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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 10, 2, jul-dez 2010, 38-53.

http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index Uma publicação da Associação Brasileira de


ISSN 1984-6657 Psicologia Organizacional e do Trabalho

Artigo - Ensaio Teórico

Burnout e Perspectiva Clínica: Contribuições do


Existencialismo e da Sociologia Clínica
Fernando Gastal de Castro1*
José Carlos Zanelli2*

1. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina com estágio doutoral realizado na Université Paris-Diderot com bolsa de estu-
dos da CAPES. fernandogastal@gmail.com. lattes http://lattes.cnpq.br/9580453990111289.

2. Professor do Departamento de Psicologia e do curso de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.
jczanelli@terra.com.br. lattes http://lattes.cnpq.br/9763879073138485.

Resumo
O objetivo deste artigo é contribuir para o avanço de uma perspectiva clínica sobre o fenômeno de burnout, a partir do
existencialismo e da sociologia clínica. Apesar de o fenômeno de burnout ser, atualmente, muito pesquisado no domínio
da psicologia organizacional e do trabalho, quando se trata de compreender seu processo de desenvolvimento
evidencia-se ainda uma zona largamente desconhecida. Buscaremos, dessa forma, formular certas bases conceituais
com o intuito de apreender o sujeito em sua historicidade individual em relação à realidade sócio-organizacional e,
como forma de abordar o processo de desenvolvimento do fenômeno de burnout. Para esse propósito, certas noções
da sociologia clínica francesa e do existencialismo sartreano serão utilizadas por permitirem teorizar sobre o processo
psíquico de burnout em sua implicação com os níveis organizacional e sócio-histórico. Por fim, este artigo finaliza com
a proposição de quatro hipóteses teóricas sustentando que o processo de desenvolvimento de burnout é capaz de
revelar um fracasso no nível do projeto, resultante das novas formas de gerenciamento e organização do trabalho no
atual modo de produção flexível.

Palavras-chave: burnout, esgotamento emocional e trabalho, sociologia clínica, existencialismo.

Abstract
Burnout and Clinical Approach: Contributions from Existentialism and Clinical Sociology

The aim of this theoretical study is to advance a clinical perspective on the phenomenon of burnout, based on existen-
tialism and clinical sociology. Although the phenomenon of burnout is nowadays widely researched in the field of work
and organizational psychology, when it comes to understanding its development process, one is presented with a zone
still largely unknown. What is sought, thus, is the formulation of new conceptual frameworks in order to grasp the sub-
ject in its individual historicity in dialectical relation with social and organizational dynamics, and as a new way of
approaching the phenomenon of burnout. Certain notions of French clinical sociology and Sartrean existentialism will
be used for this purpose, as this allows one to theorize on the psychic process of burnout in its involvement with orga-
nizational and sociohistorical levels. Finally, this article finishes with the proposition of four hypotheses that maintain
that the burnout development process can reveal a failure at the project level as a result of new ways of work manage-
ment and organization in the current mode of flexible production.

Keywords: burnout, emotional exhaustion and work, clinical sociology, existentialism.

Castro & Zanelli. Burnout e Perspectiva Clínica

Recebido em: 03.11.2009


Aprovado em: 21.10.2010
Publicado em: 28.03.2011
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m meados da década de 1970, nos fenômeno psicológico relacionado ao trabalho,

E Estados Unidos, começam os estudos


sobre o fenômeno de burnout com
Maslach (1993), no âmbito da Psicologia Social,
vivido por aquelas pessoas com forte
investimento profissional e que, pouco a pouco,
se tornam desiludidas, deprimidas, sem
e com Freudenberger (1987), na clínica autoestima e energias e com atitudes de cinismo
psiquiátrica. Nesse período inicial de frente aos outros.
investigação, o que ambas perspectivas tinham Na mesma época em que Maslach realiza
em comum era a abordagem clínica em relação esse trabalho clínico inicial e faz suas primeiras
ao fenômeno. Maslach (1993) começou descobertas sobre burnout, Freudenberger
trabalhando com entrevistas individuais, (1987), clínico e psicanalista, observa que seus
investigando os mecanismos de enfrentamento pacientes, por vezes, eram vítimas de um
(coping) usados pelos profissionais de ajuda verdadeiro “incêndio interno”, em função das
para lidarem com a emotividade gerada pelo seu altas exigências de trabalho. Seus recursos e
trabalho. No entanto, o que mais chamou a energias eram consumidos, a ponto de restar
atenção dessa pesquisadora, não foram os somente um vazio interior e um esgotamento
mecanismos de enfrentamento, mas sim, um que se assemelhava a um estado depressivo.
grande número de profissionais que se mostrava Freudenberger é considerado um pioneiro do
exaurido física e emocionalmente, com aversão conceito de burnout, com a publicação de um
e menosprezo pelas pessoas a quem prestavam artigo intitulado Staff burnout, no Journal of
seus serviços e vivendo uma sensação de Social Issues em 1974, um pouco antes de
fracasso profissional que os fazia questionar sua Maslach, onde aparece, pela primeira vez dentro
competência (Maslach, 1993). do âmbito científico, uma conceitualização de
Ainda dentro de uma perspectiva clínica, burnout como queima das energias psíquicas em
Maslach e Shaufeli (1993) se referem a casos nos função da hiperatividade profissional. No
quais se observa um processo de desilusão, entanto, mais importante que o pioneirismo de
seguido de um esgotamento psíquico Freudenberger são algumas de suas formulações
incapacitante, em função das exigências sobre a dinâmica psíquica envolvida nesse
organizacionais e de trabalho. Um dos exemplos processo de incêndio interno. Para esse
citados é a descrição do caso de uma enfermeira psicanalista, o processo psíquico de burnout se
publicado por Schwartz e Will na revista inicia no momento em que o indivíduo se
Psychiatry (Shaufeli & Enzmann, 1998). Em um apercebe de que a tarefa à qual tinha se
primeiro momento, o relato apresenta uma proposto é impossível de ser realizada, o que
pessoa apaixonada pelo que fazia, cuidando de significa dizer que a tensão e o estresse que
seus pacientes com extrema dedicação e vigor, levam o indivíduo à queima total de suas
para, em seguida, em função das pressões da energias coincidem com uma experiência de
situação de trabalho, se tornar pouco a pouco frustração entre um “eu atual” e um “eu ideal”
desapontada e desiludida, passando a tratar não realizado (Freudenberger, 1987). A
seus pacientes com indiferença e se sentindo, importante contribuição clínica de Freu-
cada vez mais, exausta e sem energias. Maslach denberger, nesse sentido, foi de pôr em
e Leiter (1997) citam ainda alguns relatos de evidência, pela primeira vez, a ruptura psíquica
entrevistas clínicas nas quais se observa a (Freudenberger, 1987) existente em burnout.
mesma paixão e dedicação ao trabalho pouco a Ruptura que, para o autor, se dá entre o “eu
pouco se perdendo em função de um processo real”, portador das verdadeiras aspirações do
de desilusão e desgaste, deixando os indivíduos indivíduo, e o “eu imagem” que persegue um
totalmente esgotados psiquicamente. Desse ideal de perfeição e excelência exigidos pela
momento inicial de investigação clínica resultou sociedade moderna. O trabalho clínico de
uma primeira definição de burnout como um Freudenberger, nesse sentido, fornece uma

