Você está na página 1de 97

(

, .

ERVING
GOFFMAN
E A MICROSSOCIOLOGIA

CORTESIA

ºº
EDITOR
ISAAc JOSEPH

RVING
GOFFMAN
E A Ml,C ROSSOCIOLOGJA

TRADU L ALIBA RtZEK

"'111"'
FGV
EDITORA
ISBN - 85-225-0315-X

Copyright © 1998, Presses Universitaires de France

TÍTULO ORIGINAL: Erving Goffman et la microsociologie.

Direitos desta edição reservados à


EDITORA FGV
Praia de Botafogo, 190 - 122 andar
22253-900 - Rio de Janeiro - Brasil
Tels.: 0800-21-7777 - o-XX-21-559-5533
Fax: o-XX-21-559-5541
e-mail: editora @ fgv.br
http://www.fgv.br/publicacao

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação,


no todo ou em parte, constitui violação do copyright (Lei nº 5.988)

1ª edição - 2000

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA: Simone Ranna


PRODUÇÃO GRÁFICA: Helio Lourenço Netto

CAPA: Tira linhas studio

Rit

Ficha ca talográfica elaborada pela Biblioteca


Maria Henrique Simonsen/FGV

Joseph, Isaac, 1943-


Erving Goffman e a microssociologia / Isaac Joseph; tradução
Cibele Saliba Rizek. - Rio de Janeiro : Editora FGV, 2000.
96p.

Tradução de: Erving Goffman et la microsociologie.


Inclui bibliografia.

MUSEU NA~lo~?ffman, rving, 1922-1982. 2. Microssocio!ogia. 3. lnteraçáo


ocia · · Fundaç o Getulio Vargas. II. Título.
DEP. DE ANTROPOLOGIA
coo-301.1 1
BIBLIOTECA
Sumário

Introdução 7

Civilidades 13
Momentos e olhares 17
Pluralidade dos mundos e divisão do eu 19
O vocabulário das interações 21
Corretivo cômico 24

Rituais 27
Normas de conjunção e vida pública 28
O valor da reputação: a rua e a conversação 31
Convenções 35
A arena simbólica 37

Dramas 41
O público, o espectador, a testemunha 45
Do domínio das impressões aos quadros participativos 50

Lugares e ocasiões 55
Interações não-focalizadas: o quadro equipado do transeunte 57
Interações focalizadas: o sentido do lugar 63
Os distúrbios do lugar 66
Pfflr Ili fmr llllflçln 1U I'
tlllfa • i lt,la n ta
Competências 71
A guinada lingiiística 72
Contextos: interpn: tar e explicar 77
O modelo de reparação 84

Conclusão - Uma teoria dos momentos comuns 89

A ordem da interação e seu vocabulário 93

Bibliografia 95
Introdução

1. TOMEMOS º CASO DE UMA DEMISSÃO. Depois de um quarto


de século numa empresa de informática, Suzanne, uma técnica de 50
anos, está desempregada. Esse fato social, banal para a Anpe e as esta-
tísticas ministeriais, pode admitir duas espécies de análise, conforme
levemos em conta: a) a população dos que procuram emprego e sua
distribuição segundo os ramos de atividade, as regiões, a idade ou o
sexo das pessoas consideradas; ou b) a maneira pela qual a empresa
procedeu na demissão de Suzanne, as dificuldades que ela enfrentou no
mercado de trabalho e sua experiência singular do desemprego. Essa
experiência é, sem dúvida, subjetiva ("revejo meu passado", diz Suzanne,
"com seus sucessos, mas também com seus fracassos . Altos e baixos:
meu moral está como uma montanha-russa"), 1 mas é também uma
situação social, um episódio da vida privada e pública de quem é demi-
tido e de quem procura emprego.
A microssociologia, cuja arquitetura conceitual esta obra deseja
apresentar a partir dos trabalhos de Erving Goffman (1922-82) e dos deba-
tes que ele iniciou na disciplina, não ignora a primeira série de questões
que se referem à população de desempregados e à organização do mer-
cado de trabalho. Mas os fenômenos sociais que ela pretende estudar se
inscrevem numa outra ordem e apresentam uma disposição diferente.
Para retomar uma oposição introduzida por Goffman, eles enfatizam
~enos a ordem social do que a ordem de interação, menos a estrutura da
Vl~a social do que a estrutura da experiência individual da vida social. A
rnicrossociologia pretende, sobretudo, colocar em questão essa evidência

I Libération, 19-7-1995.
ERVING GOFFMAN E A MICROS
8 soca

segundo a gual a experiência de Suzanne se constitui como sub'


individual. A medida que Suzanne narra sua história para si m J
para seus amigos, para o conselheiro da Anpe ou para o sociólo
sublinha, a cada vez, elementos diferentes, ela "enquadra" sua n go
por episódios significativos que retém na memória, que organizam
experiência e a tornam pública. Ela se recorda, por exemplo, de ai
falsos, ameaças veladas, cumprimentos ambíguos, ou do constr eventua
mento de seus colegas. Recorda-se também das formas pelas quais de espe
depend
superiores ou seu círculo "acompanharam" a demissão. Esses momentos e
cas da
esses contextos têm também sua regularidade e sua organização. A p
microssociologia pretende fazer a sociologia dessas circunstâncias e anali-
sar a organização social desses encontros como uma ordem de fenô-
menos sociais que têm sua história específica. Ela considera que ~
momentos (situações face a face ou conversações) acarretam conseqüên-
cias, já que nos levam a considerar certas maneiras de fazer ou de dizer
como brutais ou reconfortantes, inevitáveis ou escandalosas, normais ou ant ri01
revoltantes. afirmar
Como valorizar o fato de que essa experiência e esses fenôme- t s- s
nos constituem um domínio da pesquisa de fato e de direito? Não se
pode negar que a maneira pela qual Suzanne vive e supera essa pro-
vação é indissociável de sua condição, de sua idade ou das solidarie-
dades familiares que ela consegue mobilizar a seu favor. O problema,
entretanto, ainda é saber como pensar essa não-dissociação. A idéia
de uma "incorporação" das lógicas estruturais nas práticas de um indi- apar~n
víduo pressupõe processos misteriosos (internalização, introieção) que d sua
concernem à psicologia. Consideremos provisoriamente um princípio Suzam
que Gabriel Tarde denominava sociom~rfismo, seg~ndo o qual o soció- ela co
logo deveria procurar ver em toda coisa uma sociedade e uma regra
provisória, proposto por ?.ºff~an: ~nt~e a or~e~ estrutural e a ordem
da interação existe uma art1culaçao 1mprec1sa . Em outras palavras
_ e essa é uma definição que, à falta de outras. pertence ao campo da
microssociologia -, certos elementos do sistema de atividades situa-
das estão "subordinados" ao sistema de status e de relações estrutu-
rais, mas nem todos. Concretamente, isso significa que, na medida em
que Suzanne se apresenta à Anpe ou para uma entrevista de admis-
são, ela está sujeita a "agrupamentos" que, a essa altura, não são
"informais" e cuja organização, contudo, não é a de um grupo social.
Nesses "agrupamentos", a co-presença de uma mulher e de um
entrev
homem, de um jovem e de um idoso, de um francês e de um imi-
grante, ou seja, de pessoas cujos status sejam imediatamente identifi-
cáveis ou discriminativos, não deixa de ter conseqüências, freqüentemente 2
Esse é
embaraçosas, para os protagonistas. Esse embaraço está ligado preci-
---
ra e
INTRODUÇÃO
9

ou sarnente à superposição da ordem dos status e das regras próprias aos


ela agrupamentos que prescrevem, por exemplo, que respeitemos o pres-
tiva suposto _de igualdade ~o universo dos serviços (o primeiro a chegar é
0 primeiro a ser atendido), as civilidades ordinárias dos lugares públi-
sua
rnes cos (desatenção polida, cortesia gestual, direito à tranqüilidade) e que.
hg1- eventualmente, travemos conversação com a pessoa seguinte na fila
de espera. Caso se queira descrever o desenrolar de uma manhã nas
dependências da Anpe, poder-se-á constatar, em alguns deles, as mar-
cas da deferência ou, ao contrário, dos olhares de desprezo, mas não
será possível interpretar sistematicamente esses fenômenos como
expressão das identidades sociais constituídas; ao mesmo tempo. será
necessário compreender como eles se aproximam das brincadeiras ou
das tensões que parecem surgir no espaço mesmo do agrupamento.
ên-
Ora, se nos perguntarmos "o que de fato conta" para Suzanne.
zer
teremos de reconhecer que a ordem da interação não é logicamente
ou anterior, tampouco constitutiva da ordem estrutural. O importante não é
afirmar que os objetos da microssociologia - usos, arranJos, procedimen-
e- tos - são determinados ou determinantes, mas que eles são constante-
se mente emergentes: as regularidades e obrigações que são objeto de anáhs_e
0- (disciplinas do olhar e saudações, preocupação d_e mostrar-se apn~senta-
~
ne- vel, atos de presença úteis para todos os fins) exigem que as reat!uemos

r,~·
e1a
ildi-
constantemente e que as reapresentemos para os outro~ e para nos r:nes-
mos. Em Suma , a s "maneiras" de Suzanne e sua capacidade
, de ·genr
• aparências constituem o registro imediatamente sens1ve1 e ma~ip~ a~e
as
l' 1

