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oTEATRO SINTÉTICO

FUTURISTA - 1915 . ,

Enquanto aguardamos nossa muito desejada grande


guerra, nós Futuristas desenvolvemos uma violenta ação
anti:neutralista, .das praças à universidade, empregando
nossa habilidade no preparo da sensibilidade italiana para
agrande hora do perigo máximo. AItália deve ser deste-
mida, impetuosa, veloz eágil, como um esgrimista, indi-
ferente aos golpes como um boxeador, impassível às notí-
cias de uma vitória que possa custar cinqüenta mil
mortos ou aderrota.
Para aItália aprender adecidiNe com avelocidade
de um relâmpago, alançar-se ao combate, adesincumbir-
-se de cada tarefa. ede toda eventualidade possível, livros
e revistas são desnecessários. Eles interessam e""dizem
.respeito apenas auma minoria, são mais ou menos tedio-
sos, obstrutivas erelaxantes. Eles não podem deixar de di-
minuir oentusiasmo, abortar os impulsos ede envenenar
com adúvida um povo em guerra. A guerra - Futurismo
intensificado - nos obriga amarchar enão aapodrecer
nas livrarias esalas de leitura. Conseqüentemente aoha-
mos que a única maneira de incutir
na Itália o espírito guerreiro atual-
mente é através do teat ro. De fato,!
noventa por cento dos italianos vão ao teatro, enquanto
MARINETTI: apenas dez por cento lêem livros e revistas. Mas o que
énecessário éum TEATRO FUTURlSTA,completamen-
Antes de nós, aarte consistia na metilória, na re-evo- te oposto ao teatro do passado que arrasta pelos sonolen·
cação angustiada do objeto perdido (felicidade, amor, pai- tos palcos italianos seus cortejos monótonos edeprimen-
sagem) edai nostalgia, imobilidade, dor, distância. Com teso
o Futurismo a ate se tornou arte-ação, isto é, aenergia Para não viver desse teatro histórico, um gênero
da vontade, a agressão, possessão, penetração, alegria, mórbido já abandonado pelo público passadista, nós ron-
realidade brutal na arte (isto é, onomatopéia,' isto é, ento- denamos todo o teatro contemporâneo por ser dena-
nação de ruídos-motores), esplendor de forças geométri- I siado prolixo, analítico, pedantemente psicológico, expli-
cas, projeção avançada. ConseqUentemente, aarte se tm- cativo, diluído, cheio de proibições como um. quartel,
nou oPresente, onovo Objeto, anova realidade criada dividido em celas como um convento, semelhante auma
com os elementos abstratos do lIniverso. As mãos do artis- casa velha em ruÍDas. Em outras palavras, é um íea-
ta tradicionalista ansiavam pelo Objeto perdido,' nossas tro neutralista epacifista, aantítese da ferocidade, aavas-
mãos pelo novo Objeto aser criado. saladora esintetizadora velocidade da guerra.
traduzir um décimo da idéia no primeiro ato, cinco déci-
V~I~desadanti.teatral emesmo nisso oferece inúmeras possi·
Nosso Teatro Futrista será: mos no segundo, quatro décimos no terceiro, c) construir
os atas fazendo crescer a excitação, cada um deles nada
b es para o palco. Qualquer
II
quaI que r valor é t eatr aI.
coisa de
foi ..t
escn ~ .n? tea/tro. Oambiente teatral éo
n.osso reserva~ono mexaunvel de inspirações: asensação
Sintético, isto é,muito breve. 'Comprimir em poucos
minutos, em poucas palavras egestos, as inumeras situa- mais sendo que uma preparação para o final, d) fazer C1fcul~ magnetica q~e invade nossos cérebros cansados na
ções, sensibilidades, idéias, sensações, fatos e símbolos. sempre o primeiro um pol(CO enfadonho, de modo que 3. ~ .esmpid? .a1covitar oprimitivismo da multidão manha de um ersao num teatro vazio; aintonação de
osegundo possa ser divertido eoterceiro devorador; 6) q~~, em ulltma analise, deseja éver obom ganhar eo ~m ator que sugere apossibilidade de construir uma qua-
Os escritores que desejaram renovar oteatro (Ibsen, Vllao perder. !idade de pens~entos paradoxais em seu topo; um movi·
Maeterlinck, Andreyev, Claudel, Shaw) nunca pensaram encher cada linha essencial com cem ou mais linhas pre-
em chegar auma verdadeira síntese, libertando-se de uma paratórias insignificantes; 7) nunca dedicar menos que , 4. É estlÍpido prescapaí-se com verossimilhança mento. do cenano que sugere uma sinfonia de luzes; a
técnica que envolve prolixidade, análise meticulosa e uma para explicar uma entrada ou uma saída minuciosa- (absurdo, porque talento e valor pouco têm aver com ~osldad~ de uma atriz que enche nossas mentes com
mente; 8) usar sistematicamente em toda apeça a regra ela). noçoes gemalmente encorpadas.
longa preparação. Diante das obras desses autores, o
público permanece na ,indignada atitude de um círculo da variedade superlicial, aos atas, cenas e linhas. Por 5. É estúpido querer expor com minuciosa ló~ca ~saltaremos .a Itália à frente de um heróico
de. espectadores que engolem sua angústia e compaixão exemplo, fazer um ato um dia, outro uma noite eoutro, ~do que está acontecendo no palco, quando mesmo na batalh.a~ ,de comedIa~tes que impuseram aos espectadores
à vista da agonia de um cavalo abatido na calçada. O noite adiantada; fazer um ato patético, outro angustiante, VIda nunca se apreende um evento inteiramente em todas Elettnclta eoutras smteses futuristas (ontem vivas, hoje
suspiro de aplauso que liberta finalmente oestômago do outro sublime; quando tiver que prolongar odiálogo entre as causas e conseqüên:ias, porque arealidad; palpita à ultr~passadas e c~n,d~nadas por nós) que eram revoluções
público de todo o tempo indigesto que absorveu. Cada dois atares, fazer algo acontecer para interrompê-lo, dei- nossa volta,. bombardeIa.nos com rajadas de fragmentos conltdas em auditonos. - Do Politeama Garibaldi de
ato é tão penoso como se tivesse que esperar paciente- xar cair uma jarra, fazer passar um tocador de bando- de eventos mterrelacionados, embutidos eencaixados uns Pale~o ao DalYerme de Milão. Os teatros italianos
mente na ante·sala de um ministro ( cOltp de tMâtre: lim. .. Ou então fazer os atares se moverem constante- nos outros, conftlSos, misturados caóticos Por exem I r~~acIav~ lOS aCIdentes na massagem raivosa da multi·
beijo, tiro de pistola, revelação verbal etc.) até ser rece- mente sentanpo elevantando, da direita para aesquerda estúpido representar uma disput~ entre d~as pessoa!s~' e f a~ e ~~ aavam com explosões de riso vulcânico. Con-
bido. Todo esse passadismo ou teatro semi·futurista, em e, enquanto isso, variar odiálogo para fazer parecer que pre de uma maneira ordenada, clara elo'crica quando m· r~dermzavamos com os ator~s. Então, nas noites indor·
vez de sintetizar ofato ou idéia num menor número de uma bomba vai explodir lá fora a qualquer momento id di" e- , na Jlll as em trens argume t' . I
VI a ana quase sempre encontramos apenas flashes de altur dA" . navamos esíimu ando-nos das
palavras e gestos, destrói de maneira selvagem a varie- (ex.: omarido enganado apanhando amulher em flagran- a:pl~lentos que se torna;n momentâneos pela nossa expe., as o .gemo ao ntmo de túneis e estações. Nosso
dade de lugares (fonte de dinamismo ediversão), enche te) quando acontecer que nada vai explodir até ofinal do neaaa modema, num onibus, num café numa estação ,teatro-~tunsta,zombadeShakespearemas,~táatentoà.--,--,
muitas praças da cidade, paisagens eruas na lingüiça de ato; 9) ser extremamente cuidadoso com a verossimi· q~e pe:n;an.ecem cinemáticos em nossa m;nte como sinfo~ tagareli~ d?s atores, adormece com uma fala de Ibsen
um só aposento. Por esta razão o teatro é inteiramente lhança da intriga,' 10) escrever apeça de tal modo que mas dmamlcas fragmentárias de gestos palavras luzes ma~ se msprra com os reflexos vermelhos ou verdes dos
o piÍblico entenda nos mínimos pormet!ores oporque e e sons. ' , estábulos. Realmente um dinamismo ab-
estático: soIut.o através da interPenetra o
Estamos convencidos de que, mecanicamente, por
ocomo de tudo' que acontece no palco, acima de tudo, ç ã

