Você está na página 1de 118

Um clarão nas trevas

Barbara Cartland

Coleção Barbara Cartland nº 54

Título original: “LOVE IN THE DARK”


Copyright: © CARTLAND PROMOTIONS 1979
Tradução: SÍLVIA MACEDO
Copyright para a língua portuguesa: 1982 ABRIL S. A. CULTURAL E INDUSTRIAL — São Paulo
Composto e impresso em oficinas próprias

Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos, de fãs para fãs.
Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida.
Cultura: um bem universal.

Digitalização:

Revisão: Crysty
1
Assustada, Susanna percebeu que não estava sozinha. Havia alguém a seu lado,
dentro da piscina. À luz do luar, reconheceu Fyfe. Por um momento, pensou que
estivesse sonhando, pois ele a fitava, sem nenhuma atadura nos olhos. — Meu amor,
minha querida — murmurou, rouco. Susanna estremeceu de medo e escondeu o rosto,
suplicando: — Não olhe para mim! Por favor, não olhe! — Tinha chegado o pior
momento de sua vida. Aquele que precisava evitar a todo custo. Devia fugir,
desaparecer, antes que Fyfe descobrisse que havia sido enganado. Agora que não
estava mais cego, podia ver por si mesmo que sua linda Susanna era na verdade uma
mulher feia e gorda.

2
CAPÍTULO I

1907

Susanna desceu a escada do fundo, atravessou o corredor e passou


pela sala de estar que quase não era usada.
Era por este caminho que preferia chegar à sala de visitas, pois sabia
que, se descesse pela escadaria principal, Hibbert, o mordomo, faria questão
de anunciá-la.
Se havia uma coisa que a deixava muito envergonhada era entrar na
sala quando todas as amigas de lady Lavenham, sua mãe, mexericavam em
volta da mesa do chá.
Detestava ser anunciada por Hibbert, pois todas as mulheres
ficariam em silêncio, observando-a entrar na sala.
Susanna sabia muito bem que não era atraente: muito gorda e sem
graça, não possuía nenhum atrativo. Era muito diferente da mãe, elegante e
de cintura fina, admirada em todos os lugares em que aparecia.
Lady Lavenham era uma das mulheres mais famosas da Inglaterra
por sua beleza e elegância, e todos os jornais de Londres a consideravam uma
das damas mais elegantes do país.
Mas, na verdade, o que os jornais queriam dizer é que lady
Lavenham era uma das damas mais bonitas do círculo de amizades do rei e,
portanto, invejada por todas as mulheres da sociedade.
Susanna tinha certeza de que a mãe não suportava o fato de sua
segunda filha não ser bonita e graciosa.
Quando se olhava no espelho, Susanna ficava pensando no que
poderia fazer para melhorar seu rosto redondo e gordo, onde os olhos, o
nariz e a boca pareciam muito pequenos.
Seus cabelos também, ao invés de dourados e brilhantes como os da
mãe, ou pretos e sedosos como os do pai, eram castanhos, de uma tonalidade
comum e inexpressiva.
Depois de olhar sua imagem por algum tempo, sempre abria uma
caixa de chocolates e comia até que a doçura dos bombons a fizesse se sentir
um pouco melhor.
Era só comendo que conseguia se recompensar pela severidade da

3
mãe e pelo jeito triste e desapontado como o pai a olhava de vez em quando.
May, a irmã, era completamente diferente: alta, magra e já sabia se
comportar com classe e elegância, antes mesmo de ter sido apresentada à
sociedade em seu baile de debutante.
— May é bonita como você era, quando a conheci — costumava
dizer lorde Lavenham para a mulher, e só Susanna notava a leve ruga na
testa da mãe, pois ela detestava ter rivais de qualquer espécie, mesmo que
fosse a própria filha.
Susanna atravessou a sala de estar e, ao entrar no escritório, que
ficava anexo à sala de visitas, viu sua imagem refletida em vários espelhos
com molduras douradas. Mais uma vez, notou como era gordinha.
Sou gorda como um pão-de-ló, pensou, bem-humorada.
Para tentar afinar a silhueta, usava uma cinta muito apertada; mas,
em vez de ficar mais magra, parecia um barrilzinho amarrado ao meio.
O vestido que usava, de crepe e com babados de seda em volta da
barra, faria May parecer uma jovem deusa, mas em Susanna ficava
simplesmente deselegante.
O que posso fazer?, pensou.
Sentiu uma vontade louca de comer todos os merengues e bolos
gelados que estavam sendo servidos com o chá e apertou o passo em direção
à porta que dava para a sala de visitas.
Quando virou a maçaneta, devagar, ouviu seu nome ser
mencionado.
— Em que recepção você pretende apresentar Susanna? —
perguntou uma voz que reconheceu como sendo de lady Walsingham.
— Oh, na primeira! — respondeu lady Lavenham. — Será algo tão
desagradável que, quanto antes eu me livrar, melhor.
— E depois, Daisy, quais são seus planos para ela? — perguntou
outra senhora. lady Lavenham riu, um riso suave que seus admiradores
descreviam como música alegre.
— Casamento, é claro! E depressa! Lady Walsingham concordou.
— E em quem está pensando? Em outro duque?
Houve risos, antes de a mãe de Susanna responder friamente:
— Mas claro!
Susanna percebeu que ela estava tensa.
— Qual duque? Diga, Daisy, em quem está pensando?
— Como espero que todas vocês me ajudem, serei franca e lhes direi
qual é a única pessoa que acho que casaria com Susanna: Southampton!
4
— Mas, Daisy, querida, Hugh Southampton não tem mais nada
além do título de duque! — disse lady Walsingham.
— Isso mesmo! E é exatamente por isso que vai ficar encantado em
casar com Susanna.
Houve um curto silêncio, antes que outra senhora perguntasse:
— Está dizendo que Susanna tem um bom dote?
— Lógico que tem! Pensei que vocês soubessem que a madrinha
dela, aquela mulher desagradável, deixou-lhe uma grande fortuna.
—Que maravilha! Eu não fazia idéia! — comentou lady Walsingham,
e as outras senhoras que estavam em volta da mesa do chá a acompanharam
com gritinhos de espanto.
— A pobre Susanna vai precisar de cada centavo — continuou a
mãe. — Todas nós sabemos que Hugh Southampton precisa de uma esposa
rica; assim, existe alguém mais conveniente do que Susanna?
— Lógico que não! Ora, Daisy, você é um gênio!
Havia um tom de inveja e rancor na voz da senhora que estava
falando, porque a posição que lady Lavenham ocupava no mundo social tinha
feito com que ela adquirisse muitas inimigas.
— Não é justo — as senhoras costumavam se queixar —, Daisy,
além de bonita, casou com o charmoso Charles Lavenham, que é persona grata
no mundo esportivo. E, como se não bastasse, é simpática e inteligente a
ponto de conquistar a amizade do rei e casar a primeira filha com o marquês
de Fladbury, que, com a morte do pai, se tornará duque de Haven.
Apesar de todo esse sucesso, as damas da sociedade londrina
pensavam que a bela e inteligente Daisy não seria bem-sucedida quando
tentasse arranjar um bom casamento para a segunda filha, que, além de
gordinha, era muito sem graça. Qual não foi o espanto e a raiva daquelas
senhoras, ao descobrirem que a pobre Susanna era herdeira de uma grande
fortuna e, por isso, podia fazer um ótimo casamento!
Quase todos sabiam que o duque de Southampton, completamente
arruinado e devendo a todo o mundo, ficaria encantado em salvar seu título
de nobreza casando com uma garota rica e, além disso, inglesa.
Como todos também sabiam, ele vinha fazendo a corte a algumas
herdeiras americanas que tinham esperanças de conseguir um marido
pertencente à nobreza.
Mas as americanas sempre o preteriam; acabavam preferindo casar
com nobres mais importantes, normalmente porque as mães descobriam a
tempo que o duque de Southampton só estava interessado no dinheiro delas.
5
No estranho código da sociedade eduardiana, era tácito que a tarefa
de uma mãe era casar a filha logo depois que ela participasse do baile de
debutantes. Procuravam casamentos convenientes social e economicamente,
sem se preocupar com os sentimentos das moças.
Ouvindo atrás da porta entreaberta, Susanna lembrou as palavras
que a irmã sempre lhe dizia, antes de casar:
— Não posso casar com ele, Susanna, não posso! Eu o odeio.
Quando ele me toca, me sinto mal!
Susanna lembrava de May soluçando noite após noite.
Não podia fazer nada pela irmã, e foi com tristeza que aceitou ser
sua dama de honra, pois sabia que teria que ouvir May dar o “sim” a alguém
que não amava.
Susanna também detestou o cunhado, desde o momento em que o
conheceu. Apesar de ter o rosto vermelho pela quantidade de vinho tinto que
consumia, ele era aclamado por todos, inclusive por seu pai, como um ótimo
esportista e um atirador de primeira, e ninguém acreditaria que May pudesse
desejar outro marido ou que achasse o marquês repulsivo.
Quando a irmã voltou da lua-de-mel, pálida e com olheiras, pela
primeira vez na vida não foi comunicativa e espontânea com Susanna.
Naquela ocasião, Susanna jurou que nunca, nunca seria forçada a
unir-se a qualquer homem. Mas enquanto ouvia a conversa da mãe com as
amigas, compreendeu que não ia ser fácil se livrar do casamento com o duque
de Southampton.
Lady Lavenham governava o marido e os filhos com pulso de ferro.
Na verdade, tinha pouco interesse pelos filhos, achando-os aborrecidos
quando eram pequenos, desajeitados e desagradáveis assim que cresceram.
Ficou satisfeita quando, depois de duas filhas não desejadas, deu à
luz Henry, único filho e herdeiro do marido, mas deixou bem claro naquela
época que não queria mais filhos, pois só lhe davam dores de cabeça, além de
prejudicarem sua beleza.
Henry agora estava em Eton, era um garoto bonito, parecido com o
pai. Nas férias, lady Lavenham sempre o levava para passear no Rotten Row,
como um favor especial.
Chegou a levar May nesses passeios, mas nunca pediu que Susanna
a acompanhasse. Tinha certeza de que a mãe não a convidava porque a
achava sem graça e pouco atraente e nunca admitiria que qualquer coisa
ligada a ela não fosse perfeita.
Isso significava que lady Lavenham tinha vergonha da segunda
6
filha. Assim, Susanna sempre foi mantida em segundo plano, ainda mais do
que May.
Durante a infância e adolescência de Susanna, não se costumava
prestar muita atenção nas crianças.
Quando May, Susanna e Henry eram pequenos, às cinco horas, a
babá os levava para a sala de visitas por exatamente meia hora. As
convidadas da mãe os agradavam e eles ganhavam um biscoito. Depois,
tinham de ficar sentados quietos num canto, até a babá vir buscá-los e levá-
los de volta para o quarto.
Susanna não suportava aquelas idas à sala de visitas, pois ficava
muito constrangida, mesmo quando pequena. Foi um alívio quando, já
mocinha e bem cheia de corpo, a mãe não mais permitiu que comparecesse
perante as visitas, dando a desculpa de que duas garotas eram demais na sala
e que, por isso, May devia descer sozinha.
— Não é justo que eu tenha que descer e Susana fique aqui —
protestava a irmã, furiosa, quando a babá a fazia vestir um dos melhores
vestidos..
— Você não tem que reclamar — respondia a empregada, com
severidade. — Obedeça sua mãe e faça-a ficar satisfeita com vocês; caso
contrário, vai se arrepender.
— Não vou me arrepender. Ficaria contente se ela esquecesse que eu
existo! — Mas May era levada para a sala de qualquer jeito.
Susanna ficava muito contente por continuar no quarto, sozinha.
Aquela situação também se repetia quando iam para Lavenham
Park, em Hampshire. Mas na casa de campo, os três irmãos eram muito mais
felizes, livres do confinamento inevitável em Londres. Podiam cavalgar,
brincar de esconde-esconde entre as árvores, roubar pêssegos do pomar. Só
não podiam assistir às festas que a mãe dava, a não ser às vezes, quando
olhavam escondidos para o salão, através da balaustrada, no momento em
que o rei era anunciado.
Uma vez, três reis europeus ficaram hospedados ao mesmo tempo
em Lavenham Park e, apesar de eles saberem que era patriótico admirar o rei
Eduardo, foi inevitável acharem o moreno e bonito rei Alfonso da Espanha o
mais atraente de todos.
Apesar das crianças ficarem longe, nos quartos do terceiro andar da
ala leste, era impossível não perceberem a emoção que todos sentiam quando
o rei se hospedava lá.
Viam chegar caixas e caixas de beringelas, que sua majestade
7
adorava, além de biscoitos de gengibre de Biarritz, sais de banho e cigarros
importados.
Um aposento da casa tinha que ser transformado em sala de correio
e telégrafo particular para o rei. As linhas telegráficas tinham que ser
puxadas por mais ou menos dezesseis quilômetros!
A corte incluía camareiros, pajens, um secretário particular e, na
época de caçadas, carregadores, cavalos e cães.
Havendo ou não rei hospedado em Lavenham Park, quando
Susanna observava os convidados da mãe descendo para o jantar, sempre
achava que parecia uma procissão real.
Lady Lavenham, com a sua cintura fina e os ombros envoltos em
tule, parecia brilhar como uma estrela, pois sempre usava tiaras de diamantes
e colares de pedras preciosas. Até seus sapatos de cetim eram rebordados
com diamantes e outras pedras.
As senhoras que a acompanhavam também se vestiam com muito
luxo, mas não eram tão bonitas.
O rei Eduardo gostava que todas as mulheres de seu círculo de
amizades estivessem cobertas de jóias o tempo todo e chegava a ser grosseiro
com uma ou outra que ousasse se apresentar diante dele sem usar diamantes
ou outra pedra preciosa de valor.
Susanna lembrava de quando May colocou suas jóias para participar
de um jantar em que o rei estaria, logo depois do casamento.
A tiara de esmeraldas e diamantes que quase parecia uma coroa
fazia jogo com um colar e um colossal broche, que May prendeu na frente do
corpete.
— Você parece a rainha de Sabá! — disse Susanna.
Depois viu a infelicidade nos olhos da irmã e entendeu que
nenhuma jóia, por mais magnífica que fosse, podia compensá-la pelo fato de
ter que viver com o marquês.
— Você é muito… infeliz. May?
May não a olhou. Ficou observando o espelho como se visse não seu
reflexo, mas a imagem dos anos que tinha pela frente.
Por um momento, Susanna pensou que ela não fosse responder, mas
depois ouviu a voz triste da irmã cheia de um estranho cansaço.
— Não posso falar sobre isso, Susanna. Não há nada a dizer, nada
que eu possa fazer. Por favor, não me faça perguntas.
Depois disso, Susanna teve a impressão de que May a evitou
durante toda a temporada, até ir embora com o marquês na luxuosa
8
carruagem.
Na hora da despedida, May beijou e abraçou a irmã com tanta força,
que, por um momento, Susanna teve a impressão de que ela não queria
deixá-la para ir com o marido.
Embora nenhuma das duas tivesse dito nada, Susanna sabia que era
um sofrimento para a outra ir embora com um homem que odiava, mas a
quem agora pertencia.
Isso nunca vai acontecer comigo, pensou naquela ocasião.
Agora, parada à porta da sala de visitas, ela se sentia como se
estivesse ouvindo sua sentença de morte.
Fechou a porta devagar e voltou para o quarto, que ficava ao lado
da sala de aula no terceiro andar.
Na casa de Londres, o salão das crianças tinha mudado o nome para
sala de aula, quando a babá foi embora, substituída por várias professoras.
Enquanto a babá foi uma presença fixa, as professoras mudavam
sempre, porque não gostavam de lady Lavenham, que as achava
incompetentes e nunca se importava de dizer-lhes isso na cara.
—Uma coisa eu posso lhe afirmar, senhora: condessa de Bressington
esteve muito satisfeita comigo durante os dez anos em que trabalhei para ela
— tinha dito uma das professoras.
Foi embora e as duas que a seguiram, também. Depois, para
Susanna, aconteceu um milagre.
A srta. Harding era uma professora bastante diplomática para lidar
com lady Lavenham e sabia como despertar o interesse de uma aluna e
estimular sua inteligência.
Infelizmente, May só tinha passado um ano com as srta. Harding
antes de casar, mas Suzanna foi sua aluna por mais de dois.
A professora foi uma revelação para ela não só porque era capaz de
responder a todos as perguntas que a intrigavam, como também a ensinava a
chegar às respostas, sem ajuda de ninguém.
Lady Lavenham não tinha o mínimo interesse pela educação das
filhas, mas fazia questão de que elas aprendessem a falar francês e italiano
corretamente.
Lorde Lavenham sempre dizia que, quando estava em
Sandringham, achava desagradável ser obrigado a conversar em francês e em
inglês ao mesmo tempo durante uma refeição, mudando de uma língua para
outra, às vezes até na mesma frase.
Mas isso não importava para a esposa, que estava decidida que suas
9
filhas soubessem línguas estrangeiras, mesmo que não soubessem mais nada.
De resto, era completamente indiferente ao que as moças
aprendessem ou deixassem de aprender, contanto que fossem boas donas-de-
casa capazes de fazer uma conta e preencher um cheque. Isso era uma coisa
que lady Lavenham nunca fazia, pois tinha uma secretária muito eficiente que
cuidava de seus negócios, assim costumava dizer para as filhas:
— Se não quiserem ser enganadas por criados malandros, vocês têm
que entender de dinheiro!
Nisso, era diferente da maioria de suas contemporâneas, que apenas
sabiam como gastar dinheiro, e o faziam com muita habilidade.
Entretanto, Susanna tinha se recusado a estudar apenas aritmética,
francês e italiano.
No começo, ela se interessou por História e depois percebeu que na
literatura podia encontrar coisas belas e profundas.
Quando lia esquecia o peso e a tristeza que representava para os
pais e até a própria imagem gorda e sem graça.
Foi a srta. Harding que a ensinou sobre arte e que a fez apreciar os
quadros pendurados nas paredes da casa e os que podia ver na Galeria
Nacional.
Nunca tinha percebido que a mãe entendia tão pouco dessas coisas e
estava mais preocupada com as plantas da estufa e as flores que decoravam a
sala de visitas do que com os tesouros da família, acumulados pelos
ancestrais dos Lavenham.
Aquilo tudo era um mundo novo para Susanna!
A srta. Harding e ela procuravam nas livrarias volumes que
continham reproduções de quadros que podiam ser vistos nas grandes
galerias da Europa, como o Louvre de Paris e o Uffizi de Florença.
Cada vez que Susanna achava um quadro de que gostava em
especial, começava a sentir que era um tesouro que lhe pertencia e que o
possuía de uma maneira que não era possível explicar com palavras.
Tudo corria bem, até que no começo do ano, inesperadamente, lady
Lavenham disse para a srta. Harding que tinha três meses para ir embora.
Sem esperar uma explicação da professora, Susanna desceu
correndo e foi conversar com a mãe.
— Fiquei sabendo que a senhora demitiu a srta. Harding, mamãe!
Por que? Por quê ela tem de ir embora? Não posso ficar sem ela!
Lady Lavenham estava deitada numa espreguiçadeira, usando um
vestido de tarde solto que era a moda do momento.
10
Susanna achava que era um alívio para as mulheres que usavam
aquele tipo de vestido se verem livres dos espartilhos apertados na cintura.
Era muito ingênua para saber que esse modelo, na verdade, tinha
sido inventado por uma razão muito diferente.
No entanto, notava que, quando a mãe estava em Londres, o rei e às
vezes outros cavalheiros a procuravam por uma hora, quando ninguém, em
circunstância alguma, devia perturbá-la.
Felizmente, como estavam no campo, lady Lavenham estava
sozinha, pois só esperava convidados no dia seguinte.
— Seria bom que você não se dirigisse a mim dessa maneira rude —
disse, num tom de voz frio que normalmente fazia a filha tremer.
Naquele momento, Susanna estava irritada demais para sentir algo,
além de indignação.
— Por que a senhora mandou a srta. Harding embora, mamãe?
— Você está sendo mais estúpida do que normalmente! Seus cabelos
estão despenteados e estou vendo uma mancha de tinta em seu vestido.
— Eu lhe fiz uma pergunta!
— Então, acho que terei que explicar com palavras fáceis: você já
tem mais de dezoito anos e vai ser apresentada à sociedade.
Susanna fitou-a com os olhos arregalados.
— Mas a srta. Harding tem que ir embora por causa disso?
— Claro! Você não vai querer uma professora quando estiver cheia
de compromissos, e eu é que terei que acompanhá-la a todos os lugares, por
mais que isso me desagrade.
Antes que Susanna pudesse dizer qualquer coisa, ela acrescentou,
com aspereza:
— Pelo amor de Deus, suba e se arrume. Só Deus sabe como vou
conseguir arrumar um marido para você!
Susanna ficou olhando para a mãe por um momento. Depois,
quando o sangue tingiu suas faces, virou-se e saiu.
Foi para o quarto e sentou na cama, sentindo como se o mundo
tivesse desabado em sua cabeça.
Tinha sido tolice, mas havia esquecido que teria que debutar e ser
levada de baile para baile e de recepção para recepção, como May tinha sido.
Sabia que ia odiar aquela vida mundana que se prolongaria até que,
finalmente, arranjasse um casamento para ela.
Como suportaria ir de festa em festa, sabendo que a mãe estaria a
seu lado, morrendo de vergonha, e que nenhum homem a tiraria para dançar,
11
a não ser que fosse forçado?
Tinha sido uma boba por nunca pensar que ia perder a srta. Harding
quando chegasse a hora de começar a freqüentar os bailes.
Naqueles dois anos, foi mais feliz do que durante a vida inteira, mas
agora entendia que devia ter percebido antes que estava vivendo uma ilusão,
pois já era para ter debutado no verão anterior.
Só não debutou porque a avó morreu e a família resolveu guardar
luto por um ano.
Mas agora, aos dezoito anos e meio, seria apresentada à sociedade, e
era bastante inteligente para saber que, do ponto de vista da mãe — e do seu
também —, seria um desastre!
A idéia era tão terrível, que pegou um pacote de balas que tinha
comprado numa loja da aldeia e colocou várias na boca de uma só vez.
— Minha vida será horrível! E quando a srta. Harding for embora,
não terei ninguém com quem conversar, ninguém interessado em nada que
penso ou quero discutir.
De repente, como se tudo se movesse com a rapidez dos novos trens
expressos, a mãe resolveu voltar para Londres e chegou a hora de se despedir
da srta. Harding.
Uma noite antes de ela partir, Susanna chorou até não ter mais
lágrimas.
— O que vou fazer sem a senhorita? — perguntou, soluçando. — É a
única pessoa que já foi gentil comigo, a única que me tratou como um ser
humano. Quando for embora, não terei mais ninguém.
— Francamente, Susanna, existe pouca coisa que ainda posso
ensinar a você — disse a srta. Harding, com sua voz calma.
Susanna ficou tão surpresa, que parou de chorar e olhou para a
professora, com o rosto molhado de lágrimas.
— É verdade, Susanna. Você deve saber agora que é inteligente,
muito inteligente, para a vida que vai levar.
— Mas terei sempre que viver esse tipo de vida?
— Acho que sim. Não há outra alternativa para uma moça de sua
classe social. — Deu um suspiro. — Mas isso não precisa impedi-la de pensar,
de ler, de evoluir.
— Para quê? — perguntou, com amargura.
— Para você mesma. — A srta. Harding fez uma pausa por um
momento, como se estivesse escolhendo as palavras, e continuou: — Algumas
pessoas são completamente felizes com a vida social que levam, mas acho
12
que você é diferente.
— Espero que sim.
— Tenho certeza de que é. Também acho, Susanna, que você sempre
vai encontrar novos horizontes. Se no momento não pode fazer tudo que
quer, pelo menos pode fazer na imaginação.
Susanna apertou as mãos.
— Mas… a senhorita não vai estar aqui para me ajudar. A
professora pensou um pouco antes de dizer:
— Sempre acreditei que, quando precisamos muito de uma coisa… e
estou falando espiritualmente, não materialmente… algo aparece para nos
guiar e nos ajudar. Se não uma pessoa, pelo menos os livros, a música ou as
orações. Nunca somos deixados completamente sozinhos.
Susanna ficou em silêncio por um instante.
— Entendo o que está me dizendo, mas será difícil, muito difícil, e
não é provável que eu encontre alguém que me ajude entre as amigas de
mamãe.
A srta. Harding tinha a mesma opinião, mas sabia que seria desleal
dizer isso.
— Tem que acreditar em si mesma, Susanna. Tem que encontrar seu
caminho, escolher sua direção. Como a conheço muito bem, sei que não vai
decepcionar você mesma.
— Espero não decepcionar a senhorita — acrescentou Susanna,
rapidamente.
— Vou estar pensando em você. E deixe-me confessar uma coisa:
nunca tive uma aluna a quem amei tanto e em quem tenho esperanças tão
grandes.
Essas palavras fizeram as lágrimas voltarem aos olhos dela, mas
agora não eram lágrimas de desespero e, sim, de prazer, porque ninguém
nunca lhe tinha feito um elogio antes.
Quando a srta. Harding partiu, Susanna chorou novamente; não
conseguiu controlar a infelicidade. Sentia que estava começando uma outra
vida da qual não sabia nada.
Lady Lavenham levou-a para Londres antes do combinado porque
Susanna tinha que providenciar um novo guarda-roupa.
Todas as manhãs, iam às lojas e passavam horas — que para
Susanna pareciam longas e cansativas — escolhendo e experimentando
roupas, comprando sapatos, luvas, chapéus, sombrinhas e lingerie, de um jeito
que a fazia sentir como se estivesse sendo preparada para uma viagem que
13
podia durar vinte anos.
— Pelo menos, tenho que tentar torná-la apresentável — disse lady
Lavenham, asperamente, quando Susanna insinuou que já tinham comprado
muitos vestidos. — Seu pai falou que posso gastar quanto quiser; então, trate
de ficar agradecida, embora, infelizmente, não possamos mudar seu rosto ou
seu corpo!
Cada momento que passava sozinha com a mãe fazia Susanna se
sentir mais insignificante. Via a diferença que existia entre as duas refletidas
em todas as vitrines das lojas.
A entonação das vozes das amigas de sua mãe, quando se
encontravam em Bond Street ou nas lojas, seria engraçada, se não a magoasse
tanto.
— Daisy, querida! Como você está linda! Linda como um botão de
rosa! Oh, esta é Susanna?
Sempre faziam uma pausa antes de dizer as três últimas palavras,
uma pausa que Susanna sabia significar que estavam surpresas e até um
pouco chocadas com a aparência dela.
Também sabia que as modistas achavam uma perda de tempo vesti-
la, mas cobravam muito bem os esforços para tentar deixá-la atraente.
As costureiras a apertavam em espartilhos com barbatanas, até
quase não conseguir respirar. Experimentava corpetes bordados, com
babados e outros. Mas, fossem quais fossem os enfeites, o efeito era o mesmo:
parecia simplesmente gorda.
Cabelereiros foram à sua casa para tentar um novo penteado.
Conseguiram mudar-lhe muito pouco a aparência. Quando a mãe ia
inspecionar o trabalho, eles encolhiam os ombros, como se desejassem ter
coragem suficiente para dizer que tinham recebido um material inútil com
que trabalhar.
Continuaram experimentando mais e mais roupas! Entrando e
saindo de lojas!
Susanna não tinha feito outra coisa no último mês, e agora estavam
quase no fim de março e a primeira recepção aconteceria no começo de abril.
Contava os dias para que a temporada terminasse e pudessem
voltar ao campo.
Lá poderia cavalgar e não teria que suportar passar horas em lojas
abafadas! Poderia passear no jardim sem a presença da mãe ou da
governanta que a acompanhava, quando lady Lavenham estava ocupada.
Susanna sentia muita falta da srta. Harding.
14
Como sabia que a professora ficaria satisfeita, sempre que saía com
outra pessoa que não fosse a mãe, insistia em passar numa livraria na volta
para casa.
A pilha de livros em seu quarto crescia a cada dia, mas a dificuldade
era arrumar tempo para ler.
Felizmente, até que fosse apresentada à sociedade, não podia
participar das reuniões sociais e só descia para jantar quando os pais estavam
sozinhos ou com parentes.
Nessas ocasiões, enquanto eles conversavam e trocavam mexericos,
Susanna tentava entender sobre o que estavam falando e ligar as pessoas
certas aos escândalos comentados em voz baixa.
Aquela conversa sem nexo parecia muito com as novelas tolas que
costumava ler, antes de conhecer a srta. Harding.
O fato de Isobel ter perdido Henry, que a cortejava há mais de um
ano, poderia ser muito mais interessante, se Susanna soubesse quem eram
Isobel e Henry.
Que Bertie tinha ido para o hospital porque um dia voltou para casa
inesperadamente e certificou-se de que o que desconfiava há muito tempo era
completamente incompreensível!
— Oh, como queria estar no campo! — pensava sempre.
Imaginar o sol brilhando no lago, o perfume das madeiras e a
neblina azul sobre as colinas era como uma gota d'água para um homem
morrendo de sede no deserto.
Agora, aterrorizada e trêmula, compreendeu que não voltaria para
casa. Seria forçada a casar com o duque e, como May, exilada de tudo que lhe
era familiar, tudo que significava a segurança de seu pequeno mundo.
— Não é possível! Não posso enfrentar isso! Não vou casar com um
homem que só quer o meu dinheiro!
Sabia, embora tivesse quase esquecido, que, quando tinha dez anos,
a madrinha lhe deixara uma fortuna.
— Para Susanna? Por que para Susanna? — a mãe se queixou na
época.
Mas depois que ficou mais velha e entendeu que o pai administrava
o dinheiro e o faria até que casasse, isso passou a não ter nenhum interesse
particular para ela.
Lorde Lavenham era um homem muito rico e generoso. A esposa
tinha tudo que queria e, embora o custo das festas que ofereciam em
Lavenham Park devesse ser astronômico, ele nunca se queixava.
15
Normalmente, recebiam trinta convidados com sessenta criados,
além da própria criadagem deles, na grande casa em estilo gótico, cujas
torres, gárgulas e pavilhões de alvenaria tinham sido acrescentados no tempo
de seu avô.
Susanna sabia que era de muito mau gosto, mas era sua casa e ela a
amava.
Agora, porque tinha uma fortuna, seria uma duquesa, iria morar em
outro lugar e, pela primeira vez na vida, a mãe ficaria satisfeita com ela!
Susanna foi para a sala de aula no andar superior, que sempre
parecia vazio, agora que a srta. Harding tinha ido embora, e sentou numa
cadeira na frente da lareira.
No momento, só conseguia ver o rosto infeliz de May e ouvir-lhe a
voz cheia de angústia.
Pensou se não devia pedir um conselho à irmã. Mas se May não
tinha sido capaz de impedir o próprio casamento com um homem que
detestava, não poderia fazer nada sobre o dela.
— O que posso fazer? — E seus pensamentos se dirigiram para a
srta. Harding.
Se ao menos pudesse procurá-la, conversar com ela! Porém, a
professora tinha escrito apenas dois dias antes, dizendo que havia arranjando
emprego com a duqueza de Northumberland e que ia para o Norte.
— Preciso pensar. Preciso pensar com muita calma num jeito de
impedir que isso aconteça comigo.
Susanna se sentia como se andasse por uma rua reta e, de repente,
sem qualquer aviso, aparecesse um enorme precipício à sua frente.
— Não posso entrar em pânico. Vou encontrar um meio de escapar.
Entretanto, sabia que isso era apenas uma vaga esperança. Como
desafiar os desejos da mãe, que, sem dúvida, também pressionaria o duque
de Southampton a casar com a filha. Além do mais, ele não precisava de
dinheiro?
Como último recurso, lady Lavenham poderia pedir ajuda ao rei!
Ouvindo trechos de algumas conversas, Susanna ficou sabendo
como o rei tinha ajudado amigas de sua mãe a casar as filhas vantajosamente
com os nobres certos.
— Eu disse para o rei: Vossa Majestade é tão inteligente e
diplomática, ajude Vera a casar aquela filha com o conde de Bexley. —
Susanna tinha ouvido a mãe contar em certa ocasião. — Vossa Majestade sabe
que ele fará tudo o que lhe disser. Só uma palavra sua fará muita diferença
16
para ele.
— E o que ele respondeu? — perguntou lorde Lavenham.
— Lógico que ficou encantado por eu ter lhe pedido ajuda. Ele gosta
de se sentir como cupido. E você tem que admitir que, na maioria das vezes,
foi muito bem-sucedido!
— Poucas pessoas têm coragem de recusar algo que o rei deseja —
disse o pai, com cinismo.
Susanna sabia que a mãe não hesitaria em pedir ajuda real, caso os
planos para casá-la com o duque não se concretizassem depressa.
— No fim da temporada, já devo estar casada! — murmurou,
gemendo. — Vou embora. Vou me esconder em algum lugar.
Se precisasse mesmo fugir, era uma sorte ter muito dinheiro.
Nunca teve dificuldades para que a secretária da mãe lhe desse o
necessário para comprar os livros que queria nas livrarias em que não tinha
conta.
Desde que chegaram em Londres, Susanna também descobriu que
gostava de ter dinheiro na bolsa para dar aos numerosos pedintes que
estendiam as mãos esqueléticas quando ela atravessava a calçada, ao sair das
lojas caras e indo para a luxuosa carruagem do pai.
— Eles têm tão pouco e eu tenho tanto.
Disfarçadamente, pelas costas da mãe, ela colocava uma moeda em
alguma mão suja, e sabia, pela expressão de incrédulo prazer nos olhos
embotados, que tinha dado uma felicidade mesmo que passageira para
alguém em situação muito pior do que a dela.
— Mas se eu fugir, não vou poder ficar sem fazer nada, pensou. —
Não será possível.
Talvez pudesse alugar um quarto em algum lugar e ficar lendo o dia
inteiro. Depois compreendeu que essa não era a solução para o problema,
embora não soubesse qual seria a solução certa.
Num banquinho ao lado da cadeira em que estava sentada havia
vários jornais.
Seu pai assinava o The Times e o Morning Post e normalmente dava
uma rápida olhada durante o café da manhã. Mais tarde, os criados os
levavam para o escritório, onde, se tivesse tempo, ele os lia antes do jantar.
Susanna sabia que despertaria muitas perguntas se pegasse os
jornais antes que ele terminasse de ler; assim, pedia que o criado os levassem
para a sala de aula na manhã seguinte.
Eram um dia atrasado, mas não tinha importância, pois ninguém
17
discutia as notícias com ela, nem esperava que se interessasse por outra coisa
que não fosse roupas e pessoas.
Pegou o Times da véspera e imaginou que talvez encontrasse algum
emprego, não porque precisasse de dinheiro, mas apenas para preencher o
tempo.
Ah, se eu pudesse trabalhar numa biblioteca! — pensou.
De repente, lembrou que podia ser vista exatamente pelas pessoas
que desejava evitar.
O que gostaria mesmo seria arrumar emprego numa galeria de arte,
embora tivesse a sensação desagradável de que em todas as galerias que
tinha visitado os atendentes eram homens.
— O que posso fazer? Não vou casar com o duque! — disse em voz
alta.
Concluiu que fugir não era a solução, mas, sim, enfrentar os pais e
dizer que não tinha intenção de casar com alguém que não amava.
Porém, sabia que, com a aparência que tinha, ninguém a amaria, e
no círculo de amizades da mãe o amor era um divertimento que acontecia
depois do casamento, não, antes.
— O que posso fazer? Oh, meu Deus, o que posso fazer? Colocou o
Times sobre os joelhos. De que adiantava procurar um emprego que só existia
em sua imaginação?
Olhou distraída para o jornal, tentando imaginar que outra coisa
podia ajudá-la a encontrar uma solução para o seu problema, e viu uma nota
no alto da página de classificados:
“Pessoa cega temporariamente procura um leitor profissional,
que possa viajar para o exterior e que seja fluente em francês
e italiano. Atende-se entre as dez horas e o meio-dia na
Curzon Street, 96”.
Leu o anúncio e pensou que era uma coisa que podia fazer. Sabia ler
correntemente em francês e italiano. De repente, outra frase saltou diante de
seus olhos:
“Que possa viajar para o exterior”.
Se fosse para o exterior, a mãe não poderia encontrá-la. Ela não
conheceria o duque, portanto não seria forçada a casar com ele.
Leu a nota outra vez. É uma loucura, pensou, claro que não posso
fazer uma coisa dessas!
De repente, lembrou das palavras da srta. Harding:
— A ajuda virá quando você precisar.
18
Aquela era a ajuda que queria! Seria tão estúpida a ponto de recuar?
Sentiu o coração batendo mais depressa e, levantando da cadeira, foi
até a janela.
Chovia. Os telhados das casas, que se estendiam até perder de vista,
estavam cinzentos e deprimentes.
— Esse é o futuro que me espera. A não ser que eu faça alguma
coisa para evitá-lo.
De repente decidiu-se:
— Vou até Curzon Street, 96. Se for aceita, será a ajuda que eu estava
esperando. Se for recusada, terei de pensar em outra solução!

