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Resolução pacífica de controvérsias

Dado que atualmente vigora uma proibição completa costumeira do usa da força nas relações
internacionais, quer dos Estados, quer de entidades criadas por eles, suscetível de
incumprimento lícito somente quando exista uma causa de exclusão da ilicitude (legítima
defesa, autotutela defensiva, estado de necessidade ou perigo extremo), ou numa habilitação
do CS das NU, a resolução pacífica de conflitos é a única alternativa conforme com o DIP.

A CNU consagra explicitamente a distinção entre controvérsias jurídicas e políticas (art. 36º/3 e
96º/1 e 2), bem como o ETIJ (art. 36º/2 e art. 65º, na sequência do 96º/1 e 2 da CNU). Porém,
deve considerar-se que a questão política é juridicamente irrelevante: todas as questões com
dignidade jurídica podem ser apreciadas por um tribunal internacional. ****

No seio das questões jurídicas cabe realizar uma distinção entre situações e controvérsias. As
controvérsias pressupõem uma divergência aberta entre sujeitos internacionais sobre um
aspeto de facto ou de Direito; portanto, já existe uma polémica jurídica exteriorizada entre os
Estados. Diferentemente, na situação estamos ainda perante um estado de coisas que pode
provocar uma controvérsia como decorre, designadamente, do art. 34º CNU.

Existe um dever que constitui em parte a outra face da proibição de utilização da força nas
relações internacionais: o dever de resolução pacífica das controvérsias internacionais. As suas
principais bases são o art. 2º/3 e o art. 33º/1 da CNU. Este princípio tem igualmente natureza
costumeira, os mesmos destinatários que o princípio da proibição do uso da força e o mesmo
objeto: apenas controvérsias internacionais, que irrompam entre as entidades vinculadas pelo
princípio. O princípio da resolução pacífica tem duas dimensões: a mais exigente apenas se
parece aplicar às controvérsias cuja subsistência pode criar um perigo para a paz ou que
constitua uma ameaça à paz (Cap. VI e VII, art. 39º). O art. 33º/1 exige que as partes resolvam
as suas controvérsias precisamente quando o seu arrastar pode fazer perigar a paz. Nestes
casos, uma parte não só pode deixar de resolver de forma pacífica a controvérsia como deve
efetivamente fazê-lo e não deixar o assunto pendente. O art. 2º&3 exige que as controvérsias
sejam resolvidas sem colocar em causa a justiça: é uma exigência de que qualquer acordo
entre as partes deve ser livremente celebrado e com respeito das normas internacionais de Ius
Cogens, bem como das normas estabelecidas na Carta (art. 103), não devendo ser resolvido
em termos puramente formais, mas tendo em conta os princípios gerais materiais do DIP.

Existem meios com e sem eficácia obrigatória que os Estados podem escolher livremente para
resolver as controvérsias. Sem eficácia obrigatória:

 Negociação: a forma mais antiga e habitual. É um meio que implica contactos diretos
entre as partes, por meio de diálogo realizado pessoalmente a qualquer nível, mas que
pode ocorrer também por meios de comunicação. Não implica a intervenção de
terceiros. As partes devem negociar de boa-fé e encarar as negociações com abertura
para ouvir a perspetiva da outra parte. Desde que não entre em confronto com
normas de Ius Cogens, o acordo pode afastar-se dos direitos das partes à luz do DIP,
constituindo um instrumento pela qual estas alteram os seus direitos em troca de
concessões mútuas. Este acordo seguirá os termos gerais do Direito dos Tratados.
 Bons ofícios: são um meio de conseguir que as partes recorram à negociação. Existe
uma participação de um terceiro que aproxima as partes, convencendo-as a negociar
diretamente de modo a resolver a controvérsia. Este terceiro não participa depois nas
negociações. Os bons ofícios podem ser solicitados por uma das partes ou oferecidos
pelo terceiro.
 Mediação: depende igualmente de negociação, mas com a participação de um ou mais
terceiros. Aqui, o terceiro mediador pode participar diretamente nas negociações,
procurando apaziguar eventuais agravos entre as partes e formulando propostas
conciliadoras. É possível que os terceiros negoceiem pelas partes, ou seja, que não
haja negociação direta entre estas. As propostas de acordo não são vinculativas.
 Inquérito: realiza-se pelo recurso a uma ou mais entidades terceiras, que formarão
uma comissão de inquérito, responsáveis de apurar determinados factos que dividem
as partes numa controvérsia. Cabe-lhes somente determinar os factos subjacentes à
controvérsia, funcionando em termos contraditórios e ouvindo as partes, especialistas,
etc. A deliberação não tem eficácia obrigatória.
 Conciliação: é nomeada pelas partes, podendo estar previamente estabelecida nos
termos de um tratado, uma comissão com competência em matéria de determinação
dos factos relevantes (tem poder de inquérito), bem quanto à formulação de uma
recomendação de solução final às partes. Funciona segundo caraterísticas
jurisdicionais do contraditório e da independência dos seus membros. Mas falta-lhe o
elemento de eficácia vinculativa das suas celebrações. Durante o processo, os
membros da Comissão devem procurar que as partes cheguem a acordo, mas não
sendo possível, podem então apresentar as suas recomendações, embora também se
possam abster de o fazer.

