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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS EXATAS E DA TERRA I


COLEGIADO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO CIVIL

LUCAS SALES FERREIRA

ANÁLISE DAS PRINCIPAIS CAUSAS DE DESLIZAMENTOS DE


ENCOSTAS EM SALVADOR

SALVADOR - BAHIA
2017
LUCAS SALES FERREIRA

ANÁLISE DAS PRINCIPAIS CAUSAS DE DESLIZAMENTOS DE


ENCOSTAS EM SALVADOR

Artigo Científico apresentado à Comissão de


Estágio, do curso de Engenharia de Produção Civil
da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, como
parte dos requisitos para fins de aprovação na
disciplina Estágio Supervisionado.

Orientadora: Profª Tânia Regina Dias Silva Pereira

SALVADOR - BAHIA
2017
FERREIRA, Lucas Sales. Análise das principais causas de deslizamentos de
encostas em salvador.

RESUMO: A cidade de Salvador, nas últimas décadas, cresceu de uma maneira


desordenada. O planejamento da cidade não acompanhou esse crescimento, com
isso, boa parte da população de Salvador ocupou áreas geologicamente
desfavoráveis e com precária infraestrutura urbana. Muitas são as áreas onde a
ocupação espontânea provocou impactos ambientais intensos e diversificados,
intensificando e acelerando a ação de fenômenos naturais como deslizamentos. O
presente artigo tem como objetivo principal analisar os principais contribuintes para o
aumento de deslizamentos em áreas de risco e apresentar a solução utilizada
nessas áreas para a captação da água da chuva. A metodologia aplicada
inicialmente é baseada em uma revisão bibliográfica, que explora o processo de
ocupação de Salvador, a influência da ação antrópica e da falta de dispositivos de
drenagem no aumento de deslizamentos, além de apresentar as escadas drenantes.
Num segundo momento e tendo como base os conceitos teóricos foi feito um estudo
de caso em uma área de risco onde foram mostrados na área os principais
contribuintes de deslizamento de encostas em Salvador.

Palavras-chave: Encostas acentuadas, Deslizamentos, Áreas de risco, Drenagem


das águas pluviais.

1 INTRODUÇÃO

De acordo com a Lei nº. 11.445/2007, o saneamento básico é definido como o


conjunto de serviços, infraestrutura e instalações operacionais de abastecimento de
água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de
resíduos sólidos e de águas pluviais.
Desde 1971 a Empresa baiana de águas e saneamento (Embasa) é responsável
pelo abastecimento de água e esgotamento sanitário em Salvador, enquanto que a
Prefeitura é a responsável pela limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de
resíduos sólidos e de águas pluviais.
De acordo com Instituto Trata Brasil e baseado em dados do Sistema Nacional
de Informações sobre Saneamento (SNIS), Salvador possui cobertura de esgoto em
torno de 82,68%, e cobertura da rede de distribuição de água de 92,49%, no
entanto, em relação à drenagem pluvial menos de 40% da cidade é abrangida.
Os meses de abril a julho são os meses que concentram um maior número de
deslizamentos de encostas em Salvador e são os meses de maior índice
pluviométrico. A falta de dispositivos de drenagem pluvial nas áreas mais
acidentadas tem sido um dos principais motivos do aumento dos escorregamentos
de terra.
Escorregamentos são movimentos gravitacionais bruscos de massa, envolvendo
solo ou solo e rocha, potencializado, na natureza, no caso do Brasil, principalmente
pela ação das águas de chuvas (FARAH, 2003).
Além disso, outro fator que intensificou os deslizamentos foi o processo de
ocupação de Salvador que ocorreu de forma desordenada. Por razões históricas e
sociais, a população de baixa renda ocupou lugares com riscos de deslizamentos
como encostas íngremes, fazendo cortes nos terrenos, tornando-os instáveis e ainda
construindo edificações frágeis e sem nenhum conhecimento técnico. Como
consequência, houve o aumento de movimento de terra desses taludes o que
causou milhares de vítimas ao longo dos anos.
De acordo com Bittencourt et al. (2006) , os deslizamentos de encostas são
fenômenos naturais, que podem ocorrer em qualquer área de alta declividade, por
ocasião de chuvas intensas e prolongadas. Pode-se mesmo dizer que, numa escala
de tempo geológica (milhares de anos), é certo que algum deslizamento vai ocorrer
em todas as encostas. No entanto, a remoção da vegetação original e a ocupação
urbana tendem a tornar mais frágil o equilíbrio naturalmente precário, fazendo com
que os deslizamentos passem a ocorrer em escala humana de tempo (dezenas de
anos ou mesmo anualmente).
Com o objetivo de diminuir o número de acidentes e observando a elevada
inclinação das encostas e as frágeis habitações residenciais ali localizadas, a
prefeitura desenvolveu dispositivos de micro drenagem que se adaptassem a
acidentada topografia de Salvador. Sendo assim, foram desenvolvidas rampas e
escadarias drenantes, que além de terem o papel de drenar a água da região, as
mesmas são usadas para a locomoção da população.
Este artigo tem como objetivo geral analisar as principais causas de
deslizamento de encostas em Salvador, destacando a influência da ocupação, da
ação antrópica e da falta de dispositivos de drenagem nessas áreas, além de
analisar as alternativas propostas pelo governo para a drenagem das águas pluviais
nessas regiões.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

