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A Apostasia: Inácio, Marcião e Tertuliano


20/08/2013 01:43

A APOSTASIA:

INÁCIO, MARCIÃO E TERTULIANO

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Por Tsadok Ben Derech

Vimos nas partes anteriores deste estudo que os primeiros


discípulos de Yeshua eram conhecidos como netsarim
(nazarenos), e que tempos depois os gentios crentes
passaram a ser chamados de cristãos. Afirmou-se ainda que
nazarenos e cristãos viviam em conjunto e eram praticantes
do Judaísmo, até que houve um momento na história em
que ocorreu uma divisão. Esta ruptura decorreu da apostasia
que ingressou no meio cristão.

Consoante os relatos do historiador Flávio Josefo, Roma


assassinou muitos hebreus durante os anos de 66 a 73 D.C,
totalizando 600 mil israelitas, e durante os anos de 132 a
135 D.C foram dizimadas cerca de 850 mil pessoas.
Somando-se tais números, constata-se que em um curto
período histórico houve o extermínio de aproximadamente
um milhão e quinhentos mil hebreus. Muitos deles eram
nazarenos, o que leva à conclusão de que sobraram poucos
israelitas seguidores do Mashiach Yeshua.

Por outro lado, houve um grande crescimento do número de


cristãos. Assim, a tendência natural se consumou: o grupo
maior dos cristãos prevaleceu sobre o grupo menor dos
nazarenos. Confira-se o relato de Abraham Cohen:

“Durante algum tempo, a Comunidade cristã era


formada de duas seções divergentes: a dos
Nazarenos ou judeus Cristãos... e a de cristãos
gentios... É claro que um tal estado de coisas
não podia durar, e era, somente, uma questão
de tempo, antes que uma das seções viesse a

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predominar e expulsar a outra. Foi exatamente


isso que sucedeu. O acontecimento crítico que
resolveu a questão foi a destruição do templo e
do estado no ano 70... A partir desse momento,
os Nazarenos começaram a diminuir em
número, enfraquecendo-se, pouco a pouco, a
sua influência, até se tornar nula.”

(Dois Caminhos, Edições Biblos Ltda, Rio de


janeiro, 1964, página 102).

Haja vista que muitos cristãos eram originários de religiões


pagãs, a apostasia infiltrou-se rapidamente nas
congregações cristãs. Esta apostasia já havia sido prevista
nas Escrituras. Senão vejamos.

Yeshua advertiu acerca da apostasia que viria por meio de


falsos messias e falsos profetas:

“E surgirão muitos falsos profetas, e


enganarão a muitos.

E, por se multiplicar a apostasia, o amor de


muitos esfriará.

(...)

Porque surgirão falsos messias e falsos


profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios
que, se possível fora, enganariam até os
escolhidos.”

(Matityahu/Mateus 24:11- 12, 24).

O que é um falso profeta? Ora, se a Torá (“Lei”) é a verdade

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(Sl 119:142), consequentemente, qualquer ensino contra a


Torá é mentiroso. Falso profeta é aquele que ensina
doutrinas contrárias à Torá (“Lei”), isto é, todos aqueles que
“distorcem as palavras do Elohim vivo” (Jr 23:36), visto que
o ETERNO ordenou que ninguém poderia acrescentar ou
retirar nada de sua Torá (Dt 13:1, ou 12:32, nas versões
cristãs). Se Yeshua disse que não veio para abolir a Torá (Mt
5:17), logo, quem prega a anulação da Lei é considerado um
falso profeta. Prezado leitor, guarde este conceito de falso
profeta, porque mais adiante ele será essencial para se
compreender quando, na história, se manifestaram os
primeiros falsos profetas entre os discípulos do Mashiach.

Não demoraria muito tempo para que os lobos aparecessem.


Já no primeiro século a perdição se iniciaria.

Sha’ul (Paulo) previu profeticamente que, logo após a sua


morte, a apostasia iria se propagar:

“Porque eu sei isto que, depois da minha


partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis,
que não pouparão ao rebanho;

E que de entre vós mesmos se levantarão


homens que falarão coisas perversas, para
atraírem os discípulos após si.”

(Ma’assei Sh’lichim/Atos 20:29-30).

Advertiu Sha’ul (Paulo) que os discípulos deveriam ficar


atentos quanto à manifestação da apostasia:

“Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso


Senhor Yeshua HaMashiach, e pela nossa
reunião com ele,

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Que não vos movais facilmente do vosso


entendimento, nem vos perturbeis, quer por
espírito, quer por palavra, quer por epístola,
como de nós, como se o dia do Mashiach
[Messias] estivesse já perto.

Ninguém de maneira alguma vos engane;


porque não será assim sem que antes venha a
apostasia, e se manifeste o homem do
pecado, o filho da perdição.”

(Tessalonissayah Beit/2ª Tessalonicenses 2:1-3)

Ora, pecado significa transgressão aos mandamentos da


Torá (Yochanan Álef/1ª João 3:4, em aramaico). Assim, o
homem do pecado, mencionado por Sha’ul (Paulo), é aquele
traz ensinamentos contra a Torá do ETERNO, levando as
pessoas à apostasia. Estes ensinos têm origem maligna:

“Mas a Ruach (Espírito) expressamente diz que


nos últimos tempos apostatarão alguns da fé,
dando ouvidos a espíritos enganadores, e a
doutrinas de demônios;

Pela hipocrisia de homens que falam


mentiras, tendo cauterizada a sua própria
consciência.”

(Timoteus Álef/1ª Timóteo 4:1-2).

Não só Sha’ul (Paulo), mas também Kefá (Pedro) advertiu os


discípulos contra a iminente apostasia que seria inaugurada:

“E também houve entre o povo falsos

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profetas, como entre vós haverá também


falsos doutores, que introduzirão
encobertamente heresias de perdição, e
negarão o Senhor que os resgatou, trazendo
sobre si mesmos repentina perdição.

E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos


quais será blasfemado o caminho da
verdade.”

(Kefá Beit/2ª Pedro 2:1-20).

Volta-se ao ponto inicial: se a Torá é a verdade (Sl


119:142), quem blasfema do caminho da verdade é
aquele que prega contra a Torá. Esta é a mensagem deixada
por Kefá (Pedro), qual seja, que os discípulos de Yeshua
deveriam tomar cuidado com os falsos doutores, que são
aqueles que blasfemam contra o caminho da verdade (a
Torá).

