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educação executiva | reportagem

inovação

Gestores
brasileiros
estudam
design
thinking
Cada vez mais profissionais do País estão
estudando a técnica de abordar problemas
do pensamento do design e conseguindo
trazê-la para suas empresas

AA Nearpod, que funciona em Miami, EUA, é uma plataforma de


aplicativos móveis para uso em sala de aula. Professores do mundo in-
teiro dão ideias de aplicativos à empresa e, se selecionados, são remu-
nerados para desenvolvê-los com a equipe interna, formada por pro-
gramadores, designers de interface e desenvolvedores de conteúdo.
Com vários apps já adotados na rede de ensino da Flórida ren-
dendo royalties aos professores-criadores, a Nearpod é um exem-
plo de modelo de negócio que se estabeleceu graças às atividades
desenvolvidas em uma escola de design thinking –no caso, a d.school,
que faz parte da Stanford University, Califórnia, EUA.
Guido Kovalskys, fundador e presidente da Nearpod, fez na
d.school o que chama de “residência empreendedora”. No progra-
ma, esse argentino com família brasileira teve um ano, de junho de
2013 a julho de 2014, para se aprofundar no desenho da Nearpod.

RETOMADA DIDÁTICA
A reportagem é de Escolas de design vêm atraindo cada vez mais gestores e em-
Lizandra Magon de Almeida, preendedores como Guido Kovalskys, e o efeito disso começa a ser
editora-assistente de HSM Management. sentido no mundo corporativo: retoma-se a velha sabedoria popu-

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Alunos em
aula na EISE

lar de que “a necessidade é a mãe da invenção” É também fundamental o en-


–a necessidade dos consumidores, nesse caso. tendimento de que inovação
A transposição do pensamento do design pa- tem de ser aprendida na práti-
ra as companhias teve início fora das escolas, há ca, bem longe da zona de con-
cerca de 25 anos, com o trabalho de inovação da forto.
empresa de design californiana Ideo, dos irmãos
David e Tim Kelley. (Antes, nos anos 1970, a aca- depender Em 2004, nasceu a d.school,
dentro do campus da Stan-
demia já discutia a adoção do pensamento do de-
sign nas empresas, mas isso não saía de lá.) menos ford University, em parceria
com o Hasso Plattner Institute
David Kelley, formado em engenharia mecâ- As escolas de design of Design, alemão.
nica, uniu-se a colegas para adaptar o método querem transformar O aprendizado desse jeito
da Ideo a uma escola, a fim de poder ensinar os gestores das empresas em criativo e único de trabalhar
todos os tipos de profissionais (executivos, inclu- designers protagonistas de atrai cada vez mais executi-
sive) a pensar e agir como designers. seus processos de inovação, vos, principalmente nos Esta-
sem terem de depender
Assim, os gestores passariam a ser protagonis- dos Unidos e na Europa, mas
tanto de consultores
tas da inovação, sem ter de depender tanto de também no Brasil. Só uma es-
e fornecedores externos
consultores ou fornecedores externos. cola de São Paulo projeta ter
Entre os pilares do método estava a crença, até mais de 500 alunos em 2015.
hoje pouco compreendida, de que uma ideia não Aqui os gestores estão apren-
vale nada; o que importa mesmo é sua execução. dendo o design thinking de duas

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maneiras: de um lado, muitos d.school. O curso de MBA cus-


têm ido estudar na d.school e ta cerca de US$ 14 mil, mas há
em escolas similares nos Es- uma série de opções de cursos
tados Unidos –os cursos de de educação executiva, além de
Jeanne Liedtka na Darden workshops de curta duração.
School são concorridos entre O time de professores é igual-
os brasileiros– e na Europa; mente poderoso: inclui no-
de outro, novos cursos de de- mes fixos como Kelley, Hasso
sign thinking surgem todos os Plat­tner, Justin Ferrell e Susie
dias em faculdades e outras Wise, referências de Stanford
instituições brasileiras. como Bob Sutton [veja sua en-
No Brasil, os cursos são livres trevista na HSM Management
e não têm reconhecimento ofi- nº 108] e Jennifer Aaker, pro-
cial do Ministério da Educação. fissionais do mercado como o
Costumam ser procurados por
pessoas graduadas e não há
processo seletivo, apenas entre-
paquistanês Zia Yusuf, da em-
presa de software Streetline.
Se toda escola de design thin-
n c í p
P r i h av e i o s -
-c
vistas para saber se o candida- king valoriza a diversidade dos DO
to está afinado com a propos- alunos, a d.school é especial-
ta. Os valores vão de cerca de mente privilegiada nesse que-

