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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO

GRANDE DO SUL

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

Patricia Winck

AS FACES DO AMOR NA PSICANÁLISE

Ijuí – RS

2013
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Patricia Winck

AS FACES DO AMOR NA PSICANÁLISE

Monografia apresentada para obtenção


de Graduação no curso de Psicologia da
Unijuí.

Orientador: Professor doutor Gustavo Hector Brun

Ijuí

2013
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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO


GRANDE DO SUL

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO


CURSO DE PSICOLOGIA

AS FACES DO AMOR NA PSICANÁLISE

Patricia Winck

Banca Examinadora:

-------------------------------------------
Prof. Ms. Daniel Ruwer

-------------------------------------------
Prof. Dr. Gustavo Héctor Brun

Ijuí, dezembro de 2013


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Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas
centenas, amo apenas um (...). Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências
surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil,
convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo
Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente?... (BARTHES, 1981, p. 14-15).
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RESUMO

Este trabalho tem como tema principal a escolha do objeto de amor. A opção por este
tema se deu após a interrogação acerca de como ocorre essa escolha, e também de como
ela aparece e influencia na clínica psicanalítica. Porque uma pessoa escolhe
determinado indivíduo para ser seu par amoroso ao invés de outra pessoa, é a base do
questionamento que deu origem a este trabalho. Mediante a construção psicanalítica de
Freud e Lacan pretendemos responder a esta questão, utilizando para isto a leitura de
textos destes autores bem como de alguns outros que embasam esta pesquisa de cunho
bibliográfico. Poderemos observar como o conceito de libido, juntamente com o da
sexualidade, irá desempenhar papel fundamental nesta escolha, e ainda como o amor
influencia em uma análise por meio da transferência, aproximando os dois conceitos.

Palavras-chave: Objeto. Amor. Sexualidade. Transferência. Libido.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................7

CAPÍTULO 1

O AMOR DO SENSO COMUM À CONSTRUÇÃO DA SEXUALIDADE NA


PSICANÁLISE ..................................................................................................................9

CAPÍTULO 2

AMOR NA TRANSFERÊNCIA .....................................................................................16

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................................27

REFERÊNCIAS ..............................................................................................................29
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INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como tema a escolha do objeto de amor, e se caracteriza como
uma pesquisa fundamentalmente teórica acerca de como um sujeito escolhe determinada
pessoa para ter uma relação amorosa, e também de como esse conceito aparece no fazer
clínico. Foi utilizada para responder estas questões a teoria de cunho psicanalítico, para,
no decorrer do texto, desenvolver a conceituação de Freud acerca de como se dá durante
a constituição de um sujeito essa escolha. Empregando o autor Jacques Lacan,
discorremos sobre o amor na clínica psicanalítica e como ele aparece intimamente
ligado à transferência.

O termo amor circula de forma livre no senso comum. Desde o início da História
há relatos que têm este tema como referência. Todos têm alguma contribuição para fazer
quando falamos sobre ele. O conceito popular de amor, de modo geral, seria a formação
de um vínculo emocional com alguém, e é visto por muitos como um objetivo, ou como
a única forma de alcançar a felicidade. Construímos o presente trabalho para diferenciar
o amor do senso comum daquele que falamos quando usamos como base a Psicanálise.

No primeiro capítulo ocupamo-nos a responder, por meio das construções de


Freud, como no decorrer da constituição psíquica de um sujeito aparece o amor.
Iniciamos com a descoberta dele sobre a sexualidade infantil, tema que, ao ser colocado
para os demais médicos da época, acaba por causar espanto e, muitas vezes, horror,
pois, para a maioria das pessoas, as crianças seriam seres puros destituídos de
sexualidade, fato que vem a ser comprovado como um engano, uma vez que a criança,
mesmo na mais tenra idade, tem sua própria sexualidade, mas esta ainda não está ligada
à reprodução. Juntamente com a descoberta desta sexualidade vem o conceito de libido
e de pulsão sexual, que estão presentes sempre que falamos em amor; a libido sendo a
energia desta pulsão. Outro conceito sobre o qual discorremos é o do narcisismo e de
como ele influencia de forma muito importante a futura escolha do nosso objeto de
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amor. Constatamos, com essa contribuição freudiana, que as primeiras relações que
construímos em nossas vidas, ainda na época de bebês, irão afetar o modo como nos
relacionamos quando adultos.

Continuando com o tema do amor, no segundo capítulo observamos como esse


conceito apareceria no fazer clínico especificamente, e que relação tem com a
transferência. Para isso, iniciamos com o que seria transferência na teoria de Freud,
passando por todos os momentos importantes desta construção, destacando
primeiramente que transferência seria basicamente a reedição de protótipos infantis, e
acabando na formulação de que o amor e a transferência seriam, em suma, a mesma
coisa. Com isso, partimos para a contribuição lacaniana para esta questão, quando o
autor, utilizando o Banquete de Platão, faz referências que irão culminar no que seria
afinal esse fenômeno tão essencial em uma análise, e como no fim a cura pela
Psicanálise seria uma cura pelo amor. Ao falarmos na questão do amor de transferência,
é inevitável que façamos a construção do conceito de objeto a, ou, como também
podemos mencionar, o objeto agalma, e como ele se encontra na figura do analista.

O interesse em estudar sobre esse conceito surgiu no decorrer da experiência


clínica, quando percebemos como este tema está sempre rodeando as vidas dos
pacientes neuróticos; também por acreditar ser de extrema importância, para conseguir
realizar um tratamento, entendermos como se dá a transferência e qual seu grau de
influência durante o mesmo. Pretende-se, ao fim deste trabalho, poder entender o que é
o amor realmente para além do senso comum, e como podemos utilizá-lo na profissão
de psicóloga, com base teórica psicanalítica.
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CAPÍTULO 1

O AMOR DO SENSO COMUM À CONSTRUÇÃO DA SEXUALIDADE NA


PSICANÁLISE

Para falarmos de amor na Psicanálise, pensando além do fazer clínico, temos de


recorrer à teoria da libido formulada por Freud. No texto “Três Ensaios sobre a Teoria
da Sexualidade”, ele apresenta, de maneira detalhada, este conceito e como ele
influencia na escolha de um objeto de amor.

A libido está para o desejo sexual como a fome para a necessidade de alimento.
O conceito de libido é de extrema importância, pois, inclusive, está postulado como
pano de fundo de toda a neurose. Os sintomas dos quais os pacientes se queixam seriam
resultantes dessa energia. Ao investigarmos a vida de um indivíduo poderemos
facilmente perceber os aspectos polivalentes que todos carregam, por exemplo, o fato de
que de forma inconsciente temos uma pulsão de crueldade durante a infância, e esta
seria a responsável por, mais tarde, permitir a transformação do amor em ódio, pois toda
pulsão tem um par de oposto.

