Você está na página 1de 333

OHN

ARro~lEM~ BRADSH
,

'

Comoresgatare defender
suacrianca
, interior

'
2• EDIÇÃO

l
JOHN BRADSHAW

VOLTA AO LAR
Com o resgatar e defender
• • •
sua criança mter1or

Tradução de
AULYDE SOARESRODRIGUES

li

1 Rio de Janeiro - 1995

~l
t
Título ocjgjoal
HOMECOMJNG:
Rccl:ain:üogaod Clwnpiooing Your lonc1 Child

Copyright © 1990 by Joho Bradshaw


PUBLICAÇÃOAUTORJZADA PELABANTAMBOOKS. a division
of Baoram Doubloday Deli PubfuhiogGroup, loc.

Direnos para a lingua ponu11ue~a rncl\ ado,


com exclusividade para o Brasil. .i
EDITORA ROCCO LTDA
Rua Rodrigo Silva, 26 • 5~ andar
20011-040 • Rio de Janc11 RJ
l ei.: so;.JO(;v . , ·" • v • ::- -
Telex: 38462 EDRC BR

Pri111
cd III B111U
// lmpres,o no Bra11I

revisão
SANDRA PÁSSA.RO/WENDEllSETúBAL
HENRIQUETA.RNAP OLSKY
WÁl TER VEIÚSSJMO

•P-Brasil. Caulogaçio-na,fonre
Sindicato NacionaJ dos Editores de Livros, RJ.
Badsbaw, John , l9H -
B79v Volta ao lar: como resgatar e defender rua criança imecior /
John Bradshaw: tadução de Aulydc Soares Rodrigues. -
Rio de J aneiro: Rocco, 1993.

Tradusão de: Homccoming: rcclaimmg and championing your


inncr child
Bibliogr:wa.

1. Maruridadc. 2. P,-ise filhos. 3. Psicologia do dcx nvolvimcn10.


1. Titulo .

92-0499
coo· 15).6
CDU· 159S23
À criança interior que vive em minha mãe Nor-
ma. Para m inh a irmã, Barbara , e meu irmão, Ri-
chard. Nossas crianças interiores sabem, melhor
do que ninguém, como eram as coisas!

Para meu filho, John, e minha enteada, Brenda .


Desculpem-me pelas feridas que causei em vocês.
AGRADECIMENIDS

Ao meu Poder Mais Alto que me int:::d::. co:n bê:1ç~ose graç:!,

A Eric Berne, Robert e Mary Goulding, Alice Miller, Erik Erik-


son, 1.awrence Kohlb-erg, David Elkind, Rudolf Dreikurs, Fdcz
Perls e Jean Piaget, que me ensinaram como a criança interior
se desenvolve e como é fedda .

A Carl Jung, Roben Bly e Edith Sullwold , que me ensinaram so-


bre a criança maravilha.

A Wayne Krit sberg, Claudia Black, Sharon Wegscheider-Cruse ,


Jane Middelcon-Moz, Rene Fredrickson, Jean lllsley Clarke, Jon
e Laurie Weiss, Bob Subby, Barry e Janae We.inhold, Susan For-
ward, Roxy Lcrner e, acima de tudo , a Pamcla levin , que apro-
fundou meu s conhecimentos sobre a criança interior .

Ao padre David Belyea, que me amou nos piores momentos da


minha vida .

A Fran Y.,·Mike S., Harry Mac, Bob McW., Bob P., Tommy B.,
~ar~er B., e o amável '' Red' ', o primeüo a aceitar minha criança
1ntenor.

Ao reverendo Michael Falls, que me levou a descobrir a maravi-


lha da minha criança interior experimentando sua criança inte-
rior. Nossos dois garotos são amigos íntimos .

A Johnny Daugheny , George Fletcher, Kip Flock e Patrick Car-


nes, meus mais queridos amigos, que freqüentemente fazem o
papel de pais da rninha criança ferida.
A Maria Nossa Mãe, à irmã Mary Hubena, a Virgínia Satir, à mi-
nha tia Millie, a Mary Bcll e Nancy que, muiw vezes, foram mães
para meu garoto ferido.

A Sissy Davis, que o ama agora.

A Toni Burbank, por seu trabalho brilhante e intuitivo na publi-


cação deste livro. Sua assistência foi indispensável.

A toda equipe da Bantam , que é inigualável.

A Winston l.aszlo e toda a equipe dos Eventos Bradshaw cm Dcn-


ver, especialmente Mary Lawrence. Eles tornaram possível a exis-
tência dos seminários de trabalho.

A Karen Fertina, 11Unhaassistente pessoal e amiga que toma conta


da ansiedade da minha criança interior.

A Marc Baker, Barbara Westerman e à equipe da Life Plus por


seu compromisso enriquecedor. ·

E por último, mas não meno s importante, à minha irmã Barbara


Bradshaw, que datilografou e redatilografou a duras penas este
manuscrito, a todas as horas do dia e da noite e com grande sa-
.crifício pessoal. Ela tem sido meu apoio e minha amiga generosa.
J
SUMÁRIO

Prólcgc ..... .. ..... ........ ..................... ......... ... .... ..... ,


..
,._...
Parábola - A dupla tragédia de Rudy Revolvin..... .. .... . 21

. PARTEI
O PROBLEMA
DACRIANÇAINTERIOR
FERIDA
ln troduc;ão.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 2 5
1. Como sua criança interior ferida contamina sua vida 27
Questionário da criança ferida.......... . ......... .. .... ... 49
2. Como a criança maravilha que vive em você foi ferida 53
Parábola - A história quase trágica de um terno elfo... . 77

PARTEIl
RESGATANDO
A CRIANÇA
FERIDA
QUEVIVE
EMVOCÊ
lnt[odllção......................... . . ...... . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8~
3
3, Trabalho com a •dor original... ...... .. . ................... 95
4. Resgatando seu cu dos primeiros anos de vida ...... . . 113
5. Resgatando sua criança que começa a andar . .. .. . ... .. 139
6. R~sgat~ndo sua criança na idade pré-escolar .. .. . .. . .... 157
7. Resgatando seu cu na idade escolar............ ...... .... 176
8. Organização - Uma nova adolesc!ncia.... .. . .. . . .. . . .. 194

PARTEIli
DEFENDENDO
SUACRIANÇA INTERIOR
FERIDA
Introdução.................. ..... .. . .. . ........ . .. .. ......... .. ...... 215
9. O adulto como nova fonte de potência .. ............... 217
10. Concedendo novas permissões à sua criança interior. . 234
11. Como proteger sua criança interior ferida .... ........... 250
12. Pondo em prática os exercícios. corretivos................ 262

'
-
PARTEIV
REGENERAÇÃO
Introdução... ..... .. .. ................... ............. . . . . . . . . . . . . . . . 301
13. A criança como símbolo universal de Regeneração e
Transformação........ ... ............... ..... .... .............. 303
14. A criança maravilha como Imago Dei...... .......... .. . 316

Ep1'logo - "E m casa, Ellº1ott, em casa.I" . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 341


t

l
PRÓIDGO

'
Eu sei o que quero rcalme!')tcde Nat:u. Quero minha infânci:ide voh:t.
NinguEi:r,vai me dar isso.... Sei que niio faz sentido, ma5 desde quandr
o Natal tem :t ver com lógica?.É sobre uma criançade mui~o tempo atrás
e muito distante c·é sopre a criançade agora. Que vivecm vocêe em mhn,
Esperando,atrás da pona: do nossoconção, que aconteçaalguma coisa ma-
nvilhosa.

- Robert Fulgbum

Enquanto ouvia os participantes do meu seminário, fiquei im-


pre,ssionado,::omsua intensidade. Cem pesseas, em grupos de seis
ou oito, estavam nas salas. Cada grupo era autônomo, todos sen•
tados muito juntos e falando cm voz baixa. Era o segundo dia
do seminário, portanto já haviam estabelecido um bom grau de
interação e troca de opiniõe~ e confidências. Contudo, quando
começaram, c;ram todos completos emanho s.
Aproximei-me de um grupo . Ouviam acentamente o que
dizia um homem de cabelos. ·grisalhos. Ele lia uma carta escrita
pela criança que vivia nele, para seu pai.

Querido papai,
Quero que saiba o quanto me magoou. Você me puniu
01ais vezes do que o tempo que passou comrgo. Eu podia
ter suportado os vergões e os cortes se, ao menos, você
passasse algúm tempo comigo. Eu queria o seu amor, mais
do que posso dizer. Se você tivesse ao menos brincado
comigo, ou me levado a um jogo de futebol. Se, ao me-
nos, você dissesse que me amava. Eu queria que você
se importasse comigo...

Ele cobriu os olhos com as mãos. A mulher de meia-idade , ao


seu lado, acariciou ternamente sua cabeça, um homem mais jo-
vem segurou a mão dele. Outro homem perguntou se ele queria
ser abraçado. O homem grisalho fez um gesro afirmaàvo.
12

Outro grupo estava sentado no chão uns com os braços em


volta dos ombros. Uma mulher elegante , de 70 e poucos anos,
lia sua carta.

Ma.mãe, você estava ocupada demais com suas obras de cari-


dade. Nunca tinha tempo para dizer que me amava. Só me
dava atenção quando eu ficava doente ou quando tocava pia-
no e a fazia ficar orgulhosa.Você só me transmitia os senti-
mentos que a agradavam . Eu só era imponante quando a
agradava. Você nunca me amou por mim mesma. Eu me sen-
tia tão só ...

Sua voz se embargou e ela começou a chorar. O escudo de con-


trole mantido durante mais de 70 anos começou a desmoronar
com suas lágrimas. Uma adolescente a abraçou. Um jovem disse
que ela podia chorar, que estava tudo bem e elogiou a coragem
dela .
Passei para outro grupo. Um homem cego, de 30 e poucos
anos, lia uma cana em braile .

Papai ,
Eu o odiava porque você tinha vergonha de mim. Você me
trancava na garagem do apartamento quando recebia seus
amigos. Eu nunca recebia comida suficiente. Estava sempre
com tanta fome! Eu sabia que você me odiava porque era
um peso para você. Você ria e me ridicularizava qu ando eu
caía. ..

Agora, eu civede me afutar . Sentia a raiva residual na criança


ferida que mora cm mim e queria chorar de raiva e de indigna-
ção. A tristeza e a solidão da infância eram insuponáveis. Como
alguém podia se recuperar de tanta dor?
Porém, no fim do dia, o ambiente era de paz e satisfação.
Todos sentados lado a lado , alguns de mãos dadas, a maioria sor-
rindo enquanto fazíamos os exercícios finais. Um após outro me
agradeceram por ajudá-los a encontrar sua criança interior feri-
da. Um presidente de banco, que op ôs uma resistência abena no
começo do seminário, disse que rinha chorado pela primeira vez
em 40 anos. ~a infância, era cruelmente espancado pelo pai, e
PRÓLOGO

havia prometido a si mesmo jamais demonstrar seus sentimen-


tos. Agora, falava em aprender a cuidar do garotinho solitário que
vivia ode . Seu rosto estava mais sereno e ele _pareciamais jovem.
No começo do seminário, aconselhei a todos a tirar as más-
caras e sair dos esconderijos. Expliquei que quando mantinham
;t criança interior escondida , essa criança ferida contaminava suas
vidas com crises de raiva, reaç,ões exageradas, problemas conju-
gais, vícios, desempenho prejudicial como pais e relacionamen -
tos dolorosos e destrutivos .
Eu devo ter tocado um ponto sensível. pois todo s respond e-
1a111 àe verciaàe.. Oinan ào p.ua aqudei> lu Stu~ ...üc, LÜ~ e soniúen -
tes, fiquei emocionado e agradecido . Esse semin ário foi realiza-
do em 1983. Desde essa época tem crescido minha fascinação pe -
lo pocler curativo da criança interior .
Há três coisas notáveis sobre essa criança que vive cm nós.
A rapidez com que as pessoas mudam quando fazem esse traba-
lho, a profundidade dessa mudan ça e o poder e a criatividade
que adquirimos quando são curados os ferimentos do passado.
Comecei a fazer esse trabalho há mais de 12 ano s, usand o
um método improvisado de meditação , com algun s dos meus
clientes da terapia. Mas essa meditação teve al-guns resultados drà•
máticos. Quando as pessoas finalmente entravam em contato com
~ càança que vivia nelas, era sempre uma experiên cia arrasadora.
As vezes, soluçav.un incontroladamente . Depois , diziam coisas
como: "Estive esperando toda a minha vida para ser encontrado
por alguém." "E como voltar para casa." "Mínha vida se tran s-
formou desde que encontrei a criança que vive cm mim .''
Em razão dessas reações, criei um seminário de trabalho pa-
ra ajudar as pessoas a abraçar suas crianças interiores , O seminá-
rio evoluiu com o passar dos anos, devido e__specialmenteao diá-
logo constante com todos os participantes. E o trabalho mais po-
deroso que já realizei .
Seu objetivo central é ajudar as pessoas a eliminar a dor não
resolvida da infância - mágoas por abandono, todas as formas
de maus-tratos, a neglig~ncia no atendimento da necessidade de
depcnd éncia, essencial ao desenvolvimento da criança, e os pro-
blemas que resultam da disfunção no sistema familiar . (Cada um
desses pontos será estudado mais adiante .)
No seminário, passamos a maior parte do tempo lamentan-
do a negl igência no atendimento aos requisitos da dependência ,


VOIIAAOW

essenciaisao desenvolvimento. Esse é também o ponto central deste


livro. Na minha experiência, a abo rdagem no plano do desenvol-
vimento é o meio m ais completo e efetivo de curar nossos feri-
mentos meneais. Acredito que esse método, que focaliza cada es-
tágio do desenvolvimento, é exclusivo do meu seminário.
Durante o seminário, descrevo as exigências normais de de-
p endência da infância. Se não forem satisfeitas, chegamos à ida -
de adulta com um a criança interior muito ferida. Se fossem satis-
feita s, não seríamos •'adultos crianças' '.
Depois de delinear as exigências de um determinado está-
~-. u. os ~~--:,..
..., r - · · · .....:l'"'
~~" ~es se d1°\';d~m
....-..~ .. -.. ,.m
... gr".,..r"-""•
"~ •P--~z"'n
"''"·• ~ a uJo •se r
, 1 o rc1·
1,

pel de centr o de aten ção, cada pessoa ouve as palavras positivas


e de afirma ção que devü1.ter ouvido quando nasceu, quando co-
meçou a andar. nos anos pré-escolare-s e assim por diante.
Dependendo dos limites da pessoa que é o foco das aten-
ções, os membros do grupo acariciam , acalentam e oferecem va-
lid ação para os seus sofrimentos da infância. Quando a pessoa
ouve uma afirmação especial, que precisava ter ouvido , mas que
não ouviu na infância, geralmente começa a chorar, suave ou in-
tensamente . Algumas das mágoas antigas e congeladas começam
a se descongelar. A quantidade depende da pessoa já estar ou
não cm processo de cura. Alguns já trabalharam bastante antes
de entra r para 1J seminário , outro s nun ca fizeram nada .
Quase no fim do seminário , dou um tempo de meditação
para abraçar a criança interior. Neste momento, muitas pessoas
sentem uma intensa descarga emocional. Q uan do osparticipan- 1
tes terminam o seminário, eu os encorajo a gastar mais tempo,
cada dia, dialogando com sua criança ferida.
Quando finalmente conseguem recuperar essascrianças e aca-
lentá-las, começa a emergir a energia criativa dessas crianças ma-
ravilhas. Uma vez integrada , a crianç.a interior tor na-se fonte de
regeneração e de nova vitalidade . Car:IJung chamava esse filho
natural de "criança maravilh ~" - nosso potencial inato para ex-
ploração, encantamento e criatividade.
O seminár io me convenceu de que o trabalho com a criança
interior é a forma maís rápida e poderosa de efetuar a mudan ça
terapêutica nas pessoas. Esse efeito quase imediato me espan ta
até hoje.
Normalmente, sou cético a respeito de qualquer cuca ime-
diata, mas este trabalho, aparentemente, inicia um processo de
P&ÕI.OGO

transformação duradoura. Alguns participante s, dois anos após


a experiência, escrevem afirmando que o seminário mudou suas
vidas. Fiquei gratificado, mas um pouco confuso. Na verdade, não
sabia por que esse trabalho produzia um enorme impacto em de -
terminadas pessoas, e quase nenhum em outras. Procurei uma
explicação e um quadro começou a se definir em minha mente .
Voltei-me primeiro para o trabalho de Eric Berne, o gênio
criativo da Análise Transacional. A teoria da A.1. enfatiza o '· es-
tado do ego infantil'', que se refere à criança espontânea e natu-
ral que todos nós fomos um dia. A A.T. descreve também os mo-
1• • '-i
.1•• , · _k,Jt..
Uv.::, -- J.V.> -•• •,:o~ •r1
'-6 '4..L~ A. t.. t.t.L- oi~
-,.J-,MM>~pr "ssc•P ( .. t" "'so•es
ºança o--u• 1..--,l e~ ...__..,.J-'-._.
- ,.11 ,... ..,. ~ ~ \..J. J •

da vida familiar, na sua primeira infância.


A criança maravilha natural está presente quando encontra-
mos um velho amigo , quando damos uma gargalhada , quando
somos criativos e espontâneos, quando ficamos maravilhad os com
um espetáculo excepcional .
A criança adaptada ou fetlda está presente qua nd o nos re-
cusamos a passar com o sinal vermelho, -mesmo sabendo que está
enguiçado, ou quando avançamos o sinal porque não tem nin-
guém por peno e podemos passar imunes. Outros comportamen-
tos da criança ferida são crises de raiva, excesso de polidez e obe-
diência, falar como criança , manipular e ficar emburrado . No ca-
pítulo 1, descrevo em linhas gerais as vácias formas pela s quais
essa criança contamina nossa vida adulca.
Embora tenha usado a A.T. como meu principal modelo te-
rapêutico durante muitos anos, nunca havia focalizado meu tra-
balho nos vários estágios de desenvolvimento pelos quais a crian-
ça interior passa, na sua adaptação, para sobreviver. Hoje, acredi -
to que a falta de detalhes sobte o de senvolvimento é uma defi-
ciência da maioria dos trabalhos de A.T. Qualquer fase do desen-
volvimento inicial da criança maravilha pode ser intercompida.
Como adultos, podemos agir infantil.mente, podem os regredir para
o componamento de uma crnnça que começa a andar, podemos
continuar a acreditar em mágica. como um pré-escolar, e pode-
mos emburrar e nos isolarmos como um aluno do primeiro ano
primário que perdeu um jogo. Todos esses comportamentos são
infantis e representam vários níveis de interrupção no desenvol-
vimento infantil. O principal objetivo deste livro é ajudá-lo$ a
re_cuperar sua criança interior ferida em cadaescágio de desenvol-
vimento.
• •
16 VOCTA
AOl.AR

Meu trabalho sofreu. a seguir, a influência do hipnoterapeuta


Milton Erickson. Erickson acreditava que cada pessoa tem seu map a
do mundo, único e pessoal , um sistema interno de crenças que
é jnconscienre e que conscitui uma espécie de transe hipnótico .
Usando a hipnose de Erickson, aprendi vários meios naturais de
entrar em contato com os transes nos quais meus clientes já esca-
vam e a usar esses transes para ajudar a expansão e a mudança .
O que não percebi, até começar a fazer o trabalho da criança in-
terior, foi que o nosso centro do sistema interno de crenças é for-
mado pela criança interior . Regredind o na idade , até o tran se da
criança qu e vive em nós, é po ssível muda r o cen tro do sistem a
de cren ças direca e rapidamente .
O terapeuta Ron Kurtz aprofundou mínha compreensão da
dinámica do trabalho com a criança interior . O sistema de Kurtz ,
a terapia Haikomi , focaliza diretamente o material central. O ma-
ter ial central é o.modo pelo qual nossa experiência interior é or-
ganiz ada. Composto por nossos primeiros sentiment os, crenças
e lembran ças, o material central forma-se em resposta à tensão
do ambien te da nossa infânci a. O mater ial centr al é não-lógico
e primitivo; era a única forma de sobrevivência que a criança má -
gica, vulnerável , carente e sem fronteiras conhecia .
Uma vez formado, o material cenual torna-se o filtro atra -
vés do qual devem passar todas as novas experiências. Isso explica
por qu e algumas pessoas sempre escolhem cercos tipos destruti-
vos de relacionamentos românticos, por que outras vêem a pró-
pria vida como uma série de traumas reciclados, e por que tantas
deixam de aprender com os próprios erros.
Fc~ud chamou essa necessidade básica de repetir o passado
de '' compulsão de repetição'•. A grande terapeuta moderna Ali-
ce Miller a chama de ' ' lógica do absurdo''. É lógica quando com-
Ereendemos como o material central molda nossas experiências .
E como se esrivéssemos usando óculos escuros. Por mais intensa
que seja a luz do Sol, sempre e filtrada da mesma maneira . Se
os óculossão verdes, o mundo parece verde. Se os óculos são mar -
rons, não vemos muito bem as cores vivas.
Obviamente, então , se querem os mudar , temos de mu -
dar nosso material central . Uma vez qu e nossas experiências
foram organizadas primeiro pela crian ça interi or, um rod o de
mudar imediatamente o material cenual é fazer um contato
com ela ..

..

PRÓIOGO 17

O uabalho com a criança interior é um importante e um


nóVQ ínStPimentoterapêutico e completamentediferente dos mé-
todos de terapia do·passado. Freud foi o primeiro a compreender
que nossasneurosese distúrbiosde carátersão o resultado de con-
flitos :não resolvidos da infância, que se repetem du.rante toda
a nossa vida. Ele tentou curar a criança ferida criando um am-
biente segu:ropara que da pudesse emergir e transferir suas ca-
rênciaspara o terapeuta. Este, entao, fatia o papel de pai da criança
ferida para que da pudesse resolverseus problemas não resolvi•
dos. A criança ferida era. assim, curada.
O m.é~c-do de Fr::-.;d::~6~amuito tempu e ,iiuiic:uu e, gelai ·
mente, criavauma de-pendência . pouco saudávelno paciente.Uma
das minhas clientes procurou-me depois de dez anos de psicaná-
lise. Mesmo depois que comecei a trabalhar com ela, da telefo-
navaao seu analista, duas ou tr~ vezespor semana, pedindo con-
selho sobre trivialidades. O analista tinha se tornado, na verda-
de, o padrinho da sua criançainterior. Entretanto, de hão estava
realmente cuidando dela. Apenas ela tinha se tornado terrivel-
mente dependente dele. Um trabalho adeql;lado a teria ajudado
~ re~perar e usar seus poderesde adulta, para cuidarda sua criança
1nter1or ;

Neste livro, ofereçoum novomeio de entrar e·m contato, re-


cuperar e tratar devidamente a criança que.viveem nós. Vócêde-
ve fazer o trabalhosugerido,se quiser mudar. Compete ao adul-
to em voce deddir-se a fazer este trabalho.Mesmoenquanto vo-
cê estiverno seu estadoinfanci.1,sua personalidade adulta vaisa-
ber exatamente quem você,.é e o que está fazendo. Sua criança
ínterior vai experimentar as coisasda maneira que vocêas experi-
mentou na infância mas, desta vez, sua personalidade adulta es-
tará presente para proteger e amparar essa criança. enquanto ela
termina negócios imponantes inacabados.
O livro está dividido em qu~tro panes. A pane I estuda o
modo pelo qual sua criança interior deixou de se maravilhar e
como os ferimentos sofridosQainfância continuam a contaminar
sua vida.
A ·parte II o conduz através de cada um dos estágios de de-
senvol\'imento da sua infância, mostrando o que ,;ocê precisava
para um crescimento saudável. Cada capítulo contém um ques-
, tionário que o ajuda a determinar se as carênciasda sua criança


18 YOJ1A
AOW

interior foram satisfeitas durante um estágio específico. Depois,


eu o conduzirei através das experiências que uso nos meus semi -
nários, para a:judá-lo a recuperar sua cr;iança interior em cada
estágio.
A pane III apresenta exercíciosespecíficoscorretivospara aju-
dar o crescimento e o desabrochar da sua criança, para ensinar
como fazer com que adultossaudaveis satisfaçam algumas das ne-
cessidades da sua criança e·para erguer limites protetores para sua
criança interior, enquanto você trabalha na intimidade dos seus
relacionamentos. Esta parte mostra como vocêpode ser o proge-
nitor cuidado so que vucé nunca teve r1- « i:ifánci::. Q uand c r~~=
aprende a ser progenitor de si mesmo , não vai mais tentar com-
pletar o p~sado escolhendo out.ras pessóas como seus pais .
A pane IV mostra como sua criança maravilha emerge à me-
dida que a criança ferida se cura. Você vai aprende r a ter acesso
à sua cria.nça m:uavilha , e verá que ela é a energia mais criativa
e transformadora que você possui. Sua criarwa matavilha é a par-
te em você que mais se assemelha ao seu Criador e pode levar
a um relacionamento imediato e pessoal com seu eu único e com
Deus, como você compreende Deus. Esta é a cura mais profunda
de todas, prometida pelos ·grandes mestres de todas as crenças.
No cam"inho,eu também conto a minha história. Quando
comecei este trabalho, há 12 anos, não podia imaginar a trans-
formação nomeu modo de pensar e no meu comportamento re-
sultante da descoberta da minha criança i.nttrior. Antes dessa des-
coberta, eu minimizava o impacto da minha infância e idealiza-
va e protegia compulsivamente meus pais, especialmente a mi-
nha m_ãe. Quando era criança, freqüentemente dizia para mim
mesmo: "Quando eu crescer e sair daqui, tudo vai ficar bem."
Com o passar dos anos, compreendi que nada estava melhoran-
do, as coisas estavam ficando piores. Eu via isso nos membros da
minha familia melhor do que via em mim mesmo. Dez anos de-
pois da minha vitória sobre o alcoolismo, compreendi que eu era
ainda conduzido e compulsivo.
Em uma tarde chuvosa de uma quinta-feira, experimentei
o que Alice Miller escreveu sobre sua criança interior, ''Eu não
tinha caragem de deixar a criança sozinha ... Tomei uma decisão
que ia mudar profundamente a minha vida: deixar que a criança
me conduzisse." Nesse dia , resolvi recuperar e defender a criança
que vive em mim . Eu a encontrei apavorada, quase em pânico .

PRÓLOGO 19

A princípio, ela não confiou em mim e nã_o queria me acompa-


nhar. Persisti nos meus esforços, falando com ela, insistindo em
dizer que não a abandonarià e s.ó assim conseguj sua confiança.
Neste livro, descrevo os estágios da jornada que me ,perm.itiu ser
o guardião e defensor da minha criança interior . A jornada que
mudou a minha vida.

,
PARÁBOLA

A dupla tragédia de Rudy Revolvin


(Baseada em A Estranha Vída de Ivan Osokin,
de P.D. Ouspensky)

Era uma vez um homem chamado Rudy Revolvin. Ele teve um a


vida dolorosa e trágica. Morreu irrealizado e foi para o lugar escuro.
O Príncipe das Trevas, vendo que Rudy era um adulto criança,
achou que devia acrescentar à esciJridão dando a Rudy a chan ce
de viver tudo que já tinha vivido; Vocês compreendem , o Prínci-
pe das ,Trevastinha por missão continuar com as trevas - até mes-
mo tomá-las mais escuras, se fosse possível. Ele disse a Rud y qu e
estava certo de que Rudy ia cometer exatamente os lnesmos erros
e passarpela mesma tragédja de antes!
Deu então a Rudy uma semana para resolver.
Rudy pensou longa e con centradamente . Concluiu que o
Príncipe das Treva,s.queria enganá-lo . É claro que ia comete r os
mesmos erros, porque e-stária privado da lembrança do que ti-
nha feito na sua vida passada. Sem essas lembranças , não pode-
ria evitar os erros.
Quàndo finalmente compareceu perante o príncipe , ele re-
cusou a ofena.
O Prínçipe d~ Trevas, que conhecia o' ;segredo' ' da criança
interior ferida, não deu atenção à recusa de Rudy. Disse que , con-
trariando sua forma habitual de agir, permiticia que Rudy selem-
brasse de tudo da sua vida passada . O Príncipe das Trevas sabia
que , mesmo com essas lembranças, Rudy repetiria~atamente os
mesmos erros e teria de sofrer novamente aquela vida dolorosa .
Rudy riu satisfeito. "Finalmente", ele pensou , "estou ten-
do uma oportunidade verdadeira." Rudy desconhecia o "s egre •
do' ' di criança interior ferida .
Evidentemente , embora ele pudes se prever em detalhe t o-
dos os desastres que tinha criado ante s, Rud y repetiu sua vida
dolorosa e trágica. O Príncipe das Trevas ficou satisfeito!

PARTEI
O PROBLEMA DA CRIANÇA
INTERIORFERIDA

O conhecimento iluminava as câmaras esquecidas na


casa escura da infância. Agora eu sabia como era pos-
sível sentir saudadesde casa, em casa.
- G. K. Chesterton
....

I
J

'
·,1-.

..

,,
..

INTRODUÇÃO

Buckm1nscerFuller, um dos homens mais criaavosdo nosso tempo,


gostava de citar o poema sobre a infância, de Christopher Modey.

O maior poema conhecido


Que todos os poetas ultrapassaram:
E a poesia inata, não contada
De ter apenas quatr o anos.

Novo demais ainda pa.ra ser parte


Do grande coração impul sivo da natureza ,
Nascido amigo do pássaro, do animai e da árvore
E tão descontraído quanto uma abelha -

Mas com a razão bela e hábil


Cada dia um paraíso a ser construído
Euf6rico explorador de cada sentido
Sem desânimo, sem fingimento !

Nos seus olh os limpo s e transparentes


Não há consciência, nem surp resa:
Os estranhos enigmas da vida você aceita,
Sua estranha divindade mantida ...

E a vida, que vende todas as coisas em rimas,


Pode fazê-lo poeta, t,mbém, com o tempo -
Mas havia dias, ó terno dfo,
Em que você era a própria. Poesia!

