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Di. lohn Preiton

VENÇ A A

U M

CiUI A

PAR A

A

RECUPERAÇÃ O

JOHN PRESTON, PsyD.

Vença a Depressão

Tradução de JOSÉ LUIZ MEURER

RECORD

EDITORA

RECORD

Título original

norte-americano

YOU

CA N BEAT

DEPRESSION

Copyright ©

1989 by John Preston

Publicado mediante acordo com Impact Publishers.

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos pela

DISTRIBUIDORA RECORD D E SERVIÇOS

D E IMPRENSA

S.A.

Rua Argentina 171 20921 — Rio de Janeiro, R J — Tel.: 580-3668

que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil

PEDIDOS

PELO REEMBOLSO

POSTAL

Caixa Postal 23.052 — Rio de Janeiro, R J — 20922

Agradecimentos

Desejo manifestar meu reconhecimento aos esforços pio-

neiros los doutores Albert Ellis, Aaron Beck, John Rush e

David

Jurns. Suas descobertas e inovações ensejaram novas

esperanças para pessoas que sofrem de depressão. Cl arlie Ruff e Laurie Zenobia contribuíram de maneira import mte para a preparação dos esboços e do texto em sua forma :'inal. Meu editor, dr. Robert Alberti, ofereceu-me nu- merosas e úteis sugestões. Reconheço profundamente o auxílio que me prestaram.

Agradecimentos especiais a dois bons amigos e colegas:

dr. Der nis McCracken e dra. Bonnie Preston (minha esposa). Eles me fortaleceram com estímulo, apoio e amor. Pott* fim, desejo manifestar enorme gratidão a meus pa- cientes J que me ensinaram a sobreviver e crescer.

— John Preston, Psy.D.

NOTA DO

AUTOR

As doses recomendadas dos medicamentos antidepressivos lis- tados neste livro estão em acordo com o melhor de meus conhecimentos e são corretas. No entanto, não se pretende que elas sirvam de orientação única para se prescrever tais medicamentos. Os médicos deverão, por favor, consultar a bula do medicamento apresentada pelo fabricante ou o Physician's Desk Reference para tomarem conhecimento de quaisquer modificações no esquema de dosagens ou das contra-indicações. Com a finalidade de proteger a privacidade e o caráter confi- dencial dos depoimentos referidos no texto, todos os nomes de pacientes e todos os casos mencionados neste livro foram cuidadosa- mente dissimulados.

NOTA DO EDITOR

AMERICANO

Este livro tem por objetivo dar informações exatas e autoriza- das no que concerne ao assunto de que trata. É comercializado sob o entendimento de que o editor não está interessado em prestar ser- viços psicológicos, médicos, nem outros serviços profissionais. No caso de necessitar de assistência especializada ou orientação de um profissional, o leitor deve recorrer aos serviços de um profissional competente.

Dedicatória

A meus

pais,

e Conrad

Preston

t

Vença a Depressão

Alçada ano milhões de pessoas em todo o mundo são afe- tadas por um mal que interfere em suas vidas e pode até levá- las ao suicídio. Tolhidas pelo cansaço e a apatia, elas se tor- nam cegas para qualquer possibilidade de cura. Em Vença a Deprei são, o Dr. John Preston analisa, numa abordagem clara e objeliva, as causas, os sintomas e as diversas formas de tra- tamento deste mal, destacando o valor e as limitações da auto- ajuda. Com sólida base científica e eficiência comprovada, os métodos expostos pelo autor se dividem em duas categorias:

tratamento especializado e abordagens baseadas na auto-ajuda. É possível se obter um controle da depressão baseado em téc- nicas de auto-ajuda, mas há casos em que se faz necessário um acompanhamento profissional, o que não exclui a im- portância de tais técnicas, que também servem de apoio a qualquer tipo de tratamento. Este livro vai ensiná-lo a iden- tificar los limites da auto-ajuda e decidir quando procurar o auxílio) de um profissional. Ao aplicar os ensinamentos aqui descritos, você conse- guirá restaurar seu poder pessoal, aumentando a autoconfiança e a autè-estima e desenvolvendo recursos interiores que lhe per- mitirão afastar de uma vez por todas o fantasma da depressão.

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Sumário

Introdução

13

PARTE IJM: COMO COMPREENDER A DEPRESSÃO

  • 1. O Que É Depressão?

 

17

  • 2. Nem Todas as Depressões São Semelhantes

22

Como Compreender os Sintomas de Depressão

28

Reconheça Você Mesmo e Controle a sua Recuperação

36

5, O Que Causa Depressão? — História Pessoal

42

  • 6. O Que Causa Depressão?

Acontecimentos

Usuais

51

O Que Causa Depressão? — Fatores Biológicos

59

PARTE J)OIS:

O QU E VOCÊ PODE FAZER PARA VENCER

A

DEPRESSÃO?

  • 8. Escolha do Tratamento

 

69

9

Respostas Sadias e Respostas Destrutivas Diante do Sofrimento Emocional

73

  • 10. Você Pode Ajudar-se?

 

79

  • 11. Modifique o seu Pensamento Negativo

87

  • 12. Outras Técnicas de Auto-Ajuda

  • 13. Psicoterapia e Outros Tratamentos Profissionais

  • 14. Medicamentos para Depressão

    • 15 A Depressão É um Problema da Família

    • 16 Há Esperança!

Referências

índice

102

114

126

140

145

149

153

Introdução

A depressão é um sofrimento. E m estado incapacitante que afeta milhões de pessoas a ca- da ano; causa enorme sofrimento emocional, interfere no dia-a- dia das )essoas e das famílias, prejudica o trabalho, aumenta o ris- co de d )ença somática, e em certos casos pode mesmo levar ao suicídic. Entretanto, conforme demonstro neste livro, a depres- são é un f problema com muitas possibilidades de tratamento. É de se lamei itar o fato de que a maioria das pessoas deprimidas não são trat idas e não têm conhecimento da ajuda que podem obter. Ui|i dos aspectos mais dolorosos da depressão é o sen- timento de desamparo e impotência que acomete, muitas vezes, a pesso i deprimida. Tal sentimento pode traduzir-se na con- vicção de que não há saída, de que você é incapaz de superar os prof mdos sentimentos de desespero e impotência. Amigos dedicac os podem tentar animar dizendo, "as coisas vão me-

lhorar

...

Olhe o lado bom das coisas

..."

Na maioria dos casos,

tais palavras de encorajamento de pouco servem para desfa- zer o clima de tristeza e pessimismo. Uma verdadeira perspec tiva de esperança só pode abrir-se quando você des- cobre n aneiras de vencer a depressão que façam sentido e que a sua experiência comprove serem eficientes. Ne ste livro, apresento a você, de modo sucinto e fácil de en- tender, i liversas abordagens para o tratamento da depressão em adultos e em adolescentes próximos da idade adulta. Todos estes método J possuem sólida base científica e eficiência comprovada. As idéia s a serem expostas incluem-se em duas categorias amplas:

Tratami nto especializado e abordagens baseadas na auto-ajuda.

Muitas das pessoas que apresentam depressão necessitam de e po- dem significativamente beneficiar-se com um tratamento propor- cionado por um profissional da área de saúde mental. Mas há muitas coisas que você pode fazer para obter, por si mesmo, con- trole sobre a própria depressão. E essa abordagem, baseada na auto-ajuda, pode trazer benefícios adicionais:

• Você poderá observar, em tempo relativamente curto, resultados positivos, pois as técnicas de auto-ajuda aqui des- critas são extremamente eficazes; há amplas pesquisas para mostrar que elas funcionam. • Você poderá vir a ter um sentimento único de orgulho, satisfação e poder ao se ver capaz de fazer algumas coisas, ao constatar que faz diferença, ao perceber, no seu íntimo, que você pode controlar a situação e tem capacidade para combater sentimentos de depressão. A restauração do sentimento de po- der pessoal e o aumento da autoconfiança e da auto-estima são componentes importantes para você superar a depressão. • Essas técnicas de auto-ajuda também podem ser de muita utilidade para pessoas que estão envolvidas em trata- mento prescrito por profissional. • Como vantagem adicional, depois de ter aprendido a desenvolver certas aptidões específicas para reduzir a depressão, você terá adquirido também recursos que lhe permitirão afas- tar a volta da depressão. A auto-ajuda não substitui, naturalmente, o tratamento efetuado por um profissional. Aplique o entendimento e as idéias que este livro lhe oferece, mas assegure-se de recorrer à ajuda de um profissional, caso necessite. Os capítulos 4 e

  • 13 lhe darão subsídios para você decidir.

Compreendo que, para muitas das pessoas que sofrem de depres- são, até mesmo a idéia de ler um livro pode parecer uma tarefa di- fícil. Desejo facilitar este processo. Para tanto, procurei escrever um livro sucinto e de fácil entendimento. O primeiro capítulo aborda a questão "O que é depressão?" Os capítulos subsequentes mostram como se pode superar o problema e quando se deve pro- curar ajuda de um tratamento em nível profissional. Espero sinceramente que este livro seja útil para você.

Parte Um

Como Compreender a Depressão

tf

1

O Que É Depressão?

Se você está deprimido, é provável que já tenha tentado mui- tas coisas para se sentir melhor. A depressão é difícil de debelar. Tantas vezes uma pessoa deprimida procura afastar os sen- timentais desagradáveis, o cansaço, a apatia, a desesperança, tantas Vezes se sente frustrada e impotente. Nd departamento de psiquiatria de um grande centro mé- dico da Costa Oeste dos Estados Unidos, instituí uma clínica de tratábento da depressão; ali as pessoas passam a conhecer o que é depressão, suas causas, como superá-la, e de que modo o tratamento especializado pode ajudar. Nos três primeiros anos, aproximadamente 2.500 pessoas compareceram às nos- sas prelições sobre manejo da depressão. Conversei com muitas dessas pessoas depois de elas terem participado dessas con- ferências e realizei extensas entrevistas de acompanhamento. Verificamos que essas preleções oferecem considerável ajuda e esperança para pessoas deprimidas. Alguns dos comentários mais comuns, apresentados por pacientes após terem assistido às preleções:

"Ag(\ra entendo o que éque tem acontecido comigo. Pen- sei qèe eu estava enlouquecendo. Eu queria que alguém me ttyesse explicado antes o que é depressão.

99

"Pelaprimeira vez em muitos anos eu tenho um sentimento

de esperança

...

Parece-me

que agora existe algo específico

que eu posso fazer para diminuir a minha depressão."

"As técnicas de ajuda fazem sentido para mim. 99

Uma senhora que assistiu à conferência duas vezes de- clarou:

"Eu não acreditava que houvesse alguma coisa capaz de me ajudar. Estava descrente e me sentia sem esperanças. Mas depois da última conferência tentei as técnicas de auto-ajuda, e elas funcionam. Voltei aqui para obter nova injeção de ânimo, de modo que possa evitar ficar depri- mida novamente. 99

Enquanto preparava as conferências e ao escrever este livro, eu me apercebi de que as pessoas em estado de depressão pre- cisam de recomendações e técnicas muito específicas — abordagens que sejam compreensíveis, de fácil entendimento e eficazes. Atendendo a sugestões de numerosos pacientes meus, escrevi este livro para compartilhar com você as idéias desenvolvidas naquelas preleções. Creio que o livro ajudará você a encontrar soluções práticas e eficazes para superar seu problema. Penso que um bom passo inicial seja o de consi- derarmos o que realmente é "depressão". É verdade que todo ser humano, em algumas passagens de sua vida, experimenta, em grau importante, sentimentos de tristeza, pesar, desilusão e desespero. Toda pessoa se pre- ocupa com algumas situações; preocupa-se com sua família, seus amigos, seu trabalho, seus animais de estimação. Quando perdemos um ser amado, quando um casamento se desfaz, ou quando perdemos o emprego, é normal nos sentirmos tristes e ansiosos. Desilusões ou tragédias nos atingem o coração, numa ou noutra ocasião. Se você se sente pesaroso por ter so- frido uma perda, saiba que isto é tão humano quanto sangrar ao sofrer um corte. É comum as pessoas, quando enfrentam acontecimentos dolorosos em suas vidas, dizerem que se sen-

tem

ieprimidas"

...

Mas é importante notar que sentir-se

"triste'

ou "tristonho" não significa necessariamente sentir-

se dep imido

 

A

depressão, do ponto de vista clínico, difere da tristeza

norma

em cinco aspectos básicos:

víduo

A depressão produz sofrimento mais intenso. A depressão tem duração mais prolongada. A depressão prejudica o desempenho normal do indi- 10 seu dia-a-dia.

sar,

A depressão é uma emoção destrutiva (diferente do pe- que acompanha o sofrimento, mas é uma experiência

emocional que leva à cura). A depressão é tipicamente algo mais do que apenas um sentimento doloroso. A depressão representa uma síndrome (conjunto de sintomas) que, em muitos casos, envolve pro-

blemas na interação social, no comportamento, no pensamento e no funcionamento biológico.

As depressões sob forma clínica plenamente desenvolvidas não são rar as. Uma em cada cinco pessoas passa por uma depres- são cli; úcamente grave em alguma época da vida. Em uma dentre quinze pessoas, a depressão é tão severa que exige hos- pitalização. O índice de suicídios em indivíduos que sofrem depresi ões clinicamente importantes e repetidas é de aproxi- madamente 15%. Em alguns tipos de depressão ocorrem al- terações hormonais que podem interferir profundamente no funcionamento do sistema imunológico. O resultado é que a pessoa passa a ter menos condições para repelir a doença e apresenta maior risco de ter problemas de saúde. Embora tais estatísticas possam parecer sombrias, há dois pontos lositivos que eu desejo destacar. Primeiro, se você está deprim do, você não está sozinho. São muitas as situações em que as lessoas se encontram enormemente sós no seu sofri- mento. A depressão é uma condição humana muitíssimo comum. No entanto, tal como ocorre em relação a outras preocupações e problemas emocionais, muitas pessoas sentem inibição ou vergonha de revelar que estão ou estiveram de- primid s. Muitas vezes, há um estigma ligado a esse estado.

É extremamente lamentável que seja assim. Mas basta dizer que a depressão é muito comum e atinge algum indivíduo em praticamente todas as famílias. O segundo ponto positivo é que existe ajuda e esperança. A depressão é um dos estados emocionais mais passíveis de tratamento. Este livro ajudará você a compreender melhor a depressão, dará algumas orientações para ajudar você a to- mar decisões quanto ao tratamento, ensinar-lhe-á algumas técnicas eficientes de combate à depressão e discutirá sobre tratamento especializado.

"Eu me Sinto Deprimido"

É comum as pessoas perceberem aquele aspecto de uma doença somática que dói mais ou causa mais problemas. Es- ses são os sintomas que elas relatam aos médicos. O mesmo se passa nos casos de depressão. Quando alguém diz "eu me sinto deprimido", isto pode significar muitas coisas diferen- tes. Estas são algumas formas frequentes pelas quais as pessoas experimentam depressão:

• Tristeza, desespero, sentimento de perda, vazio, sen- timento de nostalgia (estes são os tipos de sentimentos que as pessoas têm quando morre um ente querido); • Apatia, indiferença, motivação escassa ou nenhuma, cansaço; • Incapacidade de sentir ânimo ou prazer, perda do pra- zer de viver; • Maior sensibilidade à crítica ou à rejeição; maior sus- cetibilidade; • Baixa auto-estima, falta de confiança em si mesmo, sen- timentos de inadequação; • Irritabilidade, propensão aos sentimentos de frustração e raiva; •

Sentimentos de culpa, auto-acusação, ódio a si próprio; • Sentimentos de desesperança e/ou impotência diante da vida.

