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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

Luciana Costa Lima Thomaz

Marcel Martiny: eugenia e biotipologia na França do século XX

MESTRADO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA

SÃO PAULO

2011

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

Luciana Costa Lima Thomaz

Marcel Martiny: eugenia e biotipologia na França do século XX

MESTRADO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em História da Ciência sob a orientação da Profa. Doutora Ana Maria Alfonso-Goldfarb

SÃO PAULO

2011

Banca Examinadora

!

Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos fotocopiadores ou eletrônicos.

Ass.:

Local e data:

Luciana Costa Lima Thomaz

luc_thomaz@hotmail.com

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

(CAPES) pela bolsa concedida que tornou possível a realização desta pesquisa.

Agradeço à professora Dra. Ana Maria Alfonso-Goldfarb por todo o apoio

dado a mim nesta jornada. Suas palavras de incentivo foram determinantes neste

período.

À professora Silvia I. Waisse, a minha gratidão eterna pelo suporte e pela

orientação aos meus passos durante todo o período desta pesquisa: desde seu

esboço mais precoce até a sua conclusão final. Muito obrigada hoje e sempre.

Agradeço especialmente ao Rodrigo, Sofia e Valdete pela paciência e amor.

Sem vocês eu não teria conseguido.

RESUMO

A medicina tradicionalmente vigente no Ocidente se baseava na classificação

da heterogeneidade humana em diversos tipologias (compleições). Com a formulação da ciência moderna, gradualmente, a base da medicina passou a focar os fenômenos físicos e químicos que ocorrem na matéria viva. Assim, a prática clínica passa a depender do diagnóstico de entidades nosológicas, classificadas segundo seu mecanismo etiopatogênico, por sua vez, dependente de mecanismos biomoleculares. No entanto, nas primeiras décadas do século XX acontece uma explosão de classificações tipológicas numa variedade de contextos – antropologia, criminologia, psicologia, pedagogia, etc. – incluindo a medicina. Para abordar esse fenômeno, focou-se as teorias que afirmavam uma relação intrínseca entre as tipologias humanas e os folhetos embrionários, em particular, a obra de Marcel Martiny (1897-

1982).

A análise realizada em três esferas superpostas, levando em conta aspectos

histórico-sociais, epistemológicos e historiográficos, permitiu identificar fortes componentes eugenistas nas biotipologias desenvolvidas na primeira metade do

séculos XX, dentro do chamado “holismo médico”. Esse é também o pano de fundo do trabalho de Martiny, que utiliza como método, basicamente, medições antropométricas, cuja vinculação aos fenômenos fisiológicos e biomoleculares é realizada de maneira puramente analógica. Depois da Segunda Guerra Mundial, a teoria das biotipologias foi depurada de seus elementos eugenistas, sua falta de fundamentação empírica foi omitida e, apesar de todas suas contradições, continua a ser apresentada como “ciência provada” em diversos contextos, especialmente, nas abordagens médicas holistas.

Palavras-chave: História da ciência; História da medicina; Século XX; Holismo médico; Biotipologia; Eugenia; Marcel Martiny

ABSTRACT

The traditional approach to medicine in the West was grounded on the classification of the endless human diversity in classes (complexions). With the rise of modern science, the focus of medicine gradually shifted to the physical and chemical processes proper to living matter. Consequently, the practice of medicine became dependent on the diagnosis of clinical entities, which were classified according to their etiopathogenic mechanisms, in turn dependent of biomolecular phenomena. Despite this mainstream direction, countless typological classifications burst out in the first decades of the 20 th century in a wide range of contexts – anthropology, criminology, psychology, education, etc. – including medicine. To understand this phenomenon, this study focused on biotypological theories grounded on the assertion that there is an intrinsic relationship between human types and embryological layers, the work by Marcel Martiny (1897-1982) in particular. Analysis carried out within three overlapping spheres addressing socio- historical, epistemological and historiographical aspects allowed identifying strong eugenic element in biotypological theory as formulated in the first half of the 20 th century within the context known as “medical Holism”. This was also the background for Martiny, whose experimental work is restricted to anthropometric measurements that then were related with physiological and biomolecular phenomena exclusively by way of analogy. After World War I biotypological theory was depurated from all eugenic elements, whereas its lack of any empirical foundation was neglected and despite its contradictions, it is discussed even in our own days as if it were sound science.

Keywords: History of science; History of medicine; 20 th century; Medical Holism; Biotypology; Eugenics; Marcel Martiny

SUMÁRIO

Introdução

p.01

1.

Capítulo 1: Da complexio à biotipologia: o terreno individual em medicina

p.06

1.1 A teoria tradicional dos temperamentos

p.06

1.2 Surgimento da medicina moderna

p.10

1.3 Abordagens tipológicas e funcionamento neuropsíquico

p.12

1.4 Tipologias e eugenia

p.17

1.5 A eugenia na França

p.27

1.6 Movimentos holistas na medicina francesa

p.33

2.

Capítulo 2: Martiny: neo-hipocratismo, eugenia e biotipologia

p.38

2.1 Análise do Essai de biotypologie

p.42

2.2 Folhetos embrionários e biotipologia

p.46

2.3 Aplicações da biotipologia

p.53

2.3.1 Na patologia

p.53

2.3.2 Na psiquiatria

p.57

2.3.3 Na terapêutica e na toxicologia

p.58

2.3.4 Na pedagogia e nas profissões

p.59

2.3.5 Na educação física e nos esportes

p.61

2.4

Hereges entre os ortodoxos

p.62

3. Conclusões: Biotipologia e ciência

p.69

4. Bibliografia

p.72

ÍNDICE DE TABELAS

! ! Tabela 1: Autores de classificações biotipológicas ………………………………. p.19 ! Tabela 2:
!
!
Tabela 1: Autores de classificações biotipológicas ……………………………….
p.19
!
Tabela 2: Correlação entre biotipos e folhetos embrionários…………………….
p.48
!
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ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1: Frontispício de The Physiognomical System of Drs. Gall and Spurzheim, publicado em Londres, em 1815, por Spurzheim.

p.14

Figura 2. Exemplo de instrumento (crâniometro) usado por Paul Broca em seus estudos de craniologia.

p.15

Figura 3. Frontispício de Criminal Man (1887) de Lombroso.

p.16

Figura 4. Os biótipos humanos de acordo com Sheldon.

p.20

Figura 5. Pende em uniforme fascista ao lado de Mussolini.

p.25

Figura 6. Capa de La difesa della razza, publicação oficial do movimento fascista italiano.

p.25

Figura 7: Alexis Carrel e Charles Lindbergh no Rockefeller Institute, 1935.

p.33

Figura 8: Biótipos de acordo com Martiny.

p.48

!

INTRODUÇÃO

A medicina ocidental dependeu da classificação da heterogeneidade

humana em grupos, fossem eles chamados de compleições, constituições,

temperamentos, entre outros, 1 desde a Antigüidade clássica até a primeira

modernidade, quando se gestou o que se conhece como “ciência moderna”.

Com a formulação da ciência moderna, gradualmente, a base da

medicina passou a focar os fenômenos físicos e químicos que ocorrem na

matéria viva. Hoje é fato de conhecimento comum que a medicina depende do

diagnóstico de entidades nosológicas, classificadas segundo seu mecanismo

etiopatogênico

(moléstias

inflamatórias,

degenerativas,

neoplásicas,

congênitas,

etc.), 2 que

por

sua

vez,

são

dependentes

de

mecanismos

biomoleculares. Estes últimos são, precisamente, o alvo da terapêutica. 3

Assim, consequentemente, não pode surpreender o fato de que o estudo das

constituições e temperamentos individuais não forme mais parte do currículo

acadêmico das faculdades de medicina no Ocidente.

Nesse panorama, no entanto, há um fenômeno altamente dissonante:

uma análise das abordagens médicas nas primeiras décadas do século XX

mostra uma verdadeira explosão de classificações tipológicas numa variedade

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

1 Vide Capítulo 1 da presente obra.

2 2

Robbins et al., Patologia Estrutural e Funcional, 1.

Robbins et al., Patologia Estrutural e Funcional, 1.

3 Goodman, & Gilman, Pharmacological Basis of Therapeutics, 3.

!

1 !

de contextos – antropologia, criminologia, psicologia, medicina, pedagogia,

entre vários outros. 4

Retomando, com poucas palavras: se a via privilegiada na teoria e na

prática médicas levou, inexoravelmente, a partir da primeira modernidade, a

explicar os fenômenos fisiológicos, patológicos e terapêuticos nos termos de

interações moleculares, o que poderia representar esse curioso episódio

centrado, novamente, na ideia de classificar a infindável diversidade humana

em categorias com valor heurístico?

Esse foi o cerne inicial do qual partiu a presente pesquisa, aliado ao

fato de que as chamadas “medicinas alternativas” hodiernas, em algumas de

suas variantes, tendem a não dispensar o uso teórico e prático das tipologias

humanas. 5 Assim, a primeira etapa da pesquisa consistiu num mapeamento

das concepções tipológicas nas primeiras décadas do século XX. Visto que

estas abordagens mostraram-se virtualmente infindáveis, foi necessário limitá-

las com um recorte bem claro. Assim foram enfocadas as teorias que

afirmavam uma relação intrínseca entre as tipologias humanas e os folhetos

embrionários. 6

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

4 Vide Capítulo 1 desta obra. 5 Assim por exemplo, na Medicina Tradicional Chinesa/acupuntura, tem-se os tipos Yin e Yang, primordialmente, vide Yamamura, Arte de inserir. Na homeopatia, são descritos diversos sistemas de tipologia, vide por exemplo, Franco Constituição e Temperamento. Essas três abordagens médicas foram classificadas, junto à medicina convencional, pela Organização Mundial da Saúde como racionalidades médicas completas, vide Salles, “Perfil do Médico Homeopata”. 6 Vale a pena lembrar a importância da embriologia, aliada à genética, nas primeiras décadas do século XX; vide, por exemplo, Robert, Embryology, Epigenesis, and Evolution, 58.