O que acontece com esse começo maravilhoso quando éra-


mos todos a ' 'p rópria Poesia''? Como todos esses temos dfos se
26 AOLAR
VOLTA

tornam assassinos, viciados em drogas, afeitos à violência física


e sexual, ditadores cruéis. políticos moralmente degenerados ?
Como se transformam nos "feridos ambulante s"? Nós os vemos
à nossa volta: os tristes, medrosos , os sem fé, ansiosos e deprimi-
dos, repletos de desejos indizíveis. Sem dúvida , essa perda do nosso
potencial humano inato é a maior de todas as tragédias .
Quanto mais sabemos sobre o modo pelo quaJ perdemos nos-
sa espontânea capacidade de nos maravilhar e nossa criarividade .
melhor podemos encontrar um meio de recuperá-las . Podemos
até fazer alguma coisa no sentido de evitar que isso aconteça às
:.ossas crianças no futur o.
CAPÍTUID 1
COMO SUACRIANÇAINTERIORFERIDA
CONTAMINA SUA VIDA

Uma pessoa... dominada por antigos ~ofrimemos diz coisas que não
sãu pertinentes. faz coi~;uque mio: funcionam, nao consegue en•
frentu a situação e é sujci1aao.scntimcnro:reuívcl de que ni o cem
n~da a l azer com o presente,

- Harvcy Jackíns

Eu mai acreditava que pudesse ser tão infantil . Estava com 40 anos
e tinh a esbravejado e gritado a.ré cleii<artodos - minha mul her,
meu s enteados .e meu filho - apavorados. Então , entt:ej no meu
carro e os deixei . Ali escava.eu , sozinho em um mot el, no meio
das nossas férias oa Ilha do Padre. Eu me sentia muito só e mui-
to envergonhado .
Quando p.rocurei me lembr~ dos acontecim enros que pr o-
vocaram aquela explosão, não encontrei nada. Estava confuso. Era
como acordar de um pesadc:lo. Mais do que qualquer coisa, que-
ria que a minha vida de família fosse repleta de calor humano,
de amor e de intimidade ; Mas esse era o terceiro ano que eu ex-
plodia durante nossas férias. Eu já os havia abandonado emocio-
nalmente outras vezes - mas nunca fisicamente.
Era como se eu esúvesse em um estago de alteração do cons-
ciente. Met,1Deu s, corno eu me odiava. O que está acontecendo
comigo?
O incidente na Ilha do Padre ocorreu em 1976, um ano de-
, pois da mone do meu pai . Desde então descobri as causas dos
meus ciclos de r:µva/afastamento. A primeira pista importante me
ocorreu n a est.rada d;i.Ilha do Padre. Sentado sozinho e envergo-
nhado naquele horrível quarto de motel. comecei a lembrar vivida-
mente cenas da minha ínfância. Lembrei de uma véspera de Nat al,
quando tinha uns 11 anos, e· me vi deitado no quano escuro com


28 \\)i!A AOLAR

a cabeça sob as cobertas, recusando falar com meu pai. Ele tinha
chegado tarde em casa, levemente embriagado . Eu queria puni-
lo por estragar nosso Natal. Não podia expressar verbalmente mi-
nha revolta, porque haviam me ensinado que era um dos pecados
mortais, especiãlmente quando dirigida aos pais. Dul'ante anos,
minha raiva inflamou-se no bdlor da minha alma . Como um cão
faminto no porão, desesperado de fome, transformou-se em raiva
feroz . A maior parte do tempo eu a guardei cuidadosamente. Eu
era um cara legal. Era o melhor pai que ex.iscia - até não poder
mais suportar. Então, me transformei em Ivan, o Terrível.
O que eu vim a compreender foi que ..yuele comp orr:,.me!"
to nas férias eram regressõesespontâneasno cempo. Quando es-
tava esbravejando e punindo minha família, afastando-me dela ,
eu estava regredindo à minha infância, quando engolia minha
raiva e a expressava da única maneira que uma criança podia ex-
pressar - afastando-me de todos. Agora, adulto, quando passa-
va a crise de afastamento emocional ou físico, sentia-me exata-
mente como o garoto solitário e envergonhado que tinha sido.
O que compreendo agora é que quando o desenvolvimento
de uma criança é interrompido, quando sentimentos _s_ ão repri-
midos , especialmente scntimcn_tos de raiva e de mágoa, a pessoa
torna-se um adulto com uma criança zangada e magoada dentro
dele. Essa criança contamina espontaneamente o comporcame 11.:..
to do adulto.
A principio, pode parecerabsurdo que uma criança possa
continuar a viverno corpo de um adulto . Mas é exatamente o
que estou sugerindo. A~edíto que essa criança interi9r, negligen-
ciada e ferida no passado, é a maior fonte-da infelicidade huma-
na. Até o momento cm que a recuperamos, ela continuará a agir
mal , contaminando nossa vida de adultos.
Eu gosto de fórmulas mnemônicas, por isso, descrevo algun s
dos modos pelos quais a criança interior ferida contamina nossa
vida, usando a palavra ''contaminada''.* Cada letra significa um
dos modos da sabotagem da vida adulta pela criança. (No fim
desde 1=apítulo,você encontra um questionário que o ajudará a
verificar o quanto sua criança interior foi ferida .)

• Contarninare - Não E possível o processo mnemón ico cm porruguê s. (N. da l. )


COMO
SUACRIANÇA
INIERIOR
FERIDA
CONTAMINA
SUAVIDA 79

Co-dependence - Co-dependência .
Offrnde~ Behaviors - Comportamentos ofensivos,
agreSSlVOS.
NarcissisticDisorders, - Distúrbios narcisistas ,
Trust Issues - Problemas de confiança .
Acting Ouc/Acting in Be}:iaviors-Repetição do com-
portamento infançil, externa ou internamente .
Magicai Beliefs - Crenças em magi a.
Intimacy Dysfunctions .- Distúrbios de relaciona-
mento .
N ondiscipline d Bcbaviots - Comporcam~ nco.;
indisciplinados.
Addictive/Compulsive Behaviors- Comportamentos
viciados/compulsivós.
Though t Discortions - Distorções do pensamento .
Emptin ~s (-apathy, dépression) - Vazio (apati a,
depressão).

CO-DEPENDÊNCIA

Defino a co-depêndência como ~ma perda de identidade. Ser


co-dependente é perder o contato com os pcópríos sentimen-
tos, carências e desejo s. Considerêmos os .exemplos seguintes .
O namorado de Pervilia fala sobre seu descontentamento no
emprego , Nessa noite ela não con~egue dormir, preocupada
com o pro~lema dele. Pervilia sente os sentimentos dele e
não os dela .
Quando a namorada de Maximillian termina o relaciona-
mento de seis meses, ele pensa em suicídio . Acredita que seu
próprio valor depende de ser amado por da . Na verdade, M.axi-
.millian não tem noção do próprio valor, que é criado no seu
íntimo, só compreende o valor dos outros, que depende de
c;>utraspessoas.
O marido deJolisha, um atleta, a convida para sair à noite.
Depois de muita hesitaç ão, ela aceita. Ele pergu,ota aonde ela quer
ir. Jolisha diz que tanto faz. O marido a leva a uma chuttascaria
e depois para ver o filme A volta do assassino do m achado.
30 VOIIA
AOlAII

Jolisha detesta o programa. Fica emburrada e distante do mari-


do durante uma semana. Quando ele pergunta , "qual é o pro-
blema", da responde, "nada".
Jolisha é "um amor'' . Todos concordam em dizer que ela
é adorável. Na verdade, é tudo fingimento. Ela está constante-
mente representando. ParaJolisha, ser agradável é um eu falso.
Não sabe do que precisa nem o que quer. Não éonhece sua outra
identidade.
Jacobi tem 52 anos. Procura conselho porque há dois meses
vem mantendo um caso com a secretária de 26 anos. Jacobi diz
q ue n~~ sabe como isso aconteceu. Ele é presb ítero na sua ig reja
e membro prestigiado do Comitê para Preservação da l-.1oralida-
de. Foi o líder da luta para livrar sua cidade da pornografia . Na
verdadc,Jacobi representaum papel religioso. Não tem nenhum
contato real com seus impulsos sexuais. Depois de anos de re-
pressão ativa, esse impulso o dominou.
Biscayne assume como seu o problema de peso da mulher.
limitou a vida social deJa porque não quer que os amigos a co-
nheçam. Biscayne não sabe onde ele terrnioa e onde começa sua
mulher. Pensa que sua masculinidade vaiser julgada pela apa-
rência dela. Seu sócio, Bigello, tem uma amante . Ele verifica o
peso dela periodicamente para evitar que engorde. BigeJJo é ou-
tro exemplo de pessoa sem o senso do " eu" . Pensa que sua m as-
culinidade depende do peso da amante.
Ophelia Oliphant exige que o marido compre uma Merce-
des. Insiste também cm continuarem como sócios do Clube de
Campo de River Vallcy. Os Oliphant têm muitas dívidas, vivem
de um .dia de pagamento para o outro. G-2.stamuma energia cno[-
me para fugir dos credores e para conservar uma imagem de ri-
queza e de classe alta. Opbclia acha que sua auto-estima depen -
de de manter uma dete rminada imagem. Não tem nenhuma no-
ção interior do próprio "cu" .
Em todos os exemplos citados acima, vemos pessoas cuja iden-
tidade depende de algo que está fora delas . Esses são exemplq s
da doença da co-dcpendência.
A co-dependência nasce e cresce dentro de sistemas famili a-
res doentios. Por exemplo, rodos na família de um alcoólatra tor-
nam-se co-dcpcndcnres do alcoolismo dessa pessoa . Como o al-
coolismo representa uma ameaça de vida para todos os membro s
da familia, eles se adaptam, tornando-se cronicamentc alenas (su-
COMO
SUACRJANÇA
lNTERIOR
FERJDA
CONTAMINA
SUAVIDA JI

pervigilantes). A adaptação à tensão deve ser, por natureza, um


estado temporário, nunca crônico. Com o passar do tempo, a pessoa
que convive com a tensão crônica do comportamento de um al-
coólatra perde o contato com suas características internas - os
próprios sentimentos, carências e desejos.
As crianças precisam de segurança do exemplo de emoçõe s
saudáveis para compreender os próprios sinais interiores. Preci-
sam , também , de ajuda para separar os pensamentos dos senti-
mentos . Quando o ambiente familiar é de violência (química ,
emocional , física ou sexual), a criança pas~a a focalizar apenas o
exterior. Cum o tt>mpo. ela perde a capacidade de gerar a aut o-
estima que vem do seu interior . Sem uma vida interior saudável ,
a pessoa, exilada de si mesma, procura satisfação no exterior . Isco
é a co-dependência, um sintoma da criança interior ferida . O com-
portamento co-dependente indica que as carências da .infância
não foram acendidas , e que a criança não sabe quem é.

COMPORTAMENTOAGRESSIVO

Em geral, pen samos que todos os que têm um a criança interior


ferida são agradáveis , quietos , sofredores e amoroso s. Na verda-
de, a criança interior ferida é responsável por grande pane da vio-
lência e da crueldade que há no mundo. Hitler foi espancado na
sua infância , humilhado e envergonhado por um pai sádico, que
era filho ilegítimo de um abastado judeu . Hitler repetiu a forma
mais extrema dessa crueldade em milhões de pessoas inocentes .
lsso me faz lembrar meu cliente Dawson . Quando me pro-
curou em razão de um problema conjugal, ele era leão-de-chácara
, de uma boate . Contou que tinha quebrado o queixo de um ho-
mem no começo daquela semana. Descreveu com veemência co-
mo o homem o obrigoua fazer aquilo . Ele ofendeu Dawsoo, ban -
cando o valente com ele. Muitas vezes, durante nossos encoouo s,
o ·awson falou desse modo. Os agressivos não assumem a respon-
sabilidade por seu comportamento .
Continuamos a trabalhar juntos e logo se tornou eviden te
que, muitas vezes, Dawson sentia medo. Quando isso acontecia,
ele se lembrava do garotinho que tinha sido. O pai era violent o
32 VOI!AAOlAR
'

e o maltratava fisicamente. Como o garotinho de tanto tempo


at.rás, tremendo sob o impacto da fúria bmtal do pai, não era
seguro assumira sua verdadeirapersonalidadecheiade medo. As-
sim, Dawson identificou-se com o pai. Ele tornou-seo pai. Qual-
quer ocorrênciaparecida com as cenas de violência de sua infân-
cia detonava os antigos sentimentos de medo e de impotência
e Dawson se transformava no pai brutal, infligindo aos outros o
mesmo castigo que o pai lhe infligia.
O componamento agressivo,-aprincipal fonte de destruição
da humanidade, é o resultado da violência na infân cia e da mágoa
e da dor não resolvidas.A criança impotente e íerida u ansÍorma-se
no adulto agressor.Para compreender isso, precisamos saber que
muitas formasde maus-tratos contra criançasfazem delas um agres-
sor. Isto é verdade especialmente nos casos de maus-uaros físicos,
de abuso sexual e de severocastigo emocional. O psiquiatra Bruno
Bettelheim criou uma frase para essepr ocesso: '' identificação com
o agressor' '. A violência sexual, física e emocional, é tão apavoran-
te para a criança, que ela não consegue manter a própria personali-
dade. ,Parasobreviverà dor, ela perde toda noção de identidade,
identificmdo-se com o agressor. Bettelheim conduziu seus estudos
especialmente entre ossobreviventes dos campos de concentração.
Em um dos meus seminários recentes, uma terapeuta de Nova
Yorklevantou a mão. Disse que era judia e começou a contar ao
nosso grupo os detalhes horríveis do sofrimento da mãe em um
campo de concentração. A parte mais espantosa da história era
que a mãe tratavaa .ilha como fora tratada pelos guardas nazis-
tas. Ela cwpia na filha e a chamava de porca judia, desde que
a menina tinha u~s anos.
Talvezmais impressionante sejam os agressores sexuais. Na
majoria das vezes, foram violentados na infância. Quando ata-
cam crianças,estão repetindo o abuso que experimentaramquando
eram pe.quenos.
Embora a maioria do componamento ofensivorenha raízes
na infância, nem sempre é resultado de maus-u :ao s. Em aJguns
casos, os indivíduos foram ' 'mimados' ' pelos pais com indulgência
e submissão exageradas, e aprenderam a se considerar superiores
aos ouuos . Essascrianças mimadas acreditam que merecem um
uatamento especial de todos e que não podem errar. Perdem to-
da a noção de responsabilidade , certas de que seus problemas são
sempre culpa de outras pessoas.
COMO
SUACRIANÇA
INlERIOll
FERIDA
CONTAMINA
SUAVIDA 33

DISTÚRBIOSNARCISISTAS

Toda crianca o recisa ser amada jncondiciona1mente - pelo me-


_po;;,no início. &em o espel ho de uma atitude de aceitação 1ncon•
d.icional, dos pais ou dos responsáveis, a criança não tem meios
de saber quem ela é. Cada um de nós foi nós antes de ser eu.
Precisamos àe l 1.ma face qu e, corno um espdnu, refiica LOu d::. a:.
panes do nosso eu. Precisamos saber que somos importantes, que
somos levados a sério e que cada parte de nós é digna de ser ama-
da e aceita. Precisamos também saber que os que tomam conta
de nós nos amam e que podemos confiar neles. Essas são as ca-
rências narcisicassaudáveis de toda criança. Se somos privados de-
las, nossa noção de EU SOU é prejudicada .
A criança interior privada dessa necessidade nardsica conta-
mina o adulto com urng sedeinacii.vel de amor,_ac.eoç.âQJ:....afci-
ção. As exigências da criança manife~µm-se comqyabocªgem aos
relacionamentos dos :gj_µlto~,porqy_e.,_ p~ qy.e..~ej_arn-ª.
ma-
dos, nunca estão satisfeitos. O adulto crians;a.privado desse nar•
cisismo, não oode ter suas carências atendidas porque , na verda-
de, são carências de uma cciança. E as cri_anç~JJL~cisamdaspais.
o tempo todo. São carenre,~r narureza.....nã.o..p.QLescolha . A
carências da criança são de depe ndência. isto é..carências qye de-
pendem de outra pessoa para serem a~idas. Só a lamenta!;âO
J• da erda realiza a cura. En uan to .isson-o for feito,-ª..Q'iança in-
saciável procura vorazmente o amor e a estima que não teve na
infância .
As carências dos adultos crianças, privados das suas necessi-
dades narcísicas, tomam várias formas:

• São desapontados em um relacionamento depois de ouuo .


• ;~tão sempre procurando o amante perfeito que vai satisfazer
todas as suas carências.
• Tornam-se viciados. (Os vícios são a tentativa de preencher urn
vazio psíquico. Os exemplos prini::ipais são o vício do sexo e do
amor.)
• Procuram a auto-estima nas coisas materiais e no àinneir o.

-
• Tornam-se atores ou atletas porque precisam da adulação e da
admiração constante de uma audiência.
• Usam ospr6p.dosfilhospata satisfazer suas necessip,adesnard-
sicas. (Na sua fantasia. jamais serão abandonados pelos filhos
e serão sempre respeitados e admirados por eles.) Tentam ob-
ter dos filhos o amor e a admiração especial que não tiveram
dos próprios pais.

PROBLEMASDE CO.NFIANÇf..

Quando não podem confiar nas pessoas responsáveis por elas, as.
crian as desenvolvem um rofundo sentimento de desconfiança .
O mundo parece um lugar perigoso, osti e 1mprevisíve . Dess;
maneira,, precisam estar constantemente cm guarda e no contro -
le. Acabam por acreditar que , "se eu conuolar tud,o, ninguém
pode me apanhar desprevenido . e me ferir 11•
,Surge, então, uma espécie de mania de controle, o víciõdo cón-
trole. U~ cliente meu tiriha tanto medo de perder o controle , que
trabalháva cem horas por semana. Não podia delegar autoridade
porque não confiava em ninguém. Ele me procurou quando sua
colite ulceiativa se agravou tanto que teve de ser hospitalizado ,
Ouc,r~cliepte estava arrasada porque o marido tinha pedido
o divórcio. A ''última gota'' para ele foi quando a mulher tro -
cou a marca do telefone que ele havia instalado no carro dela .
O :marido queixava-se de que. por mais que fizesse por ela. nun-
ca fazia a coisa certa. A mulher sempre tinha de mudar alguma
coisa feita por ele. Em outras palavras , ela só se sentia bem quan-
do tinha p.ido sob conuole.
A mania do conuole cria g.raves problemas oos relaciona-
mentos. Não é possível a intimidade com uma pessoa que: não
confia c:m nós. A intimidade exige a aceitação do companheiro
como ele é.
Os. distúrbios de confiança criam também problc:mas de ex-
cesso de: confiança. A pessoa desiste de todo controle e confia in-
gênua e absurdamente, prendendo-se a outra pessoa e investin-
do nela um ~xcesso de estima, ou isola-se:completamente , cons-
truindo muros protetores e intransponíveis .
SUA
COMO JNTalORFERIDA
CRIANÇA CONTAMINA
SUAVIDA 3)

De acordo com Pa.ttick Carnes, especialistaem manias, a pes-


soa que nunca aprcndeg a confiar, confunde intensidade com in-
timidade, obsessão com interesse real e-controle com segurança.
A primeira tarefa da !)Qssavida, relativa ao desenvolvimen-
to, consiste em estabelecer um sentimento básico de confiança.
f. recisamosaprender que a outra pessoa (mamãe, papai , o mun -
do lâ fora) é segura e confiável. A noção básicà de confiança é
uma sensação profundamente holística. Se podemos confiar no
mundo, podemos aprender a confiar em nós mesmos. Confiar
em si mesmo significa confiar nos próprios poderes, percepções,
inrerpren1çõc~. scntimen to5 e desejos.
As crianças aprendem a confiar com responsáveisdignos de
confiança. Se mar:nãee papai são consistentes e previsíveis,se ma-
mãe e papai confiam em si próprios. a criança confia neles e em
s1 mesma.

COMPORTAMENTOSDE REPETIÇAO
-

Repetição externa
Para compreender como a criança interior ferida repete com seus
atos as carências não acendidas da infância e o trauma não resol-
vido, precisamos saber que a.semoçõessão as principaisforçasmo-
dvadorasda nossavida. As emoções são o combustivel com o qual
nos defendemos e com o qual procuramos atender nossas neces-

, sidades básicas (eu gosto de escrevere-moção: energia em movi-


mento). Essa energia é fundamental. Nossa raiva nos movimenta
para a defesa. Quando estamos zangados, tomamos uma posi-
-ção, ficámos " loucos para lutar". Com essa ràiva, nos protege-
mos e lutamos por nossos direitos.
O medo nos move para fugirmos do perigo. O medo nos dá
discernimento.Ele nos protege, informando que o perigo está pró-
ximo e que é grande demais para ser enfrentado, ele nos faz cor-
rer e procurar um refúgio.
A tristeza nos faz chorar. No:.saslágrimas são purificadoras
e nos ajudam a resolver-atristeza. Com tristeza. lamentamos nossas
perdas e libertamos nossa energia para ser usada no presente.
Quando não podemos lamentar. não . teu:ninamos com o passa-
do. Toda a energia emocional relativa à nossa triste~ _oy tJ.~uma
s,=congela. Não resOlvida e não expressa. essa energia continua-
mente: prçcura se rçsolvcr. Uma vez que não pode ser exp1essa
num lamento normal e saudável, expressa-se por meio do com-
ponamento anormal, Isso se chama ''repetição externa''. Minha
ex-cliente Maggie nos dá um bom exemplo.
Maggie via o pai, um alcoólatra furioso e violento, maltr a-
tar a mãe, verbal e fisicamente. A cena repetiu-se continuamen-
te durante toda a sua infância. Desde os quatro anos , Maggie era
o consolo da mãe;. Depqis de set espancada pel o marido , ela ia
para a cama com Maggie.Ttemcndo e gemendo, da se agarrava
à filha. ,Às 'Vezes,o p'ai ia atrás da mãe e gritava com ela. Isso
deixava Maggie apavorada. Qualquctt violência contra um mem -
b,r:oda família apavora todos os outros . A tesce.munbada violên-
eia é uma vítimada violênda.
O que Maggie precisava, ~a infância, era expressar seu ter-
ror e descarregarsua tristeza. Mas não tinha ninguém para consolá-
la e resolver sua dor não expressa. Quando cresceu , Magg1e pa s-
sou a procurar homens e mulheres que fizessem as vezes de pais
amorosos para ela. Quando me procmou, tinha · passado por dois
casamentos brutais é \l'ários outros relacionamentos violentos . E
qual era a sua profissão? Era conselheira especializada no trata - 1
mento de .mulheresmaltratadas!
Maggie estava1epetindo o c,r:aumada infância . Tomava con-
ta de mulheres maluatadas e tinha relacionamentos com homens
violentos. Tomava conta de outras, mas ninguém tomava conta
dela. A energia emocional do passado, não resolvida, estava sen-
do expressa da iínica forma possívc:J - . ' 'repetindo as cenas da
1'of:"" . '' .
anc1a
Essa repetição é um dos meios mais devastadores da sabota•
gem praticada . pela crian~a interior em nossas vidas. A história
de Maggie é um c::xemplodramático da compulsão de repetir o
passado . ''Quem sabe, desta vez eu consigo'' , diz a criança ferida
que vive em Maggie. "Se eu for perfeita e der ao papái tudo que
ele precisa, talvez ele se importe comigo e demonstre seu amoc
e sua.afeição.'' Este é o pensamento mágico de urna criança, não
o raciocínio lógico de um adulto . Quando chegamos a compreen-
der isso, tudo faz sentido. Ouuos exemplos desse cipo de com-
portamento são:


COMO
SUACRIANÇA
JN,l'ERJOR
FEJ(]DA SUAVIDA
CONTAMINA 37

• Repetição dos atos de violência contr-a outros.


• Fazer ou dizer aos nossos filhos o que dissemos que jamais fa-
ríamos ou diríamos .
• Regressão·etári~ espontânea - crises de raiva, distanciamento,
etc.
• Rebelião exag:erada .
• Pàr em prácié-a r.egras idealizadas dos p,ais.

A repe:t iç,ão int~rn


.a coqs.isu: e_rn repeti e..cm si mesmo <l:S'liolên.!
é.ias.do pass;ido. Nós nos punimos como nos pµniam na ínfância .
..::onheço umhomcr:n que se castiga sempre que comete um erro.
Diz coisas como: "Seu idiot a, como pode ser tã ·o burro? " Vád as
vez.eseu o vi hater no ptóprio rosto c~m os punhos fechados. (Sua
mãe fazia isso com ele, quando era pequeno .)
A ernoção do passad o, nào resolvida, geralmente é usa-
da contra a própria pessoa. Joe., por exemplo, quando criança,
era proibido de expressar sua raiva. Tinha muita raiva da mãe
porque ela não o deixava fazer nada sozinho. Assiro que ele
começava qualqueé coisa, ela corria para ele, dizendo coisâs
1
como: '' Mamãe precisa ajudar seu docinho de coco'' , ou, 'Você
está fazendo direicinho, mas deixe m.amãe dar uma ajudazi -
nha.'' Joe admitia que ate agora, já adulto, ela fazia para ele
coisas que podia fazer sozinho. Joe aprendeu que d~via ser com-
pletamente obediente e qt1e expressar a raiva é pecado. Assim,
Joe virou sua raiva contta ele mesmo . Como resultado, sen-
cia-se deprimido, apáciéo, inepto e incapaz de atingir seus obje-
tivos.
A energia emocional que é repetida contra a própria pessoa
pode provocar gi:avesproblemas físicos, incluindo distúrbios gas-
crointestinais, dores de cabeçaj tensão grave, anrite, asma. at a-
ques cardíacos e câncer. Ser sujeito a adderues é outra forma des-
:setipo de repetição da violência. A pessoa provoca o acidente como
uma forma de auropunição.

l .
_3
8 \QI!AAOW.
l
7

CRÉNÇASMÁGICAS
As criançassão mágicas. "Andar para trás é pisár na alma da ,mãe.''
Mágica é a crença de que cenas palavras, gestos ou comportamen-
tos podem mudar a realidade . Geralmente pais negligentes ou
abusivos reforçam o pensamento mágico dos filhos. Por exemplo,
se você diz ao seu filho que seu éomportamentó é responsável
pelos sentimentos de outra pessoa, está ensinando pensamento
mágico. Algumas frases mais comuns, neste sentido, são: '' Você
está ma-;:andos~a mãe" , " Veja o que você fez - sua mãe está
preocupada'', ''Está sacisfeito? - fez seu pai ficar zangado!' ' Ouu a
forma de reforço do.pensani~nto mágico é a frase, '' Eu sei o que
você está pensando.''
Lembro-me de uma cliente com 32 .anos, casada cinco ve-
zes. Ela pensava que o casamento ía resolver seus problemas. Se
conseguisse encontrar o homem ' 'ceno ' ', rudo ficaria bem. Essa
crença é mágica, sugere que algum acontecimento ou determi-
nada pessoa pode mudar a nossa realidade , sem que tenhamo s
de mudar nosso componamento .
·P.araa criança é natural pensar magicamente. Mas se a ériaoça
é magoatla por falta de atendimento das suas exigências de de-
pendência, -elajamais cresce. Será um adulto ainda concaminàd o
pelo pensamento mágico de uma criança.
Outras crenças mágicas contaminadoras são;
-
• Se eu tiver dinheiro, estarei bem.
• Se meu amado/a me abandonar. morrerei ou nunca mais farei
nada na vida. 1
• Um pedaço dé papel ·(um .diploma} me fará inteligente.
• Se eu "tentar arduamente ", o mundo me recompensará.
• ''E sperar' ' terá resultados maravilhosos.

Ensinam àsmeninas que 9s contos de fadas estão repletos de má•


gica. Cinderela aprende a esperar na cozinha por um homem com
o sapacinho certo! Branca de Neve recebe a mensagem de que,
se esperar bastante, seu príncipe vai chegar. Em nível literal, essa
história diz àsmulheres que seu desrino depende de esperar que
um necrófilo (uma pessoa que gosta de beijar ou acariciar cadá-
ver~s) apareça do bosque na hora cena. Não é um quad~o muito
bonito!
COMO
SUACRIANÇA
INTERI
ORFERIDA
CONTA!,{INA
SUAVIDA

Os meninos aprendem a esperar coisas mágicas também nos


contos de fadas. Muicas histórias contêm a mens agem de que existe
a mulher cercaque eles devem procurar e encontr ar, Na sua pro-
cura, o hom em deve viajar par a muito lon ge, atravessando bos-
ques escuros e vencendo dra gões perigoso s e assustadores. Final-
men te, ele vai saber,quando a encontrar , que ela é a mulher cer-
ta (por isso tan tos homens ficam ansiosos na frente do altar ).
Geralmente o destino do ho mem é determinado por coisas
misteriosas, como feijõ es mágicos ou espadas milagrosas. Ele po-
de até ter de conviver com um sapo. Se tiver a coragem de beijar
0 2!:!m"I , ::i s2p o se transform ará c u, um pd ncesã la5 rriulhc:r~~
tém sua versão da história do sapo) .
Para as mulheres , a má gica consiste em esperarpelo homem
cerro. Para os homens , consiste na procura incansável da mulher
certa .
Evidentemente , os contos de fadas operam em um nível sim-
bólico e mítico. São ilógicos e, como os sonhos , falam at ravés d e
imagens . Muit·os contos de fadas são indicações simbólicas de co-
rno encontra.e nossa identidade masculina ou feminin ~. Quan do
o processo de desenvolvimento ocorre sem pe1·calços. com o tem-
po sup eramos a interpretação literal dessas histórias e compree n -
demos seu significado simbólico.
Porém, quando a criança inter ior é ferida. ela continua a in-
terpretar literalmente os contos de fadas. Como adu ltos crianças,
esperamo s magicamente e/ou pro curamo s o final perfeito, onde
viveremos felizes para sempre .