:iue de sua experiência como alguém que procura e~~rego. O ctdrcu O e


pio . _ e os recursos de sua postçao
Suzanne avalia sua poszçao . pelo
, mo o como E
ció- . - das essoas com as quais esta em contato.
ela controla as 1mp~essoes_ , P - descritível em seu desenrolar e
gra cada uma de suas tnbulaçoes e uma açao
em analisável em suas conseqüências. caso entre outros suscetí-
ras - , t nto apenas um ·
Suzanne. nao e, por ª ' or ela mesma, por um jornalista, um
b~~ vel de ser descnto ou comentado P fu ·ona como uma "configuração
· 2 · ,1
cineasta ou um soc10. ogo.
Um caso nc1
ló ica estrutural (da reprodução, da
tu- pontual" destinada a ilustrar uma gd -lhe uma vinheta local. Mas, se
em
11s-
dominação ou da mud.an_ya)
0
P:.
~~~ ~ra" através de traços estruturais
urna entrevista de adm1ssao se e g mo na- 0 acontece com o con-
1ão . · · des o mes
que especificam suas v1c1ssitu .' d'sposição dos participantes, os
lal. texto espaço-temporal da entrevista: ~ ~o recinto onde se desenrola a
1m equipamentos que compõem O cenano vi·sta ao exame técnico do cur-
ni- .
entrevista, a passagem d a sim· pies entre
.fi-
1te 2 . . Masson: En auoir ou pas.
Esse é o tema do filme de Laettua
ci-
ERVING GOFFMAN E A MICRosso

ses elementos do momento são inéditos. É d


rículo: to d os es - . l d - d f1 .d
d
texto e e sua O rganizaçao . espac1a
. , a tensao ou a u1 ez da en
dos mc1 . ·d en tes ou das brmcadeiras , que o marcaram d que SUZa
agente d a Anpe se recordarão. E esse pequeno rama que eles, .
-
rao se a1gue , m lhes pedir
, que narrem o que
.. aconteceu
, 'I"ou que JU
seu esed mpenho. E esse o drama que A
1a
. 1ta

as ana
,
ises que Sé

· da realidade social. Assim, as ex1genc1as emp1ncas da


acima · l 1· - ·1
· logia vão muito além de uma s1mp1es oca 1zaçao 1 ustra
SOCJO . . A 'lº
lógicas institucionais e das causahda~e~ estruturais. ana 1se
cedimentos pelos quais os atores soc1a1s se entendem ou se a
entre si mostra que eles sabem precisamente reconhecer e j em
situações para definir condutas apropriadas. Ou seja, su~ ex~eri cris
social não ·se organiza apenas segundo uma ordem de 1dent1d za
posições, mas também segundo um repertório de situações que tê "à
vocabulário e seu determinismo, seu espaço cognitivo de restriçõ vid
negociações.

2. A provação por que passa Suzanne pode ser decomp


numa série de seqüências: o anúncio da demissão, a saída da emp
a cerimônia das despedidas, a consulta aos anúncios de ofenas
emprego, a inscrição na Anpe etc. Cada uma delas é um sistema de
uidades situadas cuja matéria (verbal ou não-verbal) é feita de int
ções. Por esse termo devemos entender, tal como o filósofo e sociól
alemão Georg Simmel (1858-1918), ações recíprocas. No caso, S
interage com seus superiores hierárquicos e com seus antigos cole
com o pessoal administrativo ou de recursos humanos, com ami8
familiares. Em cada uma dessas interações, ela se empenha num tNIÍII•
lho de figuração: ela se safa ou se dá mal, se compromete ou se
pera e super~ o fracasso. Toda atividade situada comporta assim
pane n?r_mauva que faz com que os protagonistas se instituam
em~resanos da moralidade: eles enunciam o direito e denunm·IIR
~s~an~alo, tomam posição num jogo de linguagem e avaliam Sww11,-,.
tmenc1a A ·
A •

_ . · . expenenc1a de Suzanne é, pois, comparável a outras


çoes d1fíce1s em que dev ·d .
. .
nossa identidade e nos emos recons1
1 - M erar nossos recursos dispo
sociólo O sas re açoes. as a comparação que interessl
que co~ te~l menos ª ver com a vivência subjetiva do indivíduo
aqui o que faz de u d · · - . ·
riência antropolog1ca
' . e um h. ma , etermmada
. snuaçao dlfictl uma
cerimônia pública d ª is~ona suscetível de ser reproduzida,
De fat e degradaçao, um ritual de estigmatização.
º· na rnedid
enquadrada, não é O in . ~ em que um~ ~ificuldade é socialrn
dividuo que const1tur a unidade elementa
pesquisa, mas a situa.ção. Ao lado das entidades_ constitutivas da socio-
logia que ~ã? o colet1.vo (gru~o, c~as:e, populaça?) e O indivíduo (ator,
agente, su1e.1to) , a ~icros~ociologi~ introduz, pois, um objeto novo, a
situação de mteraçao. Assim, seus instrumentos (abordagem dramatúr-
gica, anál~se da con~e~s~ção) se referem implícita ou explicitamente a
um paradigma da disciphna a que chamaremos de situacionismo meto-
dológico para distingui-lo de dois outros paradigmas dominantes nas
ciências sociais: o "holismo" - estruturalismo, materialismo histórico -
ou o individualismo metodológico.
Quando de sua demissão, Suzanne e seu círculo próximo entram
em crise e em efervescência. A sociologia durkheimiana diria que essas
crises se produzem na fronteira entre o religioso e o profano e mobili-
zam valores que permitem aos protagonistas julgar se eles estão ou não
"à altura da situação", aquilo que eles devem respeitar (no âmbito da
vida privada, da dignidade, da tranqüilidade ou da infelicidade de
outrem). A provação de Suzanne é, pois, uma espécie de arena simbó-
lica onde ela mesma e seu círculo julgam a consistência ou a vulnera-
bilidade dos laços sociais. Esses valores morais que exercem sua ação
normativa sobre nossas condutas "reclamam imperiosamente nossa
ação", diria Durkheim. Dito de outro modo, essas situações exigem que
sejamos capazes de responder a Suzanne de modo competente na
medida mesma em que nos aflige o embaraço ou o medo de errar. A
atenção que a microssociologia confere a esses mal-estares na intera-
ção a conduz forçosamente a explorar passo a passo nossas convicções
mínimas (Por que é necessário dizer bom-dia? Por que se desculpar pelo
incômodo?). Na medida em que as lentes da vida cotidiana fazem sur-
gir uma constante confusão dos territórios do sagrado e do profano, ela
nos convida a pensar que somos responsá~eis, perant.e Suzanne, p~r
muito mais coisas do que poderíamos imaginar a partir de uma v1sao
estrutural de sua experiência. Mas, porque ess~s .responsabilidades são
plurais, porque Suzanne é ao mesmo tempo JUIZ e parte no que lhe
acontece cada personagem do drama faz, a seu modo, ato de pre-
sença e c'ada um sabe que depende de si mesmo refazer, confirmar ou
reativar esses laços frágeis para aquecer o mundo. .
a- ·
Se a 1e1tura de Goffman é ao mesmo tempo fascinante e desconcer-
. , . d fi · d ·,
tante é porque, sem jamais se afastar dos pnnc1p1os o o cio o soc101ogo,
ele convi·da a compara r O 1·ncomparável • a mudar constantemente
. o voca-
, · d escnuvo
bulano · · para que se possa . permanecer , o mais~ perto
. possível da .
· d'
expenenc1a m 1vi ua1
A • • ·d da vi·da social
A ·.

Atento as competenc1

as de que d1s-
a pomos para reenquadrar nossa expenenc1a e rearran!ar as_ap~rências, ~Ie
tentou mostrar à disciplina que o olhar que l~e convem nao e necessana-
mente convencional. Pode-se afirmar, ª respeito da obra de Goffman, que
A MICRoss
ERVING GOFFMAN E
12 --------------------~~~~~-----------._:.::;

trata da o bra d e um moralista que traz a marca ~


do livro de
seuanto recusan do filiar-se a uma corrente, d .pre1ere
. serd taxado
q . ' de moralismo, estudan o os ntua1s com esenvol
!acorns~o quem seriedade. Ele definiu a si próprio ora como e
Jogos SUJOS co d . 'l'd d
como etnólogo, abraçou o tema as c1vi 1 a es e co
urbano, ora . - , - d · 'd
b
sua o ra a articulá-lo à ordem da mteraçao e,. a noçao e auvi
U · ade. ·
Sua formação de sociólogo nos anos do,. pos-guerra na. rnversid _
Chicago, sua dívida para com os antro~o1ogos, as ª.Pr~~.1maçoes Cl':1
oveu na década de 1970 com os etnologos e os lmgu1stas, tudo
::m que ele se encontre na encruzilhada de várias e diversas correntes
pesquisa, numa posição de ex~l~ra~or crítico. Escarz:iece~do dos co
tores de paradigmas, ele constituiu, a margem da soc1olog1a das estru
um léxico descritivo e analítico centrado num princípio: não negligenCJ'att•
situação, não tratá-la como a "prima pobre" da sociologia.
Não se pode, pois, compreender a obra de Goffman sem inscrevê.-
nos debates sobre o objeto e as linguagens da sociologia, sem evocar
espaço das controvérsias que a constitui ou o legado problemátiço que a!
fundamenta, no começo do século, em Durkheim e Simmel. E preciso
mostrar como essa sociologia se apóia na temática das civilidades para
libertar-se da psicologia social, construindo seu domínio na ordem das inte-
rações como ações recíprocas (capítulo 1, "Civilidades") Em seguida, dar-
se conta da herança durkheimiana e da incômoda proximidade com a eta.
logia que Goffinan lhe impõe (capítulo 2, "Rituais").
Esse percurso pelos autores clássicos da tradição sociológica per-
mite avaliar as alternativas e os limites da metáfora teatral que é, indubi-
tav~lment.e, a ~arcela mais brilhante da microssociologia, aquilo que se
rete~ mais facil~ente de sua contribuição. A abordagem dramatúrgica E
consiste em analisar as atividades situadas como os momentos de uma 1
intriga pública de interações (capítulo 3, "Dramas") e depois explorar a 1
e~ologia dos agrupamentos e sua linguagem, dissociando-os da sociolo-
gia dos grupos e dos territórios (capítulo 4, "Lugares"). Poderemos então
nos dar conta das contr·b · - d . .. ,. .
bramemos que ela propõe i uiçoes
pa da fihnguistica
. pragmática e dos desdo·. ,
rias: competência . ra re e nir as competências sociais ordma-
para interpretar e tr t · um
acontecimento ou "c .. ª ar um contexto, para exphcar
onsertar uma relação (capítulo 5, "Competências").

3 -----
Creela n, Paul. Erving Goffrna.:n-=-=-d-:-- - - - - - - -- - - - - - -
Se pt. 1984. an the book of Job Th
· eory and Society, 13:663-95,
Civilidades

HÁ MUITAS MANEIRAS, todas mais ou menos satisfatórias, de


ituc r , obra de Goffman na disciplina. O constrangimento do próprio
aut r m adot, r as noções de classe social, de grupo étnico ou de classe
tári, o conduz a propor fórmulas prudentes e evasivas sobre seu pro-
j to científico: limita-se, diz ele, a ''juntar as peças e os pedaços da vida
s eia! contemporânea" .4 Quanto aos comentários sobre a obra, impres-
sion, dos com seu sucesso, le ·pli rn por sua paixão pelo detalhe
ou. éllgurnas vezes. por sua c, J cid d de descrever nossas sociedades
de serviços o lugar que las e tri u mas transações que ocorrem tanto
nas situações quanto nas r lações face a face.
Mal se pode distinguir claramente etapas numa trajetória que,
entre a tese de 1953 sobre as condutas de comunicação nas ilhas Shet-
lands e o discurso como presidente da Associação Americana de Socio-
logia em 1982. 6 explora o mesmo problema, o das relações entre a ordem
social e a ordem da interação. Por outro lado, pode-se identificar uma
série de linguagens de exploração e observar que elas são sempre
etnprestadas das disciplinas vizinhas: linguagem da antropologia e da
observação participante na tese e em Asiles; linguagem da ecologia em

Les r lacions en public. p. 15.


5
Communication conduct in an island community. University of Chicago, Depanment
or So i 1 ,, 1953. o capítulo 20 dessa tese foi traduzido para o francês sob o título
L communication em défaut. Actes de la Recherche em Sciences Sociales (100):66-72.
'e. I
L'or r l'inte action. merican Sociological Review. 48(1):1-17. fév. 1983. Tradu-
m: in ·in, es (dir.). Les moments ec leurs hommes. SeuiVMinuit, 1988.
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc,
14

Be hauwr · public places·' da. ,. etologia


· zn . . . Les relations en publi•
em
~1enomenologia social e das c1enc1as. cognitivas em Les
., . cadres de I
· e· da sociolingüística e da abordagem pragmat1ca em FaçOA$'
nenc , d "bl'
parler. Entre essas obras há um fio condutor - a or em pu 1ca e
lógica inter acional - e uma série de. confront?s com os legados
priamente disciplinares: La présentatwn de soz e o legado de Ge
Simmel e da Escola de Chicago; Encounters, Stigmate e as categorias dâ
psicologia social; Les rites d'interaction e o diálogo com Durkheim.
Afirmar-se-á aqui que é pelo estudo das civilidades da vida
cotidiana que a sociologia de Goffman irrompe no debate das ciências
sociais. Apropriando-se do tema da apresentação do eu, abundante·
mente descrito pela literatura normativa dos manuais de polidez, para
transferi-lo à etnografia da vida pública contemporânea, Goffman anun-
ciou duas orientações de pesquisa paralelas: a primeira propunha como
postulado que a uida social e a uida pública se superpõem, tanto para as
formas de ajuntamento instituídas pela conversação e pela mesa,
quanto para os encontros de rua. Ao mesmo tempo, ele se propunha
rever as formas de socialização e normalização das condutas do "pro-
cesso civilizatório" 7 para estudá-las em sua lógica imanente, como
mecanismos de auto-regulação próprios a mundos diferentes, cada qual
com a sua linguagem, seu repertório de papéis e sua sintaxe de condu-
tas. O cruzamento dessas duas orientações indicava um programa e sig-
nificava implicitamente que o sociólogo não pode nem dissociar os ritos
de interação da vida cotidiana dos ritos de instituição. nem acreditar
que esgotou tudo o que havia a dizer a respeito das civilidades ao rela-
cioná-las com as forças de dominação ou de imposição de normas.
O legado da sociologia urbana e da sociologia da experiência
migratória que Goffman descobre na Universidade de Chicago não se
reflete por acaso na redefinição do campo das civilidades e na renovaç -
de suas alternativas. A heterogeneidade das populações urban ~o
seus modos de vida, a experiência migratória como "des ª~ e _e
social vista de dentro". segundo a fórmula de Robert Pa ·k o~ganizaçao
suscitam de fato novas questões para O pesquisador· n - 1 (I 64 -1?94).
respeito às maneiras convenientes do sauoir-uiure m · ao as que dizem
às formas de adaptação à vida pública no meio urb as ~s que se re ferem
compreender nas sociedades complexas que prod ano, as n:1a neiras de se
cial e densidade relacional sem por isso reduzir u~~rn~ proximida de espa-
sentido os atores conferem às formas de a . d él~ istancias sociais. Que t
e gra ec1rnen to ou ,
------ -----
7Elias, Norbe n . La dynam,qu e d . .
as saudações 1

10
moeurs. Calma nn -Lévy, 1973 e cc1denc. Calma nn -Lévy, 1975. e L ~ .- .- - -
. · ac,v, ·
---
oca

C; da
CIVILIDADES

15
Pé- nos seus devidos context_os? Quais são as competências sociais que resis-
1s de tem aos proces:o~ de h1bnd1zação cultural cujo pioneiro é o migrante
(personagem publico por excelência)? Esse é o novo contexto histórico e
científico no qual se coloca a questão da apresentação do eu.
Classicamente, as civilidades têm a ver com o que Kant deno-
minava uma Antropologia do ponto de vista pragmático. 8 No projeto
goffma niano de uma sociologia das circunstâncias, as civilidades são
um mod o de abordar as interações ordinárias interrogando-as sob o
c1as ângulo d e se us pressupostos normativos (e, num espaço público, dos
nte- conflitos de normas), ou do ponto de vista de sua pertinência na
para situação, d e sua "oportunidade" e de suas conseqüências. Trata-se das
nun- civilidades das conversações cotidianas e familiares, as civilidades roti-
omo neiras das interações de serviços, as maneiras de se conduzir e de falar
ra as com um d esconhecido ou com um colega de trabalho, os modos de
esa, agir para com o próximo ou o estranho. para com um indivíduo nor-
mal ou estigmatizado.
nha
Essa idéia de começa r pelas formas da apresentação do eu em
pro-
público (defe rência, comportamento. aparência) nem sempre foi .ªP~~-
orno ciada pela disciplina. O interesse pelos saberes men.or~s da soc1a?~h-
q ual dade. pelas formalidades e procedimentos da hosp1tahdad~ serv~na,
ndu-
segun d o a lguns , como uma espécie de tela para ,nossas d ahenaçoes,
· -
s1g- cobrindo com um véu pudico a reprodução inexorave1 as pos1çoes e
das condiçõe s. . . _
Pod e-se. com efeito, aceitar provtsonam~nte. essa ~cusaç~o e
rela- . .b . - de minoridade à microssoc1olog1a. Sena poss1vel,
s. assumir a atn u1çao ffm d'1 da conversação em Les
então, dizer das civilidades O que.. (o dª~ ~ª estrutura". As civilida-
ência
ao se cadres de l 'expérience: ~rata-:e da fáa;~ a:e:o:
0
as dos ricos e as das pes-
a çã o
des, como as latas de lixo, sao
1
?J. banas e as das ilhas Shetland, as
soas comuns, as das classes me : ur rviços Essa neutralização dos
e de
dos restaurantes e as do s~tor e seara ·projeto que consiste em
ração d , . - d . de ter interesse P O d' . O
omm1os nao e1xa . _ domínio de pleno Ire1to.
994),
constituir a ordem da mteraçao. codmsoprezar as fronteiras e oposições
1zem . - parece · pois ' . e nto (com suas formas d e con-
estudo das mteraçoes
. t rconhec1me b
entre as sociedades d e m e . nto) e as sociedades ur anas
trole social e sua luta pe1o reconhec1me ença) Pode-se empreen d e-1o A

, . d . pies co-pres . d
(com seus laços frage1s e sim . uanto nas situações constran~e o-
tanto numa instituição total (Asiles) q da um desses campos, alem da
ras de "contato misto" (Stigmate). Em ca

R K,mt. .
· du pomc
.
de uue pragmanque. (1800J. Tra d · de Michel
Emmanuel. Anchropologie
F'o uciilllt. Vrin, 1964.
E RVING GOFFMAN E A MICROSSOCIOLOGIA
16

. - d terialidade (e da fragilidade) do laço social, o estudo


descnçao a ma · · - d " ·
das interações coloca, para a soc1olog1a: u~~ ~uestafiol efi apar~~c1a
·
kantiana, q ue parece, remetê-la
, ,, à sua pre-h1stona na 1 oso 1a poht1ca:
"Como a sociedade e poss1vel? 9
Dois exemplos de civilidade da vida cotidiana permitem compre-
ender o projeto da microssociologia e seus desafios. Primeiro exemplo:
0 que Goffman chama de "recursos seguros" (safe supplies). Trata-se das
banalidades de uso, das frases feitas que se diz quando não se sabe o
que dizer ("Que tempo!", "Ainda bem que é sexta-feira!"). A surpresa de
Goffman, sua paixão de pesquisador o levam a descobrir sentido onde
não vemos nada. Essas frases, afirma, são um recurso de sobrevivência
para a conversação, elas "quebram o gelo", rompem um silêncio incô-
modo etc. Além disso são ditas em circunstâncias precisas: no elevador,
a um vizinho como gesto de sociabilidade mínima, ao motorista do ôni-
bus que tomamos todas as manhãs à mesma hora etc. Constituem um
intróito e querem dizer, como no pôquer, "é a sua vez de jogar".
Segundo exemplo: as situações incômodas. Diante de uma máquina de
café encontram-se um empregado e seu chefe hierárquico, habitual-
mente inacessível. Como lidar com essa acessibilidade excepcional?
Quem deve servir-se primeiro? O empregado aproveitará o ensejo para
iniciar uma conversação? Nessas situações em que existe um conflito de
normas, afirma Goffman, sentimos a vulnerabilidade dos laços sociais e
o mal-estar das interações. "A estrutura social ganha em flexibilidade; o
indivíduo perde apenas sua calma". 1º
Esses dois exemplos mostram que não se trata de nos interrogar-
mos sobre a origem ou o fundamento da sociedade, voltando assim às
filosofias do contrato, mas de saber se podemos falar da vida social em
termos de mais ou menos, se podemos atribuir-lhe mais ou menos
intensidade ou densidade relacional, mais ou menos consistência; se
P?de~os, em suma, analisar o engaja_ment~ dos protagonistas na orga-
rnzaçao de um encontro. O legado s1mmehano da microssociologia é
aqui de importância capital.
Os que consideram a sociedade como algo já dado, dizia Sim-
mel, falam de um organismo que julgam conhecer porque já identifica-
ram seus órgãos e formas cristalizadas. Mas eles nada nos dizem a
respeito dos incontáveis fluxos e tecidos que não saberiam nomear sem
os quais esses órgãos sequer estariam vivos. Sem sua pulsação ;ons-

9
S(m1m~l. Ge1.org. Comment la societé est-elle possible? (1908]. ln: Georg Simme/ la
socro
10 L og,e et expérience d d d M , ·ct· Klº ksº '
. d'º
es ntes rnteraction. p.u lOO.
mon e mo erne. en tens- me 1eck. p · 2 1_ ·
46
CIVILIDADES

Udo 17
ncia rante, sem a e m ergência e a ·
.d . d interrupção d
lCa: rec1 os, a soc1e a de seria apen os fluxos que circul
.~ as um am 'l . am nos
nuos, e a nossa expenencia da .d a gama de sistemas d ,
, v1 a em so · d escont1-
re- ~a, portan to , uma sociedade .. como t ..c1e ade seria impensável. Não
incessante qu e aproxima ou se al , mas sempre um movi·m
lo· para as difi enro
das das e que faz com que cada um viva ar erenres constelações constituí-
eo contra o outro . A fórmula desse ~ a o outro, assim como com ou
- , . movimento d . .
de zaçao tera maior repercussa- 0 n . e soc1a11zação/dessociali·
a soc10Iogi · -
que ela descreve formalmente . - a americana, na medida em
de . a pos1çao do est .
gem conceitua} simmeliano "qu _ rangezro, esse persona-
eia 0 estrangeiro é na sua experi· ~ e ~ao perdeu a liberdade de ir e vir" 11
CÔ- . ' enc1a comum fi . ·
tancwmento do papel em todo e . · ª 1gura que tipifica O dis-
Or, socialização demonstra que todnagaJa~dento. A tensão socialização/des-
ni- . soc1e ade em at · d
que aproximam e afastam os grupos e os c o v1v_e , e pulsações
m outros, e a experiência do estrange· ~rp_os const1tu1dos uns dos
r" . 1ro const1tu1 a co d -
movimentos e dessas inter - . . n ensaçao desses
de no . ·1·d
. d as c1v1 1 a d e s. açoes, ou seJa, a personificação do laborato' -
al-

rpe;; Momentos e olhares


·e _ Essa filosofia da emergência que Goffman evoca, como ilustra-
o ç~~º d_e sua tese, faz d as interações sociais o objeto da sociologia como
c!enc1a específica, isto é, como disciplina que se dedica a uma ques-
tao que lhe é própria e que dramatiza sua relação com o objeto. Colo-
car a questão "como a sociedade é possível?" é interrogar-se sobre o
que vincula o s indivíduos cuja experiência comum passa da intimi-
dade à trivialid a de, da cooperação ao conflito. Para Simmel, todas
essas diferentes formas concretas da sociabilidade remetem à ação
recíproca. Quer examinemos as interações em sua maior distância, por
exemplo no encontro com o estrangeiro ou na trivialidade dos conta-
tos cotidianos nas ruas das grandes metrópoles, quer ainda no espaço
Partilhado e fl u ido de uma conversação amigável, interagir é analisar
a ~istância das relações sociais (a alteridade ester~otipada do estran-
geiro, o anonimato do transeunte, a reserva manifestada numa con-
a
versação) em termos de ações recíprocas.
É sabido que, referindo-se a um paradigma totalmente d~fer:~te (o
do dom), a antropologia estrutural de Lévi-Strauss fez do prmc1p10 da

. -Simmel. Ge org. o·1gress1ons


II . su r l'e'tra nge r (1908).
. ln: Grafm
. eyer, Y. & J oseph,· Isaac .
L Eco/e de Chicago. Naissance de J'écologie urbarne. Aub1er, 1984. p. 53-9.
. fu <lamento de sua análise das trocas simbólica
.
recip . roc1dade o n Lévi-Strauss, os usos ord'manos
, . d a convivia. . 1·1d entiment
nificanvo que, ~laratrem de uma forma igualmente "não-cristal' das posiç
ritos da mesa I us , d rnente, to
, . ça- 0 nas estruturas elementares o parentesco, e rnos para
Jog1ca em opera · .
·dem simbólica em geral. De fato, estruturahsmo e de síntese
cular e na 01 • , .
· ·'
c1ornsmo coi·nci·dem , ao menos num ponto,
. em sua . anahse das f; Não exist
tares da troca social. Ambos se mteressam mais pela troca d condição
e1emen ~ - · 1· d
pelos atores que trocam, privilegiando as 1or~as nao-cn~ta iza as Co
compreender o que se passa entre dois_ conviv~s ou dois transe dos intera
quaisquer que sejam o conteúdo, a funçao ou o mteresse de sua tr: reciprocid
Reciprocamente, não se pode, pois, entender nem a interc oradores
preensão de dois sujeitos nem a reciprocidade baseada n~Am ~istema ção parec
referências e de crenças comuns. Por outro lado, a expenencia da e mesmo te
versação social demonstra muito bem, segundo Simmel, a força de u "D
pressuposto de igualdade entre os participantes. Será que tal pre lógica úni
posto basta para classificar na mesma "ordem" as interações focalizad troca de
e fluidas que fazem o prazer das conversações entre pares ou a eufori existir. Co
das reuniões agradáveis, a audição de um depoimento num tribunal ou homens
a troca de olhares entre dois transeuntes? entre dua
Notemos, em primeiro lugar, que a afirmação segundo a qual a "O
sociedade não é possível senão pelo fluxo das ações recíprocas pressu- express1v
põe atribuir aos atores sociais a capacidade de pôr entre parênteses mos. O a
parte de seu universo de referência e de evoluir (ou deixar-se enredar)
naquilo que William James chamava de "subuniverso", com seus esti-
los de existência específicos e distintos. Dito de outro modo, a consis-
tência dos laços se organiza em torno de regiões de significação com
suas regras de pertinência que circunscrevem as interações. Assim, o
pressuposto de igualdade de uma conversação sociável é uma regra
local que vale apenas na medida em que os participantes estejam dis-
postos, intelectual e espacialmente, dentro de um círculo onde o acesso
à palavra seja reputado como igual para cada um deles. A regra do
"como se" limita suas interações e o resultado de suas interações, sus-
pende do jog? as_ referências e os interesses. E o que a sociedade perde p
em form~s cr~stahzadas, e~a g~nha ei:n formas de consistência situada. É
essa con1unçao de emergencia locahzada e de pertinência limitad e
- d - ,
Se escon d e na noçao e açao reciproca de Simmel:
a que
"Toda vez que as partes se aproximam que as pe .
para realizar uma tarefa em comum, que el~s com _slhsoas se Juntam
parti am o mesmo

12 L . . d 1
e pnnc1pe e a réciprocité. ln: Les structures élém .
p. 68-71. entmres de la paremé. PUF, 1948.
CI VILI DADES

19

sentiment~ ouª mesma m~neira de pensar, toda vez que a distribuição


das pos1çoes de dommaçao _ou de subordinação se exprime clara-
mente, toda vez que fazemos Juntos uma refeição ou que nos arruma-
mos para os outros - em cada uma dessas manifestações dos fenômenos
de síntese, o mesm~ grupo experiencia 'mais sociedade· do que antes.
Não ex!ste uma soc~edade 'como tal', isto é, uma sociedade que seja a
cond1çao de emergenc1a desses fenômenos particulares." 13
Como se vê, as ações recíprocas não implicam nenhuma simetria
dos interagentes em seu poder de interagir. Simmel pode, assim, falar da
reciprocidade das interações entre um superior e um subordinado, um
orador e seu público, um professor e seus alunos. Mesmo quando a rela-
ção parece ser de mão única, todas as interações são ativas e passivas ao
mesmo tempo, como se pode constatar na troca de olhares:
"De todos os órgãos dos sentidos, o olho tem uma função socio-
lógica única. A união e a interação entre os indivíduos se baseiam numa
troca de olhares. Talvez esteja aí a reciprocidade mais pura que pode
existir. Contudo, a mais forte reação psíquica pela qual um olhar une os
homens não se cristaliza em nenhuma estrutura: a unidade que surge
entre duas pessoas se faz presente no momento e se dissolve na função. "
~a "O olhar pelo qual procuramos perceber o outro é em si mesmo
ru- expressivo. Pelo olhar que desvenda o outro, desvendamos a nós mes-
ies mos. O ato pelo qual o observador procura conhecer a pessoa que ele
~~) observa é uma capitulação através da qual ele próprio aceita ser obser-
'tl- vado. O olho não pode tomar sem ofertar ao mesmo tempo. O ~ue se
1S-
produz nessa troca de olhares constitui a reciprocidade mais perfeita em
m todo o campo das re lações entre os h omens. 14 0
. .
o Em suma se numa conversação o princípio de rec1proc1dade
rra
exige que os inte~agentes saibam falar e calar-se, na troca de olhares sua
IS-
visibilidade mútua faz com que sejam simultaneamente atores e obser-
SO vadores.
tio
US-
Je
É Pluralidade dos mundos e divisão do eu
1e
.. . _Considera-se que essa ~oncepça- 0 . de ito interação tem ecanse-
ue interage, vere-
quenc1as para a defini ção filosofica do suJe q
n

l ~~ SirnrneJ, Georg. Le problême de la sociologie. [1908]. ln: Wolf, Kurt (ed.). Georg
1
4rn rne1 J853

1 1 -1918.
. · · p
Ohio Umvers1~y r~s ·
s 1959. p. 320.
. Sociologie et épistémologie. PUF,
1 rnrne1. Georg. Essai sur la soc1olog1e des sens. 1n.
981
· P. 223-38.
ERVING GOFFMAN E A MICRosso
20

ue não se trata precisamente nem de um eu nem de um


mos de
q um si mesmo (self) cuJa · um'd a d e e' probl emauca,
' · já qu meca
mas ,
individualiza na sua divisão. Esse e um argumento empresta riênd
outra filiação importante da microssociologia, o interacionism objet
bólico. 1s Trata-se, também aqui, de uma filosofia da comunicaç se de
de urna filosofia da emergência, do presente e do ato.
Para Mead, a emergência designa a experiência social elema indiss
corno capacidade de se inscrever numa pluralidade de sistemas e de PQ niçõ
noçã
tos de vista. A socialidade é a "capacidade para ser muitas coisas ->~·"IMlln'
nalid
taneamente"; 16 e, como tal, já está presente na experiência daquele q nece
fala e se ouve falar, na criança que vê a si mesma pelo pensamento no tiva e
papel do vendedor e do cliente, da professora e do aluno. O momento mun
transição entre dois sistemas e seus ajustes mútuos é que define a sociali mun
dade, e não os resultados a que chegam esses ajustes. rede
Assim, a questão de Simmel (" como a sociedade é possível?") plura
muda de significado, pois todo ato implica a cooperação de mais de um nos
indivíduo e que todo pensamento subjetivo se insere num mundo por \l
comum como reconstr_u ção representada desse mundo ou das ações nos ,
que nele se desenrolam. Para definir a socialidade, tanto para Mead resp,
quanto para a tradição pragmatista, é preciso compreender a experiên-
cia do ajuste, simultaneamente ato e ato de presença de si mesmo. O tes n
ajuste implica necessariamente e ao mesmo tempo uma divisão de si e da
mesmo e uma forma de cooperação. O ato de presença de si mesmo pelo
qual um organismo consciente passa de seu próprio sistema ao dos
outros não pode ser ato de um organismo singular. 17 É nessa divisão tos
recíproca que se constrói a objetividade de perspectivas, condição da lógi 1

cooperação ou coordenação de atividades. O conhecimento ordinário, tota


que consiste em passar de uma perspectiva a outra ou em coordenar as mes
perspectivas na ação, é uma realidade dinâmica, simultaneamente coo- care
peração e comunicação. tur
Mead prefigura assim não apenas os trabalhos do interacionismo
simbólico, mas também as teses de Habermas 18 sobre a ação comuni-
cativa, já que ele sustenta que a linguagem e a comunicação são os

1
s De G. H. Mead (1863-1931), pode-se ler: L'esprit, lesai et la société. PUF 1963 . M _ sua
phy, Arthur E. (ed.). The philosophy of the present. University of Chicago p; ~r
1980
The philosophy of the act. University of Chicago Press, 1938. ess, 'e
16
P~ilosophy of rhe present. [1932). University of Chicago Press, l 980
17
"E na medida em que a atividade de um organismo é parte const' · ?· 49 ·
~isso organiza~o que se _ab_re es~a ~ossibilidade." (lbid., p. 82 .) nunva de um pro-
Habefn;ª~· Jurgen. Theone de 1agir communicationnel. Paris F
I 24; De l'erhrque de Ia discussion. Paris, Cerf, 1992. ' ayard, 1987. v. 2, p. 7- cien
CI VILIDADES

jeito 21
só se' mecanismos da man}festação _do eu e do próprio espírito como expe-
o de O
riência social. O eu e organismo que pode tomar a si próprio como
sirn- objeto - ele pode_se ouvir falar; como tal, é uma "estrutura social" que
se desenvolve mtei:amente numa experiência de comunicação.
