Você está na página 1de 26

RESPOSTA DE BRECHT

No Colóquio de Darmstadt. (1954), Friedrich Díír-


reumatt propôs aseguinte questão:

omundo de hoje pode ser representado pelo Teatro?

Bertoli Brecht - Uma vez feita esta pergunta, pare-


ce-me que merece resposta. Os tempos não são mais aque-
les em que sua reprodução pelo teatro possa dar-se Para os homens de hoje, os únicos problemas acon-
unicamente através de uma experiência afetiva. Para pro- siderar são aqueles sucetíveis de uma. resposta. Os ho-
vocar tal reação, é necessário que a reconstituição seja mens de hoje se interessam por situações eacontecimentos
fiel. sobre os quais, contra os quais eles têm algum poder. Há
Muitas pessoas constatam um enfraquecimento no alguns anos, vi num jornal uma foto, para fins publicitá-
choque emocional produzido pelo teatro. Um número rios, mostrando a destruição de Tóquio por um terremo-
menor percebe a enorme dificuldade que há em restituir to. Amaioria das casas tinha desmoronado, mas alguns
o nosso mundo no teatro. Ê por tê-lo constatado, ou imóveis modernos haviam sido poupados. A legenda
antes, desconfiado disso que alguns de nós, autores , e dizia: steel stood (o aço resistiu). Comparem com isso a
diretores, começaram apesquisa de novos processos arüs- clássica descrição da erupção do Etna por Plínio oAnti-
ticos. Eu próprio, como sabeis, vós que sois da profissão, go, ecompreenderão imediatamente oque quero dizer.
fiz mais de uma tentativa e experiência para colocar sob Isso não será de admirar, se vos disser que a ques-
as luzes da ribalta o mundo de hoje, a maneira como tão: o mundo pode ser descrito, representado pelo tea-
os homens de hoje vivem em comum. tro'! - éuma questão social. Afirmei-o durante anos, e
vivo atualmente num país em que são feitos enormes
Eu, que escrevo estas palavras, encontro-me a algu-
esforços para tninsformar omundo. Talvez condeneis os
mas centenas de metros de um grande teatro, dotado de
meios empregados, os caminhos seguidos - espero que
excelentes atares ede toda amaquinaria necessária, gra-
os conheceis não apenas pelos jornais - talvez não acei-
ças a que, ajudado por muitos colaboradores, jovens em
teis oideal particular de um mundo novo que trabalha-
sua maioria, posso experimentar todo tipo de coisas; so-
mos para realizar - espero que saibais qual é ele, mas
bre as mesas à minha volta, sob aforma de volumes, os
ser-vos-á difícil negar que, no país em que vivo, se traba-
"modelos" de representação de nossas peças, com milha-
lha para transformar omundo e as relações sociais entre
res de fotos de trabalho eaexposição minuciosa dos mais
os homens. E certamente concordareis também comigo
diversos problemas surgidos, bem como suas soluções que nosso mundo necessita mudar.
provisórias. Todas as possibilidades, portanto, estão a
meu dispor. Mas não vou dizer que as dramaturgias que, Para um texto desse gênero, que peço considerar
por razões precisas, denomino não-aristotélicas, e parti- como uma contribuição amigável ao vosso debate, creio
cularmente ojogo épico dos atares, representem a solu- que se pode contentar com a afirmação de princípio: no
ção. Há uma coisa, entretanto, para mim de que não teatro, como alhures, o mundo de hoje não pode ser
duvido mais: omundo de hoje não pode ser descrito aos representado validamente se não for considerado como
suscetível de mudança.
homens de hoje anão ser se for representado como trans-
formável. B. BRECHT
resultado da união orgânica dos dois elementos eque se cias da direção, que reinavam como soberanas. Foi nessa
)IA MUNDIAL DO TEATRO (27 DE MARÇO DE 1974) efetuava num plano comum. A pequena revolução no
teatro polonês na metade dos anos cinqüenta era de resto
via que Rosewicz fez inúmeras concessões aos onipoten-
tes diretores. Deixava-lhes passagens em branco para
paralela às mudanças intervenientes no conjunto da vida completar, estinlUlava-os à improvisação e acabou, em
artística eliterária do país, mudanças que, como se sabe, Crescimento Demográfico, por se confessar incapaz de
foram ant~s de tudo oresultado do afastamento das estri- escrever uma peça, que só poderia ser terminada durante
tas fórmulas do realismo edos padrões rigidamente poli-
LITERATURA DRAMATICA ~ ticas.
a encenação. Contudo, continuava a escrever. Escrevia
porque seu "fraco" pelo teatro nunca foi uma fraqueza.
. iI
ETEATRO 1
Hoje, entretanto, podemos ver que ocaminho segui-
do pelo nosso drama, na época, se afastava, sob muitos
Ao contrário, deixando todo espaço aos diretores, Reze-
i wicz mantinha uma disputa contínua com o teatro, não
aspectos, daquele do teatro. Cetarmente arecusa de uma otradicional, mas omais inovador. OAto Interrompido
I estética ultrapassada, do século 19, subsistiuiu não só é menos uma peça sobre a impossibilidade de escrever
como tendência dominante da ilteratura edo teatro, mas uma do que sobre a impossibilidade de encená-Ia. Aí,
1. tanto as descobertas propriamente teatrais como os mo- Rozewicz desvendou impiedosamente ecom grande preci-
Aliteratura dramática é que coloca em ev~d~l~cia o
processo de desintegração do teatro. Desde o lOtCIO do
J I 20 .que as tendências evolutivas do drama se h'aías-
1
. ,..,
delos literários qne os inspiravam acabaram revelando-se
de natureza diferente.
Oteatro voltou novamente ao problema do espaço
são as inconseqiiências, os malentendidos, convenções,
hábitos eesnobismos que espreitam odiretor. Foi oque
. lhe inspirou apequena malícia de marcar nas didaseálias
secuo t' apresença de moscas em cena, umas voando, outras pou-
tam das novas tendências da dire~ã?. Quase toda a. IS o- cênico circunscrito pelas paredes do apartamento burguês
sando. .
ria da reforma teatral pode ser dlVldlda em duas corren- ou entulhado pelo cenário naturalista sobrecarregado. De
tes: aprimeira que engloba as mudanças puramente tea- um lado, ele se voltou para a teoria ea prática da van- As fontes principais de conflito entre aliteratura e
trais e a segu~da, que se refere à evolução do drama guarda teatral dos anos vinte e trinta e, de outro, para o teatro estão ocultas na poética da peça. Aqui, o me-
como gênero literário. ...• as artes plásticas contemporâneas, que começou a absor- lhor exemplo éapeça de Slavomir Mrozek. Desde asua
Areforma do espetáculo decorna pnnclpalmentv, ~a ver desenvolvendo suas tendências mais recentes. primeira obra ele se levantou contra oprocesso desvirtua-
tomada de consciência de que teatr~ era um ~0~1~1O A matéria literária que servia de suporte a essas dor da direção: a Polícia - escreveu - não deve ser
artístico à parte. Essa reforma pr~~elo da ~poslçao ao experiências inspirava preocupação. Asituação da litera- levada em "metáfora", proibindo também oliSO de cacoe-
drama burguês e ao teatro esquematlco ~o seculo 19. ? tura dramática polonesa, que devia encontrar uma respos- tes para provocar oriso ou salvar a cenografia. Oque
novo teatro tinha necessidade de nova hte~atura drama- ta às proposições "revolucionárias" eestilísticas do teatro não quer dizer que Mrozek não tenba a visão cênica de
tica mas as obras cujo aparecimento ele estimulava eram não era fácil. Os objetivos dos autores e os do teatro suas próprias peças. Ele as vê através de uma estilização
ger~lmente fracas, de curta d~ra~ão eefêmeras. Uma pro- eram os mesmos, mas concretamente as diferenças essen- plástica relacionada com as artes gráficas do século 19.
va disso foi o drama expressionsía. • cias surgiam. Os dramaturgos podiam ou associar-se às
pesquisas levadas a efeito pelo teatro ou imaginar uma Ehá mais. Ele éum desses raros autores poloneses
Paralelamente, nasceu um novo d:ama sem rela~o
J
que sabem.estabelecer uma ligação funcional entre a ce-
com oteatro euma de suas caracten~t~cas era ~ íendên- "
forma teatral diferente para suas peças. Essa alternativa
nografia, as roupas eamensagem da peça no seu contex-
cia para sobrepujar os modelos liter~nos do se~ulo 19. acabou por causar muitos insucessos econflitos.
to. Isso se deve ao fato de que ele próprio éum pouco
Esse tipo de drama não era concebIdo c?mo hteratura Entre os autores poloneses, apenas Tadeusz Roze-
apenas ao contrário, eseus autores, de Wltcacy aI?n.es- artista plástico. Em OPem, ele não só precisava de uma
wicz, apartir de sua primeira peça (Kartoteka), represen-
co vis'avam em primeiro lugar ao teatro. Seu obJe~l~o taverna fantástica, mas também de uma galeria com um
tada em 1960, entabolou seu debate particular com o
er~ reformar o teatro através da Iiter~tura. Essa .e:recle sistema completo de passagens e uma mesa cheia de
teatro contemporâneo. Somente ele compreendera que ser
de vanguarda literária, apesar de atingir ~~~ poaçao de canecos de cerveja onde os Camponeses se sentavam.
autor teatral é ralmente tentar criar o teatro através da Também os três senhores numa jangada em Em Pleno
liderança nos anos 50, afastou-se deflllluvamente d.a literatura, um teatro que se adapte à obra dramática.
reforma da arte do espetáculo. Apenas Brecbt se ~onstl­ Mar deviam estar a rigor, e o Carleiro devia ser bem
Ahistória de sua dranaturgia émuito significativa. autêntico. Amão gigantesca em Strip-tease também tem
tuiu em exceção por ter sabido criar um novo tipo de
Como amaioria dos autores contemporâneos, ele come- que ser "real como avida... " Eéem uma das peças de
literatura dramática, ao mesmo tempo que 11m teatro em
çou por uma revolta contra aliteratura dramática tradi- Mrozek - apesar de Rosewicz - que uma mosca lama
íntima relação com aquela. cional. Ele começara por desintegrar a ação, os persona- parte - No Dilema de 11m Cinólogo, oprotagonista car-
A coincidência cronológica· das. mudanças q~e se gens, odiálogo. Era asua maneira de procurar um meio rega uma mosca, ainda que oautor indique que se trata-
[ e, um pouco mas tarde, na
operaram no teatro • htera- de entendimento com o teatro e com as novas tendên- va apenas de um gesto de dedos do alar.
tura dramática, levaria a crer que essa evoluçao era o
f 3
anos vinte o autor podia discordar do diretor, mas escre- dramaturg}~ contemporânea: teatro do fato, espetáculos espetáculo. Penso em r
Todavia, é sabido que os espetáculos das peças de ,esumo que e' ,ISSO nada mais que
via exclusivamente para a cena. E por isso ele se confor- d~cum~~tano~, produções de romances, de poemas e can- os honeas de teatr ( .'
1rozek se baseavam durante muito tempo num malen- doescri o. neste caso, os diretores) esperam
mava com os postulados tradicionais do palco, tais como ~~~. e-se, 19ualmen~, um elemento outrora marginal oescntor.
mdido de ordem teatra\. Subterfúgios cenográficos epre-
papéis variados e vivos, ação, conflitos, desfecho. Os , , ea~ro - ~ adaptaçao - se erguer àcategoria com a-
ra, el ~ da llte~atura dramática, da direção e do } o e d- uanto a~ resto, eles próprios se encarregam disso
extos metafóricos eram acrescentados às suas peças, "Q
autores de hoje criam literatura dramática mas não escre-
Esta e_ uma atividade marginal muito em voga ~~n; ser ~of~r~;c~sd d~s~o. ~as o autor dramático recusa-se a
aas somente os espetáculos realizados exatamente con-
vem exclusivamente para o teatro. Oteatro, para eles, se
orme as indicações dos textos tinham êxito, A técnica expansao atualmente. para serem o~ e diãlegos amorfos e vazios de sentido
transformou em mais um dos meios de comunicação de
lo' grotesco dramático, que é a de Mrozek, demonstrou lisa os num espaço cênico qualquer e ar
uas peculiares virtudes cênleas, possibilitando uma con-
idéias, como o cinema, o rádio ou a televisão, Um novo intemediârio - o autor de adaptação _ pe:sonagens cnja natureza ele ignora. Ele não aceita i~o
A divisão da literatura dramática em atos, indica- s~rge entre o dramaturgo e o diretor. Se por sua vez o
:retização válida das experiências da literatura dramá- po~s. seu trabalho c~nsiste e sempre consistiu em CO;lS~
ções relativas ii iluminação, bastidores, platéia são apenas dlredl?f: tr~balha também nessa adaptação essa cadeia de
ica de vanguarda,
mo I " t:u\-con~ palavras Significativas situações e personagens
Oexemplo de Mrozek, o mais expressivo e típico,
para guardar as aparências - uma prova de tradição dT 'IIIcaçoes cresce incrivemente tornando-se, as vezes Sl~ lcattvos. Ele não aceita isso desde que queirab se
1ão é o único, Também outras obras, bem definidas em
sobrevivente que está se tomando cada vez mais letra mor- p~~~lut~e~i~~ecer qualquer traço do drama original n~ escntor e ~ã.o un~ ~acaco balbuciante. Desse modo ~
lUa forma literária, tiveram oportunidade de influenciar ta. Os autores contemporâneos - mesmo quando dese- autor dramatIco nao emais necessário à gente de teatro "
:rialivamente o teatro, Uma delas foi justamente Rei IV, jam escrever para o palco - não escrevem mais peças
mai~ .teatrais estão acont~cendo fora ed:z~~a;:petaculos cri ~ode se: que~ realmente, os grupos que praticam 'a
As tentativas mais extremadas d f '
Je Stànislaw GrocholVisk, uma drama baseado em téc- puramente teatrais. E o que ainda é pior, não criam
nicas de pastiche dramático ecolagem. Outra foi o Com- literatura. Eles não estão conscientes da tradição, Nesse tradICIOnal. Queremos falar de grupos fechad o. rdegular d aç~o, c~letlva~ao tenham mais necessidade do autor
dent d 'd os, 1I1 epen- ramatIco, mas tem necessidade de literatura.
boio Fúnebre,. de Bohdan DrozdolVski, uma peça muito contexto, o Tango, de Mrozek é certamente uma exceção. . , es a VI a teatral regular, semelhantes aos
Todas as "peças .escntas ' em cena" recorrem a textos
teatral, em estilo de reportagem grotesco, um tipo de Não é apenas na Polônia que tudo isso acontece, itinerantes
d G medievais ,.
dos-. menest.ras' ou como ogmpes teatro de au tores· (adaptados) . d f ~ .
literatura simplificada. Em toda parte há uma grande falta de literatura e :otO,wSkl, uma combmação de confraria de . . . d . cão d f"t" ,CUja e ormaçao ou transforma-
e de mstltui ã . 'fi . mlCla os . emI Iva llltervem no correr d '
Tudo isso, de qualquer modo, significará que o tea- dramática e essa falta está ligada ao desenvolvimento" tivas às ativ;d~d~~e~~slca, O.nde as lel~ cO~lerciais resíri- I!epende da maneira de dize ,o. eSl:etaculo; t~do
tro baseado na. literatura contemporânea está vitorioso das formas não-teatrais dos espetáculos. E em toda a r - empresas de dlversao cessam sua tico "ncrmal" , t d r otexto, cUJo sistema seman-
sobre o teatro que, cada vez mais, usa as idéias de pro- parte a dramaturgia, tendo perdido cantata com o teatro, ap «açao, ou onde não há planos nem regulamentos de frases e até Ie nus ura o em " determma '. das passagens,
- 11l, nasce um novo teatro expe 'J' 't • pa avras. Na maiona dos casos isso conduz
sel', YJçOSI ou adm'uns, traçao,
dução antiquadas que datam dos anos vinte? Aquestão busca uma nova estética, nmenta. ( - a maiUlU açao do papel d ['
. d' a mguagem a uma única função
não étão simples. Os autores, atualmente, não conseguem ac IS lU mentar a da . . - " (,
realizar o teatro em outro campo que não seja oda pro- 2, As tentativas de criação de Ion '" animais Ê o qu ,( r expressao que e própria até aos
ticamente teatrais do espetácul (' nas ongmals e auten- ante" d~ texto deeRexp kl~a ~ alusão ao "macaco balbuci-
dução. Imaginemos um estudante que procure compre- na fonna ão d o em seu ponto de partida . ym 'leWJCz.
ender o teatro dos dias atuais tomando como exemplo a Oteatro, ameaçado nos fundamentos de sua existên· d: ç - e grupos compostos de ateres com verda-
obra dos grandes dramaturgos poloneses. Que poderá cia, que é o campo do ator, tenta defender-se com uma eira vocaçao teatral. Neste caso o teatro tende a' 1 coletiva P' .. além, nossa re. fi exao
Levemos mais -
sobre a criação
-se de t d J .' ( JSO ar- . nmellamente, enecessário ind .
ele entender? Que poderá compreender acerca da ma- intensa atividade no campo da 11Iise-en-scelle, Tenta por "e ~~ e~mento ~xtenor, inclusive da literatura dra- ce mesmo esse qualificativo G .[ agar s: el~ rnere-
neira de representar contemporânea através das leituras . todos os meios provar a sua característica particular a manea 1a, ISSO explica a aparicão, entre esses ru os disso. Os teatros u . era mente, nao e nada
das peças atuais? Peças construídas sobre o princípio do fim de jnstificar sua existência. Seu slal/ls social como ~e tedatro nov~, do fenômeno ainl~ raro da cria~ã; c~le- muitas vezes sob q e se ,a:rognm esse coletivismo estão,
grotesco combinado com o pastiche e a paródia deixam uma institnição continua sendo ambíguo: metade dirigido .... Iva o espetaculo Esta t ' . - cido O e~p~t' la dominio de um absolutismo esclare-
literária ' . em por apOIO, nao uma obra
pouca oportunidade ao ator. Os personagens, em tais a uma elite e metade, popular, sobrecarregado com múl- ~ ,mas u~ roteiro ad hoc, o que vem ne ar . direior da peç:c~~, dtanto quanto o texto, são obra do
peças, são os bonecos apenas para serem mostrados ou tiplas obrigações e tarefas planejadas. E antes de tudo, raZtlo de ser da 1Jteratura dramática Não éde d .g a , , o grupo. Seus colaboradores podem
personagens propositadamente descritos de conformidade o teatro não tem qualquer apoio na dramaturgia contein- então o I d' 1'1 ' ( a JllIrar-se partiCipar em grau variável na criaçã
, ql.e IZ IV. arek Rynkiewicz sobre os dl'ret ' ao nível da exet:uçã E
I . o ou permanecerem
com as exigências da psicologia mais tradicional, cuja porânea. Isto porque as produções do repertório clássico "EI ores, com' , ( o. msegundo lugar, o diretor ao
interpretação para qualquer ator é tarefa relativamente são as mais válidas como espetáculos do ponto-de-vista . eEs esperam do escritor não peças de teatro mas
ro telros. talvez 11em isso' ,.,' r'ltu;;[ toa' espetaculo e o roteiro, pratica também a lite-
fácil. artístico. Tais produções, deve-se acrescentar, são muitas tório d 'd" I pOIS um scenano cum rcper- ( , ma-se autor dramático,
A técnica do grotesco na dramaturgia foi como um vezes mais agressivas esalvam aoriginalidade einventiva f e 1 elas ai ' ov n~lo
serem realizadas (
S~IO
(
'IS '1"
( II elaS dra 7', no entanto, sempre foi esse o caso da literatura
estimulante para os atares poloneses. Representou um do diretor, com sacrifício não só da construção da peça que atam aos homens de te'llro EsteSgos t"
, I, ai Iam de ter j. mat ca. Os me!hor~s dramas eram geralmente a obra
papel vital no abandono de uma psicologia fora de moda como até de sua própria estrutura, Não é de se estranhar no
d'' 1 escntor, um fornecedor de dia' I ogos, na d " que
a mais I,:que es que os escreVIam para o teatro em '
11(~ ogdos. Mas querem mais: que esses diálogos seJ'an1 pnos representavam c assinavam a d'. ~que~les pro-
obsessivamente "experimentada", Mas esse papel foi uni- que c1as provoquem protestos não só quando refletem
camente destrutivo, Não há nenhuma perspectiva de nlll esforço válido de pesquisa estética, como quando
aI .una os por pers" onagens cUJO aspecto e caráter ,se deli- , nunca ro' "
( I uma maqullla de representar peças O
ueç<lo. O teatro
.
novas construções, visam apenas a efeitos de habilidade e talento. n~~~: ~Irante o espetáculo, e que sejam diálogos com- res ho~n~ns de teatro não eram simplesment~ d~re~~~~­
PrA' e, frases, que tenham apenas uma sionificação
No presente desacordo entre dramaturgia e teatro, Os clássicos, contudo, não bastam ao teatro, Vê-se,
Ol1lca' J cUJO sentido, por tan to, se defl/una' , , no bcurso do nucas o~ lIlatl/eS de baileI especialistas nas composiço'cs 11'111~I'
um elemento, antes ausente, se torna proeminente. Nos assim, a multiplicação de todos os meios substitutivos da
í no espa
. (ço, com b'madas de sons e, mais raramente,(- 5
[e palavras significantes. Shakespeare certamente fazia Parece que oúuico espetáculo que, realmente aíin- 5.
1m bom teatro mas, além da lembrança que nos legou, giu a dimensão do seu tema foi a Acr6pole, de Stanis- mo~e?tos~ ~so é antes de tudo o autor dramático ao
law Wyspianski, transposta por Grotowski eSzajna nunia Após. muitos anos, repete-se, justificadamente ue qual sena valido trausformá-Io em "macaco balb . t"
ecebems dele uma grande literatura dramática criada Para.desper t'a~I ' UCIan e
:m seu teatro. Se um dia virmos nascer "o melhor dos visão teatral de um campo de concentração. Mas para ~ verdadClfo teatro e a verdadeira literatura dra~ádca o, ~alena, igualmente a pena torná-lo
criar esse espetáculo, era necessário ter vi\~do antes Aus- evem ter uma cor política em relação íntima com os cousclCnteda Illlpenosa necessidade de escrever de outra
:eatros", esse nascimento deverá conter outro - ode uma
chwitz edepois fazer tábua rasa de todo opassado tea- gra~d~s. problemas do tempo. Essa regra é perfeitamente forma de reencontrar seu lugar ao sol numa situação em
iova literatura dramática. que o teatro ao qual se acostumou está a ponto de se
tral. Triturar e dissecar aliteratura tradicional, desinte- ver a erra, mas apenas as exceções é que aconfirmam.
grar alinguagem, transformar o autor em "macaco bal- transformar num museu; de inventar meios de ex ressão
3. buciante", basear o espetáculo num novo tipo de atar, N~nca s~ ch~gará acriar um verdadeiro drama cen- ~~e se adaptem aos t~m.as ~ue ele teme eque, atlagora,
obrigar o espectador a participar da criação e fazê-lo t~mporaneo, IstO e; ?m dr~~a. político, usando-se aeva- apenas soube dnnmurr, ridicularizar ou 't'
O tema da última guerra obrigou os escritores a sao ou a espe~a dédl de dlflgIsmos, regulamentos e esti- falsear. onu Ir e
reconsiderar oproblema da ficção literária, da narrativa sentir a mais dura ameaça de modo que ele deixe de mulas.
I . Uma, lIteratura bem comportada, em ·atraso em
de invenção que fará um papel apagado diante de qual-
quer exposição autêntica da vida nos campos de concen-
assisti-lo ede apreciá-lo ecomece a ter medo. Tudo isso
para que, tendo sido privado da possibilidade de uma t
r~b~l~~o ;ransformações políticas não tem qualquer pos-
Ignora-se se a nova literatura dramática nascerá na
c~naou na mesa de trabalho de um escritor També
nao s,a~emos .se. um dia não veremos nascer tr~ êne;~~
percepção intelectual, deixe oteatro transformado epuri- SI I;,a e. egrandeza, nem sequer de utilidade, tratando-
tração, relatada por uma estemunha ocular ou narrada se aem dISSO ~e u~a literatura que foge aos deveres que
objetivamente por um historiador. Aliteratura se achou, ficado como outrora o espectador grego ao deixar o dramatIcos dIstintos: para
· a televisão,para o rag'd'10 e
o mundo lhe mpce, modelo e palco de sua ação Os teatro. Pode-se indasar se o drama sob . ,
então, diante do dilema que a obriga a escolher entre anfiteatro de Dionysos. autor~s. dramáticos que se comprazem na passividade e
P
o ara o • d ,b . reVIvera
a tentativa de uma remodelação total de seus meios e Oexemplo de Grotowski, do Bread alld Fuppet e u s~ nao egen~r!ra em scéllario ou "partitura dialo-
no háhito de escrever para o teatro peças dividid
processos de modo apoder expressar-se de conformidade de outros grupos desse tipo, muito diferentes uns dos
outros, provam que é o teatro e não a literahlra que qu~dros e~heias de didascálias aque nenhum dire~r ~~ gada .Tod.a prevsao, no caso, estará baseada na incerte-
za, na conjectura ou na predição, Oque é certo é que
com as novas idéias eas realidades que transbordam dos mas aten~ao, cavam pa;a si mesmos um túmulo em cena
temas antigos, ea abdicação, isto é, aimitação das nar- pode veicular os grandes temas da atualidade. Deve-se
sem que 1,0 futuro alguem queira dar-lhes uma lápide. s~ o,teatro existe, evolui, conserva ou recria seu estilo'
rativas autênticas, da reportagem, este gênero .literário deduzir daí que a literatura dramática nada mais tem a nao e porque os autores ou atares decidiram assim O~
em maior expansão atualmente. dizer ao teatro? .Os autores que fazem "peças" para diferentes mass anos sessenta de nosso século não terão tido sua "
}!led!a vaga~ .sem. nuno nem bússola. Tendo perdido as no teatro, pois ela foi ado diretor. epoca
Que resta das obras sobre temas de guerra? Alguns receitas tradidonais da poética teatral I'ncl'
volumes em prosa, algumas poesias e nem uma única 4. , lh drõ _ I mam-se para
:e. os pa roes porque nao conseguiram criar um novo (Tile Tllealre iII Poland - 2/1974)
obra dramática. Da temporada de 1968/1969, dois espetáculos hStIlo ou uma nova forma universal de drama Diretores
Não se pode acusar aos autores por evitarem os românticos, cUJos textos a meio século e um século da /mens de ~eatro, pretendem que nada podem fazer se~
grandes temas. Não se trata de delTotismo mas, antes, de extinção do romantismo como corrente literária, foram iíeratura eas vezes ofazem, se bem que um grande tea-
uma falta de meios para isso. Ainda não foi criada uma apresentados. Oprimeiro, intitulado Crônic(T.s Reais - tro, um novo.teatro ~ue é oque se pede realmente um
dramaturgia adequada à época em que a derrota ou a era uma adaptação de textos de Wyspianski. Foi repre- teatro_ que ena substItutos para a literatura ainda'
ex~eçoes qu~. não confirmam a regra. Existem aI u~~~
H