Yochanan (João) fala expressamente que os antimessias


(anticristos) já estavam atuando no meio dos discípulos.
Muitas pessoas esperam que o Antimessias (Anticristo) se
manifeste, porém, Yochanan (João) foi contundente ao
advertir que havia não só um, mas vários antimessias
(anticristos) atuando no meio da comunidade dos fiéis a
Yeshua:

“Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes


que vem o antimessias, também agora
muitos se têm feito antimessias, por onde
conhecemos que é já a última hora.

Saíram dentre nós, mas não eram dos

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nossos, porque, se fossem dos nossos, teriam


permanecido conosco; mas todos eles saíram
para que se manifestasse que não são dos
nossos.”

(Yochanan Álef/1ª João 2:18 e 19).

Verifique que os antimessias (anticristos) saíram do meio


dos próprios discípulos. E quando isto ocorreu na história? É
o que se examinará a seguir.

A) INÁCIO DE ANTIOQUIA: O BALUARTE DAS


HERESIAS

Foi dito que Sha’ul profetizou que após a sua morte seriam
levantados lobos cruéis que atrairiam os discípulos para si
(Ma’assei Sh’lichim/Atos 20:29-30). Sha’ul (Paulo) morreu
no ano de 66 D.C e o primeiro ancião (“bispo”) de Antioquia
após a sua morte foi Inácio, em 98 D.C. Este bispo (o
“Santo” Inácio dos católicos) cumpriu as profecias de Sha’ul
(Paulo), uma vez que escreveu uma série de cartas
introduzindo várias heresias no meio dos seguidores de
Yeshua.

Hegesippus, historiador nazareno (180 D.C), escreveu o que


ocorreu imediatamente após a morte de Shim’on (Simeão),
que sucedeu Ya’akov HaTsadik (Tiago, o Justo) na liderança
da comunidade dos nazarenos, e que morreu no ano de 98
D.C:

“... efetivamente, até aquelas datas a


comunidade permanecia virgem, pura e

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incorrupta, como se até esse momento os


que se propunham corromper a sã regra da
pregação do Salvador, se é que existiam,
ocultavam-se em escuras trevas.

Mas quando o coro sagrado dos


apóstolos alcançou de diferentes
maneiras o final da vida e desapareceu
aquela geração dos que foram dignos de
escutar com seus próprios ouvidos a divina
Sabedoria, então teve início a
confabulação do erro ímpio por meio do
engano de mestres de falsa doutrina, os
quais, não restando nenhum apóstolo, daí
em diante já a descoberto, tentaram opor à
pregação da verdade a pregação da
falsamente chamada gnosis.”

(Hegesippus, o Nazareno, citado por Eusébio


de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III,
capítulo XXXII).

Fica claro o que ocorreu em termos históricos. Até o final da


vida dos emissários (apóstolos), a comunidade dos discípulos
de Yeshua era “pura e incorrupta”. Porém, após a morte dos
emissários, surgiram os falsos mestres que semearam falsas
doutrinas, tal como predito por Sha’ul (Paulo). Como
mencionado, o líder dos netsarim (nazarenos) Shim’on
faleceu no ano de 98 D.C, e é justamente neste ano que
entra em cena Inácio de Antioquia para introduzir várias
heresias. Em outras palavras, Hegesippus afirma claramente
que a apostasia teve início no mesmo ano em que Inácio se
torna o Bispo de Antioquia.

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Antes de Inácio, todas as decisões relativas aos netsarim


(nazarenos) eram adotadas por meio de concílios em
Jerusalém (vide, por exemplo, At 14:27 a 15:31). Após
assumir o cargo em Antioquia, Inácio usurpa a autoridade
dos discípulos que viviam em Jerusalém e declara a si
mesmo como autoridade final para decidir as questões da fé,
dizendo também que os bispos de cada local teriam a
mesma autoridade:

“... sujeitem-se a seus Bispos... e vocês estarão


agindo de acordo com a vontade de Deus.

Jesus foi enviado pela vontade do Pai; da


mesma maneira, os bispos são enviados pela
vontade de Jesus.”

(Epístola aos Efésios 1: 9, 11).

“... obedeça a seu Bispo.”

(Epístola aos Magnésios 1:7)

“Portanto, é vosso dever reverenciar os vossos


superiores.”

(Epístola aos Magnésios 3:3).

“Seu Bispo está presidindo no lugar de Deus...


esteja em união com seu Bispo.”

(Epístola aos Magnésios 2: 5, 7).

“ele... não deve fazer nada sem o Bispo...para

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não ficar impuro em sua consciência.”

(Epístola aos Trálios 2:5)

“Não faça nada sem o Bispo.”

(Epístola aos Filipenses 2:14)

“Todos vocês devem seguir seu Bispo, tal como


Jesus Cristo seguiu o Pai.”

(Esmirna 3:1)

Contrariando as Escrituras, Inácio de Antioquia criou um


sistema religioso em que o Bispo é um ser superior e os fiéis
lhe são subordinados. Disse Inácio que “o Bispo está no
lugar de Deus”, ou seja, tornou-se o representante do
ETERNO na terra, razão pela qual todos deveriam obedecê-lo
cegamente, sem nenhum tipo de questionamento. Este
modelo primou pela centralização de poderes em suas mãos
e iria culminar, mais tarde, com a instituição oficial da Igreja
Católica e o Papa como Chefe Supremo da Igreja,
denominado Vicarius Filii Dei (“o Substituto do Filho de
Deus”). Este pensamento também foi adotado pelo
protestantismo, visto que o Pastor é considerado “ungido do
Senhor”, pessoa superior aos membros da Igreja, devendo
estes obedecer ao Pastor sem questionar suas ordens, ainda
que sejam absurdas.

Quando se lê Ma’assei Sh’lichim (Atos dos Apóstolos),


aprende-se que as decisões dos netsarim (nazarenos) eram
tomadas democraticamente (At 1:21-26, 6:5-6, 15:25). Não

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havia um líder que impusesse unilateralmente sua vontade,


mas sim líderes que decidiam em conjunto em Jerusalém, a
santa Cidade do ETERNO. Por conseguinte, o modelo
instituído por Inácio (concentração de poder na mão de um
homem) é totalmente antibíblico.

Inácio terminou por usurpar a autoridade dos netsarim


(nazarenos) e obteve o poder perante os gentios cristãos,
estimulando que outros bispos gentios (supervisores)
também o fizessem. Assim, a rebelião de Inácio estabeleceu
uma divisão entre os netsarim (nazarenos) e os cristãos.

