios e criativos para nossas vidas, teremos começado a orar eficazmente.

*

c~

c~ ■

6

CONFISSÃO

A pessoa não é feita de atos, mas

somente de desejos. Igual ao seu desejo é sua resolução; igual à sua resolução é a ação que ela pratica;

o que pratica ela procura para si

mesma. — Upanishadas

Só Deus sabe quantos milhões de seus filhos confessam seus pecados e erros sem nunca terem conseguido qualquer sentimento real de perdão e purificação. Seu número deve ser incontável: Após trinta e seis anos como pastor, durante os quais aconselhei centenas de pessoas, me parece que o fracasso em aceitar o perdão e sentir-se perdoado consti­ tui o maior problema para a maioria das pes­ soas, embora elas possam estar desapercebi­ das parcial ou totalmente da dificuldade básica.

Todos os crentes acreditam intelectualmente no perdão, e muitos são capazes de citar a pas­ sagem, tão familiar: “Se confessarmos os nos­ sos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda in­ justiça.” Muitos dos que citam esta passagem, entretanto, não conseguem experimentar o sen­ timento de perdão. Freqüentemente, o próprio

vigor do seu protesto: “todos os meus pecados foram lavados” nos mostra que ainda há dú­ vida em suas mentes. Somos poucos os que nos sentimos inteiramente limpos e perdoados ao ponto de nos perdoarmos inteiramente e de perdoarmos os outros. Existe um “zelo falso” com que muitas pes­ soas bondosas praticam seu dever cristão. Isto nos mostra que elas estão procurando in­ conscientemente uma compensação para um sentimento de culpa específica ou vago e di­ fuso. A mesma coisa podemos ver operando nos trabalhadores compulsórios. Em um de nossos grupos um jovem mi­ nistro revelou-nos seu sentimento de culpa por não ter sido fiel no cumprimento de seu mo­ mento devocional diário. Tinha um horário mui­ to cheio, mas pressentira que esta não era a causa verdadeira. Ele disse: “Ocasionalmente, eu tenho tempo para televisão, mas não con­ sigo achar tempo para conversar com Deus. Não sei qual é a barreira real.” Há, freqüentemente, em tais grupos, uma percepção extraordinária. Alguém disse: “Será que você não se sente culpado por causa de outra coisa que você recusa examinar, e não pode encarar a Deus por causa dessa coisa que você se recusa a encarar?” O jovem ministro sorriu, mas havia uma certa tensão no sorriso, como se ele estivesse tentando encontrar a resposta, mas estivesse com medo de achá-la. Então algüém fez esta pergunta penetrante:

“Será que você não se sente inquieto pela falta de tempo que dedica à sua família, e sua esposa, de modo que você sente culpa genuína por isto, mas não quer encará-la? E talvez, se você realmente encarasse isto em oração,

você teria que fazer alguns ajustes no seu ho­ rário.” Havia uma conscientização intuitiva no grupo de que a pergunta havia atingido o alvo. "Sim”, disse ele, “agora vejo que este é o meu problema. Se eu separasse um período diário especificamente para meditação e oração eu teria que encarar este problema. Eu sei que minha esposa tem um pouco de razão. Existem as exigências do meu trabalho da igreja, e as exigências de minha família. Eu cumpro as exi­ gências do meu trabalho da igreja porque, se eu não o fizesse, isto criaria mais ansiedade do que a provocada pelas necessidades legítimas de minha família. Com a faculdade inventiva caracteristica- mente humana ele havia escondido cuidadosa­ mente de si mesmo a verdadeira razão de sua recusa em encontrar-se com Deus diariamente. Ele nem mesmo tinha permitido que a causa de seu problema viesse à consciência, mas ela estava lá, logo sob a superfície. Uma investi- gaçãozinha de leve, por parte dos outros, não menos culpados neste ou em outros sentidos, havia ajudado a determinar seu problema. E com que compreensão e interesse amo­ roso o grupo inquire, ajudando uns aos outros a descobrir o que estava sendo evitado incons­ cientemente! Numa sessão de grupo, eu revelei uma certa culpa que sentia por causa do res­ sentimento que experimentava quando pessoas importunas se aproximavam de mim e interrom­ piam uma conversa, apresentando alguma ne­ cessidade obviamente inventada, a fim de obte­ rem atenção. Alguém (não muito elegantemen­ te) se referiu a tais pessoas como “poços sem fundo” — pessoas que precisam de amor e atenção em doses tão desmedidamente gran­ des que é como se fossem sem fundo, nunca

sendo satisfeitas, sempre voltando com novas desculpas para obter atenção, não importando quão inconsistente é o pretexto que usam. Havia uma tendência da parte de alguns no grupo de se identificarem comigo nisto, ten­ do sofrido, como eu, por causa de tais pessoas; mas um jovem perspicaz perguntou: “Não será você mesmo uma espécie de poço sem fundo, e precisa de amor com a mesma intensidade, mas não deixa isto se tornar conhecido a si mesmo? Será que você não está simplesmente projetando sua própria necessidade interior so­ bre elas, odiando-as em você mesmo, e, por conseqüência, nelas?’’ Minha reação imediata foi de rejeitar a sugestão. A própria enfase com que a rejeitei me mostrou que ela havia tocado algo doloroso. Ocupei-me disto mais tarde e cheguei à conclu­ são embaraçosa de que eu realmente estava projetando o que sentia sobre outros. Eu sentia necessidade igual de amor em um nível bem profundo, e o havia reprimido. Mas ela estava lá, entrètanto. Não tendo resolvido completamente minha própria neces­ sidade insatisfeita de receber amor, eu reagia demais contra os outros que tinham o mesmo problema. Agora eu podia confessar o pecado real. Não era ressentimento que eu precisava confessar. Eu podia confessar isto indefinida­ mente sem conseguir um sentimento de liber­ tação, porque estaria confessando a necessida­ de errada. O que eu agora havia partilhado com o grupo era algo que não estava querendo encarar: minha própria necessidade de amor. Eu não queria admitir que desejava e precisava de amor. Na realidade, eu percebi que era par­ cialmente incapaz de aceitar amor. Depois que admiti isto para mim mesmo e para o grupo, eu

não mais reagi desfavoravelmente quando as pessoas importunas me procuravam. Eu havia confessado o verdadeiro problema.

Um homem, certa vez, me confessou que tinha um gênio terrível. Ele havia orado por longo tempo por libertação, mas sem resultado. Eu disse: “Talvez você esteja confessando o pecado errado. Examine seus sentimentos mais íntimos e veja se não consegue descobrir uma grande porção de temor dentro de si. Este sen­ timento pode estar tão profundamente enterra­ do ao ponto de ser totalmente irreconhecível.” Ele não aceitou esta possibilidade, mesmo eu explicando que muito de nossa hostilidade procede do medo, e então tememos a hostilida­ de. Mais tarde, ele desenvolveu uma fobia que

o prejudicou seriamente no praticar as coisas

mais simples da vida contidiana. O medo havia começado a se manifestar de outro modo. En­ tão ele procurou minha ajuda a fim de se livrar

da fobia. Eu disse: “Procure dentro de você a culpa, que talvez esteja parcialmente enterrada. Quando você a descobrir terá achado a causa de sua fobia.” Ele não se interessou muito por isto, querendo só se livrar da fobia, mas sem

a dor de procurar a culpa enterrada. Ele ainda

sofre a fobia. Isto não quer dizer que todas as fobias se­ jam resultado de sentimento de culpa, ou que uma pessoa que sofre de uma fobia seja mais culpada do que qualquer outra. É simplesmen­ te uma forma que o sentimento de culpa adqui­

re. A pessoa prefere a fobia a ter que encarar

o sentimento de culpa! Um homem, certa vez, me contou uma ex­ periência perturbadora. Ele estava fazendo pro­ gresso significativo num grupo, mas disse, se­ gundo o seu julgamento: “As pessoas não se

