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cadernos de teatro

PORQUE TRABALHAR EM TEATRO? - Albert Ca,mus


REGRAS DE DIREÇÃO - Jean Vilar
OS MALES DO FUMO - Anton Checor
i~ : AVIA SACRA - Henri Ghéon
t , , DOS JORNAIS

MOVIMENTO .TEATUL (abriljjunho,fln


oPOUCO QUE CONHEÇO DE MORAL APRENDI
/ " . _ - v.
.< .
NOS lJ\NIPOS DE FUTEBOL ENO PALCO.

ALBERT CA.\ /US

Porque trabalho emteatro? Muitas vêzes eu me


fiz essa pergunta. Aresposta poderá soar desanimada-
ramente banal: simplesmente porqueo teatro é um dos
lugares do mundo emque me sinto feliz.
Mas essa reflexãa não é tão banal assim. Hoje
emdia, a felicidade é 11m assunto delicado. As pessoas
têm mesmo a tend éncia de ocultar de si próprios a
sua busca de felicidade, vendo-a como lima espécie de
róseo ballet, de que devem escusar-se, As vêzes leio
que homeus deaç-lo, que deram tudoa uma alividade
pública, encontramrefúgio ou abrigo emsua vida pri-
vada. Há um certo menospr êzo, nãoé- emtal noção?
CADERNOS DE TEATRO N.O 49 Menosprêzo e - um não existe sem o outro .- contra-
Abril- maio -junho -1971 senso. Tenho observado muitos casos em que a si-
tuação é o reverso, pessoas que encontraram refú~o
Publicação d'O TABLADO patrocinada pelo Serviço na vida públicaa fim de fugir de suas vidas particula-
res.
Nacional de Teatro (MEC)
Viver feliz hoje écomo viver em pecado. Nunca se
Redação e Pesquisa d'O TABLADO .' dere admitÍ·lo. Nâo diga inocentemente, sem pensar
IJiretor.respomáoel - JOÃo SÉRGIo MARINHO Nmm mal, "sou feliz". Imediatamente lerá a condenação em
Diretor-e:recutioo - MAl\IA CuRA MAmADO . todos os lábios à sua volta: "Oh! Você é feliz, meu
Diretor-tesoureiro - Enny Rm:NnE Nmm filho! Eoqueestá fazendo - diga-me - pelos órfãos
de tal lugar, pelos leprosos? .. Não se pode dizer
Redator<hefe - VIRGINIA VALLI que êles sejam felizes!" Que fazer? Entâo, imediata-
Secretário -SÍLVIA Fu~ mente, ficamos sombrios.
Re. - OTABLADO Ainda estoudolorosamente tentado acrer que, para
Av. Lineu de Paula Machado, 795 ~.'/J:; 2D sermos realmente úteis aos que estão na miséria, temos
Rio de Janeiro - Guanabara - Brasil que ser fortes efelizes. Apessoa que considera a vida
como um fardo e que afuuda sob seu próprio pêso,
: Os tQtos pubUC3~ DOS CADERNOS 1»,:.~TRO não pode ajud.1r ninguém. Mas aquêle que controla
.- . . - só 00den0 ser representados mediante aulo073Ç20 da seus senlimentos e sua vida, pode dar efelivamente.
Conheci um homem que não gostava da mulher, evivia noite, bem, francamente, é oparaiso. Aêsse respeito, o Assim fllle perde. a solidão, logo cc:ml'~-a a sentir sua
desesperado com isso. Um dia êle resolveu devetar-lhe teatro é um mosteiro. O tumulto do mundo morre à Cal.ta.) Elr. gostana de ler, ao mesmo tempo, lião SlJ os ,'10 coutr''Í rio
. ' e' Iransl'1"01'10 - (' seus participantes o
. . ponlue ele mOITer.í'11111
amamm ais 1"1 S' omen te na
a vida (uma supercompensação, em outras palavras). sua porta; dentro deseu confinamentosagrado, por dois c1~m~'ios como11m gr.lIlde amor; gostaria de ser 11m ara- , (1.
Apartir dai, a vida dessa mulher, que até aí fôra su- meses dedicada a uma única meditação, essa comuni- deulIco, semdeixar de ser 11m iUl1Iuformista. Acredi- mmha )1I1'Clllude mnheCÍ isso: o mesmo forle seotido
11L: esp~ran~-a I' lIuião ljue :KilllJpauha osdias de treino
portável, tornou-seum infernoabsoluto, com oostensivo dade de monges trabalhadores, isolada do mundo, pre· t~m-me, a1,lrl'l'ira de UIlJ artista hojeemdia nâo é lima
auto-sacrilicin do marido. Assim é hoje em dia: as para o rito que será celebrado uma noite pela primeira smecura. ate o (~Ia da partida. OpOliIiI qlle l1lUhl'~'O de moral,
pessoas se dediram mais àqueles seres humanos de que al:rendl uos campos de futehol e nn palco. 1~les foram
VC'L
Oteatro oferece a 1~)llJpauhia de (IU(' preciso, jUlllo minha Vl'rdadeira ulliversidade. .
menos gostam. Apalavra mongesurpreende? Uma imprensa sofi5-
cem a pesada sl'rYidãoe as limita~'Õf.'S de flue lodos os O leatm tamhém me ajuda a fugir da ahstrar,io
Não admira, emtais circurstâncías, que o mundo tieada leva você a imaginar genle de teatro como ani-
pareça doente e que seja difícil dar-lhe um atestado mais que dormem tarde e divorciam muitas vêzcs? Vou
hOl~lens ~ todos os cspírilos necessitam, Na solidão, o llue am(':J~-a todo escritor Nos meus dia I' '.
artista rema
o - mas. ,sribre o ":IC' IIO No leCa I10 e·'1I' nao
«vuv, 1
- la" preferi
:na compor as págiuas . a trabalhar•s nesse.
(e prna II,
I qUil'
de felicidade, principalmente se se trata de um eseri- decepcion á-lc, sem dúvida, se lhes disser que teatro é !;()(
toro Todavia atesto o meu respeito pela felicidade e mais banal que isso, ou mesmo, que as pessoas nele se I..1(' rem'l f.o O que deseJ'a depeode dos eutros, O se' sermouCS que SaO - os ciamauos
I .1 editoriais; como tam-
I I~etor precisa ,deator, eoatol' precisa do diretor, Essa bem em ~eatro, gosto de ver como o trabalho cria raiz
pelas pessoas felizes; e nem que seja por higiene, pro- divorciam menos que aquêles que trabalham em têxteis,
mutua depend ência, quando reconhecida com humilda. na confu~ao dos spotli,~hts, das plataformas, lonas e sal"
curo estar o mais tempo possível na'esfera da minha emaçúcar, ou em jornalismo. É que, qumdc há um
deebomhnmor apropriadoa ela, formaa solidariedade rafos. N~o sei quem disse qne para ser um bom di.
felicidade, que é o teatro. Diferentemente de outras caso de divórcio entre gente de teatro, outras pessoas
alegrias mais transitórias" a minha, no teatro, persiste falam, naturalmente, mais dêle. Isso é compreensível. (~a pr~:issãfl e &í um co~o a esse companheirismo diá. reter voc~ tem que "conhecer opêso dos cen ários COm
por mais de vinte anos, e não sei o que faria sem êle. Representar é uma profissão em queocorr> conta, não no. .Nele, estamos. tod~s hgados um aooutrosemperda :s braços ; m~ _esta é uma grande regra emarte. E
Em 1936, reorganizei um grupo defunto, na Algéria, e por ser usado libertinamente, mas porque se é obriga. de hbe~ade de nmguem (ou quase isso). Não é uma b,oSto da proflssao que me obriga a considerar simul-
boa recata para asociedade do futuro? taneameute
•" 'a i'"SI'CD Iogra. dos personagens, a colocação de
montamos peças de Malraux a Dostoiewski, até Ésquilo. do a mantê-lo em forma. Ser virtuoso é um caso de ne-
Vinte e três anos mais tarde, no Teatro Antoine, reali- cessidade, e é talvez oúnico caminho para ser virtuoso. ~Ias sejamos mais diretos: os atôres ensanam-se lima Jampada 011, de um vaso de germ:inios, a textura de
zei uma adaptação de Os Posse.ssos, de Dostoiewski. Eu De qualquer maneira, prefiro a companhia de gen· ta~lo qu~nto ,outras cspt.\cies humanas, inclnsiv~ seu di- uma roupa, o,peso e o conlrapêso de um volume que
mesmo estava admirado de tão rara fidelidade - ou te de teatro, virtuosa ou não, à dos intelectuais, meus re ~r, e as vezes ma~s, :omo qnando você se permitiu djeve correr sobr,e o palco. Quando meu amigo ~Jayo
de tão longa intoxicação. Indagava os motivos dessa. irmãos. Como todos sabem, os intelectuais são rara- am á-les. Mas as desJ!usoes (se osão) acontecemmui- ~.e~enhou os cenários de Os Possessos, concordamos que
obstinada virtude, ou vício. E verifiquei que era de mente amáveis, nunca se dão bem juntos. Há outra tas vêzes depoi~ que passou o período de trabalho, ,~n la~~s que começar pensando em têrmos de censtru-
dois tipos: um relativo ao meu próprio temperamento, razão que não posso expor inteiramente. Na companhia q.uando retoma a sua nalureza solitária. Nessa profis. çao sohda (um quarto feio, mobília - realidade em
e outro relativo à própria natureza do teatro. de intelectuais sempre me sinto como se algo em mim sao, ~m que as pessoas não são fortes emIÓuica. diz-se r~umo), de maneira a erguer a produção, aos ~ucos
b
Aprimeira e menos maravilhosa razão de que me tivesse que ser perdoado; sempre tenho a impressão que co~ Igual.convicç-âo que o fracasso dissohre a compa- a.te um .~Iano mais elevado, menos prêso ao tema; por
lembro, era que através do teatro eu escapava daquilo quebrei alguma das regras do clã. Êsse sentimento dis- nh'a, e assnn osucesso. Não énada disso. Oque aca- f~, estIhzamos o cenário. Apeça surgiu numa espé-
persa minha espontaneidade e, sem espontaneidade, eu ba a companhia é o fim da esperança Que os l~nia du- ne de. 1~leura irrea~ mas partiu de um local preciso,
que me aborrecia em minha carreira de escritor. Pri-
rant~ os ensaios. É a proximidade do objetivo (a e~c~vlza o ao assunto. Não é isso a verdadeira defi.
meiro, de tudo aquilo que chamn de frívolo comércio,
quer seu nome seja Fernandel, Bri~Ue Bardet, Ali
Khan ou ,mais modestamente, Paul Valéry. De qual-
me aborreço. No palco, sou espontâneo. Não penso
naquilo que tenho ou não tenho de ser, e as únicas ceí-
sas que partilho com meus colaboradores são as expe-
j estrela) qu.~ os manteve unidos numa ligação tão íntima. n~çao da arte? Não somente realidade, nem imagina.
Uma rellmao, um movimento são também sociedade' çao apenas, mas imaginação tomando voo da reali;lade
quer maneira, vocês têm seus nomes nos jornais. E riências e as alegrias de um empreendimento comum. mas o ~bjetivo que buscam se perde na noite do fu: Basta de motiv~s pessoais para a minha presenç;
assimque você tem o nome nos jornais, tudo começa. É um estado, acredito, que se chama companheirismo, turo. No teatro, ~ fmlo do trabalho será colhido, para no teatro. Estas sao as razões de um homem mas
O correio o caça; os convites chovem e presume-se e tem sido uma das grandes alegrias de minha vida. o meJho~ o~ o pIOr, numa noite de antemão sabida tenho. tam~m ~s motivos de um artista - e êst~ últi.
que devam ter uma resposta. Grande parte de seu Eu o perdi no dia em que dei~ei um jornal que fazia· n~ma neíte a qual cada dia do Irabalho mais se apm- mos sao mais mISteriosos. Antes de tudo, acho o teatro
tempo é gasto em recus:í·los. Me~,de de sua ener· mos em equipe, e encontrei-o novamente assim que vol· xuna. Homens e mulheres, individualmente se tornam o lugar da verdade. Para ser exalo, as pessoas geral.
gia humana é gasta, assim, no dizer não, de tôdas as tei ao teatro. um ~e~nl partilhando uma aventura comum,'e tentando ~ent~ o cham~m de 1I~ lugar de ilusão. Não creio
maneiras. Não é estúpido? Claro que é. Mas êsse é Um escritor trabalha em solidão, é julgado solitària· um UDlCO goai que nunca será melhor ou mais belo d,) ~IS~. ~ a SOCiedade, aCima de tudo, que vive no meio
omodo de se punir a nossa vaidade pela própria vaida· mente e, acima de tudo, julga a si mesmo em solidão. q~ue na noite longamente esperada, quando os dados , e ;!u~.. Tome, por exemplo, um dêsses atôres não
de. Entrementes, tenho notado que todo mundo consi· Isso não é certo, e não é saudável. Se êle tem uma sao lançados. pro ISSlOnalS,
.. que - faz figura nos círculos da moda,ou
dera o trabalho teatral com mêdo, mesmo sendo êle constituição normal, chega a hora em que precisa ver As • d ua admmlstraçao ou simplesm t . d
. corporaçoes os construtores e os estúdios cole. Coi u€-o n ' en e, nas nOites eestréia.
urna profissão vã, e tudo que você tem a fazer é anun· outros rostos, para sentir o calor do contato humano, bvos de pintura, durante a Renascença d t 'Ioq opalco, sob o refletor e:Glto; gue quatro
)O
.
'd ' evem er seno mI l(j(Jlts de I ' b 'I
ciar que está ensaiando. Forma·se, imediatamente, um que explica mesmo muitos dos envolvimentos de um ti o essa espécie de exaltação conhecida por a uêles t' I V ' uz s~ re ee e a peça se tornará insuJY.lr.
deserto em tôrno de você. Equando você tem a idéia escritor: o casamento, a academia, os políticos. De que trabalham num grande espetáculo Suas qI' avbe . I oce o vera, em certo sentido, inteiramente nu
. I . rea lza· so a uz da verdad S' b 'lh d
astuciosa, como eu faço, de ensaiar odia todo eparte da qualquer modo êsses expedientes não arranjam nada. çces utrapassaram o momento da execução' o sholc .d h e. I~ o n o o renetor é imo
, , pie oso e nen uma tapeaçao poderá ocult<lr a vereia.
deira ideutidade do homem ou da mulher, no palco,
dramaturgo e diretor. Em resumo, eu sirvo aos textos
(lraduções, adaptações ou o que seja) - mas quando
AO DIRETOR
mesmu com o disfarce das roupas. E estou absolula-
são postos no palco, reservo-me o direito de modelá-los
mente certo de que tôdas essas pessoas que conheci
de acôrdo comas necessidades da direção. Colaboro
muito bem na minha vida, revelar-se-iam a mim se
comigo, emoutras palavras, de modo a eliminar o atri-
elas se dispusessem a ensaiar e representar comigo numa
peça compersonageus de outra época c de outro tipo, to existente entre autor e direter. E acho que há tão
pouca degradação nesse trabalho que continuarei a fa-
Aquêles (lUe amamo mislério do coraçâo - e a ver-
zê-lo sempre que houver oportunidade. Sentirei que
dade oculta nos seres humanos, devem vir ao teatro.
faltei a meus deveres como escritor sômente quando
. É aí que sua curiosidade insaciável recebe pelo menos
montar cspetáculos que agradarãoaopúblico por meio,
uma retribuição parcial. Sim, acreditem, para desco-
degradantes - uma espécie de produção de grande êxi-
brir a verdade, ponha-o no palco.
to que se costuma ver em Paris, e que revolta meu
As vêzes me pergunlam: "Como pode conciliar o
estômago. De certo não acho que fu~ à minha car-
teatro e a literatura emsua vida?" Para ser exato, tive
reira como escritor quando montei Os Possessos.
muitas pofissões, por necessidade ou por gôsto, e
Talvez não seja possível continuar servindo ao
desde que continuo sendo um escritor, é de presumir-
teatro naquilo que gosto. Aprópria nobreza dessa exi-
Regras de direção
se que consegui de alguma forma reconciliá-los. Sinto
que no momenlo em que consinto em ser apenas escri- gente profissão está hoje ameaçada. Aalta incessante
tor, lenho que parar de escrever. Mas com relaçío ao dos custos e a burocratização das companhias profis-
teatro, a conciliação é automática. Para mim o leatro sionais estão levando o teatro, pouco a pouco, para o
é a mais elevada forma de literatura, e também a mais maior comercialismo.
universal. Falar para lodo mundo não é fácil. Sempre Será esta uma razão para parar de lutar? Acho
se arrisca a fit-ar ou muito abaixo ou muito acima. Há qU6 não. Um espírito de arte e loucura oculta-se sob
autores que desejam diri~r-se ao que há de mais estú- os balcões e atrás das cortinas. Êle não pode morrer, KF.cF.SSIDADE DAS LFJTURAS DE ~I~A

