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visita~ 00 B'~ásíl' do' grupo tcheco dá 'taniern~: '': , - -,.: .
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Mágica recapitulamos para nossos leitores os


princípios que deram origem à 'criação da
Lanterna por Svoboda e seus colaboradores.

Josef Svoboda:
Aprendemos na história da arte! que suas exiqêndcs. E não se troto apenas do
um bom artista criador deve conhecer perfei- madeira! do ferro, etc. Trata-se do luz! do
temente o material com o qual cria! isto é, o ótico, de física! de químico, etc, Deve conhe-
escultor deve "sentir" a pedro! o orquiteto, o cer pelo 'menos ~eus princípios fundamentais.'
pedrá! a madeira etc. Precisa estudar os diversos ramos técnicos!
compreendê-los e, sec capaz de discutir com
Isso é tanto mais importante quando, se os técnicos especializados nessas disciplinas!
trota,do cenóçroto, que trabalho com grande afim de poder coloboror com êles.A técnica
'v9.ríeºode,d~ materiais. tle tem que aprender' é necessária! dsvemos conheç~,:lQ pe'rfeita~,
'". : ' ) .

a conhecer as . propriedades do material e I mente e fazê-Ia invisível em.ceru: ,"


Há lugar n'Ü: palco paLa atécnica1

Josef Svoboda (*) responde

Depende do que se faz dessa técnica: com acor- cena: deve contar com uma instalação mecânica
rente elétrlca, posso matar um homem ou curá-lo, perfeita' a fim de permitir uma completa elastici-
Do mesmo modo, a técnica pode, ou comprometer dade no espaço cênico e equilibrar, tecnicamente,
oespetáculo, ou com seu concurso, preparar para o as possibilidades do filme, afim de que, a um corte
público uma obra artístíea magistral. cinemático brusco, corresponda uma mudança
Atécnica contemporânea chegou atransformar ímedíata em cena, para de que no momento de
nossa maneira de ver a natureza. Hoje, vemos uma passagem de uma imagem a outra, mudem imedia-
paisagem de maneira diferente de como a via um tamente com ofilme eas indicações cénicas, Oprin-
pintor do século XIX - não mais pouco a pouco, cípio da Lanterna Mágica edo polyécran nos levou
com pausas, mas numa rápida sucessão de imagens a um exame cuidadoso das telas, suas qualidades e
de modo que a sua recepção é semelhante à das possibilidades técnicas para a difusão ou a direção
imagens de um filme. dos reflexos de luz, ede suas instalações mecânicas.
Foi essa arte que buscamos na Lanterna Má· Aqui, chegamos a diversas "cortínas de fixação".
gica: cinema e teatro, prDjeção de imagem e cena Iníellsmente. tôdas essas pesquisas só foram
no palco; intérpretes em carne eosso e projeção de feitas em teatros que mal correspondíam à possi-
quadros sôbre uma superfície plana estão aí unidos bilidade de utilização do princípio. É necessário
num princípio único, fundado têcnicamente em criar para êle, especialmente, uma platéia e um
dois elementos: projeção e cena mecanizada, Pode- palco, afim de poder desenvolvê-lo em tôda a sua
mos realizar uma projeçâo perfeita por meio de extensão.
blocos técnicos de projeção, distribuidos atrás dos Aárvore e a natureza têm seu ritmo próprio.
espectadores, nas laterais e atrás da cena, Eles são Aárvore vibra, é um organismo dinâmico. É por
providos de máquinas especiais sincrênícamente isso que não se pode fazer a cena naturalista, por-
ligadas sôbre um eixo elétrico comum, Além disso, que justamente os pormenores da natureza não
são munidos de Up:1 mecanismo de desvio do eixo podem ser imitados servilmente,
de prejeção, de modo a permitir a projeção da ima- Oteatro deveria permanecer um espaço artís-
gem em qualquer lugar. Temos, assim, a possibili- tico. Nisso,· diferencia-se do cinema e da televisão,
dade de seguir pela imagem mesmo a tela em mo- cuja arte se desenvolve sôbre uma tela, Assim, o
vimento no palco.. teatro não pode voltar à planítude, mas deve bus-
Osegundo elemento técnico da Lanterna é a car seu desabrochar no espaço cêníec,

I
AHredl0Radok responde:

Enquanto o cinema nada mais faz que copiar, Não podemos exigir do ator e do público que
nós, no teatro, temos a impressão de espaço que êles saibam como Beethoven compunha ou como
podemos aumentar por numerosos meios. Emesmo foi criado o foguete interplanetário, mas devemos
com o auxílio do cinema; é por isso que oteatro é considerar como evidente que êles conhecem a exis-
a arte mais sintética. tência de Beethoven tanto quanto a dos satélites
artificiais - por que se trata de homens do século
XX. O ritmo da vida acelerou-se e se aceleraram,
do mesmo modo, o movimento e o ritmo com os
quais oartista e opúblico percebem a atualidade.
Nosso público não viaja mais de diligência e não
pode parar em qualquer lugar einstalar-se ai para
oseu Dejeuner sur l'herbe, É um público que viaja
em carro-restaurante de expresso internacional ou
em avião a jato. Por isso, precisamente: uma cena
espaçosa com todo o dinamismo dos tempos con-
temporâneos! Ora, os recursos técnicos nos ajudam
a criar uma mise en scêne contemporânea.. Fale-
mos, entretanto, do próprio trabalho do artista.
Voltemos ao cinema: ofilme desenvolveu-se apartir
da impressão de dííerentes épocas do sêculo atual.
Eisenstein sentiu claramente seu valor e seu
ritmo. Nisso, nós nos uniremos a êle pelos proces-
sos cênícos regulares que exprimirão as impressões
comuns dos homens diante do fato real, verdade
que é possível pcetísar, sem que para isso abando-
nemos odomínio da realidade. Não sou um teórico
- busco idéias - é possível que eu não me expresse
com exatídão. Mas isso em que vivemos é a reali-
(*) No nO 22 dos CADERNOS, publicamos a palestra pro- dade da vida. Na cena, entretanto} não trabalhamos
f'erida por Svoboda n'O TABLADO, quando de sua com a vida real, mas com uma realidade artística,
visita ao Brasil, para receber o prêmio que lhe fOi como o trabalho artístico dos atôres e todo omeio
conferido pela Bienal de São Paulo. cênico. -
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ALanterna
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. Se queremos chegar ao objetivo, é preciso que


com nossos meios artísticos, possamos expressar a
-eracidade das realidades da vida, Atingiremos a
êsse objetivo submetendo as.possibilidades artísticas
a um. certo ritmo, sem oqual a arte moderna não
pode existir, Isso acontece no teatro, no desenho;
no cinema, na literatura e. na música. As épocas
anteriores se 'contentavam. unicamente com a rea-
lidade, que reproduziam fielmente no teatro; tal
"mêtodcvde trabalho artístico não nos satisfaz.
TEmos que alcançar o ritmo do pensamento aparentes - tela, manifestação do atar, do dança-
humano, ede trabalho humano, ,. ríno ou do cantor em cena, diante da tela - ecriar
··~' 't' . f t f' fl t . correspondências dramáticas novas. Receio em-
N emos que oogra ar uma ores a, mas,
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em depoema derealld d d' t .d
1 a es nersas. Eres aam auma
Foi nessa tentativa que chegamos à criação da possibilidade que espero utilizar inteiramente nos
~Jnterna mágica, Essa forma cênica nasceu do 'fato próximos programas 'da Lanterna mágica: a junção
L~3 querermos transpor certos limites conhecidos e disjunção de diversos eixos de tempo. Permitam-
I

II artecênica e da.mise-en-seêne. Trabalhando com I' me uma rápida explicação: enquanto a cena se
o arquiteto Svoboda, há uma quinzena de anos, .passa na tela num tempo dramático e num lugar
prnso, tentames, diversas vêzes avançar na combi- bem definido, a cena no palco - expressa ou verbal-
nação do teatro e do cinema, e direi até, de uma mente, ou pela dança e pelo canto- se desenvolve
maneira ace~tuada e lógica, até que Ch,egamos, sim~lltân~amente, ~1aS em ,outro tempo. Em segui-
I"

nessa: condIções, à Ll!1te n;: lTlágiCl, Graças às da e possível ecmbínar, Ul1l1' o passado ao futuro e
r I

experiências anteriores nêsse modo de míse-en-scêne j ao presente, Em resumo: ultrapassar a lógica em


eàquelas que, combinando teatro ecinema, nos pre-I' ncme de outras lógicas e chegar) por essa reali-
cederam, conseguimos mostrar até que ponto é pos ; dade cênica artística, ao que há de mais verdadeiro,
dveI sincronizá-los, dar-lhes um ritmo preciso pelas : ~e mais emocionante e de mais exato na realidade
re:ações do objeto e da forma e de seus contrastes': :la vida quotidiana,
·.A.. Lanterna A· Lanterna..
. ,',

vides por Svoboda; êle iniciou, assim, continuando


à sua maneira o teatro de luz, cuja cenografia de
teatr.o de vanguarda, dirigida por Burian, logrou
antes da guerra (evidentemente nas condições téc-
nicas da época) logrou alcançar brilhantes resulta-o
dos. Sem dúvida, Josef Svoboda não desenvolveu o
teatro de luz sõmente no sentido da ilusão, por
exemplo, pela obtenção da impressão de profundi-
dade do horizonte. Foi mesmo o contrário: a ten-
. dêncía que o separou dela com mais originalidade
levou-o a outra parte. É compreensível que, mesmo
nas mise-en-scenes que buscam odinamlsmo erápi-
JAN GROSSMAN das transformações de cena, a luz representasse um
papel essencial; 'iluminação, projeção luminosa e
filmes em breve serviram apenas para criar uma
atmosfera enão eram mais capazes de 'substituir os
cenários pintados ou plásticos, mas se tornaram o
O d,eBejQ de conquista de profundidade e de suporte da ação fazendo parte dela diretamente:
afastamento que não cessava de preocupar Svoboda, Depois de multas tentativas, Svoboda preparou, em
era na.realídaue uma questão de horizonte: Svoboda 1950, com odíretor Alfred Radok, uma míse-en-scê-
resolveu sempre êsse problema diferentemente" com ne excepcional para as antigas farsas tchecas: O
outros meios - fundo de cena prêto, fundo prêto 11. 0 Mandamento. Acena compunha-se de um in-
recoberto de. panejamentos transparentes ellumí- terior estável, cujofundo, conforme as necessidades,
.nadas diferentemente, projeç,ões. Finalmente,.· há se transformava em tela sôbre aqual se projetavam,
alguns anos, êle conseguiu um efeito inteiramente filmados, os acontecimentos vivi~os pelos. persona-
original quando, sôbre o fundo de uma grande gens .antes da entrada em cena; parecendo que os
cena, reuniu em ângulo dois grandes planos e C(} atôres passavam diretamente da tela para a cena
bríucada um dêles com uma projeção; entre os onde representavam no palco em perfeita sincroni-
limites aproximados dos dois planos inclinados, apa- zação com oque se pas~av~ na t e l a . :
reeeu uma difusão luminosa, uma atmosfera bru- Essa farsa foi realmente a ancestral das for-
mosa, sugerindo com grande intensidade a idéia do mas cêmcas que Svoboda crnm edesenrolveu têcní-
'horizonte. Foi uma descoberta. Eainda mais tarde, camen'e oito anos mais tarde, e cujo princípal ce-
Svoboda obteve efeitos similares com refletores a nógTafo e díretor foi novamente Radok. Opúblico
diafragmas que, no alto da cena, eram inclinados a acolheu com entusiasmo, na Exposição de Bruxe-
para a platéia ou lançavam seus reflexos sôbre as las, onde foi apresentada com onome de Lanterna
matérias brilhantes dos cenários. Mágica. Sua primitiva missão era ser uma série de
Não nos deteremos lnútílmcnte nesses efeitos . pequenas: cenas que, intencionalmente, pela pala-
de'Iuz: a luze tôdas as suas possibilidades ele utili- .vra, a imagem, a música e a dança, informariam
zaçâo no palto' sendo um dos problenas mais resol- sôbre a vida cultural na Tchec'oslováquia.Mas logo
se percebeu que a Lanterna significava mais algu- esforçou-se, essencialmente, no alargamento das
ma coisa, Sua substância repousava sôbre uma superfícies de projeção e tentou também fazer que
combinação perfeita do teatro e d() filme, em- que o espectador não as note absolutamente, mas que
um dos componentes não servirá apenas de eomple- tenha a impressão de se enccntrar de fato no cen-
mentó ao outro, Eram parceiros-equivalentes, e de tro da realidade fielmente reproduzida. O.polyécran,
seu diálogo nasceu mais alguma coisa, uma tercei- ao contrário, sublinha inteiramente as superfícies
ra: a formação cênica que, com auxílio das mais de projeção e trabalha com elas. Êle não copia o
modernas técnicas de som eda projeçâo, podia ope- naturalismo da realidade, mas selecíona pormeno-
rar com otempo eoespaço, ver a realidade sob di- res, decompõe-os em muitas telas e de diversas
versos aspectos simultaneamente e, pela combina- maneiras - semelhantes a metáforas - ereformula-
ção de atôres com a ação filmada, obter efeitos que os em novos conjuntos livremente dispostos.
não eram possíveis nem com as montagens de À primeira vista, éevidente que a tela múltipla
filme, nem sómente com oteatro. está mais próxima da poesia que a música ou o
teatro. Seu primeiro diretor diz que ela é, prôpría-
Do ponto de vista de cenografia, a Lanterna
mente falando, uma determinada espécie de arte
Mágica marcou nessa época o ponto culminante
plástica animada ou uma síntese de arquitetura e
dos esforços de Svoboda a respeito do espaço poli-
cênico e, omais possível, mutável. As perspectivas- de filme. Justamente por isso foi possível aplicar o
dramátcas e cêníeas da Lanterna mágica tiveram polyêcran no teatro como processo cenográfico
muito pessoal, e desde seu primeiro ensaio feito
na Tchecoslováquia uma única conclusão: a Lan-
terna tornou-se um centro de estudos .experímen- por Svoboda no Teatro Nacional, êle demonstrou
tais independentB, com palco e platéia especial- tôdas as possibilidades cênicas do sistema, ainda
mente construidos para tal fim. _ que não tenha sido explorado até sua última conse-
quência. Amontagem em polyécran, contraponto
Ointerêsse trazido por Svoboda ao teatro de de muitas cerrentcs-açêes em imagens, aaptidão de
luz em geral e à projeção de filmes em particular ver a realidade ao mesmo tempo em todo e em
foi tão longe que sua influência se tornou fecunda' pormenor, do exterior e do interior, de deixar a
mesmo fora do teatro. Svoboda éum artista criador, ação se desenvolver numa tela e retê-Ia na outra,
autor de um sistema deprojeção (Pclyécran) que eem seguida confrontar as duas telas face a face
foi igualmente apresentado pela primeira vez em . tudo isso descortina novas perspectivas de uma
Bruxelas; seu autor e diretor, dessa vez, foi Emil cenografia variável, edificada em estreita relação
Radok. com a situação dramática.
Atela múltipla (polyécrEill) é um sistema de
telas de diversas formas, colocadas em diferentes
pontos do espaço cênico e sôbre as quais se proje-
tam algumas sequências de filmes, eventualmente
imagens fixas em côres ou em prêtc: tôdas essas
projeções são sincronizadas com precisão, permi-
tindo a formação de uma composição especial de
diversas ações pro]etadas no espaço cêníco e com- i
binadas diferentemente, I
I
Consequentemente, o polyécran faz também i
pesquisas com as formas e as dimensÕ€s das telas, I

mas em princípio, êle se distingue de tôdas as úl-


timas pesquisas feitas ultimamente nesse sentido. (Le I'heatre en Ithecuslevaquie, Boletim do Insti-
Aevolução das telas panorâmicas e do circorama tuto de Teatro de Praga)
CONGRESSO DA UNIMA
No Cong-resso da UNIMA (União Internacional
da Marioneta), realizado em Praga (Tchecoslová-
quia) em junho de 1969, ao qual compareceram
diversos países, o tema principal dos debates foi:
"O Papel do Boneoo na formação ética e estétíca
da criança". Dos trabalhos apresentados pelos 'di-
versos delegados, destacamos o Relatório do prof.
RAOUL CARRAT, diretor do Théâtre Iuulousaín
penr l'Enfallt, delegado da seção' francesa àquele
Congresso, que abordou otema Acriança como cria-
d0f e 311lUuador do teatro de bonecos - salientando
"\ enriquecimento que proporciona à criança o tra-
, balho de criar e animar seus próprios bcneecs, em
[eu círculo familiar, na escola ou em casa.

A CR,I· A, NCA E O BO·N E:,( 0,:


1
ACRIAN ~A como CRIADOR

Raoul Carrat

opapel do boneco deve ser examinado de dois (soldado, guerra, noiva, mãe); tempo longo-tempo
pontos de vista: 1) a criança (ou ojovem) éum es- curto (manco, pato, dragão); 4) a partir de uma
pectador, que recebe: percepções, sensações que re- música (berceuse, barcarola, valsa, ete.); 5) a par-
produzirão emoções e reflexões; 2) a criança (ou -tir de um desenho preexistente (imagem de livro
ojovem) éum criador eanimador, que se exprime escolar a ser animada, quadro de determinado
através do boneco: inteligência conciente e subo pintor) .
eoncíente.
Criança-espectador - Neste caso, aquêle que
apresenta um espetáculo de bonecos para crianças, Criação espontânea individuaI
deve observar a idade de seus espectadores quanto
à escolha do tema, a moral contida no mesmo, a Na verdade, ela não parte de coisa alguma, Há
clareza do enrêdo, a psicologia dos personagens, a sempre reminiscências, Aidéia, como uma planta,
forma dos bonecos, oaspecto do cenário, a concisão procede de uma lenta germinação oculta (elementos
do texto, a progressão até o desíêcho (risos, exci- quantitativos), depois, por uma espécie de explosão
tação, tensão nervosa, volta à calma) e, finalmente, quantitativa, se transforma em qualitativa, É o
a duração do espetáculo. salto e o crescimento; alimentando-se do solo e de
suas próprias reservas: o eu profundo, osubconci-
ente, hereditariedade e memória, Mas a construção
do imaginário (segundo o psicólogo Mabrieu) não
oCriador eOAnimador - Criar eanimar são toma, na criança, os caminhos racionais do adulto,
duas atividades bem distintas, mas provisàriamente, Aexperiência infanti~ émuito pequena para que ela
gruparei os dóis na categoria daqueles que se ex- estabeleça relações de causalidade que a ajudariam
primem: seja pelo gesto e pela palavra (manipula- a avançar no caminho do racional como o con-
dores), seja pelo desenho emodelagem, cebe o adulto,
-As fontes da criação seriam os Temas ou Textos
impostos pelo professor, segundo sua própria idéia;
ou um texto escrito (fábula, canção, conto, episódio ;riação imediata ,coletiva
histórico, ciências de observação) ,
Os temas são sugeridos. 1) a partir de uma Há neste caso um enriquecimento da história,
forma: bola (cabeça), tubo (serpente); 2) a partir pelo acréscimo de idéias diversas, pelo seu choque,
duma côr: verde (primavera, juventude, esperança, o borbulhar resultante da fermentação do grupo-
alegria); 3) apartir de um ritmo: ritmo de balanço excitação. Essa criação coletiva, entretanto, que
(mar, barco, viagem, exotismo); ritmo escandido parece a princípio uma experiência pedagógica in-
E ANIMADO BD E -TÍTERE

teressante (mais interessante para os própríos Na pesquisa de formas de bonecos, por ordem
criadores) apresenta defeitos: dispersão de idéias, de dificuldade, citamos: cartão recortado plano (a-
muito divergentes para que possam dar um enrêdo proximação com odesenho), cartão em relêvo (pelo
bem construído. Ahistória parecerá sem pé nem recorte, dobradura, colagem e grampeagem).
cabeça se se conservam tôdas as idéias apresentadas. Esta se aproxima da técnica do papel recortado,
Há necessidade; então, de sacrificar algumas, segun- velha tradição Ielclôrica polonêsa e chínêsa, Se-
do uma lógica adulta, e os autores, em sua lógica guem-se: modelagem (pasta de papel, etc.) ,madeira
infantil, se sentirão lesados. Por outro lado, no de- esculpida eoutros materiais; pano ou malha cheios;
bate de grupo, dominam os mais afoitos,os mais ta- metais.
garela,s :0 tímido se cala. Todavia, êle talvez guaro Nesta fase é que se formam as noções de esté-
de mangníficas flôres de ouro em seu sonho interior. tica (além da criação artística prôpriamente dita):
Em segundo lugar, uma pobreza de vocabulário, da descoberta de uma harmonia de Iermas, de côres
elocução e mesmo das imagens. A arte continua da matéria.
sendo "ama longa paciência". 4) Realização do cenário (naturalismo, verismo-
trompe-l'oeíl, sujestão, poesia, extrapolação, burles-
A concretização do imaginário co e abstração). Uma descoberta, portanto, de ca-
minhos dííerentes na tradução de uma idéia (para
Uma vez encontrada a história, segue-se a rea- si próprio e para os outros). É a polivalência dos
lização: meios de criação artística.
5) Acôrdo, concordância dos bonecos e do
1) desenho dos personagens (a lápis, pincelou
cenário:
dedo) . a) colorido das roupas e dos diversos cenários;
2) desenho do cenário. É um trabalho sôbre I b) formas: harmonia das formas em conjunto;
grandes superfícies, ínabítuais à criança. Há neces- c) concordância dos coloridos e formas reuni-
sidade de recuo para uma visão global que acriança dos.
não tem: ela justapõe pormenores e não sabe sin- d) diferença entre avisão próxima (ex: minia-
tetizar. tura, ilustração de livro) ea visão à distân-
3) realização plástica do boneco: a) utilização cia (5 metros, 20 metros).
de similitudes naturais (legumes, frutos); b) sim- Perda do pormenor à distância. Daí a pes-
bólico da? objetos familiares (objetos que se trans- quisa do pormenor dominante, caracteristí-
mutam (surrealismo) (vassoura-cabeça de índio); co; dai a simbolização.
c) pesquisa manual das formas. "O homem pensa e) perda de visibilidade do boneco num cenário
porque tem mãos", dizia Anaxágora. muito complicado;
" . . . .

f) o boneco bnnítomorto por 'um cenário de nuidade, etc, Educadores e pais criam \mRlfcOlrlu-
cêres muito agressivas; a descoberta, pela .são entre oexprimir-se espontaneamente ea exibi-
experiência necessária, das regras e leis da ção da obra ou exibicionismo, Para a criança é
decaração preferível) parece-me, ensinar-lhe o gôstodo traba-
lho bem feito, da limpeza artesanal, que denota o
amor do ofício, .
A Criança diante do Material
F) Outras noções de ética ocorrentes: 1) harmonia
Há a considerar: a resistência da matéria à de formas ecôres como expressão da alma dum
idéia (como fazer com oferro, o vidro ... ) e a re- personagem - a beleza e candura ou bondade
sistência da matéria à vontade de criar. Não só a (posição ecôr dos olhos) eabeleza má (rainha
resistência do próprio corpo da criança (falta de cruel), a tristeza (porte de cabeça, olhos e
jeito) necessidade de educar ogesto) mas também a bôca); 2) opapel das côres: côres alegres - cô·
oposição do material - temos tudo isso a considerar. res quentes; côres tristes - côres frias e a tra-
Exemplos: a argila sêea que estarinha, a'madeira dução da moralidade pelas côres. O mesmo
que se fende eentorta, a côr que empalidece depois cenário (forma e matéria) pode ser alegre ou
de sêca, a pintura que sai (pouca cola ou que se angustiado conforme as côres eluzes. 3) papel
descasca (muita cola), o papel que franze ou en- das formas: doces ou ásperas, deformação gra-
ruga, etc, Revela-se assim à criança tôda uma vida ciosa (Modigliani), deformação angustiada (El
da matéria, vida secreta e hostil, segundo lhe pa- Greco), deformação feia (J. Bosch e Gruene-
rece, como no conto "1 'Enían] et les Sortm~ges" wald); eo humor burlesco (o dragão da lenda
ou no Pássaro Azul. pode ter um corpo horrível ou um corpo diver-
Opapel do professor, aqui, é ajudar a criança I tido e bonito (escamas escuras, ou escamas
a descobrir as leis indispensáveis. É o seu aprendi- floridas), 4) papel da roupa: o tecido, sua as-
·zado. pereza, aspecto, a matéria, os coloridos, a cos-
tura (paciência, asseto, gôsto) e a solidez (no-
ção de duração),
Ocorrência de noções de ética

A) agir em função de um fim (perspectivas).