achegam a mim prontamente, e eu acho que elas não confiam em mim de verdade." Ele mantinha certa reserva, que constituía uma barreira que e!e havia levantado inconsciente­ mente entre si e os outros, sem perceber. Ele tinha percebido que havia “matéria" profundamente reprimida no seu inconsciente. Em uma sessão com um conselheiro ele se lembrou repentinamente de uma experiência traumática que tinha tido quando era menino e que havia esquecido até aquele momento. Ele havia sido molestado sexualmente e tinha sen­ tido vergonha e culpa por causa disto, como ge­ ralmente acontece, mesmo quando a criança não é culpada em sentido algum. Numa sessão posterior ele recordou de uma experiência ain­ da mais chocante. Seu próprio pai o havia mo­ lestado sexualmente. Enquanto recordava a ex­ periência e a revivia emocionalmente, ele expe­ rimentou profunda angústia. A experiência dele ilustra o fato de que nós sentimos culpa não somente pelo que fize­ mos, mas, freqüentemente, por vergonha do que foi feito a nós. Quando criança, ele havia participado de alguma coisa que achava que era vergonhosa, e tinha-se sentido culpado e que errara. O acordar da memória foi para ele uma experiência curadora espiritualmente. Confissão, no caso dele, não foi o ato moral de admitir algum ato ou atitude culposa, mas em simplesmente admitir à consciência a memória de um acontecimento que havia criado senti­ mento de culpa falso. Em certo sentido, todos nós somos neuró­ ticos. Segundo o grau com que reagimos a uma dada situação, somos neuróticos. É só uma questão de grau. Nandor Fodor diz: “O neuró­ tico só tem um inimigo — sua consciência. Ela

nunca lhe dá paz, e a tragédia da neurose é que, sozinho, por seus esforços, o neurótico ó incapaz de descobrir por que sua consciência

o persegue, como as Fúrias da tragédia grega.

Notáveis e patéticos são os modos pelos quais tenta escapar dela, para simplesmente desco­ brir que não importa o que ele fizer, será sempre a coisa errada.” i O verdadeiro neurótico é simplesmente um indivíduo que ainda não deu solução ao senti­ mento de culpa que o perturba; mas, a fim de levar uma vida efetiva, eie deve enfrentar a consciência acusadora para sua solução.

Ocasionalmente há pessoas que são capa­ zes de controlar seu sentimento de culpa e ter vida normais, até que uma situação mais pe­ sada de “stress” entorte a balança e então elas são apossadas pelo que é erradamente chama­ do de “esgotamento nervoso" e se tornam inca­ pazes de fugir normalmente. Um homem desconhecido para mim, alta­ mente inteligente, veio um dia ver-me, para aconselhamento, num estado de profunda de­ pressão. Havia 'pêrdido todo o gosto pela vida

e estava possuído de ansiedades inomináveis.

Ele via o mundo através da cortina dos seus medos obsessivos. Eu disse: “Meu amigo, talvez tenhamos de recuar na sua vida e descobrir o que é que lhe ocorreu no passado, porque pa­ rece haver um sentimento de culpa não resol­ vido em você. Nós devemos mexer com isto." Ele me afirmou que tinha feito coisas das quais estava envergonhado, como todos os outros seres humanos, mas que Deus Iho havia per­ doado. Ao que reafirmei: “Eu não tenho dúvida alguma de que Deus lhe perdoou, mas é visível que você não se perdoou. Quando digo ‘senti­ mento de culpa”, que acontecimento lhe vem à

mente?” Instantaneamente ele relatou uma ex­ periência do passado longínquo que, disse ele, não podia estar lhe causando problema porque havia acontecido há muito tempo atrás. Expli- quei-lhe que o tempo não diminui nosso senti­

relutou em acreditar

que o sentimento de culpa tinha alguma coisa que ver com sua depressão profunda. Ultimamente ele passou considerável tem­ po num sanatório, onde foi-lhe aplicada a tera­ pia do eletrochoque. O resultado deste trata­ mento drástico foi-lhe de algum alívio, de modo que eíe era capaz de agir normalmente ou­ tra vez, mas a experiência tem mostrado que um grande número daqueles que fazem o tra­ tamento de eletrochoque no fim retorna à velha condição, a menos que adquiram novos recur­ sos espirituais para enfrentar os problemas da vida. Ele ainda tem que solucionar seu proble­ ma de sentimento de culpa do passado; e há uma grande possibilidade de que, quando a pressão da vida cotidiana aumentar e ocorrer depressão física e mental, se encontre sofrendo dos mesmos sintomas. As pressões acumuladas da vida, ou algum acontecimento traumático, freqüentemente fazem vir à tona o velho senti­ mento de auto-rejeição que está sempre pre­ sente, até que nos asseguremos do sentimento de perdão divino e sejamos consequentemente capazes de perdoarmo-nos a nós mesmos.

Jung mostrou que quando, por não poder­ mos encarar o pecado maior, confessamos o pecado menor com mais fervor, falhamos em obter perdão. Não que Deus se recuse a nos perdoar. É que nós estamos confessando o problema errado. A maneira como confessar é muito menos importante do que o confessarmos a coisa cer­

mento de culpa, mas ele

ta. Dizer: “Senhor, perdoa meus muitos peca­ dos” pode ter efeito, se houver no coração um profundo sentimento de contrição por todos os pecados que se cometeu. A oração do publica- no: “Senhor, tem misericórdia de mim, peca­ dor”, foi altamente eficaz, porque era evidente na mente do homem um profundo sentimento de contrição. Ele estava admitindo a si mesmo e a Deus que ele se sentia indigno em sentido geral. Outra pessoa poderia proferir as mesmas palavras e sentir pouca ou nenhuma dor por seus pecados.

Como Paul Tournier ressaltou em Guilt and Grace (“Culpa e Graça”) 2, a pessoa pode recontar de maneira precisa e metódica a na­ tureza dos seus erros, mas sem qualquer sen­ timento real de remorso; enquanto outra pessoa pode ver repentinamente, pela primeira vez, a verdadeira natureza de sua culpa, e, quase sem palavras, exprimir a mais profunda humi­ lhação e tristeza por seus pecados. É o estado mental, o intento do coração que conta, não as palavras ou a forma em que é feita a confis­ são.

Alguns protestam enfaticamente: “Eu con­ fesso meus pecados somente a Deus!” e a pró­ pria veemência com que proferem isto nos diz que estão totalmente na defensiva. Mas a Bí­ blia diz claramente: “Portanto, confessai vos­ sos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sejais curados.” 3 isto não quer dizer que devemos revelar nossos pecados ao primeiro ser humano que apareça, mas que uma cura espiritual genuína pode ser encontrada quando nos desabafamos com uma pessoa ou pessoas apropriadas — quer seja ministro, sa­ cerdote, conselheiro, um amigo compreensivo ou membros de um grupo.

Um dos doze passos dos Alcoólatras- Anô­ nimos trata do compartilhar a natureza precisa dos erros da pessoa, porque os AA descobri­ ram o tremendo valor implícito em compartilhar nossos fracassos com uma pessoa que não gos­ te de julgar os outros. As vezes isto pode ser feito num grupo. Obviamente, há coisas que seria inconveniente partilhar com um grupo, mas tenho observado centenas de vezes o pro­ veito tirado por homens e mulheres que discuti­ ram em um grupo os erros de suas vidas.

Nós temos cuidado em estipular em nossos grupos que não nos interessamos tanto em pe­ cados sintomáticos quanto em pecados do es­ pírito. Pode-se compartilhar com o grupo sua hostilidade, seu medo, seu sentimento de infe­ rioridade e seu sentimento de necessidade em geral. São basicamente os pecados do espí­ rito — avareza, materialismo, orgulho, con- cupiscência, inveja — que devemos confessar em tais grupos; não necessariamente as mani­ festações sintomáticas desses fracassos espi­ rituais. Entretanto, muito freqüentemente, al­ guém que percebe a natureza de sua neces­ sidade espiritual e a compartilha com o grupo sentirá uma necessidade mais profunda de con­ tar os detalhes mais específicos a um conse­ lheiro. Ao fazer isso, experimenta, freqüente­ mente, um profundo alívio. Ele se desabafou, por assim dizer, se descarregou, botou tudo para fora finalmente.

