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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas


Programa de Doutorado em Ciências Sociais

Eliza Mara Lozano Costa

Uma Floresta Politizada:


relações políticas na Reserva Extrativista do Alto Juruá, Acre
(1994-2002)

Tese de doutoramento apresentada ao


Programa de Doutorado em Ciências
Sociais como requisito para obtenção
do título de doutor em Ciências
Sociais sob orientação do Prof. Dr.
Mauro William Barbosa de Almeida

Campinas, março de 2010


FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP
Bibliotecária: Cecília Maria Jorge Nicolau CRB nº 3387

Costa, Eliza Mara Lozano

C823u Uma floresta politizada: relações políticas na Reserva


Extrativista do Alto Juruá, Acre (1994-2002) / Eliza Mara
Lozano Costa. - - Campinas, SP : [s. n.], 2010.

Orientador: Mauro William Barbosa de Almeida.


Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
1. Seringueiros – Amazônia. 2. Reservas extrativistas –
Alto Juruá (AC). 3. Participação popular. 4. Política ambiental.
5. Desenvolvimento sustentável - Amazônia. I. Almeida, Mauro
William Barbosa de. II. Universidade Estadual de Campinas.
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III.Título.

Título em inglês: A politicized forest: political relationships in the Alto Juruá


Extractive Reserve, Acre (1994-2002)

palavras chaves em inglês (keywords) : rubber tappers - amazon


extractive reserves – alto juruá (ac)
popular participation
environmental politics
sustentable development - amazon

Área de Concentração: Antropologia

Titulação: Doutor em Ciências Sociais

Banca examinadora: Mauro William Barbosa de Almeida, Maria Manuela


Carneiro Ligeti da Cunha, Deborah Magalhães Lima,
José Antonio Vieira Pimenta, Lúcia da Costa Ferreira

Data de defesa: 26-03-10

Programa de Pós-Graduação: Ciências Sociais


ii
Para minhas avós que se foram
Laura e
Maria Amélia,
guerreiras que deixaram saudades

Para os meus sobrinhos que chegaram


Lucas e Mateus,
e encheram tudo de esperanças

Para meus amigos queridos da


Reserva Extrativista do Alto Juruá

E para o Pedro,
com amor

v
AGRADECIMENTOS

Essa tese só foi possível graças à generosa hospitalidade das muitas pessoas que me

receberam em suas casas na Reserva Extrativista do Alto Juruá. Como seria muito difícil nomeá-

las todas sem deixar de lado pessoas importantes, cito apenas os casais das famílias que primeiro

me receberam: Antonio e Alzira; Luis e Zulmira e Zélio e Chica, no Amônia e Osvaldo e Anália,

no Manteiga, todos de uma paciência infinita, e também às famílias de Nonato e Lousa da Foz do

Bagé; Bia e Bé do Alto Tejo e Nonato e Maria da Foz do Tejo, amigos e compadres. Em nome

deles agradeço a todos que me abriram as portas da vida na floresta.

Agradeço de modo especial também aos monitores sociais e ambientais da Reserva

Extrativista do Alto Juruá, amigos, professores e alunos. Essa tese também é resultado do

convívio com esses monitores, e a eles continuo sempre devedora.

Ao professor Mauro W. B. de Almeida, agradeço muito por ser sempre um grande

mestre, amigo, parceiro de muitas viagens e que, desde 1994, me orienta - de uma forma livre e

sempre muito estimulante - pelos infinitos caminhos da floresta e do conhecimento, conseguindo

fazer com que minhas muitas dúvidas tomassem enfim, a forma deste trabalho.

A Chico Ginu, Antonio Macedo, seu Milton Gomes, seu Antonio de Paula. Líderes da

Reserva Extrativista, mestres generosos e muito pacientes. Também devo agradecer a Orleir

Fortunato, que me ensinou a aprender e realizar em meio a tantas divergências.

No Alto Juruá e em Cruzeiro do Sul, nada seria possível sem o apoio do piloto Tita,

Francisco Nogueira de Queiroz, um irmão. Também agradeço a secretária da Associação, hoje

advogada, Maria Rosiane de Melo, pela vontade de aprender e por todo o carinho.
vii
Devo à Universidade Estadual de Campinas, que durante grande parte da minha

Graduação garantiu-me as condições materiais - moradia, bolsa, alimentação subsidiada - e

sempre proporcionou um ambiente intelectual extremamente rico e múltiplo, dando-me uma

chance para que eu tivesse acesso ao prazer do conhecimento.

Agradeço aos professores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, através da sua

diretora, a professora Nádia Farage, pelo ambiente de amizade e crítica, possível também graças

à competência e solicitude de muitos de seus funcionários, em especial à Maria Rita Gandara, do

Programa de Pós Graduação, e Irene Matsusato, do Departamento de Antropologia.

A professora Vanessa Lea, do IFCH, e ao professor Jorge Mattar Villela, da UFSCar, sou

grata pelas críticas e sugestões que fizeram para a primeira versão deste trabalho. E também à

professora Emília Pietrafesa de Godoi, do Centro de Estudos Rurais, pela leitura incentivadora

dos meus escritos ainda bem iniciais. Também pude contar com o incentivo carinhoso da

professora Neide Esterci, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na Moradia Estudantil da Unicamp aprendi a aprender com as diferenças, e agradeço a

Elias, Fenelon, Denise, Aurélia, Simone, Zé Du, Pardal, Estela, Marcão, Cacá. E a Ubaldo, que

nos deixou sem que eu tivesse tempo para agradecer pelo tanto que me ensinou.

Agradeço também à Dalila Zanon, pela amizade sincera e o incentivo, mesmo distantes.

Ainda que seja minha a responsabilidade pelo que aqui está expresso, também sou

sinceramente devedora dos amigos e também pesquisadores na região do Alto Juruá: os

professores Keith S. Brown Jr., e Manuela Carneiro da Cunha, com toda a admiração, e também

aos pesquisadores e amigos muito queridos Mariana Ciavatta Pantoja, Augusto de Arruda

viii
Postigo, Marisa Barbosa Araújo Luna, Andrea Martini, Carla Dias, Roberto Rezende e Marisa

Gesteira, que compartilharam comigo tantas viagens, conquistas e dúvidas.

Para a elaboração desta tese, recebi vários apoios financeiros. A parte escrita somente foi

possível porque fui bolsista do Programa BECA - IEB/Fundação Moore, em 2007 e 2008.

Também recebi apoio financeiro do Programa CAPES, entre 2002 e 2003. E, entre agosto de

2006 e agosto de 2007, tive o apoio da Universidade Estadual de Santa Cruz, de Ilhéus.

As pesquisas de campo na Reserva Extrativista do Alto Juruá, realizadas como parte das

atividades ligadas a vários projetos coletivos, foram financiadas pela Fundação John D. and

Catherine T. MacArthur em 1994 e 1995, pelo CIFOR (Center International of Forestry

Research), entre 1996 a 1998 e pela União Econômica Européia, entre 2000 e 2002. Pelas

pesquisas realizadas em outras regiões do estado do Acre, agradeço à Nurit Bensunsan, em nome

do Instituto Socioambiental, à Ana Euler em nome da WWF e à Magaly S. T. Medeiros, pelo

Governo do Estado do Acre.

Durante os anos de 2004 a 2007 ministrei aulas na Universidade Estadual de Santa Cruz,

em Ilhéus, onde tive o incentivo e a amizade dos professores Claudia Santana, Alejandro

Dimarco e Romari Montano; pude ver o interesse das alunas Camila Macedo e Fabiana Andrade,

e tive a alegria de encontrar a amizade de Paula Brumati.

Em Joinville, onde terminei a parte escrita deste trabalho, pude contar com a biblioteca da

Universidade da Região de Joinville - Univille e agradeço a Marlene W. Feuser em nome dos

seus funcionários e estagiários e, onde também encontrei a amizade e as artes de Paula e

Marcinha, a quem sou muito grata.

ix
Dona Adna, Teresa, Silvana, Andréia e Neusa (quase uma mãe), cuidaram da bagunça da

casa, e Pedro se responsabilizou pelos jantares, deliciosos. Sem isso, este trabalho não seria

possível.

Aos meus pais, Mário e Dilce, pela confiança e apoio, desde sempre, e por me ajudarem a

enfrentar os medos insuspeitados que resolveram vir à tona em meio a essa longa aventura

intelectual, agradeço de todo coração. E também aos meus irmãos, Cinthia e Célio, e à minha

cunhada Penha, com admiração e carinho.

Ao Pedro, pelo incentivo ininterrupto e pelo apoio inteligente e bem humorado mesmo

nos momentos mais tensos, agradeço com amor.

x
RESUMO

As Reservas Extrativistas surgiram no contexto das lutas de populações que viviam na


Amazônia durante as décadas de 1970 e 1980 em busca da manutenção de seus territórios
tradicionais e de uma maior atuação nas decisões sobre o futuro da floresta.
O trabalho procura descrever as formas dessa atuação política a partir de estudos
históricos e etnografias realizadas na Reserva Extrativista do Alto Juruá, estado do Acre, entre
1994 e 2002.
Utilizando o conceito de “redes sociais”, o trabalho procura demonstrar a dinâmica
dessas redes ao longo do tempo e do espaço, assinalando como elas se configuram a partir dos
conflitos em torno de recursos, idéias e pessoas, e que, por sua vez, continuam alimentando essas
disputas.
Essas disputas são evidenciadas a partir das redes formadas com a atuação de órgãos
ambientais, universidades e ONGs que trazem recursos humanos e materiais e propostas ligadas
ao conceito de Reservas Extrativistas e outras redes que ligam membros de Prefeitura, antigos
patrões, comerciantes e outros órgãos públicos, com recursos, pessoas e outros projetos de
desenvolvimento para a região.
Acompanhando como os moradores, líderes locais e alguns agentes externos relacionam-
se nesse contexto, observa-se que relações que poderiam ser denominadas participativas, ou, por
outro lado, assistencialistas ou clientelistas são aqui consideradas como resultado da intensa
politização local, em que os moradores estão constantemente assumindo riscos políticos ao
manejar as possibilidades de perdas e ganhos no dinâmico processo de configuração dessas
redes.     

xi
ABSTRACT

The Extractive Reserves appeared in the context of struggles of the dwellers in the
Amazon during decades of 1970 and 1980, in order to keep their traditional territories and to
improve their actuation upon the decisions about the forest future.
This work intend to describe the forms of this political actuations based on historic and
ethnographic researches which were made in the Upper Juruá Extractive Reserve, estate of Acre,
from 1994 to 2002.
Using the concept of “social networks”, the work treys to demonstrate the dynamic of
these networks along the time and space, showing how they are configured by conflicts about
resources, ideas and persons, and how these factors keep reinforcing those networks.
These disputes are seem through the networks formed by the action of environmental
agencies, Universities and NGOs which bring human and material resources and ideas linked to
the concept of Extractive Reserves, and others networks which connect local government, old
“patrões”, traders and others public agencies with others development projects to the region.
In this context, following how relations among dwellers, local leaders and some external
agents happen, it was observed relations that could be named as participative or based on the
‘assistencialism’, but here are seem as a result of intensive politicization of the population, in
which the dwellers are frequently assuming political risks in the handing the loose and gain
possibilities in the networks configuration dynamic.

xii
SUMÁRIO RESUMIDO

CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 1

CAPÍTULO 2 - HISTÓRIAS SOBRE O “TEMPO DOS PATRÕES” ................................................................ 75

CAPÍTULO 3 - A CRIAÇÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA E AS NOVAS REDES ............................... 133

CAPÍTULO 4 - O NOVO DESENVOLVIMENTO E A POLÍTICA LOCAL .................................................. 211

CAPÍTULO 5 - COTIDIANO, PARENTESCO, VIZINHANÇA E POLÍTICA ............................................... 301

CAPÍTULO 6 - O “TEMPO DA POLÍTICA” NA CIDADE ............................................................................. 375

CAPÍTULO 7 - CONCLUSÕES ........................................................................................................................ 425

BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................................ 445

xiii
SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 1

1.1 - APRESENTAÇÃO .......................................................................................................................................... 1


1.2 - LOCALIZAÇÃO ............................................................................................................................................ 2
1.3 - A RESERVA EXTRATIVISTA E A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA............................................................................ 7
1.4 - AS PESQUISAS DE CAMPO .......................................................................................................................... 12
1.4.1 - As primeiras pesquisas ................................................................................................................ 12
1.4.2 - Outras pesquisas.......................................................................................................................... 17

1.5 - O TEMA DA POLÍTICA ................................................................................................................................ 22


1.6 - DESCRIÇÃO DOS CAPÍTULOS ..................................................................................................................... 25
1.7 - ALGUNS DOS DESAFIOS DOS MORADORES DA RESERVA EXTRATIVISTA DO ALTO JURUÁ ......................... 27
1.7.1 - Uma dificuldade histórica? ......................................................................................................... 27
1.7.2 - Outra dificuldade: disputa de poderes ......................................................................................... 32
1.7.3 - As dificuldades na economia: nova crise da borracha................................................................. 37
1.7.5 - Recursos para a Reserva e a Associação ..................................................................................... 39
1.7.6 - Diminuição de recursos para a Reserva e a Associação .............................................................. 41
1.7.7 - Novos recursos para o município ................................................................................................ 44
1.7.8 - A Associação do novo milênio: “de cabeça para baixo” ............................................................. 48
1.7.9 - Novos movimentos ..................................................................................................................... 54
1.7.10 - As dificuldades e suas muitas explicações ................................................................................ 56

1.8 - ESTUDANDO A POLÍTICA LOCAL E AS REDES SOCIAIS ................................................................................ 65

CAPÍTULO 2 - HISTÓRIAS SOBRE O “TEMPO DOS PATRÕES” .......................................................... 75

2.1 - INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 75


2.2 - OS PRIMEIROS SERINGAIS .......................................................................................................................... 77
2.2.1 - Os seringueiros como vítimas ..................................................................................................... 81
2.2.2 - Os patrões como vítimas: a primeira crise .................................................................................. 83
2.2.3 - Da especialização à diversificação .............................................................................................. 85

2.3 - OS SOLDADOS DA BORRACHA ................................................................................................................... 87


2.4 - ALGUMAS CONTROVÉRSIAS SOBRE O TEMPO DOS PATRÕES ...................................................................... 91
2.4.1 - Seringueiros x patrões: dívidas e violência ................................................................................. 91
2.4.2 - Seringueiros x patrões: dívidas e saldo ....................................................................................... 93
2.4.3 - Seringueiros x patrões: dívidas e fugas ....................................................................................... 95
2.4.4 - Patrões pequenos, médios e grandes ........................................................................................... 97

xv
2.4.5 - Patrões x patrões ......................................................................................................................... 98
2.4.6 - Patrões x marreteiros e regatões ................................................................................................ 100
2.4.7 - Patrões, seringueiros e o sistema capitalista.............................................................................. 103
2.4.8 - Dívida fictícia, dívida justa, dívida desejada............................................................................. 107
2.4.9 - Consenso, coerção, e redes........................................................................................................ 110

2.5 - OS PATRÕES, PELOS SERINGUEIROS ......................................................................................................... 117


2.5.1 - Discursos divergentes ............................................................................................................... 118
2.5.2 - Quem conta um conto... faz uma escolha política ..................................................................... 128

CAPÍTULO 3 - A CRIAÇÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA E AS NOVAS REDES ......................... 133

3.1. - INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................... 133


3.1.1 - “A população” e “os mediadores”............................................................................................. 134

3.2 - A AMAZÔNIA E OS MILITARES................................................................................................................. 140


3.3 - O MOVIMENTO DOS SERINGUEIROS NO ALTO ACRE ................................................................................ 143
3.3.1 - Dos primeiros empates à proposta da Reserva Extrativista....................................................... 145
3.3.2 - O movimento de seringueiros e de aliados................................................................................ 150
3.3.3 - A proposta dos extrativistas e a crise do extrativismo .............................................................. 151

3.4 - MUDANÇAS E CONTINUIDADES NO ALTO JURUÁ .................................................................................... 153


3.4.1 - Os patrões, o Estado e o mercado ............................................................................................. 154
3.4.2 - Mudanças no processo de trabalho............................................................................................ 157

3.5 - JOÃO CLAUDINO E O STR ....................................................................................................................... 159


3.5.1 - Algumas considerações sobre as histórias de João Claudino .................................................... 167
3.5.2 - Outras redes, outros caminhos .................................................................................................. 170

3.6 - REVOLTA, GREVE, GRANDES REUNIÕES .................................................................................................. 172


3.6.1 - Chico Ginu ................................................................................................................................ 172
3.6.2 - Mauro Almeida ......................................................................................................................... 178
3.6.3 - Antonio Macedo........................................................................................................................ 179
3.6.4 - Ginu, Almeida, Macedo, Funtac, BNDES... ............................................................................. 184

3.7 - CONFLITOS, VIOLÊNCIA, “HEGEMONIA CONTESTADA” ............................................................................ 186


3.7.1 - a família de Milton Gomes ........................................................................................................ 191
3.7.2 - A procissão dos barcos e o fim do monopólio .......................................................................... 194
3.7.3 - A criação da Reserva Extrativista ............................................................................................. 195

3.8 - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES .................................................................................................................... 196

xvi
3.8.1 - Os donos das idéias e os donos dos problemas ......................................................................... 196
3.8.2 - Mediadores, xamãs, cipós, máquinas fotográficas, redes .......................................................... 201

CAPÍTULO 4 - O NOVO DESENVOLVIMENTO E A POLÍTICA LOCAL ........................................... 211

4.1 - INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 211


4.2 - O PRIMEIRO PROJETO: A COOPERATIVA ................................................................................................... 216
4.2.1 - O fracasso da cooperativa ......................................................................................................... 218

4.3 - A NOVA ASSOCIAÇÃO ............................................................................................................................. 228


4.3.1 - Os novos projetos e a Associação ............................................................................................. 228
4.3.2 - Velhos e novos líderes da Associação....................................................................................... 230
4.3.3 - Associação x Prefeitura ............................................................................................................. 234
4.3.4 - O novo governo estadual e a Associação .................................................................................. 239
4.3.5 - O sucesso da cooperativa .......................................................................................................... 240
4.3.6 - A nova Associação, o governo estadual e a política municipal................................................. 243

4.4 - A TENTATIVA DE CONTROLE AMBIENTAL: OS FISCAIS E O IBAMA ........................................................... 245


4.4.1 - Os fiscais ................................................................................................................................... 246
4.4.2 - Dinheiro, violência, autoridade ................................................................................................. 250
4.4.3 - Questão ambiental e política partidária ..................................................................................... 253
4.4.4 - Educação e voluntarismo .......................................................................................................... 258

4.5 - O PROJETO DE MONITORAMENTO AMBIENTAL - PESQUISADORES, ASSOCIAÇÃO E PREFEITURA .............. 261


4.5.1 - O monitoramento participativo ................................................................................................. 261
4.5.2 - A proposta da administração do Projeto ................................................................................... 264
4.5.3 - As primeiras discordâncias ....................................................................................................... 266
4.5.4 - O projeto de pesquisa no contexto Prefeitura x Associação ...................................................... 271
4.5.5 - Dificuldades da administração .................................................................................................. 279
4.5.6 - Resultados inesperados ............................................................................................................. 282

4.7 - O PROJETO DE SANEAMENTO - GOVERNO, PREFEITURA E A ASSOCIAÇÃO ............................................... 285


4.8 - TÉCNICA, NEUTRALIDADE, POLÍTICA ...................................................................................................... 288
4.8.1 - Novos projetos e o novo clientelismo ....................................................................................... 291

4.9 - DESENVOLVIMENTO, AUTONOMIA E DEPENDÊNCIA ................................................................................ 295


4.9.1 - O velho desenvolvimento: a pecuária para todos ...................................................................... 295

CAPÍTULO 5 - COTIDIANO, PARENTESCO, VIZINHANÇA E POLÍTICA ........................................ 301

xvii
5.1 - INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 301
5.2 - O RIO AMÔNIA ........................................................................................................................................ 303
5.3 - PARENTESCO E VIZINHANÇA ................................................................................................................... 307
5.3.1 - A alimentação diária: cálculo de muitas variáveis .................................................................... 307
5.3.2 - A família ................................................................................................................................... 314
5.3.3 - “Famílias ampliadas” ................................................................................................................ 319
5.3.4 - Relações de vizinhança - solidariedade, tensão e magia ........................................................... 324
5.3.5 - Questões entre vizinhos............................................................................................................. 329

5.4 - LIDERANÇA E POLÍTICA........................................................................................................................... 336


5.4.1 - Líderes locais e recursos públicos ............................................................................................. 343
5.4.2 - Casas-de-farinha........................................................................................................................ 345
5.4.3 - O comércio ................................................................................................................................ 351
5.4.4 - Outros equipamentos e recursos públicos ................................................................................. 358
5.4.5 - A nova Terra Indígena no médio Amônia ................................................................................. 360

5.5 - O ALTO TEJO .......................................................................................................................................... 362


5.5.1 - A Associação e os antigos patrões ............................................................................................ 362
5.5.2 - A chegada da Prefeitura ............................................................................................................ 366

5.6 - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ................................................................................................................... 371

CAPÍTULO 6 - O “TEMPO DA POLÍTICA” NA CIDADE ....................................................................... 375

6.1 - INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 375


6.2 - A CIDADE NA ELEIÇÃO ............................................................................................................................ 379
6.2.1 - As panfletagens ......................................................................................................................... 380
6.2.2 - Os agrados - candidatos e eleitores ........................................................................................... 382
6.2.3 - Os agrados - candidatos e seus outros apoiadores ..................................................................... 385
6.2.4 - Os agrados - candidatos e candidatos ........................................................................................ 387
6.2.5 - As mentiras ............................................................................................................................... 387
6.2.6 - Presentes, infidelidades, riscos .................................................................................................. 389
6.2.7 - A véspera da eleição ................................................................................................................. 391
6.2.8 - O dia da eleição ......................................................................................................................... 393
6.2.9 - A apuração ................................................................................................................................ 394

6.3 - RESULTADOS .......................................................................................................................................... 396


6.3.1 - Os ganhadores ........................................................................................................................... 396
6.3.2 - Lealdade e escolha .................................................................................................................... 401

6.4 - ALGUMAS COMPARAÇÕES ENTRE AS ELEIÇÕES NA CIDADE E NA RESERVA EXTRATIVISTA..................... 406


6.4.1 - Eleições na Reserva Extrativista ............................................................................................... 406
xviii
6.4.3 - O “pedir”, o “adular” e o “ humilhar” ....................................................................................... 409

CAPÍTULO 7 - CONCLUSÕES ..................................................................................................................... 425

BIBLIOGRAFIA .............................................................................................................................................. 445

ANEXO 1 - PLANO DE UTILIZAÇÃO ........................................................................................................... 459

ANEXO 2 - CRONOLOGIA.............................................................................................................................. 465

ANEXO 3 - LISTA DAS DIRETORIAS ELEITAS PARA A ASAREAJ ........................................................ 473

ANEXO 4 - FOTOS ........................................................................................................................................... 475

xix
SIGLAS UTILIZADAS

• ASAREAJ - Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto


Juruá
• ASATejo - Associação dos Seringueiros e Agricultores da Bacia do rio Tejo
• BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
• CEDI - Centro Ecumênico de Documentação e Informação
• CIFOR - Center International of Forestry Research
• CIMI - Conselho Indigenista Missionário
• CLT - Consolidação das Leis do Trabalho
• CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
• CNPT - Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentável para Populações Tradicionais
• CNS - Conselho Nacional dos Seringueiros
• CONTAG - Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura
• CTA - Centro dos Trabalhadores da Amazônia
• CUT - Central Única dos Trabalhadores
• Emater - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
• Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
• Finep - Financiadora de Estudos e Projetos
• FUNTAC - Fundação de Tecnologia do Acre
• Ibama - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
• IMAC - Instituto de Meio Ambiente do Acre
• Imazon - Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia
• INESC - Instituto de Estudos Sócio-Econômicos
• INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
• ISA - Instituto Socioambiental
• MDB - Movimento Democrático Brasileiro
• MMA - Ministério do Meio Ambiente
• ONGs - Organizações Não Governamentais
• PA - Projeto de Assentamento
• PDS - Partido Democrático Social
• PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro
• PPG-7 - Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil
• Probor - Programa de Incentivo à Produção de Borracha Vegetal
• PT - Partido dos Trabalhadores
xxi
• PV - Partido Verde
• REAJ - Reserva Extrativista do Alto Juruá
• Resex - Reserva Extrativista
• SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação
• STR - Sindicato dos Trabalhadores Rurais
• Sudhevea - Superintendência da Borracha
• TI - Terra Indígena
• TORMB -Taxa de Organização e Regulamentação do Mercado da Borracha
• UDR - União Democrática Ruralista
• UFAC - Universidade Federal do Acre
• UnB - Universidade de Brasília
• Unicamp - Universidade de Campinas
• USP - Universidade de São Paulo
• WWF - World Wildlife Fund
• ZEE - Zoneamento Econômico Ecológico

xxii
CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO

1.1 - Apresentação

A Reserva Extrativista do Alto Juruá, no estado do Acre, pode ser considerada

como a primeira conquista agrária, de caráter popular, definida ao mesmo tempo como

unidade de conservação e de uso sustentável.

Criada em 1990, a Reserva Extrativista do Alto Juruá, surgiu no contexto em que

populações habitantes da floresta amazônica, ao final da década de 1970, passaram a

reivindicar a participação no “processo de discussão pública de todos os projetos

governamentais nas florestas habitadas por índios e seringueiros” e também na construção

de “modelos de desenvolvimento que respeitem o modo de vida, as culturas e tradições dos

Povos da Floresta, sem destruir a natureza e melhorando a sua qualidade de vida” 1.

Nesse processo, moradores não indígenas das florestas e também de outras áreas de

interesse ambiental, foram mais tarde chamados de “povos” ou “populações tradicionais”,

e, conforme Carneiro da Cunha & Almeida (2001:192), poderiam ser definidos como uma

categoria

(...) ocupada por sujeitos políticos que estão dispostos a conferir-lhe substância, isto é, que estão
dispostos a constituir um pacto: comprometer-se a uma série de práticas, em troca de algum tipo de
benefício e sobretudo de direitos territoriais.

Esta tese teve por objetivo discutir a experiência dos moradores da Reserva

Extrativista do Alto Juruá à luz desse pacto, num contexto em que os habitantes da floresta

1
Conforme estabelecido no documento aprovado no segundo Encontro Nacional dos Povos da
Floresta (em Rio Branco, no Acre, em 31/03/94) (citado por Wagner,1993: 9).
1
amazônica passam a ser considerados como interlocutores das discussões sobre os destinos

da floresta. E, a partir disso, a importância em perceber suas formas de fazer a política e

construir seu futuro.

Para refletir sobre essa experiência serão utilizadas informações obtidas em viagens

de pesquisa na Reserva Extrativista região ao longo dos anos de 1994 a 2002, e também

algumas observações feitas na cidade de Cruzeiro do Sul, principal cidade do vale do rio

Juruá acreano, sede da Associação dos moradores desta Reserva.

Ao longo desse período várias mudanças ocorreram na região, assim como

mudaram minhas próprias formas de pensar e de me relacionar com as pessoas, com as

teorias sociais e com as propostas para a Amazônia. Esta tese é uma tentativa de

acompanhar algumas dessas mudanças, tendo como foco as relações políticas, sob esse

olhar que se altera com o tempo.

1.2 - Localização

A Reserva Extrativista do Alto Juruá localiza-se no município de Marechal

Thaumaturgo, noroeste do estado do no Acre, e é formada pela região do vale do rio Juruá

acreano, entre a fronteira com o Peru e a foz do rio Amônia. Daqui em diante, “Reserva

Extrativista” ou “Reserva”, será sempre referência à Reserva Extrativista do Alto Juruá.

O rio Juruá nasce no Peru e segue pela Amazônia brasileira até desaguar no rio

Solimões, no estado do Amazonas. Dentro dos limites da Reserva, o rio Juruá tem como
2
afluentes do lado esquerdo, (para quem desce o rio), os rios Arara e o Amônia e, do lado

direito, os rios Breu, São João, Acuriá, Caipora e o rio Tejo. Considera-se aqui essa região

como o “Alto Juruá”.2

Dentro da Reserva Extrativista, o rio Tejo é o de maior tamanho, tem vários

afluentes habitados e é a região que apresenta a maior incidência de seringueiras. As

seringueiras são árvores que se reproduzem dispersas naturalmente pela mata das quais é

extraído o látex utilizado para a produção da borracha3. Antes da criação da Reserva as

cabeceiras de alguns desses afluentes foram conquistados por grupos indígenas e, a Reserva

por isso, tem em suas fronteiras a Terra Indígena (TI) Arara, localizada no alto Bagé; a TI

Kampa do Rio Amônia (pertencente a índios Ashaninka) e a TI Kaxinawá/Ashaninka do

Rio Breu. Atualmente há duas novas TIs sendo reivindicadas, uma no alto do rio Tejo e

outra no médio rio Amônia, sobre as quais serão feitos à frente alguns comentários.

A Reserva Extrativista situa-se numa região considerada de alta diversidade

biológica (com características ambientais que puderam ser observadas tanto na Amazônia

andina quanto no baixo Amazonas), e também de alta diversidade social, onde conviveram,

ao longo do tempo, e de diferentes modos, povos indígenas de língua Pano, como os

Jaminawa ou os Kaxinawá e povos de língua Aruaque, como os Ashaninka, com migrantes

que vieram trabalhar na extração da borracha, provenientes de várias partes do Brasil, e

especialmente do Nordeste do país (Carneiro da Cunha & Almeida, 2002:17).

2
Entre os moradores, a região chamada de “Alto Juruá” corresponde a uma faixa maior, que se inicia
no município de Porto Walter, rio abaixo.
3
Daí a diferença entre “seringal nativo” e o “seringal de cultivo”, onde as seringueiras são plantadas
seguidas umas às outras.
3
A Reserva também faz fronteira com o Parque Nacional da Serra do Divisor, que

ocupa partes de cinco municípios do rio Juruá acreano. Desse modo, a Reserva é parte de

um mosaico de áreas protegidas que, em 2000, era composto por 19 terras indígenas, três

Reservas Extrativistas e mais o Parque Nacional da Serra do Divisor, uma área que abrange

22% da área total do estado (Iglesias e Aquino, 2000:141).

Em 1992, a Reserva passou também a fazer fronteira com a sede do município de

Marechal Thaumaturgo, criado nesse ano e, desde 1996, com um Projeto de Assentamento,

ambos estabelecidos às margens do rio Amônia.

Mapa 1 - Localização da Reserva Extrativista do Alto Juruá - Acre - Brasil

Cruzeiro do Sul

Acre
Peru
Bolívia

REAJ
Marechal Thaumaturgo
Rio Branco

100 0 100 Km

4
Imagem 1 - Reserva Extrativista do Alto Juruá

Fonte: Imagem Landsat ETM de 2000 - Elaborado por Mauro W. B. de Almeida

5
Mapa 2 – Reserva Extrativista, Parque Nacional e Terras Indígenas

Fonte: Ibama – Ministério do Meio Ambiente

Mapa 3 - Estradas, desmatamento, Reservas Extrativistas e Terras Indígenas do Acre

Fonte: CD ROM do Instituto Socioambiental preparatório para o Encontro “Biodiversidade na


Amazônia Brasileira: avaliação e ações prioritárias para a conservação, uso sustentável e repartição de
benefícios” (ver Capobianco, et alii (orgs.), 2001)

6
1.3 - A Reserva Extrativista e a participação política

Seringueiros e agricultores de diferentes regiões da Amazônia, entre as décadas de

1970 e 1980, vivendo dispersos e isolados, por um bom tempo quase invisíveis sob uma

imensa floresta verde, sem acesso à educação formal e aos meios de comunicação, sem

apoio político partidário nem de instituições religiosas, mas aliando-se a pessoas de

diferentes instâncias, conseguiram realizar uma profunda ruptura nas relações existentes

nas florestas onde viviam: destruíram a secular estrutura fundiária, a Lorganização

econômica e modificaram profundamente a organização local dos seringais. Enfrentando os

patrões4 - considerados os donos dos seringais - romperam as antigas redes de comércio

patronal que consideravam injustas, criaram uma alternativa comercial feita por eles

próprios, e, ao longo desse processo, construíram uma nova categoria fundiária, a “Reserva

Extrativista”, que foi reconhecida e oficializada pelo Estado brasileiro em 1990. No estado

do Acre, as Reservas Extrativistas transformaram grandes seringais em terras da União,

sujeitas a contrato de concessão de uso às famílias moradoras e passando a ser

administradas por um órgão federal, o Ibama 5 que, por sua vez, pretende administrar em

conjunto com essa população.

4
Alguns autores também utilizam o termo “seringalista” para designar os proprietários dos seringais,
termo que não é usado na região.
5
O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis),
subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, torna-se o órgão responsável pelas Reservas Extrativistas. Em
1992 é criado, dentro do Ibama, um órgão específico para essa tarefa, o CNPT (Centro Nacional das
Populações Tradicionais).
7
O decreto de criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá, de número 98.863,

assinado pelo presidente José Sarney em 23 de janeiro de 1990, em seu artigo segundo,

estabelece que:

(...) o Ibama, quando da implantação, proteção e administração da Reserva Extrativista do Alto


Juruá, poderá celebrar convênios com as organizações legalmente constituídas, como cooperativas e
associações existentes na Reserva, para definir as medidas que se fizerem necessárias à implantação
6
da mesma (Brasil - MMA, 1995).

Em seguida, o decreto 98.897, que dispõe sobre as Reservas Extrativistas em geral,

em 30 janeiro de 1990, definiu essas Reservas como:

“espaços territoriais destinados à exploração auto-sustentável e conservação dos recursos renováveis,


por população extrativista” (Brasil-MMA, 1995).

Para estabelecer o que seria esse “uso sustentável”, foi determinado que todas as

Reservas Extrativistas tivessem um plano que estabelecesse regras para a utilização dos

seus recursos, que deveria ser aprovado pelo Ibama. Assim, em 1991, em uma disputada

assembléia de moradores, foi aprovado o “Plano de Utilização da Reserva do Alto Juruá”,

no qual foram determinadas regras para o uso dos recursos florestais e hídricos, que por sua

vez, foi baseado em normas locais já existentes, como as formas consideradas mais

adequadas para a sangria das seringueiras, árvores que devem ser protegidas, técnicas de

caça e pesca localmente consideradas não predatórias, dentre outras (ver Anexo 1).

Conforme determinado no Plano:

Todos os moradores são responsáveis pela execução do Plano, como co-autores, co-responsáveis na
gestão da Reserva e únicos beneficiários da mesma. De forma mais direta a Associação de
Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá - ASAREAJ - responde pelo Plano
(Brasil-MMA, 1995:15).

6
É interessante observar que esse artigo não consta no decreto de criação de outras Reservas, como
o caso da Reserva Extrativista Chico Mendes, criada logo em seguida à do Alto Juruá (Brasil, MMAa, 1995).
8
Assim, o não cumprimento daquelas regras significaria “quebra do compromisso

dos moradores de utilizar a Reserva (...)”, resultando “na perda do direito de uso por parte

do infrator (...)” (Brasil-MMA, 1995:15-16).

Novamente conforme o decreto 98.897, o Estado, através do Ibama, teria a

responsabilidade de “acompanhar o cumprimento das condições estipuladas no contrato”.

E, conforme documento aprovado pelos moradores, essa responsabilidade deveria ser

dividida com a população:

As comunidades de seringueiros e agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá, por meio da


sua Associação, reivindicaram ao Ibama, a sua participação no apoio às ações de fiscalização da
Reserva, com o objetivo de proteger os recursos naturais daquela área. (Brasil - MMA, 1995)

Com isso, pode-se notar que uma população que até então vivera “sujeita” aos

patrões, como se afirma localmente, tornava-se co-responsável por uma floresta de cerca

500 mil hectares, onde então viviam aproximadamente 900 famílias de seringueiros e

agricultores ribeirinhos, conforme o cadastro de moradores realizado em 1991 (Almeida &

Menezes, 1994:188). A população (representada por uma Associação) e Estado, assumem,

assim, a tarefa de produzir esse novo desenvolvimento sem destruir os recursos da floresta.

Essa conquista é a oficialização de uma longa história de reivindicações de um

grupo de pessoas que se intitulou “os seringueiros” (por sua principal ocupação econômica

ser a coleta do látex das seringueiras da mata, ainda que nem todos fossem mesmo

seringueiros). Ela representava a busca, até então sem precedentes, dessa população

participar das mesas de decisão sobre o futuro da Amazônia.

9
Ninguém sabia exatamente, ou sabe hoje, explicitamente o que significa esse

desenvolvimento que gera qualidade de vida e conservação ambiental. Mas o que já era

sabido desde a década de 1980 é que o modelo de desenvolvimento anterior era falho. Com

o Regime Militar, para promover o que se chamava de “integração nacional” que protegeria

a Amazônia das invasões estrangeiras, foi incentivada a construção de estradas e a

formação de fazendas para retirada de madeiras e criação de gado, o que teve por

conseqüência a destruição da floresta e de formas de sociabilidade como a de índios e

seringueiros, que acabaram sendo expulsos para cidades, cada vez maiores, mais pobres e

mais violentas, além de não produzirem a integração e o desenvolvimento esperados

(Schmink e Wood, 1992, Hecht & Schwartzmann, 1988).

Para o governo militar, entre as décadas de 1960 e 1970, a Amazônia era

considerada como um “espaço-vazio” ou o “celeiro do mundo”, e os projetos de

desenvolvimento agroindustrial eram reflexos de crença quase-religiosa nas virtudes do

avanço tecnológico como uma maneira de promover o bem estar geral (conforme resumido

anteriormente em Costa, 1998:50), alocando consideráveis recursos, nacionais e obtidos em

convênios internacionais, para incentivar empresários do setor privado a investir seus

excedentes na região amazônica. Como observado por Schmink e Wood (1992: 347):

Na visão tecnocrática predominante, os produtores pobres - assim como seringueiros, mineiros e


extrativistas florestais e os povos nativos - eram ignorados, ou de forma ainda mais preocupante,
eram tratados como obstáculos ao caminho do progresso e da civilização.

Entre as explicações posteriores para o fracasso desse modelo estavam dois

equívocos: não dar valor à floresta em pé (vista apenas como espaço para atividades

10
madeireiras, agricultura e mineração) e ignorar as experiências de diferentes populações

que há anos e anos viviam na Amazônia usando seus recursos sem extingui-los.

Com o movimento de índios e seringueiros da Amazônia, essa visão começa a se

alterar radicalmente, e aquela população local se transforma, aos olhos de muitos, em

protagonista do futuro de uma região e de uma floresta cujos recursos passam agora a se

tornar interesse, em princípio, de toda a humanidade.

Terras Indígenas, muitas vezes criticadas como lugares de “muita terra para pouco

índio”, ao final da década de 1990, passaram a ser consideradas, até em revistas de

divulgação nacional, capazes de produzir verdadeiros “paraísos ecológicos” (conforme

discutido em Carneiro da Cunha e Almeida, 2001: 187). Como oposto aos projetos de

desenvolvimento surgidos nos gabinetes, instaura-se a concepção de que “as pessoas mais

qualificadas para fazer a conservação de um território são as pessoas que nele vivem

sustentavelmente” (idem, 187).

Essa expectativa permanece, como pode-se perceber, por exemplo, após a

aprovação das regras para o SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), em

2000. Como afirma Renata Sant’Anna (2003:123):

Agora, dizem alguns, que a lei foi aprovada e regulamentada, é hora de as populações tradicionais
colocarem o SNUC em prática, assumirem seu papel de ‘essenciais à conservação’ e mostrar que as
propostas aprovadas são viáveis.

Nesse movimento, tornou-se necessário deixar estabelecido quem eram essas

pessoas “que vivem sustentavelmente”, as quais seriam, portanto, “qualificadas” para

participar dessa nova maneira de pensar as áreas de interesse ambiental. Ao lado dos índios,

11
os moradores dessas áreas passaram a ser chamadas de “populações” ou “povos

tradicionais”, categoria social, conforme Carneiro da Cunha & Almeida (2001:192):

(...) ocupada por sujeitos políticos que estão dispostos a conferir-lhe substância, isto é, que estão
dispostos a constituir um pacto: comprometer-se a uma série de práticas, em troca de algum tipo de
benefício e sobretudo de direitos territoriais.

Este trabalho procura acompanhar como os seringueiros do Alto Juruá, ao

conquistarem o território da Reserva Extrativista, deram conta desse pacto.

1.4 - As pesquisas de campo

Apresento a seguir algumas um resumo das atividades realizadas na Reserva

Extrativista do Alto Juruá e em outros locais do estado do Acre que deram origem a este

trabalho.

1.4.1 - As primeiras pesquisas

Este trabalho iniciou-se em 1994 com uma estadia de seis meses na Reserva

Extrativista do Alto Juruá e estendeu-se em mais dez viagens que variaram de três meses a

dez dias, até o ano de 2002. Durante esse período participei de diferentes projetos na

região, todos eles sob coordenação, exclusiva ou não, do professor Mauro William Barbosa

de Almeida, também orientador deste trabalho.

12
A primeira pesquisa de campo foi realizada no âmbito do Projeto de Pesquisa

multidisciplinar: “Populações tradicionais da floresta podem gerenciar áreas de

conservação? Uma experiência na Reserva Extrativista do Alto Juruá, Acre” e teve

financiamento da Fundação John D. and Catherine T. MacArthur, coordenado pelos

professores Maria Manuela C. da Cunha e Mauro William Barbosa de Almeida, na área

antropológica e pelo professor Keith S. Brown Jr. na área biológica. Esse projeto procurava

discutir a viabilidade das Reservas Extrativistas, tendo por base as experiências da Reserva

Extrativista do Alto Juruá. Dentro dessa perspectiva, eu e mais cinco estudantes de

graduação elaboramos etnografias em diferentes locais da Reserva e, ao final desse período,

juntamente com outros pesquisadores, aplicamos um questionário socioeconômico em 240

residências, procurando confrontar dados localizados com uma visão mais panorâmica da

Reserva7.

Essa pesquisa, bem como todas as outras que se seguiram na região, sempre foi

realizada como parte de projetos de pesquisa coletivos.

Na primeira pesquisa, que teve maior duração de campo, permaneci em três

diferentes localidades da Reserva: no médio rio Amônia, aonde se chega com duas ou três

horas de viagem em canoa motorizada, partindo-se da sede do recém criado município de

Marechal Thaumaturgo; e no alto rio Amônia, já na fronteira com a TI Kampa e, por

último, numa colocação localizada no igarapé Manteiga, afluente do Alto Tejo8, já mais

7
Os dados desses questionários foram codificados e analisados pelo Centro de Estudos e Opinião
Pública (Cesop), na Universidade Estadual de Campinas, sob coordenação da Profa. Rachel Meneghello.
8
O chamado “Alto Tejo” é a região que se inicia a partir da foz do igarapé Riozinho, onde se
localiza a Restauração, antigo barracão de patrões, local de encontro, festas, capela, e, depois, cantina da
13
distante da sede municipal, cerca de dois a três dias de viagem por canoa e em caminhadas

por trilhas.

Mapa 3 - Principais locais de pesquisa

Elaborado a partir de dados do Encontro: Biodiversidade na Amazônia Brasileira: avaliação e ações


prioritárias para a conservação, uso sustentável e repartição de benefícios - do CD ROM ISA
(Instituto Socioambiental) - Consulta Macapá 1999 (Capobianco et alii, 2001)

Essa primeira viagem de campo iniciou-se em agosto de 1994, quando saí de

Cruzeiro do Sul, a principal cidade do vale do rio Juruá no território acreano - local de

Associação. A partir da Restauração o rio torna-se mais encachoeirado e navegável quase que somente no
inverno amazônico. O Manteiga desemboca no igarapé Riozinho, já próximo à foz deste. Atualmente a
Restauração foi alçada a categoria de Vila.
14
chegada do avião e de compras - num pequeno batelão de cinco toneladas, juntamente com

mais dez pessoas9. Após cinco dias no barco, muitas vezes arrastado pela areia do rio por

causa do período de seca, chegamos à sede da Associação na Reserva, na Foz do rio Tejo.

Ali fomos recepcionados pelo então presidente da Associação10, Chico Ginu

(Francisco Barbosa de Melo), pelo vice-presidente Antonio Mascena e por um dos

principais líderes dos movimentos que tinham dado origem à Reserva, Antonio Luiz Batista

de Macedo.

No dia seguinte, em reuniões com as pessoas da Associação e a coordenação do

projeto, foi feita a decisão final sobre os lugares em que cada um dos estudantes

permaneceria (foto 111). Cada um ficaria cerca de dois meses em uma localidade diferente.

Ao final de cada bimestre os pilotos viriam com uma canoa buscar cada um de nós para um

reencontro rápido para troca de experiências e elaboração de relatórios parciais

A primeira informação que obtive sobre o rio Amônia foi que ele era um lugar de

“conflitos”. Logo descobri que também era um lugar de mágoas. Moradores que haviam

sido expulsos do alto do rio Amônia, para a criação da Terra Indígena Kampa, tinham

9
Nesse batelão vinham onze pessoas: o prof. Mauro W. B. de Almeida, a antropóloga e hoje
professora Mariana Ciavatta Pantoja, na época coordenadora das atividades locais, as bolsistas Andréa
Martini, Marisa Barbosa Luna e Gabriela Jahnel Araújo, então colegas minhas da graduação em Ciências
Sociais da Unicamp e Alexandre Goulart de Andrade, estudante de Economia da Universidade de São Paulo.
No mesmo barco também vinha o agrônomo Ruy Wolff, que mais tarde moraria por um ano na Reserva com
sua esposa Cristina Wolff; um estudante holandês em rápida viagem local, e também os pilotos Tita
(Francisco Nogueira de Queiroz) e Edir da Silva França, que além de pilotarem o barco com todas as
dificuldades do período seco, ainda foram extremamente gentis e pacientes com nossas iniciais trapalhadas na
região.
10
O Anexo 2 traz uma lista das chapas eleitas da diretoria da ASAREAJ.
11
As fotos estão reproduzidas no Anexo 4.
15
vindo morar rio abaixo e ainda reclamavam da mudança. Muitos lamentavam sobre a

dificuldade em encontrar madeiras-de-lei, que tinham sido exploradas ao longo de uma

grande faixa na margem do rio, por um ex-patrão (Orleir Cameli) que depois se tornara

governador. Muitos reclamavam do aumento de pressão sobre os recursos animais das

matas próximas e do rio, causada pelo crescente aumento da população da sede municipal,

que acorriam à região em busca de caça e pesca. Era uma região em que seringueiros

estavam aos poucos diminuindo as atividades de extração da borracha, passando a dedicar-

se principalmente à agricultura. A sede municipal também fazia com que a Prefeitura, ao

lado da Associação, fosse uma importante referência política local.

Nos últimos meses fui para o igarapé Manteiga, região bastante diferente das

anteriores e onde a ocupação principal era a extração da borracha, sendo praticamente

inviável o transporte de produtos agrícolas até a cidade. Naquele momento, ali, a Prefeitura

era uma vaga referência, e a sede municipal um lugar visitado praticamente só em viagens

anuais.

Nunca é demais repetir que não tem fim a dívida que tenho a essas famílias que,

com uma paciência e hospitalidade inigualáveis, me aturaram em suas casas e

generosamente abriram um pouco do seu modo de vida na floresta para mim.

No último mês eu me encontraria novamente com os outros pesquisadores e,

conhecendo um pouco melhor a realidade local, foram aplicados 250 questionários para um

levantamento socioeconômico, quando também contamos com a ajuda da antropóloga

Mariana C. Pantoja, da socióloga Louise Silberling e da professora Maria Manuela

Carneiro da Cunha, também coordenadora do Projeto.


16
A nossa primeira recepção na Reserva foi acompanhada de uma cerimônia de

cipó12, ministrada por Antonio Macedo, logo na noite de nossa chegada. Penso hoje que

aquela era também uma maneira de nos conhecer, para além das aparências formais. A

maioria da equipe participou, e eu lembro que, em determinado momento do ritual, desatei

a falar com um senhor que estava ao meu lado, que também era membro da diretoria da

Associação, desabafando minhas ansiedades por estar naquele lugar diferente, dos receios

que tinha de não dar conta do trabalho, da vontade de conhecer, das dúvidas que então me

atormentavam sobre uma suposta utilidade daquele trabalho, e assim por diante. O senhor

permaneceu calmamente ao meu lado, esperando o efeito do chá diminuir, alertando-me

apenas que eu não precisava dizer nada ainda, que não era necessário ter pressa. Até hoje

penso que essa foi uma das primeiras lições e talvez a mais importante: a Amazônia é um

lugar que tem tempo próprio, diferente, um tempo da floresta. E, para resolver minhas

questões, eu precisava antes, aprender e respeitar esse tempo.13

1.4.2 - Outras pesquisas

Após um ano daquela primeira pesquisa, entre janeiro e fevereiro de 1996 tive a

oportunidade de retornar às mesmas casas em que permaneci anteriormente, revendo

12
Cipó ou ayhuasca são alguns dos nomes locais para o chá preparado a partir das folhas de um
arbusto e de um tipo de cipó, com poderes alucinógenos e que é utilizado em rituais de alguns grupos
indígenas e também por alguns grupos de moradores não indígenas. A mesma bebida, mais recentemente, é
utilizada em rituais das seitas religiosas Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha.
13
O texto “Tempo, tempos”, (Costa, 2002a) foi uma primeira tentativa de compreender essa outra
maneira de pensar e viver o tempo.
17
informações e recolhendo novos dados para a Enciclopédia da Floresta14, ainda no âmbito

do Projeto de Pesquisa financiado pela Fundação John D. and Catherine T. MacArthur.

Fiz mais duas viagens à Reserva, em fevereiro de 1997 e janeiro de 1998, também

voltando à maioria dos mesmos locais já pesquisados, como parte das atividades do

“Projeto de Pesquisa: Economia Doméstica e Usos da Floresta: um estudo de caso na

Reserva Extrativista do Alto Juruá”, coordenado pelo professor Mauro B. de Almeida e o

professor Manuel Ruiz-Perez, com financiamento do convênio estabelecido entre o

Departamento de Antropologia da Unicamp e o CIFOR (Center International of Forestry

Research). Este projeto buscava acompanhar as estratégias econômicas e ecológicas dos

moradores da Reserva num dos períodos de maior crise local da economia da borracha

(entre 1996 e 1998) 15.

Em 1998, passei um mês na cidade de Cruzeiro do Sul, quando pude ter muitas

conversas com lideranças da Reserva que moravam na cidade, e acompanhar o período

anterior às eleições para presidente, governo e deputados, permitindo perceber algumas

diferenças entre a vida política na cidade e no seringal.

Em agosto de 1999, com recursos de Projeto da Fundação de Amparo à Pesquisa do

Estado de São Paulo (FAPESP), coordenado pela professora Manuela C. da Cunha, fiz uma

nova viagem ao Juruá, fazendo rápidas paradas em lugares diferentes de toda a Reserva,

14
O livro Enciclopédia da Floresta: conhecimentos e práticas das populações, organizado por
Manuela C. da Cunha e Mauro W. B. de Almeida (2002) é um dos resultados deste e de outros projetos na
região, no qual pesquisadores de diferentes áreas, em diálogo com a população de seringueiros e índios da
região do Alto Juruá procuram descrever algumas das características do lugar e da relação das pessoas com o
lugar.
15
O projeto pretendeu analisar estatisticamente as mudanças econômicas na Reserva, relacionando
esses dados com alterações observadas em imagens de satélite ao longo de alguns anos. Parte do resultado
dessa pesquisa foi organizado em artigo (ver Ruiz-Perez et alii (2005)).
18
tendo como um dos objetivos fazer entrevistas com mulheres para um levantamento sobre a

natalidade e mortalidade infantil no interior da Reserva.

Entre 2000 e 2002 participei do Projeto de Pesquisa Demonstrativo “Pesquisa e

Monitoramento Participativos em Áreas de Conservação Gerenciadas por Populações

Tradicionais”, financiado pela União Européia, através da FINEP (Fundação de Estudos e

Projetos, ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia). Esse projeto foi proposto em

conjunto com a ASAREAJ e visava dar continuidade à formação dos monitores sociais e

ambientais.16

Falarei mais à frente sobre esses monitores, mas adianto aqui que são moradores da

Reserva que começaram a fazer anotações sistemáticas sobre as atividades locais de caça,

pesca, alimentação e outros aspectos da vida social local, além de acompanhar a atividade

de animais indicadores da situação ambiental, como anfíbios e borboletas. Cópia do

material produzido por esses monitores está arquivada e disponível no Centro de Estudos

Rurais - da Unicamp, o que deve permitir pesquisas das mais interessantes sobre a vida

social e natural da região. Com esse Projeto, os monitores passaram a ter treinamentos

freqüentes de pesquisadores de diferentes áreas, obtendo por algum tempo uma pequena

ajuda de custo.

No âmbito desse Projeto, eu participava junto com outros pesquisadores de

levantamentos, acompanhava os monitores em suas tarefas - alguns deles moradores das

mesmas casas que inicialmente me hospedaram - organizava viagens e treinamentos de

16
Este projeto, coordenado pelo Prof. Mauro W. B. de Almeida, foi financiado por um convênio
entre a FINEP e a União Européia, dentro do Projeto maior conhecido por PPG-7. A proponente do Projeto
foi a ASAREAJ.
19
outros pesquisadores e, junto com a Associação e sob a coordenação do professor Almeida

fazia a parte administrativa do Projeto.

Participando desse projeto, fiz outras cinco viagens à Reserva e mais quatro

somente até Cruzeiro do Sul, fazendo o acompanhamento dos trabalhos no escritório da

Associação.

Assim, a partir do final da década de 1990, minhas atividades na Reserva

priorizaram levantamentos rápidos que procuravam abranger moradores de diferentes

regiões da Reserva e o acompanhamento das atividades desses monitores, visitando suas

casas, discutindo suas dúvidas. Isso me impediu de acompanhar mais detidamente o

cotidiano local, mas também acabou permitindo um acompanhamento de algumas

mudanças gerais em diferentes locais da Reserva ao longo dos anos.

A partir de 2002 comecei a trabalhar também em outras regiões do estado do Acre.

Em 2002 fiz uma pesquisa de campo para um convênio do Instituto Socioambiental, a

WWF e o governo federal para uma avaliação das atividades ambientais realizadas em

áreas do Acre consideradas de maior interesse ambiental. Nesse período visitei cinco

cidades do estado, entrevistando líderes, freqüentando reuniões de sindicatos e associações

rurais e conversando com membros de órgãos públicos sobre atividades na área

socioambiental17. Em 2004 trabalhei com produtores de açaí da Reserva Extrativista Chico

Mendes e do entorno, na cidade de Brasiléia, acompanhando as suas atividades de

produção, através da ONG Instituto Nawa e, no mesmo ano, fiz uma pesquisa com índios

Jaminawa, no rio Iaco, na cidade de Assis Brasil, no Acre, como membro da equipe de

17
Uma apresentação dessa pesquisa pode ser conferida em Costa (2003).
20
elaboração do etnozoneamento da Terra Indígena Mamoadate, realizado pelo governo do

estado do Acre (Costa, 2005). Pesquisas que, de modo indireto, também foram importantes

para configurar as questões aqui discutidas. Nesse período, além de conhecer outras

populações rurais no estado, também tive a experiência de trabalhar em conjunto (e às

vezes até contra), membros de órgãos públicos e de organizações não governamentais. Por

isso, algumas discussões que serão feitas aqui também são uma tentativa de diálogo com

essas pessoas.

Por último, vale registrar que, em 2003, como uma das últimas atividades do

Projeto Demonstrativo, fiz parte da equipe que acompanhou a visita de oito monitores da

Reserva Extrativista na cidade de Campinas, vindos para conhecer a Universidade e o local

onde estava guardado o material por eles produzido, além de fazer apresentações de seu

trabalho na Unicamp. Poucos pesquisadores puderam ter essa oportunidade de, como diria

Geertz (2001:110), “bisbilhotar a vida de pessoas”, e também serem por elas bisbilhotados,

tendo algumas daquelas mesmas pessoas observando minha própria casa, minha rotina,

minha família, experiência que foi uma tentativa também de retribuir, ainda que de forma

mínima, quase simbolicamente, a enorme hospitalidade dos moradores da floresta (ver foto

28).

21
1.5 - O tema da política

Em meu primeiro trabalho de campo, além do levantamento que eu e os outros

estudantes precisávamos fazer, eu pretendia, inicialmente, estudar as novas formas de

relação de trabalho que surgiam após a saída dos patrões, mas, se bem me lembro das

palavras de Manuela Carneiro da Cunha, não é o antropólogo, mas o “campo” que escolhe

o objeto de pesquisa do antropólogo18.

Logo nos primeiros dias de chegada na Reserva, presenciei um longa conversa do

dono da casa e o vizinho sobre os nove vereadores do município. Fiquei surpresa ao ver que

os dois sabiam os nomes de cada vereador, seus partidos, sua posição em relação ao

prefeito, e como discutiam sobre a postura de cada um daqueles vereadores em relação à

Reserva Extrativista.

As conversas sobre os políticos, seus feitos, suas histórias e fofocas, (fossem eles os

políticos profissionais, como vereadores, prefeito, deputados, ou fossem aqueles que,

embora não denominados de “políticos” tinham importante papel na política local, como os

líderes da Associação e Sindicato), eram uma constante e ocorriam tanto nas casas como

nos roçados, nas visitas a vizinhos, nas viagens.

As conversas também eram sobre “a política” em geral, e era comum ouvir frases

como:

“Eu tenho um sonho, quero ser política” (uma jovem moradora do rio Tejo).
“Você sabe que a política é um trabalho mais sujo que existe no mundo inteiro”.
“Não tem essa pessoa no Brasil que não defenda seu lado político”.
“Tudo que eu pretendo é sem política”.

18
Não tenho muita certeza, mas creio que esse comentário foi feito numa palestra na 25ª. Reunião
Brasileira da Associação Brasileira de Antropologia, em Goiânia, em 2006.
22
“Aqui tem um vício político” que “é o da assistência”.
“Não existe democracia. Talvez na Europa, mas aqui, falta muito"

Desse modo, tal como conta o antropólogo Jorge M. Villela, que foi “tragado” pelo

“tema da política”, “dada a freqüência e intensidade em que o assunto era tratado” no

interior de Pernambuco (Villela, 2005), eu também acabei sucumbindo às animadas e

recorrentes conversas sobre a política, que acabou tornando-se meu principal objeto de

pesquisa.

Inicialmente porque aquela a intensidade com que o tema aparecia nas conversas

contrastava com o que eu via no interior de São Paulo, de onde acabara de sair, onde a

discussão política, de maneira geral, só surgia durante o curto período das campanhas

eleitorais, mesmo assim quase que só exclusivamente em relação aos candidatos aos cargos

do Executivo. E, depois, porque esse interesse pela política tinha afinidade com o

pressuposto que me movera até aquele local: a idéia de que a população local deve ter um

papel importante nas decisões sobre a Amazônia e que isso ocorreria a partir de alguma

forma de sua atuação dessa população junto aos poderes políticos.

Assim, se a proposta da Reserva Extrativista dependia, dentre outros fatores, da

organização política dos moradores (como já discutido em Brown, Almeida & Carneiro da

Cunha, 1994), e a política parecia ser considerada tão importante pelas pessoas, eu

precisava compreender melhor como isso se dava localmente.

Claro que essas conclusões só se tornaram evidentes depois de muito tempo, mas,

conscientemente ou não, minhas diferentes pesquisas e atividades ali e nas outras áreas do

estado, dentro de projetos com diferentes objetivos, acabaram sempre sendo acompanhados
23
pela preocupação de tentar compreender como se configuravam as relações políticas locais,

o que me ajudaria a pensar sobre o papel político da população local nos destinos da

floresta.

Nessa perspectiva, é necessário, inicialmente, deixar claro a que me refiro quando

falo sobre a “política”.

Não tenho pretensões de trabalhar com aquilo que “’do ponto de vista do nativo’ é

considerado como política”, como discute Marcio Goldman (2000:311). Assim, quando um

líder local diz que “tudo que eu faço é sem política”, eu estou pensando aquela afirmação

dentro do que entendo como política (tal como ele, muito provavelmente, também o faça),

embora tentando distinguir o que ele faz do que “os políticos” fazem.

Assim, estou entendendo aqui que “políticos", são pessoas que ocupam cargos

públicos nomeados ou eleitos (sejam em cargos estatais ou dentro de outras organizações

que se pretendem representativas, como associações, conselhos e sindicatos) e considero

“política” como o trato das pessoas com os recursos públicos: sejam recursos naturais

(aqueles socialmente considerados como parte da “natureza” ou do “meio ambiente”),

sejam recursos não naturais (como escolas, postos de saúde, barcos, casas-de-farinha

comunitários, dentre outros). Além disso, é importante lembrar que nem sempre está pré-

determinado o que é público ou o que é privado. Desse modo, também faz parte do que

estou considerando como política as tentativas de transformar algo público em privado

(como a disputa de duas famílias em torno de uma estrada de seringa abandonada) ou

24
transformar algo privado em público (como requisitar à Associação uma reunião para

resolver um problema pessoal com um vizinho).

Utilizo também a idéia de “prática política” para discutir as diferentes formas de

agir em torno dessas questões.

1.6 - Descrição dos capítulos

Dentro da perspectiva colocada acima, na continuidade deste Capítulo 1, apresento

um breve panorama das mudanças surgidas após a criação da Reserva Extrativista,

evidenciando as dificuldades para a expectativa da participação da população nas decisões

sobre seu território. Em seguida, faço um resumo sobre alguns dos autores que discutiram

teoricamente a opção por estudar a política local e as redes sociais.

No Capítulo 2, disserto sobre a organização nos antigos seringais amazônicos, a

partir da releitura de alguns dos autores que pesquisaram a relação entre patrões e

seringueiros. A seguir faço uma discussão sobre as reflexões dos seringueiros sobre esse

período.

O Capítulo 3 é uma tentativa de evidenciar algumas mudanças nas redes sociais

locais a partir dos movimentos sociais que deram origem à criação da Reserva Extrativista.

Procuro, neste capítulo, questionar alguns aspectos sobre a importância algumas vezes

atribuída aos chamados mediadores dos movimentos sociais, tentando refletir sobre essa

25
divisão, mostrando-os como parte do conjunto de pessoas, objetos, acontecimentos e idéias

que atuaram nesse processo.

No Capítulo 4 faço uma discussão sobre as maneiras como as propostas de um

desenvolvimento alternativo na Amazônia se fizeram presentes no Alto Juruá. Inicio essa

discussão com as dificuldades da primeira tentativa de estabelecer uma alternativa

comercial independente dos patrões e as mudanças na entidade que tinha por objetivo

representar os moradores, a Associação. Depois comento as formas de controle ambiental

promovidas pelo Ibama e a tentativa de monitoramento ambiental e social ligadas aos

diferentes projetos de pesquisa no Juruá. Ainda reflito sobre acontecimentos mais recentes,

como o crescimento da pecuária e o nascente processo de urbanização de alguns lugares da

Reserva. Em todos esses itens, procuro enfatizar as imbricações da vida política com as

questões econômicas e ecológicas.

Em seguida, no Capítulo 5, apresento alguns aspectos do cotidiano local no rio

Amônia e no igarapé Manteiga, as relações de vizinhança, os conflitos em torno de

recursos, mostrando como essas relações que se desenvolvem no dia-a-dia podem ser vistas

de modo imbricado com o contexto político mais geral, e como elas contribuem para

entender as mudanças mais recentes na Reserva.

O Capítulo 6 refere-se a atividades realizadas na cidade de Cruzeiro do Sul,

principal cidade do rio Juruá acreano, durante uma campanha eleitoral em 1998,

observações que são comparadas com outras realizadas no interior da Reserva Extrativista.

A partir disso, procuro fazer algumas reflexões sobre formas específicas de relações

políticas na Reserva.
26
Por fim, no Capítulo 7, a partir das discussões dos capítulos anteriores, teço

algumas conclusões sobre a proposta da participação política dos chamados povos

tradicionais nas decisões sobre o futuro da Amazônia.

1.7 - Alguns dos desafios dos moradores da Reserva Extrativista do Alto Juruá

1.7.1 - Uma dificuldade histórica?

Para tentar entender a política local, é importante levar em consideração os muitos

fatores, internos e externos, que influenciavam a maneira de como os moradores lidavam

com aquela conquista, que era a Reserva Extrativista.

Do ponto de vista interno, era fácil notar que as propostas estabelecidas na criação

da Reserva não eram compartilhadas por todos os moradores. Enquanto alguns lembravam

com orgulho das lutas dos seringueiros e das suas conquistas, como o “fim da sujeição” dos

patrões, e o direito sobre o uso da terra, outros lembravam com nostalgia do tempo em que

o comércio era organizado pelos, e de como estes eram capazes de garantir a compra e o

transporte da borracha e de produtos agrícolas ainda oferecendo-lhes “assistência” nos

momentos de necessidade.

Essa divisão de opiniões não se dava apenas no âmbito das conversas, mas podiam

se relacionar diretamente com práticas em relação às leis estabelecidas no Plano de Uso e

27
às demandas das assembléias, bem como em relação à participação ou não nas atividades

da Associação.

Algo, portanto, estava errado: ou aquelas propostas ligadas ao pacto tinham um

envolvimento muito maior de líderes e intelectuais, distantes da realidade local, como

suspeitaram alguns estudiosos (como Geffray, 2007 e Lobão, s/d), ou, no mínimo, parte da

população não tinha sido avisada. Em qualquer das hipóteses, havia uma diferença

profunda entre o que fazia e dizia uma parte dos moradores e os líderes locais, também

parte da população, e uma outra parte da população, que continuava a defender um sistema

que, idealmente, não era de seu interesse. Ou era o ideal que estava errado.

Uma das explicações para essas divergentes opiniões internas, conforme alguns

líderes locais, baseava-se na idéia de que os que não apoiavam a nova situação ainda

tinham o “vício político” da assistência. Na prática, uma série de atitudes que eu via ou

ouvia me lembravam as idéias de assistencialismo, clientelismo, coronelismo,

personalismo... Esses conceitos podem ter vários significados, mas no geral, interessa aqui

dizer é que eles indicam algo que não se combina com uma idéia inicial de indivíduos livres

decidindo democraticamente sobre os recursos públicos, e se assemelha mais a relações de

dependência onde uma minoria decide e em troca oferece presentes materiais ou simbólicos

à maioria e esta, por sua vez, não quer ou acredita que não precisa participar daquelas

decisões.

Para esses líderes, esse “vício político” era um problema que vinha de longe,

nascido na estranha relação construída entre patrões e os trabalhadores dos seringais, desde

o final do século XIX.


28
Minha primeira possibilidade era, a partir disso, procurar na história local uma

explicação para as dificuldades na condução participativa das propostas da Reserva. De

maneira geral, os patrões tinham sido considerados, durante mais de um século, os “donos”

das terras e também tinham procurado assegurar o monopólio do comércio da borracha

produzida pelos seringueiros que utilizavam esses territórios19. Isso tornaria os seringueiros

extremamente dependentes dos patrões. Com a saída destes, graças ao movimento dos

seringueiros e a criação da Reserva, muitos começaram a se achar abandonados e

desassistidos, outros se sentiam frustrados por considerarem que a Associação deveria

ocupar o espaço dos antigos patrões, o que ela não tinha condições de conseguir.

Diante disso, como pensar numa população atuando democraticamente para gerir

uma grande extensão de terra, num local aonde, por mais de um século, as relações políticas

vinham sendo fortemente baseadas no poder dos patrões?

De volta da primeira pesquisa de campo, em 1994, tentei percorrer um pouco da

vasta bibliografia de autores brasileiros que já haviam se dedicado a entender as relações

políticas no meio rural brasileiro. E, assim como alguns líderes locais, vários autores

concluíam que a grande concentração de terra e, conseqüentemente, do poder político, nas

mãos de poucos tornava extremamente difícil a existência de relações democráticas em

regiões rurais pobres do país (como pode ser visto, por exemplo, Victor Nunes Leal (1975),

19
O uso de aspas refere-se ao fato de que, na maioria dos casos, não havia legalidade nos títulos de
propriedade desses seringais. Conforme o jurista Juracy Magalhães em obra inteiramente dedicada ao assunto,
“toda a terra no Acre é devoluta, ela não é propriedade legitima, nem pode ser legalizada por falta de leis para
este efeito, e ela está sob o poder de poucos indivíduos somente com o status de posse (...)” (citado por
Almeida (1993:19).
29
Oliveira Vianna (1987), Gilberto Amado (1981), Caio Prado Jr. (1947), Sérgio Buarque de

Holanda (1973).20

A Reserva Extrativista, no entanto, era justamente um modelo de ruptura nessa

situação: a terra pertencia à União, mas era de usufruto de todos os moradores, e o poder

político competia, pelo menos em parte, a uma Associação, oficialmente representante

desses moradores. Contudo, como autores recentes também estavam observando em outros

lugares, mesmo após ações de movimentos sociais que obtiveram conquistas fundiárias e

políticas, a participação política da população pobre das áreas rurais continuava dificultada

pelos arranjos políticos anteriores (como demonstraram, por exemplo, Teresa Sales (1994),

Elisa Pereira Reis (1988), Ibarê Dantas (1987) e Wawzyniak, (1994), este estudando uma

Reserva Extrativista em Rondônia). Algo que vinha dessa história teimava em permanecer,

como se as mudanças na concentração da terra e do poder não conseguissem afetar, na

prática, as antigas estruturas de poder.

Essas dificuldades não eram, além disso, especificidade brasileira. Para Elizabeth

Jelin, por exemplo, em vários lugares da América Latina, apesar do histórico importante

dos seus movimentos sociais, em muitos lugares esses movimentos não conseguiam

estabelecer direitos básicos de cidadania no cotidiano local. As classes sociais menos

favorecidas pareciam considerar as relações de subordinação como “normais”, com uma

visão quase naturalizada da hierarquia social. Nesse sentido, as relações da sociedade com

o Estado se expressavam mais freqüentemente em termos de clientelismo ou paternalismo

do que em termos de cidadania, direitos e deveres (Jelin, 1996:107).

20
Um resumo inicial deste debate foi feito em Costa, 1998, capítulo 2.
30
Ao lado disso, seguindo as indicações do orientador deste trabalho, tentei perceber,

através da etnografia, se as dificuldades para o que eu então entendia como uma efetiva

participação política da população na Reserva Extrativista vinham de uma história

pregressa que ainda exercia uma força local, ou se até que ponto aquela situação também

era parte de possíveis escolhas dos seringueiros.

Assim, durante meu trabalho de mestrado (Costa, 1998) fiz uma primeira tentativa

de interpretar como a população lidou com as tarefas advindas da criação da Reserva,

acompanhando as relações políticas entre moradores e destes com os diferentes agentes

externos que atuavam na região. Confrontando a análise daqueles autores que estudaram o

meio rural brasileiro com minhas observações na Reserva, eu podia notar que, apesar

daquela população ser pobre, historicamente dominada por patrões, sem educação formal,

isolada dos grandes centros e praticamente sem acesso a meios de comunicação, era

possível perceber que outras formas de fazer política, para além do assistencialismo,

estavam sendo localmente construídas. Essas diferentes formas de fazer política eram

visíveis, para mim, em como a vida política e a discussão sobre a realidade local eram parte

do dia-a-dia dos moradores, em como acompanhavam as ações da Associação e dos

políticos, o que acontecia nas inúmeras discussões nos roçados, nas constantes visitas de

vizinhos pelas casas, nos trabalhos coletivos, nas discussões sobre os equipamentos

públicos, na massiva presença dos moradores nas assembléias, ou nas reuniões que a

Associação promovia para tentar resolver problemas na aplicação do Plano de Utilização.

Era um período, pelo menos até o final da década de 1990, em que a Associação, com

recursos e apoios vindos de diferentes projetos, podia ter um calendário de reuniões locais,
31
assembléias, com membros de sua diretoria participando de diferentes reuniões dentro e

fora do Estado. Ou seja, se havia algumas dificuldades na participação e, se para alguns,

quando os patrões dominavam a região era um tempo melhor, havia também uma série de

ações que mostravam que a participação dos moradores nas decisões da Reserva, através da

Associação, também era possível (Costa, 1998).

1.7.2 - Outra dificuldade: disputa de poderes

Assim como nem todos os moradores compartilhavam da idéia do pacto criado com

a Reserva Extrativista, do ponto de vista externo, nem todos que ali aportavam torciam pelo

sucesso das propostas da Reserva, muito ao contrário.

Enquanto os patrões e seus prepostos abandonavam a região e crescia o papel

político e econômico da Associação, paralelamente, grupos políticos tentavam conquistar

um espaço junto à população do Alto Juruá, provavelmente receosos com a crescente

atuação local do governo federal, através da Funai e do Ibama, conseqüentemente com

menos espaço político - e recursos - para o governo estadual e os municípios.

Uma das principais vitórias dos que vinham fazendo oposição ao movimento

indígena e dos seringueiros foi a emancipação do município de Marechal Thaumaturgo,

desmembrado de Cruzeiro do Sul em 199221. Assim, dois anos depois da criação da

Reserva Extrativista, a pequena Vila Thaumaturgo, localizada na fronteira da Reserva, onde

o rio Amônia desemboca no Juruá, transformou-se em sede municipal, dando a partida para

21
Nesse mesmo ano, também foram criados os municípios de Porto Walter e Rodrigues Alves,
igualmente desmembrados da cidade de Cruzeiro do Sul.
32
uma rápida onda de crescimento local, com criação de empregos públicos e facilidades para

a obtenção de moradias construídas com recursos públicos concentradas na sede municipal.

E isso, obviamente, logo passou a ser considerado a chegada do “progresso”, uma vitória,

para todos.

Os novos cargos políticos de importância criados com o município logo foram

sendo ocupados por pessoas oriundas de famílias dos velhos patrões e comerciantes, que

também tinham participado do processo de emancipação do município e já chegavam

abertamente em oposição ao movimento representado pela Associação. Oposição que se

dava contra a Associação e contra quaisquer de seus aliados, então pejorativamente

chamados de “ecologistas”, ou “ambientalistas”, que eram todos que estavam de alguma

maneira envolvidos com a proposta da Reserva Extrativista e com a Associação, como o

Ibama, pesquisadores de diferentes áreas e universidades e membros de organizações não

governamentais que também iniciavam a atuação no local.

Se o momento anterior à criação da Reserva havia sido marcado pelo acirramento

da divisão entre seringueiros e patrões, o que culminara com uma vitória dos primeiros,

começava a surgir uma nova oposição, agora entre Associação e Prefeitura, a qual se

uniam, pelo menos até 2002, os membros do governo estadual.

Um exemplo típico da oposição que se instalou na região pode ser visto num evento

público realizado na sede municipal de Thaumaturgo em 1998, presidido pelo então

governador do estado, Orleir Cameli. Nele, César Messias (primo de Cameli, mais tarde

prefeito de Cruzeiro do Sul e, atualmente, vice-governador do estado) discursava contra o

Ibama, órgão que para ele só servia para bater no cidadão. Osmir Lima, então deputado,
33
dizia que membros do PT eram contra os benefícios no estado, (na época todos que

apoiavam os movimentos sociais também eram considerados indiscriminadamente como

“do PT”) e que só pensavam na floresta e na miséria do homem. Ao falar que há anos

lutava contra o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente, o deputado foi efusivamente

aplaudido. O deputado Vagner Sales, várias vezes eleito deputado estadual pelo PMDB,

lembrou por sua vez que eles (do PMDB) é que tinham transformado a região num

município, e que, por causa disso, “hoje a população aqui é vista, hoje a população aqui é

admirada”. No mesmo discurso também era lembrado que eles tinham trazido o primeiro

telefone da região, a primeira antena de televisão, a primeira máquina de pelar arroz, o

primeiro batelão (barco coberto de tamanho considerado grande para os rios locais), a

primeira escola e que era graças a eles que os produtos agrícolas eram comprados

diretamente dos produtores para que tivessem preço justo. O governador terminou o

comício dizendo que era necessário ter “compaixão” pelo seringueiro e, para isso, “temos

que inibir as ações do Ibama”. Sabia, porém, que “no Ibama eu não mando”, mas que, “na

Polícia Militar eu mando”, comprometendo-se, no comício, a prender qualquer policial que

atuasse em conjunto o órgão ambiental.22

Esses discursos refletiam as intensas disputas para a definição das formas de

ocupação da terra no estado, pois a criação de terras indígenas e de diferentes unidades de

conservação também representava maior espaço de atuação ligados a órgãos federais, como

a Funai e o Ibama, e menos espaço - e recursos - para o estado e os municípios

22
O candidato referia-se a um episódio em que, como será comentado adiante, o Ibama trouxera,
junto com o CNS, membros da Policia Militar para apoiar uma de suas ações na Reserva contra caçadas
consideradas predatórias.
34
No mesmo evento, em frente ao palanque, também se contemplava a exposição dos

bens que seriam doados por Orleir Cameli, Vagner Sales e César Messias: 134 motores

para uso em canoas, 30 geradores de luz movidos a óleo diesel e várias máquinas de

costura. Em viagem anterior, os políticos já tinham pessoalmente feito o “cadastro”

daqueles que seriam os eleitos a ganhar os equipamentos.

Para pensar na organização política da Reserva, portanto, era evidente que não era

possível levar em conta apenas a população, sua associação representativa e o órgão de

fiscalização. Muitos outros agentes tinham de ser considerados.

Logo nas primeiras pesquisas de campo já foi possível perceber a intensa diferença

entre as práticas políticas dos dois novos grupos políticos que se formava na região,

percepção que era mais intensa quanto mais próximo se chegava à sede municipal, nas

áreas mais acessíveis. Enquanto eu via as discussões, as reuniões, e as ações empregadas

por membros da Associação na tentativa de resolver os problemas locais de forma coletiva,

os políticos pareciam agir de forma oposta: prefeito, deputado, vereadores e governador

pareciam fazer questão de aparecerem pela troca de presentes e favores, pelo que eu

entendia como assistencialismo, clientelismo, favoritismo e personalismo, além de

mostrarem-se incisivamente contrários ao Plano de Uso da Reserva, à Associação e ao

Ibama. Freqüentemente eram ouvidas denúncias sobre o apoio da Prefeitura a pessoas que

se utilizavam de práticas de caça e pesca consideradas predatórias pelo Plano de Uso,

justamente num período em que a Associação o Ibama empenhavam-se na disseminação do

conhecimento e anuência ao Plano. Vários moradores da sede municipal eram vistos no rio
35
Amônia com cachorros para caçadas ou com grandes anzóis, para práticas de caça e pesca

proibidas no Plano de Uso. Conforme os moradores, muitos portavam “cartas de

autorização” assinadas pelos prefeitos.

Em 1998, apresentou-se uma oportunidade de conversar com o então governador,

Orleir Cameli e um deputado, Osmir Lima, que estavam em Marechal Thaumaturgo23,

quando falamos sobre as diferentes propostas de desenvolvimento para o estado. Chamou-

me a atenção de que para o deputado, - aparentemente de acordo com o governador -

desenvolvimento era o que podia ser visto na região do Triângulo Mineiro, área de

agricultura altamente mecanizada e que aquela é que era a vocação do estado do Acre.

A partir disso, em 1998, chamei de “poderes em disputa” esses grupos políticos que

podiam ser delineados na Reserva Extrativista: polarização definida a partir de diferentes

pessoas, que correspondiam a diferentes preferências políticas, diferentes visões da

natureza e em relação ao Plano de Uso e que agiam conforme diferentes práticas políticas

(Costa, 1998).

Isso também queria dizer que aqueles seringueiros e agricultores, dispersos naquela

distante floresta, independentes de suas condições de vida e de sua história patronal,

podiam produzir e conviver com diferentes formas de fazer política, desde as mais

democráticas e participativas até a velha troca de voto por alguns litros de gasolina ou uma

máquina de costura, bem como com diferentes projetos de desenvolvimento. No meu ponto

de vista, a população compreendia perfeitamente essas diferentes forças e práticas políticas,

23
Oportunidade que agradeço à professora Neide Esterci, da UFRJ, então realizando pesquisas na
região.
36
e ainda parecia saber usá-las dependendo da ocasião e conforme seus próprios interesses

(Costa, 1998). Apoiar uma ou outra era também participar da circulação de objetos, idéias e

pessoas. E isso também queria dizer, em especial, assumir os riscos dessas preferências, o

que era um jogo complicado, do qual poucos conseguiam se esquivar. Essas escolhas, para

mim, não podiam ser explicadas pelo clientelismo, assistencialismo, e nem mesmo pela

idéia de cidadania com direitos e deveres, mas era algum tipo de participação, intensa,

dessa população na vida política, real.

1.7.3 - As dificuldades na economia: nova crise da borracha

Outra mudança importante - e complicadora - para o cumprimento das propostas da

Reserva Extrativista também ocorria nos anos seguintes à sua criação: justamente o

principal produto extrativo da região, a borracha, começava a enfrentar mais uma de suas

piores crises24. Enquanto que em 1985 o quilo da borracha chegava a um dólar e oitenta

centavos, em 1990 seu valor não passava de quarenta centavos de dólar (Almeida,

2002:127). Em 1989, foi extinto o órgão federal que se ocupava da política de incentivo à

produção da borracha25 e, em 1991, foi cancelada a taxa governamental de apoio ao

produtor, decretando-se, com isso, o fim da política federal protecionista da borracha na

24
Como será discutido adiante, a economia baseada na borracha nativa que surgiu no final do século
XIX teve sua primeira crise no início da década de 1910. Desse período em diante, houve momentos de
pequeno desenvolvimento, mas nunca mais chegou ao auge que alcançou em 1912 (Ver Almeida, 1993,
Weinstein,1993, Martinello, 1988) .
25
A Sudhevea (Superintendência da Borracha), autarquia ligada ao Ministério da Indústria e
Comércio, foi criada em 1967, conforme a Lei no 5277, para gerir os estoques de borracha e cobrar uma taxa
para proteger a produção nacional. Foi extinta em 14 de fevereiro de 1989, através da lei no 7.732, conforme
medida provisória no 28 do presidente Fernando Collor de Melo.
37
nacional, política que existia, sob diferentes formas, pelo menos desde o governo de

Getúlio Vargas26.

Com o fim do protecionismo, a borracha produzida a partir dos seringais nativos

amazônicos tornou-se cada vez menos lucrativa, afetando diretamente o cotidiano das

famílias da Reserva e de outros seringais da Amazônia, levando-as aos poucos a diminuir

consideravelmente a atividade de extração, voltando-se para a agricultura e a pequena

pecuária. Era a Reserva Extrativista perdendo seus extrativistas. Processo que trouxe as

óbvias conseqüências de aumento dos desmatamentos, começando a configurar uma forma

de se relacionar com a floresta cada vez mais distanciada daquela inicialmente existente

quando foi criada a Reserva e aprovado o Plano de Uso.

Isso quer dizer que foram vários processos acontecendo ao mesmo tempo: antigos

seringais tornaram-se terras de uso dos seus moradores, levando à saída da maioria dos

antigos patrões da região, e a população organizada passou a se considerar co-responsável

pela conservação dos recursos ambientais na área. Surgiu também uma série de novos

atores na região, alguns aliados daquela população organizada, como membros de alguns

órgãos estatais, universidades e organizações não governamentais, e outros

deliberadamente contrários, como membros de outros órgãos estatais, atuando junto com

antigos comerciantes e patrões, e que começam a ocupar funções políticas em seus vários

níveis e poderes. Junto a isso, a economia baseada na extração do látex das seringueiras,

26
Mais tarde, já no final da década de 1990, houve algumas tentativas de incentivo, do governo
federal e estadual à produção da borracha, mas já não surtiram o efeito esperado.
38
torna-se cada vez menos importante, provocando mudanças obrigatórias na forma de

produção da vida das pessoas.

1.7.5 - Recursos para a Reserva e a Associação

Como visto, a disputa que logo se instalou entre esses diferentes grupos não se

restringia apenas a posturas políticas ou ecológicas contraditórias: recursos financeiros

estavam em jogo. Era fácil entender que, para a Prefeitura, em nada interessava a presença

de uma Associação, nem de um órgão federal como o Ibama, canalizando recursos que

poderiam ser intermediados por ela.

E, efetivamente, logo após a sua criação, a Reserva Extrativista, através da

Associação, começou a receber recursos provenientes das mais diferentes entidades,

inclusive internacionais.

Desde o começo da década de 1990 foram estabelecidos vários projetos de pesquisa

e desenvolvimento que, além de suas atividades específicas, sempre mantiveram uma

relação intensa com a Associação, oferecendo recursos financeiros e humanos para

reuniões, assembléias e atividades administrativas. A partir de 1992, vários projetos na área

de saúde, ligados à ONG Saúde Sem Limites27, juntamente com a capacitação de agentes

locais de saúde, também contribuiu sistematicamente com recursos para a manutenção das

atividades da Associação (ver foto 24). O mesmo acontecia com os vários projetos na área

de pesquisa e monitoramento realizados na região desde a criação da Reserva, sempre

27
Organização de profissionais de saúde ligada à ONG internacional Health Unlimited.
39
incentivando material e moralmente a entidade organizada dos seringueiros. Em 1994, foi

iniciado um grande projeto do governo federal voltado para a conservação ambiental na

Amazônia e a Mata Atlântica, conhecido por PPG-7: Programa Piloto para a Proteção das

Florestas Tropicais do Brasil, financiado com recursos internacionais provenientes do

grupo dos sete países mais ricos. Dentro desse programa havia um subprojeto com recursos

específicos para as quatro primeiras Reservas Extrativistas criadas no país, aglutinados no

chamado “Projeto Resex”. Esse projeto foi dividido em duas fases e, durante alguns anos,

ainda que de forma intermitente, financiou várias atividades nessas Reservas, dentre elas a

do Alto Juruá.