19
CAPÍTULO II

Susanna subiu os degraus do número 96 da Curzon Street e viu que


era um edifício alto e imponente.
O criado de libré que a acompanhava desde a mansão Lavenham
tocou a campainha e deu um passo atrás.
— Espere-me aqui fora, James. Não sei se vou demorar.
— Está bem, senhorita.
Ele era um rapaz calmo do interior, e Susanna tinha ficado feliz,
quando, ao descer, viu que estava de serviço no hall.
A mãe nunca levantava cedo e o pai, depois de ter tomado o café da
manhã, já tinha saído. O único perigo era a sra. Dawes, a governanta, que
estranharia se ela saísse sozinha e contaria imediatamente para sua mãe.
Assim, Susanna concluiu que a única forma de poder responder ao
anúncio era ir acompanhada por um dos criados.
Torceu para que James estivesse de serviço. Quando chegou ao
vestíbulo e o encontrou, disse:
— Tenho que levar um recado em Curzon Street. Como está uma
linda manhã, gostaria de ir a pé. Você me acompanha?
— Lógico, senhorita. Vou só dizer ao George que venha prestar
atenção na campainha.
Ele se apressou para a copa e voltou com o chapéu alto que usava
com o uniforme.
As cores dos Lavenham, azul escuro e amarelo, estavam no colete
listrado e o escudo da família, timbrado nos grandes botões do fraque. Foi
todo elegante e empertigado andando atrás dela. Nenhuma das amigas da
mãe estranharia que estivesse acompanhada por um criado de libré, ao invés
de uma aia mais velha.
Seria escandaloso percorrer sozinha a curta distância até a Curzon
Street. Esse era um dos muitos motivos por que preferia morar no interior,
onde podia ir onde quisesse, sem precisar ser acompanhada por alguém.
Estava um dia de céu limpo, mas soprava um vento tão forte, que
Susanna teve que segurar o casaco debruado de pele com uma das mãos e o
chapéu com a outra.
Havia um toque de aventura naquilo tudo, e ela se sentia como se

20
estivesse saindo numa viagem de descobertas.
Só então, lembrou que havia a possibilidade de a vaga já ter sido
preenchida.
Afinal de contas, o Times que tinha lido na véspera já era um dia
atrasado, e centenas de pessoas deviam ter respondido a um anúncio tão
tentador. Quem não quer viajar para o exterior?
Uma vez, tinha ido a Roma com os pais, a convite do príncipe e
princesa Borghese, que tinham filhos da mesma idade que ela. Foi uma
experiência emocionante para Susanna, e as crianças Borghese haviam
mostrado as paisagens de Roma para os visitantes ingleses com um quê de
orgulho condescendente, insinuando que os monumentos romanos eram
melhores do que qualquer coisa que podiam encontrar na Inglaterra.
May não gostou da atitude deles, mas Susanna não se importou.
Não prestou atenção no que os italianos diziam, quando os levaram
para ver as enormes ruínas do Coliseu, pois ficou imaginando como seria
aquele edifício na época em que foi construído.
Ali, os inesperados romanos, em toda sua glória, tinham assistido às
lutas dos gladiadores, e ela os visualizou em suas túnicas graciosas e coroas
de louros, guardados por soldados usando o magnífico uniforme dos
legionários romanos.
Enquanto ficou em Roma, Susanna passou o tempo todo sonhando
acordada, até ser repreendida pela mãe, que a chamou de estúpida e
desagradável.
— Você precisa aprender a conversar, Susanna. Não importa o que
diga, mas tente conversar. Qualquer um pensa que é boba, como eu acho que
é, pelo jeito que fica olhando em volta, sem dizer nada!
Tinha sido impossível explicar à mãe que se sentia transportada
para o passado, mas Susanna contou à srta. Harding como Roma a deixara
impressionada, e a professora entendeu.
A porta à sua frente foi aberta e Susanna teve um leve sobressalto.
Um criado a encarou, e, depois de um momento, ela disse em voz
baixa, esperando que James não ouvisse:
— Eu… eu vim… por causa do… anúncio.
Ele pareceu surpreso. Susanna logo imaginou que devia ser por
causa de seu casaco com bordas de pele, muito luxuoso para alguém que
precisava de emprego.
Mas não tinha outro, pois a mãe a fez jogar fora todas as roupas
velhas, antes de vir para Londres.
21
— Por aqui, senhorita.
Susanna seguiu-o para um vestíbulo com piso de mármore e por
uma escada curva que levava ao primeiro andar.
O criado abriu uma porta. Susanna viu uma bela sala de estar que
dava para um pequeno pátio nos fundos do prédio que tinha sido
transformado em jardim, embora ainda fosse muito cedo para alguma flor
desabrochar.
— Sente-se, por favor, senhorita — disse o criado, deixando-a
sozinha em seguida.
Susanna observou a sala. Era bem mobiliada, embora num estilo
bem masculino, com poltronas confortáveis, ao invés daquelas imitações do
estilo francês do século XVIII, encontradas na maioria das salas de visitas de
Londres.
Viu alguns quadros na parede. Eram italianos e muito antigos.
Teve vontade de observá-los mais de perto, mas ficou com medo de
que, se alguém entrasse e a visse passeando pela sala, a considerasse curiosa
ou, quem sabe, impertinente.
A porta se abriu e entrou um senhor. Seus cabelos eram grisalhos e
seus olhos tinham uma expressão cansada, como se tivesse trabalhado muito.
Quando caminhou em sua direção, Susanna se levantou.
— Como vai? Pelo que entendi, a senhorita veio em resposta ao
anúncio no Times.
— Sim, mas talvez o senhor já tenha contratado alguém, não?
— Na verdade, entrevistamos inúmeros candidatos, mas nenhum
era bastante fluente em francês e italiano, como pedimos.
— Eu falo as duas línguas.
— Antes de perdermos mais tempo, seria aconselhável que a
senhorita fizesse um pequeno teste. Concorda com isso?
— Sim, claro.
— Então, venha comigo, e lhe darei alguns textos para ler para uma
pessoa que não poderá vê-la; apenas, ouvi-la.
Susanna não respondeu. Depois de um momento, o homem
acrescentou:
— Creio que fui um tanto rude em não me apresentar. Meu nome é
Chambers e sou secretário particular de um cavalheiro ferido num acidente
de automóvel.
O tom com que disse as últimas palavras fez Susanna responder,
instintivamente:
22
— Sinto muito.
— A senhorita entende que é muito trágico para um jovem saber
que pode nunca mais voltar a enxergar.
— O anúncio dizia “cego temporariamente”.
— É o que esperamos. Mas posso lhe explicar tudo isso depois. Por
gentileza, pode me dizer seu nome?
— Sim, claro. Eu sou…
De repente, ocorreu-lhe que não seria inteligente dizer quem era
realmente. O sr. Chambers e seu patrão podiam muito bem ter ouvido falar
do pai dela, e seria fácil fazerem a ligação entre os dois.
— Meu nome é Susanna… Brown.
Foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça e, ainda enquanto o dizia,
desejou ter sido mais criativa.
— Quer me acompanhar, srta. Brown?
O sr. Chambers abriu a porta, e percorreram um corredor antes de
entrarem em outra sala. Esta era pequena e tinha outra porta, que, Susanna
desconfiou imediatamente, levava para um quarto maior.
Tinha quase certeza de que a sala em que estavam, com suas
paredes decoradas com um bonito papel e com cortinas de chintz colorido,
havia sido um quarto de vestir.
Agora, a mobília era uma mesa e duas poltronas confortáveis, uma
delas bem perto da porta de comunicação.
Não ficou surpresa, quando o sr. Chambers apontou-a e disse:
— Sente ali, por favor, srta. Brown, e espere um momento. Susanna
sentou e o velho foi para o outro aposento.
Ouviu-o falar calmamente com alguém, mas não escutou a resposta.
Depois, ele voltou trazendo um exemplar do Morning Post.
— Leia o editorial, por favor. Não é preciso aumentar o tom de voz.
— Voltou para o outro cômodo.
Um pouco nervosa, Susanna abriu o jornal e achou o editorial na
página central.
Não estava nervosa por ler em voz alta, mas pelas circunstâncias em
que se encontrava.
A srta. Harding sempre dizia que ler em voz alta era a melhor
maneira de revisar os ensaios que escrevia sobre inúmeros assuntos
diferentes.
— Quando lemos em voz alta, pegamos o ritmo do que está escrito
— dizia para Susanna.
23
Também costumavam ler peças de Shakespeare uma para a outra, a
srta. Harding interpretando alguns papéis e Susanna, outros.
Mais tarde, passaram para Milton e para Chude Harold's Pilgrimage,
que Susanna tinha adorado, pois descobriu que os versos de Byron
inspiravam quadros em sua mente.
O editorial que devia ler era uma advertência sobre os contínuos
esforços dos alemães para se associar à Marinha Britânica e um ataque ao
descaso dos que estavam no Parlamento, que adiavam o pedido de
couraçados feito pela Marinha.
Graças à srta. Harding, Susanna pronunciava corretamente as
palavras, e sua voz, apesar de nunca ter pensado nisso, era mais grave do que
a da maioria das mulheres e tinha certa musicalidade.
Quando terminou de ler o editorial, dobrou o jornal e o sr.
Chambers entrou na sala.
Ele sorriu como que para tranqüilizá-la e deu-lhe um livro. Susanna
pegou-o e viu que era Candide, de Voltaire. Como já o tinha lido com a srta.
Harding, sentiu que era um velho amigo.
— Leia qualquer trecho que quiser — disse os sr. Chambers,
deixando-a sozinha outra vez.
Abriu o livro, escolheu uma passagem que sempre a divertia e
começou a ler com o elegante sotaque parisiense que a mãe considerava
indispensável.
Só tinha lido meia página, quando o sr. Chambers reapareceu.
Susanna fitou-o, certa de que ele já tinha resolvido não aceitá-la e
não perder mais tempo com ela.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, ele estendeu-lhe outro livro.
— Seu francês é excepcional, srta. Brown, como já devem ter lhe dito
muitas vezes.
— Fico contente que o senhor pense assim.
— Agora, gostaríamos de ouvir seu italiano.
Susanna não conhecia o outro livro que o velho lhe deu, mas, ao
abri-lo, viu que era uma crítica sobre as óperas italianas, comparando-as
desfavoravelmente com as alemãs.
Não concordava com o que o autor dizia e não pôde evitar um tom
de crítica e questionamento na voz, enquanto lia.
Mais uma vez, o sr. Chambers interrompeu-a antes que chegasse ao
fim da página.
— Obrigado, srta. Brown, foi excelente. Agora, o sr. Dunblane
24
gostaria de conhecê-la.
Susanna levantou e seguiu o velho para o outro cômodo.
Como imaginava, era um quarto enorme. As duas janelas tinham
cortinas de veludo vermelho e a cabeceira da cama era estofada na mesma
cor.
Na cama, recostado em vários travesseiros, estava um homem
completamente coberto por ataduras.
Parece a múmia de uma tumba egípcia, pensou Susanna; só que as
bandagens eram brancas e novas.
As ataduras lhe davam um aspecto irreal, como se fosse uma
criatura de outro planeta.
O sr. Chambers se aproximou da cama e disse para o homem:
— A srta. Brown, que o senhor acabou de ouvir, está aqui comigo.
— A senhorita lê muito bem — disse o sr. Dunblane, com voz rouca.
— Muito obrigada.
— Preciso de alguém que leia para mim, já que não posso ler
sozinho, nem ver absolutamente nada!
Susanna ficou espantada com a amargura na voz dele.
— Eu… sinto muito.
— Não quero sua piedade! — respondeu, brusco. — Tudo que quero
é ser informado do que acontece fora da escuridão em que estou confinado.
— A srta. Brown entende, mas gostaria de saber se vai contratá-la —
interferiu o secretário.
— Claro que vou. Eu não suportaria aqueles outros idiotas que só
sabiam arranhar o francês e aprenderam um italiano de quinta categoria!
Embora falasse asperamente, Susanna não conseguiu evitar uma
risada.
— A senhorita me acha engraçado? Fico contente que alguém se
divirta. Se quer saber como é o inferno, experimente se enrolar com ataduras
e ficar na mais completa escuridão.
Como Susanna não tinha idéia do que responder, olhou para o sr.
Chambers, com expressão de súplica.
— Agora vou levar a srta. Brown e combinar tudo para que ela nos
acompanhe, quando partirmos amanhã.
Susanna prendeu a respiração.
— E melhor avisá-la o tipo de pessoa que sou e aconselhá-la a
aprender a lidar comigo! — respondeu o sr. Dunblane.
— Farei isso. — E o velho se dirigiu para a porta.
25
Quando Susanna se virou para segui-lo, o sr. Dunblane disse,
inesperadamente:
— Até logo, srta. Brown. Gostei da sua voz e desconfio de que,
infelizmente, a senhorita não pode dizer o mesmo da minha!
— Até logo, sr. Dunblane, e obrigada por me contratar. Prometo não
arranhar o francês e não usar um italiano de quinta categoria!
Não foi possível saber se ele achou graça ou não, mas, quando
chegou à outra sala, sentiu que o sr. Chambers estava satisfeito com ela.
Foram para a sala de estar, onde Susanna tinha sido recebida ao
chegar.
— Sente, srta. Brown. Devo lhe fazer algumas perguntas sobre sua
vida particular, embora esteja mais do que claro que a senhorita é apta para
ocupar a vaga.
— Obrigada. Os senhores pretendem mesmo partir de Londres…
amanhã?
— Eu prefiro, pois os médicos recomendaram um clima mais quente
para o sr. Dunblane.
Percebeu que Susanna queria fazer uma pergunta e completou:
— O sr. Dunblane possui uma vila nos arredores de Florença. Vai
ficar mais bem instalado lá, e a nós só resta rezar para que a operação feita há
poucos dias tenha sucesso.
— O que aconteceu?
— O sr. Dunblane sofreu um acidente de automóvel nos Estados
Unidos.
— Nos Estados Unidos!
— Sim. Na verdade, ele é americano.
— Oh, não percebi. Tem sotaque inglês.
— O sr. Dunblane teve uma educação cosmopolita. Os ingleses
sempre esperam que os americanos falem pelo nariz, com um sotaque caipira,
mas acontece que o sr. Dunblane esteve em Oxford. Desde então, morou mais
na Europa do que no país em que nasceu.
— Deve ter sido um acidente muito grave.
— Foi. Apesar de o corpo dele ter ficado muito ferido, as costelas
fraturadas e os braços queimados em muitos pontos, os olhos foram mais
afetados.
— Que coisa horrível!
— Nós o trouxemos para a Inglaterra, para que fosse operado em
Moorfields, e os cirurgiões insistiram para que permaneça completamente no
26
escuro no mínimo durante um mês, talvez mais. Depois disso, ficaremos
sabendo o melhor ou o pior.
— O senhor quer dizer que ele pode ficar cego para sempre?
— Creio que posso dizer que há cinqüenta por cento de
possibilidades.
— Espero que a operação tenha sucesso.
— Ele foi operado por cirurgiões tidos como os melhores do mundo.
Espero que compreenda, srta. Brown, que ele não é um homem fácil de
conviver, por causa do que está passando e do medo do futuro.
— Compreendo perfeitamente como deve estar se sentindo. Acho
que todos nós ficaríamos aterrorizados e desesperados, só e pensar que nunca
mais voltaríamos a ver.
— Então, sei que a senhorita lhe fará concessões, quando estiver
deprimido e mal-humorado e, às vezes, sinto dizer, rude.
— Compreendo.
— Agora vamos passar para os detalhes mais práticos — disse sr.
Chambers, bruscamente, tirando um pequeno bloco do bolso. — Quero o sr.
Dunblane no trem que sai de Victoria amanhã às dez horas. A viagem até
Florença será muito cansativa para ele, mas consegui que alguns vagões
particulares fossem engatados no trem comum e os criados o acompanharão,
é lógico.
— E uma enfermeira, não?
— O sr. Dunblane insiste em ser assistido pelo camareiro, que
recebeu um pouco de treinamento. Ele recusa categoricamente ter uma
mulher cuidando dele. Vou ser franco, srta. Brown: se tivéssemos encontrado
um homem com as mesmas qualificações que a senhorita, sem dúvida o sr.
Dunblane o teria preferido!
— Tenho que tentar não importuná-lo só pelo fato de ser mulher.
Era o tipo de comentário que Susanna teria feito para a srta.
Harding. Imaginou que o sr. Chambers ficaria um pouco surpreso, mas ele
não disse nada e apenas perguntou, já com o lápis em posição para escrever:
— A senhorita tem passaporte?
— Não.
— Então, preciso providenciar um imediatamente. Tenho certeza de
que não terei dificuldade. Preciso do seu nome completo e endereço.
Susanna começou a pensar rapidamente.
— Meu nome é Susanna Brown.
— Seus pais?
27
— São falecidos.
— Preciso do nome deles.
— Walter e Elizabeth Brown — inventou.
— E seu endereço, quando seus pais eram vivos?
Mais uma vez foi difícil, mas, afinal, ela disse, pois conhecia muito
bem:
— Old Rectory, Lavenham Village, Hampshire.
— E seu endereço atual?
— Vim para Londres ontem à noite, depois que vi o anúncio no
jornal. Estou em casa de amigos em Kensington.
— E antes disso?
— Tenho ficado em… casas de amigos, desde que meus pais…
morreram.
O sr. Chambers examinou o que tinha escrito.
— Sinto, mas preciso saber a data de seu nascimento. Na verdade,
eu teria que providenciar sua certidão de nascimento, mas acredito que
poderei contornar essa dificuldade.
Pelo jeito como falou, Susanna percebeu que tinha influência nos
meios oficiais.
Achou que seria um grande erro dizer a idade verdadeira, pois, se
tivesse menos de vinte e um anos, deveria estar sob a responsabilidade de
algum tutor.
Pensou rápido e se fez quatro anos mais velha.
— Nasci em dois de julho de… 1885.
— Obrigado, srta. Brown. Gostaria que mandássemos uma
carruagem buscá-la amanhã, ou prefere nos encontrar na estação?
— Para mim, seria mais fácil encontrá-los na estação.
— Muito bem. Um criado vai esperá-la na entrada da estação
Victoria. Se, por acaso, não o encontrar, pergunte pelos vagões particulares
do sr. Fyfe Dunblane, que estarão engatados no trem principal. Tenho certeza
de que qualquer porteiro saberá informar onde deve ir.
— Obrigada.
Susanna tinha a sensação de que o chão estava sendo tirado debaixo
de seus pés e o futuro sendo resolvido de uma maneira que a fazia perder o
fôlego.
Conseguiria mesmo ir até o fim? Seria mesmo capaz de deixar os
pais e começar uma vida nova sozinha?
— Ora, a senhorita esqueceu um detalhe muito importante!
28
— O quê? — perguntou, apreensiva.
— A senhorita não perguntou qual o salário que vai receber!
— Oh, esqueci!
— Não é uma atitude profissional de sua parte. Afinal, tenho certeza
de que a senhorita concorda que “o trabalhador faz juz ao salário que recebe”
— disse o sr. Chambers, sorrindo.
— Sim, claro.
— Sugeri ao sr. Dunblane que o salário para um bom leitor
profissional deve ser de vinte libras por mês, livres de despesas.
— Acho muito… generoso.
Era quase o dobro do que a mãe pagava para a srta. Harding. Ficou
surpresa por merecer tanto.
— Bem, agora que está tudo combinado, só posso desejar que a
senhorita goste de Florença.
— E um lugar que sempre quis visitar — disse Susanna, com
sinceridade.
— Posso lhe garantir uma coisa: não se decepcionará com Florença.
Acompanhou-a até o térreo, onde apertou-lhe a mão. Um criado
levou-a até a porta da rua, onde James a esperava.
— Desculpe fazê-lo esperar tanto tempo, James.
— Não tem importância, senhorita, é bom tomar um pouco de ar
fresco.
Depois que atravessaram a rua, Susanna virou a cabeça e disse para
James, que estava um passo atrás:
— Eu ficaria muito grata se não comentasse com ninguém onde
estivemos. Eu só quis visitar uma amiga, mas acho que mamãe não gostaria
se soubesse.
Sabia que estava errado instigar um criado contra a mãe, mas tinha
de garantir que não houvesse perguntas sobre onde tinha ido. Se a camareira
de lady Lavenham viesse a saber, informaria a patroa imediatamente.
Enquanto andava pela rua, pensava que estava vivendo um sonho e
que o que tinha acabado de acontecer só fazia parte dele e não era verdade.
Como poderia aceitar um emprego como leitora profissional para
um homem completamente estranho?
Como poderia deixar sua casa e ir para Florença, ou para qualquer
outro lugar, sem avisar os pais, provocando um escândalo?
Mas qual era a outra alternativa? Ficar e casar com o duque de
Southampton?
29
Sabia que a mãe não tinha falado sem pensar, ao dizer que havia
escolhido o duque como futuro genro. Fossem quais fossem os obstáculos
que surgissem, ela conseguiria o que queria.
Mamãe sempre consegue, pensou, com um suspiro. Se ela tivesse a
menor suspeita de que estou fazendo uma coisa dessas, me impediria, nem
que fosse preciso me trancar no quarto até o momento de eu ir para o altar.
— É inútil lutar contra mamãe — tinha dito seu irmão Henry, certa
vez em que foi proibido de fazer algo que desejava. — Ela sempre ganha. É
muito dominadora!
Susanna concordava e sabia que tinha sido dominada pela mãe
durante toda a vida e que seria impossível enfrentá-la agora.
— Mas como posso ir embora sozinha? E uma idéia louca! Porém, a
alternativa era ficar como May: esmagada, triste, propriedade de um homem
que pelo menos a achava atraente, enquanto que o duque…
Não precisou pensar mais. Sabia muito bem o que o duque sentiria
por ela, gorda, sem graça, a última pessoa adequada para ser uma duqueza.
Sabia também que, além do duque, as pessoas que eles receberiam,
às custas do seu dinheiro, dariam risadas às suas costas, mesmo que pela
frente fingissem bajulá-la.
Não havia lealdade no círculo de amizades de sua mãe; apenas o
princípio de manter as aparências.
Nisso, eles se saíam muito bem, suportando um ao outro e se
unindo contra qualquer crítica.
— Como posso fazer uma coisa dessas? Como?
Susanna teve a impressão de que o som de seus passos na calçada
ecoava a pergunta. Quando chegou à porta da frente da mansão Lavenham, o
refrão tinha mudado:
— Vou conseguir ir embora! Vou conseguir! Vou conseguir!
Chegou à estação Victoria pouco depois das nove horas. Era muito
cedo e, como imaginava, ainda não havia nenhum criado esperando por ela.
Entretanto, um porteiro levou-a para os vagões particulares do sr. Fyfe
Dunblane.
Eram dois, e os camaroteiros ficaram muito confusos por Susanna
ter chegado antes de todos. Depois que ela pediu desculpas, eles lhe
apontaram um lugar confortável para sentar e lhe trouxeram uma xícara de
chá e um prato de biscoitos doces.
Estava mesmo precisando de algo para acalmar a agitação que a
dominava.
30
Ainda não conseguia acreditar que tivesse conseguido sair com
tanta facilidade, mas só se sentiria realmente segura depois que o trem
deixasse a estação.
Na manhã anterior, depois que chegou em casa com James, Susanna
correu para o quarto e viu com alívio que a placa dizendo que não queria ser
perturbada ainda estava lá, o que significava que não tinha sido procurada e
que ninguém, além de James, sabia que saíra de casa.
Tirou a roupa rapidamente, deitou e tocou a campainha.
— Já estava estranhando o fato de dormir até tão tarde, senhorita —
disse a criada que veio abrir as cortinas.
— Acordei com dor de cabeça, Mary, e achei melhor dormir até
melhorar.
— Fez muito bem, senhorita, e ninguém sentiu sua falta. Lady
Lavenham ainda não tomou o café da manhã. Vou trazer o seu.
— Ótimo, Mary. Não estou com pressa de levantar.
Depois de se vestir, Susanna encontrou a mãe que lhe disse que
pretendia sair sozinha para passear e não desejava sua companhia.
— Não volto para o almoço — disse Lady Lavenham. — Se você
tiver mais roupas para experimentar, peça à sra. Dawes que a acompanhe. Já
estou farta de vê-la experimentando roupas e não posso dizer que alguma
delas tenha conseguido melhorar sua aparência!
Olhou para a filha, quase com desespero, e Susanna disse, com um
tom de desculpas:
— Acho que é verdade, mamãe. Enquanto que a senhora, usando o
mesmo vestido, pareceria ter vindo direto do Olimpo!
Lady Lavenham ficou satisfeita com o elogio, mas olhou para a filha
com a testa franzida.
— Não sei com quem você se parece. A mãe de seu pai era uma
mulher atraente e a minha, como sabe muito bem, era linda!
— Talvez eu tenha sido trocada quando nasci. — Era algo em que
sempre pensava.
— Eu não ficaria surpresa. Mas o problema continua o mesmo:
como vou fazer para deixá-la mais apresentável?
— Isso não tem importância, mamãe. Se eu fosse a senhora,
esqueceria o assunto.
— Oh, como eu gostaria de poder esquecer! Mas não se preocupe,
eu tenho planos. Portanto, deixe tudo por minha conta.
Susanna sabia muito bem quais eram os planos e não conseguiu
31
deixar de levar isso em conta, quando escreveu o bilhete para a mãe.
Levou algum tempo, decidindo o que dizer.
“Mamãe, resolvi que não fui feita para a vida social e que
não desejo casar. Vou para a casa de alguns amigos, cuidar
do meu futuro sozinha.
Estarei bem. Portanto, não quero que a senhora se
preocupe comigo e prometo me cuidar.
Por favor, perdoe pela preocupação e ansiedade que estou
lhe causando e não tente me encontrar, pois não tenho
intenção de voltar para casa até a temporada terminar.''
Susanna pensou que poderia dizer muitas outras coisas, mas,
sabendo que a mãe detestava ler cartas longas, acrescentou apenas:
“Com amor para papai e para a senhora, sua filha que ainda
os ama.
Susanna.”
Tinha pensado em colocar “sua filha desobediente que ainda os
ama”, mas concluiu que a mãe não acharia graça. Lady Lavenham tinha muito
pouco senso de humor!
Como ficou sozinha, pois a mãe tinha ido almoçar fora, tornou-se
fácil dar o passo seguinte, que podia ter sido muito mais complicado.
Sabia que logo que terminasse de almoçar e saísse da sala, os criados
se reuniriam no porão para fazerem a refeição, e aproveitou para pegar uma
mala no sótão, onde estavam guardadas desde que chegaram em Londres.
Não foi possível pegar uma das grandes, muito pesada, mas
conseguiu duas menores.
Levou-as para o quarto e escondeu-as no guarda-roupa, torcendo
para que Mary não as visse, quando fosse pegar o vestido que ela usaria para
o chá e, mais tarde, escolher um traje para a noite.
Mais uma vez, a sorte estava a seu lado, pois os pais foram jantar
fora e Susanna convenceu Mary a lhe trazer uma bandeja com algo leve para
comer às sete horas.
— Ainda estou com muita dor de cabeça; portanto, não me
incomode. Colocarei a bandeja no corredor, quando terminar, e tentarei
dormir.
— É uma boa idéia, senhorita. Espero que não esteja ficando doente.
Seria terrível se pegasse um sarampo ou outra doença qualquer, quando está
para ser apresentada ao rei e à rainha.
Susanna não respondeu, e Mary acrescentou:
32
— Lady Lavenham ficaria furiosa, se todos aqueles lindos vestidos
que lhe comprou não pudessem ser usados!
— Tenho certeza de que não estou com sarampo, é só uma terrível
dor de cabeça, Mary. Talvez, alguma coisa que comi tenha me feito mal.
— Muitos chocolates, senhorita, dão indigestão e a deixam muito
gorda.
— Eu sei, Mary, mas não resisto. A srta. Harding costumava me
repreender por ser gulosa.
— Imagino que sente muito a falta da srta. Harding.
— Sinto, sinto muita falta.
Depois que ficou sozinha, Susanna pensou se não teria sido mais
prudente seguir o primeiro impulso e procurar a ex-professora para lhe
contar os planos de sua mãe.
Mas o que a srta. Harding poderia ter feito? Não seria justo
incomodá-la com os seus problemas, quando estava numa fase de adaptação
aos novos alunos e à nova casa em que morava.
— Ela me disse que eu devia caminhar com meus próprios pés e
decidir a minha vida, e é exatamente isso que estou fazendo!
Trancou a porta e começou a arrumar as malas. Achou que não
devia deixar as roupas novas. Afinal, tinham sido pagas com seu dinheiro.
Além do mais, embora tivesse certa quantia de dinheiro, seria
melhor não ter que gastar muito no caso de querer ficar no exterior, depois
que o trabalho com o sr. Dunblane terminasse.
Assim que lady Lavenham saiu, Susanna foi procurar a srta. McKay,
secretária da mãe e lhe pediu trinta libras.
— Para que quer tanto dinheiro?
— Preciso comprar alguns livros e quero dar um presente para
mamãe. Também quero alguns pares de luvas e várias outras coisas que
custam muito caro numa loja de Bond Street, onde não temos conta.
— Está bem. Não quis ser curiosa, só achei que era muito dinheiro
para a senhorita carregar por aí.
— Não vou carregar por muito tempo! Depois eu volto e peço mais!
— A senhorita tem muita sorte por ter mais dinheiro à sua
disposição. A quantia que é gasta nesta casa e em Lavenham Park, às vezes
me deixa de cabelos arrepiados!
— Nós temos sorte por podermos nos dar a esse luxo.
— É verdade.
Susanna achou que a srta. Mckay tinha bastante inveja e concordou
33
que devia ser muito triste passar a vida mexendo com o dinheiro de outras
pessoas, quando se tem tão pouco.
— Tenho um livro no meu quarto que acho que a senhorita
apreciaria. Gostaria de lhe dar.
— É muita gentileza sua, mas não tenho tempo para ler. Quando
chego em casa, tenho que cuidar de minha mãe, que já está velhinha. Ela
quase não levanta da cama. Quando chego, tenho que preparar a comida para
ela, limpar a casa e deixar tudo pronto para voltar para cá logo cedo.
Era a primeira vez que a srta. Mckay falava com tanta franqueza e
Susanna se sentiu culpada porque sempre pensou nela como uma espécie de
autômato, não como ser humano.
Depois que subiu e guardou as trinta libras na bolsa, sentou à
escrivaninha e escreveu um bilhete ao pai, pedindo que desse à srta. Mckay
vinte e cinco libras mensais de seu dinheiro.
“Ela precisa, papai, e eu ficaria muito grata se o senhor realizasse
esse meu desejo. Por favor, perdoe por causar esse aborrecimento ao senhor e
à mamãe, mas tenho que ir embora e pensar em minha vida.”
Acreditava que o pai a compreenderia melhor do que a mãe, mas
sabia que, mesmo se tivesse lhe dito quanto odiava a idéia de ter que casar
com o duque, ele não a apoiaria.
O pai só acharia extraordinário o fato de ela não estar ansiosa e
querendo fazer um bom casamento.
Suzanna só foi deitar quando as malas e uma enorme caixa de
chapéu estavam prontas para a viagem.
Sabia que não conseguiria dormir, pois tinha que levantar cedo para
sair quando ninguém estivesse por perto.
Em Londres, o pai costumava descer para tomar o café da manhã às
nove horas. Se ela saísse às oito e meia, só encontraria os criados. E se James e
George estivessem de serviço no vestíbulo, como imaginava que estariam,
não questionariam nenhuma ordem sua.
Deu tudo tão certo, que Susanna quase não acreditou na sorte.
Mandou George buscar uma carruagem de aluguel, James levar as
malas para baixo, e seu antes que qualquer pessoa pudesse lhe fazer uma
única pergunta ou ficar espantado com a sua atitude.
Foi bastante esperta para dizer a James que queria ir à estação
Waterloo. Só quando estavam bem longe da mansão, mandou o cocheiro
mudar o itinerário e levá-la para a estação Victoria.
Ele aceitou a mudança sem comentários e Susanna acenou-lhe, em
34
sinal de agradecimentos.
Agora, já estava em segurança no trem, e a única coisa que restava
era rezar para que já estivesse viajando, quando dessem por sua falta na
mansão Lavenham.
Tinha terminado de tomar o chá e comer todos os biscoitos, quando
um camaroteiro passou por ela correndo e disse para outro:
— Eles chegaram.
Sentindo-se amedrontada e insegura, de repente, Susanna levantou.
Embora quase não tivesse dormido na noite anterior, estava
completamente sem sono, quando o trem começou a viagem para atravessar
a França.
O luxo em que viajavam lhe parecia tão irreal como tudo que estava
fazendo.
Havia quatro criados do sr. Dunblane, além de seu camareiro, do sr.
Chambers e de um outro homem que parecia acumular as funções de
acompanhante de viagem e mordomo.
Tudo isso fazia Susanna se sentir como uma pessoa da família real,
viajando no próprio trem.
Já estava quase cansada de ouvir perguntarem se precisava ou
queria alguma coisa, e tentava imaginar o que o sr. Dunblane estaria
pensando, pois ainda não tinha entrado em contato com ele.
Em Dover, o capitão do porto e vários outros oficiais
supervisionaram o transporte de seu patrão numa maça para uma cabine do
vapor que usariam para atravessar o canal.
Susanna ficou sabendo que, embora fossem pegar outro trem na
França, continuariam viajando em vagões particulares, tendo o mesmo
conforto.
Até Dover, tinham usado dois vagões, mas dali até Florença foram
três, e Susanna tinha certeza de que os oficiais que inspecionaram a partida
ficaram muito impressionados.
Durante a viagem, ela ocuparia um compartimento que tinha um
quarto e uma pequena sala de estar conjugada. O sr. Dunblane devia ser
muito rico.
Além do rei, ninguém viajava com tamanho luxo pela Europa, fosse
qual fosse a posição que ocupava na Inglaterra.
Sua mãe tinha descrito várias vezes o conforto do trem da família
real no qual os pais viajaram diversas vezes para Sandringham ou para o
castelo Warwick, quando, junto com o rei, desfrutavam da hospitalidade da
35
bela condessa de Warwick.
Mas atravessar a Europa deste jeito é uma experiência que nunca
vou esquecer, pensou Susanna, prestando atenção em tudo que acontecia e
gostando de ficar na janela, quando o trem parava em pequenas estações,
para ver a expressão de perplexidade das pessoas nas plataformas.
Depois de jantar com o sr. Chambers na sua sala de estar, Susanna
foi para o quarto e tirou a roupa, pensando que a cama larga de armação de
metal devia ser muito confortável.
Também descobriu que era fácil se lavar, pois havia uma pia com
torneira de água quente, que ficava coberta por uma capa de couro vermelho,
quando não estava sendo usada.
Deitou e pegou um livro, mas não conseguiu se concentrar na
leitura, pois tinha muito em que pensar.
— Eu fugi! Fugi, mesmo! Levará meses, até que mamãe consiga me
encontrar. Até lá, quem sabe ela aceite o fato de que não vou casar com quem
não quero!
Concluiu que, sem dúvida, isso significava que ficaria solteira para o
resto da vida.
Mesmo que a idéia de ficar sozinha para sempre fosse deprimente,
quando tivesse conquistado a independência, talvez pudesse fazer o que
gostava: viajar ou viver sem ninguém interferindo em sua vida.
Tinha a sensação de que não seria tão fácil assim, mas já havia dado
pelo menos um passo na direção certa!
Tinha mostrado coragem!
A srta. Harding costumava dizer que a coragem era a virtude mais
importante que se podia ter.
— Coragem, não só para enfrentar a vida, mas para conhecer a si
mesmo, dizia ela. — A maior parte das pessoas hesita em se olhar
profundamente porque tem medo do que pode encontrar. Isso é algo que
você tem que fazer, Susanna.
— Eu encaro as coisas com franqueza e honestidade — murmurou.
— Sei exatamente como sou: feia, gorda e sem atrativos, e não é provável que
algum homem se interesse por mim. Portanto, tenho que cuidar de minha
vida sozinha!
Largou o livro.
— Tenho sorte, muita sorte. Tenho dinheiro; portanto, não preciso
temer a pobreza. Vi o anúncio no Times por acaso, e aqui estou, vivendo uma
verdadeira aventura, e ninguém, nem mesmo mamãe, poderá me impedir!
36
37
CAPÍTULO III