Mas por que a gente precisa fazer isto em um grupo ou com um conselheiro? O fato de que poucas pessoas sentem-se genuinamente perdoadas nos dá a resposta. Elas confessam ao Deus invisível, e, se a concepção delas de Deus fosse vital o suficiente, teriam sentido o sentimento de perdão. Mas para muitas pessoas

Deus é, como disse um estudante universitário,

"uma espécie do borrão

oblongo”. Ele é invi­

sível, “lá em cima em algum lugar”, e não um Pai Celeste vivo, compassivo e amoroso. Davi confessou a Natã, quando desafiado pelo profeta. Então compôs o belo e triste Sai- mo 51, no qual ele confessa sua culpa e pede perdão. Com honestidade dolorosa ele com­ partilha sua confissão com toda a humanidade:

Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniqüidade,

e purifica-me do meu pecado.

Pois eu conheça as minhas transgressões, e o

meu pecado está sempre diante de mim.

Contra ti, contra ti somente, pequei, e fiz o que

és

é mau diante dos teus olhos;

de sorte que

justificado em falares, e inculpável em julgares.

Eis que eu nasci em iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. Eis que desejas que a verdade esteja no Intimo; faze-me, pois, conhecer a sabedoria no secreto da minha alma. Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava- -me, e ficarei mais alvo do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que se re­ gozijem os ossos que esmagaste. Esconde o teu rosto dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniqüidades.

Cria em

nova em mim um espirito estável. Não me lances fora da tua presença, e não re­ tires de mim o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação, e sus tém-me com um espírito voluntário Pois tu não te comprazes em sacrifícios; se eu te oferecesse holocaustos, tu não te deleitarias. O sacrifício aceitável a Deus é o espírito que- brantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.

A confissão verdadeira é dolorosa. Se não for dolorosa, é quase certo que não terá valor.

mim, ó Deus, um coração puro, e re­

Não há dor específica em dizer: "Eu acho difícil perdoar.” Estas são generalizações e, na maio­ ria, evasões; porque elas poderíam se aplicar a quase todos os seres humanos na terra. É só uma maneira de dizer: “Eu não sou como devia ser, sou como os demais.” Como já foi dito antes, há dentro de nós uma tensão entre a necessidade de esconder e a necessidade de revelar. A verdade de nossa culpa exige expressão. Precisamos contá-la a alguém, mas temos medo de sua condenação ou julgamento e rejeição. É comum, portanto, sentir uma grande relutância em encarar nossa culpa verdadeira. Eu já era ministro por bastante tempo an­ tes que descobrisse um fato aparentemente óbvio. Alguém que marcasse uma hora para ver-me, poderia sair com algo como: “Eu não entendo a natureza da Trindade. O senhor po­ deria explicá-la?” 3 Ou seria uma questão con­ cernente a um ponto obscuro do Apocalipse. Perdi muitas oportunidades maravilhosas de ajudar as pessoas por cair nessas evasivas que apresentam. Quando elas iam embora, era sem­ pre, como percebi mais tarde, com uma esp&qie de relutância que me fazia sentir que não havia tornado claro o ponto teológico. Na realidade, elas esperavam que ej*'dissesse: “Agora veja­ mos o que mais lhe está incomodando. Se você não se importar de me contar, eu não pensarei menos bem de você, e talvez pudesse ajudá-lo.” Uma jovem senhora veio ver-me com algu­ mas dessas evasivas inconscientes, depois que eu havia descoberto meu erro. Logo depois de nossa discussão de sua suposta dúvida teoló­ gica, eu disse: — Mas eu percebo que alguma coisa mais está lhe incomodando. A senhora se importaria de me contar?

Ela pareceu genuinamente surpresa, e dis­

se:

Sim,

suponho

que

haja

alguma

coisa

mais,

mas

eu

não

estava

realmente

cônscia

dela

até

este

momento.

Tenho

um

problema

o

solucionasse para mim. Ela então contou sua dificuldade. Em visi­

tas posteriores, ela dizia, rindo: “Hoje eu não quero falar sobre a Trindade, mas sobre um problema real.” A esta altura ela já havia des­

coberto que eu não a julgava,

gostava dela do mesmo modo e que estava partilhando fatos culposos de sua vida com um companheiro pecador. De vez em quando os pais vêm para dis­ cutir um problema pertinente a seus filhos. A seu ver, é sempre o filho, nunca o pai, que precisa de ajuda. Raramente passa pela cabeça

que eu ainda

sério, e

penso que esperava

que o senhor

deles que a relação entre os pais e entre pai

e filho tem alguma coisa a ver com o compor­

tamento errado do filho. Eles freqüentemente

ficam irritados, se lhes pergunto sobre suas relações pessoais como, pais, sua vida espiri­ tual, ou sobre o grau de serenidade interior e paz que possuem. “Mas se trata de nosso filho,

e

não de nós! Nós vamos muito bem

Bem,

o

senhor sabe como é, há diferenças inevitáveis

que surgem entre todos os casais, e o trabalho do meu marido o deixa realmente tenso e eu acho que o irrito um pouco. Diante disto, qual

é o pai que não reage assim?”

Isso não era uma confissão, mas, sim, um álibi, uma racionalização, um esforço, da parte do pai, em fazer o conselheiro concordar que

é realmente muito difícil criar um filho nestes

tempos laboriosos, e que os pais não podiam ser responsáveis no menor grau, ocasional­ mente, entretanto, é possível ajudar os pais a

verem que estão confessando os pecados do

filho, não os próprios, e que o ponto certo —

e de

confissão das necessidades deles mesmos.

para começar é com a

fato

o

único —

Uma mãe, que queria, a princípio, partilhar só os feitos terríveis de seu filho de quatorze anos de idade, finalmente foi conduzida a com­ preensão chocante de que nunca havia real­ mente amado seu filho. Quando ele nasceu, o fato de que ela tinha outros filhos para cuidar e que não havia dinheiro suficiente já para es­ tes causou-lhe um ressentimento, que foi rapi­ damente reprimido. “Mãe nenhuma deve sentir assim”, foi sua reação instantânea. Ela não podia admitir a si mesma, então, nem nos anos posteriores, que realmente ressentia o nasci­ mento de seu quinto filho. Agora o pensamen­

to lhe viera com um repente terrível e ela ficou

chocada. “Mas eu o amava e o amo! Eu o amo muito. Eu faria tudo por ele, tudo!” Então ela se houve com esta questão: “Será que eu podia tê-lo amado e odiado ao mesmo tempo?" Não,

essa era uma sugestão intolerável. A gente não odeia os próprios filhos. Você por acaso odeia e ama seu marido ao mesmo tempo?

— Oh! sim, freqüentemente!

— Você acha que pode ter tido os mesmos

sentimentos confusos para com o menino? Ela relutou por algum tempo com isto e finalmente foi capaz de ser honesta: — Sim, agora compreendo. Eu o tenho odiado tanto quanto amado, talvez odiado mais do que amado. Então começou o processo de ajudá-la a aceitar seus sentimentos, não como ideais, mas como reais. Ela disse: “Eu tentei apagar esses sentimentos da minha mente.” Mas nada pode

ser apagado da mente. Sentimentos inaceitáveis acerca de que nos sentimos culpados são sim­ plesmente rejeitados e empurrados para o fun­ do do inconsciente, onde proliferam e reprodu­ zem sua própria ninhada, desde males psicos- somáticos até acessos de raiva incontáveis.

A maneira pela quai projetamos nossa cul­ pa sobre outra pessoa envolve um mecanismo totalmente singular, inconsciente e automático. Uma esposa assegurou-me, com lágrimas, que seu marido lhe era infiel. Ela não podia provar isto, embora tivesse muitas coisas de que sus­ peitava e que a levavam à conclusão de que ele se encontrava às escondidas.

