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Outras Fontes

./ Censo Demográfico - Mão-de-Obra, IBGE, Rio de Janeiro, 1983•


Nós Mulheres.
Brasil Mulher.
Mulherio, consulta e participação de Saffioti. H.I.B. no Conselho Editorial até a edição
N~ 15.
Dossid Centro da Pastoral Vergueíro.
Entrevistas com militantes feministas do Rio de Janeiro e de·,São Paulo.
Vivência pessoal.
o Movimento Negro
e a Crise Brasileira

ABSTRACT Jael Rutina dos Santos


The author shows in this work that women acting ln mixed social movaments (both
feminina and feministl have contril;>uted highly towards coletivization of hidden
spaces. She underscores that women disclose the omnipresence of the politicai,
shaking the dichotomy of "privam versus public", in the me8sure in which "prlvate"
is presented as ao absense of politicai and "public" as lts privlledged locus. Her
reflectiaos shaw that the discovery of a politicai omnipresence may be-a result of
today's female fighting.

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Fundação Escola de Serviço Público RJ 284 Polftica e Administraç~o


~. A Revolução de Trinta - entendida como feixe de mudanças substanciais. ainda o movimento negro, no sentido estrito; foi, na sua infância (1931-45) uma res·
, .J que não revolucionárias, que conhecemos após a Grande Guerra - permitiu a uma par- posta canhestra à construção desse mito. Canhestra porque sua percepção das relações
i'I; te da população negra urbana disputar lugares. Não pudera. disputá-los antes, salvo na raciais, da sociedade global e das estratégias a serem adotadas, permanecem no ventre
ii infância oitocentista do nosso capitalismo, quando um formigueiro de artesãos e Van- do mito, como se fosse impossivel olhá·lo de fora - e, de fato, historicamente, prova-
deiros pretos forros se instalou em algumas cidades mais populosas. O espetáculo era, velmente o era. Para as lideranças do movimento negro, catalizadas pela imprensa nEr
i: agora, insólito: viam~se negros operários (e sobretudo após o estancamento da imigra- gra que desembocou na Frente. o preconceito anti-negro era, com efeito, residualten-
ção); negros biscateiros; negros pequenos empresádos (quase sempre comerciantes, dendo para zero à medida em que O negro vencesse seu "complexo de inferioridade";
(1 nunca industriais); negros funcionários públicos (militares, sobretudo, mas também ad- e, através do estudo e da auto-disciplina, nautralizasse o atraso Causado pela escravidão.
ministrativos); negros radialistas, jogadores de futebol, cabos eleitorais - as profissões Na sua vislio - comprovando a eficácia do mito - o preconceito era "estranho à Indole
j que a Revolução inventou; e assim por diante. brasileira"; e, enfim, a miscigenação (que marcou o quadro brasileiro) nos livraria. da
A disputa pelos lugares trouxe. naturalmente, discriminações e resistências. O segregação e do conflito (que assinalavam o quadro norte-americano), sendo pequeno
quadro de São Paulo é exemplar: serviços, empregos e moradias eram anunciados em aqui, portanto. O caminho a percorrer.
jornais com restrição ostensiva: "não aceitamos pessoas de cor"; clubes, grêmios, enti- a movimento negro que foi, nesta fase. claramente integracionista, não se fur-
dades beneficientes, e mesmo associações de classe e públicos (como a Força Pública), tou. porém, ao protesto organizado, nem à reivindicação - s6 não os praticou tomo es-
fecharam·se aos negros. O associativismo e a organização - comportamentos tradicio. tratégia principal. São exemplos as campanhas pelo ingresso de pretos na Força Pública
na is do negro brasileiro - recrudesceram, então; nesse quadro é que se pode compreen- de São Paulo e pelo reconhecimento da profissão de doméstica, bem como os apelos
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'\; der a intensa atividade jornal (stica '- alternativa e efêmera, mas intensa _ dos negros sistemáticos às autoridades pelo fim da discriminação policial nas batidas. Atividades
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urbanos do Sudeste/Sul naqueles anos vinte e que desembocaria, adiante, na Frente de recreação, esportivas, sociais e assistenciais lhe marcaram, também, o perfil - e essas
Negra Brasileira. é que tiveram continuidade através dos famosos "clubes de negros", quando, entre
Morria, com a Revolução, o sonho romântico (romântico no sentido estrito.) da 1937 e 1950, o movimento como um todo refluiu. O setor combativo, politizado, da
república "cada vez mais branca, civilizada e cordial". O pa(s como que fora programa.' Frente, nem a sua ala socialista. tive'ram herdeiros imediatos.
do, pela elite republicana, sem os pretos e, conseqUentemente, sem problemas raciais.
Devia-se refazer a programação - ou não receber(amos qualquer resposta do computa.
dor. tA Revolução, está visto, não fez ruir apenas este sonho bacharelesco da inteligên- 2 - De 1945 a 1984
i cia nacional. É notória a sua "surpresa", nos anos vinte, com a "questão social", por
: exemplo, ou Com a "questão indrgena"). Entre 1945 e 1970, foram poucas, se c,?mparadas à etapa seguinte, as entidades e
\1
A tese da democracia racial - e democracia foi, aliás, naqueles anos, uma expres- ações do movimento negro. A estratégia integracionista e o associativismo prossegui·
11 são da moda - que estava. como intuição. no senso-comum, veio cimentar a fratura. ram, no entanto, estimulados pelo populismo (e seu· canal privilegiado, o Partido Tra-

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Serviria também de instrumento para desmontar a nascente organização dos negros,
ou, quando menos, lhe afrouxar os parafusos. Na ótica da democracia racial. o real
balhista Brasileiro), através de inumeráveis "clubes de negros". Enquanto isso, se fun·
dava o Teatro Experimental·do Negro (1944) e se reuniam a I e·11 Convenção Nacional
i apareceria, desde logo, invertido: a discriminação e a resistência não eram a regra, mas do Negro (1945 e 1946), a Conferência Nacional do Negro (1949) e o Primeiro Con·
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a exceção. Sobrava, por outro lado, matéria-prima à disposição dos construtores do mi-
to: não havia noHcias de conflitos raciais à americana, em nosso pa(s; Hnhamos, em to-
gresso do Negro Brasileiro (1950). O movimento parecia acumular energia para o salto
que daria depois, conduzido por lideranças isoladas mas fortes (como o de Abdias do
dos' os campos, uma comprida lista de pretos e mestiços notáveis, comprovando a tole- Nascimento), e intelectuais de pequena audiência mas bem·apetrechados (como Guer· .
rância; apresentávamos, à diferença dos Estados Unidos, numerosa população mulata, reiro Ramos).
'! demonstrando ausência geral de preconceitos de sangue; aceitáramos, em nossa terra,
"raças" diversas e exóticas - de turcos e alemães e eslavos e japoneses etc. Manipulan-
Foi s6 nos anos setenta que o movimento negro brasileiro decolou~ para atingir a
densidade e amplitude atuais. Que explicações se encontra para esta decolagem no pró,
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;~ do·a, a inteligência brasileira articulou as peças fundamentais do mito: 1~) nossas rela- prio discursa do. movimento?
ções de raça 010 harmoniosas; 2 a ) a miscigenaçio é nosso aporte especifico à civiliza. H.éWeria, .para . . começar-,;~. in.!,.I,~~~~J~,:.~g.,~.?yifl"l~?to'n~ró norte-americano, a( in§!
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ção planetllria; 3~1 o atraso social dos negros, responsável por fricções t6picas, 58 deve, cluidos ó·black is beautifu1robleckloul e os blllck muslins. Provavelmente esta influ~
exclusivamente. ao seu passado escravista. O pensamento conservador, mas também o ência se deu menos por intermédio da mensagem politica quepelo convite a uma "ati·
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n liberal e o socialista, deduziram deste teorema os corolários de ampla circulação ainda tude negra", que trazia, por sua vez, embutida a questões de identidade - esta pedra

i hoje: a pobreza desconhece o racismo; o sincretismo é o estágio superior das misturas


de raças e culturas; o desenvolvimento capitalis~a equaliza o,fator raça etc.
de toque dos movimentoS étnicos. Shaft foi sem dúvidâ mais popular entrl>os jovens
negros brasileirós que S. Carmichael. mas não terá sido desprezrvel a voga de Malcon X,