Atualmente, muitos pastores evangélicos, movidos por


ganância e rebeldia, criam uma cisão em suas Igrejas e
levam parte dos crentes para uma nova denominação por
eles instituída. Foi exatamente isto que fez Inácio: promoveu
uma rebelião e atraiu para si os gentios, determinando que
se afastassem dos judeus – os descendentes imediatos dos
“apóstolos” (emissários).

Explicou-se acima que os emissários (“apóstolos”) falaram


expressamente dos falsos profetas, que seriam aqueles que
ensinariam contra a Torá do ETERNO. Pois bem, Inácio foi
um falso profeta, visto que prescreveu que a Torá (“Lei”) foi
abolida:

“Mas se alguém pregar a Lei Judaica [a Torá] a


vocês, não lhe deem ouvidos...”

(Carta de Inácio aos Filipenses 2:6)

“Não sejam enganados por doutrinas estranhas;


nem por fábulas antigas sem valor. Pois se
continuarmos a viver conforme a Lei Judaica [a

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Torá], estamos confessando que não recebemos


a graça...”

(Carta de Inácio aos Magnésios 3:1)

Outra grande heresia foi engendrada por Inácio: a


substituição do shabat (sábado) pelo domingo.

Consoante as Escrituras, o shabat (sábado) foi instituído


desde a criação (Gn 2:1-3) e é o quarto dos Dez
Mandamentos (Ex 20:8-11 e Dt 5:12-15), sendo escrito pelo
dedo do ETERNO (Ex 31:18 e 32:16). O shabat é sinal da
aliança entre o ETERNO e seu povo (Ex 31:15-17 e Ez
20:12), sendo certo que o gentio deve observar o shabat (Ex
20:8-11 e Is 56:3-7). Yeshua guardava o shabat como era
de seu costume (Lc 4:14-16; Mc 6:1-2; Lc 6:6 e Lc 13:10).
Do mesmo modo, os discípulos de Yeshua e os emissários
(apóstolos) cumpriam o mandamento do shabat, mesmo
após a morte de Yeshua (At 13:14, 43-44; 16:13; 17:2).

Afastando-se das Escrituras, Inácio substituiu o sábado pelo


domingo:

“...não mais observem os sábados, mas


observem o dia do Senhor [o domingo], no qual
também a nossa vida floresce Nele, através da
Sua morte...”

(Carta de Inácio aos Magnésios 3:3).

“Portanto, não precisamos mais manter o


sábado, como fazem os judeus...”

(Carta de Inácio aos Magnésios 4:9).

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“Aqueles que viviam na antiga ordem de coisas


chegaram à nova esperança, e não observam
mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que
a nossa vida se levantou por meio dele e da sua
morte. Alguns negam isso, mas é por meio
desse mistério que recebemos a fé e no qual
perseveramos para ser discípulos de Jesus
Cristo, nosso único Mestre.”

(Carta aos Magnésios 9:1).

Vejam a jogada macabra de Inácio. Primeiramente, usurpa a


autoridade dos netsarim (nazarenos), que eram os discípulos
diretos dos emissários (“apóstolos”). Depois, afirma que os
fiéis deveriam obedecer aos respectivos Bispos locais, sendo
que ele próprio era o Bispo de Antioquia. Em seguida,
decreta que a Torá (“Lei”) dada pelo ETERNO foi anulada;
agora, os homens não deveriam mais obedecer à Lei do
ETERNO, mas sim aos mandamentos do Bispo. Em
sequência, Inácio aniquila o shabat e o substitui pelo
domingo. O que mais faltava?

O golpe fatal de “Santo” Inácio foi a criação de uma nova


religião, distinta do Judaísmo dos Netsarim (Nazarenos), que
passara a se chamar “Cristianismo”. Surge, então, pela
primeira vez a expressão “Cristianismo” para designar esta
nova religião:

“Vamos, portanto, aprender a viver conforme as


regras do Cristianismo, pois quem quer que
seja chamado por qualquer outro nome além
desse, esse não é de Deus...”.

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“É absurdo nomear Jesus Cristo e judaizar. Pois


a religião cristã não abraçou a judaica. Mas a
judaica abraçou a cristã...”

(Carta de Inácio aos Magnésios 3:8,11)

“Permanecei em Cristo e o estranho não obterá


o domínio sobre vós. É absurdo professar Jesus
Cristo com a língua e cultivar na mente o
Judaísmo, que agora chegou ao fim. Onde
está o Cristianismo não pode estar o
Judaísmo...”

(Carta de Inácio aos Magnésios 4:10)

Já se ressaltou que Yeshua não criou uma nova religião, mas


tão somente ensinou o Judaísmo à luz das Escrituras. De
modo totalmente contrário às lições do Mashiach (Messias),
Inácio de Antioquia instituiu uma nova religião, o
Cristianismo, e colocou de lado a fé original de Yeshua e
seus primeiros talmidim (discípulos). Estava aberto o
caminho para a fundação do Catolicismo Romano. Eis as
palavras de Inácio:

“Onde está Cristo Jesus, está a Igreja Católica.”

(Epístola aos Esmirniotas 8:2).

“Roma preside a Igreja na caridade.”

(Carta aos Romanos, Prólogo).

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Resumem-se os principais ensinamentos antibíblicos de


Inácio de Antioquia nos seguintes tópicos:

1) Concentração do poder nas mãos de um só homem,


o que posteriormente veio a abalizar o poder do Papa. Hoje,
o Cristianismo ainda permanece com esta ditadura
eclesiástica, inclusive no meio evangélico, em que as ordens
do Pastor devem ser obedecidas cegamente. Em muitos
meios judaico-messiânicos, o rabino ou o rosh também estão
estabelecendo “ditaduras” em suas sinagogas, já que as
decisões não passam pelo voto democrático dos membros ou
de um colegiado (Beit Din).

2) Decretação de que a Torá (“Lei”) do ETERNO foi


abolida. É lastimável que a maioria dos cristãos acredite
que a “Lei” acabou. Por outro lado, não menos lastimável é o
fato de que muitos líderes judaico-messiânicos, influenciados
pelas deturpações rabínicas, afirmam incorretamente que a
Torá vigora apenas para os judeus, sendo facultativa aos
gentios, que devem observar apenas as sete leis noéticas.
Em verdade, o ETERNO não faz acepção de pessoas, donde
se conclui que a Torá se aplica integralmente aos judeus e
aos gentios (Ex 20:8-11; Ex 12:49; Nm 9:14, 15:15-16; Lv
16:29, 24:22; Rm 11 e Ef 2). Devem os gentios começar a
cumprir regras mínimas, tal como preconizado em Atos 15,
porém, a cada shabat devem aprender mais mandamentos
contidos na Torá (At 15:19-21).