O conceito de pulsão por si só não tem real valor, mas o que podemos encontrar
de importante nela seria sua fonte e o seu alvo; o primeiro sendo sempre um órgão e o
alvo a supressão imediata desse estímulo (FREUD, 1996a, p. 159). A esses órgãos
excitatórios damos o nome de zonas erógenas, não sendo estes necessariamente genitais,
podendo ser qualquer parte do corpo.

Popularmente sempre acreditou-se que a sexualidade estava presente na vida das


pessoas apenas a partir da puberdade e que as crianças seriam puras. A teoria da
sexualidade, no entanto, vem para demonstrar o contrário, trazendo que ela estaria
presente desde a infância. Dessa fase quase não temos lembranças graças ao que
podemos chamar de uma amnésia infantil, que trabalha para o recalcamento dessas
memórias. Poucos lembram algo deste período, por isso essa teoria normalmente é
rechaçada pela sociedade.
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O período em que a pulsão estaria em pleno desenvolvimento se daria na idade


de quatro anos. Seria nesse momento que poderíamos observá-la. Também nessa época
as barreiras contra o caminho que a libido seguirá na vida adulta serão erguidas.

Como exemplo do que Freud chamou de “Manifestações da sexualidade


infantil” (FREUD, 1996a, p. 169), podemos citar o chuchar, momento em que a criança
faz a sucção de alguma parte do próprio corpo, como o dedo, por exemplo; um meio
pelo qual ela obtém intenso prazer. Podemos observar outro exemplo disso ao lermos o
Caso Dora, quando a paciente relata uma cena infantil na qual está chupando o dedo da
mão enquanto puxa a orelha do irmão mais velho; isso irá desempenhar papel
importante no posterior desenvolvimento de sua neurose. Nessa fase da infância a
obtenção de prazer seria autoerótica, pois ela terá prazer com o próprio corpo e não com
um objeto. É também a tentativa de reviver um prazer experimentado em um momento
anterior. O mamar no peito da mãe é a primeira forma de sentir prazer que o bebê
encontra, e isso irá demarcar o que chamamos de zona erógena oral. O ato de chuchar
comportaria características essenciais da sexualidade infantil, pois no primeiro momento
a finalidade de mamar é apenas por nutrição, depois passa a ser por prazer e a criança
procurará obtê-lo no próprio corpo – sendo, assim, autoerótica – e por fim estaria fixada
em uma zona erógena como a boca. A satisfação se dá no próprio corpo, porque ainda
não foi encontrado um objeto para se fixar.

Ainda podemos citar como zona erógena na infância a anal, quando


normalmente a criança encontra prazer em reter as próprias fezes. O fato de ser a
responsável por controlar esta ação a satisfaz. Ela considera o ato de defecar um
presente dado a quem desempenha a função de prover suas necessidades. A outra seria a
zona genital, que desempenharia importante papel na masturbação praticada pelas
crianças, como a fricção do clitóris nas meninas.

Continuando no desenvolvimento sexual infantil, há a fase pré-genital. Nela a


zona genital não assumiu ainda a sua importância. Quem desempenha o papel central é
a oralidade, na qual o objetivo é tanto a obtenção de prazer quanto a própria nutrição, e
também é uma tentativa de incorporar o objeto por meio do canibalismo. Depois
passaríamos à fase sádico-anal, em que sempre haveria um par de opostos – ativo-
passivo.
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Mesmo na infância já há uma escolha de objeto. Freud a traz como ocorrendo


em dois tempos: no primeiro entre os dois e cinco anos e é detida pelo período de
latência; a segunda seria na puberdade e culminaria na definição da vida sexual
(FREUD, 1996a, p. 188). Por período de latência podemos entender a fase que vai do
final dos 5 anos até aproximadamente os 11. Seria o momento em que se forma o
superego, e suas construções como moral, ética, etc. Aí se daria o recalcamento das
lembranças dos desejos sexuais vividos anteriormente.

Como nos interessa saber sobre a escolha do objeto de amor nos neuróticos,
passamos agora para o desenvolvimento da sexualidade na puberdade e isso como
influência na vida sexual adulta. É nessa fase que a pulsão sexual deixará de ser
autoerótica e encontrará um objeto sexual. Todas as pulsões parciais se unem a há uma
primazia da zona genital. Também haverá duas correntes que serão direcionadas para o
objeto escolhido: uma de ternura, que abrigaria em si resquícios da sexualidade infantil,
e uma que seria essencialmente sexual. Nesse período a energia sexual se coloca a
serviço da reprodução.

Ao falarmos em excitação sexual pensamos no caráter orgânico da mesma, mas,


como nos aponta Freud, ela desempenha papel importante, e por libido podemos
entender: “Libido como uma força quantitativamente variável que poderia medir os
processos e transformações ocorrentes no âmbito da excitação sexual” (FREUD, 1996a,
p. 205).

Haveria também uma que seria diferenciada, que chamamos de libido do ego.
Esta seria observável quando a mesma tivesse se convertido em libido de objeto: o
sujeito investiria nos objetos e nas representações psíquicas destes, visando à satisfação
sexual. Ao retirá-la do objeto, ela volta para o interior do ego, e passa a ser então libido do
ego. Mais adiante a veremos como o investimento narcísico que o sujeito faz.

O primeiro amor de alguém é dirigido a sua mãe, a pessoa que lhe fornece o
seio. Posteriormente a criança passa a amar também todos aqueles que, de algum modo,
satisfaçam as suas necessidades. Essa primeira relação da criança – a satisfação
encontrada nesse primeiro objeto – é o que sempre tentaremos ter de volta, por isso o
encontro do objeto seria, na verdade, sempre um reencontro (FREUD, 1996a, p. 211). A
escolha do objeto sempre se apoiará de alguma forma nas figuras paterno-materna,
mesmo quem teve um desenvolvimento normal da libido.
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Continuando na construção de como se daria a escolha do objeto de amor,


passamos agora ao texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914). Neste, Freud
(1996b) aproxima o conceito de libido ao do narcisismo, ambos sendo de extrema
importância para entendermos como se dá o amor na vida dos neuróticos.

Primeiramente podemos perceber uma distinção entre a energia do ego e a libido


objetal; elas estariam separadas. A primeira seria a energia investida no próprio eu, seria
a energia de interesse; e a segunda se colocaria nos objetos externos, chamada de libido.
Na sequência, no texto supracitado, o conceito é revisto e se define libido como a
energia depositada no ego, ele próprio sendo objeto da mesma. A isso chamamos
autoerotismo. Assim haveria uma libido objetal e uma do ego. Ambas seriam libido e
apenas teriam um objeto diferente. Com isso tem-se uma teoria pulsional, na qual há
uma pulsão de vida (Eros) e uma de morte (Tanátos).