B) noção de duração, que se ~npõe. . IAANIMAÇÃO '
C) escola de vontade: saber querer até ofim e re-I' .
c~meçar, se necessário, (perseverança pertiná- : Fabricado o boneco se]'a de fio (marioneta)
cia.) . '
. . . de vara, de luva (fantoche) ou um boneco impro,
D) reeessídadc de limpeza ede ordem no trabalho. visado qualquer (como acontece ser o caso com
E) gôsto pelo acabado, a obra bem feita. Neste pon- .ríanças), êsse boneco não é uma 'peça de museu.
to, há grande trabalho afazer, uma reeducação. Deve animar-se, exprimir idéias e sentimentos
Na vida cotidiana, os objetos usuais são feios, através do movimento. Aqui, nova dificuldade, a da
.mal a.~abado~ ,(objetos ~e plástico) ~ a,arte po-I Matér~a di~nte da Idéia, não mais na criação mas
pular (folclonca) perdida e substtuida pelo I la ammaçao.
produto industrial sem passadc, mercantil, mui- I ',., A .
tas vêzes feio (objetos móveis). Essa má edu- Obone:o ~era man~JAavel? (peso, soh~e~) Ser-
vÓr

caçâo pode nascer da 'escola. VIra? Podem VIVer? Seu ]o~·o correspondera a alma
lo personagem? Expressara oporte nobre do velho
Em certas pedagogias há um excesso de ad- rei, ovôo gracioso da borboleta ou da fada} a tur-
muaçâo pela obra infantil: .espontaneidade, inge- bulência do cãozinho ou do bobo do rei?
!
AcO}lstrução do boneco é. qu~ comandará, em transferência que se dá no caso, são úteis à criança
grande .parte, ap suas expressões. Feito o trabalho como elementos de cura mental (psícanálise e
da melhor maneira, será necessánc, para atingir o psiccdrama) .:
resultado desejado, uma educação. doenntrêle do
gesto: irifantil. À parte afadiga do braço erguido
(fantoche) ,é preciso ensinar à criança a: Música e Sonnplastia
a) lutar contra a falta de jeito pelo contrâle
do gesto; . Amúsica deve ser escolhida em função do fim o

b) concentrar-se numa personalidade estra- (intriga)" da atmosfera da cena, da alma dos pro-
nha, defínída; tagonistas. Pode ser doce ou marcial; uma berceuse,
uma marcha ou dança. Amarcha pode ser 'nupcial
c) isso conduzirá a uma afirmação da confi- ; também de suplício.
ança em sr Resultado: seu valor terapêutico. .
Aproveita à criança no aprendizado de ritmo,
30ns, timbres e tonslldade. o

A Expressão Verbal Também o canto aplicado aqui tem seu valor


o

Educativo. .
Muitas vêzes, na linguagem falada das pessoas Na utilização dos ruidos, deve-se educar aob-
simples, um olhar, ogesto de cabeça, um muchocho, servação; aprender a ouvir e aprender a ver. Neste
um tique qualquer substituem uma frase articulada campo, faz-se a pesquisa dos ruidos; vento, mar,
que traduziria os meandros do pensamento. Ames- gôtas dágua, ruidose gritos de animais, de pássaros
ma coisa acontece com a criança e o jovem. Ma- e de atívídades humanas (proííssóes), ruídos da
nipulando o boneco, a criança não poderá se limi- ~idade (carrilhões, trem, barcos, multidão).
tar a êsses gestos, olhares ou tiques. Ela será Há em seguida a reprodução naturalista dos
obrigada a utiliza); palavras e a formar frases. ruidos e gritos e a transposição (poética ou burles-
Assim, aquilo que lhe parecerá um jôgo, porque há ca) dos ruldos esons.
transferência, ajudará a enriquecer seu vocabulá-
rio e a melhorar. a elocução. Daí: Como indicação: Carnaval dos Animais, de
Saint-Saens, COUCOl~ de Daquín, Lendas da Flo-
1) importância da linguagem precisa; resta Vienense, Debussy, etc. etc.
2) busca da imagem sugestiva (metáfora);
3) magia das palavras que fazem a imagem,
que tomam vida .na imaginação infantil; A Iluminação
4) música das frases;
5) beleza da linguagem (estética) . Deve-se observar que a alma do cenário, do bo-
oneco, muda conforme o ângulo de luz. Quanto à
. potência da luz épreciso observar: aluz que achata,
AIntriga ou Enrêdo que suprime a profundidade dos planos, disposição
(de frente ou lateral), a sombra projetada (alcan-
Temos que considerar o desenvolvimento har- ce) ou destruida, e a Sombra Chinesa.
meníosc (noções ~e ·est.ética). Também a intriga As côres também são importantes na ilumina-
imaginada,cliada .peía criança como identificação ção porque criam a atmosfera. Não esquecer. a
dos conflitos e inibições fornece .ao pedagogo que noção de estética: os excessos (music-hall de mau
gosta de seu trabalho,:.preciosas .informações sôbre gôsto eefeitos fáceis). Não tentar obonito, mas ter
cada aluno. A'informação de um personagem, a em vista a finalidade. o. •
É T I CA iillposta de fora. Na preparação do espetáculo, a
criança sentirá de dentro que ela é necessária, daí
Temos dois aspectos a considerar: a moral in- a auto-disciplina. .
dividual e amoral social. Moral individual - Dsse- Distribuição de papéis e tarefas materiais -
mos como a criança, na realização material da Opapel, por menor que seja, pode adquirir impor-
da idéia, adquire muitas noções morais: vontade, tância para seu jôgo, sua vida. No teatro de Mo-
paciência, asseio, gôsto pelo acabado. Consequên- liêre ede Goldoni, se ofinal, a moral da 'comédia é
cia: lealdade, respeito ao próximo. ocasamento dos namorados, êstes personagens são
Outras noções morais: a bondade - observada de fato apagados. São os criados e as criadas que
nos outros ea ser traduzida materialmente (forma dominam a intriga. Nos títeres, a môsca pode ven-
evoz). Acriança, além disso, se identifica com seu cer oleão. Isso encoraja opequeno: sentimento de
personagem e aprende como agir para ser bom. utilidade. Assim, aqnêle que faz a contra-regra é
No fundo, é a aquisição da fé pelos atos, como re- muito útil, se bem que não represente. Além dis-
comendava Pascal. Os personagens representados so, com os bonecos, ojôgo é um jôgo de equipe. Os
pelos bonecos, por suas formas despe]adas são sím- .atôres não são vistos, são anônimos. Operigo do
bolos mais íàcílmente compreensíveis que os atôres, cabotinismo infantil émínimo.
cujos sentimentos são mais nuançados. Ajudarão
a criança, pelo exemplo resultante do enrêdo, a
adquirir noções morais básicas. Representa uma te- A CRIANÇA E SEU MEIO FAMILIAR
rapêutica, interna e externa, porque pela transfe-
rência, ela éoboneco eporque a criança vê obone- Já abordei certos aspectos da resolução, por
co agir e ojulga. Além disso, o jôgo e a expressão transferência, dos conflitos, complexos, etc. Mas a
falada a ajudam a se livrar das inibições. boneca pode ser utilizada como elemento primor-
Um educador atento e um pouco psicólogo po- dialna educação ou reeducação de crianças retar-
derá descobrir a causa dessas inibições (sentimen- dadas (QI inferior a 70) ou de crianças com dis-
to de inferioridade e fraqueza, eupabílídade, cas- túrbios motores ou defeitos físicos. Do ponto de vis-
traçâo, violência paterna, amor despótico da mãe, ta psíquico, através do boneco ela pode tomar ou
complexos etc.). Ao usar a marioneta (medium) a retomar seu lugar na sociedade, com a conciência
criança perde a timidez, porque não é ela que fala, de se inserir normalmente na coletividade.
não é a ela que olham, ela está protegida, oculta
como se usasse máscara. Como conseqüência: a
criança se apaga em benefício do boneco e o seu FORMAÇÃO ÉTICA PELA INTRIGA
egocentrismo diminui. Finalmente, tôdas as noções
de moral trazidas pelo enrêdo ea sua conclusão ou Aqui, reunimos a criança-animador à criança-
moralidade. espectador. Um e outro são sensibilizados pela his-
tória, pelo enrêdc, pela moralidade.
Mentira, preguiça, grosseria, brutalidade, mal-
MORAL SOCIAL dade, inveja, gula, avareza, etc. Poderíamos enu-
merar os sete pecados capitais, com exceção da lu-
Falamos do recuo do egocentrismo pela sub- xúria. Ao falar em moralidade, não esquecemos O~
missão ao títere, considerando a criança isolada. autos medieveis intitulados moralidades. É pela in-
Mas ela vai representar dentro de um grupo. Ha- triga, antes de tudo, que se forma moralmente a
verá também orecuo do egocentrismo pela submis- criança. Devemos examiná-la detidamente, em fun-
são à disciplina de grupo. Na classe, a disciplina é ção da idade dos espectadores.
A) Moralidade da história ea Criança:
Qualidades edefeitos
Obem eomal.
1) Como o mal pode prejudicar a si mesmo
(moral com fim egocêntrico: mêdo do guarda, mê-
do do inferno) .
2) Como omal pode prejudicar a coletividade
das crianças ou dos adultos.
Êste último é mais complicado para o enten- C n I usão
O C
dímento da criança. Contudo, deve-se ter cuidado
para não atingir um resultado inverso, quando o
espírito critico cemeça a despertar em algumas
crianças de 10 anos (a "literatura edificante" é
repelida pelos "grandes"). Se compararmos oboneco com outras termas
B) Com os maiores de 10 anos) a moral é difícil de de expl:essão artística (desenho, pintura, escultu-
ser abordada. É a idade da recusa, das oposições. ra, musica, canto, dança, comédia) constatamos que
Em outro tabralho sôbre ocomportamento do pré- oboneco é uma arte mais completa. Um mebíle de
adolescente (13-16 anos), apresentei as três idéias Calder não tem alma. Êle poâe ser belo, curioso, es-
sôbre as linhas de fôrça do comportamento nessa tranho, mas nada mais é que um catavento mais
idade: bem mecanizado.

Êle se insere muito bem' talvez1
1) necessidade do grupo; num umverso cada vez mais automatizado, mas
2) desejo de aventura' cada vez mais Irio, longe do coração. Otítere é a
3) formação da pubetdade, primeiro sinais l11até~ia-p~im~ mais sim~les até chegar à obra de
concientes de sexualidade. Iarte, Isto e a mterpretaçao de uma idéia de acôrdo
com o sentímento. Escultura, pintura costura e
C) No Adolescente (17-20/23 anos) após, anima-se (dar alma) o boneco. 'Movimento:
1) Êle vê os problemas morais de um ponto ritmo edança, eoboneco evolui nas três dimensões
de vista mais elevado, mais idealista que a criança. do espàçc, enquanto o ator comediante representa
É a idade das teoriais sobretudo nas duas dimensões do palco. Qual a
2) Êle sabe analisar, e ter, em seguida uma terceira dimensão do atar? subir uma escada, dar
Visão Sintética. ' s~ltos - o seu pêso ínter'ere Êle não pode ser um
3) É obrigado, sobretudo, a abordar os proble- passaro que plana com desembaraço. Já o boneco
mas da vida, de sua vida, que se torna cada vez pode fazê-lo. Êle tem, portanto, possibilidades em
mais independente, autônoma. Neste caso são os diversos domínios supericres às de outras artes, en-
problemas morais mais elevados (prOfiSsão, estu tendendo-se que às suas possibilidades especificas se
dos, contingências cconêmíeas e os grandes pro- acrescentam os elementos habituais comuns aos ou-
blemas _ capitalismo, guerras, liberdade, racismo, tros espetáculos: música, ruído, luz. Há mais: é a
paz, conflitos sociais) do que o taxativo "Não po- autonomia total da forma, enquanto o ator impõe
n:la o dedo no nariz" dirigido à criança _ é que seu corpo. Podemos realizar uma pulga, ou uma
sao abordados. Além dos problemas psicológicos cobrá. Oater, certamente, pode sugerir uma pulga,
pessoais (camaradagem, amizade, amor, sexualida- ou u~a cobra, por meio de convenções teatrais, gra-
de eluta contra os tabus, etc.) Além dêsses temas, ças a grande eomplacêneía do espectador.
a doença, a morte, a solidariedade, as religiões, o Após tratar da formação ética e estética da
ateísmo, filosofias; a arte e suas formas e a eíên- cri~nça quand? .fabrica e anima o boneco, quero
cía - podem ser apresentados aos jovens através assinalar as diâculdades que o educador encon-
.le bonecos. Os símbolos adquirem aí sua grandeza. trará:
.1) para a criança que cria, o resultado será
sempre inferior à criação do profissiona;L Acrian-
ça, porém, não cria em vista de um espeíáculo a
ser apresentado a um público desconhecido. Ela
representa para sua classe; amigos e parentes. O
.importante é a sua criação . Fora disso, arrisca-se
a cair no exibicionismo do próprio educador.
2) para opré-adolescente, a dificuldade éínter-
teressá-Io no bmeee, o qual tendo lhe interessado
durante a infância, êle orepele agora, porque não
quer que otomem por uma criança.
3) para oadolescente, pode ter nêvo ínterêsse,
em dois sentidos: ou êle representa para crianças
ou êle cria e representa para expressar seus pró.
priosproblemas morais ou ordenar sua fantasia.
Pela sua esquematização, seu símbolo, oboneco ser-
lhe-á de grande ajuda.
- TE A l-R O NAS o F--I!( I-N AS

Vírginia Valli

Na exposição e explicação do trabalho reaíí- tece com crianças,' quando se procura fazer um
zado nas Oficinas Pedagógicas da Sociedade Pes- tipo de boneco que demanda mais de uma sessão
talozzi do Brasil em matéria de teatro, a maior oí- de trabalho. O espaço de tempo que medeia entre a
ficuldade resulta da falta de método ou de sua exis- motivação, a idéia ou plano de criar um teatrinho
tência na aplicação de técnicas dramáticas na 'edu- de bonecos até sua concretização última - bone-
cação do excepcional, pois ~poucas pessoas e, espo- "-9 pronto e espetáculo montado --é '~emasiado
ràdícamente, têm tentado êsse tipo de atividade. I longo para a criança ou oexcepcional poder acom-
Afim de ordenarmos mais claramente a matéria, nanhá-lo sem perder amotivação inicial.
exporemos nossa experiência cronolàgicariiente,
tentante, em conclusão, deduzir algumas regras ou 2_ Máscaras
dicas que possam esclarecer o professor ou aquêle
que se achar tentado a percorrer êsse obscuro ca-
minho, num campo de atividade deveras fascinan- Passamos depois às máscaras, pois outro pro-
te. fessor das Oficinas, (Hilton Araújo) apresentara;
anteriormente, um teatro de máscaras com algum
rendimento. Amáscara abriu grande perspectiva
1- Bonecos
para nós. Constatamos o interêsse do excepcional
Tudo começou com os bonecos. Terminado o pelo brinquedo com máscaras (ainda que êle, afi-
Curso de Bonecos promovido pela SPB, em 1947, nal, prefira tirá-la durante a função, seja para ob-
sob a orientação de Helena Antipoff, com a cola- servar melhor a platéia, seja para exibir-se à fa-
boração de. outros mestres eminentes, como Olga mília eaos conhecidos, como quem diz: "estou com
Obry, Cecília Meireles, Martim Gonçalves, Pascoal esta máscara, mas sou eu mesmo) .
Carlos Magno, Edna Gama e outros, algum tempo Amáscara foi uma fase importante, pois apren-
após começamos o teatro de bonecos nas Oficinas. demos a ínterpretar-lhe o símbolo ou o significado
Aidéia inicial era, de fato, fazer um teatrinho com que teria não só para o excepcional como para os
os aprendizes. Não logramos contudo passar da in- povos de cultura pré-letrada. Amáscara objetivou
grata fase de confecção da cabeça, pelas inúmeras ou concretizou aquilo que a mente primitiva não
dificuldades ocorrentes. Atécnica tentada da pri- podia traduzir em gestos ou palavras, pelo seu
meira vez - cabeça de papier machê, uma das mais próprio nível menta] ou pela falta de linguagem
trabalhos~s, e as diversas fases etarefas que cons- apropriada para tal. Trabalhando, então, com êsse
tituem essa técnica, fêz que os alunos se desinte- 1,çessório, pudemos situar-nos no nível daquilo que
ressassem e poucos chegaram a concluir a cabeça. êle pensa, sente ou imagina ao realizar ou repre-
Talvez se dê, com oexcepcional, omesmo que acon- sentar uma açâo. Êsse aprendizado e conhecimen-
to final de eom0 utílísar: a máscara. na rotina dê 1 mareados pelo ritmo da música de Iola Guterman,
trabalho das Oficinas, ou nas festividades da Esc ou então usanéo-apenas percussão. Tudo se desen-
cola, foi muito lento, enão seI se seríamos capazes volve até oclímax de - "o rei está nu" - gritado
de rememorar erecontar essa fase labiríntica do trá- por uma criança. Orei, vendo-se nu, fícà envergo-
balho com amáscara. Com aMáscara ecom oRít- nhado echora. Todos, então) se lembram de alegrá-
mo, aconteceu aquilo de importante - que talvez lo com qualquer coisa, um teatro de máscaras ou
tivéssemos encontrado oelo de iigação entre oprí- de bonecos. Êsse espetáculo, em que tomaram parte
mitívo ou arcaico que cada um tem em si e omo- os rapazes das Oficinas e as crianças das Classes
demo ou civilizados que somos, ou queremos ser, Especiais, já foi um comêço de sucesso - podemos
afirmá-lo - não só pela reação da platéia) coino
3- Jôgo Mimado pela satisfação dos participantes. Houve apenas um
senão: o rei de maneira alguma quis ficar nu, ou
Veio, a seguir, o trabalho visando diretamente ) que se convencionou como nu, isto é, otorso nu,
ao espetáculo (de fim de ano, por exemplo). Que ou vestir uma camiseta para fingir que estava. "Não
temas ensaiar, usando ou não. máscaras? Que tema posso" - disse Ble-rei, "é festa, tenho que vir de
ensaiar sem dai' falas' para decorar? Aí começou terno". De modo que orei-nu estava demasiado ves-
aquêle íundir-de-euea sem oqual nada se fa~. Para tido: I