Depois de ligeiro interrogatório, ela final­ mente olhou para dentro de si e achou por si mesma parte da resposta. “Será que suspeito indevidamente porque comecei a sair com o meu marido quando ele ainda era casado e antes que seu divórcio fosse definitivo?” Pe­ di-lhe que me falasse sobre isto e ela pareceu aliviada por ter uma oportunidade de compar­ tilhar o problema, embora fosse doloroso enca­

rá-lo. Ela havia ajudado seu marido a ser infiel à sua esposa e tinha-se sentido mal por esse relacionamento. Agora ela pôde perceber o

que estava sentindo: “Se ele foi

primeira esposa, pode ser infiel a mim.” Em um nível mais profundo ela estava sofrendo a dor de uma culpa não resolvida. Ela sentia que “merecia” perder seu marido, pois que era culpada de suas relações com ele antes do casamento. Neste ponto um ministro, ou conse­ lheiro, ou amigo que estiver ouvindo a confissão (o que é exatamente) pode estragar tudo ou por justificar ou por julgar. Mesmo se o sentimento de julgar não for expresso, pode ser revelado por algum gesto, e a pessoa o notará. Ninguém

infiel à sua

que goste de julgar ou que tenha o detestável hábito de censurar tem o direito de ouvir uma confissão, a revelação de uma fraqueza ou mes­ mo o problema de um amigo. A gente não deve confessar somente os pecados evidentes da carne, mas também ati­ tudes mentais, sentimentos hostis ainda não transformados em ação, sentimentos de culpa secretos, motivos errados, objetivos falsos e reações prejudiciais — tudo que não for per­ feito. Igualmente importante, é claro, são os pecados de omissão, as coisas que deixamos de fazer e que devíamos ter feito. Podemos dizer que o homem rico da parábola de Jesus,4 que ignorava o mendigo à sua porta diariamen­ te, acabou no seu próprio inferno particular. Ele vivia em tormentos, conforme é descrito. Talvez tenha sido o tormento do remorso quase insuportável; a compreensão das oportunida­ des perdidas, as boas intenções nunca prati­ cadas, o amor nunca expresso. Não se diz que ele havia feito alguma coisa flagrantemente má; seu pecado parece ser o de omissão. Ele fa­ lhou em mostrar compaixão. Quem de nós é culpado de milhares de feitos não realizados, pelos quais nos senti­ mos culpados? Isto não deve nos sobrecarre­ gar de culpa desnecessária: não podemos car­ regar os fardos do mundo inteiro, nem podemos morrer em toda cruz. É uma necessidade neu­ rótica de atuar como Deus que faz-nos sentir­ mos culpados em todos os aspectos. Mas sa­ bemos que houve vezes inumeráveis quando negligenciamos fazer ou dizer as coisas que teriam expressado amor. “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor”,5 declara João.

E, quando acabamos de confessar os pe­ cados conhecidos, é hora de confessarmos os desconhecidos, aqueles sentimentos cuidado­ samente enterrados, que não ousamos enfren­ tar quando ocorreram e então os reprimimos. Há centenas de coisas que racionalizamos. O inconsciente não pode aceitar racionalizações, porque ele lida com conceitos abstratos. En­ tão, quando racionalizamos cuidadosamente algum comportamento, sob o pretexto de que não podia ser de outro modo, ou porque todo o mundo faz o mesmo, ou outra evasiva inteli­ gente qualquer, podemos convencer a nós mesmos no nível intelectual, mas não no nível emocional e espiritual. O seu interior sabe me­ lhor!

Eu estava em meditação certa manhã, e me sentia em paz com Deus e os homens. Então disse: “Senhor, estou contente porque não sinto nenhuma hostilidade para com qualquer alma vivente.” Eu não estava cônscio no mo­ mento de que isto era verdade e estava-me parecendo com o fariseu de antanho, que agra­ deceu a Deus por estar em perfeitas condições espirituais, ao contrário dos outros homens. No momento em que essa idéia me cruzou a mente, repentinamente vi uma face na tela do pensamento. Era o rosto de alguém de quem nunca tinha gostado em particular. Eu não esti­ vera cônscio até aquele momento da hostilidade que abrigava. Todas as pessoas que eu conhe­ cia sentiam o mesmo por aquela pessoa e eu tinha inconscientemente racionalizado minha hostilidade. Subitamente reconhecí que não en­ tendia a Deus na proporção em que eu não amava; que não podia orar efetivamente en­ quanto não sentisse amor incondicional por to­ dos — mesmo por uma pessoa antipática.

Eu sabia o que tinha que fazer, e, na pri­ meira oportunidade, encontrei uma maneira de exprimir amor. Antes que pudesse ser capaz de mostrar amor tive que orar diariamente pelo po­ der de fazê-io, reconhecendo que não tinha essa capacidade dentro de mim mesmo. Orei: “Se­ nhor, ajuda-me a querer amar.” Dita sincera­ mente todos os dias, esta é uma oração podero­ sa, porque é também uma confissão de fraqueza

e pedido de ajuda para vencer a hostilidade.

Logo comecei a sentir que eu queria querer amar a pessoa antipática, e uma relação mara­ vilhosa foi estabelecida como resultado. “Santo é aquele que peca menos e confes­ sa mais e mais”, tem sido dito freqüentemen- te. Nunca é tempo de parar de confessar. Muito tempo depois que os pecados carnais são confessados, ainda restam todos os peca­ dos destrutivos do espírito: orgulho, inveja, avareza, concupiscência, ciúme. E, se alguém estiver quase certo de ter dominado os peca­ dos do espírito e estiver se congratulando por

esse sucesso digno, ficará horrorizado ao des­ cobrir o pecado do orgulho operando com novo

vigor!

Devemos lutar sempre, mesmo sem ganhar, mesmo sem nunca alcançar a meta? A respos­

ta é um simples sim. A luta aqui nunca cessa, mas a cada passo da peregrinação terrena há um novo sentimento de paz e calma interior,

o sentimento crescente de uma Presença tra­

balhando conosco e dentro de nós. “Porque Deus opera em vós.” Nós não estamos na luta, não somos condenados pelos nossos fracassos. Embora caiamos milhares de vezes, se nos levantarmos de novo e seguirmos a Luz, sere­ mos aceitos e perdoados. Não há limite para Seu amor e Seu perdão.

Veja como Jesus reprovou tão gentilmen­ te os fracassos dos doze. Quando rejeitados pelos habitantes de uma aldeia, Tiago e João perguntaram: “Senhor, queres que peçamos que caia fogo do céu e os consuma?” Não tenho certeza se Jesus sorriu, mas acho que sim, enquanto disse: “Vós não sabeis de que espí­ rito sois.”6 Em outras palavras: “Vocês não devem brincar com Deus, e, além disso, por que toda esta hostilidade?” Mais tarde Ele se referiu a estee dois como “filhos do trovão”, humoristicamente, suponho, mas com efeito marcante. Ele cuidou da hostilidade intensa de­ les, mas não os condenou nem os rejeitou. Quando os mesmos discípulos pediram para se sentarem, um à direita e o outro à esquerda do trono, quando ele entrasse no Seu reino, não os condenou pelo orgulho colossal deles. Ele simplesmente disse que o que eles pediam não estava ao seu alcance lhes dar. Os outros dez discípulos ficaram indignados, mas Jesus foi compreensivo e paciente para com a cegueira e o egoísmo espiritual de Tiago e João.

Houve também o protesto inconsiderado de lealdade e fidelidade de Pedro: “Mesmo que eu morra contigo, não te negarei.” Um pouco mais tarde o vemos negando veementemente que conhecia Jesus. O galo canta, e Jesus se volta e olha para ele. Tenho certeza que não foi um olhar de condenação — “Eu não lhe disse que você não resistiría? Vê como você é fraco?” — mas, ao contrário, foi um olhar de infinito amor, compaixão e perdão, porque esta era Sua natureza.

Jesus nos considera da mesma maneira, e Jesus é a manifestação de Deus. "Se me vistes, vistes também a Deus”, ele declarou. De modo

que em sua compaixão e perdão vemos a na­ tureza de Deus, porque é igual a Jesus.