O conceito de narcisismo também contribui para explicarmos como se dá a


escolha amorosa. Neste podemos observar que a primeira escolha de objeto na criança
se daria a partir das experiências iniciais de satisfação. Essas, por sua vez são, a
princípio, autoeróticas, portanto ligadas à satisfação das pulsões do ego. Por isso a
criança irá buscar unir a sua libido sexual a pessoas que representem ou exerçam a
função de alimentação e proteção. A isso chamamos de escolha de objeto anaclítica ou
de ligação.

Haveria também um segundo tipo de escolha chamada narcísica. Nesta, devido a


uma perturbação no desenvolvimento da libido, a criança, ao invés de investi-la em um
objeto externo, como a mãe, por exemplo, investe no próprio ego, e assim passa a
buscar a si mesmo como objeto de amor.

Todos estão abertos a eleger qualquer um dos tipos de escolha de objeto de


amor, pois temos, a princípio, dois objetos sexuais: o próprio eu e a mulher que nos
alimenta. Assim, falamos de narcisismo primário, que seria propriamente o
autoerotismo, pois nesse momento as escolhas dos primeiros objetos de interesse estão
sendo comandados pela libido, existindo apenas os agradáveis e os desagradáveis.

Esses dois tipos de escolha de objeto de amor (anaclítica e narcísica) se dariam


de acordo com o sexo masculino ou feminino. O primeiro seria mais característico do
masculino, pois há uma supervalorização sexual que vem do narcisismo original –
falamos de masculino porque há um maior investimento libidinal no objeto de amor.
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Devemos salientar que Freud coloca o masculino no lugar de atividade, por isto está do
lado da escolha anaclítica. Já o feminino estaria em uma escolha mais narcisista. Essas
mulheres querem ser amadas e não amar; elas estão no lugar de passividade na medida
em que o modelo aqui é a imagem de si mesma; encontramos aí a fantasia de que basta
a si mesma. Haveria duas formas de elas alcançarem o desenvolvimento narcísico
secundário: primeiro tendo um filho ou, segundo, que seria antes da puberdade, quando
se desenvolvem tendências mais masculinas e que, após alcançarem a maturidade
feminina, mantêm um ideal masculino.

Conclui-se então que os caminhos possíveis de escolha de objeto no tipo


narcisista seriam: amo a mim mesma; amo o que fui; o que gostaria de ser; ou ainda
alguém que uma vez foi parte dela mesma. Já no anaclítico: amo a mulher que me
alimenta e o homem que me protege.

Ao pensarmos em amor e libido devemos ter bem colocado o que é o sexual na


teoria psicanalítica. No livro “Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise III”
(1996i) está localizado o texto “A vida Sexual dos Humanos”, no qual Freud faz uma
distinção sobre o sexual do senso comum, e fala sobre as perversões da sexualidade e
sobre a sexualidade na infância.

Neste texto faz alusões às várias escolhas de objeto sexual que uma pessoa pode
fazer que, muitas vezes, podem ser vistas como pervertidas pelos olhos da sociedade. O
primeiro grupo são os que renunciaram a uma escolha de união de dois genitais,
trocando, por exemplo, a vagina pela boca. Também os que mantêm o objeto, mas
modificam a função, como o ânus e sua função excretória. Ainda aqueles no qual o
corpo não desempenha função alguma; para estes a satisfação está em outro lugar para
além, como uma roupa, um sapato; estes são os fetichistas. Há os sádicos que se
satisfazem infligindo dor no outro, e os masoquistas que preferem sentir essa dor. Para a
maioria, todas essas escolhas seriam consideradas depravações, desvios de conduta, que
diferem de uma vida sexual normal.

Ainda conforme o texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, voltamos a


falar sobre a sexualidade infantil. Presente nas crianças desde a tenra idade acompanha
o adulto neurótico por toda a vida, e podemos perceber sua presença quando em análise.
Essa sexualidade nada tem a ver com a função reprodutora, a qual só irá despontar na
puberdade. Junto a isso está a libido, que seria a força da pulsão sexual, pela qual a
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pulsão se manifesta (FREUD, 1996a). A primeira satisfação se dá logo após a primeira


ingestão de alimentos, no seio da mãe. No começo a criança chora pedindo o alimento e
após experimentar essa satisfação não será mais apenas uma questão de fome, ela irá
querer repeti-la. Depois a criança começa a descobrir outras formas de satisfação, ditas
autoeróticas, como a retenção das fezes. Para ela as mesmas têm um enorme valor, mas
com o tempo passa a ser obrigada a renunciar a esses prazeres, passa a ter sua vida
ordena por imperativos sociais; ela busca a obtenção de prazer tanto pelo próprio corpo
quanto por objetos externos.

Neste período elas passam a fazer suas próprias investigações acerca do sexual.
No primeiro momento não há uma diferenciação sexual, até que o menino se depara
com a vagina da menina e percebe que ela não tem um pênis. Ele, como defesa, nega
essa falta, depois passa a temer por seu próprio órgão, caindo assim no complexo de
castração. A menina, por sua vez, ao perceber a diferença, começa a invejar os meninos
por o terem e deseja o ter para si.

As crianças também questionam de onde vêm os bebês, passando por várias


teorias, algumas apresentadas pelos adultos, como a cegonha, ou por criações próprias,
como a ideia de que se comeria um alimento especial que os colocaria dentro da barriga.

A sexualidade na Psicanálise nada tem a ver com a questão da reprodução, não


se resume a isso e está para além desta. É, na verdade, um motor na infância, e está
presente em toda a vida adulta. Também não está relacionada com os órgãos genitais
apenas, e mesmo as ditas perversões, que nos parecem muito distantes, normalmente
são possíveis de serem encontradas na sexualidade normal.

Como já dito anteriormente, o amor na Psicanálise se trata de pulsão sexual, na


qual a energia que a movimenta é conhecida por libido. Eros de Platão é uma boa
aproximação para entender o que seria esse amor. Freud afirma que “Em sua origem,
função e relação com o amor sexual, o Eros do filósofo Platão coincide exatamente com
a força amorosa, a libido da Psicanálise” (1996c, p. 115).

Podemos também observar a forma como um indivíduo se relaciona com outro,


no texto de Freud “Psicologia das Massas e Análise do Ego” (1996c). Neste podemos
ver a pulsão como um duplo, pois nossas relações comportam também sentimentos de
hostilidade. O que mantém estes sentimentos recalcados e permite que nos relacionemos
é esse laço libidinal. Por ele apagamos um pouco do próprio narcisismo, dando uma
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prevalência a este outro que se torna objeto de amor. Freud (1996c, p. 113) afirma que
“O amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros, o amor por
objetos”. Apenas por intermédio do amor, desse laço libidinal, podemos nos relacionar
de forma mais duradoura com os outros.