Embota estes problemas caracterizem os aspectos mais co-

muns

muito*

pa depressão, eles representam somente alguns dos sintomas que ocorrem. A depressão é uma condição

complèxa, e muitas pessoas apresentam uma combinação de sinton as, não somente um sentimento de desprazer. N d capítulo a seguir, veremos os tipos mais comuns de depressão. Tipos de depressão diferentes exigem tipos de tra- tamen o diferentes. Ao ler este capítulo a seguir, por favor fique i ensando no seu próprio caso e preste atenção naqueles sinton; as ou problemas que você experimenta. Conhecendo- os, \o :è terá maior facilidade de chegar a conclusões sobre quais i ipos de tratamento poderão ajudá-lo.

2

Nem Todas as Depressões São Semelhantes

São muitas as formas pelas quais a depressão afeta as pessoas. Os sintomas, muitas vezes, são enigmáticos e preocupantes. Muitas das pessoas deprimidas pensam estar enlouquecendo ou pensam ter uma doença orgânica grave (mesmo quando seus médicos não encontram nenhuma evidência de doença física). Se você compreender a natureza do seu problema, muito pro- vavelmente você se sentirá menos assustado e menos confuso. E você terá condições de tomar decisões mais fundamentadas com relação ao tratamento. Nem todas as depressões são se- melhantes, e os tratamentos variam.

É conveniente dividir as depressões clínicas em três sub-

tipos: depressão psicológica

(reações emocionais a perdas e

desilusões), depressão biológica (depressões que, sob muitos aspectos, são doenças clínicas verdadeiras), e o tipo misto (mistura de reações emocionais e físicas).

Depressões Psicológicas. As depressões psicológicas po- dem ser definidas de duas maneiras. Primeira, essas depressões psicológicas são desencadeadas por acontecimentos psicológi-

cos ou emocionais. Por exemplo, o marido de uma mulher anuncia que vai se divorciar dela, e, em reação a este acon- tecimen o, a mulher entra em depressão. Ela consegue entender seus pré prios sentimentos, porque lhe é compreensível que ela se sinta triste em resposta à ruptura do seu casamento. Neste exemple, houve um acontecimento angustioso, doloroso, es- pecífico (divórcio). No entanto, existem muitos outros fatores desenca< cantes de depressão mais obscuros ou indefinidos. Por exemple, o homem casado que percebe estar ocorrendo no seu casamei to um gradual distanciamento afetivo. Percebe que sua espe sa está mais distante, menos afetuosa. Trata-se de um aconteci nento que não é súbito, e mesmo assim representa uma perda. (orno tão frequentemente acontece em tais casos, esse homem 3ode perceber que algo está faltando no seu relacio- nament< , e esta preocupação pode deflagrar uma depressão. Como s(! vê, o fator desencadeante psicológico ou emocional pode sei súbito e evidente, ou pode ser gradual e insidioso. Mas há uma modificação na situação de vida — relaciona- mento, 1 ipo de vida, emprego — que atua como fator desen- cadeante.

A si ígunda característica de uma depressão psicológica é que os si itomas são exclusivamente psicológicos/emocionais. Nas depi essões psicológicas puras o funcionamento biológico encontn -se relativamente inalterado.

Figura 2-A

SINTOMAS PSICOLÓGICOS DE DEPRESSÃO

Tristeza e desespero Auto-estima baixa Apatia. Falta de motivação Problemas de relacionamento Sentimentos de culpa Pensamentos negativos (distorções cognitivas) Idéias de suicídio

O caso a seguir serve para exemplificar a depressão psi- cológica. Mike vinha investindo todas as suas esperanças numa promoção no seu emprego, depois de dois anos de trabalho. Trabalhara arduamente, e achava que estava se saindo bem. No mês anterior, surgira a vaga para promoção, mas quem recebeu o cargo foi um outro funcionário — um que estava na empresa há apenas seis meses. Foi um desapontamento enorme para Mike ser preterido. Nas últimas semanas, tem- se sentido preocupado, com sentimentos de inferioridade e baixa auto-estima. É frequente ele falar de si para si mesmo:

"Nunca irei conseguir uma promoção. É evidente que eu sim- plesmente não estou à altura." Como parte de sua reação a esse acontecimento, Mike vem progressivamente retraindo-se da vida. Tem recusado convites para sair para jantar. À noite, prefere ir para casa, beber alguma coisa e ir dormir, simples- mente. Na maior parte do tempo, sente-se triste e sem motivação. Vez por outra, vêm-lhe à mente fugazes idéias de suicídio. ' Mike não apresentou modificações importantes em seu sono, apetite ou na vida sexual. Entretanto, vem experimen- tando sentimentos de tristeza cada vez mais intensos, sua auto- estima está cada vez mais baixa, e evita os contatos sociais. Sua reação emocional ocorreu em resposta a um aconteci- mento de sua vida e é característica de uma depressão psicológica.

Depressões Biológicas. Uma segunda categoria importante é a depressão biológica, desencadeada mais propriamente por algum tipo de acontecimento a nível orgânico (fisiológico), no

interior do organismo, do que uma resposta a modificações de vida ou experiências pessoais dolorosas. É por isso que as de- pressões biológicas surgem aparentemente sem causa e tomam de surpresa o próprio indivíduo. "Não consigo entender por que

me sinto tão mal ...

As coisas andavam bem, na minha vida

... Não dá para entendei?' Além dos sintomas psicológicos ou emo- cionais, há frequentemente uma série de sintomas físicos, cau- sados por disfunções químicas nos sistemas nervoso e hormo- nal (mais informações sobre isto, nos capítulos 7 e 14).

Figura 2-B

SINTOMAS FÍSICOS DE DEPRESSÃO

• Distúrbios do sono • Distúrbios do apetite • Perda do interesse sexual Cansaço e perda de energia

• Incapacidade de experimentar prazer (anedonia) • História de antecedentes familiares de depressão, suicídio, distúrbios de alimentação ou alcoolismo • Crises de pânico

Joel é um técnico de laboratório, 52 anos de idade, ca- sado, i ai de dois filhos, ambos já adultos. É um homem estimac o; consideram-no um homem trabalhador. Há um mês, sem nenhum motivo aparente, Joel começou a sentir algumas modificações relevantes em sua rotina. Embora normalmente

bastanb: sociável, começou a sentir-se pouco à vontade no meio de pess< >as. Disse à esposa não saber por que isso estava acon- tecendd, e que preferia cancelar os compromissos sociais do casal. ( 'Não sei por que, mas simplesmente não tenho dis- posição para isso.") No trabalho, deu para perceber que andava mais retraído e especialmente calado. Algumas pes- soas lho perguntaram se ele estava doente. Ele disse: "Ora, mais ou menos." Ao mesmo tempo, houve algumas mudanças no seu fun- cionamento fisiológico. Começou a notar que a comida simplestnente não lhe apetecia como antes, e seu apetite su- miu. Nás últimas três semanas, perdeu dois quilos de seu peso corporal. Além disso, passou a acordar às 4h da madrugada, não coriseguindo conciliar o sono novamente. Esse padrão de sono m o era o habitual no nosso homem. Po • fim, Joel foi consultar o médico da família. Falou

ao méd co: "Não me sinto no meu normal

Sinto-me um

... tanto triste, mas não sei por quê. Não está acontecendo ne-

nhum problema na minha vida

Tudo vai bem. Menos eu.

... Sinto-me cansado o tempo todo, e não quero estar perto de ninguém." Este é um quadro que sugere a presença de uma depres- são biológica pura. Surgiu sem nenhuma causa visível. Não houve acontecimentos angustiantes nem modificações de vida identificáveis. Também faz parte deste quadro o desenvolvi- mento gradual de sintomas biológicos.

Depressões Psicológicas com Sintomas Biológicos [Tipo

Misto]. Este grupo abrange um número muito grande de pes- soas que sofrem de depressão clinicamente comprovada. A

depressão de tipo misto tem um fator desencadeante psicoló- gico, mas, nesses casos, a pessoa experimenta sintomas emocionais e físicos, simultaneamente.

Figura

2-C

SINTOMAS ADICIONAIS QUE PODEM APARECER NAS DEPRESSÕES SIMULTANEAMENTE PSICOLÓGICAS E BIOLÓGICAS

Dificuldade de concentração e dificuldade com a memória recente

• Hipocondria: excessiva preocupação com a saúde pessoal • Abuso de álcool/drogas. • Exagerada sensibilidade emocional (inclusive raiva e irritabilidade) • Acentuadas oscilações do estado de ânimo • Qualquer um ou todos os sintomas listados entre os sintomas de depressão psicológica e/ou de depressão biológica

Eva, uma mulher de 32 anos de idade, casada, recente- mente foi informada de que seu marido, de 34 anos de idade, está com câncer. Desde que teve essa notícia, há duas sema- nas, ela tem tido períodos de intensa tristeza e crises de choro, frequentemente pensa na doença do marido, tem receio de vir a ficar só, no caso de ele falecer. Também se vê atormentada por sentimentos de culpa e de auto-acusação. Sente-se culpada

por hav( T sempre contado com o marido para tudo nestes úl- timos ai os. Além desses sintomas emocionais, ela tem tido acentuai a perda de desejo sexual, e tem o que ela mesma qua- lifica co no um "sono terrível", acordando uma dúzia de ve- zes a cida noite. As reações de depressão em Eva são evidente nente de tipo misto. Ela reage, com isso, a um acon- tecimento significativo e doloroso, e uma parte dessa reação se comp5e de sintomas biológicos.

A impoi tância de se fazer a distinção entre os três tipos de depressão tem relação com o tratamento. Existem evidências convincx ntes de que as pessoas que sofrem de depressão de tipo bio ógico e misto provavelmente respondem melhor ao tratamer to com antidepressivos (cerca de 75 a 80% dos pa- cientes portadores de depressão biológica e mista, diagnos- ticados c orretamente, tratados com antidepressivos apresen- tam umí boa resposta clínica). Se v Dcê tem uma depressão biológica pura você pode pre- cisar son lente de tratamento medicamentoso e apoio. Mas se você tem uma depressão do tipo misto, você pode obter bons resultados com os medicamentos ou precisar de um tratamento medicanientoso e de outros tipos de tratamento, como acon- selhamento individual ou psicoterapia e/ou as técnicas de auto- ajuda esquematizadas neste livro. Por fim, se você se enqua- dra na de scrição de uma depressão psicológica pura, o seu caso, de modo geral, não constitui indicação para tratamentos com medicaçí o antidepressiva (embora também haja algumas ex- ceções a esse caso). As pessoas que apresentam depressão psicológi :a podem obter melhoras notáveis com certos tipos de psicoterapia e com as técnicas de ajuda esquematizadas neste livro. Corrjo, porém, você haverá de saber se você realmente está com "depressão"? E como saber, em caso afirmativo, qual o tipo de depressão? E o que é mais importante, o que você pode faz ír? Continue com esta leitura.

3

Como Compreender os Sintomas de Depressão

O capítulo precedente apresentou uma visão geral dos sinto- mas das depressões psicológica, biológica e de tipo misto. Passaremos agora a examinar com mais detalhes esses sinto- mas. Este capítulo deverá ajudar você a se compreender melhor e a entender qualquer um desses sintomas que você talvez es- teja experimentando. Compreendendo a natureza dos seus problemas, você terá melhores condições de fazer uma boa es- colha quanto a um possível tratamento.

Sintomas Psicológicos de Depressão

• Tristeza e Desespero. Em muitos casos, estes são os sin- tomas de depressão que mais causam sofrimento e são os mais evidentes. Outros relatos podem incluir sentimentos de vazio, desilusão, melancolia, incapacidade e nostalgia. Sensação de peso — especialmente na boca do estômago — e "dor de ca- beça" verdadeira constituem aspectos físicos desse sentimento.

Baixa Auto-Estima. Abrange sentimentos de desvalo- rizaçãc de si mesmo, incapacidade, falta de autoconfiança, ódio cmtra si mesmo. "Não posso aguentar", "Não sou bom"j e "Nunca faço nada direito" são exemplos de monó- logo er i tais pessoas deprimidas e com baixa auto-estima. Essas pessoa;, em muitos casos, cresceram sentindo-se insatisfeitas consigo mesmas, incapazes de agradar a seus pais ou a seus profes* ores. Frequentemente falharam nos estudos, nos rela- cionai!] entos, nos esportes e no trabalho. Quase sempre acham que os outros têm mais valor que elas, e geralmente cedem às opií iões e à orientação dos outros. Em certo número de casos, i ísses sentimentos são temporários — talvez tenham re- lação c 3m perda de emprego ou problemas de relacionamento — ma\ com muita frequência constituem um peso por toda a vida

mento

Apatia. Falta de motivação para fazer as coisas, retrai- ocial, diminuição do nível de atividade e/ou restrição

das atiiidades em geral. Este sintoma, por si mesmo, pode le- var a problemas mais graves, numa espécie de ciclo vicioso depress ivo. Por exemplo, se você se sente apático, talvez você chegue à conclusão de que "não adianta, simplesmente não tenho Gontade de sair e estar com as pessoas". Mas se você deixa <^e participar de atividades sociais ou recreativas, a sua minará por se tornar cada vez mais vazia de ativida- des agifedáveis e válidas. Uma vida relativamente desprovida de prazer, segundo acreditam alguns pesquisadores, é impor- tante usa de depressão (veja Lewinsohn e Graf, 1973, na lista das "ré ferências", no final deste livro). Também a diminuição das atividades por si só provoca mudanças físicas, como can- saço e | Drisão-de-ventre, que causam desconforto adicional.

. °roblemas de Relacionamento. Pessoas deprimidas fre- quentei nente apresentam especial suscetibilidade à crítica ou à rejeiç io. Podem ter sentimentos de desconforto e inadequa- ção qu indo estão com outras pessoas, ou sentem uma exa- cerbaçí o do sentimento de solidão. Pessoas deprimidas provavelmente não se sentem bem naquelas situações em que

deveriam ser mais afirmativas (por exemplo, podem ter difi- culdade de manter-se por seu próprio esforço, emitir suas opiniões, sentimentos ou crenças, pedir ajuda ou apoio a ou- trem, ou dizer não). Muitas pessoas têm esses problemas quando não estão deprimidas. Mas eles se acentuam durante a depressão. Também há outras pessoas que se sentem rela- tivamente à vontade com os outros na maior parte do tempo, e notam essas dificuldades somente quando deprimidas. Um homem deprimido me disse: "Geralmente me sinto bem quan- do converso com os outros, mas ultimamente perdi a confiança em mim mesmo. Fico preocupado quando encontro alguém, me sinto inibido de falar o que eu realmente penso ou sinto. Sinto como se houvesse algo de errado comigo."

• Sentimentos de Culpa. É normal e adequado ter sen- timentos de pesar ou remorso quando se comete um erro ou quando, sem querer, se fere alguém. No entanto, conforme assinalou o dr. David Burns, a culpa é um sentimento que con- tém não apenas pesar ou remorso mas também a idéia de que "sou uma pessoa má" (Burns, 1980, pp. 178-204). É esta idéia de maldade dentro de si próprio que torna a culpa uma emoção dolorosa e destrutiva.

Pensamentos Negativos. Esta denominação "distorções

cognitivas" é utilizada por psicólogos para designar uma ten- dência a pensar de modo negativo e pessimista. (Cognições são pensamentos e percepções.) Distorções ou erros no pensar e no perceber ocorrem em quase todos os tipos de depressão. À medida que uma pessoa vai se sentindo deprimida, seus pen- samentos e percepções tornam-se extremamente negativos e pessimistas. Essas distorções não apenas são um sintoma de depressão como também são uma importante causa de depres- são, e provavelmente são o mais poderoso fator a prolongar e intensificar a depressão. No capítulo 11 passarei a expor com mais detalhes este assunto das distorções cognitivas.

