Wilson Garcia
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Kardec é Razão
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Wilson Garcia Kardec é Razão O MESTRE. O PROFESSOR E O ALUNO 3 .
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O PROFESSOR E O ALUNO Edição Especial comemorativa do centenário de j. herculano pires Edição conjunta Eldorado/EME/USE/Paidéia 5 . Wilson Garcia WILSON GARCIA Kardec é Razão O MESTRE.
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62 A questão da criança no Centro.Uma visão filosófica da experiência. 47 Para entender de disciplina no Centro.Do centro de uma nova realidade brota a Religião Espírita. 111 Cidadania e participação política. 15 Abrindo o diálogo. 165 O oceano não cabe na ânfora de argila. 113 Conhecendo os fins para entender os meios e as práticas. 17 1 . 89 Concentração mediúnica. 95 Centro. 143 A caminho da visão cósmica. 171 Bibliografia. 65 Conceituação e prática da mediunidade no Centro. 35 3 . 185 7 . o destino do belo. 115 4 .92 Os Elementais. 24 2 . 107 A questão da caridade no Centro. 123 5 . 91 Refletindo sobre a mediunidade nos animais. Wilson Garcia Sumário Prefácio. 71 Sessões espíritas. 183 Índice remissivo. 19 A Parapsicologia de Rhine.Uma visão científica do Espiritismo. médium geral. 94 Kardec. 90 A vidência merece cuidados.O centro espírita como point d’optique do movimento. 9 Explicação. 167 6 . 151 Do sexo à poesia.A voz da razão que clama num deserto de sons e silêncio. Federativas e movimento espírita. 95 Curas e da obsessão. 158 O ser diante da vida e da morte.A Educação do conhecimento e da moral.
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Wilson capta bem a essência do trabalho do pro- fessor. ou. entre duas esposas. Graças à sintonia existente entre os dois espíritos. como diz Emmanuel através de Chico Xavier: “o metro que melhor mediu Kardec” e “a maior inteligência contemporânea es- pírita”. jornalista. irmão e filho. Wilson Garcia Prefácio HERCULANO E WILSON Wilson Garcia faz parte da família espiritual de Hercu- lano. expositor espírita. Atencioso. Foi com muita alegria que recebi o livro de Wilson sobre o pensamento de papai. nessa última encarnação recebeu o nome de José Herculano Pires. Virgínia e a Doutrina Espírita. mas o mais importante na vida desse espírito foi a humildade. Wilson foi muito feliz na escolha dos trechos principais do trabalho de Her- culano. Foi um gênio. faz uma comparação interessante sobre os dois grandes amores de Herculano. 9 . Como esperava. filósofo. No primeiro capítulo. realizou um trabalho de gigante. que é como nomeia o querido escritor. pai. a nuclear e a universal. deixando oitenta e quatro obras de valor reconhecido e conseguindo ainda expressar-se como excelente esposo. amoroso. Wilson compreende Hercula- no. Herculano soube dividir a atenção entre duas fa- mílias. espiritual e moral. o es- pírito que. dedicado. o exemplo de amor e de transcendência social. o desencarnado e o encarnado. Virgínia e o Es- piritismo.
é bem compreendida por Wilson. Mas Wilson diz que o professor quer mais”. A simplicidade que Herculano exemplificava. explica que: “É o ponto visual de convergência de todo produto espírita”. Virgínia doa todas as tra- duções de Herculano (espíritas) porque não quer ganhar dinheiro com o trabalho. mas uma grande herança de amor e retidão moral. chegando às Uni- versidades (não é o que está acontecendo com a Verdade. e a sua vivência melhorou a todos que entraram em contato com o profes- sor. na televisão através de vários rótulos?). O Centro é considerado o mais importante movimento de quantos ocorreram para a transformação social indis- pensável à Terra. lembra Wilson. 10 . O professor. Hercu- lano faz um trabalho bonito: -Mas os pais podem modificar o espírito dos filhos (edu- cá-los)? Essa é a tarefa dos pais. Wilson compreende a importância. principalmente na apresentação da necessidade dos centros espíritas permanecerem pequenos. A apresentação do pensamento de Herculano sobre o Centro Espírita é excelente. do papel dos pais na educação do reencarnado. baseado na pergunta 208 de “O Livro dos Espíritos”. como dis- cípulo fiel de Kardec. na educação do ser. representada por Herculano. A análise do professor sobre o papel do Centro Espíri- ta. O exemplo do papai fala bem alto aos nossos corações. como diz Wilson. o que atenua ambição e vaidade dos seus dirigentes. que se propaga no cinema. a educação espírita deve atingir as escolas. é também lembrada por Wilson: “o Centro Espírita é o elemento indutor à formação de indiví- duos úteis”. Kardec é Razão Discordei de Wilson apenas em um ponto: Herculano não deixou uma aposentadoria pequena. que é de Kardec.
nos horizontes primitivos e oracular. o médium. entenden- do e praticando o Espiritismo. como fonte de inspiração. bastaria lembrar as palavras do livro ''A Gênese”. Wilson explica a im- portância da mediunidade. Se- ria realmente o fim de nossas possibilidades de apagarmos um passado de incompreensão do Cristianismo. provocando-lhes quedas terríveis. Wilson demonstra a importância que Herculano dava ao fenômeno mediúnico. Wilson Garcia Interpretando o pensamento de Herculano sobre o fe- nômeno mediúnico. Felizmente. não é médium. a maioria estava firme 11 . a indivíduos então considerados es- peciais. como diria o professor. inclusive a estática. Vida e Comunicação”. sem preces e sem Evangelho. E pensar que alguns espíritas desavisados e ignorantes da Doutrina dos Espíritos tentaram criar o Espiritismo ateu. de Kardec. é apenas um instrumento de trabalho do mundo espiritual e não deve receber curvaturas e honrarias dedicadas. Raros médiuns conseguem. a mensagem é expres- sa através do trabalho do indivíduo que. seria ter que recomeçar em condições mais difíceis. O Espiritismo veio colocar os pontos nos “ii''. que explica: “a mediunidade é para o mundo dos Espíritos o que o telescópio é para o mundo das estrelas e o microscópio para o mundo do infinitamente pequeno”. aparentemente. exposto pelo professor no seu livro “Mediunidade. sem espíritos. sem Jesus. Já é hora de uma mudança nesse sentido. o escritor Wilson chama a aten- ção para a necessidade de encararmos a mediunidade como fato natural. “Santinhos” de médiuns devem deixar de existir na casa espírita. como Chico Xavier e mesmo Divaldo Pereira Franco. e não podemos entender como os espíritas continuam a endeusar os médiuns. Lembrando Herculano. resistir à vaidade. Preocupam- -se mais em divulgar os médiuns do que a Doutrina Espíri- ta. consequentemente.
estar inse- rido na sociedade. que não frequenta uma casa espírita. humildemente colocando-se como instrumento do mundo espiritual corre. é uma aplicação dos princípios espíritas no plano cultural”. como interpreta Wil- son. Wilson compre- ende Herculano e lembra a explicação do professor sobre o perigo que o médium solitário. pois pode expressar-se “como um barco à deriva”.. em “O Espírito 12 .”. lembra Wilson. como Wilson consegue apreender no trabalho de Herculano Pires. Corpo e perispírito são apenas instrumentos de trabalho. porém. explica Herculano. que deve visar.. são do espírito. Todos os dons. A me- diunidade é faculdade. Wilson compreendeu bem o pensamento de Herculano na apresentação da Religião Espírita. O problema do auxílio do corpo na expressão do encar- nado e portanto do indivíduo dependente do corpo para sua expressão na Terra é bem lembrado por Wilson. Wilson interpreta com propriedade o pensamento de Herculano sobre a mediunidade das crianças e a impossi- bilidade do fenômeno mediúnico nos animais irracionais. Kardec é Razão na compreensão da importância de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e dos livros básicos da Doutrina Espírita. mas não apenas orgânica... “A Medicina Espírita não é uma aplicação pura e simples da mediunidade curadora . o desenvolvimento moral. O médium deve. Wilson analisa com propriedade o fato de o Espiritismo ser Religião: “uma Religião cuja base moral é o Cristianismo do Cristo. clareza e lógica”. o homem integral. Com a mesma propriedade é apresentado o problema da cura na casa espírita. porque depende em sua expressão do físico do reencarna- do. como diria Paulo de Tarso. Entendendo bem a Doutrina Espírita. Herculano apresenta o triângulo divino de Emmanuel. também. e diz Wil- son: “o pensamento (de Herculano) aparece aí com todo o seu conteúdo.
Uma bela homenagem. Wilson analisa ainda o pensamento de Herculano sobre a misericórdia e amor da Inteligência Suprema do Univer- so. filosofia e religião. sobre o “Mistério do ser ante a dor e a morte” e sobre outros aspectos importantes da obra de José Hercu- lano Pires. O pensamento de Herculano. Parabéns. escrever um livro inter- pretando Wilson interpretando Herculano. a quem tanto fez pela compreensão da Doutrina Espírita. produziu um livro que facilitará o trabalho dos ex- positores espíritas.. facilitando a coletânea das conclusões importantes desse grande autor de obras espíritas e não espíritas. desse exemplificador da vivência espírita. os três aspectos do Espiritismo. Deus. na visão lúcida de Wilson Garcia.. Não posso. no meu entusiasmo. meu querido pai na última encarnação. Wilson. Mas bem que gostaria. Wilson Garcia e o Tempo”: ciência. 13 . 27/09 /97. desse homem especial que foi José Herculano Pires. Heloisa Pires São Paulo.
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pois. Her- culano Pires. O leitor perceberá. de imediato. Trata-se. po- dendo. tive um objetivo claro: facilitar ao estudioso do Espiritismo o acesso ao pensamento de J. que o pensamento de Herculano Pires aparece com recuo e em tipos itálicos. colhido em boa parte das obras que escreveu. pela importância que tem para a compreensão da Doutrina. Ao final de cada trans- crição aparece. Cumpro. em romanos. por não dar a página exata em que está inserido. apenas. com isso. Indo à bibliografia o leitor ficará sabendo o título da obra e me perdoará. um belo volume de mais 100 páginas. de uma interpretação livre do pensamento de Herculano Pires. um antigo desejo. que nos últimos tempos me vinha tomando de assalto com insistên- cia. 15 . É simples a razão: dos mais de 260 textos que selecionei. a indicação da obra em que foi localizada. ser lido com facilidade. Wilson Garcia EXPLICAÇÃO Ao preparar este livro. tenho certeza. As transcrições dariam. incluí ao final do livro um “índice por assunto dos pensamentos de Herculano Pires”. Para maior tranquilidade ainda. utilizei nada menos de 252. só elas. desejando permitir ao interessado localizar rapida- mente os textos do professor. fica o leitor infor- mado de que este livro não tem nenhuma intenção de ser bibliográfico e muito menos biográfico. Desde já.
de modo a ajustá-lo à realidade atual. procurei dar mais cla- reza aos trechos obscuros. mantive a mesma bibliografia da primeira edição. inclusive. Promovi a eliminação de conceitos equivocados. Kardec é Razão Para esta edição especial de comemoração do Centenário de Nascimento de J. mantive todos os textos colhidos nas obras de Herculano Pires e. Herculano Pires fiz uma revisão geral do texto. O Autor 16 . contudo.
muita 17 . lidas assim em separado. Seu pensamento era universal. poucos conseguiram tanto sucesso quanto Herculano. Mas as palavras do professor. adquirido ao longo de intensos estudos da cultura do mun- do. Por isso. onde sobressaiu a filosofia kardeciana. está conjugada com a cultura geral. Não se pode – fez questão de afirmar – entender o Espiritismo na atualidade apenas nos livros Kardec. Nisto. porque poucos estiveram tão integrados à matéria espírita quanto este professor. Wilson Garcia ABRINDO O DIÁLOGO Kardec é o mestre. toma-se preciso exigir do aluno atenção. Herculano. Dos textos de sua extensa obra aflora um pensamento universal. que motivou sua vida inteira e que fez dele um baluarte do ideal dos Espíritos Su- periores. o professor! Estudar com o professor significa conhecer o mestre e sua doutrina. A doutrina está entranhada na história da humanida- de. interpre- tá-lo e oferecê-lo aos alunos. costumam enganar os alunos desatentos e levá-los a interpretações equivocadas. que ditaram a Codificação. sem limites. O professor está integrado com Kardec. e seu desafio é retirar das águas profundas da doutrina o conhecimento. que se estendia para além dos horizontes das obras da Codificação e al- cançava a cultura do mundo. O professor compreendia a Doutrina Espírita como um conhecimento sem fronteiras. como o é o da Doutrina.
Porém. que se move lenta e pesadamente. Vamos pas- sar por seus estudos e pensamentos de uma forma calma. pois. mas tem esperança de chegar ao seu desti- no. à aula! 18 . agiremos como a preguiça. doravante. tomá-lo-emos empresta- dos ao lince. Kardec é Razão atenção! É o que procuraremos ter. mas desperta. de que também precisamos. Quanto ao bom-senso. que Herculano considerou um precursor da Doutrina Espírita. tomá- -lo-emos de René Descartes. com relação aos olhos. Vamos. a fim de enxergar à distância incomensurável.
como esta dele. Wilson Garcia Capítulo 1 UMA VISÃO CIENTÍFICA DO ESPIRITISMO O professor é um idealista. porém. ingredientes. outra passiva. quando conheceu dona Doutrina. Dona Virgínia deveria cumprir o papel humano da esposa diante dos problemas da vida. Herculano precisava da Doutrina. de enfrentar os gra- ves problemas do conhecimento. em todo o seu pensamento. Mais tarde. mas indiscutivel- 19 . Uma humana e exigente. Foi a experiência no plano do inte- lecto. da cultura. aproveitou as brechas de uma legislação huma- na falha e amasiou-se com ela. dessas amizades que costumam causar inveja aos amigos e ciúmes à família. enquanto que a convivência com dona Doutrina resolveria a necessidade do homem. uma amizade profunda com a Doutrina Espírita. O profes- sor casou-se com dona Virgínia para cumprir um destino previamente traçado. Herculano mostra. A cumplicidade desses dois casais de um só amante também se passou em planos bem distintos. Quem tem um ideal e o ama de fato sabe o que se passa na alma de um idealista. vivendo por muitas décadas uma bigamia saudável. a família foi-lhe uma realização no plano das experiências terrenas. que costumam assentar as bases de uma dignidade perfeita. enfim. Esposas diferentes para compromissos distintos. como esta dele. Ele precisava da família.
sem precisar ligá-las a sua figura. foi publicada. que quando a morte deseducada tomou-lhe o corpo e o levou para a sepultura. Kardec é Razão mente viril. em 2002. então. escrita por Jorge Rizzini. Her- 1 A primeira edição deste “Kardec é Razão” foi publicada em 1998. to- mava conhecimento da existência de um novo es- critor que surgia do longínquo passado gaulês: o sacerdote druida Allan Kardec. da primeira cuida- rá melhor o seu atrasado biógrafo!1 Allan Kardec nasceu a 18 de abril de 1857. A biografia “J. mas impressa nas oficinas do editor Didier e exposta ao público na sua livraria. Chamava-se. Criara termos no- vos para definir a Doutrina e desejou que o seu responsável fosse também um nome novo no meio literário mundial. para a segunda viúva. Para a pri- meira. deixou-as. Falemos. Cada cidadão que adquiria um volume da nova obra. a fim de que os homens pudessem apreciar com maior liber- dade as novas ideias. o professor. bas- tante conhecida. quis. dentro de uma expectativa grandiosa de futuro para o con- junto de conhecimentos que o arrebatara. apenas. (XXX) Kardec nasceu com a Doutrina. em Pa- ris. Herculano Pires. portanto. ficou uma parca pensão previdenciária e todas as saudades do mundo. Sua certidão de nascimento não foi passada em cartório. deixou o pensa- mento imortalizado nas páginas de uma obra que não tem preço. Considerou-se simples organizador desses conhecimen- tos. Denizard Hippolyte Léon Rivail. o apóstolo de Kardec”. Denizard foi buscar na his- tória um nome para substituir aquele que trazia do berço. então reintegrado na vida moderna da antiga e misteriosa pátria. da segunda viúva. ambas. 20 . garantir ao leitor a procedência deles. desoladas. pois. Amou-as tanto e com tal zelo.
mas é. de respeito à origem espiritual dos conhecimentos. esses fios: a Doutrina é um organismo vivo. ou melhor. São milhares de milhões. Herculano se conduz como um aluno diante do mestre. desenvolve com ele uma afinidade tão íntima a ponto de lançar-se com força em sua vasta obra e seguir todos os fios que dela partem. cujo coração é a verdade cósmica. mas. onde os próprios pesquisadores afeitos ao terreno costumam andar 21 . uma carga cultural que pudesse servir. de razão para condenação de qualquer par- te da Doutrina. E assume esse papel com sincera compreensão: vai à ciência. com ideias próprias e projeção social inquestionável. Isso revela sua ligação com to- dos os ramos do conhecimento conhecidos e por conhecer. aos futuros críticos. dinâmico. Denizard era um conhecido pedagogo. ao mesmo tempo. inteligente e sábio. a fim de conhecer as milhares de ligações que a doutrina mantém com a cultura do mundo. e com tal envergadura intelectual e moral que empreende grandes es- forços para mostrá-lo ao mundo. não tinha. O nome Allan Kardec surgi- ra. no mais fundo de sua alma. Sente-o. sem presente nem passado. Wilson Garcia culano compreendeu. aos olhos do mundo. o conhecimento básico para entendê-las. O professor seleciona-as e não se importa com as especialidades de cada uma delas. universal. um professor junto ao sábio. Mas todo organismo tem suas artérias principais e as menores. nada mais! Mas Herculano o vê nas gálias e a além delas. portanto. de imediato. acima de tudo. de fato. Kardec era só um nome. importa-se e de tal forma que procura adquirir. Em meio a esse corpo fantástico. essa posição não apenas ética do mestre. o professor. antes de internar-se nelas. retira os ingredientes para sua sobrevivên- cia. aquela que explica a vida e o mundo em todos os setores. na verdade. É preciso um esforço sobre-humano para alcançar todos os campos onde a Doutrina vai desembocar e de onde.
e sente-se em sua própria terra. e aí constrói sua 22 . com o prin- cipal objetivo de acompanhar seus avanços e demonstrar como e porque o Espiritismo nele se embasa e dele retira a comprovação de suas teses. vem dar sempre na praia espírita. a mes- ma precisão que entende seja passada a seus alunos. En- quanto a maioria se apega a este ou aquele ângulo doutriná- rio. também. para. Victor Hugo contentava-se em ser filho do seu século. E não pode ficar mudo diante desta realidade. como ao crítico preconceituoso. na Terra. um tipo de ser ainda raro. O professor entende isso com precisão. onde. Herculano navega nas águas da cultura mas. Longe de assustar-se. para ele. capaz de comportar-se segundo a vi- são ampla que possui do mundo. (X) Pode parecer. Eis porque o mestre reponta sempre de sua pena como o homem que esteve à frente de seu tempo. sobrepor-se à cultura de sua época e enxergar além do horizonte que sua carga cultural permite. é outra. para que possam. os passados e os futuros. ao estudioso principiante. um certo conteúdo ob- sessivo. Herculano o enfrenta com coragem. com a desenvoltura de quem devera ter-se preparado anos a fio. Kardec foi filho de todos os séculos. de suas pro- fundezas. por causa do fluxo e refluxo da maré cultural. está a síntese do conhecimento do mundo. Transita aí de um espaço a outro. Kardec é Razão com imensos cuidados. O professor é um seu representante legítimo. Essa forma de agir é própria do homem universal. no terreno científico. contudo. dizer: A figura de Kardec continua suspensa sobre o pa- norama cientifico atual como orientador indispen- sável dos novos caminhos do conhecimento) na rota cósmica das constelações. A verdade. quem sabe. simbolizado no triângulo emanuelino. que a fala do professor deixa escapar uma ponta de fanatismo ou. ou mesmo perder-se.
entre elas o livro “Barrabás. plenamente consciente de que o homem não per- tence senão a si mesmo. filosofo Herculano Pires? (V) O mesmo Graciotti responde. de J. o poeta. Herculano Pires. 23 . não é fanático nem está sob pressões externas insuportáveis. e sua estrada é a rota cósmica das constelações. que se instalou na engrenagem somática de um dos mais curiosos fenômenos inte- lectuais do Brasil nascente. Escri- tor de obras reconhecidas pela crítica e pelo público. o primeiro a funcionar no País. que se chama Vila Clementino. Wilson Garcia cátedra. inúmeras obras. o jornalista. parte de uma cons- tatação inequívoca: os conhecimentos por ele codificados e interpretados continuam antecipando um futuro do qual ainda está distante a ciência de hoje. entre as suas grandes iniciativas. Surpreendido com o monumento cultural que tinha diante de si. Herculano põe em jogo todo o peso de sua respeitada condi- ção de filósofo e escritor premiado. cujo talento foi reconhe- cido pelas mais altas figuras da intelectualidade brasileira. a preços acessíveis. num texto belíssimo e ao mesmo tempo cheio de admiração pela figura generosa e admirável de Herculano Pires: De um bairro simples do nosso amado Planalto Paulista. a pouca distância da Serra do Mar. o escritor. ouvimos a insistente voz de Herculano Pires. Não diríamos “voz profé- 2 Mario Graciotti foi uma das maiores expressões intelectuais do país. Herculano viaja pela ciência. criou em 1943 o “Clube do Livro”. Quando afirma que a “figura de Kardec continua suspen- sa sobre o panorama científico atual”. Mário Graciotti2 perguntou: De que distâncias. onde editou e publicou. de que regiões. pela filosofia e pela religião. de que épocas virá esse espírito. o enjeitado”. O professor não faz afirmações a esmo. Ao deixar isto claro.
que nos afastemos das gambiarras mistificadoras das falsas luzes. o Espiritismo. (I) Entre os que se infiltraram no seio da Parapsicologia estava um grupo de padres espertos e mal intencionados. pelos caminhos situados além da impotente Física. cuja função básica era utilizar esses estudos para denegrir 24 . compro- vando suas teses. con- tribuía para assentar. ainda mais. quando Joseph Banks Rhine e sua esposa apresentaram ao mundo a Parapsicologia. que ouçamos as vozes eternas e imutáveis da Carida- de e do Amor. seguidamente. que em nome de teses amputadas pretendem desorientar as nossas almas. com grande esperança. impregnada de bondade. fértil. Kardec é Razão tica” para que a poeira das estradas materiais não contamine a quimera desse estranho. extra- ordinário trabalhador da Metafísica. há 30 anos! Que deseja Herculano Pires com a sua sin- cera e notável obra? Simplesmente isto: que nos debrucemos sobre nós mesmos. que fala. que o povo não sabe distinguir dos investigado- res e dos estudiosos honestos. em vir- tude daquilo que ele mesmo denunciou: A Parapsicologia tem sido vítima desses aventurei- ros. mas sustentou-se neste terreno por muito mais tempo que talvez tenha pretendido. que procuremos. É uma voz humana. inteligência e compreensão. fala. que analisemos os fenômenos da psicologia e da parapsicologia. a suprema razão das ra- zões supremas! (V) A PARAPSICOLOGIA DE RHINE O entusiasmo do professor com o avanço dos conheci- mentos científicos no campo da metafísica era evidente. especialmente porque esse avanço. Ele se lançou aí. ao tempo em que des- dobrava a Metapsíquica do professor Charles Richet.
(I) Esta atitude teve o condão de reequilibrar o movimento espírita. da verdadeira ciência parapsicológica. o movimento espírita agitou-se. Quando os padres surgiram. Parapsicologia é o processo científico de investiga- ção dos fenômenos naturais. então. Wilson Garcia o Espiritismo. alvoroçado com notícias de- sabonadoras. Herculano foi. explicá-lo com precisão ao povo. O professor se insurgiu contra essa turba de enganadores e tornou-se. de ordem psíquica e psicofisiológica. como é o caso do movimento espírita. De um lado. um pilar na divul- gação. Dessa demonstração ficou evidente. É curioso verificar como basta uma simples hipótese para ti- rar do rumo movimentos sociais bem assentados. estudou com profundidade o assunto para. a seguir. utilizando- -se da mídia e fazendo afirmações mentirosas que pareciam explicar os fenômenos espíritas e atirá-los ao chão gelado. sempre – e não porque o desejasse o professor. Antes. com toda a força que o clero ainda dispõe em nossa pátria. numa ação de quem destrói todo um edifício bem constru- ído. 25 . naturalmente. combatia com veemência a má informação difundida por parapsicólogos de batina. a campo. no Brasil. pois lhes cabe a ingente tarefa de manter o rumo através do esclarecimento objetivo dos fatos. É neste instante que se desco- bre a importância de lideranças preparadas. Ao mesmo tempo que lhe oferecia meios de atu- alizar-se e compreender o avanço científico. Herculano demonstrava objetivamente os pontos em que aquela dis- ciplina tocava no Espiritismo. Ao mesmo tem- po. mas também de certa forma incapacitado de compreender a posição e os preceitos parapsicológicos. importantes e necessárias. Herculano cumpria funções aí bem claras. es- clarecia o meio doutrinário. esta liderança inconteste. es- pecialmente no meio doutrinário espírita. enquanto aqui viveu. O professor saiu. perplexo.
inclusive. a Doutrina Espírita tem tudo a ganhar com as pesquisas científicas. então. a 26 . assume a atitude compreensiva do homem experimentado. para proteger o pesquisador e. acima de tudo. despertando suspeitas daqueles que. Isso. mas entende. portanto. Por força das circunstâncias. mui- to o que progredir para atingir tudo aquilo que a Doutrina Espírita já havia estudado. devido à sua carga do passa- do. que tudo converge para a comprovação dos fatos espíritas. que. Antes. às ve- zes. confirmado. com sua metodologia. no fundo. que à ciência e seus representantes é preciso conceder o tempo e o espaço ne- cessário. Produz sobre o meio físico efeitos inexplicáveis por qual- quer fator ou energia conhecidos pela Física”. avançava em conclusões contrárias à verdade clara para o Espiritismo ou. (I) Para o professor. aparentava ser demasiado lento no seu trabalho. Sabe ele. e Kardec. a eles se ligavam. segundo sua realidade materialista. Os padres e mais aqueles que. a Pa- rapsicologia caminhava lentamente e tinha. que avançou e. então. naquilo em que pudera avançar. a compreender a posição do pesquisador honesto. Herculano. O exemplo da Metapsíquica. a continuidade do trabalho científico. também. podiam prosseguir no seu objetivo in- glório. de Richet. Kardec é Razão mas. comprovou em tudo o que trabalhou. como quem demonstra novamente o que já houvera sido demonstrado: A conclusão de Rhine é decisiva: “A mente possui uma força capaz de agir sobre a matéria. sabia-o. é apenas uma questão de tempo. porém. para que rea- lizem o trabalho e esgotem todas as hipóteses. desejavam vê-los confirmando-as rapi- damente. a nova ciência confirmava a feno- menologia doutrinária. O professor diria. aceitan- do as teses espíritas. Esta visão o levava. porque era a verdade – que em nenhum ponto a Parapsicologia contrariava o Espiritismo. enquanto este- ve o seu chefe vivo.
mas a comunidade científica ainda os desdenha e. Daí. 27 . entende que os métodos e os instrumentos de pesquisa precisam ser atualizados. ou seja. a sua inércia e morte após a passagem de Richet. deve-se apoiá-la. para alcançar o conhecimento em sua amplitude possível. na Duke University. A Parapsicologia comprova os fatos que o Espiritismo apresenta como ver- dadeiros. quando os toma para análi- se. Esta posição defendida por boa parte da comunidade 3 Infelizmente. O Espiritismo já os comprovou. enquanto ela está viva. o que significa que as pesquisas realizadas no passado não são aceitas como prova defini- tiva. depois. mas como o membro de um corpo maior. a síntese fundamental. em meio a tantas especialidades científicas. através de inú- meras pesquisas bem fundamentadas. consta que desapareceram todos os arquivos das pes- quisas de Rhine. afirmar: Não é justo. é por demais evidente para o profes- sor. Essa visão fi- losófica é. (I) Para a síntese do conhecimento humano que é o Espiri- tismo. a presença da Parapsicologia ocorre como um apoio indispensável. em si. nem os acusarmos de temerários quando arriscam inter- pretações como a extrafísica de Rhine ou a mate- rialista de Vasiliev. onde ele trabalhou durante mui- tos anos. vai ocorrer na era pós-Rhine3. pode ocorrer e. mas que. Tudo parte da unidade para a diversidade. acusarmos os parapsicólogos de medrosos por avançarem vagarosamente. O professor não a vê como um corpo isola- do. estudando-a e difundindo-a. de fato. para. Entende que o silêncio da Metapsíquica. por ser de grande valor para as teses espíritas e a sociedade. Wilson Garcia Doutrina de Kardec. pois. Sua visão vai além das fron- teiras que dividem o saber. retornar à unidade.
estará se desenvolvendo a ciência espí- rita. por certo. especial- mente à sua expansão. de um punhado de homens sérios e detentores dos mais elevados títulos. Kardec é Razão científica causa um certo desconforto à Doutrina. desdobrada. para o professor. Na visão de Herculano Pires: A ciência espírita é um organismo vivo. de nature- za conceptual. Seus olhos atentos loca- lizam nesse espaço de tempo a diversidade na unidade e as 28 . estruturada em leis psicológicas. ou seja. da mesma forma que o era a ciência metapsíquica e as demais pesquisas. descobrindo que. ocupando um espaço público impor- tante. os fenômenos de sua alçada vêm sendo. ou um grupo de pesquisadores. a compreensão dos curio- sos e o sentimento de gratidão dos espíritas de hoje. não existe. A ci- ência parapsicológica é. entre os quais existem aqueles que se deixam embalar nas águas dos negadores do valor daquelas experiências. de pronto. aí. Desde Kardec. O professor olha para essas pesquisas e entende. para afirmar que a ciência espírita é uma balela. a própria ciência espírita. em princípios espirituais e racionais. daí ser preciso superá-la. com mais ou menos intensidade. entende que a ciência espírita nunca esteve completamente paralisada. embora isoladas. (IX) Onde quer que haja um pesquisador isolado. fenômeno perfeitamente explicável pela falta de homens dispostos a uma ação científica aí. estudando e analisando os fenômenos de ordem psíquica e psicofisio- lógica. embora tenha havido uma baixa de interesse e trabalho nessa área. estudados. como William Crookes e outros. que deu forma e método à ciência espí- rita. no silêncio de sua solidão. que elas exigem o respeito dos estudiosos sérios e honestos. Herculano estuda a trajetória histórica do problema científico em re- lação à Doutrina. estimulan- do aqueles que retomaram as pesquisas e exaustivamente analisam os fenômenos psíquicos e psicofisiológicos.
29 . aos fenômenos psíquicos e psicofísicos. E a projeção a que alude o professor. a ciência espírita antecedeu até a própria doutrina. E ela surgiu até antes da formulação doutrinária. de médiuns e assistentes e. aci- ma. enfático: A verdade é que não houve solução de continuidade na investigação. con- cluir que. têm no ser humano um ponto de convergência. uma re- alidade inegável. fazendo repetir os fatos cansativas vezes. contém em si a visão de que a ciência espírita não se restringe. mas simples diversificação das ex- periências em várias áreas culturais. de fato. desdobrou-se em outras coordenadas e deu nascimento a outras ci- ências. de forças outras. para o professor. para conhecimento de suas causas. paulatinamente. aos quais resistiu intensamente. os fenômenos psí- quicos e psicofisiológicos não ofereciam preocupação cien- tífica e jamais foram objeto de pesquisa metodológica. Wilson Garcia direções tomadas pelas experiências. Eram elas que intervinham e provocavam os fenômenos. que. E esclarece a questão dizendo. mas desdobra-se em todas as outras especialidades científi- cas. apenas. sendo. de uma forma ou de outra. Quem deu esta direção a es- ses fenômenos foi o Espiritismo. Apare- ceu quando Kardec imprimiu ao fenômeno das mesas giran- tes. por trás daqueles fenômenos estavam. acompanha- da de renovações metodológicas. inteligências de personalidades fora do contexto visível da humanidade. (IX) Até o aparecimento do Espiritismo. as possibilidades de interferência estranha. contro- lando suas manifestações e eliminando. o processo de análise racional. então. com Kardec. para. por isso. Eis como. Daí a existên- cia real da ciência espírita. A ciência espírita projetou-se em direções diversas. inclusive.
profundamente ligado ao desenvolvimento dos estudos sociológicos. como se vê. uma visão científica do Es- piritismo. O grande discípulo italiano de Herbert Spen- cer. Quem viu isso com mais clareza. os cientistas ainda não percebiam a sua total ignorância da estrutura real do planeta. uma posição unitária. A revelação da existência de uma população oculta ou invisível constitui uma das contribuições mais valiosas que a Doutrina apresenta com inequívoca originalidade. construí- da a partir da análise dos diversos campos do conhecimento nos quais toca o Espiritismo. soube aplicar a este o co- nhecimento adquirido em outros campos. de fato. segundo nos parece. é. Kardec é Razão Em meados do século XIX às portas do grande avanço científico do Século XX. (X) Essa realidade foi mostrada pela primeira vez pelo Espi- ritismo. Ao abrir as portas do mundo invisível. (VIII) O professor tem. a doutrina pos- sibilita outras inúmeras descobertas aos interessados nas pesquisas científicas. de suas várias dimensões físicas e de sua população oculta. foi Ernesto Boz- zano. publicados na revista milanesa “Luce e Ombra” em 1926. posteriormente reunidos no livro “Popoli Primitivi e Manifestazioni Super- normali” representam uma das mais poderosas contribuições para o esclarecimento histórico do problema espírita. uma vez atraído para o cam- po dos estudos espíritas. Seus tra- balhos sobre as manifestações supranormais entre os povos selvagens. Herculano tem um uma pos- 30 . O que poderia ser visto como uma posição contro- vertida e fanática. in- formação esta de inestimável valor e que possui implicação direta com a sociedade humana do planeta. As ciências sociais têm uma grande contribuição a dar ao estudo do Espiritismo.
explicando-os. (Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Se a ciência espírita não se desenvolve entre nós. Wilson Garcia tura dialética4 o tempo todo. a culpa é exclusivamente dos homens de recursos. ca- rente de atenção tanto quanto os outros tipos de caridade e onde o apoio é tão ou mais importante. bem como aquele modo de filosofar que busca a verdade por meio de oposição e reconciliação das contradições. o professor dirige sua análise especialmente para os espíritas que poderiam dar grandes contribuições à cul- tura. movidos pelo sentimento admirá- vel da caridade.) 31 . sem o amparo da cultura. que leva o estudioso dos fatos às causas e. Para tanto. seu objetivo é passar isso para o alu- no. utiliza-se do método indutivo. a entender o conhecimento como uma tese de toda a manifestação cultural do mundo. argumentar ou discutir. Para que isso possa ser modificado será preciso que os homens de posse perce- bam a importância de uma delas: a caridade cultural. com os olhos voltados para a conquista de um pedaço de céu depois da morte. 4 Dialética: arte de raciocinar. apresenta os fatos em sua forma concreta. não conseguem preparar o Ser para sua função importante no mundo. solucionam o problema do frio. só conseguem vê-la em obras assistenciais. do ponto de vista da Dou- trina Espírita. mas. (X) Aqui. mas. infelizmente. diante da incapacida- de momentânea do aluno. aliada a uma capacidade ad- mirável de enxergar essa espécie de fio de Ariadne. que mitigam a fome. Como professor. e complementa esse método com o objetivo pelo qual. estimulando o aluno a avançar e descobrir por si mesmo. que preferem endereçar suas contribuições para as obras assistenciais.
sua vida e seu sangue para a sustentação da cultura espíri- ta. qual seja. po- rém. apesar da passividade dos que não con- seguem alcançar a importância da cultura. por aqueles que “dão seu tempo. A questão da exis- tência e propagação de “obras espúrias” é. E constata o professor aquilo que ainda hoje é visível: os “serviços cul- turais” prosseguem sendo sustentados. a existência de instituições espíri- tas cujos dirigentes dão grande ênfase à caridade ao mesmo tempo em que juntam dinheiro em contas bancárias. aqui apontado por Herculano. esquecidos. (XXII) A necessidade de formar e esclarecer homens é uma ta- refa do Espiritismo. mas. Respondem por essa situação precária da Ciência Espírita todos os que preferem os juros bancários ao desenvolvimen- to cultural. com a produção de obras espúrias a serviço da mistificação. Certas instituições gastam os seus recursos em aviltamento da doutrina. talvez. 32 . Herculano viu isso com tamanha nitidez que procurou. Os homens aperfei- çoam sua cultura pelas conquistas dos mais aptos e esclarecidos. em boa parte. de que a cultura espírita precisa de apoio. (X) A questão atingiu um ponto muito sério. O ímpeto dos vanguar- deiros é contido pela inércia da massa. Gastam- -se vultosas somas na publicação de obras desnecessárias e nega-se apoio a outras doutrinariamente importantes. O processo civilizador é um esforço contínuo de aperfeiçoamento e adaptação. um fato inconteste e preocupante. Kardec é Razão Os serviços culturais continuam à míngua. tanto hoje quanto ontem. ao mesmo tempo. não po- dendo dar o dinheiro por não possuí-lo. procuram adaptar a maioria menos apta às novas condições de vida que vão surgindo. sua vida e seu sangue''. em tempo integral. susten- tados apenas pelos que dão seu tempo. em aplicações financeiras em busca dos juros.
de caírem no ridículo perante os seus colegas do exterior. uma outra paixão. com imensa massa de analfabetos. ponti- lhada aqui e ali de pequenas ilhas culturais. (XIXIXI) Herculano. para o professor. É o que podemos chamar “preconceito cultural”. é gran- de o receio dos intelectuais. Existe um tipo especial de preconceito que dificulta a compreensão do Espiritismo em nosso país. É por isso que a Educação Espírita se torna. e sabe que ele deve atendido de acordo com sua ca- pacidade potencial. Numa nação nova como a nossa. como educador. 33 . sem tradição cultural su- ficiente. Wilson Garcia fazer notar àqueles que o estudavam a necessidade de se aliarem para essa luta. conhece a realidade do edu- cando. Como veremos a seguir.