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primeira compreensão do processo de desilusão como intimamente relacionados à perda desse


e de ruptura psíquica entre o que é idealmente sentido existencial dado ao trabalho.
esperado e aquilo que é efetivamente realizado, Paixão, energia, dedicação e sentido
que, por sua vez, estaria na base do profissional se transformam em esgotamento,
desenvolvimento de burnout. desilusão, ruptura psíquica e perda de sentido
Esse trabalho clínico de Freudenberger existencial, eis as características do fenômeno
influencia, a partir dos anos de 1990, a clínica do de burnout que a perspectiva clínica começa a
trabalho, onde médicos e psicólogos como identificar e busca compreender. Logo, entender
Devezier (1992a, 1992b) e Pezé (2008) vão essa transformação da paixão pelo métier em
sustentar, com base em casos clínicos, que o aversão e esgotamento se coloca como um novo
elemento determinante no processo psíquico de desafio teórico e metodológico. Por que,
burnout é a experiência de fracasso e desilusão justamente, aqueles profissionais dedicados ao
que resultariam da enorme distância entre os trabalho começam a, cada vez mais, se
objetivos perseguidos com grande vigor e desiludirem e desenvolverem burnout ao se
determinação e os resultados efetivamente perceberem longe dos ideais almejados? O que
alcançados. É possível observar nas descrições está acontecendo nas organizações para que
desses autores ligados à medicina e à clínica do cada vez mais pessoas comecem a perder o
trabalho, a mesma ruptura psíquica identificada sentido do que fazem e caiam em uma espécie
por Freudenberger, resultante, da mesma forma, de estado depressivo? Que tipo de mudanças
das fortes exigências de performance profissional. podem ser capazes de provocar esse tipo de mal
Durante a década de 1980 e início de estar em cada vez mais e mais pessoas? Avançar
1990, nos EUA surgem dois trabalhos realizados sobre essas questões, a partir de uma
a partir de uma abordagem clínica e que perspectiva clínica baseada na historicidade
permitem um enriquecimento da compreensão individual, é o objetivo da discussão teórica que
do processo psíquico de burnout. Cherniss se segue. Sem pretender dar respostas
publica Beyond burnout (1995), resultado de definitivas a essas questões, este artigo visa,
uma pesquisa baseada em 23 histórias de vida acima de tudo, ampliar as possibilidades de
de profissionais com esgotamento profissional, compreensão do processo de desenvolvimento
e Pines e Aronson publicam Career burnout de burnout, baseado em uma perspectiva clínica
(1988), uma análise de casos clínicos a partir de ancorada no existencialismo e na sociologia
uma perspectiva psicanalítico-existencial. O que clínica.
ambos trabalhos têm em comum é a formulação
da hipótese segundo a qual o processo psíquico Historicidade Individual e Sociologia
de esgotamento, desilusão e ruptura se Organizacional: Direções Teóricas para o
relaciona à “perda do sentido existencial do Avanço de uma Perspectiva Clínica sobre o
trabalho”. A desilusão e a ruptura vividas por Fenômeno Burnout
aqueles sujeitos com grandes aspirações e Para avançar uma perspectiva clínica sobre o
exigências de performance no trabalho, processo de desenvolvimento de burnout,
representam, então, um fracasso do sentido buscaremos articular certas noções sobre a
dado ao trabalho e que englobaria o conjunto da historicidade individual com uma compreensão
existência pessoal. A conceitualização de da dialética organizacional, capaz de produzir o
burnout, portanto, ganha uma nova dimensão: estresse, a tensão permanente e conduzir certos
os sujeitos com alto investimento profissional indivíduos ao esgotamento emocional. Nesse
dão um sentido a seu trabalho que ultrapassa os sentido, abordaremos o fenômeno de burnout a
limites profissionais e que inclui sua existência partir de uma perspectiva, ao mesmo tempo,
passada e futura. Por consequência, o processo diacrônica e sincrônica: diacrônica como
de desilusão e a ruptura psíquica se evidenciam historicidade individual, de modo a permitir

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compreender a experiência de ruptura psíquica e ruptura psíquica existente em um processo de


e de perda do sentido existencial do trabalho; e burnout ou a perda do sentido existencial do
sincrônica como modo de relacionar essa trabalho, é necessário encontrar seus vínculos e
historicidade singular com as contradições suas articulações com o plano sócio-histórico,
organizacionais e sociais em que se encontram onde os conflitos familiar, organizacional e de
os indivíduos. Ou seja, o indivíduo será classe determinam o sujeito e demarcam os
abordado como sujeito na sua historicidade, limites de sua autoprodução individual.
produtor e produto da realidade social Desse modo, o estudo da historicidade
(Gaulejac,1987; Zanelli & Silva, 2008), bem como individual do ponto de vista clínico e biográfico
a organização será tratada como uma prática (Legrand, 1993; Sève, 2008; Castro, 2010) permite
coletiva organizada (Aubert & Gaulejac, 2007) e compreender o homem como sujeito capaz de
socialmente construída (Zanelli & Silva, 2008). fazer alguma coisa de si mesmo e dar um sentido
No plano individual, tal proposição à própria existência, a partir de condições sociais
significa que, para compreender um homem e determinadas. Uma perspectiva clínica ancorada
seu processo de esgotamento emocional, é na historicidade individual, permite, dessa
necessário abordá-lo em sua historicidade e não maneira, analisar a gênese social do sentido
em sua capacidade de adaptação: “umas das existencial do trabalho, bem como o processo
especificidades da espécie humana é a singular de transformação do entusiasmo pela
possibilidade de cada indivíduo agir sobre si profissão em esgotamento, ruptura psíquica e
mesmo, operar um trabalho sobre si, se perda de sentido.
autoconstituir em personalidade, em sujeito” Para abordar o processo de desenvolvimento
(Gaulejac, 1987, p.45). Uma lógica dialética e de burnout a partir da historicidade individual e os
histórica substitui, nesse aspecto, a lógica conflitos psíquicos como produto social, faz-se
funcionalista (Gaulejac, 2002), à medida que necessário, no que se refere ao plano
permite visualizar a especificidade humana de organizacional, o mesmo ponto de partida sócio-
transcender seu passado e suas determinações histórico, de modo a permitir compreender a
sociais em direção a um outro futuro. Desse relação entre sujeito e organização como uma
ponto de vista, o processo de esgotamento realidade histórica engendrada e constituída pela
emocional precisa ser pensado em sua ação humana conjunta. Todas as metáforas que
historicidade singular, quer dizer, a partir do associam as organizações a uma máquina, a um
sujeito como um ser capaz de agir sobre si organismo ou a um sistema computacional, como
mesmo em determinadas situações, ultrapassar mostra Morgan (1996), terminam por perder a
seu passado, imprimir um sentido a sua dimensão antropológica e histórica da ação
trajetória e, na mesma medida, capaz de perder individual e conjunta que produz e reproduz a
esse sentido em função de certas determinações totalidade organizacional como um processo
sociais e organizacionais. contínuo, contraditório e sempre inacabado: “a
Tal historicidade individual está indis- organização não ama, ela não tem vontade, afeto,
soluvelmente implicada nas condições sócio- desejo, angústia, arrependimento nem esperança
históricas de sua existência e produção, o que (...) são os homens que, em nome da organização,
significa afirmar, dessa forma, a gênese social dos elaboram suas políticas, sua regras, seus
conflitos psíquicos: “É então essencial para procedimentos” (Aubert & Gaulejac, 2007, p.234).
compreender a historicidade presente nas A organização, portanto, não é um hiperorganismo,
trajetórias sociais, compreender os mecanismos conforme sustenta Sartre (1985), seu status
de produção social dos indivíduos, a maneira ontológico é prático, seu conjunto depende da
onde o sócio-histórico está presente na história maneira como a ação humana organiza e divide o
individual” (Gaulejac, 1987, p.50). Para trabalho e suas finalidades dependem da ação
compreender, portanto, a experiência de fracasso política e das escolhas ideológicas e técnicas e não