I Fundação Escola de ServíÇo Público RJ 288 PoIftica e AdministraçSo Fundação Escola de Serviço Pilbnco RJ 289 Politica e AdministraçSo
, ~
Angela Davis. Eldreage Cleaver, Rap Brown, Baldwin a, sobretudo, Luther King; mais
recentemente, nenhum deles excedeu Jjmmy Clift e Bob Marley. (De passagelT): a crr~
nica, em circunstâncias gerais favoráveis). Para começar, este: o movimento negro é ra-
cial, ou étnico, ou social, ou politico, ou combinação de todas ou algumas dessas natu-
,
tica à importação pelos negros brasileiros de modelos negros norte-americanos·, nos rezas?
grandes jornais da ápoca, negava autencidade aos negros que se dedicavam ao soul mu~ Parece haver, contudo, uma c;uestãoprévia: o que é ser negro no BrasH?:Qra,o
sic, ao invés de permanecerem fiéis ao samba. Esta cr(tica, tomada pelas lideranças ne~ negro como raÇàtemsido uma~lo10rteapenas para negros de classe média, trabálhâ~
gras como prova adicional de preconceito, privou, em certa medida, o movimento da dos por frustrações espec(ficase.lo~n"2:11ciªs,,~.a.barragem nos Clu~~13fJrTl_93r.~'9:~i7,~Z
simpatia da intelectualidade em geral). pregos;pmau tratamento em "locais de brancos" etc. _Par~ce, com efeito, qWfâe'trri~~
A vitalidade recente dos movimentos negros se deveria, também. à influência das ciência de raça (salvo na acepção de garra, quando entãocÔnstÚ:ui atributo desvincula-
independências africanas. Am(lcar Cabral,· Agostinho Neto e Samora Machel, e,"menos do da cor) é alheia ao preto como ao branco comuns brasileiros. Nem custa notar que
- por razões óbvias - Nkrumah, Patrice Lumumba, Ben Bella, Ma~dela, Kenniata, Nie- a consciência de classe é, no Brasil, mais fácil, em geral, de se alcançar que a de raça.
rere - se tornaram, nos anos setenta, fortes referências do negro brasileiro. As ea.mpa- As-I ide_r~nças:Telh()r-:~did,assão I talvez por isso, as que substituem, na suaré-';-
nhas anti-apartheid e pela libertação da Nam(bia teriam desempenhado, igualmente, tórica, a categoria de raça· pela,de etnia - entendida, sumariamente, como raça +cul'
seu papel. tur~'~~~,tfmg;__~:I_i~,~' nessa retórica, na quãl··as duas-categorias·são,tomadas:qq:ª~_,ÇQ;
Essas influências teriam ca(do, está visto, em terreno lavrado. As mudanças subs~ mo.:sinônimas~':mas,principalmente, nos seus desdobramentos estratégicos. Assim, ten·
tanciais por que passoua ,s~cied~8e'-'~r~a~~,~rasileira. a partir, digamos, de 1968, cria- dem a ressoar mais os apelos à defusa de cultura do negro - das religiões afro-brasilei-
ram as condições sociaisepoIJtiçasqoe,er:n primeira instância, explicam aquele rápido ras, de ancestralidade'afric:ana, dos processos e produtos culturais afro~brasileiros amea-
crescim~I"\~9·H()lJYê,pa[~:ç()m?~r;oboom,d?,~~~j.~,~_,~niversitário
privado, responsá- çados ._etc... ~·:queos .de-Iuta mcial, eficazes a~nas em momentos excepcionais defric-
velpor um grande núm~r()'-Jirqp()rcional,_de negros graduados. Disputando lugares ção com a sociedade global,
com graduados,:~~a~~ps -.- ?~?I~t~~.napecuIJ~r n0rTiencl,atura brasileira~emjgUalda­ Isso explica que, no bojo de movimento negro, as entidades consagradas à pes-
de de condições/e~s>diplomados negros foram geralmente"'preteridos, Ol::t' remuner8:~ quisa e ao debate das culturas negras tendam a se fortalecer mais que as explicitamen·
dOs-érti-f"Jléqi~30%:abaix04. Por outro lado, não se confirmou a geral expectativa de te anti-racistas. (Formalmente, as entidades negras costumam explicitar dois objetivos:
que a internacionalizaçãoe o acelerado crescimento da economia brasileira anulassem a pesquisa das culturas negras e o combate ao racismo. Serve de exemplo o Instituto
as desvantagens baseadas na cor - e antes, mesmo, pelei contrário, elas se acentuaram, de Pesquisas das Culturas Negras, do Rio de Janeiró, que ostenta na sua fachada: Cen-
ao compasso do novo ritmo e nos setores de pontas. tro Irradiador da Luta contra o Racismo, mas cUjas aÇÕ8s são predominantemente de
O movimento negro atual, é, pois, da maneira como o entendem suas lideranças· e estudo, pesquisa e debate sobre a "cultura do racismo", r; fato que o impedimento le-
intelectuais, filho do "milagre brasileiro", por via das frustrações sociais-raciais (e não gai de registrar entidade racial (sic) ajuda a explicar o grande número de entidades de
sócio-raciais) apontadas, e outras. Dele, ede fatores conjunturais de peso menor: o pesquisa, mas ainda assim o diagnóstico se mantém).
avanço ,~~r~1 d?S~?Vimen~~~,~~mg9E~Ji:.r()~~~,:~~~,-de"ab8rtlira" do regime militar; a Raça no sentido biológico não tem sido, pois, catalizador de movi.mento negro
experiênciadidáti~(9:~~~,to-à qUE:!_~~~q_j;aci~lt-d()re~Hados SiEl esquerda; a série crescen- no Brasil. Negro, no seu contexto. é mais bem um! soma de raça e cultura; e m<?vimen-
te de discriminações'eco'nflitos'veiculadapela-imprensa etc; to negro, por conseguinte, o conjunto de entidades e açães organizadas dos negros de
Se crise brasileira, na sua melhor definição, é o descompasso entre o conjunto de sangue, consagrados explicitamente à defesa da raça e da cultura negras.
imagens e expectativas idealizadas - como a crença na democracia racial - e-o com- Conectadas a estas definições aparece uma questão incômoda, diHcil de lidar pa-
portamento da realidade, pode-se concluir que o movimento negro, na sua fase atual, é ra.o movimento negro brasileiro:·pardos e-mulatos são negros? t notável a preferência,
um sinal notável dela. Por outro lado, a crise interna do movimento negro - evidencia- sobretudo na retórica das lideranças, pela resposta afirmativa. A população brasileira
,
da na sua incapacidade de crescer além de certos limites - advém da sua incapacidade se repartiria, assim, em duas: brancos (na verdade brancos brasileiros, branc6ides) e
de se pensar como aspecto da crise brasileira. não-brancos - cerca de 80% do total. Esta gritante maioria (ao invés dos 6% do último
1 censo) ~ que seria de ide:ntidade negra, assumida ou recalcada.
II - Dilemas do Movimento Negro Brasileiro

I
Os embaraços desta simplificação se mostram no plano eStratégico: qual o apelo
convincente para mobilizar os mestiços - uma vez que raça, e mesmo cultura negra, se
1 - Raça e Etnia diluem facilmente ao impacto da ideologia do branqueamento? Intelectuais do movi-
mento negro costumam acenar com estudos e estatrsticas que demonstram a pe.quena
São muitos, explicavelmente, os dilemas em que se debate, na atualidade, o mo- diferença real entre a situação. do negro e do mulato na disputa pelos lugares"; e ga-
vimento negro brasiieiro. (Dilema entendido, aqui, como dúvida teoricamente insolúvel rantem que o recalque do ser negro tende a fazer do mestiço um neurótico (o que faz
sobre caminho a seguir; a qual só se decide pala aplicação da vontade pai (tica hegemô- lembrar', curiosamente, o mestiço nevrótico da ciência 'racista do começo do século) e.

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o um alienado. De modo geral, contudo, aquela retórica e essa racionalização têm ,sido possu (do); alguém, ademais; que se percebe e é percebido pelos outros como tal. Ser
insuficientes para mobilizar contingentes de mestiços. O movimento negro brasileiro é negro seria, pois, nesta visão, um fato múltiplo: biológico, antropológico, sociológico e
basicamente uma prática de pretos irretorqu (veis. psicológico.
c A atribuição ao conceito de negro dessas novas dimensões, permite ao negro ur·
bano, de classe média, politizado - o militante t(pico do movimento negro, no senti~
2 - Sociedade e PolItica do estrito - incorporar ao seu discurso questões que lhe eram, até então, esquivas ou
meSm"o alheias. Serve de exemplo a questão da posse da terra: como pensar a proble-
Freqüentemente as lideranças do movimento negro têm sido acusadas de "racis~ mática do negro rural, majoritário. para além dos termos vagos da identidade racial?
mo às avessas". Descontado o preconceito, a acusação tem algum fundamento, uma OIlllp~~s~'~.??,lo~/ sumari~l11~te,,~~ilT1:~ ser negro é pertencer ,a urna raça e,
vez que a tendência de encarar a questão étnico-racial em separado, despegada da as. uma,cplt~ra,}_negra/:o'especffiGOaglutioador.do, mo\/illlento negro 'é a luta contra o,la-
trutura de classes e das relações de 'poder político, é visrvel entre aquelas lideranças. cismo":;;;-"enl.npme da raçanf!9rs __ e a defesa dacultura negra; ocorre, no entanto, que
Ora. num pa(s de notável pauperização, marcado por dramáticos problemas sociais, a o apelodª::fªÇ<I vaLse enfraquecendo à medida exata em que se desce a escala social,
pretensão de destacar do social o que quer que seja. suscita imediatas desconfianças. enquanto: se acentuam, "no' mesmo Passo, as diferenÇas de repert6rios culturais por·gru-
Vêem-se, assim, sistematicamente, as lideranças do movimento negro obrigadas a com- pos - até nada mais sobrar daquele especifico aglutinador.
bater em duas frentes: contra o mito da democracia racial e contra o estigma de "racis- A solução desse impasse se apresenta como dilema (no sentido que atribui à ex-
tas ao avesso". pressão) ao movimento negro atual. f'extensãodo",;~~i~~de~!'QroJ~trib~ind~-I~~
Elas têm de enfrentar. além disso, o reducionismo sociol6gico do pensamento de ~~.~. di~~~~~:~~.9ipl.9gi~;~!l\lrocomo'desposs~ld~;:e::p~i<;Ol6gi",;;negro·como o que
esquerda, que s6 esporadicamente admite as interações raciais e étnicas - o que lança sep<ir~~ ~.é percebido comotal)~pareceseru~allllld~::Ela~~me~bUtida no disctlr-
luz, aliás, sobre a dificuldade dos movimentos negros em forjar alianças com agrupa- se de-'algumas"'lideranças-recentesidb'movimento'e. prinCipalmeritEi;:em 'algumas'açães
mentos marxistas, especialmente nos anos de p6s-guerra. (Esse reducionismo, aliado à localizadas de certas entidades menos notórias: AS lideranças maiS·antigas; e talvez a
visão do "preconceito racial como resqu(cio da escravidão" e à expectativa de que o parcelafT1~j~~,i,~~~i:~:~os militantes do movimento, pérmanecem, contudo, aferrad()S",'
desenvolvimento econômico tende a neutralizar o fatar raça/cor, se encaixa perfeita- definição:puramente racial e cultural dele=emque.pese a sua impotência de gerar eS-
mente no arcabouço do mito da democracia racial, comprovando-lhe a consensualidade tratégias mobilizadoras e alianÇ<ls politicas. .
e a eficácia. A democracia racial é, basicamente, o pacto nacional, supraideológico, de A opção exclusiva, ou preferencial, pelo conceito étnico-racial de negro tem co-
não considerar a interação racial como significativa. O movimento negro como tal é a mo corolário a renúncia à ação polrtica institucional. (Embora a adoção de um con-
ruptura deste pacto). ceito mais amplo, que veja. por conseguinte, o movimento negro como "basicamente
Não por acaso, as alianças mais conseqüentes do' movimento negro têm sido, até um movimento social" possa conduzir, igualmente, a um afastamento do jogo políti-
aqui, com o populismo - ele também uma ruptura de pacto; populismo no poder ou co institucionalizado; enquanto, por outro lado, a insistência numa visão racial da luta
fora dele. ~ verdade que a Frente Negra foi fechada pelo Estado Novo, tão logo ele se negra também possa conduzir a açõe5 politico-partidárias circunstanciais)s. A adoção
instalou; é verdade também que a vertente.mais.polftica do movimento costuma· atacar do conceito múltiplo, ao contrário, exige a formulação de uma politica de alianÇ<ls e
duramente a manipulação das comunidades negras por 'chefes populistas. Foi, no, en~ eleitoral. Questões improcedentes, na primeira postura, dElI/em ser. então. respondidas:
tanto, sob a ditadura estado·novista que o maior número de negros, proporcionalmen- Quem sIo os aliados do movimento negro? Que relaçl5es deve o movimento manter
te, ingressou no aparelho de Estado; o Partido Trabalhista Brasileiro durante toda sua com os partidos e grupamentos partid6rios existentes? O movi"",nto negro deve ter ou
existência (1945-64) concentrou a maioria do \foto negro, oferecendo, mais que qual- nllo seu pr6prio partido? Discussões a esse respeito (e indicámos aqui apenas alguns
quer outro, legenda a candidatos negros, expl(citos ou não; e enfim, foi à sombra de itens de extensa pauta) vêm sendo travadas com intensidade desde pelo menos as elei- ,
um remanescente populista, Leonel Brizola, que, recentemente, o movimento negro- ções gerais de 19B2 - em que o movimento pareceu espetacularmente naufragar.
• nos sentidos amplo e restrito - obteve os maiores ganhos de sua história 7.
Esses e outros impasses empurraram lideranças e intelectuais do movimento pa~
ra uma nova definição do ser negro e, conseqüentemente, para uma diversa categori-
zação do movimento negro, mais abrangente, que autorize um também novo·leque de 3 - Caminhos eleitoreis
estratégias.
Ser negro no BrasTl já -não seria um exclusivo determinismo biológico mais uma No pleito de 19B2 (para governadores. senadores. deputados federais e estaduais.
impregnação cultural negro-africana. Quando se diz "negro", aqui, neste momento, se vereadores e prefeitos) nenhum candidato'do movimento negro- no sentido estrito de
estaria falando de alguém essencialmente despossuido (não exatamente pobre, mas des- , luta organizada contra o racismo -logrou se eleger. De que maneira os porta-vozes das