Kardec é Razão 34 .
na condição de romancista. na tribuna. o jornalista. junto aos colegas. poeta ou ou- tra qualquer.. acima de tudo. Kardec. Ser professor. porque a alma do jornalista é o professor. O professor. deixados de lado no dia-a-dia. significa ser deten- tor de uma conquista realizada ao longo de suas múltiplas existências. no exercício de sua função. ficar relegados ao currículo. Nessa sucessão se chega ao 35 . Em casa. professor. diante da esposa e filhos. que tem sempre diante de si a figura do aluno e o desafio de educá-lo. neste caso. não se desliga do professor. Todos os demais títulos podem ser es- quecidos. nas conversas normais do cotidiano. Herculano é o professor seja quando leciona ou quando filosofa. O professor tem um mestre. Mesmo quando exerce suas outras especialidades – é ele jornalista. Wilson Garcia Capítulo 2 A EDUCAÇÃO DO CONHECIMENTO E DA MORAL O professor é. Assim. Mais do que o definidor de uma especialidade. filósofo. professor é um título de nobreza. que tem um mestre. que tem um mestre. jamais desce da cátedra onde que vá. no entanto. um predicado superior. o Cristo. escritor e poeta – vibra em seu peito a alma do professor.. a discorrer sobre temas da vida e diante dos amigos. Esse termo tem sua mística. na redação do jornal.
ambos fundamentais para o relacionamento com o educando? O professor a encontra na Doutrina Espírita. a Doutrina Espírita. apren- derá a elevar-se por ser este o seu objetivo e desafio maior. mas sobe também às mais altas cogitações filosóficas quando o momento o indicar. Onde está a senha que permite “decifrar o enigma do ser” e do mundo. Após dominar a Doutrina Espírita. (III) 36 . no entanto. Assim. por ser a melhor síntese do conhe- cimento humano disponível. Há uma lógica filosófica interligando os fatos. Em sua dialética permanen- te. Kardec é Razão mestre dos mestres. como um peso intransportável. Herculano tem uma visão do aluno que nasce do conhecimento de si mesmo. deixar- -se ficar aí. Explica-se. de cada educando. porque Herculano faz de Kardec o seu mestre. Tudo isto se transforma em exemplo palpável para o aluno aplicado. Mesmo quando parece falar para si está ensinando. porque o levará a exercitar sua realidade com os pés no chão. o professor descer às minúcias do Ser e do Mundo. descobrindo que: A educação depende do conhecimento menor ou maior que o educador possua de si mesmo. Porque conhecer-se a si mesmo é o primeiro passo do co- nhecimento do ser humano. sempre. (III) O professor ensina. formando a base do seu ensino. o professor passa à cátedra. sem. Herculano incorpora o título e assume sua cátedra no mundo. uma ciência comprovando-os e uma concepção moral indiscutível em tudo. Educar é decifrar o enigma do ser em geral e de cada ser em particular. O Ser e o Mundo são racionalmen- te explicados aí. assim. como jamais o foram em todos os tempos. Sua principal disciplina será o Ser no Mundo e a base do conhecimento do Ser e do Mun- do. Deus.
pois que é. por- que. vale dizer. do destino e da dor. passa por Kardec e sua referência à necessidade do conhecimento das tendências inatas. significando. não no seu fundo. pre- sente no capítulo das Leis Morais de O Livro dos Espíritos. então. pelos caminhos que explicam o problema do Ser. O profes- sor. mas procurando apontar o con- junto de fatores relevantes para a formação do educador. para bem educar. ambos passíveis de discussão na sua forma- lidade. ele próprio. o conduz a entender-se a si mesmo. como forma indis- pensável de sanar as dúvidas que naturalmente surgem. mais se faz professor. E afirma: O verdadeiro educador é o que pratica a Religião verdadeira do amor ao próximo. Herculano coloca esse ponto como de fundamental importância para a boa educação. no desafio permanente de transportar para o dia-a-dia esse co- nhecimento fundamental. Quanto mais o professor penetra no Ser. Wilson Garcia A mesma senha que leva o professor a “decifrar o enig- ma” do educando. que não se pode tê-la em sua qualidade mínima sem o “conhecimento do ser humano”. remete-o a Sócrates e o seu “conhece-te a ti mesmo”. A mente do professor passeia. para analisar certas minúcias da educação. em si mesmo. na análise da carga cultural que cada Ser carrega. pois. embora. talvez. o primeiro passo é decifrar-se. aqui como em outros inúmeros momentos. A figura de Santo Agostinho. o Ser. (III) Sem sair ainda do Ser. Herculano centraliza a sua atenção no conhecimento e nos valores morais. O professor entende que o educa- dor desenvolve uma relação com o aluno que ultrapassa a 37 . Parte ele. não suporta o forte desejo de remexer os detalhes. neste instante. enfim. preferisse permanecer no geral. para desembocar. naquilo que pode- mos chamar o Culto do Ser no templo do seu pró- prio ser.
no desenvolvimento de seu pensamento. Por essa razão. claro: a educação é uma só. numa sequência didática de tra- tamento do assunto. simultâneos ou sequenciais. “O Culto do Ser no templo de seu próprio ser” é a afirmação peremptória de que não há educação sem exem- plo. onde está presente o aluno como representante. as quais. e sim. porém. no momento educativo. o mundo onde está inserido o Ser deve receber deste a sua parcela. informar e estimular podem não significar nada se não estiverem acompanhados de um fazer equivalente em qua- lidade. este objetivo aparece. além de tudo. volta- -se para a antiga questão do amor ao próximo. chama a atenção para a prática da “Religião verdadeira”. com firmeza. na tentativa de inseri-lo no rebanho do imaginário salva- cionista. da socieda- de maior. A educação institu- cional é simples desenvolvimento daquela. pois o Ser vive para o mundo. Kardec é Razão fronteira da informação e do estímulo. como quem diz. Há um tipo de educação que Herculano vai valorizar ex- 38 . Podemos vê-lo. de direito e de fato. que sem esse sentimento será impossível educar. que começa no “próprio ser” e se desenvolve na vida de relação. um objetivo a alcançar. (III) O professor tem. contrariamente ao que diziam as religiões formalistas. Todos esses detalhes são reforçados pelo professor. A educação familial corresponde a uma fase na- tural do processo educacional. passam a ideia do Ser fora do mundo. Dessa maneira. desenvolvida em diversos momentos. a seguir. a Educação Espírita dada no lar e nos Centros é válida e pertence. Ao apontar para as duas vertentes da educação: familiar e ins- titucional. sempre. Mas. como sua preocupação não está apenas no Ser. Ou seja. ao processo natural da Educação Social. com o Ser no Mundo.
tornou-se uma esperança de renovação da prática educacional. Mas a própria Educação Espírita pretende ele seja entendida como um processo glo- bal. que Kardec utilizou de forma magistral. através dos pais. creia-se. Para o professor. através de idealistas sinceros. essa síntese tende a mudar o social a partir das mudanças que realiza no Ser. de utilizar espontanea- mente o Espiritismo como conhecimento. Afinal. Nele brilha o racionalismo cartesiano. por seus representantes mais expressivos. Mas a prática do Ser no Mundo o leva a ver com clareza que a civi- lização caminha ainda para o lado. jamais. está muito mais nas mãos dos espíritas do que dos outros. E a responsabilidade. pessimista. A civilização. portanto. o conhecimento espírita se tornou indispensável para a educação. E isto se vai ver. Mais do que isso. Uma vez que o homem alcançou uma síntese nova e maravilhosa do conhecimento humano. pensa Herculano. o socialismo como ideal não esteja mor- 39 . para uma postura pessoal pessimista. não. e no Centro Espírita. Não se pode relegá-la. com o suporte de uma Pedagogia Espírita. porque ninguém está mais preparado para entender a importância do conhecimento espírita do que o líder consciente. pergunta: Como ajustar os fins superiores da Educação às exi- gências de uma civilização baseada no lucro? (III) Essa desesperança está para uma visão racional da so- ciedade e. especialmente nos dias atuais. O lucro é filho da ilusão e reprodutor desta. em que caíram muros e bar- reiras que dividiam o mundo entre capitalistas e socialistas (embora. Tem ele uma profunda descrença na capacidade da sociedade. O capitalismo é a prova da ausência de uma visão social evolutiva em linha reta e para frente. também. bem como na sua aplicação no segmento familiar. Wilson Garcia cepcionalmente e com uma razão fortíssima: a Educação Espírita. O pro- fessor não é.
Kardec é Razão
to) concentra sua atenção no lucro, e a própria educação está
presa a resultados econômicos, muito mais que a resultados
humanos. O comando da educação está, cada vez mais, na
mão de homens capitalistas, que não entendem e não dese-
jam entender de “fins superiores”. O professor sabe, por ser
do mundo e viver no mundo, que não há compatibilidade à
vista neste terreno. O que não significa, absolutamente, que
a educação não possa ser, aí mesmo, aprimorada. A Edu-
cação Espírita é o grande veio dessa esperança, porque ela
tende a aprimorar o professor, os métodos e os fins, benefi-
ciando o educando. Enquanto isso não acontece, Herculano
luta por conquistas menores mas igualmente importantes.
O que se deve ensinar na escola, para que ela se li-
berte do laicismo a que foi obrigada pela pressão
sectária, não é esta ou aquela religião (denomi-
nação ou seita religiosa) mas a Religião como um
todo, como uma província específica do Conheci-
mento, como um campo cultural que não pode ser
omitido no processo de transmissão da cultura. (III)
O tão decantado laicismo é, para o professor, apenas um
desvio de uma grande trajetória no campo da educação. O
Estado laico é necessário, mas o afastamento da Religião do
currículo escolar, Religião enquanto “província do Conhe-
cimento” e domínio cultural significou e significa enorme
prejuízo ao educando. As religiões oficiais, quando entra-
ram no terreno da educação, pretenderam construir, segun-
do modelos falhos preestabelecidos, o homem. A forma de
tirar de suas rédeas, no mundo ocidental, esse importante
segmento social foi afastando-as das relações com o Estado
(afastamento ainda hoje simplesmente parcial) e estabele-
cendo a laicidade do ensino, que, no Brasil, também teve
sua supressão com a Carta Constitucional de 1988, que per-
mitiu a volta do ensino religioso nas escolas.
40
Wilson Garcia
O professor faz a defesa da Religião sem denominações e
sem fórmulas doutrinárias e dogmáticas. Volta-se ele para
a Religião do espírito, para o Culto do Ser no ser, mas não
o faz simplesmente por uma visão mística ou sentimental,
sequer sectária. Jamais defenderia a Religião Espírita nas
escolas públicas ou particulares, no seu aspecto rotulatório.
A Religião Espírita fica bem, na sua visão, para as escolas e
Universidades espíritas, porque, então, haverá uma defini-
ção clara para a sociedade de que a Doutrina Espírita será
usada como fundamento da instituição. Herculano vê na
Religião “uma província específica do Conhecimento”, que
não pode ser deixada de lado na educação. A laicidade tem
o condão de eliminar a influência perniciosa dessa religião
formalista, mas incorre no prejuízo de impedir o ofereci-
mento de uma parcela importante da cultura. É preciso, en-
tão:
Encarar o educando, segundo propõe Mariotti,
como um ser palingenésico5; determinar os graus
de evolução mental e espiritual em que ele se encon-
tra; testar e comprovar as suas tendências vocacio-
nais; encaminhá-lo aos cursos correspondentes a
essas indicações inatas das suas tarefas nesta en-
carnação; traçar um roteiro de economia vocacio-
nal a ser aplicado nas escolas; estudar o problema
dos estímulos ambientais de Montessori para adap-
tação às novas condições pedagógicas; renovar os
5
Expressão utilizada pelo filósofo argentino Humberto Mariotti que,
em síntese, remete ao ser humano que reencarna muitas vezes no pla-
neta Terra para através das experiências realizar o seu progresso. Es-
sas experiências formam a sua bagagem, a qual deve ser considerada
pela Educação. Mariotti, amigo e admirador de Herculano, é coautor
do livro “Herculano Pires, filósofo e poeta”, onde trata da “filosofia pi-
resniana”. A edição brasileira é do Correio Fraterno, S. B. do Campo, SP.
41
Kardec é Razão
textos escolares de todos os graus de ensino, na
proporção possível, mas com decisiva continuidade
nesse esforço; promover cursos de adaptação dos
professores ao novo sistema; renovar os processos
de administração escolar, estabelecendo o princí-
pio de maior respeito pelas atividades educacionais
dos mestres; desenvolver relações mais íntimas e
constantes entre a escola e o lar – são essas, ao que
nos parece, as medidas a serem tomadas progres-
sivamente. (III)
A proposta que inspira todas essas transformações, Her-
culano foi buscar na síntese do Ser Palingenésico de Mariot-
ti, que, por sua vez, bebeu na mesma fonte de Herculano:
a Doutrina Espírita. A educação está destinada a encarar o
educando como Ser Palingenésico ou, então, não atingirá
o seu objetivo. O Ser Palingenésico não constitui, propria-
mente, uma novidade; o novo aí está na sua formulação,
pelo Espiritismo, pois, até então, nenhuma outra doutrina
o havia proposto em termos objetivos, fornecendo, em con-
sequência, todo o material complementar necessário para
entender o homem.
O Ser Palingenésico altera, profundamente, a compreen-
são do homem. Da criança ao idoso, do jovem ao homem
maduro, tudo se modifica com esta nova visão. Até aqui, o
ontem era nebuloso ou não existia. O Ser Palingenésico tem
um ontem e um amanhã. A educação implica influir, decisi-
vamente, no amanhã, mas para isso precisa considerar a re-
alidade do ontem. Para medir “os graus de evolução mental
e espiritual” e “testar e comprovar tendências vocacionais”
com eficiência é preciso levar em consideração a realidade
do Ser como um ente preexistente. A educação submetida
ao capitalismo tem poucas chances de realizar essa propos-
ta. O professor abraça, então, o importante projeto da Edu-
cação Espírita, vendo-a como única forma de apressar as
transformações. Mas o que é Educação Espírita?
42
pelas lentes dos mi- croscópios. aí considerado tudo o que se poder ver. de sua realidade. já que: Essa expressão pode ser entendida em dois senti- dos: 1o) como uma espécie de formação sectária das crianças e dos jovens. Para o homem viver com proveito no mundo. Alteran- do-se. Quer a Edu- cação Espírita em Escolas e Universidades. para que ela não fique restrita e sectária. deve saber. A realidade do mundo é um constante desafio para os olhos e para as mentes. seu ontem aparece. Wilson Garcia É o processo de orientação das novas gerações de acordo com a visão nova que o Espiritismo nos ofe- rece da realidade. a ser um conteúdo indispensá- vel à educação. O mundo não é mais. Herculano vê o Ser no Mundo e o Espiritismo estuda o Ser. antes de mais nada. as influências. e apenas. Herculano mergulha nesse mundo novo e verifica que há influências trocadas entre o invisível e o visível. Nada disso pode ser conhecido sem o conhecimento dos princípios espíritas. o Ser não é mais o homem tradicional. o mundo e suas influ- ências recíprocas. contudo. Para que o mundo não aturda o homem é preciso que o homem saiba o que é o mundo. alteram-se. portanto. com todo seu acervo cultural. inclusive. uma forma de transmissão dos princípios espíritas às novas gerações e portan- 43 . Analisa a cultura do passado e descobre que ela não é uma bagagem amorfa. conteúdo este que a Educação Espírita vai desenvolver. mas atuante na vida do Ser. o visível. também. quer mais. Da mesma forma. nítido. (III) O professor olha o Espiritismo com os olhos da razão e percebe sua ação transformadora. O conhecimento espírita altera substancialmente o entendi- mento do mundo. portanto. o que ele próprio é e qual o seu destino. filosófica e cientificamente. estes dois aspectos objetivos. O professor. A realidade compreende o mun- do e o homem. O Espiritismo passa.
Desenvolvem. Kardec é Razão to um assunto doméstico. para este fim tão amplo. de que os pais espíritas devem obrigar os seus filhos a participar e aceitar os princípios doutrinários. (III) Herculano estaria se opondo à educação desenvolvida nas federações. Centro e federações têm suas atividades restritas a um tempo mínimo. sim. muitas vezes sem continuidade. à semelhança do que se faz nos catecis- mos das igrejas. mescladas a um sem número de serviços paralelos. um trabalho de sensibilização. Herculano clama por escolas e Universidades. (III) Longe do professor a intenção de passar a ideia. no plano geral. por de- mais inconcebível. restrito ao lar e às esco- linhas que funcionam nas federações e nos centros espíritas. caminho este possível a boa parte dos Centros Espíritas. sujeita às interpretações do sectarismo religioso. Não! Entretanto. aliado a um 44 . federações e centros surge extremamente restrita. A educação espírita começa no lar. E mais. Nas famílias espíritas é dever dos pais iniciar os filhos nos prin- cípios doutrinários desde cedo. para a criação desse “mundo novo que o Espiritismo está fazendo surgir”. a atividade nos lares. Deseja ele ver a Educação Es- pírita “como um processo de formação universal das novas gerações” e. lares e centros espíritas? Absolutamente! É preciso entrar fundo no pensamento do professor para poder entender o seu alcance. 2o) como um processo de formação universal das novas gerações para o mundo novo que o Espiritismo está fazendo surgir na Terra. um papel importante. A falta de compre- ensão doutrinária faz com que certas pessoas pen- sem que as crianças não devem preocupar-se com o assunto. onde o en- sino vai ser aplicado segundo técnicas e condições pedagó- gicas capazes de desenvolver os educandos em tempo ide- al.
Por isso. um pequenino esforço. diante da imensa tarefa da Educação Espírita. a lei de causa e efeito e assim por diante. prosseguiram o ideal da Educação Espírita. e de todos aqueles que. extraordinário para o professor. Tudo isto foi. portanto. esta se atrasa e. no início do século XX. 45 . em São Paulo. a im- portância da Educação Espírita. mais do que os adul- tos. leia-se “Vinicius. mas continua sendo. (III) Herculano valoriza. facilidade para viver as ideias espíritas. em especial: 6 Sobre esse espírita piracicabano. que lutou bravamente pelo Instituto de Educação Espírita. O processo educativo assim iniciado deverá mostrar que as crianças têm. a ação de homens como Eurípedes Barsanulfo. ainda. especialmente aquelas ideias que não lhes são oferecidas na educação tra- dicional. educador de al- mas”. Herculano lamenta uma. Entre as reali- zações mortas. mas sobretudo integral. Uma grande maioria de lideranças espíritas não entendeu. S. de Pedro de Camargo (Vinícius)6. alimentam esse ideal. a relação com os Espíritos via mediunidade. SP. em Franca. como a reencarnação. B. e é. que fez surgir o Colégio Allan Kar- dec. dificulta as inúmeras realizações que poderiam melhorar a difusão dos princípios espíritas. não muito longe dali. no caminho. A Educação Espírita não é só permanente. edição Correio Fraterno. Wilson Garcia esforço pessoal para exemplificação dos princípios pode e deve ser feito para que as crianças tenham. escrito por Wilson Garcia e Eduardo Carvalho Monteiro. no silêncio de sua solidão por esse Brasil afora. contí- nua. na pequenina cidade mineira de Sacramento. de seus discípulos que. a iniciação em conhecimentos que lhes vão ser úteis e neces- sários ao longo da vida. do Campo. no próprio lar.
Kardec é Razão
A revista Educação Espírita7, única no mundo, lan-
çada e sustentada heroicamente pelo Editor Frede-
rico Giannini, saiu de circulação por falta de recur-
sos e de interesse do próprio professorado espírita.
(X)
A Educação Espírita, entende o professor, tem um longo
caminho para se desenvolver, mas conta, já, com a base de
uma Doutrina Espírita filosoficamente definida. Em seus
anos de estudo e práticas, descobriu que a Pedagogia Espí-
rita já existe e está à espera, apenas, de sistematização.
Existe a Pedagogia Espírita na própria estrutura
da Doutrina, mas qualquer sistematização que fi-
zermos não será “a”, mas “uma” Pedagogia Espí-
rita, sujeita a revisões futuras. E poderão surgir
no futuro tantas Pedagogias Espíritas quantas se
fizerem necessárias, de acordo com as diferencia-
ções culturais que ocorrerem em diversos países. A
unidade desses sistemas, entretanto, será garanti-
da pelo modelo inicial e fundamental que permane-
ce nos princípios essenciais da Doutrina. Uma Pe-
dagogia só será espírita se estiver fundada nesses
princípios. (III)
O caminho está, portanto, aberto.
7
Trata-se de uma publicação coordenada pelo professor Herculano Pi-
res, com apoio e sacrifício do editor Frederico Giannini, fundador da
Edicel em São Paulo. A revista não conseguiu superar os primeiros nú-
meros por falta de apoio e leitores, apesar da excelência de sua quali-
dade.
46
Wilson Garcia
Capítulo 3
O CENTRO ESPÍRITA COMO
POINT D'OPITQUE DO MOVIMENTO
O professor pensa e vive o Ser no Mundo e o Centro Es-
pírita é um dos pilares da formação desse novo Ser. Hercu-
lano preocupa-se, portanto, com este Ser. E vai estudá-lo,
bem como vivenciá-lo, para poder compreendê-lo. A posi-
ção de Herculano é, pois, a do pensador e do prático, con-
soante suas próprias formas de compreender o homem e o
mundo. O Centro Espírita é objeto de análise filosófica e de
detalhamento minucioso; aí, entra ele nas particularidades,
descendo ao terreno do dirigente, do frequentador e do co-
laborador; decodifica a Doutrina e explica sua aplicação e
ensino.
Se, como professor, apontou a necessidade de compre-
ender o educando a partir da compreensão de si mesmo,
por extensão aplica ele esta fórmula ao Centro Espírita.
Neste momento, como em tantos outros, Herculano é amo-
roso e compreensivo, enérgico e crítico. Analisa a importân-
cia do Centro Espírita a partir da importância da divulgação
da Doutrina que o sustenta; parte da necessária relação de
fidelidade dos membros do Centro Espírita para com esta
doutrina e alcança a responsabilidade desses mesmos mem-
bros, no presente e no futuro. Entende a íntima relação do
47
Kardec é Razão
Espiritismo com a cultura e, por isso, não abre mão de res-
saltar esse aspecto, seja para orientar ou corrigir. A fórmula
para a construção do bom Centro Espírita é a mesma para
a divulgação doutrinária: um consciente entendimento do
Espiritismo.
O Centro Espírita não é templo nem laboratório – é,
para usarmos a expressão espírita de Victor Hugo:
point d'optique do movimento doutrinário, ou seja,
o seu ponto visual de convergência. (IX)
O professor ensina que o Centro Espírita tem muito mais
importância que qualquer outra instituição criada sob a ins-
piração da doutrina de Kardec. O “ponto visual de conver-
gência” é expressão máxima dessa importância. O Centro
resume em si todas as aspirações doutrinárias; nele come-
çam e terminam as ações que visam levar o Espiritismo
para a sociedade. Tudo o que se pretender em Espiritismo,
a qualidade que se desejar ter no seu ensino e na sua di-
vulgação, no atendimento do ser humano, na prática dos
postulados mediúnicos e assistenciais, tudo há de levar em
consideração a expressão “point d'optique” que Herculano
tomou emprestada de Victor Hugo8. Quando afirma que o
Centro não é templo nem laboratório, o professor reforça
aquilo que ele de fato é e as atenções que sobre ele devem
recair. A qualidade com que o conhecimento da Doutrina
chega à sociedade depende implicitamente do Centro Espí-
rita. A qualidade dos adeptos – e não sua adjetivação de es-
8
Victor Hugo, poeta e romancista francês que adotou o Espiritismo a
partir das famosas experiências mediúnicas realizadas na Ilha de Jer-
sey. A respeito, leia o livro “Victor Hugo espírita”, escrito por Humberto
Mariotti, tradução de Wilson Garcia e edição do Correio Fraterno, S. B.
do Campo, SP.
48
de fato. para o professor. o Centro é o agente de um movi- mento cultural e espiritual. trabalhar o conceito do Centro Espírita na direção da casa de prestação de serviços. Herculano. O destaque. Toda essa reflexão conduz o professor a afirmar: Se os espíritas soubessem o que é o Centro Espírita. E como se não se contentasse com o ficar aí. neste instante. está voltado para a seguinte realidade: Um Centro Espírita pequeno e modesto – como na maioria o são – atrai as pessoas realmente in- teressadas no conhecimento doutrinário. Entre defensores e críticos. Há. mas não um simples e ocasional movimento. também. no entanto. do saber huma- no e objetiva o Ser no Mundo. uma clara noção de que boa parte dos próprios espíritas desconhecem essa importância do Centro. (IX) Assim. É cultural porque trata. quais são realmente a sua função e a sua significação. porém. que funcionam como diques de contenção de seu próprio crescimento e sua multiplicação. o que de fato é o Centro Espírita. uma prática muitas vezes desvirtuada dos preceitos doutri- nários. por muito tem- po se postulou no movimento espírita três condições para o Centro: templo. na mente do professor. cria um 49 . também. ele mesmo vai. o Espiritismo seria hoje o mais importante movimento cultural e espiritual da Ter- ra. Wilson Garcia pírita – está fundamentalmente nas mãos do Centro. nes- ta cômoda posição. deixa de lado as três para defender a que mais se assenta aos seus olhos de filósofo: “ponto visual de conver- gência”. mais tarde. Herculano. ocasionando. no entanto. é. pronto socorro e escola. porque desconhecem. para o fato dessa ignorância do valor e da importância do Centro. o “mais importante” de quantos já ocorreram no planeta.
descontração e serenidade. O professor desce. o Centro dispensa o misticismo para com o sa- grado. (IX) O conceito de Centro Espírita. O professor não des- denha a indicação de Kardec. Mas. com isto. Aliás. numa garagem vazia ou mes- mo numa dependência de casa familial. Não se diga que ele vai aí ao extremo. independentemente de condição social. mas enquanto isso não for possível pode funcionar com eficiência numa sala cedida ou alugada. embora destituído de luxo. onde todos pos- sam se sentir bem. para que o Centro. considera- dos como colaboradores necessários de uma obra única e concreta. Hercu- lano deixou claro que “o ideal é o Centro funcionar em sede própria”. a sala de uma residência familiar. vai desenvolver as atividades próprias de um Centro Espírita. não sendo possível. As objeções contra isso só podem valer quando se trate de casas em que existam motivos impeditivos materiais ou morais. Kardec é Razão ambiente de fraternidade ativa em que as discrimi- nações sociais e culturais desaparecem no entrela- çamento de todos os seus componentes. diferentemente dos templos religiosos. inclusive. pelas vantagens que isso representa para as ativi- dades. respeito. do professor. ele próprio vai estabelecer-se numa garagem de sua moradia e. num ambiente de fraternidade. e. ali. seja um local agradável. atendendo e ensinando o Espiritismo. para mostrar que. O ideal é o Centro funcionar em sede própria. Herculano centra sua atenção nessa posição de simplicida- de efetiva. também. para ocupar sua atenção no sentimento e na razão. ao detalhe do local. 50 . tem um componente essencial: a simplicidade. para maior e mais livre desenvolvi- mento de seus trabalhos. um local pequeno e modes- to permite um bom trabalho. procura destruir o preconceito dos que imaginam cer- tos problemas para o funcionamento em determinados lu- gares. como.
antes de mais nada. quan- do afirma que todos. desligados da reali- dade imediata. A grande tarefa de esclarecimento aí cabe aos líderes espíritas. uma muito interes- sante: a de possibilitar. encontra no professor um opositor firme: Mas o que fazemos. de sua parte. de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas. em seu ambiente de simplicidade. em todo este vasto continente espírita é um esforço imenso de igrejificar o Espiri- tismo. do seu eu. colocam de si. a parcela de egoísmo naquilo que realizam. em segundo lugar. o desenvolvimento da “fraternidade ativa em que as discri- minações sociais e culturais desaparecem”. de Emmanuel. As lideranças precisam compreender. Tudo aquilo que dificulta esta realização. indistintamente. (IX) Se o objetivo do Centro é o Ser no Mundo. Wilson Garcia O Centro tem. as imensas dificuldades que tem de se livrar dos elementos místicos e ingênuos presentes nesta bagagem. o esforço contrá- rio. A referência do professor faz lembrar a página “Na Corti- na do Eu”. firmando por toda parte núcleos místicos e portanto fanáticos. o fanatismo e os demais comportamentos que denotam o apego ao pas- sado resultam em consideráveis prejuízos. O referido “es- forço imenso de igrejificar o Espiritismo” demonstra duas coisas: em primeiro lugar. percebendo quando a carga cultural religiosa lhes está conduzindo a reproduzir comportamentos próprios das “re- ligiões decadentes e ultrapassadas”. a existência da cultura religiosa que o ser traz do passado e. que devem fazer. Mas o que fazer quando os próprios líderes são os estimuladores desse ato de igrejificar? O trabalho se tor- na perdido. em seu livro “Fonte Viva”. Nos Centros onde dirigentes e frequentadores se entrelaçam para cons- 51 . entre suas funções.
as portas do fanatismo se es- cancaram. em grupo. Mas o professor afirma. as quais passaram a utilizar indistintamente. A 9 As reuniões espíritas em residências familiares podem ser uma etapa para a fundação de um Centro Espírita e. Kardec é Razão truir esse ambiente místico.. Fanatismo é paixão. o pensamento positivo. Sua afirmação está repleta de lógica. levantando contra elas alegações sem base em Kardec. O esforço contrário começa. Kardec é razão. conta com a proteção dos Espíritos benevolentes e a própria defesa de suas boas intenções. em socorro dos estudiosos since- ros. A condenação pura e simples dessas reuniões revela o des- conhecimento de uma realidade por onde teve início o próprio Espiri- tismo. antes de mais nada. objetivamente: A alegação de que a casa fica infestada ou coisas semelhantes é contraditada pela experiência.. tam- bém. 52 . Um trabalho de amor ao próximo. pois. (IX) O professor vem. condenam reuniões mediúnicas em casa9. É como se disses- se: o trabalho honesto. A falta de bom- -senso levou muita gente a buscar respostas pontuais. na tentativa re- solver problemas do Ser no Mundo. exatamente. neste caso. no entendimento de que a re- petição dos comportamentos e atos próprios das “religiões decadentes e ultrapassadas” será a demonstração desse re- torno ao passado que o Espiritismo se propõe a modificar. cumprem um objetivo. feito com sincerida- de e intenções elevadas. e vai terminar. na compreensão dessa carga de que cada um é portador. humilde e sincero desenvolve sua própria defesa. É por isso que. estabe- lece uma energia ambiental forte o suficiente para deixar o local em condições da realização de práticas espíritas.
podem parecer conhecimento. Somente um estudo crítico. analítico e comparativo. Mas o que de fato responde conclusivamente a estas questões é a lógica doutrinária que brota de seus textos. o homem descuida- do passa a criar modelos para cada coisa. em que se tem de contar com a criatividade sem fantasias e ilusões. não. À falta de um estudo mais profundo. Wilson Garcia vibração desses pensamentos e a natural energia que eles carregam têm. alia- do a uma prática constante. Com isto. Herculano lembra que Espiritismo é bom- -senso e. na verdade não existe Espiritismo. Uns tantos pensamentos espar- sos. mas apenas um vago desejo de atin- gi-lo. pode levar o indivíduo a uma posição segura diante da obra kardeciana. tornando-os lugares comuns e panaceia para todos os males. para que as pes- soas interessadas no ensino real do Cristo possam compreender o sentido do Espiritismo. (IX) 53 . principalmente porque não resolvem os problemas da prática cotidiana. Num Centro Espírita bem organizado esses proble- mas são estudados e ensinados. o condão de atrair bons Espíritos. E classifica esses modelos de doutriná- rios. No Centro Espírita em que essa compreensão dou- trinária não se desenvolve. (IX) Herculano desenvolve um esforço grande para escla- recer que o estudo doutrinário não pode ser feito na base da leitura corrida dos livros ou de memorização de textos. mas não passarão de cultura de ilustração. tomando por base seus preconceitos. misticismo. ainda. ditos com ênfase. Eles não servem para líderes espíritas. em que se torna capaz de criar atividades doutrinárias sem necessidade de recorrer a regras ilógicas. os quais contribuem para dar ao trabalho uma proteção espe- cial.
veio para renovar. ao mesmo tempo. em que nos encontramos na antevés- pera da era do espírito. como se vê. Essa organização deve ajudar o en- sino e a prática e não se constituir em entrave para elas. O professor alerta que não é possível conviver com os dois. que outro não é senão o desenvolvimento da consciência do Ser e de sua atuação no Mundo. o Centro Espírita tem isso por tarefa. que Herculano valoriza. mas diferentes. que só servem para roubar dos dirigentes e colaboradores o precioso tempo. razão e misticismo. O religiosismo místico conduzirá o Ser ao porto da apatia e da mediocridade. 54 . carregado de misticismo. A ação de ensinar e es- tudar deve levar à compreensão dos objetivos do Espiritis- mo. ganha o Centro e ganham os seus frequentadores. por evidentes razões. nem tê-los presente. Afinal: As práticas místicas do passado não servem para a era da razão. A escolha deve estar acompanhada da lógica: um e outro darão resultados próprios. O Espiritismo. tem ligações com o segundo. pois conseguem ter mais claro o objetivo doutrinário. que poderia ser usado com proveito no estudo e na prática doutrinária. confronta-se com a razão kardeciana. Ou fica-se com o pri- meiro e se despreza o segundo ou vice-versa. ou em outras atividades igualmente necessárias. que Horácio elogiava. afinal. Kardec é Razão O professor desenvolve com eficiência a sua função de fazer pensar. Com isso. de modo que ve- nham a conviver harmoniosamente. O religio- sismo. (XX) A proposta do Espiritismo é substituir a carga pesada da cultura do passado pelo conhecimento novo. é al- cançada com simplicidade. a razão condu- zirá à gleba do labor e do ideal. Em seu aspecto de escola. na mesma bagagem cultural. A boa organização. sem os excessos da burocracia.
não percebe a pobreza de espírito em que está metido. pois tornam-se o lugar-comum em que o Ser. assim. que alguns tentam implantar nas casas espíritas. usam quadros na parede e não praticam idolatria. que Herculano destaca. ne- nhuma superstição. sufocado. vejamos: Num Centro Espírita não devemos usar imagens para adoração. Esses quadros não são objeto de adoração. Wilson Garcia No Espiritismo não deve existir nenhum tabu. de raciocínio ilógi- co. a simples observação de que não cabem nos Centros Espíritas quadros e imagens com a finalidade de culto. de Léon Denis ou de outras personali- dades espirituais. no bom-senso. Constituem simples lembranças. A medida para tudo está. As respostas prontas e acabadas têm sentido semelhante. de Kardec. Mas isso não quer dizer que não possamos ter nos centros espíritas fotografias ou quadros artísticos. (XV) A tendência de muitos para os extremos costuma levar à tomada de atitudes amparadas no não-senso. costuma levar os desavisados a concluírem que qualquer 55 . assim como os modelos de ativi- dades. no mundo inteiro. não consegue raciocinar com clareza e. portanto. Ou seja. As superstições se transformam em tabus. A ausência de tabu e supersti- ção. significa haver no centro espí- rita uma abertura permanente para a análise e a discussão. contentando-se com soluções apenas aparentes. como os quadros de retratos de parentes ou amigos. diante das quais o Ser. Senão. de adoração. especialmente tendo em vista a evolução do conhecimento e das práticas doutrinárias. To- das as sociedades. (XV) O misticismo religioso é a carga cultural eivada de su- perstições bisonhas. desenhos ou pinturas de Jesus. acaba aportando por comodidade.
costuma ocorrer uma simples substitui- ção do objeto da adoração. Mas são. O que está contrário à lógica espírita é o objeto de adoração. levantar o problema subjetivo da ido- latria. Ora. os quadros de figuras destacadas e outros objetos. Esse processo de transferência cos- tuma acontecer de maneira imperceptível. onde es- ses problemas são estudados e tratados sem nenhum tabu. (IX) Surge. que aprisiona a criatura que o toma como meio necessário para objetivos espirituais. quando o Ser não consegue compreender as enormes diferenças que existem entre a cultura antiga e aquela que o Espiritismo ajuda a construir. o símbolo que atrofia a mente. pressionado pela carga cultural que traz de existências passadas. Kardec é Razão coisa que se pareça com quadros ou imagens deve ser de- finitivamente abolida do centro. abandona apenas aparentemente os ídolos de sua relação. de modo que o Ser. sem preconceito de qualquer espécie. quer o professor. especialmente. que embota o raciocínio. evidentemente. No fundo. A idolatria é uma forma superada de relação da criatura com o Criador. e aumenta consideravelmente. A doutrina é contrária a tudo aquilo que aprisiona a mente e emperra a caminhada do Ser. O professor fala de uma “fortaleza espiritual” em que o Centro Espírita deve se 56 . assim. que alguns costumam transferir dos ídolos religiosos do passado para os Espíritos que se destacaram em suas existências no Planeta. O centro espírita significa. então. a importân- cia do Centro Espírita bem organizado e dirigido. chamando a atenção para esses aspectos. a fortaleza espiri- tual da grande batalha para o restabelecimento da verdade cristã na Terra. também. duas coisas distintas. A obra de arte. cuja função é fortalecer a memória e o prazer estético são valores que o Espiritismo só pode ver com bons olhos.
além de se ter aberto para a sociedade com regras menos rígidas. Dessa forma. no plano propriamente humano e no plano espiritual. e que melhor o defina em sua atuação no campo social. Wilson Garcia transformar. (IX) O conceito de prestador de serviços é atual e deve ser visto como plenamente ajustável às funções do Centro. Herculano atinge. mas do aparecimento da doutrina em nosso País. Contra os novos co- nhecimentos se opõem as superstições. Isso é compreensível. sobretudo. estando de acordo com sua realidade evolutiva. um centro de serviços ao próximo. uma vez que não surgiu de uma atitude delibera- da de Kardec. das funções e objetivos do Centro atual. as- sim. sua finalidade. O pro- 57 . os interesses sociais e culturais e os grupos dominadores. Até a denominação – “Centro Espírita” – deve ser vista como ajustada à cultura brasileira. o Centro Espírita é. Eis porque o Cen- tro Espírita precisa estar preparado. A imagem é importante pelo fato da existência de uma “grande batalha para o restabelecimento da verda- de”. que in- corporou várias atividades ao longo deste século e meio que medeia a criação da Sociedade e a atualidade. Afinal. é o Ser no Mundo. Isto significa que o estabelecimento do conhecimento novo não vai encontrar um terreno fácil. o momento propício para colocar que: No desempenho de sua função. fundada por Kardec e seus companheiros. O Centro Espírita dos nossos dias tem a face totalmente modificada em relação àquela que lhe deu origem um dia: a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. As funções e os objetivos da Sociedade diferem. nunca é demais lembrar. profun- damente. es- pecialmente no campo religioso. é conve- niente encontrar um conceito para o Centro Espírita que o livre de qualquer ligação com a mentalidade obsoleta.