pesquisar o trabalho realisado durante êsses dez


anes, que temos? Contamos apenas com roteiros fei- Neste ponto já podíamos tirar algumas conclu-
tos para orientar a montagem. Um dos primeiros Éões ou
.
regras de trabalho,
.
que seriam:
(1961), foi aquilo que denominamos
1) tema-enrêdo muito simples
Jôgo Mimado Apresentando Atividades das Oficinas 2) nenhum diálogo
e Classes, com: I 3) pouca narração
I . 4) música ou ritmo durante tô.da ação.
1) narração·
2) canto
3) mímica
4- Folclore
4) bonecos
5) máscaras. Lendas do .folclore indígena também tiveram
sua vez, e entre restrições e desaprovação por di-
utilizando a estória de Andersen - ARoupa versos motivos ("fogo de verdade não pode", "as
Nova do Rei) adaptada para ORei-Manequim - ce- músicas são muito tristes", etc.), conseguimos fa-
mo um ro'eíro-etrêdo, contamos a história de um zer coisas bem aceitáveis e até bonitas plàstica-
rei muito vaidoso que só pensa em roupas eenfei- mente. É que, no caso, o defeito seria mais dos te-
tes. Avida dêsse personagem écontada por um Nar- mas do que de seus aplicadores, por que estória de
rador jproíessor), que faz a ligação dos quadros índio éoque há de mais cruel, triste, bárbaro eaté
ou cenas, em que oRei dá grande trabalho aos seus chato, além de overdadeiro ritmo indígena não aju-
súditos e artesãos (Aprendizes), que lhe confeccio- dar nada. 'Contudo, apresentamos oCasamento dos
nam roupas, espadas, coroas, bordados, etc. Aí, pu- Índios com as Fílhus do Sol, com máscara de sol
demos mimar tôdas as atividades das Oficinas (al- belíssima (e que não era nenhum sol como êsse que
faiataria, tecelagem, bordado, costura, fio-e-fôlha, os figurativos não excepcionais o imaginam) e a
carpintaria e outras), ·ao fabricar os objetos reais, estória do Rapto do Fogo, na qual ofogo entrou de
introduzindo um côro de poucas palavras e gestos, verdade, eninguém se queimou.
..;o~ndo~-:pequ~~9 s.~lto ~ara não ~os alon-: .tema. Os rttmosdo boi bumbá.o colorido easfigu-
garl}l.os,d~masladº; P.91s;_~~lXa~emQs defª1ar da pes- ras-máscaras vibram nesteconto de bumba, em que
quisa de.g,estose:~expressao, que.~r~ arotína.de tra- . is.palavras, ditas OÚ cantadas" são um esíõrço-ex-
bailio nas ;aulas, passamos ao Bumba-Meu BGi, um periêncíade cada um e de todos; opasso inventado:
dos .grandes sucessos nas Oncinas Pedagógicas da por um e aplandidopcr todos, erepetido em' con-
SPB, numa participaçãocoletiva de prcíessêrcs- junto, a roupa (de um guarda-roupa inexistente)'
aprendízes-paa.bísadc.maís de uma vez. Adireção criada de trapos e de papel, mas trabalhada com
da SPB tanto se entosiasno; que, na repetição, .arinho (recorte, aplique, celagem, pintura, costu-
mandou confeccionar programas, como se fôsse tea- ra), évestida como r{lUpa-de-rei, com convicção. O
tro de verdade dando nome ao Boi e aos boizinhos aprendiz excepcional consegue,. assim, o que um
que partíéíparam do' brinquedo. Nesse programa, atol' talvez não censeguisse; transmitir aó especta-
lê-se o seguinte: 101') através de uma.. pesada. armaç~o-máscara de
. ," , . . ... ..', ~ arame-pano-papel, a essência do Boi, êsse tanto de
. ~ ~Ol. Brejeiro, tam~em bOl.ahgn~,.\~Ol-cOIaçao, ?aciência-doçura-eneanto que .tem um boizínho .de
bOl-feItlceno! pelo e?tuslasmo; dos partíeípantes, e~- verdade. Eis onosso Boi Coraçêo, .
pectadores, professores e cunoses desde a sua pn- .
meira apresentação (1964), representa a conclusão
e coroamento de uma fase cansativa de trabailio, 6_ Autos-de-Nataf
na busca de uma forma de expressão dramática
adequada ao excepcional, desde as tentativas de di-
versas técnicas, pesquisas de gesto e expressão, ex- Os autos-de-natalforam' uma .constante em
periências não concluídas com teatrinho de bone- nosso trabalho. Se o, primeiro não resultou muito
cas, autos-de-natal elendas folclóricas apoiadas em tom, os seguintes começaram afazer sucesso:
música, narração segundo roteiro-enrêdo estilizan- 1) Um aproveitamento reduzido de O Boi e o
do atividades do excepcional, até a última fase, Burro a Caminho de Belém, de M. Clara Machado
. r. . ,

.quando fomos levados a eliminar pouco apouco não com nmacas de folclore.
só o diálogo como a narração e solos, esquemati
2) Roteiros. de :Natal} como convencionamos
zando os gestos eo texto numa forma de côro Ia chamá-los, exclusivamente com músicas de pasto-
lado emimado em que todos procuram sentir ote- ris, reis com enormes máscaras, bichos-máscaras
ma e transmítí-lo dentro de suas possibilidades. AD e um presépio convencional.
usar essa forma mais conveniente a tal tipo de in-
térprete, a Máscara constituiu um elemento impor- 3) Nesses Roteiros, começamos amisturar Figu-
tante na combinação do espetáenlo, substituindo ras, ~áscaras eBichbs-Objetos (o boi eoburro, por
com vantagem a figura humana, por livrá-la da crí- ex. vínham para opresepe puxados por um menino) .
tica às vêzes negativa que o próprio excepcional
tende a fazer do colega que se exibe, projetando, 4) Finalmente (1968), misturamos Figuras
além disso, não mais um simples personagem, mas (gente sem falar) com Bonecos, em dois planos: as
ampliando-o como uma simbolização aos olhos dos figuras dos pastoris eram os Aprendizes; as figu-
participantes. Amúsica deu apoio à riqueza rítmí- ras do presépio - bonecos, incluindo bichos (galo-
borboleta-boi-burro, etc.) e Objetos (estrêas e an-
ca do excepcional, dando coesão eunidade entre os jos) .
diversos tipo,s participantes. Os elementos exigidos
dos intérpretes - rítmco, plástico ou de emoção - Em todos êsses espetácnlos, o elemento lmpcr-
') excepcional pode oferecê-los com exuberância. tante, talvez ode maior importância, foi a Música,
Acontece, então, omilagre de expressão dramática que ligava todos os quadros edava unidade eritmo
pelo excepcional que, em seu esfôrço de compreen- ao rodo. Não teríamos feito grande coisa se não
der e exprimir, se integra no enrêdo e dá vida ao fôssem essa,') maravilhosas músicas do folclore bra-
ECAjUSP BIBUOTECA
I
síleíro (pesquisadas por Leida Felix de Souza een- jeíos, etc.) e de expressão, em sessões trabalhadas
saiadas por Doris de Carvalho), e também se não não como exercícios, prõpríamente, mas como dra-
fôssem bem nossas, pois éimportante para oexcep- matizações (para isso se escolhe uma situaçâc ou
cional sentir a autêntiçidade do ritmo para poder pequeno enrêdo simples); a pesquisa do gesto den-:
expressá-lo. tro de um ritmo, deixando ao aprendiz a liberda-
de ·de improvisar oque quiser, como quiser, deixan-
do-o falar, se quiser; em seguida, aproveitar aqui
g- Tema Inventado pelo Excepcional lo que foi melhor como criatividade espontânea do
excepcional para usar dentro do tema a ser ensaia-
Aúltima experiência realizada nas Oficinas já do; ao trabalhar o tema sempre será necessário
é uma tentativa mais arrojada: o próprio excep- :lar todo o fio do enrêdo do princípio até o final}
cional cria o tema que vai representar. Ao pedir- linda que aestória pareça desligada, no comêço. Te·
mos sugestão de um tema para trabalhar, um dos .íames, então:
aprendizes sugeriu que fizéssemos uma estória in-
teiramente nova, "que ninguém nunca fêz, "di. 1 - OTema (enrêdo simples, objetivo)( deve
ferente de tudo", conforme suas palavras. Daí êsse . ser contado através de gestos ritmados, bem mar-
mesmo aprendiz (A. D.) começou a inventar sua cados, que dêem idéia daquilo que sequer expres-
estória. Aos poucos, em conversas e ensaios, come- sal' e não de outra coisa. Diálogo - nenhum;
çou atomar corpo aseguinte estória diferente, cujos Narração - nenhuma ou mínima, pois o enrêdo
peI'sana"gens eram um re'1, uma prl'ncesa, um bru- simples eação bem marcada dispensam a narração
xo, príncipes e outros ingredientes mais que mân- por não haver oquê explicar, seo tema se ~xplica
[ades de um conto-de-fada convencional, com um pelo próprio acontecer; em substituição ao diálogo,
final feliz, ao ritmo de marcha nupcial. Nas diver- deve-se usar o Cêro falado ou cantado.
sas sessões de tentativa de desenvolver o tema, a 2- Personagens eMarcações devem obedecer
vitalidade do velho conto foi despontando, e pare- a convenções rígidas através do Ritmo eda Música.
.ela apenas aguardar a criatividade do excepcional
para dar-lhe nova expressão. Foi o que aconteceu. Oespetáculo se transforma, então, num brín-
Aespontâneidade e a graça de uma estória singela quedo dramático com estrutura rígida, dentro de
sobressaíram nas marcações medidas (sempre rit- um ritmo medido. A espontâniedade, onde fica?
madas), cantigas, uma macumba para sustentar a Perguntarão. Elà resiste, mesmo dentro dessa rigi-
bruxaria do Bruxo, que enfeitiça a princesa para dez. Por que. obrinquedo não foi imposto aos par-
raptá-la, com um verdadeiro jôgo de capoeira, in- ticipantes. Debatidos os temas eeseo'híuo um dêles,
traduzido no enrêdc, ao lado da briga-de-galo, que 'rem a distribuição dos papéis ou personagens, em
substituíram as lutas de capa-e-espada entre os {ue todos dão palpite; vem a escolha das roupas e
príncipes. Oenrêdo teve seu convencionalismo dis- acessórios, que êles próprios bolam, fazendo os cro- .
farçado pela forma de apresentação do espetáculo, quis antes de fabricá-los. Aespontaneidade resiste,
a simplificação das marcações eabelesa dos trapos por que todos aceitam o espetáculo como um jôgo
eacessórios bolados pelos próprios Aprendizes. em que as regras são conhecidas de todos eimpos-
tas por êles próprios. Os ensaios não a prejudicam.
Conforme acontece no brinquedo infantil, a repe-
Conclusão tição do jôgo não prejudica a espontâniedade. Ao
contrário, a atividade se enriquece cada vez que é
Pelo que vimos, as regras para êsse tipo de tra- repetida, dentro das regras impostas. eaceitas pelos
balho seriam, em primeiro lugar, a pesquisa isola- bríncantes, pelo prazer que proporciona ao brín-
da de gestos (habituais eprofissionais, egestos ex- cante. É a liberdade de eriaçâo e de expressão den.
pressando sensações, ou de atitudes (animais, ob- tro das regras do jôgo.
TRÊS JOGOS DRAMÁTICOS

que tenta envolver ospersonagens como tentáculos


de polvo. ápavorados, como num pesadelo; não en-
tendem oque se passa,' tentam se desvencilhar dos
galhos, lutando desesperadamente. A uma segunda
batida do tambor, a planta começa a regredir, di-
mínuír, tornando-se uma pequena planta, de cuja
haste sai uma linda rosa vermelha. Os personagens,
num clima de pesadelo' e sonho, se aproximam
cuidadosamente do vaso, é, ainda no mesmo clima
de sonho, observam a flor.

3 - A Fuga
1 - ARecordação
o prisioneiro está só em cena sentado num
banquinho, à esquerda. . '
oespaço cêníco éuma velha casa. Uma cadeira Levanta-se ecomeça a andar na cela.
no centro. Ali viveu uma pessoa muito querida: Desanimado, ~olta 8:0 banco,
uma velha avó, por exemplo. Opersonagem chega
após dez anos de ausência e, ao ver a cadeira, co- Encolerizado,
' dirige-se para a porta, e tenta
meça a recordar e a sentir saudades: sentimentos abri-la, esmurrando-a.
de alegria e tristeza que as lembranças do passado Acalma-se.
lhe trazem. ' Oguarda aparece à direita ecaminha em tôdas
as direções.
Depois avança em direção da cela, passa pela
frente e continua D caminho.
2- APlanta .Milagrosa Oprisioneiro oure os passos do guarda, e fica
imóvel. '
Duas pessoas recebem um vaso de planta, onde Oguarda volta ao ponto de partida e começa
só há terra. CUl1030S eintrigados com tão estranho aler ojornal.
presente, observam o vaso. Durante algum tempo os dois permanecem
cada um em sua posição, o guarda se mostra
Repentinamente, do 'meio da terra nasce o tranqüilo e.satiSfeito, oprisioneiro desanimado.
brôto de uma planta desconhecida. Susto (mareado
ao tambor, pelo. professor ou monitor), Aplanta Aparece ao fundo da cena, no centro, um ter-
começa a crescér aos olhos dos dois, que vão se cerro personagem.
afastando, amedrontados diante de fenômeno tão Está na rua, ao lado do muro da prisão.
insólito. Aplanta continua a crescer, crescer, os Olha, cautelosamente, em volta, depois se de-
galhos atingem o teto, horríveis, num movimento cide a subir omure,
I 4 .'

Subida eescalada do muro.


No interior da prisão, avança com precaução.
Percorre corredores e escadas, aproximando-se
da cela.
De repente vê o guarda.
Recua lentamente, a fim de evitar o guarda,
mas faz barulhoe oguarda se volta.
Um tempo. Os dois se medem com oolhar.
Engalfinham-se. Lutam.
Oguarda é morto.
Ooutro apanha as chaves e corre para a cela,
percorrendo corredores, escadas, etc.
Oprisioneiro, que estêve imóvel duranteêsse
tempo, ouve os passos de seu salvador. Levan-
ta e escuta. .
Ooutro pára diante da porta, põe a chave na
fechadura eabre.
Grande alegria.
Os dois fogem.

(Do livro, asair: Cem Jogos Dramáticos, de M. Clara


Machado eMarta Rosman)
TEXTO PARA ESTUDO
VOLPONE, de BEN JONSON

Tradução de NEWTON BELLEZA

Cena 3 (II Ato)

Um aposente na casa de Corvino o reconhecimento público de meus chi- de em relação ao que determino dora-
fres e guardarei o dote. Sou eu um ho- vante. Toma nota. Primeiro eu te pri-
landês, eu? Pois se te passasse pela ca- varei da obscenidade da luz, fechando
(Entra Corvino, com uma espada na beça que sou italiano, tu te condenarias a janela. Até que isso se execute mar-
mão, .arrastando Célia) a qualquer outra sorte antes de fazer
• • I 1
eare; a gIZ uma linha de duas a três
uma coisa desta, sua safada! Tu tremes jardas que não poderás de forma algu-
CORVINO - Destruir a minha hon- ao imaginar que amorte de pai, mãe, ir- ma ultrapassar, sob pena de desabar sô-
ra com êsse bufão de rua! Um tagare- mãos, tôda a tua raça, se seguirá à tua bre ti um inferno maior mais horrores
11

la saltimbanco, um tira-dentes, um es- na minha sêde de justiça. ' e mais cóleras selvagens e sem remorso.
camoteador! E publicamente à janela! CÉLIA - Tenha paciência meu bem
1
do que sôbre um esconiuradc que se
Enquanto, com os seus forçados trejeitos senhor. afaste do seu círculo de segurança, an-
e a miséria de seus esgares, êle entre- CORVINO - Que poderias esperar tes que o demônio lhe tenha sido exorci-
tém a comichão de teus olll~dos com o de menos para ti, no auge de minha in- zado. Eis aqni um caéesdo com que te
sermão de sua droga, uma multidão d~ dignação? Aguilhoado pela desonra, se- prenderei. E, pensando melhor eu te
velhos celibatários libertinos notórios ria capaz de atravessar-te tantas vêzes distanciarei da frente da casa.' Eu te
te crivava de furtivos olhares de sáti~ êste aço que ficarias de olhos esgazea. levarei para um quarto dos fundos, só
ros; E tu sorrindo mui graciosamente, dos como um caprino. ll'OS fundos te moverás, tôdas as tuas
dando asas à espeetativa de teus fa- CÉLIA - Oh! Senhor, acalme-se! Não perspectivas se reduzirão a êsses fun-
vores, para satisfação dos fogosos es- poderia imaginar que por permanecer dos, e somente nesses fundes terás da-
pectadores! Era então o saltimbanco a à janela excitaria a sua impaciência qui por diante algum prazer. Vê só a
isca dêles? e o assobio convencional! mais agora do que de costume. que obrigas uma natureza bondosa, come
Ou estavas enamorada de seus anéis de CORVINO - Não! Nunca procurash; é aminha. São os teus modos sem freios.
cobre, suas jóias de açafrão encastoadas antes entreter conversas fiadas com um recnnheee-o pois, que me fazem assim
de pedra-de-sapo, de sua fatiota rei- bandido notório, perante a multidão! Foi proceder, uma vez que não podes con-
ta de pano grosseiro, sob a carapuça de um gesto teatral aquêle.de atirar 'o teu ter as tuas sutis narinas na suavidade
malha? ou a sua eediça guedelha ence- lenço, queêle acolheu com ternos bei- de um aposento e tens de aspirar sua-
rada? ou a sua barba engomada? Ora, jos e, com certeza, te devolveu com uma rentos transtuntes no cio. (Batem à
ainda o terás, certamente! Êre aqui virá carta marcando encontros alternados 'em porta) Sai, 'e que não sejas vista soo,
c te ministrará fricções para ser ma- casa
· de tua irmã, de tua mãe , de tua pena de te cortar a vida. E não ·àlhcs
mãe. Vejamos. Quem sabe se não pre- tla. pela janela senão ... Um momento ain-
feririas as exibições, acompanhá-lo nas CÉLIA - Oh! Caro senhor, quando da, escuta aqui. Que a fortuna nã'o me
exibições? Ora, se quiseres, podes dar poderia eu servir-me de desculpas de bafeje, sua safada, senão faço a ana-
espetácalos sem dúvida
t r
que o podes: visitas, se apenas saio, e isso mesmo tomia de teu corpo, não deu ensanehas
dessa forma mostraras as pernas. Toma muito raramente, para ir à igreja? a meu próprio eu, e não faço uma cen-
de uma cítara, Senhora Vaidade, e as- CORVINO - Pois muito menos sairás. íerêncía pública na cidade sôbre ti. Vai-
socia-te a êsse homem virtuoso. Farei As restrições anteriores eram liberda- te!
.~... '."