A partir do Projeto Resex foram conquistadas várias reivindicações dos moradores e

da Associação, como ações na área de educação, transporte, comunicação e produção, além

de verbas direcionadas diretamente para apoiar as atividades da própria Associação e do

Ibama (fotos 23 e 24). Com isso, a Associação, durante alguns períodos, ocupou

efetivamente o papel do Estado, no sentido de ser intermediária de serviços básicos.

Há uma discussão interessante elaborada por Evelina Danigno (2004) sobre o

processo de democratização no país, com o fim do Regime Militar. A forte atuação dos

movimentos sociais e as diferentes lutas por cidadania vinham ocorrendo paralelamente - e

paradoxalmente - num contexto de diminuição do papel do Estado na sociedade, graças ao

fortalecimento do chamado projeto neoliberal. No caso do Alto Juruá, esse aspecto ocorre

de maneira inversa, pois com o surgimento da Associação local e, depois, com a criação do

município, a presença do Estado é perceptivelmente muito maior (seja através de recursos

40
próprios ou de convênios internacionais) já que, antes, a presença do Estado era quase

incipiente.

Com apoio de recursos externos, a empresa Couro Vegetal da Amazônia, também

iniciou na Reserva um projeto econômico ligado à produção de tecidos cobertos com o

látex das seringueiras, chamado de CVA ou Treetap, construindo pequenas unidades

familiares de produção, aumentando a renda local e trazendo novas alternativas para o uso

dos recursos florestais.

1.7.6 - Diminuição de recursos para a Reserva e a Associação

Ao final da década de 1990, no entanto, esses recursos foram diminuindo. No

contexto internacional, houve um refluxo de recursos externos voltados para as Reservas

Extrativistas, e passou a ser comum ouvir nas conversas com membros de ONGs uma

avaliação - equivocada, a meu ver - que recursos externos alocados para populações pobres

produziam “dependência” e não “autonomia”. Isso era reforçado pela idéia de que os

recursos investidos não se transformavam em fortalecimento da capacidade do Estado em

atender demandas básicas, e nem em capacidade dos moradores em gerar seus próprios

recursos a partir das atividades que recebiam incentivos.

Embora desconsiderando aqui os muitos estudos sobre as propostas recentes de

desenvolvimento para a Amazônia, creio ser possível resumir, a partir das observações, que

houve um período inicial em que a expectativa maior era que os membros públicos

encampassem certas propostas iniciadas com os projetos, como aquelas ligadas à educação

41
e à saúde. Esperava-se que os projetos e os movimentos sociais produzissem “cidadania”: a

população reivindicasse ao Estado a continuidade das ações dos projetos e o Estado

atendesse essas reivindicações, o que também seria uma maneira de suplantar as formas

políticas consideradas “tradicionais” e reprodutoras da desigualdade social. Mais tarde, a

impressão foi de que a esperança maior repousava na idéia de que as populações se

tornassem “auto-sustentáveis”, com a realização de projetos voltados principalmente para a

área de produção. Com isso esperava-se, a grosso modo, que cooperativas ou associações

populares fossem capazes de cuidar da produção e da circulação de bens de forma

ecológica, autônoma e eficiente, capaz de suplantar, por exemplo, a força do comércio

predatório de madeira e gado.

Conforme o responsável no Ibama pelas Reservas Extrativistas no estado do Acre,

durante a primeira fase do Projeto Resex, as primeiras quatro Reservas Extrativistas criadas

no país receberam, entre 1995 e 2001, de forma intermitente, oito milhões de dólares28. Na

sua avaliação, esses recursos, todavia, tiveram poucos resultados na esfera da produção:

“A prioridade [na primeira fase do PPG-7] era fazer a regularização da terra das reservas, daí foram
promovidos treinamentos para as lideranças o que resultou no fortalecimento das associações e por
fim, havia o estímulo e melhoria da produção, este último ponto foi muito falho”, lamenta ele, mas,
sem perder a esperança, também afirma: “’agora estaremos retomando esse trabalho enfocando as
29
ações no desenvolvimento do setor produtivo com ênfase nos produtos tradicionais e o turismo’”.

28
As Reservas Extrativistas contempladas no Projeto Resex foram: A do Alto Juruá, a Chico
Mendes, ambas no Acre, a de Ouro Preto, em Rondônia e a Rio Cajari, no Amapá.
29
Conforme artigo de Juracy Xangai, “As reservas precisam produzir para sobreviver”, jornal
Página 20 de 2 de março de 2009 (disponível na página da internet: http://www.pagina20.com.br
/02032004/c_0402032004.htm).
42
Como expresso nesse mesmo artigo, esperava-se que órgãos públicos, líderes locais

e financiadores fossem capazes de “remodelar a proposta de utilização das Reservas

Extrativistas com o objetivo de torná-las mais produtivas e auto-sustentáveis”.

Nesse contexto, o morador da Reserva Extrativista passou a ser visto especialmente

como um “produtor”, ou, de preferência, um “empreendedor”, aquele que precisava ser

capaz de fazer a floresta produzir lucros. Numa visão de que a única estratégia para manter

uma floresta de pé dentro do capitalismo era fazê-la produzir lucros.

Inicialmente, minha impressão era de que esse discurso estava presente apenas nas

conversas com membros de ONGs e de órgãos públicos. Em 2002, porém, quando fiz uma

pesquisa com entidades de várias cidades do estado do Acre, percebi que esse mesmo

discurso produtivista a de que “só fica em pé floresta que dá lucro” passou a ser repetido

nas mais diferentes entidades representativas do movimento social, como no Conselho

Nacional de Seringueiros e diferentes associações e sindicatos. E, se antes, essas entidades

tinham conquistado um importante papel reivindicatório na política local, elas agora se

tornavam basicamente “administradoras” de pequenos projetos de produção e créditos a

produtores, ainda tendo de lidar com a constante diminuição de recursos para sua própria

manutenção.

A partir dos resultados insatisfatórios obtidos com esses projetos e créditos, o

resultado nesse período foi que associações e sociedades rurais, algumas com forte

histórico de atuação local, tornaram-se fonte de descrédito e dívidas30. Em várias delas,

30
Esse problema foi salientado em todas as associações e sindicatos de trabalhadores rurais que
visitei em 2002, conforme discutido em Costa (2003).
43
como na ASAREAJ, não havia nem condições de manter aquilo que conquistara

anteriormente: sua sede na Reserva, na Foz do Tejo, com grandes galpões para hospedagem

e reuniões, deixavam de ter manutenção, assim como barcos, motores e outros

equipamentos recebidos em projetos anteriores. O escritório em Cruzeiro do Sul foi

transferido por um galpão sem uso de um órgão federal, que funcionava de forma precária,

com recursos de alguns projetos menores que ainda permaneciam, e recebendo uma

pequena ajuda mensal do Ibama.31

1.7.7 - Novos recursos para o município

Enquanto a Associação dos moradores da Reserva Extrativista via seus recursos e

prestígio diminuírem, cresciam a força dos políticos do recém criado município de

Marechal Thaumaturgo, apoiando-se em recursos provenientes do governo federal, e seus

convênios. A partir de 1998, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi criado o

Programa Fundef32, seguidos de outros semelhantes, com somas inéditas de dinheiro do

governo federal repassadas diretamente para os municípios, disseminando pequenas escolas

primárias nas áreas rurais, que foram criadas até nos lugares mais distantes, gerando uma

grande quantidade de empregos para professoras e pilotos de barco para o transporte de

31
Nunca ouvi falar de nenhuma entidade popular que tenha feito uma administração totalmente
correta, mas mesmo assim, não me parece adequado a ênfase que entidades financiadoras deram à
incapacidade administrativa do movimento social, pois se esperava uma eficiência administrativa e
burocrática provavelmente só possível numa empresa capitalista, mas nunca numa organização pública.
32
O Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do
Magistério) foi um programa federal de incentivo à educação básica criado pela lei no 9.424, de 1996, que
prevê um valor mínimo que todo município deve receber por cada aluno matriculado na escola básica. Mais
tarde, o programa foi denominado de Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica
e de Valorização dos Profissionais da Educação), existente até hoje.
44
alunos. Esses novos cargos, durante um tempo inicial em que não eram exigidos concursos,

eram praticamente todos controlados pela Prefeitura.33

Logo em seguida, iniciaram-se os programas governamentais de distribuição direta

de renda, política depois intensificada durante o governo posterior do presidente Luis

Inácio Lula da Silva. São os programas denominados “bolsa escola”, “bolsa família” e

“bolsa gás”, recebidos por praticamente todas as famílias da Reserva. Conforme um ex-

seringueiro, nesse período “a borracha foi substituída por dinheiro”.

Em 1996 foi criado o Projeto de Assentamento (PA) do Rio Amônia, ao lado da

sede municipal e na fronteira com a Reserva. O PA foi estabelecido, como será discutido

mais à frente, graças aos esforços pessoais do prefeito municipal e de sua irmã, na época

executora do INCRA de Cruzeiro do Sul, o que também trouxe uma nova quantidade de

dinheiro para a região na forma de créditos concedidos aos novos assentados, grande parte

já moradora do local.

Em 1994, o auxílio-maternidade, que correspondia a quatro meses de licença

remunerada às trabalhadoras registradas, também passou a ser concedido às trabalhadoras

rurais na forma de quatro salários-mínimos recebidos após o nascimento de cada filho, o

que significava, na maioria dos casos, a maior fonte de renda da família no ano.

Assim, apesar da forte queda na economia da borracha, houve um aumento

significativo da renda local nesse período, resultando em maior acesso a bens antes

33
Durante alguns anos professores, vários vivendo nas proximidades, foram contratados
temporariamente para atuar nas escolas, mesmo não tendo formação escolar específica para o magistério. Só
ao final da década de 1990 é que se tornou obrigatória a realização de concursos públicos e algumas tiveram
de entregar os cargos para outros professores, a maioria vindos da cidade.
45
dificilmente acessíveis. Se em 1995 somente 8% dos moradores entrevistados afirmaram ter

uma canoa com motor, por exemplo, no início da década de 2000 era muito difícil alguma

família não ter sua própria canoa motorizada. Se em 1994, em todo o rio Amônia eu contei

apenas quatro moto-serras, ao final da mesma década esse item também já era visto em

quase todas as casas visitadas. O mesmo ocorreu com a criação de gado, antes restrita a

poucos fazendeiros e a seringueiros mais velhos, agora se tornava acessível à grande

maioria dos moradores.34

Também no final da década de 1990, as aposentadorias, que antes obrigavam os

idosos e pessoas com deficiência a viajarem por vários dias até Cruzeiro do Sul,

começaram a ser pagas na sede do novo município, na foz do rio Amônia, o mesmo

ocorrendo com os outros benefícios governamentais. Nesse processo, a pequena sede

municipal rapidamente tornou-se um pólo comercial para os moradores da Reserva e da

região, também prejudicando, como será discutido a seguir, as alternativas comerciais

criadas pelo movimento social.

Com o crescimento da renda na cidade ainda outra conseqüência foi notada, já que

os moradores urbanos também começaram a ter recursos para investimentos, que, na falta

de opções, eram direcionados para a pecuária. Vários deles começaram a manter pastos

junto a moradias de parentes no interior da Reserva, ou a pagar para outros moradores

criarem suas cabeças de gado, intensificando ainda mais o desmatamento.35

34
Mais à frente faço algumas considerações acerca da atividade pecuária na Reserva, que tem
aspectos interessantes para se pensar tanto a economia como a política local.
35
O mesmo processo foi observado na Reserva Extrativista Chico Mendes (Costa, 2003).
46
Se antes a Associação representava o que chamavam de “fim da sujeição” dos

patrões, a Prefeitura, os novos recursos, as escolas, o novo comércio, passou a ser, para

muitos, ainda que houvesse críticas, sinal de progresso e orgulho.

A ASAREAJ, que antes vinha se constituindo como um importante espaço de

discussão dos moradores e principal interlocutora com os agentes externos, começa a

perder cada vez mais o espaço político para a Prefeitura. Nesse período, já se ouvia que as

decisões locais passavam cada vez mais pelo que se chamava de “política”, e menos pela

Associação. Assim, não foi à toa que, a partir de 1999, os novos líderes eleitos para a

Associação mudaram seu enfoque na busca de alianças, passando a ter agora, como foco

principal, a política partidária e a participação no processo eleitoral municipal e estadual, e

menos as questões relativas à problemática da própria Reserva Extrativista.

Também foi interessante notar como a maioria dos antigos apoiadores externos da

Associação, como os membros dos vários projetos que, mesmo com menores recursos

ainda mantinham atividades na região, viram essa mudança de foco da Associação como

algo problemático, ou negativo. Eu mesma, que via os líderes anteriores com respeito e

admiração, acompanhado suas lutas para fortalecer a entidade ou para fazer valer o Plano

de Uso, passei a olhar os membros da diretoria da Associação como se estivessem apenas

usando o movimento social como trampolim para seus interesses políticos próprios. Pode

até ser que, naquele caso, interesses particulares estivessem à frente de interesses públicos -

se é possível mesmo separá-los no âmbito da política - mas esses membros da Associação

talvez fossem capazes de ver com maior clareza, no calor dos acontecimentos que, se

47
alguém quisesse fazer algo na região, seria através daquela política e dos políticos, e não

mais dos projetos cujos recursos chegavam em menor quantidade a cada dia.

1.7.8 - A Associação do novo milênio: “de cabeça para baixo”

Até 1999, como mostrado acima, as diferentes pessoas que ocuparam a diretoria da

Associação, tinham parecido a mim sempre preocupadas com o que eu considerava práticas

mais participativas na resolução de conflitos e nas decisões da Reserva, podendo contar

para isso com diferentes apoios, como recursos financeiros e humanos de diferentes

projetos.

A nova diretoria, eleita em 1999, visivelmente começou a atuar politicamente de

modo muito semelhante àquele dos políticos que as diretorias anteriores tanto criticavam:

como se estivesse deixando de lado aquele importante processo que, para mim, indicava

uma forte tendência à crescente participação dos moradores nas decisões locais.

Como eu havia demonstrado em minha dissertação, era evidente, durante a década

de 1990, a intensa disputa de poderes entre a Associação e a Prefeitura. Essa disputa se

dava também através de formas diferentes de atuação política. Naquele período, eu

imputava aos políticos locais práticas políticas que eu considerava tradicionais, baseadas

especialmente nos favores e na troca de presentes, e à Associação, ao contrário, eu podia

ver de forma mais evidente uma prática política que se baseava na realização de reuniões e

assembléias (Costa, 1998).

48
A eleição da Associação de 1999, porém, foi o marco de uma mudança importante

nessas práticas. Conforme moradores e pesquisadores que sistematicamente vinham

acompanhando as assembléias da Associação, o espaço que antes era ocupado para debates

e discussões pareceu ter se transformado em “palanque” para “comícios”36. A nova

diretoria, apesar de ser em parte formada por pessoas que já tinham ocupado cargos nas

gestões anteriores, tinha agora apoio de agentes externos que até então nunca tinham tido

relação com as propostas de criação da Reserva. Até fazendeiros e comerciantes, antes

efetivamente contrários à Reserva começaram a participar das assembléias, inclusive dando

apoio financeiro aos que prometiam apoiar o novo grupo, pagando suas anuidades

(obrigatória para as votações). Algumas pessoas ainda receberam bilhetes onde constava a

promessa de algum benefício para sua colocação, assinada do presidente então eleito, como

pude depois constatar.

É importante lembrar que, um ano antes, em 1998, pela primeira vez um político do

Partido dos Trabalhadores, com longo histórico de atuação junto a populações rurais, fora

eleito governador do estado, mas com votos principalmente da capital Rio Branco e do Alto

Acre. No vale do rio Juruá, o PT era incipiente e política na região estava, desde algum

tempo, polarizada entre os políticos do PMDB (que controlavam a maioria das Prefeituras)

36
Vale dizer que nenhuma das minhas atividades de campo na Reserva coincidiram com uma
assembléia de eleição de diretoria. Assim, todas as informações que aparecem sobre ela são posteriores e fruto
de conversas com moradores e pesquisadores que estiveram presentes.
49
e os que pertenciam ao que se chamava de “PDS”37, como o governador anterior, Orleir

Cameli.

Os novos líderes da Reserva Extrativista, nesse contexto, já assumiram seus cargos

na Associação como futuros candidatos à política municipal, contando com as boas

relações existentes entre o PT e os movimentos sociais, já sabendo, também, da necessidade

do PT, mais forte em outras regiões, também estabelecer-se naquela região.38

No interior da Reserva, surpreendia ver como muitos dos que apoiavam esse novo

grupo eram justamente aqueles que também diziam ter saudades do chamado tempo dos

patrões, e que nunca tinham mostrado interesse com as atividades da cooperativa e da

Associação. Já a maioria dos antigos moradores que participara do movimento social local

desde seu início, que tinham enfrentado até a violência dos patrões, formavam agora uma

nova oposição, perdendo as eleições de 1999 e também as outras sucessivas eleições. Com

isso, grande parte das pessoas que tinha passado por toda a experiência das lutas locais

perdeu o canal de discussão que ajudara a construir através da Associação.

Isso porque a estratégia deliberada da nova diretoria foi distanciar-se daqueles

velhos líderes que, no início da década de 2000, viviam um profundo descontentamento.

Acompanhar esse movimento, ao longo dos anos, começou a evidenciar que as

diferentes redes existentes no interior da Reserva, em determinado momento, iam sofrendo

pequenas modificações. Redes que podiam ser de alguma forma delineadas, onde
37
Na verdade o PDS (Partido da Democracia Social), sucessor da antiga ARENA, já tinha sido
extinto e, na época, os principais políticos estavam no PP (Partido Popular) ou no PFL. O nome PDS, porém,
permaneceu por muito tempo associado aos políticos que faziam oposição ao PMDB e não eram do PT.
38
Como será visto a seguir, o PT não conseguiu, até então, fortalecer-se no Alto Juruá, ao contrário
de outras regiões, onde várias prefeituras (como de Xapuri, Brasiléia, Assis Brasil e Feijó) foram sendo
ocupadas por pessoas ligadas ao partido e aos movimentos sociais.
50
circulavam pessoas, recursos, idéias, e pareciam sofrer pequenos abalos e, nesse processo,

ir aos poucos formando novas configurações.

Era possível notar como políticos locais, em especial do PMDB, aproveitando o

clima de mágoas e ressentimentos que vinha se instaurando, foram especialmente hábeis

para abrir espaços àqueles antigos líderes, agora alijados das discussões da Associação.

Isso era uma estratégia importante para esses políticos, pois viam que a diretoria da

Associação, com o apoio que era inicialmente esperado do governo estadual, do PT,

tornava-se efetivamente uma ameaça ao poder já estabelecido localmente. E, contra isso,

iniciaram uma política de apoio explícito aos seus antigos opositores que, sem espaço na

Associação, passaram a freqüentar a casa do prefeito e serem receptáculos de políticas e

empregos a que antes não tinham qualquer acesso, como será visto mais à frente.

A nova diretoria, por sua vez, fazia questão de se colocar cada vez mais distante dos

líderes históricos da Reserva, afirmando em muitas ocasiões que o fazia porque esses

velhos líderes estavam sendo manipulados pela Prefeitura.

Por isso, não há como saber se foi a nova diretoria que expulsou os velhos

militantes da Associação ou se foram as ações do Prefeito e de outros políticos que os

atraíram primeiro. A questão era que, conforme bem percebeu Toinho Alves39, após uma

viagem à Reserva ao final dos anos de 1990: “tudo ficou de cabeça para baixo”. Aqueles

que, até então, eu considerava como verdadeiros heróis da Associação e da Reserva,

39
Antonio Leitão Alves, conhecido por Toinho Alves, é jornalista e atuante junto aos movimentos
de seringueiros no Alto Acre. Foi presidente da Fundação Cultural Elias Mansur, ligada ao governo estadual,
durante o primeiro governo estadual do PT. Foi um dos apoiadores do movimento da cooperativa no Alto
Juruá, eventualmente, costuma passar férias no rio Tejo.
51
passaram a ser apoiados por aqueles que historicamente vinham querendo prejudicar a

imagem da Reserva e da Associação; e a Associação, por sua vez, tinha como aliados

aqueles que eu (bem com alguns moradores e muitos outros agentes externos) avaliava

justamente como seus piores inimigos, (fazendeiros, parentes de antigos patrões e

comerciantes), e essa Associação que iria representar, frente aos órgãos oficiais externos, os

interesses dos moradores da Reserva Extrativista.

Aquela anterior disputa de poderes tornava-se então cada vez mais explícita e

acirrada. Como disse um morador: agora, “Associação e Prefeitura é o mesmo que Irã e

Iraque”. Só que, nesse novo momento, eu já não podia mais separar as duas entidades

dentro de modelos de práticas políticas opostas, como tinha feito anteriormente. Muitos dos

que antes construíram e apoiaram a Associação (como espaço de participação dos

moradores na condução da Reserva) agora estavam do lado dos políticos, justamente os que

faziam do assistencialismo, da troca de presentes, do favoritismo, como me parecia, a

principal forma de relacionamento com seus representados.

Em 2000, o então presidente da Associação, Orleir Fortunato, filiado ao PT, chegou

a ser candidato a vice-prefeito de Marechal Thaumaturgo. Mas o PT da capital, por escolha

ou falta de condições, não ofereceu o apoio conforme era a expectativa, e a chapa foi

facilmente derrotada pelos políticos da situação (do PMDB), deixando os candidatos do PT

ainda cheios de dívidas no comércio local.

Nesse campo de conflitos, é fácil compreender que nenhum dos dois lados estava

disposto a discutir e fazer valer as velhas regras e proibições previstas no Plano de Uso da
52
Reserva, lembrança que, obviamente, não daria voto a ninguém. O Plano de Uso, que

selava a vontade do grupo de pessoas em torno daquele território, motivo de tantas

reuniões, discussões e brigas de vizinhos, ia sendo relegado a um gradual e confortável

esquecimento. Nem defendido pela Associação, nem atacado pelos políticos, e cada vez

menos comentado pelos moradores.40

O Ibama, por sua vez, também com recursos cada vez mais reduzidos após o fim do

PPG-7, conforme reclamavam seus funcionários, conseguia diminuir ainda mais suas já

escassas atividades no interior da Reserva.

Os membros dos projetos atuantes na Reserva, além dos recursos menores, ainda

enfrentavam problemas no trato com a diretoria da Associação, que tinham dificuldade em

lidar, tal como eu mesma, com os novos objetivos político-partidários da entidade, dentro

do pressuposto de que os projetos deveriam estar, pelo menos idealmente, distantes da luta

partidária.

Com o envolvimento mais intenso das pessoas da Associação na política partidária,

as diferenças entre as práticas políticas, que antes me pareciam tão marcantes entre as

pessoas da Associação e os políticos locais, agora eram impossíveis de se estabelecer.

Se antes os seringueiros, em nível local e nacional, tinham conseguido construir um

espaço político próprio, o que lhes permitia manter uma ligação constante com diferentes

40
Um exemplo muito significativo desse descaso com o Plano de Uso foi quando o próprio
presidente da Associação, Orleir Fortunato, foi multado pelo Ibama ao ser encontrada uma carta por ele
assinada, com uma “autorização” para que um morador da sede municipal fizesse caçadas na colocação de seu
pai, no interior da Reserva. Essa prática de entregar bilhetes autorizando práticas contrárias ao Plano de Uso
era, até então, exclusividade do Prefeito, como será visto mais à frente.
53
agentes externos, membros do governo federal, e até pessoas e recursos internacionais, esse

espaço começa a diminuir de importância. É o município agora que passa a ter maior

relevância enquanto lugar de entroncamento de recursos, informações e pessoas de

diferentes lugares e níveis. Com isso, para uma jovem moradora da Reserva, “a política”

agora, era o novo “patrão”. Com isso, provavelmente ela estava acreditando que, se durante

algum tempo a Associação poderia ter sido considerada importante para a vida política

local, agora eram os políticos da esfera municipal, suas ações, seus amigos e seus inimigos,

que estariam comandando a Reserva.

Talvez tenha sido por isso que, numa reunião em 2007, alguns moradores afirmaram

que o “estatuto da Reserva foi jogado fora” e que a “Associação morreu”.

1.7.9 - Novos movimentos

As pessoas que antes participaram da construção da Associação e da Reserva, no

entanto, não escolheram começar a participar de uma outra rede, obviamente, apenas por

causa das benesses da política municipal. Muitos deles, em minha opinião, tentavam

retomar o anterior espaço de atuação política. Talvez porque as relações com a Prefeitura

não lhe eram suficientes enquanto espaço de atuação. Com isso, parece haver um momento

de buscas de novos aliados ou busca de configurar novas redes com velhos aliados,

surgindo na região novos agrupamentos, novas alianças, novas redes.

Um exemplo disso ocorreu em 2002, no rio Tejo, berço do movimento social,

quando um grupo de moradores descontentes tentou criar uma associação alternativa. Para

54
isso buscaram, de um lado, apoio da Prefeitura e, de outro, apoio de membros dos vários

projetos. Com recursos dessas diferentes fontes, organizaram uma grande reunião na foz do

rio Bagé, juntando principalmente aqueles velhos líderes locais, com o objetivo de dar

forma a uma nova associação que pudesse atuar de forma paralela à ASAREAJ.

Acusando o movimento de ser manipulado pela Prefeitura, a diretoria da ASAREAJ

conseguiu juntar vários moradores contrários, que também foram para reunião, alguns deles

armados e, pelas muitas histórias que ouvi depois, também alcoolizados. Instaurou-se assim

uma tensão insustentável na reunião, que foi desbaratada, aumentando ainda mais o clima

de ameaças e mágoas entre os antigos líderes e a nova diretoria.

No mesmo período, no rio Amônia, um candidato a vereador pelo PSDB que não

foi eleito, conseguiu apoio do CIMI para unir descendentes indígenas de diferentes origens

que ali vivem, dando início ao processo para criação de uma Terra Indígena entre os rios

Amônia e Arara, reivindicando uma área próxima à sede municipal, sendo uma parte

pertencente à Reserva Extrativista e outra ao Projeto de Assentamento.

Como será visto mais à frente, após a criação do Assentamento e o crescimento da

sede municipal, a região do rio Amônia passou a ser um local praticamente inviável para os

extrativistas, com uma disputa cotidiana por espaço e recursos, tornando quase inviável a

convivência de tantos moradores com aquelas diferentes propostas. A Terra Indígena,

assim, resolveria em parte o problema, com a expulsão de 52 famílias consideradas não

indígenas para outros lugares (conforme um dos estudos antropológicos da Funai, (Pereira

Neto, 2004). Essa reivindicação já gerou uma série de protestos e conflitos locais, e, com o

processo ainda em curso, há um clima geral de incertezas e tensões na região.


55
Também nessa época, surgiu um movimento para a criação de outra Terra Indígena

no interior da Reserva, dessa vez nas imediações do igarapé Machadinho, afluente do alto

do rio Tejo. Nesse caso, a reivindicação parte de uma única e grande família que, além do

apoio do CIMI, conta também com o livro de Mariana Ciavatta Pantoja (2004) que, ao

registrar as origens daquela família, acabou por tornar-se um documento sobre as suas

origens indígenas. Também nesse caso a situação ainda está pendente.

O interessante desses novos movimentos é que, face aos problemas que as

instâncias comuns já não davam conta de resolver, como a Associação e a Prefeitura, os

moradores descontentes parecem ter precisado estabelecer novas redes, fortalecer redes

anteriores, como a de aliados políticos e de parentes e, com isso, enfrentar os novos riscos e

as novas perdas.

1.7.10 - As dificuldades e suas muitas explicações

Como é possível notar, surge uma série de dificuldades quando se pensa na idéia de

uma população tradicional que se configura através de um pacto, e que, a partir disso,

conquista, frente ao Estado, a co-responsabilidade por um determinado território florestal,

tendo por tarefa fomentar um novo desenvolvimento pautado em idéias de justiça local e

conservação ambiental.

Para isso, a população, e, em especial, a entidade que se propõe ser sua

representante, precisa lidar com aqueles que desde o início não compactuaram das mesmas

56
idéias, e preferiram as vantagens que teriam com os patrões; com as dificuldades de

cumprir um conjunto de regras consideradas ideais para o uso da floresta, mas que

demandavam certos esforços individuais; com a avalanche da atuação das forças políticas

de oposição surgidas com a criação do município; com a crise econômica do principal

produto extrativo; com a entrada de grandes somas de recursos com novos projetos; e,

depois, com a saída de grandes somas de recursos...

Enfim, a tarefa proposta era de fato muito mais complicada do que o previsto, sendo

preciso lidar não apenas com as dificuldades internas mas também com as mudanças que

vinham de fora e afetavam diretamente a vida local, das mais variadas maneiras.

Diante desse quadro, como pensar a vida política na Reserva Extrativista? a quem

exatamente poder-se-ia atribuir a condução dos destinos da Reserva? Aos moradores “em

geral”, a alguns moradores em especial, a líderes locais, a uma entidade representativa, ao

Ibama, ao Prefeito, a ONGs internacionais, a um deputado? Seus problemas estão no

âmbito da economia, da política, da cultura, da história? Haveria algo errado na política

local, que tornava inviável aquela proposta inicial de gestão participativa, estabelecida nos

documentos de criação da Reserva?

Haveria algo errado na relação das pessoas com os políticos locais, que se

demonstravam extremamente hábeis para aproveitar os conflitos internos, conseguindo

colocar em prática propostas que em nada combinavam com o contrato participativo

inicial? O problema estaria nos aliados da Reserva, nos mediadores ou membros dos novos

projetos que estariam modernizando as antigas formas políticas clientelistas?

57
Também como assinalado acima, vários autores já demonstravam questões

parecidas em outras áreas rurais brasileiras, verificando a presença de conjuntos de práticas

e ações que foram definidas como assistencialismo, personalismo, coronelismo,

mandonismo, vistos como espécie de anteparos para o desenvolvimento da democracia

nesses locais. Essas teorias não são interessantes apenas por fornecerem explicações

acadêmicas para algumas dificuldades, mas porque teorias muito semelhantes também eram

utilizadas pelos líderes da Reserva, por alguns participantes de projetos locais e também por

membros de diferentes órgãos de governo. A mim era visível que havia uma idéia

generalizada de que a política praticada pelos moradores poderia ser melhor, mas havia

problemas. E, as explicações para esses problemas também eram usadas como justificativas

para tomada de decisões e busca de alianças em disputas políticas, mesmo que consideradas

teoricamente erradas.

Uma vez fui até a casa do prefeito e ali presenciei uma cena que poderia ser

considerada muito comum: a chegada de moradores vindos da Reserva e de outros seringais

fazendo diferentes pedidos ao prefeito. Uma senhora que eu já conhecia da Reserva vinha

reclamando de fortes dores no dente. A ela o prefeito escreveu um papel que deveria ser

entregue ao prático que arrancava os dentes dos moradores do município. Como confirmei

mais tarde, o papel permitiu que seu atendimento fosse feito de imediato.

Não escrevi minhas impressões naquele momento, mas provavelmente eu pensava

estar testemunhando todo o arsenal de “ismos” citados acima. O prefeito, que tinha iniciado

um curso de Ciências Sociais em sua juventude, talvez por ter percebido em meu olhar o

julgamento reprovador que eu deveria estar fazendo de sua atitude, fez questão de me
58
chamar em seguida para almoçar com ele e a família (havia um lugar para almoços

coletivos e outra sala onde eram servidas as refeições da família e que podia ser aberta a

outros visitantes, talvez considerados diferenciados). Ali, ele me explicou que não

concordava com aquela maneira de lidar com os problemas de saúde do município, mas que

aquele modo de agir era necessário, para os moradores do “interior”, isto é, dos seringais.

Aos que viviam dentro da sede municipal, eram outros os procedimentos, mais

formalizados e impessoais. Conforme ele, as pessoas do seringal eram muito pobres e já

estavam acostumados com esse tipo de tratamento. Ou seja, havia uma prática política

correta e uma incorreta, mas esta era necessária por causa do costume e da pobreza do povo

“do interior”, no caso, da Reserva.41

Em 2002 eu conversava com um seringueiro que participara ativamente do início do

movimento social, mas que, então, já não queria mais nenhum envolvimento. Eu tentava

entender por que a mesma diretoria da Associação, mesmo após ser acusada de excluir os

velhos líderes e de fechar cada vez mais o espaço de debate que antes existia na

Associação, tinha sido eleita, novamente, para um segundo mandato. Na opinião do

41
Hoje eu não tenho mais tanta certeza de que esse tratamento personalista do prefeito, em oposição
ao atendimento legalizado e burocratizado que seria dispensado aos moradores urbanos poderia ser mesmo
julgado respectivamente como errado e certo. Na época eu compartilhava da idéia de que o papel do prefeito
era utilizar recursos públicos para que todos os cidadãos tivessem acesso a um tratamento dentário adequado.
E, também confiava no pressuposto de que se uma pessoa que não tem um beneficio garantido por lei, como o
acesso à saúde, o caminho correto seria ela procurar sua entidade representativa, no caso a já existente e
reconhecida ASAREAJ, para que esta estabelecesse estratégias para pressionar o poder público, responsável
pela garantia daqueles direitos. Ainda mais que, na época eu já sabia quão difícil era (e ainda é) a contratação
de profissionais especializados para trabalhos em cidades pequenas e distantes. Mas esse olhar recente só foi
possível depois de acompanhar pessoas das melhores intenções participando do Estado e fazendo muito
menos do que era esperado.
Até então, como demonstrado por Moura & Silva (2008), eu pensava, assim como outros, numa
visão mais maniqueísta de que “enquanto o Estado é corrupto, violento, autoritário, conservador, a sociedade
civil é ética, democrática, progressista, universalista.”

59
seringueiro, os moradores que “acreditam” nessa Associação seriam “os que foram

assistenciados”. Em sua opinião, o problema vinha do assistencialismo praticado não só

pelos políticos profissionais, mas, a partir de 1999, também pela Associação.

Num outro momento, um líder da Reserva reclamava do resultado das eleições de

2000, quando o prefeito anterior fora reeleito. Naquele período a Prefeitura já contava com

430 funcionários. Para esse líder, “tem pessoal [contratado pela Prefeitura] para contar

estrela”. Por causa disso, questionava ele: quem seria “doido” de ficar contra o prefeito?

Para ele, com quem tive muitas conversas tentando entender a política local, um dos

principais problemas era o controle de cargos nas mãos da Prefeitura.

Do ponto de vista do governo estadual, conforme expresso num dos relatórios

elaborados para o Zoneamento Econômico e Ecológico do Acre, “certas tradições culturais”

não ajudariam o envolvimento democrático das pessoas, “como o autoritarismo (...) e a

fraca tradição de estruturas realmente representativas, sendo elas muitas vezes desvirtuadas

para promover projetos apenas pessoais ou partidários” (Scholz, 2000). Ou seja, haveria

algo na própria tradição locais, que é autoritária e personalista42. Como também dizia um

antigo presidente da Associação, ao falar das eleições: “essa política sebosa virou tradição”.

Na disputa eleitoral de 1998, o que mais se ouvia entre os candidatos derrotados era

que só ganhavam os políticos que faziam grandes distribuições de presentes. Para eles,

magoados com a derrota, “foram os políticos que viciavam o povo”. Ou seja, se havia um

vício, ele era causado pela forma de fazer política dos próprios políticos.

42
Lembrando aqui a velha análise durkheimiana em que certos fatos sociais, externos e
independentes dos indivíduos, agiriam com força coercitiva sobre eles (Durkheim, 1978).
60
Em 2001, quando a nova conformação política estava estabelecida na Associação,

eu me incomodava com o fato de que representantes do Ibama apoiavam aquele grupo

político, já que, a meu ver, o grupo se preocupava mais com as eleições e muito pouco com

a própria Reserva Extrativista. Numa conversa com o responsável pelo órgão federal, ele

considerou que aqueles velhos militantes do movimento, que estavam então de fora da

Associação só queriam, na verdade “manter um sistema de paternalismo que o [novo

presidente] cortou”. O problema, portanto, vinha dos líderes locais anteriores.

Um morador do rio Amônia, reclamando da falta de condições de saúde e educação,

antes de 1999, também acusava aqueles velhos líderes e seus aliados pois, para ele, a culpa

“é dos chefes, dos maiores”, porque, nas eleições da Associação, só ganhava “quem é

apoiado pelo Macedo e pelo povo dele”.

Para um dos líderes que participara das lutas iniciais da criação da Reserva,

entretanto, o problema teria surgido no momento em que o movimento social conseguiu

obter os primeiros recursos para a compra de produtos para instalação de uma cooperativa

(que será discutida mais à frente). Nesse tempo, como ele lembra, a associação dos

moradores ainda era fraca e somente alguns líderes, como o Antonio Macedo, eram fortes.

Na sua análise, Macedo, “para ganhar a Reserva, ele estrategicamente ganhou o pessoal

com mercadoria", "foi assim que ele ganhou a Reserva". De opinião semelhante, o autor

Christian Geffray também considerou, após uma viagem à Reserva como o Macedo,

controlando a cooperativa, teria se tornado um novo “patrão”: para esse autor, “não se pode

escapar tão facilmente, e sobretudo de uma só vez, das engrenagens imaginárias da velha

máquina paternalista” (Geffray, 2007:228).


61
Após 1999, já para outro antigo líder da Associação, o problema não vinha do

passado distante, mas estava sendo construído justamente pela ação personalista dos mais

novos representantes dos moradores e pelos políticos locais. Ele refletia sobre o fato de que

os programas que tinham sido criados pelas antigas gestões da Associação estavam sendo

capitalizados para enaltecer o nome do novo presidente, Orleir Fortunato. Ele dizia que,

“nós [os militantes antigos do movimento] é que lutamos pela quebra da ditadura”, mas

“quando chegamos hoje na Reserva [2002], não se fala do nome da Associação, “só se fala

do Orleir [Fortunato]”. Em todo canto se fala isso. É uma coisa muito ruim". Para ele,

portanto, esse personalismo podia ser visto como algo novo, que vinha sendo

deliberadamente construído pelo novo presidente da Associação.

Já o próprio presidente da Associação, Fortunato, instado a falar sobre a opinião do

outro, defendia-se afirmando que, ao contrário do que alguns diziam, ele mesmo só falava

“em nome da diretoria"... "Mas o povo sempre tem isso. Quando é uma coisa que eu estou

comprando, eu falo. Quando não, eu digo: eu consegui com fulano de tal". "Mas o povo é

que ainda tem essa visão...". Novamente, nessa visão, o problema voltava-se para o “povo”

e sua cultura.

Um funcionário da Associação, amigo do mesmo presidente, reforçava a idéia de

que o personalismo dos políticos vinha do próprio povo, pois ele já tinha morado em outros

estados amazônicos, onde pode constatar que era essa mesma forma de fazer política que se

repetia. Para ele, o povo considerava que "alguns são ídolos, mas para mudar vai tempo":

“não existe democracia... talvez na Europa, mas aqui, falta muito". Essa mesma opinião

também podia ser vista em alguns estudos sobre a política rural no país (conforme resumido
62
em Costa, 1998), que consideravam que a população rural, por viver numa situação de

“atraso” e que somente o fim da concentração fundiária, o amadurecimento político do

povo, ou quem sabe uma revolução, enfim levariam o povo à modernidade, vista a partir de

um modelo construído a partir da metrópole européia.

Para pensar sobre as mudanças ocorridas no interior da Associação também era

importante notar as diferenças referentes ao espaço ocupado pelos moradores na história e

na geografia da Reserva. O movimento social tinha surgido e se desenvolvido entre

moradores do rio Tejo. Poucas pessoas que viviam no rio Juruá participaram do movimento

e, mesmo assim, tinham sido englobados dentro dos limites da Reserva Extrativista.

Durante o movimento inicial da Reserva, houve uma intensa participação de agentes

de fora, como será discutido a seguir. Quando a Associação começou a ter de enfrentar

sozinha alguns problemas, as pessoas do Juruá diziam que os seringueiros não tinham

condições, já que quem tinha comandado as mudanças eram aqueles agentes externos.

Em 1999, quando a Associação mudou de configuração, aqueles líderes do rio Tejo

que se viram alijados das discussões imputavam a mudança aos moradores do rio Juruá,

que não tinham passado pelas lutas pela criação da Reserva, e, desse modo, não teriam a

experiência da democracia. Também, pela facilidade de acesso por navegação, há muito

mais tempo os moradores do Juruá eram visitados por deputados e prefeitos, e, era com o

personalismo e o assistencialismo dos políticos profissionais que eles que tinham aprendido

política, e não com o movimento social. Por isso, eles apoiavam a nova Associação, que

atuava da mesma maneira dos políticos que eles conheciam.

63
Já para outro seringueiro, que fora membro de diferentes diretorias da Associação

ao longo do tempo, o problema já vinha de um tempo muito anterior, de quando a vida

política local era marcada pela presença dos patrões. O “patrão”, conforme ele, “queria dar

uma de bom para poder colher tudo do trabalhador. (...) dizia que dava toda a assistência...

e o seringueiro achava que o patrão estava fazendo bondade... e o cara se largava de

produzir borracha”. Por isso, em sua opinião, os moradores apoiariam políticos faziam as

mesmas políticas assistencialistas. Da mesma forma, outro antigo presidente da Associação

salientava que, na Reserva ainda havia “aquele ranço dos patrões”. O problema estava,

nesse argumento, na longa história pregressa da relação entre seringueiros e patrões.

A primeira observação que se pode fazer, a partir dessas opiniões, é que a

organização política da Reserva; as formas de ação dos políticos e dos líderes locais; o

comportamento dos políticos e dos moradores com estes, eram assunto cotidiano. As

pessoas percebiam que havia problemas na nova organização política local e estes eram

vistos de diferentes pontos de vista, assim como eram diferentes as suas explicações. O

problema eram os “assistenciados”, o “vício”, a “tradição” da “política sebosa”, o

personalismo, o “povo”, a “mercadoria”, o “paternalismo”, ou o velho “ranço” dos patrões.

Às vezes os problemas eram considerados como resultado da ação de pessoas que tinham

certo poder local: patrão, prefeito, velho líder do movimento social, novo líder do

movimento social. Outras vezes era resultado da continuidade de um passado distante, na

longa história de dominação dos seringais. Outros ainda achavam que o problema devia ser

colocado no momento presente, pior que o anterior. Já para alguns aquilo era uma
64
característica da própria população em geral, do “povo”, que podia ter tanto causas

materiais como causas culturais.

Outra observação era que, se havia problema, era sempre culpa do “outro”. Outra

pessoa, outro tempo, outro lugar. Para a maioria dos técnicos e políticos, o problema estava

com os moradores. Para os líderes da Associação, o problema era o povo, ou os líderes

anteriores. Para os líderes anteriores, eram os líderes recentes, ou os patrões, ou os

políticos. Para os moradores do Juruá a dificuldade era do “povo do Tejo”, e seus aliados;

para moradores do Tejo, o problema era o “povo do Juruá, acostumados com a assistência

de fazendeiros e políticos.

Sem pretender lidar com todas essas questões, esta tese procura discutir algumas

dessas opiniões a partir da apresentação de aspectos da vida política dos moradores da

região do Alto Juruá ao longo do tempo. Pretendo, desse modo, poder contribuir para a

reflexão em torno das tarefas propostas pelo movimento social ao se constituir enquanto

povo tradicional, capaz de ser co-responsável pela gestão de seus territórios.

1.8 - Estudando a política local e as redes sociais

Atualmente, considero problemáticas várias das opiniões acima citadas, ainda que,

durante algum tempo, compatilhei com os moradores da Reserva. Outras dessas opiniões

que antes me causavam incômodo, hoje me parecem bastante razoáveis. Como percebe

Marcio Goldman, há várias dificuldades em discutir um aspecto da vida dos “outros”, como
65
a política democrática, por exemplo, quando o antropólogo tem suas próprias e caras

opiniões:

(...) tudo se passa como fosse mais fácil ouvir o que os ‘informantes’ têm a dizer sobre os orixás do
que sobre os políticos. Por quê? Provavelmente porque como temos ‘certeza’ de que os primeiros
não existem, nada do que os ‘crentes’ dizem sobre ele pode confrontar nosso saber. Ao contrário,
certos de que a democracia existe, ou ao menos pode existir, o que eles dizem tem a perigosa
capacidade de nos chocar. (Goldman, 2008:4)

Assim, como o autor afirma em outro trabalho:

(...) no caso da ‘política’ (...) são nossos “informantes” que costumam ser céticos e os antropólogos
mais ou menos crédulos. (Goldman, 2000:318)

Eu também tinha meus critérios de julgamento sobre o certo e o errado na política,

e, obviamente, esses critérios tiveram pesos variados ao longo do tempo, tanto durante as

conversas em campo quanto muito depois, no momento da escrita.

Inicialmente, além das dificuldades práticas que qualquer pessoa que vem do meio

urbano enfrenta para aprender a viver numa região florestal (reaprender a comer, dormir,

andar, falar, ouvir, se portar à mesa, etc., etc.) eu ainda me sentia na obrigação de esconder

ao máximo minhas próprias opiniões, com o receio de iniciante sobre minha própria

influência na opinião e nas falas das pessoas.

Isso começou a mudar quando tive a oportunidade de presenciar alguns eventos.

Primeiro foi a visita de um pesquisador na casa em que eu estava, quinze dias depois de

minha chegada, quando passou horas explicando suas posições políticas para a família,

aparentemente sem nenhuma preocupação em alterar características locais que eu tinha

receio de modificar, somente no processo de tentar aprender. Dias depois, assisti a uma aula

66
num treinamento para agentes de saúde na sede da Associação, ministrada por um médico.

Este também não parecia achar que estava destruindo alguma mítica idéia de cura ou de

corpo ao falar sobre anatomia humana ou sobre o efeito de remédios. No mês seguinte,

assisti a uma reunião de uma vereadora em campanha no rio Amônia. Ela trazia consigo um

prático, que, numa cena que me pareceu grotesca, arrancou dentes de mais de dez pessoas

sem nenhuma preocupação com higiene, enquanto a vereadora aproveitava para “ensinar”

as pessoas a votar, distribuindo pequenas réguas vazadas com os números de seus

candidatos.43

A permanência na casa das famílias depois da saída desses visitantes, no entanto,

deu-me a oportunidade de acompanhar as longas conversas que se sucediam nos dias

seguintes a esses eventos. Essas conversas tornaram claro o quanto eu estava

superestimando o poder de persuasão das pessoas vindas de fora, e também, subestimando

as pessoas do local. As conversas do “sabido” professor de São Paulo, do “doutor” e da

vereadora, (uma rica fazendeira da região), tinham sido fervorosamente discutidos,

negados, revistos ou mesmo ignorados. Se durante esses eventos as pessoas podiam manter

um silêncio respeitoso, isso de nenhuma maneira significava concordância dos ouvintes.

Descobria o óbvio: aquelas pessoas construíam em conjunto suas próprias opiniões, nunca

somente a partir do discurso de outros, não importava quem fossem. E não tinham a menor

pressa em expressá-las. Eram ouvintes atentos e educados, não tolos.44

43
Descrevi alguns desses episódios na dissertação de mestrado (Costa, 1998:81-82).
44
As muitas maneiras sobre como se dá o encontro e as transformações dos conhecimentos não será
objeto deste trabalho. Apenas por curiosidade, cito uma fala de um morador do rio Tejo, me explicando sobre
a “história natural” dos búzios (grandes caramujos), que, conforme ele, teria sido ouvida de um agrônomo que
67
Após pouco mais de um mês em campo, porém, quando eu já sabia comer pirão

feito com caldo e farinha, já sabia como se plantava uma maniva, o que era o marisco de

zagaia e quase dominava o português local, eu resolvi que já podia, e devia, começar a

“transformar” aquela realidade. Em minha opinião, era o momento para a Antropologia, ou

o que eu entendia por Antropologia, dar lugar para a ação política. E eu devia começar com

aulas de ecologia: era absurdo queimar a floresta para plantar, ou jogar lixo não orgânico na

mata ou no rio. As pessoas também precisavam de aulas de higiene básica: restos de

comida eram jogados para os porcos soltos no quintal, e com isso formava-se um leito de

barro e sujeira nas proximidades das casas durante o período das chuvas, e o cloro,

distribuído pelo governo para tornar a água potável, era utilizado como alvejante de roupas.

Também eram urgentes treinamentos de associativismo e democracia: algumas pessoas

ainda não tinham entendido o verdadeiro significado do movimento social que criara a

Reserva Extrativista, e algumas até diziam ter saudade de quando os patrões eram os

“donos” dos seringais. Tudo isso, concluía eu, tinha de ser mudado.

Por timidez talvez, não consegui tomar nenhuma iniciativa, e o tempo novamente

foi passando. E com ele, outras novas maneiras de ver e relacionar-me com aquelas

pessoas. Aos poucos, atitudes que me pareciam fruto da falta de conhecimento iam

mostrando lógicas, motivações, técnicas elaboradas, filosofias. Já não era tão fácil

compreendê-las, mas parecia haver algo que tornava ridículas e apressadas muitas das

minhas anteriores conclusões: a consolidação da conquista da Reserva era bem mais

trabalhou na região: os búzios viriam do céu, pois a água puxaria a pedra, o osso, o peixe - tal como o próprio
morador já tinha visto - levando tudo para o céu. Isso, depois voltaria caindo em lugares diferentes, dando
assim, origem aos búzios.
68
complicada do que eu imaginava, e certos problemas que os patrões antes resolviam

estavam, de fato, sem solução. Uma cerca para prender os porcos era tarefa praticamente

impossível num lugar tão úmido, e com os recursos existentes. Talvez valesse mesmo a

pena usar o cloro naquela camisa nova, pois além do gosto ruim que deixava na água de

beber, de que adiantava se o pequeno frasco só era distribuído vez por outra durante um ano

inteiro? E, seria mesmo tão “errada” a política local? Ou eu estaria olhando a realidade

política, mesmo não querendo, a partir da “falta” dos valores econômicos que eu

considerava corretos (como discutido por Marshall Sahlins, 1978) ou pela “falta” dos

princípios políticos que eu considerava adequados (conforme Goldman, 2000:329)?

Claro que sim, mas só o tempo poderia me mostrar, e como eu fora inicialmente

alertada por aquele seringueiro no dia da minha chegada, eu não precisava ter pressa45.

Era óbvio que, entretanto, aquele início de autocrítica não era suficiente para que eu

fosse capaz de deixar de lado as minhas acalentadas teorias sobre o que devia e o que não

devia ser a política. Mas, com o tempo, a partir das minhas várias atividades na região e

também graças às mudanças políticas no contexto geral, fui aprendendo, na prática, a ver os

moradores da Reserva, como define Goldman, como “(...) atores dotados de reflexividade

própria, ou seja, teóricos com os quais podemos e devemos tentar dialogar e aprender”. E,

aos poucos, pude permitir que “os discursos e práticas nativos (...)” pudessem, tal como

proposto por esse autor:

45
Isso não quer dizer que, com o tempo que permaneci no local, encontrei alguma lógica ou
explicação coerente para mim a todas as observações que me intrigaram ou me chamaram a atenção, só a uma
pequenina parte delas.
69
(...) desestabilizar nosso pensamento (e, eventualmente, também nossos sentimentos).
Desestabilização que incide sobre nossas formas dominantes de pensar, permitindo, ao mesmo
tempo, novas conexões com forças minoritárias que pululam em nós mesmos. (Goldman, 2008:6)

Desse modo, a maneira de apresentar este trabalho seguiu, de maneira geral, uma

tentativa de compreender e questionar os próprios pressupostos que me orientaram ao longo

do tempo, compartilhando a opinião de Marshall Sahlins (2006:19) que, ao falar da

Antropologia, lembra que “é preciso outra cultura para conhecer outra cultura”.

Também tentei levar em conta as observações de Carlo Ginzburg (2007:9), ao

comentar sobre a “contenda pela representação da realidade” entre a narração histórica e a

literatura. Para o autor, é importante ao estudioso não só de deixar o fio da pesquisa ao

longo do labirinto para poder refazer o caminho de volta, mas também mostrar os “rastros”

que o estudo vai deixando ao longo de sua trajetória. E nesse sentido é que procurei, ao

longo deste trabalho, percorrer minhas próprias convicções e como elas foram alterando-se,

moldando-se, tentando deixar ao máximo evidente (também para mim mesma) o ponto de

vista de onde partia ao refletir e escolher sobre qual realidade observei e considerei

relevante registrar e discutir.

Como discute Teresa Caldeira (1988:151), a crítica à Antropologia, realizada pelos

pós modernos, teria sentido desde que o antropólogo

(...) não se furte a considerar sua relatividade, a sua existência entre outras, mas que também não se
furte a entrar no jogo de forças em que a pesquisa antropológica se faz para fornecer uma
interpretação que se define em termos críticos e políticos.

70
Assim, com o tempo, frente a uma determinada fala, e no intuito de, eu mesma,

refletir sobre o assunto, fui aos poucos me sentindo muito à vontade para incentivar a

conversa, dizendo até que ponto e por que eu concordava ou discordava. E meu interlocutor

(não mais informante, nem entrevistado) decidia, naquele momento, se valia a pena

concordar, discordar ou simplesmente ignorar minha opinião. Várias vezes as pessoas

pareciam aceitar o desafio do debate46.

Assim, eu podia passar longo tempo em conversas (nunca lineares) com um

morador e sua família sobre quais seriam as possíveis melhores maneiras de agir da

Associação; sobre as diferentes versões sobre o tempo dos patrões, ou sobre como certas

opiniões ou versões sobre a história me incomodavam. Assim, quando alguém afirmava que

“só voto em quem me enricar” ou, “eu gosto mesmo é de ver arriar madeira” ou, que tudo o

que o movimento fez foi tirar o “patrão” para deixar o “ladrão” ou, ainda, que é normal que

aquele que está no alto roube, eu usava minhas próprias discordâncias para melhor entender

essas opiniões, o que podia ser uma forma de conhecimento, quem sabe, mútuo.

A partir dessas experiências, ao contrário de Goldman, comecei a achar muito mais

fácil discutir meus incômodos quanto à política local, assunto em que eu tenho um arsenal

de teorias e opiniões, prontas para serem confrontadas e questionadas (afinal, as mudanças

políticas gerais não permitiram que eu mantivesse uma defesa incondicional de muitas das

minhas posições) - do que apreender características locais com as quais eu me sentia muito

46
Saliento que alguns moradores da região, já com certa idade, pareceram entender como
desrespeito ou ofensa alguns de meus questionamentos, situações em que eu rapidamente tentava mudar de
assunto. Esses, porém, foram pouquíssimos casos.
71
distanciada47. Ao contrário, minha convivência junto aos moradores tornou-se uma

experiência particularmente rica, me parece, graças às oportunidades em que podia, aberta e

explicitamente, colocar em cheque tanto as falas ouvidas como, ao mesmo tempo, minhas

próprias opiniões, e tentar nesse processo encontrar um espaço de diálogo e compreensão

mútua.

Nesses diálogos, eu e meus interlocutores não estávamos apenas mostrando

diferenças de opiniões e versões da história local. Com o tempo, também podia assumir que

poderia haver uma mútua tentativa de convencimento, o que, claro, fazia a conversa ainda

mais interessante. Já em outros momentos, eu tentava mostrar as fragilidades da minha

opinião, que eu tinha poucas certezas, mas realmente acreditava encontrar respostas com os

debates.

Não tenho a menor idéia do que, efetivamente, as pessoas achavam dessas

conversas. Como afirmou Geertz (2001:40): “(...) a relação entre um antropólogo e um

informante repousa sobre um conjunto de ficções parciais que são mais ou menos

percebidas”. Para mim, pelo menos, essa “ficção parcial” foi aos poucos se tornando um

alento para as tantas dúvidas que sempre me perseguiam em campo.

Esses diálogos forneciam, como percebi depois, várias evidências. Eles podiam

indicar as maneiras que eu via como opostas de pensar a política local e a minha

necessidade de refazer minhas próprias opiniões e teorias mas, além disso, também

47
Há questões que me parecem por demais estrangeiras, por isso, não há dados aqui sobre os
Caboclos D’Água, o Caipora ou as formas de pôr e tirar panema, pois eu sentia como se estivesse falseando
um interesse, já que, nesses casos, eu não me daria a opção de, simplesmente, dizer “eu não acredito nisso”
como achava que podia fazer quando a conversa girava em torno da política ou outros assuntos.
72
demonstravam o tipo de relação que as pessoas tinham ou queriam ter comigo,

considerando que eu também era (conscientemente ou não) posicionada dentro do contexto

das redes sociais que se entrecruzavam no interior da Reserva.

Nesse sentido, comecei a perceber que falar sobre a política local era também tornar

relativamente visíveis as diferentes redes existentes no interior da Reserva.

Tal como discutido por J. A. Barnes, utilizo o conceito de “redes” considerando a

presença de “processos sociais que envolvem conexões que transpassam os limites de

grupos e categorias”, considerando que as pessoas podem escolher “em um contexto

específico um curso de ação e não outro, bem como por que, quando e como escolhe

selecionar um determinado contato entre muitos possíveis, recorrendo a um determinado

princípio e não a outros” (Barnes, 1987:163 e 187).

Dentro dessa perspectiva, procuro salientar as “redes políticas”, consideradas como

“redes parciais” que ajudam a entender o “tecido da ação política” local (Barnes, 1987: 166

e 181). Também levo em conta os estudos de Bruno Latour ao tratar essas redes como

heterogêneas, abertas e capazes de se expandir sem fronteiras por onde circulam pessoas,

idéias e também objetos.

O que eu pude notar é que opiniões, gestos, presentes e atitudes políticas podiam

reforçar, manter ou prejudicar a formação e a manutenção, dinâmica, dessas redes. Penso

que, por isso, é que as conversas sobre a política eram tão freqüentes no cotidiano local.

Nessas conversas e discussões, as pessoas também estavam discutindo, repensando e

avaliando, acredito, a sua própria posição no interior dessas redes, objeto de disputas, e

resultados de escolhas, sempre correndo riscos de perdas e ganhos.


73
Como demonstram Scherer-Warren & Lüchmann (2004), “como qualquer realidade

social”, a rede também “desenvolve e reproduz relações de conflito e poder concomitante

às práticas de solidariedade, reciprocidade, de compartilhamento”, daí a importância de

“desvendar as tensões dessas dinâmicas”.

Joan Vincent (1987), ao estudar sociedades rurais, afirma que são nas situações de

conflito é que se percebem os “fluxos organizados” dessas. Também Almeida (2007b), ao

estudar as relações de seringueiros com a caça, ressalta como as redes locais são resultados

e geradoras de conflitos. Assim, a observação de conflitos em torno de recursos e idéias

demonstra momentos em que os indivíduos assumem posições, apóiam e decidem dentro de

certos contextos onde uma simples ação de falar bem de um ou outro, comprar uma galinha

aqui ou ali, apoiar uma opinião ou não já diz respeito à busca de pertencimento, ou de

afastamento, de determinada rede. Redes que estão em constante em competição, em

movimento, sempre modificando a configuração política da região como um todo.

Nesse sentido é que procuro discutir, ao longo desta tese, que muitas das relações

locais demonstram a intensa politização da vida na floresta, pois, assim como os políticos,

as pessoas me pareceram estar sempre atentas em como seus gestos, falas, omissões, ou

trocas podem estar sempre sendo entendidas dentro do contexto político local mais

abrangente.

74
CAPÍTULO 2 - HISTÓRIAS SOBRE O “TEMPO DOS PATRÕES”

2.1 - Introdução

Como discutido acima, algumas das explicações sobre os problemas percebidos na

organização política recente da Reserva Extrativista remetem à história das relações de

dominação entre patrões e seringueiros, sendo importante, portanto, ter-se uma visão sobre

como se organizou a vida política nos velhos seringais. Para isso, faço uma breve descrição

sobre o chamado “sistema de aviamento”, denominação usada na descrição das relações

políticas e econômicas entre seringueiros e patrões que vigoraram desde o século XIX nos

seringais nativos da Amazônia brasileira, período que também é chamado, atualmente, de

“tempo dos patrões”, ou “tempo da sujeição”.

Seguindo a cronologia comumente utilizada, esse longo período pode ser dividido,

para fins de explanação, em algumas fases48:

- o auge da produção da borracha amazônica, do final do século XIX, quando se

inicia a migração de trabalhadores para a região até 1912. Nesse ano se inaugura a

concorrência entre a borracha produzida a partir dos seringais nativos da Amazônia e a

produção asiática de cultivo;

- um período intermediário de crise, que vai de 1912 até a Segunda Guerra Mundial;

48
Para o detalhamento de alguns desses momentos, o Anexo 2 apresenta uma lista cronológica de
acontecimentos aqui considerados importantes para a reflexão sobre a história local.

75
- a chamada “Batalha da Borracha”, durante a década de 1940, quando novos

investimentos governamentais e externos foram feitos como esforço de guerra para

aumentar a produção dos países aliados e, por fim,

- outro longo período de crise, entre a Segunda Guerra e os anos de 1970, quando o

governo instaurado com o golpe militar de 1964 inicia uma agressiva política de incentivos

para a produção agropecuária, de exploração madeireira e de mineração na Amazônia,

considerado, de forma generalizada, como o fim do sistema de aviamento na região.

Essa política desenvolvida pelo governo militar provocou o surgimento de uma

série de conflitos de índios e seringueiros, que culminaram com a criação de várias terras

indígenas e Reservas Extrativistas nas décadas de 1980 e 1990, assunto para os dois

capítulos seguintes.

Esse breve panorama sobre a história das relações entre patrões e seringueiros não

tem por objetivo descobrir até que ponto a história pode ou não explicar as relações

políticas recentes. Seu intuito é, somente, elencar as diferentes versões construídas para se

entender essa história. Isso porque essas versões foram repetidamente retomadas para se

entender a política recente na Amazônia, tanto por estudiosos da Academia, quanto pelos

seringueiros e seus líderes, que também procuram entender os contextos que vivem, ou

buscam encontrar justificativas para suas atitudes. Assim, é possível perceber que quando

se quer mostrar as dificuldades para uma vida política idealmente democrática, aparecem

versões da história local que vitimiza os seringueiros num sistema onde os patrões

dominavam a cena econômica e política; já quando se pretende valorizar a capacidade dos


76
moradores para propor os destinos da Amazônia, a ênfase maior recai nos seus momentos

de resistência contra os patrões.

Mais que saber se a história explica o presente procuro aqui entender por que

determinadas versões dessa história são utilizadas como explicações. Para isso, seguem,

portanto, algumas dessas versões.

2.2 - Os primeiros seringais

No final do século XIX, milhares de migrantes embrenharam-se na floresta

amazônica em busca do leite que escorria das seringueiras. Conforme percebidos pelos

colonizadores, pelo menos desde Cristóvão Colombo, os índios haviam descoberto que esse

leite, ao coagular-se, transformava-se num material de propriedades elásticas que serviam

para diferentes utilidades. A transformação daquele leite branco coagulado se transformaria

no “ouro negro”, porém, somente entre os anos de 1839 e 1842, quando Charles Goodyear

e Thomas Hancock descobriram que, com enxofre e calor, aquele material podia manter

suas propriedades de modo mais permanente e, em seguida, Hancock o usou pela primeira

vez para recobrir rodas de carruagem.

Como teria afirmado Goodyear, ao perceber as possibilidades da borracha:

Não existe provavelmente nenhuma outra substância no mundo (...) cujas propriedades provoquem
no espírito humano (...) igual soma de soma de curiosidade, surpresa e admiração. Quem pode
examinar e refletir sobre as propriedades da goma elástica, sem venerar a sabedoria do Criador?

77
Logo os moradores da floresta em que abundavam as seringueiras, e que tinham

descoberto a tão divina substância, começaram a ser mortos ou expulsos para dar espaço

para o novo Eldorado. “Correrias” era o nome das expedições em que aldeias indígenas

eram cercadas e dizimadas, restando somente aqueles que conseguiam fugir para lugares

onde não havia seringueiras, como algumas cabeceiras dos pequenos afluentes, e algumas

mulheres e crianças, que eram capturadas e depois se tornavam esposas ou filhos de criação

daqueles primeiros solitários migrantes. Alguns grupos indígenas também sobreviveram

após terem sido “amansados”, como se fala na região, passando a trabalhar na extração da

borracha, ou mantendo relações esporádicas com os seringais, fazendo trabalhos eventuais

para os patrões49.

Há alguns registros sobre as dificuldades da entrada dos exploradores da borracha

no vale do Juruá acreano. Conta-se que, em 1886, a expedição do cientista Chandless por

esse rio foi sido abortada porque os tripulantes do barco não quiseram entrar na região onde

se localizavam a “temível tribo dos Nauas” (Almeida, et alii, 2002:108). Castelo Branco

também relata que, em 1884, um grupo de exploradores que tentavam subir o Alto Juruá

acreano (ou seja, rio acima de onde hoje se localiza a sede de Cruzeiro do Sul) foram

impedidos após receberem uma “surra” de índios e, em 1989, um outro explorador levou

uma flechada depois de um ataque dos Capanauas (Castelo Branco So, [1922] 2005:14).

49
Vários estudos procuram reconstituir as correrias para a matança indígena e as diferentes formas
em que índios, patrões e seringueiros relacionaram-se durante a formação dos seringais do Alto Juruá. Ver por
exemplo Aquino & Iglesias (1994) sobre os Kaxinawá, Cristina Wolff (1999), que levanta documentos e
entrevista descendentes desse período. Mariana C. Pantoja (2002) descreve a história da família de seu Milton
Gomes partindo da captura de uma índia e de seu casamento com um seringueiro e, num artigo posterior,
discute os diferentes “dramas locais” envolvidos nessa conflituosa situação de contato (Pantoja, 2003).
78
Castelo Branco Sobrinho (2005:17 e 18) também registra, no Alto Juruá, conforme

sua grafia, a existência de índios Ararauas, Catuquinas, Curinas, Amauacas, Capanauas,

Kaxinauás, Inukuinis, Iauavós, Poyanauas, Santarozinos e Jaminawas. O que hoje se sabe é

que a região era habitada antes do desenvolvimento da economia da borracha por diferentes

grupos de língua Pano e mais tarde, expulsos da frente exploradora do caucho, no Peru, o

grupo Ashaninka (também conhecidos por Campa ou Kampa), de língua Aruaque, grupos

que se estabeleceram na região, ocupando áreas sem incidência de seringueiras, como as

cabeceiras do rio Amônia e Breu (Almeida & Carneiro da Cunha, 2002).

Conforme Castelo Branco Sobrinho (2005: 25), “só após alguns embates com esses

aborígines, foi que teve início o povoamento e desbravamento dessas terras, no começo do

ano do 1889” mas, cinco anos depois, em 1894, “desde o Moa [sede de Cruzeiro do Sul] até

ao Breu [fronteira com o Peru], as bordas do Juruá se encontravam pontilhadas de ‘tapiris’,

mais tarde transformados em barracões, que seriam os primeiros núcleos de população”. O

autor conta também que os Nauas ou Capanauas teriam sofrido uma epidemia de “catarrão”

e, sabendo ela ter sido causada pelos seringueiros, fugiram para “muito longe” do lugar

considerado “empestado” (idem, p. 23).

Em relação à posse da terra, assim eram definidos os limites pelos primeiros

“descobridores” dos seringais:

(...) a medida que iam subindo, reservavam uma certa quantidade de praias para cada um,
assinalando as extremas de um e outro lado da exploração com um pequeno roçado e deixavam uma
tabela com os nomes dos respectivos donos. (Castelo Branco So. [1922] 2005: 17)

79
Esses novos migrantes vinham de vários lugares do Brasil, e em especial da região

Nordeste, mas também foi comum a chegada de estrangeiros que se dedicaram basicamente

ao comércio, como árabes e portugueses.

As viagens dos seringueiros eram financiadas pelos futuros patrões (estes, em

alguns casos, também financiados com recursos das casas aviadoras), que também

adiantavam (ou “aviavam”) as mercadorias para o sustento dos seringueiros e os

equipamentos para iniciar seu trabalho na floresta. Para pagar a dívida contraída, o

seringueiro tinha o compromisso de entregar toda a borracha produzida para o patrão que

“aviou” sua chegada e permanência inicial na floresta. Esse patrão também era dono dos

“barracões”, depósitos localizados geralmente em entroncamento de rios onde se mantinha

as mercadorias para a compra dos seringueiros. Dessa forma, os seringueiros deveriam,

idealmente, vender sua produção para o mesmo patrão que financiava as mercadorias que

comprava. Não era necessário, portanto, o uso do dinheiro, e a borracha era praticamente a

única moeda corrente.

Além do compromisso de vender a borracha ao patrão que o aviou, os seringueiros

também pagavam uma “renda” anual, aluguel pelo uso das estradas de seringa. As estradas

de seringa eram as trilhas sinuosas abertas na mata acompanhando a incidência natural das

seringueiras50. O valor da renda era geralmente de 60 a 66 kg de borracha pelo uso de uma

parelha (um par) de estradas.

Os seringueiros chegantes, com suas mercadorias aviadas, eram “colocados” em

diferentes locais da floresta, as chamadas “colocações”. Essas colocações partiam de uma

50
Sobre a ecologia das seringueiras e as técnicas de utilização ver Almeida & Emperaire, 2002.
80
pequena clareira aberta nas margens do rio ou igarapé, onde o seringueiro construía sua

casa e de onde se iniciavam as trilhas por onde se chegava nas estradas de seringa por ele

exploradas. Ao todo, as colocações ocupam uma área de floresta de aproximadamente 300

ha ou 3 Km2 (Almeida & Menezes, 1994:188), podendo chegar a 500 ha ou mais, com

tamanhos variando conforme a dimensão e quantidade de estradas de seringa.

A borracha produzida pelos seringueiros, ao longo da safra anual, era então enviada

para os barracões e depois carregada em grandes balsas para os armazéns das casas

aviadoras de Belém e Manaus (que eventualmente também podiam ser donas de seringais)

e dali transportadas para os países produtores de artefatos de borracha.

Para os patrões, toda essa organização era mantida visando a obtenção de lucros

tanto na venda da borracha para as casas aviadoras como na venda das mercadorias para os

seringueiros. Já para os seringueiros, o objetivo era trabalhar, conseguir saldo positivo e

depois, como a grande maioria dos migrantes, voltar um dia para seus lugares de origem.

2.2.1 - Os seringueiros como vítimas

O desencontro desses objetivos logo foi percebido por Euclides da Cunha que, em

1905, fez uma viagem pelos seringais do rio Purus, atuando como engenheiro chefe de uma

expedição de demarcação do território então em conflito entre Brasil, Peru e Bolívia. Em

meio a seus mapas e medições, Euclides da Cunha deixou vários textos hoje clássicos onde

81
teceu duras críticas ao sistema de aviamento, interpretando-o como “a mais criminosa

organização do trabalho que ainda engenhou o mais desaçamado egoísmo”, nesse sistema,

o “seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se”

(Cunha, 1966: 232 e 250). Para esse autor, os seringueiros recém-chegados nunca

conseguiriam pagar as dívidas que contraíam com os patrões, graças à obrigação de só

comercializar com o mesmo patrão, o mesmo que controlava as contas dos seringueiros e

arbitrava sobre os preços das mercadorias. Juntando-se a isso, os seringueiros ainda

estavam sujeitos às dificuldades de alimentação e às doenças tropicais. Nessas

circunstâncias,

É é natural que ao fim de alguns anos [de chegada ao seringal] o freguês esteja irremediavelmente
perdido. A sua dívida avulta ameaçadoramente (...). Queda, então, na mórbida impassibilidade de um
felá desprotegido dobrando toda a cerviz à servidão completa. (Cunha, 1966: 233).

Ainda antes dessas páginas de Euclides da Cunha, Antonio Labre, em 1872, assim

descrevia os seringais das margens do rio Purus:

O trabalho livre aqui é péssimo, e é um verdadeiro monopólio dos donos de fábrica de seringa, pelo
isolamento em que estão das autoridades e em grandes distâncias (...). Um homem livre vive em
verdadeira escravidão, não tendo liberdade de vender, e nem de comprar senão ao patrão, por quem
são forçados a arbítrio seu (...). (Labre, 1872:45)

Também no rio Juruá, em 1898, o padre Parissier relatava que

(...) para pagar sua dívida que muitas vezes é fictícia, o seringueiro é obrigado a trabalhar durante
outro fabrico para o seu patrão, e assim estende indefinidamente sua escravidão; e se, premido pelo
desespero, ele tenta escapar, o patrão o persegue como se ele fosse um ladrão, e ele não consegue
achar emprego em outra parte. (Citado em Almeida, et al., 2002:112)

82
Descrições como essas forjaram a idéia do sistema de aviamento como um sinônimo

para a “escravidão por dívidas”, ponto de partida para vários autores que procuraram

escrever sobre a vida nos seringais da Amazônia brasileira.

Esse sistema extremamente lucrativo, entretanto, acabou tão rapidamente quanto

começou: durou entre o final da década de 1870, quando se inicia a chegada das primeiras

levas de seringueiros, até 1912, após atingir um auge de onde despencou numa queda

vertiginosa para nunca mais ser tal como fora. Após uma série de experiências, ingleses e

holandeses conseguiram, em suas colônias no sudoeste asiático, formar mudas das

sementes das seringueiras vindas da Amazônia, logo produzindo grandes plantações que se

tornaram rapidamente muito mais produtivas e baratas do que a produção da borracha

nativa amazônica. Com isso, em 1912, iniciava-se a decadência dos seringais amazônicos

que não tinham condições de disputar a concorrência com os preços da borracha de cultivo.

Apesar da diminuição dos lucros, porém, muitos dos seringais amazônicos

sobreviveram até recentemente, mantendo-se com uma tecnologia praticamente inalterada e

com o mesmo sistema comercial baseado no arrendamento de estradas e no aviamento de

mercadorias pelos patrões, pago posteriormente pelo seringueiro com a borracha produzida.

2.2.2 - Os patrões como vítimas: a primeira crise

Logo após o início da crise de 1912, começam a surgir outras versões sobre as

relações entre patrões e seringueiros amazônicos, enfatizando como os patrões também

83
viveriam sob o jugo dos preços das casas exportadoras de Belém e Manaus e da cobrança

de impostos pelo Estado.

Para isso é importante lembrar que em 1903 o Acre, após as lutas que deram origem

às fronteiras hoje conhecidas, tornou-se território nacional. O território foi dividido em três

departamentos (Juruá, Purus e Alto Acre), cada qual sob a responsabilidade de uma

Prefeitura nomeada a partir da capital federal, no Rio de Janeiro. A autonomia do território

era mínima, que não podia decidir nem sobre a cobrança de impostos locais. Por duas vezes

os acreanos tentaram obter sua independência: em 1902 e em 1910, mas somente em 1962

o Acre deixou de ser território para se tornar um dos estados da federação.

Avelino Chaves, que foi patrão e delegado dos departamentos do Alto Juruá e

Purus, considerava, em 1913, que “muito se tem exagerado acerca do regime econômico de

exploração da borracha (...)”. Para esse autor, os gastos dos patrões é que eram excessivos,

sendo que o patrão também estaria preso num sistema arbitrário de dívidas com os

aviadores e exportadores. Sob essas condições, considerava ele, tanto o seringueiro quanto

o patrão “são igualmente sacrificados” (Chaves, 1913:63-64).

Plácido de Castro usou os mesmos argumentos para refutar descrição de Euclides da

Cunha, “no intuito sobretudo de desfazer impressões errôneas e injustas”, ressaltando os

gastos dos patrões e também afirmando que,

(...) proprietário e seringueiro são indignamente explorados, mas pelo governo federal, que tão
pesadamente taxa a exportação de seu produto e pelos comércios aviador e exportador de Manaus e
do Pará, que impiedosamente sugam a última gota de seu sangue. (Castro: 1930, 190)

84
Acusação semelhante fazia Rego Barros (s/d), também personagem da elite do

território acreano no início do século passado, para quem o Estado brasileiro até esse

período, esmerava-se apenas em cobrar as taxas de exportação que o comércio gerava.

Craveiro Costa, em 1924, também comentava que,

Material e moralmente, a situação do proprietário não era melhor do que a do seringueiro. Patrão e
freguês eram irresistivelmente arrastados no mesmo círculo vicioso. Ambos eram vítimas das
mesmas torturas morais, sob o arrocho da dívida. (Costa, 1973:28)

Plácido de Castro ainda acusa Euclides da Cunha de se utilizar de suas próprias

anotações sobre a vida dos seringais, deturpando-as, visto que Cunha não teria

acompanhado pessoalmente a vida dos seringueiros (Castro: 1930: 184).51

Frente às mudanças causadas pela decadência da economia da borracha nativa após

1912 e as limitações políticas impostas pela condição de território, os patrões procuravam

dar expressão a seus problemas econômicos, utilizando-se dos mesmos argumentos antes

utilizados para descrever os seringueiros. Assim como antes os seringueiros, os patrões

também passam a ser descritos como “vítimas”, tanto dos preços dos comerciantes

exportadores de Belém e Manaus como das taxas praticadas pelo governo federal.

2.2.3 - Da especialização à diversificação

Após a crise de 1912, outras mudanças também são percebidas no interior da

floresta.

51
Um estudo sobre a visão de Euclides da Cunha sobre os seringueiros e a crítica de autores da
época, como a de Plácido de Castro são discutidas em texto manuscrito de Mauro W. B. de Almeida,
intitulado “Euclides e a Revolução Acreana”.
85
Na constituição dos primeiros seringais, os seringueiros eram compelidos a fazer da

extração do látex sua atividade única, comprando dos patrões todo o restante necessário

para sua sobrevivência, da carne salgada à farinha, da rede de dormir à faca de seringa.

Apenas eram tolerados pequenos roçados nas margens dos rios. Com a primeira crise na

economia da borracha, o cotidiano dos seringueiros começa a se modificar: diminuía o

suprimento de bens nos barracões, e o seringueiro passou a dividir seu tempo com outras

atividades como o plantio de mandioca para a produção de farinha, a caça, a pesca e o

cuidado com as famílias que cresciam (Almeida, 1993:40, Wolff, 1999). Muitos

constituíram famílias tanto com as índias capturadas como com mulheres migrantes que

começaram a chegar à região. Encontros que começaram a dar forma a maneiras de viver

bem diferentes daquela vivida pelos primeiros seringueiros.

Citando Constantin Tastevin, padre que viveu nos seringais acreanos na década de

1920, Almeida demonstra que, embora tenha diminuído a chegada de produtos vindos de

fora, possivelmente isso provocou uma melhora na qualidade de vida dos seringueiros, por

exemplo pela alimentação mais variada e saudável (Almeida, 1993:40-41). As colocações

vinham então se modificando, tornando-se não só lugares onde seringueiros eram

“colocados” para extrair borracha, mas espaços praticamente auto-suficientes onde uma

nova vida econômica, política e social começava a se estabelecer (Almeida, 1990). Era a

“diversificação” tomando lugar da antiga “especialização” (Wolff, 1999:119). Isso altera de

modo fundamental a vida local e os seringueiros, provocando uma "conversão de

proletários em camponeses" (Almeida, 2004:38) (ver fotos 8 a 19).

86
2.3 - Os soldados da borracha

Durante a Segunda Guerra Mundial os conflitos internacionais trouxeram novas

mudanças para o interior dos seringais amazônicos e uma nova tentativa de reconverter

aqueles camponeses em soldados-trabalhadores da produção de borracha.

Nesse período, os japoneses invadiram as colônias européias onde se desenvolviam

as plantações da seringueira, o que afetou diretamente o comércio da borracha com os

Países Aliados, matéria prima básica para a indústria bélica. Com isso, os seringais nativos

amazônicos voltaram a despertar o interesse nacional e internacional.

Os Estados Unidos, buscando garantir o suprimento de borracha nas suas indústrias,

estabeleceram uma série de convênios com o Brasil e assim, foram financiadas novas levas

de migrantes em direção aos seringais da Amazônia, recrutados em diferentes lugares do

país para serem os “soldados” da “Batalha da Borracha”, como ficou conhecida essa

empreitada oficial. O governo de Getúlio Vargas, dessa forma, também aumentava sua

presença na Amazônia, tal como vinha fazendo nos mais distantes lugares do país,

instaurando o monopólio estatal do comércio da borracha e criando o Banco de Crédito da

Borracha, assegurando os preços e a garantia da comercialização da borracha amazônica

(Martinello, 1988). Vargas instituiu também a “Caderneta do Seringueiro”, onde ficavam

oficialmente estabelecidas regras para a relação entre patrões e seringueiros, como será

visto a seguir, assim como na época vinha sendo feito para o trabalho fabril urbano.

Seu Antonio de Paula, ex-seringueiro que migrou para o Acre em 1942, ainda

guarda em sua lembrança um dos cartazes que viu em sua cidade, no interior do Ceará,

87
conclamando os cearenses a cumprir o seu “dever” e alistar-se na Batalha da Borracha,

onde figurava a imagem de um seringueiro extraindo o látex sentado numa motocicleta52.

Além de provavelmente sonhar com sua própria motocicleta, Antonio de Paula alistou-se

porque o governo também tinha o compromisso de dar uma “assistência” à família do

seringueiro. Essa assistência, porém, ocorreu somente durante os meses iniciais da Batalha

da Borracha, sendo logo abandonava. Assim, se os primeiros migrantes dos seringais

amazônicos planejavam trabalhar, juntar dinheiro e voltar, na leva seguinte os soldados da

borracha, além disso, também contavam com os recursos que famílias receberiam em seus

locais de origem. Por último, também compartilhavam, como apregoava a propaganda

oficial, da idéia de participarem da obtenção de um produto de grande importância para os

países que, depois, ganhariam a Guerra53.

Para alguns autores, as opiniões de Euclides da Cunha, descrevendo as relações de

trabalho no seringal como baseadas na “escravidão por dívidas”, teriam representado um

papel importante nas tentativas para melhorar as condições dos novos migrantes que

chegaram à Amazônia na década de 1940. Conforme Vicente da Costa Sobrinho (1992) e

Pedro Martinello (1988), as descrições de Cunha sobre o sistema de aviamento, já

amplamente divulgadas naquela época, teriam se tornado um obstáculo para a

arregimentação dos necessários soldados. Por causa disso, alguns governadores do

52
Vários depoimentos sobre a migração nesse período podem ser vistos em Almeida & Wolff
(2002).
53
Mary Allegretti reporta como um traço importante na característica do movimento dos seringueiros
justamente essa identidade ligada ao orgulho de produzir algo considerado de grande valor (Allegretti, 2002).
Almeida também relata a decepção dos seringueiros reunidos em Brasília em 1985, ao descobrirem que os
políticos mal sabiam de existência deles e que a borracha que eles produziam não era a grande “riqueza do
mundo”, como acreditavam. (Almeida, 2004:43).
88
Nordeste chegaram a querer proibir a saída de migrantes de seus estados para a Amazônia

(Costa Sobrinho, 1992:69). As denúncias de Euclides da Cunha também teriam chegado até

o governo dos Estados Unidos54, que teriam pressionado o governo brasileiro para a

melhoria das relações de trabalho, levando o governo de Getúlio Vargas a elaborar o

chamado “contrato padrão”, regulando direitos e deveres entre patrões e seringueiros

(Martinello, 1988:253). Esse documento teria sido utilizado como um mecanismo de

pressão dos recém chegados, e como argumento para revoltas contra os patrões (Costa

Sobrinho, 1992:82).

Almeida, contrariamente, ressalta que essa tentativa de regulação das relações de

trabalho nos seringais, pelo governo de Getúlio Vargas, seria melhor compreendida como

uma expressão da “vitória” dos patrões, que teriam tido seus interesses finalmente

atendidos pelo governo federal. Para o autor, o sistema de aviamento, oficializado pela

Caderneta do Seringueiro, renovava os antigos impedimentos para atividades como a

agricultura, a pesca e a caça, na prática já derrubados anteriormente; proibia o abandono

dos seringais e passou a considerar “delito criminal” a venda de borracha que não para o

patrão que aviou o seringueiro (Almeida, 1993:49). Para o autor, o sistema oficialmente

estabelecido para os soldados da borracha colocava os seringueiros, camponeses florestais,

como:

“(...) trabalhadores coagidos a uma jornada semanal de seis dias nas estradas de seringa, impedidos
de abandonar o trabalho enquanto estivessem endividados – condições essas expressas por escrito,
nas cadernetas do seringueiro. O trabalho escravo foi, assim, recriado na Amazônia brasileira pelo
próprio Estado, com apoio norte-americano.” (Almeida, 2004:39)

54
Manuela Carneiro da Cunha, pesquisando a documentação do padre francês Tastevin, descobriu
que seus relatórios da década de 1920, embora não publicados, já estavam traduzidos para o inglês nos
serviços de informação norte-americanos (Cunha, 2009:349).
89
Um neto de um patrão que atuou no Alto Juruá, conta que, para seu avô, naquele

tempo, “democracia não existia, [o seringal] não era um negócio manso”.

A Batalha da Borracha, porém, do ponto de vista de seus objetivos econômicos de

aumento da produção gomífera em curto prazo, foi, conforme Almeida (1993) um “fiasco”.

Martinello salienta também que, graças às péssimas condições de transporte dos migrantes,

suas dificuldades de adaptação e as doenças, o número de mortos na Amazônia nesse

período nunca será devidamente conhecido, mas que provavelmente ultrapassaria a casa

dos milhares (Martinello, 1988:344).55

Com o fim da Guerra e a vitória dos Aliados, logo a borracha amazônica deixou de

ter tanto interesse, e os seringueiros foram aos poucos retomando a situação de

diversificação das suas atividades, combinando a caça, a pesca e a agricultura com as

atividades de extração de borracha, logo voltando à anterior condição de “camponeses

florestais” (Almeida, 1993 e 2002).