Outra forma de nos ligarmos aos objetos de amor seria pela identificação. Esta,
por sua vez, aparece associada diretamente com o Complexo de Édipo, pois o menino
investe na mãe como objeto sexual e se identifica com o pai – ele que ser o pai. Com o
advento deste complexo, o menino passa a ver o pai como um empecilho para
conquistar a mãe. O pai passa a ser um adversário na busca deste amor tão precioso.
Pode ocorrer também uma inversão, quando o menino passa a buscar o pai como objeto
sexual – neste caso o menino quer ter o pai.

A identificação seria a primeira forma de construir um laço. Ela seria uma


tentativa de moldar o ego de acordo com aquele com o qual nos identificamos. É uma
forma mais primitiva de se ligar a um objeto, uma regressão da mesma, pois se
introjetaria o objeto ao ego.

Outra característica importante quando amamos alguém é a idealização projetada


no objeto. Ele é tratado da mesma forma que trataríamos nosso próprio ego. Colocamos
nele nossa libido narcisista. Também amamos porque o objeto comportaria as perfeições
que almejaríamos para o nosso próprio eu. Nesses casos a satisfação sexual seria
relegada a segundo plano. O objeto acaba sendo posto no lugar do ideal do ego
(FREUD, 1996c, p. 123). A diferença entre uma identificação com o objeto de amor e a
idealização seria que na primeira haveria um enriquecimento do ego, já na segunda ele
estaria empobrecido.
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CAPÍTULO 2

AMOR NA TRANSFERÊNCIA

Com a concepção da sexualidade, na perspectiva central de como o erótico está


presente contribuindo para que um tratamento seja eficaz, é necessário que durante os
atendimentos possamos permitir um espaço para que um vínculo diferente surja. A este
podemos dar o nome de transferência. Quem nos traz em primeiro lugar este termo é
Freud. Para ele, este conceito é indispensável para pensarmos uma análise, pois sem ela
não há relação que se mantenha com o paciente. Por Transferência podemos entender o
fenômeno, ou essa relação especial que se cria entre o paciente e o analista. Ela surge
essencialmente na relação analítica, e é a via pela qual se pode dar a cura, e, como
veremos posteriormente, emerge como a resistência mais poderosa. Saber manejar esse
conceito durante a prática é essencial para lograr êxito em uma análise. Podemos ver
neste capítulo a construção freudiana deste tema e, respectivamente, a aproximação que
Freud passa a fazer acerca de amor de transferência. Posteriormente traremos a
contribuição de Lacan sobre esta temática.

No caso Dora, Freud (1996a) faz algumas considerações sobre o conceito. Neste
texto vemos a transferência como uma forma na qual revivemos experiências psíquicas,
que seriam reeditadas na figura do analista. Nesse caso, Freud nos apresenta um “erro”
em seu manejo da transferência. Ele não teria percebido que Dora estava colocando-o
no lugar do pai e depois no lugar do sr. K, e que, por não ter reconhecido essas
substituições, ele não consegue sustentá-la e Dora abandona o tratamento. Nesta época
ele ainda não havia diferenciado objeto de amor de Identificação, por isso não percebe
que na verdade Dora não amava o sr. K, mas se identificava com ele.

Até esse momento não havia se dado conta do papel importante que o próprio
analista desempenha durante a análise. Ao recusar o lugar no qual Dora tentava colocá-
lo, acaba por criar na paciente uma transferência negativa. Com isso ele conceitua o
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termo contratransferência, que nada mais é que a reação do próprio analista à


transferência, quando ele projeta seus ideais à frente das construções do próprio
paciente e tenta moldá-lo de acordo com aquilo que julga convir melhor na vida do
analisando. O analista deixa que seu inconsciente apareça na relação transferencial.

Assim, podemos observar a dificuldade de Freud no manejo da transferência,


pois ele não estava realmente ouvindo Dora, então não consegue escutar que na verdade
Dora não amava o sr. K, mas se identificava com ele e amava a sra. K na medida em
que ela possuía a verdade sobre ser mulher. Neste momento ele deixa que seus
preconceitos quanto a uma possível homossexualidade de Dora encubra sua escuta. Ele
sobrepôs o seu desejo sobre o desejo do analista, por isso a transferência não se sustenta
neste tratamento.

Outra questão importante é que até o tratamento desta paciente Freud acreditava
que o analista não tinha uma participação importante na transferência. Ele a via como
um trabalho que se daria da parte do paciente. Ao terminar a análise de sua paciente ele
reformula a questão e recoloca o papel do analista nessa dinâmica.

Ao revermos esse caso, assim como Lacan o fez, percebemos uma série de
“inversões dialéticas” (LACAN, 1998). A primeira se dá quando Freud questiona a
própria paciente sobre qual seria a sua contribuição na história da qual se queixava.
Com esse questionamento fica clara a participação ativa da mesma em toda a cena que
relata na sessão.

A segunda inversão ocorre quando se observa que o objeto de ciúme não seria
realmente o pai, mas isto só estaria encobrindo a verdade. Também pergunta como Dora
venera a sra. K mesmo após ela a ter traído, ao testemunhar contra a mesma revelando
as suas confissões. Com isso passamos a terceira inversão, que é quando aparece o real
valor da sra. K como objeto – neste sentido de objeto – porque o mistério da
feminilidade estaria na sra. K.

Lacan chama a atenção para uma cena infantil que irá desempenhar papel
importante na formação dos seus sintomas futuros. Nela, Dora estaria chupando o
polegar da mão esquerda enquanto com a direita puxava a orelha do irmão mais velho
de um ano e meio. Ela se identificava com os homens; primeiro o sr. K e depois o
próprio Freud, mas este acreditava que as reivindicações que ela fazia ao pai eram na
verdade um esboço da relação com o sr. K, mas ele não percebe que ela não se permite
estar na posição de objeto de desejo do homem. Nesse momento reside o que podemos
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identificar como o problema que não permitiu a continuação do tratamento. Freud


acreditava que deveria ter forçado mais para chegar ao reconhecimento do que significa
realmente a sr. K. Ele também não reconhecia as tendências homossexuais com a devida
importância que desempenham na vida de uma histérica, por isso insiste no amor dela
pelo sr. K, quase arrancando a confissão desse amor.

Com essa paciente podemos ver a transferência como uma repetição dos modos
como ela constituiu seus objetos, por isso a importância de manter-se neutro durante o
processo e deixar espaços para que advenham as construções dos pacientes sem que
façamos sugestões. Podemos ver claramente o importante papel que o analista exerce
como suporte das rememorações do paciente.