vitória de um único ser humauo possa alcançardimen- sentado em Varsóvia. Osegundo foi Todos os Santos em
sões de real grandeza a não ser através de seu confronto Vars6via, (The November Affair), de Emest Bryl1, apre- obr~ dramatIcas verdadeiramente significativas ~ que
com odestino de todo um grupo social ou de uma nação. sentado em estréia no teatro de Wroclaw, direção de exp oram. em profundidade a realidade ou recorrem a
Grande quantidade de peças foram. escritas na Polônia Krystyna Skuszanska eJerzy Yrazowski. ~ov~s meIOS, como, ~xistem espetáculos válidos feitos fora
sobre opoder ea autoridade, mas nenhuma érealmente Oespetáculo da peça de BryJl foi em muitos aspec- a ltera~ura dramática, Por mais rara que se'a a ran-
grande. Porque é impossível escrever sobre uma idéia tos semelhante àprodução de Crôllicas Reais. Apesar das deza se,mcarna,tanto no teatro como na liteiatura gm~
que não tem olhos nem rosto. Dürrenmatt falou sobre diferenças de estilo, ambas foram produções românticas. o que e c~rto e que o que denominávamos OIitro~a de
isso em suas peças mais do que qualquer outro, mas disse Sessenta anos após amorte de Wyspianski, o espe- ~:~~~ ~~ lIte~atur~ d:a~~ica, não existe mais. Subsistem
em primeiro lugar que o pede; era um conceito e não tácuIo de Ludwik René (Crônícas Reais) composto de : orn:u as, ~nstItUlçoes, hábitos e costumes ue se
uma pessoa física. Shakespeare falava da história pela textos que datam do fim do século 19 einício do atual, esvaZIam progreSSIvamente quanto ao siguificado 1.
boca daqueles que eram seus artífices: os reis e os prin- revela-se de atualidade quase idêntica à de uma peça s~s n~vas que apareceram ou que começaram a'a :r~~:~
cipes. E ele continua a ser representado, mas ninguém escrita em 1968 e não diz menos sobre a atitude para sao dIfere~tes e.devem ser diferentes. Mas ningué~ sabe
mais escreve peças 110 seu estilo. Uma obra sobre homem com atradição romântica no sentido lato do termo e, ao o que serao afmaI. Não parece plausível que o teatro
no poder, em nosso século, seria um asburdo, uma peça mesmo tempo, mais ainda sobre anossa época que Todos- b~:sa renascer ~o~o pura "teatralidade" em espetáculos
psicológica amais em que somente os nomes dos perso- -os-Salltos em Varsóvía. É uma prova da força do teatro a e:~os ?a pr~pna representação, em que não há íntri-
nagens seriam uma referência histórica, Ou nada mais de hoje edo talento do diretor, mas também uma interro- f 'dao ha sentido, nem mesmo palavras significativas e
seriam que ogrotesco, gação sobre a literatura dramática contemporânea.
r en o apenas por suporte ematéria gestos, sons, ações e
7
Essa técnica de iluminação deu onome auma peça
_UZ NEGRA do ~alvadorenho Alvaro Menén Desleal (Luz Negra),
contlsta que ganhou nome com essa obra em dois atas e
um prólogo, escrita em 1961 e estreada em 1966. Foi
publtcada
id
em 1967 etraduzida em alemãoJ francês , ieglês,
t do SI .0 representada em diversos países. Para vermos
.en
o apro.veltamentoda técnica, cujo nome é tirado da luz
ultra-vlOleta que se usa em cena para dar o efeito espec-
Essa técnica, muito usada nos cabarés e 1/I11sic-halh' t~al, basta en~meraralguns dos personagens do drama
partir de 1950, necessita de três elementos: clt~do. No prologo aparece um homem sem cabeça, nos
deis atas que se seguem são as palavras de duas cabeças
· uma fonte luminosa decepadas de seus corpos. Os personagens são quase
· uma pintura fluorescente adaptável sobre diferen- to~os mudo,s, com exceção de um cego. Tudo se passa
tes suportes apos amorte, numa praça onde está erguido um patíbulo
· a obscuridade no espaço cênico. Os dois decapitados riem e apenas seus olhos se mexem:
Otem~ da peça é aincomunicabilidade das pessoas antes
e dspois da morte.
Os projetares:
Para esse tipo de teatro que se passa além da vida
Seja em spots de 150 W, seja sob aforma de ribal- aluz negra oferece muitos recursos: J

a de neon colorido, que só deixe passar os raios U. V.


daí o seu nome de luz negra).
Utilizando-se uma ribalta de neon, basta colocá-la
10 chão eno centro do proscênio.

~. As pinturas:
Existem dois tipos de tintas acrílicas indeléveis e a
ileo.
As pinturas acrílicas (de água) oferecem maior faci-
.idade de uso epodem recobrir todos os suportes, gastall-
le-se cerca de 1 k para 5 m2• Existem todos os tons,
lotando-se que obranco se transforma àluz negra: fica .
.igeiramente azulado. Todos os elementos que não devem
,er vistos serão pintados de preto fosco.

3. Os manipuladores:

~/ f
tratando-se de teatro de bonecos, os manipuladores
devem estar completamente vestidos de negro: capuzes

~
(com janelas de forro preto para permitir avisibilidade),
malha completa, luvas altas, meias e pantufas.
..
Oespaço cênico deve ficar obrigatoriamente oculto.
No procênio pode-se armar um painel de uns quarenta
centímetros de altura edo comprimento igual ao da cena,
que permitirá disfarçar a fonte luminosa e alguns cená-
llt.tf.\'~.oJt"m-"­
1.. ~("..........
/~
./
"'L~l'llo X ~...... v.... u."ZO.

í
"'~~._ • . ..... (Ç~ l(~. ~

rios. 9
da mesma maneira que 11a vida real ele permanece pre-
sente nos resultados que provocou.
Daí uma generalização das mais interessantes um
processo contínuo de abstração. Se somos .capaz~ de
comparti.lhar as emoções dos homens do passado, de clas-
Recusar-se adeixar oespectador vibrar com oherói, ses decaldas, graças às obras de arte que nos transmiti-
se identificar com ele, não quer dizer recusar aemoção e ram, épreciso admitir que tomamos parte nos interesses
nem suprimi-la, Atese da estética vulgar, segundo aqual que se tornaram de fato simplesmente egeralmente huma-
não se pode suscitar a emoção no espectador senão fà- nos. Por que esses homens mortos há muito representa.
zendo-o perder-se na do atar, éuma tese falsa. Entretanto, ram os interesses de classes que eram portadoras do pro- V,.
uma dramaturgia não-aristotélica deve submeter a uma gresso.
crítica circunspecta as emoções que procura produzir.
BRECllT
Certas tendências artísticas, como as provocações
dos Futuristas edos Dadaistas e afrieza da música mo-
derna dão testemunho de uma crise da afetividade. O
teatro alemão do após guerra (de 1914), encaminhou-se
decididamente, nos últimos anos da República de Wei-
mar, no caminho do racionalismo. Ofascismo, com sua
hipertrofia grotesca do emocional, e também a ameaça
de uma queda do racional na estética marxista, nos fize-
ram insistir energicamente na racionalidade. Mas, em
grande número de obras de arte contemporâneas, pode-se
falar de uma ausência de efeito emocional pela própria
razão de seu sacrifício à Ratio; e pode-se falar de um
reuascimento da emoção (verdadeira) em conseqüência
das tendências racionalistas exageradas. Só se admiram
aqueles que vêem a emoção de maneira convencional.
Aligação de certas emoções com certos interesses é
relativamente fácil. Qualquer um pode ver surgir nos qua-
dros de Delacroix eno Bateart Ivre, de Rimbau~ as aven-
turas coloniais do Segundo Império. Podem-se fixar certas
diferenças entre o imperialismo francês da metade do
século 19 eoimperialismo inglês do início do século 20,
comparando-se oBateart lvre com Este eOeste, de Ki-
pling (*). Adificuldade, assinalada por Marx, é expli-
car o efeito que ainda causam em nós esses poemas.
Parece que as emoções que acompanhavam os progressos
sociais sobrevivem durante muito tempo nos homens
como emoções ligadas a interesses, que subsistem nas
obras de arte com força relativamente maior que se ima-
ginaria, visto que nesse interim os interesses em questão
se chocam com interesses antagônicos. Cada progresso
suprime outro, precisamente porque vai mais longe, mas . (*) O jovem Brecht sofreu profundamente a influência de
Rimbaud: v. Baat, Na Seh'(( das Cidades, a evocacão das "aven-
apoia-se também sobre ele, utiliza-o e em certo sentido turas coloniais" em Cal/to dos Cal/hões e na 6pe~a dos QI/((tro
ele se mantém como progresso na consciência dos homens,
f Vil/tél/s e em [fomem por HOll/em (que é um anli-Kipling).
MANEIRA DE REPRESENTAR BRECHT interesse partindo da estrutura da obra, e deve .estabele- essenciai que está subjacente em cada frase ou alocução
cer a que interesses de grupos humanos se assemelha ou - que apoia as frases, as mais vulgares, 'que não dizem
serve (porque somente esses interesses podem ser consi- exatamente o mesmo que dizo texto, mas que contêm
derados inJportantes) e a que grupos se opõe. O atar o gestus ...
deve identificar-se com os interesses de grandes grupos
para representar bem oseu papel eesses interesses, como 7. Quando o ator, já no papel que lhe coube
os do atar, estão apoiados por conceitos decisivos. representar, explorou todas as relações que aobra propõe,
pronunciou as frases com a maior espontaneidade que
3. Ao mostrar odesacordo com omundo do autor, lhe seja possível e as acompanhou com os gestos mais
o atar tem a possibilidade de assinalar os limites desse apropriados a elas, ele terá recriado o mundo do autor.
mundo, suas características, e demonstrar que é comba- Cabe-lhe, então, estabelecer adiferença entre esse mundo
Para representar o trinnfo e transm~tir aos es- tível. Demonstra isso pondo-se a serviço dos interesses e o seu próprio e por um destaque essa contradição.
pectadores esse sentimellto, o atar necessita de lima do público. Sua atitude "géstica" é a que deve ser trans- Agora, como depara com as contradições mais ieportsn-
ação, Essa ação pode ser aP:llas Il1n esqueleto q~1e mitida ao espectador. tes? Em toda obra teatral há uma opção por uma deter-
lhe sme para pai' seus sentl/nentos, Il1n t:ampol~I~' minada seleção de relações que cada personagem deve
para apaixão, pode-se dizer, Mas !lelll por ISSO deIXa
de ser l/ma ação. Mostra·se a Vida d~ home~ll em 4. Permite-se que o atar se mostre atônito diante manter. Quando as situações foram criadas apenas para
sociedade' mas para representar essa Vida s~Cl/llne­ da engrenagem da peça, mas também ante seu próprio proporcionar ocasião para o ·brilho do personagem, já
cessita-se'de algo mais que talelllo interpretativo, algo personagem (o que ele deve representar) e até diante está evidenciado um critério na seleção das possíveis
mais do que cOlldições illatas. Aqui aparece oql/e se das palavras que deve pronunciar. Mostra, atônito, aquilo situações. O atar não tem que estar de inteiro acordo
deve estlldar. Brecht. com que está familiarizado. Ao falar, contradiz o que com essa seleção. Se tem que representar uma situação
está dizendo. que mostre a coragem do herói, o atar pode acrescentar
um matiz diferente daquilo proposto pelo autor. Essa
5. Para representar um personagem, o atar deve coragem - que o ator vai modelando através da exata
ESTUDO DO PAPEL estar ligado aele por interesses, epor interesses importan- realização dos gestos que correspondem à atitude mais
tes, isto é, interesses que provoquem uma transformação lógica diante das frases postas em sua boca - pode ad-
1. Omundo do autor não, é o.{~nico mundo. Há do personagem, Opersonagem terá dois etls e um deles 'quírir outra acentuação, graças a uma cena muito breve
muitos autores. Oatar não deve ldentlhcar .to,tal~ente o será o do ator. O ator, como tal, deve participar da de mímica, a um determinado gesto com o qual se sub-
mundo com omundo do autor. Deve fazer d~stmçao entre educação (transformação planificada) de seu persona- trai algumas frases do texto, por exemplo, algnma que
mundo eodo autor, edeve acentuar adiferença. Isto gem, educação que estará a cargo dos espectadores. É indique acrueldade do herói em relação ao seu criado.
f~:~ui sobre sua conduta em relação à estrutura da pe:a. ele que deve estimular opúblico. Ele próprio éum espec- Ao mesmo tempo que mostra a fidelidade de um
I tador e esse espectador é um personagem a mais que o personag~m, pode mostrar sua ambição; pode conferir um