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o principais seções do movimento - do Rio, de São Paulo, de Salvador, do Norte-Nor- Do primeiro ponto de vista, eis o perfil ideal de candidato negro: Irder prestigio-
deste, de Porto Alegre - explicaram este completo fracasso? so do movimento negro - no sentido estrito; discurso exclusivamente étnico-racial,·
Para começar não teria havido um apoio un(voco a talou quais candidatos. Após marcando a autonomia e prevalência da questão racial sobre as questÕEis sociais, ideoló-
" intensos, mas breves, debates sobre a proposta de o movimento, enquanto tal, se decla- gicas e polrtico-partidários; distanciamento dos demais itens do programa do partido, a
rar formalmente alheio â disputa eleitoral, ficou assentada - frouxamente, como é pró- que se acolheria unicamente pela necessidade de legenda; campanha dirigida â popula-
prio dos movimentos abertos e quase inorgânicos - solidariedade a todos e quaisquer ção negra, sem qualquer apelo deliberado para.a branca. Os sete candidatos negros der-
candidatos, de qualquer partido. negros ou brancos; que incorporassem ao seu discurso rotados no pleito de 1982, no Rio de Janeiro, correspondiam a este perfil.
as reivindicações gerais da comunidade negra. Não houve, assim. nessa explicação, con- Os quatro vencedores (três deles entre osmais votados do Estado) atendiam às
centração do voto negro, por um lado; por outro, o movimento negro não foi derrota- exigências de bom candidato para a segunda linha de análise: não possu(am anteceden~
do, uma vez que formalmente não teve candidatos. tes de I (deres. negros - no sentido estrito; inseriam a problemática negra, sem prevalên~
Esta racionalização. que se sustenta no geral, é inconvincente, no entanto, para o eia, no contexto s6cio-pol(tico~ideoI6gico geral, com postura partidária; dirigiram seu
caso do Rio de Janeiro. Dentr-e as dezenas de candidatos negros aos diversos cargos (s6 apelo indistintamente a negros ~ brancos. Apresen~ram-se, em suma. como negrol as-
não os houve para governador e senador), os sete explicitamente comprometidos com sumidos que, por isto, precisamente, podiam representar melhor que outros o """Junto .
a luta organizada contra o racismo, I (deres em maior ou menor grau do movimento,
dI populaçlo fluminense.
concorrendo pelo Partido dos Trabalhadores, PT (dois), Partido do Movimento Demo-
Esta segunda linha de análise chamoU, também, a atenção para dois.aspectos des-
crático Brasileiro, PMDB (um) e pelo Partido Democrático Trabalhista, PDT (quatro)
prezados pela primeira - os quais teriam decidido, basicamente, o voto negro naquele
- não se elegeram; chegando somente dois â posição de suplentes. Dentre os vinte
pleito: a identificação e o.:slmbolo. Os candidatos derrotados, â exceção de um, eram
candidatos mais votados na cidade do Rio de Janeiro apareceram, porém, quatro ne-
profissionais liberais, residiam na zona sul, dilsfrutavam de prestigio intelectual e arti-
gros parcialmente comprometidos com aquela luta, sem liderança especffica no movi-
e
mento negro e com forte implantação em sindicato, favela subúrbio, pelo PT (um) e
culavam seu discurso à maneira polItica convencional. Os vencedores eram um ex-jar-
dineiro suburbano, ex-pregador evangélico, sem formação universitéria; uma favelada,
pelo PDT (três). Um destes, o cantor Aguinaldo Timóteo, foi a maior votação para de- ~
putado, no Estado. I ex-empregada doméstica, evangélica; um cantor bem-sucedido, gênero "cafona", irre-
Dois outros fatos, neste mesmo pleito, desafiam os analistas do movimento ne~ l8 verente e homossexual; e, enfim, (a exceção) um jornalista,llder sindical, ex-dirigente
estudantil. Provavelmente, o eleitor negro mádio, despolitizado, confiou mais no apelo
gro: o candidato vitorioso a governador obteve o voto maciço da comunidade negra 9 ; j
e o eleitorado fluminense, quase certamente com a mesma votação em bloco de negros, racial contextualizado destes negros que no dos primeiros.
i
"

elegeu, pela primeira vez na história do pa(s, um lfder ind(gena para o Congresso. Ne- Bem assim a excelente votação do Ifder indrgena Mário Juruna (provavelmente
nhuma entidade, liderança ou seção do movimento negro publicou, até a data deste negra na sua maioria). O (ndio seria um slmbolo forte para a população negra carioca:
ensaio, qualquer análise do pleito de 1982, mas de inúmeros balanços e debates abertos ele ocuparia o lugar ideal daquele que tudo perdeu, pela viol@ncia e pelo embuste; do
que se seguiram, é poss(vel deduzir duas grandes linhas de análise. Elas parecem primitivo dono da terra; do que sempre perde mas nunca se submete; do que não per·
indicar, também, no fundo, o aludido dilema entre uma concepção restrita de ser ne- tence, enfim, a esta cultura e não respeita estas regras - e como tal aparece nesta cria-
gro e de movimento negro e outra mais ampla. ção original do negro carioca que é o "bloco de rndio". (I:secundário,.nesta hipótese,
A primeira linha de análise apontou o racismo como causa geral do fracasso: os que O Indio apropriado pelo negro carioca tenha a apar@ncia do apache norte-america-
canais e recursos partidários não foram postos à disposição dos candidatos negros em .no: seus atributos são os mesmos do Indio brasileiro real). Na 6tica do que convencio-
igualdade de condições com os brancos; a imprensa não lhes abriu espaços; e, enfim, nei chamar segunda linha de análise, o voto negro teria escapado, 'pois, no pleito de
a massa negra, v(tima de sistemática lavagem cerebral, foi presa fácil do populismo e da '1982, ao domlnio do movimento negro, em sentido estrito. Ele teria demonstrado O
compra de votos. A segunda, sem descartar sumariamente a alguma verdade deste diag- impasse a que chegou o referido movimento; e, ao mesmo tempo, uma safda possrvel.
• nóstico, sugeriu que o apelo'anti-racista puro já esgotou o seu fôlego, limitado à classe
média negra. Na sua ótica, o fracasso eleitoral dos que levantaram única, ou preferen-
cialmente, a bandeira do movimento negro, foi apenas 'reflexo do impasse a que che- 4 - Extendo dI problemática negra
gou todo o movimento: a impossibilidade de sensibilizar com as atuais estratégias o ne-
gro proletário. Quanto ao sucesso eleitoral dos quatro 'Candidatos - um deles o mais Conectado â definição de negro e â categorização de movimento negro e trazido
votado no Estado - que fizeram apelos múltiplos, não exclusivamente raciais, ao elei- à tona por impasses diversos - como a derrota nas eleições de 1982 - aparece, em
torado, esta linha de análise o tomou como indicador de uma nova estratégia para o seguida, o dilema da extensão da problemática negra. ~[i~~~','1ipg~.i~(~i,?~~9~,~~~;
movimento negro, capaz, ela somente, de superar o atual impasse. sando-se os números dos censosoficiaisl. interessando àpenas aos negros; ou se tratâri~

