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Wilson Garcia

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Kardec é Razão

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Wilson Garcia Kardec é Razão O MESTRE. O PROFESSOR E O ALUNO 3 .

Kardec é Razão 4 .

herculano pires Edição conjunta Eldorado/EME/USE/Paidéia 5 . O PROFESSOR E O ALUNO Edição Especial comemorativa do centenário de j. Wilson Garcia WILSON GARCIA Kardec é Razão O MESTRE.

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médium geral. 65 Conceituação e prática da mediunidade no Centro.92 Os Elementais. 95 Curas e da obsessão. 91 Refletindo sobre a mediunidade nos animais. 167 6 .Do centro de uma nova realidade brota a Religião Espírita. 185 7 . 165 O oceano não cabe na ânfora de argila. 111 Cidadania e participação política. 90 A vidência merece cuidados. 47 Para entender de disciplina no Centro. 123 5 . 71 Sessões espíritas.Uma visão científica do Espiritismo. 158 O ser diante da vida e da morte. 24 2 . 62 A questão da criança no Centro. Wilson Garcia Sumário Prefácio. 17 1 . 15 Abrindo o diálogo. 19 A Parapsicologia de Rhine. 151 Do sexo à poesia. 107 A questão da caridade no Centro. Federativas e movimento espírita.O centro espírita como point d’optique do movimento. 35 3 . 9 Explicação. 183 Índice remissivo. o destino do belo. 89 Concentração mediúnica. 113 Conhecendo os fins para entender os meios e as práticas. 115 4 . 171 Bibliografia. 143 A caminho da visão cósmica.A voz da razão que clama num deserto de sons e silêncio.Uma visão filosófica da experiência. 95 Centro.A Educação do conhecimento e da moral. 94 Kardec.

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irmão e filho. que é como nomeia o querido escritor. Wilson capta bem a essência do trabalho do pro- fessor. Como esperava. mas o mais importante na vida desse espírito foi a humildade. pai. o exemplo de amor e de transcendência social. o desencarnado e o encarnado. Wilson Garcia Prefácio HERCULANO E WILSON Wilson Garcia faz parte da família espiritual de Hercu- lano. jornalista. expositor espírita. Atencioso. faz uma comparação interessante sobre os dois grandes amores de Herculano. 9 . deixando oitenta e quatro obras de valor reconhecido e conseguindo ainda expressar-se como excelente esposo. filósofo. o es- pírito que. espiritual e moral. entre duas esposas. como diz Emmanuel através de Chico Xavier: “o metro que melhor mediu Kardec” e “a maior inteligência contemporânea es- pírita”. No primeiro capítulo. nessa última encarnação recebeu o nome de José Herculano Pires. Virgínia e a Doutrina Espírita. Herculano soube dividir a atenção entre duas fa- mílias. realizou um trabalho de gigante. Foi um gênio. Foi com muita alegria que recebi o livro de Wilson sobre o pensamento de papai. Wilson compreende Hercula- no. dedicado. a nuclear e a universal. Graças à sintonia existente entre os dois espíritos. amoroso. Wilson foi muito feliz na escolha dos trechos principais do trabalho de Her- culano. Virgínia e o Es- piritismo. ou.

na televisão através de vários rótulos?). é bem compreendida por Wilson. O exemplo do papai fala bem alto aos nossos corações. baseado na pergunta 208 de “O Livro dos Espíritos”. como diz Wilson. chegando às Uni- versidades (não é o que está acontecendo com a Verdade. O Centro é considerado o mais importante movimento de quantos ocorreram para a transformação social indis- pensável à Terra. representada por Herculano. Virgínia doa todas as tra- duções de Herculano (espíritas) porque não quer ganhar dinheiro com o trabalho. o que atenua ambição e vaidade dos seus dirigentes. A apresentação do pensamento de Herculano sobre o Centro Espírita é excelente. do papel dos pais na educação do reencarnado. mas uma grande herança de amor e retidão moral. é também lembrada por Wilson: “o Centro Espírita é o elemento indutor à formação de indiví- duos úteis”. principalmente na apresentação da necessidade dos centros espíritas permanecerem pequenos. A simplicidade que Herculano exemplificava. que é de Kardec. Mas Wilson diz que o professor quer mais”. na educação do ser. 10 . explica que: “É o ponto visual de convergência de todo produto espírita”. a educação espírita deve atingir as escolas. que se propaga no cinema. lembra Wilson. Hercu- lano faz um trabalho bonito: -Mas os pais podem modificar o espírito dos filhos (edu- cá-los)? Essa é a tarefa dos pais. Kardec é Razão Discordei de Wilson apenas em um ponto: Herculano não deixou uma aposentadoria pequena. como dis- cípulo fiel de Kardec. e a sua vivência melhorou a todos que entraram em contato com o profes- sor. Wilson compreende a importância. O professor. A análise do professor sobre o papel do Centro Espíri- ta.

O Espiritismo veio colocar os pontos nos “ii''. nos horizontes primitivos e oracular. como Chico Xavier e mesmo Divaldo Pereira Franco. Preocupam- -se mais em divulgar os médiuns do que a Doutrina Espíri- ta. e não podemos entender como os espíritas continuam a endeusar os médiuns. o médium. a indivíduos então considerados es- peciais. entenden- do e praticando o Espiritismo. de Kardec. consequentemente. seria ter que recomeçar em condições mais difíceis. como fonte de inspiração. a mensagem é expres- sa através do trabalho do indivíduo que. a maioria estava firme 11 . Lembrando Herculano. “Santinhos” de médiuns devem deixar de existir na casa espírita. o escritor Wilson chama a aten- ção para a necessidade de encararmos a mediunidade como fato natural. Wilson demonstra a importância que Herculano dava ao fenômeno mediúnico. Raros médiuns conseguem. é apenas um instrumento de trabalho do mundo espiritual e não deve receber curvaturas e honrarias dedicadas. bastaria lembrar as palavras do livro ''A Gênese”. inclusive a estática. resistir à vaidade. Wilson explica a im- portância da mediunidade. Já é hora de uma mudança nesse sentido. provocando-lhes quedas terríveis. aparentemente. sem espíritos. que explica: “a mediunidade é para o mundo dos Espíritos o que o telescópio é para o mundo das estrelas e o microscópio para o mundo do infinitamente pequeno”. Wilson Garcia Interpretando o pensamento de Herculano sobre o fe- nômeno mediúnico. Se- ria realmente o fim de nossas possibilidades de apagarmos um passado de incompreensão do Cristianismo. Vida e Comunicação”. E pensar que alguns espíritas desavisados e ignorantes da Doutrina dos Espíritos tentaram criar o Espiritismo ateu. Felizmente. sem Jesus. exposto pelo professor no seu livro “Mediunidade. sem preces e sem Evangelho. como diria o professor. não é médium.

clareza e lógica”. Kardec é Razão na com­preensão da importância de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e dos livros básicos da Doutrina Espírita. Wilson analisa com propriedade o fato de o Espiritismo ser Religião: “uma Religião cuja base moral é o Cristianismo do Cristo. explica Herculano. porém. Wilson interpreta com propriedade o pensamento de Herculano sobre a mediunidade das crianças e a impossi- bilidade do fenômeno mediúnico nos animais irracionais. “A Medicina Espírita não é uma aplicação pura e simples da mediunidade curadora . Wilson compreendeu bem o pensamento de Herculano na apresentação da Religião Espírita. que não frequenta uma casa espírita. Todos os dons.”... Herculano apresenta o triângulo divino de Emmanuel. é uma aplicação dos princípios espíritas no plano cultural”. mas não apenas orgânica. O médium deve. são do espírito. porque depende em sua expressão do físico do reencarna- do. lembra Wilson. o desenvolvimento moral. Wilson compre- ende Herculano e lembra a explicação do professor sobre o perigo que o médium solitário. como interpreta Wil- son. também. em “O Espírito 12 . Corpo e perispírito são apenas instrumentos de trabalho. O problema do auxílio do corpo na expressão do encar- nado e portanto do indivíduo dependente do corpo para sua expressão na Terra é bem lembrado por Wilson. pois pode expressar-se “como um barco à deriva”. A me- diunidade é faculdade. estar inse- rido na sociedade. Entendendo bem a Doutrina Espírita. humildemente colocando-se como instrumento do mundo espiritual corre. como diria Paulo de Tarso. Com a mesma propriedade é apresentado o problema da cura na casa espírita. o homem integral. e diz Wil- son: “o pensamento (de Herculano) aparece aí com todo o seu conteúdo.. como Wilson consegue apreender no trabalho de Herculano Pires. que deve visar..

desse homem especial que foi José Herculano Pires... desse exemplificador da vivência espírita. meu querido pai na última encarnação. Wilson Garcia e o Tempo”: ciência. Wilson analisa ainda o pensamento de Herculano sobre a misericórdia e amor da Inteligência Suprema do Univer- so. na visão lúcida de Wilson Garcia. Uma bela homenagem. sobre o “Mistério do ser ante a dor e a morte” e sobre outros aspectos importantes da obra de José Hercu- lano Pires. Heloisa Pires São Paulo. a quem tanto fez pela compreensão da Doutrina Espírita. 27/09 /97. Mas bem que gostaria. Wilson. no meu entusiasmo. os três aspectos do Espiritismo. filosofia e religião. produziu um livro que facilitará o trabalho dos ex- positores espíritas. facilitando a coletânea das conclusões importantes desse grande autor de obras espíritas e não espíritas. escrever um livro inter- pretando Wilson interpretando Herculano. O pensamento de Herculano. 13 . Não posso. Deus. Parabéns.

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Indo à bibliografia o leitor ficará sabendo o título da obra e me perdoará. de uma interpretação livre do pensamento de Herculano Pires. Desde já. Her- culano Pires. Cumpro. tive um objetivo claro: facilitar ao estudioso do Espiritismo o acesso ao pensamento de J. só elas. tenho certeza. a indicação da obra em que foi localizada. utilizei nada menos de 252. em romanos. fica o leitor infor- mado de que este livro não tem nenhuma intenção de ser bibliográfico e muito menos biográfico. que nos últimos tempos me vinha tomando de assalto com insistên- cia. O leitor perceberá. colhido em boa parte das obras que escreveu. po- dendo. de imediato. Ao final de cada trans- crição aparece. Wilson Garcia EXPLICAÇÃO Ao preparar este livro. Trata-se. um belo volume de mais 100 páginas. 15 . por não dar a página exata em que está inserido. pois. que o pensamento de Herculano Pires aparece com recuo e em tipos itálicos. desejando permitir ao interessado localizar rapida- mente os textos do professor. É simples a razão: dos mais de 260 textos que selecionei. Para maior tranquilidade ainda. apenas. incluí ao final do livro um “índice por assunto dos pensamentos de Herculano Pires”. um antigo desejo. pela importância que tem para a compreensão da Doutrina. As transcrições dariam. com isso. ser lido com facilidade.

Kardec é Razão Para esta edição especial de comemoração do Centenário de Nascimento de J. procurei dar mais cla- reza aos trechos obscuros. contudo. de modo a ajustá-lo à realidade atual. Promovi a eliminação de conceitos equivocados. mantive todos os textos colhidos nas obras de Herculano Pires e. O Autor 16 . inclusive. mantive a mesma bibliografia da primeira edição. Herculano Pires fiz uma revisão geral do texto.

e seu desafio é retirar das águas profundas da doutrina o conhecimento. Mas as palavras do professor. Nisto. Herculano. O professor está integrado com Kardec. lidas assim em separado. onde sobressaiu a filosofia kardeciana. o professor! Estudar com o professor significa conhecer o mestre e sua doutrina. que se estendia para além dos horizontes das obras da Codificação e al- cançava a cultura do mundo. Dos textos de sua extensa obra aflora um pensamento universal. Seu pensamento era universal. poucos conseguiram tanto sucesso quanto Herculano. interpre- tá-lo e oferecê-lo aos alunos. sem limites. Wilson Garcia ABRINDO O DIÁLOGO Kardec é o mestre. porque poucos estiveram tão integrados à matéria espírita quanto este professor. O professor compreendia a Doutrina Espírita como um conhecimento sem fronteiras. adquirido ao longo de intensos estudos da cultura do mun- do. que motivou sua vida inteira e que fez dele um baluarte do ideal dos Espíritos Su- periores. A doutrina está entranhada na história da humanida- de. Por isso. costumam enganar os alunos desatentos e levá-los a interpretações equivocadas. toma-se preciso exigir do aluno atenção. Não se pode – fez questão de afirmar – entender o Espiritismo na atualidade apenas nos livros Kardec. que ditaram a Codificação. como o é o da Doutrina. está conjugada com a cultura geral. muita 17 .

que Herculano considerou um precursor da Doutrina Espírita. agiremos como a preguiça. a fim de enxergar à distância incomensurável. mas desperta. tomá-lo-emos empresta- dos ao lince. com relação aos olhos. Vamos pas- sar por seus estudos e pensamentos de uma forma calma. doravante. mas tem esperança de chegar ao seu desti- no. que se move lenta e pesadamente. tomá- -lo-emos de René Descartes. à aula!   18 . Quanto ao bom-senso. de que também precisamos. Porém. Vamos. pois. Kardec é Razão atenção! É o que procuraremos ter.

ingredientes. Quem tem um ideal e o ama de fato sabe o que se passa na alma de um idealista. enfim. Mais tarde. Foi a experiência no plano do inte- lecto. outra passiva. aproveitou as brechas de uma legislação huma- na falha e amasiou-se com ela. que costumam assentar as bases de uma dignidade perfeita. porém. mas indiscutivel- 19 . dessas amizades que costumam causar inveja aos amigos e ciúmes à família. Herculano mostra. como esta dele. A cumplicidade desses dois casais de um só amante também se passou em planos bem distintos. a família foi-lhe uma realização no plano das experiências terrenas. Uma humana e exigente. de enfrentar os gra- ves problemas do conhecimento. uma amizade profunda com a Doutrina Espírita. enquanto que a convivência com dona Doutrina resolveria a necessidade do homem. quando conheceu dona Doutrina. Esposas diferentes para compromissos distintos. em todo o seu pensamento. vivendo por muitas décadas uma bigamia saudável. Wilson Garcia Capítulo 1 UMA VISÃO CIENTÍFICA DO ESPIRITISMO O professor é um idealista. O profes- sor casou-se com dona Virgínia para cumprir um destino previamente traçado. Dona Virgínia deveria cumprir o papel humano da esposa diante dos problemas da vida. Herculano precisava da Doutrina. como esta dele. Ele precisava da família. da cultura.

dentro de uma expectativa grandiosa de futuro para o con- junto de conhecimentos que o arrebatara. 20 . Considerou-se simples organizador desses conhecimen- tos. (XXX) Kardec nasceu com a Doutrina. em Pa- ris. Kardec é Razão mente viril. o apóstolo de Kardec”. deixou-as. deixou o pensa- mento imortalizado nas páginas de uma obra que não tem preço. que quando a morte deseducada tomou-lhe o corpo e o levou para a sepultura. da segunda viúva. portanto. Herculano Pires. então. Falemos. quis. ambas. apenas. Criara termos no- vos para definir a Doutrina e desejou que o seu responsável fosse também um nome novo no meio literário mundial. sem precisar ligá-las a sua figura. Denizard foi buscar na his- tória um nome para substituir aquele que trazia do berço. Denizard Hippolyte Léon Rivail. pois. desoladas. para a segunda viúva. escrita por Jorge Rizzini. Para a pri- meira. ficou uma parca pensão previdenciária e todas as saudades do mundo. mas impressa nas oficinas do editor Didier e exposta ao público na sua livraria. Sua certidão de nascimento não foi passada em cartório. Cada cidadão que adquiria um volume da nova obra. to- mava conhecimento da existência de um novo es- critor que surgia do longínquo passado gaulês: o sacerdote druida Allan Kardec. garantir ao leitor a procedência deles. A biografia “J. Chamava-se. da primeira cuida- rá melhor o seu atrasado biógrafo!1 Allan Kardec nasceu a 18 de abril de 1857. a fim de que os homens pudessem apreciar com maior liber- dade as novas ideias. foi publicada. bas- tante conhecida. Her- 1 A primeira edição deste “Kardec é Razão” foi publicada em 1998. então reintegrado na vida moderna da antiga e misteriosa pátria. em 2002. Amou-as tanto e com tal zelo. o professor.

essa posição não apenas ética do mestre. sem presente nem passado. Isso revela sua ligação com to- dos os ramos do conhecimento conhecidos e por conhecer. retira os ingredientes para sua sobrevivên- cia. Mas todo organismo tem suas artérias principais e as menores. de imediato. nada mais! Mas Herculano o vê nas gálias e a além delas. O professor seleciona-as e não se importa com as especialidades de cada uma delas. uma carga cultural que pudesse servir. de respeito à origem espiritual dos conhecimentos. onde os próprios pesquisadores afeitos ao terreno costumam andar 21 . inteligente e sábio. desenvolve com ele uma afinidade tão íntima a ponto de lançar-se com força em sua vasta obra e seguir todos os fios que dela partem. acima de tudo. mas. universal. O nome Allan Kardec surgi- ra. mas é. ou melhor. É preciso um esforço sobre-humano para alcançar todos os campos onde a Doutrina vai desembocar e de onde. ao mesmo tempo. aquela que explica a vida e o mundo em todos os setores. esses fios: a Doutrina é um organismo vivo. Herculano se conduz como um aluno diante do mestre. a fim de conhecer as milhares de ligações que a doutrina mantém com a cultura do mundo. no mais fundo de sua alma. na verdade. não tinha. Em meio a esse corpo fantástico. antes de internar-se nelas. com ideias próprias e projeção social inquestionável. Wilson Garcia culano compreendeu. aos olhos do mundo. o conhecimento básico para entendê-las. Sente-o. cujo coração é a verdade cósmica. de razão para condenação de qualquer par- te da Doutrina. São milhares de milhões. E assume esse papel com sincera compreensão: vai à ciência. o professor. de fato. dinâmico. e com tal envergadura intelectual e moral que empreende grandes es- forços para mostrá-lo ao mundo. importa-se e de tal forma que procura adquirir. aos futuros críticos. portanto. um professor junto ao sábio. Kardec era só um nome. Denizard era um conhecido pedagogo.

Eis porque o mestre reponta sempre de sua pena como o homem que esteve à frente de seu tempo. O professor entende isso com precisão. é outra. O professor é um seu representante legítimo. também. Transita aí de um espaço a outro. ou mesmo perder-se. como ao crítico preconceituoso. dizer: A figura de Kardec continua suspensa sobre o pa- norama cientifico atual como orientador indispen- sável dos novos caminhos do conhecimento) na rota cósmica das constelações. Longe de assustar-se. e aí constrói sua 22 . simbolizado no triângulo emanuelino. E não pode ficar mudo diante desta realidade. por causa do fluxo e refluxo da maré cultural. A verdade. En- quanto a maioria se apega a este ou aquele ângulo doutriná- rio. de suas pro- fundezas. que a fala do professor deixa escapar uma ponta de fanatismo ou. Kardec foi filho de todos os séculos. um tipo de ser ainda raro. no terreno científico. Victor Hugo contentava-se em ser filho do seu século. onde. ao estudioso principiante. um certo conteúdo ob- sessivo. na Terra. Herculano navega nas águas da cultura mas. os passados e os futuros. Essa forma de agir é própria do homem universal. sobrepor-se à cultura de sua época e enxergar além do horizonte que sua carga cultural permite. para. está a síntese do conhecimento do mundo. com o prin- cipal objetivo de acompanhar seus avanços e demonstrar como e porque o Espiritismo nele se embasa e dele retira a comprovação de suas teses. Kardec é Razão com imensos cuidados. Herculano o enfrenta com coragem. com a desenvoltura de quem devera ter-se preparado anos a fio. para ele. vem dar sempre na praia espírita. (X) Pode parecer. e sente-se em sua própria terra. a mes- ma precisão que entende seja passada a seus alunos. quem sabe. para que possam. contudo. capaz de comportar-se segundo a vi- são ampla que possui do mundo.

23 . a pouca distância da Serra do Mar. parte de uma cons- tatação inequívoca: os conhecimentos por ele codificados e interpretados continuam antecipando um futuro do qual ainda está distante a ciência de hoje. pela filosofia e pela religião. entre as suas grandes iniciativas. o enjeitado”. Mário Graciotti2 perguntou: De que distâncias. cujo talento foi reconhe- cido pelas mais altas figuras da intelectualidade brasileira. num texto belíssimo e ao mesmo tempo cheio de admiração pela figura generosa e admirável de Herculano Pires: De um bairro simples do nosso amado Planalto Paulista. inúmeras obras. onde editou e publicou. Escri- tor de obras reconhecidas pela crítica e pelo público. Ao deixar isto claro. e sua estrada é a rota cósmica das constelações. Herculano viaja pela ciência. de que regiões. filosofo Herculano Pires? (V) O mesmo Graciotti responde. não é fanático nem está sob pressões externas insuportáveis. que se chama Vila Clementino. o poeta. Herculano Pires. Wilson Garcia cátedra. plenamente consciente de que o homem não per- tence senão a si mesmo. entre elas o livro “Barrabás. Surpreendido com o monumento cultural que tinha diante de si. ouvimos a insistente voz de Herculano Pires. Herculano põe em jogo todo o peso de sua respeitada condi- ção de filósofo e escritor premiado. Não diríamos “voz profé- 2 Mario Graciotti foi uma das maiores expressões intelectuais do país. criou em 1943 o “Clube do Livro”. O professor não faz afirmações a esmo. que se instalou na engrenagem somática de um dos mais curiosos fenômenos inte- lectuais do Brasil nascente. a preços acessíveis. o primeiro a funcionar no País. de J. o jornalista. Quando afirma que a “figura de Kardec continua suspen- sa sobre o panorama científico atual”. o escritor. de que épocas virá esse espírito.

a suprema razão das ra- zões supremas! (V) A PARAPSICOLOGIA DE RHINE O entusiasmo do professor com o avanço dos conheci- mentos científicos no campo da metafísica era evidente. que nos afastemos das gambiarras mistificadoras das falsas luzes. fala. especialmente porque esse avanço. mas sustentou-se neste terreno por muito mais tempo que talvez tenha pretendido. que procuremos. que o povo não sabe distinguir dos investigado- res e dos estudiosos honestos. que fala. cuja função básica era utilizar esses estudos para denegrir 24 . quando Joseph Banks Rhine e sua esposa apresentaram ao mundo a Parapsicologia. con- tribuía para assentar. É uma voz humana. pelos caminhos situados além da impotente Física. extra- ordinário trabalhador da Metafísica. Ele se lançou aí. que em nome de teses amputadas pretendem desorientar as nossas almas. ainda mais. inteligência e compreensão. ao tempo em que des- dobrava a Metapsíquica do professor Charles Richet. que analisemos os fenômenos da psicologia e da parapsicologia. (I) Entre os que se infiltraram no seio da Parapsicologia estava um grupo de padres espertos e mal intencionados. Kardec é Razão tica” para que a poeira das estradas materiais não contamine a quimera desse estranho. em vir- tude daquilo que ele mesmo denunciou: A Parapsicologia tem sido vítima desses aventurei- ros. o Espiritismo. há 30 anos! Que deseja Herculano Pires com a sua sin- cera e notável obra? Simplesmente isto: que nos debrucemos sobre nós mesmos. compro- vando suas teses. que ouçamos as vozes eternas e imutáveis da Carida- de e do Amor. com grande esperança. seguidamente. impregnada de bondade. fértil.

sempre – e não porque o desejasse o professor. combatia com veemência a má informação difundida por parapsicólogos de batina. no Brasil. a seguir. pois lhes cabe a ingente tarefa de manter o rumo através do esclarecimento objetivo dos fatos. um pilar na divul- gação. O professor se insurgiu contra essa turba de enganadores e tornou-se. Quando os padres surgiram. 25 . perplexo. de ordem psíquica e psicofisiológica. utilizando- -se da mídia e fazendo afirmações mentirosas que pareciam explicar os fenômenos espíritas e atirá-los ao chão gelado. Antes. É neste instante que se desco- bre a importância de lideranças preparadas. estudou com profundidade o assunto para. com toda a força que o clero ainda dispõe em nossa pátria. mas também de certa forma incapacitado de compreender a posição e os preceitos parapsicológicos. Herculano demonstrava objetivamente os pontos em que aquela dis- ciplina tocava no Espiritismo. (I) Esta atitude teve o condão de reequilibrar o movimento espírita. É curioso verificar como basta uma simples hipótese para ti- rar do rumo movimentos sociais bem assentados. explicá-lo com precisão ao povo. enquanto aqui viveu. alvoroçado com notícias de- sabonadoras. Parapsicologia é o processo científico de investiga- ção dos fenômenos naturais. De um lado. esta liderança inconteste. es- pecialmente no meio doutrinário espírita. Dessa demonstração ficou evidente. O professor saiu. importantes e necessárias. naturalmente. Wilson Garcia o Espiritismo. numa ação de quem destrói todo um edifício bem constru- ído. Herculano foi. da verdadeira ciência parapsicológica. a campo. o movimento espírita agitou-se. Ao mesmo tempo que lhe oferecia meios de atu- alizar-se e compreender o avanço científico. es- clarecia o meio doutrinário. como é o caso do movimento espírita. Ao mesmo tem- po. Herculano cumpria funções aí bem claras. então.

a continuidade do trabalho científico. Kardec é Razão mas. também. é apenas uma questão de tempo. Esta visão o levava. para proteger o pesquisador e. para que rea- lizem o trabalho e esgotem todas as hipóteses. então. a 26 . de Richet. Herculano. que avançou e. portanto. aceitan- do as teses espíritas. podiam prosseguir no seu objetivo in- glório. O professor diria. porque era a verdade – que em nenhum ponto a Parapsicologia contrariava o Espiritismo. naquilo em que pudera avançar. Produz sobre o meio físico efeitos inexplicáveis por qual- quer fator ou energia conhecidos pela Física”. que. avançava em conclusões contrárias à verdade clara para o Espiritismo ou. despertando suspeitas daqueles que. sabia-o. porém. e Kardec. que à ciência e seus representantes é preciso conceder o tempo e o espaço ne- cessário. que tudo converge para a comprovação dos fatos espíritas. Antes. Os padres e mais aqueles que. assume a atitude compreensiva do homem experimentado. enquanto este- ve o seu chefe vivo. com sua metodologia. aparentava ser demasiado lento no seu trabalho. a compreender a posição do pesquisador honesto. Isso. segundo sua realidade materialista. O exemplo da Metapsíquica. acima de tudo. a eles se ligavam. a nova ciência confirmava a feno- menologia doutrinária. no fundo. a Pa- rapsicologia caminhava lentamente e tinha. Por força das circunstâncias. como quem demonstra novamente o que já houvera sido demonstrado: A conclusão de Rhine é decisiva: “A mente possui uma força capaz de agir sobre a matéria. inclusive. a Doutrina Espírita tem tudo a ganhar com as pesquisas científicas. às ve- zes. Sabe ele. desejavam vê-los confirmando-as rapi- damente. mas entende. então. mui- to o que progredir para atingir tudo aquilo que a Doutrina Espírita já havia estudado. (I) Para o professor. confirmado. comprovou em tudo o que trabalhou. devido à sua carga do passa- do.

a síntese fundamental. A Parapsicologia comprova os fatos que o Espiritismo apresenta como ver- dadeiros. ou seja. por ser de grande valor para as teses espíritas e a sociedade. para. vai ocorrer na era pós-Rhine3. de fato. mas que. Daí. Entende que o silêncio da Metapsíquica. acusarmos os parapsicólogos de medrosos por avançarem vagarosamente. consta que desapareceram todos os arquivos das pes- quisas de Rhine. afirmar: Não é justo. em si. (I) Para a síntese do conhecimento humano que é o Espiri- tismo. quando os toma para análi- se. deve-se apoiá-la. nem os acusarmos de temerários quando arriscam inter- pretações como a extrafísica de Rhine ou a mate- rialista de Vasiliev. Esta posição defendida por boa parte da comunidade 3 Infelizmente. a sua inércia e morte após a passagem de Richet. Wilson Garcia Doutrina de Kardec. em meio a tantas especialidades científicas. mas como o membro de um corpo maior. retornar à unidade. pois. onde ele trabalhou durante mui- tos anos. o que significa que as pesquisas realizadas no passado não são aceitas como prova defini- tiva. é por demais evidente para o profes- sor. pode ocorrer e. através de inú- meras pesquisas bem fundamentadas. Tudo parte da unidade para a diversidade. O professor não a vê como um corpo isola- do. enquanto ela está viva. estudando-a e difundindo-a. mas a comunidade científica ainda os desdenha e. para alcançar o conhecimento em sua amplitude possível. entende que os métodos e os instrumentos de pesquisa precisam ser atualizados. na Duke University. Sua visão vai além das fron- teiras que dividem o saber. depois. a presença da Parapsicologia ocorre como um apoio indispensável. O Espiritismo já os comprovou. Essa visão fi- losófica é. 27 .

não existe. ou um grupo de pesquisadores. desdobrada. para afirmar que a ciência espírita é uma balela. estudando e analisando os fenômenos de ordem psíquica e psicofisio- lógica. para o professor. por certo. ou seja. Na visão de Herculano Pires: A ciência espírita é um organismo vivo. estudados. Herculano estuda a trajetória histórica do problema científico em re- lação à Doutrina. de um punhado de homens sérios e detentores dos mais elevados títulos. a compreensão dos curio- sos e o sentimento de gratidão dos espíritas de hoje. embora tenha havido uma baixa de interesse e trabalho nessa área. fenômeno perfeitamente explicável pela falta de homens dispostos a uma ação científica aí. no silêncio de sua solidão. A ci- ência parapsicológica é. como William Crookes e outros. entre os quais existem aqueles que se deixam embalar nas águas dos negadores do valor daquelas experiências. de pronto. os fenômenos de sua alçada vêm sendo. com mais ou menos intensidade. Seus olhos atentos loca- lizam nesse espaço de tempo a diversidade na unidade e as 28 . estruturada em leis psicológicas. daí ser preciso superá-la. (IX) Onde quer que haja um pesquisador isolado. embora isoladas. Kardec é Razão científica causa um certo desconforto à Doutrina. de nature- za conceptual. Desde Kardec. entende que a ciência espírita nunca esteve completamente paralisada. aí. em princípios espirituais e racionais. especial- mente à sua expansão. estimulan- do aqueles que retomaram as pesquisas e exaustivamente analisam os fenômenos psíquicos e psicofisiológicos. ocupando um espaço público impor- tante. descobrindo que. a própria ciência espírita. da mesma forma que o era a ciência metapsíquica e as demais pesquisas. O professor olha para essas pesquisas e entende. estará se desenvolvendo a ciência espí- rita. que elas exigem o respeito dos estudiosos sérios e honestos. que deu forma e método à ciência espí- rita.

Eram elas que intervinham e provocavam os fenômenos. inclusive. os fenômenos psí- quicos e psicofisiológicos não ofereciam preocupação cien- tífica e jamais foram objeto de pesquisa metodológica. contro- lando suas manifestações e eliminando. desdobrou-se em outras coordenadas e deu nascimento a outras ci- ências. acompanha- da de renovações metodológicas. as possibilidades de interferência estranha. Quem deu esta direção a es- ses fenômenos foi o Espiritismo. que. para. mas simples diversificação das ex- periências em várias áreas culturais. Wilson Garcia direções tomadas pelas experiências. Eis como. aci- ma. então. de uma forma ou de outra. de fato. contém em si a visão de que a ciência espírita não se restringe. de forças outras. para o professor. de médiuns e assistentes e. aos fenômenos psíquicos e psicofísicos. por trás daqueles fenômenos estavam. o processo de análise racional. A ciência espírita projetou-se em direções diversas. enfático: A verdade é que não houve solução de continuidade na investigação. mas desdobra-se em todas as outras especialidades científi- cas. (IX) Até o aparecimento do Espiritismo. 29 . com Kardec. inteligências de personalidades fora do contexto visível da humanidade. apenas. aos quais resistiu intensamente. Apare- ceu quando Kardec imprimiu ao fenômeno das mesas giran- tes. paulatinamente. por isso. E ela surgiu até antes da formulação doutrinária. uma re- alidade inegável. E esclarece a questão dizendo. Daí a existên- cia real da ciência espírita. sendo. fazendo repetir os fatos cansativas vezes. con- cluir que. a ciência espírita antecedeu até a própria doutrina. E a projeção a que alude o professor. para conhecimento de suas causas. têm no ser humano um ponto de convergência.

uma posição unitária. A revelação da existência de uma população oculta ou invisível constitui uma das contribuições mais valiosas que a Doutrina apresenta com inequívoca originalidade. Quem viu isso com mais clareza. posteriormente reunidos no livro “Popoli Primitivi e Manifestazioni Super- normali” representam uma das mais poderosas contribuições para o esclarecimento histórico do problema espírita. os cientistas ainda não percebiam a sua total ignorância da estrutura real do planeta. de fato. O que poderia ser visto como uma posição contro- vertida e fanática. O grande discípulo italiano de Herbert Spen- cer. As ciências sociais têm uma grande contribuição a dar ao estudo do Espiritismo. uma vez atraído para o cam- po dos estudos espíritas. a doutrina pos- sibilita outras inúmeras descobertas aos interessados nas pesquisas científicas. soube aplicar a este o co- nhecimento adquirido em outros campos. segundo nos parece. de suas várias dimensões físicas e de sua população oculta. (X) Essa realidade foi mostrada pela primeira vez pelo Espi- ritismo. Ao abrir as portas do mundo invisível. foi Ernesto Boz- zano. publicados na revista milanesa “Luce e Ombra” em 1926. uma visão científica do Es- piritismo. Seus tra- balhos sobre as manifestações supranormais entre os povos selvagens. Herculano tem um uma pos- 30 . é. como se vê. (VIII) O professor tem. Kardec é Razão Em meados do século XIX às portas do grande avanço científico do Século XX. construí- da a partir da análise dos diversos campos do conhecimento nos quais toca o Espiritismo. profundamente ligado ao desenvolvimento dos estudos sociológicos. in- formação esta de inestimável valor e que possui implicação direta com a sociedade humana do planeta.

que preferem endereçar suas contribuições para as obras assistenciais. mas. a entender o conhecimento como uma tese de toda a manifestação cultural do mundo. só conseguem vê-la em obras assistenciais. que leva o estudioso dos fatos às causas e. Se a ciência espírita não se desenvolve entre nós. a culpa é exclusivamente dos homens de recursos. infelizmente. Para que isso possa ser modificado será preciso que os homens de posse perce- bam a importância de uma delas: a caridade cultural. Como professor. utiliza-se do método indutivo. ca- rente de atenção tanto quanto os outros tipos de caridade e onde o apoio é tão ou mais importante. mas. o professor dirige sua análise especialmente para os espíritas que poderiam dar grandes contribuições à cul- tura. (Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. e complementa esse método com o objetivo pelo qual. movidos pelo sentimento admirá- vel da caridade. do ponto de vista da Dou- trina Espírita. diante da incapacida- de momentânea do aluno.) 31 . 4 Dialética: arte de raciocinar. não conseguem preparar o Ser para sua função importante no mundo. que mitigam a fome. seu objetivo é passar isso para o alu- no. explicando-os. sem o amparo da cultura. aliada a uma capacidade ad- mirável de enxergar essa espécie de fio de Ariadne. bem como aquele modo de filosofar que busca a verdade por meio de oposição e reconciliação das contradições. Para tanto. estimulando o aluno a avançar e descobrir por si mesmo. apresenta os fatos em sua forma concreta. (X) Aqui. Wilson Garcia tura dialética4 o tempo todo. com os olhos voltados para a conquista de um pedaço de céu depois da morte. argumentar ou discutir. solucionam o problema do frio.