!

2 !

Entre os estudiosos que afirmaram essa relação, inclui-se Marcel

Martiny (1897-1982), médico francês que, senão o formulador, foi um grande

difusor dessa hipótese. De fato, em diversos círculos contemporâneos é

citado

como

uma

das

grandes

autoridades

no

campo

das

tipologias

humanas. 7 Por outro lado, são virtualmente inexistentes os estudos sobre sua

obra.

A etapa seguinte da pesquisa consistiu em contextualizar de forma

histórica

e

científica

Martiny

e

sua

obra.

Como

resultado,

uma

rede

complexa de conexões surgiu, trazendo à tona elementos da eugenia, que

anteriormente não pareciam ser claramente pertinentes.

A pesquisa então, nos conduziu do ambiente médico-científico francês

das

primeiras

décadas

do

século

XX,

preocupado

com

os

possíveis

reducionismos resultantes dos avanços nas ciências da matéria, aos círculos

de eugenistas europeus, notadamente o francês Alexis Carrel (1873-1944) e

o italiano Nicola Pende (1880-1970).

Cabe lembrar que, na primeira metade do século XX, a França

atravessou um período politico turbulento, devido às duas Guerras Mundiais.

Em 1940, ocorreu a ocupação alemã de Paris, provocando uma série de

alterações no país. A França foi então dividida em duas grandes áreas, uma

dominada pelos alemães (Norte, Ocidental e Costa Atlântica) e outra pelo

governo chamado de “França de Vichy“ (Régime de Vichy), liderado por

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

7 Vide, por exemplo, Kossak-Romanach, Homeopatia em 1000 Conceitos; Franco; Turinese, Modelli psicosomatici; Sagrado, Manual de técnicas somatotipológicas.

!

3 !

Philippe Pétain, também sob influência alemã. Esse período durou até 1944,

com a Batalha da Normandia e a libertação de Paris. 8

Nesse contexto, a eugenia apareceu como uma justificativa científica

capaz de embasar as diversas questões raciais e nacionalistas discutidas nos

países europeus durante o século XX.

A cultura do modelo de higiene racial permeou a ciência, visando a

criação de uma raça humana aperfeiçoada livre de patologias indesejáveis,

principalmente mentais. E sobretudo, legitimou o extermínio de milhões de

indivíduos, sob a alegação da “pureza” das raças, de maneira extensiva nos

Estados Unidos e em toda a Europa, principalmente na Alemanha.

Os institutos de pesquisa em eugenia multiplicaram-se pela Europa a

partir do início do século XX. Os Institutos Kaiser Wilhelm, na Alemanha,

receberam

apoio

financeiro,

principalmente

do

Instituto

Rockefeller,

dos

Estados Unidos, para o desenvolvimento de pesquisas em eugenia e higiene

racial, mesmo durante o período de intensa recessão americana após 1929. 9

Obras

com

aparente

interesse

científico

continham

evidentes

mensagens eugenistas, no que dizia respeito à biometria de indivíduos

provenientes de povos considerados inferiores. Por exemplo, a biometria

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

8 Berstein, & Milza, Histoire de la France, 325. 9 Black, Guerra contra os Fracos, 456.

!

4 !

craniana de africanos foi comparada a de caucasianos, como “demonstração”

da superioridade dos indivíduos europeus. 10

Nosso segundo passo será uma análise detalhada da obra principal de

Martiny, entitulada Ensaio sobre as Biotipologias Humanas, desenvolvida no

segundo capítulo. Essa análise visa identificar a fundamentação teórica e

experimental

das

teses

do

autor,

sua

coerência

e

consistência

de

argumentação, entre outros parâmetros padrões da análise epistemológica.

A metodologia utilizada neste estudo corresponde à desenvolvida pelos

pesquisadores do Centro Simão Mathias de História da Ciência (CESIMA) que

brevemente,

constrói

o

objeto

de

estudo

na

intersecção

de

três

esferas. 11 12 Sejam elas: ciência e sociedade, ou a inserção no contexto

histórico-social;

a epistemológica, ou análise epistêmica dos documentos e

fontes; e a última, análise historiográfica, onde a redefinição e ampliação dos

objetos da história da ciência são abordados levando-se em consideração as

variadas noções de ciência que surgiram.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

10 Gould, Falsa Medida do Homem, 113. 11 ! Alfonso-Goldfarb, “Centenário Simão Mathias”, 5.!

!

5 !

CAPÍTULO 1

DA COMPLEXIO À BIOTIPOLOGIA:

O TERRENO INDIVIDUAL EM MEDICINA

1.1 A teoria tradicional dos temperamentos

Desde a antiguidade clássica até o segundo quartel do século XVIII, a

teoria e a prática medicinais no Ocidente foram norteadas pelo que se

conhece como “doutrina humoral”. O documento textual que a nós chegou e

que é considerado o mais antigo a atestar a doutrina é a obra “Da natureza do

homem”, pertencente ao Corpus Hippocraticum. 12

Um

“humor”

(no

grego,

kymos,

literalmente,

“suco”)

consistia

na

associação, em proporções diversas, dos quatro elementos descritos por

Empédocles 13 - água, terra, ar e fogo – com suas respectivas qualidades,

umidade e frieza, secura e frieza, umidade e calor, e secura e calor. Embora o

número e características dos humores fossem abordados de modos diferentes

nos diversos escritos hipocráticos, a fórmula mais conhecida é a de quatro

humores: sangue (quente e úmido), fleuma ou pituita (frio e úmido), bile

amarela (quente e seco) e bile preta ou melancolia (frio e seco). 14

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

12 ! O Corpus Hippocraticum é composto por 53 escritos de origem desconhecida que começaram a ser reunidos em Alexandria e foram editados pelo médico e helenista Émile Littré em 1839, vide Laín Entralgo, Historia de la Medicina, 60. “Da Natureza do Homem” (Peri physios anthropoy) é atribuído ao próprio Hipócrates ou ao seu genro, Pólibo. ! 13 Sobre as possíveis origens da noção de elemento e humor em Empédocles, vide Klibansky et al., Saturn and Melancoly, 5-6; Barnes, Presocratic Philosophers, 242 et seq. 14 Para a elaboração desta breve resenha sobre a tradição da medicina humoral, utilizamos Klibansky et al.; Barnes; Laín Entralgo, Historia de la Medicina, e Agustín Albarracín, “El fármaco en el mundo antiguo”.

!

6 !

Nesse contexto, concebeu-se a doença como o predomínio de alguma

das

qualidades,

desequilíbrio

na

composição

dos

elementos

ou,

mais

frequente e longamente na medicina ocidental, como a má mistura (dyskrasia)

dos humores. Para restaurar a mistura apropriada (eukrasia), visava-se o

“cozimento” e eliminação do(s) humor(es) em excesso ou alterado(s), através

de recursos terapêuticos – dieta, medicamentos, procedimentos externos –

com as qualidades opostas às da doença em questão.

Por outro lado, os humores também passaram a definir uma tipologia –

os temperamentos ou compleições - idéia que, transmitida através de Galeno

e com a construção do que se denominou Galenismo, 15 perdurou virtualmente

inalterada ao longo da Idade Média e do Renascimento. 16 O predomínio

relativo de um dos humores definia um tipo físico e psíquico – sanguíneo,

fleumático,

colérico

ou

melancólico

-

com

as

conseguintes

correlações

referidas às predisposições mórbidas e à relação com os chamados “non

naturales” – ar, alimento e bebida, movimento e repouso, sono e vigília,

secreções e excreções, e paixões da alma. 17

Vale dizer, que o que originalmente havia sido considerado como sinais

de doença passou, gradualmente, a ser enxergado como uma tipologia das

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

15 Galeno de Pérgamo (131-200/203 d. C) exerceu a medicina, de início, junto aos gladiadores no ginásio pergameno e aos 33 anos mudou-se para Roma, onde seu prestígio profissional se consagraria. Foi médico da aristocracia e de vários imperadores; vide Laín Entralgo, Historia de la Medicina, 65. Sobre a noção e a história do Galenismo, vide Temkin, Galenism: Rise and Decline; García Ballester, Galen and Galenism.

16 Para a elaboração dos humores e temperamentos por Galeno, vide “On the Humors” (Peri kymon) e “Mixtures” (Peri kraseyon).

17 Vide Jarcho, “Galen´s Six Non Naturals”.

!

7 !

disposições. 18 O

termo

latino

complexio

foi

utilizado

para

definir

o

temperamento peculiar de cada indivíduo e de cada parte dos mesmos, de

acordo com a índole de sua crase humoral e constituiu a espinha dorsal das

discussões sobre as causas, mecanismos, prognóstico e tratamento dos

pacientes referidos nos consilia medievais. 19

Fato importante nesse processo foi a introdução do Galenismo no

Ocidente latino a partir do final do século XI. Um dos primeiros textos

traduzidos por Constantino, o Africano, (ca.1020-1087) foi Isagoge Ioannitus,

uma introdução ao Ars medica (Tekhné iatriké, deformado em Tegni) de

Galeno, atribuído a Hunain ibn Ishaq (809-873) e que foi fundamental para a

medicina medieval latina.

No texto mencionado acima, a medicina foi dividida em teórica e prática

e a primeira, subdividida em “consideração dos naturais, dos não naturais e

dos contranaturais; disso dependem o conhecimento da saúde e da doença” 20 .