Ao invés de palestras monológicas. é necessário que em todas as sessões sejam pronunciadas breves palestras elucidadoras. edição Eldorado/USE. por outra. casa de serviços e cultura espírita”. com a própria interpretação. Além dos cursos que devem ser dados sobre a Dou- trina. 58 . mas também sem o receio de abordagem dos pontos mais difíceis da Doutrina – não conseguiremos su- perar o estágio embrionário em que ainda perma- nece grande parcela do movimento doutrinário. ao mesmo tempo. seguidas de diálogos da as- sistência com o expositor11. uma Casa de Serviços e Cultura Espírita10. portanto. nem pron- to socorro. nem templo. que se completa com a prática. É preciso chamar a atenção para o diálogo que Her- culano sugere. O Centro é. também evoluindo e se adaptando ao momento em que é feita. nem escola. Sem o constante e livre estudo da Doutrina – dirigido sem pretensões. O ensino do Es- piritismo se prende à parte cultural. como forma de se alcançar a excelência da comunicação no ensino do Espiritismo. uma vez que esta deve ser vista no seu aspecto interpretativo. nem laboratório. deve-se valorizar. seja porque são as que permitem apreender melhor o conhecimento. mas sob nova feição: a da razão espírita. Assim. É preciso ver. seja pelo fato de serem a forma ideal de difusão do conhecimento. que: No Centro Espírita não se podem restringir as ati- vidades apenas ao aspecto religioso e assistencial. segundo o “dai de graça o que de graça recebestes”. nos Centros Espíritas as palestras dialógicas. contudo. Kardec é Razão fessor compreende essa realidade ao vê-la compatível com a Doutrina. com método e insistência. SP. pessoal ou co- letiva. O que regula o seu valor e a forma como são ofereci- dos os serviços é o sentido profundo da caridade. é tudo isso. cada vez mais. A prestação de serviços não implica em cobrança por eles. (IX) 10 A sugestão de Herculano Pires inspirou-me o livro “Nosso Centro. 11 O grifo é nosso.
“pales- tras elucidadoras” e “diálogo”. mas que perma- necem em virtude do descaso e da teimosia dos dirigentes. mesmo porque não devem considerar-se em posição mais elevada que os alunos. aí. a necessidade de liberdade. muitas vezes desprezado nos cursos doutrinários. Reforça a vantagem do “es- tudo dirigido sem pretensões”. afinal: Nada mais triste do que um Centro Espírita em que alguns se julgam mestres dos outros. Dirigentes e exposi- tores. também. em “método e insistência”. seja por parte dos estudantes. Mas é preciso. (IX) 59 . para superar o “estágio embrionário” em que considerável parcela do movimento espírita ain- da estagia. deveriam perceber que não é de- sonra não poder. às vezes. à necessi- dade de desprendimento. Fala ele em “livre estudo''. não raro. a fim de melhor aproveitar a doutrina. quando na verdade ninguém sabe nada e todos deviam colo- car-se na posição exata de aprendizes. Wilson Garcia O professor. do despreparo cultural. seja do expositor. coerente com sua função de pedagogo. Mas está precisamente no diálogo o clímax. um absurdo temor pelo diálogo e esse temor é resultado. como o orgulho e a vaidade. levar em consideração a necessidade de “abordagem dos pontos mais difíceis”. responder com precisão a todas as questões. pre- ga. o ponto mais alto de qualquer estudo ou palestra. A sua supressão acarreta enormes prejuízos ao estudo. mas. eventualmente. doutrinário e até mesmo psicológico dos expositores e diri- gentes. É o mesmo que afirmar ser preciso abandonar a superficialidade e esforçar-se para penetrar com decisão nos objetivos do Espiritismo. por razões que deveriam ser removidas. referindo-se. a fim de dar ao ambiente um conteúdo fa- vorável aos objetivos. Um dos fatores que favorece esse aprofundamento é o diálogo. Apresenta-se. em lugar de temê-lo. impedindo o aparecimento de fatores prejudiciais. ain- da. sempre.
Kardec é Razão O professor. da compreensão de que: Médiuns. Aí está. porém. “Criaturas falíveis que podem cair” acaba sendo. sem as falsidades comportamentais comuns aos orgulhosos e vaidosos. vivendo num mundo onde. tão ao gosto de expressiva maioria. atribuindo-se lhe. se- gundo a sábia orientação socrática: “só sei que nada sei”. O que o difere. para se conhecer uma parte da realidade. há tão pouco tempo transformadas em objeto de estudo. (IX) São homens. dos alunos. As relações entre o visível e o invisível. acima de tudo. por suas pró- prias características. o leva a usar essas vantagens com discrição e humildade. no momento do estudo. racionais. sempre. põe-se no nível dos alunos e faz-se. aprendiz. expositores e escritores espíritas não são luminares nem santos. uma expressão que valida a ação do invisível. é a responsabilidade que lhe pesa nos ombros. Uma visão genérica da situação é suficiente para demonstrar o estágio da maioria. sob pressões distintas: a exercida pela própria car- ga e as pressões das necessidades do progresso ou evolução. como mestre verdadeiro. de fato. na qual está presente o conteúdo do mistério. Mas sabe-se. e estu- dá-lo desse ponto de vista. A sabedoria. com suas cargas culturais. para muitos. para Herculano. indevidamente. mas criaturas falíveis que podem também cair a qualquer instante de seus falsos pedestais. precisam dividi-lo entre visível e invisível. um dos objetivos do Centro. Vale- -se. a causa de todas os acontecimentos. em sua tarefa de esclarecimento do Ser: ajudar no desenvolvimento de ideias lógicas. “criaturas falíveis”. Para tanto é preciso corrigir rotas e evitar falhas comuns a 60 . tem dado margem à supervalorização do invisível e uma das fortes razões para isso é a carga cul- tural. um deles. A experiência do professor é também outra das suas diferen- ças para os alunos. muitíssimo.
pela verdade e pelo Bem. E para entender a preocu- pação do professor podemos vê-lo servindo-se de exemplos interessantes. mas para esclarecimento das multidões que afluem às instituições doutrinárias em busca de conhecimen- to e não para se deleitarem com palavrórios retum- bantes. aqui. Herculano não se perde diante dos for- malismos e das banalidades. pois. Isso é não só compreensível como al- tamente exemplar. ou para gesticula- ções teatrais. Por exemplo: As tribunas espíritas não existem para encenações e exibições de oratórias de tipo bacharelesco. não possui o significado comum e não se refere à condição sexual masculina. com certa clareza. em texto reproduzido por Herculano: 12 Virilidade. quando preci- saram passar do plano teórico para o prático. (II) A personalidade do professor é provida de um princípio de seriedade tão objetivo que pode ser vista na virilidade12 com que se expressa. Seu comportamento é. 61 . Wilson Garcia outras doutrinas que antecederam à espírita. que alguns espíritas desavisados ou fortemen- te vaidosos confundem a tribuna doutrinária com local para exibições de conhecimento de ilustração. mas ao vigor do espírito em sua ação por justiça. E compreende que a virilidade é um ingrediente indispensável ao Espírito Superior. O professor volta-se contra isso por legítimo ideal: o Centro não pode se perder nestas situações. deixan- do desviar-se de seus objetivos. É com esta conotação que Hercula- no Pires utiliza o termo. Disse Pitta. como a resposta dada por João Leão Pitta quando lhe perguntaram sobre os requisitos necessários a uma boa palestra. um exemplo vivo para aqueles que desejam entender o Ser Cristão. A experiência mostra.
ensi- nando que: O problema da disciplina no Centro Espírita é dos mais melindrosos e deve ser encarado entre as co- ordenadas da ordem e da tolerância. capazes de atitudes francas e de. conversando depois com os ouvintes que me elogiavam. Por isso. que aprendi a conter a língua”. o bom-senso ajuda a encontrar as soluções para os aspectos inúmeros das atividades para as quais o corpo doutrinário não contém elucidações objetivas. nesse instante. assim. Na verdade. O pensamento do professor. se torna de grande valia. Ensine o que sou- ber. manterem a dig- nidade e jamais perderem a ternura. Vemo-lo. (II) Herculano admira estas personalidades raras. tinha espe- cial apreço por João Leão Pitta. Com o Espiritismo. Não se pode 62 . por Cairbar Schutel e tantos outros homens que batalharam pela difusão do Espiritismo em tempos em que as comunicações e o transporte anda- vam no lombo de cavalos. bem como as neces- sidades do Ser em sua evolução. que leva em consideração o futuro descortinado pelo Espiritismo. depois de haver lido e estudado Kardec. ensina ele. ao mesmo tempo. PARA ENTENDER DE DISCIPLINA NO CENTRO A cultura dos dirigentes e a realidade social em que estão inseridos são fatores determinantes para as normas que vão estabelecer no Centro Espírita. Kardec é Razão “Não pregue nem faça discursos. se aprende a ver as coisas sob uma nova perspectiva. fiz mi- lhares de pregações e me arrependo de meus entu- siasmos. uma vez que ele verá a questão pela ótica cultural. tive a surpresa de ve- rificar que de todos os meus falatórios só uma pes- soa havia aprendido alguma coisa: eu mesmo.
A rigidez exces- siva provoca desconfortos. (IX) A realidade social tem influência decisiva nas atividades das organizações humanas. de tipo militar. levaram seus ares para o próprio Centro. que. As mudanças sociais que se seguiram. (IX) Trata-se de um exemplo. evidentemente. de certa forma. acrescida dos excessos 63 . Disseminou-se no movimento a ideia de que os Espíritos têm tantas responsabilidades que. respirou. E para tornar seu pensamento mais claro. Wilson Garcia estabelecer e manter no Centro uma disciplina rígi- da. Todo exagero im- plica em má interpretação doutrinária e em prejuízo para as atividades. pelo contrário. O problema do horário. de 1964 a 1984. durante o regime militar no Brasil. como de resto outros semelhantes. é tratado com certos exageros. aduz: Não é justo deixarmos fara da sessão companhei- ros dedicados ou necessitados. quando a ordem pública era controlada por normas rígidas e a liberdade vivia sob opressão. de má interpretação. porque chegaram dois ou três minutos atrasados. não validados por Kardec ou pelos Espíritos que ditaram a Codificação. as pessoas e a divulgação do Espiritismo. ambos suficien- tes para a formação de um ambiente em que a liberdade individual não fique sufocada. simples e até aparentemente ingênuo para um problema complexo. viu-se como certos Centros reproduziam em seus recintos a situação vigente lá fora. portanto. O professor alerta. para a necessidade de estabelecer a disci- plina entre dois pontos: ordem e tolerância. Por exemplo. chegando o horário da sessão e não sendo ela iniciada. Trata-se. Os reflexos disso eram que as normas se tornavam opressoras dos melhores ide- ais para se alcançar os objetivos doutrinários. vão eles embora. possa expan- dir-se. além de ser um mau exemplo. aliviado.
reivindicadas pela nossa era e embasadas no “esclarecimen- to cultural”. se utilizem de medidas autoritárias. noutros tipos de normas disciplinadoras 64 . contudo. Ordem e tolerância são os elementos funda- mentais nas atividades do Centro. O Espiri- tismo é filho desta era e a razão é sua flor perfumada. adversidades e imprevistos que ocorrem. na linha ateniense do esclarecimento cultural. com uma disciplina legal asfixiando a liberdade es- pírita. Isso é diferente. porém. o meio es- pírita. lembra o professor. onde o poder emana de cima para baixo é compreensível e até tolerável. naturalmente. reivindicou os direitos individuais do homem. É preciso pensar. Toda disciplina levada ao extremo é supressora das liberdades. Em tudo. Kardec é Razão próprios da carga passada do indivíduo. especialmente as dogmáticas. Formava-se e ainda se tenta formar. Diante dessas cir- cunstâncias. (X) Que outras doutrinas. também. oferece terreno adequado a outro tipo de dis- ciplina e não valida a autoridade assim concebida. no meio espí- rita. Essa coerção prosseguiu pe- los tempos sóbrios do Medievalismo. A disciplina autoritária e rígida teve a sua função na disciplinação dos povos bárbaros após a queda do Império Romano. que surgiu da noite medieval. Mas a Era da Razão. portanto. levando. nos casos onde ocorrem irresponsabilidades. em consideração as atribulações normais. uma estrutura totalitária de poder e arbítrio. (IX) Vivemos a Era da Razão. que ocasionam desordem. não ocasionariam nenhum prejuízo a qualquer pessoa. há que se ter tolerância e agir com bom-senso. Os Espíritos Supe- riores trabalham com bom-senso e têm uma compreensão equilibrada das circunstâncias da vida na Terra.
As crianças de hoje estão preparadas para enfren- tar a realidade do novo mundo que está nascendo. Esse novo mundo tem por alicerce os fundamentos do Espiritismo. que passa então a praticar como se mediunidade fosse. que deveriam ser contemplados na sua expres- são verdadeira de exceção. portanto. na prática mediúnica. portanto. a regra. o que significa ausência de visão científica do Espiritismo. Vale. Vamos encontrá-lo. Wilson Garcia que acabam sendo implantadas de forma arbitrária. porque os princípios da Doutrina es- tão sendo confirmados dia-a-dia pelas Ciências. onde as normas pratica- mente acorrentam o candidato a médium. Aí se costuma di- zer a ele que isto não pode. por exemplo. (III) O professor pensa a questão das crianças com um olhar posto no presente e outro no passado. a começar por onde a vida começa: com a criança. ad- vindas da incompreensão dos objetivos doutrinários. disposto a levar dirigentes e frequentadores ao raciocínio lógico sobre suas responsabilidades. de modo que. envolvido pela proibição sobra-lhe muitas vezes apenas o animismo. aquilo também não e assim por diante. A QUESTÃO DA CRIANÇA NO CENTRO ESPÍRITA As atenções de Herculano estão voltadas para os objeti- vos do Centro Espírita. Está ele consciente das imensas dificul- dades desse movediço terreno. mas está igualmente cons- ciente de que há aí muitas interpretações equivocadas. pene- trando em suas particularidades e práticas. Estas são tão nocivas quanto as outras. seguir seu raciocínio. fazen- do desses. Isso pode ser visto. uma vez que conside- 65 . Referimo-nos àquelas normas que são impostas e que visam coibir abusos.
facilitar a seus filhos alcançarem essa par- cela e o caminho para isso é a educação cristã “através da evangelização”. Seu argumento deveria ser consi- derado com atenção para pôr fim às teorias ingênuas sobre este período da vida. Antes. por dever. como o local ideal para a educação cristã. pois. Os pais espíritas têm. trazendo em sua bagagem as expe- riências vividas outrora. à saúde e a tantos outros con- teúdos culturais. da mesma forma que. a dúvida que muitos pais. contudo. especialmente pela apatia em que parece estar mergulhada a educação infantil nos meios espíritas. ficou pacífico o seu direito à escola. o que não significa que se deve desprezar o ensino cristão no lar e nas escolas. vista como parte da cultura geral. Por outro lado. que se observar o seguinte raciocínio: A evangelização da criança não pode ser encarada como ato de imposição ou de violência. dirigen- tes e frequentadores do centros espíritas têm sobre a condu- ção dos filhos diante da religião. através da evangelização. O Centro Espírita surge. Kardec é Razão ra as conquistas do mundo atual e a realidade dos espíritos que estão renascendo. deixou clara a questão ao analisá-la deste ponto de vista amplo: a religião sem rótulos. então. repetindo o que já afirmou: a religião do Ser em seu templo interior contém um conhecimento que pertence à cultura. Todo ho- mem tem direito a essa parcela cultural. Há. O momento é extremamente propício para a discussão do assunto. na educação cristã como direito da criança. hoje. Herculano insiste. seria sonegar-lhe o quinhão que lhe cabe na herança cultural (III) O professor segue em sua linha de raciocínio. Herculano a resolve assim: Negar à criança o direito à educação cristã. quando tratou do ensino da religião na escola. Nenhuma aula de evangelização espírita impõe dogmas de fé 66 .
Além disso. leva o indivíduo ao uso de métodos contrários às necessidades da criança. Do contrá- rio. da mesma forma que é preciso. A própria palavra “evange- lizar” tende a conduzir ao entendimento de “doutrinação”. no qual não se ensina nada da Doutrina Espírita. e com o despreparo dos mesmos. poderemos estar caminhando no sentido da “imposição de dogmas”. Especial- mente neste terreno: o religioso. (III) Historietas figuradas são recursos didáticos legítimos para o professor. Herculano fala. que pressiona para a repetição de fórmulas ultrapassadas. (III) O professor está preocupado também com a carga cultu- ral dos evangelizadores. além disso. aí. impondo conceitos e for- çando a condução do raciocínio do aluno para a aceitação do seu modo de ver e entender. mas não podem ficar no terreno puro da 67 . Exigir ou mesmo desejar que um raciocínio particular seja aceito como verdadeiro é uma forma velada de violência. E como Herculano entende a questão da violência aplicada à educação infantil? Certamente. é preciso lembrar que a evangeli- zação da infância não é nem pode ser feita em ter- mos de pura abstração. às estorietas figuradas. Mas. não confundir o raciocínio e passar para um comportamento francamente passivo. mas àquela que o evange- lizador passa sub-repticiamente. pois inegavelmente didático. sobre a necessidade de “despertar forças interiores”. despreparo esse pernicioso em todos os sentidos. também. segundo informa o Espiritismo. Wilson Garcia nem pretende realizar a internalização dos prin- cípios espíritas. o que seria um ilogismo. Daí o apelo muito justo e muito pedagógico. pois sua finalidade é o contrário: despertar na criança as suas forças interiores e fa- zê-las aflorar no plano da consciência. então. É preciso muito cuidado. não se refere ele unica- mente à violência física ou verbal.
como de fato diferente é. à qual estará atento o bom evangelizador. o en- sino desses princípios segundo as faixas etárias. contudo – e. A adequação à realidade é uma consequência natural. para não perder de vista o comportamento ideal e os objetivos doutrinários. já que o início do desenvolvimen- to da consciência ideal está exatamente aí. da lei de causas e efeitos. da mesma forma que seria ingenuidade não recorrer a tantos e tantos conheci- mentos existentes na cultura geral. na educação da infância. não nos esqueçamos. da presença do anjo-guar- dião em suas vidas. como neste exem- plo: 68 . (III) Sendo dever dos pais é. faz a crítica da realida- de que observa – na importância de ensinar os princípios doutrinários como forma de justificar o trabalho de evan- gelização. sem Espiritismo. de desenvolvimento do ser. o recurso às “historietas figuradas” não sig- nifica ausência de Espiritismo. assim como não significa preconceito cultural. mais ainda. uma posição coeren- te e permeada de bom-senso do evangelizador. da comunicabilidade dos espí- ritos e assim por diante é um dever inalienável dos pais. Mes- mo porque. vai diferenciar. Veja-se. quer dizer. nocivas. objetivamente. Kardec é Razão abstração. por isso mesmo. Herculano pede. com isto. Insiste. o seguinte: Ensinar às crianças o princípio da reencarnação. dos evangelizadores! Mas. neste caso. Seria ilógico oferecer evangelização à luz do Espiritismo. o professor coloca as questões para análise e não para aceitação ou recusa imediata. Atento e preparado para fugir dos lugares comuns e das respostas prontas. Pede-lhe criatividade em sua tarefa. Ora. mas recomenda que o faça com lógica. ge- neralizantes e.
está em perceber a situação de um ponto de vista sábio. ainda: É forçoso considerar-se também a impiedade e até mesmo a imoralidade da permanente exibição dos crimes do passado nos aleijões da atual existência. em tudo isso. (II) A virtude. que o Centro Espí- rita tem responsabilidade com o ser humano em todas as 69 . diz o professor. A natureza provê o indivíduo das condições necessárias à sua evolução. (II) A explicação de um fato não pode ser encontrada numa generalização. há que se ter humildade para reconhecer a própria incapacidade pessoal em determinadas circunstâncias. É verdade que a programação kármica leva em conta os acidentes prováveis. especialmente quando este fato tem sua cau- sa registrada na memória insondável da Espiritualidade. mas a margem de li- berdade é indispensável na experiência reencarna- tória. (II) Herculano deixa claro. São inúmeras as possibilidades causais e nenhum espírita deve se sentir obrigado a ter resposta para tudo e para todos os casos. Antes de mais nada. Diante do proble- ma do Ser é necessário pensar em termos de “aprendizado e desenvolvimento das potencialidades”. onde as explicações simplórias cedem lugar ao raciocínio lógico e coordenado. Wilson Garcia Uma criança nasce com deficiência numa perna ou num braço e logo um sabereta espírita promove a suposta devassa do seu passado. no caso. e que acima dos objetivos de resgate existe o interesse básico de aprendizado e desenvolvimento das potencialidades. Veja- -se. acusando-a de cri- mes inverificáveis.
segundo o sábio ensino de Paulo de Tarso. também. (VII) O professor põe suas vistas no tempo e na condição es- piritual e mental do Ser. Vale o raciocínio para o centro espírita.. criar condições ideais para que essa liberdade possa ser exercida em termos de expressão do pensamento em todos os sentidos.a seguir um rumo que repele é cometer uma vio- lência de graves consequências futuras. acima das quais o Espiritismo coloca a liberdade individual. Kardec é Razão suas fases. onde querem e de- vem empregar a liberdade de opção. Filhos de pais espíritas não precisam ser. onde alguns diri- gentes confundem a oportunidade de oferecer ensinamen- tos com uma suposta responsabilidade de tornar as pessoas espíritas. no terreno da preparação dos filhos. devem ser por opção e não pela vontade imposta por quem quer que seja. . ciente de que há momento para tudo. (VII) Mesmo porque. devendo se comportar com largueza de visão e sempre compreender que: A Educação Espírita não é só permanente. pois. mas sobretudo integral. São coisas distintas. espíritas e. se o forem. 70 . como pais: Não se deve forçá-los. (III) Assim. contí- nua. mas apenas estimulá-los no tocante aos ensinos espíritas... necessariamente. que o Centro deve não apenas privilegiar mas. forçar o filho.. Pais que se desesperam com a recusa dos filhos em aceitar este ou aquele rumo precisam compreender que os filhos têm seu caminho e sua oportunidade de escolha.
que o ser humano é hoje capaz de produzir. é a Me- diunidade. Ali. pode-se dizer. É ela. não se detém nos limites daque- 71 . analisa e propõe um conceito verdadeiramente surpreendente: A mais refinada conquista da evolução. Wilson Garcia CONCEITUAÇÃO E PRÁTICA DA MEDIUNIDADE NO CENTRO O encontro do professor com a mediunidade é. (VII) Esta extraordinária visão é da mais alta importância e deve influenciar todos os setores do Centro Espírita. que consubs- tancia todo o processo evolutivo da Natureza. e ao mesmo tempo o seu endereço para o plano angélico. o momento em que o sábio devassa mistério. não importa que nome se lhe dê. Função sem órgão. Devassar o invisível é uma pos- sibilidade. a síntese de todas as conquistas no “processo evolutivo da natureza”. enfim. O seu refinamento pode ser visto sob o ângulo das energias mais puras. que oferece a este mesmo ser humano. a Me- diunidade é a síntese por excelência. Talento ou sentido espiritual. até então. mas a “mais refina- da” de quantas dizem respeito à evolução. agora. é o selo do pro- gresso do homem. de se relacionar com o invisível. O professor. liberando-se dos limites estreitos que a vida na Terra. embora dependente do funcionamento de todos eles. na sua conjugação com a mente. a mediunidade não está localizada especificamente em um órgão do corpo humano. real e o que disso resulta altera definiti- vamente a realidade do Ser no Mundo. que marca o homem com o endereço do plano angélico. o obrigava. como se vê. resultante de todas as funções orgânicas e psíquicas da espécie. o professor estuda. bem como pelas amplas possibilidades. onde o vulgo costuma se abobar e o homem simplório aceitar o ir- racional. A me- diunidade não é apenas uma conquista.
analisar os pormenores. ocasião em que o Ser se torna apto a ingressar em planos mais elevados. ou seja. É perfeitamente possível alimentar tal aspi- ração. simplesmente detalhe. e a segunda corresponde à mediunidade de compro- misso. então. também não valoriza as definições que simplificam a mediunidade em seu aspecto de “prova” e de “ferramenta” para pagamento de débitos do passado. o espírita está em condições de se elevar ao plano angélico. mas esta deve ser colocada ao lado da compreensão de que o tempo para o seu amadurecimento está um pouco longe. uma conquista. dos fatos materiais. está intimamente ligada à capacidade de compreender e discer- nir. A primeira corresponde à mediunidade natural que todos os seres humanos possuem. Liberto. na medida exata da justiça e do bem. que não deve ser confundido com o verdadeiro conceito. dos fenômenos. numa palavra. o professor descer aos detalhes. Tudo isso passa a ser detalhe. a que alude o professor. Temos assim duas áreas de função mediúnica de- signadas como mediunidade generalizada e me- diunato. adequar e praticar. Embora não negue definitivamente. A me- diunidade vai além do detalhe. agora. de médiuns investidos espiritual- mente de poderes mediúnicos para finalidades es- pecíficas na encarnação. (VII) Uma vez conceituada em sua expressão mais elevada. dando ao tema da mediunidade a clareza do pedagogo. pode. para ser resultado do progresso do psiquismo humano. da poderosa reação da Terra. o ensinamento kardeciano para o 72 . (IX) A liberdade aí conquistada. Kardec é Razão le terreno suspeito que é o “lugar comum''. Traz. embora não seja impossível alcançá-lo. no ponto neutro.
que reencarnam com finalidades específicas de atuação social. o indivíduo portador de mediunato tem as mesmas possibilidades do médium geral. a mediunidade ostensiva se caracteriza pela capacidade do médium ser o interme- diário de fenômenos produzidos por Espíritos. antes. acrescidas do fato de po- der se colocar nesse terreno que une o ser humano e as in- teligências que habitam o mundo invisível. tudo leva a crer que um e outro se mis- turarão no futuro.. curas etc. por exemplo. sobrevindo. o que implica dizer. artistas etc. psicofonia. procurando. O professor chega. Wilson Garcia plano da prática. fenômenos propriamente ditos. contudo. A experiência. então. O portador da mediunidade generalizada é uma criatura apta às influências dos seres invisíveis. entre o médium ostensivo e o médium geral é muito tênue. uma grande gama de pensadores. O mediunato é também concedido em casos de pura assistência ao próximo e ajuda à Humanidade. 73 . estabelecer uma visão completa do assunto. que cor- responde à mediunidade ostensiva a que Kardec se refere. apenas formal. também. fica por conta da maneira como a explica o professor: o mediunato define o compromisso de médiuns. escritores. Segundo Kardec. a mediunidade geral direta. Além disso. por seu intermédio. já convive com uma mediunidade geral quase ostensiva e os Espíritos que os influenciam produzem através deles re- sultados muito próximos dos que são obtidos através dos médiuns ostensivos. oferecendo con- dições para a produção de efeitos físicos. nos tem ensinado que a frontei- ra entre a mediunidade geral e o mediunato. A diferença. mas não se con- cretizam. utilizando-se do recurso didático de divi- di-la entre mediunidade generalizada e mediunato. reunindo no termo mediunato tanto a capacidade de produzir os fenômenos quanto o compro- misso reencarnatório. No campo das atividades intelectuais.
no caso. ainda hoje. ao que parece. natural. em Paris. Médium quer dizer medianeiro. mesmo para mui- tos estudiosos. eis que. Sendo uma faculdade natural. Julia e Carolina. a mediunidade precisa ser vista e tra- tada em sua condição natural. sendo estranha. a uma das maiores qualidades da mediunidade. (VII) Embora repise temas conhecidos. Eviden- temente. àquela em que o indivíduo vem como mis- sionário e sua maior obrigação é contribuir para o progres- so da humanidade. aí. favorecer a apreensão do conhecimento. não raro. pela qual se estabelecem as relações entre homens e espíritos. em suma. denunciar suas in- tenções. cuja mediunida- de admirável garantiu o êxito da missão de Kardec. É bem verdade que existem os falsos médiuns missionários. (VII) Refere-se o professor. sub- 74 . a relação com o invisível. apenas a forma de comunicação. mais por culpa do primeiro. por parte do homem. própria da natureza humana. Sendo o resultado de um longo processo evolutivo. ou seja. de função que se desenvolveu ao longo da evolução. Isto. intermediário. Não é um poder oculto que se possa desenvolver através de práticas rituais ou pelo poder misterioso de um iniciado ou de um guru. Mas esses a prática cuida de apontar e. uma conquista. é realizada ao nível do artificialismo e do dis- tanciamento do homem em relação aos Espíritos. que não se habituou com a ideia de que o ser invisível é semelhante a ele. porém. nessa repetição. Kardec é Razão como nos mostra o exemplo histórico das meninas Boudin. vai exigir longos séculos de experimentação. Me- diunidade é a faculdade humana. o professor busca. aqueles que se auto inves- tem de uma missão e passam a se projetar como se de fato tivessem uma grande elevação espiritual pessoal.
Prosseguindo: As crianças a possuem. durante o tempo de prepa- ração de “O Livro dos Espíritos” que duas irmãs. Na adolescência o seu corpo já amadureceu o suficiente para que as manifestações mediúnicas se tornem mais intensas e positivas. adolescen- tes tiveram presença decisiva. (VII) Sendo. O invisível cuida de dar essa pro- teção neste período da vida. (VII) A informação do professor está alinhada com o pensa- mento de Kardec. à flor da pele. a preparação 75 . conquista natural. A elas se deve. a mediunidade surge já no berço. que a mediunidade não se desenvolve através de fórmulas ritualísticas ou sob a ação de iniciados ou gurus. quase sempre car- regada de reminiscências estranhas. Foi com este. A convivência com a criança portadora de mediunidade deve levar em conside- ração o seu estágio infantil. para que a criança não degene- re. com razão. praticamente. Este conhecimento vai demonstrar. É tempo de encaminhá-la com informações mais pre- cisas sobre o problema mediúnico. do passado carnal ou espiritual. Trata-se das irmãs Boudin. Vale dizer: No primeiro ciclo só se deve intervir no processo mediúnico com preces e passes. Há meios próprios para o desenvolvimento mediúnico. que as religi- ões chamam de anjos da guarda. sob condições tais em que fica de certa forma latente e protegida. mas resguardada pela influência benéfica e controladora dos espíritos protetores. A caracterização entre mediunidade geral e mediunato dificilmente poderá ser feita nesta fase. Wilson Garcia metida a leis e mecanismos que devem ser conhecidos pelo estudo do Espiritismo. repetimos. como médiuns. por assim dizer. para abrandar as excitações naturais da criança.
inclusive. Há casos de crianças. Trata-se. nos centros e grupos espíritas. também. para combater um certo preconceito que se estabeleceu e criou raízes no meio espíri- ta. As irmãs Boudin. acaba se transformando em problemas psíquicos para a própria criança. as irmãs Fox. nem por isto. bem como da prática mediúnica livre. Mas esta informação tem uma importância espe- cial. definitivo em termos de orientação 76 . exerceram atividade mediúnica intensa ao longo da preparação do livro básico do Espiritismo e. casaram e prosseguiram com sua vida normal. Conclusão: é possível equilibrar a mediunidade na adolescência com a prática mediúnica bem orientada. os quais servem de referência e pro- va para a questão. por ocasião da adolescência o indivíduo já está de posse de um corpo físico em condições favoráveis para o trabalho mediúnico. Quando. tiveram qualquer problema. Muitas experiências atuais vêm também em apoio desta tese. não raro. Como mostra Herculano. pelo que expõe. Concordaria o profes- sor com aqueles que alegam que esses casos não servem de norma. torna-se importante e. na fase inicial da adolescência. como deixa claro o professor. se é este o caso. apresentando condições evidentes de mediu- nidade em eclosão. o ser alcança a sua fase adulta: É o tempo. com certeza. (VII) O Centro Espírita. segundo o qual antes dos dezoito anos nenhuma criatura pode participar de atividades mediúnicas e muito menos desenvolver a mediunidade. uma vez que serve. enfim. de um preconceito sem fundamento doutrinário. nessa fase. Kardec é Razão do livro. a qual. dos estudos sérios do Espi- ritismo e da Mediunidade. entre inúmeros outros exemplos que incluem. Tornaram-se adultas. pela forma racional como trata da questão e porque a história do Espiritismo está repleta de exemplos semelhan- tes aos citados acima. por serem esporádicos? Acredito que não. quando não é devidamente am- parada.
ou a má. Na vida diária. Wilson Garcia da mediunidade. quando não vai aos consultórios psiquiátricos. como o encontro de um amigo há muito ausente. Esta seria uma razão mais do que suficien- te para deixar seus dirigentes convencidos da responsabili- dade que lhes pesa nos ombros. através de pressentimentos. Vivemos. entre dois mundos e em relação permanente com entidades espirituais. percepções extrassensoriais que atribuímos à imaginação ou à lembrança e assim por diante. (VII) Tanto para o portador da mediunidade geral quanto para os que trazem o mediunato. e a relação permanente que esse convívio estabelece. muitas vezes. Kardec dirá que vivemos rodeados de Espíritos e eles estão presentes em nossa vida muito mais do que ima- ginamos. onde a relação com os Espíritos se torna o objetivo. convém observar que: Na verdade. Mas. para. a potencialidade mediúnica nunca permanece letárgica. ainda. a procurar em locais inadequados a solução dos problemas que lhe sur- gem. que conduz o indivíduo ao controle e à prática de seu eventual mediunato. Deles depende a boa orien- tação. na maioria das vezes. Pelo contrário. mediunicamente. Pelo contrário. “vivemos me- diunicamente entre dois mundos e em relação permanente com entidades espirituais”. previsões de aconte- cimentos simples. retirando. passa de potência a ato em diversos momentos da vida. a atividade mediúnica não se restringe a trabalhos específicos. o ato mediúnico se dá na forma de pressentimentos. de lá sair em piores condições. assim. afirma com propriedade o pro- fessor. que o destina a uma vida de atribulações e sofrimentos e o leva. ela se atua- liza com mais frequência do que supomos. previsões e toda uma série de aconte- 77 . da codificação espírita todo aquele conhecimento que mostra as influências dos Espíritos no mundo dos vivos.