A _cooper~çao dos organismos e sua comunicação são, pois,
ntar indissociaveis e so podem ser concebidas graças a uma série de redefi-
Pon- nições do vocabulário da psicologia social. Primeiro, redefinição da
rnuJ- noção de pessoa: a pers_onahdade múltipla e "dissociada" é uma perso-
que nalidade_ normal. Depois, redefinição de seus engajamentos, que são
no necessariamente plurais segundo os registros de atividade comunica-
da tiva aos quais se ajustam. Redefinição, ainda, de sua relação com o
[riali- mundo, já que a divisão do eu não é senão o efeito de uma presença no
mundo, de uma vida social fora de si mesmo. Por último, e sobretudo,
1? ") redefinição da relação com os outros, já que só podemos conceber a
rum pluralidade dos mundos se soubermos representar e entrar em cena,
rido nos colocar no lugar do outro (para adotar sua perspectiva), nos tomar
bes por um outro (e desempenhar um papel) ou, o cúmulo da socialização,

r~
~ad nos dirigir a todos e a cada um, qualquer que seja seu mundo, isto é,
responder ao "outro generalizado".
O interacionismo simbólico explorou largamente esses diferen-
f Sl tes níveis da comunicação, da conversação por gestos da briga de galo
rlo e da luta de boxe à linguagem e sua função simbólica. O que é preciso
laoºs reter desse duplo legado, de Simme1 e de Mead, é sobretudo a tensão
que ele estabelece entre a pluralidade dos mundos e dos engajamen-
tia tos no mundo e a lógica dos momentos. A conversação é a metáfora da
o, lógica dos "subuniversos", não no sentido de sua_ integração a_ uma
totalidade superior mais significativa, mas no sentido_ de que sao ao
~s
o- mesmo tempo vulneráveis e limitados, man;ados ~ela mcompl,etude e
carentes
t de sustentação. Esse termo voltara frequentemente a hte~a-
ura microssociolog1ca:
. . , . e 1e m
. d·ica qu e os mundos
• . que ela descreve
. sao
ora férteis e capazes de exercer uma influencia (a. a~entura, 0 Jogo, ª
Prova decisiva) ora abertos, parasitários ou rotmeiros, ameaçanbd?
romper-se·
12 ora momentos que tem a ,orça
' A ç . .. de mod'1-
de um culto• capaz
J' 0ar os crentes
' (a conversaçao
_ soc1a
. 1como "união m1st1ca , como 12
G ffrnan), ora interações não-foca1·1za das e pessoas co-presentes em
sua visibilidade mútua.

O vocabulário das interações


P
. ara compreender a ongma 1 ªde desse legado no .concerto
. · 1·d -
científico da soc10
. log1a,
. po de -se confrontar esse modelo de mteraçao
ERVING GOFFMAN E A MICROS
22

- recíproca e emergente com o modelo proposto


como açao . . d.,
da corrente estrutural-func1onahsta na ecada de 1960
sares A tradição sociológica há muito definiu a noção de ir·ltel..
c orno um sistema interativo que comporta . pelo menos quatro
nentes: um conjunto de unidades que interagem umas com as
um código ou um conjunto de regras que estruturam tanto a
ção dessas unidades quanto a própria interação;. um sistema ou
cesso ordenado de interação; por fim, um ambiente em que o
opera e com o qual se verificam trocas sistemáticas. Contraria
hipóteses simmelianas e interacionistas, tal modelo postula, ~-,•-
saída a exterioridade de cada unidade interagente em relação as UUli-
e a exterioridade do código que estrutura suas interações. Esse m
mínimo se complica já em Parsons, pois trata-se de elaborar uma tt:I.Jll'a
da ação, uma vez que todo ator é ao mesmo tempo agente ati
objeto de orientação para si mesmo e para os outros. Todo agente.
sistema, se orienta para si mesmo e para os outros e tem, como obje
uma significação para si mesmo e para os outros. Ele é, pois, simulta
mente sujeito e objeto de conhecimento, capaz de instrumentar e de
instrumentado, de vincular-se e de ser objeto de vinculação, de avaliar
e de ser avaliado, de interpretar os símbolos e de ser o próprio símbolo.
É isso que a tradição sociológica sintetizada por Parsons mantém do
g rn né
interacionismo simbólico de G. H. Mead e da obra de Simmel.
ou qu
A maior dificuldade com relação a esse paradigma é que ele íntirno,
recorre necessariamente a uma psicologia implícita e pressupõe uma ou do
análise da interação em duas fases distintas; para citar Parsons: "o que r •nlidc
se passa no interior de cada unidade de ação e o que se passa entre essas Urna e
unidades". O primeiro processo é o da "decisão"; o segundo, o da s rr p
"comunicação". Dito de outro modo, o modelo conserva as bases da justifi
divisão do trabalho disciplinar entre psicologia e sociologia: numa, o
estudo dos motivos da ação; noutra, a análise da ordem social como
"coisa" exterior e mundo normativo. O processo de socialização é, pois,
a internalização dessa ordem, a codificação e o controle das condutas
que sua integração ao sistema possibilita.
Ora, a noçã~ de. sistema de atividade situada proposta por Gof-
fman desde seus primeiros textos remete a outro paradigma co 1 _
ct· El d . . . mp eta
m ebnte i~erso.. ~ es1gna a atividade não nos seus motivos e na sua
e1a oraçao subjetiva, mas nas suas conseqüências e no seu b , .
· - · d ·
isto e, no Jogo as interações verbais e não-verbais que uoca
· ulano '
constituem seus 20 s·nu
13, De
19 Ver Parsons. T. Imeraction. ln: International Encyclopedia of S . . 21 Os
p. 429-71. oc1a/ Sc1ences. 1968. v. 7. Gurnp
da revi
CIVILIDADES

recursos. É essa concepção de atividade situada que é defendida por C.


Wright Milis2 º desde a década de 1940. .
. . . Wright Mills convida a
Partindo de uma soc1olog1a da 1mguagem, fu
· ·d d em vez de sua n-
estudar sua função de coordenação das at1v1 a es.. . .
_ . d mativa Assim o rnouvo
Ção expressiva ou sua .funçao integra
-
ora e nor · ·
d linguagem que se 1ns-
.
não é a origem subjettva da açao, mas um ato e . .
creve num vocabulário disponível para os atores soc~a1s ~ que lhes per-
mite interpretar uma conduta. O motivo é, em pnmeiro l~gar, urna
IS. maneira de responder a uma questão a respeito do que a açao tem de
OUtr inesperado ou a respeito de suas alternativas apresentando urna des-
odeio culpa ou uma justificação. É também um modo de atribuir urna causa
teoria utilizando as palavras mais convenientes ("não podia fazer de outro
tiva e modo", "era mais forte do que eu"). E essas palavras não se referem aos
te. no elementos "internos" aos indivíduos: "Estão lá", diz Wright Mills, "para
bjeto. as conseqüências situacionais antecipadas de uma conduta sobre a qual
anea- algumas questões se colocam. Os motivos são os nomes que se dão às
situações que têm conseqüências e falam pelas ações que têm conse-
qüências". O motivo, portanto, só se constitui como realidade psicoló-
gica por sua reconstrução a partir de uma questão. Por outro lado, é
indissoluvelmente um fato social e um fato de linguagem. E a lingua-
gem na qual ele se constrói não é nem a expressão direta de um sujeito
ou aquilo que ele comunica a outre m após tê-lo decidido em seu foro
íntimo, nem tampouco o grande integrador, a versão maior do código
uma
ou do controle normativo das condutas. Uma situação constitui-se em
que
realidade de pleno direito em relação a uma testemunha que a questiona.
essas Uma atividade situada é, pois, uma atividade descritível ou suscetível de
o da ser repetida e que os participantes explicam em seu vocabulário mediante
es da justificativas, desculpas ou reparações.
a, o
como Vê-se aí pela primeira vez a vontade de delimitar um campo de
, POIS, estudo propriamente sociológico centrado nas situações, liberto da psi-
duras cologia social e apoiado numa sociologia da linguagem. É essa mesma
vontade que se manifestaria 20 anos mais tarde por ocasião de um coló-
Gof- q~!º· em 1963, reunindo antropólogos, sociólogos e lingüistas. 21 Ela
leta- vma marcar a guinada lingüística nas ciências sociais e n aliança entre a
sua etnografia da comunicação e a sociologia das interações. As noções de
ano,
seus ~s- -
13 ~~ated actions and vocabularies of motive. American Soc1ological Heuiew. 6:904
21 • e. 1940
Os anais · , . . .
Curn desse coloqu10. do qual part1c1pmam, entre outros. D 11 Hym ·s . .John
7. Pe 17·• \V t llt '. m L u"'b ov e E1·vmg Go ffmnn. 1or,1m
da rcvist · r • pu l >11c· ,Hl ns 'lll num
· •ro spl'u.il
.
;i Amerrccm Anthropologisc. 66(6), De·. 1964.
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc
24

situação e de sistema de atividade situada tornar-se-iam então ce


confirmando o duplo distanciamento em relação à lingüística est de Go
e à psicologia social. zada, <

motiv<
da iro:
Corretivo cômico a adol
ência:
O título do artigo de Wright Mills, "O vocabulário dos motivos.,I
çáo à~
t:\. oca os trabalhos de um filósofo e crítico pouco conhecido na Fran~
de Gc
e cuja influência foi decisiva na formação de Goffman, assim como da capa9
fenomenologia social de Harold Garfinkel ou da etnografia da comuni- situaçj
cação de Dell Hymes. Com efeito, Kenneth Burke (1897-1993), autor de mente
uma obra intitulada Grammar of motives, foi o primeiro a introduzir a ~ssiml
idéia de uma abordagem "dramática" dos fatos sociais. É curioso que o vista a
artigo de Burke sobre a noção de drama na International Encyclopedia of tar: el,
Social Sciences figure no mesmo capítulo que o artigo de Parsons, ambig
desenvolvendo uma teoria completamente diferente da interação e da grau"-1
ação. Para Burke, todo estudo das relações entre os homens em termos (trata1
de ação (quer se trate de transação. troca, cooperação ou competição) classi~
pode ser denominado dramático desde que tenha por função respon- árabe]
der às questões que são clássicas desde a escolástica: Quem? O quê? dos o~
Onde? Quando? Por que meios? Por quê? De que modo? Tais questões
pretendem estabelecer uma relação entre um ato e seu agente, um ato das nj
e a cena na qual ele se desenvolve, um ato e os meios que ele utiliza ou conve 1

os fins a que se destina. Por exemplo, a relação ato/cena examina as cir- comp
cunstâncias de uma ação e a relação ato/propósito, seu potencial de jus- super !
tificação. Assim compreendido, o drama, longe de ser uma metáfora, necesi
diz Burke, é a forma que permite compreender a realidade da ação e o zado,
fato de a linguagem não ser senão uma espécie de ação. Dramatizar O pra
uma situação é transformá-la em história passível de ser contada e, arti- não é
culando-a segundo a gramática e o vocabulário dos motivos, dar-lhe nosso~
regist
uma representação.
quest§
Uma anedota representativa é precisamente uma rotina cognitiva enten 1

ordinária, uma fórmula do senso comum pela qual se representa uma


situação dando-lhe alguma forma de legenda, elevando sua especifici- típica
da_d~ à dignidade de um gênero (ver Coluche: "Esta é a história de um Interaq
su1eito ... "). Mas nem todas as anedotas são representativas. Para ser nênci
repr_esemativa, a anedota deve ter um poder metafórico que autorize O
ouvmte ª tr~nspor sua significação, que lhe permita "situar" o que lhe é
narrado,
e vmcular
d a s·t1 ua~ao
- a uma exp~nenc1,a
. ~ . mais
. geral e, portanto, 22 , ,
ver
1
s~s~euve e ser compartilhada. Assim, e poss1vel encontrar toda uma Minuit,
sene de anedotas representativas dos percalços das civilidades na obra
CtVI LIDA D ES

25
lS,
de Goffman: confortar um perdedor encontrar um . .
ai · pregar uma peç
zada conversar com um desconhecido a pessoa est1gmat1-
,
' _ · a em a1guem etc.
Enfim, a noçao de anedota representativa e a "G , · d
,, d 1 , · ramat1ca os
motivos e que eª e mstrumemo pertencem a uma teoria mais geral
da ironia como es~rutura e qualidade da visão sociológica que convida
22 em relaçao aos mundos sociais uma perspectiva por incongru-
a adotar
" ência. Perspectiva profundamente crítica e desmistificadora em rela-
~a ção às categorias, que retoma a ironia socrática e atravessa toda a obra

~~1-
de Goffman, especialmente Les cadres de l'expérience. Nessa teoria, a
capacidade de representar dramaticamente uma experiência ou uma
e situação é uma liberdade da qual todo ator comum se vale natural-
mente p ara adaptar o vocabulário que convém à descrição que ele faz.
a
Assim, a contece freqüentemente que ele acabe por adotar um ponto de
o
vista cuja incongruência seja pertinente para aquilo que ele quer rela-
f tar: ele se dá conta das ambigüidades do real, manipula e acentua essas

~
ambigüidades (trata-se do recurso à piada), acrescenta um "segundo
grau" à significação literal de uma palavra ou de um comport~mento
(trata-se do lado cômico da repetição), brinca com as categonas e as
classificações (" Esta é a história de um judeu qu~ enco~tra um outro
n-
1

árabe") etc. Com isso ele pede aos atores que se veJam ~g1r co;n? ol?,ar
dos outros e usa às vezes da ironia mobilizando "corretivos com1cos ·
rs Vê-se como o estudo das interações sociais se afasta do estudo

~u
das normas de polidez. como e 1e pro bl ema t.1za a ordem dos usos e ,das
conveniências em que' consiste . o d ommio
, · das civilidades
. · O carater
d ,
ir- .
complexo de nossas sociedades - se d e1xa
nao · reduzir ao. amontoa .d o e a
1
lS-
superposiçã o das normas. So~os n?s , que, P~ ra produzirtêm sentideo,cristali-
temos
·a, necessidade de "corrigir" as s1tuaçoes. na~u1 o que edaª~u1 conveniente.
zado, de nos libertar a or em ~
o . d d omurncauva espera
civilidades ordinárias
ar O processo de civilização fabricado por_ nossasintegração cultural de
- , . d ela repressao ou
h~ nao e aquele caracteriza o P
. .
nossos impulsos expressivos, ma
s outro semp
_ '
re mais inventivo, que
responder a uma outra
registra a parte "déjà u_u" das situ_açoes.. r;:i:dade a mais", tal como a
va questão que está implícita: a questao da
na entendia Simmel. nhamento e embaraço
Cl - . -es de estra d
· Concentrando-se
r.1P1cas nas sttuaço
-
dos contatos entre popu 1açoe
s e cu Itura
s diferentes, o estudo as
. a vulnerabilidade e a pert1-
.
1n!erações proposto por Goffman exami~a espaço público da rua, 0
nencia das convenções locais. Transpon O °
22 . d'Erui·ng Goffman .
. , ln· Le parler-{rms
~lVlJn
•. Vier' Watson , Rod. Le travai! de i··inc ongrune. ·
Utt, 1989. p . 83-99.
26 ERVING GOFFMAN E A MICRO

princípio de reciprocidade observado nas tro~~s. entre con:


interroga o fato mesmo da co-presença e da v1s1b1hdade mútu
giando a influência do momento em vez das estratégias d
constrói subuniversos onde suas identidades se fragmentam e
dem. Enfim, atribuindo a cada situação os recursos de uma Jin
estratificada, confere aos interagentes uma capacidade partic
sobredeterminar ou reenquadrar sua experiência do momento.
Rituais

O DIÁLOGO QUE
Les relations en public
GOFFMAN estabelece com Durkheim em
é curioso. Ele começa por demonstrar sua
preferência pela concordância ("sim, mas"). Sim , ele fala a mesma
linguagem , aquela das Formas elementares da uida religiosa. Embora
as cerimônias já não sejam as mesmas, quando perguntamos as
horas a urna pessoa. não nos contentamos em formular uma per-
gunta, mas fazemos um pedido formal: desculpamo-nos por inco-
modá-la, agradecemos e ela responde aos agradecimentos. Temos
aí uma pequena veneração, ordinária e cotidiana, e essa religião
precisa ser explorada.
Por que, então, a concordância com Durkheim não é total, e
onde está o "mas"? É que, diz Goffrnan, os etólogos, que sabem obser-
var as trocas d e olhares e a linguagem corporal num campo de visibili-
dade mútua, a percepção das ameaças e dos alarmes num território,
utilizam um outro conceito de ritual. Será necessário, portanto, enxer-
gar as formas da vida religiosa nas sociedades contemporâneas com
lentes de duplo foco e analisar nossas devoções com a linguagem da co-
presença nos espaços públicos. ..
. O Du rkheim que Goffman retoma é aquele que lernb:ava a
1rnponância primordial conferida por quase todos os cultos a .part~
rnaterial das e · 23 aquele que também notava que a ntuah-
d "N- h ,
A • ,,

enmornas , fu .
ª?e generalizada é uma ritualidade fragmentada e rnva: ~o ª
religião, por mais unitária que seja, que não reconheça uma pluralidade

23
Durkheirn, Érnile. Formes élémenraires de la vie religieuse . PUF. 1979. p. 48.
ERVJNG GOFFMAN E A MICRossocr
28
. das" 24 Com essa pluralidade se estabelece, se na
de coisas sagra . d 'd 1· . ção que re
. . d s formas elementares a v1 a re 1g1osa, pelo men
relauv1smo ª , . . f , sageiros nu
. "contágio , diz Durkhe1m, que az com que o carater sagr Se a
Jogo, umde permanecer vinculado às coisas que são marcadas por el
em vez , que os gr~
racterize por urna espécie de fugacidade. Qualquer que seja o das" - te
~:s proibições que separam o sagrado do profano, ele se conjuga co campo de
mobilidade de forças religiosas "que é impossível vincular às coi ordem da
onde nós as localizamos" .25 ritos positiv
Se a separação entre o sagrado e o profano é influenciada pel despedidas.
contágios e hibridizações, então é a experiência da confusão dos dom{.. ticipante se
nios que cumpre estudar, a experiência de sua ilegibilidade local (o emba-- mentos e as
raço), os riscos da crença e da confiança (o descrédito), a vulnerabilidade interdição ft
dos valores (a arte da falsificação). As sociedades contemporâneas fazem bilidade do
circular os valores como uma pequena moeda e acentuam, com a mobi- ao princípio
lidade das pessoas, a mobilidade dos rituais e das crenças que os funda- soa deve po
mentam. vara reput
A cir<i
sucessão de
Normas de conjunção e vida pública exemplo, q
maneira ou
"O ritual é um ato formal e convencional através do qual o indi- incomodá-!
víduo manifesta seu respeito e sua consideração por um objeto de valor protegido d
absoluto ou por sua representação. "26 uma fila de
Goffman, depois de ter assimilado essa definição de Durkheim, que nela es
observa, numa nota, que o termo "ritualização" é muito empregado "Assim, a fil
pela etologia num sentido derivado que designa, diz ele, "um modelo A or
c?mportamental adaptativ~, deslocado de sua função original, enrije- escolar, por
cido na sua forma e com smal trocado ou 'desencadeador' dentro da ação espa
espécie" .27
Para explicar como se combinam essas duas referências à socio- 8
logia das religiões e à etologia animal e humana, pode-se desde · , ... ou de dois
· ·d d d · · Ja hez les primat
~b servar ~ prox1m1 a e entre os 01s conceitos: a convencionalidade, a
Ociologia , ver
robustez , e o fato de que a função do rito não esgota seus usos théorie de J
sua efi cacia.
; · Resta a d'1stanc1a entre a consideração pelo sagrad nem
A •

ernbremos ig
valores que transcendem uma relação e as simples normas d
O
~ os laicização da
e conJun-
_durante as q
24
Durkheirn É - R __ .
ªº·
oi ·
Assim, a 0
2s Ibi·ct P · mi1e. ormes elementarres de la vie religieuse. PUF Vida se apro~
45 · 1979 . p ' 57 ·
26
., · 5-62 .
Les relations en Publ . ~ 10 foule. PUF, 1
lC. p. 73.
O Les rites d''lntc
27 · -
Essa defirnçao é tom d
chez l'homme et l'ani ~ a d_e empréstimo de Julian Huxley (Le e . ~ee, John &
ma· Pans, Gallirnard, 1971). ornporternent rituel lS1biJité de la
}ltT UAI_s_ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __!:!__29

çáo que regem, de .~~neira imanente, a co-presença banal de dois pas-


sageiros num metro.
Se a etologia. contribui
. com idéias novas para a sociologia e' por_
que os grupos sociais que ela estuda - "bandos, rebanhos ou mana-
das" - têm esse traço particular: seus membros permanecem no
campo de uma percepção mútua. A visibilidade mútua especifica uma
ordem da vida pública e, para as nossas sociedades, significa que os
ritos positivos ou de confirmação mais comuns são as saudações e as
despedidas. O princípio fundamental dessa ordem reza "que todo par-
ticipante se abstenha de destruir a reputação dos outros". Os procedi-
mentos e as competências de apaziguamento se reduzem todos a essa
interdição fundamental, a esse noli tangere que é a condição de possi-
bilidade do face a face. A forma elementar da violação é, pois, a ofensa
ao princípio de reciprocidade prática que rege a vida pública: uma pes-
soa deve poder "contar com o tato e a probidade do outro para preser-
var a reputação e a imagem que tem de si mesma". 29
A circulação dos transeuntes pode, assim, ser descrita como uma
sucessão de acordos de visibilidade completamente ritualizados. Por
exemplo, quando duas pessoas estão falando ou manifestam, de u~a
maneira ou de outra, que estão "juntas", a regra prescre~e que se evite
incomodá-las passando entre elas e que se respeite. assim, um espaço
.
protegido . -
de co-onentaçao. 0 o mesmo modo , quando . . se, atravessa
uma fila de espera ha, uma linguagem
. corp oral que md1ca as pessoas ,
' d
que nela estão que o que se preten e nao e - , furá-la ' mas atravessa-
. . d ..130 a.
. , 1d e d'JreI·ros' , permanece mv10 1a a.
..Assim a fila como 'ordem vis1ve

~ ord~m da vida pública (isso é q~e a ~~t~~~~eo~!ç~;~~~::


escolar, por exemplo) _é a~tes de tudo~ ?r e: conjunto de tr~nsações
dação espacial e terntonal, mas tam em u

28 . , . ,,.
o terntono. ver W.aal , F. de. De la .réconciliation
.. ,
... ou de dois macacos em um mesm tribuições da etologia cognmva a
h . 1992 · Sobre as con
e ez les primates. Flammanon, . . gie Contribution de 1,et h o 1og1e . a,
. . ver Conem, 1
. Bernard . Et h O )og1e et SOCIO. o de. Socio/og1e, . 33:87-104, 1992 ·
soc10Jog1a,
\ - . . . . 1 R uue França1se ,, _ ,
a theone de l'mteraction soc1a e . e . e "civilizada da conversaçao e
L rr d a forma suu1
embremos igualmente que, para iar e, superior para levar presentes
ª 1a1c1zação
. . .
das visitas que se faziam ao
suserano ou ao .
. ntos e agradecimentos de prote-
e durante as quais era necessano , · t rocar cumpnme bem que sua forma mais · d esen-
ção As · - seria a prece, se . L' · ·
· sim, a origem da conversaçao d' a"ncias e das harmonias. op1n1on
Vo\ vida. se aproxime do canto como ar te das isson
~Vª foule. PUF, 1987. p. 1-62 .
30 Les rites d'interaction . p. 39. habitudes des passants; les arrangements de
v·1 ~~~· _John & Watson. Rod. Regards et Recherche Urbaine (57/58):101-9.
sib1hte de la locomotion. Annales de la
30 ERVING GOFFMAN E A MICROSSOCIOLOGIA

relativas a um objeto - a reputação - de natureza completamente


diversa da de um corpo ou de um espaço. A acomodação é um princí-
pio de ordem espacial de circulação em que a fluidez está assegurada
por uma espécie de dissuasão cooperativa, mas está igualmente no
cerne de uma ordem negociada e emerge dos encontros que exigem de
cada participante métodos e procedimentos de justificação pelos quais
cada um presta conta de suas atividades perante os outros, protege sua
reputação e a do outro.
É essa dupla dimensão da ordem pública - ordem de circula-
ção e de justificação - que resume o princípio de acomodação. Ele
rege os acordos territoriais (entre "unidades veiculares" ou "bolhas de
pertinência em movimento") e, por outro lado, remete à dimensão dia-
lógica de todo ritual: toda prestação exige uma contra-prestação. Mas,
diz Goffman, há mais: o que a etologia acrescenta ao dispositivo clás-
sico de análise dos ritos é, no que se refere ao espaço, a compreensão
do primado das trocas reparadoras sobre as trocas de confirmação. Essa
afirmação merece ser explicada.
Na medida em que a co-presença é tratada em si mesma, ela
desenha uma socialidade que geralmente se preocupa mais em "liberar
a circulação", em não criar caso, do que em punir os contraventores.
Pode-se pensar aqui em todas as formas de acordos que regem a circu-
lação pedestre ou nas diferentes maneiras de "fazer vista grossa" a com-
portamentos que reprovamos mas que são considerados de menor
gravidade ou cuja ambigüidade preferimos enfatizar. (Qual é a dife-
rença entre alegre e bêbado? Entre uma brincadeira de gosto duvidoso
e um assédio sexual? Como distinguir um torcedor fervoroso de um vân-
dalo típico?)
"Numa sociedade complexa, a desorganização social é apenas o
desmoronamento de um dos componentes do todo, e o todo não está
tão fortemente integrado que possa desmoronar por causa disto. "3 1
Dito de outra forma, a sintaxe das condutas se acomoda a toda
uma série de dialetos que se organizam em regiões de significação des-
contínuas; o que acontece nessas regiões, embora seja visível, nem sem-
pre nos diz respeito. Vê-se que o princípio de ordenação desse modelo
consiste mais em conter suas extravagâncias do que em controlar a exe-
cução de uma regra. O trabalho da sociedade sobre si mesma não é
tanto um trabalho de integração de indivíduos e de grupos, mas um
processo de mobilização que coordena as condutas e repara as ofensas;
Resta saber como se conjugam o modelo da circulação, cuja função e

31 Les rites d'interaction. p. 13.


RITUAIS

31
conter os incidentes, e O mod 1 d . . _
nado a manter a atividade ritu:i° N~ JU~ttfi~açao (da "resposta"), desti-
belecer o curso da ação · no s · d primeiro modelo, reparar é resta-
, egun o rep ,
das perspectivas e O caráter , blº ' arar e salvar a reciprocidade
pu ico da ordem.

O valor da reputa - .
, çao. ª rua e a conversação
.. E bem possível que a ca acid d
regras morais pertença ao individuo a e geral para est_a_r ligado por
fazem dele um ser huma ~ ' mas as regras pai t1culares que
no provem de necessidad · ,
nização dos encontros sociais... es merentes a orga-

tros soci~~ss:~~ ~:::;;~~!i~;1~:tqe~::e; à do_rg_arnh·zação do,s e~con-


ct· · - · . . on 1çao umana e feita de
isposiço,es mterac1onais_que vão além das diferenças culturais? Em todo
c~so, esta claro que a m1crossociologia não tende, em absoluto para
diversas formas ~e r~lativismo cultural: "Os homens são semelh~ntes e:
esmat ela todos os lu~ares , diz Goffman sem hesitação, mesmo que "a natureza
m "liberar h~mana um~ersal não seja ~uito humana". 3Z Os homens são seus pró-
prios carcereiros, e portanto e normal que suas disposições rituais variem;
mas para compreender a força dos rituais não se deve atentar para as
a., a com- pessoas, e sim para os ritos enquanto dispositivos de socialização e de
figuração.
e menor
é a dife- Na verdade, são a reputação e o valor da reputação que melhor
duvidoso nos falam das formas elementares da religiosidade, e é o face a face
'
essa díade humana elementar, que cumpre analisar para dominar 0
um vân-
vocabulário das interações. É difícil dissociar aqui a obra de Goffman
dos trabalhos que ela inspirou 33 e que acabaram por alicerçar empi-
apenas ~ ricamente seus conceitos. Por exemplo, se o essencial das civilidades e
não esta das formas de polidez serve de guia para a atenção, cabe perguntar
"31 como se mantém e como se chama a atenção de outrem. Sabemos
[O.
a a roda todos que o fato de manifestar nossa disposição para ouvir influencia o
çáO deS- desempenho de um locutor e que todas as modificações do olha r de
errt sern- quem ouve modificam o empenho de quem fala. Do mesmo modo,
rnodelo um locutor normalmente competente, que conta uma história, por
ar a exe.. exemplo, sabe como encadear as frases para sincronizar sua produ-
a não é
rnas urr> 32 Les rires d'interaction. p. 4 1.
ofensas, 33 Por exemplo, Kendon, Adam. Conducting inreraction. Patterns of behauior in focused
nçáO é encounters. Cambridge Unive rsity Press, 1990; Goodwin, ~harles. Conuersational organi-
zation. Jnteraction between speakers and hearers. Academ1c Press, 1981.
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc10 jl
LOctA
31~2---------------------------.:.:_ fV
~I

_ com a a ti·vidade daquele que o escuta


..r e que, .na maior Pane do
Çao _
tempo esta/ .r1azendo outra coisa. Marn1estar uma onentaçao mútua ou
. 't e/ pois ora falar olhando ao longe (começamos a falar ou
con1un a , , .. . d · / ·
hesitamos em prosseguir), ora d1ngir o olhar para o est1~atano (apres-
samo-nos em dar-lhe a palavra), ora olhar com atençao, ora deixar
vagar O olhar (procurando lembrar um nome ou uma palavra e espe-
rando ajuda) etc.
Dito de outra forma, o programa durkheimiano de uma pesquisa
rigorosa sobre a materialidade das cer~mônias requer os i/n~trumentos
de análise da comunicação verbal e nao-verbal que a analise da con-
versação e a etnografia da comunicação desenvolveram para o estudo
das situações comuns de face a face. Assim, trata-se sempre da face,
mas menos de sua sacralidade simbólica que do vocabulário do res- erarn
peito ordinário.3 4 pode a
No universo da polidez, nos usos ordinários e evidentemente nos ~áo ps
manuais de sauoir-uiure que pretendem explicitar-lhe as normas, pres- represe
supõe-se uma ordem de lugares e de reputações. Por outro lado - e Em Ou
isso é que os paradoxos da polidez permitem introduzir -, em todas as du~áo
situações sociais em que os lugares não estejam previamente determi- COffiU!ll
nados desenrola-se um drama que denominaremos "o mal-estar na emusia
interação". Sua trama principal, já formulada por Durkheim e Lévi-
bem lol
Strauss, diz respeito à dupla injunção a que os homens devem obede-
segunct
cer: a pessoa humana é uma coisa sagrada e seus limites não devem ser
nários
vi?lados; e: ao mesmo t~mpo, o bem supremo exige que esses limites
Por ou
se1am abol~d?s e :iue haJa comunicação com O outro. Para obedecer a
eia ea
essa: duas mJunçoes, p~r~ se most_r~r igualmente competente diante de
um intruso ou na cond1çao de sohcnante diante de · / tá~io e
. . . / . um superior, e pre- fenorn
ciso, pois, estabelecer um principio radical (uma "fi - d. /· "
. L · ) d r. ·
d iz evmson , o a o,ensa uirtua,1 que reza· "Cons·d icçao ip 1omattcah/, sb e
UStit
.
uma mterpretaçao _ dos seus atos que é pior· do qui ere sempre que a
A • •

nar". Esse princípio da pior interpretação pode ser e voce pos~a 1magi-
universo de manipulações e constrangimentos ond compreendido nu~
na atribuição de intenções por quem quer que ob: 0
acordo se baseia
e, portanto, em último caso, no julgamento de um i~ve : que _fazemos
1
ritos de salvaguarda da reputação são, pois, dispost~· polidez~ os
contra o gemo ma 1·1gno d as mteraçoes,
A • · - - aquele quçoes preventivas
nao .

sistematicamente, como o gemo ma igno de Descartes rn
A • e nos enganaria
·
julgaria da forma menos Justa e, logo, d a pior
· maneira. ' Essa
as aquele
/ que
_
e a razao

34Para uma formalização desse vocabulário, ver Brown, P. & Levins:;-;--,.


. . Press, 1988.
Cambridge Umversny o lteness .
33

pela qual a ordem da interaç~o certamente preocupa-se menos com a


justiça do que com a reputaçao.
M,as a f~rça d~ ofensa virtual tem um efeito desagregador inegá-
vel. Se e preciso evitar os constrangimentos e precaver-se contra as
"pior~s interpretaçõe~", o direito à tranqüilidade é que serve de guia pri-
mordial para_a atençao. De fato, poder-se-ia cotejar minuciosamente as
análises de S1mmel sobre o dever de reserva sociável dos habitantes das
grandes cidades e as de Goffman sobre as evitações para elaborar uma
espécie de mapa do privatismo bem-temperado em que os únicos valo-
res sagrados que resistiriam às "ameaças" inerentes à exposição do eu
seriam a segurança e a intimidade do lar.
Note-se que os pontos de contato entre o sagrado e a loucura
eram muito diferentes em Durkheim. A vida religiosa, afirmava, "não
pode atingir certo grau de intensidade sem que implique uma exalta-
ente nos ção psíquica que guarda alguma relação com o delírio", e "não há
as, pres.. representação coletiva que, em algum sentido, não seja delirante" _35