Os “naturais” são “aquelas coisas de acordo com a natureza” e são sete: os

quatro elementos (com suas respectivas qualidades); as qualidades (nove: as

quatro simples e as quatro duplas, e a nona “igual”, i.e. mistura equilibrada

das quatro simples); os quatro humores (com suas qualidades respectivas);

os

membros ou órgãos; as três faculdades com seus espíritos (naturais, vitais

e

animais);

e

as

operações,

também

classificadas

de

acordo

com

as

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

18 Klibansky et al., 12. Todos os negritos nesta obra são nossos, exceto quando explicitamente indicado. 19 Laín Entralgo, História Clínica, 67-71. Os consilia (singular, consilium, conselho) constituíram o gênero privilegiado, entre os séculos XIII a XVI, de relato da experiência prática dos médicos clínicos. 20 “Isagoge Ioannitus”, traduzido em Withington, Medical History, apêndice IV, 387.

!

8 !

qualidades (apetite: quente e seco; digestão: quente e úmido; retenção: frio e

seco; expulsão: frio e úmido). 21 Da combinação desses fatores dependia a

suscetibilidade tanto às doenças (“coisas contranaturais”) quanto às “coisas

não naturais”. Além do mais, as doenças das partes simples também se

subdividiam de acordo com as qualidades, em quatro simples e quatro

compostas. 22

Voltam

a

se

encontrar,

virtualmente,

os

mesmos

conceitos

na

elaboração feita por Daniel Sennert (1572-1637), considerado o último grande

representante desta tradição, 23 em suas Instituições Médicas de 1656. 24 Outro

exemplo surpreendente é a longa exposição dos temperamentos tradicionais

na secção “Semiótica” das Instituições Médicas de Hermann Boerhaave

(1668-1738), 25 o “mestre da Europa inteira” 26 , porquanto este, como resultado

da emergência da ciência moderna, já havia incorporado na parte teórica da

medicina as novas noções mecânicas. 27

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

21 Ibid, 387-8.

22 Ibid, 391.

23 Maclean, Logic, Signs and Nature, 34.

24 Daniel Sennert, The Institutions.

25 Boerhaave, Academical Lectures. Observe-se que a edição aqui utilizada data de 1751.

26 Haller, Bibliotheca Anatomica, I: 756. 27 Em uma fase posterior, reinterpretará a crase humoral – propriae commixtio ou temperamento – nos termos das partes sólidas e líquidas do organismo, que formam o fundamento de sua fisiologia. Assim, cabe destacar o esforço que Boerhaave faz para adaptar a noção de “temperamento” aos novos ventos que assopravam na medicina do Setecentos; vide “Introduction à la pratique clínique”.

!

9 !

1.2 Surgimento da medicina moderna

O Galenismo entrou num processo gradual e prolongado de queda a

partir dos séculos XVI e XVII. Entre os possíveis motivos aduzidos, incluem-se

os seguintes: 28

1) A revisão humanista e renascentista dos textos originais de Galeno

que estimulou diversos estudiosos a verificar os conceitos lá expostos,

levando a notáveis dissensões, como as célebres instâncias da anatomia de

Andreas Vesalius (1514-1564) e da fisiologia de William Harvey (1578-1657),

ruindo a autoridade absoluta e consagrada do médico romano;

2) A emergência da medicina química, com Paracelso (1493-1541), Jan

Baptist Van Helmont (1579-1644) e a chamada “escola iatroquímica”;

3) A aplicação da nova mecânica em medicina, levando à chamada

“iatromecânica”;

4) A mensuração instrumental da temperatura corporal, iniciada por

Sanctorius (1561-1636), que alterou radicalmente o estatuto ontológico das

qualidades galênicas;

5)

A

queda

paralela

da

cosmologia

aristotélica,

na

qual

se

fundamentava grande parte das doutrinas galenistas;

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

28 Esses e outros motivos são discutidos por Temkin, cap. 4; e por Waisse-Priven, Hahnemann: Médico de Seu Tempo, capítulo 1, secção “A Medicina do Século XVIII”.

!

10 !

6) A introdução de fármacos trazidos às Américas, cuja ação desafiava

frontalmente

a

interpretação

tradicional

da

terapêutica

medicamentosa

galênica.

Paralelamente, foram tomando forma as bases do que conhecemos

como “medicina moderna”. Esse foi um processo tão gradual quanto a queda

do Galenismo e extremamente complexo. No entanto, pode-se afirmar que,

dentre

as

várias

propostas

formuladas

nos

séculos

XVIII

e

XIX,

que

preencheram o vazio deixado pela derrubada do Galenismo, 29 foi privilegiada

aquela que visou analisar a complexidade humana a fim de assimilar os

mecanismos fisiológicos a processos físicos e químicos. Se a Patologia foi o

reverso da Fisiologia e a Terapêutica a restauração da Fisiologia, então o

caminho lógico foi concentrar todo esforço na compreensão do funcionamento

orgânico.

De Albrecht von Haller (1708-1777) a Matthias Schleiden (1804-1881),

Theodor Schwann (1810-1882), Justus von Liebig (1803-1873) e Carl Ludwig

(1816-1895), nos territórios germânicos, e de François Magendie (1753-1855)

a Claude Bernard (1813-1878), na França – a Fisiologia adquiriu um marcado

viés

experimental,

matemático,

físico

e

químico. 30

Nessa

visão,

a

complexidade humana foi reduzida a seus componentes materiais e, desde

então, a medicina prevalente no Ocidente baseou a procura dos meios

terapêuticos em mecanismos biomoleculares cada vez mais sofisticados.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

29 Ibid, 45. 30 Sobre esses desenvolvimentos, vide Hall, Ideas on Life and Matter; Rothschuh, History of Physiology; e os estudos mais focalizados de Russo, “Irritabilidade e Sensibilidade”; Padula, “Claude Bernard”, e Waisse-Priven, d & D: duplo Dilema.

!

11 !

Nesse ínterim, a clínica médica não mudou seu modus operandi básico,

a saber, identificar através dos sinais e sintomas manifestos pelo doente a

possível alteração interna. No entanto, foram desenvolvidos novos e mais

efetivos

procedimentos

semiológicos,

como

a

percussão,

por

Leopold

Auenbrugger (1722-1809), membro da chamada “Primeira Escola de Viena”, e

a auscultação instrumental, por René Laennec (1781-1826), o célebre clínico

francês. 31 Concomitantemente, o desenvolvimento vertiginoso da pesquisa

anátomo- e fisiopatológica foi permitindo realizar correlações cada vez mais

consistentes entre os achados semiológicos e seus possíveis mecanismos

orgânicos subjacentes. 32

A medicina moderna passou a se basear na procura dos mecanismos

biomoleculares envolvidos na produção de doenças a fim de neutralizá-los

também no nível biomolecular. Nesse nível de abstração já não há lugar para

“idiossincrasias” – ora individuais, ora tipológicas. Essas ficaram como o nicho

próprio das abordagens médicas marginalizadas como “alternativas”.

1.3 Abordagens tipológicas e funcionamento neuropsíquico

Apesar das tendências que prevaleceram, no sentido de se considerar

a doença em termos físicos e químicos, os esforços por definir as populações

humanas através de critérios tipológicos não desapareceram completamente,

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

31 Laín Entralgo, Historia de la Medicina, 344. 32 Este tipo de desenvolvimentos é o que fez Michel Foucault concluir que foi então que “nasceu a clínica”, vide Nascimento da Clínica.

!

12 !

mas, ao contrário, tirou-se proveito dos métodos estatísticos que estavam

sendo

desenvolvidos. 33

Em

particular,

o

foco

dirigiu-se

a

aspectos

neurológicos, psicológicos e psiquiátricos. 34

Assim devem ser mencionados, em primeiro lugar, os trabalhos do

médico germânico Franz Joseph Gall (1758-1828), que procurou relacionar

medidas do crânio com aspectos intelectuais e caracterológicos dos indivíduos

– Frenologia (Figura 1). 35

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

33 Vide Murphy, “Medical Knowledge”. 34 Uma variante da recusa a reduzir o funcionamento neuropsíquico a processos orgânicos físicos e químicos na virada do século XIX foi abordada, no contexto alemão, por Harrington em Reenchanted Science. 35 Young, “Franz Joseph Gall”, 250.

!

13 !

Figura 1. Frontispício de The Physiognomical System of Drs. Gall and Spurzheim, publicado em Londres, em 1815, por Spurzheim. 36

publicado em Londres, em 1815, por Spurzheim. 3 6 Da mesma maneira, Paul Broca (1824-1880) procurou

Da mesma maneira, Paul Broca (1824-1880) procurou relacionar a

inteligência e a suposta superioridade de algumas raças sobre outras, através

do peso e do volume do cérebro. Para tanto, realizou mensurações do crânio

e pesagens de cérebros. Esse estudo ficou conhecido como “Craniologia”

(Figura 2). Chegou também a desenvolver 27 instrumentos, com a finalidade

!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

van

Wyhe,

36 John

http://www.historyofphrenology.org.uk/images.html Acesso em 02/06/11.

The

History

of

Phrenology

on

the

Web,

14 !

de obter maior precisão nas medidas, ajudando, inclusive, a padronizar

muitos métodos para este tipo de estudo. 37

Figura 2. Exemplo de instrumento (craniómetro) usado por Paul Broca em seus estudos de craniologia. 38

usado por Paul Broca em seus estudos de craniologia. 3 8 A este contexto associam-se os

A este contexto associam-se os trabalhos da chamada antropologia

criminal

de

Cesare

Lombroso

(1835-1909).

O

autor

postulou

que

os

criminosos teriam características físicas semelhantes àquelas do “homem

primitivo” – posto que os atos criminais estariam relacionados a um estado

selvagem, primitivo de existência. Assim, haveria sinais físicos indicativos de

atavismo

(reaparecimento

de

caracteres

presentes

em

antepassados),

chamados de “estigmas de criminalidade”, como ilustrado na Figura 3. Esses

incluíam, entre outros, assimetrias no crânio e na face, a presença de volume

!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

37 Clarke, “Paul Broca”, 478. Alex

38

http://antiquescientifica.com/craniometer_Paul_Broca_Matthieu_illustration.jpg

18/07/11.