Fundação Escola de Serviço Público RJ 294 Politica é Administração Fundaçoo Escola de Serviço Público RJ 295 PolItica e Administra~
de problemática nacional - à semelhança da questão agrária, ou da formação da nação, partidos de oposição, nas eleições gerais (exceto presidente da república) de 1982 - fi-
por exempló::':-}9}~re~S~_~~o.
portanto ,a_,t??'~~_9çi~g:~9:T-P~~~i}~ir~?:-~-
Q
gurando mesmo como quarta prioridadà'~na carta~programa de um deles, o PDr. preci~
A tendência'hist6rica-do movimento (de"931'a 'cerca-de'--19fm)e encarat a pro· samente o vitorioso num dos Estados mais politizados da Federação, o Rio de Janeiro.
" blemática negra - a( incluídos o racismo, a marginalidade e a mobilização do negro- Os efeitos dessa passagem - ou dessa mudança de plano, se se preferir - são per~
como de minoria. Isto aconteceu, provavelmente, por deformação causada pelo mito cept(veis no discurso das lideranças e intelectuais negros nos últimos dois anos. O novq
da democracia racial - que, sobre ser um pacto de silêncio, o era também de invisibili- status da problemática negra estimulou-os a discutir problemas e conceito~_pr,i~~~iy?s/'
dade do negro; mas também pela visão incipiente das suas lideranças e dos seus intelec- =
até então, da inteligência branca o"colonialismo, a-formação histórica brasileira, a na~
tuais. O fato de o movimento negro brasileiro (no sentido estritol}~~fnascido e prospe· ção, o problema indígena; o ensino, o socialismo, a crise brasileirai e outrós;Deste no-
rado primeiro em cidades paulistas - onde a presença maciça dec()lônias européiéls e vo ângulo, já não há duas problemáticas. a de negro e a nacional, mas apenas uma, sob
orientais parecia submergir o conti~g~nt~~~~r~ ~LJ~~rj~t~rTlbém ser não~jnclusiva a disfarce - e este disfarce, ou recalque, constituiria, precisamente, o aspecto principal
questão' negra. De toda' forma, ao,collsid~rar:o racismo como excepcional e localizªdo da dominação colonialista, razão fundamental da nação incondusa bem como o ver-
nàsociedade brasileira (um dos postulados do mito), brancos e negros, militantes ou tente ideológica do racismo brasileiro.
não, só podiam considerar a questão negra como tópica e adicional à pauta dos proble- Ao desvelàrem como negra a problemática nacional, lideranças e intelectuais ne-
mas nacionais. gros se vêm a braços com ditCceis perguntas. Por exemplo: caberia ao movimento negro
Decorreu desta visão uma espécie de guetização do movimento negro: uma pecu- um papel hegemônico no bloco histórico nacional? Seria revolucionário o carãter do
liar impotência teórica de situar a problemática negra no centro mesmo da questão na- movimento negro (e não por acaso ressurgiu nos dois últimos anos a proposta de "par-
cional, de pensar a história, o pode~e a culturélnacionals desde dentro. Nestafase,o~ tido negro")? Essas demandas não se caracterizam ainda, contudo, como dilemas: são
negros organizados na luta contra o racismo tentaram elaborar uma outra percepção do demasiado recentes. Alguns efeitos pontuais da nova postura - imbricar a questão ne,
negro, negadora da percepção do branco, mas continuaram fiéis à percepção de Brasil gra no cerne da questão nacional - já são, mesmo assim, vislveis. Serve de exemplp a
que era do branco. Intuições e diagnósticos consagrados - como o da formação do po- recolocação da rebeldia~~\~~..q,?(p<lr(,?dpcoloni~1 (e.sp<lcialm~nte pelo aquiiombam~~­
vo brasileiro pela contribuição do negro e do índio a um fundo branco-europeu, tido tp)comp.IH1~§!~li~~~PD~cipQal'.ffimr~ri~Qd(). a tradição histP\i()gr~fi'3'.d~~i.lY~­
como óbvio - permaneceram todo aquele tempo fora. da sua capacidade crrtica. la ffirnO episódio adicional da. nossa história soci~1. Outro exemplo: a discussão da vio-
A fase que se estende do término da ti Guerra até os anos setenta, preenchida lência contemporânea brasileira como extensão da violência institucionalizada das re-
por quatro congressos e pelo Teatro Experimental do Negro, assiste ao esforço das lide- lações entre brancos e pretos por 4/5 do tempo de vida brasileira.
ranças e intelectuais negros por superar os limites da "problemática de minoria". Eles o Da mesma sorte, a questão das nações indlganas. 5ó recentemente o movimen·
tentaram, com efeito, de muitas maneiras: inscrevendo os direitos do negro na:Consti- to negro começou a elaborar uma visão dela diversa da sociedade nacional - a que es-
tuição de 1946 e nas leis do novo ordenamento jurídico - o que s6 parcialmente con- tá no senso-eomum, nos manuais didáticoS e naS" pai (ticas indigenistas tradicionais. E
seguiram; atraindo intelectuais e lideranças pol(ticas brancas para as suas discussões; apenas durante a campanha para ci pleito de 1982. no Estado do Rio de Janeiro, se re-
criticando o facciosismo das medições demográficas que davam o negro como minoria gistraram aproximações de lideranças e de discursos respectivos. De uma postura rigo-
etc. rosamente racial. ou mesmo étnico-racial - que é a de uma boa parte das lideranças e,
No final dos anos setenta, uma série de acontecimentos, de variada natureza, pa- talvez, a da maioria dos militantes do movimento negro":' b problema ind(gana é, com
receu indicar a transformação da problemática negra em 'questão nacional. Chegou-se, efeito, um problema de branco. Não assim do ponto de vista em que .a nova corrente
então, para começar, ao ponto máximo de desprestígio das interpretações do Brasil ba~ de Hderes, intelectuais e militantes procura se situar: no centro geométrico do concei-
seadas exclusiva, ou prevalentemente, na interação de classe - publicaram-~ naquel,es to de Brasil.
anos alguns estudos marcantes de antropologia e pelo menos um de história em que a
visão de Brasil passava necessariamente pelo papel do negro e do índio. Retornando de
• ex{lio voluntário, o mais prestigioso e combativo dos I(deres negros, Abdias do Nasci~ III - O Movimento Negro Brasileiro em Face da Crise
menta, publicou O Quilomb;smo, primeira tentativa de pensar a história e a perspecti-
va brasileira de um ângulo e com metodologia especificamente negros 10 , Em19~O; Não se poderia esgotar, naturalmente, no corpo deste ensaio, a descrição e anãli-
também, atingiu o ponto de ebulição um antigo problema: a parcialidade, ameaçada de se dos dilemas em que se debate um movimento tão antigo (cinqüenta anos) e tão am-
se ,tornar em omissão,. dos·censos dem9gr~:fi9_9~-C111~nto,aoquesitocor: o.. c?nfrq?to -.:- plo (representado em vinte e um estados do pars). Além dos que tratamos de per si, no
de um ladolideranças negras, deoutroCll.l~ºriqél:d~s censitárias - terárepercutido.. como cap(tulo anterior, alguns outros - igualmente cruciais - aparecerão embutidos neste,
pou90s,J'l.~:ppinião pública e no sentido de lhe tirar o caráterde"preocupação de mino~ por constituirem, na verdade, aspectos da crise particular do movimento, no contexto
ria"; Ehàuve, enfim, a inclusão formal da questão negra nas campanhas de todos os geral da crise brasileira. Servem de exemplos: 1P) decidir se se considera movimento

Fundação Escola de Serviço Público RJ 296 Politica e Administração Furn;lac;ão Escola de Serviço Público RJ 297 PoI(tica e Administraç!o

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I .--_
I
__ ..
• negro apenas,? conjunto de entidades e ações organizadas na luta contra o racismo ou
todo o conjunto de "estratégias de sobrevivência" e dinâmica cultural do negro no Bra·
concepção de Brasil (aí el~ esgo13 suas possibilidades de crescimento). Aceita esta hipó-
tese, podemos concluir que,o movimento negro, na sua atual etapa, é filho da crise bra-
, sil; e 2?) decidir se o movimento negro, entendido como movimento social, deve--se uti· sileira. mais particularmen~e da falência do mito da democracia racial. E, portanto, que
Iizar de diversos instrumentos pol(ticos, à sua disposição, ou se deve criar o seu pr6- sua passagem à etapa seg~inte - quando de novo voltará a crescer - depende da supe-
prio, espec(fico. ração da crise brasileira, [ que, também"logicamente, exigirá a redefinição do movi-
mento.
1 - A crise do ~ovimento negro Nosso ponto de par ida,' enunciado acima, é de que a crise atual do movimento
negro brasileiro - caractefizada pela dificuldade de crescer. é resolver seus impasses-
Nos seus cinqüenta e três anos, o movimento negro brasileiro - em sentidoestri.; se deve"basicamente, à inCl:apacidade de pensar a crise brasileira; e enxergar o papel que
to - passOU por uma fase inicial de aceleração (1931 a 37). a que se seguiu uma pro- o movimento deve dese.mrenhar na sua superação. Não se deve exagerar, no entanto,
·Iongada ~tPoi~.J1\l37acercade19751e,ólJtravez,aceleração (cerca de 1975 a 19B2). esta incapacidade. O que btiamêmos movimento negro é integrado por lideranças e in-
Tomamos'por" hip6teseque. elevive; pre!)8nterTl~lite;QlilTliarde um novo ret1y)(p- não telectuais com diferentes Igraus de inquietação e variado instrumental de análise; sem
isoladamente, mas como parte daquilo que se convencionou chamar crise brasileira. contar que a sua produçãr de idéias se d.esenvolve no contexto intelectual e ideol6gico
O movimento negro, com efeito, esgotou suas possibilidades de crescimento, na da sociedade global e ao fompasso de demandas sociais e étnico-raciais prementes. A
fase atual. Suas dezenas de entidades, consagradas explicitamente à luta contra a "cul- crise brasileira, em geral, bem como suas ligações com a crise especrfica do movimento
tura do racismo", há muito se estabilizaram num teta máximo de dois mil ativistas; o negro, começa a. Sér pensa~a no seu interior - e provavelmente se apresentará como di-
mesmo número de manifestantes que, em média, mobilizaram no Rio ou em São Pau~ lema (no sentido que prevlamenla defini) ,·dentro de algum tempo.
/0, para a celebração do último Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro).
N,~o 5~, ,c) ,,~ólTI_~ro_é estáv~I',mf,~:!l~_m~r11.-_ a.çomp?~iÇé1o~()~,ial dos mi Iitantese par,tici-
pantes eventuais: nunca abaixo da classe média proletarizada ll : 2 - A crise mundial
Supomos que esta crise do movimento negro consiste~'basicamente, na sua inca-
pacidade de pensar a crise brasileira. Há, nas ciências sodiais, poucos conceitos tão elásticos quanto o de crise. Nós o
A crença em que o Brasil constituiria exemplo de democracia racial embalou, pe- tomamos, no contexto dJste ensaio, como a cadeia de impasses cuja superação, unica~
lo menos, duas gerações de brasileiros, entre 1930 e cerca de 1970. Ela se articulava a mente, conduzirá a nova ~tapa histórica; superação contida, desde logo, como possibili-
Çlutras - como a da nossa cordialidade inata, a da natureza privilegiada etc. - form~m­ dade, no âmbito desses ~esmos impasses. É evidente, por exemplo, que a nucléariza-
do uma espécie de tecido conjuntivo da consciência nacional. A ineficácia dessas im'a- ção do planeta é um imprsse do processo civilizat6rio mundial - algo assim como um
gens idealizadas, como matéria-prima para realizar o projeto de nação - a necrose do vestibular da espécie, na ~xpressão de Carl Sagan - de cuja solução depende, absoluta-
tecido conjuntivo, se se preferir a metáfora - é o cerne do que se convencionou cha- mente, a continuidade de~e, enquanto, pO,r outro lado, as chances de se chegara essa
mar crise brasileira. solução estarão dadas (ai7da que enco~rtas) na própria existência da nuclearização. A
8~~_.,~~i o colapso do mito da~em?_cr,é:lc;.i_~.r~ci~1 que permitiu avançar o mo,:,.i~ humanidade, como as Crijnças, só faz as perguntas para as quais, de alguma forma, já
mento'negro, nos anos set~nta:__ Ele.n~? a~_ri~ia~~i~hC)so~inho-~_pEll~e~clusiva-pertin~~ tenha uma resposta.
cia d(l~s~?~.'ideran~5;_ma5,~lac~~ju~~~9:?~~;~:~a~~9~:i?~ri~t()ric:Els_fa~9ráyeis, Há uma cadeia de irpasses peculiar ao Brasil, uma crise especifica nossa, mas, de
que liquidaram em bloco o pacto ideológico qúe conformaya. ~np.~q}nteri?r de Bra- diversas maneiras, particiRamosda crise da história contempórânea mundial. Em alguns
si 1\-UfTl_~-?m~Hrl113r():?~n~~r?~:W~~I1~S,'~13.:,~_~.i_~~_~I~~ITI~~ia, vivendo as -tens~~__~?~- casos, reproduzimos no ~Iano interno, de população brasileira para população brasilei-
~.!rcit_itóri(lsdaascensão e da proletarização, promoveram, então, a aceleração do l'Tlovi- ra. oª dilema$ internaci01~is. de nações ricas para nações pobres. Em outros, o espaço
menta. Eles se beneficiaram da desmoralização do mito - e não apenas aos seus olhos, brasileiro aparece como local prr.i1egiado, inequ(voco, da equação contemporânea.
aliás - e promoveram a sua liquidação final. Já não era a resposta canhestra a uma ~ o caso do impassl. gera~o pela convivência de culturas ditas tecnológicas e cul-
ideologia em construção, como foi o caso da Frente Negra, entre 1931 e 1937. Era, turas ditas arcaicas. O d~iO é~ sem dúvida, mundial: como inserir no processo civili-
agora, a pá de cal numa crença socialmente falida. (O processo faz lembrar o da Cam~ zatório. comandado por aqUelas•. acelerado. a velocidades cibernéticas, as culturas e
panha Abolicionista. Até cerca de 1870, se tratou de enfrentar uma instituição fl(jres~ cripto--eivilizaçães que se movem à velocidade do carro-de·boi? Ora. o Brasil, com suas
cente; a partir da(, de eliminar uma instituição moribunda - s6 então a campanha cres- diversas culturas de arch Ie seus fragmentos de civilizações desaparecidas, convivendo
ceu como bola de neve, até atingir um determinado limite). com a cultura e a civiliza10 heglmônica mundiais (o Brasil, já se disse, é a Bélgica mais
Os limites do movimento negro atual são, pois, de um lado, o fim da anterior a (ndia), é um excepcional campo inteligivel deste desafio•
concepção de Brasil (ar ele começa sua aceleração); de outro, o começo de uma nova . Já alguém formulo~, com propriedade, o paradoxo da história contemporânea:
. I .