Susanna já estava dormindo profundamente, quando bateram à


porta de seu quarto.
Por um momento, não soube onde estava, mas o ruído das rodas a
fez lembrar do trem que atravessava a França.
Bateram à porta novamente e ela sentou na cama, acendeu a luz e,
nervosa, perguntou:
— Quem é?
— Clint, senhorita, o camareiro do sr. Dunblane.
Susanna sabia quem ele era, sem a explicação. O sr. Chambers tinha
lhe mostrado um homem baixo e magro, o camareiro é enfermeiro do patrão.
— O que foi?
— Posso conversar um pouco com a senhorita?
Susanna olhou em volta, sem saber o que fazer. Puxando as cobertas
até o pescoço, disse:
— Talvez seja… melhor o senhor… entrar.
O camareiro quase nem esperou que terminasse de falar. Abriu a
porta, mas não entrou.
— Estou aqui por causa do sr. Dunblane. Ele quer que a senhorita vá
até seu compartimento.
Susanna arregalou os olhos.
— A… esta hora da madrugada?
— Não existe dia e noite para o patrão, senhorita. E tudo uma coisa
só.
— Sim, claro que sim.
— Ele quer que a senhorita leia. Está numa de suas crises de mau
humor e não posso fazer nada para ajudá-lo.
— Claro, entendo. Vou me vestir.
O camareiro hesitou por um momento.
— Eu não faria isso, senhorita, pois ele quer sua presença agora.
Além disso, não pode mesmo vê-la.
— Não, não pode. O senhor quer me esperar na sala de estar?
— Sim, senhorita, mas não gosto de deixar o patrão sozinho por
muito tempo, quando está desse jeito.

