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Eu nasci já globalizado.

Capítulo 1: 1959-1975

Filho de pais de Goa na Índia, que falavam concani e português, nasci na Beira, em
Moçambique na África Oriental, no mapa mundo bem na frente da ilha de Madagascar. Mas,
na altura, Moçambique fazia parte do império colonial português, o que queria dizer que eu
era europeu, africano e indiano; ou talvez africano de nascimento, indiano de ascendência e
português de nacionalidade. O português de nacionalidade só desapareceu em 1975, com a
independência de Moçambique, quando optei pela nacionalidade moçambicana.

Só uma curiosidade, o leitor sabia que devido à teima do ditador português Salazar, que não
quis reconhecer a anexação de Goa pela União Indiana em 1961, todo o cidadão que nascesse
no território de Goa, Damão e Diu poderia solicitar automaticamente a nacionalidade
portuguesa? E que esta situação tão peculiar sómente terminaria em 1974?

Na colónia de Moçambique o goês, quase sempre convertido ao catolicismo, em geral


trabalhava como funcionário público ou intelectual; mas, havia uma comunidade de goeses
operários e pescadores em Moçambique. O indiano, de religião hindu ou muçulmana era
comerciante, trabalhador autónomo ou empresário.

A relação entre a India e a Africa antecede a chegada do europeu à India, que facilitou a vida
do famoso descobridor português Vasco da Gama. Ele, que chegou à Ilha de Moçambique,
ávido de descobrir o caminho marítimo para a India, terra das especiarias, teve a ajuda do
sheik da ilha, que lhe cedeu um marinheiro para lhe conduzir à India. Com isto não estou
tirando o mérito ao Vasco da Gama, pois como diz o ditado: quem tem boca, vai a Roma...ou a
India.

Mas, voltando a Moçambique, quem não ouviu falar desta terra, deve ter uma fraca cultura
musical, pois até o famoso Bob Dylan cantou uma canção a Moçambique:

Mozambique
I like to spend some time in Mozambique
The sunny sky is aqua blue
And all the couples dancing cheek to cheek.
It's very nice to stay a week or two.

There's lots of pretty girls in Mozambique


And plenty time for good romance
And everybody likes to stop and speak
To give the special one you seek a chance
Or maybe say hello with just a glance.

Lying next to her by the ocean


Reaching out and touching her hand,
Whispering your secret emotion
Magic in a magical land.

And when it's time for leaving Mozambique,


To say goodbye to sand and sea,
You turn around to take a final peek
And you see why it's so unique to be
Among the lovely people living free
Upon the beach of sunny Mozambique.

Ou traduzido para português:

Moçambique
Gosto de passar algum tempo em Moçambique
O céu está ensolarado e a água azul
E todos os casais dançando juntos
É muito agradável a estada de uma semana ou duas.

Há muitas garotas bonitas em Moçambique


Tem tempo para um bom romance
E todo mundo gosta de parar e conversar
Dê uma chance para alguém especial
Ou talvez diga olá com apenas um piscar de olhos.

Deitado ao lado dela no oceano


Chegando e tocando em sua mão
Mostre sua emoção secreta
Magia numa ilha mágica

E quando chegou a hora de sair de Moçambique,


Para dizer adeus à areia e ao mar,
E você volta para dar uma última olhadinha
E você percebe por que é tão diferente de ser
Entre as pessoas que adoram viver livres
Após a ensolarada praia de Moçambique

Grande Bob Dylan apaixonou-se por Moçambique!

Voltando a mim: aos 3 anos fiz a minha primeira viagem de avião de Beira para Quelimane,
num Fokker F27 Friendship. Ainda me lembro que fomos, eu e meus irmãos, sómente com a
companhia do pessoal de bordo.

Um pouco depois, o meu pai teve um problema de saúde, relacionado ao nervo ciático que
lhe impossibilitou de andar normalmente, passando a coxear e a andar com bengala. Com esta
deficiência, o meu pai, 11 anos mais velho que a minha mãe, carregado de cíumes, tornou num
inferno a vida da minha mãe, uma mulher linda e esbelta.