r
Aestrutura da obra é o mecanismo que dete.rmma
o que deve ser causa e efeito, o que deve ser ef~lto de ator deve esboçar; é o segundo personagem a desenvol- traço de sabedoria ao egoismo de outro; pode expor as
uma causa e assim sucessivamente. Essa, manelf~ de ver. Mas, para começar, como deve delinear o primeiro limitações do amor àliberdade de um terceiro. Do mesmo
desenvolver o enredo, enfatizando determmadas. situa- personagem? modo, ao construir opersonagem, vai criando os pontos
ções revela os pontos de vista do autor a respeito do de contradição de que ele necessita.
mun'do, e o atar deve mostrar seu desacordo com esses 6. O personagem surge como resultado de suas Se, ao contrário, o personagem fosse criado pelo
relações com ouros personagens. Na arte dramática da autor para possibilitar uma situação, nunca faltarão
pontos de vista. velha escola, o atar criava o personagem e cm seguida outros personagens que dêem verossimilhança a essa
estabelecia suas relações com as demais figuras. Desse situação. Os atos qualificados como atas de valor nem
2. Como o ator descobre os po.ntos de vista do personagem inventado extraia em seguida os gestos e a sempre são executados por pessoas corajosas e- ainda
autor, esses pontos de vista que constItuem .a base ~a forma de pronunciar as palavras. Opersonagem surgia que o acoutecimento não o exija - qualquer persona-
engrenagem da obra? Descobre-os ao pesquisar aquilo da viEão panorâmica da peça. Oatol' épico, não se preo- gem requer, para ser verossimil, que se possam apresen-
que gera contradição. Porque nem todos os pontos de cupa com opersonagem. Parte de zero. Conduz todas as tar manifestações e atitudes que não foram provocados
vista do autor merecem o desacordo do ator. De~em ser situações da maneira mais espontânea epronuncia as ora- por esse acontecimento em particular.
onto de discussão apenas aqueles que revelam o l~teres­ I ções uma depois das outras, mas como se cada uma delas Por exemplo, um determinado acontecimento só é
;e do autor pelo mundo real. Oatar deve descobnr esse
r fosse aúltima. Para encontrar ogestlls - isto é, aatitude verossímil quando um pobre faz determinada coisa; mas
opobre não se tornou pobre através desse acontecimento
particular. Para ser pobre tem que ter feito outra coisa.
AEXCEÇÃO EAREGRA
Oque? Ter lutado contra a exploração ou se deixado
explorar. Tem que haver se mostrado solidário ou então
se negado asê-lo. Ele participou de muitas situações, per- moralidade em 8quadros
tanto, sua atitude tem que ser uma soma de elementos,
muitos deles não necessários para conferir verossimilhan·
ça ao acontecimento em questão e algum que conspire
contra essa verosdmilhança. Desse modo éque se obtem de BERTOLT BRECHT
eponto de apoio importante para contrad~er.
Ao desempenhar seu papel, oatar deveria seguir o tradução de MARIO DA SILVA
exemplo dos técnicos ou dos condutores de veículos fami- Oatar deve ser económico no uso de sua fantasia.
Iiarizados com amáquina: tratam com brandura omotor, Avançando de fala em fala, explorando o personagem
fazem as mudanças com agilidade e elegância, enquanto através das palavras que pronuncia edas que escuta ou -PERSONAGENS:
suas mandJ'bulas trituram com displicência a goma de recebe, recolhendo - cena por cena - confirmações e PRÓLOGO: 1. Corrida no Deserto - Duas
\
mascar. Se o atar descobre que essa maneira de atuar contradições, assim ele constrói opersonagem. Vai memo- MERCADOR pequenas c~~va~as, separadas por
(que de resto se aplica a marcar a ação, momento em rizando esse processo de lenta progressão, esse passo a , GUIA peq~ena dIStanCIa, disputam uma
que os movimentos apenas se esboçam e os tons são passo, afim de que, concluído oestudo, esteja em condi· COOLIE Nós vos trazemos cornda no deserto.
apenas insinuados) não o satisfaz ou não é eficiente, ções de reproduzir diante do espectador a evolução do •HOTELEIRO ahistória de uma viagem.
pode estar certo de que as idéias que fundamentam sua personagem passo apasso. Esse passo apasso deve se MULHER A expedição de um mercador ~ERCADO~ (a seus dois campa.
atuação carecem-de' significação ou são imprecisas;']maplicarnão.só.àstransformações.que. o. personagem expe· JUÍZES edois empregados. nhelros de Viagem, oguia eUIIl cooUe
tal caso, sua entrega pessoal, sua identificação privada rimenta em virtude das situações eacontecinientos da tra- Reparai bem como eles agem: que. carrega as bagagens) Vamos!
CHEFE DA SEGUNDA CARAVA-
com o personagem, pode salvar o atar, mas nunca a ma, como da própria construção do personagem em toda MaIS depressa, preguiçosos! É preci-
cena. sua nudez, ante os olhos do espectador.
NA sua con.duta vos há de parecer
fa~iar; observai oque nela
so chegar um dia antes dos outros.
A entrega pessoal, a utilização do temperamento Esse processo paulatino de construir opersonagem eXiste de insólito. Tenho que estar depois de amanhã
como substituto põe quase sempre em perigo aestrutura émelhor que o dedutivo; neste se começa dando uma Sob oquotidiano, desvendai o na estação de Han. Sou omercador
intelectual da cena. Torna demasiado compreensível qual· rápida olhadela no papel ese cria uma imagem global do injustificável. Karl Langrnan evou a Onrga com.
quer conduta e, portanto, descarta toda surpresa provo- tipo arepresentar, para em seguida extrair do texto os Por trás do consagrado, atentai prar uma concessão. Meus concorren.
cada por ela. Esta éa razão pela qual as peças modero dados eoportunidades que permitirão modelá·lo. Desper· no absurdo. t~ nos se~em de perto. Oprimeiro
nas costumam encontrar ótimos intérpretes nos atares diça-se, assim, muito material eamaior parte se adultera Des.confiai do menor gesto, por a c?e~ar fica com o negócio. Até
que não estão de acordo com asua forma ou conteúdo ese debilita. Simples que pareça. ~qU1, fIZ otrajeto em tempo récorde,-
eque consideram falsas todas as suas réplicas. Nas repre· Apesar de tudo os atares preferem aforma dedutiva, Não aceitai como tal a regra as custas de habilidade e energia e
sentações contemporâneas, muito poucas vezes são obti· sem dúvida porque antes de tudo lhes permite desde o estabelecida; tratando omeu pessoal com amalar
dos os efeitos tão freqüentes nos ensaios, quando os ato- primeiro ensaio se exibirem como atares isto é, esse procurai nela a necessidade. dureza. Opior é que meus concor.
res estão desanimados ou cansados. tipo de ator que consideram ideal eque sonham encaro Rogamo-vos não dizer "é na- r:ntes alcançaram quase o mesmo
nar, Sim, sonham mais com opersonificar esse ator do tural", fltmo. (Olha para trás COIll seu biná-
que opersonagem concreto que lhes toca representar. diante dos acontecimentos diá- Clllo) Pronto! Aí estão eles de novo
Quando afantasia intervem desse modo, ela pode rios. nos nossos calcanhares! (Ao guia)
ser prejudicial. Já no processo indutivo epaulatino, 'ao N ' onde reina acon.
I uma epoca
A~erta ~m pouco aí o carregador.
contrário, seu emprego é indispensável. Ao estudar o FO.l pr~ ISSO que eu te contratei. Os
fusão ecorre osangue,
papel, caminhando de fala em fala, ele apela constante- d~ls nao estão aqui pra passear às
onde aordem é desordem
mente para afantasia. Todas as questões que se propõem oarbitrário lei, ' minhas. C1Lltas. Sabes quanto custa
ao construir opersonagem devem orientar·se - com o uma VIagem come esta? Evidente.
e.a hum~nidade se desumaniza, mente, não é o teu dinheiro. Mas,
auxilio da fantasia eda comprovação dos fatos - até a nao se dIga jamais "é natural"
indagação erepresentação da figura como unidade con- olha .be~, se Ame sabotares eu te de.
a ~im ~e que nada passe po; nuncIO a agencia de empregos -de
creta em evolução. lmutavel. Ourga.
GUlA (ao carregador) Veja se
anda um pouco mais depressa.
2. No fim da estrada povoada
MERCADOR - Louvado seja Deus!
.
regador) cansado como está, até
a estação de Ourga. Pensando bem,
a atitude cordial do Mercador me
1I
.', .~
predso andar mais depressa. Esse COOLIE - Não estou entendendo.
carregador já está bem podre. Ater-
ra pra onde nós vamos é desert~ não GUIA - Ninguém entende.
tem ninguém. Talvez ele aproveite CooLIE - No deserto ocaminho
Vai se aliar ao cooUe. Um rapaz que
não tem a menor autoridade. Não
será capaz mesmo de coisa pior? En-
MERCADOR - Tua voz não está Cheguei à estação de Han um dia deixa bastante preocupado; quem sa- fim) apartir de hoje, são dois contra
para tirar amáscara. Você éde uma será pior do que antes.' Esperemos
boa. Nunca serás um chefe. Eu devia antes dos outros. Meu pessoal está be o que nos espera? Ele não para casta superior: ganha melhor e não que os meus pés aguentem até ofim. um. " Ocerto éque êle vai contro-
ter contratado um guia mais caro; no esgotado. Bater récordes, lutar, isso de passear, refletindo. Idéias, novas, carrega nada. Basta isso para ele lhe lar ocooUe, agora que entramos no
fim das contas, é vantagem pagar não énegócio pra eles... Uma ca- novas traições a temer! De qualquer detestar. Pode crer: ébom ficar afas- GUIA - Sem dúvida. deserto. Preciso) de qualquer manei.
mais. Vamos) bate um po.uco nesse nalha miserável que rasteja, eis o forma, ocarregador eeu precisamos tado dele; émais prudente. ra, me livrar desse indivíduo. (Apro-
COOLIE - Há ladrões por aqui?
moleque. Não éque eu seja, e~ ge- que são. Têm medo de abrir aboca; suportar tudo porque, se não, ele não xima-se dos dois empregados ese di-
ral, pela pancada) mas agora.e ~re- a polícia ainda está aqui, graças a nos paga ou nos expulsa em pleno GUIA - É preciso desconfiar no rige ao Guia) Encarreguei-te de fisca-
ciso bater. Se não chegar pnmetro~ AGUIA passa por uma porta aber- primeiro dia, enquanto estivermos
Deus, para manter aordem. deserto. ta para opátio vizinho; oMERCADOR perto da estação; está assim de bano Iizar o bom acondicionamento das
estou arruinado. Ab! Confessa! FOI bagagens. Veremos agora se execu·
teu irmão que contrataste como caro DOIS POLICIAIS (se aproximando) MERCADOR (aproximando-se) - permanece sentado, completamente didos.
- Tudo em ordem, senhor? Está sa- só. taste minbas ordens. " (Puxa violen-
regador! É teu parente, por isso éque Quer um pouco de fumo? E papel tamente uma correia até que ela se
tisfeito com aestrada? Satisfeito com pra cigaro, você quer? Oque não CooLIE - Edepois?
não queres bater... En te conheço. arrebenta). Isso élá pacote? Se uma
Vais ver. Podes reclamar oteu salá· opessoal? fariam vocês pelo prazer de enegre- MERCADOR - '" gente engraça- GUlA - Depos de atravessar orio correia dessas arrebenta, perdemos
rio na Justiça! Deus do céu! Estão MERCADOR - Tudo em ordem. cer agoela com essa fumaça, .. Gra- da... Myr, o importante é seguir sempre um dia. Mas é exatamente isso que
nos alcançando outra vez! Até aqui) o caminho que os outros ças aDeus, nós trouxemos bastante; os poços.
queres: descansar.
fazem em quatro dias) eu fiz em três. nosso fumo dá esobra para aviagem COOLIE - Conheces ocaminho?
COOLIE (ao Guia) Bate, mas não até Ourga. O MERCADOR continua sentado, GUlA - Não quero destansar; e
com muita força. Pra chegar até a As estradas são infames, mas tenho em silêncio. OGUIA ffscaliza, ao la- GUlA - Conheço.
..................................
por hábito terminar bem o que CO° acorreia não se partiria se não fosse·· .....
estação de Han, é preciso que eu GUIA (à parte) -Nosso fumo ... do o carregador na preparação das puxada.
continue podendo andar. meço. Que tal éaestrada depois da bagagens. Depois se senta ecomeça
estação de Han? Que vamos ter pela MERCADOR - Sentemo-nos, meu (O MERCADOR ouviu vozes e se
amigo. Porque você não se senta? a fumar. OCOOUE, após terminar MERCADOR - Oque? Bainda por
Voz (chamando da retaguarda)
Bi! Ê ocaminho de Ourga? Ei, ami-
frente? Numa viagem como essa) todos os seu trabalho, também se senta e o lhor,) da porta para esClltar me-
aproxima cima és respondão. Acorreia se ar-
POLICIAIS - Agora, cavalheiro, o homens são irmãos. Mas se você pre- GUIA lhe dá um pouco de fumo epa. rebentou ou não? Diz agora na mi·.
go, para! nha frente que ela não está rebenta.
senhor vai entrar no deserto Jahi, fere ficar de pé, o problema é seu. pel de cigarro, começando aconver.
MERCADOR (sem responder nem onde não há viv'alma. Vocês têm seus hábitos, eu sei. Nor· sar com ele. COOUE - É difícil atravessar o da! Não épossível confiar em ti...
olhar para trás) Odiabo que os car- malmente, eu não me sento ao seu rio Myr? Queria te tratar bem, mas com gente
reguel Pra frente! Há três dias que MERCADOR - E não se pode da tua espécie isso não dá certo. De
levar uma escolta policial? lado como você não se senta ao COOLIE - OMercador diz sem. GUIA - Nesta época do ano, ge.
os apresso) que os empurro. Dois dias lado' do carregador. Ê nessas diferen· mais amais, qual éoserviço que me
pre que se presta um grande serviço ralmente, não. Mas na época das prestas? Não tens a menor autorida.
com injúrias, oterceiro com promes- POLICIAIS (se afastando) - Não, ças que se baseia aordem do mu~do. àhumanldade quando se tira petróleo chuvas a correnteza é muito forte; de sobre os outros empregados efa-
sas. Em Ourga, vamos ver se as cum- cavalheiro. Nós somos os últimos po- Mas nada nos impede de fumar Jun· da terra. Diz que, se tirarmos pelró. corre-se perigo de morte. rias melhor te empregando como
pro. E os concorrentes sempre nos liciais que osenhor encontra. tos) não é? (Ri) Ê isso que me agra-
meus calcanhares.. , Mas andarei leo da terra, aqui vai haver estradas MERCADOR - Aí esta: de conver- carregador do que como guia. Além
da em você... Enfim, cada um com de ferro eagente vai nadar em di.
toda a segunda noite; assim conse- 3, Despedida do Guia na Estação asua dignidade. Bem, agora vai fazer .sa com ocarregador. Com ele, con- disso, tenho razões para acreditar que
gaire! escapar, eles me perderão de nheiro. OMercador diz que aqui vai corda em se sentar efumar. me intrigas com opessoal.
deHan um embrulho de nossas coisas, c n~o haver estradas de ferro. Eeu, então,
vista echegarei à estação de Han no se esqueça da água; parece que nao COOLIE - Que se deve fazer en- GUIA - Que razões?
terceiro dia, com um dia de vanta- GUIA - Depois do nosso encon· como éque vou viver?
há muitos poços no deserto. E, por tão?
gens sobre oprimeiro dos meus jer- tro com os policiais na estação de GUIA - Não te preocupes, Aes- MERCADOR - Ah) queres conhe·
Han nosso mercador se transfor- falar nisso, eu queria prevenir você GUIA - Muitas vezes é preciso cê-Ias... Vai esperando; mas estás
seguidores, (Canta:) de uma coisa, meu amigo: reparou trada de ferro não é para já. Ouvi
mau': fala·nos com uma voz diferen· dizer que, quando se descobre petró. esperar oito dias para atravessar o despedido.
Andando de dia, andando de noi· te, éamável. Nós éque não estamos no olhar que o carregador lhe deu rio sem perigo.
leo, a primeira coisa que se faz é GUIA - Osenhor uão pode me
[te, aumento a vantagem, em condições de fazer o mesmo ... quando você o castigou? Um
escondê-lo. Por isso éque oMerca- MERCADOR - Vejam isso: aí está mandar embora no meio do caminho.
Às custas de pau, aumento a Não foi previsto dia algum de repou· olhar... pois é, não me pareceu nada dor está tão apressado: não éope-
bom. Enos próximos dias, você terá um que recomenda ao carregador não MERCADOR - Inda deves te dar
[vantagem, so na estação de Han, aúltima an- tróleo, que ele quer, éodinheiro pra ter pressa e tomar cuidado com sua por feliz se não te deuuncio na agên-
Os fracos se atrasam, mas os tes do deserto Jahi. Pergunto-me de bater-lhe novamente, mais de se calar.
uma vez e com mais força: vai ser L', preciosa pessoa. É um tipo perigoso. cia de empregos de Oerga Toma,
[fortes avançam. muitas vezes como vou levar o car-