De acordo com Oliveira (1998, p.2), a partir da segunda metade do século XX,
houve um crescimento populacional acelerado em muitas cidades brasileiras, o que
contribuiu para o surgimento de vários problemas ligados à falta de planejamento no
processo de expansão urbana.
A análise dos cenários urbanos brasileiros revela a forma
desordenada de apropriação, norteado pela ausência de
planejamento que considere o disciplinamento do uso e ocupação do
solo como prerrogativa básica de seu ordenamento. Essa
desordenação traz como consequência, níveis abusivos de
degradação ambiental evidentes no cotidiano urbano (OLIVEIRA,
1998, p. 3).
A ocupação de áreas de riscos se deu pela falta de opção de moradia que a
população de baixa renda encontrou. Essa ocupação é caracterizada por moradias
precárias, sem infraestrutura alguma e com um grau elevado risco de deslizamento
que vem causando desastres até nos dias atuais. Esses desastres estão associados
tanto a fatores naturais quanto à ação do homem. É um problema socioambiental
que já acontece há muito tempo e continua sendo reproduzido.
No Brasil, a componente social desses desastres é particularmente importante,
na medida em que a vulnerabilidade das nossas cidades aos desastres naturais está
associada à nossa incapacidade histórica – característica do processo de
urbanização brasileiro – de prover moradia adequada para toda a população e
promover um ordenamento territorial que sobreponha o interesse social ao interesse
privado dos proprietários de terras (CARVALHO, 2013).
A ação antrópica, segundo Cunha (1991), vem através dos tempos, se
constituindo em um importante agente modificador do meio ambiente, interferindo
em seu equilíbrio, potencializando e acelerando diversos processos da dinâmica
superficial, devido à ocupação de áreas, naturalmente suscetíveis aos movimentos
gravitacionais de massa. Isso se deve a ausência de infraestrutura e serviços
públicos, e a pobreza das ocupações recentes de baixa renda, que são um apinhado
de casebres (construídos com os mais diversos materiais), sobre um solo desnudo e
erodido. Desta forma, no caso das ocupações antigas, tratava-se de uma população
com uma história urbana muito mais longa, a que o movimento migratório veio
acumulando pouco a pouco novos contingentes, desenvolvendo-se assim padrões
culturais responsáveis por uma adaptação muito melhor ao meio.
De modo geral, os desastres naturais são determinados a partir da relação entre
o homem e a natureza. Em outras palavras, desastres naturais resultam das
tentativas humanas de dominar a natureza, as quais, em sua maioria, acabam
derrotadas. Além disso, como não são aplicadas medidas para a redução dos efeitos
dos desastres, a tendência é aumentar a intensidade, a grandiosidade e a
frequência dos impactos (KOBIYAMA, 2006).
Na visão de Bittencourt et al. (2006), a ocupação de forma precária de áreas
íngremes, associada à inexistência ou deficiência de sistemas de drenagem pluvial,
contribuem substancialmente para a elevação dos riscos de deslizamentos. A
infiltração de água nos maciços, através de trincas e fissuras, reduz a resistência do
solo, podendo acarretar a ruptura de cortes e aterros, sobretudo na ocorrência de
chuvas intensas e prolongadas (CUNHA, 1991).
De acordo com a Comissão Municipal de Defesa Civil (codesal), áreas de riscos
são locais não propícios à construção de casas, pois estão sujeitas a desastres
naturais como desabamento e inundações. Essas áreas estão crescendo devido a
ação irregular do homem contra a natureza - isso se deve a alteração de cursos
d’água, ocupação de várzeas e encostas, queimadas, produção e deposição
inadequada de lixo, desmatamentos, dentre outros. As encostas de morros e as
beiras de rios são locais considerados como áreas de riscos, onde deve ter um
constante monitoramento. Ainda mais, quando se inicia o período chuvoso tende a
aumentar os riscos de inundação, desabamentos de casas e deslizamentos de terra.
Em função da condição topográfica da cidade de Salvador.