força da brevidade, podemos realizar um teatro inteira-


que ele saiba 110 último ato como os protagonistas acaba- 6. É estlÍpido submeter os efeitos preparatórios a de diferentes atmosferas e tempos.
rão. crescendos eclimaxes adiados. Po~ exemp~o, onde num drama como Pili che l'Amore
mente novo de acordo com a nossa lacônica e veloz (D AnnuDZIO), os acontecimentos importantes (por
sensibilidade futurista. Nossos atas podem ser também Com nosso movimentosintetista no teatro, quere-
mos destruir aTécnica que, dos gregos até hoje, em vez
7. É estúpido tolerar que otalento seja sobrecar· exemplo o assassinato do dono da casa de jogo) não
momentos (átimos) com duração de apenas alguns segun- rega~o co~ opeso de uma técnica que qualquer um (mes- acontecem,no Ralco mas são narrados com uma absoluta
dos. Com essa brevidade sintética e essencial, o teatro de simplificar·se, se tornou cada vez mais dogmática,
estúpida, ló~ca, meticulosa, pedande, snfocante. Con- mo .}m~ecIs) pode adqldrir pelo estudo, a prática e falt~ de ~anus~o; eno primeiro ato de La Figlia de
pode suportar eaté vencer acompetição do cinema. paClenCla. Jono (D ~unzlO) os acontecimentos têm lugar num
seqüentertlente:
. ~ ..É estúpido renunciar ao salto back§roUlld slillples s~m saltos no espaço ou no tempo;
Atécnico - Oteatro passadista é aforma literária 1. É estiÍpido escrever uma centet!a de páginas em dinâm iuo no vácuo da criação total na .smtese futunsta Smwltane/tà, há dois 1lmbientes que
que mais distorce ediminui otalento do autor. Esta for- que alguém faria, somente porque opúblico, pelo hábito p.ara além do limite de território pre- se.mterpenetram e muitos tempos diferentes postos em
ma, muito mais do que a poesia lírica ou a novela, é einstinto infantil deseja ver otipo do personagem decor- ví anente explorado. açao ao mesmo tempo.
tema para as exigências técnicas: 1) omitir toda noção rer de uma série de eventos, deseja apenas enganar-se
que não se conforme com o gosto do público; 2) uma pensando que opersonagem existe realmente para admi- Autônomo, alógico, irreal. Asíntese teatral futurista
vez encontrada uma idéia teatral (traduzível em poucas rar as belezas da Arte, enquanto recusa reconhecer qual- • Dinâ!nic?: simultâneo. Isto é, nascido da improvisa·
çao, da mtUlçao relampejante, da atualidade sugestiva nã~ ser~ submet~a à ló~ca, não procurará fotografar;
palavras), transportá·la para dois, três ou quatro atas; quer arte se oautor se limita aesquematizar alguns pou- se~a alltonoma, nao se assemelhará anada senão asi pré-
3) cercar um personagem interessante com diversos tipos e reveladora. Acreditamos que uma coisa é válida
cos traços do seu caráter. et • d . na p:Ia, a~esar de tom~r ele~entos da realidade para combi.
apagados: portadores·de-capotes, abridores·de·portas e xe3sao es?a 1illprovisação (horas, minutos, segundos) na-los asua fantaSia. ACIma de tudo, como uma desco.
2. É estiÍpido não se rebelar contra opreconceito e nao ex~enslvamen:e preparada (meses, anos, séculos).
toda espécie de bizarras ações cômicas; 4) fazer ocom- b,erta do p~tor e compositor, espalhada no mundo eríe-
da teatralidade quando a própria vida (que consiste em
primento de cada ato variar de meia a 3 quartos de hora; . Senltmos uma mvencível repugnância pela obra de nor, uma VIda mais estreita porém mais intensa, construi·
ações muito mais bisonhas, uniformes eprevisíveis do que
5) construir cada ato tendo ocuidado de a) começar com gabme~e, .a priori, que falha em respeitar a ambiência da de c?res, formas, sons eruídos, amesma coisa sendo
as que se desdobram no mundo da arte) é as mais das
sete ou oito páginas absolutamente desnecessárias; b) in- do propno teatro. Amaioria de fi ossasob ras verdaderra para ohomem dotado de sensibilidade teatral,
lGra quem a realidade especializada existe e ataca-lhe
5, Abolir afarsa, aburleta, o sketcll, acomédia, 1
o drama sério, atragédia, ecriar em seu lugar diversas .
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o PALCO FUTURISTA DE Pensam os diretores que éabsolutamente necessário
representar a realidade? Tolos! Não iaaginan que seus
liolentamente os nervos: ela consiste naquilo que se cha- formas de teatro futurista, tais como: falas escritas com !
ENRICO PRAMPOLlNI esforços e preocupações desnecessárias com o realismo
apenas diminuem aintensidade efazem decrescer ocon-
nao mundo teatral. palavras livres, simultaneidade, interpenetração, opoema . teúdo emocional, que só se pode atingir usando-se equi-
OTEATRO FUTURISTA nasceu das duas corren- curto representado, a sensação dramatizada, o .diálo~o valentes que interpretam essas realidades, isto é abstra-
es mais vitais da sensibilidade futurista, definida em dois
câmico o ato negativo, a fala que ressoa, dlscussao .
çoes. '
nanifestos: O Teatro Variedade' (p. 6) e Pesos "extra-lógica", deformação sintética, explosão científica
\1edidas ePreços do Gênio Artístico, que s~o: 1) ~~ssa que limpa o ar.
Jaixão frenética pela real, elegante, comphcada, Cll1lca, Deixem-/lOs criar opalco.
6. Através do contacto ininterrupto, cria-se entre . Devemos rebelar-nos eexpor nossos pontos-de-vista
nuscular efugitiva vida futurista; 2) nossa muito moder- dizendo aos nossos amigos, os poetas emúsicos: a ação Em linhas anteriores defendemos aidéia de um palco
aa definição cerebral da arte de acordo com aqual ne~ nós e a multidão uma corrente mais de confiança do
~ ló~ca, nem atradição, nem a estética ou a oportum- que de respeito, de modo aincutir em ~ossas plat~ias a deve ser levada ao palco desta maneira enão daquela. dinâmico em oposição ao palco estático do passado' com
vivacidade dinâmica de uma nova teatrahdade futurtsta. Queremos também ser artistas enão somente meros oprincípio fundamental que estamos arevelar pretende-
jade pode ser imposta ao talento natur~ ~o artsía; ele mos não só levar acena ao seu ponto mais alto de expres-
deve estar preocupado apenas com a cnaçao de expres- Estas são as primeiras palavras sobre oteatro. Nos- executantes. Devemos arrumar a cena, dar vida à peça
sas onze primeiras sínteses teatrais (por Marinetti, S~tti­ -c?m todo opod~r evocativo de nossa arte. Não épreciso sividade, mas dar os valores básicos que lhe são próprios
sões sintéticas da ener~a cerebral que tenham o abso- eque ninguém ainda pensou em dar.
melli, Bruno Corra, R. Chiti Pr~tella) se impuseram Vlt~ dizer que necessItamos de textos que afinem com anossa
luto valor de novidade. sensibilidade, que signifiquem uma concepção mais in-
OTeatro Futurista tem que ser capaz de excitar seu riosamente em teatros lotados em Ancona, Bolonha, Pa-
dua, Nápoles, Veneza, Verona, Florença e Roma, por tensa emais completa dos temas encenados. Invertamos os papéis.
público, fazê-lo esquecer a ~onotonia da ~ida. ~á:ia,
levando-o através de um labmnto de sensaçoes medllas Ettore Berti, Zoncada ePetrolini. Em Milão, teremos bre- Em lugar de um palco iluminado criamos o palco
da mais exacerbada originaUdade em combinação com vemente um grande edifício de metal anima.d.o'por to.das Renovemos opalco. . -que ilumina: luz expressivairradiandocomgrmu1eintm~ _.
as invenções eletromecânicas, que nos permíürão realizar
caminhos imprevisíveis. Oque deve ser completamente novo no teatro, como sidade emocional as cores apropriadas à ação 110 palco.
nossas mais livres concepções sobre opalco.
Todas as noites oTeatro Futurista será um ~ásio resultado de nossas inovações, éo banimento do cenário
onde se treine oespírito da raça em entusiasmos rápidos Milão, 11 de janeiro de 1915i 18 ?~ fever~iro .de pintado. Opalco não terá mais um telão colorido, mas (Abrllfmaio/1915)
eperigosos, exi~dos por este ano futurista. 1915. (Manifesto de F. T. Marinetti, Emilho Settimelli e u~na estrutura eletromecânica arquitetura/, àqual se dará
Bruno Corra). VIda através das emanações cromáticas de uma fonte
CONCLUSõES: luminosa, produzida por ref1etores elétricos com filtros
coloridos,colocados ecoordenados de acordo com oespí-
1. Abolir tota1lnente a técnica, que está matando rito da ação no palco.
oteatro passadista. ~ irradiação luminosa desses feixes eparedes de luzes
2. Dramatizar todas as descobertas (não importa colondas e as combinações dinâmicas produzirão belos
quão inverossÚlleis, fantásticas eantiteatrais) que onosso efeitos de interpenetração eintersecção de luz esombra.
talento está descobrindo no subconsciente, em forças mal Elas produzirão vácuos esquecidos eblocos de luz exul-
definidas, na pura abstração, no puramente cerebral, tantes, quase corpóreos. Adições, choques irreais e uma
puramente fantástico, em estabelecimentos de records .e ex.uberância de sensações assim como aarquitetura dinâ-
de.loucura corporal. (Por exemplo, Ai vêm eles (*) pn- .J lllica das estruturas no palco se movimentarão, libertando
meiro drama de objetos de F. T. Marinetti, uma nova braços mecânico~ esubvertendo os planos esculturais, jun-
veia de sensibilidade teatral descoberta pelo Futurismo). tamente com rUldos fundamentais novos emodernos -
3. Sinfonizar asensibilidade do público, exploran- t~d? isto aumentará aintensidade e avitalidade da ação
do-a instigando os espectadores mais indolentes de todas cemca.
as ~aneiras possíveis; eliminar o preconceito das luzes Num palco desse tipo, os atares prodnzirão efeitos
da ribalta atirando redes de sensações entre opalco e.a dinâmicos nunca vistos, negligenciados ou pouco explo-
platéia; a ação no palco invadirá as cadeiras da platéia rados no. teatro atual, principalmente devido ao antigo
eos espectadores. preconcelto de que se deve imitar e representar a reali-
dade.
4. Fraternizar efusivamente com os atares, que
estão entre os poucos pensadores que escapam atoda ten- Qual éoproblema?
tativa cultural deformante. (*) V. CADERNOS DE TEATRO n. 62.
oTEATRO VARI EDADE DE risos esorrisos que distende os nervosos; j) agama com-
pleta da estupidez, imbecilidade, e absurdo conduzindo . OTeatro Variedade usa a fumaça dos charutos e
Cigarros para completar aatmosfera do teatro com ado menteAlém disso, o Teatro Variedade expõe luminosa.
ainteligência ao próximo limite da loucura; k) todas as as leis que governam avida:
MARINETTI novas significações de luz, som, ruído elinguagem, com palco. B por que os espectadores cooperam desse modo
sua misteriosa e inexplicável extensão na parte menos com afantasia dos atares, aação se desenvolve simulta- a) .necessidade de complicação e ritmos variados;
explorada de nossa sensibilidade; l) um cúmulo de aen- neamente no palco, nos camarotes ena orquestra. Conti- b) afatalidade da mentira eda contradição (ex:
tecimentos desenrolados agrande velocidade, de persona- ~ua até ofim do espetáculo, entre batalhões de fans, de dançarinas inglesas de duas caras - pastori.
gens arrastados da esquerda para a direit~ em d~is .mi- Janotas melífluos que invadem acaixa lutando em busca nhas esoldado feroz);
nutos ("Agora demos uma olhada nos Balcas: orei NICO- da vedete; dupla vitória final: ceia ecama.
c) aonipotência do desejo metódico que modifica
Estamos muito desgostosos com oteatro contempo- lau, Enver-Bay, Daneff, Venize1os, socos e lutas entre os poderes humanos;
râneo (em verso, em prosa emusical) porque ele hesita sérvios ebúlgaros, uma copIa etudo s~ desvanece); m) 9. OTeatro Variedade éuma escola de sincerida-
de para o homem porque exalta os instintos rapaces e d) uma síntese de velocidade - transfonnações.
estupidamente entre a reconstrução his~órica (p.as- pantominas satíricas instrutivas; n) cancaturas de s.o~~­ rasga os véus das mulheres, todas as frases, todos os sus-
tiche e plá~o) e a reprodução fotográfICa da vida mento e noíalgia impressionando fortemente a senslbill- 13. OTeatro Variedade desacredita s~tematica.
diária; um teatro arrastado, analític.o ediluído, diguo em dade através de g~stos exasperados em sua lentidão espas- piros, todos os gemidos românticos que a mascaram e
defonnam, Por outro lado, ele traz àluz todas as maravi- mente o ideal amoroso e sua obsessão romântica que
tudo por tudo da idade da lampanna. módica hesitante e enfadonha; palavras solenes ridicu-
lhosas qualidades animais da mulher, sua compreensão, repete a-languidez nostál~ca da paixão até a saciedade
OFuturismo exalta oTeatro Variedade porque: larizad~s por gestos engraçados, disfarces bizarros, pala- seus poderes de sedução, sua infidelidade esua resistên- como a monotonia robotizada de uma rotina profissio~
1. OTeatro Variedade, nascido como nós da ele- vras mutiladas, caras repelentes. r cia. n~. Seu sentimento mecaniza caprichosamente, desacre-
tricidade, éfeliz por não ter tradição, nem mestres, nem 6, Atualmente, o Teatro Variedade é o cadinho dita e esmaga saudavelmente a compulsão para a posse
dogma eéalimentado pela veloz atualidade. em que os elementos de uma nov~ sensi~i~~ade emer- 10. OTeatro Variedade éuma escola de heroismo carnal, reduz asensualidade da função natural do coito
. , I • gente estão fervendo. Encontramos al uma lIoroca decom- pela dificuldade de estabelecer records econquistar resis- priva-o do seu mistério, de toda ansiedade mutilador~
2. OTe.atro ~an~dade. e a~solut~.ente pratic~, posição dos batidos protótipos da Beleza, do Grande, do tências, e cria no palco aforte esaudável atmosfera de de todo idealismo mórbido,
porque se prcpse a dstrair edirertir opubl~co ~O~.~~~I~ .Solene.doReli~osoJdoFeroz,_.sedutor.eT.emYel,el.all1: perigo. (Br.: salto mortal, looping lhe loop em bicicle-
tos cômicos, estimulação erótica e espanto illlagmatlvo. bém a'elaboração abstrata de novos protótipos que suce- tas, carros eacavalo), Em lugar dsso oteatro de variedades dá um sentido
e um gosto pelos amores fáce~, ligeiros eirônicos, Os
3. Os autores, atores etécnicos do Teatro Varie- derão àqueles. - 11. OTeatro Variedade éuma escola de sutileta espe.táculos de café-concerto ao ar livre, nos terraços dos
dade têm apenas uma razão para existir etriunfar: inven- OTeatro Variedade ~, assim, asíntese de tudo que compli~ação esÍlitese mental, pelos seus palhaços, má~~ cassmos oferecem uma batalha muito mais divertida entre
tar incessantemente novos elementos de embasbacamen- a humanidade tem de refinado em seus nervos para se cos, leitores da mente, calculadores brilhantes escritores oluar espasmódico, atonnentado por infinitos desesperos,
to. Dai aabsoluta impossibilidade de parar ou de repetir, divertir rindo das aflições materiais e.morais; étambém de sátiras, imitadores eparodistas, seus prestidi~tadore$ e.aluz elétrica, que salta das jóias falsificadas, da carne
da excitada competição de cérebros emúsculos para con- afusão de todos os risos, todos o:somsos, todos os arre- musicais, americanos excêntricos, seus partos fantásticos pmtada, dos corpetes, multicores, dos veludos, lantejoulas
quistar os variados records de agilidade, velocidade, força, ganhos jocosos, todas as contorsoes e caretas da ?uma- que dão nascimento aobjetos emecauismos fantásticos. e ,d~ cor. artificial dos lábios. Naturalmente a ener~a
complexidade e elegância, nidade futura. Aqui você ;erá a. m~stra da ale~a que
4 OTeatro Variedade éatualmente único no uso sacudirá os homens um secuIo mtelIo, .sua poesia, sua 12. OTeatro Variedade é aúnica escola que se elétriea tnunfa eodecadente emacio luar é derrotado,
do cin~ma, que oenriquece com um númer~ inc~lculável pintura, filosofia eos saltos ~e sua,arquiíetura _ pode recomendar aadolescentes ou jovens de talento, por- 14. OTeatro Variedade énatura1mnete aníi-aca-
de visões eespetáculos de outro modo irreahzávels (bata- 7. OTV oferece onas saudavel de todos ~s espe ... ~. , que ele expõe, rápida eincisivamente, os mais abstrusos dêmico,. primitivo eingênuo, daí omaior significado quan.
lhas motins corridas de cavalos, de automóvel, aercpla- táculos em seu dinamismo de fonna ~ c?r (moVlillentos problemas eos ma~ complicados eventos políticos, Exem- to ao mesperado, suas descobertas e simplicidade de
nos:viagens: lllldergrollllds, campos, oceanos ecéus). simultâneo~ de prestidi~tad?re~ bill.larmas, ac~o~atas, plo: um ano atrás, no Folies-Bergere, dois dançarinos in- meios. (Ex.: ogiro s~temático no palco, que as cantoras
. .. coloridos mstrutores de eqUltaçao, CIClones eSpIraIS de terpretaram as discussões confusas entre Cambon eKin- fazem, como animais enjaulados, no fim de cada copIa).
. 5. O~eatro ya~ledade, s~ndo ~a Vltnna de espe- dançarinos tecendo sobre as pontas dos pés). Em seus derIen-Watcher (sic) sobre as questões do Marrocos. edo
táculo para mcontavelS f~;ças mv~nllvas, ger~ n,~tural- ondulantes e sobrepujantes ritmos de dança, o Teatro Congo numa dança simbólica reveladora que era equiva- 15. O Teatro Variedade destrói o Solene Sa-
mente oque cha~~mos de omaravi!h0s~ futunsta ,pro- Variedade forçosamente tira as almas mais lentas do seu lente a três anos, pelo menos, de estudos de assuntos grado, oSério e oSublime em Arte com Amaiú~culo.
duzido pela meaaca moderna, AqUI estao alguns desses f lar estrangeiros. Confrontando a platéia, seus braços entre- Coopera na destruição futurista das obras-primas pla~an­
elementos "maravilhosos": a) fortes caricaturas; b) abis- torpor eas orça a cor~er epu, " . . laçados, colados um ao outro, eles faziam mútuas ccn- do-as, parodiando-as, fazendo parecerem lugar~-comuns
mos de ridículo c) ironias deliciosas eimpalpáveis; d) 8. OTeatro Vanedade eUDlCO na busca da parü- ~es~õ~ territoria~, avançando e recuando, da esquerda por despi-las de seu solene aparato como se fossem meras
símbolos abrangentes definitivos; e) cascatas de hilarieda- cip~ç~o do públic? Ele não fica estático,com.o um voyellr a ~elta, nunca se separando, nenhum dos dois perdendo attractiollS. Assim, concordamos plenamente com espetá.
de incontrolável; f) profundas analo~as entre os mundos estilpldo, mas se Junta barulhentam~nte a açao, cantando, de Vista ameta, que se tornava cada vez mais enredada. culos de Parsifal em 40 minutos, bem como sua audição
humano, animal, vegetal e mecâníco; g) flashs de um acompanhando a orquestra, comurocan~~-se co~ os ato- Davam aimpressão de extrema cortesia, habilidade numa num grande mllsical-hall de Londres.
cinismo revelador; h) intrigas cheias de espírito, ditos e res em ações surpreendentes e num dialogo ,b~zarro, E vacilação perfeitamente diplomática, ferocidade, descon-
charadas que arejam ainteligência; I) agama completa de os atares disputam cIownescamente com os nusccs '"
'1.. fiança, obstinação, meticulosidade, 16. OTeatro Variedade destrói' todas as nossas
concepções de perspectiva, proporção, tempo e espaço.
Ex., uma pequena entrada ou porta de 30 centímetros sentando a parte dos antigos coros, seu desfile de
e altura, sozinha no meio do palco, aberta e fechada personalidades políticas· eeventos apresentados por ditos MARIA HELENA KÜHNER
,ar excêntricos americanos quando entram esaem, com jocosos na mais irritante seqüência ló~ca. OTeatro Vit-
eriedade, como se não tivessem outra coisa a íszer.) . riedade, de fato, pode não ser o que infelizmente ainda FALA SOBRE OPODER
17. OTeatro Variedade nos oferece todos os re- éatualmente, sempre um jornal mais ou menos divertido. INFANTIL
'ords já atingidos: a maior velocidade e as mais ágeis 3. Introduzir asurpresa eanecessidade de movi-
~násticas eacrobacias dos japoneses, omaior frenesi mus- menta entre os espectadores da platéia, camarotes egale-
:ular dos negros, omaior desenvolvimento da inteligên- rias. Algumas sugestões ao acaso: espalhar uma cola forte
:ia animal (cavalos, elefantes, cães, pássaros treinados), em algumas poltronas, de modo que ohomem ou mulher
IS mais finas inspirações melódicas do golfo de Nápoles ficará preso e1st9 provocará oriso (a casaca ou ovesti-
}das estepes rnssas, omelhor espírito parisiense, amaior do serão naturalmente pagos à saída), vender omesmo
.orça competitiva (box eluta romana), a maior mons- lugar para dez pessoas; vender doces, disputar ebrigar.
, Ora, 1lI; .dos caminhos que levam à imaginação é
ruosidade anatômica, a maior beldade feminina. Oferecer entradas a pessoas notoriamente conhecidas ~OI;~;~~ ~o ~J~uedo} o lúdico, ~nstinto primitivo do
18. Oteatro convencion~1 exalta avida interior, a como desequilibradas, irritáveis, ou excêntricas e, assim;
f ['/co - que caractenza toda atividade ia-
an 11 - encontram-se àtona inúmeros aspecto
neditação profissional, livrarias, museus, crises monó- provocar balbúrdia com gestos obscenos, beliscando as homem sente ein ação em 'si ena reall'dad s que o
o nd' d · eque ocerca' é
:onas de consciência, estúpidas análises de sentimentos, .damas e outras excentricidades. Espalhar pó sobre as dea~;a ~~c~bde u~na reali.da~e .nova ecaminho possí~el
lm outras palavras (coisa suja epalavra suja), psicolo- cadeiras para fazer as pessoas espirrarem ecoçarem etc. d erta, um exerclClO para uma vontade de
~a, enquanto, ao contrário, oTeatro Variedade exalta 4, Prostituir sistematicamente toda a arte clássi- po er, e auto-afirmação,' serve à reali ão de .
1 ação, oheroismo, avida ao ar livre, adestreza, aauto- ca no palco, montando por exemplo todas as tragédias (que e um dos maiores do incollScienl:[mesmo d~::J~.;
cidade do instinto ea intuição. ÀpsiCólô~ãe1eôpõê·ó·gregas; francesaféitaliâMnorrdeusadase·emcômica ~~i:I~1O da fa~ltasia,· tell! a ambivalênci~ e a imp~evis~
:jue chamo de "loucura ffsica" (f~ico-follia). . mistura, numa única sessão. Dar vida às obras de Bee-. , a: q~le hOJe caractenzal1lnosso real,' fixa-se à'forma
19. Finalmente o Teatro Variedade oferece a thoven, Wagner, Bach, Bellini e Chopin, introduzindo a~paren~a -:- hoje. enfatizadas nos códigos que ressalta~
cada país (como ardlia) um brilhante resumo de Paris, nelas canções. napolitanas, Colo.car a Dtse, Sarah Bsr- aImportancla do signo visual, da imagem etc. .
considerada como um centro magnético, de luxúria e de nard, ~accom, Mayol e FregoU ~ado, a, lado no palco;
prazer ultra-refinado. ResumIr todo oShakespeare em um umco ato. Fazer o MARrA HELENA KÜJrnER
OF t . t f mesmo com todos os mais venerados atores, Colocar
uVu r:sm0d que r ranSt ortm ar dO atores recitando Hemani atados em sacos até opescoço.
dleat ro
T tim a!1e
t d'd a e em um. t eadro e Ensaboar as tabuas r
nas divertidos
para provocar.os • , •
tom-
lver nn en o, e co nquis a e re· b . ,.
cords e de loucura física. . os nos momentos mas traglcos. " No Seminário de Teatro Infantil realizado elo O.
5. Incentivar de todos os modos otipo de ameri- mao II eIllStituto Cultural Brasil-AI I p pl-
1, Deve-se destruir toda a ló~ca do Teatro Va- cano excêntrico, aimpressão que.ele produz de grotesco (outubro 74) voc'· I eman la em Salvador
riedade nos espetáculos, exagerar sua sensualidade de excitante, de dinamismo terrível; suas graças cruas, sua existe un;a nove. amou como tema aafirmação de que
enorme brutalidade, sobrevindo então a grande hilarie- afirmação? acnança. Em que se baseia para fazer tal
maneira estranha, multiplicar os contrastes efazer oah-
surdo e o inverossímil dominar completamente o palco. dade futurista que fará rejuvenescer aface do mundo,
(Exemplo, obrigar as chanteuses aterem odecote, os bra-
MARINETTI
home=undo ~c~~of:~~:~t~;a~~oi~rm:nente interação
ços e principalmente os cabelos pintados de todas as sa osegundo não poderiam d. d açoes por que pas-
cores, até agora um recurso de sedução negligenciado. meiro transformand ,elxar eter reflexos no pri-
29 de setembro de 1913.
Cabelos verdes, braços violetas, decote azul, coque azul cas, q~e tornam oes~~~;:b~:~:~nsfo.rmaç~es geográ!i-
etc, Interromper uma canção econtinuar com um discur- apenas mas d enao mas sua naçao
so revolucionário. Vomitar uma romanza de insultos e obrig~ a pla~~c~~ ~;p~~~~~~~m~~a~ econêmieas, q~e
heresias etc.). eada vez mais atuante . lm' • u~a tecaocraeía
um 1 lí . SaCIa ente e dao as massas todo
2. Evitar que um esquema de tradições se estabe- as epaPt p~ üeo no Estado; transformações que afetam
leça no Teatro Variedade. Conseqüentemente, opor-se e (t s~~ as e valores, fazendo redescobrir-se o trabalho
abolir oestúpido teatro-de-revista parisiense, aentedian- lh:~ em ~anual), osexo (pela ascensão 'social da mu-
te tragédia grega, com seus Compere e Commere repre- 'F ), aaçao (paralela ou substituindo acontemplação), 9