Uma das dificuldades básicas não é que sejamos relutantes em confessar a Deus, mas o sermoá incapazes de crer inteiramente que Deus pode nos perdoar instantaneamente, sem merecimento. Achamos quase incrível que Deus pudesse dedicar-nos amor incondicional,

especialmente à vista de todas as nossas fra­ quezas anteriores. “Mas eu faço isto frequente­ mente”, disse um homem para mim, “Como é que Deus pode perdoar um homem tão fraco e faltoso como eu?” Eu disse: “Você está pensan­ do que Deus não é melhor que você. Você tem dificuldade em perdoar os outros, especialmen­

te depois que eles lhe decepcionam numerosas

vezes, e você imagina que Deus é igual a você, capaz de perdoar uma ou duas faltas, mas não

cinqüenta. Deus é melhor que você, meu amigo. Seu amor é infinito.”

Como, especificamente, a gente deve con­ fessar para obter um sentimento de segurança interna de perdão? O que se deve dizer? Quan­ do e quantas vezes deve-se confessar? Muito mais importante que isto é o que temos consi­ derado: nosso conceito de Deus e Sua natu­

reza; porque pouco importa o que dizemos ou como confessamos se não tivermos a poderosa convicção de que Deus perdoa instantânea e voluntariamente, e que é por amor que ele não nos condena. Se nosso conceito de Deus for adequado, nossa oração de contrição será ade­ quada. Se tivermos um fraco conceito de Deus

e do Seu amor, nunca nos sentiremos inteira­

mente perdoados. Mas, pressupondo-se que se

é capaz de crer e sentir profundamente que

Deus está ansioso para perdoar, como é que se deve confessar para ter um sentimento de

pureza? Há muitos passos e muitas maneiras de fazê-lo. Aqui estão alguns deles:

Primeiro, não se deve ir às pressas à pre­ sença de Deus e vociferar um pedido de per­ dão, ou fazer qualquer outra espécie de peti­ ção, sem preparação conveniente. Não que nossa pressa e rudeza pudessem ofender a Deus. Ele está acima disto. Mas nós precisa­ mos de período preparatório. Comece primeiro com um período de meditação. Isto faz parte da oração. Pense acerca da natureza de Deus.

Afirme o que você sabe que é verdade a respei­

to dele. “O amor de Deus é sem limite, por­

tanto, seu perdão também é sem limite. Nada que eu tenha feito é tão mau que ele me ame menos. Nada de bom que eu já tenha feito é suficiente para que ele me ame mais. Seu amor

ó algo fixo e imutável. Eu não aumento o seu

amor por mim por qualquer boa obra que rea­ lize e nem o diminuo com minhas faltas. Porque ale me ama, eu posso pedir e receber perdão Instantâneo. Foi prometido que ‘se nós con- fe»6armos nossos pecados, ele é fiel e justo, para nos perdoar e lavar-nos de toda a injus­ tiça’."? Eu creio nisto acerca de Deus. Este tipo de meditação afirmativa é um aspecto da ora­ ção.

Segundo, que a confissão seja completa

e implacavelmente honesta. Uma jovem senho­

ra disse-me que ela e seu marido tinham esta­

do tão cheios de problemas financeiros a ponto

de ficarem

Os credores telefonavam e iam à sua casa em fila constante. Havia ameaças de processo. Ela

orava por uma solução, mas não obtivera res­ posta. Certa noite ela saíra e andara alguns qui­

te

quase fora de si de preocupação.

lômetros

e

finalmente

dissera:

“Deus,

eu

odeio! Pedi

ajuda,

e

tu

não ma

deste.

Eu

te

odeio!”

Esta foi uma confissão honesta e uma ora­ ção genuína! Deus sabia como ela se sentia antes de ela Iho contar e o que ela fez naquele momento foi admitir diante de si mesma e de Deus o que ela nunca havia admitido antes. Sua crítica contra Deus durou algum tempo e finalmente, esgotada emocionalmente, ela vol­ tou para casa.

Ela desistira de orar por um dilúvio mila­

groso de dinheiro, que resolvería os proble­ mas deles. Ao invés disso, disse: “Deus, se tu queres que alguma coisa seja feita, tu terás de fazê-la. Eu desisto.” Esta foi uma oração verdadeira, uma oração de renúncia. Ninguém

é a melhor forma de

oração, mas a honestidade dela tem o seu mé­ rito e ao abandonar a luta, a jovem senhora estava, pela primeira vez, entregando a mesma a Deus.

Ela desistira de sua oração infantil, em que pedia um milagre fácil e rápido; e encarara seus verdade;ros sentimentos.

Embora fosse fraca e humana, foi uma ora­ ção honesta, e a honestidade para consigo e para com Deus é o ponto de partida. É o pri­ meiro passo absolutamente essencial. Se não formos honestos para conosco mesmos, como o seremos para com Deus? E, se não podemos ser honestos para com Ele acerca dos nossos

sentimentos,

dar? Dentro de uma semana ela teve uma sú­ bita “inspiração”, que sabia ser um sinal. Isto

trouxe-lhe um alívio temporário e em questão de poucos meses o problema todo estava resol­ vido. Mais importante ainda, ela e seu marido

poderia dizer que esta

como é que

Ele nos poderá aju­

cresceram

espiritualmente

no

correr do

pro­

cesso.

Fritz Kunkel não somente lança luz sobre um aspecto importante da confissão, mas ao mesmo tempo sugere uma resposta ao misté­ rio que envolve os salmos deprecatórios, nos quais a hostilidade e o desejo de vingança são expressos. Ele escreve:

Se nós pudermos estender ante Ele todas as raí­ zes ocultas de nossas virtudes e vícios, se for­ mos honestos e corajosos o suficiente para exi­ birmos perante ele a alta voltagem de nosso ódio e amor inconscientes, poderemos descobrir que todo o nosso poder, em última análise, per­ tence a Ele Seja mais honesto. Dê expansão às suas emo­ ções. Você odeia seu irmão: Imagine-se na sua presença. Perante Deus, diga-lhe como você se sente. Dê-lhe pontapés, arranhe-o. Você está com dez anos de idade. Levante-se de sua ca­ deira. Não pretenda ser um Buda velho e sábio. Ande pra lá e pra cá. Grite, arranhe, bata nos

móveis. Dê vazão a si mesmo

sente. Diga-lhe ,a verdade, seja tão honesto como aqueles velhos hebreus; “Sejam a uma enver­ gonhados e confundidos os que buscam a minha ”

(Salmos 40:14). Ore

vida para destruí-la

para que Deus castigue seu irmão, o torture, e

Veja: durante toda

ajude você a derrotá-lo

a sua raiva, Deus estava presente, ouvindo a

sua oração furiosa. Sua presença o cercava, com

o sorriso calmo e criativo de um pai que sabe

que seu filho dará vazão à fúria e então desco­

brirá a verdade e encontrará o caminho certo. Você só encontrará o caminho certo quando ti­

ver gasto suas forças manas ou meses

Deus está pre­

Isto levará, talvez, se­

E finalmente você encon­

trará o Deus das tempestades interiores.8

Então diz Kunkel: “A tempo virá ‘a paz de Deus que excede todo o entendimento’ (Fili- penses 4:7).”