3 METODOLOGIA

A metodologia utilizada consiste em uma revisão bibliográfica onde será


analisada a influência da ocupação irregular, da ação antrópica e da ausência dos
dispositivos de drenagem no relevo de Salvador. A seguir, serão analisadas, com
base na teoria e em visitas a campo, as soluções existentes para drenagem das
águas nessas regiões acidentadas. Finalmente, será feito um estudo de caso de
uma área localizada no bairro de Castelo Branco, onde será mostrado as principais
causas para o acontecimento de deslizamentos naquela região.

4 INFLUÊNCIA DA AÇÃO ANTRÓPICA NOS DESLIZAMENTOS DE SALVADOR

De acordo com Pereira (2011), a partir dos anos 1940, Salvador passou a
receber levas significativas de migrantes, experimentando um crescimento
populacional, uma maior demanda por moradias e uma intensa pressão sobre a
estrutura urbana. Como a estrutura fundiária da cidade era marcada pela
concentração da propriedade do solo em mãos de algumas famílias e ordens
religiosas ou sob o domínio do município, isso inibiu a abertura de novas áreas para
ocupação, penalizando principalmente as parcelas mais pobres da população.
O relevo da cidade é marcado por uma topografia extremamente acidentada e
cortado por vales profundos. Devido à falta de controle e planejamento do solo
urbano e aliado ao acelerado crescimento ocorrido na época, a população de baixa
renda passou a ocupar áreas geologicamente desfavoráveis, com baixo interesse
imobiliário e sem infraestrutura, como encostas, impulsionando significativas
modificações no terreno natural.
Segundo Menezes (1978) encosta pode ser entendida como toda superfície
natural inclinada que una duas superfícies caracterizadas por diferentes energias
potenciais gravitacionais. As encostas na cidade de Salvador apresentam
inclinações que variam entre 14º e 27º, com média em torno de 23,2º (PEIXOTO,
1968).
Salvador apresenta inúmeras regiões com elevado número de encostas. As
ações antrópicas, impulsionada pela ocupação desordenada, intensificaram o
movimento de terra dessas regiões. Segundo Menezes (1978), caso não tivesse
ocorrida essa ocupação desordenada mesmo as encostas que apresentam uma
elevada inclinação poderiam se encontrar estáveis.
De acordo com Bressani e Bertuol (2010), o grande agente deflagrador de
instabilidade de encostas é, sem dúvida, a ação humana, pela modificação da
dinâmica natural do relevo. Na natureza a causa dos escorregamentos naturais está
relacionada devido à tendência da natureza ao processo de peneplanização, este
comportamento significa que o solo das encostas tende a descer até que atinjam o
nível da base. É uma tendência natural a planificação. No entanto, a ação humana
acelerou esse processo.
Embora os relevos estejam sujeitos às dinâmicas naturais de equilíbrio, esses
fenômenos são frequentemente acelerados pela ação humana que, desprovida de
critério técnico, interfere nas declividades naturais, gerando instabilidade, cujas
consequências variam de acordo com os locais onde ocorrem. Nas regiões mais
fragilizadas, em que predominam as moradias mais vulneráveis, como é o caso de