lado-e Em Durkheim, esse modelo do ajuntamento efervescente tem sua tra-
todas as dução empírica na multidão como assembléia que nutre uma paixão
determi- comum. Esse modelo que descreve crenças fortes, obtidas pela fusão de
entusiasmos e vividas pelo indivíduo em comunhão e fora de si, está
1-estar na
bem longe dessa compreensão prática da religiosidade elementar que,
m e Lévi· segundo Durkheim, organizava as classificações e os julgamentos ordi- 36
m obede- nários e devia "manter, de modo positivo, o curso normal da vida" .
devemser Por outro lado, na tradição do pragmatismo americano, a efervescên-
ses limites cia e a paixão passam para segundo plano, em favor das formas de con-
bedecer a tágio comunicativo das condutas. É, pois, o rumor que se torna um
diante de fenômeno social emergente, uma forma de definição da situação que
riOf,é pr~· substitui uma visão das coisas e do mundo localmente não disponível.
tornática; A análise dos ritos de interação, na medida em que elege
re que~ simultaneamente como campos de observação os lugares públicos e

0
ssa iJtlagt· o círculo da conversação, propõe-se explorar as formas intermediá-
otlfll rias de socialização que se situam entre os dois extr~mos repre~e~ta-
odidO a5ei8 dos pelas rotinas ordinárias do laço social e a eufona das mult1does,
oseb oS entre uníssono e a anomia. Nessas formas banais e mornas do
e raiertlot O
comércio entre os homens se conjugam regularmente intensidade e
tideZ ~\f8$ tensões, incidentes menores e risadas libertadoras, esquecimento do
eu e divisão do eu. Elas fazem a consistência e a fragilidade do laço
p~ . l ora sacralizado, ora profanado.
socia

~~
sa !! Le_s formes élémenraires.
lb1d., p. 39 .
p. 324-5.
ERVING GOFFMAN E A MJCROssoc10Lo
34 GIi\

Assim, não basta dizer que a microssociologia opera uma mudança


de escala ao passar das cerimônias instituídas às pequenas venerações da
vida cotidiana. Ela destrona a própria efervescência - e livra-se, assim, de
rodo o instrumental psicológico que a sociologia nascente herdara preci-
samente desse modelo da multidão como manifestação da "irradiação da
energia mental". Quando Durkheim convida a ir além do "mecanismo
místico" das unções, das abluções e das ceias que são a matéria dos rituais
religiosos, ele acrescenta: "Essas manobras materiais são apenas o invólu-
cro externo sob o qual se dissimulam as operações mentais". 37 A análise
das situações e das atividades rituais restitui a essas "operações mentais"
sua materialidade social, que não é apenas "mecânica". Logo, ela opta por
uma abordagem mais realista do que intelectualista e evita pressupor uma
transparência expressiva das linguagens rituais que apenas beneficiaria o
domínio todo-poderoso das representações e uma causalidade psíquica
cuja série de fórmulas explicativas (introjeção, identificação, apropriação
simbólica) faz com que a soc1ologia nunca termine de pagar sua dívida
para com o "alimento mental". 3
Poder-se-ia resumir a estratégia da microssociologia no âmbito
dos rituais dizendo que ela abandona as massas sem deixar a rua. A rua
é um campo muito afastado da experiência religiosa e, excetuando-se as
grandes cerimônias que são as manifestações, dá margem a ajuntamen-
tos que estão longe de se organizar a partir de uma paixão comum. Por
outro lado, a rua é u_m campo propício à observação etnológica e etno-
gráfica dos rituais. E um terreno onde a co-presença e a visibilidade
mútua constituem a estrutura e os recursos da coordenação entre 05
atores. E é também_um domínio onde o etnógrafo, nas descrições que
vai acumulando, nao encontra nem a comunidade e seus memb
nem as categorias àa sociologia tradicional (indivíduos, coletivos). ros,
Na conversação que se estabelece entre o microsso · ,
. _ • cio1ogo e
Durkheim surge, pois, uma nova questao: se 1or verdade qu t d .
dade "pressupõe uma orgarnzaçao· - consciente
. de si que nad e o .a socie-
,
uma classificação .. 39 e se acenarmos
· cons1·derar que a rua a, mais e que .
dade qual será "a organização consciente de si" que lhe e u1;1a sacie-
mos ,
"participantes autocontro1a d os, quais
· sao
- as classifi convem?
_ · E , se.
~i~amos para contribuir para a de~nição d_a _rua como
, e respeitamos, nesses luga1es do tnv1al e do profa
soc~=â~~:iue
. Como
un-
sera qu . , . d no Por ex 1~
eia, as regras da co-presença e o pnnc1p10 a ofensa vinuaJ? ce en-

- - - - - - - - - -------
37 Les fonnes élémentaires. p. 59~. 1 Minuit 1994 --
38 Descambes, Vincent. La denree menta e. , .
39 Les formes élémenraires. p. 633.
35

Convenções
Para responder a essa questão, Goffman realizou um duplo traba-
lho: o do etnógrafo e o do sociólogo. Descreveu em detalhe os ritos em
.""""',.,_ vigor nesse sistema de atividades situadas que é a rua e, sobretudo, forne-
ceu a fórmula de sua organização social. Na medida em que se substituem
os atores pelas atividades e os membros pelas unidades participativas, o
impulso central dos encontros reside na coordenação das atividades, isto
é, na ação conjunta. Logo, o simples fato da visibilidade mútua obriga a
fazer ato de presença: assim como numa conversação os participantes são
sempre ativos mesmo quando não falam, também os transeuntes na rua
co-pilotam o encontro e cooperam para fazer com que ele transcorra sem
criar-lhes obstáculos e sem prejuízo da consideração que devem aos tran-
seuntes com quem cruzem eventualmente. Eis por que a circulação de
pedestres, campo certamente familiar mas sempre exótico para o etnó-
grafo, é um terreno precioso para o estudo de uma sociedade, de seus cos-
tumes e de seus dispositivos de classificação:
" ... A despeito de sua má reputação, as ruas das cidades consti-
tuem um quadro em que pessoas que não se conhecem manifestam a
todo instante uma confiança recíproca. Acrescente-se a isso uma coor-
denação voluntária das ações em que cada uma das partes tem sua con-
cepção a respeito de como regular as coisas, em que as duas concepções
estão de acordo, em que cada parte pensa que esse acordo existe e em
que cada um estima que o outro pensa da mesma maneira. Em suma,
encontram-se aí as precondições estruturais de uma regulamentação
baseada na convenção. Esquivar-se dos choques, para citar apenas um
exemplo, é decorrência disso. "4 º
O fato da coordenação autoriza o sociólogo das interações a
conceber as situações que ele observa como sistemas de atividade. Mas
essa coordenação não deve ser compreendida apenas como um efeito
dos constrangimentos sistêmicos. Dito de outra forma, se o sociólogo
não é simplesmente um agente de circulação é porque ele pretende
que a coordenação das atividades não se verifica sem uma "considera-
ção" mínima pelo transeunte co-presente. Se pensasse de outro modo,
ele se perderia, atendo-se unicamente à regra da evitação e à fórmula
dos códigos de circulação segundo a qual a ausência de colisões entre
as_Pessoas e os veículos que circulam faz da gestão das interferências o
princípio de uma "multidão ordenada". Desenvolvendo essa metáfora,

40 L
es relations en public. ?- 32.
ERVING GOFF MAN E A MICRossoc,o
~ 3 ~ 6 - - - - - - - - - - - - - - - - -- -------_::LOc1A 7 A
um sociólogo do começo do século chegou assim a propor uma teoria
A
da ordem social:
"Os membros de uma comunidade ordenada não se desviam de ~~eac
seu caminho para se agredir mutuamente. Além disso, toda vez que ~a\q
suas trajetórias se interferem, eles fazem os ajustes necessários para evi- iante5 o~
41
tar a colisão e os fazem segundo certa regra convencional. " ~ee
O que não funciona nessa representação da ordem social como ~ase
ordem de circulação baseada unicamente no princípio de evitação é a1[f P
que ela conduz a um modelo sistêmico muito pobre, que não esclarece
o que o rege (a tolerância, o consenso, os acordos para todos os fins
úteis) nem como se constroem as prioridades. Nesse modelo, é possível
gerir as interferências sem levar em conta a reciprocidade das perspec-
tivas. Ora, não se pode falar de uma convenção atendo-se, por exem-
plo, ao fluxo estudado pelo gerente dos espaços de transporte. Também
é preciso considerar que aqueles que circulam participam da situação
de fluidez ou de congestionamento e têm concepções a respeito de
"como regular as coisas", concepções que podem ser partilhadas ou
c~ntestadas pelos outros participantes. Assim, os constrangimentos rituais
vem-se. so~ar aos constrangimentos sistêmicos, exatamente como na
comurncaçao elaborada de uma conversação.
A estrutura dialógica dos rituais está pois em tod d
ser observada entre dois transeuntes que s~ cruza' m· um da _P,~rte e pode
· t - ,, · a mostras e
m ençao - ,f e o outro faz uma "varredura visual" . A ss1m
. como uma con
versaçao ace a face pressupõe regulador ( - .
cabeça, grunhidos) também es aprovaçoes, meneios de
, , a co-presença num espaço d . ·b·1·
mutua se baseia nas trocas , e v1s1 1 idade
vencional de acordos e arr:~~1proca~ que refletem toda a paleta con-
organização dos usos do e Jos º;1 .e repulsas e reservas inerentes à
. spaço publico.
Pode~-se-1a assim dizer a Durkh .
pantes ocasionais dos ajuntamentos e1m que os transeuntes, partici·
;ente classificar, mas classificam ta~ue se formam na rua, sabem real·
a~z::~sõ:togist~s, t~mbém sabem facz~;~t~~:ac~cos, s~gundo nos
coalizõ~s ou(aparenc1~s normais ou situações de a~ mte)nçoes, avaliam
visibilidade os ~onlu1os, sabem quem são os arme , percebem as
tadas Para~ car:imham juntos etc. Valem-se de;ue, em ~eu_ campo de
rua, \inguag: orientar na sua atividade. Em sumas~. aparer:1c1as concer·
a um outro g:ncorl~oral dirigida àquele com qu~mª uma hnguagern da
era 1zado m . d apenas se
. as, am a assim, uma linguagem. cruza ou

41 ~:--;:-=~------------
E. Ross, apuct e 0 ffman L .
. es relatrons en public. p. 21.
R JT UAlS
37
A arena simbólica
A estrutura dialógica das t
- rocas estabel ·
entre a conversaçao e a rua . De m d . ece, pois, um continuum
.1 . 1 o o mais geral . -
sacia que :e meu ca nas crianças reza " . a v1sao formal da vida
tantes ou nao, prolongadas ou mo que todas as relações impor-
A

.d · mentaneas t ·
conheci os, mediadas ou face a f · en re conhecidos ou des-
tidas como similares e isoláveis n ace, d:
trabalho ou de lazer. sejam
a medida em q
entre parentes1s ntuais" _42 ue se realizam todas
A • • ,

Essa definição formal da are na s1mbór


. · ·
conversação de Simmel, seria reto d ica, inspirada no modelo de
insultos rituais praticados entre os 1:1ª ª por W Labov para descrever os
_ Jovens negros amer'
notar, sao ao mesmo tempo práticas d d ican?s e que, vale
lescentes, e é isso que interessa esp a ~ula e as conversaçoes. Esses ado-
ecia mente ao sociolin ··,
observa, empenham-se em torneios d . 1 gu1sta que os
. e msu tos e gozaçõ E
medida esses torneios de gozação são rit . . es. m que
rituais dos insultos pessoais? Como se comuab1~ e como distinguir os insultos
· mam as refer A · , ·
gia e à etologia neste exemplo?43 enc1as a soc1olo-

"Ferro é ferro e nunca enferruja


Mas a xoxota da tua mãe é mesmo um bonde."
"Tua mãe bebe mijo
E teu pai come merda."

É nas suas conseqüências, em primeiro lugar, que o insulto se


define: diferentemente de um insulto pessoal, diz Labov. um insulto ritual
não é seguido de uma denegação, de uma desculpa ou de uma atenua-
ção, mas de uma resposta que se baseia no insulto que o precedeu e que
pede outro insulto. Essa réplica traduz a competência dos locutores e o
fato de que eles compreenderam o contexto lúdico daquilo que dizem .
~orno na conversação sociável de Simmel, o que importa para os parti-
cipantes é que a palavra circule e que o jogo continue. Mas para estabe-
lecer essa condição de saber compartilhado é preciso eliminar qualquer
ambigüidade com relação ao insulto. O exagero tem precisamente por
finalidade assinalar que O que é dito não vale como verdade. Os exage-
ros, diz Labov, isolam a troca de suas conseqüências. "O grotesco e a

:: E. Ross, apud Goffman. Les relations e~ p~blic. P· 138.


Labov, William. Le parler ordinaire. Mmun. 1978. p. 223-88.
_ ~ por função preservar o santuário. "44 Enfim
gozaçao tem um papel importante:
. · 1tos nao
- - ' ª aucti • .
ha os 1nsu sao proferid enc:1a
desempen os a rn
sação mas lançados em voz alta como que para sere ºcio
de conver · . . ,, . M rn avar
or um público real ou 1magmano. esmo quando O tor . ia.
d os p ~ . d ,, bl. . ne10 d
Zaç óes se desenrola na ausenc1a e pu 1co, essa condição de t e
go ~ . . eatra\i
dade é respeitada. Ela confirma e reforça o parentes1s ntual. ·
Assim, pode-se dizer: a) que a gozação abre um espaço onde se
supõe que a troca se efetue e faz-se acompanhar de outra gozação
pode nela inspirar-se no plano formal.. Dit~ d~ outra forma, as seqü1~~
cias do ritual obedecem a uma orgarnzaçao imanente mais ou menos
formal; b) é necessária a presença de uma terceira parte ao lado dos
dois primeiros jogadores. O recinto da arena simbólica se produz, pois,
diante de testemunhas, e o evento a ser descrito, marcado simbolica-
mente, é todavia um evento público (um estado de palavras em aberto)
no qual quem assiste pode tornar-se participante; c) por fim, o fato de
uma organização formal imanente, aliado ao caráter público do evento,
permite compreender que a forma ritual não é jamais uma "forma boa":
sua influência sobre os participantes é relativa e remete a uma escala de
participação e engajamento.
A nova aliança entre o sociólogo e o etologista confere agora
uma vantagem ao primeiro. A linguagem corporal observável na cal-
çada (ou no metrô, no elevador, num banco de praça) e formalmente
isolada pelos parêntesis rituais está agora ligada aos contextos antropo-
lógicos de todas as trocas sociais e torna-se, para o microssociólogo, um
critério de julgamento das formas institucionais do controle social e dos
esquemas explicativos da socialização. A vulnerabilidade dos territórios
e das normas, o fato de os participantes "estenderem os fios da cerca
que todos eles sabem como transpor", a lógica das circunstâncias que
não deixa nenhum tempo à testemunha para instruir o caso em curso, a
obrigação de pertinência que leva os atores a fazer inferências imedia·
tas, tudo isso conduz a uma justiça sumária. 45 Mas é precisamente nesse
âmbito de jurisdição que a microssociologia introduz, no arsenal tradi-
cional da disciplina, uma série de dispositivos críticos que põem ern
questão as abordagens estruturais e sua concepção "decorativa" das
interações.
Vimos que as condutas obse~v~das pelo etnógrafo da ordem
pública não podem ser tidas como obJettva.~ente con~guradas. Elas são
prefiguradas e tornadas legíveis pelos participantes. Sao, portanto, diri-

44 Labov, William. Le parler ordinaire. Minuit, 1978 - p. 288 ·


45 Les relations en public. p. 110-2.
R! T U A - 1 5 - - - - - - - - - - -- - - - - -- - - - - - - - ~-;~:;9

gidas. Quanto às regras e às normas, admitindo-se facilmente que e:as


não se aplicam d~ mesma -~~neira conforme as situações (um banhe1ro
não é um~ ~staçao rodoviar_ia, e as disciplinas do olhar são aí cornp:e-
ramente distintas), cumpre dizer que o estudo dos ritos deve reconcihár-
se não soment_e com a matéri~, mas também com o espaço das cerimó-
nias e dar_ong~~ a . uma i:nicroecologia das interações, igualrr1ente
atenta às d1sposiçoes 1nteracionais e aos ambientes onde se desenvobe
a linguagem corporal dos participantes. Passo a passo, ela deverá partir
do espacial para as "matérias" que lhe escapam, do espaço pessoal para
as reservas de informação, passando pelo lugar, o espaço útil, o turno. o
invólucro, o território das tomadas de posse . O encaixe dos territórios e
das regiões de significação combina o material e o imaterial, o visível e o
virtual, os índices e as interpretações. Essa grande mistura, essa grande
hibridização são precisamente os traços da ordem simbólica atuante
numa situação. O voto de pobreza original da sociologia do face a face
se mantém nessa dupla recusa: não tomar as situações como exemplos
decorativos da lógica estrutural e não mais considerar que a comunica-
ção que aí se desenvolve faz surgir mensagens imediatamente interpre-
táveis na linguagem das estruturas.
Dramas

Ü TRABALHO D_E FIGURAÇÃO divide os espaços sociais segundo


um eixo de representaçao. De um lado, a região de exposição onde os
atores estão sob o olhar ou em presença de um público; de outro, a
região onde se preparam para a representação. A metáfora teatral
propõe assim uma primeira fórmula da organização social da expe-
riência que distingue duas regiões de atividade: a cena e os bastidores.
Tome-se, por exemplo, um salão de leilões. No próprio salão (a cena)
encontram-se expostos os objetos cujo valor depende do trabalho do
leiloeiro e da participação dos clientes. Atrás do salão (os bastidores),
esses mesmos objetos são preparados. avaliados, classificados para os
eventuais compradores. Essa divisão física do espaço pode complicar-
se devido à atividade e à mobilidade dos participantes. Por exemplo,
num dado momento, dois compradores podem retirar-se para um
canto da sala para negociar uma transação e assim transformar sua
conversa privada em bastidores para os outros participantes. Do
mesmo modo, nos bastidores, um amador conhecido ou "introdu-
zido" pode encenar a sua presença, mostrar-se antes da venda e assim
anunciar que o leiloeiro deve contar com ele.
A marcação dos espaços pode ser também resultante de alguns
equipamentos. Certos salões de leilão suprimiram todos os relógios para
dar a entender a seus clientes que ali eles estão fora do t~mpo e de suas
responsabilidades habituais. Além dessas medidas destinadas a prote-
ger a arena simbólica, a orquestração e o ritmo da venda organ~z~m a
ambiência e mantêm a tensão indicando a todo instante aos part1c1p~n-
tes em que pé estão as coisas. No começo da cerimônia, o leiloeiro
tenta ganhar a confiança dando mostras de hum?r. Procura despertar
urn Público frio oferecendo-lhe como isca um obJeto de valor; ou cas-
ERVING GOFFMAN E A MICRO

:2.1 :-----------------------~ ssoc10

. . sua apatia desfazendo-se rapidamente de um artig0


uga-o por . Por
1
preço aq U
ém de seu valor. Quanto aos c 1entes,
-
eles participa
rn coum
ente desse jogo de ofertas. Sabem que estao em cena e que d ns.
tan tem . . .· eve1n
demonstrá-lo: um gesto 1nfehz (coçar o na11z, por exemplo) poder- lh
·1 . 46
custar caro se for mal interpretado pe lo le1 oeiro.
a es
Eis um exemplo do que pode nos dizer a abordagem dramat.
gica de um conjunto de atividades instituída~ e_ do amb!ente no q~:;
elas se desenvolvem. A abordagem dramaturg1ca da vida social, tal
como exposta em La présentation de sai, contribuiu amplamente para
tornar a obra e as hipóteses de Goffman conhecidas fora dos limites aca.
dêmicos da disciplina. Além disso, provocou algumas controvérsias e
críticas, precisamente porque foi vista como uma facilidade retórica 1
ritual à
uma descrição certamente brilhante das práticas da vida pública, mas resternu
que permanecia dependente de uma concepção instrumental do traba- recirnen
lho das aparências. A
Já dissemos o quanto essa abordagem deve aos trabalhos de críticos
Kenneth Burke e às categorias de análise "dramatista" que ele propõe.47 dramáti
Caberia no entanto perguntar como conciliar o legado durkheimiano, equival
que leva a microssociologia a estudar as situações da vida cotidiana como condiçz
cerimônias religiosas, com uma concepção dessas situações como cenas esp1ao
que se desenrolam diante de um público e nas quais o ator é investido de lham s,
u!11 po?er aparentemente estratégico de gestão ou arranjo das aparên-
c1as. _D1to d~ ?utro mod?, que pode haver em comum entre as devoções
da vida cotidiana e aquilo que Goffman chama de" "d" d d. ni· os pu
bilidade"? . come 1a a 1spo
varian
. . Ulf Hann:~· analisanddo essa pane dos "contos de Goffman",48 constil
sintetizou a po1em1ca opon o duas interpreta - d
matúrgica das atividades e da moral que ela t ç_oes a abordagem dra· ern qu
um ator perpetuamente sob o olhar de ~n~ ª propor: de um lado, ªParê1
um pubhco· de · corno
pulador tentando dominar as impressões e cu· . ' ou_tro, um mani·
ria na gestão estratégica da credibilidade. 10 interesse simbólico esta·
Pode-se escapar a essa alternativa ao m sagra
moralizante, tão comum às filosofias da au~:m? _tempo psicológica e soa t.,
. . consiste ~
. em lembrar nticidade , 1azen d o tres
observações. A primeira A

raçã
tura etológica ao fazer dos rituais manifestaçõe~~e ? Parâmetro de lei· sllDe 1

• e intenção, nos alerta frgur 1


ªçã~
46 Smith Charles. Auctions. The social construction of values F ----
. h [1 ) · · ree Press
47 Burke, Kenneth. Permanence and e ange. .935 .. University of Californ: 1989.
Grammar of motives. [1945]. University of Cahfo~1a Pre~. 1974; ver tarn: _Press. I 984;
Kenneth Burke: on symbols and soc,ety. University of Ch· ern Gusfi ld
Joseph R. (ed)
.. . . 83 254 3 icago P ie ,
48 Hannerz, Ulf. Explorer la ville. Mmutt, 19 . p. - oo. ress. I 989.
l1,,

43

contra a psicolog!zaç~o sumária da vida social e nos convida a manter


distância_ da~ exphcaçoes das condutas que recorram às motivações dos
atores e aquilo que }acques Bouveresse denominou "o mito da interio-
ridade".49 ~ ~o_nceno centra~ da análise etológica dos rituais, o con-
ceito de e:ibiçao (parade, display), designa ao mesmo tempo uma
manifestaçao para O outro,. a demonstração visível de uma intenção,
mais do que .u:°a ~onduta intencionalmente visível. O fato de que as
condutas soc1a1s se1am. ~xpostas é simultaneamente um recurso para os
atores e uma boa ocas1ao para o sociólogo, já que lhe permite levar em
conta essa "inteligência de fora" constitutiva de toda experiência social.
"O ponto de vista etológico não nos faz atribuir o desempenho
ritual à estrutura social e às crenças fundamentais nas quais o ator e a
testemunha evoluem, mas nos leva do desempenho ao curso dos acon-
tecimentos situados que ele expõe ... 50
A segunda observação diz respeito aos trunfos metodológicos e
críticos da abordagem dramatúrgica . O esclarecimento dos expedientes
dramáticos de uma ação produz classes de práticas e de procedimentos
equivalentes no plano situacional, élinda que sejam obra de atores de
condição totalmente diversa. Por exemplo: o padre, o psicanalista e o
espião se permitem ver sem serem vistos; o policial e a prostituta traba-
lham sob o olhar de seus clientes. Essas categorias de análise incongru-
entes não deixam de ter conseqüências para o conteúdo e a consistência
de nossas crenças e de nossas convicções. E. inversamente, dir-se-ia que
os pudores implícitos nos pensamentos da autenticidade (ou em suas
variantes complacentemente críticas, centradas na noção de simulacro)
constituem, nesse domínio, um obstáculo epistemológico real, na medida
em que não se prestam ao trabalho de arranjo constitutivo do mundo das
aparências: o das civilidades ordinárias e, sobretudo, o do próprio social
como universo de ações recíprocas.
Enfim se os ritos de interaçao concretizam as crenças, o objeto
sagrado dess~s crenças, a reputação, o valor so~ial ?ositivo de uma pes-
oa tal como ele se manifesta num encontro, nao e a figura mas a figu-
ação. A reputação, diz Goffman, não se aloja no int~rior nem na
perficie do indivíduo, mas está difusa no curso da açao. F~zer boa
aura é ter sucesso n O trabalho de figuração e manter
b . h duma _lmha
. de
ção coerente. Fazer triste figura é ficar preso a uma hn a e açao mcoe-

9 Bouveresse, Jacques. Le mythe de l'intériorité. Minuit, 1985.


Goffman, Erving. Gender advertisement. Harper, 1_976; extratos dessa obra fora m
blicados em Actes de la Recherche en Sciences S0c1ales (14) :34-50, avr. 1977. e em
moments et Ieurs hommes. p. 149-85.
ERVING GOFFMAN E A Mica

~
44
- .
sair-se mal. A polidez e o tato sao, pois, um reconhe .
rente, . . d d c1rnent
d 1~v1·da que todo ator contrai com a .socie_ a e_ nas,
circunstân . Pro ela
c1as
sas de uma situação. Mas como a sttuaça~ ~ao ~ uma simples dec eCi.
ção da estrutura, ~orno :l_a espera a paru~ip~ça~ dos atores, dir.:~·
que os atores são locatanos de suas convicçoe~ , mantendo urn b~1a
que não lhes pertence e que eles geram ou manipulam através de s rn
· · s1
recursos ntua1s. eUs

Esse trabalho de figuração foi analisado ~or Pascale Pichon n


práticas de mendicância dos "sem-teto" em Saint-Etienne. O mendigou~~
liza técnicas diferentes para comunicar-se com os transeuntes. A súplica
consiste em apelar a uma população localizada e regular, postando-se em
silêncio à porta das igrejas, exibindo de modo contido os signos visíveis da
pobreza. A humilhação pressupõe uma postura de recolhimento em que
o mendicante usa às vezes a calçada como genuflexório, "ajoelhado, teso,
imóvel e impassível, súplice e como que já arrependido". O mendigo
pode igualmente pôr em cena o cartaz que resume sua situação. Pode,
enfim, preferir se deslocar e se apresentar, abordando os transeuntes
"inopinadamente" ou indo "ao seu encontro".52
Essas práticas de figuração se assemelham, diz Goffman, "aos
passos codificados de uma dança". Os fiascos de uma performance, as
gafes e as faltas, põem em perigo seu equilíbrio ritual. Daí a necessi- o
dade de repará-los para salvar a situação. Os diferentes movimentos do
processo de reparação (advertência e designação do responsável, ofe- "1
recimento de reparação, aceitação e agradecimento), identificáveis na atravess;
coreografia de uma troca ordinária, constituem a gama de gestos que basta pa
assegura as condições de felicidade da representação. E
Cumpre fix?r, assim, dua~ definições que valem igualmente para rectuzin
a linguagem dos_ntos e para a linguagem dramática. Uma troca é "uma resse
seqüência de açoes desencadeada por uma ameaça reconhecida como ciologia
tal e que se complet~ por ~m reto1'!1? ao equilíbrio ritual". 53 Quanto ae adotad·
termo ação ele designa essas atividades que prov .. ê sificacta
, ,. ocam consequ
cias que são problemattcas e que se empreendem . eia, fix~
' 54 · - r r -
mesmas" As 1nteraçoes 1ace a 1ace sao, pois um d 0 , . , estima-se por
, .
· - h ' m1n10 estratég1 ser lon
de estudo nao porque pon am em cena as pequenas tutivos
bras do at~r social, mas porque estão sob o signo da a~eaçagrandes m~n rodos.
e do nsc
teatral
aborct
51 Les rites d'interaction. P· 9-17. . ..
. º 1 La manche une activité routtmêre. Annales de la Rech
52 P1chon, .--asca e. ' erche Urbain
(57/58): 147-57. .
53 Les rites d'interactron. p. 21.
54 Ibid .. P· 152 ·
45

"Não existe interação na qual os participantes não corram o sério


.
0
de se ver ligeiramente embaraçados ou, ao contrário, o leve risco
risc .
de se ver senamente h um1·1h a d os. .. 55

Esse postulado da vulnerabilidade fundamental da experiência


social se traduz, no vocabulário dramatúrgico, pela ameaça de ruptura
de representação.
"A idéia essencial, do ponto de vista sociológico, é simplesmente
que as impressões
1156
oferecidas nas representações cotidianas estão sujei-
tas a rupturas.
Assim, não há contradição entre a linguagem dos ritos e a lingua-
gem do drama. A metáfora teatral é um andaime necessário na medida
em que se trate de reformar as fachadas, mas que depois é preciso
abandonar. Para compreender a função dessa metáfora é preciso voltar
à dimensão pública da experiência social e tomar como fachada um
objeto ou um bem público, um ponto de observação público em torno do
qual giram as trocas verbais e os movimentos dos participantes num
encontro organizado.

O público, o espectador, a testemunha


"Posso tomar qualquer espaço vazio e chamá-lo de cena. Alguém
atravessa esse espaço vazio enquanto alguém mais o observa; eis o que
basta para começar o ato teatral."
Essas palavras com que Peter Brook define o quadro teatral 57
reduzindo-o à fórmula da observabilidade poderiam resumir o inte-
resse metodológico e heurístico da metáfora teatral para a microsso-
ciologia. Goffman, após ter demarcado os limites da abordagem por ele
adotada sistematicamente em La présentation de sai e após haver clas-
sificado o quadro teatral no inventário geral dos quadros da experiên-
eia, fixaria o mesmo princípio de Peter Brook: no teatro, um ator pode
er longamente observado sem ser ofendido, e os dois territórios consti-
tutivos da representação, o da cena e o do público, encontram-se sepa-
dos. Esses dois traços que distinguem de maneira rígida o quadro
atrai estão no cerne do dispositivo metodológico que é proposto pela
bordagem dramatúrgica das situações.

La Présentation de soi. p. 230.


lbid., p. 67.
Brook, Peter. L'espace vide. Seuil, 1977. p. 25.
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc10

~4~6- - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - ~
. . d delo certamente se explica pelas exigências .
A ngidez o mo l' ..
atn.
buídas ao espectador e ao t~a~al~o que ~1e rea iza padra sust_e~tar" a
_ A ·meira exigenc1a - o pressuposto e pers1stenci ,,
representaçao. pn . . a
- implica que a representaçã? _continue e__ q~e e 1 __ a co~unue segundo
. - acei·tável · A analise dramaturg1ca e, pois,
uma d e fim1çao _ o estudo das
-- ·
tecrncas d estma
· das a evitar as rupturas de representaçao.
. _ A represen.
tação teatral, assim como a conversação ;~ Simmel, :.ªº
as :11~~áforas
do vínculo social na medida em que este e sustentado (poss1b1htado e
ativado) pelos que aí participam, quer eles se exprimam, quer não.
Todo trabalho de figuração pressupõe um público e a assistência santeríl
de um público, mas todo desempenho em cena pressupõe bastidores os qt.1El
onde o ator cuida de se preparar. De um lado, a comédia da disponibi- o carát
lidade (front-stage) e o domínio das impressões do auditório; de outro, a seu grt
possibilidade de se comportar sem cerimônia (back-stage). Assim, o tra-
balho de figuração consiste ora em dirigir a atividade de outrem, ora em
manter a distância social eficaz em relação a um ajuntamento, assim
como os limites da comunicação entre diferentes públicos ou as nor- vida
mas morais a serem respeitadas. Veremos que o que complica o jogo
social e impõe aos atores um mínimo de circunspecção dramatúrgica é res na
a necessidade de se expor e de se compor em várias cenas e, portanto detêrr
de mudar de código. ' tante
. O ~odel~ ~ramatúrgi~~ convém à análise de um grande número
de snuaçoes soc1a1s e de papeis profissionais (o lutador d b · obrig
·- · - · e oxe, o cirur-
1
gia o, o vio mista, o agente de polícia) Para toda um "· d fi dem
- d d · · a sene e pro s-
soes, que po em ser escritas formal e independe t d
. · n emente o campo
profissional onde elas se exerçam como profissões d O , . sB
modelo se mostrou particularmente fecundo. A obse P_~bhco, esse
balho do agente e a separação virtual dos territór·1 d rvabihdade do tra-
ria são típicas, por exemplo, das situações de ~s h? agente e do usuá-
geral, das situações de serviço. O trabalho de fi~uic e_ e, de modo mais
ção do eu é igualmente essencial para as profissõuraçao e de apresenta-
tar cuidados e para as situações de consulta 59 es que envolvem pres-
h oteIana . 1· , . , para as pr fi
e cu mana ou para os motoristas de táxi. 60 o ssões de
Em certas profissões de serviços, o público a