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de leis funcionais. Da mesma maneira, suas no plano de sua historicidade singular e de suas
contradições devem ser compreendidas como implicações com a dialética organizacional e
resultados de práxis contraditórias, de relações de sócio-histórica. Tal ponto de vista sobre
poder instituídas e mantidas por um processo historicidade individual permite compreender o
recíproco, no qual, os homens são, ao mesmo homem como sujeito se construindo desde sua
tempo, produto e produtores. E, por fim, sua inércia infância, por meio de suas relações de classe e
é compreensível como produto do trabalho familiares, enriquecendo-se e transformando-se
humano que institui procedimentos, ritmos e por sua trajetória profissional e pelo sentido
modos gerenciais, que transformam os homens em dado ao trabalho, bem como o momento de
recursos com vistas a garantir a continuidade e a ruptura que o burnout representa. E, ainda, a
eficiência dos objetivos organizacionais. Portanto, é articulação desse ponto de vista com o plano
uma inércia prática e historicamente produzida, e social e organizacional, permite situar o sujeito e
não uma inércia natural que obedeceria a leis compreender a lógica organizacional em que ele
funcionais. está inserido, bem como as contradições capazes
Nesse sentido, é necessário uma mudança de queimar suas energias. A partir dessa
de paradigma, como sustentam Gaulejac (2002) perspectiva, é possível perguntar: qual o sentido
e Chanlat (2001), relativa à teoria organizacional, dessa experiência de esgotamento, desilusão e
que (1) ultrapasse o objetivismo, baseado no ruptura psíquica no âmbito da historicidade
princípio da eficácia, para um paradigma singular? E qual dialética social e organizacional
antropológico de compreensão do sentido; (2) se estaria na base desse problema?
oponha ao funcionalismo, que pressupõe um
padrão normal de funcionamento do sistema, Burnout e Lógica de Excelência Organizacional
uma apreensão dialética das contradições como Um trabalho que trata de burnout a partir da
inerentes à prática humana organizada; (3) perspectiva clínica de Freudenberger em
supere o método experimental de análise de articulação com uma análise sócio-organizacional,
variáveis inertes com uma abordagem clínica que é Le coût de l’excellence, de Aubert e Gaulejac
busque a experiência vivida pelos homens em (2007). A hipótese do livro em relação ao burnout
sua situação; e, por fim (4) que abandone a é que tal queima total das energias se mostra
concepção do indivíduo como recurso da como um dos resultados das novas formas de
organização para compreendê-lo, como sujeito gerenciamento organizacional, postulando
produtor e produto do processo organizacional. dialeticamente a existência de uma congruência
Tal mudança paradigmática se torna necessária entre as exigências de excelência das organizações
para que seja possível uma nova maneira de atuais e o dinamismo psíquico ligado à
abordar a relação sujeito-organização, no que se historicidade individual. Quando, por exemplo, a
refere ao processo de desenvolvimento de empresa IBM anuncia ser o caminho mais curto
burnout. Pois, como sustenta Enriquez (1992), entre “o que sou e aquilo que eu quero me
um dos principais problemas teóricos referentes tornar” (Aubert & Gaulejac, 2007), ela põe em
à teoria das organizações essa mudança diz evidência o surgimento de uma cultura
respeito à concepção funcionalista, que faz dos organizacional que passa a funcionar como um
homens recursos do sistema e trata seus terceiro elemento entre a identidade individual e
conflitos como um desfuncionamento e de uma a identidade social. Uma cultura constituída não
maneira a-histórica. mais à maneira de um poder disciplinar, conforme
Portanto, o ponto de partida adotado para definição de Foucault (1996), mas de maneira
compreender a transformação da paixão, da reticular, buscando a adesão dos funcionários a
energia, do sentido no trabalho em uma causa coletiva. O gerenciamento taylorista,
esgotamento, da desilusão, da ruptura psíquica baseado em recompensas externas é, nesse
e da perda de sentido é o indivíduo como sujeito sentido, substituído pela busca de um