DISTÚRBIOSDE INTIMIDADE

Mw tos adult os crianças movem -se constantemente entre o med o


do abandono e o medo de serem completamente dominad os. Al-
guns isolam-se, temendo serem absorvidos por outras pessoas. Ou-
tros, recusam terminar relacionamentos destrutiyos, remendo o
aba ndo no. A maioria deles flutua entre os dois extrem os.
O padrão de relacionamento de Herkimer consiste em se apai-
xonar loucamente por uma mulhe.i:. Uma vez consegujda a 1nci-
midade e a proximidade, ele começa a se afastar del a. Faz isso

,
1
40 VOIJAAOLAR

elaborando , aos poucos, uma "lista de cáticas''. Geralmente os


itens da lista referem-se a pequenas idiossincrasias de comporta-
mento : Herkimer provoca, então, pequ _enas discussõessobre esse
comportamento. Geralmente sua companheira se retrai e fica zan-
gada por um ou dois dias·. Então fazem as pazes intensamente,
fazem amor apaixonado e têm a .sensação de completa união. Isso
dura até Herkimer se sentir preso .e sufocado.outra vez e procurar
distância, provocando outra briga.
Athena, 46 anos, não tem um namor-ado há 1, anos. Seu
''amor verdadeiro'' morreu em um acidente de carro. Athena diz
que, por ocasião da morte dele, eia prometeu jamais tocar em
outro homem, em .honra da sua me.mória. Na verdade, Athena
est~e apenas três meses com o namorado mono. Nunca dormiu
com um homem em toda sua vida adulta . Sua única experiência
sexual foram os cinco a~os de abuso nas mãos do padrasto, na
infância. Athena ergueu muros de aço em volta da sua criao91
interior ferida. Usa a lembran ça do amigo mono como defesa,
para não ter ·intimidade com ninguém.
Outra mulher, com a qual trabalhei , manteve durante 30
anos u_m casamento sem paixão. O m3:rido é moJhereng0, vicia-
do em sexo, Ela sabe de seis casos que c-1c teve (em um deles,
o apanhou na cama com out ra mulher) . Perguntei por que con-
tinuou c{?Sadae·ela disse que ''amava'' o marido. Essa mulher
confunde dependência com amor. Ela foi abandonada pelo pai
quando tinha dois anos e nunca nµis o viu. Sua ''dependência
que ela chama de amor'' tem suas raízes no medo profundo do
abandono.
· Em todos os casos citados acima, o problema central é a crian-
ça ferida.
A criança ferida contamina a intimidade nos relàcionamen-
tos porque não tem noção dos.eu eu autêntico . A maior mágoa
que uma criança pode sofrer ê.a de (ejeiçãodo eu autêntico. QUM-
do um dos p.ais não pode afirm_a~ os sentimentos, as carências e l
os desejos do filho, ele está rejeitando o eu autêntico da criança.
Então, to.ena-se necessária a criação de um outro cu .
ºParaacteditàr que é.amada , a criança ferida comporta-se da
formaque acha que devese compona.c.
EssefalSQ.t:u
se des-'.llw-
ye com o passar dos anos e é reÍorçado pelas exigênciasdo sistema
familiare pelos papéis sexuais da nossa cultura.. Gradativamen-
te. õ falso eu transforma-se naquilo que a pessoa pensa que é .
COMO
SUACllANÇA
INTERIOR
FERIDA
CONTAMINA
SUA\IIDA 41

Ela esquece que o falso eu é uma adaptação, um ato baseado num


sc,ciptde outra pessoa.
É impossível áinwrudade sem a noção do eu. ComQ pode-
mos companilhar ·nossa pessoa com alguém , quando não sabe-
mos tealmente quem . somos? Como alguém pode nos conhecer
quàndo não sabemos quem somos?
Um dos .meios de criar uma sólida noção d0 eu consiste em
estabelecer limites fortificados. Como as fronteiras de urn país,
nossas fronteiras físicas protegem nossos corpos e çlão o alarme
quando alguém ~e apfoximª demais ou tenta nos usar indevida-
m ence. Nossas 6:onceirás sexuais nos mantêm sexuaimeote pro-
tegidos e tranqüilos. (As pessoas com fronteiras sexuais fracas ge-
ralmente fazem sexo quando, na verdade, não desejam fazer.) Nos-
sas fronteiras emocionais nos indicam . onde terminam nossas emo-
ções e começam as de outros. Elas nos dizem quando es:ramos
sentindo por nós mesmos e quando senrimos pelos outros. Te-
mos também fronteiras intelectuais e espirituais, que determi-
nam nossas crenças e nossos valores,
Quando a criança é ferida por negligência ou por maus-uatos,
súasfronteiras são violadas. Isso predispõe a Griançaao medo de ser
apandonada ou ·absorvida por ourros. Qua ndo a pessoa.sabe ·quem
da é, não teme ser absorvida . Quando tem a noção de auto-estima
e autoconfiança, não teme ser abandonada. Sem fronceiras fortes
não podemos sa,b-eronde terminamos e onde os oucros começam.
Jemos dificuldade em dizer aão e·para saber ô que queremos , dois
comQonamentos crµciais para estabele cer a intimidade.
O clistíírbio de intlmidadé é extremamente potencíalizado
pela disfunção sexual. Crianças de famílias mal estruturadas têm
seu,desenvolvimento sexual ptej udicado. Esse prejuízo é causado
pelo exemplo sexual deficiente na faroílill,o desapontamento do
pai em razão do sexo da criança, desprezo e humilhação irnpos-
tos a- cnança
. • . oa íHCDri·xrocoraas
e nc:gl'1~oc12 rl ncccsst"dad e~{:.
",l

dependênciaoarurais.ao clcsen:volvirocata
da criança,
O pai de Gladys nunca .estava: em casa. Seu vício pelo traba-
lho ó dominava completamente. Na sua ausência . Gladys criou
um pai de fantasia. Hoje ela está no seu terceiro casament'O. Por-
que suas idéias . sobre os homens são iireai s, nenhum jamais. cor-
resp onde às .suas e:xpettativas .
Jake via o pai ofender a mãe verbalmente, sem que ela .rea-
gisse ou se que.ecasse. Jake não consegue estabelecer intimidade


4.2

com as mulheres. Escolhe mulheres passivase cordatas e logo se


desinteressasexualmente delas porque as despreza, como despre-
zava a mãe. Suas experiências sexuais mais satisfatóriassão quan-
do ele se masturba, imaginando as mulheres em situaçõessexuais
humilhantes.
Muitas criançassabem que os pais ficaram desapontados com
seu s~xoquando elas nasceram - papai queria um menino e nas-
ceu uma menina. Mamãe queria uma menina e teve um meni-
no. A criança começa a se .envergonhar do seu sexo, o que pode
Jevar. mais tarde, a vários graus de submissão sexual.
A criança vitimada pelo desprezo dos pais e pelas humilha-
ções impostas geralmente é predisposta a um comportamento se-
xual sadomasoquista. A mãe de Jules, vítima de incesto, nunca
foi tratada e nunca superou sua revolta contra o abuso sexual so-
frido. Jules, tomando as dores dela, internalizou a fúria da mãe
contra os homens. Mais tarde , ele se tornou um viciado em sexo.
Tem uma grande coleção de livros e vídeos pornográficos. EJe se
excita imaginando uma mulher dominante e maternal que o hu-
milha e maltrata.
As crianças precisam de uma orientação segura para realizar
as tarefas de cada estágio de desenvolvimento. Quando as carên-
cias inereores não são atendidas em um determinado estágio, o
desenvolvimento estaciona nesse estágio. As crianças privadas da
satisfaçãodas suas carências do primeiro estágio da infância pro-
curam a graúficaç.ão oral, que pode se manifestar, mais tarde, como
uma fixação no sexo oral.
A criança cujo desenvolvimento é interrompido na idade em
que começa a andar, geralmente , torna-se fascinada por nádegas.
A fascinação por uma parte genital chama-se ''objetificação se-
xual'', e reduz as ouuas a objetos -genitais.
A objetificação sexuaJ é o flagelo da inúmidade . A intimi-
dade exigeduas pessoascompletas, que se valorizemmutuamente
como indivíduos. Muitos casais co-d_.ependeutespraticam o sexo
intensamente objeúvado e viciado. E o único modo que a crian-
ça que vive no adulto conhece para se manter próxima de outra
pessoa.


COMO
SUACRIANÇA
JNlERJOR
FERIDA
CONTA.MINA
SUAVIDA •l

COMPORTAMENTOS
JNDISCIPLINADOS

A palavra disdplina vem do latim, disciplina, que significa •'en•


sinat' '. Através da disciplina, ensinamos a criança a viver mais pro-
dutiv.tmetue e com mais amor. Como disse M. Scott Peek, a dis•
ciplina é um meio de diminuir o sofrimento da vida. Aprende-
mos que dizer ·a verdade, adiar a gratificação, ser honesto consi-
go mesmo. e assumfr a responsabilidade dos própri os atos aumen-
tam as alegrias e os ptazerés da vida.
Os pais devem dar exemplo c;ieautociisciplína, em vez de fa.-
lar sobré ela. As crianças aprendem com os.a.tosdos pcis, não com
sua~palavras, Qua .ndo os pais não dão o exemplo de àisciplina,
a criança torna-se indjsciplinada. Quando os pais disciplinam ri-
gidamente os filhos (e não fazem o que pregam), a criança torna-se
superdiscipBnada .
A criança interior indisciplinadi faz o adulto hesit.u , pro-
crastinar , recusar-se a adiar a gratificação , rebelar-se. se:rvolunta-
rioso e obstinado ; agir impulsivamente. sem pensar. A criança su-
perdis.ciplrnada é rígid a, obsessiva, exageradamente controlada e
obedient~, gosta de agradar os qutros e é domin.tda pelo senti -
mento de culpa e de vergonha. Entretanto, o componamcnto da
maioria do~ adultos que posstú u_ma criança fecida oscila enrr e-
a indisciplina e a superdisc:iplina.

COMPORTAMENTOSVICIADOS/COMPULSIVOS

A ci:iança fe.c:idaque vive no adulto é a causa principal dos ví-


cios e do componamento viciado. Eu me tornei akoôlau :a mui -
to cedo. Meu pai , também alcoólatra, me abandonou física e
emocionalmente quando . eu c.ra pequeno. Eu me senti indign o
de sua atenção e do seu tempo. Como ele nun ca esteve presente
para modela r meu comportamento, nunca. roe senti ijgado a
ele, nunca experimentei o que é ser amado e considerad o por
um homem. Dessa maneira. nunca amei a mim mesmo como
um homem.
'!UllAAOW

Nos primeiros anos da minha adolescência, eu andava na com-


panhia de outros meninos sem pai. Nós bebíamos e éramos devas-
sos para provar nossa masculinich1de. Das 15aos 30 anos, fui vicia-
do em álcool e drogas. No dia 11 de dezembro dê 1965fechei defi-
nitivamente a garrafa. Deixei o vício das drogas, mas meu compor-
tamento viciado continuou . Eu fumava , trabalhava e comia por vício.
Não tenho dúvida de que meu alcoolismo foi resultado de
predisposição genética. Aparentemente existem provas de que o
alcoolismo tem raízes genéticas , Porém , o fator hereditário não
é suficiente para explicar esse vício. Se fosse. todos os filhos de
akoólatcas seriam akoplatras. Evidentemen te, esse não é o caso.
Meu irmão e minha irmã nunca focam alcoólatras . Eu passei 25
anos tn.balhando com alcoólatras e viciados em drogas. Isso in-
clui 15 anos de trabalho com adolescentes viciados em drogas.
Nem uma vez encontrei uma pessoa cujo vício fosse puramente
de natu reza química , a despeito do fato de que algumas drogas
viciam com grande rapidez - v.i adolescentes ficarem viciados
em crack.comapenas dois meses de uso. O faror comum que en-
contrei foi a criança ferida . Ela é a raiz insaciável de todo com-
port~ento viciado/compulsivo. A prova está no faro de que quan-
do eu me Jivrei do vício da bebida, procurei outras formas de al-
teração do meu t~mperamento. Eu trabalha va, comia e fumav a
compulsivamente, em razão da carência insaciável da criança que
havia cm mim .
Como todas as crianças de pais alcoólatras, fui abandonado
emocionalmente. Para a criança, o abandono é morte. A fim de
atender meus dois requisitos básicos de sobrevivência (meuspais
são6cimose sou imporca.nre para eles), tomei-me o maódo emo•
cional da minha mãe e o pai d os meus irmãos mai s novos. Aiu-
darminha mãe e os outros fazia-me acreditar que eu estava certo.
Disseram-me, e eu acreditei , que meu pai me amava , mas era
doente demais para demonstrar e que minha mãe era uma santa.
Tudo isso disfarçava minha idéia de que eu não valia o tempo
dos meus pais (vergonha tóxica). Meu material central era com-
posto de percepções selecionadas. sencimenr~ reprimidos e crenças
falsas. Esse era o filtro através d o qual eu in terp retava todas as
novas experiências da minha vida . Essa adapta ção primitiva me
permitiu sobreviver à infância, mas era um filtro fraco demais para
a sobrevivência de um adulto . Aos 30 anos fui parar no Ho spital
do Estado, cm Austin , depois de 17 anos de alcoolismo .

l
COMO
SUACRIANÇA
INTERIOR
FERJDA StlAVIDA
CONTAMINA 41

Quando reconhecemos a criança ferida que vive em nós como


o cenuo do comportamento viciado /compulsivo, podemos ver o
vício em um contexto muito mais amplo , O vício é o relaciona-
mento patológico com qualquer forma de alteração do tempera -
mento, com conseqüências que representam risco de vida. Os ví-
cios de ingfSCâo são os modificadores mais dramáticos do tempe-
ramento. Alcool , drogas e alimentos possuem um potencial quí-
mico inerente p;lra alterar o temperamento. Mas o_ssentimentos
podem ser mudados de muitas outras formas. Gosto de falar de
vício de acividad~. vício cognidvo. vício de senr:imencose vício
ae. co1sas
'
.
Os vícios de atividade incluem trabalh o. fazer compras, jogo,
sexo e rituais religio sos. Na verdade , qualquer atividade pode ser
usada para alterar os sentimentos , As atividades alteram as sen-
sações por meio da distr.zção.
Os vícios cognitivos são um meio podero so de evitar as sen-
sações. Eu vivi denuo da minha cabeça durante anos. Eu era pro-
fessor de urna universidade . Pensaroode ser uma forma de evitar
~ociment os. Todos os vícios têm um componente de pensamen-
to, que é chamado obsessão.
Os sentimentos podem também ser um vício. Eu fui um vi-
ciado no sentimento de raiva durante muitos anos. A raiva, a única
fronteira que conhecia, clisfarçava minha der e minha vergonha.
Quando eu dava expansão à minha raiva, sentia-me forte e p o-
deroso, não ma.is vulnerável e impeitente .
Provavelmente todos nós conhecemos alguém viciado em sen-
tir medo. Os viciados em medo tém uma tendência para ver ca-
tásuofes e horrores em tudo. São os eternamente preocupados,
que deixam os outros loucos .
Cenas pessoas adquirem o vício da tristeza e/ou da lamen-
tação. Não parecem ma.is estar tristes, elas são a tristeza . Para elas,
a tristeza é um modo de ser.
As pessoas que mais temo são os viciados em alegria . São
os bons menino t e meninas que eram obrigados a sorrir e estar
sempre alegres . E como se tivessem um sorriso congelado nos lá•
bios. Os viciados da alegria jamais vêem _as coisas ruins. Sorriem
quando contam que sua mãe morreu ! E sinistro ,
Coisas também podem str objetos de vício. O vício do di-
nheiro é o mais comum. Entretanto , qualquer coisa pode setor-
nar uma preocupação constante, e como tal , fonte de altera ção.
46 YOl!AAOLAR

No âmago da maioria dos vícios, independente dos fatores


genéticos, está se~pre a criança ferida, em estado de carência cons-
tante e de insaciávelprivação. Não precisamos conviver.muito tem-
po com um viciado para descobrir isso nele.

DIS10RÇÕES DO PENSAMENTO

O grande psicólogo do desenvo1vímeoro, Jean Píagc~. chamou as


1
crianças de "estranhos cognitivos". Elas não pensam como os
adultos .
As crianças pensam cm função do absoluto. Essa caracterís-
tica do pensamento infantil manifesta- se numa polaridade de
"tudo ou nada". Se você não me ama, vocé me odeia. Não exis-
te meio-termo. Se meu pai me abandona, todos os homens vão
me abandonar.
As crianças são ilógicas. Isso se manifesta por meio daquilo
que foi chamado de " raciocínio emocional". Eu sinto de uma
certa forma, logo deve ser assim. Se me sinto culpado , devo se(
um a pessoa má. ·
As crianças precisam de modelos saudáveis para a.prender a
separar o pensamento das emoções - para pen sar sobre os senti -
mentos e sentir sobie o pensamento .
O pensamento egocêntrico da criança se manifesta por meio
da personalização de tudo. Se papai não tem tempo par~ mim ,
é porque não sou bom, há alguma coisa errada comigo. E assim
que a criança interpreta os maus-tratos. O egocentrismo é uma
condição natural da infância, não um sinal de egoísmo moral.
A criança simplesmente não é capáZ de aceitar o ponto de vista
de outra pessoa.
Quando as necessidades de dependência do desenvolvimen-
to não são atendidas, o adulto é contaminado por essemodo de pen -
sar da criança que vive nele. Muitas vezes ouço adult os expressan-
do essaforma de pensar contaminada pela infantilidade . ''Améri-
ca, cena ou errada' ', é urq bom exemplo de pen samento absoluto.
Conheço várias pessoas que têm problemas financeiros em
raz-ão do pensamento emocional. Acham que o fato de querer
uma coisa é motivo suficiente para compr á-la. A criança que não
COMO
SUACRJ
ANÇAINTERJO"R
mIDA CONTAMJNA
SUAVID
A

apren de a separar os pensamento s da s em oções, quando adulto ,


usa o pensamento como uma maneira de evitar emoções dolor o-
sas. Separam a cabeça do coração, p or assim dizer . Dois padrõe s
comuns dessa distorção do pensamento são a universah'zaçãoe
o uso do detalhe.
A universalização nã o é, p or si só, uma forma distorci da de
pensamento. Todas as ciências abstratas eicigem esse processo, bem
com o o uso d o pen samento abstrato . A universaljza ção torn a-se
~ma distorção do 2ensamenco quando a usa mos pa ra encobrir
nossos sen cimentos. Muitos gênios académicos são completamenn ·
in capaze s de dirigir sua vida cotidia n a.
Uma for ma extremamente distorc-e universaliza ção é a
tendê ncia para prever desgraças imaginanas . Fazemos isso quan -
do críamo s hip óteses so bre o futuro. ''E se não tiver nenhum di-
nheiro sobra~ d o no In stitu to de Ap osentador ia quando eu m~
aposentar ?'' E uma idéi a terrível , que detona o me do. Uma vez
qu e esse pe nsament o não é um fato, mas mera hipótese, a pessoa
literal mente está assustando a si me sma. A criança interior feri-
da, freqüen te m en te, pensa assim.
Como aconte ce com a univer sali zação. a capacidade de se
ate r aos detalhes pode ser um a importante acivjdade íntelecrual.
Não há nada de errad o em pensar detalhada e completamen te
ern alguma coisa. Porém , quando essa capacidade é usada para
nos distrair d e sentimentos dolorosos, torna-se uma distorção da
realidade de nossa vjda. O comportamento p erfeccionista com -
pulsivo é um bom exempl o - a pessoa deixa-se absorver pelos
,detalhes com o am meio de evitar seus sentimentos de in capaci-
d ade . ,· ·
Pod e.m os ouvir exemplos de pensa~~nco ,egocê~ttico em
qu alquç r 'lµgare a qual 'quer moment o. Recentemente , ouvi a con-
versa de um casal· em um avião . A mulh er e.,:amin-avaos plano s
de férias na revista da companhia aérea. ln ocente m tnte ela disse-
que sempre desejou conhecer a Au strália . O homem respon deu .
zangado, '' Que diabo voe~ espera de mim . Eu me mato de tant o
trabalhar.' ' A crianç~ ferida achou que ela o estava julgando co-
mo um inadequado provedor finan ceiro simp lesme nte porque ela
queria ir à Austrália .
48 VOm.AOW

VAZIO.(APATIA,DEPRESSÃO)

A criança ferida conta.mina também a vida do adulto com uma


depressão crônica, sentida como um vazio. A depressão é causa-
da pelo fato da criança ter de adaptar um eu falso, abandonando
seu verdadeiro eu. Esse abandono do verdadeiro eu cria um es-
paço interior vazio. Chamo a isso de fenômeno do " buraco na
alma' '. Quando a pessoa perde o eu autêntico, perde contato com
seus verdadeiros sentimentos . carências e desejos , que são substi-
tuídos pelos sentimentos exigidos pelo fals~o eu . Por ex½..mp
!Q._'ser
1
bonzinho" é um comp one nte comum do f~o cu . Uma 'mu.-
lher boazinha'' nunca expressa raiva nem frustração .
Ter um falso cu é viver repre~ntando.O verdadeiro eu nunca
está presente . Uma pessoa, cm período de recuperação, descre-
veu isso do seguinte modo: ' 1É como se eu estivesse do lado de
fora, vendo a vida passar.' '
A sensação de vazio é uma forma de depressão crônica , poi s
a pessoa está permanentemente lamentando a perda do verda-
deiro eu. Todos os ~dulto s crianças experimentam graus variados
de depressão crônica moderada.
O vazio ·é sentido também corno apatia. Como conselheir o,
mui tas vezes QUÇO adultos crianças queixando-se de que suas vi-
das são desint e,:essantes e sem sentido . Para elas, a vida é uma
espécie de ausência e não podem compreender o entusiasmo das
outras pessoas por certas coisas.
A grande analisu juoguiana, Marion Woodmao, conta a his-
tória de uma mulher que foi ver 10 Papa por ocasião da visita dele
a Toronto. Ela levou um equipamen to fotográfico variado e com -
plicado para fotografar o Papa. Ficou tão ocupada com o equipa-
mento que só conseguiu uma fotografia quando o Papa passou
por ela. A mulher não viu o Papa! Quando revelou o filme, viu
que o homem que a acompanhava aparecia na fotografia, mas
ela não. Ela ficou complecamence ausente da experiência.
Quan do o adulto criança é feódo. nós nos sentimos vazios
.e dcptimidos._A_yjda adquite umaaura de irrealidade . Estamos
~ -r.amas dcouo da..tida,O vazio levaao sentimento
de solidão . Potqucnão somos nun ca quem somos , nunca esca-
m.o~p.lC.S..C1!tes. E esmo ue outras essoas nos ad-
mireme gostem da nossa convivência. estamos sempre sozinhos .
COMO
SUACRlAi\lÇA
JNT.ERIOR
FERIDA
CONTAMINA
SUAVIDA

Eu me senti assim durante grande pane da minha vida. Sempre


conse'guía ser o líder de qualquer grupo para o quai entrasse . Ti-
nha sempre . muita gente à minhá volta, elogjando e admirando.
Entretanto, nunca me senci re almente Hgadó a ningué m. Lembro-
me de uma noite em que estava fazendo uma p~estra na Uni-
versidade de St. Thomas , O assunto era a interpretação de Jac-
ques Matitain da doutrina tomista sobre o mal . Naquela noite
eu estava bastante eloqüente e com o raciocín io agu çado. Quan-
do sáí da sala, fui saudado com uma ovação da platéia, todos de
~é. Jj:mbro-me e){a~3:IDenredo que senti. Eu queria acabar com
::.:-::1nnasolidão e o pJe:.;,;vazio. Pensei en1 suicfd iol
Essa e*peri ·ênEÍa expliea também como a criança ferida con-
tamina o adulto com seu egocenrrismo. Os ad ulto s crianças são
completamente absortos em si mesmos. Seu vazio é como uma
dor de dénte crônica, só podem pensar e_m si rnesmos . Como te-
rapeuta; muitas vezes me exaspe(o quando tenho de lidar éom
o egocentrismo desses clientes. Sempre digo aos meus amigos con-
selheiros que se eu estivesse fugindo de um incêndio no me\!l es-
critório, alguém ia chega! e dizer : ''O senhor tem um minut ó?''
Essas categorias de contamina~ão cobrem quase todas as áreas
da servidão humana. Af.inhaesperançaé que v0cê po ssa ~r quais
os assun•tos •sérioJ a câanç.3.ferida - que vive oo seu íntim o -
concinu:1a apresencãrna sua vida de adulro: Para aj.udar a dete r-
minar o mal que essa criança pode estar causando, (esponda a
estas perguntas cóm sim ou não.

QUESTIONÁRIO DA CRIANÇA:FERIDA

As perguntas desta seção permitem uma visão geral do quanto


a criança que há em você está ferida ou magoada. Na seg.unda
pane. apresento um índice mais específico de suspeitas para cadà
estágio de desenvolvimento.

A. IDENTIDADE
L Sinto-me ansioso/a e temeroso /a sempre que tenho de fazer
alguma coisa nova. Sim ... _.. _, Não ...... ..
)O VOtrAAOLAR

2. Gosto de agradar as;pessoas (uma pessoa legal,) e não tenho


identidade própria. Sim........ Não........
3. Sou um/a rebelde. Sinto-me vivo/a quando estou em conflito.
Sim......... Nãç,........
4. Nas profúndezas do meu eu secreto, sinto que há alguma
coisa errada comigo. Sim........ Não ........
5. Tenho mania de guardar tudo, é dífícil para mim me desfa.
zer de alguma coisa. Sim........ Não ........
6. Sinto-me inadequado/a como homem/mulher . Sim........
Não,...... .
7. Sinto-me confuso/a sobre miaha identidade sexual. S11n........
Não ....,...
8. Sin.to-me culpado/a quando defendo meus pontos de ".ista
e teria preferido ceder sempre. Sim........ Não ....... .
9. Tenho dificuldade em começar alguma coisa. Sim,.......
Não ........
10, Tçriho dificuldade em te.r.m,i
'nar.as coisas. Sim........ Não ........
i1. Raramente tenho um pensamento realmente meu. Sim........
Não ........
12. Estou sempre cricican·do minha incapacidade. Sim ....... .
Não ........
13. Consiq,_ero-meum/urna grande pecador/a e renho rnedo de
ir para o inferno. Sim........ Não...... ..
14. Sou rígido/a e perfeccionista. Sim....... , Não ........
15. Sinto que nunca conespondo às expectativas, nunca faço
a coisa certa. Sim........ Não ...... ..
J6 . Sinto-me como se não soubesse o que quero realmente .
Sim........ Não........
17. Sinto-me impulsionado/a a ser um/a grande realizador/a.
Sim........ Não ....... .
18. Acredito que só tenho valorquando praáco sexo.Tenho medo
de ser rejeitàdo/a e abandõnado/a se não for eficiente nessa
atividade . Sim........ Não ...... ..
19. Minh,!.vida é vazia. Sinto-me deprimido/a a maior parte
do tempp. Sim ........ Não ...... ..
20. Não sei realmente quem eu sou . Não tenho certeza de quais
são os meus valores nem do que penso sobre as coisas.
Sim ........ Não ........
COMO
SUACRIA.°1'.JÇA
IN1ERI
ORFERIDA
CONTAMINA
SUAVIDA ~1

B. EXIGÊNCIAS BÁSICAS

l. Não renho contato com as necessidades do meu corpo. Não


sei quando estou cansado/a, com fome ou com vontade de
fazer sexo. Sim........ Não........
2. Não gosto de ser tocado/a. Sim........ Não........
3. Geralmente faço sexo sem ter vontade. Sim........ Não........
·1. Tive ou tenho atualmente distúrbios digestivos. Sim........
Não........
5. Sou viciadoia em sexo oral. Sim....... Não ........
G. R:i.rn.menc f' sc:i o que estou sentindu. Sin......... : ·:iu..... ..
7. Envergonho-mesempi:eque fico zangado/a. Sim ........ Não........
8. Raramente fico zangado/a, mas quand o acontece, sou uma
fúria. Sim......... N ão........
9. Tenho medo da raiva de outras pessoas e sou capaz de qual-
que r coisà para controlá-las. Sim........ Não......
10. Tenho vergonha de chorar. Sim........ Não .......
11. Tenho vergonha de ficar assustado/a. Sim ........ Não........
12. Quase nunca demonstro emoções desagradáveis. Sim........
Não........
13. Sou obcecado/a por sexo anal. Sim........ Não........
Vf. Sou oôcecado/a por sexosadomasoquisc_a,Sim ........ Não........
15. Tenho vergonha das funções do meu corpo. Sim ........Não........
16. Sofro de penu rbações do sono. Sim ........ Não........
17. Passo mui.to tempo olhando pornografia. Sim........ Não........
18. Tenho me exibido sexualmentede forma a ofender ouuas pes-
soas. Sim........ Não ........
19. Sinto-me sexualmente atraído por crianças e tenho medo de
ceder a essa atração. Sim........ Não........
20. Acnidito que comida eiou sexo são minhas m.aiores necessi-
dades. Sim........ Não........

C. SOCIAL

1. Basicamente desconfio de todos, inclusive de mim mesmo.


Sim........ Não........
2. Fui casado/a ou estou casado/a com um/a viciado/a. Sim.....-..
N -ao........
3 Sou obses~ivo/ae conuolad or/a nos meus relacionamentos.
Sim........ Não........
VOtrANJlAR

4. Sou viciado/a. Sim ..... ... Não ....... .


5. Eu me isolo e tenho medo das pessoas, especialmente, dos
representantes da autoridade. Sim........ Não ....... .
6. Detesto ficar sozinho/a e sou capaz de qualquer coisa para
ter companhia. Sim.. ...... Não ....... .
7. Geralmente faço o que os outros esperam que eu faça.
Sim ........ Não...... .. ·
8. Evito conflitos a tod o custo. Sim ........ Não ...... ..
9. Raramente digo não e sinto que as sugestões dos outros são
como orden s a que devo obedecer. Sim ........ Nã o....... .
10. Tenho um exagerado senso de x:espon sabilidade ; é mai s fácil
para mim me preocupar com outra pessoa do que comigo.
Sim ........ Não ...... ..
U . Geralmente não digo 11ãoe depoi s me recuso a fazer o que
os outros pedem, usando uma variedade de meios manipu-
lad ores, indiretos e passivos. Sim ........ Não ...... ..
12. Não sei resolver conflitos com outras pessoas. Ou domino meu
oponente ou me afasto dele completamente . Sim ........
Não ..... ...
13. Raramente peço explicação de <?oisasque não entendo .
Sim ........ Não ... ~.. ..
14. Freqüentemente adivinho o significado do que os ourro s di-
zem e respondo baseado/a nessa adivinhação. Sim ..... ...
Não ...... ..
15. Nunca me senti muito chegado/a a meu pai ou a minha mãe.
Sim........ Não ....... .
16. Confundo amor com piedade e amo as pessoas das quais posso
ter pena . Sim........ Não ..... .. .
17. Ridicularizo meus erros e os dos outros. Sim ........ Não ....... .
18. Cedo com facilidade e concordo com o grupo . Sim ...... ..
Não ....... .
19. Sou extremamente compecicivo/a e não sei perder . Sim ....... .
Não ...... ..
20. Meu maior medo é de ser abandonado/a e faço qualquer coisa
para não terminar um relacionament o. Sim ........ Não ........

Se você respondeu sim a dez perguntas, ou mai s, precisa co-


meçar um trabalho muito sério. Este livro é para você.


CAPÍTUID 2
COMO A CRIANÇA MARAVILHAQUE
VIVE EM VOCÊ FOI FERIDA

.H ouve um tell'ipb cm que o prado, os bosques e os regatos


A tctra e toda 2. paisagem nariír~ .
Para mim p:ueciam
VC5iidasde luz. celcsêi~.
A glória e a n0vídade de um sonho
Não é :hoje como :mrigamemc ,-
Para qu~quer lado que cu olhe
De noite ou de dia.
As coisas que cu vía não posso ver mais.
- - William WordswoCTh

Quase todo mundo alegra-se quaqdo vê um bebé . Até o ma.is


rabugento pode se comover com. o balbucio 'de uma criança.
As crianças, natUralmente repletas de maravilha, são espon-
tâneas é vivem o agora. De certa maneira , estão ~~das no ago-
ra. Usando '.a palavra wonâerful, que cm inglês quer dizer mara-
vilhoso, eu faço um perfil da criança maravilh a. Cada letra _re-
p.resenta uma das suas caractcásticas natu .ra.is.