====~;iiiiiliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiíii ±
tan~o ?e, instituições, como aescola e a família) quanto geração futura - pode sofrer de pior: já disse alguém
o social como necessidade de ampliação das insuficiên-
cias individuais, etc, Era, assim) impossível não ter havi-
do também transformações nas atitudes e comportamen-
guhtas mostrariam que ofator sôcio-eccnômico pesa bas-
tante, naquele desenvolvimento: se percepção, memória
e ação, maior riqueza de experiências, maior variedade
t- ",' , de md!VIduos, pais eprofessores;
. • donde, menor maleabilidade àquela autoridade
que ':dominar a alma jovem égarantir a imortalidade".
DepOIS de todo um período em que o"infantil" era sem.
tos da criança, deixando-a ilhada ou alheia a esse de imagens, maiores oportunidades de confronto ediscus- I.li (ai, aperda. do "respeito' que faz odesespero de pais e pre visto em termos pejorativos ou inferiorizados) come.
são, etc. são fatores importantes, é evidente que haverá iJ professores Inseguros ... ) e maior responsabilidade (ela ça-se - por razões várias - a assistir auma revalori-
progresso e mudança que já se tornaram característicos zação da criança, da infância) que chega em alguns mo-
dó pensamento eda história de nosso tempo. uma diferença enorme entre a criança que tem TV, que [i mesma tem que responder por nulo, pelo que diz) faz,
pode (isto é, tem condições financeiras para) ir acinema, ouve, etc.); ~entos aum qu~e "mito da. criança" - que pode ser,
igaalaeníe um 1ll1to para acnança, uma tentativa de for.
Em que se diferencia então essa criança da anterior?
teatro, comprar revistas infantis) freqüentar escolas ma-
ternais, ter cantata com grupos da mesma idade, etc. e I • donde, desenvolvimento do espírito crítico e
uma des-confiança sadiamente "irreverente" diante do
~á-la à imagem esemelhança de 11l0delosdesejados, A
Introdução da expressão dramática no currículo de uma
MHK - Essa pergunta vai tão longe que não sei
nem se dá p'ra dizer tudo que penso. É o mesmo que
outras que estão privadas disto, totalmente ou em parte.
Os que não têm acesso aeles se vêem na mesma condi-
I 1
que lhe éproposto;
~cola q~~ se mantém~ com rar.~s exceções, como institui-
! , donde, potencial próprio de criatividade ere- ç~o_ tradICIOnal, podera ser ocaS130 para oconfronto edefi.
perguntar: em que sentido ohomem está se modificando? ção dos povos subdesenvolvidos diante dos desenvolvidos:
vêem aumentada cada vez mais sua defasagem em relação ~ flexão, exi~do pela própria necessidade de responder mçao entre aquelas possibilidades,
Pois, como disse, a meu ver a criança reflete não só a permanentemente atudo que ela recebe do exterior eque
transição como os valores que com ela surgem (do indi- aos mais ricos. Eaumentada em termos que vão cavando
progressivamente um ab~mo, mesmo: já viram osusto, a ~ desequilibra momentâneamente, até ser assimilado,
vidual para osocial, da contemplação para aação, eic). mtegrado, p~ra ~bter assim nova equilibração, Oque nos Poderia explicar melhor essa "mitificação" da crian-
Ora, se ainda transição, não há traços já definidos ou desorientação ou até desespero de um sem número de ça, suas CClusas ou caraderísticas?
professoras primárias que saem da Zona Sul evão lecio- faz ver, de 1Illed13to, os aspectos negativos:
definitivos - pelo contrário, deles fazem parte ainsta-
bilidade, a iinprevisibilidade e inquietação transforma- nar em zonas suburbanas aqui, do Rio mesmo? Pior: já • a dificuldade de integrar dados tão d~persos e . MHK - Vem de vários lados: há os estudos psico-
doras; como há valores totalmente novos, criados pelas viram crianças vindas do interior do país caindo de repen-· em bombardeio tão seguido sobre sua capacidade de lÓgICOS (sobretudo apsicanálise de base freudiana) mos-
novas necessidades que surgem. . te em uma sala de aula daqui? absorção; trando a importância da infância e dos relacionamentos
, Mas a criança não é apenas um feixe de reflexos: Apauperização crescente e polarização de classes , adificuldade de obter anecessária ~ão de con- nela estabelecidos para odesenvolvimento individual' há
há etapas eproCessos que caracterizam permanentemente geradas por inúmeros fatores não são apenas um fato junto, única que dá eficácia àação; os teóric~s da ~municação epropaganda, demonstr;ndo
seu desenvolvimento eaabertura progressiva de seu muno econômico: culturalmente são também uma evidência. O que a_cnança eexcelente veículo receptor e divulgador
• ~ insegurança daí derivada 'e capaz de acionar - enao podemos esquecer que, em uma sociedade basea-
do individual, interior e menor a um mundo objetivo que éalgo realmente importante: impede asempre neces- os mecamsmos de fuga e a sub~são, conseqüente, a da na livre empresa eno lucro, acomunicação éem gran.
envolvente. Freud ePiaget já os analisaram em profun- sária democratização da cultura, aampliação erenovação qualquer nova autoridade;
didade, oprimeiro através dos dois princípios em conflito das elites dirigentes, retarda amudança social- que é, de parte financiada pela propaganda; há a importância
(prazer Xrealidade), osegundo pelas etapas de apreen- ao mesmo tempo, causa e efeito do desenvolvmiento - '. a possibilidade de fazer do grupo, por efeito at~~ .da, cultura e educação, ,evidente nos próprios fatos
são dessa realidade (adaptação ao ambiente e organiza- sendo, assim, fator de entrave atodo progresso social e dessa ~~egurança, não uma ampliação da pessoa, mas elillclativas que vemos da decada de 60 para cá (maio
ção da experiência - pela percepção, memória e ação; um refúgIO ou anulação da própria individualidade; de 68 em França, revolução cultural na China, movi.
humano,
período das operações concretas - por ação da ima~na· mento ~~ contracultura nos RU., educação como priori-
Oque nos cabe, então, ameu ver, se nos preocupa- . • enfim, a sub~são possível a toda uma auto- da~e baslca das.metas do atual governo no Brasil, etc.)
ção, ainda dependente de imagens; período das opsn- ndade !~~pessoal ("a sociedade aluai é repressiva...") POIS se as relaçoes dos homens entre si ecom omundo
mos realmente com acriança, ébuscar conhecer aqueles
ções formais - do pensamento analiticoe crítico, para e tranquhzadora,
oqual éimportante acooperação porque se objetiva no
confronto e discussão, etc.). Essas etapas destacariam
processos, estar atentos àqueles fatores - pois são ques-
tões que afetam diretamente nosso trabalho - e tentar T Aspectos que anós que, de uma forma ou de outra
se,tomam novamente básicas, a cultura, sendo olugar
ou contexto em que essas relações se processam tem que
os fatores que são importantes em cada momento daquele
achar nossas próprias respostas ao desafio de transfor- fazemos teatro infantil, não nos importam apenas com~ adquirir importância vital. É por ela que se poderá obter
mação que assim nos étambém proposto. I, constatações, mas, sobretudo; como pontp de partida a aceleração (ou o retardamento) de todo um processo
deSenvolvimento. !
Mas se falamos no mundo objetivo em que se encon- para ,uma necessária busca de formas de dramaturgia e transformador, atuando sobre um sistema de pensamento
tra teríamos que lembrar necessariamente entre esses fato- Quais seriam, aseu ver, os aspectos mais positivos .\ espetaculo, capaz de expressar aquela instabilidade per. ehábitos para mudar (ou manter) uma escala de valores
res os sócio-econômicos e culturais, Já nem falando de e os mais trmll1latizantes desse relacionamento criança- ;
manente etransformadora, de uma estrntura mais aberta compativel com omundo atual eas necessidades por ele
todo oambiente familiar esocial e suas múltiplas impli- -mundo atual? e.flexível, possib~tar maioratividade e participação da trazidas,
cações, mas tomando apenas alguns aspectos isolados, cnança (o que nao tem nada aver com gritaria de maca- Há ainda, entre nós, avisão de que 42% de nossa
MHK - Difícil isolá-los: os mesmos fatos encami- cos.de auditório), integrar de maneira igualmente criativa população tem menos de 15 anos; há tambéin, tenho a
para exemplo, poderíamos perguntar: que papel têm os nham, por vezes, às duas possibllidades. Como aspectos ~ VIsual eove.rbal, etc, Ou, já que estamos vendo oposi- Impressão, algo que ainda não vi comentado e que eu
meios de comunicação (TV, cinema, teatro) sobre esse mais positivos, a1inharíamos: ltvo ~ onegativo, para manter-nos igualmente atentos a mesma não tenho ainda como coisa elaborada ou defi-
processo de desenvolvimento) hoje? Que papel a escola? algo :mportan,te: que essas possibilidades acima expres- nida, mas que encontraria paralelos em uma análise da \
- já que nesses dois campos se centram os trabalhos que • avisão mais direta da realidade, ocontato pes- sas dao tambem abertura ao que a criança - isto é, a ressonância obtida atualmente pelo estruturalismo, pela /1
fazemos, para crianças ecom crianças. As próprias per- soal com os objetos da cultura - que reduz aautoridade,
filosofia oriental, pela redescoberta da alquimia e dos nante da infância, em que aimaginação se mistura ao
mitos, enfim, por todos os aspectos - da filosofia mais real e lhe dá uma imensa abertura. (Abertura que tam- Finalidadoo do jogo dramático
séria à horoscopite mais idiota - que revelam a força bém pode, nos mecanismos atuais, mais uma vez lembra-
crescente do pensamento má~co eiiú1ico ilànêiitativafi mos, tomar-se escape efuga, regressão, no sentido psico-
àtifáirae apreensão-do real (bem como a idéõ1ó~zação lógico do termo). E essa possibilidade de abertura de
. -queas-ãbsorve eãn!p~'ãporqlieaelas pode lliar proveíto),· tal modo atrai o homem que ele, em sua fantasia, se A condição fundamental caacíeríaica do jogo
Tenlando me explicaimeIhor: "Aiinagmaçao no poder" ajoelha novamente diante do menino-deus, buscando) por dramático reside, primeiro, na preocupação de objetivar,
escreveram os jovens nas paredes de França em maio de um instante, fazer-se à sua imagem e semelhança, rea- de demonstrar oque se faz de uma maneira explicativa.
68. Simples frase? Não. Expressão de protesto contra ulll prender a brincar, redescobrir-se, redescobrir sua espon- Oato: de~e sentir realmente o que vai expressar,
pensamento racional que se havia estabelecido como taneidade de criança. Efazer dessa descoberta o ponto mas sua smcendade deve ser consciente, sabendo que
única forma de abordagem da realidade e que hoje é de partida de uma criadvidade - outra palavra-chave está exprimindo amaneira de ser de um personagem ima-
negado não s6 em nome das demais - ima~ação, sen- do momento, pelo muito que implica, .. - que éhoje ~ário,
sação, intuição :.-como para contestar tudo que sur~a condição de sua auto-afirmação eliberdade - esem as
historicamente com ele. Contestação que atinge as raias quais, mesmo que ele venha ater tudo que esta mitificada As fases preparatórias para bem executar um jogo
de uma histeria em: que, para negar um intelectualismo emistificadora "sociedade de abundância' puder propor- dramático vão desde os exercícios simples de expressão
ou cerebralismo excessivo e geradores dessa repressiva cionar, será sempre, interiormente, um ser castrado e corporal, à criação de situações complexas que exigem
sinceridade, auto-domínio e precisão do gesto, Ojogo
"civilização da ciência e da técnica", chegam anegar a infeliz.
obriga oatar aconcluir ogesto, a ir até ofim do movi-
pr6pria razão - que deixam de ver como um poder de mento,
síntese unificador, fundamental em uma época em q~e
adiSpersão ê oimprevisto faiem parte de nosso cotidiano. Os jogos dramáticos devem ser de preferência silen-
ciosos, sem palavras, ou··comummínimodefalas;como·· .
Ora, um dos caminhos que levam àima~ação éo neste que publicamos, pois o silêncio obriga o atar a
lúdico - que caracteriza toda advidade infaJltíl- encon- um maior esforço na exatidão do gesto, que será explica-
tram-se àtona inúmeros aspectos que ohomem sente em tivo em si mesmo, enão pelas palavras com que ointér-
ação em si ena realidade que o cerca: é um aprendi- prete expõe aquilo que executou mal, às vezes.
zado de uma realidade nova ecaminho possível de uma
descoberta; um exercício para uma vontade de poder e Os CADERNOS DE TEATRO (*) vêm publicando
auto-afirmação; serve àrealização de desejos (que éum regularmente jogos dramáticos de diversos tipos e graus
dos motores do inconsciente), mesmo que só no plano de dificuldade. Maria Clara Machado reuniu num volu-
da fantasia; tem aambivalência eaimprevisibilidade que me, em colaboração com Martha Rosman, cem jogos
hoje caracterizam nosso real; fixa-se à forma, à aparên- desse tipo, e muitos deles podem ser executados por
cia - hoje enfatizada nos códigos que ressaltam aimpor- crianças e principiantes. Não sé exige propriamente a
perfeição do gesto, quando não são executados por pro-
tância do signo visual, da imagem, etc.
fissionais, pois eles funcionam apenas como exercícios
Enfim, o que me pergnnto - e que só um estudo para uma busca de sinceridade e de expressão correta
maior, que inclu~se outros dados poderia dizer (exem- daquilo que se quer transmitir.
pIo: por que o esporte - jogo também - étão difun-
dido no mundo de hoje? Por que tão explorado eexplo-
rável?), e se não haveria entre essa criança e o novo
homem elementos de identificação - não só no sentido
assinalado antes, de que na criança ele se revela - mas
igualmente em sentido inverso, isto é, de que nesta nova
criança ele se vê sur~ e em suas caractensticas e res-
postas ao mundo descobre, mais que valores, necessida-
des suas: no momento em que as transformações acele-
radas osacodem, que lhe tiram todas as certezas ofazem
por em questão o sentido de tudo, olúdico, o má~co,
omítico, tentam ohomem aum retomo ao mundo fasci- JOGO DRAMATICO (*) V. p. 46.
o BACHAREL FERI DO Texto eencenação para bonecos
POR UM BOI

UM NúMERO PERIGOSO
1. Odoutor em leis eseu ajudante vão andando por
uma estrada. Odoutor vai na frente, com passo Número de manipuladores: 2ou 3
largo e pesadão. Oajudante, atrás, com passos 1 atar-palhaço
miúdos, tentando alcançar opatrão. (Essa marcha
será feita tanto quanto possível sem sair do lugar). Duração: 5/6 minutos.
2. Ouve-se otropel de uma boiada, a princípio fraco Iluminação: 2projetares de 250 Wa1éin da iluminação
e depo~ aumentando assustadoramente. da platéia.
3. À medida que o barulho cresce, o doutor passa Dispo~tivo cênico: 1castelete ou qualquer outro dispasi-
da auto-satisfação à inquietude, depo~ ao medo, . tivo que permita ocultar os manipuladores.
depois ao pânico.
Música - em gravação, estilo fanfarra para sublinhar a
4. Ele se esconde atrás do ajudante. ação, da mesma forma que rufar de tambor.
5. Os bois (imaginários) passam"perto do doutor e
ele é jogado ao chão. :Baseado no diálogo, este sketch deve ser muito "represen-
6. Oruído da boiada decresce edesaparece. tado". Não énecessário temer oexagero dos senti-
mentos, que são muito primários. Ainda que dota-
7. Oajudante se prepara asocorrer opatrão. dos de palavra, os bonecos são, aqui, animais. Ger-
8. Não consegue erguê-lo. trude está entre opapagaio e o avestruz, Barnabé
9. Oajudante sai correndo evolta quase em seguida éum cachorro muito especial, Oritmo deve ser fir-
com um médico. me, acelerando-se no final,
...... Este sketch, criado para televisão, foi apresentado numa
10. Omédico examina oferido. Fá-lo deitar-se sobre J série de emissões Gertrude eBarnabé, na França.
uma mesa. I'
No início da ação, opalhaço está fora do castelete. Pode
11. Odoente se queixa da perna direita. I permanecer aí até omomento em que omedo ofaz
12: O médico examina a perna minuciosamente e, 17, Durante esse tempo, o primeiro médico volta e se esconder no interior, ou pode, se o dispositivo
finalmente: "Não tem ferimento nenhum." observa de longe a consulta do colega. Este con- técnico permitir, fazer idas evindas entre ointerior
clui, como oprimeiro: "O senhor não está ferido e o exterior, Opalhaço é aquele que se deseja,
13. Omédico sai. Odoente geme. personagem de carne eosso,
absolutamente."
14. Oajudante examina a perna direta. Depo~ toca Os bonecos são de luva, de tamanho grande, com aboca
com o dedo a perna esquerda e o doente dá um 18, Oprimeiro médico estoura numa gargalhada. móvel Os manipuladores metem amão no interior
grito de dor. í9. Odoente fica furioso. Levanta-se eesquecendo que da cabeça. Barnabé pode ser manipulado por um
15. Oajudante sai correndo de novo e volta com o não pode andar, atira-se aos socos epontapés sobre ou dois manipuladores. Neste último caso, um deles
segundo médico. os dois. Os médicos saem rindo, manipula acabeça eobraço (no braço do persona-
gem como na luva), o outro manipula o segundo
16, Mesmodjogo do primeiro médico, mas com aperna 20. O ajudante, que ficara imóvel, recebe sua parte
esquer a. nas pancadas efoge perseguido pelo patrão.
_~I~ TEATRO DE BONECOS braço. Gertrude não tem braços. Podem ser-lhe acres-
centadas patas enfiadas nos dedos do manipulador.
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _--=====iõiiiii 1 _
GERTRUDE - B. a cabeça virada para o plÍblico). Não mexa, Atenção,
TEXTO A cabeça de Gertrude emerge com pmdência BARNABÉ - Agora não abra mais, Barnabé, em posição de tiro.
das penas. Ela inspeciona os arredores com serieda- GERTRUDE - Não.
PALHAÇO - Se querem apresentar um número de de. Esbarra na rosa que Barnabé lhe estende, se Barnabé vai visar paralelamente. Gertrttde tre-
circo, é preciso treinar Gertrude. amedronta ese esconde pela metade. me muito. A mão de Barnabé segura a pistola,
Ao dizer não, ela deixa cair aflor, se bem que não seja dirigida visivelmente para a
opalhaço fala para Be G. Esta está amedron- GERTRUDE - Agora oque éisto? flor.
tada escondida dentro de suas penas. BARNAllÉ - AJ
BARNAllÉ - É uma rosa. Será que você vai ficar
com medo de uma rosa? GERTRUDE - AI PALHAÇO (a Gertrude) - Não mexa, Sorria. Re-
GERTRUDE - Concordo com acondição de não ser laxe. (Gertrude se relaxa de tal modo que cai).
perigoso. GERTRUDE - Agente nunca sabe.
Barnabé enfia aflor no bico. Não assim.
PALHAÇO - Basta segurar uma rosa, BARNABÉ - Mas não tem perigoI BARNAllÉ - Posso atirar, patrão?
GERTRUDE - Concordo, se não for perigoso, GERTRUDE - Bom. Se não tem perigo, vamos. Que BARNAllÉ - B! GERTRUDE (entre dentes, sem deixar afIar) - Em
BARNAllÉ - Eeu tenho que fazê-la cair. éque tenho que fazer? GERTRUDB - B! que ele vai atirar?
BARNAllÉ - Abra aboca. PALHAÇO - Não se preocupe com isso.
Barnabé se aproxima de Gertrude com uma pis- Ela fecha o bico, GERTRUDE - Com que ele vai atirar?
tola de flexa, Gesticula acima dela. GERTRUDE (ao palhaço) - Que é que ele quer
agora? PALHAÇO - Com apisl. .,
BARNAllÉ - Agora não abra obico efaça não com GERTRUDE - Oque?
PALHAÇO - Está vendo? Não tem perigo. PALHAÇO - Abra obico. .a.c.a.b~@. ... __
GERTRUDE - Bom. Ruuuu! Que que é isto? Que PALHAÇO - Orevólver.
BARNAllÉ - Abra isso. GERTRUDE - Assim?
que éisto? GERTRUDE ~ Ah beml Prefiro isso. Tinha aimpres-
Barnabé abre aprópria boca eamostra, com são que estavam me escondendo alguma coisa.
Getnu1e faz não com acabeça. Arosa cai, Bar·
Getrude emerge das plumas, percebe orevólver odedo, aGertmde. nabé, irritado, ameaça Gertnlde com a pistola que PALHAÇO (a Gertrude) - Cale-se! (A Barnabé)
de Barnabé, dá um grito ese enrosca novamente. ele tinha oC/dta atrás das costas. Aponte mais alto. Não! Levante aponta do cano!
GERTRUDE - Você precisa de mim para abrir seu GERTRUDE (entre dentes) - É um canhão, agora!
BARNAllÉ - Não énadai É uma pistola. Não tem bico? GERTRUDE - Que éisso? Que éisso? É apistola. PALHAÇO - Cale a boca e tenha confiança! Bem,
perigo. BARNAllÉ - Não omeu, oseu bicol Abra, É apistola! Barnabé. Um pouco mais à direita, um pouco mais à
PALHAÇO (a Barnabé) - Esconda a pistola. Você PALHAÇO - Não, nãol (Tapa com as mãos os olhos esquerda. Atenção!
bem viu que aassustou. Getrude abre obico dizendo Aetoma afechar. de Gertmde). (A Barnabé) Esconda isso, não está vendo
que ela está com medo? oPalhaço se oculta passando atrás da corti·
BARNAllÉ aponta apistola para opalhaço. Opalha- BARNABÉ - Isso, diga: ah! na, no interior do castelete, e Barnabé, que tem
ço, pmdentemente, afasta ocano. Barnabé esconde a pistola. medo do tiro, vira acabeça eolha enl direção opos-
GERTRUDE - A. ta àda pistola.
GERTRUDE - Você está vendo muito bem que isso PALHAço (A Gertrude) - Diga A!
me assusta. Esconda essa pistola. Barnabé introduz ocaule da rosa na boca aber- BARNAllÉ - A... tenção! A...tençãoI
ta de Gertrude, mas ela não afecha eaflor cai. GERTRUDE ~ AI
BARNAllÉ - Com oque então eu vou fazer cair a
rosa? Getrude, que lança um olhar para olado eper-
BARNAllÉ - Diga A. OPalhaço coloca arosa. cebe apistola, dá um grito. A flor cai eao mesmo
GERTRUDE - Com ludo que quiser, menos com uma
GERTRUDE - A. tempo Gertrude desaparece afundando. A mão de
pistola.
PALHAÇO -BI Barnabé contjnua avagar ese dirige ao acaso para
PALRAÇO - Ela não está mais aí, Você não vai ver
Barnabé enfia aflor no bico. GERTRUDE - BI (Ela fecha obico. Opalhaço diz ointerior do palco, para baixo (tudo isto émuito
mais aarma. não com acabeça eela faz omesmo). rápido).
Barnabé esconde a pistola atrás das costas. BARNABÉ - Diga B, PALHAÇO - Agora vire a cabeça. (Ela descreve
círculos com acabeça) Não. Vire para cá. (Coloca-lhe BARNABÉ - Atenção! FOGOI
GERTRUDE - Bom, Gertrude fecha obico dizendo B.
Barnabé permanece com a cabeça virada. A
tlexa parte, oQUE VAMOS REPRESENTAR
BARNABÉ - Será que aflor caiu?