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gerenciamento pela excelência, baseado na colocar as pessoas em tensão constante entre o


adesão psíquica do sujeito aos ideais propostos real e o ideal, entre o risco da exclusão por ser
pela organização. Ideais que tem como mediano e a luta individualizada pela inclusão na
característica, a exigência de um modelo de busca da excelência.
personalidade que deve buscar sempre ser mais No entanto, pensar o indivíduo dentro
do que é, solicitando uma mobilização psíquica desse sistema organizacional paradoxal é pensá-
total, em que se pretende que cada um se torne a lo como sujeito produtor da organização e de si
empresa. O princípio de excelência, como base do mesmo, e não como mero produto passivo de
novo sistema gerencial, implica em uma um poder gerencial que faria desaparecer a
congruência entre os ideais exigidos pelo sistema singularidade dentro de um todo abstrato. O
organizacional e a personalidade individual, com sistema organizacional e seus paradoxos existem
seus ideais e desejos singulares. O indivíduo, dessa como realidade histórica, à medida que os
maneira, não é passivo, mero produto do sistema, indivíduos aderem e interiorizam o ideal
mas ativo produtor da dinâmica coletiva, por organizacional em seu funcionamento psíquico.
encontrar no modelo organizacional proposto Nesse sentido, Aubert e Gaulejac (2007)
uma resposta a seus desejos e aspirações estabelecem algumas etapas vividas pelos
pessoais. Mas, ao mesmo tempo, o indivíduo é um sujeitos que chegam ao esgotamento emocional
produto de seu produto, no sentido de sofrer com que, por sua vez, se mostram relevantes para o
as determinações da estrutura organizacional que enriquecimento de uma abordagem clínica do
ele próprio ajudou a produzir. processo de desenvolvimento de burnout . Em
Uma hipótese desenvolvida por Aubert e um primeiro momento, tem-se o indivíduo e a
Gaulejac (2007) e também por Gaulejac (2004) organização como dois elementos distintos, de
para compreender a dialética organizacional que modo que a dinâmica psíquica individual e a
estaria na base do processo de desenvolvimento dinâmica coletiva organizacional ainda não se
de burnout se refere ao sistema organizacional encontrariam implicadas uma na outra. Nesse
atual como portador de injunções paradoxais. Ou momento, de acordo com Aubert e Gaulejac
seja, um sistema que se faz portador de (2007), encontrar-se-ia, de um lado, o indivíduo
demandas contrárias e mutuamente excludentes, com um ideal marcado por uma busca
capazes de colocar as pessoas sob estresse e fundamental de sucesso profissional, forjado
pressão, produzir tensão psíquica e, desse modo, pela convergência entre seu desejo infantil e os
conduzir à queima total das energias daqueles ideais parentais e coletivos e, do outro, o ideal
que aderem. A partir do momento em que a organizacional permeado pelos princípios de
lógica organizacional exige que seus funcionários excelência que se apresentam ao indivíduo
sejam sempre mais do que são, estabelecendo, como uma forma de se tornar o que deseja.
por exemplo, um sistema de avaliação no qual A partir do momento em que passa a
aqueles que cumprem todas as obrigações de existir uma reciprocidade entre o funcionamento
trabalho e produtividade são considerados psíquico e a organização, estabelece-se assim,
medianos (Aubert & Gaulejac, 2007), tal lógica é um contrato narcisista (Aubert & Gaulejac, 2007)
portadora de um paradoxo: solicita-se ser do indivíduo com a organização, ou seja, um
excelente, mas evidencia-se a todo momento que sentimento de pertencimento ao coletivo, à
todos não passam de medianos. Uma lógica maneira de um comprometimento afetivo
organizacional, portanto, que traz em si a (Zanelli & Silva, 2008) definido no quadro desse
contradição entre o que se pode ser dentro da artigo, como “ato de juramento” (Sartre,1985).
realidade de um campo de possibilidades e aquilo Conforme a definição de Sartre (1985), um ato de
que se tem de ser, como um ideal normatizado, juramento se caracteriza por uma implicação de
conforme sustenta Dujarier (2006). Tem-se, dessa ser entre o sujeito e a organização: jurar é um
maneira, um sistema organizacional capaz de ato, uma práxis ativa de comprometimento do

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ser do sujeito com o outro. A partir desse ato de indivíduo passa a funcionar a partir do modelo
juramento, portanto, indivíduo e organização já organizacional pensando, querendo e escolhendo
não são mais indiferentes um ao outro, à medida de acordo com sistema cultural, simbólico e
que uma parte da personalidade se modifica em prático da empresa, em detrimento de si mesmo.
função de uma interiorização do ideal Tal hipótese, portanto, leva a considerar a
organizacional às instâncias psíquicas. Mesmo existência de um processo de distanciamento
que o sujeito, antes mesmo de começar a entre o que o sujeito projeta e deseja para si e
trabalhar na organização, já sonhasse com ela e aquilo que a organização deseja ou exige que o
já desejasse tal atividade profissional para seu sujeito seja e faça. É, em certo sentido, o começo
futuro, como é frequente para os profissionais do de um processo de perda de si mesmo em
setor de serviços assistenciais, é necessário que o detrimento de ser outro, que se põe, ao mesmo
ato de juramento se realize. O sujeito deve, desse tempo, como uma exigência externa de
modo, responder ativamente em função de um produtividade e eficiência, mas também, como
certo desejo pessoal realizado, sob a forma de exigência interna em função do ato de juramento
um comprometimento concreto com tais realizado ao ideal organizacional. Esse processo
colegas, com tal função, com tal divisão do pode tomar diferentes formas, como a crença
trabalho e com tais ideais materializados nos obstinada no ideal organizacional, o medo da
procedimentos cotidianos. O desejo de ser certo exclusão, a oscilação de humor entre satisfação e
tipo de profissional pode existir desde a infância, frustração, a tensão, mas tem em sua base um
mas a organização pode não corresponder ao processo de alienação em andamento. Eis um
que é desejado e, dessa forma, o ato de paradoxo do ideal das organizações dentro do
juramento pode não se realizar e, portanto, a modo de produção flexível, conforme definição
implicação recíproca e de interioridade entre a de Harvey (1992): ele é realizador do desejo
historicidade individual e lógica organizacional individual e capaz de produzir a adesão e o ato de
pode não se efetuar. Uma consequência teórica juramento e, ao mesmo tempo, é alienante e
dessa noção de juramento é que o burnout capaz de distanciar o sujeito de si mesmo, sugar
somente poderia se desenvolver naquelas suas energias e esvaziar seu desejo individual.
pessoas que juram compromisso à organização, Desse modo, a partir do momento em
ou seja, que agem de forma a interiorizar os que o sujeito se aprofunda nesse processo de
ideais organizacionais a seus próprios projetos e perda de si mesmo ao ideal organizacional, ele
desejos pessoais e que se implicam se tornaria, por consequência, cada vez mais
concretamente com aquilo que fazem. dependente do reconhecimento do outro,
Um outro momento do processo de fazendo com que as demais dimensões de sua
esgotamento emocional analisado por Aubert e personalidade (relações familiares, conquistas
Gaulejac (2007) se caracteriza pela captação do passadas, desejos exteriores ao ideal
psiquismo individual ao ideal organizacional. Um organizacional, etc.) fiquem relegadas a um
importante aspecto dessa hipótese sobre o plano secundário ou até desprezadas. Dentro
processo psíquico de queima de energias é que, desse quadro de captação-alienação, de
diferentemente do momento de juramento, onde dependência e de fragilidade, é previsível que
existiria uma reciprocidade entre aquilo que é certos acontecimentos estressantes ligados ao
desejado pelo sujeito e aquilo que a organização trabalho se tornem capazes de desencadear
lhe oferece, no momento em que se fala em uma crise, geralmente presente naquelas
captação, enfatiza-se a existência de um processo pessoas que chegam ao burnout, como
de alienação. Nesse caso, o funcionamento demostram Freudenberger (1987), Cherniss
psíquico se torna, pouco a pouco, constituído (1995), Pines (2002a, 2002b) e Pezé (2008).
pelo modelo de funcionamento ideal prescrito Tal momento de crise, por sua vez, colocaria
pela organização de trabalho e, cada vez mais, o em evidência o fato de o sujeito ter chego ao