38
— Serei rápida.
Quando o camareiro saiu, ela levantou e vestiu o robe que tinha
tirado da mala na noite anterior. Era de veludo cor-de-rosa, quente e macio.
Tinha certeza de que não ficava elegante com aquela roupa, como
não ficaria, mas era uma tranqüilidade: depois de abotoar toda a frente até o
pescoço, estava vestida de modo tão discreto como se usasse um vestido.
Seus cabelos estavam presos num coque na nuca e ela nem mexeu
neles, lembrando que o sr. Dunblane não poderia reparar.
Sem pensar, pegou o livro que lia ao deitar e correu para a sala de
estar.
O camareiro a esperava, impaciente. Quando a viu, foi andando na
frente para abrir a porta de comunicação entre aquele vagão e o outro.
Ao entrarem na parte de conexão dos vagões, o ruído das rodas e o
ar frio aumentaram, e Susanna ficou feliz por passar logo para o
compartimento do sr. Dunblane.
Atravessaram uma sala de estar exatamente igual à dela e entraram
no quarto do patrão.
Havia também uma cama com armação de metal no centro, e as
luzes dos abajures iluminavam o homem envolto em ataduras.
— Onde esteve? — perguntou ele, quando ouviu o camareiro entrar.
— Fui buscar a srta. Brown, como mandou. Ela está aqui, para ler
para o senhor.
— Ah, então ela veio, hein?
Embora seu tom fosse de desagrado, transpareceu certa surpresa.
— Sim, estou aqui — disse Susanna, calmamente. — Quem sabe se
eu ler um pouco o senhor consiga dormir.
— Quem disse que quero dormir? A única coisa que tenho feito é
ficar deitado dia e noite! Nem sei se estou no escuro ou no claro, a não ser
quando ouço Clint bocejando até quase deslocar o maxilar!
— Clint está cansado e acho que seria bom ele ir deitar, enquanto
leio para o senhor. Não teve um minuto de folga, desde que saímos da
Estação Victoria.
O sr. Dunblane não respondeu, mas Susanna notou que tinha dado
atenção às palavras que dissera.
Olhou em volta, procurando uma cadeira, e depois de Clint colocar
uma ao lado da cama, o sr. Dunblane comentou:
— Está bem, Clint, pode ir. Se precisar de você, toco a campainha.
Pode ouvi-la no seu compartimento, não?
39
— A campainha toca ao lado da cabeceira da minha cama e seria
difícil não ouvir.
Falou num tom que Susanna sabia que seu pai teria achado muito
impertinente, tratando-se de um criado, mas imaginava que Clint, que tinha
sotaque americano, não era um camareiro comum, calado e servil como a
maioria dos empregados que conhecia.
Quando saiu, Susanna sentou e perguntou:
— O que gostaria que eu lesse?
— Tem algum livro aqui?
— Vi vários na sala de estar e posso ir buscar um, a não ser que
queira ouvir o que eu trouxe. Pareceu-me um livro muito interessante, pelo
pouco que li antes de dormir.
— Clint acordou-a, não?
— Sim, mas não tem importância. Fico contente em poder servi-lo.
Teve a sensação de que ia responder que ela não fazia mais do que a
obrigação, mas o sr. Dunblane se conteve.
Abriu o livro, caso ele não gostasse do assunto, podia pedir que
parasse de ler. No entanto, achou melhor explicar do que se tratava.
— Eu estava lendo sobre Lourenço, o Magnífico. Achei que seria
bom saber mais sobre ele, antes de chegarmos em Florença.
— Já tinha ouvido falar dele?
— Sim, claro!
— Claro, por quê? A maior partes das mulheres, principalmente as
inglesas, entende muito pouco de história e, menos ainda, de arte.
— Posso dizer que me interesso bastante pelos dois assuntos Estou
muito contente por ir para Florença, pois poderei visitar a Galeria Uffizi. —
Assim que terminou, Susanna achou que devia acrescentar: — Se o senhor
permitir, é claro.
Houve um momento de silêncio. Depois, o sr. Dunblane disse,
bruscamente:
— Acho que, como todas as mulheres, a senhorita deve estar
sonhando que se parece com a Vênus de Botticelli.
Susanna achou quase engraçado que ele pensasse assim. Se pudesse
vê-la, saberia que não era parecida com a Vênus pintada por Botticelli nem
por qualquer outro artista. Estava prestes a dizer isso, mas mudou de idéia
subitamente.
Por que se depreciar diante de um homem que não podia vê-la?
Quando as ataduras fossem retiradas, ele perceberia imediatamente com
40
quem ela era parecida.
Quando o conhecesse melhor, talvez fosse engraçado descobrir que
tipo de imagem tinha dela. Por seu lado, imaginava que talve7 criasse uma
imagem do patrão muito diferente da realidade.
Susanna não conseguia ver as feições do sr. Dunblane: ele podia ser
o homem mais feio ou o mais bonito do mundo. Era impossível saber, pois
estava inteiramente coberto por ataduras, havendo só uma abertura para
respirar e outra na altura da boca.
— Pode ser que eu seja parecida com a Vênus de Botticelli. Mas,
como só vi uma reprodução desse famoso quadro, acho melhor ver o original,
antes de lhe dizer se existe mesmo alguma semelhança. — Enquanto falava,
Susanna pensou em algo que a fez acrescentar: — Se pudesse escolher, acho
que preferia ser parecida com a Madona de Fra Filippo Lippi.
— Por quê?
— Tive a oportunidade de ver uma ótima reprodução desse quadro.
Não explicou que estava numa das paredes de Lavenham Park e
que tinha sido trazido da Itália por seu avô.
— E a Madona daquele quadro é seu ideal de beleza?
— Não só porque é bonita, mas porque me parece inteligente —
disse Susanna. — Pode-se notar isso pela largura da testa e pela expressão
dos olhos.
— Então, além de bela, a senhorita se imagina inteligente?
Pelo tom, Susanna percebeu que ele não acreditava que as duas
coisas pudessem existir numa só mulher.
— Acho que deve ser ótimo ser bonita, mas ser inteligente dá mais
satisfação e possibilita que as pessoas apreciem a vida de um modo diferente.
Como não queria continuar a conversa sobre sua aparência, Susanna
abriu o livro e começou:
— Ontem à noite, li sobre a família de Lourenço. Muito antes de
receber o título de Magnífico, ele se interessou por política e por atletismo.
“Dois dias após a morte de meu pai, os dirigentes da
cidade foram à nossa casa para nos apresentar suas
condolências e para me encorajar a governar a cidade, como
meu pai e meu avô tinham feito, embora eu, Lourenço, fosse
muito jovem, estando com apenas vinte e um anos na época.
Como esta proposta era contrária aos instintos da minha
juventude, e considerando que a responsabilidade e o perigo
eram grandes, aceitei contra a minha vontade. Mas fiz isso
41
para proteger nossos amigos e nossas propriedades, pois a
situação de Florença andava péssima, com todos os grandes
proprietários afastados do governo.''
Susanna parou de ler e disse:
— Acho que Lourenço se sentia só e isolado. Afinal de contas, era
muito jovem.
Enquanto falava, quase esqueceu que não estava conversando com a
srta. Harding sobre o que tinha lido.
— Ele era feliz, pois não foi apenas o fato de ser brilhante que lhe
deu posição, mas também por ter amigos fiéis — comentou o sr. Dunblane.
— Mas ele deve ter conseguido fazer amigos por causa de suas
qualidades — argumentou Susanna. — Se não tivesse aquela capacidade
incomum para fazer amizades, teria ficado sozinho.
Pensou que ela própria tinha poucos amigos. As garotas que iam
visitá-los no campo achavam mais fácil conviver com May, e Susanna sempre
ficava sobrando. Não era culpa delas, pensava Susanna, que achava as
garotas de sua idade imaturas e até irritantes. Elas riam, sorriam com afeição
e só conversavam sobre roupas e coisas que fariam quando crescessem.
Susanna achava que talvez não se interessasse por essas coisas
porque não era bonita.
— Um homem deve confiar nos amigos, srta. Brown? Sobressaltou-
se, pois quase chegou a esquecer que ele estava ali.
— Lógico que deve confiar. Principalmente, em situações como a
que Lourenço enfrentou. Ter amigos fiéis é bom para qualquer um e deve dar
muita satisfação.
— A senhorita fala como se quisesse amigos e não tivesse muitos
que lhe dessem essa satisfação.
Achou perigoso ficarem conversando sobre ela e resolveu voltar ao
livro.
— Posso continuar? Lourenço pode ter tido amigos, mas também
teve críticos. Guicciardini, por exemplo, disse que “ele desejava glória e
superioridade acima de todos os outros homens e podia ser criticado por ser
ambicioso até nas mínimas coisas. Ele não queria ser igualado ou imitado
nem em versos, jogos ou exercícios e ficava furioso quando alguém fazia
isso”.
— O que acha disso, srta. Brown? Não concorda que um homem
deseje se sobressair, ser o primeiro em tudo o que faz?
— Claro que os homens querem ganhar nos jogos e nos esportes.
42
Não existe um cavaleiro que não deseje ganhar o derby ou um caçador que
não queira abater mais faisões do que qualquer outro.
Lembrou do pai e dos enormes sacos de pássaros mortos nas
temporadas de caça em Sandringham, onde o recorde do rei dois anos antes
tinha sido de 7.256 pássaros abatidos em quatro dias.
— Então, admite que um homem queira vencer no esporte — disse o
sr. Dunblane, como se quisesse provocá-la para uma discussão. — E o que diz
das outras realizações da vida: o desejo por um título de nobreza, que é muito
forte na Inglaterra, ou o esforço fanático para conseguir dinheiro, que,
imagino que a senhorita saiba, persiste ainda nos Estados Unidos? Todas as
ambições são válidas?
— Acho que depende da ambição da pessoa. A ambição pela glória
deve ser sempre questionada, a não ser que o poder advindo disso seja
voltado para ajudar os outros, como os políticos, que deviam usar sua fama
para beneficiar seus países. Quanto ao dinheiro, Francis Bacon disse:
“Dinheiro é como estrume: sua única utilidade é ser espalhado''.
O sr. Dunblane fez um som e Susanna percebeu que era uma risada.
— Vejo que tem resposta para tudo, srta. Brown, e imagino que
nossas leituras vão me forçar a espremer os miolos, se é que ainda os tenho!
Como Susanna não respondeu, ele continuou:
— Mas a senhorita leva uma vantagem injusta: pode ler bastante
para aclarar suas opiniões, enquanto eu tenho que permanecer nas trevas.
Havia um tom de depressão em sua voz. Susanna notou que estava
com pena de si mesmo e que a qualquer momento podia voltar a reclamar do
destino. Tentando aliviar a tensão, resolveu mudar o rumo da conversa:
— Acho que talvez Lourenço seja um assunto muito polêmico para
essa hora da noite. Quero que ouça algo diferente, que sei de cor. Quem sabe
o ajude a relaxar e dormir, que é o que acho que devia fazer.
— Está preocupada comigo?
— Claro, como todos os que estão à sua volta. Queremos vê-lo bem.
Apesar de não ser médica, sempre achei que para curar uma parte do corpo,
todas as outras devem cooperar no processo de cicatrização.
— Que quer dizer com isso?
— O corpo é como uma máquina: quando uma peça vai mal, facilita
que o equipamento todo pare de funcionar.
— Entendi. Vamos, recite o que pretendia, e tentarei não ser muito
crítico!
Até aquele momento, Susanna não tinha pensado no que ia recitar,
43
mas resolveu rapidamente que seria as Canções Escritas na Estrada Entre
Florença e Piza, de Byron.
Enquanto declamava calmamente, pensava que, quando aprendeu
aqueles versos com a srta. Harding, nunca sonhou que em breve estaria a
caminho de Florença!
As palavras pareciam muito apropriadas naquele momento, mas,
enquanto continuava recitando um verso após o outro, imaginou o que a mãe
diria se a encontrasse assim, recitando para um homem cego todo
embrulhado em ataduras, usando apenas um robe!
Só quando disse: “Eu compreendi o que era o amor e senti que era a
glória”, percebeu que talvez devesse ter escolhido outro poema.
Não tinha dúvida de que era extremamente repreensível falar de
amor para um homem que nem conhecia! De repente, notou que o sr.
Dunblane estava dormindo!
Ouviu sua respiração calma e compassada. Pelo modo como estava
relaxado, com a cabeça virada para o lado, ficou claro que o poema tinha
surtido o efeito desejado.
Levantou em silêncio, saiu do quarto e chegou facilmente ao seu
compartimento.
Só quando deitou a cabeça no travesseiro e se cobriu, pensou que
aquela era a coisa mais extraordinária que já tinha acontecido em sua vida.
Até May e a srta. Harding achariam difícil acreditar, se algum dia
lhes contasse.
— Como ele será sem aquelas ataduras? Até dormir, não tinha
chegado à conclusão alguma.
O dia seguinte foi muito excitante. As horas pareciam passar tão
depressa como o trem, que corria velozmente.
Quando não estava lendo para o sr. Dunblane, Susanna sentava à
janela da sala de estar, não querendo perder nada da paisagem francesa. Os
extensos campos cultivados, sem cercas e divisas, tão diferentes dos da
Inglaterra, eram um encanto. As cidadezinhas, sempre dominadas pela torre
de uma igreja, eram lindas. Mesmo as grandes estações, com suas
plataformas cheias de gente tão diferente de todas as pessoas que já tinha
visto, eram muito interessantes.
Como achou absurdo sentir-se culpada em contar ao sr. Dunblane o
que via, Susanna falava da paisagem, olhando pela janela do compartimento
dele para descrever as florestas, os bois pastando nos campos e os
camponeses e seus filhos, trabalhando.
44
Ao passarem pelos Alpes, achou impossível reprimir sua
empolgação ao ver os picos cobertos de neve e os vales profundos e
sombreados entre eles.
Ele não disse que não queria ouvi-la descrever o que via, embora, às
vezes, falasse com amargura, o que demonstrava que tinha muito medo de
ficar cego para sempre.
Susanna pensava no problema do patrão o tempo todo. Finalmente,
ele lhe deu oportunidade de dizer o que tinha na cabeça.
Foi na noite do segundo dia de viagem, quando a escuridão não
permitiu mais que ela visse a paisagem e Clint entrou para fechar as cortinas.
— Imagino que tenha anoitecido — disse o sr. Dunblane, quando o
camareiro saiu.
— Sim, anoiteceu. Assim, o roteiro de uma viagem para Florença
que estou lhe fazendo, fica suspenso até amanhã.
Ele não respondeu. Depois de um momento, Susanna acrescentou:
— Prefere que… eu não… fale sobre o que posso ver, sr. Dunblane?
— Como pode ser que eu tenha de usar seus olhos, ou os de outra
pessoa, para o resto da vida, é melhor ir me acostumando com isso! A
senhorita é tão criativa! Já tentou imaginar como seria, se estivesse cega? Se
estivesse mergulhada na escuridão e tivesse que aceitar descrições de tudo o
que desejasse ver por si mesma?
— Se isso acontecesse comigo, ia esperar que tivesse o bom senso e
também coragem para desenvolver minha segunda visão.
— Que diabo quer dizer com isso?
A pergunta foi rude, quase violenta. Susanna tremeu, antes de
continuar, corajosamente:
— Nunca ouviu falar da segunda visão, senhor? Os egípcios sabiam
tudo sobre isso.
— Está falando dos ciclopes, aqueles monstros que só tinham um
olho no meio da testa?
— Não, não estou falando deles, mas dos antigos egípcios, na época
em que estavam no auge da glória e que seus sacerdotes compreendiam
todos os mistérios que só eram revelados aos iniciados e aos faraós.
— Acho melhor me falar deles.
— Eles representavam a segunda visão nas estátuas de seus deuses
por um nó na testa. E treinavam as pessoas no uso desse centro psíquico no
templo Ma-at. — Fez uma pausa, para ver se ele ia dizer alguma coisa. Como
não disse, continuou: — O Deus de Ma-at tinha cabeça de abutre porque os
45
abutres têm a segunda visão tão aguçada que são quase clarividentes.
Quando as pessoas respondiam ao treino dos sacerdotes, se tornavam
videntes ou médiuns.
— Um monte de besteiras! Susanna ignorou o comentário.
— Os videntes com sua segunda visão treinada podiam ver através
do corpo, como raios-X, e diagnosticar doenças. Acredito que se encontre
estátuas com um nó na testa indicando a segunda visão em todo o Oriente. —
Sua voz ficou alegre. — Logo depois da primeira vez que li sobre isso, fui
com minha professora ao Museu Britânico e lá encontramos várias estátuas
com nós nas testas. Foi muito excitante!
— Gostaria de desenvolver sua segunda visão para poder
diagnosticar doenças, srta. Brown?
— Não, mas acho que todos têm capacidade de usar a intuição, que
a maioria das pessoas negligencia.
— De que jeito?
— Quando contrata um criado, o senhor o julga pelo que sente, ou
só confia inteiramente nas referências?
— Sempre quero referências, e têm que ser ótimas, para eu contratar
o empregado.
— Então, sua segunda visão está preguiçosa e inativa. Com certeza,
já conheceu pessoas de quem gostou instintivamente e achou-as muito
adequadas, quase como se já tivessem significado algo em sua vida.
— Não me lembro de ninguém.
— Então, talvez tenha odiado alguém sem razão aparente,
detestando a pessoa logo que apareceu na sua frente. Pode não ter havido
nada de diferente na aparência dela, mas seus instintos lhe diziam que não
era confiável, talvez má.
— Está sugerindo que eu desenvolva essa qualidade bastante
duvidosa?
— Acho que é uma grande oportunidade, porque no momento o
senhor não pode julgar pelo que vê. Portanto, o que sente é intensificado. Por
exemplo: o que suas vibrações acham das minhas, enquanto estamos
conversando?
Não estava sendo pessoal; apenas, demonstrando seus argumentos,
como costumava fazer com a srta. Harding.
— Diga-me o que está sentindo — pedia sempre a professora.
— Não o que seu cérebro lhe diz para pensar, mas com o seu
subconsciente.
46
— Se está querendo elogios, não vou fazer! — disse o sr. Dunblane.
— Oh, não quis dizer isso! — protestou Susanna, quase horrorizada.
— E não me acuse de estar usando artifícios femininos, porque não os estou
usando!
— Não? E por que não quer usá-los, senhorita?
— Por muitas razões, mas, principalmente, porque o sr. Chambers
disse que o senhor não queria uma mulher neste posto. Como não havia
outro candidato qualificado, prometi que não seria agressivamente feminina,
e isso é algo que não tenho a intenção de ser!
— Mesmo assim, é uma mulher, querendo ou não! A voz dele agora
estava divertida.
— O que nunca me preocupou no passado e, com certeza, não vai
me preocupar no futuro!
— É uma afirmação ridícula, mas, pela maneira como fala, imagino
que nunca se apaixonou, não?
— Não, claro que não.
— Por que tanta veemência? Isso vai acontecer, mais cedo ou mais
tarde. Então, a senhorita vai casar e, sem dúvida, ter uma família grande e
cheia de filhos chatos.
— Nunca me casarei!
— Por quê?
— Por razões… particulares. — Susanna fechou o livro e
acrescentou: — Acho que já está na hora de me aprontar para o jantar. Não
quero deixar o sr. Chambers esperando.
— Se eu quiser, Chambers pode esperar! Susanna levantou.
— Esse foi um comentário muito egoísta, e não está usando sua
intuição com o sr. Chambers. Ele quase morre de preocupação com o senhor,
e acho que devia ficar agradecido!
Só quando saiu do compartimento, antes que ele pudesse responder,
foi que Susanna percebeu que aquela não era a maneira correta de falar com o
patrão.
Talvez ele me mande embora, assim que chegarmos, pensou.
Mas, como estava usando a intuição, sabia que aquelas conversas
em que pareciam duelar um com o outro tinham servido, no mínimo, para
tirá-lo do desespero em que estava, no começo da viagem.
Agora, o sr. Dunblane já falava com mais Calma, e Susanna sentia
que sempre procurava argumentar, mesmo quando ela o deixava furioso.
— Mesmo assim, tinha que tomar cuidado. Não suportaria ser
47
mandada de volta para a Inglaterra. Ainda mais, sem uma carta de
referências para conseguir outro emprego!
Quando deitou naquela noite, começou a pensar nas conversas que
tinha tido com o sr. Dunblane durante os últimos dois dias e desejou que, ao
chegarem a Florença, não encontrassem dezenas de pessoas para conversar
com ele.
De repente, lembrou que o sr. Chambers tinha dito que em Florença
o sr. Dunblane ficaria calmo e sossegado, e isso foi um consolo.
— Tenho que pensar em idéias novas, tenho que estimular a mente
dele. De algum jeito, preciso fazê-lo passar por cima dos sofrimentos físicos.
Não sabia como fazer isso, mas achou que era o que devia tentar.
— Uma coisa é certa: vamos ter muito o que conversar em Florença.
Sentiu um aperto no coração. Nem acreditava que veria os quadros
que sempre quis ver e a própria Florença, que os livros diziam ser uma das
cidades mais lindas do mundo.
Susanna acordou cedo porque era impossível dormir, sabendo que
tinham chegado, e o sol, que penetrava em seu quarto através das cortinas,
brilhava sobre a cidade onde, quatro séculos antes, Lourenço, o Magnífico,
tinha reinado com todo esplendor.
Lembrava de ter lido num livro da biblioteca, em Lavenham Park,
que Florença não era famosa só pelos palácios e igrejas que faziam parte de
sua história.
“Florença é o sino da manhã”, dizia o livro.”A lua
saindo detrás do San Miniato, as ruas estreitas que não são
mais do que fendas abertas na cidade, os beirais salientes
dos palácios, o barulho dos jumentos indo para o mercado
ao alvorecer…”
Essa era a Florença que queria ver, além da Florença das esculturas,
dos quadros e das construções, que ela vira a caminho da vila, depois de
chegarem à estação de trem, na noite anterior.
Naquele momento, sentiu que o cheiro da cidade era diferente de
todos os lugares que conhecia.
Achou que podia distinguir o perfume das malvas que floresciam
sobre muitas paredes, o aroma de café torrado e o cheiro úmido que vinha do
rio Arno, quando passaram em suas margens.
O sr. Chambers já tinha dito que a vila do sr. Dunblane não ficava
na cidade, mas um pouco distante, numa colina.
Havia colinas em volta de toda Florença, cobertas por ciprestes que
48
apontavam para o céu como dedos escuros.
Ficou sem fala quando chegaram à vila e viu como era bonita.
O sr. Chambers explicou que o lugar tinha sido um convento e que o
pai do sr. Dunblane o transformou numa vila, onde passou os últimos anos
de vida.
Ficou fascinada pela construção branca, com telhado de ladrilhos
que parecia irradiar santidade e mistério. Aquele prédio só poderia existir ao
lado de uma cidade como Florença!
— A coleção de quadros e móveis do pai dele fez da vila uma das
mais belas mansões da Itália. — O sr. Chambers parecia orgulhoso ao dizer
aquilo. — E o jardim, a que ele se dedicou em pessoa até morrer, é tão bonito
que não dá para descrever.
Preciso ver isso! — pensou Susanna, pulando da cama para abrir as
cortinas e quase perdendo o fôlego, ao ver a paisagem.
Elevando-se acima das casas, estava a enorme cúpula da catedral
construída por Brunelleschi em 1420, e, como Susanna havia lido: “Tinha que
alcançar tamanha altura e magnificência para que nenhuma outra pudesse ser
comparada a ela”.
Mas isso foi há muito tempo, e Susanna não esperava ver aquela
cúpula ainda dominando toda a cidade e sentir, como tinha sido a intenção
dos construtores, que elevava seu coração para o céu.
Viu o jardim. Era uma festa de cores e tinha flores que pareciam
vindas do paraíso, embora plantadas por mãos humanas.
— É um encanto! Um encanto!
Como estava ansiosa para ver mais, começou a se vestir.
Percebeu, com prazer, que podia deixar de lado todos os vestidos
grossos que usava em Londres e escolher um dos mais leves que a mãe
comprou, imaginando que junho e julho seriam meses muito quentes.
Saiu da vila, que parecia muito silenciosa, embora tivesse certeza de
que os criados italianos sorridentes que os tinham recebido na noite anterior
já estavam ocupados na cozinha.
O sr. Dunblane chegou muito cansado e Clint lhe contou, satisfeito,
que dormiu logo que deitou.
O sr. Chambers e ela tinham jantado sozinhos numa velha mesa de
refeitório num salão que antigamente devia ter tido a austeridade de um
convento.
Agora, com o piso coberto por magníficos tapetes, tapeçarias nas
paredes e iluminada por velas enormes em candelabros dourados que
49
deviam ter sido de uma igreja, a sala tinha uma beleza opulenta.
Outros cômodos eram ainda mais bonitos, descobriu Susanna, mas
na véspera estava muito cansada para vê-los.
— Vá dormir, srta. Brown — tinha dito o sr. Chambers. — Amanhã
terá muito tempo para explorar a casa. Sei que deve estar exausta.
— Estou um pouco. Deve ser por causa da vibração constante do
trem.
— Gostaria de lhe agradecer pela maneira como manteve nosso
paciente interessado durante esses quatro longos e cansativos dias. Estou
convencido de que é muito ruim para ele se torturar como fez durante todo o
caminho através do Atlântico, ficando desesperado, amaldiçoando o destino
e se negando a ter otimismo quanto ao futuro.
— Tentei ajudá-lo.
— E ajudou. Acho que tivemos muita sorte em encontrá-la, depois
de tantas decepções. — Devia ter percebido a surpresa dela, pois acrescentou
em seguida: — Fazia três dias que tínhamos colocado o anúncio no Times,
quando nos procurou. Eu estava ficando cansado de ouvir candidatos
pronunciarem mal as palavras mais simples em francês e sei que o sr.
Dunblane sentia o mesmo.
— Sinto tanto por ele!
— Se, no fim, recuperar a visão, talvez tudo isso que aconteceu seja
bom para ele.
— Bom? — perguntou, perplexa.
— Até agora, tudo deu certo na vida dele. Era um rapaz feliz em
todos os sentidos.
— Como Lourenço, o Magnífico — disse Susanna, sem pensar. O sr.
Chambers riu.
— Acho que está certa. Devia ver o busto de terracota de Lourenço
feito por Verrochio, srta. Brown. É uma das obras de arte de que mais gosto.
— Adoraria ver.
— Prometo que, logo que estivermos instalados, vou levá-la à
cidade para visitarmos a Galeria Uffizi.
— Ótimo!
Susanna tinha ido deitar muito excitada. Havia tanta coisa para ver,
e agora, enquanto estava ao sol no jardim, olhando a paisagem, compreendeu
que, por mais que tentasse imaginar como seria aquele lugar, nunca poderia
supor que tudo ali fosse tão maravilhoso.
Caminhou pelo jardim, olhando, fascinada, as flores, até se sentir
50
culpada, ao lembrar que o patrão, infelizmente, não podia vê-las.
Abaixou e pegou alguns lírios perfumados, tão delicados que até
parecia estranho serem parentes dos copos-de-leite, que sempre eram usados
para a decoração de igrejas; ou até mesmo com os lírios madona, mais
graciosos.
Colheu alguns, extasiada com a beleza das flores, mas, de repente,
sentiu vergonha do gesto extravagante.
— Esse lugar é tão bonito, mas tenho que lembrar que sou a única
criatura feia neste cenário de encanto e beleza que só poderia ser captado por
um mestre da pintura.
Não estava se queixando da aparência; apenas, usando o bom senso
para evitar ser levada a um grau de êxtase que, na verdade, não merecia
sentir.
Foi até uns arbustos cobertos de botões de flores e, espantada, viu
uma enorme piscina. Pelo menos, era o que imaginava que fosse, pois nunca
tinha visto uma.
Teria pensado que era apenas uma lagoa artificial, se não fosse
forrada de azulejos azuis e cercada de lajes. A água se movia constantemente,
tão clara, que se podia ver o fundo.
— Está pretendendo dar um mergulho, srta. Brown? — perguntou o
sr. Chambers, aproximando-se.
— Imaginei mesmo que fosse uma piscina. Ouvi dizer que os
americanos costumam ter uma em seus jardins, mas nunca tinha visto.
— O pai do sr. Dunblane mandou construir esta quando reformou a
vila.
— O senhor nada?
— Costumava nadar, logo que vim para cá, mas agora acho muito
cansativo. Assim, deixo esse exercício extenuante para as pessoas mais
jovens. A senhorita vai achar a água morna, mesmo a essa hora da manhã.
— Oh, não poderia nadar aqui! Embora eu tenha aprendido a nadar
no lago de minha casa, quando era bem pequena.
— Ninguém vai vê-la. Como tentamos oferecer todo o conforto aos
nossos hóspedes, a senhorita encontrará várias roupas de banho no pavilhão,
no outro lado da piscina. Não tenha vergonha! Dê um mergulho sempre que
tiver vontade.
— Obrigada, sr. Chambers. Vou pensar nisso.
Susanna teria vergonha de entrar na piscina, sabendo muito bem
como ficaria gorda e deselegante em trajes de banho.
51
Tinha visto senhoras gordas nadando em Brighton, quando foi para
lá com May, para convalescer, depois de terem coqueluche.
Tinham dado muitas risadas, e detestaria que rissem dela da mesma
maneira.
Ao mesmo tempo, adoraria nadar nessa piscina maravilhosa,
pensou, um pouco triste.
Embora o sr. Dunblane não pudesse vê-la, o sr. Chambers podia;
além de Clint e todos os criados.
Decidiu que nunca nadaria ali, nem que fizesse o maior calor da
história de Florença.
Carregando os lírios, voltou com o sr. Chambers para a casa. O café
da manhã estava servido numa varanda coberta, de onde se via um ângulo
diferente da cidade. Agora, avistava o Arno brilhando ao sol, pontilhado por
muitas pontes. Reconheceu a mais antiga e famosa de todas: a ponte Vecchio.
— Como poderei agradecer por estar aqui? — perguntou, com a voz
um pouco embargada.
Como se viesse responder sua pergunta, Clint entrou na varanda.
— O patrão quer falar-lhe imediatamente, srta. Brown. Ele acha que
está sendo negligenciado.
— Oh, Deus! — disse o sr. Chambers. — Eu devia ter ido vê-lo, antes
de tomar o café da manhã.
— O senhor não precisa se apressar. Ele quer a presença da
senhorita, e é melhor não fazê-lo esperar.
— Não, claro que não.
Não tinha terminado o café, mas levantou, pegou o ramalhete de
lírios e seguiu Clint pelos corredores frios, por um bonito pátio, e entraram
num quarto enorme.
Havia uma cama sobre um estrado, cercada por cortinas que caíam
de uma alta coroa, com anjos esculpidos. Na cabeceira, um enorme brasão
pintado de várias cores.
Deitado ali, o sr. Dunblane parecia muito estranho e irreal, envolto
em ataduras.
— Onde esteve? — perguntou, bruscamente. — Ninguém veio me
ver, mas tenho certeza de que Chambers e a senhorita estavam se divertindo
ao sol.
— Estive vendo a paisagem e explorando o jardim. E encontrei sua
piscina. Isso tudo parece mais um conto de fadas!
— Se está se imaginando como a princesa desse conto, devo lhe
52
dizer que o príncipe está sendo bastante negligenciado!
— Desculpe, mas como ainda era muito cedo, pensei que estivesse
dormindo.
— Dormir! Dormir! É só isso que querem sue eu faça! Ninguém se
importa se fico apodrecendo na cama, enquanto estão se divertindo!
— Isso não é verdade, e sabe muito bem. Mas resmungue, se quiser;
estou aqui para ouvir.
— Imagino que a senhorita vá dizer que é paga para isso, que é…
— Eu não ia dizer nada. Mas, já que mencionou, é isso mesmo! O sr.
Dunblane riu!
— Maldição! A senhorita nunca me deixa sentir pena de mim.
— E por que deixaria, se estou certa de que o senhor não precisa ter
auto piedade. Devia dar graças a Deus por tudo que tem!
— O quê?
— Não vou responder. O que aconteceu com a sua segunda visão
esta manhã?
— Ainda não a liguei — ele disse, com cinismo.
— Não acredito. Portanto, vamos tentar ver se está funcionando
direito. Diga-me o que é isso!
Susanna inclinou-se para a frente e segurou os lírios perto do rosto
dele.
— Colheu no jardim, srta. Brown?
— Sim, claro. Como são pequenas e insignificantes, achei que
gostariam de poder vir vê-lo, enquanto suas outras amigas eram deixadas lá
fora!
O sr. Dunblane riu outra vez.
— A senhorita é uma mulher engraçada! Bem, faça por merecer seu
salário, lendo os jornais para mim… se é que chegaram… antes que eu diga
quando pode ir ver seu rosto na galeria Uffizi.
Susanna prendeu a respiração.
Se ele soubesse como ela era na realidade! Mas não estragaria sua
felicidade e seu prazer por estar em Florença, contando a verdade.
Como, no meio de tanta beleza, poderia dizer: “Sou feia, gorda e
sem graça!”
— Quando o senhor me deixar visitar a galeria, vou lhe contar com
quem me pareço. Se com Simonetta Vespucci, a modelo da Vênus de
Botticelli, ou com a jovem inteligente que posou para Fra Felippo Lippi. —
Fez uma pausa, antes de acrescentar: — Li que aquela mulher pode ser
53
Lucrezia Buti, que fugiu de um convento para viver com o artista.
— Naturalmente, não deve esquecer de me reconhecer em
Lourenço, o Magnífico.
— Lógico! As coisas que o sr. Chambers me contou a seu respeito
me fazem ter certeza de que foi Lourenço em outra encarnação.
Falou em tom de brincadeira, e ele disse, desconfiado:
— Acredito que, longe de estar me elogiando, a senhorita está
predizendo que vou ficar feio e, além das dificuldades financeiras, morrerei
de gota!
— Isso é mais para o futuro.
—Enquanto isso, tive outra forma de punição para os meus pecados!
— Agora, está sendo mórbido. O que o acidente pode ter a ver com
seus pecados?
— Quem sabe se, como Lourenço, eu era inchado de orgulho,
decidido a ser o primeiro em tudo que fazia? Com certeza, a senhorita diria
que a punição convém ao crime, não é?
— Eu não diria nada desse tipo — respondeu, um pouco irritada. —
Acho que essa conversa lhe faz muito mal. Por isso, vou ler algumas notícias!
Ao lado da cama havia um jornal italiano e outro americano. O
último era de uma semana atrás, e achou que devia ter vindo com eles da
Inglaterra.
— Há dois jornais aqui. Prefere o italiano ou o New York Times
primeiro?
— O New York Times está aí? Por que não o leu ainda?
— Porque eu o vi neste instante.
— Bem, leia agora! Procure as páginas de esporte e veja se encontra
algo sobre provas de automóvel.
Susanna fitou-o, surpresa. Pela primeira vez, imaginou que talvez o
acidente dele tivesse algo a ver com corridas de automóveis.
O sr. Chambers não havia mencionado nada, e Susanna pensou que
se tratava de um acidente comum, que acontecia freqüentemente, desde que
os carros apareceram nas estradas.
Apesar de os automóveis só poderem viajar em baixa velocidade, os
motores assustavam os cavalos, que normalmente se precipitavam,
aterrorizados, arrastando a carruagem, muitas vezes com conseqüências
desastrosas.
Vários amigos de sua mãe viajavam nas imediações de Londres em
Broughans elétricos, e o pai tinha falado em comprar um carro no qual
54
poderiam chegar mais depressa a Lavenham Park do que com seus cavalos
puros-sangues.
Susanna sabia que isso era muito diferente das corridas de
automóveis, embora não entendesse do assunto. Henry era a única pessoa da
família realmente fascinado por carros. Na verdade, quando iam de Eton para
casa, quase só falava sobre isso.
Susanna sempre tinha sido uma boa ouvinte para os entusiasmos do
irmão e lembrava de ele ter contado que, no ano anterior, um Stanley Steam
Car conseguira uma velocidade inacreditavelmente alta em Daytona Beach.
Enquanto tentava encontrar a página de esportes do New York Times,
pois não tinha familiaridade com o jornal, também pensava por que não lhe
tinha sido entregue antes.
Ao encontrar a página, foi difícil descobrir alguma notícia sobre
automóveis. Felizmente, achou.
— Ah, aqui está!
— O que diz?
— “Não há dúvida de que se espera que os Fiat de Felice Nazzaro,
que dominaram as principais corridas deste ano, ganhem a Targa Florios,
apesar de Louis Coatalen, um francês expatriado, ter desenhado um
Hillmann 25 HP para o 1907 TT.”
— Não há nada sobre os carros americanos?
Susanna olhou rapidamente os parágrafos seguintes e leu:
— “Está previsto que o primeiro automóvel do mundo com excesso
de compressão no motor, um Chadwick 6 cilindros, vai ser visto no novo
Grand Prix Americano em Savannah. Espera-se que o Locomobile de
Robertson ganhe a Taça Vanderbilt.”
— Que mais? — perguntou o sr. Dunblane, com voz surpreenden-
temente ansiosa.
— “Os Estados Unidos estão se destacando no mundo dos motores,
tendo sua produção de automóveis superado a da França em 1906. Os
Falcons arrebataram o mercado, mas comenta-se que Henry Ford começou a
produzir um estranho Modelo T, um veículo muito simples e quase
indescritível, que se tornará um transporte seguro quase ao alcance de
todos…”
Antes que terminasse de ler, o sr. Dunblane deu um grito, furioso.
— Por que não fui informado? Por que, diabo, esconderam isso de
mim? Vá buscar Chambers. Diga-lhe para vir aqui imediatamente!
Falou tão alto e com tanta firmeza, que Susanna levantou de um
55
salto.
— Vá depressa, vá buscá-lo! Que, diabo, está esperando? Assustada
com sua violência, ela saiu correndo do quarto para procurar o secretário.

56
CAPÍTULO IV

Susanna estava no terraço, admirando a paisagem, quando o sr.


Chambers apareceu, mais ou menos uma hora depois, carregando uma pilha
de jornais.
— Sinto muito por ter deixado o sr. Dunblane irritado.
— A culpa foi minha, senhorita. Eu trouxe o New York Times de
Londres e, por um descuido, deixei-o na sala de estar. Clint encontrou e
pensou que eu queria que o jornal fosse para o sr. Dunblane.
— Ele pareceu muito irritado porque o sr. Henry Ford está
fabricando um novo carro. Pensei que talvez tenha investimentos em outros
tipos de automóveis.
Enquanto esperava, tinha pensado que as fortunas americanas,
feitas tão rapidamente, sem dúvida, podiam desaparecer com a mesma
rapidez.
Seu pai havia falado de craques financeiros em Wall Street, e
lembrava que uma vez acontecera uma terrível comoção porque alguns
amigos dele tinham investido numa mina de ouro cujo veio esgotou.
— É algo desse tipo — respondeu o sr. Chambers, e Susanna sentiu
que ele não queria que fizesse mais perguntas.
Não tenho mais nada com isso, pensou ela. Porém, se o sr. Dunblane
perder muito dinheiro, pode ser que tenha que vender esta vila maravilhosa e
não possa mais viver no conforto que vive agora.
— Acho que o sr. Dunblane gostaria que voltasse para lá, srta.
Brown. Sugiro irmos a Florença depois do almoço, enquanto ele descansa,
para que veja alguns dos quadros que está querendo ver.
— Podemos ir mesmo?
— Podemos tentar. Mas, se o sr. Dunblane quiser seus serviços,
receio que teremos que esperar até outro dia.
Susanna voltou depressa para o quarto do patrão. Ao entrar, depois
de bater na porta, ficou surpresa ao vê-lo sentado numa poltrona ao lado da
janela, que estava aberta.
— Ora, o senhor levantou! Fico muito feliz. Tenho certeza de que é
importante para o senhor respirar esse ar fresco.
— Pare de querer me agradar. Se tem algo bom para me acalmar,

