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Alberto Félix Traquinho Saué

APOSTILA
Escolas do Pensamento Antropológico

Quelimane, Agosto de 2015


3. Escolas do pensamento antropológico
3.1. Escola Funcionalista - século XX - 1920
Essa fase é marcada pela preocupação com o rigor na pesquisa de campo e com a abordagem
funcionalista. A antropologia orienta-se agora para uma observação objectiva das culturas opu
instituições, numa abordagem mais descritiva e valorativa, enfatizando a relação entre diversos
elementos que as compõem. Os funcionalistas defendem a observação participativa: os
antropólogos devem conviver com os povos analisados observando os detalhes dos seus
costumes sociais mesmo quando parecem sem sentido.

Funcionalismo (do Latim fungere, ‘desempenhar’) é um ramo da Antropologia e das Ciências


Sociais que procura explicar aspectos da sociedade em termos de funções realizadas por
instituições e suas consequências para sociedade como um todo.

O funcionalismo constitui uma perspectiva teórica e uma hipótese metodológica, que consiste
na abordagem sincrónica e holística das instituições ou seja, na abordagem da realidade
sociocultural como totalidade, no momento da observação.

Desenvolveu-se, a partir de 1925, sobretudo na escola antropológica britânica, como reacção


científica às interpretações do evolucionismo e do difusionismo.

No funcionalismo há uma hipótese holística e um postulado utilitarista: uma sociedade é uma


totalidadeorgânica, onde os diferentes elementos se explicam pela função que preenchem, pelo
papel que desempenham e pela maneira como estão ligados uns aos outros no interior do todo.
Insiste-se na significação global das instituições, mas sobretudo na sua utilidade, cujo objectivo
é satisfazer a necessidade do grupo e assegurar um consenso social. A articulação estreita entre
o social, o biológico e o psicológico é fundamental nesta perspectiva.

Corrente sociológica associada à obra de Émile Durkheim. Para ele cada instituição exerce
uma função específica na sociedade e seu mau funcionamento significa um desregramento da
própria sociedade. Sua interpretação de sociedade está diretamente relacionada ao estudo do
fato social, que segundo Durkheim, apresenta características específicas: exterioridade,
generalidade e a coercitividade.

O Funcionalismo (também chamado Análise Funcional) é uma filosofia sociológica que


originalmente tenta explicar as instituições sociais como meios coletivos de satisfazer
necessidades biológicas individuais, mais tarde concentra-se nas maneiras como as instituições
sociais satisfazem necessidades sociais, especialmente a solidariedade social. Estuda as funções
e suas consequências. A grande critica sobre esta visão reside no fcato de, como num organismo
vivo, haver a tendência a identificar partes deste como mais importantes (órgãos vitais),
justificando assim a existência e manutenção ou extinção daqueles considerados como menos
importantes. Nos anos 1960, o Funcionalismo era criticado por prover modelos ineficazes para
mudanças sociais, contradições estruturais e conflitos; por isso mesmo, a Análise Funcional
ficou conhecida como Teoria do Consenso.

3.1.1. Bronislaw Malinowski, o pai do funcionalismo


Para Malinowski, a função de uma instituição é a resposta que ela dá a uma ou a várias
necessidades do homem social. Trata-se de um conceito mais culturalista, sendo a cultura
entendida como composta pelas organizações sociais e pelos sistemas simbólicos que integram
o conjunto, permitindo absorver as contradições.

Malinowski maximizou os aspectos psicológicos da cultura, ou seja, a transformação das


necessidades orgânicas, individuais em imperativos culturais derivados. Insistiu na importância
do substracto biológico da cultura e das necessidades fisiológicas do homem: estes eram os
únicos princípios universais susceptíveis de explicar o homem na sua unidade, para lá da
multiplicidade de culturas.