Peck:

Antique

Scientifica

Acesso

15 !

craniano reduzido e canhotismo que denotariam comportamentos como

impulsividade, vaidade, preguiça, covardia e crueldade. 39

Figura 3. Frontispício de Criminal Man (1887) de Lombroso. 40

3. Frontispício de Criminal Man (1887) de Lombroso. 4 0 Com l eituras de cunho psicológico

Com leituras de cunho psicológico e psiquiátrico foram desenvolvidas

tipologias por Carl G. Jung (1875-1961) e Ernst Kretschmer (1888-1964).

Jung publicou o seu Psychologische Typen (Tipos Psicológicos) em 1921,

onde classificou os indivíduos de acordo com os tipos primários de funções

psicológicas perceptivas (sensação e intuição) e judicativas (raciocínio e

sentimento), que por sua vez eram modificadas por dois tipos atitudinais

principais, extroversão e introversão. Jung postulou que a função dominante

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

39 Gibson, Born to Crime, 641. 40 Roy Rozenzweig Center for History and New Media, http://chnm.gmu.edu/courses/magic/police/policework.html Acesso em 03/06/11.

!

16 !

caracterizava a consciência, enquanto que seu oposto era recalcado e

caracterizava o inconsciente, resultando em oito tipos psicológicos. 41

Kretschmer, por sua vez, abordou as possíveis correlações estatísticas

entre caracteres físicos e distúrbios físicos. 42 Assim, classificou os tipos

constitucionais mais frequentemente observados em: leptossômico (magro e

fraco), pícnico (robusto) e atlético (musculoso), cada um dos quais se

associando

com

determinados

tipos

psicológicos,

respectivamente,

o

esquizotímico, o ciclotímico e o viscoso ou o enequético, que, nas formas

extremas, evoluiriam para uma patologia psiquiátrica. 43

1.4 Tipologias e eugenia

As considerações tecidas na secção anterior indicam um forte viés

eugênico na classificação moderna dos seres humanos em tipos. O termo

eugenia foi cunhado, em 1883, por Francis Galton (1822-1911) para nomear à

ciência que lidava com todas as influências que otimizavam as qualidades

inatas da raça e também com as que as desenvolvem para a máxima

vantagem.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

41 A este respeito, vide Sharp, Personality Types.

42 Em relação com o que é discutido mais adiante neste capítulo, vale a pena observar que Kretschmer assinou o juramento dos professores universitários de fidelidade a Hitler e não combateu a política eugênica nazista. Vide Klee, Personenlexikon zum Dritten Reich, 339.

43 Jaspers, Psicopatologia Geral, 324.

!

17 !

A preocupação fundamental de Galton era com a possibilidade de que

os

fenômenos

associados

à

civilização

humana

viessem

alterar

os

mecanismos utilizados pela seleção natural de modo a permitir a reprodução

e a perpetuação de taras hereditárias que, assim, levariam à degeneração da

espécie. Ao contrário, a eugenia - que literalmente significa “bem nascido” ou

“nobre na hereditariedade” – permitiria dar "às raças mais adequadas ou

estirpes de sangue, uma melhor chance de prevalecer rapidamente sobre as

menos adequadas". 44 Vivendo numa época na qual a genética era, grosso

modo, usada para o aprimoramento de plantas e animais, Galton perguntou-

se se não seria possível o mesmo tipo de manipulação na raça humana: “Não

poderiam

os

indesejáveis

serem

deixados

de

lado

e

os

desejáveis

multiplicados?”, tomando o ser humano as rédeas de sua própria evolução. 45

Karl Pearson (1857-1936), discípulo e sucessor de Galton, deu um viés

particular, matemático e estatístico, à eugenia, intimamente relacionado com

o surgimento das biotipologias nas primeiras décadas do século XX, a saber,

a biometria. Em 1901, juntamente com Walter F. R. Weldon (1860-1906) e

Galton fundaram a revista Biometrika, 46 um periódico que almejava estudar

as bases da estatística. Esse trio também fundou também o laboratório de

biometria do University College of London, dedicado às relações entre

variação e hereditariedade. 47

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

44 Kevles, In the Name of Eugenics, 4.

45 Ibid, 5.

46 Em 1925, Pearson fundou a revista Annals of Eugenics, hoje Annals of Human Genetics.

47 Castañeda, “Testando uma Teoria”, 204-7.

!

18 !

A

relação

entre

biometria

e

biotipologia

foi

imediata

e,

sendo

incontáveis os aspectos manifestos dos seres humanos, foram igualmente

inúmeras as classificações biotipológicas propostas. Martiny ressaltou as

desenvolvidas pelos seguintes autores (Tabela 1):

Tabela 1. Autores de classificações biotipológicas 48

Rostan – Sigaud – Chaillon – Mac Auliffe – Lambert – Thooris – Manonvrier – Allendy – Viard – Bourdel – Gorman – Lavater –Stahl – R. Baron – Houssay – Girard – Bessonnet-Favre – Brétéché - Laignel- Lavastine – di Giovanni – Viola – Pende - Kretschmer – Beneke – Kraus – Bauer – Tandler – Martius – Martin – Rauthman – Grote – Roessic – Jaensch – Stiller – Brandt – Borkardt – Brungsch – Naegeli – Boven – Jung – Marañón – d’Obermer – Cawadias – Marinesco – Bottu – Bounak – Charcow – Krylov – Saltikow – Nicolaiev – Ignalov – Nedrigaylov – Techistiakov – Nikolski – Brentmann – Tchoutchouklao – Tschernorutsky – Vienius – Makabov – Watagino – Tchelzowa – Stafko – Koldmaia – Mills – Bean – Bryant – Draper – Pearl – Stokhardt – Sheldon – de Rocha Vaz – Berardinelli – Rossi – Boccia

A relação entre biometria, biotipologia e eugenia é claramente ilustrada

pelo exemplo de William Herbert Sheldon (1898-1977), que realizou estudos

estatísticos formais sobre tipos humanos nos calouros das universidades de

elite da Ivy League dos Estados Unidos, entre as décadas de 1940 e 1960. 49

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

48 Martiny, Essai de biotypologie, 24.

49 Vertinsky, “Physique as Destiny”, 294.

!

19 !

Os tipos físicos – baseados em medidas dos diâmetros e proporções

corporais e nas variações anatômicas da estrutura torácica e da coluna

vertebral – e temperamentais foram associados aos folhetos embrionários

(endoderme, mesoderme e ectoderme) e classificados em: 1) endomórficos,

brevilíneos, complacentes e psiquicamente tolerantes; 2) mesomórficos, de

constituição média, musculosos, e caracterizados pelo espírito de liderança; e

3) ectomórficos, longilíneos, com tendência à introspecção. Sua obra mais

famosa, Atlas of Man, publicada em 1954, apresenta centenas de fotografias

desses biótipos (Figura 4).

Figura 4. Os biótipos humanos de acordo com Sheldon. 50

Endomórfico

Mesomórfico

Ectomórfico

Brevilíneo

Mediano

Longilíneo

Abdome

Musculoso

Membros longos

proeminente

Espírito de liderança

Introspecção

Complacência

Lidera grupos

Isola-se em grupos

psíquica

Mistura-se em

grupos

de liderança Introspecção Complacência Lidera grupos Isola-se em grupos psíquica Mistura-se em grupos
de liderança Introspecção Complacência Lidera grupos Isola-se em grupos psíquica Mistura-se em grupos
de liderança Introspecção Complacência Lidera grupos Isola-se em grupos psíquica Mistura-se em grupos

A polêmica quanto à definição de um objetivo educativo para os

trabalhos de Sheldon para o conhecimento da somatotípia ou se, ao contrário,

seriam puramente racistas persiste até a atualidade. A controvérsia parece

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

50 Sheldon, Atlas of Man.

!

20 !

ainda mais conflituosa, visto que, os arquivos que foram descobertos na

década de 1970 contendo milhares de fotografias foram lacrados pelo

governo dos EUA. Outras tantas foram queimadas pelas universidades

envolvidas e a parte restante foi transferida ao Smithsonian Institute e

destruída entre 1995 e 2001.

Devido a sua imensa influência sobre os trabalhos de Martiny e por ter

sido o criador do termo “biotipologia”, devemos deter-nos, de modo mais

aprofundado nas atividade de Nicola Pende (1880-1970), membro do que se

conheceu como “escola constitucionalista italiana”, baseada em estudos

endocrinológicos.

A origem desse movimento pode ser identificada nos trabalhos de

Achille di Giovanni (1838-1916), professor na universidade de Pádua, que

abordou o problema da doença sob a ótica da teoria da evolução. Assim,

compreendia as variações individuais como o resultado de modalidades da

evolução ontogenética dos sujeitos. Enxergando na morfologia individual o

que chamava de “erros evolutivos” (por excesso ou por defeito), realizou uma

tipologia genética e clínica, baseada na noção de terreno mórbido. Essa

tipologia

é,

essencialmente,

anatômica,

baseada

na

desproporção

(por

excesso ou por defeito) das diferentes partes do corpo e, para tanto, utiliza a

antropometria. Desse modo, definiu três “combinações morfológicas”, por

comparação a uma combinação “ideal abstrata” 51 .

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

51 Sagrado, 14.

!

21 !

De acordo com Maria V. Sagrado, é esse uso da antropometria o que

distingue, fundamentalmente, a escola constitucionalista italiana da francesa 52

e claramente, também o que despertou o interesse de Martiny por essa via de

pesquisa. 53 De fato, o principal representante da primeira, Giacinto Viola

(1870-1943), discípulo de di Giovanni e ambos, mestres de Pende, aplicou a

tese dos erros e a antropometria ao estudo das constituições individuais.