3) Substituição ilegal do shabat (sábado) pelo


domingo. Sobre esta questão, leia o capítulo III desta obra.

4) Criação de uma nova religião, o Cristianismo, no


lugar do Judaísmo ensinado por Yeshua e vivenciado
por seus discípulos.

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Assim, já no final do primeiro século e início do segundo,


Inácio de Antioquia cumpriu a profecia de Sha’ul (Paulo)
acerca da apostasia que se instalaria. O Cristianismo, nova
religião criada com alicerces antibíblicos, iria avançar e
substituir o Judaísmo pregado por Yeshua e praticado por
seus primeiros discípulos.

B) MARCIÃO: AS HERESIAS CONTINUAM

Após a rebelião de Inácio, a expansão do Cristianismo


contou com outro nocivo ingrediente implementado por
Marcião de Sínope (85 a 160 D.C), um influente bispo do
Cristianismo primitivo.

Enquanto os netsarim (nazarenos) usavam o Tanach


(Primeiras Escrituras) e os Ketuvim Netsarim (Escritos
Nazarenos), considerando todas as Escrituras como uma
unidade e sem a existência de hierarquia de uma sobre a
outra, Marcião foi o primeiro a inventar os termos “Velho
Testamento” e “Novo Testamento”, expressões estas que
não existem na Bíblia.

Marcião cria na existência de dois deuses distintos,


ensinando que o “Velho Testamento” revelou um deus mal,
que seria o deus dos judeus; e no “Novo Testamento” se
manifestou um deus bom. Em sua mente gnóstica, o deus de
Jesus seria diferente do deus dos judeus. O pensador pagão
preconizou um sistema dualista para explicar as
“contradições” entre o “Velho” e o “Novo Testamento”. Para
justificar a existência de dois deuses, Marcião interpretou as
Escrituras de maneira totalmente incorreta. Vejamos alguns
exemplos:

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a) Disse Marcião que o deus mal dos judeus ensinou “olho


por olho”, enquanto o deus bom de Jesus ensinou o amor.
Este conceito é errôneo, visto que “olho por olho” não
significa literalmente arrancar o olho de uma pessoa, mas
sim o dever de indenizar um dano causado a outrem em
valor proporcional à ofensa. Ademais, no Tanach (Primeiras
Escrituras/“Antigo Testamento”), o ETERNO ordenou o amor
ao próximo: “amem seu vizinho como a si mesmos” e
“amem-no como a si mesmos” (Vayikrá/Levítico 19:18 e
34). Logo, o amor de YHWH não surgiu com Yeshua. YHWH
sempre foi amoroso.

2) Alegou Marcião que o deus do “Velho Testamento”


incentivava o divórcio e o adultério, e o deus do “Novo
Testamento” os proibiu. Outro equívoco de Marcião. Yeshua
lecionou que o divórcio foi dado pela dureza dos corações
humanos (Matityahu/Mateus 19:8), e a própria Torá diz que
o homem se unirá à sua mulher (palavra no singular, ou
seja, apenas uma mulher) e ambos serão uma só carne
(Bereshit/Gênesis 2:24). Devarim/Deuteronômio igualmente
afirma que não deveriam ser multiplicadas as esposas (Dt
17:17). Em suma, a Torá nunca estimulou o divórcio e
sempre abominou o adultério.

3) Sustentou que o deus do “Velho Testamento” não era


onisciente, porque perguntou para Adam (Adão): “onde você
está?” (Gn 3:9). Esqueceu-se Marcião que YWHW é tão
misericordioso que fez esta pergunta para possibilitar que
Adam (Adão) e sua mulher se arrependessem de seus
pecados, confessando-os.

4) O deus do “Velho Testamento”, prossegue Marcião, é um


deus de vingança, crueldade e ódio; e o deus de Jesus é
bondoso e amoroso. Não percebeu Marcião que YHWH não

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muda e sempre externou seu amor e sua justiça para com


todos os homens. Em hebraico, a palavra “chessed” (graça)
aparece mais de 240 vezes no Tanach (Primeiras Escrituras)
e o próprio perdão liberado pelo ETERNO ao povo de Israel,
após o episódio idólatra do bezerro de ouro, demonstra o
seu grande amor. Por outro lado, no “Novo Testamento”,
Hananyah (Ananias) e Shapirá (Safira) foram exterminados
pelo ETERNO (At 5:1-11), o que demonstra que mesmo após
Yeshua a justiça de YHWH continua a operar. Em suma, em
todas as época da história o ETERNO agiu com justiça e com
misericórdia, aplicando uma ou outra de acordo com sua
infinita sabedoria.

5) Na visão do Marcionismo, Yeshua foi enviado pelo Deus


Pai (o deus bom) para superar o deus mal. Este conceito é
tão absurdo que dispensa maiores comentários.

6) Explicava Marcião que o deus do “Antigo Testamento”


criou o mundo material para alastrar o mal, tornando-se a
divindade dos judeus. Este deus perverso outorgou a Lei
(Torá) com o objetivo de promover uma justiça legalista que
punisse severamente os homens por seus pecados com
sofrimento e morte. O deus de Jesus derrubou a Lei, olhando
a humanidade com compaixão e piedade. Outra grande
heresia de Marcião! Yeshua afirmou que não veio revogar a
Torá/Lei (Mt 5:17) e Sha’ul considerou a Torá santa, justa e
boa (Rm 7:12), chegando a dizer: “Segue-se então que
abolimos a Torá (Lei) por meio da fé? De maneira nenhuma!
Ao contrário, confirmamos a Torá” (Rm 3:31). No capítulo II
deste livro, apresentar-se-á estudo detalhado sobre este
tema.