Respondem por essa situação precária da Ciência Espírita todos os que preferem os juros bancários ao desenvolvimen- to cultural. Herculano viu isso com tamanha nitidez que procurou. não po- dendo dar o dinheiro por não possuí-lo. apesar da passividade dos que não con- seguem alcançar a importância da cultura. ao mesmo tempo. esquecidos. mas. um fato inconteste e preocupante. tanto hoje quanto ontem. (XXII) A necessidade de formar e esclarecer homens é uma ta- refa do Espiritismo. (X) A questão atingiu um ponto muito sério. por aqueles que “dão seu tempo. E constata o professor aquilo que ainda hoje é visível: os “serviços cul- turais” prosseguem sendo sustentados. com a produção de obras espúrias a serviço da mistificação. Os homens aperfei- çoam sua cultura pelas conquistas dos mais aptos e esclarecidos. procuram adaptar a maioria menos apta às novas condições de vida que vão surgindo. em boa parte. a existência de instituições espíri- tas cujos dirigentes dão grande ênfase à caridade ao mesmo tempo em que juntam dinheiro em contas bancárias. sua vida e seu sangue''. aqui apontado por Herculano. Kardec é Razão Os serviços culturais continuam à míngua. de que a cultura espírita precisa de apoio. qual seja. Gastam- -se vultosas somas na publicação de obras desnecessárias e nega-se apoio a outras doutrinariamente importantes. em aplicações financeiras em busca dos juros. sua vida e seu sangue para a sustentação da cultura espíri- ta. susten- tados apenas pelos que dão seu tempo. A questão da exis- tência e propagação de “obras espúrias” é. 32 . Certas instituições gastam os seus recursos em aviltamento da doutrina. po- rém. O processo civilizador é um esforço contínuo de aperfeiçoamento e adaptação. talvez. O ímpeto dos vanguar- deiros é contido pela inércia da massa. em tempo integral.

Numa nação nova como a nossa. (XIXIXI) Herculano. ponti- lhada aqui e ali de pequenas ilhas culturais. É o que podemos chamar “preconceito cultural”. Como veremos a seguir. e sabe que ele deve atendido de acordo com sua ca- pacidade potencial. de caírem no ridículo perante os seus colegas do exterior. com imensa massa de analfabetos. Existe um tipo especial de preconceito que dificulta a compreensão do Espiritismo em nosso país. para o professor. É por isso que a Educação Espírita se torna. uma outra paixão. conhece a realidade do edu- cando. sem tradição cultural su- ficiente. é gran- de o receio dos intelectuais. como educador. Wilson Garcia fazer notar àqueles que o estudavam a necessidade de se aliarem para essa luta.   33 .

Kardec é Razão 34 .

Ser professor. deixados de lado no dia-a-dia. o jornalista. professor. acima de tudo. Wilson Garcia Capítulo 2 A EDUCAÇÃO DO CONHECIMENTO E DA MORAL O professor é. ficar relegados ao currículo. Em casa. Kardec. o Cristo. na tribuna. O professor tem um mestre. no entanto. Assim. um predicado superior. porque a alma do jornalista é o professor. nas conversas normais do cotidiano. O professor. junto aos colegas. a discorrer sobre temas da vida e diante dos amigos. que tem um mestre. diante da esposa e filhos. Todos os demais títulos podem ser es- quecidos. Mesmo quando exerce suas outras especialidades – é ele jornalista.. na condição de romancista. não se desliga do professor. jamais desce da cátedra onde que vá. na redação do jornal.. escritor e poeta – vibra em seu peito a alma do professor. Esse termo tem sua mística. que tem sempre diante de si a figura do aluno e o desafio de educá-lo. filósofo. Mais do que o definidor de uma especialidade. poeta ou ou- tra qualquer. Nessa sucessão se chega ao 35 . Herculano é o professor seja quando leciona ou quando filosofa. professor é um título de nobreza. significa ser deten- tor de uma conquista realizada ao longo de suas múltiplas existências. no exercício de sua função. neste caso. que tem um mestre.

como jamais o foram em todos os tempos. (III) 36 . ambos fundamentais para o relacionamento com o educando? O professor a encontra na Doutrina Espírita. o professor passa à cátedra. O Ser e o Mundo são racionalmen- te explicados aí. assim. sempre. Assim. sem. a Doutrina Espírita. Há uma lógica filosófica interligando os fatos. formando a base do seu ensino. Herculano tem uma visão do aluno que nasce do conhecimento de si mesmo. Onde está a senha que permite “decifrar o enigma do ser” e do mundo. no entanto. Kardec é Razão mestre dos mestres. o professor descer às minúcias do Ser e do Mundo. Após dominar a Doutrina Espírita. de cada educando. como um peso intransportável. Explica-se. Deus. Porque conhecer-se a si mesmo é o primeiro passo do co- nhecimento do ser humano. Tudo isto se transforma em exemplo palpável para o aluno aplicado. uma ciência comprovando-os e uma concepção moral indiscutível em tudo. porque Herculano faz de Kardec o seu mestre. deixar- -se ficar aí. descobrindo que: A educação depende do conhecimento menor ou maior que o educador possua de si mesmo. Educar é decifrar o enigma do ser em geral e de cada ser em particular. apren- derá a elevar-se por ser este o seu objetivo e desafio maior. Em sua dialética permanen- te. Sua principal disciplina será o Ser no Mundo e a base do conhecimento do Ser e do Mun- do. por ser a melhor síntese do conhe- cimento humano disponível. Herculano incorpora o título e assume sua cátedra no mundo. Mesmo quando parece falar para si está ensinando. porque o levará a exercitar sua realidade com os pés no chão. (III) O professor ensina. mas sobe também às mais altas cogitações filosóficas quando o momento o indicar.

não no seu fundo. Parte ele. o conduz a entender-se a si mesmo. Quanto mais o professor penetra no Ser. naquilo que pode- mos chamar o Culto do Ser no templo do seu pró- prio ser. o Ser. Herculano coloca esse ponto como de fundamental importância para a boa educação. preferisse permanecer no geral. do destino e da dor. pois que é. pois. então. no desafio permanente de transportar para o dia-a-dia esse co- nhecimento fundamental. enfim. neste instante. pelos caminhos que explicam o problema do Ser. ele próprio. O profes- sor. Herculano centraliza a sua atenção no conhecimento e nos valores morais. na análise da carga cultural que cada Ser carrega. o primeiro passo é decifrar-se. passa por Kardec e sua referência à necessidade do conhecimento das tendências inatas. como forma indis- pensável de sanar as dúvidas que naturalmente surgem. significando. (III) Sem sair ainda do Ser. aqui como em outros inúmeros momentos. A figura de Santo Agostinho. em si mesmo. vale dizer. talvez. para desembocar. para bem educar. remete-o a Sócrates e o seu “conhece-te a ti mesmo”. E afirma: O verdadeiro educador é o que pratica a Religião verdadeira do amor ao próximo. mais se faz professor. ambos passíveis de discussão na sua forma- lidade. por- que. Wilson Garcia A mesma senha que leva o professor a “decifrar o enig- ma” do educando. embora. que não se pode tê-la em sua qualidade mínima sem o “conhecimento do ser humano”. para analisar certas minúcias da educação. A mente do professor passeia. O professor entende que o educa- dor desenvolve uma relação com o aluno que ultrapassa a 37 . mas procurando apontar o con- junto de fatores relevantes para a formação do educador. pre- sente no capítulo das Leis Morais de O Livro dos Espíritos. não suporta o forte desejo de remexer os detalhes.

Há um tipo de educação que Herculano vai valorizar ex- 38 . o mundo onde está inserido o Ser deve receber deste a sua parcela. onde está presente o aluno como representante. no desenvolvimento de seu pensamento. “O Culto do Ser no templo de seu próprio ser” é a afirmação peremptória de que não há educação sem exem- plo. Ou seja. com o Ser no Mundo. que sem esse sentimento será impossível educar. sempre. A educação institu- cional é simples desenvolvimento daquela. Mas. Podemos vê-lo. como quem diz. informar e estimular podem não significar nada se não estiverem acompanhados de um fazer equivalente em qua- lidade. no momento educativo. ao processo natural da Educação Social. de direito e de fato. simultâneos ou sequenciais. a seguir. este objetivo aparece. contrariamente ao que diziam as religiões formalistas. chama a atenção para a prática da “Religião verdadeira”. (III) O professor tem. Ao apontar para as duas vertentes da educação: familiar e ins- titucional. claro: a educação é uma só. Kardec é Razão fronteira da informação e do estímulo. volta- -se para a antiga questão do amor ao próximo. um objetivo a alcançar. e sim. como sua preocupação não está apenas no Ser. na tentativa de inseri-lo no rebanho do imaginário salva- cionista. que começa no “próprio ser” e se desenvolve na vida de relação. A educação familial corresponde a uma fase na- tural do processo educacional. a Educação Espírita dada no lar e nos Centros é válida e pertence. além de tudo. Por essa razão. desenvolvida em diversos momentos. com firmeza. as quais. pois o Ser vive para o mundo. passam a ideia do Ser fora do mundo. da socieda- de maior. numa sequência didática de tra- tamento do assunto. Todos esses detalhes são reforçados pelo professor. Dessa maneira. porém.

E a responsabilidade. e no Centro Espírita. através dos pais. o conhecimento espírita se tornou indispensável para a educação. Uma vez que o homem alcançou uma síntese nova e maravilhosa do conhecimento humano. Wilson Garcia cepcionalmente e com uma razão fortíssima: a Educação Espírita. Mas a própria Educação Espírita pretende ele seja entendida como um processo glo- bal. essa síntese tende a mudar o social a partir das mudanças que realiza no Ser. O pro- fessor não é. Nele brilha o racionalismo cartesiano. O lucro é filho da ilusão e reprodutor desta. porque ninguém está mais preparado para entender a importância do conhecimento espírita do que o líder consciente. Tem ele uma profunda descrença na capacidade da sociedade. jamais. também. não. Afinal. tornou-se uma esperança de renovação da prática educacional. pessimista. portanto. por seus representantes mais expressivos. creia-se. A civilização. E isto se vai ver. Não se pode relegá-la. pergunta: Como ajustar os fins superiores da Educação às exi- gências de uma civilização baseada no lucro? (III) Essa desesperança está para uma visão racional da so- ciedade e. está muito mais nas mãos dos espíritas do que dos outros. com o suporte de uma Pedagogia Espírita. bem como na sua aplicação no segmento familiar. especialmente nos dias atuais. que Kardec utilizou de forma magistral. em que caíram muros e bar- reiras que dividiam o mundo entre capitalistas e socialistas (embora. de utilizar espontanea- mente o Espiritismo como conhecimento. o socialismo como ideal não esteja mor- 39 . Mas a prática do Ser no Mundo o leva a ver com clareza que a civi- lização caminha ainda para o lado. para uma postura pessoal pessimista. pensa Herculano. através de idealistas sinceros. O capitalismo é a prova da ausência de uma visão social evolutiva em linha reta e para frente. Mais do que isso. Para o professor.

Kardec é Razão

to) concentra sua atenção no lucro, e a própria educação está
presa a resultados econômicos, muito mais que a resultados
humanos. O comando da educação está, cada vez mais, na
mão de homens capitalistas, que não entendem e não dese-
jam entender de “fins superiores”. O professor sabe, por ser
do mundo e viver no mundo, que não há compatibilidade à
vista neste terreno. O que não significa, absolutamente, que
a educação não possa ser, aí mesmo, aprimorada. A Edu-
cação Espírita é o grande veio dessa esperança, porque ela
tende a aprimorar o professor, os métodos e os fins, benefi-
ciando o educando. Enquanto isso não acontece, Herculano
luta por conquistas menores mas igualmente importantes.

O que se deve ensinar na escola, para que ela se li-
berte do laicismo a que foi obrigada pela pressão
sectária, não é esta ou aquela religião (denomi-
nação ou seita religiosa) mas a Religião como um
todo, como uma província específica do Conheci-
mento, como um campo cultural que não pode ser
omitido no processo de transmissão da cultura. (III)

O tão decantado laicismo é, para o professor, apenas um
desvio de uma grande trajetória no campo da educação. O
Estado laico é necessário, mas o afastamento da Religião do
currículo escolar, Religião enquanto “província do Conhe-
cimento” e domínio cultural significou e significa enorme
prejuízo ao educando. As religiões oficiais, quando entra-
ram no terreno da educação, pretenderam construir, segun-
do modelos falhos preestabelecidos, o homem. A forma de
tirar de suas rédeas, no mundo ocidental, esse importante
segmento social foi afastando-as das relações com o Estado
(afastamento ainda hoje simplesmente parcial) e estabele-
cendo a laicidade do ensino, que, no Brasil, também teve
sua supressão com a Carta Constitucional de 1988, que per-
mitiu a volta do ensino religioso nas escolas.

40

Wilson Garcia

O professor faz a defesa da Religião sem denominações e
sem fórmulas doutrinárias e dogmáticas. Volta-se ele para
a Religião do espírito, para o Culto do Ser no ser, mas não
o faz simplesmente por uma visão mística ou sentimental,
sequer sectária. Jamais defenderia a Religião Espírita nas
escolas públicas ou particulares, no seu aspecto rotulatório.
A Religião Espírita fica bem, na sua visão, para as escolas e
Universidades espíritas, porque, então, haverá uma defini-
ção clara para a sociedade de que a Doutrina Espírita será
usada como fundamento da instituição. Herculano vê na
Religião “uma província específica do Conhecimento”, que
não pode ser deixada de lado na educação. A laicidade tem
o condão de eliminar a influência perniciosa dessa religião
formalista, mas incorre no prejuízo de impedir o ofereci-
mento de uma parcela importante da cultura. É preciso, en-
tão:

Encarar o educando, segundo propõe Mariotti,
como um ser palingenésico5; determinar os graus
de evolução mental e espiritual em que ele se encon-
tra; testar e comprovar as suas tendências vocacio-
nais; encaminhá-lo aos cursos correspondentes a
essas indicações inatas das suas tarefas nesta en-
carnação; traçar um roteiro de economia vocacio-
nal a ser aplicado nas escolas; estudar o problema
dos estímulos ambientais de Montessori para adap-
tação às novas condições pedagógicas; renovar os

5
Expressão utilizada pelo filósofo argentino Humberto Mariotti que,
em síntese, remete ao ser humano que reencarna muitas vezes no pla-
neta Terra para através das experiências realizar o seu progresso. Es-
sas experiências formam a sua bagagem, a qual deve ser considerada
pela Educação. Mariotti, amigo e admirador de Herculano, é coautor
do livro “Herculano Pires, filósofo e poeta”, onde trata da “filosofia pi-
resniana”. A edição brasileira é do Correio Fraterno, S. B. do Campo, SP.

41

Kardec é Razão

textos escolares de todos os graus de ensino, na
proporção possível, mas com decisiva continuidade
nesse esforço; promover cursos de adaptação dos
professores ao novo sistema; renovar os processos
de administração escolar, estabelecendo o princí-
pio de maior respeito pelas atividades educacionais
dos mestres; desenvolver relações mais íntimas e
constantes entre a escola e o lar – são essas, ao que
nos parece, as medidas a serem tomadas progres-
sivamente. (III)

A proposta que inspira todas essas transformações, Her-
culano foi buscar na síntese do Ser Palingenésico de Mariot-
ti, que, por sua vez, bebeu na mesma fonte de Herculano:
a Doutrina Espírita. A educação está destinada a encarar o
educando como Ser Palingenésico ou, então, não atingirá
o seu objetivo. O Ser Palingenésico não constitui, propria-
mente, uma novidade; o novo aí está na sua formulação,
pelo Espiritismo, pois, até então, nenhuma outra doutrina
o havia proposto em termos objetivos, fornecendo, em con-
sequência, todo o material complementar necessário para
entender o homem.
O Ser Palingenésico altera, profundamente, a compreen-
são do homem. Da criança ao idoso, do jovem ao homem
maduro, tudo se modifica com esta nova visão. Até aqui, o
ontem era nebuloso ou não existia. O Ser Palingenésico tem
um ontem e um amanhã. A educação implica influir, decisi-
vamente, no amanhã, mas para isso precisa considerar a re-
alidade do ontem. Para medir “os graus de evolução mental
e espiritual” e “testar e comprovar tendências vocacionais”
com eficiência é preciso levar em consideração a realidade
do Ser como um ente preexistente. A educação submetida
ao capitalismo tem poucas chances de realizar essa propos-
ta. O professor abraça, então, o importante projeto da Edu-
cação Espírita, vendo-a como única forma de apressar as
transformações. Mas o que é Educação Espírita?

42

O mundo não é mais. Da mesma forma. de sua realidade. A realidade compreende o mun- do e o homem. Quer a Edu- cação Espírita em Escolas e Universidades. Para o homem viver com proveito no mundo. conteúdo este que a Educação Espírita vai desenvolver. A realidade do mundo é um constante desafio para os olhos e para as mentes. nítido. deve saber. o visível. portanto. Herculano mergulha nesse mundo novo e verifica que há influências trocadas entre o invisível e o visível. Para que o mundo não aturda o homem é preciso que o homem saiba o que é o mundo. as influências. Herculano vê o Ser no Mundo e o Espiritismo estuda o Ser. O conhecimento espírita altera substancialmente o entendi- mento do mundo. o Ser não é mais o homem tradicional. aí considerado tudo o que se poder ver. inclusive. já que: Essa expressão pode ser entendida em dois senti- dos: 1o) como uma espécie de formação sectária das crianças e dos jovens. Nada disso pode ser conhecido sem o conhecimento dos princípios espíritas. o mundo e suas influ- ências recíprocas. alteram-se. mas atuante na vida do Ser. filosófica e cientificamente. e apenas. o que ele próprio é e qual o seu destino. O Espiritismo passa. portanto. contudo. também. seu ontem aparece. uma forma de transmissão dos princípios espíritas às novas gerações e portan- 43 . (III) O professor olha o Espiritismo com os olhos da razão e percebe sua ação transformadora. Wilson Garcia É o processo de orientação das novas gerações de acordo com a visão nova que o Espiritismo nos ofe- rece da realidade. estes dois aspectos objetivos. com todo seu acervo cultural. antes de mais nada. pelas lentes dos mi- croscópios. O professor. Alteran- do-se. quer mais. para que ela não fique restrita e sectária. Analisa a cultura do passado e descobre que ela não é uma bagagem amorfa. a ser um conteúdo indispensá- vel à educação.

aliado a um 44 . Centro e federações têm suas atividades restritas a um tempo mínimo. de que os pais espíritas devem obrigar os seus filhos a participar e aceitar os princípios doutrinários. Não! Entretanto. sujeita às interpretações do sectarismo religioso. à semelhança do que se faz nos catecis- mos das igrejas. por de- mais inconcebível. a atividade nos lares. um papel importante. um trabalho de sensibilização. (III) Longe do professor a intenção de passar a ideia. Nas famílias espíritas é dever dos pais iniciar os filhos nos prin- cípios doutrinários desde cedo. Desenvolvem. no plano geral. caminho este possível a boa parte dos Centros Espíritas. onde o en- sino vai ser aplicado segundo técnicas e condições pedagó- gicas capazes de desenvolver os educandos em tempo ide- al. sim. para a criação desse “mundo novo que o Espiritismo está fazendo surgir”. mescladas a um sem número de serviços paralelos. Deseja ele ver a Educação Es- pírita “como um processo de formação universal das novas gerações” e. lares e centros espíritas? Absolutamente! É preciso entrar fundo no pensamento do professor para poder entender o seu alcance. muitas vezes sem continuidade. A falta de compre- ensão doutrinária faz com que certas pessoas pen- sem que as crianças não devem preocupar-se com o assunto. E mais. para este fim tão amplo. Kardec é Razão to um assunto doméstico. federações e centros surge extremamente restrita. (III) Herculano estaria se opondo à educação desenvolvida nas federações. restrito ao lar e às esco- linhas que funcionam nas federações e nos centros espíritas. 2o) como um processo de formação universal das novas gerações para o mundo novo que o Espiritismo está fazendo surgir na Terra. A educação espírita começa no lar. Herculano clama por escolas e Universidades.

mas continua sendo. Entre as reali- zações mortas. de seus discípulos que. Wilson Garcia esforço pessoal para exemplificação dos princípios pode e deve ser feito para que as crianças tenham. em especial: 6 Sobre esse espírita piracicabano. como a reencarnação. especialmente aquelas ideias que não lhes são oferecidas na educação tra- dicional. mais do que os adul- tos. no início do século XX. Herculano lamenta uma. um pequenino esforço. e é. extraordinário para o professor. O processo educativo assim iniciado deverá mostrar que as crianças têm. facilidade para viver as ideias espíritas. a relação com os Espíritos via mediunidade. diante da imensa tarefa da Educação Espírita. contí- nua. SP. leia-se “Vinicius. de Pedro de Camargo (Vinícius)6. S. que lutou bravamente pelo Instituto de Educação Espírita. não muito longe dali. edição Correio Fraterno. no próprio lar. B. alimentam esse ideal. na pequenina cidade mineira de Sacramento. prosseguiram o ideal da Educação Espírita. escrito por Wilson Garcia e Eduardo Carvalho Monteiro. educador de al- mas”. Tudo isto foi. que fez surgir o Colégio Allan Kar- dec. a ação de homens como Eurípedes Barsanulfo. esta se atrasa e. mas sobretudo integral. do Campo. A Educação Espírita não é só permanente. no silêncio de sua solidão por esse Brasil afora. Uma grande maioria de lideranças espíritas não entendeu. portanto. ainda. a im- portância da Educação Espírita. Por isso. em Franca. a iniciação em conhecimentos que lhes vão ser úteis e neces- sários ao longo da vida. no caminho. 45 . a lei de causa e efeito e assim por diante. e de todos aqueles que. (III) Herculano valoriza. dificulta as inúmeras realizações que poderiam melhorar a difusão dos princípios espíritas. em São Paulo.

Kardec é Razão

A revista Educação Espírita7, única no mundo, lan-
çada e sustentada heroicamente pelo Editor Frede-
rico Giannini, saiu de circulação por falta de recur-
sos e de interesse do próprio professorado espírita.
(X)

A Educação Espírita, entende o professor, tem um longo
caminho para se desenvolver, mas conta, já, com a base de
uma Doutrina Espírita filosoficamente definida. Em seus
anos de estudo e práticas, descobriu que a Pedagogia Espí-
rita já existe e está à espera, apenas, de sistematização.

Existe a Pedagogia Espírita na própria estrutura
da Doutrina, mas qualquer sistematização que fi-
zermos não será “a”, mas “uma” Pedagogia Espí-
rita, sujeita a revisões futuras. E poderão surgir
no futuro tantas Pedagogias Espíritas quantas se
fizerem necessárias, de acordo com as diferencia-
ções culturais que ocorrerem em diversos países. A
unidade desses sistemas, entretanto, será garanti-
da pelo modelo inicial e fundamental que permane-
ce nos princípios essenciais da Doutrina. Uma Pe-
dagogia só será espírita se estiver fundada nesses
princípios. (III)

O caminho está, portanto, aberto.

7
Trata-se de uma publicação coordenada pelo professor Herculano Pi-
res, com apoio e sacrifício do editor Frederico Giannini, fundador da
Edicel em São Paulo. A revista não conseguiu superar os primeiros nú-
meros por falta de apoio e leitores, apesar da excelência de sua quali-
dade.

46

Wilson Garcia

Capítulo 3

O CENTRO ESPÍRITA COMO
POINT D'OPITQUE DO MOVIMENTO

O professor pensa e vive o Ser no Mundo e o Centro Es-
pírita é um dos pilares da formação desse novo Ser. Hercu-
lano preocupa-se, portanto, com este Ser. E vai estudá-lo,
bem como vivenciá-lo, para poder compreendê-lo. A posi-
ção de Herculano é, pois, a do pensador e do prático, con-
soante suas próprias formas de compreender o homem e o
mundo. O Centro Espírita é objeto de análise filosófica e de
detalhamento minucioso; aí, entra ele nas particularidades,
descendo ao terreno do dirigente, do frequentador e do co-
laborador; decodifica a Doutrina e explica sua aplicação e
ensino.
Se, como professor, apontou a necessidade de compre-
ender o educando a partir da compreensão de si mesmo,
por extensão aplica ele esta fórmula ao Centro Espírita.
Neste momento, como em tantos outros, Herculano é amo-
roso e compreensivo, enérgico e crítico. Analisa a importân-
cia do Centro Espírita a partir da importância da divulgação
da Doutrina que o sustenta; parte da necessária relação de
fidelidade dos membros do Centro Espírita para com esta
doutrina e alcança a responsabilidade desses mesmos mem-
bros, no presente e no futuro. Entende a íntima relação do

47

Kardec é Razão

Espiritismo com a cultura e, por isso, não abre mão de res-
saltar esse aspecto, seja para orientar ou corrigir. A fórmula
para a construção do bom Centro Espírita é a mesma para
a divulgação doutrinária: um consciente entendimento do
Espiritismo.

O Centro Espírita não é templo nem laboratório – é,
para usarmos a expressão espírita de Victor Hugo:
point d'optique do movimento doutrinário, ou seja,
o seu ponto visual de convergência. (IX)

O professor ensina que o Centro Espírita tem muito mais
importância que qualquer outra instituição criada sob a ins-
piração da doutrina de Kardec. O “ponto visual de conver-
gência” é expressão máxima dessa importância. O Centro
resume em si todas as aspirações doutrinárias; nele come-
çam e terminam as ações que visam levar o Espiritismo
para a sociedade. Tudo o que se pretender em Espiritismo,
a qualidade que se desejar ter no seu ensino e na sua di-
vulgação, no atendimento do ser humano, na prática dos
postulados mediúnicos e assistenciais, tudo há de levar em
consideração a expressão “point d'optique” que Herculano
tomou emprestada de Victor Hugo8. Quando afirma que o
Centro não é templo nem laboratório, o professor reforça
aquilo que ele de fato é e as atenções que sobre ele devem
recair. A qualidade com que o conhecimento da Doutrina
chega à sociedade depende implicitamente do Centro Espí-
rita. A qualidade dos adeptos – e não sua adjetivação de es-

8
Victor Hugo, poeta e romancista francês que adotou o Espiritismo a
partir das famosas experiências mediúnicas realizadas na Ilha de Jer-
sey. A respeito, leia o livro “Victor Hugo espírita”, escrito por Humberto
Mariotti, tradução de Wilson Garcia e edição do Correio Fraterno, S. B.
do Campo, SP.

48

do saber huma- no e objetiva o Ser no Mundo. mais tarde. também. para o fato dessa ignorância do valor e da importância do Centro. está voltado para a seguinte realidade: Um Centro Espírita pequeno e modesto – como na maioria o são – atrai as pessoas realmente in- teressadas no conhecimento doutrinário. uma prática muitas vezes desvirtuada dos preceitos doutri- nários. o “mais importante” de quantos já ocorreram no planeta. Herculano. no entanto. deixa de lado as três para defender a que mais se assenta aos seus olhos de filósofo: “ponto visual de conver- gência”. É cultural porque trata. ele mesmo vai. neste instante. nes- ta cômoda posição. Wilson Garcia pírita – está fundamentalmente nas mãos do Centro. trabalhar o conceito do Centro Espírita na direção da casa de prestação de serviços. porém. no entanto. porque desconhecem. de fato. que funcionam como diques de contenção de seu próprio crescimento e sua multiplicação. para o professor. Entre defensores e críticos. o Espiritismo seria hoje o mais importante movimento cultural e espiritual da Ter- ra. (IX) Assim. mas não um simples e ocasional movimento. O destaque. pronto socorro e escola. o que de fato é o Centro Espírita. Herculano. cria um 49 . E como se não se contentasse com o ficar aí. também. Toda essa reflexão conduz o professor a afirmar: Se os espíritas soubessem o que é o Centro Espírita. o Centro é o agente de um movi- mento cultural e espiritual. Há. é. uma clara noção de que boa parte dos próprios espíritas desconhecem essa importância do Centro. ocasionando. por muito tem- po se postulou no movimento espírita três condições para o Centro: templo. na mente do professor. quais são realmente a sua função e a sua significação.

(IX) O conceito de Centro Espírita. para mostrar que. atendendo e ensinando o Espiritismo. do professor. Aliás. um local pequeno e modes- to permite um bom trabalho. seja um local agradável. o Centro dispensa o misticismo para com o sa- grado. numa garagem vazia ou mes- mo numa dependência de casa familial. para maior e mais livre desenvolvi- mento de seus trabalhos. vai desenvolver as atividades próprias de um Centro Espírita. não sendo possível. ali. 50 . Não se diga que ele vai aí ao extremo. onde todos pos- sam se sentir bem. independentemente de condição social. As objeções contra isso só podem valer quando se trate de casas em que existam motivos impeditivos materiais ou morais. procura destruir o preconceito dos que imaginam cer- tos problemas para o funcionamento em determinados lu- gares. como. também. para que o Centro. mas enquanto isso não for possível pode funcionar com eficiência numa sala cedida ou alugada. com isto. ele próprio vai estabelecer-se numa garagem de sua moradia e. Mas. e. O ideal é o Centro funcionar em sede própria. O professor não des- denha a indicação de Kardec. descontração e serenidade. pelas vantagens que isso representa para as ativi- dades. diferentemente dos templos religiosos. tem um componente essencial: a simplicidade. inclusive. embora destituído de luxo. considera- dos como colaboradores necessários de uma obra única e concreta. respeito. Kardec é Razão ambiente de fraternidade ativa em que as discrimi- nações sociais e culturais desaparecem no entrela- çamento de todos os seus componentes. num ambiente de fraternidade. Hercu- lano deixou claro que “o ideal é o Centro funcionar em sede própria”. a sala de uma residência familiar. para ocupar sua atenção no sentimento e na razão. Herculano centra sua atenção nessa posição de simplicida- de efetiva. O professor desce. ao detalhe do local.

(IX) Se o objetivo do Centro é o Ser no Mundo. desligados da reali- dade imediata. em seu ambiente de simplicidade. de Emmanuel. em todo este vasto continente espírita é um esforço imenso de igrejificar o Espiri- tismo. O referido “es- forço imenso de igrejificar o Espiritismo” demonstra duas coisas: em primeiro lugar. a existência da cultura religiosa que o ser traz do passado e. encontra no professor um opositor firme: Mas o que fazemos. do seu eu. entre suas funções. o fanatismo e os demais comportamentos que denotam o apego ao pas- sado resultam em consideráveis prejuízos. firmando por toda parte núcleos místicos e portanto fanáticos. Tudo aquilo que dificulta esta realização. as imensas dificuldades que tem de se livrar dos elementos místicos e ingênuos presentes nesta bagagem. Nos Centros onde dirigentes e frequentadores se entrelaçam para cons- 51 . o esforço contrá- rio. quan- do afirma que todos. percebendo quando a carga cultural religiosa lhes está conduzindo a reproduzir comportamentos próprios das “re- ligiões decadentes e ultrapassadas”. em seu livro “Fonte Viva”. de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas. antes de mais nada. colocam de si. uma muito interes- sante: a de possibilitar. Mas o que fazer quando os próprios líderes são os estimuladores desse ato de igrejificar? O trabalho se tor- na perdido. A grande tarefa de esclarecimento aí cabe aos líderes espíritas. As lideranças precisam compreender. de sua parte. em segundo lugar. que de­vem fazer. o desenvolvimento da “fraternidade ativa em que as discri- minações sociais e culturais desaparecem”. A referência do professor faz lembrar a página “Na Corti- na do Eu”. Wilson Garcia O Centro tem. a parcela de egoísmo naquilo que realizam. indistintamente.

tam- bém. É por isso que. levantando contra elas alegações sem base em Kardec. conta com a proteção dos Espíritos benevolentes e a própria defesa de suas boas intenções. antes de mais nada. O esforço contrário começa. objetivamente: A alegação de que a casa fica infestada ou coisas semelhantes é contraditada pela experiência.. A condenação pura e simples dessas reuniões revela o des- conhecimento de uma realidade por onde teve início o próprio Espiri- tismo. e vai terminar. 52 . no entendimento de que a re- petição dos comportamentos e atos próprios das “religiões decadentes e ultrapassadas” será a demonstração desse re- torno ao passado que o Espiritismo se propõe a modificar. Fanatismo é paixão. exatamente. estabe- lece uma energia ambiental forte o suficiente para deixar o local em condições da realização de práticas espíritas. A 9 As reuniões espíritas em residências familiares podem ser uma etapa para a fundação de um Centro Espírita e. Mas o professor afirma. É como se disses- se: o trabalho honesto. humilde e sincero desenvolve sua própria defesa. pois. (IX) O professor vem. as quais passaram a utilizar indistintamente. neste caso. em grupo. feito com sincerida- de e intenções elevadas. condenam reuniões mediúnicas em casa9. Kardec é razão. o pensamento positivo. Kardec é Razão truir esse ambiente místico.. em socorro dos estudiosos since- ros. Sua afirmação está repleta de lógica. na tentativa re- solver problemas do Ser no Mundo. na compreensão dessa carga de que cada um é portador. Um trabalho de amor ao próximo. as portas do fanatismo se es- cancaram. cumprem um objetivo. A falta de bom- -senso levou muita gente a buscar respostas pontuais.

para que as pes- soas interessadas no ensino real do Cristo possam compreender o sentido do Espiritismo. ainda. os quais contribuem para dar ao trabalho uma proteção espe- cial. (IX) 53 . o condão de atrair bons Espíritos. tornando-os lugares comuns e panaceia para todos os males. não. tomando por base seus preconceitos. Herculano lembra que Espiritismo é bom- -senso e. Wilson Garcia vibração desses pensamentos e a natural energia que eles carregam têm. principalmente porque não resolvem os problemas da prática cotidiana. podem parecer conhecimento. Somente um estudo crítico. em que se torna capaz de criar atividades doutrinárias sem necessidade de recorrer a regras ilógicas. Com isto. No Centro Espírita em que essa compreensão dou- trinária não se desenvolve. mas não passarão de cultura de ilustração. em que se tem de contar com a criatividade sem fantasias e ilusões. alia- do a uma prática constante. o homem descuida- do passa a criar modelos para cada coisa. ditos com ênfase. analítico e comparativo. Eles não servem para líderes espíritas. (IX) Herculano desenvolve um esforço grande para escla- recer que o estudo doutrinário não pode ser feito na base da leitura corrida dos livros ou de memorização de textos. Mas o que de fato responde conclusivamente a estas questões é a lógica doutrinária que brota de seus textos. mas apenas um vago desejo de atin- gi-lo. Num Centro Espírita bem organizado esses proble- mas são estudados e ensinados. Uns tantos pensamentos espar- sos. À falta de um estudo mais profundo. pode levar o indivíduo a uma posição segura diante da obra kardeciana. E classifica esses modelos de doutriná- rios. na verdade não existe Espiritismo. misticismo.

Em seu aspecto de escola. tem ligações com o segundo. O religio- sismo. Ou fica-se com o pri- meiro e se despreza o segundo ou vice-versa. em que nos encontramos na antevés- pera da era do espírito. Kardec é Razão O professor desenvolve com eficiência a sua função de fazer pensar. sem os excessos da burocracia. (XX) A proposta do Espiritismo é substituir a carga pesada da cultura do passado pelo conhecimento novo. Essa organização deve ajudar o en- sino e a prática e não se constituir em entrave para elas. de modo que ve- nham a conviver harmoniosamente. veio para renovar. ao mesmo tempo. como se vê. 54 . que outro não é senão o desenvolvimento da consciência do Ser e de sua atuação no Mundo. carregado de misticismo. A escolha deve estar acompanhada da lógica: um e outro darão resultados próprios. na mesma bagagem cultural. o Centro Espírita tem isso por tarefa. Com isso. ou em outras atividades igualmente necessárias. que poderia ser usado com proveito no estudo e na prática doutrinária. ganha o Centro e ganham os seus frequentadores. pois conseguem ter mais claro o objetivo doutrinário. A ação de ensinar e es- tudar deve levar à compreensão dos objetivos do Espiritis- mo. a razão condu- zirá à gleba do labor e do ideal. é al- cançada com simplicidade. que Herculano valoriza. afinal. por evidentes razões. O religiosismo místico conduzirá o Ser ao porto da apatia e da mediocridade. que só servem para roubar dos dirigentes e colaboradores o precioso tempo. O Espiritismo. O professor alerta que não é possível conviver com os dois. mas diferentes. A boa organização. Afinal: As práticas místicas do passado não servem para a era da razão. confronta-se com a razão kardeciana. razão e misticismo. nem tê-los presente. que Horácio elogiava.