Enuncia, então, que há duas modalidades básicas de variação da forma

humana, no sentido longilíneo e no sentido brevilíneo e, através de métodos

estatísticos, procura determinar o tipo médio (normolíneo). 54

O seguinte passo foi dado por Pende, que acrescentou à abordagem

morfológica de di Giovanni e Viola o estudo individual da endocrinologia, do

desenvolvimento físico e psíquico, da bioquímica humoral, da neurologia

vegetativa e da psicologia diferencial. Dá o nome de “biotipologia humana” à

ciência que se ocupa do complexo de manifestações anatômicas, humorais,

funcionais e psicológicas próprias a cada indivíduo. De acordo com Pende, o

que se trata é de conhecer “o conjunto dos caracteres particulares que

diferenciam um indivíduo de outro e o afastam do tipo humano abstrato ou

genérico e convencional do homem-espécie descrito pelos anatomistas, os

fisiologistas, os psicólogos e os estatísticos” 55 . Em 1939, escreveu:

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

52 A tradição constitucionalista francesa, seguindo Claude Sigaud (1862-1921), se baseava em critérios anátomo-orgânicos e, assim, por exemplo, classificava os biótipos em “respiratório”, “digestivo”, “muscular” e “cerebral”, Ibid, 15.

53 Martiny afirmará que di Giovanni e Viola foram os primeiros a apreciar os tipos humanos com base nas disciplinas científicas da antropometria e da estatística; vide Essai de biotypologie, 24.

54 Sagrado, 15.

55 Pende, Trattato de biotipologia, 1.

!

22 !

“Eu dei o nome de Biotipologia Humana à ciência que se

mas que se ocupa de

todo o complexo particular da manifestação vital, de ordem

anatômica, humoral, funcional, psicológica, de cuja síntese diagnóstica podemos reconhecer o tipo estrutural-dinâmico especial de cada indivíduo, que estabelece os caracteres particulares que o diferenciam de outro e o afastam do tipo

humano abstrato [

A biotipologia é, em outros termos, a ciência

ocupa não somente da biologia humana [

]

]

da arquitetura e da engenharia do corpo humano individual. O biótipo individual, sendo a resultante vital unitária de todos os fatores somático-psíquicos hereditários e ambientais, não pode ser

conhecido na sua complexidade estrutural-dinâmica e no seu valor, senão após realizada a síntese lógica de todos os seus elementos morfológicos, teciduais, humorais, funcionais e psicológicos.“ 56

O pivô desse projeto foi representado pelo sistema endócrino, em sua

inter-relação

com

os

caracteres

somáticos

e

psíquicos

presentes

no

indivíduo. 57 Vale dizer, os fatores endocrinopáticos refletem-se na constituição

morfológica e nas funções hormonais, de modo que possam ser utilizados,

principalmente para a identificação de criminosos, que na época eram

definidos como doentes, já que esta era uma das preocupações mais

importantes de Pende. 58

O marcado viés eugênico do projeto biotipológico de Pende, rebatizado

como “ortogênese”, é explícito na definição que propõe para esta “ciência”,

que “se ocupa da proteção higiênica e médica do crescimento físico e

psíquico, com o propósito de construir o homem normal, corrigido dos erros e

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

56 Turinese, Modelli psicossomatici, 114.

57 Pende, Endocrinologia, II: 1102.

58 Vide Galera, “Construindo la fisiología del delito”.

!

23 !

dos desvios aos que está exposta a fábrica humana durante seu período

formativo” 59 . É preciso notar que não só contra os criminosos apontava a mira

de Pende.

Em

14

de

julho

de

1938,

Benito

Mussolini

lançou

uma

violenta

campanha antissemita, com a publicação do Manifesto degli scienziati razzisti

(Manifesto

dos

cientistas

raciais),

redigido

pelo

próprio

Mussolini,

mas

apresentado como uma obra de um grupo dos principais cientistas italianos.

Embora sabe-se que houve tímidos protestos contra o Manifesto, estes não

se deveram tanto ao seu objetivo quanto aos argumentos pretensamente

científicos aduzidos para justificar o antissemitismo, a inferioridade dos negros

e a superioridade da raça italiana. Um exemplo típico é o caso de Pende, na

época o principal pensador italiano na “ciência das raças”. Apesar de

vinculado ao fascismo (Figura 5) e ativo colaborador da revista La difesa dela

razza (A Defesa da Raça), sua publicação oficial (Figura 6), protestou contra o

Manifesto. Contudo, não devido ao antissemitismo de Estado que propunha,

mas porque afirmava que a italiana é uma raça ária, o que era descabido: a

expressão devia ser corrigida para “raça ítalo-romana”. 60

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

59 Pende, “Ortogenesi (scienza della)”, II: 607. O projeto incluía: medicina e higiene individual, biologia da raça e eugenia, pedagogia, antropopsicologia criminal, orientação e seleção profissional e política biológica – todas elas baseadas na biotipologia. Encontraremos algumas destas aplicações também em Martiny. 60 Por esse motivo caiu em desgraça com Mussolini. Por isso, mais tarde publica um novo artigo, onde justifica o motivo pelo qual deve ser proibido o casamento de negros, judeus e árabes com membros da linhagem ítalo-romana. Reconcilia-se, assim, com Mussolini, que então o nomeia reitor da Academia della gioventù italiana del littorio (Academia da juventude italiana fascista), organização chave para o doutrinamento dos jovens. Vide Feinstein, Civilization of the Holocaust, 24-7.

!

24 !

Figura 5. Pende em uniforme fascista ao lado de Mussolini. 61

5. Pende em uniforme fascista ao lado de Mussolini. 6 1 Figura 6. Capa de La

Figura 6. Capa de La difesa della razza, publicação oficial do movimento fascista italiano. 62

, publicação oficial do movimento fascista italiano. 6 2 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ! 6

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

61 Programa La Storia Siamo Noi: Il Caso Pende, RAI Educational, www.lastoriasiamonoi.rai.it/puntata.aspx?id=285 Acesso em abril de 2011 62 http://simonamaggiorelli.wordpress.com/2010/05/30/il-velenoso-mito-della-razza Acesso em

28/07/11.

 

25 !

Pende

esquematizou

seu

método

através

de

uma

“pirâmide

biotipológica”, cuja base era representada pela dotação genética do indivíduo

e

cujas

faces

representam,

respectivamente,

os

aspectos

morfológico,

fisiológico, ético e intelectual de um indivíduo. Para cada tipo constitucional há

uma

variante

estênica

e

outra

astênica.

Numa

obra

posterior,

mais

amadurecida, escrita em conjunto com Marcel Martiny, Pende descreveu

quatro biótipos humanos fundamentais: 63

Brevilíneo-astênico:

estatura

médio-baixa,

com

tendência

a

obesidade

ginecóide, flácida pela retenção hídrica, com aspecto do corpo e da face

infantis, com uma discrepância entre membros e tronco a favor deste último.

Face pálida. Musculatura fraca. Movimentos lentos. Hiperplasia do tecido

linfático, com sistema venoso atônico e com aparecimento precoce de

varizes. Baixa pressão arterial.

Brevilíneo-estênico:

morfologia

a

primeira

vista

semelhante

à

anterior,

porém com uma menor tendência à obesidade que é, contudo, de tipo tônico

e não flácido. Musculatura robusta, com tórax largo e curto. A pressão arterial

é maior que a média. Hipercolesterolemia. Reações de defesa violentas, por

exemplo, com alergia. É um lutador, um trabalhador incansável com forte

tendência ao nomadismo psicológico.

Longilíneo-estênico: estatura maior que a média, enquanto o peso é

normalmente menor que o da média. Estrutura robusta e harmoniosa, tônica.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

63 Turinese, Modelli psicossomatici, 115.

!

26 !

Equilíbrio nas linhas da face. Há uma abundante secreção biliar, lembrando

nestes indivíduos o temperamento biliar. Reações psicológicas rápidas.

Pende falava a favor de uma tendência à esquizofrenia e Martiny, sobre uma

tendência paranoica.

Longilíneo-astênico: não são necessariamente altos, mas há predomínio dos

membros em relação ao tronco. São longilíneos de baixa estatura. Tem um

tipo gracioso, delicado com pouco desenvolvimento muscular, recordando a

fisionomia de um adolescente. Segundo Pende há predomínio da função

sentimento ou da função intuição, com inclinação à arte e à metafísica.

Pende

sugeria

também

uma

tendência

à

esquizotimia

(o

antigo

temperamento atrabiliar ou melancólico também é lembrado). 64

1.5 A eugenia na França

De acordo com William H. Schneider, pouco tem sido estudado sobre a

eugenia na França, devido à aplicação de um conceito muito estreito que, por

longo tempo, fez com que esta aparecesse como um fenômeno tipicamente

anglo-saxão, associado com a aceitação imediata da herança mendeliana ou

a fortes preconceitos de raça ou de classe. Por isso, esse autor propos uma

visão mais ampla e inclusiva, onde a eugenia é relacionada com um contexto

histórico-social fortemente impregnado pela percepção de que a sociedade

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

64 Turinese, Modelli psicossomatici, 114.

!

27 !

estava num estado de declínio e degeneração, para cuja solução foram

propostos meios científicos. 65

De

fato, havia

a preocupação

pela

saúde

e

o estado

físico da

população, associada a um aumento aparente no número de criminosos,

alcoólatras, casos de tuberculose e de doenças venéreas e à diminuição da

natalidade. 66 Assim, as tentativas de solução foram organizadas ao redor de

dois eixos, a natalidade e a higiene social, e que foram instrumentadas pelos

professores da Faculdade de Medicina de Paris, onde estudou Martiny no

período em questão.