-----~~---- -~------ ___ o - - - · - - _ _ _ •• _ _ 4 •


olha oteu salário pelo que fizeste até MERCADOR (À parte) - Quer di- Eodeserto não me deterá,
aqui. (Chama o hoteleiro, que se zer que ele compreende tudo ... Não Em Ourga vou comer e está eI~ rindo. Não há razão alguma CooLIE - Mas eu nado muito
aproxima) Osenhor étestemunha de estava era querendo compreender. [descansar. um será corajoso, (l'outro
para nr. Que ofaz rir? E por que mal.
que lhe estou pagando oque devo. Conhece o seu trabalho. Não gosta me deixar andar na frente? Éele que [covarde?
éde ser testemunha em coisas dessa MERCADOR - Idiota! Aregião in- Atravessado orio, superado o
(Ao Glda) Previno-te de que farias
festada de bandidos, Toda essa ca- sabe ocaminho, não eu. Aonde esta- MERCADOR - Aprofundidade não .. . [perigo,
bem não aparecendo mais em Ourga. espécie, (Ao hoteleiro, asperamente). rá me levando? (Olha para trás evê é maior do que isso (gesto),
(Olha-o de cima abaixo) Jamais che- Expliqne ao meu carregador ocami- nalha de lacaia nas estações aqui um deles vai fazer um negócio,.
perto, E oimbeci! canta! (Ao Co-
ocooUe apagando os rastros na areia COOLIE (mergulhando uma vara e'atravessa triunfante orio .
garás aser alguma coisa. (Passa pa- nho de Ourga. (O hoteleiro sai eex- com um galho), Que estás fazendo? 110 rio) - Muito fundo.
ra outro cômodo com o hoteleiro) plica ao cooUe ocaminho. Este opio oUe). Aquele guia nunca me agra- [conquistado
Vou partir agora, Se me acontecer na, com atenção, diversas vezes). Vai dou. Às vezes grosseko, às vezes ser- COOLIE - Estou apagando os nos- MERCADOR - Quandocakes eentra em sua propriedade
qualquer coisa, o senhor é testemu- haver barulho, na certa. (Saca de seu vi!; não era um homem muito certo. sos rastros, senhor, n'água, nadarás direitinho vais ver ecome um fruto novo; .
J

nha de que parti hoje com aquele revólver ese põe aUmpá-Io. Enquan- COOLIE - MERCADOR - Pra que? sera precIso. Olha, eu me coloco num
I "

o ~utro, passado operigo,


homem, (Aponta o cooUe. O hote- to isso, canta): plano mais elevado do que o teu. está cansado enão encontra
É, sim, senhor. (Cantando): COOLIE - Por causa dos bandi- Para que vamos aOurga? Para pres- [nada:
leiro demonstra, por gestos, que não O fraco sucumbe; é o forte Ocaminho para Ourga é dos.
está entendendo). Não entende nada! tar um serviço à humanidade, tiran- outros perigos ameaçam sua .
[que combate, [muito duro, .MERCADOR - Por causa dos ban- do opetr6leo da terra, Percebes isso [fraqueza;
Assim, não haverá ninguém para di- i
zer aonde fui. Eopior éque esses
Por que aterra me cederia seu Agente sofre muito pra chegar. ~ didos. " Mas épreciso que possam imbecil? Opetróleo será tkado d~ serão ambos corajosos?
[petróleo? mas em Ourga vou comer e saber para onde estás me levando. terra, estradas de ferro serão cons· Serão ambos inteligentes?
canalhas sabem muito bem que não
Por que o cooUe carregaria [descansar, E, por falar nisso) para onde estás ~~as, nadaremos em riqueza; have- Viva! Juntos venceram olia,
há gente de espécie alguma pelo ca- .
[minha bagagem? me levando? Anda na frente. (Con- ra p'ao, roupas e.. , Deus sabe oque mas sobre orio conquistado .
minho. (Senta-se eescreve uma car- MERCADOR - Por que cantas? O
Petróleo, eu te arrancarei, tinuam a caminhar em silêncio, À maIS. Equem fará isso? Quem? Nós. ficou apenas um vencedor,
ta), apesar da terra eapesar do que éque te alegra? Ah, éque não
tens nada a perder, se os bandidos p.arte) , Nessa areia fina é verdade Oprogresso, a civilização, esta é a que diz 'nós", porém, não diz
GUIA - (Ao coolie) - Fiz mal [cooUe. .- que omstrosficanrbemvisíveiCÉ···finalidadeda.nossa. viagem. Não vês ["tu" e"e".:
em me sentar ao teu lado. Toma Enessa luta .~ lei será: aparecerem. Oque eles podem tomar
pode ser, de fato, uma idéia excelen~ que opaís inteko está com os olhos Juntos, 1I6s vencemos orio
mas tu es, ovencedor contra'
cuidado que esse homem não presta, ofraco sucumbe; éoforte que não pertence a ti, porque tudo que
levamos pertence amim. te essa de apagar os rastros. .. voltados para ti? Para ti, monstro. E
Pergunto-me como farás para encon- [combate, tu hesitas em cumprir oteu dever. ,. [mim.
trar ocaminho. (Dá oseu cantil ao COOLlE (cantando)
cooUe) Toma: guarda esse cantil de 5. Diante do rio caudaloso COOLIE (que durante toda aaJo-
OMERCADOR entra no pátio per- Minha mulher está em Ourga, cução, assentia, respeitosamente, mo- CooLIE - Por favor, deixe ao
reserva, escondido. Se os dois se per- to da porta de saída, COOLIE - Estamos no caminho vendo acabeça) - Eu não sei nadar menos que eu descanse algumas ho'·
derem, ele na certa vai tirar o teu. meu filho também me espera.
~etto, patrão. Eis o rio Myr. Nessa raso Estou cansado de carregar esta
Vou te explicar ocaminho, muito bem.
MERCADOR - Para de cantar. Não epoca do ano, em geral, ele não édi- bagagem, Depois do descanso, talvez
MERCADOR - Sabes o caminho,
COOLIE - Émelhor não explicar. agora? há razão alguma para estares can- ffc~ de atravessar, mas no penado de MERCADOR - Também estou ar. atravesse melhor.
Se ele nos ouvir falando, vai me des- tando. Tua voz está chegando até cheIa acorrenteza fica muito forte e riscando a minha pele! (CooUe se
há perigo de morte. E o rio está incql~a, co!n resp;i:o). Mas para ti, MERCADOR - Conheço um meio
pedir, e aí éque eu estou perdido. COOLlE - Sei, sim, senhor. Ourga; eisso só serve para atrair a muito melhor: vou encostar orevói.
Nada poderá obrigá-lo ame pagar o MERCADOR - Então, avante. canalha atrás de nós, Amanhã, can- cheio. espmto billXo ecupldo, aúnica coisa
que. vale é o dinheko. Por que te ver nas tuas costas; aposto que atra·
salário, porque não sou sindicalizado GUIA - Será que ele aprendeu, de tarás quanto quiseres, MERCADOR - É preciso atravessá-
10. ~pressaria,s em chegar aOurga? Teu vessarás orio! (Empurra ocooUe à
como tu, Épreciso suportar tudo. fato? Aprendeu depressa demais. COOLIE - Sim, senhor, mteresse eprolongar aviagem omais sua frente. À parte). Não vejo mais
MERCADOR (ao hoteleiro) - Ose- MERCADOR (caminhando 110 fren- COOLIE. - Muitas vezes, épreciso P?ssível, porque és pago por dia. A os perigos da travessia. Trata-se
nhor entregue esta carta às pessoas 4, Conversa num lugar perigoso te) - Ese viessem roubar ocarre- esperar alto dias pra atravessar sem de proteger minha fortuna. (Cantil)
Viagem nao te interessa só pensas no
que passarem por aqui, amanhã, com gamento, será que ele pensaria so- perigo. ~gora, como está, a gente dinheiro. '
destino a Ourga. Prosseguirei avia- COOLIE (cantando) mente em se defender? Nem por um corre pengo de morte. É assim que ohomem
gem com omeu carregador, somen- COOLIE (hesitante, à margem do rconquista a vitória
Ourga, eu vou pra lá, momento consideraria meus bens co- .MERCADOR - É o que veremos, rio) - Que fazer? (Canta)
te. Andando, andando, eu vou pra mo seus? E esse é que seria o seu Nao se pode perder um dia inteko sobre odeserto esobre orio
dever. Raça maldita. Não fala. Esses esperando, Eis orio, [caudaloso;
HOTELEIRO (inclinando-se e pe- [Ourga.
Pra Ourga eobandido não me são os piores... Que se passa em orio das águas perigosas. que ohomem conquista a
gando acarta) - Mas ele não éum . COOLIE - Então, épreciso aran-
[pegará. sua cabeça? Impossível saber. Lá Jar uma passagem ou um barco. Dois homens no rio; [vitória sobre si mesmo
guia, um se joga na água, ooutro
MERCADOR - Demora muito, para obter opetr61eo necessário
[hesita [à humanidade,
Dê-se amão ao forte, dê-se o é fácil arrancar o capim com um MERCADOR - No entanto, obo- CoOLJE (gemendo) ;..... No braço bém. (Senta-se enquanto· o coolie
6. Acampamento teleiro te explicou, na estação de
não.
[pé ao fraco, braço s6. arma a baraca. Bebe, escondido, a
Han.
Ao cair da noite, o COOLJE, que avida émesmo assim. MERCADOR - É tolice não pensar MERCADOR - Onde está oleste? água do seu cantil, à parte). É pre-
quebrolj obraço atravessando orio, Deixar tombar quem tomba e CoaLIE - Explicou, sim, senhor. ciso esconder... Se me vir bebendo
em todas as preocupações. Aconfi- COOLlE - Lá em baixo. aágua, ele me trucida, por mais bur-
e~orça-se para armar abarraca. O linda ajudar na queda, ança éuma besteira. Talvez eu te- MERCADOR - Quando te pergun-
mercador está sentado, próximo). porque avida éassim. nha prejudicado este homem por to- MERCADOR - Eonde estão os po- ro que seja. Se ele se aproximar, eu
tei se tinhas aprendido, tu me disses-
Ovencedor do combate tem te que sim. ços? atiro. (Tira orevólver ecoloca-o so-
da a sua vida; seria justo, de sua
MERCADOR - Já que quebraste o [seu lugar à mesa; parte, que ele pretendesse fazer o COOLlE - Disse, sim, senhor. bre ojoelho). Se ao menos pudésse-
COOLlE - Lá em baixo. mos voltar ao último poço por que
braço atravessando orio, não preci- avida émesmo assim. mesmo comigo. Oforte, q1lando dor-
sas armar atenda hoje, como te dis- MERCADOR - Enão tinhas apren- MERCADOR (louco de raiva) - passamos. Estou com a garganta se-
Ocozinheiro não serve aos me não émais forte do que ofraco. dido?
se. (O coolie continua seu trabalho). [mortos e aos derrotadosj Lá em baixo... Então estavas indo ca. Por quanto tempo ohomem pode
É preciso não ser escravo do sono. CoaLlE - Não, senhor.
Se eu não tivesse te ajudado a sair avida émesmo assim. em outra direção? (Bate no coolie). suportar asede?
Sem dúvida, estaríamos melhor den-
da correnteza, terias morrido afoga- Deus, que fêz todas as coisas, tro da barraca; ao ar livre, ficamos MERCADOR - Então, por que dis- CooLlE - Estava, sim, senhor. CoaLIE ---, Preciso entregar ocan-
"
do. (O coolie continua seu traha- [fêz opatrão eo expostos atodas as doenç~s. Mas a seste que tinhas? til que oguia me deu na estação. Se
I MERCADOR - Onde estão os po- eles nos encontrarem, eu com ocano
lho). É claro que eu não posso ser [empregado; pior doença ainda é o próprio bo- COOLIE - Tive medo de ser des-
responsabilizado pelo teu acidente. fêz exatamente. ~ ços? (O cooUe se cala. Omercador til cheio eele quase morto de sede,
pedido. Só sei que devemos seguir os
mem. Em troca de uma quantia irri- permanece aparentemente calmo). na certa vão me processàr. .
Além de tudo, otronco bem poderia Tudo vai bem, és louvadoj tudo sória, este homem veio comigo, q~e poços.
[vai mal, és negado. Vejamos: há pouco disseste que sa-
ter me atin~do. Mas, enfim, épreci- tenho muito dinheiro. E, no entanto, MERCADOR - Então, segue os pe-
Avida émesmo assim. biasonde eles estavam. Sabes ou não?
50 reconhecer que essa desgraça pega oseu cantil e se
aconteceu numa viagem organizada
o caminho é igualmente árduo para
n6s dois. Ao menor sinal de cansaço;
ços! Wco~lie. s~ cala. Omercador bate). dirigeOCOOLIE
....... ... Cóbüif·::::MáS"iiãos6r"iiiide eiiãei' ao MERCADOR, que o vê, de
Sabes ou não?
por mim. Não tenho dinheiro, agora, ..(OCOOLIE se aproxima. OMER- ele éespancado; Se oguia se senta a eles. repente, de pé, à sua frente, e não
comigo; mas em Ourga, no meu ban- CADOR obsen1a-o com medo). seu lado, deSpede-se' oguia. Se quer COOLIE - Sei. . sabe se oCOOLlE oviu beber ou não.
MERCADOR - Vai em frente enão
co, te darei qualquer coisa. apagar os rastros na areia, allida que brinques comigo. Sei muito bem que MERCADOR (batendo) - Sabes? O COOLlE não viu,' estende-lhe o
seja realmente por causa' dos bandi- já fizeste este caminho. cantil em silêncio. Mas o MERCA-
CoaLIE - Sim, senhor. MERCADOR - Estava me ouvin- CooLIE - Não sei, não.
dos, desperta suspeita. E no rio, DOR, julgando que élima grande pe-
MERCADOR - É tudo que tem a do. .. Alto! Fica onde estás. Que C()OLIE - Seria melhor esperar
quando me confessou que estava cen MERCADOR - Me dá oteu cantil. dra com aqual oCOOLIE quer esma-
queres? os que vêm atrás de nós.
responder. .. Mas em cada olhar seu medo, teve que enfrentar meu rev61- Eu deveria ficar com toda aágua, já gá-lo, grita.
há uma reprovação. Não existe gente CooUE - Abarraca está pronta, ver. Como poderia eu dormir na mes- MERCADOR - Não. que me conduziste por um caminho
mais dissimulada erancorosa do quepatrão. ma barraca que ele? Jalllais me ccn- errado, Seria meu direito, mas não o MERCADOR - Larga esta pedra!
esses cooUes. Podes ir dormir. (O co-MERCADOR - Por que ficas no vencerei de que ele se conforme com (Continuam a caminhar). farei. Vou repartir esta água contigo. (O COOLIE não entende econtinua a
oUe se retira esenta-se afastado). É
escuro da noite a me espiar? Não todas essas afrontas. Que golpe não Bebe um gole e continua a andar. estender obraço com o.cantil; então,
verdade que sua desgraça toca maisgosto disso. Gosto de ouvir os passos estará preparando, lá dentro? Gosta- ~ (A parte). Esqueci que não devia oMERCADOR omata com um tiro de
lI' 8. A portilha da água
amim do que a ele.Un membro a de um homem que se aproxima, E ria bem de saber. Seria completamen- I
ter batido nele, na situação em que revólver,) Apesar da advertência, ele
. MERCADOR - Ei, onde vais? Vais estamos, veio. Toma, animal. Aí está o q~e
1
mais um membro amenos, que lhe quando falo aalguém, gosto de ver- te maluco se fosse lá para dentro.
importa isso? Essa canalha não vê lhe os olhos. Vai dormir. Não te para onorte? Oleste épara lá. (O mereceste.
preocupes tanto comigo. (O Coolie
senão seu prato de sopa. Por que se 7, No final da estrada cooliecontinua nessa direção). Alto!
inquietaria com suas próprias pes-se retira). Alto! Entra na barraca. Oque é que está· acontecendo? (O
Fico eu aqui, ao ar livre. Estou ha-
soas? São mesquinhos por natureza. MERCADOR - Por que estás para- coolie para, mas evita o olhar do MERCADOR - Já passamos por CANTO DO TRIBUNAL
bituado. (O Coolie entra na barra-
Oceramista joga fora seus vasos n- do aí? patrão). Não podes me olhar nos aqui. Olha os rastros.
ca). Que será que ele ouviu da mi-
chados; esses tipos, sentindo-se fra- COOLIE - Patrão, a estrada ter- olhos, não é?
nha canção? Não sei. .. Eque será COOUE - Quando passamos aqui (Os atores cantam, trml~orlllando
cassados, se rejeitam. Só os vitoriosos mina aqui, COOLIE - Pensei que fosse por lá. pela primeira vez, talvez não estivés- opalco para acena do tribunal,)
que está pensando agora? Ainda não
lutam (Canta): MERCADOR - Edaí? MERCADor - Espera um pouco) semos muito afastados do caminho Depois dos bandos de vilões
deitou ...
Para ofraco, amorte, o COOLIE (preparando cuidadosa- CooUE - Patrão, não sei mais o seu gaiato... Vou te ensiná! ame certo. cbega avez dos tribunais.'
[combate para oforte, mente sua cama) - Tomara que ele caminho, Pode me bater, mas não ~.
goiar. (Bate 110 cooUe). Sabes agora MERCADOR - Arma a barraca. Quando um inocente é
não repare no mato que ficou; não bata no braço machucado. lI; onde fica oleste? Teu cantil está vazio. Omeu tam- [assassinado;
avida émesmo assim. I
1
JUIZ - Porque osenhor foi de- costei·lhe um revólver nas costas. E JUIz - Não éna sua estação que
em tomo de seu corpo os ju~es conselho; deixa que ela continue no JUIZ (ao Mercador) - Osenhor ~. j.
pedido?
[se reunem teu bolso. atirou no carregador. além disso, durante a travessia) ele fica oúltimo posto policial do cami-
e ocondenam. GUIA - OMercador achou que quebrou o braço. Isso também foi nho?
GUIA - E a mulher do Coolie? MERCADOR - Atirei, Ele me ata- eu tratava muito bem ocooUe. culpa minha.
Sobre o túmulo do justo que Vai voltar de mãos vazias? cou de surpresa, ~I HOTELEIRO - É, Depois, éode-
[morreu I
I JUIZ - Eisso não era permitido? JUIZ (sorrindo) - No dizer do serto de Jahi, onde não vive nin- .
inda épreciso matar oseu HOTBlEIRO - Etu? Queres que JUIZ - De que forma ele atacou? i Eesse cooUe aquem osenhor estava cooUe? guém.
te ponham na lista negra? I
[direito. MERCADOR - Tentou me esma- proibido de dispensar um tratamento MERCADOR (sorrindo também) -
Overedito do tribunal JuIZ - Percebo. A amabilidade
GUIA - Obrigado pelos teus con- gar com uma pedra) pelas costas, .1 amável, lhe parecia uma pessoa insu- ... no dizer do cooUe, é claro. Na do Mercador na .estação de Han era
cai semelhante à sombra do selhos, Vou pensar nisso. bordinada por natureza? realidade, até fui eu quem o tirou mais uma amabilidade de circunstân-
JUIZ - Osenhor pode nos dar
[punhal que mata.
Ah, não bastava opunhal? uma explicação quanto aos motivos
OTribunal se instala. Oacusado, dessa agressão?
I·I GUIA - Ele? Ele suportava tudo. d'água, cia, uma amab11idade temporária,
Tinha medo de perder o emprego, JUIZ - Quer dizer, portanto, que, quase que se pode dizer, tática, Em
Era preciso mais: ogolpe de o chefe da segunda expedição eoho- I
[misericórdia? O segundo me disse. Nem era membro depois de despedir oguia, você deu tempo de guerra, por exemplo, quan-
teleiro tomam seus lugares, MERCADOR - Não. de sindicato algum.
Dulgamento? J ao cooUe todas as razões para odiá- to mais perto do fronl mais os ofi·
JUIZ - Osenhor exigia do seu -10. E antes? (Ao Guia, Com insis- ciais se mostram amáveis. Tais ama-
Vejam esses abutres famosos;
JUIZ - Estão abertos os debates. pessoal mais do que onormal? i JUIZ - Então havia oque supor·
tência) Reconheça logo que ocooUe bilidades, é claro; não tem absoluta-
[aondeirão?
Com apalavra amulher da vítima. ! tar! Responda logo; é inútil pensar
Nada encontraram para devorar MERCADOR - Não. muito antes de falar. Averdade ap.a- odiava o Mercador. Oque aliás, é mente significação alguma.
[no deserto, MULHER - Meu marido carregou JUIZ - Onde está oguia despedi- recerá de qualquer maneira. compreensível: um homem exposto a MERCADOR - Durante todo oca-
mas os tribuna~ os a bagagem desse senhor no deserto do? Ele fêz aprimeira parte da via- toda espécie de perigos, recebendo minha, ele cantou, enquanto andava.
GUIA - Eu só acompanhei a ex-
[alimentarão. de Jabi. Alguns dias antes da viagem gem com osenhor. pedição até a estação de Han. um salário ridículo, um homem feri- Depois que oameacei com orevól-
É nos tribunais que se terminar, esse senhor o matou com do, arriscando sua vida a todo mo- ver, parou de cantar.
1't:.
·······[refu~am··os·assasslnos;· ·umtiroderevólver;-Peço·punição do GUIA - Sou eu, HOTELEIRO (para si mesmo) - menta. .. e por quem? Para quê?
~
".,:."