(Sai Célia. Entra um criado) um quarto - um óleo. sôbre pêlo de so do conhecimento apenas de uma ou
gato selva5}em. Finalmente, decidiram duas pessoas ...
Quem está aí? todos que a única indicação certa para . CORVINO - Rogo-te que me deixe
CRIADO - É osenhor Mosca, senhor. a sua saúde seria deitar-se com êle uma um momento. (Caminha de ;um 'ladn pa-
CORVINO - Mande-o 'entrar. (Sai o jevem sensual e extr~aordin~Tiamente ra outro) Qualquer outro homem que
criado) Foi o seu patrão que morreu. vigorosa, Iníelianeníc, 'e muito invo- tivesse a minha surte desta oportunida-
Sempre chegam boas notícias para com- luntàriamente estou eu encarregado de de... A coisa em si, sei-o muito bem,
pensação das más ... conseguir êsíe remédio, do que lhe dou nada significa. Onde estou que não te-
conhecimento antecipado, esperando tam- nho o domínio de meu sangue e de mi-
(Entra Mosca) bém o seu conselho, uma vez que é o nhas afeições como o idiota dêsse 'mé-
senhor a pessoa mais Intimamente li- dico? Sob o ponto de vista de honra
gada a êle, De minha parte, como seu tanto faz uma filha como uma espêsa.
Ora. viva Mosca! Adivinho o que te dependente, senhor, não quero tomar '
traz aqui! resoluções sem ouvi-lo, sem interferir MOSCA - (A parte) - Oiço-lhe os
MOSCA - Receio que não, senhor. nos seus direitos. Contudo se eu rela- passos.
CORVINO - Não é a morte dêle? xar poderão delatar-me ao meu amo, CORVINO - Será ela. É isto. Se ês-
MOSCA - Pelo contrário. Iazendn-me perder a sua confiança, e se médico que nada tem que ver com
então, tôdas as suas esperanças, ven- êle, a não ser como assisíente, o que é
CORVINO - Não é oseu restabeleci- turas, ou o que quer que seja, irão de muito pouco, lhe oferece asua filha por-
mento? águas abaixo! Cabe-me apenas infor- que não o faria eu, que sou realmente
MOSCA - É, sim , senhor. má-lo, senhor. Acontece que estão to- uma pessoa sua? Passarei à sua frente.
CORVINO - Uma maldição, um en- dos êles disputando quem será o esco- Marreco! Ambicioso marreco! (alto) To-
feiticamento pesa sôbre mim. As des- lhido para a prestação dêsse favor, c mei uma decisão, Mosca.
graças se juntam para oprimir-me. Co- portanto. .. Sem rodeios, penso acon- MOSCA - Como, senhor?
mo? Comn? Como? selhá-lc bem lembrando-lhe que não CORVINO - Agiremos no seguro. A
MOSCA - Ora, senhor, com o óleo deixe que passem à sua frente. mulher para o caso será a minha pró-
de Escoto. Corbaccio 'e Voltare lho leva- CORVINO - Fim de minha esperan- pria mulher, Mosca.
ram e, enquanto ell estava ocupado num çal Vejam só a minha má fortuna! É MOSCA - Foi a primeira coisa em
aposento interior ... melhor assalariar uma meretriz qual- que pensei, senhor, eonquanto não ou-
CORVINO - Raios! Aquêle amaldi- quer. sasse dizê-lo. E veja ban que osenhor
coado saltimbanco! eu mataria êsse ea- MOSCA - Pensei também nisso, se- os decapitou a todos. Isso é que se cha-
;alha se não fôsse a lei. Não pode ser; nhor. Mas são elas tão malignas e as- ma assegurar uma posse! E, na sua pró-
seu óieo não ['eria essa virtude. Nã'o o tueiosas ... A velhice é tonta e maleá- xima crise, nós o deixaremos ir embo-
conheci como um velhaco vulgar, tocan- vel.Entrevejn 'o risco d'e se lançar mão ra, Basta tirar-lhe o travesseiro de sob
do vi'olão num albergue, com uma pros- de uma que acabe enganando a nós to- a sua cabeça para êle sufocar. Isso te-
tituta a fazer cambalhotas e, depois de dos. ria já sido feito se não fôssem os seus
seus números forçados, contentar-s'e com CORVINO _ Tens razão. . estranhos escrúpulos.
uma pobre colherada de vinho fermen- MOSCA - Não e não. Deve ser una CO~VI~O - Peste! Co~o a min3~
tado com mosca dentro? Não pode ser. sem malícia senhor. Um sêr ingênun . conSCle~Cla perturba a. minha razao.
Todos os seus ingredientes são fel de: é talhado para isso. Alguém sôbre quem Bem, nao I~e demo~arel, e espero que
carreiro medula de cadela torrada la- o senhor tenha autoridade. O senhor assim o faras também sob o l'ISCO ~e
gartas pisadas, unto de capão nôvo e nãn possui nenhuma parenta? Pense, qu~: os ,outros apareçam antes de nos
saliva em jejum. Cenheçc-os muito bem. pense, pense pense e pense, senhor. Um ~al para casa, predíspêe-e para ISSO,
MOSCA - Nada sei, senhor. Mas al- dos médicos oíereeeu uma de suas fi- dize-lhe com que zel~ e com que vcn-
gumas gotas aplicadas lá no ouvido dêle lhas. tade corro a seu seruçe.
e algumas no nariz foram a conta para CORVINO _ Como assim? Jura-lhe, COI~O t:ns a habilidade de
restabelecê-lo. Talvez a fricção ... • t o fazer, que nao tive um momento de
CORVINO - Diabos levem a fricçá'o! MOSCA - Sim, osenhor Lupa, o me- hesitacão tê tudo resolvi no primeiro im.
MOSCA - E, desd'e então, cada qual dica. pulsa
mais solícito e atencioso com a sua saú- CORVINO - Sua filha? MOSCA - Garanto-lhe, senhor que
de tem-se esmerado em assisti-lo. À MOSCA - É uma virgem, senhor. Ora o convencerei de tal forma que todos
custa de altos honeráries, nbtíveram essa, êle conhece o estado de seu corpo, os outros serão evacuados, e somente o
consulta dos dcutêres da faculdade, pa- como está êle, que somen~IÇ uma febre senhor recebido. Mas não venha, senhor,
ra ver como poderia ser êle restabele- pode aquecer-lhe o seu sangue, e ne- antes que dê aviso pois tenho mais al-
cido. Um aconselhou cataplasma de es- nhum encantamento lhe faria subir D, guma coisa que providenciar em seu be-
peciarias, 'Outro um macaco esfolado sô- cabeça. Um prolongado desuso fêz tudo nefício, uma coisa que não lhe posso ain-
bre opeito, um terceiro - um cachorro, adcrmeeer. Além disso, senhor, será is- I da dizer.
FARSA·~~·EL
CORVIND - Mas. não, se esqueça de
mim.. '
M;OSCA - Nada receie. (Sai Mosca) ."
. '.
OD·R AMA
CORvINo ~ Onde estas tu, minha" ,c..
. 4 t "

Célia! Minha mulher! (Volta Célia)


Oh! de olho inchados, Anda, enxuga
luas lágrimas. Estou vendo que me to- Afarsa e o melodrama são estilos altamente
maste a sério mesmo. Pela luz que me . teatrais daquela espécie que Checov deplora como
ilumina eu só falei para te experimen-
tar. Pensei que a futilidade do motivo
inatnraís; não obstante, usa-os secretamente; tanto
bastasse para te esclarecer. V'am, não quanto qualquer de seus ccntemporâneos, embora
'estou com ciumes. estejam cuidadosamente" disfarçados, na generalí-
CÉLIA - Não? Jade dos casos.
CORVINO - Sinceramente que não David Magarshaci eEric Bentley chamaram 8,
estou, nem nunca realmente estive. É nossa atenção para o elemento burlesco no drama.
um vício que para nada serve. Então não
sei eu que, se as mulheres têm um de- de Checov, geralmente ignorado por Stanislavski,
sejo, elas o satisfarão contra tôdas as ao encená-lo, e menosprezado por leitores inaten-
vigilâncias do mundo, e que os mais fe- tos, demasiado absorvidos no patético chcccviano.
rozes espiões em pouco serão 'escamo- Um vaudeviliano soberbo, Checov usa a farsa, livre
teados pelo dinheiro? Ei, tenho eoníian-
ça em ti ainda o verás, Para que o e francamente, em seus episódios em 1 ato:
creias oíerecer-íe-ei a ocasião. Anda
, I
"Nas coisas em 1 ato", aconselha êle a Suvorin,
beija-me. Vai aprontar-te agora mesmo, "devem-se escrever tolices abselutas - aí reside a
com os teus melhores adamos, as tuas
jóias seletas, usa-os todos e com êles,
I
fôrça delas".
os teus melhores atrativos pessoais Es- Na sua obra de dimensões ortodoxas, porém, a
tamos eonvidados para uma festa sole- farsa funciona menos pelo valor como tolice do
ne na casa do velho Volpone, onde ve-
rificarás por ti mesma como estou lon- que pelo efeito irânico. As peças de Checov, eviden-
ge de qualquer ciume ou receio. temente, estão repletas de buíêes.De fato, com ex-
ceção de suas inocentes e jovens heroínas (Nina,
Sânia, Irina, Arria), quase tôdas as personagens de
Checov têm seu lado burlesco. Aconfusão gague-
jante de Ireplev, após suas discussões com a mãe;
as lrremediàvelmente fracassadas tentativas de a~­
sassinato, por Vânia; otrambolhão de Irolímcv, ro-
FIl\'I DO II ATO lando escada abaire, após sua colérica despedida
de madame Ranevsky - são apenas alguns exem-
plos de como Checov esvazia suas personagens a
fim de que sôbre elas se formule juízo cômíeo. Na
realidade, Checov usa a farsa como um recurso sa-
tírico, para nos distânciar de uma personagem dr.
maneira que não haja um envolvimento excessiva-
mente simpático em face de suas pretensas poses
de autocomiseração ou melancolia.

(Volpone, de Ben Jonson - Ed. do


(O Teatro de Protesto, de Robert Brustein, Za-
Ser,!i~o Nacional .deTeatro -:.ME.G) har Editôres - Rio)
o QUE VAMOS REPRESENTAR:
brincadeira em 1 ato de ANTON CHECOV
Tradução de Brutus Pedreira e Eugênio
Kusnet

Personagens: ANImEI ANDREIEVITCH HIRIN - (à porta 'gritando) - Man- (Ouvem-se vozes e aplausos. Avoz de
CHIPmCHIN, presidente da Scciedade de buscar, na farmÁcia, quinze kopeks ChiputchinJ ((Obrigado! Obrigado! Agra-
de Crédito Mútuo de N Homem de valeriana. Mande trazer I também, um deço comovido!)
de certa idade, Usa monóculo.. pouco de água fresca ao gabinete do di-
TATIANA, sua mulher 25 anos CHIPUTCHIN - (Entra. Está de ea-
reínr. É preciso repetir cem vêzes! (Vai saca. Traz, na mão, oálbum que seus co-
KUS~IÁ NICOLAIEVITCH HIRIN, con- à escrivaninha). Estou cempletamenle laboradores acabam de oferecer-lhe.
tador do Banco. Velho. esgotado. Faz quatro dias que escrevo, Fica na porta falando para o interior
NASTÁSSIA nIERTCHUTKINA,'velha. sem sequer fechar os olhos; de manhã dos escritórios~) Êste preseníe de vocês,
l1IEnrnROS DA DELEGAÇÁO DOS à noite, aqui; durante à noite, até de meus caros colaboradores, hei de con-
ACIONISTAS DO BANCO manhã em casa. (Tosse) E ainda por servá-lo até a minha morte como re-
,
cima, esta erupção no corpo inteiro! Ora cordaçãn de um dos dias mais felizes
sinto frio, ora calor; tosse, dor nas per- da minha vida! Sim, meus senhores, hei-
nas e na vista uma espécie de... ris- de conservá-lo! Mais uma vez; obrigado!
.'
qumhos... (Senta-s)e Onosso macaco, (Aplausos, Envia um beijo com a mão
êsse .patííe do presidente, vai ler hoje, e vai à escrivaninha de Hírín.) :Meu ca-
na assembléia geral orelatório: "Nosso ro' meu prezadissime senhor Kusmá Ni-
Banco no presente eno futuro" Vejam colaievitch.
só que grande• orador I que Gambetta!• .. ,
( Escreve ) DOIS... um ... um seIS .. HIRIN - (levantando-se) - Tenho
Gabinete do Presidente do Banco à sete zero Depois, seis zero . a honra de felicitá-lo senhor Andrei
1

esquerda, uma porta que abre para os um seis Quer botar poeira nos Andreieviteh, pelo décimo-quinto ani-
escritórios. O gabinete está mehíliade olhos da diretcria, e eu tenho que tra- versário do nosso banco, edesejo que. ,.
com pretensões de luxo requintado: mó- balhar para êle, como um condenado a CHIPUTCHIN - (Com um forte
veis de veludo, flôres, quadros, estatue- trabalhos forçados ... Só vai meíer poe- apêrto de mão) Obrigado, meu caro.
tas tapêtes, cortinas, etc, Duas escriva- sia neste relatório , mas eu é que tenho obrigado! Num dia glerieso como o de
ninhas, Telefone. de fazer cálculos odia inteirinho ... Que hoje, o dia do jubileu, suponho que po-
o diabo carregue a alma dêle: Não su- demos abarçar-nnsl (Abraçam-se) Es-
porto! (Escreve) Um... três sete... tou muito muito contente! Obrigado pe-
dois... um... zero ... Diz que vai gra- lo serviço:,. por tudo ... por tudo, obri-
tificar-me pelo trabalho. Se hoje tudo gado! Se durante o tempo em que te-
correr bem e êle conseguir tapear o pú- nho tido 'a honra de ser presidente dês-
blíec, prometeu que me daria uma me- te banco, alguma ciosa de útil se fêz,
dalha de ouro para a corrente do meu devo isso aos meus colaboradores. (Sus-
relógio, e trezentos rublos de gratifica- pira) É, meu velho, quinze anos, quinze
ção.,. Vamos ver. (Escreve) Mas se anos. .. como me chamo Chiputehin,
meu trabalho fôr perdido, 'então, ir- (Vivamente) Então, como vai omeu re-
mãozinha, não se queixe! Sou um ho- lat6rio? Adiantado?
mem violento, Estouro por qualquer coi-
É meio-dia. Hirin está só. Calça chi- sa! Eu, irmão quando me esquento sou HIRIN - Sim. Faltam umas cinco
nelos. capaz até de cometer um crime! Él páginas,
.
o JU8ILEU
·.

(*).

CHIPUTCHIN - Esplêndido! Quer tripador! Palavra! Não enmpreendo por- aqui a delegação dos membros do Con-
dizer que fica pronto para as três horas? que é que osenhor as odeia tanto! selhc, e o senhor está de chinelos, ..
HIRIN - E eu não compreendo, se- coni êsse eaehe-cel com êsse paletó
HIRIN - Se ninguém me atrapalhar, de uma côr absurda... Poderia muito
fica. Falta pouca eoisa, nhor Andrei Andreievitch, porque é que
o senhor gosta tanto delas! (Pausa) benl vestir uma casaca ou pelo menos
CHIPUTCHIN - Excelente! Excelen- CHIPUTCHIN - Os 'empregados oíe- um terno prêto.
te! Como me chamo Chiputchin! A as- reeerani-me agora êsíe álbum, .e 'os I:lIRIN - Mais me importa a minha
sembléia geral começa às quatro. Por membros do conselho - conforme ouvi saúde do que os membros do Conselho.
favor, meu caro dê-me a primeira par- falar - desejam oferecer-me outro ál- Bstou com erupção ~o corpo inteiro.
te, assim vou estudando ... Dê-me, de- bum euma taça de prata... (Bríneande CHIPUTCHIN - (Nervoso) - Mas
pressa.. , (Abre o relatório) Depesito com o monóculo) 6timo, como me cha- tem de concordar que isto não é possí-
neste relatório enormes esperanças ... mo Chiputchin. Nunca é demais .. vel que é uma deserdem! Osenhor es-
É a minha prníessien de fo~ ou melhor para a reputação do Banco é aeeessârin
j

tá destruindo o ensemblel
o meu fogo de artifício ... É isso mes- que haja uma certa pompa, com os dia-
mo! Meu fogo de artifício, como me cha- bos!O senhor é de casa esabe, natural- HIRIN .; Quando a delegação chegar,
mo Chiputchin! (Senta-se e lê o rela- mente de tudo... O discurso fui eu posso esconder-me... Não tem muita
tório) Estou entretanto, infernalmente mesmo, que o eseren... . , importância. (Escrevendo) Sete... um/
A taça, tam- sete ... dois ... um ... cinco ... zero ...
cansado. .. A noite passada, tive um bém a comprei, .. Bom, a encad'ernação
ataque de gôta, '. Amanhã inteira pas- dos álbuns custou-me 45 rublos ... mas Eu também não gosto de desordem! O
sei atarefada numa cerraria (doida. não se pode evitar isso. tles, sozinhos, senhor faria muito bem se não convi-
Depois, 'essa excitação, tantas ovações, não conseguiriam fazer tudo. (Olhando dasse senhoras para o jantar do ju-
tôda essa agit'ação... Estou cansado, em redor). Veja que ambiente! Que am- Meu... CIDPUTCHIN - Que idéia
mesmo, cansado! HIRIN - Eu sei. .. O senhor para
bieníel Dizem que sou mesquinho, mi- ser chie, vai encher 'o salão de damas ...
HIRIN - (escrevendo) - Dois .. , ze- nucioso que só quero que as maçane- Mas veja bem elas podem pôr tudo a
ro ... zero ... três... três ... nove... tas das' portas brilhem... que os em- perder, Delas é que vem todo o estra-
dois. " zero... Estou enxergando ver- pregados usem gavetas modernas e que, goe desordem.
de, por causa destas cifars três .. na entrada haja um porteiro gordo ... CIDPUTCHIN - Ao contráriojapre-
um... seis ... quatro ... um cinco . Mas não, meus caros senhores; as ma-: sença de senhor~s enobrece qualquer
canetas e o porteiro gordo não são mi- recinto!
CH$PUTCHIN - Iíouve, também ou- núcias! Em casa, posso ser burguês co-
tra coisa desagradáveL.. hoje de'ma- mel' edormir. como um porco, beber, co- HIRIN - É... A sua senhora pare-
nhã, apareceu sua espôsa, lá em casa, mo um... ce que é instruída mas na segunda-
e queixou-se de nôvo do senhor. Disse- feira deu uma rata 'que fiquei dois dias
me que, ontem à noite, 'o senhor correu HIRIN - Nada de alusões, por favor de bracos abertos, de tão 'espantado...
atrás dela e de sua cunhada, com uma CHIPUTCIDN - 11as ninguém está De repente na presença de gente estra-
faca na mão. Que é isso, senhor Kusmá? aludindo a coisa nenhuma! Que gênio nha, perguntou: /CÉ verdade que meu
Quê modos são êsses? Ai, ai, ai! impossível! Bem... como estava dizen- marido deu ordem, no Banco de com-
do, em casa posso ser burguês, parvenu, prar uma por~ão de ações do 'Banco de
HIRIN - (carrancudo) - Atrevo-me e entregar-me a meus hábitos mas aqui Driajsk e que a cotação delas na Bolsa
senhor Andrei Andreievitch por causà tudo deve ser en grand, É Um banco, eaiu muito? Ah, meu marido anda ago-
do jubileu, afazer-lhe um p~dido. Peço- qualquer detalhe aqui deve, por assim ra tão preocupado!"'" E isto, na pre-
lhe, ao menos em consideração a meu dizer impor-see ter um aspecto majes- sença de gente estranha! Não compre-
trabalho de forçado que não se meta na toso!' (Levanta do chão um pedacinho de endo porque o senhor é tão franco com
vida de minha família. Peço-lhe enca- papel e atira-o à lareira). elas! Porque lhes fala de coisas impor-
recidamente! ' O meu mérito consiste exatameníe tantes? Diga-me: quer que elas o le-
CHIPUTCHIN - (suspirando) - Seu no fat'O de ter elevado muito a reputa- vem ao tribunal um dia?
gênio é impossível, senhor Kusmá Nico- çãço do Banco. O tom é uma grande CHIPUTCHIN :- Chega, chega] Para
laievitch. Osenhor é uma boa pessoa, .. coisa! uma grande coisa, como me cha- um dia de jubileu, tudo isso é muito
respeitável. " mas, com as mulheres, mo Chiputehin] (Examina Hirin) Meu sombrio. E por falar nisso, o senhor
comporta-s'e como se fôsse Jack, o Bs- caro, a qualquer instante pode entrar me fêz lembrar... (Olhando o relógio)
A minha cara metade deve estar che- CHIPUTCHIN - Querida, hoje é .(Ouvem-se vozes: Não pode! Não
gando. Eu devia ter ido à estação para 'O dia do nosso jubileu. A qualquer mo- pode! .9. que é que deseja?)
esperá-la mas não dá mais tempo e, ... mento pode aparecer a delegação dos MERTcHUTKINA
. (Entra.
. Na porta,
estou eansadc. Confesso que não me- membros do Conselho, e você não está debatendo-se) Não me \agarre! Deixe-
sinto muito satisfeito com asua vinda... vestida... me! Ora essa! Quero ver ohnmeml (En-
Qu'Cr dizer estou contente, mas fica-
I TATIANA - É verdade - ojubileu! tra. AChiputchin) Tenho a honra Vos-
ria ainda mais se ela resolvesse demo- Meus parabéns ... desejo-lhes ... Quer sa Excelência... Espôsa de escriturá-
rar-se mais dois ou três dias na casa dizer que vamos ter reunião, jantar... rio, Nastásia Mertchukina.
de sua mãe. Vai querer que passe a Gosto disso! E o discurso dos membros
noite com ela, e nós tínhamos organi- do Conselho, que você levou tanto tem- CHIPUTCHIN - Que é que a se-
zado, entre amigos, uma pequena esca- nhora déseja?
poescrevendo? ~les o vão ler para
pada para depois do jantar... (Estre- você, hoje? MERTCHUTKINA -Digne-se ver,
mece) Ora essa! Está começando outra HIRIN (tosse, aborrecido).· Vossá Excelência: o meu marido, o es-
vez o meu tremor nervoso. Tenho os CHIPUTCHIN - Meu bem, essas criturário Martchutkin, ficou doente
nervos tão esticados que bastaria uma coisas não se contam... Olhe, é melhor cinco meses , e quando estava de cama,
eoísinha qualquer para dar-me vonta- você ir para casa ... em tratamento, em casa, foi despedido,
d'e de chorar... Mas não, é preciso ser TATIANA - Já vou já. Num minuto sem razão nenhuma, Vossa Excelência ,
forte, como me chamo Chiputchin! conto tudo e vou-me embora. Vou contar e quando eu fui buscar o ordenado dêle
(Entra Tatiana, em traje de viagem, tudo do princípio. Bem... Quando me - digne-se ver! Eles descontaram do
com uma grande bôlsa) levou à estação - você se lembra? Eu ordenado 24 rublos e 36 kope~! "Por
CHIPUTCHIN - Veja só! Cá está ela! me sentei ao lado daquela senhora que"? - perguntei. E êles dizem "Êle
gorda e comecei a ler. Não gosto de pediu enprestado da caixa do auxílio
TATIANA - (correndo ao encontro conversar no vagão. Passamos três es- mútuo, e os outros prestaram fiança
r '