Fundação Escola de Serviço Público RJ 298 Politica e Administração Fundação Escola de. Serviçd Público RJ 299 Poiltica e Administraç~o
" se a civilização é um encontro excepcional de culturas diversas, num momento 6timo e de tudo, uma projeção sobre o presente (ou sobre o futuro) e num espaço supranacio-
num espaço favorável, a civilização é cada vez menos cjvilização - uma vez 'que a,domi~ nal. Ela seria, em suma: consciência histórica (tendo para a história recente) + consci~
, nação neo-colonial e as hegemonias econâmicas confinam e liquidam um número cada ência supranacional + perspectiva de presente/futuro. Essa d~scoberta trouxe corl)o co~
vez maior de culturas. rolário a reflexão sobre os mecanismos de. produção da cor, no Brasil ~ por exempJg.
O desperd (cio de recursos simbólicos que representa o confinamento e liquida- Produziu, tall"lbéT"Hll"lanova categorização do ser ~~~r?:_~~~9:~ri~:Y'P~~~~r1"l_~0~t
ção das culturas não-hegemônicas, s6 tem paralelo na consumação, utilitária ou não, trução~" basicamen~~;--~u~o~jtipI~9:':~~m:-r~n.~p,-?~s~:IH?IQ~~ _ dimensões; enqua-nto pr~~
daqueles propriamente f(sicos; noS bolsães de fome do Terceiro Mundo; no empobreci- to seria a criatura definida,pelo braÍlcO/asua banda podre. IA sugestão psicanalftlca
mento. a progressão geométrica, de vários pa(sas do hemisfério sul; nos nódulos crôni~ desse ponto de vista parece evidente: o branco e o preto comô superego e id, respecti·
cos de violência bélica; no alastramento da crueldade sistemática; na multiplicação dos vamente) 14 . "

regimes e formas de governo autoritários e corruptos; nos genocídios; na nuclearização A tentativa de incorporar à sua problemática, e, naturalmente, aos seus processos
dos arsenais de guerra e na militarização do espaço... O conjunto de desafios posto pe- de identificação, a crise mundial, e mesmo latino-americana, é geralmente um ponto de
la história contemporânea não tem paralelo no passado, até mesmo porque este tem a atrito entre o movimento e a consciência brasileira. Esta consciência, mesmo quando se
peculiaridade de colocar em xeque a sobrevivência da espécie. faz de esquerda, prefere ver o Brasil como bloco homogêneo em face do mundo - e
O que tem a ver um movimento social, localizado e de pouca amplitude, como o homogeneizado pela "tradição helênico-cristã" - sendo, portanto, irrelevantes os pon-
movimento negro brasIleiro, com esse feixe de desafios? Uma primeira resposta está em tos de vista étnico-raciais dessa crise IS . Reflexões de teóricos negros sobre a crise mun-
que a quase totalidade daqueles problemas se manifesta no espaço brasileiro, direta ou dial - tais as de L. Senghor, Frantz Fanon, Nkrumah - e sobre a diáspora negra, pro-
indiretamente - como é o caso da nuclearização. Ora, nenhum movimento - constan- duzidas sobretudo em congressos e simpósios internacionais, vêm despertando, contu·
te de ações polrticas e racionalizações, contextualizadas ambas - pode. se pensar abs- do, o movimento negro brasileiro para as suas dimensões Supranacionais.
traindo O quadro geral, em forma de história mas também de projeção para o futuro. " Há, por" outro lado, a expectativa das lideranças e intelectuais da diáspora negra
Dito de outra forma: a sobrevivência e crescimento do moviment9 negro brasileiro de-' quanto às reflexões produzidas aqui, como se efetivamente estivéssemos si,tuadas num
pendem da sua capacidade de refletir sobre o que se convencionou chamar de crise ângulo privilegiado para visualizar e oferecer respostas à crise mundial. Trata·se clara-
mundial, na sua forma presente e nos seus desdobramentos. mente de um desafio; e ainda que os negro~brasileiros não se tenham mostrado, até
Serve de exemplo a dramática questão da identidade negra. A história é sem dú- aqui, especialmente ousados nesta direção, uma parte deles já compreendeu que o seu
vida uma das suas dimensões decisivas - e, como tal, vem sendo esquadrinhada pelos movimento está diante da esfinge: ou decifra a _crise mundial ou desaparece.
intelectuais do movimento (como já se disse em .outro local deste ensaio, as entidades
de "pesquisa da cultura negra" prosperam, em geral, mais do que outras). A revisão da
história brasileira, como conseqüência das demandas do movimento negro, constituiu 3 - A crise brasileira
mesmo um dos fatos mais interessante do nosso quadro intelectual recente; haja vista,
o resgate do episódio de Palmares, que vem fornecendo, à historiografia colonial ele- Para efeito 'de raciocínio se pode examinar a crise 'brasileira em dois níveis. O n{·
mentos indispensáveis para elucidar a formação e dinâmica da sociedade escravista.l~ vai conjuntural dispensaria, por evidente, certos detalhamentos. Conviria, ainda assim,
A história é decisiva, mas não é, por si só, suficiente para construir a identidade ter presente os resultados catastróficos do nosso atual padrão de acumulação; a conver~
negra. Até mesmo porque o seu conhecimento coloca, sem cessar, novas demandas, são do Estado brasileiro num eficiente transferidor de rend~ para'o bloco de poder
cujas satisfações costumam estar adiante, não atrás. Vej~~~~?e~,~mp'15)Jj~,i?~ntifi~c;;ão;' que, por vinte anos, sustentou o regime militar; e, enfim, a falência das concepções pa-
com modelos negro~africarl9~,,(~~pli~,~~lmentep'l:)rxi~norte-americana),quefoi, no co- I rtico-ideológicas à disposição da nossa "classe polftica".
meço dos anos setenta, o primeiro impulso da *9ritude brasileira. N(Í"Bahia (e aliás, Há. contudo, por trás destas circunstâncias uma crise sistemática e mais antiga,
também, no Maranhão), onde este impulso, por razões óbvias, foi maior, após breve an- localizada na raiz da formação brasileira; e esta, precisamente, é que parece fadar ao in~
tropofagia de motivos norte~americanos, se pa~sou a consumir os caribenhos, e jamaica- sucesso, de antemão, quaisquer fórmulas que a elite brasileira experimentou desde o
nos, para nos últimos sete anos despontar, enfim, uma apropriação de motivos negro- advento da república - fosse conservadora, liberal ou reformista. E desde a república
brasileiros - da cultura e da história do negro brasileiro. A~sim, a te,mática dos afoxése porque só então se passou a projetar o país como nação.
"blocosafrOs" de Salyad?r chegou, hoje, à exaltação da África contemporânea e ?? ~ramos, com efeito, ao terminar o século XIX, um nação-inconclusa. O Exército,
passado recente do próprio-negro baiano. Parece ilustrada aí a "cilada" da identifica~ como corpo profissional, orgânico. presente em todo o território, s6 se constituiu entre
13
ção pela história: ela remete sempre do passado rriáis remOtO páraOmais recente . 1865 e 1870. A escravidão, que deixava a esmagadora maioria da população trabalha-
O que vai ficando claro aos intelectuais negros - intelectuais, aqui, no sentido de dora fora da cidadania, só se aboliu em 1888. O voto universal - salvo para anaifabetos
os que dão voz a demandas coletivas - é que a construção da identidade negra é, antes - é de 1891. A Federação, idem. O que, desde então, se convencionou chamar· unidade