John B. Corbun escreve de um pai que ficou de cara feia durante o culto fúnebre de seu filho de 4 anos de idade, que havia morrido de poliomielite. Ao ouvir as palavras de abertura:

“Eu sei que o meu Redentor vive”, ele começou a murmurar entre os dentes: “Deus, eu me vin­ garei disto! Eu me vingarei disto!” Esta foi a primeira conversa honesta que teve com Deus. Mais tarde, ele comentou: “Aquilo foi uma coisa ridícula para dizer, acho. Como é que eu pode- ria me vingar de Deus? Mas foi honesta e con­

servou funcionando a minha relação com Deus. Era isso que eu sentia, e estava certo para cla­ rear o ambiente e me desabafar. Porque então eu voltei a mim mesmo gradativamente, e vi que a morte tem que se encaixar em alguma estru­

tura finai, e só Deus pode absorvê-la

E agora

eu sei que o meu Redentor vive realmente. E acho que não poderia ter conhecimento disto, bem fundo lá dentro, se não tivesse ficado com

raiva de meu Redentor uma vez — e se não lhe tivesse dito que estava com raiva.9

O pecado básico é a emoção, o sentimen­ to, a atitude que induz à ação. Diga a Deus como se sente. Se você sente hostilidade, diga- -Ihe isto. Ele sabe tudo sobre a hostilidade humana em geral, e sobre a sua em particular. Não a justifique ou racionalize — confesse-al Fale-lhe a respeito da sua inveja ou ciúme e ganância, e sentimento de cobiça em relação às pessoas e coisas. Confesse seu medo e falta de fé e sentimento de auto-justiça, suas atitudes de críticas, que fazem com que você julgue os outros e se justifique. Confesse seu sentimento de auto-suficiência, que tem feito você confiar mais em si do que em Deus. Fale- -Ihe de seu sentimento de autocomiseração, que você usa para obter simpatia. Conte-lhe toda a sórdida estória dos seus artifícios. Volte ao passado, e recapitule todas as suas tagare­ lices e a insegurança emocional que as causou. Conte-lhe as mentiras que você pregou ou os

artifícios

nenhuma fosse

quão rancoroso e desamoroso você tem sido. Vez por outra você pode ser assaltado pe­ los pensamentos de quão mal os outros o têm tratado. Sua mente pode entrar por uma dúzia

de desvios, ao você recordar os acontecimentos passados, em que a falta parecia ser de outro,

e não sua. Mas lembre-se: você não é respon­

sável pelo que as pessoas lhe fazem; você só é responsável pela maneira como reage em relação a elas.

Tenho ouvido muitas vezes de como as pessoas se sentem maltratadas. Meu primeiro Impulso humano é de julgar o marido ofensor por causar dor e pesar à sua mulher. Um pouco mais tarde o marido conta o seu lado da his­ tória, e abandono minhas reações iniciais. Ve­ rifico que ambos têm culpa! Ninguém pode discernir a culpa, ninguém pode julgar, a não ser Deus. Tudo que posso encorajá-los a fazer

de

que

você

usou, embora mentira

dita. Acima de tudo, diga-lhe

é

que ofereçam suas naturezas hostis, críticas

e

rancorosas a Deus, e procurem o perdão di­

vino para suas imperfeições. Cada um havia apenas contado o pecado do outro, nada mais.

Na confissão, contar os pecados e falhas dos outros nada mais é do que perda de tem­ po. Não podemos resolver nossos problemas simplesmente apresentando os defeitos dos ou­ tros. Embora quem nos tenha ofendido possa estar 90% errado e nós somente 10% (do nosso ponto de vista), nosso dever é examinar nossa própria culpa no assunto e confessá-la. Na confissão, podemos estar certos de que

a princípio —

mos só a superfície. Os pecados mais profun­

dos ficarão escondidos. A pobreza de espírito,

a maldade e a pequenez, a obstinação e o or-

ou talvez por anos —

atingire­

gulho — estes nos enganarão, a não ser que os desmascaremos desapiedadamente. Não deve haver racionalização, desculpas, recla­ mações de que os outros também eram cul­ pados.

Mas também não devemos nos afogar num mar de remorsos e auto-acusações. Nossa au- tobusca deve ser como se estivéssemos pro­ curando uma válvula estragada em nosso rádio ou tentando achar um objeto que não sabemos onde colocamos. Não há razão para condenar, e sim, somente para achar a causa do pro­ blema.

Ao

admitir

diante

de

mim

mesmo

e

de

Deus que tenho

sido

culpado

de

lascívia

ou

ganância, de orgulho e do hábito de julgar, de uma natureza rancorosa, de hostilidades, não estou dizendo à minha alma que sou pior do que os outros e que mereço ser condenado. Estou simplesmente me ajuntando à raça hu­ mana e confessando que não sou melhor do que os outros que condenei, e que preciso do perdão de Deus. Não há mais virtudes em se condenar do que em condenar os outros. “Não julgueis, para que não sejais julgados”, certa­ mente se aplica a mim mesmo tanto quanto aos outros. Eu também sou uma pessoa. Não estou mais qualificado para julgar a mim mes­ mo que aos outros. Não posso pesar e avaliar todos os muitos fatores da hereditariedade e de ambiente que me predispuseram a cometer esta ou aquela falta. Não preciso julgar. Devo simplesmente dizer: “Eis o que sou. Não sei precisamente como cheguei a ser assim. Con­ fesso-o e o aceito como verdade, e me arre­ pendo. Aceito o perdão amoroso de Deus, e perdoo a mim mesmo.” Talvez eu tenha que me perdoar centenas de vezes, dependendo do

Urnu de minha recusa em aceitar Sua purifica- çflo. Há um certo orgulho sutil que nos impede de aceitar o perdão divino. Ele se apresenta como humildade, mas na realidade, é um modo do dizer: “Devo resolver isto por mim mesmo. Nflo posso depender do perdão divino. Pelo que, devo fazer expiação.” Isto nada mais é que uma recusa de aceitar o sentido real da cruz, o símbolo do amor e aceitação divinos. Quahdo crianças, aprendemos que, quan­ do fazíamos alguma coisa errada, alguma for­ ma de castigo seria geralmente aplicada. Este podia ser desde um franzir de testa paternal atá a rejeição total por algum tempo. Porque nrnm humanos, nossos pais às vezes acha­ ram difícil usar de amor incondicional. Muitas vozes castigavam por leve ressentimento. Aprendemos a esperar castigo pelos mal-feitos, lalvez mesmo a recusa de amor, a rejeição que a criança teme mais do que qualquer for­ ma de castigo físico. A criança não morreu no adulto; está bem viva. A estrutura emocional da criança está •umplesmente encerrada nas camadas posterio- ros da adolescência, juventude, idade adulta, o finalmente numa camada externa dos anos mnduros. As dores que sofremos quando cri- mças ainda estão lá. Elas existem como cica­ trizes e, porque os conceitos de nossa infância estão parcialmente vivos, temos a tendência de projetar em Deus os sentimentos que tínhamos para com nossos pais. Duvidamos que Deus seja mais perdoador que eles foram. Meister Eckhart insiste em que Deus está mais pronto a perdoar do que estamos a rece- bor o perdão, e que, quanto maior nosso pe­ cado, tanto mais depressa ele nos perdoa. Jesus parece que nunca colocou os pecados

em diferentes categorias. As pessoas que ele particularmente condenou foram os líderes re­ ligiosos, justos e morais externamente, e inter­ namente manchados de orgulho e outros peca­ dos do espírito. Leia outra vez sua denúncia severa dos fariseus no capítulo 23 de Mateus Ele, finalizando, diz: “Serpentes, raça de ví­ boras, como escapareis da condenação do In­ ferno?” 10 Eram, então, os pecados do espírito, e não simplesmente os da carne, que mais pareciam tirar a pessoa da presença de Deus, segundo Jesus; e são estes pecados básicos que temos que confessar, e não somente os feitos conhe­ cidos da carne. Devemos examinar a vida por causa de ações acerca das quais nos sentimos culpados e depois seguir estas até a atitude que as provocou, e, em seguida, até a emoção da qual elas surgiram. Por exemplo, um homem diz alguma coisa para mim, à qual respondo irritado, usando ter­ mos mais fortes do que comumente empregaria. Mais tarde sinto-me culpado pela resposta dura. Confessar a expressão da irritação é pratica­ mente inútil, a menos que eu volte um pouco além da expressão, para ver por que reagi as­ sim. Revivo a experiência e tento sentir outra vez o que senti durante o encontro. Subita­ mente percebo que estava me sentindo amea­ çado pelo que meu amigo tinha dito. Não foi indignação justa, coisa nenhuma, como tinha pensado a princípio. Foi uma ameaça à minha segurança, e eu reagi com hostilidade. Eu podia justificar a mim mesmo. Ele esta­ va errado e eu certo. Posso encontrar uma dúzia de pessoas que dirão que eu tenho razão, mas isto não tem nada a ver com o assunto. Não podemos chamar testemunhas neste en­

contro com Deus! Só nós dois em tal momento - Deus e eu; e Deus está perguntando gentil­ mente:

— Você se sentiu ameaçado?