Ou seja. não percebe a pobreza de espírito em que está metido. no mundo inteiro. acaba aportando por comodidade. A medida para tudo está. que alguns tentam implantar nas casas espíritas. contentando-se com soluções apenas aparentes. diante das quais o Ser. que Herculano destaca. assim como os modelos de ativi- dades. Senão. não consegue raciocinar com clareza e. de Léon Denis ou de outras personali- dades espirituais. Esses quadros não são objeto de adoração. As superstições se transformam em tabus. costuma levar os desavisados a concluírem que qualquer 55 . significa haver no centro espí- rita uma abertura permanente para a análise e a discussão. (XV) O misticismo religioso é a carga cultural eivada de su- perstições bisonhas. usam quadros na parede e não praticam idolatria. assim. ne- nhuma superstição. desenhos ou pinturas de Jesus. Mas isso não quer dizer que não possamos ter nos centros espíritas fotografias ou quadros artísticos. A ausência de tabu e supersti- ção. vejamos: Num Centro Espírita não devemos usar imagens para adoração. de raciocínio ilógi- co. Wilson Garcia No Espiritismo não deve existir nenhum tabu. de adoração. como os quadros de retratos de parentes ou amigos. a simples observação de que não cabem nos Centros Espíritas quadros e imagens com a finalidade de culto. portanto. Constituem simples lembranças. sufocado. de Kardec. To- das as sociedades. pois tornam-se o lugar-comum em que o Ser. especialmente tendo em vista a evolução do conhecimento e das práticas doutrinárias. As respostas prontas e acabadas têm sentido semelhante. (XV) A tendência de muitos para os extremos costuma levar à tomada de atitudes amparadas no não-senso. no bom-senso.

que aprisiona a criatura que o toma como meio necessário para objetivos espirituais. Esse processo de transferência cos- tuma acontecer de maneira imperceptível. cuja função é fortalecer a memória e o prazer estético são valores que o Espiritismo só pode ver com bons olhos. e aumenta consideravelmente. A doutrina é contrária a tudo aquilo que aprisiona a mente e emperra a caminhada do Ser. os quadros de figuras destacadas e outros objetos. abandona apenas aparentemente os ídolos de sua relação. duas coisas distintas. que alguns costumam transferir dos ídolos religiosos do passado para os Espíritos que se destacaram em suas existências no Planeta. especialmente. de modo que o Ser. assim. o símbolo que atrofia a mente. quer o professor. O centro espírita significa. Kardec é Razão coisa que se pareça com quadros ou imagens deve ser de- finitivamente abolida do centro. evidentemente. levantar o problema subjetivo da ido- latria. então. a importân- cia do Centro Espírita bem organizado e dirigido. pressionado pela carga cultural que traz de existências passadas. onde es- ses problemas são estudados e tratados sem nenhum tabu. costuma ocorrer uma simples substitui- ção do objeto da adoração. Ora. também. que embota o raciocínio. O que está contrário à lógica espírita é o objeto de adoração. A obra de arte. sem preconceito de qualquer espécie. O professor fala de uma “fortaleza espiritual” em que o Centro Espírita deve se 56 . Mas são. a fortaleza espiri- tual da grande batalha para o restabelecimento da verdade cristã na Terra. chamando a atenção para esses aspectos. No fundo. A idolatria é uma forma superada de relação da criatura com o Criador. (IX) Surge. quando o Ser não consegue compreender as enormes diferenças que existem entre a cultura antiga e aquela que o Espiritismo ajuda a construir.

O pro- 57 . Até a denominação – “Centro Espírita” – deve ser vista como ajustada à cultura brasileira. Wilson Garcia transformar. mas do aparecimento da doutrina em nosso País. é o Ser no Mundo. o Centro Espírita é. Isso é compreensível. Isto significa que o estabelecimento do conhecimento novo não vai encontrar um terreno fácil. sobretudo. nunca é demais lembrar. O Centro Espírita dos nossos dias tem a face totalmente modificada em relação àquela que lhe deu origem um dia: a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. os interesses sociais e culturais e os grupos dominadores. es- pecialmente no campo religioso. Herculano atinge. e que melhor o defina em sua atuação no campo social. no plano propriamente humano e no plano espiritual. além de se ter aberto para a sociedade com regras menos rígidas. as- sim. (IX) O conceito de prestador de serviços é atual e deve ser visto como plenamente ajustável às funções do Centro. A imagem é importante pelo fato da existência de uma “grande batalha para o restabelecimento da verda- de”. Contra os novos co- nhecimentos se opõem as superstições. um centro de serviços ao próximo. que in- corporou várias atividades ao longo deste século e meio que medeia a criação da Sociedade e a atualidade. As funções e os objetivos da Sociedade diferem. fundada por Kardec e seus companheiros. é conve- niente encontrar um conceito para o Centro Espírita que o livre de qualquer ligação com a mentalidade obsoleta. profun- damente. Dessa forma. sua finalidade. Eis porque o Cen- tro Espírita precisa estar preparado. das funções e objetivos do Centro atual. Afinal. uma vez que não surgiu de uma atitude delibera- da de Kardec. estando de acordo com sua realidade evolutiva. o momento propício para colocar que: No desempenho de sua função.

O Centro é. Ao invés de palestras monológicas. Sem o constante e livre estudo da Doutrina – dirigido sem pretensões. nem pron- to socorro. seguidas de diálogos da as- sistência com o expositor11. 11 O grifo é nosso. contudo. uma vez que esta deve ser vista no seu aspecto interpretativo. SP. O ensino do Es- piritismo se prende à parte cultural. que se completa com a prática. 58 . seja pelo fato de serem a forma ideal de difusão do conhecimento. também evoluindo e se adaptando ao momento em que é feita. com método e insistência. seja porque são as que permitem apreender melhor o conhecimento. nem laboratório. por outra. A prestação de serviços não implica em cobrança por eles. edição Eldorado/USE. portanto. cada vez mais. mas também sem o receio de abordagem dos pontos mais difíceis da Doutrina – não conseguiremos su- perar o estágio embrionário em que ainda perma- nece grande parcela do movimento doutrinário. É preciso ver. Kardec é Razão fessor compreende essa realidade ao vê-la compatível com a Doutrina. segundo o “dai de graça o que de graça recebestes”. Assim. O que regula o seu valor e a forma como são ofereci- dos os serviços é o sentido profundo da caridade. ao mesmo tempo. deve-se valorizar. como forma de se alcançar a excelência da comunicação no ensino do Espiritismo. mas sob nova feição: a da razão espírita. nos Centros Espíritas as palestras dialógicas. é tudo isso. pessoal ou co- letiva. (IX) 10 A sugestão de Herculano Pires inspirou-me o livro “Nosso Centro. nem templo. casa de serviços e cultura espírita”. com a própria interpretação. Além dos cursos que devem ser dados sobre a Dou- trina. É preciso chamar a atenção para o diálogo que Her- culano sugere. que: No Centro Espírita não se podem restringir as ati- vidades apenas ao aspecto religioso e assistencial. nem escola. é necessário que em todas as sessões sejam pronunciadas breves palestras elucidadoras. uma Casa de Serviços e Cultura Espírita10.

levar em consideração a necessidade de “abordagem dos pontos mais difíceis”. a fim de melhor aproveitar a doutrina. um absurdo temor pelo diálogo e esse temor é resultado. É o mesmo que afirmar ser preciso abandonar a superficialidade e esforçar-se para penetrar com decisão nos objetivos do Espiritismo. muitas vezes desprezado nos cursos doutrinários. o ponto mais alto de qualquer estudo ou palestra. Fala ele em “livre estudo''. afinal: Nada mais triste do que um Centro Espírita em que alguns se julgam mestres dos outros. como o orgulho e a vaidade. eventualmente. impedindo o aparecimento de fatores prejudiciais. responder com precisão a todas as questões. (IX) 59 . “pales- tras elucidadoras” e “diálogo”. em “método e insistência”. deveriam perceber que não é de- sonra não poder. seja do expositor. doutrinário e até mesmo psicológico dos expositores e diri- gentes. à necessi- dade de desprendimento. quando na verdade ninguém sabe nada e todos deviam colo- car-se na posição exata de aprendizes. Reforça a vantagem do “es- tudo dirigido sem pretensões”. a fim de dar ao ambiente um conteúdo fa- vorável aos objetivos. do despreparo cultural. ain- da. para superar o “estágio embrionário” em que considerável parcela do movimento espírita ain- da estagia. A sua supressão acarreta enormes prejuízos ao estudo. referindo-se. às vezes. em lugar de temê-lo. mesmo porque não devem considerar-se em posição mais elevada que os alunos. sempre. Um dos fatores que favorece esse aprofundamento é o diálogo. também. Mas está precisamente no diálogo o clímax. a necessidade de liberdade. coerente com sua função de pedagogo. Apresenta-se. por razões que deveriam ser removidas. pre- ga. Mas é preciso. mas. mas que perma- necem em virtude do descaso e da teimosia dos dirigentes. aí. Dirigentes e exposi- tores. Wilson Garcia O professor. seja por parte dos estudantes. não raro.

precisam dividi-lo entre visível e invisível. vivendo num mundo onde. para Herculano. Mas sabe-se. indevidamente. põe-se no nível dos alunos e faz-se. e estu- dá-lo desse ponto de vista. expositores e escritores espíritas não são luminares nem santos. em sua tarefa de esclarecimento do Ser: ajudar no desenvolvimento de ideias lógicas. mas criaturas falíveis que podem também cair a qualquer instante de seus falsos pedestais. é a responsabilidade que lhe pesa nos ombros. da compreensão de que: Médiuns. racionais. muitíssimo. sob pressões distintas: a exercida pela própria car- ga e as pressões das necessidades do progresso ou evolução. para se conhecer uma parte da realidade. tem dado margem à supervalorização do invisível e uma das fortes razões para isso é a carga cul- tural. tão ao gosto de expressiva maioria. para muitos. “Criaturas falíveis que podem cair” acaba sendo. Vale- -se. com suas cargas culturais. Uma visão genérica da situação é suficiente para demonstrar o estágio da maioria. Kardec é Razão O professor. o leva a usar essas vantagens com discrição e humildade. de fato. um deles. uma expressão que valida a ação do invisível. um dos objetivos do Centro. por suas pró- prias características. sem as falsidades comportamentais comuns aos orgulhosos e vaidosos. sempre. (IX) São homens. A sabedoria. O que o difere. porém. como mestre verdadeiro. há tão pouco tempo transformadas em objeto de estudo. a causa de todas os acontecimentos. Aí está. dos alunos. Para tanto é preciso corrigir rotas e evitar falhas comuns a 60 . se- gundo a sábia orientação socrática: “só sei que nada sei”. atribuindo-se lhe. acima de tudo. “criaturas falíveis”. aprendiz. A experiência do professor é também outra das suas diferen- ças para os alunos. no momento do estudo. As relações entre o visível e o invisível. na qual está presente o conteúdo do mistério.

que alguns espíritas desavisados ou fortemen- te vaidosos confundem a tribuna doutrinária com local para exibições de conhecimento de ilustração. Herculano não se perde diante dos for- malismos e das banalidades. mas ao vigor do espírito em sua ação por justiça. aqui. 61 . Wilson Garcia outras doutrinas que antecederam à espírita. E para entender a preocu- pação do professor podemos vê-lo servindo-se de exemplos interessantes. com certa clareza. A experiência mostra. É com esta conotação que Hercula- no Pires utiliza o termo. não possui o significado comum e não se refere à condição sexual masculina. Disse Pitta. em texto reproduzido por Herculano: 12 Virilidade. E compreende que a virilidade é um ingrediente indispensável ao Espírito Superior. (II) A personalidade do professor é provida de um princípio de seriedade tão objetivo que pode ser vista na virilidade12 com que se expressa. deixan- do desviar-se de seus objetivos. um exemplo vivo para aqueles que desejam entender o Ser Cristão. quando preci- saram passar do plano teórico para o prático. pela verdade e pelo Bem. Isso é não só compreensível como al- tamente exemplar. como a resposta dada por João Leão Pitta quando lhe perguntaram sobre os requisitos necessários a uma boa palestra. Seu comportamento é. pois. O professor volta-se contra isso por legítimo ideal: o Centro não pode se perder nestas situações. mas para esclarecimento das multidões que afluem às instituições doutrinárias em busca de conhecimen- to e não para se deleitarem com palavrórios retum- bantes. ou para gesticula- ções teatrais. Por exemplo: As tribunas espíritas não existem para encenações e exibições de oratórias de tipo bacharelesco.

Ensine o que sou- ber. ensina ele. uma vez que ele verá a questão pela ótica cultural. que leva em consideração o futuro descortinado pelo Espiritismo. ao mesmo tempo. manterem a dig- nidade e jamais perderem a ternura. se torna de grande valia. Com o Espiritismo. PARA ENTENDER DE DISCIPLINA NO CENTRO A cultura dos dirigentes e a realidade social em que estão inseridos são fatores determinantes para as normas que vão estabelecer no Centro Espírita. nesse instante. assim. por Cairbar Schutel e tantos outros homens que batalharam pela difusão do Espiritismo em tempos em que as comunicações e o transporte anda- vam no lombo de cavalos. Kardec é Razão “Não pregue nem faça discursos. conversando depois com os ouvintes que me elogiavam. depois de haver lido e estudado Kardec. tive a surpresa de ve- rificar que de todos os meus falatórios só uma pes- soa havia aprendido alguma coisa: eu mesmo. capazes de atitudes francas e de. tinha espe- cial apreço por João Leão Pitta. Não se pode 62 . Vemo-lo. o bom-senso ajuda a encontrar as soluções para os aspectos inúmeros das atividades para as quais o corpo doutrinário não contém elucidações objetivas. Na verdade. O pensamento do professor. bem como as neces- sidades do Ser em sua evolução. que aprendi a conter a língua”. (II) Herculano admira estas personalidades raras. se aprende a ver as coisas sob uma nova perspectiva. Por isso. fiz mi- lhares de pregações e me arrependo de meus entu- siasmos. ensi- nando que: O problema da disciplina no Centro Espírita é dos mais melindrosos e deve ser encarado entre as co- ordenadas da ordem e da tolerância.

evidentemente. levaram seus ares para o próprio Centro. vão eles embora. viu-se como certos Centros reproduziam em seus recintos a situação vigente lá fora. Os reflexos disso eram que as normas se tornavam opressoras dos melhores ide- ais para se alcançar os objetivos doutrinários. como de resto outros semelhantes. portanto. de tipo militar. respirou. A rigidez exces- siva provoca desconfortos. Wilson Garcia estabelecer e manter no Centro uma disciplina rígi- da. Trata-se. pelo contrário. Disseminou-se no movimento a ideia de que os Espíritos têm tantas responsabilidades que. E para tornar seu pensamento mais claro. de má interpretação. além de ser um mau exemplo. de certa forma. durante o regime militar no Brasil. porque chegaram dois ou três minutos atrasados. simples e até aparentemente ingênuo para um problema complexo. O problema do horário. O professor alerta. aduz: Não é justo deixarmos fara da sessão companhei- ros dedicados ou necessitados. aliviado. chegando o horário da sessão e não sendo ela iniciada. Por exemplo. As mudanças sociais que se seguiram. é tratado com certos exageros. de 1964 a 1984. as pessoas e a divulgação do Espiritismo. (IX) Trata-se de um exemplo. ambos suficien- tes para a formação de um ambiente em que a liberdade individual não fique sufocada. que. (IX) A realidade social tem influência decisiva nas atividades das organizações humanas. quando a ordem pública era controlada por normas rígidas e a liberdade vivia sob opressão. não validados por Kardec ou pelos Espíritos que ditaram a Codificação. para a necessidade de estabelecer a disci- plina entre dois pontos: ordem e tolerância. Todo exagero im- plica em má interpretação doutrinária e em prejuízo para as atividades. possa expan- dir-se. acrescida dos excessos 63 .

(IX) Vivemos a Era da Razão. não ocasionariam nenhum prejuízo a qualquer pessoa. A disciplina autoritária e rígida teve a sua função na disciplinação dos povos bárbaros após a queda do Império Romano. Diante dessas cir- cunstâncias. Os Espíritos Supe- riores trabalham com bom-senso e têm uma compreensão equilibrada das circunstâncias da vida na Terra. com uma disciplina legal asfixiando a liberdade es- pírita. em consideração as atribulações normais. portanto. Ordem e tolerância são os elementos funda- mentais nas atividades do Centro. porém. adversidades e imprevistos que ocorrem. levando. contudo. noutros tipos de normas disciplinadoras 64 . Mas a Era da Razão. lembra o professor. Formava-se e ainda se tenta formar. na linha ateniense do esclarecimento cultural. O Espiri- tismo é filho desta era e a razão é sua flor perfumada. reivindicou os direitos individuais do homem. Essa coerção prosseguiu pe- los tempos sóbrios do Medievalismo. naturalmente. Kardec é Razão próprios da carga passada do indivíduo. (X) Que outras doutrinas. no meio espí- rita. que ocasionam desordem. É preciso pensar. há que se ter tolerância e agir com bom-senso. nos casos onde ocorrem irresponsabilidades. Isso é diferente. o meio es- pírita. especialmente as dogmáticas. se utilizem de medidas autoritárias. que surgiu da noite medieval. também. onde o poder emana de cima para baixo é compreensível e até tolerável. Toda disciplina levada ao extremo é supressora das liberdades. Em tudo. reivindicadas pela nossa era e embasadas no “esclarecimen- to cultural”. oferece terreno adequado a outro tipo de dis- ciplina e não valida a autoridade assim concebida. uma estrutura totalitária de poder e arbítrio.

que passa então a praticar como se mediunidade fosse. o que significa ausência de visão científica do Espiritismo. aquilo também não e assim por diante. Isso pode ser visto. Vale. ad- vindas da incompreensão dos objetivos doutrinários. uma vez que conside- 65 . Está ele consciente das imensas dificul- dades desse movediço terreno. (III) O professor pensa a questão das crianças com um olhar posto no presente e outro no passado. envolvido pela proibição sobra-lhe muitas vezes apenas o animismo. que deveriam ser contemplados na sua expres- são verdadeira de exceção. Estas são tão nocivas quanto as outras. fazen- do desses. a regra. a começar por onde a vida começa: com a criança. Esse novo mundo tem por alicerce os fundamentos do Espiritismo. pene- trando em suas particularidades e práticas. por exemplo. Referimo-nos àquelas normas que são impostas e que visam coibir abusos. As crianças de hoje estão preparadas para enfren- tar a realidade do novo mundo que está nascendo. Wilson Garcia que acabam sendo implantadas de forma arbitrária. seguir seu raciocínio. de modo que. Aí se costuma di- zer a ele que isto não pode. onde as normas pratica- mente acorrentam o candidato a médium. mas está igualmente cons- ciente de que há aí muitas interpretações equivocadas. porque os princípios da Doutrina es- tão sendo confirmados dia-a-dia pelas Ciências. disposto a levar dirigentes e frequentadores ao raciocínio lógico sobre suas responsabilidades. Vamos encontrá-lo. na prática mediúnica. portanto. A QUESTÃO DA CRIANÇA NO CENTRO ESPÍRITA As atenções de Herculano estão voltadas para os objeti- vos do Centro Espírita. portanto.

contudo. Herculano insiste. Por outro lado. Todo ho- mem tem direito a essa parcela cultural. O momento é extremamente propício para a discussão do assunto. Os pais espíritas têm. Há. então. seria sonegar-lhe o quinhão que lhe cabe na herança cultural (III) O professor segue em sua linha de raciocínio. trazendo em sua bagagem as expe- riências vividas outrora. repetindo o que já afirmou: a religião do Ser em seu templo interior contém um conhecimento que pertence à cultura. deixou clara a questão ao analisá-la deste ponto de vista amplo: a religião sem rótulos. especialmente pela apatia em que parece estar mergulhada a educação infantil nos meios espíritas. que se observar o seguinte raciocínio: A evangelização da criança não pode ser encarada como ato de imposição ou de violência. Seu argumento deveria ser consi- derado com atenção para pôr fim às teorias ingênuas sobre este período da vida. ficou pacífico o seu direito à escola. quando tratou do ensino da religião na escola. através da evangelização. como o local ideal para a educação cristã. vista como parte da cultura geral. da mesma forma que. Antes. hoje. à saúde e a tantos outros con- teúdos culturais. O Centro Espírita surge. pois. a dúvida que muitos pais. dirigen- tes e frequentadores do centros espíritas têm sobre a condu- ção dos filhos diante da religião. Kardec é Razão ra as conquistas do mundo atual e a realidade dos espíritos que estão renascendo. Herculano a resolve assim: Negar à criança o direito à educação cristã. por dever. facilitar a seus filhos alcançarem essa par- cela e o caminho para isso é a educação cristã “através da evangelização”. o que não significa que se deve desprezar o ensino cristão no lar e nas escolas. Nenhuma aula de evangelização espírita impõe dogmas de fé 66 . na educação cristã como direito da criança.

segundo informa o Espiritismo. Daí o apelo muito justo e muito pedagógico. e com o despreparo dos mesmos. é preciso lembrar que a evangeli- zação da infância não é nem pode ser feita em ter- mos de pura abstração. então. (III) O professor está preocupado também com a carga cultu- ral dos evangelizadores. impondo conceitos e for- çando a condução do raciocínio do aluno para a aceitação do seu modo de ver e entender. pois inegavelmente didático. A própria palavra “evange- lizar” tende a conduzir ao entendimento de “doutrinação”. o que seria um ilogismo. E como Herculano entende a questão da violência aplicada à educação infantil? Certamente. no qual não se ensina nada da Doutrina Espírita. Mas. não confundir o raciocínio e passar para um comportamento francamente passivo. Especial- mente neste terreno: o religioso. não se refere ele unica- mente à violência física ou verbal. leva o indivíduo ao uso de métodos contrários às necessidades da criança. que pressiona para a repetição de fórmulas ultrapassadas. pois sua finalidade é o contrário: despertar na criança as suas forças interiores e fa- zê-las aflorar no plano da consciência. sobre a necessidade de “despertar forças interiores”. Além disso. Do contrá- rio. também. Herculano fala. poderemos estar caminhando no sentido da “imposição de dogmas”. É preciso muito cuidado. Wilson Garcia nem pretende realizar a internalização dos prin- cípios espíritas. (III) Historietas figuradas são recursos didáticos legítimos para o professor. mas àquela que o evange- lizador passa sub-repticiamente. mas não podem ficar no terreno puro da 67 . da mesma forma que é preciso. às estorietas figuradas. Exigir ou mesmo desejar que um raciocínio particular seja aceito como verdadeiro é uma forma velada de violência. além disso. despreparo esse pernicioso em todos os sentidos. aí.

Mes- mo porque. o en- sino desses princípios segundo as faixas etárias. de desenvolvimento do ser. o recurso às “historietas figuradas” não sig- nifica ausência de Espiritismo. nocivas. o professor coloca as questões para análise e não para aceitação ou recusa imediata. quer dizer. não nos esqueçamos. na educação da infância. como de fato diferente é. uma posição coeren- te e permeada de bom-senso do evangelizador. vai diferenciar. Atento e preparado para fugir dos lugares comuns e das respostas prontas. mais ainda. faz a crítica da realida- de que observa – na importância de ensinar os princípios doutrinários como forma de justificar o trabalho de evan- gelização. da presença do anjo-guar- dião em suas vidas. Herculano pede. o seguinte: Ensinar às crianças o princípio da reencarnação. Seria ilógico oferecer evangelização à luz do Espiritismo. Kardec é Razão abstração. assim como não significa preconceito cultural. da mesma forma que seria ingenuidade não recorrer a tantos e tantos conheci- mentos existentes na cultura geral. da lei de causas e efeitos. neste caso. Ora. com isto. A adequação à realidade é uma consequência natural. Pede-lhe criatividade em sua tarefa. ge- neralizantes e. como neste exem- plo: 68 . Insiste. objetivamente. para não perder de vista o comportamento ideal e os objetivos doutrinários. à qual estará atento o bom evangelizador. sem Espiritismo. já que o início do desenvolvimen- to da consciência ideal está exatamente aí. dos evangelizadores! Mas. Veja-se. contudo – e. por isso mesmo. mas recomenda que o faça com lógica. (III) Sendo dever dos pais é. da comunicabilidade dos espí- ritos e assim por diante é um dever inalienável dos pais.

(II) A virtude. (II) A explicação de um fato não pode ser encontrada numa generalização. A natureza provê o indivíduo das condições necessárias à sua evolução. Antes de mais nada. em tudo isso. que o Centro Espí- rita tem responsabilidade com o ser humano em todas as 69 . especialmente quando este fato tem sua cau- sa registrada na memória insondável da Espiritualidade. ainda: É forçoso considerar-se também a impiedade e até mesmo a imoralidade da permanente exibição dos crimes do passado nos aleijões da atual existência. e que acima dos objetivos de resgate existe o interesse básico de aprendizado e desenvolvimento das potencialidades. há que se ter humildade para reconhecer a própria incapacidade pessoal em determinadas circunstâncias. (II) Herculano deixa claro. onde as explicações simplórias cedem lugar ao raciocínio lógico e coordenado. no caso. São inúmeras as possibilidades causais e nenhum espírita deve se sentir obrigado a ter resposta para tudo e para todos os casos. diz o professor. mas a margem de li- berdade é indispensável na experiência reencarna- tória. Diante do proble- ma do Ser é necessário pensar em termos de “aprendizado e desenvolvi­mento das potencialidades”. está em perceber a situação de um ponto de vista sábio. Wilson Garcia Uma criança nasce com deficiência numa perna ou num braço e logo um sabereta espírita promove a suposta devassa do seu passado. É verdade que a programação kármica leva em conta os acidentes prováveis. acusando-a de cri- mes inverificáveis. Veja- -se.

espíritas e. devendo se comportar com largueza de visão e sempre compreender que: A Educação Espírita não é só permanente. necessariamente... Kardec é Razão suas fases. Filhos de pais espíritas não precisam ser. Pais que se desesperam com a recusa dos filhos em aceitar este ou aquele rumo precisam compreender que os filhos têm seu caminho e sua oportunidade de escolha. como pais: Não se deve forçá-los. que o Centro deve não apenas privilegiar mas.. (VII) O professor põe suas vistas no tempo e na condição es- piritual e mental do Ser. no terreno da preparação dos filhos. também. Vale o raciocínio para o centro espírita. 70 . devem ser por opção e não pela vontade imposta por quem quer que seja. ciente de que há momento para tudo.a seguir um rumo que repele é cometer uma vio- lência de graves consequências futuras. pois. mas sobretudo integral. onde querem e de- vem empregar a liberdade de opção. criar condições ideais para que essa liberdade possa ser exercida em termos de expressão do pensamento em todos os sentidos. São coisas distintas. mas apenas estimulá-los no tocante aos ensinos espíritas. forçar o filho. (III) Assim. se o forem. (VII) Mesmo porque. contí- nua. onde alguns diri- gentes confundem a oportunidade de oferecer ensinamen- tos com uma suposta responsabilidade de tornar as pessoas espíritas. . acima das quais o Espiritismo coloca a liberdade individual. segundo o sábio ensino de Paulo de Tarso..

Wilson Garcia CONCEITUAÇÃO E PRÁTICA DA MEDIUNIDADE NO CENTRO O encontro do professor com a mediunidade é. agora. Talento ou sentido espiritual. A me- diunidade não é apenas uma conquista. até então. resultante de todas as funções orgânicas e psíquicas da espécie. o obrigava. não importa que nome se lhe dê. (VII) Esta extraordinária visão é da mais alta importância e deve influenciar todos os setores do Centro Espírita. como se vê. o momento em que o sábio devassa mistério. analisa e propõe um conceito verdadeiramente surpreendente: A mais refinada conquista da evolução. de se relacionar com o invisível. que consubs- tancia todo o processo evolutivo da Natureza. que o ser humano é hoje capaz de produzir. É ela. mas a “mais refina- da” de quantas dizem respeito à evolução. O seu refinamento pode ser visto sob o ângulo das energias mais puras. a mediunidade não está localizada especificamente em um órgão do corpo humano. Devassar o invisível é uma pos- sibilidade. Função sem órgão. não se detém nos limites daque- 71 . a síntese de todas as conquistas no “processo evolutivo da natureza”. que oferece a este mesmo ser humano. a Me- diunidade é a síntese por excelência. é a Me- diunidade. enfim. bem como pelas amplas possibilidades. liberando-se dos limites estreitos que a vida na Terra. é o selo do pro- gresso do homem. Ali. que marca o homem com o endereço do plano angélico. o professor estuda. onde o vulgo costuma se abobar e o homem simplório aceitar o ir- racional. real e o que disso resulta altera definiti- vamente a realidade do Ser no Mundo. e ao mesmo tempo o seu endereço para o plano angélico. pode-se dizer. na sua conjugação com a mente. embora dependente do funcionamento de todos eles. O professor.

(VII) Uma vez conceituada em sua expressão mais elevada. numa palavra. dando ao tema da mediunidade a clareza do pedagogo. agora. analisar os pormenores. então. Temos assim duas áreas de função mediúnica de- signadas como mediunidade generalizada e me- diunato. Traz. embora não seja impossível alcançá-lo. Kardec é Razão le terreno suspeito que é o “lugar comum''. Liberto. a que alude o professor. está intimamente ligada à capacidade de compreender e discer- nir. mas esta deve ser colocada ao lado da compreensão de que o tempo para o seu amadurecimento está um pouco longe. dos fenômenos. Tudo isso passa a ser detalhe. e a segunda corresponde à mediunidade de compro- misso. o espírita está em condições de se elevar ao plano angélico. da poderosa reação da Terra. ocasião em que o Ser se torna apto a ingressar em planos mais elevados. para ser resultado do progresso do psiquismo humano. o ensinamento kardeciano para o 72 . (IX) A liberdade aí conquistada. Embora não negue definitivamente. de médiuns investidos espiritual- mente de poderes mediúnicos para finalidades es- pecíficas na encarnação. na medida exata da justiça e do bem. também não valoriza as definições que simplificam a mediunidade em seu aspecto de “prova” e de “ferramenta” para pagamento de débitos do passado. pode. dos fatos materiais. A me- diunidade vai além do detalhe. É perfeitamente possível alimentar tal aspi- ração. no ponto neutro. ou seja. A primeira corresponde à mediunidade natural que todos os seres humanos possuem. o professor descer aos detalhes. que não deve ser confundido com o verdadeiro conceito. simplesmente detalhe. adequar e praticar. uma conquista.

fica por conta da maneira como a explica o professor: o mediunato define o compromisso de médiuns. o indivíduo portador de mediunato tem as mesmas possibilidades do médium geral. por seu intermédio. O professor chega. Segundo Kardec. por exemplo.. que reencarnam com finalidades específicas de atuação social. reunindo no termo mediunato tanto a capacidade de produzir os fenômenos quanto o compro- misso reencarnatório. psicofonia. A experiência. nos tem ensinado que a frontei- ra entre a mediunidade geral e o mediunato. estabelecer uma visão completa do assunto. curas etc. a mediunidade ostensiva se caracteriza pela capacidade do médium ser o interme- diário de fenômenos produzidos por Espíritos. apenas formal. acrescidas do fato de po- der se colocar nesse terreno que une o ser humano e as in- teligências que habitam o mundo invisível. Wilson Garcia plano da prática. tudo leva a crer que um e outro se mis- turarão no futuro. fenômenos propriamente ditos. entre o médium ostensivo e o médium geral é muito tênue. o que implica dizer. sobrevindo. utilizando-se do recurso didático de divi- di-la entre mediunidade generalizada e mediunato. Além disso. No campo das atividades intelectuais. oferecendo con- dições para a produção de efeitos físicos. a mediunidade geral direta. O mediunato é também concedido em casos de pura assistência ao próximo e ajuda à Humanidade. antes. 73 . mas não se con- cretizam. que cor- responde à mediunidade ostensiva a que Kardec se refere. artistas etc. A diferença. O portador da mediunidade generalizada é uma criatura apta às influências dos seres invisíveis. então. também. contudo. uma grande gama de pensadores. escritores. procurando. já convive com uma mediunidade geral quase ostensiva e os Espíritos que os influenciam produzem através deles re- sultados muito próximos dos que são obtidos através dos médiuns ostensivos.

em suma. É bem verdade que existem os falsos médiuns missionários. vai exigir longos séculos de experimentação. ao que parece. sub- 74 . cuja mediunida- de admirável garantiu o êxito da missão de Kardec. uma conquista. favorecer a apreensão do conhecimento. a relação com o invisível. porém. eis que. denunciar suas in- tenções. (VII) Embora repise temas conhecidos. ainda hoje. o professor busca. ou seja. Julia e Carolina. apenas a forma de comunicação. a uma das maiores qualidades da mediunidade. Eviden- temente. Sendo uma faculdade natural. Não é um poder oculto que se possa desenvolver através de práticas rituais ou pelo poder misterioso de um iniciado ou de um guru. Kardec é Razão como nos mostra o exemplo histórico das meninas Boudin. Sendo o resultado de um longo processo evolutivo. Isto. por parte do homem. sendo estranha. pela qual se estabelecem as relações entre homens e espíritos. intermediário. em Paris. Mas esses a prática cuida de apontar e. aí. àquela em que o indivíduo vem como mis- sionário e sua maior obrigação é contribuir para o progres- so da humanidade. de função que se desenvolveu ao longo da evolução. natural. é realizada ao nível do artificialismo e do dis- tanciamento do homem em relação aos Espíritos. não raro. Médium quer dizer medianeiro. (VII) Refere-se o professor. Me- diunidade é a faculdade humana. a mediunidade precisa ser vista e tra- tada em sua condição natural. que não se habituou com a ideia de que o ser invisível é semelhante a ele. nessa repetição. mesmo para mui- tos estudiosos. aqueles que se auto inves- tem de uma missão e passam a se projetar como se de fato tivessem uma grande elevação espiritual pessoal. própria da natureza humana. mais por culpa do primeiro. no caso.

Vale dizer: No primeiro ciclo só se deve intervir no processo mediúnico com preces e passes. Wilson Garcia metida a leis e mecanismos que devem ser conhecidos pelo estudo do Espiritismo. com razão. mas resguardada pela influência benéfica e controladora dos espíritos protetores. (VII) A informação do professor está alinhada com o pensa- mento de Kardec. adolescen- tes tiveram presença decisiva. A elas se deve. a preparação 75 . O invisível cuida de dar essa pro- teção neste período da vida. A convivência com a criança portadora de mediunidade deve levar em conside- ração o seu estágio infantil. a mediunidade surge já no berço. Foi com este. (VII) Sendo. que as religi- ões chamam de anjos da guarda. praticamente. Prosseguindo: As crianças a possuem. que a mediunidade não se desenvolve através de fórmulas ritualísticas ou sob a ação de iniciados ou gurus. como médiuns. Trata-se das irmãs Boudin. É tempo de encaminhá-la com informações mais pre- cisas sobre o problema mediúnico. por assim dizer. A caracterização entre mediunidade geral e mediunato dificilmente poderá ser feita nesta fase. durante o tempo de prepa- ração de “O Livro dos Espíritos” que duas irmãs. sob condições tais em que fica de certa forma latente e protegida. à flor da pele. do passado carnal ou espiritual. conquista natural. repetimos. Este conhecimento vai demonstrar. Há meios próprios para o desenvolvimento mediúnico. quase sempre car- regada de reminiscências estranhas. Na adolescência o seu corpo já amadureceu o suficiente para que as manifestações mediúnicas se tornem mais intensas e positivas. para abrandar as excitações naturais da criança. para que a criança não degene- re.

não raro. torna-se importante e. de um preconceito sem fundamento doutrinário. a qual. Conclusão: é possível equilibrar a mediunidade na adolescência com a prática mediúnica bem orientada. inclusive. enfim. Muitas experiências atuais vêm também em apoio desta tese. bem como da prática mediúnica livre. Quando. pelo que expõe. Trata-se. dos estudos sérios do Espi- ritismo e da Mediunidade. Tornaram-se adultas. Há casos de crianças. na fase inicial da adolescência. quando não é devidamente am- parada. nos centros e grupos espíritas. acaba se transformando em problemas psíquicos para a própria criança. Concordaria o profes- sor com aqueles que alegam que esses casos não servem de norma. (VII) O Centro Espírita. também. As irmãs Boudin. tiveram qualquer problema. uma vez que serve. Kardec é Razão do livro. como deixa claro o professor. entre inúmeros outros exemplos que incluem. para combater um certo preconceito que se estabeleceu e criou raízes no meio espíri- ta. segundo o qual antes dos dezoito anos nenhuma criatura pode participar de atividades mediúnicas e muito menos desenvolver a mediunidade. Como mostra Herculano. definitivo em termos de orientação 76 . casaram e prosseguiram com sua vida normal. por serem esporádicos? Acredito que não. se é este o caso. pela forma racional como trata da questão e porque a história do Espiritismo está repleta de exemplos semelhan- tes aos citados acima. nem por isto. por ocasião da adolescência o indivíduo já está de posse de um corpo físico em condições favoráveis para o trabalho mediúnico. com certeza. nessa fase. os quais servem de referência e pro- va para a questão. o ser alcança a sua fase adulta: É o tempo. as irmãs Fox. Mas esta informação tem uma importância espe- cial. apresentando condições evidentes de mediu- nidade em eclosão. exerceram atividade mediúnica intensa ao longo da preparação do livro básico do Espiritismo e.

onde a relação com os Espíritos se torna o objetivo. retirando. que conduz o indivíduo ao controle e à prática de seu eventual mediunato. mediunicamente. quando não vai aos consultórios psiquiátricos. Deles depende a boa orien- tação. Pelo contrário. a atividade mediúnica não se restringe a trabalhos específicos. que o destina a uma vida de atribulações e sofrimentos e o leva. o ato mediúnico se dá na forma de pressentimentos. percepções extrassensoriais que atribuímos à imaginação ou à lembrança e assim por diante. Mas. assim. previsões e toda uma série de aconte- 77 . Pelo contrário. de lá sair em piores condições. muitas vezes. para. na maioria das vezes. ainda. convém observar que: Na verdade. Vivemos. e a relação permanente que esse convívio estabelece. ela se atua- liza com mais frequência do que supomos. passa de potência a ato em diversos momentos da vida. “vivemos me- diunicamente entre dois mundos e em relação permanente com entidades espirituais”. Kardec dirá que vivemos rodeados de Espíritos e eles estão presentes em nossa vida muito mais do que ima- ginamos. previsões de aconte- cimentos simples. como o encontro de um amigo há muito ausente. através de pressentimentos. entre dois mundos e em relação permanente com entidades espirituais. ou a má. afirma com propriedade o pro- fessor. Wilson Garcia da mediunidade. (VII) Tanto para o portador da mediunidade geral quanto para os que trazem o mediunato. Esta seria uma razão mais do que suficien- te para deixar seus dirigentes convencidos da responsabili- dade que lhes pesa nos ombros. a procurar em locais inadequados a solução dos problemas que lhe sur- gem. Na vida diária. a potencialidade mediúnica nunca permanece letárgica. da codificação espírita todo aquele conhecimento que mostra as influências dos Espíritos no mundo dos vivos.