Do ponto de vista dos patrões, mesmo com o final da Batalha da Borracha, houve,

entretanto, uma importante vitória: eles conseguiram uma continuidade de incentivos à

produção, e durou de 1946 até 1986, o que manteve a lucratividade do sistema de

aviamento amazônico, ao longo de todo esse período (Almeida, 2004).

55
No Alto Juruá, com exceção de comentários sobre os sofrimentos causados pela malária, nunca
ouvi relatos sobre mortes de seringueiros que chegaram nesse período.
90
2.4 - Algumas controvérsias sobre o tempo dos patrões

Discuto em seguida algumas análises sobre as relações entre seringueiros e patrões,

não com o objetivo de dar conta de todas as diferentes versões sobre essas relações, mas

para enfatizar as diferenças entre as maneiras como alguns autores as avaliaram.

2.4.1 - Seringueiros x patrões: dívidas e violência

A primeira questão que chama a atenção, ao se pensar sobre a relação entre

seringueiros e patrões na Amazônia, é a violência. Euclides da Cunha, Antonio Labre,

padre Parissier, para ficar apenas nos acima citados, são alguns dos autores que

sublinharam como seringueiros seriam "forçados" a realizar a sua própria "escravidão".

Sob o argumento da dívida, real ou fictícia, os patrões poderiam obrigar os

seringueiros ao trabalho, punindo-os com violência quando tentavam fugir sem pagar as

contas ou vender o produto de seu trabalho a outros patrões ou comerciantes. A violência

deveria produzir controvérsias pois, em 1904, um dos primeiros atos do prefeito nomeado

para o Departamento do Alto Juruá foi um decreto sobre o fim do uso da violência por parte

dos patrões56.

Estudos mais recentes, no entanto, procuram relativizar o papel dessa violência para

a compreensão das relações entre seringueiros e patrões. Barbara Weinstein, por exemplo,

concorda que a análise da escravidão por dívidas teve um importante papel de denúncia das

relações de dominação na Amazônia, mas, na opinião da autora, a repetição dessa análise


56
Decreto de Marechal Thaumaturgo de Azevedo de 15 de dezembro de 1904, citado em Almeida,
1993:24).
91
também pode “contribuir para dissimular o caráter complexo das relações” que ocorreriam

nos seringais (Weinstein, 1993: 38).

Para pensar sobre essa questão também é interessante observar como a violência

aparece, por exemplo, em alguns dos processos criminais do Fórum de Cruzeiro do Sul, no

início da constituição dos seringais do Alto Juruá57. Nesses processos, pode-se notar que a

violência percebida no sistema de aviamento não era privilégio apenas de um dos lados da

relação entre seringueiros e patrões.

Alguns processos demonstram a violência por parte de patrões e seus empregados.

Um deles, de 1910, conta um caso em que um empregado, por ter “sentido-se ameaçado”

por um grupo de seringueiros (não foi possível entender o que seria essa ameaça), mata o

"líder" desse grupo, sendo acusado por isso e, depois, absolvido58. Outros mostram a

violência no sentido contrário, como um processo de 1905, em que, ao final de uma

transação comercial, o empregado do barracão recebeu uma facada de um seringueiro59. O

seringueiro foi considerado culpado. Porém, recebeu uma punição de, apenas, 22 dias de

prisão.

Em 1915, foi enviada uma diligência policial para o seringal Restauração, no alto do

rio Tejo que “tinha por fim restabelecer ordem no seringal”. Dessa feita, prenderam cinco

seringueiros que teriam se entregado sem resistências. O processo foi aberto porque os

policiais foram responsabilizados por “espancar” um dos seringueiros a pedido do

57
Estudos sobre esses processos também podem ser vistos em Wolff (1999), Almeida (1993: 24-25
e 71-74) e Mariana C. Pantoja (2004).
58
Fórum de Cruzeiro do Sul - Processo criminal s/no, de 1910.
59
Fórum de Cruzeiro do Sul - Processo criminal no 89, de 1909.
92
empregado do barracão, mas tanto os policiais e o empregado foram absolvidos, não tendo

no processo detalhes sobre o que seriam as tais desordens60. No mesmo ano, na

Restauração, um processo fala que seringueiros “intimaram” o empregado do barracão,

expulsando-o “sob o fértil pretexto que Messias [o patrão] não os atendia nas reclamações

sobre preços elevados das mercadorias que lhes eram fornecidas (...), além de muitas outras

reclamações de somenos importância” 61.

Somente os patrões tinham possibilidades de acessar órgãos repressivos do Estado,

como a polícia, para fazer valer seus propósitos. Mas os seringueiros também tinham

acesso, de algum modo, ao aparato jurídico. Além disso, todos tinham suas próprias

espingardas. Por isso, não é estranho quando um seringueiro fala, ao lembrar de um patrão,

que ele gostava de andar pelas casas dos seringueiros tendo um policial ao seu lado.

Não é possível mensurar suas reais dimensões, mas se existia medo e violência, era

de ambos os lados da relação, e podia causar constrangimentos a todos.

2.4.2 - Seringueiros x patrões: dívidas e saldo

Alguns estudos também salientam a força com que a dívida do seringueiro com o

patrão, com ou sem violência, funcionava como um mecanismo de “imobilização” dos

seringueiros.

60
Fórum de Cruzeiro do Sul - Processo criminal no 819, de 1916.
61
Fórum de Cruzeiro do Sul - Processo criminal no 41, de 1916.
93
Para Otávio Ianni, por exemplo, “o endividamento prévio e permanente era um elo

essencial da teia de relações na qual o seringueiro desenvolvia o seu trabalho”, impedindo-o

de acumular reservas e tornar-se um produtor independente (Ianni, 1978: 47 e 55). Nelson

Pinto (1984: 93) também considerou que o “endividamento é a mola-mestra da

imobilização do seringueiro”. Considerações semelhantes são vistas por Caio Prado Jr.

(1953:244), Eliane C. O’Dwyer (1998:191) e Vicente da Costa Sobrinho (1992: 42), para

quem “o papel fundamental da dívida era a imobilização do trabalhador”.

José da Costa Martins, por sua vez, avaliou ainda que chamar essa relação de

dívidas como de “imobilização da força de trabalho”, seria mesmo um “eufemismo”. Para

esse autor, o sistema de aviamento seria uma forma de “trabalho sob coação”, melhor

definido como uma das “formas coercitivas extremadas de exploração do trabalhador”

(Martins, 1997: 85).

Discordando dessas visões, outros autores enfatizaram os casos em que os

seringueiros, apesar do possível arbítrio do patrão sobre as contas dos seringueiros e os

preços das mercadorias, ainda podiam ser capazes de pagar suas dívidas e obter saldo,

especialmente quando seus filhos começavam a fazer parte da mão-de-obra familiar, ou

mesmo através da contratação de seus próprios empregados. Almeida (1993) e Mary

Allegretti (1989) relataram esses casos, e também Costa Sobrinho (1992: 77-81). Alguns

seringueiros com quem conversei também se orgulhavam de serem seringueiros que desde

muito conseguiam ter saldo com os patrões.

Num caso recente, um morador do rio Bagé contou que, quando trabalhava para o

patrão, muitas vezes obtinha saldo e, com isso, podia ir para o Novenário na sede municipal
94
de Marechal Thaumaturgo todos os anos com uma boa quantidade de borracha para

vender62. Ali, aproveitando preços menores do que os praticados pelo patrão, ele fazia suas

compras pensando em deixar um mínimo para depois se abastecer no barracão. O mesmo

seringueiro recordava das reclamações do patrão por causa disso, porque, mesmo que não

tivesse dívida, o patrão não gostava que o seringueiro vendesse borracha “para fora”. Mas,

com o saldo, ele era obrigado a aceitar.

2.4.3 - Seringueiros x patrões: dívidas e fugas

Além da possibilidade da obtenção de saldo, os seringueiros nem sempre podiam

considerar a dívida como um impedimento definitivo para o abandono de um seringal.

Euclides da Cunha afirmara que o seringueiro nem pensava em fugir, pois “aterra-o o

desmarcado da distância a percorrer” (Cunha, 1966: 233). As informações sobre fugas,

entretanto, aparecem de forma recorrente entre os autores que descreveram os velhos

seringais. Antonio José Araújo, advogado que trabalhou em Cruzeiro do Sul em 1910,

chegou a fazer uma reivindicação ao governador para que os seringueiros “que deserdavam

dos seringais” fossem obrigados a “voltar aos seus postos até eles quitarem suas contas”

com o argumento de que os patrões tinham investido seu capital baseando-se no trabalho de

cada um dos seus seringueiros aviados (citado por Almeida, 1993:24).


62
Os novenários são festas que ocorrem anualmente, nas datas de seus santos padroeiros de cada
lugar. Geralmente os novenários marcam ciclos anuais das atividades: na cidade de Mâncio Lima, ocorre no
tempo de preparação das estradas de seringa; em agosto ocorre o novenário da Restauração, tempo de maior
trabalho nos roçados (e provavelmente quando o corte de seringa entra em pousio por causa do período de
maior seca) e, em janeiro, acontece o novenário de Marechal Thaumaturgo, que marca o fim da safra da
seringueira (Emperaire e Almeida, 2002:292). Nesse período, comerciantes de diferentes regiões do país
trazem seus produtos para o lugar e os seringueiros que vêm para as rezas e as festas sempre procuram trazer
alguma quantidade de borracha ou outro produto para aproveitar os preços de ocasião.
95
Na década de 1920, Craveiro Costa (1973: 28) afirmava que “quebrar os laços que o

atavam na floresta, pelo pagamento à dívida, e, não raro, pela fuga, era o ideal único do

seringueiro”. Mário Guedes, que trabalhou num posto fiscal do rio Iaco, também no Acre,

num interessante relato sobre a vida do seringal na década de 1920, registra que “o patrão

tem que contar com as eventualidades do negócio: um freguês que morra, outro que ‘fuja’,

porquanto se dá não raro o caso do seringueiro abandonar o seringal” (Guedes, 1920: 127-

128). Lévi-Strauss (1981:365), em sua rápida passagem por seringais em 1938,

curiosamente também se refere a uma fuga de um seringueiro junto com sua esposa, que,

após receber o aviamento, fugiu deixando um bilhete explicando “que a mercadoria é muito

cara e não tem coragem para pagar a conta”.

Um seringueiro de um afluente do rio Tejo contou-me que, na década de 1970,

morava com o pai numa colocação no Riozinho da Liberdade, também no alto do rio Juruá,

até que entrou um novo empregado para cuidar do barracão do patrão. "Ele queria nos

sujeitar, nos obrigar a comprar dele, mas era muito caro (...) dava para comprar em outro

lugar. (...) Quem não se sujeitasse ele botava para fora (...). Sujeito injusto, eu tive muita

raiva dele. Aí o mateiro [empregado do patrão] foi para lá para nos pôr para fora. (...) Meu

pai ficou, mas eu vim embora por isso" (citado em Costa, 1998:45). Esse fato me chamou a

atenção porque, durante o mês que estive em sua casa, vi que era conhecido por “querer

estar sempre certo”, mesmo nos dizeres de seus vizinhos, pois tinha fama de ser muito

trabalhador e cumpridor das regras.

Outro seringueiro do rio Amônia relembrou que um de seus patrões, o Sebastião

Correia, certa vez chegou a mandar três policiais em sua casa para expulsá-lo porque ele se
96
recusava a pagar a dívida. O seringueiro então discordava do cálculo do patrão, achando

que a conta estava acima do que ele tinha realmente gasto. Nesse dia, conforme contou, "eu

embrabei, e disse que só vendia a preço justo". Depois disso, o seringueiro foi com sua

família para outro seringal, também sem nunca ressarcir sua dívida (Costa, 1998:45).

2.4.4 - Patrões pequenos, médios e grandes

Descrevendo os seringais do Alto Juruá, na década de 1980, Almeida (1993)

ressaltou como poderia ser simplista a imagem que descreve o sistema de aviamento com a

imagem de um patrão reinando solitário em meio a um séquito de seringueiros endividados.

Para Almeida o patrão, vivendo geralmente distante dos seringais, mantinha sua atuação

local através de uma hierarquia de pequenos e médios patrões, também aviados pelos

patrões maiores. Aqueles, por sua vez, eram os responsáveis pelos pequenos depósitos de

mercadorias instalados geralmente nos entroncamentos dos pequenos e rios e igarapés. Um

grande seringal era dividido em vários seringais menores, cada qual tendo um empregado

ou “aviado” do patrão. Assim, numa imagem fractal, cada seringueiro geralmente estava

ligado a um patrão “menor”, por sua vez ligado a um patrão “médio” e este ao patrão

“maior”, que deveria suprir de mercadorias o barracão principal do seringal e os outros

menores (Almeida, 1993:101). Vale reproduzir a descrição feita por Manuela C. da Cunha

(2009:104-5) desse “sistema de dominação”, a partir das pesquisas de Almeida no Alto

Juruá, onde o “sistema desposava a própria geografia”:

(...) os negociantes ingleses adiantavam as mercadorias para os negociantes de Belém, que as


repassavam para Manaus, que as forneciam aos patrões dos rios caucheiros [seringueiros] que
abasteciam seus subpatrões, que, por sua vez, as transferiam aos seus próprios subpatrões,
97
concluindo-se o conjunto com adiantamentos em mercadorias feitos aos seringueiros. (...) salvo nas
extremidades, cada qual era credor a montante e devedor a jusante. Nesse caso particular, a rede
fractal recobria a fractalidade dos próprios rios.”

Nesse sistema, como observado por Almeida, era possível notar as várias

combinações, como quando os seringueiros mais produtivos eram convidados a tornarem-

se seringueiros-comerciantes, com patrões adiantando-lhes mercadorias que seriam

vendidas a outros, com a borracha repassada ao final para o patrão, provavelmente como

estratégia para garantir maior controle aos chamados “seringueiros de saldo”. Para

Almeida, essa “hierarquia de pequenos, médios e grandes níveis”, ainda que todos

chamados indiscriminadamente de “patrões”, tinham como resultado uma “estrutura mais

aberta à escolha e à competição do que poderia aparecer à primeira vista” (Almeida,

1993:102).

2.4.5 - Patrões x patrões

Mesmo Euclides da Cunha, apesar das dificuldades que os seringueiros teriam para

fugir, deu a entender que essas fugas não deveriam ser tão incomuns, pois senão não teriam

sentido as várias tentativas de estabelecer acordos que os patrões fizeram entre si para que

um não contratasse seringueiros endividados de outros, sob punição de multas (Cunha:

1966:233). Para Barbara Weinstein (1993:38), porém, nem esses acordos seriam

cumpridos, graças às constantes “rivalidades”, também existentes entre os próprios patrões.

Nos processos criminais do Fórum de Cruzeiro do Sul, de um total de 19 processos,

de 1901 a 1915, seis deles referem-se a conflitos entre patrões, geralmente em disputas

98
sobre direitos de propriedades dos seringais. A comprovação da propriedade era feita com a

requisição de seringueiros para testemunhar a favor de um ou outro patrão, confirmando

serem aviados de um e não de outro. Um desses seringueiros disse, em 1907, que mesmo

antes do conflito relatado no processo, ele já tinha avisado ao patrão que não queria mais

ser aviado dele, pois não era pessoa de trabalhar em lugar que houvesse “questão”. 63

O conflito existente entre os próprios patrões também pode ser visto pelas trilhas

alternativas que até recentemente ainda existiam pelas florestas do Alto Juruá. Essas trilhas

atravessavam justamente aquele sistema fractal de patrões de rios, permitindo que

seringueiros atingissem outros sistemas, para utilizar a visão anterior.

Nessas trilhas alternativas, os seringueiros podiam colocar em suas costas ou em

animais de carga parte da sua produção, levando-a até patrões de outros seringais. No caso

do Alto Juruá, seringueiros do seringal Riozinho, o mais produtivo da região, várias vezes

contaram levar partes da sua produção para a atual cidade vizinha do Jordão, onde

compravam mercadorias, participavam de festas e campeonatos de futebol64.

Como afirmado acima por um seringueiro, apesar dos patrões, “(...) dava para

comprar em outro lugar”.

63
Fórum de Cruzeiro do Sul - Processo criminal s/no, 05 de julho de 1907.
64
Almeida registrou que, na década de 1980, aquelas mesmas trilhas usadas para o comércio
paralelo entre o Riozinho e o Jordão também foram caminho para idas a reuniões do Sindicato de
Trabalhadores Rurais da outra cidade (Almeida, 1993:83).
99
2.4.6 - Patrões x marreteiros e regatões

Além dos caminhos que levavam seringueiros aos outros patrões, também era

comum a presença de “marreteiros”, geralmente seringueiros que iam aos poucos juntando

saldo e conseguiam, por conta própria, trazer mercadorias da cidade para a venda aos

vizinhos. Embora esses pequenos comerciantes pudessem fazer alguma concorrência ao

barracão, eles eram relativamente “tolerados” pelos patrões, pois também poderiam

revender a borracha obtida para os próprios patrões locais (Almeida, 1993:126). Além

disso, o saldo provavelmente era resultado do trabalho de uma família produtiva,

eventualmente com filhos em idade alta produtividade. Nesse sentido, provavelmente não

seria de interesse do patrão entrar em conflito com esses seringueiros.

Também na região de Xapuri, outro lado do estado do Acre, o seringueiro Chico

Mendes também contava que "até 1968 cansei de sair à noite levando companheiros que

marcavam ponto com os marreteiros para vender sua borracha e comprar mais barato"

(STR/CNS/CUT, 1989:14).

Já mais conflituosa era a relação dos patrões com os chamados “regatões”,

comerciantes que vinham das cidades, percorrendo os seringais sazonalmente, no caso do

Juruá, em pequenos barcos, às vezes até durante a noite para não chamar a atenção de

empregados dos patrões, trazendo produtos e levando a borracha para vender diretamente

às usinas na cidade. Vale acompanhar o retrato que Leandro Tocantins faz desse

personagem do seringal:

De todas as figuras regionais que o comércio estimulado pela borracha veio firmar no panorama
social da Amazônia, incontestavelmente foi o regatão o mais pitoresco. Turco, sírio, libanês, o

100
mascate feito navegante por imposição da geografia, vara os rios, furos, igarapés na sua original
canoa ou pequeno batelão movido a remo de faia. Três, quatro toneladas de deslocamento, ou de
proporções menores, a galeota cheia de quinquilharia, de secos e molhados, é coberta na parte da
popa por uma tolda onde se abrigam os artigos da mercância (...).

O regatão, sorridente, mesuroso, abalando-se às maiores aventuras - porque sempre é mal visto,
combatido e às vezes perseguido a tiros de rifle pelos agentes dos seringalistas - vai oferecendo,
conquistando, tentando, enganando aquela gente (...) da margem dos rios. A troco de rendas,
miçangas, pentes, pó-de-arroz, sabonete, charque, cachaça, e tantas bugigangas e guloseimas, recebe
65
a borracha, o couro, a castanha , as essências silvestres, tudo que represente valor comercial. É uma
verdadeira sangria para o seringal, cuja renda se desvia, em parte, por caminhos contrários aos
desejos e interesses dos proprietários (Tocantins, 1972:234).

Almeida, na década de 1980, chegou a testemunhar um momento em que um patrão

trouxe uma “pequena força policial” para “assustar” um seringueiro que tinha vendido

“borracha para fora” (Almeida, 1993:76). Mas, mesmo assim, observa que esses regatões

seriam “tão velhos” quanto o próprio sistema de aviamento, sendo várias e sem sucesso as

tentativas dos patrões para evitar que seringueiros vendessem sua produção a eles

(Almeida, 1993:123).

Pode-se, portanto, perceber que os patrões precisavam disputar seus fregueses com

vários outros personagens. Dessa forma, é possível pensar sobre as dificuldades dos patrões

em manter sua pretensão ao monopólio da borracha produzida pelos seringueiros que

aviava. Em termos oficiais, esse monopólio era apenas uma “pretensão” já que, desde 1905

havia uma lei que garantia aos seringueiros a possibilidade de venda de borracha aos outros

65
No Alto Juruá não há a presença natural de castanhais, como ocorre, por exemplo, no vale do rio
Acre.
101
comerciantes que singravam os rios, desde que esses comerciantes não vendessem a

seringueiros em dívidas (Almeida, 1993:20).

Além disso, tanto seringueiros quanto patrões eventualmente poderiam encontrar

mecanismos de burlar aquilo que fosse legal ou considerado como legítimo. Os patrões

eram reconhecidos pelos seus estratagemas na arbitragem das contas dos seringueiros, por

exagerarem nos preços das mercadorias ou por manipularem mecanismos nas balanças para

diminuir o peso da borracha do seringueiro. Já os seringueiros, além de fugas e vendas a

terceiros, ainda podiam fazer uso da chamada “porqueira”: diferentes tipos de materiais

acrescidos à borracha para aumentar seu peso. Ouvi muitas histórias dos seringueiros sobre

a criatividade na composição dessas porqueiras, podendo ser acrescentada à borracha,

clandestinamente: cascas de árvores, palha, areia, sapato velho de borracha, cernambi66,

pilhas velhas, caroço de abacate, carvão... Seringueiros me contaram até que uma vez uma

galinha morta foi acrescida à borracha, porqueira que acabou sendo descoberta, por causa

do mau cheiro. Havia algumas formas de controle e empregados dos patrões podiam cortar

eventualmente bolas ou pranchas de borracha ao meio para conferir a qualidade do produto.

Além disso, em alguns momentos o patrão já acrescentava no preço uma possível perda

com produtos adulterados. Embora o acréscimo de porqueiras não fosse considerada

positiva pelos seringueiros, mesmo mais recentemente, ninguém negava tê-la utilizado,

pelo menos alguma vez.

66
A palavra cernambi significa aqui os restos de látex que coagulam nas cascas da seringueira ou
nos objetos utilizados para o manuseio do látex. O látex coagulado e prensado, localmente chamado de
prancha, é comercialmente denominado de CVP – cernambi prensado.
102
2.4.7 - Patrões, seringueiros e o sistema capitalista

Como visto, assim como não era fácil aos patrões ter controle sobre o produto do

trabalho dos seringueiros, também havia dificuldades na tentativa patronal de controle

sobre o processo de produção da borracha. Vários autores também procuraram discutir o

sistema de aviamento a partir da análise marxista sobre a questão do controle do trabalho e

do produto do trabalho.

Costa Sobrinho, por exemplo, considerou que o trabalho dos seringueiros estava

“rigidamente subordinado” aos interesses do patrão e, por conseqüência, ao capital (Costa

Sobrinho, 1992: 20). Já para Élio Duarte (1986:31), haveria apenas uma subordinação

formal, isto é, uma relação de dominação baseada somente no controle do trabalho, mas

não através do desenvolvimento da tecnologia, posto que durante todo um século a forma

de produção da borracha praticamente em nada foi alterada. Para Almeida (1993), por sua

vez, durante a maior parte da vigência do sistema de aviamento, não teria ocorrido nos

seringais subordinação real, nem subordinação formal dos seringueiros aos patrões.

Para pensar essa questão, é interessante ter uma idéia das dimensões possíveis de

um seringal. Cada patrão tinha um número variado de seringueiros trabalhando em seu

seringal, podendo chegar a centenas deles. Os patrões tinham também como empregados os

“mateiros”, responsáveis por reconhecer as seringueiras espalhadas pela mata e abrir as

estradas, ligando essas seringueiras. Também era tarefa do mateiro a fiscalização do

trabalho e da produção dos seringueiros aviados de seu patrão.

103
É possível estimar a produção de um seringueiro a partir dos traços diários

realizados em cada árvore, podendo-se saber, assim, quantos dias ele cortou sua estrada. O

cuidado com que esses traços são feitos também refletem a qualidade de seu trabalho.

Esperava-se que os seringueiros respeitassem o chamado “regulamento”, que estabelecia

uma série de regras, informais, para o uso, como se diria atualmente, ‘sustentável’ das

seringueiras67.

No interior do seringal, cada seringueiro podia ocupar duas ou mais estradas de

seringa, que, como dito acima, podiam se espalhar por uma área média de 300 a 500

hectares (Almeida, 1993: 28). Na colocação que permaneci em1994, no rio Amônia, por

exemplo, a menor estrada de seringa utilizada pelos seringueiros da família, mensurada em

toda sua extensão por técnicos, tinha um trajeto de 5 quilômetros68.

A partir disso, para Almeida (1993), é possível concluir que seria muito difícil um

controle efetivo sobre a produção seus empregados sobre cada seringueiro, opinião também

compartilhada por Barbara Weinstein (1992: 44-45). Um exemplo dessa falta de controle,

para Almeida, teria ocorrido no início da década de 1980, no alto Juruá, quando a técnica

67
As regras definiam o número, o tamanho e a localidade das “bandeiras”, que eram os espaços
limpos todos os anos nas árvores onde seriam feitos os traços diários para a sangria da seringueira.Também
prescrevia a importância da delicadeza com que esses traços devem ser feitos, pois uma “mão pesada” com a
faca de seringa pode fazer um corte profundo demais, abrindo lugares para a entrada de insetos que podem
causar danos à árvore ou até sua morte.
Para uma descrição das técnicas do corte de seringa ver Emperaire e Almeida (2002).
68
Os estudos foram realizados por Henrique Roig e o técnico Charles através de recursos
provenientes do Projeto de Pesquisa financiado pelo convênio com a Fundação John D. and Catherine T.
MacArthur.
104
de produção da borracha, antes feita com a defumação do látex, foi alterada e simplificada

pelos seringueiros, mesmo contrariando os desígnios dos patrões (Almeida: 1993: 128).69

Vale lembrar que Karl Marx, ao analisar os primórdios do sistema capitalista inglês,

considerou que a "chamada acumulação primitiva", base para o surgimento do capitalismo,

teria sido o processo em que as populações camponesas perderam o acesso que tinham aos

meios de reprodução da sua vida (em especial, os campos de uso coletivo que permitiam a

caça, o pastoreio e a lenha para o aquecimento), sendo obrigadas a viverem nas cidades.

Nos dizeres de Marx, um processo violento, uma história “escrita a ferro e fogo” em que se

"dissocia o trabalhador dos meios de produção” (Marx, 1980:830). Assim, como analisado

por Almeida (1993), após algum tempo de moradia nas florestas, os seringueiros migrantes

já sabiam obter a maior parte de seu sustento da caça, da pesca e da agricultura, o que lhes

dava uma “relativa autonomia” (Almeida, 1993: 293-294). A partir disso, o autor definiu a

categoria dos seringueiros não como trabalhadores “livres” ou “cativos”, como definiram

outros autores (Duarte, 1986, por exemplo), mas como “camponeses florestais”, famílias

69
Os seringueiros, após a colheita do látex, passavam horas despejando o látex recolhido em torno
de um eixo, sobre a fumaça de um defumador, aos poucos formando as chamadas “bolas” ou “pélas” de
borracha. Durante a década de 1980 essa técnica, mesmo que produzindo uma borracha de melhor qualidade,
foi praticamente abandonada e os seringueiros passaram a produzir apenas as “pranchas”. A prancha,
chamada industrialmente de CVP (Cernambi Virgem Prensado) é produzida de forma bem mais simples.
Após a colha, o látex é depositado numa grande caixa feita de madeira, onde é adicionado um coagulante
natural, a seiva do ofê. Após 24 horas o líquido se torna um semi-sólido coagulado, com bolhas de água no
seu interior. Depois disso, a borracha é prensada com uma prensa feita de madeira para a retirada da água.
Quando há uma boa prensagem a prancha fica lisa e quase sem cheiro, quando não, a prancha fica porosa,
com cheiro forte e mais pesada.
105
com acesso relativamente livre à terra e tendo à mão recursos florestais que lhes permitiam

produzir a maior parte da sua sobrevivência.70

Já no início do século passado, Rego Barros, afirmava:

(...) um regime de trabalho assalariado, que poderia prover uma solução para o problema [para a
crise da borracha nativa], era inviável nos seringais devido à impossibilidade física do controle dos
trabalhadores naqueles latifúndios mesopotâmicos (Rego Barros, s/d:199, também citado por
Almeida, 1993:30).

Considerando que os seringueiros possuíam essa “relativa autonomia”, Almeida

demonstrou algumas das dificuldades dos patrões para convencerem os seringueiros a

manterem ou aumentarem sua produtividade. Uma dessas estratégias seria tentar seduzir os

seringueiros com uma “política de incentivos” baseada na exposição nos barracões de

relógios de marcas famosas, motores para canoas ou revólveres, objetos considerados “de

luxo”.

No Alto Acre, um relato de Chico Mendes também exemplifica essa política:

Aí prá enganar o pessoal, ele [o patrão] fazia o seguinte: 'Vamos botar um prêmio esse ano. Quem
fizer mais borracha, quem tirar em primeiro lugar ganha uma novilha, o segundo ganha uma
espingarda, o terceiro ganha um terno bom de linho'. Naquele tempo se usava, um seringueiro prá
vestir um terno de linho, era preciso ele se rebolar um ano todo, num fábrico. Naquele tempo a gente
usava o brim, era um listradinho, de algodão. Com aquilo a gente tava bem vestido. Aí então, todo
mundo se rebolava prá ganhar o prêmio. Com isso, nessa correria toda, no final do ano, ele dobrava a
produção. (entrevista ao Jornal da Tarde, citada em Allegretti, 2002:120)

Como já dito acima, outra estratégia do patrão em busca de aumentar a produção era

transformar famílias mais produtivas em seus comerciantes intermediários (Almeida,

1993:79).

70
Isso também seria uma das maneiras de compreender a recusa dos moradores de diferentes lugares
da Amazônia em tornarem-se trabalhadores assalariados, nas várias tentativas de implantar seringais de
cultivo na região (Almeida, 1991).
106
Mesmo na década de 1990, comerciantes ainda usavam desse artifício para manter a

relação com seringueiros mais produtivos. Num igarapé do Alto Tejo, um comerciante filho

de antigo patrão, como precisava viajar, deixou algumas mercadorias sob os cuidados de

uma jovem, justamente de uma família conhecida por ser a mais produtiva do igarapé, com

vários filhos em idade de trabalho. Após alguns dias nesse comércio, a jovem já tinha

vários outros moradores em dívida com ela, que, sendo todos pagos, lhe dariam um lucro

líquido de 70 quilos de borracha71.

Também dentro dessa estratégia é que pode ser visto o fato várias vezes relatado de

patrões que conseguiam libertar da cadeia de Cruzeiro do Sul seringueiros considerados

produtivos.

2.4.8 - Dívida fictícia, dívida justa, dívida desejada

Como citado acima, o padre Parissier considerava que, "muitas vezes", a dívida dos

seringueiros "fictícia". Da mesma forma, Christian Geffray (2007:165) afirma que:

Os devedores, lembremos, crêem endividar-se. É falso, mas eles acreditam nisso: percebem o valor
do produto de seu trabalho como inferior ao dos bens necessários à sua subsistência, e, essa ilusão,
no princípio da dívida, adquire um sentido no interior da comédia mercantil que o patrão, com a
força de seu monopólio, está apto a encenar (...).

Os próprios seringueiros reclamam que, por falta de educação formal, eles poderiam

se tornar presas fáceis da arbitrariedade do patrão e de seus empregados na contabilidade

71
Em 2009, para aumentar a produção dos trabalhadores da FDL (outro tipo de borracha que será
comentado mais à frente), na cidade de Assis Brasil, o convênio entre a empresa Couro Vegetal da Amazônia
e a WWF estabeleceu um sistema de “bônus de produtividade” em que se aumentava um ou dois reais o valor
do quilo da borracha produzida, conforme o seringueiro atingisse determinadas metas de produção, pois por
“descontentamento e desconfiança dos seringueiros”, as metas mínimas da produção esperada não tinham
sido atingidas durante o ano anterior (Saldanha, 2009).
107
das suas dívidas. Assim os seringueiros nunca tinham certeza se o que pagavam era o que

realmente o deviam. Mas hoje, e provavelmente tal como antes, os seringueiros não

questionavam o fato de terem de pagar as mercadorias que compravam. Sabiam que o

patrão comprava e que fazia empréstimos e que também tinham seus credores.

Almeida, utilizando-se das teorias de E.P. Thompson sobre os movimentos sociais,

diferentemente das opiniões de Geffray, ressalta a importância de se perceber a presença de

uma “economia moral” no interior dos seringais, com idéias de justiça delimitando o

legítimo e o não legítimo, em ambos os lados das relações entre patrões e seringueiros

(Almeida, 1993: 92).

Nesse contexto, era justificável aos patrões querem receber as dívidas e os

seringueiros precisavam também ter argumentos para justificar o fato de burlarem o patrão

e comprarem mercadorias de outros comerciantes.

Nos depoimentos recentes, tal como discutido por Almeida (1993), considera-se

correto que, por estarem endividados, os seringueiros devem, primeiro, vender a sua

produção para o patrão que os aviou, e só se utilizar de outros comerciantes ou patrões

quando conseguissem saldo. Mas, além disso, também se os preços eram considerados por

demais abusivos ou, como ouvi várias vezes, o patrão recusasse a venda eventual de alguma

mercadoria ao seringueiro devedor, o que poderia ocorrer geralmente em casos de doença, e

era considerado uma grave ofensa. Isso justificava, portanto, o comércio paralelo.

Nesse sentido, Almeida procura mapear as “obrigações múltiplas” que estavam

envolvidas nas trocas existentes no seringal. Enquanto os seringueiros deveriam empregar a

borracha produzida para pagar a renda e as dívidas, aos patrões, era esperado manter
108
constante o suprimento de mercadorias “mesmo em casos de doença ou incapacidade” e,

por conseguinte, “prorrogar o pagamento da dívida por vários anos” (Almeida, 1993:155).

É por isso que, quando o seringueiro explicava seu comércio com outro patrão ou com

outro comerciante, referia-se muitas vezes ao prévio rompimento dessas obrigações por

parte do patrão.

Isso também ajuda a se entender por que a dívida, ao invés de ser vista como

mecanismo de “imobilização da mão-de-obra” ou uma forma de “escravidão”, poderia até

ser “desejada”, como afirma Barbara Weinstein (1993: 40). Também para Almeida, “a

preservação da dívida” não era somente um “elo” que atava o seringueiro ao patrão, mas

também “servia para garantir a continuidade de obrigações múltiplas, e em particular,

estabilizar o fluxo contínuo de adiantamento de mercadorias” (Almeida, 1993:132).

Nesse mesmo sentido, Marcos Lanna, discutindo relações de patronagem no

Nordeste brasileiro, afirma que a “situação dos credores não é necessariamente entendida

como negativa; muitas vezes ela é tida como positiva porque cria um laço com um

superior” (Lanna, 1995: 50).

Uma observação interessante também foi observada por Philippe Descola, ao

analisar a relação dos índios Jivaro na Amazônia equatoriana, que, vale a pena reproduzir:

Ao arranjar um compadre, branco, ou mestiço, com boa casa própria - comerciante de preferência -,
o índio estará estendendo sua conexão social até as margens do poder administrativo. Ele sabe que a
influência de seu protetor é muitas vezes ilusória e que paga caro por ela aceitar tacitamente ser
ludibriado em todas as relações comerciais entre ambos. De fato, os negociantes julgam que a
aparente docilidade dos Canelos face a esta troca desigual se deve ao desconhecimento dos
princípios de funcionamento de uma sociedade civilizada. (...) Os índios são mais lúcidos no seu
pragmatismo, e compreenderam rapidamente que para fazer média com esta cultura do lucro é
necessário ceder um pouco para não perder muito; fingir ignorar os pequenos logros da transação

109
significa estabelecer uma base de negociações com os brancos e, quem sabe, garantir-se contra o
roubo de terras.” (Descola, 2006:37)

Descola demonstra, dessa forma, como os Jivaro perceberam as vantagens em

estabelecer e desenvolver certas relações comerciais, mesmo sabendo-as injustas.

Nesse mesmo sentido, Almeida comenta um caso em que o seringueiro não queria

quitar sua dívida, para não romper o “contrato tácito” que então mantinha uma continuidade

na provisão de seus bens (Almeida, 1993: 132).

Desse modo, é possível pensar na importância da presença de um patrão que se via

na obrigação de manter barracões cheios de mercadorias nos distantes seringais e de vender

a crédito a perder de vista aos seringueiros. Vantagens que os seringueiros bem perceberam

quando os patrões saíram do Alto Juruá e eles se propuseram a realizar esse comércio,

como será visto mais à frente.

2.4.9 - Consenso, coerção, e redes

Esse acordo de "obrigações mútuas", como é de se esperar, era uma construção

cotidiana e sujeita a diversos e possíveis arranjos, num cenário de conflitos.

Dessa forma, é mais fácil concordar com os autores que procuraram descrever o

seringal como cenário de coerção, mas também consenso, como Almeida (1993: 69) e

Mary Allegretti (1989:60), que expôs as relações existentes entre seringueiros e patrões no

rio Purus como “parte submissão, parte revolta”.

110
Neide Esterci, analisando situações de trabalho escravo no meio rural brasileiro,

também considera que, de modo geral,

(...) a história do uso repressivo da força de trabalho, da exploração violenta de homens, mulheres e
crianças, por mais repressiva e violenta, nunca é apenas a história da força, da ganância e da
crueldade dos dominantes. É também a história da resistência silenciosa ou do conflito aberto, da
conivência ou da negociação calculada dos segmentos dominados. (Esterci, 1994:126)

Nesse sentido, alguns autores procuraram mapear ações que denominaram como

"resistência individual", como fugas, adição de impurezas no látex ou venda clandestina de

borracha, atitudes de seringueiros que, isoladamente, se rebelavam contra ações patronais

(ver, por exemplo, Allegretti, 1989). Mas tentando imaginar em detalhes como essas ações

se davam, é difícil vê-las como ações “individuais”. É mais plausível pensá-las como

atividades realizadas de forma coordenada e compartilhada com outros seringueiros, que,

para agir de modo contrário à expectativa patronal, precisariam levar em conta as redes

existentes, as complexas relações de vizinhança e parentesco, seus históricos de apoio e

rivalidades, que, por sua vez, provavelmente também deviam ser alimentadas pelos patrões.

Como afirma Almeida (1991:61), os seringueiros não podem ser vistos como

“átomos subordinados a um patrão, sem vida social local: eles, como gente normal, têm

famílias, redes de parentesco, amigos, canais de troca, sindicatos [depois de 1979], grupos

de poder locais”. Apesar da aparência de “isolamento” e “dispersão” dos moradores na

floresta, com será discutido a seguir, a vida social no seringal é bastante intensa, com uma

intensa circulação de parentes, vizinhos e visitantes em passagem de um lugar a outro,

visitas que sempre trazem objetos, informações, fofocas, histórias.

111
Muitos seringueiros tinham, por exemplo, orgulho pelo zelo com que utilizavam as

estradas de seringa, procurando traçar os cortes nas seringueiras sempre de acordo com o

chamado regulamento. Sabe-se que aquilo também poderá ser percebido por outros, pois as

estradas de seringa se cruzam com as outras trilhas que ligam uma colocação à outra. Com

isso, qualquer um pode avaliar a qualidade do trabalho do seringueiro, e até ter uma idéia

da quantidade da borracha produzida. Como dito acima, as conversas sobre porqueiras

adicionadas à borracha corriam o seringal e como dizia um seringueiro do Tejo, “borracha

bem feita era conhecida”.

Nesse contexto é que é interessante se pensar nas possíveis redes que, em

determinados momentos, poderiam ser estabelecidas e acionadas, a partir de situações de

conflito.

Pode-se pensar, por exemplo que, para o controle da quantidade e da qualidade da

borracha de determinado seringueiro, além do mateiro, o patrão também podia contar com

alguns determinados seringueiros, que, por diferentes motivos, agiriam como “chaleiras” do

patrão. Chaleira é uma forma pejorativa utilizada para denominar aqueles que denunciavam

ao patrão alguma atitude de outro seringueiro, não considerada adequada ao patrão.

Também são aqueles que, de modo geral, recentemente também defendiam as idéias do

patrão, aqueles que também são chamados de "puxa-saco", ou, como ouvi uma vez, de

seringueiro "patrãozado".

Um caso típico que pode ser citado é o de uma senhora no rio Amônia, que contou

que uma vez seu marido foi até Thaumaturgo, na época uma vila, para vender uma pequena

112
quantidade de borracha para um comerciante. Um seringueiro chaleira, entretanto, contou

ao patrão, que quase bateu em seu marido, quando ficou sabendo da pequena venda.

Por outro lado, os patrões também podiam ser prejudicados pelas conversas

paralelas que corriam entre os seringueiros, que podiam levar avisos sobre a chegada

noturna de algum regatão ou de preços melhores da borracha praticados em diferentes

lugares.

Aquilo que poderia ser chamado de uma “resistência individual”, portanto,

precisava ser feita com certa habilidade e assumindo riscos, e provavelmente só poderia

ocorrer ao se conquistar alguma cumplicidade de uma rede de vizinhos e parentes, ou

mantendo cuidado com a denúncia de outras redes que, naquele momento, prefeririam

apoiar o patrão. É dentro dessa perspectiva, portanto, é que se podem discutir as maneiras

de como os patrões foram sendo descritos durante minhas pesquisas.

Como visto acima, existem vários aspectos que podem ser levantados para se pensar

sobre a relação existente entre patrões e seringueiros, basicamente uma relação de trabalho

e uma relação de poder. Os patrões obtinham lucros do trabalho do seringueiro, embora

menos do que queriam, já que não controlavam o destino de todo o produto do trabalho e

nem o processo de trabalho. Já que, como visto, os próprios seringueiros dividiam o tempo

familiar em diferentes atividades e até podiam mudar técnicas de produção, mesmo sem a

anuência dos patrões.

O lucro dos patrões provinha tanto da venda da borracha quanto da venda de

mercadorias aos seringueiros. Estes, entretanto, nem sempre entregavam a borracha


113
condizente com o que obtinham no barracão, levando-a para outros comerciantes, mesmo

sabendo que corriam riscos, mas também sabendo que teriam grandes chances de continuar

a contar com a dívida e a relação com o patrão. O patrão, por seu turno, arbitrava nos

cálculos das contas dos seringueiros e nos preços das mercadorias, mas esse arbítrio poderia

ser limitado pelas reclamações e possíveis revoltas dos seringueiros.

É também evidente que havia dependência: seringueiros precisavam de patrões que

garantissem a compra de seu produto e organizassem a provisão de mercadorias nos

distantes barracões do interior da floresta. Como disse um morador do rio Amônia, os

seringueiros não são livres como os índios, que tecem sua própria roupa72, os seringueiros

precisam comprar.

Pensando em violência e necessidade, vale lembrar Jean-Jacques Rousseau que, ao

discutir sobre as relações de dominação, em seu Discurso sobre a Desigualdade afirma

que:

(...) cada qual deve ver como, por serem os laços da servidão formados unicamente pela dependência
mútua dos homens e pelas necessidades recíprocas que os unem, é impossível subjugar um homem
sem antes tê-lo colocado na situação de não viver sem o outro. (Rousseau, [1754]1973:264, grifos
meus)

Como afirma Almeida (1993), seringueiros ainda precisavam comprar a roupa, o

sal, a munição, eram, portanto, apenas relativamente autônomos. Os patrões, por sua vez,

eram livres também relativamente, pois dependiam de seringueiros, e precisavam tratá-los

de determinada maneira para evitar que eles fossem à busca de outros patrões ou

72
Referia-se aos Ashaninka, que se vestem com “cusmas”, roupas tecidas e costuradas pelas
mulheres.
114
comerciantes. Nesse tenso arranjo, era necessário provavelmente construir e reconstruir

sempre aquela “economia moral” local, baseada nas “obrigações mútuas”, para que o

sistema todo pudesse se manter (Almeida, 1993).

Na defesa de seus interesses, os patrões poderiam agir de várias maneiras: ameaças,

violência e, em alguns casos, contar com auxílio da polícia estatal. Podiam também

incentivar seringueiros com saldo a se tornar comerciantes intermediários. Ainda podiam

comprar produtos “de luxo”, visando “seduzir” os seringueiros mais produtivos que

gostavam de portar relógios caros e motores de canoa cada vez mais velozes e modernos.

Em busca de seringueiros produtivos, patrões poderiam até pagar a liberdade de

seringueiros na cadeia. É possível, portanto, concordar com a afirmação de Almeida de que

as relações entre seringueiros e patrões podem ser mais bem compreendidas como “(...)

uma combinação de políticas de terror e violências (...) incentivos materiais, cooptação e

corrupção (...)” (Almeida, 1993:71).

Não seria adequado, por isso, pensar nos antigos seringais utilizando os mesmos

termos que Marx definiu para descrever as relações capitalistas de seu tempo, como as

relações de exploração e “subsunção formal” ou “real”, pois muito dificilmente patrões

conseguiriam obter real controle sobre o produto ou sobre o trabalho dos seringueiros

(Marx, s/d). Além disso, entravam em jogo empatias, preferências, generosidades,

assistências, compadrio. Mas também não há como utilizar apenas as definições de dádiva,

favor ou reciprocidade, já que o que estava em jogo era principalmente a compra e venda

de um produto, e um sistema de concorrência de vários patrões e seringueiros que se

relacionava com o sistema capitalista como um todo.


115
Para pensar nessas relações, é preciso lembrar que se os seringueiros se orgulhavam

de suas estradas e da qualidade da sua borracha, os mesmos seringueiros poderiam ser

pegos adicionando estranhos produtos na borracha para aumentar seu peso. Seringueiros

revoltavam-se, brigavam, fugiam, enganavam, e também compartilhavam da alegria dos

encontros no barracão, dos conhecimentos e das conversas com os patrões. A estes os

seringueiros acorriam em momentos de necessidades e com eles bebiam e festejavam,

contando com sua generosidade.

Também é importante notar, como observa Barbara Weinstein (1993:46) que,

“naturalmente, esse compromisso [entre seringueiros e patrões] não proveio de um ‘acordo’

entre partes de igual força (...)”. Os seringueiros sabiam que não havia igualdade. E sabiam

bem que enquanto o filho do patrão ia estudar no distante Rio de Janeiro, a “escola” do seu

filho era a “faca de seringa”. Os patrões usavam a força de trabalho dos seringueiros para

obter lucros, que, ajudados por programas estatais de créditos e incentivos, podiam ser de

grandes proporções (Almeida, 1993); mas os seringueiros também podiam contar com um

sistema de comércio relativamente regular durante quase um século, e, também, em alguns

casos, com a chamada “assistência”.

No item a seguir, procuro discutir as versões sobre o tempo dos patrões, contados

pelos seringueiros e agricultores da Reserva.

116
2.5 - Os patrões, pelos seringueiros

As descrições dos seringueiros sobre suas relações com os patrões podiam ser tão

variadas como os estudos acima descritos. Enquanto alguns faziam questão em relatar

histórias de violências, as arbitragens, as dificuldades para viver no que preferiam chamar

de “tempo da sujeição”, outros preferiam recordar da fartura dos barracões, lugares onde

eram bem recebidos e da sensação de segurança que tinham ao poderem contar com o apoio

recebido dos patrões. Quanto às vendas a outros comerciantes, uns afirmavam esses

comércios paralelos eram freqüentes e que isso era considerado normal, outros diziam que

faziam, mas sempre no “escondido”, que tinham de ter um “cuidado medonho” para que o

patrão não descobrisse. Alguns se lembravam de quando abandonavam os seringais sem

pagar suas dívidas, outros em como eram chamados de “seringueiros de saldo”73. Em

algumas conversas, o tempo dos patrões como um todo é qualificado como algo bom, em

outras, como um tempo muito ruim, um tempo de “sujeição”. Outras vezes enfatizam-se

bem ou mal alguns patrões em particular (como também demonstrou Pantoja, 2004:343).

Com o tempo da pesquisa, conforme foi se alterando o cenário político local,

também foi possível notar algumas mudanças nesses discursos. Assim, alguns que antes só

haviam levantado os defeitos dos patrões, também podiam mudar de opinião (o que foi

especialmente percebido após a mudança da Associação, em 1999), passando a dar voz aos

bons feitos dos patrões.

73
Alguns monitores da Reserva Extrativista produziram alguns textos sobre essa história, disponíveis
no Laboratório de Antropologia Ambiental - Centro de Estudos Rurais (Ceres) do Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas da Unicamp. Algumas dessas histórias estão organizadas na coletânea de textos dos
monitores. Ver Souza, et alii, 2004.
117
Como já discutido anteriormente (em Costa, 1998), pode-se pensar que a nostalgia

de alguns do tempo dos patrões estaria inserida no contexto de insatisfações após situações

de mudança, quando o passado tende a ser valorizado, em contraste com um presente em

crise, como sugere, por exemplo, Lígia Sigaud (1977). Situação semelhante também foi

descrita por Antonio Candido em áreas rurais de São Paulo, aonde haveria um “saudosismo

transfigurador”, uma “verdadeira utopia retrospectiva”, onde a “valorização do passado é

constante” (Candido, 1977: 193 e 195). De qualquer modo, meus registros são posteriores a

1994, quando se vivia uma das crises da economia da borracha e a decepção com a

cooperativa, sabendo-se já da incapacidade do movimento organizado de manter um

comércio regular em alternativa ao comércio patronal.

Além da real dicotomia, presente insatisfatório x passado idealizado, também me

parece interessante pensar nessa divergência de discursos dentro dos conflitos entre as redes

existentes no próprio interior da Reserva, contexto no qual eu mesma também poderia estar

inserida. Dessa forma, pode-se perceber que elogios e críticas poderiam também refletir as

posições que se entrelaçavam com a vida política e que poderiam ter conseqüências

bastante concretas na vida local.

2.5.1 - Discursos divergentes

Alguns moradores qualificam o tempo dos patrões, em oposição ao período

posterior, ou seja, após a criação da cooperativa e da Reserva Extrativista, de forma

positiva, opinião que se relacionava com a dificuldade da Associação em manter uma

118
alternativa comercial na Reserva. Por isso, eram comuns os que elogiavam os patrões por

sua capacidade de manter a regularidade no comércio. Um seringueiro no igarapé

Manteiga, no alto rio Tejo, achava que no tempo do patrão “não era muito ruim não”, pois

havia assistência, havia mercadoria. Ele também dizia que, com o patrão, o seringueiro não

tinha de andar com a borracha nas costas para comprar um quilo de sal, como ele tinha de

fazer agora. Além disso, ele tinha assistência se havia casos de doença. Depois, o

seringueiro trabalhava para pagar. Conforme ele, “toda vida nós trabalhamos com o patrão,

e era bom”.

O mesmo rapaz também concordava que o patrão só era bom para uns, para outros

não. Quando eu me referia aos casos de violência que outros haviam me relatado, ele dizia

que, com sua família isso nunca tinha acontecido, que ela nunca tinha tido “dúvida com o

patrão”. Pois, quando o seringueiro era bom, o patrão era bom. Referindo-se à saída de seu

último patrão, ele dizia: “era o meu patrão, aí saiu e pronto. Fiquei de cara para cima”.

Para comparação, é interessante notar que outro seringueiro via a saída dos patrões

de forma completamente diferente. Para ele, “quando eu saí do sufoco do patrão, quando

essa Reserva foi criada, parece que o mundo se abriu para mim”.

Já um senhor do igarapé Riozinho, dizia que: hoje tudo está caro, mas tudo está

bom. O pobre enfrenta dificuldade, mas está liberto. Corta o dia que quiser, acorda da cama

da hora que quiser. Os patrões só trabalhavam com o financiamento. Quando acabou, nós

ficamos aqui, “na peia”. Os marreteiros só queriam pato, porco. Já na cantina da

Associação [durante certos períodos], só não vendeu borracha quem não quis.

119
Pode-se perceber que, assim como os seringueiros podiam distinguir os patrões

entre os bons e os ruins, estes também segregavam os seringueiros (e também seus

familiares) nas mesmas categorias de bons e ruins. Almeida relata em suas pesquisas, na

década de 1980, que “o patrão podia identificar um grupo de homens à distância e

comentar: ‘olhe, aqueles são os Cunha. Todos são seringueiros de uma tonelada!’”

(Almeida, 1993:79).

Em 1999, visitei um seringueiro dessa mesma família citada por Almeida, que

lembrava com saudades do tempo em que trabalhava com o patrão. Na opinião dele, o

patrão até podia vender caro, mas ele não se sentia obrigado a comprar com ele. Quando

comentei sobre problemas citados sobre os patrões da década de 1980, ele recordava que

esse período, para ele, havia sido especialmente bom, pois foi quando muitos conseguiram

comprar pela primeira vez seus motores para a casa-de-farinha. Também falei a ele sobre a

violência dos patrões, mas ele disse que é o pessoal que inventava, e que ele, com 42 anos

em 1999, nunca tinha alcançado esse tempo.

“Eu não alcancei esse tempo” foi uma expressão repetidamente ouvida quando as

pessoas falavam na violência que, embora não presenciada, teria sido existente. Uma vez

também ouvi a mesma expressão, mas falando da assistência, de um senhor da Foz do

Machadinho, também participante da Associação, que afirmou que, a “assistência”, se

houve, foi antes dele nascer.

O único caso de violência física de um patrão contra um seringueiro

individualmente que ouvi aconteceu no Alto Tejo. O caso foi relatado não só pelo próprio

seringueiro que sofreu a ação, mas também comentado por várias outras pessoas como
120
exemplo da ação patronal violenta. Era um seringueiro muito produtivo e, mesmo depois,

reconhecido por ser muito trabalhador. Numa ocasião, o patrão descobriu que ele tinha

vendido borracha clandestinamente para outro comprador. O patrão então foi até a casa do

seringueiro e, por castigo, obrigou-o a carregar em suas costas 60 quilos de borracha ao

longo de cinco quilômetros pela mata.74

Outro caso de violência, muitas vezes citado, foi coletiva, e ocorreu no alto do rio

Tejo, em 1986, quando o patrão acionou policiais para acompanhar seu empregado,

conhecido por Manoel Banha, numa cobrança de dívidas. Seguido de policiais, o

empregado invadiu casas de seringueiros, em busca de borracha ou de qualquer outra coisa

que pudesse ser utilizada para pagar as dívidas. Mais tarde os seringueiros conseguiram, de

modo coletivo, expulsar os policiais75.

O mesmo seringueiro do alto Riozinho que dizia não ter alcançado esse tempo de

violência, também lembrava que o patrão colocava remédios no barracão e quando o

seringueiro precisava ele pegava, e pagava só quando estivesse de novo com saúde. Eu

então disse que a chamada “assistência”, na verdade seria adicionada à conta do

seringueiro, como outros já tinham me dito. Para ele, entretanto, quando o seringueiro

ficava bom, ele tinha mesmo “prazer em pagar”. Quando eu perguntei sobre o que ele

achava dos seringueiros que, por diferentes motivos, não conseguiam ter boa produtividade,

e que, por isso, não eram bem tratados pelos patrões, ele respondeu que alguns realmente

74
Esse episódio também foi registrado por Almeida (1993:81 e 2002:128), Pantoja (2004:329) e
O’Dwyer (1999). Há pouco tempo soube que o mesmo senhor estava em Cruzeiro do Sul cuidando de um
problema nas costas. Conforme seu irmão, o problema ainda seria seqüela daquele dito castigo.
75
Mais à frente voltarei a discutir esse acontecimento, também comentado por Almeida (1993:82-3)
e Pantoja (2004).
121
não conseguiam podiam trabalhar muito, e acabavam vendendo pouca borracha. Mas,

mesmo assim, se devia também dar razão ao patrão, porque era ele quem comprava a

mercadoria.

O que era ruim no tempo dos patrões, para esse seringueiro, era quando faltava

mercadoria no barracão, o que teria ocorrido somente algumas vezes. Mesmo assim, a

situação presente ( ao final da década de 1990) era ainda pior, pois mesmo a

“mercadoriazinha” que viria para a cantina local, gerida pela Associação, era uma

dificuldade para ele comprar. Sua casa ficava numa distância de dois dias a pé da

localização da cantina, na Restauração, ou com canoa motorizada em tempos de chuva, de

cinco a seis horas, não sem dificuldades. Ele se lembrava de como os patrões, embora nem

todos, tinham empregados para buscar a borracha até sua casa. Lembra que no tempo do

Sebastião Correa, por exemplo, na década de 1980, ele nunca precisou carregar a borracha,

e agora precisava.76

Ele sabia que, para alguns foi boa a criação da Reserva, mas ele, entretanto, nunca

achou bondade nisso. Ele nunca havia participado do movimento pois, como dizia, “sem

patrão, não tem como o cara viver” no seringal.

No igarapé Riozinho, caminhando algumas horas rio abaixo, visitei uma família

que, de modo contrário, tinha tido uma forte participação na formação da cooperativa. A

dona da casa recordava que sempre o empregado do barracão vinha buscar a borracha,

mesmo quando ela morava com o pai numa colocação ainda mais distante. Quando

76
Durante certos períodos, as cantinas da Associação, conforme pessoas que ali trabalhavam,
também faziam o transporte da borracha dos altos rios para as cantinas, fato não comentado pelo rapaz.
122
comentei sobre as opiniões do outro seringueiro, os donos da casa fizeram questão de dizer

que, no dia anterior, tinham-no visto caçando com cachorros, prática contrária ao Plano de

Uso.

Quando eu repetia aos críticos dos patrões os elogios que eu tinha ouvido em algum

outro lugar, muitos diziam que esses comentários só poderiam vir daqueles que eram

conhecidos por serem chaleiras dos patrões. Por outro lado, os que falavam bem dos patrões

diziam que só não gostavam da situação anterior aqueles que não gostavam de trabalhar,

discurso que provavelmente, também era proferido pelos próprios patrões.

O discurso era que aqueles que não tinham preguiça também não teriam motivos

para reclamar dos patrões. Desse mesmo modo, muitos que reclamavam da criação da

Reserva e da incompetência da cooperativa referiam-se aos primeiros líderes locais do

movimento como pouco afeitos ao trabalho. Um senhor do rio Bagé dizia que “sempre pelo

comum”, quem se envolvia no movimento social “era aquele que trabalhava pouco”. Outro

senhor do rio Juruá, conhecido por ter grande produção agrícola, também dizia que “só

vagabundo se dá bem no movimento social”.

Uma das mais importantes lideranças locais, Chico Ginu, conta com ironia dessa

idéia, lembrando que ele também “era conhecido como preguiçoso, que não gostava de

cortar seringa” mas, que isso só tinha ocorrido depois que entrara no movimento, porque,

antes disso, ele também era seringueiro que fazia mil quilos de borracha (uma produção

123
média girava em torno de 400 Kg77). Comentário semelhante era utilizado para reclamar da

família de seu Milton, outro importante líder da região.

Um agricultor do rio Juruá, cuja esposa era prima de um fazendeiro da região,

reclamava da saída dos patrões porque estes, mesmo que cobrassem um preço alto pelas

mercadorias, permitiam o fiado, e podiam pagar quando pudessem. Desde pequeno,

conforme suas lembranças, ele pagava a renda e aquilo nunca lhe fizera falta. Algumas

vezes, inclusive, ele havia conseguido inclusive obter saldo. Conforme ele, o patrão só era

ruim para os vagabundos que não queriam pagar a renda pelo uso das estradas. Para o

trabalhador mesmo, aquilo não fazia falta. Quando comentei sobre a questão da violência,

ele considerou que o patrão só mandava a polícia bater nos casos em que era realmente

merecido. Para ele, o fazendeiro que vivia na região era tal como um patrão, além de ser

considerado como alguém “de conhecimento”. O fazendeiro emprestava dinheiro aos que

precisavam e ainda fazia as vezes de prático local, arrancando dentes doloridos dos

moradores da região. Já a sua vizinha, que morava um pouco mais abaixo do rio, tinha uma

opinião bastante diferente, pois, para ele, o fazendeiro nunca podia lhe oferecer a

“assistência” que ela, enquanto viúva, tanto precisava.

Um velho seringueiro do rio Bagé, falando do tempo dos patrões, recordou de

quando seus filhos também começaram a ajudá-lo no corte da seringa. “Com os meninos

ajudando”, ele chegou a entregar 1.200 Kg de borracha. “O patrão nunca deu queixa de

mim, gostava de mim, eu era um bom freguês”.

77
Esse era o valor de produção de cada seringueiro que o banco utilizava como garantia de
empréstimos aos patrões entre 1970 e início de 1980 (Almeida, 2002:126 e 1991a:8).
124
Um seringueiro que morava no igarapé Bule, afluente do alto rio Tejo, por exemplo,

contou que embora nunca tenha conseguido obter saldo, ele sempre “devia pouquinho”.

Uma vez uma cobra o mordeu e o patrão o tratou muito bem. Ele era um bom seringueiro.

Outro morador do rio Bagé, um agricultor bastante produtivo no período da

entrevista, e que, tal como o anterior, até então não tinha se envolvido no movimento dos

seringueiros, considerava que todos os patrões tinham sido bons para ele, da mesma

maneira como também tinham sido bons para seu pai, que sempre conseguia obter saldo, tal

como ele próprio. Em sua opinião, depreendia-se uma idéia de que uma boa relação com o

patrão além de uma conquista do seringueiro produtivo, era também uma herança familiar,

algo a ser zelado, como um bom seringueiro zelava por suas estradas de seringa.

Como visto, quando um seringueiro falava bem do patrão, geralmente ele também

elogiava a si próprio (e a sua família), como sendo um bom seringueiro. Já um bom patrão

também podia ser aquele que, justamente, não fazia distinção entre seus aviados, como

percebeu Mariana C. Pantoja (2004). César Messias, por exemplo, que foi patrão no rio

Bagé (mais tarde prefeito de Cruzeiro do Sul e atualmente vice-governador), também foi

lembrado quando falavam de um patrão que sabia agradar. Um seringueiro contava como

ele era um patrão “jeitoso”: ele não usava bebidas alcoólicas e não tratava com diferença os

seus aviados: “seringueiro bom, seringueiro ruim, para ele era tudo igual”.

Um senhor que morava na Restauração também comentava sobre um bom patrão do

Alto Tejo. Este estava sempre calmo e abraçava quem quer que chegasse ao barracão, tanto

o seringueiro que produzia muito quanto o que produzia pouco. Falei sobre as dificuldades

dos patrões para vender a outros comerciantes, mas, em suas memórias, o tal patrão nem se
125
importava com os outros comerciantes que apareciam na região. Ele fez questão de contar

que, quando seringueiros iam ao barracão “era uma animação medonha”, pois logo esse

patrão já ia abrindo latas de sardinha ou de carne em conserva para servir aos que

chegavam, de forma generosa.

A generosidade, assim como a assistência eram as principais características

lembradas nos elogios aos patrões78. Nas lembranças dos bons patrões sempre há histórias

em que estes auxiliaram seringueiros com adiantamentos para viagens à cidade, compra de

medicamentos ou alimentos especiais para doentes. Como afirmava um morador do

Amônia, o bom patrão era aquele que, quando via que o freguês era interessado, ele “abria

a mão”.

Ao contrário, o patrão ruim era patrão “sovina”. No alto rio Bagé, uma senhora

recordou uma vez em que seu esposo ficou doente, quando seus filhos ainda eram

pequenos. Ela não sabia mais o que fazer pois o único remédio que tinha era o chá, e ela já

tinha tentado muitos, sem resultado. Assim, com a filha pequena no colo, caminhou pela

mata até o barracão do patrão, na localidade chamada Seringueirinha. Ali disse ao patrão

78
A generosidade é característica repetidamente analisada por estudos de política rural. Bourdieu, ao
estudar mudanças entre camponeses da Argélia afirmou que
"'O generoso, dizem, é amigo de Deus'. Deus dá a riqueza a quem quer, mas aquele que a recebe
deve mostrar-se digno dela dando provas de generosidade, dela se servindo para aliviar a miséria dos outros,
sem o que ela lhe será negada. (...) Aquele que souber unir a riqueza, a generosidade e a sobriedade (aquã)
será o mais feliz dos homens, pois que o mundo e o além lhe (36) pertencem. A riqueza implica deveres. A
riqueza que não é acompanhada pela generosidade é desprezada" (Bourdieu, 1979:36-37)
Para a importância da generosidade para chefes indígenas ver, por exemplo, o estudo de Pierre
Clastres (1990) e, no caso dos índios Ashaninka no rio Amônia, Pimenta (2006).
O tema da generosidade também aparece nas discussões de Maquiavel. Para ele, o príncipe deveria
saber encontrar um meio, entre a “liberalidade” e a “parcimônia” para se alçar e se manter no poder. Assim,
àquele que visa ser príncipe, “é necessário ser liberal”, ainda que com parcimônia. “O príncipe que marcha
com seus exércitos (...) é necessária essa liberalidade, porque de outra forma não seria seguido por seus
soldados” (Maquiavel, ([1532] 2000, Capítulo XVI).
126
que tinha vindo comprar um remédio para o marido, e que também queria uma lata de leite.

Como ela contou, o patrão ficou só espiando do balcão; ela de um lado, ele de outro. O

patrão depois pegou três pílulas e disse que o leite ele não ia dar não. Quando ela saiu o

patrão a chamou e gritou: o leite é para a criança ou para seu marido? Ela não tinha o

costume de falar palavrão mas, daquela vez respondeu ao patrão: “soca o leite na tua

bunda”. Naquela época, seu marido não tinha saldo, mas estava produzindo a borracha que

ia ser entregue ao final do ano. O patrão, porém, não tinha confiado no trabalho da sua

família. Dias depois ela mandou um filho ir até o barracão de outro patrão, no igarapé

Dourado, onde comprou mais remédio, leite e bolacha.

Somente no rio Amônia ouvi sobre patrões que reclamavam de seringueiros que se

dedicavam a outras atividades que não o corte de seringa. Alguns falavam de um patrão

chamado Tertuliano que não gostava de seringueiros que gastavam tempo com outras

atividades, reclamando dos seus aviados que tinham roçados muito grandes ou dos que

dedicavam muito tempo às caçadas. Conforme um antigo seringueiro, o Tertuliano ainda

era um patrão que se exibia muito; gostava de andar armado com rifle e de vez em quando

vinha cobrar as contas acompanhado de um policial.

Outra reclamação que ouvi de seringueiros foram sobre patrões que não atendiam as

normas de etiqueta na hora de receber as pessoas ou fazer visitas. Pereira, por exemplo, um

patrão do rio Amônia, era criticado porque não subia às casas quando vinha receber suas

127
contas: chegava ao porto e permanecia sentando em sua canoa até que lhe trouxessem o

devido, atitude que era considerada uma ofensa79.

2.5.2 - Quem conta um conto... faz uma escolha política

Essas divergentes histórias contadas pelos seringueiros não me responderam sobre

até que ponto havia possibilidades de negociação e escolhas no sistema de aviamento, mas

me obrigaram a perceber o que os historiadores sempre dizem sobre como discursos do

passado não podem separar-se do presente80.

Além disso, também é interessante observar essas opiniões dentro das divisões

políticas existentes. Era evidente que aqueles que reforçavam o lado opressivo da relação

eram justamente os antigos participantes do movimento dos seringueiros ou da Associação.

Não que eles não fossem críticos à Associação, aos problemas das cantinas, mas eles

ressaltavam o “tempo da sujeição”, sujeição que eles tinham contribuído para abolir. Já os

que se preocupavam em enaltecer as qualidades de seus antigos patrões eram normalmente

os que faziam oposição às ações da Associação, ou que se consideravam prejudicados com

as regras do Plano de Uso.

79
Uma vez cheguei a uma residência no alto Manteiga cansada, molhada e suja, após uma longa
caminhada pela mata durante a chuva. Como já era fim de tarde, falei à dona da casa que, antes de entrar,
gostaria de tomar um banho, pois sujaria a casa com a lama da minha roupa e tinha receio, como muitos
também da região, de tomar banho no rio depois do anoitecer. Ela, porém fez questão que eu entrasse,
dizendo que não podia aceitar que eu lhe fizesse essa “grande desfeita”. Só depois de um bom tempo de
conversas é que mandou suas filhas pequenas me acompanharem até o rio para o banho.
80
Como afirmou Hanna Arendt citando outro autor no livro Entre o passado e o presente, “o passado
sequer é passado”.
128
Isso foi particularmente evidente quando, em 1999 se alterou a constituição da

diretoria da Associação, e o discurso de algumas pessoas começaram a se modificar.

Alguns que tinham uma história de participação no movimento de criação da cooperativa,

que até então sempre defendiam o Partido dos Trabalhadores e eram críticos contumazes

tanto dos patrões quanto daqueles que defendiam os patrões, passaram a salientar as

qualidades de um ou de outro patrão, ou relembrar situações que receberam apoios. Um

morador do rio Bagé em cuja casa estive muitas vezes, sempre um grande crítico do tempo

dos patrões, como que de repente passou a elencar as qualidades de alguns patrões para

quem trabalhou.

Foi em sua casa que, em 2002, acompanhei a apuração final da primeira eleição do

Lula. Era numa televisão recebida da Prefeitura. Ele que antes dizia ter sempre sido um

eleitor do PT, não fez nenhuma comemoração. Ele só voltaria a votar no partido se o

presidente da Associação, também do PT, entrasse em outro.

Num primeiro momento, muitas das histórias ouvidas pareciam ser apenas

demonstração das “obrigações mútuas” (Almeida, 1993) existentes na relação entre

seringueiros e patrões, às vezes meros inventários de bens ou serviços recebidos ou

negados, em termos ideais ou concretos. Mas é também importante levar em conta a

circunstância em que essas histórias eram contadas. Eram seringueiros e agricultores que

contavam suas memórias para mim, e eu não era apenas uma pessoa que ouvia e escrevia

num caderno. Desde sempre, e pela maioria das pessoas, eu era reconhecida como alguém

ligada à Associação. E, em especial, com forte relação com as pessoas da Associação que

129
estavam na origem da criação da Reserva Extrativista e que, portanto, participaram do

movimento que contribuiu para a saída dos patrões da região.

Isso quer dizer que quando uma pessoa falava bem de um patrão ela também estava

defendendo um modelo de organização dos seringais, sabendo que era diferente daquele

modelo que eu defendia.

E essas pessoas não estavam apenas discordando. Vale lembrar que, a partir de 1998

eu passei a participar da parte administrativa dos projetos e, em muitos casos era eu quem

contratava pessoas, fazia pagamentos, comprava animais para a alimentação e escolhia

locais para treinamentos. Em 1999 também comecei a ser parte da equipe que selecionava

os monitores da Reserva, e que durante alguns anos, receberam bolsas de estudo que, no

contexto local, eram recursos significativos81.

Talvez não seja exagero dizer que uma pessoa que falava bem do patrão para mim,

portanto, também estava correndo o risco de colocar - a si própria e à membros de sua

família - do lado de fora da rede na qual eu podia ser identificada. Rede que incluía

professores e pesquisadores de diferentes lugares, recursos públicos e privados, relações de

compadrio, cooperação, emprego, amizade, acesso a conhecimentos, e até certo status que

poderia advir aos que recebiam os visitantes em suas casas. E, claro, rede na qual se incluía

81
No início desse projeto, chegava a ser desagradável a quantidade de pessoas que, ao ouvirem o
motor da canoa pertencente ao Projeto – todos o reconheciam pelo ruído (o que sempre me admirava) -,
acorriam até as margens do rio para esperar a canoa e acenarem com a mão para que eu parasse. Isso era
comum quando alguém precisava de remédio ou passagem, e eu e outros pesquisadores sempre parávamos.
Nessa época, porém, as pessoas constantemente interrompiam minha viagem, em especial no rio Tejo, para
solicitar uma vaga para alguém da família na equipe dos monitores. Eu convidava sempre a pessoa para ir aos
treinamentos e começar fazer anotações, sem promessas de pagamentos. Alguns desistiam, outros se tornaram
pessoas interessadas e envolvidas.
130
de forma geral a Associação, o Ibama e, dependendo dos projetos, outros tantos recursos e

serviços que estivessem ali envolvidos.

Contar uma história, portanto, era também uma ação de participação na vida

política da Reserva Extrativista. Não era apenas relembrar dádivas, assistências, favores. A

relação entre antropólogo e entrevistado, como já dito por muitos, é também uma relação de

poder. Mas isso não quer dizer que as pessoas, me conhecendo, iriam necessariamente falar

aquilo que imaginavam que eu gostaria de ouvir. Muitas vezes falavam, sabidamente, o

contrário, mesmo sabendo que poderiam ter perdas junto à rede ao qual me inseriam.

Embora pudessem angariar fama em outras redes.

Assim, registrar uma determinada opinião sobre a organização local, presente e

passada, a meu ver, era uma forma muito intensa de participar da política. Não era apenas

um palpite dentre outros sobre o que deve e o que não deve ser. Não é o tipo de

participação que se faz numa reunião onde se opina a favor ou contra um projeto ou obra. É

participar das vantagens e dos riscos dessas escolhas. Essa era a forma de política que me

interessava conhecer.

131
132
CAPÍTULO 3 - A CRIAÇÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA E AS NOVAS

REDES

3.1. - Introdução

Neste capítulo procuro fazer uma discussão sobre o movimento organizado dos

seringueiros que deu origem à criação da Reserva Extrativista no Alto Juruá.

Como discutido acima, é difícil encontrar os limites entre o que seriam as

possibilidades de escolhas dos seringueiros e o que era um sistema que os explorava e sob o

qual precisavam aceitar. Mas, em determinado contexto, os seringueiros foram capazes de

estabelecer diferentes alianças e, assim, realizar uma profunda alteração em toda a

organização do seringal, provocando o fim do sistema de aviamento e, em seguida, a

criação da Reserva Extrativista. Com isso, conquistaram o direito ao uso da terra, rompendo

todo o antigo sistema de obrigações com os patrões.

Não pretendo aqui contemplar os diferentes acontecimentos que, em conjunto, são

fundamentais para compreender o movimento social dos seringueiros. Para isso é

importante recorrer, inicialmente, às descrições feitas por Allegretti (1989 e 2002) e

Almeida (1993, 1991 e 2002), testemunhas ativas nas ações que culminaram na criação das

Reservas Extrativistas do Alto Juruá e a Chico Mendes, no sudeste do estado, bem como ao

trabalho de Mariana C. Pantoja (2002), que traz informações sobre a participação de uma

das principais famílias do movimento no Alto Juruá, dentre outros. No caso do movimento

133
dos seringueiros do sudeste do Acre, pode-se consultar também, Costa Sobrinho (1992) e

Élio G. Duarte (1986).

Procuro aqui apenas discutir alguns dos episódios que aconteceram a partir do final

da década de 1970 em diferentes lugares do estado do Acre, utilizando-os para pensar

algumas questões sobre o movimento social local e alguns aspectos sobre a vida política

mais recente na Reserva Extrativista.

3.1.1 - “A população” e “os mediadores”

A conquista da Reserva Extrativista, como discutido acima, está condicionada pela

capacidade da população de cumprir regras estabelecidas em planos de uso discutidos de

forma democrática e aprovados por órgãos ambientais do Estado. Em caso contrário,

haveria uma “quebra do compromisso dos moradores” e eles perderiam a possibilidade de

utilizar a Reserva, conforme estabelecido no decreto 98.897 de 1990.

As conquistas dos seringueiros, como será visto a seguir, foi uma importante

contribuição para as discussões que surgiram, com o movimento ecológico, no debate entre

população e meio ambiente (Allegretti, 2002). O movimento de seringueiros, bem como de

índios na Amazônia, foram fundamentais para a defesa da permanência de populações em

áreas de interesse ambiental, entre aqueles que compartilhavam a idéia de que as

populações seriam capazes de agir dentro do que foi chamado de uso “sustentável” ou

“sustentado” dos recursos da natureza.

134
Após quase vinte anos da criação das primeiras Reservas Extrativistas no Acre, com

as várias mudanças econômicas e políticas na região, há uma série de dúvidas sobre a

capacidade dessa população em dar conta desse compromisso.

Alguns questionam se a população tradicional da Amazônia seria mesmo

conservacionista (argumento discutido por Lúcia da Costa Ferreira, 1999). Outros afirmam

que o problema é que, desde a concepção das novas propostas, agentes externos forjaram

expectativas que não seriam condizentes com a realidade local (como Martins, 1994,

Geffray, 2007 e Lobão, s/d).

Enquanto alguns defendiam as Reservas Extrativistas como uma “hipótese” possível

para um “forma adequada de desenvolvimento” na Amazônia (Anderson, et alii, 1994:13)

Alfredo Homma, no mesmo período, já levantava várias críticas à proposta das Reservas,

defendo que a população não seria representada por aquilo que as lideranças do movimento

afirmavam:

A visão paradisíaca de que os seringueiros estavam vivendo um mundo de Nirvana começa a


desaparecer, face a denúncias de fome e miséria nos seringais pelos seus próprios participantes. Há
um evidente processo de ‘agriculturalização’ entre os extratores, um nível de pobreza bastante
grande, enquanto a liderança desses movimentos, tal como numa tragédia orwelliana, cruzam os céus
do mundo afirmando que se trata de único modelo de desenvolvimento sustentado na Amazônia”
(Homma, 1994:37)

Para outros, os problemas mais recentes vividos pelas populações rurais já podiam

ser encontradas na história pregressa dos movimentos sociais, isso porque as mudanças não

seriam bem compreendidas pela população, e eram os diferentes aliados dos movimentos

sociais rurais, eventualmente chamados de “mediadores”, que se colocavam entre os

trabalhadores do meio rural e o restante do mundo. Para José de Souza Martins,

135
(...) não houve reforma agrária nas sociedades capitalistas sem intervenção de um grupo estranho aos
trabalhadores rurais que a considerasse vital para a sobrevivência do conjunto social. (Martins,
1994:158)

Essa tese já era defendida pelo menos desde a década de 1960 no clássico estudo de

Barrington Moore que, com uma pretensão característica da época, procura “descobrir que

tipos de estruturas sociais e situações históricas produzem revoluções camponesas, e quais

as inibem ou impedem”, concluindo que, dentre outras características, para que ocorram

essas revoluções, “os camponeses precisam ter chefes de outras classes” (Barrington Moore

Jr., 1975:521 e 550).

Dentro desse mesmo raciocínio, e é o que me interessa aqui, quando as mudanças

que aparecem como propostas pelos movimentos não ocorrem, a derrota, para alguns,

também passa a ser considerada prioritariamente como resultado de ações inadequadas de

seus aliados, como sugere, por exemplo, Martins, ao salientar problemas em áreas

conquistadas por produtores rurais:

Na verdade, foram derrotados os mediadores, que traduziram mal e insuficientemente as


necessidades e os projetos implícitos na prática e nas lutas dos trabalhadores. Os trabalhadores foram
derrotados também por seus aliados. (Martins, 1994:158)

Christian Geffray (2007:221-2), ao comentar problemas relativos à criação das

Reservas Extrativistas, também afirma:

(...) nos altos rios, (...) os seringueiros não hesitariam, desde que tivessem os meios, o interesse e o
direito, em contar a floresta para vendê-la. Seus representantes explicam, então, de bom grado, que
os seringueiros são ecologistas ‘inconscientemente’, um pouco como os proletários de outrora eram
revolucionários sem o saber.

136
Para o mesmo autor, haveria uma “incapacidade dos seringueiros”, “transtornados”,

de “conceberem eles próprios seu lugar e seu futuro na sociedade brasileira.” Por causa

disso:

Há que se admitir, de fato, que o sucesso dos seringueiros não lhes é imediatamente imputável, é
antes uma imagem deles próprios, que não lhes pertence, que é vitoriosa: uma imagem forjada em
outro lugar, fora de sua própria luta, junto com os aliados que escolheram seus dirigentes, e com a
qual eles não se podem reconhecer sem encenar uma comédia. (Geffray, 2007:222)

Assim, se a concepção das Reservas Extrativistas não seria “imputável” aos seus

moradores, o mesmo se daria com os problemas que atualmente poderiam existir.

Outro crítico do papel desses atores externos é Ronaldo Lobão, que faz uma

discussão sobre a constituição das chamadas populações tradicionais e as unidades de

conservação. Para o autor, esses grupos, obrigados a se relacionar com uma nova

“cosmologia” de “tempo e espaço” também estariam sendo

(...) manipulados de fora para dentro através de conceitos e idéias tais como Unidades de
Conservação, Áreas Protegidas, Biodiversidade, Desenvolvimento Sustentável, Empoderamento,
Gestão Participativa, Associativismo entre outros (Lobão, s/d:1).

Para o autor, isso indicaria que uma forma de dominação “exótica”, baseada no que

denomina uma “cosmologia política do neocolonialismo” (Lobão, s/d:1).

Pontos de vista diferentes, no caso da história das Reservas Extrativistas do Acre,

são salientados por autores que atuaram de forma mais intensa, cotidiana, junto ao

movimento social local, como é o caso de Mauro W. B. de Almeida e Mary Allegretti.

Para Almeida (2004), que desde a década de 1980 vem acompanhando as lutas

locais, foram os seringueiros, que, dentro de uma “margem de liberdade”, foram capazes de

137
“utilizar os meios materiais e simbólicos disponibilizados na conjuntura” para modificar

sua situação anterior. Mary H. Allegretti, também antropóloga que dedicou vários anos em

atividades de apoio ao movimento dos seringueiros, ressalta o protagonismo dos

seringueiros, por terem sido capazes de criar várias “alianças com grupos sociais

estratégicos”, conseguindo, desse modo, obter “acesso à informação e às redes

internacionais de pressão” (Allegretti: 2002:737) o que tornou possíveis as suas conquistas.

Como salienta a autora, para essas redes internacionais também foi importante o

aprendizado com as experiências reais de índios e seringueiros.

Desse modo, para pensar sobre a capacidade atual da população da Reserva

Extrativista se organizar politicamente para cumprir as propostas por ela estabelecidas,

seria interessante tentar perceber, através da história do movimento social, até que ponto a

Reserva teria sido uma conquista dos seringueiros; um resultado da ação dos mediadores

que vinham de fora, ou talvez, resultado de uma falha no sistema de dominação das elites

locais.

A conclusão, tal como considerado por Allegretti (2004) e Almeida (2004), e como

será visto a seguir, é que seria preciso juntar todas as alternativas anteriores: o movimento

pode ser considerado como resultado das ações dos seringueiros e dos moradores da região;

das ações de diferentes aliados desses seringueiros, ocorridas dentro de uma determinada

conjuntura. Nessa perspectiva, procuro a seguir tentar entender como se formaram as redes

que, ligando pessoas e coisas de diferentes procedências e ideais puderam contribuir para

essas mudanças políticas.

138
A partir disso, procuro evitar o risco de pensar a “população” os “moradores”, os

“seringueiros”, “os mediadores”, ou “o Estado” como algo coeso embora, em certos

momentos, eles possam atuar de forma coletiva ou, por falta de conhecimento de detalhes,

eu abra mão desses termos generalizantes para comentar algum evento. O mais interessante

seria pode perceber os conflitos existentes que tornam possível perceber pessoas passíveis

de serem englobadas nessas categorias. Não tenho informações suficientes para saber as

tensões existentes, por exemplo, entre os patrões da região. Assim, sempre me refiro “os

patrões” de forma generalizada.

O objetivo aqui seria tentar mapear um pouco da “articulação de pessoas, casas e

colocações” existentes em regiões da Reserva, antes mesmo de sua criação, tal como

salientado por Pantoja (2004: 246). Essas várias articulações, ou redes, com suas próprias

histórias, podem ajudar a pensar tanto a história do movimento quando os conflitos locais

recentes e, mais importante ainda, podem ser fundamentais para se discutir a capacidade

política da população em dar conta dos desafios futuros da Reserva.

Assim, descrevo alguns episódios ocorridos no Alto Juruá com o intuito de

adicionar algumas considerações a esses estudos da história dos movimentos sociais

amazônicos, mostrando como aquele processo de mudança demandou o estabelecimento

desses novos laços, baseados nos anteriores, ligando pessoas, coisas e idéias, ao longo do

tempo, a ponto de que essas novas redes acabaram sendo realmente capazes de construir

alternativas às antigas, também tentando ressaltar a habilidade de algumas pessoas na

articulação dessas redes. Por último também procuro mostrar que essas novas alternativas -

139
a partir do discurso atual - podem ser percebidas não como algo “exótico”, mas com

“afinidades eletivas” com o que já existiria anteriormente.

3.2 - A Amazônia e os militares

O Golpe Militar, em 1964, marcou o início de uma grande mudança para a

Amazônia, que passou a ser vista como a “última fronteira” para o desenvolvimento

nacional, com ações e conseqüências que foram estudadas por vários autores, como por

exemplo, José de Souza Martins (1986 e 1997), Allegretti (2002), Otávio Ianni (1978),

Neide Esterci (1994), Schmink e Wood (1992) e Hecht & Schwartzmann, (1988).

Conforme Allegretti (2002), dentro da visão nacionalista do governo militar, a

Amazônia era vislumbrada como um "espaço vazio", na superfície, mas recheada de

minérios nas profundezas de seu subsolo, o que só podia provocar a “cobiça internacional”.

Contra isso, iniciou-se uma incisiva ação governamental, com grandes investimentos

públicos para projetos de infra-estrutura e incentivos para atividades privadas, com o

objetivo de desenvolver a mineração, a exploração madeireira, a pecuária e a agricultura,

sempre dentro da proposta de “integrar para não entregar”, como defendido pelos militares.