opalhaço sai precipitadamente de dentro. A


tlexa está colada na sua testa, Ele segura Gertmde
oDOIDO EAMORTE
nos braços, aconchegada contra ele. Barnabé olha
para eles. Recarrega apistola. Barnabé manipula de FARSA EM 1ATO
novo, perigosamente a arma em direção à platéia
elUjuanto opalhaço eGertrude correm para se es-
conder no meio do público.
de RAUL BRANDÃO (*)
BARNABÉ - Aonde vão?

Personagens: GOVERNADOR CML - Seja quem-


O SR. MILHÕES for.
OGoVERNADOR CML NUNES - Sim, senhor.
D. ANA Moscoso GOVERNADOR CIVIL - Para nin-
NUNES, policia guém, (Nunes sai) Aproveitemos es-
tas felizes disposições. (Escreve).
Polícias, Enfermeiros, etc. "Ela -. Sabes? Sabes enfim o que
não te ouso confessar? .." Agora
No gabinete do Governador Civil. precisava aqui de uma frase de efei-
Ampla secretária e, em frente, uma to. (Procura nos livros que tem em
mesa mais pequena, cima da mesa) Aqui há de haver por-
que aqui há de tudo .. , (Escreve)
GOVERNADOR CML (escreve sen- "Ele - É omomento ... éo mo-
tado à secretária) - "Ato li, mento mais trá~co da minha vida."
(I) Raul Brandão, dramaturgo per- cena quinta - Chegou o momento (Passando amão pela cabeça) Es;.
tuguês falecido em 1930, publicou em cheio de horror em que sinto osolo tau acomover-me muito. Isto até me
1923 um volume contendo: ODoido e a
fugir-me debaixo dos pés." (PollSan- pode fazer mal.
Morte, O Rei Imaginário e O Gebo e a
Sombra, esta em 4 atos. Posteriormente do apena) Estou hoje inspirado. Tu- NUNES (abrindo aparta) - Es-
foram publicadas O Avejão (epis6dio do me sorri, amanhã, océu, amusa. tá aqui. ..
dramático) eEu sou um Homem de Bem (Toca acampainha) 6 Nunes. (En-
(mon6logo). GOVERNADOR CML - Caramba!
tra oNunes equando oNunes abre Não estou para ninguém! Isto éde-
ODoido e aMorte foi representada aporta vêem-se alguns polícias sen-
pela primeira vez em 1926, no Teatro mais, Nunes! Castigo-te com três
Politeama de Lisboa, na interpretação de
tados num banco de pinho, lendo dias de vencimento,
Alves da Cunha e Joaquim de Oliveira, jornais).
Segundo Luis Francisco Rebello esta NUNES - É o Sr. Milhões com
NUNES - Senhor governador civil. uma carta do presidente do mln~té­
farsa «marca o ponto mais allo do '
seu
teatro como um dos mais altos momentos GOVERNADOR CML - Se vier rio.
da dramatur~a portuguesa moderna, e por aí alguém, não estou para nin-
consente um honroso parelelo com as guém, GoVERNADOR CIVIL - OSr. Mi-
{lbras mais representativas do teatro uni- lhões? Que entre, .. Que vida esta!
(I) Realização de P. Genty elPDutour. versal do sen tempo". NUNES - Sim, senhor. Que país este! Exatamente no mo-
j:
A
menta psicoló~co, no momento em SR. MILHÕES - Cuidado que po- GoVERNADOR CIVIL - Temos
que me remontava. Nunes... uAi do demos ir todos pelos ares. muito tempo. Ó Nunes! todos caem auma sobre ele esegu- SR. Mrr.HÕES - E à medida que estou preparado para morrer. Não se
Lusíada, coitado..." Isto não é um GOVERNADOR CML (dando um SR. MILHÕES - Chame quem o ram-no bem seguro. Ouviste? (O os segundos olhos se me foram abrin- Il\orre assim sem mais nem menos.
país, éuma selva onde os homens de salto) - Ahn?1 senhor quiser. Chame lá oNunes por Nunes diz que sim com acabeça sem do mais funda se me radicou avon- Morrer! Morrer! ... Então o senhor
gênio têm de ser ao mesmo tempo SR. MILHÕES _ Repito, onegócio . uma vez. É-me indiferente. (O go- poder falar. Osr. Milhões tem segui- tade de destruir tudo isto. Operóxi- pensa que isto de morrer éuma coi-
governadores civis. (Lendo o bilhe- que me traz aqui é muito grave. vernador civil levanta-se e vai sair do atentamente acena, de ouvido à do de azote... s& sem importância nenhuma? Mor-
te) OSr. Milhões. Dize-lhe que en- (Senta-se cerimoniosamente e o go- precipitadamente) Oque me não é escuta ecofiando as barbas respeitá- GOVERNADOR CML - S03-H04. rer é uma coisa muito séria, é um
veis.) Osenhor étolol Osenhor pode ain- ato que importa certa preparação,
tre, dize-lhe depressa que entre. vernador civil vai postar-se na sua indiferente é que o senhor saia da-
(Abre acarta). É o próprio minis- secretária.) qui. Ah, isso não! Ao senhor eso- SR. MILHÕES - Sente-se senhor, da ser muito feliz! Osenhor pode re- testamento, cólicas) etc. É só chegar
tro que recomenda o homem mais GoVERNADOR CML _ Estou no Jhj-o para morrer comigo. não faça figuras tristes. Osenhor está cuperar o uso das suas faculdades. aqui morrer e mais nada! Que tal
rico de Portugal. (Nunes introduz o minh fu H GOVERNADOR CML - Muito abri- a tratar-me com menos consideração Olhe que o senhor arrepende-se. está' o da rebeca! Morrer! Eu não
Sr. Milhões, e lmlO caixa écolocada exercício das as nçoes. gado! e li desconhecer a importância do Pelo amor de Deus, deixemos de toli- qUero morrer nem pensei nunca a
no chão entre as duas mesass "Aqui, SR. MILHõES - Omaior crime de meu papel no universo. (Exaltanào- ces! Oiça, oiça. .. Osenhor não ou- sério que tivesse de morrer. Tenho
cuidado. Está bem. Pode rerirar-se". todas as épocas, a suprema tragédia SR. MILHÕES - Ese dá um pas- ~se) Eu sou imperador, sou rei, sou ve tocar lá em cima? (Mais alto) O ido a enterros, mas é aos dos ou-
OSr. Milhões é um homem impor- de todos os tempos! Vamos estoirar so para fora daquela porta, faço sal- Deus! Posso à vontade aniquilar o senhor não ouve tocar lá em cima? tros. .. Então o senhor entra-me
tante e severo, de grandes suiças e dentro de vinte minutos. (O gover- tar tudo. J.. universo ou fazer uma grande heca- (Berrando) Osenhor não ouve tocar pela porta dentro, e sem mais nem
I
lunetas de aro de oiro. Sobrecasaca). nadar civil muda de expressão à me- GOVERNADOR CIVIL - Maul O tombe. (Exaltando-se cada vez mais) lá em cima? ontem, de repente, fala-me assim de
GOVERNADOR CML - V. Excia. dida que ooutro fala) Oque o se- senhor não se ponha com brincadei- Tudo depende de mim. Eul eu! eul SR. MILHÕES (com fleuma) - morrer como se eu fosse um conde-
tenha abondade de se sentar. Há que· nhor vê aqui nesta caixa é o mais raso Eu sou um governador civil, uma (Bate punhadas na mesa) Em que Grite mais alto se lhe parece. Ose- nado à morte, nas escadas da forca?
tempos que tenho ahonra de o eo- formidável de todos os explosivos. autoridade constituída, e o senhor se distinguem os heróis eos impera- lhor está adar um espetáculo abjeto. Adeus, meu amigo! Além disso é. um
.. ·····iilieideVísta· e·âe nome. Então? S03-H04, cem vezes mais poderoso lembre-se que tem mulher e filhos. dores da canalha sem nome? Pelo nú- crime. Previna-o de que éum crme,
Escusava de fazer essa triste figu-
(Mas o Sr. Milhões, embezerrado, que o ~amite, o al~o.dão pólvora, É um homem de ordem, é um ho- mero de homens que podem aniqui- ra. .. Safaram-se. Eu percebi tudo. punido por todos os códigos, at.entar
não diz palavra. Com amaior indi- eofulminato de m~rcuno. Bast~ car- mem rico... Osenhor... Então eu lar sem responsabilidade nenhuma. Puseram-se logo ao fresco. Pode ver. contra a vida de uma autondade
ferença dispõe acaixa e faz aliga- regar nesta campainha, para lffi1~S estou aqui sossegado, no cumprimen- Trrl Trr!... E mato-me e mato-ai (O governador civil abre aporta. Os constituída, de mais amais no ezer-
ção dum fio e1étrico para acampai- t~dos pelo~ ares, eu, ~ senhor, opre- to do meu dever, a escrever uma GOVERNADOR CIVIL (mais baixo) policiais fugiram, obmlco está deser- cício das suas funções. Artigo 343 do
nha da mesa que está em frellte da dia, o, ~alIIo,. a capital. S03-H04. peça, nunca lhe fiz mal nenhum, te- - Mas osenhor Milhões ainda não to). - Sente-se, não podemos per- Código Penal. Vamos, vamos ...
secretária do governador civil. Oou- Operôrido. .. nho por V. Excia. amaior consde- se explicou. der tempo. Sente-se e oiça. Ninguém Isso é um momento de desvario e
tro segue-lhe os movimentos com GOVERNADOR CML - Quê? Quê? ração ... V. Excia. está incomodado?
SR. MILHÕES (serenando imedia- o arranca das minhas mãos. Há mais nada. Espero que as minhas pa-
uma curiosidade crescente). Que peróxido?! Quer tomar alguma coisa? (E sem- tomente) - É verdade, ainda não quem diga que estou doido. Diga-me lavras ofaçam reconsiderar. (O ou-
SR. MILHÕES (aproximando-se de- SR. MILHõES - Operóxido de pre mais alto) ÓNunes! me expliquei. Peço desculpa. (E sem- com franqueza, conhece-se que eu tro ergue-se implacável eaproxima a
le, confidencialmente) - OSr. sabe azote. SR. MILHÕES (com desdem) - pre respeitável, sempre com impo- esteja doido? mão da campainha) Ai que ele está
oque está aqui dentro? GOVERNADOR CML (masrigando) Acabe lá com isso! nência) Aqui há tempos, faz exata- GOVERNADOR CML - Ora essa, doido varrido! (Exaltanào-se) Se-
GoVERNADOR CML - Oque é? - Isso é sério? GoVERNADOR CML - Então se mente um mês, quando passeava à V. Excia. está no uso completo da nhor! Senhor! (Avança para o agar-
SR. MILHõES - Amorte! SR. MILHÕES - Muito sério. V. Excia. me dá licença, é para tarde sob as árvores do meu quintal, sua razão, eu é que me sinto endoi- rar, mas ooutro põe odedo em cima
GoVERNADOR CML - Pelo que GoVERNADOR CML - Ó Nunes! lhe pedir um copo de água. senti de repente que se me abriam decer. do botão eele afasta-se logo.)
v~o onegócio égrave? SR. MILHÕES _ Pode vir oNunes e SR. MILHÕES - Chame quem qui- os segundos olhos. SR. MILHÕES - Antes de mais SR. MILHÕES - Faça o favor de
SR. MILHÕES - Muito grave. Vim todos os re~entos da capital... ser. Aquestão éentre mim, V. Excia. GOVERNADOR CML - Os?! nada, é preciso que me compreenda estar quieto. Eu admiro-o. Quando
de propósito de automóvel para não Quando eu tocar nesta campainha e operóxido de azote. Trr... tr... bem. Eu sou eu, sou um amigo da se representou aquela sua peça - O
dar nas vistas. V. Excia. já leu a arraso tudo. Operóxido de azote é Se V. Excia. sair daqui. .. trr. , SR. MILHÕES - Os da alma. humanidade. Aum gesto meu desapa-
, Destino - disse logo comigo: Que
carta do presidente do Ministério? a maior invenção deste século. Bas- GoVERNADOR CIVIL - Ó Nunes GOVERNADOR CML (sucumbido) rece adesgraça da face da terra, aca- talento!
Há muito tempo que o admiro. tacarregaraquicomodedo ... (Ele, (O Nunes entra) - Ó Nunes, ele - Ai meu Deus, que estou perdido! bam os crimes, as msérias eas pai-
GoVERNADOR CML (lIsonjeado) de lá, faz-lhe um gesto de súplica, está doido eacaixa éde dinamite - xões. Fazendo saltar o globo, supri- GoVERNADOR CIVIL (desvanecido)
SR. MILHÕES - E vi de repente mo para sempre os gritos etodas as - Muito obrigado. Oque vale neste
_ Eeu! Eeul Tenho por V. Excia. sem poder falar, para ooutro retirar uma caixa daquele tamanhol (O Nu- o mundo não como todos o vêem,
amaior consideração. (Levanta-se e odedo )Mas nós ainda não nos ex- nes arregala os olhos) Quando eu injustiças. Suprimo amorte. mundo são as almas irmãs.
mas como éna realidade.
ao passar entre as mesas dá um pon- plicamos. (Tirando o relógio) Te- disser disfarçadamente - "Não ou- GOVERNADOR CIVIL - Perdão, Sr. SR. MILHÕES - Só ele é capaz de
tapé na caixa). mos tempo. ve tocar lá em cima?" - vocês GOVERNADOR CML -A cabeça Milhões. Épreciso que atenda a vá- me compreender, só ele é digno de
estoira-mel rias circunstâncias pessoais. Eu não morrer comigo.
GOVERNADOR CIVJL - Mau! Mau! ná-Ios. Julgo que a sua loucura não GOVERNADOlJ. CIVJL - ÓAninhas, O senhor abusa! Aninhas, faze-me essa mulher ideal que o senhor la- está sujeito a mil complicações. Vá,
Mau! exigirá o sacrifício dessas inocentes mas tu disseste que quando eu mor- ao menos um enterro muito bonito, menta não é amulher que lhe con- sente-se.
SR. MiLHÕES - Na sua peça há vítimas, Posso chamar aminha mu- resse, morrias logo também, ANINHAS - (Para Milhões) Quan- vém, É uma felicidade para osenhor GOVERNADOR CIVJL - Obedeço,
jenas verdadeiramente shakespearia- lher para fazer as últimas disposi- to falta? ver-se livre dela. Obedeço.
ções? ANiNHAs - Disse e digo. Estou
nas - são as que não estão lá. Por- pronta a cumprir omeu dever. Sou SR, MiLHõES - Um quarto de ho- GoVERNADOR CML - Ela é que SR. MiLHõES - Há efetivamente
que énecessário que osenhor saiba: SR. MILHõES - Pode, contanto ra se vê livre de mim, quem diga que estou doido, mas nun-
duma família que se preza de cumprir
os livros, as peças, a arte enfim só que não saia daqui eque se não de- os seus deveres. Mas nunca te disse ANINHAS - É o tempo absoluta- SR, MILHÕES - É uma mulher ca aminha lucidez foi lliaior. Ose-
vale pelo que nos sugere. Oque lá more muito. (Vê ahora no relógio) que morria, como as mulheres da ln- mente indispensável. (Vaia sair que oengana. nhor acredita que eu esteja doido?
está em regra não presta para nada; dia, numa pira. Queimada não! A apressadamente) GoVERNADOR CIVIL - Oh! (O outro de lá acena à pressa que
oque cada um de nós constroi sobre GOVERNADOR CML - E eu que
estive esta manhã para meter ore- rninha religião é católica, apostólica GOVERNADOR CIVJL - Dize-me ao SR. MiLHõES - Enganou-o sem- não) De resto oque éloucura e o
alinha, 11 cor, eosom, éque éver- que é juízo. Simples pontos de vista
vólver no bolsol Enão acreditem em romana! Saiba morrer quem viver não menos adeus, Aninhas. Adeus! pre.
dadeiramente superior. Por isso lhe emais nada. Odoido pode seguir à
pressentimentos! Nunca mais saio de soube. (Para oSr. Milhões) Quanto ANINHAS - Adeus! Morrer quei- GoVERNADOR CIvIL - Senhor!
perdoei todas as banalidades que falta? vontade o seu sonho, sem que nin-
tem escrito, epassei aadmirá-lo. Pul- casa sem trazer orevólver. (Pelo te- ~~ ; mada não! (À porta, como quem lhe SR. MILHÕES - É oque lhe digo.
lejone) Aninhas... Ah, estás lá? atira pazadas de terra) Morre em guém se meta com ele, Tem quem lhe
verizando-o comigo e com o globo, SR. MiLHÕES (com uma grande Osenhor tem cara de ser enganado dê de comer, de vestir ecalçar nos
realizo opensamento dos mais altos Estou aqui com um doi. ,. Não, com dignidade) Osenhor éinconsciente, A paz! Descansa em paz! Jaz em paz! por todas as mulheres, É uma cesa
o sr. Milhões. Esse, sim... Peço-te manicâmios,
filósofos. (O outro, julgando-o entre- faça ofavor de me apresentar asua SR. MILHÕES - Ai tem osenhor o que se vê.
tido, vai para fugir.) Fugir para on- ofavor de desceres... Não posso... esposa. que são as mulheres, asua e as dos GOVERNADOR CML - Muito filo-
Não me deixa sair daqui. outros, GoVERNADOR CIVJL - Basta! sófico.
de? Não seja estúpido. Melhor éen- GOVERNADOR CML - Minha mu-
trar comigo sem desvarios na catego- SR. MiLHÕES - Diga-lhe que ve- lher, aSra. D. Ana de Baltasar Mos- GoVE~~ADOR CIVJL -- Não me
SR. MILHÕES - Livro-o dela, SR. MiLHõES - Não diga mal dos
ria dos deuses, Elevo-o à categoria nha depressa. livro-o de complicações, livro-o do doidos. Todos os homeus que fize-
coso... OSr. Milhões. tire as últiIn.a~ju.sº~~JP11,ra.d.UJ1t.dever· que· é"tudo'que' há· de'mais'
dos deuses. GOVERNADOR CML - Não te de- lenço para chorar) Se ao menos lhe ·ram··alguma' coisa no mundo eram
ANINHAS - Muito gosto em co- estúpido no mundo eosenhor ainda doidos. Devemos-lhes avida artificial.
GoVERNADOR CIVJL - Ó meu mores, Aninhas .. , Sim, sim. nhecer. (Anda de roda da caixa com pudesse acertar com um banco pela
se queixa. Na realidade devemos-lhes tudo. Se
Deus! Ó senhor! ... SR. MiLHõES - Vem? precauções para lhe apertar amão) cabeça. (Algumas lágrimas).