57
gostaria de ouvir.
Fitou-o, um pouco nervosa, notando que ainda estava irritado.
Tinha apanhado automaticamente alguns livros no caminho para o
quarto. Como estava muito empolgada com a idéia de visitar Florença, nem
os examinou com atenção.
Agora via que um deles era o livro sobre Lourenço, o Magnífico.
Achou que talvez já tivessem esgotado aquele assunto. Olhou os outros
rapidamente, tentando encontrar algo diferente que pudesse interessá-lo.
De repente, ele a surpreendeu.
— Mudei de idéia. Converse comigo, fale-me de sua vida e porque
tem que trabalhar para viver.
Foi uma sorte não poder ver a expressão assustada nos olhos de
Susanna.
— Esse assunto é muito maçante. Preferia conversar sobre o senhor
ou sobre esta vila maravilhosa. — Não houve resposta. Ela insistiu: —
Gostaria também que me falasse de Florença. Quando as pessoas falam de
um lugar que conhecem bem, sempre é mais interessante do que um guia
turístico.
— Tenho a sensação, e agora estou usando a minha segunda visão,
de que a senhorita quer me desviar do que quero saber a seu respeito. Para
que tanto mistério? A não ser que esteja escondendo alguma coisa.
Susanna achou que ele realmente estava ficando muito perceptivo.
— Não sei… por quê… pensa assim.
— A sua voz é muito reveladora, srta. Brown. Quando está nervosa,
como está agora porque estou me metendo em alguma coisa que não quer
que eu saiba, o tom muda. Acredito que centenas de pessoas já tenham lhe
dito que a senhorita fala como uma música.
— Ninguém… nunca me disse… isso.
— Então, deviam ser surdos. Ou talvez, pelo fato de estar cego, pela
primeira vez na minha vida eu esteja usando os ouvidos como devem ser
usados.
— Ou, como o senhor mesmo disse, pode ser sua segunda visão!
— Estive pensando nisso. Parece extraordinário ninguém nunca ter
me falado sobre a segunda visão.
Susanna sorriu.
— Li que existem escolas esotéricas, ou existiam, em diferentes
partes do mundo, que eram freqüentadas por todos os grandes líderes do
pensamento criativo.
58
— Isso é tão forçado quanto a afirmação de madame Blavatsky de
que havia mestres escondidos no Himalaia que ensinavam e guiavam as
pessoas que acreditavam neles.
O modo irônico como falou, fez Susanna reagir:
— É óbvio que o senhor é um dos que não acreditam.
— Lógico! Acho que é um monte de besteiras inventadas por
mulheres frustradas que não têm nada que fazer!
— Ainda assim, sabemos que todos os grandes inovadores, como
Buda e Platão, falavam com os discípulos de uma maneira que os seguidores
comuns não teriam entendido.
— Como sabe?
— Se quiser, posso lhe apontar vários exemplos na Bíblia.
— Acho que a senhorita foi enganada e iludida por um monte de
asneiras que não são reais e das quais qualquer pessoa inteligente riria.
Susanna pensou por um momento.
— Então, não acredita em milagres?
— Só acredito no que vejo. Ela hesitou, antes de dizer:
— O senhor acabou de sofrer um terrível acidente de automóvel.
Não acha um milagre ter escapado com vida? Por que sobreviveu a um
acidente que podia ser fatal para uma pessoa de menos sorte?
Ainda enquanto falava, ficou espantada por fazer um comentário
tão pessoal, mas as palavras pareciam vir a seus lábios por vontade própria.
Houve um longo silêncio, antes de Susanna dizer, um pouco
nervosa:
— Desculpe, — eu não devia ter falado isso. Não queria irritá-lo
novamente.
— Não me irritou, acredite. Só me fez pensar. Tenho estado tão
furioso por ter sofrido o acidente com tanta raiva de estar cego, que até agora
não tinha me ocorrido que é extraordinário o fato de não ter morrido.
— Acho que o senhor tinha que viver. Quem sabe, exista algo
importante e especial para fazer no mundo; portanto, o querem aqui. Não
acredite que essas coisas aconteçam por acaso.
— Um milagre! — disse ele. Mais para si mesmo. Depois, se
acomodando melhor contra as almofadas: — Muito bem, estou pronto para
ouvi-la expor suas teorias. Pelo menos, são diferentes e me fazem pensar.
— A doutrina secreta, que foi exposta por muitos líderes… —
começou Susanna.
Conversaram e discutiram até a hora do almoço. Quando o deixou,
59
Susanna tinha certeza de que o sr. Dunblane estava cansado embora ele não
admitisse.
O sr. Chambers e ela tinham acabado de almoçar, quando Clint veio
dizer:
— Coloquei o patrão de novo na cama, senhor. Ele deitou de muito
boa vontade e dormiu antes de eu sair do quarto.
— Ótimo. Acha que devíamos entrar em contato com algum
médico? Sei que o sr. William escreveu para um.
— Isso só deixaria o patrão irritado — respondeu Clint. — Acho
melhor deixá-lo em paz, até que se recupere da viagem.
— Muito bem, vamos fazer o que sugere. E agora, a srta. Brown e eu
vamos para Florença. Se o sr. Dunblane acordar antes de chegarmos, diga-lhe
que voltaremos logo.
— Tenho certeza de que ele vai querer ver os dois. Principalmente, a
srta. Brown. — Clint lançou um olhar quase atrevido na direção de Susanna.
— A senhorita fez com que o sr. Dunblane pensasse seriamente no problema
dele, e acho que esse foi o melhor remédio.
— Obrigada. — Susanna sorriu. Depois, levantando, virou-se para o
sr. Chambers: — Vou pegar meu chapéu. Não demoro nem um minuto.
Estava com medo de que, no último momento, tivessem que adiar o
passeio. Só ficou inteiramente calma, quando já estavam na estrada.
Tinha lido muito na noite anterior sobre a importância de Florença
na Idade Média. A cidade havia sido um dos centros mais famosos do mundo
e ainda exportava anualmente muitas toneladas de mercadorias para a França
e para a Inglaterra.
Seria ótimo, pensou, se pudesse comprar alguns metros de seda
florentina, famosa no mundo inteiro, e também alguns metros de rendas
fabricadas pelas freiras dos vários conventos da cidade.
Foi naquele momento que lembrou que devia tomar cuidado com o
dinheiro, senão, seria capaz de gastar tudo na primeira loja que encontrasse.
A paisagem era maravilhosamente colorida, e Susana entendeu por
que as cores de Florença tinham tanta fama.
A carruagem atravessou uma ponte. Susanna olhou interrogati-
vamente para o sr. Chambers, e ele disse:
— Sem que a senhorita tenha dito nada, sei que o primeiro lugar
onde quer ir é à galeria Uffizi. O resto pode ficar para outro dia.
— Obrigada, é muita gentileza sua.
— Como sabe, a galeria foi criada pelos grãos-duques da casa dos
60
Mediei, no final do século XVI, para abrigar a coleção de Cosimo, o Velho.
Seu neto, Lourenço, o Magnífico, a ampliou e transformou em uma das
maiores coleções de arte do mundo.
Tudo em Florença tem relação com Lourenço, pensou Susanna.
Quando parou diante da escultura que o representava, viu que era
exatamente como imaginava. Sabia que não tinha sido um homem bonito
como as estátuas de Michelângelo mostravam, mas esperava que tivesse uma
aparência forte, viril e terrivelmente máscula.
Havia tanta determinação em seu rosto, que Susanna achou que
devia conquistar os povos não apenas física, mas também mentalmente.
Ficou tanto tempo olhando o busto de Lourenço, que o sr. Chambers
voltou até ela para dizer:
— Se quer ver as obras de Botticelli antes de irmos embora, acho
melhor abandonar Lourenço por alguns minutos.
— Ele devia ser realmente magnífico!
Foi visitar com o sr. Chambers as pinturas que desejava tanto
conhecer, embora não conseguisse se desvencilhar da forte impressão que o
busto de Lourenço tinha causado em seu coração.
Havia tanta coisa para ser vista e todos os objetos eram tão lindos,
que só quando voltaram para a vila sentiu o quanto todas aquelas obras
tinham mexido com ela.
Clint esperava por eles.
— O sr. Dunblane está acordado e tem uma surpresa para a
senhorita.
— Que será?
Tirou o chapéu, passou a mão nos cabelos e foi para o quarto.
Clint abriu a porta e, assim que Susanna olhou para dentro, viu qual
era a surpresa. O sr. Dunblane estava sentado ao lado da janela, sem as
ataduras do corpo. Só restavam as do pescoço e da cabeça.
— Que coisa boa! Agora, o senhor poderá sentir os objetos com as
mãos tão bem como consegue ouvir tudo que acontece à sua volta.
— Sabia que teria algo apropriado para dizer numa ocasião como
esta, srta. Brown. Tenho certeza de que está doida para começar a elogiar as
obras que visitou; por isso, acho melhor começar logo a comentá-las.
— Tenho muita coisa para contar ao senhor.
— Espero que não fale muito, senão, sou capaz de ficar cansado e
dormir.
Enquanto o sr. Dunblane dizia aquilo, Suzanna notou que as mãos
61
dele eram muito expressivas. Foi a srta. Harding quem a ensinou a não olhar
apenas para o rosto das pessoas, mas também para as mãos.
— As mãos poderão dizer-lhe tudo sobre o caráter de uma pessoa.
Podem ser rudes e delicadas, artísticas ou comuns. Também podem
denunciar os desejos secretos.
Achou que as mãos dele eram fortes e muito bonitas.
— Em que está pensando?
— Estava olhando para suas mãos.
— Tentando me conhecer pelas mãos, do mesmo jeito que tento
conhecê-la pela voz?
— Acho que é muito difícil imaginar o caráter de uma pessoa
apenas por uma parte dela.
— Está falando de mim ou da senhorita?
— Talvez, de nós dois.
— Então, esteja certa de que não a julgo apenas por sua voz. Não é
pelo fato de ser límpida e cristalina que vou achar que seu caráter também é
inteiramente límpido e cristalino.
Susanna não respondeu, pois não sabia o que dizer, e ele voltou a
falar:
— Mas estou impedindo que a senhorita me conte o que viu. Afinal,
de quem gostou mais? Da Vênus ou da madona de Lippi, cuja inteligência a
tinha impressionado mais do que a beleza?
— As duas são encantadoras. Mas acho difícil dizer alguma coisa
realmente válida sobre as obras que conheci hoje. Todas, de maneira geral,
são belíssimas e da maior qualidade.
— Nem pense nisso! Estou esperando sua opinião sobre Lourenço, o
Magnífico.
— O que espera que eu lhe diga?
— Tenho certeza de que tem muito a dizer, srta. Brown. Da maneira
como já falou dele, acho que Lourenço lhe interessa mais do que qualquer
outro homem.
— Como sabe?
— Ora, pude perceber seu interesse pelo tom de voz emocionado
que usou.
Susanna ficou muito envergonhada, ao pensar que ele havia
percebido que se interessa muito por Lourenço, como se ainda fosse vivo.
— Acho que deve saber que o Guicciardini, que a senhorita não
aprecia, escreveu que Lourenço vivia na licenciosidade, na luxúria, embora
62
fosse muito fiel às amantes.
— Guicciardini sempre encontrava algo para criticar. Era muito
ciumento!
— Gostaria de saber o que a senhorita faria, se Lourenço entrasse
aqui, agora: Com certeza, ficaria decepcionada. Os heróis sempre deixam algo
a desejar, quando os conhecemos pessoalmente.
— Acho que ele era exatamente igual ao busto que está na galeria.
Deve ter sido um homem másculo, forte e viril!
— E é esse o tipo de homem que procura para marido?
— Já lhe disse que não pretendo casar, sr. Dunblane, e não quero
voltar a falar sobre isso.
— Pois então, a, senhorita é diferente de todas as outras mulheres.
Elas não só desejam um marido, como adoram ficar falando sobre isso!
— É ótimo que eu não goste de ficar falando sobre esse assunto, não
é mesmo, senhor? Isso o aborreceria profundamente, tenho certeza.
— Acho muito estranho que não queira falar sobre homens, srta.
Brown. Será que algum a magoou? Será que é por causa disso que não gosta
deles?
— Não, não! Não é por causa disso. Simplesmente, não pretendo
casar.
— Bem, isto é diferente. Pelo seu tom, cheguei a pensar que algum
homem tinha agido mal com a senhorita. Mas agora, como está me falando
que simplesmente não quer casar, é outra coisa.
— Temos que continuar falando sobre mim? Eu não poderia querer
saber por que não casou, sr. Dunblane?
— Esta é uma pergunta fácil de responder. Até hoje, não encontrei
ninguém que pudesse tolerar para o resto da vida, e não sou a favor do
divórcio.
— Então, poderia viver na Inglaterra, sr. Dunblane. Lá o divórcio é
considerado vergonhoso.
— Se eu casar, será para sempre. Prezo muito minha privacidade e
detestaria que advogados e jornalistas se intrometessem em minha vida,
querendo saber os motivos da separação.
— Já que disse que encontrei em Lourenço meu tipo de homem
ideal, qual é a pintura que, para o senhor, representaria o tipo ideal de
mulher?
— Não me apanhará facilmente, srta. Brown! — Ele sorriu. — Essa
conversa é tipicamente feminina!
63
— Foi o senhor quem começou.
— Mas eu estava conversando através de um ponto de vista
masculino.
— E não poderia ser de outro modo, em se tratando do senhor.
— Por que diz isso?
— Porque, como Lourenço, acho que é muito másculo no seu desejo
de dominação, de dirigir as pessoas que estão a seu lado, de uma— maneira
que eu até chamaria de tirânica! — Susanna estava sendo provocadora de
propósito.
— Bravo! — Percebeu o desafio nas palavras dela. — Mas deixe-me
dizer uma coisa, srta. Brown: tenho que me ocupar com alguma coisa, já que
não posso ler nem trabalhar.
— Sim, mas não precisaria ser tão dominador como é.
— Existem poucas pessoas à minha volta. Talvez isso me deixe
nervoso. Tirando Chambers e Clint, só tenho a senhorita com quem
conversar.
Susanna levantou e foi até a janela. Ficou olhando para o jardim.
— Acho que, se o senhor estivesse aqui em outras circunstâncias, a
vila poderia estar cheia de gente. Existem muitos vizinhos nas redondezas
que adorariam vir visitá-lo.
— Se está pensando que desejo a companhia de outras pessoas, está
muito enganada. Não quero que ninguém se divirta às minhas custas.
— Mas ninguém faria isso! Todos ficariam tristes, muito tristes com
o que lhe aconteceu. Mas, ao mesmo tempo, ficariam felizes por ter
sobrevivido.
Susanna percebeu que as mãos dele se fechavam, denunciando o
que sentia.
— Se amanhã o senhor estiver melhor, poderá sentar no jardim. Será
ótimo voltar para perto do perfume das flores e poder ouvir o zumbido das
abelhas e o canto dos pássaros.
— Se entendi bem, a senhorita está me dizendo em que devo prestar
atenção.
— Acho que é bastante inteligente para saber o que deve lhe
interessar ou não.
— Nunca contratei ninguém para ler para mim; por isso, tenho
pensado que tipo de leitora profissional é a senhorita. — Susanna não
respondeu. — Fala comigo de um jeito que jamais outro empregado meu
ousou falar.
64
— Desculpe se não o tratei com o devido respeito. Talvez tenha sido
minha inexperiência que fez com que o tratasse de forma errada.
— Não disse que tem me faltado ao respeito. Só disse que não estava
acostumado a ser tratado dessa forma. A senhorita está fazendo com que eu
pense. Será que não é uma dessas psiquiatras de quem todos estão falando,
srta. Brown? Será que não foram meus médicos que a mandaram para tratar
de mim?
— Claro que não! Vi seu anúncio no jornal e resolvi tentar a sorte.
— Foi isso mesmo que aconteceu? Ninguém a mandou até aqui?
— Ninguém.
Susanna tentou imaginar o que estaria passando na casa dos pais.
Talvez já estivessem tentando localizá-la.
Se a encontrassem, a batalha sobre o casamento iria recomeçar, e
seria muito difícil escapar uma segunda vez.
Estremeceu ao pensar naquela possibilidade, e ele perguntou:
— Está preocupada com alguma coisa?
— Como pode saber se estou preocupada ou não?
— Ora, não vou nem tentar colocar em palavras uma sensação.
Simplesmente, senti que estava preocupada, srta. Brown.
— Por favor, pare de querer descobrir o que sinto. Quando eu lhe
disse para usar sua segunda visão, não queria que a usasse comigo.
— Está escondendo alguma coisa de mim e das outras pessoas? O
quê? Será que cometeu algum assassinato?
— Não, não fiz nada de tão grave. — Riu, divertida.
— Mas está escondendo alguma coisa de mim, não está?
— Para que tantas perguntas?
— Porque não tenho outra coisa a fazer. E também porque me
interesso pela senhorita.
— Mas temos coisas mais importantes sobre o que falar.
— Se estiver se referindo aos quadros, já estou farto deles, srta.
Brown! As mulheres retratadas já morreram há séculos; a senhorita está viva
e eu também, apesar do acidente. Portanto, vamos concentrar nossa conversa
em nossas vidas.
— Se está interessado em mim, só porque não tem outra coisa
melhor para ocupar o tempo, pode ter certeza de que ficará desapontado!
Acho melhor preveni-lo de que deve esquecer de mim!
Devia ter dito a ele como era feia e deselegante; assim não teria
nenhuma expectativa. Mas, em vez disso, deixou-o pensar que era parecida
65
com a madona de Lippi, e agora era tarde demais para voltar atrás. Como
explicar que era uma garota gorda, comum, e que nenhum homem jamais se
interessaria por ela, a não ser por causa de sua fortuna?
Olhou para as lindas flores do jardim e pensou, desconsolada; Bem
que eu podia ter nascido bonita como as rosas e as margaridas que brilham
ao sol.
O pai era bonito; a mãe, maravilhosa. May, uma garota encantadora.
Por que só ela não teve sorte?
Olhando para o sr. Dunblane, Susanna pensou que aquele seu
problema de cegueira era passageiro, que logo ele se recuperaria
completamente, enquanto ela teria que carregar sua cruz para o resto da vida!
— Venha cá — disse ele, interrompendo seus pensamentos. Susanna
obedeceu imediatamente. — Dê-me sua mão. — Pousou a mão na dele. —
Agora, conte o que a preocupa. Sinto que está sofrendo.
Susanna sentia como se ele a estivesse dominando, forçando-a a
fazer o que queria.
— O senhor está… me hipnotizando, e estou com medo. Libertou-se
e voltou para perto da janela. Não teve medo do que ele disse. Ficou
assustada com o que sentiu, quando a tocou. Nunca tinha sentido nada tão
estranho.
— Queria lhe dizer uma coisa — começou ele, mas de repente a
porta se abriu e Clint apareceu. — O que foi?
— Trouxe o chá, senhor, e o sr. Chambers está esperando a senhorita
no terraço.
— Já vou — disse Susanna. Sua voz saiu com um tom diferente, e
ela ficou feliz em poder fugir dali.
Mais tarde, no quarto, não conseguiu dormir. Virava de um lado
para o outro na cama confortável, sem conseguir ter a paz necessária para
adormecer. O quarto estava imerso em sombras, e sentia-se angustiada com
seus pensamentos confusos e desordenados.
Fazia muito calor.
— E ainda estamos em março — tinha dito o sr. Chambers, algumas
horas antes. — Normalmente, o calor continua até abril. Os médicos
insistiram para que o sr. Dunblane viesse para um lugar de clima quente, e
tive que acompanhá-lo, embora o verão me deixe sem disposição alguma
para trabalhar.
— Eu gosto do calor — disse ela, sentindo como se o sol conseguisse
aquecer seu coração.
66
Mas naquele momento, deitada na cama imensa, teve a impressão
de que o ar estava tão parado que mal conseguia respirar.
Deviam ser duas horas da madrugada, pois achou ter ouvido o sino
de alguma igreja dar duas badaladas.
Disse a si mesma que não conseguia dormir por estar muito confusa
com a conversa com o sr. Dunblane. Embora tentasse ordenar os
pensamentos, quase sempre confundia a imagem dele com a de Lourenço, o
Magnífico.
Como seria, sem as ataduras no rosto? Será que era parecido com
Lourenço?
Sorriu. Tinha uma imaginação muito fértil. Com certeza, o sr.
Dunblane era igual a todos os americanos, e ela, muito estúpida, de ficar
imaginando coisas sobre ele.
Mesmo assim, não conseguia deixar de pensar numa possível
semelhança.
Atormentada com aqueles pensamentos, levantou e foi até a janela
admirar a noite.
A lua resplandecia sobre as cúpulas e as torres da cidade lá embaixo;
o céu estava cheio de estrelas, e o rio brilhava como prata.
O jardim estava repleto de sombras misteriosas, mas era possível
distinguir bem os ciprestes e as moitas onde cresciam os lindos lírios brancos.
A janela estava aberta e, num impulso, Susanna vestiu o robe e
pulou a balaustrada, para a varanda.
O ar estava quente e pesado, e, enquanto andava por entre as flores
do jardim, sentia seu perfume. Era como se sonhasse.
Caminhou mais um pouco. De repente, parou na frente de um
imenso espelho que refletia a lua e as estrelas do céu. Tinha chegado ao lado
da piscina.
Centenas de vagalumes voavam em volta iluminando com mais
intensidade aquela noite maravilhosa. Susanna estava feliz como se tivesse
penetrado na paisagem de um conto de fadas.
Tudo parecia envolto num encantamento romântico. Imaginou que
seus pés a tinham levado até a piscina para que pudesse se banhar no silêncio
da noite, tendo apenas os vagalumes, as estrelas e a lua como testemunhas.
A única pessoa que poderia estar acordada numa hora daquelas era
o sr. Chambers, mas lembrou que ele disse, quando se despediram:
— Não tenho dormido muito bem ultimamente, mas estou certo de
que hoje dormirei pelo menos oito horas seguidas.
67
— Sinto muito se o deixei cansado.
— Foi um prazer visitar a galeria com a senhorita, mas tenho tido
alguns problemas com os negócios do sr. Dunblane. E por isso que estou tão
cansado.
O sr. Chambers não disse mais nada e Susanna não teve coragem de
perguntar se o patrão estava com problemas financeiros.
Com o sr. Chambers dormindo e com o resto da criadagem
acomodada no outro extremo da vila, Susanna chegou à conclusão de que
poderia nadar sossegada, que ninguém a surpreenderia.
Sabia que existia um vestiário com roupas de banho do outro lado
da piscina, mas resolveu que aquela noite experimentaria nadar nua, sem
nada para impedir seus movimentos.
Imaginou que, daquele momento em diante, seria uma das deusas
que tinha visto na galeria. Talvez, até a própria Vênus: não surgindo das
águas, mas mergulhando naquele líquido cristalino, tendo os astros e os
vagalumes como guias!
A idéia fantástica tomou conta de sua mente. De um momento para
outro, já não era mais a Susanna feia e gorda, e sim, Vênus, de corpo perfeito
e sedutor, com os lindos, cabelos loiros caindo pelos ombros.
Lentamente, entrou na parte mais rasa da piscina. Depois,
caminhando devagar, chegou até uma profundidade maior e começou a
nadar com ritmo, flexionando as pernas e os braços com graça.
Era a deusa do amor, aquela pela qual todos os homens se
apaixonavam, aquela a quem nenhum jamais negaria seu amor.
A água estava calma e fresca. Nadou de um lado para o outro
durante muito tempo.
Quando finalmente saiu, caminhou pela grama e estendeu os braços
para o céu.
Ficou parada naquela atitude de agradecimento durante alguns
segundos, deixando que a brisa suave que agora soprava secasse seu corpo
nu. Sentia-se completamente integrada à natureza, fazendo parte daquele
universo belo e grandioso.
Depois, levantou a cabeça para o céu e murmurou:
— Dê-me um amor!
O pedido simples pareceu subir aos céus como uma prece, levado
por uma força que Susanna não sabia de onde vinha.

68
69
CAPÍTULO V

Voltando de Florença na carruagem ao lado do sr. Chambers,


Susanna segurava um pacote com muito carinho. Tinha demorado muito
visitando as lojas na região da ponte Vecchio, até encontrar algo para dar de
presente ao sr. Dunblane.
Finalmente, depois de muita indecisão, escolheu uma caixinha de
música do século XVIII que tocava uma canção alegre de camponeses.
Percebendo que ela não tirava os olhos do pequeno embrulho que
segurava, o sr. Chambers falou:
— Tenho certeza de que Fyfe vai gostar muito do presente. Não tem
nenhum parente para lembrar dele num dia especial como o de hoje.
— É, o senhor me disse que os pais dele morreram.
— Sim, e sempre viveu muito sozinho, apesar de… — Não terminou
a frase.
— Fiquei muito contente por ter me contado que hoje é o aniversário
dele.
— Eu quis lhe dar esse prazer, srta. Brown. — Susanna olhou para o
velho, surpresa, e ele continuou: — Não conseguiria lhe explicar como as
coisas mudaram, depois da sua chegada. E digo isso não só em relação ao
nosso patrão, mas a mim também.
— Não estou entendendo.
— Quando cruzamos o Atlântico, depois do acidente, pensei que
não conseguiria agüentar viver com Fyfe. Ele andava tenso e bastante
nervoso. — Sorriu para ela, antes de explicar: — Conhece Fyfe desde que era
um garotinho, e minha posição em relação a ele não foi só a de secretário,
mas também de protetor e amigo. Mas depois que sofreu o acidente, Fyfe
mudou muito e passou a me tratar como se eu fosse um estranho.
— Deve ter sido muito difícil para o senhor.
— Foi mesmo. Depois que chegou, srta. Brown, tudo ficou diferente.
— É muita gentileza sua me dizer isso.
— Mas é verdade. A senhorita não o ajudou apenas a suportar esses
momentos difíceis, também abriu-lhe novos horizontes de pensamento. — O
sr. Chambers riu. — Posso estar falando de uma maneira muito poética, mas
não existe outro meio de expressar como a senhorita conseguiu mostrar a