Nesse sentido, a primeira iniciativa foi a construção de estradas, com a chamada Operação

Amazônia, de 1966, seguida de vários outros projetos para construção de hidrelétricas,

aeroportos, sistemas de telecomunicação, financiados com apoio de bancos multilaterais e

capital privado internacional, sob controle do Estado. Além disso, na busca de aumentar o

controle sobre aquele "vazio", e num contexto de vários conflitos agrários em outros locais
140
do país, o governo também financiou vários projetos de colonização no entorno das cidades

(Allegretti, 2002).82

Até então, a grande parte das chamadas propriedades dos patrões de seringais no

Acre não tinham títulos legalizados. Alguns vinham do tempo em que a região era ainda

contestada pela Bolívia e pelo Peru, ou então haviam sido obtidos em Manaus, quando o

Amazonas reivindicava áreas do Acre. A questão da propriedade dos velhos seringais era

antiga e, já em 1910, o Movimento Autonomista - que durante 100 dias tinha emancipado o

estado – em uma de suas primeiras atitudes, decretou que todos os seringais estabelecidos

seriam considerados propriedades legais. O decreto, porém, foi ignorado logo após o fim do

movimento (Castelo Branco So., 2005) . Em 1913 o governo federal ainda chegou a propor

um limite de três anos para que os patrões validassem seus títulos de terra através da

compra, mas os patrões, já sob efeitos da primeira crise da borracha, não aceitaram

(conforme Rego Barros, citado por Almeida, 1993:19).

Somente durante o Regime Militar é que os seringais tornaram-se legalizados pelo

governo federal através do INCRA, sem que fosse reconhecido nenhum direito às famílias

dos seringueiros e ribeirinhos que ali viviam há quase um século (Nascimento, 1995).

Conforme Almeida, no Alto Juruá, num esforço conjunto de dar validade às transações

comerciais, foram feitos vários acordos entre patrões, Estado e cartórios (Almeida,

82
Para efeitos de comparação, entre 1977 e 1982, foram criados cinco Projetos de Colonização no
estado do Acre. Somados, correspondem a 803.242 hectares. A área total de todos os 56 outros Projetos de
Assentamento criados no estado, entre 1986 e 1999, é de apenas 772.109 hectares.

141
1993:202-3), dos quais os moradores, seringueiros e agricultores ribeirinhos, também

ficaram de fora.

Isso tornou possível a comercialização de grandes áreas pertencentes aos seringais

com os novos investidores, também apoiados pelo governo federal. Dessa forma,

empresários do setor privado, a maioria do Sul e Sudeste do país, iniciaram um processo de

exploração de madeiras-de-lei, transformando depois vastas áreas de floresta em campos de

gado. Conforme A. F. Silva (citado nos estudos para o Zoneamento Ecológico e Econômico

do estado do Acre), em meados da década de 1970, cerca de um terço das propriedades do

estado passaram para as mãos de pessoas de fora do estado (Acre, 2002, vol. I:32).

Nesse processo, os índios, seringueiros, castanheiros, agricultores ou ribeirinhos que

ali viviam - a população “ignorada”, ou considerada “obstáculo ao desenvolvimento”

(Schmink e Wood, 1992) – foram expulsos. Uns foram ameaçados, outros assassinados.

Alguns se tornaram empregados das madeireiras e fazendas agropecuárias. Outros ainda

foram para os pequenos lotes definidos nos Projetos de Colonização, onde, na grande

maioria das vezes, não tinham condições de reproduzir a vida que tinham na floresta e nem

de tornarem-se agricultores, dada a precariedade dos ramais, a dificuldade de transporte e

ausência de assistência técnica, o que normalmente acabava gerando o processo de êxodo

para as cidades e venda de lotes para fazendeiros, aumentando a concentração fundiária.83

83
Uma discussão interessante sobre os problemas e críticas dos seringueiros sobre os Projetos de
Colonização no Acre, e que os levaram a recusar mais tarde essa forma da organização fundiária podem ser
vistos em Almeida (1995).
142
Alguns desses moradores, contudo, iniciaram contestações, recusando-se a mudar

seu modo de vida e percebendo os problemas das alternativas que lhe eram propostas.

Vários outros agentes envolveram-se nesse movimento que foi se intensificando através de

vários e violentos conflitos. Assim, a partir da década de 1990, em nome daquela população

antes “ignorada” da Amazônia, entrou para o centro do debate uma outra maneira de olhar e

pensar o desenvolvimento da região, a proposta das Reservas Extrativistas, surgidas no

contexto do movimento dos movimentos sociais.

3.3 - O movimento dos seringueiros no Alto Acre

Para pensar sobre os movimentos sociais surgidos nesse período no estado do Acre,

é importante salientar algumas diferenças entre a região do rio Juruá e a região do rio Acre.

O alto Juruá, noroeste do estado, inicialmente formado apenas pelo município de

Cruzeiro do Sul (depois desmembrado em quatro cidades), é em termos oficiais,

denominada de Regional do Juruá. O vale do Acre, no sudeste do estado, compreende a

região banhada pelo rio Acre, afluente do rio Purus e que, atualmente engloba as cidades de

Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia e Assis Brasil.

Embora a nomenclatura continue com a referência fluvial, a hidrografia da região

do rio Acre deixou de ter importância como meio de transporte e referência, cedendo lugar

às estradas, asfaltadas ou não.84

84
Ver mapa 5, onde aparecem os maiores índices de desmatamento dessa região no estado.
143
Em 1977 é inaugurado um trecho da estrada BR 364 ligando a capital acreana Rio

Branco a Porto Velho, em Rondônia. Dali, a estrada seguiria atravessando uma infinidade

de rios e igarapés até a cidade de Cruzeiro do Sul. Este trecho, entretanto, caiu praticamente

em desuso por total falta de manutenção85. Também foi aberta a estrada BR 317, unindo

Porto Acre, no Amazonas a Assis Brasil, na fronteira trinacional (Brasil, Peru e Bolívia),

seguindo ao longo de todo o vale do rio Acre.

Com as estradas chegando até o alto do rio Acre, inicia-se o mesmo processo que já

vinha sendo vivido no entorno de todas as outras estradas da Amazônia:

O que se evidenciou com a abertura da estrada, num processo de reorganização do


espaço econômico, foi a valorização das terras, a expulsão dos posseiros, o
acirramento dos conflitos sociais, bem como dos problemas decorrentes destes,
como o aumento da migração rural-urbana, num contexto de fragilidade econômica
(...). Pelo lado do impacto ambiental, é muito claro, pela observação do mapa de
desmatamento, que as estradas se constituíram em canais de dilapidação dos
recursos naturais. (Acre, 2002, vol. II:221)

Com isso, vários conflitos surgem na região do ri o Acre, conflitos que se tornaram

mais intensos quando se iniciaram os chamados “empates”, surgidos no período de

distensão do Regime Militar, ao final da década de 1970, quando também começam a ser

organizados os Sindicatos de Trabalhadores Rurais na Amazônia.

85
Em 1997 foram pavimentados os trechos ligando Rio Branco a Sena Madureira e Cruzeiro do Sul
a Mâncio Lima. Em 2000, somente 40,2% desse trecho da estrada estava pavimentada (Acre, 2000, vol.
II:218). De Cruzeiro do Sul, em 2002, alguns caminhões ainda enfrentavam o longo trecho de asfalto e balsas
para ir até Rio Branco somente durante o período mais seco do ano, entre julho e agosto.
144
3.3.1 - Dos primeiros empates à proposta da Reserva Extrativista

Os empates foram movimentos, inicialmente liderados por Wilson Pinheiro,

presidente do STR de Brasiléia, em que homens, mulheres e crianças se colocavam na

frente dos trabalhadores das fazendas “empatando”, isto é, impedindo a derrubada das

árvores (STR/CSN/CUT, 1989:7).

Em 1980 Wilson Pinheiro foi assassinado por fazendeiros da região e Chico

Mendes, antes secretário do Sindicato, passou a ser, então, o principal líder das atividades

dos empates. A partir de meados da década, porém, essa forma de resistência já não

conseguia enfrentar todas as diferentes frentes de queimadas e violência que se espalhavam

por vários lugares do estado (Almeida, 2004:42). Como descreve Mary Allegretti

(2002:13), nesse período, havia “uma verdadeira guerra na floresta, que ocorria longe do

conhecimento da sociedade”.

A estratégia de Chico Mendes, que já havia sido vereador pelo partido do MDB,

participara da fundação do PT em Xapuri e, desde muito tempo, escrevia artigos para um

jornal alternativo em Rio Branco (Allegretti, 2002), passou a ser, então, a busca de apoios

de diferentes atores externos que, aos poucos, se uniram à causa daqueles seringueiros:

antropólogos, cineastas, repórteres, professores. Uma das principais apoiadoras do

movimento de seringueiros no Alto Acre foi Mary Allegretti, antropóloga que iniciou

pesquisas nos seringais do rio Tarauacá, em 1978. Nesse período, conforme Almeida

(2004), que também se aliou ao movimento, a atuação de Chico Mendes era conseguir,

cada vez mais, ações com “alta visibilidade”.

145
Um dos marcos disso foi a realização do Encontro Nacional de Seringueiros

ocorrido em Brasília em 1985, por sugestão e organização de Mary Allegretti.

A descrição realizada por Mary Allegretti (2002:400-424) sobre esse processo e

sobre as pessoas e entidades envolvidas na realização desse Encontro é bastante

interessante para se pensar sobre o movimento dos seringueiros. Essa descrição, sob o olhar

da autora, mostra tanto como foi se constituindo a articulação de diferentes pessoas em

vários estados da Amazônia e em Brasília, como também a formação do conceito das

Reservas Extrativistas.

Em 1984, o PMDB, visando as primeiras eleições após o Regime Militar, vinha

fazendo uma série de reuniões pelo país. Dentre estas, foi realizada uma em Belém que

pretendeu discutir o desenvolvimento para a Amazônia.

Nesse período, Allegretti trabalhava no INESC (Instituto de Estudos Sócio-

Econômicos), organização não governamental que prestava assessoria à Assembléia

Legislativa e a movimentos sociais. Nessa condição, a antropóloga perguntou ao deputado

Arthur Virgílio Neto, presente naquela reunião, se a situação dos seringueiros também

havia sido discutida.

Frente à resposta negativa do deputado, Allegretti escreveu uma carta a Chico

Mendes sugerindo a realização de um encontro em Brasília, com trechos que reproduzo

abaixo:

[o Encontro seria] (...) para falar sobre as dificuldades que os seringueiros estão enfrentando e exigir
mudanças na política para a borracha e para a terra na Amazônia.

146
O que você acha dessa idéia? Acho que está na hora dos seringueiros falarem para o Brasil. Acho
que o governo do Acre não parece muito interessado em melhorar a situação dos seringueiros. E se
vocês não começarem a falar forte, prá fora do Acre, não vai acontecer nada. (Allegretti, 2002: 401)

Chico Mendes, entusiasmado com o Encontro, propõe uma ida a Brasília para

discutirem a organização. Porém, não tem recursos e escreve à antropóloga: “Veja se

consegue com alguém por aí uma passagem que, talvez, quem sabe até ajudaria mais na

organização da tua proposta” (Allegretti, 2002: 402).

O primeiro apoio obtido pela antropóloga vem da Fundação Pró Memória, ligada ao

Ministério da Educação, que já contribuía para um projeto anterior de educação organizado

por Allegretti e Chico Mendes. Em seguida o INESC fez um projeto e conseguiu recursos

da OXFAM86.

Com isso, enquanto alguns faziam a preparação em Brasília, Chico Mendes iniciou

uma série de reuniões em diferentes estados da Amazônia. Nesse meio tempo, ele também

participou de uma reunião de trabalhadores rurais da Contag em Brasília, onde teria dado

“o primeiro passo na formulação de uma proposta alternativa de reforma agrária para os

seringueiros”, criticando o modelo dos Projetos de Assentamentos e defendendo que, para

os seringueiros da Amazônia, os lotes não poderiam ser menores que 350 hectares, o

tamanho de uma colocação com três estradas de seringa (Allegretti, 2002: 407).

Depois disso, foi realizada uma reunião em Ariquemes, no estado de Rondônia,

onde, pela primeira vez, surgiu o conceito das “Reservas Extrativistas”, a partir de

seringueiros e aposentados da cidade de Jaru.

86
Organização não governamental inglesa, com sede na cidade de Oxford.
147
Naquela cidade, os moradores estavam vendo colocações serem invadidas, loteadas

e vendidas. No depoimento, registrado por Allegretti (2002: 422), um seringueiro diz:

Lá dentro existem os conflitos de terra, entre colonos e esses fazendeiros que vão lá dizendo que são
donos, são deputados e estão invadindo as terras e o pobre do seringueiro lá fica bem ruim. Então, a
proposta que nós estamos colocando (...) Assim como também existem muitas coisas que nós
devíamos ter um direito... quer dizer, que os índios têm direito a uma área, reserva florestal dos
índios, e o seringueiro também devia ter uma reserva florestal para os seringueiros, porque lá nós
temos terra, o Jaru é uma área que tem terra em abundância para dar para os seringueiros, para os
índios e para os colonos.

Outro seringueiro, também de Rondônia, diz que:

Tem os seringueiros que continuam trabalhando e que é preciso que eles tenham condições de
continuar trabalhando (...) que hajam reservas florestais para que eles possam continuar nesse
trabalho.

Ao final daquela reunião, os grupos assim definiram as propostas:

Grupo A: A proposta desse grupo é que sejam feitas reservas de áreas onde existam seringais e
castanhais – seriam Reservas Extrativistas – para que o pessoal possa trabalhar.

Grupo B: Demarcar as áreas onde já existe exploração de seringa, onde o seringueiro já está lá dentro
explorando (...) então, demarcar essas áreas para que ele continue lá dentro e esta área continue como
uma reserva natural, porque aí está preservando o meio ambiente e, ao mesmo tempo, está se dando
sustento para o seringueiro.

Grupo D: Como conseguir Reservas Extrativistas? Através da união, conservar aquelas reservas que
já estão aí. Nós temos reservas, só o que falta é elas serem conservadas. Quer dizer, se houver uma
conservação, através de ordens que venham do governo, nós teremos a conservação dessas reservas
florestais que estão servindo para extrair aquilo tudo que o companheiro disse: a seringa, o caucho, o
macaco, a anta, o porco, tudo o que existe na mata. Então, se eles conservarem isso, nós temos esse
direito. Mas através de pressão. Tudo, hoje, no mundo, só se adquire através de pressão. Pressão
organizada. Se tudo estiver organizado, se estiverem registradas, as associações, aí nós adquirimos
esse objetivo. (citado por Allegretti, 2002:422-3)

Após essas várias reuniões, foi realizado o Primeiro Encontro Nacional de

Seringueiros em Brasília, com a presença de 130 seringueiros, de diferentes lugares da

Amazônia. Um dos vários resultados do Encontro foi a criação do Conselho Nacional dos

148
Seringueiros (CNS), cujo nome surgiu como contraponto ao Conselho Nacional da

Borracha, órgão que em Brasília definia os rumos da política da borracha mas que, até

então, nunca ouvira a opinião dos que produziam a borracha87 e ficou estabelecido como

parte de seus vários objetivos de busca de melhoria para os moradores da floresta, a defesa

da criação de Reservas Extrativistas (Almeida, 2002a e 2004 e Allegretti, 2002). Conforme

o documento elaborado, buscava-se:

1. Desapropriação dos seringais nativos.

2. Que as colocações ocupadas pelos seringueiros sejam marcadas pelos próprios seringueiros,
conforme as estradas de seringa.

3. Não divisão das terras em lotes.

4. Definição das áreas ocupadas por seringueiros como Reservas Extrativistas assegurado seu uso
pelos seringueiros.

5. Que não haja a indenização das áreas desapropriadas, não recaindo seu custo sobre os
seringueiros.

6. Que sejam respeitadas as decisões do 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais, no que diz
respeito a um modelo específico de Reforma Agrária para a Amazônia, que garanta um mínimo de
300 hectares e um máximo de 500 hectares por colocação, obedecendo à realidade extrativista da
região.

7. Que os seringueiros tenham assegurado o direito de enviar seus delegados à Assembléia Nacional
Constituinte para defender uma legislação florestal e fundiária de acordo com suas necessidades
específicas. (Allegretti, 2002:444)

87
Almeida conta que nos corredores de Brasília ministros sequer sabiam qual era a diferença entre
seringueiros e seringalistas (Almeida, 2002:126).
149
3.3.2 - O movimento de seringueiros e de aliados

. Outro aspecto que ficou marcado nesse Encontro foi que a forma de organização

dos seringueiros, o CNS, já nascia a partir de um conjunto de aliados. Somente para a

realização do Encontro já foram envolvidas uma série de entidades governamentais e não

governamentais (Ministério da Educação, Universidade de Brasília, Oxfam, Cebemo88,

CNBB, dentre outras). Conforme Allegretti, esse leque de alianças já era “uma novidade”

para os movimentos sociais. Ao final do Encontro, para a autora:

(....) estava claramente estabelecido o conceito de movimento dos seringueiros, que não era
constituído somente dos trabalhadores e de suas entidades de classe, mas também das demais
entidades, mesmo as governamentais, que haviam participado do seu nascimento.

(...) desde o início, a articulação com entidades civis que se identificavam com os objetivos do
movimento estava assegurada. Havia, claramente, uma noção de nós, de inclusão, de aliança entre
grupos sociais com diferentes origens de classe. (Allegretti, 2002:448-9)

Essas alianças logo em seguida, em parte por acaso, acabariam tendo um reforço

internacional, pois, uma semana após o Encontro dos Seringueiros em Brasília foi

realizada, em São Paulo, reuniões da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e

Desenvolvimento, liderada por Gro Harlem Brundtland. E Adrian Cowell, documentarista

que filmava o Encontro dos seringueiros, acabou conseguindo que dois seringueiros

também participassem das reuniões da Comissão. Dessa forma, de todas as entidades

presentes naquelas reuniões, apenas o CNS e a União Nacional Indígena eram de base

popular (Allegretti, 2002:454). E a presença dos seringueiros teria sido responsável,

88
Cebemo - ONG católica holandesa atualmente incorporada à ONG Cordaid.
150
conforme a autora, por dar um caráter real, concreto, à proposta do chamado

desenvolvimento sustentável:

Ou seja, ao mesmo tempo em que a Comissão da ONU buscava compreender a crise ambiental, tanto
nos países pobres quanto ricos, um grupo social legitimamente amazônico, emergia com propostas
concretas de solução, não somente para os problemas da pobreza, mas como rapidamente as
lideranças captaram, também para os problemas ambientais mundiais. (...)

Em outras palavras, diferentemente da percepção que se generalizou, de que o debate em torno do


desenvolvimento sustentável estava fundamentado nos trabalhos desenvolvidos pela Comissão
Brundtland, o que ocorreu de fato foi que a Conferência do Rio oficializou, em 1992, conceitos
teóricos e práticos já defendidos e experimentados pelos grupos sociais amazônicos duas décadas
antes. E a idéia de conciliação entre pobreza e meio ambiente, no caso do Brasil, já tinha um marco
histórico concreto de referência, [o Encontro Nacional de Seringueiros de] outubro de 1985.
(Allegretti, 2002: 454)

3.3.3 - A proposta dos extrativistas e a crise do extrativismo

No ano seguinte ao Encontro, entretanto, a economia extrativista da borracha sofre

um forte baque. Em 1986 a política nacional que obrigava a compra da borracha nativa

amazônica foi cancelada. Até esse período, muitos seringueiros compartilhavam do orgulho

de produzir algo de grande importância para a nação como um todo, o que provavelmente

se ligava à propaganda do tempo da Batalha da Borracha, como dito acima. Como lembra

Almeida, sobre o Encontro de 1985:

Eles [os seringueiros] haviam chegado a Brasília acreditando que a borracha era “a riqueza
do mundo”, e que eles eram necessários à riqueza nacional como os únicos produtores da
melhor borracha do mundo. (Almeida, 2004:43)

Eles não sabiam, no entanto, que a economia da borracha amazônica era mantida

graças ao protecionismo conquistado pelos patrões após o período das Grandes Guerras, e

151
que, em verdade, o Brasil desde a década de 1950 já importava borracha de outros países,

além de também produzir a borracha sintética.

Para discutir com os seringueiros sobre aquela situação econômica, Almeida fez

uma longa exposição para seringueiros e sindicalistas sobre a história econômica da

borracha, evento que levantou uma série de questões ao movimento.89

Nesse contexto, ficou evidente que a proposta das Reservas Extrativistas estava

baseada numa forma de vida muito mais vulnerável do que os seringueiros imaginavam.

Como afirmou o então sindicalista Jaime Araújo (citado por Allegretti, 2002:538): “se não

conseguirmos achar um meio viável de resolver o problema da borracha, não adianta lutar

pelas Reservas Extrativistas.” Allegretti, também presente à exposição de Almeida, afirmou

que não adiantaria, com isso, saírem da reunião simplesmente avisando aos seringueiros

que a borracha iria se acabar, mas sim que os seringueiros tinham uma nova proposta ao

que estava acontecendo.

A política que estamos propondo (...) é em comparação com as outras políticas sociais que estão
sendo propostas para a Amazônia. E o que é mais importante? É importante ter áreas de floresta – e é
aí que a gente vai ter aliados - ter áreas de floresta onde se pode viver, produzir e conservar a
floresta, ou só os projetos de colonização, só as estradas, só as fazendas? (...) Se não for tomada
medida nenhuma, os seringueiros vão desaparecer e se transformar em miseráveis urbanos.

Em resposta, o sindicalista Raimundo de Barros, primo de Chico Mendes,

considerou que “a questão é social e em cima disso é preciso criar os meios para garantir

essa questão social e a continuidade da produção do seringueiro” (Allegretti, 2002:539-40).

89
Uma reprodução da exposição de Almeida e o debate que a ela se seguiu estão em Allegretti,
(2002:531 e seguintes).
152
Assim, pode-se perceber que as críticas de que os seringueiros, “transtornados”,

teriam “uma imagem forjada em outro lugar” não combinam com o início do processo de

luta pelas Reservas. Pois, desde o início do movimento organizado os seringueiros

perceberam que estavam não só defendendo uma forma de vida, mas também elaborando

propostas e abrindo caminhos para o futuro que se avizinhava, que, sabiam, não parecia

nada favorável.

Tempos depois, em 1987, os seringueiros já tinham conseguido outra vitória, a

participação de Chico Mendes nas reuniões sobre o financiamento internacional solicitado

para o asfaltamento das estradas no estado do Acre. A partir disso, Chico Mendes tornou-se

cada vez mais conhecido, especialmente depois de receber, em Londres, um prêmio por sua

defesa à floresta. Como descreve Almeida, “Chico Mendes saía de encontros em

Washington para fazer ‘empates’ em Xapuri, e nos entremeios estabelecia uma rede de

conexões com sindicalistas e ativistas ambientais” (Almeida, 2004:45), redes que mais

tarde se estenderam também àquelas outras já existentes no Alto Juruá.

As lutas de Chico Mendes e seus aliados não foram suficientes, entretanto, para

impedir seu assassinato por fazendeiros, no ano seguinte, em dezembro de 1988.

3.4 - Mudanças e continuidades no Alto Juruá

Enquanto a chegada das estradas na década de 1970 trouxe uma série de alterações

na região do alto do rio Acre, no outro extremo do estado, as principais vias de transporte

continuavam sendo os rios, igarapés e trilhas na mata. Embora ali os patrões também
153
estivessem vendendo grandes áreas de seringais, a maioria dessas terás foi comprada

apenas para especulação.

Enquanto aguardavam que o asfaltamento da estrada BR 364 tornasse viável a

exploração dos recursos, as novas aquisições, em grande parte, foram arrendadas para

comerciantes locais, que mantiveram as relações com os seringueiros praticamente no

mesmo sistema de antes (Almeida, 1993:67 e O’Dwyer, 1999). Os arrendatários

continuavam sendo chamados de patrões e, para os seringueiros do alto do rio Acre, seus

colegas do Juruá passaram a ser denominados “seringueiros cativos”, em oposição a eles

que, por não trabalharem mais com patrões, se consideravam “seringueiros libertos”.

Desse modo, enquanto a política desenvolvimentista do Estado tomava conta de

muitas partes da Amazônia, em outros lugares mantinha-se o velho sistema de aviamento,

nas condições técnicas e sociais quase iguais àquelas do final do século XIX. Para entender

essa contradição, é importante salientar o papel do Estado e suas relações com a elite local.

3.4.1 - Os patrões, o Estado e o mercado

Alguns autores enfatizam que o Regime Militar teria sido um período de

enfraquecimento dos antigos patrões, graças aos baixos preços da borracha, causando alto

endividamento desses patrões com os bancos, o que os impedia de aproveitar os novos

incentivos governamentais. Nessas condições, foram pressionados a vender seus seringais

aos empresários do Sul e Sudeste (Costa Sobrinho, 1992: 143). Mas vários outros autores

154
discordam dessa opinião, mostrando que os patrões que permaneceram na região também

foram também beneficiados pela política estatal.

Em 1968, por exemplo, o governo federal instituiu um sistema de cotas que

obrigava as empresas, em pleno ciclo de desenvolvimento da indústria automotiva, a

comprar a borracha vinda de fora do país somente depois da nacional, pagando por aquela

um preço geralmente maior do que o de mercado (conforme a lei 5.459 de 21 de Junho de

1968, citada por Almeida, 1993: 51-52). Política que, conforme esse autor, foi uma grande

vitória dos patrões amazônicos, obtida mesmo a contragosto dos interesses do capitalismo

internacional das indústrias de pneumáticos (Almeida, 1993:52). Isso poderia ser explicado

pela força desproporcional do regime federativo. Em 1962, os territórios do Acre, Rondônia

e Roraima foram emancipados, tornando-se estados. Assim, junto com o estado do

Amazonas, formavam uma força política capaz de favorecer os interesses das suas elites

locais conseguindo, com isso, a continuidade do apoio governamental que se mantinha

desde o período Pós-Guerra (Almeida, 1993:52). Também conforme salientado por Barbara

Weinstein (1993:17), a relação entre patrões e seringueiros, “por diversas vezes obrigou os

homens de negócio estrangeiros a modificar suas expectativas em resposta às pressões

locais”.

Em 1974 o governo federal também criou o Programa de Incentivo à Produção da

Borracha Vegetal – chamado de Probor – que estabeleceu créditos governamentais para

incentivar o plantio de seringueiras, inclusive na Amazônia. Porém, as dificuldades para o

desenvolvimento de seringais de cultivo foram várias e, com os créditos, era mais

interessante a manutenção dos antigos seringais nativos além de, com os créditos, fazer
155
outros investimentos, como a formação de fazendas, por exemplo. Até hoje, os moradores

da região do Alto Juruá contam de forma anedótica as peripécias de alguns patrões que

receberam esses créditos para driblarem os fiscais. Alguns lembram que os patrões

plantavam apenas uma fileira de seringueiras na margem do rio, pois só ali seria feita a

fiscalização, outros contam que áreas eram incendiadas, o que servia como justificativa

para o não pagamento dos créditos90.

Dessa maneira, esses autores demonstraram a fragilidade de análises que

generalizaram a dominação do mercado capitalista na Amazônia, como pode ser visto, por

exemplo, em estudos de Otávio Ianni (1978: 60), que afirma que o “conjunto do sistema

[dos seringais amazônicos] estava totalmente determinado pelos movimentos de capital

industrial localizado na Europa e nos Estados Unidos”, e também Élio Duarte, para quem o

capitalismo mercantil era apenas um “intermediário” do capitalismo industrial, e o trabalho

do seringueiro, “inteiramente subordinado pelo capital” (Duarte, 1986:31).

No Alto Juruá, grande parte da área onde hoje se localiza a atual Reserva

Extrativista, eram seringais que, em 1974, foram vendidos para a empresa Consulmar

Empreendimentos, com sede em São Paulo.

Ali, a empresa realizou alguns estudos para reconhecimento do potencial madeireiro

da área e, enquanto o asfalto da BR 364 não chegava, arrendou os seringais por períodos

trienais aos comerciantes locais.

90
Numa reunião do Alto Acre, um seringueiro comentou que em áreas compradas pela empresa
Bordon, também foram plantadas seringueiras mas depois, “por astúcia mesmo”, as árvores também foram
queimadas (citado por Allegretti, 2002:535).
156
Como é sempre comentado, os créditos governamentais (ligados ao Probor e outros

do Banco do Brasil) foram mecanismos importantes que financiaram esses arrendatários,

enquanto vários dos antigos patrões, com os recursos da venda de porções dos seus

seringais, investindo no comércio e em gado nas margens do Juruá, também conseguiram

ter um considerável aumento de renda nesse período (Almeida, 1993: 65 e 67).

Conforme Almeida (2004: 40), um exemplo de patrão beneficiado com esse

programa foi Orleir Cameli, nessa época comerciante (e hoje ex-governador), que arrendou

seringais da Consulmar, em 1983, a partir de um “generoso esquema de financiamento

público”.

3.4.2 - Mudanças no processo de trabalho

A partir de depoimentos recentes dos seringueiros, pode-se perceber que, com o

arrendamento dos seringais, apesar de ser mantido o mesmo o sistema de aviamento,

algumas mudanças já começaram a ser percebidas.

Como seria evidente, a preocupação com a sustentabilidade das seringueiras já não

era tão grande quanto fora para os antigos patrões. Os arrendatários tinham apenas

contratos de exploração provisórios. Algumas vezes ouvi seringueiros lembrando que um

desses arrendatários não via problemas ao dizer a seus fregueses: “quem for tatu que cave,

quem for macaco que se atrepe”. Ou seja, esqueçam o antigo regulamento: estavam

liberados os cortes simultâneos numa mesma seringueira, tanto na parte próxima ao solo

157
quanto no alto, técnicas consideradas um risco para a longevidade da árvore (Almeida,

2002:129 e Costa, 1998:5591).

Nas histórias contadas pelos seringueiros sobre esse período, também aparecem

mais histórias sobre a adição das chamadas porqueiras na borracha92. Dois seringueiros

uma vez me relataram uma cena num depósito de um patrão. Chegaram ali dois

seringueiros: um trouxe uma borracha boa, fez suas compras e ficou com dívidas; o outro

trouxe uma que, sabiam, continha porqueira. Esse seringueiro também fez compras e,

diferentemente do colega, conseguiu pagar sua conta. Quando os dois saíram, um dos que

viram a cena comentou com o patrão-arrendatário, Sebastião Correia, sobre a diferença da

qualidade daquelas borrachas. Mas o patrão, teria respondido: “eu não quero borracha para

comer”.

Num outro episódio, outro seringueiro relatou que, para esse mesmo patrão, “não

tinha luxo não”, isto é, qualquer tipo de borracha seria aceito.

Se havia uma diminuição do interesse dos patrões na sustentabilidade das estradas

de seringa, os seringueiros também reduziram o comprometimento com a qualidade da

borracha, mudando a tecnologia da sua produção, mesmo sob reclamações dos patrões,

deixando de defumar o látex em bolas ou pélas para fazer as chamadas pranchas, de

91
Eu interpretei o ato de “cavar” como a prática de fazer traços na seringueira muito próximos ao
chão, o que obrigava o seringueiro, para poder embutir a tigela para escorrer o látex, cavar um pequeno
buraco na terra, como vi uma vez. Na Enciclopédia da Floresta, cavar é entendido como o ato de fazer cortes
fundos na árvore para que o látex escorra mais ligeiro, e não o traço delicado e cuidadoso para não prejudicar
a árvore.
92
Como dito acima, porqueiras são acréscimos de outros materiais no interior da borracha, para
aumentar seu peso.
158
processo muito mais simples93. Mudança que demonstrava, como discute Almeida (1993), a

dificuldade dos patrões no controle sobre o processo de produção dos seringueiros. Esse

processo reduzia significativamente o trabalho do seringueiro, que antes passava horas

sentado no defumador, passando o leite colhido sob a ação da fumaça. A prancha, porém,

era considerada de qualidade inferior e sempre criticada mesmo pelos seringueiros que as

produziam, que várias vezes a chamavam de “prancha velha imunda” por causa de seu odor

desagradável, em oposição às bolas defumadas. Para alguns seringueiros, a crise econômica

que se instaurou a partir de meados da década de 1980, seria justamente causada por essa

mudança na técnica de produção, que teria desvalorizado o produto do seringueiro94.

3.5 - João Claudino e o STR

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Cruzeiro do Sul foi fundado em

1977, com o apoio de João Maia, advogado da Contag95. A criação do Sindicato pode ser

vista como um marco do que se chamaria depois de “movimento social organizado”.

Movimentos coletivos de seringueiros não era novidade, por vezes até recebendo apoio

jurídico, como pode ser visto em alguns processos criminais e nos depoimentos dos

93
Ver nota 69, página 107.
94
Mais tarde, como será visto a seguir, outra mudança na técnica de produção, para a fabricação da
FDL, embora mais trabalhosa teve uma forte aceitação local. A FDL (abreviação de Folha Defumada Líquida)
é uma lâmina de borracha obtida a partir de produtos químicos que, após vulcanizada é várias vezes passada
por calandras. Muitos seringueiros faziam questão de mostrar aos visitantes a qualidade, o aspecto das
lâminas quase transparentes e sem cheiro, produzidas com a nova técnica.
95
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura.
159
seringueiros. O que seria novidade é que, no contexto da abertura política do Regime

Militar, começaram a surgir entidades oficializadas, como os sindicatos, que podiam fazer

reuniões, ter um espaço físico, arrecadar recursos, contratar pessoas, organizar tarefas.

As ações do STR nos afluentes do Alto Juruá iniciaram-se em 1979, quando João

Claudino tornou-se o primeiro delegado sindical da região. Para pensar sobre as ações do

Sindicato na região e, especificamente no rio Tejo, descrevo a seguir as histórias contadas

pelo ex-sindicalista João Claudino, relembradas em conversas realizadas entre os dias 7 e 8

de outubro de 2002, em Cruzeiro do Sul.

Quando o STR foi fundado, João Claudino morava no Projeto de Colonização Santa

Luzia, próximo à sede municipal de Cruzeiro do Sul, num local herdado de seu avô e onde

ainda havia estradas de seringa96. O primeiro delegado sindical do Santa Luzia foi um

primo seu.

Ao separar-se de sua esposa, seu Claudino deixou seu local no Santa Luzia para ela

e seus três filhos, e foi trabalhar como seringueiro num dos seringais mais distantes dali, no

igarapé Manteiga, Alto Tejo, na colocação Zambezé, para o patrão Armando Geraldo. Ali

chegou no dia 4 de abril de 1979, ficando por dois anos e, depois, morou mais quatro anos

na colocação Foz do Manteiga97.

Nas lembranças de seu Claudino, nesse tempo vigorava no Alto Tejo a “lei do PDS”

ou, “no dizer do pobre”, era o tempo em que o patrão "era quem casava e batizava". Os

96
Pela referência à existência de estradas de seringa no Projeto de Colonização, a hipótese é que o
avô de Claudino teria conseguido comprar lotes de outros assentados.
97
Há informações em Almeida (2002:127) que Claudino participara das revoltas no seringal
Alagoas, em Tarauacá antes de ir morar no Alto Tejo. Por algum motivo, em nossas conversas ele não fez
referência a essa participação.
160
patrões, para isso, contavam também com suas boas relações com o Estado, “compravam”

o delegado de Thaumaturgo, seu Aderico, e com ele obtinham o apoio da polícia. Ele

mesmo não chegou a ver, mas ouviu dizer que o Aderico “botava no rio e fazia o

seringueiro nadar”.

Já trabalhando no igarapé Manteiga, Claudino foi fazer uma viagem a Cruzeiro do

Sul, indo até o STR. Lá o presidente do sindicato na época, Saraiva, o “alumiou como

delegado” sindical do rio Tejo.

Depois disso, seu Claudino passou a freqüentar sistematicamente as atividades do

STR em Cruzeiro do Sul, onde conheceu o advogado João Maia, quem lhe ensinou, como

disse, os direitos do trabalhador rural. Ele e os outros delegados chegavam a passar até oito

dias na sede do sindicato, só aprendendo com o advogado. Eles estudavam muito a lei

4.505 e a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Nas suas palavras: eles não sabiam ler,

por isso decoravam tudo. Conforme faz questão de dizer, ele não fazia nada contra a lei.

Falando sobre a importância de seu trabalho na região do rio Tejo, João Claudino

avaliou que ele, por ser “de fora” do seringal, “via o mundo” de maneira diferente da dos

seringueiros. Ele, de Cruzeiro do Sul [o Projeto Santa Luzia era acessível por estradas de

terra ao centro da cidade], estava acostumado a ver democracia: para ele a gente [na cidade]

expressava o direito da gente.

Como delegado sindical no Alto Tejo, sua primeira ação foi o questionamento do

valor da renda.

Como visto acima, a renda que os patrões cobravam pelo uso de um par de estradas

de seringa era de 60 ou 66 Kg de borracha, correspondendo a aproximadamente 10% de


161
uma produção média de um seringueiro, considerada cerca de 600kg. Porém, não era

sempre que o seringueiro conseguia produzir os 600 Kg em um ano de trabalho. Baseado na

lei 4.505, o Sindicato entendia que o pagamento da renda deveria custar em torno de 10 a

30%, e, por isso, começou a questionar o valor de 66 Kg, exigindo uma diminuição da

renda ou então uma redução da dívida dos seringueiros, como compensação àqueles que

produziam menos do que os 600 kg.

A primeira reunião realizada por seu Claudino foi na colocação Mosqueiro no

igarapé Manteiga, sendo convidado um pequeno patrão da região, Valdemar Furtado, por

sua vez, aviado do patrão Armando Geraldo. “Eu tinha que esclarecer os direitos dos

trabalhadores”, como conta Claudino, mas também “havia um direito do trabalhador de

convidar o patrão” para ouvir as decisões98. Nessa reunião, ele “levou” a “lei dos 10%”,

mas ela não foi aceita pelo patrão. Assim, João Claudino pediu a ele todos os talões, onde

era anotada a pesagem da borracha dos seringueiros, e os levou para o fórum de Cruzeiro

do Sul. De posse desses talões, recebeu o apoio do juiz para a reivindicação do Sindicato:

se o patrão não desse um desconto para os seringueiros o juiz poderia apreender os talões e

os seringueiros não iriam pagar suas dívidas. Com esse argumento, os seringueiros do Tejo

conseguiram um abatimento de 30% nas suas dívidas. Conforme João Claudino, a "lei do

trabalhador começou assim". Depois, Claudino também passou a acompanhar, ao final da

safra, as pesagens da borracha realizadas nas casas dos seringueiros. Vale lembrar que a

pesagem anual da borracha do seringueiro era um momento em que, conforme Almeida

98
É interessante notar que, na região, a palavra “direito” tanto pode significar benefício, como
obrigação.
162
(1993: 113), se dava a “transferência formal dos direitos” da borracha do seringueiro para o

patrão. A borracha recebia a marca daquele patrão, não podendo, portanto, ser mais vendida

a outrem. Pode-se ter uma idéia, portanto, do significado da presença do sindicalista

durante a pesagem, e, conforme Claudino, quando o patrão destacava a conta do

seringueiro, ele também destacava o seu recibo.

Conforme seu relato, após quatro anos de trabalho como delegado sindical, os

patrões, antes muito valentes, aqueles que antes “casavam e batizavam”, nos seus dizeres,

estavam agora “humilhados”. Um deles chegou a ir à casa de João Claudino quase

chorando, para que o sindicalista fosse pedir aos seringueiros que pagassem suas dívidas99.

Como Claudino parecia se orgulhar em dizer, mesmo sem saber de quase nada (pois sua

educação formal se resumia em seis meses de estudo no Mobral100 aos 16, 17 anos), ele

“fazia tudo isso para o seringueiro”.

Conforme João Claudino, as relações entre patrões e seringueiros foram se

tornando, nesse período, cada vez mais conflituosas, e no rio Tejo acabou ficando de um

jeito que "se matasse, morria". Apesar desse contexto de tensão, seu João lembra que

andava “tranqüilo” pelos seringais. Conta que não andava armado, só possuía seu terçado,

porque a lei não permitia, mas que estava sempre acompanhado de outros dois seringueiros

(Nazário e Chico Roberto), armados. Como recorda várias vezes: “a gente só ia pela lei”.

99
Essa mesma análise sobre a “humilhação” dos patrões reaparece no depoimento de outros
seringueiros ao falar das ações de Antonio Macedo na região, como será visto a seguir.
100
Programa governamental de alfabetização de adultos.
163
Apesar de andar acompanhado, ele considera que não tinha medo, nem da polícia, nem do

patrão101.

Quando precisava levar algo para o conhecimento do juiz, cada seringueiro lhe dava

uma quantidade de borracha para a viagem, pois, conforme ele, ninguém queria estar

humilhado aos patrões. Alguns índios, nessa época, também se associaram ao Sindicato, e

também contribuíam. E era comum que ele fizesse de três a quatro viagens por ano para

Cruzeiro do Sul para resolver algum problema ligado aos seringueiros.

Somente quando ficava sabendo que policiais estavam a caminho de Marechal

Thaumaturgo para buscá-lo, a mando de algum patrão, é que João Claudino contou que

“sentia medo”. Nessas vezes, ele corria para o Sindicato na cidade mas, fazia isso se

obrigando a um enorme “arrodeio”: precisava atravessar a divisão das bacias do rio Tejo e

o Riozinho da Liberdade, indo pelas cabeceiras do Manteiga até as cabeceiras de um

afluente do Riozinho da Liberdade102. O arrodeio era justamente para evitar os caminhos e

igarapés por onde circulava o sistema de aviamento do patrão do rio Tejo. Nesse trajeto,

que pelo caminho normal ele faria em um ou dois dias, eram necessários sete dias de

caminhada. Dali o sindicalista descia o rio até onde hoje é a cidade de Porto Walter, onde

conseguia uma embarcação que o levava até Cruzeiro do Sul. Nessa cidade, ia à sede do

STR para encontrar o advogado João Maia e lhe contar as ameaças policiais. O advogado

então falava com o juiz. Este relatava o caso à polícia, que através da radiofonia, avisava
101
Almeida, depois do assassinato de Chico Mendes em 1988, também andava protegido em Rio
Branco, embora sem o perceber. Como descreve Manuela C. da Cunha, em entrevista: “O Mauro é a pessoa
mais distraída que vocês podem imaginar. Nunca percebeu que tinha dois capangas cuidando dele...”
(reproduzido em Carneiro da Cunha, 2009:386)
102
“Divisão” são as terras altas que separam as principais bacias hidrográficas, sendo locais
normalmente sem moradias.
164
aos policiais que estavam na Vila de Marechal Thaumaturgo sobre as decisões judiciais a

favor de Claudino. Depois disso, este voltava para casa pelo caminho normal, subindo o

Juruá até a Foz do rio Tejo, de onde partia de canoa até sua casa no Manteiga. Já sem medo,

como dizia, antes disso ainda parava na Vila, subia o barranco e tomava uma cerveja no

pequeno comércio local, só para ter o gosto de provocar o patrão.

É interessante comparar essa descrição da necessidade do “arrodeio” com a

“fractalidade” do sistema de aviamento, tal como citado acima103. Mais adiante essa

discussão será retomada.

Nessas viagens, seu Claudino contou que conheceu bem as cabeceiras do Riozinho

da Liberdade, por onde passava durante o desvio para chegar a Cruzeiro do Sul. Lá,

conforme ele, os moradores pelo caminho seriam tão mal informados que não podiam

sequer distinguir a entidade da pessoa, considerando o Sindicato como se fosse um homem,

e a Cobal (entidade pública que comercializava os produtos agrícolas) como se fosse uma

mulher. De passagem por uma casa, por exemplo, uma senhora lhe disse que tinha o maior

desejo de conhecer “esse tal” “Sindicato”. Ali então ele foi tratado como um homem

importante, com carne servida com patoá na cuia grande104. Nessas casas, brincou, ele

punha a esteira e lá ficava. Ele também recordou que um morador do alto rio Tejo - cujo

filho tornou-se depois um importante líder local - nunca teria ido nem até a margem do rio

103
Como discutido no item 2.2.4, a organização dos seringais através de patrões e subpatrões,
sempre sediados nos entroncamentos dos rios e igarapés, formavam um sistema de hierarquias que,
“desposava a própria geografia” (Carneiro da Cunha, 2009:104, a partir de Almeida, 1993).
104
Carne de caça acompanhada com os chamados vinhos - bebidas à base da polpa de cocos de
palmeiras como açaí, abacaba, buriti ou patoá - são reconhecidas iguarias na região.
165
Juruá e, em meados de 1980, quando ia a um encontro de seringueiros em Cruzeiro do Sul,

ao ser surpreendido com a largura da calha do rio, teria até se assustado ao ver tanta luz105.

Pode-se pensar que, dessa forma, haveria uma rede, ao qual pertencia João

Claudino, que, em determinadas situações, estabelecia ligações entre seringueiros

insatisfeitos, índios, advogado, leis, um juiz, a polícia e que essa rede vinha sendo

responsável por uma nova configuração local, capaz de fazer patrões, pelo menos em algum

momento, se humilhar perante um seringueiro.

Ao que parecia, porém, Claudino não achou suficiente pertencer somente a essa

rede. Ele tinha “amizade com os homens”, como dizia. Por isso, aceitou o convite do patrão

Sebastião Correa, que lhe ofereceu três toneladas de borracha para que ele fosse fiscal geral

para acompanhar os trabalhos dos seringueiros106. Ele também viajava, chegando a passar

dez, quinze dias na capital do estado, em Rio Branco, sem gastar nada. Essas viagens

seriam pagas pela Contag, o STR, os políticos, ou até por Aluízio Bezerra (que depois se

tornaria senador pelo Acre e prefeito de Cruzeiro do Sul).

Essas diferentes amizades, entretanto, não puderam coexistir por muito tempo.

Como lembra Claudino, os políticos - Nabor Júnior, Aluízio Bezerra, Flaviano Melo -

105
Almeida também conta que em suas primeiras pesquisas, no inicio da década de 1980, muitos
moradores da região não conheciam nem Marechal Thaumaturgo e nunca tinham visto notas de dinheiro e
nem um automóvel (comunicação pessoal). Em 1994, somente uma mulher que encontrei no Alto Riozinho
afirmou nunca ter conhecido a cidade de Cruzeiro do Sul.
106
Almeida descreve essa atividade de João Claudino como uma tentativa de cooptação por parte do
patrão. Pois este, ao mesmo tempo em que encarregava o sindicalista de cobrar a renda, mandava avisos pelos
empregados para os seringueiros não pagarem a Claudino, com o fim de desmoralizar o Sindicato (Almeida,
1993:82-83). Conforme Almeida, já nesse momento, em finais de 1983, Claudino já passou a ser considerado
alguém “comprado” pelos patrões, para os moradores do Alto do rio Tejo.
166
acharam por fim uma forma de tirá-lo do movimento: em 1986, ofereceram-lhe um

emprego de policial. E, então, seu Claudino foi obrigado a escolher. E ele aceitou.

Em seu novo trabalho, Claudino uma vez prendeu um seringueiro que comentou:

antes, era ele quem libertava os seringueiros, agora era ele quem os prendia. Por isso, diz

Claudino: "me arrependi". Ao lembrar-se da sua saída dos seringais, Claudino conta: “ainda

escorri os olhos um tempo”, "por um ou dois salários mínimos, lamentou, eu ter perdido

meus amigos...”

3.5.1 - Algumas considerações sobre as histórias de João Claudino

A maneira como seu João Claudino se lembra daqueles momentos permite várias

considerações, e creio valer a pena refletir sobre algumas delas.

Primeiramente, pode-se perceber como ele descreve a situação anterior à sua

chegada: o patrão é dito como o que mandava, “casava e batizava”, e punham os

seringueiros sob um sistema de humilhação. Já os seringueiros não eram capazes de ver o

que ele, da cidade, era capaz de ver; alguns chegavam a pensar que o Sindicato era um

homem, ou que nunca tinham visto tanta “luz”. Como João Claudino era “de fora”, já

estava acostumado com a “democracia” e, mesmo sem educação formal, conseguiu decorar

as leis com o advogado de Brasília. Assim, ajudado pelos seringueiros, foi capaz de inverter

a situação e colocar os patrões em situação de humilhação. Conseguiu fazer “tudo isso para

o seringueiro”.

167
Pode-se ver que nas memórias de João Claudino há uma história coerente, com

começo, meio e fim em que a união dos pobres resulta em perda para os ricos e ganho para

os pobres, história da qual seu João é personagem heróico e disso se orgulha. Mas ele

mesmo se envergonha, ao final, quando acaba perdendo seus amigos. Conforme Almeida,

além disso, seu novo trabalho também podia ser visto como uma traição aos seringueiros,

pois, ao prendê-los, ele atuava justamente naquilo que ele tanto havia combatido: o fato de

os patrões tratarem questões de seringueiro como caso de polícia. Por exemplo, quando um

seringueiro vendia borracha para fora, os patrões podiam tentar expulsá-lo do seringal,

como punição, sem nenhuma indenização, chamando a polícia para executar a ordem.

Claudino, porém, seguindo a posição do sindicato, dizia que essa era uma questão da justiça

do trabalho, e exigia indenização para as benfeitorias dos seringueiros. O sindicato admitia

o direito do patrão a expulsar o seringueiro - mas exigia que fosse paga uma indenização a

ele. Eram os "direitos".107

Nesse sentido, pode-se discutir a idéia dos novos “direitos”, considerando o

questionamento do pagamento da renda.

Sindicatos de trabalhadores rurais foram responsáveis, nos diferentes lugares em

que foi estabelecido, por inaugurar uma “linguagem dos direitos”, o mesmo também

ocorrendo no Alto Juruá (Pantoja, 2004).

A idéia de que a renda não deveria ultrapassar uma determinada porcentagem da

produção do seringueiro, provavelmente, era uma idéia nova, levada aos seringais por João

Claudino sob a força de uma “lei”, ensinada pelo advogado. Mas, como dito anteriormente,

107
Comunicação pessoal.
168
outras idéias de direito e justiça, embora diferentes, já existiam antes. Um exemplo disso

seria a “economia moral” ou as “obrigações mútuas” entre seringueiros e patrões, conforme

discutido por Almeida (1993).

Para vários seringueiros, a renda era considerada como algo justo. Não como

aluguel pelo uso de uma pretensa propriedade alheia, mas como contrapartida pelo fato dos

patrões abrirem as estradas e terem responsabilidade pela fiscalização, zelo e abertura de

novos trechos quando seringueiras nas proximidades eram encontradas. Da mesma forma já

havia, desde 1904, regras que permitiam a seringueiros não pagarem a renda das estradas

abertas por eles mesmos (Castelo Branco SO, 2005).

No período de atuação do Sindicato, como já visto, os patrões do Alto Juruá

pareciam pouco preocupados com as regras de uso para as estradas de seringa e suas

possíveis responsabilidades. É nesse contexto que o Sindicato dá uma nova forma à

reivindicação dos seringueiros, colocando-a sobre o abrigo de uma lei, que, além disso,

tinha pessoas capazes de ensiná-la e auxiliar os seringueiros para sua efetiva realização.

Pode-se pensar sobre a recusa no pagamento da renda, portanto, não como resultado

da chegada de um novo direito vindo de fora para dentro, mas num momento de

fortalecimento daqueles que já vinham questionando essa situação, um reforço que se

concretizava em apoios concretos, num encontro de novos e velhos direitos.

Assim, entre 1981 e 1982 os seringueiros do rio Tejo, com o apoio de Claudino,

definitivamente deixaram de pagar a renda, o mesmo ocorrendo com seringueiros de rios

das proximidades (Almeida, 1991:7). Isso afinal, acabou ocorrendo mesmo em detrimento
169
do próprio presidente do Sindicato, José Saraiva que, em 1982, afirmava que os “direitos

das estradas” deveriam ser pagos (Almeida, 1993: 83).

3.5.2 - Outras redes, outros caminhos

O que me parece interessante nesse período é que aqueles que já antes poderiam ser

questionadores das ações dos patrões passaram a contar com aliados completamente novos:

o delegado sindical, a lei 4.505, uma sede do sindicato, a lousa, recursos talvez para manter

pessoas vivendo vários dias na cidade para ali estudarem; um advogado disposto a ensinar a

legislação a pessoas que não sabiam ler e, o que é importante, disponível a atender um

seringueiro que chegava com problemas de um distante seringal. Ainda ligado a este, um

juiz disposto a interpretar uma lei de forma contrária a interesses do grupo local de maior

poder econômico. Onde também se inclui os outros dois seringueiros dispostos a parar seus

próprios trabalhos para acompanhar o sindicalista em caminhadas e reuniões, a carne de

caça com patoá na cuia grande (uma amostra de como recursos familiares eram investidos

na relação com o novo agente local), o terçado, as armas, um talão de recibos comprado na

cidade.

Também me parece relevante que, com essas mudanças, é possível imaginar um

enfraquecimento na rede local de apoio aos patrões. Conforme considerado acima, não é

suficiente pensar a vida nos seringais com um patrão cercado de seringueiros (Almeida,

1993). Parece ser possível perceber grupos de seringueiros que apoiavam e os que não

apoiavam os patrões, tal como os grupos que eram mutuamente acusados de “chaleiras”,

170
por um lado, e os “preguiçosos” de outro. Grupos móveis que poderiam ser mais ou menos

explícitos. Assim, seria possível pensar que o contexto não somente afetou a força de

alguns patrões locais, mas fragilizou toda a rede de seringueiros que procuravam

manterem-se bem quistos pelos patrões. As atividades de João Claudino, portanto,

poderiam ser vistas também como um momento em que esses grupos contrários estivessem

tendo maior credibilidade local. Tendo esse contexto em mente, em minha opinião, torna-se

mais fácil compreender as mudanças locais.

Talvez fosse certo exagero dizer que, nesse tempo, “se matasse, morria”, como

afirmou Claudino, mas a tensão não deveria ser pouca para obrigar Claudino a andar

acompanhado e buscar ajuda em Cruzeiro do Sul fazendo aquele enorme arrodeio. Nessa

busca, ele talvez pudesse fazer o caminho normal, seguindo o Tejo e depois descendo o

Juruá até Cruzeiro do Sul, apenas desviando o barracão do patrão pela mata, ou quem sabe

passando à noite pela vila Thaumaturgo para não ser visto. Mas ele precisava fugir não só

dos policiais ou dos patrões, mas de todos os outros seringueiros que poderiam achar por

bem denunciá-lo ao patrão. Assim, o sindicalista era obrigado a passar por trilhas diferentes

das que as pessoas do Tejo normalmente utilizam, por caminhos pela mata excessivamente

mais longos e correndo o risco de percorrer áreas de floresta desabitadas, com picadas

cerradas pelo pouco uso. Somente depois do auxílio do advogado, do juiz, da polícia, da

radiofonia, da outra polícia, é que podia voltar pelos mesmos rios e caminhos de sempre e

ser visto por todos.

171
Assim, para atingir a sede do Sindicato, Claudino também precisava contar com

uma rede de pessoas constantemente viajando de uma casa a outra, seguindo os rios e

caminhos dos seringais, capazes de fazer com que a notícia da chegada de policiais em

Thaumaturgo fosse comentada com antecedência e caminhasse de alguma maneira por dias

de viagem de uma casa a outra até chegar ao sindicalista. Também precisava do apoio da

mesma rede para não tornar sabida a longa viagem de desvio do sindicalista, tornando-o

capaz de ainda zombar dos policiais que os esperavam.

Por último, vale comentar como João Claudino, na minha interpretação, também

pretendia manter uma relação amistosa com os patrões. Mas não haveria como, numa

situação de tensão como a descrita, manter-se ao mesmo tempo em redes que se opõem. E

por isso ele teria se colocado numa situação em que foi coagido a escolher entre um lado ou

outro. E, mais tarde, escolha que o faria ter se arrependido por ter perdido os “amigos”,

passando para o lado de fora da rede que ele mesmo ajudara a fortalecer.

3.6 - Revolta, greve, grandes reuniões

3.6.1 - Chico Ginu

Francisco Barbosa de Melo, conhecido como Chico do Ginu, e, mais tarde,

simplesmente Chico Ginu, foi um dos mais dedicados seguidores do trabalho de João

Claudino.
172
Assim, após a saída de Claudino, no início da década de 1980, Ginu, com pouco

mais de vinte anos, tornou-se o delegado sindical do Alto Tejo, na mesma época em e

Chico Mendes, no Alto Acre, era eleito o presidente do STR de Xapuri.

Nesse período, tal como ocorrera com João Claudino, vários outros líderes da

região estavam sendo de algum modo cooptados pelos patrões. Conforme Almeida (1993:

83), a cooptação, naquele momento, foi a estratégia mais utilizada pelos patrões no Alto

Juruá para se contraporem às atividades iniciais do Sindicato que, após a saída de Claudino

e de outros, passou a enfrentar tempos de baixa popularidade.

Chico Ginu, assim como outros sindicalistas, também recebeu propostas do patrão

Sebastião Correa para interromper suas atividades sindicais. Conforme Ginu, o patrão teria

lhe oferecido dinheiro, promessas de uma casa em Cruzeiro do Sul e ainda seis toneladas de

borracha, mas ele recusou todas as ofertas. Ele lembra que, na região, havia 12 delegados

sindicais, mas, em 1986, só permaneciam ele e o Chico Roberto na atividade. E este, apesar

de ser um “bom companheiro”, recebeu apoio do patrão e acabou se tornando um

marreteiro108. Com isso, Chico Ginu ficou “sozinho” no trabalho do sindicato (Costa,

1998:45).

A partir de meados da década de 1980, o país como um todo começa a enfrentar um

longo período de crise econômica, com alta inflação. Em 1986, além disso, o antigo

esquema de créditos do Probor foi definitivamente cancelado e, com isso, novas mudanças

começam a ocorrer no interior dos seringais.

108
Conforme Chico Ginu, Chico Roberto, hoje já falecido, tal como João Claudino, também teria se
arrependido por ter aceitado a oferta do patrão.
173
Aliado à falta de preocupação com a borracha e as estradas de seringa, os patrões

começaram a tentar alterar o sistema de cobrança nos barracões, diminuindo seus

compromissos de manter a chamada “assistência” (Almeida, 1993: 79-80). Nesse momento,

os patrões começavam a forçar outros arranjos nos sistema de “obrigações recíprocas”, tal

como antes descrito por Almeida. Seria um momento que, conforme esse autor, a

“hegemonia” patronal, no sentido das interpretações sobre a legitimidade costumeira da

perspectiva da floresta, começa a ser efetivamente “contestada” (Almeida, 1993:92).

Em 1985, o arrendamento dos seringais do Alto Tejo passou de Sebastião Correia

para Orleir Cameli. Este, para receber as dívidas do seu antecessor, conseguiu acionar um

grupo de policiais que seguiram rumo às colocações, guiados por um empregado,

conhecido por Manoel Banha. Numa história várias vezes recontada, os policiais invadiram

casas carregando os mais diferentes objetos que pudessem servir como pagamento das

dívidas, de vacas a máquinas de costura, ainda questionando crianças em busca de alguma

borracha que pudesse estar escondida (Almeida, 1993:81). Houve uma revolta geral contra

essa forma de forçar o pagamento das dívidas, já que, anteriormente, os seringueiros não se

viam obrigados a pagar todas as contas ao final do ano, podendo prorrogá-las para a safra

seguinte, ou quase indefinidamente, idéia que não se combinava, porém, com os contratos

trienais dos patrões-arrendatários. Assim, a ação gerou um movimento, liderado por Chico

Ginu, que fez com que os policiais recuassem. Como sabia Chico Ginu, eles não podiam

entrar em casas sem mandado judicial, o que eles realmente não possuíam.

Já no ano seguinte, Cameli também tentou exigir uma diminuição do prazo entre a

compra da mercadoria e o pagamento final. Dessa vez, Chico Ginu ajudou a organizar uma
174
greve de seringueiros no Alto Tejo (Almeida, 2002a: 161). Um morador do rio Amônia,

que nessa época também morava no rio Tejo, ainda lembrava com orgulho de ter

participado das “reuniões medonhas” que Chico Ginu organizava na região.

Nas palavras de Almeida (1993: 81)

Quando retornei ao rio Tejo em 1987, depois de uma ausência de três anos, o nome de Chico Ginu
era conhecido até mesmo na área do baixo rio Tejo, e o acontecido estava registrado em canções e
versos. Mesmo que muitos seringueiros nunca tenham recuperado os seus pertences que a policia
havia tomado, conseguiram uma importante vitória moral e, mais ainda, o sindicato [antes
desacreditado] recuperou seu respeito próprio.

Em 1987, Chico Ginu, como assistente de pesquisa de Almeida, aplicou uma série

de questionários junto a famílias no rio Tejo e afluentes. Mais tarde, essa parceria foi

oficializada, e Chico Ginu recebeu uma bolsa de estudos para realizar pesquisas na

região109.

E, é nesse contexto que se iniciaram as reuniões do Conselho Nacional de

Seringueiros em toda a Amazônia, quando foi feito um primeiro encontro do CNS em

Cruzeiro do Sul e, no ano seguinte, no rio Tejo.

Para pensar a situação dos seringais do Alto Tejo durante esse período, reproduzo a

seguir alguns comentários de Chico Ginu, anotado em longas conversas realizadas em sua

casa, já em Cruzeiro do Sul, em 2002.

Falando sobre a estratégia patronal da cooptação, Chico Ginu, embora tenha se

sentido “sozinho” na época, entende seus companheiros, pois, como ele lembrou, a coisa

pior que existe é não ter dinheiro para comprar um quilo de açúcar. Assim, muitos teriam se

109
Como dito acima, essa foi a origem do projeto, vários anos depois, de formação da equipe de
pesquisadores florestais, chamados de monitores ambientais e sociais da Reserva.
175
sentido pressionados a “serem compro” pelo patrão, como se diz localmente. Eles “se

obrigavam a receber propina porque chegavam numa situação difícil”. Mas, ele mesmo,

dizia, “não tinha coragem de receber”, ainda que sua esposa e seus filhos, na época,

passassem muitas necessidades porque ele, como diz, ficou mesmo “fanático” com o

Sindicato. E, mesmo assim, alguns o consideravam preguiçoso, porque, além de ficar muito

tempo envolvido com as questões do Sindicato, abandonando as outras atividades, ainda era

descendente indígena. Mas, conforme ele, a pessoa tinha de ter convicção. A pessoa pega

um caminho, e vai embora, sem querer saber se tem balseiro (galhos e troncos caídos que

interrompem a passagem de caminhos ou de rios).

Ele recordou também do início de sua participação. Quando foi eleito delegado

sindical, numa eleição com 200 associados, ele recebeu apenas 19 votos, porque era “muito

novinho, ninguém acreditava em mim”. Aliás, nem seu pai queria que ele se envolvesse, e

deu broncas no filho no caminho de volta da reunião em que ele foi eleito. Assim, “muito

embora me criticando”, as pessoas começaram a conhecer a sua personalidade. E como ele

mesmo afirma e muitos concordavam: nesse tempo, ele foi o único que “não se vendeu por

besteira”. Ele lembra que foi muito trabalho, mas que ele queria fazer alguma coisa para

alguém. Como dizia, eu queria viver muitos anos e poder ter condições de fazer alguma

coisa por alguém. Era uma necessidade da época. Ou a gente fazia, ou o pessoal ia comer o

pão que o diabo amassou.

Assim, quando Manoel Banha invadiu as casas com os policiais, ele reuniu as

pessoas antes e foram para o barracão. Ele teve de ouvir todo o discurso do empregado,

com “aquele gesto do patrão, de discriminar”. Manoel Banha estava com rifle, com
176
empregado armado. Já o Chico Ginu chegou com três seringueiros, desarmados, mas muito

fortes. A polícia não estava ali no momento, e, quando chegou, era um “clima mesmo”, “ou

dava para um ou dava para outro”. Ginu tinha 40 homens e o empregado uns 8, e já havia

combinado de algemar quatro policiais. Mas, quando os policiais chegaram, para continuar

as cobranças nas casas dos seringueiros, viram o batalhão de homens que estava ali, e então

não foram adiante. Para Chico Ginu, posteriormente, aquilo foi uma “maluquice”, pois se

os policiais não tivessem recuado, a violência seria muito grande.

Depois disso, Ginu passou a ser chamado em vários lugares para resolver questões

entre seringueiros e patrões, às vezes por causa de reclamação de erros dos patrões nas

contas, outras vezes porque o patrão estava querendo “descolocar” um seringueiro.

Ao rever os comentários de Chico Ginu, é possível notar que, mesmo sendo

delegado sindical, Ginu não se refere tanto ao Sindicato, tal como descrevia João Claudino.

Saber se os policiais deveriam ter um mandado judicial provavelmente era uma informação

vinda do Sindicato. Apesar de ter começado “sozinho”, como lembra, ele se refere à

importância da amizade com o antropólogo Mauro Almeida: para ele, Almeida foi “a

pessoa para me dar mais energia, que me acompanhou desde meu começo, e viu qual era o

meu trabalho. Sempre foi meu amigo, meu companheiro”.

177
3.6.2 - Mauro Almeida

As primeiras pesquisas de Mauro William Barbosa de Almeida na região do Alto

Tejo, foram em 1982, para seu doutoramento, quando se empregou como ajudante de

seringueiro com a família Ferreira, no igarapé Riozinho, afluente do alto do rio Tejo.

Muitas histórias são contadas sobre o estranhamento causado com a chegada de

Almeida na região. Um seringueiro do rio Bagé, hoje monitor, contou que estava um dia

cortando seringa quando sua esposa chegou correndo na sua estrada. Ela vinha para avisar

que um homem barbado tinha chegado à sua casa, um homem que havia varado

(caminhado) a pé do Riozinho ao rio Bagé.

Uns diziam que Almeida poderia ser alguém ligado ao “demo” (ou demônio), pois

não se entendia como uma pessoa era capaz de escrever de modo tão rápido quanto “um

rato corre na linha”, como dizia um morador do Riozinho. Além disso, ele era capaz de ler

até de olhos fechados, como afirmou a esposa desse seringueiro110. Para Almeida, a dúvida

de que ele poderia ser “da parte do demo” possivelmente vinha do fato de que, uma vez, ele

trocou uma faca nova e uma bainha de couro por uma faca de seringa feita a partir de um

terçado velho, com uma tosca bainha de madeira. Um dos sinais do “demo”, como se dizia,

seria que ele viria no fim do mundo “trocando coisa nova por coisa velha”. Provavelmente

por causa disso, várias outras pessoas teriam feito esse tipo de troca com Almeida, sempre

lhe oferecendo objetos velhos em troca de algo novo.

110
Depoimento também descrito em Melo et alii (2007).
178
Um seringueiro também lembra como alguns o consideraram, no início, um

“sabido”, mas um “sabido besta”, pois não conseguiam entender o que uma pessoa que eles

viam que “tinha um saber” poderia querer estar naquele lugar. Só mais tarde é que eles

constataram que ele não era mesmo do demo e estava “do lado dos seringueiros”.

Outras redes começam, no entanto, a percorrer o seringal, com a chegada do

antropólogo Mauro W. B. de Almeida.

Após sua etnografia inicial, realizada entre 1982 e 1983, em 1985 Almeida foi

convidado por Mary Allegretti a participar do primeiro Encontro Nacional de Seringueiros

em Brasília, participando da elaboração do projeto que obteve recursos para os preparativos

para o Encontro. Com isso, Almeida passou a acompanhar as atividades do CNS,

participando de reuniões no Acre e em Rondônia até pouco depois da morte de Chico

Mendes em dezembro de 1988. A partir de 1988, tornou-se assessor da recém-criada

Regional do Alto Juruá do CNS, com sede em Cruzeiro do Sul, participando de vários

projetos e atividades na região, inclusive sendo o relator da minuta para o projeto de lei que

definiu o que seriam as Reservas Extrativistas e que deu origem à criação da Reserva

Extrativista do Alto Juruá.

3.6.3 - Antonio Macedo

Em 1986, quando terminaram os incentivos federais do Probor, a empresa de Orleir

Cameli que arrendava os seringais do Alto Juruá, passou a diversificar suas atividades: deu

início à exploração madeireira no rio Amônia, com a abertura de uma estrada para a

179
passagem de caminhões e tratores ao longo da margem esquerda do rio. Com isso, durante

cerca de seis anos, retirou todo o cedro e o agüano (mogno) encontrado na região. A

empresa também comprou serrarias e passou a investir em barcos de transporte. Em 1987, a

empresa já iniciava pesquisas sobre o potencial madeireiro também no rio Tejo.

Para Almeida, o Alto Juruá, com alguns anos de atraso, começava a apresentar o

(...) cenário clássico da fronteira capitalista em aproximação, com os seus típicos


ingredientes de manipulação de títulos de terra, depredação da floresta e expulsão
de moradores tradicionais. A estrutura amazônica de capitalismo selvagem tomava
o lugar dos velhos seringais decadentes” (Almeida, 2004:40).

Essa aproximação, entretanto, logo encontrou um forte obstáculo, que foi a

organização dos índios Ashaninka do rio Amônia que, junto com seringueiros e outros

aliados, conseguiram processar Cameli e interromper aquela exploração. Entre esses

aliados, estava Antonio Luiz Batista de Macedo, na época sertanista da Funai.

Macedo era filho de um seringueiro do rio Tarauacá, tendo trabalhado com a seringa

até sua adolescência, quando mudou-se com a família para a cidade de Tarauacá. Ali,

trabalhou em várias atividades até ser contratado como sertanista pela Funai, passando

também a realizar atividades conjuntas com os antropólogos da CPI do Acre (Comissão Pró

Índio), parceria que perdurou por muitos anos111. Em 1980, entretanto, Macedo foi

exonerado da Funai por ter acompanhado uma reunião de índios em Brasília, voltando por

111
Na década de 1970 várias outras CPIs foram criadas no Brasil para apoio à causa indígena, sendo
a CPI do Acre, conforme nota Carneiro da Cunha (2009) uma das mais atuantes. Ali Macedo trabalhou com
os antropólogos Terri Vale de Aquino e Marcelo Iglesias, dentre outros, os quais tiveram papel fundamental
na conquista das Terras Indígenas do estado. Macedo foi presidente e vice-presidente da CPI entre 1984 e
1989 (Pantoja, 2004:331).
180
um tempo ao trabalho com o corte da seringa112. Em 1986, é recontratado pela Funai mas,

já em 1988, é mais uma vez expulso por incentivar a criação de cooperativas indígenas.

Nesse mesmo ano, a convite de Chico Mendes e Mauro Almeida, Macedo é

indicado pelo para ser o responsável pela Regional do Alto Juruá do Conselho Nacional de

Seringueiros, tendo a proposta de trabalhar em conjunto com o STR de Cruzeiro do Sul.

Conforme ele, quando foi convidado respondeu: “vocês querem que eu vá, eu vou, mas eu

sou do tipo que pega e faz” (Pantoja, 2004: 332).

Realmente, conforme Macedo, ele já iniciou as atividades, diferentemente dos

outros, subindo o rio através do caminho tradicional, inclusive obtendo carona de um patrão

que o levou até o rio Bagé, afluente do Tejo, local da primeira reunião do CNS. Nessa

reunião, compareceram 17 pessoas. Na reunião seguinte, participaram 80 e, na terceira,

quando conheceu Chico Ginu, já havia 140 pessoas presentes. Mais tarde, na primeira

reunião realizada na Restauração, ocorrida em frente ao barracão do principal patrão da

região, compareceram 300 pessoas113. Conforme Macedo, as pessoas ali já sabiam da

proposta das Reservas Extrativistas, e ele então, falava de saúde, educação, Associação,

cooperativa. Não falavam de tirar o patrão, só sobre “os erros” dos patrões114.

É interessante notar que Chico Ginu, ao comentar sobre aquela última reunião,

lembra que ele mesmo era “tão espirituoso” que, mesmo estando em época de alagação (ou

seja, quando os caminhos da mata estão alagadiços e as ladeiras muito escorregadias), ele

112
Conforme palestra proferida na Reunião Regional da SBPC, em novembro de 2006.
113
Em 1998, como direi mais à frente, acompanhei algumas reuniões de Macedo em outras cidades,
quando pude testemunhar o carisma do sertanista.
114
Conforme entrevista realizada por Mariana C. Pantoja com Antonio Macedo em 12 de maio de
1998, gentilmente cedida por Pantoja.
181
saiu de sua casa, no igarapé Pão, afluente do igarapé Manteiga, e atravessou a pé a divisão

entre as cabeceiras do Tejo até as cabeceiras do rio Bagé. Ele cita seu caminho: varou do

Pão até o Dourado, do Dourado para o Moreira, do Moreira para o Pavilhão (já pertencente

às águas do Bagé) e dali até o Bagé. Trajeto que realizou sozinho, mesmo sem nunca ter

andado naquele caminho.

Assim um seringueiro do rio Bagé, conta sua versão desse período:

Primeiro o Mauro Almeida apareceu. Sentava, fazia uma jacuba no copo e comia a

carne115. Depois apareceu o Macedo. Da primeira vez que chegou em sua casa ele nem

subiu, “agarrado com a mulher”. Vinha cabeludo, com uma fita no pescoço (aparência

também inusitada na região). A conversa dele era que cada um de nós era cidadão brasileiro

e tinha direito da vida da gente. O patrão era um cara, um homem que vinha dominando os

outros. Mas nem todos tinham medo de patrão... “eu mesmo era um...”, diria o Macedo.

A coragem várias vezes foi citada como uma das principais características de

Antonio Macedo. O Chico Ginu também, como lembrou o seringueiro: “não se curvava

não”, “eu gosto do Chico por causa disso”.

Então o Chico Ginu, continuou o seringueiro, aliou-se ao Macedo. Este mandou

pelo rádio uma mensagem para todo mundo no Bagé e o Chico desceu “no toco”, ou seja,

rapidamente.

115
Jacuba é o nome dado à mistura da farinha com água, que normalmente é feita apenas quando
não há carne na refeição, daí ser considerado estranho que a jacuba fosse utilizada como acompanhamento da
carne.
182
Quando perguntei ao seringueiro sobre o que ele achava que eu não podia deixar de

falar, num registro sobre a história local, ele pediu que eu escrevesse sobre o Segundo

Encontro de Seringueiros, realizado pelo CNS em Cruzeiro do Sul, em outubro de 1988.

Como lembrou, tinha sido muito difícil chegar até Cruzeiro do Sul, mas mesmo

assim, os seringueiros foram. Ali, “falaram de libertação... [que] o cara não ia mais ser

dominado, o cara não ia pagar a renda”. E cada um também ia se tornar dono da própria

colocação. “Ia se libertar mesmo”. Ele lembra que no Encontro também estava presente

Osmir Lima, mais tarde deputado, que, conforme o seringueiro, não gostou nada daquela

conversa. Chegou a ter uma confusão entre ele, Almeida e Macedo. Depois houve uma

grande passeata, “mas isso era muita gente”, era “trabalhador, padre, freira...”

Nessa época, disse o seringueiro, “Chico Mendes já era, acho, a estrela do Acre”. E,

na volta para casa ele lembra que muitos dos que participaram do encontro vinham

“achando que aquilo dava resultado”. Conforme Pantoja (2004:332), a partir daquele

momento, os seringueiros (ou pelo menos uma parte deles) “sentiam-se amparados em suas

pretensões”.

Almeida, em conversas posteriores, relatou que suas expectativas em relação ao

Encontro eram muito menores. Sua expectativa era que fossem realizados somente debates

sobre as propostas do CNS para as áreas de educação, saúde ou transporte. Mas, ao chegar,

deparou-se com uma multidão de pessoas que queriam, na prática, alterar completamente o

sistema de aviamento.

Almeida (2002:130) também lembrou que aquela teria sido a primeira vez em que

os moradores da cidade de Cruzeiro do Sul, em grande parte sustentada pela produção e


183
comercialização da borracha, começaram a conhecer as reivindicações dos seringueiros.

Mas não só isso, era como se fosse a primeira vez que essas pessoas “viam os

seringueiros”. Conforme Almeida, apesar da borracha ser a fonte de toda a economia

regional, os produtores viviam “na mata”, e nas poucas vezes que vinham a Cruzeiro do Sul

ficavam hospedados em batelões na beira do rio, nas casas de patrões ou me residências de

parentes e amigos na região da várzea - escondidos por assim dizer. Além disso, eram (e

ainda são eventualmente) vistos com desprezo ou piedade pela população urbana. Aquele

Encontro teria sido a primeira vez que apareciam pelas ruas, em passeata com faixas, e em

local público, numa reunião da qual também as autoridades da cidade se fizeram presentes.

Com isso, padres, estudantes e outros profissionais passaram a compartilhar das propostas

dos seringueiros116. Na maioria dos casos, vários deles tornando-se oposição aos

comerciantes e patrões. Após o Encontro, nos dizeres de Almeida (2002), “a cidade estava

dividida”.

3.6.4 - Ginu, Almeida, Macedo, Funtac, BNDES...

Logo após suas primeiras reuniões no rio Tejo, Macedo retornou à capital Rio

Branco e publicou um artigo no jornal denunciando problemas dos seringueiros com os

patrões.

116
Vale notar que enquanto a Igreja Católica tinha tido forte influência junto aos seringueiros do
Alto Acre,
(...) na outra banda do Acre, na Prelazia do Juruá, tudo era silêncio sobre a questão da terra. O clamor dos
humildes não atingiu o Bispo e padres daquelas paragens, que fizeram vistas grossas com relação ao problema (Costa
Sobrinho: 1992: 199).
O mesmo também foi salientado por Duarte (1986: 127). Esse momento também teria sido a
primeira vez que alguns religiosos mostraram apoio aos seringueiros.
184
Na época, o governo do estado estava envolvido na polêmica discussão da

construção de uma estrada que ligaria o Acre ao oceano Pacífico, passando pelo rio Juruá,

com recursos que seriam provenientes do BNDES117. Houve então uma proposta de pessoas

ligadas ao governo estadual que o Macedo apresentasse um projeto ao BNDES para aquela

área. O projeto contaria com apoio do governo, que poderia assim demarcar seu interesse

na proteção do povo e do ambiente da região.

O projeto foi elaborado por Macedo, Almeida e membros do governo, prevendo

diversas ações nas áreas de educação, comercialização e saúde, propondo um modelo de

desenvolvimento alternativo para região do rio Tejo, com apoio do banco e do governo

estadual, já considerando a proposta do CNS para a criação de uma Reserva Extrativista. O

projeto também contemplava ações aos povos indígenas da região.

O projeto foi apresentado para o BNDES e, no final de 1988, em meio à comoção

geral causada pelo assassinato de Chico Mendes (Almeida, 1993), foi aprovado,

intitulando-se Projeto de Desenvolvimento Comunitário - Reserva Extrativista da Bacia do

Rio Tejo. O banco federal responsabilizava-se, assim, a apoiar as ações ligadas à criação de

uma infra-estrutura alternativa para o comércio, como a construção de armazéns, o

transporte de mercadorias e adiantamento para o capital de giro. Treinamentos e outras

ações ficariam a cargo do governo estadual, através da Funtac (Fundação de Tecnologia do

117
Mais tarde o trajeto da estrada foi mudado, passando então por Assis Brasil, no extremo sul do
estado. Vale lembrar que o projeto de asfaltamento da BR 364 já tinha sido palco de inúmeros conflitos entre
os seringueiros, liderados por Chico Mendes e o governo estadual, conflito que tinha sido importante
inclusive para o fortalecimento do CNS e sua importância para o debate internacional (Allegretti, 2002).
185
Acre), que era uma fundação ligada ao governo estadual e tinha sua ação voltada

especialmente para outras áreas rurais do estado.

Esse foi um dos primeiros projetos do BNDES diretamente direcionados a uma

organização popular. Entre a aprovação do projeto e o início efetivo das suas ações, houve,

entretanto, uma série de obstáculos, alguns descritos a seguir.

3.7 - Conflitos, violência, “hegemonia contestada”

Se, conforme Almeida, houve um momento em que a “cidade estava dividida”, não

eram menos intensos os conflitos que ocorriam no interior dos seringais do Alto Juruá. E

essas divisões, ali, passaram a ser cada vez mais explícitas e violentas.

Os patrões da região começaram a perceber que a estratégia anterior de cooptar os

líderes que surgiam localmente com mercadorias e empregos já não estava funcionando e

que a recusa do pagamento da renda e tentativa de criação da cooperativa dos seringueiros

era uma real ameaça ao regime do barracão. Além do mais, assim como a cooperativa, as

lutas contra a retirada de madeiras do rio Amônia por Orleir Cameli, mostravam que alguns

seringueiros e índios começavam a trabalhar e fortalecerem-se em conjunto. O Projeto

aprovado pelo BNDES e as ações do Judiciário em apoio ao Sindicato também indicavam

que era o momento dos patrões aumentarem seus reforços externos. Foi nessa época que os

patrões locais solicitaram apoio da UDR118, que entrou com processos para evitar a

118
União Democrática Ruralista, entidade que surgiu em meados da década de 1980 para representar
interesses dos proprietários de terra, em meio ao acirramento dos conflitos agrários que ocorriam em todo o
186
formação de uma atividade comercial fora do âmbito de Orleir Cameli, patrão que então

arrendava a área da Consulmar. Em um desses processos, argumentava-se que, se fosse

permitido o comércio paralelo dos seringueiros, os patrões não poderiam pagar os créditos

já obtidos e considerava que a cooperativa dos seringueiros iria romper a “tradição da

legitimidade patronal”, causando uma série de “desordens” locais (Almeida, 1993: 89 e

90).119

As histórias dessa época, às vezes chamada de “tempo da cooperativa”, ou de

“tempo do Macedo” são permeadas de situações de violência e retratos heróicos (como já

discutido em Costa, 2002a).

Um dos conflitos mais comentados ocorreu durante uma reunião realizada na

Restauração para a entrega de alguns equipamentos para os novos gerentes. Gerentes, ou

cantineiros, eram os que ficariam responsáveis pelos doze armazéns (também denominadas

“cantinas”) que seriam construídos em diferentes lugares onde hoje é a Reserva, e em

algumas Terras Indígenas. A reunião, conforme registrado por Pantoja (2002: 333-9), foi

realizada em frente onde se localizava o principal barracão do Alto Tejo, e o responsável

pelo barracão, conhecido por Zé Silva, disse que no “dia que o Macedo pisasse na

Restauração com história de reunião, ele não ia se dar bem”. Macedo já foi para lá sob a

proteção de um policial, mas, como disse depois, “apesar da gente estar fazendo um

país. Atualmente considera-se a “bancada ruralista”, apoiada pela entidade, como um dos grupos mais bem
articulados do Congresso Nacional, em que deputados de vários partidos, de interesses dos mais variados,
tornam-se coesos na defesa de interesses de proprietários rurais contra controle ambiental, projetos ligados à
reforma agrária e cobrança de créditos a grandes fazendeiros. No geral, defendem o aumento de recursos para
setores agropecuaristas exportadores (Vigna, 2007). A entidade se organizou na capital do estado em meados
da década de 1980, procurando pressionar a aprovação da obtenção de recursos para o asfaltamento da BR
364 (Allegretti, 2004).
119
Trechos de um processo perpetrado pelos patrões podem ser vistos em Almeida (2002:132).
187
trabalho que contradizia a vontade dos patrões, não se esperava uma reação assim como se

viu da parte do Zé Silva” (idem, 333). Realmente, Macedo lembrou que até passou antes na

casa dele, em busca de combustível para sua volta. Mas, logo no início da reunião, Zé Silva

chegou aos gritos, dando murros em Macedo e ameaçando-o com uma tesoura. Logo em

seguida o policial deu um tiro que atingiu o braço de Silva. Este então saiu ameaçando

outros com a tesoura, dando início a brigas e correrias. Alguns correram atrás de suas

espingardas, e Silva acabou voltando o barracão. Macedo e Chico Ginu refugiaram-se na

casa de Antonio, filho de seu Milton Gomes. Silva foi para lá e começou a ameaçá-los do

lado de fora da casa, enquanto seu Milton acalmava os outros, tentando evitar que saíssem.

Mesmo assim, ainda houve outro confronto com Osmildo, outro filho de seu Milton, com

um empregado de um regatão que também estava no local, que teria ido até a casa de

Antonio para “vingar o sangue” de Zé Silva. Mas o empregado acabou apanhando de

Osmildo e correu sem conseguir dar um tiro (idem, 338).

Macedo permaneceu durante aquela noite na casa de seu Milton, protegido por

seringueiros armados por todos os lados, que só foram embora no dia seguinte, quando Zé

Silva desceu o rio rumo ao hospital em Cruzeiro do Sul. Como lembra Macedo, “foi feroz a

coisa. É. Foi muito ruim, sabe?”120

A partir desse dia, a família de seu Milton passou a acompanhar todas as atividades

do Macedo na região, cuidando de sua segurança e tornando-se uma das mais influentes na

condução da cooperativa.

120
Conforme entrevista realizada por Mariana C. Pantoja (ver nota 108).
188
Outros conflitos também ocorreram no rio Bagé. Conforme lembrou o primeiro

gerente da cantina na região, logo que foram retiradas as madeiras para a construção da

cantina o patrão chegou com um “ofício”, impedindo que aquelas madeiras fossem

utilizadas. Mais tarde, esse mesmo patrão teria comprado uma espingarda para um rapaz

com problemas mentais, conhecido por Zé Doido, para que este fizesse uma tocaia para o

Macedo, que vinha por canoa descendo o rio. Porém, quando Macedo, viu o rapaz parado

na margem do rio, armado, foi aos poucos puxando conversa com ele, e, com calma,

acabou conseguindo passar.

Se alguns estavam muito animados e envolvidos com a construção dos galpões que

serviriam como cantinas, outros apostavam que aquilo não daria certo, afirmando que

Macedo estava vendendo todo rio Tejo aos “estrangeiros” ou os “americanos”.

Outros ainda diziam que a Reserva seria, na verdade um grande zoológico, só para

os animais.