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limite de suas condições psicológicas e de não lógica organizacional, outra questão parece
mais suportar a tensão e o estresse, a ponto pertinente: qual sentido sócio-histórico pode ter
de se produzir uma ruptura psíquica, o fato de a totalidade organizacional se produzir
conforme observado por Freudenberger em termos de contradições paradoxais? Ao
(1987). primeiro conjunto de questões, referentes à
Um momento no qual uma forte historicidade individual, será utilizada a noção
experiência de fracasso e desilusão seriam de “projeto de ser” do existencialismo de J.-P.
vividas e onde um “impasse”, conforme definição Sartre, por possibilitar uma abordagem da
de Legrand (1993) se constituiria. Ou seja, um historicidade como projeto totalizador da
momento destotalizador da historicidade existência singular (Sartre,1985) e, portanto,
individual (Castro, 2010), que coloca o sujeito em capaz de fornecer uma compreensão do sentido
uma contradição vivida como insuperável entre da adesão e do juramento à organização como
um ser que ele era, e que respondia a um certo um sentido existencial, bem como explicar a
desejo singular, e um ser que ele se tornou, experiência de fracasso como alcançando a
marcado por uma experiência de fracasso e totalidade do projeto de ser do sujeito. Em
desilusão resultante de seu processo de relação às consequências da lógica
captação-alienação à lógica organizacional. organizacional paradoxal, serão utilizadas as
Uma primeira síntese teórica possível noções de serialização, de prático-inerte e de
sobre o processo de desenvolvimento de totalização em curso (Sartre,1985), por
burnout, a partir da perspectiva clínica exposta permitirem teorizar o processo sócio-histórico
até o momento, pode ser dada nos seguintes engendrado desde a década de 1970, como
termos: a nova lógica organizacional, resultante determinante do processo de desenvolvimento
do modo de produção flexível, é portadora de de burnout.
um paradoxo: mostra aos sujeitos a A noção de projeto de ser (Sartre, 1943,
possibilidade de uma realização de si mesmo, ao 1985), ao abordar o sujeito como totalização
mesmo tempo em que destitui o sujeito de si temporal entre seu livre projeto e as
mesmo. Logo, a historicidade individual, ao determinações sociomateriais, permite
interiorizar esse paradoxo no seu processo de considerar o sentido existencial do trabalho,
autoprodução histórica e se comprometer com a bem como a experiência de fracasso existente
organização pelo ato de juramento, passa a no burnout, em dois sentidos complementares:
viver, como consequência, a tensão psíquica (1) Em relação ao passado de infância, como um
entre sucesso e fracasso, capaz de desgastar o momento ultrapassado e conservado pelo
sujeito e levá-lo ao burnout. projeto totalizador e (2) em relação ao futuro na
idade adulta, como finalidade projetada a partir
Fracasso do Projeto de ser e Crescimento das condições organizacionais e de trabalho.
da Serialização Comecemos pela infância.
Algumas questões no que diz respeito à A infância, segundo a psicanálise existencial
historicidade individual merecem ser postas (Sartre,1943) é um momento no qual se realiza
para avançar a abordagem clínica sobre o uma escolha original que o sujeito faz para si,
processo de desenvolvimento de burnout, quais como uma ultrapassagem singular das
sejam: por que as pessoas aderem e juram determinações familiares e de classe. A noção de
fidelidade à organização com tanto entusiasmo? neurose de classe, desenvolvida por Gaulejac
Qual é precisamente o sentido dessa adesão no (1987), e a dialética inferioridade-superioridade
conjunto da historicidade individual? Qual a que lhe é constitutiva se tornam compreensíveis,
dimensão da experiência de fracasso e desilusão por exemplo, como ultrapassagem das
capaz criar a ruptura psíquica e levar o sujeito ao contradições de classe e das prescrições do
esgotamento emocional? No que diz respeito à projeto parental, por uma escolha subjetiva que se

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projeta rumo a um ser futuro, dentro de um méthode (Sartre, 1985), seja nos estudos
campo determinado de possibilidades social e biográficos sobre Jean Genet (Sartre, 1952) e
material. Nesse sentido, a ação de se projetar Gustave Flaubert (Sartre, 1971) – desenvolve uma
expressa a raiz antropológica do ser humano em outra concepção de infância, diversa da freudiana,
seu duplo movimento de interiorização da como mostram Lémière (1999) e Cannon (1991),
objetividade e de exteriorização da subjetividade na qual em vez de estar fundada sob um complexo
(Sartre, 1985). A infância, embora evidencie universal inconsciente que se interiorizaria e
condições singulares em relação à idade adulta, é constituiria o psíquico, é compreendida como
vivida, portanto, dentro desse duplo movimento projeto original eleito em situação (Sartre, 1943) e
de interiorização das condições familiares e de constituída por momentos de compreensão de
classe produtoras, por exemplo, de humilhação e uma possibilidade de ser singular, como início de
vergonha, e de exteriorização de um livre projeto um processo totalizador.
totalizador, que objetiva no mundo social uma Ao mesmo tempo, o sentido existencial do
determinada possibilidade de ser desejada. Dessa trabalho e a experiência de fracasso se referem,
maneira, o forte investimento no trabalho como já mencionado, não somente ao passado
permeado pelo desejo de vingar as mulheres de de infância, mas ao futuro que o sujeito busca
sua família, tal como é possível observar, por realizar em seu juramento aos ideais
exemplo, no caso de Noemi analisado por Aubert organizacionais. É preciso existir, como
e Gauleac (2007), que ela encontraria nas sustentam Aubert e Gaulejac (2007), uma
condições de humilhação vividas na infância as congruência entre o projeto de ser individual e
bases desse duplo movimento mencionado acima: as possibilidades oferecidas pela organização,
a interiorização da humilhação e do projeto caso contrário, o sujeito não realizaria o ato de
parental e, ao mesmo tempo, sua ultrapassagem juramento e não integraria os ideais
em direção a um futuro de ser alguém organizacionais aos seus próprios ideais. É, no
reconhecida e admirada como mulher por meio entanto, em razão da organização de trabalho
de seu trabalho. O investimento profissional, efetivamente se objetivar como uma
nesse caso, é um meio de superar a humilhação e possibilidade fundamental para realização do
chegar ao reconhecimento e de se tornar dona de ser desejado, que tal indivíduo se projeta com
si mesma sem precisar depender de um homem. tanto empenho. O que significa dizer, mais uma
O projeto de ser, portanto, é totalizador da vez, que a relação entre indivíduo e organização
historicidade individual, à medida que revela as não é somente adaptativa, mas constituída por
ações da infância pelas quais o sujeito uma práxis ativa, que busca realizar através da
constantemente interioriza a exterioridade e organização um sentido existencial desejado
exterioriza a subjetividade, conservando seu que ultrapassa os limites do trabalho, mas que
passado e, ao mesmo tempo, o superando em somente se realiza através de tal atividade
direção a um futuro desejado. A infância é vivida profissional e das possibilidades de ser que tal
nessa unidade contraditória de superação- atividade oferece em determinado momento.
conservação (Sartre,1985), expressando, assim, Dessa maneira, a adesão, como ato de
uma complexa temporalização na qual o futuro juramento à organização, implica um sentido
não tem como existir sem o passado que se deseja existencial dado ao trabalho como um momento
superar, ao mesmo tempo que o passado somente do projeto totalizador (de ser), no qual se
se faz atuante no presente, à medida que um unificam a infância, como escolha original, e a
futuro é escolhido como realização de outra profissão, como possibilidade de realização do
situação no mundo diferente da vivida projeto desejado.
anteriormente. A psicanálise existencial – seja em A noção de projeto de ser permite, ainda,
seus aspectos teóricos desenvolvidos em L’être et apreender a gravidade da experiência de
le néant (Sartre, 1943) e em Questions de fracasso, de desilusão e de ruptura psíquica