pido no pí,blico e, acreditem, êles o conseguemmuito e evita que ludo se perca. Êle espera de cada um
bem. Há outros que desejam diri~r-se apenas àqueles de nós. Devemos evitar que êle seja banido pelos bal- Nunca se lêdemaisa obra. Oator nunca a lê bas-
que supõem inteligentes, esempre erramoalvo. Quando conistas e pelos produtores de massa. Em troca, de- tante. Crêhavê-Ia compreendidoporque percebeu mais
um autor cousegue dirigir-se a todo mundo comsimpli- vemos ficar finnes e salvar nosso sólido bom-humor. ou menos c1aramenle a intriga. É um êrro funda-
cidade, emvez de ser ambiciosoa respeito do tema, êle Para receber e para dar - não é esta a felicidade de mental
está servindo à verdadeira tradição artística e consegue que falei no início? E necessitamos da própria vida, Nas pr~nF h~~itu~is, dir-se-ía que ·se presla
unir íôdas as classes etodos os espíritosna platéia, numa forte e livre. Agora, vamos ao próximo espetáculo. pouca atençao a mtehgencJa profissional do intérprete.
simples emoção ou numa simples gargalhada. Somen- Ped~-se que $eja um corpo, uma peça de xadrez do ta-
te os muito grandes conseguem isso. buleiro, onde odiretor dirige o jôgo.
Perguntam-me também (com uma solicitude que ': peça lida uma vez pelo diretor, lida segunda vez
me aflige) : "Porque adapta lextos quando podia escre- na leitura de mesa, lança-se o intérprete no prato da
ver suas próprias peçasr Tenho escrito minhas pró- balança. Qual o resultado?
prias peças, e continuarei escrevendo outras. Quando As notas que se seguem contêm uma determinada Abandonado muito cedo às exigências plásticas, o
escrevo minhas peças, é o escritor que está funcionan- técnica de arte teatral, aquela que consiste emtrans- ater entrega-se a suas reações conformistas habituais e
do, mas de acôrdo com um largo esquema. Quando por uma obra escrila, do reino ima~nário da leitura cria arbitrária e convencionalmente sua personagem
eu ada/i/O, é o caso de um diretor trabalhando de ao plano concrelo da cena. Procurar nelas, algumas semque sua inteligência profissional e sua sensibilida-
acordo com os têrmos de seu conceito teatral De res- encurtadas de propósito, outra coisa além de "meios de possam adivinhar aonde serão levadas. Daí tanta
lo, acredito no espetáculo total, concebido, inspirado e de representar' será inútil. mediocridade na arte de representar!
produzido pela mesma alma; escrito e diri~do pelo mes- Se bem que muitas teorias tenham sido zenerosa- Há uma cerla tendência àretórica, no escritor, quan-
mo homem. Êsse trabalho toma possível a consecução mente formuladas em relação a essa arte, secl talvez do ~r~\'C apressadamente. Quantos intérpretes e
de uma unidade de tom, estiloe ritmo, que são oessen- necessário que enunciemos, para começar, alguns cen- bons mterpretes, depois de vinte anos, nos sussurram
cial de um show, e ao qual me proponho mais livre· (De terto escrito para televisão, pouco antes da morte do selhos artesanais. eom a mesma voz, usando as mesmas reaÇÕC5 e atiíu-
mente do cueoutros Que não foram, conneufui, autor, autor, publi. in Thealre Am, dez./60.)
lh fazrndo vibrar mesmo timbre de sensibilidade cm v L'\
pt'rsona~cns os mais opostos! XIII
Daí a necessidade de munerosas leituras de mesa. ~1 '\HC\(;.io o rrnsoMGDI Eo .mm
No minimo, um terço do número total dos ensaios. Aquestão é esta: pode-se traduzir o Ilue não se
compreende?
Tcxlu na mão. Sentado na cadeira, corpo relaxado. A :\(Iui, trata-se de simplifimr, de despojar. Ao con- o texto, silbiamcnte trabalhado, e os IlerSOnalt1T('ns
sellsihilidade proflinda POUI'O a pouco se afina no dia- trário de muitas ent't'na~'Ões , não se trata (Ic fazer va- sondados até sens mais distantes prolon~amen tos, de-
pasão, llu:mdo o ator por fim11Jmpreflllle (ou SI11l!') ler o espaç11, mas sim de desprezâ-lo ou i~lor;í-Io. pois de quinze ou vinte leituras de mesa, o realizador
XIV
esse per.;onagem m)ro (111e um dia ser:í el() mesmo. Para (IUC uma realização [iQssua plerv poder de se entrega ao jôgo da mareação, dirige-se e se encon-
E enfim, Il'líIntos autores são incapazes de fazer
sugestão, não ser.í necessirio que tal cenadita de IJIO- tra logo <Is voltas com êsses monstros qne são os per-
nma análise exala de suas pt'l,-as, da intriga!
vimento seja em movimento (com passos de dança, sonagens. lsto, todos Os intérpreles sanem. O perso-
boxe, tumulto, pretensões mais ou menos realistas ou nagem e o atar são duas coisas distintas. Durante
II simbolistas). É suficienle um ou dois gestos e o ter- dias o primeiro foge do segundo comum desembara- xv
to, porém, que se ajustem. ço demoníaco. Opior é quercr lutar contra êsse fan-
Não h:í personagem que não necessite de compu- tasma, forç-á-Io a usar você. Se quiser quc venha do- orealizador scrá um artesão mcdíocrc se não con-
sição. Só há aíôres de compesiçio. Não existe papel cilmenle integrar-lhc ocorpo ea alma, esqueç-a-o. Nessa seguir se desprender dc seu trabalho nos últimes en-
que não seja de composição. perseguiç-ão por osmose, na qual o persona~em é a saios, mesmo quando êsse trabalho der a impressão de
testemunha prevenida, o diretor deve ter confiança no cxigir dêle o maior esfôrço. Torna-se cego, cometen-
VI intérprete, fazê-lo crer que reencontrou êsse persona- do a pior das faltas. Esquece, êsse tolo, que o teatro
gem. Não é ingênno alirmar que, a um dado momento é um jôgo, onde a iospiração e o entusiasmo infantil
Em quart'nta ensaios, pelo menos quinze dCl'CJJl da interpretação, tudo não passa de uma questão de têm maior razão de ser do que o suor e os acessos de
III cólera. .
ser dedic;\l]os ao trabalho de marcaç-ão e expressão. crença. É pelo não-combate, pela certeza da vitória
dêsse monstro fugidio que oator finalmente vence. _ Entretanto é tão difícil saber se desprender, que
.\ lIlmposição de 11m pl'rsOllagem l' um jtigo de naose espanta que tão poucos direlores sejam bem su-
lTiaç;ill qlle apmxirm o trabalho do atnr ao do artista, x cedidos.
1)()[IIUI' compor um[);,fSllnagl'm implit'l escolha, obser-
I'açào. procum, inspiraçào, controle. ú produtor deve realizaroplano do cenógrafo. Ou, XVI
então, seria necessário um produtor-cenógrafo, braço
direito do diretor e que tenha todo direito sôbre a Assim comoa se~sibilidade e o instinto, a perspicá-
HrRF.SS.io ws S~~\Inlt::\"'OS cena. Homem de gôsto, devotado à sua funç-ão, culto. cia .(esprit de finesse) é necessária ao atar'na práti-
IV Trabalho duro. . . ca Justa de sua arte. (Definiç'jo: ver Pascal, quando
o lall'llto do atar - e do realizador - não est:í êle o~õe o esprit de finesse ao espírito de geomelria).
o atar busca Em si e cm volta de si. obrigaturiamente nodomínio de seus meios, nasua mul- XI Sem ele, a obra de arte não passa de uma orsia anár-
tiplicidade (trata-se de um dom bem desprezível),
. de expressões.
qUIca b
;\' sua volta, porque a natureza que tem sob seus
mas sobretudo na renÍlncia de seu dominio, no rigo- .\ ROUPA
olhos transmite :1 sua atenç-ão, digamos mesmo à sua
cnntemplaçâo, os lipos mais diversos, mais marcados. rismo da escolha, no empcbrecimento voluntário. XVII
No teatro, o hábito <Is vêzes faz o monge.
Em si, porque se por um lado o atar nunca ob-
serva bastante a vida que fervilha em sua volta, por Oatar não é uma máquina. Não é uma peça de
XII xadrez, um robot. Odiretor deve conceder-lhe a priori
outro lado, não abandona com freqiiencia sua sensibi-
lidade ao eontato desta vida. todo talento que deve possuir.
DE QUE SE TRAT.-I?
Resumindo, um atar dsve poder conservar em SIIa VIII
memóriavisual um tipo dehomem que chamou sua aíen- O programa exige uma análise da peça represen- XVIII
çâc, como deve saber conservar em sua memória sen- Um ator digno do nome não se impõe ao texto, tada. O realizador da obra deve redigí-Ia e não des-
sível, os ferimentos recebidos, os sofrimentos morais. mas oserve, humildemente. Queoeletricsta, o músico INrERVALO
prezar êsse trabalho ingrato. A redação dessa aná-
Deve saber fazer liSO dessa memória, ou melhor, c0n- e o cenógrafo sejam mais humildes ainda que o intér: lise impõe-lhe um conhecimento claro e riscnse da
servi-la, prete, Aociosidade no artista é um trabalho e seu traba-
obra em que êle trabalha. e lho, um repouso". (Balzac)
2.0 - ~Iolicre: O 1l1Ipro~iso de VersaUles.
XIX
3.11 - Talma Lekain: "Lekain sI, preservava dêste
JôGO DRAMÁTICO APêndula
odiretor ;\s vêzes se engana, quandn esquece que amor dos aplausos qne atormenta a maioria dos atôres
UIl1 personagem muitas vêzes só é encontrado pelo e I!Ue mnitas vê'les os perdem. Ele só desejava ~gra­
intérprete na véspera da representação. dar ao público saudável. Hejeitava todo eharlatamsmo
do ofício e para produzir um efeito verdadeiro, não
visava de maneira alguma os efeitos. Soube usar ec0-
xx nomia jnsta em sens movimentos e gestos: sentia os
gestos e movimentos como coisa essencial na arte do
Não há uma técnica de representação, mas práti- ater, pois seu excesso snprime a nobreza da atitude."
cas, técnicas. Tudo é experiência pessoal. Tudo é
empirismo pessoal. XXIV
1. Um vendedor está sentado num tamborete
diante de nm tabuleiro de bngigangas, onde se vê
Reduzir o espetáculo à sua mais simples e difícil
uma pêndnla suntuosa c ridícula. Esta pêndula é cui-
expressão, que é o jôgo cénico, ou mais exatamente, o
dada com todo carinho pelo vendedor, que a espana,
jôgo dos atôres, Evitar fazer do palco um ponto de
Para o díreíor do espetáculo cada ator é um caso lustra, muda-a de lugar para pô-Ia em destaque.
encontro onde se reúnem IOOas as artes maiores e
nêvo, Isto impõe-Ihe o conhecimento mais profundo menores' [pintura, arquitetura, eletromania, musicoma- 2. Chega o gatuno. Fica um momento a olhar
de cada um de sens atôres. Conhecer sua capacida- as moscas, depois avista o relógio.
nia, maquinaria, etc.).
de certo sobretudo conhecer sua pessoa até o limite 3. Aproxima-se. Jogo dos dois, um analisandoa
Recolocar o cenógrafo na sua função, que é resol-
on~Ie co~eça sua vida Íntima. As vêzes é preciso pêndula de diversos ângnlos e o outro vírandr-a de
ver o problema das descobertas, dos oroatos e de rea- um lado para outro.
mesmo ultrapassar êsse limite.
lizar a construção dos elementos cénicos (móveis ou 4. O Gahmo: "Quanto custa?'
acessórios) estritamente indispensáveis ao jôgo dos atô- 5. O Vendedor: "Linda pêndula!"
res. Deixar ao teatro de revista e ao circo a utiliza- 6. O Gatuno: "Quanto?"
XXII
ção imoderada dos projetores e refletores. 7. O Vendedor: "~jagn ífica!"
Em face do intérprete, a arte do diretor é uma arte Dar à parte musical o único papel, de abrir ou 8. OGatuno: "É sim. Mas quanto custa?"
de susestâe, Não se impõe, sugere. E, sobretudo, não ligar os quadros. Não utilizá-Ia senão onde otexto indi- 9. O Vendedor: "Cinco miL"
deve ~er brutal "Alma do ator" não é uma expressão ca formalmente a intervenção de uma música de fun- 10. OGatuno: "Caro demais."
vã. É mais constante neste que no poeta. Ora, não do ou próxima, de uma canção ou um clicertissement 11. OGatunose afasta. Ovendedor, indignado:
se brutaliza um ser para possuir sua alma. A obra musical. "Caro demais. a minha pêndula!" '
tem muito mais necessidade da alma do ator que de Em resumo, eliminar todos os meios de expressão 12. OGatuno volta: "Osenhor não faz um aba-
sua sensibilidade. que são exteriores às leis puras da cena e reduzir o timento?"
espetáeulo à expressão do corpo e da alma do ator. 13. O Vendedor: ·Cinco mil"
XXIII 14. OGatuno: "Será qne ela ao menos anda?"
(Úllradition Ihéâlrale, de Vilar) 15. OVendedor: "Se mida? Claro, olha! Escute!"
DO DESPRENDIME~'TO 16. Êle dá corda, acerta os ponteiros, tudo com
a ma~or solenidade. . Sel~ j~go deve ser acompanhado
Três referências: de nndos (sonoplasha) conncos. Depois, os dois escu-
1.0 _ Shakespeare - Hamlet : "Repitam êsse dis- tam, encantados, o tique-taque do relógio.
curso como eu pronunciei diante de vocês, nnm tom . 17. O tique-taque continua alguns instantes, de-
fácil e natural, mas se engrossarem a voz e vocifera- poIS se cansa, perde o ritmo e pára. OGatuno ri e o
rem, preferiria ver meus versos na bôca de um pre- Vendedor fica aflitíssimo.
goeiro de ma. .. Não sejam muito frios, mas que sua 18. OVendedor dá corda de nôvo. Memo jôgo.
inteligência lhes sirva de guia. .. etc...." e íôda a con- 19. O tique-taque acelera de repente e se trans-
tinuação dessa célebre passagem. , V. Das ]omait forma no ruido de uma metralhadora. Depois pára.
~
20. o Vendedor, consternado, leva a mão ao re-
Iél~i(), mas pina com() ruído de lima explosão. OCa- TÉCNICA DO ATOR
tuno se afasta de nôvo. I
21. OVendedor d.í voltas cm lôrnoda pêndula:
T,oitado do meu relógio! Que foi IllIe hOllver
22. O Catuno valia, sem dar atenção ao Ven-
GIIOTOWSKI Corpo evoz
lhlor c se coloca emprimeiro plano emcena, volta-
do para a platéia. Avista ao longe umpássaro 011 11m
avião extraordinário, cujas evoluções começa a seguir Guarde na memória: ocorpo deve trabalh~r primei-
com grande interêsse. ro, depois vem a rez. Se você começa a fazer algo,
2;3. O Vendedor, depois de algum tempo, per- deve estar inteiramente comprometido com o que vai
cebe oGatuno e notasua atitude. Intrigado, levanta·se fazer. Você deve dar-se cempor cento, todo o corpo,
para observar também o que o outro está vendo. tôda a mente. Durante um ensaio, um atar tem que
24. OGatuno aponta: "Ali, está vendo? Alil" obter um clímax no qual vai trabalhar. Êle mantém os
25. Jôgo dos dois, um procurando fazer erer ao mesmas gestos, as mesmas posturas, mas nunca alcança
outro que há algo no céu, e o outro tentando ver. omesmo climar interior. Oápice de um climas nunca
26. Finalmente, o Vendedor acredita ver algo e pode ser repetido. Você poderá, apenas, exercitar os
rejubila. estágios preparatórios do processo que conduz ao ápi-
27 . OGatuno deixa-o sorrateiramente, pega ore- ce do clímax. Um clímaxnão pode ser alcançado sem
lógio e foge. prática. Oclímax em si nunca pode ser reproduzido.
28. O Vendedor continua seu jôgo, mas de re- Em tudo que você fizer, deve observar que não
pente percebe que ooutro não está mais ali. Olha em há regras fixas nem estereótipos. Oessencial é quetudo
valia, vê que lhe roubaram a pêndula. "Pega ladrão! deve vir de e através do corpo. Primeiro, deve haver
Pega ladrão!" uma reação física a tudo que nos afela. Antes de rea-
29. Ele corre. Sai pela esquerda. gir com a voz, você deve reagir com o corpo. Toda-
30. Emseguida, oladrão enlra pela direita ecor- via, é melhor não pensar, mas a~r, arriscar-se. Quallllo
re até a esquerda e fica, emcena correndo semsair do digo para não pensar, digo, coma cabeça. Certamente,
lugar. você deve pensar, mas com o corpo, lOgicamente, com
31. OVendedor entra à direita, seguidopela mul- precisão e responsabilidade. Pense com todo o corpo,
tidão. Corrida de todos sem sair do lugar, com di- por meio de açêes, Não pense no resultado e, certa-
versos incidentes: quedas, enconlrões, etc. mente, não pense no efeito bonito a fazer. Se o resul-
32. OGatuno é apanbado e desaparece no meio tado fôr espontâneo eorgânico, como um impulso espon-
da multidão que oenvolve. tâneo, fi!1almente, dominado, o resultado sempre será
33. OGatuno consegue escapar, abandonando o belo.
reló~o. Sai à esquerda, o povo atrás dêle. Estas minhas palavras provêm de uma experiên-
34. OVendedor fica só em cena erecolhe os res- cia pessoal e de pesquisa pessoal. Todos podem achar
tos da pêndula. uma erpresão, a maneira sua, uma maneira estrita-
mente pessoal de condicionar seus próprios senti-
mentos.