Para entenderem os dilemas culturais de meus pais, eles nunca nos ensinaram o concani; os
meus pais falavam entre eles quando queriam que nós não entendêssemos, mas nunca nos
ensinaram. Nós só aprendemos algumas palavras perjorativas ou sobre como denominar
outras raças. A língua que se falava em casa era o português.
A minha mãe veio a falecer quando eu tinha uns 5 anos de idade, deixando 3 filhos para serem
criados, sendo eu o mais velho. Foi um erro médico, irreparável.

Aí ficou o meu pai, com 40 anos de idade, com 3 filhos para serem criados, o mais velho de 5
anos, a seguir um de 4 e o menor com 2 anos.

Sempre disseram que eu era um menino precoce. Sinceramente, não sei que vantagens teve.

Depois do falecimento da minha mãe, jovem, com 29 anos, escrevi uma carta à minha tia que
morava em Lisboa, e era artista pintora e professora, que lhe convenceu a abandonar a sua
carreira em Lisboa e vir para Maputo para tomar conta dos seus sobrinhos desamparados. Que
poder de persuasão precoce!

Não foi não, foi o grande coração desta minha tia favorita e minha madrinha.

A comunidade goesa em Moçambique era bastante unida. Ainda me lembro de meu pai nos
levar a festas onde se cantava o mandô e outras canções em concani. E comermos caril de
peixe ou carne, sarapatel, chacuti, chamussas, vindalho, chouriço de goa, assim como doces
como a bebinca, e outros, especialidades da culinária goesa. E irmos às festas com
competições esportivas de atletismo dos 2 clubes regionais: casa de Goa e Indo-Português.
Gostavamos de ir pois ganhávamos todas as medalhas, pois na comunidade goesa não havia
bons esportistas. O nosso pai estimulava-nos a praticar esporte: atletismo, natação, futebol,
basquetebol, assim que nos destacávamos.

Em relação ao relacionamento entre raças, no tempo colonial sempre houve uma grande
discriminação contra os negros que são a maioria da população.

Os goeses eram chamados perjorativamente de canecos. Entendi que nos chamavam este
nome devido ao hábito de lavarmos o cu com canecas (copo plástico) de água.

Os indianos eram chamados de monhé, bem parecido com aquela música sucesso do Sérgio
Malandro. A influência da cultura brasileira em Moçambique sempre foi grande. O recíproco
não é verdadeiro.

Mãe-iê (O Tonico Me Bateu)


Sérgio Mallandro

Mãe-iê sabe o que me aconteceu?


Mãe-iê o Tonico me bateu
(Ma ma ma ma ma ma ma mãe-iê sabe o que me aconteceu?
Mãe-iê o Tonico me bateu)

Roubou meu saco de pipoca


Meu pirulito e picolé
E ainda por cima mamãezinha
Deu uma pisada no meu pé
Ai, ai, ai.

Mãe-iê sabe o que me aconteceu?


Mãe-iê o Tonico me bateu
(Ma ma ma ma ma ma ma mãe-iê sabe o que me aconteceu?
Mãe-iê o Tonico me bateu)

Roubou meu saco de pipoca


O pirulito e picolé
E ainda por cima mamãezinha
Deu uma pisada no meu pé
Ai, ai, ai.

Mãe-iê sabe o que me aconteceu?


Mãe-iê o Tonico me bateu
(Ma ma ma ma ma ma ma mãe-iê sabe o que me aconteceu?
Mãe-iê o Tonico me bateu)

Roubou meu saco de pipoca


Meu pirulito e picolé
E ainda por cima mamãezinha
Deu uma pisada no meu pé
Ai, ai, ai.