agentes (agentes de execução, funcionários ou prqufie ~e d~stinarn os
o ss1ona1s 1·b .
I era1s ,

58
Joseph, Isaac & Jeannot, Gilles. Métiers du public. CNRS, 1995
59
Heath, Christian. Le parler-frais. p. 246-53. ·
60
Whyte, William Foote. Human relations in the restaurant industry N
Hill, I 948; Davis, Fred. The cab-driver and his fare. American Joum~l 0 ; ; ' ~Ork, Mcc
65 I 959 oc,ology raw.
, . . 6s:1sa.
47

pois a ondiçã? pouco im~?rta para a descrição do papel) desempe-


nha um p~pel important~, Ja que se sit_u a ao mesmo tempo na ongem
da prodl~çao e na extremid~de da cadeia de distribuição. Ele participa e
contribui para O ?ese~volV1mento da ~~presentação. Peter Brook diria
que o público a~siste (a) a perfo:m~nce. Jean Peneff, observando o tra-
balho dos se1v1ços de emergencia hospitalares, mostra assim toda a
importância do olh ar ~~s testemunhas num meio que pressupõe O con-
tato direto com o usuano para o tratamento, mas também o apelo aos
acompanhantes ou sua manutenção a distância.
"Sob o olhar de outrem, é preciso agir e justificar a ação inces-
santemente. O hospital é um lugar de observações intensas e cruzadas.
Os que cuidam observam clinicamente, situam socialmente, examinam
0 caráter e a psicologia do paciente, mas, no hospital, o interessado ou
62
seu grupo igualmente observam os profissionais ao seu redor. "
Essa visibilidade tem conseqüências para as relações hierárquicas:
"Para trabalhar em serviços de emergência, é preciso amar a
vida coletiva num lugar confinado. Não se pode escapar ao olhar dos
outros, o que de certo modo contradiz o princípio hierárquico. Os ato-
res não podem se isolar e evitar as opiniões dos outros (. ..) . Os que
detêm a autoridade suprema se encontram lado a lado com os execu-
tantes sem poder. "63
Na medida em que a pessoa que exerce a atividade de serviço é
obrigada, sempre por contrato e não raro por sua origem social, a
demonstrar certa deferência em relação ao cliente. sua atuação pode se
revestir de todas as nuanças da teatralidade: ela po~e exi?ir com os:en-
tação os atributos de seu papel, limitar-se ao lac_ornsmo imperturbav~l
do profissional que cumpre seu contrat~ ?~ amda _n:ostrar-se habil-
mente agressiva para demarcar seu terntono de atividade. Sabe-se,
desde Sartre, como O garçom de um café chega a "fingir", como se_us
gestos são "forçados" e como "toda a sua conduta nos parece uma brin-
cadeira". - / / · b /
.. _ ele está brincando? Nao e necessano o serva-
Mas de que, entao,
lo por muito tempo para perceber: el~ estad
/b ·
~me:
ndo de garçom de um
uma espécie de reco-
café. Isso não é de surpreender: ª b~mca ~ir.a ca com seu corpo para
nhecimento e de investigação. A cn_a~~J
d:; 0 garçom de um café
ex~lorá-lo, para desco_b:ir suas possi.bt!~,: Es~a obrigação não difere
bnnca com sua cond1çao para realiza ·

61 L'espace ur.de. p. 182-3. ..


62 Peneff, Jean. L'hôpital en 1992 . 12.
urgence. Métathé. ·P
63
lbid., p. 50-1.
ERVING GüFFMAN E A MICROSSOCIOL
- - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - OCIA
48
~
- -----
. - todos os comerciantes; sua condição se reve g
1 quese1mpoea . .,br . s-
daque .ª d m caráter cerimonial, o pu ico exige que eles a
te inteiramente e u rimônia Há uma dança do quitandeiro, do al
rzem como uma ce . d. -
re~ i 1 ·1 . pela qual eles se esforçam por persua ir sua clien.
fa1ate do e1 oeiro, . d . 1 ·1 .
' - nada mais que um quttan eiro, um ei oeiro, urn
tela de que e1es sao
alfaiate. "64
o mesmo acontece com a garçonete de restaurante descrita por
W F. Whyte:
"A garçonete que pretende resistir às pressões dos ~lientes não
deve se limitar a responder-lhes: ela tem que controlar habilm~nte seu
comportamento. A primeira questão a .,colocar quando se examinam as
relações com a clientela é a seguinte: 'E a garçonete que leva v~nt~gem
em relação ao cliente, ou é o cliente que leva vantagem em relaçao a gar-
çonete?' O caráter decisivo dessa questão não escapa à garçonete mais
avisada (. ..) . A garçonete hábil enfrenta o cliente com segurança e sem
hesitação. Por exemplo, ela constata que um novo cliente se sentou antes
que ela tivesse podido tirar os pratos sujos e mudar a toalha. Agora ele se
apóia na mesa para estudar o cardápio. Ela o cumprimenta e diz: 'Posso
pôr a mesa, por favor?' e, sem esperar a resposta, afasta o menu de tal
forma que o cliente arreda-se da mesa e ela prossegue com seu trabalho.
A relação se instaura de modo polido mas firme, e a questão de saber
quem controla a situação não se coloca mais. "65
Quaisquer
~., que
· sejam.. as diferenças entre esses doi·s exemp1os (o
garçom do caie marnpu1a os ready-made de expressão .e 11

., · ., · e iaz as poses d1s-
pornve1s em seu repertono de papéis sob O olhar d .
a e11entela que 0
observa, ao passo que a garçonete se vale do registro d . .
poníveis para realizar sua performance e tomar a inici t. as maneiras d1s-
café está presAo a seu papel, a garçonete guarda distân~~va. O ~arçom do
seu papel); ve-se, em todo caso, o quanto seria errô dos clientes e de
tação do eu a gestão racional e calculada das a par" ne? fazer da apresen-
0 trabalho de figuração, na medida em que se 1-encias e das máscaras.
. A . ., h nscreve n
uma cenmorna, e um empen o para outrem e sob os acasos de
outro modo, o domínio das impressões de outrem seu controle. Dito de
de um pressuposto metodológico dos próprios t pressupõe - trat _
, · d · ., a ores e d a se
posto teonco o soc101·ogo - uma precedência d O e um p
temunha. Goffman toma emprestado esse tema à espectador e dressu·
. corrent a tes·
e aos d esenvo1vimentos que ela consagra à alienaç · e existen . .
ao da liberdad c1ahsta
-------------------- e numa
64 Sartre, Jean-Paul. L'êrre er /e néanr. Gallimard. p. 99.
65 Apud Goffman. La présentation de soi. p. 20.
49
DRAMAS

eves.
=-----
. ção concreta. Mas ele imprime-lhe uma guin a d a decisiva abstendo-
lesa situa . . ct· .d 1.
se de qualquer perspectiva 1n 1v1 ua 1sta:
o a}.
"As representações normais da vida cotidia na nã o são 'interpre-
Clien.
tadas' ou 'encenadas' no sentido de q u e o ator sabe de antemão exata-
,Um
mente o que vai fazer e o faria unicamen te p o r causa do efeito que isso
possa ter. Algumas de suas expressões que consideramos indiretas lhe
ta Por 'escapam' particularmente. "66
Portanto, não é o caso d e preocupar-se com a autenticidade do
ator "sob" os personagens, nem de avaliar as convicções que são expos-
tas verificando sua conformidade com as crenças subjetivas. O ator não
é uma estratégia, mas um ser dependente que se vale de suas depen-
dências. O rigor da metáfora dramatúrgica tem por preço a influência
exercida pelo "como se" sobre aquele que a pratica. E nisso ela respeita
o teatro na sua verdade. Citemos ainda Peter Brook:
"Na vida cotidiana, a expressão ·como se' é uma função grama-
tical; no teatro, o 'éomo se' é uma experiência. Na vida cotidiana, o
'como se' é uma evasão; no teatro, o ·como se' é uma verdade. " 67
A abordagem dramatúrgica é, pois, um dispositivo metodoló-
gico que permite à sociologia emancipar-se claramente do subjeti-
vismo e das fenomenologias da intersubjetividade. Convidando a
analisar rigorosamente as cenas em que o vínculo social se torna visí-
vel, a intriga ou o jogo de circunstâncias que servem de "tomada"
aos participantes, ela destrona o ator em proveito da ação e propõe
compreender a interobjetividade na qual ela se desenrola e se inter-
preta.68 o face a face é uma estrutura de socialização fundamental,
não como equivalente comportamental da intersubjetividade, mas
pela presença ativa do público (testemunha, espect~do~ ou ~artici-
Pante). Ela é que mobiliza essa linguagem ?ªs. ª?arenc1~s ,cu1a fór-
mula seria: "A natureza mais profunda do md1v1duo esta a flor da
Pele: a pele dos outros". 69

6 6 Apud Goffman. La présentation de soi. p. 74.


67 L'espace uide. p. 183. . .
E>s Sobre a noção de interobjetividade, ver La~our. Brun~. Une soc1olog1e sans objet?
Note théorique sur l'interobjectivité. Sociologre du Trauarl, 36(4/94):587-608.
E,q Les relations en pub!ic . .?· 338. Do mesmo ':'~do, falando d_as ~xcla ma ções e das
imprecações, "expressoes aparentemente sub1euvas por excele nc1a : "Elas não t
_ . fl d . • . .. rae m
uma efusão de emoçoes, mas antes um m uxo e per1meneia (Façons d
. d a: "Sena
p. 13o- l); ou am . pre,e" ríve1 praucar
. . d o do exte . d e parler.
a ana-1·1se panm . . ;
duo para o seu interior, e não o inverso" (La présentation d e soi. p . 82 nor O mdivi-
' n. 6).
,,

ERV ING GOFFMAN E A MICRossoc10


e~--------------------------- LOc1A
~o
Do domínio das impressões aos quadros
participativos
No teatro, 0 espectador ocupa um lu~ar apenas e excepcio. s?
nalmente tem acesso aos bastidores. Além disso, e contrariamente ao
que acontece no cinema, o espe táculo se dese~rola sem que ele possa
mudar O eixo de visão. Quanto à representaçao, ela mostra persona-
aens cuja biografia é sintetizada e cujas qualidades são sempre mais ou
~enos representativas. Essa dupla rigidez é específica do quadro tea-
tral: rigidez da perspectiva para o espectador e rigidez da relação entre
o personagem e seu papel para o ator. Logo, a metáfora dramatúrgica
pode conduzir a urna concepção estreita da participação do público, e
certamente é disso que Goffman se dá conta.
De fato, o espetáculo teatral implica uma "convocação pública" 7º
que não corresponde às cenas da vida cotidiana. O que constitui a vul-
nerabilidade e os recursos dos quadros na experiência da vida social e
obriga o sociólogo a abandonar o andaime dramatúrgico é que os momen-
tos da vida cotidiana raramente são boas formas mantidas por uma única a
perspectiva ou pelo olhar coletivo e focalizado de um ajuntamento. Quer tf
se tome como exei:1;p1~ de encontros a co-presença nas relações de trá- g
feg?, quer a expenenc1~ d~ .r ecepção mundana, o quadro participativo q
mais comum tem por pnnc1p10 a pluralidade e a separação dos públicos e (J
a passagem de um papel a outro.
e
·
A separação dos públicos cujos atores sociais devem dom ·
- to d a vez que se apresentam é tema conh ·d d 1nar as
u
1mpressoes
, · d e w·11·
pragmatica 1 1am James. Traduz-se por uma segr eci - a filosofia
O ti
d ... . - dos compromissos segundo egaçao dos pape,s
,. s
e uma 11erenc1açao
- da performance comunicativa na mOsd.contextos
. con d.1çao
na1s, d re lac10-
. n
dirige a um público circunstanciado. e 1 ª em que ela se n
"Praticamente, pode-se dizer que cada ind· , tl
sonalidades diferentes quantos são os diferente ividuo tem tantas per- q
nião conta aos seus olhos. Cada um mostra s grupos sociais cuja opi- d
diferente de si mesmo a cada um desses difere~;;alrnente um aspecto ll
cente que se mostra reservado diante dos P . s grupos. Um adoJ _ o
banca o 'durão' esbravejando com seus coI ais e Professores às v es u
mos aos nossos filhos como nos mostramos aoegas·' nós nao
- nos mo ezes
.
clube, nem aos nossos eItentes como aos nosss nossos con--.
•uPanheir stra- d
nossos patrões como aos nossos íntimos. 71 os empregados, ne::s de
11
rc
' ' l aos

70 Segundo a expressão de Denis Guenoun (L 'exhibition d


. _ · A u b e, 19 i).
. de sai. p.es rnots
71 William James. apud Goffman. La presentat,on
52 9
~ - -- - -- - - - - - - - - - - - - - ~ 5 1
Na medida em ~ue se deixa o teatro, a separação cena/bastido-
eneraliza e se dispersa na bruma constante das fronteiras ent
esse g "bl. p 1 re a
r entaçáo e seu pu 1co. or exemp o, a anfitriã que sabe passar d
repres .d d e
rupo de conv1 a os a outro e que, em certos momentos da recep-
urn g . . d ,, fi
çáO, se dmge a to Aos _os predsentes e uma 1g:1ra exemplar do savoir-faire
da vida pública. ss1m, to os os at~res sao,, o~servadores, atentos à
aneira pela qual se opera a separaçao dos pubhcos e competentes em
;atéria de permutação de códigos. Além disso, na medida em que a
sucessão das cenas não tem nenhuma marcação instituída, cada ator se
empenha em identificar os sinais de abertura ou encerramento de uma
seqüência, bem como as marcações assim estabelecidas. A abertura se
caracteriza, por exemplo, pelo fato de os participantes suspenderem
suas atividades anteriores para focalizar sua atenção numa representa-
ção, enquanto o encerramento faz com que se afastem da co-presença
ou da implicação conjunta. 72
Estes são apenas os primeiros elementos de uma recomposição
completa da linguagem das situações na obra de Goffman. A metáfora
teatral serve para operar a passagem da noção de ritual - ligada à
grande divisão antropológica entre o sagrado e o profano - à noção de
quadro. Goffman toma emprestada essa noção de Gregory Bateson,
cujos trabalhos sobre psiquiatria acompanhou desde a década de I 950
e com quem participou da renovação das ciências da comunicação. 73
Um quadro é um dispositivo cognitivo e prático de atribuição de sen-
tido, que rege a interpretação de uma situação e o engajamento nessa
situação, quer se trate da relação com o outro, quer da ação em si
mesma. Bateson usava o termo quadro para descrever os fenômenos de
metalinguagem em geral e da linguagem animal em particular - as lon-
tras sabem "dizer": "isto é um jogo", elas sabem exprimir que a ação ~a
{}Uai se engajam é um jogo. Tal como as noções de esquema ou de s~npt
e que se utilizam as ciências cognitivas, a noção de quadro designa
a "estrutura de espera" por meio da qual abordamos O mu_n~,0 c?~
ready-made interpretativos, como "veteranos da percepçao · dma
aluno de Goffman.74
D , · .. análise dos quadros
essa passagem do modelo draI?at~rgico ª ão de articipante
orre toda uma série de noções. Pnme1ro, ª n?ç , . dp _
e d . 1 t "destmatana a represen
ª o, que designa a pessoa "oficia men e

· p, 139-40
\Vi1 ki · · cion Seuil, 1978.
n n, Yves. La nouuelle communica · fr me? Surface evidence for under-
l>alavr~ de Deborah Ta~ne~: What"S~rci8Uni~ersity Press, 1993. p. 14-56.
ctat10ns. ln: Framing m d ~
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc10
~5~2------ - - - - - - - - - - - - - - - - - ~
_ ue se referem os discursos trocados. O participante rat·fi
taçao ou a q d d · - t •
cado é aquele que está no seu lugar na or ~m e mteraçao. Ora, eSSa
ord em, em vez de estar previamente definida , como , . no teatro, onde
todo espectador é destinatário do es~et~~u1o, constr~1-se e confirma-se
na situação e através dos diferentes md1c1os ou movimentos, explícitos
cor
ou implícitos, produzidos pelos participantes. A segunda noção decorre
se e
da primeira: na medida em que os participantes adotam posições de qua
locução e preparam o terreno de suas interações através de suas manei-
ras de agir ou falar, o formato da produção de suas palavras ou de seus
gestos, sua capacidade de mudar de registro, é que determina a inteli-
gibilidade mútua dos participantes e a manutenção da reciprocidade
das perspectivas entre um locutor e seu auditório.
Assim, um conferencista é um locutor cujas palavras podem ser
atribuídas a um animador, caso ele se contente em bancar a "máquina
falante", em referir os propósitos de outrem, em substituir um colega
ausente ou em saudar alguém que entre na sala; a um autor, caso ele
tenha efetivamente preparado o argumento e o texto de sua conferên-
cia; a um responsáuel, caso ele endosse implícita ou explicitamente uma
posição que não é somente sua, mas de um "nós".75
A panir das noções de quadro panicipativo, participante ratificado
~ formato de .prod~ção, o sociólogo pode compreender o que quer dizer
~~:ª: e1:1 conJ~nto · Pa~a tanto ele importa os instrumentos que a sociolin-
gu1st1ca mterac1onal foqou para analisar os fatos da rn ( -
,d. · - - 1 guagem entonaçao,
proso 1a, comurncaçao nao-verbal etc ) e as ~orm d · - d"
. . . _ · 1 1
as a comurncaçao 1s-
s1mulada ou de msmuaçao, todas as pequenas t ...e - .. •
. . ,,
ecolog1a social que se .ope:am numa situação. ran;::i1ormaçoes da m1cro-
Charles Goodwm pode assim demonst re,
entre convivas num contexto familia .rar que uma conversação a .
r e amistoso " · ,, .
çóes - mas também toda uma série de . agencia enunc1a- cü
mov1mentos I .
guagem corporal - num estado de pala re evantes da hn· d
. _ . vra em ab
superpos1çoes, os apartes, as bnncadeiras sus , . eno no qual as lo
, . . cet1ve1s de p d .
sensos tempor~nos co.n:utuem. ~ materialidade da c . " r? uz1~ C_?~· s
que se denomma refe1çao fam1har. Michele L enmonia ordman~ e1
fi _ , . acoste por su
dando as con 1guraçoes moveis de uma reunião d ' a vez, estu· nc
· · d
hsar um proJeto numa gran e empresa, mostra qu e trabalho Para ana- nc
fi . 1 .b 'd , e
a palavra - o 1c1a mente atn u1 a aquele que pres·d a tarefa de d.istribuir fe
uma ordem do dia estabelecida - mobiliza, na ve rde ~ sessão segundo
1
fo
ticipantes e corresponde a uma "construção plural ~ e, t.º ?os os par- n,
engenheiros em reunião constituem, pois, uma equip . ~ ati~1dacte". Os pi
e, isto e ..
. urn con-
76
75 La conférence. ln: Façons de parler. p. 167-204.
77
ptt,\M 1\ S 53

. nto d,, >pcssods


JU f".l
· . ,
qu ' coldborclm
• ,, .
pé.lrél a e ncenaça- 0 de uma rotma
· par-
ticular . 1~u u_ tpcll , P? t t<1nto, rn cln11 ulc1r os quadros nas fases sucessivas
da n •gonél(élO L' rnob1hzc11 d S outras p ssoas presentes (me diante uma
troca dl' olhar. •s, por l'XL mplo, ou urna brincade ira), explicitar seu desa-
cordo por m 'IO til e omportc1mc ntos d e ausência (desenhar ou distrair-
se com um doe um 'nto), ,Jl1borc1r compromissos ("desviando a conversa"
quando t.b ;lborda um assunto espinhoso) .76
Ess 'S fa.to~ de linguagem sao fatos cênicos na medida em que
constroem dtstmguem, no ambiente dos participantes e com seu con-
curso, auv1dl d s que sao acessíveis e outras que não o são. Tais posi-
ções silo c10 mesmo tempo maneiras de se pôr à distância em relação a
um papel e d' enfrentar os acasos da representação . E são igualmente
disposições impessoais de interação, "tomadas" que ela oferece àqueles
que dela participam.
"Uma mudança de posição (footing) implica, pois, uma mudança
na atitude que temos para com nós mesmos e os demais presentes, tal
como ela se exprime na maneira pelc1 qual tratamos a produção ou a
recepção de uma enunciação. É uma outra forma de designar uma
mudança no quadro que aplicc mo o acontecimentos. "77
As situações ordin( rias vida pública nos obrigam assim a
modificar constantemente nos a qualificação social e a qualificação que
atribuímos aos outros participantes. Do ponto de vista do ator, isso sig-
nifica que a relação papel personagem que faz referência a uma iden-
1

tidade mais ou menos tipificada deve ser substituída pela relação


posição/situação. A noção de status participativo corresponde a essa
redefinição circunstancial do papel e lembra que um enunciado está
ancorado. no plano semântico e pragmático, numa situação de enun-
ciação. Assim, Stephen Levinson, retomando os conceitos de posição e
de quadro participativo e dando-se conta das insuficiências do esquema
locutor/audiência, propõe um modelo de análise ao mesmo tempo
sociolingüístico e interacional dos contextos de enunciação'. na medi?ª
em que eles fazem variar as posições do locutor e do ouvmte. Aqui a
noção essencial é a de "papel participativo" (paryci~ant-:ole). Essa
noção visa a recolocar a lingüística sobre os seus propnos pes e a con-
ferir-lhe uma base nas posições circunstanciadas dos seres fal~nte~:
fonte, autor, locutor ausente, advogado, porta-voz, c~-a~tor, destmata-
no, testemunha ouvinte etc. Ela se inscreve na contmu1dade de uma
ragmática da ~alavra plural propondo categorias capazes de descre-

Lacoste, Michele. Parole plurielle et prise de décision. ln: Le parler-frais. p . 257-73.


Façons de parler. p. 137-8.
ERVING GOFFMAN E A M ie
54 Rossoc 10L
:--- ~
ver os estados d~ p~lavra em abe~to n?s. quais as posições de en .
ão não são atnbu1das de maneira -ng1da A pelos
. turnos d e falaunc1a.
rn
Ç d
distri buídas ao longo d. o. curso a açao. - ratificação dessas pos1'. ço_ as
negociada pelos participantes
- d em
ct· questao, modifica const anternenes,
tanto a força de locuçao e um 1scurso quanto o grau de dis O .· .t~
dade e de atenção requerido daquele a quem ele se dirige_7B p mb,h.

Af1thOfll'
78 . t & wooton, 227
Levmso~. S. Putting linguistics on a proper footing. In: ~rew. p;u 1988. p. 161· ·
(eds.). Eruing Goffman. Exploring the interaction arder. PohtY Pre '
Lugares e ocasiões

A NOÇÃO DE QUADRO complica tanto o modelo teatral da rela-


ção ator-espectador quanto o modelo diádico da comunicação locutor-
ouvinte, ao designar as disposições cognitivas e práticas pelas quais os
atores sociais definem sua experiência e nela se engajam. Essas disposi-
ções se manifestam não somente no universo da linguagem, mas tam-
bém num ambiente espacial feito de dispositiuos de equipamentos
fisicos e sensíveis, no qual as condições de visibilidade e de possibili-
dade de observação são variáveis. O quadro equipado de uma cerimô-
nia, de uma reunião de trabalho, de uma festa, de uma transação de
serviço ou da atividade de deslocamento comporta fronteiras e limiares
de acessibilidade pelos quais se distribuem territórios. Na medida em
que é equipado, esse quadro não é só uma estrutura interpretativa (um
esquema), mas também um momento de atividade que se inscreve
numa ecologia particular na qual a linguagem corporal é indissociável
dos recursos mobilizáveis no espaço onde se desenvolve a atividade.
Como distinguir o que concerne às convenções, por um lado, do
que está ligado aos dispositivos físicos e sensíveis? No teatro, isso está
definido, e existe um certo número de "marcações" de abertura e de
encerramento (os três toques, 0 levantar das cortinas) para indicar aos
espectadores em que momento do desenrolar da representaçã? eles se
e~comram. Toda conversação tem, igualment~, su~s marcaço~s. Nas
circunstâncias da vida cotidiana, porém, as c01sas sao meno~ s1mpl:s.
As fronteiras e os limiares (portas e janelas, entradas e sa1~as) nao
podem ser dissociados das convenções que os confirmam socialmente.
Por ex:mplo, um aluno que deseja entrar na sala de um ~oo;denador
pedagogico deve bater antes de entrar. Essa convençao e geral e
remete às normas do contato hierárquico. Mas certas portas são feitas
S6 ERVING GOFFMAN E A M
::_:- -- -----------------_.:.:.:_'CRossoc,o
Loc,A rr1
de modo a permitir a quem se dispõe a respeitar essa eºªtªd
., 1., d
se há alguem a entro; outras sao peueitamente opa - ...e . convença- o sabe . arr vrª
.... 8o r11º
. de modo que o ocupante da sala possa se prot
são feitas cas; outras, ainda . r ·.,? n dOS ..
;·~ciª bJll
ou importunas e trabalhar ou cuidar de suas ocupações eger de intruso~ ·!· 1ner~ G
1

conhecido. · D·Ito d e outro mo d o, nao - ha., equipamentsern ser. v·isto ou :..1 iv ocía1s e
f
ffsico nem ronte1ra · que nao - s:1am . suscetíveis de adaptações. o estntarnente . â''
,. . a~os-rej,
O que transforma uma area fisica ou sensível ern e ·d
· ,ie,P ·.,os,.
atlv
.
logicamente .
pertinente sao_ as regras que permitem contrnt1 ade soe"0- ~or/J'l d1·cafl1
,1)1 . ,.,

1
1 · e11,
. - . . o ar a orde
·.· rrnan reS, C
<:Iª'
dos lugares e a comurncaçao entre participantes ratificado rn
d b . ., . ..
tes, especta ores o ngatonos ou nao-md1viduos". No vocab J' . ·_ . . ., s, transeun : ,i/a denad
1 d . ., . _
tra , 12-se que estes u 1tlmos sao re 1egados ao fundo da cena (u u ano tea. . iá o or "
02í
··· ·alin
. hadaS .
_ 1. d 1 pstageá)
ou que sao ec tps_a os pe o que se produz diante deles mas que não lhes :; u . desses
,, rmanva
diz respeito. A m1croecolog1a social se interessa, pois, pelo modo co . . ··' ncenadoI
decidimos a respeito do que nos concerne, em função das marcaç:: ..J3 um e d
psíquicas e convencionais disponíveis. :;~1neira c oncerta
A ecologia das atividades analisa, assim, em primeiro lugar as tro- ;;.a ie traduz pelo
cas explícitas ou furtivas, verbais ou posturais, entre pessoas presentes ·;i:·el. Dela é que
r . . .
num campo de visibilidade. Hoje, ela deve levar em conta as formas de ::-::mopart1c1patwo G

acessibilidade ligadas às tecnologias da teleação e do teletrabalho, que qnnoexigidopela é


procuram reconstituir as condições do face a face e da conversação r::eii iubordinadas.
ordinária. Leva em conta, igualmente, o ambiente fisico e sensível no
qual se desenvolvem essas trocas. Considera, por fim, os objetos ~os
quais os participantes
. . atnbuem
· um papel, na me ctida em que os sohc1·
tam para agir, controlar e antecipar sua a~ã_o. . ·ai e da vida
Segundo o postulado da superposiçao da vida socdi lorar é
. . .
pública, o meio de at1v1da es que a micro d · ecologia
. preten e exp
. r ula contra·
regido por um princípio de acessibilidade relatI~a cuJa ~rm_ ,
riamente aos 1dea1s . . da comurncaçao . - Plena · sena a seguinte. do que dese1a·.
"De modo geral, respondemos a mais a~ertura:79
ríamos e as aproveitamos menos do que gostanamos. úblicas inserevern·
'
Nossas ativida d es, precisa · mente por . dserem por Piniciativas
' na-0 ·auro·
rer-
. t ente
se assim num meio constan em . ... d ade ou na superpos1ç parasita o · ão dos
rizadas e desenvolvem-se na amb1gui ão e os
. ., . . . a atenÇ ·do
ntonos. . ., . . r ou distnbuir ern senti
Num tal meio, ag1r e mobihza . A loucura equeri~
s diz respeito. . é do P _ da
engajamentos, saber o q~e no a do lugar, isto 'rr,enraça~ ·a
amplo - a nossa, a do intruso ou pela desregu1ª Jtaçóes, J.\
mundo onde vivemos - m anifesta-se d engajament O (exa
atenção ou pelos desvios bruscos 0

79 Façons de parler. p. 25.


O CASIÕES 57
•RES E -----~~~~~~~~~~~~~~~~~~~--=~
~
, ou arrebatamentos). A ameaça da loucura, constantemente
çoes nte na obra de Goffman para além da figura do recluso e d
prese . ~ . a
experiência dos b~l.adrndcomdios:dtem,bpl~r função lembrar ao mesmo
a vulnera i i a e a vi a pu ica e a natureza normativa dos
rernP 0 . .
bientes sociais comuns.
arn .
os espaç.os-tempos que a microecologia pretende explorar são,
de fato, normativos, sobretudo porque comportam uma avaliação das
aparências e indicam, ~or exe~p~o: que elas são normais ou, ao con-
trário, alarmantes. Cheios de mdicios, eles nos permitem saber se as
coisas estão ordenadas e se as pessoas presentes estão no seu devido
lugar ou "alinhadas". Em suma, a microecologia analisa a estrutura-
ção normativa desses territórios espaciais ou temporais. Quer ela se
deva a um encenador, animador ou organizador, quer ela se elabore
de maneira concertada entre os participantes. essa estruturação nor-
mativa se traduz pelo domínio do espaço acessível ou do tempo dis-
ponível. Dela é que depen-de , portanto, a forma do momento, o
contorno participatiuo da atividade, isto é , o modo de implicação e de
empenho exigido pela atividade principal e o que ela admite como ati-
vidades subordinadas.

Interações não-focalizadas: o quadro equipado


do transeunte t
--·
Cumpre certamente lembrar aqui o legado da ecologia urbana
tal como concebida pela Escola de Chicago. Menos do que as rela-
ções entre uma população e seu território e as formas de adaptação
daí decorrentes, a ecologia urbana pretendia estudar as formas regu-
lares de ajuste ou de conflito produzidas pela coexistência de popu-
lações diferentes num mesmo território. Pode-se dizer que a microecologia
mantém essa definição formal, mas se interessa mais pelo alinh~-
mento das condutas numa situação concreta do que pelas comu~1-
dades no espaço social das cidades. Behauior in public places baseia-
se em exemplos tirados de lugares públicos - ruas, parques, resta~-
rantes, teatros, magazines, danceterias -, e ~ ~t~ografia que ah-
m~nta a análise trata da estrutura das trocas ordmana~ ~esses lugares;
Nao a rua dos movimentos sociais, mas a rua que cot1d1anamente da
ensejo a ajuntamentos (gatherings) e, com _esses ajuntai:nentos, a tes-
tes normati·vo b , . e ·mprópno O conveniente e o tole-
r' s so re o propno O 1 ,
ave! em nossas sociedades.
De certo d s ai·untamentos em público oferecem a
G ff mo o, esse . . ·
0 man a possibilidade de colocar, a partir da etnografia da mst1tu1-
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc10
58 _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Loc,A
.:::.=-_

80
Ção manicomial como "instituição total" , as mesmas questões: co""
se chega a sustentar e a confirmar uma ord ~~ ?· Q uais . - os limites'''º
sa? do g
tolerável e quais são as adaptações necessanas ª~ fu_nc1onamento de
nossas convenções? Mas é a questão da ordem pubhca que tem Pre. e
cedência sobre a questão da ordem institucional, e o que interessa à t
análise são as interações entre pessoas que mal se conhecem ou não E
se conhecem, e não as relações entre os membros de uma mesma é
comunidade. A microecologia constrói, pois, seu domínio afastando. u
se tanto da instituição total quanto dos meios de interconhecimemo. "
Os participantes dos ajuntamentos em público não são nem reclusos
nem membros.
A norma estabelecida dos lugares públicos é a de serem aces- n
síveis a todos. Esse é um princípio de ordem (a igualdade de acesso) e
uma restrição de uso (as iniciativas não-autorizadas, a presença do impor- S(
tuno, do intruso). Portanto, cumpre distinguir formalmente, em toda situa- t<
ção de co-presença em público, os participantes não-ratificados, intrusos d
ou excluídos, dos participantes que estão, a julgar pelas aparências nor- n
mais, no "seu devido lugar". Como as aparências não têm relevância rr
senão num conjunto de circunstâncias, costumamos nos acomodar à plu- té
ralidade dos mund~s ;1ei~ando alguns deles na sombra, à margem de
nossa_ esfera ~e pertinen~1a, nu~ ca~al de distração. Distinguimos as in-
teraçoes focalizadas das mteraçoes nao-focalizadas.
_"Em vez
. . de opor as interações. . face. a cace
1, excep c1ona1s
· · aque
, Ias
que sao rotineiras, proponho distinguir as interaçõ - e . d
· - f 1· d A · es nao-1oca 11za as
d as mteraçoes oca 1za as. s interações não-focal· d - e.
. _ . 1za as sao essas ,or-
mas de comurncaçao interpessoal que resultam d . s~
sença. Por exemplo, duas pessoas que não se conh ª simples co-pre·
n
seu canto da sala, observam o modo de vestir-se ec~m. cada qual de
e
uma da outra e passam a modificar sua post~as atitudes e os gestos
mutuamente observadas. A interação focalizad ra P_?rque se sabelll
efetivamente manter, em conJunto . e por um moa supoe qu e se acett~ ·ª e
.. p mento um , · e 0 d
de atenção visual e cogrnuva. or exemplo, uma · urnco ,oc
. conversaç- . e~
de cartas, uma tarefa conJunta ocupam, num círc 1 .ªº· um Joga e
. - d e e O s que mant u~ o estreito , os parti
Cl.pantes em situaçao- e 1ace a ,ace. . em em e . si
único foco de atençao decerto se engaJam igualment º~Junto u e
não-focalizadas. Mas eles o fazem como participantes d: :as Interaçõe n
1oca1·1zada , e as pessoas presentes,
e
_ f estranhas
. a essa at1v1d
. . rna d atividad tr
pam também das interações nao- oca izadas." 1 81
ª e, Partic pl

, d' . ociale des malades mentaux M·1


BO Asiles. Ecudes sur la con won 5 · nuit, 1968
8I Encounters. p. 7.
QCASfôES 59
~ - - - - - -- - - -------------_:~
Note-se que as inter~çõe~ não -focalizadas são efetivamente intera-
; . da que nelas a rec1proc1dad e das perspectivas se reduza à obse _