assassino, embora ela não devolva a JUIZ - Que diz osenhor? Boa resposta. Por alguém que, abem dizer, não lhe JUIZ - Mestá... ficou aborre- ..
..... lá, os perseguidores estão em
-,. ...
[segurança; vida ao meu marido. JUIZ (ao mercador) - Edepois, paga. Como não oodiaria? cido. Oque é compreensível, sem
~~~-

*OL
lá, os ladrões recebem seu GUIA - Pelo que sei, oMerca- houve algum acontecimento que poso GUIA - Ele não tinha ódio. dúvida. Na guerra - insisto no meu
JUIZ (à mulher) - Asenhora pe: dor queria chegar aOurga omais rá- sa explicar aagressão do cooUe? exemplo - também éperfeitamente
.,':~ [prêmio embrulhado de também uma indenização?
num papel que traz escrito pido possível para comprar uma con- MERCADOR - Não. Não que eu JUIZ - Escutemos agora odepoi- compreensível que a gente humilde
~.
[o texto de uma lei. MULHER - Peço. Meu filhinho e cessão, saiba. menta do hoteleiro da estação de diga aos oficiais: "Os senhores fa-
eu perdemos aquele que nos alimen- JUIZ (ao chefe da segunda expe- Ilan, Pode ser que ele nos esclareça zem a guerra em proveito próprio,
tava. JUIZ - Olhe, não se faça melhor arespeito das relações entre oMer-
9. OTribunal dição) - Aexpedição que caminha- do que é, Não éassim que você pc- cador e seus empregados. Como é mas nós, nós fazemos a guerra em
OGUIA eamulher da vitima já se
JUIZ (à mulher) - Não arepro- va àfrente da sua ia em marcha mui- de sair dessa, meu filho. Se você íra- que oMercador tratava os seus su- proveito dos senhores, São esses, pre-
vo; estas considerações msíeriais na- to acelerada? tau realmente o cooUe com tanta bordinados? cisamenteJ os pensamentos que o
encontram sentados na sala do Iribll- da têm de infamante para asenhora.
~
cooUe poderia ter tido em relação ao
t gentileza, como explicar araiva de-
nal. (Ao chefe da segunda caravana). A CHEFE da segunda expedição - le1 É melhor procurar tomar esse HOTELEIRO - Bem. Mercador: "O snhor faz oseu negó·
GUIA (à mulher do falecido Coó- pouca distância da expedição Lang- Não, não muito, Ele tinha sobre nós ódio explicável; assim, parecerá ve- JUIZ - Será que é necessário cio para si mesmo, mas eu faço éo
LIE) - Asenhora é a mulher do man, vinha uma segunda caravana; um dia de vantagem eoconservava. rossímil que você tenha agido em mandar afastar essa gente? Osenhor seu negócio - epara osenhor."·
coolie assassinado, não é? Eu sou o nela se encontrava oguia despedido. JUIZ (ao mercador) - Para isso, le~tima defe~a. É necessário pensar tem receio de dizer averdade? MERCADOR - Tenho uma decla·
guia que tinha contratado oseu na- Foram essas as pessoas que localiza- osenhor deve ter forçado amarcha? sempre naquilo que se diz. ração afazer: quando anossa expe-
ram acaravana desgarrada) amenos HOtELEIRO - Não, não, É dis·
rido. Me disseram que asenhora re- MERCADOR - Não forcei nada. MERCADOR - Tenho uma confis· pensável. dição se perdeu, reparti com ele o
clama, no processo, uma punição pa- de uma milha do caminho, Que vi· são afazer: uma vez, bati nele.
Isso era função do guia. JUIZ - Como osenhor quiser. cantil d'água, mas queria beber ose-
ra o mercador e uma indenização. ram os senhores, quando se aproxi-
Fiz questão de vir logo, porque sei maram? JuIZ (ao Guia) - Oacusado não JUIZ - Ah, .. Evocê acha que HOTELEIRO - Ele até deu um gundo cantil sorinho,
ordenou expressamente ao senhor que uma surra só bastava para despertar pouco de fumo ao guia. Epagou-lhe JUIZ - Eele oviu bebendo?
que seu marido morreu inocente, A CHEFE da segunda expedição - tamanho ódio na alma do cooUe?
prova disso está no meu bolso. OMercador tinha só um pouquinho acelerasse a marcha do carregador? integralmente o seu salário; o que MERCADOR - Foi o que pensei)
MERCADOR - Não. Mas quando não é usual. OcooUe também era quando vi que ele vinha na minha
HOTELEIRO (ao Guia) - Hem? d'água em seu canlJ1 eocarregador GUIA - Não acelerei mais do que
Aprova está contigo? Te dou um estava caído, morto, na areia. onormal. Até menos. ~ ele se recusou aatravessar orio, en- bem tratado. direção, com uma pedra na mão. Sa-

" A
bl~ que ele me odiava. Desde que MERCADOR - Devia ser uma pe· JUIZ - Portanto) o-réu reconhe- se alguém geme perto de ti, rém, oque pretenderia ele fazer com . um acontecimento como os de
ce, com razão, que o coofie devia [tapa os ouvidos; esse cantil? Dar de beber ao Merca-
entramos no deserto) não descuidei dra.
odiá-lo. É isso, não é? Não há dúvi·
t se alguém te pede socorro) dor? Não é verossímil. Somos leva-
[todos os dias.
um momento sequer da minha segu· JUIZ - Não, não era uma pedra) Entretanto) nós vos rogamos:
rança. Tinha todas as razões para da' que, matando-o, osenhor matou [retém teus passos. dos aacreditar que ele pretendia es- sob ofamiliar, desvendai o
era um cantil. Veja. um inocente; mas unicamente porque Desgraçado do que se deixa
acreditar que ele me atacaria na pri- magá-lo com ocantil. Ocarregador [insólito)
meira oportunidade. Se eu não oti· MERCADOR --: Como éque podia não podia adivinhar que ele era ino- rarra§Jar: pertencia, com efeito) a uma classe sob oquotidiano) atentai no
vesse matado, ele me mataria. prever que fosse um cantil? Isse ho· fensivo. Sim) sim, é uma coisa que oferece água aum homem que tem razões para se sentir rouba- [injustificável..
memnão tinha nenhum motivo para acontece de vez em quando na polí- e éum lobo que bebe. da. Ele não ignorava que não teria a Possam todas as coisas ditas
MULHER DO CooLIE - Tenho me dar de beber. Eu não era seu cia. Às vezes, os policiais atiram con- sua parte da água se não a tomasse ~abituais vos inquietar.
uma coisa adizer, É impossível que amigo, tra uma multidão de manifestantes JUIZ - OTribunal vai deliberar. pela força. Digo mais: gente dessa
omeu marido tenha atacado esse se- Na regra) localizai oerro;
que são pessoas absolutamente pací- (Os Juízes saem). espécie tem Ulll ponto de vista limita- eonde quer que esse erro se
nhor; ele nunca atacou ninguém. OGUIA - Mas quís de fato oíe-
recer-Ihe água. ficas... Por que atiram? Simples- CHEFE da segunda expedição (ao do euniversal; muito estupidamente, [mostre,
GU1I. - Fique tranqüila, Estou mente porque não podem compreen- guia) - Você não tem medo de não eles só vêem o que têm diante do encontrai oremédio.
com a prova da inocência dele no JUIZ - Epor que éque ele havia der por que essas pessoas ainda não encontrar mais trabalho? nariz. ,. O coolie devia considerar
bolso. de lhe oferecer água? Porque? os tiraram dos seus cavalos e ainda justo se vingar de seu carrasco. Que
não os lincharam, Atiram porque GUIA - Era preciso dizer averda- tinha ele a perder, num acerto de
JUIO - Encontrou-se apedra com GU1I. - Provavelmente por haver de,
aqual o coofie oaameaçou? pensado que omercador tinha sede. têm medo, esta éaverdade. Eofato contas? OMercador não pertence à
(Os juízes entreolham-se sorrindo) de terem medo éaprova do seu bom 'CHEFE (sorrindo) - Ê claro que classe do coofie. Lo~camente, não
CHEFE da segunda expedição Sem dúvida por bondade. (Novos senso. O senhor não poderia saber, era preciso... podia esperar um gesto de camara-
(mostrando oguia) - Este homem portanto, que ocoo1ie era uma exce- dagem da parte do coofie, ao qual-
. . .tirou.damão.do..morto. sorrisos) Talvez por estupidez, por-
. qüde uma coisa estou certo: ele ção. Os Juízes reaparecem. conforme confessou - dispensara
maus tratos. Seu raciocínio lhe dizia
não tinha nada contra oMercador. MERCADOR - Exato, isto mesmo.
(O Guia exibe ocantil) JUIZ (ao Mercador) - OTribu- que estava em grave perigo; aausên-
MERCADOR - Então éporque ele Que motivo poderia ter esse coofie cia total de seres humanos na re~ão
para dar de beber ao seu carrasco? nal ainda tem uma pergunta a lhe
JUIZ -É esta apedra? Osenhor era extraordinariamente estúpido. fazer: o senhor teve alguma vanta- enchia-o, com razão, de intranqüili·
areconhece? Pois se quebrou um braço por minha GU1I. - Nenhum motivo razoá· gem com amorte do coolfe? dade. Não havendo polícia, não ha-
causa, se ficou inutilizado para toda vel. vendo tribunal) seu empregado tinha
MERCADOR - Sim) foi essa pedra MERCADOR - Eu? Ao contrário.
avida... Claro que se ele me fizes- JUIZ (cantando) - possibilidade de tomar pela força a
mesmo. O coofie me era indispensável para
se a mesma coisa seria inteiramente água a que tinha direito; as circuns-
PRIMEIRO JUIZ ADJUNTO - É um justo. Aregra éolho por olho. realizar onegócio em Ourga. Todas tâncias até oencorajavam. Oacusa-
cantil) não éuma pedra. Louco éoque espera a as cartas, todos os registras de que
do agiu, pois, em estado de le~tima
GUIA - Inteiramente justo. [exceção. eu precisava) era ele que carregava.
SUGUNDO JUIZ ADJUNTO - É evi- defesa; pOUCO importa que ele tenha
Um inimigo te dar de beber?! Jamais poderia transportar minha
dente que ele não tinha nenhuma in- MERCADOR - Em troca de um sa- Não entra em cogitação. bagagem ~ozinho.
sido realmente ameaçado ou que te-
tenção de oagredir, lário miserável, ele marchava ao nha pensado que o ameaçavam,
GUIA (cantando) - JUIZ - Quer dizer que o senhor
OGUIA (abraçando a mulher do meu lado, eu que tenho muito dinhei· Dest'arte, declaro livre o acusado e
m E) no entanto, aviagem era igual- No ~stema que vós nos destes não concluiu esse negócio em Ouro rejeito aqueixa apresentada pela mu-
coofie) - Vê. Não disse que podia
mente dura para nós dois. Quando abondade éuma exceção. ga? lher da vítima,
provar asua inocência? Fui eu que
lhe dei este cantil na estação de Han. estava cansado, levava pancada... Quem se mostra demasiado MERCADOR - É claro que não.
Ohospedeiro é testemunha. E aqui GU1I. - Eisso osenhor também [humano Cheguei muito tarde, Estou arruina- Os ATaREs (calltando) -
está ele, omeu cantil. ,, sabe que éinjusto. paga caro essa virtude; do.
infeliz de quem tem orosto
OHOSPEDEIRO - Imbecil! Agora MERCADOR - Admitir que o coo- [amável! JUIZ - Já que éassim, vou ler a Assim termina
também ele está perdido. fie não estava à espera da primeira Prendam-no: ele quer auxiliar sentença. OTribunal considera como ahistória de uma viagem,
OJUIZ - Isso não pode ser ver- oportunidade para me atacar,. é o [o próximo. provado ofato de que o coofie não Vós ahaveis presenciado.
dade. (Ao mercador) Então ele oíe- mesmo que admitir que ele tinha per- Se alguém morre de sede ateus se aproximou de· seu patrão com Vistes um acontecimento
receu-Ihe de beber? dido ojuizo, [pés, fecha os olhos; uma pedra esim com um cantil. Po- [comum

b
o EFEITO DE DISTANCIAMENTO éválido, no caso presente? Se as crianças se tornam inde.
'ri pendentes em .todas as épocas, se isso é algo bíolo~ca­
mente certo, ISto acontece sempre da mesma maneira
pelas mesmas razões, com as mesmas conseqüências?
oefeito VéoVerfremdungseffekt - efeito de "dis- Estas são, em parte, as questões que os atores devem
tanciação", conforme a tradução geralmente aceita, ou responder, se querem apresentar o fato como histórico
ainda, "efeito de estranheza", Trata-se de tomar insólito, singular, se neste caso querem colocar em relevo'no:
estranho, problemático, aos olhos do espectador atitrides costume que abre horizontes a todo oedifício da socie-
esituaçõe$ que lhe pareceriam, até então, naturaisp"org~l dade de determinada época (transitória), Mas como
ohábito éomaior auxiliar da escravidão. Será necessá- representar o acontecimento de maneira que sobressaia
rio~ que oespectador reflita sobre os comportamentos que seu caráter histórico? Como adesordem de nossa infeliz
até então não lhe pareciam merecer reflexão, levá-lo a época, pode
. ser apresentada, se amãe faz amala da filha,
achá-los anormais bem como anormal a sociedade que que e cnança. Se a acompanha exortando-a e aconse-
os torna possíveis enecessários. (A. Ghisselbrecht) lhando-a moralmente? Como evidenciar essa anomalia'
~ita moral e pouca roupa, conselhos para a vida ~
pao para algumas horas? Como a atriz deve dizer a
Exemplo de Distanciamento, dado por Brecht frase pronunciada pela mãe quando entrega à filha a
Suponhamos que se tenha de representar oseguinte: malinha: "Toma, acho que isto chega", de modo aser
uma jovem abandona a família para um emprego na compreendida como uma palavra de uma época histó-
cidade (Tragédia Americana, de Dreiser, em mise-ensce- rica? Isto só pode ser obtido pelo efeito V. Isto é, que
ne de Piscator). Para oteatro burguês, isto éum porme- a atriz não deve tomar por sua conta essa frase, mas
nor sem grande importância; vê-se nisso apenas ocomeço dá-la à crítica, permitindo acompreensão 'deSéllçjjjõl~
de uma história - oque énecessário saber para com- .vos afim de despertar protesto.
preender acontinuação, para ser mergulhado na ansiosa Assim, o efeito V. consiste em que a coisa que se
espectativa da continuação. Aima~nação dos atores não quer fazer compreender, sobre a qual se quer chamar
seria abalada por esse "pormenor". Em certo sentido, a~enção, étransformada de coisa habitual, familiar, ime-
isso é moeda corrente; jovens procurando emprego; no dIata que era em uma coisa singular, estranha (até cho-
nosso caso, espera-se somente o que lhe vai acontecer cante), inesperada,
cm particular. Num outro sentido, ofato ésingular: essa
jovem vai embora (se ficasse, a continuação não se (Da Nova Técuica da Arte do Comediaule, de Brecht)
daria). Oimportante, para uma jovem é oseu caráter.
Que afamília adeixe partir, não se trata aqui de .objeto
de exame edesenvolvimento; acoisa é plausível porque
os motivos o são.
Para oteatro histórico (épico), édiferente. Trata-se
de saber oque éestranho eque, conforme nosso ponto-
-de-vista, esse acontecimento da vida quotidiana exige
um exame, Como essa família deixa partir, privando de
sua proteção, um de seus membros, afim de que se tome
independente eganhe sua subsistência sem qualquer aju-
da? As famílias não poderão mais ter por mais tempo Puhlicações cousu{ladllS:
seus filhos com elas? Eles se tomaram uma carga? Isto Estritos sobre Teatro - I e 2- Edlcioues Nuet'a Visic1n
acontece em todas as famílias? Sempre foi assim? O Buenos Aires
mundo éassim? Não se pode nada contra isso? "Quando Europe - jan./fev./J957
ofruto está maduro, ele cai da árvore" - é tudo. Isto' PartisaJls n, 36 - Fev./1967

.::.=::..::== iii.- + Tealro Modemo L. Francisco Rebelo - 2.a ed. 1964 - Usboa
~
r o QUE VAMOS REPRESENTAR

LIÇÃO DE BOTÂNICA

ATO ÚNICO
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS (1839-
1908) estreou no teatro coma trad~ção de umaopereta .f:!

francesa: Pipelet, com música do maestro Ferrari, a12 de MACHADO DE AssIS


de outubro de 1860, numa época de inflação de peças e
de autores teatrais. Ele compôs as seguintes comédias:
OCaminho da Porta, OProtocolo, Quase Ministro, Os
Deuses de CaSaca, Tu, só Tu, Puro Ailwr, Não consultes PERSONAGENS D. LEONOR - Não me explicarão p. LEONOR - Seja Oque for, não
Médico, Antes da Missa e Lição de Botânica. isto? . sel se deva receber um senhor a
D HE~ENA . . . ..._., D~'HllLllN;r=Qüeé? .quem· nunca vimos.. Já'oviram algu-
Machado de Assis fazia o teatro que se procur~va
fazer na época, porém, sem osucesso de Joaquim Manuel D. LEONOR ma vez?
D. LEONOR - Recebi ao descer D. CECÍLIA - Eu nunca.
de Macedo ede José de Alencar. Suas poucas peças tra- D. CECÍLIA do carro este bilhete: "Minha se-
tam de amor, geralmente, conforme pedia amentalidade BARÃO SEGISMUNDO DE KER- n~~ra. Permita que omais respeitoso D. HELENA - Nem eu.
romântica da burguesia dessa época. NOBERG vlzmho lhe peça dez minutos de aten- D. LEONOR - Botânico e sueco'
''Da mesma forma que apoesia, oteatro machadiano ção. Vai nisto um grande interesse duas razões para ser gravement~