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~~~'" "O ='"~ =,=,


" nacional, se conclu{ra - com um rastro de sangue sem paralelo em toda a América- me militar: ele sempre foi assim, mesmo quando o geriam bacharéis e literatos. O jogo
, apenas em 1845. com a liquidação da república farroupilha. E, enfim, 56 com a lavou- pai (tico institucional, a burocracia e o aparelho fiscal, as forças armadas e as leis _ tu-
ra cafeeira. por volta de 1860, demos o primeiro passo na direç§'o de uma economia dos isso s6 pode alcançar os parentes marginais da grande famnia com brutalidade sis~
cuja renda gerada se acumulasse, em maior parte. no interior do'pa(s. ·temática. Nesse quadro,q9u~ _ 8~,m9yin)ent()~so_ciais(eOl,g_eral,tra2:ernc:f~:~is~()~:~~("
Aquilo que os militares positivistas e os bacharéis republicanos chamavam de na· mente nov()éap()s~it>ilidad~tt€lprga1).izara sociedade brasill3ir~a_saIYottoi:>r§lçOtta,q~~:,'
çã9:er(l,.p()i~'_llIl'lJT1ero projeto. Contavam; é verdade. com alguns elementos indispen~ ção-estado. A salv(Jaté,mesl'1'1odosparti,tt()~pol(tioos qu~tendem - por v(cio histórico'
sáveis: um território, forças armadas (sobretudo Marinha). ponderável unidade Iingu(s- -'a encará-los como meros instrumentos de ação pol(tic8. -
tica, uma tênue e incipiente consciência nacional, que a guerra fizera nascer, uma c1as 4
Conectada a este aspecto da crise de fundo brasileira, aparece a falência dos con.
sepróprietária relativamente homogêneaesolidári;:.. Faltava, no entanto. o povo - no ceitas de "cultura brasileira" e "civilização brasileira". Pode-se dizer que, entre nós, es-
sentido histórico d~ população que vivendo num território dado mantém sobre ele uma sas categorias s6 se descolonizaram na cabeça de alguns intelectuais e poucas lideranças
relação de apropriação, sobre a qual assenta o direito de cidadania. A população eram pol (ticas. O~parelho deensin();el'1'1sris?permanente7: eoconjunto dasi_nstiturç;?~s,
negroslíbertos e {ndios despossuCdos; os primeiros, despossuCdos até mesmo do seu culturais públicas, por exemplo, ignoram o universo pluricultural em que estão imer,
próprio corpo. Por outras palavras, o desafiada elite republiçana era construir uma na· sos. Irapalham como se a população brasileira fosse "irreversivelmente vinculada aos
ção com uma"população que estava aqui mas não era daqui. valorés da tradição helênico-cristã", mesmo diante do fato óbvio de que os principais
O modelo com que trabalharam era o que estava na experiência de quatro sécu· s(mbolos nacionais sejam negros de origem 16 . O resultado desta miopia é ser a escola
los de sistema colonial-escravista. Um prócer da república, Rui Barbosa, postulava ser a brasileira mais ineficiente que aquelas em que até a Hngua distancia o povo da elite; e
"pátria a famllia amplificada". Que famflia7 se transformarem as instituições culturais públicas em meras transferidoras de verbas
Se é certo que a invenção humana s6 trabalha com materiais ofertados pela histó- para a "cultura propriamente dita" (o balé, a ópera, a música erudita, a pintura de van-
ria, s6 poderia ser a famOia patriarcal escravista, a que imperou por três séculos e meio, guarda etc.).
e não outra. No centro, absoluto, o macho branco; à sua volta, emc(rculos con<;êntri-
cos, e pela ordem: seus familiares da sangue, agregados brancos e mestiços e, por últi·
mo, (ndios e negros. Como nos sistemas heliocêntricos da astronomia medieval, a es- 4 - O movimento negro em face da crise
tabilidade e a coesão dependiam do girar imutável dessas órbitas fixas.
Quase cem anos passados. e em que pesem mudanças substanciais na organização Está visto que a crise de fundo brasileiro não Se esgota nesses pontos levantados.
estrutural da sociedade brasileira, ainda é aquela a visão de Brasil que está no senso-co- . Ocorre, 'apenas, que a crise da nação - ou melhor: dos projetas de nação elaborados
mum. O discurso do- brasileiro médio a respeito da questão étnico-racial é, por isso, li- até aqui - e das suas subcrises, como a da concepção de cultura e civilização brasilei-
teralmente dogmático: negros, (ndios, caboclos são, antes de tudo, brasileiros. Prova- ras, se apresenta mais visivelmente como desafios à reflexão do movimento negro.
°
velmente, isto Quer dizer que todos eles têm seu lugar assegurado na grande famJlia O,r~/_,~ia~~~_?_a,9ri~~.9r,~~:j1€!ir~,.?~~,?;,povimento ~o~~r~a ~emanter alheio (de fato'
brasileira, e, também, que as idiossincrasias e interesses deles só serão tolerados en- enganosamentealheio) - e-sucumbir; ou-'poderia. colocar-se no seu epicentro~ contex;.'"
quanto não ameacem a unidade e a boa ordem do conjunto. Ar está a origem da notó- tualizando~seecontribuindo·para_,'sua superação - e superar.se-ele''tàrnbéril.'Naverdad '
ria incapacidade brasileira de admitir o diferente (percebida, geralmente, aliás, como de,~€!.,encontramas duastendênciàs:hó interior do movimento negro brasileiro.
qualidade). AI está também o significado da sentença formulada por um profundo hu- Daquele segundo ponto de vista, que é o -no~s8' ~13;~~I~r~Il1??m.qlJ:~~rTlelhor,
morista: "Aqui, não temos problemas raciais: o negro reconhece o seu lugar". • definição de:J119yimemo::negro.é:todas,as entidades,' de'qualquer . ·natureza,.. . ~.~??~~~.~':':
O que entendemos por nação, continua a ser, pois, a famflia patriarcal-escravista ações, de qualquer tempo (a( compreendidas mesmo aquelas que visavam à auto~defE!---"
amplificada. Os projetos que nossa elite concebeu para ela tinha de entrar em crise se ffsica e cultural do negro), fundadas e promovidas por pretos e negr~~. (Utilizo pre-
mais cedo ou mais tarde. Os índios - e sintomaticamente eles se intitulam nações indr- to, neste contexto, como aquele que é percebido pelo outro; e negro COmo aquele que
genas, pois isso efetivamente é o que são, não passando de categorização colonialista o se percebe a si). Entidades religiosas (como terreiros de candomblé, por exemplo). as-
termo índio - não reconhecem mais o "seu lugar"; e nem desapareceram ou se integra- '. sistenciais (como as confrarias coloniais), recreativas (como "clubes de negros"), ar-
ram à grande família nacional. Antes ao contrário: os movimentos indígenas, ao maS;; trsticas (como o Grupo de Dança Afro Olorum Baba Mi). culturais (como diversos
~~t'~frl~9,~tJ?afirl11arn:'suaaltéridátt~~'~xigem' o recqnhecimento dá sua relação de "centros de pesquisa") e politicas (como o MNU); e ações de mobilização. politica, de
apropriação com uma parte do patrimônio:f(sico dito brasileiro. protesto anti-discriminatório, de aquilombamento, de rebeldia armada, de movimen.
Essa crise profunda e antiga da nação - uma nação sem povo, concebida à ima- tos artrsticos, literários e "folclóricos" - toda esta complexa dinâmica, ostensiva ou
gem e semelhança da fam(iia senhorial __ ~judaa~~pljcaroautoritarismo cong<lnito.do invis(vel, extemporânea ou cotidiana, constitui movimE!lnto negro.
EstCl(jq .brasileiro. O Estado brasilerro não é um Moloch criado, há vinte anos, pelo_ regi- A outra definição, excludente, 'é evolucionista: 'pressupõe que esta rica dinâmica

Fundaçao Escola de Serviço Público RJ 302 Po/ffíca e Administração Fundação Escola de Serviço Público RJ 303 Polftica e Admínistração

I ~,,,,,,,,,,,,,
· ~ deva convergir para o patamar superior da luta organizada contra o raci,smo, no inta·
fior do jogo pai (tico institucional ou fora dele. Mesmo admitindo a importância e a
sua cultura, em suma. Naturalmente, do ponto de vista destas últimas, cultura são ape~
nas as suas maneiras, não passando as do povo de manifestações folclóricas. Esta forma
inevitabilidade do jogo polftico, estamos ar diante do que alguém chamou "chantagem de ver as coisas, inaceitável para os 'que conhecem os rudimentos da ciência antropoló-
do maquiavelismo ocidental" que, hierarquizando as ações sociais, estigmatiza como gica, prevalece absoluta, no entanto, entre os que gerem o poder, formulam pqlíticas
alienadas e inferiores as não explicitamente pai íticas e como inconseqüentes as que e através dos partidos pai (ticos e, inspirados em diversas concepções pol rtico~ideoI6gi~
parecem não acumular energia pai ítica. cas, ~ travam o jogo pol (tico institucional. '
As estratégias decorrentes da definição estrita de movimento negro vão, por isso Ora, se há uma possibilidade de visualizar a' crise, e suas sardas, desde fora do seu
mesmo, de oportunismo conservador (como. por exemplo, ocupar "qualquer espaço campo de força (pois a( dentro os seus elementos cr(ticos acabam por'compor um cir-
concedido ao. negro" no sistema de poder) até ao revolucionarismo socialista (que im· cuito estável) é se colocandÇ> no ângulo de visão da: cultura popular, e mais precisamen-
plica em invest~r sumariamente as energias do movimento num objetivo teleológico). i te do seu núcleo pesado - a cultura negro~brasileira. Como' também, no plano mundial,
Qualquer que: seja a faixa do espectro, porém, estamos diante de uma pesada l s6 se poderia visualizar integralmente a crise planetária do ângulo das culturas e
civilizações que o processo neo~colonial vai confinando e liquidando rapidamente; e.
impotência: a de visualizar a crise contemporânea e brasileira desde fora do bojo da
cultura hegemônica no processo civilizat6rio. mundial. Presos à definição estrita de mo~ I pois, só com ~ sua incorporação ao processo civilizat6rio geral, encontrar as fórmulas
vimento negro, seus protagonistas movem~se em drculo, saltando de uma para outra
concepção pol(tico~ideoI6gica à disposição no universo pai ítíco visível. Ora, é precisa- I de superação da mesma crise. (Há nesta maneira de situar o problema uma simplifica.
çào. Tomamos a cultura européia ocidental, tecnológica, que prevalece na civilização
mente a incapacidade de alargar este universo, cujas possibilidades se esgotaram uma a
i mundial, em bloco. Na verdade, uma releitura de diversos pensadores seus, como Spj~