No contexto desta pesquisa, interessa-nos em particular a abordagem

da

natalidade,

no

projeto

conhecido

como

“puericultura”,

montado

por

Adolphe

Pinard

(1844-1934),

professor

de

obstetrícia

na

Faculdade

de

Medicina de Paris. Puericultura significava para ele, “o conhecimento relativo

à reprodução, conservação e melhoramento da espécie humana” 67 . Na época

em que Martiny realizou seus estudos de graduação, a tendência eugênica

francesa tendia a ser positiva, vale dizer, enfatizava as medidas de higiene

social, especialmente focadas no alcoolismo, a tuberculose e as doenças

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

65 Schneider, “Eugenics Movement in France”, 69. 66 Um estudo conduzido por Brocca entre 1866 e 1867 evidenciou diminuição de características mensuráveis, como a estatura, na população de soldados e escolares franceses. Por outro lado, a França havia perdido sua reputação como potência militar no Continente na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1; Ibid, 70. 67 Ibid, 72. Sobre Pinard, vide também Bashford, & Levine, Oxford Handbook of the History of Eugenics, 336.

!

28 !

venéreas, ao invés das supressivas, como o controle pré-matrimonial e a

esterilização. 68

Outro foco de interesse particular são o Rockefeller Institute e seu

emissário na França, Alexis Carrel (1873-1844), Premio Nobel de Fisiologia,

porquanto tiveram grande influência na carreira de Martiny.

Alexis-Marie-Joseph-Auguste Carrel nasceu em Lyon e completou seus

estudos de medicina na Université de Lyon. Embora houvesse precocemente

manifestado uma habilidade cirúrgica, não conseguiu obter os títulos de que

necessitava a fim de prosseguir seus estudos, por falta de mentor (patron

procteteur) que o auxiliasse, nem passar nos chamados concours.

Segundo sua autobiografia, Carrel sofria de uma crise de identidade,

não exclusiva a ele, pelo fato de ter sido criado em um ambiente católico,

embora ele próprio não fosse praticante, dentro do universo acadêmico.

Associado a esses fatores, cresceu em Carrel um interesse a respeito das

curas milagrosas, o que era bastante comum no fim do século XIX na França.

Em 1901, quando foi reprovado em seu primeiro concours, escreveu um

tratado a respeito das curas da Virgem de Lourdes e, em 1902, voluntariou-se

a acompanhar um grupo de peregrinos doentes ao santuário. 69

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

68 Schneider, 76. No entanto, a eugenia negativa voltaria ao centro do palco na década de ’20, em virtude de fatores como a depressão econômica, a influência da Igreja católica e dos movimentos eugênicos nos EUA e na Alemanha nazista; Ibid, 84. 69 Os dados nesta secção foram tomados da obra God’s Eugenicist: Alexis Carrel and the Sociobiology of Decline, de Andrés H. Reggiani. Esta biografia mostra a carreira de Alexis Carrel como médico cirurgião além de seu envolvimento com movimentos políticos na França e nos EUA relacionados à eugenia.

!

29 !

Lourdes era na época, não somente o local onde aparecera a uma

jovem a imagem de Nossa Senhora (1845) a uma jovem pastora, mas

também um símbolo do conflito entre a Igreja Católica e a elite anticlerical na

França. Devido às diversas atribuições de curas no santuário, este era o único

local da Igreja Católica que possuía um centro médico de “verificações de

cura” (Bureau de constatations médicales) de reputação internacional. Isso

porque Jean-Martin Charcot (1825-1893), em seus trabalhos sobre a histeria,

havia associado os efeitos da fé com sintomas histéricos. Além disso, as

péssimas condições de higiene do santuário eram frequentemente apontadas

em detrimento das suas curas milagrosas. Porém, os serviços médicos do

santuário continuavam a atrair a atenção crescente de médicos de grande

reputação da França e regiões vizinhas.

Carrel visita Lourdes dentro deste contexto, voltando seu interesse

principal ao que era chamado de cicatrisations ultra-rapides, que o intrigavam.

Acompanhou em seu grupo de pacientes peregrinos, especialmente, o caso

de uma jovem chamada Marie Bailly, com tuberculose, cujo quadro clínico

registrou antes da visita. Após os banhos nas águas quentes, Carrel pode

constatar o “milagroso” desaparecimento total dos sintomas (fato atestado por

dois outros médicos), na mesma tarde em que chegou, configurando uma

cura súbita. Bailly mencionou a um jornal local o nome de Carrel como o da

testemunha principal da “cura milagrosa”. Embora ele negasse, por medo às

possíveis repercussões sobre sua reputação, os receios confirmaram-se e o

episódio

!

chegou

ao

conhecimento

de

seus

colegas

em

Lyon,

que

o

30 !

qualificaram

como

impostor.

Isso

marcou

o

fim

de

toda

acadêmica e empregatícia para Carrel.

possibilidade

Carrel tomou a decisão de migrar a Montréal. Ali desenvolveu uma

técnica de sutura dos vasos sanguíneos que despertou o interesse dos

médicos e acadêmicos norte-americanos, sendo convidado a lecionar na

Universidade de Illinois. Em 1905, foi convidado a desenvolver sua técnica de

“triangulação” no Johns Hopkins Hospital e, em 1906, Simon Flexner (1863-

1946) ofereceu a ele uma posição no Rockefeller Institute for Medical

Research em Nova Iorque. No Instituto, Carrel encontrou o ambiente propício

para sua pesquisa. Em 1912, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina e

Fisiologia, graças a seu trabalho em cirurgia vascular e transplante de órgãos.

Na década de 30, realizou trabalhos de pesquisa em circulação

extracorpórea, conjuntamente com Charles Lindbergh (1902-1974). Além do

interesse em técnicas cirúrgicas, Lindbergh e Carrel compartilhavam os

mesmos interesses políticos. Em 1935, Carrel lançou sua obra literária mais

famosa, L’homme, cet unconnu, cujas ideias eugenistas despertaram o

interesse de muitos cientistas e acadêmicos nos EUA, tornando seu autor

uma verdadeira celebridade literária. No entanto, o ponto de vista político de

Carrel estava em dissonância com o clima liberal prevalente entre os

cientistas dos EUA em sua época. Dizia que estes ideais democráticos eram

os responsáveis pela catástrofe contemporânea, referindo-se ao clima pré-

guerra. Conforme a Europa se aproximava da guerra, Carrel impunha sua

!

31 !

visão fascista, chegando mesmo

cet inconnu, editado em 1939.

a glorificar Hitler no prefácio de L’homme,

Em 1939, após o fechamento de seu laboratório no Rockefeller Institute,

Carrel voltou para a França, onde tronou-se assessor técnico do Secrétariat

d’état de la famille et de la santé. No entanto, desencorajado pelo clima liberal

que permeava o governo francês, voltou aos Estados Unidos para só

regressar à França em 1941, já sob o governo de Pétain, onde achou espaço

propício para que suas ideias fossem desenvolvidas.

A Fondation Française pour l’Etude des Problèmes Humains (FFEPH)

foi o centro onde Carrel pode colocar em prática seus planos para a medicina

preventiva,

através

de

conceitos

como

os

de

biotipologia,

eugenia,

puericultura e higiene industrial. Fundada em 1941, tinha como objetivo

aperfeiçoar

as

condições

fisiológicas,

mentais

e

sociais

da

população

francesa. Os trabalhos da Fundação foram publicados nos Cahiers, nos quais

Carrel e seus colaboradores descreviam as características dos estudos lá

realizados. Nesse contexto, cabe destacar o uso frequente de expressões tais

como “fator humano”, “síntese”, “pessoa real”, verdadeiras “senhas” das

ideias da época, como é discutido abaixo.

!

32 !

Figura 7: Alexis Carrel e Charles Lindbergh no Rockefeller Institute, 1935. 70

e Charles Lindbergh no Rockefeller Institu te, 1935. 7 0 No início de 1944, Carrel estava

No

início

de

1944,

Carrel

estava

afastado

da

Fondation

por

problemas pessoais com a nova diretoria. Faleceu em Paris, em novembro

deste mesmo ano, enquanto o governo liberal o denunciava por seus atos

durante o governo de Vichy.

1.6 Movimentos holistas na medicina francesa

Dizíamos acima, que algumas expressões podem ser consideradas

palavras-chave da medicina francesa nas primeiras décadas do século XX,

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

70 Foto reproduzida de Reggiani, 16.

!

33 !

que

apontam,

diretamente,

para

o

surgimento

e

a

ampla

difusão

das

biotipologias nesse período. O próprio Martiny indicou, para justificar a

“ciência da biotipologia”, a necessidade de se abordar os seres humanos de

maneira integral ou “sintética”. Vale dizer: reconhecia o valor da abordagem

analítica das ciências contemporâneas, mas afirmava enfaticamente que:

“não há doenças, mas doentes” e “o homem está feito de todas essas

unidades biológicas reunidas e também tem uma personalidade, que só pode

ser definida de acordo com o valor específico do ser como um todo” 71 .

A questão do que se conhece como “holismo médico” 72 tem sido

amplamente estudada em alguns contextos, como o alemão, onde o conflito

“máquina

versus

organismo”

foi

um

tema

explicitamente

discutido

pela

sociedade em geral e os estudiosos em particular, chegando a formar parte

do discurso oficial do nazismo. 73 No entanto, tem sido, ainda, pouco abordada

no contexto francês.

Na

França,

aponta

George

Weisz, 74 o

termo

“holismo”

não

se

popularizou até a década de 1960, e até então, eram utilizados termos afins,

como “síntese”, “humanismo médico” e “neo-hipocratismo”. É neste contexto

que se encontram circunscritas as idéias e atividades de Martiny.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

71 Martiny, Essai de biotypologie, 13-4.

72 O termo “holismo” foi cunhado pelo então presidente da África do Sul, Jan Smuts em sua obra Holism and Evolution, de 1926, na qual discorria sobre a tendência integralizadora do universo. Apesar disto, Smuts foi um grande defensor da separação das raças num movimento conhecido mundialmente chamado Apartheid. Vide Otto, & Bubandt, Experiments in Holism, 252 - 4.