oes, ain , e . 1 .f . r
iabilídade mutua. Co~ e1e1to: e as_s~tls azem ~ ~ma _c?ndiçã~, por assim
. estrutural:
dizer, . relacionam d1spos1çoes . sensona1s
. (v1sao , audição , olfato ,
a urna linguagem corporal feita de movimentos, gestos e atitudes.
)
Essa relação de ~b~erva b 11
cato ·1·d a d e_~sta b ele~1d~
· pela co-presença mínima
, não apenas publica mas public1zante; e nao apenas um indício para
~ma testemunha, mas também uma exposição em sentido amplo, uma
"demonstração de intenção", no vocabulário da etnologia, uma "rendi-
ção" no vocabulário simmeliano da reciprocidade.
"Normalmente, o fato de usarmos os sentidos implica que os usa-
mos abertamente e que nos revelamos por esse mesmo uso. "8 2
Assim. na linha da "sociologia dos sentidos" de G. Simmel, pode-
se relacionar as modalidades de construção social de nossos julgamen-
tos à experiência do olho (o sentido do julgamento imediato, o sentido
da metrópole como lugar por excelência do encontro entre estrangei-
ros), do ouvido (o sentido da opinião de outrem e do interconheci-
mento), do olfato (o sentido da intimidade e da repulsa). 83 Pode-se
também mostrar como um murmúrio ou um piscar de olhos funcionam
como fronteiras ou dispositivos de focalização que limitam a esfera de
propagação da informação acessível.
Na medida em que os recursos constitutivos das interações
não-focalizadas pertencem à esfera das informações coletadas num
campo de visibilidade, eles dizem respeito à experiência rotineira do
transeunte. Os recursos dessa linguagem convencional e normativa
são, pois, disponíveis localmente para os participantes, mas sua perti-
nência depende dos procedimentos de mobilização da atenção e dos
engajamentos recíprocos.
Essas formas elementares de regulação da acessibilidade são
constitutivas da ordem pública na medida em que não se trata apenas
0
de uma questão de polícia e de normas de segurança: Elas r:gem
espaço de circulação, os movimentos das "~nidades v~1cu~ares que_ a
c_ompõem e os estados de vigilância dissociada (aparenc1as n_o~ma1s/
Slt~ações de alarme) próprios de um universo em que as estr_ateg1as _de
e~nação têm função essencial. Mais precisamen~e. talv:z as mteraçoes
nao-focalizadas sejam as mais estratégicas das mteraçoes, quando_ se
trata de antecipar os movimentos das outras pessoas presentes. A sim-
ples troca de olhares entre dois transeuntes, por exemplo, tal como ana-

82
83 Behauior in pu b/'rc P1aces. p. 16 ·
s· , . , /ogie er sociologie. op. cit.
unme\, Georg. Sociologie des sens. ln: Episremo
ERVI C GOFFMAN E A MICRO
()
6v~--- - - - - - - - - - - - - - ----------..:SS0c10Lo
- CtA

lisada por 0,1Vicl Suclnow, , rn ·n s uma situação face a face


duas .. poses", id ntificand I ·ssoas ~ classificando-as em categoriaentre inter
proV
que uma tr ca d , inf )l'Jna < s sobr' posturas e sobre as conseqüe~ s, ~o
. ei as .mt nço s eiaquc 1e com quem cruzanc1as f:lél o
que cada urn d v d duz1r pass
Os trl ns unt s u os usuários de um transporte público pro.e. de e
rarn e ssim ori nt, r-s , péH"tir dos indícios que notam em seu ambient~
As int rl çõ s nflo-focalizadas funcionam, pois, como detectores de per: bele
tin ncia, pennitindo demarcar ou balizar um meio a partir das indica. cad
çó s e~ nic s que ele propoe.
Essas mesmas est ratégias são utilizadas pelos agentes de segu.
rc nç · ncc rre ados de supervisionar as condições de acesso e de utiJi.
zação dos espaços públicos. Por outro lado, sua visão dos recursos do
espaço será o negativo da visão do usuário comum, já que estarão aten-
tos a tudo aquilo que, nesse espaço. ~?ssa constituir-se em esconderijo,
posto de espreita , fenda, des\ ão etc. O estudo do trabalho dos fiscais
do metrô parisiense mostra que ele de\'em levar em conta ao mesmo
tempo as características eco ló ic s d spaço no qual intervêm e o fato pe
de suas interpelações ser m fi i n m meio de deslocamentos em co ~
aberto. Uma estação de m ,u·· , e me~ ito, um espaço poroso, abeno zag
à cidade, no qual é difícil ad t · o método de divisão por quadras ado- anj
tado nos bairros residenciais. esse espaço, o menor incidente pode
propagar-se e ter repercussões no conjunto da rede. Eis por que o tra·
balho do fiscal passa por um momento crítico quando da interpelação: :~
"De fato, esse é o momento em que as intenções são avaliadas de
parte a parte, a autoridade do agente está em jogo e ele procura impor ~~
O\.;
um quadro de participação que facilite o resultado do controle movi· p2
menta prospectivo que~ será confirmado ou desmentido pela seq,üência
to
dos acontecimentos. E um momento , ~. d
crítico porque seu com po rta·
OC
menta está exposto ao. o.Ihar
. e a cnuca as testemunhas. Em g era1, tu do
isso leva o agente a mm1m1zar o ato ameaçador que const't . .
lação para aquele que frauda, desde que este último ac ~ ui abmterpe·
_ . "'" ene o edecer:
ele alivia as tensoes, deixando de ,azer de seu corpo b .
d'-'"
ob pena de parecer lacornco ou m 1,erente, evita
A • • uma arre1ra , e'
s d · contatos oculares
prolongados e adota um tom e voz o ~~1s neutro possível." 86
A interpelação é um momento c.nt1co (e não apenas
comete a fraude) que modifica a organização do espaço de P~ra qu:rn
c1rcuJaçao,

84 S d D ·ct Temporal parameters ofintell)ersonal o b s e r v a t ~ -


(ed.~. ;~:·es ~nv~o~ial interacrion. New York, Free Press. 1972. p. 259-93.· Udnow, David
85 Les relacions en public. P· 2~7- 3 l l. . ur: Annales de la Recher
ij() Or1ncvelle. Michel. Le travai! du controle · che Urbain
' e (57/58):
112·3.
ocASJÓE S 61

~ - -
e fluxo c~lenvo ou retarda o curso da aça,o_ de um_ indivíduo,
O
. rerron1Purn co ngesnonamento e_ transforma
1n . . a matena
_ das interações.
provoc~ ntabular conve rsaçao e so1iclta a atençao dos interagentes.
Ela obnga ª -~ de uma interação não-focalizada (um simples con1·unto
pass~-se · ass1 , para uma mteraçao
"ncias) . - .s:1oca1iza
· d a, uma ocasião.
c1rcunsta . " .
de "Por exemplo,. os funerais ,tem ~o~eç? e fi,m n?~rosamente esta-
.d limites estritos quanto a participaçao e as atividades toleradas.
belec1 lasse
os, de circunstancias
" . d esse genero
" tem um etos, um espírito e
e
cada estrutura . l , · d
emociona propnos, que evem ser postos em ação,
urna nvolvidos e 1eva dos a termo. Quem de 1es participe · · tera' a impressão
·
d ese . .
de estar tomado pelo acont~_cimento, ~uaisqu~r que sejam seus senti-
mentos pessoais. Essas ocas1oes, que sao habitualmente programadas
com antecedência, têm uma agenda de atividades, a função de gestão
lhes é atribuída, as condutas impróprias são punidas de modo preciso,
elas têm seqüências e um ponto culminante preestabelecidos. "87
Uma ocasião apresenta três características: limites e fronteiras
perceptivas que a constituem como acontecimento, uma influência
cognitiva e afetiva que se exerce sobre os participantes, e uma organi-
zação interna em seqüências. Em certos ajuntamentos (os funerais, os
aniversários ou os piqueniques), a regulação da acessibilidade e as nor-
mas de engajamento são relativamente claras. Por outro lado, outras
ocasiões não apresentam a mesma unidade organizacional e pressu-
põem que os participantes cooperem para definir suas intenções recí-
procas, para manter o mesmo foco de atenção, às vezes excluindo
outras pessoas presentes e outras atividades. Dito de outro modo, os
participantes estão envolvidos como "mestres de cerimônias": devem
tomar iniciativas, dar início aos engajamentos e definir a natureza da
ocasião.
Pode-se tomar como exemplo da focalização de interação a cena
banal de uma prestação de serviço no balcão de um banco ou numa
delegacia de política. o usuário ou o cliente presente no balcão,
quando não chega como O "seguinte" da fila, isto é, quando sua quali-
dade de cliente não está ratificada por um dispositi~o de e:per~, encon-
tra-se numa situação ambígua. Presente, mas amda nao visto pelo
agente ou agentes atrás do balcão. ele procura captar um olh~r e se
fazer identificar, de alguma forma, como tendo direito a um serviço .. D~
sua Parte, o agente tenderá a proteger seu espaço de trabalho, mult1ph-
cando os sinais de que ele ainda está ocupado, evitando ~!aramente o
olhar do cliente. A primeira troca de olhares significa, pois, para cada

87
Behavio ·
r ln public places. p. 19.
ERVING GOFFMAN E A MICROSSOCIOLOGIA
ytJÚ�

62 JlJl
seria �ossível �es­
prrie J·
um dos participantes dessa prestação de serviço (mas
crever da mesma maneira as estratégias do garçom do cafe
para evitar de o
os olhares das pessoas sentadas nas mesas e que certamen
te o espe­ orô,
ram) algo como uma designação, o indício de que é provável haver �
m
çóeS
engajamento em futuro próximo. Geralmente, esse início de engaJa­ de 11
mento se traduz por um sorriso ou por uma palavra ("vou atender em 88 oar
breve"), convidando ao mesmo tempo a ter paciência e não insistir. rros
Uma interpretação superficial desse exemplo poderia dar a enten­ fabr'
der que as estratégias de evitação do agente traduzem o propósito de
ignorar uma solicitação. Aí está uma das contendas comuns entre os
agentes e os usuários dos serviços públicos. Na realidade, contraria­
mente àquilo que acontece num quadro teatral, a observabilidade mútua
obedece a regras estritas em razão da própria acessibilidade dos partici­
pantes num espaço público e da regra que ela institui, a regra da desaten­
ção ciuil.
"Ela consiste em mostrarmos ao outro que o vimos muito bem e
que estamos atentos à sua presença (devendo ele fazer o mesmo) e, um
instante mais tarde, desviarmos a atenção para fazê-lo compreender
que ele não é alvo de nenhuma curiosidade ou intenção em particular.
Fazendo esse gesto de cortesia visual, o olhar de um pode cruzar com o
olhar do outro sem que isso autorize um "reconhecimento". Quando a
troca se dá na rua, entre dois transeuntes, a desatenção civil toma às
vezes a seguinte forma: lançamos um olhar para o outro, a cerca de dois
metros de distância; durante esse tempo, a calçada é repartida através
de gestos; depois, baixamos os olhos à passagem dele, como que numa
trégua. Esse é talvez o menor dos rituais interpessoais, embora regule
constantemente nossas trocas em sociedade. " 89
A desatenção civil é uma forma importante de interação não­
focalizada que consiste em atenuar a observação. Precisamente por
ordenar
_ que o olhar não se fixe, �la �. antes de toda troca verbal, a pri­
meira etapa do encontro. A cortesia visual que ela sugere indica que não
temos nenhuma razão para suspeitar das intenções do outro, para
temê-lo ou ser-lhe hostil, para temer ser visto ou olhar. Em suma, é a pri­
meira forma de abertura. O fato de ser não-verbal e traduzir-se por um
mo�i�ento e não por u:11a fra�� não _ lhe r:tira e� absoluto sua função
soc1ahzante. Essa forma pobre de mteraçao, no hmite entre a evitação
e o encontro, explica-se principalmente pelas condições gerais
da vida

88 � el
F m , Michel de. La réclamation et le dépôt de plainte dans un commissariat. ln: La
relatron de seruice dans /e secteur public. RATP. Plan urbain. v. 1, p. 37-46
89 Behauwr·
... p. 84.
E OCASIÕES 63
LUGAR ES.~----~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
=------
, . em nossas sociedades. O argumento é conhecido desd s·
pub11ca . d' "'d . e 1m-
.l a cidade faz com que 1n 1v1 uos socialmente muito distantes
rne . . d·~ . , ou
de origens cul~ur~1s 11erentes, _:'lVam e m proximidade uns dos outros.
Ora, essa prox1m1dade .pressupoe u m trabalho em relação às conven-
ões disponíveis, espec1a1mente n o que se refere à abertura e aos sinais
~e hospitalidade: e la pode produzir um mal-estar nas interações e tor-
nar vulneráveis essas unidades sociais elementares que são os encon-
tros (trata-se do discurso corrente da insegurança) ou, ao contrário,
fabricar consensos provisórios e acabar na euforia ou no riso de um
encontro feliz. Seja como for, a desatenção civil, na sua positividade, é a
menor das obrigações na esfera da co-presença.90 E as mudanças de
humor do sociólogo - as de Goffman e as de Simmel, antes dele -
diante dessas trocas furtivas só podem ser compreendidas por aquilo
que prometem (a euforia de um ajuntamento e o apaziguamento das
tensões resultantes de uma acessibilidade sem regra explícita) e pela
perspectiva das ameaças a que estão expostas.

Interações focalizadas: o sentido do lugar


Na cortesia visual da desatenção civil, é preciso, pois, sublinhar a
civilidade mais do que a desatenção. E essa civilidade está p,re~ente em
toda uma série de situações de co-presença: num lugar publico, mas
também num espaço de trabalho. Mostrou-se, por exemplo, _c omo O tr~-
balho nas salas de comando centralizado do metrô lond~mo,_ organi-
zado em torno da equipe do regulador e do informante, implica uma
ecologia das atividades favorável à constituição de um plano de trabr
lho comum (mesma orientação em relação ao quadro de contr~ e
óptico, acessibilidade e divulgação mútua das atividades) _e pressupoe
ção dos dois agentes: o
~m conjunto de gestos que marcam a co~p~~a ·vas do regulador e as
mform~nte acompanha discretamente as mic1at1 do eriférico as ações
transmne aos viajantes· ele tenta controlar de mo - :estão de sua ativi-
de seu colega e, por s~a vez, o regulador integra. a
dade a presença e a receptividade de seu colegad. guiador, o infor-
"V tamento o re
igiando de perto o compor d ·xa a seu colega o que
m . · l' que ei
ante guarda certa 'distância socia · desincumbir-se de suas
Hughes chama de 'margem de manobra padra informante se dispõe
respo b. . . te quan o o . d
nsa 1hdades'. Mais prec1samen · fazer um comunica o,
a seguir o apelo ao condutor e se prepara para .

9o B
ehauior... p. 104 _
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc
6,4/l_ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ IOLoc1/\

·-= ----
ele nao- olha em. direção ao seu colega. . Além disso, quando mud a de
lugar e Se aproxima do .regulador,
. evita fazer-se ver ou notar· Assi·rn , suas
ões parecem se realizar independentemente do apelo ao cond
aç . b .d Utor
como se O informante estivesse a sorvi o numa tarefa que não .'
. p . esti-
vesse relacionada com isso. or seus movimentos corporais e sua man .
. . eira
circunspecta de agir, o informante preserva prudentemente O equilíb .
de seus engajamentos, v1g1an· · d o d'1sfarça d amente as iniciativas de sno
colega na periferia de seu campo visual e evitando mostrar-se dernasia~u
0
atento à atividade do regulador. "91
A conversação não é, pois, a única forma de interação focali-
zada. Esta última será definida como um processo de comunicação
ligado à cooperação de dois ou mais indivíduos que tentam manter um
mesmo foco de atenção gerando seu "tônus interacional" e evitando a
expressão de uma ausência ou de uma hostilidade no ajuntamento em
questão. No caso de uma comunicação telefônica, a ausência de visibi-
lidade mútua e a descontinuidade ecológica das situações impõem a
confirmação regular do quadro e do contorno do quadro em que se
desenvolve a atividade ou, ainda, a ativação da rede de pessoas que tra-
balham em conjunto em lugares diferentes.
Quando as portas e as paredes não regulam fisicamente a aces-
sibilidade ou quando se está em presença de alguém de fora, por exem-
plo , num elevador ou num bar meio vazio, manda o costume que se fale
em voz baixa ou que se guarde distância, dividindo de modo coopera·
tivo o espaço disponível. Analogamente, para marcar o território do
encontro, muda-se de assunto quando um terceiro se aproxima, empre:
gam-se "recursos seguros" (a chuva ou o bom tempo) para mostrai
desinteresse, isto é, a recusa ao engajamento. rn
Goffman propõe classificar o conjunto desses procedimentos
gras de trans,or·
i
duas classes de regras: as regras de impertinencia e as re . i·
• • A •

O ·sterna de anv
mação. Ambas resguardam o momento e protegem .5! . d0 ·ogo:
dades situadas. As primeiras são encontradas na expenenci~ ~ urna
"Os jogos são atividades construtoras de mundos. Aci~-ns: serern
. d' 'b . ão de pape1
matriz de acontecimentos possíveis, uma 1stn uiç ndo O con·
. . . se verifiquem, se , ·a
assumidos para que tais acontecimentos de existenc1 '
.,. · f 'd' a um pano 1 dos
junto o terreno para a ação dramauca au 1_c ' diferente de to . 5
uma máquina de significar, um mundo em si mesmd º·produzir ern ounª
.,. . ·ogo po e
os outros, exceto daqueles que o propno J
ocasiões."92
'e dtl
. socio/og1
. ·on de 1'interact1on.
91
He ath , Christian. Activité distribuée et organisau
Trauail, 36(4):523-45. 1994.
92 Encounters . p . 26-7.
L' C E OCASIOHS
LUGAR •·-'

Os acontccim
.
' ntos
.
e os pílpl'is <11spornv<.'t ·s (.omp1l'l é1m ;1s rc, , ...
1
·ogo propnam ' tll , cl1tt1s l! s;10 constttut1vi1s d I cl111 . 1 . 1, els
o
d J . ' dtntc tl e o c•nc mtro
na rn edidn cm .. qu ,. •la . orga111í't1 os mov11rn.:' ntos /\ss1111 1ogc11
• • • • ,
-. ,
11dü e i1pl1
.
Car
urnél r g1 d, m.1s. .
/uz(.I urn mov1m •nto ou tonwr .1 ttltc··.lei t IVcl
1
1
' . ••
. 1l'íllél s ,
·s
Pol ' de uma ,1ttv1 "
lad ' ou cl ' Ullld s 'tiUL'nc 1( 1 clt' i<· ic> . . ,
( " ( ' (' ISSO e qu } íl
'
torna .. nvolv nt , :
"L!m, atividad ' nvolv ·nt lunoonc1 como um ltmnc que cerca
05 partic1µant s :) barra todas as Sé1l(lc1s péHcl varias outros universos de
sentido~ d ação. Sem ssa barrcirc1. os pc1rticipantcs ver se iam imobi
Iizados pel( profusão de bases de <lÇclO."
No entanto. a barreira em questélo nem sempre é tao sólida. Vol-
tando aos encontros ordinários. constata-se não só que as atividades
situadas nem sempre são envolventes corno formas boas. mas também
que a alocação dos recursos dispornveis obedece a regras de transfor-
mação ligadas aos atributos dos part1c1pantes e às restrições externas ao
encontro. Por' m. diz Goffman. é preciso estar atento às modalidades de
transformação (n maneira como funciona a "membrana" que isola o
encontro) para distinguir o que cone rnL c1os grupos e ao status de seus
membros daquilo que concern o ncontros e aos seus participantes.
Por exemplo. quando s 1u r r u m preside uma reunião, quem
fala mais, a quem s dirig m 1 r ntemente a palavra, pode-se for-
mular a hipótese d qu d rnínio da reunião reflete uma condição de
líder. Assim. o que se produz na reunião apenas ilustra uma posição na
ordem estrutural. Ora. pode-se bem imaginar que um líder saiba
"desempenhar seu papel" e cuide em deixar que outros. presidam a reu-
nião ou dominem seu curso. Dito de outro modo, a liderança de ~m
grupo não corresponde a uma "média" das posições ocupadas nos dife-
rentes encontros. . ·
"Há uma grande diferença entre a distribuição de direitos e
. . ·b · - d s c ·vilidades da conversa-
poderes reais na sociedade e a d1stn uiçao ª 1
ção ··93
· ·déia da dualidade irre-
Deparamo-nos mais uma vez com essa 1 _ .
, . d d 1.nteraçao Assim, as regras
duttvel das ordens: ordem social e or em e el servem· para Precisar as
d e transformação entre um status e um pa P . . - entre um a1·unta-
. ou a d1stmçao
propnedades específicas dos encontros
mento e um grupo. . _ . ·os elementos são indiví-
Um grupo é uma organizaçao socia1 cuJ ercebem a organização
duos que se percebem como membros e ~ue felações particulares que
como entidade coletiva distinta, separada as

'HEncounrers. p. 34.
6 ERVING GOFFMAN E A MICRossoctA
6 - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - . : . : : . :W~GG1~
=

eles mantêm entre si. O supor~e moral que os mem~ros obtêm de sua
identificação com o grupo vai de par com um sentimento de hostili-
dade em relação aos não-membros. 94 Essas características podem ser
encontradas no universo dos encontros na medida em que tendem a
reproduzir-se. mas elas nada dizem a respeito de sua própria estrutura.
O fato de estar junto pode ser apenas uma etapa da vida de um grupo;
já o fato de se separar assinala o fim de um encontro. Do mesmo modo,
a adesão às normas referentes a tomar a palavra e à circulação da pala-
vra não é essencial à vida de um grupo, não mais do que a alocação de
uma posição no espaço onde se produz o encontro ou a gestão dos
embaraços que venham perturbá-la. Qualquer que seja a possibilidade
de a sociologia descrever parte dos acontecimentos que se produzem
numa situação concreta como a tradução das filiações individuais a gru-
pos diferentes, esse domínio das "normas de conjunção" não pode ser
deduzido dos conhecimentos adquiridos em matéria de normas de per-
tencimento ou filiação.

Os distúrbios do lugar
"É quando os normais e os estigmatizados se vêem material·
mente em presença uns dos outros, sobretudo quando se esforçam para
manter conjuntamente uma conversação, que se produz uma das ceJffiS
primitivas da sociologia, pois geralmente é nesse momento que ambas.as
partes têm de enfrentar diretamente as causas e os efeitos do estigma
O mal-estar dos contatos mistos é uma cena primitiva da soei
gia porque nos revela a tensão criada pelas relações sociais. A ince
que aí reina diz respeito à tradução da identidade atribuída em dive
performances durante u~ ~ncontro. Essa incertez~ é vivida de part
Parte. e nenhum dos participantes sabe como dominar as impress- s
·
outro: a pessoa esugmauza · d a nao
- b l oe
. . sa1.. e .que ugar
d' ocupa nas rep resen
ções do outro e osctla e~tre a mso enc1a e a 1scrição, ao passo qu
outro com quem ela esta em contato de~e procurar mostrar-se ind
eguem-se formas de se fechar em s1 mesmo e em relação
rente . S fi - ) - b, ao ou
(engajamento exagerado, a etaçao , que sao tam em patologias da in
ração. é d" ..
Do mes mo mo do • O embaraço
. uma
,. . 1ssonancia que 1·ntere
.
ao soc16logo porque mostra uma mcoerenc1a na performance (ga

94 Encounters. p . 9.
95 Scigmate. p. 25.
LU GAR
ES E 0CAS 1ÔES 67

ncada) ou uma descontinuidade da interação que significa mais d o


m:e um simples incidente circunscrito. Seja porque resulta da combina-
~ão de papéis_ contraditórios que nã? se _soube ?~minar.96 seja porque
traduz um efeito perverso das orgamzaçoes soc1a1s e dos lugares públi-
cos (elevad ores. cantinas, vendedoras automáticas) , que põem todo
mundo "em pé de igualdade". sem indicar a regra e o uso e sem forne-
cer o princípio d a separação entre familiaridade e distância. Assim
como os "contatos m istos" com uma pessoa estigmatizada. as situações
embaraçosas pade ce m de uma presença não regrada da estrutura na
situação, isto é, de prescrições estruturais que não tenham sido filtradas.
O terceiro tipo d e d istúrbio é mais grave. já que afeta o próprio
sentido do lugar. prejudicado por formas patológicas de interação.
Entre o artigo publicad o na revista Psychiatry em 1952. "Calmer le
jobard: à propôs d e l' ad a ptation à l'échec", e "La folie dans la place".9 7
Goffman estudou as form as d e co operação com o indivíduo que não
tem mais o lugar que lhe cabe e que perturba os arranjos ordinários e a
inteligência partilhada das situações. Tratava-se de inventariar e classi-
ficar os modos de agir ou falar que "contêm" o indivíduo cujos sintomas
se avaliam sobretudo pela capacidade de invadir a esfera da auto-regu
lação e da reciprocidade das perspectivas. A fórmula da relação social
com o doente mental consiste precisamente em arranjar lugar para
alguém levando em conta sua incapacidade para manter-se no seu.
"La folie dans la place" registra as mudanças verificadas no tra-
tamento dos doentes mentais e a dificuldade de internar alguém contra
sua vontade. À margem das práticas psiquiátricas. o artigo estuda as
modalidades interpessoais de g~stão da loucu ra que consistem em man-
ter o louco "num nicho no seio d a socied ade livre no qual seja possível
tolerá-lo", ou seja, em compartilhar seu aba timento ou acomodar-se a
ele. Como o trabalho de conter. apazigua r e agüentar o insuportável
não cabe mais apenas ao psiquiatra ou aos que presta m cuidados. são
as dificuldades ordinárias, vernaculares. da coope ração e da co ordena-
ção das atividades que constituem a verdade situacional da doença
mental. É O limite do julgamento clínico ordinário que ~exi~e se r _co~-
preendido, e é a fronteira entre O âmbito médico e o a mbno ps1qu1a-
trico que se torna problemática para todos aqueles a que m compete
julgá-la ou justificá-la. A grande "elegância" ~u a corage~ . d~ certos
doentes atingidos em seus corpos, sua capacidade d e mm1rn1zar seu

96 "'T' · d 1 c m que n segregação dos públi-


o sistema social contém momentos e ugares
10 ·
cos é regularmente rompida" (Les rires d'interaccion. P· 97 ).
97 R1 .
e ations en public. p . 313-61.
ERVING GOFFMAN E A MICRosso
06,8::__ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _--.:c 1otoc
1
- ~
. ento ou seu mal-estar mostram que eles sabem qual é 0
so fnm . .d d . seu
devido lugar. É pr_ecisa~ente essa at1v1 a e n~ua1, como reparação ou
neutralização da 1nfraçao, que desaparece, diz Goffman, no caso dos
sintomas mentais.
Os sintomas mentais, que não existem por si mesmos, tampouco
existem por sua etiqueta. O louco, não mais do que o judeu de Sartre,
não existe somente "aos olhos dos outros". Essa versão empobrecida do
interacionismo como teoria do espelho não é conveniente. Os sintomas
mentais são "atos realizados pelo indivíduo que proclama abertamente,
diante dos outros, que necessita de uma idéia de si mesmo que sua
organização social não lhe permite nem pode influenciar muito. Donde
se segue que, se o doente persistir em seu comportamento sintomático,
ele provocará necessariamente uma devastação na organização e no
espírito de seus membros. Essa devastação indica que os sintomas médi-
cos e mentais são radicalmente diferentes por suas conseqüências
sociais e por seu caráter. É com essa devastação que se defronta a filo-
sofia da permanência no meio. É essa devastação que os psiquiatras dei-
xaram de considerar e que os sociólogos ignoram quando tratam da
doença mental como uma simples questão de designação. É essa devas-
tação que cumpre examinar. "98
Eis que se coloca então o problema da sociologia da ordem das
interaç?es (assim como das intervenções que concernem à psiquiatria
em meio aberto): que vem a ser a experiência que consiste em coope-
rar com a~u_ele que devasta, com aquele cujo comportamento "vai de
encontro a smtaxe das condutas e desarranja O costumeiro acordo entre
postura e lugar, entre expressão e posição"?99
Usurpações,
. exibições, , b"10s na
, . retraimento caracteri·zam os d"1stur
ordem dos arran1os em publico, mas, quando se trata d . ó-
l · r d ·1 . e um meio pr
ximo, como ta 1mp 1ca o ~o <:_1c o mfernal das retroações corretivas
com o doente menta1, a ev1taçao e a exclusão das 1·n· . .
acabam por consutu1r. · em torno deste ultimo
, uma .. 1c1attvas
,
comuns
,. · ,. pe11cula gelada e
opaca . Acontece, ~a ;;1a~1a e ~a par~no1a. que o próprio meio domés·
tico sofre uma pro t
~ esonent~ç~º.: ~~nerabilizado pelo "furor do
doente contra as re ~ço~s e a pos1çao ·. ./?er~tividade e "loucura do
lugar" re~lamam, pois, Eo med10 uma ~1g1 anc1~ d~ todos os instantes
ainda mais devastadora. ssa evastaçao orgarnzac1onal .
, . . , · · • CUJas propor·
Ções os relatos chmcos ignoram. e multo mais uma patologia d ,
n l d . -
do que uma "doença menta l : e a esorgamza nao so a co, o umculo
. _
rnun1caçao

98 Relations en public. p. 332.


99 lbid., p. 341.
E OCASIÕES
LUGA RES
69

entre o doente e seu meio, mas ta:nbém a própria experiência que não
e mais se representar. Cada cnse lembra que a patolog· , .
pOd . . . 1a e smgu1ar
mas cada cnse irro1;1pe depo~s d~ um período de calma em que tud~
parece em ordem. E essa osc1laç,a o entre o normal e O patológico que
não sabemos representar para nos mesmos.
"Pois se fosse possível
_ .reservar ao comportamento doentio um
1
lugar no inte1ecto, e e nao sena um comportamento doentio. É como se
a perce~ção só pudess~ formar-se e .manter-se onde está a organização
social; e como se pudessemas sentir, mas não fixar, a experiência da
desorganização. Quando ,ª devastação está no auge, é raro os partici-
pantes encontrarem alguem que tenha alguma idéia do que seja viven-
ciá-la. Quando o distúrbio enfim passa, os próprios participantes são
incapazes de avaliar a razão de tal reviravolta." 1oo
Para estudar a organização social dos encontros, a sociologia
deve perguntar por que nada sabemos a respeito dos rituais do encon-
tro com o louco, embora saibamos quais são as rotinas da cooperação
quando os doentes não são doentes mentais.
O problema está, pois, colocado: qual é o princípio da coopera-
ção que convém e a que formas "de acordo" se deve chegar com
aquele cujas condutas, intenções e palavras desarranjam não apenas a
ordem pública dos usos, mas também o caráter público da própria lin-
guagem?
Propôs-se recentemente uma descrição, inspirada na análise dos
quadros, de duas consultas psiquiátricas com uma paciente psicótica.
Dona Jurema é uma psicótica de 61 anos, internada num hospi-
tal psiquiátrico do Rio de Janeiro com um diagnóstico de crise maníaca
aguda. Seu discurso dá mostras de incoerência em diversos níveis:
durante a consulta ela não respeita os turnos de fala, seu discurso muda
constantemente de tema, ela não responde às perguntas que a psiquia-
tra lhe faz, cantarola, evitando a interação. Em suma, dona Jurema
apresenta todos os sintomas de loucura. Na realidade, quando se presta
atenção ao seu discurso, ao seu modo de falar e às suas enton,ações,
percebe-se que ela passa constantemente do quadro da consulta aquel~
de sua própria crise. Neste último quadro, ela muda de voz e de ?º~1-
çao, ..
- dtnge-se a pessoas ausentes, fala d e seus lu gares ou de seu propno
1ugar de nascimento Quando se d1nge . . a, sua m ãe · ela
. o faz
. numa voz
· + ·
Iniantil, procura chamar·
sua atençao-
com d eiere
+ Anda mqu1eta-se com o
·
seu Ju· 1gamento. As , vezes dirige-se a, psiquia
· · tra como
_ .se
, esta fosse
b sua
rn ae;
- outras vezes, acusa-a, ' dirigindo-se a, sua mae · Ahas ' e 1a sa e que

100 .
Relat1ons en public. p. 354-5.
j

ERVING GOFFMAN E A MICRoss


7º~---- - - - - - - - - ----------ºciotoc
~ ~
- 0 se deve fazer barulho n o hospital e, quando quer levantar-se
na . , Pede
permissão. Ou seJa. ela sa?~·
e ~ cada ~uadro, mudar de lugar e rnani.
pula as estruturas de part1c1paçao considerando que a psiquiatra ne
. .
sempre é um part1c1pante ra t1.fi1cad o. 1OI ll}

Dona Jurema é uma maníaca, e seu delírio se manifesta na con-


sulta como uma sucessão de inconveniências situacionais. Em seu dis-
curso e em seus gestos, ela não se põe no seu lugar, "nas esferas e
territórios que lhe são atribuídos". Seus excessos e suas mudanças de
papel, bem como os quadros participativos que ela fabrica não se fazem
acompanhar de nenhuma atividade ritual reparadora. O problema não
é tanto o fato de o louco mudar de papel sem avisar, de seu meio ter
que tolerar suas guinadas e de ele freqüentemente estar "alhures".
Somente as instituições totais têm a pretensão de suprimir qualquer
divisão entre as diferentes esferas da vida e de disciplinar os quadros de
participação do recluso sob uma única e mesma autoridade. Quando se
deixa as dependências de um manicômio, o sistema de atividade do
doente mental se revela em todas as suas implicações, na "biografia da