(Towanh a Poor Theolre - Jerzy Grolowski - Ed. Simon


(~e ~o, de OJ. Antonnelti, foi publicado oos cr n. 19.) li Schusler, Nova Iorque.)
Como envelhecer RE LÊ VO Tendojá feito o c1aro-escuTO, das sombras e relêvo,
pega-se um lápis dermatográfico marrom e, contraindo
Ê importante saber que, em têda caracterização, os músculos faciais, traçam-se de leve as rugas, esba-
a cadazona escura correspondeuma clara. Onde, como tendo-se bem. Com um pincel fino e com a base bran-
e com {Iue m,í-las? Como já foi dito as partes do rosto ca, fazem-se os contrastes junto às rugas (sempre o
que se quer realçar - que são as maçãs do rosto, as c1aro-escuro e sempre esbateudo). Finalmente, com
Quanlo au interior, u ator deve sentir-se velho pálpcbras (dãa ilusãodeolhar apagado), queixoc dorso ~erme/ho, traça-se uma linha juntu aos cílios inferiores
antes de IjUCrCr dar a impressão convincente de ser um do nariz. Devem ser aplicidas mm um piucel, ou com (para dar impress;\o de olhos cansados) e passa-se um
velho. Como IjlJase tudo em interpertaçâo, ó o pen- o dedo, esbatendo-se suavemente tanto para a sombra POUl'O de base 2 nos l:íbios (Lábios corados significam
samento, a idéia, (lU e mais importa. Se se concentra como para otom gemi do rosto. Como as sombras, as mocidade). Fixa-se esta ~e/hice com pé-delarroz oliva
de maneira adc{Jllada, os músculos, aulomàticamenle, côres de relêvo sofremdiferença de intensidade. Assim: ou raquel-escuro.
f: fúcil dizer-se que uma pessoa fim mais velha adctam noras e apropriad,1S posi\-êes. Somente depois
20 anos em sua aparição seguinte, numa peça, mas o de obter isso, é que o ator deve pensar na caixa de a) rel êm muito forte - branco (reflele l00I)
melhor meio de se notar a passagem do tempo é dar- macluilagem. b) relêro médio - misturar base n. 1 com ama-
lhe uma aparência de 20 anos mais velha. Essa tran- relo (reflete 7O'h )
sição depende não só do maquilagem como de.múscu- CABELOS c) relêro fraco - base n. 2 (máximo de reflexo
los. A forma do rosto muda pela mesma mão que - 4O'h)
muda a forma do t1Jrpo. Os músculos alteram sua Quanto aos cabelos, em caso de envelhecimento,
tensâo, enquanto uns endurecem, outros se tornam m· convém notar que cabelos postiços levam muito tem- Tôda caracterização deve estar de acôrdo com a
cklos, com o cnvelbeeimeato. po pam COIOl,tr. E se há muitas mudanças, as difi- aparência física do alor, Isso significa que não se deve
Os mú sculos faciais do atur devem ohcdccer a seu cnldades aumentam. E há perigo quandn se usa ea- violar em excessoas proporções naturais não só do rosto,
comando. E a única maneira de se conseguir isso é belo falso para envelhecer. :\.1 vêzes, o aíor jovemse comotambémdo corpo. Por esemplo, um nariz umtan-
através de exercícios. Quando o ator sabe controlar o emplastra de barba, bigodes e costeletas, e se esconde :0 proeminente pode ser diminuido ligeimmente, mas
rosto, ('st:í aptu a fazer melhor uso do material de ma- atrás dêsscdisfarce. Oresultado é incongruente. Crepe não pode ser lransfonnado num narizinho, pois pode
rluila~('m, quc mantém o objdil"O original, simular som- também deve ser rl'llfes[lJtado para ter seu deito. haver uma verdadeira desproporção eutre os traçes,
bras, luz c complciçáo. O lI/ake-lI/J é um instrnmcutn Finalmente, o uso da base correta menre cuida- Tôda caracterização deve estar de acôrdo com a
(Iue rl~lucr muita prática, sc se (jucr nsi-lo bem, dcso estudo. O importante é {l'le a base a ser usada mímica facial do ator.
Quando se tem (jue efetuar mudanças r.íp-idas de varia de pessna para pessoa, conforme seu tipo de pele.
O ator não deve procurar criar rugas fora dos lo-
maquilagem, de lima idade para outra, isso deve ser Oatur deve experimentar, a fim de ohter uma eombi-
cais indicados pela contração dos músculos faciais, afim
feito nos ensaios, tentando dc preferêneia nma mudan- na ção dos tons de base que déem mais com a sua pele,
de evitar duplicidade.
ça na aparência geral do (lUC nos pormenores. Se a Usar muitos tra\'Os horizontais e verticais, não aju-
forma muda, isso significa (11Il~ a postura e o movimento da muito a enrelhecer o rosto. Os acessórios (cabelei- Os postiços só devem ser usados se são realmente
devem mudar, imprescindíveis. Uma vez usados, devem ser coloca-
ra, bigode e barba] ajudam, observando-se o (jlle já dos com segurança para não caírem em cena.
Enchimentos também podem ajudar, quer acrescen- foi dito.
tando qner tirando-os. Se a feiç;io se torna mais clara, Acaracterização não poderá ser uma máscara que
os cabelos e sobrancelhas, também devem clarear. Po- USO DAS SmlBMS interfira ou prejudique a erpressân do aíor, como tam-
de-se fazer isso esfregando ligeiramenle uma toalha sô- bém nâo precisa ser naturalista.
bre o rosto e aplicando depois um pó mais claro. lsso As sombras são usadas para acentuar as cavidades Ao caracterizar-se, o ator não deve esquecer certos
l.~ um recurso rápido, quando não se tem tempo de mu- (sob os ossos das maçãs do -rosto, acima das pálpebras principies: simplicidade (evitando pormenores insigni-
dar completamente de uma cena para outra. Inciden- superiores, lados do nariz, cantos da bôca e têmporas], ficantes), convicção, (tendo em vista a distância exis-
talmente, pó branco aplicado prooigamenle sôbre olhos Para as sombras mais fortes (o que significa cavida- tente entre opalco e a platéia); não deve entrar em
muito marcados com a pintura, é um meio de fazer des mais profundas) usar terra-de-siena misturada com cena sem caracterização, IXJr causa da iluminação arti-
vincos quando não se tem tempo para traçá-los. chumbo. Para as sombras mais ou menos normais, ficial Ao caracterizar-se, deve considerar a intensída-
As roup;1S também devem ser trocadas de claras usa-se sombra dn/IO ou rio/ela misturada com terra- de da iluminação. Se a luz fôr forte eclara, restringe-se
para mais escuras - esta, geralmente, é a regra. Isso, de-siena. Para sombras leves: terra-de-siena com base ouso das bases, usando-se mais sombms. Se fôr escura,
(De Amateur S/age, 1'01. XIV110 e CADERNOS DE
quanto ao exterior. não muito escura. usa-se mais base e o mínimo de sombras. TEATRO ns. II e 12.)
i~m~r.mtcs, su.sc:ita muita ('oufian~õl (luan-
TEXTO PARA ESTUDO \
~ do e plOnunclildo pelos padrrs saiclos das
riamcom prazer que, na It!llia, nenhuma
ohra cllntenclo idi'i;!S novas não fni mais . G.\I.II.EI!
P - Não sei IXlr que vdo Sar-
II: amme perturhar? Viro mm pnulru-
' ar
c:1ISSCS i,l~fcri~rcs comII SIltaqlll' tln diaIdo puhlilõlda depois da sua suhmiss:io.
local. Nao, nsque, na e penso prudentemente, dC
'pois que
•G\~I.EU, ClJm elflirço - Infelimll'ntl', rslonaqui. De nsto, tenho miohl re-
Galileu Galilei VmGlNI.\ - Tudo? lia I~USl~ que se furtam ;\ Intclt da IOIre- (~,iC];ll.
G.\uu_"U - Tndll (IUCse S('~Ul' aus I"('U- ja. Temo que essas tCOri'LI I1mt1coac1ls ~o . ANuuE:' .:. l'rcfiru uão pcrturhá-Io, Ca-
Ihloll'S de maL~rrr.io. umlinuem, lá fora, pC~1 menos, a se de. hlc.u.
BREClIT Rc;'em à pur/lI. V;r~;II;a til; ti IInlc- scnvolverMlL GAIJU:U - lIarlx.rini ellam:lI'a lISOde
ClJrnnra. O mlln~e abre II l\lIr/rfll AxnR!:.\ - .Li for.l, a sua llir.ll;ll;i;o smu, E l',le próprio o.iu eslava lillc' (Ha.
VIIlCINIA - Não estou na sombra (Sai Paulo diz: umbenefício nunca se perde, Sar/i. Êsfe é, a~l1la, um homem t1n tõlUSOUum[eliz C'llIllI:lgolpe para a i~reFI. Tenho escritosempre.
Está bem assim, plenalJIllturidar/e. • ~.\lJIJ:U - f:? (SilêJlcio) Nenhnma no- ASllUEA - O()uê?
com o palo).
VmCL\U - Está perfeito, pai. IIt13 de Deaartes emParis? GAUU"U - Tcrminei os "Diseorsi",
VIRCINIA, ao monge - É preciso cha- . .A.NllUE.~ - Boa noite. Estou saindo da
mar. o 00I1ista. O pai 0.10 co~i u en- . GAUU:O - Você não acha (Iue se po- Itália para ir lraballiar em eíências m
ANUllEA - Sim. Ao saher de sua rdra- A.~ll:? .: Os "Colóquios" relalivos àl
deria vislumbrar aí uma ponta de inrnia? L1~0, êIe meteu na ~Jl"cla o sen "Tratado duas crenelas? Aqui?
1633-1641 GALILEU GALlLEI li- ICl~ar o palo 111 IDes.1 onde estava. Holanda. E pediram-me que o visitasse de
VmelNlA- Não, o arcebispo ficará fe- cla Natureza da Luz". GAULEU -:- Oh, dâo-me tinta e papel.
OMONGE - Antes é preciso autorização passa~cm para poder h ar noticias dêle...
ve numa rasa de campo nos arredores de e
licíssimo. ~Ie tão prátko. Lon~a poum. Meus supenores o.io s;io imlx.'ds. Êlcs
Florcnç:l, prisioneiro da Inquisição até a de MOl1Sl'llhOl C.1rpn\a. Êle continua es- GAUUU - Confio no seu julgamento, . VmCINIA - Não sei se consentirá em sabem ~Iue unl vicio arrai~ado não pode
Cll'Vendo eom sua própria mão?
morte. filha. Que vem em SCj(uida? recebê-lo. Você nunca veio aqui. ., ~AU~ :- Prcocupo-me com a1~uns ser enírpado da noite para o dia. ~Ics
Vmc1NL\ - Não. tle me ditou o livro, ANDREA - Pergunte-Ibe. ilIl1J~OS C1C1l~as aos quais condu7i para o
Umn ~rande sala, com mesa, cal/eira como o senhor sabe. Oseohor tem as pá- VrnclNlA - Uma admirável parábola: apenas me protegem das conseqüências
de couro e ~Iobo terrCJtre. Galileu, ~nas 131 e 132. São as últimas. "Quando estou fraco, aí, cnrno, é que es- Galileu reconheceu o toz. Não se caminho do erro. Souberam dJ minha funestas lomandl}-me o que escrevo e eo-
retratação?
(I~ora ulha e (I'IDse ce~o , CIperimen- tou forte." mexe da cadeira. Virgínia elltra. locando sob chave pábrina por págiua.
O ~IOl/CE - É uma veilia raposa. GALILEU - Sem comentámo M'DREA - Para peder trabalhar as dên-
ta cuidadosamente um trabalho. Na ANDREA - Oh, Deus!
VIRClNI.\ - tle não faz nada que não VmCI~lA - Por que não? GAULEU - É Anurca? tias, projeto ir para a llolmda Não se
an/eaimara, há um mon~e de guar- GAUlEU - Que é que disse?
5('ja permitido. Está de fato arreptlldido. VIRCINIA - Sim. permite ao boi o que Zeus não se permite.
dll. Batem à porta. O mon~e abre, GAUUU - Acontinuação. _ANDREA - Deixam que labore o mar.
entm um camlJÔnio, lrazendo um peito Eu o \i~o. (Dá-lhe o polo) Di~a na co- VIRGlNIA - "Sôbrc o que se deve com- GALlUU, apcis uma pousa - ~lallda GAlIlEU - Compreendo. Dãl}-Ihe tinta e papel a fim de acalmá-lo!
deperwdo. Virginia sai da cozinlm. zinha para assar o H~ado com uma batata preender de que a adomçáo do Crislo é entrar. ANIJRE.\ - Federzoni trabalha de nôvo Como pode escrever, então, com êste pen-
e cebola. (Volta à sala f,lfInde) E agora, infinilamenle preferível ao ccnhccimenlo", Virginia introduz Andrea mm lentes, nãosei em que loja de ~Iilão.
Ela está, agora, cam (luarento allM. samentn diante dos olhos?
pensemos em nossos olhos. Debemes isso Paulo aos Efesianos, J1J/1/19. G.\LlUU, friamenle - Êle nio conhece
. ~AULEU - Deixe-me só tom êle, Vir- o latim. • •G.\UUU - Oh, sou escravo de meus
o CAllPÔNIO - Tenho ordem de en- depressa e ditemos mais um pouco de
nossa c::ula semanal para o arcebispo.
GAUUU - Af,ladeço particularmente
~mla.
habitos .
t~ar-Ihc isso. a Vossa Emioência a magnífica citação Silêncio. M'DREA - Os "Discorsi" em 5113 mãos!
GALlUU - Não me sinto muito bem. VIJIGINIA - Quero oUl;r o que êle
Vmeum - Da parte de quem? Não da C.1rla aos Efcsianos. Sob o efeito dês-
conta. A.\'DRB - Fulgêntio, nosso freizinho ~1es~en1io, Londres e Paris Ioneos por
Leia-me mo pouco cle Horácio. se impulso, achei ainlla o '1ue se SCl(Ue e .
encomendei nenhum pato.
VmclNlA - Na seman.1 passada, Mon- Ela se senlo. renunciu à pesquisa. Êle voltou ao sei~
O CAl1PÔ~10 - Tenho onlem de (lizcr: na nossa inimitável Imitaçio. (Ci/a de
da Igreja. . GAUUU - Daqui, posoo oUlir Fabrí-
senhor Carpula, a quem devemos L1Dlo, cor) "Aquêle que escota a palavra eterna, crus gemer e penitenciar-se por sua libra
de alJ:llém que está de passagem. M'DREA - Como vai? GALILEU - Siot
me disse que o arcebispo sempre lhe in- livra-se de muitos problemas." Se posoo de carne, êle que vive em 5CWaJlM
t le sai. Virgioia olha a ou cam es- da~ava o que você pensa do questionário G.\ULEU - Scnte-se. Que está fazendo? Silêncio. AI n ,-
me permitir aproveitar esta ocasião para ~'DREA - Duas ciências novas que são
panlo. O mon~e tomn·lhe das mãos e 1115 cibçiics que êlc lhe envia. blar de questões pessoais, lembrarei que Fale-me de seu trabalho. Ouvi dizer que
GAUuu - Meus superiores esperam que L1)mO perdidas.
e eIIlminn·a com descoofiança. Tran- persis!em em me censurnr ter cu oulro- se lr.lla de hidráulica.
Fla preparo·se para escrever $Ob eu recupere novamente a saúde da a1m:L GAU~ - Êle e alguns outros ficarjo
quilizado, êle a dero/te e ela a lew, ra composto mo livro sôbre os corpos ce- ANDREA - Fabricius ue Amsterdão in-
pelo pesroço, alê Galileu, 00 saw diJado. Faço maiores progressos do que se podia sem dUVIda muito abalados ao saberem
lestes na língua flamenga. ~linha inten- cmnbio-me de inda~ar de sua saúde.
f,rande. espernr. ~e .coloquei em ~go os últimos mise-
GAUUU - Onde fiquei? ção não era propor ou aprovar que se Um silêncio. A.'IDREA - Oh! laveIS restos de minha tranquilidade para
VUlClNlA - Pará~o quatro: No que escrevam limlS sôbre assuntos bem mais VUlCI!(L\ - Deus sela 10Ul':ldo! f~ ~ :cipia, às minhas costas, se di~o
VIRGINIA - AIJ:llémde pas5.1gem man- importantes, como, por exemplo, a leo1cl- GAULEU - Estou passando bem.
dou-lhe mn presente. concerne ii lomada de posição da Santa M'DREA - Estoo feliz de poder infor- G.\UUU, bruSClJmenle - Vá ver o pato aSSllll, uüllL1Ddo a mais minúscula onça
Igreja quando aos hlmultos no :usenal gia, no jargão dos vendedores de macar- Vi~a. . de.luz das. noites claras durante seis meses.
GAUUU - Qne é? rão. O ar~umento para o scniço divino
mar que você está bem.
de GênoI-a, manifesto men inteiro acôrdo Mmha raIdade me impediu até a~ora ue
VIRCllm - Não está vendo?
em latim, a saber que graças à univena- ('~1JLEU - Fabricius ~ostará de saber Virginia sai com raiei). Ao pll$S(;r
GAUUU - Não. (Vai até cio) Um palo. mm as disposições tomadas pelo canlial diz uma palarra ao mon~e. ' destruí-h. "Se tMl ôllio escandaliza, arran.
lidade dessa língua, todos C5 povos com- disso. E pode informar-lhe que vivo num
Tcm a~m nome? Spolello contra os cordoeiros venezianos ca-o", clisse a1~uém que conhecia mais
prcc'mlem a Santa Missa di mesma ma- a~dável coofôrto. Graças ii sinceridade
amotinados... O MONCE - ~ hmoem não me do 9ue eu o confôrto. Concordo que seria
VIRGINIA - Não. neira, não me parece muito feliz, porque u.e m~ arrependimento, consegui obter a a~da. o crunulo da loueura deixá-Ia sair de mi-
GAUUU, tirando,Ule aace das mãos - GALILEU - Sim. (Di/ando) ...C!Jlresso 51mpalIa ~ meus superiores a ponto d~
Está pesado. Aeho que posso comer um meu inteiro acôrdo com o cardeal SpoleUo
poderia ser objetado pelos pândCJ:os nun- VIRCIl\U - É inofensivo. Foi seu alu- nhas mãos. Mas como Diio conse~ui me
ca fallos de argumentos, que, assim, De- estar ~uto~do. a prosseguir com miohas no e, ~ conseguinte, a~ora é seu inimi- manter completamente afastado do tra-
pedaço. Preparc-o com timo e balatas. contra OS cordoeiros amotinados, visto pesqUisas crentificas, nmo perímetro re·
VIRCJhU - Você não deve estar com oomo é preferível dWibnir unia boa
nhmo povo compreende o texto - mas go. (Saindo) Recebemos queijo. ~o científico, você também pode tê-Ia.
renuncio de boa vontade ii intCj\ibilidade duzido, sob o conlrôle eclesiástico.
fome; acaba de sair da mes.1. E que que sopa fortificanle em nome da caridade Omange acompanho-a. E~a no mapa-mundi. Caso pense enl le-
para o commo das coisas sa~das. O . M'DREA - De fato, ternos ouvido dizer
há com seus olhos? Você podia ve.\o de cristã do que amoentar o salário para as que a I~ia estava satisfeita com o se- A.'iDREA - Viajarei tôcfa a noite p'lla
. . para a Holanda, você assmn·Ira• a
va-Ia
cordas de sinos. Por que é preferível for- latim de igreja, que defende a verdade mtella responsabilidade. Você a te'
lá da mes.1. eterna da I~eja contra a curiosidade dos nhor. Sua completa submissão surtio efei- poder passar a fronteira amanhã ue ma-
GAULEUU - Você está na sombra. tificar a sua fé do que a su~ cupidez. São to. É certo, e seus superiores couslata-
compradode alguém que leria tido are:
nhã. ~ retirar-me? ao ori~al no Santo Ofício.
ber sobretudo para lodos, ela tende a fa-
i
Andrea se aprOrima do ~Iobo terres-
tre e retira a cópia.
ANVREA - Você ganhou o lempo nIX'CS-
sário à cria~o de uma obra científica, zer de todos, céticos. Ora, a maioria da ...I mercado. N~ circunstâncias partícula-
res, a rcsislêr.tia de um homem teria pro-
que só você poderia escrever. TIvesse vo- população é mantida pelos príncipes, por \'ocado profundos lranstornos. Tivesse cu
ANVREA - Os "Díseorsil" seus proprietários imobiliários, seu clero,
11\ por uma glorioL1, terminado a vilh resistido, os natumlistas teriam podido
GAULEU - Tinha que usar o meu tem-
ouma f~eira, seriam os outros os Vl'D- numa névoa nacarada de superstições e d~nvolver al~o como o jur:uuenlo hipo-
po de al~uma maneira. de tradições escritas, que oculta as ma- crálkn dos médicos, o voto dr consagmr
mlores.
ANDREA - Eis o ljue vai fuudar a nova GAUI.EU - Êles 5,;0 os vencedores, fluimções dessa gente. Amiséria das mas- sua ciêncõ.;J l'xt!usivaml'llte ao bem da
física. Não c.riste nenhuma ohra científil':l que sas é velha como a montanha: do alto das humanidade. No estado atual das coisas
GAULEU - ~~ndc-a soh a.lOupa. nm Íloico homem possa escrever. cátedras, proclamam-na indestrutível, eo- o melhor que se pode desejaré uma ral';
ANvnEA - ii nos fluc pcuS<lVamus que ANJlDE,\ - Por que então se relralon? mo a montanha, Nossa nova arte da dú- de anões invcnlivos que se alu):am para
\'oc'ê havia desertado! Eu rIa o mais cn- GAULEU - Eu me retratei porqne temia vida encantava o graode público. ÊIc nos qu~quer trabalho. E ainda por cima, ado
furecido centra voc-ê. o sofrimento físico. arrancoú o telescópio das rn.;os para diri- q\lln a certeza, Sarti, de que, em momento
GAULEU - Evidente. Eu ensinei-lhe a
ANDREA - Não! !!i-lo sôbre aquêles que o martirizam, ~Jgum, nenhum perigo verdadeiro me
ciência, e nc~nei a verdade. GAi.u.ro - ÊIes me mostraram os ins- Êsscs homens egoístas e violentos, que ameaçava, Dirante alguns anos fui tão
ANDREA - Isso muda tndo. !':umcntos. aproveilamm àvidamente dos fmtos da forte quanto as autoridades. E e0!rel:uei
GAULEU - Sim? ANDREA - Então não foi plano? ciência, seutiam também o frio olhar da meu sa~ aos poderosos para que dêle
A~'DREA - Voc-ê ocultava a verd:,de GAULEU - Não houve plano. ciência pôs!o sôbre uma miséria velha de se semssem, ou não se servissem, para
diante do inimi~o. Mas, no plano da éti- Silindo. milhares de anos, se bem que artificial, qne se servissem mal, unicamente de acôr-
ca, estava séculos ii nossa frente. e que poderia, visivehuente, ser suprimi- do com o que servia a seus fins. Eu Irai
GAULEU - Explique-mc isso, Andrea,
AltllBU, aUo - A ciência só conhece da, desde que se os suprimam também. minha pmlissio. Um homem que faz o
Al.llREA - Com o homem da ma, nós um mandamento: a contribuição cientí- Êles nos alavacam com suas ameaças e que fiz não pode mais ser tolerado no
diziamos: êle morrem mas não se relrn- fica. sua cormpção, de modo irreSistível para seio dos homens de ciência.
GAULEU - E foi ela que eu entrej!uei. a! almas fracas. Mas poderemos nos re-
tará nunca, Voc'ê disse: Eu me retratei, Virginia, que estête de pé um IIICI-
mas viverci. Suas mãos estão sujas, di- Gosta de peÍIe? Temos pece, Oque fede rosar às massas e continuarmos homens
menlo cdoca o prato 11;1Ire a mesa.
ziamos, Você disse: Antes ter as mãos su- rão é meu peixe, sou eu. Estou liquidado: de ciência? Os movimentos dos astros