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Burnout e Perspectiva Clínica 47

vivida pelos sujeitos em função dos paradoxos demonstra Le Guillant (2006). A burocracia
organizacionais. Então, permite formular a engendra o comportamento previsível e o
hipótese de que o fracasso e a desilusão conformismo à norma, conforme sustenta
abrangem uma dimensão temporal que afetam Lapassade (2006). Mas, tanto o sistema
tanto a escolha original feita na infância como a taylorista como o racionalismo burocrático, não
possibilidade futura desejada através do são capazes de produzir burnout, tal como a
trabalho na organização. O esgotamento das literatura descreve (Shaufeli & Buunk, 2003 ;
energias psíquicas representaria um momento Maslach, Shaufeli & Leiter, 2001). Para sustentar
de fracasso do projeto de ser (Castro, 2010), essa hipótese, faz-se necessário compreender o
capaz de provocar uma ruptura na historicidade crescimento da serialização presente na lógica
individual, alcançando a totalidade do sujeito e, organizacional atual que preconiza a excelência
não exclusivamente, sua relação com o trabalho. e a adesão psíquica. Utilizaremos, para esse fim,
O burnout, dentro desse quadro teórico, se duas noções complementares à de serialização,
mostra uma ruptura do projeto de ser, não no quais sejam, a de “prático-inerte” e a de
sentido de uma reorientação para outro projeto “totalização em curso” (Sartre, 1985).
possível (o que poderia caracterizar uma Os dispositivos inventados pela nova
reversão do projeto singular) ou no sentido de lógica gerencial com a finalidade de canalizar os
um enriquecimento da historicidade individual desejos individuais ao ideal organizacional, seus
preexistente, mas como um fracasso de toda procedimentos que demandam um tempo e um
uma empresa singular desde a infância até a espaço ilimitados de dedicação ao trabalho, o
idade adulta de dar sentido a si mesmo e ao modelo de ser humano presente nos manuais de
mundo social (Castro, 2010). instrução, são todos objetos prático-inertes. São
Um outro aspecto teórico importante se objetos sociais (Sartre, 1985), produtos do
refere ao fato de que tal fracasso do projeto de trabalho humano manual e intelectual e que
ser que o burnout representaria uma relação portam um destino pré-fabricado para cada um
com o processo de captação-alienação dos indivíduos, capaz de definir do exterior o
produzido dentro de uma lógica organizacional lugar de cada um no coletivo social: “o campo
paradoxal. Nesse aspecto, são procedentes as prático-inerte é o campo de nossa servidão, e
críticas feitas por Gaulejac (2004), Aubert isso não significa uma servidão ideal, mas uma
(2003), Ehrenberg (1998) e Boltanski e Chiapello submissão real às forças naturais, às máquinas e
(1999), a respeito do poder do modo de aos aparelhos antissociais” (Sartre, 1985, p.437).
produção flexível (Harvey, 1992) e de suas novas A avaliação de desempenho realizada pela IBM e
formas de gestão organizacional, de produzir o analisada por Aubert e Gaulejac (2007), que
mal estar psíquico em suas diversas formas. Para define como funcionário mediano aquele que
avançar na teorização do processo de executou todas as tarefas de trabalho solicitadas
desenvolvimento de burnout, enquanto modelo e como excelente aqueles poucos que bateram o
significativo de um fracasso do projeto recorde de produtividade, é um exemplo de um
totalizador dentro de uma lógica organizacional objeto prático inerte dentro do novo modo
paradoxal,é necessário conceber o crescimento gerencial. A avaliação é um produto do trabalho
do poder serializante (Sartre, 1985) das novas humano, que se objetiva como um utensílio (um
formas de organizar o trabalho em relação aos objeto-ferramenta, conforme Sartre, 1985) para
princípios tayloristas e ao racionalismo definir quem é excelente e quem é mediano e
burocrático. Em outras palavras, embora sejam que estabelece como cada um deve se
serializantes, a taylorização e a lógica comportar no futuro. Os microcomputadores e
burocrática não são paradoxais, mas celulares, que tornam o executivo integralmente
conformistas e fatigantes. A rotina e a repetição ligado às exigências de performance da
produzem a fadiga física e o desgaste, como organização, são também exemplos atuais de