73 Vide Harrintgon, Reenchanted Science; Fortes, “Homeopathy and National Socialism”.

74 Weisz, “Moment of Synthesis”, 68.

!

34 !

De acordo com Fritz Stern, no contexto do pessimismo do período de

entreguerras, cientistas tais como Carrel, my Collin (professor de histologia

e autor de Physique et metaphysique de la vie, 1925) e Louis de Broglie

(vencedor do Prêmio Nobel de Física de 1929) misturavam temas científicos

com filosofia, surgindo então, um panorama mais amplo que foi denominado

“holismo”. Segundo o próprio autor, este é um termo bastante elusivo e servia

para denominar a medicina dita “alternativa”, variando desde o estudo das

constituições,

a

biotipologia,

o

neo-hipocratismo

e

a

psicobiologia,

à

homeopatia e os tratamentos fitoterápicos.

 

O

que

unia

todas

estas

subdivisões

terapêuticas

era

o

fato

de

postularem que o ser humano não deveria ser observado em seções ou

partes,

como

era

próprio

da

medicina

convencional,

que

tendia

às

subespecializações e ao aumento crescente dos exames laboratoriais na

investigação do processo patológico. Tanto nos EUA, quanto na Europa havia

a

ideia de que a relação médico-paciente deveria ser diferente, mais próxima,

e

assim, procurou-se redesenhá-la. 75 Esta visão já havia sido desenvolvida

por Carrel durante seu período no Rockefeller Institute ao mesmo tempo em

que mantinha contato com holistas franceses de Lyon, como René Allendy

(1889-1942), Pierre Delore (1896-1960) e Paul Desfosses. 76

Weisz descreveu duas linhas de força no desenvolvimento do holismo

médico francês que nos ajudam a enquadrar o nosso objeto de estudo. Por

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

75 Reggiani, 61. 76 Paul Desfosses era médico, cirurgião e editor de La Presse Médicale; vide Freire, “Mulheres, Mães e Médicos”, 122.

!

35 !

um lado, havia a chamada linha “pragmática”, constituída por cientistas que

formavam parte do establishment médico convencional, com a diferença de

que abordavam as questões da saúde humana de uma perspectiva sistêmica

e contextualizada. Vale dizer, tratava-se de médicos e cientistas dedicados à

atividade clínica e à pesquisa que, dessa maneira, produziram um corpo

importante de evidências que embasava as abordagens não reducionistas do

ser humano. Esse viés se viu reforçado pelo fato de que alguns dos campos

privilegiados de estudo eram ramos marcadamente sistêmicos da ciência

médica, a saber, a endocrinologia, a neurofisiologia e a imunologia. Essa linha

levou à produção de um conceito chave da medicina francesa, o conceito de

terreno, intimamente vinculado às noções de constituição e de temperamento,

que se tornou o denominador comum de todos aqueles que, de alguma

maneira, se opunham ao reducionismo biomédico. 77

A outra linha era, marcadamente, ideológica e se autodelimitava

completamente da medicina dita oficial. Composta por diversos grupos

(naturopatas, vitalistas, humanistas cristãos 78 ) era amplamente dominada

pelos homeopatas. Esses grupos serviam-se das pesquisas produzidas pelos

“pragmáticos” para fundamentar suas ideias holistas a priori. Como veremos,

Martiny representou um caso exemplar desta linha de holistas.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

77 O conceito de “terreno” também ocupou um lugar proeminente na bacteriologia francesa da época. Assim, se debate a importância relativa dos microrganismos e da suscetibilidade individual e populacional ao contagio. Weisz, em 78, destaca que a noção de “terreno” foi incorporada, inclusiva, pela abordagem pasteuriana. 78 Na opinião de Weisz, 81-2, 85; embora também houvesse elementos eugênicos, com a grande exceção de Carrel, não tiveram grande representação no holismo francês. No entanto, a associação de Martiny com Pende é suficiente para lançar sombras de dúvida sobre essa afirmação.

!

36 !

A conjunção de ambas as linhas teve como um dos seus resultados

uma atividade febril para tipificar os “terrenos”, levando a uma verdadeira

explosão de propostas de classificação de constituições e temperamentos

(Tabela 1).

Nesse contexto, a figura de Hipócrates tornou-se o emblema da

medicina

holista

e

humanista

e

o

“neo-hipocratismo”

emergiu

como

movimento

oficial

em

1933. 79 Esse

movimento

estava

constituído

por

homeopatas como Allendy, Maurice Fortier-Bernoville (1896-1939) e Martiny,

que vinham procurando formular uma forma de homeopatia cientificamente

aceitável e mais próxima da medicina convencional. Por outro lado, o

manifesto

do

neo-hipocratismo

foi

inspirado

nos

trabalhos

do

britânico

Alexander P. Cawadias (n. 1884), e prescrevia: 1) a primazia da clínica sobre

o laboratório; 2) uma concepção mais dinâmica da doença, baseada na

constituição (morfologia), o temperamento (fisiologia) e o caráter (psicologia);

e 3) um tratamento que visasse ajudar o corpo em sua reação contra a

doença. 80

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

79 Nesse retorno ao passado, adquirem posição de destaque os historiadores da medicina; assim, Maxime Laignel-Lavastine e Arturo Castiglioni passam a lecionar na Academia de Medicina; Weisz, 82. 80 Weisz, 82-3.

!

37 !

CAPÍTULO 2

MARTINY: NEO-HIPOCRATISMO, EUGENIA E BIOTIPOLOGIA

Marcel Martiny nasceu em Nice em 1897 e faleceu em Paris em

1982. 81 Iniciou seus estudos médicos em Paris, onde exerceria sua profissão

no Hôpital Foch, no Institut Prophylactique e, posteriormente, assumiria o

cargo de médico chefe do Hôpital Léopold Bellan e nos ambulatórios da

Chambre de Commerce de Paris.

Durante a Primeira Guerra Mundial teve atuação junto à missão

enviada pelo Rockefeller Institute, valendo-lhe, ao final, o reconhecimento

através de uma Croix de Guerre e a promoção para oficial da Legião de

Honra.

Atuou como médico homeopata e acupunturista junto ao principal

expoente desta especialidade na França, George Soulié de Mourant (1878-

1955),

responsável

por

introduzir

a

acupuntura

na

França.

Martiny,

juntamente com sua esposa Thérèse, realizaram a atualização da obra de

Soulié de Mourant Précis d’acupunture. Devido a sua contribuição nesta área,

foi nomeado presidente de honra da Associação Científica dos médicos

acupunturistas da França.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

81 Os dados sobre a biografia de Martiny foram extraídos do artigo “Le Docteur Marcel Martiny” de Denise Ferembach.

!

38 !

Como

homeopata

teve

seu

nome

ligado

à

Liga

Homeopática

Internacional, além de sua classificação de biótipos ser até hoje citada como

referência para o estudo de constituições e temperamentos em homeopatia.

Seu trabalho junto ao movimento neo-hipocrático, no entanto, talvez

seja a área de sua maior participação. Publicou inúmeros escritos a este

respeito, incluindo um livro inteiramente dedicado a este assunto, Hippocrate

et la médecine. Em 1972 foi nomeado presidente da Sociedade Internacional

de Medicina Neo-Hipocrática.

Por ser amigo do presidente do Senegal, Léopold Sedar Senghor

(1906-2001), acabou por tornar-se Cônsul Geral deste país em Mônaco.

Obteve também o cargo de professor na Ecole d’Anthropologie, que teve

como um dos seus principais criadores Paul Broca. Atuou como conselheiro

na Associação dos Antropólogos de Língua Francesa e através do cargo de

médico-chefe

da

Câmara

de

Comércio

de

Paris,

realizou

exames

em

adolescentes que lá estudavam para embasar seus próprios estudos sobre os

tipos constitucionais.

Dentro do contexto descrito no capítulo anterior, em 1948, Marcel

Martiny publicou a obra-síntese de seus estudos em biotipologia, Essai de

biotypologie humaine, 82 baseado nos trabalhos realizados com Pende e nas

observações de outros autores que também compuseram, no mesmo período,

teorias sobre biótipos e constituições.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

82 Doravante mencionado como Essai.

!

39 !

o se pode insistir o bastante, devido às circunstâncias contextuais,

no fato de que foi Pende o grande inspirador do trabalho de Marcel Martiny.

Assim, nas primeiras linhas do capítulo primeiro do Essai, utilizou um tom

extremamente elogioso quando lhe atribuiu a criação de termo e do conceito

de “biotipologia”, a saber, a ciência que “trata das correlações entre a forma

humana, sua fisiologia e seu psiquismo e que visa estudar o homem no seu

conjunto unitário”. Martiny qualificou, do ponto de vista epistemológico, a

biotipologia

como

uma

“ciência

nova”,

baseada

exclusivamente

“na

observação experimental e na estatística”. 83

De modo consistente com o viés adotado pela linha médica neo-

hipocrática,

humanista

ou

sintética, 84 utilizou

o

recurso

histórico

na

fundamentação da legitimidade epistemológico-antropológica da biotipologia.

Desse modo, naturalmente, suas reflexões iniciam pela teoria tradicional das

complexões, baseada nos quatro elementos, procurando “sintetizá-la” pela

identificação de temas similares em outras culturas, desde a Antiguidade até

os tempos modernos. 85

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

83 Martiny, Essai, 13. 84 Deve-se enfatizar que, embora Martiny seja considerado como um dos representantes principais do chamado “neo-hipocratismo”, ao longo do Essai refere-se, indistintamente, a este, ao humanismo médico e à “síntese”. 85 Isso leva Martiny a descrever uma longa série de analogias baseadas no número 4 que inclui os órgãos privilegiados pelos embalsamadores egípcios antigos, com suas correspondências com 4 “gênios”, representados, respectivamente, como cinocéfalo, águia, cão e ser humano, as 4 figuras na visão de Ezequiel (1:4-26), os 4 pontos cardinais, os 4 rostos de Brahma nas 4 posições, os 4 Vedas, as 4 condições que subjaziam os 4 períodos da vida que organizam as leis de Manu e seus símbolos correspondentes, uma dupla estequiologia humoral chinesa, e assim por diante. Certamente, privilegia a teoria humoral greco-galênica. Vide Essai, 17-25.