Wonder - M·aravilha
Optimism - Otimismo
Nai'vecé- Ingenuidade
Dependence ·- Dependênci a
Emo.rions - Emoçõe s
Resüie11c
e - Capacidade de recuperação
Free Piay - Liberdade pará brincar
Un.iqúeness- Originalidade
Lave - Amor
,

VOil'A
N:JLAJl •
~
MARAVllHA •

Tudo é interessante e estimulante para a criança. Ela se maravi-


••
lh a com todos os seus sentidos. Esta é uma manife stação da ne-
cessidade inata que tem toda criança de saber , experimentar e

explorar. olhar e tocar. A curiosidade leva o bebê a descobrir as •
próprias mãos, o nar iz, os lábi os, os órgãos genitais , os dedos das
mãos e dos pés e, finalmente, ,à descoben .a do próprio eu.
•~
A experimentação e a exploração podem criar problemas para
:..~~iança. S:: os pais ri~·::ra.inde ini bir o próprio sentimento de;.
maravilha, na infincia, tentarão inibir o do filho também. Isso

~
f az com que a criança se feche em si mesma, passando o temer 1
a exploração e qualquer risco. Para essa criança, a vida torn a-se
um problema a ser resolvido e não uma aventu ra a ser vivida e ~
ela passa a ser desinteressada, sempre à procura de segurança. !
A capacidade para se maravilhar e a curiosidade são cruciais j
para o crescimento e a adaptação. Elas imp ulsionam a criança na
direção do conhecimento básico do mundo e dos instrumentos 1
de sobrevivência.
0 sentimento de maravilha e a curiosidade são componen-
tes da energia vital que nos conduz na direção de horizontes sem-
pre em expansão. Precisamosdessa fagulha de vida - é indi s-
pensável para o crescimento conónuo e essencial para o trabalho
do poeta, do artista e do pensador criativo. Nosso senso de mara-
vilha e nossa curiosidade fotjam uma espécie de interesse entu-
siasta que detona a expectativa de que ' ' mais está por vir''. Tan-
to.Charles Darwin quanto Alben Einstein eram repletos de um
senso de maravilha e de uma curiosidade infantil sobre os misté-
rios que estão além dos mistério s do mund o.

OTIMISMO

A fagulha vital e natural da criança a leva a explorar de um 010-


do otimista.Se seus responsáveis forem, ao menos um pouco, pre-
visíveis, a criança passa a confiar no mundo exterior para atender
às suas necessidades. As crianças acreditam naturalmente que o
COMO
ACRIANÇA
M.UAVllHA
QUEV1VE
EMVOCÊ
TOIFWDA

mundo é amigo. Elas têm esperança, tudo é possível e está na


sua frente . E~c o fian a e esse otimismo inatos form~_pa ~
.central dos dons naturais e são os pilares do que chamamos de
"fé infantil".
Devido a esse estado natural de otimismo e de confian-
ça é que a criança pode ser tão ferida por seus responsáveis .
Quando uma criança confia completamente, ela é vulnerável
à violação e ao abuso. Ao contrário dosoutros animais, o bebê
humano não possui um "sistema instintivo computadorizado"
para indicar o que el~ deve fazer. As crianças precisam aprtn-
d er e esse aprendizad o depende dos çiY:e sã res_pon siveü p.9r
elas. A criança desenvolve forÇ2Sinteriores como resultado da
sua interação com os adultos que tomam conta dela. O plano
da natureza predispõe a criança a um preparo imediato, de acor-
do com a idade, para o desenvolvimento de cada força inte-
rior.
Quando a criança é maltratada e envergonhada , a abcnura
do seu esP.írito para o mundo e sua confiança são prejudicadas .
O elo que lhe permitia confiar e seguir cm frente com otimi smo
é cortado. Não confiando mai.s_m_~~tJ.IW~Os que tomam conta
dela torna-se mais vi ilante e iosâ e essa ruptura for repet i:
da com frc üêncía a cri toma-se_pessi_qyga.Pef,c,i~a noção
de esperança e começa a acJcditar ~u~.,tem de ser man ieulado~
ara consç_gug,_Çjucsej,?-m~wfuias..suas _nec..c
..s..si
dadcs . Ao invés
de usar sua energia para a interação direta com o mundo , passa
a usá-la para fazer com que os adultos façam por ela o que pode
muito bem fazer sozinha.
O otimismo e a confiança são a alma da intimidade . Preci-
samos correr o risco de sermos vulneráveis paraconseguirmos a
intímidade. Entretanto, uma vez. que não podemos obter todos
os dados necessários para confiar em aliuém de forma absoluta,
temos de enfrentar o risco de confiar nas pessoas em um ponto
determinado. Precisamos tambémde Qcimismo nasnossas vidas.
_çom de vemos a realidade comoalgoquepode rer um valor po-
sitivo. O otímismo nos faz ver o lado claro - ver a rosguinha
e não o buracoque ela tem no çcntro,
INGENUIDADE

A ingenuidade infantil é parte do encanto e da atração da crian-


ça, e é o cenuo da sua inocência. _As crianças vivem o agora e são
orientadas para o prazer. Aceitam os "est ranhos enigmas" da vi-
da. como diz Christopher Morley. Sua ''estranha dirindade'' é
o resultado da ausência completa da no ção do bem e do mal .
As crianças são orientadas para a vida . No princípio, seus
movimentos não têm direção. porque são tão interessadas por tudo
que a escolha torna-se difícil. Devido e essa falta de direção, tod ,.
criança entra em lugares proibidos, toca coisas perigosas e experi-
menta coisas que são veneno, d aí precisar de atenção e cuidado
constantes, e é por isso que os pais ou responsáve is devem fazer
a casa '' à prova de criança '' . Isso exige tempo e atenção dos adul-
tos. e até o mais normal e saudáve l às vezes perde a paciência.
É claro que a criança fica surp resa e confus a quando o adu lto a
repreende; afinal, o que ela estava fazendo era tão interessante
e tão delicioso.
Quem toma conta de criança deve ser paciente e compre en -
sivo. -Sem essas qualidades , os pais sempre esperam demai s dos
filhos. Na maioria do s casos de maus-tratos de que tive noticia.
o pai, ou a mãe, acreditava que a criança escava agindo deliberá-
da e maliciosamente. Esperava que o filho fosse muito mais ama-
durecido do g,y_~gria P..QSll~p,.m_sua idad~.
A tendência para se aventurar cm territóri o proibido sem-
pre é citada como prova de perversidade natural da criança. Foi
argumentado que essa perversidade inata é o resultado do peca-
do original cometido por Adão e Eva. A. doutrina do pecado ori-
ginal tem sido a fonte principal de muitas práticas cruéis e re-
pressivas na educação das crianças . Todavia, não exist e nenhuma
evidência
.
concreta de qualquer forma de depravação inata na
.

cnança.
O oposto disto é a superproteção da ingenuidade e da ino-
cência da criança, que é a fonte da ingenuidade problemática nos
adultos. Lembro-me de um seminarista, a um ano da sua orde-
nação, que acreditava que as mulheres tinham crês abercuras nos
órgãos genitais! Sei ca.mbém de muicas mulheres que nunca fo-
ram informadas sobre o sexo e que entraram em _pânicoquando
menstruaram pela primeira vez .


ACRIANÇA
COMO MARAVILHA ai VOCE
QUEVIVE FOIFERIDA j7

As cria!}ç~_P-od~~ t~bém aprender a manipu.Jar com in-


genuidade e inocênçíafing_i_d.~. Fazer-se de bobo é uma das for-
mas.O ato da ' 1lou,:á burra" ê um clássico da falsa inocência no
adulto. ~as crianças que temem o abandono , o choro histérico
ou o pedido insistente de alguma coisa são .meios de bancar o
.bobo. Essecomportamento permite que a Griançanão cresç;tnunca ,
_n_uncatenha responsàbilidad e. nunca precise correr riscos,
A 1ngenuidade e a 1nocênaa da sua cnança maravilha po-
dem ser um ponto positivo no proçesso de recupe.ração. A ing ~-
_nuidade é o ingrediente J1ti.nciJ;>~da dor.:ili_d;ide - o estado de
poder ser cnsin:i.ck,.Quanuu voc_c derena~ a c• aoça ferida que.
yive em vócê. essa ériançaro;traiilha aparece, ocê e sua criança
maravilha podem aP.render juntos a criar experiências novas e
revigorantes .

...
DEPENDENCIA

As crianças são dependentes e carentes por natureza , não pores -


colha, Ao contrário do adulto , a criança não pode satisfazer suas
oecessidad~susando os recursosprópr jos, pon;mto cem de depender
dos outros para isso. Infelizmente , essa ciependência é sua maior
vulnerabilidade . A crim9a não sabe o que precisa nem o que sen-
te. Para o melhor ou para o pior , sua vida é moldad a, desde o ior-
cio, pela capacidade dos que toman;i conta dela de conhecer e aten-
der as exigências de cada estágio do seu desenvolvimento.
Se os pais ou responsáveis têm dentro deles uma criança fe-
rida , sua própria carência far,á com que não atendám à carência
dos filhoS,.Eles ficarão irritados·com as exigências na rurais da crian•
ça ou tent~ão supúr as próprias carências, fazendo do filho uma
eXtensâo deles mesmos. ·
A criança maravilha é dependente porque está em processo
de maturação. ou de ''amadu recimento''. Cada estágio de desen -
voJvimento ê um passo na direção do amadurecimento comple-
to. Se .as ncc.essidades da criança não foram atendidas o.a seqüên-
cia natural ela segue sem os recursos necessários para atender às
cx.igé:nciasdo está,gioseguinte. Um pequeno erro no início pode
ter conseqüência,s duradouras mais ta.rde.
VOIIAADW

A vida humana saudável tem como caracteástica o cresci-


mento contínuo . & características da criança acima descritas -
sentimento de maravilha, dependênci a , curiosidade e oti mismo
- são de importância crucial para o crescimento e o desabrochar
da vida humana.
De cena forma, continuamo s dependente s durante toda a
vida. Sempre precisamos de amor e de interação. Ninguém é aut o-
suiiciente a ponto cie não pre cisar dos outr os. A a sp_çndên cia da..
ossa crian a maravilha nos ermite formar relacionamento s e to-
mar com romissos. A medida ue ficamos maÍsv elhos recisa-
_mos qu e precisem de nós. Em algum ponto do crescimen to sau-
dável nos tornamo s capazes de crar e de tom ~"ª-.práp úa
vida. Podemos di~r que esta é a nossa vocação cvoluth :a, Naxe.c -_
~~de, é uma questão_dc e uilíbri o entre a de en dência e a não
dependência. Quando a crians;a inter ior foi ferida por negligên-
cia no atendimento das suas necessida des de depe ndê ncia pró-
prias do desenvolvimeo .to elase isola e se afastaou recusase afas-
tar e se envolve em problemas .

EMOÇÕES

Duas emoções são exclusivasdo s bebê s human os - o riso e o cho-


ro. O antropólogo A.shley Mootagu escreve: ''É natural à criança
rir e ver humor cm todas as coisas, sejam das reais, imaginári as
ou criadas por da. A criança delicia -se com a comicidade.'' O hu-
mor é um dos seus primeiros e mais naturais recursos. Os filóso-
fos, há muito tempo, cham;i.ram a atenção para o fato de q uc só
o homem tem " o dom do riso " (a capacidade de rir) .
O senso de humor cem valor de sobrevivência.A vida é mai s
suponá vel para quem tem sensode humor.Como conselheiro,
posso sempre de_!:iniro momento em que meus cliente s come-
çam a melhorar. E quando dem onstram senso de humor para com
eles mesmos. Deixam de se levar tão a sério.
Segundo Moncagu , as crian ças têm senso de humor mais ou
men os a partir de 12 semanas de vida. Olhe nos olhos e no rosto de
u1n bebê amado e acariciado, e você verá essa alegria natural . Obse r-
veum grupo de crianças brincand o e ouvirá o prazer pu ro do seu riso.


..
'
1

COMO
ACRJANÇA
MARAVILHA
QUEVIVE-EM
VOâ FOIFERII)A

A felicidade e o entu siasmo de uma criança podem ser


cortados Iapidamente. Se a criança ferida de um dos pais teve
seu riso sufocado, ele sufocará o riso do filho. Esse pai , ou essa
mãe, dirá ao filho: •'Não ria tão alr.o.'' ''Pare com esse baru-
lho.'' '' Pare de ser tão desordeuo.'' ''Já nos divertimos demais' ',
e assim por diante. Durante muito temp o perguntei a: mim
mesmo por que eu tinha tanta dificuldade para uma boa risa-
da, para dançar ou cantar. Fazia tu do isso muico bem quand o
bebia . Mas, quando escava sóbrio, era como se meus músculos
estivesst:m congelados.
Qua ndo se reprin1en1o riso e a alegria de um ::icriança. ela
aprende a ser sombria e estóica. Tipicamente, elas vem a ser pais.
professores ou pregadores severos e ágidos , que não toleram a ale-
gria e o riso alto das crianças.
O outro lado do riso é o choro. '' Sua alegria é sua mágoa
sem máscara". diz o poeca Kahl il Gibran . " O mesmo poço de
onde vem seu riso eStá muitas vezes repleto de lágrimas.' '
O homem é o único animal que chora. (Ourros animais cho-
ram, mas não derramam lágrimas.) Segund o Ashley 11onragu,
o choro nos serve social e psicologicamente da mesma maneira
que o riso. Assim como o riso e a alegrja nos atraem, o choro des-
Rerra nossa compaixão e nossoioscínro proreror. Isso cem um V?.·
lor especial de sobrevivénc.ia para o bebé human o. Seus balbu -
cias de alegria e sua risada espontânea nos atraem , escabelecen-
do o e!o simbiótico que toda criança precisa. As lágrimas são os
sinais de sofrimento que nos levam a ajudá-lo e consolá-lo,
Assim como expressões emotivas provocam uma resposta
nas outras pessoas, o riso e o choro provavelmente tiveram um a
forte influên cia no desenvolvimen to das comunidades humanas
auavés dos séculos. O choro, especialmente, tem desempenha-
do um papel poderoso na nossa evolução como criaturas compas-
sivas.
A '' liberdade para chorar'', escreveMoncagu. ' ·contribui para
a saúdedo indivíduoe aprofundanossocoxolvimenro no bem·
estar das outras pessoas.''
Criânças que ouvem que é vergonhoso chorar são profunda-
ment e prejudicadas no seu desenvolvimento. Na maioria das fa.
rnílias. o chor o das crianças des ena a uísteza não resolvida da
criança crida gue existe nos pais. A maioria dos adulros crianças
teve seu e.hora reprimid o.
60

At.ravés dos tempos, os pais têm sistematicamente reprimi-


do o choro dos seus filhos, cenos de que isso contribuirá para
fortalecer o espírito da criança. Esse conceito é falso. Este livro
não seria necessário se muitos de n6s tivéssemos rido liberdade
para chorar . O que chamo de trabalho da •'dor original '' é o tra-
balho do sentimento de perda que é a chave para a recuperação
da criança ferida que vive em nós .

CAPACIDADEDE RECUPERAÇÃO

É a capacidade de reagir ao sofrimento causad o peio amb iente


em que vivemos. As crianças são naturalmente resistentes e quanto
mais novas, mais capazes de reagir positivamente . Observe uma
criança que aprende a comer ou a andar e verá claramen te essa
qualidade . Eu observei as tent ativas de uma criança de 20 meses
para subir em um sofá. Várias vezes, quando escava quase conse -
guindo, ela crua para trás. Uma ou duas vezes, ela chorou por
alguns momentos, depois volcou à conqui sta do objeti vo - su-
bir no ·sofá. Ao fim de pel o menos cinco tentativas, da conse-
guiu. Ficou sentada , por alguns minutos , saboreando a vitória.
Qua ndo meu cachorro, que é grande , entrou na sala. a criança
o observou durante um tempo e depois desceu do sofá para in-
I
vestigar a criatura estranha. Quando ela chegou peno , o animal
a empurrou de leve, para brincar . Ela não gostou e bateu no foci-
nho do cachorro! Ali estava um cachorro que tinha três vezes seu
tamanho e ela o agrediu! Isso é coragem , sob qualquer ponto de
vista. Na verdade , todas as crianças são corajosas. Nós, os adul-
tos, somos gigantes, comparados a elas. Ao invés de interpretar-
mos sua teimosia como depravação ou mau componamcnto, de-
vemos vê-la como coragem . As crianças são resistentes e corajo-
sas. A palavra corajosovem do latim cor (coração). As crianças
têm coração. São aventureiros corajosos. O grande psjc61ogo adle-
rjano , RudoJf Dreikurs acreditava que todas as crianças malcom-
portadas são desencorajadas.Tendo perdído essa força do cora-
ção, elas passam a manipular para conseguir o que precisam.
A flexibilidade de comportamento , intimamente relaciona -
da a essa capacidade de recuperação, permite que a criança aprenda
COMO
AOJANÇA
MARAVUHA EMvocê
QUEVIVE Kll FDJDA 61

comportamentos de resposta a qualquer padrão de socialização ao


9ual seja exposta. Essa flexibilidade é uma caracreástica específica
do ser humano, e é uma indicação imponante de saúde mental.
A flexibilidade e ~~ncia sãotambémresponsáveis pela
nossa capacidade de adaptação a ambientes e modos não saudá-
veis. Togosos comporramtncos atribuídos à criança interiorferi-
da são comportamentos adaptados. Sua flexibilidade. e sua resis-
tência a ajU93!ª-1Da sobreviver à doença, àspenurbaçõ es e ao aban-
dono emocional . Mas é uma ena ue tenhamos de usar nossa
energia dinâmica e de resistência pata sobreviver e não para cres-
cer e formar uma identidade real.
Uma vez que essa capacidade de recuperação é uma caracte-
rística cenu:al do nosso verdadeiro eu, podemos trazê-la de volta
quando recuperamos e defendemos a criança interior. Isso leva
te mpo. porque a criança ferida precisa aprender a confiar na pro-
teção do adulto. Quando se sente protegida e segura , sua capacj.
dade para se maravilhar e para se recuperar começa a aparecer
e logo florescem completas e ativas.

LIBERDADEPARA BRINCAR

As crian as têm um senso natura,1 de liberdade e uando se sen-


tem se uras movimentam-se com rande es ontaneidade . Essas
qualidades -liberdade e espontaneidade - · formam a estrutu-
ra do brinquedo. Platão viu o modelo do verdadeiro ato de brin-
car na necessidade que a criança tem de darpulos,um movimento
usado para os testes dos limites da gravidade. O brinquedo es-
pontâneo é o modo pelo qual a criança transcende a repetição
do mero hábito. Quando crescemos, aos poucos perdemos de vista
essa capacidade de brincar e a considel'amos uma atividade fdvo-
la. Está certo para as crianças, mas não para os adultos. Na verda-
de, a maioria dos adultos considera o brinquedo como ócio e o
ócio como a proverbial ''oficina do demônio'· .
Infelizmente, nos Estados Unidos o brinquedo livre e espon-
tâneo foi corrompido e transfor .mado em um incentivo agressivo
para vencer. O brinquedo livre e espontâneo autênáco é uma ati-
vidade de puto prazer e encanto. Nos estágios mais avançados
6.2 N>lAR
VOIJ'A

do desenvolvimento, pode ser usado pelo prazer que nos propor-


cionam a habjlidade .e o espírito esportivo eicigidos por determi-
nados jogos.
O brinquedo livre (az parte da essência da nossa natureza .
Todos os animais brincam, mas o brinquedo da criança tem um
alcance muito mais amplo. Ashley Montagu escreve: '' O brinquedo
da criança é um salto dajmagjnação p~a muito além da capaci-
dade das outras criamras.'' A imaginação desempenha um papel
essencial ·nos brinquedos das crianças. Lembro que minhas cria-
ções imaginárias da infância eram. quase todas, prepa,:açôes para
a v1da de adulto - brincávamos de " adulto s" e imaginávamo s
eomo seria ser como mamãe e papai .
Para a criança o brinquedo livre é u1n assunto muito sério,
1

uma parte dos alicerces para a vida futura. Prova'Velmente,se nos


tivessesido permitida a segurança e o consolo do brinquedo , quan -
do ctianças, não precisaríamos recorrer ao brinquedo não-criativo
na nossa 'Vidade adulto. Esse tipo de brinquedo é• .na verdad e,
um substituto para as necessidades não atendidas na infânciá e
se manifesta como uma coleção de ' ' brinquedo s de criança' '. Com
certeza já viram escrito num pára-choque 1 ' • Quem tiver maio r
númer9 de brinquedos quando .morrer - é o vencedor.'' Essa
transformação do brinquedo infantil não permi te que vejamo s
a vida como uma aventura livre e espontânea.
Se olharmos pata a infância como o tempo do brinquedo
livre e criativo, podemos compréende1; que ser hmnano é saber
brincar. Nossas maiores realizações são os ''saltos da ima·ginaçru:l'.
responsáveis pelas mais importantes invenções, descobertas e teo-
rias. CoQ!.O disse ce,cta vez NierzsGhe ara amadurece,r recisa-
mos recuperar o entusiasmo com que brincávamos na infância .

UM SER ÚNICO

Embora a criança seja imatura, ela possui um senso orgânico de


unidade, de EU SOU. Em outras palavras , sente-se ligada e uni .
ficada dentro de si mesma . O sentimento de integração unifica -
da e completa é o verdadeiro significado da perfeição e, nesse sen-
tido, toda criança é perfeita .

A.CRIANÇA.
COMO MARAVILHA
QUEVIVE
EMIDd POIFBIDA 63

A integração unificada fu também com que cada cria,nça


seja especial,úoicae maravilhosa. Ninguém é exacamenceigual
a ela.,Esse caráter especial faz com que cada criança seja greciQ~
,Preciosa significa '' rara e valiosa''. Cenas pedras e o ouro são pre-
ciosos mas cada crian a ê muito mais reciosa do uc isso. A crian-
ça J em 1!._ma noção profunda e inata desse fato . Freud falou de
"§ua Majestade , o Bebê".
Essa noção natwal do seu valor e da sua dig nidade é muito
precáiia e pre cisa ser imediatamente espelhada e reproduzida nas
pessoas responsáveis pela criança. Se os pais não refletirem amo-
rosa e ~::uame r.:~ a criança como é, ela perde essa noção natu ral
de ser especial e única.
As crianças são rambé'm naturalmente espirituais . Na mi-
nha opinião, integração e espiritualidade são sinônimos. As crian-
ças são místicos ingênuos. O poema de Christopher Morley fafa.
em como sua "' estranha divindade" é " ainda mantida' '. Mas
é uma espiritualidade ingênua e .não crítica. Mais tarde , será o
ponto central da espiritualidade madura e racional .
A espiritualidade envolveo quehádemaisprofundoç auténci-
co em nós- o nosso verdadeiro eu . Quand o sornos espirituai s, es-
tamos em contato com o que existe de especial e ún ico em nós. Ê
o início fundamental do Eu Sou. A espiritualidade envolve também
o senso de conexão e de união com algo maior do que nós. As crianças
são crente s naturais - sabem que existe algo maior do que elas.
,Acredito que nossa noção do Eu Sou consci[Hi o centro prin-
, cipal da nossa semelhança com Deus . Quando a pessoa tem a no-
_são do Eu Sou , ela é uma consigo mesma e aceita completamen-
te a si mesma . Isso é natural nas crianças . Olhe para uma criança
saudáv el e a ouvirá dizer ; •'Eu sou quem eu sou.'· É interessante
notar que--na teofania da sarça ardente, Deus disse a Moisés que
seu nome era Eu sou o que eu sou (Êxodo, 3:14). A mais profun -
da noção da espiritualidade humana é esse Eu Sou , que in corpo-
ra as qualidades de ser precioso , valioso e especial . O Novo Testa-
mento está repleto de passagens em que Jesus estende a mão pa-
ra o indivíduo único a única ovelha crdid a, o filho ródi o. a
p_~s_oaql!.eg:ierece o pagamento completo mesmo no último m o-
mento . O '' wdivíduo único'' é a uele ue de é nun ca foi ances
e jamais será outra vez.
O feriment o espiritual, mai s do que qualquer coisa, faz de
nós adulto s crianças co-dependentes, guiados por sencimenco de


64

vergonha. história da ueda de cada homem e de cada mulher


conta como uma crian a es ecial, redosa , valiosa e maravi osa
gerdeu o senso o "Eu sou quem eu sou".

AMOR

As crianças são naturalmente predispostas ao amor e à afeição.


Entretanto, a criançaprecisaprimeiroser amadaparapod~ra.mar.
Ela aprende a amar sendo amada. Monragu escreve: ''Entre to-
das as exigências P,Urasdo ser humano, a necessidade de amar_..
é a mais básica... E a ne cessidade humanizadora muito além de
todas as outras que fazem de nós seres humanos."
Nenhuma criança pode amar no sentido maduro e altruís-
ta. Ela ama de acordo com o modo de cada idade especrfica. O
crescimento saudável da criança depende dela ser amada e aceita
incondicionalmente. Quando essa necessidade é atendida , a ener-
gia de amor da criança é liberada para que ela possa amar os ouuos .
Quando a criança não é amada por ela mesma, sua noção
ru;.i:u S0u é eliminada. Por ser tão dependente , o egocentrismo
se instala e o verdadeiro eu jamais aparece. As contamina&ões ín-
fancisgu~ribuo à crian a interior ferida são conse üências dessa
adapt~ção e ocênuica. A falca do amor incondicional é ara a
I criaqça a mzjs prgfund ~ p,rivação. 4penas ecos fracos das outras
pe~so~chegam ao adulto que tem dentro dele uma criança feri-
da e care_nte. A~necessidadc de amor jamais o abandona. A fome
dé amor ermanece e a crian a ferida tenta reencher esse vazio
usando__gs meios descritos acima.
Recuperando e protegendo a càança feàda que há em nós, esta-
mos dando a ela a aceitação positiva e incondicional que ela anseia.
Isso a libertará para reconhecer e amar os outros pelo que são.

O FERIMENTO ESPIRITUAL

Na minha opinião, todos as formas pelas quais a criança maravi-


lha Rode ser ferida resumem- se na perda do Eu Sou. Toda criança
COMO MAlAVllHA
ACRIANÇA EM
QUEVJVE ro !OImmA 6S

precisa desesperadamente saber que (a) seus pais são capazes de


cuidar dcla ·sa~dável e adequadamente e (b) que ela é importan-
te para os pa.ts.
Ser importante significa que a qualidade de especial da crian-
ça é refletida nos olhos dos pais ou dos responsáveis mais próxi-
mos. Ser importante é indicado também pelo tempo que se de-
dicam a ela. As crianças sabem.iot.uiciva~Jl~JJe a.~ gessoas
dedicam tempo ao que elas amam. Ospªis eoverg·onham os fi-
lhos quando não têm tempo para eles.
Qualquer criança de uma famíliadisfunciooal é sujeita a esse
ferimento espiritu al - essa perda do Eu So;;. - em maior ou
menor grau. A mãe alcoólatra e o pai co-dependeote não podem
estar presentes para os filhos . A alco6laua está absorta na bebida
e o co-dependente absorto .na alcoólatra . Simplesmente não po-
dem esta,r presentes emocionalmente para os filhos. O mesmo
se aplica quando há uma tensão crônica no relacionamento dos
pais, em razão de vício do trabalho, de atividades religiosas, dis-
túrbios ligados à alimentação, vício de controle ou de perfecdo-
oismo, ou doença mental ou física. Seja qual for o motivo da ten-
são, quando os pais estão absortos nos próprios problemas sérios.
emocionais , não podem estar com os fiJhos. A psiquiaua Karen
Ho rney escreveu:

Porém , devido a uma vaàedade de influências adversas, a


criança pode ser impedida de crescer de acordo com suas ne-
cessidades e possibilidades individuais ... Finalmente, tudo
se resume no fato de que as pessoas que a rodeiam estãopor
demais absorrasnas pr6priasneurosese não cêm tempo pa-
ra amara criançanem para vê-la como o indivíduo especiaJ
que eJa é. (Grifos nossos.)