g n t h i n k i n g
esi
R$ 1 mil para cursos de curta sito, já que recebe alunos do
duração a quase R$ 10 mil pa-
ra cursos de um ano.
mundo todo.
Os programas também sem-
pre têm ex-alunos com mui-
d
d.school, experiência ta experiência prática, como
californiana Kovalskys, que continua na es-
• Empatia e pesquisa
Para cursar a d.school, é cola, até julho próximo, para
de campo
preciso ser aluno de um dos acompanhar os novos alunos e
É preciso se colocar
cursos de pós-graduação em trabalhar em projetos reais em
no lugar do outro
Stanford e ter um projeto que parceria com empresas, espe-
para entender suas
interesse à proposta da escola cialmente em projetos de em-
necessidades e valores.
no momento, e assim ingres- preendedorismo social.
Para isso, todos saem a
sar como fellow, um tipo de Os candidatos preenchem
campo e vão conversar
pesquisador convidado. um formulário detalhado e
com os verdadeiros
Os preços dos cursos de pós- são submetidos a um pitching,
afetados pelos projetos.
-graduação de Stanford va- para avaliar o que cada um
riam, mas não são baratos; há, tem a acrescentar.
porém, uma série de possibili- “Eles conseguem montar • Pensamento
dades de financiamentos e bol- o melhor mix de pessoas”, colaborativo e não linear
sa de estudos. conta a jornalista brasileira É das conversas e trocas
Outra porta de entrada é que Adriana Garcia, que foi aluna de ideias que surgem
uma empresa contrate um cur- da d.school em 2013. Profis- as inovações.
so ou um workshop para seus sionais distintos como o em-
funcionários. O MBA de Stan- preendedor argentino Guido • Diversidade
ford, com um curso de design Kovalskys e Garcia são exem- Todos têm algo a ensinar
thinking, também oferece uma plos de alunos latino-america- e também a aprender, na
ponte com os professores da nos da d.school. empresa e na vida.

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Adriana Garcia,
jornalista
brasileira, foi
aluna da d.school

A jornalista estava em um ano sabático e foi por dar real apoio aos sonhos ca, depois de anos de guerrilha,
estudar em Stanford com uma bolsa de estu- dos empreendedores de gerar e tinha de construir do zero to-
dos da J. S. Knight Fellowships, que promove a impacto no mundo. da a sua infraestrutura.
inovação e o empreendedorismo em comunica- “Foi um modo radical de
ção. “O fellow estuda o que quer; eu conheci e Eise, vertente entender que as necessidades
quis a d.school”, explica. anglo-africana das pessoas têm de estar em
Garcia buscava um modelo de negócio digital Perto da Avenida Paulista, primeiro plano”, explica ele.
viável em mídia, indústria que tem sido descons- em São Paulo, a Escola de Para Pinheiro, o ciclo de vi-
truída pela internet. Havia trabalhado na agência Inovação em Serviços (Eise) da da posse dos produtos é,
de notícias Reuters durante 15 anos –depois de não leva design no nome, mas por definição, “tóxico” para
participar da implantação desse serviço no Brasil, ensina a metodologia do design as empresas. “Ele estimula ci-
foi correspondente no Uruguai e em Washington. thinking desde o início de 2012. clos de venda que se baseiam
“Eu estava acompanhando o desafio da digi- Ela tem um diferencial mar- em vender de novo, o que ge-
talização do jornalismo, na era do poder para cante em relação à d.school: ra produtos de má qualidade
as pessoas, e achei que a d.school me ajudaria a orienta os alunos a pensar em e consumo inconsequente.”
entender como fazer isso bem”, diz. todos os negócios como servi- Já quando os produtos são
O projeto de Garcia aprovado na bolsa de es- ços, e não a criar produtos. alugados e o paradigma é o de
tudos era apenas pesquisa em inovação na área Isso se explica por sua ligação serviço, ocorre o contrário, se-
de comunicação, mas, na d.school, ele evoluiu com a empresa que é conside- gundo Pinheiro: o interesse do
para se tornar uma empresa de consultoria e rada a versão inglesa da Ideo, fabricante passa a ser criar pro-
treinamentos. mas que é especializada em de- dutos de melhor qualidade e
A Orbitalab foi fundada em junho de 2014 e sign de serviços, a Livework. duráveis, porque ele arca com
já tem clientes como o grupo RBS, a Universida- A Eise foi fundada e é lide- as consequências da quebra.
de Metodista, a empresa de softwares Globant e rada por Tenny Pinheiro, que Pinheiro desenvolve o tema em
o Instituto Projor. “No próximo ano e meio vou desde 2009 comanda, no Bra- seu livro The Service Startup.
cuidar da comunicação digital da Olimpíada sil, a filial da Livework inglesa. Segundo o professor e dire-
Rio 2016”, conta Garcia, orgulhosa. Pode-se dizer que há tam- tor da Eise, o processo mental
Kovalskys já havia tido uma experiência na Cali- bém uma influência africana do design thinking voltado para
fórnia –em Berkeley, em 1997. Foi quando fez sua na Eise, que a aproxima do os serviços ainda tem a vanta-
migração de executivo a empreendedor, criando Brasil em muitos aspectos. gem de resgatar a capacidade
logo em seguida, no Brasil, a Bionexo, empresa de Pinheiro morou dois anos em individual do gestor de cons-
tecnologia na área de saúde, depois vendida. Angola, quando o país estava truir como um artesão, ao con-
Mesmo para o experiente Kovalskys, a d.school começando seu processo de re- trário do processo industrial
fez diferença. Segundo ele, essa escola destaca-se cuperação econômica e políti- focado no produto, que reforça