Com eficácia obrigatória:

 Tribunal arbitral: é constituído em termos semelhantes às comissões de conciliação,


mas tem o poder para emanar uma sentença, isto é, um ato vinculativo para as partes
em relação à controvérsia que foi submetida ao tribunal. Os seus membros são
escolhidos pelas partes, bem como o seu número, o que pode ser feito através de
tratado.
 Tribunal internacional: são tribunais permanentes, cujos membros são relativamente
estáveis. As partes, ainda assim, costumam ter o direito que um dos juízes seja o que
foi escolhido de entre aqueles que indicaram, ou podendo nomear um juiz ad hoc. Os
tribunais continuam a depender da aceitação da sua jurisdição pelas partes e a
execução das suas sentenças encontra-se sujeita a algumas contingências políticas.
São criados e regulados diretamente por um tratado internacional. O mais importante
é o Tribunal Internacional de Justiça.

O Tribunal Internacional de Justiça

Constitui simultaneamente um órgão da ONU (art. 7/1 e 92 CNU) e um tribunal internacional,


regulado diretamente pelo respetivo Estatuto, que constitui um tratado anexo à Carta. Esta
dupla natureza é confirmada pela circunstância de estar aberto a Estados não-membros.

Tem direito de acesso ao Tribunal para efeitos da sua competência contenciosa: Estados que
sejam parte neste (35/1), sendo-o automaticamente se for membro das NU (93/1 CNU) ou
pelo facto de se terem vinculado especificamente ao Estatuto, permanecendo ainda assim um
não membro, nos termos do 93/2. O 35/1 do Estatuto permite ainda que Estados, apesar de
não serem membros das NU, possam aceder ao Tribunal se estiverem cumpridos os requisitos
estabelecidos pelo Conselho de Segurança ou se tal decorrer de disposições em tratados em
vigor (35/2). Contudo, para ser parte, é necessário ainda o requisito do 36 do Estatuto. Pode
verificar-se ainda o caso de o Estado demandado não ter aceite a jurisdição do Tribunal, ma
depois aceitá-la expressamente durante o processo ou não levantar essa questão.
O TIJ pode indicar medidas provisórias quando tal se releve necessário para acautelar os
direitos objeto de litígio (41/1 ETIJ). São obrigatórias.

A sentença é plenamente obrigatória, nos termos do art. 59. Não vigora a regra do precedente,
não ficando o Tribunal formalmente vinculado pelas suas anteriores decisões.

Nos processos contenciosos, apenas os Estados podem ter acesso ao Tribunal (34/1); contudo,
este tem igualmente uma competência consultiva (65/1 ETIJ e 96/1 CNU) reservada a OI.
Nestes últimos casos, os pareceres são destituídos de efeitos obrigatórios.

Resolução pelas NU

As NU têm como principal atribuição a manutenção da paz (1/1 CNU). Para esse efeito, os seus
órgãos receberam importantes competências na matéria, algumas semelhantes aos meios
clássicos de resolução dos conflitos.

 Bons ofícios e mediação: decorre de prática reiterada, aplicando-se em casos em que


esteja em causa perigo para a paz (típica do cap. VI). Pode ser desenvolvida por
iniciativas diplomáticas pelo Secretário-Geral ou pela AG ou pelo CS, embora estes
normalmente confiem esta função ao SG.
 Inquérito: organizado especialmente pelo SG, por iniciativa própria ou a pedido das
partes, decorrendo das suas importantes competências políticas. Para além de
participar nas reuniões dos órgãos políticos (98 CNU) pode ainda chamar à atenção do
CS para qualquer questão (99 CNU), podendo fazer o mesmo perante a AG, incluindo
em relação a outras questões para além da manutenção da paz.
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