!

40 !

O motivo para tanto entusiasmo foi, imediatamente, explicitado. Martiny

reconhecia o grande avanço que as ciências contemporâneas haviam feito

com base na abordagem “analítica”, que decompunha o ser humano em seus

elementos

constitutivos.

No

entanto,

questionava

a

aplicação

desses

conhecimentos pelo médico clínico, sob o célebre lema “não existem doenças,

mas somente doentes” 86 . Essa postura coincidia completamente com a

preocupação da época com os reducionismos extremos. Nesse sentido,

Martiny

advogava

explicitamente

a

favor

da

abordagem

sintética

e

é,

precisamente, a biotipologia a disciplina capaz de realizá-la: “É a esta síntese,

a ser realizada com as disciplinas científicas rigorosas, que se liga a

biotipologia” 87 .

Não obstante Martiny vai mais longe ainda e, seguindo as pegadas de

Pende,

enxergou

um

escopo

muito

mais

amplo

para

as

possíveis

contribuições

da

biotipologia,

incluindo:

a

patologia,

a

psiquiatria,

a

terapêutica,

a

orientação

e

seleção

ocupacional

e

a

educação

física.

Virtualmente, a mesma concepção que a explicitamente eugênica de Pende.

O viés eugênico, nunca admitido abertamente por Martiny, 88 também

se

evidenciou

em

alguns

aspectos

da

institucionalização

do

projeto

biotipológico. De acordo com nosso autor, em 1932 foi fundada na França a

Société de Biotypologie pelo cientista Emile Charles Achard (1860-1944) e os

psicólogos Henri Piéron e Henri Laugier. Este último - que também participou

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

86 Ibid, 14. 87 Ibid, 15. 88 No entanto, observe-se o título dado à obra que antecedeu o Essai: La biotypologie humaine et orthogénesique, publicada em 1930.

!

41 !

da fundação do Centre Nationale de la Recherche Scientifique, em 1939, foi

um dos pupilos mais célebres de Charles Richet (1850-1935), ganhador do

Prêmio Nobel de Fisiologia em 1913 pela descrição da reação anafilática e

fundador da Société Française d’Eugénique, que presidiu entre 1920 e

1926. 89 A fundação da Sociedade Francesa de Biotipologia também contou

com a participação de Edouard Toulouse, médico e jornalista ativista da

causa eugenista na França, relacionando-a aos distúrbios psiquiátricos. 90

Observa-se

ainda,

que

Martiny

definiu

suas

quatro

constituições

biotipológicas fundamentais, com base em indivíduos brancos, do sexo

masculino, entre 16 a 32 anos de idade. As razões destas limitações eram,

segundo

ele,

porque

“indivíduos

são

por

um

lado,

constitucionalmente

realizados e por outro lado ainda não são deformados pelo acúmulo de

influências exógenas” 91 .

2.1 Análise do Essai de biotypologie

Lembramos que já foi mencionado no capítulo introdutório do Essai a

conceitualização a biotipologia e traçada a sua suposta linhagem histórica. A

obra seguiu sucessivamente, com os seguintes tópicos: 1) Biometria e seus

princípios; 2) A gênese dos biótipos (biotipogênese); 3) A descrição dos

biótipos (constituições); 4) Os fatores estáticos e dinâmicos que modificam as

!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

89

http://nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1913/richet-bio.html

01/08/11.

90 Koupernik, “Eugénisme et psychiatrie”. 91 Martiny, Essai, 91.

Acesso

em

42 !

constituições

biotiopológicas;

5)

Os

biótipos

globais,

resultantes

da

constituição de base e as modificações estáticas e dinâmicas; 6) As diversas

aplicações da biotipologia.

Antes de nos aprofundarmos na discussão dos tópicos mais relevantes

do Essai, convém advertir que, desde o início, que Martiny caracterizou a

biotipologia como uma “ciência do futuro”. Ou seja, admitia não estar em

condições

de

apontar

nem

uma

única

aplicação

concreta

do

conceito

biotipológico a qualquer área específica, mas sistematicamente prometia que

tudo seria comprovado

no futuro!

Outra forte característica no texto é o uso profícuo que Martiny fez da

literatura disponível na época, como suposta fundamentação da legitimidade

científica da biotipologia. Em particular, manifestou predileção pelos temas

mais discutidos na época, como o estudo do metabolismo, a endocrinologia, a

neurologia e a bioquímica. Como exemplo, podemos citar a menção ao

“diagrama do equilíbrio neuroquímico regulador da personalidade individual”

formulado por Pende:

“Ele considera duas constelações, uma parassimpática anabólica, a outra ortossimpática catabólica. A primeira, sob o signo da acetilcolina, favorece o desenvolvimento do sistema vegetativo e reprodutivo, o anabolismo dos glucídios, lipídios, protídeos, da água, dos íons de potássio e de sódio, do fósforo, das vitaminas A, C e E, dos grupos B, D, da secreção de insulina, da cortina [cortisol], da testosterona, da progesterona, do timo, de certos hormônios da hipófise anterior e posterior. Essa constelação

!

43 !

estimula a tonicidade e a contratilidade dos músculos lisos e

estriados,

neuropsíquicos.” 92

processos

mas

torna

mais

lentos

o

coração

e

os

A descrição da “constelação” oposta é imediatamente seguida, sem

ilação aparente, por uma discussão dos “progressos da radio-espectrografia”

acerca da arquitetura das correntes que formam as proteínas, da qual,

imediatamente, deve deduzir-se seu “valor dentro da especificidade biológica

e,

consequentemente,

argumentação:

biotipológica” 93 .

Vejamos

um

exemplo

típico

de

“Se a molécula [proteica] mais ou menos anidra apresentar um estado cristalizado, quando se dissocia, tende, de acordo com Svedberg, a uma forma globular. Assim, ela se opõe à esclero- proteína absolutamente insolúvel de longas correntes polipeptídicas bem evidenciadas por Atsbury. Talvez há mais do que um parecido nesta similaridade com os extremos da longitípia e a brevitípia do biótipo e da molécula, provavelmente há é uma correspondência” 94 .

Embora esse tipo de raciocínio não fosse alheio ao desenvolvimento da

ciência, já desde a primeira modernidade era pressuposto essencial a

necessidade de se ligar o fenômeno visível ao invisível subjacente. Talvez

esse tenha sido o maior desafio a ser enfrentado, porém as pessoas

dedicadas à ciência procuraram responder a ele. 95

Enquanto a pesquisa

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

92 Martiny, Essai, 68.

93 Ibid, 69.

94 Ibid.

95 Nas próprias origens da ciência moderna, ninguém menos que Robert Boyle seria criticado por seus contemporâneos, entre outros motivos, por não ter conseguido correlacionar

!

44 !

apontava para o estudo da matéria e das partículas até se chegar ao que, já

na época de Martiny, tornaria-se propriamente a bioquímica, este se esquivou

ao esforço e ao invés de propor um programa sólido de pesquisa, limitou-se a

enunciar possíveis analogias. Assim, pode-se observar que Martiny infringiu

os próprios pressupostos da ciência enquanto ciência.

Em outro momento, quando se propôs a explicar a origem dos

organismos e das formas vivas, ainda que declarasse não querer associar a

origem das reações químicas às quais se submete o embrião, em seu

desenvolvimento, a qualquer teoria espiritualista, afirma:

“Mas se dermos ao acaso o sentido puro que lhe atribui P. Vendrier, podemos dizer que o surgimento da vida foi de improviso, como se vinda de um outro mundo. Por este último termo não se deve entender [a vida] como um componente estelar, mas do extra- cosmos. Por sorte, não à nossa ignorância ou à nossa incapacidade de prever, mas à uma violação da causalidade. Como observou Broglie, a física atômica contemporânea, abandonando a noção de Heisenberg, foi direcionando-se para essa noção específica de acaso.” 96

Essa colagem desordenada de dados obtidos da literatura científica,

utilizada para fundamentar possíveis analogias “ainda elementares, muito

incompletas” a serem confirmadas “no futuro”, constituiu o conteúdo das

quase 500 páginas da obra. Por isso, convém ter em mente, na leitura e

análise, que o objetivo explícito de Martiny foi uma síntese dos dados

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

experimentos e conclusões teóricas. Vide Alfonso-Goldfarb, Da Alquimia à Química, 194 et seq. 96 Ibid, 97.

!

45 !

díspares fornecidos pelas diversas ciências e que, a ferramenta lógica de que

se valeu fundamentalmente, se não exclusivamente, foi a analogia.

Finalmente,

também

deve

ser

ressaltado

que,

virtualmente,

todo

projeto biotipológico assumia a existência de um tipo “normal”, a respeito do

qual todos os outros representam desvios, no sentido do excesso ou do

defeito (“hiperevoluídos” ou “hipoevoluídos”). 97 Consequentemente, Martiny

não teve ressalvas, mas, ao contrário, considera como um “método de

trabalho excessivamente interessante” a técnica de superposição fotográfica

desenvolvida por Galton (e Pearson) para a determinação do tipo médio. 98 As

conotações eugênicas não poderiam ser mais claras e, assim, Martiny pode

observar, por exemplo, que “a biometria da base hereditária individual,

capítulo mal discutido nesta obra, constitui o fundamento futuro de uma

eugenia racional” 99 .

2.2 Folhetos embrionários e biotipologia

Dentre os diversos tópicos abordados por Martiny no Essai, nos

interessa discutir, aqui, em profundidade, suas ideias embriológicas e as

supostas correlações que traçou entre elas e as biotipológicas, lembrando