Para perceber como Macedo, anos depois, relembra esses momentos, creio valer a

pena novamente reproduzir alguns trechos da entrevista realizada por Pantoja com Macedo:

Macedo: Então isso... mas eram muito animadas aquelas reuniões ali [no Alto Juruá], as

pessoas se motivavam mesmo, sabe? Era uma coisa que estava nascendo mesmo ali dentro, sabe? E

que você via que embora fosse uma semente meia, assim... aventureira, sabe? Porque era um

movimento que se pleiteava, mas não se tinha certeza ainda se ia dar certo mesmo. Aquele fogo
121
inicial do... da... arrefecia aquela semente de tal forma que você ficava animado de que aquilo

podia realmente dar certo. Então isso me animava muito. E muitas daquelas primeiras reuniões

assim, eu viajei foi dias e dias a pé, sabe? O Chico Ginu também. Dias e dias à pé por dentro

121
“Arrefecia”, aqui, no sentido de aumentava, fortalecia.
189
daquelas, daquele rio, pra poder chegar nos locais e atender na hora certa. Uma das coisas que eu

nunca deixei faltar foi o dia marcado pra reunião e eu não estar presente. Sempre tá ali, sempre tava

ali. E isso era uma coisa que marcou muito pr’aquela população foi aquela coisa do cumprimento da

palavra. Data combinada, tá ali, ó! Que é muito importante para o seringueiro, porque ele já vem de

longe pra se encontrar, e se chega e não encontra ninguém então fica muito puto e descredibiliza a

vontade que ele tenta expressar de se organizar, né?

Mariana - Mas, Macedo, então nessa época tinha então um certo desânimo meio geral com

o negócio de patrão, será? Não de patrão, mas (...)

Macedo - Era um descontentamento muito forte assim, porque, primeiro porque eles

estavam vivendo crises de mercadoria. Segundo porque eles também já tinham visto tanta, assim,

tanto absurdo promovido pelos patrões com polícia ali, sabe? Levando polícia pra tomar as coisas.

Como tem aquelas histórias de tomar máquina de costura, tomar a vaca de leite...

Mariana - Manuel Banha...

Macedo - É. Então eles tinham revoltas internas, né? Na história deles ali.

Mariana - Isso vinha na reunião?

Macedo - Isso vinha. Isso aparecia nas reuniões. Isso fluía, aqui e acolá estava fluindo,

sabe? E inclusive era importante que o negócio fluía, porque a gente pegava estas deixas pra levar

em frente as discussões, sabe? Mas também eles esperavam que essa... que essa chegada nossa fosse

mesmo um novo tempo. Um novo tempo, pra acabar com esse tempo ruim que eles estavam vivendo

há muito tempo. O seu Milton mesmo colocava com a família dele ali, o Zé de Luna, sabe? Várias

outras pessoas (...) acostumados a produzir muita borracha, sabe? E muitos deles não tinham uma

rede pra dormir, sabe? Uma coberta pra se embrulhar, sabe? Quer dizer que os patrões levavam tudo

no preço da mercadoria, na tara da balança, na cobrança da renda da seringa, que pra eles era assim,

que nenhum seringueiro, nunca vi um seringueiro aceitar muito bem esta história da, da renda, sabe?

Sempre pagou a renda como uma obrigação que o patrão criou pra ele, mas não que ele aceitasse isso

como uma coisa da... dele, da vontade dele, sabe?

190
Mariana - Mesmo nos tempos...

Macedo - Mesmo nos tempos antigos. Papai pagava sempre... o meu pai pagava assim, se

queixando, sabe? E eu vi muito isso ali no Tejo. Me inspirou muito porque como eu conhecia e tinha

vontade de mudar também isso daí, não é? Eu senti que lá os seringueiros também tinham essa

vontade. E tinham mesmo. Eu senti muita firmeza ali naqueles seringueiros, sabe? Tanto é que se

hoje eu tivesse que escolher um local pra mim morar, pra assim... hoje eu tô com 46 anos de idade,

se eu tivesse que escolher um local pra mim morar, pr’o resto da minha vida assim, eu ia escolher

uma colocação ali, naquela Reserva, sabe?

3.7.1 - a família de Milton Gomes

Como dito acima, a família de seu Milton passou a ser um dos mais

importantes pontos de referência para o movimento social naquele momento.

Conforme Mariana C. Pantoja (2004:346), uma “família ampliada” pode se definida

como “um conjunto de grupos domésticos localizados espacialmente, organizados

na linguagem do parentesco (...) e com uma liderança comum reconhecida”, como é

o caso da família de seu Milton e algumas outras famílias da regiao. Para pensar

sobre a participação política dessa família na região, mais uma vez reproduzo

trechos da entrevista de Antonio Macedo:

Macedo: (...) Agora, o que eu acho que deu muita firmeza pro seu Milton entrar de

testa, como ele diz, nessa luta foi duas razões. Uma é deles serem um familhão, indígena,

né? Com toda uma identidade ainda indígena, grupal, sabe? E a outra é de estar se

relacionando com uma pessoa que era, tinha um trabalho com população indígenas mesmo,

sabe? E que eles viam (ouviam) falar. Ali na região eles já ouviam falar, por exemplo, do

meu trabalho, já ouviam falar dos trabalhos que se faziam com as aldeias indígenas, e
191
sabiam que os índios estavam tirando resultado positivo com isso. Então eu acho que essas

duas razões são as razões principais que fez com que o seu Milton acreditasse muito

rapidamente nessa luta e liderasse o povo dele, liderasse o povo dele pra ir de cabeça nessa

história, sabe? E tornaram-se ali, pra mim, uma assim... abaixo de Deus, as maiores

seguranças que eu tinha ali na região quando tava trabalhando. Porque podia contar assim

com... contar mesmo, cem porcento com eles, em tudo que eu precisava. (...) sempre o seu

Milton com alguns filhos dele, com espingarda por perto, mas não deixavam eu ficar só.

Então eles realmente entraram de sola nesta questão por acreditar de que assim como tava

acontecendo as lutas nas terras indígenas, e os índios estavam obtendo resultado disso, eles

também ali como tirar resultado dessa luta.

Mariana - Essa coisa que estava rolando no Jordão [sobre a criação de terras

indígenas] e tal, rolava a conversa por lá das cooperativas indígenas...

Macedo - Tudo que acontecia no Jordão eles sabe, tudo que acontecia no Amônia

eles sabe, tudo que acontecia ali no Breu eles sabiam, sabe? Então a gente conversando isso,

eles "não, já ouvi falar disso daí, que o senhor teve, que o senhor teve em tal lugar, que o

senhor teve em tal lugar. Que teve outro aqui...”, que era o Terri [Vale de Aquino], sabe?

Eles não sabiam bem o nome, mas sabiam que teve outro, quando eu falava do Terri, "ah,

esse mesmo", sabe? Então sabiam dessas histórias todas e sabiam que não tavam jogando

com alguém que só prometia, que a coisa podia acontecer mesmo. (...)

Pode-se notar, desse modo, que tanto na concepção da proposta das Reservas

Extrativistas pelos seringueiros de Rondônia, quanto na sua efetivação no Alto Juruá, uma

continuidade em relação às anteriores conquistas indígenas. Vale lembrar que a Funai

organizara-se no estado, em 1975 e, só entre 1976 e 1977, foram criadas 18 Terras

Indígenas no estado (Iglesias e Aquino, 2000). Durante toda a década de 1980 os índios

192
Kaxinawá, do rio Jordáo, por exemplo, já organizavam cooperativas para escoamento de

sua produção (Aquino & Iglesias, 2002).

Macedo, como dito acima, fazia uso do chá do cipó que aprendera com índios com

quem trabalhara durante vários anos. Mas foi no rio Tejo que ele preparado o chá, pela

primeira vez, por conta própria, a partir do conhecimento de um índio Kaxinawá do rio

Breu, afluente do Juruá. Nessa época, tomou uma vez junto com seu Milton, na casa de um

seringueiro do Tejo e, conforme Macedo:

Preparei ali, servi, foi muito bom, sabe? (risos) Pra todos nós. Mas eu acho que foi isso: o

que fez ele [seu Milton Gomes] mergulhar assim de fio a pavio nessa história, acreditar mesmo e

liderar inclusive essa luta ali dentro, sabe?”122

Para Mariana C. Pantoja, o uso do cipó por pessoas ligadas ao movimento, naquele

período, “sedimentaram profundos laços de amizade e solidariedade, e ideais políticos e

espirituais comuns”. O cipó também foi importante, como percebe Pantoja, para valorizar a

história indígena da família de seu Milton, que, mais tarde, como será discutido a seguir,

acabou foi sendo alijada do movimento local, envolveu-se com a Prefeitura e, mais tarde,

iniciou uma luta pela criação de uma Terra Indígena para sua família.

Nem todos, contudo, participavam das cerimônias do cipó, apesar de serem ativas

no movimento. Algumas, conforme um seringueiro do igarapé Manteiga, lembravam das

recomendações do Irmão José, que ao final da década de 1960, afirmava que o cipó não

deveria ser bebido porque era coisa de demônio.

122
Conforme entrevista realizada por Mariana C. Pantoja (ver nota 108).
193
3.7.2 - A procissão dos barcos e o fim do monopólio

Mesmo sob o questionamento dos patrões, aos poucos as doze cantinas foram

construídas, e também um grande armazém na Foz do rio Tejo, que centralizaria as

mercadorias. Em Cruzeiro do Sul, toneladas de mercadorias foram compradas e levadas

para o porto. Essas mercadorias, porém, não podiam subir o rio, pois havia três interditos

proibitórios que impediam a entrada de Macedo e Chico Ginu nos seringais.

Enquanto os patrões acusavam os seringueiros de “desordens”, o Conselho Nacional

dos Seringueiros fazia denúncias de trabalho forçado nos seringais e conseguiu, com apoio

da professora Manuela Carneiro da Cunha, que procuradores do Grupo Ação pela

Cidadania (liderado então pelo senador Severo Gomes) propusesse uma investigação na

região através da Procuradoria Geral da República (Almeida, 2002:133). Com isso, a

questão deixava de ser local para se tornar da alçada de juiz federal.

No dia em que o juiz daria sua decisão sobre o comércio dos seringueiros, e a

mercadoria já estava no porto, Antonio Macedo, pelo rádio, pediu ajuda para os

seringueiros. Muitos seringueiros e índios, então, desceram em peso para Cruzeiro do Sul,

por sua própria conta, para esperar a decisão do juiz.

Macedo e Chico Ginu não podiam sair de Cruzeiro do Sul, mas o que aconteceu foi

algo nunca visto na região: uma procissão de 17 barcos (todos alugados, com exceção de

um deles comprado com recursos do projeto e batizado de "Chico Mendes"), carregando

pela primeira vez mercadorias que seriam comercializadas pelos próprios seringueiros, um

episódio sempre relembrado com orgulho em toda a Reserva. Junto com os seringueiros

194
também iam índios de diferentes grupos e pessoas do Conselho Nacional dos Seringueiros,

da CPI do Acre, e o repórter Antonio Alves que registrou o feito.

Como lembra Almeida, a procissão levava uma enorme quantidade de mercadorias

"destinadas a inundar o próprio coração dos barracões" (Almeida, 2004:46), sendo “ato que

registrou simbolicamente o começo do fim do regime do cativeiro e do barracão” (Almeida,

1991a) (ver foto 22).

3.7.3 - A criação da Reserva Extrativista

Com o envolvimento da Procuradoria Geral da República, foram solicitados estudos

para avaliar as denúncias do Conselho Nacional de Seringueiros e também o potencial

biológico da região. Eliane Cantarino O´Dwyer realizou a perícia antropológica (O’Dwyer,

1998), a Embrapa fez estudos por imagens de satélites e os professores Adão Cardoso e

Keith S. Brown, ambos da Unicamp, realizaram uma perícia biológica, tornando-se

posteriormente intensos colaboradores na região (ver Carneiro da Cunha e Almeida, 2002).

Ao todo, o inquérito produziu doze volumes de informações sobre a região.

Enquanto isso, em Brasília também foi reativado o grupo de trabalho (GT) que

havia sido criado anos antes para discutir os problemas apresentados pelos seringueiros em

Brasília. Nesse GT, estavam presentes Osmarino Amâncio Rodrigues, do CNS, Mauro W.

B. de Almeida, como assessor do CNS, um advogado da ONG Instituto de Estudos

Amazônicos, dirigida por Mary Allegretti, além de membros do Ministério da Agricultura,

do INCRA e do Ibama. O GT analisava a viabilidade legal da idéia concebida pelo

195
movimento dos seringueiros. Após muitas discussões123, e depois um ano da formação da

cooperativa, em janeiro de 1991, finalmente é assinado pelo presidente José Sarney, já em

fim de mandato, o decreto que criou a Reserva Extrativista do Alto Juruá. Logo em seguida,

outros decretos oficializaram também a Reserva Extrativista Chico Mendes, no vale do

Purus, a do Rio Cajari, no Amapá e a Reserva Extrativista do Ouro Preto, em Rondônia124.

3.8 - Algumas considerações

3.8.1 - Os donos das idéias e os donos dos problemas

A descrição sobre o processo que provocou a criação oficial das Reservas

Extrativistas é bem mais complexo do que o acima demonstrado. Apenas procurei aqui

chamar a atenção sobre a diversidade de pessoas e instituições que, no caso do Alto Juruá,

participaram do movimento junto com os seringueiros.

Como já discutido, ao notar problemas recentes observados em Reservas

Extrativistas, alguns questionam se elas seriam mesmo propostas por seus próprios

moradores. Acompanhando as histórias contadas aqui sobre a criação das Reservas do Alto

Juruá e Chico Mendes, dizer que elas não são uma concepção dos seringueiros não é

verdade, mas também não é correto esperar que, com tantas pessoas e entidades envolvidas,

123
Para detalhes sobre as discussões desse GT e as diferentes ações que resultaram na proposta de
criação das Reservas Extrativistas pelo Ibama, ver Almeida (2002:129-135) e Allegretti (2004).
124
Atualmente, existem 59 Reservas Extrativistas no Brasil, localizadas na Amazônia, na Mata
Atlântica, no Cerrado e em áreas costeiras (conforme página da internet: www.ibama.gov.br, acessada em
setembro de 2009).
196
ela fosse apenas uma proposta dos seringueiros. No mínimo, poder-se-ia adicionar, em todo

o processo, advogados, antropólogos, um sertanista, um juiz, biólogos, um senador, grupos

indígenas, membros do Sindicato de Trabalhadores Rurais, seringueiros de diferentes

lugares da Amazônia, aposentados, além das pessoas que mobilizaram entidades nacionais

como o BNDES, a Embrapa, o Ministério Público e organizações internacionais como a

Oxfam e Cebemo, dentre outras.

Além disso, mais uma vez, é sempre importante recordar que, ao falar em “os

seringueiros”, “a população”, “os patrões”, ou “os ambientalistas” também é passar por

cima de todas as diferentes divisões que possam existir no interior do que se considera

pertencente a essas categorias.

Como dito acima, há autores que vêem com pessimismo os desafios das Reservas

Extrativistas porque, como diria Geffray, ela não teria sido imaginada pelos próprios

seringueiros, e sim por seus “ideólogos”. Ou, tal como para Martins, quando os

movimentos sociais não atingem suas propostas, a derrota seria dos “mediadores” que não

souberam fazer uma tradução correta dos projetos dos trabalhadores.

Como demonstrado por Almeida, (1991a), várias propostas que foram defendidas

pelos seringueiros, eram contrárias às opiniões de “intelectuais” e “ecologistas” envolvidos

nos movimentos. Esse foi o caso, por exemplo, da proposta fundiária da Reserva

Extrativista (território pertencente à União, indiviso, com moradores tendo concessão de

uso), considerada “absurda” e “exagerada” por Almeida, então relator da minuta do projeto

de lei, que na época também discordou de vários outros pontos da proposta (Almeida,

1991a:58). Por outro ângulo, como discute Mary Allegretti, o movimento ecológico
197
internacional também se utilizou das experiências de índios e seringueiros, o que teria

contribuído, em 1992, para a formulação da proposta do chamado desenvolvimento

sustentável

Isso é que tornou possível dizer que grupos de seringueiros fossem capazes de

transformar interesses que poderiam ser considerados especificamente locais, em interesses

globais (Almeida, 1992:117-118). Um exemplo disso foi uma reunião ocorrida em meados

da década de 1980 em que se discutia a crise da economia da borracha, quando Osmarino

Amâncio Rodrigues, um seringueiro de Brasiléia, questionou:

‘Eu gosto de perguntar o significado de palavras que não conheço. Ouvi falar em ecologia. O que é
ecologia?’ Ele sabia onde queria chegar. E continuou depois a resposta: ‘Se não querem nossa
borracha, podemos oferecer nossa ecologia. Isso nós sempre fizemos’. (Almeida,2004:44)

Acompanhando a nova presença do discurso ambientalista entre os seringueiros,

Almeida afirma:

Idéias do ambientalismo que circulavam em esfera internacional e nacional chegaram aos cantos
mais remotos da floresta, juntamente com pessoas de fora, com recursos materiais. Mas essa chegada
não foi feita desordenadamente. (...) De um lado essas idéias ganhavam um significado social para os
sindicalistas que atuavam junto a Chico Mendes; de outro, integravam-se às noções costumeiras que
associavam a floresta a uma extensão da sociedade humana, com responsáveis que exigiam respeito,
segundo Chico Ginu. (Almeida, 2004:48)

Pode-se discutir a forma como idéias que chegaram com as pessoas de fora se

combinaram com idéias locais, a partir das chamadas “afinidades eletivas”, tal como

discutido por Weber125. Um exemplo disso são as versões recentes sobre a origem do

movimento pela criação da cooperativa.

125
Refiro-me ao estudo de Max Weber mostrando como se dariam as afinidades entre as idéias do
período de desenvolvimento do capitalismo industrial e as propostas ascéticas do protestantismo inicial
(Weber, 2005).
198
Um morador do igarapé Manteiga, por exemplo, conta que, quando seu pai chegou a

Cruzeiro do Sul para morar no seringal ele ainda conseguiu comprar na “cooperativa do

Bento Soares” um relógio despertador, um ou dois cobertores cinza, uma mala e outras

coisas. O pai do seringueiro dizia que era muito barato e que esse era “o jeito” que tinha

para o seringueiro, isto é, uma solução para suas dificuldades econômicas. Isso teria

acontecido durante a “Guerra da Alemanha”, quando esse seringueiro tinha menos de 10

anos de idade.

Aquela “cooperativa” teria começado quando Bento Soares estava cortando na

estrada e a ele se apresentou “um vulto”. Este lhe deu bom dia mas Bento Soares,

assustado, não pôde responder. No outro dia, já perto de fechar o corte da estrada, o vulto

se apresentou novamente, e de novo “deu as horas” (ou seja, deu bom dia, boa tarde ou boa

noite). Soares mais uma vez não conseguiu falar nada. No terceiro dia o mesmo aconteceu e

ele, dessa vez, conseguiu responder ao cumprimento, também dando bom dia. O vulto

então perguntou se ele se lembrava do dia que pediu a Deus, se ajoelhou na terra. Pois é,

disse o vulto, está chegando o dia: “o meio dele era formar uma cooperativa para a

pobreza”. Aí ele mostrou a terra. Era ouro ou prata, o seringueiro não lembra. O vulto

depois disso desapareceu. Soares então comprou um barco rebocador e com ele começou o

movimento comercial. No rio Cruzeiro do Vale, próximo a Cruzeiro do Sul, foi onde seu

movimento ficou mais adiantado, conforme contou o seringueiro.

Dias depois o vulto apareceu novamente e disse que rico ele não haveria de ser, mas

o nome dele ia ser gravado na história, mas ele não podia beber, não podia mentir e mulher,

só a dele.
199
Diz-se que Bento Soares depois arrumou família e foi para a cidade de Cruzeiro do

Sul. Aí “foi de bonito”, arranjou outra mulher... Ele então resolveu chamar o vulto (que era

“o tempo todo do lado dele”). Mas o vulto não apareceu. Ele então foi para a casa, porém

meio preocupado. Então foi indo, foi indo, e os patrões deram em cima dele. Então,

conforme o seringueiro, para encurtar a história, ele se suicidou.

Conforme o seringueiro do Manteiga, seu pai sempre dizia que, se uma cooperativa

fosse avante, seria muito bom. Muita gente falava que não, mas se agüentasse, seria muito

bom para os seringueiros.

Um seringueiro do rio Bagé também contou que se pai falara, quando ele ainda era

moço, por volta da década de 1960:

‘Meu filho, eu estou muito velho, não alcanço, mas você alcança. Vai chegar um tempo bom para
você, vai chegar a reforma agrária, aí a coisa vai melhorar meu filho. O patrão vai se acabar, se Deus
quiser. Vocês vão ser donos das suas colocações’. Nós ficávamos dizendo: ‘ai meu Deus, sei isso
acontecer vai ser muito bom, mas é difícil’ (depoimento citado em Melo, et al., 2007:56).

O mesmo seringueiro também recordou que, quando participou da construção das

cantinas da cooperativa, “o Macedo deixou dinheiro para pagar o trabalho, mas mesmo

assim só se ouvia dizer que não fazia. Se fizesse, derrubavam de moto-serra. Mas nós não

ligamos e continuamos nas reuniões” (Melo, et al., 2007:58). Da mesma maneira, quando

começou o movimento pelo fim do pagamento da renda, ele pensava: “muita gente puxava

o saco do patrão e dizia: ‘isso é mentira, vocês vão ver”. Ele contava que um seringueiro

chegava a andar de casa em casa fazendo marcas nas borrachas e falando da renda,

“dizendo que era obrigação. Se não pagasse a renda era expulso da colocação. Mais de um

ano se passou e chegou a conversa de que nós também íamos ganhar um pedaço de terra.

200
Eu disse: ‘meu Deus, se isso acontecer, vai chegar aquilo que meu pai disse para mim.”

(Melo, et al., 2007:57).

Enfim, como aparece na memória recente, as idéias de uma alternativa comercial

aos barracões dos patrões e uma reforma agrária possível para os seringueiros são tanto

discursos recente vindos de fora como utopias locais já mais antigas. Da mesma forma, os

problemas e desafios da Reserva Extrativista são tanto dos chamados mediadores quanto

dos moradores e de vários outros que atuam no local.

3.8.2 - Mediadores, xamãs, cipós, máquinas fotográficas, redes

Ao conversar com moradores do Alto Juruá sobre o processo que deu origem à

cooperativa e à Reserva, o discurso quase sempre se inicia com a ênfase no papel de

algumas pessoas: “Primeiro o Mauro Almeida apareceu...“, ou, mais especialmente: “Foi no

tempo do Macedo...”. É evidente, portanto que, ao falar das “afinidades eletivas” entre os

discursos, é fundamental salientar também as pessoas que se tornaram meios favoráveis

para os encontros desses discursos.

Há vários estudos sobre o papel dos chamados mediadores junto aos movimentos

sociais rurais, como salientado acima. No Alto Juruá, conforme Almeida, e também para a

maioria das pessoas da região, Antonio Macedo poderia ser considerado a "peça principal

na luta pela criação da Reserva Extrativista". Um líder carismático, também no sentido

weberiano, aquele capaz de agir de modo inovador, enfrentar as regras, e, nesse sentido,

201
subverter o passado (Weber, 1991a), como pode ser visto na sua descrição sobre uma

reunião ocorrida em frente ao barracão de Zé Silva, patrão na Restauração:

Macedo - Pois é, ali na frente dos barracões. Na frente do barracão do Zé Silva, né? Era um terreirão

grande, né? Então pedi licença ao Zé Silva pra fazer a reunião ali, ele permitiu, sabe? Aí juntamos e

começamos a trabalhar ali a reunião. (...) Essa reunião era num domingo. Por isso que também deu muita

gente, né? E aí então o Garimpeiro (empregado de um comerciante) começou a encher o saco, assim,

começou a ... a falar que... quando eu comecei a falar sobre as outras reuniões que a gente tinha tido no Bagé,

sabe? A, a esperança daquela população que eu encontrei, assim de melhorar a vida, sabe? De eliminar com

essa coisa da... da renda da estrada de seringa mesmo, sabe? Falar do Conselho Nacional de Seringueiros, das

lutas, né? De Xapuri, de Brasiléia.

Mariana - Isso no terreiro do patrão?

Macedo - Tudo ali. Das lutas indígenas, né? De que...

Mariana - Falando de fim de renda no terreiro do barracão?

Macedo - Também ali.

Mariana - E o Zé Silva ouvindo?

Macedo - É (...)

Aí terminou aquela reunião toda, os seringueiros também confirmaram que realmente era assim ali,

sabe? Falamos da, da importância de se criar uma Reserva Extrativista, expliquei o que era também, que nem

nas outras reuniões. Uma associação, sabe? Ou uma cooperativa que vinhesse realmente substituir esse

sistema de patrão [ri], sabe? E falamos mesmo! E começamos a falar essas coisas mesmo. E que fosse um

instrumento do próprio seringueiros mesmo, pra se organizar livremente e tal, não sei o quê. Aí sei que a
126
reunião foi boa, muito boa. (...)

126
Conforme entrevista realizada por Mariana C. Pantoja (ver nota 108).

202
Para Almeida, Antonio Macedo poderia se considerado como um “xamã”, conforme

a definição proposta por Manuela C. da Cunha (Almeida, 2004:48 e17).

Para a essa autora, (Carneiro da Cunha, 2009: 101-113) os xamãs, na Amazônia,

seriam os “viajantes por excelência” aqueles que viajam tanto do modo mais usual quanto

através de alucinógenos, tornando-se aqueles que já “viram tudo”.

E o viajante, para se tornar um xamã, deve ser capaz de “reunir em si mais de um

ponto de vista” e, colocando-se em perspectiva (tal como discutido por Eduardo Viveiros

de Castro), realizar uma “totalização”. Essa totalização não é, porém, uma “simples

ordenação” daqueles diferentes modos de ver, mas também um “remanejamento”. Desse

modo, o “trabalho do xamã, sua esfera de competência, é essa tentativa de reconstrução de

sentido, de estabelecer relações, de encontrar íntimas ligações”.

Como um exemplo, Carneiro da Cunha comenta a história de Crispim, um índio

Jaminawa do Alto Juruá, que vivera e estudara vários anos em cidades grandes, inclusive

no Ceará, terra de origem de muitos seringueiros, e em Belém, um dos pontos de chegada

da produção da borracha amazônica. Depois, voltou para viver nas cabeceiras mais

distantes do rio Bagé, afluente do Tejo. Ali, durante a década de 1980, transformara-se em

um famoso xamã, a quem recorriam tanto índios quanto seringueiros.

Para a autora, como já demonstrado acima, o sistema de dominação típico do

seringal na região poderia ser comparado a partir da fractalidade dos rios e igarapés. E,

nesse contexto,

“Crispim, um homem criado no extremo-jusante, estabelece-se em uma espécie de hipermontante:


idealmente situado para encarnar a contento o projeto de junção do local e do global. É nesse sentido
que Crispim é um tradutor” (Carneiro da Cunha, 2009:107).

203
João Claudino, Chico Ginu e Almeida contam e são lembrados como os que cruzam

caminhos não convencionais, atravessando as fronteiras dos seringais pelos distantes

varadouros das cabeceiras, como que fortalecendo as redes de questionamento do sistema

do barracão, Macedo chegou com a canoa do patrão, pelos caminhos tradicionais e

discursou no terreiro do patrão. Mas, tal como Crispim, era um jovem seringueiro de um

afluente do Juruá que partiu para a cidade, morou na capital, conviveu com antropólogos,

com membros de diferentes órgãos estatais e não governamentais, com índios de diferentes

grupos, viajou para os Estados Unidos e Europa (onde também encontrou admiradores e

pessoas que passaram a contribuir com o movimento local), fez outras tantas viagens

através do cipó e retornou às suas origens seringueiras. E, desse modo, foi fundamental

para fazer essas novas traduções, juntando e também transformando as informações desses

diferentes mundos.

Antonio Macedo, assim, foi capaz de “articular planos de ação tão diversos e de

grande amplitude, rio abaixo e rio acima”, e, além disso, tornou-se um importante

“organizador e burocrata” (Almeida, 2004:47). Desse modo, foi fundamental para

transformar um projeto para compra e venda de mercadorias em uma mudança política e

social de grandes proporções, ajudando a envolver pessoas de diferentes instâncias na

criação da Reserva Extrativista.

Dentro da perspectiva das redes sociais, é também fundamental, além de reconhecer

o papel desses diferentes líderes e o que dá legitimidade a seus eventuais seguidores, é

204
também igualmente importante saber como diferentes pessoas, mesmo sem nenhuma

liderança, se relacionaram com esse processo de mudanças.

É claro que não é possível reconstruir as diferentes maneiras como as redes locais

que desde muito questionavam o sistema patronal foram se fortalecendo com seus

diferentes aliados. Pode-se apenas salientar que, se não há como pensar no movimento

social de seringueiros no Alto Juruá sem falar da presença de Antonio Macedo, também

não há como falar de Macedo sem falar de Mauro Almeida e, neste, sem lembrar-se de

Chico Ginu, nem de seu orientador na Inglaterra que sugeriu que ele retornasse à sua terra

natal para seu doutoramento, nem das teorias que tentava entender, nem da família Ferreira,

nem da forma hospitaleira com que as famílias dos seringueiros recebem visitantes. É

preciso levar em conta tanto os cadernos e canetas do antropólogo, que tanto sucesso

faziam entre os seringueiros, quanto a farinha que as famílias produziam e compartilhavam.

Do mesmo modo, é interessante entender como a máquina fotográfica de Almeida

era capaz de tirar o panema de seringueiros e cachorros enfeitiçados127, da lei e dos talões

de João Claudino e lembrar como patrões ficavam “humilhados” na presença dele e de

Antonio Macedo. Também não há como falar do trabalho de João Claudino sem falar em

Nazário, Chico Roberto, Chico Ginu, do advogado e da mulher que lhe serviu açaí na cuia

grande, da lousa do Sindicato. Ainda é preciso também, para compreender o trabalho do

Macedo, rever as atitudes de Milton Gomes e seus filhos, que o apoiaram mesmo

arriscando a própria vida, pensar nas sessões de cipó, no violão que Macedo vendeu para

pagar despesas das primeiras reuniões que fez no Juruá e na sua então esposa Rena, que

127
Em Almeida (2007b) encontram-se detalhes sobre como isso se dava.
205
tantas vezes o acompanhou nessas viagens. Do mesmo modo, não há como falar no

movimento sem a curiosidade ou vontade de mudança que seringueiros do Bagé e do Tejo,

como Nonatinho ou Dolor, que enfrentaram as escaramuças do patrão local, e da

determinação e seriedade com que Rubenir, do Tejo, encarou o trabalho com a cooperativa.

Quando estes falam de sua participação na história local, cada um, com mais ou

menos modéstia, cita outro. Assim, João Claudino fala do advogado João Maia, Chico

Roberto, Nazário, Chico Ginu. Almeida (2004) escreve enfatizando as figuras de Chico

Mendes, Macedo e Chico Ginu. Macedo fala da importância da família de seu Milton

Gomes e do Chico Ginu. Este agradece a Almeida e seu Antonio de Paula (um empregado

de barracão que se tornou presidente da Associação e importante líder local) considera que

Maria Beatriz Saldanha, da empresa Couro Vegetal da Amazônia, foi sua “fada

madrinha”... No Alto Acre, Mary Allegretti escreve uma longa tese falando de Chico

Mendes, líder seringueiro, dirigente sindical, político de esquerda e ambientalista, capaz de

“sintetizar, de forma peculiar, em sua história de vida, a história do extrativismo na

Amazônia” (2002: 35-6). Chico Mendes, por sua vez, para explicar sua atuação discorre

sobre a importância de Euclides Távora, um oficial do Exército que se tornara comunista,

atuando com Luis Carlos Prestes e que depois se refugiara na floresta acreana. O oficial

que, durante os fins de semana ao longo de quatro anos, ensinara Chico Mendes a ler, e a

ler politicamente a realidade, ouvindo com ele programas de rádios dos Estados Unidos, de

Moscou e de Londres (Allegretti, 2002:200-202).

Além disso, só se pode pensar o movimento lembrando também da esposa de Chico

Ginu, Leonice, que permanecia em casa cuidando de seus filhos enquanto Ginu viajava de
206
colocação em colocação128. E ele, provavelmente, só saía de casa por tantos dias porque

acreditava que outros parentes, de alguma maneira ajudariam sua esposa a alimentar seus

filhos, todos ainda crianças. Ginu também sabia que só seria possível marcar uma reunião

na cidade ou o Macedo podia chamar seringueiros pelo rádio porque alguns convidariam

outros para viajarem em suas canoas, alguns hospedariam os viajantes, cederiam alimentos,

remos, combustíveis129.

Vale ressaltar que, pensar esses movimentos a partir das redes sociais não são

apenas uma opção teórica, mas uma evidência concreta quando eu mesma precisei

organizar treinamentos para os monitores na Reserva. Aos poucos, fui aprendendo que eu

realmente podia contar que o piloto Tita, sempre muito calado, era extremamente hábil na

compra e organização da alimentação; que comerciantes da cidade venderiam fiado caso os

recursos dos projetos ficassem retidos por alguma dificuldade burocrática; que alguns

monitores, mesmo que várias coisas dessem errado, estariam na hora e no local marcados;

que outros avisariam os que não tivessem rádio e dariam carona em suas canoas. E isso

tudo valia a pena porque muitos deles viriam com cadernos cheios de anotações para serem

discutidas, trariam questões e um grande vontade de aprender. E outros também veriam,

talvez pelos recursos que poderiam receber, outros para encontrar um(a) novo(a)

namorado(a), ou apenas para ter acesso a benesses que pesquisadores poderiam fornecer...

128
Embora não seja uma estudiosa das relações de gênero, me incomoda quando algumas pessoas
reclamavam que mulheres não participavam das reuniões, como se cuidar da casa e de cinco ou seis filhos
pequenos sozinha na floresta, não fosse uma suficiente participação...
Hoje em dia as mulheres são mais presentes nessas reuniões. Mas, do mesmo modo, filhos pequenos
ficam com filhos maiores, ou outros parentes, que, por sua vez, também não vão às reuniões.
129
Não estou negando a importância do papel da liderança nesses movimentos, mas apenas
reforçando a idéia de que esses líderes só existem, seguindo as análises de Max Weber, porque ajudam a
conferir “sentido” às ações de outras, sentido que é coletivo, mas também, individual (Weber, 1991).
207
Quando eu acompanhava pesquisadores neófitos na região, é que eu percebia como,

em vários momentos, meu próprio discurso estava impregnado de opiniões locais e era

difícil notar até que ponto, algumas pessoas da Reserva reproduziam aquilo que eu já tinha

falado antes130. Dessa forma, eu já não podia querer encontrar o papel dos chamados

mediadores. Com isso, eu também acabo tendo de assumir o risco de já não poder mais

falar em política “local” ou qualquer outra coisa especificamente local, que, afinal é objeto

deste trabalho. Mas há momentos em que esses limites são reforçados, e podem ser vistos,

por exemplo, quando alguns moradores fazem certas escolhas.

Esse foi o caso, por exemplo, em que uma coordenadora de um projeto que veio

trabalhar na Reserva e, dentre outras atividades, fazia apologia do vegetarianismo, ou de

um pesquisador que colocava redes para recolher pássaros para pesquisas na Universidade.

Ambos foram expulsos por moradores da Reserva. Outro exemplo foi a estadia de um ano

de um agrônomo na Reserva, com o objetivo de realizar trabalhos ligados à sua área de

atividade. Depois de várias tentativas sem muitos resultados, por fim ele e sua esposa

organizaram um curso de “aperfeiçoamento de leitura, escrita e contas”, na Restauração, o

que há muito vinha sendo solicitado pelos moradores, o que foi um enorme sucesso131.

130
Se bem compreendo, é essa a proposta da chamada Antropologia Simétrica e um exemplo
interessante sobre essa relação do antropólogo com aspectos da cultura local são discutidos por Márcio
Goldman (2003).
131
Refiro-me ao agrônomo Ruy Wolff e sua esposa, a historiadora Cristina Wolff, que residiram
durante um ano na Base de Pesquisa localizada no rio Tejo através do Projeto de Pesquisa “Populações
tradicionais da floresta podem gerenciar áreas de conservação? Uma experiência na Reserva Extrativista do
Alto Juruá, Acre”. (Ver Wolff, 1999:260)
208
Christian Geffray chega a afirmar, sobre a possível vulnerabilidade dos moradores

do Alto Juruá, que “todos os visitantes que vêm lá os persuadem: negociantes, padres,

professores, pesquisadores...” Não, não é tão simples assim.

209
210
CAPÍTULO 4 - O NOVO DESENVOLVIMENTO E A POLÍTICA LOCAL

4.1 - Introdução

Recordando o que já foi afirmado acima, a proposta da Reserva Extrativista foi

oficializada como uma conquista de uma população tradicional sobre o direito ao uso da

terra de forma diferenciada de outras categorias sociais, com a proposta de um novo tipo de

desenvolvimento, baseada em parâmetros de qualidade de vida da população florestal,

justiça social e conservação da diversidade biológica e social. Nesse sentido, a proposta das

Reservas Extrativistas, como a primeira tentativa de uma reforma agrária específica para a

Amazônia, provocou uma série de expectativas.

A maior parte dos projetos baseados nesse outro tipo de desenvolvimento,

entretanto, mostrou-se ineficaz em atingir seus objetivos iniciais, e não só no Alto Juruá. As

experiências na área produtiva, por exemplo, realizadas nas quatro Reservas Extrativistas

amazônicas que ocorreram com recursos internacionais através do chamado Projeto Resex,

também tiveram um resultado “muito falho”, como afirmou o responsável no Ibama pelas

Reservas Extrativistas no Acre, conforme já citado acima.

Durante a década de 1990, conforme André Guimarães,

nunca houve tanto dinheiro disponível para investimentos na Amazônia como atualmente,
mas o que se vê é a exploração predatória da floresta, o desmatamento, as queimadas,
enfim, a destruição daquilo que o consumidor de muitas regiões do Brasil e do exterior está
disposto a pagar caro para ter (...). (Guimarães, 2001)

Essa falta de eficiência nos novos projetos também não é privilégio brasileiro.

James Fergusson, que estudou experiências de projetos de desenvolvimento realizados na

211
África, também demonstra que ali, projetos bem sucedidos seria mais exceção do que regra

(Fergusson, 1990:9).

Essa discussão envolve uma série de questões, que não podem ser restritas ao

âmbito local. Um estudo sob o ponto de vista das políticas do Estado e do mercado é

realizado, por exemplo, por Mary Allegretti, que, ao analisar as dificuldades de tornar

viável a comercialização de produtos florestais alternativos à borracha, defende que deveria

ser somado aos preços dos produtos que destroem a Amazônia todo o valor da

biodiversidade perdida. Para a autora:

O pecuarista que transforma a floresta tropical em pastagem não acrescenta ao custo de produção da
carne o custo da biodiversidade perdida. O extrativista não recebe pela castanha que vende o valor da
biodiversidade que cotidianamente protege (Allegretti, 2002: 753).

Enfim, há uma série de fatores a serem avaliados ao se pensar sobre esses projetos e

sua viabilidade. Dentre esses vários fatores, procuro salientar a maneira como a política

local, seus conflitos e suas redes, se imbricam com esses novos projetos. Assim, neste

capítulo, procuro refletir sobre experiências desse desenvolvimento alternativo realizadas

no Alto Juruá após a criação da Reserva Extrativista. O objetivo é analisar essas

experiências dentro do contexto dos conflitos internos e das redes que eles configuram, o

que envolve moradores, membros de projetos, recursos e a política nos níveis municipais e

estaduais.

O objetivo é evidenciar o papel dessa vida política local na forma como essas novas

propostas são efetivadas, ou não.

212
Ao percorrer as versões atuais da história da criação da Reserva Extrativista do Alto

Juruá, é possível notar que, quando as principais mudanças ocorreram, os chamados

aliados, ou mediadores, ou “de fora” perceberam os conflitos locais existentes e as redes em

oposição criadas nesses conflitos, e tomaram uma posição de modo declarado, como é o

caso dos aliados que se envolveram na criação da cooperativa e da Reserva Extrativista.

Assim, no momento em que grupos de seringueiros se opunham aos patrões - e aos

seringueiros que apoiavam esses patrões - outras pessoas chegaram à região, escolheram

parceiros e foram escolhidos, fortaleceram grupos em detrimento de outros, articularam

laços com pessoas dos mais diferentes lugares, e encontraram condições para construir

essas mudanças junto ao grupo local. Nem todos da região concordavam com essas

mudanças, evidentemente, e muitos permaneceram descontentes, antes como depois.

Após a criação da cooperativa, a oficialização da Reserva, o estabelecimento de

novos pactos e regras, esses grupos - com composições alteradas ou não - ainda

continuaram em conflito, mesmo após a saída oficial dos patrões. Assim, após alguns anos

de criação das Reservas (tanto no Alto Juruá quanto no Alto Acre), era comum ouvir líderes

reclamando que, se antes o conflito principal era “seringueiro contra patrão” ou

“seringueiro contra fazendeiro”, depois, com os novos desafios surgidos com a criação das

Reservas, o conflito maior era “seringueiro contra seringueiro”.

Analisando o contexto desse modo, é difícil para as pessoas que chegam à região ter

condições de tomar algum partido. Inclusive porque, especialmente técnicos de projetos,

geralmente chegam com a pretensão de trabalhar com “uma comunidade” ou com “os

seringueiros”, ou “os moradores”, como se esse bloco coeso realmente existisse.


213
A meu ver, esse raciocínio é uma simplificação, tanto antes quanto depois. Não é

possível falar que, antes, “os seringueiros” estavam unidos contra “os patrões”, ou contra

“os fazendeiros”. Sim, mas em parte, pois seringueiros se uniram, muitos deles, a favor dos

patrões. É óbvio que dizer que eram os “chaleiras”, os favoritos, os “enganados”, “os

pelegos”, ou aqueles “sem consciência de classe”, ou outra explicação equivalente, não

ajuda a esclarecer as questões recentes. Não havia falsa ou verdadeira consciência, mas, em

minha opinião, análises sobre a realidade, percepção de riscos, escolhas.

Também não é suficiente dizer que, depois da criação da Reserva, ou de outras

conquistas do movimento social, agora seria “seringueiro contra seringueiro”. Tal como

antes, agora também são seringueiros (e agricultores e pequenos criadores) que não estão

sozinhos e atuam com membros de projetos, com o Ibama, contra outros seringueiros que,

por seu turno, atuam com membros da Prefeitura, com o governo estadual, com

fazendeiros, etc.132

Dentro desse espectro de conflitos, é fácil entender que a condução política das

propostas estabelecidas com a criação da Reserva por seus moradores teria uma série de

problemas. Um deles é a própria dificuldade dos novos aliados (técnicos de projetos,

membros do governo, e outros) em lidar com a realidade política local, procurando evitar

ou não perceber os conflitos e as redes existentes, ou sendo manipulados por eles, às vezes

até sem perceber. Já os políticos do município, bons conhecedores da política local, como é

o caso no Alto Juruá, são muito mais hábeis porque, também com aliados e recursos de

132
Uso aqui o termo “seringueiro” tal como utilizado pelo movimento social, como dito acima,
sabendo que a maioria dos moradores das Reservas Extrativistas do Acre tem outras ocupações produtivas
que não o corte da seringa.
214
fora, estão atentos às dissidências locais, a maioria já com longa trajetória política na

região. Por isso, são capazes de atuar justamente nos interstícios desses conflitos. O mesmo

não pode ser dito em relação aos políticos do governo estadual, distantes e pouco atuantes

na região, como será visto a seguir.

Percebendo algumas características recentes que podem ser vistas recentemente no

interior da Reserva Extrativista, alguns talvez pudessem dizer que ela apresenta aspectos

mais próximos daqueles defendidos pelos políticos (que sempre foram oposição ao

movimento das Reservas Extrativistas), do que das pessoas que lutaram e conquistaram a

Reserva. Talvez isso possa ser mais bem compreendido a partir das relações que foram

sendo construídas ao longo do tempo entre moradores, políticos, técnicos, pesquisadores.

Para pensar sobre a proposta de uma nova forma de desenvolvimento na Reserva

Extrativista e suas imbricações com a política local no Alto Juruá, descrevo a seguir

algumas atividades que ocorreram na região a partir de 1990, ano da criação da Reserva.

Em primeiro lugar, teço algumas considerações sobre a experiência da cooperativa

dos seringueiros, enfatizando as dificuldades dos responsáveis pelas cantinas.

Em seguida, faço uma discussão sobre a eleição da nova diretoria da Associação,

em 1999, salientando as relações dessa nova diretoria com os moradores. Depois discuto

como as mudanças com a eleição do PT no governo estadual se relacionaram com essa

Associação; como a cooperativa foi favorecida com a nova política defendida pela

Associação e as mudanças no governo estadual, mostrando também como isso surtiu

reflexos na política municipal.


215
Depois, discuto as tentativas de controle ambiental propostas pelo Ibama. Falo das

dificuldades dos moradores que se dispuseram a realizar atividades como fiscais e como

eles foram prejudicados pelas mudanças na política do órgão ambiental federal, ressaltando

as maneiras de como isso foi percebido na região e seus reflexos na área ambiental.

A seguir, faço um resumo da tentativa de criação de uma metodologia de controle

ambiental e social realizada pelos moradores da Reserva em conjunto com pesquisadores de

várias universidades, o projeto de monitoramento, do qual também fui participante.

Por último, resumo as dificuldades da realização de um projeto de saneamento

básico pelo governo estadual na região.

Em todas essas diferentes experiências, procuro mostrar como a política local se

envolve nessas experiências, sendo alterada e alterando os seus resultados.

4.2 - O primeiro projeto: a cooperativa

Um dos marcos do movimento social dos seringueiros do Alto Juruá, como já afirmado

acima, foi a aprovação, em 1989, do “Projeto de Desenvolvimento Comunitário - Reserva

Extrativista da Bacia do Rio Tejo”, com recursos do BNDES, que deu origem à chamada

cooperativa e, no meio de um contexto de muitas mudanças, determinou o fim do sistema de

aviamento. Nesse processo foi criada a ASAREAJ, a partir dos membros já atuantes na Regional do

Conselho Nacional de Seringueiros, mais tarde a reconhecida representante política dos moradores

da Reserva Extrativista. A partir desse primeiro projeto, a região do Alto Juruá passou a ser objeto

216
de vários outros, todos voltados para um modelo de desenvolvimento econômico e político baseado

em idéias de conservação, justiça local, respeito às peculiaridades culturais e democracia.

A cooperativa criada pelos seringueiros, entretanto, pelos menos desde a sua

criação, no final da década de 1980, e até o final da década seguinte, não foi capaz de

organizar um comércio alternativo que desse conta de comprar a borracha e os produtos

agrícolas dos moradores, suprindo-os das mercadorias consideradas necessárias para a vida

local.

Assim, se a cooperativa foi o mote para a organização da Associação local e a base

para a criação da Reserva Extrativista, suas dificuldades, com o tempo, geraram a constante

reclamação dos moradores com a falta de produtos; permitiu o fortalecimento de pequenos

comerciantes do município e acabou gerando descrédito com relação ao movimento de

seringueiros e à Associação. No rio Amônia, por exemplo, na época em que a cooperativa

não funcionava, era possível notar como os comerciantes que ocuparam os espaços

deixados com a saída dos patrões podiam trazer à tona fragilidades da nova liderança

política local representada pela Associação, e, eventualmente, fazer coro aos adeptos de

práticas predatórias no uso dos recursos, intermediando, por exemplo, o comércio

clandestino de madeiras, como será visto mais à frente.

Com a conquista da criação da cooperativa, em 1988, inicialmente foram instalados

12 armazéns que ficaram sob a responsabilidade dos gerentes, ou cantineiros, que

receberam alguns treinamentos, todos interligados a um armazém central localizado na Foz

do Tejo, mais tarde sede local da Associação. Vale lembrar que a Foz do Tejo era

217
justamente o local onde antes se localizava o principal barracão dos patrões do Alto Juruá e

era bastante significativo que ali fosse a localização da sede da Associação.

A Associação, além de suas prerrogativas políticas, fazia a administração geral dos

armazéns, cuidava das compras, e encaminhava a borracha e os produtos agrícolas

adquiridos na Reserva para o comércio local. O ponto de apoio da cooperativa era a sede

urbana da Associação, num escritório instalado na cidade de Cruzeiro do Sul, de onde se

comunicar cotidianamente com os cantineiros através das radiofonias, também instaladas

em quase todos os armazéns com os recursos do mesmo Projeto, ainda que nem sempre

funcionassem a contento.

4.2.1 - O fracasso da cooperativa

Para o insucesso dessas primeiras experiências de comercialização dos seringueiros

no Alto Juruá, há uma série de explicações. Antes de qualquer coisa deve-se levar em conta

a crise de borracha e a alta da inflação a partir de meados da década de 1980. Também é

importante lembrar que os cantineiros, apesar de alguns muito esforçados, não tinham

nenhum conhecimento técnico prévio e experiência administrativa, ainda que alguns deles

também já tivessem trabalhado como marreteiros ou empregados de patrões (Almeida,

1991a e 1992). Além disso, o órgão do estado responsável por ajudar na formação desses

gerentes, a Funtac, acabou não tendo atuação.

Para pensar sobre essa experiência, reproduzo a seguir algumas opiniões ouvidas

localmente.

218
Na análise dos gerentes, a culpa principal das dificuldades era o fiado. Os

seringueiros aviavam as mercadorias mas, naquela conjuntura econômica, não conseguiam

terminar de pagar suas dívidas, ou demoravam demais para fazê-lo. Um seringueiro do

Bagé, gerente de cantina durante sete anos, ainda lembrava-se das quantidades do fiado na

sua cantina. Ele dizia que o primeiro gerente dali entregou seu cargo deixando 14 toneladas

de borracha não recebidas. O gerente seguinte fechou com 22 toneladas e ele, que foi o

terceiro, teve nove toneladas de fiado, que também nunca foram pagas.

Já para os seringueiros, a principal explicação para as dificuldades das cantinas

recaía quase sempre sobre o caráter moral dos gerentes. A acusação mais comum era que

estes davam “descaminhos” às mercadorias, usando-as com a própria família, além do

necessário. (Os gerentes não recebiam salários, e podiam usar as mercadorias do armazém

para a própria subsistência, as quais deveriam, depois, ser descontadas do possível lucro.

Em termos teóricos, eles deveriam trabalhar quinze dias por mês nas cantinas, e os quinze

dias restantes nas suas atividades costumeiras).

Outra denúncia repetida era que os gerentes favoreciam demais algumas famílias e

outras, de menos.

Sobre um gerente do rio Juruá, por exemplo, dizia-se no Amônia que ele chegava a

comer três galinhas por dia, e não plantava nem criava nada para compensar seu gasto.

Outro, no rio Bagé, era considerado um bom cantineiro, mas o problema era seu filho, que

era uma “cobra”. Falava-se também que 500 calças compridas teriam sido compradas pela

Associação, mas nunca sequer foram vistas nas cantinas.

219
Os gerentes, claro, negavam o uso indiscriminado dos produtos da cantina. Um

deles, ao contrário, afirmava que nunca tinha vivido tão mal como no tempo em que era

responsável pela cantina, vivendo ainda pior do que quando trabalhava para o patrão.

Por vezes era o gerente geral, que controlava todas as outras cantinas, que era

responsabilizado pelas dificuldades dos cantineiros, pois ele não saberia fazer uma

negociação adequada dos produtos comprados, ou definia preços abusivos para as

mercadorias a serem vendidas. Para um antigo cantineiro do rio Bagé, ainda havia outros

que dificultavam a gestão das cantinas, pois “era tanta gente que mandava... era tesoureiro,

era secretário, era presidente...”, que ficava quase impossível para os gerentes agirem, pois,

como diz o ditado, “panela que muito mexe ou sai insosso ou salgado”.

Além disso, os antigos patrões e comerciantes ainda atuavam na região, e muitos

espalhavam a idéia de que os recursos eram provenientes “do governo”, e, por causa disso,

não era preciso pagar as mercadorias. É possível considerar que as redes que antes

apoiavam os antigos patrões talvez continuassem torcendo pelo fracasso das cantinas, e

ajudavam a fazer essa propaganda. Mas, como afirmava um dos gerentes, isso era desculpa

dos seringueiros, pois estes sabiam muito bem que deviam honrar sua dívida, fosse com

patrões, com o “movimento”, ou com o “governo”.

Outros ainda justificavam o fiado não pago pelos preços excessivos das mercadorias

nas cantinas. A borracha estava com preços muito baixos e os gerentes não queriam aceitar

produtos agrícolas como pagamento de dívidas. As cantinas não tinham condições de fazer

uma armazenagem adequada desses produtos perecíveis. Além disso, a Associação não

podia comprar um produto sem ter um mercado garantido para a venda, o que só ocorria
220
para a borracha porque esta, pelo menos até o final da década de 1990, sempre teve

compradores fixos na cidade. De fato, não foram poucos os casos de produtos agrícolas

como feijão, por exemplo, que “caruncharam” ou mofaram nos depósitos antes de serem

transportados para a cidade.

Dessa forma, a questão do fiado era uma discussão freqüente nas reuniões da

Associação. Alguns defendiam que os gerentes não deviam aceitar nenhum fiado, outros

diziam que este não poderia nunca ser abolido, porque era o que tornava possível a vida no

interior da floresta, devendo, apenas, ser evitado ao máximo. Na prática, os gerentes

dificilmente conseguiam negar os pedidos dos seus clientes, que eram também amigos e

vizinhos, e que porventura também podiam estar com necessidades que realmente não

poderiam deixar de ser atendidas.

Uma reflexão sobre as primeiras dificuldades vividas por esses gerentes, enquanto

membros de redes locais de parentesco e vizinhança, foi realizada por Mariana C. Pantoja

(1994). Neste trabalho, a autora comenta sobre a escolha dos gerentes das cantinas, baseada

no conhecimento e experiência de cada um, mas que também “foi quase sempre feita com

base na ‘confiança’ neles depositada por suas ‘comunidades’” (Pantoja, 1994:195). Por

isso, “ao fiar a ‘mercadoria’”, o gerente “‘assistia’ a ‘comunidade’ e contra prestava a

‘confiança’ nele depositada” (idem, 199). Não negar os pedidos de fiado, por conseguinte,

era a maneira dos gerentes manterem sua posição de “prestígio, autoridade e poder”, graças

à “força do simbolismo encerrado nas mercadorias” (idem, 200). Ou seja, o gerente, para

continuar sendo gerente, precisava entregar mercadorias fiado, e, com isso, praticamente

221
inviabilizava a existência da cantina, pois, em época de alta inflação e baixos preços da

borracha, era quase inevitável que a maioria não conseguisse dar conta de suas dívidas.

Almeida, na década de 1980, também demonstrou como os marreteiros,

diferentemente dos patrões e dos regatões, tinham dificuldades semelhantes àquelas depois

atravessadas pelos cantineiros.

Os marreteiros, conforme as observações do autor, ocupavam uma “posição de

conflito”, graças à “superposição de funções de mercador e parente” (Almeida, 1993: 155).

Para escapar dessa posição, esses marreteiros tentavam vender a prazos menores e com

maiores lucros do que os patrões, arcando, porém, com a imagem negativa da profissão. Já

patrões e regatões, apesar de construírem diferentes laços com seus clientes, geralmente não

eram parentes diretos e nem vizinhos no dia-a-dia. Destes também se esperava certas

obrigações, mas não aquelas ligadas às intensas relações de vizinhança. Assim, quando um

patrão não cumpria com as várias expectativas que os seringueiros esperavam, como

conceder créditos a longos prazos, ele denotava estar apenas preocupado com compra e

venda de produtos, sendo, por isso, pejorativamente chamado de “marreteiro” (idem: 157).

Nesse sentido, é interessante acompanhar as opiniões de um pequeno comerciante

do alto rio Tejo, filho de um antigo patrão, que, em 1996, lembrava com saudades do tempo

dos patrões e de quando havia muita produção de borracha. Diferentemente de todos os

outros moradores do igarapé, o marreteiro era conhecido por manter uma calculada

distância de seus vizinhos. Contavam que quando foi morar naquela colocação, conseguiu

222
expulsar todos os outros moradores que ali já viviam, pois não queria ninguém por perto133.

Também foi a única pessoa que conheci no seringal que, junto com a esposa, recusava-se

terminantemente a estabelecer qualquer relação de compadrio com os moradores das

proximidades.

Discutindo sobre as cantinas, perguntei ao comerciante como ele analisava as

experiências dos seringueiros no comércio cooperativo. Para ele, “uma parte [do problema]

depende do preço”, dizia, considerando que as cantinas cobravam valores excessivos, mas

sabia que a fartura dos barracões durante vários anos estava atrelada ao apoio estatal. Para

ele,

‘(...) as condições dos seringais estão ficando cada vez mais difíceis... Naquele tempo o patrão
financiava, trazia mercadoria (…) dava assistência ao seringueiro. Era uma grande força para o
seringueiro. Hoje isso não está acontecendo mais (…) porque não tem quem chegue lá [na casa do
seringueiro] com uma mercadoria (…). O seringueiro não tem assistência, isso tudo eu acho que
deve diminuir a produção’.

Eu questiono se ele, como comerciante de longa data, ainda conseguia fornecer a

mesma assistência de antes. “Não, não posso”, respondeu:

‘Não posso dar a assistência que eu estava dando, porque o patrão se financiava... tinha mais
condições que eu. Eu, de uma pequena economia que tenho, é que divido com o seringueiro. Eu não
tenho financiamento, eu não tenho ajuda de ninguém, apenas dessa minha pequena economia eu
ajudo o seringueiro, mas naquele tempo era outra coisa, o cara fazia financiamento (…) ajudava o
134
seringueiro’.
Perguntei se ele acreditava que os próprios seringueiros teriam condições de

administrar as suas cantinas:

133
A grande maioria das colocações é habitada por mais uma casa, geralmente de duas a cinco
casas.
134
E possível notar aqui o “compromisso fundamental” tal como definido por Victor Nunes Leal: o
Estado fornecia créditos generosos aos patrões que podiam, com isso, promover a “assistência”, fornecendo
apoio aos moradores da floresta. Tornavam-se “bons” patrões e, com isso, passavam também a serem patrões
apoiados pelos seringueiros.

223
‘É, ele respondeu, eu achava que naquele tempo [quando havia patrões] a administração era melhor
que hoje. Como de agorinha terminei de dizer que, da cooperativa (…) não se vende um centavo
fiado a ninguém [o que era teoria, mas não a prática, e provavelmente era também propaganda do
marreteiro, que por sua vez, vendia fiado]. Naqueles tempos todo mundo comprava fiado, se adoecia
tinha uma assistência para tratar (…)’.

‘Eu nunca defendi o patrão, nem nunca o crucifiquei. Porque desde o começo do trabalho [da
cooperativa] eu venho acompanhando e vejo como era, e vejo como está sendo. Você sabe que de
primeiro existia a sujeição (…), mas também existia apoio. Você vê que, sem apoio, ninguém pode
construir nada. Você é uma pesquisadora, mas se você não tiver apoio, você não vai chegar aqui para
fazer sua pesquisa. É como o patrão, [que] tinha o apoio do banco, que financiava. E o seringueiro
tinha o apoio do patrão, que ele financiava também’.

‘Agora, existia a sujeição, porque se não tivesse a sujeição, ficava como está hoje. Hoje em dia, se a
Associação botasse mercadoria na mão de quem sabe administrar (…) e botasse a sujeição para o
seringueiro cobrar e pagar… Porque a sujeição é essa. Por exemplo, o que existia antigamente era
assim, por exemplo: o pessoal aqui [do igarapé]. Se... [eu] fosse o gerente aqui, o pessoal daqui só
comprava... [de mim], e era de acordo entre os patrões (…). Porque, por exemplo, se... [eu] fosse o
gerente aqui (…), e os caras que se achavam devendo aqui (…) e iam comprar lá, levavam a
borracha e iam comprar lá (…) - porque nem todos têm a consciência limpa - aí vendia para os
marreteiros, aí não existia controle (…)’.

‘Depois foi que criaram a Associação (…). Se botasse o controle lá na boca [do rio]… Hoje dá para
ver que na boca do igarapé tem uma placa [do Ibama] proibindo entrada de pessoas (…). E se fosse o
caso [no tempo dos patrões], (…) o cara denunciava, dava cadeia, dava penal… Pois é, existia
controle (…). Hoje, com a crise que a borracha sofreu, não tem jeito nenhum (…)’.

Como discutido acima, várias vezes ao falar sobre as diferenças entre o chamado

tempo do patrão e depois, com a criação da Reserva, os seringueiros referiam-se ao “fim da

sujeição”. Comentário também repetido mesmo por aqueles que preferiam a situação

anterior, quando ainda havia patrões. Havia vários significados possíveis para o termo

“sujeição”. Pelo que pude entender, no sentido dado pelo comerciante, a sujeição se referia

aos mecanismos de controle que o patrão conseguia dispor para, antes de tudo, receber o

pagamento do seringueiro aviado, como o controle na “boca do rio”, local tradicional de

224
postos de comércio de patrões. (Os mesmos lugares em que o líder sindical João Claudino,

nas primeiras ações sindicais na região, evitava passar quando estava com medo de alguma

ação dos patrões).

Ao falar sobre o tempo dos patrões, tentei demonstrar a discussão que havia, entre

vários autores, sobre a capacidade ou não do patrão ter controle sobre o produto e sobre o

trabalho do seringueiro. Como foi demonstrado, especialmente a partir das análises de

Almeida, Mary Allegretti e Barbara Weinstein, e das histórias ouvidas no seringal, havia a

chamada sujeição, quando patrões e seus empregados podiam até usar da violência ou

conseguir apoio policial, para tentar garantir o controle patronal sobre o comércio mas,

mesmo assim, o controle não era efetivo. Marreteiros e regatões existiam sempre, acordos

entre patrões nem sempre funcionavam, rotas alternativas era percorridas pelos seringueiros

e, ao final, controlar o produto do trabalho dos seringueiros disperso pela imensa floresta

era praticamente impossível. Mas eram justamente a partir desse suposto controle sobre o

produto dos seringueiros que o patrão podia obter empréstimos nos bancos do Estado e ter

lucros na venda de mercadorias aos seringueiros.

Quando a cooperativa foi criada, era possível imaginar que nada que lembrasse a

antiga sujeição seria tolerada pelos seringueiros, e tampouco havia recursos disponíveis

para tal controle. Então, considerando que, assim como antes, ainda existiam alternativas

comerciais para além das cantinas, qual seria a garantia que os gerentes possuíam ao aviar a

mercadoria para um morador? Como Mariana C. Pantoja registrou, os dirigentes da

Associação, no início dos anos de 1990, diziam, em reunião, que esperavam que as trocas

comerciais se dessem dentro de um “espírito cooperativista” (Pantoja, 1994:189). Se por


225
acaso tal espírito algum dia existiu, obviamente, era insuficiente. Mas como os gerentes das

cantinas poderiam ter algum controle sobre o pagamento das mercadorias adiantadas?

Como se sabe, no contexto urbano, para que as pessoas paguem seus débitos, os

comerciantes conseguiram criar vários tipos de controle, fazendo com que devedores

sofressem restrições ao tentar créditos com outro vendedor135. No tempo dos patrões, como

dito acima, houve tentativas de estabelecer acordos entre os patrões para que um não

vendesse para seringueiro que devesse para outro, acordos ineficazes, pelo menos nos

tempos em que a borracha dava altos lucros, e havia escassez de seringueiros. Mas, no

contexto de criação da cooperativa, comerciantes provavelmente até faziam questão de

atrair para si pessoas que deviam para as cantinas, justamente para que continuassem a

dever, querendo fortalecer as suas redes de apoio. E, era óbvio que a Associação ou os

gerentes não poderiam fazer nenhum tipo de uso da violência para cobrar devedores das

cantinas, nem nenhum tipo de controle de “boca de rio”, o que seria uma repetição do

anterior “sistema de dominação” (Carneiro da Cunha, 2009), cuja negação foi a base de

todo o movimento social. O pagamento dependia, portanto, ou daquele possível “espírito

cooperativista” que os dirigentes esperavam, ou do compromisso de cada um na sua relação

com o gerente, com os vizinhos que saberiam de seu débito, com a Associação, com os

velhos patrões.

Como já repetido, havia divisões internas na Reserva. Nem todos eram defensores

da cantina. Havia aqueles que, ao contrário, mesmo ao final da década de 1990, se jactavam

135
Como o controle realizado, por exemplo, pelo Serviço de Proteção ao Crédito, ou o Serasa.
226
ao dizer que nunca tinham comprado sequer “uma caixa de fósforos” nas cantinas, como

um seringueiro do rio Bagé, por exemplo, gostava de dizer.

Assim, tornou-se comum a contínua depreciação da figura dos gerentes, que

passaram a ser freqüentemente acusados de fazer uso indevido dos bens da cantina, de

desperdícios, ou até de usarem mercadorias para agradar mulheres, que não suas esposas.

Também se dizia que alguns gerentes não tinham conhecimento nem para fazer o controle

das receitas e despesas, ou ainda, que recusavam o fiado a pessoas necessitadas. Nesse

contexto, portanto, não seria de todo injusto continuar em dívida com o gerente, tal como

antes não era de todo injusto abandonar um mau patrão sem pagar dívidas, se se considerar

o raciocínio anterior da existência de uma “economia moral” entre os seringueiros, como

discutido por Almeida (1992). Além do que, como discutido por Pantoja (1994), e também

observado em outros lugares, nem sempre as pessoas queriam aceitar o crescimento da

desigualdade local, já que as mercadorias conferiam ao gerente “prestígio, autoridade e

poder”. As acusações contra os gerentes, em certo sentido, provavelmente seriam um modo

de compensar esse desequilíbrio.

Assim, em meados da década de 1990, praticamente todas as cantinas estavam

falidas136.

Com a chegada dos novos recursos provenientes do Projeto Resex, em 1996,

retomou-se nova tentativa de comercialização organizada pela Associação. Dessa vez,

porém, ela ocorreu justamente em meio a uma das maiores crises locais da economia da

136
Há um estudo muito interessante de José A. V. Pimenta (2006) sobre a experiência da cooperativa entre os
Ashaninka do rio Amônia, em que são discutidas as atitudes opostas dos dois líderes que ali ficaram
responsáveis pelas mercadorias, mostrando as conseqüências políticas dessas atitudes.
227
borracha, entre os anos de 1995 a 1998, quando usinas de beneficiamento foram fechadas e

durante algum tempo não havia mais compradores do produto em Cruzeiro do Sul.

Nessa tentativa, além dos antigos armazéns, também foram construídos outros,

como uma nova cantina no médio rio Amônia. Ali, em 1998, a situação também não ia bem

e, conforme um filho do gerente, além do problema do fiado, no Amônia a situação do

cantineiro ainda era mais difícil. Nessa época, vários moradores começavam a ter acesso a

canoas e motores, particulares ou comunitários, e o fácil acesso à sede municipal, que então

se urbanizava, era uma concorrência maior naquela do que nas outras cantinas. O gerente

ali também comprou produtos agrícolas que, mal armazenados, haviam apodrecido,

causando mais prejuízos e, também descrédito. Logo essa e outras cantinas foram

desativadas, sendo que algumas permaneceram, mesmo que endividadas.

4.3 - A nova Associação

4.3.1 - Os novos projetos e a Associação

Enquanto as cantinas viviam dificuldades, durante a década de 1990, vários outros

projetos também foram realizados na Reserva.

Na área da saúde foi realizado o chamado “Projeto de Saúde” da organização não

governamental Saúde Sem Limites, que trabalhou por vários anos na formação de agentes

locais de saúde.

228
Com os recursos do “Projeto Resex”, houve a criação de escolas, compra de barcos

e motores de uso coletivo, instalação de rádios-fonia para comunicação e formação de

fiscais e pesquisadores florestais.

Na área de pesquisa foram feitos vários projeto, produzindo vários levantamentos e

estudos, na área social e biológica.

Do ponto de vista político, todos esses projetos foram importantes porque

envolveram muitos moradores, pretendendo atuar dentro das propostas da Reserva

Extrativista, e também porque agiram diretamente no pagamento das atividades voltadas à

organização local, apoiando a Associação, realizando assembléias e reuniões, ajudando a

manter o escritório de Cruzeiro do Sul (ver foto 21)137.

Essas diferentes ações, entretanto, não ocorriam sempre e nem para todos. E isso,

obviamente, gerava grande descontentamento aos moradores das colocações que não

conseguiam receber, por exemplo, um barco ou um posto de saúde. O que se ouvia era que,

para alguns, as decisões eram feitas nas reuniões, para outros, as decisões eram feitas

conforme os interesses dos favoritos da diretoria.

Isso acabava gerando insatisfações e, tal como também ocorria em outros lugares, as

associações populares ou os membros de projetos, na falta de uma maior atuação do Estado,

eram acusadas de reproduzir o que seria um clientelismo do tipo “moderno” (Léna, 2002).

137
Os associados tinham o dever de pagar o valor de 5 quilos de borracha por ano, recursos que,
mesmo se fossem todos pagos, seriam insuficientes para manter a estrutura e as atividades da diretoria da
Associação.

229
Outros autores também notaram que, durante a década de 1990, quando os

movimentos sociais fortaleceram a democracia e melhor podiam apresentar suas

reivindicações ao Estado, o projeto de um Estado neoliberal se fortaleceu. Assim, esse

processo de democratização ocorreria paralela e paradoxalmente à diminuição do papel do

Estado na sociedade (Danigno, 2004).

No caso do Alto Juruá, as ações desses diferentes projetos e a emancipação do

município trouxe uma série de disputas políticas mas, do ponto de vista material,

diferentemente do observado por Danigno em outros lugares, ali várias melhorias poderiam

ser notadas, e melhorias que eram muitas vezes conquistas do movimento organizado, e

também percebidas enquanto tais (Costa, 1998).

Foi nesse contexto que se configurou aquela situação anteriormente discutida de

“disputa de poderes” entre a Associação (apoiada pelos diferentes projetos geralmente com

financiamentos internacionais) e a Prefeitura (agindo principalmente com recursos federais

fixos, vindos do Fundo de Participação dos Municípios, já que praticamente não há

arrecadação local).

4.3.2 - Velhos e novos líderes da Associação

Em 1999, a assembléia da ASAREAJ elegeu uma chapa que, como dito acima,

representou uma ruptura política gerando uma série de novas configurações de alianças

internas e externas. Essa nova diretoria passou a agir de maneira bastante diferente das

230
anteriores, então lideradas por Chico Ginu, Milton Gomes e Antonio de Paula (o Anexo 3

apresenta a lista dos diretores da Associação de 1989 a 2008).

Esses líderes vinham de uma história de forte relação de apoio com membros dos

projetos de saúde e de pesquisa, e, do ponto de vista interno, contavam com apoio dos

velhos líderes que atuaram nas antigas lutas contra os patrões e na organização das

cantinas.

Já o novo grupo que ocupou a Associação em 1999, sob a presidência do antigo

tesoureiro, Orleir Fortunato, fazia questão de mostrar-se independente desses grupos.

Para compreender a entrada desse novo grupo na Associação, vale lembrar que,

durante a gestão anterior, Fortunato, extrapolando o seu cargo de tesoureiro, foi o principal

responsável pela entrega dos objetos recebidos através dos diferentes projetos da

Associação, como por exemplo, barcos e motores. Nesse período, o então presidente da

Associação, Antonio de Paula, dava prioridade às ações no âmbito externo, em busca de

novas alianças, e junto com isso, acompanhava as atividades do Projeto de Saúde deixando

para o jovem Orleir Fortunato a entrega dos bens e objetos já obtidos pela Associação. Vale

lembrar também que, se num primeiro momento as diferentes atividades do movimento dos

seringueiros concentrara-se no rio Tejo, as novas ações e os bens agora obtidos eram

distribuídos em toda a Reserva e, especialmente no rio Juruá. Para vários moradores desse

rio, Fortunato era a primeira pessoa da Associação que tinham visitado suas colocações.

A partir de 1998, o tesoureiro também passou a ser visto em palanques e programas

de rádio e televisão, juntamente com o governador.

231
Outra característica comum a todos os líderes anteriores eram os problemas

econômicos na vida particular. Nenhum dos antigos presidentes, mesmo após lidar com

recursos de vários projetos, realizar viagens por vários lugares do mundo e ter acesso a

conhecimentos dos mais diversos, mudaram sua condição econômica a partir da sua

atuação na Associação.

Antonio de Paula era aposentado, e tinha uma casa própria na cidade. Chico Ginu

também vivia em Cruzeiro do Sul com a esposa e filhos, e seus recursos vinham de seus

trabalhos com conserto de equipamentos, o que aprendera por conta própria. Trabalhou de

modo temporário para o Ibama como técnico de campo, e vários anos para o Conselho

Nacional de Seringueiros, recendo salário e ajuda de custo para atuar como coordenador

regional. Dolor Farias auferia seus recursos de uma oficina mecânica montada na sede

municipal, e não teve mais participação ativa na vida política da Reserva. Seu Milton

Gomes continua, até hoje, morando nas margens do rio Tejo ao lado de seus filhos e netos,

vivendo com os recursos de sua aposentadoria e de sua esposa. Antonio Macedo, após a

criação da Reserva fez ali alguns trabalhos temporários, mas depois conseguiu reaver seu

cargo de sertanista da Funai, morando em Rio Branco em casa comprada com a

indenização recebida após ser readmitido na Funai.

A nova diretoria da Associação, que assumiu em 1999, demonstrava uma situação

financeira bastante diferente. Os principais líderes dessa nova chapa, além do presidente

Orleir Fortunato, eram Luiz Ferreira e Maurício Praxedes. Luiz Ferreira, morador de

Cruzeiro do Sul, antigo ativista católico, também fora técnico de campo do Ibama. Amigo

de Fortunato, tornou-se oficialmente assessor da Associação. Com maior facilidade na


232
escrita que o presidente, logo passou a ser o responsável pela elaboração dos documentos e

projetos da Associação. Entre membros do Ibama, dizia-se que Ferreira era “o cabeça” da

entidade. Maurício Praxedes, funcionário responsável pelas cantinas, já vinha de uma

situação financeira bem superior a dos outros por ser filho de Chiquinho Praxedes, antigo

patrão no rio Bagé, aliás conhecido por ser um dos mais ferrenhos opositores da

cooperativa.

Todos eles mantinham uma aparência de jovens bem sucedidos. Andavam de

motocicleta em Cruzeiro do Sul (nenhum outro presidente tinha um veículo urbano);

tinham uma evidente preocupação com roupas e sapatos e o presidente, que abandonara a

primeira esposa com filhos ao entrar na Associação, agora mantinha casos com várias

mulheres na Reserva. Quando crianças nasciam desses encontros, embora variáveis, as

crianças também recebiam apoios do presidente. Além disso, o presidente também morava

com outra mulher em Cruzeiro do Sul.

O presidente e seu assessor também eram constantemente ouvido em programas de

rádio e, mesmo na televisão, geralmente acompanhados pelo novo governador.

As assembléias da Associação - que duravam em média três dias - antes local de

longas e acaloradas discussões, passavam a ser como “comícios”, como dito acima, palco

para, música, danças e futebol.

Pelas conversas que pude acompanhar de seus novos aliados no interior da Reserva,

os novos membros da Associação passavam uma imagem de juventude e sucesso, um

futuro talvez mais atraente do que aquele demonstrado pelos velhos líderes da Reserva.

233
4.3.3 - Associação x Prefeitura

Como afirmado acima, alguns moradores, diziam que, após 1999, a disputa entre a

Associação e a Prefeitura era o mesmo que “Irã x Iraque”. Como exemplo do clima

competitivo entre as entidades, reproduzo uma mensagem colocada no rádio pela

Associação em 11 de fevereiro de 2002:

É importante lembrar que a ASAREAJ não é igual à Prefeitura, que todo ano pega mais de um
milhão de reais para investir nas comunidades. Este dinheiro vem do governo federal e governo
estadual. Portanto, é importante entender que a ASAREAJ não pode fazer o trabalho que é de
obrigação da Prefeitura. Assim sendo, aconselhamos que os moradores procurem o prefeito para
exigir benefícios e melhorias, tais como: barcos, motores, peladeiras, casas de farinha, engenhocas,
remédios nos postos de saúde, merenda nas escolas e até mesmo apoio para construção de
residências. Assinado: Orleir Fortunato [presidente] e Luiz Ferreira [assessor].

Não sei qual foi a motivação direta da mensagem, mas é possível que tivesse

relação com as muitas promessas feitas pelo então presidente, inclusive aquelas registradas

por escrito, nos períodos das assembléias. Estranhamente, entretanto, apesar desse alerta em

que a Associação especifica as ações que não seriam de sua alçada, pouco tempo depois a

mesma Associação publica outra mensagem, justamente com uma lista de suas realizações,

em conjunto com o Ibama, durante os três anos de mandato daquela diretoria:

- [compra de] equipamentos para 50 estufas de FDL;


- aumento de preço da prancha de borracha de R$0,50 para R$1,40 [com o subsídio estadual];
- 990 tambores de 200 litros para 330 famílias, para armazenagem de feijão [o que, depois gerou uma
série de denúncias];
- 12 motores Honda de 5HP;
- 12 canoas de 300Kg para doentes [que ficariam sob responsabilidade de agentes de saúde];
- 1 barco de 5 toneladas;
- 3 motores Yanmar de 9 HP;
- 2 motores Yanmar de 18 HP;
- 2 baleeiras de 5 toneladas;
- 5 canoas de 800Kg;
- 5 motores Yanmar de 6HP, atendendo a 23 comunidades;

234
- serragem de madeira para melhoria de 30 casas;
- R$119.000,00 para auxílio-maternidade [recurso federal que é
repassado mediante documento da Associação de que a mãe é
moradora da Reserva];
- reforma da sede da Associação na Foz do Tejo;
- reforma da sala de reuniões na Foz do Bagé;
- [construção de] 4 armazéns;
- 5 depósitos para FDL;
- organização do primeiro campeonato de futebol da Reserva;
- R$40.000,00 para capital de giro [das cantinas];
- 6 rádios-fonia;
- pagamento de 52 monitores através do Projeto de Pesquisa;
- 50 kits para professores através da Escola Graduada;
- “Escola Ativa” para capacitação de professores [também projeto estadual];
- através do setor de saúde, o projeto de saneamento, com a compra de 750 filtros de 4 velas para 750
famílias, construção de sistema de abastecimento e construção de privadas [do governo estadual];
- negociação [da segunda fase] do Projeto Resex;
- 44 treinamentos para melhoramento da produção de farinha de mandioca e,
- incentivo para plantio de pupunha, café, guaraná, coco, laranja, limão e verduras.

Ou seja, um conjunto de ações, realizadas a partir da Associação, que seriam,

justamente, aquelas de “obrigação da Prefeitura”.

Sob o ponto de vista dos conflitos internos, a estratégia da nova diretoria da

Associação, logo após sua eleição em 1999, foi forçar a saída dos seus antigos oponentes

dos cargos que até então ocupavam, o que, de qualquer modo, também ocorre em outras

entidades de caráter político. Os cargos em questão, entretanto, não eram “de confiança”,

mas alguns deles até escolhidos pela comunidade, geralmente em acordo com a Associação,

como era o caso de gerentes das cantinas, agentes de saúde e fiscais. Essas expulsões

ocorreram de diversos modo, como através de reclamações feitas em reuniões, fofocas,

acusações de “uso individual” de recursos públicos e mensagens de rádio. E, dessas

maneiras, a nova diretoria conseguiu expulsar das atividades da Associação a maioria de

seus desafetos.
235
A prática não era incomum e a Prefeitura, por sua vez, em 1999, alegando diferentes

motivos, demitiu quatro professores, todos aprovados em concursos. Os mesmos também

eram participantes da Associação e uma delas ainda era nora do presidente.

Um dos casos em que a nova diretoria empenhava-se em expulsar seus oponentes

políticos dos cargos que ocupavam teve forte repercussão em toda a Reserva Extrativista.

Foi quando o presidente da Associação, em programa de rádio, chamou uma família que

tinha tido grande participação nas lutas contra os patrões de “bando de queixadas”. O

presidente referia-se ao fato de que esses animais, quando correm em bando pela mata,

deixam grandes rastros de galhos de árvores e arbustos destruídos. Na mensagem, dizia-se

que as pessoas daquela família, por onde passavam, “espatifavam” tudo. No interior da

Reserva, as opiniões estavam divididas: alguns davam razão à diretoria, salientando as

denúncias de mau uso de bens como motores e barcos da Associação, sob responsabilidade

de membros da família, outros ficaram consternados com o desrespeito por pessoas que

tinham inclusive corajosamente enfrentado a violência dos patrões, no tempo da criação da

cooperativa. Com isso, a diretoria ajudou a tornar cada vez mais visível a divisão criada no

interior da Reserva no final da década de 1990. Divisão que o prefeito soube aproveitar

com maestria. Como já dito, por essa época, o prefeito pareceu esquecer toda a oposição

que anteriormente fazia às pessoas ligadas à Reserva e tomou as dores dos antigos líderes

do movimento, agora relegados ao ostracismo. Começou então uma clara e hábil política de

aproximação da Prefeitura com esse grupo descontente, que passou a ser apoiado com

visitas do Prefeito, empregos e equipamentos como barcos, casas-de-farinha e motores.

236
Até algum tempo atrás, o rio Juruá era o local tradicional de apoiadores de antigos

patrões e fazendeiros e onde a Prefeitura tinha os maiores investimentos. Nesse momento a

Prefeitura começou a ocupar novos espaços, especialmente aqueles que eram berço do

movimento de seringueiros, como a Restauração, no rio Tejo, que foi alçada à categoria de

Vila e alguns lugares do rio Bagé, onde o descontentamento dos velhos militantes era

grande, especialmente por causa da escolha de um filho do antigo patrão para gerente geral

das cantinas, escolha que gerou algumas dúvidas entre os moradores da Reserva e, no

interior do rio Bagé, gerou grande revolta entre alguns que romperam definitivamente com

a nova diretoria da Associação.

Em 2002, as disputas entre a Associação e a Prefeitura continuavam cerradas. No

Bagé, um rapaz afirmava, em 2002, que quem era contrário à Associação era a favor do

prefeito. Não havia opção. Ele, por sua vez, colocava-se ao lado da Associação, pois achava

que sem ela a situação estaria muito ruim. Para ele, o que se tinha de benefício “na

comunidade”, vinha das atividades da Associação. Citou como exemplo, uma baleeira (uma

canoa grande, para cerca de dez pessoas) de uso comunitário, que viera do governo

estadual, mas que fora obtida através da Associação.

Já seu vizinho e parente, que morava muito próximo, ou seja, na mesma

“comunidade”, afirmava justamente o contrário. Este estava contente porque receberia um

motor da Prefeitura e um kit completo de farinha (o que inclui uma bola dentada para sevar

a mandioca descascada, uma chapa de metal para se fazer o forno e um motor). Ele então já

ouvira notícias de que o prefeito havia comprado 160 kits para a doação, e que estava
237
programada a construção de 30 novas casas no rio Bagé. Na opinião desse morador, o

Itamar de Sá (então no PMDB) era um bom prefeito. Quando alguém chegava à Prefeitura

com uma doença o prefeito acabava resolvendo, do jeito que fosse. Se outro não tivesse

combustível para voltar para casa, o prefeito também arranjava. Ele era um “cara bom”.

O curioso dessas opiniões é que elas vêm justamente de um antigo gerente da

cooperativa, que também era um importante defensor da Associação e da criação da

Reserva Extrativista. Em 1999, o seringueiro tinha perdido sua ocupação de gerente da

cooperativa, cujo armazém foi transferido para outro local, nas proximidades. A nova

diretoria o tinha acusado de má administração. Na ocasião, um morador da sede municipal,

a serviço da Associação, ainda teria vindo buscar a balança da cantina, dizendo que queria

“levar para casa para cuidar”, como se o antigo cantineiro pudesse causar algum dano ao

equipamento. Por isso, era com muita mágoa que ele lembrava que “o primeiro quilo de

chumbo” que foi pesado dentro do movimento da cooperativa teria sido naquela balança,

que, agora, tinha saído da Reserva.

Eram as mudanças nas redes políticas locais.

As reclamações dos velhos militantes então alijados da Associação foram crescendo

até que, em 2002, as pessoas se organizaram para fazer uma reunião para criar uma

associação alternativa à ASAREAJ.

O fato gerou muita controvérsia e, ao final, a tal reunião quase acabou em violência.

O evento malogrado gerou uma série de versões no interior da Reserva. Alguns diziam que

a Prefeitura é que tinha financiado o evento, e ainda teria disponibilizado 50 mil reais para

as pessoas se filiarem à nova Associação. Outros afirmavam que a diretoria da ASAREAJ


238
tinha armazenado bebidas alcoólicas e munição nas proximidades, incitando seus aliados a

irem à reunião para evitar, a qualquer custo, a criação da nova associação. Como um

antropólogo da Funai também fora convidado para o evento, alguns diziam que ele vinha

porque iriam transformar a Reserva Extrativista numa Terra só para os índios. Ao final, os

proponentes desistiram da nova associação, com receios de que o conflito tomasse

proporções fora de controle.

4.3.4 - O novo governo estadual e a Associação

O final da década de 1990 também foi o marco de uma nova aliança política no

nível estadual quando, pela primeira vez, o Partido dos Trabalhadores elegeu um

governador, Jorge Viana, com forte apoio dos movimentos sociais do estado, especialmente

no Alto Acre e na capital Rio Branco.