I'ocê é o comprador. Ó O irresistível as- tomaram-se mais claros: os movimentos VI8CINIA - Mas você foi admitido nas
jas do que vazias. fileiras dos cnntes.
GAULEU - Aotes sujas do que vazias.
pecto do livro, da mercadoria santificada! dos senhores permanecem ainda impres-
Agente fica com água na bôca e, de re- crutáveis para a massa de seus súditos. GAULEU - Justo e md.idciro. f: hora
Isso é realsta, Isso soa l'OIIIO eu, Ciência de jantar.
nova, ética nova. pente, vêm as pm~. A grande Babilo- Abatalha por uma mensuração do céu foi
Al.'DBEA - E cu devia sabê-lo antes dns niana, essa fera assassina, rubra, abre as J;anha pela diwida. A batalha pelo pão ANDREA eMende-lhe a mão. Galileu
outros. Eu tinha doze anos quando o vi pernas e tudo se transforma. Santificada da mãe de famlia romana deve ser sam- a olha SEm tomá-la.
I'CnOer, no Senado de Venez"l, a luneta seja nessa sociedade de mercadores, de pre perdida pela fé? A ciência deve
Pôncio Pilatos e dos apavorados diante da eeupar-se das duas batalhas. Uma huma- G.\UI.W - A.~ora, você também é prn-
inventada por oulro. E vi \'Ocê tirar dêssc f~r. Você p:xle permitir-se apertar uma
instrumento um proveito imortal. Seus morte! nidade perdida no nevoeiro nacarado há
A.'IDREA - O mêdo da morte é humano. milhares de anos, sem saber desenvolver mao como a minha? IVai afé a mesa) AI-
amigos duvidavenl quando voc ê se incli- ):uém de paslagem envíeu-me um pato.
nava diante dessa criança em Florença; a As fraquezas humanas nada têm a ver plenamente suas próprias fôrças não scní
com a ciência. A comida é meu prazer,
ciência cooqnistou o público. Voc'ê sem- capaz de desenvolver as fôrças da natn-
GAULEU - Não? Alesmo na minha reza que você descobre. Por quem \'Ocê ANDREA - Você 0.; 0 acredita mais que
pre zombava dos heróis. "As pessoas que uma. nova cm sr anuncia?
!Vfrem me aborrecem", você dizia. "A aíual posição, caro Sarti, sinto-me capaz lrabalba? Acho que a única finalidade da
de dar·lhe algumas indicações sôbre o que ciência consiste nisso: aliviar a fadi~a da GAULEU - Sim. Cuidado consi~o.
infelicidade provém de cileulos mal fei- A~1lREA, SC1il coragem de partir - Com
tos". E, "lendo em vista os olstâeulcs, tem relação com a ciência, à qual você existência humana. Se homens de ciêneiJ
se detlicou. relação ao iul~ameulo feito sôbre o autor
pode ser que a distância mais curta entre intimidados por egoístas detentores do po-
Virginia enlra com um pralo. d<:- que falamlS, não sei que responder.
dois pontos seja COM." der, contenlam-se em acumular uma
Nao posso crer que sua análise cruel seja
GAULEU - Eu me lembro. GAULEU - Nas minhas horas livres, e quantidade de saber pelo prazer do sa-
a última pa!aHa.
ANDREA - Assim, quando eu ovi em 33 eu tenho muitas, eraminei meu caso sob ber, a ciência não será mais que uma. G.UJLEU - Graças.
se relratar e renegar uma tese popular todos os aspectos e refleti sôbre a ma- pobre coisa enferma. Suas novas máquinas
do seu sistema, deveria saber que você neira pela qual o muodo dos sábios, en- não servirão a não ser para novas tortu- COIIIef1l Q comer.
recuava imicamenle diante de celeuma p0- tre os qnais eu me conto, o julgaria. Um ras. Com o tempo, você poderá descobrir Vu.:lNU, acompanhando Andrea - Não
lítica sem esperança, para essegurar a vendedor de panos, êle próprio, mesmo tudo que há a descobrir e, contudo, seu gostamos mais dêsses visilantes do passa-
conlinuação da verdadeira finalidade da convido de estar comprando barato e progresso o afastará cada vez mais da hu- do: roes o enervam muito.
Ciência. revendendo caro, deve ainda poder lutar manidade. Oabismo enlre ela e você pode AndIta r~j-se. Virginia coi/a.
GAULEU - Que é? para que o mercado de tecidos possa con- se tomar tal um dia que ao seu ~rito de
ANDBU - O estudo das propriell.1des tinuar sem embaraços. A continuação da alegria diante de uma nova descoberta GAULEU - Você tem idéia de quem
do movimenlo, pai das ináquinas que, sO' pesquisa científica, parece-mhe, sob êste resp9nderia um grito de horror universal. mandou?
zinhas, lornarão a terra tão habitável que ponto de vista, que exige uma cora~em O hourem de ciência que eu era tinha VIBCIII1A - Não Andrca.
se poderá descartar do cêu. ercepcional. Eh comercia com o saM uma cspirituaIidade única. Em meu lem- GAULEU - TaI\·ez. Como está a noite?
GAULEU - Aba. adquirido graças à dúvida. Criando o sa- po, a astrooomia alcançava um IUR3f no VIllCINU, à ;anela - Clara.
(Ellr. de 1héôlre Comple1, III vol Bertolt Breeht - Ed. L'Arche/ParisI
) QUE VAMOS REPRESENTAR: III destaca-sedo grupo, dá um I)asso para o centro
e volta-se l)(Ira os ol/tros três, sempre imóceis: é
.
\ UI, danllo um pesado e bem marcado passo com o
pé direito, para a direita, pennanecenllo lIe peqil -
lll, dolorosamente cl/rrallo sôbre si mesmo como
quem toma impulso durante estas réplica~ pam
Pilotos. Deus é levado a juiw. lançar as dI/as ríltimas frases, dando um passo de-
1M, COlno III atrás dêle - Justo, pagará por mim. ciáúlo para alIireita.
l Via Sacra 1II - Não é bastante? pergunta Pilatos antes de
lavar as mãos. Que lluereis mais ainda? 2M, ídem - Morte de cruz, é preciso! 1II - Pesamos sôbre êle com têda nossa íôrça, e
1M, 2M, 2H, sempre imóceis - Que êle morra! 2H, ídem - Que na cruz ache o seu fim. lhe gritamos: Para diante!
IENJU GIIÉON 1II - Mas que fêz êle? Por que? As duas mulheres recl/am pam o fllndo, lIum pa.~IO
1M - Curou ocego de nascença. SECUNDA ESTAÇAO mellroso. 2H, passanllo diante delas, nUIII passo de-
Traduçl;o de D. ~IARCOS BARROSA 2~l - Perdoou Madalena. -ciclido, em direçiio a 1H - Para diante!
C- Nossos pecados, escombros!
2H - Ressuscitou a Lázaro.
Personagens:
Não vêdes que vai tombar? lH, nôvo passo para alIireita - Para diante!
lH - E é um crime vencer a morte. Tomou todos sôbre os ombros. 2H, nôvo passo - Para diante!
OCRONISTA - C 1M, 2M, 2H, sempre imÓlieis, frente para o público Vão-Ihe todos arrancar. 1M, 2M, em seu lugar, ao centro - Parai! Por pie-
2 HOMF.:'{S - 1H e 2H - Seja crucificado. dade, parai!
2 MUU!EIIES - 2H e 1M Pal/sa. Pausa. Recitalla a quadra, os quatro peregrinos
lH, tiOltando-se para as lIuas mulheres, ntlm tom
lião ;untos um passo lento com o pé esquerdo, de-
Dados os sinais, o CRONISTA entTll pelo meio da lll, diriginllo-se ao público - Não há ninguém que quase brotai - Não! É preeiso que êle nos leve até o
pois um outro cam o pé direito e, de repente, como fim. Oamor o quer.
cortina eIXli colocar-selentamente no 'primeiro pla- o defenda? Seus discípulos? Seus amigos? que currndos sob tlm pêso imenso, falam, imóveis,
IIlJ e.squerdo do procênio, em A; abre-se a cortinll. 1\f, 2~f, 2H, como acima, em coz mais sl/rlla - com dura intensillalle. Silêncio prolongado.
Os lJuatro IJcrcgrinos, de face /)(lTa o público, esttio Nenhum. 1M, 110 lllesmo lugar, como os outros peregrinos,
imólieis no primeiro plano cslJuerdo da cena: lll, nt - Nem Tiago. UI - Acarga o tomou imóvel.
durante as réplicas segl/intes, que vão dolorosamen-
1M, 2M, 211. Um imtante de silêncio. Canto, nos 2M - Nem Filipe. 2H - Acruz lhe mordeu o ombro.
te decrescenllo até "Pobre humanidade!"
bastidores,do Gradual dll Quinta-feira Santll "Chris- 2H - Nem Pedro. 1M - Escolheram a madeira mais pesada.
1M - Como o boi sob o aguilhão.
tus facfus est", lll/rante o lJual os peregrinos descem lll, 1ll!i1lmdo l/ calleça. O cristlío lIIedita - Nem 2M - Escolheram a madeira mais pesada.
2M - Sob o chicote, como o escravo.
ao pmcênio, processionalmente. 111 se acha enttio mesmo Pedro. Êle o negou três vêzes, 2H - Eêle ainda pôs em cima operjúrio de Adão. 1M - Suando.
mais ti tiireitll e, da esquerda pam a direito, 1M, 1M - Ofratricídio de Caim.
Pal/sa. 2M - Ofegando.
2M e 211. Termina o canto. AaçBo IJrincipia. 2M - Oadultério do Rei-profeta. 1M - Penando.
nl - Ontem, dava-lhe a carne como comida. lH, sempre imóvel e cnrvado - Pôs em cima to- . 2M - Silencioso.
2~f - Ontem, dava-lhe o sangue como bebida. dos os perjúrios, todos os assassínios, todos os adulté-
PHI~IEIHA E~'TAÇAO 1M - Até cair.
1H - Os mais ardorosos, os mais fiéis dormiram rios dos homens, cuja vaga sobe desde a origem do 2M .. Até cair.
C, imócel em A, onde penllanece durante tOda a no Jardim das Oliveiras. Tinham já esquecido. mundo e irá quebrar-se um dia na montanha do Jul- 1M - Pobre cordeiro.
açrio - Silêncio gamento.
2M - Pobre humanidade.
Deus é levado a juizo;
Justo, pagará por mim. 2H, um pa.~w à frente, coltando-se fXlra 1H - E Grande pausa III, no mesmo lugar, em coz baira, como os outros
João? - Nossos pecados, escombros!
Morte de Cru7J É preciso
Que na cruz ache o seu fim. 2~l, IiOlJalla para 1H - João? 1M, 2M, 2H, - er~uendo-se lentamente - Os nos- 2H - Não vêdesque vai tombar?
1M, voltada para IH - João? sos também? 1M - Tomou todos sôbre os ombros.
(Pal/sa) llí, num gesto doloroso) toltando para o fundo e lH, oolJando-se delil/g~r para os três - Todos os 2M - Vão-Ihe todos arrancar!
lH - face para o público, compassadamente - De estenllenllo os braços nessa lIireção - Vejo.o, pobre coi- nossos. Ainda que tivéssemos batido uma só vez.
TERCEIRA ESTAÇÃO
Anás a Caifás. tado, seguindo a grande custo o amado mestre, até 2H - Sôbre êle está a nossa violência.
1M - De Caifás a Pilatos. Anãs, até Caifás, até Pilatos, até Herodes... Mas não IR, pausadamente - Ainda que tivéssemos enga- C- Cai. Meu orgulho lhe corte
2~l - De Pilatos a Herodes. pensa em dizer: Que me preguem na cruz com omeu nado uma só vez. Dos joelhos o vigor.
2H - Ede Herodes de nôvo a Pilatos. Senhor! (Longa pausa; bTllscarnente, aos outros) Por- 1M - Sôbre êle está a nossa traiçâo. Que os meus se gastem à porta,
lH - Arrastado. que dece o;usto morrer? Justamente porque é iusto. lH- Ainda que tivéssemos odiado uma só vez. Aporta do seu amor.
1M - Insultado. E nós, nós não o somos. 2M - Carrega sôbre si o nosso ódio. Do procênio, IH sobe para adireita, na cena. Pa.
2M - Manchado. 1\1, 2~1, 2H, bairando acabeça e repetindo lIolo- lH- Somos nós que lhe p~amos na cruz, rece purar por uma corda o Cristo, que o segue,
2H - Batido. rosamente - Nós não o somos. 1M, 2M, 2H - Somos nós. e para o qUllI está coItado, sllbindo lIe costas. 2H
fa~ o me.smo, acompanlwmlo·o na asccnçtio. As III - \Iascando a terra de onde saimos. (Pausa. ]H - É preeiso que ela ovcja. Ela veio 1J.1ra vê-lo nl - Como um, raio de amor esticado entre o
duas mulhcrcs, imtÍGcis e afli/as, segucmcomos Raim, scm mOGcr-sc) Êle cai! sofrer. Há mais de trinta anos quc ela espera esta céu e a terra.
ol/wres esse jôgo mudo: o Cristo inGhíGc! entre os nl - ~Ieu orgulho lhe corta, dos joelhos ovigor. hora; desde aquêle dia, no templo, emlJue o velho Si- 2M - A corda única de uma cítara.
dois homens e (IS duas mulhercs, deGe ser assim 2lI - Os meus se gastarüo à porta. meão tomounos braços o menino, risonhoe luminoso, e 2H - Que nâo mais deixará de cantar sob o dedo
sugcrido (lOS cspeetadore.t Depois de um curto ~~ I - A porta do mcu amor. profetizou para êle e para ela: "Equantoa vós, Maria, dos anjos.
tempo, numgesto 1JTIISCO, os dois IlOmens ]l'lTecem Leamtll/lI-.se lentalllente. Lenta, pro.~scgue II disse êle... lll, C/II réplim lenta, grace e doloroSlI- ~Iüc, cm
soltar (I corda; °Cristo mi. Asduos mulheres, em wlllinhada. 11/ dá uês pa.Ms para aesqucrda. 211, 1M, 2~1, 2H - "Umgládio transpasar:\ o vosso coo quc estuIo!
sculugar, tam1Jémdcjoelhos, wltl/llas para o pon· afastando-se, dciJa plssar as duus lIIulhcres. Fim ração". nl, idem- Em(Iue estado, meu filho!
lo da queda. 1JI ao centro dacena e, fUlI IIOUCO lIIais à direita, lll - Himais de trinta anos que ela espera o ul:l- Com umlongo gestodcmão após Imlll longa pausa,
1M - Senhor! m , 2M e 211. dio. Há mais de trinta anos que ela se prepara, e ~pi. rlea/){Jga, coino queapr~}I'ia lembmnça doencon-
2M- Senhor! ra sofrer tanto ou mais que seu filho. Sofrerá menos. troe retoma o cnminho da esquerda, o dorso cur-
QUARTA ESTAÇÃO
nl - Os dois joelhos! 1M - Não sabeis o que é mãe. liado. 1ll recua cse junta dcnôw aos outros dois
2~1 - Amâol C- Outra dor à dor se junta, peregrinos.
]H - Mas sei o que é um Deus tomando sôbre si
nl - Quem o empurrou? E à ~Iãe e ao filho devoram.
Dá-lhe leu pranto, defunta, o sofrimento todo e de todos os filhos e de íôdas as lH - É tudo. Êle continua ocaminho. Esuacruz
211 - Tropeçou numa pedra. mães. Ela sofrerá menos. E seu pior sofrimento é, émais pesada. Ele securva. Mas uma fontebrotou, de
2~ 1 - Não a podiam afastar do seu caminho? Quc os nossos olhos não choram!
justamente, não poder, na dor, descer tanto quanto Ele. lágrimas, dos olhos maternais; os olhos, o coração, a
1Il - Alguém a pôs. Pausa. IR llcí UIII passo para aesquerdaepára na Mas, tanto quanto possa, ela quer descer. Ela exige que alma lhe transbordam. Ela cai.
nl, 2~1, 211 - Quem a pôs? clireção elo bastidor esquerdo. Elc GÍu a Virgem Deus lhe dê a medida cheia, a cheia medida humana; 1M, 2M, 2H - Ela cai.
Aqui, uma longa, muito longa 1)(llIsa. Carrascos Maria. Élc aindica aos outros, que lhe respondem e Deus não falhará. 1M, num ímpeto, após uma pouca - Carrascos, não
e mulheres I/riO lugar a qlllltro cristcios comoGidos. cm coz mcdrosa e aflita. tendes coração?
Muito lentamente, Jll dá UI1l passoram II eSlfuCTlI~ IH - Ehl eslií aqui! Pausa. 2M- Carrascos, não tendes mãe?
r, d~ frente [Wl! o p,í1Jlico, como se c.s/iGcs-se aei- 1\1, 2~1, 2H- Ela! 1\1 - Não viste nunca vossa mãe chorar?
/I/lI elo lugar cmque Cristocai/l, como se se incli·
1M, 2M, 2H - Eis a hora do ghídio.
]H - É ela que avança, sustentada pelas santas PauSlJ.
nasse sô1Jre o mesmo, elalml os joelhos, batendo o mulheres e perdendo a vida a cada passo. lH - Eis a hora do gládio. Maria, o viu brilhar
reito, a wz mol/wda de lríwimas. l\I - Como está pálida! entre os ramos no dia do triunfo, sôbrc o jumento. Viu lH, wltado para osoutros, gravemente, como cris·
III - Penloai-me, Senhor. (Ajoelha-se) Se cu nâo 2~ 1 - Seus olhos são devorados pejas lágrimas.
que êle apootava debaixo do manto de Judas aquela tão falando a outros - Se o chôro da mãe os tivesse
tivesse unninhadn de cabeça erguida, repleto da minha 1M- Treme-lhe a bôca noite. E, enquanto Jesus suava de angústia e de aban- enternecido, ela teria escondido o seu chôro. Pois a
tÍcncia e suficiência, da minha salisfaçün c da minha 2M- Pende-lhe a cabeça. dono, êle se plantou, de súbito nela. Ela esta só. O mãe não veio para salvar seu filho, mas para di-lo.
vaidade, de olhos postos emmim, criatura admirável, nl - Não tem fôrça sequcr para estender os bra- dia se levanta. Ruído de armas, Gritos. Anotícia se Pronto. Que êle vá sêzinho até o fim. '
igual ao seucriador, desgostoso da minba condição, ciu- ç:Js! espalha. Seu filho está prêso. Seu filho éflagelado. Seu Pausa.
mento da dos outros, til teria visto esta pedra, teria 2H, fa:. um IIIOGimento para a direita: II/II gesto filho é condenado. Acada golpe, o gládio quese enter-
2M - Vamos deixá·la então?
aprendidoa conhecer e a experimentar que eu não sou das mulheres o c/elem - Afastai·vos, carrascos! Quc ra. É ela que o enterra, tendo nas mãos o cabo, o
2H, com um tom de dura certezn - É preciso se-
mais que ela! Um bocado de vossa terra, tirado por ela o veja! cabo em forma de cruz. Com a mão no cabo ela se
gui-lo.
vós de'sua inerte obscuridade, e quc voltará um dia ao nl '- Não, esondeiol Seu coraçãonão resiste. ergue. É preciso que ela o veja sofrer, o vcja'morrer.
1M - Ah, como estão secos os nossos olhos!
pú ljUE foi. Perdoai-me, Senbor. 2~1 - Escondei-o. ]H - Seu Iu~ar está marcado no Calvário; caminha
lH, gracemente - Aprendamos, pois, a compade-
m,2M, 2H - Perdoai-nos, (Ajoelham-se também). l\I - Escondei-o. ao encontro do Filho. (Pausa. À testemunha, ao cris- cer. Outra dor à dor se junta.
lll - Quando vier o tempode vossas núpcias, esta- 2~1 - Ao menos diante dela, poupai-o. tão, o próprio Cristo, liaí suceder emgesto ii palavra) 1M - E à Mãe e ao Filho devoram.
remos ,IS portas como os maus servidores. lH, gracemente, autoritário - Mulheres, deirai-a - ~Ie a sentiu chegar. ~Ie pára. 2M - Dá-nos teu pranto, defunta.
nl - E comoas virgens loucas, lJue por causa de cumprir, custe-lhe embora a morte, a vontade de Deus 1M, dando um passo em direção aIH - Ela ovê. 2H - Que os nossos olhos não ehoram.
seus encantos julgaram indigno delas preparar as luzes e de seu Filho, lll - Eêle a vê.
da festa. nl e 2\1- É preciso que ela o veja? 2M - Ela se cala. QUINTA ESTAÇÃO
As líltimas réplicas ctio decrescendo. (l aistão (III) fala, comoddo, lembrando-se e 2H - Ele se cala. C- Oh! Um amigo lhe resta!
2H "" Sôbre os joelhos, assim. lembrando aos irmãos o mistério aqueassiste, im- lll, face afacecom 1M, no centro cIo cena, adoi: Mas não sou eu, é Simão.
, 2Ü - Reduzido à altura das feras. potente;acha·se no centro, facepara o plíblico, senl passos um do outro - Um SÓ olhar trocado, que atraves- Nenhuma ajuda lhe presta
nI - Acorrentado à nossa miséria. declamar, sem lewntar o tom. sa o mundo. Minha f~ menOr que um grão...
-I
Pausa. nl, 2M - Êle representa todos os homens. 2~1 - Aimagem do seu sofrimento. outra, ele ombros eureados, ri estluerda, 2M cJtará
lll, num IXlSSO pestlllo, atança para aesquerda - lll, apontando claramente Simão - E o Salvador 1M - Aimagem da sua deçura, mais no primeiro Illallo.
Um passo. o salvará. 2M- Nenhum traço, marcado pelo sangne, que
UI, 2M- E o Salvador nos salvará. HI - Como sofre.
2H, amnçando para IJl - Um passo. não diga: "Eu sou manso: 2M- Asubida é Íngreme.
lH - Um passo. 1H, ítiem- Apesar da sua má vontade. I~I - Nenhum (lU e não nos diga: "Eu sofro por
I~I , 2~ 1, todo êsse diálogo com intensidade cres- lll, de costas, diri~indo-se ao Cristo, que esflÍ no
211 - Um passo. li, Verônica."
cente - Apesar da nossa má vontade. meio dêles, no tilZÍo lJue deiram na pai te allterior elo
1M, imóvel - Êle não pode mais. 2~I, 1M - Nenhum que não uos diga: "Eu sofro
praticácel E- "Forcemos o homem"; os carrascos pra-
2M - Ninguém para ajudá·lo? Um tempo bem consil!eráce/ para mudança detom. por vós e para vós". guejam, batem, empurram. O homem cain. (Estas
lll, um pé sôbre E, rolta·se para os o/ltros - Nin- 2H, retomando o tom do início da estcçáo - Va- Tudo iS.\l) nos lugares, as duas mul/reres face a ríltimas palacras, rápiel!ls, sêeus).
gném. Omundo uão mudou. Muitos homens pensam mos, mais depressal face. 1M, caindo de joelhos - Os joelhos!
consigo mesmo: "Pobre homem. Como é desgraça. lH, no mesmo lugar, em E - Um passo. 2M, ídem - As mãos!
1M - Os olhos choram.
do. Dá pena!" Mas nenhum lhe estende a mão. 2H- Um passo. 2M - Os lábios saugram. 2H - Acabeça bateu!
Ninguém OUSiI. lH - Oh! Um amigo lhe resta. lH, essas quatro réplicas apressadas, bmscas - A
Ill, do seu lugar ele nôco o cristão queseassocia
2H, num passo decidido, para 111 - Homens sem 2H- Mas não sou eu, é Simão. à meditação dolorosa - Nada, nada esqueceu de seu coroa de espinhos caiu...
ceração. HI - Nenhuma ajuda lhe presta minha fé .. . doloroso esplendor. Pausa.
lll, fazendo-o estacar, olha nos olhos, dedo em 2~1 - Menor que um grão. 1M - Da sua terna censura.
riste - Homeus sem fé, como nós. nl, mais graliCmente- Um longo soluço no peito.
SEXTA ESTAÇÃO 2H - De sua eterna agonia.
1M, 2M, 2H, baixando acabeça, humildemente - 2H, iuntando o gesto,ac/ricotada, allUlacra crue/-
2M - Da sua lição.
Como nós! C - No lenço da minha afronta, Levantam-no a chicotadas.
1H - Do seu perdão.
1H, sôbre E - Um passo. Se eu a fronte lhe enxugasse, Pausa.
1M, moceOllo os braços sôbre o peito, comose coi-
2H, no centro da cena- Um passo. Nêle veria imprimir-se, tasse o IMno para si - EVerônica pôde beijar os seus lll, lentamente, inclinando IJura o Cristo,ao me.mlO