A frustração do desejo da crian~ a de seramadacomo uma pcs-


so:i e ter seu amor aceito é um dos maiores uaumas que ela pode
sofrer.
Nen hum pai e nenhuma mãe em uma família disfuncional
podem dar o que a criança precisa. porque eles próprios são ex-
tremamente carentes. Na verdade , a maioria das criançasde fa.
mílias disfuncionaisforam exrremamenre feridas quando eram
mais carences.Penso em Joshua , com pai alcoólatra. Aos sete anos,
Josh ua nunca sabia quando o pai estaria presente . Aos 11 anos,
1
1
66 VOUAAOLU ••
foi abandonado emocional e financeiramente pdo pai. Um me- ~
nino precisa de um pai. Para amar a si mesmo como homem, pre- 4
cisa do amor de um homem . Precisa senti r-se ligado a om ho-

•'4
mem. Mas ele nunca teve esse elo. Joshua estava sempre apavora-
do, com a insegurança profunda de uma .criança sem proteção.
O pai representa proteção . Além disso, a mãe de Jo shua in cons-
cientemente odiava os homen s. Em três ocasiões, durante o jan-
tar, ela humilhou o filho, caçoando do tamanho do seu pênis. ~
Aparentemente , da pensava que era apenas uma piada, e da o
envergonhou mais ainda por ser tão sensível. Essa era sua área
mais vulnerâvel. Por mais absurd o que seja. na nossa cultura, o
••
tamanho do pênis é um símbolo de masculinidad e. Ali estava •
um menino que precisava desesperadamente de ter sua mascuJj. 4
nidade afirmada, traído pela mãe, a única pessoa importante da
sua vida. A mãe, vítima não tratada de in cesto, descarregou no
filho sua raiva e seu profundo desprezo pelos homen s. '
4
~

ABUSO SEXUAL, FÍSICO E EMOCIONAL '



~
Abu so sexual ~
No caso de abuso sexual a crian a é usada ara satisfazer o ra- 4
zersexualdeumadulto.Com isso, ela aprende que o ú nico meio
.__ ~
de ser importante é fazer sexo com um adulto. A conseqüência
dessa violentação é que a criança cresce pensando que precisa ser •
perfeita no desempenho sexual ou ser sexualmente atraente para
merecer o amoI verdadeiro de alguém . Há várias formas de abu-
so sexual. As formas não físicas são as meno s compreendid as e
podem ser as mais prejudiciais.
Para compreender o abuso sexual não físico, ou emocional,
é preciso entender que a famflia é um sistema social com leis pró-
prias. As leis mais importantes do sistema familiar são: (1) O sis-
tema todo reflete todos , de forma que a família só pode ser defi-
nida pelo relacionamento entre seus membro s, não pela soma das
suas panes. (2) O sistem a rodo ope ra sob o princípio de equilí-
brio, de maneira que , se um membro se desequilib ra, ourro com-
pensa essa alteração. Por exemplo, o pai bêbado ou irresponsável


.çOMOACRIANÇA
ldARAVilllA
QUEVIVE
fM VOCÊ
FOIFER.IDA ~7

pode ser compensado pela mãe abstêmia e super-responsável. A


esposa raivosa e histérica pode : ser compensada por um marido
de temperamento calmo, maneiroso, de fala mansa. (3) Todo o
sjstema é goverpado . por leis. Nos sistemas saudáveis, as !e.is são
abertas e negociáveis. Nos sistemas não saudâ'Veis, são rígidas e
inflexíveis. (4) Os membros do sistema desempenham papéis para
mlintet 'ó equilíb rio. Nas famílias saudáveis , os papéis são flexí,
veis e compartilhados; nos s1stemas não saudávei s, são rígidos e
ímutáveis .
Q sistema familiar tem também componentes, sendo o prin-
cipal o casa.me11to. Quando h:i um a disfunçã o de jncimldade nc
casamento, o princípio de equilíbrió e de compensação do siste-
maassume ó cómando . A família p recisa de um casamento sau-
dável par-a ter equilfbrio. Quando não há equilíbrio, a energia
dinâmica do sistema leva os filhos a criarem uma forma de equi-
líbrio. Se o papai nao está satisfeito com a mamãe , de pode pro-
curar na filha a satisfação para :suas carências emocionais . A filha
pode se tomar a Bonequinha do papai ou sua Princesioha . O fi-
lho pode se rornar o ·Homenúnho da mãe ou seu homem mai s
importante, pata substituir o pai. As variações são muitas e não
limitadas pelo sexo das pessoas envo1'1.idas,A filha pode vir-a ser
a protetora .da mãe, no lugar do pai. O filho pode ser a esposa
emocional do pai. Em rodos os casos, instala-se uma ligação ver-
tical ou ttansgeneracionaL Os filhos estão ali para tomar conta
do cas.amentô dos Hà.ÍSe são usados para amenizar a solidão de-
les. Muitas vezes, o pai ou a mãe fecha-se sexualmente , mas suas
necessid;i.des sexu'3is continuam presente$ . O _filhoou a filha po-
de fitar constrangido/a com os beijos e as carícias esuanhas ·do
pai ou da mãe. Tradiciohaltnence , sempre que um filho ou uma
filha é mais imporcancepata o pai ou para a mãe do que o espo-
so óu a esposa, exisceo poccn.cialpará abuso sexual emocional.
Isso constitui abuso porque o pai ou a .mãe está usando o filho
ou a filha para suprir sua próprias necessid ades. Esse compo rta -
mçnto 'ipvçne a ordem da natureza . Os pais devem dar aos fillios
tetnpo, atenção e orientação, :não usá-lospara saàsfazer as pró-
prias carências,. Uso é abuso .
.A violentação sexual constitui umferimento t:spirirual ma :s
profundo do que outra qualquer form a deviolação, Recentemente ,
começamos a compreender a violentação sexual sob novos aspec-
tos. As histórias de horror sobre a peneua~ão física são apenas


68 VOll'ANJW

a ponta do iceberg. Sabemos hoje muito mais sobre o impacto


do voycurismo e do exibicionismo denuo da fanúlia. O fator pàn-
cipal nesses casos parece ser o estado de espírito dos pais - isto
é, se eles se excitam com a própria nudez ou se excitam olhando
para os corpos dos filhos .
Grande pane de casos de violentação nas famílias são pro-
vocados por infração das leis. O filho ou a filha pode não ter um
lugar pata sua privacidade e seguranç a. Talvez os pais entrem no
banheiro sem avisar quando ele ou ela o está usan do. Talvez eles
o/a interroguem sobre os detalhes da sua vida sexual. Crian ças
mais novas podem ser obrigadas a curvar o corpo para enema s
desnecessários.
O abuso sexual pode ser provocado também pela falta dos
devidos Urnicessexuais entre pais e filhos. Isso se CiU'acteriza,quase
semp re, por observações e conversas. Minha cliente Shidey ficava
sempre constrangida na presença do pai. Ele dava palmadas nas
nádegas dela e falava sobre seu '' traseiro sexy': dizendo que gos-
taria de ter a idade cena para "tec um pouco dela ". Shirley fica-
va perturbada com essas observações. Mais tarde , ela procurava
homens ma.is velhos que se excitavam com seu uaseiro.
Ir. mãe de Lolita comentava sua vida sexual com ela, dizen-
do que ô pai era péssimo na cama e que tinha um pênis muito
pequeno. fazendo dela uma ''colega de colégio'' estava violan -
do os limites de privacidade da filha . lolita estava tão integrada
com a vida da mãe que não tinha identidade sexual própria. Te-
ve vários casos com homen s casados, mas no fim se.mpre se recu -
sava a fazer sexo e os abandonava. Contou qlle, pa.Ja conseguir
um orgasmo, cinha de imaginar que era a mãe!
O_uua forma de abuso sexual é a falta de informação sobre
sexo. Os pais de June nunca a informaram sobre esse assupto .
Quan do ela começg!,!_amenstruar . ficou apavorada, cerca de que
esrava..giavemente doent~
A violentação sexual pode ser feita também por irmãos mais
velhos. De um modo geral , acontece entre irmãos com dois anos
de diferença de idade. As crianças da mesma idade interessam-se,
às vezes, por exploraçõefp.essa área, mas é quase sempre parte nor-
mal do desenvolvimento . Entretanto , se a criança age com outra da
sua idade de uma maneira acima do seu nível normal de compreen-
são, pode-se considerar isso como sintoma de que o agressor foi vio-
lentado e está violentando sexualmente a outra criança.
--
COMO
ACRIANÇA
MARAVILHA
QUEVlVEEMVO(j R'.llEFJUDA 69

Vej~os o caso de Sanµny, que foi •'vi9ieotado'' várias ve-


zes por seu melhor ~i~o, da mesma idade, qúando ambos ti-
nham seis anos.e meio . O amigo fora violen .tado analmeote pót
um tio e repetia a violência em Sammy,
As crianças acreditam nos pais e na sua fantasia criam elos
para manter essa crença. Eu me iludi e neguei a verdade a mim
mesmo atê o amargo fim - ,acréditando que meu pai alcoólatra
me-amava de verdade . Na criaçã9 da minha fantasia, ele pensava
muito em .mim, mas era tão doente que não tinha tempo prua
me amar. Ninguém gosta de ser usado . Q uand o o adulto perce-
oe que está sen do usadó , iicâ furioso . .t\S crianç as não poâem sa-
ber quando estão sendo usadas. Mas a criança que permanece no
adulto, leva com ela esse ferimento. Uma pessoa violentada se~
xualmente sente que não ~ode ser amad a do modo que ela é e
sua reação pode ser .a derejeitar completamente o sexoOu tomar- se
supersexuada para sentir que é digna de ser .notada e ama da.

Violência fisica

A violência física fere t ambém o espírito. Uma crian ça espanc a-


da. arrastada pelo pescoço , que recebe ordem para apanhar o~
instrumentos da próppa tor,rura cl.ificilmente acreditará que é es-
pecial, marav~lhosa e única. Como isso é possível sç está sendo
fisic:unente atacada pelos pais QU pelos responsávei s? O castigo
físico corta o elo que a liga ao pai ou à mãê que a maluatam .
Ima,gine o que você ia sentir se recebesse uma bofetada do seu
melhor amigo .
Não temos idéia da quantidade de \'iolência familiar que
existe, As estatísticas a esse respeito escondem-se nas .salas de emer-
gência dos hospitais, sob a vergonha da família e, acima de tudo ,
no pavor de mais maus-tratos se falar .
O espancamento de wulheres e crianças é uma tradi ção an-
tiga e generalizada, Ac,:editamos ainda no castigo corporal, Até
três anos atrás eu o aceita~ sob uma furma modificada, Não exisre
prova .r;eàlde que as surras e os outros tipos de castigo corpor al
não tenham efeitos colaterais duradouro s. $ó por uma perversão
mental a criança pode acreditar que é im portante quando escá
sendo espancada, esbofeteadaou ameaçada._Além disso.as crianças
que ass.iscem à violênda sãQvítimas da víolência. Meu corpo re a,
70 VOl!AAOLAR

ge ainda fisicamente quando penso no meu amigo Marshall. E1,1


ovi levarpelo menos umas dez bofetadas de uma freira , no cur-
so primário . Obviamente elà perdeu o controle. Marshall era um
garoto durão e, cercamente, precisava ser melhor orientado. O pai,
iim alcoólatra violento , o espancava. t,t:.faseu me lembro de ficar
ali sentado, encolhendo -me com cada bofetada da freira, saben..-;
,do que aauilo oodi.a acontecer também comigo. Em uma escõla
que ·permite o castigo corporal há o risco de um professor ·perder
o controle. ·
Jamais esquecereia noite 30 a•,v)sdepois. em que Marshall
me telefonou de uma enfermaria fechada do Hospital V.A., pe-
dindo-me para ajudá-lo a se livrar d,o akqolismo. Onde estava
aquela bela criança vinda ao mundo com a certeza de ser esp~
cial, única e insubstituível?

Violência emocional

Esse tipo de violência também fere espiritualmente acrian ça. Gri~


tare esbravejar com a criança é violar sua noção de valor. O pai
que chama o filho de "estúpido" , "bob o" , "louco;', " cretin o' '
e assim por diante , estã ferindo a criança com cada palavra. A
violêpcía emocíonal toma a forma também de rigidez, perfeccio-
nismo e controle . O perfec cionismo provoca uma profunda sen-
/ sação de vergonha tóxica. Não importa o que você faça, nun ca
corresponde às expectativas . Todas as famílias que funcionam ba-
seadas na vergonha usllin o perfeccionismo, o controle e a culpa
.'como instrumentos m;i,nipuladores. Nada do que você diz , sente
ou pensa está certo. Você não devia sentir o que sente, suas idéias
são maluc-as, seus des.ejos são idiotas. Você está sempte errado ,
é sempre deficie.nte.
~

Violênciá na escola
A vergonha tóxica continua na escola. A criança ~ imediatamen-
te julgada e avaliada. Ela compete para fazer tudo direito. Fica
na frente do quadro-negro , exposta à humilhação pública. A pró-
pria determinação das notas ou do grau de adiantamento pode
ser motivo de vergonha. Recenteménre consolei o filho de um

COMó
ACRIANÇA
MARAVllHA EMvoctFOIFER.IDA
QUEVlVE 71

amigo meu que tirou F no desenho que fez no seu primeiro dia
na escolaprimária.
As escolas permitem também a humilhação entre os alunos.
As crianças são cruéis quando provocam as outras . O éhoro é con-
siderado especialmente vergonho so. Em razão dessa atitude de
um grupo para com outro a esçoJa pode ser um a fonte de confli-
to para cenas crianças . Os pai s e ptofessore s as exortam a estud ar
e progr_ediracademicamente, mas quando são bem -sucedid as, são
ridicula.(izadas pelas outras crianças.
Na escola, começamos a ter noção de coisas como descen -
dência étw ca e scar:u s socioeconô mico. São verdade .ir as históci?.!
de horror o qu~ contam meu s amigos ·judeus sobre o qoe sofre-
ram na escola. E n;\ escola também que dizem às crian ças negras
que elas não "fala,m direito ' '. Quando entrei para a escola, no
Texas , as crianças.mexicanas ainda eram punidas por falar sua ' ' ün-
gua mae - ".
Lembi:o~me da vergonha que senti porque não tinhacnos au-
tomóvel e eu tinha de ir.a pé para a escola é , mai s tarde , d e ôni-
bu s. Isso, agr;avado pelo fãto de que quase todos os alu nos eram
de famílias muito ricas. As crianças em idade escolar aprende m
muit o depressa o que significa srarussocial.

Violênáa na igreja
A criança pode se.r envergonhada também na escola dominical
ou na igréja , ouvindo um sermão ameaçador e exaltad o. Re-
centemente ouvi um pregador dizec na televisão: •'Você não
pode ser suficiente.mente bom para ser aceito aos olho s de
Deus .'' Que afronta terrível a Deµ s, o Criador . Mas, como
a criança pode saber que aquele homem estava se escondendo
da própria vergonha com àquele serm ão veneno so? Lembro-m e
de ter aprendido a oração a Santa Catarina de Gên ova no
curso primário . Se não me falha a memóri a, era assim , "De se•
jand o ardeocemente deixar eSta vida de sofrimento e de an -
gústia dolorosa e profunda, eu chor e;>. Eu morr o po rque não
morr o.' ' Uma bela e feliz canção para começar o dia! E uma
prece mística que tem sentido no mais alto oíveJ de esp iritual i-
dade. Mas para crianças do curso prim ário é um feriment o
espiritual .
72

Humilhação cultural

O sistema de perfeição característica da nossa cultura nos fere es-


piritualmente. Temos os indivíduos que são sempre perfeitos. Te-
mos homens com pênis grandes e mulheres com grandes seios
e bumbuns. Se seus órgãos genitais não são grandes, você é con-
siderado inferior. lembro-me de como era doloroso para mim to-
mar banho de chuveiro no vestiário depois do treino de futebol.
Os meninos maiores caçoavam d os menore s. Eu rezava i:,ara que
não me escolhessem para suas brincadeiras e provocações. Eu ria
nervosamente e os acompanhava quando ridicularizavam os ouuos .
Lembro também dos meninos gordos e feios, para quem a
escola era um ve,:dadeiro pesadelo. Os garotos desajeitados, os não-
atléticos também eram humilhados no recreio e nos jogos.
Essa época da vida deixa cicatrizes eternas. Eu cresci na po-
breza e até hoje sinto vergonh a quando vou a um clube de cam-
po ou outro lugar elegante. Quase sempre sei que minha sirua-
çãó financeira é melhor do que a de outras pessoas , mas me~mo
assim-sinto a pontada venenosa da humilhação cultural .
As 1:rianças descobrem muito cedo que existem diferença.~
reais econômicas e sociais entre elas e seus arrugas. Dão grande
atenção às roupas e às moradias. A pressão do grupo de iguai s
nessas áreas piora com o passar dos anos. Sempre há uma medi-
' da do seu valor - e na maioria das vezes você não vale o que
devia valer. A mensagem é, Vocênão escácomo devia esau. Pre-
cisa ser como nós queremos que seja..

A vergonha tóxica

Todos esses tipos de violência criam a vergonha tóxica - o senti-


mento de ser falho. diminuíd o e de nunca corresponder à expec-
tativa. Essa vergonha é muito pior do que o sentimento de culpa.
No caso da culpa, fizemos alguma coisa errada , mas podemos re-
parar o erro - é possível fazer alguma coisa a respeito . No caso
d;1 vergonha tóxica, há algo de errado com você e não pode fazer
nada para corrigir, você é inadequado e defeituoso. Essesenti ment o
de vergonha tóxica é o centro principal da criança ferida .


COMO
A CIUANÇA QUEVIVEEMvod R)J mIDA
MAAAVll.HA 73

Recentemente fiz uma adaptação da meditação poderosa es-


crita originalmente por Leo Booth e acrescentei alguns aspectos da
vergonha tóxica estudados no meu livro BradshawOo:Hea.lingthe
Shame That Binds ióu. Quero reproduzi.( aqui minha adaptação.

Meu Nome é Vergonha1õxica


Quando você foi concebido eu çstava lá
Na epinefrina da vergonha da sua mãe
Você me sentia no fluido do útero materno
Eu cheguei antes de você aprender a falar
Antes de você compreender
Antes que pudesse saber qualquer coisa.
Cheguei quando você aprendia a andar
Quando escava desprotegido e exposto
Quando era vulne rável e carente
Antes de ter suas fronteiras
MEU NOME É VERGONHA TÓXICA
Cheguei quando você era mágico
Antes que percebesse minha presença
Eu separei sua alma
Eu apunhalei seu coração
Eu o fiz sentir-se falho e deficiente
Eu trouxe comigo sentimentos de desconfiança, fejúra,
estut:>idez, dúvida, de não valer nada,
de inferioridade e de inutil idade.
Eu o fiz sentir-se diferente
Eu disse que havia alguma coisa errada com você
Eu conspurqu~i sua semelhança _com Deu s
MEUNOME E VERGONHATÓXICA
Eu existia antes da consciência
Antes da culpa
Antes da moralidade
Eu sou a emç,ção mestra
Sou a voi; interior que murmura palavras de condenação
Sou o estremecimento interior que percorre seu corpo sem
nenhuma prepa ração mental .
MEU NOME EVERGONHATÓXICA
74 VOlIA
NJ lAR

Eu vivo escondida
Nas margens úmidas e profundas das trevas da depressão e
do desespero
Sempre o apanho desprevenido e entro pela porta dos fundos
Não convidado, indesejável
O primeiro a chegar
Eu estava lá no começo dos tempo s
Com o Pai Adão , a Mãe Eva
Irmão Caim
Eu estava na Torre de Bab el, nâ z.:
1tanç a dos In ocentes .
MEU NOME É VERGONHA TÓXICA

Eu venho de: responsáveis "desavergonhados'', do abando-


no, do tidículo, do abuso , da negligência
- dos sistemas perfeccionistaS
Recebo minha força da intensidade chocante da raiva dos pais
Das frases cruéis dos irmã os
Das humilhações zombeteiras das outr as crianças
Do reflexo desajeitado nos espelh os
Do _contato pegajoso e assustador
Da palmada , do beliscão, do gesto brusco que mata a
confiança
Sou intensificad o pc:Ja
I Cultura sc:xista, racista
Pela condenação hipócrita dos fanáticos religiosos
Pelos temores e pressões da educação
Pc:la hipocrisia dos políticos
Pela vergonha multigenc:rativa do s sistemas familiares
disfuncionais.
MEU NOME É VERGONHA TÓXICA

Eu po sso transformar uma mulher, um judeu , um pret o, um


gay, um oriental, uma criança preciosa c:rn
Uma cadela , um porco, um negro su,io, um pervertido . um
japa, um pequeno egoísta filh o da mãe:.
Eu trago uma dor que: é crôni ca
Uma dor que nun ca acaba
Sou o caçador que: o persegue: n oite: e dia

COMO
ACRIANÇA
MAlAVIIJiA
QUEVIVE
EMmcÊ FOIFERIDA

Todos os dias, em todos os lugares


Não tenho fronteiras
Você tenta se esconder de mim
Mas não pode
Porque eu vjvo dentro de você
Eu o faço sentir que a esperança não existe
Que não há saída
MEU NOME É VERGONHATÓXICA

Minha dor é tão insuportável que você preci sa passá-la para


os ou tros através do control e, do p erfeccionismo
do desprezo, da crítica, da culpa, da inveja, do julgamento,
do poder e da raiva
Minha dor é tão intensa
Que você tem de me disfarçar com vícios, papé is rígidos,
repetições de fatos doloro sos e defesas inconscient es do ego
Minha dor é tão incensa
Que você tem de aliviá-la e não mais me sentir .
Eu o convenci de que fui embora - que eu n ão exisco -
~ • JO; • •

voce senuu a ausenc1a, o va.210.


MEU NOME É VERGONHATÓXICA

Eu sou o centro vital da sua co-dependên cia


Eu sou a falência espiritual
A lógica do absurdo
A compulsão repetitiva
Eu sou o crime, a violência, o incesto , o estupro
Sou o abismo voraz que alimenta todos os vícios
Sou a insaciabi lidade e o desejo carnal
Sou Ashaverus o Judeu Errante, o Holandês Voador
de Wagner , o homem do submundo de Dostoievski ,
o sedutor de Kierkegaard , o Fausto de Goethe
Eu transformo quem você é no que faz e no q ue possui
Eu assassino sua alma e você me passa adiante
para as geraçõ~s futuras ~
MEU NOME E VERGONHATOXICA

Esta meditação é um resu1no dos modos pel os qu ais a cri:.n-


ça maravilha pode ser ferida . A perda do Eu Sou é a faléncia es-
piritual. A crianca maravilha é abandonad a, fica sozinh a. Como
--~ ,-
\QIIA NJI.Al

escr~e Alice Miller em Ibr l&ur Owp Good, é pior do que so-
breviver a um campo de concenrr:ação.

Os prisioneiros maltratados de um campo de concentração...


têm liberdade interior para odiar seus perseguidores. A opor-
tunidade de experimentar seus sentimentos - o fato de com-
pi rtil~ir esses sçntimentos com os companhe-iros evita que
desistam do próprio eu ... Essaoporcunidadenão existe para
as crianças.Elasnão devem odiar o pai ... não podem odiá-
lo... Temem perder seu amor se o odiarem ... Assim, as crian-
ças. ao·contrário dos p risioneiro.:;d os cam pos e:::concentra•
ção, cêm de enfrentaro acormencado r que elasamam. (Grifos
nossos.)

A crianç;tcontinu~ a viver 09 s.eu tormento, ,sofrendo passivamente


ou revidando, repetindo o tormento nos outros. nela mesma.,
projetando-se e se expressando apenas da forma que sabe. Recu-
perar essa criança é o primeiro estágio da nossa jornada de_volta
, .ao lar.

J
PARÁBOLA.

A história quase trágica de um terno elfo

;:;r3,uma vez um dfo terno e pequen1il0. r.ra um elÍo mun o 1·r..11,..


Era inteligente e curioso e conhecia os segredos da vida. Por exem-
plo, ele sabia que o amor era uma escolh~. que o amor implicava
em trabalho árduo , que o amor era o QOÍcocaminho. Ele sabia
que podia fazer coisas mágicas e que sua forma. úni'ca de mágica
era chamada criatividade. O pequeno elfo sabia que en~anr o
ele estivesse realmente criando, não haveria violência. E cile co-
< nhecia o maior segredo de todos - que ele era algum,a coisa e
nao coisa nenhuma. Sabia que era um sere gue ser era rudo. lsso
chamava-se o segredo do ''Eu Sou'• . O criador de todo$ os elfos
era o Grande EU SOU. O Grande EU SOU sempre foi e sempre
lngu .ém sábia como ou por que isso era verdade. O Gran-
será. 1--i
de EU SOU era totali:nente amoroso e criativo.
Outro segredo muito importante erá o do equilíbrio. O se-
gredo do equilíbrio significava que todas as coisas são uma união
de opostos. Não existe vida sem mane física, nem alegria sem
tristeza , nem prazer sem dor; nem luz sem treYa.s, som sem silên-
cio, bem sem mal. A Yerdadeira saúde ·é uma forma de unidade .
O grande segredo da criatividade consiste em equilibr:ar uma ener-
gia primitiva e não.focalizada com uma forma que permita a exis-
tência dessa energia.
Um dia nosso terno elfo que, a propósito, chamava-seJoni,
ficou sabendo de outro segredo. Um segredo que o ássustou um
pouco. Ficou sabendo que devia cumprir uma missão antes de
poder qiar pala sempre. Devia companilhar seus segredos com
uma tribo de ferozes não-elfos. Você compreende, a vida do elfo
era tão boa e maravilhosa que o segredo dessa m,aravilha preci5'2·
va ser compartilhado com aqueles gue não sabiam nada sobre ma-
ravilhas. A bondade sempre quer ser cornpanilhada. Cada d fo
foi designado para uma família da tribo dos não-elfo s ferozes.
78 VOl!ANJW

A tribo dos Snamuh . Os Snamuh não conheàam nenhum se-


gredo. Eles desperdiçavam seus eus. Trabalh avam sem cessar e só
pareàam vivosquando estavam fazendo alguma coisa. Alguns df os
os chamavam de FAZER. Eles também matavam uns aos outros
e faziam guerra . Às vezes, nos eventos esponivos e nos concertos
musicais, eles se· atropelavam e se matavam .
Joni entrou na sua família Soamuh em 29 de junho de 1933,
às 3h05min da manhã. Não tinh a idéi a do que o esperava. l'IJão
sabia que teria de usar cada grama da sua criatividade para con-
tar a eles seus segred os. 1
Qu ando ele nasceu, recebeu o nome Snamuh de Farquha c.
Sua mãe era uma bela princesa de 19 anos, dominada por uma
necessidade de representar . Era vítima de uma estranha mald i-
ção. Tinha urna lâmpada de néon acesa na testa. Sempre .que ela
tentava brin car, divertir- se ou apenas existir. a luz piscava e uma
voz dizia. Cumpra seu dever. Ela não podia nunca ficar sem fa-
zer nada e apenas ser. O pai de Farquhar era um rei baixo mas
muito belo. Ele também era vítim a de uma maldi ção. Era ator•
meneado pela mãe, uma bruxa mwto má, Har.rier. Eia vivia no
ombro esquerdo dele.
Sê~r e que ele tentava apen as ser, ela gritava e esbravejava.
Harriet estava sempre mandan do o rei fazer alguma coisa.
Para que Farquhar p udesse conta r aos pais e aos ouuos seus
segredos, era preciso que ficassem quietos e par~sem de fazer,
o tempo sufiàeote para ouvi-Jo. Mas eles não podiam fazer isso.
J
A mãe, por causa da lâmpada e o pai por causa de Harriet . Des-
de o momento em que nasceu , Farquhar ficou sozinho. Uma vez
que tinha o corpo de um Snamuh, ele sentia como um Snamuh.
E em razão do abandono, ele ficou furioso, profundamen te fru s-
uado e magoado.
Ali estaVáele, um temo elfo que conhecia os grandes segre-
dos do EU SOU e ninguém o ouvia. O que ele tinha para dizer
era gerador de vida, mas seus pais estavam tão ocupados fazend o
seus deveres, que não podiam aprender com ele. Na ver;dade, seus
pais eram tão confusos que pen saram que sua obrigação era ensi-
nar Farquhar a fazer seu dever. Sempre que de deixava de fazer
o que eles pensavam que era seu dever, el~s o pu niam. Às vezes
o ignoràvam, mandand o-o para o quarto. As vezes gritavam e ba-
tiam nele. Na verdade, o que Farqubar mais detestava eram os
gritos. Podia suportar o isolamento e as sovaseram rápidas e acaba-


COMO
ACRJANÇA
MA!lAVlLHA EMvoctFOIFBIDA
QUEVIVE )9

vam depressa, maS a gritaria e aquela repeti ção incansável d e que


e,le,det.ia fazer seu dever; o aàngiam tão profundamente que amea-
çavam sua alma de elfo. Nã o se pode matar a alma de um elfo
_porque ela é Batte do Grande EUSO..U....mas...ela...podeser cã,odo-
lorosamente fCridaque é cornose não exiscisse mais. Foi o que-
aconteceu com Farquhar. Para sobreviver, ele desistiu de contar
aos pais seus segredos e começou a procurar agradá -los. fazend o
o que eles mandavam.
Seu pai e sua mãe eram dois Sna.rnub,s muico infelizes . (N a
verdade, todos os Snamuhs são infelizes. a nã'O ser qu e a~ren-
cb.'.'!10.S ~-.:
rudos d os di as. 1
O pai de .Facquh.ar era tão atormentado por HaH"ier que ele
gastou toda sua energia p~ra eQconuar u_ma poç.ão mágica qu e
eliminava tod_as as sµas sensaçpes. Mas a m?gica não era eáativi -
dade. Na verdade, eliminou toda a criatividade do pai de Farqu-
har e ele se transformou em um ' · morta' ambulan te '·. Depoi s d e
algum tempo. ele deixou de voltar para casa. O coração Soamu h
de Farquhar se partiu. Voecêcompreende, todo Snamuh preci sa
do amor- do pai e da mãe para que o elfo que. vive nele pos s~
revelar seus segredos .
Farquhar ficou arrasado com o abandono do pai. Assim, um a
vez que o pa,i não podia ma.is ::i,judara mãe. a lampada pa cesc:a
dela piscava c0ntinuamenre . Com isso, cad.a vez ela griçava mai5
com Farquhar . e o castigava. Quando fez 12 wos, Farquhar tinh a
se es-guecido de que era um elfo. Alguns anos mais tarde , ele fi.
cou sábendo . da poção mágica que seu pai usava para não ouvir
a voz de Harríet. Aos 14 anos ele começou a u s-á-la coro fteqüê.n -
cia. Cbm 30 anos foi carregado para um hospital Snamuh. No
hospi tal uma voz o acordou. Era a voz do ser.da sua alma de elfo.
Poi$,você compreende, po,çpior que sejam a.scoisas, a voz do
eJfo,sempre chama wn Sna.ínuhpara comemorarsua cxiscêacia..
Joni jamais desistiu de salvar Farquhar. Se você é um Sna1nu h
e esrá lendo .esta hisróda, por favo~ não esq11eç-aisso. Vocé tem
uma alma de elfo que está sempre .tentando aeotdá-10 para .ser você.
Quando Farqu har estava no hospital, finalmente ele ouviu
a voz de Joni. lsso foi dedsrvo. E este é o começo de outra hist ó-
ria muito melhor ...