70
Fyfe novos assuntos para pensar, novas idéias para discutir. Acho que fez
com que ele começasse a dirigir seu interesse para assuntos com' que nunca
se preocupou antes.
— É maravilhoso ouvir isso. Nunca fui tão feliz em toda minha vida.
— A senhorita realmente parece muito feliz. Sinto boas vibrações,
quando estou em sua companhia.
— Acho ótimo poder discutir os livros que leio em voz alta — falou
Susanna, como se dissesse aquelas palavras para si mesma.
— Espero que os livros que mandamos vir de Paris já tenham
chegado.
— Tenho certeza de que sim.
— Encomendamos muitos. Estamos bastante interessados nas obras
de Gustave Flaubert.
— Eu os ouvi discutindo sobre A Educação Sentimental e gostaria de
saber se o livro Madame Bovary é uma obra recomendável para jovens como a
senhorita.
— Acho que, quando estamos discutindo, agimos como críticos
literários, não como simples leitores! — Susanna suspirou, feliz, lembrando
do quanto tinha gostado de discutir o livro Emaux et Gamées, de Gautier. O sr.
Dunblane achou-o horrível, enquanto ela se apaixonou pelo estilo do autor.
Achava a literatura francesa muito mais interessante do que a
italiana e a inglesa. Se bem que não estivesse muito interessada no que lia, e,
sim, no homem para quem lia!
Um homem que estava sempre disposto a discutir, assim que ela
terminava a leitura, sempre fazendo perguntas inteligentes que a obrigavam
a pensar rapidamente.
Mas Susanna, como alguns professores, achava difícil se manter no
mesmo nível elevado do aluno. Para não ficar por baixo quando discutiam,
era obrigada a ler até altas horas da noite, para se sentir apta a discutir no
nível dele.
— A senhorita está me ouvindo? — perguntou o sr. Chambers. de
repente.
— Oh, desculpe, eu estava divagando. Pode falar.
— Bem, como eu estava dizendo, sua presença aqui foi tão salutar
que até eu melhorei daquele problema que sofria.
— O senhor quer dizer que já sarou da diabete?
— Quase completamente. Ontem fui fazer uma consulta com o
médico que o sr. Wilson indicou em Londres e ele me disse que estou muito
71
bem!
— Que ótimo! Lembro que o senhor andava abatido quando
chegamos e parecia cansado também.
— Mas agora, graças às vibrações da senhorita e do regime
alimentar, já estou me sentindo bem melhor.
Susanna lembrava perfeitamente que um dia, depois de chegarem à
vila, o sr. Chambers tinha lhe dito:
— Terei que seguir um regime alimentar muito rigoroso, srta.
Brown. Meu médico americano e o especialista inglês que me consultou
disseram que estou com diabetes.
— Diabetes é açúcar no sangue, não é mesmo?
— Sim, e não posso comer nada que seja doce ou que contenha
açúcar. Já conversei com o cozinheiro e ele vai preparar refeições especiais
para mim. Logicamente, também providenciará todos os pratos que a
senhorita preferir. É só dizer a ele do que mais gosta.
No começo, Susanna estava preocupada demais com o sr. Chambers
para prestar muita atenção no que comia. Depois, descobriu que a comida
servida normalmente na vila era deliciosa, e não a trocaria por nada.
O cozinheiro sempre preparava fritto misto, uma espécie de sopa que
todos os italianos adoravam, seguido de outros pratos deliciosos, como carne
de vitela em vinho branco e patos e gansos recheados com alho e marmelo. O
acompanhamento era sempre uma salada feita com legumes da horta da vila
e, como sobremesa, além dos doces, serviam frutas colhidas no pomar.
Durante a maior parte do tempo que ficava com o sr. Chambers,
Susanna estava tão preocupada em conversar sobre o interesse que tinham
em comum — que era Fyfe —, que lhe sobrava pouquíssimo tempo para
pensar no que comia.
Talvez pelo fato de viverem reclusos num pequeno mundo criado
por eles mesmos, pouco a pouco todos foram ficando amigos e muito
próximos uns dos outros.
Foi o sr. Dunblane quem deu o primeiro passo para que se criasse
essa intimidade, logo no terceiro dia depois de chegarem a Florença.
— Me recuso a chamá-la de srta. Brown, pois tenho certeza de que
não é seu nome verdadeiro.
— Como pode ter tanta certeza? — perguntou, surpresa.
— Você não tem jeito de se chamar “Srta. Brown” e também não sei
se Susanna é um nome que lhe fica bem.
— É o único que tenho. Foi minha madrinha quem escolheu. —
72
Tentou imaginar o que ele diria, se acrescentasse: E ela me deixou uma
enorme fortuna.
— Então, já que é o único, vou chamá-la de Susanna, e espero que
passe a me tratar por Fyfe.
— Não acha um pouco estranho uma empregada chamar o patrão
pelo nome de batismo?
— Já lhe disse que você não é uma empregada comum. Para falar a
verdade, às vezes tenho a impressão de que quem dá as ordens aqui é você!
Susanna não pôde conter uma risada.
No início, achou muito estranho chamá-lo pelo primeiro nome, mas
acabou se acostumando logo.
Olhando a linda paisagem por onde passavam, Susanna perguntou
ao sr. Chambers:
— Acredita que já faz quase um mês que estamos aqui? Às vezes me
parece que as semanas passam em poucos segundos e tenho a nítida
impressão de que sempre vivi aqui.
— O tempo é muito engraçado. Quando estamos felizes, passa como
um relâmpago; quando estamos infelizes, demora como uma velha tartaruga.
Susanna não respondeu. Cheia de medo, pensava que seus dias de
felicidade estavam contados. Quando retirassem as ataduras dos olhos de
Fyfe, ele não precisaria mais dela; então, teria que ir embora.
Nem queria imaginar o que Fyfe pensaria, quando a visse e
descobrisse que não era bonita como as mulheres retratadas nos quadros que
estavam na galeria.
Ainda na véspera, ele havia comentado:
— Estava pensando que gostaria que algum artista pintasse o seu
retrato. E lógico que o melhor lugar seria o jardim, onde você se sentaria entre
os lírios.
Susanna sentiu um baque no coração. Ela mesma sempre descrevia a
ele como eram bonitos os lírios do jardim. Sem dúvida. se alguém fosse
retratado no meio daquela profusão de lírios, o quadro ficaria maravilhoso,
só que ela nunca deixaria que artista algum a pintasse. Nunca!
— Talvez você prefira ser retratada recostada nas almofadas da sala
de estar, como se fosse uma deusa.
— Você tem muita imaginação. Só que eu não quero que façam meu
retrato!
— Por que não? Acho que as pessoas que a amam gostariam muito
de ter um quadro seu, para poderem sempre lembrar de você como é agora,
73
não? Como uma rosa em botão!
— Você ficou impressionado com aquele livro ridículo que lemos
ontem! Não sou uma rosa em botão!
— E, agora deve estar parecendo uma flor cheia de espinhos.
— Então, tome cuidado para não se espetar!
De repente, os dois caíram na gargalhada, como duas crianças.
— Já lhe disse que não gosto de ficar falando de mim. Só para me
vingar, vou ler para você alguns artigos horríveis sobre a situação mundial.
— Se fizer isso, jogo alguma coisa em você! Cego ou não. aposto
como consigo atingi-la!
— Se fizer isso, também jogo alguma coisa em você. E não esqueça
que tenho a vantagem de enxergar muito bem o alvo!
— Isso não faz diferença, já que você é mulher e, portanto, não tem
pontaria!
Ficaram discutindo por muito tempo, de uma maneira que teria
divertido muito o sr. Chambers.
Fyfe não se importava mais em falar de sua cegueira. Tinha parado
de dizer que ficaria cego para sempre e já fazia planos para quando retirasse
as ataduras e voltasse a enxergar.
Susanna, no entanto, sempre procurava desviar o assunto, falando
de outras coisas. Não gostava nem de pensar no que lhe aconteceria quando
Fyfe não precisasse mais dela. Ele voltaria a ter uma vida normal, com as
antigas amizades, e nunca mais ia querer saber dela.
As vezes, lia algumas notícias sobre os amigos de Fyfe.
— Esses jornalistas sempre descrevem Loraine como uma das
mulheres mais bonitas dos Estados Unidos — disse ele, certa vez, assim que
Susanna terminou de ler uma notícia num jornal americano. — Só que posso
lhe dizer com certeza que tenho pena do homem que casar com ela, porque
Loraine é muito orgulhosa e prepotente!
Susanna ficou feliz por saber que Loraine Smith, apesar de muito
bonita, não era simpática a Fyfe. Ficava muito enciumada, quando ele falava
com prazer sobre o passado.
— Pobre Cris! Estou feliz por ele ter casado, afinal. Mas agora não
vai mais poder participar daquelas festas deliciosas que costumávamos
freqüentar! — disse uma vez, referindo-se a um jovem senador, seu amigo.
Como Susanna não fez nenhum comentário, depois de um
momento, ele perguntou:
— Você nunca foi a uma festa americana, não é mesmo?
74
— Nunca fui a festas.
— Por que não?
Ia responder que nunca permitiram que freqüentasse reuniões
sociais porque ainda não tinha debutado, mas lembrou que havia dito que
tinha vinte e um anos. Assim, ficou em silêncio.
Fyfe insistiu:
— Com certeza, porque seus pais não deixavam. Pois terá
oportunidade de participar de uma festa. Quando eu ficar bom, vou dar uma,
grandiosa e muito original! Tudo estará iluminado, porque, então, eu poderei
ver. A casa, o jardim, quero tudo resplandecendo! Ah, vou mandar soltar
uma quantidade enorme de fogos de artifício, porque quero que até o céu
fique iluminado!
— Os fogos de artifício não serão tão bonitos como as estrelas e os
vagalumes — disse Susanna, pensando que, todas as noites que ia nadar na
piscina, os vagalumes a envolviam como se fossem estrelas na terra.
Embora nadasse todas as noites, nunca mais teve aquela sensação da
primeira vez, quando imaginou ser Vênus, tornando-se a mulher mais linda e
maravilhosa de todo o universo.
Entretanto, nunca terminava o encantamento de nadar sozinha na
água morna e sentir o perfume do jardim à sua volta, como se o próprio céu a
abençoasse.
— Em que está pensando? — perguntou Fyfe, de repente.
— Estava pensando se vai demorar muito para você poder nadar
naquela linda piscina que seu pai mandou construir.
— Não vai demorar muito, não. Não estou mais com os braços
enfaixados e os ferimentos já cicatrizaram completamente.
— Que ótimo!
— Clint disse que ficaram alguns sinais das queimaduras. Talvez
não desapareçam nunca, mas que importância tem, não é? As mulheres é que
se preocupam demais com a aparência. Por falar nisso, sua pele é clara?
A pergunta deixou Susanna espantada. Esticou os braços, como se
os visse pela primeira vez.
— Acho que eu era mais clara, antes de vir para cá. Tenho passeado
muito pelo jardim sem chapéu e sem sombrinha e notei que minha pele está
com um tom mais dourado.
— Como a sua voz.
Fyfe disse aquilo de uma forma tão estranha, que Susanna sentiu
um arrepio.
75
Na véspera, quando foi ao jardim para tomar seu banho noturno,
tinha sentado num dos bancos que ficavam por perto e olhado para o céu. A
lua estava escondida, mas as estrelas brilhavam tanto que era possível
enxergar perfeitamente o jardim. Os vagalumes dançavam sobre seus reflexos
na água.
Na primeira noite em que vim aqui, pedi a Deus que me desse um
amor, pensou. Ele atendeu ao meu pedido, só que, mais do que alegria, isso
me trouxe angústia e ansiedade.
Já fazia algum tempo que tinha desistido de negar para si mesma
que amava Fyfe, de uma forma que nunca pensou que fosse possível amar
alguém.
Era maravilhoso ficar ao lado dele, porém era angustiante saber que
nunca significaria nada em sua vida e que teria que passar o futuro sem ele.
Susanna era inteligente demais para pensar que seu conto de fadas
pudesse ter um final feliz ou que o príncipe encantado chegasse a amá-la
como a amava. Sabia exatamente o que ele pensaria, quando pudesse vê-la.
— Eu o amo! — disse para as estrelas. — Nunca poderei dizer que
não conheci o amor, só que esse amor não tem futuro, pois não passa de um
sonho!
Era um sonho tão bonito, tão perfeito, que devia ajoelhar e
agradecer a Deus por ter atendido ao seu pedido e porque era ainda mais
maravilhoso do que tinha imaginado.
Sabia que devia aproveitar ao máximo aqueles dias com Fyfe.
Aproveitar cada segundo em sua companhia, para que, no futuro, tivesse
inúmeras recordações daquele amor impossível.
Por esse motivo, não ia mais com tanta freqüência a Florença. Passar
horas e horas visitando museus, admirando obras de arte, não a interessava
tanto. Queria estar sempre ao lado de Fyfe, queria ter o máximo possível de
lembranças do homem que tanto amava.
Apaixonada como nunca, a grande preocupação de Susanna era
fazer Fyfe feliz.
Além de examinar a antiga biblioteca do pai dele, cheia de livros
sobre a Itália, também pediu ao sr. Chambers que fizesse muitas encomendas
a livrarias de Roma e Paris.
Tenho que agradecer à srta. Harding por despertar meu interesse
pelos grandes autores, pensava, constantemente. Ela me indicou livros de
escritores excelentes, que eu não conhecia.
O pai da srta. Harding tinha sido professor de literatura. Por isso,
76
ela sabia tanto sobre a qualidade dos livros e dos escritores.
— Acho que o francês combina melhor com seu tom de voz do que
qualquer outra língua — disse Fyfe, depois de ela ter lido As Flores do Mal, de
Baudelaire.
O livro era um pouco ousado para ser lido por uma moça, embora
Susanna não percebesse.
Baudelaire tirava sua poesia da realidade. Era de uma sensibilidade
mórbida, maldita, que o fazia escrever só poemas cheios de revolta e
blasfêmias. Susanna e Fyfe tiveram muito o que discutir sobre a
sobrevivência do espírito depois da morte.
Estavam no auge da discussão, quando Clint apareceu e começou a
insistir para que Fyfe fosse deitar.
— Não me amole! Pelo amor de Deus, pare de me atormentar!
— O médico disse que tem que descansar bastante, sr. Dunblane. E
ficar discutindo literatura o tempo todo não é um bom descanso.
— Eu discuto quanto quiser!
— Clint tem razão — disse Susanna, levantando. — Continuaremos
a discussão amanhã. Vou pensar numa série de argumentos para deixar você
sem resposta!
— Veremos! Vou arquitetar um plano para vencer essa discussão,
você vai ver, Susanna.
— Pode ser que eu deixe você ganhar. De vez em quando, gosto de
ser bondosa.
Saiu do quarto, enquanto Fyfe gritava que não precisava da
bondade de ninguém.
Susanna foi para o quarto, rindo. Despiu-se e deitou em seguida.
Ficou lendo por um bom tempo, esperando que chegasse o momento
oportuno para ir até a piscina.
Quando os cavalos finalmente se aproximaram da vila, Susanna
admirou o lindo edifício cercado de ciprestes. Aquele lugar mais parecia o
paraíso.
Ao chegarem, viu uma porção de homens em frente da porta
principal. Preocupada, perguntou ao sr. Chambers:
— Quem são eles? O que querem?
Uma ruga de preocupação surgiu na testa do velho. Os cavalos
pararam em frente à porta e os homens, oito ao todo, se viraram para ver
quem chegava.
Clint estava encostado no batente da porta, conversando com alguns
77
deles, e Susanna notou que tinha uma expressão preocupada.
Ela desceu da carruagem, carregando o presente com cuidado.
Assim que o sr. Chambers também desceu, um dos homens perguntou:
— Por favor, por acaso não é o sr. Chambers, secretário do sr.
Falcon?
— E se fosse? O que tem a ver com isso?
— Sou jornalista do New York Herald — respondeu o homem,
parecendo um tanto assustado com aquela recepção agressiva. — Estivemos
tentando localizar o sr. Falcon durante todos esses dias, e agora eu e esses
outros colegas, que representam vários jornais, estamos ansiosos para
conseguir um testemunho do sr. Falcon a respeito de seus planos quanto à
construção de um novo automóvel.
— Como sabem, o sr. Falcon sofreu um grave acidente automo-
bilístico. Ele não tem nada a declarar no momento e o médico o proibiu de
dar entrevistas — disse o sr. Chambers, e em seguida tomou o braço de
Susanna e juntos entraram na mansão.
De repente, todos os jornalistas começaram a falar ao mesmo tempo,
em inglês, italiano, francês e alemão.
— E quem é essa moça tão bonita? — perguntou o jornalista do New
York Herald.
Susanna e o sr. Chambers já estavam dentro da casa e Clint fechava
a porta. Ela teve a nítida impressão de que o jornalista americano fez a
pergunta num tom terrivelmente irônico.
— Que bom que você chegou, senhor! — disse Clint para Chambers.
— Esses jornalistas estavam tão impacientes, que fiquei com medo de que
arrombassem a porta para falar com o patrão.
— Já imaginou como ele ficaria furioso, se isso acontecesse?
Caminharam em direção à sala, onde Fyfe costumava ficar. Clint abriu a
porta, mas, antes que pudessem entrar, tomou a dianteira e disse alegremente
a Fyfe:
— O sr. Chambers passou uma tremenda descompostura nos
jornalistas, senhor. Mesmo assim, insistem em entrevistá-lo a todo custo!
Quando, finalmente, Clint permitiu que Susanna entrasse na sala,
ela teve uma grata surpresa. Fyfe estava sentado junto da janela como
sempre, mas não usava mais as bandagens em volta do rosto; apenas, nos
olhos!
Agora, podia ver o queixo de Fyfe, as maçãs do rosto, uma parte do
nariz e do pescoço.
78
Esquecendo de tudo, correu até ele, cheia de contentamento, e
perguntou:
— Por que não me contou? Como eu poderia imaginar que ia tirar as
ataduras hoje?
— Quis fazer uma surpresa.
— É maravilhoso! Realmente, maravilhoso! E não ficou nenhuma
cicatriz!
— Foi o que Clint me disse. É verdade mesmo? Tem certeza de que
não ficou nenhuma cicatriz?
— Claro que sim, Fyfe!
— Sinto-me muito melhor agora, pois, finalmente, pude fazer a
barba. Agora, sinto-me mais como um ser humano, não como um fantasma
mumificado.
— Mas você nunca pareceu com uma múmia, Fyfe!
Pronto! Tudo estava dando certo para ele! Agora, só faltava a
operação dos olhos ter êxito para que aquele pesadelo acabasse de vez.
Susanna ia fazer um comentário sobre aquilo, mas o sr. Chambers começou a
falar sobre os jornalistas.
— Eles querem que você dê um depoimento sobre o teste do novo
modelo.
— Mas ainda não temos certeza se vai funcionar direito!
— Eu disse que você não tem nada a declarar.
— Talvez fosse melhor passar um telegrama a Steven, pedindo que
mande um relatório à imprensa sobre o andamento do projeto.
— Acho melhor esperar mais um pouco — respondeu o sr.
Chambers, com cuidado. — Quando estiver com os dados na mão, aí você
mesmo dá uma entrevista. Deixe a imprensa esperar um pouco mais pelas
notícias.
— É, tem razão.
— Como será que os jornalistas nos descobriram?
— Estou surpreso por terem demorado tanto para nos encontrar —
respondeu Fyfe. — Sabemos como são persistentes quando farejam uma boa
notícia.
— Talvez dentro de muito pouco tempo tenhamos notícias para
contar aos jornalistas — disse o sr. Chambers. — E deixe-me dizer, Fyfe,
como estou feliz por vê-lo tratar desse assunto com calma e bom senso.
— Talvez o clima tranqüilo de Florença tenha me influenciado. Ou,
talvez, Susanna tenha me ensinado a ter um pouco de calma.
79
— Pessoalmente, acredito que a última razão é a mais concreta —
comentou o sr. Chambers, saindo do quarto em companhia de Clint.
— Estou realmente curiosa. Pensei que seu sobrenome fosse
Dunblane.
— É o sobrenome de minha mãe, e só o uso quando quero
permanecer incógnito.
— Então, você é realmente Fyfe Falcon! Já ouvi falar em você e no
seu carro Falcon. Até que é bem conhecido.
Ele riu, divertido, jogando a cabeça para trás:
— Só conhecido? E eu que pensei que tivesse fama internacional!
— Bem, pode me contar como é famoso internacionalmente, se isso
lhe dá prazer.
— Pensei que você fosse uma garota culta, mas estou vendo que não
sabe nada sobre o mundo automobilístico.
— Para falar a verdade, não entendo mesmo. Meu pai sempre falou
em comprar um carro, mas nunca conseguiu se libertar de seus cavalos.
Mamãe também sempre preferiu carruagens, em vez de carros.
— Que sacrilégio! Então você vai ter que me ouvir falar sobre os
carros Falcon. Se ficar cansada, culpe os jornalistas que vieram até aqui me
lembrar deles!
— Você está produzindo algum carro muito especial?
— Estou. E um carro de 6 cilindros, um modelo de 70 HP. Quero
que participe da próxima corrida de Nova York a Paris. E quem vai dirigir
sou eu!
— De Nova York a Paris? Mas como é possível?
— Via Seatle, Japão e Sibéria. Quase vinte mil quilômetros, e tenho
certeza de que posso fazer esse percurso em setenta dias.
— Mas como pode ter tanta coragem? Essa prova não seria perigosa
demais? — perguntou Susanna, com voz trêmula, pensando nos riscos
daquela corrida.
— Quando deixei Nova York mais morto do que vivo e fui levado
para Londres, porque me disseram que só os cirurgiões ingleses poderiam
salvar meus olhos, pensava que nunca mais voltaria a enxergar. Atualmente,
não só acredito que voltarei a ver, como também tenho certeza de que farei
essa prova, que é meu grande sonho.
— Como pode ter tanta certeza assim?
De repente, ela se sentiu prestes a desmaiar, pois Fyfe tocou em sua
mão, num gesto carinhoso e protetor.
80
— Você me deu essa certeza. Não foi você quem me encheu de
otimismo e esperança, desde que viemos para cá? É engraçado! Primeiro, me
dá coragem para lutar, e agora que quero voltar a brigar, acha que não
vencerei!
— Mas é claro que vai vencer! — Então, lembrou de um episódio. —
Você ficou preocupado naquele dia, quando li a notícia de que Henry Ford ia
lançar um novo modelo de carro. Teve medo de que o carro dele fizesse mais
sucesso do que o seu?
— Fiquei chocado, pois não sabia que estava produzindo carros do
tipo dos meus. Agora, depois de ter me informado, percebi que ele não está
interessado em competir na minha faixa de mercado. Fiquei sabendo de
alguns relatórios secretos de Ford, segundo os quais agora está mais
interessado em aumentar a produção, para baratear os custos a cada ano.
— E isso não afetará você?
— Acho que não, porque estou mais preocupado em fabricar carros
em menor quantidade, mas de qualidade bem superior. Ele quer estender sua
produção ao maior número possível de pessoas e eu, não. Quero que meus
carros sejam comprados apenas por conhecedores e apreciadores de uma boa
máquina. Quando eu a levar para passear num dos meus carros, vai se sentir
orgulhosa, pois meus carros são perfeitos!
Aquelas palavras fizeram com que Susanna lembrasse que. quando
Fyfe voltasse a enxergar, não ia mais querer tê-la a seu lado.
Fingindo uma alegria que absolutamente não sentia, levantou e
disse sorridente:
— Os jornalistas fizeram com que eu esquecesse que hoje é um dia
muito especial. É seu aniversário, e trouxe um presente para você.
Colocou o pacote no colo de Fyfe.
— Como você descobriu? Foi Chambers quem contou, não foi?
— É, ele me disse que você faz vinte e seis anos.
— Mais de um quarto de século! Por isso, espero que você me trate
com o devido respeito. Mas não havia necessidade de comprar um presente.
— Espero… que goste.
Fyfe começou a desembrulhar o presente com cuidado, até
encontrar a caixa entre vários papéis.
— É uma caixa, e tenho certeza de que ela é toda decorada por fora.
— Abra!
Fyfe procurou o fecho e abriu a caixa, lentamente. O som melodioso
tomou conta da sala e ele suspirou, parecendo encantado.
81
Observando-o, Susanna chegou à conclusão de que era de fato
muito parecido com Lourenço, o Magnífico. Tinham o mesmo queixo
poderoso, a mesma boca bem desenhada e sensual. O nariz estava quase que
totalmente escondido sob as ataduras, mas seus cabelos eram escuros e,
embora ainda estivessem muito curtos por terem sido parcialmente
queimados no acidente, percebeu que caíam, ondulados, sobre a testa alta e
arrogante.
Sabia que, quando pudesse ver Fyfe sem aquelas ataduras, ele iria
parecer mais americano; mesmo assim, era capaz de jurar que continuaria
tendo alguma semelhança com o busto de Lourenço, que tinha visto na
galeria Uffizi.
Como se percebesse que Susanna estava julgando sua aparência, ele
perguntou:
— O que está fazendo?
— Se lhe dissesse, você ia ficar muito zangado comigo — respondeu,
num tom zombeteiro.
— Duvido. Tenho a sensação de que estava me comparando com
seu querido Lourenço e que chegou à conclusão de que ele era mais atraente
do que eu, não é?
Susanna não ficou surpresa pelo fato de Fyfe ter descoberto seus
pensamentos. Durante aquelas semanas juntos, ele vinha treinando bastante a
segunda visão, para perceber as sensações que o envolviam. E tinha
desenvolvido tanto a sensibilidade, que ela às vezes até esquecia que era
cego.
A corda da caixa de música chegou ao final.
— É um lindo presente, e você foi muito gentil por ter se
preocupado comigo, Susanna. Sinceramente, não tenho palavras para
agradecer.
Teve vontade de perguntar se, quando já tivesse sumido de sua
vida, Fyfe iria abrir a caixinha e deixar a música tocar para lembrar um pouco
dela, mas achou que seria uma idiotice. Como iria lembrar de uma mulher
que não passava de uma voz na escuridão?
Tenho que ser prática e usar meu bom senso, pensou. Tenho que me
esforçar para enfrentar o fato de que, quando voltar a enxergar, não
significarei nada para ele; serei apenas uma lembrança, uma voz; não uma
mulher.
Aquele tipo de pensamento era muito triste. Decidiu não
desperdiçar um momento precioso se atormentando com o futuro sombrio.
82
— Tenho uma porção de coisas para contar a respeito da ponte
Vecchio. As lojas de lá são incríveis! Encontrei objetos maravilhosos feitos por
artesãos florentinos que, na minha opinião, são os melhores do mundo!
— Também acho. Quando puder, quero comprar uma jóia para
você, Susanna. Não só para expressar minha gratidão por tudo que tem feito
por mim, mas para ser também um complemento de sua beleza.
As palavras a deixaram trêmula.
— Por que não contei a verdade desde o começo? — perguntou-se,
pela milésima vez.
Como pôde ser tão tola, mentindo daquele jeito? Quando Fyfe a
visse, ele a desprezaria por dupla razão! Uma, por ser gorda e feia; à outra,
por ser mentirosa!
Felizmente, Susanna não teve que dizer nada, pois Clint entrou na
sala naquele momento, trazendo uma bandeja com suco de frutas. Quando o
dia estava muito quente, era costume substituir o chá por um bom copo de
suco. Serviu os dois, e Fyfe perguntou:
— É suco de quê?
— Não diga nada, Clint. Ele tem que adivinhar!
— Você não perde a oportunidade de me provocar, não é? — Fyfe
sorriu.
Naquele momento, Susanna percebeu que nunca tinha visto lábios
tão lindos.
— Claro! Você precisa exercitar as suas habilidades.
— Está certo, então: vou ver se adivinho. — Tomou um gole. —
Nunca tomamos esse suco antes.
— Adivinhe!
— Já sei: é pêssego! Susanna olhou para Clint.
— Exatamente, senhor. Hoje colhemos os primeiros pêssegos do
ano. Pela quantidade que temos no pomar, acho que o senhor terá que tomar
suco de pêssego todos os dias, em todas as refeições.
Depois de fazer esse comentário, Clint se retirou.
— Ele tem um jeito engraçado de falar. É bastante original —
comentou Susanna.
— Gosto muito dele. Acho que tenho muita sorte de tê-lo como
empregado. Aliás, acho que também tenho muita sorte de poder contar com
Chambers e com você, Susanna.
— Eu?
— Agora, está querendo elogios! Pois fique sabendo que estou
83
guardando todos eles para quando estiver completamente restabelecido, o
que não vai demorar muito. — Passou a mão pelo queixo e continuou: —
Nem pode imaginar como é bom estar sem aquelas ataduras, num calor como
esse. Eu me sentia sufocado! As vezes, tinha vontade de arrancá-las de uma
vez por todas! — Isso seria horrível. Estragaria tudo.
— Sim, eu sei. Os médicos foram muito claros, quando disseram que
poderia ser fatal tirá-las antes que a pele estivesse completamente cicatrizada.
— E agora, como você mesmo disse, já está quase bom, não é.
Enquanto o observava, Susanna pensou no quanto ele tinha mudado para ela,
depois que tirou as ataduras, ficando apenas com uma sobre os olhos.
Antes, estava acostumada a conversar com ele de uma forma mais
abstrata. Envolto em todas aquelas bandagens, Fyfe não era bem um homem,
como ele mesmo dizia; era mais uma voz que vinha de longe. Mas agora
podia ver como era atraente. Lindo, mesmo. E tinha o poder de deixá-la
trêmula, como nunca tinha ficado na presença de qualquer homem.
— Sim, já estou quase bom — murmurou, como se pensasse em voz
alta. — E tremo só de pensar que em breve vou voltar à minha vida normal.
Ficar nessa escuridão tem sido como viver numa ilha deserta no meio do
oceano.
Era o que Susanna achava, só que sabia que isso não tinha o mesmo
significado para os dois.
Eu o amo, pensou, mas ele nunca poderá saber, porque eu não
suportaria sua piedade, da mesma forma que não suportarei o choque de
seus olhos, quando me vir pela primeira vez e perceber que não sou bonita
como imagina!
Não suportando mais aquela angústia, resolveu se retirar.
— Vou ver se os livros que encomendamos já chegaram de Paris.
Lembra da lista imensa que mandamos? Uma parte deve chegar hoje, e não
vejo a hora de verificar se as obras de Gustave Flaubert vieram nesta remessa.
Fyfe não disse nada. Depois de alguns instantes, ela continuou, um
pouco hesitante:
— Mas, talvez, agora que já sei quem você é, e não precisa mais
fingir, não esteja mais interessado em literatura e queira que eu leia sobre
assuntos relacionados com automóveis. Se quiser, posso mandar pedir jornais
e revistas especializados.
— Não, não é preciso. É estranho, mas, antes de você chegar, eu não
pensava em outra coisa, a não ser em carros e mais carros. Foi de propósito
que não pedi para ler sobre automóveis, quando chegou. Primeiro, porque
84
Chambers me disse que, se eu ficasse agitado, demoraria mais para me
recuperar; em segundo lugar, porque, se começasse a ouvir muitas notícias
sobre automóveis, ia ficar quase louco de raiva por não poder voltar
imediatamente para os Estados Unidos e saber exatamente o que estava
acontecendo. Mas agora tenho muitas outras coisas em que pensar. Você me
despertou novos interesses. Se, amanhã ou depois, o império Falcon for à
falência, a culpada será você!
— Adão sempre culpou Eva! — respondeu Susanna, rindo, mas em
seguida ficou envergonhada, pois estava insinuando que ela era a Eva de
Fyfe, o que não era e nunca seria verdade.
— Vamos tratar dos nossos livros e das nossas discussões. Fazem
parte da nossa ilha, onde não há lugar para estradas, nem para carros.
Quando eu ficar bom, vou levá-la para conhecer meus carros; aí, então, você
verá que são os melhores do mundo.
— Acho que tenho o direito de dizer que, como inglesa, o melhor
carro do mundo é o Rolls Royce. Depois dele, é claro, vêm os carros franceses
e, em terceiros lugar, os americanos.
— Agora espere, que tenho algo a lhe dizer sobre o Falcon… —
começou Fyfe, mas foi interrompido pela chegada do sr. Chambers.
— Acabo de receber dois telegramas dos Estados Unidos. Como
Susanna já sabe quem você é, acho que não tem problema que ela fique
sabendo das notícias.
— Susanna não tem o mínimo interesse por carros, Chambers!
Imagine que ela considera o Rolls Royce superior ao Falcon!
— E acho, mesmo!
— Estou vendo que não conseguiremos convencê-la só com palavras
— disse o sr. Chambers, com os olhos brilhando de alegria. — Quer que
mande buscar um Falcon nos Estados Unidos, para que ela admita que você é
o melhor fabricante de carros do mundo, Fyfe?
— De jeito nenhum! — respondeu Susanna, antes que ele tivesse
tempo de dizer alguma coisa. — Acabamos de chegar à conclusão de que
vivemos numa ilha e a única maneira de sair dela é de navio; não de carro!
Saiu da sala, antes que Fyfe encontrasse palavras para responder.
Enquanto caminhava pelo corredor, pôde ouvir perfeitamente os dois
homens rindo.
— Somos todos tão felizes. Oh, por favor, meu Deus, faça com que
Fyfe demore um pouco para voltar a enxergar!
Imediatamente, percebeu o pecado que estava cometendo e ficou
85
envergonhada por ser tão egoísta.

86
CAPÍTULO VI

— Bem, terminamos mais um livro — disse Susanna. — Acho que


agora, para o bem de sua cultura geral, devemos ler algo em italiano ou
inglês.
— Não estou preocupado com minha cultura. Só estou querendo
passar o tempo, e acho os romances ingleses muito água-com-açúcar e os
italianos, emocionais demais.
— Você deve estar se referindo, não aos livros, mas às heroínas —
provocou Susanna. — Não gosta de mulheres emotivas?
— Essa pergunta é muito difícil de responder. Se eu disser “não”,
você vai pensar que prefiro mulheres frias, como as heroínas inglesas. Se
disser “sim”, pensará que meu tipo preferido de mulher é a chorona, quase
histérica.
Susanna riu.
— Deve ter conhecido muitos tipos de mulheres.
— Talvez sim.
— Acho que pelo fato de ser o grande Fyfe Falcon, elas devem viver
correndo atrás de você.
— Lógico que sim, e gosto muito que as mulheres corram atrás de
mim, dizendo que sou o maior. Qual o homem que não gosta disso?
— Alguns homens preferem sinceridade, em vez de bajulação.
— Acho um pouco difícil encontrar sinceridade na maioria das
mulheres.
— Não é verdade. Você fala como americano, e eu sempre digo que
a Inglaterra é o paraíso dos homens, enquanto os Estados Unidos são o
paraíso das mulheres.
— Interessante você pensar isso dos Estados Unidos. Meu país é
uma nação nova e impetuosa. Lá temos a impressão de que, com o nosso
esforço, poderemos conquistar todo o universo. Acho que nenhum outro país
oferece esse tipo de sensação.
Pela maneira como Fyfe dizia aquilo, Susanna teve certeza de que
estava louco para voltar. Sentiu um baque no coração, pois, quando ele
voltasse, nunca mais se encontrariam.
— Eu adoro Florença — disse Susanna, de repente.