de Chi~utchin) Querido! (Longo beijn) tações; eu estava lendo e nem uma pa- por êie". Foi 'O que responderam. Como
C'HIPUTCHIN - Estávamos falando lavra, com ninguém. Bom... Chegou a é isso? Como é que êle podia pedir em-
de você (Olha o relógio). noite e - sabe - vieram-me à cabeça prestado, sem o meu consentimento?
umas idéias tão ~rúgubres! Na minha Assim não é possível, Vossa Excelên-
TATIANA (ainda ofegante) Teve frente estava sentado um rapaz... as- cia, não está certo! Sou uma mulher
saudades de mim? Passou bem de sa- sim, assim , bonitinho, moreno. Bem ... pobre, só me aguento porque tenho uns
úde? Ainda não estive em cas'a ... da enmeçamos a conversar... Apareceu inquilinos. .. Sou fraca , indefesa ...
estação, vim diretamente para cá. Tenho um oficial de marinha e, depois, um Sofro ofensas de todo o mundo, e de
tanta, tanta coisa para contar-lhe! Não estudante de não sei o quê. (Ri) Eu ninguém ouço uma boa palavra...
pude aguentar ... Não vou tirar a capa, lhes disse que não era casada.. .. Gomo
fico só um minutinho. (A Hirin) Bom CHIPUTCHIN - Com licença ...
me fizeram a côrte! Batemos papo até (Recebe o requerimento, pondo-se de
dia, senhor Kusmá Nicolaievitch. (Ao meia-noite. Omoreno contou umas pi- pé, e lê)
marido) Em casa, está tudo bem? .
adas engraçadíssimas, eo oficial de ma-
CHIPUTCHIN - Tudo. Você en- rinha cantou. Opeito doia-me, d'e tanto ! TATIANA ( a Hirin) É preciso con-
gordou, nessa semana, ficou mais bo- rir... E quando o oficial - ahl êsses . tar do comêço... Na semana passada,
nita... Então, como foi a viagem? oficiais de marinha! quando soube, por. re~ebo~ de repente, uma carta de ma-
TATIANA - õíinamentehem. A acaso, que meu nome era Tatiana, sabe mae Ela escreveu que um tal Grendi-
mamãe eKátia lhe mandam lembranças. o que foi que êle cantou? {Canta, em ,1'evski.pediu minha irmã Kátia em ea-
Vássili' manda-lhe um beijo (Beija-c) voz baixa): sarnento. Um belo môço, modesto, mas
Ah! se você soubesse o que aconteceu, Onieguin, o coração não me engana, S~l~ meios e sem nenhuma situação
A titia mandou-lhe um pote de dôee e Aminha vida é Tatiana! (Ri) solida. E por desgraça - imagine o se-
está muito zangada porque você não lhe HIRIN (tosse aborrecido). nhor - Kátia apaixonou-se por êle: Que
eSCI'Cve. Zino manda-lhe um beijo. CHIPUTCHIN - Olhe, Ianhueha, fazer? Mamãe pedia que 'eu fôsse rá e
(Beija-o) Ah! se você soubesse o que estamos atrapalhando o senhor Kusmá. procurasse convencer Kátia ...
aconteceu! O que aconteceu... Tenho Vá para casa, queridnha, Depois ... HIRIN (carrancudo) Espere, por
até mêdo de contar... AlI, que coisa! TATIANA - Qual nada! Êle pode favor! A senhora me atrapalhou ...
Mas estou vendo, nos seus olhos, que ouvir também, é muito interessante ... Fica aí às voltas com "mamãe" e com
,
você não está contente de ver-me! ... Já vou terminar. Na chegada, o Sérgio "Kátia". .. e eu me atrapalhei todo.
CHIPUTCHIN - Ao contrário, que- estava me esperando. Aí, surgiu um . Não 'entendo mais nada...
rida ... (Beija-a) outro môço qualquer... parece-me que
era o inspetor do imposto de renda - TATIANA - Mas que tem isso?
HIRIN (tosse, aborrecido). assim, assim, bonitinho, principalmen- Mas o senhor escute direito quandoI,
TATIANA (suspirando) AlI! coita- te os olhos ... OSérgio apresentou-nos uma dama lhe fala! Porque e que o
dinha da Kátia! Coitadinha da Kátia . e fomos, os três juntos... Otempo es- senhor está tão nervoso, hoje? Apai-
Tenho tanta pena dela... tanta pena . tava maravilhoso ... xonado? (Ri)
,.
CHIPUTCHIN (Ã rrlertchutkina) Serviço. Médico' Militar e aqui é; um HIRIN - Estou perguntando:' que
Espere, como é isso? Não estou enten- banco, .um estabelecimento particular,
o
deseja?
dendo nada! coaereial. MERTCHUTKINA
. - Meu senhor ,
TATIANA ---' Apaixonado? Ah! Fi- o l\1ERTCHUTKINA -Pois não, pois
o
mande pagar-me 15 rublos, e o restan-
cou vermelho! não ... Compreendo perfeitamente. Nes- te mesm'o que seja daqui aum mês...
te caso mande pagar-me pelo menos HIRIN - Parece-me que já lhe foi
CHIPUTCHIN (A Tatiana) Ianhu- quinze rublos! Concordo que não me
eha, vá, querida, para o escritório ao paguem tudo de uma ,;ez. dito bem claramente: isto aqui é um
banco!
lado. Eu já vou lá.
CHIPUTCHIN (Num suspiro) Df! MERTCHUTKINA - Pois não, pois
TATIANA - Está bem. (Sai) não ... Compreendo muito bem... Mas
HIRIN - Senhor Andrei, dêste
CHIPUTCHIN - Não estou com- jeito nunca acabarei orelatório. se é preciso posso apresentar o certifi-
preendendo nada. Evidentemente, a 5'ê- cado médico da própria repartição.
nhora enganou-se de, enderêçe. O seu CHIPUTCHIN - Esp'ere... (A
il'Iertchutkina) Não há meio de explicar- HIRIN - Isso que a senhora tem
requerimento, na realidade não tem aí em cima dos ombros, é cabeca ou
lhe! Trate de compreender que dirigir- que é que é? •
nada que ver conosco. Queira dirigir-
nos um pedido dessa espécie é tão ab-
se à repartição onde seu marido traba- ~1ERTCHUTKINA -Queridinho,
surdo como encaminhar um requerimen-
lhou. eu estou pedindo pela lei. Nã'O quero
to de divórcio, por exemplo a uma far-
o :MERTCHUTKINA - Vossa Exce- mácia ou ao Ministério da Agricultura. o que não é meu.
lência, já estive em cinco lugares, e (Batem à porta. Voz de Tatiana: IIAn_
o HIRIN - Eu estou lhe perguntan-
ninguém qU'er receber o requerimento. drei, posso entrar?") dO, madame: isso aí é cabeça ou que é
Já tinha perdido a cabeça, mas gra~as a que é? Mas que o diabo me carregue -
Deus o meu genro Boris me disse que CHIPUTCHIN - Espere, querida. não tenho tempo para falar com a se-
viesse ver o senhor. "Vá, mãezinha", Um momento. (A lliertchutkina) Não
o

nhora! (rrlostrando a porta) Faça o fa-


disse êle, "dirija-se ao senhor Chiput- lhe pagaram, mas que é que nós temos vor!
chino Êl'e é um homem de influência com isso? E, além do mais minha S~­
pode tudo"... Ajude-me, Vossa Exce- hora hoje é dia do nosso jl~bileu, esta- MERTCHUTKINA - E o dinheiro,
o o ,

mos ocupados, .. e a qualquer momen- como é?


lência!
to podem entrar aqui. .. Desculpe... HIRIN - Numa palavra: isso, em
CHIPUTCHIN Nós, dona Nastássia, cima de seus ombros, não é cabeça
nada podemos fazer para a senhora. MERTCHUTKINA - Vossa Exce- mas isto. .. (Bate com o dedo na mesà
Compreenda bem: o seu marido, con- lência! Tenha piedade duma órfã! Sou e depois na própria testa).
forme posso julgar, serviu no Serviço uma mulher fraca indefesa, completa- MERTCHUTKINA (Ofendida) O
Médico Militar e o nosso estabeleci- mente esgotada, .. Encrencas com os in- qUe? Olhe lá! Bata na cabeça da sua
mento é absol~tamente particular, co- quilinos, até no tribunal; encrencas com mulher... Sou espôsa de um eseri'u-
mercial, é um banco! A senhora não os negócios do marido... e as tarefas rário... Que está pensando? Comigo
compreende? da casa.,. e ainda por cima, o genro
perdeu o emprêgn ... não!
:METCHUTKINA - Vossa Excelên- HIRIN (Irritado ao extremo 1 mas a

cia, que o meu marido estava doente, CHIPUTCHIN - D. Natássia '2U ••• mela voz) Fora daqui!
disso eu íenho atestado médico. Olhe, Não, desculpe, não posso falar 'com a
aqui está, digne-se ver. senhora! Acho até que vou ter uma ver- MERTCHUTKINA - Não não e
uão! Comigo, não?
CHIPUTCHIN (irritado) Muito bem, tigem... A senhora está nos atrapa-
1

acredito mas torno a dizer que nós não lhando e perdendo o seu tempo inútil- o HIRIN (a meia voz) Se você não
temos nada que ver com isso. (Ouve- mente. (Suspira. À parte): Que cabe- sair neste instante, vou chamar '0 por-
se a risada de Tatiana e depois uma gar- ça de mula, como me chamo Chiput- teiro! Fora! (Bate enm os pés no chão).
galhada de homens. Chíputchín olha chinl (A Hirín) senhor Kusmá explique MERTCHUTKINA - Não não,
para a porta) Ela está atrapalhando o por favor a dona Nastássia que... (Faz não! Já vi piores, caco velho! '
servieo. .. (A lUertchutkina) É estra- um gesto desesperado e sai).
HIRIN - Nunca enxerguei, na mi-
nho. :. e mesmo ridículo. Será que o HIRIN, aprerimanda-ss ele Th'lert-
seu marido não sabe aonde deve diri- ehukína, severo - Que d~seja? nha vida, coisa mais nojenta! Uf O
gir-se? sangue até me bate na cabeça ... (Res-
MERTCHUKINA - Sou uma mu- pira com dificuldade) Estou dizendo a
MERTCHUTKINA - Êle, Vossa lher fraca, indefesa. De aparência tal- você mais uma vez, ouviu? Se você,
Excelência, não sabe nada. Só sabe di- vez pareço forte, mas se quiser veri- bntxa velha, não sair já daqui, transfor-
zer: "Não é da sua ccntaí Vá embora," ficar, não tenho nem um só pedacinho marei você em pó! Com o meu gênio,
e nada mais ... 'Cm bom estado. Mal me aguento em sou capaz até de deixar você aleijada
CHIPUTCHIN - Repito, minha pé e perdi o apetite. Hoje tomei o café para tôda a vida... Sou capaz até de
senhora: o seu marido trabalhou no sem praZ'êr nenhum ... cometer um crime!
MERTCHUTKINA - Cão que la- MERTCHUTKINA - Vossa Exce- gine você o quê aconteceu? Uns minu-
dra, lião morde..• Não me ass1.].Ste! Já lência, quando posso receber? Preciso tos antes da ceia, íamos com Kátia por
vi piores! do dinheiro. uma alameda do parque e, de repen-
HIRIN - (Em desespêre) Não pos- CRIPUTCHIN - (À parte) com in- Í'C ... (agitada) e de repente, ouvimos
j

so vê-la! Sinto-me mal! Não passo ... dignação) - Mulher ex-ces-siva-men- um tiro-... Não, não posso falar nisso
(Vai à eserivanía e senta-se) Enche- te suja! (A ela, gentilmente) - Minha com calma. (Abanando-se. com o len-
ram obanco com mulherio. .. Não pos- senhora, eu já lhe disse... Aqui é um ço) Não, não posso!
so escrever orelatório! Não posso! banco , um estabelecimento particular, CHIPUTCHIN (suspira) Ui!
MERTCHUTKINA - Não quero o comercial. .. TATIANA (ehorande) Corremos ao
que é dos outros... estou pedindo o MERTCHUTKINA - Tenha pieda- pavilhão e lá ... Tá estava, deitado, o
que é meu... pela lei! Veja que sem- de, Vossa Excelência, seja o pai da pobre Grandilevsky, com uma pistola
vergonha! Num lugar público - de chi- gente... Se o atestado médico não che- na mao ...
nelos! Caipira! ga, posse apresentar certidão da polícia.
(Entram Tatiana e Chiputchin) Mande pagar-me o dinheiro!
CHIPUTCHI N - Não , eu não .
aguento! Não aguento! (A MertcllUtki-
TATIANA - Então, fomos ao baile, CRIP'UTCRIN - Uf! na) que mais a senhora quer?
em casa dos Berejnitsky. Kátia vestiu TATIANA - (A nIertehutkina) - MERTCHUTKINA, Vossa Excelên-
um vestidinho azulzinho, de Chiffon, um Vovàzinha estão dizendo-lhe que a se- cia, o meu marido não poderia voltar
tanto decotado... O penteado alto ia- nhora atr~palha. Como é? A senhora ao serviço?
lhe muito bem. Eu mesma a penteei, .. lião compreende? TATIANA (chorando) Deu um
Vestida e'penteada, era um encanto'
MERTCHUTKINA - Minha beleza, tiro diretamente no coração aqui. ..
CRIPUTCRIN (Já com enxaqueca) minha senhorazinha, se eu não faço, Kátia desmaiou, coitadinha... Êle mes-
Sim, sim... um encanto... A delega- ninguém faz por· mim. .. Parece que eu mo ficou terrivelmente assustado ...
~ão já vai chegar. .. como 'G bebo, mas é só impressão ... olha e pede que chamem um médi-
MERTCHUTKINA - Vossa Exce- Tomei hoje o café sem prazer ne- co Logo chegou o médico e... sal-
lência... nhum... vou 'O infortunado ...
CRIPUTCRIN (abatido) Que mais? CHIPUTCHIN - (esgotado, a ftIer- 11ERTCHUTKINA - Vossa Exce-
Que é que a senhora quer? thutkína) - Quanto é que a senhora lência, não poderia o meu marido vol-
quer receber? tar ao serviço?
~1ERTCHUTKINA - Vossa Exc'c-
~1ERTCHUTKINA - Vinte e qua- CHIP UTCRI N - Não, eu não
lência. .. (Indicando Hirin) Êste aqui. .. tro rublos e trinta e seis kopeks
êsíe mesmn..; ~ste aqui, bateu com aguento! (chora) Não aguento (Esten-
odedo na testa dêle e depois na mesa... CHIPUTc-RIN - Está bem... (Ti- dendo as duas mãos, em desespêrn na
O senhor mandou que êle resolvesse o ra da carteira uma nota de 25 rublos direção de Hirin) Expulse-a! Expuls~-a!
meu assunto masêle fêz troça de mim, e lhe entrega) Tome 25 rublos ... Tome Suplico-te!
• I

com várias palavras Eu sou uma mu- e vá embora. HIRIN (aproximando-se de Tatia-
lher fraca, indefesa . HIRIN (tosse, zangado). na) Fora daqui!
CHIPUTCHIN (sonâmbulo) Está 11ERTCHUTKINA - Profunda- CHIPUTCHIN - Não éela! É aque-
bem, minha senhora, eu vou resolver . mente agradecida, Vossa Ereelêneia' la lá... aquela horrivel.i . (indicando
tomarei provídêneias.i. Vá embera . (guarda o dinheiro). ftlertchutkina) Aquela lá!
depois! (À parte) Está começando o TATIANA (sentando-se ao lado do
ataque de gôta! TATIANA - O que? Que é isto?
marido) Já vou para casa. (Olha o re- Estã louco?
HIRIN (aproximando-se de Chiput- lógio) Mas ainda nãp terminei...Ter- CRIPUTCRIN - É horrivel! Sou
ehin, em voz baixa) Senhor Andrei mino, num minuto, e NOU... O que um d'esgraçado! Enxote-a! Enxote-a!
Andreivitch, mande chamar oporteiro... aconteceu ... Ah! o que aconteceu! En- HIRIN (A Tatiana) Para fora! Vou
que êle a jogue na rua! QU'e negócio é tão fomos ao baile, em casa dos Bare aleijá-la esmagá-la! Vou cometer um
êste? jnisky... Não estava mal, quase ani- . '
cnme:
CHIPUTCHIN (assustado) Não, não! mado mas não muito ... Naturalmen-
te 'lã estava o admirador de Kátia, o TATIANA (fugindo dêle, que a
Ela vai gritar, e neste prédio há muitos persegue) Como se atreve? É um bru-
apartamentos! Grandilevsky. .. Bem, falei com Kátia,
chorei um pouquinho, tratei de con- to! (Grita) Andrei! Salve-me, Andrêi!
MERTCHUTKINA - Vossa Exce- vencê-la e, lá mesmo, ela se 'explicou GHAPUTCHIN (correndo atrás dê-
lência ... com Grandilevsky e não aceitou seu pe- les) Parem, por favor! Tenham pieda-
HIRIN (com voz chorosa) Mas eu dido de casamento. Bem - pensei eu de de mim!
tenho que acabar o relatório! Não te- - arranjei tudo, não podia ser melhor: HIRIN (perseguindo Mertchutkina)
rei tempo! (Volta à eseríranía) Eu acalmei mamãe, salvei Kátia, e agora Fora daqui I Peguem-na. Batam nela I Es_
não posso! posso ficar sossegada ... Mas - ima- trangulem-na!
CIDPUTCHIN (gritando) Parem) MERTCHUTKINA gemendo) Oh!
por favor! Suplico, pelo amor de Deus! oh'
CHIPUTCHIN (gritando) Parem, por TATIANA (g eme II do) Água
favor! Suplico, pelo amor de Deus! água...
MERTCHUTKINA _ Socorro! So- PRIMEIRO DE LEGADO (ecntí-
corro! (guinchando) Socorro! nuando) Areputação (tosse) ... arepu-
TATIANA _ SoC'orro! Socorro! Ai! tação do Banco foi elevada por V. S. a
tão considerável estatura que hoje o
Ai! estou desmaiando... desmaiando... nosso estab~1ldcimento pode ccnerrer
(Sobe numa cadeira e depois cai no com os melliores similares estrangei-
div~ gemendo como quem vai desmaiar),
ros ...
HIRIN (perseguindo fflertchutkina) CHIPUTCHIN - DeI egaç o... ã

Batam nela, batam! Matem! Tirem-lhe reputação... ocu2ação... Recita dois


o couro! versos de qualquer tradução pertugnêsa,
MERTCHUTKINA - Ai! Ai! 80- bem conhecida, de clássico europeu.
corro! Não estou enxergando nada Ai. ... Pausa. Recita dois versos, de preferên-
(Cai desmaiada nos braços de. Chi- cía, de outro clássico).
putchin) PRThIEIRO DELEGADO (continua
(Alguém bate à porta eouve-se nina . mas com grande timidez) Em seguida
voz dizer: Delegação) lançando um olhar objetivo sôbre opre-
sente,;nós,muito prezado e caro senhor
CHIPUTCIDN - Delega ção... Chiputchin... (baixando a voz) Nesse
reputação ... ocupação... case, é melhor continuar d'epois... É
HIRIN (batendo com os pés no melhor, depois ... sim... melhor ...
chão) Fora! Que o diabo me carregue! CHIPUTCHIN -Delegação...
(Arregaçando as mangas) Passe-a para reputação ... ocupação....
cá. Vou cometer um crime! nesta vez
não escapa! Está frita! (Entra a dele-
.
gação composta de cinco cavalheiros,
todos de casaca. Um dêles segura, nas
mãos, o discurse, numa encadernação de
luxo; outro, a taça. Tatiana está deita-
da do divã; Mertchutkina, nos braços de
Chiputchinj ambas gemem baixinho).
PRIMEIRO DELEGADO - Mui
prezado e caro senhor Chiputchin! Lan-
çando um olhar retrospectivo sôbre o (i) Esta peça foi apresentado n'O
passado do nosso estabelecimento finan- TABLADO, a partir de agôsto de 1958,
ceiro e percorrendo, com os olhos do junt~mente com OMatrimônio, de Gogol,
espírito, o seu desenvolvimento grada- com o seguinte elenco: Germano Filho
tivo, chegamos acnnclusêes altamente (Hirim), Ivan Albuquerque (Chiputchin),
favoráveis
. e satisfatórias , É verdade Jacquelhe laurencs '(Tatiana). Maria Mi-
que no primeiro período de sua exis- randa (Mertchutkina), e Carlos Sagrilo,
tência, o volume insignificante de capi- Ugo . Barbieri, Paulo Mathias, Fernando
tal básico , a ausência de operadores José; João Sérgio Nunes, Sérgio Bel-
consideráveis, assim como a impressão monte Karl Studart e Rui Pereira (mem-
dos alvos eolimados, implicam a per- bros do Conselho). Direção de Rubens
gunta hamletiana: "ser ou não ser?" e Correia, Cenário de Joel de Carvalho e
numa determinada época, chegou a ou- Fjgurinos de Kalma Murtinho. Ilumina-
vir-se rumor de vozes a favor do fe- ção, contra-regra, sonoplastia e caracte-
ch a ment o do nosso prezado ban- rização de: Carlos Nem, Ana Maria Mag-
co. Mas naquele moment o surgiu nus, Edelvíra Fernandes e Fred Amaral.
Vossa Senhnria na chefia do estabeleci-
mento. Seu saber, sua energia e seu
tato incomum foram as causas do in- CADERNOS DE TEATRO publicaram, do
vulgar êxito e do florescimento raro da mesmo autor, as seguintes peças em 1
nossa emprêsa, A reputação do Ban- ato: OUrso (CT N° 29) e O Pedido de
co ... (tosse) reputação do Banco ... PANO Casamento (CT N° 38).
Títere - imagem; de .ümâ~ perfe'ição
• I,. .

Quem movimenta 'bonecos 'ditmt? de' um


público infantil e lhes empresto suo voz,' não
dsve esquecer que' cedo resposta· e cada
'movimento devem ser apresentados dramà-
ticamente, isto é, como titiriteiro e atar
é necessário . que se identifique .Com O
. personagem e a situação momentânea do es-
petáculo, participando 00 máximo com osen-
timento e a imaginação. Para fazer ver·e
sentir com vigor e clareza, é necessário deci-
são e prazer pessoal, é preciso estar interes-
sado naquilo que se diz e foz, pôr de foto a
olmo naquilo que realiza, sem esquecer que o
títere é a imagem de uma perfeição e algo
concebido verdadeiramente para um texto ou
para um temo. Nodo mais contrário ao prazer
do espectador - qualquer que seja suo idade
- do que o falto de participação de quem
pretenda diverti-lo, ainda mais em um espetá-
culo de bonecos, pois poro realizá-lo é neces-
sário um verdadeiro e, diria quase[ amor
materno! pelo mundo infantil.

(EI Nilio YEI Teatro, Maria Sgnorelli - Ed. Universitária


de B. Aires)
MARIQUITA DOS GIRASSÓIS (*]
texto para titeres
de MARIA MAZZETTI

Cenário: Uma casinha com telhado


e chaminé. Luzes: românticas.