Eu sei a resposta. Assim me senti.

Isto ameaçou sua segurança ou posição?

Sim, não resta dúvida.

Então você estava realmente com medo

nfio é?

Não, eu nunca tenho medo! Eu não tenho

medo.

— O medo é uma emoção humana. Não o

condeno por ela. Pedro ficou com medo e fugiu, lombra-se? E Jesus não o condenou. Pedro foi perdoado; e você o pode ser. Você pode admitir que foi medo, não indignação justa, e desistir

tle sua pretensa virtude?

— Não, o homem estava errado, ele não

tinha razão

nhor, que eu sei que o homem ter ou não ter rnzão não vem ao caso. Eu fiquei com medo. Agora vejo que toda a minha hostilidade vem do medo — medo de ser dominado, medo de estar errado. Medo de alguma coisa. Encararei este medo e cuidadei dele em todas as mihhas relações. E quando o encontrar, admiti-lo-lei e procurarei tentar obter voto popular sobre quem está certo ou errado.

Isto é confissão verdadeira, nascida de um diálogo com Deus. A confissão pode ajudar imensuraveimente se pudermos sentir, em um nível emocional pro­ fundo, que pecado é essencialmente um erro contra si mesmo ou contra outro ser humano. Em seu amor infinito, o que Deus tem a ver neste assunto de retidão não é que ele esteja com raiva de nosso pecado, mas que ele sofre porque estamos machucando e destruindo a

esquece Senhor. Tu sabes, Se­

em diferentes categorias. As pessoas que ele particularmente condenou foram os líderes re­ ligiosos, justos e morais externamente, e inter­ namente manchados de orgulho e outros peca­ dos do espírito. Leia outra vez sua denúncia severa dos fariseus no capítulo 23 de Mateus Ele, finalizando, diz: ‘‘Serpentes, raça de ví­ boras, como escapareis da condenação do in­ ferno?” 10

Eram, então, os pecados do espírito, e não simplesmente os da carne, que mais pareciam tirar a pessoa da presença de Deus, segundo Jesus; e são estes pecados básicos que temos que confessar, e não somente os feitos conhe­ cidos da carne. Devemos examinar a vida por causa de ações acerca das quais nos sentimos culpados e depois seguir estas até a atitude que as provocou, e, em seguida, até a emoção da qual elas surgiram. Por exemplo, um homem diz alguma coisa para mim, à qual respondo irritado, usando ter­ mos mais fortes do que comumente empregaria. Mais tarde sinto-me culpado pela resposta dura. Confessar a expressão da irritação é pratica­ mente inútil, a menos que eu volte um pouco além da expressão, para ver por que reagi as­ sim. Revivo a experiência e tento sentir outra vez o que senti durante o encontro. Subita­ mente percebo que estava me sentindo amea­ çado pelo que meu amigo tinha dito. Não foi indignação justa, coisa nenhuma, como tinha pensado a princípio. Foi uma ameaça à minha segurança, e eu reagi com hostilidade. Eu podia justificar a mim mesmo. Ele esta­ va errado e eu certo. Posso encontrar uma dúzia de pessoas que dirão que eu tenho razão,

mas

Não podemos chamar testemunhas neste en­

isto não tem nada a ver com o assunto.

contro com Deus! Só nós dois em tal momento — Deus e eu; e Deus está perguntando gentil­ mente:

— Você se sentiu ameaçado?

Eu sei a resposta. Assim me senti.

Isto ameaçou sua segurança ou posição?

Sim, não resta dúvida.

Então você estava realmente com medo

não é?

Não, eu nunca tenho medo! Eu não tenho

medo.

— O medo é uma emoção humana. Não o

condeno por ela. Pedro ficou com medo e fugiu, lembra-se? E Jesus não o condenou. Pedro foi perdoado; e você o pode ser. Você pode admitir que foi medo, não indignação justa, e desistir

de sua pretensa virtude?

— Não, o homem estava errado, ele não

tinha razão

nhor, que eu sei que o homem ter ou não ter razão não vem ao caso. Eu fiquei com medo. Agora vejo que toda a minha hostilidade vem do medo — medo de ser dominado, medo de estar errado. Medo de alguma coisa. Encararei este medo e cuidadei dele em todas as mifihas relações. E quando o encontrar, admiti-lo-lei e procurarei tentar obter voto popular sobre quem está certo ou errado.

Isto é confissão verdadeira, nascida de um diálogo com Deus. A confissão pode ajudar imensuravelmente se pudermos sentir, em um nível emocional pro­ fundo, que pecado é essencialmente um erro contra si mesmo ou contra outro ser humano. Em seu amor infinito, o que Deus tem a ver neste assunto de retidão não é que ele esteja com raiva de nosso pecado, mas que ele sofre porque estamos machucando e destruindo a

esquece Senhor. Tu sabes, Se­

nós mesmos e os outros através de emoções e ações distorcidas. Erich Fromm sugere que “pecado não é primariamente pecado contra Deus, mas pecado contra nós mesmos.” 11 Mui­ tos de nós temos focalizado a nossa atenção sobre a verdade de que “todo pecado é contra Deus” e tido tanto medo de estar nas mãos dos relativistas que temos sido incapazes de perce­ ber em um nível profundo que o interesse de Deus é que não firamos a nós ou aos outros e que pecado é também “o que o homem faz ao homem”. Tentar solucionar o parodoxo aparen­ te aqui não nos ajudará a enfrentar a nós mes­ mos, mas poderá nos ajudar grandemente se pudermos ver o pecado como uma violação do ser divinamente criado.

Fromm prossegue, dizendo que a reação adequada para a conscientização de culpa é “não o auto-ódio, mas um estímulo ativo para fazer melhor”. O auto-ódio não somente não é uma virtude, é um grande mal. Odiarmo-nos a nós mesmos é desprezarmos alguém que Deus ama; é tão pecado quanto odiar outra pessoa.

Deus não fica enraivecido porque alguém perde a paciência, comete adultério, rouba um banco ou espanca seus filhos. O interesse de Deus em tudo isto, ou em qualquer outro con­ junto de pecados manifestados externamente, está em que estas coisas são destruidoras da personalidade e das relações humanas. Nós da­ mos muito mais valor às propriedades que à personalidade humana, ao ponto de esquecer­ mos que o ladrão de banco fez mais mal a si mesmo do que a qualquer outra pessoa. O di­ nheiro que ele levou pode ser coberto pelo seguro; o consumidor pode perder alguma coisa, mas isto não é fatal, embora infeliz. O que aconteceu não é simplesmente que alguém

roubou algum dinheiro, mas que uma persona­ lidade humana se prejudicou.

A mãe que confessa que se sente culpada

por gritar com seus filhos não fez Deus ficar com raiva por causa dessa irritação diária. Ela falhou em nível muito mais profundo. Ela falhou om estabelecer a relação diária com o Eterno, que lhe daria calma para lidar com seus filhos com paciência amorosa; ou eia está tão pertur­

bada com tantas “boas razões” que tem pouca energia e pouco tempo para sua tarefa primá­ ria. Seu pecado básico está num nível muito mais profundo do que o de gritar com seus fi­ lhos. Ele vai de encontro com Deus. Pode ser isto que ela precise confessar. Ela pode mesmo descobrir, em confissão, que simplesmente está desabafando nos filhos a hostilidade que sente para com seu marido.

O adultério violou uma lei divina, mas Deus

não está enraivecido por que Seu código moral foi violado. É a personalidade humana que foi violada. Adultério não é errado simplesmente por ser proibido nos Dez Mandamentos; é proi­ bido nos Dez Mandamentos porque é destrutivo da personalidade humana. O homem não foi feito por causa do sábado; o sábado não foi criado para servir nele como se fosse uma ja­ queta apertada. Antes, o sábado foi feito por causa do homem; foi-lhe dado como um dia de descanso, de que ele precisa.