Pausa. Verônica, a sua face. traços, sem apagar-lhe a mem óía tempo doloroso e tristemente irônico- Ah, vós sentis-
lll, em E, wltando-se para 2H - Or a, os carras- 1M, enquanto fala, aeança para o centro, em di- lll, ~race e comociclo - Possa orosto de sua Pai- tes a dnreza dêsíe mundo. Senhor, emvossos joelhos,
cos se cansam, Não chegaremos ao fim. "Ó homem!" reçlio ao público; põe o i0e/ho esquerdo em terra e xão imprimir-se emnós como num pano! vossas mãos, vossa fronte.
2H, em tom bem wlgar - Que é? faz ogestode estender para oCristo, com os dois 1M - Indel ével 2H, com eco - Mesmo aqu êle que se julga bom,
lH, conduzindo O diálogo no mesmo tom - "Como braços, o véu que fingiu tirar da cabeça. 2M - Essencial. falta vinte vcres por dia ii caridade Iraterna
le chamas?" 1M, 2M, iuntas, muito baixo - 1M, com certo descuido na mrísica da recitaçlio e
1M - Certa mulher, Verônica, vendo-Ihe as pálpe- No lenço da minha afronta,
2H - "Simão". Iml certo amargor irônico, lewntallelo-se - Tanto pobre!
bras coladas de sangue e pó, roído o rosto por uma Se eu a fronle lhe enxugasse,
lH - "E de onde és't 2M, íelem - Tanto doenle!
rude máscara de espuma e de suor, tirou omais bran- Nêle veria imprimir-se,
2H . . . "De Cireae", Hf - Tantos fracos!
co de seus véus, correu ao encontro dêle e, de joelhos Verênica, a sua Face.
lH - "Pois bem, Simão, vem ajudar um pouco". 2M - Tantos aflHos!
em tem, colocou o pano sôbre a face divina.
2H - "Eu?" lH - Que será dos felizes, dos fortes, dos ricos,
2M, do seu lugar - Opano, por um momento, re- SÉT1~fA ESTAÇÃO
lH - "E já!" dos que têm sa úde, se forem se ocupar da miséria dos
frescou a face ardente e aflita,
2H, acontra-gÔS/o, imobilizando-se ao centro, como C- Segunda queda. F: a. dureza outros?
curvado sob acarga - "Eesta!" Os clois homens, do lugar onde estão fazendo o Do ~Ieu ccraçãc, Senhor. 2H - Onde colocarão sua fortuna, sua alegria, sua
IH, ao público eàs duas mulheres ao mesmo tempo gesto de bater·lhe: Ele se leeanta ràpídamente, e Das pedras vencem a aspereza, fôrça, sua saúde?
- Êle obedece, mas reclama. Não se teria oferecido. coIta para 2M. As gotas do teu suor. 1M - Tanto pobre!
Não sabe a honra que lhe cabe. Estava ali, teve essa 1M - Mais já os carrascos repeliam a mulher. o 2M - Tanto doente!
sorte. Levará acruz resmungando,de má vontade, mas a pano ainda entre as mãos, desdobrado.
Pausa.
1~1 - Tantos fracos!
cruz lhe vai pagar o que agora lhe dá. Êle se torna 2M, com uma .espécie de surprdro, camorAda e lli, num passo pesado e lento, dir~e-se para a 2M - Tantos aflitos!
o amigo do Salvador. alegre - Minha irmã! direita do praticácel E, atracés dos degraus F- Mais lll, brutal, reco - Êles se queiram demais!
m, 2M, emcomocido eco - Êle se torna oAmigo 1M, e.stendendo para 2M os braços, que sustentam, deva~ar! 2H - Êles pedeni demais! · .
do Salvador. rCSFeitosamente, o véu- Minha innã! 2H sobe à esquerda de F - Devagar demais! lll, como antes - Basta! Basta! Fazei-os calar!
lll, em tom mais amplo - ÊIe representa t~os os 2M - Vêde. Durante o 1lI0cimento dos homens, as mulheres 1M, após longa pausa, com grande emoção interior,
homens. 1M - Êle deixou no pano a sua imagem. I
atracessam acena para a esquerda, uma atTás da em ooz finne esegura - ~faS a miséria do mundo não
se calará, porque gritastes, Senhor, experimentando-a, sôbre nossas alegrias, nossos bens, nossos lares, nossos 1II - \Iãos apenas para agarrar os bens do mundo. lll, II/lma cisto de olhos, circular, para o plíblico,
esposando-ade queda em queda, o I'OSSO grilonão pode filhos, nada estará perdido, Senhor, se arrancardes de • 2H - Pés, somente para voar ao encontro do de direita jJllra aesq/lerda - Vê diante de si soldados,
se extinguir. nossos corações e de nossos olhos uma só lágrima, uma prazcr. sacerdotes, bashaques, prostitutas, moleques, a escória
Aprecedente réplica terá clewdo a emoção: 11/, lágrima digna de correr nas vossas mãos! lll - Se não possuímos tudo, tudo cobiçamos na do povo, e, mais longe, algnmas mulheres. Sua mãe
Ot jJlmhos erguidos, sobe sobre o praticcícel G, jJ(/T(1 Pausa. carne da nessa alma está entre elas. (Seu olhar demora um pouco nos
II frente, c/amando. 2H - Sem escrú pulo. outros três) Agarram-noe o põem nu diante de todos.
lll, em roz baixa - "Chorai sôbre vlÍs", diz êle,
lJI- Gritai, Senhor! Nóssomos depedra. (Depois, 1M, idelll - Ah, Senhor, quantos gemidos! lH - Semvergonha. (Isto, bTlltalmente, ele súbito, diante do p,íblico). É o
rIU/i, baixo) Segunda Ilueda. 2H, idem- Nãobrotam, porém, das culpas. 2H, duramcnte - Os bens de nossos pais. Cristoexposto àmultidão. (Osoutros, como braçoes-
1M - Éa dureza do meu coração, Senhor! 2~1 , idem - Mas dos desejos traídos!
lH - A mulher de nossos amigos. q/lerdo colocaria à aliura do.s olhos, dcsciando-se ime-
2H- Das pedras vence a as-percza. 2H, duramente - Nós teríamos roubado. diatamente, roltando o rosto para aesquerda, do tern-
2M - As gotas do teu suor. .. NONA ESTAÇÃO 2H - Matado. cei espetcíclllo do desnudamento do Cristo). Nu (êle
2H - Para saciar nossa fome e nossa inveja. insiste, vwlento, ;unto ao plíblico) como se criou e nos
C - Nossas faltas recobrando, lH, mail doloroso - E eis oCordeiro sem mancha criou. Nu, como Adão após o pecado, quando vê no
OITAVA ESTAÇÃO
Entre o madeiro e o chão nu, prostrado, caído sob os nossos desejos impuros. seu corpo a vergonha e procura fôlhas para escondê-Ia.
C - "Chorai sôbre vós", diz êle. Vão o Cordeiro esmagando.. 1M - Ter-se-á feito da árvore do prazer uma ár- Nu, como Abel assassinado. Nu, como Noé na embria-
Ah, Senhor, quantos gemidos! - Ó concupiscência, és tu? vore do sofrimento? guez. Mas ninguém para o cobrir.
Não brotam, porém, das culpas, 2M - Que poderemos colhêr dela, agora?
Os quatro peregrinos continuam sua subida dolo- 2H, 1M, 2M - Mas ninguém para o cobrir.
Mas dos dese~s traidos... lH, 2H - A dor.
rosa: 11I fiOlta-se para o fundo, e. também os tr~' 1H, pros5e~uinrlo , no mesmo lugar, face ao jJlíbli-
lH está sôbre G. Volta-se plITa os tre., outros que, outros, como se o Cristo se achasse entre êles, só- Pausa. CD - Afalta sem o prazer. Avcrgonha sem a falta.
à eslJuerda, fizera III 11111 ligeiro modmento para o ine a rlireita de E, atrás de I'ratiaívc! F. Nossa vergonha, nossas faltas sôbre um corpo semfalta
lll - Nossas faltas redobrando,
fundo, e esteio agora elll face dele. 1M, 2~1, rle repente - Senhor! e vergonha. Sôbre o homem sem pecado, têdas as
BI - Enlre o madeiro e o chão nu,
1M - :\ certa altura, as mulheres de Israel, (Jue lH, soh seusolhos, aterceira queda, de 1/111 sógal- 2~1 - Vão o conleiro esmagando. taras do pecado.
haviam seguido o cortejo, batiam tanto no peito e tanto jJe, aopé dos de~Tllus - Caiu de cheiosôbre o rosto. 2H- Ó concupiscência! nl - Pintadas com SEU sangue.
se lamentavam, Ilue oScnhor as ouviu, esuspirou: :\s répliws se~uintes seiona direção do Cristo caido; Todos - És tu! 2H- Buriladas nas sua pele.
lll, O prríprio Cristo, quc faw, cordial, afetuuso - .seio apre$,\(/rlas, ofegantes. 2H- Incmslradas na sua canil'.
"ó filhas de [erusal ém, não choreis sôbre mim", diz êle, DÉGnIA ESTAÇ.~O
1H - Sob a árvore, e como uma árvore que se 1H, oferecendo-se (lOS nossos olhares, àsperamente
"massôbre vós e vossos filhos. Pois eis que virjo dia~
abate. C- Ao uflrage dos olhares - Eis o Homem; obra-prima dos homens. Porque to-
cmque as estéreis serão chamadas felizes. Felizes as
1H - Sôbre a terra de nossos pecados. Será exposto. Como um raio dos os homens se puseram juntos, cada um juntando
entranhas que não deram à luz, os seios I)ne não l!eram
211 - Sôbre a terra de nossas delícias. Sua nudez nos fulmina. um traço dehorror, a fim de compor essa máscara der-
leite. Eutão, os homens começarão a dizer às monta-
1II - Comprimido de encontro a ela por essa árvo- Eis o homem! Ccntemplaio. risória. Para a obra-prima da criação de Deus.
nhas: "Caí sôbre nós!" e às colinas: "Cobri-nos!" Pois
re, cujos fmtos saboreamos todos...
se o lenho verde é tratado assim, que se fará do sêco? lH, lenta e penosamente, como esgotado, sobe só- Pausa.
2H - De todos abusamos.
2~1 - Será pGsto em feixes. bre G, face ao plílJlico.
1H - De todos usamos mal. nl, dolorosamente - -Eis o Homem.
2H - Lançado ao fogo.
2H - Dos maus e dos bons, contanto que fôssem 1H - Descarregam-no da sua cruz.
2~1 - Quebrai-o, queimai-o, Senhor! 2~1, 2H - Fomos nós.
deleitosos. Os três outros estão em E, lado a lado, de frente
2H - É o que êle merece. lll, concluindo - Eis o que fizemos do Homem.
1H - Até do mel e do maná tiramos veneno. para o público, imóceis.
1M, suspensa, na ansiedade da pergunta - Mas não
2H - Do mel das núpcias, do maná do repouso. 1~1, n/lll1 grito abafado - Cobri-o. til' sente ver-
é para que o lenho reco reverdeça, que o verde aceita 2H - De olhos fechados, se levanta.
PllUsa. gonha.
ser tratado assim? 1M - Há um vén de sangue em seus olhos.
2M - Um pouco do I'OSSO sangue. nl, com maior compaixão ainda - Cordeiro de lll, em roz surda e liOltanrlo-se para adireita - É
2.\1 - Que a mão fatigada afasta.
2H - Um pouco da vossa seiva. Deus, Cordeiro sem mancha! Quem vos pôs tão baixo? êle que não ousa mais nos olhar. (Torlas abaixam ti
lll, em réplica dolorosa, como as outras - Dão-lhe
2~1 - E têda a floresta das almas não irá rever- 2~1 - Não vos seria possível reerguer-vos?
cabeça. Pausa.) Ao ultrage dos olhares foi exposto.
vinbo a beber. ..
decer? lll, retomando o tom das réplicas iniciais - Não 2H - Misturado com fel. 2H - Como um raio, sua nudez nos fulmina.
1M, com grande e crescente intensidade - Ainda temos olhos senão para o que agrada aos olhos. 1M - Êk apenas humedece os lábios... 2M - Eis o Homem.
que tombem Jerusalém e tôdas as cidades do mundo 2H - Bôca senão para o que agrada à bôca. 2M - E o rejeita. Todos, emroz surda- Ocultai-o!
DÉmlA PHI~I EIHA ESTAÇAO I ~I, como acima, sempre no lugar. - Apecadera 211 - Fixai a cruz emnós. lll, comamplos gestos - Não são scquer três ho-
não mais os lavará. • lH - Pelos pés. ras, Eeis a noile.
c- Pregam-no pelas mãos, 2~1 - Não mais pisarão êste solo maldilo. m- Pelas mãos. m- Deus mudou o curso dos astros.
Pelos pés êlc é pregado. Algl/Ill teml'o. A larefa dos carrascos t.stá termi- lH - Quando nossos pés ou nossas mãos se des- III - Para que não vcjamDeus morrer. (Pausa)
Quempregará meu destino viarcm. (Pama)
lUula. 111 desce til' LOstas 1II11 degrau e, de ol/ros , I~, contendo aaflição e o terror - Ora, Jesus não
Aeruz do crucificado? lewntCidos lJ1lfU o fl/ndo, ao alto, indica que acm:: lH - Pregam-no pelas mãos. ve maJs os homens, não vê mais a sua Criação. É o
c.ltáergl/idaaluísdoI'TlltictÍceluwis alto. OsOl/tlOS 2.\1 - Pclos pés êle é pregado. caos primitivo, antes qne o Espírito Santo soprasse sô-
En/fl/al/to as /II1/11Ierc.~ fall//II, os dois llO/IIcl/s cm!· fazflll como êle. lH - Quem pregará meu destino. hre omundo aforma ca vida. Omundo voltaao nada.
sI/a ascensrio no mes/IIo lJt1sso. III sobe e
lilllll//II 211 :- Acruz do Crucificado? ~rislo está só. N;io tem poder sôbre êle, (Fortemente)
wlta-se lJ11T1l II e.I/fl/crela. 211 sobewltado l)aTll ofl/ndo. 111 - Prontc, Erguc-se a cruz, Os ossos estalam. Senhor, Scnhor! grita comvoz forte.
As dI/as ml/I/leres per/llanecem àes/fl/crdl/. til - E a cabEç'1 oscila. -DÉCIMASEGUNDA ESTAÇ,\O nl, come eco, cm grilo surdo - Êle chama seu
nl, 2~1, nl/m grito- Senhor! pai.
HI - Um anjo wlon sua rcrgonha;si> ador é vista Ill, passa diallte das duas lIlulheres, awnça para C- Transborda de sangue a taça. 2.\1, 2H- Êle chama seu pai.
agora. li direita, até o limiar dos degraus, os olhos voltados Como a êle a lança íêz,
lH, fortemente, completandoafrase- "Porque me
2.\1 - Acruz, queêle levou tão alto, olel':!ní mais /JllTa o fundo. - E plantama cruz sôbre o crànio de Oseu grito nos transpassa. abandonaste?" Sua língua queima: "Eu tenho sêde,"
alto ainda. Adão. E..ctá morto. É nossa vez.
211, UI, 2~1, emcoz branda - Eu tenho sêde.
1M - Nela é deitado. 2H, indicandoo primeiro p/alio da cena - Suas ves- lH, desCTitim, lIIas inqllieto - Um soldado, na
2M - Nela é pregado. tes são divididas. IH, desce de costas militas degralls, dirigindo-se
1/0 público - Deixaram que êles se aproximassem para ponta de um caniço, lhe estende a esponja e o vi-
llJ, ídel1l - Sorteada a túnica. nagre.
vê-lo morrer.
oCri.lto é cOlIlO /fI/e deitado à eS/fl/erdado 1m/ti- 2H- Caç'oam dêle. 1M, dando 11m passo para direita - Maria, sua mãe 2H, BI, 2~1, emrilmo apressado, intenso e breoe
clír;el; os dois llOmells, anilados de ml/rtelo e fin- lH, prof.OcalJ(ld Cris/o lia cruz, ao fundo - Pro- - Mas de nôvo Jesus solla um grito.
e a innã de sua mãe.
ginelo II ccua, inc1iuCIIII-se sô1Jre êle. São dois car- vocam-no. "Tu, que destroes o templo e o reconstroes
rasms em açtio. em três dias, desce da cruz; Salva-te a ti próprio!" , 2H, que s-ubiuao praticár;el, ii direita, com um pé Grande pausa. .1 réplica cai comoa morte.
2H, íclem- "Tu, fJlle salvas OS oulros, não te p0- sobre os degraus, coItadopara o fundo- João.
lll - E entrega o seu espírito.
lH - Omartelosôbre o cravo. des salvar?" 1M subiu ese a;oelllOu,facepara o fundo. OCristo
2H- Ocravo na mão e no osso. lH - "Se és o filho de Deus, pede a leu Pai que está na CnlZ entre João esuaMlie, e Madalewl c/lO- Longo tempo de silêncio, todos em seus IlIgares
lH - Eo cravo na madeira. le Iiberle!" ra a seus pés. caemprostrados para O flllldo. Pennanecem assim
2H, os pl/n1l0s se abatem sôbre a dUma estendida 2H, é o Cristo CJue falll - "Riem, ousam rir. O IAÍrios segllndos. Enfim, lentamente, 1H se ergue
1M - ~Iaria Madalena. e colta·se para o público.
- Ea carne e oosso na madeira. pai dos judeus entre dois criminosos." III - E Êle os reconhece: "Mulher, eis aí teu fi_
lll, com l//IIa as/;ereZ1dolorosa - Amãosanera. BI, em lIIcllitaçtio, 11m /lOUCO colttulo PJm o fundo lho. Eis aí lua ~Iãe". I~ - Quando lhe trespassarem o flanco, sairá san-
m, compassica ', Amão direitaque abcnçoa~a. - Mas Jesus só cuida de levar ao fim o seu martírio. m, fazemlo o gesto - ~Iaria se inclina. guoe agua. Todos os bomens poderão beber. (Baixo)
2M - Que curava. 2~1 - Pendendo de lodo o seu pêso e de todo o 2H, ídem - João soluça. Transborda de sangue a laça.
nosso, dos pés, das mãos, das chagas, d~ era vos, a 2M, ídem - Madalena Ibe beija os pés. 1M - Como a êle a lança fêz.
Pausa. Recomeça o mesmo iôgo do martelo c do fim de contentar seu pai no céu. IH, 60 público - Assim, os que êle deixa, lerão 2H- O seu grilo nos lranspassa.
Craco. nI - E seu Pai estende sôbre o céu uma nuvem mãe, uma Iamíha, um lar. .2M - Está morto.
opaca e negra, por onde não passará sequer uma gota IM, lentamente - E nos deita, todos. Todos, emeco, lentamente - Énossa vez.
lH - A outra mão. de azul. (Pausa ) 2M - E nos salva todos.
211 - Já está pronta. 1M, com llIais ardor - Devíeis escolher entre nós e DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇ.~O
2H - Já pode entrar em agonia.
lH - Omartelo, o crava vós.
2H - Acarne e a madeira. 2~1 - Ou nos salvar ou salvar a vós mesmo.
Algum tempo, o tOIll muda. Inquietaçlio e mc!clo. C- Recebei-nos, Mãe, nos braços,
m,como acima - A mão esquerda que ignorava. 1M - Senhor, que não pudestes vos salvar, sal- 1H, olhando acima do público - A nuvem se tor- Como o tendes recebido.
2.\1 - Oque dava a direita. vai-nos. na espêssa. Trôpegos são OS nossos p::ssos,
UI, de MVO, o mesmo jôgo - Os pés, um sôbre o 2H,ítiem - A multidão se alarma e foge. Mãe, como temos vivido!
Todos falam com ardor, de olhos erguidos para o
outro. centro, ao fundo da cena. lH, no alJo do primeiro plallo direito - O mau lH, falando, desce de costas os ríltimos degraus.
2H, - Como dois irmãos. ladrão blasfema. - O fruto tombou da árvore. . -
1H - Os pés que sofrem um pelo outro. lH - Firaínes na cruz. m, do outro lado - Reza obom. 1 2H, idem- Enós com êle tombamos.
UI, no lugar - Precipitallos pelo remorso e pela DÉCIMA QUAHTA ESTAÇ;\O (' ) E~;\ P(~<1 foi apresentada pál TABLADO, cm 1953.
Direçie de )(;trtilll Gon\' III'l'S c illlerprl'l;\\<Ín de: Napolein ~lfl­
I'c rgnnha. C - Santo Sepulcro. Eis a cova. niz Freire, Ãdib A r;tu~), Vir~íni;\ V;\lIi, Olw;\ldn Neil';t c Luis
211, ídc1II, scmprcs.\1/ - Do alto de nosso orgnlho. Car~1S Saml(Ii, 11;\ ~1rÍ'ia, com Kallll;\ ~Iurtillhll c P:mln Padilha
O homem velhn é deitado.
III - De nossa indiferença. comn IllhslihiltlS, posteriermcnh; Fni apresl.11l;llb s<ihre prali-
Saia a criatura nova,
211 - De nosso l{'dio. l'<Íl'l'i\ tle din'i'SIls tamanhos, cm h-'llnlS h ·h:lllns c lallllKom ao
Deixe aos lumes o pccado! ar !iue.
7H- De nossa cmeldade.
211 - ~Ianchados de um sangne Ilne não é 1I0,'i,'iO. Dc iuíciu, II ccnaé lIIUdll. 111 desce accna, Ilara
III - Nós calcamos o Justo no lagar. () ('(11110 dirci/o c fiOlla·se paTCl () lado dircito da
Tôdas 1/.1 réplicns lJcsl/da1llcnlc, C01ll0 wh rCl/lllr.\(}. cena. 2Jl dcscc cm seguida, Ginelo ao llrimciro pia·
211 - Ê5te homemera verdadeiramente o Filho de nu direitoelacena, facc para aesquerda. 1M, se-
Deus! (Pausa) guindo êsse caminho, desce os degTl/us como pru·
1M, aoshumcm, CUIIIO umeco - Se niís tivéssemos fUTllndo à ciireita r li esquerela, e para bairo.
vivido melhor. nl , que seguiu o modmento de 2Mpara o meio,
2M- Se nós tivéssemos amado mais. dirige·se ao público, num clarão ele alegria - Na ma-
UI - Êle não estaria morto. nhã do lerceiro dia, quando as mulheres vieram ao
2~1 - Não estaria morto, ó Mãe! sepulcro para embalsamar o corpo, a terra eslremeceu
1M - Vós não estaríeis aí, na treva, aopé da árvo- e a pedra rolou. Um anjo estava sentado em cima,
re da salvação. branco como a neve, brilhante como um relâmpago.
2M, sem pressll - Reabrindo os vossos braços e os IH, Goltado para as duas, emparticular para 1M
vossos joelhos para o fruto que vossas entranhas caro - "Porque procurais entre os mortos, ó mulheres, aquê-
regaram, e que leve de amadurecer duas vêzes, para le que está vivo? Cristo ressuseiteul"
vossa alegria e vossa dor.
.. 1Mdesce ao encontro de 2M, que lhe estenele a
1M - Uma vez novosso amor.
mão alegremenle, emsinal deboa acolhida. Jesus,
2~1 - Outra, nos nossos ultrages.
queaparece diante delas, élH. Elas representam
Pausa. É agora adescidadacruz. MI/ria, João c o queÊle diz, a;oelllOndo-seladoalado Dêle, ine/i·
Madalena recebem o corpo ele Cristo. 1M alillnça nando-se profundamente, face à terra.
e se elirige a2H.
IH - E Jesus apareceu diante delas. E lhes diz:
1M - João, sustentai a cabeça. A vossa repousou "Aleluia!"
tão docemente no seu peito, no último banquete. Elas beijaram·lhe os pés.
2M, semprede joelhos, inclinando·se para o funelo, Pausa prolongada. As duas mulheres se levantam,
num mOGimenlo ele compaixão. Os quatro fazem, então, face ao l"íblico, no pri. 1
2M - Madalena, sustentai os pés. Eles não esque· meiro plano direito: 1H, 1M, 2M, 2H. Estão imó-
ceram o perfume da uma de alabastro.
ceis, oihar reto e alegre, enquanto os sinos tocnm
2H - ~Iãe, não tombeis com opêso de vosso filho. a tôda brida.
lH, aos outros, emgrar;e conclusão - É preciso, C, numa rez bem lançada - CRISTO RESSUS·
também, que carregueis na terra 05 seus algozes, com CITOU!
todos os seus pecados. IH, 2H, HI, 2~1, como eco - CmITO RESSUS·
PauSlJ. CITOU!
C - E o homem, saindo do túmulo, segue atrás
1M - Recebei-nos, Mãe, nos braços dêle o caminho que conduz ao Pai.
2~1 - Como tendes recebido.
111 - Trôpegos são nossos passos.
e SlJi lentamente pela esquerda. Os quatro pere·
grinos, precedidos de C, SIIem emseguida.
Todos - Mãe!
2H - Como temos vivido! LAUS DEO
I
I