É o mo- mento em que Kardec ressalta a necessidade de alinhamen- to das energias. harmonização perispiritual para um objetivo a alcançar. agora. (VII) A mediunidade ostensiva tem este momento glorioso. Quando o ato mediúnico é assim perfeito e claro. um desejo surpreendente. ou seja. Um pensamento inesperado. do fato de não conseguirem sen- tir influências espirituais. O que de fato lhes falta é o desenvol- vimento de uma percepção para os fenômenos que ocorrem diariamente em sua vida. de forma que seus resultados serão sempre conformes com a quali- dade da relação. permite uma relação com personalidades distintas em grau de moralidade. mas isso não significa faltar-lhes a potência mediúnica. uma vontade repentina e até mesmo uma atitude impensada podem ser o resultado do ato medi- único concretizado na vida diária. de fusão “psicoafetiva” do médium com o Espírito comuni- cante. A seleção das relações pode até ocorrer. mas deverá ter por causa a vontade e o comportamento do médium. iluminado por uma mediunidade esclarecida e de- 78 . Muitos se dizem insensíveis e até reclamam des- ta insensibilidade. formando uma unidade para a comunicação. como o professor se refere à prática do mediunato. A mediunidade. ou seja. Pelo contrário. não pressupõe o contato apenas com Espíri- tos de boa índole. A conquista da mediunidade implica em tê-la naturalmente integrada em nossa vida. segundo uma qualidade especial. Vejamos. O ato mediúnico é o momento em que o espírito co- municante e o médium se fundem na unidade psico- afetiva da comunicação. geral ou ostensiva. Kardec é Razão cimentos que ocorrem ao nível de nossa sensibilidade. cuja causa está nos Espíritos e suas influências.

o mais materialista dos mortais ou o mais presunçoso dos homens não resiste. curvando-se. diz ele: O médium deve ser espontâneo. (VII) O médium geral não corre certos perigos que se dão com o médium ostensivo. interior e exteriormente. em vir- tude dos fenômenos que por seu intermédio se produzem. Este. é avassalador. famoso médico e criminalista italiano. não há gigante – como no caso de Lombroso13 . Contudo. uma cria- tura humana normal. tem o calor da solidariedade humana e é iluminado pela caridade cristã. à força dos fatos. diz o professor. seja consolando. portador do mediunato. por sua natureza humana e pelos que o cercam. em sua vida diária. hu- milde. Porém: Quando o ato mediúnico não tem a pureza e a be- leza de uma comunicação amorosa. que pôs à prova as suas convicções materialista quando se viu diante de convin- centes experiências mediúnicas e. (VII) Herculano parte do entendimento de que o ato mediúni- co pode resultar em benefícios para a humanidade. convincente. (VII) O resultado dessa relação. especialmente. está sempre pressionado. 79 . em sessões com a também famosa médium Eusápia Paladino. pelo que oferece de solidariedade e caridade. de sua mãe falecida. As facilidades ma- 13 Cesare Lombroso. enfim.que não se curve reverente ante o mistério da vida imortal. na relação com os familiares ou na convivência social. Seja tra- zendo esclarecimentos sobre problemas graves da vida. que não tem motivos para se julgar superior aos outros. natural. Wilson Garcia votada ao bem. seja. racional.

na forma de ofertas. Os que suportam essas pressões e se conscientizam de sua realidade humana falível. não precisa tornar- -se santo. como o quer o professor. ainda hoje. mas apenas um homem de bem. Contudo. Cumpre ao médium. a necessidade de manter-se com sua per- sonalidade normal e procurar ser “um homem de bem”. em relação ao Centro Espírita e perante a comunidade “do bairro ou da cidade”. estudar e atualizar-se. conselhos e aparentes apreços. comportando-se com a naturalidade de qualquer cidadão. conseguem superar o meio. ampliam a simpatia popular pelo Centro. permanentemente. fora dele. o bom ensinamento do mestre. (VII) O Espiritismo se situa no plano da razão. prossegue Herculano: A dificuldade maior está em se fazer o Médium compreender que. As- sim o pede. morais surgem de vários lados. segundo os melhores princípios da caridade cristã. há outros que logram compreender. para tanto. Kardec é Razão teriais e os subornos intelectuais e. porém. Os médiuns são os elementos principais da ligação do Centro Espírita com a comunidade social do bairro ou da cidade. sucumbe ante os atrativos que rondam a mediunidade. Evidentemente. Se parcela dos médiuns os- tensivos. em sua condição natural. Isso deve ter por resultado a prestação de serviços para a população. onde a lógica ensina que a mediunidade é inerente a todos os seres huma- nos. (IX) O professor mostra a posição importante do médium. é pre- 80 . principalmente. para po- der se tornar um medianeiro eficiente. Neste ponto. São mesmo os elos genésicos dessa ligação. também. Suas faculdades mediúnicas exercem atração natural sobre a comunidade e os serviços que prestam no Centro ou nos atendimentos even- tuais.

Wilson Garcia

ciso desfazer o preconceito vigente ainda, que faz de certos
médiuns criaturas amorfas, passivas, entregues totalmente
à condução dos Espíritos, mas sem lhes oferecer uma co-
laboração efetiva, o mais das vezes por lhes faltar conheci-
mento. Julgam-se dispensados de estudo e acreditam que
os Espíritos suprem suas possíveis deficiências. O estudo é
o melhor meio para a compreensão da mediunidade.

Sem o exame histórico do problema mediúnico, por
exemplo, os estudantes de hoje estarão ameaçados
de flutuar no abstrato. Introduzindo-se numa or-
dem de ideias, sem o conhecimento de suas raízes
históricas, arriscam-se a confundir, como fazem os
leigos, mediunismo e Espiritismo, ou seja, o proces-
so mediúnico de desenvolvimento espiritual do ho-
mem, com o Espiritismo. Arriscam-se, ainda mais,
a aturdir-se com fatos mediúnicos rudimentares,
considerando-os, por sua aparência extravagante,
como novidade. (VIII)

Herculano toma a questão em sua raiz para mostrar que
médiuns, dirigentes e frequentadores devem buscar a fonte
do conhecimento para entender o processo do desenvolvi-
mento do mediunismo e separá-lo da mediunidade. Afinal,
a manifestação dos Espíritos é quase tão antiga quanto a
presença do homem na Terra. A história o demonstra. Mas
por desconhecer esse processo o indivíduo poderá, segundo
Herculano, “aturdir-se com fatos mediúnicos rudimenta-
res”, imaginando que são novos e merecedores de aceita-
ção como sendo doutrinários. Ele mesmo foi testemunha
de muitos casos de espíritas pouco versados na Doutrina,
que se entusiasmaram com o mediunismo praticado por re-
ligiões primitivas e resolveram bandear para o lado delas,
na expectativa de serem mais efetivas. O problema propria-
mente dito não está na opção feita por eles, mas na ignorân-
cia do indivíduo em relação à realidade dos fatos. A extensa

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Kardec é Razão

faixa moral e cultural em que se reúnem os Espíritos possi-
bilita perceber que o Ser no Mundo expressa condições que
vão dos selvagens e primitivos aos civilizados a caminho dos
planos superiores. É preciso, pois, ter em mente que:

As práticas mágicas ou religiosas, baseadas nessas
manifestações, constituem o Mediunismo, pois são
práticas mediúnicas. A Doutrina Espírita é uma
interpretação racional das manifestações mediúni-
cas. As práticas do chamado sincretismo religioso
afro-brasileiro, por exemplo, não são espíritas. O
sincretismo religioso é um fenômeno sociológico
natural. O Espiritismo é uma doutrina. Os fatos
mediúnicos são fatos espíritas, assim chamados
pelo próprio Kardec, mas não são Espiritismo.
Porque o Espiritismo se serve dos fatos mediúnicos
como de uma matéria­prima para a elaboração de
seus princípios, ou como de uma força natural que
aproveita de maneira racional. (VIII)

Ao fazer a diferenciação entre Espiritismo e mediunis-
mo, referindo-se, inclusive, ao sincretismo religioso afro-
-brasileiro, o professor não tem por objetivo condenar os
que se filiam a essas correntes, muito menos apresentar
uma pretensiosa condição de superioridade. Não pode ele,
contudo, fugir da realidade que se apresenta diante de seus
olhos, que mostra ser o Espiritismo “uma interpretação ra-
cional das manifestações mediúnicas”. Embora não o diga,
é, ainda hoje, a mais completa interpretação. Herculano
atinge, ao mesmo tempo, o objetivo de esclarecer o pró-
prio meio espírita, que muitas vezes se apresenta confuso
ante o mediunismo e através de líderes equivocados vê-se
tentado a misturá-lo com a Doutrina. Confusões tão preju-
diciais quanto desnecessárias. A mediunidade, além de ser
uma conquista do homem no plano evolutivo, é também
onde se localiza o campo de pesquisa da ciência espírita. Os

82

Wilson Garcia

princípios, assim como os fatos mediúnicos, ganharam no
seu tempo a comprovação dessa pesquisa. O mediunismo
apresenta todo o seu rosário de fatos, que vai do horizonte
primitivo e selvagem aos dias atuais. Com sua presença, o
Espiritismo os tornou conhecidos e explicados. O estudo do
Espiritismo em conjunto com a Sociologia, permitiu enten-
der o sincretismo religioso e sua aceitação em larga faixa da
sociedade de hoje. Eis porque o professor coloca o sincretis-
mo como “fenômeno sociológico natural”.

A diferença entre Mediunismo e Mediunidade está
na questão da conscientização do problema mediú-
nico. Nas religiões primitivas não havia nem podia
haver reflexão sobre os fenômenos, seu sentido e
natureza. Tudo se resumia na aceitação dos fatos
e nas tentativas de sua utilização para finalidades
práticas, objetivas. A Mediunidade é o Mediunismo
desenvolvido, racionalizado e levado à reflexão re-
ligiosa e filosófica às pesquisas científicas necessá-
rias ao esclarecimento dos fenômenos, sua nature-
za e suas leis. (VII)

O que antes constituía apenas em fenômeno passa a ser,
para o Espiritismo, um ramo do saber em que o conheci-
mento permite agir e a razão compreender. Para as religi-
ões primitivas, o mediunismo era finalidade em si mesmo;
após o advento do Espiritismo, passa a ser fonte do saber
racionalizado, servindo não só para o intercâmbio entre os
planos visíveis e invisíveis, mas também para pesquisa cien-
tífica e reflexão filosófica, tornando-se, por aí, caminho para
conhecimento da natureza e suas leis.

Por outro lado, os espíritas têm uma dívida moral
e espiritual para com as religiões negras e mesti-
ças. Quando Luiz Olímpio Telles de Menezes lan-
çou na Bahia o primeiro jornal espírita, “O Eco de
Além-túmulo” no século passado, a Revista Espírita

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em re- torno ao passado. (X) 84 . é a Moralidade. Seria estranho e inexplicável se os espíritas. Serviram no seu tempo. pois. (IX) Imbuído de uma liberdade de análise comprometida com a justiça. reconhecendo sempre que o mediunismo teve sua importância histórica e se apresenta agora esclarecido pelo Espiritismo. A religião verdadeira. manter com elas uma relação de cordia- lidade. segundo Pestalozzi. Kardec é Razão de Kardec registrou o fato com espanto. como um dos países mais refra- tários ao Espiritismo. As religiões primitivas são formas superadas de inter- pretação do mundo. abrin- do caminho para a chegada do Espiritismo. Herculano coloca a questão da Umbanda em seus termos verdadeiros. a relação do Espiritismo com essas religiões na base de uma dívida moral e espiritual de seus adeptos. Não podemos esquecer essa contribuição importante de negros e índios para o arejamento do nosso asfixiante clima religioso. os negros escravizados acabaram contribuindo para o “arejamento” do ambiente religioso no Brasil. convi- viam com os bichos e não com as ideias. O resumo disso pode ser visto da seguinte forma: os espí- ritas devem às religiões provenientes do mediunismo um grande respeito. mas. compreensão e tolerância. pos- suindo essa visão nova do mundo e da vida. Mas nesse mesmo instante as práticas de Macumba no Brasil rompiam as barreiras católicas e abriam a brecha necessária para a penetração do Espiri- tismo em nossa terra. mestre de Kardec. sem nenhum prejuízo. podendo. O respeito não implica. por con- siderar o Império Brasileiro estreitamente ligado à Igreja Católica. Embora praticantes de uma religião primitiva. re- solvessem voltar aos terreiros de macumba. O professor re- conhece. portanto. como realmente o era.

Por outro lado. o que significaria a mesma coisa. Herculano compreende que tudo isto compõe a carga que o homem carrega. pressionando contra o avanço do homem. da época primitiva. (IX) O ponto central. Depois de alcançar o estágio do Espiritismo. Wilson Garcia Importa. mas o espírita esclarecido deve utilizar essa “visão nova do mundo” para compreender o problema e não se deixar levar pelos seus naturais apelos. Não se pode misturar uma doutrina científica e filosófica com práticas de magia primitiva das selvas. Os dirigentes de centros espíritas precisam tomar conhecimento deste assunto para evitarem a mis- tura de práticas africanas em suas sedes. Não se trata de um repúdio ao mediunismo e sua men- talidade mágica. compreender as questões no seu justo contexto. não pode o homem re- troceder às práticas mediúnicas. que precisa ser compreendida. não se pode partir para os extremos e despre- zar a mediunidade. Aqueles que ainda estão presos culturalmente às religiões primitivas sentem-se de fato atraídos pelas práti- cas do mediunismo. vale repetir. que 85 . Quanto à ligação da mediunidade com o corpo. mas de uma questão de método e cultura. para o professor. pois. A evolução não permite retrocesso. é exatamente este da “mistura de uma doutrina científica e filosófica com práticas de magia primitiva”. Os componentes dos horizontes primitivo e selva- gem estão presentes na atualidade. sob o argumento ingênuo de que os fe- nômenos não convencem a ninguém. Nem reduzi-la a uns poucos tipos de manifestação. a qual é responsável pelas suas idas e vindas em relação à compreensão do novo conheci- mento. assim como às manifesta- ções religiosas. Mas é ao homem que cumpre lutar para vencer a situação e despojar-se da carga.

que. a conquista da mediunida- de tem sua sede no Espírito.. (. para dizer que do ponto de vista orgânico ela não existe.) A condição infantil corresponde às necessidades evolutivas do corpo material. trata-se de coisa muito diferente disso. jovens e idosos na Terra. embora tenha com este relação íntima e dependa dele. (VII) Assim como o mediunismo e a mediunidade. por sua vez. De fato. E o professor ataca o ponto controvertido da mediunidade orgânica. mesmo que haja condições especiais ali que favoreçam as alterações da aparência formal. mas adultos. tem no peris- pírito um elo fundamental e indispensável. O professor ensina isso mais uma vez. Coloca ele a ques- tão em termos de origem. As manifestações de espíritos de crianças são natu- rais. confundindo-a com uma suposta origem orgânica da mediunida- de. (. haveremos de tê-los no ou- tro plano da vida.) Acontece que os espíritos de crian- ças não são crianças. Assim. Kardec é Razão muitos espíritas não entenderam. A mediu- nidade está ligada ao corpo pelo espírito que a ele se liga. Temos crian- ças. O que não 86 . (X) O bom-senso deve imperar quando se trata de Doutrina Espírita. A lógica leva ao entendimento de que a ligação do Espírito com o corpo faz com que o primeiro transmita ao segundo as condições ide- ais da mediunidade. Mas as manifestações desses espíritos em cadeia. mas não pertence ao corpo e sim ao perispí- rito. a mediunidade “não pertence ao corpo''.. aqui nesta sua interpretação do fenômeno mediúnico. pois todos os espíritos podem manifestar-se.. formando correntes para trabalhos espirituais não têm sentido. há outros problemas a serem resolvidos. que enquanto estivermos encarnados faz parte do corpo e permite a ligação do espírito comuni- cante com o perispírito do médium.

uma es- trutura de planos e superplanos do entendimento superior e global das situações existenciais. que lhe abriria as perspectivas do inteligível. por falta de lógica. sem a qual não há possibilidade de confron- to de suas percepções e captações com a realidade tridimensional do mundo. a verdade desse ensino. As tentativas de retirar o 87 . dadas por Espíritos que se fazem passar por sábios. como quem diz que aí está um ponto chave para melhor avaliação da identidade dos seres invisíveis. é a linguagem. a submissão em que se colocam certas pessoas e grupos diante dessas correntes. chamando a atenção para o fato da linguagem do Espírito manifestante. acabando por aceitar mensagens ri- dículas. segundo ensina Kardec. Mas além disso falta-lhe a dimensão cultural das relações doutrinárias. As possibilidades de mistificação medi- única são muitas vezes evidentes. O médium solitário vive apenas em duas dimen- sões: a dimensão do espírito comunicante e a sua própria dimensão individual Falta-lhe a dimensão social. menos ainda. é a formação de “correntes para trabalhos espirituais” formadas por espíritos de crian- ças e. em todo o mundo. mas muita gente prefere não atentar para isso. (XIII) O estudo do Espiritismo previne muitos enganos. o que abre as portas a muitas mistifica- ções de linguajar pomposo e às vezes até mesmo desrespeitoso. A carteira de identidade dos Espíritos. através de mais de um século. A experiência com- provou. entendendo que elas são de elevadas condições espirituais. o professor en- contra o Ser inserido no Mundo. (VII) Em qualquer setor da Doutrina Espírita. Mas a maioria das pessoas que se interessam pelo Espiritismo parece ignorá-lo. Wilson Garcia é aceitável. Hercu- lano volta-se para isso.

incapaz de fazer avaliações de seu próprio desempenho mediúnico: das mensagens. capazes de abrir “as perspectivas do inteligível”. Kardec é Razão médium do contexto social são feitas por pessoas que não compreenderam os objetivos doutrinários. pela falta que fazem as “relações doutri- nárias''. Pode tornar-se. têm por finalidade o apoio recíproco de médiuns. a social e a cultural. da identidade dos Espíritos etc. O médium que valoriza. em campo aber- to. mostra de maneira cabal que pensava e agia contrariamente 88 . Duas são as suas finalidades básicas: desenvolver uma cultura espiritual livre das su- perstições e permutar ideias e experiências. afirma que a falta de uma delas pode ser suficiente para deixar o trabalho mediúnico comprometido. estudiosos e pesquisadores dos fenômenos mediúni- cos. em que o isolamento orgulhoso das Igrejas em relação ao avanço científico separou a cultura religiosa da cultura geral (VII) O professor consegue ser mais explícito e convincente ainda. de ma- neira a facultar o desenvolvimento de uma cultura espiritual desligada das superstições do passado obscurantista. diz Herculano. e mais. para troca de ideias e de experiências. ape- nas a dimensão do Espírito comunicante está comprometi- do definitivamente pela impossibilidade de confronto “de suas percepções e captações com a realidade tridimensional do mundo”. acusado de anti-unificacionista. ao mostrar as quatro dimensões ne- cessárias: a do Espírito comunicante. o médium que se isola do mundo comete um erro fundamental e. As relações sociais no Espiritismo. compromete a qualidade de seu trabalho. mas não deixa de lembrar que precisam ser desen- volvidas em “campo aberto”. O professor cha- ma a atenção para isso. De qualquer forma. Importante lembrar que Herculano. nas explicações sobre as relações sociais no Espiri- tismo. a dimensão individu- al. Com isso. ao mesmo tempo. até.

também aí. A causa disso estaria. que a Doutrina Espírita é interpretativa e que este fator impede a troca de modelos prontos e acabados. o entendimento de que. Entre a prece de abertura e a de encerramento desenvolvem-se as manifesta- ções mediúnicas. por parte de algumas lideranças espíritas. aí. Ou seja. SESSÕES ESPÍRITAS Não há regras específicas e formais para a realiza- ção das sessões espíritas. sob a orientação e muitas vezes a interferência de espíritos dirigentes. geralmente católica. portanto. é chamar a atenção para o fato de que os denominados “modelos rígidos de reuni- ões” afrontam o bom-senso. seja. Daí porque luta pela “cultura espiri- tual desligada das superstições do passado obscurantista”. é efetivamente a favor da união para troca de ideias e experiências. (VII) A ideia básica do professor. de formular modelos de atividades. têm profunda identidade igrejeira. Mas há. que se mostram muito firmes na mentalidade de alguns. Em reforço da ideia 89 . na bagagem cultural que o ser carrega desde o “passado obscurantista”. Desconhecem eles. seja através de ações sub-reptícias. certamente. seja com normas burocráticas. enfim. para grande parte dos que procuram o Espiritismo. sem os cerceamentos que os cultores do chamado movimento unificacionista costumam estabe- lecer. que impedem o desenvolvimento livre das rela- ções entre os homens. na intenção ingênua de facilitar os dirigentes de Centros. embutido. o que não é verdadeiro. por meio de comportamentos ortodoxos. Há uma tendência muito for- te. esta doutrina e a deles. Wilson Garcia a isto. O que fica também claro é o seu entendimento de que o “iso- lamento das Igrejas” determinou a separação da “cultura religiosa da cultura geral”.

também inte- ressam a Herculano. Tanto faz que num Centro Espí- rita as reuniões públicas comecem pela prece. Trata-se de uma concentração coletiva de pensamentos voltados para um mesmo alvo. A palavra concentração sugere um esforço men- tal contínuo para se manter o pensamento fixado numa imagem. Viu-se. Mas. A concentração é um ato necessário à relação mediúnica. Cada casa tem a liberdade de formatar suas atividades segundo a cultura vigente. (VII) Como se vê. CONCENTRAÇÃO MEDIÚNICA O problema da concentração mental é também um dos menos compreendidos. ou que algumas das partes sejam invertidas. o que. é a interpretação que confere o entendimento do assunto. se constituiria em fato condenável e denotador da imperfeição dos Espíritos. Kardec é Razão da interpretação doutrinária livre vem o sentido evolutivo do Espiritismo. passem pela palestra e terminem no diálogo. se confir- mado. A concentração dos pensamentos numa reunião mediúnica não corres- ponde ao tipo de concentração individual de uma pessoa num determinado problema a resolver ou num estudo a fazer. arremata o pro- fessor. os participantes de reu- niões serem convocados à concentração e assumirem uma 90 . Quando todos pensam em Deus ou Jesus. também. Além disso. palmilhando a es­ trada do bom-senso. to- dos os pensamentos se concentram numa só ideia. em muitas ocasiões. o que não deve ser confundido com interferências indevidas ou imposições vindas do plano espiritual. os detalhes que envolvem a questão mediú- nica. especialmente quando de caráter osten- sivo. deve levar em consideração as possibilidades de aperfeiçoamento oferecidas pelos “espíritos dirigentes”.

evitando sua dispersão. Mostra. É verdade que. manter o pensamento dos participantes retidos no local. As cantorias se estenderam a outras reuniões e assumiram aspecto religioso. especialmente durante ses- sões de efeitos físicos. devocional. pode bloquear a razão e excitar o misticismo. Uma das intenções com o ato da concentração é. A VIDÊNCIA MERECE CUIDADOS A vidência. que deve ter um alvo para facilitar a formação do ambiente e a manifestação dos Espíritos. tanto maior quanto mais dificuldade tiver o indivíduo de voltar sua atenção para um alvo estabelecido. como todas as formas de mediunidade. A emenda ficou pior do que o soneto. a experiência tende a fornecer o melhor entendimento da questão. o que traria prejuízos para as relações mediúnicas. quando não imaginavam que para con- centrar seria preciso algo como o esvaziamento da mente. De qualquer maneira é importante perceber que o ato de concentrar exige um es- forço. muitos coíbem o uso de certas especialidades mediúni- 91 . os dirigentes tentaram resolver a questão introduzindo cantorias. Wilson Garcia postura de dúvida. Nestes casos o místico está sujeito a enganos fatais. Em alguns centros espíritas. (VII) O alerta do professor tem por objetivo estabelecer um equilíbrio racional de forma a permitir que se exerça a me- diunidade dentro dos limites de controle estabelecidos pelo Codificador. Herculano. Seria. que a concentração em reunião mediú- nica é um ato coletivo. a título de disciplina mediúni- ca. No caso específico do médium. a concentração. nos casos de mediu- nato. então. mas a sua ação permanente. o ato de não pensar em nada. cuja concentração facilita a relação psico-afetiva com o Espírito. sem dúvida. pode ocorrer ocasionalmente a qualquer pessoa.

o que é comum acontecer com os místicos. que no Judaísmo. portanto. no Cristianismo e no Islamismo é representado com asas e aura lumino- 92 . Uma delas. a Cromoterapia. como Roussel Wallace. entre as quais está a vidência. simplesmente proibindo sua manifestação. às quais não tem a Dou- trina ligação direta. Depois da Humanidade inicia-se um novo ciclo de evolução com a Angelitude. antropólogo espírita. (VII) A vaidade humana tem sido fator decisivo para a intro- dução de práticas no meio espírita. Não só Darwin. O problema da mediunidade animal apareceu no tempo de Kardec e foi objeto de estudos e debates na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. consideraram o animal como o último elo da cadeia evolutiva que se encerra no homem. É. aí dois sérios problemas alta- mente comprometedores. mas não é a isso que o professor deseja levar. além de intrusa tem sido praticada em alguns centros espíritas alia- da à vidência. uma temeridade confiar-se na vidência para estabelecer novos princípios ou sistemas de prática espírita. sem uma análise racional. Tanto os Espíritos quanto Kardec e a Sociedade conside- raram o assunto como sem fundamento. pois. Os ani- mais são os nossos irmãos mais próximos na escala ontológica. e esta se constituindo em fator fundamental para o diagnóstico da doença e a definição do tratamento a ser seguido. REFLETINDO SOBRE A MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS. Vê-se. O Anjo é o ho- mem-espiritual último produto da evolução ôntica da Terra. Kardec é Razão cas. O seu objetivo é mostrar o perigo que constitui acre- ditar pura e simplesmente em tudo o que se observa atra- vés da vidência.

deixando claro que pode haver entre os animais fenômenos psíquicos. Não há descontinuidade na evolução. por razões particulares insistem em tentar fa- zer crer na mediunidade animal. como acentuou Kardec. Os espíritas estudiosos entendem as informações sobre o assunto dadas pelos Espí- ritos Superiores e referendadas por Kardec. não cabendo considerá-los médiuns. A distância entre o animal e o homem. estabelecendo confusões em lugar de esclarecer o assunto. Podemos e devemos ter bons sentimentos para com os animais. Wilson Garcia sa. mas não podemos nos enganar em relação à distância em que se encontram da evolução do homem. segundo Kardec. Do fato de possuírem um princípio espiritual em evolução e mesmo considerando que eles são o elo mais próximo do homem. pode ser comparada à distância entre o homem e Deus. (VII) Mesmo entre os espíritas existem aqueles que desejam atribuir aos animais uma importância maior do que real- mente têm. também. Sabe-se que mediunidade só existe quando existe Espírito comunicante. analisada pelos Espíritos e a conclu- são é de que os animais não podem ser intermediários de Espíritos. mas não mediúnicos. não se pode concluir que estejam próximos do Espírito que hoje somos. Infelizmente. foi. A impossibilidade de utilizá-los para estabelecer qualquer tipo de comunicação com os homens significa impedimen- to definitivo para a existência da mediunidade nos animais. (VII) O professor é aqui claro quanto incisivo: a mediunidade animal foi considerada pelo codificador e outros es- tudiosos. Tudo se encadeia no Universo. alguns estudiosos. não raro por questões sentimentais que resul- tam de suas ligações pessoais com os bichinhos. junto a vários espíritas sentimentais. 93 .

Houvesse o fenômeno sido comprovado por outros meios. o Espiritismo se interessa mais pelas manifestações de espíritos adultos. que representa uma fase decisiva da evolução dos seres. mas ain- da se insiste no engano da mediunidade animal. sepultar o assunto. o que é de suma im- portância e a pesquisa neste campo. de que a distância entre o homem e o animal é imensa. que a passagem de um princípio espiritual da escala inferior para a hominal se- quer se realiza na Terra. Não há prova científica de sua existência. fortalece a assertiva de Kardec. de certa forma. o que. aqui destacada por Herculano. entre os quais podemos. uma vez que não merece uma discussão interminável. a vidência poderia ser para 94 . Como esse meio de pesquisa é sujeito a muitas imprecisões e interpretações errôneas. bem como maior proveito para a humanidade. portanto. colocar os gnomos. como as do sincretismo religioso afro-brasilei- ro dão grande ênfase a esse campo de manifesta- ções primárias. inclusive. como a Teosofia de Olcot e Blavatsky e religiões mágicas. pede muita prudência. sendo feita através da vidência. também. OS ELEMENTAIS Doutrinas de elevado teor cultural. mesmo que isso represente um certo desconforto psicológico. Kardec é Razão A Doutrina chega a afirmar. primiti- vas. pois nestes encontra mais se- gurança e possibilidades de confirmação dos fatos. (VII) É preciso. (X) O raciocínio do professor encontra na lógica do proble- ma da vidência a solução para a questão dos elementais. Hoje não se fala mais em médiuns inertes. que só pode ser pesquisado através da vidência.

rever e corrigir muitas informações. a escrever. CURAS E OBSESSÃO No centro espírita. na Suécia. O primeiro era um dos maiores sábios do século XVIII. (VII) Não sendo médium ostensivo. basta lembrar o caso de Swedenborg. perdeu-se nas próprias visões. antes de dá-las à publicação. O segundo era também vidente e lançou uma série de livros em que o fantástico supera as possibilidades do real. mas não pode ela ser o único meio utilizado para comprovação. Kardec foi. Wilson Garcia a existência dos elementais um referendo. contou com a proteção natural contra os possíveis desvios que uma me- diunidade ostensiva apresenta. nos Estados Unidos. especialmente em casos de grandes missões. MÉDIUM GERAL Para se compreender melhor a razão pela qual Kardec não teve um mediunato. como dizia Descartes. e acabou criando uma seita eivada de absurdos. assim. amigo de Kant e foi um precursor do Espiritismo. fascinado pela realidade invisível. o problema das curas não pode restringir-se a tentativas ocasionais ou aleatórias. Dispondo apenas dessa forma de mediunidade. (IX) 95 . dotado de extraordinária vidência. um médium na generalidade e. Mas. como qualquer pessoa. KARDEC. que o inspiraram e levaram. a que Herculano classifica de mediunato. portanto. e de Andrew Jak- son Davis. pôde realizar grande parte de seu trabalho sob a supervisão dos Espíritos. permanecendo com os pés no chão e examinando todas as manifestações espirituais com o mais rigoroso critério cientifico. Kardec pôde realizar seu trabalho com firme- za porque não quis ser mais do que homem.