A mediunidade. geral ou ostensiva. segundo uma qualidade especial. mas isso não significa faltar-lhes a potência mediúnica. uma vontade repentina e até mesmo uma atitude impensada podem ser o resultado do ato medi- único concretizado na vida diária. A seleção das relações pode até ocorrer. O ato mediúnico é o momento em que o espírito co- municante e o médium se fundem na unidade psico- afetiva da comunicação. do fato de não conseguirem sen- tir influências espirituais. de fusão “psicoafetiva” do médium com o Espírito comuni- cante. Um pensamento inesperado. Pelo contrário. iluminado por uma mediunidade esclarecida e de- 78 . O que de fato lhes falta é o desenvol- vimento de uma percepção para os fenômenos que ocorrem diariamente em sua vida. (VII) A mediunidade ostensiva tem este momento glorioso. A conquista da mediunidade implica em tê-la naturalmente integrada em nossa vida. permite uma relação com personalidades distintas em grau de moralidade. ou seja. harmonização perispiritual para um objetivo a alcançar. ou seja. formando uma unidade para a comunicação. Vejamos. cuja causa está nos Espíritos e suas influências. não pressupõe o contato apenas com Espíri- tos de boa índole. como o professor se refere à prática do mediunato. um desejo surpreendente. agora. de forma que seus resultados serão sempre conformes com a quali- dade da relação. É o mo- mento em que Kardec ressalta a necessidade de alinhamen- to das energias. mas deverá ter por causa a vontade e o comportamento do médium. Muitos se dizem insensíveis e até reclamam des- ta insensibilidade. Quando o ato mediúnico é assim perfeito e claro. Kardec é Razão cimentos que ocorrem ao nível de nossa sensibilidade.
não há gigante – como no caso de Lombroso13 . 79 . seja. está sempre pressionado. hu- milde. racional. As facilidades ma- 13 Cesare Lombroso. (VII) Herculano parte do entendimento de que o ato mediúni- co pode resultar em benefícios para a humanidade. enfim. Wilson Garcia votada ao bem. em sessões com a também famosa médium Eusápia Paladino. tem o calor da solidariedade humana e é iluminado pela caridade cristã. que não tem motivos para se julgar superior aos outros. especialmente.que não se curve reverente ante o mistério da vida imortal. uma cria- tura humana normal. em vir- tude dos fenômenos que por seu intermédio se produzem. à força dos fatos. famoso médico e criminalista italiano. (VII) O médium geral não corre certos perigos que se dão com o médium ostensivo. natural. Este. diz ele: O médium deve ser espontâneo. Porém: Quando o ato mediúnico não tem a pureza e a be- leza de uma comunicação amorosa. o mais materialista dos mortais ou o mais presunçoso dos homens não resiste. portador do mediunato. convincente. em sua vida diária. é avassalador. diz o professor. interior e exteriormente. pelo que oferece de solidariedade e caridade. Seja tra- zendo esclarecimentos sobre problemas graves da vida. de sua mãe falecida. que pôs à prova as suas convicções materialista quando se viu diante de convin- centes experiências mediúnicas e. seja consolando. por sua natureza humana e pelos que o cercam. curvando-se. (VII) O resultado dessa relação. Contudo. na relação com os familiares ou na convivência social.
conseguem superar o meio. ampliam a simpatia popular pelo Centro. Os médiuns são os elementos principais da ligação do Centro Espírita com a comunidade social do bairro ou da cidade. sucumbe ante os atrativos que rondam a mediunidade. principalmente. porém. Neste ponto. na forma de ofertas. conselhos e aparentes apreços. em sua condição natural. São mesmo os elos genésicos dessa ligação. permanentemente. Contudo. não precisa tornar- -se santo. Evidentemente. para tanto. também. (VII) O Espiritismo se situa no plano da razão. para po- der se tornar um medianeiro eficiente. é pre- 80 . como o quer o professor. (IX) O professor mostra a posição importante do médium. em relação ao Centro Espírita e perante a comunidade “do bairro ou da cidade”. Se parcela dos médiuns os- tensivos. a necessidade de manter-se com sua per- sonalidade normal e procurar ser “um homem de bem”. Isso deve ter por resultado a prestação de serviços para a população. comportando-se com a naturalidade de qualquer cidadão. há outros que logram compreender. morais surgem de vários lados. ainda hoje. o bom ensinamento do mestre. Kardec é Razão teriais e os subornos intelectuais e. mas apenas um homem de bem. As- sim o pede. segundo os melhores princípios da caridade cristã. fora dele. Suas faculdades mediúnicas exercem atração natural sobre a comunidade e os serviços que prestam no Centro ou nos atendimentos even- tuais. onde a lógica ensina que a mediunidade é inerente a todos os seres huma- nos. prossegue Herculano: A dificuldade maior está em se fazer o Médium compreender que. Cumpre ao médium. estudar e atualizar-se. Os que suportam essas pressões e se conscientizam de sua realidade humana falível.
Wilson Garcia
ciso desfazer o preconceito vigente ainda, que faz de certos
médiuns criaturas amorfas, passivas, entregues totalmente
à condução dos Espíritos, mas sem lhes oferecer uma co-
laboração efetiva, o mais das vezes por lhes faltar conheci-
mento. Julgam-se dispensados de estudo e acreditam que
os Espíritos suprem suas possíveis deficiências. O estudo é
o melhor meio para a compreensão da mediunidade.
Sem o exame histórico do problema mediúnico, por
exemplo, os estudantes de hoje estarão ameaçados
de flutuar no abstrato. Introduzindo-se numa or-
dem de ideias, sem o conhecimento de suas raízes
históricas, arriscam-se a confundir, como fazem os
leigos, mediunismo e Espiritismo, ou seja, o proces-
so mediúnico de desenvolvimento espiritual do ho-
mem, com o Espiritismo. Arriscam-se, ainda mais,
a aturdir-se com fatos mediúnicos rudimentares,
considerando-os, por sua aparência extravagante,
como novidade. (VIII)
Herculano toma a questão em sua raiz para mostrar que
médiuns, dirigentes e frequentadores devem buscar a fonte
do conhecimento para entender o processo do desenvolvi-
mento do mediunismo e separá-lo da mediunidade. Afinal,
a manifestação dos Espíritos é quase tão antiga quanto a
presença do homem na Terra. A história o demonstra. Mas
por desconhecer esse processo o indivíduo poderá, segundo
Herculano, “aturdir-se com fatos mediúnicos rudimenta-
res”, imaginando que são novos e merecedores de aceita-
ção como sendo doutrinários. Ele mesmo foi testemunha
de muitos casos de espíritas pouco versados na Doutrina,
que se entusiasmaram com o mediunismo praticado por re-
ligiões primitivas e resolveram bandear para o lado delas,
na expectativa de serem mais efetivas. O problema propria-
mente dito não está na opção feita por eles, mas na ignorân-
cia do indivíduo em relação à realidade dos fatos. A extensa
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Kardec é Razão
faixa moral e cultural em que se reúnem os Espíritos possi-
bilita perceber que o Ser no Mundo expressa condições que
vão dos selvagens e primitivos aos civilizados a caminho dos
planos superiores. É preciso, pois, ter em mente que:
As práticas mágicas ou religiosas, baseadas nessas
manifestações, constituem o Mediunismo, pois são
práticas mediúnicas. A Doutrina Espírita é uma
interpretação racional das manifestações mediúni-
cas. As práticas do chamado sincretismo religioso
afro-brasileiro, por exemplo, não são espíritas. O
sincretismo religioso é um fenômeno sociológico
natural. O Espiritismo é uma doutrina. Os fatos
mediúnicos são fatos espíritas, assim chamados
pelo próprio Kardec, mas não são Espiritismo.
Porque o Espiritismo se serve dos fatos mediúnicos
como de uma matériaprima para a elaboração de
seus princípios, ou como de uma força natural que
aproveita de maneira racional. (VIII)
Ao fazer a diferenciação entre Espiritismo e mediunis-
mo, referindo-se, inclusive, ao sincretismo religioso afro-
-brasileiro, o professor não tem por objetivo condenar os
que se filiam a essas correntes, muito menos apresentar
uma pretensiosa condição de superioridade. Não pode ele,
contudo, fugir da realidade que se apresenta diante de seus
olhos, que mostra ser o Espiritismo “uma interpretação ra-
cional das manifestações mediúnicas”. Embora não o diga,
é, ainda hoje, a mais completa interpretação. Herculano
atinge, ao mesmo tempo, o objetivo de esclarecer o pró-
prio meio espírita, que muitas vezes se apresenta confuso
ante o mediunismo e através de líderes equivocados vê-se
tentado a misturá-lo com a Doutrina. Confusões tão preju-
diciais quanto desnecessárias. A mediunidade, além de ser
uma conquista do homem no plano evolutivo, é também
onde se localiza o campo de pesquisa da ciência espírita. Os
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Wilson Garcia
princípios, assim como os fatos mediúnicos, ganharam no
seu tempo a comprovação dessa pesquisa. O mediunismo
apresenta todo o seu rosário de fatos, que vai do horizonte
primitivo e selvagem aos dias atuais. Com sua presença, o
Espiritismo os tornou conhecidos e explicados. O estudo do
Espiritismo em conjunto com a Sociologia, permitiu enten-
der o sincretismo religioso e sua aceitação em larga faixa da
sociedade de hoje. Eis porque o professor coloca o sincretis-
mo como “fenômeno sociológico natural”.
A diferença entre Mediunismo e Mediunidade está
na questão da conscientização do problema mediú-
nico. Nas religiões primitivas não havia nem podia
haver reflexão sobre os fenômenos, seu sentido e
natureza. Tudo se resumia na aceitação dos fatos
e nas tentativas de sua utilização para finalidades
práticas, objetivas. A Mediunidade é o Mediunismo
desenvolvido, racionalizado e levado à reflexão re-
ligiosa e filosófica às pesquisas científicas necessá-
rias ao esclarecimento dos fenômenos, sua nature-
za e suas leis. (VII)
O que antes constituía apenas em fenômeno passa a ser,
para o Espiritismo, um ramo do saber em que o conheci-
mento permite agir e a razão compreender. Para as religi-
ões primitivas, o mediunismo era finalidade em si mesmo;
após o advento do Espiritismo, passa a ser fonte do saber
racionalizado, servindo não só para o intercâmbio entre os
planos visíveis e invisíveis, mas também para pesquisa cien-
tífica e reflexão filosófica, tornando-se, por aí, caminho para
conhecimento da natureza e suas leis.
Por outro lado, os espíritas têm uma dívida moral
e espiritual para com as religiões negras e mesti-
ças. Quando Luiz Olímpio Telles de Menezes lan-
çou na Bahia o primeiro jornal espírita, “O Eco de
Além-túmulo” no século passado, a Revista Espírita
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como realmente o era. O respeito não implica. Herculano coloca a questão da Umbanda em seus termos verdadeiros. manter com elas uma relação de cordia- lidade. em re- torno ao passado. portanto. mestre de Kardec. O professor re- conhece. mas. sem nenhum prejuízo. reconhecendo sempre que o mediunismo teve sua importância histórica e se apresenta agora esclarecido pelo Espiritismo. (IX) Imbuído de uma liberdade de análise comprometida com a justiça. abrin- do caminho para a chegada do Espiritismo. As religiões primitivas são formas superadas de inter- pretação do mundo. compreensão e tolerância. Mas nesse mesmo instante as práticas de Macumba no Brasil rompiam as barreiras católicas e abriam a brecha necessária para a penetração do Espiri- tismo em nossa terra. re- solvessem voltar aos terreiros de macumba. Embora praticantes de uma religião primitiva. Não podemos esquecer essa contribuição importante de negros e índios para o arejamento do nosso asfixiante clima religioso. A religião verdadeira. convi- viam com os bichos e não com as ideias. por con- siderar o Império Brasileiro estreitamente ligado à Igreja Católica. pos- suindo essa visão nova do mundo e da vida. Kardec é Razão de Kardec registrou o fato com espanto. é a Moralidade. Serviram no seu tempo. a relação do Espiritismo com essas religiões na base de uma dívida moral e espiritual de seus adeptos. podendo. Seria estranho e inexplicável se os espíritas. pois. (X) 84 . O resumo disso pode ser visto da seguinte forma: os espí- ritas devem às religiões provenientes do mediunismo um grande respeito. os negros escravizados acabaram contribuindo para o “arejamento” do ambiente religioso no Brasil. segundo Pestalozzi. como um dos países mais refra- tários ao Espiritismo.
o que significaria a mesma coisa. sob o argumento ingênuo de que os fe- nômenos não convencem a ninguém. Depois de alcançar o estágio do Espiritismo. não pode o homem re- troceder às práticas mediúnicas. Quanto à ligação da mediunidade com o corpo. que 85 . vale repetir. Herculano compreende que tudo isto compõe a carga que o homem carrega. (IX) O ponto central. não se pode partir para os extremos e despre- zar a mediunidade. para o professor. pressionando contra o avanço do homem. é exatamente este da “mistura de uma doutrina científica e filosófica com práticas de magia primitiva”. A evolução não permite retrocesso. mas de uma questão de método e cultura. Não se trata de um repúdio ao mediunismo e sua men- talidade mágica. assim como às manifesta- ções religiosas. Os componentes dos horizontes primitivo e selva- gem estão presentes na atualidade. Por outro lado. a qual é responsável pelas suas idas e vindas em relação à compreensão do novo conheci- mento. Não se pode misturar uma doutrina científica e filosófica com práticas de magia primitiva das selvas. da época primitiva. compreender as questões no seu justo contexto. que precisa ser compreendida. Mas é ao homem que cumpre lutar para vencer a situação e despojar-se da carga. Os dirigentes de centros espíritas precisam tomar conhecimento deste assunto para evitarem a mis- tura de práticas africanas em suas sedes. pois. Nem reduzi-la a uns poucos tipos de manifestação. mas o espírita esclarecido deve utilizar essa “visão nova do mundo” para compreender o problema e não se deixar levar pelos seus naturais apelos. Aqueles que ainda estão presos culturalmente às religiões primitivas sentem-se de fato atraídos pelas práti- cas do mediunismo. Wilson Garcia Importa.
para dizer que do ponto de vista orgânico ela não existe. Kardec é Razão muitos espíritas não entenderam. trata-se de coisa muito diferente disso. formando correntes para trabalhos espirituais não têm sentido... pois todos os espíritos podem manifestar-se. Coloca ele a ques- tão em termos de origem. por sua vez. O professor ensina isso mais uma vez. A lógica leva ao entendimento de que a ligação do Espírito com o corpo faz com que o primeiro transmita ao segundo as condições ide- ais da mediunidade. mas adultos. a mediunidade “não pertence ao corpo''. haveremos de tê-los no ou- tro plano da vida. As manifestações de espíritos de crianças são natu- rais. mesmo que haja condições especiais ali que favoreçam as alterações da aparência formal. mas não pertence ao corpo e sim ao perispí- rito. confundindo-a com uma suposta origem orgânica da mediunida- de. E o professor ataca o ponto controvertido da mediunidade orgânica. Assim. (VII) Assim como o mediunismo e a mediunidade. aqui nesta sua interpretação do fenômeno mediúnico. que enquanto estivermos encarnados faz parte do corpo e permite a ligação do espírito comuni- cante com o perispírito do médium. (. jovens e idosos na Terra. embora tenha com este relação íntima e dependa dele.) Acontece que os espíritos de crian- ças não são crianças. Temos crian- ças. há outros problemas a serem resolvidos. tem no peris- pírito um elo fundamental e indispensável. (. De fato.) A condição infantil corresponde às necessidades evolutivas do corpo material. O que não 86 . Mas as manifestações desses espíritos em cadeia. a conquista da mediunida- de tem sua sede no Espírito. que. A mediu- nidade está ligada ao corpo pelo espírito que a ele se liga. (X) O bom-senso deve imperar quando se trata de Doutrina Espírita..
mas muita gente prefere não atentar para isso. uma es- trutura de planos e superplanos do entendimento superior e global das situações existenciais. entendendo que elas são de elevadas condições espirituais. é a formação de “correntes para trabalhos espirituais” formadas por espíritos de crian- ças e. o professor en- contra o Ser inserido no Mundo. por falta de lógica. acabando por aceitar mensagens ri- dículas. segundo ensina Kardec. em todo o mundo. Mas a maioria das pessoas que se interessam pelo Espiritismo parece ignorá-lo. (VII) Em qualquer setor da Doutrina Espírita. é a linguagem. O médium solitário vive apenas em duas dimen- sões: a dimensão do espírito comunicante e a sua própria dimensão individual Falta-lhe a dimensão social. a submissão em que se colocam certas pessoas e grupos diante dessas correntes. chamando a atenção para o fato da linguagem do Espírito manifestante. Wilson Garcia é aceitável. Mas além disso falta-lhe a dimensão cultural das relações doutrinárias. através de mais de um século. dadas por Espíritos que se fazem passar por sábios. sem a qual não há possibilidade de confron- to de suas percepções e captações com a realidade tridimensional do mundo. a verdade desse ensino. As possibilidades de mistificação medi- única são muitas vezes evidentes. o que abre as portas a muitas mistifica- ções de linguajar pomposo e às vezes até mesmo desrespeitoso. Hercu- lano volta-se para isso. como quem diz que aí está um ponto chave para melhor avaliação da identidade dos seres invisíveis. (XIII) O estudo do Espiritismo previne muitos enganos. que lhe abriria as perspectivas do inteligível. A carteira de identidade dos Espíritos. menos ainda. As tentativas de retirar o 87 . A experiência com- provou.
acusado de anti-unificacionista. Duas são as suas finalidades básicas: desenvolver uma cultura espiritual livre das su- perstições e permutar ideias e experiências. compromete a qualidade de seu trabalho. O médium que valoriza. a dimensão individu- al. capazes de abrir “as perspectivas do inteligível”. Pode tornar-se. Kardec é Razão médium do contexto social são feitas por pessoas que não compreenderam os objetivos doutrinários. pela falta que fazem as “relações doutri- nárias''. De qualquer forma. Com isso. estudiosos e pesquisadores dos fenômenos mediúni- cos. Importante lembrar que Herculano. em campo aber- to. até. mas não deixa de lembrar que precisam ser desen- volvidas em “campo aberto”. ape- nas a dimensão do Espírito comunicante está comprometi- do definitivamente pela impossibilidade de confronto “de suas percepções e captações com a realidade tridimensional do mundo”. ao mesmo tempo. da identidade dos Espíritos etc. nas explicações sobre as relações sociais no Espiri- tismo. diz Herculano. em que o isolamento orgulhoso das Igrejas em relação ao avanço científico separou a cultura religiosa da cultura geral (VII) O professor consegue ser mais explícito e convincente ainda. afirma que a falta de uma delas pode ser suficiente para deixar o trabalho mediúnico comprometido. O professor cha- ma a atenção para isso. e mais. a social e a cultural. ao mostrar as quatro dimensões ne- cessárias: a do Espírito comunicante. para troca de ideias e de experiências. o médium que se isola do mundo comete um erro fundamental e. As relações sociais no Espiritismo. de ma- neira a facultar o desenvolvimento de uma cultura espiritual desligada das superstições do passado obscurantista. têm por finalidade o apoio recíproco de médiuns. mostra de maneira cabal que pensava e agia contrariamente 88 . incapaz de fazer avaliações de seu próprio desempenho mediúnico: das mensagens.
que impedem o desenvolvimento livre das rela- ções entre os homens. têm profunda identidade igrejeira. na bagagem cultural que o ser carrega desde o “passado obscurantista”. seja com normas burocráticas. Daí porque luta pela “cultura espiri- tual desligada das superstições do passado obscurantista”. Desconhecem eles. Há uma tendência muito for- te. o entendimento de que. na intenção ingênua de facilitar os dirigentes de Centros. portanto. Em reforço da ideia 89 . Wilson Garcia a isto. (VII) A ideia básica do professor. o que não é verdadeiro. que se mostram muito firmes na mentalidade de alguns. embutido. por parte de algumas lideranças espíritas. aí. que a Doutrina Espírita é interpretativa e que este fator impede a troca de modelos prontos e acabados. sob a orientação e muitas vezes a interferência de espíritos dirigentes. sem os cerceamentos que os cultores do chamado movimento unificacionista costumam estabe- lecer. enfim. A causa disso estaria. também aí. é chamar a atenção para o fato de que os denominados “modelos rígidos de reuni- ões” afrontam o bom-senso. Mas há. SESSÕES ESPÍRITAS Não há regras específicas e formais para a realiza- ção das sessões espíritas. Entre a prece de abertura e a de encerramento desenvolvem-se as manifesta- ções mediúnicas. por meio de comportamentos ortodoxos. seja através de ações sub-reptícias. de formular modelos de atividades. geralmente católica. O que fica também claro é o seu entendimento de que o “iso- lamento das Igrejas” determinou a separação da “cultura religiosa da cultura geral”. é efetivamente a favor da união para troca de ideias e experiências. esta doutrina e a deles. seja. para grande parte dos que procuram o Espiritismo. Ou seja. certamente.
os detalhes que envolvem a questão mediú- nica. o que. passem pela palestra e terminem no diálogo. (VII) Como se vê. arremata o pro- fessor. também inte- ressam a Herculano. o que não deve ser confundido com interferências indevidas ou imposições vindas do plano espiritual. se confir- mado. Cada casa tem a liberdade de formatar suas atividades segundo a cultura vigente. também. A concentração é um ato necessário à relação mediúnica. Além disso. Quando todos pensam em Deus ou Jesus. Kardec é Razão da interpretação doutrinária livre vem o sentido evolutivo do Espiritismo. Viu-se. os participantes de reu- niões serem convocados à concentração e assumirem uma 90 . Trata-se de uma concentração coletiva de pensamentos voltados para um mesmo alvo. se constituiria em fato condenável e denotador da imperfeição dos Espíritos. especialmente quando de caráter osten- sivo. em muitas ocasiões. A palavra concentração sugere um esforço men- tal contínuo para se manter o pensamento fixado numa imagem. ou que algumas das partes sejam invertidas. é a interpretação que confere o entendimento do assunto. A concentração dos pensamentos numa reunião mediúnica não corres- ponde ao tipo de concentração individual de uma pessoa num determinado problema a resolver ou num estudo a fazer. palmilhando a es trada do bom-senso. Tanto faz que num Centro Espí- rita as reuniões públicas comecem pela prece. to- dos os pensamentos se concentram numa só ideia. Mas. CONCENTRAÇÃO MEDIÚNICA O problema da concentração mental é também um dos menos compreendidos. deve levar em consideração as possibilidades de aperfeiçoamento oferecidas pelos “espíritos dirigentes”.
Mostra. Uma das intenções com o ato da concentração é. tanto maior quanto mais dificuldade tiver o indivíduo de voltar sua atenção para um alvo estabelecido. sem dúvida. que deve ter um alvo para facilitar a formação do ambiente e a manifestação dos Espíritos. a experiência tende a fornecer o melhor entendimento da questão. devocional. a título de disciplina mediúni- ca. A emenda ficou pior do que o soneto. o ato de não pensar em nada. pode bloquear a razão e excitar o misticismo. pode ocorrer ocasionalmente a qualquer pessoa. Wilson Garcia postura de dúvida. nos casos de mediu- nato. a concentração. Nestes casos o místico está sujeito a enganos fatais. As cantorias se estenderam a outras reuniões e assumiram aspecto religioso. quando não imaginavam que para con- centrar seria preciso algo como o esvaziamento da mente. Em alguns centros espíritas. mas a sua ação permanente. o que traria prejuízos para as relações mediúnicas. É verdade que. cuja concentração facilita a relação psico-afetiva com o Espírito. evitando sua dispersão. A VIDÊNCIA MERECE CUIDADOS A vidência. Herculano. De qualquer maneira é importante perceber que o ato de concentrar exige um es- forço. muitos coíbem o uso de certas especialidades mediúni- 91 . os dirigentes tentaram resolver a questão introduzindo cantorias. manter o pensamento dos participantes retidos no local. Seria. como todas as formas de mediunidade. especialmente durante ses- sões de efeitos físicos. então. que a concentração em reunião mediú- nica é um ato coletivo. (VII) O alerta do professor tem por objetivo estabelecer um equilíbrio racional de forma a permitir que se exerça a me- diunidade dentro dos limites de controle estabelecidos pelo Codificador. No caso específico do médium.
simplesmente proibindo sua manifestação. antropólogo espírita. O Anjo é o ho- mem-espiritual último produto da evolução ôntica da Terra. além de intrusa tem sido praticada em alguns centros espíritas alia- da à vidência. mas não é a isso que o professor deseja levar. aí dois sérios problemas alta- mente comprometedores. REFLETINDO SOBRE A MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS. a Cromoterapia. O seu objetivo é mostrar o perigo que constitui acre- ditar pura e simplesmente em tudo o que se observa atra- vés da vidência. no Cristianismo e no Islamismo é representado com asas e aura lumino- 92 . às quais não tem a Dou- trina ligação direta. Uma delas. Vê-se. pois. entre as quais está a vidência. O problema da mediunidade animal apareceu no tempo de Kardec e foi objeto de estudos e debates na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. (VII) A vaidade humana tem sido fator decisivo para a intro- dução de práticas no meio espírita. consideraram o animal como o último elo da cadeia evolutiva que se encerra no homem. portanto. sem uma análise racional. e esta se constituindo em fator fundamental para o diagnóstico da doença e a definição do tratamento a ser seguido. Os ani- mais são os nossos irmãos mais próximos na escala ontológica. Depois da Humanidade inicia-se um novo ciclo de evolução com a Angelitude. que no Judaísmo. uma temeridade confiar-se na vidência para estabelecer novos princípios ou sistemas de prática espírita. o que é comum acontecer com os místicos. É. Não só Darwin. como Roussel Wallace. Kardec é Razão cas. Tanto os Espíritos quanto Kardec e a Sociedade conside- raram o assunto como sem fundamento.
alguns estudiosos. A impossibilidade de utilizá-los para estabelecer qualquer tipo de comunicação com os homens significa impedimen- to definitivo para a existência da mediunidade nos animais. 93 . (VII) O professor é aqui claro quanto incisivo: a mediunidade animal foi considerada pelo codificador e outros es- tudiosos. mas não podemos nos enganar em relação à distância em que se encontram da evolução do homem. Os espíritas estudiosos entendem as informações sobre o assunto dadas pelos Espí- ritos Superiores e referendadas por Kardec. também. mas não mediúnicos. estabelecendo confusões em lugar de esclarecer o assunto. foi. pode ser comparada à distância entre o homem e Deus. não cabendo considerá-los médiuns. A distância entre o animal e o homem. analisada pelos Espíritos e a conclu- são é de que os animais não podem ser intermediários de Espíritos. segundo Kardec. Do fato de possuírem um princípio espiritual em evolução e mesmo considerando que eles são o elo mais próximo do homem. não se pode concluir que estejam próximos do Espírito que hoje somos. por razões particulares insistem em tentar fa- zer crer na mediunidade animal. Sabe-se que mediunidade só existe quando existe Espírito comunicante. Infelizmente. deixando claro que pode haver entre os animais fenômenos psíquicos. (VII) Mesmo entre os espíritas existem aqueles que desejam atribuir aos animais uma importância maior do que real- mente têm. Tudo se encadeia no Universo. como acentuou Kardec. não raro por questões sentimentais que resul- tam de suas ligações pessoais com os bichinhos. Podemos e devemos ter bons sentimentos para com os animais. Não há descontinuidade na evolução. junto a vários espíritas sentimentais. Wilson Garcia sa.
primiti- vas. a vidência poderia ser para 94 . mesmo que isso represente um certo desconforto psicológico. uma vez que não merece uma discussão interminável. que representa uma fase decisiva da evolução dos seres. Como esse meio de pesquisa é sujeito a muitas imprecisões e interpretações errôneas. de que a distância entre o homem e o animal é imensa. (X) O raciocínio do professor encontra na lógica do proble- ma da vidência a solução para a questão dos elementais. inclusive. OS ELEMENTAIS Doutrinas de elevado teor cultural. que a passagem de um princípio espiritual da escala inferior para a hominal se- quer se realiza na Terra. colocar os gnomos. de certa forma. entre os quais podemos. portanto. como as do sincretismo religioso afro-brasilei- ro dão grande ênfase a esse campo de manifesta- ções primárias. Não há prova científica de sua existência. Hoje não se fala mais em médiuns inertes. que só pode ser pesquisado através da vidência. o que é de suma im- portância e a pesquisa neste campo. pede muita prudência. Kardec é Razão A Doutrina chega a afirmar. sendo feita através da vidência. também. (VII) É preciso. como a Teosofia de Olcot e Blavatsky e religiões mágicas. mas ain- da se insiste no engano da mediunidade animal. o Espiritismo se interessa mais pelas manifestações de espíritos adultos. Houvesse o fenômeno sido comprovado por outros meios. aqui destacada por Herculano. pois nestes encontra mais se- gurança e possibilidades de confirmação dos fatos. fortalece a assertiva de Kardec. sepultar o assunto. bem como maior proveito para a humanidade. o que.
amigo de Kant e foi um precursor do Espiritismo. (IX) 95 . na Suécia. (VII) Não sendo médium ostensivo. MÉDIUM GERAL Para se compreender melhor a razão pela qual Kardec não teve um mediunato. basta lembrar o caso de Swedenborg. a escrever. rever e corrigir muitas informações. e de Andrew Jak- son Davis. CURAS E OBSESSÃO No centro espírita. permanecendo com os pés no chão e examinando todas as manifestações espirituais com o mais rigoroso critério cientifico. como dizia Descartes. O segundo era também vidente e lançou uma série de livros em que o fantástico supera as possibilidades do real. antes de dá-las à publicação. fascinado pela realidade invisível. Kardec foi. Wilson Garcia a existência dos elementais um referendo. dotado de extraordinária vidência. Kardec pôde realizar seu trabalho com firme- za porque não quis ser mais do que homem. nos Estados Unidos. que o inspiraram e levaram. um médium na generalidade e. especialmente em casos de grandes missões. pôde realizar grande parte de seu trabalho sob a supervisão dos Espíritos. O primeiro era um dos maiores sábios do século XVIII. mas não pode ela ser o único meio utilizado para comprovação. e acabou criando uma seita eivada de absurdos. como qualquer pessoa. perdeu-se nas próprias visões. Mas. a que Herculano classifica de mediunato. contou com a proteção natural contra os possíveis desvios que uma me- diunidade ostensiva apresenta. portanto. Dispondo apenas dessa forma de mediunidade. assim. KARDEC. o problema das curas não pode restringir-se a tentativas ocasionais ou aleatórias.
não acabado. Mas é preciso dar-lhe razão. es- pecialmente quando analisamos o desenvolvimento do seu raciocínio. (VII) 96 . As vistas do pensador se voltam. Desse ponto de vista. “tentativas ocasionais ou aleatórias” compreendem. Herculano pode parecer pretensioso. Demeure. conquanto ele próprio também evolua. ao fa- lar de Medicina Espírita. portanto. contudo. ao qual há de ser acrescido todo novo conhecimento e do qual os homens podem retirar en- sinamentos importantes. com segurança: não basta curar o mal físico. As- sim. (VII) Para alguns. de fato. portanto. oferecendo-lhes as condições necessárias de equilíbrio. para ver outros detalhes da questão. na segunda metade do século passado. afirmando: A Medicina Espírita é um processo em desenvolvi- mento. Mas o bom-senso nos leva a pensar mais adian- te. o primeiro é visto na sua condição cósmica e o se- gundo na sua condição de lugar da evolução. Herculano está. preocupado com o Ser no Mundo e. entre si. o professor vai abordar a questão do ponto de vista da Medicina Espírita. Poder-se-ia dizer. para a unidade que o Universo e o Ser constituem. O Ser e o Mundo guardam. uma relação profunda. Começou com Kardec e o Dr. Kardec é Razão O que seriam tentativas ocasionais ou aleatórias. Prossegue: A Medicina Espírita é uma decorrência natural da natureza e das finalidades do Espiritismo. em Paris. Desde já. é preciso encarar o Espírito e o Mundo. a ausência de uma ação in- tegrada. para o professor? O cerne da questão poderia estar no termo “ten- tativas”. que leva em consideração o homem total. enqua- drando-o nas largas faixas de orientação que o Espiritismo oferece. destaque-se a sua afirmação de que esta medicina é um “processo em desenvolvimen- to”. ou o Ser e o Universo. portanto. acima de tudo.