favelas e assentamentos precários, as consequências são mais graves, aumentando
as estatísticas anuais de mortes por escorregamentos de terra.
A execução de cortes com geometria incorreta, execução deficiente de aterros,
remoção da cobertura vegetal, lançamento de lixo e entulho nas encostas,
lançamento e concentração de águas pluviais e servidas e plantio de vegetação
desfavorável (bananeiras) são alguns dos fatores que transformaram áreas
naturalmente estáveis em setores de riscos extremamente elevado.
A população, com o intuito de gerar mais espaço para construir suas casas, faz
cortes nos taludes que em geral formam ângulos de 90º, tornando-as vulneráveis ao
escorregamento de terra. Por outro lado, o material retirado é usado para fazer o
aterro do local onde a casa será construída. Este aterro normalmente não apresenta
compactação adequada, com isso, a superfície final se apresenta fofa, suscetível à
erosão e a escorregamentos.
Ainda mais, Segundo Brandão (1981) a vegetação tem papel decisivo no grau
de estabilidade dos solos. Ela é fundamental na proteção das encostas tendo a
cobertura vegetal grande importância no retardamento da saturação dos terrenos,
fator fundamental na preservação do perfil dos maciços. Essa ação se faz de três
modos em benefício da estabilidade das encostas: a) reduzindo o volume de água
que chega à superfície do solo, devido à interceptação que diminui de 15 a 25% o
volume total precipitado; b) retardando a velocidade da água da chuva ao atingir o
terreno; c) retendo o solo superficial pelo sistema radicular.
A deficiência no recolhimento, associado à falta de racionalidade no descarte,
faz com que o lixo e o entulho sejam lançados diretamente na encosta, resultando
no aumento de peso e provocando o escorregamento. Outro fator que é muito
comum encontrar é o lançamento de águas pluviais e servidas nas encostas o que
contribuem para formação de caminhos preferenciais, que vão provocar
deformações, implicando na ruptura do aterro.
Outro elemento agravante é que, devido às dificuldades de acesso à moradia e
aos terrenos legalizados e a ausência de acompanhamento técnico adequado, as
classes populares tiveram como alternativa de habitação a autoconstrução em
terrenos localizados em áreas de riscos. As habitações dessas áreas apresentam
baixa qualidade e foram feitas sem nenhum conhecimento técnico e à medida que a
família ou a renda foi aumentando as mesmas foram crescendo verticalmente sem
haver nenhuma mudança na sua infraestrutura e subestrutura.
De acordo com o IBGE, a população da capital baiana cresceu de 2,4 milhões
em 2000 para 2,9 milhões em 2015. Esse fluxo forçou a verticalização urbana nos
bairros da periferia, contribuindo para aumento das situações de risco.

Figura 1 - Situação de encosta ocupada

Fonte: Defesa civil de Juiz de Fora, 2017.

A figura 1 mostra como se dá a ocupação das encostas. A execução de cortes a


prumo vertical, a retirada de vegetação, a presença de lixo e bananeiras, o
lançamento de esgoto e águas de chuva são alguns dos fatores que estão presentes
e que contribuem para o deslizamento de encostas no Brasil.