Sôbre os malesque ohuno produz 1 faz. ~Ias quanto aos senhores, respeitável público, con-
vido-os a ouvir minha conferência com seriedade, para
as comi... enguli·as sem mastigar, porque ando sem-
pre com fome. Ontem, por cxenlplo, ela não me deu
evitar que alguma coisa des.1gradável aconteça. Os de comer. "Não vale a pcna alimentar você, seu pa·
Monólogo de ANTON Cntcov que receiemcacetear-se comuma palestra árida e cien- Ihaço.. :
tifica, podem retirar-se, sem ouvi-la, Entretanto (coJlsulta o relógio), já falamos bastan-
te e nos afastamos um pouquinho do tema. Prosse-
(Ajeita o colete)
Traduçtio de MAIIIA Juw:rA DnumlOND GI\A~ÍA o guiremos, apesar de que os senhores, naturalmente,
Peço especialmente a alenção dos m&licos aqui escutariam com mais prazer agora alguma romança, uma
presentes - êles poderão extrair de minha conferên- ária, uma sinfonia. .. (Ganta) "Não retrocederemos
Personagem - IVANOVIQl .HUSMF.AOORO\', marido de
cia muitos elementos proveitosos, porque ofumo, além no ardor do combate..." Não me lembro de onde é
sua mulher, a qual, por sua VC'l, é proprietária de dos efeitos nocivos que tem, é utilizado também na isto. A propósito, esqueci-me de dizer que no conserva-
um Conservatório Musical e de um pensiouato para medicina. Por exemplo, se prendermos uma .mosca tório de minha mulher, além do cargo de administra-
môças. numa bôlsa de fumo, ela morrerá, provàvelmente, pela dor, ocnr>-me também do ensino de matemática, físi-
decomposição do seu sistema nervoso. ca, química, geografia, história, soUejo, literatura, etc.
O fumo é principalmente uma planta. Quando I As aulas de dança e de desenho minha mulher cobra
faço minbas conferências, pisco ger,dmente o ôlho di· separado, apesar de que essas aulas sou eu também
ocenário representa o palco de um clubede pro- reito, mas é de nervosismo. Sou normalmente um bo- quem dá.
f.Íncia. mem muito nervoso, e comecei a piscar em 13 de se- Nosso censervatório fica no Beco-dos-Cinco-Ca-
tembro de 1889, no mesmo dia em que minha mulher chorros, n. 13. É possível que minha vida seja tão des-
HUSMEA&ÓROV, costeletas compridas, rem bigodes; deu à luz, digamos assim, a minha quarta filha, Bár- graçada porque moramos no número 13. Tôdas as mi-
usa UI1l fraque puído, entra com ar solene, cumprimen- bara. Tôdas as minhas filhas nasceram num dia 13. nbas filhas nasceram em dias 13 c nossa casa também
ta e a;eita o colete - Respeitáveis senhoras e, de certo ~Ias (consulla o relógio) por falta de lempo não p(}- rem 13 janclas... Mas para que falar nisso? Se preci-
modo, respeitáveis cavalheiros. (Alisa m costeletas) demos nos afastar nem nos desviar do tema da confe- sarem de alguma informarão a respeito da escola, os
Minha mulher quis que eu fizesse aqui uma conferên- rência. Devo dizer-lhes que minha mulher tem um senhores podem procurar minha mulher, em casa, a
cia popular, com fins de beneficência. .. E por que conservatório-de-música c um pensionato particular, fJualquer hora, e o regulamento é vendido na portaria
não? Vá lá, uma conferência; para mim tanto faz. quer dizer, não exatamente um pensionato, mas qual- a30 copeques oexemplar. (Tira do bôlso vários folIJe-
Claro que não sou professor e estou afaslado das insti- lIucr coisa no gênero. Aqui entre nós, minha mulher tos) Se quiserem, posso distribuir êstes. .. 30 copeques
tuições científicas. ~Ias, contudo, e apesar de tudo, e Uo>ta de queixar-se da falta de dinheiro, mas tem ~uar- o exemplar! Quem quer? (Pausa) Ninguém quer?
b lJ
até se poderia dizer que à custa de minha própria dados uns quarenta a cinquenla mil, ao passo que eu Está bem, 20! (Pausa) Que pena! Ah, casa n. 13!
saúde, há trinta anos que estou trabalhando sem ees- não tenho nem um cenlavo, nem um vinlém. ~Ias, para Tudo sai errado para mim, estou ficandn velho e idío-
sal' em problemas de ordem puramenle científica, que Cjue falar disso? Sou o administrador do pensionato, ta... Aqui estou, fazendo uma conferência. Pareço
medito e até mesmo escrevo de vez em quando arti- compro os gêneros alimentícios, fiscalizo as emprega- um sujeito alegre, mas, na realidade, está me dando
gos científicos quer dizer, não propriamente científi- das, controlo as despesas, forro os cadernos, mato os vontade de soltar um berro com têda a fôrça dos pulo
cos, mas é cerno se fô.~em. Diga-se de passagem, há percevejos, levo o cachorrinho de minha mulher para mões, e de ser engolido pela terra. Não tenho ninguém
dias escrevi um enorme artigo denominado: 'Sêbre os passear, caço camundongos... Uma noite dessas fui a quem me queírar, Sinto até vontade de chorar! Os
Males Ocasionados por Alguns Insetes", Minhas fi- incumbido de entregar farinha e manteiga à cozinhei- senhores dirão - e as filhas?.. Qúe mhas? Falo
lhas gostaram muito, especialmente da parte que se re- ra, para ela fazer umas panquecas. Pois bem, em uma com elas e elas riem... Minha mulher tem sete fi-
feria aos percevejos, mas eu li e rasguei. Pode-se es- palavra, quando estas ficaram prontas, minha mulher lhas.. . Perdão, acho que são seis... (Vir:amente)
crever sôbre qualquer coisa, mas é impossível viver sem veio à cozinha aviS:lr que três pensionislas não comeriam Não,7!
o pó-da-Pérsia! Até no piano há percevejos. .. Para panquecas por estarem com as glândulas inflamadas. Ana, a mais velha, tem 'l1 anos; a caçula, 17. Bes-
tema da minha conferência de hoje escolhi, se assim Sobraram, assim, algumas panquecas. Que fazer com peilável público (depois de olhar para trás), sou um
me posso expressar, os males cansados à humanidade elas? Aprincípio minha mulher decidiu guardá-Ias em pobre diabo, transformei-me num idiota, num miserável.
pelo nso do fumo. Eu, pessoalmente, fumo; mas mi- algum lugar f~co, mas depois pensou, pensou e afinal Na realidade, porém, está diante dos senhores um dos
nha mulher me ordenou dssetar hoje sôbre os males disse: - "Coma você, palhaçor Quando está de mau pais mais felizes do mundo. Se ao menos os senhores
que o fumo produz e, então, é inútil discutir. Sôbre humor ela me chama assim, de palhaço, de víbora, de souLessem! Vivi com minha mulher 33 anos e posso
ohlmo? Vá lá, que seja sôbre ofumo, para mim Ianto Satanás. Mas que espécie de Satanás sou eu? Não dizei que foram os melhores anos de minha vida... me-
Ihor~ nã~ digo, mas qualquer coisa no gênero. Re-
sumindo, eles passaramcomo um só momento feliz e
tudo isto; já fui mÔÇü, inteligente, estudei na universi-
dade: conside~va-me um ser humano, sonhava ... Aglr
J DOS JORNAIS
para dizer a ~erdade, êles que vão para o inferno! ra nao necessita nada, nada... nada mais do que des-
(Olha /)(lra tras) Mas parece ({ue ela ainda não che- C~ISO . • , descanso... (Olha para trás epõede nôw Tà-
gou; nãoestá aqui eagente pode dizer oque quiser ... I p/damellle ofraqlle). Mas atrás dos bastidores está mi-
Tenho um mêdo horrível. .. tenhomêdoquando ela me nha mulher; veio cestá me esperaudo aí. (Consulta o
olha. relógio) Terminou a hora... Se ela perguntar, peço Teatro na Venezuela ~.