Outro texto importante no qual Freud trata novamente sobre este conceito, é
intitulado “Dinâmica da Transferência”. Nele podem-se marcar alguns aspectos
importantes, como a resistência, a transferência positiva e negativa e imagos parentais.

Todo sujeito utiliza uma parte de sua libido para realizar atividades da vida,
como estudar, trabalhar, relacionar-se. Parte desta libido, no entanto, fica retida,
inconsciente. Se essa libido presente na realidade não é satisfeita, o indivíduo vai se
aproximar de cada nova pessoa com ideias libidinais antecipadas. Essa energia que está
colocada por antecipação se liga a alguma imago já formada na vida inconsciente do
paciente. Esta imago, que pode ser paterna, materna ou fraterna, irá se acoplar à figura
do analista, ou seja, o paciente repetiria durante a transferência as relações que teve com
a imagem de uma das figuras, como o pai ou a mãe.

Dito isto, passamos a expor como se dá a resistência que surge no decorrer do


tratamento; inclusive a transferência pode ser vista como a maior das resistências. Se em
algum momento durante a fala do paciente este para de fazer associações, seria porque
este pensamento estaria relacionado com o analista.

Outro ponto que poderia vir a explicar o porquê do surgimento da resistência


seria que em algum momento a parte da libido que se tornaria consciente acaba sendo
retida. Ela iria para longe da realidade e se tornaria inconsciente. Nesse instante, essa
libido retida revive as imagos infantis. Freud, empregando o termo emprestado de Jung,
chama isso de “Introversão”. Durante a transferência tentaríamos tornar essa libido
retida, consciente e útil para a vida do paciente, e quando tentaríamos trazê-la à
consciência as forças da resistência se ergueriam para manter tudo como está.
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Algo deste material retido é o que apareceria na Transferência. Para dar conta de
explicar o porquê de ela surgir diretamente ligada à resistência, temos de distinguir a
Positiva da Negativa. Na positiva teríamos dois tipos de sentimentos: de um lado os
afetuosos e do outro o erótico. Sabemos que todo laço social primeiramente é sexual.
Fazemos amizades e nos relacionamos sempre com intuito sexual. Frustrando parte
dessa libido podemos conviver em sociedade. O motor para a transferência seria esses
desejos eróticos originários, esse impulso sexual. Ela só será proveitosa em um
tratamento se dirigirmos ao analista todo esse erotismo reprimido. Devemos ter em
mente, no entanto, que durante um tratamento o paciente pode alternar entre positiva e
negativa. Também encontramos forças que tentam impedir que tornemos conscientes
fatos inconscientes, e é somente sob o domínio da transferência que isso se torna
possível.

Outro texto que podemos estudar para contribuir na construção do conceito é o


“Recordar, Repetir e Elaborar”, também de Freud (1996d). Por Recordar entendemos o
momento que o paciente não recorda algo que esqueceu e que foi reprimido, mas atua;
não é uma lembrança, mas uma ação. Quanto ao Repetir, o paciente não percebe o que
está repetindo; ele apenas repete a ação e pode utilizar a figura do analista, repetindo-a
com ele. É com esse aspecto que a transferência seria, por ela mesma, uma repetição.

...O paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu ou reprimiu, mas
expressa-o pela atuação ou atua-o... Ele o reproduz não como lembrança,
mas como ação, repete-o, sem naturalmente saber o que está repetindo
(FREUD, 1914, p. 196).

A repetição também está ligada à resistência, pois, quanto mais repetimos


durante um tratamento, maior é a resistência, e ela vem no lugar de recordar
efetivamente. Enquanto atuamos não percebemos o que estamos fazendo e assim não
ressignificamos. É uma defesa que o sujeito encontra para não lembrar efetivamente, e é
somente por meio da transferência que se abre a possibilidade de esta tendência à
repetição se tornar um recordar.

Devemos ter em mente que o paciente não irá repetir apenas aquilo que lhe foi
prazeroso. Ele pode trazer questões que lhe foram realmente ruins e desprazerosas.
Essas repetições seriam pulsões que teriam como curso a sua satisfação, mas que
acabam sendo interrompidas e trazem desprazer.
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Por fim, Elaborar devemos entender como a necessidade de mostrar para o


paciente as suas resistências, dar um nome a elas, para que ele mesmo as reconheça,
mas isso não ocorre de imediato. Mesmo depois de lhe falar sobre o paciente poderá
continuar a apresentá-las. É preciso que no decorrer do trabalho possa se descobrir as
pulsões que alimentam estas resistências. É o paciente quem durante a sua análise
pessoal irá reelaborar suas questões e reconhecer suas resistências.

Posteriormente, em seu texto “Observações sobre o amor de transferência”,


Freud discorre sobre como o amor pode surgir em um tratamento. Primeiramente
precisamos distinguir o amor do senso comum, do conceito na Psicanálise. No segundo
caso ele pode ser entendido como uma energia pulsional que podemos chamar de libido.
Esse amor, que nada mais é que uma energia sexual, nos impulsiona. Em casos como
uma relação amorosa ela pode ser descarregada, já em outras situações, como, por
exemplo, a amizade, ela tem uma parte desviada dessa satisfação, mas o que podemos
observar é que no final toda relação é fundamentalmente erótica. Podemos aproximar
esse amor libidinal com a figura de Eros de Platão.

Se todas as relações humanas são permeadas no seu princípio por libido, a


análise e a relação paciente/analista é também uma relação de amor. A isso podemos
chamar de amor de transferência. No texto citado anteriormente, Freud nos mostra como
no decorrer de um tratamento o analista pode passar a ser objeto de amor do paciente.
Este julga realmente amá-lo, mas devemos ter em mente a importância de distinguir a
realidade desse amor, ou seja, não devemos deixar algo do nosso próprio ego controlar a
contratransferência, pois se isso ocorrer o tratamento se perde.

A princípio esse amor pode parecer um impedimento para o tratamento, na


medida em que ele surge como resistência, posto que ela pode vir a usá-lo, aumentando
a sua intensidade, fazendo com que o paciente se volte completamente para esse
sentimento e deixe de fazer suas associações. Devemos também perceber a posição que
estamos ocupando. Como dito anteriormente, não incorrer no erro de responder a essa
demanda, mas ter o cuidado de não rechaçá-la completamente. Este amor deve ser
acolhido na medida em que pode ser usado como uma energia para efetuar as
substituições necessárias, pois é por meio deste que se abrem as possibilidades de
retornarmos até as escolhas objetais infantis.

Neste momento o amor e a transferência são, em ultima instância, a mesma coisa.


21

Lacan, em seu “Seminário 8: A Transferência” (1960-1961), volta a nos falar


sobre o amor e de que forma ele aparece nela. Ele utiliza para isso “O Banquete” de
Platão (380 a.C.). O mesmo consiste em uma reunião de intelectuais, quando é colocado
em questão o amor. Esse encontro acontece na casa de Agaton. Nele cada um deve fazer
o seu elogio ao amor.