Desde já. ao fa- lar de Medicina Espírita. para a unidade que o Universo e o Ser constituem. de fato. (VII) 96 . “tentativas ocasionais ou aleatórias” compreendem. Poder-se-ia dizer. portanto. contudo. portanto. para ver outros detalhes da questão. em Paris. uma relação profunda. oferecendo-lhes as condições necessárias de equilíbrio. a ausência de uma ação in- tegrada. Herculano pode parecer pretensioso. com segurança: não basta curar o mal físico. o primeiro é visto na sua condição cósmica e o se- gundo na sua condição de lugar da evolução. não acabado. acima de tudo. destaque-se a sua afirmação de que esta medicina é um “processo em desenvolvimen- to”. afirmando: A Medicina Espírita é um processo em desenvolvi- mento. ao qual há de ser acrescido todo novo conhecimento e do qual os homens podem retirar en- sinamentos importantes. na segunda metade do século passado. Demeure. Mas o bom-senso nos leva a pensar mais adian- te. preocupado com o Ser no Mundo e. (VII) Para alguns. Prossegue: A Medicina Espírita é uma decorrência natural da natureza e das finalidades do Espiritismo. Começou com Kardec e o Dr. Kardec é Razão O que seriam tentativas ocasionais ou aleatórias. As vistas do pensador se voltam. para o professor? O cerne da questão poderia estar no termo “ten- tativas”. O Ser e o Mundo guardam. conquanto ele próprio também evolua. As- sim. es- pecialmente quando analisamos o desenvolvimento do seu raciocínio. enqua- drando-o nas largas faixas de orientação que o Espiritismo oferece. Desse ponto de vista. Herculano está. Mas é preciso dar-lhe razão. é preciso encarar o Espírito e o Mundo. o professor vai abordar a questão do ponto de vista da Medicina Espírita. entre si. que leva em consideração o homem total. portanto. ou o Ser e o Universo.

e preten- de. Wilson Garcia É como se o professor dissesse: não se pode estudar o Espiritismo sem perceber que a da doutrina conduz. Mas o Espiritismo não se limita a ações pontuais. o Espiritismo sem a Medicina fica enfraquecido diante da realidade atual do mundo. já explica que o Espiritismo não tende a fazer concorrência com os profissionais da Medicina. Mas o Espiritismo tem um objetivo a cumprir e esse objetivo toca de perto todos os problemas humanos. O ato de curar um mal físico ou espiritual pode parecer importante e o é. sem o Espiritismo. no campo da cultura para tornar os homens agentes de seu equilíbrio orgânico-psíquico. ainda. isto sim. Equivaleria dizer: a Medicina. E mais. e dos princípios que levam a orientá-lo ao progresso. inclusive o da saúde. cla- reza e lógica. Pretende ser. à visão do homem integral. das causas e efeitos de tudo que o envolve. É o que Kardec chamava uma aplicação dos princípios espíritas no plano cultural. enfatiza Herculano: 97 . dirá: Medicina Espírita não é uma aplicação pura e sim- ples da mediunidade curadora a casos de doenças incuráveis. nem uma forma de curandeirismo. E preciso considerar com atenção a “aplicação dos princípios espíritas no plano cul- tural”. apenas. por tudo isso. é im- potente para conter e solucionar todos os problemas de saú- de. de fato. Além do mais. Como reforço. (VII) O pensamento aparece aí com todo o seu conteúdo. a Medi- cina Espírita não pode ser vista. o que implica desvendar seus males e curá- -los. por si só. nem ofuscar-lhes o trabalho. natu- ralmente. ocupar o espaço que de direito tem. apenas e tão somente como uma decorrência da mediunidade curadora. que é pontual e atua em situações objetivas. um auxiliar dos profissionais sérios no plano da consciência. Isso.

são os mesmos de que devem se servir os que compõem o movimento espírita. O professor. contudo. Absolutamente! A sua doutrina. contudo. de modo que lhe resta fazer uso desses instrumentos. Para o professor. Sem uma base de convicção firme e de lealdade à obra de Kardec não poderemos curar- -nos a nós mesmos. que o professor é aí sábio. quanto mais aos outros. para tornar esse movimento coerente com os princípios que defende. E. Não se sinta o aluno agredido com a severidade do professor. o Espiritismo busca a transcendência do Ser e. como o point importan- te da aplicação da terapia espírita. (X) Ora. incorpora as funções educativas e curadoras. o preparo do homem integral começa em casa: A terapia espírita não terá eficácia se não puder- mos aplicá-la a nós mesmos e ao nosso movimento doutrinário. do movimento espírita. Uma complementa a outra. assim. Seria erro imaginar que o Espiritismo buscou o campo da cura para se promover ou para fazer frente aos seus opositores. porque os princípios que vão formar a base cultural do homem. abrangente. dispõe de ins- trumentos para ambas as funções. Pode parecer uma metáfora a aplicação da terapia espírita ao movimento. da mesma te- rapia que oferece ao homem. Mui- ta gente boa entende ter sua convicção doutrinária extre- mamente firme. por- tanto. (X) O Centro Espírita surge. de tal forma que toma como ofensa qual- 98 . e por- tanto torná-lo equilibrado. no plano individual dos dirigentes e trabalhadores e. sob pena de ver reduzido o seu campo de abrangência. Kardec é Razão Curar e educar são funções conjugadas do homem na luta pela sua transcendência. lógico. observe-se. refere-se à “convicção firme” e à “fideli- dade à obra de Kardec”. deve retirar os ingredientes para uso. no plano coletivo.

espera que junte-se à convicção uma irredutível fidelidade ao Co- dificador. por consequência. salve a Razão e o conheci- mento. remete-se ao entendimento dos objetivos do Espiritismo. Como o Univer- so. Enfim. A terapêutica espírita se funda na concepção do Universo como estrutura unitária e infinita. que explica o Universo e o Ser. as fantasias. Essa estrutura inimaginável encerra tudo em si mesma e por isso todos os recursos de que necessita estão nela mes- ma. Abaixo o milagre. O Centro Espírita tem o dever de procurar. como ensina Kardec. que esse exemplo sirva ao aluno. O conhecimento do encadeamento do Universo é que permite ao Espiritismo desenvolver uma terapêutica eficaz e alcançar resultados que surpreendem à medicina e à edu- cação. contudo. consciente de que toda a bagagem cultural que adquiriu. Essa reação costuma ser a prova da fraqueza dessa convicção. verdadeiramente extensa. há uma constante relação de todas as coisas e todos os seres no Universo. Des- sa maneira. Note. diz da fé raciocinada. não é con- tudo suficiente para desejar superar o mestre Kardec. pois. da sociedade. Caminha o homem para o momento em que se torna causa de seus males e agente da cura deles. professor. no enca- 99 . desco- brir o encadeamento das coisas e daí retirar o que é preciso para o equilíbrio do Ser e. exemplifica em seu postulado de educador. não será qual- quer brisa de primavera que irá balançá-la. o pensamento do professor: refere-se ele ao conhecimento racional do Espiritismo quando indica a convicção. Naqueles em que ela de fato se encontra enraizada. a Doutrina Espírita tem uma “estrutura unitária e infi- nita”. Tudo se encadeia no Universo. E al- meja. (X) Eis o que o Espiritismo faz: conhecer o Universo. fidelidade que ele. Wilson Garcia quer referência que levante dúvidas sobre ela.

a síntese da Doutrina Espírita. Quando este ciclo se completa. assim. Da mesma forma que as condições se juntam para favorecer a cura. não se obtém o resultado desejado. por mais dedicados que sejamos ao Espiritismo. Para que o aluno possa compreender bem essa questão. (IX) A convicção firme é responsável pelo entendimento. mas au- sência de condições para obtê-lo. também. não significa simplesmente o império do mérito ou do demérito. elas também se mantêm dispersas impedindo essa mesma cura. A visão macro do Uni- verso fornece as bases para a compreensão dos resultados possíveis numa atividade curativa. Quan- do. das leis que governam a vida. que outra não é senão esta que abarca o encadeamento do Universo. por mais abnegados no tocante ao próximo. passa a figurar como o remédio a continuar a ser aplicado. pois. no qual é o Ser uma de suas partes fundamentais. está ela em condições de ser eliminada. Todos os recursos para os serviços precisam estar disponí- veis na estrutura do Centro Espírita. vai entender que a terapêutica espírita consegue eficácia indiscutível quando o dirigente desenvolve e emprega uma visão cientifica do Espiritismo. o professor formula 100 . aos olhos do Universo. ou seja. A doença tem seu ciclo normal. das condições que cercam o proces- so assistencial do Centro Espírita. a síntese da dou- trina que pratica. que deve ser. Kardec é Razão deamento dos seus serviços à coletividade. inter-relacionar os seus setores para que haja aí. segundo o professor. Com isso. Aquilo que parece solução aos olhos humanos poderá ser mera falta de condições para se juntar os fatores necessários. durante o qual provoca reações no Espírito e reper- cute na sociedade. A cura espírita não se efetua. se a doença ou deficiência que sofremos for em si mesma o remédio de que de fato precisamos. quando não.

Nos casos de cura à distância. têm leva- do à criação de lugares-comuns. que dificultam a compreensão humana em lugar de auxiliá-la. que resultam do estudo incompleto. o professor mergulhou no seu estudo e compreendeu o va- lor e a independência dos Espíritos em relação ao homem 101 . sem a presença do médium.. 3. 6. Enquanto muitos preferiram se indispor com os fenômenos que pareciam extravagantes. sínteses mal elaboradas. respostas prontas. 4. Wilson Garcia um quadro com alguns princípios que devem ser observa- dos na terapêutica espírita: 1. A cura das doenças depende da ação natural das energias conjugadas do homem e da Terra. ao estudar a mediunidade sem ne- nhum tipo de constrangimento ou de obstáculo proveniente de sua carga cultural anterior. por via da ignorância. a eficácia depende das condições psicofísicas do doente.. as quais. A eficácia do passe depende da boa vontade do médium. A ação curadora dos espíritos não é mágica nem milagrosa. dominado pelo espírito que dele se serve por influenciação mediúnica no transe hipnótico. especialmente no cam- po da fenomenologia mediúnica. As chamadas operações espirituais (hoje pa- ranormais) podem realizar-se por intervenção do médium. Herculano foi um exemplo também nesse terreno. A renovação de energias depende da ação con- jugada dos espíritos terapeutas com o médium curador. em conjugação com as energias espirituais dos espíritos terapeutas. 2. (X) Tem o professor em mente fazer refletir com bom-senso sobre questões que imperam nas atividades assistenciais do Centro Espírita. 5. Mas o professor deixa nas entrelinhas margem para o combate a certas atitudes preconceituosas.

(IX) O mérito é um dentre os muito lugares-comuns estabe- lecidos no meio espírita. O professor sempre entendeu que os fatos estão acima dos homens e das teorias que estes querem aplicar à sua inter- pretação. Daí o seu empenho em fazer com que as lideranças espíritas entendam a neces- sidade da prática mediúnica no Centro Espírita. ao receber uma cura nos consideramos premiados. mas não se vergou ante os mesmos. mas não se trata disso na questão das curas. a esse respeito. mas importantes para evitar confusões e evitar. o simplismo das sínteses. martírio e mediunidade”. vida. generalizando-se como resposta para aqueles males cujo fim foi alcançado. devido às características mesmas do fato. E passou a ser 14 Leia-se. também. O campo da cura é o setor da mediunidade onde estas situações mais ocorrem. Herculano procedeu segundo esse exemplo. as- sim. 102 . A questão de méritos é nossa e como somos sempre demasiado generosos em nosso autojulgamento. fiel ao co- nhecimento kardeciano e desprovida dos preconceitos que costumam anular os seus melhores resultados. Jesus surpreendeu com seus recursos de cura e carreou contra si o furor daqueles que não compre- enderam o seu procedimento. Kardec é Razão e sua mania de impor condições para aceitação dos fatos14. Para Deus e portanto para os Espíritos Superiores. no campo da cura. a doença é cura de nossas imperfeições e a cura é que nos pre- dispõe para as provas que ainda teremos de enfren- tar. Fala-se muito em méritos e recompensas. em que Herculano estuda e defende aquele que foi um dos maiores fenômenos mediúnicos brasileiros. o livro “Arigó. descendo aos detalhes aparentemente desnecessários. Vemo-lo. que viu elevado à potência maior em Kardec.

com o demérito. A palavra mérito não é a que melhor se encaixa quando se pensa em termos de conjugação de fatores que permitem a cura. Não existem discriminações injustas no tocante às possibilidades de intercâmbio espiritual. da cura do Ser em seus estados dese- quilibrados. de uma conclusão apressada da explicação dos Es- píritos sobre méritos e recompensas. a doença passa a ser o agente da melhoria. doenças. O que vale 103 . porque se refletem nele pelo sofrimento físico ou moral. não raro intervindo nos processos de cura. Isso causa espécie a pessoas ainda impregnadas de antigos preconceitos. As manifestações de espíritos de negros e índios são comuns. No entanto. quando necessários ao nosso progresso. ao empregar uma série de ações positivas. veem-nos com os olhos da sabedoria. Dentro do processo de condução do Ser ao seu aperfeiçoamento. assim como a palavra demérito também não é a ideal para a explicação dos fatos quando esses fatores permanecem dispersos e a cura não ocorre. vista pelo ângulo do caminho para o progresso. “Como podem esses espíritos primários ainda apegados à era do barro – dizia- -nos famoso jornalista – manifestarem-se como orientadores e terapeutas num meio de civilização superior?” Acontece que a população espiritual da Terra é semelhante à sua população encarnada. contribui para a conjugação desses fatores. embora para nós dolorosos. a natureza emprega ações que o Ser denomina males. pelo contrário. O professor anota que os Espíritos Superiores não olham para o homem com a piedade simplista. Trata-se. O ponto verdadeiramente ideal do mérito aparece quando o termo conduz o ser a compreender que. Wilson Garcia explicação para os que não se obtém. que os levariam a tentar eliminar todas as dores. para o pro- fessor. portanto. não se intrometendo nos processos naturais. valendo o mesmo para o contrá- rio. termo que no Espiri- tismo sintetiza conhecimento e razão.

o mestre. é preci- samente a da prática doutrinária da desobsessão. arguto. A parte mais importante e necessária das ativida- des mediúnicas. como também o demonstrou André Luiz. Apesar de tudo. e particularmente a Psiquiatria exige redobrado esforço dos centros no trabalho de doutrinação e de desobsessão. tentou-se e ainda se tenta eliminar das mesas mediúnicas a presença de Espíritos de negros e índios. O fato. E 104 . a ponto de levar dirigentes a proibirem terminantemente aos médiuns receberem tais Espíritos. O processo da reencarnação elimi- na os motivos dos preconceitos terrenos. que se manifesta como tal poderia também manifestar-se apenas como espírito ou até mesmo como espírito de uma encarnação de amarelo ou de branco por que já passara. A desobsessão se enquadra na mediunidade de cura. O estado de confusão a que chegou a Psicoterapêu- tica em nossos dias. o seu remédio. Trabalhar nesse setor é dever constante dos mé- diuns esclarecidos e dedicados ao bem do próximo. mormente em nossos dias. esse preconceito é ainda forte em muitos lugares. De fato. chamando a atenção dos centros espíritas para a necessidade de oferecer esse serviço à população. por preconceito. (X) Bem o disse Kardec. A desobses- são é o seu contraponto. O professor. certa vez: o preconceito é um dos maiores entraves ao progresso humano. perfeitamente explicado por Her- culano. tem sido a razão para a cura de muitos males. Kardec é Razão no espírito não é sua qualificação social mas a sua condição moral. em suas obras psicogra- fadas por Chico Xavier. faz ver que esse mesmo comportamento não se apresenta quando se trata de um branco ou amarelo que se manifesta. O professor destaca a sua importância. (IX) A obsessão é um processo doentio da alma. Um negro velho.

sem a assistência numero- sa do socorro geral. gritam e choram. mediante visão acanhada do comportamento deles. tende a trazer benefícios para ambos os lados da vida. Numa sessão de desobsessão para casos graves. o último reduto que a ciência de fato vai penetrar um dia. com poucos elementos. gemem. vindo das profundezas do Egito. os médiuns sofrem. na atualidade. Mas. especialmente a Psiquiatria. aparentemente impassíveis e os doutrinadores usam de palavras persuasivas. Muita gente – per- cebeu Herculano – desenvolveu reações não condizentes com a realidade dos Espíritos e. As doenças psicológicas são ainda o maior desafio para a ciência. no principal e. mas por caminhos outros e indiretos. da Mesopotâ- mia. as comunicações são violentas. uma vez que se dedica a resolver primeiro as doenças do corpo. dentro do quadro dos desafios da natureza. É normal acontecer de Espíritos muito ape- gados à Terra conduzirem os médiuns a atitudes violentas e reações de gemidos. sem preconceitos. sem dú- vida. Qual é o melhor comportamento. Pode-se ver em Herculano um esforço grande para demonstrar que o Centro Espírita se constitui. se o dirigente não entender essa importância não terá o do- ente onde buscar auxílio. O dirigente e os doutrinadores permanecem tranqui- los. da Palestina. como nas práticas antiquadas do exorcismo arcai- co. que a elas chegará. não raro. choro e gritos numa sessão de deso- bsessão. portanto. passou a determinar condutas para os médiuns que se traduziram em obstáculo ao seu de- senvolvimento. de atitudes benig- nas. neste caso. Wilson Garcia mostra que sua importância cresce na medida em que au- menta “o estado de confusão” das terapêuticas psicológicas. Nada de ameaças e exprobrações violentas. único local capaz de amparar os doentes psicológicos obsidiados. dos 105 . (VII) A atividade mediúnica. Este será.

que se torna ainda mais absurda quando amparadas por argumentos se- gundo os quais esse trabalho fica melhor para os Espíritos Superiores. fascinação e possessão) exigir uma manifestação tranquila é não perceber a realidade do Espí- rito obsessor bem como a realidade do médium como seu intérprete. Kardec é Razão dirigentes e doutrinadores? Condenarem o médium? Exigi- rem dele silêncio e educação formal? Proibirem-no de dar passividade? Não. precisam de as- sistência mediúnica para se livrarem desse apego. chamando a atenção para a ação persuasiva que o dou- trinador deve exercer. O professor fala. portanto. típico do mediunismo primitivo. direcio- nando a manifestação aos limites do tolerável. especialmente por compreender que está diante de um ser humano. Os exemplos de resultados positivos da doutri- 106 . (IX) Herculano se refere tanto à prática da doutrinação. A experiência espírita confirma o acerto do atendi- mento terreno. um controle exercido conscientemente pelo médium. absolutamente! Pode haver. de fato. demonstrando cientificamente que espíritos desencarnados. mas ainda muito apega- dos às condições da vida material. que mais não é do que esclarecimento aos Espíritos atrasados. também preconceituosas. onde se tem oportunidade de resol- ver problemas de influência negativa nas ligações entre en- carnados e desencarnados. Esta posição visa combater as falsas interpretações. de que a doutrinação realizada por encarnados não tem efeito sobre os Espíritos. Trata-se de uma ideia errônea. em comportamento tranquilo dos dirigentes e doutrinadores diante desses ca- sos. ou seja. quanto à desobsessão. Mas é pre- ciso compreender que em casos de obsessão grave (como o são os de subjugação. não é preciso que o Espírito leve o médium a comportamento extravagante.

Wilson Garcia nação se multiplicam ao extremo. que não corresponde à sua grandeza. por exemplo. no movimento espírita. sendo-lhes mais fácil perceber sua situação quando em contato com os humanos encarnados. Tudo porque esses Espíritos se acham mais próximos dos encarnados que dos Espíritos Superiores em suas condições psicológicas e ener- géticas. Essa postura vai lhe render anos de combate e solidão. As grandes instituições espíritas brasileiras e as federações estaduais investem-se por vontade pró- pria de autoridade que não possuem nem podem possuir. que se juntaram e decidiram que poderiam fazer funcionar uma instituição capaz de orientar os cen- tros espíritas e o movimento como um todo. não porque não faça parte das instituições. mostra como a ação de um encarnado. em trabalho dessa natureza. marcadas que estão por desvios doutriná- rios graves. como maldosamente chegou-se a insinuar um 107 . FEDERATIVAS E MOVIMENTO ESPÍRITA Em se tratando de instituições. André Luiz. O processo será longo. O dilema existe! Os homens deverão resolvê-lo. levando-os à li- bertação de seus estados psicológicos. CENTROS. costuma abreviar os sofrimentos de Espíritos “apegados às condições de vida material”. A maioria das institui- ções federativas surgiram de ações de homens isolados de seus centros. contudo. O professor não aceita essa “autoridade”. (IX) Herculano parte de uma análise histórica para entender a realidade do movimento espírita. o professor assume a postura de quem percebe o grave di- lema dos homens ante o poder. sob o prejuízo de uma imagem que dele vão difundir.

Uma Federação é uma espécie de catedral e um Centro Espírita é uma igre- ja. No caso das federativas. na tentativa de justificar o man- do. enquadrando-o nas exigências for- mais do sistema igrejeiro. violando os princí- pios doutrinários de liberdade e autodeterminação. Consequentemente. como de resto notará o observador atento. O Espiritismo. As práticas religiosas do Espiritis- mo levam o povo a considerá-lo como simplesmen- te uma religião. são lugares sagrados em que pontificam os expoentes da religião e de onde flui a Doutrina pura e sem mácula. Disso resulta um clima de sub- missão sagrada dos médiuns e dos Centros e gru- pos às Federações Espíritas. mas. As entidades federativas são as primeiras a se convencerem disso e passam 108 . segundo suas concepções. precisamente porque entendeu os princípios de liberdade que emanam da Doutrina Espírita. o que é e o que não é bom para o movimento. incompatíveis com essa autoridade. Corrói os princípios legítimos de liberdade para permitir a ocupação do espaço doutrinário por comportamentos intencionais de dominação. mostra que as instituições humanas são absolutamente falhas. A carga cultural. seus “des- vios doutrinários” graves. Vejamos o seu raciocínio: Cabe às instituições a representação da Doutrina no plano social. por serem incapazes de aplicarem o princípio da “su- perioridade moral irresistível”. neste pon- to – entende o professor – é altamente abrasiva. que lhe maculam a existência. Os médiuns são ge- ralmente considerados como os sacerdotes do cul- to espírita e muitos deles se convencem disso com muito entusiasmo. mais do que nenhu- ma outra doutrina. O começo já se tornou discutível: homens deci- dindo. Herculano notou. Kardec é Razão dia. A questão é moral! E abrange outros aspectos igualmente im- portantes. sem o qual não existiria a responsabilidade própria das instituições menores. E retiraram da fornalha do passado as cinzas da herança divina.

Mas o clima estabelecido. do médium isolado. não abre mão da “liberdade e autodetermi- nação'' dos pequenos e grandes grupos espíritas. sob o prestígio federativo. A unificação. As relações mediúnicas entre a entidade federativa. atra- vés das manifestações dos espíritos orientadores. cria bar- reiras ao dever de espíritos e médiuns. inundam o meio espírita. simplesmente. por conta de sentimen- tos contrários à lógica e ao bom-senso. Wilson Garcia a dominar o meio doutrinário. entidades auxilia- res da difusão doutrinária e facilitadoras do intercâmbio de 109 . Dir-se-ia ser ele contra a Unificação tão procurada. em linhas anteriores. não com- preenderam. Além disso. radicam-se nele e produzem sérias lesões na estrutura equilibrada e lógica da doutri- na. para o professor. A falibilidade dos homens pode levar uma Federação a cometer desli- zes doutrinários graves ou a endossar mistificações evidentes que. e os próprios médiuns que nela trabalham ficam naturalmente abaladas. por ver aí a única maneira de seus líderes e trabalhadores alcançarem um grau de responsabilidade inerente às suas atribuições. pois. como ele valoriza a troca de experiências. sendo conflitivo. os centros e grupos. deveriam ser. destacando a mediocridade. permite reviver comportamentos que se mostraram altamente noci- vos no passado. ainda. por exemplo. especialmente o de supremacia de uma instituição sobre outra. Sabe ele que qualquer outro sentimento. deformando-a a ponto de torná-la ridícula. implica em perda de respeito e perda de liberdade. para Herculano. E por causa mesmo do bom-senso. Cabe aos médiuns a função de restabelecer o equilíbrio. Viu- -se. As Federativas. o papel que lhes cabe e a forma como devem agir. só pode dar-se ao nível do respeito à liberdade e para fins de troca de experiências. contudo. Qualquer manifestação mediúnica discordante da orientação federativa é considerada como mistificação. (VII) Toda a argumentação do professor se dá em cima dos fa- tos. Não fala.

seja porque o sentido de poder as domina. (IX) É importante destacar o aspecto social do Centro Espíri- ta na constituição do movimento. Antes de se defender contra a reação natural do mundo moderno aos seus princípios renovadores. portanto. procurando ele- var os seus adeptos à verdadeira compreensão da doutrina. Uma estrutura de poder que fere os mais elementares princípios da liberdade emite si- nais de fraqueza doutrinária. que passam a desenvolver uma relação com o Centro na base dos aspectos formais. Isso desencadeia confusões nos frequentadores. um órgão ativo e operante da estrutura social. dentro do próprio movimento espírita. como a que é estabelecida pela sociedade em relação ao centro e federativas. Mas não se contentam elas com isso. para o pla- no da estrutura do movimento. desempenha papel contrário à difusão de uma consciência doutrinária mais abrangente. A visão de uma re- ligião formal. o Espi- ritismo precisa enfrentar essa defesa no âmbito in- terno do movimento doutrinário. Kardec é Razão experiências. embora se saiba que esta não é a verdade. acabam por contribuir para uma visão social deformada do Espiritismo. é parte dela. O Centro Espírita se entranha naturalmente na co- munidade. A grande batalha do Espiritismo contra os precon- ceitos tem de ser travada. inclusive. também. seja porque cometem ou endossam equívocos doutrinários. em primeiro lugar. Extra- polando esse limite. (XV) Compreensão que deve transpor-se. das instituições federati- vas e da própria imagem do Espiritismo. 110 .

(XIII) Uma doutrina que prega o amor e oferece o conhecimen- to capaz de entendê-lo consoante a proposta do Cristo. As obras sociais. Porque as formas objetivas são meios de conduzir nosso espírito às manifestações mais puras da ca- ridade. (XII) A questão parece lógica e clara. que constituem suas formas subjetivas. feita em nome desta dou- trina e sob o rótulo da caridade precisa conter em si os ele- mentos básicos desta. que se resumem no amor verdadeiro. com o recurso didático da repetição para facilitar o aprendizado. muitos se esquecem do verdadeiro sentimento que deve conter todo ato nobre e da pureza de intenções que deve permear a mais proveitosa caridade. leva naturalmente à prática da solidariedade. entendermos o verdadeiro sentido da palavra Caridade. Toda obra. Distribuir recursos aos pobres.) Ao dizer que o Espiritismo nasceu da Caridade. como parte da carida- de praticada pelo Centro Espírita. Mas. mas como bom professor Herculano a ela se refere para chamar a atenção. contudo. para bem compreendermos esse fato é necessário. mas nunca deve ser motivo de orgulho e vaidade. Wilson Garcia A QUESTÃO DA CARIDADE NO CENTRO ESPÍRITA O Espiritismo nasceu da Caridade e nela e por ela se desenvolve. como de fato se apresen- ta. apesar dessas constantes re- petições. têm uma grande parce- la de responsabilidade na fixação do Espiritismo em terras brasileiras. hospitais são formas efe- tivas da caridade que enobrece quem a pratica. não dizemos que ele nasceu da esmola. mas da efusão natural e pura do amor.. primeiro. asilos. na qual a caridade é a expressão maior. O misticismo e o 111 . Afinal. dar esmolas ou construir abrigos.. (.

pois. constituem a contribuição espí- rita para o desenvolvimento de nova mentalidade social em nosso mundo egoísta. indul- gência e perdão. além dos resultados que a prática da caridade pura por si só apresenta. visar a renovação dessa mentali- dade social. Se quisermos. as obras que em seu nome são fei- tas pelos espíritas devem se constituir em modelo de verda- deira obra social. Os serviços de assistência ao próximo só podem re- tardar o avanço da violência. (IX) Assim. ao mesmo tempo que aceleram o desenvolvimento moral e espiritual da Humanidade. não esqueçamos que cari- dade é. Por quê? Com cer- teza por causa de sua ausência em muitos casos e da ilusão de que a caridade é a esmola. único meio pelo qual realmen- te pode desenvolver-se. que o Espiritismo se desenvolva através da caridade. Não basta. mas é preciso fazer notar o que ela significa e como. objetivamente. se pode auferir de sua realidade e dos sentimentos que a envolve. pois. prestados pelos centros espíritas. (IX) 112 . O “amar ao próximo como a si mesmo” parece muito óbvio. (XIII) Apresenta o professor três condições entre as várias que devem acompanhar todo ato caridoso. ou seja. causa das piores ações sob o manto da caridade. muitas vezes. Kardec é Razão sentimentalismo têm sido. benevolência. Os serviços assistenciais à pobreza. mas é enganoso na medida em que se não estiver acompanhado dessas três condições estará sem base sólida. insistir na necessidade da caridade. antes de mais nada.

Antes. mas com os cálculos de juros que não existem no Além. por exemplo. mas não têm o direito de envolver uma instituição doutrinária nas disputas eleitorais. espe- cialmente. que punham suas fortunas ao serviço da coletividade. um cidadão e que a Doutrina não tem nenhum interesse em fazê-lo ausentar-se de suas responsabilidades como tal. Chegarão ao Além de mãos vazias e manchadas pelas nódoas da ambição desmedida e da insensibilidade moral. tão desprezada em nossos meios. de bibliografias especializadas. antes de mais nada. mas tão urgente quanto. O espírita. A Ciência Espírita necessita de escolas. de Universi- dades. A cultura. (IX) Temos aí dois pontos altamente problemáticos e que ge- ram intensas confusões. Em segundo lugar destaca o professor a imperiosa necessi- dade de não envolver o Centro Espírita com partidos polí- 113 . São os novos vendilhões do Templo. destacar a ideia de que caridade não é só auxílio material à fome e à sede. ainda. O primeiro diz respeito à necessi- dade que todo espírita tem de compreender que é. como se observa a seguir. julgando que assim aumentam seu crédito nos Bancos da Eternidade. a doutrina bem esclarecida pelo Centro Es- pírita leva a valorizar a participação do cidadão no mundo. deve se lembrar de que outras formas de carida- de existem com a mesma importância das obras sociais. Wilson Garcia Herculano quer. os cambistas da ca- ridade fácil e supostamente rendosa. Muitos preferem socorrer os pobres com suas mi- galhas de sopas e assistências precárias. Não jogam com a caridade. Desapareceram do mundo os antigos mecenas. (X) CIDADANIA E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA Os espíritas são cidadãos como os demais e têm di- reitos e deveres no plano político.

para modifi- car. O Espiritismo e por consequência o espírita ver- dadeiramente esclarecido pensa ao contrário dos místicos aferrados a dogmas. mas lhe cabe a formação espiri- tual dos homens para que exerçam. É preciso não fazer essas confusões. como se o homem pudesse realizar-se e evoluir fora do contexto em que reencarnou. o Espiritismo quer ajudar a desenvolver cidadãos qualificados e capazes de influir na sociedade em todas as suas áreas. a consciência do mundo. como se fosse por si mesmo uma imo- ralidade. Ou seja. quando levado pelas circunstâncias. por extensão. Não lhe cabe nenhum lugar nas disputas de cargos políticos. Não se depreenda daí que o assunto política e eleições sejam proibidos no centro. mas não deve arriscar-se aos azares da política se não estiver impregnado até à medula do firme propósito de resistir a todas as fascinações do cargo que vai exercer e solidamente esteado nos princípios da doutrina. que pretendem separar os cidadãos do mundo. com compromissos com políticos in- teressados no voto do espírita. chama- do ou convocado para funções administrativas em áreas do Estado. mas noutro sentido. como muitas vezes ocorre. (IX) O professor coloca o assunto em termos objetivos. como cidadãos. O espírita não é nem pode ser avesso aos interes- ses públicos. através do bom-senso e da retidão da consci- ência. (IX) 114 . mos- trando claramente que a consciência do indivíduo enquanto cidadão é importante para o Centro Espírita tanto quanto para a sociedade da qual faz parte. Kardec é Razão ticos e. influência benéfica na solução dos problemas polí- ticos. com o seu comportamento. com sua ação. A função política do Espiritismo existe.

a doutrina possui uma filosofia de consequências morais. abre caminho no mundo. À maneira do Cristianismo. Wilson Garcia CONHECENDO OS FINS PARA ENTENDER OS MEIOS E AS PRÁTICAS O conhecimento das finalidades do Espiritismo surgiu. inadvertidamente. de um lado. assim. A princi- pal delas talvez seja: o Espiritismo objetiva a reforma moral do homem. portanto. portanto. O Espiritismo é uma doutrina do futuro. incorpora o modelo e se dispensa do bom-senso diante das situações em que vive. de outro. (VIII) 115 . o Espiritismo não possui um só objetivo. (XV) A pergunta: quais são os objetivos do Espiritismo? insti- gou muitas respostas simplistas. estabelecida após experiências científicas comprobatórias. A chave. mas vários. Segundo Kardec. enfrentan- do a incompreensão de adeptos e não-adeptos. redu- zem à leitura desordenada e até mesmo ocasional das obras básicas. Sempre que se criam conceitos modelares ten- de-se a banalizar. como o caminho principal para uma práti- ca sadia e fiel. Não pode. que muitos. limitar-se a um ou a alguns objetivos. também. mas o mais avançado corpo de conhecimentos para a cultura de hoje. Em vista disso: Uma das maiores dificuldades da prática do Espiri- tismo – não da prática de sessões. Não é ele a respos- ta completa. da aplicação dos princípios doutrinários à vida prática – reside na falta de compreensão dos objetivos da doutrina. ao máximo. mas da vivência espírita. O Ser. e provocar apatia. a Kardec. O modelo substitui a razão e reduz a obrigação de pensar. se tornaram lugar comum. que se disseminaram pelo movimento e. para Herculano. para a “compreensão dos objetivos” se encontra no conhe- cimento da doutrina. Na verdade.

A incompreensão afeta-a. porque agem às vezes. uma vez que depende delas o esforço para fazer com que o povo se aproxime o máximo possível dessa consciência e para derrubar as bar- reiras dos preconceitos. ao desenvolvimento de uma consciência indi- vidual e coletiva. contentando-se com o seu aspecto religioso. que acabam. de outro. a maior parcela de responsabilidade. os preconceitos culturais levantam numerosas objeções aos seus princípios. Kardec é Razão O professor observa que a doutrina está mais para o fu- turo do que para o presente. de aplicar seus princípios convenientemente em seu presente no mundo. e de outro. o povo não pode abarcá-lo na sua tota- lidade. (VIII) A compreensão dos objetivos do Espiritismo leva. assim. Não se esgota ela com o findar de um milênio e começo de outro. não é o proceder com 116 . O pior. particularmente. porque tem ela uma força própria. De um lado. Em ambos os casos. Às lideranças espíritas cabe. os especialistas não admitem a sua na- tureza sintética. incorporando nela parcela maior ou menor de sua carga do passado e ficando impedidos. realizando uma misce- lânea cultural. A doutrina avança neste terceiro milênio “enfrentando a incompreensão de adeptos e não-adeptos”. mas afeta sobretudo os próprios adeptos. Herculano desnuda aí uma outra realidade: as próprias lideranças têm dificuldades de compreender os objetivos doutrinários. para o professor. neste aspecto. Poderia ele dizer que o Espiri- tismo é uma doutrina do futuro tanto quanto é uma doutri- na para o futuro. com correção. muitas vezes. preconceitu- osamente. ainda. inva- riavelmente. que a impulsiona. também. embora seja de se esperar que será complementada mais tarde.

obrigatoriamente. Só nos aproximare- mos da Angelitude. não é. oferecendo-lhe os princípios es- píritas tem sido. (III) Esclarecer as multidões. de um lado. à consciência do homem para deveres e compromissos no plano social e no plano espiritu- al. mas esclarecer as multidões. de forma que a sociedade entenda a realidade do Ser no Mundo e. para alguns. através de uma consciência desenvolvida com liberdade. O contato com a vida espiritual. de outro. Wilson Garcia preconceito. tornar espírita. A Doutrina Espírita é um chamado viril à dignida- de humana. tornar espírita todos os indi- víduos. depois de nos havermos tornado homens. ambos conjugados em face das exigências da lei superior da evolução humana. O Catolicismo desejou tornar o mundo inteiro católico. mas o não ter consciência da interferência do preconceito no proceder. proporcionado ao homem pelo Espiritismo abriu. mas criar a consciência de que o homem é construtor de seu destino imortal. (IX) Atingimos um ponto fundamental do pensamento do professor. É a isso que se refere o professor quando fala em “realidade inte- gral da vida”. a possibilidade de con- 117 . promova sua própria regeneração. o plano superior da Espiritua- lidade. portanto. colo- car os homens diante da realidade integral da vida – para regenerá-los. Mas deu no que deu! A doutrina objetiva ter seus princípios conhecidos pela sociedade. Esclarecer. o que é um engano. O mesmo vale para o problema do conhecimento doutrinário. as portas de uma nova realidade e. A missão do Espiritismo não é esclarecer alguns in- divíduos em meio às multidões. não conseguiu quase nada no orien- te e alcançou certo sucesso no ocidente. alargar o conhecimento humano.

de cuja concretização de- pende a evolução em direção aos planos superiores da espi- ritualidade. Herculano está enfatizando a responsabilidade do Ser perante os com- promissos sociais e espirituais. como aspiração para o saber em mais alta escala. Mas o anjo da escala espírita não tem a ingenuidade nem a doçura superficial do anjo banalizado pelas religiões. Não se fragiliza. Ao caracterizá-lo dessa forma. em concordância com a Doutrina Espírita. portanto. não. E para refor- çar o termo. traçan- do um perfil resumido do Espírito Superior para enfatizar que este não pode ser confundido com personalidades de discutível evolução. Herculano busca derrubar a falsa imagem que dele fizeram. não” do Cristo. Para tanto. Mas é prenhe de verdade. à maneira do homem comum. A figura do Espírito Superior surgiu. a estranha ideia de que a virilidade só pertence aos cultores da vio- lência. aponta para uma das ações do Espiritismo: “chamado viril à dignidade humana”. Age. assim. Ao fazer a afirmação. como o da angelitude indicado pelo professor. valores estes sinteti- zados por Herculano na palavra “virilidade”. ante os interesses egoísticos ou grupais. através de mensa- gens mediúnicas emotivas. em todas as suas consequências. Kardec é Razão clusões equivocadas. ao mesmo tempo em que recomenda àqueles que aspiram o plano superior. o “sim. explica: Propagou-se no meio espírita. incorpo- rar o seu exemplo. mas ficou de certa forma desfigurada pela pressão da carga cultural religiosa. A ver- dade e a justiça formam. sim. A ex- pressão é forte e capaz de balançar as criaturas ainda presas àquela figura ingênua do anjo traçada pela religião formal. que deixa claros os valores que adornam a personalidade do Espírito Superior. Incorpora ele. nele. dois pilares sobre os quais se sustenta. tendendo a um maso- quismo de cilícios e autopunições. Herculano busca revisitar o tema. Voltamos assim ao sistema igrejeiro dos 118 .

quando o certo seria reformar a cultura com a substituição dos velhos valores pelos novos. franque- za de expressão. (IX) O professor mostra. modificar a cul- tura. tais são as características dos seus ditados. aqui explici- tada. assim. com forte presença na cultura ocidental. que condicio- na o ser e o leva a adaptar-se aos novos valores. como os Espíritos Superiores disseram a Kardec. de uma alteração 119 . Para alcançar os planos superiores o ser necessita adornar-se dessa virilida- de. Trata-se. sem qualquer possibilidade de de- fesa. portanto. a trans- formação precisa ser “para melhor”. Qualquer estudioso encontrará farta exemplificação da virilidade. o seu contrário é a ideia da ovelhinha. em “O Livro dos Espíritos” e demais obras da Codifi- cação. Emmanuel fala de certa forma dessa condição humana ao dizer que o homem coloca de si. O modo de ser religioso e de praticar a religião são formas de expressão da cultura que valoriza a “passividade contemplativa”. mas não simplesmente transformar. O seu contrário só pode ser alcançado com o emprego da razão. é revolucionar o mundo inteiro. E transformar para melhor compreende substituir valores. Herculano alude à virilidade como algo próprio dos espíritos superiores. que desemboca em tantas outras falsidades. especialmente nos textos elaborados pelos Espíritos Superiores. (IX) Sistema igrejeiro: carga cultural religiosa. nascida de uma concepção religiosa ultrapassada. Wilson Garcia rebanhos de ovelhinhas inocentes devoradas por lobos famintos. Sua finalidade. compromisso com a verdade e a justiça. O Espiritismo não é uma doutrina de passividade contemplativa. do seu “eu'' em tudo que toca. modificando-o para melhor. que é preciso transformar o mundo todo. Linguagem elevada. clareza de ideias.

a cultura velha como patrimônio do ser e da sociedade. que de alguma maneira representa segurança. estejam ou não conscientes disso os indivíduos. O ser muitas vezes não se dá conta disso. de­ morada). Confundi-la com as estruturas peremptas deste momento de transição e querer sujeitá-la às normas e modelos do que já foi é tentar prendê-la no círculo vicioso dos abortos culturais. As confusões entre a nova e a velha cultura se dão por força do arquétipo existente. Nesta situação. ergue-se como barreira ao novo. O ser passivo aguarda a salvação. Mas. entranhada nas estruturas atuais. que não cederá seu lugar com facilidade. Esta luta se estabelece no campo da individualidade e das coletividades. que: A nossa doutrina não é uma realidade. Kardec é Razão profunda (e temos de convir. Mesmo entre aqueles que se colocam de acordo com a nova cultura haverá em- bates não menos fortes. é compreensível que se estabele- çam conflitos culturais e os homens temam por aquelas nas quais estão inseridos. está. assim. num mundo de culturas múltiplas e variadas. Isso explica porque o professor aponta para o fato de o Espiritismo constituir-se num “vir-a-ser na rota das aspirações em demanda”. o ativo realiza a transformação. sob a pressão da cul- tura velha. com certeza. É um arquétipo carregado de futuro. estará agindo. Vale acrescentar. Quando o espírita se aferra a pontos de vista e posições extremadas. sempre que se colocar como obstáculo às ideias oriundas da interpretação da nova cultura. no plano do confronto cultural. de fato. contribuindo para o “cír- 120 . na rota das aspirações em de- manda. porque imagina agir em favor de sua verdade. um vir-a-ser que se projeta precisamente no que ainda não é. (X) A situação se repete: a Doutrina Espírita é cultura com larga abrangência.