Na esteira de Émile Durkheim, Radcliffe-Brown considera, primeiro, a "estrutura", como


organização concreta e como modelo abstracto, e só depois considera a "função", como
processo vital que assegura a permanência e a continuidade da estrutura; esta, por vezes, é
designada por "sistema social total" ou por "sistema total de integração". A estrutura social de
uma sociedade nasce da sua unidade funcional, como resposta à necessidade de integração que
aí se exprime, necessidade própria de toda a sociedade.

Para este autor, o termo "função" tem duas acepções: uma relacional, outra biológica. Utiliza a
primeira acepção, quando associa a terminologia de parentesco e a estrutura de linhagem no seu
estudo dos sistemas de parentesco. Concepção biológica, segundo a qual toda a relação orgânica
corresponde a uma necessidade e visa uma finalidade.

A interpretação ou a significação de um costume deve ser funcional, seja, deve revelar a parte
que desempenha na vida social, a partir da relação com outros costumes e com o conjunto das
ideias e das representações da população. O costume é um mecanismo que permite que os
indivíduos e os grupos se adaptem ao ambiente geográfico (adaptação externa) e à sociedade
em que vivem (adaptação interna).

Com esta concepção de cultura, Radcliffe-Brown vai isolar-se cada vez mais de Malinowski. A
concepção global e psicológica de cultura, pouco propícia a abordagens comparativas, definida
por Malinowski, substitui-se o estudo mais modesto, mas mais intensivo, do campo das relações
sociais da estrutura social.

Malinowski procurou mostrar como, em cada tipo de civilização, cada costume, cada objecto
material, cada ideia e crença preenche alguma função cital, tem alguma tarefa a desempenhar,
representa uma parte indispensável num todo funcional.

Para compreender a cultura, ressaltou também a importância de estudar-se a língua e sua


estrutura, que espelharia categorias derivadas das atitudes práticas do homem em relação ao
mundo.

Várias criticas foram feitas às abordagens funcionalistas dessa época entre elas, à visão das
culturas como organismos, à dificuldade em explicar por que as mesmas necessidades não
levam a soluções semelhantes nas diversas culturas, à enfase no "equilibro" ou estabilidade do
todo, sem espaço para os conflitos e mudanças.

Tais críticas não obscurecem, entretanto, a enorme contribuição desses estudos que, na verdade,
criaram a antropologia social. Através de trabalho de campo, isto é, dos estudos "in loco", as
tentativas de compreender as diferentes formas de pensar puderam pela primeira vez ser
examinadas como alternativas válidas sem a postura etnocêntrica do pesquisador.

3.2. Escola Estruturalista - 1940


A antropologia estrutural refere-se a correntes antropológicas fundadas no método
estruturalista. O estruturalismo é uma definição ampla, mas na antropologia geralmente
concebe-se o estruturalismo a partir dos trabalhos do antropólogo belga Caude lévi-Strausse
(1908-2009).

Nessa escola, as culturas definem-se como sistemas de signos partilhados e estruturados por
princípios que estabelecem o funcionamento do intelecto. Ideia que existem regras estruturantes
das culturas na mente humana, e assume que estas regras constroem pares de oposição para
organizar o sentido.
Em 1949 Lévi-Strauss publica "As estruturas elementares de Parentesco", obra em que analisa
os aborígenes australianos e, em particular, os seus sistemas de matrimónio e parentesco.

Nessa análise, Lévi-Strauss demonstra que as alianças são mais importantes para a estrutura
social que os laços de sangue. Termos como exogamia (casamento de um indivíduo com um
membro de grupo estranho àquele a que pertence), endogamia (acto da relação entre dois
indivíduos que tenham parentesco, ou seja, possuem genes relacionados), aliança,
consanguinidade passam a fazer parte das preocupações etnográficas.