• Ideias de Suicídio. Idéias de suicídio são muito comuns na depressão. Ainda que muitas das pessoas que pensam em

se matar] não cheguem realmente a cometer suicídio, mesmo assim é preciso sempre levar a sério as idéias de suicídio. Na maioria ias vezes, as idéias de suicídio são consequência de uma visí o do futuro, encarado com excessivo pessimismo e um sentimento de desesperança.

Sintomas Biológicos de Depressão

Os

intomas descritos a seguir manifestam-se por causa

dei impoijtantes modificações bioquímicas que ocorrem nos sis- temas nervoso e hormonal (veja capítulo 7 e capítulo 14, onde

se encon tram mais detalhes). A presença de um ou mais des-

ses sintcrnas

deve servir de sinal de que há uma disfunção

biológic

que é responsável por pelo menos uma parte dos

seus sintomas

• L istúrbios do Sono. Pode ocorrer uma série de alte- rações n ) ciclo natural do sono. A dificuldade de conciliar o sono (in iônia inicial) é um frequente sintoma de estresse em geral. Al é mesmo situações de estresse pouco importantes po- dem cau ;ar muitas das dificuldades de adormecer. Calcula-se que, nui i dado tempo, 50% das pessoas apresentam alguma dificuldí de de conciliar o sono. No entanto, há diversos pro- blemas d ? adormecer que são mais propriamente característicos de deprdssão e refletem uma disfunção naquela parte do cé- rebro que regula os ciclos do sono. Os distúrbios do sono relacion; idos com a depressão incluem: despertar prematura- mente: c espertar duas ou mais horas antes da hora em que normaln lente você acordaria e não conseguir mais conciliar o sono. Insónia média: acordar frequentemente durante a noite, mas geralmente conseguindo conciliar o sono de novo. Muitas i ezes, o resultado é que você pode ter dormido, mas

você sen :e como se não tivesse dormido. No dia seguinte, você se sente i ixausto. Hipersonia: é o dormir em excesso. Sono de- ficiente: às vezes, você pode dormir oito ou mais horas, mas

durante

d dia se sente cansado e exausto. Um efeito que a de-

pressão >ode causar é o de reduzir a quantidade de tempo que

31

u u o

pv o JUU J

I^IA V

kv m v^iowuiw o

vi v puuiv w

ivn i

luiiiuvi u

uvpivj -

você passa em sono profundo, tipo de sono que comumente restaura a pessoa emocional e fisicamente.

Distúrbios

do

AnPtitP

FYrpQçivn

anmpnt n

r\r\ or^tít o

são. Deve-se assinalar que alguns problemas de natureza clínica podem causar sintomas similares e que todo indivíduo que apre- senta sintomas de pânico deve ser examinado por um médico, primeiramente, para que se possa excluir outros problemas de natureza orgânica.

Outros Sintomas de Depressão Psicológica, Biológica e de Tipo Misto

• Dificuldade de Concentração e Deficiências de Me-

mória Recente [Facilidade de Esquecer], Muitas pessoas que vêm a exame em serviços de saúde mental receiam ser pos- suidoras de tumor cerebral ou doença de Alzheimer. Em muitos

desses casos, trata-se de uma propensão ao esquecimento e de dificuldade de concentração, por causa da depressão. Depres- são e estresse constituem as causas mais frequentes de problemas de memória e dificuldade de concentração. Mas também existem outras doenças que podem causar estes sin- tomas. No caso de eles se manifestarem, procure garantir-se através de exame realizado por um médico.

Hipocondria.

Uma das mais comuns causas de hipo-

condria (excessiva preocupação com a própria saúde quando há provas, em exame físico, de que não há nenhuma doença

orgânica) é uma depressão subjacente e frequentemente identificada.

não-

Abuso de Drogas/Álcool.

Em muitos casos, o consumo

abusivo de drogas e/ou álcool representa uma tentativa de ate- nuar o sofrimento provocado pela depressão. O uso excessivo de álcool também pode, por si mesmo, causar depressões gra- ves.

• Sensibilidade Emocional Excessiva. Uma incontrolá- vel e intensa irrupção de sentimentos (por exemplo, crise de choro, irritabilidade etc.) em resposta a frustrações de pouca

(Oscilações de Humor Acentuadas. Por vezes as pessoas

sofrem intensas oscilações do estado de ânimo, passando da depres* ão à euforia exagerada (denominada, muitas vezes, ma- nia ou hipomania). Essas oscilações de humor podem estar associa das a um tipo de depressão biológica chamada "doença

bipolai

condição anteriormente chamada de "doença

maníaco-depressiva". Em pacientes diagnosticados correta-

mente,

muitos desses casos podem ter um tratamento eficaz

com u$i medicamento específico: o lítio (veja o capítulo 7).

É importante determinar o tipo de depressão que você tem, de moi lo que se possa tomar uma decisão acertada com re- lação í o tratamento. Um número muito grande de pessoas sofre ce depressão grave e não recebe tratamento. Há tam- bém uin número muito grande de pessoas que são tratadas, mas de maneira inadequada (veja capítulo 13). Penso que é import ante você compreender o máximo possível a respeito de depi essão, entender os problemas que você enfrenta e pro- curar i isistir para receber o tratamento adequado. Este é um direito seu.

4

Reconheça

Você Mesmo

e Controle a sua Recuperação

Agora que você conhece os sintomas de depressão, convém completar a lista de verificação para autodiagnóstico, apre- sentada nas páginas 37-40. A lista de verificação pode ser utilizada com três finali- dades: (1) ajudar você a determinar que grau de depressão você apresenta; (2) você mesmo poder verificar a sua possível ne- cessidade de tratamento medicamentoso; e o que é o mais importante; (3) oferecer meios de você acompanhar modifi- cações de comportamento ao longo do tempo. Na maioria dos casos, à medida que uma pessoa começa a recuperar-se da de- pressão, ocorrem modificações positivas nos sintomas, porém estes importantes sinais de melhora podem passar desperce- bidos à pessoa deprimida. Amigos do paciente, seus familiares e seus terapeutas, em muitos casos, conseguem observar si- nais de recuperação muito antes de a pessoa deprimida per- ceber essas modificações. Isto ocorre provavelmente porque nas fases iniciais da recuperação ainda há no deprimido uma tendência a ver-se e ao mundo de uma forma muito negativa. O uso desta lista de verificação pode ser de utilidade.

Si san tem apresentado uma depressão acentuada e tem estado em tratamento por quatro semanas. Ela preencheu esta lista de verificação no decorrer da primeira consulta. Quando

eu a ea aminei pela quarta vez, ela declarou: "Ainda me sinto

deprin ida

As coisas não melhoram." Entretanto, pelo que

... me pa eceu, ela deu a impressão de estar muito menos de- primida, mais vivaz e espontânea, com mais vitalidade. Ainda estava bastante triste, mas havia mudanças que apareciam ex- teriorn ente. Solicitei-lhe que preenchesse a lista de verificação novam ente; e, quando a completou, nós comparamos o re- sultado obtido no decorrer da primeira consulta. Havia modifi cações positivas no que concerne a sono, nível de ener- gia e cc ntrole emocional. Quando ela confrontou as duas listas, disse: 6 'Bem, observando com atenção vejo que as coisas estão melhoi es. De alguma forma eu ainda me sinto na fossa, mas já houve modificações." El se tipo de resposta ocorre com frequência. Convém você usar e* ta lista de verificação para acompanhar sua melhora. No cas o de Susan, este exercício ajudou-a a ver que ela estava tendo algumas melhoras significativas, o que serviu para au- mentai o sentimento de esperança. A restauração de um sentim mto de esperança é, por si mesma, um poderoso an- tídoto contra os sentimentos de pessimismo e depressão. In sisto em que você preencha a lista de verificação agora e, pan monitorar as suas modificações, no fim de cada se- mana ( urante as fases iniciais da sua recuperação da depressão.

LISTA

DE AVALIAÇÃO

DA

DEPRESSÃO

  • I Fu icionamento Biológico A. Problemas de Sono

Pontos

1.

Sem problemas de sono

0

2.

Problemas de sono ocasionais

1

  • 3. Despertar frequentemente durante a noite ou despertar prematuro na ma- drugada

a.

1 a 3 vezes no

decorrer

da última

semana

2

b.

4 ou mais vezes no decorrer da úl- tima semana

  • B. Problemas de Apetite

3

  • 1. Sem alterações no apetite

 

0

  • 2. Alguma alteração (para mais ou para menos) no apetite, mas sem aumento ou perda de peso

1

  • 3. Alteração importante do apetite (para mais ou para menos) com aumento ou perda de peso (2,5kg mais ou menos, no decorrer do último mês)

3

  • C. Cansaço

 
  • 1. Cansaço diurno pouco perceptível ou

 
 

não-perceptível

 

0

  • 2. Cansaço ou exaustão durante o dia

a.

ocasionalmente

 

1

b.

1-3 dias no decorrer da última se- mana

2

c.

4 ou

mais dias no decorrer da úl-

tima semana

 

3

  • D. Interesse Sexual

 
  • 1. Nenhuma alteração no interesse sexual

0

  • 2. Diminuição do interesse sexual

 

a.

leve

1

b.

moderada

 

2

c.

sem interesse sexual

3

  • E. Anedonia

 
  • 1. Apesar de períodos de tristeza, sou ca- paz de sentir satisfação ou prazer em algumas ocasiões

0

Diminuição da capacidade de aprovei- tar a vida

  • a. leve

1

  • b. moderada

 

2

  • c. absolutamente nenhuma satisfação na vida

3

TOTAL

DE PONTOS: FUNCIONAMENTO

BIOLÓdlCO

(

)

II.

Sinto nas

Emocionais/Psicológicos

Pontos

  • A. Tristeza e Desespero

. Ausência de tristeza acentuada

 

0

. Tristeza ocasional

1

Períodos de tristeza intensa

2

Tristeza intensa quase diariamente

3

  • B. A\ito-Estima

Sinto-me confiante e bem comigo mesmo

0

Dúvidas sobre a própria capacidade, às vezes

1

Sentimento frequente de inadequação, inferioridade ou falta de autoconfiança

2

Sinto-me completamente sem valor na maior parte do tempo

3

  • C. Abatia e

Motivação

Facilmente me sinto motivado e entu- siasmado com as coisas

0

Às vezes sinto dificuldade de começar projetos, trabalhos etc.

1

Frequentemente me sinto sem motivação ou apático

2

É quase impossível dar início a proje- tos, trabalhos etc.

3

  • D. Pensamento Negativo/Pessimismo

    • 1. Penso de um modo relativamente posi- tivo na minha vida e em meu futuro

0

  • 2. Às vezes me sinto pessimista 1

  • 3. Frequentemente me sinto pessimista 2

  • 4. O mundo parece-me extremamente ne- gativo; o futuro, desprovido de espe- ranças

 

3

  • E. Controle

Emocional

  • 1. Quando tenho sentimentos desagradá- veis, estes podem causar sofrimento,

 

mas não me

dominam por inteiro

1

  • 2. Às vezes me sinto dominado por emoções íntimas

 

2

  • 3. Frequentemente me sinto dominado por sentimentos íntimos ou absoluta- mente não vivencio sentimentos ínti- mos

3

TOTAL D E PONTOS: SINTOMAS EMOCIONAIS/PSICOLÓGICOS

(

)

Como Calcular o Seu Número de Pontos e Interpretar os Resultados

Vamos dar uma olhada nos resultados. Você pode fazer a contagem de seu total de pontos para o item"Funcionamento Biológico" e para o item "Sintomas Emocionais/Psicológicos" da lista de verificação. Para calcular o total de pontos, some os pontos correspondentes a cada resposta e escreva o total de pontos no espaço entre colchetes no final de cada item.

Funcionamento Biológico. Resposta 2 ou 3 em qualquer um dos itens A-E podem indicar que o seu funcionamento bio-

lógico 1 afetado pela depressão e que pode estar indicado um trat; imento medicamentoso com antidepressivos (especial- mente se houver algum escore de 3). Sendo este o seu caso, será im )ortante ter uma consulta com um psiquiatra, com o seu méc ico particular ou com um terapeuta da área de saúde mental, com vistas a um tratamento médico. Se todos os to- tais de i ontos derem valores de 0 a 1, é bem provável que não estejam indicados medicamentos antidepressivos. Interpreta- ção do total de pontos: 0-5, Depressão Biológica Branda; 6-10, Depressão Biológica Moderada; 11-15, Depressão Bio- lógica Grave.

Sintorm is Emocionais/Psicológicos. Resposta de 2 ou 3 em quaisqi er itens indicam depressão psicológica. Interpretação do totai de pontos: 0-5, Sintomas Psicológicos Brandos; 6-10, Sintom is Psicológicos Moderados; 11-15, Sintomas Psicoló- gicos Graves. Um total de pontos elevado no item Biológicos e simul aneamente no item Emocionais/Psicológicos é indi- cativo < e uma depressão de tipo misto. Conforme foi ante- riormer te mencionado, essas reações depressivas frequente- mente podem melhorar com uso de medicamentos.

Por

favo r, continue a preencher esta breve lista de verificação

ao fim

de cada semana, para você poder acompanhar o seu

progresso

Nos

próximos capítulos, examinaremos as causas da de- A Parte 2 deste livro ajudará você a descobrir o que

pressão.

você

pod e fazer para superar a depressão e, caso seja neces-

sário

eácontrar ajuda profissional.

5

O Que Causa Depressão? — História Pessoal

"Devo estar enlouquecendo. O que há comigo? Sinto-me tão mal. Não consigo pensar, não tenho ânimo, nem motivação. Por que estou me sentindo tão mal?" O sofrimento causado pela depressão muitas vezes é in- tensificado por um sentimento de confusão e perplexidade. Em certos casos, pode ser muito difícil compreender por que você se sente deprimido. Conforme disse um de meus pacientes:

"Naturalmente que me sinto deprimido. Minha esposa me abandonou, estou sozinho, a minha vida toda está transtor- nada. As pessoas sentem-se deprimidas quando passam por um divórcio. Não é mesmo?" É verdade, mas muitas vezes as causas permanecem ocul- tas ou são obscuras. Em muitos casos as pessoas acham que a depressão veio sem nenhuma causa aparente. Uma das razões pelas quais é importante compreender o que causa a depres- são é que, ao se compreender a causa, também se pode tomar decisões mais acertadas quanto ao tratamento. Assim como é verdade que nem toda dor de garganta cede aos antibióti- cos, assim também, de uma forma parecida, nem todas as

depressões melhoram com um mesmo tratamento. Depois que você sab e com certeza que você tem uma infecção de garganta por estr< iptococos, você então sabe também que o tratamento mais inc içado é com antibióticos. Assim também é preciso sa- ber o qi e causa a sua depressão para poder decidir sobre as formas le tratamento mais eficientes. Um outro motivo para se descobrir as causas da sua de- pressão i que o entendimento das causas pode ajudar muito a compn íender a depressão, certamente algo complexo. Se você compree ide o porquê, certamente diminui o sentimento de con- fusão e mistério que cercam a depressão. Esse entendimento também iode aumentar as suas possibilidades de recuperação. Nes e capítulo, pretendo expor sucintamente algumas das principai s causas da depressão. Naturalmente convém que você tenha en mente o fato de que, em muitos casos, é uma com- binação le fatores que termina por produzir a depressão. (Este capítulo procura enfatizar o modo como a história pessoal con- tribui pa *a a depressão. Os capítulos subsequentes abordarão os acontecimentos atuais e os fatores biológicos.