Ao abrir a Cortina, aparece Thlari-


quita espanando a casa, cortina, palco
ao compasso da música. Mariquita apa-
nha sementes e plantas.

1YIARIQUITA - Eu planto planta. MARIQUITA (VoIta com espana- MAB:IQUITA - Aí! Que horror!
Planto planta. Planto planta. Planto e dor) Ah! Que beleza' Já nasceram mi- Meu lindo jardinzinho! E o Carambo-
replanto planta' (Apanha regador e re- nhas flôres! Ah! Que beleza! Adoro tu- la l~or ai. ..
ga) Rego planta! Rego planta, reg? do bonito! (para o público) vocês tam- RADIO - Carambola é um bandi-
o

planta, rego planta e rego planta. (Sal. bém adoram beleza, que eu sei! (Tom) do de cara enjoada.;. (Mariquita olha
Nascem flôres. Aparece na cortina cara Hum! Que perfume! São cheirosas como o bandido desmaiado e volta) ,
de bandido), botão de paletó. (Aspira e suspira. Co~
n.eça a cantarolar e espanar as flêres. .MARIQUITA - Parece enjoado..
BANDIDO - Detesto planta, de- RÁDIO - É mal-humorado e ran-
~csto planta, detesto planta eôr de plan- Ruído de besouro. Corre atrás com oes- I

zínia... (Mesmo jôgo)


ta. Detesto e detesto. Mariquíta vai ver panador). Sai besouro! Vai comer mi-
só uma coisa! (Sai) nhas ílôresl (Bate com o espanador no MARIQUITA - Parece ranzinza.
o

Bandido que desmaia). Qu'e beseu- RÁDIO - Carambola sofre da ca-


MARIQUITA (volta) Hum! (Con- rão. (Levanta o bandido) Não parece
tentíssima) Que perfume! (Radiante chola.. , (nlesmo jôgo. Sacode-lhe a ca-
besouro! Hum! Bandido Iegít im01!!
beº~. Contra-regra: de chocalho)
surprêsa) Minhas Ilôres nasceram tôdas! (Larga o Bandido, que bate com a
Adoro planta azul, adoro planta rosa, MARIQUlTA - Sofre da cachola.
adoro planta vermelha como tomate. cabeça e desmaia OUTRA VEZ) Acho
qU'ê é o bandido Cristóvão Carambola! RADIO _ É pálido e triste...
o

Moro eredaete-adcrcl (Sai cantarolan-


do. Aparece Bandido) (Mesmo jôgo)
Sinto um frio na espinha só de pensar.
Carambola éum bandido terrível! (Lem- MARIQUITA - Êle está pálido e
BANDIDO - Detesto planta azul. brá) Orádio é que sabe de tudo. (Cha-
trisle. Acho que foi por causa da surra.
Detesto planta rosa. Detesto planta ver- ma) Rádio! Vem me contar! (Entra o RÁDIO - Tem uma pipoca na pon-
melha como tomate. Detesto 1 requete- Rádio). ta (to nariz... (Mesmo jôgo)
detesto! Mariquita vai ver só o que vou
o

fazer com tanta coisa bonita. Detesto I RÁDIO - Alô! Alô! Atenºão! Es- MARIQUITA - Tem uma pipoca
eoisa bonita! Adoro tudo feio. (Para o tamos atrás do bandido Cristóvão Ca- na ponta do nariz.
público) vocês também adoram feiura'j rambola, destruidor de jardins, plan- 'RÁDIO - E é tremendamente ter-
(Bandido se esconde atrás das flêres). tas, flôres canteiros e sementes, rivel. (idem).
MARIQUITA - Parece Tremenda- TELEFONE - Maricota dos Lá- telefone e lê) Consertador de galo-
mente terrível. Treme. Bandido levanta Bemóis. EstaI~mo'~ aí em um minuto.' gema-gemada:.gôrrO"-gorTá-gogÓ.:; Coni
sorrateiro efoge). (Mariquita desliga; ,Sai telefone. Sai ela sertadorde gogó~."; ,Ah' nãO!É,goteir'al
RÁDIO - É êle, dona Mariquita?" cantarolando; Chega bandido sem "más- '(ApareCe -Bandhlacom máscara!e 'uni
MARIQUITA - Parece.. , cara, com mala) lenço na mão) Consertador de gôlío-
RÁDIO - Espie direitinho. BANDIDO - Ah! Ah! Ela pensa goiaba - gciabal - goiabada - goiaba-
MARIQUITA - Já espiei. que teleíonnu para o consertador de te- deira-goela... Consertador de goela, ..
RÁDIO - É ou não é o Carambola? lhades, mas telefonou foi para mim, o Não! É goteira!
JrIARIQUITA - Como é que eu vou Bandido Cristóvã'O Carambola. É agora! BANDIDO -'--- Peguei-alli '
saber? (Entra Mariquita espanando. Bandido ''
se asusta, Cortês). Não a vi ,Madame. MARIQUITA .: Socórro! (Bandido
RÁDIO - Está de máscara. Mil desculpas. Vim consertar o telhado. amarra nIariquita com o lenço. Corta
MARIQUITA - Vou olhar. (Mari- as flôres, Luzes se ,-apagain ç,onfornie
quita procura.) Cadêe eAI e.? Ahl. VaI' ver MARIQUITA - Pode começar. as fIoAres,va~o 'sendo enrtadas, No 'escu;'ro,
que não era o Carambola. Tinha uns BANDIDO - Hum... Falta escada Bandido arrastajlariquíta, Fech"-se a
bigodes tão simpáticos! (Luzes, Relâm- (Tira, sorrateiro, a tesoura da mala e cortina)
pagos e Ruido de chuva), Tenho que ir esconde nas costas). 1 Abre-se a Cortina. As luzes continuam
para casa senão fico ensopada, Que tem- MARIQUITA (para opúblico) Pare apagadlls, Entra o Guarda-vidas, Anda
poraI! Aqui dentro está chovendo. Vou e'e que vi êsses bigodes em outro lado". um pouco, se inclina na ribalta. Levan-
ficar ensopada. Tenho que botar uma (Para obandido) Comece, vamos! ta o rnsío, Acende-se a ribalta.
lata debaixo da goteira, (Sai. Apanha a BANDIDO - Madame, a escada... GUARDA-VIDAS - Fui eu que
lata. Barulho de goteira; à janela, põe MARIQUITA (para opúblico) Já vi salvei dona Mariquita dos Girassóis, Ela
a mão para fora), Parou de chover aí êsses bigodes, Não me são estranhos... estava lá na praia dos Feixes Podres,
fora? Até que enfim, Vou sair antes (Bandido mostra a tesoura ameaçador e se afogando nos peixes podres.' nei um
que eu fique 'ensopada aqui dentro, (Sai esconde-a) Comece, Vamos, ~er~ulho sensacional e salvei dona Ma-
e chama para bastidores) Telefone! BANDIDO (Hipócrita) Senhora a nqmta!!! (Sobe a cena e bate na porta.
TELEFONE (aparece) Alô escada! ' Acende-se a luz)
MARIQUITA - Quem fala? MARIQUITA _ Ah, sim, a escada! ~:rARIQUITA -:- Já vou, se~l Guar-
TELEFONE - Consertador de te- (Para opúblico) Que escada, quanta es- da-VIdas, ES,tou 1brando os penes po-
lhadc! NIARIQUITA - "Seu conserta- cada! (Para Carambola) Quero o ser- dres dos OUVIdos.
dor de telhad~s, quero consertar o te- viço pronto em dez minutos! GUA~DA- VIDAS (vem ao procênio),
lhado! Quase fIco ensopada com a chu- BANDIDO _ Em cinco segundos, Eu quen~ s.aber quem foi que jog'Ou
va que choveu dentro de casa. I minha senhora! (Mariquita sai. Escada dona Manqmta - plaft! - na água. (So-:
TELEFONE - Enderêçc, por favor, entra e bate na cabeça do Bandido, que be a' ce~a e bate na porta. Contra- re-
MARIQUITA....:. Rua das Orquídeas, desmaia. Mariquita entra), gra: batída.)
esquina da a,:enida das Rosas c~m !'1a- MARIQUITA - Ah! Dormindo, em' MARIQUITA - Já vou aí contar!
rechal das FIores, Travessa Flonanopo- vez de acabar o servíço' Vai ver só. GUARDA-VIDAS - Ah! Mas 'eu vou
lis, Beco Flcripcdes (Apanha a lata dentro de casa e der- castigar, êsse malvado que maltratoi! D.
TELEFONE - Seu nome, por Ía- rama água no bandido) Tome! Água de Marí,gmta! Vocês vão ver!
vor? g?teira faz bem para vadiação. (Ban- 'MARIQUITk (entra) Ah! Seu
MARIQUITA - Mariquita. did» desperta) Traba~a, anda! (BAN- Guarda-Vidas! OBandido Cristóvão Ca-
TELEFONE - Favor repetir. DIDü trepa. nos degraus. Degraus se- rambola!!! Me atirou lá na Praia dos
MARIQUITA - Ma de... me~. Bandiâc escala duas vezes sem Peixes Podres. Êle arrancou tôdas as
TELE~ONE - Ma de Xarope. suhir nunca) . , , flôres do jardim!!! (Chora)
MARIQUITA - Ri de... ABANDIDO (deslstrnd~ e voltando ~s GUARDA-VIDAS - Não chore! Se
TELEFONE - Ri de Rabanada, flores) Corto e recortoAtodas estas ~o- o Bandido voltar, a senhora chame a
MARIQUITA - Mariqui". res) Corto e recorto todas estas flor~s Polícia! Polícia prende bandido. Ent'en-
TELEFONE -Qui de Fogareiro. agora me~mo (Escada observa o handi- deu? E pode me chamar. Eu ajudo a
MARIQUITA - E ta., do. Bandido se assusta com a escada, castigar o bandido, Entendeu?
TELEFONE - Tá de... Quitanda! que ameaça e bate nêle. Bandido foge) ..
• MARIQUITA - Bntendi E o se-
Muito bem! Maricota! MARIQUITA (entrando) Cadê o nhor entendeu oque eu entendi?
~IIARIQUITA _ Mariquita! con,sertador. ~e telhado? Tem uma cara
. . muito esquisita, Acho bom chamar um GUARDA-VIDAS {saindo) Enten-
TELEFONE - Entendi: Mancota, consertador, mas é de goteiras, Agente dilll. .. Adeus'
:MARIQUITA ~ Mariquita dos Gi- tem que procurar muito bem no catá- Mariquita sai. Apagam-se as luzes. En-
rassóis. I' logo de telefone. (Apanha o catálogo de tra o Bandido1 cauteloso.
BANDIDO - Ahi AhJ AhJ Cortei I Contra-regra, de sirene. Apagam.,se, as ,;:
as plantas tôdas. Ficou tudo feio, her- luzes. Carro sai. Acendem-se as .luzes.':'\,
rível, pavoroso, medonhol QlJeri~ ver a' ltlariquitlj, eGUaJ;fta- Vidas dançam.:Cor- ; \ ',
cara daquela Maricota das Goteiras. tina' fecha e dança com a música do
:MARIQUITA (escondida) Me cha- início.
mou Mancam das Goteiras!
BANDIDO - E se ela escapar 'dos.
peixespodres, vai ver! Vou pegar ela
e jogar lá na Praia da'Lama Estragada! ,
M,AR,IQUITA Q~e bandido desa-I
-c-'

forado!, " .
BANDIDO - As flôres que arran-'1
quei 'estão aqui dentro desta mala. ,A-
gora vou lá no Mar Morto despejar tudo
isso. AhI Ah! M! (Sai)' .
MARIQUITA (entra) Malvado! O
Guarda-Vidas falou que se aparecesse I
o Carambola... Ih... Oque êle falou
mesmo eID? Me esqueci. .. Ih... Oque
foi? Me esqueci! (Grita) M! Já sei!
(Chama) Guarda-Vidas!
GUARDA-VIDAS (entra)' O que i
foi?
MARIQUITA - OCarambola, outra
v'czj
GUARDA-VIDAS - OCarambola?
(Vem ao' procênio) Vou castigar o ban-
dido! Vocês vão ver!
Ouvem-se gargalhadas, ao longe.
MARIQUITA - Está voltando ...
. GUARDA-VIDAS -Vamos nos es-
conder. Entre a senhora
MARIQUITA - Osenhor.
GUARDA-VIDAS, - A senhora.

(Entram em casa) Chega, o Bandido,


cauteloso, Guarda-Vidas desaparece da
janela da casa. Bandido sai. Guarda-
Vidas assoma à janela. Bandido entra.
GUARDA VIDAS desaparece.
BANDIDO (cauteloso) Que silêncio
silencioso! Estou estranhando isso por
'1
aqUI....
GUARDA-VIDAS (sai com um pau
na mão, luta com o bandido e vence)
Dona Mariquita, chame aPolícia! (Guar- * Texto premiado no lu Concurso Nacio-
da-Vidas entra em casa) nal de Textos de Teatro de Fantoches, pro-
MARIQUITA - Polícia! (Contra- movido pela Secretaria de Educação do Es-
regra de sirene. Magam.:se as luzes. tado do Paraná, em 1966; e apresentada pela
Entra o carro da polícia. Pára no Ban- equipe do T,eatro Gibi (Setor de Teatro In,
dido. Acendem-se as luzes) fantil do DEP da Secretaria de Educação da
CARRO-DE-POLíCrA - Mãos ao GB) para uma platéia de cêrca de 15.000
alto! crianças.
DOS JORNAIS AYANÇAR ATÉ AGAMÊMNON

Amir Haddad
omeu trabalho atual éo resultado de uma so-
ma de insatisfações e inquietações, que fui resol-
vendo muito aos poucos, muito devegar mesmo.
Num espetáeulo aparecia uma coisinha, noutro ou-
tra, havia então vários incidentes nos espetáculos,
que eram puramente casuais e que mais tarde vim
a descobrir que era minha tendência básica do es-
petáeulo, oque, até ali, eu não percebia. Eu achava
que oimportante era oresto, a cópia que eu estava
.fazendo dos outros. Daí comecei a ver as coisas que
eram pequenas efui aprofundando. Em cima dessa
prática é que eu fui tirando determinados compor-
tamentos teóricos. Não foi estalo porque veio muito
junto com omeu amadurecímento pessoal, com mi-
nha abertura de visão do mundo, veio muito jtmto
com minhas dificuldades e com a solução delas,
multe junto com uma prática de teatro, com ocon-
tato humano. Com o teatro que se faz quotidiana-
mente no Brasil. Não pode ter sido estalo porque
está ligado muito dialêtíeamente a essas coisas que
se apóiam, se chocam, se somam. Não foi estalo por
que veio muito lentainente e veio muito tarde. Eu
acho que poderia ter atingido isso se tivesse tido um
pouco mais de orientação, um pouco mais de apoio
no comêço de carreira, o que nunca acontece no
Brasil Perdi muito tempo agradando os outros e
não agradava nem a êles nem amim. De repente re-
solvi fazer oque eu queria, daí quando eu vi a mi-
nha verdade.
As pessoas precísam de referências
para julgar um trabalho. Ninguém écapaz de olhar
um trabalho ejulgá-lo em si: está aí otrabalho na
tua frente ·e julga - ficam confusas e caotizadas,
principalmente quando não é um trabalho que en-
tra no quítidiano de quem faz teatro, vêem um tra-
balho diferente e em vez de dizer: diante disso sen-
ti tal coisa - não o fazem, procuram antes cata-
logar e como vivemos num país subdesenvolvido
tudo fica mais complicado, ainda porque não vão
buscarreferên,c~,ª~ nem dentro do país enemdentro não tenho. Eu sou pQbre, faço um teatre em que não
do Gol1~~p.ente onde vivem, vão buscar num país de procuro esconder esáa .mínha réalídade; as minhas
coisa já aceita pelo mundo para poder aceitar oque condições de trabalho são estas, vou me resolver
está acontecendo debaixo das vístas de todos. Eco- dentro delas. Imaginemos a situação de um men-
meçam a falar: "Isto é diferente, isto é Grotowski, digo que épobre, não tendo onde cair morto, como
li muito pouco de Grotowski de propósito, quando êle pede uma esmola ou como mostra sua pobreza,
comecei aler eu parei para não me condicionar. Êle ea de um mílnnárío que escolheu a pobreza, ten-
diz coisas maravilhosas que coincidem muito com do nascido em berço de ouro, muito rico, alimen-
minha maneira de ver. Parei porque achava que eu tado, insatisfeito, que escolheu a pobreza; uma ati-
pcdería partir para ume elatoráçêo de um enun- tude blasé, de decadência, de tédio euma outra que
ciado teórico de outra pessoa que não sou eu, dis- é a de assumir sua própria realidade. Através de
tante portanto da minha experiência, vivendo num caminhos díterentes nós estamos forcando a mes-
outro país, em condições inteiramente diferentes. ma coisa, que é restituir ao teatro oque êle tem de
Daí eu poderia me condicionar a isto e tentar exe- básico - o sêr humano sem nenhum subterfúgio,
cutar o trabalho dêle e entãQ. disse a mim mesmo: sem nenhum enfeite - voltar ao atar e ver o que
êle tem para dar, que éosêr humano, que éa base
paro evou partir para a minha experiência, da mi-
do teatro. Não enfeitar, mostrar o que é. Chega-se
nha experiência é que vai nascer um teatro meu. à mesma coisa. Tenho certeza que a forma de ex-
Se coincidir, se algém achar parecídué problema
pressão de Grotowski deve ser diferente da minha.
de quem está olhando. Eu estou fazendo o que eu
Êle não tem a angústia de ser muito pobre, de não
quero fazer, o que sinto vontade de fazer hoje, vi-
poder fazer nada e ter de resolver meus problemas.
vendo da forma que vivo, morando onde ~oro, ten- Isto dá completamente diferente, eu não tenho a
do os amigos que tenho, ganhando oque eu ganho
menor dúvida. Não Vi nunca nada de Grotowski,
por mês e participando de um teatro que é êsse
mas sei que só pode ser diferente. Aburrice faz com
teatro brasileiro que eu vejo e tiro conclusões sôbre
que as pessoas precisem enquadrar tudo em coisas
êle, É a minha necessidade diante do mundo que eu que estejam sendo feitas no mundo inteiro. São pes-
vivo e que eu ponho para fora. Eu tenho certeza soas que ainda não acreditam neste terceiro mundo,
que o espetáculo de Grotowski não tem nada a ver que não enfrentam uma cultura subdesenvolvida e
com os meus. Existe uma coisa básica, eu procuro assumem essa cultura, pessoas formadas em colé-
um tealro em que aúnica medida seja o ator Gro- gios cuja língua básica era ofrancês.
towski também procura isto: Eu procuro traba-
lhar dent ro das minhas limitações, Grotowski
também trabalha pobremente, mas veja-se a dife-
rença: trabalha pobremente num país onde, se qui-
ser, tem 80 refletores para um palco de dois me-
tros da melhor qualidade, tem um teatro onde, se
êle quiser, tem todos os recursos técnicos de um
palco, onde, se quiser, tem cenógrafos efigurinistas
da melhor qualidade para fazerem roupas e cená-
rios riquíssimos e tem dinheiro para isto, onde tem
tempo edisponibilidade para errar; êle faz um tea- I
tro estatal, subvencionado e êste homem foi eseo- I
lher a pobreza. Eu faço teatro num lugar onde, se
eu quiser 10 refletores não tenho, dez atôres excep-
cionais eu não tenho, cenários riquíssimos, eu não I
tenho, um teatro para fazer meus espetáculos, eu I (Correio da Manhã, 10-6·70)
TE A. TRO 1o:. XEQUE·MAT ENO AUTOR?
.