Porque fico pensando: se minhas filhas não se ca- por favor, digam que a conferência foi feita... que o
saram até agora com certeza é porque são umas bobas palhaço, quer dizer, cu, se portou com dignidade...
e porqne os rapazes não têm oportunidade de vê-Lu. (Olha de soslaio e Um/la a garganta) Está olhando
Minha mulher não quer dar festas, não convida nin- para aqui .. . (Lewnta a wz) Partindo do fato de
guém para jantar, é uma senhora muito avarenta .sem- qne ofumo contémum venenoterrível, como acabo de
pre zangada, resmungona e por isto ninguém n~s vi- demonstrar,aconclusãoéque não se devefumar de ma-
Miguel Torrence
sita, mas... posso dizer-lhes emsegrêdo.. . (aprorima- neira alguma, eeume permitodecertomodo alimentar
se tia ribalta) que as filhas de minha mulher podem a es.perança dequeesta con!erêneia sôbre os males pro-
ser vistas emdias de grandes festas na casa de minha (h~z~dos pe~o fumo ten~l a eleitos ~roveitosos. Nadamaisl .
I

tia Natália Semiónova, aquelasenhora quesofre de reu- DIXI ct nnrmam lewvl. (Cumpnmenta esai com ar s0- Nosso teatro éum morto,comafaculdade de assom-
matismo e usa um vestido amarelo commanchinhas pre- lene). brar, de fazer suas aparições esporàdicamente (coisa
tas, como seestivessepolvilhada de baratas. L:í também muito venezuelana).
se servempratos frios e, quando minha mulher não está, Tôdas as proposições que reV<Jlucionaram o teatro
pode-se fazer isso (gestodebeber) . Confesso que me no mundo foram feitas por homens que jamais estive-
embriagocoma nrimein dosee mesinto tão bem e ao' ramisolados ou livres de compromissos, ao contrário,
I '
mesmotempo tão triste, que nemposso explicar; nãose tratou-se sempre eeliminar oestabelecidopara só então
sabe porque, a gente recorda a juvenhlde e dá vontade considerar sua incapacidade de preencher os requisitos
de fu~r correndo. Ah, se os senhores soubessem que dêste momento histórico. Tomando sempre emconsi-
vontade! (Com entusiasllIo). Correr, deixar íude esair deração e como ponto de partida o que se tratava de
correndo, sem olhar para trás! Para onde? Não importa erradicar, não oignorando emsua totalidade esem estar
para onde... mas largar esta vida suja, vulgar e barata alheios à história.
que me está transfonnando num miserável, num velho Se ocaso é não poder destruir, porque nunca exis-
imbecil, num pobre idiota. Fugir desta mulher mesqui- tiu nada verdadeiramente sólido eobjetivo, usemos então
nha, eretina, avarenta, desta criatura perversa que há
33 anos me tortura. Abandonar a música, a cozinha, o 1 os recursos para criar algo pela primeira vez. Longe
estamos de conseguir as possibilidades de que teoria e
dinheiro de minha mulher, tôdas essas mesquinharias e prática procurem unir-se, para localizar a pro~o, ou
vulgaridades... e parar em algum lugar longe, longís- ponto de partida, que permita um movimento de carac-
simo no camp:>,eláficar,quieto como uma árvore, como terísticas próprias.
um poste, como um espantalho, sob a vastidão do céu, Estamos vivendo, não a crise do teatro, mas a sua
contemplando a noite inteira a lua nova, clara, boiando desaparição decidida esistemàticamente organizada, em
lá em cima. Eesquecer, esquecer! Ah, como eu bsos- que nós, os representantes do mesmo, somos os proxe-
taria de não me lembrar de nada! Como gostaria de ar- netas a nos transformarmos em criadores de sistemas
rancar do meu corpo a porcaria dêste fraque que usei que, pouco apouco, apressam sua desaparição, OS quais,
no meu casamento há 30 anos... (tira bruscamente o incorporados aos meios de comunicação, muito acima
fraque ) e com o qual estou sempre fazendo conferên- de nós quanto a organização e recursos, conseguiremos
cias de caridade! Toma, desgraçado! (fw o fraque) mais ràpidamente o seu total desaparecimento.
Toma! Estou velho, pobre, miserável como êste colete Fala-se em teatro para a burguesia, para os enten-
rasgado nas costas (mostra as éostas). Não preciso de • Trad. do espanhol - Teatro Completo - Checov didos, para minorias. Quem permitiu êste fenômeno?
nada, estou acima de tudo isto, sOU mais puro do que - Ed Sudamericana, B. Aires - Publicado em cr n. 45.)
o Estado, os deslocamentos de classes sociais, os fato- MORREU JEAN VILAR
res cl'O nômil'os, a configunlç,io de um sistema ou, sim.
to de referência. E nós? Bem, nós somos nós, e isso
basta. .I
plesmentc, nús mesmo, que, alheios à nossa realidade,
nns deixamos dirigir a ponto de pcusar e scntir cem
De resto, vivemos de nosso martírio feliz, isolados I
c ~olit;\rios conversando com os iunigos sofridos, ao
essa mesma classe de consumidores? Queln fonnon a cstilo Irancês, alheiosal!oal1lucr responsabilidadeatual.
classe de consumidores intclechlais? Chegou o momento de separar a vaidade do tea-
Até agora tôdas as formas de teatro popular se tro, de scparar o jôgo que se faz de uós pela puhlid-
afastamde seu ohjetivo central por falta de uma aná- dade, de encarar nessas responsabilidades históricas, de
lise exata da configuraç-:io atui de nossa seeiedade e resgatar e salvar nossa profissão, criar nossos próprios
deseus recursos, utili7.ados e dirigidospor sistemas que meios de comunicação, evitar ver as con'torsães de nos- Jan Michalski
especializam metooicamente as fonnas para alcançar sa gente dc talcuto, distorcendo ainda mais a imagem
seus ob~tivos. . . do teatro na televisão, acabar com nOSSa impotência,
Somos nós que temos permitido que os teatros se- acabar com a covardia gratuita, fazer oconfronto total;
jam centros especiais assistidos por público especial. Se não me falha a memória, a temporada de Jean
afinal, e por fim, nâo ganhamos nunca e não perdere-
Nós é que criamos o deslocamento de classss sociais, Vilar e do seu TNP no nosso Teatro Municipal, em
mos mais que o que ternos perdido: liMa.
não por fatores econômicos mas por fatores intelectuais. I 1957, foi a última visita teatral realmente inesquecível
Eseguimos comafalsidade da autodeterminação, como J que nos tenha vindo da Europa. Há 14 anos de dis-
terríveis revclucicnáríos. Somos nós a grande conces. \ tância, lembro-me da emoção suscitada pela má~ca
são, diri~dos a tomar o teatro para nossa expressão florestade Dom Juan, de MoJiere, que Vilar criava
particular, esquecendo que, ante nossa megalomania exclusivamente com simples focos de luz; pelos silên-
premiada e satisfeita com os elo~os, coquetéis e re- cios carregados de sentido e pejas hieráticas procissões
cortes de jornais, devemos expressar os conflitos sociais, de Maria Tudor, de Victor Hugo; pela aguda lucidez
econômicos, políticos, etc. crítica da mise·etJ-scêne de uma obra em si ultrapassa-
Somos nós, os figurantes das belas palavras e me- da, como Le Faiseur, de Balzac.
morizadorcs e criadores de largas tiradas do gênio ÍSa- Tivemos, assim, no Rio, um contato como estilo
belino, que pennanecemos alheios aos nossos inimigos Vilar - um dos estilos mais pessoais da direção teatral
c nos fazemos inimigos do que representamos. contemporânea. Avassourada que, há 20 anos, Vilar
deu na poeira que cobre ainda os palcos parisienses
Nossa amnésia vai a tal ponto que chegamos a
(não obstante a passagempor êsses palcos de tantos e
desconhecer aexistência dosmeios decomunicação, que
tão ilustres predecessores) foi autênticamente revela-
criaram uma nova sociologia do gôsto. Mudando, dis-
cionária. Aredução da cenografia a umsimples pano
torcendo, deformando, etc., etc, pois conhecemos tudo
isto, continua reinando a teoria, pois a praxis nós a de fundo e alguns elementos arquitetônicos, conlraba-
lançada por um papel visual extraordinàriamente atuan-
escondemos em nossa cmnplicidade solapada.
te dada aos figurinos e aos acessórios; a reformulação
Uma das funções imediatas é destruir as fonnas das técnicas de iluminação, através da eliminação da
aristocr:íticas de nosso teatro, criando centros de di. rampa e da gambiarra, e de um notável relêvo plásti.
versão, isto é, tomar as formas passadas, mas ajustan- co dado aos focos dos refletores; o destaque conferido
do-as a condições atuais.
aos efeitos musicais, transfonnados num verdadeiro ce-
Nossas televisoras não só trabalham todo o dia e nário sonoro que ambientava a ação; e sobretudo uma
para tôda espécie de público; fazem concursos, dstri- maneira de representar ao mesmo tempo simples egrano
buem Coca Cola, dinheiro, roupas, víveres, comerciam diosa, épica mas emocionalmente envolvida, que Gé-
com a ridicularização massiça do venezuelano, íomea- rard Philíp, protagonista de tantos espetáculos de Vilar,
tam o crime, a violência especializada, fazem estrêlas, levou às últimas consequências - eis algmnas caracte-
etc. e os sistemas aceitam, pois é de sua conveniência, rísticas dêsse estilo que, pelo menos durante uma dé-
eopovo aceita oque, "pedagOgicamente", lhe oferecem (Da revsta rue - Centro de Investigação Sociológica cada, constituiu-se na proposta estética mais interessan-
dia após dia, pois não.lhe oferecem nenhum outro pon. de r eatm, da Unil'midade de Carabobo - Valencia, Ve-
nezuea. ) te que oteatro francês podia mostrar ao mundo.
Tivemos assim no Hio um contato com aquilo tinha na anti6'uidade, festa fora do tempo rotineiro,
letivas ao TNP, durante as quais o próprio Vilar, acom- e inquieto pensador e realizador do teatro pode Iorne-
CJuc Vilar construia no palco; mas só o público fran- fora dos dias parecidos uns comos outros, parada so-
lene: panhadopor artistas e técnicos da equipe, recebe os vi- cer ao menos uma pista?
tios pôde se dar realmente conta do aspecto mais im-
sitanles e lhes mostra o dia-a-dia do trabalho teatral, 'Sení que a cerimônia c o ritual poético são ainda
portante de JV: o estabelecimento de uma qu~l!dade Com a mesma equipe-base de A\;nhão - o com-
Opontoalto dessa políticadeaproximaçio é constituída possíreis nos dias aluais? Aresposta me parece fáciL
tôda especial de vínculos entre o palco e a plateia. positor ~laurice [arre, o cenógrafo-figurinista Léon
pelos lceekends TNP, quandn o espectador pode, por Não, ponjue Dcusnão existe mais. Quero dizer: Niets-
Cischia, Os atôres Gérard Philipe, Alain Cuny, Rohert
um preço fixo, assistir a um concêrto, a um espetáculo che não foi o único a tê-loassassinado; cada um de nós
Hirsch, Georges Wilson, Miehel Vitold, Béatrice Dússa-
Il~1111l1 , jantar ao lado de Cérard Philipe, conversar com (l fêzouofaz, pelo m enosporomissão. Mesmo as obra~
ne, [eannc ~Iorcau, Maria Casares, Cennaíne Manté-
Vilar edançar no bailequeencerra asessão, com [eanne dos nossos grandes autores católit1Js não são scmpre
AFESn AN UAL DE AVINIUO m- Vilar rcvoluciona, a partir de 10C>1, o TNP, insta-
Moreau ou Maria Casarês. Estas promoçôes são reali- obras de edificação. Assim, talvez, será possível reen-
lado no gigantesco Palais de Chaillot, que Vilar adap- zadas, tanto no próprioTNP como, durante os desloca-
ta imediatamente às exigências do seu estilo, eliminan- contrar umpúbliw crente no dia emIlue o ateismo se
Segundo uma expresão de Pierre-Aimé Touchar, o mentos da companhia, nos subúrbios de Paris ou em tornar omestreespiritual domundo. Equando falo em
do tudo que possa funcionar como uma divisão entre a outras cidades.
teatro francês sofreu nos últimos 100 anos três revolu- príblicocrente, quero dizer umpúblico queacredita uni-
sala eopalco: opano-bôca,til ribalta, opoço da orques- O próximo passo na política de rela~'Ões públicas
çôesçôes: a de André Antoine, que alcançou principal- nimemente em alguma .coisa; e esta coisa poderá ser
tra. Mas antes mesmo de instalar-se no Palais Chaillet,
mente a dramatur~a; a de Jacques Copeau, que alcan- do TNP é a criação do serviço da associações culturais, avida terrena do homem. Eapenas isso. Pois se olhar-
Vilar realiza uma experiência que define o sentido dos
çou os artistas e os técnicos do palco; e a de JV que que mantém estreito contato com essas associações e mos emtômo de nós, veremos que nãoexiste qualquer
seus futuros esforços; o primeiro trabalho do gmpo, já
procurou antes de mais nada renovar o púb~ico, sacu- organiza nas suas sedes encontros e debates com mem- crençacomum. Só existe contradiçâo, É omal do século.
dir as suas tradições, refonnular o seu relacicnamento
com o fenômeno dramático.
com o nome de TNP, é uma série de apresentações de
t e Cid, Mãe Coragelll e o Príncipe de Homburgo nos
subúrbios operários de Suresnes, Clichy, Gennevilliers.
i!
bros da companhia. Apartir de 195.3 as pré-estréias do
TNP são reservadas aos membros dessas associações, das
orlTanizações da juventude e aos funcÍon:írios das indús-
~las diante dessa divisão, como reencontrar no teatro o
, espelho do tempo, a cerimônia e a comnnhão? É pre-
ciso, sem dúvida, (PlC oopcTiÍrio ciopalco procure incan-
Êste trabalho foi levado adiante por VilIar emdois Antes do espetá cclo, um concêrto; depois do espetáculo,
planos: à frentedofestival de Avinhão, oprimeiro gran-
o
trias da região parisiense. E -
sles mesmos espectaIIores sàvelmente as práticasda cerimonia,semallual n<io pode
um bailo popular, uma refeiç'Jo, umbate-papo com os podem adquirir assinatums para os cincoespetâeulos da
de festival de teatro ao ar livre realizado na França, intérpretes. Populações até então marginalizadas da existir, a meu ver, qnalqner ohra teatral válida e etrr-
que êle organizou em194i, e por cuja díreçío artística temporada, ao pre~1) único de 4 Imscos por espetáculo. na. Mas estas cerimonias permanecerán pUTilmente arte-
vida teatral começam a sentir que o teatro pode ser Em 10C>7, ano da rriaçio das assinaturas, oTNPtem17
continuou respondendo até a sua morte; e à frente do sanais, puramente técnicas; permanecerân fonnais all\
uma festa, simples e grandiosa ao mesmo tempo. mil assinaturas; cm1962, o número de assinantes alcan-
Tréatre National Populaire, a mais expressiva compa- o dia cmqneohomem\'iní aoteatro ou despOjado das
Ao assumir a dirCÇ'JO da companhia oficial, Vilar rJ 33 mil. Durante <i última temporada deVilar à frente
nhia estatal francesa, que êle dirigiu de 1951 a 1900, crenças do seu semelhante, ou earreg;lllo dessas cren-
declarou que oTNP seria um serviço público, a mesmo do TNP as 201 representaçêes realizadas em Paris são
transfonnando-a de uma organização insignific.1nte ças. Pois a palavra crença tem no teatro o sentido de
numa das mais vá lidas experiências modernas de (lO-
título que os transportes, a água ou a eletricidade. Para vistas p~r 4i3.0il espectadores, o que dá a fant ástica a!turlSIJI{l. de genercsidade. Ter fi· no seu semelhante,
dar a êsse serviço público a eficiência e o alcance po- média de 2.352 espectadores por sessão, ou seja, 00,2$
pularizaç'JO do teatro. acreditar nêle, parece-me Ilue isso podesubstituir a pre-
pular que lhe faltavam, Vilar começa por mudar o ho- da capacidade total do enorme teatro.
Segumlo o depoimenlo do crítico Morvan Lebes- sença de Deus."
rário dos espetáculos. Ohorário tradicional das 21 ho-
que, o Festival de Avinhão podia ser definido como ras afasta a platéia de trabalhadores; o espetáculo c0- IUTUAIS SDI DEUS
· 0 teatro das pessoas felizes por estarem juntas". meçará portanto às 20 horas, para que o espectador dos
E Maria Tbérêse Serríêre, no seu livro Le TNP subúrbios possavoltarpara casa com tranquilidade. Mas Depois de abandonar adireçâodo TNP, Vilar, além
et Nous, resume assim a importância do Festival de êle não precisa ir jantar em casa antes do espetáculo: a lle continuar diri~indo o Festival de Avinhão, encenou
Avinhão: "Afesta de arle concebida por JV no eeaâ- partir das 1~45mestá à sua espera uma acolhida com várias Óp€TaSna França enoestrangeiro, empenhando-se
rio privilegiado, sob océuaberto, em condições de tem- música no amplo saguão do teatro, comrefeições ligei- emrenovar as tradiçêes cerservaderas de teatro lírico; e
po também privilegiad.1s, oferecia um ciclo de repre- ras a preços populares. O vestiário e o programa são mesmo emteatrode prosa vários dos seus trabalhos de
sentações cujo cerimonial e execução inauguravam, ao gratuitos, agorgetaé proibida emtooas as dependências {ree lancer, taiscomo ODossier Oppenlleimer eOVigá-
mesmo tempo, uma nova fonna dearte dramática e uma do teatro, e por um preço irrisório o espectador pode rio alcançaram ampla repercussão. Em 1967, recusou o
velta à sua verdade proíunda O grande feito de Avi- comprar o texto completo da peça. convite de André ~Ialraux para assumir a direçâo geral
nhão é ter devolvido ao teatro o caráter sacro das suas Para reforçar os laços entre oTNP e o público, Vi- dos teatros estatais franceses.
origens. O teatro voltou a ser aqui uma solenidade lar cria Bref, o jornal da companhia, através do qual o Qual teria sido o motivo do relativo eclipse da
primitiva, que tem o seu tempo, o seu lugar e o seu espectador não só recebe explicações sôbre as obras do presença de JV nos últimos anos? Consciência de de-
rito: e na qual seafinna aféde uma cemunidade, Inse- repertório, como tambémé introduzido na intimidade ver cumprido? Desencanto coma política cultural fran-
rir o teatro numa natureza excepcionalmente propícia da vida diária da companhia. Aseguir começam a ser cesa? Ou desencanto com oprópriopapel do teatro no
correspondia a devolver-lhe êsse sentido festivo que êle organizadas sessões de debate, conferências, visitas co- ', O
mundo atual? QUfrn sabe um depoimento dêsse austero (Do Jornal áo Brasil, 5/6171. )
o HOMEM Só téia fremente, e agradecia. Era o instante máximo de
Amaior verdade de um mito .1 sua missa. E dava-se a transubstanciação inesperada:
Dizem que a tacitumidade de Vilar começou cm estabelecido o eonvivin pelo aplauso e pela recíproca
1959, com a morle de Cémrd Philipc, seu companheiro emoção, as palavras ;ícidas de Ulisses agigantavam-se,
de aventuras - a dos festivais deAvinhão e a do TNP. estalando cm cada alma presente. Que Ulisses era
Privado assim do innão de apostolado, transfonnou-se aquêle que falava pela voz de Vilar? Que ."ih~r era
definili~m ent~ emrhomnJe seul, cuja solidãoprovinha aquêle (lUe se exprimia pela aspereza de Uhsses?
de uma fé profunda que já nãopodia compartilhar com Depois de nm tal :>"csto' hastava-lhe o silêncio. E
ninguém. Que fé em essa? . . a solidão era-lhe inevitável.
Sua trajetória.no TNP, ao longo de 12 anos, deixi-
la-ia muita clara. Lá êle instalou uma casa do povo,
PAULO AFONSO GRISOU à qual acorria, tôda noite, uma inquieta e entusiástica
multidão jovem, que ia conviver com Mestre Vilar as
esperanças da sua utopia de modema Thomas More.
Conviver, na verdade, que para tanto êle havia arran- o SILENCIO PRESENTE
I
cado da sala de espetáculos os paramentos que impe-
.i dissem o convívio. É a partir daí, nunca teve mêdo
de perder o respeito das autoridades que lhe haviam Foi uma tal trausubstanciação que Vilar conseguiu
Foi patético vê-ln retirar-se da cena. E~ o fim \
da saison 1962/63, e Vilar completava 12 anos a frente I propiciado o templo para a sua fé. Apolítica liberal realizar no instante em que abandonava o palco e o
i! de ~falralLX, no Ministério cL1 Cultura Francesa, teve edifício do TNP (O TNP, cmsi, na verdade, êle nunca
do Tréâtre National Populaire. Durante êsse tempo,
em Vilar um de seus mais incômodos sustentáculos. Em mais poderia abandonar). Ao assumir o holocausto de
agarrado à sua intransigência ideológica, c~nh~era,
pleno apogeu da luta pela posse da Argélia, Vilar não Thomas More, bastava-lhe, a seguir, o silêncio -
igualmente, a glorificação e a vicissitnde da fIdelidade
temeu, ptlr exemplo, montar A Paz de Aristófanes, ou o mesmo silêncio que, entretanto, era tão difícil enteu-
a si mesmo. Até qne, marcado pela amargura, o mes-
lA Guerre de Troie n'aura pas Lieu, de Ciraudour, para der enquanto oobservávamos ensaiar. (Eu fazia pa~e
tre optara par afastar-se.
pôr ds claras os molivos irrelevantes de uma guerra de um privilegiadíssimo e reduzido grupo de estagIa-
Não se perdeu emexplicações, não divagou teo- nojenta. Sua visão de De Caulle, deu-a, em pleno poder rios estrangeiros aos quais se permitiu acompanhar, dia
rias. Apenas adotou osilêncio. significali~. E,. ao rui- degaulista, com a encenação de UBu - a grotesca cria- adia, acoustrução do último trabalho de Vilar no TNP).
do das despedidas comemorativas, prefenu a smgeleza ç'ão de Jarry sôbre o homem e seu sonho de mando. Só três anos mais tarde, quando voltei ao TNP como
de um gesto teatral - era a melhor linguagem que êle Assim como, já na sua última temporada no TNP, fêz espectador, para assistir a uma realização de Georges
sabia falar - no altar do templo que conseguira insta- questão de montar lA ResistibleAscensioR de Arturo Ui Wilson, seu sucessor, pude entender o significado míti-
lar na imensa sala do Palais Chaillot, emParis. Para - uma paráfrase da história de Hitler escrita por Ber- co daquela presença silenciosa. Asala estava ainda lo,
despedir-se do TNP que corstruira ao lon~o de 12 anos tolt Brecht. tada, ou quase, corno nos outros tempos. Aparentemen-
de obstinada intrausigência, tomou para SI um persona- Por isso, converteu-se em rhomme seul. E se era te celebrava-se o mesmo ritual. Mas, estranhamente,
gem significativo: Themas More. Foi buscá-lo numa preciso fazer-se mito para continuar celebrando seu ri- pcdercsmeate, por todo canto ecoava osilêncio de Vilar.
peça de Roberto BoI~ AMaR for Ali Srosons. Se não tual de fé diante de quase 3mil pessoas têdas as noites,
me ensano foi êle próprio que se encarregou da tradu- permitiu sua própria mitificação. Alimentava seu pró.
ção dg texto inglês, dsnde-lhe um titulo sintomálico: prio culto, não para satisfazer-se nêle, mas para ter o
L'Homme Seul. E, naturalmente, êle próprio viveria em direito de reafirmar sua fé.
cena a fignra de More, o apóstolo da intrausigência Lembro-me de tê-Io visto em cena numa de suas
ideoló~ca. Ao final do espetáculo, um carrasco apare- últimas interpretações era uma remontagem de lA
cia carregando a ca~ de More, ~eca'pitado por o~dem Guerre de Traie, em que êle se reservava o papel de
do rei a Quem votara tôda a sua fIdelidade, mas diante Ulisses. Sua aparição, muito intencionalmente, era pre-
da qual Õão quisera transi~ em favor da injustiça. cedida de um instante de suspense, de um sintomático
- Eis acabeça de um traidor - anunciava oearras- silêncio. Então, êle sur~a e, ao ser reconhecido, des-
co, exibindo,a ao povo. Enas suas mã~ oque se via,
fielmente moldada em cêra, era a cabeça de Vilar. No I pertava na multidão ritual o frenesi do aplauso. Vilar
intenompia a ação, curvava-se comovido diante da pla- (l. B? 1013171.)
altar de sua consagração, êle dava-se em holocausto.
T
Senhorita Júlia .1 MOVIMENTO TEATRAL (abril a junho171 )
TEATRO DE ARENA TEATRO DULCINA
(Lg. Carioca)
conizou no pnofúcio de Sei/flOri/a }JÍlill, un 18S8, de Costinha, o Donzelo, em TMa
maneira autl\nliL<llI1l'n tl' revolncionária, (' graças aos :\ Vid Sacra, de Ghéon. dir. Luls Fera tem um Pai. "O público exi-
(piais. de lôthLs as pl'l;aS da1lneia época, Senhorita /Iília Mendonça e Música de José Amé· ge e Costinha continua na maior
I l', até hoje, uma das lI1a~ Irequentcmcnte encenadas, rico. Atoines, com entrada franca. ccmédia do auo!". 11.° mês de car-
E, no entanto, trata-se de uma pcç'il profundamclI' reira.
te datada e num certo sentido ultrapassada pelos aceu- TEATRO DAS ARTES
i tecimenlns, Não pelo estilo naturalista da sua dra- TEATRO GINÁSTICO
maturgia, mas pela evoluçio dos costumes e da men- (Lagoa)
talidade quese processou desdeentão precisamente nos Liberdade Para as Borboletas,
dois setores amplamente abran ~dos pela temática da Senhorita Júlia, de Strindberg. prodnçio de Vitor Berbara
pEça: a 1II0ral sexual e os preconceitos da classe. Direção de Martim Gonçalves, com
Maria Fernanda, Leonardo Vilar e TEATRO GLÓRIA
É, portanto, em outras áreas que devemos prer
Beatriz Lira. Substituída por O (Hotel Glória)
curar a atnalidade humana da peça. Pessoalmente, o
ChilUl, de Murray Schisgal. Dir.:
que até hOje me fascina na peça é o seu estudo de de-
Martim Gonçalves, com Maria Es- Cllicago 1930, tradução, adapta-
sintegraç;io de uma personalidade, independente dos
JAN MICIL\LSKI meralda, Heleno Prestes, Ednei ção e direçiio de João Bethenceurt,
motivos. eventualmente ultrapassados, que possam ter
Giovenazzi e Jurema Pena. cenários e figurinos de Arlindo Rer
levado a essa desintcgm~'âo. A marcha de Senhorita
onaturalismo, como concep çâo de um estilo e uma Júlia da eraltação sexual ao inevitável sacrifício pro- drigucs, com: Jorge Dória, Frego-
filosofia teatrais, nos parece hojeemdia sinônimode um cessa-se num clima de um tal nôjo existencial, de UIII TEATRO DE BÔLSO lente, Milton Carneiro, Oduvaldo
teatro ultrapasado. E no entanto, lendo o histórico tal horror decorrente de uma brusca tomada de eons- (Leblon) Viana Filho, Iara Cortez e Paulo
prefácio que Strindberg escreven para Senhorita }rílio ciência do absurdo da sihmçiio do indivíduo - no caso, Nolasco.
e que é uma espécie de manifesto naturalista, somos da própria protagonista - num universo hostil e sem Cego, Surdo e Mudo, "circunci-
surpreendide, por pensamentos de uma atnalidade esté- sentido, que a imagemtranscende o terreno de estrito dado, ercomungado e convertido TEATRO GLÁUCIO GIL
tica impressionante. Quando Strindberg escreve: "Os estudo psicoló~co para alcançar as esferas de uma me- por amor, de Aurimar Rocha, com: Um Vizinho em noisas Vidas,
meus pcl!onagens sâo conglomerados de fases de civili- ditaçiio metafísica. Há aqui um estado natural das Aurimar Rocha, Lilian Fernandes, com Teresa Amayo, Daisy Lúcidi,
zação, passadas e presentes , parece-nos que estamos coisas que foi rompido, um equilíbrio normal das fôr- Re~na Célia, Ne~on Caruso e Sér~o Vioti e Dulcina.
ouvindo, com 80 anos de antecipação, a voz de Cro- eas vitais que foi desfeito, e a conrequência só pode ser "
Hugo Mayer.
towsli . a destruição do individun que se deu conta do aspecto i TEATRO CARLOS GOMES
Personagens compleros, mnltifacetados, ireqneate- ilusório daquilo que êle acreditava, ser o seu livre ar- Quem não se Comunica se Trom·
mente c-ontraditórios e extraordinàriamente verdadeiros bítrio, e percebeu a sua total impotência perante a TEATROCOPACABANA bica, dr. José Sampaio, com Colé,
na sua ausência de uma definição unilateral; asurpreen- pressão dos elementos que o esmagam. Waldir Maia "super doi-
dente, para a época, concessão ao ator de uma margem Vista sob êste eníoqne, Senhorita Júlia aparece oCamarada Mioussov, de Valen- Eloisa,
dão ea maior tralWl emmulhercs·.
para improvisação no seu trabalho, a fim de torn á-lo numa perspectiva mais ampla e vital do que os meros tin Kataiev. Dir. de Fábio Sabag,
mais criativo; uma concentração, até então sem prece- acontecimentos da açâo levariam a perceber. ~Ias para com Ari Fontoura, Arlete Sales, Ma-
ria Claudia, Zilka Salaberry, Adría-
TEATRO IPANEMA
dentes, da açãn dramática num mínimo de tempo, que êsse enfoque se tome possível, devemos convencer- A Vida Escrachada, de Bráulio
abandonando tudo que não fôr pertinente à essência ncs de saída de que não é mais essencialmente de um no Reis, Felipe Carone e outros.
Pedroso, com Marília Pêra e Car-
do drama; e uma utilização extremamente lúcida, embo- caso ele pairão carnal que se trata aqui, nem de um I "Se liOCê quiser morrer de rir, cá...
Cuidado! Está matando - amaior los Koppa.
ra sem dúvida puramente instintiva, de símbolos freu- . jôgo de ascensão ou decadência de determinadas elas-
dianos para insinuar os conflitos emocionais dos perso-
nagens - eis alguns dos recursos que Strindberg pre- I ses sociais, e sim de um choque que envolve destinos
humanos e visão do universo.
I comédia do ano', conforme os di-
zeres da publicidade.
'r
TEATHO JOÃO CAETANO TEATRO MUNICIPAL Pirandelo .J Fevdeau
J
TEATROÔNIBUS (funciona TEATROSENAC I
Um Violini5la 110 Te/lJado numa dentro de um co!etivo cedido
A Mcgcm Domada, numa única
prcdlll,-:iode Casili, "o musical mais
aprcsen ta~~io da Bristol Old Vil' el· Õll1nibl1S SeletUr)
pen O Marido
. - 1
Vai ti Caça, de Fcy
. ld d
aplandido do mundo", comOrwal- dean, (hre~~1O (e Amu lIal a ,
Company, mm Barbara Jeffonl,
do Loureiro e Ida Comes nos prin- com Fernanda ~Iontenegro, Sérgio
cipais papéis. John Turner, Bernard llepton, Ste- DilÍrio ele Um Louco, de Gogol, Brito, halo Rossi, Jacquelinc Lau.
phen ~ Io:lre e outros. dire~·ão de Atcnodoro Hihciro, cem rence, Lahanca Luiz Annando
Espel<ílll!o de arte mímica, mm Otoniel Serra e .~derhal Júnior, em Çueiroz, ~ Iaria Helena, .~ ugns­
Marcel Marc~au, t'Oadjuvado por duas viagens diárias, às 21 e 22,:30 to Olímpio, José Carlos e Luis
Diego Christian, um mímico arg('n- horas. Resmas e saidas na Pra- Augusto.
TEATRO MAISON DE tino que estudou no Brasil. Acomédia - seé que podemos ça General Osório.
FRANCE chamá-Ia assim - de Piran-
delo que a Companhia Paulo A montagem de O Marido
Só Porque Você Quer, de Piran- Autranapresenta na Maison de
TEATRO SERRADOR
VIIi àCaça, no TEatro do Se-
tido. Dirc~üo de Fhívb Rangel, France é omais fascinante tex- TEATRO DA PRAIA
nac, é uma bela lição de como
comPaulo Autran, Hélio Ari, ~Ia­ TEATROOPINIÃO to montadoêste anono Rio, ao
Adita... Amada, com Derci Gon-
ler entre as linhas. O espe- çalves, despedindo-se do teatro bra-
dalcna Nicel, Cleber Macedo e lado (e ao meu ver acima) de As Hienas, de BTáulio Pedro-
táculo é sem dúvida muito di- sileiro, na díreçãc de Fábio Sahag-
outros. Esta peça substituiu Os 1\ Ponte Sôbre o Pântano, de Senhorita Júlia. Eis aqui uma se, finalmente liberada pela cersu-
ferente de tudo o que o autor N o elenco: Ivan Sena. A direção
RaTAzes da Banda, que passou a Aldomar Conrado, comGlauce Ro- ra, direçâo de M. Pedroso, com José
peça que tem quase tudo que poduia ter imaginado; e, no
apresentar-se.no Teatro da Lagoa. cha, Antero de Oliveira e Marcos
Weinberg, na dirfção do João das
possamos exigir de uma obra
teatral: uma idéia intelectual
1, I
entanto, tudo aquilo que Fey-
Wilkcr, Carlos Vereza e Henata é de Fábio
Sermh e mais Francisco Nagen. A emparceria comAri Soares.
Sabag, íamb ém autor
deau disse ou insinuou na sua prodnçâo é de L('ônilht~ Bayer. Ap~s essa peça, foná ~Iagalhãe.s
Neves, emtemporada popular. discutida em profundidade peça - conscientemente ou e Carlos Alberto estarão uo mesmo
TEATRO MIGUEL LEMOS
através de um processo dialé-
tico brilhantemente desenvol-
I não, que importa? - está pre-
sente no palee, comcristalina
teatro, com BlIlbina, de IlInsü, de
(SERGIO PÔRTO) Plíuio ~Iarcos. [Peça folclórica
vido; uma tensão dramática clareza, levado ,IS últimas con- TEATRO RIVAL afro-hmsileira com ritmos e passis-
que se renova e cresce de cena se'luências, e simplesmente re-
Elas Querem é Leite, direção de TEATRO NACIONAL DE tas de escolas de samba).
em cena, atr:l\'és de uma su- tirado do tom suhent('H dido TemPiriri 110 Pororá, revista pro-
Berta Loran. Com Brigite Blair, COMÉDIA cessão de golpes de inegável impôsto pelas t'Onveniêntias duzida por Alvaro ~larLulo, em
Carlos Leite e outros, num •streap- impacto; uma colorida gama de socais de 18il2, e transposto st'u -3." e /Í//imo IIIC.~ de.\IIcesso. S~
tease masClIlino e feminino". Últimas apresentações de Viven· personagens, cujas característi- para um tom mais franco c cx· guindo-se, Boa Coi~a é Mulher, com
do elll Cima da Ároore, substituí- cas vão desde a insôssa banali- plícito admitido pelas ronve- NilOla, Carvalhínho, Carlos Costa,
da pela comédia de Suassuna O dade pequeno-burguesa até o ni ências mais permissivas de Jorge Gouveia, aula Kramer, ~Ia­
Santo e a Porca, uma produção insólito mais indecifrável; uma hojc. Num momento emque
TEATRO MESBLA ncn Kroft, Ana Paula e Hina ~Iaris
paulista, diri~da por Silnei Síqreí- ambientação hmnorística en- os autores do passado eostu- e mais "18 lindas G11l11p~ 71".
OsOUimos, de Gorli. Direç-Jo de ra, com Cleide Yaconis, Germano graçadíssima, empacífica con- num ser dcsmistificados pelos
Carlos Murtinho, cenário e figuri- Filho, Oscar Felipe. Essa peça fêz vivência com humanssima ano encenadores, Amir Haddad tra-
nos de Arlindo Rodrigues, com Gil- sucesso emSão Paulo, tendo sido gústia e desespêro.. . ta Feydeau, com a maior sim-
berto Martinho, Miriam Pires, An- vista por mais de 30 mil pessoas. Muito infeliz o título Só Por· patia e solidariedade: ele des- TEATRO SANTA ROSA
tênio Patino, Ana Arie~ SUZiUJa que Você Quer, que PA, res- mistifica, isto sim, todo omeca-
Faini, Sueli Franco, Elconor Bru- ponsável pela tradução, adotou nismo de censura e autocensura Tudo noJardim deE. Albee, com
no, Silvio de Abreu, Érico Wi(bl, para a peça. Otítulo ori~nal , que impedia Feydeat~ há 80 ~Iaria Della Costa, Napoleão ~Ioniz
Almir Teles, Hugo e Ida Celina. Assim é (Se Lhe Parece) resu- anos, de dizer francamenteaqui- Freire, Heloisa Helena e Cecil Thi-
No mesmo teatro, upressníeuse me magistralmente tôda a pro- lo que as suas peças sugerem de ré. Também estêve em cartaz nes-
a preços populares, Paulo Goulart, posição da obra. maneira disfarçada e indireta. te trimestre Seu Tipo Inesquecível,
na comédia Lá, em réprise. de A. Araujo, com Teresa Raquel
(/. Michalskil (l. AI ichalskil e Odadas Petli
Teatro infantil J oTABLADO COMEMORA 20 ANOS