7) Para distinguir a obra do deus amoroso em relação ao


deus cruel, Marcião dividiu as Escrituras em “Velho

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Testamento” e “Novo Testamento”. Ora, quem lê a Bíblia em


hebraico sabe que não existe a palavra “testamento”. A bem
da verdade, o profeta Yirmeyahu (Jeremias) usa a expressão
“B’rit Chadashá”, que significa Aliança Renovada (ou “Nova
Aliança”) – Jr 31:30-33 (versões cristãs: Jr:31:31-34). Com
base nestes textos do profeta referido, deduz-se que Yeshua
veio para escrever a Torá no coração de seus discípulos.
Assim, o correto é usar a nomenclatura judaica: 1) Tanach
(Primeiras Escrituras, isto é, aquelas anteriores a Yeshua) e
2) B’rit Chadashá (Aliança Renovada ou “Nova Aliança”)
ou, como preferem alguns, Ketuvim Netsarim (Escritos dos
Nazarenos), que são os escritos posteriores a Yeshua. Daí,
Tanach e B’rit Chadashá (Ketuvim Netsarim) formam em
conjunto o que conhecemos como Bíblia, inexistindo
superioridade de um sobre o outro.

8) Seguindo a linha de Inácio de Antioquia, Marcião afirmou


que o Cristianismo era distinto e oposto ao Judaísmo.

Marcião atraiu um grande número de seguidores e, após ser


excomungado da Igreja de Roma, erigiu uma comunidade
independente. A Igreja de Marcião se expandiu com extrema
força, alcançando multidão de pessoas, valendo destacar que
seu movimento perdurou por muitos séculos. Numerosos
gentios se agarraram a Marcião, fugindo do “deus mal” dos
judeus, o Criador dos céus e da terra para a crueldade. O
ódio pelos israelitas, incluindo-se os nazarenos, ganhou um
novo propulsor.

Policarpo, que foi discípulo de Yochanan (João), chamou


Marcião de “primogênito de Satanás”. Lamentavelmente, o
Cristianismo adotou inúmeras heresias do bispo gnóstico.
Ademais, a teologia cristã lançou as sementes do
Marcionismo e colheu heresias ainda maiores. Até hoje o

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Cristianismo, em sua quase totalidade, ensina as teses


antibíblicas iniciadas por Marcião:

a) “a Lei foi abolida por Cristo”;

b) “a Igreja substitui Israel nos planos de Deus”;

c) “existe uma separação entre ‘Velho’ e ‘Novo Testamento’”.

Milhares de pastores no mundo inteiro, discípulos indiretos


do gnosticismo de Marcião, ensinam para os membros de
suas Igrejas: “vocês não precisam cumprir isto ou aquilo,
porque são mandamentos do ‘Velho Testamento’”. Estes
mesmos pastores cobram os dízimos, instituídos pelo “Antigo
Testamento”. Que perversão!!! Para lucrar com os dízimos, o
“Velho Testamento” é válido, mas para cumprir a vontade do
ETERNO, pregam os pastores: “o Velho Testamento está
ultrapassado, anulado, abolido”.

A verdade precisa vir à tona: todas as Escrituras Sagradas


(antes e depois de Yeshua) formam a Unificada e Eterna
Palavra do vivo Elohim. Não existe “Velho” e “Novo
Testamento”, mas sim Tanach (Primeiras Escrituras) e B’rit
Chadashá (ou Ketuvim Netsarim), que são os escritos dos
discípulos de Yeshua. A Palavra do ETERNO nunca fica
“velha”, razão pela qual é impróprio o nome “Velho” ou
“Antigo Testamento”. Tendo em vista todas as explicações
bosquejadas, a partir de agora não usaremos mais as
expressões pagãs criadas por Marcião, substituindo-as pelos
nomes corretos: Tanach e B’rit Chadashá (ou Ketuvim
Netsarim/Escritos Nazarenos).

No seio do Cristianismo, existe uma doutrina maligna que


foi influenciada direta ou indiretamente pelo Marcionismo: a
Teologia da Substituição.

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Defende a Teologia da Substituição a tese de que no “Novo


Testamento” os cristãos substituíram os israelitas nas
promessas feitas pelo ETERNO. Afirma que os judeus
negaram Yeshua e, por isso, foram rejeitados por YHWH,
que elegeu a Igreja para ocupar o lugar que antes pertencia
ao povo de Israel. Esta teologia ensina: 1) que o “Novo
Testamento” substituiu o “Velho Testamento”; 2) a Igreja
substituiu Israel e 3) a graça substituiu a Lei; 4) o
Cristianismo substituiu o Judaísmo.

Há diferentes modalidades da teologia da substituição,


chamadas por R. Kendall Soulen de supersessionismo.
Este pode ser: punitivo, econômico ou estrutural (The God of
Israel and Christian Theology, Minneapolis,1996, Fortress).

1) Supersessionismo Punitivo. Proclama que os judeus


rejeitaram Yeshua como Messias e, em decorrência, foram
punidos pelo ETERNO, perdendo todas as promessas que lhe
foram feitas no Tanach (Primeiras Escrituras). Alguns
defensores deste supersessionismo: Hipólito de Roma,
Orígenes de Alexandria e Martinho Lutero.

2) Supersessionismo Econômico (obs: não se refere a


dinheiro, mas à função). Assevera que o povo de Israel foi
substituído pela Igreja nos planos de YHWH. Em outras
palavras, Israel foi escolhido pelo ETERNO apenas para
trazer Yeshua ao mundo. Com a vinda do Messias, instituiu-
se a Igreja e Israel perdeu a finalidade. Alguns defensores
deste supersessionismo: Justino Mártir e Agostinho.

3) Supersessionismo Estrutural. Promove a


marginalização do “Antigo Testamento” (AT) como norma
para a vida cristã, isto é, não nega o AT, mas o desvaloriza,
tornando-o inferior ao “Novo Testamento” (NT). O AT é
válido, porém o que realmente importa é o NT. As regras do

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AT são vistas como de pouca relevância.

Além destes três tipos de supersessionismo apresentados


por Kendall Soulen, o teólogo David Novak apresenta os
conceitos de “supersessionismo fraco” e
“supersessionismo forte” (Two Faiths, One Covenant?:
Jewish and Christian Identity in the Presence of the Other:
The Covenant in Rabbinic Thought, Rowman & Littlefield,
2004. Eis seus conceitos:

1) Supersessionismo fraco. A Nova Aliança, instituída pelo


Novo Testamento, é entendida como uma adição à Aliança
anterior (a religião dos judeus, ou seja, o Judaísmo). Assim,
o ETERNO não revogou a Aliança com o povo de Israel, mas
os gentios não precisam da Primeira Aliança, bastando se
conectar com Yeshua. Este supersessionismo é chamado de
“fraco” porque é sutil, mas mesmo assim possui um verniz
antibíblico. Qual o erro desta teoria? O supersessionismo
fraco leciona que o gentio somente precisa buscar a conexão
com Yeshua, desligando-se da Torá (Primeira Aliança), o que
contraria os próprios ensinos do Mashiach, uma vez que
todos eles estavam fundamentados na Torá (Mt 5:17-19).