..
PARTEII
RESGATANDOA CRIANÇA_._
FERIDAQUE VIVE EM VOCE

Na f~tasia e no mito a volta ao lar é sempre dramá-


tica. As bandas to<!am,o novilho gordo é abatido, um
banquete é preparado e todos se alegram CCJin a volta
do filho pródigo. Na verdade , o exílio geralmente ter -
mína gradualmente , sem nenhum evento ocrerno dra-
mático para marc~ o fato. A névoa do a.revapora e
o mundo entra . em foto. A procura dá lugar ao acha-
do, a ansiedade à satisfação . Nada é mudado e tudo
é mudado,
- Sam Kccn

,
INTRODUÇÃO

Sam Keen faz um resume do trabalho que você vai fazer ago rn
Quando terminar , nenhuma banda vai tOÇ,;J.!', chamanqQ :Q
o banquete . Entretanto. se você fizer betnseutrabalho. pode e-
aEf
vàr para · antar a crian a: ue vive em votê e ouvir uma boa ban-
. a. Vai se sentir mais sereno e em paz.
Recuperar a criança 'Ínterior é uma experiência do tipo zen .
As crianças são mestres zen por natureza. Seu mundo é novo
em folha em cada momento da existência . Para a criança não
ferida, a maravilha é natural. A vida é um mistério a ser vivido .
A volta ao lar é a restauraçãe do que é natural. Não é uma
recuperação grandiosa ou dramática, é simplesmente a vida como
ela deYe ser.
A recuperaçãoda criançainterior envolvea reg-r~ssão
através
dos estágiosde desenvolvimentoe aproçuca.Jktudo quLJJãofoi
rsrminado. Imagine que está pua encontrar uma criança mara-
vilhosa que acaba de nascer. Você pode estar presente c<;>moum
adulto sensato e amoroso para aj,udar a criança a vir ao mundo .
Pode estar presente ao seu nascimento, ao tempo em que come-
ço:u a engatinhar e a andar, quando aprendeu a falar. Sua criança
vai precisal' do seu apoio enquanto ela lamenta suas perdas. Roo
Kunz sugere que você pode ser um ''estranho mágico" para a
criança - mágico porque você não estava realmente presente na
primeira vez em que essa criança passou por esses estágios. Eu
coleciono mágicos, por ,isso recupere.i minha criança interior co-
mo um mágico velho e bondoso. Yocê pode ser o quequiser.desde
que esteja presente, de f<;>rma amorosa e não .humilhante .
Ca?a um desses estágios exige tipos .muito específicos de cui-
dados. A medida que você compreende quais eram suas exigên-
cias em cada estágio, pode aprender a dispensar os cuidados ade •
quados. Mais tarde, quando você aprende a defender a sua criança


84

jnterior, pode encontr~r pessoas que dispensarão os cuidados que


você precisava então e que sua criança precisa agora para crescer.
O primeiro pass.o muito importante consiste em ajudar a
criança a lamentar a negligência no atendimento das suas exi-
gências de dependência. A maior parte das contaminações que
aescrevj é resultado de exigências não atendidas e oão resolvidas,
porque jamais foram lamentadas. As emoções que deviam ter 5j.
do expressas e que jamais foram.
Atender a essas neêessidades no tempo cena e na seqüência
corret'.l é o caminho natural do desenv0 1vimenro . Privado disso,
você se torna um adulto com uma crian ça ferida n o seu intim o,
clamando pelo atendimento dessas necéssidades naturais . E a crian-
ça pede choi;ando que elas sejam atendidas como asIJecessidades
de uma ctiwça, o único meio que el~conhece. Isso significa dei-
xar que sua vida seja dirigida por uma criança imatwa e emocio-
nalmente faminta . Para compreender o impacto desse processo ,
examine sua rotina diária e procure visualizar o que seria sua vi-
da controlada por uma criança de três anos . Esse cenário pode
ajudá-lo a ver o quanto a criança Jerida que vive em võcê pode
complicar sua vida.
A "infância consiste em quatro estágios principais de desen-
volvimento. Na ;i.presentação desses estágios, tomo como base,
especialme·nte, o mapa de desenvolvimento psicossocia1 do livro
clássíc.o de Erík Erikson, Childhood and Sociery. Acrescentei al-
guma coisa dejean Pjaget, Pam l.e:vine BárcyeJanae Weinhold.
Segundo Erikson, cada estágio de desenvolvimento é resultado
de uma .crise interpessoal - principalmente com os pais, mas tam-
bém com as crianças da mesma idade e com professores. A crise
não é um evento catastrófico, mas um tempo de intensificação
da vulnerabilidade e de aumento do potencial , A.soluç~o de ca-
da estágio provoca uma nova crise. Erik.son é de opinião que o
resultado de cada crise é uma força interior que ele chama de força
do ego, Ele propõe quatro forças básicas do ego como compo-
nentes necessários a uma infância saudável. São esperança , força
_de vontade, · ro ósito e com etência. A esperança é p,reduto da
-superiori .a e do senµmento de co.a.iançanos pais e responsá-
veis. sobre a desconfiança. A força de vontade aparec-e quàndó
a ariança que está aprendendo a andar, na tentativa de se separar
e nascer psicologicamente, adquire uma noção de autonomia mais
forte do que a de vergonha ou dúvida. O propósito nasce quan-
.-

COMO
ACRL\NÇA
MARAVllHA EMvoctFOIEERIDA
QUEVIVE

do a criança em idade pré-escolar adquire uma noção de iniciati-


v., mais forte que a de culpa. A competência ê criada quando
a criança em idade escolar desenvolve a noção de indúsrriamais
forte que a de inferiori.dade.
Segundo a terapeuta Pa.tn Levin, quando essas u;ês forças
do ego estão presentes, temos à nossa disposição quauo poderes
básicos - ...Q.poder de ser, o poder de fazer, o poder da identi-
dade
, . e o pod er de possuir ~ ha.bilidades básic.as~a a sobrevi-
venCJa.
Os mesmos.poderes e forças do ego que precisamos para nos
desenv0lve11.0a infância, devem $er refor9-dos nos eSiâglo:;se5uinu;.,
do desenvolvimento. A mesma qualidade e tipo de necessidades
se repetirão no decorrer de 'toda a nossa vida. Pam Levin sugere
que as necessidades básicas da infância são recicladas de 13 em
13 anos. Não 'tenho conhecimento de nenhum dado empírico que
prove a teoria desse ciclç,de 13 anos, mas gosto de usá-la como
linha básica geral.
Aos 13 anos a puberdade desperta a centelhá de vjda pa1;a
um novo ca..'llmho.Ab,re-seuma nova estrutura mental à medida
que oeqrrem as mudanças biológicas da macu,c:ídadesexual. Co-
meçamos o processo· de fo.crnaçãóda nossa idencidade e de sair
de casa. Precisamos testar e desafiar a opinião dos nossos pais a
nósso respeito; Na puberdade , iniciamos o processo de resolvér
quem nós pensamosque somos , Par?,sermos n6s mesmos, preci-
samos deixar gradacivamenre nossos pais. Precisamos de todas as
forças desenvolvidas do nosso ego para fazer isso. Precisamos de-
pender da confiançíl desenvolvida na infância - a confiança de
que o mundo é suficientemente seguro para que realizemos nos-
so potencial. Além disso, devemos ter autonomia para confiar em
n6s mesmos quando nos aventuramos nQ mundo e deixamos a
casa.dos nossos pais. Nosso sucesso depende do modo com que
atravessamoso primeiro estágio de contra~cndência, nos anos_
cm que estáxamos aprendendo -aandar e de coQLoeu_abcl c..c:mos
J.Ima idmtidadc ínici:tlruus.tágio pcé-~olar,_qJJJ:..aigundc:pcn-
dência. Se cumprimos essas tarefas de desenvolvimento, teremos
poder para iniciar com facilidade essa transição.
Se aprendemos bem na escola, podemos usar nossa habili-
dade social (interdependência) para fazer amigos. Podemos con-
fiar nos fatores básicosde sobreviv.ência aprendidos na eséola, para
sermos esforçados.Essas forç~ do ego do período escolar nos aju-
86 ~l!AAOW

darão a criar a identidade adulta, que se apóia nos pilares do amor


interpessoal e do trabalho útil .
Dos 25 aos 29 anos começa um novo ciclo. Aos 26, muitos
de nós se casam e constituem família. Mais uma vez, depende-
mos do nosso senso de confiança, de autonomia, iniciativa e de
cooperação interdependente para amar bem e tei: a verdadeira
intimidade. Cada estágio da infân cia será reciclado na nossa pro-
cura da intimidade.
Passamos de uma espécie de dependência sem fronteiras (es-
tágio do amor) para a contradependêl'\cia (estágio da luta dopo-
der, quando pr ocuramos resolver nossas diferenç~ ). para ...ind t.
pendência (estágio de auto-realização) e então para a interdepen-
dênci a (estágio de cooperação e companheirismo ). Esses estágios
refletem os estágios da infân cia. Sendo assim. grande pane do
sucesso ou do fracasso dos nossos relacionamentos dependerá da
forma pela qual acra\tessamos os estágios da infância .
Aos 39 começamo s outro ciclo e entram os na meia-idade .
É um estágio bastante dramá tico do ciclo de vida . Alguém in-
vento u a expressão" loucur as da me1a-.idade'' para definir o dra-
ma e a dificuldade dessa tran sição na nossa vida. Para quem tem
uma criança ferida, esse estágio pode ser desas.two....
Na·-meia -idade , o arco da linha da vida achata-se lentamen -
te. O idealismo da juventude foi temperado pela traição, pela de-
silusão e pela morte de uma pessoa muiro quer.ida, Como disse
W.H. Audcn ,

Nesse jotervalo
Há contas para serem pagas, máquinas para serem consenadas ,
Verbosirregulares para serem aprendido s, o Tempo de ser para
ser redimido
Da insignificância.

A própria vida parece um verbo irregul ar. Sam Keen diz,


"Passamos da ilusão da certeza para a certeza da ilusão". Dtntr o
dessa desilusão devemo s resolver esperar e confiar em que: tud o
faz sentido. Se resolvemos confiar, tem os de usar nossa força de
voncad-epara tomar novas decisões sobre cada aspecto da nossa
vida - o trabalho, os relacionamen tos, a espiritualidade. Deve-
mos crescer e nos apoia,r em nossos próprios pés. Todo o senso
de autonomia e de iniciativa que civermos sexá desafiado para criar
COMO
ACRIANÇA
MA.RAVllHA EMVOdFOIFERIDA
QUEVIVE 87

um novo senso de propósito. E teremos de desenvolver novas ha -


bilidades para realizar o propósito encontrado .
O àclo seguinte, de mais idade, é o tempo para aprofundar
nossa esperança e fortalecer nossos novos compromissos. Geral-
mente é um tempo de paz, bem como um tempo de produtivi-
dade. Co..msone...ce1:e;no.s _nossa_criança.mara:úlha conosco, por-
_gue vamos recisar de sua espontaneid ade e de sua resiscéncia.
O começo da velhice exige uma negociação que leva à acei-
tação da idade e do afastamento das atividades . Na velhice, p re-
cisamos enuar em uma ,segunda infân cja! Precisamos da esperança
ini anül à e que eXJste a1go mais. uma té em alg uma coisa mai or
do que nós mesmos , que nos ajudará a ver um quadro ma.is am •
plo. Precisamos de todas as forças do ego adquiridas para ver o
todo contra suas partes. Quando conseguimos essa visão, rem os
a sabedoria.
Cad a estági o é construíd o sobr e o anter ior. A base de codo.;
é a infância.
Um pequeno erro no iníào será um grande erro no fim. Não
podem os interferir no começo da nossa vida , quando depen de•
mos completamen te de outr as pessoas para sobreviver. N ossas n e.
cessidade s eram necessidades de dependênci:1- isto é, só p o-
diam ser acendidas p or quem tomava conta de nós.
Os quadr os seguintes mostram os vários estágios ào d esen-
volvimento humano com suas transi ções e redclagen s. O prime i•
ro mostra as várias forças do ego e os poderes que precisamos p a-
ra nos desenvolver em cada estágio de crescimento pessoal . O se-
_gundo ê uma visão geral dos ciclos de regeneração de 13 em 13
anos , O terceiro mostra como seu ser se expande e se desenvolve
nesses ciclos.
Integridade do Ego X Desespero
S.ABEEJORJA
Poder de Regeneração
1
Cada estágio é co1,struído \
GeneratividadeX Estagnação
sobre o anterior e o incorpora CUIDADO
Poder de Regeneraçãge Produtívidaâc
Intimidade X Isolamento
AMOR
Poder de Regeneraçãoe Amor
Jdenuaade X Difusão de papéis
FIDELIDADE
Poder de Regeneraçãoe Integração
Indústria X fofcrioridadc
COMPETÊ1VCIA INTERDEPENDÊNCIA
Poder de Sabc.r;Aprender e Cooperar
Iniciativa.X Culpa
i'ROPÓSI10 TNDEPENDÊNCJA
Poder de Imaginar e Se,ncír
Autonomia X Vergonhae Dúvid:1
FORÇA DE VONTADE CONTRADEPENDÊNCIA
Poder de Percebere Fazer (UNIÃ O DOS OPOSTOS)
Confiança X Desconfiança
ESPERANÇA .DEPENDÊNCIA SAUDÁVEL
Poder de Ser (UNIÃO SIMBIÓTJCA)

- ---- - -.- ~ ----


- - ---

'
8
z:
o
CICLOS REGENERA'.IlVOS >

i
~
Nova Jdcncid,1dc Novo Propósito AMOR À VIDA ~
NECESSIDAD 'EDE
JNTERDEPE NDiNCIA
Nora Competência
Novas Habilid ades
N ovas Escolhas
Nova Confiança
Vocação
Evolucionária
39 -J2
!
~
NECESSIDAD 1/JDE Nova Idc4cidadc Novo Prop6sico AMOR (Iorimidad c) ~
Nova Competência Novas Escolhas 26-39 !E:
INDEPENDAM<GA Novas f{abilidadcs Nova Confiança TRABALHO (Perfcia)
a
~
NECESSIDADE DE
CONTRAD .EPENDÊNGA
Nova Idcncidadc
Nova Competência
Novas Habilidade s
N ovo Propósit o
Novas Escolhas
Nova Confiança
IIJEN11DADE 13-26 1
(Sair de c:m)

p.cnsamcoto Decisão
1magín:zção Vontade
NECESSIDADE DE scntimcoco Atividad e CONFIANÇA 0-13
DEPENDiJNCIA Compccencia Ser
H.abilidadcs Propósito (cidos de 13 aoos) 1

1
90 VOI.TA
Af) LAR

EXPANSÃODO SER

Eu tenho sabedoria
Eu posso me aceitarcàmpletamence
Eu sou um com tudo

Eu tenho poder pe~oal


Eu posso criare produziI
Eu posso tomar c.ontada nova ge,ação
Eu tenho um compromissocom a vida

Eu renho ou erapessoa que a.firmameu sen~o do e:.:


Eu posse amar
Eu posse estar-totalmente junco e tocalmenreseparado
Eu tenho intimidade com meu cu e com ouerapessoa

Eu tenho o conhcdmenco interior de quem eu sou


Eu posso rcgçnerar
Eu posso ser fiel a uma·pessea ou a uma causa
Eu sou ('mico

Eu-tenho. competência
Eqcc1140limites
Eu tenho habilidades '
Ev possopensar e apr~dcr
Eu sou capaz

Eu tenho consciência
Eu tenho propósito e valor
Eu posso imaginar e sentir
Eu sou sexual
Eu sou alguém

Eu tenho limit.es
Eu tenho forçade vontade
Eu posso ser-separado
Eu posso ser curiosoe explorar
e fazer
Eu sou eu

Eu tenho esperança
Eu posso apenasser
Euposso confiarcm vocé:
Eu sou você
COMO
ACRJANÇA
MARAVILHA
QUEVIVE
EMVOCE
FOJFERI
DA 91

Além da reciclagem natural das tarefas do desenvolvimento


da infância nos estágios posteriore s da vid a, os estágios podem
ser reciclados de outras maneiras , Servir de pai à criança que vive
~m você vai trazer de volta os problemas da.primeira fase do de -
senvolvimento. Em cada estágio do desenvolvimento, nossos pro-
blemas de desenvolvimento não resolvidos e as necessidades não
aten dída s na infân~a ressurgirão. Geralmente o resulrado é uma )
paternidade tóxica., Por isso, é tão difícil aos adultos crianças de
familias di,sfunciooais serem pais consistentemente eficien:es. Ge-
ral~nte o confliro pais/filhos acing_eoJ uge na adolescência , um
t empo dífícil oo ciclo da vida. A essa dificuldade acrescenta-se
o fato de que, durante a ado lesc~ncia, os pais estão na ' 'loucur a
da meia-idade". Nã:o é um quadro muito bonito .
Os estágios de desenvolvimento da infância podem reapa-
recer sempre que enfrenta .mos sofrimentos ou traumas na vida
adulta. A mane de um dos pais precipita definitJvamente nosscs
problemas de infância. A morte de um amigo ou de outra pes-
soa querida geralmente nos faz recuar para as carências do nosso
ser. Emface da morte . nós somos..._c
_omo disseTennyson, "um be-
b.êchorando na noite ... e se1n outra linguagem que não stja o
choro' '.
Qu alquer situação nova pode uazcr de volrn as carências da
infância . um novo emprego, uma noya casa, um casamento, um
filho. A forma como enfrentamo s esses começos dependerá de
s omo maneiamos as primeiras situações novas da nossa vida .
Resumindo, os primeir os estágios da inf~ncia s~o os alicer-
ces da vida de adulto. Os adultos crianças de famílias não funcio-
nais não têm esses alicerces. Na primeira parte deste livro vimos
como as falhas no desenvolvimento têm conseqüências prejudi-
ciais. Para mudar esses padrões prejudiciais, precisaroos recupe-
rar nossa infância.
Recuperar a infânci a é um processo doloroso porque temos
de lamentar nossosferimentos, A bga nnãciaé que:podemos
fazer isso. O trabalho de lamenra( a perda é o safciroeoro real
que tentamos evitar por meio das nossasneuroses . Jun g disse
muito bem : "Todãs as neuroses são substitutos para o sofrime n-
to real." O trabalho de lamentar as perdas e ferimentos, chama -
do uabalho da dor original , e.xlge que experimentemos nova-
mente o quenão pudemos merimentar quando perdemos nossos
pais, nossa infância e, acima de tudo . nossa noção de Eu Sou .
97 VOI.TA
AOLAR

o ferimento es . iúrual ode ser cur ado. Mas issorem de ser feito
lamentando a per a, o que é o 0roso.
Nos capítulos seguintes descrevo os elementos do trabalho
com a dor original e os tipos de cuidados que você precisava te r
recebido em cada um . d os quatro primeiros éstágios de desenvol-
vimento . Para cada estágio apresento um exercício. Se você está t
atualmente fazendo terapia, por favor, consiga a aprovação do seu
terapeuta antes de começa r este trabalho . Pode ce:tlizá-lo sozi-
nho , usando sua identidade de adulco como a de um mágico ve-
••
lho e genúl , mas assim mesmo precisa ela aorovação do seu rera-
peu ca. •
Há também exercícios de medicação para cada estágio de d e-
senvolvimento. Nessas meditaçõe s, seu adulco poáe cuidar da sua
criança ferida. Isto é o melhor que posso oferecer sob a forma de
•4
livro. Voei: pode fazer os exer:cícios sozinho , mas é melh or fazer
com o apo io de um amigo compreensivo e dedi cado. Melhor ain a :.
é realiza r o trabalho com um grupo de apoio .
••
Estes exerócios nã o pretendem substituir nenhuma terapi a ~
ind ividual ou de grupo que você esteja fazendo. Não cem por
objetivo substi tuir qualquer grupo de 12 Passos a que você per- •
tença. Na verdade, eles servirão para reforça.csua terap ia ou seu •t
crabalho d,: 12 Passos. Se vocêé um adult o ví_rima de abu so st-
. xual ou de severa punição emoaonal , ou se roi diagnosricado co- 4
mo mentalmente doente , ou se tem urna história de doen men- t
tal na sua fa , a, a aJu a p rofissional é essenóal pára ,•ocê. Se
os exercícios p rovocárem em você emoções estranhas ou acab ru- ~
nhadoras, pare imediatamente. Procure a ajuda de um conselheir o (
qualificado antes de prosseguir.
Embora este trabalho possa ter grande força e tenha sido c)(- t
uemamente terapêutico para muitas pessoas, n ão é um tipo de ~
poç:io mágica de •'como fazer uma coisa' ·.
Outra advertência. Se você é um viciado ativo. está fora de ~
controle e não tem contato rom seus verdadeiros sentimentos , deve l
modificar seu componamento se quiser obter algum resultad o
com este trabalho. Os grupo s de 12 Passos são comp rovadamen te ~
os af:!encesmais eficazes na cura do v-ícjo.Encre para u1n deles
hoje mesm o. São o que há de meln or aro:umen te. O u ::balh o
que vou apresentar exige pelo men cs um ano d c-sobciedad~. No s
orimeiros dias da cura de um vício. especialmente um vício dr
inge,cão. suas emoções estão mui to cruas e não diferenciadas. Sãci


COMO
ACRIANÇA QUEVM EMVOCÊ
MARAVILHA FOIA!RIDA 9J

como la\ia quente no interior do vulcão. Se você explorar as expe-


riênci:as dolotosas da infância, corre o risco de ser soterrado por
das. A criança ferida, sem fronteiras e insaciável está no centro
do seu vício e \iocê bebe, usa drogas , é viciado em sexo, trabalho,
jogo e assim por diante exatamente para evicar,o ferimento espi-
ritual da criança que vive no seu íntimo. O d€dmo segundo pas-
so dos programas de 12 Pass9s fala de om ' '1desperra.r espiritual ''
como resultado dos Passos, E u.1na indicação clara a ·e qu e o vicio
não _passa de uma falência espiritual .
Entrar imediatamente oo âmago dos motivos que o levam
ao vício é corter o rísco de vol rnr an víci0.
Depois de dizer tudo isso, quero reiterar o que recomend o
no prólogo.Você deve fazer os exeráciosindicados no livr(;lse quiser
recuperar e defender a criança que vive no seu íntim o.
Uma observação final . Um dos meios pdos quai s ~s criança s
adultas evitam sua dor legícima é guardar rudo n.a cabeca. issc.•
significa ser obsessivosobre· tudo ,. analisando , discutin dci, lendo
e dispensando um e,>:cesso de enexgi&_na tencativa de entender
Iá uma hiscória sobre um quano COO] dua s port as.
certas coisas. 1--
Cada pona tem uma placa. A da primeira di z · 'CEU ". A da se-
gunda diz- "PALESTRA SOBRE O CÉU ' 1• As crian ças adultos co-
depencientes fazem fila na frenre da porta que diz ·'P ALESTR A
SOBRE Q CEll"!
A criança adulto cem gtande necessidade de entender as cois_as
porque seus pais etam também crianças adultos impre\ ·isíveis. As
vezes agiam como ~dultos com você: outras · agiam como criança s
egoístas e feridas. As vezes estavam nos seus vícios ; outras vezes,
não , O resultado foi uma confusão e uma grande imp.revisibili-
dade. Alguém disse cer.ca vez que crescer em uma família disfun-
cional é com o ''chegar no tinema no meio do filme e nunca en -
tender a historia". Eoitambém descrito como "crescer em um
campo de concentração''. Essa imprevisibilidade cria a ne cessida -
de cor.únua de tentar compreender as coisas.
,Limitar-se a viver dentro da própria cabeça é também urna
defesa do égo. Enguanco àlimentamos nossa obsessão por cena s
cpisasnão precisamos senci.r.Senti.t é abrir a torneira d o imens o
:reservatório de sentimentos congelados , P.tesos p,ela ver gonh a l.Õ·
xica da criança ferida.
Portanto, eu repito , você deve fazer o trabalho da dor orig i -
nal se quiser curar a sua cüançá ferida . O úni co jeito é enlleot a::
rotl'AAOlAR

essa dor. "Sem dor não há nenhum lucro", como dizemos nos
programas de 12 Passos.
, Na minha -opinião. a recupera ção do abandono . da negli-
gência e do abuso da infância é um rocesso não um evento.
~ ~te livro e Í3zeros exerácios não vai eliminar seus problemas da
D.Q.U.Ç,_J;!
ara o dia. Mas eu aranto ue você vai descobrir uma cs-
soinh a adorável dentro de você. Vai ouvir a raiva e a tristeza des-
,sa criança e vai ap render a comemorar a vid a com ela, com m ais
alegria, mai s criatividade e mais humor .

,•
-

CAPÍTUID 3
TRABALHO COM A DOR ORIGINAL

A nc:uroscc
é sempre um substicuto pa.r:t'o ,5ofrímcnto genuíno

- C. G. Jung

só com :l c:xpcciência.
Não se poâc rcso.lvct problcm11scom pa.lavr:is,m:1.S
não apenasa experiência corrctlva, ·mas revivendoo medo inicial ( uJs1c:n,
raiva).

- Alice Miller

Acredito que se a teoria na qual se baseia o trabalho com a dor ori-


ginal fosse melhor compreendida , provocaria uma revoluçãono tra-
tamento das neuroses em geral e -do componamento compulsivo/vi-
ciado em pankular. É comum o uso de cranqüilizantes por pacien-
tes que precisam desesperadamente fazer funcionar seus sentimen-
tos e sensações. No nosso centro de tratamento Life Plus, em Los
Angeles, alguns profissíohais da saúde mental rios criaram obstá •
culos por não compreenderem por que não queremos que nossos
pacientes tomem medicamentos. Acreditamos que o único mod o
de curar os vícios/compuJsõesé através do trabalho dos sentlmentos .
Nossa especütlida8e é o tratamento da co-dependência, que
...._
·tem suas raízes na vergonha tóxica - o sentimento internaliz ,a-
do de ser falho e deficiente tomo ser humano. No processo de
ihtetnalizàção, a vergonha, que devia ser um sinal saudável de
limites, transforma-se em um estado ameaçador de ser, podemos
dizer, em uma entidade. A pessoa atormentada pela vergonha
tóxica perde cdntato com seu eu autêntico. O resultado é a la-
mentação crônica pela perda desse eu . A descrição clínica de_sse
estado é a distimia ou depressão crônica moderada. No meu li-
vro Brads/iaw On: Healing che Shame Thac Binds i6u, mostr o
como a vergonha tóxica domina as emoções. Ela aprisiona nossos
sentimentos ·de forma que sernpré que sencirnos raiva, tristeza.
medo, ou até mesmo alegria, sentimos vergonha também . O mes-
mo acontece com as nossas necessidades e impulso s. Os pais nas

L
-
VOIJ'ANJW

famílias disfuncionais são também crianças adultas, suas crianças


feridas são extremamente C'a!entes. Sempre que sentem essa ca-
rência, o que acontece naturalment e, os pais criança-adultos fi.
cam zangados e a envergonham . Assim. sempre que a criança in -
terior ferida sente-se carente, sente vergonha tam bém . Durante
muito tempo, como adulto, eu me sentia envergonhado sempi:e
que precisava de ajuda . Finalmente , por ma.isadequado que seja
o contexto, a pessoa que tem a vergonha como base sente vergo-
nha sempre que pratica o sexo.
Quando nossos sentimentos são aprisionados pela vergonha.
nós deixamos de sentir. Essa i_!'!•en~ibilid:tde é :1 precondi çr..:>d~
rodos os vícios, porque só atr :t..,és do vfc.io a pessoa é capaz de
sentir. Por exempl o, um homem com depressão crônica que con-
segue chegar a executivo super-realizado por meio do vfcio do tra-
balho só pode sentir quando está trabalhando. Um alcoólatra ou
viciado em drogas sente-se nas alturas com as drogas que alteram
o estado de espírito. O viciado em comida tem uma sensação de
saciedade e bem-estar quando está com o estômago cheio. Cada
vício traz sensações maravilhosas ou evita as sensações doloros as.
O estado de espírito do viciado altera -a mágoa e a dor da criança
interior 'Cspiritualmeote ferida. O ferimenro espiritual infligido
pela vergonha tóxica é a ruptura do eu corno o eu . A pessoa se
sente dolorosamente diminuída aos próprios olhos e se transfor -
ma em um obJeto de autodesprezo.
Quandp a pessoa acredita que não pode ser ela mesma, dei-
xa de constituir uma unidade consigo mesma. A alteração exta-
siante provocada pelo vício dá uma sensação de bem-estar, de uni-
dade do cu. Sempre que a pessoa intoxicada pela vergonha iden-
tifica seussentimentos reais, sente-se envergonhada. Assim , para
evitar essa dor , ela procura se tornar insensível.
A josensibilidade à dor pode ser conseguida através de vá-
rias defesas do ego, que usamos quando a realidade toma -se in-
suportável. Algumas das defesas mais comuns ,são negação ('' não
está acontecendo de verdade") , repressão ("nunca aconteceu' '),
dissociação ("não me lembro do que aconteceu''), projeção ("está
acontecendo com você, não comigo"), conversão (" eu como ou
faço sexo quand~ percebo que vai acontecer'') e minimizaç ão
(' 'aconteceu mas não é im portante'') .
Basicamente, as nossas defesas do ego são mei.ospara nos dis-
rraü da dor que estamos sentind o.


- - - . -- . - - - ----- -- --

nAl!AlliOCOMA·ooa OIUGJNAL 97

PRIMAZIA DAS EMOÇÕES

Silvan Tomkins, p$Ícólogopesquisador, fez um a contribllição im-


portante -para a nossa compreensão do comportamento humano com
seu estudo sobre a primazia das.emoções ..Nossas emoi,:õessão for-
mas ds 9Çperiênciaimediata..Quando experimen tamos nossas emo-
_ções. estamos em contato direto com nossar~d adefísica , Nossas
emoções, sendo formas de energia. são física$, são expressaspdo cor•
po, antes mesmo cie nos consaenrizarmos completamente ddas .
Tomlcins distingue nove emoções inatas que são manifesta•
das po( diversas expressões faciais. Toda criança nasce com essas
expressões "pré-programadas" ·aos seus mú sculos fadais e as pes•
quisas têm demonstrado -que todos os povos e .todas as culrura s
do mundo as identificam da mesma maneira . São as comunica,
ções ~âsicas de que precisamos para a_sobrevivêndã biológica.
A medida que nos desenvolvemos, as emoções formam -o plano
básicodo.pensamento, da ação e da tomada de decisão. TomkiQs
vê as emoções como nossos motivadores biológicos inatos. Elas são
"a energia que nos movimenta" - como o combus tível que ali-
menta nossos carros. A emoção intensifi ca e amplia .nossa vidà. Sem
emoção nada impona realmente, com emoção tudo pode ser
unporrante.
Segundo a teoria de Tomkins, os seis motivado.rés primários
são: interesse, prazer, suxpresa, tr1steza, medo e raiva. Para ele,
a vergonha é uma emoção secundária, experimentada no n1vel
primitivo como uma ínterrupçã _o.. Caracterizada por uma exposi-
ção brusca e inesperada, ela faz parar ou Jimicao processo natural.
A reação negativa do olfato e do paladar são re~postas de-
fensivas. Quando sentimos um çheiro desagradável, essa reação
hos faz i::rguer o lábio superior e o naru, pondo a cabeça para
trás . Qu:mdo pomos na boca ou engolimos substâncias nocivas,
a reação negativa do paladar nos faz cuspir ou vomitar. Como os
noss-osoutros reflexos, essas duas reações desenvolveram-se bjo-
logicamente para nos proteger contra sub stâncias perigosas, mas
nós -as usamos também para exprimir uma aversão não física.
·Simplificandó, nossasemoções são osnossos poderes mais fun.
damentais. Seu papel é guardar nossas nece~dades básicas. Quando
uma delas é ameaçada, nossa energia e.mocional dá o alarme .