A Revelação Espiritual veio pelo Espírito da Verdade. de outro lado. uma vez que refletem os desejos e ambições dos seres que a compõem. mas a Ciência Espírita (revelação hu- mana) foi obra de Kardec. acontecerá o que já é visível: conviverão os Centros onde a consciência de seus líderes alcançou um grau mínimo de compreensão dos objetivos do Espiritismo. na direção de acomodações doutrinárias. Por isso. aviltando o princípio inteligente e a razão nas correntes de Prometeu. exteriorizadas em formalidades e em ideias contraditórias. mas podemos e temos de lutar pelo esclarecimento dou- trinário.. o de seus colaboradores. Resultado: a cultura nova é uma realidade. claro. e pela sociedade. Por sua vez. interiormente. En- tão.. A consciên- cia disso será sempre fundamental para que a nova cultura saia vencedora no plano geral. ao lado de outros onde preva- lecem formas sincréticas. nas próprias contradições do Ser. a comprovação da Doutrina. apegada ainda à placenta selvagem. por seu es- forço e. os centros espíritas e demais instituições doutrinárias sofre- rão idêntico processo de pressão. como poderemos conviver com adaptações e ajustes com a velha? Qualquer concessão aí será uma contribuição ao referido aborto. Um deles pode ser visto assim: Não podemos adaptar o Espiritismo às exigências dos que negam a existência dos espíritos. Herculano dá exemplos disso. (X) 121 . a luta se estabelece no cam- po individual e coletivo: o Ser será pressionado pela carga do passado. Não podemos combater as práticas sincréticas em si mesmas. no particular. Wilson Garcia culo vicioso dos abortos culturais”. (X) A segunda frase é consistente: Kardec obteve. pois elas correspondem à incultura da maioria.

se quisermos. ela é. portanto. Voltamos. ou. em si mesma. pois. franca. o instrumento de combate das “práticas sinc- réticas”. sem rodeios. ao ponto inicial: A simplicidade do Espiritismo. na base “do que eles são” e não “do que devem ou podem ser”. (XV) 122 . decorre da afirmação positiva. a prevalência de uma cultura que o Espiritismo veio renovar. assim. Kardec é Razão O meio. direta. da reali- dade dos fatos e da sua interpretação lógica. para formação de uma consciência plena dos objetivos espíritas é a conscientização. que expressam a “incultura''.

Nele predominam características que sofrem imediata ação do pensamento dos Espíritos. devi- do às novas propostas que trazem. como um sopro renovador dos ares asfixiantes que então predominavam. Teríamos. Um dos setores onde isso é mais visível. assim. o judeu-espírita e daí por diante. Vimos como ele abordou o assunto quando se referia 123 . não só em decorrência dos ataques das religiões constituídas. o católico-espírita. como também pelo entendimento de que o Espiritismo teria de construir seu próprio caminho. que não pode ser desprezado em nenhuma hipó- tese. sem que fosse necessário alterar as designações religiosas. não se pode ne- gar. É verdade que Kardec. que passou a sofrer. Herculano trata a Religião como um setor importante da cultura. As religiões permanecem asfixiadas até hoje. o protestante-espírita. segundo Herculano Pires. Wilson Garcia Capítulo 4 DO CENTRO DA NOVA REALIDADE BROTA A RELIGIÃO ESPÍRITA A renovação cultural conduzida pelo Espiritismo deve influenciar a cultura do mundo. Mas logo Kardec aban- donou essa ideia. é o da Religião. especialmente nos primeiros anos da Doutrina. imaginou a possibilidade dos princípios espíritas invadirem as cate- drais e os templos religiosos de forma geral.

Ou seja. segun- do a proposta espírita. este embate cultural será apenas retardado. (IX) Dizer consequências religiosas é o mesmo que consequ- ências morais. de conciliação da expressão Religião Espírita com a cultura do homem moderno transforma-se aos olhos do professor no próprio instrumento para a implantação do conceito espí- rita. e seu re- tardamento se constituirá em prejuízo ao próprio homem. por- tanto. A sequência do pensamento pode ficar assim: da Ciência Espírita resulta uma Filosofia. O Espiritismo é a Ciência do Espírito e de suas rela- ções com os homens. abandonar a velha. para alguns intransponível. Kardec é Razão à educação espírita. se prevalecer a condenação da Religião Espírita. Põe ele em confronto. na certeza de que. especialmente no capítulo da Religião nas escolas. as duas pro- postas: a da religião tradicional e a da Religião Espirita. seriam colocados. a Religião Espíri- 124 . pois. de acordo com a Codificação. conseguirá o Ser assimilar a cultura espírita e. Do fato de ser o Espiritismo uma Religião ao de possuir uma ideia clara e racional da própria Religião. que constituem a Religião Espírita. dessa Ciência resulta uma Filo- sofia e dessa Filosofia as consequências religiosas do Espiritismo. estando. desta resultam as consequ- ências religiosas ou morais. Está exatamente aí a base para o entendimento de que a Religião Espírita tem uma proposta frontalmente contrária à cultu- ra religiosa atual. pela razão que brota da análise do conheci- mento. Temos. toda a dificuldade. condenando o laicismo e trabalhando por uma educação em cujo contexto os valores da Religião. porque não pode ser impedido. Por outro lado. mas que não pode prescindir do embate. pois. surge para o professor uma realidade que vem em reforço de seu pensamento em rela- ção à formação de uma consciência espírita profunda. no campo cultural.

Os espíritas. Mas os espíritas precisam saber que o Espiritismo é religião e o Centro Espírita. Herculano vai além de um simples apelo por um lugar de direito. uma Religião filosófica e científica. Em síntese. nesse método por ele apreciado. Mas entenda-se o professor: a Religião Espírita só pode ser abarcada pelo estudo da Filosofia Espírita. uma nova visão de religião à sociedade é um estímulo à luta contra essa discriminação em que esbarra a Dou­trina. no Brasil e em muitos países. portanto. podemos acompanhar seu pensamento. geral- mente religioso. abordando aspectos interessantes da questão religiosa e suas consequências. (II) 125 . principalmente quando influencia- dos pela Igreja negam ao Espiritismo o seu caráter de religião. Pretende ele ver o Espiritismo respeitado no seu posicionamento novo em relação à religião. uma propos- ta cultural nova para a Religião. Temos. primeiros chamados para a compre- ensão da Ciência Integral – e que na sua maioria refugiaram-se num beatismo de sacristia – estão intimados a alijar dos ombros as cargas do misti- cismo igrejeiro para poderem assumir a herança do século. Wilson Garcia ta. Daqui para diante. por exemplo. de desen- volver a razão do aluno mediante afirmativas e negativas. como forma de influir diretamente na transformação cultural do povo. certos orga- nismos estatais. deve insistir no esclarecimento desse problema em suas reuniões. (IX) A luta aí não é simplesmente para ser aceito no contex- to das religiões. Até hoje. A visão do professor vai bem à frente. que está li- gada umbilicalmente à Ciência Espírita. portanto. evidentemente. A possibilidade do Centro Espírita oferecer.

esta situação produz uma imagem deforma- da do Espiritismo junto à sociedade. inteligente e culta. mas também acabam assumindo uma postura de intransigente defesa delas. ideias e interpretações próprias do conheci- mento antigo. (II) Contra aqueles que não só se deixam levar pela pressão cultural. da água fluí- dica que substitui a antiga água benta e tudo o mais que ain- da se vê. na magia primitiva das religiões mágicas da selva. de fato. que pressiona o Ser para a repe- tição do passado e que. Substituí- ram os ritos católicos pelos passes e preces. a água benta pela água fluídica e os rosários de repetições medrosas pelos colares de contas de ifá. Ora. A questão é tão séria que leva o professor a bater na tecla da carga cultural com insistência. do sentimento dogmático se mani- festando. mas através das práticas do passe. sinônimo de Espiritismo. mais presos ao velho que ao novo. não consiga sobrepujar a tendência ao misticismo classificado por Herculano de igrejeiro. faz com que muita gente. porque leva à reprodução em ambiente espírita de hábitos e com- portamentos. aí. as car- gas são a cultura religiosa. obstando a repetição do religiosismo defasa- do e ultrapassado pela nova cultura. Os beatos das religiões dogmáticas trocaram de pele mas não perderam suas manhas. Kardec é Razão A Ciência Integral é. negras e indígenas. levando-a a crer que 126 . indo ao ponto de revelar essa convivência perni- ciosa no Centro Espírita. da prece decorada e sentimentalista. não pelos ritos católicos. Alijar dos ombros é a maneira de impedir que essa carga influa negativamente na interpretação da Dou- trina Espírita. como se desejasse – e de fato tem ele esse de- sejo – acordar especialmente os líderes espíritas para essa realidade. Herculano se levanta para acu- sá-los de espíritas manhosos.

O exemplo egípcio é fecundo em vários sentidos. mas não o percebem. A carga cultural se constitui. Desenvolvem mentalmente uma prática superada. Nesse ambiente. podere- mos esperar o estabelecimento da Religião Espírita sem ne- nhum choque cultural e. sacramentos e instituições das reli- giões dominantes em nosso mundo. neste momento. asfixiado pelo antigo saber. o professor vai relembrar as raízes dos dogmas católicos. Wilson Garcia o Centro não passa de uma reprodução do velho templo. mas também por representarem uma volta ao passado selvagem. tão negativo quanto (ou talvez até mais). Não só demonstra essa transformação dos deuses. Além disso. não apenas por não estarem contemplados pela doutrina. em suma. tornando ainda mais difícil o entendimento do Espiritismo. especialmente os líderes. Vai Herculano além. o que. estaremos em me- lhores condições de compreender os objetivos da Doutrina Espírita e de combater as influências. Para explicar e compreender o problema. significaria que o Espiritismo nada apresen- ta de novo. que se encontram fincadas no passado distante. onde o conhecimento novo. portanto. ao verificar outro aspecto da questão. perde terreno. ficam os adeptos como que num círculo vicioso. como também nos fornece as raízes históricas de vários dogmas. (VIII) A tentativa é contribuir para uma consciência do proble- ma religioso e sua influência no Espiritismo praticado nos Centros. da mesma forma que não compreendem a enorme distância que existe entre as propostas do Centro Espírita e as de sua religião anterior. no prin- cipal adversário dos espíritas interessados numa prática realmente renovadora. sem a preocupação ma- 127 . que é a prática doutrinária mesclada de elementos estranhos. Herculano entende que quando a maioria perceber essa influência.

a fé raciocinada. Foi o que aconteceu com o Espiritismo. conservou muito daquela. em que um de- pende do outro e. segundo Herculano. (XV) Fora preciso.. pois. bem como uma razão espírita. que se coloca contra a existência dessa religião enquanto criação kardeciana. ao inevi- tável entendimento da fé raciocinada na Religião Espírita. Nesse caminho. Fé e Razão deixam de ser termos simples e isolados para se constituírem num substantivo composto. portanto. como o anunciou o Cristo. mas o ponto máximo da Doutrina e que lhe confere as condições de modernidade. Assim. na fórmula clássica de Kardec: “a fé raciocinada” (VIII) A consciência do problema conduz. não existiria uma fé espírita. a partir da de- cadência do Império Romano. também. da mesma maneira por que o organismo do filho repete as características paternas. traduzido no plano religioso pelo dualismo de ra- zão e fé encontra no Espiritismo a sua solução na- tural pelo equilíbrio de ambos. herdeira da antiga. Existe. A nova estrutura. não podem sobreviver isolados. que viesse uma nova doutrina. O Cristianismo constituiu o grande alicerce ideoló- gico sobre o qual se ergueu o edifício de um novo mundo. sim. de uma nova civilização. O velho debate filosófico entre razão e sentimento. que não é aqui nenhuma bandeira nem solução mágica a ser repetida. Kardec é Razão nifestada por parcela do movimento. produto da Ciência Integral que é o Espiritismo. Mas os ideais do Cristianismo não puderam concretizar-se perfeita- mente e desenvolver-se em plenitude na civilização moderna. vai-se com- preender que: 128 . para mais uma vez repor as coisas em seus lugares e restabelecer a ordem.

e muito menos um hipotético fa- natismo espírita. impos- ta pela autoridade e a tradição. em que o homem aprende a pensar e a julgar. Vemos. O dogmatismo religioso não consegue furtar-se ao impacto dessas comparações. ao fogo da razão. seja ele qual for. como queria Kardec. (VIII) 129 . a Doutrina oferece uma visão objetiva. iluminado pelas esperanças da Era Cósmica. Pode não responder a todas as questões. A fé ingênua. no meio cultural religioso. Wilson Garcia Não há mais lugar para fanatismos de qualquer es- pécie no mundo atual. (II) Compreenda-se: não há possibilidade para nenhum fa- natismo. clara. sem perder-se na negação ou extraviar-se na dúvida. O fanatis- mo é produto. Ambos são atirados ao fogo da razão pela Religião Espírita. assim. ou a fé raciocinada. Na proporção em que a razão se desenvolve. um a um. (VIII) A Religião Espírita não deixa dúvida ao professor. portanto. por si só contraditório e denunciador da carga cultural que o indivíduo carrega. Para os problemas mais cruciais e. derrete-se como cera frágil. tradicional já não pode satisfazê-lo. A formula co- modista: “creio porque creio” exigirá um substituto dinâmico e fecundo: “creio porque sei”. os pilares da religião tradicional. Somente a fé racio- nal. caí- rem. mas oferece um ingre- diente que conduz a uma solução possível quando a questão for por demais complexa: o bom-senso. do dogmatismo. mais disputados pela humanida- de atual. sim- ples e ao mesmo tempo profunda. a fé cega. pode enfrentar serenamente essa análise histórica.

portanto. O Cen- tro Espírita tornou-se uma espécie de sacristia lei- ga em que padres e madres ignorantes indicavam aos pedintes o caminho do Céu. A proposta da oração se in- tegra num contexto maior. ou talvez por isso mes- mo. O formalismo religioso tem o seu poder e o exerce até mesmo sobre aqueles que parecem libertos de preconceitos religiosos. do conhecimento. A domesticação católica e protestante criara em nossa gente uma mentalidade de rebanho. (VIII) A força da carga cultural se mostra. especialmente a carga religiosa de um passado distante. Kardec é Razão A Religião Espírita é. (IX) O professor aponta a realidade. Em Emmanuel – repeti- mos – encontramos a afirmação de que o ser humano coloca o seu “eu” egoístico. Todos os componentes conhecidos de uma religião tradicional encontram no Espiritismo uma explica- ção que os recoloca e os reintegra à sua realidade. contudo. Sendo o Centro Espírita realização humana e 130 . e com muita presença. Não se trata de uma condição à qual o indivíduo pode dar um destino imediato. de conduta exemplar. mas não se ora pelas mesmas razões de antes. mas também. por exemplo. nas lideranças cultas. assim. Somente uma consciência bem construída en- contra forças capazes de enfrentar essa realidade. em percentual ainda enorme. mais crê! A implan- tação dessa nova religião é. não só nos adeptos iniciantes. Na Religião Espírita não se deixa de orar. onde se desenvolve a vida no Universo. Assim. a religião do saber. de onde foram tirados para cumprir uma ação isolada. repentino. Quanto mais sabe o indivíduo. naquilo que constrói. dificultada por fatores diversos. deixa-se de valorizar o crer para valorizar o saber.

desnuda tal realidade e a estuda. no sentido de conhecer até onde pode ela influenciar negativamente o Centro Espírita. especialmente onde o Espiritis- mo só chegou através de alguns elementos isolados. (IX) A penúria da mentalidade é a herança religiosa. A carga cultural conduz à reprodução daquilo que já era exercitado antes do Espiritismo. Uma vez compreendida a influência. procurando alongar o fio cuja ponta encontrou nas raízes históricas da cultura religiosa da humanidade. fica compreensível essa adaptação verificada nas organizações espíritas. estufados de vaidade e arrogância. 131 . O carimbo da igreja marcou fundo a nossa menta- lidade em penúria. A Religião Espírita. E como a religião dominante procura dar uma visão de vida ao ho- mem segundo concepções e interesses que contrariam a re- alidade. embora não seja essa a sua função básica. assim. Herculano mantém um raciocínio coerente com sua interpretação kardeciana. onde tudo parece propício para isso: o Centro Espírita. com seu cortejo de carreirismo po- lítico-religioso. misticismo larvar e o que é pior. O igrejismo salvacionista depauperou a inteligên- cia popular. aparecimento de uma classe dirigente de supostos missionários e mestres fari- saicos. idolatria mediúnica. Eis porque toda a carga do indivíduo está impregnada dos vícios que irão desenvol- ver-se exatamente ali. uma condição real. Wilson Garcia sendo a prática espírita resultante da interpretação da Dou- trina Espírita. a penúria alcança. (IX) Todas as condições ideais para a formação da não-reli- gião foram reunidas e passaram a integrar as religiões dog- máticas. trata de afastá-la. combatendo-a com o conhecimento sinteti- zado na fé raciocinada.

seja porque os indivíduos a desconheçam. padres vieira sem estalo. A mesma questão. especialmente. mas en- tendendo-a sob o prisma cultural do passado. tribunos de voz empostada e gesticulação ensaiada. seja porque não têm interesse em considerá- -la. o seu aparecimento ocorre naque- les núcleos onde a carga cultural do passado é dominante e onde. onde se cultiva a razão na interpretação dou- trinária não há lugar para o surgimento de criaturas dessa natureza. os excessos de gentileza mundana e tudo quanto re- presenta artifício de refinamento social deforman- do a natureza humana a pretexto de aprimorá-la. 132 . formando assim uma sucessão de indivíduos que fazem fama falando da Doutri- na. tal conteúdo cultural não desperta e sequer apresenta preocupação. embora apareçam. alcança também outros níveis. (IX) Tocados pela ideia da caridade da divulgação. as modulações artificiais da voz. que pas- sa por este caminho. para sua esta- bilidade social e significativa atuação no aprimoramento de suas estruturas. Herculano se volta contra eles por não notar em suas ações senão um grande desejo de projeção pessoal. Convém notar que a função precisa do Centro Espírita é oferecer condições para o progresso do Ser. especialmente perante o público. (IX) Ou seja. como a seguir registrados: Os maneirismos. carregada de su- perstições seculares. Kardec é Razão Essa tendência mística popular. sob o manto dos “pregadores santificados”. muitos se in- vestem da condição messiânica. Assim sendo. favorece a proliferação de pregadores santificados. não encontram aceitação nos meios verdadeira- mente espíritas. o primeiro que fez sucesso se tornou o inspirador dos seguintes.

ao falar das “mensagens padrescas”. especialmente àquelas mediúnicas. A Religião Espírita. antes de mais nada. algumas instituições doutrinárias chegaram a proclamar-se donas ex- clusivas da verdade. A ques- tão da virilidade precisa receber a devida atenção: o misti- cismo idólatra e dogmático encaminha o indivíduo para a posição de espera passiva da salvação. conseguindo enxergar o fato em sua profundidade. para mostrar que quem deseja ser Espírito Superior precisa entender que este tipo de ser é. 133 . apático e sem nenhum ideal a conquistar. de sua virilidade espi- ritual. uma alma viril. (X) Não tenhamos dúvida: o professor se refere. franca. traz à tona a necessidade da virili- dade. Essa postura é combatida veementemente pela Religião Espírita e Herculano. para ressuscitarem-se a si mesmas das cin- zas do passado. onde aguarda a defi- nição de seu futuro espiritual na posição de cordeiro manso. contraria à ideia popularizada dos cordeiros mansos. perdidas pelo ser em suas andanças palingenésicas. (IX) O entendimento preciso dessa realidade é fundamental para tornar os indivíduos conscientes de que o Centro Es- pírita não pode ser transformado em lugar de reprodução permanente dos comportamentos religiosos do passado. Wilson Garcia No Centro Espírita as almas frágeis dos rezadores e lamurientos encontram os elementos necessários à recuperação de suas forças. totalmente desligada do religiosismo. Os cristãos primitivos foram levados à loucura de se julgarem puros e santos. como vemos nas epís- tolas ardentes de Paulo. destina-se a recuperar as forças e a “virilidade espiritual”. esgotado de suas energias. reprimindo os núcleos des- vairados. No meio espírita domesticado por inces- santes mensagens padrescas.

reprime a tendência de tornarem-na “cantiga de ninar”. revolucionária. Se fosse cantiga de ninar seria. do mesmo modo que a torna evidente. A verdade. torna-se adversária do passado. É ela “conhecimento da razão e das finalidades da vida”. (XIII) 134 . onde o indi- víduo se forma pelo contato com os outros. (X) Ao referendar o caráter espírita de Consolador. da usina das relações. a Religião da virilidade. a existência da Religião Espí- rita. forçando semelhante desvio. Sendo. portanto. Não destina o indivíduo para si. as- sim. também. mas o consolo espírita não é cantiga de ninar e sim conhecimento da razão e das finalidades da vida. mas refere-se. mas. simples apologia de tudo quanto foi implan- tado no passado pelas religiões formalistas. portanto. também. revela uma repetição do passado: fatos que contribuíram para o desvirtuamento do Cristianismo estão presentes. mas para a sociedade. encontra aí o terreno propício à proliferação do sentimento místico dogmático e. O Espiritismo é o Consolador prometido por Jesus. reconhecendo que: A verdade maior – ou verdadeira – é a que nasce do contexto social. ao sentimento padresco cultivado por algumas lideranças espíritas que. Hercu- lano reforça. sob outras roupagens. Kardec é Razão recebidas por médiuns mal preparados e divulgadas sem uma análise efetiva. prejudicial à disseminação da fé racional. portanto. como de fato é. A falta de entendimento da verdadeira Religião Espírita. são duplamente responsáveis: dão caráter de verdade a esse comportamento e propiciam a formação de uma gran- de quantidade de indivíduos desse caráter. que vão se mul- tiplicar à frente. pela massa. a religião da salvação sem esforço individual. implicitamente. no movimento espírita.

por isso mesmo. como o professor. a ponto de vir a conside- rá-la única. A religião é parte da cultura e é. não pode ser des- prezada. Wilson Garcia Com isso. a existência da Religião Espírita. a própria Religião Espírita tende a diluir- -se no futuro. bem diferen- 135 . o que seria escarnecer da verdade maior que “nasce da usina das relações”. da mesma forma que assim age e com o mesmo equilíbrio considera o que o Codificador proclamou: a “ligação umbi- lical” do Espiritismo com o Cristianismo. professa ideias desvinculadas de qualquer sec- tarismo e. Uma coisa é a existência dessa religião. cria a Doutrina um mundo novo. (XIII) A luta do professor não pode. despreocupadas do contexto ideológico em que os homens costumam reunir-se. onde os in- divíduos vão aprender que todas as formas de cultura são parcelas. simplesmente parcelas de uma cultura maior. sob risco de causar prejuízo à formação dos indiví- duos. nem se diz o de- tentor exclusivo da verdade. antes de mais nada. exclusiva dona da verdade. todavia. ser classificada como uma espécie de fanatismo. por isso mesmo. mas sem se deixar levar na onda dos que com- batem. com base nos princípios fundamentais do Cristianismo é essencialmente universalista. deixar-se en- volver por sentimentos de exclusão. a da inteligência que consegue analisar a obra e alcançar seu ponto máximo de compreensão sem. e por- tanto anti-sectário. Mas não pode. uni- versal. outra. O Espiritismo não se proclama o único meio de salvação humana. O mundo que o Espiritismo está construindo na Terra. ser tratada com preconceito e sectarismo. Com isto. portanto. também. cultura. É. o que é plenamente aceitável por quem. portanto. em que foi capaz de ver os de- feitos da prática religiosa proveniente da má interpretação doutrinária. Jamais temeu ele trilhar esse caminho do meio. Veja-se: Herculano.

pela prática deformada. como a exemplificar ao aluno o melhor caminho a ser seguido. (XXIX) A chamada conversão. Com isto. (XXX) Quer o professor fazer os espíritas voltarem-se para estes exemplos. por- que não passou de uma sugestão forçada. jamais se realizou. responsável. para recordarem os desvios que os homens pro- vocaram nos ensinos do Cristo e não apenas para contem- plarem uma parte da história humana. mas apenas sugestionados por uma visão de beleza e de pureza que não conse- guimos realizar em nós. desenvolve instrumentos para combater o religiosismo e toda a carga cultural do indiví- duo. portanto. compreensão esta que. Kardec é Razão te. entre eles a capacidade dos indivíduos. é o que fazem com ela líderes e frequentadores despre- parados. nas suas relações e no fato do retorno periódico das almas ao am- biente terreno. e não se realizou porque não levou em consideração fatores fundamentais da psicologia humana. o visível e o invisível. que preferiu viver com o povo a isolar-se nos templos para cultivar a vaidade e a pureza menti- rosa dos clérigos. Preferiu ir às raízes. de optar frente às ex- periências na “usina das relações humanas”. O Cristianismo que fundamentou a nossa civiliza- ção é um arremedo grotesco do ensino do Cristo. Da mesma forma 136 . em lugar de combater a Religião Espírita. mesmo os mais pobres de inteligência. Mas também porque desconsiderou a realidade da vida. levantou para o estudo questões importantes que conduzem à compreensão do problema religioso. manifestada na existência dos dois planos. A mística judaica projetou-se em cheio na mística medieval. em boa parcela. Não fomos convertidos. contrariando os ensinos e os exemplos de Jesus.

oferecendo-lhe. ao contrário. agindo sobre ele através de uma concepção ou representa- ção e procurando dominá-lo através de uma síntese afetiva. sua função é preparar o homem para o mundo. na História. uma vez que o estuda em seu as- pecto global. Os símbolos representam ideias e servem para transmiti-las. O Espiritismo é. o saber que a eleva acima das contingências e possibilita voar pela imensidão sideral. (VIII) Não cabe. moral ou religiosa. a Religião que disponibiliza a mais precisa visão da realidade do mundo. capacitando a criatura a inserir-se neste mundo segundo o seu direito e o seu dever: para participar dele. retirando. através dessa insuperável experiência. à religião verdadeira o papel de ex- cludente do homem do seu mundo. se pos- sível. uma visão de sua realidade e facilitando sua inclusão “na usina das relações”. do seu progresso. Trata-se. na fusão dos seres invisíveis com os visíveis e em toda a gama de resultados que disso resulta. na percepção do professor. Para tanto. Wilson Garcia que a Religião Espírita dispensa seguidores cegos. e não raro encobrem e asfi- xiam aquilo que deviam exprimir. Por mais que procuremos negar essa dialética da consciência. mas por isso mesmo se colocam entre as ideias e o intelecto. eviden- 137 . Ajunta aí os princípios e teorias comprovadas. tomando conhecimento do mundo pela experiência. que nos mostram o homem. portanto. como a da reencarnação e a da mediunidade. a Reli- gião Espírita procura desligar o ser de todos os fatores con- dicionantes que as religiões dogmáticas estabeleceram. ou dar-lhe uma interpretação diver- sa. nunca poderemos fugir à realidade dos fatos. uma vez que compre- ende ser indispensável a experiência no mundo para evolu- ção do Espírito. combate o isolacionismo de líderes e adeptos.

parece ambígua. mes- mo reconhecendo-a incoerente devido às diferenças enor- mes existentes entre o ensino espírita. A ambiguidade 138 . Mas serve para demonstrar o completo desinteresse da Doutrina quanto à formação de um grande cartel de seres humanos. A posição. fiel aos seus antigos credos. como vimos. deixar de entender quando o tempo dos símbolos passou e que as ideias que eles deviam exprimir são hoje superadas pela fé que enfrenta a razão face a face. ou conviver em ambos os barcos. ao aceitá-lo. e por seus mais autorizados divulgado- res. Ao mesmo tempo que se apoia nos textos. por- tanto. em face dos textos sagra- dos do Cristianismo. O mesmo ocorre quanto aos ensinos religiosos. porque é uma doutrina desprovida de interesse pelo poder. baseados na moral cristã. O professor mostra que o Espiritismo é o docu- mento de cidadania cósmica do homem. Kardec é Razão temente. ao mesmo tempo. por exemplo. Os símbolos são úteis durante o tempo necessário para a transmis- são da ideias. com a sua orientação analítica. não se importa se seu adepto deseja ser. (VIII) A renovação que a Religião Espírita propicia no campo cultural foi o que levou Allan Kardec a imaginar a possibili- dade de convivência pacífica do Espiritismo com as demais religiões. Nada mais coerente com a natureza declaradamente racional do Espiritismo. cósmico e abrangen- te. a partir de Kardec. de um processo dialético. a Doutrina. mas tornam-se inúteis e perniciosos quando passam do tempo. Respeita essa posição. Tal não foi possível. não pode este. A posição do Espiritismo. da Doutrina em relação à simbologia utilizada pelas religiões é uma questão de lógica e razão e não uma posição contrária gratuita. despre- tensiosa quanto ao mundo. Continuar preso a esses sistemas simbólicos significa retar- dar o passo no contexto da viagem sideral. e o das religiões dogmáticas. também os critica.

seguido dos demais livros da Codificação Espírita. uma Religião cuja base moral é o Cris- tianismo do Cristo. muito clara em rela- ção a esses pontos ainda hoje discutidos da Religião Espíri- ta. racional e renovadora. sem o qual o Espiritismo teria de submeter-se ao dogmatismo literalista. que permite-lhe ir ao fundo da interpretação. de livre interpretação e respeito. mas se nenhum tipo de submissão mística. Os espíritas não consideram a Bíblia como “a pala- vra de Deus” mas como o marco zero da Civilização Cristã que ainda se encontra em fase de desenvolvi- mento na Terra. portanto. Guarda o Espiritismo. Quanto mais avança o Conhecimento. em relação à Bíblia. Wilson Garcia apontada pelos opositores não é mais do que o uso da liberdade de exame. a posição estratégica do Espiritismo na sequência das Reve- lações. portanto. De- pois dela vem O Evangelho. tendo na Bíblia “o marco zero da Civilização Cristã”. re- forçada por uma doutrina eminentemente lógica. E depois do Evangelho temos O Livro dos Espíritos. mas para cujo entendimento tem o adepto à sua disposição a liberdade de questionamento. que é a Codificação da II Revelação. Inclui-se ele na lista daqueles que admitem. A Bíblia representa a Codificação da I Revelação do ciclo das revelações cristãs. mais se vão descobrindo as relações da obra de Kardec com as alegorias e simbologias religiosas da chamada Sa- 139 . ou seja. (XIII) A posição do professor é. feita pelo próprio Cristo. minimizando a letra e valorizando o significado em sua am- plitude. in- capaz de libertar da prisão da letra o espírito que vivifica. com Kardec. (VIII) Temos. a mesma con- dição que tem em relação ao Cristianismo.

que eles tiveram a sua época. Mas não é justo que os espíritas mais esclarecidos. continuem a formalizar-se na vida social (XIII) O professor sempre se volta para as lideranças espíritas. Kardec é Razão bedoria Antiga. mais natural e menos for- mal. para um tipo de moral religiosa que se caracteri- za pelo artificialismo. simplesmente. em consequência das heranças do passado e dos exemplos do presente. não con- sigam adotar outra forma de conduta. mas oferecendo uma visão que leva a dispensá-los. que aceitam a Religião Espírita. pois. prossigam repetindo no presente o mesmo sentido artificial de outras épocas. no meio espírita. Não se trata de um processo de eliminação de conhecimentos. haja vis- ta para o fato de que o Espiritismo constitui um resumo da cultura das civilizações. 140 . Isso significa. reconhecendo. da Babilônia e assim por diante. Compreende-se que grande número de pessoas. das mais velhas religiões da Índia. considerando a sua impor- tância ao tempo em que apareceram. especialmente por ver nelas a principal razão para o avanço no processo de divulgação. que es- sas lideranças. mas de uma nova realida- de. onde se encontram melhor desenvol- vidos. do Egito. de mente suficientemente aberta para as novas perspectivas que a Doutrina abre sobre o mundo. que o Espiritismo se utiliza daqueles conhecimentos. por disporem de todas as condições para uma inter- pretação e uma prática efetiva. em que esses conhecimentos são vistos como a raiz do conhecimento atual. (XIII) Essas relações repousam sobre o conhecimento. Há uma tendência bastante forte. pois. Não compreende. da China. ao mesmo tempo em que é uma ja- nela para o futuro.

Os que navegam na dúvida podem acabar sendo levados pelos ventos fortes e fracassarem ali mesmo. isso. Al- 141 . o desinteresse total pelo proselitismo. a frater- nidade humana incondicional. não opera em termos de massa. Alguns dirigentes espíritas nave- gam nas ondas da dúvida no que diz respeito à interpreta- ção das críticas. O esclarecimento. mas sem hostilidades à ingenuidade dos que não podem ir além dos conhe- cimentos primários. na espiritização de todos os seres. não signi- fica silêncio absoluto ante o erro. Seu objetivo não é a quantidade. portanto. como supõem alguns erroneamente. mas coletivo. (X) Esses dois pontos destacados por Herculano precisam ser postos em discussão. enquanto outros são definitivamente con- tra elas em todos os sentidos e ocasiões. grande absurdo. contudo. O respeito às crenças consiste em compreender a posição do outro. também. mas de coletividades. especialmente quando o erro é público e pode levar outros a tomarem caminhos que mais tarde vão lhes trazer dissabores. o que é. (XXII) Para o professor. O processo civilizador do Cristianismo é espiritual e não material. Seu método não é massivo. Wilson Garcia Kardec deu como regra única de pureza espírita o desinteresse total pelos bens materiais. onde deveriam vencer. o respeito absoluto às ideias e às crenças dos outros. a ideia de que o Espiritismo deve se espalhar pelo mundo e mudar a sua face cultural está ligada à difusão natural dos seus princípios e não. porque o homem é espírito e não ma- téria. mas a quali- dade. é necessário e deve ser feito com a mesma liberda- de que possuem aqueles que pregam crenças ultrapassadas. sem a aceitação fingida e com- prometedora desses erros.

isso ocorre porque os limites estreitos da metodo- logia científica não conseguiram e não conseguirão abranger a totalidade do real. vale concluir este capítulo reproduzindo o pen- samento do professor sobre Deus: O conceito existencial de Deus se impõe como con- sequência lógica do conceito existencial do homem. A verdade é que os princípios espíritas estão se espalhando pela socie- dade. (XXXI)   142 . Kardec é Razão guns. Deus não se torna por isso num existente. ou seja. a civilização está definitivamente colocada no caminho espiritual em que a qualidade do conhecimento determinará o avanço dos seres e da sociedade como um todo. alterando profundamente a cultura do ser humano e isto se dá pelo processo coletivo. ficam apavorados achando que Kardec fora ingê- nuo quando previu a popularização da Doutrina. mas no Existente Arquétipo. Por fim. para sa- tisfazer a ambição das mentalidades de fichário. vendo a completa impossibilidade de tornar todos os seres espíritas (nem o catolicismo conseguiu objetivo seme- lhante). Se não nos é possível provar essa existência nas retortas da Química.