O

estudante

que

cola

num

exame

não

comete nenhuma grave injúria contra Deus. Ele simplesmente dá início a um hábito preju­ dicial à sua fibra moral e espiritual. Deus é "contra” tudo que é prejudicial para nós. Seu

amor para conosco é tão grande que Ele não pode ver-nos destruindo-nos a nós mesmos sem que ele sofra também. É o sofrimento de

Deus, simbolizado pela cruz, que está em jogo no pecado. Nós sofremos em nossos pecados; Cristo sofreu por causa deles. Seu sofrimento se torna redenção para nós quando somos ca­ pazes de confessar o pecado certo em contri­ ção verdadeira. Isaac Meir de Ger, citado por N.N. Glatzer,

diz: “Quem quer que fale acerca de, ou reflita sobre uma coisa má que fez, estará pensando na vileza que cometeu; e no que a gente pensa,

E certamente ele não será

capaz de voltar, porque seu espírito se endure­ cerá e seu coração, e, além disso, um senti­ mento de tristeza lhe sobrevirá. Mexa a sujeira desta ou daquela maneira, continuará a ser su­ jeira. Ter-se pecado ou não — o que é que isto ros aproveita no Céu? O tempo que gasto pensando nisto eu poderia estar usando para fazer um colar de pérolas das alegrias do céu. Por isso é que está escrito: ‘Apartai-vos do mal, e fazei o bem’. Volte-se completamente do mal.

nisto é

Você fez algo errado? Então o contrabalanceie fazendo algo correto.” 12 A nossa “estabilidade” não está na auto- justificação, mas numa alternativa em se delei­ tar na culpa perdoada.

7

A CULPA E O CASTIGO

Não nos odiamos por sermos inúteis, mas por

sermos impelidos a nos estender além de nós

mesmos

te, do auto-ódio. Qualquer que seja o método usado pelo neurótico — chicotear-se para al­ cançar uma perfeição impossível de ser atingida, arremessar contra si acusações, ou se desprezar e frustrar — efetivamente está torturando a si mesmo.

A autotortura é subproduto, em par­

Karen Homey 1

Larry esteve, por dois períodos de reclusão, em San Quentin por roubo e falsificação de as­ sinaturas. Quando foi solto, depois do segun­ do período, parece que estava impelido por alguma compulsão interna a continuar a sua vida de criminoso. Passou novamente a falsi­ ficar cheques, mas por algum motivo desconhe­ cido por ele na ocasião, começou a assinar o seu próprio nome nos cheques. Foi mais do que fácil achá-lo, sendo preso e mandado pela terceira vez a San Quentin.

Há dentro de nós um mecanismo interior que tem a tendência de executar o seu próprio julgamento: “confessa, ou serás castigado” . Precisamos conseguir um senso de perdão e purificação, ou descobrir algum modo de ser-

mos punidos, ou punirmo-nos a nós mesmos. No caso de Larry, enquanto servia no segundo pe­ ríodo, experimentou um alívio temporário da culpa — estava sendo punido. Mas não se sen­ tiu plenamente perdoado, nem por Deus, nem pela humanidade e nem por si mesmo. Conse­ quentemente, quando foi solto, o seu ser judi­ cial, no seu íntimo, o condenou a castigo adicio­ nal. Quando assinava o próprio nome nos che­ ques, estava dizendo inconscientemente: “Ainda sou culpado. Achem-me e castiguem-me.”

“A alma correrá impulsivamente ao seu juiz”, conforme disse Platão. O homem é cons­ tituído de tal forma que a sua culpa precisa ser plenamente perdoada, ou ele encontrará, por um mecanismo interno implacável, meios de se castigar. A polícia observa que o criminoso, muitas vezes involuntariamente, deixa vestígio óbvio no lugar do crime — um recado inconsciente para a polícia, dizendo: “Eu sou a pessoa cul­ pada. Venha e me prenda”! Conscientemente, deseja escapar; inconscientemente sente a ne­ cessidade de ser punido. Quando apreendido, talvez sinta algum alívio temporário, mas não será um sentimento permanente de ter a sua culpa expiada.

Enquanto estiver na prisão, talvez abrigue em seu íntimo um misto de hostilidade consci­ ente contra as autoridades e de senso de alívio, pois foi preso, julgado, e está pagando a pena do seu crime. Mas, quando solto, ainda sentin­ do-se sem perdão da parte de Deus, da huma­ nidade e do seu ser judicial interior, muitas vezes fará um grande esforço a fim de ser novamente preso. Uma vez fora das muralhas da prisão, a sua culpa ainda não resolvida pre­

domina, e ele sente a necessidade de ser pu­

nido a fim de aliviar o seu senso

Deus nos fez de tal maneira que o senti­ mento de culpa precisa ser resolvido. Preocupa- mo-nos, neste momento, não apenas com algum ato exterior que provoque o sentimento de culpa, mas com tudo que se registra no nosso ser interior como culpa: vergonha, sentimento de inferioridade, de rejeição e de inutilidade; junto com os pensamentos, desejos e impulsos que sentimos como sendo “maus”. Deus insti­ tuiu o perdão divino, e, se a nossa concepção do amor de Deus, dado sem condições, for ade­ quada, podemos aceitar o seu perdão, e nos perdoarmos. Todavia, se não pudermos crer em um Deus de amor infinito e aceitarmos o Seu perdão, então sentimentos de culpa vão persistir de alguma forma até que sejam resol­ vidos, de um modo ou outro. Castigamo-nos tão implacavelmente tanto por um sentimento de culpa falso quanto por uma culpa real. Uma senhora que sofrerá de Insônia durante anos disse-me que não tinha consciência de qualquer sentimento de culpa não resolvido em sua vida, mas um inventário de crescimento espiritual claramente revelou sentimento de culpa. Finalmente, lembrou-se de três coisas diferentes que se relacionavam ao seu problema. Uma referente a um fato parcial­ mente esquecido de ter sido molestada sexual­ mente quando pequena. Outra, concernente a sentimentos de culpa, nos primeiros anos, re­ ferentes ao sexo, baseados em informações erradas; e a terceira se relacionava à hostili­ dade reprimida que sentia contra o marido. Ela tinha sido cristã durante a maior parte de sua vida, tinha ensinado uma classe na Es­ cola Bíblica Dominical durante os cinco ou seis

de culpa.

anos anteriores, e sabia tudo acerca do perdão divino no sentido intelectual. Um senso de ver­ gonha referente à experiência da infância ti­ nha-se registrado como sentimento de culpa; todavia, uma vez que nunca se considerou cul­ pada de coisa alguma, nunca pensou na neces­ sidade de tratar daquela experiência, em parti­

cular. Quanto à hostilidade reprimida que sentia em relação ao marido, nunca tinha admitido que guardasse tais sentimentos indignos. Não era Deus que a condenava, e sim, algo em seu ser interior — o sistema judicial — que ainda

a declarava culpada. Quando se tornou capaz

de descobrir essas causas de sentimento de culpa — algumas reais e outras falsas — e tratar delas de maneira criadora, deixou de so­ frer de insônia.

Freud afirma que muitas pessoas voltam-se

deliberadamente para as coisas erradas porque

é certo que essas coisas trazem castigo de al­

guma espécie. Isto alivia o sentimento de cul­ pa, que tem sua origem em algum outro fato

na vida da pessoa. Freqüentemente o ato, o pensamento ou o desejo é totalmente reprimi­ do. Assim vemos o doloroso espetáculo de uma pessoa conscientemente cometer erros, num esforço inconsciente de ser punida por uma culpa inconsciente!

As pessoas que têm a tendência para aci­ dentes, dificuldades, doenças ou desastres per­ tencem a esta categoria. Há mesmo exemplos de pessoas com tendência para mau juízo que constantemente tomam decisões erradas, num esforço inconsciente de falharem, para que se­ jam punidas, através do fracasso, por seu sen­ timento encoberto de culpa. Deve ser ressal­ tado, entretanto, que tais pessoas não precisam ser necessariamente mais culpadas que as ou-