OCmpo Amador OTABLADO comemorou a data


com a estréia de mais um infantil de Maria Clara ~Ia­
chado - Tribobó City, uma comédia com música de
No Teatro de Arena, três carta- No Teatro Miguel Lemos: Poti, Ubirajara Cabral e coreografia de Nely Laport. Ace-
zes infantis: O Cirquinho Má~ú;o, o Cavalinho Travesso e Pingo o nografia e os figurinos são do premiado [oel de Car-
Gato de Bota,ç 70 (texto e música Palhacinho Confmo, dois musicais valho. Direção - MCM, assistente de díreçâo - Amicy
de Gastão Nogueira e direção de de Carlos Nobre, com Henriqueta Santos, direção de cena - René Braga, iluminação -
Luis Mendonça) e o Coelhin/IO Pi- Brieba, Luis Magneli, Marcos Silo Jorge Carvalho, contra-regra - Sltra Berditchevski e
tomba, peça de Milton Luis, com vestre, Léia Patro e outros. Georg Dian; sonoplastia - Lúcia May; execução de
41 meses de carreira. No Teatro Mesbla, A TartaTllga figurinos - Odalea Manso; cartaz - Elber Duarte;
e a Lebre e o Leão e O Ratinho, execução do cenário - Wagner dos Santos; programa
No Teatro das Artes A Gata Bor- fábulas dirigidas por Jorge Paulo. - Virgínia Valli. No elenco: René Reis Braga (pia-
ralheira (musical infantil). No Teatro Opinião: OCirco Car- nista-jniz-surdo-mudo), Lupe Cigliotti (D. Cafeteira-
rossel, A TartaTllga e a Lebre, To- Rochedo), Vânia Veloso Borges (Srta. Caixa Registra-
ninha o Mágico. dora), Ronald Fucs (homem do bar), Bernardo [a-
No Teatro de Bolso: A Gambá
No POEIRA, Romeu e Julieta 11 blonski (AI Gazarra, bandido), Sílvia Fues (Joana Cha-
que Ficou Cheirosa, de Paulo
de Rubem Rocha Filho, com Paulo rulo, pistoleira), Ricardo Filgueiras (Mocinho de Sou-
Afonso de Lima, direção de Clau-
Lambert e Dudu Continentino. sa), Carlos Wilson Silveira (EI Mexicano, um eearen-
dio Gonz.1ga; e o PeiIinho DOllra~
No Teatro de Praia, pelo Gmpo se), Sér~o MaTOn (John Maronete, advogado) Cede-
do, texto infantil de Aurimar Ro-
Carroussel, Gasparzinho ("Musical mar Batista (Cedemar White, prefeito de Tribobó ):
cha.
infantil com muitas aventuras, Joseph Michelucci (COIV-boy), Sílvia Nunes (Marli
onde Gasparzinho pede ajuda de seu Marlene), Thais Baloni (Maria Belezoca]: dançarinas,
No Teatro Copacabana: A Co- tio Assombro Coragem para acabar bandidas em potencial; Lilá Santana, Anamaria Cas-
lher Mágica e a Gatinha Detetive, com as maldades da Brura Trolo- tro Moreira, Manua Boabaid e Ernestina FiI~eiras ;
de Lúcio Centil, direção de Rober- ló') Cada criança recebe grátis um lndios Mescaleros; Milton Dobbin, Sura Berditchevski,
to Brito, com Isaura Sabino, Dou- pirulito, diz a publicidade. Tam- Ricardo Neumann, Beto Hannequim, Joseph Micheluc-
glas Dester, Maria Alves, Dina Ori- bém no mesmo local: OSaci-Pererê JAN MICHALSKI
ci, Eduardo Tornaghi, Lúcia Casay, Walf Maya, Ro-
co e outros. Produç-ão do Crupe e aGata Borralheira, de R. Castro. naldo Formiga, João Carlos Mota, José Jorge, Bosân-
Cacilda Becker. OTABLABDO comemora gostosamente os seus 20
No Teatro Casa Grande, Dom anos. Não só porque Tribobó City é uma realização gela Azevedo, Renato Guimarães, Georg Diab e Má·
Chicote, de Von Píuhl, música de deliciosa, mas também porque Essa realização contém rio Gomes.
No Teatro Glaucio GiL duas pe- Gilda Vandenbrande, direção de em estado puro o espírito característico do gm~ e da Tribobó City - espetáculo elo~ado pela crítica e
ças do Gmpo Carroussel: Os 3 Paulo Lara, com Regina Duarte sua animadora: um espírito cujo meio de expressao pre- aplaudido por espectadores de tôdas as idades, apre-
Porquinhos e Mogli, o Menino Gilberto Parpholo, Taia Perez, Ana dileto é uma piscadela. maliciosa, mas ingênua, cúm- sentou dois espetáculos dedicados à Campanha AEsco-
Lôbo. Maria Carneiro e outros.
plice mas irânica. I la Vai ao Teatro, com debates após o espetáculo.
]
Textos àdisposição dos leitores na Secretaria
d'O TABLADO
Autor Anônimo o Pastelão e a Torta 23
.Duas Farsas Tabarinicas Q.5
OJôgo de Adão 37
Albee Edward AHistória do Zooló~ co 40
Araujo Hilton Vamos Festejar o Natal .... .. .... .... .. .. .. ... 17
Arrabal Piquenique no Front 36
Azevedo Arhu Uma Consulta .... .... ............. .. .. .... .. Q.5
Barr «Stevens OMôço Bom e Obediente 28
Brecht Berthold Aquêle que diz Sim 41
Cervantes A Cova de Salamanca 38
Chaneerel LeOIl OJôgo de S. Nicolau 26
Antígona (adaptação) ....... ... .. .. .. 31
Checov Anton O Urso. 29
OPedido de Casamento 38
O Jubileu 46
Drummond de Andrade OCaso do Vestido. ........................... 39
Chelderode Miehel Os Cegos 24
Labiehe Eugene AGramática .................. .. ....... ... .. 47
LiIlS Otávio Natal Segundo S. Lucas ........... ..... ....... 14
Macedo J. ~lanuel ONôvo Otelo 43
Machado ~f. Clara OBoi e oBurro 32
As Interferências ..... ... ..... .... ... .... . 36
Os Embrulhos ...... .. .... ............ .... .. 47
~laehado Assis Antes da Missa 38
Martins Pena As Desgraças de Uma Criança 45
Motornasa Juro SlImidagawa (nô) 42
Onna Suriauri ADama Mascarada 42
Qorpo-Santo Eu Sou a Vida 45
Sófocles Antígona ................ ..... ....... 31
Suassana Torturas de Um Coração 44
Synge Viajantes para o Mar 48
. Tagore OCarteiro do Rei 33
Tardieu Jean Conversação Sinfonieta 48
PEÇAS PROIBIDAS PELA CENSURA Vieente Gil Todo Mundo e Ninguém 31
Os Mistérios da Virgem (Mofina Mendes) 20
Os Entendidos, de Ademar ~1. Abreu, Uma Certa Yeals OÚnico Ciúme de Emer 43
Filosofia, de Alvim Alves, O Bramo, de Marcos Lana
e As Hienas, esta última liberada posteriormente.
Livros à venda na secretaria d'O TABLADO

Ant~ona , dc SModes 4,00


Assimna Terra Como no Céu, de Fritz 1I0ch-
walder ..... ........ ...... .. .. .. .. .. .. . 6,00
Chapéu de Sebo, de Francisco Pereira da Sih'a 5,00
Edipo Rei, Sófocles 5,00
Está lá Fora Umlnspetor, de JB Priestley 5,00
Joana D'Arc, de Claudel ,. 5,00
Lisbela e o Prisioneiro, de Osman Lins 5,00
OLivro de Cristóvão Colombo, de Claudel 5,00
De Uma Noite de Festa, de Joaquim Cardozo . 5,00
O Pagador de Promessas, de Dias Comes 5,00
APena e a Lei, de A. Suasnma 5,00
OTeatro e Scu Espaço, de Peter Brook 13,00
Pinto Calçudo Descobre o Brasil, de Virginia
Valli . 8,00
Livros de autoria de ~Iaria Clara Machado:
Cavalinho Azul (conto) 1~00
Como Fazer Teatrinho de Bonecos 1~00
Vol. contendo: A Menina e o Vento, Maroqui-
nhas, ACata Borralheira e Maria Minhoea . 10,00
Pluft, o Fantasminha, o Rapto, Chapcuzinho
Vermelho e oBoi e oBurro 10,00
Cavalinho Azul, OEmbarque de Noé, AVolta
de Camaleão, Camaleão na Lua ......... 10,00
CemJogos Dram átices ....................... 6,00
Estão também à venda n'OTABLADO:
CADEHNOS DE TEATHO, número avulso. .. 5,00
Assinatura anual 20,00

O pagamento de qualquer pedido poder.í ser


feito mediante cheque visade, em nome de
Eddy Rezende Nunes, pagável no Rio de Ja-
neiro CB. Impresso pór

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