Em 2002, conversando com líderes de associações de Reservas Extrativistas,

sindicatos e outras associações de trabalhadores rurais em várias cidades do oeste do

estado, embora tenha ouvido reclamações sobre vários problemas, todos, sem exceção

elogiaram o diálogo e as novas possibilidades de parceria junto ao novo governo estadual.

Um dos resultados dessa parceria foi a entrada de vários líderes do movimento

social na política dos municípios dessa região do estado. Logo na primeira eleição após a

entrada do PT no governo, em 2000, os municípios de Assis Brasil e Xapuri, local

tradicional do movimento seringueiro, elegeram como prefeitos antigos líderes de

trabalhadores rurais. Em 2008, novamente Xapuri, Assis Brasil, e também Feijó e Brasiléia

239
passaram a ter membros do Conselho Nacional de Seringueiros e de associações de

trabalhadores rurais nas suas Prefeituras. No rio Juruá, embora algumas tentativas, as

parcerias não se efetivaram e o PT teve muito mais dificuldade em penetrar na política

municipal.

Uma ação por parte do novo governo do estado, que teve conseqüências importantes

durante algum tempo na região foi a tentativa de fortalecer o extrativismo, criando um

subsídio estadual para a borracha. Foi estabelecido um preço mínimo para o quilo da

borracha e, quando esse preço não fosse atingido, o valor faltante seria coberto pelo

governo. Até 2004 esses recursos vieram unicamente do governo estadual. Depois disso, e

com apoio da então ministra do meio ambiente Marina Silva, conseguiu-se que parte desses

recursos fosse obtida também do governo federal.

Somente após isso é que a antiga cooperativa da Reserva Extrativista começou a

diminuir seus prejuízos.

4.3.5 - O sucesso da cooperativa

Com a mudança da diretoria na eleição da ASAREAJ em 1999, o responsável pelo

setor de comércio e produção da Associação passou a ser Maurício Praxedes, como dito,

filho de um antigo patrão no rio Bagé.

Conforme entrevista realizada em 2002, o filho do antigo patrão aceitou a tarefa,

mas com a combinação de que ele se propunha a fazer o possível para que as cantinas não

dessem prejuízo, e a Associação se comprometia a pagar o salário que ele pedia, o qual eu

240
não soube quanto era. E ele se achava capaz de cumprir a tarefa, pois já tinha morado em

vários lugares e trabalhado em muitas atividades, inclusive com venda de pedras preciosas.

Por isso dizia, se tinha sido capaz de vender algo que não tem nenhuma serventia, como

aquelas pedras, como não conseguiria vender a borracha e a farinha dos moradores da

Reserva?

Conforme depoimento de 2002, o objetivo do novo gerente geral era "quebrar o

tabu" das cantinas que não funcionavam. Para ele, as pessoas precisavam tomar

"consciência", e receber só o que têm direito. Mas isso não era suficiente. Acompanhando o

comércio de seu pai, sabia das dificuldades da “posição de conflito” que os gerentes, como

os marreteiros, tinham de viver. Mas ao invés de buscar soluções radicais, como o fim do

fiado, recomendava aos gerentes habilidades no trato com os fregueses, impondo regras,

mas também dando autonomia para as suas decisões pessoais.

Conforme ele, suas orientações aos gerentes eram que: em caso de doença, "ceda [a

canoa e o motor da cantina], se for um cara legal...” e, “ceda a custo zero” para as pessoas

irem às cidades para obtenção de benefícios como auxílio-maternidade e para casos de

doença, desde que [a canoa e o motor] voltem. Ou seja, escolha os “bons seringueiros”,

como os velhos patrões, deliberadamente fortalecendo uma rede de pessoas escolhidas138,

mas seja agradável aos olhos de todos, apoiando idosos e mulheres.

Além dessa postura flexível, que permitia uma relativa autonomia aos gerentes e

valorizava a habilidade destes em lidar com as redes locais, os cantineiros desse período

138
Como dizia o político citado por Victor Nunes Leal (1975:39): “aos amigos se faz justiça, aos
inimigos se aplica a lei”.
241
foram especialmente favorecidos pela política estadual, com o subsídio estadual para a

borracha, criado nesse período.

Esse subsídio, além disso, só podia ser repassado àqueles seringueiros que

estivessem cadastrados a algum tipo de Associação. Isso equivalia dizer que a ASAREAJ, a

partir de então, tornou-se a única compradora de borracha da Reserva Extrativista.

Conforme brinquei com o gerente geral, ele tinha obtido, com a Associação, justamente

aquilo que o pai dele nunca conseguira: o verdadeiro monopólio comercial da borracha do

alto Juruá.

Outro apoio das cantinas nessa época foi o Projeto para a produção da Folha

Defumada Líquida (FDL). Proposto e realizado por pesquisadores da UnB, o projeto obteve

recursos para a compra imediata de toda a produção, considerada de melhor qualidade que

a borracha prensada e com melhores preços139.

Com isso, pela primeira vez, as cantinas começaram a ter um fundo rotativo próprio.

O gerente geral então se orgulhava ao dizer que, nesse período, os seringueiros que

vinham às cantinas com borracha nunca voltavam apenas com um comprovante para casa,

como antes, mas sempre com alguma mercadoria ou dinheiro nas mãos.

Com tudo isso, a mesma diretoria que entrou na Associação em 1999 foi reeleita em

2002. E, em 2004, o gerente geral pelas cantinas foi eleito vereador em Thaumaturgo

tornando-se, em 2008, vice-prefeito da cidade. De todos os membros da Associação que,

139
A Folha Defumada Líquida é obtida a partir de um processo de vulcanização, calandragem e
secagem realizado pelos próprios seringueiros em mini-usinas (também chamadas de estufas) construídas ao
lado de suas casas.
242
desde 1999, abertamente tiveram como meta as eleições municipais, o filho do ex-patrão,

como será visto a seguir, foi o único bem sucedido.

4.3.6 - A nova Associação, o governo estadual e a política municipal

Como visto acima, durante alguns períodos do chamado tempo dos patrões era

possível perceber as relações de apoio entre o Estado e os patrões e, por conseguinte, os

seringueiros. O primeiro fornecia uma política de créditos privilegiados aos patrões e até

apoio policial, se fosse o caso, e estes, com isso, poderiam oferecer a chamada assistência

aos seringueiros, que os apoiavam140.

Com a política de subsídios restrita às associações, estas conseguiam obter o

monopólio comercial da borracha e, com isso, ter alguma chance de estabelecer uma

organização comercial eficiente.

Inicialmente os membros da nova diretoria da ASAREAJ, com foco na política

eleitoral, tentaram articular-se com o governo do estado e com o Partido dos Trabalhadores.

Até o ano de 2000, em Marechal Thaumaturgo, a política partidária local mantinha-se

visivelmente dividida entre o PMDB e seus contrários, o chamado “PDS”. Em 1998, frente

à força que o PT vinha tendo na capital, as duas forças políticas tradicionalmente opostas

viram-se obrigadas a se unirem. Assim, na eleição municipal de 2000, o PMDB

representado pelo ex-prefeito Itamar de Sá, e seus antigos oponentes estavam unidos contra

140
Vale dizer que esse apoio, no caso, não se transformava em votos eleitorais, tal como estudara
Victor Nunes Leal, pois o Acre só se tornou estado em 1962 e só teve eleições após o Regime Militar. Esse
apoio seria a própria manutenção do sistema de aviamento por aqueles considerados “bons” patrões, sistema
sempre em questionamento por seringueiros descontentes.
243
Josimar Gomes de Azevedo (já outras vezes candidato de oposição por outros partidos),

agora filiado ao PT, tendo por vice-prefeito o então presidente da ASAREAJ, Orleir

Fortunato. Na época, sete pessoas da Reserva Extrativista, ligadas à Associação, também

foram candidatas a vereança pelo PT, assim como um fazendeiro da Reserva, amigo de

membros da diretoria.

Nenhum deles, porém, foi eleito, e a maior reclamação, ouvida posteriormente, era

que o apoio do governo estadual, prometido aos candidatos do PT, nunca chegou. O que

restou, ao final da eleição, foram as muitas dívidas dos candidatos do partido com

comerciantes da sede municipal de Thaumaturgo e Cruzeiro do Sul. Assim, a aliança entre

o PT e o movimento dos seringueiros, que era forte em vários outros lugares do estado, já

iniciava com decepções em Marechal Thaumaturgo.

Depois disso, a diretoria da Associação, apesar de manter composição semelhante

durante os três mandatos seguintes, não se manteve coesa do ponto de vista partidário. Em

2002, Orleir Fortunato, após a falta de apoio na sua tentativa de eleger-se vice-prefeito,

negociava apoio com candidatos de diferentes partidos. Luiz Ferreira, assessor da diretoria,

mantinha-se no PT. Mauricio Praxedes apoiava Júnior Betão, do PL, um jovem filho de

fazendeiro, antes totalmente desconhecido na região. O mesmo Praxedes, em 2008, era

eleito como vice-prefeito justamente em coligação com PMDB, partido de tradicional

oposição à idéia de Reserva Extrativista, à diretoria da Associação e ao governo estadual.

Isso demonstra que as tentativas de atuação conjunta entre o governo estadual e

líderes do movimento social - tão importante em cidades como Xapuri e Assis Brasil, por

exemplo - não teve a mesma eficiência no caso da região do Juruá. Em entrevista realizada
244
em 2002, o responsável pela Secretaria de Florestas do governo estadual comentou sobre as

dificuldades do governo para atuar na região. Como ele afirmou: "não temos perna" para

chegar ao Juruá. Em suas palavras, o governo não tinha, sequer, “autoconfiança”, já que

grande parte das pessoas do governo vinha de atuação junto a seringueiros, praticamente

desconheciam a região do Juruá.

Justificativas semelhantes eram utilizadas por membros do Ibama em Rio Branco.

Em 2002, Josimar Caminha, responsável pelas Reservas Extrativistas no Acre,

contrariamente à grande maioria das pessoas que vinham trabalhando na Reserva

Extrativista do Juruá, parecia considerar que a nova diretoria da Associação, eleita em

1999, era o exemplo da modernidade, afirmando, sobre os que reclamavam daquela

Associação, que o faziam porque gostariam de “manter um sistema de paternalismo que o

Orleir [Fortunato] cortou”. Quando mostrei minhas discordâncias sobre sua opinião, ele

reconheceu que não sabia “exatamente” a situação no Juruá, já que a Reserva Extrativista

Chico Mendes, no vale do Acre, consumia quase “100% de seu tempo”.

Enquanto isso, o PMDB, aproveitando as dissidências da Associação, a falta de

“perna” dos petistas do governo estadual e a falta de tempo dos membros do Ibama,

fortalecia-se cada vez na região.

4.4 - A tentativa de controle ambiental: os fiscais e o Ibama

Descrevo a seguir alguns episódios envolvendo as tentativas de controle ambiental

da Reserva, demonstrando o envolvimento da política nas questões relativas a esse controle.

245
4.4.1 - Os fiscais

O Plano de Utilização da Reserva Extrativista, ou o Plano de Uso, como dito acima,

pode ser visto como representativo das regras do pacto estabelecido entre os moradores e o

Estado para a criação da Reserva Extrativista, baseado na idéia de que é possível fazer um

uso controlado de seus recursos naturais, de modo que as gerações futuras também possam

ter acesso a esses recursos. Foi com esse fim que, em 1991 foi feita uma assembléia de

moradores para definir essas regras, o que resultou no Plano de Uso da Reserva, aprovado

depois pelo Ibama.

Nesse Plano constam regras que delimitam a área permissível de desmatamento,

técnicas de pescaria, de caçadas, espécies que devem ser especialmente protegidas, como a

seringueira, dentre outras regras (ver Anexo 1). Nessa assembléia, uma de suas principais

polêmicas foi a questão da caça com cachorro, prática considerada danosa ao ambiente. Em

primeiro lugar porque um bom cachorro é sempre capaz de encontrar e perseguir uma caça,

mas seus latidos afugentam para longe a grande parte dos animais por onde passa. Com

isso, o dono do cachorro é favorecido enquanto que seus vizinhos que não têm um bom

cachorro ficam prejudicados. Em segundo lugar, em tempo perceptível, todos começam a

notar que é preciso andar cada vez mais longe para encontrar uma caça.

O estabelecimento da proibição do cachorro, porém gerou grande polêmica. Muitos

caçadores, acostumados com o uso do animal nas suas caçadas, afirmavam que iriam

“passar fome” se só fizessem caçadas “a curso”, ou seja, sem cachorros. Alguns ainda

246
tentaram defender a permissão de pelo menos poder andar com cachorros em seus roçados,

pois eles poderiam pelo menos acuar embiaras como pacas, cutias ou cutiaras, animais que

podem atacar as plantações. Mas essa opção também foi derrotada, e qualquer tipo de

caçada com cachorro foi proibida141.

A polêmica, no entanto, não findou com a decisão da maioria na assembléia. Anos

depois, moradores ainda não se conformavam com a decisão e alguns mesmo recusavam-se

terminantemente a acatar a regra. Isso gerava uma grande quantidade de conflitos, em

especial nos lugares mais populosos, como no médio Amônia e no igarapé Riozinho, no

Alto Tejo, lugar onde a seringueira é mais abundante e, por isso, com maior concentração

de seringueiros.

A polêmica acabou cristalizando-se de tal modo que, caçar com cachorro, e falar

que caçava com cachorro, em muitos casos também queria dizer, ser parte daqueles que

eram contra a criação da Reserva, que não apoiavam a Associação, não freqüentavam

reuniões, que falavam mal dos fiscais colaboradores, dos cantineiros e das pessoas que

vinham de fora através da Associação.

O Ibama, com um único funcionário morando em Cruzeiro do Sul para cuidar de

toda a Reserva Extrativista, criou uma equipe de “fiscais de base”, mais tarde chamados de

“fiscais do Ibama” e, depois, “agentes colaboradores”, que eram escolhidos pelos

moradores para fazer parte da Comissão de Meio Ambiente da Reserva.

141
Vale lembrar que apesar de ter sido aprovada em assembléia, a proibição da caça com cachorro
não consta oficialmente no Plano de Utilização da Reserva, porque, na época, a legislação federal proibia
qualquer tipo de caça de animais.
247
A partir de 1994, e com recursos do chamado Projeto Resex, esses fiscais

começaram a receber vários treinamentos, e tinham como suas principais tarefas conversar

com os moradores, fazer reuniões quando houvesse reclamações e, em casos de

reincidentes no descumprimento das regras, levar a denúncia ao Ibama. Quando isso

ocorria, teoricamente, os membros do Ibama deveriam ir até a casa da pessoa recalcitrante

ou mandar mensagens para que ela viesse até a sede do órgão, em Cruzeiro do Sul, por seus

próprios meios. Depois disso, se nova denúncia, a pessoa seria autuada e receberia multas.

A reclamação de todos os fiscais, entretanto, era que as tais denúncias caíam no vazio e o

Ibama não fazia nada. Eu mesma não soube de nenhum caso que um morador tenha

recebido e pagado alguma multa142.

Durante alguns períodos, também com recursos do Projeto Resex, o órgão realizou

treinamentos aos fiscais, pagou agentes de campo para ajudar os fiscais e fazer reuniões.

Porém, ao final da década de 1990, a reclamação dos membros do órgão ambiental, em

entrevistas realizadas no final da década de 1990 em Cruzeiro do Sul, era de que eles não

tinham nenhuma condição de atender o que os fiscais solicitavam. Em seus dizeres, eles

não podiam sair prendendo todo o mundo que não cumpria todas as regras, como era afinal,

o desejo dos fiscais. Além da falta de recursos humanos e materiais, o órgão visava cada

vez menos atuar de modo policialesco e mais como órgão educativo.

Já os fiscais da Reserva, mais realistas, falavam que as pessoas não precisavam mais

serem educadas. Elas já sabiam o que deviam ou não deviam fazer. E lamentavam que com

142
Eu apenas fiquei sabendo de um caso, no rio Arara em que o morador foi expulso por ser acusado
de caçar com cachorros. No entanto, o caso, que chegou a ter episódios de violência, era principalmente uma
disputa entre famílias vizinhas por causa de uma área de centro com várias estradas de seringa.
248
a falta de atitudes concretas do Ibama, eles não tinham autoridade. Seu Antonio, do rio

Amônia, assim como vários outros, achava que os fiscais precisavam de credencial,

carteira, farda... Algo que simbolizasse que eles eram, de alguma maneira, distintos e, por

conseqüência, capazes de influir na ação dos outros. Como discutem Almeida & Pantoja

(2004:32), eles “(...) reclamavam, do governo, seu reconhecimento como agentes de

coerção”, vistos como “fiscais da implementação de uma lei”, mas sem “mecanismos para

fazer valer as regras que tentavam implementar”. Reivindicavam, portanto, algo externo

que lhes justificassem uma autoridade que, em princípio, não teriam sobre o outro.

Um senhor que morava no rio Bagé, contou que até começou a freqüentar as

primeiras reuniões, após ser o indicado da sua região para ser o fiscal local. Nas reuniões,

porém, descobriu que os próprios moradores da colocação poderiam recusar um fiscal e

escolher outro. Com isso, ele abandonou o cargo, pois não aceitava como ele poderia dar

uma ordem a alguém que também pudesse tirá-lo daquela função143.

Mesmo assim, alguns fiscais levaram suas atividades a sério. Um deles, por

exemplo, morador do Alto Tejo, assim como vários outros, lembrava, no início de suas

atividades como fiscal, as muitas vezes em que ele fez grandes caminhadas de uma

colocação à outra, tentando falar com pessoas que eram denunciadas por seus vizinhos.

Para ele, isso “foi jogo duro”. Uns ainda entendiam seu trabalho, outros não, “mas na

verdade, eu acho que todos entendiam, mas se faziam de desentendidos”.144

143
Sobre as dificuldades do trabalho dos fiscais na Reserva, consultar Marisa B. A. Luna (2004)
“Gestão participativa de espaços e recursos naturais de uso comum.” Revista de Ciências Sociais e
Econômicas (Campina Grande, vol. 23, pp. 52-61).
144
Ou seja, não seria falta de educação, mas opção.
249
Enquanto isso, também foi iniciada uma intensa contrapropaganda dos fiscais, e no

momento em que se falava sobre alguém que infringira certas regras, já entrava a conversa -

baseada ou não em caso verídico - de que o próprio fiscal havia sido flagrado em delito.

Assim, da mesma forma como ocorrera com os gerentes das cantinas, acusados de

não fazer o uso correto das mercadorias, os fiscais também eram acusados de não cumprir

com o que eles queriam que os outros cumprissem. Era comum ouvir que algum fiscal ou

um de seus filhos foram vistos na mata com cachorros, por exemplo, ou que tinham aberto

um roçado nas proximidades de uma estrada de seringa. Dessa forma, se aos poucos os

fiscais iam construindo alguma autoridade, essa autoridade também era solapada pelas

fofocas.

4.4.2 - Dinheiro, violência, autoridade

Em 1996 houve uma ação mais ativa do Ibama, que gerou controvérsias e também

mudanças. Com recursos do Projeto Resex, como parte das ações do PPG-7, o Ibama,

através do CNPT, fez um convênio com o Conselho Nacional dos Seringueiros, contratando

dois agentes de campo durante um ano e meio para trabalhos na Reserva. Luiz Ferreira, que

antes já havia feito alguns trabalhos na Reserva e Chico Ginu, anteriormente presidente da

ASAREAJ. Com isso, era comum encontrar Chico Ginu pela Reserva, que passou a ser

visto sempre vestindo um colete verde que ele fazia questão de usar, símbolo distintivo de

sua atividade no órgão fiscalizador. Nesse período, os fiscais também receberam bolsas

para carregar os materiais dos treinamentos, além de uma carteira com foto que os

250
identificava como fiscal do Ibama. E, durante alguns períodos, receberam mensalmente

uma verba para ajuda de custo nas suas viagens pela Reserva.

Fazendo uma retrospectiva do seu trabalho nesse projeto, Chico Ginu, em 2002, não

se sentia satisfeito: “eu não sei o resultado que teve o trabalho que eu fiz, não sei”.

Lembrou que, no final do projeto, já sem recursos, não conseguia terminar o último

relatório. Resolveu então esperar alguma cobrança por parte do Ibama, acreditando ser uma

oportunidade para falar tudo o que estava pensando, já que seus relatórios anteriores não

produziam resultado. O órgão, entretanto, nunca fez essa cobrança. Ao final, restou-lhe

uma sensação ruim, até de arrependimento, pois ele acreditava que após as muitas reuniões

e conversas na Reserva, ele seria capaz de discutir os problemas com o Ibama, e propor

soluções. Mas ao final dessa primeira fase do Projeto, o órgão elaborou uma cartilha para

ser entregue aos moradores, sem fazer nenhuma referência a todo o material que ele e o

outro agente de campo haviam produzido. Na sua avaliação, foi como lutar para comprar

uma calculadora, comprá-la e, em seguida, fazer uma encoivara e jogá-la dentro para

queimar.

Um olhar mais generoso sobre as ações realizadas com os recursos do Projeto

Resex, como a atuação de Chico Ginu na Reserva, o apoio aos fiscais, e também às várias

outras ações relacionadas à Associação, demonstram que se formou um contexto favorável

à proposta da Reserva Extrativista e, do ponto de vista das questões ambientais, minha

percepção foi de que essa foi a primeira vez que ações humanas puderam, ali, ser

consideradas responsáveis por melhorias do ponto de vista ambiental.

251
Num episódio de grande importância local, Chico Ginu conseguiu, pela primeira

vez, que funcionários do Ibama viessem à Reserva acompanhados da Polícia Militar,

visitando várias casas onde havia denúncias de caçadas com cachorro. Ali, chegaram a

matar alguns cachorros e apreenderam outros, deixando alguns na sede municipal.

Em viagem à Reserva um pouco depois do ocorrido, pude ver a intensa repercussão

daquela operação, comentada em todos os lugares visitados pela Reserva. No Amônia,

foram recolhidos pelos menos quatro cachorros de dois conhecidos caçadores que se

recusavam a caça a curso. Dias depois, um morador também se sentiu à vontade para matar

um cachorro que sempre acompanhava as caçadas de um de seus vizinhos. Logo em

seguida outro morador do Amônia também levou seu cachorro para a sede municipal e ali o

vendeu.

Alguns mostraram contentamento e alívio, vendo que as regras finalmente seriam

cumpridas. Outros se sentiram profundamente ofendidos com o que consideraram uma

invasão. No igarapé Manteiga, um morador “se aporrinhou” com o Ibama, dizendo que

ninguém precisava invadir sua colocação. Talvez ali os moradores lembravam-se do

episódio ocorrido na década de 1980, quando um empregado do patrão e policiais entraram

nas colocações em busca de objetos para pagamento de dívidas, o que gerou revoltas na

região, como discutido acima. Por isso, esse morador atirou e matou seus próprios

cachorros. Alguns ainda procuraram desmoralizar o feito da polícia, afirmando que alguns

dos cachorros deixados na sede municipal haviam conseguido retornar às suas casas

anteriores.

252
O que foi possível observar, após essas ações ligadas ao Projeto Resex, é que, a

partir desse período, conversas sobre a melhoria da situação da caça começaram a surgir

nos mais diferentes lugares. Muitos diziam que os animais estavam mais próximos e que

podiam ser avistados veados, antas ou bandos de queixada, em locais onde antes nem os

rastros desses animais eram mais observados145. Esse fato passou a ser reconhecido mesmo

porque aqueles que antes faziam questão de criticar a criação da Reserva e, se antes, em

meio às reclamações com o fim da assistência dos patrões, eles também elogiavam o “fim

da sujeição”, a Reserva também passou a ser reconhecida como o lugar onde se conseguiu

uma “melhoria no rancho”, e isso era uma mudança fundamental 146.

4.4.3 - Questão ambiental e política partidária

A operação conjunta do Ibama com a política teve ainda outra conseqüência, como

citado acima, que foi a sua ampla utilização por políticos durante as eleições de 1998, cujas

demonstrações de indignação do prefeito, do deputado do PMDB e do então governador,

Orleir Cameli, foram aplaudidas com animação nos comícios na sede do município de

Thaumaturgo. Cameli, como citado acima, terminou o evento falando da necessidade de

“compaixão” pelos pobres moradores da floresta, sendo necessário, por isso, “inibir as

145
Falei com vários biólogos sobre isso e somente um deles não relacionou esse fato com o aumento
do cumprimento das regras, mas que isso poderia ser resultado do aumento de queimadas em outros lugares,
como na Bolívia, por exemplo.
146
Até mesmo os moradores de fora da Reserva, ao longo do rio Juruá, começaram a fazer
comentários sobre o aumento da oferta de caça na região. Antes, era comum ouvir nesses lugares conversas
desconfiadas sobre a Reserva Extrativista, e não raro se afirmava que, num breve futuro os moradores seriam
expulsos e a Reserva viraria um “zoológico” ou, então, que seria “entregue aos americanos”. Também é nesse
momento que moradores de regiões próximas começam a se organizar pela criação de novas Reservas,
movimento que culmina, na década seguinte, na criação da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá e da
Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade.
253
ações do Ibama”. Ele também afirmou que, embora não tivesse poder para definir as ações

do Ibama, “na Polícia Militar eu mando”, e se comprometia a prender policiais que

atuassem junto com o órgão ambiental.

A partir da década de 2000, a questão ambiental na região voltou a se modificar.

Operações semelhantes àquela do Ibama em conjunto com a Polícia Militar nunca mais

foram comentadas na Reserva. Os fiscais deixaram de receber recursos fixos, só recebendo

alguma ajuda de custo eventual.

Uma dificuldade desse período pode ser demonstrada por um rapaz que foi acusado

de praticar a caça comercial na Restauração, em 2002. O fato chamava a atenção porque ali

era um dos lugares onde nascera o movimento dos seringueiros, e o caçador era filho de um

importante líder local do movimento pela Reserva. Naquela época, pedreiros de Cruzeiro

do Sul estavam na Restauração para a construção do que seria a primeira escola de segundo

grau do rio Tejo, feita de alvenaria, o que também era inédito.

Conforme um engenheiro agrônomo que durante vários anos trabalhou para o

Ibama, ao chegar na Restauração nesse período, vários vieram lhe contar sobre o rapaz que

estava vendendo carne de caça para os pedreiros. Alguns moradores, com ironia,

perguntavam-lhe: “já está podendo vender carne de caça?” Outros diziam que iriam

“comprar um cachorro”, já que estava de novo “liberado”. O engenheiro então pediu para

chamarem o caçador para uma conversa.

O rapaz chegou com seu pai, e o engenheiro tentou pediu que ele parasse com a

venda dos animais aos pedreiros, pois senão ele seria denunciado ao Ibama. O engenheiro
254
não o fez, mas outros acabaram denunciando o caçador e, dias depois, foi enviada uma

mensagem para o rapaz comparecer à sede do Ibama em Cruzeiro do Sul para

esclarecimentos. O caçador, porém, não atendeu ao pedido. Mais tarde, o engenheiro ficou

sabendo que, quando estava a caminho, ele resolveu antes passar na Prefeitura de

Thaumaturgo. O prefeito ali teria lhe dado garantias de que nada lhe aconteceria e que ele

poderia voltar para sua casa. De fato, nada aconteceu ao rapaz.

Para o engenheiro, falando das suas atividades junto ao Ibama, os que sofriam

“influência” da Prefeitura eram “os piores de lidar”.

Frente às disputas políticas locais, o engenheiro fazia questão de afirmar que “eu

não me envolvo”, ou “mantenho uma postura neutra”. Mas, deliberadamente ou não, ele

várias vezes se envolvia nas disputas entre a Prefeitura, a Associação e o Ibama, ainda

sendo obrigado a lidar com as querelas dentro próprio movimento de seringueiros e com o

fato de que pequenas ações ingênuas podiam ter conseqüências imprevistas.

Um exemplo disso foi uma assembléia de moradores da Reserva ocorrida em 2001.

Quando o engenheiro e o chefe do CNPT na época chegaram de avião em Thaumaturgo,

houve um problema na organização e não havia uma canoa que os levasse no trajeto de

cerca de duas horas entre a sede do município (onde fica a pista de pouso) e a sede da

Associação Foz do Tejo, local da assembléia. Depois de muito esperar, foi para a sede do

município, do outro lado do rio, em busca de uma canoa e um piloto, indo a vários lugares,

sem sucesso. Após algum tempo finalmente encontrou um conhecido que os levou até o

local da assembléia.

255
Naquela assembléia, um dos pontos polêmicos era a decisão sobre a composição do

Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista, que deveria ser criado após as mudanças

legais estabelecidas pelo SNUC.

Em 2002, foi criado o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC -

que, sob influência de entidades não governamentais, estabeleceu nova modificação na

composição dos membros gestores dessas áreas. No caso da Reserva Extrativista, se antes a

administração estava a cargo do Ibama, que podia estabelecer convênios com a Associação,

o SNUC em seu artigo 2o, que determinou que:

A Reserva Extrativista será gerida por um Conselho Deliberativo presidido pelo órgão responsável
por sua administração [no caso, o Ibama] e constituído por representantes de órgãos públicos, de
organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área, conforme se
dispuser em regulamento e no ato de criação da unidade.

Na ocasião da tal assembléia, a diretoria do CNPT entendia como “órgãos públicos”

a Prefeitura e a Câmara Municipal. Já a diretoria da Associação não aceitava a presença de

seus inimigos políticos com voz e voto no Conselho que iria representar a Reserva (que, até

hoje, não está oficialmente criado). Como o engenheiro contou depois, naquela noite, ele

“caiu na besteira” de comentar com o chefe do CNPT, que vivia em Brasília, sobre as

velhas disputas que ocorriam no Alto Juruá entre a Associação e a Prefeitura, tão diferentes

do que ocorria na região em outros lugares do estado do Acre. Ele pretendia explicar as

desavenças em relação à formação do Conselho o que, para ele, também ajudavam a

entender por que havia sido tão difícil encontrar alguém na sede municipal para levá-los de

canoa para a Foz do Tejo.

256
No dia seguinte, uma funcionária do Ibama veio perguntar ao engenheiro o que ele

tinha dito ao chefe do CNPT, que teria comentado que aquele "não estava sintonizado" com

o órgão.

Poucos dias depois daquela assembléia, o engenheiro recebeu um aviso do CNPT

sobre a rescisão imediata de seu contrato, sem exigir nem a entrega dos materiais que

estavam sob sua responsabilidade, como era de praxe.

Como o rapaz era conhecido por sua dedicação com que há anos trabalhava na

Reserva, o caso gerou indignação de membros da Associação, de outros projetos e do CNS,

que solicitaram a revisão do caso, e ele acabou recebendo um novo contrato do CNPT.

Durante a minha entrevista com o engenheiro na sede do Ibama em Cruzeiro, em

2002, uma funcionária veio pedir-lhe para usar tambores de gasolina do projeto ao qual ele

estava ligado. Ele perguntou se a gasolina era "para a programação" dela. Ela disse que sim,

saindo sem entrar em mais detalhes. Visivelmente contrariado, o engenheiro afirmou que o

pedido nada mais era do que reserva de combustível para a eleição, que seria depois

distribuído aos eleitores, e que se ele tivesse alguma prova, iria denunciar. Para ele, embora

não parecesse, eu estava então "num comitê político".

Nesse período, o Ibama da cidade era lotado pelo PSDB e a chefe da Reserva

Extrativista do Alto Juruá era filha de um deputado do partido. A responsável pelo órgão na

cidade de Cruzeiro do Sul era uma amiga íntima da esposa do mesmo deputado. Como se

ouvia na cidade, o Ibama ali era “do PSDB” e, o INCRA, já há vários anos, era “do

PMDB”.

257
Também fiquei sabendo que, naqueles dias, outro funcionário do órgão, por causa

de suas preferências partidárias tinha sido impedido de ir à Reserva, sendo temporariamente

transferido para atuar na cidade ao lado, Guajará Mirim, pertencente ao estado do

Amazonas147.

4.4.4 - Educação e voluntarismo

Mais recentemente, também não sei se por falta de recursos ou por posição

ideológica, ou os dois, o órgão federal decidiu transformar os antigos fiscais em “agentes

ambientais”, agora “voluntários”, decisão que é parte de um programa federal que se

colocou como “missão” de:

(...) propiciar a participação da sociedade civil organizada na proteção dos recursos naturais em
unidades de conservação federal e áreas protegidas, com o objetivo de torná-la proativa e capaz de
148
conservar a biodiversidade e realizar atividades em prol do Desenvolvimento Local Sustentável .

Conforme a coordenadora do programa,

(...) preparamos até aqui mais de três mil voluntários em todo o País; desde então, eles têm
representado uma valiosa parceria do poder público no trabalho de educação das comunidades
149
quanto à necessidade do manejo sustentável dos recursos naturais .

147
Esse funcionário era o mesmo que, em 1998, fazia campanha para o candidato César Messias,
então do PPB. Provavelmente teria sido ele quem impediu minha entrada na Reserva naquele ano por
acreditar que eu faria ali campanha para o Antonio Macedo, como discutirei mais à frente.
148
Conforme folheto distribuído pelo Ibama: “Há gente, em toda parte do Brasil - agentes
ambientais voluntários”. Também disponível na página da internet: http://aavjurua.wordpress.com/about
(acessado em novembro de 2009).
149
Citado em http://www.ibama.gov.br/voluntarios/index.php?id_menu=9&id_arq=42&cor=
(acessado em 13 de maio de 2009).
258
Até então, os fiscais do Alto Juruá eram protagonistas de uma série de conflitos,

brigas, denúncias, reuniões, que chegavam até a violência, mas que tinham sido importantes

no estabelecimento de algumas melhorias perceptíveis na questão ambiental. Após esse

período, pelo que pude acompanhar, as mudanças na proposta do Ibama coincidiram com

um período de grande retrocesso na questão do controle ambiental. Claro que isso era

também resultado da atuação deliberadamente contrária de políticos locais, da preocupação

eleitoral da diretoria da Associação e das crise na economia da borracha. Mas com certeza

também se relacionavam com o descrédito cada vez maior do Ibama e de seus fiscais agora

“voluntários”.

Ainda que vários fiscais tenham mentido a rotina anterior de conversas com

moradores sobre as questões ambientais, a maioria deles abandonou totalmente suas antigas

ações. Sem recursos, sem apoio do Ibama, e com a Associação menos preocupada com as

questões ambientais e mais com a política partidária, logo todas aquelas conversas sobre a

“melhoria do rancho” começaram a ceder lugar às falas sobre o aumento no uso de

cachorro em caçadas, sobre desmatamentos. Também começaram a ser ouvidos casos de

“venda” e aluguel de áreas para criadores de gado da sede municipal, dentre outras

reclamações.

Os pequenos fazendeiros, que já existiam antes da criação da Reserva,

anteriormente mais cautelosos e várias vezes sujeitos a críticas por parte da Associação,

259
também pareceram deixar de se preocupar com o tamanho dos seus desmatamentos, e,

alguns deles, até começaram a apoiar e a ter apoio explícito da diretoria da Associação150.

Para aumentar o descrédito do Ibama e seus fiscais, o próprio presidente da

Associação acabou sendo denunciado ao Ibama por autorizar um morador da cidade a fazer

caçadas na colocação de seu pai, no rio Arara. A acusação foi comprovada por uma carta,

encontrada com o caçador, assinada pelo presidente da Associação.151.

Na mesma época, o mesmo rapaz dizia que, na sede municipal, a carne de caça,

antes mais cara, por ser escassa e considerada de maior qualidade, já estava mais barata que

a carne de gado, graças à grande quantidade de caçadores profissionais que ali viviam e que

faziam suas caçadas na Reserva Extrativista e nas suas proximidades.

Assim, em 2007, como dito por um monitor durante um treinamento, o Plano de

Uso estava “falindo aos poucos”.

150
Quando a Reserva Extrativista foi criada, havia dez imóveis considerados como pequenas
fazendas, nove nas margens do rio Juruá e uma no Alto Tejo. Com a demora no processo de indenização, a
maioria dos fazendeiros, hostilizados num período inicial, permaneceram na região.
151
Esse fato teve grande repercussão e o presidente foi sentenciado a pagar uma multa ao Ibama. É
importante notar, porém, que ele estava apenas repetindo o gesto várias vezes feito pelo prefeito e vice-
prefeito de Thaumaturgo que, conforme vários moradores, entregavam por escrito “autorizações” para a
realização de ações contrárias ao Plano de Uso da Reserva, conforme discutido acima, no caso do rio Amônia.
260
4.5 - O projeto de monitoramento ambiental - pesquisadores, Associação e Prefeitura

Nesse item faço uma apresentação do projeto de formação da equipe dos monitores

sociais e ambientais da Reserva Extrativista, atividade que foi parte de vários projetos de

pesquisa realizados na região.

Com essa apresentação procuro dar ênfase em como as disputas políticas locais

relacionaram-se com a condução desses projetos.

4.5.1 - O monitoramento participativo

A idéia de formar uma equipe de monitores sociais e ambientais na Reserva surgiu

graças ao interesse do então seringueiro Francisco Barbosa de Melo, o Chico Ginu, pelas

atividades do antropólogo e hoje orientador deste trabalho, professor Almeida, nas suas

primeiras pesquisas no Alto do rio Tejo. Como dito acima, Ginu, com o apoio de Almeida,

também começou a fazer anotações sobre o ambiente e a vida social local, tornando-se

assistente de pesquisa e, mais tarde um pesquisador florestal voluntário, como ele mesmo

se nomeava. Tempos depois, sua atividade foi oficializada a partir de uma bolsa obtida pela

Universidade Estadual de Campinas. Mais tarde, seu irmão Antonio, conhecido como

Roxo, também solicitou ao professor cadernos, canetas e ajuda para a escrita, dando, assim,

continuidade às atividades do irmão, já envolvido com o CNS e a presidência da

Associação. Em 1994, com a chegada de vários outros pesquisadores na Reserva, outros

moradores também foram incentivados a fazer diferentes anotações sobre a vida local,

incluindo aspectos sociais e ambientais. A partir do projeto de pesquisa financiado pela

261
CIFOR152, entre 1996 e 1998, os pesquisadores que vinham à região, junto com suas

pesquisas também começaram a fazer treinamentos para esses pesquisadores locais, dentre

eles o professor Adão Cardoso e o professor Keith S. Brown, na área biológica, e o

professor Mauro W. B. de Almeida, na área de ciências humanas.

Com isso, configurou-se uma equipe com cerca de 40 pessoas que passaram a ser

chamados de “monitores sociais e ambientais” e que, a partir de diferentes lugares da

Reserva, faziam registros sistemáticos de vários aspectos da vida local, conforme seus

interesses. Eram cadernos que descreviam as atividades de caça, de pesca, da extração da

borracha e de pescarias. Outros, entusiasmados com as pesquisas biológicas, faziam diários

a partir da observação de animais bioindicadores - que dão informações sobre mudanças

ambientais - como borboletas, libélulas e anfíbios. Outros anotavam dados sobre espécies

vegetais. Alguns ainda preferiram escrever sobre a vida social local, com registros das

histórias antigas e recentes, observadas nas suas colocações.153

Pensando nesse grupo, em 1999, foi elaborado outro projeto, também coordenado

pelo prof. Almeida, dessa vez especificamente voltado para o desenvolvimento da atividade

com esses monitores, com o objetivo de criar métodos de monitoramento, relacionando

aspectos ambientais e sociais, unindo o conhecimento dos moradores da Reserva com o

152
O “Projeto de Pesquisa Economia Doméstica e Usos da Floresta: um estudo de caso na Reserva
Extrativista do Alto Juruá”, coordenado pelo prof. Mauro B. de Almeida e o prof. Manuel Ruiz-Perez, com
financiamento de um convênio estabelecido entre o Departamento de Antropologia da Unicamp e o CIFOR
(Center International of Forestry Research).
153
Pensando nas dificuldades e no afinco desses monitores lembro-me de uma jovem moradora do
Riozinho, Maria Jurlete, que era a mais velha de uma família de muitas crianças e tinha uma grande
participação nas tarefas da casa. Algumas vezes a vi escrevendo seus diários à noite, depois que a casa se
silenciava, deitada no chão com uma coberta sobre a cabeça, para que as mariposas não apagassem sua
lamparina.
262
conhecimento acadêmico, considerados sem nenhuma hierarquia. Nesse projeto,

pesquisadores de várias áreas começaram a aliar suas pesquisas com atividades junto aos

monitores, que podiam acompanhar seus trabalhos na mata ou participar de treinamentos.154

Ao longo desse processo, eu e outros estudantes tínhamos a tarefa de fazer

acompanhamentos periódicos nas casas desses monitores, ajudando-os em suas anotações

(ver foto 25).

Esse projeto, diferentemente dos anteriores projetos de pesquisa feitos na região,

tinha como proponente não a Universidade ou os pesquisadores, mas a própria ASAREAJ,

na época da elaboração do projeto, presidida por seu Antonio de Paula.

Assim como outros projetos coordenados pela equipe do professor Almeida, o

pressuposto geral era que “as pessoas mais qualificadas para fazer a conservação de um

território são as pessoas que nele vivem sustentavelmente” (Carneiro da Cunha e Almeida,

2001: 187). Nesse propósito, os monitores deveriam ter acesso ao conhecimento acadêmico

e aos instrumentos necessários para fazer o controle das mudanças ocorridas no interior da

Reserva. Por outro lado, os pesquisadores também entravam em contato com a ciência

local. E, por fim, a entidade representante dos moradores, a ASAREAJ, seria a interlocutora

entre esses grupos e conhecimentos.

154
O “Projeto de Pesquisa e Monitoramento Participativos em Áreas de Conservação Gerenciadas
por Populações Tradicionais”, foi coordenado pelo professor Mauro W. B. de Almeida em convênio com a
Associação, sendo financiado pela União Européia, através da FINEP (Fundação de Estudos e Projetos, ligada
ao Ministério de Ciência e Tecnologia). Dentre os professores que contribuíram com o Projeto, além de
Almeida e Keith S. Brown Jr., da Unicamp, participaram também Moisés Barbosa, com o estudo de anfíbios,
Andrea Alechandre, com mapas feitos pelos moradores, ambos da UFAC; na área botânica, Marcos Silveira,
Márcia Cristina Souza e Douglas Daily, através do convênio entre a UFAC e o New York Botanical Garden, e
Cleber Salimon, da USP de Ribeirão Preto e Bruce Nelson, do INPA com material preparado para os
monitores sobre imagens de satélite. Também foram realizados trabalhos na área de caça pelo biólogo Jesus
Rodrigues, e a participação de estudantes de graduação, mestrado e doutorado de várias áreas.
263
4.5.2 - A proposta da administração do Projeto

Uma das minhas tarefas nesse projeto, durante os anos de 2000 a 2003, foi realizar a

parte administrativa e contábil do projeto, tarefa que deveria ser realizada em conjunto com

a Associação.

Quando o Projeto foi aprovado e os recursos finalmente chegaram, no ano de 2000,

eu já estava bastante interessada sobre as questões políticas e de gestão da Reserva. Por

isso, via essa tarefa como uma oportunidade para realizar as teorias que eu defendia: uma

administração democrática e com transparência no uso dos recursos públicos.

Administração que seria feita pelas pessoas da Associação, sendo eu mesma apenas uma

colaboradora do processo.

Como já era de se esperar, vários problemas surgiram nesse percurso, e, a seguir,

descrevo alguns deles155.

Logo de início, a eleição da nova diretoria da Associação, em 1999, provocou uma

profunda alteração na relação que existia entre pesquisadores e a Associação.

Para entender essa alteração é preciso lembrar que, desde a criação da Associação,

em 1990, até 1999, a relação da Associação com os membros dos diferentes projetos de

155
Saliento, a seguir, minhas próprias dificuldades em lidar com as alterações surgidas durante o
projeto, mas é importante deixar aqui registrado que todo o processo foi intensamente discutido com os outros
pesquisadores, em especial com o próprio professor Mauro W. B. de Almeida, coordenador, e os
pesquisadores Augusto de A. Postigo, Mariana C. Pantoja, Andrea Martini e Marisa B. A. Luna. Em 2003, o
meu cargo foi entregue por um breve período para Mariana Pantoja e, em seguida, para Augusto Postigo, que
organizou as atividades finais da viagem dos monitores a São Paulo e a publicação de parte do material
produzido pelos monitores.
264
pesquisa haviam sido de intensa colaboração e, em alguns casos, forte amizade, como

demonstravam a aliança dos seringueiros com o professor Almeida, surgida desde o início

da década anterior.

Como era comum nas assembléias da Associação, membros dos projetos ali

realizados recebiam convites para participar, bem como políticos, membros do STR, do

Conselho Nacional de Seringueiros e chefias indígenas. Como um seringueiro uma vez

reclamou, com isso, a diretoria eleita pela Associação acabava sempre sendo aquela

apoiada pela “turma do Macedo”, ou seja, pelo grupo de pessoas que trabalharam junto com

o Macedo desde os primeiros movimentos pela criação da Reserva, na qual também se

incluía o professor Almeida e, por conseguinte, os outros pesquisadores. (O próprio

Antonio Macedo, na verdade, desde meados da década de 1990, só muito eventualmente

fazia alguma visita à região).

Em 1999, entretanto, essa aliança ficara debilitada. A nova chapa recusava os

antigos apoios e preferia se aliar a fazendeiros e alguns comerciantes de Marechal

Thaumaturgo e Cruzeiro do Sul. Na assembléia, esses aliados, de modo inédito, trouxeram

grupos de música e recursos financeiros para que eleitores fizessem o pagamento da

anuidade (que era exigência para o voto e quase sempre feito durante as assembléias). Logo

em seguida da apresentação do resultado da eleição, conforme relatos dos participantes, o

presidente eleito já afirmava que sua eleição para a Associação era apenas um primeiro

passo, sendo o seguinte a conquista da Prefeitura. Assim, enquanto Chico Ginu, Francisco

Dolor, seu Milton Gomes, e seu Antonio de Paula, os antigos presidentes, procuravam

manter a independência partidária (ainda que dando sempre algum apoio pessoal, nos
265
períodos eleitorais, aos grupos opositores do PMDB) agora a disputa partidária estava

explícita e o que estava em jogo não era tanto a condução da Reserva Extrativista, mas sim,

a Prefeitura municipal.

Era evidente, nesse contexto, que o novo projeto de pesquisa, cuja Associação era a

proponente, estaria de alguma forma envolvido nas pretensões dessa nova diretoria, apesar

de não ser em absoluto um assunto no qual os pesquisadores gostariam de se envolver.

Nesse momento, lembro ainda de discutir informalmente com outros pesquisadores se não

seria melhor um cancelamento daquele projeto. Nessas conversas, acabei ficando

convencida de que seria possível contribuir para a entidade Associação - enquanto canal

privilegiado de participação política dos moradores - sem defender as pessoas da diretoria

da Associação. Hoje desconfio que isso foi um inocente equívoco.

4.5.3 - As primeiras discordâncias

Descrevo a seguir uma série de pequenos detalhes sobre a condução desse projeto

porque, em minha opinião, é um exemplo interessante sobre as maneiras de como a política

local se envolve nas diferentes atividades da Reserva.

Logo após a liberação dos recursos do Projeto, em 2000, a primeira ação dos

pesquisadores foi a realização de uma reunião no escritório da Associação em Cruzeiro do

Sul, onde ficariam determinadas em comum acordo as responsabilidades de cada um,

oficializadas em termo lavrado em cartório. Ficou estabelecido, por exemplo, que cada

266
despesa somente seria realizada após a concordância expressa dos pesquisadores e da

diretoria da Associação. Todos os cheques, não importassem as dificuldades, teriam sempre

a minha assinatura, como coordenadora da parte administrativa e burocrática, e que morava

em Campinas, no interior de São Paulo e a do tesoureiro da Associação, oficialmente o

ordenador das despesas, que vivia em Cruzeiro do Sul.

Após esses complicados acordos sobre o funcionamento burocrático do projeto, subi

para a Reserva para dar a notícia aos monitores e também participar de uma reunião da

diretoria e dos conselheiros da Associação com o Ibama. Nessa reunião, também seria

realizada a eleição de um coordenador local do projeto.

Na proposta original, esse coordenador teria por atividade tentar manter um canal

constante de comunicação entre os monitores da Reserva, a Associação e as Universidades,

contando para isso com uma canoa com motor e combustível disponível para viagens, uma

sala própria no escritório da Associação em Cruzeiro do Sul com uma secretária e um

computador ligado à internet, pagos pelo projeto. Nosso objetivo principal era ajudar a

estabelecer dentro da Associação um local fixo de troca de informações entre os monitores

e os pesquisadores, entre a Reserva e a academia, esperando que, com o tempo, a própria

diretoria solicitasse a presença acadêmica quando fosse considerado necessário pelos

monitores na Reserva.

Nessa reunião, entretanto, assim que comecei a apresentar o novo projeto, vários

dos presentes, incluindo membros da diretoria, reclamaram que há tempos ouviam falar

“desse tal de monitoramento”, mas nunca tinham sido explicados de verdade sobre o que

isso queria dizer. Fiz algumas explicações e entreguei um pequeno texto que tínhamos
267
preparado com fotos e informações sobre o projeto e sobre o que os monitores já faziam.

Mas também comecei a perceber que havia um clima estranho, algo agressivo, que eu não

poderia esperar, e que já me causou certo constrangimento. Afinal era minha primeira ação

enquanto “coordenadora adjunta” e, ao que me parecia, eu estava ali trazendo uma boa

notícia que era a aprovação do projeto e, por conseguinte, recursos para a Reserva.

Logo em seguida a diretoria deu a sugestão de um nome para coordenador de

alguém que morava na sede municipal, mas que sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar.

Eu, por minha vez, fiz uma breve fala dizendo que os pesquisadores esperavam que o cargo

fosse ocupado por um morador da Reserva e que também fosse um monitor, alguém que já

conhecesse os assuntos do projeto, pois assim seria mais fácil a comunicação entre os

monitores e os pesquisadores.

Minha fala praticamente não foi levada em conta , com exceção de um monitor que

também estava presente e falou em meu apoio. Não por acaso, um monitor que é filho de

um ex-presidente da Associação.

Demorei a perceber que, muito antes da minha chegada, o nome do tal coordenador

já estava decidido, e a sugestão da diretoria foi aprovada quase com unanimidade.

Nos dias seguintes, dei continuidade às atividades de apresentação do projeto na

casa dos diferentes monitores. Durante o trajeto, foi tornando-se cada vez mais clara a nova

divisão política instaurada no interior da Reserva. Muitos monitores que haviam apoiado a

chapa da diretoria que perdera as eleições reclamavam do coordenador escolhido,

lembrando que o tal senhor era um antigo oponente da criação da Reserva; que sua escolha

era somente uma retribuição pelo apoio que dera durante a campanha da diretoria. Alguns
268
falavam ainda que, com o cargo, o coordenador teria recursos para também coordenar a

possível campanha do presidente da Associação para a Prefeitura, o que também já estaria

prometido. Alguns chegaram a exigir uma nova eleição para o coordenador.

Outros, especialmente alguns moradores do rio Juruá - onde o movimento pela

criação da Reserva tinha sido praticamente inexistente, e que também tinham apoiado a

nova diretoria - mantinham uma opinião favorável sobre o coordenador eleito. Ali também

comecei a ouvir muitos elogios à nova diretoria, a primeira eleita só pelos moradores da

Reserva, sem apoio das pessoas de fora. Estranhamente, ninguém comentava sobre o apoio

que a nova diretoria tinha recebido dos comerciantes de Thaumaturgo e Cruzeiro do Sul e

de fazendeiros do rio Juruá.

De volta a Cruzeiro do Sul, ainda tentei argumentar com a diretoria sobre a

reivindicação de monitores por uma nova eleição do coordenador de campo, mas a diretoria

não levou em consideração. Ao final, o coordenador manteve-se no cargo até 2003,

mostrando-se eficiente nas atividades básicas de organização do trabalho de pesquisadores

em campo e nos treinamentos, ajudando a providenciar barcos, alimentos e combustível,

mas nunca chegou a ser o intermediário entre pesquisadores e os monitores, como

esperávamos, e jamais o vi sequer folheando algum diário dos monitores ou mostrar algum

interesse sobre o que se falava nos treinamentos. A idéia de criar um setor de pesquisa na

Associação acabou sendo enfim descartada. Aliás, durante todo o tempo que fiz a

coordenação adjunta, nunca consegui ter uma conversa com a diretoria da Associação sobre

o que os pesquisadores e os monitores realmente faziam, nem sobre as questões ambientais

da Reserva. Já sobre política e dinheiro, as conversas foram muitas e intensas.


269
Também nesse período deveria ser contratada uma secretária que deveria

permanecer no escritório da Associação em Cruzeiro do Sul. Novas discussões com a

diretoria. Esta propunha para o cargo uma jovem sem experiência, filha de um taxista que

trabalhara na campanha para eleição da diretoria. Eu esperava abrir uma seleção onde

critérios técnicos definiriam a escolha. Ao longo dos dias que permaneci na cidade, antes de

subir para a Reserva, várias vezes fui abordada pelo taxista, que de modo insistente,

solicitava o emprego para sua filha. Quando cheguei de volta da Reserva, a garota já estava

empregada há vários dias. Dessa vez pelo menos, a jovem acabou mostrando grande

competência para as atividades.

Além disso, também era preciso contratar um piloto para dirigir e cuidar das canoas

e motores que seriam adquiridos pelo projeto. Mais discordâncias. Dessa vez, contudo,

consegui ser mais rápida e contratei um piloto que já era de confiança dos pesquisadores,

que antes morava na Reserva e que então vivia em Cruzeiro do Sul. A diretoria, por sua

vez, não concordava, e ao longo do tempo fez várias tentativas em expulsar o piloto, que, já

tinha morado com um presidente da Associação e trabalhara como ajudante das primeiras

cantinas da Reserva antes de ir morar na cidade. Por duas vezes, a diretoria me enviou atas

de reuniões em que fora decidido que só poderiam trabalhar em projetos ligados à

Associação os pilotos que tivessem residência no interior da Reserva Extrativista. Todas as

vezes ignorei os documentos que, pelo menos em princípio, eram fruto da discussão

democrática e transparente de membros da Associação.

270
4.5.4 - O projeto de pesquisa no contexto Prefeitura x Associação

Naquele contexto de disputas entre a Associação e a Prefeitura, a equipe de

monitores também não estava imune, e Associação também fez várias tentativas de

expulsar da equipe os monitores que não eram seus aliados políticos.

Nos termos inicialmente estabelecidos entre os pesquisadores e a Associação, ficava

a cargo exclusivo dos primeiros, como era óbvio para mim, a seleção dos monitores. Mas a

diretoria também decidira em reuniões que alguns dos monitores, por fazerem propaganda

negativa da Associação (ou que tinham feito campanha para a chapa perdedora), não

poderiam mais participar do projeto. Às vezes eu recebia notícias de que um determinado

monitor tinha sido encontrado alcoolizado, falando mal da Associação, ou outro que tinha

saído de canoa pelo rio Bagé falando mal da Associação com um auto-falante, outro ainda

que tinha estuprado uma menina (o que tinha ocorrido era que o monitor casara com uma

garota muito mais jovem). Isso tudo foi ignorado pelos pesquisadores. Também era comum

que um treinamento fosse marcado na Reserva, e a Associação ficava responsável por

enviar uma mensagem por rádio avisando os monitores. É considerado de bom tom que

todas as pessoas convidadas pelo rádio para um evento específico, como no caso dos

treinamentos, fossem chamados nominalmente. A Associação, eventualmente, “esquecia”

alguns nomes, que não apareciam nas mensagens. Alguns não davam importância e iam

mesmo sem serem chamados, mas ficavam ofendidos e recusavam-se a comparecer no

evento, ressentimento que só cessava quando eu ou outro pesquisador íamos pessoalmente

a suas casas para ouvir suas reclamações e solicitar seu retorno à equipe.

271
Para tentar evitar essas situações, ao final de cada viagem, quando um monitor

poderia ter desistido ou um novo ter iniciado sua participação, eu colava na parede do

escritório da Associação uma lista com nome, apelido e local de moradia de todos os

monitores, para evitar qualquer “esquecimento”, o que também nem sempre funcionava.

A organização dos treinamentos também era outro motivo de desentendimentos.

Normalmente usávamos galpões da Associação ou escolas em alguns pontos específicos da

Reserva, o que diminuía os gastos de locomoção dos monitores. Mas desde a escolha do

local do treinamento até a contratação dessa ou daquela cozinheira, desse ou daquele

vendedor dos animais, detalhes que pareciam insignificantes, na verdade eram importantes,

e precisava ser negociado.

Com o tempo, começou a ficar mais fácil reconhecer a posição dos monitores em

relação à diretoria da Associação. Uma vez um treinamento seria feito na Foz do rio Bagé,

onde havia um galpão que pertencia à Associação, sendo que, ao lado, morava uma família

com antiga participação nos diferentes projetos de pesquisa. A família também tinha

algumas cabeças de gado e, por praticidade, combinei a venda de um dos animais para o

treinamento. Nem pensei em comprar em outro lugar, já que a família sempre recebia com

grande hospitalidade tanto pesquisadores quanto monitores, e, como era comum, eram

quase 50 pessoas que invadiriam seu terreiro, usariam a água das suas cacimbas até acabar,

dormiriam em redes espalhadas pelo galpão e pela sua própria casa, que apesar de tudo

sempre estava aberta para as atividades do projeto.

Ao chegar ao local na véspera de um dos treinamentos, porém, fiquei sabendo que o

coordenador e o presidente da Associação, que haviam chegado num dia anterior, já tinham
272
comprado um boi de outra pessoa, que, inclusive, já estava sendo encaminhado para a

cozinheira. A própria cozinheira, também contratada pelas pessoas da Associação, apesar

de parente, era justamente um antigo desafeto do dono da casa onde seria feito o

treinamento. Isso gerou um clima tenso durante os três dias do treinamento, facilmente

perceptível nos horários de refeições e em cada vez que a cozinheira precisava de alguma

coisa que não tinha sido providenciada antes. Uma simples panela que fosse necessária, por

exemplo, não era solicitada à dona da casa, a poucos metros do galpão, e pedia-se que um

monitor saísse do treinamento para ir até a casa da cozinheira, algumas curvas de rio

abaixo, em busca da tal panela. Isso causava atrasos e constrangimentos, que obviamente

era percebido por muitos. Ao final do treinamento, como era de praxe, fazia-se uma

avaliação do evento, e os monitores contrários à diretoria fizeram questão de solicitar que a

tal cozinheira não fosse mais contratada.

Num treinamento anterior, sem prestar atenção na situação política das famílias da

região, eu também fizera uma tolice.

Esse treinamento seria realizado num galpão existente na Restauração, um espaço

que poderia ser considerado neutro, no entroncamento de igarapés e próximo a casas de

vários monitores. O galpão, entretanto, era coberto com telhas de flandres e o treinamento

começou justamente num dia de chuva torrencial. O barulho da água caindo nas telhas era

tão alto que tornava inviável qualquer conversa dentro do galpão. Por isso, e após solicitar

ao dono da casa, sugeri que o treinamento fosse transferido para uma casa quase em frente

ao galpão, do outro lado do rio. O único motivo para minha sugestão era que a tal casa era a

que tinha a maior cozinha da redondeza e que me parecia, por isso, ser a mais confortável.
273
Eu não lembrava, todavia, das antigas discórdias existentes entre os moradores da região.

Enquanto que vários dos monitores tinham uma longa história de participação no

movimento dos seringueiros, o dono da casa que eu escolhera era justamente conhecido por

ser um antigo “chaleira” do patrão.

O dono da casa, como ele mesmo afirmava, havia sido sempre contrário ao

movimento pela criação da cooperativa e da Reserva e que, somente após 1999 começou a

se aproximar da nova diretoria da Associação.

As atividades foram transferidas para aquela casa, mas alguns se recusaram a

participar e somente dias depois do treinamento é que percebi o descontentamento que a

escolha desatenta da tal casa tinha causado.

Outro exemplo do entrelaçamento do projeto nas disputas locais se deu em relação à

reforma da chamada “base de pesquisa”.

Com recursos de um projeto de pesquisa anterior, em 1994, havia sido construída

uma base de pesquisa, no rio Tejo, um pouco abaixo da Restauração. A base na verdade era

apenas quatro pequenos galpões de madeira cobertos de palhas entrelaçadas, ligados por

trapiches, próximos à Restauração. A base foi proposta para ser um local de pesquisa e

educação, com quartos para hospedagem de pesquisadores e estudantes, salas de aula,

biblioteca e cozinha. A mata do entorno da base também era utilizada para levantamentos

biológicos.

Na prática, porém, poucas vezes houve moradores fixos no local, que acabou sendo

subutilizado, e muitos pesquisadores preferiram permanecer nas casas das famílias durante

suas pesquisas, e realizar atividades educacionais nos espaços de mais fácil acesso aos
274
monitores, como escolas e galpões da Associação. Assim, em 2000, várias madeiras da casa

estavam apodrecidas ou comidas por cupins, e as palhas de cobertura já tinham várias

goteiras. Combinei então com o morador da colocação onde a base fora construída, que

durante algum tempo também recebera recursos para cuidar da base, para reformar as partes

que fossem necessárias, deixando o coordenador de campo responsável por acompanhar a

obra e repassar os recursos.

O morador, após fazer um estudo das condições da base, propôs um orçamento de

cerca de 12 mil reais para as obras. O coordenador de campo, entretanto, sem que eu

soubesse, orçou a obra com outro rapaz, morador do rio Juruá, que dizia poder fazer o

mesmo serviço por apenas 6.400 reais. Após várias conversas telefônicas entre

pesquisadores e a Associação, o rapaz do rio Juruá, como era evidente, foi o preferido para

a realização da obra. O dono da colocação onde a base estava construída, no entanto, não

aceitou. Ele tinha sido um dos candidatos na chapa da Associação que tinha perdido a

eleição em 1999.

Inicialmente, o morador não permitiu que as madeiras e as palhas fossem retiradas

das proximidades, consideradas como área pertencente à sua colocação. O coordenador de

campo sugeriu que o material fosse obtido da colocação de outra família, justamente aquela

acusada de ser, anos atrás, chaleira dos patrões. O argumento do coordenador de campo era

de que as duas famílias (do dono da colocação e da outra) poderiam juntas fazer o serviço

de retirada das madeiras e das palhas, e, dessa forma, ambas seriam favorecidas com os

recursos. Todos sabiam que aquilo era retórica e que não seria factível. Alguns pagamentos

foram realizados mas, ao final, a obra nunca pode ser feita.


275
Chateado por ver o trabalho perdido, o rapaz do Juruá dizia que, por ele, o caso

seria levado à justiça. A diretoria da Associação, de fato, fez reclamações ao Ibama e o

responsável do órgão federal passou mensagens por rádios de que a base de pesquisa

também pertencia ao Ibama, e que um morador não podia impedir seu melhoramento. O

órgão ameaçou até forçar a realização da obra, dizendo que traria policiais para proteger os

trabalhadores. No início, quando fui avisada das desavenças, nem cheguei a levar a sério

porque, até então, eu nunca tinha visto ninguém do órgão federal ocupar-se do assunto das

pesquisas na Reserva156.

Para ter evitado aquela confusão eu tinha de ter percebido que o início da década de

2000 era justamente o momento em que o prefeito começava a ter maior atuação na região

da Restauração, oferecendo tratamento especial justamente aos parentes daquela família

que morava próxima à base, antes atuante na Associação, e então desprezada pela nova

diretoria. Também deveria saber que o representante do Ibama, que eu sabia ser de grupo

que fazia oposição ao PMDB, estivesse percebendo a movimentação política local, e

estava, muito provavelmente, menos preocupado com os cupins da base de pesquisa do que

com a crescente ascensão do prefeito do PMDB na região.

Quando finalmente a Associação fez a notificação do caso aos pesquisadores, a

conversa era que o dono da colocação, desafeto da diretoria, tinha até prometido tiros a

quem aparecesse para fazer a tal reforma. Posteriormente, o dono da colocação, teria

discordado da vinda de gente de fora para “tirar o trabalho de gente daqui”.

156
O órgão apenas cuidava inicialmente das autorizações dos pesquisadores, o que era sempre
resolvido burocraticamente no escritório em Cruzeiro do Sul.
276
Ao final, a reforma da base foi definitivamente abandonada. Conforme o rapaz do

rio Juruá, o motivo da confusão não era o fato de que ele era um morador do Juruá que iria

tirar o trabalho de moradores do Tejo. Eles eram primos. Tudo não passava de

“politicagem”.

Em 2003, repensando sobre minha participação no projeto, a impressão foi que, no

projeto anterior, que terminara em 1998, a participação dos monitores e os treinamentos

tinham sido melhores. Inicialmente, não sem uma dose de romantismo, imputei a mudança

ao fato de que no projeto anterior, os monitores eram voluntários, e isso tornaria a atividade

mais ligada a valores emocionais ou intelectuais. No projeto seguinte, por causa do

pagamento das bolsas, a relação passava a ser intermediada por outras motivações, mais

racionais e imediatistas.

Somente em 2008, porém, quando pude participar de um treinamento realizado com

praticamente os mesmos monitores, já sem nenhuma relação com a Associação, é que

novamente achei que havia uma sensação semelhante àquela dos treinamentos do projeto

anterior. Parecia haver voltado à mesma sensação de curiosidade e amizade dos monitores

com os pesquisadores, impressão que parecia ser compartilhada por muitos outros.

Retrospectivamente, logo no início do projeto em convênio a Associação, o

professor Almeida já comentara sobre a desconfiança de que algumas pessoas poderiam

“ignorar” o projeto, por causa da Associação. E o termo ignorar, ali, significava desprezar

(que é oposto a “punir”: se importar, se interessar). Eu imaginei que alguns monitores,

descontentes com a nova diretoria, poderiam deixar de participar do projeto. Mas como no
277
primeiro treinamento todos os monitores que já vinham trabalhando antes compareceram,

deixei de me preocupar com o assunto. Porém, logo ao final desse mesmo treinamento, uma

monitora veio me dizer que só voltaria a freqüentar um treinamento quando ele deixasse de

ser “da Associação”. Na época, sabia que havia questões pessoais da monitora com o

diretor da Associação. Também sabia que, como a diretoria não mostrava nenhum interesse

em participar das conversas de conteúdo do projeto, ela não iria se interessar, na prática,

pelas atividades, e não levei a sério a reclamação. Tempos depois, um monitor veio dizer

que não entendia por que os treinamentos, que antes eram “do Projeto”, passaram a ser “da

Associação”. Ainda que, de modo geral, tudo continuasse como antes, com pesquisadores

dando aulas, fazendo atividades na mata com os monitores, com membros da Associação

que por vezes vinham somente para fazer alguma fala mas não ficavam para as atividades.

Os monitores “preenchiam” cadernos, como diziam, iam aos treinamentos, mas a

Associação incomodava, e os treinamentos passaram a ser pouco envolventes, como se as

pessoas mais velhas, aquelas que eram as grandes incentivadoras da Associação e da

Reserva, estivessem ali somente de forma burocrática, por formalidade, para ver se alguma

coisa daria errado.

Ao final do projeto percebi, finalmente, que a minha expectativa de promover a

formação dos monitores ambientais e sociais e apoiar a entidade Associação, e não as

pessoas da Associação, havia mesmo sido uma ingenuidade. O “projeto de pesquisa”, ou

seja, os pesquisadores, em especial os que fizeram mais treinamentos e os que precisaram

conviver mais diariamente com a Associação, a meu ver, acabaram deixando uma imagem

política dúbia, o que, em muitos casos, fez com que relações de confiança construídas ao
278
longo de vários anos ficassem estremecidas, cuidadosas. Anos depois, quando aquela

diretoria da Associação, com pouquíssimos recursos, já estava bem desacreditada, outros

projetos de pesquisa, que mantinham atividades com os monitores ainda continuavam.

Talvez por isso que, naquela reunião em 2008, não havia dúvidas de que a confiança entre

os pesquisadores e os monitores estava, novamente, restabelecida.

4.5.5 - Dificuldades da administração

Como foi demonstrado acima, várias vezes não fui tão democrática quanto

esperava, ignorando decisões de reuniões da diretoria da Associação, que pelo menos em

princípio, eram feitas dentro das formalidades democráticas. Era claro que decisões como a

de só contratar pilotos que morassem dentro da Reserva, ou de expulsar um monitor da

equipe, eram políticas e não técnicas. Mas se eu queria algo democrático, eu estava no reino

da política, então deveria respeitar as decisões políticas - isto é - apoiar um grupo e não

outro. Mas, por acreditar estar defendendo a neutralidade das atividades do projeto de

pesquisa dentro do espectro político local, eu ignorava algumas decisões de reuniões da

Associação. Como é fácil notar, minha atitude não tinha nada de neutra. Eu também tinha

minhas posições, eu mesma preferia, para co-gerir a Reserva, o grupo que ficara de fora da

diretoria da Associação em 1999.

Nesses anos, também entraram novos monitores na equipe, e nem todos faziam

parte do grupo que eu mesma apoiava. Isso já me parecia ser um belo exemplo daquela

pretensa neutralidade. Isso, contudo, era só uma parte da história, pois na prática também

279
era uma espécie de concessão que eu fazia para a Associação. Eu aceitava monitores que

ela sugeria, mesmo que eles não fossem por demais aplicados ou interessados, eles

recebiam as bolsas, e eu continuava dando apoio aos que a Associação repelia.

Minha outra expectativa inicial era ter transparência na gestão dos recursos. Minha

proposta era fazer apresentações aos monitores, de modo acessível, de todas as prestações

de conta do projeto, para que eles também pudessem controlar e dar palpites sobre os gastos

dos recursos públicos. Já havia um histórico de reclamações de outros projetos em que a

maior parte dos recursos acabava ficando com as pessoas de fora e não com as pessoas da

Reserva. Mostrar os gastos do projeto com transparência, o que me parecia ser algo

simples, entretanto, se mostrou bastante complexo.

A primeira dificuldade era que trabalhar com orçamento previamente estabelecido,

é praticamente impossível, especialmente naqueles lugares onde o “imprevisto” parece ser a

regra, como dizia o professor Keith Brown. A realidade fazia questão de atrapalhar

freqüentemente os planejamentos iniciais. Em segundo lugar, a burocracia para fazer uma

modificação no orçamento - como transferir um recurso para compra de material para pagar

o serviço de um conserto de motor que quebrou - precisava de uma aprovação prévia do

órgão financiador. Mas quem está com o motor quebrado na beira do rio não pode esperar,

paga como puder e depois tenta ser ressarcido. Ressarcimentos são proibidos nesses

projetos. Isso quer dizer que eu, bem como outros pesquisadores, oficialmente, recebi muito

mais pagamentos de diárias do que de fato ocorreu. Quase todos, com suas diárias,

compraram patos ou galinhas para treinamentos, pagaram pequenos consertos de mecânicos

amadores na beira do rio, ou pagaram gasolina para um monitor voltar à sua casa.
280
O ideal seria eu fazer uma apresentação, pelo menos aos monitores, desse gasto real,

mas já eram tão trabalhosas as prestações de contas oficiais que eu nunca consegui ter o

controle dos valores que efetivamente ficaram com os pesquisadores e quanto permaneceu

no interior da Reserva. Mas sei que, em algumas viagens, pesquisadores acabaram gastando

(em termos financeiros) mais do que recebiam.

Em 2003, já ao final da minha participação no projeto, num período em que a

Associação estava particularmente com dificuldades financeiras, nova reunião da diretoria

foi feita e, sem nenhum aviso, meu nome foi retirado da administração do projeto e os

cheques passaram a ser assinados somente pelo tesoureiro da Associação. Quando os

pesquisadores ficaram sabendo, viagens foram feitas às pressas para novas reuniões da

coordenação com a diretoria da Associação em Cruzeiro do Sul, e o arranjo anterior foi

restabelecido. Nesse período, já aumentavam os gastos feitos em Campinas, visando a

organização do material produzido pelos monitores para possível publicação, e eu, na

prática, já me preocupava menos com informar para a Associação os detalhes desses gastos.

Minhas expectativas anteriores de transparência e democratização da administração

conjunta estavam muito prejudicadas.

Como é possível perceber, o projeto, que tinha por objetivo estabelecer um

convênio formalizado para a troca de conhecimentos entre a academia e a população

florestal acabou sendo, para mim, um grande aprendizado sobre o funcionamento da

política local. Menos envolvida com as questões intelectuais e mais com as administrativas,

o projeto que era para ser um convênio de colaboração entre Universidade e uma

organização popular, acabou sendo, para mim, uma contenda entre pesquisadores e a
281
Associação e nossas divergências políticas. E, contra minhas pretensões, mais um item no

interior das redes que se enfrentavam na política local.

Além da pretensão de uma administração participativa e transparente, eu também

esperava capacitar as pessoas da Associação a fazerem o mesmo. Os membros da diretoria

da Associação, em nenhum momento no entanto, acharam que deveriam aprender os

trâmites da prestação de contas. Ninguém se interessou por aprender a usar o computador,

nem a internet, nem perceber as vantagens dos programas para a prestação de contas.

Deixavam tudo por conta da secretária paga pelo projeto e para o contador. Talvez a

diretoria até estivesse correta, afinal, quem quer fazer política não pode gastar o tempo em

meio a notas fiscais e recibos. Mas, desse modo, a Associação ficava na dependência de

técnicos que, por vezes, nem sempre a própria diretoria conseguia controlar.

4.5.6 - Resultados inesperados

Apesar das frustrações, o projeto - que teve uma duração de cinco anos e gastou

cerca de 300 mil reais - também teve alguns resultados interessantes. Para lembrar a

proposta inicial do projeto, o objetivo maior era criar um diálogo entre o conhecimento

local e o acadêmico voltado para a criação de métodos de monitoramento social e

ambiental, em suma, permitindo a população controlar a situação da Reserva, com um

conhecimento capaz de dialogar com o conhecimento produzido nas Universidades.

282
Um dos resultados, nesse sentido, foi a possibilidade de desenvolver talentos dos

mais variados entre os monitores157, e criar parcerias entre alguns monitores e

pesquisadores que perduram até hoje158. Do ponto de vista acadêmico, biólogos parecem

ainda não ter confiança que caçadores possam fazer o controle de primatas e outros

animais, mas há ainda grande espaço de pesquisa a partir do conhecimento produzido por

esses moradores da floresta.

Particularmente, a experiência obrigou-me pensar nas limitações de atividades que

eu pretendia neutras num local e tempo em que a política era parte fundamental da vida

cotidiana. Nesse percurso, minha impressão passou a ser de que quase qualquer ação ligada

ao projeto seria, de algum modo, interpretada a partir dos parâmetros da política local: ou

eu estava apoiando pessoas e famílias ligadas à Associação ou aquelas da oposição. Em

princípio, para mim, as pessoas da oposição representavam o movimento histórico pela

criação da Reserva, pela cooperativa e pelo controle ambiental, e como vinham sendo

alijadas das discussões pela nova Associação, era até simpático tomar certas atitudes que as

favorecessem. Mais tarde, porém, a aliança com essas pessoas também podia ser

157
Um exemplo é a publicação do livro Histórias de um matuto da floresta, com textos de Raimundo
Farias Ramos, um monitor do rio Bagé, também conhecido por Caboré (Ramos, 2004). Vale dizer que o nome
do livro foi uma exigência do próprio autor. Conforme o Houauiss, o termo matuto pode significar tanto
“caipira, roceiro”, quem tem “rusticidade de espírito”, quanto “indivíduo dado a matutar”, ou seja, “pensar
demoradamente sobre algo, meditar, refletir”. Quem o Caboré sabe que a segunda acepção é a que melhor o
definiria.
158
O Atlas Histórico do Rio Bagé, é um dos exemplos dessa parceria, produzido pelo antropólogo
Augusto Postigo em conjunto com dois monitores: Antonio B. de Melo (o Roxo) e Raimundo Farias Ramos
(ver Melo et alii, 2007). Teses de mestrado, como a de Rossano Marchetti Ramos, defendida na USP em
2005: “Estratégia de caça e uso de fauna na Reserva Extrativista no Alto Juruá – Acre” foi um dos trabalhos
em que foi utilizado o material produzido pelos monitores. Também há um artigo sobre as anotações da
monitora Ivanilde de Luna (Pantoja, 1997) e outro assinado por Antonio Barbosa de Melo, o Roxo, Mauro W.
B. de Almeida e Elionore Setz para o Congresso de Etnobiologia de Feira de Santana. Uma primeira coletânea
de pequenos textos de monitores está apresentada em Souza et alii, 2004.
283
interpretada, e de fato o era, como favorecimento aos que estavam sob influência cada vez

crescente da Prefeitura no interior da Reserva, e isso deixava tudo confuso, principalmente

porque era evidente que muitas das propostas estabelecidas com a Reserva Extrativista não

se combinavam com os interesses da Prefeitura. E o projeto de pesquisa e os pesquisadores

tinham, por objetivo, afinal, justamente o bom andamento das propostas da Reserva

Extrativista.

Como a principal preocupação da diretoria da Associação era, então, o controle da

Prefeitura, e a preocupação do prefeito era impedir esse controle, nesse segundo momento

já não havia motivos para a tomada de posição. Mas, minha impressão era que eu, embora

tentasse, não conseguia achar um muro em que pudesse subir. Claro que havia moradores

da Reserva que faziam questão em não se envolver em nada do que se passava entre as duas

principais forças oponentes locais, mas eram pessoas que também não queriam participar

dos projetos, o que me parecia minoria.

A partir deste projeto, minha percepção era de que, em determinados lugares e em

certos períodos, as disputas políticas preenchiam todos os espaços, e não havia

possibilidade de neutralidade.

Assim, conhecer a política local era fundamental para evitar atitudes que podem

atrapalhar de modo muito contundente as propostas iniciais de quem pretende atuar na

região. Por último, vale dizer que a maior parte dos monitores ainda continua, até hoje

fazendo diários voluntariamente, mesmo que o acompanhamento de pesquisadores ocorra

de forma descontínua.

284
4.7 - O projeto de saneamento - governo, Prefeitura e a Associação

Em 2002, numa entrevista com o prefeito de Thaumaturgo, ele já antecipava o

fracasso de um projeto piloto do governo estadual (então um forte inimigo político) para

saneamento básico, que previa a construção de cacimbas de água e banheiros em diversas

casas na Reserva.

Conforme dados do Projeto de Saúde realizado na Reserva, as doenças mais comuns

eram diarréias e verminoses, causadas pela qualidade da água e condições de saneamento

(Pantoja & Barbin, 1998). Conforme dados dos questionários realizados em 1995, somente

8% das residências utilizavam filtros para água e 87% da população usava a própria mata

como banheiro (idem). Após esse período, e com forte atuação dos agentes de saúde,

muitas famílias construíram pequenas fossas, mas ainda havia muitos que usavam a mata.

Soluções simples como a construção de cacimbas fechadas - buracos feitos em minas

d’água cercados e cobertos com tampas - e fossas sanitárias para uso como banheiros já

poderiam trazer melhorias muito significativas para a saúde local.

Assim, em 2002, o governo estadual estabeleceu um convênio com a ASAREAJ

para realização de um projeto de saneamento que atenderia uma parte da população, de

modo piloto. O projeto tinha uma proposta interessante: o governo seria responsável pela

execução e a Associação, através de moradores escolhidos localmente, faria a fiscalização

da obra. Para o prefeito, entretanto, o projeto era “inexeqüível”. Conforme ele, a Prefeitura

tinha grande “know how” no assunto, mas o governo estadual sequer a tinha consultado. Ele

sabia, por isso, que o governo e a Associação iriam “quebrar a cara” com o projeto.

285
De fato, o projeto estadual acabou tendo resultados quase insignificantes, sem

resultar em melhorias locais, e nem em ganhos políticos para o governo do PT, que

procurava projeção local.

Naqueles dias, porém, a diretoria da Associação já estava dividida politicamente, e

bem mais distante do PT do que se imaginava, embora muitos não tivessem ainda

percebido, já que as opções nem sempre eram abertamente expressas. Após as decepções da

eleição de 2000, membros da diretoria, de forma nem sempre declarada, faziam alianças

com membros de diferentes partidos em busca de apoio. E, pelas rápidas conversas que tive

com os responsáveis do estado pelo projeto, nem o próprio governo estadual tinha notado.

Com apoio da Associação, foi contratado um amigo da diretoria da Associação para

a “empeleita”, ou seja, para a construção das cacimbas e banheiros na Reserva. Uma pessoa

que, evidentemente, não tinha nenhuma preocupação em fazer propaganda positiva para o

governo estadual, do mesmo modo que a diretoria da Associação. Além disso, alguns

empregados contratados para a construção eram parentes do próprio presidente da

Associação.

Os fiscais escolhidos localmente para acompanhar as obras eram voluntários, e

deveriam deixar de fazer seus trabalhos, e irem de canoa ou a pé às casas escolhidas para o

início do projeto, por conta própria, para depois relatar à Associação os problemas

observados.

Quando eu cheguei na Reserva, as obras estavam em andamento, e os comentários

sobre seus problemas aconteciam na maioria dos lugares. Várias cacimbas, na grande

maioria dos casos, tinham sido feitas em lugar ou de modo inadequado. Uma que vi minava
286
uma água escura e turva, outra estava simplesmente seca. Especulava-se sobre o dinheiro

que o empeleitante tinha recebido pela obra. Alguns sabiam o valor correto. A maioria

podia perceber que os gastos não eram compatíveis com a receita.

Por acaso, na Foz do Tejo, fiquei hospedada na mesma casa em que estava um rapaz

da cidade que, após denúncias, tinha sido indicado pela Associação para fazer uma

avaliação geral da obra. Ele era parente do empeleitante.

Quando lhe perguntei sobre sua opinião sobre os problemas das cacimbas, ele

rapidamente começou a me dizer que a população não tinha condições de dar valor àquilo

que estava sendo feito, que ela não contribuía porque tinha um apego aos seus antigos

hábitos e valores, sem perceber as vantagens do saneamento. Sua opinião vinha diretamente

de Cruzeiro do Sul, pois ele, até então, nunca tinha estado na área e não tinha visitado

nenhuma das cacimbas.

A Associação, em defesa do empeleitante, dizia que os gastos permitidos pelo

projeto não era suficientes, e culpavam o governo estadual.

Como explicar a aceitação dessa situação por parte dos fiscais e dos moradores dos

locais onde o trabalho estava mal feito?

Uma hipótese era que, aqueles que teriam em suas casas as cacimbas ou banheiros,

ainda que descontentes com o resultado, tinham sido escolhidos pela Associação,

obviamente, seus aliados. Eram pessoas que só há pouco tempo participavam da vida

política da Associação, geralmente depois de 1999. Estavam assumindo um apoio a um

grupo que, naquele momento, estava com poucos recursos. Por esse apoio, eram preteridas

pela Prefeitura, cada vez mais presente na região. Havia as reclamações, mas elas não se
287
efetivaram num real boicote às obras nem uma reclamação direta ao governo estadual, que

pouco atuava localmente. O morador da floresta, como dito várias vezes, tem possibilidades

de acesso a recursos que o tornam relativamente independente. No caso em questão, ele

poderia ter uma cacimba, nova ou velha, poderia usar a água de uma nascente próxima, um

igarapé ou mesmo poderia fazer sua própria fossa ou cacimba fechada. Assim, talvez se

possa pensar que, nesse contexto, pequenos delitos da diretoria, ou de seus aliados,

poderiam ser facilmente perdoados.

Talvez o principal problema tenha sido, como disse o prefeito, falta de “know how”

do governo, mas não quanto ao regime de águas da região, mas em relação à sua

peculiaridade política.

4.8 - Técnica, neutralidade, política

Como demonstrado acima, com o objetivo de promover novas formas de

desenvolvimento na Reserva Extrativista do Alto Juruá, foram realizados vários projetos,

na área comercial, ambiental, educacional, de qualidade de vida, dentre outros. Para pensar

o cumprimento ou não desses projetos, é necessário relacioná-los com a vida política local,

em seus diferentes níveis.

Nos estudos para o Zoneamento Ecológico Econômico do Acre (ZEE) foi feito um

levantamento sobre os conflitos envolvendo questões ambientais em todo o estado. No

documento concluía-se que, dentre outras soluções, os conflitos eram resolvidos de maneira

mais fácil quando a população era mais organizada (Acre, 2002, vol. II, p. 282).
288
O governo estadual, que se intitulava o “governo da floresta”, ao final do primeiro

mandato, porém, já começava a pensar de modo diferente sobre a organização da

população, conforme demonstravam as idéias defendidas por Carlos Vicente, então

secretário responsável pela produção florestal, numa reunião realizada em 2002 com Mauro

W. B. de Almeida, e que eu pude estar presente.

Nessa reunião, o secretário comentava sobre as ações do governo na região do vale

do Juruá. Na época havia recursos externos já aprovados para um grande projeto para

desenvolvimento de produtos alternativos para o rio Juruá. Mas a experiência, após

algumas tentativas de trabalhar com as associações e sindicatos, aconselhava que o

governo, ao contrário das análises anteriores do ZEE, evitasse trabalhar com aquelas

populações que tinham maior histórico de organização. Assim, o tal novo projeto seria

realizado justamente em locais em que não eram conhecidas experiências de projetos

anteriores. O objetivo era trabalhar dentro de um “cooperativismo” que fosse “novo”.

Queriam algo que desse certo, e por isso precisavam ter cuidado para não entrar nas brigas

internas. Partia-se, portanto, na busca de uma espécie de lugares virgens de disputas

políticas159.

Ao final, não ouvi mais falar no projeto. Talvez nunca encontraram esse tal lugar.