ocasião", como um ataque não só aos constrangimentos sistêmicos da
comunicação, mas também aos constrangimentos rituais e à moral de
seu meio. Eis por que o distanciamento da doença mental é tão proble·
mático, por que a loucura não é apenas um distúrbio no lugar, mas do
lugar: ela torna vulnerável não apenas a identidade e a imagem do
doente, mas também a confiança básica e as rotinas constitutivas do
pequeno mundo que o cerca. Eis por que a loucura não pode ser um
problema unicamente psiquiátrico: como fenômeno emergente, ela
resulta de diagnósticos e de pareceres muito mais difusos, bem como de
julgamentos de pertinência largamente partilhados sobre a capacida?~
de um indivíduo para respeitar as normas de conjunção e para mob1h·
zar suas competências rituais quando elas são ameaçadas.

e
l,
e
101 . . • • chotic discourse. ln: Tanne n, De bor
Ribe iro, Branca Telles. Frammg m psy p 77· 113· ver ta mbé ah (ed.). I=
F · · · · ·ty Press. 1993 · · · rn d a
ramrng rn d1scourse. Oxford Umvers1 . rs psychotique. ln: Joseph, Isaac & rnesma
autora: L'activité de cadrage dans le d 15cou _ p. 231 -62 . (Raisons Pra ti Proust,
Joelle (dirs.). La foli e dans la place. EHESS. 1996 q lles, 7.) ](
Competências

DESDE o INÍCIO DOS ANOS 1960, a microssociologia se encon-


tra presa na órbita da chamada "guinada lingüística" das ciências
sociais. A contribuição de Erving Goffman para a aproximação dos lin-
güistas e antropólogos americanos em I 963 , 102 apesar de breve e pro-
gramática, foi decisiva para a formação da corrente da etnografia da
comunicação que se desenvolveu em torno dos trabalhos de John
Gumperz e Dell Hymes. Fundadores de uma sociolingüística intera-
cionaI, esses trabalhos desenvolveram três noções essenciais para a
constituição da microssociologia como saber empírico e positivo: a
noção de comutação de código (code switching), como competência
social elementar de atores pertencentes a comunidades de linguagem
diferentes ou participantes de fatos de linguagem circunstanciados; a
noção de indícios de contextualização, que precisa os recursos dos inte-
ragentes para definir as situações das quais participam; por fim, a
noção de inferência conversacional, inspirada no pragmatismo, que
especifica a lógica do processo de emprestar coerência pelo qual os
protagonistas de uma troca podem compreender o que se passa e
confirmar uma inteligibilidade mútua.
Paralelamente às pesquisas dos etnógrafos da corr_1unicaç~o.
outras correntes da sociologia, inspirando-se igualmente naA m1~rosso~1~-
logia interacionista, desenvolvem um modelo de competenc1as. . s_oc1a1s
que chamaremos de modelo de reparação, especialmente no domm10 das
Profi -
ssoes de serviços. E. . a essas profissoes
- q ue Goffman alude em seu

102 La situat1·on neg · - In: Les moments et leurs hommes. Seu il. p. 143-9.
- 11gee.
72 ______________________
:..::__ ER VING GüFFMAN E A MICRosso
~

10
último texto, 3 convidando os sociólogos a investir no domínio ao
. -
dedicara a sua obra: a ord em d e mteraçao. qua1

A guinada lingüística
A noção de competência comunicativa faz parte do projeto, fonnu.
lado por Hyrnes e Gurnperz em I 964, de urna sociolingüística como teoria g
descritiva integrada, isto é, sociológica e lingüística. Essa teoria tem como t
objeto a estrutura da linguagem definida não mais corno replicação da
uniformidade, e sim como organização da diversidade. Em vez de con-
siderar a linguagem como forma correlata ou como expressão de uma
comunidade, Hymes e Gumperz, referindo-se aos trabalhos de Kenneth
Burke e ao modelo dramático por ele proposto, insistem na linguagem b
como ação situada no fluxo dos fatos da palavra. Assim, a sociolingüística
se constitui como: a) o estudo dos fatos comunicativos e das relações que
eles mantêm entre si; e b) o estudo do próprio processo de socialização
como aquisição e uso de uma competência comunicativa numa dada situa-
ção.
fa]
"A criança adquire um conhecimento das frases não apenas
ao
como gramaticais, mas também como sendo ou não apropriadas. Ela
teJ
adquire uma competência que lhe indica quando falar, quando não
falar e, também, do que falar. com quem, em que momento, onde, de de
que maneira." 104 ca
ge
Essa corrente de pesquisa pretende distinguir-se de duas tradi· rei
ções d? disci~lina: a que insiste na vocação universalizante da língua e a
que ve na linguagem o elemento primordial da identidade social e
admite, como fato, a diversidade cultural. Jet,
güi
Chomsky assim resumiu a primeira tradição:
da~
"O objeto primordial da _teoria lingüística é um locutor-ouvinte doi
ideal, pertencente a uma c?murndade lin~üística completamente homo· Pai
gênea, que conhece. perfeitamente s~a hngua e_ que, quando aplica a liga
uma performance efetiva o seu conhecimento da hngua, não se d . fe· pec
. 1 _ . e1xa a
tar por condições gramanca mente nao-p~rtmemes tais como as limita· urb,
Ções da memória, distrações, mudanças de interesse ou de atenção erros nea!
, .
(fortuitos ou caractensncos) ."l 05 '
mas
pais,
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -~ - - - -
I03 L'ordre de I'interaction. op. cit., p. I86·Z30. . . .
104 Hymes Deli. Vers la compétence de communicat1on. Hat1er, 1984, P. 74.
1 os Chomsky, ~
' Noam. Aspects o{ the th eory of s,intax, 1971.
co MP ETÊNCIAS 73

0 que Hym~s e Gumperz desap.rovam nessa lingüística é fato


O
de ser indiferente as performances reais dos locutores. Parodiando as
teses de Marx .~?~re Feuer?ach, eles a denunciam nos seguintes termos:
"A lingu1sncAa c~rtes1ana faz da essência lingüística a essência do
homem. Mas a essenc1~ do home~ não é uma abstração inerente a cada
•forrnu. indivíduo. Na sua atuahdade real, e o conjunto das relações sociais. A lin-
o teona güística cartesiana que não chega até a crítica dessa essência atual é, por-
rn Corno tanto, levada:
Ção da
de con. a) a proceder a abstrações do processo histórico, a estabelecer uma
de urna intuição lingüística como algo que se refere a si mesmo e a pressu-
Kenneth por um indivíduo humano abstrato e isolado;
guagem b) a considerar a essência do homem como espécie, isto é, como essa
generalidade rasa que une os indivíduos na sua neutralidade, e não
socialmente. " 106

"A lingüística só será suficiente se levar em conta as maneiras de


falar em sua relação com as situações e significações sociais, se não
admitir que o ponto de partida da descrição não é um enunciado ou um
texto, e sim um fato de linguagem, não uma língua, e sim um repertório
de maneiras de dizer, não uma comunidade de linguagem definida pela
correspondência com uma língua, e sim uma comunidade de lingua-
gem definida pela relação de conflito entre as regras da gramática e as
regras do uso." 107
Compreende-se a importância desse tipo de posição para º. p~o-
jeto microssociológico de análise das situações. Por um lado, a soc10hn-
güística interacional pretende estudar a diversidade dos atos de pal~~ra,
das maneiras de dizer e dos modos de enunciação segundo ~s ?ºs.içoes
d os interlocutores
· ·
- respeito, · 1enc1a,
mso A · iro· n1·a · humor
_ ' d1stanc1aerzdo
papel, intimidade etc. Por outro lado, a argument~çao de Gump '
rigando claramente comunicação e 1·denu'dªde social _ ' reforça .a pers-
d
. de uma sociologia da mteraçao.
Pectiva . - A evoluçao . das sociedah es
A_
ub . - te comunidades omoge
r anas, diz ele, põe em contato nao somen social e étnico,
neas, estabelecidas em territórios demarcados n~ p1an ue modificam a
0

m~s também modos de falar, individuais .e co~euv:~o~tato das línguas


paisagem cultural e as condições nas quais se az

106 H . . . chnographic approach. University of


Ymes, Dei!. Foundarions in sociolmguISCICS. An e
Pennsylv ·
107 lbid ama Press, 1974. p. 121-2 .
., p. 8-9.
ERV I N G GOFFMAN E A MICRO
7,.4~-- - - - - - - - - - - ---------~SS0c10Lo
_ CfA

entre si.1os Apenas "fragmentos de cultura partilhada" reanimam a .


ali um sentimento comum de pertenc1mento (consolidando às ve Quie
. .
trâmites part1culanstas zeslinos
de acesso aos recursos), enquanto, no plano
güístico, marcações de 1denudade, expnmmdo-se de maneira difu
porém eficaz, lem bram-nos que, em nossa v1.da cotidiana, "depend~sa 1

mos da cooperação com pessoas que não compartilham necessana.


mente de nossa cultu ra". 109
Essas grandes e voluções das sociedades contemporâneas para
uma complexidad e e uma dispersão cultural maiores (evoluções que não
se dão, vale lembra r, se m reações "purificadoras" de todo tipo, territoriais
e lingüísticas) fazem com que sociólogos e lingüistas voltem sua atençáo
para dois problemas sociais cuja implicação é ao mesmo tempo científica
e política: por u m la do, a experiência de migrantes que vivem entre duas
(ou várias) culturas e o uso q ue eles fazem da pluralidade de códigos dis-
poníveis colocam o problema do bilingüismo e do code switching. Por
outro lado, ce n as situações-chaves (entrevistas de admissão, interrogató·
rios, exames ou concursos administrativos, pedidos de auxílio etc.) mos·
tram que o sucesso ou o acesso aos recursos (o que se costuma chamar
de inserção ou integração) está diretamente ligado não à identidade
social e cultural enquanto tal, mas à maneira pela qual ela é avaliada atra·
vés da performance numa dada situação e, portanto, da competência
comunicativa da pessoa em questão.
Esses dois problemas colocam em primeiro plano na agenda das
ciências sociais a questão das formas concretas da negociação e do
acordo nas situações de contato entre indivíduos que pertençam a cul·
turas diferentes ou que se refiram a registros diferentes de justificação.
Tal questão diz respeito ao mesmo tempo às noções de convenção e de
mercado e remete a outra, fundamentalmente política, isto é, a questão
das competências sociais necessárias à construção de normas comuns.
"Porque eu falava com a mulher que tomava conta das crian·
ças ... que olhava as minhas crianças e falávamos dos rapazes, sabe, e eu
lhe dizia ... ah, 'PERO, COMO, sabe ... ah... a ESTELLA Y LA SANDI...
RELISTAS EN EL TELEFON. YA HABLAN MUCHO INGLES.' DICE,
'POS ... SI MIRA TU', DICE, 'EL... LAS PALAB~~ DEL TELEVISION.
YAYA QUE' ME DICE 'YA ME PIDE DINERO PA L AYSCRIN'Y. .. , Sabe?
YA LUE... y ESO NO ES NADA, ES:~RATE LOS CHICHARRONES,
'você sabe quando forem à escola... ( Mas com?: sabe, ah. Estela e
Sandi estã~ adiantadas por causa do telefone. Elas Ja estão falando bem

----~--~~=-=-~---------
108
109 Gumperz, John. Engager
lbid., p . 8.
·
la conuersatzon. Minuit, 1991. p. 12.
COM PE TÊNCIAS 75

. glês'. Ela me diz: 'É, sim, você pode imaginar', e ela diz , , -
o in . - , E
1 d' . ., , e ... sao as
lavras da telev1sao . e a me 1z: Ela Ja me pede dinheiro P
pa b ?Ed . . ara o sor-
vete (ayscrin) e, sa e. epo1s ... isso não é nada, espere para ver 0
') .. 110 que
os rapazes ....
Essa conversa entre duas mulheres chicanas ilustra O uso con-
creto do bilingüismo e a maneira pela qual se produzem, num mesmo
fragmento de discurso, as comunicações do código lingüístico de locu-
tores que dispõem de "fragmentos de cultura partilhada". Essas comu-
tações de código, em vez de explicarem-se negativamente como
. "pobreza lingüística", têm sua função comunicativa e permitem a essas
mães de família utilizar, alternadamente e conforme o que queiram
exprimir, o registro da cultura dominante e aquele, mais familiar. da lín-
gua ou do dialeto minoritário. O código muda mais freqüentemente
com o caráter mais ou menos oficial ou cerimonial da situação, mas
pode acontecer, como no exemplo precedente, que ele mude no meio
de uma frase, enquanto o tema da conversação, o locutor e o quadro
permanecem os mesmos. Portanto, pode-se dizer que essas interferên-
cias são portadoras de sentido e que elas indicam uma modificação da
relação interpessoal: seja porque algumas palavras da língua de origem
funcionam como marcações estilísticas de identidade, seja porque as
expressões são mais facilmente disponíveis numa língua do que noutra.
Mas também é fato que essas marcações e essas expressões cumprem
uma função semântica e permitem aos locutores transmitir as informa-
ções modificando seu engajamento na conversação, que passa, por exem-
plo, de um estilo neutro a um estilo pessoal. Nesse sentido, a comutação
de código funciona como extensão do léxico disponível, como enrique-
cimento e não como empobrecimento. , , , .
Essa técnica de comunicação, comparavel as tecrncas de um
close de cinema, tem O dom de evocar, para os participantes, elementos
de contexto e assoc1açoes · - que metaionzam
e · o d'scurso
1 e acentuam-lhe
_ a
pertinência. Em outras palavras, os modos de falar dessas duas maes d_e
iam1n·1a nao
e - se correlacionam somente com as i·ctentidades·· .suas estrate- .
· .
gias verbais são pertinentes no contexto a troca d e do ennquec1mento
durante a troca , .
. · . . . - ra os locutores e mais
. As situações-chaves, cuJa 1mphcaçao pa nce e podem
direta, os confrontam com uma avaliação de sua p~rforma d
d · · Assim Gumperz estu a
. ecidir seu emprego sua carreira ou seu status. · · tas de
int - ' . . banco) ou entrev1s
d er~çoes banais (depósito de dinheiro ~um or locutores estrangei-
a missão ressaltando que o domínio da hngua P

11
º Gurnperz, John. Engager /a conuersauon.
· Minuít' 1991. P· 91.
ERVIN\.1 'V~· • .

76 ,. .
ial de sua competencia nem basta Par
, nto essen C . . _ A _ a
não e o e1eme . as discnminaçoes. entonaçao, o sotaque
ros
Jainar os preca
nceitos ou 1 d
_ sa- 0 outros aspectos eva os em conta pelos
aP . umentaçao d
e O estilo de arg fato de linguagem para enqua rar e compreen-
e participam de um . -
qu . - o e sua significaçao.
der a mteraça ·tuações estudadas dizerem respeito a contatos
0 . - fato de as si . _
·gnifica que esses recursos da comunicaçao não
· terculturais nao si · d
10 . . t utilizados por locutores-ouvintes e uma mesma cul-
se1am igua1men e b, , d . . .
numa defesa de tese, tam em e ecisivo aquilo que
tura. Por exemp , lo , .
· l'ici·to nas questões da banca ou nos comentanos que ela
se acha imp - .
fazer ao final da exposição. Num campo onde nao se disponha
venh a a , ·d -
de terminologia específica nem de nomenclatura ngi a, a questao da
avaliação é forçosamente problemática, e os acordos, necessariamente
parciais. Assim, numa discussão oficial, uma mudança de entonação
pode indicar a passagem às trocas informais. A discussão entre os mem-
bros da banca se assemelha, então, a uma discussão política cujo pro-
pósito é chegar a um consenso provisório e, mediante urna ritualização
fina das trocas, deixar a cada um dos participantes urna margem de
manobra suficiente para poder formar uma opinião.III
Para a etnografia da comunicação, a experiência de linguagem
do migrante é, pois, a metáfora da experiência do tout-venant, terreno
privilegiado para o estudo dos processos pelos quais se constroem os
ajustes entre atores sociais desigualmente competentes ou desigual-
mente dispostos a se compreender por meias palavras nas situações
problemáticas. Levar em conta essa diversidade de usos vai de encon·
tro. a uma_ concepção da socialização pela qual os sistemas sociais
senam regidos por normas compartilhadas, sobrepostas a uma diversi-
dade local ou interiorizadas pelo indivíduo refletindo-se automatica·
1

~ente em suas "co~dutas. Não negligenciar a situação é, pois, pôr em


_co_ as _c~mpetencias sociais e comunicativas não o coletivo ou a rela·
çao
. mdividuo/col
. e t·1vo, mas o fato de linguagem
. ' em seus componentes
interativos. .
de Ch Como ky e até q ue ponto retomar a distinção feita pela hngu1s · ·· ' rica
de lin oms entre co mpetenc1a " . e desempenho na análise desses fatos
guagem? Tr d. · · ao
conhe · · ª icionalmente a competência lingüística design
cimento tác ·t O d ' 1 uror
produzir u , .i a estrutura da língua que permite a um oc 0 r
, ma sene infi · d d Iocut
so pode s mna e frases. Assim o desempenho O
. er uma m ·f _ . · ,, . a sub·
Jacente ·á , ani estaçao imperfeita ("forçada ) do s1stern . 1e
• 1 que e O pr . . - 50cta
ocesso de cod1ficação ou decod1ficaçao,

111 --
Gumperz --
Joh --------
· n. Une p 0 r · · p 153·
nique de la conversation. ln: Le parler-fra15 • •
COMP ETÊNCIAS 77

lturalmente determinado , p e lo qual a competência se tran e


cu Us d 'd . . .. , . s1orma
o Na me I a em que a soc10 1mgu1st1ca interac1·onal ·ct
em O · f . conv1 a a
rar a linguagem nos atos e snuações que constituem
anc . . - sua mate-
. li'dade essa d1stmçao se atenua. A pertinência com que s .
na · . _ , e rea 11za o
desempenho numa d ada sit~açao ~ a realidade e a atualização da com-
petência. Deli Hymes pro~o~, assim, distinguir dois desempenhos:
"desempenho-represeA ntaçao , que designa eventos encenados e pro-0
gramados e que convem a to9as as condutas que "ocupam primeiro
O
plano da cena, mesmo qu: nao }enham dado ensejo a repetições e se
apresentem como espontaneas ; e o desempenho concebido como
atributo de toda atividade, uma vez que é observado e levado em
conta, e que aquele que o realiza é considerado responsável pelo
estilo no qual ele se realizou. 112
Desse debate sobre a noção de competência em lingüística cum-
pre fixar principalmente o princípio de uma descrição integrada das
situações sociais como cenas da ação. O propósito (ou o "risco") que as
anima internamente é a vulnerabilidade das convenções sociais ou de
linguagem. Dito de outro modo, aquilo que afeta a competência lingüís-
tica ou gramatical de um locutor não é somente de ordem conjuntural
ou pessoal. Para além das interferências e ruídos que fazem a singulari-
dade de um conjunto de circunstâncias, os fenômenos do bilingüismo e,
de modo geral, a experiência do mal-entendido colocam o problema
das convenções que regem as trocas sociais, de sua elaboração e de sua
transformação no fluxo dos fatos de linguagem.

Contextos: interpretar e explicar


Com a noção de competência - empr~st~~a de Chomsky :
"recolocada de pé" tal como Marx invertera a d1alenca de.He.gel ,
'
etnografia da comunicação ·i· ru ptura e contmu1dade. A
tenta conc11ar
noçao_ de contexto opera o mesmo npo. d e e volução · dessa
, . vez em pro-
-
. , . O termo tem vanas acepçoes
v~no da microanálise e da pragmanca. Aaron Cicourel assim
virtualmente complementares. Em texto recente,
descreve sua polissemia: de se desenrola o
"O d d ·gnar· o lugar on
termo contexto po e esI · ue podem falar e os
fato
q ue de linguagem, os participantes presentes, ostqos sociotemporais da
e ·1 A cio os aspec
. Pre,erem permanecer em s1 en · xplicitados ou aque-
Interaçao
- em curso, os proposnos
, · q ue aparecem e

112 V. . 96-7
ers la compétence de communicat1on. P· ·
ERVING GOFFMAN E A MICR0SS0CI0LOG!A

~
·elações estatutárias ou sociais implícitas, observá-
ue emergem, as I ,, 113
les q . .fi 'veis no curso da troca.
eis ou identl ica ·1· b
v ui·sadores que tentam conci iar as a ordagens etno-
Para os pesq - 114
, . ·ente da análise da conversaçao, o contexto é ao
g raficas e a cor 1 . l
quadro local e perceptivo no qua se desenvolve urna
mesmo temp 0 0 . · · · 1
. .d d (setting). os elementos do ambiente msntuciona e etnográfico
auv1 a e · ·d d fi ,
que servem de segundo plano a e~s~ at1v1 a e e, por im, o proprio
espaço de palavra ~o qual os part1c1pantes. s~ refe~em dura!1te ,un:ia
troca. A competência de um agente se defirnna. assim, em tres rnve1s:
na capacidade de focalizar o acontecimento; de mobilizar os conheci-
mentos secundários; e de interpretar o curso da ação. Trata-se ora de
identificar no contexto os indícios que permitam hierarquizar os níveis
de atenção, ora de enquadrar as expectativas gerais, com base na expe-
riência anterior, para eliminar as ambigüidades relativas ao que vai
acontecer.
Mas, na medida em que os contextos com os quais se trabalha
são também fatos de linguagem, é claro que o agenciamento a ser reve-
lado não é somente etnográfico ou ecológico, mas seqüencial, e tem a
ver com a maneira pela qual as "intenções comunicativas" organizam o
contexto. Dito de outro modo, a dinâmica de um contexto de comuni-
cação é uma dinâmica imanente suscetível de ser explorada a partir do
interior, no decorrer da ação. Nessa dinâmica, os recursos são ao
mesmo tempo produzidos por locutores e ouvintes, estão disponíveis
para todos eles e são constantemente avaliados por eles. No decorrer da
ação, os participantes se põem a falar "a propósito" e tentam, pois, inter-
P:etar o que se diz e o que se passa. Sua capacidade de fazer inferên-
cias no decorrer da conversação e de compreender como operam as
convenções de contextualização é, portanto, a realidade situada de su_a
compe~ência social e a atualização de sua competência lingüística. Tais
pro~edimentos ativos de definição da situação manipulam, aliás, urn
c?nJun,to ?e sinais (não se trata dos signos arbitrários de uma língua),
dispomveis no decorrer da ação e que delimitam o quadro de interpre·
taç- d ·1 , . , · de
ao aq~i o que a1 se desenvolve, os quais chamaremos de mdiczos
contextualização.
Dois exemp los permitem
· .
compreender esses diferentes 5entidoS
.
da noção de contexto e os debates em torno dessa noção. O primeiro

113 e· . d·çáº
1courel Aaro Th
Transaction 'r bl' n.
. r
e social organization ofjuuenile justice. I 967. (Pre ª
cio a e 1
114 . u 1shers, 1995. x) . he·
Goodwm, e. & 0 . p. · interactlVe P
nomenon. Cambrid uran~i. Al~xandre. Rethinking context. Language as an
ge Urnversny Press, 1992.
CO MP ETÊNCIAS

79
rnplo foi ti rado de um estudo feito por Cicourel e d . . .
exe / . 0 . m 01s hospitais
niversitanos. autor most1 a que os fatos de linguagem
u /d o - que se produ-
ern num contexto me 1co nao podem ignorar nem a .fi _
z / .. . / . _ s qua111caçoes
especificas dos pai t1c1pan~es (os med1cos sao especializados ou inician-
tes? Qual é o _g ra~ d~ gravidade?~ mal de que sofre O paciente?), nem a
organização mst1tuc1onal das at1_v1dades. Para O pesquisador que reco-
lhe e transcreve essas trocas, sena contraproducente ater-se ao material
conversacional d_o ~xame ~édico, sem relatar as informações secundá-
rias de _q~e el_e d1s~oe, assim como os médicos e o paciente. É preciso,
pois, d1stmguir dois contextos e, talvez, estudar sua interpenetração:
0
contexto etnográfico, aqui técnico e prescritivo, e o contexto conversa-
cional propriamente dito e sua ordem negociada. 11 s
O segundo exemplo foi extraído de um estudo de Gumperz sobre
as entrevistas de seleção num centro de formação de adultos. Embora
os candidatos apresentem um currículo, a entrevista em si não pode
avaliar suas competências técnicas. Assim, eles são julgados por seu
desempenho verbal, sua maneira de reagir às questões dos examinado-
res e de descrever aquilo que sabem fazer. Como alguns candidatos são
de origem estrangeira, a análise desse desempenho e do julgamento
que ele acarreta é importante para situar os processos de classificação e
"desvalorização". Aqui é o contexto propriamente de linguagem que
fornece ao pesquisador a informação sobre o processo que ele pre-
tende estudar. 116
Neste último exemplo, o que está em jogo na situação é a
capacidade dos participantes para fazer inferências a ~artir de cer-
tos indícios. A inferência conversacional é um procedimento natu-
ral, decorrente da estrutura da conversação, pelo qual todo locutor
indica, "direta ou implicitamente, como um enunciado deve s~r
interpretado e mostra, por suas respostas ver b ais · e nao.:~
- erba1s '
.
como ele interpretou · d o d e ou trO interlocutor . 17 . Ela
o enuncia
desempenha uma função essencial nas situações de ma_l-entendiddos
. ue se esteJa de acor o
e, de modo geral, nas situações que exige~ q - A · a avalia-
1
quanto aos mecanismos de atribuição de mt~nçal?·. 55dm 'termo do
- ºd pSICO og1co 0
çao concerne menos à intenção, no senti 0 .
1
. ue seu propósito
que às conseqüências usuais ou convencionais q

IISC 310 .
116 reourei, Aaron. Rethinking context. P· 2? l- d · Jes interactions de service. ln:
. _Gumperz, John. Les processus inférenuels ans ,
Met1ers du public p 41-62
117 E · · ·
ngager la conuersation. p. 55-6.
p~1

o
ER VING GOFFMAN E A MICR0SS0Cl0LOGJA
~
f11 di
um determin a do contexto . Tome-se, por exemplo, essa se ,.r
pro d uz n , . · d b que e~,
comunicação entre dois operanos num canteiro e o ras:
socied,
"A: o que você quer fazer aí? Você vai usar as alavancas para levan- objeto!
tar saber i
jovern
B: Deixe esses troços/ DEPOIS você levanta DEPOIS rado cc
A: Ben foi você que disse// Corno é que se costuma fazer? Ornes
modo
A: A gente põe a chave e depois levanta então se eles puseram a tam d~
chave
B: Agora a gente levanta e DEPOIS a chave (. .. ) Isso mudou contra
observ
A: Ah bom/ ah bom/ tem que dizer isso (. .. )
desses
B: Você quer trabalhar para você, mas não para os outros sária p
A: Bendito português vaV/ A gente costuma pôr a chave primeiro." 118 qual se

zar os ~
As capacidades atribuídas aos agentes são inferenciais e consis- dos no
tem sobretudo em interpretar e depois organizar o mundo com base em repend
sua experiência passada das normas disponíveis. Sabben e Ben Youssef, dos. a
que trabalham juntos numa obra, são obrigados a enunciar a regra para
lacto, sj
poder continuar a trabalhar em equipe. A inferência conversacional
observ1
ativa a porção implícita e. d.e cor:ihe~im~nto~ secundários que pressu-
põem vários contextos sociais ou msutuc1ona1s. Nesses contextos O fato redefi
de não compreender por meias palavras aquilo que seu interiocutor lualiza
quis dizer é considerado quase, um insulto ou um sinal de má Çe' · t e' Vai ac ,
IS O ,
uma quebra da confi1ança reciproca.
1 1 ,

rno111
Nas situações de proximidade cultural e de "familiar·ct d ,, atesta
. ~ . . . 1 a e , ao
contrário, a mferenc1a conversac1ona equ1va e àquilo qu e·
1 1 Ção O \!
, " 119 . e 1coure1
chama de "cláusula do etecetera . que conVIda os locut _ Versa
· - d · ct· , .
completar suas descnçoes e a e1xar ao au ttono o cuidad d
ores a nao
curso.
- d · · . o e coope-
rar como bem entenda para a pro d uçao e mtehg1bilidade m ,
. 1, locado empmcament
.. utua.
O mérito de C1coure e ter co ·1· · e o problema canse
d os m e, todos que um ator comum uu iza para interpretar um a sauaçao, . - ~rias
Jogan
na Pr
11s Lacoste Michele. Les communications de trda;;,,v,ail comm,e interactions ln A 1
· h eureau· J · Mo e: es en ana yse du traua;/ · M : ma · desfa
. R .
b e r t1, •• Montmolin M. de & T
• · ardaga. Petê
1991. p. 207. .. 79 p. 45.
119 Cicourel. A. Sociologie cogrnnue. PUF. 19 ·
12.0
~ --------------------~81
pETÊNCJAS

·ssociá-los dos métodos do pesquisador observador ou .


sern d) . , d . ' ana 11sta
lica tais meto os ao 1eitor.
que exP . .
"Na medida em que o pesq_u1sador e o leitor pertencem à mesma
sociedade. certamente eles _estarao de acordo quanto aos sentidos de
objetos tais com? u:11a cadeira ~u ~ma mesa. Mas O que me interessa é
saber corno atnbu1mos uma significação inequívoca ao tom de um
jovem diante de um_ oficial.de polícia ou um juiz criminal, tom interpre-
tado corno 'desafio a autondade' ou como 'indício de atitude negativa'.
o mesmo tipo de questão se aplica ao acordo relativo aos gestos, ao
modo de se vestir, às posturas, às expressões lingüísticas que compor-
tam duplo sentido, a uma brincadeira, à ansiedade etc." 120
Esse tipo de "dados". naturalmente interpretáveis, é matéria de
controvérsia entre os atores, entre os atores e o pesquisador que os
observa, e entre este último e o leitor a quem se dirige. A transcrição
desses dados verbais ou gestuais revela-se, pois, freqüentemente neces-
sária para ao mesmo tempo compreender e debater a maneira pela
qual se constrói o acordo sobre uma norma ou uma significação.
Falar e agir conseqüentemente num contexto determinado é utili-
zar os recursos imanentes, abrigados nas dobras da interação e distribuí-
dos no decorrer da ação ou da conversação. Tais recursos pertencem a
repertórios de situações e as sinalizam para os que nelas estão envolvi-
dos. Os indícios de contextualização têm, pois, dupla função: por um
lado, são recursos contextualizados; por outro, como estão lá para serem
observados e interpretados, são manipulados pelos participantes para
redefinir e transformar o contexto, constituindo-se em dispositivos contex-
tualizantes. Por um lado, o que é dito dá lugar a expectativas sobre o que
vai acontecer e funciona como um convite à cooperação; por outro, o
momento em que é dito chama mais ou menos a atenção do outro e
atesta uma mudança de tema, a abertura de um espaço de argumenta-
ção ou uma fiexibilidade comunicativa maior ou menor pela qu~l ª con-
versação se torna fluida para participantes que parecem antecipar seu
curso.
Como temos de ser ao mesmo tempo atores e obs:rvadores d~s
conseqüências de nossos atos, manipulamos quadros ~ue sao nossa~ pr~-
prias armadilhas somos como diz Goffman, "falsificadores cau~os '
· , • . . ue cometem seus cr 1mes
Jogando com as interações como cnmmosos q · ·d des para
na · - . d d explicar nossas auvi a
Prtsao. Nesse jogo a capac1da e e . ões é uma com-
de~az~r um mal-ente~dido ou esclarecer no;:so~::rai, cívica ou polí-
Petenc1a que não se pode qualificar como mo

120 etcourel, A. The social organization


. °f JUU
· enile justice. p. 3.
ERVING GOFFMAN E A MICROSsoc10Lo

---
82

A
-

s de ser re tom
rica. nte . d
ornia as co
.___
------------------------------------------------~~~~~---- GJA

ada pelos etnometodologistas e pela sociologi·


nvenções a noção de account ou accountability r .
,
ae
101
a econ .d pragmática dos atos de linguagem por Austin, 121 e entre
1·nrroduzi ª na d M · B S
. /l por um artigo célebre e arvin . cott e Stanford M
os soc10 ogos, ffm b . . .
122 depois pelos textos de Go an so re os rituais de reparação
Lyrnan, e .
em Relations en public.
Note-se, para começar, que o artigo de Austin sobre as desculpas é
em si mesmo uma defesa de uma filosofia (mais alerta e alegre) "de
campo". Pouco interessada na "embriaguez das grandes profundezas",
essa filosofia pretende privilegiar o estudo das "maneiras" pelas quais nos
resignamos com o que acontece: anomalias ou fracassos, mas também
desvios da espontaneidade e interrogações sobre as normas do inaceitá-
vel, isto é, sobre nossa liberdade e nossa responsabilidade. Essas manei-
ras (fazemos as coisas "de certo modo apenas, e não de qualquer modo")
são as da linguagem ordinária, porque, como diz Austin, "há ouro nessas
colinas", porque as palavras são nossas ferramentas de todos os dias e,
"no mínimo, deveríamos utilizar as ferramentas apropriadas".
Para o sociólogo, desde o artigo de Scott e Lyman, explicar-se é
sobretudo dar satisfação posteriormente por um comportamento incon-
veniente, uma promessa não cumprida, um sinal de desrespeito, um
erro ou uma gafe. Em todos esses casos, trata-se de reduzir o fosso entre
um ato e as expectativas que ele acaba de frustrar. Nas práticas ordiná-
rias da conversação, tanto as desculpas quanto as justificativas tendem a
neutralizar um ato ou um propósito, isolando-o de suas conseqüências,
e a restaurar assim o equilíbrio requerido entre um personagem e seu