98

A maioria das pessoas tem permissão para sentir alegria, in -


teresse ou surpresa, as emoções positivas de iomkin s. Pelo me-
nos, nos dizem que essas são emoções "boas". Porém, na verda-
de, quando o medo, a tristeza, ou a raiva são reprimidos, nossa
capacidade para sentir entusiasmo, interesse e curiosidade é tam -
bém inibida. Uma vez que foi isso que aconteceu aos no ssos pais,
eles não podem ,permitir que tenhamos esses sentime nto s. As
crianças são envergonhadas quando se entu siasmam demais ou
quando são muito curiosas e inquisitivas .
O modelo de terapia de Harvey Jaclcins, chamad o Aconse-
lham ento d e Reavaliação, é sernel h::!'!:: ac tr:tb:.L.11::;
.:om a do,
original. Jackins sugere que quando a emoção que acompanha
uma experiência traumáti ca é bloqueada, a mente não pode ava-
liar ou integrar a experiência. Quando a energia emocional blo-
queia a solução de um trauma, a mente perde uma pane da su a
cap~cidade de funcionamento . Atravé s dos anos, a mente vai di -
minuindo cada vez mais , porque o bloqueio da energia emocio -
nal é intensificado cada vez que ocoue uma aperiência similar.
Uma experiência nova, que seja de algum modo semelhante ao
trauma original , provoca uma intensidade de sentiment o despr o-
porcional ao fato atuaj . Eu chamei esse processo de regressão es-
pontânea ·oo tempo. E como o fam oso cão de Pavlov que ouvia
um sino tocar sempre que era alimentado , Depois de cerco tem-
po, cada vez que ouvia o sino, o cão salivava, mesm o sem nenhum
alimento por perto. Do mesmo modo, podemos sentir uma pro-
funda tristeza quando ouvimos uma canção de Natal que deto -
na a lembrança de uma cena do passad o, quando o pai bêbado
estragou o Natal da familia .
, A m_ança interior ferida está repleta de energia não resolvi-
da resultante da tristeza dos traumas da infância . Um do s moti-
vos pelos quais sentimos tristeza é para completar acontecimen-
tos dolorosos do passado, para que pos samos contar com nossa
energia no presente. Quando não nos permitem lamentar algu-
ma coisa, a energia se congela ,
Uma das regras das famílias disfuncionais é a regra do n ão
sentir. Essa regra proíbe a criança interior até mesmo de saber
o que está sentind o. Outra regra é a do não fala.e, que pro íbe a
expressão das emoçõe s. Em algun s casos, pode significar que só
podem ser expressas certas emoções . As regras do não falar dife-
rem de família para família .


1,'RAMLHO
COMADORORIGINAL 99

Na minha família eram proibidas todas as emoções, oc(eto


a culpa. Emoções eram coosider.i.das fraquezas . Diziam-me fre-
qüentemente:: ''Não seja tão emotivo''. Minha familia não era
diferentedas milharesde ourrasfamílias do Ocidente, sobrecar-
regadas com o subproduto · de 300 anos de ''racio nalism o''. Ra-
cionaJismo é a crença na supremacia da razão. Ser razoável é ser
humano, en qua nt o que ser emotivo é ser menos do que humano .
A repressão e a vergonha das emoções são a regra da maioria das
famílias do mundo oçidental.

Emoções reprimidas

Uma vez que as emoções são energia , elas clamam por expressão.
,As crianças das fàmílias d.isfuncionais geraJmente não rêm alia-
dos , ninguém com quem possam expressar suas emoçõe s. Por is-
so. elas as expressamda única maneiraque conhecem-
repe t indo-as nos outr os ou nelas mesmas, Quan to maiscedo é
feira a repressão, mais destrutivas são as emoções reprimida s. Es-
sas emoç ões oão apressas e não resolvidas são o que eu chamo
de "dor original''. O trabalho com a dororiginal ronsisre em ceex-
P-erimenrar css~es traumas e ,em expressar as emoções reprimidas.
Uma vez realizado isso, a pessoa não precisa mais repet ir nos ou -
uos nem em si mesma as emoções reprimidas .
Atf recentemente, haviapoucas provas científicas a favor do
uabalho da dor original Freud escreveu extensivamenre sobre re-
pressão, dissociação e transferência , como as defesas primárias do
ego. Ele ensina que, uma vez formadas, essas defesas funcionam
automática e inconscientemente . Entretanto, Freud nã o explica
exatamente como funciona esse mecanismo. Por .exemplo, o que
a.contece no nosso cérebro quando reprimimos nossas emoções
dolorosas?
Os terapeutas do corpo físico conseguíram descreveralgun s
d os modos de funcionamento desses me canismos . Sabemos, p or
exemplo, ql}e uma emoção pode ser reprimida com a tensão dos
músculos. E comum as pessoas rilharem os dcnres ou tensiona-
rem os músculos da mandíbula quando ficam zangadas. A.semu -
_ ç.Qt.Lpodem também ser reprimidas prendendo a respiração . A
resoiração superficial é um meio comum de evitar a d or emocional.
Podemos também reprimir nossas emoções usando a fan rn-

J •

- --- ------=- ---- - -- - -- --·


100

s.ia.Por exemplo, passei :grande pane da minha vida com um medo


quase fóbico do sentimento de raiva. Minha fantasia sobre esse
sentimento era de uma rejeição catastrófica e/ou castigo. Essa fan.
tasia mobilizava a tensão dos músculos e a respiração superficial .

O SOFRIMENTOE O CÉREBRO

Acualmcnt e, começamos a compreender as dd'esas d o egc, te n-


do como base as pesquisas sobre a química e a fisiologia do cére-
bro. A liberação das defesas do ego nos põe em conexão com nossas
primeiras emoções. O trabalho com a dor original efetua a cura,
permitindo que essas emoções do passado , não resolvidas, sejam
sentidas agora. Por que a cura?
O pesquisador Paul D. Maclean apresentou um modelo do
cérebro que nos ajuda a compree nder como somos afetados pelo
trauma. Maclean descreve o cérebro como uma "trí ade " , ou com-
posto de três partes . Esses três cérebros dentro do nosso cérebro
são nossa-herança evolutiva. O cérebro mais antigo, ou mais pri -
mitivo dentro do nosso cérebro, é o cérebro réptil ou visceral. Es-
se cérebro contém nossa estratégia mais primitiva para segurança
e sobrevivência, a repetição. Um lagarto. por exemplo , tem uma
vida baseante simples. Seu dia consiste em sair pua o trabalho
' todas as manhãs, esperando comer algumas moscas e mosquitos
sem ser comido. Se ele encontra uma boa trilha entre a relva e
as rochas, ele repere esse padrão até morrer. Essa repetição tem
valor de sobrevivência. O cérebrQ visceral é responsável também
pela manutenção das funções físicas automáticas do nosso corpo,
como respirar. Gosto de dizer que lagartos aparecem realmente
quando casamos pela primeira vez e nos defrontamos com os há-
bitos de toda uma vida de outra pessoa.
O cérebro seguinte denuo do nosso cérebro é o paleomamí -
fero, ou cérebro do senci.menco . Isto é chamado tecnicamente de
siste1na límbico. Quando os mamíferos de sangue quente entra-
ram no cenário da evolução, nasceu a energia emocional . O siste-
ma lím bico abdga senúmentos de entu siasmo , prazer, raiva, me-
do, tristeza, alegria, vergonha, de nojo e a reação negativa a um
chc.iro desagrad ável.
11lA8AlHO
OOMADOROIUGINAl 101

O sistema cerebral mais sofisticado dentro do nosso cére-


bro é o neocónex , ou cérebro pensance. Esse cérebro foi o últi-
mo a evoluir - há mais de dois milhões de anos mais ou me-
nos. Ele nos dá-a capacidade de raciocinar, de usar a linguagem,
de planejar com antecedência, de resolver problemas complexos
e assim por diante.
Segundo Maclean, esses uês sistem as são independentes,
mas também trabalham juntos para manter o equilíbrio de to-
do o cérebro. O equilíbrio do sistema cerebral é governado pela
necessidade de manter os sofrimentos no nível mínimo .
Os sofrimento~ ocasionais à a viàa nãu sã.upr oolemas pal a
o cérebro. Ele usa a·expressão das emoções para manter o equilí-
brio, Quando nosso sofrimento chega a um certo nível, explodi-
mos de raiva, choramos de 1:ristcza, ou transpiramos e trememos
àe medo. Os cientistas demonstraram que as lágrimas removem
os harmónios escressantesque se formam durante uma crise emo-
cional. O cérebro naturalmente procura o equilíbrio por meio
da expressão das emoções, a não ser que tenha aprendido a
inibi -las.
Crianças de famílias disfuncionais aprendem a inibir a ex-
pressão da emoção de três formas. Primeiro, quando não têm
o reflexo ou a resposta necessária, literalmente não são vistas.
Segundo, não têm modelos saudáveis para denominar e expres-
sar as emoções. E terceiro, são envergonhadas e/ou punidas por
expressar emoções. As crianças de famílias disfun cionais geral-
mente ouvem coisas como: 1 'Eu vou te dar um mocivo para
. chorar' '. "Se levantar ouua vez a voz para mim, eu arrebento
sua cabeça''. Geralmente são caságadas fisicamente por demons-
trar medo , raiva ou ttisteza.
Porém, quando as emQÇõessãoinibidas.ou quandoa ten-
são se torna a~~adora ç crônica. o cérebro tem dificuldade pa-
ra manter o equilíbrio. Quando ocorre urn a censão traumática,
o sistema do cérebro adota medidas extraordinárias para mante r
,o equilíbrio. Essas medidas extraordinárias são asdefesas do ego.

A marca do .trauma iniàal

Quanto mais cedo as emoções forem inibidas , mait.Jl(O.furui9


_é_
o dano causado. São cada vez mais numerosas as provas de que


j
102 VOil'AAOLAR

a s~qüência evolutiva da formação do cérebro é acompanhada pela


seqüência da sua maturação . Os neurociencistas demonstraram
que o cérebro visceral predomina nos estág.1osmais adiantados
da gravidez e no pcimeit:o período pós-natal.
O sistema do céi:ebro límbico começa a funcionar durante
os primeiros ~ejsmeses de vida. O cérebro emocional permiteque
se efetue a precoce união importante.
O neocórtex está ainda em fase de desenvolvimento nos pri-
meiros anos de vida, e o cérebro pensante precisa de ambiente
e esúmulo adequados a fim de se desenvolve( normal e saudavel-
mente. Na sua pesquisa sobre o crescimenco cognitivo d-a cria1,-
ça, Píaget só encontrou o verdadeiro pensamento lógico mais ou
menos aos seis ou sete anos de idade. (Embora algumas das con-
clusões de Piaget tenham sido questi.ooadas, s.ete anos parece ser
um marco importante.)
Quando pensamos no faro de que o cérebro visceral é res-
ponsável pelos problemas de sobrevivência e govetnado pela re-
petição, a idéia de marca permanente fa-z sentido .. O neurocien-
cista Robert Isaacson argumenta que é muito difícil desentaizar
as 1embr;tnças traumáticas, porque são lembranças de tesposras
cte preseryaç~o_da vida . Uma vez que o cérebro visteral aprende
e tem memória, mas çli:fici1menceesquece, ele imprime o tiau-
ma com uma permanênda que vai dominar seu futu(o. Seja ~o
,gue for gue ca criança venha a sobreviver nos primeiros anos de
v.ida,uma época de intensa vulnerabilidade será registr.adanameo-
1 te como benefícios de sobrevivência .

A repetição compulsiva

Grande pai;te dessa pesquisa neurológica corrobora o que qual-


quer pskoterapeuta, desde Freud ate hoje , sabe em primeira mão,
ou seja, que os neuróticos têm compulsão para a repetição .
Há também uma explicação neurológica para as respostas ex-
tre.mamente reativas que mencionei antes. Os estudiosos elo cére-
bro sugerem que impressões neuronais ampliadas, de experiên-
cias estressantes , provocam a distorção da reação do organismo
do adulto aos esT!ímulos. Experiências dolorosas de longa dura-
ção grav.un novos circuitos no cétebro, preparando-o assim para
reconhecer como cada vez mais dolorosos cercos estímµJos que
ouua, pessoa não chega a notar .

nABAOIO ADORORJGINAI.
OOM 103

Isto corrobora a teoria de que uma vez estabelecido o mate-


rial central, na infância, ele atua como um filtro supersensível
para moldar eventos subseqüentes . .Quando um adulto com uma
criança. ferida experimenta umasitua&ão similar a um aconteci-
mento doloroso protótipo. a resposta original também é detona-
da. HarvcyJackins descreve esse processo como um gravador com
o botão enguiçado. Uma coisa trivial ou inócua provoca uma rea-
ção de intensa emoção. Este é o caso de responder ao que não
existe no exterior porque existe ainda no interior,
Estou escrevendoisco cm um navio de cn~zeiro,visitando :i.s
capitais da Eu(Opa. Quando chegamos ao navre , na França, d01s
dias atrás, minha filha sugeriu que devíamos tomar o uem para
Paris, em vez de irmos no ônibus da excursão. que demora mais
duas horas. Minha filha teve poucos traumas na infância. Ela é es-
.pontânea, curiosa e adora aventura. A sugestão dela me fez mer-
gulhar em ruminações obsessivas.Acordeiváriasvezesnaquela ooj.
te, imaginando catástrofes. "E se o trem descarrilasse?'' ' 'E se o
trem se arr.asassee o navio pa.russe sem nós?' ' A simples sugesrão
da minha filha provocou uma imensa reação cm mim. Eu fui trau-
macicarnenteabandonado por meu pai. quando era criança.Agora,
meus pensamentos obsessivos centralizavam-se em não chegar a
tempo para tomar o navio - o medo de ser deixado param s.

AS DEFESAS DO .EGO E O "PORTÃO" DO CÉREBRO

O trabalho com a dor original apóia-se oa hipótese de que a dor


emocional do início da vida _~tá insensibilizada e inibid a. Nós
a repetimospor que elanunca foi usada.N~o pode ser novamenre
rcpt_esenradaporque nosso mecanismo de inibição (defesasdo ego)
nos impede de:saberque essa dor emocionalexiste,
· 'Você não pode saber o que não sabe'' é uma frase que uso
na terapia. Nós repetimos os sentimentos para os outros, repeti-
mos em nós mesmos, ou nós os projetamos oo~out ros. Uma vez
que não podemos senti-los, e uma vez que são um problema nac
resolvido, precisam ser exprêssos.Reperit..paraos outros, para nós
wcsmos ou Q..tQjetaresses senúmcntos são os únicos meios gue
a criança ferida tem para expressá-los, Porém, reperir para os ou-
IM

tros, para si mesma ou projetar não são soluções permanentes .


Minha compulsão (problema central da criança ferida) não desa -
pareceu quando eu deixei de beber . Eu simplesmente a transfor -
mei em compulsão para o trabalho .
Até eu realizar o trabalho com a dor original da criança feri-
da que vivia cm mim, continuei com o comporta:mcnto compul-
sivo. sempre procu ran do meios de alterar meu estado de espírito .
As defesas do meu ego continuavam a inibir as minhas emoções .
Somente dez anos atrás cu descobri os padrões principais da co-
dependência, do incesto físico e não -físico e do alcoolismo que
ào m1nou várias gerações àa min ha íanúi.iii. r.nqu anco não dcsi.sr.;
das minhas ilusões e negações sobre a minha família e a minha
infância , não consegui realizar meu trabalho com a dor original .
O tcabalho de pesquisa de Xonald Mclzack pode ajudar a ocpli-
caçãodo funcionamento das defesas do ego. Melzack descobriu uma
resposta biológica adaptativa para a ini bição da dor , que de cha-
mou de " portão neural" . Melzack diz que os crês sistemas separa-
dos do cérebro, dentro do cérebro tripan ido, p ossuem fibras in-
terligadas que executam uma função facilitadora e de inibição . O
portão neuronial é o meio pelo qual é controlada a informação entre
os rrês sistemas . O que chamamos de repressão p ode ocorrer pri-
meiramente rio portão enoe o cérebro pensante e o cérebro sensitivo.

CÉREJIROTRIPARTID
O

-.
0 ff rtbrv puilll,Jlk
'-:h:atJ ·· pc:intc>
'' ,-n
Wcqtiat • tm pta.da
-.i.

P>\UOMAMlrao
Sênotl.lUmbko
(°""'9 e..acl onaJ)
TRABALHO
COMA DORORIGINAL 105

Simplificando , quando a dor emocional no sistema límbico che-


ga ao auge, um mecanismo automático fecha o portão que dá
para o neocónex. É como se alguém fechasse uma pona para evi-
tar o barulho vindo de outra sala.
Para Freud, as defesas primárias do ego são integradas em
defesas secundárias mais sofisticadas à medida que o ser humano
amadurece. Essas defesas secundárias adquirem uma qualidade
pensante, como por exemplo, racionalização , análise, explicação
e minimização.
Um trabalho recente de R. L. lsaacson sobre o sistema üm-
bico conobora esta teona. lsaacson afirma que o sistema de por-
tões do neocórtex (cérebro pensante) funciona "para superar os
hábitos e lembranças do passado ... o neocónoc preocupa-se pro-
fundamente com a sup ressão do passado" . Es~es hábitos e lem -
branças incluem os sulcosprofundos (u ilhas neuroniais ) criados
pelo excesso de tensão e do trauma . Nosso cérebro pensante po-
de assim funcionar sem ser perturbado pelo barulho e pelos si-
nais gerados no nosso mundo interior .
Mas esses sinais não desaparecem. Os pesquisadores aven-
tam a teoria de que eles concinu;tm a se movimentar aos circui-
tos fechados das fibras nervosas, denuo do sistema límbico .
...D.t.ss.a.m.ao.eiu.Js...d.tfrllido ego passam ao largo das ten-
sõçs e da dor, mas a tensão e a dor permanecem. São regisuadas
ao nível subcortical como um desequilíbri o, uma seqüência de
ação abortada, esperando para set libenada e integrada . A ener-
gia do trauma original permanece como uma tempestade elétri -
ca que faz ecoar a tensão por todo o sistema biológico . As pes-
soas com vidas adultas a arentemente r cion · odçm estarle-
vando também uma vidade remvestades emocionais.Suas tem -
pestades continuam porque suaLdor origina! não foi resolvida.

O TRABALHO COM A DOR ORIGINAL

O trabalho com a dor original consiste em experimentar rea1mencc:


.95_s,_~_mentos originais re.prirnidos. Chamo a isso de processo
de descoberta . É a única coisa capaz de nos proporciona r ''uma
mudança de segunda ordem", a mudança profunda que resolve
106 vomN:>LAR

realmente os sentimentos. Na mudança de primeira ordem, tro-


camos uma compulsão por outra. Na segunda mudança, deixa-
mos de ser compulsivos. Era o que eu precisava para acabar com
meu componamento compulsivo.Agia compuJsivamenteporque
minha criança interior, solitária e ferida, nunca havia descarrega-
do seu sofrimento original. Eu fiz o prograrm...dos..12&sso e_
controlei meu alcooHsmo, mas continuei a agir compulsivamen-
te. Eu...Y.!Yta
,deguo elaminha cabeça, como ucn_profe~sor, _t_eólogQ
~ terapeuta. mas continuava com a compulsão extero.amcnte.Eu
liª-..todosos liyros que me chegavam às mãos e discutia meus121º:...
bk rn2S _n:issew ~s de cera.pia, m~ CG!: ~ :::.1:l.\':! com a minha com-
,eulsão.Procurei aprender a conscientização elevada, ap,rendi os
mç_tod,9s do~ aqygQS..._xamãs,aprendi energia curati.ll.csrudeiQ
Curso de Milagres. meditei e rezei (às vezes durarue horas.)Jna.L
concinuaw com a minha compulsão. E~_yo_ _até_com a_
conscientiza ção de alto nível. O que não sabia,...c.ra_q.ur eu preci-
g~ ab~~at, a solidão c_!ome_g_garotinhode coração panído e a
sua dor nãQ r~~olvida pelo pai perdido, pela família_µer..di.ci.u
J.!elainfância perdida . Eu tinha de abraçar a minhuiQr _o1iginaL
Esse é o sofrimento verdadeiro do qual fala Carl Jung .
·-
A dor original como trabalho de lamentação

A boa nockia é que o trabalho com a dor original compreende


.o processo de cura da natureza . A dor lamentada é a sensação
de cura._Ficaremos curados naturalmente se puderm os lamentar
nossa perda.
Essa lamenta ão envolve a · ama com · Jecados sentimentos
humanos. A do1 ori inal é o acúmuJo de conflii:osnão resolvi-
_dos, cuja energia cresceu como uma bola de neye atravésdos
anos. A criança interior ferida está congelada porque não conse-
gue realizar seu trabalho de lamentação. Jodas as suas emoções
estão a risionadas na ver ' · . Essa vergonha é o resul-
ta o da ruptura da nossa primeira •'ponte interpessoal''. Acre-
ditamos que não podíamos confiar nas primeiras pessoas res-
ponsáveis por nós. Na verdade, acredicamos que não tínhamo s
direiro de depender de ninguém . _O isolamento e o medo~
ck.P-ender de alguém são as duas conseqüências principaisd3,_
~ganha tóxica.
llABA1HOCX>M
A 001 OIJGINAL 107

Restauração da ponte interpessoal

Para curar nossas emoções intoxi cadas pela vergonha. temosde


sair do esconderijo e confiar cm alguém.Neste livro, csroupe-
.A_indo a você pm._çon.fiarem mime confia.emz vocêmesma. Pa-
ra que a criança ferida saia do escondedjo . eia precisater certeza
,de que você vai estar ali pa,:a ela. S.ua,,criancaferida precisa tam -
bém de um aliado que não a envergonhe e que a apóie para tes-
~erq_unhar n abandono . :l neglittência . o abu~ n ~"' confusão. Esse~
são os primeiros elementos essenciais para o trabalho com a dor
original .
. Espero que você tenha autoconfiança suficiente para ser o
aliado da sua criança interior no trabalho com a dor , O fato é
que você não pode confiar absolutamente em mim ou em outra
pessoa qualquer. Quando a coisa ficar preta , eu provavelmence
vou querer salvar a minha pele . M~ç pode confia r em você
mesmü. ]o Courdet disse maravilhosamente em Advice from a
Fa.iluce , "De todas as pessoas que você conhe ce na vida. você é
a única a quem nunca vai abandonar e a única que nun ca vai
, per d er."

Coaoborando seu abuso

Acredite em mim, grande parte do que lhe disseram que era cui-
dado paterno ou materno era, na verdade , abuso. Seyocêconti-
nua inclinado a minimizar e/ou racionalizar os modos pelos quais
foi~vergonhado, ignorado ou usado pua satisfazer seus pais, deve
agora aceitar o fato de QUe essascoisas.na verdade.feriramsua
alma.Alguns de vocês foram também vítimas de agressão física,
sexual ou emocional. Por que esses abusos precisam ser corrobo-
cados?_E1t_tanhamente1 quanto mais você era agredido, mais você
pcnsa~ue era mau e mais idealizava seuspais Esse é o resulta•
do do cio da fantasia que citei antes. Todas às crianças idealizam
os pais, esse é o modo pelo qual garantem a própria sobrevivên-
cia. Contudo, quando a crianç1 agredida idealiza ospais, c:lade-
v.c_acreditarque é a única responsável pelo ab.usa..de que é 1'íti.-
ma. ''Eles me batem porque sou uma criança malvada, eles fa-


1ml rol!A AOlAR

zem sexo comigo porque sou muit o mau, eles gritam comigopor:
gue sou desobediente. Tudo tem a ver comigQ._n_ãQ com eles -
elessãolegais.'' Essa idealização dos pais é o centro da defesa do
ego e deve ser destruída. Seus pais não eram maus, eram apenas
crianças feridas. Imagine ter como pai uma criança de três anos
que pesa 100 quilos, que tem cinco vezes o seu tamanho ou im a-

-....
.......
.--
100 quilo s
.¼anos

"

1
Papai Você Mamãe
1

gine sua mãe com três anos, quatro vezes o seu tamanho. Sua
criança interior pode imaginar o quadro . Seus pais fizeram o me- \
lhor que sabiam, mas isso não pode ser compreendido por um a
criança de três anos.
COMA DOROIJGINAl
TRABAIHO 109

Choque e depressão

.S_u.,ocê está chocado co11Ltudo isso. ótimo. porque o choque é


o começo da lamenra_ção._Depoiulo choque em a de ressão e
então, a negação. A neg~Ç!Ofaz a ir as defesas do seu e o. Geral-
mente aparece sob a forma de negociação. Nós dizemos: "Bem,
na verdade não foi tão ruim . Eu tinha três quartos de um tet o
sobre a minha cabeça.' '
,Por favor, acredite . Foipéssi • Ser ferido es iritualmeotc
porque seus pa1s nao pcrrnnem que vocesc:Jaquem e. e a pior
. - . .,. • i ., .

coisa que yode acontecetAposto que quanJo você ficava zanga-


do , eles diziam: ' :Nunca mais levante a voz para mim!·' Dessa
forma..yoc.ê___aprendcu mesmo e quecc;r-
que não era ccaa.E.er_y_ocê
tamerue n,ão era ceno fim zangado. O mesmo se aplica ao me-
do, à tristeza e à alegria. Não era ceno não gostar do reverendo
Herlcimer, do rabino Kradow ou do padre Wakh . Não era cen o
pensar o ql.le...Y~ê_estava p.cnsmd9._q11cre1.Q.guevqcê queria , sentir
o que você senti a ou imaginaro que imagw1va . As vezes não era
certo ver o que você via ou sentir o cheiro que estava sentindo .
Não era certo ser diference ou ser você. Aceitar t' com reende r
.P. que estou dizendoé validar e legitim r seu fenmento espin-
tual , que está ao centro de toda criança interior ferida .

Raiva
O sentimento seguinte que geralmente apaieccno uabaJho da
dor oáginal é a raiva. uma.r~__s_p__QS_talegicima
ao ferimento espiri-
tual. Embora seus pais provavelmente tenham feito o melhor pos-
sível, nesse trabalho as intenções deles nunca são relevantes. O
que imp ona é aquilo que aconteceurealmente. Imagine que eles
estavam saindo de carro, de marcha à ré e acidentalmente passa-
ram por cima da sua perna. Você claudicou durante todos esses
anos sem saber por quê. Você tem direito de saber o que aconte-
ceu, não tem? Tem direito de sentir-se ferido e magoado , não tem ?
A resposta às duas perguntas é, evidentemente, sim. É certo você
ficar zangado, mesmo que o que fizeram não renha sido inten -
cional . Na verdade. você_cem de ficar zangado se quiser curar a
criança ferida. Não quero dizer que deve gritar e esbravejar (em-
bora seja válido). Basta ficar zangado com um golpe suj o. Eu nem
110 VOIIAADW

mesmo consideromeus pais responsáveispelo que me aconteceu.


Eu sei que eles fizeram o mc:lhor que podiam fazer dois adultos
crianças feridas . Mas sei também que fui ferido profundamente
com conseqüências que prejudicaram a minha vida. Pessoalmente,
considero que todos nós tivemos uma parte nisso. Estou dizendo
que somos todos responsáveis e que devemos parar o que esta-
mos fazendo para nós mesmos e para os ourros. Não vou tolerar
a repetição da disfunção evidente e do abuso que dominaram mi-
nha família.

Dor e tristeza

Depois da raiva vêm a dor e a tristeza . Se fomos vítimas, deve-


mos lamentar essa traição. Devemos lament ar também o que po-
deria ter sido - nossos sonhos e aspirações . Devemos lament ar
as exigências de desenvolvimento não atendidas .

Remorso

A dor e a tristeza são quase sempre acompanhadas pe lo remors o.


Dizem os: •'S.t!ao menos as coisas tivessem sido diferences, talvez
eu tivesse feito algo diferente . Talvez se tivesse amado mais meu
pai e dit o o quanto precisava dele., ele não tivesse me abandona-
do''. Quando trabalhei com vítimas de incesto e violência física,
eu mal odia acreditar uando elas diziam ue se consideravam
_culpadas e sentiam remorso pela violência sofrida. Quando la-
mentamos a morte de alguém, o remors o é, às vezes, mais rele-
vante. Por exemplo, podemos desejar termos passado mais tem-
po com a pessoa. Mas quando lamentamos o abandono da in-
fância, devemos mostrar à criança ferida que vive em nós que ela
não odia ter feito nada ara mu ar as coisas Su do é.por tu•
do que aconteceu a da, não por causa dela.

Vergonha tóxica e solidão

Os mais profundos sentimentos são os de vergonha e de solidão.


Ficamos en er onhados uando nos abandonam . Sentimo s que
llAMlHO COMA 001 ORIGINAI. UI

somos maus ÇQ_mo se esrivésse os co1'\t2roinados.E ~vergo-


Wli..lcvaà solidão. Uma vez ue a crian a interior se sente falha
,e deficiente, tem de encobrir o verdadeiro cu sob o cu falso. Co-
meça, então, a se identificar com esse eu falso. O cu verdadeiro
fica sozinho e isolado. Estaúltimaparte dos sentimentos doloro-
sos é a maisdiffcil do processodç Jamenta5ão. ''A única salda
..f_passandopor ela'', dizemos cm terapia. E difícil permanecer
ao nível da vergonha e da solidão.miLq11ando abraçamos esses
scnúmcnros, saímos do outro lado. Encontramos o cu que estava
.escondido. Escondendo-o dos outros..nóso e~condíamos de nós
mesmos. Abraçando nossa ve1gonha e nossa solidão._c91JttÇam, os
a cocar nosso mais verdadçir9 cu,_

Sentindo os sentimentos
Todos essessentimentos devem ser sentidos. Precisamosbater o
pé e esbravejar, solucar e chorar. tran~pirare tremer. Tudo isso
leva t_e.mp_.o
..i.Lrec;JJpe.taçãsulos
scntimcru:Q.S...é....J.u:proccss
o._nã.o
um evento. Potém. a melhora é quase imediata. O contato com
a criançainterior, o fato dela saber que alguém está ali e çtue não
Rrccisa mais ficar sozinha, é cheiode alegriae rtaz.um alivia imc--
_diaw.. O tempo da lamentação varia de pessoa para pessoa. Nin-
guém pode determinar exatamente a duração desse:processo._L\
chaveé_sabcr como abaixar as defesas.Na verdade, não podemos
ficar sem nossas defesaso tempo todo. Certos lugares e cenas pes-
soasnão são confiáveispara o trabalho da lamencação.Ji.yocêvai
Qrccisarde um descanso, de tempos cm tempos.
Assim, a seqüência ou os estágios da lamentação vão e vêm.
Vocêpode estar na validação e três dias depois, na minimização.
Maspode continuar a avançar através dessesciclos. O importante
é sentir os sentimentos. Vocênão egde curar o que não podesentir!
Quando você experimenta o antigo sentimento e fica ao lado da
sua criança interior. o trabalho de cura ocone naturalmente. E
impo~rtantcmanter-se em segurança enquanto realiza essetraba-
lho. E sempre melhor fazer com um companheiro ou em grupo.
Por favor,preste atenção no aviso que eu dei no início da segun-
da parte deste livro. Procure a companhia dt: uma pessoa com
quem possa falar.depois de fazer este trabalho~
Ey levei um tempo enorme para ser aprisionado e congelado. e

•I
VOW.NJI.Al

vailevar tempo para conseguir a cura. Se você se sentir arrasado,


pare imediatamente. Espere que seja integrado o que já fez. Se
o sentimento persistir, procure a a:juda de um terapeuta especia-
lizado .