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objetos prático-inertes nas organizações, pois assim a um ideal organizacional paradoxal é se


determinam os comportamentos tal como subordinar a um conjunto de exigências prático-
devem ser realizados. inertes que produzem a superatividade, a falta
São “objetos-utensílio” (computadores, de tempo real para realização das tarefas, a
celulares, protocolos de avaliação) que se demanda crescente de mais trabalho e o
caracterizam como uma “matéria trabalhada” individualismo competitivo.
(Sartre, 1985) pela atividade humana individual Tal processo serializante implica, por sua
ou coletiva e que adquirem o status de inerte, vez, uma modificação profunda nas relações
como todo objeto material, à medida que não interpessoais, à medida que não somente cada
possuem consciência, necessidades próprias e um corresponde às demandas do campo de
tampouco decidem seu próprio porvir (Sartre, objetos prático-inertes, mas exige de seu colega
1985). No entanto, esse caráter inerte e fazer o mesmo, criando-se, dessa maneira, um
condicionamento mútuo em que todos repetem o
material, é capaz de determinar o ritmo de
mesmo comportamento de subordinação,
trabalho dos indivíduos, o tempo destinado à
fazendo crescer a serialização coletiva. Cada
realização de uma tarefa, o valor de cada um
indivíduo passa a se relacionar com o outro
dentro da empresa, em suma, é capaz de traçar
através de exigências adaptativas comuns,
o futuro e o passado e exigir de cada um uma produzidas pelo sistema organizacional paradoxal,
prática adaptativa: os e-mails que estão na caixa esvaziando, pouco a pouco, as relações
de correio eletrônico necessitam ser interpessoais de qualquer conteúdo significativo
respondidos para a empresa funcionar, o celular singular, em função da implicação e subordinação
precisa ser atendido a qualquer hora para de todos a um mesmo conjunto de objetos
otimizar o tempo de trabalho, a avaliação prático-inertes serializantes.
estabelece o nível de engajamento esperado e A adesão a uma lógica organizacional
quais serão os excluídos. O domínio dos objetos paradoxal é, dessa perspectiva, a adesão a um
prático-inertes é, portanto, o domínio da tipo de serialização específico, caracterizado por
subordinação às exigências do sistema, bem uma luta pelos melhores lugares e postos de
como da individualização de cada um em função trabalho no interior das organizações, conforme
de um conjunto de demandas exteriores. afirmam Gaulejac e Léonetti (1994). Luta esta
Nesse sentido, à medida que as relações constituída por atitudes individualizadas de
humanas e interpessoais dentro de uma preservação ou de barganha por cargos ou
organização se tornam cada vez mais lugares dentro da organização que, por sua vez,
dependentes dos objetos prático-inertes, a tornam as pessoas cada vez mais impotentes
lógica das relações coletivas se torna uma lógica face a possibilidade de decidir sobre seu futuro.
serial (Sartre, 1985). A adesão do sujeito a um As organizações industriais – baseadas no poder
ideal organizacional paradoxal é, portanto, disciplinar, na hierarquia e na divisão taylorista
portadora de uma possibilidade de realização de entre concepção e execução – possuem
si, mas ao mesmo tempo a adesão a um sistema certamente um forte poder serializante. No
de objetos prático-inertes serializantes que entanto, as novas formas de gestão criadas pelo
demandam a cada um fazer cada vez mais modo de produção flexível, ao substituir o
trabalho, com cada vez mais urgência e com controle hierárquico pela mobilização do desejo,
cada vez menos recursos em razão da eficiência o controle externo pelo controle interno
do sistema. As relações sociais e coletivas, dessa (psíquico), a submissão à ordem pelo
forma, se serializam em função da adaptação e engajamento ilimitado a um ideal de excelência
da subordinação de cada um e de todos às (Gaulejac, 2004), põem em evidência um
demandas e ao destino pré-fabricado pelo crescimento da dependência por um campo de
sistema de excelência organizacional. Aderir objetos prático-inertes estressantes, que fazem

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crescer a serialização no âmbito das relações como não significa que pessoas e grupos devem
coletivas. assumir esse futuro e esses meios, fazendo da
Embora o sistema gerencial atual constitua- organização uma totalização em curso (Sartre,
se por um crescimento da subordinação dos 1985). Nas grandes organizações empresariais
indivíduos a um campo de objetos prático-inertes atuais, é o grupo de acionistas que concentra o
estressantes e por um coletivo serializado em poder decisório sobre o futuro organizacional
termos de luta antagônica, é importante (Aubert, 2003). Será também o grupo de
considerar que a dialética organizacional não acionistas que escolherá o presidente da
deixa de existir enquanto totalização em curso empresa e a forma de gerenciamento adotado,
(Sartre, 1985). Ou seja, o crescimento da ou seja, os meios de produção necessários para
serialização não significa que o sistema deixa de que a empresa possa chegar ao final do ano
se reproduzir nos termos de um processo fiscal com uma rentabilidade satisfatória. E
histórico sempre inacabado em função da serão seus funcionários e equipes de trabalho
atividade prática dos sujeitos e dos grupos que que viverão e produzirão, seja na revolta, na
dele participam. O caráter serial, portanto, de impotência ou no comprometimento, os
maneira alguma destitui a natureza histórica da objetivos e a unidade de tal comunidade prática,
totalidade organizacional e de seus sujeitos. Ao nos termos de uma luta serial.
contrário, ele fornece o sentido mesmo do Portanto, há nesse nível uma relação
processo em curso e das contradições internas dialética entre um grupo decisório, portador de
existentes no interior desse processo. Como um novo projeto organizacional, permeado pelo
argumenta Enriquez (1992), os problemas da novo espírito do capitalismo (Boltanski &
análise organizacional se encontram não somente Chiapello,1999) e o coletivo de seus funcionários
na análise do funcionamento, mas nas razões e trabalhadores que passam a viver e produzir
históricas da burocratização ou flexibilização das um novo processo de serialização, como luta
estruturas, do seu processo interno de individualizada por melhores condições ou
desenvolvimento, bem como de qual a tendência postos de trabalho. Essa relação entre grupo
de evolução de sua luta e de suas contradições. decisório e coletivo serializado é, nesse sentido,
Para entender esse processo em curso, permeada por antagonismos, contradições,
mostra-se necessário compreender que esse tensões, oposições e acordos, como fatores
aumento da serialização coletiva e da inerentes ao processo organizacional em curso.
dependência dos sujeitos a um campo cada vez No entanto, o crescimento do mal-estar no
maior de objetos prático-inertes estressantes trabalho e, especialmente, do burnout permite
não existe isoladamente, mas em reciprocidade pressupor a existência de um processo
(Sartre, 1985) com os grupos que possuem o progressivo de perda dos laços de reciprocidade
poder da “ação organizadora” (Dujarier, 2006). A grupais no interior das organizações, bem como
noção de objetos prático-inertes, como objetos uma tendência ao aumento da luta serial e um
socialmente produzidos implicam, dessa desenvolvimento, cada vez maior, do poder de
maneira, uma práxis ativa de um grupo com o um grupo decisório. Como sustenta Sartre
poder de produzir ou mandar produzir os (1985, p.714), a aceitação do poder é uma
objetos sociais que vão organizar o espaço e o interiorização da impossibilidade de recusá-lo.
tempo de trabalho, bem como uma práxis ativa Dito de outra maneira, ele se impõe pela
dos sujeitos que se serializam, subordinando-se impotência de todos e cada um o aceita
ao sistema organizacional. O fato de o poder assumindo sua inércia [...] cada um obedece na
gerencial ser anônimo e estar dissimulado pelos serialização. Não por que assume diretamente
objetos prático-inertes, não significa que não por obediência, mas porque cada um não está
existam pessoas e grupos que definam o futuro certo que seu vizinho vai reclamar por estar
da organização e os meios de alcançá-lo, assim obedecendo.