Quanto falta? GOVERNADOR CIVJL - Osenhor é não fossem eles, ainda hoje seriamos
SR. MiLHõES - Trr, trr, e sou GOVERNADOR CML - Vem já~ SR. MILHÕES - VamosI Vamos! bichos. Dantes eu próprio que era?
adorado, sou magnífico, sou único, SR, MiLHõES - Quinze minutos e doido,
(Ela entra) Isto abem dizer não éamorte, éa Um masurrão. Agora omeu espírito,
(Faz menção de tocar) GOVERNADOR CIVIL (fala-lhe quatro segundos exatos, minha se- pulverização. Não se sente nada, SR. MiLHÕES - Doido! Doido! Já leve como uma pluma, paira acima
GOVERNADOR CML -- Perdão: nhcra verá. é com esta a terceira vez que mo da eShlpidez humana. (O Sr. Milhões
apressadamente ao ouvido com excla-
Perdão! Perdão! Ao menos outra ANINHAS - Então retiro-me par- GOVERNADOR CIVJL (dirigindo-se chama. Saiba então que um homem
morte! Estoirado não! Dê-me outra
mações) - Ele! Ele!. ..
ANiNHAs - Abu?
que não há tempo aperder. Um auto- I à janela) - Toda a cidade deser- que não tem ao menos uma parcela
distraído vai tocar no botão da cam-
painha. O outro faz-lhe de lá,
morte, uma morte onde omeu cadá-
GoVERNADOR CML - Sim, Ani-
móvel epronto! (Vaia sair)
~,
I ta. " Um silêncio de túmulo. Fugiu de loucura não presta para nada. apressadamente pst! pst! para retirar
ver se possa sepultar com decência e
nhas, eu Baltazar Moscoso, estou nas GOVERNADOR CIVJL - ÓAninhas, '"'("1 tudo ao peróxido de azote... Que Aqui estou eu, que, enquanto tive o odedo), Ah, éverdade, ainda faltam
em que haja possibilidade de me fa-
mãos deste infame. Se dou um passo despede-te ao menos de mim. Ó Aui- morte aminha, eninguém senão eu meu juízo todo, nunca fui feliz. (O alguns minutos. (E segue com odis-
zerem um enterro digno de um go-
daqui para fora, trr! Pulveriza-me! É nhas, olha que eu quero uma lápide para a poder contar! Posso dizer governador civil, julgando-o descld- curso) De antes ocupava os meus
vemador civil.
dinamite, é peróxido, aquela grande monumental, Dize aos meus ami- bem alto que não há drama no mun- dado, vai-se aproximando da porta) ócios aler os clássicos. Aleihua dos
SR. MILHõES - Ser pulverizado,
caixa" . Oque há depior... Ar-
gos. ,. (Baixo) Não tens aí orevól- do que se compare com este. (Se- Passar por doido tem muitas vanla- clássicos, que fastidiosa tarefa! Quei-
pertencer ao cosmos, viajar nas nu-
rasa prédios ebairros. ver? Dize-lhes que quero omeu nome glundo outras idéias) Eveja osenhor gens. Direi mesmo que é a única mei-os todos no pátio, Detesto os
vens, que melhor quer osenhor? Que em letras doiradas eesta frase grava· essa mulher que" me disse sempre situação vantajosa que há neste país. clássicos. Eosenhor?
mais quer osenhor? ANINHAS - Espera aí que eu já da na minha sepultura: "Aqui jaz que, quando eu morresse, morreria Odoido diz tudo que lhe passa pela GOVERNADOR CML (apressada-
venho, (Faz menção de sair) um homem de gênio que não teve . I
comIgo.... cabeça, (E cOlI/inuando a falar im-
GOVERNADOR CIvIL - Fugir. mente) - Também eu, também eu!
pernlrbável, faz-lhe sinal que volte
SR, MILHõES - Não há nada que GOVERNADOR CIVIL - Salva-me tempo de se revelar." SR. MILHõES - Essas coisas di- para trás e aproxima o dedo da SR. MILHõES - Dantes tinha hcr-
a salve. ou morre comigo. SR. MILHõES - Tantas pieguices! zem-se mas nunca se fazem, Se o campainha) Ninguém estranha, O ror aos palavrões, agora até me sabe
GOVERNADOR CIVIL - Por cima ANINHAS - E os nossos filhos? GOVERNADOR CIvIL - Homem, o senhor fosse um homem inteligente doido pode andar de chinelos de bem, de quando em quando, uma
moram minha mulher emeus filhos, Não sejas egoista, nunca passaste senhor nem ao menos me deixa fazer I
"r'
compreendia-o logo. Mas não é(Ges- ourela pelo Chiado. Ninguém repara. obscenidade. (E aproximando odedo
to do outro) Não é. Demais a mais Quem tem juizo vive constran~do e
Creio que não quer também assassi- dum reles egoista. Eu disse-o sempre. as minhas disposições testamentárias. "I'
. ,,"" da campainha) Vai agora?
~r' OTRIBUNAL DOS DIVÓRCIOS MARIANA - Divórcio, senhor
Juiz, divórcio, divórcio, divórcio!
j O EsCRIVÃO (tocando asineta)
I
- Silêncio I
ENTREMEZ O VELHINHO - Pelo amor de
DE MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA (1547-1616) I Deus, Mariana, um pouco de calma,
você pode defender sua causa sem
Tradução de Virginia Valli gritar tanto!
MARIANA - Divórcio, senhor
Aidade de ouro do teatro espanhol se situa entre Juiz, divórcio!
os últimos 30 anos do séc. 16 eos primeiros decênios do PERSONAGENS:
séc. 17, época em que viveram Lope de Vega, Quevedo OJUIZ - De quem, madama, e
eCervantes. Foi agrande época clássica espanhola. Me- OVELHINHO porque?
',r-~
nos representado do que Lope de Vega, este com seus MARIANA, sua mulher MARIANA - De quem? Desse ve·
autos sacramentais ecomédias heróicas, Cervlintes escre- ~ OSOLDADO
GUIOMAR, sua mulher
lho aí!
veu diversas peças curtas - gênero dramático conside- OJUIZ - Eporque?
rado inferior - como esta que publicamos,' denominada OMÉDICO
ALDoNZA, sua mulher MARIANA - Porque não posso
entremés que se representava no final do espetáCulo ou mais j ,agüentar suas impertinências,
num dos intervalos. Coube a Cervantes dar-lhe aforma OGALEGO
OEsCRIVÃO, nem passar avida a cuidar de suas
definitiva, ao publicar, .juntamente com suas oito comé- mazelas. Meus pais não me criaram
....•. " ' H ' ..•.. •.• •. . • • ••• 'H" •• ' •••••• diiii;"os'61io eiiii iriàéi qüetiüiicaforam representados,
H
OJUIZ
OPROCURADOR para servir de enfermeira. Trouxe-lhe
entre eles oRetábulo das Maravilhas, OVelho Ciumento, um lindo dote, aesse feixe de ossos,
os Dois Faladores e o Juiz dos Divórcios. Pubiicamos, OMÚSICO'
UMA MULIlER e eele em paga consome meus dias de
em tradução de, Valmir Ayala, A Cova de Salamanca vida! Quando me entreguei aele, eu
'(CT n. 38). Nesse mesmo número, encontra-se uma OMARIDO
resplendia como um espelho eagora
explicação da forma teatral da época, bem como um estu- pareço um saco de estopa. Senhor
do sobre amoda espanhola nos séc. 16/17. . Sala de audiência. Ao fundo, uma Juiz, me descase, se não eu vou me
mesa comprida, colocada sobre Ulll enforcar! Olhe, repare só nessas ruo
"Cervantes achava que acomédia devia ser oespe- estrado, atrás da qual estão coloca- gas: são as lágrimas que derramo
lho da vida, transmitindo os costumes do tempo. De das acadeira do fldz, acadeira do todo dia, de desgosto de me ver casa-
1584 a1587, Cervantes escreveu de vinte atrinta peças escrivão eado procurador. À esquer· da com esse esqueleto ambulante!
que serviram para a sua manutenção quando regressou i~ da e à direita da mesa, perpendi-
à pátria. cularmente ao público, dois bancos
onde se sentam os queixosos: de um (O ESCRIV10 agita asineta).
'A peça mais célebre de Cervantes - euma das
poucas que se conservaram até os dias de hoje - é El lado, os homens,' do outro, as mulhe-
Cerco de Nunul1Icia. res: Mariana, Guiomar e Aldonza. OJUIZ - Não chore, madama.
Todos falam ese agitam ao meslilO Fale mais baixo eseque essas lágri-
"Além destas peças, Cervantes escreveu oito entreme- tempo. O escrivão entra eoalarido mas. Ajustiça será feita.
zes, notáveis pela fixação de caracteres populares espa- conrinua.
nhóis, seguindo amarca tradicional de Lope de Rueda. MARIANA - Deixe·me chorar, se·
Todo ocolorido da Espanha está presente nos eutremezes uhcr, senhor Juiz, isso me acalma.
de Cervantes, representado por personagens como os OEsCRIVÃO - Silêncio! ACorte! Em todos os reinos erepúblicas bem
fidalgos arruinados, velhos ciumentos, maridos engana- (Toca uma sineta) governados os casamentos só deviam
dos, estudantes etc." (Hermilo Borba Filho iII História durar três anos, depois eram desfeio
do Teatro pp. 119/20 - Ed. Casa do Estudante do Bra- OJuiz eoProcurador entram ese tos ou confirmados. Assim a gente
.L,' instalam. Antes de o Juiz abrir os não estava obrigada a aguentar toda
sil-1.aed), ;P:. processos, Mariana se ergue. a vida velhos como este. Zi
v'
• -?-{."'~~ Sussuros. oescrivão toca asineta. OPROCURADOR - Certamente, a Não encontrando emprego, não tenho
Ormz - Se isso fosse possível, mão de um médico eseu humor de- ébom para as raparigas que gostam maledicência é um mal, mas fre- um tostão. E vendo que sou pobre,
por dinheiro - éclaro - eu ofaria vem ser brandos! Em resumo, senho- das grades, das torres edos alçapões. OSOLDADO (ao Velhinho) - Não qüentar a igreja não é acusação ela me despreza! Eopior éque ela
de boa vontade... res, sou eu que estou morrendo nas Vá para oconvento, se quiser, ébom vou contradizê-la: que otribunal me válida. quer, em troca de sua fidelidade, me
suas garras, enquanto ela vive à para você que não enxerga mais, que condene porque assim ficarei livre! impor suas impertinências eseus ca-
O PROCURADOR - Hum, hum! minha custa: todo a minha fortuna está surdo e anda se arrastando de ~
GmoMAR - Eà noite, sabe oque
Exponha, por favor, os motivos que OPROCURADOR - Meça as pala- ele faz? Corre de bordel em bordel prichos.
está em suas mãos! tão velho, com essas mãos que não
alevam a pedir aseparação. sabem mais o que estão pegando. vras, madama, e exponha seu caso até meia noite e depois volta para GUIOMAR - Não é le~tirno? Se
MARIANA - Que fortuna? Não sem ultrajar seu marido. Fale sem casa pra jantar, quando tem que sou uma boa esposa, você não tem
MARIANA - Os motivos? Ave- lhe dê ouvidos, senhor Juiz. Tudo Mas eu, estou bem de saúde gozo
dos meus cinco sentidos muito bem, temor, otn'bunal saberá julgar. comer; depois reza, se espicha, bece- que me respeitar?
lhice do meu marido eaminha ida- que ele possui ganhou com odinhei-
de primaveril; odesgosto que tenho quero gastá-los em liberdade, des- GUIOMAR - Meus senhores, não ja, deita edonne asono solto.' O JUIZ - Neste ponto ela tem
ro do meu dote. (Ao velho) Então, razão. (Ao soldado) Que tem a res-
de acordar durante a noite para preocupada! !tenho razão de chamar de pedaço de OJUIZ (ao soldado) - Que tem
ametade de meus bens me pertence, pau a esse sarrafo? ponder?
esquentar panos esacos para pôr nos ese eu morrer agora, não lhe deixa- OEsCRIVÃO - Eis aí uma mulher i a dizer em sua defesa?
pés dele ou lhe amarrar um curativo. rei nem um vintém de herança! . casada muito emancipada! I MARIANA - Como aentendo, do- OSOLDADO - Minha mulher tem OSOLDADO - Senhores juizes, vou
..!~
Ao menos se eu pudesse vê·lo amar- OPROCURADOR - Omarido, po- na Guiomarl Como a compreendo! toda razão, senhores. (Sussurros) responder: Ela é uma boa esposa?
rado ao pelourinho! Otrabalho que O ESCRlVlO toca a sineta. OEsCRIVÃO - Silêncio! Deixem Mas as minhas ações são tão ajui- Muito bem. Mas tem que ser, por-
tenho para ajeitar seu travesseiro,
rém, é ajuizado e sensato. 1~ zadas quanto suas palavras. que seus pais lhe inculcaram bons
OJUIZ - Não vejo nenhum mo- a queixosa expor suas razões.
dar-lhe xaropes e pôr-lhe cataplas- princípios. Depois ela é cristã e
OJUIZ - Não divaguemos, por tivo que justifique o descasamento. GUIOMAR - Direi apenas, senho- OJUIZ - Eporque osenhor não mostra, assim, que obedece aos man-
mas para ele não morrer sufocado; res, que me casaram com esse ho- trabalha?
e a obrigação de suportar o fedor favor! Diga-me, senhor, quando en- MA!uANA eOVELIllNHO- Nós ape· damentos da nossa Madre Igreja.
.trouna·possedamulher;estavasão. laremos! men, já que desejam que o chame OSOLDADO - Porque não acho Enfim, éseu dever, se ela tem algu·
desüã bbca,qiJé séSeiitéà ül:iia' dis-- assim; mas não foi com esse homem quem queira me dar trabalho. Ese é
tância de três arcabuses. de corpo e de espírito? OEsCRIVÃO (sacudindo asineta) ma estima por si própria. Tinha gra·
OVELIllNHO - Juro por minha que me casei. isto que amola minha mulher, peço
- SilêncioI Aos seguintes! ça que as mulheres exi~ssem respeito
O EsCRIVÃO - Deve ser algum salvação! Há vinte edois anos eu era O JUIZ - Como é? Não com- que nos separe, porque são castas ehonestas! Como
dente podre. um rapagão no verdor dos anos, ío- prend». . GUIOMAR - Tenho ainda a ele- se todas não tivessem obrigação de
O PROCURADOR - Se não me goso e cheio de vigor... Mariana e o Velho se sentam e GUIOMAR - Digo que pensei que gar, em minha defesa, senhores jui- sê-lo I Depois, que me importa. qu'e
falha a memória, parece que ouvi MARIANA - Fogo de palha que continuam ase xingar em voz baixa estava desposando um homem de zes, que sempre me recusei a qual- você seja honesta e casta?
dizer que o mau cheiro de boca é não dnrou nada! epor gestos. fato e de boa condição e ao fim de quer comércio sujo, mas ocasiões não GUIOMAR - Ele está me insul-
causa justificada de divórcio. OJUIZ - Silêncio, madama, si- poucos dias descobri que me casara me têm faltado. tando, senhor juiz, está me insul-
OVELHINHO - Na verdade, se- lêncio! No começo, comeu o pão GUIOMAR - É aminha vez! - repito - com Ull\ pedaço de pau, O PROCURADOR -Muito bem, tando!
nhores juizes, o mau hálito de que branco, agora contente-se com o JUIZ - Fale, madama. belas palavras! OSoLDADO - Deixe-me concluir,
ela me acusa não vem de nenhum preto, Não é obrigação do marido GUIOMAR - Deus seja louvado, Rumores. Sineta do escrivão, OJUIZ - Ao menos por este mo- por favor. Oque me aborrece de-
dente podre, pois não tenho mais impedir que otempo passe, Asenho- senhores juizes, por me dar ocasião 1'"
.,~ tivo, essa mulher merecia ser mais ma~, em vez disso, éver você sem-
dentes. Muito menos do estômago, ra viveu uns bons anos com ele? de comparecer perante este tribunal!
que está em perfeita saúde, mas vem Então, que isto aconsole dos maus, OJUIZ - Deixe de vez as injú- bem tratada. pre embezerrada eirritada, distraida, .
OJUIZ- Qual asua petição, na- rias e vá aos fatos. Qual é a sua OSoLDADO - Mas debaixo dessa ciumenta e com preguiça, enfim é
da maldade do coração dela. Os se- vê-la jogar o dinheiro pela janela,
nhores não conhecem essa mulher, MARIANA .:.... Senhores juizes,. peço dama? queixa, afinal? honradez ela esconde uma natureza
ficar deitada até meio-dia, me amo-
ruro que se aconhecessem aconde- que me livrem desse guarda de galés, GUIOMAR - Suplico, senhores, GUIOMAR - A minha queixa? perversa, senhores! Tem ciúmes
Pois bem, vou dizer: acuso-o de ser sem motivo, grita por qualquer coi- finar e'inventar mil picuinhas que
nariam à separação e ao açoite, Há senão. .. não viverei nem um mês que me separem disso. (Aponta o
incapaz de diferençar a mão direita sa, faz·se de grande dama sem ter bastariam para abreviar os dias de
vinte edois anos que levo uma vida mais! soldado)
duzentos maridos!
de martírio ao lado dela, sem nunca OPROCURADOR - De que jeito? O EsCRIvÃo - Ao menos diga da esquerda; acuso-o de não ganhar um tostão furado!
me queixar de seus desaforos. Ehá 'desse homem'. nem um tostão para o sustento da O JUI7J - Se ela não tem um GUIOMAR - É mentira, senhor
OVELHINHO - Tranquem minha família, Acuso-o de passar a manhã tostão éporque osenhor não lhe dá, Juiz, é mentira!
dois anos que ela me maltrata para mulher num convento e a mim, GUIOMAR - Se fosse um homem
acabar mais depressa com meus dias n'outro, Dividiremos nossos bens e eu não pediria odivórcio. na igreja, depo~ ficar flanado por aí OSOLDADO - Como já disse, se- OJUIZ - Conclua, senhor, ccn-
de vida. Fiquei surdo só de ouvir os não brigaremos mais. com todos os mandriões iguais aele, nhor Juiz, não posso dar nada por- clual