Oscar Araripe

Estamos, hoje, diante de uma concepção ana- rato encontrar um autor com capacidaae de escre-
crôníca da dramaturgia? Apergunta encerra uma ver um espetáculo. Muitas vêzes não é nem mesmo
das mais importantes discussões sêbre teatro eon- um problema de capacidade. A dramaturgíaecn-
temporâneo - chega a ser mesmo uma espécie de tempcrânea, e parte' da moderna, optou por texto
melopêía necessária ao esclarecimento dos rumos do roteirístico, numa posição radicalmente contrária,
teatro. Até hoje, oespetáeulo começava pelo texto; porexemplo, à assumida por Shakespeare, Sófo-
agora parece que várias formas de improvisação to- .cles, Moliere ou Goethe, embora saiba-se que os es~
maram oseu lugar. Em Firenzé, na' Itália, acaba de petáculos sem texto eaÍmprovização eram formas de
terminar um seminário - OTrabalho do Drama- se fazer teatro desde os tempos de Nero eda Renas-
turgo - cnde participaram Klaus Volker (da cença italiana, respectivamente. Por outro lado,
Schmuspielha:us, de Zurique), Karl Kraus (do Tea- observa-se também uma diminuição da chamada
Za Brannv, de Praga), Ludvitk Flaszen (do Teatro dramaturgia de rôle, L é., um tipo de peça onde pon-
Laboratório, de Grotowski), Charles Marowitz (do tificam os primeiros papéis - Frederich Dürenmat
Open Space Iheatre) e Jean Jourdheuil (do Vollis- talvez tenha sido oúltimo dos dramaturgos de divas
buhne Iheater) - na pauta ,o nôvo dramaturgn de nosso tempo. Com a queda da diva e a ascensão
diante do nôvo teatro. do díretor, o-espetáculo teatral ainda anda às vol-
Peter Brook, na Inglaterra, com TIS; Megan tas com a crise de dramaturgía - parece mesmo
Terry, nos EEUA, com Viet·Rock: o Living Theatre inclinado a transformar-se num ato de criação coo
eoBread & Puppet, auto exilados na Europa - res- letiva, como éocaso de TIS eViet·Rock que, mesmo
pectivamente com os espetáculos Paradise Now e mantendo uma só assinatura, foram criados pelo
I'he Cry of íhe People for Meat - assim como ogru- grupo. .
do Teatro Laboratório de Jerzi Grotowski - citados Um outro aspecto que desafia a' dramaturgia
entre muitos outros apenas numa intenção de am- contemporânea éoque diz respeito ao luga:r teatral.
.pliar geogràficamente uma afirmação - são auto- Até mesmo otêrmo teatro é, hoje, bastante caduco
res e grupos que fazem o espetáculo de um texto quando se deseja caracterizar um espetáculo teatral
nascido com oespetáeulo ,pela repetição, pela prova. de vanguarda. Um fato éincontestável: com ohap-
Esta tendência - largamente observada - in- pening teatral, as várias formas de manifestação, a
dnz-nos acrer numa ascensão do díretor, pela crise atividade, os ates teatrais pela rua, teatro espcntâ-
na dramaturgia. Excetuando Genêt, Beckett e neo, teatro-residência, espetáculo-comunitário, as
grupos que fazem o espetáculo de um texto nasci- montagens de ruptura formal-como OBalcão, de
do com oespetáculo, pela repetição, pela prova. Gênet-García, em SP -:' eoutras direções de teatro
Esta tendência -largamente observada - in- contemporâneo não mais aceitam têrmos como tea-
duz-nos a crer numa ascensão do díretor, pela erise tro, atriz, ator, dramaturgo, peça, texto, díretor, etc:
na dramaturgia. Excetuando Genêt, Beckett e Como nas ciências, oteatro carece de palavras
Gmmbowics (os dois primeiros já quase deixaram ebusca neologismos que atendam à sua evolução e
de .escrever e O' último morreu em 69), é bastante transformação. É interessante observar' que a arte
do espetáculo se autocontesta; sempre enum ritmo
cada vez maior, com uma energia à altura da crise
Batalha 'Ver"lc' Ilda .
que omotiva. Odramaturgo - como, enfuh, todo
o entourage da realização teatral - mantém-se
quase. no que pnderiamcs chamar de espectativa Moli Ferreira
participante, isto é, jogado na crise, o artista não
procura ignorá-la mas sim, analisando-a, apresen-
tar suas alternativas - quando as tem, àbviamen-
te. Opróprio aparecimento de palavreados ambí-
guos, neologismos, distorções de conceitos tradicio-
nais e a reavaliação que cada um deve assumir na
na realização teatral é, por si só, um sintoma da te-
repêutíca de saída da crise, de renovação de valôres
- meio milímetro de otímísmo, enfim.
Oswaldo Loureiro, enquanto ensaia O Balcão,
sob a direçâo de Martim Gonçalves, não se des-
cuida dos problemas do Sindicato. Ainda agora
acaba de ter uma de suas maiores vitórias como
presidente desta associação: o Tribunal Superior
do Trabalho decidiu pela unificação dos artistas
num único Sindkato dos Artistas e Técnicos em
Espetáculo~. Claro que a união dos artistas de te-
atro, cinema, rádio e televisão num órgão único
dará maior fôrça à entidade; a divisão dos atôres
não poderia ser bem definida, pois não existe o
ator .de TV, de cinema ou de teatro. O trabalho de
tcdos êsses setores se interpenetra, restando, ao fi-
nal, uma só classificação: artista. Éo óbv.io ululante
que o Síndieaí» dos Radialistas teimava em -não
ver e por causa dessa teimosia atrasou de anos a
união da classe. Apersistência e a boa argumen-
tação de Oswaldo Loureiro, presidente do Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos, acabaram
prevalecendo em tôãas as instâncias.

(Do Correio da Manhã, 17-3-70) (CM/23/6/70)


. . O tema .para uma conversa desatada como
A Nova Forma Dram-ática
. .. ".: -." .'. esta, é. inesgotável. Poderia remontar ao signifi-
cado da própria bola, qae éa representação do .ob-
jeto perfeito. Sabemos que a esfera é um circulo,
Otto Lara Resende com a vantagem de coneretísar-se, de perder a
sua condição geométrica para vivificar-se mima
coisa dinâmica, de extrema mobilidade. A. magia
da esfera explica até posturas religiosas primitíras,
que estarão na origem da admaçâc do Sol eda Lua.
No. caso brasileiro, é possível que a conquista 'da
vitória com a bola corresponda à conquista. da Lua
pelos americanos.
Albert Camus falou uma vêz sôbre a sua ex- Opé de Pelé iguala o pé de Armstrong. Mas
periência como ator de teatro e jogador de futebol, não tenho dúvida de que há muito mais emoção no
na Argélia, ao tempo da sua mocidade, Vi-o num futebol do que na chegada à Lua - e aliás a au-
esplêndido show, em 1958, na TV Francesa, a dis- .diência da televisão, em todo o mundo, parece ter
correr, com a inteligência 'penetrante que lhe. era demonstrado a primazia da Copa do Mundo, agora
peculiar, sêbre o fascínio do teatro e do futeboL no México, sôbre qualquer outro espctáculo trans-
Em ambos, o espírito de equipe é essencial. Em mitido pelo pequeno écran,
ambos, osentimento de solidariedade há de ser do-
minante, Em ambos, digo eu agora, há uma dra-
matlcídade de cunho profundamente catártico.
Por isso não estou longe de supor - ou de pelo
menos propor esta hipótese que ofutebol, tal como
foi disputado agora no México,' realiza uma fome
de dramatiCidade que, na Antiguidade, encontrou
expressão no teatro, Não creio que, com o nosso
futebol, nos aproximamos de uma experiência
cultural admirável como eram os Jogos Olímpicos
na Grécia, os quais tinham uma parte intelectual
e uma parte física - a famosa máxima de Juvenal:
meus sana: in eorpore sano. As nossas condições são
outras. É outro o mundo. É outra a cultura atual.
As Olimpíadas estavam muito mais assentadas'
numa valorização individualista e até erótica do ,
cidadão, num culto ao corpo do atleta que até, ;
Deus que me perdoe, talvez se relacione com certa ;
fatalidade homosexual da época. O nosso futebol
é uma forma de jôgo solidário, coletivo portanto
ea sua carga dramática tanto se exprime no cam-
po como fora do campo. É fácil compreender como '
chegamos à criação dos mitos do futebol, os quais
só dificilmente encontram correspondência em
outros países. Talvez no que ocorreu com o cinema
nos EE Unidos, nos tempos gloriosos dos monstros .
sagrados de Hollywood. I (Jcrnal do Brasil, 29/6/70)
' ,o'rr' eu Ad' amov
M Êsse jôgo durava héras inteiras. Eu me identificava
cüm ogato". "
Adamov viveu contradítoriaments Ofio que li-
Lucien Attoun ga a vida ,e a morte ébem frágil. Êle era marxista
convicto, porque acreditava "no maior grau de íe-
Domingo, dia 15 de março) Arthur Adamov, lieidade numa sociedade comunista".
nascido no Caucaso em 1908, sucumbiu a uma mo- Jamais pertenceu ao partido comunista) mas)
léstía que odevorava. Ecom êle, tôda uma geração tornado seu ccmpanheíro de jornada, renegou tudo
de espectadores que está se extinguindo: aquela ou quase de seu teatro à primeira maneira, consi-
que, nos anos einqüenta, não podendo, ou não que- derado demasiado nihilista, e que permanece entre-
Tendo, dominar suas contradições internas, reco- tanto como uma dos momentos impnrtantes do tea-
nhecia-se mais ou menos ao mesmo tempo no tea- tIO contemporâneo. Depois do admirável Ping-Pong,
tro do materialismo histórico ena trágico. Brecht que aparece como uma feliz síntese de suas prec-
está morto. Beckett é prêmio Nobel e loneseo, aca- cupaçóes, com PaoIo Paoli, Primavera 71, Santa-Eu-
dêmico; Adomov, êste, Professor Iaranne até a ropa, A Política do Restos, Adamov, descobrindo
ponta dos pés que o martirizavam cada vez mais, Brecht, quer pôr-se em regra consigo mesmo: até
recusou-se até morrer a representar AParódia da então êle rendera homenagem da maneira mais es-
falsa má eoncíência, mesmo sentindo-se ferido por tridente a Strindberg "o maior dramaturgo do sê-
"não ser mais que oconferencista ,o autor convida· culo XIX". Sem êIe, me dizia há três semanas, "eu
do no estrangeiro, ignorado na França". não existiria como autor".
Contudo, êle inventara antes de todos, mas sem Alguns de seus amigos, eos outros, "os críticos
dizê-ln a ninguém, oteatro do absurdo, desmontan- burgueses" - mas na verdade não eram os únicos
do La Grande et la! Petíte Mamoeuvre da condição - deploravam essa reconversão. Adàmov sofria
humana, confrontara a vida no teatro, sob nossos com is &O. Ostensivamente, reaprendia Freud e
olhos de espectadores ingênuos e desconcertados, Marx; outrora, traduzira Kafka, reconhecia-se em
ligandonos Todos contra Todos para puxar os fios O'Neill e se lembrava do fantasma de Arta~d, que
de uma comédia em que cada um de nós queria ser êle não cessava de recolocar em seu lugar. E depois
o deus ex-machina, quando Unhamos apenas nossa de IVI. le Moderé, Off:,limits) conciliando pela primei-
íôrça humana, enfraquecida pela alma da criança ravez Brecht eArtand, reaproximando com felicida-
que nunca deverlamos deixar de ser. : de obomem.eoletívc eohomem-indivíduo) dava sua
Adamov, durante tôda a vida, êle que gritava: : última peça Si l'ÉtéRevenait; eainda "perde aí su-
"Não quero crescer" e que "teve tanta dificuldade ' eessívamente todos os seus membros por ter obede-
em se comportar como homem na idade do ho- , eido ao apêlo", ,
mem", terá sido eoacientemente, com fôrça e tris- Adamov mcrreu sem ter podido saber realmen-
teza, OHomem e a Criança. Talvez porque êle te- '-te - mas devia pressenti-lo - que êle era grande
nha sido órfão e que seu pai o envergonhava. Êle entre os maiores de hoje, e que sómente sua exces-
matara seu pai mais de uma vez (em sonho, é certo, siva generosidade o impedira de fazê-lo proclamar
êsse sonho sem oqual êle provàvelmente não teria em todos os palcos da França. Morreu quando re-
escrito para o teatro) mas êle não conseguia oeul- nascia para a vida e para oteatro. Sua mulher, o
tar-se nos braços da mãe, e como para fazer-lhe Bison, que soubera, com abnegação, devolver-lhe
mal por tê-lo desmamado, êle descansava a cabeça sua coragem de homem e seu 'coração de criança,
no peito de uma prostituta. •permanece com êle em sua última mensagem: "Uma
Ninguém 111elhor que o próprio Adamov soube certeza impõe-se: a de existir", Mas como, Monsieur
recontar o seu teatro: "enquanto uma jovem ame- Adamov?
ricana se divertia torturando um gato, uma jovem
fuglêsatOlu'ava-ónos 'braços, mimava-o, consolava-o. (De Les Nouvelles Littéraires, 19-3-70)
de Fotodocumentação da Esc~la de Arquítetura e
Reabre-se um Teatro em seu lugar deverá ser colocado um outro que, pe-
lo menos, seaproxime da criação primitiva. Mas o
.o Teatro de Babará, construido em 1818, vai arquitetogarante que todos os enfeites, por mais
reabrir suas portas. Arestauração do prédio, que insignificantes, como as rosetas de papel que emol-
depois de ter vivido anos de glória entrou em de- duram os camarotes são fiés às originais.
cadência no início dêste século, custou ao govêrno Assim como Babará conheceu muito de perto a
do Estado Cr$ 316.000,00 elevou dois anos de tra- história do Brasil, opróprio teatro também abrigou
balho. Oteatro mantém suas velhas proporções de confusões. OImperador Pedro I teve uma boa de-
16 metros de largura por 34 de comprimento, 62 monstração do descontentamento do povo, quando
camarotes eaplatéia em bêca de sino. Para restau- °
a10 de fevereiro de 1831, ocupando camarote im-
rá-lo, o arquíteto Luciano Peret pesquisou no Ar- pedal, ouviu depois do clássico ('Viva oImperador
quivo Mineiro aarquitetura da época, buscou fontes D. Pedro I" a frase nada oficial: "Enquanto fôr
de referências em obras antigas, examinou doeu- constitucional".
mentes Não satisfeito, foi mais longe. Resolveu Embora as opiniões variem, nem todo mundo
usar as técnicas dos maiores restauradores do está de acôrdo que êle foi inaugurado em 1818;
mundo em mansões, palácios e castelos, reunidas a história conta que foi ali que se realizou a prí-
em teses nos documentos da Unesco. Admite que meira festividade do século. Na época, Sabará tinha
para isto a tarefa não foi fácil, porque tinha dois 77 prédios, sem contar a Câmara Municipal e os
objetivos: primeiro manter absoluta fidelidade à templos. OIeatro ainda não tinha um nome cer-
construção primitiva, segundo, ser funcional..o to. Era mais conhecido como o prédio da ópera ou
Teatro de Sabará não seria reconstruido para ser-, Casa da ópera pelopevc, mas no registro da cidade
vir de Museu ou simplesmente tombar em Patrí- era chamado Teatro. Ninguém sabe quem ofundou;
mônio, como uma testemunha da época, mas ser atribui-se a um coronel e a um padre. Sua grande
uma casa de diversões como qualquer outra, capaz época foi entre 1840 e 1870, quando grandes espe-
de encenar espetáculos atuaís com suas técnicas táculos dramáticos lotavam oteatro quase tôdas as
modernas. Suas Juzes e sons. Seus camarins para noites.
atôres econfortáveis cadeiras para opúblico. Logo, o
quebra-cabeças montado.
Depois da pesquisa local, Luciano Peret colocou
em funcionamento uma técnica de construção ru-
dimentar para fabricar o material a ser usado na
construção. Descobriu, por exemplo, que a parede
do teatro era de adobe, uma mistura de terra eca-
pim, sêca com o tempo. Fêz o mesmo. Transferiu
os operários para as margens de um rio efabricou
a mesma mistura para completar as paredes. Se-
gundo sua opinião, êsse tipo de parede era responsá-
vel pela boa acústica do teatro.
Apresentando uma forma ogival, oprédio mos
tra que também sofreu influência italiana, não só
pela dimensão epela forma, como também pela pro-
xímídade do palco com a platéia. Infelizmente o
velho pano-de-bôca pintado à mão não foi recupe-
rado. Seus restos foram fotografados pelo Serviço (Do Correio da Manhã, 30-6-70).
bios internacionais no domínio: teatral, cujos prin-
GROT'OWSKI cipais promotorestêm sido oITI eoTeatro das Na-
ções.
Tadeusz Kudlínski Os últimos capítulos do livro de R T, coníron-
tando os métodos de G. e Stanislawski com o eíeí-
Da mesma forma que até hoje falta a mono- to de distanciamento de Brecht, com Artaud ecom o
grafia completa do teatro Reôuta, de Juliusz Oster- Living Theatre, colocam em destáque a partíeularí-
wa, constata-se a ausência de uma obra de síntese dade da experiência polonêsa Em Stánis1awski,
sôbre a experiência de Grotowskí, e isso apesar do
ínterêsse suscitado por êle no mundo teatral. viu-se há pouco, opadrinho do método de Osterwa.
Diferentemente dos outros heréticos do teatro, Mas RT não se deixa enredar em filiações tão fáceis.
Grotowski jamais apresentou uma exposição com- Ela desvenda os laços de parentesco que marcam a
pleta de seu credo, além de considerações isoladas grande família teatral, isto é, os que não se escoo
recolhidas em um volume publicado em inglês. Um lhem, mas que se estabelecem por si própríss. RT
livro editado em Lausanne em!1968 preenche de al- verifica a afinidade entre certos elementos qnenâo
guma forma essa lacuna, Trata-se de uma mono- são de empréstimo, mas que simplesmente traduz o
grafia escrita por Raymunde Temkine, autora de .espírito da época que se manifesta de maneiras múl-
numerosos estudos de estética teatral contemporâ- tiplas.
nea. Oautor, realiza aí uma comparação sutil do Nesse esfôrço de confrontação, encontram-se en-
método de Gcom aquêle da Grande Reforma ou da tre as diversas correntes da vanguarda mundial, as
vanguarda teatral contemporânea. Distingue-se idéias estéticas de nosso Witeacy, o que demonstra
também pela precisão da crítica epelo objetívismo. o interêsse aprofundado do autor pelo teatro polo-
Temkine não esconde seu entusiasmo pela obra de nês. Contudo pela deficiência de nossa propaganda,
G., mas recusa-se a fundar suas reflexões em suas dificilmente seu conhecimento do teatro polonês se-
próprias impressões, seja dos espetáculos, seja dos rá completo ou que êle trate por exemplo da filia-
contatas pessoais com o mestre. Cita opiniões dos ção pela qual o método teatral de Grotowski des-
outros, sobretudo críticos, em lugar de subestimá- cenda do Juliusz Osterwa e de seu teatro Reduta,
los, faz delas um dos pelos de suas próprias conside- filiação que opróprio G. evocou nitidamente.
rações. Seria interessante comparar o método de G.
Dêsse livro se depreende um quadro completo com oesfôrço de renovação do j,ôgo dramático ten-
eobjetivo das reações do mundo ocidental ao Ienô- tado por A. Persenao expor suas concepções aos
meno surpreendente que é, inccntestàveímente, o estudantes da Universidade do Teatro das Naçõep.
teatro de G. Trata-se mais geralmente de uma reação ao racio-
Além das realizações incontestáveis de G., é nalísmo excessivo n avída e na arte, que ameaça
preciso notar sua tátíca, que consiste' em cercar-se com o estiolamento progressivo a sensibilidade dos
de uma atmosfera de exclusividade, de mistério e dois lados da rampa.
e de discreção, além da grande preocupação, rara RT dá uma característica exaustiva do teatro
entre nós, de tudo que possa constituir documenta- G., cujo itinerário ela não considera concluído, em
ção de suas aquisições. Por outro lado, entretanto, vista de sua constante evolução decorrente do prin
essa táticaeorrpreende um devotamento total, qua- cípio claramente exposto pelo próprio díretor, e se-
se ascético, edigno de um reformador, no teatro, a gundo oqual uma forma já usada não deve ser re-
perseverança, a paciência e a honestidade de exe- petida.
cuçâo. G. partiu da oposição ao teatro literário dis-
Gonvém observar que se se verificou êsse desper- cursivo eretórico, estabelecendo como pr.incípio um
tar do interêsse pelo teatro de G. no mundo-isso teatro liberto de elementos parasitas, isto é, da-
se deve unicamente à intensificação dos intercâm- queles que não são específicos de outras disciplinas
táculo deveria chamar-se Nscrôpcíís Contudo, ess~
al'tfsticas. Êle reStitue ao teatro suas funções primi-
tivas, daí sua; mareada oposição com relação às ten-permutação corresponde' às visões fúnebres de Wys"t
dências naturais eracionalistas. Oproblema crucial pianski.
é estimular uma' participação ativado público pelo Essas variações sêbre temas própríes ao roman-
recurso a um modo antigo, vizinho' da catarse, tismo polonês não parecem ser de uma transparên-
transposta em têrmos de fascinação leiga e de arre cia completa para oautor citado. '
batamento dasub-cctelêncía coletíva, um arreba- , Participo do entusiasmo de RT em relação a G~
tamento calculado pelo artista teatral. O, que será emais uma vez externei isso. Todavia sou adversá-
deci~tvo nisso é o.mêtoâo, e uma maneira de fazê- rio de qualquer monopólio, por isso recuso-me a to-
lo seda colocando o. jôgo dramático nos extremos má-lo por um Moisés que libertará oteatro das ten-
da e~pontaneidade eda disciplina, um modo de for- das da escravidão. Há, igualmente, no teatro, lugar
mação, do atol' e otrabalho pescal dêste visando a para outros exploradores, existe, finalmente, otea-
atingir a autenticidade na representação. Ora, isto tro convencional de utilidade não menor, progre-
éoque em G, parece um valor e uma aquisição in- dindo lenta e rasuàvelmente em caminhos abertos
teiramente excepcionais num país em que a, im- por diferentes vanguardas. Suum cuique... Ofu-
provisação ea fé na gersçãoespcntânea dos talen- turo está na diversidade de correntes que se opõem
tos são moeda corrente. enão (Deus nos guarde) numa única fórmula.
Os temas do repertório de a. concentram-se , Todos os teatros experimentaís brotam do espí-
exclusivamente em diferentes situações cujo eixo co rito da época, ainda que o desaprovem. Represe~­
mum éohomem ameaçado pelos outros epelo des- tam oconflito e rebelião contra uma realidade nao
tino. RT vislumbra aí uma nota de otimismo, uma fÓ do teatro, mas do sistema de civilização no qual
tentativa de salvar a dignidade humana. Parece, se, inserem. Essa situação gera um paradoxo. Ore-
contudo, que aquilo de que se trata seja antes de sultado éque a rebelião em si'- corri tôda sua no-
de mais nada a oposição dialétíea da crueldade e bresa e independência - desperta uma tendência
da inflexibilidade que conduzem à catástrofe indi- anárquica e destrutiva, se não transpõe a negaçãa
vidual É significativo que, para a conhecida tra- pura em seu escopo para a transformação. Se não
gédia de Calderon, não tivesse mantido o título propõe uma realidade melhor que a existente, se
usual de Príncipe Constante, .mas tenha adotado nem mesmo desperta uma esperança capaz de levar
outro': OPríncipe Inflexível. Adiferença évisível e à ação, ~ ela leva ao niilismo. Olivro de Mme. Tem-
caracteristíca "Nada émais belo, afinal, que afôrça bkine dá uma relação dos estágios de ecnquístade
humana esmágada.pela estupidez do destinO". Êsse G., desde o Festival da Juventude de Helslnkí
aforismode Barbey d'Aurevilly resume bem os gran- (1962) até oFestival do Teatro das Nações (1966)"
des temas dó teatro de G. São igualmente interessantes: o relatório de uma
, temas, G
. Esses bt " 1 te , visita'A'
.r, usca pnnepa men e no re-
a Opole (sede' do teatro de G:t antes
t dG de sua.
r . Ati polonês transpondo as obras trarsterêneía para Wroclaw), um re ra o e ., sua
p~:r .on~ ~'oman co t ' '. 1 dI d" t 'a biogTafia emesmo genealogia, pouco conhecida até
I I

o~Igu:ars, como .u~ ema .mus~c~ mo 1 .ca o a r - agora Olivro contém uma biografia de todos as
ves diversas vanaçoes. Seus roterros se prendem ao ..: Ab G Jeít 'p IA' ,Ih b
,. " 1 ~ , , IA , te
textoongma , mas poem em re evo somen eaguns I ' oplmoes so re
. .~ d' G. el as na ooma
. te t E, . Bem
e a ures;
, " d tr de A' ",' d como oplmoes e . eseus assls n es., ugeme ar-
das mo tivos e ISSO en Ia e um novo ananJo, e b L d ik FI 1t d rt d
modo que parecem' nada ter de comum com o orí- a e ~ w "aszen, comp e,a o,C?~ uma IS a os
ginal G. também declara lealmente no cartaz asua I membros do grupo edo seu repertôrío.
qualidáde de autcrôasadaptaçêes, como 'outrors o
fazia Meyerholdcom as suas. Pela transferência da'(Le Ihêatre en Polegne, n. 12-69, reí. ao l~vro de.
ação do eastelo de Wawelpara: o cánpo deAuch- ,Raymonde 'l'emkine: Grotowski, Laüsarme, Rd. ta'
witz;iia transpcsíçãode Akropólis étal que o éspe· !Cité)
MOVIMENTO TEATRAL .. abril a junho ~ 20