Mas o Espiritismo tem um objetivo a cumprir e esse objetivo toca de perto todos os problemas humanos. um auxiliar dos profissionais sérios no plano da consciência. que é pontual e atua em situações objetivas. nem uma forma de curandeirismo. o que implica desvendar seus males e curá- -los. Wilson Garcia É como se o professor dissesse: não se pode estudar o Espiritismo sem perceber que a da doutrina conduz. Como reforço. no campo da cultura para tornar os homens agentes de seu equilíbrio orgânico-psíquico. Mas o Espiritismo não se limita a ações pontuais. e dos princípios que levam a orientá-lo ao progresso. apenas e tão somente como uma decorrência da mediunidade curadora. O ato de curar um mal físico ou espiritual pode parecer importante e o é. apenas. Além do mais. por tudo isso. e preten- de. natu- ralmente. ainda. inclusive o da saúde. a Medi- cina Espírita não pode ser vista. o Espiritismo sem a Medicina fica enfraquecido diante da realidade atual do mundo. dirá: Medicina Espírita não é uma aplicação pura e sim- ples da mediunidade curadora a casos de doenças incuráveis. já explica que o Espiritismo não tende a fazer concorrência com os profissionais da Medicina. E mais. É o que Kardec chamava uma aplicação dos princípios espíritas no plano cultural. sem o Espiritismo. enfatiza Herculano: 97 . à visão do homem integral. de fato. Equivaleria dizer: a Medicina. é im- potente para conter e solucionar todos os problemas de saú- de. isto sim. (VII) O pensamento aparece aí com todo o seu conteúdo. ocupar o espaço que de direito tem. das causas e efeitos de tudo que o envolve. cla- reza e lógica. por si só. Isso. Pretende ser. nem ofuscar-lhes o trabalho. E preciso considerar com atenção a “aplicação dos princípios espíritas no plano cul- tural”.
refere-se à “convicção firme” e à “fideli- dade à obra de Kardec”. o Espiritismo busca a transcendência do Ser e. que o professor é aí sábio. de tal forma que toma como ofensa qual- 98 . quanto mais aos outros. Absolutamente! A sua doutrina. assim. e por- tanto torná-lo equilibrado. de modo que lhe resta fazer uso desses instrumentos. Seria erro imaginar que o Espiritismo buscou o campo da cura para se promover ou para fazer frente aos seus opositores. incorpora as funções educativas e curadoras. deve retirar os ingredientes para uso. observe-se. lógico. para tornar esse movimento coerente com os princípios que defende. (X) O Centro Espírita surge. Uma complementa a outra. como o point importan- te da aplicação da terapia espírita. Para o professor. do movimento espírita. da mesma te- rapia que oferece ao homem. Pode parecer uma metáfora a aplicação da terapia espírita ao movimento. Mui- ta gente boa entende ter sua convicção doutrinária extre- mamente firme. E. Sem uma base de convicção firme e de lealdade à obra de Kardec não poderemos curar- -nos a nós mesmos. o preparo do homem integral começa em casa: A terapia espírita não terá eficácia se não puder- mos aplicá-la a nós mesmos e ao nosso movimento doutrinário. no plano individual dos dirigentes e trabalhadores e. Kardec é Razão Curar e educar são funções conjugadas do homem na luta pela sua transcendência. no plano coletivo. dispõe de ins- trumentos para ambas as funções. contudo. contudo. abrangente. sob pena de ver reduzido o seu campo de abrangência. (X) Ora. são os mesmos de que devem se servir os que compõem o movimento espírita. por- tanto. O professor. Não se sinta o aluno agredido com a severidade do professor. porque os princípios que vão formar a base cultural do homem.
fidelidade que ele. espera que junte-se à convicção uma irredutível fidelidade ao Co- dificador. O conhecimento do encadeamento do Universo é que permite ao Espiritismo desenvolver uma terapêutica eficaz e alcançar resultados que surpreendem à medicina e à edu- cação. Abaixo o milagre. Des- sa maneira. diz da fé raciocinada. Enfim. Essa estrutura inimaginável encerra tudo em si mesma e por isso todos os recursos de que necessita estão nela mes- ma. A terapêutica espírita se funda na concepção do Universo como estrutura unitária e infinita. professor. verdadeiramente extensa. que explica o Universo e o Ser. Wilson Garcia quer referência que levante dúvidas sobre ela. E al- meja. Naqueles em que ela de fato se encontra enraizada. (X) Eis o que o Espiritismo faz: conhecer o Universo. como ensina Kardec. desco- brir o encadeamento das coisas e daí retirar o que é preciso para o equilíbrio do Ser e. Como o Univer- so. Essa reação costuma ser a prova da fraqueza dessa convicção. a Doutrina Espírita tem uma “estrutura unitária e infi- nita”. que esse exemplo sirva ao aluno. o pensamento do professor: refere-se ele ao conhecimento racional do Espiritismo quando indica a convicção. remete-se ao entendimento dos objetivos do Espiritismo. não será qual- quer brisa de primavera que irá balançá-la. exemplifica em seu postulado de educador. por consequência. Note. consciente de que toda a bagagem cultural que adquiriu. Caminha o homem para o momento em que se torna causa de seus males e agente da cura deles. não é con- tudo suficiente para desejar superar o mestre Kardec. no enca- 99 . pois. O Centro Espírita tem o dever de procurar. salve a Razão e o conheci- mento. há uma constante relação de todas as coisas e todos os seres no Universo. contudo. as fantasias. da sociedade. Tudo se encadeia no Universo.
das condições que cercam o proces- so assistencial do Centro Espírita. se a doença ou deficiência que sofremos for em si mesma o remédio de que de fato precisamos. das leis que governam a vida. passa a figurar como o remédio a continuar a ser aplicado. não se obtém o resultado desejado. por mais abnegados no tocante ao próximo. elas também se mantêm dispersas impedindo essa mesma cura. também. A cura espírita não se efetua. mas au- sência de condições para obtê-lo. Para que o aluno possa compreender bem essa questão. segundo o professor. pois. durante o qual provoca reações no Espírito e reper- cute na sociedade. (IX) A convicção firme é responsável pelo entendimento. no qual é o Ser uma de suas partes fundamentais. quando não. a síntese da Doutrina Espírita. não significa simplesmente o império do mérito ou do demérito. o professor formula 100 . Aquilo que parece solução aos olhos humanos poderá ser mera falta de condições para se juntar os fatores necessários. Todos os recursos para os serviços precisam estar disponí- veis na estrutura do Centro Espírita. aos olhos do Universo. Quan- do. ou seja. Kardec é Razão deamento dos seus serviços à coletividade. assim. A doença tem seu ciclo normal. A visão macro do Uni- verso fornece as bases para a compreensão dos resultados possíveis numa atividade curativa. inter-relacionar os seus setores para que haja aí. por mais dedicados que sejamos ao Espiritismo. vai entender que a terapêutica espírita consegue eficácia indiscutível quando o dirigente desenvolve e emprega uma visão cientifica do Espiritismo. que outra não é senão esta que abarca o encadeamento do Universo. Com isso. está ela em condições de ser eliminada. que deve ser. Quando este ciclo se completa. Da mesma forma que as condições se juntam para favorecer a cura. a síntese da dou- trina que pratica.
sem a presença do médium. As chamadas operações espirituais (hoje pa- ranormais) podem realizar-se por intervenção do médium. Herculano foi um exemplo também nesse terreno. 5. A eficácia do passe depende da boa vontade do médium. respostas prontas. o professor mergulhou no seu estudo e compreendeu o va- lor e a independência dos Espíritos em relação ao homem 101 . dominado pelo espírito que dele se serve por influenciação mediúnica no transe hipnótico. têm leva- do à criação de lugares-comuns. em conjugação com as energias espirituais dos espíritos terapeutas. Enquanto muitos preferiram se indispor com os fenômenos que pareciam extravagantes. A ação curadora dos espíritos não é mágica nem milagrosa. 6. por via da ignorância. A renovação de energias depende da ação con- jugada dos espíritos terapeutas com o médium curador. 3. 4. a eficácia depende das condições psicofísicas do doente.. ao estudar a mediunidade sem ne- nhum tipo de constrangimento ou de obstáculo proveniente de sua carga cultural anterior. especialmente no cam- po da fenomenologia mediúnica. que dificultam a compreensão humana em lugar de auxiliá-la. sínteses mal elaboradas. Nos casos de cura à distância.. Wilson Garcia um quadro com alguns princípios que devem ser observa- dos na terapêutica espírita: 1. 2. que resultam do estudo incompleto. A cura das doenças depende da ação natural das energias conjugadas do homem e da Terra. as quais. Mas o professor deixa nas entrelinhas margem para o combate a certas atitudes preconceituosas. (X) Tem o professor em mente fazer refletir com bom-senso sobre questões que imperam nas atividades assistenciais do Centro Espírita.
fiel ao co- nhecimento kardeciano e desprovida dos preconceitos que costumam anular os seus melhores resultados. devido às características mesmas do fato. martírio e mediunidade”. generalizando-se como resposta para aqueles males cujo fim foi alcançado. Vemo-lo. ao receber uma cura nos consideramos premiados. que viu elevado à potência maior em Kardec. as- sim. E passou a ser 14 Leia-se. O professor sempre entendeu que os fatos estão acima dos homens e das teorias que estes querem aplicar à sua inter- pretação. o simplismo das sínteses. vida. a esse respeito. Herculano procedeu segundo esse exemplo. (IX) O mérito é um dentre os muito lugares-comuns estabe- lecidos no meio espírita. no campo da cura. Fala-se muito em méritos e recompensas. mas importantes para evitar confusões e evitar. Kardec é Razão e sua mania de impor condições para aceitação dos fatos14. 102 . O campo da cura é o setor da mediunidade onde estas situações mais ocorrem. Para Deus e portanto para os Espíritos Superiores. Daí o seu empenho em fazer com que as lideranças espíritas entendam a neces- sidade da prática mediúnica no Centro Espírita. descendo aos detalhes aparentemente desnecessários. A questão de méritos é nossa e como somos sempre demasiado generosos em nosso autojulgamento. a doença é cura de nossas imperfeições e a cura é que nos pre- dispõe para as provas que ainda teremos de enfren- tar. também. em que Herculano estuda e defende aquele que foi um dos maiores fenômenos mediúnicos brasileiros. o livro “Arigó. mas não se trata disso na questão das curas. Jesus surpreendeu com seus recursos de cura e carreou contra si o furor daqueles que não compre- enderam o seu procedimento. mas não se vergou ante os mesmos.
a natureza emprega ações que o Ser denomina males. A palavra mérito não é a que melhor se encaixa quando se pensa em termos de conjugação de fatores que permitem a cura. a doença passa a ser o agente da melhoria. portanto. que os levariam a tentar eliminar todas as dores. da cura do Ser em seus estados dese- quilibrados. para o pro- fessor. embora para nós dolorosos. Não existem discriminações injustas no tocante às possibilidades de intercâmbio espiritual. Isso causa espécie a pessoas ainda impregnadas de antigos preconceitos. Dentro do processo de condução do Ser ao seu aperfeiçoamento. de uma conclusão apressada da explicação dos Es- píritos sobre méritos e recompensas. contribui para a conjugação desses fatores. valendo o mesmo para o contrá- rio. Wilson Garcia explicação para os que não se obtém. quando necessários ao nosso progresso. ao empregar uma série de ações positivas. veem-nos com os olhos da sabedoria. vista pelo ângulo do caminho para o progresso. Trata-se. termo que no Espiri- tismo sintetiza conhecimento e razão. com o demérito. doenças. O ponto verdadeiramente ideal do mérito aparece quando o termo conduz o ser a compreender que. porque se refletem nele pelo sofrimento físico ou moral. “Como podem esses espíritos primários ainda apegados à era do barro – dizia- -nos famoso jornalista – manifestarem-se como orientadores e terapeutas num meio de civilização superior?” Acontece que a população espiritual da Terra é semelhante à sua população encarnada. O que vale 103 . não raro intervindo nos processos de cura. As manifestações de espíritos de negros e índios são comuns. assim como a palavra demérito também não é a ideal para a explicação dos fatos quando esses fatores permanecem dispersos e a cura não ocorre. O professor anota que os Espíritos Superiores não olham para o homem com a piedade simplista. No entanto. pelo contrário. não se intrometendo nos processos naturais.
chamando a atenção dos centros espíritas para a necessidade de oferecer esse serviço à população. esse preconceito é ainda forte em muitos lugares. tentou-se e ainda se tenta eliminar das mesas mediúnicas a presença de Espíritos de negros e índios. que se manifesta como tal poderia também manifestar-se apenas como espírito ou até mesmo como espírito de uma encarnação de amarelo ou de branco por que já passara. (X) Bem o disse Kardec. Apesar de tudo. o mestre. De fato. em suas obras psicogra- fadas por Chico Xavier. O professor destaca a sua importância. arguto. Um negro velho. (IX) A obsessão é um processo doentio da alma. perfeitamente explicado por Her- culano. O fato. o seu remédio. O estado de confusão a que chegou a Psicoterapêu- tica em nossos dias. A desobsessão se enquadra na mediunidade de cura. A parte mais importante e necessária das ativida- des mediúnicas. mormente em nossos dias. faz ver que esse mesmo comportamento não se apresenta quando se trata de um branco ou amarelo que se manifesta. O processo da reencarnação elimi- na os motivos dos preconceitos terrenos. tem sido a razão para a cura de muitos males. O professor. e particularmente a Psiquiatria exige redobrado esforço dos centros no trabalho de doutrinação e de desobsessão. A desobses- são é o seu contraponto. Kardec é Razão no espírito não é sua qualificação social mas a sua condição moral. certa vez: o preconceito é um dos maiores entraves ao progresso humano. Trabalhar nesse setor é dever constante dos mé- diuns esclarecidos e dedicados ao bem do próximo. como também o demonstrou André Luiz. a ponto de levar dirigentes a proibirem terminantemente aos médiuns receberem tais Espíritos. E 104 . é preci- samente a da prática doutrinária da desobsessão. por preconceito.
sem dú- vida. Muita gente – per- cebeu Herculano – desenvolveu reações não condizentes com a realidade dos Espíritos e. uma vez que se dedica a resolver primeiro as doenças do corpo. Nada de ameaças e exprobrações violentas. gemem. Numa sessão de desobsessão para casos graves. Este será. aparentemente impassíveis e os doutrinadores usam de palavras persuasivas. com poucos elementos. como nas práticas antiquadas do exorcismo arcai- co. especialmente a Psiquiatria. único local capaz de amparar os doentes psicológicos obsidiados. sem preconceitos. o último reduto que a ciência de fato vai penetrar um dia. choro e gritos numa sessão de deso- bsessão. as comunicações são violentas. mas por caminhos outros e indiretos. dos 105 . passou a determinar condutas para os médiuns que se traduziram em obstáculo ao seu de- senvolvimento. os médiuns sofrem. Qual é o melhor comportamento. dentro do quadro dos desafios da natureza. As doenças psicológicas são ainda o maior desafio para a ciência. de atitudes benig- nas. Mas. mediante visão acanhada do comportamento deles. portanto. não raro. Pode-se ver em Herculano um esforço grande para demonstrar que o Centro Espírita se constitui. sem a assistência numero- sa do socorro geral. neste caso. O dirigente e os doutrinadores permanecem tranqui- los. da Mesopotâ- mia. no principal e. gritam e choram. que a elas chegará. vindo das profundezas do Egito. tende a trazer benefícios para ambos os lados da vida. da Palestina. É normal acontecer de Espíritos muito ape- gados à Terra conduzirem os médiuns a atitudes violentas e reações de gemidos. Wilson Garcia mostra que sua importância cresce na medida em que au- menta “o estado de confusão” das terapêuticas psicológicas. (VII) A atividade mediúnica. na atualidade. se o dirigente não entender essa importância não terá o do- ente onde buscar auxílio.
Kardec é Razão dirigentes e doutrinadores? Condenarem o médium? Exigi- rem dele silêncio e educação formal? Proibirem-no de dar passividade? Não. Trata-se de uma ideia errônea. que mais não é do que esclarecimento aos Espíritos atrasados. Mas é pre- ciso compreender que em casos de obsessão grave (como o são os de subjugação. onde se tem oportunidade de resol- ver problemas de influência negativa nas ligações entre en- carnados e desencarnados. um controle exercido conscientemente pelo médium. especialmente por compreender que está diante de um ser humano. A experiência espírita confirma o acerto do atendi- mento terreno. em comportamento tranquilo dos dirigentes e doutrinadores diante desses ca- sos. Esta posição visa combater as falsas interpretações. Os exemplos de resultados positivos da doutri- 106 . fascinação e possessão) exigir uma manifestação tranquila é não perceber a realidade do Espí- rito obsessor bem como a realidade do médium como seu intérprete. precisam de as- sistência mediúnica para se livrarem desse apego. que se torna ainda mais absurda quando amparadas por argumentos se- gundo os quais esse trabalho fica melhor para os Espíritos Superiores. também preconceituosas. mas ainda muito apega- dos às condições da vida material. não é preciso que o Espírito leve o médium a comportamento extravagante. demonstrando cientificamente que espíritos desencarnados. absolutamente! Pode haver. de que a doutrinação realizada por encarnados não tem efeito sobre os Espíritos. de fato. portanto. direcio- nando a manifestação aos limites do tolerável. típico do mediunismo primitivo. quanto à desobsessão. chamando a atenção para a ação persuasiva que o dou- trinador deve exercer. (IX) Herculano se refere tanto à prática da doutrinação. O professor fala. ou seja.
As grandes instituições espíritas brasileiras e as federações estaduais investem-se por vontade pró- pria de autoridade que não possuem nem podem possuir. O processo será longo. não porque não faça parte das instituições. CENTROS. em trabalho dessa natureza. Essa postura vai lhe render anos de combate e solidão. sob o prejuízo de uma imagem que dele vão difundir. marcadas que estão por desvios doutriná- rios graves. FEDERATIVAS E MOVIMENTO ESPÍRITA Em se tratando de instituições. A maioria das institui- ções federativas surgiram de ações de homens isolados de seus centros. sendo-lhes mais fácil perceber sua situação quando em contato com os humanos encarnados. contudo. Wilson Garcia nação se multiplicam ao extremo. levando-os à li- bertação de seus estados psicológicos. (IX) Herculano parte de uma análise histórica para entender a realidade do movimento espírita. que não corresponde à sua grandeza. O dilema existe! Os homens deverão resolvê-lo. Tudo porque esses Espíritos se acham mais próximos dos encarnados que dos Espíritos Superiores em suas condições psicológicas e ener- géticas. André Luiz. mostra como a ação de um encarnado. o professor assume a postura de quem percebe o grave di- lema dos homens ante o poder. costuma abreviar os sofrimentos de Espíritos “apegados às condições de vida material”. como maldosamente chegou-se a insinuar um 107 . por exemplo. no movimento espírita. que se juntaram e decidiram que poderiam fazer funcionar uma instituição capaz de orientar os cen- tros espíritas e o movimento como um todo. O professor não aceita essa “autoridade”.
o que é e o que não é bom para o movimento. violando os princí- pios doutrinários de liberdade e autodeterminação. Consequentemente. Uma Federação é uma espécie de catedral e um Centro Espírita é uma igre- ja. E retiraram da fornalha do passado as cinzas da herança divina. precisamente porque entendeu os princípios de liberdade que emanam da Doutrina Espírita. são lugares sagrados em que pontificam os expoentes da religião e de onde flui a Doutrina pura e sem mácula. O começo já se tornou discutível: homens deci- dindo. Corrói os princípios legítimos de liberdade para permitir a ocupação do espaço doutrinário por comportamentos intencionais de dominação. Vejamos o seu raciocínio: Cabe às instituições a representação da Doutrina no plano social. enquadrando-o nas exigências for- mais do sistema igrejeiro. No caso das federativas. A questão é moral! E abrange outros aspectos igualmente im- portantes. mais do que nenhu- ma outra doutrina. mas. neste pon- to – entende o professor – é altamente abrasiva. As práticas religiosas do Espiritis- mo levam o povo a considerá-lo como simplesmen- te uma religião. por serem incapazes de aplicarem o princípio da “su- perioridade moral irresistível”. A carga cultural. incompatíveis com essa autoridade. segundo suas concepções. na tentativa de justificar o man- do. mostra que as instituições humanas são absolutamente falhas. que lhe maculam a existência. sem o qual não existiria a responsabilidade própria das instituições menores. Os médiuns são ge- ralmente considerados como os sacerdotes do cul- to espírita e muitos deles se convencem disso com muito entusiasmo. As entidades federativas são as primeiras a se convencerem disso e passam 108 . como de resto notará o observador atento. O Espiritismo. seus “des- vios doutrinários” graves. Disso resulta um clima de sub- missão sagrada dos médiuns e dos Centros e gru- pos às Federações Espíritas. Kardec é Razão dia. Herculano notou.
para o professor. deformando-a a ponto de torná-la ridícula. Cabe aos médiuns a função de restabelecer o equilíbrio. radicam-se nele e produzem sérias lesões na estrutura equilibrada e lógica da doutri- na. especialmente o de supremacia de uma instituição sobre outra. inundam o meio espírita. entidades auxilia- res da difusão doutrinária e facilitadoras do intercâmbio de 109 . Não fala. só pode dar-se ao nível do respeito à liberdade e para fins de troca de experiências. Wilson Garcia a dominar o meio doutrinário. não abre mão da “liberdade e autodetermi- nação'' dos pequenos e grandes grupos espíritas. ainda. Além disso. não com- preenderam. As relações mediúnicas entre a entidade federativa. como ele valoriza a troca de experiências. (VII) Toda a argumentação do professor se dá em cima dos fa- tos. A unificação. atra- vés das manifestações dos espíritos orientadores. destacando a mediocridade. As Federativas. permite reviver comportamentos que se mostraram altamente noci- vos no passado. os centros e grupos. Mas o clima estabelecido. para Herculano. do médium isolado. E por causa mesmo do bom-senso. A falibilidade dos homens pode levar uma Federação a cometer desli- zes doutrinários graves ou a endossar mistificações evidentes que. cria bar- reiras ao dever de espíritos e médiuns. pois. implica em perda de respeito e perda de liberdade. contudo. Qualquer manifestação mediúnica discordante da orientação federativa é considerada como mistificação. Sabe ele que qualquer outro sentimento. o papel que lhes cabe e a forma como devem agir. por exemplo. por conta de sentimen- tos contrários à lógica e ao bom-senso. em linhas anteriores. por ver aí a única maneira de seus líderes e trabalhadores alcançarem um grau de responsabilidade inerente às suas atribuições. Dir-se-ia ser ele contra a Unificação tão procurada. e os próprios médiuns que nela trabalham ficam naturalmente abaladas. simplesmente. Viu- -se. sendo conflitivo. deveriam ser. sob o prestígio federativo.
em primeiro lugar. Antes de se defender contra a reação natural do mundo moderno aos seus princípios renovadores. inclusive. dentro do próprio movimento espírita. O Centro Espírita se entranha naturalmente na co- munidade. Extra- polando esse limite. seja porque cometem ou endossam equívocos doutrinários. para o pla- no da estrutura do movimento. Mas não se contentam elas com isso. é parte dela. portanto. Isso desencadeia confusões nos frequentadores. seja porque o sentido de poder as domina. um órgão ativo e operante da estrutura social. A grande batalha do Espiritismo contra os precon- ceitos tem de ser travada. que passam a desenvolver uma relação com o Centro na base dos aspectos formais. desempenha papel contrário à difusão de uma consciência doutrinária mais abrangente. acabam por contribuir para uma visão social deformada do Espiritismo. procurando ele- var os seus adeptos à verdadeira compreensão da doutrina. como a que é estabelecida pela sociedade em relação ao centro e federativas. Kardec é Razão experiências. também. Uma estrutura de poder que fere os mais elementares princípios da liberdade emite si- nais de fraqueza doutrinária. o Espi- ritismo precisa enfrentar essa defesa no âmbito in- terno do movimento doutrinário. 110 . A visão de uma re- ligião formal. (XV) Compreensão que deve transpor-se. das instituições federati- vas e da própria imagem do Espiritismo. (IX) É importante destacar o aspecto social do Centro Espíri- ta na constituição do movimento. embora se saiba que esta não é a verdade.
na qual a caridade é a expressão maior. que se resumem no amor verdadeiro.. dar esmolas ou construir abrigos. contudo. mas nunca deve ser motivo de orgulho e vaidade. mas da efusão natural e pura do amor. têm uma grande parce- la de responsabilidade na fixação do Espiritismo em terras brasileiras. mas como bom professor Herculano a ela se refere para chamar a atenção. como de fato se apresen- ta. hospitais são formas efe- tivas da caridade que enobrece quem a pratica. O misticismo e o 111 . Mas. não dizemos que ele nasceu da esmola.) Ao dizer que o Espiritismo nasceu da Caridade. (XII) A questão parece lógica e clara. muitos se esquecem do verdadeiro sentimento que deve conter todo ato nobre e da pureza de intenções que deve permear a mais proveitosa caridade. que constituem suas formas subjetivas. entendermos o verdadeiro sentido da palavra Caridade. com o recurso didático da repetição para facilitar o aprendizado. Distribuir recursos aos pobres. leva naturalmente à prática da solidariedade. como parte da carida- de praticada pelo Centro Espírita.. Toda obra. Afinal. asilos. feita em nome desta dou- trina e sob o rótulo da caridade precisa conter em si os ele- mentos básicos desta. As obras sociais. para bem compreendermos esse fato é necessário. (XIII) Uma doutrina que prega o amor e oferece o conhecimen- to capaz de entendê-lo consoante a proposta do Cristo. Porque as formas objetivas são meios de conduzir nosso espírito às manifestações mais puras da ca- ridade. primeiro. Wilson Garcia A QUESTÃO DA CARIDADE NO CENTRO ESPÍRITA O Espiritismo nasceu da Caridade e nela e por ela se desenvolve. (. apesar dessas constantes re- petições.
(XIII) Apresenta o professor três condições entre as várias que devem acompanhar todo ato caridoso. ao mesmo tempo que aceleram o desenvolvimento moral e espiritual da Humanidade. Se quisermos. pois. Kardec é Razão sentimentalismo têm sido. Os serviços de assistência ao próximo só podem re- tardar o avanço da violência. (IX) Assim. constituem a contribuição espí- rita para o desenvolvimento de nova mentalidade social em nosso mundo egoísta. que o Espiritismo se desenvolva através da caridade. insistir na necessidade da caridade. Por quê? Com cer- teza por causa de sua ausência em muitos casos e da ilusão de que a caridade é a esmola. prestados pelos centros espíritas. Não basta. único meio pelo qual realmen- te pode desenvolver-se. ou seja. (IX) 112 . além dos resultados que a prática da caridade pura por si só apresenta. pois. muitas vezes. objetivamente. se pode auferir de sua realidade e dos sentimentos que a envolve. visar a renovação dessa mentali- dade social. as obras que em seu nome são fei- tas pelos espíritas devem se constituir em modelo de verda- deira obra social. benevolência. indul- gência e perdão. antes de mais nada. mas é preciso fazer notar o que ela significa e como. O “amar ao próximo como a si mesmo” parece muito óbvio. Os serviços assistenciais à pobreza. mas é enganoso na medida em que se não estiver acompanhado dessas três condições estará sem base sólida. causa das piores ações sob o manto da caridade. não esqueçamos que cari- dade é.
O espírita. os cambistas da ca- ridade fácil e supostamente rendosa. (X) CIDADANIA E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA Os espíritas são cidadãos como os demais e têm di- reitos e deveres no plano político. Antes. (IX) Temos aí dois pontos altamente problemáticos e que ge- ram intensas confusões. que punham suas fortunas ao serviço da coletividade. antes de mais nada. deve se lembrar de que outras formas de carida- de existem com a mesma importância das obras sociais. O primeiro diz respeito à necessi- dade que todo espírita tem de compreender que é. por exemplo. mas tão urgente quanto. São os novos vendilhões do Templo. A Ciência Espírita necessita de escolas. como se observa a seguir. um cidadão e que a Doutrina não tem nenhum interesse em fazê-lo ausentar-se de suas responsabilidades como tal. Desapareceram do mundo os antigos mecenas. Não jogam com a caridade. A cultura. a doutrina bem esclarecida pelo Centro Es- pírita leva a valorizar a participação do cidadão no mundo. Muitos preferem socorrer os pobres com suas mi- galhas de sopas e assistências precárias. mas com os cálculos de juros que não existem no Além. de Universi- dades. tão desprezada em nossos meios. Wilson Garcia Herculano quer. mas não têm o direito de envolver uma instituição doutrinária nas disputas eleitorais. julgando que assim aumentam seu crédito nos Bancos da Eternidade. ainda. Em segundo lugar destaca o professor a imperiosa necessi- dade de não envolver o Centro Espírita com partidos polí- 113 . Chegarão ao Além de mãos vazias e manchadas pelas nódoas da ambição desmedida e da insensibilidade moral. espe- cialmente. destacar a ideia de que caridade não é só auxílio material à fome e à sede. de bibliografias especializadas.
(IX) 114 . O Espiritismo e por consequência o espírita ver- dadeiramente esclarecido pensa ao contrário dos místicos aferrados a dogmas. como muitas vezes ocorre. (IX) O professor coloca o assunto em termos objetivos. O espírita não é nem pode ser avesso aos interes- ses públicos. que pretendem separar os cidadãos do mundo. com o seu comportamento. Ou seja. por extensão. chama- do ou convocado para funções administrativas em áreas do Estado. mas não deve arriscar-se aos azares da política se não estiver impregnado até à medula do firme propósito de resistir a todas as fascinações do cargo que vai exercer e solidamente esteado nos princípios da doutrina. mas lhe cabe a formação espiri- tual dos homens para que exerçam. Kardec é Razão ticos e. como cidadãos. A função política do Espiritismo existe. Não lhe cabe nenhum lugar nas disputas de cargos políticos. quando levado pelas circunstâncias. para modifi- car. com sua ação. influência benéfica na solução dos problemas polí- ticos. mos- trando claramente que a consciência do indivíduo enquanto cidadão é importante para o Centro Espírita tanto quanto para a sociedade da qual faz parte. mas noutro sentido. o Espiritismo quer ajudar a desenvolver cidadãos qualificados e capazes de influir na sociedade em todas as suas áreas. como se fosse por si mesmo uma imo- ralidade. com compromissos com políticos in- teressados no voto do espírita. É preciso não fazer essas confusões. através do bom-senso e da retidão da consci- ência. como se o homem pudesse realizar-se e evoluir fora do contexto em que reencarnou. a consciência do mundo. Não se depreenda daí que o assunto política e eleições sejam proibidos no centro.
O modelo substitui a razão e reduz a obrigação de pensar. Segundo Kardec. portanto. ao máximo. mas vários. assim. A princi- pal delas talvez seja: o Espiritismo objetiva a reforma moral do homem. redu- zem à leitura desordenada e até mesmo ocasional das obras básicas. da aplicação dos princípios doutrinários à vida prática – reside na falta de compreensão dos objetivos da doutrina. mas o mais avançado corpo de conhecimentos para a cultura de hoje. (XV) A pergunta: quais são os objetivos do Espiritismo? insti- gou muitas respostas simplistas. À maneira do Cristianismo. O Espiritismo é uma doutrina do futuro. de um lado. também. se tornaram lugar comum. limitar-se a um ou a alguns objetivos. mas da vivência espírita. Wilson Garcia CONHECENDO OS FINS PARA ENTENDER OS MEIOS E AS PRÁTICAS O conhecimento das finalidades do Espiritismo surgiu. Em vista disso: Uma das maiores dificuldades da prática do Espiri- tismo – não da prática de sessões. como o caminho principal para uma práti- ca sadia e fiel. portanto. Não é ele a respos- ta completa. inadvertidamente. estabelecida após experiências científicas comprobatórias. O Ser. enfrentan- do a incompreensão de adeptos e não-adeptos. que muitos. para Herculano. A chave. Sempre que se criam conceitos modelares ten- de-se a banalizar. de outro. abre caminho no mundo. e provocar apatia. a Kardec. que se disseminaram pelo movimento e. para a “compreensão dos objetivos” se encontra no conhe- cimento da doutrina. o Espiritismo não possui um só objetivo. incorpora o modelo e se dispensa do bom-senso diante das situações em que vive. (VIII) 115 . Na verdade. Não pode. a doutrina possui uma filosofia de consequências morais.
mas afeta sobretudo os próprios adeptos. uma vez que depende delas o esforço para fazer com que o povo se aproxime o máximo possível dessa consciência e para derrubar as bar- reiras dos preconceitos. ao desenvolvimento de uma consciência indi- vidual e coletiva. Herculano desnuda aí uma outra realidade: as próprias lideranças têm dificuldades de compreender os objetivos doutrinários. de aplicar seus princípios convenientemente em seu presente no mundo. neste aspecto. os preconceitos culturais levantam numerosas objeções aos seus princípios. particularmente. preconceitu- osamente. os especialistas não admitem a sua na- tureza sintética. e de outro. A incompreensão afeta-a. Não se esgota ela com o findar de um milênio e começo de outro. Kardec é Razão O professor observa que a doutrina está mais para o fu- turo do que para o presente. ainda. realizando uma misce- lânea cultural. Em ambos os casos. porque agem às vezes. embora seja de se esperar que será complementada mais tarde. Às lideranças espíritas cabe. A doutrina avança neste terceiro milênio “enfrentando a incompreensão de adeptos e não-adeptos”. O pior. que a impulsiona. a maior parcela de responsabilidade. que acabam. De um lado. de outro. (VIII) A compreensão dos objetivos do Espiritismo leva. muitas vezes. o povo não pode abarcá-lo na sua tota- lidade. incorporando nela parcela maior ou menor de sua carga do passado e ficando impedidos. com correção. assim. não é o proceder com 116 . contentando-se com o seu aspecto religioso. Poderia ele dizer que o Espiri- tismo é uma doutrina do futuro tanto quanto é uma doutri- na para o futuro. também. porque tem ela uma força própria. inva- riavelmente. para o professor.
de um lado. A Doutrina Espírita é um chamado viril à dignida- de humana. O Catolicismo desejou tornar o mundo inteiro católico. O contato com a vida espiritual. portanto. Mas deu no que deu! A doutrina objetiva ter seus princípios conhecidos pela sociedade. oferecendo-lhe os princípios es- píritas tem sido. O mesmo vale para o problema do conhecimento doutrinário. mas criar a consciência de que o homem é construtor de seu destino imortal. promova sua própria regeneração. (IX) Atingimos um ponto fundamental do pensamento do professor. É a isso que se refere o professor quando fala em “realidade inte- gral da vida”. depois de nos havermos tornado homens. (III) Esclarecer as multidões. mas o não ter consciência da interferência do preconceito no proceder. obrigatoriamente. não é. tornar espírita. ambos conjugados em face das exigências da lei superior da evolução humana. o plano superior da Espiritua- lidade. à consciência do homem para deveres e compromissos no plano social e no plano espiritu- al. o que é um engano. através de uma consciência desenvolvida com liberdade. as portas de uma nova realidade e. a possibilidade de con- 117 . Wilson Garcia preconceito. Só nos aproximare- mos da Angelitude. mas esclarecer as multidões. Esclarecer. proporcionado ao homem pelo Espiritismo abriu. para alguns. de forma que a sociedade entenda a realidade do Ser no Mundo e. de outro. tornar espírita todos os indi- víduos. A missão do Espiritismo não é esclarecer alguns in- divíduos em meio às multidões. colo- car os homens diante da realidade integral da vida – para regenerá-los. alargar o conhecimento humano. não conseguiu quase nada no orien- te e alcançou certo sucesso no ocidente.
explica: Propagou-se no meio espírita. em concordância com a Doutrina Espírita. à maneira do homem comum. ao mesmo tempo em que recomenda àqueles que aspiram o plano superior. Para tanto. A figura do Espírito Superior surgiu. portanto. Mas o anjo da escala espírita não tem a ingenuidade nem a doçura superficial do anjo banalizado pelas religiões. nele. tendendo a um maso- quismo de cilícios e autopunições. como o da angelitude indicado pelo professor. não. não” do Cristo. Incorpora ele. que deixa claros os valores que adornam a personalidade do Espírito Superior. Voltamos assim ao sistema igrejeiro dos 118 . através de mensa- gens mediúnicas emotivas. traçan- do um perfil resumido do Espírito Superior para enfatizar que este não pode ser confundido com personalidades de discutível evolução. ante os interesses egoísticos ou grupais. Age. Herculano busca derrubar a falsa imagem que dele fizeram. Ao fazer a afirmação. dois pilares sobre os quais se sustenta. Herculano busca revisitar o tema. sim. valores estes sinteti- zados por Herculano na palavra “virilidade”. assim. de cuja concretização de- pende a evolução em direção aos planos superiores da espi- ritualidade. aponta para uma das ações do Espiritismo: “chamado viril à dignidade humana”. E para refor- çar o termo. Mas é prenhe de verdade. o “sim. Kardec é Razão clusões equivocadas. a estranha ideia de que a virilidade só pertence aos cultores da vio- lência. incorpo- rar o seu exemplo. Ao caracterizá-lo dessa forma. em todas as suas consequências. Não se fragiliza. A ver- dade e a justiça formam. A ex- pressão é forte e capaz de balançar as criaturas ainda presas àquela figura ingênua do anjo traçada pela religião formal. Herculano está enfatizando a responsabilidade do Ser perante os com- promissos sociais e espirituais. como aspiração para o saber em mais alta escala. mas ficou de certa forma desfigurada pela pressão da carga cultural religiosa.
assim. do seu “eu'' em tudo que toca. modificando-o para melhor. mas não simplesmente transformar. Wilson Garcia rebanhos de ovelhinhas inocentes devoradas por lobos famintos. que condicio- na o ser e o leva a adaptar-se aos novos valores. clareza de ideias. Sua finalidade. Linguagem elevada. especialmente nos textos elaborados pelos Espíritos Superiores. compromisso com a verdade e a justiça. Para alcançar os planos superiores o ser necessita adornar-se dessa virilida- de. E transformar para melhor compreende substituir valores. que é preciso transformar o mundo todo. que desemboca em tantas outras falsidades. é revolucionar o mundo inteiro. como os Espíritos Superiores disseram a Kardec. em “O Livro dos Espíritos” e demais obras da Codifi- cação. aqui explici- tada. o seu contrário é a ideia da ovelhinha. (IX) O professor mostra. Herculano alude à virilidade como algo próprio dos espíritos superiores. O seu contrário só pode ser alcançado com o emprego da razão. tais são as características dos seus ditados. sem qualquer possibilidade de de- fesa. quando o certo seria reformar a cultura com a substituição dos velhos valores pelos novos. Qualquer estudioso encontrará farta exemplificação da virilidade. de uma alteração 119 . nascida de uma concepção religiosa ultrapassada. Trata-se. modificar a cul- tura. a trans- formação precisa ser “para melhor”. O Espiritismo não é uma doutrina de passividade contemplativa. (IX) Sistema igrejeiro: carga cultural religiosa. franque- za de expressão. O modo de ser religioso e de praticar a religião são formas de expressão da cultura que valoriza a “passividade contemplativa”. portanto. Emmanuel fala de certa forma dessa condição humana ao dizer que o homem coloca de si. com forte presença na cultura ocidental.
estará agindo. porque imagina agir em favor de sua verdade. que: A nossa doutrina não é uma realidade. ergue-se como barreira ao novo. assim. O ser passivo aguarda a salvação. de morada). Quando o espírita se aferra a pontos de vista e posições extremadas. Vale acrescentar. Confundi-la com as estruturas peremptas deste momento de transição e querer sujeitá-la às normas e modelos do que já foi é tentar prendê-la no círculo vicioso dos abortos culturais. está. que de alguma maneira representa segurança. a cultura velha como patrimônio do ser e da sociedade. contribuindo para o “cír- 120 . Isso explica porque o professor aponta para o fato de o Espiritismo constituir-se num “vir-a-ser na rota das aspirações em demanda”. estejam ou não conscientes disso os indivíduos. entranhada nas estruturas atuais. Mas. É um arquétipo carregado de futuro. Kardec é Razão profunda (e temos de convir. com certeza. é compreensível que se estabele- çam conflitos culturais e os homens temam por aquelas nas quais estão inseridos. Nesta situação. um vir-a-ser que se projeta precisamente no que ainda não é. o ativo realiza a transformação. Mesmo entre aqueles que se colocam de acordo com a nova cultura haverá em- bates não menos fortes. na rota das aspirações em de- manda. num mundo de culturas múltiplas e variadas. sob a pressão da cul- tura velha. Esta luta se estabelece no campo da individualidade e das coletividades. que não cederá seu lugar com facilidade. As confusões entre a nova e a velha cultura se dão por força do arquétipo existente. O ser muitas vezes não se dá conta disso. (X) A situação se repete: a Doutrina Espírita é cultura com larga abrangência. de fato. no plano do confronto cultural. sempre que se colocar como obstáculo às ideias oriundas da interpretação da nova cultura.