5 ÁREAS DE RISCO E O PDE

Em decorrência dos desastres associados a movimentos de massa em Salvador


foi instituído em 2004 o Plano Diretor de Encostas-PDE como ferramenta para
gestão de riscos associados ao sistema de encostas da paisagem urbana de
Salvador. O PDE-Plano tem sido desde 2004 o principal instrumento público do
município de Salvador voltado para o controle de riscos geológicos; seja na
realização de estudos e definição de ações, seja na captação de recursos para a
execução de intervenções em encostas (ELBACHÁ; CAMPOS, 1992).
De acordo com o PDE, Salvador possuía até 2004, 433 áreas de riscos de
deslizamento, com o grau variando entre baixo, médio, alto e muito alto. O PDE
propõe projeto básico de intervenção para essas áreas, com medidas que variam
entre aquelas de pouca interferência à superfície natural, como retaludamento e
hidrossemeadura, à aquelas de grandes interferências, como solo grampeado,
cortina atirantada e alvenaria de pedra.
Salvador apresenta encostas que foram totalmente ocupadas e aquelas que
apresentam vazios urbanos. As encostas que foram totalmente ocupadas
apresentam um grau de risco menor. Isso ocorre devido ao perigo que a exposição
do solo natural à infiltração de água da água da chuva ou servida apresenta,
sobretudo pela inexistência de vegetação ou construções presentes em toda a área
que atuem como agentes impermeabilizantes da mesma.
Atualmente, a ocupação das encostas urbanas no município é fato e, ao longo
dos anos os planos e programas implementados não foram suficientes para
solucionar tal problemática. O número de áreas de risco cresceu concorrendo com o
número de acidentes e com as ocupações inadequadas, e se não foi possível contê-
las, tornaram-se necessárias ações que envolvessem planos e programas de
intervenção e recuperação destas áreas (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2015).
O Plano Diretor de Encosta é sem dúvida uma importante ferramenta para
qualquer cidade onde existem construções espontâneas em áreas de riscos
geológicos.
Segundo a Secretaria de Infraestrutura de Salvador, o Plano Diretor de Encostas,
além de ser uma ferramenta importante para o planejamento técnico e urbano, é
também, um captador de recursos para que seja feito benefícios em outras áreas, de
modo que possibilite o trabalho de remoção das famílias das áreas susceptíveis a
riscos quando houver a necessidade desse tipo de intervenção. O Plano Diretor de
Encostas é uma importante ferramenta que orienta no uso e ocupação do solo,
ajudando na expansão da cidade seguindo normas técnicas.

6 INFLUÊNCIA DA FALTA DOS DISPOSITIVOS DE DRENAGEM NO


DESLIZAMENTO

A ocorrência de deslizamentos de encostas ocorre com maior frequência em


época de chuva, o que caracteriza um período de alerta para todos os moradores.
Os sistemas de drenagem tem um importante papel na estabilidade de taludes,
captando e conduzindo adequadamente as águas pluviais, evitando seu acúmulo e
deslocamento sob grandes velocidades. No Brasil, a implantação de obras de
drenagem não acompanhou o ritmo de crescimento urbano.
Guerra e Cunha (1996, p.356) apontam as chuvas como principal agente
climático deflagrador dos movimentos de massa:
“A variação espacial da intensidade das precipitações, associada à sua
frequência (concentração em alguns meses do ano), são fatores primordiais a serem
avaliados em situações críticas”.
O lançamento e o acúmulo de águas da chuva ocorrem devidos à inexistência
da capacidade de funcionamento do sistema de drenagem superficial, como
resultado, a água da chuva que não consegue escorrer infiltra no terreno, reduzindo
sua coesão. Com isso, a quantidade e intensidade da precipitação são elementos
que contribuem para a deflagração do processo de movimento de massa. Isso
também é ocasionado pela inexistência de sistemas de esgoto que faz com que as
águas servidas sejam lançadas diretamente nas encostas.
Segundo Azevedo (2011), várias pesquisas têm se voltado para o estudo da
relação entre clima e deslizamentos pelo fato de a precipitação apresentar-se como
elemento que mais contribui para o desencadeamento de deslizamentos de terras
em diversas regiões do mundo. Portanto, dentro do contexto de riscos de
deslizamentos em função das águas de chuvas, ocorre, como citado anteriormente,
a convivência diária das populações que moram em áreas de instabilidade. Para o
controle e gerenciamento das situações de perigo, principalmente nas encostas das
cidades de relevo acidentado, a captação e o reaproveitamento das águas pluviais
apresentam-se como uma possível solução ao risco inerente.