O estruturalismo constitui um movimento difuso e complexo de ideias, que se desenvolveu no


domínio das ciências sociais e humanas, principalmente a partir dos anos 60, após o declínio
do existencialismo, sobretudo na Escola francesa. Trata-se de um modelo de formalização dos
dados do real na sua diversidade e de um método de análise da organização lógica subjacente
aos fenómenos, concluindo por evidenciar o modelo inconsciente, capaz de constituir a lei
desses fenómenos. O objecto desta análise estrutural é a procura dedutiva das estruturas
essencialmente inconscientes que podem ser reveladas através da homologia das condutas e das
narrativas.

Para a corrente estruturalista clássica fundada por Lévi-Strauss, estrutura se trata de um esforço
intelectual de compreensão de dado fenômeno humano. Trata-se, portanto, de uma hipótese e,
como tal, pode ser elaborada de maneira diferente de acordo com o sistema social a ser
analisado. Para assumirmos sua existência, é preciso realizar um esforço lógico-racional e
gnosiológico, ou seja, adotando uma postura que reconheça os limites da faculdade humana de
conhecimento e os critérios que condicionam a realidade deste conhecimento.

Desta forma, o estruturalismo sine qua non estará em busca de regras gerais para todas as
culturas, a partir de uma análise lógica e não empírica. Assim, a estrutura é tida como formal e
não é histórica, pois trata de fenômenos universais e não está submetida às coordenadas de
tempo e de espaço, e pode ser compreendida a partir de uma concepção monista, ou seja, da
ideia de que, uma vez sendo o ser humano o mesmo e possuindo, portanto, uma mesma estrutura
psíquica, não seria de se admirar que se verificariam os mesmos fenômenos em diferentes
lugares do mundo. A estrutura, para Lévi-Strauss, além de ser estática, imutável e universal, se
trata de um modelo, de uma maneira pela qual todos operam, independentemente da realidade
cultural de cada um.
O objetivo de Lévi-Strauss foi sempre o da consolidação de uma ciência social com o mesmo
grau de objetividade e rigor presente nas ciências exatas. Para isso, seu programa estruturalista
se fundamentava sob uma concepção metodológica interdisciplinar, sendo que a linguística se
transformou em uma das principais disciplinas que inspiraram o estruturalismo lévi-straussiano.
Sob a influência do linguista Roman Jakobson, de quem se torna colega nos EUA nos anos
1940, e da obra de Ferdinand de Saussure, Lévi-Strauss concebe a ideia de que tanto na
etnologia quanto na linguística, não é a comparação que fundamenta a generalização, mas sim
o contrário, uma vez que a atividade inconsciente do espírito é a de impor formas a um conteúdo
(formas estas iguais para todos os espíritos). Por isso, o objetivo principal de um exercício
interpretativo é o de atingir a estrutura inconsciente, objetivo que só pode ser realizado através
de um encontro entre o método etnológico e o método linguístico. Não por acaso, para o autor
a linguística é, dentre as ciências sociais, a que alcançou maiores progressos, isto porque esta
ciência se preocupa em atingir uma estrutura inconsciente (a da linguagem) e, para isso, toma
como base de sua análise a relação entre os termos, além de introduzir a noção de sistema e de
buscar descobrir leis gerais através de um processo cognitivo de indução.

A aplicação destas perspectivas na teoria estruturalista lévistraussiana é notória. Assim como a


fonologia, o estruturalismo dará preferência para o estudo das invariantes em vez de procurar
analisar a multiplicidade de variáveis existentes, ao mesmo tempo em que relegará o sujeito
enquanto ser consciente em benefício da estrutura inconsciente.