87
— Florença, como toda a Europa, vive de glórias do passado. — Um
dia, só terá ruínas para mostrar.
— Não vou dar atenção ao que está falando! Florença é muito mais
bonita do que qualquer cidade dos Estados Unidos: cada pedra aqui tem uma
história para contar.
Sabia que o estava provocando mas, ao mesmo tempo, dizia a
verdade. Para ela, Florença era o lugar mais bonito do mundo, pois era ali
que estava com Fyfe.
Olhou pela janela e viu as flores no jardim e o céu de um azul
resplandecente. Mais abaixo, a cúpula da catedral e o sino brilhavam ao sol.
— Existe coisa mais linda? — perguntou, emocionada.
— Eu não enxergo, lembra?
— Farei essa pergunta quando estiver bom. Se responder que existe
um lugar nos Estados Unidos mais bonito do que Florença, vou ficar muito
surpresa.
Pelo sorriso dele, percebeu que estava se divertindo com seu
entusiasmo. Continuou a falar, agora com outro tom:
— Quando os médicos vão… tirar a atadura de seus olhos?
— Não sei ainda. Eles não estão com muita pressa.
— Mas dever ser… logo.
— Você parece ansiosa para deixar seu emprego como leitora
profissional.
— Não! Claro que não!
Fyfe nem podia imaginar como Susanna sofria, quando acordava
pela manhã e pensava que talvez aquele fosse o último dia que passavam
juntos; que naquele dia ele a veria como era: gorda e sem graça.
Com medo de que percebesse sua inquietação, Susanna levantou e
foi até a porta da varanda.
— Vou colher algumas flores para você. Está tão quente, que as
flores que peguei anteontem já estão murchas.
— Antes de ir, por favor, peça a Chambers que venha até aqui.
Quero ditar uma carta para uma pessoa dos Estados Unidos.
Embora Susanna dissesse a si mesma que era ridículo, não pôde
deixar de sentir ciúmes. Com certeza, ele ia escrever para alguém que amava
e que, logicamente, o amava também. Que mulher poderia resistir a ele? Fyfe
não era só bonito, mas também muito rico.
Na noite anterior, ele tinha contado como o pai havia fabricado o
primeiro Falcon, pouco antes de morrer.
88
— Meu pai já tinha feito uma grande fortuna com estradas de ferro.
Ele sempre gostou muito de mecânica e ficou interessado, no exato instante
em que ficou sabendo que existia um veículo que podia se mover sem ser
puxado por cavalos.
— Quando, mesmo, que foi inventado o primeiro carro?
— Tenho notícias de que as primeiras experiências começaram em
1805, mas eram carros que mais pareciam carruagens mecanizadas. — Riu e
continuou: — Um de seus compatriotas, um tal de dr. Church, construiu um
carro a vapor, em 1833, todo decorado, que carregou cinqüenta passageiros
de Londres a Birmingham. Mas aí, a famosa cautela britânica entrou em ação.
— O que quer dizer?
— Uma ação do Parlamento quase conseguiu matar as experiências
que vinham sendo feitas na Inglaterra. Essa ação impedia que os carros
andassem a mais de seis quilômetros por hora nas cidades!
— Os americanos não fizeram nenhum tipo de lei para se precaver
contra essas máquinas infernais?
— Imagine! Somos muito mais avançados do que vocês.
Fyfe continuou contando sobre as várias experiências feitas através
dos anos; depois de alguns minutos, Susanna já se sentia muito interessada
pelo assunto, que era verdadeiramente apaixonante.
Começou a apreciar as incríveis batalhas que os inventores travaram
para que as autoridades encarassem os automóveis como a solução para o
transporte viário, e ouvia com muito interesse as palavras de Fyfe:
— Por volta de 1893, Benz construiu um carro em escala comercial
que teve muita aceitação, principalmente na França. Daimler criou uma
fábrica na Alemanha e, nos Estados Unidos, começaram a ser construídas
outras em Ohio e na Pensilvânia. — Suspirou. — Meu pai logo se propôs a
começar a fabricar carros de alta qualidade, que fossem acessíveis às finanças
dos homens de negócio.
— Posso até ver que você não brincava de trenzinho como os outros
meninos, mas com um carro de verdade.
— Foi isso mesmo que aconteceu. Sempre gostei de testar os carros,
para ver se eram realmente bons.
— Que horror! Espero que tenha aprendido que não pode se arriscar
tanto em corridas e testes. Daqui para a frente, espero que se contente em
dirigir mais devagar.
— Sabia que você diria isso. Como muita gente, não sabe que, para
um carro obter sucesso de vendagem, é necessário que se prove como é
89
possante e veloz.
— Mas é perigoso!
— Às vezes. O que aconteceu comigo foi puro azar. Espero ter mais
sorte nas próximas vezes.
— Mas, Fyfe, não pode ser tão louco a ponto de continuar
arriscando a vida, depois de tudo que aconteceu.
— Lógico que não vou participar de testes nem de grandes corridas
enquanto meus olhos não ficarem completamente curados… Mas, assim que
sarar, pode ter certeza de que voltarei imediatamente às competições.
— Fico louca só de pensar que você vai voltar a correr!
— Você se importaria muito, se acontecesse outro acidente comigo?
Susanna não podia responder sem se trair. Por isso, inteligentemente, mudou
o rumo da conversa, esperando que Fyfe não percebesse que tinha fugido do
assunto.
Agora, enquanto ia procurar o sr. Chambers, admirava o belo
corredor que atravessava. Guardaria para sempre na memória todo o luxo e
esplendor da vila. Sabia que, no futuro, quando fechasse os olhos, poderia
lembrar claramente de cada objeto, cada móvel que decorava cada ambiente
daquela casa imensa.
Foi para o escritório do sr. Chambers, mas ele não estava lá.
Resolveu ir até o hall, ver se o carteiro tinha deixado alguma remessa dos
livros encomendados.
O hall era decorado com móveis feitos por artesões florentinos há
muitos séculos e as paredes, cobertas com cerâmicas maravilhosas.
Os florentinos tinham um senso artístico muito aguçado, e os
espelhos, cálices, ânforas, candelabros e brasões feitos por eles eram de uma
beleza ímpar.
Por mais que Susanna já tivesse visto tudo aquilo, cada vez que
parava na frente de uma escultura ou de um quadro, seu entusiasmo
redobrava. Todos os florentinos tinham sangue de artista!
A porta da frente estava aberta para que o sol entrasse na casa.
Quando resolveu sair no alpendre, para ver se o carteiro vinha chegando,
ouviu uma carruagem se aproximando.
Reparou nos cavalos e notou que não pertenciam à que usava para ir
a Florença com o sr. Chambersr Depois, reparou um homem alto, vestido de
preto, que não parecia muito à vontade dentro do veículo.
Os olhos de Susanna se arregalaram de repente e ela correu para o
mesmo lugar de onde tinha vindo. Como uma louca, entrou na sala onde Fyfe
90
estava.
— O que aconteceu? O que aconteceu?
— Fyfe! Oh, Fyfe! — gritou, e havia um tom de desespero em sua
voz que brotava do fundo do coração.
— Qual é o problema? O que aconteceu, afinal?
— É meu… pai! Ele… ele acabou de chegar! Ele descobriu onde
estou e veio para me levar embora! Ajude-me, por favor, senão serei obrigada
a casar com um homem que não me ama, e só está interessado no meu
dinheiro!
— Foi por isso que você fugiu?
— Sim. Eu não queria… mas fui obrigada a fugir. Eles iam me forçar
a casar, e achei isso degradante!
Fyfe apertou-lhe as mãos, com ternura.
— Você disse que seu pai chegou. Ele a viu?
— Não. Eu estava no hall e eu… vim para cá… ele… Oh, Fyfe, o que
é que eu faço? Se eu voltar, estarei perdida. Eles jamais conseguirão me
entender…
Começou a chorar. Estava muito desesperada, sem saber que
[atitude tomar. Seria sua morte ter que casar com um homem por quem não
sentia nada, principalmente agora que estava apaixonada [por Fyfe.
— Escute, Susanna, quero que vá para o jardim e se esconda lá, até
que eu mande chamá-la.
— Papai vai insistir para me ver.
— Deixe tudo comigo. Não precisa ficar assustada.
— Papai deve estar furioso comigo. Mamãe, então, nem se fala! É
Como será que descobriram onde eu estava?
— Faça o que estou lhe dizendo, Susanna. Se demorar muito, ele
acabará encontrando-a aqui.
As últimas palavras de Fyfe fizeram com que ela saísse correndo no
mesmo minuto.
Correu pelo gramado dos fundos da vila e se escondeu atrás de
umas árvores frondosas, que serviam como um ótimo esconderijo. Cobriu o
rosto com as mãos, quase morrendo de medo.
O pai devia estar louco da vida para sair de Londres e vir procurá-la
na Itália. Tremeu ao pensar no que a mãe lhe diria, quando a encontrasse.
Mas a culpa era dela, que queria obrigá-la a casar com alguém que
só se interessava por seu dinheiro. E, se não fosse o duque seria outro
homem, qualquer nobre arruinado ficaria muito contente em casar com ela,
91
pois sua fortuna compensaria a gordura e a falta de graça da noiva.
— Como vou suportar uma coisa dessas?
Depois de conhecer Fyfe e se apaixonar por ele, seria muito mais
difícil se conformar com aquele futuro sombrio.
— Oh, Deus, salve-me! Faça com que eu escape mais uma vez da
tirania dos meus pais!
Ficou longo tempo com as mãos no rosto, pensando em sua vida í e
no quanto era infeliz.
Embora soubesse que nunca poderia viver com Fyfe, não queria
voltar para a Inglaterra com o pai. Queria ficar em Florença até que Fyfe
pudesse enxergar. Queria ficar ao lado dele, até que não precisasse mais dela.
Não podia deixá-lo, não podia!
As vezes, Susanna tinha vontade de pedir a Fyfe que a beijasse,
antes que os médicos retirassem as ataduras de seus olhos, sabendo que
nunca a beijaria, quando pudesse vê-la.
Se a beijasse imaginando que ela era bela como Vênus, Susanna
ficaria feliz, pois teria uma doce recordação para guardar. Se a beijasse, ela
nem se importaria tanto em voltar para a Inglaterra. Mesmo casando com o
duque, teria dentro do coração uma lembrança que a ajudaria a suportar os
sofrimentos pelos quais iria passar.
Não… não podia ficar sonhando com os beijos de Fyfe, pois nunca
teria coragem de lhe fazer um pedido desses. Se fizesse, iria se trair, e Fyfe
ficaria sabendo que o amava.
Passou um longo tempo escondida, sem saber se devia abandonar
qualquer esperança e correr para o quarto para arrumar as malas, ou se ficava
ali, rezando para que algum milagre acontecesse e o pai não a levasse
embora.
De repente, ouviu um assobio.
Clint estava no jardim, procurando por ela. Susanna saiu do meio
das árvores, e ele fez um sinal com o braço, para que entrasse na casa. Ele não
a esperou. Trêmula e cheia de medo, começou a caminhar na direção da
varanda.
Atravessou o gramado lentamente, passando pelas moitas cobertas
de lírios, mas sem percebê-los. Parecia cega, seguindo em frente como se o sol
não brilhasse e só houvesse trevas à sua volta. Caminhou pelos corredores e
entrou na sala onde havia deixado.
Então, sem acreditar no que via, percebeu que ele estava sozinho.
Fyfe continuava sentado confortavelmente em sua cadeira, parecendo
92
tranqüilo e despreocupado.
— Onde está meu pai? Por que não está aqui? Ele estendeu a mão e
ela a segurou firmemente.
— Está tudo bem, Susanna. Seu pai foi embora.
— Foi embora? O que ele disse? Oh, Fyfe! — Voltou a chorar e se
ajoelhou ao lado dele, pousando a cabeça em seus joelhos.
— Está tudo bem. Deve ter sido horrível para você ficar esperando
escondida, mas mandei chamá-la assim que ele foi embora.
— O que… aconteceu?
— Tive uma longa conversa com seu pai e ele voltou para Florença,
onde passará a noite. Se você quiser vê-lo, pode ir até lá agora para
conversarem. Seu pai parte amanhã bem cedo para a Inglaterra.
— Não entendo. O que você… disse a ele? Como conseguiu que
fosse embora?
— Vou lhe contar tudo, Susanna. Antes, quero pedir que confie em
mim e que me diga quem é.
— Papai contou por que fugi?
— Contou, e confirmou que você ia fazer um ótimo casamento.
— Não poderia casar com o duque ou com qualquer outro homem
que só se interessasse pelo meu dinheiro!
— Não, claro que não. E uma idéia odiosa que não faria ninguém
feliz.
— Você fez com que papai entendesse isso?
— Não, exatamente. Ele realmente acredita que casar com um nobre
seria o melhor para você; portanto, nem ouviria os meus argumentos.
— Foi o que pensei. Mas como ele me encontrou?
— Acho que a culpa foi minha.
— Sua, Fyfe?
— Os jornalistas que estiveram aqui publicaram em jornais da
Inglaterra e dos Estados Unidos que eu estava convalescendo em Florença,
depois do acidente. Também escreveram que eu tinha sido operado no
Hospital Moorfields e que passei algum tempo em Londres, em Curzon
Street, 96.
— Já sei o que aconteceu! James, um dos nossos criados, deve ter
contado a papai onde eu fui.
— Exatamente isso. — Fyfe sorriu. — Quando ficou sabendo que
você tinha ido visitar uma pessoa tão importante com Fyfe Falcon, contou a
seu pai. — Riu e acrescentou: — Está vendo? Seu criado tinha ouvido falar de
93
mim, mesmo você não tendo!
— Então, papai… nos seguiu até Florença!
— E, na verdade, ficou muito surpreso por saber que você estava
trabalhando para sobreviver.
— Mas vai permitir que eu continue fazendo isso? O que você disse
para fazê-lo concordar?
— Como eu entendi que você queria que ele fosse embora e a
deixasse aqui, Susanna, disse a única coisa que o faria ir embora.
— O… quê?
— Disse que… nós éramos casados!
Por um momento, Susanna pensou que não tinha ouvido bem. E
ficou mais perplexa, quando Fyfe acrescentou:
— Eu só antecipei a seu pai o pedido que ia fazer a você, logo que
voltasse a enxergar.
— Pe… pedido?
Ele estendeu a mão e tocou gentilmente o rosto dela.
— Acha mesmo que eu poderia viver sem você, Susanna?
— Mas… Fyfe… eu não posso…
Fyfe inclinou-se para frente e, passando os braços em volta dela,
puxou-a para perto.
Por um momento, Susanna quis resistir, mas antes mesmo de tentar
impedir, estava juntinho dele e, sendo beijada.
Foi impossível se mover ou pensar, e compreendeu que era por
aquilo que ansiava e rezava. Aquilo era amor, o amor que pensava que nunca
ia conhecer; o beijo que nunca esperava receber.
Os braços de Fyfe eram fortes e cheios de vigor. Dentro deles,
Susanna se sentiu parte do homem amado. Os lábios de Fyfe a arrebataram
para um mundo de sonho e êxtase, que só conhecia quando imaginava ser
Vênus e estar sozinha com as estrelas e os vagalumes.
Porém, agora era mais maravilhoso, mais intenso. Era divino, apesar
de humano, poderia morrer de felicidade naquele momento. Os lábios dele se
tornaram mais possessivos, insistentes, exigentes, e Susanna compreendeu de
uma vez por todas que era aquilo que queria e teve a sensação de que Fyfe
agora era também Lourenço, o Magnífico. Parecia que eles dois tinham se
reencontrado, finalmente, depois de vários séculos de separação.
Ele levantou a cabeça devagar, e Susanna murmurou, numa voz
fraca, que nem parecia dela:
— Eu o amo, querido! Amo você… e nunca pensei que me beijaria.
94
— Já faz muito tempo que quero beijar seus lábios, mas preferi
esperar, até poder lhe oferecer um homem por inteiro não, uma criatura que
não enxerga, que tem que ser guiada por toda parte, como uma criança
indefesa.
— Você… me ama mesmo? De verdade? Com toda a força do seu
coração?
— Amo você desde a primeira vez que ouvi sua voz melodiosa e
achei que era o som mais encantador e atraente que já tinha ouvido. Desde
que estamos aqui, juntos, eu a amo mais e mais a cada dia que passa.
— Eu também… o amo, mas nunca imaginei que você pudesse se
importar comigo, meu amor — murmurou Susanna, extasiada, duvidando do
que acontecia.
Enquanto falava, lembrou por que pensava isso e seu corpo todo
estremeceu de agonia: quando ele a visse, deixaria de amá-la.
Tenho que ir embora antes que isso aconteça, pensou, desesperada e
cheia de amargura.
Depois, como a simples idéia de deixá-lo fosse como sua sentença de
morte, chegou um pouco mais perto de Fyfe e sentiu a e reação imediata,
quando ele procurou seus lábios novamente.
— Você é tão doce e suave, minha querida. E seus lábios são
exatamente como pensei que fossem: delicados e sensuais.
— Você pensava em me beijar? E verdade, mesmo?
— Quase não pensei em outra coisa nos últimos dias, desde que.
tiraram minhas ataduras. Eu dizia a mim mesmo que tinha de esperar, mas,
quando seu pai falou que pretendia levá-la de volta para Londres,
compreendi que não podia deixá-la se afastar de mim. Se eu ficasse aqui sem
você, morreria de amor.
— Eu também não poderia suportar a idéia de deixá-lo. — Depois,
como se tivesse acabado de pensar no assunto, perguntou: — Papai ficou
muito zangado?
— Acho que ficou mais surpreso do que qualquer outra coisa.
Primeiro, que nós tivéssemos nos conhecido; depois, que eu quisesse casar
com você, sem saber quem era na realidade.
Susanna prendeu a respiração, sentindo um terror súbito tomar
conta de seu corpo.
E se o pai tivesse dito como era gorda, como era sem atrativos? Mas,
ao que tudo indicava, ele não tinha dito nada, pois Fyfe continuou a falar,
tranqüilamente:
95
— Eu não podia dizer a ele que foi amor à primeira vista, porque
não estou enxergando, mas contei que nos apaixonamos de uma maneira que
nos convenceu inteiramente de que a única coisa acertada a fazer era casar.
— Papai perguntou onde nos casamos? Ele quis saber detalhes sobre
o nosso casamento?
— Na verdade, não. Ficou tão surpreso por isso ter acontecido, que
não fez muitas perguntas. Entretanto, sugeriu que todas as formalidades com
relação à sua fortuna pessoal fossem deixadas nas mãos dos nossos
advogados. — Antes que Susanna conseguisse murmurar algo, ele riu. —
Pelo menos, seu pai não pode me acusar de ser um caça-dotes, não é mesmo?
— Acho que papai deve ter ficado muito impressionado, quando
soube quem você é. Posso até imaginar sua expressão de espanto.
— Talvez ele tenha ficado tão surpreso com nosso casamento pelo
fato de saber que eu era um solteirão inveterado.
Susanna prendeu a respiração outra vez.
Sabia exatamente o que o pai tinha sentido: surpresa por Fyfe, que
era tão conhecido e bonito, ter casado com uma mulher tão sem graça e
deselegante.
— Por que não contei a ele desde o começo?, pensou. Mas era tarde
demais para ter remorsos.
Sentindo um súbito medo de que a qualquer momento ele pudesse
enxergá-la e perceber com que tipo de mulher estava comprometido, Susanna
murmurou:
— Beije-me, por favor. Beije-me e diga que… me ama! Isso era tudo
que teria para lembrar. Mas, pelo menos, era melhor do que nada.
— Eu a amo, querida. Amo sua inteligência fascinante e, quando
minhas ataduras forem retiradas, também vou amar seu rosto!
— Oh, Fyfe… Ele não deixou que ela terminasse. Quase com fúria,
prendeu seus lábios num longo beijo. Enquanto a beijava com paixão
desenfreada, Susanna sentia o êxtase e a maravilha daquele momento
envolvê-la completamente como uma luz brilhante e cheia de calor. Foi
naquele instante único que compreendeu que qualquer dor ou agonia
profunda que pudesse vir a sentir no futuro abateria aquela imensa
felicidade.
— Eu o amo Fyfe, querido! Amo você mais do que tudo no mundo!
— disse, cheia de paixão, depois de se libertar dos lábios possessivos.

96
97
CAPÍTULO VII

— Fiz suas malas, signorina — disse Francesca, num péssimo inglês,


enquanto penteava os cabelos de Susanna.
— Muito obrigada — murmurou, sem prestar muita atenção nas
palavras da criada.
— Muito triste a signorina ir embora. O que é que o patrão vai fazer?
Francesca não recebeu resposta, o que não a surpreendeu, pois
Susanna estava lendo.
Tinham chegado alguns livros no correio do meio-dia e ela os
folheava rapidamente para encontrar algo que divertisse Fyfe e provocasse
uma discussão entusiasmada.
— O que eu estava pensando, signorina, é o que vai usar na viagem?
— Viajar? Oh, o vestido que estava usando quando cheguei —
respondeu rapidamente, voltando a prestar atenção no livro.
— Mas, signorina, ainda não reformei aquele vestido. E impossível,
completamente impossível, arrumá-lo tão depressa! Acho melhor escolher
outro!
Francesca percebeu que estava falando com as paredes e continuou
apenas resmungando para si mesma, enquanto se apressava até o guarda-
roupa para escolher um vestido para Susanna ir a Florença com o sr.
Chambers.
Como tinha pouco tempo para ler e queria desesperadamente
manter Fyfe entretido e de bom humor, Susanna tinha estabelecido uma
rotina diária, logo que chegou à vila, e descobriu que Francesca era uma
criada muito competente.
Isso lhe dava a única oportunidade possível para o que chamava de
“pesquisa”.
Logo que ia deitar, Susanna lia até que tudo ficasse em silêncio e
achasse seguro ir até a piscina no jardim.
Quando voltava, normalmente estava morrendo de sono ou, mais
ainda, estava tão enlevada, tão feliz e extasiada, que só queria deitar depressa
e sonhar com tudo aquilo.
Acordava cedo e ficava deitada, lendo, até Francesca chamá-la.
Quando levantava se colocava inteiramente nas mãos da criada habilidosa.