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Adilson
Chicória,
ex-aluno

gestores
e hoje
facilitador Columbia. Incorporei um pou-
da Eise
co de cada uma.”

na rua Cursar a Escola Design


Thinking foi importante para
Segundo Adilson Chicória, o trabalho de Mahiti Godoy,
gestor da IBM e facilitador da gestora da Informar Saúde,
Eise, levar os gestores para empresa de enfermeiros que re-
perto dos problemas já é uma solvem dúvidas de usuários de
grande mudança promovida planos de saúde por telefone.
pelas escolas de design thinking. Segundo ela, analisar o aten-
“Isso muda tudo” dimento com cabeça de desig-
ner já permitiu uma série de
aperfeiçoamentos nos serviços
a cultura da divisão de trabalho, com a execução empresas parceiras ou encontra- de sua empresa, como as melho-
sem propósito. das na vida real. Na última tur- rias nas telas do sistema usado.
O curso da Eise se baseia em jornadas de seis ma de 2014, por exemplo, es-
meses ou um ano. Os alunos escolhem trilhas tavam redesenhando a relação DUPLA ENTREGA
de conhecimento, o que faz com que cada cur- entre pedestres e motoristas no A sedução dos cursos de de-
so seja diferente do outro. Grupos se formam bairro onde fica a escola. sign thinking entre os gestores é
para desenvolver projetos. As pessoas que con- “Uma das coisas que incluí- compreensível. Como definiu
cluem o curso vão sendo incorporadas às tur- mos em nosso curso foi a par- Adriana Garcia, “não adianta
mas seguintes para inspirá-las e ajudá-las a ex- ticipação de professores convi- mais as empresas apenas com-
pressar suas ideias. dados de áreas bem diferentes, prarem outras empresas, ou in-
Adilson Chicória, da IBM, é uma dessas pes- como Wellington Nogueira, do vestirem em pesquisa e desen-
soas. Em 2007, havia criado a própria startup, grupo Doutores da Alegria, e volvimento, para resolver pro-
mas, ao participar da equipe de criação do canvas Fábio Soares, que representava blemas; sermos racionais não
de Alex Osterwalder, viu que seu modelo de ne- o grupo Blue Man no Brasil”, nos dá mais as respostas”.
gócio não era promissor e o abandonou. conta Ruffo. No entanto, os estudantes
Chicória foi aluno de Pinheiro e hoje é um dos Basicamente, os grupos de conseguem implementar o
facilitadores da Eise, além de participar da im- alunos são compostos por cinco que aprendem na escola de
plantação do processo de mudança de cultura da ou seis pessoas de áreas diversas. design ou são impedidos pe-
IBM, baseado em design thinking. Cerca de 70% dos alunos são los chefes?
Para ele, uma vantagem de uma escola como pessoas físicas que financiam o David Kelley recomenda a
a Eise é a de levar os gestores para as ruas, para próprio curso e 30% são enca- seus alunos a tática da dupla
perto dos problemas. “Isso muda tudo.” minhados por empresas. entrega quando voltam à em-
A peregrinação de Ruffo por presa, fazendo as coisas duas
Escola Design Thinking, cursos em várias escolas do vezes –uma como o chefe man-
d.school à brasileira mundo também o ajudou a for- da e outra como designers.
Outra opção é a Escola Design Thinking, funda- matar a escola. “Comecei um Kelley garante que, “assim,
da no final de 2012 em São Paulo e gerida por Ri- MBA no Brasil, não gostei, fui o chefe fica feliz porque o pro-
cardo Ruffo e Juliana Proserpio, que também têm morar nos EUA e fiz cursos de jeto foi feito como ele queria e
a firma de consultoria de inovação Design Echos. curta duração em várias univer- também surpreso com as no-
A escola, que se baseia no método da d.school, sidades, como Berkeley, Babson, vas ideias”.
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propõe workshops de um dia ou imersões de


uma semana, três semanas ou seis semanas. Confira entrevista exclusiva da professora
Os alunos trabalham em projetos em grupos, a Jeanne Liedtka, da Darden School, sobre a utilidade
do design aos gestores. hsm.link/?f0Xk0Ye
partir de demandas que podem ser propostas por
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