corresponde àpaixão da mocidade e, portapto, ao influxo da Ciência." Que tenho eu com a aborrecido. Nada, não estou em ca-
dum ambiente literário em que as duas formas de ezprrs- Lugar da cena: Andaraí ciência? sa.
são estética gozavam do largo favor do público. Oteatro Sala em casa de D. Leonor. Por- D. HELENA - Mas de quem é a . D. CECÍLIA - Mas quem sabe, ti-
dava aglória efêmera, oruído das opiniões, omovimen- tas ao /undo, lima àdireita do espec- carta? tia, se ele quer pedir-lhe... sim...
to dos jornais, ochoque das tendências inilividuais: Ofe- tador. um exame em nosso jardim?
recia, de pronto, perante um 'grande público, uma aura D. LEONOR - Do Barão Segis-
mundo de Kernoberg. D. LEONOR - Há por todo esse
de falsa ~ória que apoesia só podia trazer com muito r
i':! Andaraí muito jardim para exami-
esforço e pertinácia. Mais ainda: a atração romântica D. CEcíLIA - Ah! Otio de Hen- nar.
para uma literatura de costumes, aserviço da burguesia, Cena 1 rique!
que pagava oproduto literário como pagava tudo, inclu- D. HELENA - Não, senhora, há
D. LeONOR - De Henrique! Que de recebê-lo.
sive ahonra e as consciências, explicavam também que D. LEONOR, D. HELENA
familiaridade é essa?
ao teatro muitos rendessem seu tributo, ávidos do êxito e D. CECILIA D. LEONOR - Por que?
rápido ede alcançar os favores da burguesia endinheira- D. CECÍLIA - Titia, eu ...
D. LEONOR entra lendo lima carta, D. LEONOR - Eu quê? Henrique! . D. HELENA - Porque énosso vi-
da. Machado de Assis não fu~u a essa conjuntura e D. HELENA e D. CECÍLIA elltram do zmho, porque tem necessidade de fa-
pagou seu tributo. Correspondia, porém, àquela fase de fundo. D. HELENA - Foi uma maneira lar-lhe .e, enfim, porque, ajulgar pe-
transição para a obra maior. Tanto é assim que, entre de falar na ausência. Com que então lo sobnnho, deve ser um homem dis-
1861 e 1866, vem o principal de suas peças teatrais. D. HELENA - Já de volta!
oSr. Barão Se~smundo de Kerno- tinto.
Depois daquela data, só volta a aparecer seu nome D. CECÍLIA (a D. Helena, depois berg pede-lhe dez minutos de aten- D. LEONOR - Não me lembrava
ligado ao teatro, como autor, em 1881, com a comédia de lUn silêncio) - Será alguma car- ção, em nome epor anlor da Ciên- do sobrinho. Vá lá; aturemos o bo-
Til, só Til, Puro Amor, e assim mesmo porque a enco- la de namoro? cia. Da parte de um botânico é por tânico. (Sai pela porta do fundo, à
mendaram." (Massaud Moisés). D. HELENA (baixo) - Criança! força alguma égloga. l
-===;;;;;;;;õiiiiii_ _ A esquerda).
~I
..
Cena 2 D. CECÍLIA - Como océu. BARÃo (à porta, depois de profun. .,
*'~
Cena 4 D. LEONOR - Ah! IBARÃo - Deve sorrir, sorrir efe-
da cortesia) - Creio que aExcelen. BARÃo - Venho pedir-lhe uma ch~-nos aporta, ~erá. os meus agr~•
D. HELENA - Louro ... Os mesmos, D. LEONOR cousa que lhe há de parecer singu- decl1llentos e as bençaos da posten-
D, HELENA eD. CECíLIA tíssima Senhora D. Leonor Gouveia lar. dade,
D, CECÍLIA - Elegante... recebeu uma carta, ,. Vim sem es- . D, LEONOR - Desejava falar-me?
D, HELENA - Não me agradeces? D. HELENA - Espirituoso.,. perar resposta, D, LEONOR - Fale. D. LEONOR (sorrindo) - Não é
BARÃO - Se me dá essa honra. preciso tanto; posso fechá-la de gra-
D. CECÍLIA - Oquê? D. CECÍLIA - Ebom.,. D. CECÍLIA - É Osr. Barão Se- Vim sem esperar resposta à minha BARÃo - Opadre desposa aigre- ça.
~smnndo de Kernoberg? (O Barão carta, Dez minutos apenas. ja; eu desposei aCiência. Saber éo
D, HELENA - Sonsa! Pois não D. HELENA - Uma pérola... faz 11m gesto afinuativo.) Recebeu, meu estado conjugal; os livros são a BARÃo - Justo, Overdadeiro be-
adivinhas oque vem cá fazer oBa- (Suspira) Ah! Queira entrar esentar-se. (1 parte) Do' LEONOR - Estou às suas or- minha família, Numa palavra, fiz vo- nefício égratuíto.
rão? denso
D. CECÍLIA - Suspiras? Devo estar vermelha... to de celibato. D. LEONOR - Antes, porém, de
D. CEcÍLIA - Não. D. HELENA - Que há de fazer BARÃo (à parte, olhando para Ce~ D. CECÍLIA - Com licença. (1 D. LEONOR - Não se case, nos despedirmos, desejava dizer uma
cília) Há de ser esia. parte, olhando para océu) Ahl mi- cousa eperguntar outra, (O Barão
D. HELENA - Vem pe'dir a tua uma viúva falando... de uma péro- 1:: nha Nossa Senhora! (Retirando-se BARÃO - Justamente. Mas, V. curva-se). Direi primeiramente que
mão para osobrinho. la? D. CEcÍL~ (à parte)- E titia pelo fundo) Excia. compreende que, sendo para iguoro se há tal paixão da parte de
D, CECÍLIA - Helena! D, CECÍLIA - Oh! Tens natural- não vem,.. Que demora! Não sei mim ponto de fé que aCiência não seu sobrinho; em segundo lugar, per-
mente em vista algum diamante de que lhe diga,.. Estou tão vexa- ~" se dá bem com omatrimônio, nem guntarei se na Suécia estes pedidos
D. HELENA (imitando-a) - He- primeira grandeza. da... (O Barão tira um livro da alo eu devo casar, nem... V. Excia, já são usuais.
lena! gibeira e folheia-o,) Se eu pudesse Cena 5 percebeu.
D. HELENA - Não tenho, não; BARÃo - Na geografia intelectual
D. CECÍLIA - Juro, •. meu coração já não quer jóias. deixá-lo .., É oque vou fazer. (So- D. LEONOR - Cousa nenhuma.
be). D, LEONOR, BARÃO não há Suécia nem Brasil; os países
D. HELENA - Que onão·amas.: .......0.:CEcÍLIA.".Masas.. jóias. que:.. BARÃo - Meu sobrinho Henrique são outros: Astronomia, Geolo~a,
BARÃo' (fechando olivro eerguen" .. ..
anda estudando comigo os elementos Matemáticas; na Botânica são abri-
H'

D. CECÍLIA - Não éisso, rem oteu coração. do-se) - V. Excia. há de desculpar- (D. LEONOR senta-se, fazendo um
gesto ao BARÃO, que aimita.) da Botânica. Tem talento, há de vir gatórios.
D. HELENA - Que oamas? D. HELENA - Tanto pior para me. Recebi hoje mesmo este livro da a ser um luminar na Ciência, Se o
elas: hão de ficar em casa do joa- Europa; é obra que vai fazer revo- BARÃo - Sou oBarão Se~smundo D. LEONOR - Todavia, à força
D, CECÍLIA~ Também não. casamos, está perdido.
lheiro. lução na Ciência; nada menos que de Kernoberg, seu vizinho, botânico de andar com flores... deviam os
'D, HELENA - Mau! Alguma Côri- D, CECÍLIA - Veremos isso. (SOo uma monografia das grarníneas, prs- de vocação, profissão e tradição, D. LEONOR - Mas.. , botânicos trazê-las consigo,
sa há de ser. Il faut qu'une porte sai! be) Ah! miada pela Academia de Estocolmo, membro da Academia de Estocolmo BARÃo (à parte) - Não enten-
ollverte ou fermée. (*)Porta neste BARÃo - Ficam no gabinete.
D. CECÍLIA - Sim? (1 parte) e comissionado pelo Governo da deu. (Alto). Sou obrigado a ser
caso écoração. Oteu coração há de D. HELENA - Que é? Aturemo-lo, pode vir aser meu tio. Suécia para estudar aflora da Amé- mais franco, Henrique anda apaixo- D. LEONOR - Trazem os espinhos
estar fechado ou aberto.. , D. CECÍLIA (olhando para adirei- rica do SuL V. Excia. dispensa ami- nado por uma de suas sobrinhas, somente.
BARÃo - As grarníneas têm ou nha biografia? (D. LEONOR faz lnU
D. CECÍLIA - Perdi achave, ta) - Um homem desconhecido que creio que esta que saiu daqui, há BARÃo - V. Excia. tem espírito.
não têm perianto? Aprincípio ado- r-; ges~o afirmativo). Direi somente que
lá vem; há de ser oBarão, tou-se anegativa, posteriormente.. , pouco. Impus-lhe que não voltasse a Compreendo a afeição de Henrique
D, HELENA (rindo) - Enão o otIO de meu tio foi botânico meu esta casa; ele resistiu-me. Só me res- a esta casa. (Levanta-se). Promete-
podes fechar outra vez, São assim to- D. HELENA - Vou avisar titia. V. Excia, talvez não conheça oque tio botânico, eu botânico, e m~u se- ta um meio: éque V. Excia. lhe le- me então. ,.
dos os corações ao pé de todos os (Sai pelo fuudo, àesquerda).
'.1.
é operianto, .. brinhilJ há de ser botânico. Todos che aporta.
Henriques..O teu Henrique viu a D. CEcÍLIA - Não,senhor. . somos botânicos de tios asobrinhos. D. LEONOR (levantando-se) :-
porta aberta, e tomou posse'do lu- D. LEONOR - Senhor Barão! Que faria no meu caso?
BARÃo - Perianto compõe-se de Isso de algum modo explica minha
gar.Não escolheste mal, não; é um Cena 3 duas palavras gregas: peri, em volta, vinda aesta casa. BARÃO - Admira-se do pedido? BARÃo - Recusava.
bonito rapaz. Creio que não épolido nem conve-
eantllas, flor. , D. LEONOR - Oh! omeu jardim D. LEONOR - Com preju~o da
D. CECÍLIA - Oh! Uns olhos! D, CECíLIA, oBARÃO niente. Mas é necessário, minha se-
D. CECÍLIA - Oenv61ucro da ecomposto de plantas vulgares, nhora, é indispensável. A Ciência Ciência?
D, HELENA - Azuis. D, CECÍLIA - Será deverás ele? flor. BARÃo (gracioso) - É porque as precisa de mais um obreiro: não o BARÃO - Não, porque nesse caso
Estou trêmula.,. Henrique não' me BARÃo - Acertou. É oque vulgar- melhores flores da casa estão dentro encadeemos no' matrimônio. aCiência mudaria de acampamento,
(*) É preciso que lima porta esteja avisou nada... Virá pedir-me? Mas mente se chama cálix. Pois as gra- de casa. Mas V. Excia. engana-se; D. LEONOR - Não sei se devo isto é, o vizinho prejudicado eso-
aberta 011 jeclrada - título de uma comê- não, não, não pode ser ele, .. Tão míneas eram tidas ... (Aparece D.
,1
não venho pedir nada do seu jardim, sorrir do pedido, .. Iheria outro bairro para seus estudos.
dia de Alfred de Musset moço... (O Barão aparece), Leonor ao fuudo) Ah!

_._.-_._---~----
D. LEONOR - Não lhe parece que ervas, enão nos aborreça mais, nem Cena 8
D. CECÍLIA - Ah! conspiram to- um instante de reflexão) Sim, épos- D. HELENA (com olivro na mão)
era melhor ter feito isso mesmo, an- ele nem osobrinho. dos contra mim. (Põe as miíos na sível. Tratará de Botânica? Será este?
tes de arriscar um pedido ineficaz? D. HELENA - Nem osobrinho? D. HELENA, D. CECILIA cabeça) Sou muito infelizl Que mal D. CECÍLIA - Trata. BARÃo (caminhando para ela) -
BARÃo - Quis primeiro tentar D. LEONOR - Nem o sobrinho, D. CEcíLIA - Que aconteceu? fiz eu a essa gente? Helena, salva- Justamente.
fortuna. melOu eu mato-me! Anda, vê se D. HELENA - Quem te disse?
nem ocriado, nem ocão, se ohou- D. HBLENA _ Aconteceu..•
ver, nem cousa nenhuma que tenha (Olha coni tristeza para ela).
descobres um meio ... D. CEcíLIA - Ouvi dizer ao Ba- D. HELENA - Escrito em sueco,
D. HELENA (indo sentar-se) Que rão, trata das ... penso eu ...
Cena 6 relação com a Ciência. Enfada-te? D. CEcíLIA _ Acaba. BARÃo - Em sueco.
Pelo que vejo, entre oHenrique ea meio? D. HELENA - Das.•.
Cecilia há talou qual namoro? D. HELENA - Pobre Cecília! D. CECÍLIA (acompanhando-a) D. CEcíLIA - Das gramíneas. D. HELENA - Trata naturalmen-
D. LEONOR, BARÃO e Um meio qualquer que não nos te de Botânica.
D. HELENA D. HELENA - Se promete segre- D. CEcíLIA - Titia recusou a D. HELENA - Só das gramíneas?
separe!
do ... há. minha mão? D. CEcíLIA - Não sei; foi pre- BARÃO - Das gramíneas.
D. HELENA (entra epara) -Ah! D. HELENA _ Qual! OBarão é D. HELENA - Há um. miado pela Academia de Estocolmo.
D. LEONOR - Pois acabe-se ona- D. HELENA (com interesse) -
D. LEONOR - Entra, não é as- moro. que se opõe ao casamento. D. CEcíLIA - Qual? Dize. D. HELENA - De Estocolmo. Das gramíneas!
sunto reservado. OSr. Barão de Ker- D. CEcíLIA - Opõe-se? D. HELENA - Casar. Bem. (Levanta-se).
") E- mm. haso- D. HELENA - Não é fácil. O D. HELENA _ Diz que aCiência BARÃO - De que se espanta?
noberg... (A oBarao D. CECÍLIA - Oh! não zombes CECÍLIA (levantando-se) - Mas
bnn. ha HIeena. (A HIeena ) AquI' o Henrique é um perfeito cavalheiro; exige o celibato do sobn'nho. (D . de mim! Tu também amaste, Hele- que é? D. HELENA - Um livro publi-
Sr. Barão vem pedir que onão per- ambos ~ão. digno.s um do outro. Por Cecília encosta-se a lima cadeira). na; deves respeitar estas angústias. D. HELENA - Vou mandar-lhe o
cado...
turbemos no estudo da Botânica. Diz que razao lmpedlremos que dous eo- Mas sossega' nem tudo está perdi- Não tornar aver omeu Henrique é
livro ... BARÃo - Há quatro meses.
que seu sobri~.o.~~.n.~q~~.e.sm.?:s~ .. raçõ~s.~~~..._.. ... do;·podeser'que. o tempo ... uma idéia intolerável. Anda, minha
D. CEcíLIA - Que mais?
u •••

tmado aum lugar honroso na Cien- D. LEONOR - Não sei de cora- D. CEcíLIA _ Mas quem impede irmãzinha. (Ajoelha-se inclinando o D. HELENA - Premiado pela
cia e... conclua, sr. Barão. - nao - h"ao de faIt ar casamentos a' que eeI es tude.? corpo sobre oregaço de D. HELE- D. HELENA - Com um bilhete. Academia de Estocolmo?
çoes,
NA) Salva-me! És tão inteligente, D. CEcíLIA (olhando para a di- BARÃO (admirado) - É verdade.
BARÃO - Não convém que se ca- Cecília. D. HELENA _ Mania de sábio.
que hás de achar por força alguma reita) Não é preciso; lá vem ele. Mas...
se, aCiência exige ocelibato. D. HELENA _ Certamente que Ou então, evasiva do sobrinho. idéia; anda, pensai D. HELENA - Ah! D. HELENA - Que pena que eu
D. LEONOR - Ouviste? não, mas os casamentos não se im- D. CEcíLIA - Oh! não! éimpos- D. HELENA (beijando-lhe atesta) D. CECÍLIA - Que vais fazer? não saiba sueco!
D. HELENA - Não compreen- provisam nem se projetam na cabe- sível! Henrique é uma alma a~géli- - Criança! Supões que seja cousa
do. .. ça; são atos do coração, que aigreja cal Respondo por ele. H]a dte D. HELENA - Dar-lhe o livro. BARÃo - Tinha notícia do livro?
tão fácil assim?
santifica. Tentemos uma cousa. certamente opor-se a seme han e D. CECÍLIA - Olivro e..
BARÃo - Uma paixão louca de .A • D. CECÍLIA - Para ti há de ser D. HELENA - Certamente. Ando
D. HELENA - E as despedidas.
meu sobrinho pode impediIr que. .. D. LEONOR - Que e?,exlgenC18... fácil. ansiosa por lê-lo.
Minhas senhoras, não desejo roubar- D. HELENA - Não convém pre- D. HELENA - Lisonjeira! (Pega D. CECÍLIA - Não compreendo.
D. HELENA - Reconciliemo-nos Clpl .. (ar as cousas. O Barão pode BARÃo - Perdão, minha senho-
lhes mais tempo... Confio em V. maquinalmente 11m livro deixado pelo D. HELENA - Espera everás.
Excia., minha senhora... Ser-Ihe-ei com oBarão. zangar-se e ir-se embora. ra. Sabe Botânica?
Barão sobre acadeira) Aboa von- D. CECÍLIA - Não posso enca-
eternamente grato. Minhas senhoras. D. LEONOR _ Nada, nada. D. CEcíLIA - Que devo então tade não pode tudo; é preciso... rá-lo; adeus. D. HELENA - Não ouso dizer
(Faz nma grande cortesia e sai). D. HELENA _ Pobre Cecília! fazer? (Tem aberto o livro) Que livro é D. HELENA - Cecília! (D. CE- que sim, estudo alguma coisa; leio
D. HELENA - Esperar. Há tempo este? Ah! talvez do Barão. CILIA sai) quando posso. É ciência profunda e
D. LEONOR - É ter paciência, su- para tudo. encantadora.
D. CECÍLIA - Mas vamos ...
Cena 7 jeite-se às circunstâncias... (A D. D. CEcíLIA _ Pois bem, quando continua. BARÃO (com calor) - É a pri-
Cecília, que entra) Ouviste? HenniqUei,"er ... Cena 9 meira de todas.
D. HELENA, D. LEONOR D. HELENA - Isto há de ser
D. CECÍLIA - Oque, titia? D. HELENA - Não vem, titia re- sueco. .. trata talvez de Botânica. D. HELENA - Não me atrevo a
D. LEONOR (rindo) - Que urso! D. LEONOR - Helena te explica- solveu fechar a porta a ambos. Sabes sueco? D. HELENA, oBARÃO apoiá-lo, porque nada sei das
D. HELENA - Realmente... rá tudo. (A. D. Helena, baixo) Ti- D. CECÍLIA - Impossível! oufras, epoucas luzes tenho de Bo-
D. CECÍLIA - Helena! BARÃO (à porta) - Perdão, mi- tânica, apenas as que pode dar um
D. LEONOR - Perdôo-Ihe em no- ra-lhe todas as esperanças. (Indo- D. HELENA - Pura verdade. Foi
D. HELENA - Quem sabe se este nha senhora; eu trazia um livro há estudo solitário e deficiente. Se a
me da Ciência. Fique com as suas se.) Que urso! que urso! uma exigência do Barão.
livro pode salvar tudo? (Depois de pouco ... vontade suprisse o talento ...
BARÃo - Por que não? Le génie, D, HELENA - Não sei se deva uma por uma, todas as famílias, as D, HELENA -- Só uma cousa lhe público é mais ruidoso, mas muito Não hás de adorar o que queimas-