IaS Convalescentes
No Teatro da Maison'de Fran- oTeatro Opinião, finalmente, a-
ce, Os Construtores' do Império) colhe um espetáculo que não é
de Boris Viam, substituiu Romina shew musical: Os Convalescentes,
e Julia~ no dia 27 de maio. A de José Vicente, com cenários de
produção) bem como cenografia Marcos Flakman e direção da es-
e interpretação são de Napoleão treante Gilda Grilo. No elenco:
Moniz Freire) ao lado de Cirene Norma Benguell, Renata Sarah,
Tostes) Antônio Patífio, Léia Gar- Emílio Di Biasi eLorival Pariz.
cia, Antônio MurUo e Jones Bo-
tsman. Direçâo acargo de Jacques
Thiérot. A carreira se anuncia "Uma coisa ninguém poderá
ser apenas de quinze dias. negar a Os Convalescentes: é
a peça mais desesperada da li-
No Teatro Glaucio Gill, estreou teratura dramática brasileira
LSD (título censurado) e OCon- dos últimos tempos, uma peça
trato Azul, de Pedro Bloch, dire- escrita com sangue e lágrimas,
ção de Antônio de Cabo, com ce- eque reflete com terrível cruel-
nografia do arquiteto Sérgio Ber- dade o clima d-e frustaçã'o que
nardes, e elenco sequínte: Jardel se apossou nos ÚltimDS anoS:d.q,
Filho, Isabel Teresa, Sérgio Brito e intelligentsia brasileira diante
Adriano Reis. ela evidente falência dos seus
anseios e dos seus meios de
No Teatro Copacabana, ainda :ação." (JMichalski)
em cataz aComédia de Neil Simon,
com Fernanda Montenegro e Jor-
ge Dóría, nos principais papéis No Teatro Serrador, continua-
ram as "2 horas de gargalhadas"
No Teatro Ginástico, depois de de Pai Hippíe não tem vez, em seu
o show de Marlene, a volta de segundo ou terceiro mês ecom "5
Frank Sínatra 4815, após curta Astros de Televisão"!
excursão, e anunciada como 'o
maior sucesso de comédia em 69/
70, com seu fabuloso elenco": No Teatro Pricesa Isabel, em
Moríneau, Paulo Gracinda, Daisy fim de carreira, Agenda Confio
Lucídi, Luiz Deltíno e ?utros. dencial a preços populares.
No Tet~'o
de. Arena (tB apôs
l. "O Arquiteto. .. é um exemplo Nõ Teatro' Cal'los Gõm.e~,' Colé
umapublíeidadeôe esconde-es- típico do que há de melhor na e"Çostinha apresentam a c'supei"
conde, estréiá~nãó~estréia)'Surgiu obra de Arrabal: uma ceríniô~ produçân" A'C~paé' das Peladas,
em cartaz Quantos Olhos Tinha nia místico-psicanalítica cheia com Tânia Pôrto e Osny José,
o teu Último Casinho, de Fer- de violência e ternura, angús- numa "revista peladex" com uma
nando Melo. A direçâo é de Luis tiada, delirante, intensamente "seleção de striptease", Êsse espe-
Mendonça e,' em lugar dos inte- poética. O espetáculo coloca táculo teve um final de carreira
grantes' do elenco, a publicidade diante dos seus dois intérpretes violento, de que resultou a des-
anuncia: "Impacto Agonia! Cru- únicos uma tarefa gigantesca: truição do palco, segundo noti-
eldade! Absurdo!" - em seu ve- durante três horas e meia êles ciou a imprensa.
emente apêlo .ao público. se entregam no palco a um de-
lirante 'diálogo, durante o qual
cada um.tem de compor, su-
ccssívamente, algumas dezenas
.de personagens. (JMichalski) Hair
No 'Nôvo Teatro de Bôlso, uma Reabrindo o Teatro Nôvo, Hair
comédia de Aurimar Rocha, com No chamado Te~tro de Cimen- estreou em fins de junho, com o
Aurimar Rocha, mais Aurimar to Armado (Shoppmg Center), o mesmo elenco paulista. Direção
Rocha, dirigindo einterpretando; gl:UpO Sonda, de SP, apresent~ de Ademar Guerra e coreografia
. a cenografia é de Fernambuco R1to de Amor Selvagem, de Jose de Marika Gidali.
'de" Oliveira. São os "Três Rounds Agripino de Paula, também co-I
Litigiosos de uma Peça Amigá- diretor (ao lado de ,Maria Ester
vel", que se intitula: OsDcsqüi- Stockler),,, ~ resp.onsa~el !ambém
tadns 'e têm Neila Tavares, Amyn- pelos eenanos e ilummaçao. Ês.se "Haír brasileiro é um espetáculo
dio Scarlet Moon e Fernando. mesmo Grupo apresentou no RIO, lindo eàs vêzes comovente pela
José no elenco. . no Teatro Casa Grande, OPlanêta sua ternura, pela sua extraor-
. dos lVI,utantes. O Rito tem 15 dinária vitalidade juvenil e
latôres dançarinrs e o 'conjunto . pela irresistível vibração comu-
Beat Buys.·· . nicativa da música." (JMichal-
ski) .

Arrabal ;, No Teatro Poeira, continua o


,'sucesso de Tem Banana na Banda. "No Hair-eahelo há uma tenta-
tiva de adaptação principal-
~
mente semiótica: procurou-se
No Teatro Ipanema, numa es-] "passar" um problema não vi-
tréia esperada com grande inte ' .Nó Teatro: Rival, Gomes Leal vido através de outras vivências
rêsse, está: OArquiteto eoImpe- apresenta a "bombástica e revo de nossas platéias. Mas, o plot
radar da Assíria, de Arrabel, em lucíonária revista" Mulheres com exigiria, como diziam antiga-
interpretação de Rubens Correia Aquêle PIá, com Nick Nicola, mente, uma tarefa hercúlea, a
eJosé Wilker. Adireção éde Ivan SôÍüa· Mamede, Celeste .Aida, dil'eção preferiu trocar os slo-
Albuquer'que; á cenografia de Lourdes Salada e muitas vede~ logans; na realidade, o que lhe
Arlindo Rodrigues e a música de tínras, além de "20 esculturais restava de adaptável. Assim, o
Cecília.Conde. I modelos nus". put a tiger in your tank vira
. ((?l.ê, ql~; 0. noss~ .ti.~~e tá b,o~.
K~1?la. ~ur~~~9., ~ ~' ~~~,i~~ ~~..~~~ de q~~eir~f.~ll~~r~lo~Fimfte
~tando 'pt], :quebrar" 8;:<a gr~s~o ?
C~~12s:,1yrar~ ~c~ .e~Ê~~~9fi.~J :'~~~(l' j;~~vo., :~iste~a (tea!ro
-mcdo; no texto; a adaptação novo para crianças forADu:ques~l1ifiV'ersItaT1o)" CrISto 'Nü, As Maos
consiste nisso. dos Ca:jus, que se apresentou no de Euridice .·e Gímba, além de
('O melhor que Hair tem, que é teatro do Instituto' Lafayette. A Frank Sinatrà 4815 (grupo cario-
o sentido lúdico, foi bem apro-autoria é de Benjamin Santos. ca).
veitado pela direção. No Teatro Glaueio Gill - As
"De resto, Haír é um espetá- Beterrabas do sr. Duque.
culo recomendável pelo seu as-'.: Nó: Teatro Opinião - Mogli, o
pecto lúdico e pela mensagem Menino Lôbo e OCirco Mágico-
de amor que vem espalhando No Teatro de Bôlso - As Férias
.:' pelo mundo, sempre com gran- de P~Qli.~o,. OVendedor de Balões
de sucesse de público." .;.... eBígurrilhe e a Princesa.
(OAraripe) No Jeatro.da Lagôa - Pedro na
. casa do Sol
No Ieatroárena - Iuâczínhe e Geupos Estrangeiros
.r- Maria. e o Coelhinho Pitoba, em
.seu 32° mês. . Durante o trimestre recebemos
A A

gamemnon NO'Têatro da Praia - Pique 1, a visita do grupo tcheco da Lan-


. . 2) 3. terna Mágica, no Teatro João
Além de" Hair, outra estréia que No Teatro Ipanema - Pluft, o Caetano, numa apresentação do
desperta. interêsse é a da peça' Fantasmínha, empresário Carlos Vasques.
0 n
Agamêm!1 , de Ésquilo, pelo gru- . No Teatro S. Pórto - ARapõsa I
pu 'Comunidade, no. t eat r' o do Feiticeira ea'Casa dos BOnecos. A· Lanterna é explicada neste
ry-1AM. "venna de vermelho" pede No Teatro Coparabana - O Sa. número dos CADERNOS, pelos
à publicidade. pateiro do Rei. seus próprios eríadores, Radok
No Teatro da Criança - Pinéquio. e Svoboda.
'No Tablado, houve a apresen-No Te'afro Arreliquim -Musicas
teçâo de Saráu (Música de Ontem. doMar' (bonecos). Companhia Jacques Mauclair -
Poesia de sempre), com direçãoe No Teatro do A;têrro - O ôvo de . Apresentou-se no Teatro Munici-
plu\tidpação de Sérgio Rovito, Oure Falso e Cadê Aquêle Irso pal, num programa Ioneseo, com
Nélia Silva' e Terezinha Tadeu. O (beneccs). Iueur Sans Gages, Les Chaíses,
mesmo grupo (pau1ista) apresen- Le Salonde l'automobile, La Jeu-
teu-se em SP, no Teatro Vereda, 11e Filie à 1VIa'rier e La Lacune.

"Com o devido respeito à con-


Teatro em .São Paulo tribuição que Ionesco trouxe
para a vanguarda teatral na
Cartazlnf antif A revista paulista Palco-Platéia, década de 1950, a visita da
. em seu n. 2, transcreve a opinião Comp, Jacques Mau01air lem-
No trimestre, com exceção da de diversos críticos paulistas sõ brou-me muito mais as visitas
estréia de Marequmhas Frufru, bre os últimos espetáculos pau- . da ComédieFrançaise do que o
n' O TABLADO numa remonta- listas: O Balcão, Med~ia, O Ass- brante e saudável Rabelais que
gem com artistas-alunos de Maria alto, Seu Tipo Inesquecível, O opessoal da Sorbonne nos trou-
Clara Machado, cenografia de Absurdo, Jorginho o Machão, xe no ano pasado." (JMichal-
Ana Letycia e nosos figurinos de Hair, álbum de Fami'ia, Um, Dois .ski.
oInstituto Nacional de Teatro em debate·

FELINTO RODRIGUES:

Aestrutura areáíea do SNT não está adequada


à realidade teatral. Cêrca de 90% do pessoal tem
vínculo empregatícío, vários obstáculos nos impe-
dem de criar uma assessoria dinâmica e moderna,
sem os vícios observados no funcionalismo conven-
cional. Isso, porém, não significa que o quadro do
SNT seja ruim. Apenas funciona dentro de um
sistema que não satisfaz.
Em relação à autonomia financeira, a criação
do Instituto trará ao teatro grandes benefícios,
pois o SNT, como está estruturado, depende das
verbas do MEC. Onôvo órgão, porém, teria oseu
orçamento específico, que se torna mais necessário
na medida em que o teatro, ao contrário do que
acontece com o cinema, não oferece condições de
taxação. Oteatro além disso, é uma atividadc .de-
fíeítáris.
Sugerimos ao Ministro Passarinho, e está em
estudos, uma tàxa sôbre diversões públicas e a
criação de obrigações reajustáveis do Tesouro.
°
Não há dúvida de que INT sàmente poderá
atingir seus objetivos com renda própria. O SNT
tem, hoje, Cr$ 1.200 mil para construir teatros,
reformá-los, auxiliar amadores e profissionais,
custear publicações e instituir prêmios, entre ou-
tras coisas. AComissão Estadual de Teatro de São
Paulo, para cumprir igual tarefa em âmbito esta-
Transcrevemos para nossos leitores alguns dual, dispõe de dotação três vêzes maior. E os
dados sêbre a transformação do Serviço Nacional recursos do Paraná também são maiores que os
de Teatro, em Instituto Nacional de T-eatro, ex- nossos.
postos efundamentados pelo dr. Felinto Rodrigues, Sendo o teatro um instrumento de cultura,
em entrevista à imprensa local. Odíretor do SNT não pode ser encarado com mentalidade mercantil.
explica os motivos pelos quaís propôs ao Ministro OGovêrno deve ajudar o teatro infantil) o teatro
da Educação a criação dêsse nôvo órgão. amador, o teatro para a juventude.
Com o futuro INT se poderá fazer um teatro tem aos produtores ampliar sua faixa de público e,
infantil bem esquematizado, estimular os grupos simultaneamente, regastar seus compromissos em
estudantis e amadores,' de modo geral carentes de prazos mais curtos.
apoio. Com a presença do Govêrp.o, traduzida na Quando se monta uma peça no. Rio ou em São
aprovação de uma série de medidas que constituem Paulo, um produtor contrata pessoal para traba-
oinstrumental para o teatro se. desenvolver, opú- lhar num período de três aquatro meses. OINT po-
blico terá gôsto pelo teatro. No momento, em re- deria estabelecer, com os Governos. estaduai~,~;uma
lação 'ao cinema, o público t~m várías opções. O espécie de definição de responsabilidades no que se
cinema está incorporado àrotina.' Apenas com uma refere à apresentação de peças teatraís, OInstituto
estrutura adequada o teatro poderia atingir êsse forneceria passagens para as companhias eos gover-
estágio. Se, nas capitais, o teatro é diversão da nos estaüuaís dariam hospedagem. Isso iria assegu-
elite econômica e intelectual, no interior se torna rar uma perspectiva melnor, mais ampla, para todos
uma atividade puramente burguesa. os profissionais de teatro. áumcntara o mercado
Logo após a transformação, que deverá ocorrer de trabalho, melhoraria o padrão salarial, ajuda-
num prazo máximo de 60. dias, o nôvo órgão pro- ria o teatro a ganhar uma nova dimensão. Possi-
gramará o 10 Festival Teatral Latino-Americano, velmente, surgiriam teatros nos bairros. E, o que
no qual seriam encenadas, por companhias' nacio- émais importante, definiria de uma vez por tôdas
nais e estrangeiras,peças de autores brasileiros. O a situação profissional do ator de teatro, profissão
próprio INT imprimiria as peças, após vertê-las que não chegou a ser regulamentada.
. f
para o espanhol, e as Embaixadas no exterior se Espero que, com a transformação do SNT em
encarregariam de distribuí-las. Instituto Nacional de Teatro, eu possa cumprir a
minha parte na tarefa .de engrandecer o teatro
Estaríamos impondo a nossa liderança, sobre-
tudo disseminando nossa cultura encssoseostumes. brasileiro.
Averdade é que, por falta de uma polítlca agres-
siva, muitos autores importantes continuam no'
anonimato. Apolítica em relação ao cinema, por
exemplo, se .tornou .agressiva e produz excelentes
resuitados. Ocinema conquistou mercados, alcan-
çou dimensões de indústria, continua crescendo.
É possível, entretanto, que se alcance até uma
baixa nos preços se conseguirmos dispor de uma
estrutura administrativa capaz de disseminar ati-
vidades teatrais em 'todo opaís. .
OSNT, com representante simbólico em cada
capital, está fazendo um. esfQrço para interiorizar
o teatro. Seus critérios de ajuda estão ligadb~ à
obrigatoriedade das companhias viajarem, e tôdas
se mostramsensiveís às excursões, pois elas permi- I
flubllca9ões e textos à dlsposlçâo dos Textos publicados pelos
leitores na secretarIa d' O TABLADO C I\ DERNOS DE TEATRO

Livros de autoria de Maria Clara Machado: Cr$ Auto de Natal (S. Lucas) J deO. Lins CT n. 14
O· Ca~~linho- Ailii·{contd)·~·",,· : ,..'.12~OO Toda Mundo e· Ninguém, Gil'Vicente .; :.. 14 e31
.. . ..,';'t' -".. '. .. .'.. '.
t .. ' . . . ' , ~~
Vamos· Festejara Natal, l~ilton Araujo' ... ,:.'. ~'7
. : . . •• •

Como Fazer Teatrinho .de Bonecos ...'...:..: .10,DO Os Viajantes {natal pj crianças), MC ~achado 19'
reatro. Ip.fan~il.,vol. J. (P~utt"O:R9-pto daS Irmão Chiquínào, de Mé Machado ..........••. .19
.. Çeqolinhasl. Cp.~peuztpllo Vermelho eo B.o~ Os Mistérios da Virgem (Natal) .rontendo Moti.;
eoBurro) .... .' ..... '.' .... ;. :.'..... ,.; ~" .. ,. 6,00 na Mendes, Gil Vicente .... ~. . .. . 20
Teatro Infantil .101. II (A Volta de Camaleão, OPastelâo e a Torta (medieval) ' .. 23
.OEmbarquede Noé, OCavalinho' Azul e Os Cegos, Ghelderode ; ;. 24
Camaleã6.~1aL~a) . 1.: ; "..... 6100 Faras Tabarinicas ,.. '...... 25
Teatro Infantil voo UI (A Menina eoVento, AConsulta, Artur Azevedo , :. 25
AGata Borralheira, Maroquinhas Frufru Jôgo de S, Nicolau, Chancerel '. ...... 26
eMaria Minhoca) ,........ 6,00 OMôço Bom e Obediente, Barr/Steveus 28
O Urso, Checov ,;.............. 29
CADE~OS DE TEATRO, número avulso .. 2,00 OVaso Suspirado, F. Pereira da Silva. ....... 30

CADERNOS DE TEATRO, assinatura anual 10,00 Farsa do Mancebo que Casou com Mulher Ge-
niosa, Casona ;..... 31
.' OBoi eoBurro, MC Machado .. ,.... 32
QUALQUER DESSAS PUBLICAÇÕES PODERÁ SER OCarteiro do Rei, do Ragore 33
PEDIDA A: Antígona (Sófocles), Chancerel '....... 35
As Interferências, Me Machado. .. .... ...... 36
OTABLADO - Av. Lineu de Paula .Machado, 795, Plqus-nique no Front, Arrabal .......... 36
ZC20 Rio de Janeiro - GB OJôgo de Adão (medieval) 37 li)

ACova de Salamanca, Cervantes ; 38 8


001
Opagamento poderá ser feito mediante cheque OPedido de Casamento, .
Checov ,... 38 « li)
wq
visado, em nome do Tesoureiro Eddy Rezende Nu- Antes da Missa, Machado de Assis ,... 39 og
nes, pagável no Rio de Janeiro, ou pôr Serviço de OCaso do Vestido, Drumond de Andrade 39'
Reembôlso Postal. AHistória do Zoológico, Albee 40
Aquêle que diz Sim, Brecht 41
OEspírito da Neve (Nó) ;........ 42
Sumidagava {nó) ,Juro Motamasa .:,........ 42
ADama Mascarada, Suniinuri Onna .. 42
Oúnico Ciúme de Emér,Yeats ,... 43
o Nôvo Otelo, JM-Macedo '........ ....... 43
AConsulta, Artúr Azevedo ,........... 44
DISCO - Está à venda, na Secretaria, odisco .Torturas de Um Coração,Suassuna . .. 44
contendo a música de Reginaldo Carvalho para o Eu Sou aVida,,,.,·Qorpo-Santo.; .. , .. 45'.1
Cavaãnho Azul, ao preço de Cr 5 As'DeSgraçasdi Uma Criança Martiri"s·Pena·:. "45-
ECAjUSP • BIBLlorE~ AOO.
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"' M'
ORI1J'l. f
J--
_d..~ . ·H.- t •
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VERBA: ..

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