159
Formado em MBA no exterior, minha impressão é que o secretário, assim como muitos outros,
sonha com o dia em que a administração pública se transformará numa administração empresarial, onde se
pode agir como se não existisse a política. Esquecem que isso só pode ocorrer no interior de uma empresa -
mesmo assim com dificuldades - onde a estrutura hierárquica, absoluta, pode, simplesmente, dispensar
desafetos.
289
Ao estudar os grandes projetos realizados em Lesotho, na África, James Fergusson,

fez uma análise dos discursos dos membros desses projetos, mostrando que eles constroem

uma idéia de um país cujos problemas são justamente aqueles que serão resolvidos com os

projetos. Assim, quem tem um projeto para “desenvolvimento” define o país como

“subdesenvolvido”, e não é feita uma análise sobre quais seriam, afinal, as causas desse

desenvolvimento. Como afirma o autor, as “causas da pobreza políticas e estruturais em

Lesotho são sistematicamente apagadas ou trocadas por causas técnicas" (1990:66). Os

problemas seriam, então, pretensamente resolvidos não pelos políticos, mas pela

intervenção externa, que é uma intervenção padronizada, exportada de um país para outro

(1990: 70), uma intervenção “técnica, apolítica" (1990:69).

No Juruá, como visto acima, minha interpretação era de que, ao contrário, era muito

difícil realizar alguma atividade na área de desenvolvimento que não fosse rapidamente

interpretada em termos da política local.

Qualquer que fosse o técnico que por lá aparecesse para realizar algum tipo de

atividade seria rapidamente enlaçado dentro das redes locais, que os ligavam a

determinados grupos políticos, na maioria das vezes sem nem saber quais eram os grupos

existentes.

290
4.8.1 - Novos projetos e o novo clientelismo

Autores recentes demonstram como membros de projetos de desenvolvimento

podem recriar antigas formas políticas assistencialistas ou clientelistas “modernas”, como

afirmado, por exemplo, por Philippe Léna (2002).

Uma vez, em Cruzeiro do Sul, dei dinheiro para uma pessoa da Reserva que estava

em viagem, não lembro mais por qual motivo, como já tinha feito outras várias vezes.

Fiquei questionando, depois, com receio de reproduzir que meu orientador afirmava, meio

sério, meio de brincadeira, sobre o “assistencialismo paralelo”. Eu não precisava de votos,

nem de passar por uma eleição para realizar o trabalho que queria. Mas eu sabia que, apesar

disso, se eu quisesse fazer algo naquela região, eu iria precisar de apoios.

Os recursos dos projetos nunca eram para todos. Eu me contentava com a idéia de

que os beneficiários dos projetos, todos eles, eram em parte sugeridos pela Associação e em

parte escolhidos por motivos “técnicos”. Ou seja, uma democrática e técnica.

Por outro lado, lembrava da distribuição de bens realizada em Marechal

Thaumaturgo durante a eleição do governo estadual de 1998, como relatado acima. Os

beneficiados seriam os que entraram no “cadastro” feito dias antes em algumas regiões da

Reserva, por um antigo patrão local, César Messias, mais tarde deputado federal. Ou seja,

uma decisão política clientelista.

Hoje não percebo, na verdade, grande diferença.

A Associação também escolhia como recebedores de suas ações políticas aqueles

que iam a assembléias, participavam das cantinas, denunciavam os que não cumpriam as

291
regras do Plano de Uso. Já a nova diretoria da Associação, depois de 1999, escolhia seus

contrários.

Os patrões elegiam para seus favoritos, provavelmente, os seringueiros mais

produtivos e os mais leais, alguns dos quais também podiam contar como possíveis

“chaleiras”, aqueles que poderiam denunciar os que estivessem vendendo borracha para

comerciantes clandestinos ou outros patrões.

O Sindicato, o Conselho Nacional dos Seringueiros, preferia os que tinham um

histórico de oposição aos patrões.

Os pesquisadores, mais tarde, davam preferência àqueles com maior envolvimento

no movimento social, ou então os mais curiosos, estudiosos, ou aplicados. Esses recebiam

visitas, aulas, bolsas, viagens, atenção. Um dos monitores, por exemplo, acabou

trabalhando de forma integral como auxiliar de pesquisadores, na capital.

Um dos problemas nessa seleção era que o monitoramento deveria ser feito em

lugares que cobrissem a maior área possível na Reserva. Mas eram os moradores do rio

Tejo e seus afluentes os que mais se interessavam. No rio Juruá, foram feitas várias viagens

que também pretendiam encontrar novos monitores, vários iniciaram mas foram poucos

desses que se aplicaram à atividade. Já no rio Tejo, não era possível aceitar todos os que

solicitavam entrar na equipe, pois monitores existentes já forneciam informação suficiente.

É claro que o interesse intelectual não estava ligado à composição das águas do rio Tejo.

Eram anos de relações mais intensas de pesquisadores naquela região, com várias outras

atividades em conjunto. No rio Juruá, relativamente a seu tamanho, havia menos pesquisas,

292
menos atividade política da Associação, menos cantinas. Não havia seringueiros, e os

fazendeiros também atuavam como comerciantes e empregavam outras famílias.

Uma vez, conversando com o responsável pelo CNPT em Rio Branco ele dizia

como admirava os moradores das Reservas Extrativistas que ainda preservavam uma

“cultura extrativista”. Ele dava exemplo dos líderes que não se preocupavam com as

disputas políticas partidárias, e que logo que acabavam as reuniões, corriam para suas

colocações, pois não gostavam das cidades e preferiam a vida na floresta. Eram seus

favoritos.

O engenheiro que fazia vários trabalhos no Alto Juruá uma vez relatou que trouxe

várias mudas de limão para serem plantadas na Reserva. Todos pediam mudas. Uns

cuidaram, e, após quatro anos, já estavam com suas árvores na terceira safra. Outros nunca

cuidaram. Ele falava que algumas famílias eram mais caprichosas. "Tem gente que tem

aquela paixão", dizia, gente que vai ver na horta o resultado, que anda na estrada de seringa

já imaginando o aspecto final da FDL que será produzida. Outros ficam pensando na

qualidade da farinha, no melhor tipo da peneira, são os que fazem com gosto. Um semeia,

fica na ansiedade, vai ver todo dia, vai ver se vai dar o tamanho. Outros nem vêem se

brotou. Outros têm aquele carinho em plantar. São caprichosos e se dedicam pela própria

causa.

Como diz o engenheiro, a gente de fora influencia. Muitos aceitam e mudam.

Outros não. Um exemplo é o jirau [utilizado para lavar a louça, sendo que alguns são até

cercados com rede para evitar que animais se aproximem]. Uns têm cerca para evitar o

porco embaixo da casa [que fuça o solo abrindo buracos e formando lama no terreiro da
293
casa]. Uns têm galinheiro limpo. Na opinião do engenheiro, isso era influência externa, que

as pessoas aceitam. Têm outros que se estagnaram, no seu compartimento social, na

família, na moral. Enfim, conclui o rapaz, “cada cabeça uma sentença”.

O INCRA, como dizia os moradores do Amônia, só concede créditos para os “bons”

assentados, aqueles que “têm coragem de trabalhar”, ou seja, os que mais destruíam a

floresta. O Sebrae, na época das reuniões que acompanhei em Brasiléia, queria que as

pessoas fossem trabalhadoras, “empreendedoras”. As duas entidades, por fim, defendiam

claramente aqueles que não se interessavam pelas questões ambientais pois, como era

evidente, só há floresta porque os moradores das florestas não eram, até então, os

empreendedores da agricultura e pecuária que aqueles órgãos esperavam.

Essas escolhas e opiniões sobre com quem se prefere trabalhar, escolhas que

pretendem ser “neutras” ou “técnicas”, como é possível notar, carregam também propostas

de vida, ou até opções políticas.

As ações de órgãos e projetos, desse ponto de vista, não são para todos. São para

algumas pessoas. Essas pessoas podem ser escolhidas em reuniões locais, pela entidade

representativa, por políticos profissionais, por técnicos de projetos. Podem ser escolhidas

por critérios políticos ou técnicos. Mas é realmente possível distinguir esses critérios160?

Mesmo se fosse possível encontrar apenas critérios técnicos para escolher essa ou aquela

pessoa, a mesma interpretação seria aceita pelos que ficaram de fora?

160
Refiro-me aqui a todos os casos em que não há concursos públicos legalmente estabelecidos,
baseado em provas, como acontece, mais recentemente, com os professores e novos agentes de saúde
comunitários.
294
Sob esse ponto de vista, o único projeto que chegou ao Alto Juruá que, em minha

opinião, podia ser considerado politicamente neutro, e que tem como resultado a melhoria

da renda dos menos favorecidos economicamente, é o programa de bolsas do governo

federal. Ainda que muito se fale sobre o aspecto assistencialista e eleitoreiro dessas bolsas,

ali, no Alto Juruá, são justamente os programas que não podem ser politizados.

Simplesmente porque não há negociação, não há disputas, não há preferências. É

praticamente para todos. São quase todas as famílias com filhos pequenos, com exceção

dos assalariados, que recebem; são todas as mães, também não assalariadas, que podem

obter o auxílio-maternidade, bem como bolsa-gás e outros auxílios.

Esses diferentes programas federais, porém, também tiveram outra conseqüência,

novamente, econômica, política e ambiental: tornaram democrática a criação de gado na

Reserva Extrativista, o que discutirei a seguir.

4.9 - Desenvolvimento, autonomia e dependência

4.9.1 - O velho desenvolvimento: a pecuária para todos

Houve alguns projetos realizados na região para a comercialização de produtos

alternativos, como óleo de copaíba e de murmuru, mas ainda não se tornaram uma opção

efetiva para a obtenção de recursos financeiros. Assim, a estratégia mais comum dos

moradores, com os novos recursos acessíveis na região, vem sendo um aumento na

agricultura e a criação de gado extensivo para comercialização, esta última, em especial,


295
com conseqüências ambientais ainda pouco analisadas, ambas as estratégias que põem em

cheque, obviamente, o próprio conceito do “extrativismo” das Reservas Extrativistas161.

São várias as motivações dos moradores da Reserva para a criação de gado. Há

relativa disponibilidade de terras para formação de pastos e, além disso, o gado é

alimentado com capim e sal, ambos de baixo custo. Após a abertura da área de pasto e

plantio do capim, normalmente apenas uma pessoa da família, geralmente o chefe ou um

filho rapaz, é responsável pela criação, podendo ainda dedicar-se paralelamente a outras

atividades.

Vale dizer também que uma casa com seu terreiro cercado por um campo de gado é

sempre considerado um lugar bonito, em oposição a um lugar “esquisito”, assim

qualificado quando a floresta está muito próxima à residência162. Além da beleza, o gado

também pode ser associado à limpeza. Como disse um jovem morador do rio Arara, o

pessoal acha que a criação de gado é “mais decente”, pois é limpo, sendo o próprio gado

que “zela” pelo pasto.

Como discutido anteriormente (Costa, 2000), o crescimento da pecuária nas

pequenas propriedades ocorre em muitos lugares do estado do Acre e, apesar dos baixos

preços alcançados com a venda dos animais, geralmente feita para marchantes que vendem

aos fazendeiros mais próximos às cidades, o mercado do gado ainda é garantido e,

161
Vale lembrar que a economia baseada no extrativismo das seringueiras e castanhas nativas, ao
lado da pequena agricultura e criação foi fundamental para que, em 1999, 90% das florestas do estado do
Acre ainda fossem consideradas preservadas (Acre, 2000, vol. I). O aumento da pecuária, em especial nas
Reservas Extrativistas, tem sido uma constante preocupação no estado. Ver por exemplo, Gomes (2008).
162
A base de pesquisa, apesar de ser construída com madeira serrada, ter telas de plástico nas
janelas, bomba d’água, rádio amador, luxos que não existiam em nenhum outro lugar, ainda era considerado
um lugar “esquisito” por ter sido construída mantendo-se a floresta em seu entorno, somente a poucos metros
de distância.
296
conforme o Zoneamento Ecológico e Econômico do Estado do Acre, ainda não existe

motivação que supere a contradição entre investimentos na melhoria do meio ambiente e a

eficiência da pecuária (Acre, 2000: 116).163.

Do ponto de vista econômico, como vários autores já demonstraram, o gado, para

pequenos produtores, é a “poupança de quatro patas”, sempre disponível para as despesas

emergenciais. Como será discutido a seguir, é importante estabelecer boas relações com

parentes, vizinhos e outros que podem contribuir com a “assistência” nos momentos

difíceis. Como era comum ouvir na Reserva, antes, o futuro dos meninos era a “faca da

seringa”. Agora, é o estudo, acredita-se de modo unânime. O gado, diferentemente, é um

investimento que não depende de ninguém. Do ponto de vista político, portanto, é o que

permite uma maior autonomia.

Levando em conta que em vários momentos de necessidade as famílias precisam

fazer longas viagens até Cruzeiro do Sul ou cidades maiores, e não há mais patrões para

socorrê-las com a “assistência”, o gado passou a ocupar um papel importante na vida local.

Não é difícil encontrar um comprador. Marchantes são vistos constantemente passando pelo

rio. A venda de uma novilha é suficiente para garantir viagem e estadia na cidade de uma

família por vários dias. Não à toa, em 1991, no Levantamento Socioeconômico, foi

registrado que 24,6% dos moradores tinham criação de gado. Em 1995, no questionário

163
Conforme comunicação em oficina sobre a função ambiental da Terra no Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre, realizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em 01/02/2002, disponível em
WWW.socioambiental.org.br.
297
realizado em 250 casas, 39,7% das famílias afirmaram possuir cabeças de gado. E, em

1998, em pesquisa realizada em 82 casas, 50% foram as residências que criavam gado164.

Nesse sentido, o econômico se confunde com o político, pois uma única cabeça de

gado permite à família, dependendo de sua posição política, não precisar “adular” políticos

para atender as suas necessidades emergenciais, como ouvi certa vez.

Como afirmado por Philippe Lena:

A população rural pobre (...) procura ainda inserir-se em redes clientelistas para usufruir os
benefícios oferecidos pelos patrões/ políticos; o fato de estar vinculado a uma rede leva não ao
reconhecimento social e ao isolamento. Esta falta de autonomia dificulta a criação de associações
realmente independentes, bem como a instauração de uma vida política democrática, que constituem
condições muitas vezes pressupostas pelos projetos de desenvolvimento. (Léna, 2002:9, grifos meus)

Há que se ter cuidado, porém, ao estabelecer a relação entre autonomia financeira e

dependência política, pois se pode reforçar a idéia já desgastada de que o clientelismo

político é resultado da pobreza. Pode ser, ou não. Só como exemplo, uma vez um morador

da Reserva estava cuidando de um problema de saúde em Rio Branco. Ali, passava

dificuldades de alimentação. Pedia apoio a diferentes pessoas. Em sua casa no rio Tejo,

mais de dez cabeças de gado repousavam tranquilamente no pasto.

Atualmente, é difícil encontrar uma família que não tenha duas ou três cabeças de

gado, ou mais, em suas casas165, é também fácil perceber que uma das grandes vantagens da

pecuária na região é ser a única opção de investimento que uma família pode fazer com os

164
Os dados de 1991 foram obtidos a partir do Levantamento Socioeconômico (Almeida &
Menezes, 1994), as informações de 1995 são provenientes do questionário realizado pelo projeto financiado
pela Fundação John D. and Catherine T. MacArthur (ver item 1.4.1) e a pesquisa de 1998 foi realizada com
recursos do Projeto financiado pelo Cifor (ver item 1.4.2). O resumo estatístico desses dados foi feita por
Mauro W. B. de Almeida.
165
Nos dados de 2002, de um total de 80 questionários válidos, a média encontrada foi de 5,1
cabeças de gado por família. O valor máximo declarado foi de 20 cabeças.
298
recursos agora acessíveis166. Mas não me parece nada evidente que, por causa dessa maior

autonomia em casos de necessidade, as pessoas deixaram de procurar manter relações com

políticos, membros da Associação, pesquisadores, etc., e que essas relações podem ser

expressas de várias maneiras, inclusive na forma de troca de favores.

166
Uma reflexão sobre o aumento de gado na Reserva Extrativista foi realizado em Pantoja, Costa &
Postigo (2009).
299
300
CAPÍTULO 5 - COTIDIANO, PARENTESCO, VIZINHANÇA E POLÍTICA

5.1 - Introdução

Neste capítulo, procuro mostrar aspectos do cotidiano no interior da Reserva

Extrativista do Alto Juruá evidenciando a presença da política na vida local, a partir das

redes que, tal como discutido por Latour (1994 e 2001) poderiam ser observadas a partir da

ligação, provisória ou não, de recursos, pessoas e idéias.

Essas redes são especialmente tornadas visíveis a partir da observação dos conflitos.

Como afirmou Joan Vincent (1987), essas disputas são capazes de tornar mais visíveis os

“fluxos organizados” existentes em áreas rurais. Com isso, conforme discutido por Marcos

Lanna (1995), também é possível ter uma idéia de como a micro e a macro política se

confundem no dia-a-dia167.

Para melhor compreender os conflitos locais, descrevo as mudanças ocorridas no rio

Amônia, rio de fronteira entre sede municipal, áreas protegidas e Terra Indígena.

Em seguida descrevo algumas características da vida local, salientando o cotidiano

das refeições, procurando mostrar como a simples obtenção da alimentação diária de uma

família pode fazê-la se relacionar com vários fatores naturais, sociais, mágicos e até

167
Essa tentativa de pensar o entrelaçamento da vida local com a política iniciou-se desde minha
primeira estadia na Reserva Extrativista, por isso, algumas situações descritas neste capítulo também já
estavam apresentadas em minha dissertação de mestrado (Costa,1998).
301
políticos, o que se tornou perceptível a partir de minhas próprias dificuldades em campo

para me adaptar a esses vários fatores.

Depois, procuro mostrar como a obtenção de outros recursos públicos, tanto os que

poderiam ser chamados de naturais (como área para pasto de animais ou madeiras-de-lei),

quanto os artificiais, (escolas e equipamentos públicos) se relaciona com a vida política

local.

Para isso, faço uma apresentação de pessoas que podem ser consideradas líderes

locais, que podem representar instituições e projetos e que também se tornam apoios a

idéias sobre as formas de desenvolvimento e o futuro local.

Procuro demonstrar como essas redes que unem recursos, pessoas locais e membros

de diferentes órgãos, estatais e não governamentais foram contribuindo para circunscrever

disputas locais e como essas disputas foram se tornando cada vez mais desiguais, num

processo em que as redes que poderiam representar interesses propriamente ligados à

criação da Reserva Extrativista (incluindo Associação, Ibama, pessoas e famílias que

participaram mais ativamente das lutas pela Reserva, regras consideradas conservacionistas

de uso de recursos, projetos de pesquisa, projetos de saúde) foram diminuindo cada vez

mais sua atuação, enquanto aumentavam os interesses ligados a outra idéia de política e

desenvolvimento (Prefeitura, INCRA, famílias de pequenos madeireiros, visão da floresta

como espaço de liberdade, visão produtivista, famílias sem histórico de participação nas

lutas políticas).

302
5.2 - O rio Amônia

Em 1994, minha primeira pesquisa na Reserva Extrativista, como dito acima, foi

nas margens do rio Amônia, que, conforme afirmavam na reunião em que os lugares dos

pesquisadores foram definidos, era um “rio de conflitos”. Não que em outros lugares da

Reserva reinasse alguma espécie de harmonia, mas no Amônia aquela observação era

especialmente contundente.

Por ser um lugar que sofria rápidas transformações, como explico a seguir, ali havia

muitos conflitos em relação àquilo que poderia ser considerado público, como acesso ao

território, recursos naturais e benefícios políticos. A maioria dos problemas se dava em

relação ao uso do espaço e seus recursos, especialmente em relação às técnicas de caça e

pesca e à invasão de animais de criação em roçados de vizinhos. Também eram constantes

as disputas em relação à obtenção de bens comunitários, como escola e casas-de-farinha.

Para poder melhor compreender alguns dos conflitos observados, faço a seguir um

breve histórico das mudanças recentes ocorridas nessa região e saliento alguns aspectos da

organização espacial local.

Em 1990, ao ser criada a Reserva Extrativista, definiu-se o rio Amônia como uma

das suas fronteiras. Assim a margem direita do rio (para quem desce) seria pertencente à

Reserva e a outra margem, como se podia ouvir, em 1994, era “terra de ninguém”.

Em 1992 foi criada a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, pertencente aos índios

Ashaninka, no alto rio, e várias famílias consideradas como não pertencentes ao grupo

303
Ashaninka saíram - não sem reclamar - da região. A maioria preferiu permanecer morando

no mesmo rio, a jusante da Terra Indígena, obrigando as famílias que ali já estavam a novos

arranjos locais168.

No mesmo ano, em 1992 foi criado o município de Marechal Thaumaturgo a partir

de área desmembrada de Cruzeiro do Sul. A sede do município foi escolhida exatamente na

fronteira da Reserva Extrativista, no entroncamento do rio Amônia com o rio Juruá, na

antiga Vila Thaumaturgo. Logo a política municipal tratou de atrair moradores para o local,

moradores que, para sobreviver, utilizavam as áreas do entorno (Reserva Extrativista,

Parque Nacional da Serra do Divisor e Terra Indígena Kampa) para abertura de roçados,

obtenção de caça, pesca e objetos para construção de casas como madeira e palhas.

Vale relembrar que durante a década anterior a margem esquerda do rio já tinha

sofrido uma grande retirada de madeiras-de-lei pelo então patrão-arrendatário Orleir

Cameli, como comentado acima, o que também aumentava a pressão por recursos

madeireiros no lado do rio onde é Reserva Extrativista.

Dois anos depois, em 1996, na área da margem do rio que era considerada como

“terra de ninguém”, foi criado o Projeto de Assentamento do Rio Amônia, dividindo a terra

em lotes de tamanhos variados, estabelecendo outras regras de uso e uma situação

completamente diferente da anterior, dentro de uma proposta sabidamente incompatível

168
Processo semelhante ocorreu no rio Bagé, afluente do baixo rio Tejo, com a criação da Terra
Indígena Jaminawa-Arara do rio Bagé. Relatos dos seringueiros sobre esse processo podem ser vistos em
Melo et al. (2007).
304
com o seu entorno de áreas protegidas, como o Parque Nacional, a Reserva Extrativista e a

Terra Indígena169.

Conforme minha contagem em 1994, subindo o rio, a partir da primeira casa em que

fui hospedada no médio Amônia até o limite da TI Ashaninka, havia 30 residências do lado

pertencente à Reserva e 12 do lado oposto. Essa população já era suficiente para relações

constantes de tensão entre vizinhos de ambos os lados. Em 2002, nesse mesmo trecho,

contei um aumento de 25% das residências do lado pertencente à Reserva Extrativista e, na

margem oposta, do lado do Assentamento, calculei um aumento de 82% na quantidade de

residências. Conforme a executora do INCRA em Cruzeiro do Sul170, em 2002 já existiriam,

em todo o Projeto de Assentamento, 204 famílias assentadas, levando em conta as duas

filas de lotes abertas ao longo de todo o rio até a fronteira com a TI171.

ano da pesquisa número de residências*


margem esquerda/ margem direita/
Reserva Extrativista “terra de ninguém”,
Projeto de Assentamento (a partir de 1996)
1991 27 -
1994 30 12
1997 33 29
2002 40 67
* Contado a partir da colocação Quieto até a fronteira com a Terra Indígena Kampa do rio Amônia
** Levantamento realizado por Maria Clara Di Piero (1991)

169
Atualmente é proibida a criação de Projetos de Assentamento na Amazônia com divisão de lotes,
tal como feito no rio Amônia, só sendo permitidas modalidades como Reservas Extrativistas e Projetos de
Assentamentos Agroextrativistas.
170
Entrevista realizada com a executora do INCRA Maria Eunice de Sá, em 01 de outubro de 2002.
171
Foram criadas duas filas de lotes de tamanhos variáveis, uma seguindo a margem do rio (a
primeira a ser ocupada) e outra no interior (chamada de “Fundiária”). Mais tarde foi construído um ramal que
ligava, em parte, os lotes da Fundiária à sede municipal. Inicialmente, também foi aberto um loteamento nas
margens de um dos afluentes do rio Amônia, o igarapé Timoteu, que adentrava os limites do Parque Nacional
da Serra do Divisor. Interessante que, na primeira vez que fui ao INCRA em Rio Branco, foi-me mostrado um
mapa onde constava essa parte do Assentamento. Pedi uma cópia do mapa que me mostraram, o que foi
prometido para o dia seguinte. Ao voltar, eles não puderam me fornecer a cópia, e ainda me mostraram outro
mapa, onde já não constava essa parte do Assentamento.
305
Famílias no rio Amônia*

80
70
Número de famílias

60
Reserva Extrativista
50
40
Projeto de
30
Assentamento
20
10
0
1991 1994 1997 2002
Ano da pesquisa

Como nas pesquisas anteriores eu nunca ouvira falar de nenhuma reivindicação por

terra na região, perguntei à executora do INCRA, quais eram os critérios para a definição

de uma área para criação de um Projeto de Assentamento. Conforme ela, isso viria da

solicitação “dos sindicatos, das classes sociais”. Antes, entretanto, o superintendente do

mesmo órgão na capital172, já havia comentado comigo que, na região de Cruzeiro do Sul,

não havia problemas fundiários, usando da tradicional frase de que, ali, havia muita terra

para pouca gente. Questionei-lhe, então, quais teriam sido os motivos para a criação de um

Projeto de Assentamento justamente na fronteira com três áreas federais protegidas. Ele

respondeu que o prefeito de Marechal Thaumaturgo o teria chamado e dito que, caso o tal

Assentamento não fosse criado, a cidade (recém emancipada) iria se acabar por falta de

habitantes.

172
Entrevista realizada com Aldenor F. de Souza, em 20 de julho de 2002.
306
O prefeito tinha receios de que, com a queda na borracha, o município que ele tinha

ajudado a criar, e que o elegera, não tivesse munícipes suficientes173.

Por último, a mais recente proposta no entorno do rio Amônia é a criação de uma

nova Terra Indígena, a TI Arara do rio Amônia, a partir da reivindicação de descendentes

de diferentes grupos indígenas que moram na região. Os limites da TI ainda estão sendo

discutidos, mas o número de moradores, considerados não indígenas, que deverão sair de

suas casas com a criação da TI gira em torno de 73 famílias da Reserva e do Assentamento

(conforme Paula, 2008:22). Esses moradores, embora não neguem a existência de

descendentes indígenas na região, estão contrários ao tamanho da terra reivindicada.

Atualmente, a situação ainda é tensa e alguns moradores já avisaram que se recusarão a sair

sem uma indenização considerada justa, valor que também está longe de ser determinado.174

5.3 - Parentesco e vizinhança

5.3.1 - A alimentação diária: cálculo de muitas variáveis

Para demonstrar a importância das diferentes relações que as famílias estabelecem

entre si e com agentes externos na vida cotidiana, faço a seguir alguns comentários sobre a

173
Pressuposto que, além de tudo, demonstra a falta de conhecimento da realidade local pois, apesar
de que houve alguma migração para os rios maiores e cidades com a queda da borracha, os dados não
demonstram diminuição da população total (Ruiz-Perez et al., 2000).
174
Como exemplo do desacordo sobre os valores de indenização das famílias que sairiam da região,
até o momento, as propostas apresentadas nos diferentes relatórios produzidos para a Funai variam de 3 a 300
salários mínimos (Paula, 2008:22 e 25).
307
alimentação diária das famílias, tendo por ponto de partida as minhas próprias dificuldades

de adaptação.

Tal como fazem normalmente pesquisadores em regiões distantes de centros

comerciais, nas viagens à Reserva eu também carregava uma caixa com alimentos contendo

alguns quilos de café, açúcar, latas de leite em pó, latas de carne e sardinha em conserva,

pacotes de biscoitos e macarrão. Eu não esperava viver com esses alimentos, mas eles

poderiam servir para refeições eventuais em dias de azar de caçadores e pescadores, e

também poderiam ser entregues às famílias após o final da estadia, como pequenos

presentes úteis. Logo na minha primeira estadia, no entanto, ficou evidente que administrar

aqueles bens seria um problema para mim, tal como ocorre para outros pesquisadores (ver,

por exemplo, Geertz, 2001:41-2).

A comida básica no seringal é carne cozida e temperada (geralmente obtida a partir

da caça e da pesca e, mais eventualmente, da criação doméstica) acompanhada por farinha

de mandioca. Há vários meios de obtenção dessa carne, e que envolvem várias questões.

A seguir, descrevo rapidamente o admirável ritual diário das refeições, sempre sob o

comando da dona-de-casa, responsabilidade só eventualmente repassada para a filha mais

velha (ver foto 7).175

Na hora do almoço e do jantar, a dona-de-casa dispõe os pratos formando um

círculo no chão geralmente da cozinha, despejando uma quantidade calculada do caldo da

carne em cada prato, enquanto as pessoas vão se acomodando no chão, com as crianças

175
Uma descrição sobre as refeições entre os seringueiros também é encontrada em Araujo, et alii,
(2002:359-368)
308
menores sempre ao lado da mãe. Em seguida são servidas uma ou mais cuias de farinha, e

cada um despeja em seu prato uma quantidade da farinha para formar o pirão mais ou

menos seco, conforme seu gosto pessoal. Em seguida a mulher, também de forma

calculada, coloca os pedaços da carne ou peixe num prato separado, que é servido em

primeiro lugar ao dono da casa ou à visita, e depois circulado para todos os outros.

Algumas vezes a dona-de-casa surpreende a visita com um pedaço de carne a mais, ou um

considerado melhor, e ela mesma coloca a carne no prato das crianças menores. Em alguns

casos as crianças comem só depois dos adultos, junto com a dona-de-casa. Eventualmente

pode haver também algum prato com bananas, abóbora cozida, e, mais recentemente,

tomates pequenos e verduras cruas temperadas176. Dependendo da quantidade disponível, o

prato de carne é reabastecido pela mulher e circulado novamente.

Em minha primeira viagem, tal como a maioria dos paulistanos, eu não tinha o

hábito de comer farinha de mandioca, e também não pretendia adquiri-lo177. Por isso, ao

receber meu prato com caldo, punha apenas uma ou duas colheres rasas de farinha, somente

para evitar o que talvez pudesse ser considerado desfeita ou falta de educação. O resultado

era que, além de sentir a falta dos alimentos que estava acostumada, eu ainda continuava

com fome.

176
Uma inovação que, provavelmente, é resultado do longo trabalho do engenheiro agrônomo que
fazia trabalhos para o Ibama e durante vários anos trouxe sementes e dava orientações para as hortas,
geralmente femininas. Os agentes de saúde também eram orientados a incentivar a variação alimentar.
177
Antes da primeira viagem ouvira, de alguém muito mal informado, que farinha de mandioca era
pobre de nutrientes, e servia mais para enganar a fome e engordar do que efetivamente alimentar. Somente há
poucos anos, conversando com uma nutricionista é que soube que a combinação carne-farinha de mandioca é
rica e absolutamente saudável.
309
Além disso, como se diz, um dia é o da caça, outro do caçador. E, como cheguei em

agosto, tempo propício para pescarias, era um dia do peixe e outro do pescador. E, na

verdade, tempo de poucos peixes. Eventualmente, o chefe da casa fazia algumas caçadas,

mas quase sempre não era bem sucedido.

Agosto também é tempo de melancias, e quase todos os dias, alguém vindo do

barranco onde elas eram plantadas, trazia uma ou duas para a casa. Eu, assim como outras

visitas que por acaso estivessem ali, ou o dono da casa, recebíamos uma “banda” inteira,

isto é, metade de uma enorme melancia, com uma colher no meio, acompanhada da

indefectível cuia de farinha. Considerando que as outras pessoas da família, tal como eu

mesma, deveriam estar mal alimentadas, eu interpretava o gesto como desperdício ou um

exibicionismo que me parecia fora de propósito. Por isso, dispensava a colher e, com uma

faca, fazia questão de dividir a melancia em fatias para todas as outras pessoas que estavam

na casa, especialmente para as crianças, que me pareciam ser sempre as mais preteridas.

Provavelmente eu queria demonstrar que eu não deveria ser tratada com deferência e, talvez

quisesse também dar minha aula particular de igualdade social.

O resultado foi que, logo após alguns dias em campo, acordava no meio da

madrugada, com muita vontade de comer. E, tentando não fazer barulho, ia até a cozinha,

na época somente um assoalho de madeira sem paredes, só com uma armação de telhado,

ainda sem cobertura. Ali via a mesa que servia de armário para as poucas louças e talheres,

um pote de barro com água, o saco de farinha pousado no chão, um cacho de banana ainda

verde pendurado.

310
Voltava-me então para a sala onde eu dormia e, no escuro, vasculhava minha caixa

de alimentos. Na minha primeira estadia no rio Amônia eu levara seis ou sete latas de leite

em pó. Na casa em que estava moravam um casal e dez filhos. Uma lata de leite só durava

dois dias, mesmo com a mãe controlando seu uso. Constatando isso, a idéia de passar dois

meses (quando encontraria novamente com outros pesquisadores e receberia outra caixa de

alimentos) num lugar onde a proteína não era garantida, e sem nem o leite que eu

sagradamente bebia todos os dias, ia se tornando cada vez mais assustador178. Assim,

quando todos pareciam estar dormindo, sorrateiramente, debaixo do mosquiteiro, eu comia

algumas colheradas escondidas do meu leite em pó, tentando não acordar ninguém. Muito

provavelmente os filhos maiores, que também dormiam na sala, com o ouvido aguçado de

caçadores, deveriam ouvir toda a arrumação. Mas, quem sabe por educação, nunca fizeram

comentários.

Eu sabia que outras pessoas não teriam problema em fazer uso privado dos

alimentos que, afinal, eram meus. Mas para mim, era muito constrangedor. Eu tinha medo

de ficar enfraquecida por falta de proteína, tinha vergonha de comer escondido, mas

também não tinha coragem de fazer uso dos alimentos sem compartilhá-los. Vale lembrar

que privacidade simplesmente inexistia, especialmente para as mulheres que não podiam

nem andar sozinhas pela mata. Quando eu não estava acompanhando a mulher e os filhos

nos roçados ou no rio, permanecia na sala da casa, que não tinha a parede da frente, sempre

rodeada de várias crianças, que me acompanhavam a todo o tempo, por qualquer que fosse

178
Na época, eram raras as famílias que possuíam gado e, mesmo as que tinham vacas com bezerros,
não tinham o hábito diário de beber leite.
311
a necessidade. Assim, eu precisava assumir em público uma atitude que eu considerava

egoísta, ou então, fazer de conta que ninguém testemunhava esse meu egoísmo durante as

madrugadas.

Nessas mal dormidas noites, eu ouvia o silêncio que vinha do quarto, e não

conseguia imaginar como é que os pais podiam repousar tão tranquilamente com aquela

cozinha que para mim parecia vazia, sabendo que os filhos acordariam e nada haveria para

comer. Eu ficava pensando das exageradas distribuições de melancias aos visitantes e me

preocupava com as crianças, que eram as que menos recebiam, e para quem as frutas

seriam mais importantes.

Lembrava-me de Marshall Sahlins ao dizer que, ao equipararmos o caçador com

“impulsos burgueses e ferramentas paleolíticas, julgamos sua situação desesperadora”

(Sahlins, 1978: 10). Mas, continua o autor, se formos capazes de olhar sociedades de

caçadores e coletores como partidários de uma “concepção zen de riqueza”, perceberemos

que, na relação entre necessidade e recursos, “na maioria das vezes, há uma adaptação bem

sucedida”. Naqueles primeiros dias, entretanto, era muito complicado entender o que me

parecia apenas falta de um pouco mais de cálculo e previsibilidade. Qualquer um sabia que

havia a opção de diminuir um pouco o tempo gasto na colheita do feijão, principal atividade

da família naqueles dias, e aumentar o tempo dos jovens mais fortes nas pescarias, o que as

tornaria mais fartas. Eu também sabia que não devia esperar características tão básicas do

“espírito do capitalismo”, tal como analisara Weber (2005), mas pelo menos no quesito

“pão de cada dia”, alguma previsão seria necessária, pois o olhar mal humorado da criança

312
que recebia um pedaço pequeno demais de carne ou peixe não combinava nem um pouco

com o que eu imaginava como uma economia “zen”.

Eu precisava, porém, de mais algum tempo na região para poder entender um pouco

mais sobre as diferenças de sazonalidade em relação às atividades; o respeito com as

diferentes entidades; os vários estágios das famílias ao longo do tempo; as facilidades e os

problemas ligados com as relações de vizinhança; as disputas em relação à obtenção de

recursos (naturais e artificiais).

Isso quer dizer que, mesmo no caso da atividade primária da comida diária, havia

muito mais do que decisões sobre tempo de trabalho e satisfação de necessidades. Eu ainda

precisava entender que havia cálculos, de longo prazo, bem mais complexos do que eu

imaginava, com várias e estranhas variáveis. Um cálculo que para mim era “desesperador”,

como diria Sahlins, embora não parecesse ser para os pais que pareciam dormir tão

tranquilamente todas as noites.

Isso tudo para dizer que, com o tempo, aprendi que, logo ao chegar numa casa que

me hospedaria, o melhor a fazer era entregar minha caixa aos cuidados da dona da casa.

Aquele cálculo, realmente, não era para amadores. Depois disso, ao final das estadias nas

casas seguintes, (quando eu já tinha aprendido a apreciar um grosso pirão de farinha com

caldo de carne) eu conseguia tomar leite com as crianças algumas vezes, eu tinha

contribuído com um enlatado para algum dia infeliz do caçador, e na hora da saída, ainda

tinha sempre um rancho básico para a viagem de volta, tudo habilmente calculado pela

dona da casa. Anos depois, quando comecei a fazer viagens em que eu ficava pouco tempo

313
em muitas casas, logo passei a deixar aquela estranha contabilidade a cargo do meu amigo

Tita, piloto do barco, antigo morador daqueles seringais, bem mais competente.

Para discutir essas diferentes variáveis e como elas se relacionam com a política

local, faço a seguir um breve resumo sobre o dia-a-dia das famílias nas colocações.

5.3.2 - A família

Em 1994, quando permaneci no rio Amônia pela primeira vez, ainda eram as

“colocações” que definiam os endereços das famílias, uma referência aos locais onde

inicialmente os migrantes eram “colocados” para viverem e produzirem a borracha179,

espaços de tamanho variável, geralmente definido a partir da área ocupada pelas estradas de

seringa. Já mais recentemente, surgiu o que é chamado de “comunidade”, geralmente

designando a união de uma ou mais colocações, que, frente ao Estado, passou a ser

considerado objeto de políticas públicas. No geral, as delimitações dessas comunidades

surgiram na relação dos moradores com os políticos locais ou membros de projetos, como

uma forma de organização na distribuição de benefícios. Apesar da economia da borracha

ter perdido a força econômica e do surgimento das chamadas comunidades, a antiga

delimitação das colocações, ainda ressurge, especialmente nos conflitos em torno de

recursos como madeiras-de-lei ou áreas para roçados.

179
Uma análise sobre as colocações de seringueiros no Alto Juruá pode ser vista em Almeida
(1990). Para uma descrição sucinta, ver Costa (2002b).
314
Para descrever rapidamente algumas características dessas colocações, utilizo a

seguir um desenho da Enciclopédia da Floresta (Reproduzido de Carneiro da Cunha &

Almeida, 2002:135).

315
A partir desse desenho pode-se ter uma idéia da chamada colocação, uma área em

torno de 300 a 500 hectares, vagamente delimitados a partir dos traçados do variável

número de estradas de seringa da colocação. Conforme dados do levantamento realizado

em 1991, havia uma média de 7,9 estradas de seringa por colocação, e 2,7 famílias em

média vivendo em cada uma delas (Almeida, 1991).

No desenho vê-se a casa de moradia e um possível roçado (no canto superior

direito). Os roçados são abertos em meio à floresta e abandonados geralmente após 3 ou 4

anos, quando a mata lentamente volta a tomar o lugar. As atividades nos roçados são

variáveis ao longo do ano, e entender essa sazonalidade é fundamental para pensar o

cotidiano local.

Aos poucos entendi que as atividades nos roçados, tão intensas naqueles dias de

agosto, quando cheguei para minha primeira pesquisa de campo, eram apenas temporárias.

A família que me hospedava também estava fazendo experiências. Eram as primeiras

apostas na tentativa de substituir o corte da seringa pelo cultivo agrícola. Naquele período,

eu cheguei até a me preocupar com a saúde da dona da casa, por todo seu esforço

entusiasmado na coordenação do trabalho, sendo sempre a primeira a sair de manhã cedo e

a última a chegar dos roçados.

Se o desenhista fosse uma mulher, com certeza também estaria demarcado o

“terreiro” que envolve a casa, espaço retangular e geralmente muito limpo, onde as

mulheres delimitam o espaço estritamente domesticado.

Às mulheres também cabe a lida com os animais de terreiro, galinhas e patos. Já o

gado é atividade masculina, do pai ou filho.


316
No outro extremo do desenho aparece uma estrada de seringa, com um seringueiro

extraindo o látex com uma poronga (candeeiro amarrado à testa para o corte noturno) e um

defumador para a produção das bolas de borracha. A atividade é basicamente masculina

praticada pelos pais de família ou filhos mais velhos, idealmente a partir dos doze anos. Os

seringueiros realizam a sangria deixando embutida na árvore uma pequena tigela feita de

metal. Após o corte de toda a estrada o seringueiro refaz novamente todo seu caminho com

o balde para recolher o leite que escorreu nas tigelas. Em famílias jovens, eventualmente,

mulheres e meninas também participam da “colha” do leite.

No “seio” da estrada, ou seja, na sua área central, pode-se ver um cachorro e uma

onça. O seio da estrada é a área de caça utilizada pela família, que pode, entretanto,

englobar outras regiões do entorno das estradas, sendo também atividade basicamente

masculina.

Na figura ainda é possível ver o rio onde se localiza o porto e uma canoa, onde

também aparece a praia de areia branca que se forma nos períodos de seca e que, assim

como os barrancos, são utilizados para o plantio, quando não há gado nas proximidades.

Há várias técnicas de pescaria. Algumas mulheres vão com maridos ou filhos nas

pescas de tarrafa, cuidando da canoa. Geralmente são os homens que têm força suficiente

para lidar com a tarrafa. Mulheres e crianças muitas vezes pescam com anzol na beira do

rio, e também colocam grandes anzóis de “espera” na margem dos rios, o que

eventualmente pode apanhar um ou outro peixe grande. Nos meus primeiros dias de campo,

a maior parte das pescarias estava sendo feita pelos meninos menores, pois os outros

estavam envolvidos com a colheita do feijão, já que se as chuvas começassem o feijão seria
317
perdido. Somente a filha solteira mais velha, então adolescente, a chamada “moça”, ficava

a maior parte do tempo em casa, cuidando da limpeza da casa, do almoço e das crianças

pequenas.

Naqueles dias, eventualmente o chefe da casa saía para caçadas, mas era raro

conseguir alguma coisa, pois, no verão, período de seca, os animais percebem com muito

mais facilidade a proximidade do caçador por causa do barulho causado nas folhas e galhos

secos.

No desenho também podem ser vistas, do outro lado do rio, árvores frutíferas e

palmeiras em meio à floresta, que em grande diversidade são utilizadas para alimentos,

remédios e na construção de casas. Por último, pode-se ver um comerciante vindo com um

grande barco para comprar os produtos da colocação, trazendo também os suprimentos

necessários para a vida local.

O desenhista não teve muita preocupação com a proporção dos assuntos retratados,

não permitindo uma visão adequada das dimensões da colocação. Para se ter uma idéia do

tamanho da colocação, poder-se-ia pensar que o trajeto que vai da casa até o porto, onde

caminha o morador trazendo seu remo e o resultado da pescaria, teria por volta de 10 a 30

metros. Já a volta completa de uma estrada de seringa pode ter vários quilômetros, como

visto acima180.

A ilustração, no entanto, deixa clara a relativa auto-suficiência da colocação

(Almeida, 1990), que permite ao morador e à sua família o acesso a alimentos na forma de

180
Ver nota 63.
318
caça, pesca, roçados e criação de animais e, também, a obtenção de bens manufaturados no

mercado, através do comerciante que, idealmente, vem até sua porta.

Além da própria família, é também interessante acompanhar como os laços de

parentesco que unem várias famílias nucleares podem alterar e contribuir para os arranjos e

a vida local.

5.3.3 - “Famílias ampliadas”

Conforme citado acima, pode-se ver no Alto Juruá a constituição de “famílias

ampliadas” que, para Pantoja (2004:346) podem ser pensadas como: “um conjunto de

grupos domésticos localizados espacialmente, organizados na linguagem do parentesco (...)

e com uma liderança comum reconhecida”.

A constituição dessas famílias ampliadas, em determinados contextos, podia trazer

várias vantagens, o que era especialmente evidente no rio Amônia, com a chegada dos

moradores que saíram do local que se transformou na Terra Indígena Kampa do Rio

Amônia, aumentando os conflitos em torno dos recursos.

Essas relações traziam novas informações, também, para a questão da alimentação

que, no início, tanto me incomodava. E eu demorei a perceber isso porque, nos primeiros

dias de minha pesquisa de campo, as pessoas da família que me hospedava não me levavam

para outras casas. Diziam que os caminhos eram longos e seriam muito difíceis para

319
mim181. Por causa disso eu passei muito tempo numa única casa, e não podia saber que as

pessoas da família - e especialmente as crianças - estavam sempre indo de uma casa para

outra, participando de refeições, atravessando pomares vizinhos (ali chamados de fruteiras)

atrás de frutas maduras, ou ainda descobrindo alguma fruta silvestre nas proximidades das

trilhas da mata. Eu também não imaginava que, entre uma visita e outra, as crianças

estavam sempre passando pelos barrancos e praias, quebrando melancias e comendo-as

inteiras, sem nenhuma preocupação com desperdícios e não tendo nenhum respeito aos

avisos da mãe de que fruta “quente” fazia mal à saúde. Imagino o que elas deveriam pensar

das pequenas fatias da minha banda de melancia, que eu achava fazer grande justiça ao

distribuir...

A existência dessas famílias ampliadas era especialmente notada nos momentos em

que surgiam disputas por recursos.

Um exemplo foi uma das famílias do rio Amônia que tinha ido morar nas

proximidades da casa em que eu estava, onde fora construído, por um convênio com a

Associação, um posto de saúde. O chefe da família foi para o local para trabalhar como

agente de saúde. A nova família construiu sua casa e abriu um pequeno roçado de mandioca

ao lado do posto de saúde, na margem do rio pertencente à Reserva Extrativista. O antigo

morador da região, porém, queria iniciar uma criação de porcos em local próximo à sua

casa. Isso, provavelmente, acabaria com o roçado do vizinho. Este, então, respeitando a

anterioridade do outro morador, preferiu mudar sua casa para o outro lado do rio onde abriu

181
Talvez a família, ao me ver várias vezes caindo dentro da própria casa ainda em construção - com algumas
pranchas de madeiras espaçadas e soltas do assoalho - concluísse que eu não daria conta das trilhas na mata.
320
um pequeno roçado e onde também começou uma pequena criação de porcos. Mas como

era agente de saúde e não queria perder seu vínculo com a Reserva Extrativista, abriu outro

roçado do lado da Reserva, rio acima, também próximo de onde vivia a família de um

cunhado do dono da casa onde eu estava.

O cunhado e sua família, entretanto, logo tempo depois resolveu abandonar o lugar

e ir morar na sede municipal. Era a chance do agente de saúde voltar a morar do lado da

Reserva, próximo do posto e onde já mantinha um roçado. Só que, um pouco mais acima,

vivia outra cunhada do dono da casa ao lado do posto. A casa da família do agente de saúde

ficaria, portanto entre os dois cunhados. Estes, então, se uniram e compraram juntos os

benefícios da família que saiu. Como diziam os moradores do Amônia, era apenas uma

pequena casa velha, mas a compra teria se dado com o único motivo de que o agente de

saúde não tivesse a chance de ocupar o local.

Num outro caso, no Alto Amônia, havia uma velha colocação abandonada, na

fronteira com a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia. Perto dali vivia, há muitos anos,

uma família que era considerada a pioneira da região.

Outra família querendo morar naquela velha colocação, pediu autorização para o

morador antigo e, sendo aceita, ocupou o lugar.Conforme a antiga moradora, no início, as

relações entre as duas famílias foram amistosas: estabeleceram a vizinhança de carne de

caça, e ela podia usar o motor do novo vizinho para fazer farinha e viagens, sempre que

precisasse. Era um tempo em que, conforme ela, “era tudo amigo”, “era alegre e satisfeito”.

Mas, em 1994, quando cheguei ao local, as duas famílias já estavam em conflito.


321
Uma das fontes de tensão vinha da notícia de que filha mais velha do vizinho novo,

recém separada e com dois filhos pequenos, aparecera grávida novamente. O pai da garota

acusava o filho do morador antigo de ser o pai da criança, pois era o único rapaz que

freqüentava a casa. Este negava. A vizinhança tinha sido interrompidas e o pai da garota,

dizia-se, já tinha até “jurado balada” ao rapaz, caso ele não assumisse seu filho. Tempos

depois, a garota grávida acabou indo embora sozinha, e, mais tarde, logo toda a sua família

também deixou o lugar.

O morador antigo então resolveu ocupar o local abandonado, para abrir seus

roçados naquele ano. Sua esposa inclusive dizia que as fruteiras que ali existiam eram de

outro morador de muitos anos atrás que, ao sair, dera “de presente” a ela e, portanto, o local

seria mesmo dela. Mas havia outra família, que há dez anos vivia rio abaixo, e que, com

vários filhos morando próximos e com um maior poder aquisitivo, também estava

interessada naquele lugar. Família que, ao contrário da outra, mantinha relações de amizade

com a família que abandonou a colocação, e essa, antes de sair, vendeu suas benfeitorias a

um filho daquela família amiga182.

Com isso, o morador mais antigo, que se orgulhava de ter aberto as estradas de

seringa de toda a região e vira a chegada da maioria dos moradores do rio, encontrava-se

agora imprensado pelos dois lados por uma outra família que crescia e que parecia querer

ocupar todo o lugar. Como esse morador antigo já tinha certa idade e somente uma filha

morando com marido e filhos nas proximidades, ao contrário da outra, que tinha quatro

182
Como dito acima, o território da Reserva Extrativista era patrimônio, indiviso, pertencente à
União. Mas casas e roçados, considerados benfeitorias, são comercializados entre os moradores.
322
filhos que trabalhavam junto como pai, a impressão que se tinha era que, aos poucos, sua

família pioneira da região iria acabar sendo definitivamente expulsa do local183

Essas duas famílias também tiveram boas relações durante um tempo. Os pais eram

compadres e, em meados da década de 1990, quando membros das duas famílias se

encontravam as relações eram de cortesia mas, quando distantes, acusações e mágoas

mútuas vinham à tona, de ambos os lados.

A família mais antiga só tinha uma filha morando um pouco mais abaixo, e o genro

também tinha entrado em conflito com o mesmo vizinho por causa dos porcos deste que

invadira seu roçado. Como as duas famílias não entravam em acordo, o conflito tornou-se

uma questão, mobilizando também as outras famílias da região, que tomavam partido de

um ou outro lado, em conversas acirradas nas casas e roçados.

Era interessante notar que quando a mesma situação de conflito se repetiu em outros

lugares, quando porcos invadiram roçados de vizinhos, só que no interior de algumas

dessas famílias ampliadas, a resolução do conflito foi imediata. Vi dois casos em que

porcos invadiram o roçado de vizinhos que eram cunhados. Nas duas vezes os animais

foram sacrificados por seu próprio dono exatamente no dia seguinte à notícia da invasão,

sendo em seguida compartilhados com o parente como compensação pelo roçado perdido.

Todos os outros casos de invasão de roçados por animais demoraram muito mais para

serem resolvidos.

183
Com a criação do Projeto de Assentamento no rio Amônia, dois de seus genros conseguiram lotes
nas proximidades, alterando aquela possível tendência.
323
Somente os laços de parentesco,é bom atentar, não são garantia de força e apoio.

Um caso foi um senhor do rio Amônia, já com certa idade, que, saído do local onde foi

criada a TI Ashaninka, construiu sua casa do lado da Reserva, entre duas colocações

pertencentes à família de suas duas irmãs. Em 1994, o senhor já reclamava bastante de sua

irmã rio acima, cujo gado invadia seus roçados chegando até, como testemunhei, a comer

roupas no varal ao lado de sua casa. Em 1996, sem encontrar apoio entre as irmãs, toda a

família mudou-se novamente, dessa vez para a sede municipal, com a promessa de receber

uma casa do prefeito184. O irmão ainda afirmava, porém, que voltaria para plantar na

Reserva, mas sua irmã, dona do rebanho de gado, dizia que ele não viria, e que falava isso

“só para fazer raiva à gente”.

5.3.4 - Relações de vizinhança - solidariedade, tensão e magia

As chamadas relações de “vizinhança” ocorrem em diferentes áreas rurais e são

relações de troca obrigatórias entre vizinhos, geralmente de carne de caça (animais

maiores), e, em alguns casos, podem incluir troca de carne de embiaras (animais menores),

peixe e, também, trabalho. A vizinhança é estabelecida entre moradores próximos, que

podem ou não ser parentes consangüíneos, podendo, também estabelecer, com a

vizinhança, outras formas de parentesco, por afinidade ou ritual185.

184
Como me disse mais tarde, a casa era “da Caixa Econômica”, mas, para conseguir uma delas,
sempre tinha de ter aquela “mãozinha do prefeito”... Em 1994, dizia-se que o Prefeito tinha construído 29
casas na sede de Thaumaturgo. Na cidade vizinha, Porto Walter, o prefeito, também do PMDB, teria
construído 20 casas.
185
Além do compadrio que na maioria das vezes se estabelece entre vizinhos (criando laços de apoio
e também aumento dos cuidados com o adultério - já que, como se diz, cama de compadre é a mais quente do
324
Junto com essas trocas solidárias também chegam, evidentemente, situações de

tensão que podem vir de vários motivos.

Entender a tensão dessas relações de trocas que envolvem alimento, amizade,

companheirismo, conflitos, acusações, insinuações, feitiços, não é simples186. Em alguns

casos essa tensão permanece latente, e, como já percebido por outros estudiosos, pode se

expressar, por exemplo, na forma de brigas entre jovens embriagados em festas, o que

podia resultar em sérios ferimentos mútuos.

Os feitiços são de vários tipos, como as “porqueiras” ou “enrascos” que podem ter

conseqüências diferentes, sendo comuns eles causarem “panema” ou “enrasco” a outra

pessoa. O panema, como dito acima, faz com que uma pessoa deixe de ter sorte em suas

atividades, especialmente em caçadas. Também podem ser “empanemados” o cachorro, a

espingarda, ou mesmo uma vareda de caçada, trilha que é continuamente utilizada por um

animal como tatus, por exemplo. O feitiço geralmente é realizado com a carne obtida pela

pessoa que se pretende prejudicar, por exemplo, quando manipulada de modo não adequado

por mulher grávida ou menstruada. Por isso, lidar com carne de caça ou de pesca é uma

atividade cheia de regras e, não cumpri-las, pode trazer sérios prejuízos à família187. Por

isso, como diz Almeida, a relação de vizinhança:

inferno) é muito comum o estabelecimento do parentesco de primos, realizados com um tição da fogueira de
São João. Em minhas observações, os primeiros laços que parecem surgir em vizinhos recentes ocorrem entre
jovens meninas, que logo se tornam “primas de fogueira” ou entre essas e suas mães, que também se tornam
madrinhas de fogueira.
186
Após cerca de cinco meses na Reserva há um registro no caderno de campo em que eu reclamo
que faltava pouco mais de um mês para eu voltar para casa e mesmo assim ainda não tinha conseguido
compreender as relações de vizinhança.
187
Exemplos de modos de obter e curar panemas para os seringueiros são descritos em Almeida et
alii (2002) especialmente pp. 322 a 326.
325
(...) é cercada por certa ansiedade e medo do panema, obrigatória mas sujeita a ruptura, polarizada
pelo lugar diferente de mulheres e de homens, de cães e cadelas como causa de panema. O medo do
panema - essa interrupção da predação, greve na floresta - dá a vizinhança uma textura (Almeida,
2007).

Em 1994 permaneci numa casa onde se mantinha relações de vizinhança com uma

família que estava na região há pouco tempo. As trocas eram constantes, mas as relações

eram permeadas de tensões. Entre as duas famílias, a “textura”, citada acima era quase

palpável, fruto de uma história de apoios e também muitos conflitos anteriores.

O novo morador tinha pedido autorização para morar ali, como é de praxe, e o

morador antigo tinha permitido. No entanto, em 1994, este já dizia estar arrependido, e que

“não queria ele aqui”, porque seu vizinho estaria “querendo me trair”, como avaliava. Para

os filhos, o novo morador queria “ser o mandão de tudo” na colocação. Como era comum

então, uma das maneiras de depreciar o novo morador, em conversas onde este não estava

presente, era lembrar que ele era descendente de uma “índia legítima”, e, por isso, “não se

acostuma[va] com cairú não”188.

Apesar da tensão, as trocas mantinham-se com esmerada regularidade. A carne de

caça, que era dividida “de banda” (pela metade) e os peixes, muitas vezes obtidos entre

membros das duas famílias, eram compartidos igualmente. E, pelas minhas observações,

sem faltar uma única vez. Qualquer outro favor que não fosse preestabelecido, como por

exemplo um pedido de empréstimo de uma canoa para uma pescaria, já gerava grande

tensão ao ser solicitado e, depois, muitas reclamações, de ambas as partes. Naquele período,

188
Cairú é uma denominação comumente utilizada para os não-índios. Mais tarde o rapaz disse que,
de fato, tinha um avô indígena.
326
as crianças pequenas das duas casas estavam sempre juntas, as famílias faziam farinha em

conjunto, e compartilhavam trabalhos nos roçados. Os donos das casas visitavam-se

eventualmente, mas as mulheres não.

As desavenças entre as duas famílias também eram comentadas pelos outros

moradores da região, que diziam que o morador antigo teria tentado colocar porqueiras no

outro para que ele fosse embora dali, só que elas não funcionavam porque o novo morador

tinha o “corpo fechado”, qualidade considerada comum entre indígenas189.

Também houve casos de depreciação de famílias com referência à descendência

indígena em outras regiões, real ou não. Numa colocação no Alto Tejo vivia um casal já

aposentado, que também tinha sob sua responsabilidade filhas solteiras e vários netos. Não

havia muita preocupação com o terreiro e a aparência da casa, os roçados eram pequenos e,

dizia-se, a mesa não era farta. Os vizinhos da família, de modo pejorativo, quando nenhum

morador dali estava presente, chamavam a colocação como “Dos índios”, ainda que isso

não significasse necessariamente essa real descendência. Anos depois, um dos genros do

velho casal, com grande força de trabalho, viera para o local, trazendo aumento nos roçados

e melhorias visíveis à colocação que, então, passou a ser denominada com a colocação “Do

fulano”, em referência ao nome do genro.

Reclamações comuns de vizinhança também surgiam quando se desconfiava que

uma família não estivesse cumprindo a troca obrigatória de carne de caça. Numa colocação

no igarapé Camaleão, também no Alto Tejo, por exemplo, uma família disse ter parado de

189
De forma geral, indígenas ou seus descendentes eram tidos como pessoas com maior
conhecimento de remédios da floresta e que possuíam poderes sobrenaturais maiores do que os não indígenas.
327
vizinhar com outra por causa dessa desconfiança. Conforme ela, o vizinho não deixava sua

esposa bater a carne na cozinha, para que o morador ao lado não percebesse que ele tinha

conseguido matar uma carne que não teria vizinhado.

Além do panema, feitiços causados por vizinhos também podem gerar doenças e

medos, como ocorreu no igarapé Manteiga, também no Alto Tejo. Ali, um rapaz cortava

seringa e, conforme relatou, de uma hora para outra, ficou com medo, um medo tão grande

que não sabia nem contar o que sentia. Ainda faltavam cinco madeiras para ele cortar, mas

ele não suportou a sensação de temor e não teve jeito: correu “como doido doido, todo

arrepiado, com os cabelos dessa altura”, voltando para casa aos gritos. No dia seguinte,

mais calmo, o rapaz retornou à estrada, mas, quando faltavam as mesmas cinco madeiras

para cortar, novamente ele se “assombrou”. Ele já tinha cortado por 101 dias190. Mas ele

não conseguiu voltar à estrada naquele ano. A única forma de se curar foi procurar o

Francisquinho Rodrigues, em outro rio, conhecido por ser capaz de chamar os Caboclos

D’água, que disseram que seu problema vinha de uma porqueira causada por um vizinho.

Só depois de fazer os trabalhos recomendados pelo curador é que ele deixou de ter medo de

andar na mata.

Além das acusações de feitiços, também era muito comum insinuações mútuas de

pequenos furtos cometidos por vizinhos, principalmente de objetos deixados nas casas-de-

farinha ou nas casas dos centros de seringa. Também eram freqüentes acusações de

desfalques de frutas, como das melancias de barrancos, cocos ou cachos de bananas.

190
Os seringueiros sabem com exatidão os dias que extraíram borracha a partir da contagem dos
traços feitos nas seringueiras.
328
De todas as reclamações existentes entre os vizinhos, no entanto, a maior fonte de

conflito era a invasão de animais de criação nos roçados alheios.

Descrevo a seguir alguns desses conflitos e as maneiras como os contendores

tentaram resolvê-los, procurando evidenciar as redes formadas nesses processos.

5.3.5 - Questões entre vizinhos

Eu não conheci, na Reserva Extrativista, nenhum lugar onde existisse a criação de

animais confinados. Os criadores de gado mantêm pastos com cercas, mas o pasto parece

ser sempre insuficiente e as cercas precárias, porque bois e vacas estão continuamente

entrando nos caminhos da mata, invadindo roçados e hortas. O mesmo ocorre com os

porcos, que são criados soltos e alimentados com mandioca, milho e restos de alimentos

domésticos, mas não com uma freqüência suficiente, pois também adentram pela floresta

em busca de cocos e outros frutos caídos, várias vezes chegando até os roçados dos seus

donos e de vizinhos o que, rapidamente, pode provocar a destruição quase completa desses

roçados.

Um desses conflitos ocorrera no alto do rio Amônia, alguns anos antes de minha

chegada à região. A briga foi causada pelo gado de um senhor conhecido por Antonio

Brabo, que invadiu o roçado de seu vizinho rio abaixo. Não houve acordo entre as partes e

o dono do roçado, por isso, pediu ajuda a seu Antonio, este conhecido por Antonio

Baixinho, que participava da Associação e do Sindicato. Seu Antonio Baixinho organizou

uma reunião unindo os dois contendores e outros moradores das proximidades. Nessa

329
reunião ficou formalmente decidido que o lado que hoje pertence à Reserva Extrativista

seria reservado para o plantio, e o outro lado, para a criação de animais. Mais tarde o

vizinho que perdeu o roçado se mudou, mas essa reunião passou a ser uma referência várias

vezes relembrada em busca de argumentos para outros conflitos que surgiam na região.

Anos depois, no mesmo local do morador que saiu, chegou uma nova família. Esta,

por sua vez, também plantou roçados no mesmo lugar que aquela e, novamente, eles foram

invadidos pelo gado de Antonio Brabo.

Na versão desse novo morador, ao constatar a invasão, ele mandou um recado para

o Brabo vir à sua casa para que ambos pudessem tentar chegar a um acordo. Brabo,

entretanto teria recusado a visita. O outro também não quis ir até a casa do Brabo pois,

conforme ele, tinha medo de ir até lá. O gado continuou vindo pelo caminho. Dias depois, o

dono do roçado, cada dia mais destruído, acabou dando dois tiros em uma vaca.

Em resposta, Antonio Brabo foi à sede municipal denunciar o vizinho ao delegado

Renato Mota, que era seu parente. O vizinho, por seu lado, procurou seu Antonio, da

Associação. Este, no entanto, estava viajando. Atravessou o rio para falar com o agente de

saúde seu Luis, também participante da Associação, que também não estava em casa nesse

dia. Foi até a radiofonia e falou com o presidente da Associação. Este afirmou que quem

devia resolver a questão era o seu Antonio Baixinho e o seu Luis, “os dois chefes do

Amônia”. Depois, o vizinho conseguiu que o criador construísse novas cercas, que tinham

de ser freqüentemente refeitas para dificultar a passagem do gado. Quando eu estava na

região ainda se discutia a questão, e o argumento mais comum era que Brabo não teria

respeitado a reunião organizada pelo representante da Associação.


330
Num outro caso, os porcos do mesmo Antonio Brabo tinham invadido um roçado de

um vizinho novo, que foi morar do outro lado do rio. A esposa de Brabo contava que antes

da abertura do roçado ela teria avisado ao vizinho, seu compadre, que não plantasse ali, no

lugar que ela chamava de “nossa ilha”, onde criavam, extensivamente, por volta de 25

porcos. O rapaz porém insistiu, afirmando que não tinha outra opção para plantar nas

proximidades de sua casa. E, como já era previsto, logo que a mandioca cresceu foi logo

invadida pelos porcos do vizinho. Ao flagrar os animais em seus roçados, o vizinho

começou a atirar nos animais. Ao todo, matou quatro porcos.

O criador, mais uma vez, recorreu ao seu parente delegado, que chamou os dois

para uma conversa.

Na delegacia, o delegado resolveu que o rapaz devia pagar os porcos que matou, e o

pagamento seria o próprio roçado perdido. O vizinho não concordou e insistiu que queria,

pelo menos, receber diárias como ressarcimento pelos seus dias de trabalho no roçado. O

delegado não aceitou, o rapaz insistiu, e acabou sendo preso durante 15 minutos, num lugar,

conforme ele, sujo e de diminutas dimensões. Conforme o rapaz contou depois, o delegado

dizia que ele é que devia ter cercado seus roçados. Subindo de volta à sua casa, o rapaz

parou antes na casa de seu Antonio, representante da Associação. Este deu razão ao rapaz,

dizendo que ele tinha “direito ao roçado”.

Quando cheguei à região em 1994, a questão era comentada em todas as casas, e

muitos todos tomavam partido da família do dono do roçado, um jovem pai de família, com

cinco filhos ainda pequenos, o mais velho com seis anos. Ou seja, na fase mais difícil da

idade familiar. Novamente os argumentos recordavam a reunião feita pelo representante da


331
Associação, quando combinaram as margens para criação e plantio. Antonio Brabo também

era criticado por nunca ter participado das poucas reuniões que ocorreram no local, e que,

apesar de ser parente de pessoas da Prefeitura, era morador do lado da Reserva e por isso

deveria acatar as decisões. Alguns também lembravam do Plano de Uso, que prevê que a

obrigação da cerca são dos criadores. E muito repetiam o ditado: “justiça de porco é

chumbo”, já que, com os recursos locais, praticamente ninguém conseguia alimentar os

porcos durante todo o ano de modo que eles não se embrenhassem pela mata.

Nem todos, porém, davam razão ao dono do roçado. Outros defendiam o dono do

gado, que já estava ali antes da chegada do jovem pai de família. Plantar naquele lugar,

para esses, era má fé. Outros ainda chegavam a afirmar que o rapaz já tinha o “costume” de

roubar e comer os porcos do vizinho. Dizia-se até que havia um buraco onde eram

escondidos os porcos roubados.

Mais tarde, com a dificuldade de encontrar um consenso, o delegado resolveu que o

dono dos porcos deveria pagar diárias ao seu vizinho como ressarcimento pelo dano nos

roçados deste.

Disseram-me, tempos depois, que o tal pagamento nunca tinha sido feito. Contudo,

no ano seguinte, os donos do roçado perdido não permitiram que seus filhos freqüentassem

a escola, para não passar todos os dias na frente da casa de Antonio Brabo. Tinham receios.

Em 1994, quando houve campanha de vacinação, o helicóptero do Exército também desceu

ali pela primeira vez, no campo do Antonio Brabo, o maior da região, causando grande

curiosidade local. As mesmas crianças também não foram receber a vacina, e nem puderam

ir admirar o helicóptero.
332
No verão de 1994, já no médio Amônia, o gado da família de seu Eduardo estava

comendo a melancia plantada no barranco do vizinho, seu Luis. Conforme pude ver, o

mesmo gado também começava a comer folhas do roçado de mandioca de seu Luis, que

ficava bem distante, bem como espigas de milho que secavam pendurada na casa-de-

farinha próxima ao roçado. Conversando com a esposa de seu Eduardo, ela disse que nada

podia ser feito, pois eles chegaram primeiro, e o lugar já era deles. Mas seu Luis, mesmo

sabendo que tinha direito a uma parte da área, dizia que não queria abrir uma questão com o

vizinho. Dias depois, um empregado do Eduardo trouxe um pedaço de carne de veado para

a família de seu Luis.

Rio acima, seu Eduardo também mantinha uma criação de porcos que invadiu um

grande roçado. Os roçados de mandioca eram grandes para o padrão local porque o

morador também era vendedor de farinha. Na ocasião, seu Luis foi falar com Eduardo,

pedindo-lhe que fizesse algum ressarcimento ao dono do roçado, o que foi recusado. Mais

tarde, este foi falar com a polícia, na sede municipal. Conforme seu Luis, como o prefeito já

era amigo de longa data do dono dos animais e não gostava do pessoal da Reserva, o

Eduardo ganhou a causa.

Como comentou outro morador da região: o Eduardo “é sempre teimoso mesmo, só

faz aquilo que pensa”.

Outra moradora também já tinha dito uma frase parecida. Para ela seu Eduardo era

“teimoso mesmo”, porque ele também se recusava a parar de caçar com cachorro.
333
Como dito acima, as críticas às idéias de conservação ambiental e ao Plano de Uso

eram comumente utilizadas por políticos locais na busca de aliados. Do lado oposto,

membros da Associação, do Ibama e dos vários projetos realizados na Reserva, em especial

até 1999, ocupavam tempo e recursos procurando defender as idéias de controle ambiental,

parte importante da proposta da criação da Reserva Extrativista, e garantia da concessão de

uso às famílias.

A mesma oposição era constantemente vista entre as famílias. No rio Amônia,

enquanto seu Antonio, um filho deste e seu Luis eram fiscais colaboradores do Ibama e

defendiam publicamente as regras do Plano de Uso, outros faziam questão não só de não

seguir as regras como também não se preocupavam em esconder o que faziam.

Pessoas da família de seu Eduardo bem como seus empregados, por exemplo, eram

acusados de fazer mariscos “de bicheira” e “de mergulho”, considerados predatórios191.

Dizia-se que eles usavam uma autorização escrita pelo Leandro Tavares, na época vice-

prefeito, o mesmo que teria distribuído os anzóis grandes utilizados nesses tipos de

pescarias. Em 1994, várias vezes pude ver seu Eduardo e seus trabalhadores passando pelo

rio em canoa cheia de carne de caça, com um ou mais cachorros na proa da canoa. Um

dessas vezes cheguei a contar cinco veados, caça das mais difíceis e das mais apreciadas.

Por comparação, na casa em que eu estava, em que o pai e mais três filhos eram caçadores,

e que só caçavam a curso, apenas dois veados foram caçados durante todo o ano anterior.

191
Os pescadores mergulham em locais considerados abrigos de peixes, como remansos e locais
com troncos velhos caídos dentro do rio, desfazendo esses locais de abrigo e reprodução de peixes. Para uma
descrição sobre as várias técnicas de marisco realizadas na região ver Carneiro da Cunha, et alii (2002:337-
357)
334
Uma vez um rapaz cujo pai era um fiscal do Ibama foi caçar com seu Eduardo e seus

cachorros. Perguntei à mãe porque o filho teria aceitado tal convite, mesmo acompanhando

as dificuldades do pai no trabalho de fiscalização. A mãe justificava a ação do filho dizendo

que o Eduardo era “mandão mesmo”.

Como sabiamente explicava a esposa de seu Antonio Baixinho, seu Eduardo agia

desse modo porque ele nunca “fazia errado sozinho” 192. Sempre tinha vários outros que o

acompanhavam e apoiavam. Seu Eduardo, como poucos da região, contratava vários

empregados eventuais e as famílias destes constantemente entravam na distribuição da

carne quando as caçadas e as pescarias eram especialmente fartas. Muitas dessas também

ajudavam a reproduzir o coro dos que se colocavam contrários às regras do Plano de Uso.

Eduardo fazia parte de uma rede, que ele habilmente contribuía para fortalecer,como por

exemplo, fornecendo eventualmente um pedaço de carne de caça a um fiscal do Ibama.

Isso, num local com vários moradores próximos e forte pressão de caça e em pleno verão,

não era facilmente recusável193.

192
Vale lembrar o caso acima mencionado em que um caçador na Restauração foi acusado de
vender carne de caça para empregados da construção de uma escola, foi denunciado, e, com apoio da
Prefeitura, nada aconteceu.
193
Eu mesmo uma vez, após visitar seu Eduardo, recebi um pedaço de carne de veado. Naqueles
dias em que na casa em eu estava quase que só se comia peixe, ninguém reclamou do presente.
335
5.4 - Liderança e política

A partir dos conflitos acima descritos, podem-se fazer várias considerações. Uma

delas é a existência de certas famílias que, por diferentes motivos, tornam-se líderes na

região.

José Pimenta também nota como, entre os Ashaninka do rio Amônia, um ou mais

grupos domésticos podem se agrupar em torno de um “homem prestigioso”, chamado de

nampitsi, que, além de realizarem atividades de trabalho e lazer coletivos, podem

estabelecer um sistema flexível alianças, que “cria fundamentos de uma solidariedade

política interna que pode ser acionada em caso de necessidade” (Pimenta, 2006:4).

Dessa forma, era possível ouvir comentários como:

“Eles são os chefes do Amônia”.


“Ele é mandão mesmo".
Ele, quando bebe, diz que é “único” capaz de “tomar de conta de todo o Amônia”.
Dizem que ele é “não sei o quê da nossa terra”...

Essas frases referiam-se a pessoas que exerciam certa liderança local, como Antonio

e Luis, ambos ligados à Reserva Extrativista, ao Sindicato e à Associação e Eduardo e

Antonio Brabo, cunhados que tinham fortes relações com a Prefeitura municipal, definindo

a polaridade política já comentada que existia na região.

Seu Antonio morava na região que estou chamando aqui de médio Amônia, distante

cerca de duas ou três horas em canoa motorizada da sede do município, na foz do rio.

Vivia ali desde 1968, morando próximo a vários irmãos e irmãs de sua esposa.

Tinha apenas três primos distantes que moravam rio acima, e, em meados da década de

336
1990, morava com a esposa, dez filhos e uma neta, já tendo outros filhos casados, dois

deles morando também no Amônia.

Seu Antonio participou do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, sendo o primeiro

delegado sindical do rio Amônia, e mais tarde primeiro secretário. Também foi secretário e

segundo secretário da Associação. Como se dizia, por sua própria conta tinha conseguido a

primeira escola no rio Amônia, antes mesmo do projeto aprovado pelo BNDES em 1989

(quando foram criadas outras escolas na Reserva). Já como participante da Associação,

conseguiu trazer o primeiro posto de saúde do rio Amônia. A escola e o posto de saúde

ficavam ao lado de sua casa.

Tendo feito um treinamento para agente de saúde com “os padres”, seu Antonio

mantinha em sua casa uma caixa com grandes frascos de comprimidos, com rótulos em

alemão, que mais tarde reconheci serem os mesmos que o padre trazia na “desobriga”194. Às

vezes os comprimidos eram dados, outras vendidos. Seu Antonio também era rezador195.

Em meados da década de 1990, seu Antonio também reclamava de problemas de

saúde, o que o fazia passar a maior parte do tempo em sua casa, sempre participando das

longas conversas com vizinhos que por ali passavam. Sua casa, ao lado da escola e do posto

de saúde, era lugar de passagem constante de crianças, seus pais, de pacientes e seus

acompanhantes que iam ao posto, tornando-se ponto de descanso e encontro. Era constante

194
Nos raros dias do ano em que o padre de Cruzeiro do Sul fazia a “desobriga” ele vendia
comprimidos tirados de frascos semelhantes. Num Novenário realizado na Restauração uma estudante alemã
também acompanhava o padre. Apesar de entender e falar muito pouco o português ela ouvia as reclamações
dos doentes e a eles receitava remédios, também colocando os comprimidos em pequenos sacos plásticos com
papéis com a dosagem que, pude constatar depois, os doentes não entendiam.
195
Ou, como dito em outros lugares, benzedor, pessoa benzedeira, que cura doenças através de
orações e gestual ritualístico.
337
a presença de visitantes, que às vezes, por longo tempo, ali ficavam ouvindo as informações

e opiniões de seu Antonio196. A principal fonte de renda da família era borracha e

agricultura.

Seu Luis, vizinho de frente de Antonio, na margem oposta do rio, também tinha

certa importância local. Participava do Sindicato de Trabalhadores Rurais há vários anos e

tinha ido morar na região, vindo do rio Bagé em 1992, após ser contratado como agente de

saúde pelo Projeto ligado à Associação. Durante alguns anos recebeu dois salários mínimos

por esse cargo, o que era um valor considerável na região. Fazia questão de participar de

reuniões da Associação, ia aos treinamentos dos agentes de saúde e, pelo menos enquanto

eu estive na região, na volta desses cursos ministrava aulas para as crianças na escola sobre

alimentação e saúde. Em 1996, com a proibição de que agentes de saúde fornecessem

remédios à população, seu Luis fez uma arrecadação de dinheiro em todo o rio Amônia. A

maioria deu um real, galinha, milho, feijão e, ao todo, juntou-se 300 reais. Ele depois me

mostrou a nota fiscal dos remédios. Em meados da década de 1990, seu Luis vivia ali com a

esposa e seis filhos. Uma filha morava em Cruzeiro do Sul para estudar (a mesma que, na

década seguinte, também seria agente de saúde, no mesmo local).

Seu Eduardo também morava no médio rio Amônia, do lado não pertencente à

Reserva vindo com sua família, em 1992, de onde hoje é a Terra Indígena Kampa. A

196
Diferentemente do Alto Tejo, onde praticamente só se viaja a pé, as distâncias no rio Amônia
normalmente são percorridas por canoa. Daí a importância da localização da casa de seu Antonio, ao lado da
escola e do posto, porto de parada de muitos.
338
escolha do lugar de moradia se dera pela proximidade da escola e porque a Reserva

Extrativista, na opinião da esposa de seu Eduardo, era “tudo triste, cheio de proibição”

(citado também em Costa, 1998:106).

Diferentemente das outras famílias que também tinham sido expulsas da Terra

Indígena, seu Eduardo já chegou ali com várias cabeças de gado e equipamentos que eram

ainda raros na região: tinha duas moto-serras e duas canoas com motor.

O antropólogo Terri Vale de Aquino, que conheceu seu Eduardo quando ainda vivia

no alto Amônia, relata que ele:

(...) havia resistido o quanto pôde para não se retirar da TI Kampa do Rio Amônia, em 1992, após a
sua demarcação física. Foi um dos poucos que recusou receber a indenização de suas benfeitorias,
alegando que a FUNAI não as avaliara corretamente e que ele “também era índio, filho de uma velha
índia Arara do rio Amônia” e, portanto, “tinha direito de permanecer na terra indígena”. Só se retirou
da terra dos Ashaninka, com os quais manteve sérios conflitos por causa de explorações predatórias
de madeiras de lei e caçadas com cachorro na área indígena, depois que recebeu, como compensação
por suas benfeitorias, uma moto-serra novinha doada pela Prefeitura de Marechal Thaumaturgo,
também como parte da solução dos conflitos que, até então, sustentava com os Ashaninka (Aquino,
2002:37).

Todas as outras famílias que tiveram de sair da área que passou receberam apenas

uma indenização, sem nenhuma correção, após seis anos de grande inflação. A maioria nem

foi buscar o dinheiro na cidade, já que, na época, o gasto com o combustível não

compensava o valor a ser recebido. Conforme a esposa de seu Eduardo, ele recebeu a

compensação porque o prefeito Itamar de Sá, no caso dele, teria “comprado a questão”. Ela

também afirmava, em 1994 que “aqui, quem tem moto-serra ganha muito”.

Na região, a maioria das famílias vivia apenas do trabalho familiar e do “adjunto”,

mutirões eventuais para trabalhos mais pesados. Já seu Eduardo empregava vários

339
trabalhadores eventuais, geralmente jovens das famílias da redondeza. Sua principal

atividade, em meados da década de 1990 era a criação de gado e a construção de canoas,

geralmente a serviço da Prefeitura. A retirada de madeiras era feita de “meia”, ou seja,

derrubava-se uma árvore para fazer duas canoas. Uma era vendida à Prefeitura, ou a outras

pessoas, e uma ficava para o morador de onde a madeira fora retirada. No caso de retirada

de madeiras para construção de casas, metade das tábuas obtidas também ficava com o

dono da colocação.

Os trabalhadores recebiam diárias e trabalhavam com madeira, no campo de gado e

em roçados que eram abertos, também no sistema de “meia” em vários lugares do rio. Com

isso, em meados da década de 1990, seu Eduardo, além dos trabalhos com madeira, ainda

contava com uma grande produção de arroz, milho e feijão para a venda. E, como

comentado acima, gado e porcos. Além disso, mantinha em sua casa um pequeno estoque

de mercadorias para a venda, mercadorias que também eram utilizadas para pagamento dos

empregados.

Isso tornava seu Eduardo, aliado ao fato de ser uma pessoa de grande simpatia e

generosidade, um “pequeno patrão”, conforme descrito por Lanna (1995)197. Condição que

o diferenciava da maioria dos outros moradores do rio Amônia, que poderiam ser

considerados seringueiros ou pequenos agricultores familiares, eventualmente com uma

pequena criação de animais.

197
Marcos Lanna considera que, nas cidades do interior do Rio Grande do Norte, é mais visível a
tendência do crescimento das relações de patronagem do que das relações assalariadas. O autor denomina de
“pequenos patrões” os “agricultores bem sucedidos, cujo processo de diferenciação dos ‘seus trabalhadores’
(muitos dos quais seus familiares) está em pleno desenvolvimento, isto é, estão se tornando cada vez mais
‘patrões’” (Lanna, 1995:32). Nos casos observados no rio Amônia, como será visto, a diferenciação dessas
famílias parece sempre estar ligada a sua proximidade com a política municipal.
340
Antonio Brabo, morador do alto do rio Amônia desde o final da década de 1970,

também poderia ser considerado na categoria de “pequenos patrões”, tal como seu cunhado

Eduardo.

Antonio Brabo viera do Ceará (o que explica seu apelido)198 para o Acre ainda

solteiro, e, após casar-se com a irmã de Eduardo, passou a trabalhar com venda de madeira,

mais tarde tornando-se construtor de casas e barcos. Era primo de Leandro Tavares, vice-

prefeito de Marechal Thaumaturgo (1992-1996) e prefeito (2000-2004) sendo também

parente do delegado de Marechal Thaumaturgo, Renato Mota, como dito acima. Desde a

criação do município, em 1992, era responsável pela construção de casas e escolas para a

Prefeitura, sob o sistema de “empeleitas” (empreitadas)199. Em 1995, contava-se que a

família já tinha construído mais de 35 casas na sede do município, cinco no Amônia e três

no rio Juruá. Além disso, nesse período era quem tinha os maiores roçados e a maior

criação de gado e porcos da região do Alto Amônia (daí os vários conflitos que tinha com

vizinhos). Tal como seu cunhado rio abaixo, Brabo também tinha vários empregados

eventuais e mantinha um pequeno comércio em sua casa. Como dizia sua esposa, “tudo que

querem é aqui”, “não é por estar me gabando não, mas somos bons para tudinho”, pois “o

Antonio é homem que só procura fazer favor”.

198
“Brabo” ou “arigó” eram apelidos conferidos aos migrantes que vinham do Nordeste para os
seringais. Brabo aqui era o oposto de “manso”, no sentido de adaptado, domesticado. Também os índios,
animais ou plantas podem recebem a denominação de brabos ou mansos.
199
Sua esposa reclamava muito que a Prefeitura nem sempre fazia os pagamentos no prazo e
quantidade combinados e, em 1997, Brabo deixara de trabalhar para a Prefeitura para construir as casas para
os moradores do Assentamento.
341
Com a criação do Projeto de Assentamento, Brabo parou de trabalhar na Prefeitura,

voltando-se para a construção das casas, obrigatórias, para os assentados200. O pai e dois

filhos mudaram-se para o outro lado do rio e também conseguiram cada qual um lote no

Assentamento, embora ainda mantivessem o campo de gado do lado da Reserva. Em 1997,

seu filho mais velho tinha 20 empregados para a colheita do feijão em seu lote, o que

rendeu duas toneladas, além de outros seis trabalhando na abertura de campos para gado,

com duas moto-serras. Plantara também 30 litros de milho que, pelos seus cálculos,

produziria em torno de oito toneladas201.

Conforme a esposa de Antonio Brabo, a família era “todinha PMDB”. Sua cunhada,

esposa de Eduardo, também dizia que sempre votava no “partido velho” (o PMDB), mas

que, naquele ano, estava decepcionada com o partido e não votaria nele. Nessa mesma

época, presenciei uma conversa entre uma vereadora do PMDB e a esposa de seu Eduardo,

que reclamou que seu marido pedira ajuda ao prefeito para fazer uma viagem a Cruzeiro do

Sul. O prefeito mandou-o procurar o deputado Vagner Sales, também do PMDB. Mas este,

por sua vez, além de não ter recebido seu Eduardo, ainda teria sido “mal educado”. A

vereadora então pediu à mulher, dizendo que o deputado deveria estar “nervoso” naquele

dia, mas que isso não mais se repetiria.