c'est la patience, dizia Bufion. aceitar. " orquídeas, as jasmíneas, as rubiá- acho inaceitável. menos tocante que a aprovação do- te! Eia, volvamos às flores edeixe-
D. HELENA (sentando-se) Nem BARÃo - Aceitej é o primeiro ceas, as oleásceas, as narcfueas, as méstica.
umbemeras, as". BARÃO - Que é? mos esta casa para sempre, (Entra
sempre. passo para me não recusar segundo D. LEONOR)
pedido, D. HELENA - Tudo, desde que se D. HELENA - A teoria de que BARÃO (depois de um insteJllte de
BARÃo -- Realmente, estava longe o amor e a Ciência são incompa- hesitação e luta) - Falemos da D, LEONOR (vendo o Barão) -
de supor que, tão perto de mim, D. HELENA - Qual? trata de flores. nossa lição. Ah!
tíveis.
uma pessoa tão distinta dava algu- BARÃo - Que me deixe acom- BARÃo -- Compreendo: amor de
mas horas vagas ao estudo da mi- panhá-Ia em seus estudos, repartir o BARÃo - Oh! isso•., D. HELENA - Amanh~ se minha BARÃo -- Voltei há dois minu-
família. lia consentir. (Levanta-se) Até tos; vim buscar este livro. (Cum-
nha bela ciência. pão do saber com V, Breia É a D. HELENA -- Dá-se oespírito à amanhã, não?
D. HELENA - Bravo! um cum- primentando) Minha senhora!
D. HELENA -- Da sua esposa, primeira vez que a fortuna me de- Ciência e o coração ao amor, São
primento! territórios diferentes, ainda que li- BARÃO - Hoje mesmo, se o D. LEONOR -- Senhor Barão!
BARÃo (sentando-se) -- É verda- para uma discípula. Discípula é, BARÃo (folheando olivro) - A mítrofes. ordenar.
de. Um marido pode perder amu- talvez, ousadia da minha pate.. , BARÃO (vai até aporta evolta)
Ciência os permite. BARÃO -- Um acaba por anexar D. HELENA -- Acredita que não -- A senhora D. Helena não lhe
lher, e se a amar deveras, nada a D, HELENA -- Ousadia, não; eu
compensará neste mundo, ao passo sei muito POUCOj posso dizer que não D. HELENA (à parte) - Omes- o outro, perderei o tempo? falou agora?
que a Ciência não morre". Mor- sei nada, tre é perigoso. (Alto) Tinham-me D. HELENA - Não creio, BARÃo - Estou certo que não. D. LEONOR -- Sobre quê?
remos nós, ela sobrevive com todas BARÃo - Amodéstia é oaroma dito exatamente o contrário; disse-
as graças do primeiro dia, ou ainda do talento, como o talento é o es- ram-me que oSr. Barão era, .. não BARÃo -- O casamento é uma D, HELENA - Serei acadêmica BARÃo - Sobre \lmas lições de
maiores, porque cada descoberta é sei como diga". era... bela cousa, mas o que faz bem a de Estocolmo? Botânica. "
um encanto novo, plendor da graça. V. Excia. possui uns, pode fazer mal a outros. Sabe BARÃo -- Conto que terei essa D. LEONOR -- Não me falou em
tudo isso. Posso compará-la à vio- BARÃo - Talvez um urso. que Mafoma não permite o uso do honra. nada...
D. HELENA -- Oh! tem razão! leta, Viola odorata (x), de Lineu-- vinho aos seus sectários. Que fazem
D. HELENA -- Pouco mais ou
BARÃo - Mas diga-me, V. que éformosa erecatada... menos, os turcos? Extraem o suco de uma D. HELENA (cortejando) -- Até BARÃO (cumprimentando) -- Mi-
amanhã. nha senhora!
Excia.: tem feito estudo especial das D. HELENA (interrompendo) - planta, da família das papaveráceas,
BARÃo - Esou. bebem-no, e ficam alegres. Esse li- BARÃo (o mesmo) - Minha se- D, LEONOR (idem) - Senhor
gramíneas? Pedirei licença à minha tia. Qnan-
D, HELENA -- Não creio. cor, se nós o bebêssemos, matar- nhora! (D. HELENA sai pelo fun- Barão! (O Barão sai) Que esqui-
D. HELENA -- Por alto". por do será aprimeira lição? nos-ia, Ocasamento, para nós é o do, esquerda, o BARÃO caminha
BARÃo -- Por que não crê ~tão! Valia a pena cultivá-lo de
alto" . BARÃO - Quando quiser. Pode vinho turco. para a direita, mas volta a bUJcar perto.
BARÃo - Contudo, sabe que a ser amanhã. Tem certamente notícia D, HELENA -- Porque o v~o D. HELENA (erguendo os ombros) olivro que ficara sobre acadeira ou
da anatomia vegetal. ,. amável. sofá, ) BARÃO (reaparecendo) - Per-
opinião dos sábios não admitia o -- Comparação não é argumento. dão" .
perianto.. (D. HELENA faz sinal D. HELENA - Noticia incom- BARÃo -- Suportável apenas. Dema~, houve ehá sábios casados.
afirmativo) Posteriormente, reco- pleta. D. LEONOR -- Ah! Que manda?
nheceu-se a existência do perianto, D, HELENA -- Demais, imagina- BARÃo - Que setiam mais sá-
BÁRÃo -- Da fisiologia? bios se não fossem casados. Cena 10 BARÃO (aproxima-se) - Comple-
(Novo gesto de D. Helena) Pois este va-o uma figura muito diferente, um
to aminha pergunta. Asobrinha de
)ivro refuta a segunda opinião. D. HELENA -- Um pouco menos. velho macilento, melenas caidas, D. HELENA -- Não fale assim. A V. Excia. falou-me em receber algu-
olhos encovados. esposa fortifica a'alma do sábio. BARÃO, D, LEONOR
D, HELENA -- Refuta operianto? BARÃo - Neste caso, nem a ta- mas lições de Botânica. V. Excia,
xonomia, nem afitografia. ,. BARÃo - Estou velho, minha Deve ser um quadro delicioso para consente? (Pausa) Há de parecer-lhe
BARÃO -- Completamente. ohomem qne despende as suas ho- BARÃo (Pensatil'o) -- Até ama-
senhora. esquisito este pedido, depois do que
D. HELENA - Não fui até lá. nhã! Devo eu cá voltar Talvez não
D. HELENA - Acho temeridade. D. HELENA -- Trinta eseis anos. ras na investigação da natureza, fa- tive a honra de fazer-lhe há
BARÃo - Mas há de ir... Verá devesse, mas é interesse da Ciên-
zê-Ia ao lado da mulher que o pouco" .
BARÃo - Também eu supunha que mundos novos se llle abrem BARÃo -- Trinta enove. cia", a minha palavra empenha-
isso .. , Li-o, porém, e a demons- ampara eanima, testemunha de seus da. .. Opior de tudo éque a dis- D, LEONOR - Sr. Barão, no meio
diante do espírito, Estudaremos, D. HELENA -- Plena mocidade, esforços, sócia de suas alegrias,
tração éclaríssima. Tenho pena que cípula é graciosa e bonita. Nunca de tantas cópias e imitações hu-
não possa lê-lo. Se me dá licença, atenta, dedicada, amorosa. Será vai- tive discípula, ignoro até que ponto manas ...
('l Viola odoraJo - violeta perfu· BARÃO -- Velho para o mundo.
farei uma tradução portuguesa eda- dade de sexo? Pode ser, mas eu creio éperigoso.. , Ignoro? Talvez não ..
mada, Carlos Lineu, célebre' botânico Que posso eu dar ao mundo senão
qui aduas semanas.. , que omelhor prêmio do mérito éo (Põe a mão no peito) Que é BARÃO - Eu acabo: sou original.
sueco. a minha prosa cientifica?
sorriso da mulher amada, Oaplauso isto? ., (Resoluto) Não, sicambro! D. LEONOR - Não ouso dizê-lo.
tios, avessa à gente cristã. Que quer viesse aarder ou cegar... (Levan- BARÃo - Paciêncial Obedecerei.
BARÃo - Sou; noto, entretanto, I D. LEONOR - Vem cá; conserto D. HELENA - Com o seu con- :~: dizer tudo isso? . ta os ombros) Que idéia! Não passa D. HELENA - De má vontade?
eu. (D. CEC1LTA aproxima-se) Não sentimento,
que a observação de V. Excia. não D. CEcÍLIA - Quer dizer que a de um urso, como titia lhe chama, BARÃo - Não; mas com grande
responde à minha pergunta. é preciso, está excelente. Dize-me: D. LEONOR - Mas de que te ser· Ciência é uma grande cousa e que um urso com patas de rosas.
estás muito triste? desconsolação.
D. LEONOR - Bem sei; por isso ve saber Botânica? não há remédio senão adorar aBo- BARÃo (aproximando-se) - Per·
mesmo éque afiz. D. CECÍLIA (Muito triste) - Não, tânica. dão, minha senhora, Ao atravessar D. HELENA - Pois, Sr. Barão;
D. HELENA - Serve para conhe·
senhora; estou alegre. a chácara ia pensando no nosso não desejo iolentá-Io; está livre.
BARÃo - Nesse caso ... cer as flores dos meus buquês, para D. LEONOR - Que mais?
D, LEONOR- Mas Helena dise- não confundir jasmíneas com ruo acordo, e, sinto dizê·lo, mudei de BARÃo - Livre, e não menos
D. LEONOR - Nesse caso, deixe- biáceas, nem bromélias com umbe· D. CECÍLIA - Que mais? Quer resolução. desconsolado.
me que tu... dizer que anoite de hoje há de estar
me refletir. liferas.
BARÃo - Cinco minutos? D. CEcíLJA - Foi gracejo. deliciosa, e podemos ir ao teatro D. HELENA - Mudou? D. HELENA - Tanto melhor.
D. LEONOR - Com quê? lírico. Vamos, sim? Amanhã éobai· BARÃo (aproximando-se) - Mu· BARÃo - Como assim?
D. LEONOR - Vinte e quatro D, LEONOR . . .:. Não creio; tens
alguma coisa que te aflige; hás de D. HELENA - Umbelíleras. le do conselheiro esábado o casa- dei.
horas. ~ menta da Júlia Marcondes. Três D. HELENA - Pode saber·se o D, HELENA - Nada mais sim-
contar·me tudo, D. LEONOR - Umbe... pies: vejo que écaprichoso e ince-
BARÃo - Nada menos? dias de festasl Prometo divertir·me motivo?
D. CECÍLIA - Não posso, muito, muito, muito! Estou tão con· rente.
D. HELENA - .. ,liferas, Umbe· tç.\.i)
D. LEONOR - Nada menos. líleras. tentei Riase, titia; ríase e dê·me BARÃo - São três. Oprimeiro é BARÃO - Incoerente, é verdade.
D, LEONOR - Não tens confian· I
I
BARÃo (cumprimentando) Minha ça em mim? um beijai' omeu pouco saber... Ri·se?
D. LEONOR - Virgem santa! O D. HELENA - Irei procurar outro
senhoral D, CECÍLIA - Oh! Toda! que ganhas tu com esses nomes bár- D. LEONOR - Não dou, não, D. HELENA - De incredulidade. mestre,
D. LEONOR (idem) - Senhor baros? senhora. Minha opinião é contra a Osegundo motivo ... ..·BARXo=-Ouiro üi"esirelNao faça·· .
D. LEONOR - Pois eu exijo .. , Botânica, e isto mesmo vou esre- BARÃo - Osegundo motivo é o
Barão! (Sai oBARÃO) D. HELENA - Muita cousa. isso.
(Vendo HELENA que aparece à ver ao Barão,
porta do fundo, esquerda) Ah! che· meu gênio áspero edespótico.
D. CECÍLIA (à parte) - Boa He- D. HELENA - Reflita primeiro; D. HELENA - Vejamos oterceiro. D. HELENA - Por quê?
gas a propósito. lena! Compreendo tudo.
Cena 11 basta amanhã! BARÃO - Porque... (Pausa) V.
D. HELENA - Operianto, por BARÃo - O terceiro é a sua Excia. é inteligente bastante para
D. LEONOR - Há de ser hoje idade. Vinte eum anos, não?
exemplo; a senhora talvez ignore a mesmo I Esta casa está ficando muito dispensar mestres,
D. LEONOR e D. CECÍLIA Cena 12 questão do perianto,., a questão sueca; voltemos aser brasileiras. Vou D. HELENA - Vinte edois. D. HELENA - Quem lho disse?
das gramíneas... e~crever ao urso. Acompanha·me. BARÃo - Solteira?
D. LEONOR - Singular éele, mas D. LEONOR, D. CECÍLIA, D. HELENA BARÃo - Adivinha·se.
não menos singular é a idéia de I D. LEONOR - E dou graças a Cecília; hás de contar·me oque há.
D. HELENA - Viúva. D. HELENA - Bem; irei queimar
Helena. Para que quererá ela apren- D. HELENA - Para quê? Deusl
BARÃo - Perpetuamente viúva? os olhos nos livros.
der Botânica? D. LEONOR - Explica·me que D. CECÍLIA (animada) - Oh!
D. CECÍLIA (entrando) - Hde- história é essa que me contou o deve ser uma questão importan· t Cena 13 D, HELENA - Talvez. BARÃo - Oh! seria estragar as
na (D. LEONOR volta·se) Ah! é Barão?
1 ., mais belas flores do mundo I
ussima! BARÃo - Nesse caso, quarto mo-
titia, D. HELENA, BARÃo tivo: a sua viuvez perpétua. D. HELENA (sorrindo) - Mas
D. CECÍLIA (com curiosidade) - D, LEONOR (espantada) - Tam,
D. LEONOR - Sou eu. OBarão? D, HELENA - Cecilia deitou tu· então nem mestres nem livros?
bém tu? D. HELENA - Conclusão: todo
D. CECÍLIA - Onde está Helena? D. LEONOR - Parece que estás D. CECÍLIA - Só o nome. Pe- do· a perder, " Não se pode fazer onosso acordo está desfeito. BARÃo - Livros, mas aplicação
nada com crianças... Tanto pior moderada, A Ciência não se colhe
D. LEONOR - Não sei, talvez em disposta a estudar Botânica? rianto. É nome grego, titia; um
para ela. (Pausa) Quem sabe se BARÃo - Não digo que estejaj
de afogadilho; é preciso penetrá·la
cima. (D. Cecília dirige·se para o D. HELENA - Estou. delicioso nome grego. (Ã parte) só por mim não o posso romper.
tanto melhor para mim? Pode ser. com segurança e cautela.
fl/ndo) Onde vais? Estou morta por saber do que se V. Excia. porém avaliará as razões
D. CECÍLIA (sorrindo) - Com o Aquele professor não é assás velho,
trata. como convinha, Além disso, há nele D, HELENA - Obrigada. (Esten-
que lhe dou, edecidirá se ele deve
D. CECÍLIA - Vou... Barão? dendo·lhe a mão.) E visto que me
D. LEONOR - Vocês fazem·me um ar de diamante bruto, uma alma ser mantido.
D. LEONOR - Acaba. D. HELENA - Com oBarão. perder ojuízo! Aqui andam bruxàs, apenas coberta pela crosta científi· D. HELENA - Suponha que re- recusa as suas lições, adeus,
D. CECÍLIA - Vou consertar o D. LEONOR - Sem o meu on- I decerto. Perianto de um lado, bro- ca mas cheia de fogo eluz, Se eu pondo afirmativamente. BARÃO - Já! 3i
penteado, sentimento? mélias de outro; uma língua de gen·

... _ . _ __·_·r. -vrc...


:::._:-,~._-.;;,-:.~.,~':....,........,~".."...- ...- ..
algum sucesso - a técnica de representação teatral. Vivemos, entretanto, na parte de um continenle eco-
DOS JORNAIS Devemos de resto constatar que os escritores uruguaios nomicamente subdesenvolvido, neocolonial, na especta-
estão ainda surpresos com a violenta mudança que se tiva de que oautor eos realizadores criem numa só equipe
operou em nossa sociedade. Nossa realidade mudou com- espetáculos que dêem uma síntese da realidade uruguaia
pletamente, tornando-se mais que dramática. Ela étrági- ecujos protagonistas sejam gente do povo (na vida eles
ca. Amorte campeia livremente nas ruas; vivemos num já representam esse papel). Devemos dirigir nossa atenção
estado de guerra permanente eestá para ser promulgada para orepertório clássico, que pode ser ode uma época
oTEATRO NO URUGUAI uma Lei de Segurança Nacional, que transformará uma
série de instituições civ~ em instituições de caráter mili-
histórica qualquer mas que se ligue de certa forma àsi-
tuação atual. Levando essas peças àcena, devemos rejeitar
tar. Oteatro, como um reflexo dessa realidade, esforça- qualquer preconceito sobre a intal1~bilidade do texto,
se por expressar essa situação política. Enlretanto, o eliminar os elementos superados ou caducos, rejuvenes-
público, assim como os próprios criadores exigem que cer, modernizar alinguagem de modo atorná-lo apto a
os espetáculos constituam uma síntese eapresentem uma atingir opúblico contemporâneo. Trata-se, então, de subs-
Asituação do teatro no Uruguai está estreitamente grande dose de sugestão. Trabalhamos muitas vezes em tituir aobra clássica por outra coisa, mas atualizá-Ia de
ligada à crise geral, _econômica, política e cultural que equipe ecada representação tem um caráter experimental tal modo que se tenha aimpressão que oautor vive na
atravessa opas, Oteatro éum dos raros meios de expres- sob todos os aspectos. É assim que oespaço cênico foi mesma época que nós eéoespelho fiel de nossos proble-
são de massa cuja força consiste em sua união indissolú- hberado das formas tradicionais; em lugar de nos servir- mas. Agindo assim, fizemos Fuenteovejuna, de Lope de
vel com oprocesso de libertação nacional. No Uruguai, mos de formas arquitetura~ mutáveis, damos margem a Veja na versão de Antonio Larreta e Dervy Vilas, de
como na maioria dos países da América Latina, a aten- que a ima~ação do espectador trabalhe livremente. Antigona de Sófocles, adaptada por Alberto Mediza e
ção da -população é dirigidaparaoulras formasaudiovi,- Com essa finalidade, servimo-nos exclnsivamente da luz. das versões de Dias da COllluna eArturo Ui, de Brecht
suais, como o cinema e a televisão, que formam uma --;- ._--Adonies- deJItiminação são dispostas em diferentes pon- realizadas por Omar Grasso e Mercedes Rein, espetá-
indústria do espetáculo com grande força de penetração. tos de maneira adiferenciar oespaço cênico em variantes culos que tiveram muita repercussão.
Aquantidade e duração desses espetáculos fazem com infinitas edar-lhe também seu valor próprio. Quanto aos espetáculos futuros, citemos aqui peças
que as possibilidades do teatro sejam muito limitadas. Ao mesmo tempo, oator se serve do corpo de ma- de autores uruguaios, como Misia Dura ai Poder, uma