98
Era Francesca quem penteava seus cabelos, quem a ajudava a vestir
as roupas de baixo e anáguas e depois escolhia um vestido no guarda-roupa.
Sempre lendo, Susanna nem reparava no que estava vestindo.
Quando Francesca terminava de arrumá-la, ela saía do quarto para a
varanda, onde o sr. Chambers a encontrava para o café da manhã. Susanna
nem se preocupava em se olhar no espelho para ver se Francesca a tinha
arrumado direito.
Na verdade, não adiantaria muito procurar se ver num espelho
porque, como a vila havia sido decorada por um homem, existiam poucos, e
todos tão antigos, que a maioria tinha ficado com a imagem distorcida com o
passar do tempo.
Mesmo em casa, Susanna sempre evitava se olhar no espelho.
Agora que estava na vila, queria esquecer completamente sua
aparência gorda e deselegante. Queria continuar pensando em si mesma
como a Vênus que fingia ser quando ia à piscina, tudo à sua volta era muito
bonito, não suportaria se ver estragando tudo.
Quando foi ao encontro de Fyfe naquela manhã, achando difícil
acreditar que não tinha sonhado com sua declaração de amor, ele a abraçou e
beijou, até que o aposento girasse em volta dela e a fízesse esquecer de tudo
que queria dizer. Só conseguiu murmurar, como tinha feito antes:
— Eu amo você!
— E eu também amo você, minha querida. Ontem à noite, fiquei
acordado durante muito tempo, pensando que sou o homem mais feliz do
mundo.
— Você é tão maravilhoso, meu bem. Tão… “magnífico”! Ele riu.
— Estou mesmo chegando à altura de Lourenço? Pensei que esse
adjetivo só se aplicasse a ele; não a um homem comum como eu.
— Você é magnífico… e muito, muito mais — disse Susanna, cheia
de paixão.
Ele a beijou outra vez.
— Clint ficou bravo comigo por ter ficado muito agitado em sua
companhia e não ter dormido tão bem como costumo.
— Oh… desculpe! Eu também não conseguia dormir, pensando que
devia estar sonhando.
— Vou fazer com que acredite que não está sonhando, meu bem. A
não ser que eu também esteja.
— Você precisa descansar e não deve ficar agitado.
— Como não me agitar, quando posso tocá-la e beijá-la como
99
desejava há tanto tempo?
Aquelas palavras fizeram Susanna se sentir andando nas nuvens,
mas insistiu:
—Precisamos ter calma, até você estar completamente restabelecido,
meu amor. Eu não suportaria vê-lo doente outra vez, quando parece
melhorar a cada dia que passa.
— Prometo tentar dormir esta tarde. Fique tranqüila e não se
preocupe comigo.
Susanna sentiu uma pontada de arrependimento porque não
poderia ficar com ele.
— Ótimo. Não vou perturbá-lo.
— Você me perturba sempre que penso em você — disse, sorrindo,
com um cinismo brincalhão.
Como o amava tão desesperadamente, Susanna pegou suas mãos.
— Você precisa descansar. Mas, por favor, posso… ficar a seu lado,
até que adormeça?
Era como se fosse uma criança, e Fyfe beijou-lhe os dedos, com
carinho.
— Garanto que não tenho vontade nenhuma de ficar longe de você
nem mesmo por cinco minutos. Mas, como sei que seria difícil para mim não
chamá-la, sabendo que está na vila, quero que vá a Florença com Chambers e
veja alguns tesouros da cidade. Estou me sentindo muito culpado por você
ainda não ter visto San Arenzo, San Marco, Campanile de Gritto, o Palazzo
Vecchio, o argello, o… Susanna deu um gritinho.
— Chega! Chega! Se for ver tudo isso, ficarei semanas fora passaria
muito tempo longe de você!
— Eu só estava brincando. Mas tem que ver o Davi de Michelangelo,
e o Perseu de Cellini. Assim pode me dizer se os acha mais atraentes do que
Lourenço e eu!
— Você já sabe a resposta.
— Enquanto estiver lá, é melhor dar uma olhada rápida na Vênus de
Botticelli e na Madona de Lippi, antes que eu esteja em condições de dizer
com qual você se parece.
Susanna ficou tensa. Teve vontade de contar a verdade de uma vez
por todas, mas algo mais forte a impedia. Em vez disso, perguntou:
— Você sabe quando os médicos vão tirar as ataduras?
Para seu alívio, Fyfe encolheu os ombros, parecendo não estar
reocupado.
100
— Pedi a Chambers para descobrir quando pretendem tirar. Ele
acha que vai demorar mais alguns dias, talvez até uma semana ou duas.
Susanna sentiu uma grande paz invadir seu coração atormentado.
Ainda não tinha que deixá-lo. Poderia ficar mais alguns dias a seu ' lado, vê-
lo e conversar com ele. Fyfe a beijara muitas vezes e ti-'-.. viveria um pouco
mais naquele paraíso que parecia envolvê-los com uma luz radiosa e
delicada.
Não se conteve e se aproximou mais dele, perguntando, ansiosa:
— Diga exatamente a que horas posso voltar de Florença e ficar com
você outra vez.
— Vamos dizer às cinco horas, está bem?
— Tão tarde? Está querendo se ver livre de mim por tanto tempo
assim?
— Acho difícil convencer Clint, quando ele me repreende para que
eu me cuide. Sempre tem argumentos muito convincentes para que faça o
que ele quer. Além do mais, quero estar bem calmo e descansado para poder
ficar com você.
— Nesse caso, Clint está certo. E lógico que não quero fazer nada
para que possa prejudicá-lo.
Era irônico: fazer tudo para que ele se recuperasse depressa
significava também apressar a própria partida. Quando pudesse enxergar,
queria estar no pensamento de Fyfe como ele a tinha imaginado. Parecida
com Simonetta Vespucci ou Lucretia Buti. Fyfe nunca, nunca ia saber como
Susanna Lavenham era na realidade.
— Por que está tendo pensamentos tristes, quando estamos tão
felizes? — ele perguntou, de repente.
Ela teve um sobressalto, sentindo-se um pouco culpada.
— Como sabe que eram tristes?
— Estou usando minha segunda visão. Aliás, sempre a uso, no que
diz respeito a você.
— Claro que não estou triste. Gomo poderia, quando estou perto de
você e você diz que… me ama? — Fitou-o, implorando, quando acrescentou:
— Você me ama mesmo… mais do que já… amou alguém?
— Agora sei que nunca amei alguém. Todas as mulheres que
conheci no passado me desapontaram de uma maneira ou de outra. Acho que
era porque só agradavam meus olhos, e minha mente sempre achava que
deixavam algo a desejar.
Seus lábios se curvaram no sorriso que Susanna adorava, antes de
101
completar:
— Sei que você está esperando que eu diga que mudei meu modo
de encarar as mulheres depois que a conheci. Na verdade, digo mais ainda:
acredito sinceramente que você é minha outra metade!
Susanna ficou tão comovida que sentiu os olhos se encherem de
lágrimas, mas se forçou a falar com voz firme e decidida:
— Nunca pretendi ser a outra metade de Fyfe, o Magnífico, mas
estou contente, muito contente por ser a… sombra do seu coração.
— Sombra, não. Você está no meu coração e faz parte dele.
Francamente, não sei muito bem se já não tomou conta dele inteiro!
Abraçou-a e beijou-a novamente, com paixão.
Aquele envolvimento era perigoso, pois Susanna sentia que seu
corpo, correspondia inteiramente aos anseios do corpo dele. Envergonhada,
escondeu o rosto em seu ombro. Fyfe acariciou seus cabelos, num gesto doce
e suave.
— Parecem seda. Seda florentina, que nós compraremos juntos,
quando eu puder escolher a cor que combina melhor com você.
Susanna achou impossível responder.
— Diga qual é o comprimento dos seus cabelos. Eles estão sempre
presos, mas posso sentir que são longos e cobrem seus ombros como uma
nuvem macia.
— Você está me deixando envergonhada.
— Vou gostar disso, quando puder ver o rubor subindo ao seu rosto.
A cada palavra que ouvia Susanna lembrava o pouco tempo que lhe
restava. Como estava perto a hora de fugir de Fyfe para sempre!
Como podia pensar que seus cabelos fossem bonitos? Embora
longos, sempre tinham sido lisos e nem de perto parecidos com a nuvem
macia que ele imaginava.
— Quando eu enxergar outra vez, vou querer ficar olhando para
você durante muito tempo, minha querida. Há tantas coisas que podemos
fazer juntos! De certa forma, fico contente que tenha visto poucas coisas em
Florença. Quero lhe mostrar minhas esculturas e quadros favoritos. — Beijou
a testa dela. — As mulheres que levei para vê-los no passado sempre eram
tão ignorantes sobre arte que me deixavam irritado. Sei que nunca vou achar
isso de você, meu amor, pois é inteligente e culta.
Susanna murmurou alguma coisa, e ele continuou:
— Em Florença, Paris, Londres e Nova York, há um milhão de coisas
para vermos e apreciarmos juntos. Sinto isso porque amo você, e o mundo
102
inteiro está aí, para descobrirmos. Mas se não estiver a meu lado, então não
valerá a pena visitar nada: nenhum lugar terá luz e encantamento. Viver sem
você seria como continuar cego para sempre…
— Não diga isso.
— É verdade. Você trouxe uma luz para a minha escuridão, desde
aquele primeiro momento em Londres, quando leu para mim com essa sua
voz milagrosa. Se fosse embora, eu ficaria cego novamente para todas as
coisas que me ensinou a ver.
— Não, não! Não diga isso! Você é você, e pronto! Magnífico, auto-
suficiente e brilhante! Não precisa… de mim.
— Vou passar a vida inteira lhe mostrando como preciso de você e
como a quero, meu amor.
Depois daquelas palavras, Fyfe beijou-a novamente, e Susanna não
conseguiu pensar em nada além do amor que sentia por ele.
Foi difícil deixá-lo na hora do almoço, mas, logo que o conheceu, ele
tinha dito:
— Não vou deixar ninguém me ver fazendo um papel ridículo,
enquanto como feito criança. Se eu precisar de um copo de água, quero que
você saia do quarto.
Fyfe tinha falado com aspereza, quase rudemente, pois naqueles
dias ainda estava lutando contra a cegueira e amaldiçoando sua incapacidade
de enxergar.
Susanna esperava que pudesse ficar com ele durante as refeições
quando as ataduras fossem removidas de sua boca, mas sempre pedia que ela
saísse.
— Ainda preciso que cortem a comida para mim. Ainda confundo
as coisas e ainda as derrubo. Por isso, prefiro fazer esse triste papel sem
espectadores.
Susanna sentia o que Fyfe sentia, pois tinha aprendido com o passar
dos dias que ele era uma pessoa muito exigente.
— Sempre limpo e caprichoso — tinha dito Clint um dia. — Por isso,
vai entender o alívio que senti, senhorita, quando vi que não tinha cicatrizes
no rosto. Ele não suportaria ficar feio, e essa era uma das coisas de que eu
tinha mais medo.
A revelação de Clint só reforçou a decisão de Susanna de que Fyfe
nunca devia vê-la.
Claro, sendo tão bonito e tendo passado a vida cercado por coisas
bonitas, ia querer que a mulher que amava fosse linda também.
103
Susanna fez seus planos com muito cuidado.
Deixaria todos os seus pertences arrumados e, quando os médicos
chegassem para retirar as ataduras, diria aos criados que tinha recebido um
telegrama e que precisava ir para Londres imediatamente. Eles trariam a
carruagem até a porta, guardariam sua bagagem, e ela só esperaria os
médicos saírem do quarto de Fyfe para saber o veredito. Se ele voltasse a
enxergar, ela partiria rapidamente, antes que tivesse tempo de chamá-la.
Caso contrário, se o pior acontecesse e ele ficasse cego para sempre,
precisaria dela, e sua aparência não teria a mínima importância.
Parecia tudo tão simples, mas Susanna sabia que ia sofrer muito
indo embora. No entanto, não tinha outra alternativa. Como poderia ficar, e
ver o desapontamento nos olhos dele se transformar gradualmente no
desprezo e no desdém com que a mãe sempre a observava?
E, mais ainda, os sentimentos dele podiam se transformar em ódio,
porque tinha mentido e abusado de sua confiança.
Susanna percorreu o corredor lendo. Só quando chegou ao
vestíbulo, onde o sr. Chambers a esperava, colocou o livro sobre uma mesa e
aceitou a sombrinha que ele lhe ofereceu.
— Está muito quente hoje.
— Precisa de uma sombrinha, já que não usa chapéu.
— Detesto chapéus, como o senhor sabe, e adoro sentir o sol.
— Mas não deve se queimar demais.
— Fyfe está acordado?
Susanna esperava poder dar-lhe um beijo de despedida, embora
fossem ficar em Florença apenas algumas horas.
— Clint colocou-o para descansar um pouco depois do almoço e
acho que ficará muito zangado, se alguém o perturbar.
Susanna suspirou. Se era uma agonia ficar longe de Fyfe mesmo por
alguns minutos, passar quase a tarde toda longe dele era um martírio!
O fato de ir a Florença lhe deu uma boa desculpa para pedir algum
dinheiro ao sr. Chambers.
— Acho que o senhor estava certo, pois gastei muito com o presente
de aniversário de Fyfe. Ficaria muito grata, se pudesse dar meu salário,
mesmo sabendo que só deveria recebê-lo daqui a um ou dois dias.
— Claro que dou. Posso até lhe adiantar algum dinheiro, se quiser.
Susanna teve vontade de dizer que ele não devia lhe pagar pelo que
ela não iria trabalhar, mas respondeu:
— Ficaria satisfeita com o salário de um mês. Acho que não é
104
conveniente carregar muito dinheiro.
— Tem razão.
Depois de entrarem na carruagem, ele lhe entregou um envelope
que ela sabia conter uma quantia suficiente para sua passagem para a
Inglaterra ou para ficar em algum hotel barato, na Itália.
Ainda não tinha resolvido se voltaria para casa ou procuraria
emprego no exterior.
Tinha certeza de que não seria difícil arrumar outra ocupação por
causa de sua fluência em línguas, mas agora a idéia de ficar sozinha e
solitária era muito mais amedrontadora do que quando resolveu fugir.
Foi o fato de conhecer Fyfe e se apaixonar por ele que fez o futuro
parecer, como ele mesmo tinha dito, completamente escuro, porque não
estaria a seu lado.
O que fazer? Não sabia a resposta exata. Imaginou que fosse porque,
no momento, só conseguia pensar em Fyfe e nas horas doces e maravilhosas
que passavam juntos.
— Onde vamos primeiro? — perguntou ao sr. Chambers.
— Onde a senhorita quiser. Tenho ordens expressas de Fyfe para
mantê-la longe da vila até às cinco horas; caso contrário, ele disse que
quebraria todas as promessas que fez a Clint e que mandaria chamar a
senhorita.
Susanna suspirou profundamente e o sr. Chambers voltou a falar:
— Nunca vi Fyfe tão feliz nem tão apaixonado. Deve ter havido…
muitas mulheres na vida dele.
— Não quero insultar sua inteligência, negando isso. As mulheres o
perseguem desde que Fyfe era muito jovem.
— Eu já esperava por isso.
— Mas é muito compreensível. Ele não é apenas bonito e extrema-
mente inteligente, mas filho único de um dos homens mais ricos dos Estados
Unidos!
— Não sabia que era tão rico assim!
— O velho sr. Falcon, que era tão inteligente como o filho, investia
em estradas de ferro e comprava todas as fazendas que via pela frente.
— Enquanto que Fyfe gosta de automóveis.
— Ele gosta de tudo que seja progresso, que se mova rapidamente e
estimule sua mente, como a senhorita faz.
— O senhor não acha que eu esteja… competindo com o Falcon!
— É exatamente o que tem feito e por isso sou-lhe muito grato. A
105
senhorita o fez compreender algo que ninguém nunca foi capaz de fazer
antes.
Susanna olhou interrogativamente, e ele explicou:
— Que, intelectualmente, ele pode sobreviver a qualquer
incapacidade física mesmo à cegueira.
— Acho que ele acabaria descobrindo isso sozinho.
— Duvido. Se a senhorita tivesse visto o estado em que Fyfe estava
quando atravessamos o Atlântico, saberia que teria preferido morrer a
encarar o fato de que podia passa o resto da vida na escuridão.
— Isso não pode acontecer! — disse Susanna rapidamente.
— Estou rezando para que o nosso otimismo tenha fundamento,
mas, se infelizmente o pior acontecer, acredito que, com a sua ajuda, Fyfe terá
muitas coisas úteis para fazer no mundo, mesmo sem usar os olhos.
— Tenho pensado nisso. É claro que ele poderia aconselhar e
coordenar as reuniões da companhia Falcon.
— Temos a mesma linha de pensamento, mas no íntimo estou certo
de que agora há mais de cinqüenta por cento de possibilidades de que ele
fique bem.
— Sinto a mesma coisa. Essa sensação é tão forte que, no fundo do
coração, sei que ele vai enxergar como… tão bem como eu.
Havia um tom de profecia em sua voz: Susanna sabia que sua
segunda visão não podia estar enganada no que dizia respeito a Fyfe.
Apesar de estar morrendo de vontade de voltar à vila, não pôde
deixar de ficar emocionada com o Davi de Michelangelo. Também ficou
encantada pelas outras esculturas que cercavam a magnífica sepultura de
Lourenço.
Eram quase quatro horas, quando o sr. Chambers insistiu para que
fossem à Galeria Uffizi, pois Fyfe tinha dado ordens expressas para que
fossem até lá.
Ele não entenderia se Susanna lhe dissesse que não tinha vontade de
olhar o lindo rosto da Vênus de Botticelli ou da madona de Lippi. Por isso,
ela o seguiu e parou na frente do Nascimento de Vênus, olhando,
desesperada, o rosto oval de Simonetta, com seus olhos azuis e os cabelos
dourados caindo sobre os ombros claros.
Enquanto se afastava, pensou que odiaria Vênus, qualquer Vênus,
para o resto da vida.
— Agora podemos ir embora! — disse o sr. Chambers, sorrindo. —
Está cansada?
106
— Nem um pouco.
A idéia de ver Fyfe novamente devolveu o brilho a seus olhos, o
coração bateu mais depressa e pequenos arrepios de excitação percorreram
seu corpo. Em pouco tempo, estaria perto dele; talvez, em seus braços.
Quero que ele me beije, pensou. Quero isso mais do que já quis
qualquer coisa em toda minha vida ou vou querer qualquer coisa novamente!
Susanna achou que os cavalos estavam subindo a colina muito
devagar, mas, afinal, chegaram à vila. Não esperou que o criado de libré
descesse para abrir a porta da carruagem.
Subiu os degraus da entrada correndo.
Clint estava esperando no vestíbulo.
— O patrão está acordado? — perguntou, quase sem fôlego.
— Está ansioso para vê-la, senhorita. — Mas imagino que queira se
refrescar primeiro. Há uma bebida gelada em seu quarto. A cidade devia
estar um forno, não é?
— Se estava.
Gostaria de ir ver Fyfe imediatamente. Depois pensou que se ele a
beijasse, talvez percebesse que seus cabelos estavam um pouco despenteados
pela brisa que soprava do Arno.
Foi para o quarto e lá encontrou Francesca.
— Devia estar muito quente na cidade, signorina. — Separei um
vestido leve para trocar, e a água já está preparada na bacia.
Impaciente e de má vontade porque não queria perder um segundo
sequer longe de Fyfe, Susanna se lavou e deixou que Francesca a ajudasse a
mudar de roupa.
A criada penteou seus cabelos e depois Susanna saiu correndo do
quarto e atravessou o corredor para os aposentos de Fyfe.
Clint abriu a porta e ela entrou, sorrindo e com os olhos brilhantes.
Fyfe não estava sozinho, como esperava; havia várias pessoas no
quarto.
Fitou-as, atônita, tentando imaginar quem eram e por que estavam
vestidas de maneira tão estranha. Fyfe, parado no centro do aposento,
estendeu a mão.
— Venha cá, Susanna!
Ela obedeceu-o e ele segurou sua mão com ternura.
— Minha querida, como me arrependi de mentir a seu pai e como
quero mais do que tudo no mundo que você me pertença, pedi ao capelão da
embaixada americana para nos casar e ele está aqui.
107
Susanna suspirou, surpresa, sem conseguir falar.
— Será uma cerimônia rápida, srta. Lavenham — disse o capelão. —
Sem dúvida, sabe que pela lei americana é perfeitamente legal que eu os case
aqui na vila.
Susanna não conseguia encontrar a voz. Tinha que acabar com
aquilo. Não podia casar com Fyfe. Precisava lhe dizer toda a verdade de uma
vez por todas!
Mas, quando ele a conduzia para a frente do capelão, Susanna
compreendeu que não podiam conversar na frente de estranhos. Como
explicar, como confessar que tinha mentido, que não era bonita? Como
destruir o encantamento e o esplendor daquele amor?
Não posso casar com ele! É por causa dele mesmo que não posso! —
pensava desesperada.
Porém, seu coração dizia que também não podia magoá-lo, deixá-lo
embaraçado e envergonhado diante daquela gente. Enquanto tentava pensar
no que fazer, o capelão abriu o Evangelho e começou a cerimônia.
Tudo aconteceu muito depressa. Quando Fyfe fez seus juramentos
num tom de voz grave e sincero, que pareceu vibrar através do corpo de
Susanna, ela ouviu, quase como se fosse a voz de uma estranha, sua própria
resposta trêmula.
Como se sentisse o tumulto que a agitava, Fyfe segurou a mão dela
com firmeza durante toda a cerimônia. A força dele parecia, de uma maneira
muito estranha, arrancá-la de todos os pensamentos tristes.
Porque o amava, devia tentar impedi-lo de fazer aquilo. Mas só
conseguia pensar nas palavras dele.
— Eu amo você… eu amo você…
Um dos criados entregou a aliança a Fyfe e o capelão abençoou-a,
antes de colocá-la em seu dedo.
Enquanto ajudava Fyfe a colocar a aliança, Susanna sabia que não
devia estar fazendo aquilo, que não era certo e que, quando ele soubesse a
verdade, poderia expulsá-la de sua casa e de sua vida, porque o tinha
enganado.
Ainda assim, contra a vontade, mas mais forte do que tudo, sentia
uma alegria inacreditável em saber que agora era a mulher dele e que, por
isso, não podia ser forçada a casar com outro homem.
A cerimônia terminou. Eles ajoelharam, o capelão os abençoou e, ao
se levantarem, Fyfe levou a mão dela aos lábios.
— Amo você, minha querida! — disse, baixinho, para que só ela
108
ouvisse.
Depois disso, tudo pareceu maravilhoso demais para que Susanna
percebesse o que realmente estava acontecendo.
Clint entrou na sala com taças de champanhe e o sr. Chambers se
reuniu a eles, com todos os criados da vila, cumprimentando-os, tão felizes
como se eles próprios tivessem se casado.
Quando o capelão se despediu e os criados saíram, Fyfe virou-se e
abraçou-a. Por um momento, Susanna achou que devia resistir e fazê-lo ouvir
o que tinha a dizer. Mas era tarde demais. Ele a beijou, e todo o resto
desapareceu…
Teve a impressão de que estavam juntos há apenas alguns
segundos, embora devesse ter passado muito tempo, antes de Clint vir dizer
que o jantar seria servido dali a meia hora.
— É tão tarde assim? — perguntou ela.
— Está na hora de o patrão ir deitar, madame.
— Deitar? — repetiu Susanna, surpresa. — Mas eu pensei quê…
— Ele ainda deve repousar, madame — disse Clint, antes que Fyfe
pudesse falar. — Além disso, toda essa agitação não faz bem a ele, como a
senhora bem sabe. — Viu o desapontamento no rosto dela e acrescentou: —
Existe o amanhã, se me permite dizer, madame, muitos anos pela frente para
ambos conversarem. Não quero que o patrão fique cansado ou agitado
demais, como está no momento.
— Dê-nos cinco minutos para nos dizermos boa-noite — pediu Fyfe.
— Depois, deixarei que me coloque na cama como você quer.
— Está bem, senhor.
Clint saiu da sala e Fyfe abraçou Susanna.
— Eu amo você. E, como Clint disse, teremos muitos anos pela
frente para eu repetir isso e fazê-la acreditar em minhas palavras.
— Tudo isso… foi mesmo… cansativo demais para você? —
perguntou, ansiosa. — Como eu podia imaginar que estava planejando uma
coisa tão extraordinária, quando me mandou para Florença?
— Nunca pensei que conseguisse guardar um segredo tão
importante de você. Tenho a impressão de que sua segunda visão está
precisando de reparos.
— Mesmo que eu tivesse um milhão de olhos, nunca imaginaria que
você faria algo tão maravilhoso e… ousado, como casar comigo sem nem
mesmo perguntar se eu queria ser sua… mulher.
— Está arrependida?
109
— Não, não! Nunca, contanto que você me ame e continue me
amando.
Susanna pensou que isso não era provável, mas, no momento, a
proximidade de Fyfe e o fato de que os lábios dele estavam procurando os
seus, tornaram impossível dizer ou pensar em outra coisa que não fosse a
maravilha de ser sua mulher.
Fyfe beijou-a, até Clint bater na porta.
— Quando for dormir, meu bem, sonhe comigo como eu sonharei
com você. Amanhã, falaremos de nossa lua-de-mel.
Não foi possível responder, pois Susanna tinha perdido a voz no
arrebatamento que os beijos dele tinham despertado.
Fyfe mandou Clint entrar e Susanna saiu da sala.
Queria ficar sozinha, queria pensar, mas Francesca a esperava.
Trocou de roupa automaticamente colocando um vestido de noite para jantar
com o sr. Chambers.
Quando entrou na sala, notou que a mesa estava decorada com
flores brancas. Com o coração apertado, pensou que era Fyfe quem deveria
estar sentado à cabeceira da mesa. Era com ele que devia estar jantando, em
sua noite de núpcias.
Mas como gostava muito do sr. Chambers não queria que ele
percebesse seu desapontamento. Conversaram sobre os carros Falcon e sobre
a mãe de Fyfe, que tinha morrido quando ele era ainda muito pequeno.
O sr. Chambers contou que Fyfe nunca tinha tido um lar, embora
possuísse casas em muitas partes do mundo.
— É isso que acho que vai poder dar a ele: um verdadeiro lar.
Sem que ele dissesse, Susanna compreendeu que Fyfe ia querer uma
família, que nunca teve por ser filho único.
Conversaram até ela perceber que o sr. Chambers estava cansado.
Então, sugeriu que se recolhessem.
Ele lhe deu boa-noite e ela foi para o quarto, onde Francesca ajudou-
a a se despir, como sempre, e penteou seus cabelos, enquanto ela lia.
Susanna continuou lendo por algum tempo na cama. Depois, largou
o livro para pensar em Fyfe.
Pela primeira vez, notou que suas malas, que tinham sido
arrumadas e estavam no quarto, tinham sido retiradas dali.
Os criados pensam que agora não vou mais embora, mas é isso o
que devo fazer, concluiu.
Mas como poderia partir agora que estava casada com Fyfe?
110
Para ele seria muito diferente perder a esposa do que perder uma
leitora profissional.
— O que é que eu faço? O que é que eu posso fazer?
A pergunta transformou-se numa oração, mas parecia não ter
resposta.
Automaticamente, porque era o que fazia todas as noites quando
tudo ficava em silêncio, levantou para ir à piscina.
Era uma noite enluarada, como na primeira vez em que tinha saído
para o jardim. Tudo estava iluminado com um brilho maravilhoso, etéreo e
místico, que seria perfeito para sua noite de núpcias… Se não estivesse
sozinha.
Antes de sair do quarto, fez o que fazia sempre: prendeu
firmemente os cabelos no alto da cabeça, para que não se molhassem.
Depois, saiu descalça e usando apenas uma camisola leve.
A grama ainda estava morna pelo calor do sol. O perfume das flores,
principalmente dos lírios, a envolvia mais naquela noite do que em qualquer
outra, simplesmente porque todos os nervos de seu corpo estavam super-
sensíveis. Parecia haver mais estrelas no céu e mais vagalumes no ar que
voavam na sua frente, até ela chegar à piscina.
Enquanto dançavam sobre a água, Susanna pensou que eram como
bolhas douradas de champanhe. Se pelo menos Fyfe estivesse ali…
Concluiu que, se ele estivesse não a olharia com paixão, mas, talvez,
com horror.
Tirou a camisola, jogou-a no chão e caminhou lentamente para a
piscina, fingindo, como sempre, ser Vênus, que tinha visto no quadro há
apenas algumas horas.
Mas naquela noite, sabia que era apenas ela mesma: Susanna,
imortalizada, não pelo pincel de um grande artista, mas pelo amor que
tomava conta de seu coração, excluindo todo o resto.
Entrou na piscina e nadou por entre os vagalumes, como sempre
fazia.
Seus olhos estavam quase cegos pelo reflexo do luar sobre a água, e,
depois de alguns momentos, fechou-os e continuou nadando, entorpecida de
felicidade, ainda sentindo os beijos de Fyfe nos lábios.
Devia ter atravessado a piscina quase dez vezes, antes de parar na
parte mais rasa e levantar, com a água batendo na altura da cintura.
Olhou para a lua e lembrou que, na primeira noite, tinha pedido que
Deus lhe desse um amor.
111
— Estou agradecida, muito, muito agradecida — disse para as
estrelas.
Levantou os braços como tinha feito naquela noite, não em atitude
de súplica, mas de gratidão.
Enquanto estava assim, com a cabeça jogada para trás, percebeu de
repente que não estava sozinha!
Havia alguém parado na água a seu lado, levou um susto, quando
reconheceu Fyfe!
Por um momento, pensou que devia estar sonhando, pois ele estava
sem nenhuma atadura na cabeça e a olhava.
Depois, quando a abraçou, percebeu que era ele mesmo, em carne e
osso!
— Meu bem! Meu amor! Minha Vênus que eu queria tanto ver.
Ela deu um grito de terror e escondeu o rosto no peito dele.
— Não olhe para mim! Por favor, não olhe para mim!
— Por que não? Já estou olhando para você há muito tempo, e acho-
a a coisa mais bonita que já vi.
— Você está enxergando? Está enxergando mesmo?
— Estou, mas terei que usar óculos escuros durante o dia. Foi por
isso, meu bem, que quis vê-la esta noite, à luz da lua.
— Mas… pode me ver… perfeitamente?
— Perfeitamente, e não vou deixar que se esconda de mim.
Fyfe colocou a mão sob o queixo de Susanna, forçando-a a levantar a
cabeça.
Agora, ele vai notar como sou feia, pensou, desesperadamente.
Fechou os olhos para não ver a expressão dele mudar.
Sentiu que Fyfe a observou por um longo tempo, embora devesse
ter sido apenas por alguns segundos, antes de ouvi-lo dizer:
— Você é exatamente como eu a imaginava pela voz!
— Acho… acho que… você ainda deve estar… cego.
— Abra os olhos, meu bem.
Tremendo, Susanna obedeceu e viu que os olhos de Fyfe também
eram exatamente como imaginava e pareciam poder ler sua alma.
— Eu… eu sinto… muito — murmurou. — Não queria… mentir
para você… mas tive que fingir que era… bonita… porque você pensava que
eu era assim.
— Mas você é bonita.
Por um momento, o beijo a fez esquecer tudo. Ainda prendendo-a
112
com os lábios, Fyfe tirou os grampos e soltou seus cabelos.
Com o braço em volta dos ombros dela, conduziu-a para fora da
piscina. Subiram os degraus lado a lado, e ela nem sentia vergonha por
estarem nus. Só sentia espanto porque ele a enxergava e não a achava feia.
Caminharam sobre a grama e depois ele a colocou numa
espreguiçadeira larga e confortável, cheia de almofadas, protegida em três
lados por ciprestes.
O luar iluminava os dois e os vagalumes ainda dançavam sobre a
piscina prateada.
Fyfe deitou ao lado dela e abraçou-a
— Tenho muitas explicações a lhe dar, meu bem. Primeiro, quero
pedir desculpas por afastar você daqui quando os médicos vieram retirar as
ataduras hoje à tarde.
— Hoje à tarde!
— Eu não só queria ficar sozinho para saber a verdade, mas também
estava aterrorizado, verdadeiramente aterrorizado, porque você pretendia me
abandonar.
— Como… ficou sabendo?
— Usei minha segunda visão e sabia que havia alguma coisa errada,
embora você não dissesse o quê. Depois, admito, tive ajuda de Francesca por
ela ter contado a Clint que você pediu que ela arrumasse suas malas.
— Eu não queria que você… me visse.
— Eu já sabia que existia algum mistério em torno de sua aparência.
Sabe meu bem? Sua voz é muito expressiva e como significava muito para
mim, aprendi a conhecer todas as entonações e posso saber todos os segredos
que tentar esconder de mim. — Riu, e abraçou-a com mais força. —Posso
garantir que será muito difícil me enganar daqui por diante. Na verdade
tenho certeza de que será impossível.
— Eu não quis enganar você, Fyfe, mas devia… ter casado com
uma… mulher mais bonita, como todas que conheceu.
— Eu casei com uma mulher bonita!
Notou que ela não acreditava e, depois de alguns instantes,
perguntou:
— Quando foi a última vez que se olhou no espelho?
— Eu nunca olho, se posso evitar. Sei muito bem o que vou ver.
— É aí que acho que se engana. Porque, pelo que todos me
disseram, você mudou muito, desde que veio para Florença comigo.
— Como sabe? E o que quer dizer com isso?
113
— Pelo que me disseram, entendi que, quando viemos para cá você
era um pouco gorda.
— Muito gorda!
— É uma pena não ter se pesado quando chegou meu bem Assim,
poderia se pesar de novo agora e ver a diferença.
Susanna olhou para o corpo. Nunca tinha pensando em fazer isso
antes, porque em todas as noites que saía para nadar, não era ela mesma, mas
Vênus.
Agora notava que os seios estavam muito menores, a cintura mais
fina e não estava mais barrigudinha.
— Eu… mudei mesmo?
— Francesca, que teve que apertar seus vestidos quase que
diariamente, disse que seus cabelos também estão com um brilho que não
tinham antes e com mechas douradas por causa do sol.
Susanna prendeu a respiração, antes de murmurar:
— E… meu… rosto?
Fyfe apoiou-se num cotovelo para poder olhá-la.
— Quer que lhe diga, meu amor? É muito fino e termina num
queixo pequeno, mas deixe-me começar desde cima.
Fyfe beijou-lhe a testa.
— Sua testa è exatamente como você queria, como a da Madona do
quadro de Lippi. Seus olhos são muito maiores do que os de Simonetta.
Parecem preencher seu pequeno rosto, e adoro suas sobrancelhas arqueadas.
Contornava com o dedo o rosto de Susanna enquanto falava.
Depois, acariciou-lhe o nariz, que era pequeno e reto.
— Talvez seu nariz ficasse um pouco perdido, quando você era
gorda, mas agora é perfeitamente proporcional. E a boca, exatamente como
devia ser: um convite para meus beijos.
Fyfe abaixou a cabeça, mas Susanna impediu-o de beijá-la.
— Está dizendo… a verdade?
— Juro por Deus que você é bonita, muito bonita, meu amor. E
como fez com que eu ficasse inteligente sobre outras coisas além de
automóveis, acho que sei exatamente o que aconteceu.
— Então conte! Conte!
— Bem, antes de mais nada, desde que chegou aqui, você entrou na
mesma dieta de Chambers: nada de açúcar. Portanto, sua gordura deve ter
desaparecido dia a dia. — Sorriu, quando acrescentou: — O açúcar é
venenoso para algumas pessoas.
114
Sentindo-se culpada, Susanna lembrou de todos os chocolates e
doces que comia, sempre que a mãe a fazia sentir-se inferior. E, também, das
enormes refeições que fazia em sua casa. Além de três ou quatro pratos
diferentes no café da manhã, devorava os enormes pudins que eram servidos
na sala de aula como sobremesa do almoço.
Não era de surpreender que fosse gorda. Nem que comesse tanto:
com o estômago cheio, ela não se sentia tão infeliz e insignificante.
— E não foi só assim que você perdeu peso — continuou Fyfe. —
Nadando todas as noites, você exercitou os músculos certos para ficar com o
corpo perfeito que tem agora.
Passou a mão por seus seios e desceu para o quadril. Susanna
estremeceu e perguntou:
— Você sabia que eu nadava todas as noites?
— Claro que sim! Nada é segredo, quando se vive na Itália. O
homem que limpa a piscina sabia que era usada, e Clint, que dorme com um
olho aberto, sabia que você atravessava o jardim quando achava que todos
estavam dormindo. Eu costumava ouvi-la passar pela minha janela e tinha
vontade de sair e acompanhá-la. — Sorriu e completou, com ternura: — Por
isso, eu sabia onde encontrá-la esta noite para lhe contar os meus segredos,
para que não continuássemos escondendo coisas um do outro.
Beijou-lhe o rosto.
— Você era uma voz na escuridão, meu bem, uma voz doce e suave,
mas agora posso vê-la e amo o que estou vendo!
— Quer dizer que não sou feia e que não está… decepcionado
comigo?
— Posso responder a última parte da pergunta facilmente. Garanto,
meu bem, que estou dizendo a verdade. Você é encantadora, e só tenho medo
de que muitos outros homens queiram lhe dizer a mesma coisa.
— Você acha que eu daria ouvidos a outros homens? Oh, Fyfe, se
realmente acha que sou bonita, que estou à sua altura, não preciso ir embora!
— Não tenho intenção de deixá-la ir. Vou ficar muito bravo, mesmo,
se você sequer pensar nisso. Como pode imaginar que eu viveria sem você? E
como pode ser tão cruel, tão egoísta, para querer me deixar na escuridão
novamente?
— Oh, meu amor, não vou fazer isso! Eu o amo! Você é maravilhoso,
magnífico, é o meu mundo! Só não posso acreditar que… mereço você!
— Você é tudo o que sempre quis numa mulher e pensei que nunca
fosse encontrar. Nossa vida juntos, meu bem, será de tanta beleza, que nunca
115
mais verá feiúra em nenhum lugar. Principalmente nesse seu rostinho lindo e
perfeito.
Beijou-a, e ela o abraçou com força.
Sentindo o coração dele bater contra o seu, e a força e a tepidez do
corpo dele na pele, Susanna compreendeu que não estavam sozinhos. Era
como se o brilho da lua e das estrelas, a beleza do jardim e o perfume dos
lírios aprovassem o amor deles e os abençoasse.
— Você é minha! — disse Fyfe, com a voz rouca de paixão. — É
minha agora e para sempre, e nunca deixarei que me abandone.



116
QUEM É BARBARA CARTLAND?

As histórias de amor de Barbara Cartland já venderam mais de cem


milhões de livros em todo o mundo. Numa época em que a literatura dá
muita importância aos aspectos mais superficiais do sexo, o público se deixou
conquistar por suas heroínas puras e seus heróis cheios de nobres ideais. E
ficou fascinado pela maneira como constrói suas tramas, em cenários que vão
do esplendor do palácio da rainha Vitória às misteriosas vastidões das
florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A precisão das
reconstituições de época é outro dos atrativos desta autora que, além de já ter
escrito mais de trezentos livros, é também historiadora e teatróloga. Mas
Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos
problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o título de Dama da Ordem de São
João de Jerusalém, por sua luta em defesa de melhores condições de trabalho
para as enfermeiras da Inglaterra, e é presidente da Associação Nacional
Britânica para a Saúde.

117
Não perca a próxima edição!

FUGITIVOS DO AMOR
Barbara Carltand

55

Vendida pelo próprio pai em pagamento de dívidas de jogo, enganada e


surrada barbaramente pelo marido sádico, procurada pela polícia de Monte
Cario. Salena só via uma saída para sua situação desesperada: a morte.
Correu para o mar, a fina camisola branca brilhando ao luar. A bordo de
seu iate, o duque de Templecombe olhava as luzes da cidade se afastarem e
também tinha pensamentos sombrios. Estava deixando ali a mulher que
amava e que o havia traído. Navegava rumo a Tânger, decidido a esquecê-
la e a nunca mais entregar seu coração. Então, alguma coisa branca,
boiando no oceano, chamou sua atenção…

118