200
O primeiro crédito concedido aos assentados era para a construção de casas, com características
padronizadas, e mesmo os que já tinham suas casas construíram outras para poderem ter acesso ao recurso.
201
A título de comparação, em 1998, o questionário aplicado a 74 famílias da Reserva Extrativista
(entrevistadas por mim, Augusto de A. Postigo e Marisa G. Fonseca) a média da produção de milho foi de
1.400Kg, sendo que o mais produtivo, naquele ano, produzira três toneladas. No mesmo ano, o maior
produtor de feijão entrevistado colheu 1.500Kg, sendo a média em torno de 500 Kg. Nesse ano, não foram
feito questionários entre chamados fazendeiros, (10 no rio Juruá e um no Centrinho, no Alto Tejo), que
também têm uma produção acima da média local.
342
Além dessas pessoas que estou chamando de líderes locais, outros nomes de

famílias que se destacavam no Amônia, eram o de dona Rosa, a única que possuía um

batelão para a venda local de mercadorias e que era conhecida por ser “do PDS”, morando

numa região intermediária entre o alto e baixo Amônia. Rio abaixo, já bem próximo da

sede municipal, Birrito era conhecido por possuir um dos maiores campos de gado da

região. Também era antigo morador da área da TI Ashaninka e cunhado de seu Eduardo. 202

5.4.1 - Líderes locais e recursos públicos

Nos questionários realizados em cerca de 250 residências, em 1995, somente 71,3%

das pessoas com mais de seis anos, conforme os entrevistados, seriam capazes de ler e

escrever um bilhete e apenas 31% das crianças entre 6 e 10 anos freqüentavam a escola

(Meneghello, 1998). A educação, como é comum nas áreas rurais, é objeto de desejo da

maioria dos pais, considerado mecanismo para a ascensão social, na busca de que seus

filhos tenham uma vida melhor do que a deles próprios. Assim, a construção de escolas,

onde elas são escassas, tem sempre um importante papel político. No rio Amônia, como

202
Já chegando à foz do rio Amônia havia uma grande fazenda de gado de Erivan do Vale, de
tradicional família de patrões e marido de uma vereadora, Íria Tavares, do PMDB. Desde 1994 o
desmatamento dessa fazenda já era o maior da região, facilmente perceptível pelas imagens de satélite.
Conforme os moradores, o fazendeiro tinha, em 1994, 600 cabeças de gado. Diziam que o fazendeiro era “o
profissional das caçadas”, e teria ameaçado açoitar os agentes fiscais do Ibama caso desaparecesse alguns de
seus cachorros. Não soube de maior influência do fazendeiro na região, por isso não estou considerando-o
como um líder local, para efeitos de discussão. A título de curiosidade, em 1998 um morador do Amônia
contou que, no início da década de 1970, havia um disco de Frei Damião muito ouvido na região, no qual o
frei pregava que haveria muita coisa ruim no mundo, que o gado iria morrer, que ia ter muito chapéu para
pouca cabeça. Nesse tempo, muitos moradores teriam vendido o seu gado que, conforme o morador, em
grande parte foi comprado pelo tal fazendeiro.
343
não poderia ser diferente, as escolas evidenciavam de modo explícito as disputas políticas

locais.

Em 1994 existiam ao longo do rio Amônia três escolas: uma no médio Amônia,

outra no alto e uma intermediária. A primeira escola criada na região surgiu na década de

1980, como dito acima, graças ao empenho pessoal de seu Antonio Baixinho, que

conseguiu a contratação oficial de uma professora após “uma verdadeira romaria de

gabinete em gabinete”, conforme relatado por Di Piero (1991).

A segunda escola foi erguida no alto Amônia, justamente ao lado da casa de seu

Antonio Brabo que, como já comentado, era também o empeleitante da Prefeitura e parente

do vice-prefeito. Ao lado dessa escola havia uma “casa de TV”, também construída pela

Prefeitura, que aguardava a chegada do gerador e da televisão, já prometidos.

Entre as duas escolas havia, em 1995, 52 residências. O local escolhido da terceira

escola, construída próxima ao médio rio, foi ao lado da casa de um senhor que também

tinha filhos que moravam na sede municipal. Estes eram vistos com freqüência subindo o

rio em canoas, e conforme se dizia, vinham fazer caçadas ou pescarias de “batição” nos

lagos203. Iam até a TI, conforme moradores, somente para “entesar” com os índios

Ashaninka. Em 1994, um desses jovens também era acusado de dar tiros e derrubar a placa

de demarcação da TI, o que tinha sido considerada uma grande ofensa pelos Ashaninka.

Também nesse caso, dizia-se que eles entravam na região com “autorização” da Prefeitura.

203
A técnica de marisco de batição consiste em bater violentamente contra troncos velhos caídos no
lago para desentocar peixes. A técnica, tal como o “mergulho” e a “bicheira”, é considerada por destruir
locais de morada e reprodução de peixes.
344
5.4.2 - Casas-de-farinha

Assim como as escolas, as casas-de-farinha demonstravam as disputas locais.

As casas-de-farinha são pequenos galpões de chão de terra, sem paredes, utilizados

para a produção de farinha. Ali é construída uma bancada com espaço para um pequeno

motor que é acoplado a um cilindro dentado, chamado de “bola” ou “caititu”, usado para

sevar a mandioca. Em seguida a mandioca é colocada numa grande prensa feita de madeira

para escorrer a água até o dia seguinte. Também ali é feito um forno de barro, onde se

assenta uma chapa de ferro retangular para torrar a mandioca e onde também se preparam

beijus e tapiocas204. Geralmente as famílias fazem farinha quinzenalmente para o próprio

consumo. Algumas famílias da Reserva, que vivem em locais de fácil navegação, também

comercializam o produto. A partir de programas para incentivar a produção, as Prefeituras

da região fazem doações do chamado “aviamento” da casa-de-farinha: - o motor e a chapa

para o forno, fazendo as chamadas casas-de-farinha comunitárias205. Novamente nesse

caso, não há aviamento para todos e, portanto, há espaço para escolhas e negociações.

Descrevo a seguir uma farinhada, uma produção de farinha, ocorrida no médio

Amônia em 1994, que pode permitir uma visão tanto sobre a vizinhança como sobre as

relações dos moradores com a política municipal.

204
Em meados da década de 1990 apenas uma colocação tinha uma grande roda utilizada para fazer
a moagem manual da farinha.
205
Os acreanos consideram que a farinha produzida na zona rural de Cruzeiro do Sul, onde há um
processamento intermediário que torna a farinha grossa e crocante, a “melhora farinha do Brasil”.
345
Essa farinhada foi realizada entre duas famílias, a de seu Antonio e de seu Luis. A

mandioca foi colhida no roçado de seu Luis, numa colônia, descascada e lentamente

carregada até a margem, trajeto que eu, carregando apenas um pequeno cacho de bananas,

percorri em cerca de uma hora. Ali a macaxeira foi lavada e embarcada, de onde seguimos

de canoa a remo até uma casa-de-farinha comunitária, rio abaixo, onde a mandioca foi

sevada e colocada na prensa para escorrer a água.

Como a família de seu Antonio estava sem nenhuma farinha em casa, a moradora

que cuidava da casa-de-farinha emprestou 3 litros de farinha, para que a família de seu

Antonio, nesse dia, não comesse “escoteiro”, (sem farinha), o que é considerado entre os

seringueiros algo muito ruim. Enquanto usávamos a casa-de-farinha o responsável foi até

ali e ficou conversando conosco por um tempo. A conversa era amena, mas era possível

perceber certo desagravo no ar. Quando ele saiu, a esposa de seu Antonio logo comentou

que já esperava por sua vinda, e que ele vinha provavelmente verificar se ela estava fazendo

o uso correto dos equipamentos.

No dia seguinte voltamos para retirar a farinha da prensa e torrá-la, quando a mulher

também aproveitou para fazer beijus e tapiocas. Quando o serviço terminou, me chamou a

atenção o excessivo capricho com que a casa-de-farinha foi limpa. Também estranhei a

generosidade com que foi devolvida a farinha inicialmente emprestada à família

responsável, que também recebeu dois beijus e uma tapioca, quase a metade do que tinha

sido feito para a família. Isso contrastava com a separação da farinha entre as famílias que a

produziram, que foi dividida à risca: três panelas grandes e mais um litro para cada família.

O pequeno resto que sobrou no vasilhame foi jogado no chão para as galinhas.
346
Nesse pequeno evento, era possível perceber algumas diferenças na relação entre

vizinhos. A farinhada foi feita com pessoas que mantinham uma relação de vizinhança e a

atividade era conjunta: o trabalho e o produto foram divididos igualmente. No primeiro dia,

um rapaz de cada família foi arrancar as macaxeiras. Para descascá-las foram duas

mulheres, uma de cada família. À tarde, a esposa de seu Antonio sevou a mandioca. A

atividade é considerada de risco, e talvez por isso foi executada pela pessoa adulta

(naqueles dias a esposa de seu Luis estava doente em Thaumaturgo e talvez não fosse

adequado que seu Luis, que poderia ter ajudado, ficasse com a esposa do outro durante

tanto tempo numa casa-de-farinha). À tarde, para colocar a mandioca na prensa, novamente

um filho de cada família estava presente. No dia seguinte, foram os filhos mais velhos e

fortes que vieram torrar a mandioca, um de cada família. À tarde, novamente chegou a

esposa de seu Antonio, que acompanhou o ponto adequado de torra, preparou beijus e

tapiocas e, ao final, fez toda a limpeza, tarefas geralmente femininas. 206

Desse episódio pode-se perceber uma relação de vizinhança cuidadosa, nem sempre

tranqüila, entre as famílias de seu Antonio e de seu Luis, com divisões precisas. Esse

cálculo, a meu ver, parecia ser feito de modo a evitar quaisquer reclamações posteriores. De

outro lado, havia uma relação entre vizinhos mais “política”, (como mais tarde definiria

206
Vale lembrar que as macaxeiras foram retiradas do roçado do seu Luis, mas ele, ao chegar a
pouco tempo no local, também tinha usado o roçado de seu Antonio para fazer sua farinha. Algumas famílias,
meses antes de se mudarem para o local escolhido já fazem suas roças de macaxeira, para não ficarem sem
farinha na nova casa. Quando isso não ocorre, é comum vizinhos suprirem a família chegante enquanto os
roçados desta não produzem (ver por exemplo Costa, 2002c). Nesse caso havia uma disparidade nas versões.
Seu Antonio dizia que a família de seu Luis teria usado seus roçados durante todo o primeiro ano que chegou.
Já um filho de seu Luis disse que sua família nunca tinha comido uma macaxeira do vizinho.
347
uma moradora do alto Amônia), em que a divisão igualitária cedia lugar a uma excessiva

generosidade, de ambas as partes207.

Dias depois, voltando a conversar sobre o assunto é que entendi que a relação mais

“política” entre os vizinhos escondia uma intensa disputa que vinha de um ano atrás,

quando foi decidido o local da instalação do aviamento da casa-de-farinha.

No ano anterior, como havia vários conflitos entre vizinhos por causa de animais de

criação que invadiam os roçados, seu Antonio havia realizado uma reunião entre as famílias

que, na época, moravam todas nas margens pertencentes à Reserva. Assim como já tinha

ocorrido rio acima, na ocasião ficou decidido que os roçados deveriam ser abertos sempre

naquele lado do rio, onde os solos eram mais adequados, só que numa região central,

tornando viáveis as criações de animais próximas às casas, na margem do rio. A partir

disso, oito famílias se reuniram e fizeram uma “colônia”, área onde vários roçados são

abertos próximos uns dos outros208.

207
Os monitores da Reserva que fazem anotações de alimentação registram, normalmente, um litro
de farinha como o gasto de uma família de grande porte durante um dia. O litro é geralmente considerado
como o volume de uma lata de óleo. A esposa de seu Antonio tinha recebido, para um dia, uma quantidade
duas vezes a mais.
208
Para uma descrição das colônias, consultar o capítulo “Botar roçados” da Enciclopédia da Floresta
(Pantoja, et al. 2002: 253-254). Também há ali descrição e fotografias de farinhadas e casas-de-farinha (idem,
pp. 268-271).
348
Próximo a essa colônia foi construída uma casa-de-farinha. Nessa época, já havia a

promessa do prefeito para doação de um aviamento de casa-de-farinha para aquela região.

A casa, portanto, não foi equipada, no aguardo da chegada do aviamento da Prefeitura.

Na versão da esposa de seu Antonio, a Prefeitura, tempos antes, mandara uma

mensagem pelo rádio chamando para uma reunião na escola, junto com a vereadora Íria

Tavares, do PMDB, e um funcionário da Prefeitura, na qual seria decidido o local para o

aviamento. Por algum motivo, poucas pessoas teriam comparecido à reunião, e essa

moradora teria ficado como responsável pelo aviamento a ser doado. O aviamento,

portanto, ficaria na casa-de-farinha próxima à colônia. Enquanto este não chegava,

entretanto, outro vizinho, que era parente da vereadora e não tinha seus roçados na colônia,

teria ido até a Prefeitura para dizer que a esposa de seu Antonio não queria mais ser a

responsável pela casa-de-farinha comunitária. Sabendo disso, a mulher deslocou-se até a

sede municipal e ali conseguira conversar com o mesmo funcionário que antes viera ao

local. Dias depois passava no rio um batelão com a vereadora e o deputado também do

PMDB, Vagner Sales, avisando por um alto-falante que ali seriam doados aviamentos para

duas, e não uma casa-de-farinha. Mas, ao final, chegou apenas um único aviamento e este

acabou sendo doado para a casa-de-farinha ao lado da casa do parente da vereadora, e não

para a esposa de seu Antonio, então secretário da Associação.

Isso deixou as relações entre os vizinhos estremecidas e fez com que nove famílias,

que não tinham motor, fossem obrigadas a carregar seus pesados paneiros de mandioca

descascada por mais de uma hora, no trajeto entre a colônia e a casa-de-farinha

comunitária.
349
Desse modo, era possível entender como as duas famílias, que tinham posições

políticas locais contrastantes, mantivessem um cordial distanciamento, onde rancores não

eram explicitados, e nem, contudo, esquecidos.

Esse acontecimento também demonstra como era percebido, no Amônia, a oposição

entre a Associação, representada por seu Antonio, e a Prefeitura, naquele momento

representada pelo morador que recebeu o aviamento, parente da vereadora e do vice-

prefeito, que também não quis participar da decisão coletiva da reunião organizada por seu

Antonio. Percebem-se as dificuldades deste, enquanto líder local da Associação, dentro

dessa oposição.

Em 1998, novas doações de aviamentos para casas-de-farinha foram feitas, ficando

sob responsabilidade de sete moradores. Uma foi instalada poucas curvas rio acima, na casa

de seu Eduardo. Outra, novamente, ao lado do roçado de seu cunhado Antonio Brabo. Uma

foi instalada na casa de dona Rosa e outra na casa do filho desta, ambos conhecidos por

serem do “PDS” e, que por isso, até então, muito reclamavam por nunca terem recebido

nada Prefeitura. Naquele período, porém, com o crescimento do PT no estado, as duas

tradicionais forças políticas oponentes estavam localmente coligadas, o que explicaria a

família de dona Rosa ser contemplada dessa vez. Também recebera o benefício um

morador novo, que eu não cheguei a conhecer. No baixo Amônia, os aviamentos foram

350
estabelecidos na casa de dois moradores, Claudino e Birrito, ambos também conhecidos por

fazerem oposição constante à Associação209.

5.4.3 - O comércio

A venda da produção local e a compra de mercadorias, nessa região, sempre esteve

estreitamente ligada à organização política local, haja vista a movimentação política gerada

em torno da cooperativa dos seringueiros.

No rio Amônia, em meados da década de 1990, muitos moradores tinham dívidas

com um comerciante que morava na sede municipal, algumas que vinham de antes ainda da

criação da Reserva Extrativista. O comerciante era um antigo arrendatário do seringal

chamado de Minas Gerais, no qual se incluía a região do rio Amônia. Em 1994, esse

comerciante ainda fazia a chamada “quinzena”. Outros vendedores visitavam

eventualmente a região, mas essa foi a única vez que ouvi a expressão “fazer a quinzena”,

tal como faziam os patrões ou seus empregados, quando a borracha era entregue para quitar

ou diminuir as dívidas, o que era feito com uma freqüência fixa.

Pude acompanhar uma dessas quinzenas justamente quando estava na casa do líder

mais conhecido da Associação no rio Amônia, o que tornou possível perceber como as

relações comerciais podiam afetar uma liderança e, desse modo, valorizar um ou outro lado

das disputas locais.

209
Numa das viagens tentei fazer um entrevista com seu Claudino, para um levantamento
socioeconômico, mas ele não quis conversar comigo, dizendo que não queria saber de nada que fosse relativo
à Reserva Extrativista.
351
A quinzena começava quando o comerciante subia o rio com sua canoa avisando as

famílias a data aproximada em que, ao descer o rio, passaria em cada casa. Na sua quinzena

de setembro de 1994, ao parar na casa em que eu estava, o comerciante já deixou seis sacos

plásticos grandes que deveriam ser utilizados para ele levar o feijão (estimava-se que

caberiam em torno de 40kg de feijão em cada saco), que era a produção principal da família

naquele ano.

Nessa época, tenho registros em meu caderno sobre uma brusca mudança nos

humores da família, instaurando-se um clima de tensão, por motivos que eu não podia

atinar. Também nesses dias comecei a ouvir, pela primeira vez, discussões na família sobre

o que seria um “bom” e um “mau patrão”.

O chefe da família considerava aquele comerciante como um exemplo de bom

patrão, pois nunca tinha deixado faltar mercadoria e nem o medicamento. Dizia que o

comerciante, apesar de ser “duro”, não roubava nas contas. Sua esposa discordava, dizendo

que muitos tinham era raiva do comerciante e uma comadre sua tinha até jogado sementes

de cocão210 sobre ele quando ele passava de canoa pelo rio.

Ela também citava os bens do comerciante: uma casa na sede de Thaumaturgo,

outra em Cruzeiro do Sul, onde também tinha uma banca recém vendida no mercado

municipal, um carro e dois batelões, o que teria sido conseguido com o trabalho dos

seringueiros. Para um dos filhos, o comerciante só ficou rico quando passou a roubar dos

seringueiros.

210
Tipo de fruto de palmeira de formato oval com comprimento de cerca de 10 cm.
352
A mãe lembrava-se de um dia em que seu filho mais velho era pequeno e estava

doente. O mesmo comerciante estava para a quinzena, rio cima. Na volta, ela lhe pediu uma

lata de leite em pó, comumente recomendado para crianças doentes. O comerciante negou

porque naquele dia não havia borracha para entregar. A esposa ficou indignada porque não

havia borracha porque naqueles dias seu marido também tinha estado doente, mas ele ainda

cortava seringa e por isso poderia fazer o pagamento depois. Ela também se recordava de

uma vez em que seu marido levara borracha para vender, na época, numa venda na Vila

Thaumaturgo. Os “chaleiras” haviam contado ao comerciante, na época patrão arrendatário,

que reclamou muito e quase açoitou seu marido, só não o fazendo porque ele permanecera

calado, esperando o comerciante se acalmar.

Quando o comerciante chegou à casa em que eu estava, logo se instaurou uma

conversa animada sobre vários assuntos. Naquele momento eu estava com mapas da

Reserva no chão conversando sobre o limite de 15 hectares para cada família, previsto no

Plano de Uso. (O Plano estabelece que cada família tem no máximo 15 hectares para o uso

intensivo, durante três anos). Logo o comerciante disse que era “contra” e eu, interessada

em ouvir a opinião de um ex-patrão, respondi que queria mesmo conversar com quem não

concordava com a Reserva. Ele, no entanto, disse que não era contra a Reserva, mas contra

o limite para as pessoas poderem plantar.

Eu lembrei que essas limitações eram importantes porque os animais e os peixes

estavam diminuindo. Com isso o comerciante iniciou um longo discurso. Começou

lembrando que eu, ao responder seu cumprimento, disse que “estava bem, graças a Deus” e

então, por eu ser uma pessoa temente a Deus, iria entender o que ele ia dizer.
353
Disse que no começo Deus criou as trevas e a luz, o dia e a noite. Depois Ele pôs os

peixes nos rios e os animais na floresta. Tanto que ali, antigamente, tinha muito peixe,

muito queixada, muito ovo de tracajá. Chamou-me a atenção que ele, entre uma afirmação

e outra, dava leves batidinhas na pernas ou nas costas do chefe da casa, como que pedindo

sua concordância, que era consentida.

Ele perguntou então, como esses animais desapareceram se ninguém via as carcaças

dos bichos na mata? Se eles tivessem sido mortos, todos veriam suas carcaças pela floresta.

Isso teria acontecido, para o comerciante, justamente porque os homens fizeram as leis.

Deus teria ficado bravo porque as pessoas quiseram mexer nas Suas coisas, criando leis.

Por isso é que Ele mesmo resolveu tirar os bichos da floresta.

Eu comentei que, da região aonde eu vinha, os peixes e os animais estavam se

acabando justamente nos lugares onde não se tinha criado nenhuma lei para protegê-los. Ele

perguntou: Por que então eu não ia mudar as coisas no meu próprio lugar? Tentando

provocá-lo, eu disse que as coisas não mudavam porque eram os fazendeiros que

mandavam. E ele começou então a dizer aquilo que provavelmente todo mundo que sai da

cidade para a floresta acaba ouvindo e que outros seringueiros já haviam me questionado:

quem não conseguiu cuidar da sua floresta não devia vir dar palpites nas florestas dos

outros.

Eu também comentei que, assim como agora tinha o Plano de Uso feito pelos

moradores em assembléia, antigamente tinham os regulamentos dos patrões, muitos não

deixando que os seringueiros cortassem a floresta nem para plantar. Ele disse que nunca

tinha feito isso e passou, então, a discorrer sobre as vantagens da patronagem, quando o
354
barracão estava sempre cheio, com mercadorias, medicamentos, que ainda eram reservadas

aos “seringueiros bons”. Foi quando comecei a entender que, assim como tinha o bom e o

mau patrão, também tinha o bom e o mau seringueiro.

Para explicar as vantagens do tempo do patrão o comerciante deu o seguinte

exemplo: de um lado tem-se um único pote e de outro uma fileira de potes. Se os grãos

forem sendo colocados em todos os potes de um lado, eles nunca iriam se encher, mas se

todos colocarem os grãos num pote só, este pote se encheria rapidamente. Eu então olhava

para o chefe da casa, esperando que ele expressasse alguma divergência - era o que eu

esperava de um líder local dos trabalhadores - mas ele permaneceu em silêncio.

Naquela quinzena, havia uma disputa sobre o valor que a família devia ao

comerciante. Meu caderno de campo desses dias é cheio de contas rabiscadas, que eu já não

consigo mais entender. Sei que o comerciante dava um valor para o débito, e a família dizia

que era menos. O dinheiro estava em mudança (era a complicada passagem do cruzeiro

para o real, não muito tempo depois da criação do Plano Real), a dívida era em quilos de

borracha e o pagamento (que não iria dar conta de toda a dívida), seria em feijão. Para

complicar o cálculo, volta e meia ouviam-se notícias sobre os preços praticados pelo

comerciante ao longo de seu caminho. Conforme se falava, para um morador do alto

Amônia, conhecido por ser um bom seringueiro, o câmbio teria sido 1kg de feijão = 1 kg de

borracha. Na semana anterior, 1kg de feijão valia 1600 cruzeiros e 1kg de borracha 1700

cruzeiros. Quando chegou à casa em que eu estava, o preço do feijão a ser comprado pelo

comerciante tinha caído para 1500 e a borracha aumentara para 1800 cruzeiros.

Acrescentando ainda mais confusão nas minhas contas, ao chegar ele disse que daria 20%
355
de desconto para o dono da casa. Perguntei o motivo do desconto, mas ele afirmou que era

só porque ele queria mesmo e por isso não entendia por que, mesmo assim, as pessoas

ainda reclamavam dele.

Também perguntei sobre as variações de preços que ouvira durante sua passagem

pelo rio, mas dessa vez ele não respondeu. Logo um dos filhos começou a reclamar dizendo

que só pagaria o valor que ele achava correto, e mesmo se o pai quisesse, ele não iria pagar

mais. O comerciante afirmou que estava lá para fazer as contas com o dono da casa, e o

dono das contas, e não com seu filho, mas o rapaz respondeu que quem trabalhava eram

eles, por isso os filhos tinham direito de rever os valores da conta. Iniciou-se assim uma

forte discussão entre os dois filhos mais velhos e o comerciante, em que o pai não se

envolveu.

Enquanto a tensão aumentava e intensificavam-se ofensas mútuas, o comerciante foi

deixando a casa e dirigindo-se ao porto. Ao chegar, rapidamente subiu na sua canoa e abriu

uma bolsa, deixando um revólver à mostra. No mesmo instante, um dos filhos subiu

correndo o barranco, rumando de volta para sua casa. Sua mãe, que vinha descendo, ainda

tentou detê-lo, mas só conseguiu ficar com sua camisa nas mãos. O rapaz mais novo

continuava no enfrentamento, dispondo-se à briga. Ainda tentei acalmá-lo, mas também

sem sucesso. Fugindo da confusão, o comerciante ligou o motor, fez a volta da canoa e

desceu rio abaixo, provavelmente com medo do rapaz que já estava no alto do barranco,

escondido na mata, e, como o comerciante bem sabia, também armado.

Mais tarde, as conversas eram que o comerciante era o pior de todos os patrões para

quem o dono da casa já tinha trabalhado.


356
Dias depois, a notícia da briga já percorria todo o rio e o que eu ouvi era que o dono

da casa, um reconhecido representante da Associação, levou os sacos com o feijão para a

casa de um vizinho rio abaixo, deixando com alguém um aviso para o comerciante vir

buscá-los, sem que os filhos soubessem.

Quando estava no alto do rio Amônia, num dia de rio cheio, pude acompanhar a

chegada de outro comerciante na região, também morador da sede municipal, com um

pequeno batelão.

Eu estava na casa de um mateiro que anos atrás trabalhara para vários patrões e era

famoso por ser um grande conhecedor das madeiras da região. No batelão, sua esposa

comprou um retrós de linha, elástico para roupas, óleo para máquina de costura, 1 Kg de

açúcar e 1 barra de sabão. Deu ao comerciante aproximadamente 20 Kg de feijão. Perguntei

ao dono da casa se o pagamento quitara a conta, mas ele respondeu que nem tinha

perguntado. Disse que, quando o comerciante voltasse, “se eu ficar devendo, pago eu”,

senão, “ele vai me pagar”. Aceitei a resposta, mesmo sem entender. Naquela noite, o dono

da casa não voltou. E, de madrugada, vi o batelão do comerciante descendo o rio,

carregando várias toras de madeira.

Num contexto de disputa em que a Associação e o Ibama se esforçavam para

fortalecer suas lideranças, suas idéias sobre direitos dos moradores e sobre o controle

ambiental, os comerciantes, que cumpriam o papel fundamental de buscar a produção do

357
seringueiro e do agricultor na porta de sua casa, pareciam se esforçar em fazer o trabalho

contrário, desmoralizando as lideranças, as idéias da Associação, o Plano de Uso.

Já seu Eduardo e seu cunhado, Antonio Brabo, outros líderes locais, apoiados pela

Prefeitura, faziam suas compras na cidade e ainda vendiam aos outros moradores.

Anos depois, com recursos do PPG-7, como dito acima, a Associação abriu uma

cantina no rio Amônia, justamente naquele ano a borracha entrava numa de suas maiores

crises locais. Na época, o cantineiro chegou a comprar produtos agrícolas produzidos pela

população, cerca de 700kg de feijão, mas grande parte se perdeu por falta de armazenagem

adequada na cantina central, na Foz do Tejo, além disso, as mercadorias na sede municipal

estavam mais baratas do que as do armazém, que, na cantina, começaram a perder o prazo

de validade, sendo perdidas. Acontecimentos que, obviamente, aumentavam o descrédito

com a Associação.

Nesse mesmo período, seu Eduardo e seu cunhado Antonio Brabo, trabalhando com

a construção de casas para o Assentamento, aumentavam o número de trabalhadores e

também as mercadorias disponíveis em seus pequenos comércios.

5.4.4 - Outros equipamentos e recursos públicos

Em 1996 iniciaram-se as atividades do Projeto Resex211, que, além da retomada nas

atividades de comercialização da Associação, instalou 15 radiofonias em toda a Reserva.

Não sei o procedimento de escolha dos locais desses benefícios, mas, o armazém do rio

211
Sobre o “Projeto Resex”, subprojeto do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais
do Brasil, ver item 1.7.5.
358
Amônia foi aberto ao lado da casa de seu Antonio, local também de instalação da primeira

radiofonia do rio.

Com isso aumentou ainda mais a freqüência de moradores da região visitando

aquela casa especialmente com a fonia, que duas vezes por dia era ligada para quem

quisesse conversar com pessoas de outros pontos da Reserva, ou mesmo com parentes em

Cruzeiro do Sul, na radiofonia localizada na sede urbana da Associação. Em 1997, outra

radiofonia tinha sido instalada no alto rio Amônia, na casa de um irmão de Damásio, antigo

gerente de cantina do Tejo e que também fora candidato à presidente da Associação. O

mesmo que, anos antes, entrara em questão com seu Antonio Brabo pelas vacas em seu

roçado.

Em 1998, também ao lado da casa de seu Antonio, foi construído um pequeno

galpão e instalado ali uma máquina de pelar arroz, a única no rio, onde também se

planejava a construção de uma engenhoca para produção de açúcar, ambos para uso

comunitário. Também estavam previstos recursos para limpeza de dois lagos na região.

Já do lado da Prefeitura, além das novas casas-de-farinha que receberam

aviamentos, a maior mudança local foi a criação do Projeto de Assentamento. Com isso,

uma série de alterações ocorreram na região, destacando-se o aumento da população do

lado oposto à Reserva, o incentivo do INCRA ao desmatamento na margem do rio (até

então constantemente criticado pelas pessoas ligadas à Associação e o Ibama) e a chegada

de uma enorme quantidade de recursos sob a forma de créditos para os assentados. Vale

lembrar que o Projeto de Assentamento era reconhecido por todos tal como era, ou seja,

uma conquista pessoal do prefeito.


359
5.4.5 - A nova Terra Indígena no médio Amônia

Conforme já adiantado anteriormente, desde 1999 iniciou-se um movimento para

criação de uma Terra Indígena no rio Amônia.

As fronteiras da área reivindicada pelo líder do movimento, que é primo e irmão de

criação de seu Eduardo, incidem exatamente entre os lotes dos dois cunhados, Eduardo e

Antonio Brabo, um no médio Amônia e outro no alto, na fronteira com a Terra Indígena

Ashaninka, indo até as margens do Rio Arara, também afluente do rio Juruá (Aquino, 2002

e Pereira Neto, 2005). Esses limites estão ainda em discussão e situação ainda continua

pendente (Paula, 2008).

Caso seja aceita a proposta do líder do movimento, toda a família de seu Antonio

Baixinho será expulsa do local, bem como irmãos de sua esposa. Seu Luis, apesar de ter

origem Jaminawa, não quis participar do processo.

O movimento pela criação da TI Arara do rio Amônia é resultado de uma longa

história que passa pela expulsão de moradores da região onde foi estabelecida a TI Kampa

do Amônia, e também é uma demonstração do descontentamento com a situação dos

moradores das margens do rio.

Com a indefinição exata dos limites, os moradores que possivelmente seriam

expulsos da região iniciaram uma intensa mobilização.

Eles tentaram ativar as mais diferentes redes: fizeram reuniões com a Associação,

com o Prefeito, com pesquisadores, com outros índios, com antropólogos da Funai. Foram

a Rio Branco, falaram com funcionários do governo, com deputados, com o governador e

360
até com a ministra. Não sei dizer como conseguiram recursos212. Obtiveram, moralmente,

apoio da maioria dos que procuraram, que entendiam que aquela população também tinha

direito de permanecer no lugar que conquistaram e onde há muitos anos construíram suas

vidas, algumas até há mais tempo ali do que aquelas famílias indígenas.

Nada, entretanto, foi concretamente realizado. Não houve nenhuma contestação

oficial apresentada à Funai contra a criação da Terra Indígena. Com certeza não foi por

falta de organização dos moradores, nem por falta de recursos, nem pessoas. Não foi por

falta de uma consciência política, nem por excesso de clientelismo ou assistencialismo.

Aqueles que, dentro dessas redes, seriam capazes de aceitar a querela e se envolver contra a

expulsão dos moradores na arena política judiciária estatal, preferiram não fazer a sua parte.

Acredito que talvez fosse porque essas pessoas também fazem parte de outras redes que não

lhes permitiria incorrer no risco de questionar as conquistas dos indígenas, também válidas,

quem sabe até abrindo espaço para que outros grupos, como fazendeiros, por exemplo,

fizessem o mesmo. Dentro desse espaço, optou-se por abandonar os moradores não índios,

enquanto que as famílias indígenas e os órgãos indigenistas faziam a sua parte.

Pela primeira vez, Prefeitura, Associação e Ibama apresentaram posturas

coincidentes: todos apoiavam a reivindicação dos moradores não indígenas em permanecer

em seus locais, e, embora não questionassem os direitos indígenas, não concordavam com

os limites propostos. Mas, apesar dessa concordância, não houve nenhuma atitude conjunta

212
De minha parte, por exemplo, conseguiram uma máquina fotográfica (uma moradora pretendia
registrar atos contra o ambiente, por parte dos indígenas); um texto para um blog e um artigo de jornal, o que
não tinha nenhum efeito oficial.
361
desses órgãos contrapondo-se aos indígenas, e, pelas notícias recentes, permanece na região

um clima de dúvidas, tensão e ameaças.

5.5 - O Alto Tejo

5.5.1 - A Associação e os antigos patrões

O igarapé Manteiga é um afluente do alto rio Tejo, que junto com o Riozinho e o rio

Tejo, formam a área de maior produção de borracha do Alto Juruá. Ali os igarapés são

navegáveis apenas em pequenas canoas durante poucos dias ao longo do ano: no auge do

inverno e após os “repiquetes” de inverno, quando chuvas fortes nas cabeceiras provocam

grandes e rápidas cheias no igarapé mas que logo se esvaziam.

Por essas características, durante muitos anos a extração de seringa foi a atividade

econômica quase exclusiva, sendo a agricultura comercial quase inexistente, pela

dificuldade de transporte (ver foto 3).

Em 1991, havia 30 famílias que residiam às margens do igarapé Manteiga e seus

pequenos afluentes (conforme Almeida, 1991). Houve várias mudanças e novos casamentos

e, em 2002, eram 41 famílias, a maioria vivendo nas margens do igarapé.

Do ponto de vista da política local, em meados da década de 1990, vários moradores

que viviam no Manteiga tinham um forte histórico de envolvimento nas lutas contra os

patrões e pela criação da cooperativa e da Reserva, em oposição aos seus vizinhos do

igarapé Riozinho, em sua maioria mais nostálgicos do tempo dos patrões e críticos das
362
mudanças surgidas com a criação da Reserva. Tal como no Amônia, as discussões sobre

seguir ou não as regras do Plano de Uso eram intensas, especialmente em relação à caça

com cachorro, opiniões que estavam sempre relacionadas ao apoio ou não às ações da

Associação e do Ibama.

Em meados da década de 1990, enquanto no rio Amônia, como descrito acima, a

oposição entre Associação e Prefeitura fazia parte da rotina local, no igarapé Manteiga a

Prefeitura, do PMDB, era apenas uma vaga referência. Isso era facilmente compreensível

graças à grande distância entre a sede do município e aquele igarapé, distância que, nos dias

mais secos, poderia chegar a dois dias de viagem de canoa e mais um ou dois dias de

caminhada. Essa distância fazia com que os moradores do igarapé não recebessem em casa

membros da política municipal nem suas benesses (como escolas, casas de TV, casas-de-

farinha), sendo que as visitas de fora mais comuns eram de pequenos comerciantes e,

eventualmente, técnicos de projetos e pesquisadores.

Dessa forma, as oposições políticas existentes, bem menos intensas do que no

Amônia, se davam geralmente em torno dos que apoiavam a Associação e dos que

preferiam o tempo dos patrões, ou, como dizia aquele morador, os que eram “patrãozados”.

Nesse período, a maior reclamação no igarapé Manteiga e no Riozinho era a

dificuldade na venda da borracha e na compra das mercadorias, graças as dificuldades que

as cantinas da Associação enfrentavam. Ali não havia, como aparece no desenho acima

reproduzido, possibilidade a da entrada de comerciantes em grandes barcos. No tempo dos

patrões, havia empregados que faziam a pesagem da produção ao longo do ano e, ao final

da safra, aproveitavam as grandes chuvas para a retirada da borracha, arrastada em canoas e


363
depois em barcos maiores até a usina em Cruzeiro do Sul. Os moradores, então, iam aos

barracões onde compravam toda a “estiva”, as mercadorias consideradas básicas para todo

o decorrer do ano, numa única viagem.

Com a cantina, como na maior parte do tempo não havia empregados para o

transporte e nem a cantina tinha todos os produtos suficientes para o ano, os moradores

precisavam levar em canoas, ou nas costas, pequenas quantidades de borracha e carregar na

volta as mercadorias, atividade trabalhosa que tinha de ser repetida por muitos seringueiros

várias vezes ao longo do ano.

Durante minha estadia no Manteiga e no Riozinho, só duas vezes encontrei-me com

pequenos marreteiros vindos de outros lugares; um com uma caixa de destilados e outro

com pentes, espelhos, isqueiros, linhas e outras quinquilharias, fáceis de serem carregadas.

Nesse contexto, era claro que as famílias que conseguiam ter condições de trazer

produtos para comerciar na região estavam situação privilegiada.

Assim, no igarapé Manteiga, a família que tinha maior predominância local era a de

um pequeno comerciante, ex-aviado e irmão de um patrão. Ele é que possuía o maior

campo de gado, a maior casa de madeira serrada e era a referência de mercadorias e

remédios em situações de emergência.

A partir de 1994, duas novas famílias aparentadas, ambas com um histórico de

participação na Associação, também vinham se fortalecendo economicamente graças à

produção do Couro Vegetal da Amazônia (CVA).

O CVA, ou Treetap, desenvolvido por uma empresa no Rio de Janeiro, a Couro

Vegetal da Amazônia, é um tecido recoberto por látex, utilizado para a produção de vários
364
utensílios, como bolsas e sapatos213. A produção desse tecido, embora muito mais

complexa do que a produção das pranchas de borracha, era várias vezes mais lucrativa,

sendo reivindicada por muitos seringueiros da Reserva. Como projeto piloto, foram

instaladas nove estufas de produção em toda a Reserva, sendo que, em todos os afluentes

do alto do rio Tejo, apenas foram instaladas duas estufas no igarapé Manteiga, embora o

Riozinho fosse tradicionalmente o maior produtor de borracha da região.

Durante os primeiros anos do projeto, essas famílias recebiam o valor da produção

anual antes da entrega do produto, como no anterior sistema de aviamento. Como o preço

do produto era relativamente alto, essas famílias conseguiam comprar a estiva para o

consumo próprio e também um excedente de mercadorias, para o comércio.

Além dessas famílias, no igarapé Centrinho, também afluente do Tejo, não muito

distante do Manteiga, localizava-se a única fazenda da região, que era mantida por dois

irmãos. Estes constantemente andavam pela região comprando gado e fazendo trabalhos de

serraria e marcenaria. Em 2000, um desses irmãos tornou-se vereador, pelo PFL.

No igarapé Manteiga, tal como no Amônia, também havia conflitos com animais

que invadiam roçados, mas ocorriam em número menor do que no Amônia. Ali as maiores

contendas se davam em torno de estradas de seringa, e os arranjos eram geralmente

resolvidos entre as próprias famílias (em alguns casos, com a mudança de uma família para

outro lugar da região).

213
Para uma discussão sobre esse produto ver Pantoja & Silberling (1996). No início da década de
2000 a produção foi interrompida por dissidências entre a Associação e a empresa.
365
5.5.2 - A chegada da Prefeitura

No bojo das mudanças políticas da Associação iniciadas em 1999, como dito acima,

a Prefeitura começou a construir novas alianças, especialmente a partir do

descontentamento dos velhos militantes do movimento social, ocupando novos espaços,

especialmente no rio Tejo.

Um local de importância nessa região era a Restauração, ponto de entroncamento do

rio Tejo com o Riozinho e bem próximo da foz do igarapé Manteiga. Ali localizava-se a

única igreja católica do Alto Juruá, onde o padre vinha para a desobriga e realizava-se,

anualmente, o Novenário de São Raimundo Nonato, santo de grande devoção local. Como

resultado do movimento dos seringueiros, no local do antigo barracão dos patrões foi

construída uma cantina da cooperativa, uma escola e um posto de saúde, todos através de

convênios da Associação.

Em meados da década de 1990, a Prefeitura, por sua vez, instalou outra escola, que

cedeu lugar à antiga e construiu um galpão para uma TV e um gerador para uso coletivo.

No início da década de 2000, novas transformações tomaram conta do lugar, com

novos investimentos da Prefeitura. A pequena vila de pouco mais de dez casas foi alçada à

categoria de subdistrito; ganhou um gerador de luz movido a óleo, que funcionava algumas

horas durante a noite; uma caixa d’água e mais uma escola, rio abaixo. Desnecessário dizer

366
que os cargos de professores e de responsável pelo gerador foram reservados justamente

para aqueles antigos militantes, então fazendo oposição à nova diretoria da Associação214.

Em seguida, o governo estadual do PT também passou a investir na região que

rapidamente crescia, construindo uma escola de segundo grau, a primeira construção de

alvenaria de todo o rio Tejo215.

Nesse mesmo período os moradores das Reservas Extrativistas passaram a ter

acesso aos mesmos créditos dos assentados da Reforma Agrária. E, tal como para os

assentados, a primeira parcela dos créditos deveriam ser utilizados necessariamente para a

construção de casas. Com isso, há um verdadeiro boom de moradores na Restauração, que

abandonaram suas antigas colocações nos diferentes igarapés do alto do rio Tejo para ali

construírem suas novas casas. Maria do Socorro, agente de saúde e monitora da

Restauração por vários anos, fez um histórico das mudanças no local: pelos seus dados,

onde na década de 1990 havia 10 casas, em 2008, esse número tinha saltado para 85216.

Esse processo mostrava outra mudança econômica e política na região. Até então,

por maior que fosse a crise na economia da borracha, seringueiros não mudavam sua

opinião: o futuro da floresta estava na borracha, ou, como se dizia localmente: “o jeito aqui

214
Anos depois, uma das professoras fez cursos à distância e conseguiu ser aprovada no concurso
público.
215
Em 2006 foi construída outra escola de segundo grau na Reserva, na Foz do rio Breu, também de
alvenaria. Assim, nesse ano, havia 303 estudantes de segundo grau morando na Reserva, conforme artigo
“Universalização da educação. Como as comunidades mais isoladas do Acre estão recebendo o segundo grau
e o ensino superior”, Jornal Notícias da Hora, Rio Branco, de 8/5/2006.
216
Esses dados foram apresentados no Treinamento de Monitores Sociais e Ambientais realizado na
Escola Yorenka Ãtame (Saberes da Floresta), em Marechal Thaumaturgo, em novembro de 2007, realizado
com recursos do “Projeto de Pesquisa e Monitoramento da Diversidade Biológica e Cultural no Alto Juruá
para o Desenvolvimento Regional”, coordenado por Mauro W. B. de Almeida e financiado pelo convênio
entre o PPBIO, a UFAC e a Unicamp.
367
é a borracha”, comentário sempre repetido no Alto Juruá e que também podia ser ouvido

entre moradores do alto do rio Acre. A extração do látex nativo, como já dito, necessita da

floresta e a borracha produzida tem uma enorme vantagem em relação a todos os outros

produtos da região: não é perecível, podendo ser armazenada durante toda a safra e também

não é alterada pela chuva, sendo transportada nas mais diferentes condições, inclusive

sendo arrastada pela água, o que não ocorre com nenhum outro produto agropecuário.

Justamente naquele período, a Universidade de Brasília, em conjunto com a

Associação e o Projeto PPG-7, também vinham investindo nas distantes colocações do Alto

Tejo, com a instalação de várias mini-usinas de FDL217. Também desnecessário dizer que

as colocações onde essas mini-usinas foram erguidas eram, em grande maioria, de

seringueiros que então apoiavam a nova Associação. Como comentado acima, foi a

primeira vez em que a Associação teve algum sucesso na comercialização local, graças à

FDL e ao subsídio estadual aos seringueiros ligados a associações.

Em 2007, porém, e pela primeira vez, comecei a ouvir comentários de que,

independente de qualquer melhoria na economia da borracha, os seringueiros não voltariam

mais às suas estradas de seringa. Conforme um monitor, “hoje o futuro de nossos filhos é o

saber”. Para ele o importante era que, “no futuro, que eles [seus filhos] sejam donos da

pessoa deles”. Se antes a “escola” das crianças era a “faca de seringa”, agora todos queriam

carteiras e cadernos.

217
Ver item 4.3.3, em que foi reproduzida uma mensagem da Associação mostrando suas atividades
ao longo do seu mandato, entre 1999 e 2002, constando a instalação das 50 estufas de FDL.
368
Em toda a Reserva, a valorização da educação por parte dos moradores é muito

grande e bem maior daquela geralmente encontrada nas cidades. Quando iniciei minha

pesquisa, em 1994, era comum que famílias enviassem jovens do sexo feminino para

estudarem em Cruzeiro do Sul. Como em várias áreas rurais do país, as meninas ficavam

nas casas de parentes e amigos e geralmente, além dos estudos, tinham de se ocupar com as

tarefas de limpeza da casa e cuidado de crianças pequenas.

Quando o governo estadual instalou a primeira escola de ensino médio na sede do

município de Thaumaturgo, ali passou a ser o local preferido para o envio dos jovens: não

só das moças, mas agora também os rapazes, que passaram a morar com os irmãos nas

casas de parentes e amigos, e, pela relativa proximidade, mantinham uma freqüência maior

de retorno à casa dos pais. Mais tarde, muitos pais conseguiram construir ou obter com a

Prefeitura (via créditos federais) a própria casa na sede municipal, onde os filhos podiam

morar durante o período letivo, e de onde eventualmente vendiam produtos produzidos nas

colocações da Reserva.

Na Restauração, não eram apenas os filhos, mas, aproveitando os créditos para a

construção das casas, famílias inteiras desceram os afluentes do alto do rio Tejo (Riozinho,

Manteiga, Dourado e do próprio Tejo) para ali se instalarem.

Se antes todo o seringueiro ou agricultor era capaz de fazer com seus vizinhos uma

casa de paxiúba, as novas casas foram construídas todas de madeira serrada, feitas por

algumas pessoas que se especializaram em lidar com moto-serras, plainas, etc. Até então,

essas casas acompanhavam as curvas dos rios, com a fachada em frente à sua margem e

369
guardavam alguma distância entre si218. Agora, as casas passaram a ser construídas

seguindo retas imaginárias, distantes apenas dois ou três metros umas das outras (ver foto

31). Era uma exigência da Prefeitura, pois isso facilitava a instalação dos fios de luz,

ligando o gerador às casas, e a colocação das tubulações de água que deveriam ir até a caixa

d’água, também construída pela Prefeitura.219

Com essa concentração de moradores, a caça e a pesca tornaram-se evidentemente

escassas na região. Para obter a caça tornaram-se necessárias longas caminhadas até as

antigas colocações, agora desabitadas, mas muito distantes. Por isso, a atividade de caça,

antes cotidiana, passou a ser apenas eventual para os moradores da Restauração. E,

conforme uma monitora afirmou, em 2007: “a gente pede a Deus que alguém mate um boi

para a gente comprar um quilo de carne”.

As famílias, assim, passaram a depender dos produtores de gado da região, em

especial do único fazendeiro das proximidades220 e, principalmente, da Prefeitura para a

obtenção de empregos. Assim, é interessante observar que, em troca de um futuro onde os

filhos sejam “donos da pessoa deles”, famílias inteiras passaram a depender cada vez mais

de pais aposentados e empregos, quase sempre ligados à Prefeitura. Ali também podiam

usufruir da luz durante algumas horas da noite e de um posto de saúde com uma agente de

218
Para informações sobre métodos e peculiaridades das casas construídas por índios e seringueiros
no Alto Juruá pode-se consultar Costa et alii (2002).
219
A água da caixa d’água, entretanto, apresentou sabor salgado, não sendo potável. O mesmo
ocorreu com outra caixa semelhante também construída pela Prefeitura na sede municipal.
220
Conforme dito acima, havia uma pequena fazenda de filhos de antigos patrões que permaneceram
na região e foram gradativamente aumentando sua criação de gado, em detrimento do Plano de Uso. Em 1998
já havia 180 cabeças de gado nesse local. Durante algum período “os moradores e o Ibama empataram de
continuar desmatando” conforme Fonseca (1998), mas depois acabaram abandonando a questão.
370
saúde. Em troca, seria possível dizer que as famílias estavam, perdendo aquela “autonomia

relativa” de “camponeses florestais”, que a vida da floresta permitia, conforme descrito por

Almeida (1993).

Como dizia a monitora Maria do Socorro em 2007, sagaz observadora da vida local,

os moradores da Restauração (aqueles mesmos que antes conseguiram fazer com que os

patrões fossem “humilhados” por Antonio Macedo e João Claudino) passavam a ser, então,

os “humilhados” pela Prefeitura.

5.6 - Algumas Considerações

Neste capítulo procurei demonstrar como as tarefas cotidianas na Reserva

Extrativista podiam imbricar-se com a política local realizada no nível da Associação e da

Prefeitura.

Ir à escola, fazer farinha, ter fartura de carne de caça e peixe, obter acesso a técnicas

mais lucrativas de produção da borracha eram ações diárias que muitas vezes poderia ser

mais ou menos favorecidas, dependendo da posição das pessoas dentro diferentes conflitos

políticos que podiam ser encontrados na região.

Algumas situações observadas no rio Amônia demonstram como conflitos entre

vizinhos podiam ser resolvidos a partir das relações de parentesco, mas quando essas

questões não se resolviam outras famílias envolviam-se, tomavam partido, agentes externos

podia ser requisitados, que também podiam estar ligados às disputas políticas locais.

371
Outro foco de tensão constante eram as técnicas de utilização dos recursos

consideradas predatórias pelo Plano de Uso da Reserva. No caso do rio Amônia, novamente

as disputas tornavam-se polarizadas, de um lado a Associação, o Ibama, seu Antonio, seu

Luis e, de outro, a Prefeitura, seu Eduardo e seus empregados e também seu Antonio

Brabo, que precisava pagar constantemente caçadores para a alimentação de sua família e

seus empregados. Já no Alto Tejo a Associação disputava com os antigos apoiadores dos

patrões que, mesmo após a saída destes, utilizavam desses argumentos para criticar a

Associação e não cumprir as regras do Plano de Uso.

No rio Amônia, com a criação do Projeto de Assentamento em 1996 e a entrada

maciça de recursos do INCRA, através da Prefeitura; com o crescimento dos recursos

vindos para o município através de projetos federais e com a diminuição dos projetos

externos ligados à Associação, era evidente para que lado que o precário equilíbrio, que

polarizava Associação e Prefeitura, tenderia.

Do ponto de vista econômico, como contavam os monitores do rio Amônia em

2008, a extração de seringa tinha sido abandonada “hoje é mais farinha e gado”. Houve

algumas tentativas para a produção de FDL, criação piloto de peixes em açudes e plantio

consorciado de guaraná, todas elas ligadas à Associação e ao Ibama, mas não foram bem

sucedidas.

Do ponto de vista ambiental, como disseram os monitores em 2007, o Plano de Uso

“está falindo aos poucos”. E, política e economicamente, “a maioria dos trabalhos que

acontecem é mais da política...”, “quase tudo pertence à política” (ou seja, à Prefeitura e os

políticos).
372
O mesmo pode ser percebido no Alto Tejo, com a atuação da Prefeitura na região.

Não à toa, em 2008, a chapa eleita para a diretoria da Associação foi abertamente apoiada

pela Prefeitura.

373
374
CAPÍTULO 6 - O “TEMPO DA POLÍTICA” NA CIDADE

6.1 - Introdução

Reproduzo a seguir algumas observações realizadas na cidade de Cruzeiro do Sul no

período das eleições para governador e deputados estaduais e federais de 1998. O objetivo é

tentar perceber como os moradores da cidade se relacionam com a política eleitoral, para

que, a partir disso, se possam notar algumas especificidades das relações políticas na

Reserva Extrativista do Alto Juruá.

Essas anotações obtidas em Cruzeiro do Sul não foram planejadas, sendo

conseqüência de vários acontecimentos não esperados, e, especialmente, como será visto,

de minha ingenuidade e desconhecimento quanto às dimensões das redes que se ligam à

vida política na Reserva221.

Naquela ocasião, eu estava em Cruzeiro adiantando as compras e esperando a

liberação de recursos para atividades na Reserva Extrativista. Um trabalho que seria em

parte seria financiado com recursos do Ibama e que tinha por objetivos realizar um

treinamento para os monitores e uma reunião para discutir o Plano de Desenvolvimento da

Reserva222. Vários pesquisadores e membros do Ibama participariam do evento e eu estava

indo para fazer reuniões preparatórias, pois já era sabido que reuniões e treinamentos eram

221
Agradeço à professora Neide Esterci por me incentivar a descrever e discutir sobre essa experi
222
Entre 1997 e 1998 foram feitas várias reuniões e uma assembléia para a deliberação do Plano de
Desenvolvimento da Reserva Extrativista. Participei dessa última assembléia e, depois, junto com outros
pesquisadores, da elaboração escrita do Plano (ver Almeida, 1998).
375
muito mais profícuos e os debates mais aprofundados quando os moradores tinham tempo

para discutir os assuntos antecipadamente entre si.

Por acaso, ainda no aeroporto, encontrei-me com a coordenadora da campanha de

Antonio Luis Batista de Macedo - figura fundamental do movimento de criação da Reserva

Extrativista, como dito acima - que então se candidatara ao cargo de deputado estadual pelo

Partido Verde (PV). Naquele rápido encontro, a coordenadora me deu um maço de

panfletos e colou um adesivo do seu candidato em minha camiseta.

Naquele período, a cidade de Cruzeiro do Sul era, para mim, apenas um lugar

obrigatório de passagem, visto que era ponto final do avião que vinha da capital. Eu nunca

permanecia na cidade mais que dois ou três dias, tempo suficiente apenas para ir ao

escritório da Associação, fazer as últimas compras da viagem e embarcar no porto para a

Reserva223. Eu não via a cidade como um local de pesquisa, e ali me sentia tal como em São

Paulo ou Campinas, uma cidadã anônima como qualquer outra pessoa. Logo, achei normal

distribuir ali panfletos de um candidato que eu sabia ser alguém que lutava pelos moradores

da floresta.

Outro acaso, entretanto, me esperava no saguão do hotel: um membro do Ibama, na

época responsável pela Reserva Extrativista, que estava trazendo outra pessoa para se

hospedar. Logo ele veio fazer comentários sobre meu adesivo, o qual eu já nem me

lembrava. Eu, sem muito pensar, devo ter feito algum comentário sobre as vantagens de ter

223
Como era de praxe, todos os pesquisadores, antes de entrar na Reserva, iam ao escritório da
Associação para explicar à diretoria da Associação os objetivos da pesquisa e o planejamento da viagem. Do
mesmo modo, no retorno, os pesquisadores voltavam ao escritório para informar os resultados da viagem.
Nessa época, somente as pesquisas biológicas precisavam de autorização oficial do Ibama.
376
alguém como Macedo na Assembléia Legislativa Estadual. Eu vinha de uma longa viagem

de ônibus de São Paulo a Rio Branco e uma viagem de avião, e devo ter feito algum

raciocínio bastante simples de que se o Macedo tinha sido um dos principais criadores e

defensores da Reserva Extrativista, alguém que tinha como trabalho defender a Reserva

Extrativista, só poderia, assim como eu, querer que o Macedo fosse eleito. Talvez tenha

também me lembrado de como as forças políticas tradicionais da região vinham tendo uma

postura sempre contrária à Reserva, às terras indígenas e os “ambientalistas” de forma geral

e que somente o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Verde (PV) tinham um

histórico de apoio às questões ambientais. Enfim, minha conclusão óbvia era que um

funcionário do Ibama, responsável pela Reserva, não poderia ter outra opção a não ser votar

no Macedo, no PT ou no PV, na época, coligados.

Ledo engano: mais tarde fiquei sabendo que o tal funcionário estava envolvido na

campanha justamente de um candidato que, para mim, representava o oposto do Macedo:

César Messias, antigo patrão e candidato pelo PPB, o mesmo partido do governador que

sempre atacara o Ibama e os “ambientalistas”. Resultado: os recursos para a viagem,

programados para chegar não vinham e, após uma espera de mais de um mês em Cruzeiro

do Sul, fui avisada finalmente que a tal reunião com o Ibama na Reserva havia sido

cancelada. Mais tarde, a explicação que ouvi sobre a mudança dos planos era que havia

uma denúncia de que o Ibama de Brasília estaria financiando pesquisadores para fazer

campanha política na Reserva Extrativista...

Eu, sem saber de nada, adiantei, com meus próprios recursos, as compras do

combustível para a viagem, a alimentação e o material para as reuniões, e permaneci na


377
cidade esperando a os recursos para subir para a Reserva, como já tinha feito outras vezes.

Como era a única opção cultural disponível na cidade, comecei a freqüentar os comícios e

acompanhar o pequeno grupo de cinco ou seis militantes que estavam fazendo panfletagens

do Macedo pelos bairros da cidade.

Após uma semana pagando diárias do hotel, sem notícias sobre a chegada dos

recursos e já ficando com pouco dinheiro, pedi hospedagem à família do piloto do barco

que há anos trabalhava com os pesquisadores da Reserva. A casa ficava no Bairro da

Várzea, que, como diz o nome, é em parte alagável, mas que tem a vantagem de ser

próximo ao rio Juruá, sendo por isso moradia de várias pessoas que vivem em função do

rio, como pilotos de barcos e pescadores. Além disso, tem uma localização privilegiada por

ser relativamente próximo ao centro da cidade, o que é muito importante numa cidade de

muitas ladeiras e onde o transporte coletivo era então praticamente inexistente (ver foto 32).

Muito gentilmente, a família do piloto me aceitou em sua casa por um período que

pretendia ser de poucos dias. Acabei ficando ali entre os dias 14 de setembro a 7 de

outubro224, passando a maior parte do tempo, quando o calor permitia, andando de porta em

porta pelos bairros, distribuindo panfletos e conversando com os moradores. Logo a casa de

meu amigo tornou-se ponto de encontro dos militantes e depósito de material,

transformando-se informalmente no comitê cruzeirense da campanha do Macedo.

Vale adiantar que 1998 foi ano de uma grande virada política no estado do Acre

quando, pela primeira vez o PT, capitaneando a “Frente Popular”, uma coalizão de mais de

224
Registro aqui, além de um agradecimento à família do piloto Francisco Queiroz, o Tita, também
o carinho que recebi de sua sogra, dona Sebastiana, e também aos professores Mauro W. B. de Almeida e
Manuela C. da Cunha, que me ajudaram financeiramente enquanto eu esperava na cidade.
378
dez partidos, conseguiu eleger o governador do estado, Jorge Viana e seu irmão, Tião

Viana para o senado, ambos do PT. Além disso, a Frente Popular elegeu 12 dos 24

deputados da Assembléia Legislativa Estadual e mais três dos oito deputados federais. A

Frente era formada por todos os partidos do estado, com exceção daqueles que antes

dominavam a polarizada cena política local: o PMDB de um lado e o PPB e o PFL de

outro225.

No vale do Juruá, porém, a situação foi bastante diferente. Os irmãos Viana ali

tiveram pouca votação e, dos muitos candidatos locais a deputado estadual que disputavam

a eleição pela Frente Popular somente um foi eleito, Romildes Brito, conhecido por

“Macarrão”.

Vale adiantar que minha própria campanha também foi um fracasso. Macedo teve

pouquíssimos votos na cidade, ficando em 146o lugar no cômputo geral, obtendo somente

250 votos em todo o estado. (O deputado estadual mais votado teve 7.369 votos e o eleito

com menos votos, 1.058).

6.2 - A cidade na eleição

Se a cidade de onde eu vinha, no interior de São Paulo, as eleições despertavam

raras e amenas discussões, e quando tinham estas se davam em torno dos candidatos à

presidência e ao governo, em Cruzeiro do Sul, o momento era de euforia e expectativas, e,

225
Como afirmado por Moacir Palmeira, essa polarização das forças políticas é “uma espécie de
marca registrada da política em áreas ‘rurais’ ou ‘atrasadas” (Palmeira, 1992:38).
379
como é comum em cidades menores, o foco de interesse maior eram as disputas entre os

deputados.

Cruzeiro do Sul é a segunda maior cidade do Acre, é o pólo econômico do Vale do

Juruá acreano e, em 1998, contava com cerca de 70 mil habitantes. Ali, as campanhas

eleitorais não se confinavam às propagandas de rádio e TV, acontecendo efetivamente nas

ruas, nos bares, nos mercados - com cartazes, faixas, bandeiras, muitos, muitos carros de

som - e, principalmente dentro das casas. Onde quer que se fosse, o assunto principal era,

invariavelmente, a “política”. Mesmo os que não queriam envolvimento com o assunto

tinham dificuldade de livrar-se dele. Chico Ginu, na época coordenador regional do

Conselho Nacional dos Seringueiros, assim que alguém tocava no assunto fazia questão de

avisar: “detesto” política. Tentava, assim, afastar os candidatos que dele se aproximavam.

O piloto que me hospedava, mesmo com o “comitê” instalado em sua própria casa, também

fazia grande esforço para não ter nenhum envolvimento. Para se livrar das discussões, dizia

seguir as palavras do Padrinho Sebastião - líder religioso do Santo Daime, de quem era

devoto - que afirmara que os seguidores da seita nunca deveriam participar da política. Mas

era difícil. Como disse uma vizinha do piloto, “eleição aqui é como Copa do Mundo”,

mesmo quem não gosta de futebol, acabava se envolvendo.

6.2.1 - As panfletagens

Naqueles dias, minha rotina era tomar café com os militantes do Macedo que

marcavam encontro na casa em que eu estava e sair pelos bairros conversando com as

380
pessoas e distribuindo santinhos. Independente dos cartazes de diferentes candidatos que já

eram exibidos nas paredes das casas - delimitação de território, como disse um membro da

Associação - nós éramos sempre bem recebidos, com pessoas geralmente dispostas a ouvir

minhas longas conversas. Macedo, com poucos recursos e morando em Rio Branco, só uma

vez esteve em Cruzeiro, indo a comícios, fazendo reuniões e nos acompanhando em

algumas panfletagens. Quando isso ocorria, era evidente a grande satisfação das pessoas

com a presença do candidato em suas casas.

Logo ficou claro para mim, porém, que belas conversas não seriam suficientes para

eleger nosso candidato. Além do discurso, as pessoas queriam um “agrado”. E eu comecei a

ouvir repetidamente: “só voto em que me fizer um agrado”, o “o candidato tem que fazer

um agrado”, ou, como os próprios militantes avisavam ao Macedo: “tem que levar um

agrado ao pessoal”. Como ensinava a esposa de um vereador eleito dois anos antes: só se

elege quem faz “alguma bondade, alguma caridade”.

Apesar disso, eu ainda achava que levar a campanha para as ruas valia a pena.

Acreditava em um modo diferente de fazer política, claro, e também na força da história do

Macedo junto aos movimentos de índios e seringueiros (e não era raro encontrar ex-

seringueiros pela cidade). Apesar da falta de recursos, Macedo também tinha a força de seu

carisma. O problema era que os dois minutos que lhe reservavam nos comícios da Frente

Popular não eram suficientes nem para ele começar algum assunto. Só nas reuniões que ele

fazia nos bairros é que se podia perceber sua capacidade de oratória.

Uma vez o acompanhei até a foz do Paranã dos Mouras, um afluente do Juruá

próximo de Cruzeiro do Sul. Eu me sentei no trapiche de uma casa que funcionava como
381
palanque provisório, ficando de costas para o candidato e de frente para sua pequena

platéia. Dali, pude perceber como Macedo era capaz de conquistar a atenção e o interesse

dos seus ouvintes. Nessa mesma reunião, porém, logo que Macedo terminou sua fala,

desceu do trapiche e pediu um cigarro para um rapaz. Este deu o cigarro mas, ao vê-lo se

afastar, disse já com aparente decepção: como pode um candidato não ter dinheiro nem

para comprar cigarro?

Um morador do rio Juruá, em viagem pela cidade, contou que um candidato do PT

passou em sua casa e ele lhe pediu 20 litros de óleo diesel. O candidato afirmou, no entanto

que, em sua campanha, não ia dar nada para ninguém. Para o rapaz, aquilo era uma

“miserabilidade”. Conforme ele, “como é que pode um cara miserável desse jeito” ainda

quer ser candidato?

Outra vez um diretor de uma associação de moradores de outro afluente do Juruá foi

até o comitê da Frente Popular e pediu para o coordenador gasolina, para ele retornar à sua

região, onde faria campanha para o PT. O pedido foi recusado e, mais tarde, quando o

encontrei ele reclamou que o tal coordenador tinha a mão muito fechada, “ele não sabe

fazer política não”.

6.2.2 - Os agrados - candidatos e eleitores

Com os cartazes e a movimentação na casa do piloto que me hospedava, esta logo

se tornou conhecida na região, e passou a ser rotina eu acordar logo cedo, às vezes antes

382
das seis da manhã, já com pessoas batendo na porta da casa, invariavelmente fazendo

pedidos para meu candidato e, quase sempre, prometendo votos a ele.

Os pedidos mais comuns eram remédios, folhas de alumínio (flandres) para

cobertura de casas, combustível, peças de motores, de preferência um “kit completo”

(motor, rabeta, palhetas), passagens aéreas para Rio Branco ou Manaus, chapas

(dentaduras), colchões, dinheiro. Havia outros, mais raros, como um aparelho de surdez ou

caixas de som para uma igreja evangélica.

Grande parte das vezes os pedidos chegavam acompanhados de histórias tristes,

reclamações sobre a pobreza, um caso de doença grave na família, uma casa quase caindo,

dificuldade para comprar combustível para voltar para casa ou para poder ir votar no dia da

eleição.

Os pedintes, contudo, também tinham de ouvir. E ali permaneciam, pacientemente,

escutando o que eu pensava sobre a ilegalidade da compra de votos, sobre formas

democráticas de transformar as injustiças sociais, a importância dos candidatos ligados aos

interesses dos grupos menos favorecidos da cidade, etc., etc.. Eu inclusive fazia questão de

afirmar que o meu candidato (pelo menos em minha própria opinião) era diferente dos

outros. Mas bastava eu terminar o discurso para que os pedidos fossem reiterados,

aparentemente sem que se percebesse qualquer contradição com o que eu falava e o que

eles esperavam que eu fizesse.

Talvez já fosse conhecido que, algumas vezes, eu me apiedava com algum discurso,

e acabava dando alguma ajuda para a pessoa, sempre tentando reforçar a idéia de que

aquela doação era pessoal e que em nada se relacionava com voto. Uma vez, por exemplo,
383
apareceu uma senhora pedindo uma mamadeira, pois seu filho iria nascer e ela não tinha

como comprar. Repetindo sempre as minhas mesmas opiniões, eu acabei dando dinheiro

para a tal mamadeira. No dia seguinte a mesma senhora voltou, bem cedinho. Precisava de

mais duas mamadeiras.

Outros nem se preocupavam em demonstrar que o pedido era mesmo uma

necessidade. Pediam viagens e combustível, mesmo sabendo que vários candidatos, no dia

da eleição, disponibilizariam barcos e caminhões para buscar os eleitores em seus locais de

moradia (ver foto 33). Os pedidos eram justificados porque preferiam viajar em suas

próprias canoas e, dessa forma, não precisariam passar todo o dia esperando pelos outros

eleitores para voltar a suas casas.

Também não era difícil aparecerem mulheres que, mesmo vivendo na cidade,

pediam apoio para obtenção do auxílio-maternidade, benefício que era exclusivo das

trabalhadoras rurais.

O que mais me chamou a atenção, porém, foi encontrar as mesmas pessoas que

vinham pedir um apoio para o Macedo esperando nas longas filas que se formavam nos

comitês dos candidatos mais abastados. Minha hipótese era que, como o bairro da Várzea

ficava no caminho entre os bairros do sul da cidade e o centro, onde ficava grande parte dos

comitês, as pessoas faziam uma parada ali logo cedo, antes de dirigirem-se a outros

comitês, onde podiam permanecer durante horas nas filas que se formavam sob o sol. E, em

algumas vezes, na volta para casa, passavam por ali para ver se ainda conseguiam alguma

outra coisa.

384
Apesar da “miserabilidade” que o rapaz imputou ao coordenador da campanha da

Frente Popular em Cruzeiro do Sul, os seus candidatos - para minha surpresa - não se

diferenciavam dos outros na prática comercial do voto, pelo menos os que tinham recurso

para tal.

Macarrão, percebi depois, tinha sido o candidato escolhido pelo PT local. Era

proprietário de uma farmácia na praça central da cidade, onde uma pequena multidão se

aglomerava, todos os dias, e de onde, aparentemente, não saíam de mãos abanando. 226

Só para registro, uma única exceção: um dia chegou à casa em que eu estava um

rapaz, Hudson Barros, dizendo trabalhar na Funai e pedindo panfletos do Macedo. Ele

pegou o material, disse muito obrigado, e foi embora. Não pediu absolutamente nada. Eu e

as pessoas que estavam na casa ficamos nos olhando, quase sem entender o que acontecera.

6.2.3 - Os agrados - candidatos e seus outros apoiadores

Os pedidos não se davam, entretanto, somente entre candidatos e seus eleitores. Eu

diria que havia uma categoria intermediária de pessoas que estariam mais diretamente

envolvidas na campanha. Não eram apenas eleitores, mas militantes que faziam

panfletagens, colando cartazes pela cidade ou trabalhando como motoristas para o

candidato, por exemplo. Nessa mesma categoria também poderiam ser colocados os líderes

226
Na época não entendia porque a Frente Popular apoiava um candidato que nunca tinha tido
nenhuma participação política local. A explicação dada pelo coordenador da campanha, na época, era que o
dono da farmácia era o único candidato que efetivamente teria chance de ser eleito. Na versão popular, sua
campanha vitoriosa, e também dispendiosa, devia-se à participação de um empresário novo na cidade, muito
simpático, que estava sempre ao seu lado e, conforme diziam, era muito rico.
385
de bairros e membros de sindicatos e associações, teoricamente capazes de angariar votos

entre seus representados.

Não vi militância voluntária. Os próprios militantes do meu candidato que

inicialmente acreditei estarem, como eu, voluntariamente envolvidos na campanha,

contavam com uma promessa que receberiam 200 reais cada um após as eleições, mesmo

sabendo que Macedo tinha não mais que dívidas. Também para minha surpresa, apesar do

discurso crítico sobre a política praticada pelos políticos profissionais, sobre a “tradição” da

“política sebosa”, membros da ASAREAJ também contabilizavam dividendos em troca de

apoios.

Se os eleitores andavam em vários comitês, essa categoria de militantes e

representantes também podia fazer acordos com diferentes candidatos.

O tesoureiro da Associação, depois presidente, Orleir Fortunato, e o técnico que

trabalhava na Reserva, Luiz Ferreira, depois assessor da Associação, diziam, para mim, que

apoiavam o Macedo. Só que também eram vistos fazendo campanha para o candidato

Macarrão, do PT. Disseram-me que, se o Macarrão fosse eleito, Luiz Ferreira, fundador do

PT em Marechal Thaumaturgo, receberia apoio do deputado na disputa para o cargo de

prefeito da cidade; Fortunato seria o vice-prefeito. E não só isso: na eleição seguinte, Luiz

Ferreira seria apoiado na disputa para o cargo de deputado, deixando a vaga de prefeito

para Orleir.

Conforme ouvi depois, Macedo também prometera a Orleir Fortunato, caso eleito,

um cargo comissionado e, a Antonio de Paula, então presidente da Associação, apoio na

disputa para o posto de vereador de Thaumaturgo. A um piloto de barco que o levava a


386
reuniões, dizia garantir um emprego fixo de piloto. Macedo também buscava apoio de uma

antiga enfermeira de um bairro rural da cidade. As pessoas do bairro com que falei

votariam no Macedo contando que assim ela voltaria a trabalhar no posto local, já que ela

tinha um trabalho bem conceituado ali, mas tinha sido transferida para o hospital no centro

da cidade. Ela, que dizia conseguir até 400 votos no bairro, não pretendia, na verdade, sair

do hospital, e queria mesmo a ajuda do Macedo para sua candidatura à vereança em

Cruzeiro do Sul, no próximo pleito.

6.2.4 - Os agrados - candidatos e candidatos

Expectativas de troca semelhantes se estabeleciam também entre os próprios

candidatos. Conforme eu ouvia, Idelfonço Cordeiro, importante empresário local e

candidato a deputado federal então no PFL, teria oferecido 300 litros de óleo diesel e 300

litros de gasolina para o Macedo levar panfletos com seus nomes combinados para a região

do Alto Juruá, onde Idelfonço não teria inserção. João Tota, do PPB, teria prometido 230

litros de gasolina e mais 150 reais para a entrega de panfletos no Paranã dos Moura.

Nenhum era da Frente Popular e Macedo teve, ao final, panfletos combinados com

candidatos de vários diferentes partidos.

6.2.5 - As mentiras

Nesse contexto de verdadeiras e falsas promessas, havia também uma constante

propagação de mentiras de candidatos ou seus militantes pela cidade. Militantes de Zila

387
Bezerra, deputada federal pelo PFL, candidata à reeleição227, apregoava ter sido ela a

responsável pela criação da aposentadoria do “Soldado da Borracha”, o que não era

verdade. A candidata também prometia aumentar o mesmo benefício para três salários-

mínimos (atualmente são dois) e ainda estendê-lo aos filhos dos seringueiros.

Os candidatos que não pertenciam à Frente Popular repetiam o discurso já

desgastado de que seus oponentes preferiam a floresta às pessoas. Dizia-se que, se Jorge

Viana fosse governador ele arrancaria o asfalto do pequeno trecho da BR 364 que tinha

sido asfaltado pelo governador Orleir Cameli228 e que ninguém mais poderia tirar “uma vara

de pau” da floresta. Com o PT, dizia-se também que o comunismo chegaria e quem fizesse

dez paneiros de farinha teria de dar cinco para o governo. Conversas parecidas eu já ouvira

na campanha de 1994, como dito acima, quando candidatos do PT eram pejorativamente

chamados de “ecologistas” que só pensavam na floresta. A dona da casa que me hospedava

dizia que sua professora, em sala de aula, afirmava que se o Jorge Viana ganhasse, os

alunos ainda deixariam de receber a farda (uniforme) e o material escolar do governo.

Na Reserva Extrativista, conforme os moradores que visitavam Cruzeiro do Sul, a

conversa que se ouvia era que não deviam votar no Antonio Macedo porque ele seria o

responsável pela queda nos preços da borracha. O tesoureiro da Associação afirmou que

“ficou rouco de explicar que a borracha não acabou por causa do Macedo”, mas isso,

conforme ele, não estava dando resultados.


227
Zila era considerada pela revista Veja “a embaixatriz do baixo clero” por ser uma das
responsáveis pelos arranjos para a compra de votos dos deputados na aprovação da emenda para a reeleição
do presidente Fernando Henrique Cardoso.
228
Estrada que liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul, na época praticamente intransitável, asfaltada em
apenas um pequeno trecho próximo a Rio Branco. Mais tarde, foi justamente Jorge Viana quem conseguiu
empréstimos do BID para asfaltamento das estradas do estado.
388
Mentiras e promessas, no entanto, não eram privilégios somente dos candidatos. Ao

fazerem seus pedidos, os eleitores não só prometiam o próprio voto, mas também faziam

sua própria propaganda. “Nunca trabalhei para político perder” era uma das frases mais

repetidas. Também era comum ouvir que, “em casa, é todo mundo Macedo, são sete votos”.

Raramente aparecia alguém mais moderado, prometendo seu voto mas assumindo que o

voto nem sempre é familiar. Como um senhor que fez questão de me dizer: “em casa são

três votos do Macedo e três do Vagner Sales”.

Com o tempo, eu realmente comecei a ficar feliz quando encontrava pessoas

conhecidas que vinham me dizer que não votariam no meu candidato. Geralmente eram

pessoas com parentes que tinham algum envolvimento com a Associação, faziam campanha

para o Macedo ou para candidatos do PT. Embora fizessem elogios ao Macedo, pareciam

querer mostrar porque não votariam nele. Um rapaz, por exemplo, tinha conseguido um

emprego a partir do apoio de outro candidato, e era para ele que faria campanha. Outro

rapaz, parente de um membro da diretoria da Associação, justificava o voto para o César

Messias, antigo patrão, porque sua carteira de motorista era de Rio Branco e seria preciso

um salário-mínimo para transferi-la para Cruzeiro do Sul. Messias teria conseguido sua

carteira na hora, de graça.

6.2.6 - Presentes, infidelidades, riscos

Em meio a tantas conversas, promessas, pedidos, filas, comecei a perceber que era

impossível ter alguma uma idéia sobre quem votaria em quem. Não havia como ter certeza

389
de que um presente ou favor seriam garantias de voto. Como já afirmara Jorge Villela

(2005), ao analisar as eleições no interior de Pernambuco:

As coisas dadas pelos candidatos não se assemelham nem em valor nem em forma às que recebem
em retribuição, se retribuição houver. O que um eleitor recebe em troca de seus votos, quando e se
recebe, a custo poderia ser comparado com eles. Ademais, a celebrada, ‘obrigação de retribuir’ é
equívoca e falha. Portanto, nem equivalências, nem valor prévio relativo à ação de dar ou de receber,
nem obrigação de retribuir presidem a circulação de recursos no processo eleitoral por mim
observado.

Também Maquiavel, há muito tempo atrás, já ensinava ao futuro príncipe:

Pois as amizades conquistadas por interesse, e não por grandeza e nobreza de caráter, são compradas,
mas não se pode contar com elas no momento necessário. (Maquiavel, cap. XVII, [1532] 2000)

Isso se tornou especialmente evidente quando comecei a perceber que os próprios

militantes do meu candidato não tornavam público seu próprio voto. Nenhum deles tinha o

cartaz do Macedo na parede da casa, e exceto durante nossas panfletagens, nunca andavam

pela rua com o adesivo do candidato. Nem mesmo nos comícios eles empunhavam as

bandeiras que montávamos em conjunto. Permaneciam com elas enroladas, quase

escondidas. Só as levantavam quando eu ia fotografar. No último comício da Frente

Popular, eu era simplesmente a única que portava a bandeira do candidato.

Os carros que levavam Macedo para os comícios eram sempre enfeitados com

cartazes dele, mas, logo ao deixar o candidato e virar a próxima esquina, os motoristas

desciam do carro e arrancavam todos os cartazes. Eu via a cena porque sempre procurava

panfletar a região do entorno, tentando conversar com as pessoas antes de chegarem ao

comício.

390
Um dia encontrei-me com uma das mulheres que me acompanhava nas panfletagens

prometendo voto a outro candidato. Mais tarde ela me explicou que o tal candidato tinha

conseguido para ela o auxílio-maternidade das trabalhadoras rurais, mesmo ela morando há

anos na cidade. Ela não poderia dizer que não votaria nele.

Já a mãe dela dizia votar no Macedo porque ele, anos atrás, arranjara um emprego

de piloto de barco para seu marido, e, graças ao emprego, ela pode reformar sua casa. “Eu

vou votar é nele porque se não fosse ele, eu ainda morava naquela casinha a ponto de cair”.

Mas mesmo assim, ela não via problema em ir pedir a outro candidato uma bicicleta para a

filha, para dar-lhe caso ela fosse uma boa aluna e passasse de ano na escola. Em outra

eleição a mesma senhora contava que ganhou telhas de alumínio do Pedro Negreiros,

candidato a prefeito de Cruzeiro do Sul: “eu prometi que ia votar nele, e votei mesmo”. Já

numa outra eleição, conseguiu de uma candidata uma passagem aérea para ir até Rio

Branco visitar uma filha, mas na hora do voto escolheu outro candidato.

6.2.7 - A véspera da eleição

Na véspera da eleição, as pessoas começaram a chegar logo cedo querendo saber

quanto Macedo pagaria para a boca-de-urna. Minha impressão era que, de uma hora para

outra, naquela cidade que me parecia tão pobre, simplesmente havia chovido dinheiro.

Enquanto preenchíamos os panfletos para a boca-de-urna com os números dos diferentes

candidatos a deputado federal que firmaram compromissos com Macedo, meus amigos

militantes tentavam organizar suas atividades no dia seguinte, às voltas com as notícias dos

391
pagamentos que os outros candidatos fariam. No topo da tabela, Zila Bezerra, que, diziam,

pagaria 50 reais para cada um que distribuísse seus santinhos no dia da eleição; depois

vinha o Idelfonço Cordeiro, 40 reais, mais abaixo João Tota, 20 reais. Evidentemente, todos

que ali estavam também tinham seus nomes na lista que a Frente Popular havia solicitado

para cada candidato, com o nome de 30 pessoas que iriam trabalhar, em princípio,

voluntariamente229.

Quem tinha um automóvel poderia receber em torno de 300 reais, sem a gasolina,

para rodar todo o dia da eleição levando e trazendo eleitores. Um taxista que possuía dois

carros conseguiu receber 600 reais do João Tota. Um dos seus carros foi terceirizado e o

outro motorista recebeu 120. O mesmo dono dos táxis também recebeu dinheiro do

Idelfonço, e mais 125 litros de gasolina do Macedo. Ele era um dos mais aguerridos na

campanha do Macedo e foi para quem, ao final, efetivamente fez campanha. Outro

motorista, ligado à igreja local do Santo Daime, também dizia pretender fazer campanha

para o Macedo, mas recebeu dinheiro do Vagner Sales. E este político, com longa

experiência na região, exigiu que todos os motoristas contratados dirigissem no dia da

eleição formando duplas com outros militantes, por ele determinados. O motorista teve de

trabalhar mesmo para o Vagner Sales.

229
Depois, quem estava na lista da Frente Popular recebeu uma camiseta e mais dez reais.
392
6.2.8 - O dia da eleição

No dia da eleição o centro da cidade estava lotado, pessoas com camisetas de todas

as cores por todos os lados (ver foto 24). Chamavam a atenção as muitas camisetas pretas,

de Idelfonço, que na última hora subiu para 50 reais o valor do pagamento para a boca-de-

urna. Não vi nenhum dos que vinham militando comigo para o Macedo com a camiseta da

Frente Popular. Os panfletos, que tinham dado tanto trabalho para serem preenchidos,

simplesmente tinham desaparecido. Só restavam os maços que separei para mim.

Muitos que eu encontrava, incluindo meus amigos militantes, contabilizavam o

quanto tinham conseguido dos diferentes candidatos. Eu só tive idéia da dimensão da

quantidade de dinheiro que parecia estar disponível na cidade quanto volta e meia alguém

me encontrava e dizia ter conseguido passagens de avião para Rio Branco, para “visitar a

mãe doente”, como eles contavam, às vezes rindo. Apesar do calor intenso, muitos vestiam

uma camiseta sobre outra. Nenhum dos meus amigos militantes fazia boca-de-urna para um

único candidato. Havia policiais para todos os lados, mas o receio maior dos militantes era

ser flagrado por algum dos responsáveis pelas campanhas. Como disse uma mulher, “tem

sempre alguém para falar”. Por causa disso, amigos espalhavam-se nas esquinas e em

pontos estratégicos, de onde surgiam avisos quando um fiscal era reconhecido, e as

camisetas eram rapidamente trocadas.

393
6.2.9 - A apuração

Se o dia da eleição era o da multidão nas ruas, com o fechamento das urnas toda

aquela movimentação, subitamente, se acabou. Eu já tinha participado outras vezes da

apuração de votos no interior de São Paulo, onde muitos militantes participavam da tensão

da contagem dos votos, fazendo festa, discutindo resultados, desabafando tristezas. Em

Cruzeiro do Sul, no entanto, a apuração dos votos não era um evento popular230. Enquanto a

campanha eleitoral era realmente um momento do “povo nas ruas”, a apuração era um

encontro seleto. De repente me senti totalmente sozinha com o que talvez fosse a elite

cruzeirense, com seus carros enormes, celulares (o que, em 1998, era um luxo para poucos)

e jóias231. As pessoas que me pareciam de origem simples, com crachás de fiscais como eu,

aparentavam agir mais como funcionários do que como militantes.

Havia certa confusão na chegada das urnas e dos disquetes. Alguns deles não

continham assinatura da mesa apuradora. Reclamei com o coordenador da Frente Popular,

que não deu importância. Fiquei por algum tempo dentro da sala, mas logo o juiz eleitoral

me abordou: “você tem curso universitário?” Com minha resposta afirmativa retrucou: “é

bacharel em Direito“? Frente à minha negativa ligou para um desembargador e obteve a

resposta de que eu só poderia ficar se fosse do “comitê suprapartidário”. Mas qual?

230
Na região do rio Juruá, em 1998, somente as zonas eleitorais da parte urbana de Cruzeiro do Sul
tiveram urnas eletrônicas. Toda a zona rural deste município e todos os outros do vale: Marechal
Thaumaturgo, Rodrigues Alves, Porto Walter e Mâncio Lima, tiveram votos manuais.
231
Anotei em meu caderno que, num banco onde