I
uma, que constitui um dos cernes da crise mundial e, por reflexão, brasileira. noza ou Hegel, mostraria como freqüentemente se situavam desde fora do sentido do.
As concepções pol(tico~ideológicas à disposição neste universo visível assentam minante naquela cultural?
todas, com efeito, nos mesmos pressupostos sobejamente conhecidos. Desde um mal
II
Não é fácil, entretanto, localizar este núcleo pesado da cultura popular brasileira,
disfarçado fascismo, passando pelo conservadorismo e liberalismo de centro-direita, a cultura negro·brasileira; não o era mesmo no passado, em que a população negra per-
centro e centro-esquerda, pela democra.cia-cristã, pelo trabalhismo e populismo de di- manecia relativamente segregada e constituía a quase totalidade da população. Sinto-
versos matizes, até os "marxismos", também de variada coloração - sem falar em com~ ~ maticamente, um bom número de entidades do movimento negro se dedica à pesquisa
binações livres de algumas delas -, tert:Jos na América Latina, certamente, amostras de
tudo o que a cultura pol(tica "ocidental" pode produzir. O que algumas lideranças e
I "das culturas negras", mas o objeto - fluido e em permanente interaçâo com outras;
submetido, ademais, a incessante disputa de hegemonias - parece escapar.
intelectuais dos movimentos sociais acabam por descobrir, cedo ou tarde - e não foi l Será difícil desenhar. cientificamente, o perfil da cultura negro~braslleira, mas is-
diferente com os do movimento negro brasileiro - é que os sentidos axiais delas. gera~
dos na etapa do ~upremacismo colonial europeu, são idênticos e invariavelmente impo-
I to não tem impedido lideranças e intelectuais negros de tentar o seu esboço; mesmo

I
porque uma coisa será sempre, em parte, aquilo que seus protagonistas dizem que é.
tentes para solucionar a crise. Ela' seria" para começar '~_rTl~,"~_~,I,;,~r,a_~~ fes~"-;cJ?~n~()'cJa _d_a~'~~':~?~S,~nti?g~;;8~­
~ poss(vel, de alguma maneira, visualizar as crises contemporânea e brasileira des~
exj?i?_~?,~"cJ~,;;?e~.~ção;'uma cultura_~~:O,~~I},~~~~; dacomunh~o com o outro e C,?rn o
de fora da cultura hegemônica em nosso processo de civilização? E em seguida: no caso ~ sobrenatúral etc~;;:.A~:'.r71,i~.i}5es afro~brasileir~~, .es~~ci_alrTle~t~_?~~~~?:rn,~I~;~~~~,D.agÔi
de ser poss(vel este exerc(cio teórico, como aeduzir dele as estratégias eficazes a serem por ·.cons~r;y~mrnr~lativarr;;ent~.I?~7;i~a.~,:~,~~_;Xi~~997:mLJlltJP'eurn9't7?~?ri~,~rr.j~~Il_~;§,
assumidas pelo movimento negro, de forma a contribuir na superação daquelas crises, ocupam., por·· iss%:primeir.oplano' dessaimagem.:ciue a iriteligêllçi9.. n~gr9. b.__,.us.ca,.dr.sf
e, enfim, da sua própria? matic~m,~.~t~"G?gstruir. A·:':~~rcia~~_~u.lt~_~~;regro~brasileira
,
é'Exu - o que tudo assi~
'," ""--'-"""'-'__ '-"""'-;""";''-.,;,-,.,.-,\1

Aludimos, a certa altura deste ensaio, ao confinamento e liquidação de culturas mila/oque'tudocomunga; o'multi~orme,oamoral,o q~eabre~rn;in~?~"9'rn~nS9:geirà';;:;
social e politicamente não-hegemônicas. Foi parcialmente o caso do Brasil, onde diver- entre deuses e homens, aquele que· "acertou ontem 'uma pedra' que só hoje' atirou~}.
sas culturas e cripto-civillzações negro~africanas se fundiram sob pressão do escravismo A cultura negro~brasileira·se expressaria de muitas formas, e em diversos contex-
(o que aliás aconteceria também com as culturas indfgenas). Não se conhece um s6 tos - na escola de samba cario~, nos folguedos rurais, nas religiões afro, na literatura
exemplo de confinamento prolongado de qualquer delas - a norma foi a compressão, oral etc. - permanecendo, no entanto, igual a si mesma. (Advirto ainda uma vez que
que gerou o que se convencionou chamar cultura negro-brasileira. não se trata a( de um desenho antropológico da cultura negro·brasileira, sobre o qual
Esta cultura negro-brasileira constituiu, pelas conheci.das razões históricas, o nú- existe aliás, farta bibliografia. Se tnita desta cultura na percepção de um' movimento
cleo, pesado do sistema a que se deu o nome de cultura popular brasileira, acabado de social).
formar pela contribuição de fragmentos de culturas ind (genas, européias e asiáticas. Ela Em conclusão, é' do ponto de vista desta cultura negro~brasileira _ desde fora,
é que está por toda parte - com maior ou menor teor de negritude, por assim dizer - portanto, da cultura hegemônica - quê se pode visualizar a crise brasileira. Apresen-
contrapondo-se às maneiras de organizar a compreensão do real privativa das elites, à ta-se, a esta altura, o seguinte problema: como pod~m as lideranças e intelectuais ne~

Fundação Escola de serviço Público RJ 304 Politica e Administração Fundação Escola de Serviço Público RJ 305 Polftica e Administração

.,...._-.-...
-~---====_.~-=- _._.~ _.
• <) 9r05 colocar-se no interior daquela cultura? Não há resposta prévia e teórica a esta per-
3.
gunta. mas o esforço sistemático de uma parte da liderança do movimento nesta dire~ Sobre .I'v1N_lJC[)~, ver: .CARDOSO"H~"'iltlJ_Q:".ª~FQ:ô:lr~_~~_ '_: : __ ~_'M-BY.im.~l)tos negros: é Preciso',~~
ln: Congresso de Cultura Nva das Américas-, 3. São;'Paulo/o:1982dE também GONZAlES,
,., ção alc;ançará, cedo ou tarde, algum êxito. Lélia & HASENBALG; Carlos_ Lugar de negro. Rio de Janeiro, Marco Zero, 1982.
Tâl;/_~:~:forÇo<C?meço:l~?,r~?,~~i~ir_(ç9mg)~~di~SE!_),a _definição de movirn~_~t()ne~ 4.
Os textos mais fundamentados sobre desigualdades raciais no mercado de trabalho são:
-,~r9:,:C:I~_'l1ãQ-\~-,.~_ist?,:-~~,i,~_'9?1Íl9'-Y~J19yarda -pai itizada em cuja 6r~i_t~gir~ o ~()nju~to _~a HASENBALG, Carlos A. "Desigualdades raciais no Brasil". ln Dados, Rio de Janeiro, 1973.
~9.ir~mica_:ne9ra>O:'movimento negro já não tem centro fixo, nem objetivos teleoI6~i­ HASENBALG, Carlos A. Dist:riminação e Desigualdades Raciais no BrasiL Ed. Graal, Rio,
cos.Não.e trata, portanto, de dar re,sposta poHtico-ideológica à crise brasileira - isso 1979. SILVA, Nelson do V,llle. "O Preço da Cor: Diferenças Raciais na Distribuição de
Renda no Brasil". ln PesquiSê e Planejamento Econômico, X {abril de 19801, pp. 21 a 44.
seria permanecer ainda dentro do espectro "maquiavélico da civilização ocidental" - G. de Oliveira, Lúcia Helena e outras. "O lugar do negro na força de trabalho". Mimeo,
1980.
mas de contrapor ao conjunto de concepções político~ideol6gicas à disposição, um OU~
5. SObre desigualdades raciais no setor de ponta, ler:
tro conjunto. estruturado sobre outros sentidos, princfpios e valores.
Serve de exemplo a idéia de nação - embora o problema não se limite a este, na- FONTAINE, Pierre-Michel. "'Aspects of Afro-Brazilian Career Mobility of the Corporate
World", Comunicação ao Simpósio "The Popular Dimensions of Brazil", Univ. de Califórnia,
turalmente. Em qualquer faixa do espectro visível ela obedece ao modelo patriarcal-es- Los Angeles, 1979. Idem. "Transnational Relations and Racial Mobilization: Emerging
cravista (a nação brasileira como grande fam(lia em que todos têm o seu lugar assegura- Black Movements in BraiW~. ln Ethnic Identities in a Transnational World. Ed. John F.
Ltack, Jr. Connecticut, 1980.
do e fixo). A cultura negro-brasileira oferece outro modelo: a famflia alargada, em que
6.
a "tia" ocupa o centro, e na qual a agregaçãqde parentes se faz, de preferência, por Ver SOUZA, Amauri de, "Raça e Polftica no Brasil Urbano", ln Revista de Administração
adoção·e não.,.por co-sanguinidade, havendo. poucos papéis prévios e lugares fixos. Mui- de Empresas, XI, outubro-dezrembi-o de 1971.SUPLICY, Eduardo Matar'azzo."A deSigual-
dade social, racial e sexual". ln Revista de Economia Politica. vaI. 2, n!J 4, outubro-dezem-
tas lideranças e intelectuais negros parecem convencidos, na atualidade - sobretudo bro/1982, pp. 130 a 136.
graças ao conhecimento da organização social da "nação palmarina" - de que essa fa- 7.
Ver: LAMOUNIER, Bol(var. "Raça e clàsse na política brasIleira" ..'n ll:adCJ$,.,np',5,J968;
mília extensa e aberta possa se contrapor à que serviu de matriz para a concepção de pp. 5·21. SOUZA, Amaury ce. ''Raça e POlítica no Brasil Urbano";111.RevistadeAdminis;-,
Brasil. 1ração de Empl'esas,·· XI;-outubro-dezembro 'de -1971;.'.·· SOAR,E~.-C:;J,~lJ,?il)!,ry pillon. "Clas.
ses Sociais, Strata Sociais e as Eleições Presidenciais de 1960". ln Revista Sociologia, vai. 23,
A segunda questão que propusemos é de ordem estratégiql. Como deduzir desta n!J 3, setembro, 1961.
descoberta (a saber: a possibilidade de visualizar a crise brasileira do ângulo da cultura 8. Ver VEDO·AMAURI. O Moymento Negro e as Eleições. SINBA, Rio, 1982.
negro-brasileiral linhas de ação para o movimento negro? 9.
SOARES, Gláucio Ary Dillon.' "O charme discreto do socialismo moreno". ln Jornal do
Uma resposta provisória, e general izante, mas, possível a esta altura, é a de que o Brasil, junho, 1984.
movimento negro - em sentido estrito, aqui - deve funcionar como ponte entre a di- 10. NASCIMENTO, Abdias do. O Ouilombismo. Ed. Vozes. Petrópolis, 1980.
nâmica negra e o processo polític.o-ideológico brasileiro, algo assim como um tran.sferi- 11.
Ver sobre 0,20 de Novembro. GONZALES, Lélia. Lugar de Negro, Marco Zero. Aio, 1982.
dor de energia. As saídas para a crise brasileira - e esta é apenas outra fórmula, equiva- 12.
Ver: MAESTRI FILHO, Mário. Escravidão. Luta de Classes, Transição. Porto Alegre, 1983,
lente - estão encobertas para os que a visualizam desde dentro da cultura hegemânica Mimeo.
no processo civilizat6rio brasileiro; mas não o estão para um movimento étnico e so- 13.
Sobre afoxés e'blocos-afro, dE"Salvador', ver: RISI::AIO, Antonio. Carnavalljexã. Ed. Cor-
cial, no sentido amplo. No sentido amplo, quer dizer: que se confunda com as próprias,
e múltiplas manifestações da cultura negro·brasileira, acrescentando-lhes, desde dentro,
, 14.
rupio. Salvador. 1981. E Coleção do Jornal Nego, bloco afro Olodum, Salvador, 1984.
Boa amostra de aplicação do método psicanal ítico à problemática negra está em: SANTOS,
o fermento da consciência disso que convencionamos chamar crise mundial e brasilei~ ;" Neuza. Tornar·se Negro. Graal, Rio, 1982.
ra. ~i" 15.
Boa amostra deste ponto de "'ista está em JAGUAAIBE, Hélio. "Os conflitos cardeais do
,i Brasil", ln Jornal do Brasil, Ca::lerno Especial, 06/01/85.
Linhas de ação renovadoras do movimento negro brasileiro, capazes de fazê-lo
~:~ 16. Ver FAY, Peter. Para Inglês Ver. Zahar, Editores. Rio, 1982.
avançar além·dos atuais limites, deverão se deduzir, então, daquele novo ângulo e desta ~
17. Ver SODAI::, Muniz. A Verdade Seduzida. Ed. Vozes, Petr6polis, 1984.
redefinição de papel.