2) Supersessionismo forte. A Nova Aliança é uma


substituição da Aliança Mosaica. Tanto o supersessionismo
forte quanto o fraco estão errados. Biblicamente, a Aliança
Renovada (“Nova Aliança”) é uma extensão (no sentido de
prorrogação) da Aliança Mosaica.

Outra maligna herança do Marcionismo foi o Antinomismo,


expressão que literalmente significa “contra a Lei”. De
acordo com Merriam-Webster Dictionary, o antinomianismo
é definido como “uma declaração de que, sob a dispensação
do evangelho da graça, a lei moral é de nenhum uso ou
obrigação, porque somente a fé é necessária para a

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salvação”. Em outras palavras, as regras morais contidas na


Torá (Lei) são irrelevantes para a salvação. Será verdade?
Será que alguém dito crente pode adorar Satanás e mesmo
assim estar salvo? Será que um crente que passa a vida
toda em adultério, sem arrepender-se, herdará a vida
eterna? Será que um pastor que rouba os dízimos irá para o
paraíso? É claro que não. Logo, percebe-se que as regras
morais contidas na Torá são importantes. Yeshua advertiu
que quem o ama iria obedecer aos mandamentos (Jo
14:15), bem como realizaria o que o Pai deseja (Mt 7:21).
Disse ainda que aquele que não desse fruto seria lançado no
fogo (Mt 7: 19). Ya’akov (Tiago) escreveu que a fé sem
obras é morta (Tg 2:17). Ou seja, é necessário algum tipo
de obediência às regras morais da Torá.

A ideia de que a Lei (Torá) foi abolida difundiu-se por meio


de Inácio de Antioquia, Marcião e todos os demais “Pais” da
Igreja Católica, sendo incorporada por quase todos os
protestantes clássicos e evangélicos, o que contraria o
ensino de Yeshua no sentido de que não veio revogar a Torá
(Mt 5:17-19). Toma-se a liberdade para reproduzir mais
uma vez os relatos históricos de que os netsarim
(nazarenos) eram praticantes da Torá:

“Os Nazarenos ... aceitam o Messias de tal


maneira que eles não deixam de observar a Lei
antiga [Torá].”

(Jerônimo, Commentary on Isaiah, Is 8:14).

“Eles não têm ideias diferentes, mas confessam


tudo exatamente como a Lei [Torá] proclama e
na forma judaica...”

(Epifânio de Salamina, Panarion 29).

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Muitas pessoas não sabem que o próprio Martinho Lutero


não era totalmente contrário à Torá, porquanto defendia a
vigência das leis morais do Tanach (Primeiras
Escrituras/“Antigo Testamento”). Certa feita, Lutero sofreu a
acusação de desprezar os preceitos morais da Lei, ocasião
em que afiançou:

“Na verdade, eu muito me pergunto, como veio


a ser imputado a mim que eu rejeitava a Lei ou
Dez Mandamentos, se fazem parte de minhas
próprias exposições (e de vários tipos) sobre os
mandamentos, que também são diariamente
pregados e utilizados em nossas Igrejas, para
não falar da Confissão e Apologia, e outros
livros nossos”

(A Treatise against Antinomians, written in an


Epistolary way).

Em sua obra “Introdução aos romanos”, Lutero declarou que


a fé salvadora “não pode deixar de fazer boas obras
constantemente... qualquer um que não faz boas obras
dessa maneira é um descrente...Assim, é tão impossível
separar a fé das obras como separar o calor da luz do fogo’”
(An Introduction to St. Paul’s Letter to the Romans).

Comparando o pensamento dos netsarim (nazarenos) com


Lutero, depreende-se que os primeiros defendiam a vigência
total da Torá, enquanto Lutero advogou a subsistência
apenas da lei moral (vigência parcial). O Mashiach foi
contundente ao ressaltar, no famoso Sermão da Montanha,
que absolutamente nada da Torá poderia ser retirado:

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“Não pensem que vim abolir a Torá ou os


Profetas. Não vim abolir, mas confirmar. Sim, é
verdade! Digo a vocês: até que os céus e a
terra passem, nem mesmo um yud ou um traço
da Torá passará”

(Matityahu/Mateus 5:17-18).

Logo, a extinção total ou parcial da Torá colide com a lição


de Yeshua e, neste ponto, católicos e
protestantes/evangélicos se igualam como duas faces da
mesma moeda.

C) TERTULIANO E AS SEMENTES DO POLITEÍSMO

Logo após a morte de Marcião, entra em cena Tertuliano


(160 a 220 D.C), autor cristão responsável por lançar as
bases do politeísmo. Impressionante que Tertuliano é visto
pela cristandade como um exímio escritor e teólogo, cujos
ensinos foram absorvidos pela Igreja Católica Romana e,
posteriormente, pela Reforma Protestante.

Foi Tertuliano o primeiro a usar a palavra latina “Trinitas”


(Trindade) para desenvolver o dogma cristão de que Deus
são Três Pessoas diferentes: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Por razões óbvios, se Deus são Três Pessoas, então, a
doutrina cristã da Trindade apregoa a existência de Três
Deuses, típico exemplo de politeísmo. Para tentar disfarçar o
politeísmo tão combatido pela Bíblia, o dogma trinitário
sustenta que “Deus é um e que, por um mistério, ao mesmo
tempo são Três Pessoas”.

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Vale citar as palavras de Tertuliano, o pai da Doutrina da


Trindade:

“... enquanto o mistério da dispensação está


ainda guardado, o qual distribui a Unidade em
uma Trindade, colocando em sua ordem as
três Pessoas - O Pai, o Filho e o Espírito
Santo: três, contudo não em condição, mas em
grau; não em substância, mas em forma; não
em poder, mas em aspecto; ainda que em uma
substância, uma condição e um poder,
enquanto que Ele é um Deus, de onde estes
graus, formas e aspectos são reconhecidos, sob
o nome de Pai, Filho e Espírito Santo.”

(Contra Práxeas, capítulo II).

“...nós já tivemos a oportunidade de mostrar


que o Pai e o Filho são duas Pessoas
separadas...”

(Contra Práxeas, capítulo IV).