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Sartre relata uma totalização em curso que se, do mesmo modo, modelos teóricos (Shaufeli,
evidencia um processo histórico de centralização Maslach & Marek, 1993) capazes de predizer,
do poder organizador nas mãos de cada vez sob que situações o burnout pode se
menos pessoas, portadoras de um projeto desenvolver. Esse conjunto de conhecimentos
organizacional que faz o coletivo de seus disponíveis ocupam uma importância central ao
funcionários trabalhar dentro de uma contradição expor a gravidade do problema, evidenciando
paradoxal que, por sua vez, fornece um sentido fundamentos indispensáveis para consolidá-lo
ao trabalho e, ao mesmo tempo, o aniquila. como um fenômeno relacionado às orga-
Contradição essa assumida e reproduzida pela nizações de trabalho do mundo atual.
ação prática coletiva dos sujeitos e grupos, que Este artigo pretendeu, por sua parte,
serializa o campo sócio-organizacional, nos contribuir para o avanço de uma perspectiva
termos de uma competição interna e de uma luta clínica sobre o problema. Uma perspectiva que,
antagônica no plano das relações interpessoais. segundo o ponto de vista aqui adotado, é capaz
Esta parece ser, portanto, a totalização em de revelar certas características fundamentais do
curso nas organizações que estaria na base do processo psíquico implicado no desenvolvimento
desenvolvimento de burnout, compreendido a de burnout, ainda largamente desconhecido
partir da perspectiva clínica, conforme apresentada como sustentam Taris, Le Blanc, Shaufeli e
neste artigo. Um processo caracterizado pelo Schreurs (2005). Nesse sentido, é importante
crescimento da centralização de um grupo nessa conclusão sintetizar as principais hipóteses
decisório, permeado pelos novos princípios de teóricas que uma perspectiva clínica, baseada no
gestão flexível, que intenciona fazer com que as existencialismo e na sociologia clínica, permitem
pessoas interiorizem um ideal de dinamismo, postular. O objetivo é, então, demarcar certas
rapidez, dedicação, comprometimento e excelência possibilidades de investigação, para que seja
no trabalho, diminuindo os meios e os recursos possível avançar na direção proposta, bem como
para fazê-lo, acelerando o tempo e colocando os refletir sobre seus limites.
indivíduos em um estado de urgência constante. Uma primeira hipótese é que o sentido da
Implicada essa centralização do grupo organizador, atividade de trabalho é um sentido existencial,
parece existir ainda um processo de crescimento da que precisa ser compreendido a partir do projeto
serialização do coletivo, devido ao aumento da de ser do sujeito. O entusiamo, a performance, a
dependência e da submissão às demandas de um dedicação e o comprometimento profissional
conjunto de objetos prático-inertes cada vez mais estão, dessa forma, relacionados ao projeto
estressantes, cortando com a reciprocidade original eleito desde a infância e reassumido no
interpessoal e fazendo com que a prática coletiva se momento de escolha profissional, no qual o
produza como luta individualizada e competitiva sujeito jura fidelidade aos ideais da organização,
por melhores postos e lugares de trabalho dentro à medida que encontra nesses ideais, uma
da organização. possibilidade indispensável para a realização do
seu projeto de ser desejado.
CONCLUSÃO Uma segunda hipótese se refere à
O fenômeno de burnout é largamente estudado existência de um processo de distanciamento
nos dias atuais e possui uma visibilidade entre o projeto de ser e a gestão organizacional
mundial, principalmente nos países europeus e que exige do sujeito a realização de ideais de alta
americanos. Tem-se atualmente, em larga performance, ao mesmo tempo que produz a
medida, um acúmulo de conhecimentos que impossibilidade real de sua realização, capaz de
correlacionam as dimensões e os sintomas de colocar o sujeito em uma situação paradoxal. A
burnout às variáveis organizacionais estressoras, reciprocidade que pode existir até certo ponto,
constituídas por um conjunto de altas demandas entre o desejo singular e as possibilidades
e poucos recursos (Lee & Ashforth,1996). Tem- oferecidas pela organização de trabalho seriam

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Burnout e Perspectiva Clínica 51

substituídas, nesse momento, por uma captação organizacionais de sua produção, conforme, por
do sujeito pelas demandas organizacionais. Um exemplo, demonstra Castro (2010).
processo de alienação do projeto individual Evidentemente que tal perspectiva clínica para
dentro da lógica organizacional começa, então, a o estudo de burnout, encontra limites, bem como
ocorrer. Por consequência, quanto mais o sujeito desafios. Limites com relação às possibilidades de
corresponde à lógica organizacional e, por outro generalização e comparação de seus resultados.
lado, quanto mais fortes forem as exigências Ganha-se em profundidade e em compreensão do
desta última, maior seria a captação, a alienação “processo”, mas restringe-se às possibilidades de
e o distanciamento entre o projeto singular e a universalização do conhecimento, conforme
performance organizacional. Mais perto, sustenta Luna (1996). Logo, um desafio fundamental
portanto, do esgotamento emocional o sujeito se para o desenvolvimento cientificamente produtivo
encontraria. de uma perspectiva clínica é a ultrapassagem daquilo
Uma terceira hipótese é de que as pessoas que pode ser chamado de “maniqueísmo
que chegam a desenvolver burnout experimen- metodológico”. Abordagens clínicas e qualitativas,
tariam uma situação de crise, constituída por bem como epidemiológicas e quantitativas, são
um fracasso no plano do projeto de ser, capaz de modos de conhecer o mesmo objeto. De sorte que
produzir uma ruptura psíquica. Um momento de somente a conjunção de uma pluralidade de
cisão no projeto totalizador (de ser), com o maneiras de abordar o fenômeno de burnout, é que
sujeito passando a viver um impasse entre o ser permitirá avançar o conhecimento de sua
que se tornou e não suporta e o ser que ele era, complexidade sincrônica e diacrônica, como um
mas que não se reconhece mais. processo e, ao mesmo tempo, como uma estrutura,
Uma quarta e última hipótese se refere ao compreendidos em seus diversos graus de
fato de burnout ser uma expressão de um projeto profundidade e generalização.
organizacional e social em curso na sociedade,
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