Notas I
,1
M
Fontes Principais de Informações

"c-'; Arquivo do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, do Centro Universitário Cândido Mendes. (Rua da
1. o estudo mais completo sobre grupos e instituições negras brasileiras é de: SANTOS, Paulo ~
AssembMia, 10 - grupo 501 - RJJ
Roberto dos. Instituições Afro-8rasileiras. Centro de EstlJdos Afro-Asiáticos. Rio, 1984. 5 Arquivo do Instituto de Pesquisas des Culturas Negras, IPCN. (Rua Mem Oe SA~ 208 _ RJJ
2. Sobre imprensa negra e Frente Negra Brasileira ler: .MOURA.. -CI6yis~"IIIIP~.n_~}''lI_~r~)m~ ~~ Arquivo do Instituto de Pesquisa Afro'Brasileiras, IPEAFRO, da PUC de São Paulo. (Rua Monte
Alegre, 30 - SPJ
Pl'lt.n~tt:()ficiar.d()E_~ttte:to cje S6() P~ulo, SP, 1984 e MOURA, Clóvis. Brasil: as raizes dO'pro:-:
testo ';'I89ro. Global, SP, '1983. Arquivo pessoal do autor.
Anais do III Congresso das Culturas Negras da América - São Paulo, 1982.
~
~
Fundação Escola de Serviço Público RJ S06 Pofftica e Administração ~
.~ Fundação Escola de serviço Público RJ S07 Polftica e Administração

'-":'
"Bibliografia
i~ Movimentos SOC[ais no Brasil:
• Levantamento B[bliográfico
. .;
<J Além dos livros e artigos -citados em notas:

Vários': organizadores Paul Singer e Vin(cius C. Brant. "São Paulo: o povo em movimento", Ed. Voo
zes, Petrópolis, 1981.
AZEVEDO, Thales de. Cultura e situação racial no Brasil. Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1966.
AZEVEDO, Thates de. Democracia racial ideologia e realidade. Ed. Vozes, Petr6polis, 1975.
I I
Alberto Noé
Cléa Nascimento dos Santos

BASTIDE, Roger. Estudos afro-brasileiros. Ed. Perspectiva. São Paulo, 1973.


MOURA, Clóvis. O negro: de bom escravo a mau cidadão? Ed. Conquista. Rio. 1977.
I" o presente levantamen~o é parte de um projeto de pesquisa patrocinado pela
NASCIMENTO. Abdias. O negro revoltado. Ed. Nova Fronteira, Rio, 1982. Universidade das Nações Uni~as. através do programa Perspectivas da América Latina:
OLIVEIRA. Roberto C. de. Identidade. etnia e estrutura "oclal. Ed. Pioneira, SP, 1976.
Os Movimentos Sociais no Blasil. Integra-se também ao projeto UNU/CLACSO: Os
RAMOS, 'Arthur. O negro brasileiro. Cia. Ed. Nacional, SP, 1934.
Movimentos Sociais frente à Trise na América do Sul. do qual Theotônio dos Santos é
RAMOS, Arthur. O espirita associativo do negro brasileiro. Revista do Arquivo Nacional. Rio.
o coordenador nacional no Brt l.
s/data.
o

DZIOZIENYO, Atlanl. The p05ition of Blacks in Brazilian Society. Londres Minority Rights
Group, 1971. Nosso objetivo é levantJ a bibliografia existent,e sobre os movimentos sociais no
FERNANDES, Florestari. A integraçiio do negro na sociedade de cluse. 2 vai. Dominus Editora, perfodo compreendido entre 1974 e 1984, per (ado que registra uma maior atuação
SP,1965. dos vários movimentos sociais marca também uma década de crise mundial do capita-
LUZ, Marco Aurélio. Cultura Negra ti' Ideologia do Recalque. Ed. Achiamé. Rio. 1983. lismo e suas repercussões no capitalismo dependente latino-americano.
RevistEI "Estudos Afro-Asiáticos" n?lS 6-7, do Conjunto Universitário CIndido Mendes. Rio. 1982.
iANNI. Otavio. Escravidão e Racismo. H(Jcitec, São Paulo, 1978. Os primeiros passos nesk etapa inicial do levantamento, de cuja limitação temos
MOTA. Carlos G. Ideologia da cultura b'Bsileira. Ed. Atica, SP. 1977. consciência, se restringiram a ailgumas fontes disponíveis no Rio de Janeiro: monografi-
SOARES, Gláucio A. Oillan. Sociedado e Politica no Brasil. Difusão Europêia do Livro. SP, 1973. as apresentadas nas reuniões aruais da ANPO~S (Associação Nacional de Pós-Gradua-
FRAZIER. E. Fronklin, A Comparison of Negn>Whi'hl Relatlon. in BrtlZil and the Unlted ln "" ção e Pesquisa em Ciências S'i'ciaisl. Revista Indice de Ciências SociaisllUPERJl, Re-
Statas. Reimprosso da Transactions of the New Vork Academy of Sclences, Séries II, 6, "9 7
{Maio oe 19441. pp. 251 8269. vista Espaço & Debates INERU - Núcleo de EstUdos Regionais e Urbanos) e Série De-
FERREIRA, Sylvio José. A quenio f'8Cial negra em Recife. Edições Pirata, Recife. 1982. bates Urbanos (lUPERJ). CanJlizamos nosso esforço no sentido de levantar e registrar
Vários:· Coordenador Renata Raul Boschi. Movimentas Coletivos no Brasil Urbano. Zshar, Rio. o volume de trabalhos acadêmibos referentes aos movimentos sociais escritos em forma
1983.
,
ij
~
de artigos, cuja relevância é recrnhecida por toda a comunidade acadêmica.

I
~.
l!
Os sub-temas consideradr são:

Movimentos de MUlhere1, Movimento Negro, Movimento Operário, Movimento


~
!v, de rraba.'hadores Rurais, MOVImentos de Favelados, Movimentos Eclesiais de Base e
ABSTRACT Movimentos Sociais Urbanos.
~
ln thls essav the author ,pends a fiut part ln historiçal antecedents of present day' í
As outras etapas do trab lho incluirão São Paulo, Minas Gerais e as regiões Nor~
Brazilian black movement. Ha divides it in two parts: from 1931 to 45 and from
1945 to 84. ln a second part he describes some kev diiemmas to the racial, ethoie or
social, it$ alectorai avenues, their size and Iimits. ln a third parto he assumes a crlsis of
I
i
te, Nordeste, Centro-Oes1e e Sul, que ""rvirão de suporte para o projeto global.
black movement as an integral part to the Braz1l1an crisis and in a lupranational I
extentlon of black problematie; draws a Brazillan crlsls ln mat It affects the move·
mant ano hipothesiz8S a posslbillty of vlewing it from a Black·Brazllian cultural. !
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Polftica 8 Administração
Fundação Escola de Serviço Público RJ 308 PoIftica e Administraç~o
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