“Agora, observe, minha asserção é que o Pai é


um, e o Filho um, e o Espírito um, e que Eles
são distintos Uns dos Outros”

(Contra Práxeas, capítulo IX)

“Onde, contudo, há um segundo, deve


haver dois; e onde há um terceiro, deve
haver três. Agora de fato o Espírito é o terceiro

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de Deus e do Filho; assim como a fruta da


árvore é o terceiro da raiz, ou como o riacho do
rio é o terceiro da fonte, ou o ápice do raio é o
terceiro do sol. Nada, contudo, é estranho à
fonte original de onde deriva suas
propriedades.”

(Contra Práxeas, capítulo VIII).

Incorporou o Catolicismo Romano a doutrina da Trindade nos


Concílios de Niceia (325 D.C) e de Constantinopla (381 D.C),
ambos realizados sem a presença de israelitas crentes em
Yeshua (netsarim/nazarenos). O primeiro Concílio referido
estabeleceu a divindade de duas Pessoas da Trindade (o Pai
e o Filho) e o segundo acrescentou o Espírito Santo,
assentando de uma vez por todas o dogma trinitário.
Consulte-se a Catholic Encyclopedia (Enciclopédia Católica)
acerca do verbete “trindade” (“trinity”):

“A Trindade é o termo empregado para


significar a doutrina central da religião cristã - a
verdade que na unidade da Divindade há três
Pessoas, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo, sendo
estas Três Pessoas verdadeiramente distintas
umas das outras.

Assim, nas palavras do Credo de Atanásio: ‘o


Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é
Deus, e ainda não há três Deuses, mas um só
Deus’. Nesta Trindade de Pessoas, o Filho é o
unigênito do Pai por uma geração eterna, e o
Espírito Santo procede de uma procissão eterna
do Pai e do Filho. No entanto, apesar desta

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diferença quanto à origem, as Pessoas são


coeternas e coiguais: todos são igualmente
incriados e onipotentes. Este, a Igreja ensina, é
a revelação sobre a natureza de Deus que Jesus
Cristo, o Filho de Deus, veio sobre a terra para
entregar para o mundo: e que ela propõe ao
homem como fundamento de seu inteiro
sistema dogmático”.

Este conceito católico romano foi absorvido por


absolutamente quase todas as denominações cristãs
protestantes (salvo raras exceções). Roger Olson, historiador
evangélico, aponta que a Trindade se tornou um consenso
no seio da cristandade:

“O resultado dos dois concílios do século IV e do


Credo niceno promulgado é o consenso real
entre os cristãos sobre o Deus adorado: três
pessoas (hypostaseis) e uma substância (ousia)
ou ser. Deus é um – devido à sua essência ou
substância comum, e é três pela distinção de
pessoas na divindade.”

(História das Controvérsias na Teologia Cristã,


editora vida, 2004, página 192).

Mas como será que pensavam os discípulos de Yeshua antes


de a Igreja Católica determinar ostensivamente o dogma
trinitário?

Consultando Tertuliano, o pai da Trindade, nota-se que


escreveu sua obra no século II e que, nesta época, a
maioria dos crentes NÃO cria na Trindade, como admite

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este próprio escritor:

“Os simples, de fato, (não os chamarei de não-


sábios nem de indoutos), que constituem a
maioria dos crentes, ficam assombrados com
a dispensação (dos três em um), no sentido de
que a sua própria regra de fé os afasta da
pluralidade de deuses para um único e
verdadeiro Deus...’”

(Contra Práxeas, Capítulo 3).

É de clareza solar que a maioria dos fiéis ficou “assombrada”


com a dispensação dos três em um (Trindade), isto é,
refutava o conceito de Três Pessoas. Então, no período do
segundo século para trás, em que realmente acreditava
esta grande multidão de seguidores de Yeshua?

Apesar de criticá-los, chamando-os de “monarquistas”, por


crerem no governo de um só ETERNO, Tertuliano registra o
pensamento da maioria:

“Assim é tanto o Pai ou o Filho, e o dia não é


como a noite; nem o Pai é como o Filho, de tal
forma que ambos deveriam ser Um, e Um ou
o Outro deveriam ser Ambos, - uma opinião
que os mais conceituados ‘Monarquistas’
mantém.”

(Contra Práxeas, capítulo X).

“Agora, você [“monarquista”] que diz que


o Pai é o mesmo que o Filho, realmente faz a
mesma Pessoa tanto enviar de Si (e ao mesmo

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tempo sair de Si como) aquele Ser que é Deus.


Se foi possível para Ele ter feito isto, Ele em
todos os eventos não o fez. Você deve trazer as
provas que eu peço de você - uma como a
minha; ou seja, (você deve provar para mim)
que as Escrituras mostram o Filho e o Pai
sendo o mesmo, assim como do nosso lado o
Pai e o Filho foram demonstrados serem
distintos; eu disse distintos, mas não
separados...”

(Contra Práxeas, capítulo XI).

Ante as declarações citadas, comprova-se que a maioria dos


cristãos, no século II, pensava que: a) o ETERNO é 1 (uma)
Pessoa, e não três; b) o Pai é o ETERNO; c) o Filho é o
ETERNO e d) o Pai e o Filho são o mesmo ETERNO. Estes
conceitos cristãos tiveram por base os ensinos judaicos dos
primeiros discípulos de Yeshua, como assevera Tertuliano:

“Mas, esta doutrina sua dá testemunho à fé


judaica, na qual esta é a substância - acreditar
tanto na Unidade de Deus que recusa a
reconhecer o Filho ao lado dele, e depois do
Filho o Espírito.

(...)

Pois eles [adeptos da fé judaica] negam o


Pai, quando dizem que Ele é o mesmo que
o Filho; e eles negam o Filho quando eles
supõem que Ele seja o mesmo que o Pai...”

(Contra Práxeas, capítulo 31).

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Já que os israelitas nazarenos e os cristãos gentios criam


que o ETERNO é UM (e não três), lutavam contra a Doutrina
da Trindade, até então em um estágio inicial, acusando
Tertuliano de pregar o politeísmo. Eis o dizer de Tertuliano:

“Eles estão constantemente nos atacando,


dizendo que somos pregadores de dois deuses e
de três deuses, enquanto eles mantêm
preeminentemente o crédito para eles mesmos
de serem adoradores do Único Deus...’”

(Contra Práxeas, Capítulo 3).

Estão corretos os nazarenos e os primeiros cristãos gentios


ao proclamarem que o ETERNO é UM, uma vez que a Torá é
bastante contundente a este respeito:

‫שׁ ְ מ ַיעִשׂ ְ ר ָ א ֵ ל י ְהוָה א ֱ ה ֵ ינוּ י ְהוָהא ֶ ח ָ ד׃‬

“Ouve, ó Israel, YHWH, nosso Elohim, YHWH é


UM [ECHAD]”

(Devarim/Deuteronômio 6:4).