Essa luta entre os diferentes gêneros de arte de expres- neira mais consciente econcentrada. Oteatro, desde a peça pepelar de Jorge Sclavo assim como Uruguay, Guay
são de massa faz parte integrante da luta ideoló~ca geral Renascença até os dias atuais, compreendendo operíodo ePepe el Oriental, do poeta Milton Schinca. Estas são
eníre aoligarquia eopovo, aquele que tem de suportar de expansão sob aburguesia, cobria ocorpo do atar de um tímido presságio de um teatro que abordará os pro-
todo tipo de sacpfícios. Um desses éafalta de uma infor- belos ecaros estofos, fazendo dele um elemento cenográ- blemas políticos ehistóricos dos países da América Latina
mação honesta efranca; nessa situação, opovo évítima fico móvel. Isto impedia oatar de expressar sua persona- continuamente sacudida por explosões,
de uma alienação e odespertar da consciência social-é lidade esomente otexto era exposto em primeiro plano
continuamente freiado. como principal componente do espetáculo. Aestilização Atallllalpa dei Cioppo
Oproblema que se nos apresenta éoseguinte: que excessiva era uma carga suplementar. Atualmente, esse (Direlor de teatro no Uruguai)
teatro criar epara quem? teatro muda. Trata-se de voltar ao que o ator era no
Uma das grandes tarefas para futuro próximo é inicio, quando seu jogo não era apenas uma forma verbal,
encontrar formas suscetíveis de fazer do teatro um meio mas expressão plástica, gesto, movimento, improvisação,
de expressão eficaz euniversal que atinja grandes cama- como ofoi em grande parte na commedia delI'arte.
das sociais. Fazer com que oteatro preencha sua dupla
Hoje, oatar não representa como se reproduzisse a
missão: que seja uma distração ao mesmo tempo que
uma arte de alto nível; que apresente ao povo os aspec- vida. Ele procura valorizar a atitude espontânea. Não
tos de sua própria vida, de que ele não está muito cons- aquilo que o organismo se esforça por esconder ou o
ciente. que ele evita, mas do que ele assimila para criar uma
Existe, entretanto, em nossa sociedade uma classe espécie de quarta dimensão da expressão. Ele descobre
média, pessoas instruídas, com formação profissional, em seu próprio corpo reações tanto espontâneas, animais
estudantes e professores, educadores e alguns dirigentes como formais, obrigando, assim, oespectador aadivinhar
sindicais que se interessam pelo teatro. É para eles princi- osentido oculto dos gestos edas atitudes que, acrescenta-
palmente que nós nos esforçamos por renovar - com " dos às palavras, formam alinguagem do atar. (Le TMâtre dalls Le MOllde - 12/1972) 41
Fiz, em determinada époc~ 11m trabalho com crian- existir: um trabalho como o nosso não tem a menor
BOB WON, Um Estranho Passarinheiro ças excepcionais, aconvite de uma amiga que fazia dança chance de se manter na'base da bilheteria.
mais ou menos convencional com elas, eque me chamou
para experimentar um trabalho mais.livre de expressão
corporal. Isto me permitiu pesquisar em profundidade o ***
estreito interrelacionamento dos elementos psíquicos com Depo~ das três apresentações em S. Paulo, The
os elementos físicos, que éuma das bases do nosso tra-Byrd Hoffmon School of Eirds gostaria de vir ao Rio.
Solicitado a explicar a essência do espetáculo que que pelo próprio temperamento estão muito acostuma- balho atuaI. Há também oproblema das gerações. Nós
está preparando em São Paulo) Bob Wilson pega uma dos aexpressar emoções atrav&1 dos recursos do corpo. Por 6bvios motivos econômicos, não seria possível trazer
usamos muito ogelleraliolls gap como um fator dramá- toda amontagem, com oseu ~gantesco elenco multina-
folha de papel e, em silêncio, desenha lent~ent~ sete Já os atores do meu país estão mais contidos, mais presos tico. Normalmente otrabalho experimental éfeito quase
pequenos círculos numerados de um asete mterlJgados neste sentido.. cional; mas talvez se pudesse cogitar de apresentar os
exclusivamente por representantes de uma só geração, os
dois ou três atas centrais, apenas com um grupo de 23
por um complexo esquema de linhas e,setas. Então expli; jovens. No nosso elenco temos 11m menino de 11 anos,
ca: "Estes são os sete atas do espetaculo. Tal ato está opúblico de alguma forma tem participação oliva atares americanos. Agrande dificuldade seria provavel-
temos muitos jovens, temos pessoas de meia idade, temos
mente oproblema do local, já que Wilson faz questão
intimamente relacionado com tal outro. Mas cada um IIOS seus espetáculos, pode influenciar o desenrolar do várias pessoas de 60 epoucos anos. Minha avó, com 87
deles éindependente ejá foi montado separadamente, em espetáculo? de um espaço muito amplo, porém dentro de um teatro
anos de idade, participou de alguns espetáculos nossos.
do tipo convencional, com boca de cena eprocênio e
talou antro lugar. Esta, porém, é a primeira vez que BW - Oh, não! Aestrutura do espetáculo érígida Isto dá toda uma dimensão especial ao nosso trabalho. que seja tecnicamente bem equipado. Tirando oMunici-
monto todos eles junto eeles formam um conjunto. Desta demais para isto.
estrutura de conjunto surgiram do~ novos sub-atos: o pal, que estará na época ocupado com A Gaivota, que
segundo ato deu origem a um sub-ato; -: ele dese~a Nós nem tomamos consciência da presença dos es- De ollde vem onome do seu grupo, The Byrd Hoff- outro teatro teria condições de acolher aEscola de Pás-
um novo círculo - eosexto ato tambem. Quem qUISer pectadores. Nem olhamos para eles. mail School of Birds? saros de Bob Wilson?
saber melhor oque éoespetáculo, que use airna~nação. JAN MIcHALSn
Evocê espera que eles fiquem sentados passivamente Byrd Hoffman é o nome de um personagem que
De quem éotexto? Ele é rí~do ou pode mudar de durante todo desenrolar das 12 horas do espetáculo? criei quando, criança, fazia teatro na escola.
~-.':
acordo com odesenrolar do espetáculo? BW - Claro que sim. Eles ficam.
BW - Otexto é meu, e constitui.uma estrutura Eapafavrq School? Em que senrido vocês são uma
inteiramente rí~da. Tudo no espetáculo constitui uma Mas p~rque esta duração? Você pretende propor escola?
estrutura rí~da. Mas eu posso mudá-la, até mesmo de Illll novo tempo teatral, econtestar onovo tempo conven-
um dia para outro, se achar conveniente. Nós trabalhamos em vários países do mundo, mas
cionai? temos anossa sede fixa em Nova Iorque, num velho pré-
BW - Não ébem isso. Oque eu quero édar às dio de quatro andares, onde estudamos permanentemente
Ecomo você resolve os problemas de língua, traba-
pessoas tempo para pensar quan~o .assistem ao que.acon- os mais diversos assuntos que nos interessam ou que
lhando em cima do texto com os atares brasileiros que
tece no palco. Na vida real, pnnclpalmente nas CIdades podem ser úteis para onosso trabalho. Quando precisa-
não falam inglês?
grandes, elas não têm tempo para pe~sar. No teatro nor- mos dançar sapateado, chamamos um especialista e ele
B\V - Alguns falam inglês eservem de intérpretes mal, onde um acontecimento tem habltualmente amesma dá aula para todos nós. Quando queremos aprender o
quando necessário. De qualquer modo, não há nennum duração que teria na vida real, também. Mas se eu }evo; alfabeto manual dos surdos-mudos, que éuma linguagem
problema: omeu texto, você sabe, émuito pouco verbal. 15 minutos para executar ogesto de pegar uma xcara de gestos que eu tenho usado às vezes, também chama-
. Ele émuito usado em função do som que produz. de chá elevá-la até aboca, então, dou margem para que mos um sujeito que nos ensina esse alfabeto. Há vários
o espectador reflita sobre o sentido profundo do q~e pintores e escultores ligados ao nosso gntpO, que dão
Mas otexto representa ullla história? está vendo, enquanto oestá vendo. aulas para os outros. Omesmo para os músicos, psicó-
BW - Não, não tem nada d~so. É muito pouco logos, etc.
verbal, você sabe. Qual asua formação artística?
Andei desenhando epintando antes de fazer teatro. Seu trabalho ésubvencionado?
Como se está processando aintegração do grupo dos Estudei arquitetura também.
atares americQ1ws com os atares brasileiros? Não temos uma subvenção permanente, mas recebe-
Soube que você trabalhou com crianças. Esta expe- mos periodicamente auxílios de várias fundações culturais
BW - Muito bem. Inclusive os brasileiros absorvem
42 com grandes facilidade onosso método de trabalho, por- riência ficou incorporada no seu trabalho? eoutras organizações desse tipo. Sem isso não poderíamos (lomal do Brasil- 20/3/74)
MOVIMENTO TEATRAL I
".

TEATRO DA LAGOA
(T. 227-6686)
cindo Júnior, Débora Duarte, Fábio
Sabag, Regina Viana eoutros.
\
EI Grande de Coca-Cola, de Diana
White e Ronald House, direção de
Luís Sérgio Perscn, com Sueli Fran- TEATRO SANTA ROSA
co, Felipe Carcne, Iaene Morrone) (T. 247·86-41)
Berta Loran eSérgio Ropperto.
Falemos sem Calças, de Guilher-
me Gentile, direção de Antonio Abu-
de Sousa, com Renato Borghi eEs- jamra. Com !talo Rossi, Zanone Fer-
Peças em cartaz nos teatros da TEATRO NACIONAL DE rile eBuza Ferraz.
Guanabara durante o trimestre de ter Gá~.
abril ajunho do corrente ano: COMÉDIA (T. 222-0367)
.,
TEATRO JOÃO CAETANO OAnti-Nelson Rodrigues, drama
de "Costumes de Nelson Rodrigues. TEATRO OTABLADO

...............................
TEATRO ADOLFO BLOCH
(T. 285-1465)
(T. 221-03-05)
II
Direção de Paulo César Pereio, com
Wolf Maia) Neila Tavare.s) Sônia ai-
(T. 226-4555)
Somma, os Melhores Anos de Nos- ticica, Nelson Dantas eoutros.
Pippin, comédia musical de Sle- sos Vidas, revisão de peças anterior- OEmbargque de Noé, de Maria
phen Schwartz eRoger Hirson, diri- mente montadas sob a direção de Clara Machado, cenografia de Joel
gida por Flávio Rangel eAilton Es- Amir Haddad, música de Ricardo de Carvalho, figurinos de Betty
cobar. Com Maria Sampaio, Marllia Pavão. Cenografia efigurinos de Joel Coimbra e música de Ubirajara Ca-
Pera, Marco Nanini, Tetê Medina, de Carvalho. Com Amir Haddad, TEATRO OPINIÃO (T. braI.
Ariclê Peres, Carlos Kroeber e ou- Taia Peres, Reinaldo Machado, Vera i: 235-2119) Vassa Geleznova, drama de Máxi-
'
tros. Seta eoutros. .
mo Gorki. Direção de Maria Clara
Fernando Pessoa, antologia poéti- Machado, cenografia de Joel de Car-
TEATRO DULCINA (T.
232-5817)
TEATRO GLÓRIA (T.
245-5527)

Viva oCordão Encarnado, comé- Jantou oMarido eDormiu com o


TEATRO GINÁSTICO
(T. 221-4484) I
: \
ca, direção de Isaias Almada, com
música de M4rilo Alvarenga. Com
Cláudio Cavalcanti, Maria Cláudia,
Cristina Guimarães, Roberto Frota e
outros.
valho efigurinos de Betty Coimbra.
Com: Martha Ro~man, Louise Car-
doso, José Augusto Pereira, Bemar-
do Jablonski, Paulo Reis, Silvia Nu-
nes, Sura Berditchevisky) Carlos
dia musical de Lufu Marinho) dirigi- Leitão, três comédias de Paulo A. AGaiola das Loucas, de Jean Pai-
.da por Luís Mendonça. de Lima, direção de Cláudio Gonza- ret) direção de João Bethencour~
ga, com Grande Otelo. Teresa Bar- com Jorge Dótia, Carvalhinho, Ma-
raso, TeIma Reston e outros. ria Pompeu, Juju Pimenta e outros.
r Wilson Silveira) Silvia Fucs, Paulo
Reis eGilda Guilhon.

TEATRO GLÁUCIO GIL TEATRO PRINCESA


(T. 237-7003) ISABEL (T. 236-3724)
TEATRO IPANEMA (T. TEATRO MAISON DE TEATRO TERESA RAQUEL
ATorre em Concurso, comédia de 247-9794) FRANCE (T. 252-3456) A Teoria na Prática é Outra, co-
Joaquim Manuel de Macedo, com média de Ana Diosdado, cenários e AGaivota, de Checov (cuja estréia
música de Sidnei Miller. Direção de OQue Mantém um Homem Vivo, OColecionador, de David Parker, figurinos de Bia Vasconcelos. Músi- se deu no Teatro Municipal), dirigi-
Fernando Peixoto e Cenografia de textos de Brecht, músicas de Kurt direção de Fernando Torres, com Di- ca de Edu Lobo e Paulo Pinheiro, da por Jorge Lavelli. Com Teresa TEATRO EM SÃO PAULO
Weil e Macalé. Dircção de José A. na Sfat eJuca de Oliveira. Direção de Antonio Pedro, com Gra- Raquel, Renata Sorrah, Sergio Brito.

L
4 Eichbauer. ) 45
oPrisioneiro, de Neil Simon} di-
reção de Abujamra, com Nicete Bru- Textos àdisposição dos leitores na Secretaria d'O TABLADO
no, Paulo Goulart, Eleonor Bruno e
Renato Consorte, no T, Aliança
Francesa.

Costinha na Intimidade, com Cos- Andrade Oswald AMorta 52


tinh~ no Teatro das Nações. Arrabal Fernando Pique-nique no Front 54
Guernica , ".,.... 50
Apareceu aMargarida} de Rober- Bar &Stevens OMoço Bom e Obediente 28
to Ataide, com Marília Pera, no T.
Cocteau J~an Édipo-Rei 58
Maria Della Costa,
Checov OUrso 29
"(

Falemos Sem Calças} no Teatro OJubileu ,......... 46


Aquarius. Os Males do Fumo 49
1;.-...)
Drummond de Andrade OCaso do Vestido.......................... 39
Tudo lia Cama, com Derci Gon- França Júnior Maldita Parentela 55
çalves; no Teatro de Bolso. Labiche Eugene AGramática 47
Macedo J. Manuel ONovo Otelo .. ".,....................... 43
Pintores de Cano, de Henkel, no
Stúdio São Pedro. • ••••••••••••••••••••••••••••• " . . -o 0'_
Machado M. Clara Os Embrulhos
••••••••••••••••••••••••••••••••••• _ •••••••••••••• _ •••••••••••••••••••••••••••••• ". " ••••••••
47
As lnterferencias 56
Greta Garbo quem Diria.."'} de Um Tango Argentino 57
Fernando Melo com Raul Cortez, Marinho Luiz ADerradeira Ceia 59
Pepita Rodrigues eNuno Lealdire- Martins Pena As Desgraças de Uma Criança ,............. 45
ção de Leo Jusi, no Teatro Itália.
Pessoa Fernando OMarinheiro ,,........... 50
Qorpo-Santo Eu Sou a Vida 45
Em São Paulo, os espetáculos em Caiu oMinistério, de França Jú- Suassuma Ariano Torturas de um Coração 44
cartaz durante omesmo peno'do fo- nior, no TBC. Synge JM
ram: Viajantes para oMar 48
As Desgraças de Uma Criança, de ASombra do Desfiladeiro ,........ 51
Martins Pena no Teatro Anchieta. .'. t Tardieu Jean Conversação Sinfonieta ,,.................. 48
Bonitinha mas Ordinária, de Nel-
son Rodrigues, direção de Antunes Yeals OÚnico Ciúme de Emer 43
. Filho, com Miriam Mehler, ~nio As Religiosas, de Eduard Manet,
Gonçalves, Maria Real, Sebastião direção de Celso Nunes, no Galpão.
Campos, Silvia Borges, Evilázio
Marçal eoutros, no Teatro Paiol. O Festival Internacional de Tea-
tro, promovido por Rute Escobar, te-
Um Grito Parado no Ar, de Guar- ve início com Yerma, no Teatro Mu-
nieri, no Teatro da Fundação Getú- nicipal, seguindo-se apresentações de
lio Vargas. The Byrd Hoffman School of Rirds}
com dezenas de atores e espetáculo
o Genro que Era Nora} de Auri- de muitas horas, sob direção de Bob
46 mªr Rocha} no Teatro Ruth Escobar. Wilson.
iiõiiiiiiiõiiiiiiiiiiiiiiiiiii---
1 iiIiiiiiIiiiiiiiiiiiiiiiiliiiiiiiiil
Livros àvenda na Secretaria d'O TABLADO

Maria Clara Machado:

Pltdt oFantasminha (contos) ,., ,.. ,.... 25,00


Como Fazer Teatrinho de Bonecos ,.,.... 12,00
A Menina e oVento, Maroquinhas F1'lIfru, A
Gata Borralheira e Maria Minhoca 14,00
Pluft oFantasmin/w - ORapto das Cebolinhas
_ Chapeuzin/1O Vermelho - O Boi e o
Burro eABruxinha qne era Boa. ..•.... 20,00
OEmbarque de Noé - AVolta de Camaleão e
Camaleão na Lua 12,00
ODiamante de Grão Mogol - Tribob6 City e
Aprendiz de Feiticeiro .,." ..•.... ,',. 18,00
Os textos publicados nos CT só poderão ser representa-
Cem Jogos Dramáticos, coI. de Marta Rosman ., 10,00 dos mediante autorização da Sociedade Brasileira de Au-
tores Teatrais, (SBAT), à Av. Almirante Barroso, 97,
As publicações d'O TABLADO elivros de autoria Guanabara.
de Maria Clara Machado poderão ser solicitados àSecre-
taria d'O TABLADO, àAv. Lineu de Paula Machado, Solicitação aos Assinantes eLeitores que receberam
195, ZC 20 - Rio de Janeiro, Guanabara, mediante pa- os CADERNOS DE TEATRO N, 60: Pede-se adevolu-
g~mento em cheque visado, em nome de Eddy Rezende ção, com amaior brevidade, do questionário de Pesquisa
48 Nunes, pagável no Rio de Janeiro. para aredação desta revista,

Interesses relacionados