Partimos do Banquete porque logo nos vemos colocados na questão de duas


funções exercidas no amor: a de Èroménenos, que seria aquele que é amado, e de
Erastés, que seria a de amante. Essa distinção é importante na medida em que podemos
entender o amado como aquele que possui algo que desperta o desejo do outro; é quem
possuiu algo precioso. Já o amante é o que estaria em falta, ele está do lado do desejo, é
o sujeito do desejo. O que os aproxima é o fato de que ambos estão em uma posição de
não saber; um não sabe o que tem que agrada ao outro, e o amante não sabe o que lhe
falta. Mais tarde, durante o discurso de Fedro, Lacan chama a nossa atenção usando o
mito da morte de Aquiles, que teria morrido em cima do túmulo de seu amado Patróclo,
para nos dizer que esta posição de amante-amado pode se alternar, ou seja, a mesma
pessoa pode ora ocupar um lugar, ora outro.

Para dar conta desse lugar vazio de não saber, nasce o amor. Ele seria uma
resposta possível a esta relação entre o sujeito de desejo e o objeto; disso surgiria o
amor. Essa questão da falta seria também todo o problema do amor, porque afinal,
ambos, amante/amado, estão em falta, por isso o amor não passaria de uma metáfora, na
medida em que ele serve de substituição para aquilo que nos falta. Lacan nos diz “Amar
é dar o que não se tem a alguém que não o quer” (LACAN, 1992, p. 46).

O autor, ao longo do seu livro, vai discorrendo sobre cada um dos discursos
proferidos no texto de Platão. Podemos destacar alguns, além do já mencionado
anteriormente, que contribuem de maneira significativa para o tema proposto.

No discurso de Pausânias podemos ver que o mesmo distingue dois tipos de


amor e ressalta que apenas um poderia ser louvado. Um seria a Afrodite Urânia, que
teria surgido da castração de Urano por Cronos, e o segundo seria da união de Zeus
com Dione. Um seria uma Vênus popular, ou seja, ela seria um amor vulgar, de pessoas
que o procuram em níveis inferiores, já o outro é de homens dignos, ditos mais
superiores.
22

No seu discurso, Pausânias acaba por colocar valor sobre o amor, afirmando que
há um tipo certo e que a este, para ter acesso, o homem precisa seguir algumas regras.
Isso nos aproxima do que vem a ser chamado por Lacan de Psicologia dos Ricos,
quando a relação com os outros é medida pela posse de bens, ou melhor, da posse do
amado, em que apenas quem é digno seria merecedor de tê-lo. Também somente um
amor poderia ser considerado um deus, e apenas um homem em busca do Bem teria
acesso a ele, e por ele, até mesmo ser enganado seria considerado algo bom, seria, em
suma, ligado diretamente ao valor. Para ele, o amante faria qualquer coisa pelo amado,
inclusive atitudes que nem mesmo um escravo teria para com o seu senhor, mas todas as
suas atitudes seriam perdoadas pelos deuses, pois qualquer coisa feita em nome do amor
seria perdoável.

O amante faz tudo isso [serviços para o amado] com certa graça, o que lhe é
permitido pela liberdade de nossos costumes, sem incidir na menor censura
de ninguém, como se tratasse de um ato louvabilíssimo. E o mais de admirar
é que, no dizer do povo, somente o amante obtém perdão dos deuses, em
caso de perjuro. Não há juras de amor, dizem. Desse modo, tanto os deuses
como os homens concedem plena liberdade a quem ama o que nossas leis
confirmam (JAEGER, 1969, p. 727).

Segundo Lacan, o discurso de Pausânias seria o responsável por provocar risos


em Aristófanes, e por isso ele estaria com soluços, e se provoca risos é porque é uma
fala que não contribui de maneira alguma.

O próximo a tomar a palavra é Erixímaco e, logo após, Aristófanes, já


recuperado. Este é tido como um homem obsceno, e também apontado como um dos
principais responsáveis pela difamação de Sócrates; por isso chama a atenção o fato de
ele falar as melhores coisas sobre o amor.

Ele começa afirmando que todas as pessoas teriam como desejo supremo tornar-
se um só para toda a eternidade. Duas almas em um só corpo. Seria isso que todos os
mortais almejariam no amor. Para falar sobre isso é utilizado um mito. Em um momento
existiam seres, que seriam dois em um, ligados um ao outro, formando uma espécie de
esfera; um dia essas esferas se unem e decidem tentar alcançar os deuses; para isso
resolvem que cada esfera irá subir na outra até alcançá-los. Os deuses, assistindo a isso,
decidem castigá-los, partindo-os ao meio, tornando o que antes era um em dois. Com
isso, estas partes passariam o resto da eternidade tentando encontrar-se e novamente
tornar-se um.
23

O fato de esse mito utilizar uma esfera para denominar esses seres, não passa
despercebido a Lacan, pois essa forma seria considerada perfeita, a que daria mais
prazer ao ser olhada. Essa esfera Empédocles chama de Sphäiros. Ela teria a forma de
uma bola, seria solitária, na medida em que não necessitaria de mais nada nem ninguém,
portanto, ela se bastava. Haveria três tipos de esfera: uma toda macho, uma fêmea e
outro macho e fêmea. Na tentativa vã de se unirem novamente, eles retiram seus
genitais e os recolocam no ventre. É a primeira vez que vemos o amor tão próximo ao
falo.

Enfim, o amor, para Aristófanes, seria isso, um ser à procura sempre da


completude, tentando tornar-se um, mas irremediavelmente castrado e por isso sempre
posto em falta.

Seguindo a ordem da roda, vemos falar Agatão. Este acaba de vencer o concurso
de tragédias e se encontra muito orgulhoso de si mesmo, permitindo-se fazer um
discurso mais do lado cômico ou poético. Para ele, o amor é algo que coloca o que ele
chama de as leis da cidade, e que também seria o responsável por fazer com que nos
reconheçamos ante os outros. O amor não teria qualquer intenção ruim, podendo
concluir, com isso, que qualquer coisa feita em nome dele está do lado do bem.

No decorrer do Banquete surge uma figura que, a princípio, não havia sido
convidada – Alcebíades. O mesmo chega à casa do anfitrião embriagado e declarando o
seu amor a Sócrates. Ele diz ser o único que viu o objeto interior precioso que está em
Sócrates. A esse objeto precioso dá-se o nome de Agalma.