Mãe-iê (mamãezinha) sabe o que me aconteceu? (ele me bateu)


Mãe-iê o Tonico me bateu
(Ma ma ma ma ma ma ma mãe-iê (mamãe) sabe o que me aconteceu? (o Tonico é tão
grande)
Mãe-iê o Tonico me bateu)

"Cuidado comigo, heim, guri!"

O nosso pai, sendo funcionário público da fazenda, responsável pelas folhas de


pagamento dos funcionários públicos da colônia, sempre teve uns pequenos privilégios;
afinal, quem não gosta de ter o seu salário depositado certinho e a tempo e hora na sua
conta?

O nosso pai alugava um apartamento de 3 quartos e uma sala, no bairro da Polana,


considerado um bairro nobre da cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo). A cidade
estava dividida em bairros, que dividia raças e estratos sociais. Por exemplo o bairro do
Alto-Maé tinha população predominantemente mista, e indiana; o bairro de
Malhangalene era de população goesa e brancos pobres; o bairro de Mafalala e
Xipamanine de população negra e mista pobre; e, havia o bairro dos pescadores goeses
da Catembe, que ficava numa península separada por um ramo de mar da cidade. As
escolas refletiam esta divisão rácica, com muito poucos indígenas frequentando a escola
pública, que eu sempre frequentei. Os poucos negros que tiveram acesso à escola até aos
anos de 1970, frequentaram escolas missionárias. Depois de 1970, houve uma mudança
cosmética na administração da colónia, que permitiu o acesso maior de negros na escola
pública.

Lourenço Marques era uma cidade linda, chamada também de “pérola do índico”. Uma
cidade turística, que recebia muitos sul-africanos brancos, para curtirem uma praia,
e...as mulheres laurentinas. Eventualmente, o inverso para as sul-africanas brancas, que
vinham à procura duma aventura amorosa com algum moreno.
Na Beira, cidade onde nasci, o rascismo era mais forte, devido à influência da Rodésia.

Interessante em Moçambique é que o trânsito é de mão inglesa, influência dos países


vizinhos colonizados pelos Ingleses.

Entretanto, a guerra de libertação contra o colonialismo português ia-se intensificando,


minando a base económica das colónias e afetando o império colonial português. Nós só
sabíamos da guerra por causa dum primo nosso, geólogo, que morava em Tete e
trabalhava no Gabinete de Desenvolvimento do Zambeze, envolvido na construção da
barragem de Cabora Bassa; quando ele vinha a Maputo, hospedava-se em nossa casa e
contava episódios que ele se relacionava com os guerrilheiros, oferecendo-lhes comida
ou mesmo refúgio. Estas comunicações tinham de ser ditas em voz baixa, pois o medo
de ser preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) era enorme. A
guerra ia descendo para o Sul e em 1973 já tinha chegado ao centro do país, atingindo a
província de Manica e Sofala.

O moçambicano que não participava na guerra, tinha orgulho de ter os melhores


jogadores de futebol de Portugal, o Eusébio e o Coluna, que em 1966 conseguiram
alcançar o terceiro lugar na Copa do Mundo em Inglaterra, ganhando do Brasil; também
tínhamos o melhor jogador do mundo de hóquei em patins de todos os tempos, o
Fernando Adrião que ganhou 5 títulos mundiais pela seleção portuguesa, mas que vivia
em Moçambique e representou o Desportivo de Lourenço Marques e o Desportivo de
Malhangalene; Moçambique também se notabilizou no basquetebol, tendo o
considerado melhor jogador português de todos os tempos, Mário Albuquerque, jogado
pelo Sporting de Lourenço Marques durante muitos anos; este mesmo Sporting de
Lourenço Marques que ganhou 3 títulos portugueses e o Malhangalene que ganhou 1
título, liderado pelo moçambicano de ascedência goêsa Eustácio Dias.

O bairrismo moçambicano em contradição com o globalismo...sou pelo bairrismo pois o


homem tem de se identificar com algo, bem menor que o planeta Terra, que é de todos.