Wilson Garcia

Capítulo 5

ANTE A VIDA E A MORTE,
UMA VISÃO FILOSÓFICA
DA EXPERIÊNCIA

O pensamento do professor acompanha as preocupa-
ções do mundo, onde está inserido o Ser, com seu destino
e suas dores. Tal como a doutrina que o tomou de assalto e
tornou-se seu ideal maior, a vida devia ser olhada segun-
do o princípio que determina a ligação entre todas as suas
partes. Assim, a solução dos problemas do mundo passa,
inevitavelmente, pelo entendimento das causas e o objetivo
da própria vida. Esta forma de ver, auferida nas longas me-
ditações em torno do mestre Kardec, permitia a Herculano
encontrar sempre uma razão maior, segundo uma lógica ir-
retorquível. Os objetivos precisam estar claros para que os
meios a usar sejam adequados. Se os objetivos estão confu-
sos, assim o estarão os meios.
Para ele – relembre-se, agindo sempre em conformidade
com o Espiritismo – era preciso aclarar a realidade do mun-
do, para que o homem pudesse inserir-se nele em condições
ideais de realizar o seu progresso. O Espiritismo facilita essa
inserção de forma excepcional, ao mostrar as duas faces da
realidade: a visível e a invisível bem como o entrelaçamento
que existe entre ambas e as influências recíprocas dos se-

143

Kardec é Razão

res dos dois lados. E mais, oferecendo uma visão objetiva
da sociedade dos invisíveis, que serve como complemento
para as dúvidas e as certezas da vida. Diante disso, não ti-
nha o professor nenhuma preocupação de tornar a filosofia
que expunha e defendia, agradável aos interesses humanos,
mas conhecida da coletividade e capaz de alterar a cultura
geral. Vai ele, portanto, tocar em pontos importantes com a
maestria de quem sabe unir o verso do poeta à melodia do
músico e à voz do cantor, para entoar a canção da vida.

Todo ato é um parto e todo parto é doloroso. Só
podemos supor um mundo sem dor imaginando o
completo desenvolvimento de todas as potenciali-
dades das coisas e dos seres, o que não passaria de
pura especulação imaginativa. (II)

Para haver um mundo sem dor seria preciso um mun-
do perfeito. Este não é, indiscutivelmente, o caso da Terra.
A questão, aqui, não é discutir as causas da dor, que estão
bem claras para Herculano no plano da Doutrina dos Espí-
ritos. É preciso vê-la no contexto do mundo, onde o labor
determina a cada segundo um novo parto e a cada parto
uma dor relativa. Mas o professor busca, também, deslocar
a dor daquele contexto místico e inconsequente da ira divi-
na, oferecendo esta visão para os próprios espíritas que, por
imaturidade no trato com o Espiritismo, passaram a situar
a dor como um elemento indispensável de tal ordem que, se
não existe, deve ser procurado e, se existe, deve ser supor-
tado a todo custo, quando, na verdade, pode ser ela o resul-
tado da incúria que nada tem a ver com causas anteriores.
A dor é mola da experiência enriquecedora, que por sua
vez é o próprio parto da cultura. Sofrer é, assim, uma con-
sequência do trabalho que tem por finalidade fazer evoluir
o espírito. Sob este ponto de vista geral, a dor que acome-
te o Ser nas particularidades de sua transição pelo mundo,

144

Wilson Garcia

aparece numa grande e maiúscula dor: a do parto da vida.
Mas a dor tem sua função nesse parto: ela prepara o espí-
rito para receber a cultura, de modo que ela não existe tão
só por consequência do parto, o que não lhe daria finalida-
de maior. Uma vez que ela advém do parto, deve funcionar
como um elemento aplainador do caminho, onde as experi-
ências se sucedem e se transformam cm conquistas para o
Ser, não importa, nesse momento, a qualidade das experi-
ências, uma vez que, sendo o que são, resultarão na dor e no
crescimento. Assim é que, em relação aos próprios animais,
Herculano pergunta e responde:

Por que sofrem os animais? Sofrem porque evo-
luem e porque toda evolução, consciente ou incons-
ciente, é sempre acompanhada das dores do parto
que anunciam as transições evolutivas para planos
superiores. (II)

A posição dos animais na escala evolutiva dos seres é de
subalternidade em relação aos homens. São eles inferiores,
mas nem por isso estão isentos da dor, o que é perfeitamen-
te compreensível: a dor é própria do mundo em que estão
situados e, se não possuem razões palingenésicas para so-
frer, como o homem possui, ainda assim sofrem por esta-
rem realizando a experiência da vida. São as experiências
que os encaminharão a um degrau mais alto nessa escala
evolutiva. Realizam, portanto, um parto repleto de sofri-
mentos, embora nenhuma razão outra exista para que so-
fram. Esse esclarecimento desfaz a falsa ideia daqueles que
combatem a dor no processo evolutivo e apontam para os
animais como quem quer afirmar a injustiça divina. Ade-
mais, a função da dor está caracterizada psicologicamente:
a dor provocada pela fome enseja a escolha de um caminho;
o da violência, que o animal escolhe automaticamente, ou
o da conquista com inteligência, que é dado ao homem es-

145

mas no homem não. Quando surge ela no homem. sem que neste mundo haja a dor como consequência dessa experiência. Os séculos de dominação da consciência pelo pavor serviram para estabelecer essa falsa noção de dor que hoje alimenta ainda muitas almas e as faz entender o Espiritismo segundo uma ótica vesga. o Espiritismo compreende a função da dor no processo natu- ral de aprendizado humano. Como a dor é um elemento do sensível. (II) Os homens criaram a cultura da dor para subjugar os seus semelhantes. Mas o Deus de justiça não é o Deus da dor. A ideia de uma eter- nidade de dores nos perturba e preferimos esperar vivos a hora do corte. Tal mun- 146 . (II) O professor reforça. No animal. Fora desse contexto. como fonte e ori- gem dela. o homem e o animal. pois a exclusão da dor implicaria necessariamente a inexistência de qual- quer atividade. a violência se justifica. configurando-se como uma resultante da expe- riência. chegamos a outra conclusão inevitável: o mundo sem dor é uma abstração gratuita que só existiria no imaginário absoluto e inconsequente. Como doutrina da razão. A dor mais insuportável se torna suportável quan- do nos lembramos das ameaças dos capatazes de Deus sobre as penas eternas. Mas a dor é igual para ambos. do bom-senso. assim. torna-se ela uma perversidade engendrada para favorecer os mais fortes no seu esquema de dominação da alma humana. Kardec é Razão colher. remete-o ao estado de barbárie em que se encontrava quando habitante dos reinos inferiores da vida. a ideia de que é impossível habitar um mundo e desenvolver nele as experiências que encaminham ao progresso do Ser. Daí a remessa a Deus.

O grito eclodiu no Universo. O mundo dos cristãos irracionais não conseguiu. assim. lança-se ao mundo para. mas a insegurança do homem ante a va- riedade das situações que enfrenta o leva a amar e manter dispositivos de segurança que são cris- talizações da experiência embargando as vias de acesso ao futuro. A experiência é. e onde o trabalho é o único escopo capaz de gerar sabedoria. A dor anuncia a chegada do saber e o saber com a dor é a prova da conquista. Ei-lo. não encontra o homem outra saída senão privar-se a si próprio 147 . realiza experiências em busca da descoberta de caminhos mais se- guros. se concretizar e foi. A experiência favorece a adaptação do homem ao mundo. já seria a pior das dores. mas à medida em que age. o seu gran- de trunfo para progredir. portanto. em determinado grau de civilização. Mas. Um mundo sem dor seria uma mundo sem ativi- dades. mas serve-se dele para compreender a vida e o Universo. domi- ná-lo pelo conhecimento. Podemos ver isso com nitidez nas estruturas sociais de todos os tempos. em si. descobriram a maior das prisões a que pode ser relegado o homem: o “lassez faire” eterno. pois. (II) O Ser não foi feito para o mundo material. postos em condições de gozo eterno. pois. mas não no plano da realidade. rompido pelo grito daqueles que. normatizando a seu favor com regras que acabarão por asfixiá-lo. o que. onde a justiça caminha ao lado do mérito. As forças de defesa da sociedade convertem-se em dispositivos de repressão que as transformam em mecanismos rígidos de asfixia da liberdade. Já Jean Jacques Rousseau previu isso ao tratar do Contrato Social e destacar o valor da liber- dade natural. pela experiência. Foi o cantar da galinha com a experiência do ovo. Wilson Garcia do só pode existir no sonho ou na imaginação. clamando por experiência e a dor sinalizando a conquista. Sem previsão de tempo.

assim. gotas detergentes de verda- de nas engrenagens da ambição e da mentira. quando este óleo não é suficiente. devem ceder lugar aos jo- vens. nem um ponto no espaço. portanto. a experiência repetida fixe o conhe- cimento e o sentimento. para que. o seu arsenal de conceitos. pela dor da experiência. fazendo com que os velhos se tornem jovens e estes velhos. O momento que passa não é uma ilha no tempo. Os jovens não entram no cenário terreno empu- nhando armas. o novo substitui a engrenagem. (VIII) 148 . ao envelhecerem. O Espiritismo favorece a compreensão dessa renovação contí- nua. Mas o mistério da vida reserva a arma do nascer de novo. com a asa emplumada da razão. Chegam fracos e inscientes. Estas. em lances que vão deslizando como fichas de marfim com efeitos agressivos. de ideias vivas e dinâmicas. constituída de uma face visível e outra invisível. Mas trazem nas suas mochilas secretas. (II) O mundo das experiências sofre a constante renovação dos seres que. mas um fluir: o fluir da dura- ção. que são eternas. pois que é uma doutrina capaz de mostrar com clareza a engrenagem do planeta. Deus fala ao homem através de suas leis. representam a presença do imutável no mutável. que vão aos poucos lan- çando no pano verde dos cassinos da ambição. Kardec é Razão de um pouco de liberdade em troca de maior segurança. que será preferível experimentar sem perder a liberdade. despro- vidos de experiências. até poder constatar. de cabelos negros e doirados. pois “o permanente no mundo é a mudança”. sem a marca branca e impiedosa do tempo. da eternidade na transitoriedade. É preciso. renovar sem- pre. O novo serve para pulverizar de óleo as engrenagens que se vão enrijecendo. sob a capa de sorrisos ingênuos. interligadas pelo fio vivo da mediunidade.

Wilson Garcia O professor utiliza os princípios espíritas para analisar a vida. Na linguagem platônica diríamos: do sensível para o inteligível. que lhe facultam as ilações necessárias a uma visão geral do Universo. É assim que une a alma imortal à lei eterna. A Religião Espírita vem repor o homem no mun- do. Os filhos lhe respondem ao desejo en- quadrando-se nessa harmonia ou integrando-se aos regula- mentos. segundo o grau de sinceridade e a força da vontade que impregnam a comuni- cação entre um e outro. As religiões do passado qui- seram realizar o seu trabalho retirando o homem do mundo e lhe oferecendo. Esta seria uma posição extremamente fria e calculista. dando-lhe a sonoridade daquele que a fez. É assim que vive o Ser “no fluir da duração”. A evolução humana se processa no concreto em di- reção ao abstrato. que re- gula a vida. fica ao seu alcance graças à estrutura de leis regulares e universais. É assim que a realidade cósmica. Mas a voz dos filhos. como se lhe estivesse dizendo que sem a realidade da experiência não há verdade na vida. (IX) O Espiritismo ensina e o professor o confirma: a experi- ência conduz ao progresso e este confere ao Ser a capacida- de de integrar-se ao Universo. o que vale dizer da matéria para o espírito ou do corpo para a alma. plenos de justiça e liberdade. em troca uma vida sem atividades. vazia e cansativa. Mas não se deve entender que essas leis sejam a única forma de manifestação do Pai. nem que Ele só nos fale através do si- lêncio delas. (IX) 149 . é ouvida e respondida pelo Pai. não acessível à inspeção completa do homem. em sua linguagem específica e segundo as experiências que realizam. As leis de Deus expressam a sua vontade e re- gulam a harmonia.

É por isso que as religiões imediatistas ganham largo terreno neste momento. Kardec é Razão Se a visão real do mundo favorece a inserção do homem nele. Junte-se aí as aquisições imaginadas em vidas e vidas. na suposição de que a alma pecadora pudesse transformar-se em iluminada aos olhos de Deus. A carga cultural acha. ad- quirido com moedas de ouro. por ação de seus supostos ministros e através das unções e rezas. Toda esta ilusão está retida na carga cultural do homem. que o professor guarda e usa idealmente. O mundo do final do século XX e início do século XXI é o mundo da impaciência. oferecendo conquistas prontas e as facilidades irreais. o homem não encontra meios de avançar. O processo de desenvolvimento espiritual do ho- mem é vasto e complexo. que o Espiritismo procura esclarecer de maneira racional. ajuda a encontrar os meios para facilitar ao Ser a realização de suas experiências. Fora do contexto do mundo. que não compreende essa verdade não pode ser favorável ao Ser. abrangendo milênios e envolvendo aspectos demasiadamente complexos. alheio às expe- riências que deve realizar. segundo o Espi- ritismo. em que o Ser deseja o novo mas não está disposto a gastar longo tempo em sua experimen- tação. mas o Espiritismo. a compreensão do papel da Religião. mostra a complexidade do desenvolvimento espiritual e a necessidade de compreender que as transfor- 150 . de um sossego no reino das sombras. Toda doutrina. (XV) Herculano toca aí num ponto dos mais importantes: a cultura atual está repleta da ideia das transformações ime- diatas. levando-o ainda hoje a repetições frustradas do passado. que só mais à frente o homem descobri- rá que são ilusórias. mas não pretende submeter a nenhuma transformação violenta. portanto. as- sim. os meios adequados para se suprir das novas verdades e renovar-se.

sem nenhuma pressa ou violência. pois a nossa mente finita não pode abrangê-lo. O Infinito é aquilo que não podemos conceber. o porquê da vida. Mas o que Herculano compreende. pelo caminho mais curto possível. sabe-o ele. nem sempre será igualmente compreendido pelo aluno. A ideia do homem nos mostra a estreiteza do finito. Wilson Garcia mações deverão ser realizadas natural e lentamente. A CAMINHO DA VISÃO CÓSMICA Todo o raciocínio do professor se desenvolve no sentido de levar o aluno a compreender. pequenina criatu- ra apegada à crosta de um diminuto globo. porque quanto mais alto é o voo maior será a visão do conjunto. Assim. poderemos mais facilmente impedir que eles continuem agindo no futuro. o Criador. o caminho é o da exposição que excita o racio- cínio e o faz soltar-se das limitações a que está submetido. espíritos finitos. ao contrário do que muitos pen- 151 . A ideia de Deus nos dá a perspectiva do Infinito. de um grão de areia dos desertos da imensidade. O homem é o ser entre os seres. A Doutrina Espírita é um resu- mo cultural da humanidade. Deus é o espírito infinito. Remontando às raízes históricas dos conflitos que nos atingem. capaz de proporcionar essa experiência inusitada. buscando cada vez mais altura. a visão cósmica que compreender o Ser. Mas. Nós somos as criaturas. (XXIX) O conhecimento da sua realidade interior é a única ma- neira de que dispõe o homem para realizar as transforma- ções de que necessita. Deus é o Ser dos seres e tudo abrange na sua onisciência e na sua onipotência. (XV) É pois.

de troca in- cessante. acrescido do saber. o Ser devolve à natureza o que dela recebeu. mas é também toda experiência acu- mulada no plano do sensível. de relação permanente com o meio. que a aprimora. pelo homem. corpos que crescem e se aprimoram. que esclarece muita coisa. O conhecimento não ocupa espaço. É pelo sentimento. É o “automatismo” de que fala André Luiz. Há uma sequência de experiências re- alizadas de forma geral. a natureza fornece os ingredientes para o Ser realizar suas experiências. como queria Kant. sequer estas deverão ser obrigatoriamente em maior quantidade ou constituir-se em mais importan- tes. e não pelo raciocínio. dando sem- pre lugar a outros corpos e assim sucessivamente. segundo a sabedoria popular. A razão se for- ma na experiência. Sentimento e razão vão. onde se encontram as razões que o comandam. para que ambos ca- minhassem juntos. se desenvolvendo via experiências que se renovam. espíritos que nascem e renascem. Kardec é Razão sam. a realidade interior não vai mostrar apenas situações de ordem moral. realizadas por seres que também se renovam. enche essas categorias. O homem enquadra o mundo nas categorias nascentes da razão. As expe- riências aqui começaram há milhões de anos. Antes de mais nada. (VIII) O Ser está profundamente ligado ao planeta. 152 . mas não se ignore que o conhecimento defasado não deseja ceder lugar àquele que o vai atirar ao léu. assim. com o conteúdo das sensações. que o ho- mem primitivo humaniza o mundo. aquela realidade deve expor a carga cultural que forma o arcabouço das ações do ser. objetivando uma integração entre a ela e o homem. à medida em que elas se dão. As experiências do Ser são experiências ecológicas. A princípio.

Esse pon- to central. Essa relação comunicativa vai gerar uma série de resultados. Desde o seu estado primitivo vive o Ser a experiência num mundo envolvido por espíritos misteriosos. pres- tes a entrar na Era Cósmica. para tornar-se plenamente verdadeira. a princípio mágicos. Da mesma maneira porque o contato do homem com o espaço físico lhe fornece uma medida para aplicar às coisas exteriores – a categoria espacial. a con- sequência das “experiências concretas”. (VIII) Aquilo que para alguns é o resultado de experiências místicas é para a inteligência cósmica. que Spencer soube ver. Wilson Garcia A crença na sobrevivência decorre de experiências concretas do homem primitivo. à crença na sobrevivência o homem juntou o con- ceito de espírito. que lhe respondem às evocações e lhe oferecem conselhos na medida de sua capacidade. Usando o mé- todo comparativo. corroborada por outros pensadores. O professor fala da crença na sobrevivência e a remete às sensações. 153 . e não na cogitação filosófica. Sua origem está nas sensações. donde se originou no homem primitivo. invisíveis. Esta conclusão. (VIII) Assim. e não de formula- ções do pensamento abstrato. esse mesmo espírito que Kardec vai deli- near com a maior segurança para o homem moderno. Bozzano mostra como a tese de Spencer pode ser desdobrada ou ampliada. que consegue olhar o planeta no seu conjunto harmonioso com a natureza. o conceito de espaço – assim também o contato com os fenômenos espirituais lhe fornece uma medida espiritual que é conceito de espírito. mas posteriormente racionais. é importante na medida em que lhe confere base científica. retirando-a do terreno movediço da fé sem a razão. com o acréscimo dos fatos metapsíquicos.

no campo práti- co. Ainda não consegui- 154 . As razões para isso estão bem expressas na carga cultural. talvez. Assim. nas heranças que o Ser traz de suas experimentações anteriores. de fato. praticamente incapaz de realizar este ideal em toda a sua grandeza. Toda a simbo- logia que domina as religiões tem sua origem nos horizon- tes mais antigos da civilização. A partir das traduções e no momento em que a Doutrina passa ao mun- do das experiências. A pureza doutrinária só pode ser encontrada nas obras da Codificação. Eis a razão pela qual. O “horizonte agrícola” permanece subjacente em nossa mentalidade moderna. o Ser se vê assaltado de incompreensões de diferentes graus. sem sofrer delas certas influên- cias. na prática as coisas acontecem de modo diferente. Mas o antigo Egito oferece-nos. tendem a acomodar-se a uma série de situações. a qualida- de da prática resultará da maior ou menor dominação que esses horizontes culturais exercerem sobre o Ser. especialmente no seu aspecto de prisioneira do pensamento humano. Kardec é Razão Os resíduos mágicos. de forma geral. No momento em que surge uma doutrina que dispensa a simbologia. (VIII) O Espiritismo não tem a pretensão de superar as cultu- ras religiosas dominantes. do uso dos princípios doutrinários na vida de relação ou na experimentação do Centro Espírita. o quadro que melhor demons- tra a passagem dos deuses-familiares para a cate- goria dos deuses cósmicos ou universais. Nossas religiões mostram-se poderosamente impregnadas desses resíduos. as culturas. como relembra o professor. Embora a preservação doutrinária escoimada de en- xertos seja o ideal. anímicos e mitológicos do ho- rizonte tribal e do horizonte agrícola apresentam- -se ainda bastante fortes no mundo contemporâ- neo. e do seu esforço para superar as próprias limitações. encontra o Ser totalmente fragilizado e. em sua língua original.

constatando que esse momento será de transcendência para o Ser. de seus deuses e seus cultos. já dentro do horizonte civiliza- do. Wilson Garcia mos libertar-nos de suas fórmulas agrárias. Mas o professor deixa vibrar todo o otimismo do seu coração ao apontar para o “momento de transição do horizonte espiritual”. às vezes inexpressiva. por seus pés). especialmente aos trabalhadores e líderes. para o Ser esclarecido o ridí- culo cai como um peso esmagador. Enquanto isso. principalmente em relação à sustentação de ex- periências morais imediatas. Seria muito difícil e demasiado ridículo para nós. Herculano. Essas marcas estão entremeadas de outros ape- gos de épocas mais recentes. Mas virá. o ridículo costuma ter uma dimensão re- duzida. pisarmos no limiar da Nova Era com a esmagado- ra carga de incompreensões e resíduos selvagens e mitológicos de que não queremos nos desapegar. é preciso estudar a realidade do mundo. (VIII) Herculano vê por toda parte as marcas desses horizontes antigos. A compreen- são dessa situação passa. (II) A questão aqui está diretamente relacionada aos espíri- tas. por fim. pela compre- ensão da realidade cultural de cada ser. marcas essas que denunciam a ligação do Ser àque- le passado. onde se verifica todo um contexto de dúvidas e influências. carregados de sacrifícios animais e vegetais. 155 . Como “Deus põe e o homem dispõe”. ao visualizar essa dor. causando uma dor pro- funda de ordem moral. O “horizonte civilizado” desen- volve-se sob signos agrícolas. as marcas divinas ficam quase sempre nubladas pelas mãos do homem (quan- do não. que assinalará uma fase de transcendência na vida humana. no seu momento que passa. Para o ignorante de certas coisas. o momento de transição para o “horizonte espiritu- al”. indiscutivelmente.

algo como a1cançar de graça certas “graças”. como quem constata. que são detalhes dentro de uma realidade maior. tem o dever de manter-se vigilante. no futuro. podem errar com mais liberdade suas diretivas existenciais. vislumbrar o mundo em sua generalidade e sobre o qual as paixões. A tendência natural do homem para o mistério e o maravilhoso excita os ânimos e leva criaturas e grupos humanos a verdadeiros delírios. no mundo espiritual. aprimorou sua capacidade de intuição. 156 . (VI) O professor não distingue. Mas o ser moral. adeptos ou criaturas profanas. podendo. ati- vo e destemido no plano de ação de sua juris­dição. uma realidade que se apresenta aos olhos humanos. indistintamente. O ser prático ou o ser teórico. Fala ele para o leitor. aqui. e reencarnações aquinhoadas. não de- vem exercer a mesma atração que exercem sobre o homem prático ou teórico. com isso. alterando o conteúdo de sua bagagem cultural e uma das reformas con- siste em eliminar os “resíduos selvagens e mitológicos” que se expressam na modernidade por um comportamento de inércia perante a ilusória possibilidade de ascensão a pla- nos de vida felizes. (II) O Ser Moral de Herculano é aquele que conseguiu alcan- çar a visão cósmica da vida. com certa tristeza e ao mesmo tempo lás- tima. em que os valores da civilização submergem no pântano das paixões. apegados aos aspec- tos normativos da aquisição de experiências e sua assimilação. que acumu- lou experiência e saber. Kardec é Razão chama para si a responsabilidade de induzir o discípulo a aprofundar o processo de mudança interior.

A preguiça mental e a atração magnética do passa- do encarceradas em si mesmas. Ainda! Outros milênios. (X) 157 . Por isso a dor explode por toda a parte. O tercei- ro milênio não realiza e não promete realizar os sonhos de for­mação de uma grande civilização terrena. que muitos espíritas aguardam com a ingenuidade dos judeus que ainda esperam o Messias e dos cristãos que aguar- dam a volta de Jesus entre as nuvens. O Mito do Terceiro Milênio. enquanto catástrofes punitivas devastarão o planeta. pode o Ser constatar que muitas falsas profecias se desvanecem ao sopro da leve brisa da realidade. mais à frente. admirar o resul- tado dessa grande batalha do Ser. não passa de interpretação errônea e supersticiosa de um arquétipo coletivo: o anseio dos homens por um mundo feliz. enfrentando de peito aberto a luta do século. com revoadas de anjos ao redor. em vagalhões enfurecidos. A dor aumen- tará. conseguirão. Mas ao Ser cabe a tarefa de construir o mundo superior que sonha para a Terra. aquele que já alcançou as noções básicas da vida em sua dimensão cósmica. porque só ela pode arrancar os insensíveis de suas tocas. sim. (IX) Agora que estamos atravessando os umbrais do terceiro milênio. pode e deve tor- nar-se capaz de superar as águas lodosas dos devaneios pe- rigosos. desper- tado nas criaturas pela realidade longínqua das re- alizações ainda em lenta progressão na Terra e já atingidas no Cosmo por mundos mais antigos que o nosso. mostram-se inca- pazes de um gesto de grandeza em favor de realiza- ções urgentíssimas. Wilson Garcia Mas o espírita esclarecido.

amigo dos grandes pensa- dores. por isso. subverter-se. cujo timoneiro insubstituível foi e continua sendo Allan Kardec. 158 . que todo aluno gostaria de ter. Herculano é a voz equilibrada e profunda. Ocorre que o mesmo meio onde o Ser se instala para se realizar torna-se às vezes perigoso pela própria presença do Ser. diante da enorme responsabilidade que se apresenta para todos aqueles que escolheram o ideal do crescimento do Ser. Sua ação diante dos estudiosos supera a mediocridade. destacando com natura- lidade o resultado de suas análises e pesquisas. Mas quem direciona e ilumina sua atenção é o Espiritis- mo. as coisas e seus valores costumam inverter- -se e. para conferir valor ao que de fato possui. como soem ser somente os Espíritos bastante experimentados nas lides cósmicas. E Herculano fala. A atenção de Herculano está concentrada no caminho do homem. com autoridade. É. Ao filósofo. Não lhe é possível. não raro. e negá-lo onde ele só existe em aparência. portanto. tergiversar aí. é a autoridade mansa e generosa. mas firme e franca. dos antigos aos modernos. No mundo. O professor vê com serenidade cada pensamento e cada partícula do conhecimento. esse terreno fértil por onde transita e realiza suas experiências. mas não os apontando menos quando expressam suas próprias idios- sincrasias. a coragem de dizer as verdades do momento jamais falta. em especial aqueles que sentem até à medula o que é de fato ser condutor de homens. Kardec é Razão DO SEXO À POESIA E O DESTINO DO BELO O olhar atento do professor perpassa os principais pro- blemas da vida sem perder de vista o complexo de suas li- gações e as dores das experiências humanas.

tão somente porque veem o desequilíbrio mul- tiplicar-se. O bom e o justo correspon- dem a finalidades claras e evidentes. nos quadros do humanismo cris- tão. Seu lugar é na classificação patológi- ca. Esse desequilíbrio. a traição ou os aleijões como nor- mais. mas alterar a classificação dos fatos para acomodar interesses é trair a verdade. é o mesmo que considerar” tantas outras. o normal é o que se enquadra na definição de Durkheim. Mas os aventureiros do conheci- mento e todos aqueles que não levam consigo o germe da responsabilidade desejam fazer do desequilíbrio uma nor- malidade. (XXXIV) É verdade que os portadores dos desvios sexuais mere- cem compreensão e tolerância.. referente à finalidade. O professor não aceita esse posicionamento e fere a questão com sua lógica: “aceitar uma aberração como normal.. mas admiti-lo nos quadros da normalidade seria estimular as deformações do comportamento ou. a traição ou os aleijões como nor- mais”. Wilson Garcia Em nossos dias. o assassinato. A finalidade genética do sexo define de maneira irrevogável a 159 . ou seja. não pode ser disfarçado com os artifícios de uma normalidade convencional. com plena consciência. desfigurar a concepção do homem na sua estrutura e aparência normais. compreensão e auxílio. Compreender e amparar os portadores de anomalias é um dever cristão. como se fazia nos quadros do humanismo gre- go. Em todas as espécies: minerais. entretanto. na espécie humana o crité- rio teológico. como “o roubo. não podemos negar tolerância às vítimas de um desequilíbrio sexual que marginaliza tantas cria- turas. vegetais. Quem carrega essas cargas merece amparo. Os seus problemas devem e precisam ser analisados. o que é bom e justo. animais. o assassinato. no caso dos defeitos físicos. Aceitar uma aberração como normal só porque ela se expande é o mesmo que considerar o roubo.

Sexo é energia criativa que o Ser utiliza nas ações ao longo da experiência terrena. Desfaz. O anseio sexual da criatura humana não se restrin- ge ao ato sexual Esse anseio provém da necessidade de comunicação. apenas. que o ser pratica em decorrência de impositivos fi- siológicos. produtora e reprodutora do organismo humano é anormal. O professor o vê ainda de forma mais ampla. O Ser equilibrado compreende o equilí- brio e não mente nem falseia. Toda prática sexual que não cor- responda à sua finalidade ao mesmo tempo equi- libradora. Não tendo essas três funções. não cria situações anômalas nem as deseja ver consideradas normais. taxando-os de moralistas. produtora e reprodutora”. Não! A verdade é outra. é produ- tor de outras tantas energias que se destinam a manter o próprio equilíbrio do homem e tem finalidade reprodutora da espécie. O sexo promove o equilíbrio das energias orgânicas. acabando com a falsidade dos que entendem o sexo com apenas uma das suas reais finalidades. E dá ao sexo o seu posiciona- mento de função “equilibradora. a posição dos que condenam os pensadores comprometidos com a moral do Ser. Não se compro- mete com os interesses em jogo. para não ajudar a enterrar na vala comum da mentira o conhecimento que liberta. estejam esses em que segmento social ou agrupamento for. também. acusando disfunções e desvios mórbidos no indivíduo e no grupo social. (XXXII) O sexo não pode ser visto apenas como um ato inconse- quente. Kardec é Razão sua normalidade. de relacionamento e particular- mente de sintonia com uma criatura afim. (XI) O professor oferece. pois. o sexo deixa de ser bom e justo para se tornar anormal. como instrumento que aproxima pesso- as e define relacionamentos que podem ultrapassar a pró- 160 . a referência em que o Ser deve basear-se: o bom e o justo.

mordendo-a. mas componente moral dos Espí- ritos Superiores. apenas um instante dessa comunicação maior. que sem condições de impotência para martirizar os outros transforma-se no masoquis- mo. O sentimento moral está asfixiado pela loucura dos 161 . A virilidade que se aloja no sexo é subver- sora da normalidade. O ato sexual é. dilace- rando-a. estabelece uma comunicação perma- nente e realiza o ato da criatividade. manifesta-se o sadismo. pois. Quando o anormal assume o lugar do normal. onde o sim- ples prazer adquire importância vital. da satisfação sensorial. Uma vez que o Ser se sin- toniza com o outro. O ciúme leva à contradição de matar por amor. pelo espaço cósmico sem fim. a energia criadora proveniente do sexo se transfor- ma em possibilidades de realização superficial. torna-se o sexo um instrumento de comunicação. Mas quando essa posse não dá a satisfação desejada surgem os impulsos destruidores. em jor- nadas terrenas repetidas e continuadas. na tentativa de autodestruição. (XXXIV) O homem relacionou a virilidade ao sexo e determinou que o macho é a representação dessa virilidade. Wilson Garcia pria existência física. O amor humano impele o ser à posse sexual. dessa troca de energias permanente. A luxúria leva o amante a querer devorar a criatura amada. É nesse mo- mento que vemos no amor sexual as manifestações de antropofagia. Tudo isso quando a mente ainda não se ilu- minou suficientemente com as luzes da razão. O erro dos teóricos atuais da sexologia é admitir que essa energia criadora deve ser liberada em fa- vor do prazer. em renovação intensa de energias. dos gozos passageiros e ilusórios que o homem vulgar consi- dera como elemento de sua realização viril. o professor demonstra que a virilidade não é em si mesma expressão do machismo. Aí. No entanto.

torna-se fonte de energia ini- gualável. abre as portas dos 162 . Confundir alhos com bugalhos é tática de nego- ciantes fraudulentos e inescrupulosos. não está simplesmente na relação de dois sexos iguais. mas na constatação da inversão de valores em relação ao verdadeiro amor. Não é ele aí algo impuro. O sexo masculino define a personalidade normal do homem nas suas funções criadoras. para o professor. Predomina a natureza inferior. ou quando se torna a bengala da realização criadora. o sexo perde conteúdo e desce ao seu estágio mais simples: o animal. (XXXIV) Baseado no egoísmo. Kardec é Razão instintos. como o desejaram transformar as doutrinas religiosas baseadas no amor superficial. torna- -se capaz de originar os maiores desvios. além de expressão do amor. sem perder intensida- de de sentimento. Quando o sexo assume em si mesmo a principal meta da vida. Dizer a um adolescente que se sente dominado por impulsos negativos e procura livrar-se deles: ''Isso é normal. pai de todos os vícios no dizer de “O Livro dos Espíritos''. O sexo fe- minino define a personalidade normal da mulher. Quando o Ser alcança o estágio de poder dar-lhe alguma sublimação. (XI) A vergonha. tornar-se-á na prática uma importante experiência na grande tarefa de realização do ideal humano. as perversões mais incontroláveis. As “luzes da razão” são as únicas capazes de promover o equilíbrio das forças sexuais e levar o Ser a avançar em sua experiência. arranje um parceiro” é atirar o infeliz na roda viva de um futuro vergonhoso. considerando o sexo como ele- mento de sua vida na Terra. Neste momento. nem elemento máximo do prazer na Terra. Sendo compreendido em suas funções. os impul- sos do animal sufocam a consciência imatura. segundo as propostas superio- res do amor.

me cede sua mulher para o meu aprendizado prático?” Um homem de seus trinta anos ouviu do psiquiatra: “O senhor não satisfaz os seus impulsos apenas com mulheres. Ela o encarou com espanto e exigiu a devolução do dinheiro da consul- ta: “Não vou pagar com o dinheiro do meu marido. sem que lhe permitissem a companhia da mãe. Ele lhe deu a receita: “um amante”.” Uma senhora idosa recebeu a mesma receita e disse ao médico e profes- sor de medicina que a atendera gentilmente: “Dr. O Sr. ao lado dela aparece uma estrutura econômica dominadora. com medo dos outros. os chifres com que o senhor deseja adornar a sua cabeça. quero ser um homem”. não tenho experiência nesse assunto. O rapazinho lacri- mejou e respondeu: “Não posso. O cliente arran- cou um punhal do colete e o doutor escapou pelos fundos do prédio. o terapeuta a encarou sorrindo e perguntou: “Você tem um amante?” Ruborizada. Daí o apare- cimento de toda uma conjuntura social que tenta dignificar as relações anormais. doutor. Mal entrou no consultório. O médico disse impassível: “O homem deve ter coragem para tudo”. (X) Diante do quadro terrível da sexualidade no mundo atu- al. Assuma a sua responsabilidade de homossexual e viva a vida que Deus lhe deu”. subversora da moral. Wilson Garcia desvios e força a mudança da ordem das coisas. precisa um de homem”. A mãe a levou a respeitável clérigo que se dizia espe- cialista em Psiquiatria. a estimular o crescimento desse estado de coisas. A senhora de um jovem engenheiro procurou famoso psiquiatra. do que resulta um qua- dro social dos mais conflitantes e irresponsáveis. ganho honestamente. pensadores inúmeros lutam para validar situações que 163 .. ela voltou para a sala de espera e fugiu com a mãe. Uma jovem angustiada pediu à mãe que a levasse a um psiquiatra sacerdote. Um adolescente ouviu de seu médico este conselho: “a cura está nas suas mãos.

muitas vezes. basta a inversão da polaridade na adaptação do espírito ao novo corpo material. E com a mesma determinação. combate os desvios da interpretação doutrinária: Enganam-se as entidades espirituais e os estudio- sos humanos do Espiritismo quando atribuem a responsabilidade dos desvios sexuais à reencar- nação. Ficam em paz com a sociedade e alcançam.. entendendo estar aí a solução dos problemas. benefícios para seus próprios dilemas. pelo qual os huma- nos se descobrem nas afinidades. entendendo-o como instrumento de comunicação dos seres. a sexuali- dade é a fonte única dos dois sexos. (XXXIV) Como se vê mais uma vez. Kardec é Razão julgam de fato e de direito. Na verdade. Essas inversões se processam no perispírito. mas preferiu manter a postura coerente do equilíbrio.. Her- culano poderia juntar-se a essa grande massa de seres que exaltam a suposta importância do prazer irresponsável. pelo menos no que diz respeito aos pontos em que se determinou apreciar. ou seja. mas de uma aná- lise racional e dialética da questão. como ensina Kardec.) exclui a possibilidade de um terceiro sexo. em face da necessidade de experiências novas no plano evolutivo. o masculino e o feminino. Vendo no sexo mais do que instrumento do prazer. Para a mudança de sexo na reencarna- ção. afir- mando a verdade e condenando tudo aquilo que contribui para aumentar a dor. aludindo ao problema das mudanças de posição sexual de uma encarnação para outra. Sabemos hoje com segurança que a sexualidade é um sistema de polaridade não adstrito à forma es- pecifica do aparelho sexual. o professor fecha o tema com clareza. (VII) 164 . não se trata de uma conde- nação pura e simples do sexo desviado. A natureza dialética da sexualidade (.

nas quais os apressados acabam derrapando doutrinaria- mente. desejosos de atendê-los mas sem a devida qualificação. lá está. E vão buscar no passado conclusões que a razão não sanciona nem a ciência comprova. O SER DIANTE DA VIDA E DA MORTE Preparar para a vida é educar para a morte. sempre mais brutais que as femininas. Herculano remonta a Kardec a sua argumentação. mas tudo dependendo das expe- riências porque deve passar. de fato. Wilson Garcia Muitos cobram dos espíritas um posicionamento em re- lação à sexualidade humana. saem pressu- rosos a dizer falsidades acerca da questão. mas além das aparências. em vista de cederem a uma necessidade quase mór- bida de terem respostas para tudo. seguida da explicação de que o mesmo Espírito pode animar um corpo feminino ou masculino. no que são acompanhados por Espíritos também ignorantes das verdades. sem o controle da razão. portanto. e alguns espíritas. pouco se lhe importando tal condição. como o Cristo afirmou. Vale. A ideia de que a vida verdadeira não está aqui. (XXVII) A proposta de uma vida que espera pela morte é apa- vorante para a cultura que valoriza a vida material e não contempla a invisível. (X) O mesmo raciocínio serve para outras tantas questões. Por- que a vida é uma espera constante da morte. deixar enfati- zado que: Ver num jovem efeminado a reencarnação de uma mulher pervertida é fugir à realidade universal das perversões masculinas. 165 . a seguinte afirmação: “os sexos dependem de constituição orgânica”. em “O Livro dos Espíritos”.

avançando. Kardec é Razão constitui uma verdade a antepor-se a essa cultura. no qual se verifica o esgotamento da vitalida- de nos seres pela velhice ou por acidentes fisiológi- cos. Os que se fazem in- dependentes em meio à servidão geral podem sor- rir. Cada vez que reencarna. em nome de Deus e das instituições criadas pelos egoístas. como Voltaire. covardes e venais. Só há uma maneira de fugirmos ao envelhecimen- to. sempre levando em considera- ção que a própria existência do planeta Terra é transitória. que esmagam os indefesos com os recursos de suas castas exploradoras. que é preservando a nossa liberdade espiritual. Só não a alcançam aqueles que. se fosse possível. o Espírito desenvolve experiências e enriquece seu patrimônio cultural. pelos quais. A vita- lidade ou fluido vital é o que dá movimento ao corpo e pos- sibilidade da sua união com o Espírito. ninguém gostaria de passar. Eis aí o engano. portanto. Mas suas reencarnações são sempre sucedidas pela morte. (XXVII) O processo natural da vida física no planeta leva à velhi- ce. A morte é um fenômeno natural. A morte é. têm sua vitalidade comprometida no meio do caminho. da arrogância dos estúpidos. Mas tanto a morte quanto a velhice costumam ser vistas pelos seres humanos como estados ne- gativos. “um fenômeno de natureza biológica”. de natureza bioló- gica. Eis como deve ser naturalmente encarada. ou desli- gamento do corpo físico. pois o espírito não envelhece. a experiência deve ser vista como etapa de um Espírito em evolução. embora pareça em si uma contradição quando se chama a atenção para a necessidade de experiência do Espírito no plano ter- reno. daí a assertiva do professor para o fato de ser a “vida (na Terra) uma espera constante da morte”. (II) 166 . Na verdade. por razões outras.