Experiên das dos Primeiros Anos de Vida

Van os supor, a título de exemplo, que duas pessoas vão disputar uma corrida em que devem correr, com os pés des- calços, numa área de estacionamento revestida de cascalho. Mas tam lém suponhamos que um dos corredores já tem bo- lhas nos >és antes mesmo de iniciada a corrida. A corrida pode ser peno* a para ambos os corredores, mas aquele com lesões preexiste ites nos pés haverá de sentir muito mais dor. Assim também ! ;e tem verificado que uma série de experiências pes- soais que ocorreram no início da vida e provocaram danos emocionas podem criar condições para que haja um risco muito ira ior de depressão quando o indivíduo chegar à vida adulta. C srtamente que, se uma pessoa vivência acontecimen- tos dolor isos nos primeiros anos de vida, isto não quer dizer que ela ii evitavelmente sofrerá de depressão em épocas sub- sequentes . Sabe-se, porém, que certas experiências aumentam

em muito a vulnerabilidade à depressão. Essas circunstâncias do início da vida, conforme descritas nas páginas a seguir, aju- dam a explicar por que, quando duas pessoas são expostas exatamente à mesma situação de sofrimento, uma pessoa pode sentir angústia mas supera o problema, enquanto que outra se torna deprimida.

• Situações de Perda no Início da Vida. Crianças de tenra idade são especialmente sensíveis à perda de um ser amado. Faz parte do desenvolvimento normal de uma criança ela es- tabelecer intensos laços afetivos especialmente com seus pais. Um pai ou uma mãe pode vir a faltar por morte, divórcio ou separação do casal, por empregos que exigem que o pai ou a mãe se ausentem por períodos de tempo prolongados, ou por doença grave que exija longos períodos de hospitalização. Muitos pais ou mães "ausentes" podem na realidade estar pre- sentes, mas emocionalmente distantes ou não-participantes. Um pai ou mãe muito enfermo, acamado, por exemplo, pode amar o seu filho, e mesmo assim pode estar muito pouco dis- ponível emocionalmente. Crianças que foram criadas por pais deprimidos frequentemente passarão a ser adultos deprimi- dos. Esse pai ou mãe pode ter amado ternamente o seu filho, mas a depressão, de um modo poderoso, tirou do pai ou mãe a vitalidade e a capacidade de se envolver significativamente com a criança. Existem casos em que a criança é indesejada e rejeitada, ou casos em que certas circunstâncias de família extremamente dolorosas resultam em dureza e rejeição por parte dos pais. Filhos de pais alcoolistas comumente vivenciam privação afe- tiva em grau muito importante. Em muitos casos, o abuso prolongado de álcool tem um efeito devastador sobre os pais, podendo prejudicar a capacidade básica dos pais de criar la- ços profundos com os seus filhos. Muitos dos adultos que são filhos de alcoolistas sofrem os efeitos dessa falta de envolvi- mento emocional, no início da vida, com seus pais. Como se vê, de muitas maneiras uma criança pode ex- perimentar um sentimento de profunda perda nos primeiros anos de sua vida. É frequente essas perdas terem como resul-

tado trê

adulta:

problemas principais que podem continuar pela vida

Dij\culdade de intimidade. Estar ligada a pai e mãe e de-

pois perp er esse pai ou essa mãe

pode fazer com que a criança

passe a

termos

ler enorme cautela em se aproximar novamente, em

fetivos, de uma pessoa. Uma criança assim pode ter

intiman ente um grande anseio de proximidade afetiva, mas

tambérr

abriga profundos temores de rejeição e perda e por

isso nur ca se permite sentir verdadeira proximidade emocio-

nal

Est

emocio

sentimento íntimo de anseio de amor e isolamento

al pode aumentar a probabilidade de depressão.

Ad^ústia e temor. A criança precisa dos pais para ad-

quinr um

diante c o i

sentimento de segurança e firmeza interior básicas

mundo. Situações de perda frequentemente causam

na cnalça um sentimento de grande insegurança e temor.

Trfteza profunda e pesar. É notável como o temor à in-

timidad Í , a insegurança ou a tristeza podem continuar no mais

íntimo

le uma pessoa anos e anos depois de um aconteci-

mento lptuoso. Crianças assim apresentam um risco muito alto

de desei volver reações intensas a perdas que venham a viven-

ciar nuiia época subsequente da vida. Quando isso acontece,

a situaç io de perda ocorrida nos dias atuais termina tocando

em

feridas profundas e não cicatrizadas do passado. Talvez

seja dif cil compreender por que uma pessoa reage com tanta

intensidade intensic a uma perda, mas dá para compreender se se con-

sideram essas experiências ocorridas na infância,

  • Li da é uma mulher de 27 anos de idade, solteira; mos-

trou-se

nuito envergonhada ao me contar que passou a sentir-

se

deprjmida desde que lhe morreu o gato de estimação, Cal-

lie, há 3 semanas. "Eu me sinto uma idiota. As pessoas sentem

tristeza quando lhe morre um animal de estimação, mas eu

passei a me sentir arrasada desde que Calhe morreu." Os ami-

gos dei; i não conseguiam entender como a morte de um gato

pôde

câusar sentimentos tão intensos e profundos. Ao con-

versar qom Linda, o motivo tornou-se visível. Quando ela era

pequenh

a mãe tornou-se doente mental; teve repetidas in-

ternaçc es

no decorrer da infância de Linda. O pai aparen-

tementi

se mostrou tão sem condições ou tão sem vontade de

enfrentar a tarefa de criar Linda e seus dois irmãozinhos, que

resolveu interná-los numa instituição para crianças (Linda di-

zia que era um orfanato) durante alguns meses, cada vez que

a mãe ficava internada. "Na primeira vez que papai veio nos

visitar, eu chorei tanto que ele se sentiu incomodado, e ele fa-

lou que não conseguia suportar me ver chorar tanto. Por isso

ele nunca veio me visitar!" Linda aprendeu então a não cho-

rar nunca, mesmo quando sentia intensa tristeza, pelo temor

de perturbar o pai. Sentia ela uma tristeza enorme naqueles

tempos de "orfanato", mas aprendeu a ocultar seus senti-

mentos íntimos. Posteriormente, como adolescente e como

jovem adulta, sentia tanto receio de se ligar afetivamente a

alguém, que se mantinha à distância e raramente marcava al-

gum encontro. Mas a sua íntima necessidade de amor e

proximidade afetiva não desapareceram. E era em relação ao

seu gato Callie que ela se permitia expressar sentimentos ter-

nos e maternais. A morte do gato fez com que ela ao mesmo

tempo reagisse à perda do animal de estimação e rememorasse

sentimentos terrivelmente dolorosos, sepultados dentro dela

desde a infância. Para Linda, foi importante conseguir com-

preender os motivos de sua reação intensa. Depois de algumas

sessões de psicoterapia e muita discussão sobre as experiên-

cias de sua infância, ela comentou comigo: "Os meus

sentimentos agora são mais inteligíveis para mim. Ainda dói

muito, mas agora parece que os sentimentos não são tão es-

quisitos ou anormais. Compreendo por que isto me fez sofrer

tanto."

Felizmente nem todas as situações de perda ocorridas no

início da vida determinarão inevitavelmente que a pessoa passe

a ter depressão na vida adulta. Dois importantes fatores po-

dem ajudar a criança a superar o sofrimento causado por uma

perda: primeiro, a disponibilidade emocional de pelo menos

um adulto. Não é raro que outro adulto, pai ou mãe, ou então

uma avó ou uma tia possam constituir aquela diferença de-

cisiva para uma criança que perdeu o pai ou a mãe. Segundo,

é muito importante ajudar a criança a superar o luto e o pesar

da perda. Se o pai de Linda estivesse disponível, se ele tivesse

mantido os filhos em casa, ou, pelo menos, se ele tivesse dei-

xado que

íla chorasse, a vida dessa menina teria sido diferente,

Transmit

ndo-se à criança esta mensagem: " é difícil mesmo;

não há n al em chorar", podendo-se admitir que se chore e

se sinta c sofrimento junto com a criança, pode-se evitar o

aparecimento de feridas emocionais que podem durar a vida

toda.

Ai mosfera de Dureza Constante. Todos os pais, vez por

outra, pejdem a paciência; todos os pais ocasionalmente são

insensív

filhos

realidade

acreditan

guém é ijerfeito!

manenteitiente

encontra

dro os

ferindo

criança:

verduras

que dizia

e desum

dignidade

tecem dia

é verdadqi ra

timento

>ce<

falhas

crença ím

écomo

patrão me

todos os pais cometem erros que machucam seus

W as erros ocasionais não deixam feridas fundas. Na

muitos especialistas em desenvolvimento infantil

que basta proporcionar um clima emocional "sufi-

cientemei ite bom", e a criança se desenvolve e cresce; "sufici-

um clima afetivo em que a maioria das

entement * bom" seria

experiências tenham um peso maior que as ruins. Afinal, nin-

Com rastando com isto, porém, existe a atmosfera per-

carregada de dureza e severidade que se

em tantos lares. Às vezes, fazem parte deste qua-

nfcus-tratos físicos, mas basicamente eu estou me re-

atitude destrutiva que se expressa em relação à

Você não vale nada, não gosto de você, você é bur-

ro e não icrve pra nada." Faz pouco tempo, vi numa loja de

um pai dar safanões no filho, ao mesmo tempo em

" Você não passa de um merda." Para o menino,

essa era 1 ima mensagem profundamente danosa, humilhante

nizadora. Uma mensagem que termina minando a

básica da criança como pessoa. Se essas coisas acon-

após dia, tais mensagens deixam marcas. A criança,

quase inj ariavelmente, passa a acreditar que a mensagem —

vinda de uma das mais importantes pessoas em sua vida —

Crianças assim terminam crescendo com um sen-

dignidade pessoal comprometido. Quando adultos,

ilsmo que pequenas ou pequenos reveses tocam nessa

erior dolorosa. Como disse um paciente meu: "Sim,

caiando eu fazia algo errado no meu trabalho e o meu

dava uma bronca, eu pensava, ele tem razão, eu

não valho nada. Eu nunca prestei para nada, nunca vou valer

nada."

Fracassos, desapontamentos e reveses são aspectos ine-

vitáveis da vida adulta. Mesmo nas melhores circunstâncias,

a vida frequentemente é dura. Crescer numa atmosfera emo-

cionalmente áspera aumenta o sofrimento de subsequentes

desilusões e deixa uma duradoura marca no espírito da criança.

• Falta de Apoio para o Crescimento. A criança precisa

de proteção e de cuidados, mas também precisa de encoraja-

mento para crescer. Em toda pessoa há o inerente impulso

interior e a necessidade de se tornar um adulto, tornar-se al-

guém, ter opinião, empreender ações, afirmar-se, deixar marca

neste mundo. Às vezes, os pais não apoiam o crescimento. Há

uma série de maneiras pelas quais isto pode acontecer. Pri-

meiro, há pais que precisam permanecer grudados nos seus

filhos bebés. Têm dificuldade de largar a intimidade e o afeto

que uma criança pode proporcionar. Quando a criança de tenra

idade começa a revelar suas próprias tendências, respondendo

a um desejo inato e interior de, por si mesma, se lançar ao

mundo, o pai ou a mãe podem sentir-se ofendidos, incomo-

dados ou rejeitados. Uma das formas de sabotar o crescimento

e a autonomia é um pai ou mãe continuarem a perceber o fi-

lho como um ser sempre desamparado e fazerem tudo para

o filho. Para um pai ou mãe com essa atitude, pode ser difícil

ver a criança cometer um erro. Por exemplo, se a criança está

começando a andar, o pai ou mãe podem sentir o impulso de

"socorrê-la" cada vez que esta vai cair. Pode parecer então

que o resultado é a criança ser protegida de se machucar. Mas

num nível mais profundo a mensagem que se passa à criança

é a seguinte: "Vejo que você é inepta. Não penso que você

consiga fazer isto por si mesma. Não tenho confiança na sua

capacidade, por isso vou proteger você e vou fazer as coisas

para você." Com frequência, os pais subestimam quão pro-

fundamente isto exerce efeitos na criança. No caso de esse

padrão de atitudes continuar, o resultado será a criança cres-

cer acreditando que: "E u não consigo fazer as coisas. Não

tenho confiança em mim mesmo." Isto pode causar perma-

nenteme nte insegurança e temor de tentar coisas novas. Pessoas

assim podem crescer precisando de constante ajuda dos ou-

tros, acreditando que "não consigo fazer isto por mim

mesmo". Quando adulto, a dor de perder o cônjuge ou um

dos pais pode tornar-se muito intensa se, intimamente, a pes-

soa acredita que "sem ele não consigo levar a vida". Nessas

condições, fazem parte da reação não somente a tristeza nor-

mal diante da perda mas também uma acentuada falta de

confiança em si mesma.

Un segundo obstáculo ao crescimento ocorre quando uma

criança

pomeça a fazer as coisas de modo independente e os

tachando o comportamento da criança de ridí-

pais rea ?em

culo ou

humilhando-a. Um de meus pacientes contou que

se

lembfava de como fez um aviãozinho de brinquedo utili-

zando

de uns pedaços de madeira e alguns pregos. Queria

fazer

trabalhos em madeira, como o pai. Pegou o produto aca-

bado de

seu trabalho para mostrá-lo ao pai, mas o pai se pôs

a zombar

do menino e, erguendo o brinquedo para que os ami-

i|sem, fez um comentário humilhante e sarcástico. "Eu

tão humilhado, que nunca mais tentei fazer coisa al-

gos o

me sent;

Os pais precisam dar apoio a esses primeiros impulsos

guma.

em

direção à autonomia e à expressão pessoal.

Há certas famílias em que as crianças são submetidas a

exigências perfeccionistas. Uma criança pode dar o melhor de

si para lazer algo, mas "não está bom o bastante". Uma nota

boa recebe do pai o comentário: "Por que você nunca tira no-

tas excelentes?

são,

mas

não é s

estima

Nesse caso, a criança procura sua auto-expres-

a mensagem que lhe dão é assim: "O seu trabalho

ficientemente bom." Essas mensagens calam fundo

e formafri o núcleo de subsequentes sentimentos de baixa auto-

Par i as pessoas que, quando crianças, experimentam essa

falta de apoio para crescer, as experiências pessoais em fases

subseqi ilentes da vida (especialmente os fracassos) vão reati-

var

entfmentos dolorosos do passado. Crianças que se criam

obtendo adequado apoio desenvolvem um sentimento interno

básico

de

segurança e autoconfiança. Fracassos posteriores po-

dem doe r, mas não são devastadores.

• Maus-tratos e investidas sexuais contra crianças. Cos-

tuma ser profundo o trauma provocado por abuso sexual e

maus-tratos físicos. Quando ocorrem tais situações de maus-

tratos e violência sexual, especialmente quando os causado-

res são os pais, a criança é traumatizada de uma série de

maneiras. Para obter um sentimento de estabilidade, confiança

e segurança, a criança conta com os pais. Muitos pesquisa-

dores da questão dos maus-tratos infligidos a crianças con-

cordam na opinião de que um dos efeitos na criança que é ata-

cada sexualmente por um dos pais é um enorme desgaste dos

sentimentos básicos de segurança e confiabilidade. Também

se sabe que muitas, quando não todas as vítimas de maus-

tratos — especialmente quando se trata de violência sexual —

sentem-se culpadas pelo ocorrido; em certo nível, acreditam

que "foi culpa minha, sou ruim, sujo, indesejável". Também

nesses casos este tipo de experiência deixa marcas profundas

no sentimento de valor pessoal do indivíduos.

É evidente que há uma série de experiências nos primei-

ros anos de vida do indivíduo que têm importantíssimas

consequências para o desenvolvimento e o ajustamento sub-

sequentes. As crianças, em sua maioria, não conseguem

simplesmente "superar ou esquecer" essas dolorosas experi-

ências dos anos de infância. Quando se preparam para assumir

suas responsabilidades de adultos, já possuem profundas e do-

lorosas feridas a superar.

