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ECONOMIA NO PERÍODO DA DITADURA MILITAR

Gonçalves (2014) afirma que no Brasil é possível estabelecer periodização para a


história econômica a partir de 1850: economia agroexportadora-escravista (1850-89);
expansão cafeeira e primórdios da industrialização (1890-1930); desenvolvimentismo,
substituição de importações e industrialização (1931-79); crise, instabilidade e transição
(1980-94); e Modelo Liberal Periférico (MLP), de 1995 em diante.
Em todo este período, a economia brasileira teve dois grandes momentos: o
primeiro foi a ruptura em 1930, que deu origem à Era Desenvolvimentista; o segundo foi
o próprio fim desta Era em 1979. Em 1980 é o início da fase de crise, instabilidade e
transição que iria desembocar no MLP em 1995. Portanto, o regime militar (1964-1985)
corresponde ao final da Era Desenvolvimentista e ao início da fase de crise, instabilidade
e transição.
A melhor fase de evolução da economia brasileira é a Era Desenvolvimentista
(1930-79), enquanto a pior fase é a de crise, instabilidade e transição (1980- 94).
Durante o regime militar, isto é, após o primeiro choque do petróleo em 1973 e
durante a vigência do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND II em 1975-79), a
estratégia de desenvolvimento baseou-se no avanço da estrutura industrial, na
substituição de importações, no forte crescimento da renda e na redução da
vulnerabilidade externa estrutural do país, segundo Gonçalves (2014). De fato, aplicou-
se a versão mais avançada de nacional-desenvolvimentismo na história brasileira.
A redução da vulnerabilidade externa estrutural abarcou as esferas comercial,
produtiva e tecnológica. O primeiro choque do petróleo em 1973 mostrou a forte
dependência do país em relação à importação deste insumo básico. O PND II e as políticas
governamentais focaram no aumento da exploração, produção e refino do petróleo, bem
como na mudança estrutural da matriz energética com fontes alternativas de energia
(principalmente álcool e energia nuclear).
A redução da vulnerabilidade externa na esfera produtiva ocorreu via estímulos
aos investimentos na capacidade produtiva de bens intermediários e bens de capital. Na
esfera tecnológica, houve incremento significativo dos investimentos em educação
superior, inclusive formação de recursos humanos no exterior, expansão dos centros de
pesquisa e desenvolvimento tecnológico das empresas estatais, a formação de “joint-
ventures” entre empresas brasileiras e empresas estrangeiras, fortalecimento do setor de
engenharia consultiva e de construção, e forte controle sobre contratos de transferência
de tecnologia com a orientação de reduzir custos e aumentar a capacidade de absorção
tecnológica das empresas nacionais. O resultado foi o fortalecimento do sistema nacional
de inovações. O PND II levou a compreensão apropriada à necessidade básica do
processo de desenvolvimento econômico do país naquele momento, que consistia na
redução da sua vulnerabilidade externa estrutural. Entretanto, houve grave erro
estratégico na medida em que o ajuste estrutural brasileiro dependeu, em boa medida, de
recursos externos. Assim, de um lado, houve redução da vulnerabilidade externa
estrutural do país nas esferas comercial, produtiva e tecnológica e, de outro, houve
aumento da vulnerabilidade na esfera financeira.
O endividamento externo tornou-se crítico e transformou-se em a principal
restrição ao desenvolvimento econômico, tendo em vista a elevação do preço do petróleo
e das taxas de juros internacionais em 1979, a contração dos fluxos internacionais de
capitais, o fraco desempenho da economia mundial no período 1980-83, e a moratória do
México e eclosão da crise da dívida externa em 1982.
A partir de 1980, os desequilíbrios macroeconômicos pioraram em decorrência
dos fracassos recorrentes das políticas de ajuste externo. O resultado é que, por mais de
uma década, os desequilíbrios econômicos internos (inflação, crise das finanças públicas
e baixo crescimento) somaram-se ao problema do desequilíbrio externo. A crise da dívida
externa fez parte da herança nefasta do regime militar.
Considerando-se todo o período do regime militar, os pontos fortes são:
crescimento do PIB, hiato de crescimento, investimento e dívida pública. Os pontos
fracos são inação e dívida externa. Comparando aos mandatos presidenciais na vigência
do Modelo Liberal Periférico (MLP), a partir de 1995 (Fernando Henrique, Lula e Dilma),
o regime militar apresenta desempenho superior. De fato, o MLP é a segunda pior fase da
história econômica do país.
O regime militar também ficou marcado pela ausência de reformas estruturais
diretamente relacionadas à distribuição de riqueza e renda. Em consequência, ao final
deste regime o país tinha um dos mais elevados graus de desigualdade no mundo. Se, por
um lado, é verdade que houve mudanças estruturais na economia e processo de
modernização notáveis no regime militar, por outro, é ainda mais verdadeiro que no final
deste regime o país ainda tinha enormes deficiências em áreas como saúde, saneamento,
educação, moradia, segurança, meio ambiente, transporte e seguridade social. A própria
qualidade das instituições estava muito aquém dos padrões dos países desenvolvidos.
Ocorre que, quase 30 anos depois da mudança de regime, não houve qualquer mudança
estrutural na distribuição de riqueza e renda e o país continua como um dos mais desiguais
do mundo e, ademais, as enormes deficiências persistem ou se agravam com o atual
processo de desenvolvimento às avessas.

REFERÊNCIA:

GONÇALVES, R. Regime Militar e Desempenho Econômico. Jornal dos Economistas.


Abril/2014.
http://www.ie.ufrj.br/intranet/ie/userintranet/hpp/arquivos/regime_militar_e_desempenh
o_economico_je_corecon_297_abril_2014.pdf
Acesso em 13/05/2018