. no particular. (X) A segunda frase é consistente: Kardec obteve. por seu es- forço e. A consciên- cia disso será sempre fundamental para que a nova cultura saia vencedora no plano geral. mas a Ciência Espírita (revelação hu- mana) foi obra de Kardec. pois elas correspondem à incultura da maioria. En- tão. Um deles pode ser visto assim: Não podemos adaptar o Espiritismo às exigências dos que negam a existência dos espíritos. exteriorizadas em formalidades e em ideias contraditórias. (X) 121 . Wilson Garcia culo vicioso dos abortos culturais”. aviltando o princípio inteligente e a razão nas correntes de Prometeu. claro. de outro lado. e pela sociedade. Por isso. Por sua vez. Não podemos combater as práticas sincréticas em si mesmas. os centros espíritas e demais instituições doutrinárias sofre- rão idêntico processo de pressão. Herculano dá exemplos disso. a comprovação da Doutrina. nas próprias contradições do Ser. Resultado: a cultura nova é uma realidade. acontecerá o que já é visível: conviverão os Centros onde a consciência de seus líderes alcançou um grau mínimo de compreensão dos objetivos do Espiritismo. A Revelação Espiritual veio pelo Espírito da Verdade. a luta se estabelece no cam- po individual e coletivo: o Ser será pressionado pela carga do passado. uma vez que refletem os desejos e ambições dos seres que a compõem. o de seus colaboradores.. ao lado de outros onde preva- lecem formas sincréticas. como poderemos conviver com adaptações e ajustes com a velha? Qualquer concessão aí será uma contribuição ao referido aborto. na direção de acomodações doutrinárias. interiormente. apegada ainda à placenta selvagem. mas podemos e temos de lutar pelo esclarecimento dou- trinário.
direta. Voltamos. a prevalência de uma cultura que o Espiritismo veio renovar. ou. em si mesma. se quisermos. para formação de uma consciência plena dos objetivos espíritas é a conscientização. assim. (XV) 122 . ao ponto inicial: A simplicidade do Espiritismo. que expressam a “incultura''. ela é. pois. decorre da afirmação positiva. Kardec é Razão O meio. franca. sem rodeios. da reali- dade dos fatos e da sua interpretação lógica. o instrumento de combate das “práticas sinc- réticas”. portanto. na base “do que eles são” e não “do que devem ou podem ser”.
é o da Religião. que passou a sofrer. como um sopro renovador dos ares asfixiantes que então predominavam. o protestante-espírita. Vimos como ele abordou o assunto quando se referia 123 . Teríamos. As religiões permanecem asfixiadas até hoje. o judeu-espírita e daí por diante. não se pode ne- gar. segundo Herculano Pires. o católico-espírita. imaginou a possibilidade dos princípios espíritas invadirem as cate- drais e os templos religiosos de forma geral. Wilson Garcia Capítulo 4 DO CENTRO DA NOVA REALIDADE BROTA A RELIGIÃO ESPÍRITA A renovação cultural conduzida pelo Espiritismo deve influenciar a cultura do mundo. devi- do às novas propostas que trazem. Mas logo Kardec aban- donou essa ideia. É verdade que Kardec. sem que fosse necessário alterar as designações religiosas. não só em decorrência dos ataques das religiões constituídas. especialmente nos primeiros anos da Doutrina. assim. como também pelo entendimento de que o Espiritismo teria de construir seu próprio caminho. Herculano trata a Religião como um setor importante da cultura. Um dos setores onde isso é mais visível. que não pode ser desprezado em nenhuma hipó- tese. Nele predominam características que sofrem imediata ação do pensamento dos Espíritos.
as duas pro- postas: a da religião tradicional e a da Religião Espirita. pois. este embate cultural será apenas retardado. Está exatamente aí a base para o entendimento de que a Religião Espírita tem uma proposta frontalmente contrária à cultu- ra religiosa atual. de acordo com a Codificação. Ou seja. A sequência do pensamento pode ficar assim: da Ciência Espírita resulta uma Filosofia. dessa Ciência resulta uma Filo- sofia e dessa Filosofia as consequências religiosas do Espiritismo. (IX) Dizer consequências religiosas é o mesmo que consequ- ências morais. na certeza de que. abandonar a velha. conseguirá o Ser assimilar a cultura espírita e. Põe ele em confronto. segun- do a proposta espírita. a Religião Espíri- 124 . se prevalecer a condenação da Religião Espírita. surge para o professor uma realidade que vem em reforço de seu pensamento em rela- ção à formação de uma consciência espírita profunda. especialmente no capítulo da Religião nas escolas. Do fato de ser o Espiritismo uma Religião ao de possuir uma ideia clara e racional da própria Religião. estando. porque não pode ser impedido. toda a dificuldade. seriam colocados. condenando o laicismo e trabalhando por uma educação em cujo contexto os valores da Religião. e seu re- tardamento se constituirá em prejuízo ao próprio homem. mas que não pode prescindir do embate. para alguns intransponível. por- tanto. Temos. Kardec é Razão à educação espírita. de conciliação da expressão Religião Espírita com a cultura do homem moderno transforma-se aos olhos do professor no próprio instrumento para a implantação do conceito espí- rita. pela razão que brota da análise do conheci- mento. Por outro lado. desta resultam as consequ- ências religiosas ou morais. pois. O Espiritismo é a Ciência do Espírito e de suas rela- ções com os homens. que constituem a Religião Espírita. no campo cultural.
uma Religião filosófica e científica. nesse método por ele apreciado. Wilson Garcia ta. certos orga- nismos estatais. Temos. que está li- gada umbilicalmente à Ciência Espírita. Os espíritas. Daqui para diante. podemos acompanhar seu pensamento. Mas entenda-se o professor: a Religião Espírita só pode ser abarcada pelo estudo da Filosofia Espírita. A possibilidade do Centro Espírita oferecer. portanto. evidentemente. uma propos- ta cultural nova para a Religião. uma nova visão de religião à sociedade é um estímulo à luta contra essa discriminação em que esbarra a Doutrina. Herculano vai além de um simples apelo por um lugar de direito. geral- mente religioso. (II) 125 . principalmente quando influencia- dos pela Igreja negam ao Espiritismo o seu caráter de religião. abordando aspectos interessantes da questão religiosa e suas consequências. deve insistir no esclarecimento desse problema em suas reuniões. como forma de influir diretamente na transformação cultural do povo. Até hoje. portanto. primeiros chamados para a compre- ensão da Ciência Integral – e que na sua maioria refugiaram-se num beatismo de sacristia – estão intimados a alijar dos ombros as cargas do misti- cismo igrejeiro para poderem assumir a herança do século. no Brasil e em muitos países. de desen- volver a razão do aluno mediante afirmativas e negativas. Em síntese. Mas os espíritas precisam saber que o Espiritismo é religião e o Centro Espírita. A visão do professor vai bem à frente. Pretende ele ver o Espiritismo respeitado no seu posicionamento novo em relação à religião. (IX) A luta aí não é simplesmente para ser aceito no contex- to das religiões. por exemplo.
não pelos ritos católicos. sinônimo de Espiritismo. ideias e interpretações próprias do conheci- mento antigo. Ora. esta situação produz uma imagem deforma- da do Espiritismo junto à sociedade. levando-a a crer que 126 . Alijar dos ombros é a maneira de impedir que essa carga influa negativamente na interpretação da Dou- trina Espírita. mas também acabam assumindo uma postura de intransigente defesa delas. as car- gas são a cultura religiosa. como se desejasse – e de fato tem ele esse de- sejo – acordar especialmente os líderes espíritas para essa realidade. A questão é tão séria que leva o professor a bater na tecla da carga cultural com insistência. (II) Contra aqueles que não só se deixam levar pela pressão cultural. faz com que muita gente. inteligente e culta. Os beatos das religiões dogmáticas trocaram de pele mas não perderam suas manhas. obstando a repetição do religiosismo defasa- do e ultrapassado pela nova cultura. da prece decorada e sentimentalista. aí. Kardec é Razão A Ciência Integral é. na magia primitiva das religiões mágicas da selva. Substituí- ram os ritos católicos pelos passes e preces. a água benta pela água fluídica e os rosários de repetições medrosas pelos colares de contas de ifá. de fato. porque leva à reprodução em ambiente espírita de hábitos e com- portamentos. mais presos ao velho que ao novo. do sentimento dogmático se mani- festando. não consiga sobrepujar a tendência ao misticismo classificado por Herculano de igrejeiro. mas através das práticas do passe. negras e indígenas. indo ao ponto de revelar essa convivência perni- ciosa no Centro Espírita. Herculano se levanta para acu- sá-los de espíritas manhosos. da água fluí- dica que substitui a antiga água benta e tudo o mais que ain- da se vê. que pressiona o Ser para a repe- tição do passado e que.
o que. no prin- cipal adversário dos espíritas interessados numa prática realmente renovadora. estaremos em me- lhores condições de compreender os objetivos da Doutrina Espírita e de combater as influências. Além disso. (VIII) A tentativa é contribuir para uma consciência do proble- ma religioso e sua influência no Espiritismo praticado nos Centros. significaria que o Espiritismo nada apresen- ta de novo. Desenvolvem mentalmente uma prática superada. especialmente os líderes. que se encontram fincadas no passado distante. ao verificar outro aspecto da questão. Não só demonstra essa transformação dos deuses. mas também por representarem uma volta ao passado selvagem. onde o conhecimento novo. que é a prática doutrinária mesclada de elementos estranhos. tornando ainda mais difícil o entendimento do Espiritismo. Para explicar e compreender o problema. portanto. sacramentos e instituições das reli- giões dominantes em nosso mundo. em suma. sem a preocupação ma- 127 . ficam os adeptos como que num círculo vicioso. o professor vai relembrar as raízes dos dogmas católicos. da mesma forma que não compreendem a enorme distância que existe entre as propostas do Centro Espírita e as de sua religião anterior. tão negativo quanto (ou talvez até mais). A carga cultural se constitui. mas não o percebem. O exemplo egípcio é fecundo em vários sentidos. podere- mos esperar o estabelecimento da Religião Espírita sem ne- nhum choque cultural e. Herculano entende que quando a maioria perceber essa influência. Vai Herculano além. asfixiado pelo antigo saber. não apenas por não estarem contemplados pela doutrina. Wilson Garcia o Centro não passa de uma reprodução do velho templo. Nesse ambiente. perde terreno. neste momento. como também nos fornece as raízes históricas de vários dogmas.
O velho debate filosófico entre razão e sentimento. produto da Ciência Integral que é o Espiritismo. conservou muito daquela. como o anunciou o Cristo. a partir da de- cadência do Império Romano. A nova estrutura. vai-se com- preender que: 128 . traduzido no plano religioso pelo dualismo de ra- zão e fé encontra no Espiritismo a sua solução na- tural pelo equilíbrio de ambos. que não é aqui nenhuma bandeira nem solução mágica a ser repetida. também. não podem sobreviver isolados. que se coloca contra a existência dessa religião enquanto criação kardeciana. herdeira da antiga.. Fé e Razão deixam de ser termos simples e isolados para se constituírem num substantivo composto. sim. a fé raciocinada. em que um de- pende do outro e. Kardec é Razão nifestada por parcela do movimento. bem como uma razão espírita. mas o ponto máximo da Doutrina e que lhe confere as condições de modernidade. portanto. de uma nova civilização. não existiria uma fé espírita. que viesse uma nova doutrina. segundo Herculano. pois. ao inevi- tável entendimento da fé raciocinada na Religião Espírita. para mais uma vez repor as coisas em seus lugares e restabelecer a ordem. Assim. da mesma maneira por que o organismo do filho repete as características paternas. Mas os ideais do Cristianismo não puderam concretizar-se perfeita- mente e desenvolver-se em plenitude na civilização moderna. Existe. Foi o que aconteceu com o Espiritismo. Nesse caminho. O Cristianismo constituiu o grande alicerce ideoló- gico sobre o qual se ergueu o edifício de um novo mundo. (XV) Fora preciso. na fórmula clássica de Kardec: “a fé raciocinada” (VIII) A consciência do problema conduz.
em que o homem aprende a pensar e a julgar. Ambos são atirados ao fogo da razão pela Religião Espírita. A fé ingênua. pode enfrentar serenamente essa análise histórica. caí- rem. um a um. no meio cultural religioso. sem perder-se na negação ou extraviar-se na dúvida. a Doutrina oferece uma visão objetiva. impos- ta pela autoridade e a tradição. do dogmatismo. assim. Para os problemas mais cruciais e. seja ele qual for. derrete-se como cera frágil. Pode não responder a todas as questões. por si só contraditório e denunciador da carga cultural que o indivíduo carrega. como queria Kardec. O dogmatismo religioso não consegue furtar-se ao impacto dessas comparações. ou a fé raciocinada. (II) Compreenda-se: não há possibilidade para nenhum fa- natismo. O fanatis- mo é produto. iluminado pelas esperanças da Era Cósmica. portanto. Vemos. os pilares da religião tradicional. Wilson Garcia Não há mais lugar para fanatismos de qualquer es- pécie no mundo atual. tradicional já não pode satisfazê-lo. a fé cega. clara. Somente a fé racio- nal. mais disputados pela humanida- de atual. sim- ples e ao mesmo tempo profunda. Na proporção em que a razão se desenvolve. A formula co- modista: “creio porque creio” exigirá um substituto dinâmico e fecundo: “creio porque sei”. mas oferece um ingre- diente que conduz a uma solução possível quando a questão for por demais complexa: o bom-senso. (VIII) 129 . (VIII) A Religião Espírita não deixa dúvida ao professor. ao fogo da razão. e muito menos um hipotético fa- natismo espírita.
portanto. A proposta da oração se in- tegra num contexto maior. a religião do saber. naquilo que constrói. ou talvez por isso mes- mo. onde se desenvolve a vida no Universo. por exemplo. mais crê! A implan- tação dessa nova religião é. deixa-se de valorizar o crer para valorizar o saber. mas também. Kardec é Razão A Religião Espírita é. O formalismo religioso tem o seu poder e o exerce até mesmo sobre aqueles que parecem libertos de preconceitos religiosos. Todos os componentes conhecidos de uma religião tradicional encontram no Espiritismo uma explica- ção que os recoloca e os reintegra à sua realidade. assim. mas não se ora pelas mesmas razões de antes. de onde foram tirados para cumprir uma ação isolada. dificultada por fatores diversos. (VIII) A força da carga cultural se mostra. especialmente a carga religiosa de um passado distante. em percentual ainda enorme. O Cen- tro Espírita tornou-se uma espécie de sacristia lei- ga em que padres e madres ignorantes indicavam aos pedintes o caminho do Céu. não só nos adeptos iniciantes. Somente uma consciência bem construída en- contra forças capazes de enfrentar essa realidade. e com muita presença. do conhecimento. de conduta exemplar. nas lideranças cultas. contudo. repentino. Na Religião Espírita não se deixa de orar. Sendo o Centro Espírita realização humana e 130 . Quanto mais sabe o indivíduo. A domesticação católica e protestante criara em nossa gente uma mentalidade de rebanho. Em Emmanuel – repeti- mos – encontramos a afirmação de que o ser humano coloca o seu “eu” egoístico. (IX) O professor aponta a realidade. Assim. Não se trata de uma condição à qual o indivíduo pode dar um destino imediato.
fica compreensível essa adaptação verificada nas organizações espíritas. Wilson Garcia sendo a prática espírita resultante da interpretação da Dou- trina Espírita. 131 . Herculano mantém um raciocínio coerente com sua interpretação kardeciana. O igrejismo salvacionista depauperou a inteligên- cia popular. idolatria mediúnica. Eis porque toda a carga do indivíduo está impregnada dos vícios que irão desenvol- ver-se exatamente ali. A Religião Espírita. misticismo larvar e o que é pior. (IX) Todas as condições ideais para a formação da não-reli- gião foram reunidas e passaram a integrar as religiões dog- máticas. procurando alongar o fio cuja ponta encontrou nas raízes históricas da cultura religiosa da humanidade. especialmente onde o Espiritis- mo só chegou através de alguns elementos isolados. estufados de vaidade e arrogância. trata de afastá-la. embora não seja essa a sua função básica. aparecimento de uma classe dirigente de supostos missionários e mestres fari- saicos. a penúria alcança. com seu cortejo de carreirismo po- lítico-religioso. onde tudo parece propício para isso: o Centro Espírita. uma condição real. assim. desnuda tal realidade e a estuda. Uma vez compreendida a influência. combatendo-a com o conhecimento sinteti- zado na fé raciocinada. E como a religião dominante procura dar uma visão de vida ao ho- mem segundo concepções e interesses que contrariam a re- alidade. A carga cultural conduz à reprodução daquilo que já era exercitado antes do Espiritismo. (IX) A penúria da mentalidade é a herança religiosa. no sentido de conhecer até onde pode ela influenciar negativamente o Centro Espírita. O carimbo da igreja marcou fundo a nossa menta- lidade em penúria.
especialmente perante o público. onde se cultiva a razão na interpretação dou- trinária não há lugar para o surgimento de criaturas dessa natureza. embora apareçam. não encontram aceitação nos meios verdadeira- mente espíritas. especialmente. muitos se in- vestem da condição messiânica. Herculano se volta contra eles por não notar em suas ações senão um grande desejo de projeção pessoal. 132 . os excessos de gentileza mundana e tudo quanto re- presenta artifício de refinamento social deforman- do a natureza humana a pretexto de aprimorá-la. favorece a proliferação de pregadores santificados. para sua esta- bilidade social e significativa atuação no aprimoramento de suas estruturas. o primeiro que fez sucesso se tornou o inspirador dos seguintes. tribunos de voz empostada e gesticulação ensaiada. mas en- tendendo-a sob o prisma cultural do passado. como a seguir registrados: Os maneirismos. A mesma questão. Convém notar que a função precisa do Centro Espírita é oferecer condições para o progresso do Ser. sob o manto dos “pregadores santificados”. Assim sendo. (IX) Ou seja. Kardec é Razão Essa tendência mística popular. seja porque não têm interesse em considerá- -la. as modulações artificiais da voz. (IX) Tocados pela ideia da caridade da divulgação. que pas- sa por este caminho. o seu aparecimento ocorre naque- les núcleos onde a carga cultural do passado é dominante e onde. padres vieira sem estalo. formando assim uma sucessão de indivíduos que fazem fama falando da Doutri- na. alcança também outros níveis. seja porque os indivíduos a desconheçam. carregada de su- perstições seculares. tal conteúdo cultural não desperta e sequer apresenta preocupação.
Essa postura é combatida veementemente pela Religião Espírita e Herculano. especialmente àquelas mediúnicas. apático e sem nenhum ideal a conquistar. conseguindo enxergar o fato em sua profundidade. A Religião Espírita. 133 . uma alma viril. Os cristãos primitivos foram levados à loucura de se julgarem puros e santos. onde aguarda a defi- nição de seu futuro espiritual na posição de cordeiro manso. Wilson Garcia No Centro Espírita as almas frágeis dos rezadores e lamurientos encontram os elementos necessários à recuperação de suas forças. para mostrar que quem deseja ser Espírito Superior precisa entender que este tipo de ser é. perdidas pelo ser em suas andanças palingenésicas. algumas instituições doutrinárias chegaram a proclamar-se donas ex- clusivas da verdade. A ques- tão da virilidade precisa receber a devida atenção: o misti- cismo idólatra e dogmático encaminha o indivíduo para a posição de espera passiva da salvação. para ressuscitarem-se a si mesmas das cin- zas do passado. reprimindo os núcleos des- vairados. franca. contraria à ideia popularizada dos cordeiros mansos. (IX) O entendimento preciso dessa realidade é fundamental para tornar os indivíduos conscientes de que o Centro Es- pírita não pode ser transformado em lugar de reprodução permanente dos comportamentos religiosos do passado. esgotado de suas energias. de sua virilidade espi- ritual. como vemos nas epís- tolas ardentes de Paulo. destina-se a recuperar as forças e a “virilidade espiritual”. totalmente desligada do religiosismo. traz à tona a necessidade da virili- dade. ao falar das “mensagens padrescas”. (X) Não tenhamos dúvida: o professor se refere. antes de mais nada. No meio espírita domesticado por inces- santes mensagens padrescas.
também. revela uma repetição do passado: fatos que contribuíram para o desvirtuamento do Cristianismo estão presentes. É ela “conhecimento da razão e das finalidades da vida”. no movimento espírita. onde o indi- víduo se forma pelo contato com os outros. a existência da Religião Espí- rita. também. reprime a tendência de tornarem-na “cantiga de ninar”. mas para a sociedade. mas o consolo espírita não é cantiga de ninar e sim conhecimento da razão e das finalidades da vida. mas. prejudicial à disseminação da fé racional. reconhecendo que: A verdade maior – ou verdadeira – é a que nasce do contexto social. portanto. Kardec é Razão recebidas por médiuns mal preparados e divulgadas sem uma análise efetiva. são duplamente responsáveis: dão caráter de verdade a esse comportamento e propiciam a formação de uma gran- de quantidade de indivíduos desse caráter. a religião da salvação sem esforço individual. simples apologia de tudo quanto foi implan- tado no passado pelas religiões formalistas. do mesmo modo que a torna evidente. implicitamente. pela massa. revolucionária. as- sim. Não destina o indivíduo para si. como de fato é. ao sentimento padresco cultivado por algumas lideranças espíritas que. Sendo. sob outras roupagens. forçando semelhante desvio. a Religião da virilidade. A verdade. (X) Ao referendar o caráter espírita de Consolador. (XIII) 134 . portanto. portanto. Se fosse cantiga de ninar seria. O Espiritismo é o Consolador prometido por Jesus. encontra aí o terreno propício à proliferação do sentimento místico dogmático e. A falta de entendimento da verdadeira Religião Espírita. torna-se adversária do passado. que vão se mul- tiplicar à frente. da usina das relações. Hercu- lano reforça. mas refere-se.
despreocupadas do contexto ideológico em que os homens costumam reunir-se. antes de mais nada. ser tratada com preconceito e sectarismo. outra. Jamais temeu ele trilhar esse caminho do meio. portanto. mas sem se deixar levar na onda dos que com- batem. Com isto. também. o que seria escarnecer da verdade maior que “nasce da usina das relações”. uni- versal. a da inteligência que consegue analisar a obra e alcançar seu ponto máximo de compreensão sem. por isso mesmo. O Espiritismo não se proclama o único meio de salvação humana. o que é plenamente aceitável por quem. simplesmente parcelas de uma cultura maior. bem diferen- 135 . A religião é parte da cultura e é. professa ideias desvinculadas de qualquer sec- tarismo e. (XIII) A luta do professor não pode. Wilson Garcia Com isso. como o professor. Veja-se: Herculano. sob risco de causar prejuízo à formação dos indiví- duos. onde os in- divíduos vão aprender que todas as formas de cultura são parcelas. cultura. exclusiva dona da verdade. em que foi capaz de ver os de- feitos da prática religiosa proveniente da má interpretação doutrinária. da mesma forma que assim age e com o mesmo equilíbrio considera o que o Codificador proclamou: a “ligação umbi- lical” do Espiritismo com o Cristianismo. cria a Doutrina um mundo novo. É. a ponto de vir a conside- rá-la única. Mas não pode. por isso mesmo. todavia. a existência da Religião Espírita. deixar-se en- volver por sentimentos de exclusão. Uma coisa é a existência dessa religião. com base nos princípios fundamentais do Cristianismo é essencialmente universalista. nem se diz o de- tentor exclusivo da verdade. a própria Religião Espírita tende a diluir- -se no futuro. O mundo que o Espiritismo está construindo na Terra. portanto. não pode ser des- prezada. ser classificada como uma espécie de fanatismo. e por- tanto anti-sectário.
jamais se realizou. levantou para o estudo questões importantes que conduzem à compreensão do problema religioso. que preferiu viver com o povo a isolar-se nos templos para cultivar a vaidade e a pureza menti- rosa dos clérigos. Da mesma forma 136 . como a exemplificar ao aluno o melhor caminho a ser seguido. (XXIX) A chamada conversão. manifestada na existência dos dois planos. Com isto. compreensão esta que. o visível e o invisível. pela prática deformada. para recordarem os desvios que os homens pro- vocaram nos ensinos do Cristo e não apenas para contem- plarem uma parte da história humana. nas suas relações e no fato do retorno periódico das almas ao am- biente terreno. em lugar de combater a Religião Espírita. Mas também porque desconsiderou a realidade da vida. A mística judaica projetou-se em cheio na mística medieval. desenvolve instrumentos para combater o religiosismo e toda a carga cultural do indiví- duo. em boa parcela. Kardec é Razão te. de optar frente às ex- periências na “usina das relações humanas”. O Cristianismo que fundamentou a nossa civiliza- ção é um arremedo grotesco do ensino do Cristo. contrariando os ensinos e os exemplos de Jesus. entre eles a capacidade dos indivíduos. responsável. mesmo os mais pobres de inteligência. (XXX) Quer o professor fazer os espíritas voltarem-se para estes exemplos. Não fomos convertidos. portanto. é o que fazem com ela líderes e frequentadores despre- parados. Preferiu ir às raízes. por- que não passou de uma sugestão forçada. mas apenas sugestionados por uma visão de beleza e de pureza que não conse- guimos realizar em nós. e não se realizou porque não levou em consideração fatores fundamentais da psicologia humana.
mas por isso mesmo se colocam entre as ideias e o intelecto. se pos- sível. Ajunta aí os princípios e teorias comprovadas. ao contrário. do seu progresso. retirando. ou dar-lhe uma interpretação diver- sa. na percepção do professor. combate o isolacionismo de líderes e adeptos. nunca poderemos fugir à realidade dos fatos. oferecendo-lhe. e não raro encobrem e asfi- xiam aquilo que deviam exprimir. na fusão dos seres invisíveis com os visíveis e em toda a gama de resultados que disso resulta. capacitando a criatura a inserir-se neste mundo segundo o seu direito e o seu dever: para participar dele. Para tanto. que nos mostram o homem. Por mais que procuremos negar essa dialética da consciência. O Espiritismo é. (VIII) Não cabe. Os símbolos representam ideias e servem para transmiti-las. uma vez que o estuda em seu as- pecto global. uma vez que compre- ende ser indispensável a experiência no mundo para evolu- ção do Espírito. a Religião que disponibiliza a mais precisa visão da realidade do mundo. como a da reencarnação e a da mediunidade. uma visão de sua realidade e facilitando sua inclusão “na usina das relações”. à religião verdadeira o papel de ex- cludente do homem do seu mundo. tomando conhecimento do mundo pela experiência. através dessa insuperável experiência. na História. Wilson Garcia que a Religião Espírita dispensa seguidores cegos. moral ou religiosa. a Reli- gião Espírita procura desligar o ser de todos os fatores con- dicionantes que as religiões dogmáticas estabeleceram. eviden- 137 . agindo sobre ele através de uma concepção ou representa- ção e procurando dominá-lo através de uma síntese afetiva. portanto. Trata-se. o saber que a eleva acima das contingências e possibilita voar pela imensidão sideral. sua função é preparar o homem para o mundo.
da Doutrina em relação à simbologia utilizada pelas religiões é uma questão de lógica e razão e não uma posição contrária gratuita. A posição. porque é uma doutrina desprovida de interesse pelo poder. também os critica. e o das religiões dogmáticas. por exemplo. como vimos. Os símbolos são úteis durante o tempo necessário para a transmis- são da ideias. mas tornam-se inúteis e perniciosos quando passam do tempo. Kardec é Razão temente. cósmico e abrangen- te. parece ambígua. Respeita essa posição. mes- mo reconhecendo-a incoerente devido às diferenças enor- mes existentes entre o ensino espírita. e por seus mais autorizados divulgado- res. Ao mesmo tempo que se apoia nos textos. Mas serve para demonstrar o completo desinteresse da Doutrina quanto à formação de um grande cartel de seres humanos. ao aceitá-lo. Continuar preso a esses sistemas simbólicos significa retar- dar o passo no contexto da viagem sideral. A posição do Espiritismo. despre- tensiosa quanto ao mundo. O mesmo ocorre quanto aos ensinos religiosos. a Doutrina. por- tanto. em face dos textos sagra- dos do Cristianismo. ou conviver em ambos os barcos. não se importa se seu adepto deseja ser. Nada mais coerente com a natureza declaradamente racional do Espiritismo. com a sua orientação analítica. a partir de Kardec. fiel aos seus antigos credos. Tal não foi possível. não pode este. (VIII) A renovação que a Religião Espírita propicia no campo cultural foi o que levou Allan Kardec a imaginar a possibili- dade de convivência pacífica do Espiritismo com as demais religiões. baseados na moral cristã. deixar de entender quando o tempo dos símbolos passou e que as ideias que eles deviam exprimir são hoje superadas pela fé que enfrenta a razão face a face. ao mesmo tempo. O professor mostra que o Espiritismo é o docu- mento de cidadania cósmica do homem. A ambiguidade 138 . de um processo dialético.
(XIII) A posição do professor é. A Bíblia representa a Codificação da I Revelação do ciclo das revelações cristãs. a posição estratégica do Espiritismo na sequência das Reve- lações. Quanto mais avança o Conhecimento. portanto. mais se vão descobrindo as relações da obra de Kardec com as alegorias e simbologias religiosas da chamada Sa- 139 . ou seja. (VIII) Temos. minimizando a letra e valorizando o significado em sua am- plitude. muito clara em rela- ção a esses pontos ainda hoje discutidos da Religião Espíri- ta. seguido dos demais livros da Codificação Espírita. De- pois dela vem O Evangelho. em relação à Bíblia. mas se nenhum tipo de submissão mística. que permite-lhe ir ao fundo da interpretação. com Kardec. portanto. Inclui-se ele na lista daqueles que admitem. E depois do Evangelho temos O Livro dos Espíritos. Guarda o Espiritismo. Os espíritas não consideram a Bíblia como “a pala- vra de Deus” mas como o marco zero da Civilização Cristã que ainda se encontra em fase de desenvolvi- mento na Terra. a mesma con- dição que tem em relação ao Cristianismo. mas para cujo entendimento tem o adepto à sua disposição a liberdade de questionamento. feita pelo próprio Cristo. racional e renovadora. tendo na Bíblia “o marco zero da Civilização Cristã”. que é a Codificação da II Revelação. re- forçada por uma doutrina eminentemente lógica. in- capaz de libertar da prisão da letra o espírito que vivifica. uma Religião cuja base moral é o Cris- tianismo do Cristo. sem o qual o Espiritismo teria de submeter-se ao dogmatismo literalista. Wilson Garcia apontada pelos opositores não é mais do que o uso da liberdade de exame. de livre interpretação e respeito.
(XIII) Essas relações repousam sobre o conhecimento. prossigam repetindo no presente o mesmo sentido artificial de outras épocas. pois. que es- sas lideranças. que o Espiritismo se utiliza daqueles conhecimentos. 140 . mais natural e menos for- mal. do Egito. Não se trata de um processo de eliminação de conhecimentos. de mente suficientemente aberta para as novas perspectivas que a Doutrina abre sobre o mundo. mas oferecendo uma visão que leva a dispensá-los. reconhecendo. Não compreende. Mas não é justo que os espíritas mais esclarecidos. considerando a sua impor- tância ao tempo em que apareceram. das mais velhas religiões da Índia. em que esses conhecimentos são vistos como a raiz do conhecimento atual. simplesmente. onde se encontram melhor desenvol- vidos. em consequência das heranças do passado e dos exemplos do presente. no meio espírita. especialmente por ver nelas a principal razão para o avanço no processo de divulgação. que eles tiveram a sua época. não con- sigam adotar outra forma de conduta. da China. mas de uma nova realida- de. haja vis- ta para o fato de que o Espiritismo constitui um resumo da cultura das civilizações. Isso significa. pois. Compreende-se que grande número de pessoas. Há uma tendência bastante forte. Kardec é Razão bedoria Antiga. continuem a formalizar-se na vida social (XIII) O professor sempre se volta para as lideranças espíritas. para um tipo de moral religiosa que se caracteri- za pelo artificialismo. ao mesmo tempo em que é uma ja- nela para o futuro. por disporem de todas as condições para uma inter- pretação e uma prática efetiva. que aceitam a Religião Espírita. da Babilônia e assim por diante.
mas sem hostilidades à ingenuidade dos que não podem ir além dos conhe- cimentos primários. O esclarecimento. contudo. o que é. O processo civilizador do Cristianismo é espiritual e não material. a frater- nidade humana incondicional. não signi- fica silêncio absoluto ante o erro. também. o desinteresse total pelo proselitismo. na espiritização de todos os seres. Alguns dirigentes espíritas nave- gam nas ondas da dúvida no que diz respeito à interpreta- ção das críticas. Wilson Garcia Kardec deu como regra única de pureza espírita o desinteresse total pelos bens materiais. (X) Esses dois pontos destacados por Herculano precisam ser postos em discussão. Al- 141 . onde deveriam vencer. isso. a ideia de que o Espiritismo deve se espalhar pelo mundo e mudar a sua face cultural está ligada à difusão natural dos seus princípios e não. mas de coletividades. (XXII) Para o professor. Seu método não é massivo. Os que navegam na dúvida podem acabar sendo levados pelos ventos fortes e fracassarem ali mesmo. grande absurdo. mas a quali- dade. enquanto outros são definitivamente con- tra elas em todos os sentidos e ocasiões. O respeito às crenças consiste em compreender a posição do outro. mas coletivo. como supõem alguns erroneamente. sem a aceitação fingida e com- prometedora desses erros. especialmente quando o erro é público e pode levar outros a tomarem caminhos que mais tarde vão lhes trazer dissabores. portanto. o respeito absoluto às ideias e às crenças dos outros. não opera em termos de massa. é necessário e deve ser feito com a mesma liberda- de que possuem aqueles que pregam crenças ultrapassadas. porque o homem é espírito e não ma- téria. Seu objetivo não é a quantidade.
alterando profundamente a cultura do ser humano e isto se dá pelo processo coletivo. ou seja. Se não nos é possível provar essa existência nas retortas da Química. Por fim. vendo a completa impossibilidade de tornar todos os seres espíritas (nem o catolicismo conseguiu objetivo seme- lhante). para sa- tisfazer a ambição das mentalidades de fichário. Kardec é Razão guns. (XXXI) 142 . isso ocorre porque os limites estreitos da metodo- logia científica não conseguiram e não conseguirão abranger a totalidade do real. Deus não se torna por isso num existente. a civilização está definitivamente colocada no caminho espiritual em que a qualidade do conhecimento determinará o avanço dos seres e da sociedade como um todo. vale concluir este capítulo reproduzindo o pen- samento do professor sobre Deus: O conceito existencial de Deus se impõe como con- sequência lógica do conceito existencial do homem. ficam apavorados achando que Kardec fora ingê- nuo quando previu a popularização da Doutrina. A verdade é que os princípios espíritas estão se espalhando pela socie- dade. mas no Existente Arquétipo.