O Que Causa Depressão? — Acontecimentos Usuais

Os trai mas sofridos nos primeiros anos da infância certa-

mente z umentam as probabilidades de uma pessoa vir a sofrer

de depi essão. No entanto, também se sabe que a depressão

pode sc brevir mesmo que não tenha havido esses fatores de

risco pr ídisponentes. Ninguém é imune à depressão. Esta atinge

pessoas de todas as faixas etárias, e tem pouca relação com

classe s ocial, grau de inteligência ou de êxito na vida. Em-

bora al çumas depressões biológicas se manifestem sem causa

aparenl e, a maioria das depressões constitui uma reação a mu-

danças > na vida da pessoa. Nem todas essas mudanças na vida

resultam resulta em depressão, é evidente, mas há uma série de fa-

tores tores i ^tressantes

depres

io.

sac

comuns que podem dar início a uma

Fatorei Recentes Desencadeantes de Depressão

desenc

*erdas Interpessoais.

Provavelmente o principal fator

deante de depressão, a perda de um ente querido, pode

originar-se numa série de acontecimentos como morte, sepa-

ração conjugal e divórcio, filhos que vão morar longe dos pais,

rejeição por parte de namorado ou amante. Essas situações

de perda constituem ocorrências não raras na vida das pes-

soas. Nos Estados Unidos, a cada ano aproximadamente são

consumados 1 milhão de divórcios, 8 milhões de pessoas per-

dem um ente querido em razão de falecimento, e 800 mil ficam

viúvos ou viúvas (Osterweis M., et al. 1984). É frequente pes-

soas se separarem dos amigos ou namorados por precisarem

assumir um novo emprego, e milhões de relacionamentos com

parentes e amigos são destruídos devido a conflitos.

Quase sempre as situações de perda resultam em senti-

mentos lutuosos de pesar —uma vivência de sofrimento, mas

que termina levando à recuperação emocional, na maioria das

pessoas. Mas também há uns 10 a 15% de casos nos quais as

pessoas que sofreram perdas importantes passam a apresen-

tar uma depressão clinicamente diagnosticável.

Um dentre os muitos conceitos erróneos a respeito do

"pesar ou luto normal" é a expectativa de que a pessoa deve

"superar" uma morte ou um divórcio em alguns meses. Es-

tudos sobre situações de perda emocional mostram que o

período de luto normal é, em muitos casos, bem mais longo

do que muita gente pensa. Convém lembrar que no processo

de luto há três fases:

Fase 1: Choque inicial, que pode ter como sintomas em-

botamento afetivo, sentimentos de pesar intensos, ou uma

oscilação entre sofrimento emocional e embotamento. — Fase

2: Período de luto propriamente dito, durante o qual há fre-

quentes períodos de intensa tristeza e a pessoa pode sentir que

" a vida está totalmente diferente".

(Este período de luto nor-

mal, ao contrário do que as pessoas acreditam, é longo —

geralmente dois anos, em caso de morte de pai ou mãe; qua-

tro anos, em casos de separação do casal ou divórcio; quatro

a seis anos, em caso de morte do cônjuge; e oito a dez anos

em caso de morte de um filho. Naturalmente, esses períodos

podem variar muito de uma pessoa para outra.) — Fase 3:

Resignação final. Mesmo no caso de "resignação", o indi-

víduo enlutado não "supera" o luto. Na realidade, a maioria

das pe ;soas continua a passar por períodos de dolorosas lem-

brança s nos anos que se seguem. Mas se pode supor que houve

resign; ção quando os acessos de tristeza intensamente dolo-

rosos Jesaparecem ou são muitos menos frequentes e a vida

parecer'normal" novamente.

Q íalquer pessoa que experimenta uma grande perda ha-

vera d í

dizer "isto a gente realmente não supera nunca".

Felizmfente, porém, o coração pode sarar; é só deixar passar

um bo n tempo. É importante compreender que o processo

é demorado e doloroso, mas não é sinal de patologia

ou doe iça mental. No capítulo 9 examinaremos mais de perto

as dife enças entre luto e depressão.

• Perdas Existenciais. Robert acabou de saber que um

colega le trabalho morreu de ataque cardíaco quando jogava

golfe. () amigo tinha somente 48 anos de idade. Quando con-

versei c om Robert, ele disse: "O que me preocupa mais é que

poderú ter sido eu. Fez-me pensar na minha vida. Fez-me pen-

sar, soi realmente feliz? Minha vida faz sentido?" Em muitos

casos, tais perdas nos obrigam a enfrentar questões muito di-

fíceis e n relação ao significado de nossas vidas, nossa mor-

talidad nossa satisfação básica com a vida. Pode ser que

grande )arte disso que está por trás da chamada "crise da meia-

idade se ja uma espécie de depressão desencadeada por esse tipo

de questões existenciais.

Un ia das principais preocupações existenciais que as pes-

soas co numente enfrentam é a desilusão ou a perda de um

sonho c ue se desfez. A maioria de nós tem esperanças e so-

nhos; a guns desses anseios nós os conhecemos, alguns são

predominantemente inconscientes. Tais sonhos incluem aspi-

rações como "espero ter uma família ou um casamento que

me com Dlete", ou "espero ter êxito e felicidade no meu tra-

balho", Mas, muitas vezes, a realidade de um trabalho ou de

um rela :ionamento não casa com aquilo que a pessoa inti-

mamenle tanto desejava. Não é raro uma pessoa, de certo

modo, i m dia acordar e ser surpreendida pela dolorosa per-

cepção ( e que "não sou feliz" num relacionamento ou num

emprego.

As pessoas, muitas vezes, passam muito tempo mantendo

suas esperanças mesmo em face de uma realidade frustrante.

Ana, mulher de 38 anos, me disse: "Isto foi assim onze anos,

todos os dias. Meu marido não se importa comigo. Ele me

considera um lixo, sempre me ignorou. Às vezes me maltrata.

Mas eu matinha a esperança de que ele fosse mudar. Sempre

continuei dizendo a mim mesma que era só eu tentar um pouco

mais. E agora isto me atinge. Ele não mudou e não irá mu-

dar. Como é que pude ser tão tola?" Ela não era tola; tinha

esperanças. A esperança pode ser uma ponte que ajuda as pes-

soas a transpor épocas dolorosas ou difíceis. Mas também pode

cegar as pessoas. Ana conseguiu afastar sentimentos mais pe-

nosos de perda mantendo a esperança, mas a certa altura a

bolha estourou. O que nela desencadeou a depressão foi que

ela, por fim, percebeu o seu profundo desapontamento. Seu

sonho de felicidade no casamento estava desfeito. Este tipo

de fator desencadeante da depressão é tão real e poderoso como

outras formas de perda, mas frequentemente as pessoas não

o levam na devida conta. Amigas de Ana comentavam: "Não

entendo como você fica tão abalada. Há tantos anos que você

sabia como ele era." Ao ouvir comentários assim, ela se sen-

tia mal. As amigas podem ter tido boas intenções, mas estavam

sendo críticas. Não importa quanto tempo ela tenha vivido com

os maus-tratos do marido. Quando sua ilusão ou esperança

desapareceu, Ana começou a se deprimir.

Um segundo tipo importante de perda existencial é o re-

conhecimento de que "não vou viver para sempre". Um

estudante universitário de 20 anos de idade sabe que essa afir-

mação é correta, mas provavelmente não pensa muito sobre

isso. Mas uma pessoa de 40 anos de idade pode encarar esta

verdade de uma forma muito diferente. A morte dos pais ou

de um amigo da sua própria idade tem, muitas vezes, o po-

deroso efeito de forçar a pessoa a olhar de frente a sua própria

mortalidade. E , conforme disse o rabino Harold Kushner,

"não é o medo da morte, ou o término de nossa vida, que

angustia o nosso sono; é muito mais o temor de que a nossa

vida não terá tido importância

..."

(1986, p. 20). Essa aguda

consciência do "tempo se esgotando" pode provocar não so-

mente

sentimerito

trante

o 1

A

vórcio

depress

Sc 3

 

são vista:

a morte

4

O ]

envelhecér

convencér

cem" e

que

estava

rido e por

 

amigos

leciment)

 

não a

ela senti

 

ciência d

modo, a

existencial

se sentia

É precise

causas

reocupações quanto ao futuro mas também um

de pesar em relação a uma vida que foi vazia, frus-

desprovida de sentido,

sèciedade reconhece as situações de falecimento e di-

c|>mo causas "legítimas" dos sentimentos de pesar e

As questões existenciais, porém, frequentemente

de um ângulo diferente. Uma paciente me disse, após

marido: "Bem, essas coisas acontecem. É só a gente

, e se consegue aceitar." Essa mulher estava tentando

me (e a ela própria) de que "essas coisas aconte-

ela iria conseguir superar a perda. Na realidade,

passando por enorme sofrimento com a perda do ma-

perceber a sua condição de criatura mortal. Seus

sua família apoiavam-na emocionalmente após o fa-

do marido. Mas não compreendiam claramente e

apoiavam propriamente na tristeza e nos temores que

em relação a si mesma ao se defrontar com a cons-

í que a vida dela própria iria chegar ao fim. De certo

norte do marido era uma perda mais aceitável; a crise

dessa mulher tinha sua importância diminuída. Ela

em consequência, ainda mais sozinha com a sua dor.

compreender que as crises existenciais constituem

nluito reais e poderosas de sofrimento nas pessoas.

• A 'ontecimentos que Diminuem a Auto-Estima. São

muitos o; acontecimentos na vida de uma pessoa que podem

atingir fo rtemente o seu sentimento de auto-estima e valor pes-

soal. Fracassos pessoais (por exemplo, ser preterido numa

promoçã)), ser rejeitado ou criticado, cometer erros, estes são

apenas a guns dos muitos acontecimentos que podem causar

uma dim inuição da auto-estima.

And /, contador, 43 anos de idade, acidentalmente pro-

vocou un incêndio na cozinha de sua casa. Conseguiu-se salvar

a casa, rr as a cozinha sofreu danos consideráveis. Apesar de

a compai ihia de seguros ter pago os custos com o conserto,

esse hon em sentiu, durante meses, um terrível sentimento

íntimo d : aversão a si próprio. "O que aconteceu comigo?

Fui tão i< lota. Não consigo compreender como pude ser tão

burro." Levou meses até conseguir perdoar-se por haver co-

metido esse erro.

Carl trabalhou 23 anos numa loja de máquinas. O ne-

gócio foi vendido e o novo dono não manteve Carl na sua

equipe de funcionários, apesar de sua excelente folha de ser-

viços. A partir daí, durante dois anos, esse homem não

conseguiu encontrar emprego no seu ramo de trabalho. Tam-

bém se viu exposto ao ridículo e a piadas cruéis por parte de

um cunhado que aproveitou todas as oportunidades para as-

sinalar o "desemprego crónico" de Carl. Essas experiências

pessoais causaram-lhe sofrimento íntimo e sentimentos de des-

valorização pessoal.

Todo ser humano tem necessidade de sentir esse funda-

mental sentimento de valor pessoal; acontecimentos como esses

que citamos terminam, com frequência, causando depressão.

Doença Física. As doenças podem produzir grande so-

frimento emocional. Em alguns casos, uma doença física tem

como consequência dores intensas e contínuas, que diminuem

a qualidade de vida, e o doente dificilmente consegue ter mo-

mentos de satisfação.

Algumas doenças físicas que põem em risco a vida e aque-

las de natureza degenerativa trazem também o fantasma de

uma crescente invalidez e possivelmente a morte. Uma pes-

quisa estudou um grupo de pacientes que sofria de lesões da

medula espinhal e outro grupo que tinha distrofia muscular.

Em ambos os grupos o grau de invalidez atual era parecido.

No entanto a lesão da medula espinhal geralmente é uma con-

dição estática: não piora. Já no caso de distrofia muscular

ocorre uma degeneração progressiva. O grau de depressão no

grupo de pacientes de distrofia muscular foi significativamente

maior do que nos pacientes portadores de lesão da medula es-

pinhal (Duveneck e outros, 1986). É da natureza do homem

olhar para o futuro, e muitas das doenças físicas têm infeliz-

mente mau prognóstico.

Algumas doenças podem causar limitações físicas que mu-

dam dramaticamente o estilo de vida do doente. Sharon é uma

mulher de 34 anos cuja paixão na vida é a dança moderna.

Costun ava trabalhar como secretária, vivendo em função do

fim do dia, quando podia sair e ir para suas aulas de dança.

Há doi i anos desenvolveu uma grave artrite reumatóide de-

formadte e teve de abandonar completamente a dança,

"Mudou toda a minha vida. Agora ela parece vazia." As do-

enças

sicas resultam não só em sofrimento e dor e, às vezes,

temorei

quanto às incertezas do futuro, como também po-

dem

m|udar a vida da pessoa de um modo que produz

depressho.

* estresse Prolongado. De um modo geral, o estresse não

causa d opressão. Na realidade, as pessoas frequentemente são

capazes de desempenhar uma série de tarefas esíressantes e de,

mesmo assim, sentirem-se bem. Parece que a diferença deci-

siva é o modo como a pessoa percebe a si mesma em face das

situaçõ» s estressantes. Se a pessoa pensa "As coisas estão di-

fíceis, nas estou conseguindo suportar. Vou superar isto",

então v \ as situações de estresse como um desafio, e elas pro-

vavelmi nte não causam depressão. Mas se a pessoa começa

a sentir -se oprimida ou incapaz de superar as pressões cres-

centes, da pode também mudar sua percepção pessoal. Se ela

pensar 'não vou aguentar isto, eu não tenho o controle da

situação, este problema me domina completamente", então

é provável que se desencadeie nela uma depressão. Quando

as tents tivas de dominar situações estressantes são infrutífe-

ras, a p( ssoa pode começar a se sentir impotente, desamparada

ou desp o vida da capacidade de controlar a situação. Se a pes-

soa se > ê exposta a inúmeros fatores de estresse e a estresse

prolongado e, ainda por cima, tem uma sensação de que não

pode se • ajudada, então pode ocorrer uma reação depressiva.

As causas de uma depressão, às vezes, são facilmente iden-

tificáve s; mas, muitas vezes, são obscuras ou ocultas. É

evidenh) que são muitas as situações na vida das pessoas que

podem :riar condições para desencadear realmente a depres-

são. Nã3 é de admirar que a depressão seja uma condição tão

comum Mas você pode dar um importante passo para com-

bater a i ua depressão se você puder entender melhor as causas

da depressão. Uma das formas mais eficientes de você com-

preender melhor as causas da depressão é você conversar com

outra pessoa a respeito de si mesmo, de seus sentimentos, dos

acontecimentos passados e recentes de sua vida. Ao discutir

aspectos de sua vida e ao trocar idéias com outra pessoa você

terá melhores condições de juntar as peças do quebra-cabeça,

descobrir e compreender por que você está deprimido. Algu-

mas pessoas acham que é melhor fazer isto na psicoterapia;

outras conseguem obter esse entendimento mediante conver-

sações francas com um amigo íntimo, com pessoas da família

ou com um guia religioso. É duplo o valor de você conversar

com uma outra pessoa a respeito de sua vida. Primeiro, ajuda

a desvendar o mistério e a compreender as suas vivências. Se-

gundo, para mencionar um ditado conhecido: "Sofrimento

que se compartilha é mais fácil de suportar."

O Que Causa Depressão? — Fatores Biológicos

Em regic es profundas do cérebro humano há uma série de im-

portante

estruturas que desempenham papéis relevantes na

regulaçã)

das emoções e de diversos ciclos biológicos. Duas

dessas estruturas especialmente relacionadas com a nossa dis-

issâo sc bre a depressão são o hipotálamo e o sistema límbico.