7 RAMPAS E ESCADAS DRENANTES

Mangieri (2012) observa o importante papel dos sistemas de drenagem


implantados em áreas de encostas, promovendo a estabilidade do maciço, captando
e conduzindo adequadamente as águas pluviais, evitando seu acúmulo e
deslocamento em grandes velocidades. Importante salientar que, em virtude das
altas declividades, a dissipação de energia é um aspecto de considerável
importância na implantação dos sistemas de drenagem nas encostas.
As escadarias e rampas drenantes surgiram no final da década de 1970, como
solução para implantação de sistemas de drenagem em locais de topografia
bastante acidentada e de ocupação precária ajudando na minimização dos riscos de
acidentes causados devido ao lançamento de água nas encostas, bem como atuar
como via de pedestres nessas regiões.
O planejamento, fabricação e implantação dos dispositivos foram realizadas pela
Companhia de Renovação Urbana e Salvador (RENURB). Consistem basicamente
em uma calha de seção retangular, pré-moldada em argamassa armada, sobre a
qual são apoiados degraus ou placas de cobertura, também pré-moldados. A coleta
das águas de chuvas ocorre através de orifícios laterais e por aberturas entre as
placas de coberturas.
É considerado, sob a ótica construtiva, de fácil execução, baixo custo de
conservação e de boa capacidade de adaptação às características topográficas do
local. Devido ao sistema de encaixe, os módulos apresentam boa adaptabilidade ao
perfil natural dos locais de implantação (MAGIERI, 2012).
A coleta das águas pluviais, nos trechos em rampa, ocorre por meio de orifícios
nas laterais das calhas e juntas entre as placas de cobertura. Nos trechos em
degraus a captação é feita lateralmente por um sistema tipo guelra de peixe,
conforme mostrado na figura 2.

Figura 2 – Estrutura da escada drenante.

Fonte: http://www.maasa.eng.ufba.br/sites/maasa.eng.ufba.br/files/Lucio_Mangieri_2012_0.pdf

Inicialmente as escadarias e rampas drenantes foram totalmente pré-moldadas


em argamassa armada. Entretanto, o reduzido peso dos pré-moldados,
especialmente as placas de cobertura nos trechos em rampa, favorecia o furto das
peças. Os degraus e placas passaram então a ser fabricados em concreto
convencional, restando somente às calhas drenantes a moldagem em argamassa
armada.
No entanto, a falta de manutenção e o lançamento de esgoto e resíduos sólidos
no interior das calhas, possibilitou a degradação do sistema, comprometendo a
capacidade de drenagem e de locomoção de pedestres.

8 ÁREA DE ESTUDO

A área estudada foi uma poligonal, com perímetro de 1,52 km e 16,14 ha de


área, localizada na porção noroeste da cidade do Salvador, no bairro de Castelo
Branco. A área apresenta 75% de ocupação urbana, entremeada a vazios urbanos
no meio da encosta. Foram identificados vários fatores citados anteriormente e que
possivelmente contribuem para o aumento do número de acidentes na região.
Figura 2 – Poligonal com a área estudada

Fonte: ACERVO PESSOAL, 2017.

Figura 3 – Casa em construção próxima ao talude Figura 4 - Infiltração

Fonte: ACERVO PESSOAL,2017 Fonte: ACERVO PESSOAL,2017


A figura 3 mostra uma casa sendo construída próxima a um talude que foi
cortado subverticalmente, apresentando ainda cicatrizes, lixo e entulho. Em
salvador, é muito comum encontrar taludes cortados na subvertical. Cortes verticais
a subverticais são incompatíveis com as condições naturais de equilíbrio do
materiais envolvidos. Com os cortes, o equilíbrio é rompido e acentuam-se os
processos de erosão e movimentos de massa. A figura 4 mostra a presença de
infiltração devido a proximidade da casa com o talude.

Figura 5 – Solapamento do solo Figura 6 – Solo desnudo

Fonte: ACERVO PESSOAL,2017 Fonte: ACERVO PESSOAL,2017

Na figura 5 é possível notar o solapamento do solo, o que está ocasionando a


destruição da escada. A figura 6 mostra que houve a remoção da vegetação e com
isso a encosta se apresenta desnuda. A retirada da cobertura natural pode ocasionar
deslizamento ou erosão nas encostas. O revestimento vegetal atenua o choque das
chuvas sobre o solo, contendo a erosão, reduz a infiltração das águas, fazendo-as
escoar em grande parte sobre as folhas. Além do mais, a presença de raízes ajuda
na estabilidade dos taludes através do sistema radicular, o sistema formado pelo
entrelaçamento das raízes retém o solo, inserindo-se em espaços vazios, agregando
grânulos, seixos e até blocos maiores aos materiais mais finos, com um efeito
importante sobre a resistência ao cisalhamento dos solos.
Figura 7 – Lançamento de água na encosta