YHWH é UM (echad) e não Três!!!

Também Yeshua HaMashiach reproduziu o mesmo texto de


Devarim/Deuteronômio, enfatizando que a fé monoteísta
seria o maior de todos os mandamentos:

“Um dos mestres da Torá se aproximou e ouviu


o debate. Notando que Yeshua lhe dera uma
boa resposta, perguntou-lhe: Qual é o

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mandamento mais importante?

Yeshua respondeu: ‘O mais importante é:

Ouve, ó Israel, YHWH, nosso Elohim,


YHWH é UM [ECHAD]’...”

(Yochanan Marcus/Marcos 12:28-29).

Aniquila a Doutrina da Trindade o próprio ensino de Yeshua


acerca da unidade do CRIADOR.

Impende gizar que Tertuliano veio de uma família pagã, e


provavelmente foi influenciado pela cultura idólatra acerca
da existência de um panteão com três deuses. Escreveu o
erudito Andrew Gabriel Roth:

“A teologia de Tertuliano muito se assemelha a


Nimrod, Semíramis e Tamuz, que eram
originalmente a trindade da Babilônia, e ele
[Tertuliano] inseriu as ‘pessoas’ do Pai, do Filho
e do Espírito Santo, tornando-os extremamente
populares entre os cristãos gentios pagãos.”

(Aramaic English New Testament, 4ª edição,


2011, página 834).

Com efeito, a crença em Três Deuses permeou diversas


culturas pagãs. Nas religiões da Babilônia e Assíria, já se
pregava uma tríade, pois os idólatras pensavam que o
Universo foi dividido em três regiões (céu, terra e água),
cada uma sob o domínio de um deus (Anu, Enlil e Ea). No
antigo Egito, também vigia a trindade dos deuses Hórus, Ísis
e Osíris. Igualmente, no hinduísmo se destacam Brahma

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(deus da criação), Vishnu (deus da preservação) e Shiva


(deus da destruição). Muito antes do advento do Mashiach
de Israel, os religiosos da Grécia e de Roma adotavam três
principais deuses no panteão. Em síntese, o paganismo, que
formava o pano de fundo cultural dos “Pais” da Igreja,
terminou exercendo poderosa influência na teologia cristã.

Mister ouvir a opinião de renomados historiadores:

“O cristianismo não destruiu o paganismo; ele o


adotou... Do Egito vieram as ideias de uma
trindade divina...”

(Will Durant, The Story of Civilization, Caesar


and Christ, Part III, 1944, página 595).

“Se o Paganismo foi conquistado pelo


Cristianismo, é igualmente verdade que o
Cristianismo foi corrompido pelo Paganismo. O
puro deísmo dos primeiros cristãos foi mudado
pela Igreja de Roma para o incompreensível
dogma da trindade. Muitos dos dogmas
pagãos, inventados pelos egípcios e idealizados
por Platão, foram retidos como sendo dignos de
crença.”

(Edward Gibbon, History of Christianity, 1891,


página 16).

Talvez o leitor esteja se perguntando: mas eu creio na Bíblia


e esta fala do Pai, do Filho e do Espírito, como explicar este
fato? Isto não seria a Trindade?

Será estudado este tema com minudência no capítulo IX,

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cabendo agora a apresentação panorâmica de pontos-chave


das Sagradas Escrituras. De acordo com a Bíblia, existem
alguns tópicos irrenunciáveis da fé:

1) YHWH é UM (echad), consoante


Devarim/Deuteronômio 6:4 e Yochanan Marcus/Marcos
12:29;

2) o Pai é YHWH (Bereshit/Gênesis 1:1; Yeshayahu/Isaías


63:16 e 64:7 ou, nas versões cristãs, 64:8);

3) o Filho, Yeshua HaMashiach, é YHWH


(Yeshayahu/Isaías 9:5-6 ou, nas versões cristãs, 9:6-7;
Yochanan/João 1:1; Filipissayah/Filipenses 2:11, este último
texto em aramaico diz na parte final: “... Yeshua HaMashiach
é YHWH”);

4) a Ruach HaKodesh (“Espírito Santo”) é YHWH


(Bereshit/Gênesis 1:2; Yeshuayahu/Isaías 63:1-11 e
Tehilim/Salmos 51:1-11).

Ora, se o ETERNO é UM, como é possível se falar em Pai,


Filho e Ruach Hakodesh? O ETERNO é UM ou TRÊS?

Concorda-se com o Rabino Ortodoxo Tzvi Nassi, que


reconheceu Yeshua como Mashiach em 1824. YHWH é UM (1
Pessoa), mas possui três k’numeh (palavra em aramaico
com plúrimos sentidos: manifestações, essências, naturezas,
aspectos).

Assim, YHWH é UM e se revela aos homens pelas k’numeh


do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh, isto é, não são Três
Pessoas (Trindade) , mas sim o mesmo YHWH, que é UM,
manifestando-se por três k’numeh distintas. Tal colocação
ressalta o monoteísmo declarado em Devarim/Deuteronômio
6:4, compatibilizando-o com a divindade do Mashiach. E este

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A Apostasia: Inácio, Marcião e Tertuliano :: Judaísmo Nazareno https://www.judaismonazareno.org/news/a-apostasia:-inacio,-marcião-e...

é o pensamento original dos discípulos de Yeshua. Como


vimos, Tertuliano admitiu que a maioria dos crentes defendia
a existência de apenas 1 (um) ETERNO, e que este se
manifestava como Pai, Filho ou Ruach (Espírito).

CONCLUSÃO

A restauração da fé nazarena envolve a ruptura com toda e


qualquer forma de apostasia. Conforme vimos, práticas
pagãs ingressaram desde cedo na religião denominada
Cristianismo, que é divorciada do Judaísmo bíblico pregado
por Yeshua e seus talmidim (discípulos).

Nós, servos de Yeshua HaMashiach, devemos lançar fora


toda a apostasia que permeia os sistemas religiosos
vigentes, ainda que isto venha a custar um alto preço.

Você, caro leitor, está disposto a pagar o preço?

Etiquetas:

YHWH | ETERNO | Yeshua | HaMashiach | Torá | Shabat | Trindade | Apostasia | Inácio |


Marcião | Tertuliano | ECHAD

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