OJUIZ - Que éque ele éentão? falando ma! do próximo, contando que não estou trabalhando, e não
seus gritos e suas brigas me enlou- I OSOLDADO - Pois bem, senhor
queceram. Quando cuida de mim, é MARIANA - Juro que não! Não GUIOMAR - Um pedaço de pau, .""'~k" novidades ou inventando mexericos, trabalho porque não acho emprego. juiz, dona Guiomar, aqui presente, 2!
sempre resmungando, no entanto, a estou para ser encarcerada não! Isto senhor Juiz! Um pedaço de pau.
I
ToDOS (caJando-se) Ah! olhos de todos aexcelência eas qaa- épaz para ano inteiro.
não tem realmente nenhum dos de- gundo: enganaram-me arespeito dele OGALEGO - Senhores, juizes, eu
OJUIZ - OTribunal dos Divór- lidades deste. tnnunal. Reconhecem Após grande xingação
feitos que enumerei aqui. (Cochi- quando m'o deram como marido ... sou carregador não digo que não, mas
um velho cristão, eminha consciên- cios, em sessão ordinária, consideran- este homem e esta mulher? (Mos- logo venham as carícias
chos) Confesso que sou um pedaço OPROCURADOR - Que quer dizer do que todos aqui presentes formula- trando o par que oacompanha). afinal tudo se esquece.
de pau, um incapaz, um vagabundo. com isto? da está tão alva como no dia em que
nasci. De tempos em tempos, tomo ram, cada um por sua vez as razões OPROCURADOR - Não são aque· ToDOS .:
(Murmúrios) Nestas condições, pcis ALDONZA - Pensava que ele íos-
ou poucochinho de vinho, ovinho me de instrução desta instânci~ de divór- les que nós julgamos na semana
que alei odetermina, otribunal deve se médico, eele mal sabe fazer uma cio; considerando que as ditas rela- passada e que foram condenados a Se o casamento émau
nos separar. Nada tenho aresponder sobe um tantito, sem o que eu já odivórcio... ainda pior!
sangria. Terceiro: ele tem ciúme até mações respousam sobre acusações se reconciliarem?
ao que disse minha mulher, edou o seria orei da minha corporação.
do ar que respiro. Quarto: já o vi não escoradas em provas; consideran- OJUIZ - Por Deus, sim, são eles! OMÚSICO-
processo por julgado. bastante edaria uns dois milhões de OJUIZ - Ao fato, amigo, ao fato. do que o Tribunal não contesta a
GUIOMAR - E que tem o senhor contos de réis para me ver separada OHOMEM - Senhor Juiz, reco- Um é tolo outro ciumento;
OGALEGO - Eis aí, senhor Juiz, prio~i o valor das ditas acusações;
dele para sempre. Quinto ... nheci meu erro: minha mulher não este avaro, ess'outro sonhador.
a responder? um dia em que me achava um tanto consl~erando, finalmente, que certas
era tão ruim como eu achava. Oesposo ou aesposa
OEsCRIVÃO - Calma, madama, OJUIZ - Madama, madama, se nas vinhas do Senhor, prometi casa- das ditas acusações são suscetlveis de
ser contraditadas edesmentidas pelos AMULHER - Emeu marido éo do rancor súbita presa
calma! (Sineta) Ao seguinte! pretende dizer aqui os seus quatro- menta a uma vagabunda da taverna. contra ele contra ela,
centos. motivos, não vamos acabar fatos; decide que os peticionários e melhor homem do mundo, mas eu
Passada abebedeira, tive que manter escuta cá meu segredo:
nuncaIAliás não temos tempo para as peticionárias serão citados a em- ainda não tinha percebido isso.
GUIOMAR continua adirigir em apalavra e me casei com essa cria- Se o casamento é ruim
voz baixa veelllentes reclamações ao isso. Vamos instruir o seu processo.tura que apanhei na saqeta. Com- parecer à próxima audiência, elhes OHOMEM - Para celebrar ancs-
impõe ordem explicita de lhe trazer sa reconciliação, damos hoje uma o divórcio." Ainda pior.
marido, que fica impassível, enquan· OMÉDICO - E que necessidade prei·lhe uma pequena banca no mero
to o médico se ergue. Usa a veste há de mais alegaçõesI Não quero cada. Mas ela tem um gênio tão as provas escritas das ditas acsa- grande festa ...
ções, as quais deverão estar assina· A MULHER - E vimos perdir- Todos repetem o estribilho.
negra e as luvas amarelas de sua morrer ao lado dela, eela não quer danado que briga com todos os ire-
profissão. viver junto de mim. Isto não érazão gueses eos xinga até aquarta gera- das por muitas testemunhas reconhe- -lhes, senhores do Tribunal, para se- Os pares, que se refizeram aos
bastante para nos descasar? ção. Atodo instante tenho que sair cidas como idóneas e diguas de rem nossos convidados. ..poucos,.sejuntam,saem dançandoe...........
OMÉDICO .:-Senhores, tenho qua- a correr para acudi-Ia, e ela não crédito pelo dito Tribunal, com a OJUIZ - Será com prazer. A cantando seguidos do Galego. O
OJUIZ - Se fosse razão snficien- obrigação das ditas testemunhas de
tro motivos bem evidentes para pedir te, todo mundo iria querer sacudir ganha obastante com as verduras que Corte agradece o convite. Juiz, o Procurador e o Escrivão
dê para pagaras multas por contra- vir corroborar com sua presença esob
que pronunciem o divórcio entre o jugo do matrimónio! , afé de juramento. OMÚSICO - Com sua permissão, olham-nos partir.
Aldollza, minha mulher - esta aqui venção no peso, na balança, brigas e senhor Juiz, gostaria de cantar uma
OEsCRIVÃO (tocando asineta) - escândalos.
- e eu. A audiência está encerrada! cantiga que provaria a moralidade EsCRIVÃO - Praza aos céus que
OJUIZ - Está bem decidido. Ve- OPROCURADOR - Enaturalmente Protestos gerais. de sua audiência epoderia ser muito todos os queixosos imitem seu
ToDOS - Oh! o senhor ~ostaria de divorciar.
jamos os quatro motivos. útil atodos os candidatos adivórcio. exemplo.
OMÉDICO - Primeiro: não posso OGALEGO - É como diz, senhor OEsCRIVÃO (tocando asineta) - OJUIZ - Esníeao-la PROCURADOR - Não pense nisto,
Tumulto geral. OGalego se adian- Procurador, Ou então, se ao menos
enxergá-la nem pintada; segundo, Silêeeeeencio! A audiência está sus- O MÚSICO (canta acompanhado sr. Escrivão! Por Deus, seria conde- .
te timidamente. osenhor pudesse mudar-lhe ogênio, pensa!
conheço-a bem demais. O terceiro ao violão): nar-ms amorrer de fome, anós, os
motivo eu o guardarei para mim só; talvez que agente se acomodasse. ,. da Justiça.
O GALEGO - Perdão e escusa, Entre um casal perfeito
quarto: não quero ir para oinferno OMÉDICO - Senhores, este bo- Neste momento, entram um ho- nasce um dia a desavença. OEsCRIvÃo - Não tenha medo,
quando morrer, o que vai acontecer senhor Juiz... mem é uma vítima! Conheço a na- mem euma mulher de mãos dadas. Como nenhum deles étolo, senhor procurador. Sempre virão os
se' continuar vivendo com ela OJUIZ - Que quer, amigo? lher dele: é igual à minha e isto Um mlÍsico, com guitarra, os acom· reconhecem seu defeito. ma] casados com suas queixas. Ede-
. OPROCURADOR - Eis um pedido O GALEGO - Divorclar, senhor bastai panha. Se o casamento é mau, pois, lá fora, eles continuarão juntos,
escorado nas mais sólidas razões. juiz. odivórcio ... pior aindaI como atnes.
OJUIZ (a Aldonza) - Madama, Aldonza se precipita sobre oma- OMÚSICO - Senhores do Iribu- OJUIZ - Tem razão, amigo. E
O EsCRIVÃO (sentando-se de má ToDOS EM CORO
escutemos suas queixas. rido, encorajada pelo gesto e avoz nal, um momento, por favor! afinal de contas, ainda somos nós que
vontade, assim, como oProcurador e das outras. Tumulto geral. Otribunal
OJUIZ - Que é isto? Osenhor Se o casamento é mau recolhemos ofruto de sua tolice! Não
ALDONZA - Saiba, senhor Juiz, o Juiz; toca a sineta) - Está rea" entra em confabulação. divórcio... pior ainda!
que 'se meu marido tem contra mim berta a audiência. ousa vir perturbar a :diguidade da éisso oprincipal.
quatro motivos de divórcio, eu tenho Justiça? OMÚSICO -
TODOS - Ah! OEsCRIvÃo (agitando a sineta)
quatrocentos contra ele. Primeiro: OMÚSICO - Nada disso senhor Disputa de S. João - Dizendo tais palavras, o juiz tira
toda a vez que o vejo parece que OEsCRIVÃO - Fale, nobre senhor, - Silêncio, senhores! A Corte está Juiz. Estamos aqui para pr~var aos assim diz oprovérbio - três bolsas do bolso. Atira uma ao 31
estou vendo o diabo em pessoa. Se· fale. deliberando. ; #
Jrocurador, outra ao escrivão guar-
iando uma para si e, fazendo-a sai- TEATRO eH ILENa não dá para garantir a estabilidade econômica de uma
companhia. Aplatéia era constiltúda, basicamente de pes-
'ar na mão.
(1971/1973) soas da classe média. Por outro lado, afalta de novos
dramatugos tinha uma explicação légiea; o cinema.
PROCURADOR - Senhores, a Jus-
:iça está feita! Miguel Littin eRaúl Ruiz, por exemplo, realizaram uina
obra promissora, mas após duas ou três peças, concen-
Saem com dignidade. iraram-se em filmes, um campo em que tiveram muito
sucesso.
Razões para amudança: ocinema mostrou-se com
Ahistória do teatro chileno durante os dois ano~ um potencial criativo maior, além de ser amelhor ma-
edez meses do governo da Unidade Popular tem conside- neira de refletir arealidade e, acima de tudo, não está
rável interesse, mas não émuito estimulante na realidade sujeito às restrições de público como acontece em teatro,
:11 atuaI. Foi uma situação única e o teatro, por diversos permitindo ao artista alcançar maior número de especta-
motivos, não conseguiu refleti-la. dores. Os cineastas desejam escapar de uma platéia tea.
I De um dia para outro as regras do jogo mudaram tral, .considerada gasta e imatura além de alcançar o
de um padrão estabelecido para novos objetivos que pc- puebio com seus filmes.
diam ser corretos de um ponto-de-vista ideoló~co, mas Ao mesmo tempo, os teatros universitários tiveram a
cuja implementação teatral era muitas vezes vaga edes- sua fase, e não têm mais objetivos defirudos. As metas
provida de suporte. Oresultado foi que o novo teatro iniciais da.companhiadaUniversidade..dà Chile{apre- .. ·
brotava apenas esporadicamente, enquanto suas 'f(jffiias sentação de teatro. clássico emoderno eestabelecimento
tradicionais (companhias do centro de Santiago) sofre- de uma escola) foram realizadas; os outros objetivos
ram com a situação. (profissionalização de atores e obtenção de um teatro
Foi um período em que apolitica imperava, em que para seu uso exclusivo) também foram realizados. Mas,
havia um conflito contínuo eirreconciliável entre as for- ao fazê-lo, o ímpeto juvenil se perdeu e depcis de um
ças que lutavam para implantar osocialÍlimo no país eas período de crescimento e assimilação, começou o declí-
que se opunham aisso. nio com oseu desenvolvimento em algo pesado eburocrá-
Oteatro chileno praticamente renascera nos anos tico, subsistindo de uma peça para outra mas sem um.
quarenta com os teatros universitários. Começou com os plano maior, descambando para um nível cada vez mais
grupos amadores enos anos 50 até os primeiros da déca- desigual de produção. Oresultado foi que esse público
da de 60, desenvolveu-se em companhias subsidiadas, pro- antigamente sólido e fiel diminuiu consideravelmel).te.
fissionais, Os diplomados nas escolas dramáticas ealunos Outra falha foi afalta de interesse em estimular os dra-
desses teatros fundados ou transformados em companhias maturgos locais, apresentados ocasionalmente como abri-
novas, trabalhando em casas no centro e, nos últimos gação legal para isenção de taxas.
anos de 60 (exceto para os antigos Lucho Córdoba e AUniversidade Católica não cometeu esse erro. De
Américo Vargas em Maru eMoneda) omovimento teatral fato, após atingir seu ponto crítico de desenvolvimento,
desenvolveu-se a partir das companhias da Universidade decidiu-se pelas peças chilenas, considerando-se que era
do Chile eda Universidade Católica, Mas as fissuras já o que os atores chilenos faziam de melhor. Aúnica fr.a-
eram visíveis: onão aparecimento de novos autores; uma queza dessa política era que os atores da companhia já
queda na interpretação; a pouca ima~ação dos diteto- haviam demonstrado que em repertório clássico e con-
res eaescolha dos textos, geralmente, sem interesse. temporâneo internacional, suas possibilidades eram limí-
Opúblico, apesar dos preços baixos, não passou de tadas. Mais tarde esse teatro se envolveu no movimento
1%para uma população de 3milhões (Santiago), com da reforma universitária. OTeatro de EllSayo acabou e
tendência para diminuir, Uma peça de sucesso podia atrair foi substituído pelo promÍlisor Tal/er de Experimenta-
uns 30 mil espectadores, havendo apenas uma ou duas ci6n Teatrai (1968/9), Isso morreu no berço quando a
DOS JORNAIS. desse tipo durante um ano euma peça qualquer geralmen- universidade decidiu criar aEscue1a de Artes de la Co-
te era vista por uma média de mil pessoas, número que municación (teatro, cinema e tv), cuja política teatral 33
era uni tanto nebulosa, apesar da alta qualidade de suas As peças e produções mencionadas dificilmente
produções, resistiriam aum julgamento baseado nos valores tradicio-
Das companhias que cresceram no rastro das Uni- nais. De fato) algumas soavam mais como agit-prop eo
versidades, a mais interessante foi Ictus. Montou peças contraste entre e1as e as apresentadas no centro teatral
do teatro do absurdo, peças estrangeiras eobras de Jorge p.odi~ ser considera?o como mais u~a expressão da pela-
Disz, um dramaturgo ligado àcompanhia há muitos anos, nzaçao que se sentia em todas os mveis aseu favor. Não
Quando \~ram que omovimento decaia, seguiram operío- apresentavam um mundo remoto para seu público, mas
do de transição, epassaram atrabalhar em criações cole- desenvo~v~ram-se especificamente de acordo com opúbli-
tivas improvisadas. Ictus, durante os últimos anos de 60, co operano de modo que este pudesse se identificar facil-
foi oconjunto teatral mais ativo de Santiago. mente com os personagens esituações, afim de sentirem
que eles eram os próprios protagonistas das peças,
Essa era a situação, aproximadamente, da maiori~
das companhias quando a Unidade Popular começou a Oteatro dos anos de Al1ende, obviamente, tinha
governar em novembro de 1970. Nada mudou da noite fortes limitações, mas não implica isso numa falta de dra-
para odia, mas aênfase foi colocada sobre o.significado ma. Este se achava ym toda aparte na ~da diária: nas
social; faziam-se avaliações, não em termos de valores famílias divididas, nas discussões nos ônibus, nos comí-
estéticos, mas de análise política: basicamente, que signi- cios populares. Nos comitês de fábricas, nas demonstra-
ficava uma peça - chilena ou estrangeira - em termos ções de massa, nas ruas, pró ou contra ogoverno, Pena
do processo chileno? Era negativa ou positiva neste pon- é que essa extraordinária ~talidade de matéria prima
to? Não se pode negar que isso conduziu aatitudes sec- não tivesse ~do absomda e assimilada ao mesmo tempo
tárias às vezes, e que otempo agora era exclusivamente pelo teatro.
de cultura proletária, mas isso era apenas minoria. HANs EHRMANN
Por outro lado, as companhias teatrais, obviamente,
precisavam do público para sobre~ver economicamente; (Latin American Theafre Review - 7/2/1974).
no início, os freqüentadores gostavam de apreciar peças
de conteúdo social e político que satirizava e atacava
os valores burgueses. Mas, no final de 1971, apolitização
tinha se tomado intensa e a classe média cerrava fileira
na oposição ao governo de Allende. Peças que eram an-
tigamente aplaudidas, agora eram apenas consideradas
como mais um meio de doutrinação etais textos estavam
condenados a pregar para aqueles já convertidos. Além
disso, a ~da diária se tornou tão terrivelmente tensa e .', '(""
I
r J