Se a fonologia tem como objeto a transposição dos fenômenos linguísticos conscientes, ao


estabelecer relações internas entre os termos, introduzindo a noção de sistema com o propósito
de atingir leis gerais relativas a esses sistemas, da mesma maneira o estruturalismo estará em
busca de uma estrutura inconsciente, da apreensão de certos sistemas desta estrutura e da
elaboração de leis gerais para a etnologia. Para o autor:

O linguista fornece ao sociólogo etimologias que permitem estabelecer,


entre alguns termos de parentesco, vínculos que não eram imediatamente
perceptíveis. Inversamente o sociólogo pode fazer conhecer ao linguista
costumes, regras positivas e proibições que fazem compreender a
persistência de certos traços de linguagem, ou a instabilidade de termos ou
de grupos de termos (LÉVI-STRAUSS, 1975, p. 46).

Por sua parte, as relações sociais se constituem na matéria-prima empregada para a construção
dos modelos que permitem nos aproximarmos da estrutura. Sendo assim, de forma alguma a
estrutura pode ser deduzível das relações sociais empíricas sem que antes se construa um
modelo simples e adequado, que dê conta de explicar toda a sorte de relações sociais
observáveis. O estruturalista tem por tarefa identificar e isolar os níveis de realidade que tem
um valor estratégico do ponto de vista em que ele se coloca, que assim possam ser representados
sob a forma de modelos, qualquer que seja a natureza desses últimos. O melhor modelo,
portanto, será sempre aquele que responder à dupla condição de não utilizar outros fatos além
dos considerados e pertinentes e explicar a todos eles. Podem tais modelos ser conscientes ou
inconscientes (aliás, distinção primeiramente apontada por Franz Boas). Atingir a estrutura
passa pela elaboração de certos modelos apreendidos a partir dos diferentes níveis de realidade
observáveis. Um bom exemplo disso é o da estrutura para compreensão do parentesco que, a
partir dos modelos, denotam a existência de uma estrutura universal ligada à necessidade de
troca.

Quanto mais nítida a estrutura aparece, mais difícil será apreender a estrutura profunda, devido
aos modelos conscientes e deformados que se interpõem como obstáculos entre o observador e
seu objeto. Assim, as normas culturais não são, automaticamente, estruturas. São, antes,
documentos para ajudar a descobri-las. As observações conscientes, por seu turno, encontram-
se normalmente distanciadas das realidades inconscientes, estas sutilmente mais próximas da
estrutura em si. E, se tal estrutura não é histórica, Lévi-Strauss chama a atenção para o fato de
que as considerações históricas e geográficas têm significativo valor para os estudos estruturais,
uma vez que o método histórico não é de modo algum incompatível com uma atitude estrutural.
O que é incompatível é tratar a estrutura social ela própria como um sistema, como fazia
Radcliffe-Brow, por exemplo, pois para a etnologia, diz Lévi-Strauss, a sociedade envolve um
conjunto de estruturas que correspondem a diversos tipos de ordens.

Na análise estruturalista, a cultura aparece para a etnologia como a linguagem aparece para a
linguística saussuriana, ou seja, como pertencente a uma ordenação maior da qual, além de fazer
parte, se submete. Tal ordenação pode ser entendida como a estrutura. Desta maneira, os
sistemas simbólicos se caracterizam como produto deste fenômeno estrutural e somente se
tornam coerentes quando vistos em conjunto e dentro da função que desempenham dentro de
um determinado contexto cultural.
Bibliografia
ERIKSEN, Thomas Hylland História da antropologia. Tradução de Euclides Luiz, Petrópolis-
RJ: Vozes, 2007.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Tradução: Beatriz Perrone-Moisés. S/Ed.,


São Paulo: Cosac Naify, 2008.

______________________. Antropologia estrutural I. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

____________________, Antropologia Estrutural II. Tradução: maria do Carmo Pandolfo, 4.ª


ed., Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1993.

SIQUEIRA, Euler David: Antropologia: uma introdução, São Paulo: UAB, 2007

TADVALD, Marcelo. Apontamentos e perspectivas teóricas sobre o pensamento de Claude


Lévi-strauss, Pensamento Plural: Pelotas [01]: 29 - 47, julho/dezembro 2007.

Links acessados:

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2002/07/05/003.htm