Wilson Garcia
Capítulo 5
ANTE A VIDA E A MORTE,
UMA VISÃO FILOSÓFICA
DA EXPERIÊNCIA
O pensamento do professor acompanha as preocupa-
ções do mundo, onde está inserido o Ser, com seu destino
e suas dores. Tal como a doutrina que o tomou de assalto e
tornou-se seu ideal maior, a vida devia ser olhada segun-
do o princípio que determina a ligação entre todas as suas
partes. Assim, a solução dos problemas do mundo passa,
inevitavelmente, pelo entendimento das causas e o objetivo
da própria vida. Esta forma de ver, auferida nas longas me-
ditações em torno do mestre Kardec, permitia a Herculano
encontrar sempre uma razão maior, segundo uma lógica ir-
retorquível. Os objetivos precisam estar claros para que os
meios a usar sejam adequados. Se os objetivos estão confu-
sos, assim o estarão os meios.
Para ele – relembre-se, agindo sempre em conformidade
com o Espiritismo – era preciso aclarar a realidade do mun-
do, para que o homem pudesse inserir-se nele em condições
ideais de realizar o seu progresso. O Espiritismo facilita essa
inserção de forma excepcional, ao mostrar as duas faces da
realidade: a visível e a invisível bem como o entrelaçamento
que existe entre ambas e as influências recíprocas dos se-
143
Kardec é Razão
res dos dois lados. E mais, oferecendo uma visão objetiva
da sociedade dos invisíveis, que serve como complemento
para as dúvidas e as certezas da vida. Diante disso, não ti-
nha o professor nenhuma preocupação de tornar a filosofia
que expunha e defendia, agradável aos interesses humanos,
mas conhecida da coletividade e capaz de alterar a cultura
geral. Vai ele, portanto, tocar em pontos importantes com a
maestria de quem sabe unir o verso do poeta à melodia do
músico e à voz do cantor, para entoar a canção da vida.
Todo ato é um parto e todo parto é doloroso. Só
podemos supor um mundo sem dor imaginando o
completo desenvolvimento de todas as potenciali-
dades das coisas e dos seres, o que não passaria de
pura especulação imaginativa. (II)
Para haver um mundo sem dor seria preciso um mun-
do perfeito. Este não é, indiscutivelmente, o caso da Terra.
A questão, aqui, não é discutir as causas da dor, que estão
bem claras para Herculano no plano da Doutrina dos Espí-
ritos. É preciso vê-la no contexto do mundo, onde o labor
determina a cada segundo um novo parto e a cada parto
uma dor relativa. Mas o professor busca, também, deslocar
a dor daquele contexto místico e inconsequente da ira divi-
na, oferecendo esta visão para os próprios espíritas que, por
imaturidade no trato com o Espiritismo, passaram a situar
a dor como um elemento indispensável de tal ordem que, se
não existe, deve ser procurado e, se existe, deve ser supor-
tado a todo custo, quando, na verdade, pode ser ela o resul-
tado da incúria que nada tem a ver com causas anteriores.
A dor é mola da experiência enriquecedora, que por sua
vez é o próprio parto da cultura. Sofrer é, assim, uma con-
sequência do trabalho que tem por finalidade fazer evoluir
o espírito. Sob este ponto de vista geral, a dor que acome-
te o Ser nas particularidades de sua transição pelo mundo,
144
Wilson Garcia
aparece numa grande e maiúscula dor: a do parto da vida.
Mas a dor tem sua função nesse parto: ela prepara o espí-
rito para receber a cultura, de modo que ela não existe tão
só por consequência do parto, o que não lhe daria finalida-
de maior. Uma vez que ela advém do parto, deve funcionar
como um elemento aplainador do caminho, onde as experi-
ências se sucedem e se transformam cm conquistas para o
Ser, não importa, nesse momento, a qualidade das experi-
ências, uma vez que, sendo o que são, resultarão na dor e no
crescimento. Assim é que, em relação aos próprios animais,
Herculano pergunta e responde:
Por que sofrem os animais? Sofrem porque evo-
luem e porque toda evolução, consciente ou incons-
ciente, é sempre acompanhada das dores do parto
que anunciam as transições evolutivas para planos
superiores. (II)
A posição dos animais na escala evolutiva dos seres é de
subalternidade em relação aos homens. São eles inferiores,
mas nem por isso estão isentos da dor, o que é perfeitamen-
te compreensível: a dor é própria do mundo em que estão
situados e, se não possuem razões palingenésicas para so-
frer, como o homem possui, ainda assim sofrem por esta-
rem realizando a experiência da vida. São as experiências
que os encaminharão a um degrau mais alto nessa escala
evolutiva. Realizam, portanto, um parto repleto de sofri-
mentos, embora nenhuma razão outra exista para que so-
fram. Esse esclarecimento desfaz a falsa ideia daqueles que
combatem a dor no processo evolutivo e apontam para os
animais como quem quer afirmar a injustiça divina. Ade-
mais, a função da dor está caracterizada psicologicamente:
a dor provocada pela fome enseja a escolha de um caminho;
o da violência, que o animal escolhe automaticamente, ou
o da conquista com inteligência, que é dado ao homem es-
145
Como a dor é um elemento do sensível. No animal. torna-se ela uma perversidade engendrada para favorecer os mais fortes no seu esquema de dominação da alma humana. pois a exclusão da dor implicaria necessariamente a inexistência de qual- quer atividade. o Espiritismo compreende a função da dor no processo natu- ral de aprendizado humano. a violência se justifica. a ideia de que é impossível habitar um mundo e desenvolver nele as experiências que encaminham ao progresso do Ser. Mas a dor é igual para ambos. Fora desse contexto. o homem e o animal. sem que neste mundo haja a dor como consequência dessa experiência. A ideia de uma eter- nidade de dores nos perturba e preferimos esperar vivos a hora do corte. Daí a remessa a Deus. Os séculos de dominação da consciência pelo pavor serviram para estabelecer essa falsa noção de dor que hoje alimenta ainda muitas almas e as faz entender o Espiritismo segundo uma ótica vesga. Tal mun- 146 . Mas o Deus de justiça não é o Deus da dor. como fonte e ori- gem dela. Quando surge ela no homem. Kardec é Razão colher. A dor mais insuportável se torna suportável quan- do nos lembramos das ameaças dos capatazes de Deus sobre as penas eternas. (II) O professor reforça. chegamos a outra conclusão inevitável: o mundo sem dor é uma abstração gratuita que só existiria no imaginário absoluto e inconsequente. Como doutrina da razão. mas no homem não. configurando-se como uma resultante da expe- riência. do bom-senso. (II) Os homens criaram a cultura da dor para subjugar os seus semelhantes. assim. remete-o ao estado de barbárie em que se encontrava quando habitante dos reinos inferiores da vida.
mas não no plano da realidade. Já Jean Jacques Rousseau previu isso ao tratar do Contrato Social e destacar o valor da liber- dade natural. mas serve-se dele para compreender a vida e o Universo. portanto. e onde o trabalho é o único escopo capaz de gerar sabedoria. em determinado grau de civilização. não encontra o homem outra saída senão privar-se a si próprio 147 . realiza experiências em busca da descoberta de caminhos mais se- guros. Um mundo sem dor seria uma mundo sem ativi- dades. o seu gran- de trunfo para progredir. mas à medida em que age. As forças de defesa da sociedade convertem-se em dispositivos de repressão que as transformam em mecanismos rígidos de asfixia da liberdade. pela experiência. Mas. Wilson Garcia do só pode existir no sonho ou na imaginação. já seria a pior das dores. Podemos ver isso com nitidez nas estruturas sociais de todos os tempos. onde a justiça caminha ao lado do mérito. A dor anuncia a chegada do saber e o saber com a dor é a prova da conquista. O mundo dos cristãos irracionais não conseguiu. pois. em si. rompido pelo grito daqueles que. (II) O Ser não foi feito para o mundo material. o que. normatizando a seu favor com regras que acabarão por asfixiá-lo. descobriram a maior das prisões a que pode ser relegado o homem: o “lassez faire” eterno. A experiência favorece a adaptação do homem ao mundo. pois. Foi o cantar da galinha com a experiência do ovo. Sem previsão de tempo. A experiência é. lança-se ao mundo para. postos em condições de gozo eterno. mas a insegurança do homem ante a va- riedade das situações que enfrenta o leva a amar e manter dispositivos de segurança que são cris- talizações da experiência embargando as vias de acesso ao futuro. domi- ná-lo pelo conhecimento. clamando por experiência e a dor sinalizando a conquista. assim. Ei-lo. O grito eclodiu no Universo. se concretizar e foi.
(VIII) 148 . de ideias vivas e dinâmicas. até poder constatar. O Espiritismo favorece a compreensão dessa renovação contí- nua. fazendo com que os velhos se tornem jovens e estes velhos. Mas o mistério da vida reserva a arma do nascer de novo. sem a marca branca e impiedosa do tempo. da eternidade na transitoriedade. que será preferível experimentar sem perder a liberdade. o seu arsenal de conceitos. devem ceder lugar aos jo- vens. para que. pois “o permanente no mundo é a mudança”. gotas detergentes de verda- de nas engrenagens da ambição e da mentira. que são eternas. que vão aos poucos lan- çando no pano verde dos cassinos da ambição. Kardec é Razão de um pouco de liberdade em troca de maior segurança. interligadas pelo fio vivo da mediunidade. constituída de uma face visível e outra invisível. mas um fluir: o fluir da dura- ção. É preciso. pois que é uma doutrina capaz de mostrar com clareza a engrenagem do planeta. portanto. (II) O mundo das experiências sofre a constante renovação dos seres que. de cabelos negros e doirados. renovar sem- pre. a experiência repetida fixe o conhe- cimento e o sentimento. O novo serve para pulverizar de óleo as engrenagens que se vão enrijecendo. assim. Estas. representam a presença do imutável no mutável. O momento que passa não é uma ilha no tempo. Deus fala ao homem através de suas leis. Mas trazem nas suas mochilas secretas. Os jovens não entram no cenário terreno empu- nhando armas. quando este óleo não é suficiente. ao envelhecerem. pela dor da experiência. com a asa emplumada da razão. Chegam fracos e inscientes. o novo substitui a engrenagem. despro- vidos de experiências. sob a capa de sorrisos ingênuos. em lances que vão deslizando como fichas de marfim com efeitos agressivos. nem um ponto no espaço.
como se lhe estivesse dizendo que sem a realidade da experiência não há verdade na vida. A Religião Espírita vem repor o homem no mun- do. segundo o grau de sinceridade e a força da vontade que impregnam a comuni- cação entre um e outro. A evolução humana se processa no concreto em di- reção ao abstrato. é ouvida e respondida pelo Pai. As religiões do passado qui- seram realizar o seu trabalho retirando o homem do mundo e lhe oferecendo. Esta seria uma posição extremamente fria e calculista. o que vale dizer da matéria para o espírito ou do corpo para a alma. Wilson Garcia O professor utiliza os princípios espíritas para analisar a vida. que re- gula a vida. em troca uma vida sem atividades. vazia e cansativa. (IX) O Espiritismo ensina e o professor o confirma: a experi- ência conduz ao progresso e este confere ao Ser a capacida- de de integrar-se ao Universo. É assim que a realidade cósmica. (IX) 149 . Mas a voz dos filhos. As leis de Deus expressam a sua vontade e re- gulam a harmonia. não acessível à inspeção completa do homem. Os filhos lhe respondem ao desejo en- quadrando-se nessa harmonia ou integrando-se aos regula- mentos. É assim que une a alma imortal à lei eterna. dando-lhe a sonoridade daquele que a fez. É assim que vive o Ser “no fluir da duração”. Mas não se deve entender que essas leis sejam a única forma de manifestação do Pai. plenos de justiça e liberdade. em sua linguagem específica e segundo as experiências que realizam. nem que Ele só nos fale através do si- lêncio delas. fica ao seu alcance graças à estrutura de leis regulares e universais. que lhe facultam as ilações necessárias a uma visão geral do Universo. Na linguagem platônica diríamos: do sensível para o inteligível.
Junte-se aí as aquisições imaginadas em vidas e vidas. O processo de desenvolvimento espiritual do ho- mem é vasto e complexo. de um sossego no reino das sombras. o homem não encontra meios de avançar. ad- quirido com moedas de ouro. Toda esta ilusão está retida na carga cultural do homem. Fora do contexto do mundo. mas o Espiritismo. a compreensão do papel da Religião. O mundo do final do século XX e início do século XXI é o mundo da impaciência. os meios adequados para se suprir das novas verdades e renovar-se. Kardec é Razão Se a visão real do mundo favorece a inserção do homem nele. que o professor guarda e usa idealmente. oferecendo conquistas prontas e as facilidades irreais. ajuda a encontrar os meios para facilitar ao Ser a realização de suas experiências. na suposição de que a alma pecadora pudesse transformar-se em iluminada aos olhos de Deus. (XV) Herculano toca aí num ponto dos mais importantes: a cultura atual está repleta da ideia das transformações ime- diatas. que o Espiritismo procura esclarecer de maneira racional. A carga cultural acha. que não compreende essa verdade não pode ser favorável ao Ser. por ação de seus supostos ministros e através das unções e rezas. levando-o ainda hoje a repetições frustradas do passado. Toda doutrina. portanto. em que o Ser deseja o novo mas não está disposto a gastar longo tempo em sua experimen- tação. abrangendo milênios e envolvendo aspectos demasiadamente complexos. que só mais à frente o homem descobri- rá que são ilusórias. as- sim. segundo o Espi- ritismo. mas não pretende submeter a nenhuma transformação violenta. É por isso que as religiões imediatistas ganham largo terreno neste momento. mostra a complexidade do desenvolvimento espiritual e a necessidade de compreender que as transfor- 150 . alheio às expe- riências que deve realizar.
Remontando às raízes históricas dos conflitos que nos atingem. A Doutrina Espírita é um resu- mo cultural da humanidade. o caminho é o da exposição que excita o racio- cínio e o faz soltar-se das limitações a que está submetido. Deus é o espírito infinito. o porquê da vida. A ideia de Deus nos dá a perspectiva do Infinito. Mas o que Herculano compreende. O homem é o ser entre os seres. Mas. capaz de proporcionar essa experiência inusitada. A ideia do homem nos mostra a estreiteza do finito. nem sempre será igualmente compreendido pelo aluno. sem nenhuma pressa ou violência. de um grão de areia dos desertos da imensidade. ao contrário do que muitos pen- 151 . pois a nossa mente finita não pode abrangê-lo. Assim. Nós somos as criaturas. A CAMINHO DA VISÃO CÓSMICA Todo o raciocínio do professor se desenvolve no sentido de levar o aluno a compreender. (XXIX) O conhecimento da sua realidade interior é a única ma- neira de que dispõe o homem para realizar as transforma- ções de que necessita. (XV) É pois. pelo caminho mais curto possível. Deus é o Ser dos seres e tudo abrange na sua onisciência e na sua onipotência. o Criador. O Infinito é aquilo que não podemos conceber. espíritos finitos. pequenina criatu- ra apegada à crosta de um diminuto globo. buscando cada vez mais altura. sabe-o ele. porque quanto mais alto é o voo maior será a visão do conjunto. poderemos mais facilmente impedir que eles continuem agindo no futuro. Wilson Garcia mações deverão ser realizadas natural e lentamente. a visão cósmica que compreender o Ser.
realizadas por seres que também se renovam. A razão se for- ma na experiência. aquela realidade deve expor a carga cultural que forma o arcabouço das ações do ser. de troca in- cessante. segundo a sabedoria popular. (VIII) O Ser está profundamente ligado ao planeta. objetivando uma integração entre a ela e o homem. acrescido do saber. para que ambos ca- minhassem juntos. Há uma sequência de experiências re- alizadas de forma geral. com o conteúdo das sensações. que o ho- mem primitivo humaniza o mundo. É pelo sentimento. mas não se ignore que o conhecimento defasado não deseja ceder lugar àquele que o vai atirar ao léu. A princípio. É o “automatismo” de que fala André Luiz. como queria Kant. que a aprimora. assim. corpos que crescem e se aprimoram. a natureza fornece os ingredientes para o Ser realizar suas experiências. onde se encontram as razões que o comandam. que esclarece muita coisa. espíritos que nascem e renascem. de relação permanente com o meio. O conhecimento não ocupa espaço. As expe- riências aqui começaram há milhões de anos. enche essas categorias. mas é também toda experiência acu- mulada no plano do sensível. Sentimento e razão vão. Kardec é Razão sam. o Ser devolve à natureza o que dela recebeu. 152 . sequer estas deverão ser obrigatoriamente em maior quantidade ou constituir-se em mais importan- tes. se desenvolvendo via experiências que se renovam. O homem enquadra o mundo nas categorias nascentes da razão. pelo homem. a realidade interior não vai mostrar apenas situações de ordem moral. As experiências do Ser são experiências ecológicas. dando sem- pre lugar a outros corpos e assim sucessivamente. e não pelo raciocínio. à medida em que elas se dão. Antes de mais nada.
(VIII) Aquilo que para alguns é o resultado de experiências místicas é para a inteligência cósmica. Esse pon- to central. Da mesma maneira porque o contato do homem com o espaço físico lhe fornece uma medida para aplicar às coisas exteriores – a categoria espacial. Wilson Garcia A crença na sobrevivência decorre de experiências concretas do homem primitivo. mas posteriormente racionais. o conceito de espaço – assim também o contato com os fenômenos espirituais lhe fornece uma medida espiritual que é conceito de espírito. que consegue olhar o planeta no seu conjunto harmonioso com a natureza. corroborada por outros pensadores. Esta conclusão. O professor fala da crença na sobrevivência e a remete às sensações. e não de formula- ções do pensamento abstrato. (VIII) Assim. esse mesmo espírito que Kardec vai deli- near com a maior segurança para o homem moderno. Usando o mé- todo comparativo. Desde o seu estado primitivo vive o Ser a experiência num mundo envolvido por espíritos misteriosos. que Spencer soube ver. a con- sequência das “experiências concretas”. Sua origem está nas sensações. que lhe respondem às evocações e lhe oferecem conselhos na medida de sua capacidade. à crença na sobrevivência o homem juntou o con- ceito de espírito. Bozzano mostra como a tese de Spencer pode ser desdobrada ou ampliada. retirando-a do terreno movediço da fé sem a razão. é importante na medida em que lhe confere base científica. a princípio mágicos. para tornar-se plenamente verdadeira. invisíveis. pres- tes a entrar na Era Cósmica. 153 . com o acréscimo dos fatos metapsíquicos. donde se originou no homem primitivo. e não na cogitação filosófica. Essa relação comunicativa vai gerar uma série de resultados.
tendem a acomodar-se a uma série de situações. No momento em que surge uma doutrina que dispensa a simbologia. Toda a simbo- logia que domina as religiões tem sua origem nos horizon- tes mais antigos da civilização. Assim. Mas o antigo Egito oferece-nos. sem sofrer delas certas influên- cias. as culturas. de fato. A partir das traduções e no momento em que a Doutrina passa ao mun- do das experiências. anímicos e mitológicos do ho- rizonte tribal e do horizonte agrícola apresentam- -se ainda bastante fortes no mundo contemporâ- neo. do uso dos princípios doutrinários na vida de relação ou na experimentação do Centro Espírita. o quadro que melhor demons- tra a passagem dos deuses-familiares para a cate- goria dos deuses cósmicos ou universais. As razões para isso estão bem expressas na carga cultural. Ainda não consegui- 154 . no campo práti- co. (VIII) O Espiritismo não tem a pretensão de superar as cultu- ras religiosas dominantes. talvez. o Ser se vê assaltado de incompreensões de diferentes graus. a qualida- de da prática resultará da maior ou menor dominação que esses horizontes culturais exercerem sobre o Ser. O “horizonte agrícola” permanece subjacente em nossa mentalidade moderna. nas heranças que o Ser traz de suas experimentações anteriores. na prática as coisas acontecem de modo diferente. Nossas religiões mostram-se poderosamente impregnadas desses resíduos. Kardec é Razão Os resíduos mágicos. A pureza doutrinária só pode ser encontrada nas obras da Codificação. Eis a razão pela qual. em sua língua original. especialmente no seu aspecto de prisioneira do pensamento humano. encontra o Ser totalmente fragilizado e. praticamente incapaz de realizar este ideal em toda a sua grandeza. de forma geral. como relembra o professor. Embora a preservação doutrinária escoimada de en- xertos seja o ideal. e do seu esforço para superar as próprias limitações.
Para o ignorante de certas coisas. para o Ser esclarecido o ridí- culo cai como um peso esmagador. indiscutivelmente. pela compre- ensão da realidade cultural de cada ser. no seu momento que passa. especialmente aos trabalhadores e líderes. Enquanto isso. Herculano. por fim. o momento de transição para o “horizonte espiritu- al”. de seus deuses e seus cultos. o ridículo costuma ter uma dimensão re- duzida. causando uma dor pro- funda de ordem moral. Mas o professor deixa vibrar todo o otimismo do seu coração ao apontar para o “momento de transição do horizonte espiritual”. pisarmos no limiar da Nova Era com a esmagado- ra carga de incompreensões e resíduos selvagens e mitológicos de que não queremos nos desapegar. onde se verifica todo um contexto de dúvidas e influências. constatando que esse momento será de transcendência para o Ser. carregados de sacrifícios animais e vegetais. ao visualizar essa dor. Mas virá. Como “Deus põe e o homem dispõe”. por seus pés). marcas essas que denunciam a ligação do Ser àque- le passado. às vezes inexpressiva. (VIII) Herculano vê por toda parte as marcas desses horizontes antigos. A compreen- são dessa situação passa. principalmente em relação à sustentação de ex- periências morais imediatas. (II) A questão aqui está diretamente relacionada aos espíri- tas. é preciso estudar a realidade do mundo. 155 . Seria muito difícil e demasiado ridículo para nós. Essas marcas estão entremeadas de outros ape- gos de épocas mais recentes. que assinalará uma fase de transcendência na vida humana. as marcas divinas ficam quase sempre nubladas pelas mãos do homem (quan- do não. O “horizonte civilizado” desen- volve-se sob signos agrícolas. Wilson Garcia mos libertar-nos de suas fórmulas agrárias. já dentro do horizonte civiliza- do.
apegados aos aspec- tos normativos da aquisição de experiências e sua assimilação. uma realidade que se apresenta aos olhos humanos. no futuro. como quem constata. algo como a1cançar de graça certas “graças”. com certa tristeza e ao mesmo tempo lás- tima. que são detalhes dentro de uma realidade maior. podem errar com mais liberdade suas diretivas existenciais. vislumbrar o mundo em sua generalidade e sobre o qual as paixões. alterando o conteúdo de sua bagagem cultural e uma das reformas con- siste em eliminar os “resíduos selvagens e mitológicos” que se expressam na modernidade por um comportamento de inércia perante a ilusória possibilidade de ascensão a pla- nos de vida felizes. O ser prático ou o ser teórico. e reencarnações aquinhoadas. não de- vem exercer a mesma atração que exercem sobre o homem prático ou teórico. aprimorou sua capacidade de intuição. que acumu- lou experiência e saber. A tendência natural do homem para o mistério e o maravilhoso excita os ânimos e leva criaturas e grupos humanos a verdadeiros delírios. indistintamente. ati- vo e destemido no plano de ação de sua jurisdição. Fala ele para o leitor. (II) O Ser Moral de Herculano é aquele que conseguiu alcan- çar a visão cósmica da vida. adeptos ou criaturas profanas. 156 . aqui. (VI) O professor não distingue. Kardec é Razão chama para si a responsabilidade de induzir o discípulo a aprofundar o processo de mudança interior. com isso. podendo. em que os valores da civilização submergem no pântano das paixões. tem o dever de manter-se vigilante. Mas o ser moral. no mundo espiritual.
Por isso a dor explode por toda a parte. mais à frente. que muitos espíritas aguardam com a ingenuidade dos judeus que ainda esperam o Messias e dos cristãos que aguar- dam a volta de Jesus entre as nuvens. enfrentando de peito aberto a luta do século. não passa de interpretação errônea e supersticiosa de um arquétipo coletivo: o anseio dos homens por um mundo feliz. sim. desper- tado nas criaturas pela realidade longínqua das re- alizações ainda em lenta progressão na Terra e já atingidas no Cosmo por mundos mais antigos que o nosso. Mas ao Ser cabe a tarefa de construir o mundo superior que sonha para a Terra. (X) 157 . em vagalhões enfurecidos. admirar o resul- tado dessa grande batalha do Ser. pode o Ser constatar que muitas falsas profecias se desvanecem ao sopro da leve brisa da realidade. enquanto catástrofes punitivas devastarão o planeta. A preguiça mental e a atração magnética do passa- do encarceradas em si mesmas. O Mito do Terceiro Milênio. conseguirão. com revoadas de anjos ao redor. aquele que já alcançou as noções básicas da vida em sua dimensão cósmica. A dor aumen- tará. Ainda! Outros milênios. O tercei- ro milênio não realiza e não promete realizar os sonhos de formação de uma grande civilização terrena. Wilson Garcia Mas o espírita esclarecido. mostram-se inca- pazes de um gesto de grandeza em favor de realiza- ções urgentíssimas. (IX) Agora que estamos atravessando os umbrais do terceiro milênio. porque só ela pode arrancar os insensíveis de suas tocas. pode e deve tor- nar-se capaz de superar as águas lodosas dos devaneios pe- rigosos.
No mundo. Não lhe é possível. esse terreno fértil por onde transita e realiza suas experiências. é a autoridade mansa e generosa. e negá-lo onde ele só existe em aparência. dos antigos aos modernos. amigo dos grandes pensa- dores. por isso. não raro. E Herculano fala. É. como soem ser somente os Espíritos bastante experimentados nas lides cósmicas. portanto. Herculano é a voz equilibrada e profunda. com autoridade. Ao filósofo. a coragem de dizer as verdades do momento jamais falta. Mas quem direciona e ilumina sua atenção é o Espiritis- mo. em especial aqueles que sentem até à medula o que é de fato ser condutor de homens. mas firme e franca. mas não os apontando menos quando expressam suas próprias idios- sincrasias. tergiversar aí. Ocorre que o mesmo meio onde o Ser se instala para se realizar torna-se às vezes perigoso pela própria presença do Ser. O professor vê com serenidade cada pensamento e cada partícula do conhecimento. Kardec é Razão DO SEXO À POESIA E O DESTINO DO BELO O olhar atento do professor perpassa os principais pro- blemas da vida sem perder de vista o complexo de suas li- gações e as dores das experiências humanas. 158 . A atenção de Herculano está concentrada no caminho do homem. Sua ação diante dos estudiosos supera a mediocridade. que todo aluno gostaria de ter. para conferir valor ao que de fato possui. subverter-se. cujo timoneiro insubstituível foi e continua sendo Allan Kardec. diante da enorme responsabilidade que se apresenta para todos aqueles que escolheram o ideal do crescimento do Ser. destacando com natura- lidade o resultado de suas análises e pesquisas. as coisas e seus valores costumam inverter- -se e.
ou seja. Mas os aventureiros do conheci- mento e todos aqueles que não levam consigo o germe da responsabilidade desejam fazer do desequilíbrio uma nor- malidade. a traição ou os aleijões como nor- mais. não pode ser disfarçado com os artifícios de uma normalidade convencional. A finalidade genética do sexo define de maneira irrevogável a 159 . como “o roubo. (XXXIV) É verdade que os portadores dos desvios sexuais mere- cem compreensão e tolerância. nos quadros do humanismo cris- tão. mas alterar a classificação dos fatos para acomodar interesses é trair a verdade. o que é bom e justo. desfigurar a concepção do homem na sua estrutura e aparência normais. compreensão e auxílio. Compreender e amparar os portadores de anomalias é um dever cristão. não podemos negar tolerância às vítimas de um desequilíbrio sexual que marginaliza tantas cria- turas. Em todas as espécies: minerais. o assassinato. a traição ou os aleijões como nor- mais”.. mas admiti-lo nos quadros da normalidade seria estimular as deformações do comportamento ou. Seu lugar é na classificação patológi- ca. no caso dos defeitos físicos. Quem carrega essas cargas merece amparo. Wilson Garcia Em nossos dias. referente à finalidade. O bom e o justo correspon- dem a finalidades claras e evidentes. na espécie humana o crité- rio teológico. Aceitar uma aberração como normal só porque ela se expande é o mesmo que considerar o roubo. o assassinato. com plena consciência. animais. vegetais. entretanto. o normal é o que se enquadra na definição de Durkheim. tão somente porque veem o desequilíbrio mul- tiplicar-se. como se fazia nos quadros do humanismo gre- go. é o mesmo que considerar” tantas outras. O professor não aceita esse posicionamento e fere a questão com sua lógica: “aceitar uma aberração como normal. Os seus problemas devem e precisam ser analisados.. Esse desequilíbrio.
Toda prática sexual que não cor- responda à sua finalidade ao mesmo tempo equi- libradora. O Ser equilibrado compreende o equilí- brio e não mente nem falseia. Não tendo essas três funções. o sexo deixa de ser bom e justo para se tornar anormal. não cria situações anômalas nem as deseja ver consideradas normais. pois. O anseio sexual da criatura humana não se restrin- ge ao ato sexual Esse anseio provém da necessidade de comunicação. como instrumento que aproxima pesso- as e define relacionamentos que podem ultrapassar a pró- 160 . Kardec é Razão sua normalidade. apenas. é produ- tor de outras tantas energias que se destinam a manter o próprio equilíbrio do homem e tem finalidade reprodutora da espécie. Desfaz. Não se compro- mete com os interesses em jogo. também. estejam esses em que segmento social ou agrupamento for. produtora e reprodutora do organismo humano é anormal. de relacionamento e particular- mente de sintonia com uma criatura afim. acusando disfunções e desvios mórbidos no indivíduo e no grupo social. a referência em que o Ser deve basear-se: o bom e o justo. que o ser pratica em decorrência de impositivos fi- siológicos. E dá ao sexo o seu posiciona- mento de função “equilibradora. taxando-os de moralistas. acabando com a falsidade dos que entendem o sexo com apenas uma das suas reais finalidades. Não! A verdade é outra. (XXXII) O sexo não pode ser visto apenas como um ato inconse- quente. (XI) O professor oferece. para não ajudar a enterrar na vala comum da mentira o conhecimento que liberta. produtora e reprodutora”. Sexo é energia criativa que o Ser utiliza nas ações ao longo da experiência terrena. O professor o vê ainda de forma mais ampla. O sexo promove o equilíbrio das energias orgânicas. a posição dos que condenam os pensadores comprometidos com a moral do Ser.
No entanto. Aí. A virilidade que se aloja no sexo é subver- sora da normalidade. apenas um instante dessa comunicação maior. A luxúria leva o amante a querer devorar a criatura amada. pois. O ciúme leva à contradição de matar por amor. a energia criadora proveniente do sexo se transfor- ma em possibilidades de realização superficial. dilace- rando-a. estabelece uma comunicação perma- nente e realiza o ato da criatividade. (XXXIV) O homem relacionou a virilidade ao sexo e determinou que o macho é a representação dessa virilidade. Uma vez que o Ser se sin- toniza com o outro. o professor demonstra que a virilidade não é em si mesma expressão do machismo. pelo espaço cósmico sem fim. da satisfação sensorial. em renovação intensa de energias. mordendo-a. Tudo isso quando a mente ainda não se ilu- minou suficientemente com as luzes da razão. dessa troca de energias permanente. Wilson Garcia pria existência física. Quando o anormal assume o lugar do normal. dos gozos passageiros e ilusórios que o homem vulgar consi- dera como elemento de sua realização viril. mas componente moral dos Espí- ritos Superiores. É nesse mo- mento que vemos no amor sexual as manifestações de antropofagia. onde o sim- ples prazer adquire importância vital. em jor- nadas terrenas repetidas e continuadas. O erro dos teóricos atuais da sexologia é admitir que essa energia criadora deve ser liberada em fa- vor do prazer. O amor humano impele o ser à posse sexual. O sentimento moral está asfixiado pela loucura dos 161 . Mas quando essa posse não dá a satisfação desejada surgem os impulsos destruidores. na tentativa de autodestruição. manifesta-se o sadismo. torna-se o sexo um instrumento de comunicação. que sem condições de impotência para martirizar os outros transforma-se no masoquis- mo. O ato sexual é.
as perversões mais incontroláveis. Predomina a natureza inferior. Não é ele aí algo impuro. abre as portas dos 162 . nem elemento máximo do prazer na Terra. Dizer a um adolescente que se sente dominado por impulsos negativos e procura livrar-se deles: ''Isso é normal. Confundir alhos com bugalhos é tática de nego- ciantes fraudulentos e inescrupulosos. segundo as propostas superio- res do amor. para o professor. O sexo masculino define a personalidade normal do homem nas suas funções criadoras. como o desejaram transformar as doutrinas religiosas baseadas no amor superficial. pai de todos os vícios no dizer de “O Livro dos Espíritos''. além de expressão do amor. (XXXIV) Baseado no egoísmo. sem perder intensida- de de sentimento. ou quando se torna a bengala da realização criadora. não está simplesmente na relação de dois sexos iguais. Quando o Ser alcança o estágio de poder dar-lhe alguma sublimação. O sexo fe- minino define a personalidade normal da mulher. As “luzes da razão” são as únicas capazes de promover o equilíbrio das forças sexuais e levar o Ser a avançar em sua experiência. Sendo compreendido em suas funções. mas na constatação da inversão de valores em relação ao verdadeiro amor. os impul- sos do animal sufocam a consciência imatura. considerando o sexo como ele- mento de sua vida na Terra. arranje um parceiro” é atirar o infeliz na roda viva de um futuro vergonhoso. tornar-se-á na prática uma importante experiência na grande tarefa de realização do ideal humano. (XI) A vergonha. Kardec é Razão instintos. torna- -se capaz de originar os maiores desvios. o sexo perde conteúdo e desce ao seu estágio mais simples: o animal. torna-se fonte de energia ini- gualável. Quando o sexo assume em si mesmo a principal meta da vida. Neste momento.