O h potálamo é uma estrutura cerebral dotada de uma

incrível c omplexidade e tem o tamanho de uma ervilha, apro-

ximadan lente. É o centro de controle de numerosos sistemas

do orgai ismo (por exemplo, do sistema hormonal e do sis-

tema imi inológico) e atividades físicas (controla ou influencia

os ciclos do sono, o apetite, os impulsos sexuais e a capaci-

dade de sentir prazer).

Nas adjacências do hipotálamo estão diversas estruturas

pertence ites ao sistema límbico. Este, denominado às vezes

"cérebrc emocional", é a sede de emoções do homem. Quando

o hipotá amo e o sistema límbico funcionam adequadamente,

a pessoa tem condições de dormir e manter o sono, sentir-se

repousa^ a, ter apetite normal e sensações sexuais, sentir vi-

talidade Í experimentar prazer quando acontecem coisas agra-

dáveis. E se a pessoa se vê diante de acontecimentos doloro-

sos em sua vida, e ela sente tristeza ou preocupações, mas não

é dominada por esses acontecimentos (o sistema límbico ajuda

a controlar as emoções, de modo que elas não parecem tão

intensas).

O sistema límbico e o hipotálamo são regulados por um

delicado equilíbrio entre as diversas substâncias neuroquími-

cas do cérebro. Infelizmente, várias coisas podem causar um

desequilíbrio ou disfunção nesses fatores químicos. Quando

isto ocorre, o resultado pode ser uma depressão biológica. O

que pode fazer o sistema funcionar mal? Existem cinco prin-

cipais causas ou fatores desencadeantes dessas disfunções quí-

micas.

Efeitos Colaterais de Medicamentos

Alguns medicamentos, sujeitos a prescrição médica, po-

dem ter como efeito colateral uma alteração na química do

cérebro, desencadeando uma depressão biológica intensa. (Veja

fig. 7-A, onde você encontra os nomes dos medicamentos que,

às vezes, podem causar depressão.) Esses efeitos colaterais são

relativamente raros; mas, às vezes, realmente se manifestam.

Se não há uma razão lógica para a depressão (isto é, se não

houve nenhuma alteração ou perda importante na vida da pes-

soa) e o início da depressão se seguiu ao começo de um

tratamento com medicamentos listados na fig. 7-A, então se

pode suspeitar que o medicamento seja a causa. Nesse caso,

é preciso entrar em contato com o médico que prescreveu o

medicamento.

Consumo Crónico de Drogas e/ou Álcool

Uma segunda causa comum de depressão biológica é o

consumo crónico e intensivo de álcool ou outras drogas. De-

terminadas drogas que são tomadas para induzir excitação,

por exemplo, cocaína e anfetaminas, possuem uma reconhecida

 

Figura

7-A

 

MEDICAMENTOS QUE PODEM CAUSAR

DEPRESSÃO

Tipo

Nome Genérico

Nome Comercial

Anti-hllpertensivos

Reserpina

Serpasol

(para

hipertensão

Propanolol

Inderal

arterí

I)

Metildopa

Aldomet

 

Sulfato de Guanetidina

Ismelina

Cloridrato de Clinidina

Catapres

Cloridrato de Hidralazina

Apresolina

Hormc nios

Acetato de cortisona

Cortone

Cortia steróides

Estrógeno Progesterona

Antipa kinsonianos

Levodopa e carbidopa

Sinemet

Levodopa

Larodopa

Cloridrato de amantadina Symmetrel

Ansiol

icos

Diazepan

Valium

 

Clordiazepóxido

Librium

Antico

cepcionais

Nomes comerciais

 

variados

capacidade de produzir euforia. No entanto, em casos de con-

olongado, muitos dos usuários dessas drogas expe-

graves sintomas depressivos quando desaparece o

sumo

rimentajn

efeito

eu

efeito c

sumo in

ves; em

alguma:

se você

ve parar

tos sintqm;

médica

forizante de um "barato". Ainda mais comum é o

) abuso de álcool a longo prazo ou em casos de con-

ensivo. O álcool pode produzir depressões muito gra-

nuitos casos, essas depressões desaparecem depois de

semanas após o paciente ter parado de beber. (Nota:

esteve fazendo uso de álcool intensivamente e resol-

de beber, deve, para evitar o aparecimento dos mui-

de abstinência, procurar assistência e orientação

Doença Física

O terceiro fator desencadeante biológico de depressão, as

doenças físicas, pode contribuir para a depressão de duas ma-

neiras (veja figura 7-B). As doenças físicas podem causar

alterações químicas cerebrais, e/ou a pessoa pode sofrer de-

pressão por causa do efeito da doença. Por exemplo, uma

pessoa com artrite pode ter que suportar dor física diaria-

mente. Problemas cardíacos graves fazem com que as pessoas

modifiquem dramaticamente seu modo de viver. Uma pessoa

com doença terminal se verá diante de uma invalidez progres-

siva e da morte. Qualquer doença física debilitante provavel-

mente desencadeia reações psicológicas/emocionais. Entre-

tanto, além dessas previsíveis reações emocionais diante da

doença, essas enfermidades, como as que estão listadas na fi-

gura 7-B, podem realmente causar modificações químicas no

cérebro que dão início a uma depressão biológica.

Modificações Hormonais

Você pode verificar que na figura 7-B estão assinaladas

alterações do estado de ânimo no pós-parto, síndrome pré-

menstrual e menopausa. Estas não são doenças físicas, mas

mais propriamente são condições clínicas que envolvem alte-

rações hormonais importantes. A depressão é muito mais

comum em mulheres que em homens, e talvez um dos moti-

vos seja a influência dos hormônios femininos sobre o hu-

mor, o estado de ânimo. Tem-se demonstrado que a incidên-

cia de depressão em mulheres aumenta durante os períodos

principais de fluxo hormonal (por exemplo, após a mulher

ter dado à luz). Alguns pesquisadores acham que até 40%

das mulheres experimentam algum grau de alteração do hu-

mor durante o período pré-menstrual, e que aproximadamente

5% das mulheres podem sofrer depressão grave no decorrer

desse período. De uma forma que ainda não é bem conhe-

cida, os hormônios, em muitos casos, aparentemente afetam

o delicado equilíbrio químico do "cérebro emocionar'.

Figura 7-B

DOENÇAS E DISTÚRBIOS

QUE PODEM CAUSAR

DEPRESSÃO

Doença de Addison MDS \nemia ^sma nfecção crónica (mononucleose, tuberculose) nsuiiciencia caraiaca congestiva Doença de Cushing Diabetes Hipertireoidismo Hipotireoidismo Hepatite infecciosa Gripe Doenças malignas (câncer) Má nutrição Menopausa Esclerose múltipla •'orfiria Mterações do humor no pós-parto Síndrome pré-menstrual Artrite reumatóide Sífilis _upo eritematoso sistémico Jremia Colite ulcerativa

Depressão Endógena

Está última classe de fatores desencadeantes biológicos

constitui, sem dúvida, a causa mais frequente de depressões

biologia s. As depressões endógenas manifestam-se, por mo-

tivos des :onhecidos, em determinados indivíduos suscetíveis.

Tais pessoas periodicamente experimentam uma acentuada dis-

Figura 7-C

RESUMO: CAUSAS DE DEPRESSÃO

Fatores

Predisponentes

A.

Experiências

dos Primeiros Anos

de Vida

1.

Perdas ocorridas nos primeiros anos

2.

Pais emocionalmente indisponíveis

3.

Ambiente emocional severo permanente no lar

4.

Falta de apoio ao crescimento

 

5.

Maus-tratos e violência sexual contra a criança

B.

Hereditariedade

Fatores

Atuais ou

Recentes

A.

Perdas

Interpessoais

 

B.

Perdas

Existenciais

1.

Desilusão/perda de um objetivo almejado

2.

Consciência do fato de que se é mortal

C.

Acontecimentos

que Diminuem

a

Auto-Estima

D.

Doença

Física

 

E.

Estresse

Prolongado

Fatores

Biológicos

A.

Efeitos

Colaterais

de

Medicamentos

B.

Consumo

Crónico

de

Drogas/Álcool

C.

Doença

Física

D.

Alterações

Hormonais

E.

Depressão

Endógena

Parte Dois

Que Você Pode Fazer Para Vencer a Depressão?

p

8

Escolha do Tratamento

A maièria das pessoas que se encontra deprimida não recebe

tratam mto; na realidade, somente uma dentre cinco pessoas

deprin idas recebe ajuda profissional. Há pessoas que podem

não re conhecer que é a depressão que lhes causa o descon-

forto c ue sentem. Para muitas pessoas, a depressão é viven-

ciada s omente como uma doença física. Algumas não sabem

que ex ste ajuda disponível, e muitas não têm condições de

se pen litir um tratamento particular.

Si uações ocasionais de estado de ânimo tristonho não exi-

gem tn tamento, evidentemente; essas experiências fazem parte,

natura mente, da condição humana. Mas quando se trata de

períod >s de depressão mais grave e mais prolongada — con-

forme descrevemos no capítulo 1 — há motivos para preo-

cupaçe o. Além de causar considerável sofrimento emocional,

a depn ssão pode também provocar sérios transtornos na ro-

tina de vida (há casos em que a pessoa deprimida perde o seu

emprej o, ou seu casamento se desfaz). Às vezes, a depressão

pode ir duzir uma diminuição da resistência às doenças, do que

resulta n más condições de saúde física. Em certos casos ex-

tremos o resultado é o suicídio. Sendo assim, é muito impor-

tante c ue você tenha conhecimento de que, na grande maio-

ria dos casos, a depressão pode ser tratada, com bons resul-

tados.

Muitas das pessoas deprimidas sentem enorme desespe-

rança, e acreditam que "nunca conseguirei sair desta

depressão ...

Nada vai me ajudar". Esse sentimento de de-

sesperança é, em si mesmo, um sintoma de depressão, e não

é um sintoma incomum. No entanto, quando você se sentir

sem esperança, tenha em mente que essa sua idéia ou crença

não é um fato. Artur, um de meus pacientes em psicotera-

pia recentemente, passou por um período de depressão que

lhe causava enorme sofrimento. Depois de se recuperar, ele

disse: "Quando eu estava muito deprimido eu tinha uma ab-

soluta convicção de que não havia esperanças para mim. Não

havia maneira de o Senhor me convencer de que algum dia

eu poderia superar a depressão. A desesperança parecia tão

real. Graças a Deus que não me matei, porque agora real-

mente estou bem." Experiências como essa são comuns nes-

ses casos. A depressão pode resultar num véu negro que com

sua escuridão impede a visão do futuro; mas esse sentimen-

to de desesperança é um sintoma de depressão, não é um

fato.

Recursos para Tratamento (Nos Estados Unidos)

O tratamento psiquiátrico ou a psicoterapia em condições

de clínica particular podem ser realmente dispendiosos; mas

também se pode encontrar tratamento grátis ou a custos re-

duzidos na maioria das cidades, nos centros de saúde mental

públicos da comunidade local. Se você deseja obter ajuda de

um programa de tratamento a custos reduzidos, na sua pró-

pria comunidade, aqui apresentamos uma série de alternativas

que lhe podem valer. Procure-os na lista telefónica da sua lo-

calidade, ou peça o número do telefone ligando para o serviço

de informações da companhia telefónica:

Centro Comunitário de Saúde

Hospital Público Geral

Hosp tal Psiquiátrico Particular e conveniado

Servi(Jo Servil de Atendimento de Urgência para Situações de

Crise

Departamento de Psicologia Clínica de Universidades com

atend mento à família

Não hesite em telefonar para um psicólogo, psiquiatra, assis-

tente socjial clínico, terapeuta de casal ou de família, padre ou

pastor

de

duzidos.

calidade

centros r e :

nitárias.

uma igreja ou outras pessoas para você se informar

sobre os honorários e/ou encontrar atendimento a preços re-

Se \ ocê não conseguir um recurso terapêutico na sua lo-

entre em contato com um centro maior, onde pro-

vavelmente haverá recursos terapêuticos disponíveis, como

saúde, hospitais, ambulatórios, associações comu-

EaPanirDaí?

Ao ongo deste livro, tenho procurado mostrar que exis-

tem pan você várias opções. Dependendo da natureza e da

gravidac e do seu estado, as opções de tratamento dividem-se

em duas :ategorias gerais: técnicas de auto-ajuda, e tratamento

profissic nal.

Se v Dcê leu até aqui e ficou claro que você está deprimido,

qual hav rá de ser o seu próximo passo? Muitas formas brandas

de depreí são podem ser resolvidas em algumas semanas com pro-

cedimentos que serão esquematizados nos capítulos a seguir. Já

as forma \ de depressão mais persistentes ou severas podem ser

difíceis

c ei

superar se você não contar com o auxílio de um pro-

fissional Provavelmente será melhor você pensar na conveniência

de um

rjtamento profissional se você estiver experimentando al-

guns dos

sinais ou sintomas seguintes:

P *ofundo e persistente sentimento de desânimo ou de-

sespero DU desesperança, não encontrando absolutamente

nenhum* ocasião em que possa sentir-se feliz.

• Grave desorganização em seus relacionamentos pes-

soais, ou incapacidade de trabalhar.

• Idéias de suicídio persistentes ou intensas.

• Sintomas biológicos de depressão, por exemplo, im-

portantes distúrbios de sono ou perda de peso (veja capítulos

1,

7 e 13).

• Desesperança profunda ou apatia. Há casos em que as

pessoas se sentem de tal modo desesperançadas ou apáticas,

que até lhes é difícil terem a iniciativa de buscar recursos de

 

auto-ajuda.

Se você não tem certeza sobre qual recurso seja o melhor

para você, por que não marcar uma consulta com um pro-

fissional e falar sobre o seu problema?

Nos próximos capítulos, passarei a delinear algumas estraté-

gias de auto-ajuda que têm sido largamente utilizadas no

tratamento da depressão. Combater a depressão é um tanto

semelhante a conduzir uma guerra. É importante atacar o pro-

blema em muitas frentes diferentes. O uso combinado de

diversas técnicas de auto-ajuda esquematizadas nestes capítu-

los proporcionará a você uma ampla gama de estratégias de

auto-ajuda e recursos para superar a depressão.

9

Re, postas Sadias e Respostas Destrutivas Diante do Sofrimento Emocional

É inevi ável, infelizmente, que todos nós tenhamos de passar

por sof •imentos físicos e emocionais. Quando uma pessoa se

vê dian ;e de um acontecimento doloroso, ela pode ter vários

tipos d Í reação. Alguns tipos de reação podem levar à cu-

ra, outi as reações podem desencadear uma reação em cadeia

de resp Dstas ao sofrimento que provocam sofrimento ainda

maior - - o tipo de sofrimento que bloqueia o crescimento e

a recui eração

Ve amos uma analogia que mostra as semelhanças entre

ferimer to e cura emocionais e físicos. Se você cai e esfola o

joelho, talvez você resolva tratar o ferimento evitando ferir-

se novs mente e queira a todo custo combater a infecção co-

locando bandagens em excesso no joelho machucado. Essa

providí ncia talvez dê certa proteção; mas, algumas semanas

mais tarde, se você quiser retirar a bandagem, verá que o fe-

rimentc não terá sarado, ainda está úmido e possivelmente pior

do que estava logo depois do acidente. Um ferimento precisa

da proteção que a atadura proporciona; mas também é essen-

cial que o ferimento tenha certo contato com o ar, de modo

a poder formar-se a crosta de cicatrização.

Assim também podem as pessoas manifestar uma ten-

dência para reagir ao trauma emocional utilizando-se da

negação ou da supressão dos sentimentos dolorosos. Exem-

plo comum dessa situação é o que frequentemente ocorre após

a morte de um ente querido. Observa-se que um ou mais fa-

miliares do falecido não apresentam sentimentos de luto e pesar

visíveis — ou melhor, suprimem seus sentimentos de tristeza.