O OCEANO NÃO CABE NA ÂNFORA DE ARGILA Um rápido encontro com a veia poética e romântica de Herculano Pires talvez feche este capítulo de forma senti- mental. Desesperado. ativo. acima de tudo. fincadas na areia. também vi- bram sonhos e quimeras. Sem liberda- de o Ser se amesquinha. Quis então gritar para aquela visão que me aluci- 167 . se esta é inevitável? Ora. contrabalançando com a aparente rudeza de suas colocações anteriores. O idealista também sonha e no seu sonho palpita o mes- mo sentimento do bem e do justo. Estavam rijas. Wilson Garcia Como pode a liberdade espiritual se antepor à velhice. Eis a boa filosofia de Herculano. E por onde pas- sa é sempre o professor que aprendeu com o mestre e que deseja despertar o aluno. para mostrar que mesmo aí. portanto. de superar a decadência física e manter-se apto. cuja coragem não conhece barreiras e cuja vida parece estar vinte e quatro horas por dia volta- da para as grandes e intermináveis discussões. Mas este encontro serve. como estacas. consciente e. pelo qual se consagra em todos os terrenos literários por onde passa. quis atirar-me às ondas e correr ao seu encalço. neste terreno extremamente audacioso para um Espírito viril. dobra-se às imposições do tempo e nele se perde. a velhice é do corpo e só alcança plenamente o Espírito quando este não concebe desfrutar da liberdade que possui. Mas as pernas não me obedeceram. continua mandando o ideal. por­que é ele que dita as normas e constrói os adereços que vão ornar as belas construções gramaticais. É a prova de que no coração de um idealista convicto. como se perdeu Sartre e tantos outros.

os mendigos microscópicos serão transfor- mados em poeira. amargo. Quando o deus de aço dos séculos cansar de olhar as torres da igreja e puxar novamente o braço. como o remédio. que banhava nas trevas. melhor não esperar a eternidade para romper e 168 . an- tes de ser o sinal de atraso é o instante em que o ideal se encontra com a esperança. Joshua. com a mesma inalterável paciência. quando não bem com- preendido. seja enfeitando a pequena ár- vore de Natal com bombons adquiridos no mercadinho ao lado. nisso. a eternidade espera todas as coisas. di-lo-ia o professor. A ficção. sorriu e continuou andando. e os mendigos para morrer. como percebendo a minha angústia e se apiedando de mim. E não haverá. Nesse momento. e tão necessário quan- to aquele para curar os males de um sentimentalismo me- nor que só aumenta as dores. não elimina a virilidade do pensador. Minha gargan- ta estava rígida. dos viadutos e do tempo. Herculano refrescava suas andanças com instantes incríveis de ingênua alegria. Se “a eternidade espera todas as coisas”. Antes. que eleva o sentir. Acima das rosas e dos mendigos. os men- digos de São Paulo construíram o seu Pátio dos Milagres. (V) A dureza da vida ganha encanto e se projeta no cosmo. os pés diáfanos e leves mal tocando as ondas. mas a voz se recusou a sair. seja rabiscando com sua velha máquina de escrever poesias e romances. viajando até onde chegam suas forças. Nos baixos do Viaduto de Santa Ifigênia. Kardec é Razão nava. nenhuma calamidade. voltou-me o seu rosto. nem um só dos seus músculos se movia. na imensidão incomensurável do universo. Porque a rosa nasce para fenecer. unindo-se a ela e produzindo o amor. (VI) O belo. dá-lhe um sabor. o Rabi de Nazareth.

no seu velho chapéu de pedinte. enternecem os olhos. de onde o Pai retira toda a argamassa para sua construção. Os homens passam indiferentes. diariamente. a ânfora de argila conter o oceano? (XII)   169 . ruminando os seus instintos. o mendigo. causa primária. Josué. estendem as mãos em gestos maternais. Tudo o mais: palavras! Pode. e os sentimentos que se apuram nos sofrimentos do Ser. nem ou­vem os seus la- mentos. numa chuva de alegres tinidos. (VI) Alma nenhuma. São elas que derramam a maior quanti- dade de níqueis. em arrancos de tratores. Mas as mulheres arqueiam docemente as sobrancelhas. por aqueles que conseguem alçar voo rumo às profundas ondas de um fluido cósmico. há de andar pela vida olvidando os encantos da natureza. neste mundo em que os corpos pesam de verdade. lerdos e pesados. Tudo isso leva o nosso professor a encerrar sua alma no Supremo Arquiteto: Deus Inteligência do Universo. Wilson Garcia sair do casulo. amaciam a voz. e as moe- das caem. o bem que verte das seivas. e seu sa- bor provado. sabe que as mulheres são a alma da cidade. cantando no fundo do velho chapéu de mendigo. acaso. Não veem. porque o belo só pode ser sentido.

Kardec é Razão 170 .

reservei de- liberadamente a veia forte e firme do professor. devem digladiar no ringue 171 . O Ser que se inicia neste terreno logo percebe o quanto é movediço. até mesmo quando fora preciso colocar em jogo velhas amizades. Herculano rendeu-se totalmente ao ideal e se fe- chou para os ecos do grande grito que deu. misturam num mesmo local seres que se amam e se admiram. Wilson Garcia Capítulo 6 A VOZ DA RAZÃO QUE CLAMA NUM DESERTO DE SONS E SILÊNCIOS Para o capítulo que fecha este breve estudo. porque apresenta o terreno onde o professor disputou a parcela da verdade que o animou a vida toda. mas que. As sociedades. em todos os seus estamentos. O ponto culminante deste estudo é ainda o mais polêmico. embora também não bibliográfi- co – por todas as lacunas que nestes terrenos tem – alimenta o objetivo já declarado anteriormente de reviver uma parte importante e indispensável do pensamento daquele que foi o maior e mais destemido defensor de Kardec e da razão que brota inequívoca da obra espírita. Não sendo este um estudo biográfico. Aqui. criam situações perversas para os ami- gos da justiça superior. E para deixá-las ainda mais compli- cadas. em meio a estas plácidas paragens que compõem o Planalto Paulista. O pro- fessor usou sempre. mais tarde.

A Pureza Doutrinária é o nome que se convencionou dar a esta luta insana. É para isso que nos direcionamos. e que revela nos seus meandros uma invejável ânfora de energia que somente os homens decididos. O que vale é navegar nas ondas deste pensamento e sabo- rear o aroma de uma peleja que deixou sua marca indiscu- tível. como poucos. Os deterministas acreditam que a Verdade não precisa de defensores. agora. mas no sentido de mostrar quanto vale ser amigo de um professor que. Kardec é Razão armado dos interesses. que alguns. como ele. entrega-se à mentira. mas vivido. quase numa justificativa de seu caráter: Quem não defende a Verdade traída e conspurcada pela mentira não é digno dela. portanto. revividos na su- posição infantil de abrir antigas feridas. e os mendigos para morrer”. o que significa antes de mais nada. O mesmo instinto que leva o Ser a proteger-se do perigo. na certeza de que estavam não só defendendo a fonte da vida. entendendo que enquanto a Verdade não triunfa por si mesma. Herculano viu nisso uma falácia. com seu vigor. soube entender o mestre e aproveitá-lo como base de uma nova cultura humanística. importa discutir. pois ela se basta a si mesma. mas a própria vida daqueles que. O exemplo do professor ele o deixou alicerçado em irre- torquíveis pensamentos. resolveram enfrentar. defendendo-o ou acusando. conseguem juntar: a coragem de dizer e viver! Os pensamentos não serão. o caminho 172 . E quem não é digno da Verdade. ser defendido. deve levá-lo a lutar contra as ameaças de destruição da fonte cristalina de sua água. De início. porque a vida que se ganha se defende. (IX) O Espiritismo não estaria aí para ser amado. porque “a rosa nasce para fenecer. Pouco. E vão dividir-se irremediavelmen- te. junto a Herculano. justos e bons. se decidiram pelo Espiritismo. ele aparece.

ética e moralmente. deve primeiro mergulhar no estudo da Dou- trina em profundidade. tratam de oferecê-la segundo suas cargas cultu- rais e seus interesses momentâneos. é também originária dos incautos. Mais grave a situação ficava quando essas interpretações equivocadas eram assu- midas de público. (II) Era um recado com destino certo. mas por ser Espírito a caminho dos planos superiores da vida. as quais Herculano entendia que as lideranças espíritas ti- nham maior responsabilidade. apesar da força intrínseca de uma doutrina inigualável. onde Herculano resolveu levantar sua ten- da. nem sempre sua voz era ouvida com o respectivo silên- cio respeitoso. porque. Wilson Garcia vai ficando cheio do sangue daqueles que foram vitimados pela mentira. Mas a mentira não é só aquela que brota dos corações maus. que não existia por ser ele homem. deixavam o terreno da intimi- dade para comprometer um grande número de criaturas. sem as condições ideais para compreender a Verdade. na difusão dessa doutrina. a virilidade do professor. No campo do movi- mento espírita. era confundida com 173 . Herculano compreendia estar lidando com pessoas interessadas. aí. Neste momento. de alguma forma. dos vaidosos e de todos os que. Justo e bom. Herculano sempre emitia sinais de justiça e bondade. de modo que. mesmo que disponha dos mais importantes títulos universitários ou esteja colocado nas mais altas posições sociais. dizia: O espírita que quiser dar um pio nas polêmicas atuais. os interesses não costumam ser diferentes do restante da sociedade. mas não admitia vê-los confun- dindo os princípios espíritas e interpretando-os de acordo com velhos e ultrapassados conceitos. dado por quem se sen- tia com a necessária competência para falar. mas a claridade chegava a alguns um tanto enevoada. Por isso.

a árdua tarefa de lutar contra eles. Muitos espíritas se deslumbraram com o fato e julgaram-se capazes. que desencarnou em 1979. Al- guns espíritas. não é diferente da época de Herculano. Nada. mas trouxe-lhe também algumas desvanta- gens. dependem dos intérpretes para escolher seu caminho. (VII) Esta é uma questão ainda presente nos dias de hoje. embora sem o necessário preparo. o vencedor. como sempre acontece. Herculano assumiu. tirava o professor de sua serena audácia. porém. desferidos por aqueles homens. expressam de pú- blico complicadas teorias. especialmente quando os golpes pu- dessem produzir muitos estragos entre aqueles que. Kardec é Razão agressão pessoal e considerada resultado de uma pretensão descabida. Retocar e até reformar Kardec foi intenção de homens vaidosos. propon- do modificações na terminologia doutrinária. desde o instante em que a Doutrina soltou seus primeiros vagidos. no tocante ao tema. fugindo da terminologia espírita 174 . como se fosse um derrotado. que se declaram cientistas. O reconhecimento cientifico da realidade dos fenô- menos mediúnicos afetou beneficamente o Espiri- tismo. Che- gou-se a criar uma prevenção contra a palavra flui- do e alguns espíritas ligados a atividades cientificas consideraram a teoria espírita a respeito. Desde Kardec a teoria dos fluidos tem provocado divergências entre os cientistas e os espíritos. mas não se abalou. O Codificador sentiu alguns fortes golpes. pessoalmente. Mas o professor não deixava passar em branco as oportuni- dades de tocar nos pontos importantes da realidade em que estava inserido. de criticar e reformar Kardec. (VII) É certo que a realidade de hoje.

o que não impedia ao professor de condená-los ali onde claudicavam. restavam forças ao filósofo para conquistas amorosas. Muitos filósofos estão presentes em sua obra. apesar de filósofa. Herculano combateu essa postura por entender que a Doutrina possui sua terminologia própria e porque. es- pantou a lagosta e tomou conta do companheiro antes que fosse tarde. mas o homem comum mistura o pensamento com aquele que 175 . com um olho só. Wilson Garcia como se ela fosse motivo de vergonha perante a comunidade acadêmica.. Mulher decidida e prática. como nunca foi da bola. que se dizia muito velho e doente. Simone mandou a enfermeira embora. Simone arranjou-lhe uma jovem enfermeira e esta se engraçou com o doente e o doente com ela. além de exigirem. O que de fato importa é o conteúdo do pensamento. pois ficou picego desde criança e sempre viu o mundo enviesado. Sartre continuou a envelhe- cer. Absolutamente! Herculano se servia dos pensamentos dos estudiosos quan- do mereciam crédito. Isso provava que a velhice não estava tão próxima as- sim. para sua perfeita compreensão. um discernimento claro da- quele que consegue ir ao âmago dos fatos. gastou suas últimas energias na sua volumosa obra Crítica da Razão Dialética e acabou perden- do seu único olho. as revelações doutrinárias devem ser entendidas no contexto social em que foram feitas. O fato de combater a mentira não produziu em Hercula- no o amargor presente em muitos críticos. embasando seu pensamento. também. A velhice o abateu e ele hoje confessa que não vai bem das pernas. o que mostra que o sentimento de justiça o dominava e o colocava acima das contingências. Eis o exemplo de Sartre.. (II) O mesmo procedimento vai aparecer no professor em relação aos espíritas. mas os combatia quando era preciso defender a Verdade.

(II) Se os títulos acadêmicos não são passaporte para a com- petência doutrinária. apesar de tê-lo elogiado em outra ocasião. como reconheceu Herculano. no entanto. e lá estava a voz do idealista: André Luiz refere-se aos ovoides. predispostos à humildade verdadeira. Todos sabem que poucos contaram com tanto respeito e admiração. como quem confunde o remédio com o doente. Quando fora pre- ciso polemizar com André Luiz. Kardec é Razão o emitiu. Quando fora preciso apontar o erro de André Dumas. quanto ele. de- sejavam encontrar um meio de conciliação da fé tradicional com o Espiritismo. aceitando a realidade espírita. o médium de André Luiz. o nome do Espírito também nada acrescentava à análise das men- sagens mediúnicas que o professor fazia. em Paris. Kardec considerou o Espiritismo. No que se tornaram reconhe- cidos divulgadores do pensamento kardequiano. na França. e coloca tudo na vala comum da condenação. apesar de seus es- treitos laços com o médium de Uberaba. que Kardec escreveu O Evangelho Segundo o Espiritismo para atender às pessoas que. Foi. espíritos que per- deram o seu corpo espiritual e se veem fechados em 176 . ele o fez. Her- culano Pires. desde os primeiros resultados das suas pesquisas. recentemente. refletissem sobre suas ações e reformulassem as disposições de seu íntimo. a crítica de Herculano que conseguiu deter muitos avanços perigosos e fazer com que alguns. Pois bem. André Luiz dissera coisas que não podiam ser aceitas passivamente. Não foi essa a ra- zão. por parte de Chico Xavier. Alguns de seus livros foram escritos em parce- ria com Chico. sem discussão. Herculano o fez: André Dumas declarou à sucursal da revista Man- chete. como um renascimento do Cristianismo deformado pela dog- mática das igrejas.

. ele apenas demonstrava como os ensinamen- tos de Kardec podiam e deviam ser usados. Não passa de uma informação isolada de um espí- rito. forma anterior do ser espiritual. A facilidade com que a maioria das pessoas aceita livros de evidente mistificação. Mas essa novidade não tem condições científicas nem respal- do metodológico para ser integrada na Doutrina. (. A ação vampiresca desses ovoides é aceita por muitos espíritas amantes de novidades. uma grande quantidade de espíritas que julgam a pessoa e o trabalho de Chico Xavier. independente- mente. (XI) Com isto. Nenhuma pesquisa séria. que parece heresia em Herculano. e tantas outras. Apesar de haver. que a rompe ao se pro- jetar na existência por necessidade de comunica- ção. as obras de Ramatis. e o fazia com apoio no mestre. Wilson Garcia si mesmos. Aquilo. mais não é que uma postura correta e elogiável.) André Luiz manifesta-se como um neófito empolgado pela dou- trina. empregando às vezes termos que destoam da terminologia doutrinária e conceitos que nem sem- pre se ajustam aos princípios espíritas. As exi- gências doutrinárias são muito mais rigorosas no tocante à aceitação de novidades. 177 . provou a realidade dessa teoria.. portanto. intocáveis e indiscutíveis. Kardec foi sempre muito severo ao alertar para a necessi- dade de análise das mensagens mediúnicas. eivadas de contradições e de passagens ridículas. Herculano cumpria o dever de informar a Verdade. Isso lembra a teoria de Sartre sobre o em-si. de quem as assina. como os Evangelhos de Roustaing. Não basta o conceito do médium para validá-la. bem como de outros médiuns. ainda hoje. por pesquisadores competentes. A ampla li- berdade que o Espiritismo faculta aos adeptos tem os seus limites rigorosamente fixados na metodolo- gia kardeciana. dizia ele. envoltos numa espécie de membrana.

isto é. E essa prova só pode ser feita de duas maneiras: de um lado. maior unidade e firmeza nos seus princípios. Kardec é Razão destinadas especialmente a ridicularizar a doutri- na. conferindo-se. (XIV) Com isso. Qualquer obra que pretenda superar Kardec ou su- bestimar a Doutrina Espírita precisa ser submetida à prova do toque. de outro lado. encontrou no professor uma disposição incomum de lutar contra aquilo que chamou de obra de mistificação. orienta sobre os rumos que devem ser tomados por aqueles que desejam. como reco- menda o próprio Kardec. a qual pode ser resumida nestas suas palavras: É ingênuo ou pretensioso. (X) Ao mesmo tempo em que apresenta o seu parecer. oferecer contribuições para a melhoria da Doutrina. que envolveu a tradução feita por Paulo Alves Godoy de “O Evangelho Segundo o Espiritis- mo”. conferindo-se a pre- tensa superação com a obra de Kardec para verifi- car-se qual das duas está mais coerente e apresenta maior coesão. (IX) A grande polêmica. sem vaidade. para os quais ela foi especialmente elabo- rada. a mais dura refrega a que se lançou. Foi esta. louco ou megalômano todo aquele que se atreve a tocar na obra de Kardec com a intenção estúpida de adaptá-la aos tempos atuais. não só ficava patente a sua compreensão sobre o fator evolutivo do Espiritismo. os princípios da pretensa superação com as exigências do pensamento atual em todos os campos de nossa atividade mental. provém dos milênios de sujeição das massas à mistificação clerical. como também a seriedade 178 . Her- culano mostra o caminho das pedras. talvez.

Wilson Garcia com que a empreitada deveria ser realizada. complementados. como ensinou Kardec. uma vez que não contém conhecimentos que devam ser substi- tuídos.. não foi contraditada seriamente. Nele reside a grande teia que liga todos os princípios e todas as informações contidas no Espiritismo e é por causa do bom- -senso de suas propostas que a Doutrina conseguiu e conse- guirá atravessar os séculos incólume às guerras ideológicas que ao seu redor se dão e fazem esboroar tantos e tantos conhecimentos mal alicerçados. O Espiritismo segue a mesma trilha. O Espiritismo evolui como tudo evolui no Univer- so. (XIV) A obra do Cristo não foi superada. pois a geração atual não revelou ainda condições sequer para compreender Kardec. (XIV) Afinal. foi o bom-senso um dos mais relevantes fatores que distinguiram Kardec dos seus contemporâneos e per- mitiram-lhe realizar uma obra que. é o fio de pru- mo que nos garante a construção de um Conheci- mento mais amplo e mais rico. O bom-senso. mas aprimorados. por- tanto. reforçada. desenvolvidos.. querem alguns enxertar nela conhecimentos que não têm suficiente respaldo científico nem contam com a sanção universal. A pretexto de ser a Doutrina progressista. A superação de Kardec não será mais do que o prosseguimento do seu trabalho. o desdobra- mento de sua obra. Mas a obra de superação de Kardec pertence às gerações do amanhã. mas ao mesmo tem- po mais preciso. mais de cento e cin- quenta anos depois. 179 . mas esclarecida e. Alguns são mais pre- tensiosos ainda e desejam ver incorporados no Espiritismo conhecimentos de doutrinas antigas. os mesmos que o Es- piritismo reformou ou superou.

provocar revides apaixonados. dá uma prova espontânea de sua ignorân- cia do problema espírita em sua inelutável posição epistemológica. ampliados. antes. ele a encaminhou com otimismo e certeza de um futuro com esplendor. Seria esta uma manifestação fanática? Evidentemente que não! Não se trata. Quem se atreve a afirmar. de defender o indefensável. Se a Guevara coube afirmar que era preciso lutar “mas 180 . O fanatismo não se casa com uma doutrina que é baseada no bom-senso. Para cumprir esse ideal. Kardec é Razão enfim. magoar o amor- -próprio de amigos e companheiros. clamando por uma paz de pantanal que nada mais é do que covardia e traição à verdade. ou que este ou aquele pre- tenso cientista tem o direito de formular novas te- orias. diria o professor. para facili- tar o homem e sua inserção nele e a consequente realização de seu objetivo maior: a evolução. na lógica. um combatente do porte de Herculano Pires submetido a doses de pessimismo. mesmo que peque- nas. Mas. dito assim de maneira clara. mas de considerar a realidade dos fatos e verificar sua força. (XIV) Tudo isto. Não se imagine. (XIV) A vida poderia ter encaminhado Herculano para o preci- pício do pessimismo. resultou na for- mação de uma categoria de espíritas conscientes e desejo- sos de realmente lutar para que a Doutrina prossiga. defendemos a doutrina ou nos acomodamos na falsa tolerância. jamais. Herculano afirmou: Temos de ferir susceptibilidades. levantar no próprio meio espírita inimigos gratuitos. que o rous- tanguismo é simples questão de opinião e por isso não deve ser discutido. através das experiências na Terra. por exemplo. mas não o fez. na sua tarefa de dar a conhecer a realidade do mundo. de duas uma: ficamos com a verdade ou ficamos com o erro.

Os que lutam pelo bem e pela ordem. porém. para a baderna. Ninguém se engane. diante do tumulto do mundo. a Herculano. que não se incorporou a nenhum grupo mandado às guerras fratricidas. a ternura se misturava ao profundo senso do bem e do justo. Wilson Garcia sim perder la ternura”. mas para um mundo melhor. Não caminhamos para a confusão. pela bondade e a fraternidade acabarão vencendo. para a anarquia. (XV) Fim 181 . pela cultura e a beleza. pela preservação dos grandes princípios morais que dignificam a vida humana.

Kardec é Razão 182 .

Editora Correio Fraterno. 1ª edição. USE. 4ª edição.B. Editora Edicel. 1ª edição. (XXVI) O Centro Espírita. S. Editora Pensamento. 1ª edição. Fraterno. (XX) Argila. SP. SP (XIII) O Infinito e o Finito. Editora G. Editora G. Editora Clube do Livro. SP (I) Pedagogia Espírita. Wilson Garcia Bibliografia Herculano Pires A Pedra e o Joio.(XXV) Educação Para Morte. 1ª edição. Herculano Pires. (VIII) O Homem Novo. SP. 1ª edição. SP. 1ª edição. Ed. 1ª edição. (XXIII) Barrabás (o enjeitado). (IX) O Espírito e o Tempo. SP (XVII) O Mistério do Ser Ante a Dor e a Morte. Ed. Ed Edicel. Editora C. (XV) O Mistério do Bem e do Mal. 1ª edição. Editora G. SP. (XIV) Agonia das Religiões. SP. Ed. S. SP. SP. (XXIV) Na Hora do Testemunho. 1ª edição. 1ª edição. Editora Paidéia. (X) Diálogo dos Vivos. Paidéia. (XII) Arigó. 4ª edição. (XVIII) Mediunidade. SP. 1ª edição. C. (XIX) O Verbo e a Carne. S. (III) 183 . Martírio e Mediunidade. 1ª edição. Paidéia. 1ª edição. SP. (XXII) Ciência Espírita. (VII) Na Era do Espírito. Editora LAKE. SP. (IV) Parapsicologia Hoje e Amanhã. SP. Editora Correio Fraterno. 1ª’edição G. do Campo. do Campo. 1ª edição. (XXI) Astronautas do Além. Vida.B. Edições Cairbar. 1ª edição. Edicel. Editora Edicel. SP. 1ª edição. 1ª edição.B.B. (II) O Ser e a Serenidade. Editora Paidéia. SP. do Campo. Edições Cairbar. Editora Edicel. (V) Chico Xavier Pede Licença. 1ª edição. do Campo. Fraterno. SP. 1ª edição. SP. SP (XXVII) Madalena. S.

Chico Xavier. 1ª edição. Editora Correio Fraterno. J. 1ª edição. Ed Instituto Maria. MG. André Moreil. Humberto Mariotti e Cló- vis Ramos. (XXXVII) Sexo e Verdade. (XXXII) Castro Alves Fala à Terra. Edicel. SP. SP. 1ª ed. (XXIX) 184 . o Homem no Mundo. 1ª edição.B. SP. Valdo Vieira e Jorge Rizzini. SP.B. (XXXIV) Vida e Obra de Allan Kardec. do Campo. Arthur Conan Doyle. Editora LICESPE. Kardec é Razão Pesquisa sobre o Amor. Gaston Luce. (XXXIII) Herculano Pires. Editora C. (XXX) Vida e Obra de Léon Denis. Paidéia. (XXVIII) Um Deus Vigia o Planalto. (XXXI) J. SP. 2ª ed. S. (VI) Vampirismo. Jorge Rizzini. SP. (XI) Visão Espírita da Bíblia. 1ª edição. de Fora. Editora Pensamento. Castro Alves. Allan Kardec. Livraria Francisco Al- ves..B. SP (XVI) Outras Antologia do Mais Além. 1ª edição. Editora Edicel. Fraterno. SP. 1ª edição. 1ª edição. Edição Especial da Editora LAKE. Ed. do Campo. S. 1a ed.. Casimiro de Abreu e Jorge Rizzini. (XXXV) História do Espiritismo. S. Filósofo e Poeta. 1ª edição. Editora FEESP. (XXXVI) O Livro dos Espíritos. Editora Correio Frater no. SP. 1ª edição. do Cam po. Herculano Pires. Editora Paulo de Tarso. Guerra Junqueiro. Heloisa Pires. Ed..

113 Centro espírita e política. 124 Evangelização infantil. 41 Elementais. 144. 39 Educador. 149. 64 Domesticação católica. 100. Wilson Garcia Índice Remissivo Allan Kardec. 70 Educação. 52. 139 Caridade no Centro Espírita. 70. 66. 56. 115. 130. 113. 59. 117. 122. 133 Ciência espírita. 176 Artificialismo. 104. 128. 148. 51. 68 Evolução. 110. 69. 28. 58. 150 Fanatismo. 131 Dor nos animais. 119. 106 Deus. 117. 128. Doutrina Espírita. 142 Cultura. 114 Centro espírita. 176 André Luiz. 179. 57. 136. 130 185 . 111. 30 Concentração mental. 79 Bíblia e Espiritismo. 29. 44. 49. 120. 101 Desobsessão. 38. 112. 129. 53. 120. 33 Cura no Centro Espírita. 121 Ciências sociais. 105. 22 André Dumas. 151. 180 Formalismo religioso. 95. 129 Fé raciocinada. 148. 145 Dor. 65. 43. 121. 67. 55. 64. 90 Criança. 20. 48. 37 Educando. 140 Ato mediúnico. 114 Espiritismo. 178. 121. 31. 142. 36. 130 FEB e Federações estaduais. 67. 45. 169 Disciplina no Centro Espírita. 63. 94 Envelhecer. 166 Espíritas. 107. 138. 98. 75 Cristianismo. 32. 122 Educação espírita. 146. 31. 108 Fidelidade a Kardec. 113. 78. 54. 66.

72 Polêmicas doutrinárias. 148 Laicismo. 72. 61. 80. 166 Objetivos do Espiritismo. 88 Mediunato. 83. 179 Raízes históricas. 125. 77. 173 Política. 98 Médium. 26. 62 Parapsicologia. 86 Manifestação de negros e índios. 93. 71. 127. 75 Mediunidade nas crianças. 11. 178. 131 Imagens no Centro Espírita. 60. 76. 96. 82. 25. 165. 177 186 . 1831 Igrejismo salvacionista. 73 Mediunidade animal. 27 Pedagogia espírita. 147 Manifestação de Espíritos de crianças. 81. 126. 74. 24. 116 Programação cármica. 72 Futuro do mundo. 92. 54 Preconceito cultural. 97. Kardec é Razão Função mediúnica. 40 Liberdade.120 Oradores e expositores. 74. 71. 85 Mérito e cura. 116.118. 174. 114 Práticas místicas. 75 Mediunidade. 95 Mediunidade na adolescência. 113. 79. 87. 117 Mística judaica. 55 ÍNDICE REMISSIVO Jovens. 46 Plano Angélico. 73. 173. 84. 154. 69 Pureza doutrinária. 33. 75. 87 Mediunismo e Espiritismo.117. 94 Mediunidade e corpo físico. Morte. 157 Ramatis. 52 Mediunidade em Kardec. 102 Missão do Espiritismo. 136 Misticismo igrejeiro. 85 Mediunidade em casa. 156. 23 Medicina espírita. 103 Mario Graciotti.

180 Sartre. 117. 157 Terceiro sexo. 89 Religião Espírita. 175 Sentimento e razão. 61 Verdade. 164. 46 Roustaing. Wilson Garcia Reencarnação. 40 Revista Educação Espírita. 89 Sexo e reencarnação. 132. 163. 175 Sincretismo religioso. 125. 153 Superstição. 162. 128. 99 Terceiro milênio. 165. 131. 133. 92 Virilidade. 134. 177. 127. 135 Religião nas Escolas. 118. 137 Simone de Bevoir. 164 Tribunas espíritas. 122 Sobrevivência. 126. 154 Sessões espíritas. 88 Terapia espírita. 98. 91. 69 Regras para sessões espíritas. 119 187 . 163 Símbolos. 168 Sexologia.167. 130. 172 Vidência. 161.

Kardec é Razão 188 .

C. Monteiro) Você e a Obsessão Você e a Reforma Íntima Você e o Passe (com Wilson Francisco) Você e os Espíritos Traduções Cérebro e Pensamento. 90 Anos (Pequenas Crônicas para uma Grande História) Cairbar Schutel. Você é Kardec? Entre o Espírito e o Mundo Espiritismo Cultural – Arte. Literatura. Teatro Estratégia.Memórias e Amizades Nosso Centro . Monteiro) Uma Janela para Kardec Vidas – Memórias e Amizades Vinicius . Monteiro) Chico. Linguagem e Informação Imprensa na Berlinda (com Norma Alcântara e Manuel Chaparro) Kardec é Razão Médicos Médiuns (opúsculo) Mensagens de Saúde Espiritual (Antologia popular) Muito Além das Sombras . Filósofo e Poeta (Humberto Mariotti/Clóvis Ramos) Victor Hugo Espírita (Humberto Mariotti) 189 . e outras monografias (Ernesto Bozzano) Herculano Pires. o Bandeirante do Espiritismo (com E.Educador de Almas (com Eduardo C. e interpretação O Fantasma de Canterville (Oscar Wilde) – tradução e interpretação Sinal de Vida na Imprensa Espírita (com Eduardo C.Casa de Serviços e Cultura Espírita O Centro Espírita O Centro Espírita e suas Histórias O Corpo Fluídico O Destino de Lorde Arthur Saville (Oscar Wilde) trad. Wilson Garcia OBRAS DO AUTOR Ao Cair da Tarde – Momentos de Paz Barroso.