difícil, opúblico sentia que já tinha bastantes dramas na


própria vida sem precisar ir ao teatro, Onovo giro para
os'argumentos de comédia ligeira eteatro escapista tor-
nou-se a regra. Oteatro da Universidade do Chile, o
único que enfatizava, praticamente, oconteúdo social das
peças, pagou opreço de uma forte abstenção de público.
Assim, otema das peças dos teatros do centro ten-
diam ase afastar mais da vida do que em qualquer outro
período anterior, adespeito de amaioria dos atares esta-
rem afavor do governo. Toda~a, isto não era de modo
algum oque se poderia esperar teoricamente no pas, na
ocasião, em matéria de teatro.
Dentro do contexto geral, havia algum trabalho inte-
ressante, Por exemplo, o Teatro dei Angel, que'optou por 35
7
de responsabilidade é elabo~~do ~u~~~sall1en_te. A lll~: ~catlY..2->t~Y.o. I:IJ.1?S que- atingir a própria raiz dos
~~-:odas-é"a responsabiltdad: llldivHfuai, ~as. numa problemas SOC!ªI~ para ser um teatro social, eàs próprias
começamos a delinear a fisionomia artística do nosso
POLÔNIA teatro, conferindo seus princípios gerais através da ativi-
~nstiffi.içaJ como a nossa, q~e Ilao corihece pre1Il)~s ou', raizes dos problemas politicos para ser um teatro poIítiC(;.
paga~, nao pode haversllllçº~s.Restª-ª responsablhd~de. Nosso· objetivo; entretanto, não é interferir nem ser um
dade prática. Só apartir de 1970 formamos um verdadei-
ro grupo. Há 3 anos sabemos oque éoTealro STU." .f0l.etlv~. Mas par.a. que fun~lOne, ~~~.aum. ~eve ~ce~t~ ~eatro propriamente político. Desejamos dar ao especta-
.as suas responsabilidades eISSO resulta da at~tu~e ~~V1- dor a oportunidade· de experimentar a cat~ r- 7
oTEATRO 5ru Aprincípio oteatro tinha quatro diretores: 01~erd
Lukasze\vicz, Jasinski, Edward Dobrzanski, professor ad-
junto da Escola Superior de Teatro eJan Lubowski. Este
dual de cada um dos membros para com alUStituIçao e
não da instituição para com o indivíduo. E§'ia relação
., ... r: .
Fa!~l com diversos membros do ~TU, nao so ~que-
. só pode intervir .no seio de iJina coletiviaâde que obeíe. les que amda permanecem ~á mas tambem dos que salfam.
último, aprincípio ator, fez depois aadaptação do Diá- ça aprincípios de seleção nau/m/, composta de pessoa; Entraram para o gru~o aCldentalm~n~e, sem saber o que
Há uma casa na Cracóvia onde pessoas extraordiná- rio de um Louco, de Gogol. Ao fIm de um mês, deu-se que aceitam esse modo de vida particular que é avida era o ~U. Agora nao pod~n: desIstir. Seu .trabalho no
rias se reúnem e trabalham: rua Bracka, 4, à esquerda .aestréia de Candelabro Russo (de acordo com as poesias .pelo teatro. É raro excluir-se alguém do grupo, a não teatro ~ para eles ~~a especle de d~engaJa~ento d;os
da porta central, subindo os degraus de madeira. Uma de Jerzy Haraszmowicz), do Diário (que se tomou um ser esporadicamente. Às vezes alguns nos deixam espon- a~o~reclmentos quotidianos. OSTU nao prove a subsls-
simples tabuleta na porta diz: Teatr sru. Um amplo acontecimento) e da Lição, de Ionesco. Num0 só ano o taneamente, por não se adaptarem ao nosso modelo. Esse ten~la, apenas dá trabalho. Cada um tem que ganhar
pavimento com muitas salas abriga o teatro, cujos espe- teatro se desenvolveu e se classificou em 2. lugar no modelo, temos que aperfeiçoá-lo continuamente..." con- aVida fora do teatro.
táculos são impossíveis de ser vistos na Cracóvia, essa I Festival de Lublin. forme escreveu Jasinski. Jasinski conta com atores excelentes. Oelenco prin-
inóspita cidade. Aparticipação no XVI Festival estudantil de Erlan- I

'''''' Para os membros do STU, oteatro éque éopria- cipa! é constituído daquel~s que" sacrific~am tu~o ao
Oito anos de existência parece demasiado para um gen foi uma desgraça dentro da felicidade. Figurou ao cipa!. Aquele que adere aele não tem tempo anão ser STU. Tod?s aqueles que VIeram de fora renunciaram
teatro estudantil, mas nada indica que ele esteja em Iiqui- mesmo tempo como espetáculo de encerramento da Es- para oteatro epara os estudos sensatamente planejados. a.algo de m:port~nte para pertencer ao grupo: uma car:
dação. Krzysztof Jasinski, odiretor artístico do STU, diz: cola da Cracóvia desse Festival. Ainfelicidade foi que o OSTU trabalha diariamente, seja no plano artístico seja rara,..uma sltuaçao. Que ga~har~? em troca? ~nde esta
"Nosso teatro foi fundado em 1968, de uma.. maneira.. STU se.classificou em LO lugar eos diplomados recebe- no de organização. Os atores devem saber fazer tudo, a r~o. de sua p~ofunda satlsfaçao. Que transillltem eles
original. Os teatros estudantis nascem geralmente de uma ., ramo 'fóprêiiiIo~iiüiri'tota[,de'12'griípófTbâ6S(jS ' -.. -, -- desde rotina administrativa até confecção de roupas. Ira- a? publico atraves ~e seus espetác~os, esses q~~ ..se des-
necessidade: um grupo de pessoas se reúne e começa a prêmios de interpretação couberam ao Diário, 0isto é, a ta-se de inventar um modelo de comunidade que não seja v;aram de um ~o de evoluçao que a opmao ccn-
trabalhar. No nosso caso, o começo foi muito concreto: Lukowski, Trela eFranaszek, estudantes do 2. da Bs- uma comuna, mas um grupo ativo. Oteatro tem que ser Sidera como norm~; .0contato do ator com oespectador
começamos com um programa euma instituição. As ori- cola da Cracóvia. Nessa situação, oTeatro STU teve que auto-suficiente. Oprincipal é formar um novo tipo de m~r~ce ta~~~~ri.?':'lO? ",-'
gens, evidentemente, remontam às experiências recolhi- se separar da Escola. Foi por razões da mesma ordem artista teatral criativo. Mas oteatro não consiste apenas "Emoções. As mais humanas, as mais fundamentais,
das anteriormente pelos seus fundadores. Na época, eu que muitos de seus integrantes deixaram o grupo para n.2~. membros de uma companhia dramática. que remontam às fontes da sensibilidade do homem e
era estudante da Escola Superior de Teatro, com 4anos não entrarem em conflito com aEscola. í "O compromisso total com avida teatral- esta éa 1 das ,quais é despoj~do neste moment?" Nossas e~oções
de atividade em teatro estudantil. Queria evitar os erros Em 1967, o Grande Prêmio do Festival de Lublin moralidade que temos em vista, apartir da qual nasce a atuaIS., as prop~rclonadas pela. televlsao1 pelo cmena, I
de meus antecessores; tinha muitas ambições. Preparei inaugurou alista, atualmente de muitas pá~as, dos prê- atitude própria em relação ao trabalho, ao ato criador pela unprensa. sao apen~s substitutos. ~e-se a tempera- I
um programa, convoquei umas quarenta pessoas, esíndan- mios obtidos na Polônia eno exterior. Começaram, então, , do qual oespectador éoelemento inseparável. Queremos iluta ,d?~ se3tlmentos baIXar sob o efeito,do progr:~so !
tes da Escola e artistas. Eles aceitaram o programa e, os problemas. Tornava-se cada vez mais evidente que o ; criar um teatro fIrmemente baseado nas realidades da ! da clvilizaçao. Ora, o teatro age em sentido contrano;
no dia seguinte, começamos a trabalhar. Trabalhamos STU não sobreviveria aos diplomas que os integrantes I vida social epolitica. Queremos criar uma micro.comu- I' pelo ~ontacto que opera entre os homens ~~ante o
em condições excelentes, pois a escola dispunha de salas do grupo iam receber em 1968. Aquestão era saber se i nidade perfeita afim de apresentar os problemas atuais I ~to cnador e..durante o espet~culo, o, fa:o cemco, ~le
com equipamento completo. Aformação de ator e as estes, uma vez com diploma profissional, iriam conse- do país. Temos que ser pe~eitos para entrarmos.emco11::... ,Ii?era as e~o~oes humanas. É ar que esta omteresse pm-
boas intenções são, entretanto muito pouco para se cbe- guir um teatro. Finalmente ficou decidido fundar-se um , tac~o c0fi.!..~ ..e§pectad0.rJ As, ~uas produções do STU I cipal da atlV1d~de ,;eatral. Oque conta é o teatro, sua I

mms expresslv~s doseu repertono: ~padanie (A Queda), l:~~ e~ua ~tétlca. __ .._. J
gar a qualquer coisa de viável. É necessário, além disso, estúdio de arte dramática para estudantes econfiá-lo aos \
."___ .... ,, __
organização ebom preparo técnico. Oprograma que eu diplomados, membros do STU, para animá-lo durante de 1970, e Lrvro de Sonho Polones (1971) preparado Ha dOIS anos ogrupõjJtepafã nü'm novo espetáculo.
idealizara enfatizava aconstituição de um teatro no sen- um ano. Foi nesse estúdio que nasceram o método eo
por Jasinski, presta contas de sua própria geração. A Da poética do teatro do fato (A Queda) através do teatro
tido institucional do termo, abrangendo organização e programa de ação do novo Teatro sru. despeito das aparências, não é um teatro político, mas da imagem e da metáfora (A Chave dos Sonhos), pas-
métodos de atividade, sem ênfase sobre oprograma ideo- -A.ética teatral repousa na atitude em relação àquib um teatro que se baseia na realidade, fala das idéias da sou-se ao teatro da poesia total. Eesse novo espetáculo
ló~co e artístico." ~az ...m~.é)por exemplo, o apaná~o dos filatelis-
~e modema eamlisa suas aspirações, mitos edilemas. se orienta para uma extensão do plano da cena: grandes
"O ponto de partida era a ambição de cada um, ~s. que cuidam de suas coleções, aumentam seus coDhe- I "Desejamos dar grandes emoções aos espectadores ecom..! espaços ao ar livre. Não importa que um pormenor esa-
partindo daquilo que se fazia na escola, de seus próprios cimentos, ocupam-se dos selos de acordo com determi- : partilhar delas com eles. Experimentá-las, comovermo- pe ao público; ~~s.e. de criar um ambiente poético em
centros-de-interesse, eassim formamos oprimeiro reper- nadas regras. Também adisciplioa épara nós de primei- -ncs e atin~r as profundidades da natureza humana; usar .plams eníveis múltipos. Oautor eaobra, oespaço, os
tório, que tinha um caráter clássico, mas distinguia-se 'ra importância esem ela não pode haver trabalho coletivo. esses métodos erecursos para fazer oteatro sempre co- efeitos plásticos, a músIca e a luz estão juntos aí. Tudo
pelo seu tratamento jovem. Nele figuravam Osbome, O.!Jlesmo quanto ao espírito de grupo, que éoda equipe,
Mrozek, Ionesco, Gogo!. Foi durante esse trabalho que Tooos têm consciência do que fazem eonosso esquema"

2
JSO faz pensar numa arte que parte dos grandes traços,
las manchas coloridas até obter uma síntese ao nível
la consciência do espectador. Exodus é um espetáculo
AMADORES TÊM aos elementos atin~dos os meios de aprofundar edesen-
volver sua própria cultur~ quer para coordenar e.inte-
le grandes aspirações, um manifesto de desejos. Daquilo
[ue émais essencial na consciência social ena do Iea-
FEDERAÇÃO NAC IONAl grar as diferentes formas e matizes culturais do país."
Insistindo na necessidade de manter a estrutura da Fe-
ro STU. Não se trata de um conceito mas apenas de deração tãoautônoma quanto possível, oSNT terá ape-
déias inspiradas na vida. nas um representante em cada um dos dois Conselhos da
nova entidade, contra sete membros de cada Conselho
WOJCIECH SZPERL eleitos pela própria Federação.
(Le Tliéalre en Pologne, 7/1974).
Durante três dias, reuniram-se em Petrópolis mais de OConselho Administrativo será escolhido entre os
40 diretores de grupos de teatro amador das diversas elementos de cada. re~ão ligados não só àprática teatral
re~ões do país, representando indiretamente aqnase tota- como também à administração (Federações, Secretarias
lidade do movimento amador brasileiro. Oobjetivo do de Educação e Cultura, Universidades etc.) eterá por
I
[:·.l
encontro convocado pelo Serviço Nacional de Teatro con-
sistia em fundar uma Federação Nacional de Teatro
função amobilização de recursos da comunidade local e
planejamento de sua utilização. Atuará, portanto, em
Amador, que congregasse na medida do possível todas nível institucional, como intermediário entre órgãOs dos
I~
as forças integradas nesse movimento, e criasse as ae- governos estaduais, estabelecimentos de ensino, associa·
lhores condições para a sua dinamização. ções, sindicatos, cooperativas,c1ubes, empresas, etc., de
No decorrer dos debates, bastante acalorados een- um lado e os grupos de teatro amador, de outro. Já o
tusiasmados, foram discutidos dois projetos de base, ela- Conselho dos Grnpos será composto de diretores de gm-
borados pelo SNT, oprimeiro propondo os princípios e pos de teatro amador, à razão de um para cada re~ão,
objetivos da Federação, osegundo delineando asua pes- eatuará em nível dos próprios grupos, dando-lhes asses-
sível estrutura efuncionamento. Ambos foram finalmen- soramento eorientação, organizando um permanente in-
te aprovados, com numerosas emendas e transformados tercâmbio, pesquisa, coordenação e avaliação do traba-
I num relatório definitivo.(*) Na sessão de encerramento lho desenvolvido em âmbito re~onal, bem como atrans-
" ,
I
foi assinada aata de fundação da Federação, eforam elei· missão das informações sobre esse trabalho à organiza-
I ção nacional.
tos os Coordenadores Re~onais, bem como uma comis·
i
I
são encarregada de elaborar os estatutos, que deverá
I Cada Coordenação Re~onal reunirá os elementos
I
reunir-se para completar oseu trabalho na primeira sema· representantes da respectiva região no Conselho Adminis-
~
na de novembro, em Brasília, trativo e no Conselho dos Grupos, que deliberarão em
AFederação será uma entidade de âmbito nacional, conjunto sobre a estrutura e o planejamento global da
com personalidade jurídica própria eação autônoma, En- região, relacionando entre si osetor dos grupos eodas
I't; .~
tre seus principais objetivos figuram asuperação da mar- instituições, ACoordenação Re~onal poderá organizar
~nalidade que tantas vezes enfraquece o trabalho dos comissões ou representações estaduais para garantir me-
grupos; a obtenção de um tratamento uniforme para os lhor penetração do seu trabalho nos diversos Estados
grupos amadores, no plano jurídico eadministrativo, por componentes da região,
parte dos órgãos oficiais, sem as mesmas exigências buro-
cráticas feitas às companhias profissionais; aligação en- Adivisão re~onal ficou em princípio estabelecida
tre os diversos grupos de uma mesma Te~ão, e destes como segue:
com oconjunto da atividade amadora no território naio- 1. Amazonas, Pará, Acre eTerritórios.
nal; acriação de condições para obtenção de apoio ma-
terial, orientação técnico-artística e organização legal. 2. Maranhão, Piauí, Ceará eRio Grande do Nor·
Como um primeiro passo, as Coordenações Re~onais te,
procederão aum levantamento de todos os grupos ama· 3, Panuôa, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e
Bahia,
I dores existentes nas respectivas re~ões.
OGoverno, através do SNT, reserva-se nesse traba- 4. Minas, Espírito Santo, Guanabara, Estado do