Um dos motivos disso é que tais pessoas pensam: "Alguém

tem que ser forte e cuidar das providências para o enterro ...

Alguém precisa ser forte para dar apoio e estabilidade para

os outros." Infelizmente tais pessoas, em muitos casos, são

elogiadas por serem "fortes"; "Como ele cuida de tudo tão

bem ...

Ele é uma rocha". Um outro motivo para a pessoa su-

primir seus sentimentos de pesar é que ela percebe ser terrível

enfrentar a perda e suportar tais sentimentos. E é muito hu-

mano tentar evitar o sofrimento.

O que há de tão ruim em se negar ou suprimir os sen-

timentos de luto e pesar? A supressão dos sentimentos é sempre

uma solução a curto prazo, precária; sentimentos íntimos do-

lorosos não desaparecem, e, igual ao caso do joelho esfolado,

"o excesso de bandagem" prejudica, no final, a cicatrização.

Pessoas que se recusam a experimentar sentimentos de luto

e pesar quase sempre prolongam o processo de cura. Essas pes-

soas continuarão a ter sentimentos íntimos de grande perda

durante um período de tempo muito mais longo, apresentam

elevado risco de desenvolverem doenças físicas, e, muitas ve-

zes, desenvolvem uma reação depressiva mais grave. A

supressão dos sentimentos de luto e pesar simplesmente não

funciona.

Voltemos a examinar sucintamente a questão do ferimento

físico. Um segundo recurso de que a pessoa poderia lançar mão

para tentar curar o seu ferimento seria o de deixá-lo exposto

ao ar. Mas à medida que o joelho esfolado começa a sarar,

pode acontecer de você voltar a machucá-lo tendo uma queda

novamente, ou pode acontecer de realmente arranhar a crosta

da feridí ..

Cada vez que se arranca a crosta, é como se no lo-

cal hou\ esse uma ferida nova que tem de começar a sarar

novamer te. Também é possível que a ferida, sofrendo infecção,

termine Dor piorar.

No nível emocional, também ocorre essa machucadura

renovad i ou essa machucadura que o indivíduo inflige a si

mesmo, [sto é extremamente comum, embora a maioria das

pessoas, :onscientemente ou por vontade própria, não se cause

feriment os novos. Como acontece tal coisa? Uma das manei-

ras é a p< ssoa se reexpor à mesma situação de sofrimento. Um

exemplo é o da mulher casada com um marido que a maltrata.

Ela é esp ancada sem piedade, o que causa enorme sofrimento

a ela, nu is retorna a esse marido cruel e volta a ser espancada

de novo

Um a segunda maneira, muito comum de a pessoa tornar

a se infli gir sofrimento é o surgimento de pensamentos exces-

sivamem e negativos de autocrítica exagerada. Os profissionais

de saúde mental descobriram recentemente um processo do-

entio e n uito frequente que, em muitos casos, começa nas fases

iniciais < e depressão. A percepção que o deprimido tem do

mundo <: de si próprio torna-se acentuadamente negativa; a

pessoa s 6 vê em si mesma fracassos, erros e inferioridades.

O mundo lhe parece negro, o futuro sombrio, a pessoa só se

enxerga através de um olhar crítico. Um homem, cuja esposa

o aband )nara porque ela tinha um caso, começa a fazer o se-

guinte j lízo de si mesmo: "E u não passo de uma droga de

um idiot a! Em que eu errei? Arrebentei com o meu casamento

e estou ; irrebentando com a minha vida toda. Eu não valho

nada — não presto para nada, nem para mim nem para os

outros. 4ão consigo fazer nada direito." Esse homem padece

muito p< >r ter perdido a esposa, mas, além desse padecimento,

ele mesi DO ainda se pune e se deprecia. Uma pessoa depri-

mida pc de não perceber esse seu modo negativo de pensar,

mas ess( pensar pode ter um efeito profundo, intensificando

significa tivamente o seu sofrimento emocional. (Este assunto

será dis :utido detalhadamente no capítulo 10.)

Figura

9-A

AÇÕES QUE BLOQUEIAM A CURA

EMOCIONAL

  • 1. Negar ou suprimir os sentimentos dolorosos

  • 2. Tornar a ferir-se mediante

    • a) reexposição à mesma situação dolorosa

    • b) pensamento excessivamente negativo e

autocrítico

De que modo você pode ajudar a promover a cura emo-

cional? As pessoas que passam por situações difíceis suces-

sivamente, mesmo em face de perdas traumáticas, encontram

ajuda em seis recursos:

• Primeiro, aceitam ser normal ter sentimentos doloro-

sos. Disse-o bem uma paciente minha, uma mulher que fora

abandonada pelo marido: "Isto dói demais, e eu não gosto

de tristeza, mas me parece realmente normal eu sentir essa tris-

teza, porque eu me importava tanto com ele."

• Segundo, a pessoa se dá permissão de sentir essas

emoções humanas normais. Assim, muitas vezes, as pessoas

podem pensar: "E u devia superar isto agora", "E u não de-

via deixar que isto me atingisse tanto", ou "O que há de errado

comigo?", "E u me sinto como uma criança chorona", "E u

devo ser forte", e assim por diante. Em cada um desses exem-

plos a pessoa realmente experimenta um sentimento íntimo,

mas procura negá-lo, minimizá-lo, ou suprime-o, talvez me-

diante o recurso da autocrítica exagerada etc. "O que há de

errado comigo ...

eu me sinto tão fraco." Os resultados são

a autocrítica e a supressão dos sentimentos.

• Pessoas que enfrentam bem as perdas dolorosas tam-

bém se permitem expressar os sentimentos. Embora não se

conheç i inteiramente o mecanismo, os psicólogos sabem real-

mente i iue há algo de sadio em se expressar sentimentos do-

lorosos, especialmente se você é capaz de compartilhar os

sentimi ntos com alguém que possa ouvir, ter consideração,

e não s *r crítico.

Há pessoas amigas capazes de dar atenção

e que c ígam: "Vai ficar tudo bem. Não se aflija tanto. Você

vai sup erar isto." As intenções são boas, mas o recado é o

seguint y "Você não deve chorar, você não deve ficar triste.

Essa n< gação dos sentimentos não ajuda, e pode prejudicar

a natujal expressão dos sentimentos — e a cura.

extremamente benéfico você permanecer em conta to

com amigos e ou familiares capazes de dar apoio e permitir

que ele: dêem ajuda. Quando você está procurando curar uma

ferida ímocional, não é hora de bancar o valente e tentar

superá- a sozinho!

Dutro recurso que ajuda a curar um trauma emocio-

nal con liste em se manter uma visão clara da realidade; encarar

com re ilismo a totalidade de sua vida, de sua pessoa, nos as-

pectos Dositivos e negativos igualmente.

Jm sexto recurso importante que promove a cura con-

siste en

você se dedicar à solução do problema. Isto pode ser

difícil

de

executar em momentos de pesar intenso e desespe-

rança,

mas em algum momento é muito importante. Um

exempip

de tal situação é o caso do homem que acabou de

passar

Dor um divórcio doloroso. Sente-se muito triste com

a ruptiJra

do casamento e sente falta da esposa, mas tem en-

frentaqo

realisticamente os fatos de sua vida agora mudada

e tem-:

permitido sentir e expressar a tristeza. A solução para

o probftma

começa a acontecer quando esse homem pensa con-

sigo m

smo: "Sinto-me tão triste, mas minha vida tem de

contimiar

e preciso pensar no que posso fazer para começar

a reorganizar

estarei

minha vida. Sei que terei muitas ocasiões em que

ozinho. Talvez eu precise aprender a conviver com um

tanto d

\ sofrimento da solidão, mas também preciso fazer algo

parain í o

ter de ficar sozinho ao chegar em casa no fim de cada

dia." Se esse homem planejar atividades com seus amigos, pa-

rentes ou com pessoas de sua comunidade, ele estará come-

çando a se curar do problema de estar só.

Figura

9-B

AÇÕES QUE PROMOVEM A CURA

EMOCIONAL

  • 1. Aceitar que é normal ter sentimentos dolorosos.

  • 2. Dar-se permissão para sentir suas emoções mais, inclusive sentimentos dolorosos.

nor-

  • 3. a

seus

Expressar

sentimentos

pelo

menos

uma ou-

 

tra pessoa.

4 .

Manter-se

em

contato

com

amigos

e/ou

parentes

capazes de dar apoio.

  • 5. Manter-se numa percepção realística da sua vida e de você mesmo.

  • 6. Dedicar-se à solução do problema, o que facilita o crescimento.

10

Você Pode Ajudar-se?

Ultimanlente, psiquiatras e psicólogos têm desenvolvido uma

nova

mpdalidade de tratamento da depressão, chamada

"terapia

Est

cognitiva".

forma de tratamento alcançou grande popularidade por

dois

lotlvos: primeiro, porque funciona. Num estudo de seis anos

de duraç;

cional d(

o, recentemente concluído, conduzido pelo Instituto Na-

Saúde Pública dos Estados Unidos, verificou-se que

a terapiapognitiva

em

é altamente eficaz como forma de tratamento

pacientes com depressão branda a moderada. A eficácia foi

igual à

antidepn

1986.)

forma i

se obteve em pacientes tratados com medicamentos

issivos. (Conforme referido na Time, de 26 de maio de

série de outros estudos científicos conduzidos de

rilependente também mostrou que esta abordagem era

bastante eficaz. (O livro do Dr. Aaron Beck, Cognitive Therapy

of Depre >sion, resume grande parte das pesquisas iniciais nesta

área.) Di ferentemente de algumas outras abordagens, a terapia

cognitiva tem bases sólidas e eficácia documentada.

O s :gundo motivo da popularidade desta abordagem é

que, em >ora seja um tipo de tratamento oferecido por mui-

tos terap eutas profissionais, a terapia cognitiva também pode

ser utilizada como eficiente técnica de auto-ajuda.

Eu gostaria de descrever a terapia cognitiva para você ve-

rificar que pode colocar esta abordagem em prática, em

benefício próprio. Tenho constatado que a maioria das pes-

soas pode aprender facilmente as técnicas cognitivas porque,

sob muitos aspectos, elas se baseiam no bom senso. Depois

de ler este capítulo, você será capaz de começar a usar essas

técnicas para diminuir os seus sentimentos depressivos.

Uma melhora momentânea do seu estado de ânimo não irá

por si mesma curar uma depressão grave. Mas, se você estiver se

sentindo deprimido e se você for capaz de fazer algo que em pou-

cos minutos deixe você se sentido menos deprimido, isto pode au-

mentar o seu sentimento de poder e de controle sobre suas emo-

ções, e pode reacender a esperança. Além disso, as abordagens

cognitivas, quando aplicadas num período de algumas semanas,

podem reduzir significativamente os sintomas de depressão.

Sei que, se você está se sentindo deprimido, você também

pode estar se sentindo bastante descrente de quaisquer técnicas

de auto-ajuda. Em sua maioria, as pessoas que têm estado de-

primidas tentaram uma série de coisas para sair do estado de

ânimo deprimido e se sentiram frustradas quando suas tentati-

vas fracassaram. É fácil desenvolver-se um sentimento de

pessimismo e desesperança quando parece que nada funciona.

Não existem técnicas que aliviem rápida e totalmente uma de-

pressão grave; entretanto, muitas das técnicas de terapia cognitiva,

como se pode demonstrar, resultam rapidamente em certa me-

lhora de estado de ânimo. Por favor, continue lendo — e dê

oportunidade para que estas idéias funcionem em seu benefício.

O Pensamento Negativo Causa Depressão e a Torna Pior

Conforme você verificou na primeira parte deste livro, alguns

tipos de depressão têm como causa certas condições ou disfunções

biológicas. Estas podem ser tratadas, como está exposto no capí-

tulo 14. No entanto, a maioria das depressões tem como fator de-

sencadeante os acontecimentos ocorridos no ambiente. Às vezes,

esses acontecimentos são específicos e de fácil reconhecimento,

por exemplo, divórcio, demissão do emprego, morte de um amigo

ou

podem

eri

vada a

eição <

ção cad i

podem

em

i negcx

sos,

 

, esse s

gose

as perdds

parente próximo. Outros "fatores desencadeantes ambientais"

menos específicos. Por exemplo, diminuição progressi-

do cônjuge no decurso dos anos, ou uma percep-

vez mais clara de que as suas esperanças e seus sonhos

ão se realizar (por exemplo, a esperança de você ter êxito

ios ou ser feliz num relacionamento). Na maioria dos ca-

acontecimentos, sejam eles específicos e súbitos ou va-

inlidiosos, representam perdas ou desapontamentos. Mas

e os desapontamentos sempre resultam em depressão?

Certamènte que não. Situações de perda, em sua maioria, real-

mente <ausam sentimentos de tristeza, mas há importantes

diferençjas entre sentimentos de tristeza e depressão verdadeira.

a começar a entender de que modo a sua depressão

pode te|"-se desenvolvido, vejamos um fato básico:

Os

cogniç )es

estados de

ânimo

são criados pelas suas

David Burns, M.D., 1980

tais,

A

alavra cognição designa uma série de processos men-

ícjusive pensamentos, percepções, crenças e atitudes. A

maneir;

como você vê e interpreta os acontecimentos da sua

vida

tem

muito a ver com a maneira como você se sente. Ve-

jamos

exemplo: dois operários de uma fábrica são expostos

exatam*nte ao mesmo acontecimento. Cada um deles é no-

tificado

de que será despedido do trabalho, porque a fábrica

está fechando. Vejamos "no interior da mente" de cada um

as suas

cognições (pensamentos e percepções):

ob: "Oh meu Deus, isto será terrível. Que éque vou fa-

er? Como é que vou sustentar a minha família? Não vou

onseguir arrumar um outro emprego

...

Ninguém vai que-

?r me empregar. Tenho quarenta e cinco anos de idade,

( é impossível, não sendo mais jovem, obter emprego."

im: "Provavelmente vai ser difícil. Que é que vou fa-

er? ...

Bom, pode ser difícil conseguir emprego, mas

mho uma boa folha de serviços, e eu tenho aptidões.

r ou começar a planejar agora

99

mesmo.

Em muitos casos, quando a depressão começa, a pessoa reage

começando por pensar de uma forma negativa e pessimista. Bob

cometeu vários erros no seu modo de pensar que inevitavel-

mente induzem a tensão e sofrimento. Em primeiro lugar, ele

tem expectativas que são bastante negativas: "Isto vai ser ter-

rível"; "Não vou conseguir encontrar um outro emprego" e

"Ninguém vai querer me empregar." Naturalmente, se essas

previsões fossem 100% correias, ele teria razão em se sentir

muito desencorajado. Mas como Bob sabe que essas afirmações

são verdadeiras? — Onde estão as provas? Em muitos dos ca-

sos de depressão, a pessoa deprimida acredita nas suas previsões

pessimistas e negativas e reage como se elas fossem fatos.

Em segundo lugar, Bob tira uma conclusão com referên-

cia à realidade: " É impossível obter um emprego quando não

se é mais jovem." Essa afirmação é mesmo verdadeira? Pro-

vavelmente não, mas Bob acha que sim, e o resultado é o

desespero ou o pânico. Pode ser que na realidade seja difícil

conseguir emprego, mas não é totalmente impossível. Por fim,

Bob não está levando em conta os aspectos positivos. Natu-

ralmente que ele se sente mal por perder o emprego, ninguém

ficaria contente numa situação assim. Embora ambos os ope-

rários tenham motivos para ficarem preocupados, Bob, por

seu modo de pensar excessivamente negativo, causou a si

mesmo uma dose adicional de sofrimento e pessimismo.