Fonte: ACERVO PESSOAL,2017


A figura 7 mostra o lançamento de água servida/esgoto na encosta, formando
sulcos e ravinas. Sucos e ravinas são grandes buracos de erosão causados pela
água, em locais onde a vegetação é escassa e não mais protege o solo que fica
cascalhento e suscetível de carregamento por enxurradas.

Figura 8 – Lançamento de água na encosta Figura 9 – Presença de sulco

Fonte: ACERVO PESSOAL,2017 Fonte: ACERVO PESSOAL,2017

A figura 8 mostra a presença de cicatriz de escorregamento bem próxima à


residência. A figura 9 mostra a presença de sulcos causados possivelmente pelo
lançamento concentrado de água na encosta e o solapamento do solo próximo à
base da escada, o que está levando a degradação da mesma.

Figura 10 – Escadas drenantes deterioradas

Fonte: ACERVO PESSOAL,2017

Através da figura 10, podemos ver que a área é contemplada com escadas
drenantes, mas a falta de manutenção por parte das autoridades está causando a
deteriorização das mesmas.
Figura 11- Presença de árvore de grande p
orte

Fonte: ACERVO PESSOAL,2017

A figura 14 mostra a presença de árvores de grande porte no meio e no alto da


encosta. Árvores de grande porte em encostas de alta declividade devem ser
erradicadas, a fim de reduzir as trações sobre a massa de solo. Elas causam um
efeito mecânico de alavanca, como resultado da ação da gravidade, combinado à
ação dos ventos mais fortes. Árvores inclinadas pode ser um sinal de movimentação
da encosta. As bananeiras, que são bastante comuns nos taludes, tem um efeito
muito negativo. Elas acumulam um grande volume de água devido ao seu
metabolismo e suas raízes não cumprem o papel de estruturação, sendo
comumente responsáveis pelo arrastamento dos solos durante os deslizamentos.

9 CONCLUSÃO

A crescente urbanização em Salvador trouxe problemas que são sentidos


principalmente pela população mais carente. Os acidentes causados pelo
deslizamento de encostas não param de ocorrer. A ação antrópica juntamente com a
falta de dispositivos de drenagem pluvial são os principais responsáveis pela
instabilidade de taludes.
A execução de corte e aterros, a remoção da vegetação, o lançamento de lixo e
entulho, a plantação de árvores grandes e a concentração de águas pluviais nos
taludes são os agravantes encontrados com maior frequência nas comunidades.
Observou-se, portanto, que apesar de fatores naturais como inclinação do talude,
tipo de solo e ausência de drenagem serem significativos para o deslizamento da
encosta, são inúmeros os fatores de caráter antrópico que propiciam estes
acidentes. O crescimento desordenado e inconsciente de casas em área de risco,
apesar de ser um problema cujo surgimento tenha ocorrido há muito tempo atrás, a
ação dos moradores em relação ao uso do solo em encostas precisa ser
urgentemente modificada com políticas de conscientização e educação, visto que
boa parte dos residentes não tem informação sobre o perigo que estão vivendo e
como suas ações estão intensificando o número de acidentes.
Foi observado também que, apesar de terem sidos criados dispositivos de
drenagem pluvial para áreas de topografia acidentada, as escadas e rampas
drenantes, após a instalação, as mesmas não receberam manutenção. Como
resultado, elas se encontram destruídas e não sem cumprir o seu papel.
Fica como sugestão a realização de trabalhos futuros que busquem criar um
parâmetro para avaliar precisamente o grau de susceptibilidade ao quais as
encostas de Salvador estão sujeitas, levando em consideração todos os fatores
agravantes. A partir da mensuração do grau de risco de um talude, torna-se possível
diagnosticar quais áreas precisam de prioridade em relação ao encontro de uma
solução.

10 REFERÊNCIAS

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