l a
!~
.lho um papel sobretudo de intermediário "quer para dar Rio. 3~
5. São Paulo, Joel de Carvalho:
6. Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul.
7, Goiás, Distrito Federal eMato Grosso, "Comecei meu trabalho em teatro como ator, Era:
arquiteto efui me ligando mais à cenografia, conciliando
Aestrutura parece bastante engenhosa efuncional; '/
os diretores presentes ao encontro pareceram animados;
"
minha vocação com omeu amor, que era oteatro. En-
t
oSNT parece disposto acolocar àdisposição da Federa- contrei na cenografia a junção dessas duas coisas, que
ção os recursos necessários para a sua implantação, me pareciam contrárias. Comecei na Escola de Teatro
Resta esperar os primeiros resultados do Encontro a fazer cenografia para os espetáculos da Escola, Até
e torcer para que a teoria, na prática, não se revele ser chamado para um teste n'O TABLADO, Depois
outra" . fui para aEuropa. Lá, voltei aser arquiteto eparticipei
Paralelamente ao Encontro, encerrou-se em Petrá- da Bienal de Paris com duas maquetes: Bodas de San-
polis o fi Festival Nacional de Teatro Jovem, cujo juri
atribuiu oprêmio de melhor espetáculo àGruta, de M, gue e A Louca de Chaillot. Depois, fiz em Paris Auto
Cena, pelo Grupo Asfalto, da Guanabara, diri~do por I da' Compadecida para um grupo português. Voltei ao
::I~
Almério Belém, Ademar Nunes, do Grupo Grite, de Brasil e engrenei uma carreira como cenógrafo exclusi-
Niterói, ganhou oprêmio de melhor diretor pela sua en- vamente. Alguns trabalhos: A Construção, Depois do
cenação de APeste, de Renzo Casali, J. César Cavalcanti,
Corpo, Agamellon, Numância, Tango, O Marido Vai à
do Grupo Gama, de Nova Friburgo, foi considerado o
melhor cenógrafo, pelo cenário de Jesus Cristo Orbis Caça, Fim de Jogo, Missa LeigaToúltimo'showda'
Opus 74, enquanto oprêmio de melhor atar coube aJosé Betânia,"
Carlos de Sousa, do Asfalto, eomelhor prêmio de atriz Em seus últimos meses de vida, Joel esteve presen-
deixou de ser atribuído.
te n'O TABLADO nos lindos cenários do novo Embar-
JAN MICHALSKI que de Noé (1973/74), peça em que estreou como atar
(1957), ede Vassa Gelesmova (1974).
(JB 14/sel./1974).

-
"r

(*) No próximo número, JOEL de CARVALHO -+ Joel de Carvalho em "O EMBARQUE DE NOÉ" (1957). 4
TEATRO GLÓRIA TEATRO MUSEU DE ARTE
MOVIMENTO TEATRAL (T. 245-5527) MODERNA
Jogo do Sexo, de Richard Harris. OInspetor Geral, de Gogol, adap·
Direção de José Renato, com Feli- tação edireção de Hamilton Vaz Pe-
pe Carone, Monique Lafond, Maria reira. Com Jorge Alberto Soares,
Peças em cartaz nos teatros do Luisa Castelli, Heloisa Helena e Regina Casé, Daniel Dantas, Luis
Rio du.rante o último trimestre de outros. Preço 40,00. Artur Peixoto e outros. Preço
1974 O Crime Roubado, de João Be- 20,00.
thencourt, direção do autor, com TEATRO CLAUCIO GIL
Nelisa Amaral, José Humberto, Jac- (T. 237-7003) TEATRO NACIONAL DE
TEATRO ADOLFO BLOGH queline Laurence, Luis Armando cOMÉDIA (T. 224-2356)
(T. 285-1465) Queiroz eAndré Valli. Preço 30,00. O Grmtde Sonhador, pantomima
em roteiro de autores argentinos. Di-
Pippin, comédia musical anerica-
na diri~da por Flávio Rangel, com
ti
:'l~
TEATRO IPANEMA
reção de Jorge Bustamante, com
Stênio Garcia e Maria Helena Dias.
Dona Xepa, de Pedro Bloch. Di-
reção de Francisco Milani, com Van·
da Lacerda, Paulo Junqueira e
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eoutros. Preço 40,00. Ensaio Selvagem, de José Vicen-
te, direção de Rubens Correia, com TEATRO GINAsTICO TEATRO OPINIÃO
Nilo Parente, José Wilker, Renato (T. 221-4484) (T. 235-2119)
TEATRO DE BOLSO Coutinho e Eduardo Machado. Ire-
·.çoilO;OO;.................····...·.H ............ "kGaioladasLoucas, de Jean O Casamento do Pequeno Bur-
(T. 287-0871) PaireI. Direção de João Bethencourt. guPs, de Brecht, direção de Luis An·
Mangue Story, comédia de Auri- Com Jorge Dória, Carvalhinho, Lar- tôruo Martinez Correia.
mar Rocha, direção e interpretação TEATRO JOÃO CAETANO des Mayer, Mário Jorge e outros.
do autor e mais Irís Bruzzi, Nélson (T. 221-0305) Preço 40.00. TEATRO PRINCESA
Caruso, Dorinha Duval, Halo Frei- ISABEL (T. 236-3724)
tas. Preço 40,00. Seria Cômico se Não Fosse Sério,
de Duerrenmatt. Direção de Celso TEATRO MAISON DE A Teoria na Prática é Outra, coo
Nunes, com Fernanda Montenegro, FRANCE (T. 252-3456) média de Ana Diosdado. Direção de
TEATRO COPACABANA Fernando Torres e Zanone Ferrite. Antônio Pedro, com Gracindo Jú-
Preço 10,00. Dr. Knock, comédia de Jules Ro- nicr, Débora Duarte, Fábio Sabag,
(T. 257-0881) Lr~ main. Direção de Celso Nunes, com Re~na Viana eoutros. Preço 40,00.
ADama das Camélias - Direção
Tiro eQueda, de Marcel Achard, r~'( de Antônio Pedro, com Camila Ama-
Paulo Autran, Hélio Ari, Célia Biar,
direção de Cecil Thiré, com Tonia Jorge Chaia, Dirce Migliacio, Diana
do, Stepan Nercesian, Ivã Cândido
Carrero, Carlos Eduardo Dolabela, MoreI, Laura Suarez Simão Curi e TEATRO SANTA ROSA
Wilza Carla, Henriqueta Brieba, Mar- (T. 247-8641)
Germano Filho, Rogério Fróis e outros. Preço 40,00.
got Bsiní, Angela Vasconcelos, Flá-
outros. Preço 40,00. vio Santiago, Manfredo Colassanti e Gente Di/lcil, de Yassef Yassef.
outros. Preço 20,00. TEATRO MESBLA direção de Tom Levy. Com Beyla
TEATRO DULCINA (T. 242-4880)
Chiquinha Gonzaga, fantasia mu- A Venerável Mille. Goneau, de
sical de Elsa Osborne eCarlos Paiva. João Bethencourt. Direção do autor,
Com Eva Todor, Reinaldo Gonzaga, com Milton Morais, Ivã Cândido, Ro-
Fernando Vilar e outros. Direção de samaria Murtinho, Françoise Forton,
Pernambucp de Oliveira. Preço 40,00. ·4.....
y:;r.
Silvia Martins eoutros. Preço 40,00. 4:

b"
J~nauer, Oswaldo Lousada, Italo Nos diversos teatros da Guanaba-
lossi eLeonardo Vilar. Preço 40,00. ra, foram os seguintes os cartazes MOVIMENTO TEATRAL
de teatro infantil:
EM SÃO PAULO
Borboletinha Superstar, no Teresa
rEATRO SENAC (256-2746) Raquel.
o Monta Carga, MHarold Pin- A Cigarra eaFormiga, no Teatro
er, direção de Carlos Vereza eStê- Glauce Rocha.
ia Garcia, Com Carlos Vereza e Gran Circo Gonzaga, no Teatro No Teatro de Arena - Os Efei- No Ruth Escobar - Em Alto
Intero de Oliveira. Preço 30,00, Opinião. tos do Raio Gama nas Margaridas do Mar eStrip·Tease, de Mrozek, pelo
Campo, de Paulo Zindel. Direção de Grupo Teatro de Cordel.
Os Três Mosqueteiros, autoria e Abujamra, com Nicete Bruno, Eleo-
mreção de Benjamin Santos, espetá- nor Bruno eoutros,
rEATRO SERRADOR cuIo premiado pelo SNT. Com Tutu No Augusta, Orquestra de Senha·
Guimarães, Lúcia May, Sérgio Dio- tuas, de Anouilh, com Paulo Gce-
:T. 235-8531) nísio e Alex Conti. No Ruth Escobar, A Morta, de
Oswaldo Andrade. Direção de Emí- lart, Ney Latorraca, Odiavas Pedt e
Tudo na Cama, de Jean Hartog. Dorotéia aBfl4rinha Rebelde, no lio de Biasi. outros,
;om Derci Gonçalves, Aparecida Glaueio Gil. No Aliança Francesa - Caminho
'imenta e Marcos Toledo. Preço Peripécias de Emília, adaptação de No Trese de Maio - A Persegui- de Volta, de Consuelo de Castro, Di- No Paiol - Greta Garbo Quem.
,0,00. ML por 'M: RéleriilKiíehiià, no Tea~ çãO;'deTiriiiicbêuKoWebbL ' reção de Feruando Peixoto, cenogra- Diria? de Fernando Melo com Raul
tro Glória. fia de Gianni Ratto, com Othon Cartez e Miriam Mehler.
Roboneta, o Planeta dos Rabos, No Auditório Augusta - Brecht Bastos, Armando Bogus e outros,
Segundo Brecht, com Armando Bo-
rEATRO TERESA RAQUEL no Teatro Galeria,
gas, Cacilda Lanuza, Chico Assis e No Teatro Anchleta - Um Bonde No PaVIlhão - Teatro de Cordel,
(T, 235-1113) Alice no País das Maravilhas, no outros, Chamado Desejo, de Tennessee Wil- inspirado na literatura de cordel.
Teatro Teresa Raquel. liams. Cam Eva Wilma, Ednei Gio-
Mais quero Asno que me Car-
A Bruxinha de Minisaia, no Tea- vanezi, Ivete Bafá e outros.
egue. '" de Carlos Sofredini. Dire-
ão do autor, com Teresa Raquel, tro Senac.
~lza Gomes, Berta Loran, Otávio No Studio S. Pedro - OJogo do
Papel e o Mundo Encantado, no Poder, de Carlos Queiroz Teles, Ce-
\.ugusto, Betina Viany, Suzana Faini Teatro Senac.
outros, Ingresso 30,00. nografia de G, Ratto, com Madalena
A Bruxinha que Era Boa, de MC Nicai eSérgio Mamberti.
Machado, direção de Jair Pinheiro,
no Teatro Miguel Lemos, No nic, Leonor de Mendonça, de
rEATRO OTABLADO O Burrinho Al'ançado, no Teatro
Gonçalves Dias, pelo Teatro Popular
(T. 226-4555) do Sesi.
Miguel Lemos.
Pluft oFantasminha, de MC Ma· A Casa de Bonecas, no Teatro
hado, Direção do autor. Cenografia Miguel Lemos.
e Juarez, figurinos de Kalma Mur- OPeixinho Dourado, no Teatro de
inho. Com Louise Cardoso, Bemar- Bolso. Preço 15,00. I
,o Jablonski, Paulo Reis, Sílvia Fues, I
osé Augusto Pereira, Milton Dob-
lin, Ana Lúcia Soares eCarlos Wil-
on.
Os preços do teatro para crianças
variaram de 5 a 15 cruzeiros.
I

L': t 45
±ti"
Relação de JOGOS DRAMATICOS publicados nos CADERNOS DE TEATRO Avenda na Secretaria d'O TABLADO;

AMare e Ritmos ." .. "" .. "" ... ".". 1


Jogos de Escultura ede Reflexo ... ,.. ,....... 2
OFogo - Jogos baseados em estórias e cantigas 3
Bombardeio-Naufrá~o·Procissão-Chuva etc. ..... 4
Jogos baseados em sons eruidos ,.. ,.... 4
Reunião e Desfile de Modas •."""."",,. 4
OPoço eoPêndulo, Máscara da Morte, os Cegos 5
OGalo Morto - Palavras - Pregões ,....... 6
OHomem Invisível- Cabeça de papelão ,..... 7
OFarol ,."',., ,.. , ,.. 9 Autora: MARIA CLARA MACHADO
APrlncezinha - OCoelho Retratista 9
Títulos:
OArqueiro - OTesouro - Atrás do Muro 11
OCirco .,., ..... ,........................ 12 Pluft oFantasminha (conto) .... ,.. ,....... 25,00
Mau Juizo - OVadio":" OPastelão - OCurioso 14 H H H............. (oll/oFazer Teatrinho de Bonecos ,.. , 12,00
A1ibabá .. ,.. " " " "....... 14 A Menina e o Vento, Marroquinhas Frufru, A
As Águas - A Pêndula " "".".,,"" 19 Gata Borralheira eMaria Minhoca (1 vcl.) 14,00
Sapos ao Sol "" .. " .. """." .. " .. ,,... 21 Pluft o Fantasminha, O Rapto das Cebolinhas,
OGrão de Trigo - AÁrvore - AFuga ... ". 22 Chapeuzinho Vermelho, OBoi eoBurro e
ABruxinha que era Boa (1 vaI.) 20,00
Os Trapaceiros .,., ,.............. 24
O Embarque de Noé, A Volta de Camaleão e
Pingue-pongue - ATravessia - Incêndio - Fila
Camaleão na Lua " "....... 12,00
de Onibus Lareira - Na Floresta , ,.. , 41
ODiamante do Grão Mogol, Tribobó City e O
Pescaria - Algas - Chuva "." " 44 Aprendiz de Feiticeiro (1 vaI.) .... ,.". 18,00
Recordação - Planta Milagrosa - Fuga . 46 Cem logos Dramáticos, de MCM eMarta Ros-
OHomem Livre - D. Quixote eos Forçados .. 47 .... man " " " 10,00
Os Três Cegos - Pavão, Ratinho e Leão -48
Pedro Fefeu e o Par de Botas : 58 NO PRÓXIMO NÚMERO: Estas publicações poderão ser pedidas à Secretaria
d'O TABLADO mediante pagamento com cheque visado,
Estes e outros Jogos poderão ser encontrados no livro As Técnicas eaHistória - Meyerhold em nome d'O TABLADO - Eddy Rezende Nunes, pa.
Cem logos Dramáticos, de Maria Clara Machado, à Um Gesto por Outro - Jean Tardieu gável no Rio de Janeiro.
venda na Secretaria d'o TABLADO OGuarda dos Pássaros - Aman.Jean
I PLUFT OFANTASMINHA, em gravação, àven'
da n'O TABLADO " ........ "",,... 20,00

iiiiiiiiiiíiiiliiiiii_________ ~.!,."'.Q.,
~ t ~)-"

--_iiiiliiiiiiiiiiiiiiliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiíiiiiiiiiiiiiiliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiõõ~==""",-
47
fextos àdisposição dos leitores na Secretaria d'O TABLADO

Autor anênimo Todomundo .,,'''' .' ,.,,,,,,," ...' ,,..,•. 62


Andrade Oswald AMorta ".,",.,"""""""""' ... , 52
Arrabal Fernando Piquenique no front ...... " " " " " " ,"" 54
Barr &Steven OMoço bom eobediente.' ,.,.,,,.' ,.,,,,.•,, 28
Brecht Bertolt AExceção e a regra ",,"""'''''''''''. 61
Cocteau Jean Édipo Rei ..... ,"', .. ,,', .. ,'''''''..... 58
Checov Anton OUrso "",." .. ," ,,,,,,,,.,.,,,,,,,,,. 29
OJubileu '"'',.,'''''''''', .., ,.. ''' 46
Os Males do Fumo " .... .' .' " 49
França Júnior Maldita Parentela .... " .. " " ,.. , 55
Labiche Eugene AGramática "",.,"""',.,",.,"."" 47
Macedo J. Manuel de ONovo Otelo " "" 43
••••••••• M _ •••••••• : ••..••••••••• , •••••

Machado Maria Clara "Os"":Eiiibi:Ulliiis-";";::--::::-:::::-.: :";",::-,:: ,. 47


As Interferências ... "."" ..... " ... " , 56
Um Tango Argentino ,,""", •..,",."'" _ 47
Machado de Ass~ Lição de Botânica """ .... " .."" ..,,"" 61
Marinetti eoutros Teatro Sintético Futurista """"" .."."." 62
Marinho Luís ADerradeira Ceia ." ...... ,,' " ... " " , 59
Martins Pena As Desgraças de uma Criança ,.."" .. ".... 45
OCaixeiro da Taverna ... """ .." ..... ,, 60
Pessoa Fernando OMarinheiro .,"',.,.".,"',.,."'.,.". 50
Qorpo-Santo Eu sou avida eu não sou amorte " ,',.,. 45
Synge"JB Viajantes para o mar ... "" .. " , ". 48
ASombra do Desfiladeiro .' " ,,' 51
Tardieu Jean Conversação Sinfonieta """ "",.. 48
Yeats OÚnico Ciúme de Emer " ".", 43

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