papel. A função social e moral desse tipo de ritual reparador consiste e.m
tratar as esperanças frustradas do público envolvido e em reduzir adis-
tância entre um anúncio e sua realização efetiva.
As desculpas e as justificativas podem ser consideradas, nesse sen·
tido, dispositivos elementares de avaliação das relações sociais. Descul-
par-se é reconhecer a própria falta mas afastá-la de si acrescentando que
- / , l rnen·
nao se e plenamente responsável: evocamos o acidente ou o lapso, ~ .
0
tamos a ignoranc1a
A •
· A
ou a falta de discernimento (não sab"1amos'"' a 1rnP 1·5

tenc1a d 0 corpo ou a ornpotenc1a


. A

das pulsões (nao tmha Jeito, era rna


• - • • •

121 ·1 199A·
Austin Joh PI . , . h·ques
1 Seut,
P· 136·70 ·Vale n. aidoyer por les excuses. [1957]. ln: Ecrits ph1losop • ,·n antes
· -o AUS1 · ·o
de Goffm · notar que, para tratar dos diferentes modos de res1gnaça : do dorT1ín1
do d. . an, convoca a antropologia e a etolooia aproximando-as, sem mats,
1re1to. i:,- • ,1 ,62,
122 s . 33:.,6
cott Marvin & L . · 1Reu1eUJ,
1968. · YTnan, Stanford. Accounts. American Soctologica
83
f;NCJAS
co1v1rET
mos um culpado, um bode expiatório (deixamo-
do que n ' , fornos influenciados) . Justl'fi car-se, por sua vez, e,,
ós) busca
forteJevar por algueb~l·d' ade do ato que se acaba de cometer, mas recu-
0os ponsa 1 1 . ( - e d
itar a res. ~ ·ora tiva feita a seu respeito nao se 1ez na a grave;
ace aliaçao peJ . . )
sando a av m ior sem que seJam perseguidos etc . .
fazem be p h. ,, . . - ,,
outros técnicas pelas quais "contamos 1stonas nas sttuaçoes
Todas essasbam mal utilizam-se do vocab u1ano , . d a reparaçao
- de
do estas aca . 1· - A " .
quan. desde as primeiras etapas da soc1a 1zaçao. competenc1a
que dispornose vocabulário da justificação traduz é parte integrante de
50eia! que ess
, çáo porquanto nos permite continuar a falar e nos apresen-
nossa iorrna , . - . - d
'blico mesmo quando as d1storçoes ou as contrad1çoes e nos-
tar em pu • . · d · ·rz - I 23 ,,
apéis se manifestam abertamente. O 1mperat1uo e JUStl 1caçao e
SOS p . " . d . - d. d 1
ao mesmo tempo urna ex1genc1a as,, situaçoes, . na. me 1 . a em que , e. as
põem em confronto um ator e um pubhco, e um 1mperat1vo pragmatico
que nos obriga a limitar os desgastes que vimos de provocar em nossas
relações.
As duas atividades que tendem a normalizar um contexto, isto é,
a atividade que consiste em ler e interpretar corretamente os indícios de
contextualização e a que consiste em explicá-los em seguida, não dei-
xam de estar relacionadas. Luc Boltanski e Laurent Thévenot propu-
seram associá-las através dos termos provas de justeza e provas de
justiç_a. Contextualizar é cuidar da pertinência do curso de uma ação e
mod1fi~ar eventualmente sua inteligibilidade para aqueles que aí estão
envolvidos Gusteza). Explicar é conferir ao público ou ao auditório um
P~de~ ~e julgar com o qual não se pode negociar senão aceitando seus
pnncipios. e .admitindo a existência desse "tribunal da crítica profana"
que const1tu1 a razão comum.
taç Pode-se considerar aqui a função das justificações e das refu-
~ ?es para as estratégias de defesa num processo ·124 Acontece , com
e1e1to
charn~ ~~e um_a tester:nunha tome a iniciativa de assinalar uma falta,
que nã t t.ençao do tribunal para essa falta ou responda a uma questão
cações~ 01 colocad~, a fim de neutralizar as conseqüências ou as impli-
que a t ª reprovaçao a que está sujeita. Esse tipo de iniciativa permite
delito ine~te_munha domine sua descrição das circunstâncias de seu
, sistincto
nos, Par _ d
. , p or exemplo, na questao .
os constrangimentos exter-
a eVItar a posição menos confortável que consiste em respon-
~
Segundo a fo-.- - - - - - - - - - - - , - - - - - .- .- - .- - - .
~r!· 1993). rrnuJa de Luc Boltanski e Laurent Thevenot (De la1ustrficat1on. Galh-
. . tkinson J
JlldtciaJ settin,gs · M. & Drew, P. Order in courc. The organisarion of verbal interacrion in
· London, Macmillan, 1979.
ERVING GOFFMAN E A MICROSSOCIOLOGiA

84

der às perguntas dos juízes. ~lém ?isso, tomar a iniciativ~ é garantir que
será possível "colocar" a jusnficaçao como melhor convem, que ela não
correrá risco de ser rejeitada por falta de tempo ou de uma ocasião
O
conveniente na sucessão das trocas. Em suma, tomar a iniciativa de
uma justificação "prematura" é, na impossibilidade de poder dominar 0
fogo cerrado das perguntas, c_onstruir s~a. defesa de m~ne~r~ ativa, ten-
tar minimizar a assimetria do mterrogatono e a alocaçao ngida dos tur-
nos de fala que ele pressupõe, dando o espaço indispensável a uma
estratégia, ainda que seja apenas uma estratégia de substituição.
A noção de account ganhou importância central na sociologia de
inspiração fenomenológica de Harold Garfinkel. Tal importância advém
do fato de que ela se origina diretamente de uma concepção da com-
petência dos atores sociais para produzir "teorias naturais" sobre o que
eles observam ou sobre o que lhes acontece. A accountability de um
fenômeno ou de um contexto não implica que haja algo a corrigir ou
reparar, mas simplesmente descritibilidade intrínseca ou, como propõe
Louis Quéré, sua "formulação" . 125 Na experiência ordinária, trata-se
precisamente de dar uma explicação a respeito da formulação que
melhor convém. Assim, a vulnerabilidade das descrições, as controvér-
sias sobre o porquê e o como dos fatos é que ocupam ordinariamente as
conversações comuns. Por exemplo, as transações de serviço tipicamente
suscitam problemas de formulação.
Já se disse que a microssociologia descrevia bem o universo dos
serviços do capitalismo avançado, no qual os homens produzem ape-
nas performances. 126 Com efeito, é nesse domínio dos serviços e da rela-
ção de serviço que a noção de competência e o modelo da reparação
n? qual ela se baseia encontram uma experiência cuja análise é pre-
ciosa _tanto para a teoria sociológica quanto para a compreensão da
organização social dos encontros em nossas sociedades.

O modelo de reparação
p d . . Jjgi·
.. e-se partir, por exemplo, de uma situação em queª in~e e
0
~ihdade mútua entre os participantes é problemática. Essa situaç~o d
recusa do conse lh o "127 e, banal, se1a
. nos diversos
. ·
serviços que 1tdarl1

125 Q ..
126 uere, Louis · La v1e
G'dd · soc1ale
· · P· 70·
est une scene Jn· Le parler-(ra1s. Bool<S·
1 ens, Anth Th . . . · · . \l k Avon
19 ony. e commg cns1s of western socwlogy. New ,or ·
12779 . p. 38 1. . . 99·
Jefferson Gail & (P gmancs, 5.3
422, 1 _ ' Lee, John. The rejection of advice. Journal o ra
981
85

rn as recl,1~açocs ~!e -~~us us~6~ios o~ clientes (tra~sp~rte~, polícia,


co . nédtcos ou soc1,11s), SCJcl cm ce1 tos contextos msutucionais de
serviços , . t· , .
. . 1·a Elt1 ')úC l,1c íl acc um usuélno que pretende apresentar ou
ass1srenc e . 1-
;'j quc1xél (c1pos um roubo, um atraso de pagam ento um erro
Javrar uln ' . '
eu cadastro, um a cide nte) e um agente encarregado de registrar
ern s , . .
reclamaçc10. de trata-1a tecnicamente, o rientando o usuá rio a res-
suato das provi'd.enc1as que e 1e d eve tomar para o b ter sat1s1açao,
. e - reaver
pe1 d . . d
u bem ou ter os seus 1re1tos respeita os.
se o que é característico desse tipo de situação e que faz dela um
caso limite em matéria de formulações partilhadas é que os participan-
tes são inevitavelmente e estruturalmente incapazes de adotar o mesmo
"alinhamento": o queixoso procura contar sua história ou reforçar sua
posição para fundamentar sua queixa; geralmente ele está nervoso e
quer que seu interlocutor partilhe sua v isão das coisas. Diante dele e
numa posição tipicamente defasada (os a utores dizem "assincrônica"),
o agente tem que fazer gestos e movimentos que apenas acentuam seu
nervosismo: ele tem que registrar a q! 1ei:xa segundo as normas impostas
por um "formulári o" e proc d r a v •nficações que podem parecer
insultantes, ele faz perguntas ralmence desligadas da situação que o
queixoso procura expor e. com es ;is perguntas, parece retardar o
momento em que o caso será tratado. Qualquer que seja a "qualidade"
do atendimento, ele te m todas as chances de parecer formal , minu-
cioso, impessoal etc. Entre aquele que apresenta uma queixa e aquele
que a registra não há nenhuma simetria, nenhuma linguagem comum,
nenhuma reciprocidade de perspectivas possível. Aliás, essa é a única
reclamação comum aos dois protagonistas ("Ponha-se no meu lugar!"),
e isso porque eles não concebem que essa situação banal seja ao
mesmo tempo uma situação limite em termos de encontro. !ado 0
esforço que os participantes fazem para aliviar as tensões consiste em
salvar aquilo que ainda é possível nesse encontro. . , .
Trata-se, pois, de um diálogo de surdos do qual os serviços pubh-
cos n~.º detêm o monopólio e que reúne um queix?so falando de sua
e~enencia e um "ouvinte" (que pode ser um profissional ou u~ volun-
tano atrás de um guichê ou ao telefone, mas sempre um ouvido)_ ten:
tancto formular (ou reformular) o problema e suas propriedades. Assim, e
provável que esse diálogo esteja fadado ao fracasso e que nenhduma
queix .d · , que aquele que eve
ª
recebê 1 -
Possa ser verdadeiramente recebi ª· 1ª - enquanto
b. to da rec1amaçao,
- a nao se preocupa senão com o o Je
aquele que tenta formulá-la não quer minimizar seu p~so. m conflito de
A sação expoe u

forrnu ~eclamação, caso extremo tr:s raia's da ofensa, no ponto
rnais la~~es que bloqueia a troe~ nt?al característica estrutural que
Prox1mo da pior interpretaçao. E essa
ERVING GOFFMAN E A MICROSSOCIOLOGJA
86

experiência ainda mais crucial do que a assimetria dos pro-


faz de 1a uma . A • ,. ·1h d
.
tagornstas. . di·r-se-ia que sua 1mpotenc1a e parti a a e que eles têm

:~~o
. !mente dificuldade de colocar-se no lugar do outro e de fazer o tra-
de figuração. Essa situação tipificad_a tem igualm~nt~ o mérito de
revelar a dupla implosão sofrida pela noçao de competenc1a quando se
aborda o domínio das prestações de serviços.
A primeira implosão, como vimos, diz respeito ao próprio ser-
viço, que o ideal comercial e os remanescentes da razão doméstica gos-
tariam que fosse pessoal e personalizado. Ora, uma relação de serviço
só acontece quando esse diálogo de pessoa a pessoa sofre uma implo-
são, dando lugar a duas relações distintas: uma relação na qual o agente
se apossa do objeto a ser reparado, objeto do qual o usuário concorda
em separar-se (um dente cariado, um cabeçote, um tíquete desmagne-
tizado); e uma segunda relação que só é pessoal na medida em que
ajude a resolver o problema (o cliente fornece as informações necessá-
rias e põe seu bem ou seu corpo à disposição do reparador e suas mani-
pulações) e não atrapalhe o tratamento em curso. Esse é um ponto no
qual Goffman insiste, no final de Asiles, para explicar que o psiquiatra
não pode ser um reparador como os outros. A relação do psiquiatra
com o doente mental não pode isolar nem o objeto ou o membro dani-
ficado da pessoa que sofre, nem o tratamento técnico da coisa mental
da relação entre duas pessoas.
A segunda implosão diz respeito ao próprio tratamento. Tratar de
um processo referente a auxílios familiares, resolver um problema de
fatura para um agente da companhia elétrica, cuidar de um joelho anci-
losado ou controlar um contraventor no metrô é pôr à prova não ape-
nas uma, mas três competências:
"Teoricamente, a interação de um cliente e um profissional torna
uma forma mais ou menos estruturada. O reparador tem a possibilidad~
de proceder, na propriedade do cliente, a um trabalho mecânico, a mani-
pulações diversas, sobretudo quando essas operações visam a fundamen-
tar um diagnóstico. Ele pode, igualmente, ter com seu cliente uma troca
verbal em três níveis: um nível 'técnico' informações recebidas ou dada.s
1
~ob_re ª- reparaç~o (~u a construção) ~retendida; um nível 'contra%ª ;
ndicaçao aproximativa e, em geral, pudicamente encurtada sob r
custo do trab alh o, os prazos necessários e outros detalhes s1m · 1·1 ªres·' Pºu-
· ·i·idades', trocas de gentilezas acompanha d as de a1grar
fim ' um n'ive l ·c1v1
mas amabir1d d
ª es e pequenos sinais de respeito. E, importante constat1f11
que tudo o qu . ~ re-se a
e se passa entre o profissional e seu chente re,e ser
ou outro desse . podeI11
· s componentes, e que todas as d1vergenc1as ·...-,eriro
A •

interpretadas em fu - d nvoJVJ,,•
nçao dessas normas já previstas. O ese
co MPE TÊNCJAS 87
~

entre o profissional e o cliente segundo essa estrut


da troea . d 'b , _ ura representa
para o P rimeiro um teste e . oa .relaçao de serviço · " I28
Dos trabalhos que se mspiraram nesse modelo par d
'd' a escrever
nt o as consultas me 1cas quanto o trabalho em restaurantes .
ta . ' bl' . , no gui-
chê de serviços?~ 1cos ou nos"ser.v 1ços de ~ssistência telefônica, cabe
fixar um repertono. _ de competencias.. verbais ou não-verbais que sao -
d
também con içoes pa~a propagar a euforia " dos encontros no campo
das prestações de serviço .
Competênci?s. técnicas. ? reparador é um especialista cujo diag-
nóstico deve se~ ~ap1do e preciso. O~ prazeres da comunicação interpes-
soal lhe são proibidos, sendo o laconismo a norma e o pressuposto de um
tratamento pertinente: o cliente espera e há outros depois dele. Além
disso, freqüentemente ele é obrigado a fazer um duplo trabalho de tra-
dução. Tradução da linguagem profana em linguagem técnica - por
exemplo, reformulando um pedido, como o garçom do café que grita
para a cozinha: "Dois a cavalo na oito" - ou codificando uma informa-
ção para transformá-la numa mensagem - e esse é o domínio da "fraseo-
logia" utilizada por policiais, bombeiros, pilotos ou técnicos em transportes,
que têm de transmitir uma informação de serviço e ao mesmo tempo evi-
tar os mal-entendidos e os erros de diagnóstico. 129 Mas, também, tradu-
ção da linguagem técnica em linguagem profana, já que o cliente exige
ser informado sobre o incidente ou o dano, a gravidade ou a freqüência
do problema com que se defronta etc. Ao contrário do pintor, que pode
assobiar trabalhando, o prestador de serviço trabalha ?iante de um
público curioso ou inquieto, devendo, pois, trabalhar exphcando.
Competências contratuais. O estabelecimento do contrato pode s~r
rápido ou trabalhoso, "pudico", quando se trata de preservar certa fami-
liaridade ("Quanto lhe devo, doutor?"), ou explícito e prudente, quando
é preciso prevenir contestações e disputas ("Leia atentamente O contra_to
de aluguel e assine-o) ou as dúvidas quanto ao trabalho de reparaçao
("Eu não posso prometer nada") . Em to d os esses casos '. quando se passa
da ç,ase de constatação para o contrato propn· amente dito reza a norma
t d,e vista essa é
qu
e se peça o consentimento d o contra tante · Desse pon oção dos contra-
,
a s .. " . uela em que a aten
equenc1a mais explícita da troca, aq uir-se imediatamente
tantes é supostamente integral e à qual de~e seg
um .. , "' rmal e distante.
a outra que corr11a seu carater ,o ç da prestação um
. .
, . eompetências civis ou rituais.
São as que ,azem
.. "ncia anterior, elas atuam no
legmmo encontro. Ao contrário da seque do natural comum por
registro do implícito, proporcionando um mun

128 As· G oble 1990.


129 i/es. p. 383. .. p sses Universitaires de ren '
Rª1zon, Pierre. Vers une ergonom1e
· cognit1ue. re
E RVING GOFFMAN E A MICROSSOCIOLOGJA
88
. b s e encerramentos cuidadosamente enquadrados, de
me10 de a ertura . . , . A . , .
- d deferência ou de maneiras amave1s. qu1 e a exposição
marcaçoes e
. que prevalece (a pele sob o
· J:
urn1orme
)
,

asma
11zaçao
· - da dis-
de s1 mesm 0
A •do papel imposto e a vontade de cooperar com o empreendi-
rancia .. d ,,
menta comum que consiste e m aquecer o mun o .
Um artigo clássico 130 descreve bem os problemas e as compe-
tências requeridas de um profissional de serviços. Ele focaliza um dos
elementos essenciais da cultura profissional dos motoristas de táxi, a
obtenção da gorjeta. Ao contrário de médicos, professores, emprega-
dos de restaurantes ou zeladores, que têm sua clientela regular ou seus
clientes habitu ais, o motorista de táxi tem apenas breves contatos com
pessoas que ele não conhece ou que não o conhecem e com as quais
dificilmente tornará a encontrar-se. Assim, o exercício da profissão
repousa sobre um contrato pontual, que quase nunca se renova. Ao
contrário dos outros profissionais de serviços, o taxista não tem ende-
reço fixo e nem mesmo pode construir uma reputação, já que seus cli-
entes não constituem um grupo. Sua clientela é composta de um
agregado de indivíduos cuja conversação ele às vezes suporta como
uma "não-pessoa" , simples prolongamento de seu veículo, ou cujas
confidências ele ouve, pelas mesmas razões. A gorjeta, que constitui
parte importante de seus rendimentos, também é para o taxista o prin-
cipal critério de classificação de sua clientela. Portanto, seu oficio con-
siste primeiro em reconhecer e depois satisfazer, conforme as circunstâncias,
homens de negócios, boêmios que acabam de receber seu pagamento
ou burgueses que fazem suas compras. Ele deve, pois, usar tanto sua
competência técnica - sua habilidade como chofer ou seu estilo de
guiar - quanto suas competências civis - sua conversação e a parcela
de iniciativa que ele deixa a seu cliente.
É possível observar um "corretivo cômico" desta última cornpe-
~ ·
tenc1a no filme de Jim Jarmusch, Night on earth, a respeito · de urna
d~pla problemática em Nova York: o cliente, jovem e negro~ q~e ~~:
dificuldade para fazer parar um carro e esbrave1· a contra a disc~rn
- , . . igrante
çao, pelas aparências da qual é vítima; e o motorista de tax1, im Jien·
recem-chegado à "cidade mundial" que não pode escolher seus e de
t ' em comum, salvo "f:rag.mentos
es e na d a s~be sobre seu oficio. Nada homens
cultura partilhada" e problemas de formulação, entre esses 015ede neJ11 ?
due .n~vegam juntos pelas ruas do Brooklyn. O que não os un~ de cne·
e nr Juntos e, portanto, compreender-se apesar de tudo, ne
gar ao seu destino, ou seja, co-produzir um serviço.

= --------------------
D .
130
.-------:-:
·oiog)I, 65:1 ss-65·
avis, Fred. The cab-driver and his fare American Journal of Soei
1959. '
Conclusão
Uma teoria dos momentos comuns

G OFFMAN ASSIM RESUME A MUDANÇA de posição pela qual a


microssociologia, estudando a estrutura da experiência individual da vida
social, liberta-se de toda psicologia:
"Assim, portanto, não os homens e seus momentos, e sim os
momentos e seus homens." l 3 l
Henri Lefebvre, outra figura maior da sociologia da vida coti-
diana, era igualmente fascinado pela consistência e a força dos momen-
tos, seja para os orquestrar, seja para os metamorfosear e os desviar
numa experiência situacional. Para Lefebvre, os momentos são catego-
rias da práxis cujo elenco evoca o Marx da Ideologia alemã (a luta, o
jogo, o trabalho, o amor e a reprodução, o conhecimento, a poesia, o
repouso). 132 Cada uma dessas categorias tem suas regras, seus parcei-
ros, seus propósitos, seus riscos. Assim, porque tem suas próprias cate-
gorias, o jogo apresenta um mundo.
"Por ser um momento, o jogo encerra uma armadilha. Torno-me
um jogador. O jogo apresenta alguma coisa: um abismo, uma vertigem
possível. Há um absoluto no momento do jogo; e esse absoluto, como
toda realidade ou momento levado ao absoluto, representa uma aliena-
ção específica." l 33
Os momentos de Lefebvre, longe de serem meras circunstân-
cias, são formas que têm duração própria e se destacam do continuum

131 L es rrtes
. d''mteractzon.
. 1974. p. 8.
132 La somme ec le reste. Bélibaste, 1973, p. 300.
133
1 'd., p. 349.
ERVING GOFFMAN E A MICRos so
90 - -- - - - - - - - - - -- -- - ----=-..:C~IOL oc, ...

_ 5 i ões e do psiquismo informe. Na vida cotidiana. esses rno


das n ª!1 ç esmo tempo misturados e separados. Eis por que u rnen.
ros esta o ao m . .. . · .. · , .. . . rna Crí.
. d ·da cotidiana deve mterv1r , isto e, intensificar a pr d .
nca a v1 . .d d d . - . o uçao
. 1 d cotidiarndade, sua capac1 a e e comurncaçao, de mforrn .
vira a .. aça
e, também, sobretudo de prazer . 0

É natural que o modelo do momento como estrutura d .


. . . ~ . a vida
cotidiana e como mtens1dade seJa a 1esta. A festa, obJeto fetiche de
• A • , • •urna
teoria da expenenc1a ao mesmo tempo cnuca e totalizante que fa ria a
unidade da poesia e da prosa do mundo.134
Todos os postulados desse romantismo situacional são com t1ngue-s_e
metidos pelo situacionismo metodológico de Goffman. Foi necess~ro- menêunc
generalizar o trabalho crítico da modernidade e aprofundar ao máxi~10 parece e
um pensamento da descontinuidade para superar essa concepção do~ cujo pro
momentos privilegiados. Afinal, como mostrou Deleuze, é próprio da gens circt
revolução científica moderna relacionar os momentos não mais aos ins- arealidz
tantes privilegiados. mas a um instante qualquer, para observar "não firmar ant
aquilo que foge excepcionalmente ao comum, mas aquilo que se dis- bulário es
tancia normalmente do ordinário". 135
uma "cida
Civilidades, rituais, dramas, ocasiões, competências: a microssocio- loucura,º\
logia é o estudo das formas rotineiras ou inéditas de nossos engajamen- nesse mun
tos, mas não descarta absolutamente sua espontaneidade. A noção de responder
momento resume essa característica que tem a vida social de ser situada e rnenre Pelo
descritível, mas também estruturalmente problemática, de estar aberta quea Vida
aos mal-entendidos e às interpretações relativas aos quadros. Assim. ela s~ engaja a
não tem por fórmula a efervescência religiosa conforme Durkheim, nem snuaçã
o momento de exaltação recíproca da festa. Ao contrário, conservandoª º·
qualidade de emergência desses acontecimentos, ela sugere q_ue e~s
podem ser analisados na materialidade das cerimônias e no registr? e
um instante como outro qualquer. Cabe ao soc10 . , 1ogo dominar. as tecnr·
ei·
, . . ..
cas suscet1ve1s de observação e naturahzar esse cara , ter de mstantan
esenrar
dade" que marca nossa memória, nossa capacidad~ de toma~;!
e de explicar aquilo que nos acontece e a maneira pela q
rra· r::~os
tados ou "desconsiderados" na vida. 136 da um des·
O fato de só estarmos engajados parcialmente em cata é canse·
ses momentos, longe de ser sinal de uma a11ena . ção abstra ,

134 rrir de ele


La som me et le reste. Bélibaste, 1973. p. 350. omos mais a pa ri·ais rrtt11
135 "S b . - recomp ,nate
o pena de recompor o movimento, na 0 0 . de elementos
mentos formais transcendentes (posiçõe~). : simª part~ .
nentes (cones)." L'image-mouvement. Mmutt, 1984. P· 3
136
Réplique à Denzin et Keller. Le parler-frais. P· 3 I 9,
p
~ 91

.. ~ . da pluralidade dos mundos, o efeito subjetivo da diversid d


q
uenc1a . A • .. • a e
... fluxos de pertmenc1a que nos atingem de fora. Conseqüência d
dos in , o
ragrnatisrno , porta~to:_ o re~ 1 e uma poten~1a convidativa, excessiva
A •

P eus recursos e s1grnficaçoes, qu e nos ensma a cercar nossos enga-


- ern s . t d ,
jarnentos, a fabncar os ~on ornos e os estr~tos e nossa experiência. E a
existência dessas p ressoes e desses ~onvltes que desaloJa a subjetivi-
dade e a ensina a mover-~e ~~m urnve_rso de implicações circunstan-
ciais e a interpretar-lhe os md1c1os e as linguagens.
o percurso da microssociologia de inspiração goffmaniana dis-
tingue-se, pois, não apenas das psicologias sociais, mas também das her-
menêuticas da intersubjetividade. A abstração do sujeito à qual ela
parece chegar por vezes a aproxima de uma antropologia estrutural
cujo programa seria examinar a maneira pela qual os ritos e as lingua-
gens circunstanciadas (e não somente os mitos) "se falam entre si" .13 7
Na realidade, porém, a atenção dada aos idiomas situacionais vem con-
firmar antes o legado pragmatista de uma divisão do eu do que o voca-
bulário estruturalista. Visto que o eu é estruturalmente alterável, como
uma "cidade aberta" , diz Goffman, ele pode tomar-se por outro, até a
loucura, ou pôr-se no lugar de outro e engajar-se num papel. Engajar-se
nesse mundo é , pois, envo lver-se num jogo de circunstâncias comuns,
responder por elas e ser capaz de explicá-las, estar ligado a elas unica-
mente pelo fato de expor-se a elas. O engajamento só tem sentido por-
que a vida social e a vida pública são coextensivas e levam aquele que
se engaja a se dividir na promessa que constitui seu ato de presença na
situação.

137 V. .. _ etendemos. pois, mostrar como os


ale lembrar a fórmula de Lévi-Strauss: Nao pr m nos homens, e sem que
homen ·cos se pensa . .
s pensam nos mitos. mas como os mi . bstraindo de todo su1e1to,
e1es o s ·b . . d mais longe, ª 1 ·r
ai am ... E talvez convenha ir am ª entre si" (Le cru et e cur ·
Para e · ·cos se pensam
p . onstderar que, de certo modo. os mi
ans, Plon, 1964. p. 20).
A ordem da interação
e seu vocabulário

Contexto: quadro local e perceptivo onde se desenvolve uma


atividade e espaço de palavra ao qual os participantes se referem
durante a troca. Do ponto de vista de uma ecologia das atividades, o
termo designa o ambiente e os recursos disponíveis; do ponto de vista
da cognição situada, remete aos indícios que permitem aos participan-
tes fazer inferências a respeito da ação ou da conversação em curso.
Engajamento (involvement, commitment): obrigação social que
~ma pessoa se impõe quando se envolve num papel.ou numa ação con-
JUnta e cuja intensidade varia da distração ao entusiasmo, conforme as
outras obrigações que lhe caibam em oµtras cenas.
Figuração (face-work): prática ha.bitual e normali~ada - ta~o,
sauoir-faire - pela qual uma pessoa antecipa todo a~ontec1rr:iemo_ cuJas
· 1· - . d ôr em nsco a s1tuaçao de
imp 1caçoes simbólicas se1am capazes e P . - -
interação. Preservar a reputação é uma condição da mteraçao, e nao
seu objetivo.
'd elos parceiros- indivíduos
Interação: ação recíproca exerci _ª Pm resença uns dos outros.
ou .equipes - de uma troca quando estao e pio nas situações de face
As interações podem ser focalizadas (por ~xedmp( ~r exemplo, nas situa-
a _fa ce ou nas conversações) ou nao-
- focaliza úblico).
as P
Çoes de co-presença na rua ou no espaç0 P . ,
no direito de olhar, isto e, num
. _ ?rdem pública: orden:1 fun~a~~ade das pessoas presentes. Estas
Pnnc1p10 de acessibilidade e d1spomb
ERVING GOFFMAN E A MICRossoc
94 IOLoc 1A

tendem, quando se expõem, a dominar as impressões que causam ern


outrem e a se observar enquanto agem.
Posição: postura, atitude e disposição que adotamos em relação
a nós mesmos e às outras pessoas presentes e que indica o terreno e as
mudanças de terreno da troca.
Quadro (frame): dispositivo cognitivo e prático de organização
da experiência social que nos permite compreender e participar daquilo
que nos acontece. Um quadro estrutura não só a maneira pela qual
definimos e interpretamos uma situação, mas também o modo como
nos engajamos numa ação.
Reparação: atividade ritual que se manifesta por justificações,
desculpas ou pedidos e pela qual uma pessoa procura modificar a sig-
nificação atribuída a um ato para atenuar-lhe o caráter virtual ou real-
mente ofensivo.
Reputação: valor social que uma pessoa reivindica através da
linha de ação que ela adota durante uma interação. A reputação não
está dentro do indivíduo nem na sua superficie, mas se acha difusa no
fluxo dos acontecimentos do encontro.
Situação social: espaço-tempo definido convencionalmente onde
duas ou mais pessoas estão co-presentes ou comunicam e controlam
mutuamente suas aparências, sua linguagem corporal e suas atividades.
Território: conceito tomado de empréstimo à etologia e que
designa o espaço fixo, situacional ou pessoal, sobre o qual alguém de
direito exerce controle e cujos limites defende.
Bibliografia

EIVing Goffman

(A primeira data é da primeira edição em inglês, e a segunda, da tradução fran-


cesa; todas as traduções francesas são das Éditions de Minuit.)
La mise en scene de la uie quotidienne. v. 1: La présentation de soi. 1959, 1973.
Encounters. 1961.
Asiles. Études sur la condition sociale des malades mentaux. 1961, 1968.

Behavior in public places. 1963.


Stigmate. Les usages sociaux des handicaps. 1963, 1975.

Les rites d'interaction. 1967, 1974.


La mise en scene du la uie quotidienne. v. 2: Les relations en public. 1971, 1973.
Les cadres de l'expérience. 1974. 1991.

Façons de parler. 1981, 1987.

Artigos disponíveis em francês:


Les moments et leurs hommes. Wmkm, . . y (d"r) SeuiVMinuit, 1988.
ves 1 • •
, d tation à l'échec. ln: Joseph.
[l9S2] . Calmer le jobard: quelques aspects de 1ª ap M" ui·t 1989. p. 277-300.
· d'E · g Goffiman. m ·
Isaac et alii (dirs.). Le parler-frars _rui~ , Denzin et Keller. 1981. lbid.,
(Colloque de Cerisy de 1987 .); Replique ª
p , 301 - 18
L .· he en Sciences Sociales (100):66·
ª commumcation en défaut. Actes de la Recher~ tion conducr in an island com-
72, ~éc. 1993. (Faulty persons. ln: Communicaf Sociology, 1953. p. 259-72.
0
munity. University of Chicago, Department
(PhD Thesis, cap. 20.)
OCIOLOCIA

96

Sobre EIVing Goffman e a microssociologia


Burns, Tom. Erving Gof[man. London/New York, Routledge, 1992.
Conein Bernard. Éthologie et sociologie. Contribution de 1' éthologie à la théo-
rie de J'interaction sociale. Revue Française de Sociologie, 33:87-104, 1992.
Drew, Paul & Wootton, Anthony (eds.). Erving Gof[man. Exploring the interaction
arder. Cambridge, UK, Polity Press, 1988.
Heath, Christian. Goffman, la notion d'engagement et l'analyse des interactions
en face-à-face. ln: Le parler-frais. p. 245-6.
Joseph, Isaac & Quéré, Louis. L'organisation sociale de l'expérience. Futur anté-
rieur. p. 19-20, 1993/5-6, L'Harmattan, p. 137-50.
Quéré, Louis. La vie sociale est une scene. Goffman revu et corrigé par Gar-
finkel. ln: Le parler-frais. p. 47-82.

Sobre outras correntes sociológicas discutidas nesta obra


Cicourel, A. V La sociologie cognitive. Paris, PUF, 1979.
- ~ . Conein, B.; Hutchins, E.; Joseph, I. & Latour, B. Travai! et cognition. Socio-
logie du Travai/ (4), 1994.
Corcuff, Philippe. Les nouvelles sociologies. Nathan, 1995. (Collection 128.)
Coulon, Alain. L'ethnométhodologie. Paris, Minuit, 1987. (Que sais-je?)
Gumperz, John. Engager la conversation. Paris, Minuit, 1989.

Publicações de Etving Goffman em português


Estigma. Rio de Janeiro, Guanabara, s.d.
Manicômios, prisões e conventos. São Paulo, Perspectiva, 1999.
Os momentos e seus homens. Lisboa, Relógio d'Água, 1999.
A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis, Vozes, 1999 _

li
n1icrossociologia constrói con1o

Aut r: legitimo don1inio e cuia

Título: arquitetura conceituai e resultados

empíricos este livro procura

analisar.

Ton,ando por obieto a orden1

da interação, Erving Goffn1an

<1922- 82) propõe que a sociologia

confirn1e seu legado distinguindo-

se das psicologias sociais e das

filosofias da intersubjetividade.

Mas, fazendo coro con1 as

indagações conten1porâneas sobre

a noção de espaço público, ele

convida igualrnente c1 descrever e

c111,1lisc1r de 111c111eirc1 original e

riqon>•,.1 ,1c, c-ondic;oes e as

e 011 ..,<'qt1<·11ci,1c, da c1cessibilidade

llllllll,1 ÍIH'll'lll<.' clS relações et11

pul>l1< o 11,1c, situações con1uns.