Esse objeto seria precioso, algo que está no interior. Devemos prestar atenção
neste objeto, pois, sempre que pensarmos que o encontramos, se observarmos bem,
veremos que não o é. Por Agalma podemos entender aquele objeto que acaba por nos
capturar. Devemos lembrar que, ao contrário de Freud, quando o amor era a repetição
de protótipos infantis, agora em Lacan ele seria a crença de que encontramos na figura
da pessoa amada aquilo que perdemos para sempre, aquele objeto que nos é mais
precioso. Somente amamos aquele que supomos que o outro tenha dentro de si,
escondido; esse objeto de desejo – Agalma.

O diálogo que ocorre entre Sócrates e Alcebíades é de grande importância para


pensarmos a questão deste texto, pois vemos Alcebíades afirmar que Sócrates esconde
um segredo, e ele seria o único que sabe que dentro de si Sócrates traz um objeto
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precioso que, como vimos anteriormente, podemos chamar de Agalma, ou seja, ele tem
o objeto do seu desejo, mas Sócrates não aceita essa posição e diz que nada tem, e na
verdade o discurso de Alcebíades estaria dirigido a Agatão.

Isso serve para pensarmos as posições ocupadas durante a análise. Alcebíades


está no lugar de amante, assim como estaria em algum momento o analisando. Já o
analista ocupa, muitas vezes, o lugar de amado, daquele que possui o objeto Agalma,
mas, assim como Sócrates, não sabemos possuir esse objeto, e, também diferente dele, o
analista sabe que esse agalma não está em lugar algum.

Pensando ainda nessa questão, podemos ver que o sujeito, na medida em que
está inscrito em uma cadeia de significantes, utiliza a metonímia para conseguir deslizar
seu desejo de maneira infinita pela mesma. Ele também faz uso da metáfora para
conseguir dar uma amarragem a estes significantes. A primeira é importante, uma vez
que alguém, em algum momento desse deslizamento, encontra alguma coisa, um objeto
que chama e prende a sua atenção, e que é investido. Nesse instante há uma parada
nesse deslocamento. A isso que o sujeito encontra podemos chamar de a.

Lacan faz uma distinção entre o amor e o objeto, pois o primeiro seria aquilo que
nos aliena; tornamo-nos submissos a ele, como se diante dele houvesse um apagamento
do sujeito. Já esse objeto que supracitamos nos devolve a condição de sujeito do próprio
desejo.

É importante, para pensarmos em transferência, ultrapassar, ir além do conceito


de repetição contida nela ou, como Freud denomina, Automatismo de Repetição.
Devemos introduzir, por exemplo, o lugar que ocupa o desejo propriamente em uma
análise e, mais importante do que situarmos ele na parte do analisando, é vermos como
se dá o espaço do desejo de analista.

Outro conceito importante para falarmos em transferência é a


Contratransferência – como ela aparece durante um tratamento. A análise ocorre na
comunicação entre o inconsciente analista/paciente, e toda a questão estaria nesse ponto.
Já a contratransferência seria, então, algum resquício do inconsciente não analisado do
analista. Este apareceria e acabaria por interferir no curso normal do tratamento. Aí
reside a importância de uma análise pessoal, mas, mesmo que o analista a tenha feito,
não o torna completamente neutro ante o outro; ele ainda poderá ter suas reações ao que
ouve do paciente, e estas podem ser tanto hostis quanto de amor.
25

Nesse momento, pensando desta forma, podemos concluir que não existiria uma
completa neutralidade. Ela poderia, inclusive, ser vista como algo ruim. O que se deve
levar em conta são os sentimentos que o analista experimenta na análise, e seria isso a
contratransferência. Assim podemos reformular um pouco essa questão, pois ela
deixaria de ser completamente negativa, mas também tampouco poderia contribuir no
tratamento. Ela pode estar ali sem causar qualquer perturbação. A questão seria o que
fazer com ela.

Lacan utiliza um artigo intitulado “Normal Counter-transference and Some


Deviantions” de Roger Motions, escrito em 1956. Neste texto, Roger expõe sobre o que
seria normal nessa contratransferência. Para ele, ela se produziria entre o vaivém
daquilo que o analista toma para si do discurso do analisando, e a projeção daquilo que
poderia ser um efeito de resposta a isso. Seria considerado normal, pois esta demanda
introjetada se compreenderia, e também o analista não se deixaria afetar pelo que vem
do lado do paciente (LACAN, 1992, p. 192).

Apesar de ela existir, no entanto, não deveria ser dada tamanha importância, pois
seria algo comum em uma transferência, apenas um efeito dessa situação, pois, a partir
do momento em que ela se coloca no tratamento, já estamos na posição de ser quem tem
a agalma. A única ressalva é se em algum momento o analista coloca o seu objeto
agalma no paciente.

No fim, apesar de em alguns momentos ser dada uma grande ênfase neste
conceito, ele não deve ser motivo de preocupação. É normal o seu surgimento durante o
curso de uma análise, e decorre dessa situação transferencial.

Durante o decorrer da construção do que afinal seria o amor na transferência,


nos deparamos muitas vezes com o termo agalma, sobre o qual já discorremos
anteriormente, mas podemos aproximá-lo ainda mais da Psicanálise se começarmos a
nomear o mesmo como objeto a, conceito fundamental em toda a construção lacaniana.

O objeto a, segundo Lacan, é o objeto da Psicanálise. Ele seria a causa do


desejo. O a vem para representar o outro, que é o primeiro objeto de desejo e de
identificação. É somente em relação à falta que um objeto entra em função no desejo.
Amamos no objeto essencialmente a falta dele e esse desejo a recobre com um véu.
Esse, por sua vez, faz surgir a dimensão do mais-além.
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Poderíamos pensá-lo vindo como apoio para o sujeito. É nele que ele se
reconhece como ser de desejo; é também por esse objeto que ele tenta responder o que é
o desejo do Outro, abrindo, assim, a possibilidade de atingir seu gozo. Não há
significante que venha dar conta de responder a pergunta do desejo do Outro. Para isso
o sujeito se apoia neste objeto. Ele vem no lugar de significante que falta, mas nem por
isso é ele mesmo um significante.

Este objeto a foi recortado do corpo do sujeito e é aquilo que decai. Ele é
separado do sujeito por um corte. Por exemplo, o seio que se perde. Isso ocorre para dar
conta do lugar do Outro como lugar do significante. Ele se perde e se torna a causa do
desejo, quando o sujeito sempre busca um reencontro, porém estamos fixados, e sempre
buscamos alcançá-lo, mas quanto mais nos aproximamos desta satisfação, mais nos
afastamos, pois uma das características principais é que, uma vez perdido, jamais é
reencontrado.