(X) Diante do quadro terrível da sexualidade no mundo atu- al. precisa um de homem”. ela voltou para a sala de espera e fugiu com a mãe. A senhora de um jovem engenheiro procurou famoso psiquiatra. não tenho experiência nesse assunto. do que resulta um qua- dro social dos mais conflitantes e irresponsáveis. Daí o apare- cimento de toda uma conjuntura social que tenta dignificar as relações anormais. Ela o encarou com espanto e exigiu a devolução do dinheiro da consul- ta: “Não vou pagar com o dinheiro do meu marido. pensadores inúmeros lutam para validar situações que 163 . sem que lhe permitissem a companhia da mãe.” Uma senhora idosa recebeu a mesma receita e disse ao médico e profes- sor de medicina que a atendera gentilmente: “Dr. subversora da moral. ganho honestamente. com medo dos outros. Assuma a sua responsabilidade de homossexual e viva a vida que Deus lhe deu”. a estimular o crescimento desse estado de coisas. O cliente arran- cou um punhal do colete e o doutor escapou pelos fundos do prédio. O rapazinho lacri- mejou e respondeu: “Não posso. Um adolescente ouviu de seu médico este conselho: “a cura está nas suas mãos. Uma jovem angustiada pediu à mãe que a levasse a um psiquiatra sacerdote. quero ser um homem”. me cede sua mulher para o meu aprendizado prático?” Um homem de seus trinta anos ouviu do psiquiatra: “O senhor não satisfaz os seus impulsos apenas com mulheres. os chifres com que o senhor deseja adornar a sua cabeça. O médico disse impassível: “O homem deve ter coragem para tudo”. doutor. o terapeuta a encarou sorrindo e perguntou: “Você tem um amante?” Ruborizada. A mãe a levou a respeitável clérigo que se dizia espe- cialista em Psiquiatria.. Wilson Garcia desvios e força a mudança da ordem das coisas. ao lado dela aparece uma estrutura econômica dominadora. O Sr. Mal entrou no consultório. Ele lhe deu a receita: “um amante”.
ou seja. basta a inversão da polaridade na adaptação do espírito ao novo corpo material. E com a mesma determinação.. afir- mando a verdade e condenando tudo aquilo que contribui para aumentar a dor. (VII) 164 . Her- culano poderia juntar-se a essa grande massa de seres que exaltam a suposta importância do prazer irresponsável. pelo menos no que diz respeito aos pontos em que se determinou apreciar. Para a mudança de sexo na reencarna- ção. Na verdade. Sabemos hoje com segurança que a sexualidade é um sistema de polaridade não adstrito à forma es- pecifica do aparelho sexual. a sexuali- dade é a fonte única dos dois sexos. não se trata de uma conde- nação pura e simples do sexo desviado. entendendo estar aí a solução dos problemas.. Ficam em paz com a sociedade e alcançam. mas de uma aná- lise racional e dialética da questão. Vendo no sexo mais do que instrumento do prazer. aludindo ao problema das mudanças de posição sexual de uma encarnação para outra.) exclui a possibilidade de um terceiro sexo. entendendo-o como instrumento de comunicação dos seres. o professor fecha o tema com clareza. Kardec é Razão julgam de fato e de direito. A natureza dialética da sexualidade (. como ensina Kardec. o masculino e o feminino. muitas vezes. Essas inversões se processam no perispírito. benefícios para seus próprios dilemas. em face da necessidade de experiências novas no plano evolutivo. combate os desvios da interpretação doutrinária: Enganam-se as entidades espirituais e os estudio- sos humanos do Espiritismo quando atribuem a responsabilidade dos desvios sexuais à reencar- nação. pelo qual os huma- nos se descobrem nas afinidades. (XXXIV) Como se vê mais uma vez. mas preferiu manter a postura coerente do equilíbrio.
Vale. sem o controle da razão. seguida da explicação de que o mesmo Espírito pode animar um corpo feminino ou masculino. Herculano remonta a Kardec a sua argumentação. E vão buscar no passado conclusões que a razão não sanciona nem a ciência comprova. a seguinte afirmação: “os sexos dependem de constituição orgânica”. lá está. nas quais os apressados acabam derrapando doutrinaria- mente. em vista de cederem a uma necessidade quase mór- bida de terem respostas para tudo. no que são acompanhados por Espíritos também ignorantes das verdades. (X) O mesmo raciocínio serve para outras tantas questões. saem pressu- rosos a dizer falsidades acerca da questão. pouco se lhe importando tal condição. (XXVII) A proposta de uma vida que espera pela morte é apa- vorante para a cultura que valoriza a vida material e não contempla a invisível. A ideia de que a vida verdadeira não está aqui. mas além das aparências. sempre mais brutais que as femininas. 165 . em “O Livro dos Espíritos”. deixar enfati- zado que: Ver num jovem efeminado a reencarnação de uma mulher pervertida é fugir à realidade universal das perversões masculinas. Wilson Garcia Muitos cobram dos espíritas um posicionamento em re- lação à sexualidade humana. desejosos de atendê-los mas sem a devida qualificação. de fato. e alguns espíritas. portanto. como o Cristo afirmou. O SER DIANTE DA VIDA E DA MORTE Preparar para a vida é educar para a morte. mas tudo dependendo das expe- riências porque deve passar. Por- que a vida é uma espera constante da morte.
ou desli- gamento do corpo físico. portanto. A vita- lidade ou fluido vital é o que dá movimento ao corpo e pos- sibilidade da sua união com o Espírito. covardes e venais. se fosse possível. Só há uma maneira de fugirmos ao envelhecimen- to. Eis aí o engano. embora pareça em si uma contradição quando se chama a atenção para a necessidade de experiência do Espírito no plano ter- reno. Mas tanto a morte quanto a velhice costumam ser vistas pelos seres humanos como estados ne- gativos. Os que se fazem in- dependentes em meio à servidão geral podem sor- rir. a experiência deve ser vista como etapa de um Espírito em evolução. “um fenômeno de natureza biológica”. pelos quais. Cada vez que reencarna. pois o espírito não envelhece. Kardec é Razão constitui uma verdade a antepor-se a essa cultura. no qual se verifica o esgotamento da vitalida- de nos seres pela velhice ou por acidentes fisiológi- cos. da arrogância dos estúpidos. por razões outras. daí a assertiva do professor para o fato de ser a “vida (na Terra) uma espera constante da morte”. o Espírito desenvolve experiências e enriquece seu patrimônio cultural. Na verdade. A morte é um fenômeno natural. Mas suas reencarnações são sempre sucedidas pela morte. Eis como deve ser naturalmente encarada. como Voltaire. sempre levando em considera- ção que a própria existência do planeta Terra é transitória. A morte é. têm sua vitalidade comprometida no meio do caminho. que esmagam os indefesos com os recursos de suas castas exploradoras. avançando. ninguém gostaria de passar. de natureza bioló- gica. em nome de Deus e das instituições criadas pelos egoístas. Só não a alcançam aqueles que. (II) 166 . (XXVII) O processo natural da vida física no planeta leva à velhi- ce. que é preservando a nossa liberdade espiritual.
O OCEANO NÃO CABE NA ÂNFORA DE ARGILA Um rápido encontro com a veia poética e romântica de Herculano Pires talvez feche este capítulo de forma senti- mental. dobra-se às imposições do tempo e nele se perde. como se perdeu Sartre e tantos outros. continua mandando o ideal. contrabalançando com a aparente rudeza de suas colocações anteriores. Mas este encontro serve. também vi- bram sonhos e quimeras. Desesperado. porque é ele que dita as normas e constrói os adereços que vão ornar as belas construções gramaticais. neste terreno extremamente audacioso para um Espírito viril. portanto. Estavam rijas. Sem liberda- de o Ser se amesquinha. se esta é inevitável? Ora. cuja coragem não conhece barreiras e cuja vida parece estar vinte e quatro horas por dia volta- da para as grandes e intermináveis discussões. pelo qual se consagra em todos os terrenos literários por onde passa. Eis a boa filosofia de Herculano. a velhice é do corpo e só alcança plenamente o Espírito quando este não concebe desfrutar da liberdade que possui. É a prova de que no coração de um idealista convicto. quis atirar-me às ondas e correr ao seu encalço. Mas as pernas não me obedeceram. Quis então gritar para aquela visão que me aluci- 167 . E por onde pas- sa é sempre o professor que aprendeu com o mestre e que deseja despertar o aluno. fincadas na areia. ativo. acima de tudo. O idealista também sonha e no seu sonho palpita o mes- mo sentimento do bem e do justo. consciente e. de superar a decadência física e manter-se apto. para mostrar que mesmo aí. como estacas. Wilson Garcia Como pode a liberdade espiritual se antepor à velhice.
amargo. dos viadutos e do tempo. mas a voz se recusou a sair. Antes. sorriu e continuou andando. não elimina a virilidade do pensador. Joshua. melhor não esperar a eternidade para romper e 168 . E não haverá. A ficção. nisso. (VI) O belo. Kardec é Razão nava. viajando até onde chegam suas forças. Acima das rosas e dos mendigos. seja rabiscando com sua velha máquina de escrever poesias e romances. nem um só dos seus músculos se movia. Minha gargan- ta estava rígida. an- tes de ser o sinal de atraso é o instante em que o ideal se encontra com a esperança. os pés diáfanos e leves mal tocando as ondas. di-lo-ia o professor. os mendigos microscópicos serão transfor- mados em poeira. Herculano refrescava suas andanças com instantes incríveis de ingênua alegria. com a mesma inalterável paciência. Nesse momento. como o remédio. Porque a rosa nasce para fenecer. como percebendo a minha angústia e se apiedando de mim. voltou-me o seu rosto. Nos baixos do Viaduto de Santa Ifigênia. e os mendigos para morrer. e tão necessário quan- to aquele para curar os males de um sentimentalismo me- nor que só aumenta as dores. que banhava nas trevas. Quando o deus de aço dos séculos cansar de olhar as torres da igreja e puxar novamente o braço. dá-lhe um sabor. a eternidade espera todas as coisas. quando não bem com- preendido. Se “a eternidade espera todas as coisas”. seja enfeitando a pequena ár- vore de Natal com bombons adquiridos no mercadinho ao lado. o Rabi de Nazareth. na imensidão incomensurável do universo. os men- digos de São Paulo construíram o seu Pátio dos Milagres. (V) A dureza da vida ganha encanto e se projeta no cosmo. que eleva o sentir. nenhuma calamidade. unindo-se a ela e produzindo o amor.
Os homens passam indiferentes. diariamente. estendem as mãos em gestos maternais. Mas as mulheres arqueiam docemente as sobrancelhas. neste mundo em que os corpos pesam de verdade. (VI) Alma nenhuma. Não veem. São elas que derramam a maior quanti- dade de níqueis. numa chuva de alegres tinidos. nem ouvem os seus la- mentos. o bem que verte das seivas. o mendigo. e seu sa- bor provado. amaciam a voz. Tudo isso leva o nosso professor a encerrar sua alma no Supremo Arquiteto: Deus Inteligência do Universo. a ânfora de argila conter o oceano? (XII) 169 . Josué. sabe que as mulheres são a alma da cidade. em arrancos de tratores. porque o belo só pode ser sentido. Tudo o mais: palavras! Pode. cantando no fundo do velho chapéu de mendigo. acaso. há de andar pela vida olvidando os encantos da natureza. e os sentimentos que se apuram nos sofrimentos do Ser. causa primária. enternecem os olhos. no seu velho chapéu de pedinte. por aqueles que conseguem alçar voo rumo às profundas ondas de um fluido cósmico. ruminando os seus instintos. Wilson Garcia sair do casulo. de onde o Pai retira toda a argamassa para sua construção. lerdos e pesados. e as moe- das caem.
Kardec é Razão 170 .
até mesmo quando fora preciso colocar em jogo velhas amizades. O ponto culminante deste estudo é ainda o mais polêmico. em meio a estas plácidas paragens que compõem o Planalto Paulista. criam situações perversas para os ami- gos da justiça superior. Herculano rendeu-se totalmente ao ideal e se fe- chou para os ecos do grande grito que deu. mais tarde. misturam num mesmo local seres que se amam e se admiram. E para deixá-las ainda mais compli- cadas. porque apresenta o terreno onde o professor disputou a parcela da verdade que o animou a vida toda. devem digladiar no ringue 171 . O Ser que se inicia neste terreno logo percebe o quanto é movediço. Wilson Garcia Capítulo 6 A VOZ DA RAZÃO QUE CLAMA NUM DESERTO DE SONS E SILÊNCIOS Para o capítulo que fecha este breve estudo. reservei de- liberadamente a veia forte e firme do professor. Aqui. mas que. Não sendo este um estudo biográfico. As sociedades. em todos os seus estamentos. O pro- fessor usou sempre. embora também não bibliográfi- co – por todas as lacunas que nestes terrenos tem – alimenta o objetivo já declarado anteriormente de reviver uma parte importante e indispensável do pensamento daquele que foi o maior e mais destemido defensor de Kardec e da razão que brota inequívoca da obra espírita.
Kardec é Razão armado dos interesses. porque “a rosa nasce para fenecer. Pouco. De início. porque a vida que se ganha se defende. O que vale é navegar nas ondas deste pensamento e sabo- rear o aroma de uma peleja que deixou sua marca indiscu- tível. quase numa justificativa de seu caráter: Quem não defende a Verdade traída e conspurcada pela mentira não é digno dela. A Pureza Doutrinária é o nome que se convencionou dar a esta luta insana. (IX) O Espiritismo não estaria aí para ser amado. E vão dividir-se irremediavelmen- te. Herculano viu nisso uma falácia. e que revela nos seus meandros uma invejável ânfora de energia que somente os homens decididos. o caminho 172 . pois ela se basta a si mesma. O exemplo do professor ele o deixou alicerçado em irre- torquíveis pensamentos. E quem não é digno da Verdade. revividos na su- posição infantil de abrir antigas feridas. mas no sentido de mostrar quanto vale ser amigo de um professor que. mas a própria vida daqueles que. na certeza de que estavam não só defendendo a fonte da vida. justos e bons. junto a Herculano. defendendo-o ou acusando. conseguem juntar: a coragem de dizer e viver! Os pensamentos não serão. deve levá-lo a lutar contra as ameaças de destruição da fonte cristalina de sua água. como poucos. O mesmo instinto que leva o Ser a proteger-se do perigo. que alguns. Os deterministas acreditam que a Verdade não precisa de defensores. entendendo que enquanto a Verdade não triunfa por si mesma. se decidiram pelo Espiritismo. portanto. como ele. É para isso que nos direcionamos. resolveram enfrentar. importa discutir. soube entender o mestre e aproveitá-lo como base de uma nova cultura humanística. agora. o que significa antes de mais nada. entrega-se à mentira. e os mendigos para morrer”. mas vivido. ser defendido. com seu vigor. ele aparece.
(II) Era um recado com destino certo. dado por quem se sen- tia com a necessária competência para falar. deve primeiro mergulhar no estudo da Dou- trina em profundidade. nem sempre sua voz era ouvida com o respectivo silên- cio respeitoso. Por isso. na difusão dessa doutrina. mas por ser Espírito a caminho dos planos superiores da vida. tratam de oferecê-la segundo suas cargas cultu- rais e seus interesses momentâneos. Justo e bom. sem as condições ideais para compreender a Verdade. mesmo que disponha dos mais importantes títulos universitários ou esteja colocado nas mais altas posições sociais. deixavam o terreno da intimi- dade para comprometer um grande número de criaturas. apesar da força intrínseca de uma doutrina inigualável. dizia: O espírita que quiser dar um pio nas polêmicas atuais. dos vaidosos e de todos os que. Neste momento. mas não admitia vê-los confun- dindo os princípios espíritas e interpretando-os de acordo com velhos e ultrapassados conceitos. era confundida com 173 . Mas a mentira não é só aquela que brota dos corações maus. Mais grave a situação ficava quando essas interpretações equivocadas eram assu- midas de público. Herculano compreendia estar lidando com pessoas interessadas. é também originária dos incautos. as quais Herculano entendia que as lideranças espíritas ti- nham maior responsabilidade. No campo do movi- mento espírita. os interesses não costumam ser diferentes do restante da sociedade. de alguma forma. onde Herculano resolveu levantar sua ten- da. Herculano sempre emitia sinais de justiça e bondade. porque. de modo que. aí. mas a claridade chegava a alguns um tanto enevoada. ética e moralmente. a virilidade do professor. Wilson Garcia vai ficando cheio do sangue daqueles que foram vitimados pela mentira. que não existia por ser ele homem.
O Codificador sentiu alguns fortes golpes. (VII) É certo que a realidade de hoje. O reconhecimento cientifico da realidade dos fenô- menos mediúnicos afetou beneficamente o Espiri- tismo. como se fosse um derrotado. como sempre acontece. de criticar e reformar Kardec. Che- gou-se a criar uma prevenção contra a palavra flui- do e alguns espíritas ligados a atividades cientificas consideraram a teoria espírita a respeito. porém. fugindo da terminologia espírita 174 . mas não se abalou. Muitos espíritas se deslumbraram com o fato e julgaram-se capazes. propon- do modificações na terminologia doutrinária. tirava o professor de sua serena audácia. (VII) Esta é uma questão ainda presente nos dias de hoje. Retocar e até reformar Kardec foi intenção de homens vaidosos. Herculano assumiu. desde o instante em que a Doutrina soltou seus primeiros vagidos. que se declaram cientistas. desferidos por aqueles homens. no tocante ao tema. dependem dos intérpretes para escolher seu caminho. Kardec é Razão agressão pessoal e considerada resultado de uma pretensão descabida. Mas o professor não deixava passar em branco as oportuni- dades de tocar nos pontos importantes da realidade em que estava inserido. embora sem o necessário preparo. pessoalmente. Al- guns espíritas. a árdua tarefa de lutar contra eles. especialmente quando os golpes pu- dessem produzir muitos estragos entre aqueles que. que desencarnou em 1979. Desde Kardec a teoria dos fluidos tem provocado divergências entre os cientistas e os espíritos. não é diferente da época de Herculano. o vencedor. mas trouxe-lhe também algumas desvanta- gens. expressam de pú- blico complicadas teorias. Nada.
Sartre continuou a envelhe- cer. Wilson Garcia como se ela fosse motivo de vergonha perante a comunidade acadêmica. um discernimento claro da- quele que consegue ir ao âmago dos fatos. restavam forças ao filósofo para conquistas amorosas. O que de fato importa é o conteúdo do pensamento. gastou suas últimas energias na sua volumosa obra Crítica da Razão Dialética e acabou perden- do seu único olho. Absolutamente! Herculano se servia dos pensamentos dos estudiosos quan- do mereciam crédito. es- pantou a lagosta e tomou conta do companheiro antes que fosse tarde. Isso provava que a velhice não estava tão próxima as- sim. que se dizia muito velho e doente. o que mostra que o sentimento de justiça o dominava e o colocava acima das contingências. mas o homem comum mistura o pensamento com aquele que 175 . também. Muitos filósofos estão presentes em sua obra.. Mulher decidida e prática. mas os combatia quando era preciso defender a Verdade. como nunca foi da bola. o que não impedia ao professor de condená-los ali onde claudicavam. para sua perfeita compreensão. Eis o exemplo de Sartre. além de exigirem. (II) O mesmo procedimento vai aparecer no professor em relação aos espíritas. A velhice o abateu e ele hoje confessa que não vai bem das pernas. pois ficou picego desde criança e sempre viu o mundo enviesado.. Simone mandou a enfermeira embora. O fato de combater a mentira não produziu em Hercula- no o amargor presente em muitos críticos. Herculano combateu essa postura por entender que a Doutrina possui sua terminologia própria e porque. as revelações doutrinárias devem ser entendidas no contexto social em que foram feitas. embasando seu pensamento. Simone arranjou-lhe uma jovem enfermeira e esta se engraçou com o doente e o doente com ela. apesar de filósofa. com um olho só.
Herculano o fez: André Dumas declarou à sucursal da revista Man- chete. e coloca tudo na vala comum da condenação. Quando fora pre- ciso polemizar com André Luiz. desde os primeiros resultados das suas pesquisas. e lá estava a voz do idealista: André Luiz refere-se aos ovoides. a crítica de Herculano que conseguiu deter muitos avanços perigosos e fazer com que alguns. André Luiz dissera coisas que não podiam ser aceitas passivamente. como reconheceu Herculano. apesar de tê-lo elogiado em outra ocasião. Foi. no entanto. Todos sabem que poucos contaram com tanto respeito e admiração. Quando fora preciso apontar o erro de André Dumas. o nome do Espírito também nada acrescentava à análise das men- sagens mediúnicas que o professor fazia. Her- culano Pires. Kardec considerou o Espiritismo. como quem confunde o remédio com o doente. (II) Se os títulos acadêmicos não são passaporte para a com- petência doutrinária. refletissem sobre suas ações e reformulassem as disposições de seu íntimo. em Paris. ele o fez. como um renascimento do Cristianismo deformado pela dog- mática das igrejas. No que se tornaram reconhe- cidos divulgadores do pensamento kardequiano. espíritos que per- deram o seu corpo espiritual e se veem fechados em 176 . o médium de André Luiz. por parte de Chico Xavier. Não foi essa a ra- zão. sem discussão. recentemente. predispostos à humildade verdadeira. Kardec é Razão o emitiu. Pois bem. de- sejavam encontrar um meio de conciliação da fé tradicional com o Espiritismo. quanto ele. que Kardec escreveu O Evangelho Segundo o Espiritismo para atender às pessoas que. na França. Alguns de seus livros foram escritos em parce- ria com Chico. apesar de seus es- treitos laços com o médium de Uberaba. aceitando a realidade espírita.
por pesquisadores competentes. (XI) Com isto.. 177 . As exi- gências doutrinárias são muito mais rigorosas no tocante à aceitação de novidades. Não basta o conceito do médium para validá-la. provou a realidade dessa teoria. envoltos numa espécie de membrana. empregando às vezes termos que destoam da terminologia doutrinária e conceitos que nem sem- pre se ajustam aos princípios espíritas. independente- mente. Wilson Garcia si mesmos. A facilidade com que a maioria das pessoas aceita livros de evidente mistificação. forma anterior do ser espiritual. Nenhuma pesquisa séria. Não passa de uma informação isolada de um espí- rito. (. que parece heresia em Herculano. bem como de outros médiuns. intocáveis e indiscutíveis. Herculano cumpria o dever de informar a Verdade..) André Luiz manifesta-se como um neófito empolgado pela dou- trina. A ação vampiresca desses ovoides é aceita por muitos espíritas amantes de novidades. portanto. A ampla li- berdade que o Espiritismo faculta aos adeptos tem os seus limites rigorosamente fixados na metodolo- gia kardeciana. Kardec foi sempre muito severo ao alertar para a necessi- dade de análise das mensagens mediúnicas. Aquilo. ainda hoje. de quem as assina. uma grande quantidade de espíritas que julgam a pessoa e o trabalho de Chico Xavier. e o fazia com apoio no mestre. como os Evangelhos de Roustaing. Isso lembra a teoria de Sartre sobre o em-si. Mas essa novidade não tem condições científicas nem respal- do metodológico para ser integrada na Doutrina. e tantas outras. dizia ele. ele apenas demonstrava como os ensinamen- tos de Kardec podiam e deviam ser usados. Apesar de haver. que a rompe ao se pro- jetar na existência por necessidade de comunica- ção. as obras de Ramatis. eivadas de contradições e de passagens ridículas. mais não é que uma postura correta e elogiável.
E essa prova só pode ser feita de duas maneiras: de um lado. conferindo-se a pre- tensa superação com a obra de Kardec para verifi- car-se qual das duas está mais coerente e apresenta maior coesão. para os quais ela foi especialmente elabo- rada. sem vaidade. não só ficava patente a sua compreensão sobre o fator evolutivo do Espiritismo. conferindo-se. maior unidade e firmeza nos seus princípios. Foi esta. Qualquer obra que pretenda superar Kardec ou su- bestimar a Doutrina Espírita precisa ser submetida à prova do toque. como também a seriedade 178 . a qual pode ser resumida nestas suas palavras: É ingênuo ou pretensioso. de outro lado. Kardec é Razão destinadas especialmente a ridicularizar a doutri- na. Her- culano mostra o caminho das pedras. (IX) A grande polêmica. que envolveu a tradução feita por Paulo Alves Godoy de “O Evangelho Segundo o Espiritis- mo”. a mais dura refrega a que se lançou. talvez. provém dos milênios de sujeição das massas à mistificação clerical. como reco- menda o próprio Kardec. (X) Ao mesmo tempo em que apresenta o seu parecer. isto é. louco ou megalômano todo aquele que se atreve a tocar na obra de Kardec com a intenção estúpida de adaptá-la aos tempos atuais. encontrou no professor uma disposição incomum de lutar contra aquilo que chamou de obra de mistificação. os princípios da pretensa superação com as exigências do pensamento atual em todos os campos de nossa atividade mental. (XIV) Com isso. oferecer contribuições para a melhoria da Doutrina. orienta sobre os rumos que devem ser tomados por aqueles que desejam.
. mas esclarecida e. A pretexto de ser a Doutrina progressista.. mais de cento e cin- quenta anos depois. O Espiritismo evolui como tudo evolui no Univer- so. o desdobra- mento de sua obra. reforçada. não foi contraditada seriamente. Nele reside a grande teia que liga todos os princípios e todas as informações contidas no Espiritismo e é por causa do bom- -senso de suas propostas que a Doutrina conseguiu e conse- guirá atravessar os séculos incólume às guerras ideológicas que ao seu redor se dão e fazem esboroar tantos e tantos conhecimentos mal alicerçados. 179 . (XIV) A obra do Cristo não foi superada. pois a geração atual não revelou ainda condições sequer para compreender Kardec. (XIV) Afinal. Mas a obra de superação de Kardec pertence às gerações do amanhã. foi o bom-senso um dos mais relevantes fatores que distinguiram Kardec dos seus contemporâneos e per- mitiram-lhe realizar uma obra que. mas aprimorados. uma vez que não contém conhecimentos que devam ser substi- tuídos. desenvolvidos. mas ao mesmo tem- po mais preciso. os mesmos que o Es- piritismo reformou ou superou. Alguns são mais pre- tensiosos ainda e desejam ver incorporados no Espiritismo conhecimentos de doutrinas antigas. como ensinou Kardec. é o fio de pru- mo que nos garante a construção de um Conheci- mento mais amplo e mais rico. querem alguns enxertar nela conhecimentos que não têm suficiente respaldo científico nem contam com a sanção universal. complementados. O Espiritismo segue a mesma trilha. por- tanto. A superação de Kardec não será mais do que o prosseguimento do seu trabalho. Wilson Garcia com que a empreitada deveria ser realizada. O bom-senso.
antes. um combatente do porte de Herculano Pires submetido a doses de pessimismo. magoar o amor- -próprio de amigos e companheiros. na lógica. jamais. Para cumprir esse ideal. dito assim de maneira clara. Seria esta uma manifestação fanática? Evidentemente que não! Não se trata. para facili- tar o homem e sua inserção nele e a consequente realização de seu objetivo maior: a evolução. ampliados. (XIV) A vida poderia ter encaminhado Herculano para o preci- pício do pessimismo. que o rous- tanguismo é simples questão de opinião e por isso não deve ser discutido. clamando por uma paz de pantanal que nada mais é do que covardia e traição à verdade. levantar no próprio meio espírita inimigos gratuitos. ou que este ou aquele pre- tenso cientista tem o direito de formular novas te- orias. por exemplo. mas de considerar a realidade dos fatos e verificar sua força. Quem se atreve a afirmar. mas não o fez. ele a encaminhou com otimismo e certeza de um futuro com esplendor. dá uma prova espontânea de sua ignorân- cia do problema espírita em sua inelutável posição epistemológica. mesmo que peque- nas. Se a Guevara coube afirmar que era preciso lutar “mas 180 . Mas. O fanatismo não se casa com uma doutrina que é baseada no bom-senso. defendemos a doutrina ou nos acomodamos na falsa tolerância. provocar revides apaixonados. Kardec é Razão enfim. resultou na for- mação de uma categoria de espíritas conscientes e desejo- sos de realmente lutar para que a Doutrina prossiga. através das experiências na Terra. Herculano afirmou: Temos de ferir susceptibilidades. (XIV) Tudo isto. diria o professor. Não se imagine. na sua tarefa de dar a conhecer a realidade do mundo. de defender o indefensável. de duas uma: ficamos com a verdade ou ficamos com o erro.
mas para um mundo melhor. que não se incorporou a nenhum grupo mandado às guerras fratricidas. Os que lutam pelo bem e pela ordem. a Herculano. pela cultura e a beleza. para a anarquia. (XV) Fim 181 . pela bondade e a fraternidade acabarão vencendo. diante do tumulto do mundo. Wilson Garcia sim perder la ternura”. Não caminhamos para a confusão. porém. pela preservação dos grandes princípios morais que dignificam a vida humana. a ternura se misturava ao profundo senso do bem e do justo. Ninguém se engane. para a baderna.
Kardec é Razão 182 .
Ed Edicel. 1ª edição. Edições Cairbar. (XV) O Mistério do Bem e do Mal. 1ª edição. SP. Editora Paidéia. Editora LAKE. 1ª edição. 1ª edição. Editora Edicel. Editora G. (XXII) Ciência Espírita.B. 1ª edição. SP (I) Pedagogia Espírita. Editora G. Editora Edicel. (VIII) O Homem Novo. SP. Fraterno. SP. Vida. Editora Edicel. S. Editora Correio Fraterno. SP. Ed. (IV) Parapsicologia Hoje e Amanhã. SP. SP.(XXV) Educação Para Morte. 1ª edição. (XIX) O Verbo e a Carne. SP. (III) 183 . 4ª edição. Editora G. C.B. Edições Cairbar. Ed. SP. do Campo. Ed. (XXIII) Barrabás (o enjeitado). 1ª edição. Editora Clube do Livro. S. SP. SP. SP (XVII) O Mistério do Ser Ante a Dor e a Morte. 1ª edição. Edicel. (XXVI) O Centro Espírita. (V) Chico Xavier Pede Licença. (VII) Na Era do Espírito. 1ª edição. do Campo. (XVIII) Mediunidade. SP. Wilson Garcia Bibliografia Herculano Pires A Pedra e o Joio. 1ª edição. SP. 1ª edição. Herculano Pires. 1ª edição. Paidéia. do Campo. 1ª edição.B. (XX) Argila. 1ª edição. SP (XXVII) Madalena. 1ª edição. SP. S. Fraterno. (X) Diálogo dos Vivos. (II) O Ser e a Serenidade. Editora Pensamento. (XXIV) Na Hora do Testemunho. 1ª edição. USE. (XIV) Agonia das Religiões. Editora C. Paidéia. Editora Correio Fraterno. (IX) O Espírito e o Tempo. Editora Paidéia. Martírio e Mediunidade. 1ª edição. 4ª edição. do Campo. SP. 1ª edição. 1ª edição. SP. (XII) Arigó. (XXI) Astronautas do Além.B. 1ª’edição G. S. SP (XIII) O Infinito e o Finito.
Paidéia. S. Editora C. Edicel. SP. (XXXI) J. (XXXII) Castro Alves Fala à Terra. Editora FEESP. 1ª ed. Chico Xavier. Heloisa Pires. SP. MG. Castro Alves.. Jorge Rizzini.B. Valdo Vieira e Jorge Rizzini. Guerra Junqueiro. SP. Editora Edicel. 1ª edição. (XI) Visão Espírita da Bíblia. 1ª edição. (XXXVI) O Livro dos Espíritos. Allan Kardec. o Homem no Mundo. Editora Paulo de Tarso.B. de Fora. Ed Instituto Maria. (XXXV) História do Espiritismo. Filósofo e Poeta. 1ª edição. Humberto Mariotti e Cló- vis Ramos. Ed. (XXVIII) Um Deus Vigia o Planalto. do Campo. 1ª edição. Editora Correio Fraterno. Gaston Luce. S. S. 1ª edição. SP. Editora Pensamento. J. 1a ed. Edição Especial da Editora LAKE. Arthur Conan Doyle.B. (XXIX) 184 . André Moreil. 1ª edição. Fraterno. 1ª edição. SP. SP. do Campo. Livraria Francisco Al- ves. SP (XVI) Outras Antologia do Mais Além.. (XXXVII) Sexo e Verdade. Editora Correio Frater no. 2ª ed.. (XXX) Vida e Obra de Léon Denis. Editora LICESPE. SP. (XXXIV) Vida e Obra de Allan Kardec. Herculano Pires. 1ª edição. SP. do Cam po. 1ª edição. Ed. (VI) Vampirismo. Casimiro de Abreu e Jorge Rizzini. Kardec é Razão Pesquisa sobre o Amor. (XXXIII) Herculano Pires.
130. 122 Educação espírita. 117. 49. 138. 44. 151. 111. 30 Concentração mental. 169 Disciplina no Centro Espírita. 38. 178. 129. 20. 120. 70. 113. 31. 148. 59. 70 Educação. 94 Envelhecer. 136. 57. 29. 68 Evolução. 176 André Luiz. 120. 33 Cura no Centro Espírita. 148. 122. 39 Educador. 63. 113. 128. 37 Educando. 117. 98. 58. 28. 144. 140 Ato mediúnico. 130 FEB e Federações estaduais. 107. 112. 95. 67. 142. 56. 166 Espíritas. 51. 176 Artificialismo. 133 Ciência espírita. 115. 65. 54. 149. 108 Fidelidade a Kardec. 180 Formalismo religioso. 131 Dor nos animais. 78. 179. 119. 105. 32. 128. 48. 114 Centro espírita. 104. 114 Espiritismo. 145 Dor. 31. 129 Fé raciocinada. 53. 22 André Dumas. 146. Wilson Garcia Índice Remissivo Allan Kardec. 41 Elementais. 106 Deus. 142 Cultura. 110. 121. 43. 130 185 . 66. 139 Caridade no Centro Espírita. 101 Desobsessão. 121 Ciências sociais. 121. 79 Bíblia e Espiritismo. 150 Fanatismo. 113 Centro espírita e política. 100. Doutrina Espírita. 124 Evangelização infantil. 64. 55. 66. 64 Domesticação católica. 90 Criança. 52. 75 Cristianismo. 45. 69. 67. 36.
85 Mediunidade em casa. Morte. 75. 156. 79. 148 Laicismo. 72. 27 Pedagogia espírita. 127.120 Oradores e expositores. 25. 46 Plano Angélico. 72 Polêmicas doutrinárias. 114 Práticas místicas. 73. 117 Mística judaica. 26. 173. 154. 83. 179 Raízes históricas. 116 Programação cármica. 71. 94 Mediunidade e corpo físico. 88 Mediunato. 61. 147 Manifestação de Espíritos de crianças. 157 Ramatis. 174. 74. 23 Medicina espírita. 116. 81. 98 Médium. 75 Mediunidade nas crianças. 87 Mediunismo e Espiritismo. 55 ÍNDICE REMISSIVO Jovens. 11. 113. 73 Mediunidade animal. 103 Mario Graciotti. 131 Imagens no Centro Espírita. 71. 136 Misticismo igrejeiro. 177 186 . 52 Mediunidade em Kardec. 97.117. 178. 75 Mediunidade.118. 166 Objetivos do Espiritismo. 126. 33. 80. 54 Preconceito cultural. 74. 24. 76. 62 Parapsicologia. 77. 102 Missão do Espiritismo. 125. 84. 96. 40 Liberdade. 86 Manifestação de negros e índios. 87. 60. 85 Mérito e cura. 165. 82. 1831 Igrejismo salvacionista. 173 Política. 95 Mediunidade na adolescência. Kardec é Razão Função mediúnica. 92. 93. 69 Pureza doutrinária. 72 Futuro do mundo.
125. 165. 163 Símbolos. 154 Sessões espíritas. Wilson Garcia Reencarnação. 153 Superstição. 162. 91. 89 Religião Espírita. 164. 132. 177. 117. 172 Vidência. 122 Sobrevivência. 89 Sexo e reencarnação. 137 Simone de Bevoir. 40 Revista Educação Espírita. 180 Sartre.167. 88 Terapia espírita. 61 Verdade. 161. 168 Sexologia. 119 187 . 69 Regras para sessões espíritas. 128. 99 Terceiro milênio. 131. 133. 118. 126. 98. 163. 164 Tribunas espíritas. 135 Religião nas Escolas. 157 Terceiro sexo. 134. 127. 46 Roustaing. 92 Virilidade. 175 Sincretismo religioso. 175 Sentimento e razão. 130.
Kardec é Razão 188 .
Você é Kardec? Entre o Espírito e o Mundo Espiritismo Cultural – Arte. o Bandeirante do Espiritismo (com E. 90 Anos (Pequenas Crônicas para uma Grande História) Cairbar Schutel. Monteiro) Você e a Obsessão Você e a Reforma Íntima Você e o Passe (com Wilson Francisco) Você e os Espíritos Traduções Cérebro e Pensamento. Monteiro) Chico. Monteiro) Uma Janela para Kardec Vidas – Memórias e Amizades Vinicius . Filósofo e Poeta (Humberto Mariotti/Clóvis Ramos) Victor Hugo Espírita (Humberto Mariotti) 189 . Wilson Garcia OBRAS DO AUTOR Ao Cair da Tarde – Momentos de Paz Barroso. Teatro Estratégia. e outras monografias (Ernesto Bozzano) Herculano Pires.Casa de Serviços e Cultura Espírita O Centro Espírita O Centro Espírita e suas Histórias O Corpo Fluídico O Destino de Lorde Arthur Saville (Oscar Wilde) trad. e interpretação O Fantasma de Canterville (Oscar Wilde) – tradução e interpretação Sinal de Vida na Imprensa Espírita (com Eduardo C.Memórias e Amizades Nosso Centro .Educador de Almas (com Eduardo C. C. Linguagem e Informação Imprensa na Berlinda (com Norma Alcântara e Manuel Chaparro) Kardec é Razão Médicos Médiuns (opúsculo) Mensagens de Saúde Espiritual (Antologia popular) Muito Além das Sombras . Literatura.