Jim reage de maneira muito diferente. Ele também sabe

que perder o emprego pode ser uma situação difícil de ma-

nejar; de nada adianta negar a existência dos problemas ou

querer embelezar algo que é evidentemente sofrimento e in-

felicidade. No entanto, ele não passa apressadamente a con-

clusões francamente pessimistas, não faz previsões sombrias;

é capaz de continuar percebendo certos aspectos positivos na

questão. Embora esteja exatamente na mesma situação que

Bob, o operário Jim consegue manter-se no controle das suas

energias , mantém suas aptidões e valoriza sua folha de ser-

viços. Está pronto para fazer a sua parte: encontrar um novo

trabalho. Espero que este exemplo demonstre como o cami-

nho que cada indivíduo interpreta ou pensa sobre sua situação

pode afetar grandemente à maneira como ele se sente.

Voamos um outro exemplo. Você está indo de avião vi-

sitar a

sua família. O plano é que os seus familiares irão

enconttá

á-lo no aeroporto. Findo o vôo, você desembarca do

avião

e ve i

uma multidão no salão de espera, mas ninguém dos

seus

falniliares chegou para encontrar-se com você. Você es-

pera 3(

passani

sente

minutos, e nada de alguém chegar. O que pode estar

o por sua mente? Certamente que muito do que você

depende daquilo que você está pensando. Estes são al-

guns

dos pensamentos possíveis, e estas são as emoções re-

sultantès

Figura 10-A

ABANDONO NO AEROPORTO

Pense

mentos

1.

"C h meu Deus, será que sofreram um ac dente de carro?"

2.

"C uem sabe eu fiz confusão. Talvez

eu falei

a data errada."

3.

"IS ão consigo acreditar! Me esi |ueceram!"

4.

"F Dssivelmente ficaram retidos no

tráfego.

5.

"IS ão sei ao certo por que se atifesaram, mas acho melhor telefonar pa a eles ou tomar um táxi."

Sentimentos

1.

Temor, tristeza

2.

Raiva de si mesmo, culpa

3.

Raiva deles

4.

Aborrecimento

leve

5.

Nenhum

sentimento

intenso

N( ssa situação, você realmente não tem como saber ao

certo o iue aconteceu. Você pode tentar imaginar, e pode che-

gar a í Iguma dessas conclusões. Evidentemente, um deter-

minada sentimento que você tem e a intensidade desse sen-

timento dependem não da situação como tal, mas dos

pensamentos que você teve em relação à situação. Como se

pode ver na possibilidade 5, uma certa forma de pensar não

envolve previsões ou conclusões e sim pode estar voltada mais

propriamente para a solução da dificuldade.

"Um

Tostão pelos Seus Pensamentos"

A hipótese básica da técnica cognitiva de enfrentar a de-

pressão é que, quando você experimenta uma situação

angustiosa, como uma perda ou uma desilusão, põe-se em ati-

vidade uma reação em cadeia de cognições. A sua atividade

mental pode tomar dois rumos possíveis. O primeiro é você

perceber e pensar na situação de um modo muito realista. Se

a sua percepção da realidade é correta, as emoções resultan-

tes serão normais e adaptativas, diz o Dr. David Burns (1980).

A resposta emocional normal a uma perda, por exemplo, é

tristeza e sentimentos de pesar. A tristeza normal, ainda que

dolorosa, pode terminar por levar à "cicatrização" emocio-

nal. Na tristeza normal você não se sente inundado de

pessimismo extremo, você será capaz de manter o seu senti-

mento de valor pessoal.

O segundo rumo possível de sua atividade mental em se-

melhante situação é a distorção em uma forma especialmente

negativa e pessimista. Cognições muito negativas, embora fre-

quentemente pareçam válidas,

...

"quase sempre contêm

grandes distorções", de acordo com o Dr. Burns. As distorções

compreendem os seguintes aspectos:

• percepções irrealisticamente negativas a respeito de você

mesmo, da situação atual e das suas atuais vivências,

• visão muito pessimista do futuro,

• falta de visão dos aspectos positivos.

Essas percepções negativas, por envolverem certo grau de dis-

torções da realidade, frequentemente

são chamadas de "dis-

torções cognitivas". Quando uma pessoa começa a cometer es-

ses erros ou distorções no pensar e no perceber, os resultados são:

pessimismo extremo,

erosão dos sentimentos de auto-estima e valor pessoal,

emoções destrutivas que induzem maior padecimento

e bloq aeiam a melhora.

Essas J ão as experiências que precedem um "processo depres-

sivo" i [ue, quase sempre, causam mais sofrimento emocional

em vei de levar a uma melhora do quadro emocional.

Figura 10-B

ACONTECIMENTO(S)

Reacão

/

Realista

DOLOROSO(S)

\

Reação

Distorcida

Percepção correta

Tristeza, pesar

Distorções cognitivas

Depressão

  • I \

Termina melhorando

Aumenta o sofrimento

Nè início da depressão instala-se uma reação em cadeia de

distorçí es cognitivas (aumentando os pensamentos negativos) —

quase c a mesma forma como uma faísca dá início a uma fogueira

— dese icadeando uma explosão de cognições negativas. Em pes-

soas di primidas essas idéias negativas ocorrem literalmente

dezena de vezes ao dia, cada vez causando mais padecimento

e pessir lismo. E, como a fogueira, depois de começada, também

a depre >são pode levar a pessoa a realmente "jogar mais lenha

na fogi eira" para manter o processo depressivo. As cognições

negativ ts repetidas, em muitos casos quase contínuas, mantêm

a depre isão viva e prejudicam a melhora emocional. Da mesma

forma < orno ocorre com a contínua remoção da crosta de uma

ferida, j nencionada no capítulo 9, a ferida depressiva também

sofre n< >vas machucaduras, repetidamente.

Os dois rumos da reação cognitiva a um acontecimento

doloroso estão reunidos na figura 10-B:

Por que uma pessoa faz algo que causa sofrimento e blo-

queia as possibilidades de melhorar? A resposta é que quase

ninguém faria semelhante coisa se se tratasse de um ato cons-

ciente. A maioria das pessoas porém não tem consciência de

que está efetuando distorções da cognição. Essa forma de pen-

sar distorcida não é um ato consciente voluntário; na verdade,

esses pensamentos e percepções passam pela mente da pessoa

de um modo muito "automático". Esse processo habitual-

mente não é consciente e, portanto, está fora do controle

consciente. É também um processo que pode ocorrer inde-

pendentemente do nível intelectual; mesmo pessoas de inte-

ligência superior podem ser presas desse modo negativo de pen-

sar. Não tem nada a ver com inteligência alta ou baixa.

O aspecto positivo, porém, é que é inteiramente possível

aprender algumas técnicas sistemáticas que etetivamente po-

dem deter a destruição. Tentemos descobrir como ...

11

Modifique o seu Pensamento Negativo

Simplesi lente saber que o pensar de modo negativo causa de-

pressão

portante

lão é o suficiente para deter o processo. Será im-

dar alguns passos específicos que permitirão a vo-

comb*ter o problema. O primeiro passo consiste em você

perceber

cognitivas

muns de

os momentos em que estejam ocorrendo distorções

Comecemos por listar e descrever os tipos mais co-

listúrbios da cognição que causam depressão. (Grande

parte

1979; e

: deste material baseia-se no trabalho do dr. Aaron Beck,

o do

dr.

David Burns,

1980.)

Tipos de Distorções Cognitivas

Pi evisões Negativas: É a tendência para fazer previsões

altament í negativas e pessimistas em relação ao futuro, para

as quais o indivíduo nem dispõe de provas. Entre os exem-

plos de t ais situações, incluímos:

Um homem solteiro convida uma mulher para saírem jun-

tos mas leva um fora. Ele pensa: "Nunca vou conseguir

encontrar alguém que queira estar comigo."

Uma mulher deprimida pensa: "H á meses que estou com

depressão. Não vou conseguir nunca superar isto

...

Nada

poderá me tirar desta depressão."

Em ambos os exemplos o resultado é uma intensificação do

sentimento de desânimo e desespero.

Pensamento Tudo-ou-Nada: É a tendência a tirar ime-

diatamente conclusões amplas e exageradamente generalizadas

a respeito de si mesmo ou da realidade. Podemos incluir como

exemplos:

Uma mulher acabou de entregar um relatório, em seu tra-

balho, e seu chefe criticou o relatório. Ela conclui: "Não

consigo fazer nada direito." Na realidade, ela faz mui-

tas coisas direito; ainda na semana passada entregou

completos outros cinco relatórios bem-feitos, mas ela se

concentra nas críticas atuais e chega à conclusão inexata

e excessivamente generalizada de que "não consigo fa-

zer nada direito".

Um homem recém-divorciado passa a noite de sexta-feira

sozinho em casa. Esperava que algum amigo telefonasse,

mas ninguém telefonou. Ele conclui: "Ninguém se im-

porta coisa nenhuma comigo." A realidade pode ser que

esse homem possui realmente amigos e parentes que o

consideram bastante, mas eles simplesmente não telefo-

naram nesta noite.

Conclusões Apressadas. É a tendência a concluir pelo pior,

sem que haja provas substanciais. Por exemplo:

Um homem candidata-se a um emprego, e lhe é dito:

"Nós lhe telefonaremos segunda-feira se o senhor obti-

v

r o emprego." Segunda-feira ao meio-dia ele não re-

c< Deu nenhum telefonema, e conclui: "Eu sabia que não

ia

conseguir o emprego.

Visão em Túnel. É a tendência, frequente, na pessoa

deprim ida, para concentrar-se seletivamente nos detalhes ne-

gativos demorar-se em pensamentos nesses detalhes negativos

e exclui - os aspectos positivos de uma situação ou de si mesma.

Um exfmplo:

U n homem de meia-idade passa diante do espelho e nota

qi e está barrigudo. Ele pensa: "Estou horroroso. Não

ac mira que nenhuma mulher se interesse por mim." A

servação de que ele pode estar com algum excesso de

pe >o certamente é correta; mas, nesse momento, diante

  • dc espelho, é nisso que esse homem se concentra, exclu-

si> amente. Ele se vê horroroso. Pode muito bem ser que

es e homem seja afetuoso e sensível, mas esses atributos

se is ele não percebe, e conclui: "Estou horroroso." Ele

vê apenas uma parte de si mesmo, não a totalidade de

su i pessoa.

Personalização.

É a tendência do indivíduo para su-

por que, se algo está errado, ele próprio é quem está em falta;

tal sup< sição pode não ser correta. Exemplo:

Uip homem , ao chegar no trabalho, diz "bom-dia" ao

seu

chefe. Este, o chefe, só faz uma inclinação de cabeça

e

  • i ão diz nada. O homem conclui: "Cara, ele deve estar

br; vo comigo." Essa conclusão pode ser correta ou não.

Sehão for averiguar isso junto ao seu chefe, esse homem

po

lerá ficar preocupado desnecessariamente. É possível

qu

seu chefe esteja preocupado ou incomodado com uma

brika que teve com a esposa. Muitas explicações alterna-

tiv is são possíveis. A questão é que nós não podemos ler

r lente uns dos outros, e as pessoas deprimidas tendem

  • mi ito a reagir exageradamente e a tomar tudo para si —

esf ecialmente quando receiam ser criticadas ou rejeitadas.

• Discurso da Obrigação.Tendência, para insistir em que

as coisas devem ser de uma determinada maneira. Esse dis-

curso da obrigação pode ser dirigido a si mesmo, aos demais,

ou à realidade ambiente. O discurso da obrigação pode ser

identificado pelo uso frequente de palavras como: deve, não

deve, precisa, tem que, tem obrigação de. Podemos citar exem-

plos:

"Tenho que ter um desempenho excelente no meu

trabalho, se não me sentirei péssimo."

"Minha esposa tinha obrigação de saber como eu

me sinto — estamos casados há 20 anos!"

"Ele não devia ter-me abandonado. Eu era tão boa

para ele. Eu dei toda a minha vida a ele!"

Em cada um destes exemplos nota-se uma insistência em que

as coisas sejam de uma determinada maneira. O discurso da

obrigação tem sempre o efeito de intensificar as emoções pe-

nosas; nunca reduz o sofrimento, nem modifica as situações.

Figura

11-A

DISTORÇÕES COGNITIVAS

COMUNS

  • 1. Previsões negativas

  • 2. Pensamento tudo-ou-nada

  • 3. Conclusões apressadas

  • 4. Visão em túnel

  • 5. Personalização

  • 6. Discurso da obrigação

Ca< a uma dessas distorções cognitivas tem duas coisas

em

com m com as demais: distorcem, de certo modo, a visão

da

realic ade (resultando numa visão extremamente negativa

e

pessin ista de si mesmo, das situações atuais e do fututo),

e cada

cf storção cognitiva tem o efeito de intensificar o so-

frimentc

emocional. Se não forem identificadas e combatidas,

disf orções do pensar resultarão num processo depressivo

em andamento. É muito importante interromper esse

essas

destrutivb

O primeiro passo é reconhecer essas distorções tão

ocorram. Um problema importante das distorções

s é que elas frequentemente acontecem num nível in-

Para interromper esse caráter "automático" das

processe

logo ela

cognitiv

consciente

distorço*

ceba qu

cognitivas, primeiramente é preciso que você as per-

ndo elas ocorrem.

Me^no que você parasse de ler este livro neste ponto, você

já estari;

vas que

você

de si

sabendo mais sobre os tipos de distorções cogniti-

\ ocê provavelmente faz. Só isto já poderia ajudar, pois

terá maior probabilidade de ter maior percepção

agoi a

elmo no momento em que cometer esses erros. Entre-

tanto,se

sobre as

k^ocê continuar esta leitura, você ficará sabendo mais

técnicas que podem ajudar você a deter mais eficaz-

mente

es se

processo destrutivo.

Adquira Consciência das Suas Distorções Cognitivas

É m rito frequente as pessoas não terem consciência dos

pensame itos íntimos que lhes ocorrem em situações de sofri-

mento

efiocional. O que é perceptível é o sentimento. Um

importaijte

e eficiente método de você se tornar consciente das

suas

cogfiiçoes

é você utilizar-se dos seus sentimentos como

sinais ou

indícios do que se passa na sua cognição. Eis uma

providênfcia que você pode pôr em prática na próxima oca-

siao em

[ue perceber em você um sentimento desagradável,

Tão logo

teza,

perceber um sentimento assim — por exemplo, tris-

emoção sua para saber, "está bem,

fruí t ração, use esta

alguma

mesmo,

cbisa se passa na minha mente". Faça, então, a você

ima ou mais das seguintes perguntas:

"Em que estou pensando?"

"O que estou dizendo a mim mesmo?"

"O que estou percebendo a respeito da situação que des-

pertou este sentimento?"

Lembre-se do exemplo citado no capítulo 10, o caso do su-

jeito que chega ao aeroporto. Um indivíduo, nessa cir-

cunstância, poderia começar a sentir muita angústia e

inquietação. Poderia dizer a si mesmo: "Estou me sentindo

muito nervoso. Meus amigos ainda não vieram aqui para me

buscar. Em que estou pensando? O que passa pela minha

mente? Bem, estou pensando que eles não virão

...

e talvez so-

freram um tremendo acidente de carro."

Esta é uma providência ou passo muito importante. É bas-

tante simples, mas, em muitos casos, exige considerável prática.

É difícil, quando não impossível, mudar os sentimentos di-

retamente, mas, com a prática, você pode, muito eficazmente,

modificar as suas cognições. Para tanto, o primeiro passo é

você clarear na sua mente esses pensamentos íntimos e per-

cepções.

Lembre-se, para você tomar consciência: reconhecer um