Quanto ao conceito de gozo, há algumas considerações importantes a serem


feitas. Primeiramente ele sempre permanece inconsciente; nunca experimentamos
efetivamente um gozo; não podemos limitá-lo a uma satisfação ou insatisfação. Sendo
inconsciente, pode ser chamado de autoerótico, porque basta a si mesmo, o que visamos
como objeto de gozo também é o meio utilizado para encontrá-lo. “O objetivo (gozo)
produzido é idêntico ao meio fantasmático (objeto) que permite produzi-lo e, por assim
dizer, o objetivo se causa e se basta a si mesmo (Juan David Nasio, 1991, p. 58)”.

Outra característica do gozo seria que, para havê-lo, é necessário um corpo vivo,
mas ele não está submetido às condições físicas deste corpo; ele está fora desse corpo,
este é a sua origem, mas ele está fora. É preciso pensar o gozo e também o objeto como
um fora do corpo.

O objeto a, portanto, é aquilo que anteriormente chamávamos de agalma. Um


objeto causa do desejo, que nunca pode ser apreendido e está sempre para além. No
caso de uma análise especificamente, está sempre por detrás do analista, e o paciente
acreditará que ele pode lhe dar o que tanto falta. Aquele que, supostamente, o detém,
terá todo o saber sobre o desejo do outro.

Devemos ressaltar que esse objeto não é um objeto no real, algo palpável, mas,
na verdade, um conceito, e este desempenha papel fundamental quando falamos de
fantasia. Ele é central para entendermos a construção da fantasia no neurótico. Também
é diferente do que encontramos no falo; jamais o encontraremos por ser justamente algo
que está sempre para além.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O início da construção deste trabalho baseou-se na questão de como se daria


afinal a escolha do objeto de amor, do porque escolhemos uma pessoa ao invés da outra,
ou ainda o que faz com que alguém tenha relacionamentos duradouros e outros, no
entanto, mudam de escolha a todo o momento. Também por experiência de estágio, ao
depararmos com questões que giravam muitas vezes em torno dos relacionamentos
amorosos que os pacientes mantinham.

Inicialmente havia a ideia de que poderia ser respondida esta questão de


maneira objetiva e que ela traria uma explicação geral para a pergunta que a originou,
mas, conforme ia se fazendo as leituras e percorrendo o caminho construído por
autores como Freud e Lacan, pode-se perceber que na verdade esta resposta não pode
ser dada de maneira coletiva, mas sim ao analisarmos a vida individual do sujeito
neurótico.

Foi muito interessante acompanhar o desenvolvimento freudiano que tratava do


assunto abordado neste trabalho. Vemos como Freud vai fazendo suas descobertas e ao
longo do caminho as modificando de acordo com o que via na sua própria clínica.
Mesmo que, como dito anteriormente, não haveria uma resposta que abarcasse todo o
problema, com os textos psicanalíticos podemos entender de que forma se daria a
escolha do objeto de amor, ou de como o desenvolvimento psíquico influencia nesta.

No senso comum, pensa-se que o amor é algo destinado apenas aos adultos, que
crianças apenas o sentiriam de forma pura e direcionada aos seus pais e familiares, ou
ainda que os adolescentes viveriam a ilusão de estarem amando, mas que na verdade
este sentimento estaria destinado a apenas já crescidos, aqueles que já teriam alguma
experiência para entender o que seria afinal o amor. Também há uma tendência a
fazerem dessa escolha amorosa algo puro e distinto, quase divino, encontro de almas
gêmeas que antes estavam perdidas, e que no decorrer da vida vão se relacionando com
pessoas até encontrar esta que estava à espera. O sexual estaria colocado em uma
segunda posição.
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Freud, desde o início de seu trabalho e da construção da teoria psicanalítica, vem


derrubando e se chocando com os preceitos constituídos na sociedade, inclusive durante
o desenvolvimento do trabalho, e para conseguir responder à questão que nos norteava
usamos o conceito de sexualidade, que, como pudemos ver, foi sem dúvida um dos mais
criticados de toda a Psicanálise. Com esse conceito, juntamente com o da libido,
possibilitamos chegar ao entendimento de porque alguém escolhe uma pessoa ao invés
do outro. Não é algo ao acaso, ou ainda um encontro de almas, mas sim uma
constituição que vai se dando desde a infância até a vida adulta. O sexual está presente
desde sempre, mesmo na idade mais tenra, quando pretensamente ousamos dizer que há
um estado de pureza, e ele está na base de toda escolha de objeto de amor, e não como
tendemos a acreditar que seria uma consequência ao encontrá-lo.

Outro conceito importante ao trabalharmos com a Psicanálise, principalmente ao


pensarmos na clínica, é o da transferência. Sem ele não haveria como pensar em uma
análise, mas poucas vezes o vemos sendo aproximado do amor. Freud dá início a essa
aproximação, sendo o primeiro a notar essa tendência de surgir um vínculo amoroso do
paciente para com a figura do analista. Lacan dá continuidade e aprofunda esse estudo,
dizendo que na verdade o amor e a transferência são a mesma coisa. Como podemos,
então, pensar em atuar em uma clínica psicanalítica sem ao menos entendermos o que
afinal é o amor? Pensarmos em amor na transferência nos faz entrar em conceitos
densos como o objeto a, ou objeto agalma, que Lacan formula lendo O Banquete de
Platão (380 a.C.), objeto que é causa de desejo e que nunca é realmente encontrado.

A pergunta que iniciou esta pesquisa parecia querer ser respondida com apenas
uma resposta, mas, como podemos constatar, não é de forma simples e tão direta que
respondemos uma questão tão complexa como esta. Não podemos, também, trazer
como uma regra que todos compartilham, mas sim que há bases parecidas que fazem
diferença na constituição de um sujeito e que vão influenciar na hora de escolher o seu
objeto de amor.
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REFERÊNCIAS

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Livraria Francisco Alves, 1981. 199p.

FERREIRA, Nadia P. Teoria do amor na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


2004. 71.

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______. Sobre o narcisismo: uma introdução. (1914). In: Obras Completas. Rio de
Janeiro: Imago, 1996b. (Ed. Standart Brasileira Vol XII).

______. Psicologia das massas e análise do ego. (1921). In: Obras Completas. Rio de
Janeiro: Imago, 1996c. (Ed. Standart Brasileira Vol. XV).

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______. Fragmentos da análise de um caso de histeria. (1905). In: Obras Completas.


Rio de Janeiro: Imago, 1996f. (Ed. Standart Brasileira Vol. II).

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______. Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise III. (1915) Obras Completas.


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JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Herder, 1969.

LACAN, Jacques. O seminário 4: as relações de objeto. (1956-57). Rio de Janeiro:


Jorge Zahar, 1995.
30

______. O seminário 8: a transferência. (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


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______. Intervenções sobre a transferência. (1951). In: Escritos. São Paulo: Jorge
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______. Os olhos de Laura: o conceito de objeto na teoria de Lacan seguido de uma


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