,

CAPÍTUW4
RES.GATANDO
SEU EU DOS PRIMEIROS
ANOS DE VIDA

A mulher. oa pessoa da oossa mie, é o primeiro ser com o qual entramos


cm comaro..• Tudo começa com uma verdadeira fusâo do ser... a crianç.
é um:i. éx.ccrisicida rriãcsem •liohas divisórias vMvcis, Existe uma mísr1c2
da participação. um fluxopsíquiro da mãe pll!'ao filho e do filho par.i.a mãr

- K:irl Scetn

Onde a mãe não tem conta10suficicnrccom o própdo tor:po, ela não po-
de dar ao filho a união oeccssáriap:ua tr;ulsmitir a r.ic confianp nos pró-
prios instintos, 9 filho não pode d~ns,r dentro ciocór:pode 12,nem mai,
tarde, oo próprio corpo.

- l\1arioa Woodm:rn

CRIANÇARECÉM-NASCIDA

(UNIÃO SIMBIÓTICA)

EU SOJJ VOCÊ

IDAD
E! 0-9MESE
S
DEDESENVOLVIMENTO:
KlL\RIDADE CÓNFlANÇA X.DESCO
BÁSICA NFIA
NÇ.~
DOEGO: ESPERA?\ÇA
f-üRÇA
POD
ER: SER
PROBLEMAS
DEREUO0NAMEN'ID
; N.-\ROSISM0
SAUDÁVEL
- C0-DEPTh'DÉNO
A
114

ÍNDICE DE SUSPEITA•

Responda sim ou não às perguntas seguintes. Depois de ler cada


pergunta, espere e entre cm contato com o que está sentindo.
Se sencic uma fone energia para o sim, responda sim - para o
não, responda não. Se resp onder sim a qualquer pergunta, pode
suspeitar qu.e sua criança interior maravilhosa foi ferida. Há vá-
rios graus de ferimento. Você está em algum lugar em uma esca-
la de um a cem. Quanto maior o número de perguntas às quais
você stnre que deve dizer sim, mais profundo é o ferimento da
criança que vive no seu íntimo.
1. Você tem ou teve no passado algum vício ingescivo(comer
demais, beber demais ou usar drogas)? Sim ........ Não ....... .
2. Tem dificuldade pata confi:i.r na sua habilidade de atender
suas necessidades? Acha que precisa encontrar alguém para
at·endê-las? Sim ....... . Não ....... .
3. Acha difícil confia r nas pessoas? Acha que deve estar no con-
trole Q tempo todo? Sim ....... . Não ....... .
4. Deixa dJ reconhecer os sir)ais de necessidades -físicas do seu
corpo? Por·exemplo, come quandó não tem fome? Ou nunca
· do.r s·1m........ N-ao....... .
.. e· que esta; cansa
perce b
5. Negligencia suas necessidades físicas? Ignora a boa nutrição
ou não faz exercício suficiente? Procura o médico ou o den-
.
t1sta so; em uma emergenc1a
• s·
. i. 1m... ..... N-ao ...... ..

6. Sente medo de ser abandonado/a? Sente-se óu já se sentiu


desesperado/acom o fim de um relacionamento? Sim ....... .
Não,...... .
7. Jápensou em suicídio por causa do fim de urn rdacionamento
amoroso (seu companheiro/a o/a abandonou , seu marido/sua
mulher pediu divórcio)? Sim ........ Não ........
8. Sente com freqüência que não se encaixa ou não pertence a

~Tirei~ idéja do ' 'lodice de suspcíta" do caba.lho pioneiro do falecido Hugh MissiJdj.
ne no seu livro clássico l'óurlrrner Child of chr:Fase,O dr. Miuilàinc cr1 .meu amigo
e me cncora1ou mwco p:ua pr0$segúfr neste crabalho.


RESGATANDO
SEUFUDOSPRIMÉIROS
ANOSDEVIDA 11)

um lugar? Sente que as pessoas não o/a recebem bem ou que


. sua presença.:> s·1m........ N-ao....... 1
- deseJam
nao
9. Em situações sociais, tenta •ficar invisível para que ninguém
· · s·
note sua presença.~ · 1m........ N-ao........
10. Procura ser tão prestativo (até mesmo indispensável) nos seus
relacionamentos para que a outra pessoa (amigo/a , amante,
esposo/a, filho/a, pais) não possa deixá-Joia? Sim........ Não........
11. O sexo oral é o que domina suas fantasias e o que vócê mais
dese1a. s·
. ~ 1m........ N-
· ao ....... ,
12. Tem grande necessidade de ser tocado/a e abraçado/a? (Isto
geralmente se manifesta pela necessidade que você tem de
tocar ou abraçar os outros sem saber se eles querem. )·Sim........
Não ....... .
13. Tem uma hecessidade constante de ser valorizado/a e de que
.
preasem de voce. s·
'"?' 1m........ N-ao....... .
.,
14. E quase sempre mordaz e sarcástico com os outros? Sim ........
Não ........
15. Isola-see passa muito tempo sozinho/a? Quase sempre.acha que
não ·vaJea pena tentar um relacionamento? Sim........ Não ...... ..
'
16. Você é geralmente crédulo/a? .Aceita as opiniões dos outros
ou ' 'engole tudo que ouve'' sem pensar no assunto? Sim........
Não ..:..... '

OS PRIMEIROS-MESESDE VIDA

Chegamos ao mundo com necessidades muito espeóficas. No qua-


dro da página 88 móStro os blocos básicos para o desenvolvimen-
to de um eu razoavelmente saudável. Esses blocos são linhasge-
rais. Uma vez que não existem duas pessoàs iguais, devemos te.r
o cuidado de não determinar absolutos para o desenvolvimento
humano. Entt:etanto, precisamos de cenos pontos gerais. O grande
terapeuta Carl Rogers disse cena vez: ''Tudo que é mais pessoal
é mais geral.'' Na minha opinião, isso sjgnifica que minhas mais
116 VOl!AADI.AR

pi:ementes ne cessidades humanas e meus temores e ansiedades


mais profundos são mais ou menos compartilhados por todos. Fi-
quei admirado ao constatar que, companilhando meus segred os
mais profundos, os ouuos podem se identificar comigo.

A ponte interpessoal

Usaremos os blocos básicos que apresentei como linhas gerais para


cada uma das necessidades de dependência durante os estágios de
de senvolvimento da nossa infânci a. N os primeir os meses, preci-
samos ser bem-vindos ao mundo. Precisamos de um do profundo
com uma pessoa que cuide de nós, que nos proteja e que sirva de
espelho para nós. Esses primeiros meses são chamad os de estágio
simb.iótico or ue somos in teiramenrç: co-dependentes de nossa
_mã u de outra fi ura uc aranta nossa sobtevivência. Depen-
demos dela para ªprender sobre nós mesmos e ara a satisfação das
nossas necessidades básicas de sobrevivência. Nesse estágio, somos
indifrrendados. Isso significa que somos um, natu ral e inconscien-
cemenre com nosso eu, mas não temos capacidade para refletir e
saber conscientemente que temos um eu. Precisam.os dos espelhos
e do eco na voz da nossa mãe para descobrir nosso Eu Sou. Éra-
mos ''n ós'' antes de nos tomarmos ''cu ' '. A vida começa com uma
fusão verdadeira do ser. Nosso destino depende da pessoa que por
acaso é nossa mãe . ''A mão que em bala o berço faz tremer o mun-
do.'' Quando nossa mãe está presente para nós. nos ligamos a ela.
Essa união cria uma ' ontc: interpessoal" que eo alicerce:de to-
1

dos os futuros cdaciOnamen~. Se aJ>Ontc:for conm.uJdaJ:om.t.eS=..


P.eJtoe valorização mútuos, formará a Janta básica ue servirá de
modelo para to os os nossos re acionamc:ncos. Se a criança é .E!·
vergonhada indevidamente: , a pontC;_S~P~ ~ ~a e_,assaa acredi-
tai: que não tem o direito de depender de ninguém . Isso a predis-
põe para a formação de relacionamentos patológicos com comi:_
da . drogas, sexo e assim por diante ,

Narcisismo saudável

Precisamos que nossa mãe nos leve a sério. afirmando qu e cada


~rtc: de nós é aceitável , fazendo-nos saber que alguém sem-


}tESG~O SEUliU DOSPRl~R05ANOS
DE:vIDA 117

RX~estará ao. nosso lado . aconteça o que ac0ntecer. Essas necessi-


dades compi:eendem o que Alice Millerchama de nossos supri •
mentos de.,narcisismo saudável. . Sigajfica ser amado como a pes-
S!;)J!QUCé,.J..ÇL ..seuo.c.~ tratado de mo-
ª.dmi_cad.o_eJ:al.om.a.do,.
do especial,tet certezade qw:....a.mãt nãoo abandona rá. ser leva-
dQa sério. Quando essas necessidades sãoatendidas na infância,
não precisamos levá-las conosco quando crescemos.

A boa mãe

Para fazer bem seu trabalho, a mãe precisa estar em contato com
o próprio senso de Eu Sou. Ela deve amar a si mesma, o que sig-
nifica que dC"Ye .aceitar cada pane de si mesi;na. Precisa especial-
mente aêeitar o pi:óprio corpo e sentir-se bem com ele. A •nãe
não pode dar áo filho a sensaç-ão de bem-estar se ela não a pos-
sui. Não pode dar ao filho a sensação de confiança nos próp rio s
instintos se não confia nos seus. Erich Fromm descreve como uma
orientagão antivida na mãe faz o filho temer a vida, especialmente
a vida instintiva do seu corpo.

Espelho

A vida instintiva é gov,ernada pela parte mais primitiva do cére-


bro. Tem a ver com comer, dormir, tocar e el~mina( e com a
sensualidade e os prazeres e as dores do corpo . Como most.ca
o nosso quadro , no início da vida "eu sou você", "eu sou ou-
tro'·. EI)l outras nalavras. a crian..s.aestá integrada na mãe . Você
2 ente o que ela sente. Você não gosta do qué ela não gosta.
,Voct sente sobre você mesmo o que ela sente sobre você. Na
ptímeita fase da infância, o sentimento e primário. Não impor-
ta o modo pelo qual a mãe desempenha o papel de boa mãe.
O que irripona é o que ela sente realmente em relação à crian -
ça. Se sua mãe ,não gostou de ficar grávida e acha que devia
se casar par~ ter você, você Vàisaber dis.so, em um nível ónesté•
sico mais profundo .
118 \Ql!AAOI.AR

O contato fisico
Quando você nasceu devia ser tocado e abraçado quandopreci-
savaser tocadoe abraçado.. Pfecisava ser al.imentado quando ti-
nha fome, O horário rígido da alimeQtação do bebê foi o horror
das geraçõespassadas. Sam Keeo chama a atençãô para o fato dos
mestreszen levaremanos para chegará conhecer o que toda criança
sabe naturalmente - a corporalidade t~tal de doonir quando
está cansado e comer quando tem fome. E incrível que esse esta-
do de beatitude, semelhante ao que é alcançado pelos mr;su es
zen, seJa destruído deliberada e sistematicamente. Você preo sa-
va tomar banhõ e estar sempre limpo. Suas funções físicas oão
eram ainda réguladas pelo controle muscular conscie•nte, portan -
to, você dependia de outra pessoa para manter seu bumbum lim•
po. Essas são necessidades de dependêncía. Você não podia
satisfazê-las sozinho.

O eco
Vocêpreêl$ay1-ouvir vozes ecoan.d.Q..Q.Qas- v1ndas. serenas e amo-
, rosas. Você precisava de uma porção de eco~ dos seus balbucias
de ternura. E ohsf E ahs! Vocêprecisava ouvir uma voz confiante
e firrnuµ ,é indicasse um alró grau de segurança. Talvez, mais
do que tudo , Brecisavasentir uma pessoa que confiava no mun-
do e na. própria sensação de estar no mundo. Erik Erikson pro-
põe (:OII)O primeü:a· tarefa do desenvolvimento, a criação da no-
ção interior de ser, caracterizada pela çon.iançano mundo exte-
rior. Carl Rogers dit que uma das coisas m_aisimportantes que
aprendeu foi que ' ~os fatos são amigos'' - isto é, podemos con-
fiar na realidade. A disputa entre a confiança básica e a descon-
fiança é a primeira tarefa do desenvolvimento. Q...u andoessa po-
laridade é re~ lvida aJavor da confi,@Ç-ª.. _mtg_
e_J1..ÍQLÇa:.b.á.sica.do
ego. Essaforça é a base da esperança. Se o mundo é basicamente
digno de confian&.ª., então é possíyel ser' 'quem cu ~pos •
,so confiar. ceno de uc tudo que preciso estará à m'inha CSP-e ra.
Pam Levin vê este primeiro estágio como o tempo em que
é desenvolvido o poder de ser. Se rodos os fatores enumerados
estiverem presentes, a criança pode ter o prazer de ser quem ela
é. Uma vez que o mundo exterior é seguro, e uma 'Vez que as
RESGATANDO
SEUEUDOSPRIMEROS
ANOS
DEVJDA 119

carências dos meus pais estarão sendo atenrudas por recursos pr6-
prios e por meio do amor e do apoio mútu os, eu osso a enas
set Nâ9~p,reàsQ agradá-lgs _n.e.mJutar pela sob,revivêncja. Posso
apen~~ntir razer e~ r minhas q~sidades ace.ruiid3á._

SER PAI E SER MÃE - O TRABALHO


MAIS ÁRDUO DE TODOS

Ser um bom pai ou uma boa mãe é um uabalho duro . Acredito


que seja o crabalhomais duro que qualquer um de n6s pode fa-
zer. Para ser um bom pai ou uma boa .mãe você precisa ser men-
talmente saudável. Precisa ter suas necessidades atendidas por seus
próprios recursos e precisa de um companheiro /a para ajudá-lo /a
nesse processo. Acima de tudo, vocêprecisajá ter curadoa crian-
ça ferida que vive em voct Se essa criança está ainda ferida, o
pai ou a mãe do seu filho vai ser essa criança assuscada, ferida
e egoísta. Você vai fazer quase tudo que seus pais fizeram para
você, ou o oposto. Seja como for, vai tentar ser o progenitor per-
feito, sonhado pelasira criança ferida. Porém , fazer o oposro pre-
judica cambém seus filhos. Alguém disse certa vez, ''Cento e oi-
cen:a graus da doença ainda é doença ."
Lembre- se. ão e tou culp_andoos .Daisde ninguém. Eles
foram adultos crian as feridas tentando realizar u a caref ex-
uemamente rufícil.No meu caso, meus pais, às vezes, faziam coisas
cenas, a despeito da pedagogia venenosa. Minha mãe conta co-
m o era doloroso para ela nos submeter a um horário de alimen-
tação, mas da fazia porque os " entendido s" recomendavam . Era
também doloroso contrariar as recomendações dos '' entenrudo s''
e quase às -esconrudas, me consolar quando eu chorava . Esses fo-
ram os momentos salvadores e cheio s de graça, motivados pela
criança maravilha que vivia nela, que compreendia os cuidados
básicos necessários a uma criança.
, Entretanto , nenhum p_aie nenhuma mãe jamais foi pcrfei-
- to, ~n enhum será._9 ifl'.lportantc é tentar curar nossa çriança fe-
_rida , para não prejudicarmos nossos filhos .
120 '\Ol!AAOI..All

DISTÚRBIO DE CRESCIMENTO

FritzPerlsdefine a neurose como ••distúrbio de crescimento''. Gosto


da definição. É um bom modo de descrevero problema da vergo-
nha tóxica da sua criança ferida e o resultado da co-dependência .
Não seremos adultos crianças co-dependentes se forem atendida s
nossas necessidades da infância. Quando isso não acontece, sur-
gem problemas graves. O Índice de Suspeita no começo deste ca-
pítulo descrevealguns desses problemas. Podem ser resumidos co-
mo privação n;ucísica. A criança não recebe o reflexo e o eco qu e
precisa. Não é amada incondici onalmente e, poc isso, não desen-
volveo senso de confiança . O resultado é uma carência insaciávol.
_guealgumas Ressoasexpressam externamente com vícios ingesti-
vos. Crja também a necessidade de ser constantemente validado
- quase c:_omo se a pessoa deixasse de existir sem esse reconheci-
mento. Outras conseqüênciassão: necessidadede ser cocado e abra-
cado, concentração no sexo oral, perda de contato com as necessi-
dadesfísicas(os sinaisdo corpo), uma tendência para ·'engolir tudo
que ouve•: - o otário que nasce a cada minuto. Acima de tud o,
..
quando suas· ~gências da infância não são atendida.~.vocêfica pre-
.9iseosro a sentir vergonha de si mesmo, a senric nas profundeza s
do seu íntimo, ·que há algo errado com você.

Não cresça

Talvezvocê tenha aprendido a ficar sempre criança para cuidar dos


ferimentos narcísicosdos seus pais. Se você foi uma crian~a muito
obediente, mamãe e a ai sabiam ue odiamsem recontar com
_vocepara evá- osaséno. t· amcertezadeqye:vocêjamaisosabao-
do aria como os ais deles os abandonaram. Vocêseria uma fonte
constante de valor e de estima para eles. Assim, vocêse transformou
no instrumento de satisfação das necessidades narcísicas deles.

Abandono emocional
Todo filho de um sistema familiar disfuncional sentirá privação
e abandono emocionais. A i:esposta narural ao abandono emo-
cional é uma vergonha tóxica profundamente enraiz-ada, gerado-
ra de rajva primitiva e uma profunda sensação de mágoa. N~o
I.ESGA'.L\NDO
SEUEUDOSPRIMErROS
ANOSDEVIDA 121

é possível lamentar esse prejuízo na infância. Você não tinha


um aliado para validar sua dor. ninguém para abraçá-lo quand o
chorava até não ter mais lágrimas ou quando se enfurecia contra
a in justiça de tudo aquilo. Para sobreviver, as defesas primâria.s
do seu.ego entraram em ação e sua energia emocional foi conge-
lada e não resolvida. Suas carências clamam para serem atend i-
das, desde essa época. Se você for até o bar mais próximo, vai
ouvir a voz chorosa de um bebé adulto, exclam ando: · ' Tenh o
sede, estou carente , preciso ser a.macio. Quer o ser importan te
e estabelecer contato .' '

INFORMAÇÃO

O primeiro passo na recupera ção d:1. sua criança inrerior ferid a


é um proce sso chamado colecade informação. Quando uma pes-
soa sofreu um uaurna grave, é imponant e qu e fale a respen o.
Esse processo não é um trabalho com a dor origin al. não é aind a
a experiéncia dos sen timentos originais. Porém , é. o meio de co-
meçar esse trabalho.
Recomendo que obtenha toda informa ção possível sobre seu
sis~ema familiar . O que estava acontecendo quando você nasceu?
Como eram as familias do seu pai e da sua mãe? Sua mãe e/ou
seu pai eram adultos crianças? Uma boa idéia é escrever essa in-
formação com a maior precisão possível, sob.re cada estágio do
desenvolvimento - nesse caso, do nascimento até os nove me-
ses. É provável que isso seja doloroso para você. Procure se esfor-
çar pàra ser o mais claro possível sobre os fatos da sua infânci a.
Por exemplo , Qwenelia foi a razão do casamento dos pais.
Eles eram mu ito jovens, 17 e 18 anos. Sua mãe era uma vítima
não e.ratada de incesto físico e emocional. Seu pai era alcoólatr a
ativo. Qwendla lembrava-se de estar no berço. ouvindo o pai amal-
diçoá-la por ter nascido. Ela sentia que a mãe a culpava por ar-
ruinar sua vida . O pai e a mãe eram de famílias rigidamente ca-
tólicas e recusàvam qualquer cipo de controle de natalidade . 1 1
mãe fazia sexo fteqüentemenre como um dever de esposa. Ima-
gine uma mulher de 24 anos com quatro filho s e um marido ir-
responsável e alcoólatra. Como a filha indesejad a, Qwenella erz
122 \QJIAAOW

objeto da raiva e do desprezo da mãe. lembrava-se de ouvir a


mãe dizer o quanto ·ela era feia e que nunca seria grande coisa
na vida. Na teoria do sistema familiar, Qwenella tinha o papel
da Filha Perdida, o Bode Expiatório da mãe e a Vítima. Esses pa•
péis permitem que os membros de uma família disfuncional te•
nham suas necessidades atendid as. Se a família não quer outro
filho ou se tem muitos filhos, a criança indesejada aprende a ser
importante, desap:ueccndo. A família di z: ''Desapareça. criança
- nós não queríamos você". ou , "Já temos filho s demais!"
Qwenella aprendeu a ser uma menininha perfeita. Era ex•
cessivame nte obediente e exageradamente delicada e presta tiva.
Escreveu que , quando era bebê , ficava sozinha no berço durante
long as horas sem chorar. nem fazer barulho . Mais tarde, ela brin-
cava sozinha, no quarto, por horas e horas. para não incomodar
a mãe ou qualquer out ra pessoa da família. Esse é o comporta•
menta clássico da Criança Perdid a. Qwenell a cre sceu e repetiu
esse padrão no trabalho e na sua vida social. Sem re.rapia, pr ova-
velmente, levaria esse comporram enco até o fim da vida.

"
A INFANCIA COMPARTILifADA
COM UM AMIGO

• De po is de escrever tudo que você sabe sobre seus prímeiros me-


ses de vida, é importante falar no assunto e ler alto para alguém
o qu e escreveu. Se você está fazendo ter:apia e civer a aprovação
do seu terapeuta para fazer o trabalho descrito neste livro, com-
partilhe esse trabal h o com ele, ou com seu monitor, se estiver em
um programa dos 12 Passos. Pode compartilhar com qualquer pes-
soa em quem você confie - talvez um religioso ou ·seu melhor
amigo/a. O jmponante é :liguém ouvir sua hiscória e ccscemu-
nhar sua dor original na infânàa. Essa pessoa deve refletir e ecoar
sua realidade como bebê. Se da começar a fazer pergunras, dis-
cucir ou dar conselho s, você não está rendo o que precisa.
Não é aconselhável co~partilhar esse trabalho com um do s
pais ou ou tra pessoa da família , a não ser que estejam em um
programa de recupera ção pessoal. Se você foi realmente maltra-
tado na infância, esse fato pre cisa ser validado. Membros não u a-


RESGATANDO
SEU
EUDOSPIUMBROS
ANOS
DêVIDA 12J

cadosda .fumíliaestão dencrodo mesmo cranseilusório que rocê


escevc:
: Não podem , de modo algum, validar e legitimar sua dor.
E possívelque sua infância nãotenha sido dolorosa. Nos meus
seminários, muitas pessoas descobrem que foram bem-vindas ao
mundo . Foram desejadas, e_mbgu_seu ~s..p;1.is
fossem adultos _crian-
ças. Só no est~giQ.gguintc do desenvolvimento.elas foram viola-
das. Foi ai que as carências narcísicas gos pais entraram em ação.

SENTIR OS SENTIMENTOS

Se você é uma Criança Perdida, p,:ovavdmcntc já c,:perimeocou


alguns sentimentos. sobre s:.ia infância. Se você consegue se ver
como um bebê, examine longamente esse quadro. Caso conu á-
rio, passe algum rempo observando um bebê . Seja como for, va.
notar a energia vital da criança. Ali está uma criança maravilhosa
e cornplecamenre inocente, que só quer uma oportunidade para
viver seu descino. Essa criança não pediu para nascer. Tudo que_
ela queria, nos primeiros meses, era ser alimentad2 - de comi-
da e d.eamor - para crescer e vicejar. lmagi0e alguém pond o
essa maravilha no mundo e não a desejando.
Teriasido maishonesto levaressacriançaindesejadapara um
orfa.naco.Seria um ato de amor oferecê-lapara adoção. Pelo me-
nos os pais adoci"fosiam desejá-la.

ESCREVERCARTAS

Imagine que você, o sábio e velho mago, quer adotar uma crian-
ça. Imagine que esse bebê é você. Imagine que você precisa es-
crever uma carta para esse bebê. Bebês não sabem ler, é claro,
mas confie cm mim, é importante escreveressa carta. (Não escre-
va se não quiser realmente recuperar seu bebé precioso. Enrce-
ranto, suponho que você queira. do contrário não teria compra-
do este livro.) A carta não precisa ser longa, talvez um ou dois
parágrafos. Diga ao seu bebê maravilhoso que você o ama e que
está feliz por ele ser menino (ou menina ). Diga que você o dese•
124 VOl1ANJLAR

ja e que dará o tempo que ele precisa para crescer e se desenvol-


ver. Garanta que sabe o que ele precisa e que providenciará para
que ele tenha tudo e que vai trabalhar arduamente para vê-lo
como a pessoa preciosa , maravilhosa e única que ele é. Quando
terminar, leia a carta em voz alta bem devagar e note o que está
sentindo. Se sentir tristeza e qws ·er chorar, faça issó.
Esta foi a carta que eu escrevi.

Querido Joãozinho
Estou tão feliz por você ter nasci-4o! Eu o amo e quer o
qu e fique comig o para sem p re. Estou s:i.tisfeiro por você ser
menino e quero ajudá-lo a crescer.
Quero uma oportunidade para mostrar o quanto você
significa para mim.
Amo r
Joã o

Carta do seu bebê interior

Dep ois d.isso,embora pareça estranh o, quero que escreva para você
mesmo uma .carta do seu bebê interi or. Escreva com a sua mã o
não dominante . Se você é destr o. escreva com a mão esquer da .
(Essa técni ca ativa o lado não dom inante do seu cérebr o, cont or-
nando o lado lógico e sempre mai :s contr olador . Facnna o conta-
to com os sentimentos da criança que vive cm você.) É claro que
' eu sei que bebês não sabem escrever. Mas, por favor, faça o exer-
cício. lembre -se, se um bebê pudesse escrever, provavelmente não
escreveria muito - talvez só um parágrafo bem curto. Aqui está
a minha carta .

Querido Jo~o :
....Ve /\}'\O..
t bu.sc.~r~
Q l)€,.r"O CfU€ VOCe M<2.
1
9ue.ro :!)er '""fºi"fa l'\-t-er'C1 ro.. a 1»ue.1'4A.
Não !=ft.lero/ ic.a.r .So :Z/!\i\o ·
À N'.,,...O ,.- ,

Joã. o z.tnL....
C>
'
i
l RESGATÀNDO
SEUEUDOSPIUMEÍROS
ANOS
DEVIDA 11)

AFIRMAÇÕES
.

Se as necessidades dos seus primeiros meses de vida não foram


acendidas, a criança interior está ainda presente com toda sua ener-
gia original . Precisá a.inda dos cuidados que você não teve, precí-
s.aainda ouvir que é bem-vinda ao mu.ndo. Um. dos meios àe
da r a você mesm o t udo que nã o ceve é a afirm 2;ã 0. Fam l ev~.
no seu livro Cydes of Power,apresenta afirmações pará e.ada escá-
gLo de desenvoh-imento .. O bebê não sabe ainda o sentido das
palavras, mas pode perceber sé\l aspecto não-verbal. Se suá mãe
ficou d~sapoorada por você ser menino , ou se ela realmente não
o desejava , nàb foi preciso que dissesse a você. Provavelmenct .
jamais alguém disse que você não foi desejaqo, mas você sabi:r.
Para algumas crianças chegam mesmo a dizer que ela&não
foram âesejacias. Disseram a uma das minh as clieo ces que sua
mãe quase morreu quando ela nasceu. Para ourr a, disseram gue
o pai queria que a mãe fizesse um aborto quando ficou grávid :i.
del à. Tenho ouvido muitas outras hisróri l:l,sdokirosas corno essas.
As palavras são exnemamence poderosas . Palavras boas p o-
dem criar um dia inteiro de felicidade . Palavras de crícica podem
nos deixar furiosos p_or uma semana . ,Pause pedras podem que-
brarseus ossos,mas ser chamado de nomes machuca ma.is.Pala-
vras novas e que transmitem 'força podem tocar a dor originaJ e
<;omeçar o processo de cura.
As afirmações .posidvasrtlorçam nosso Gomeço de vida e po-
dem curar o ferimento espiritual. Pam Lévin diz que .. mensa-
gens afirmativas podem até mesmo produzir mudanças 00 ritmo
cardíaco e respiratório de um paciente em coma• '.
Mensagen~ posití~ repetidas são auaieacesemo<ioaais . Elas
teüam ajudado o crescimen~0 e o desenvolvimento da sua crian-
;a inreri~r. Repetidas agora, podem produ~ir mudanças p rofun-
das , viscerais e toca-t o nível mais primitivo da dqr origin al. Se-
guindo o modelo de Pam Levin, ampliei as afirmàçôes . da infân-
cia para incluir alguns outros aspectos das necessidades da cna n -
ça recém-nascida .
Aqui estão as palavras amor0sas que você pode dizer i sua


126

criança interior du rante a meditação. Ela as ouvirá como vindas


de um mago velho e gentil . (Use as que você preferir.)

Bem-vindo ao mundo . Eu estava à sua espera.


Estou tão feliz por você estar aqui!
Preparei um lugar especial para você morar.
Gosto de você do jeito que você é.
o que acontecer.
Eu não o...abandonatci,_aç__QJ11eça
Aceito todas as suas exigências.
Darei a você todo o tempo que precisa para ter suas necessi-
dades atendidas.
Estou feliz po r você ser menino (ou menina).
Quero tomar conta de você e estou preparado para isso.
Gosto de alimentar você, dar banho, mudar sua fralda e de
passar o tempo com você.
Em todo o mundo , nunca houve ouuo como você.
Deus sorriu quando você nasceu.

MEDITAÇÃO DA CRIANÇA INTERIOR


,.

Esta medüação precisa de uma hora sem interrupções. Recomen-


do que tenha uma caixa de lenços de papel à mão. Sente-se em
, uma poltrona confortável com os pés e as mãos descruzados. É
uma boa idéia avisar alguém da sua confiança que vai fazer este
exercício (a não ser que ela possa: envergonhá-lo por isso). Você
talvez queira verificar os resultados com essa pessoa, no fim. Por
favor, lemb re-se do que eu disse na introdução desta parte. Não
faça este exercíciose:

• Foi diagnosticado como doente mental ou tem uma his-


tória de doença mental.
• Se for uma vítima não tratada de violência física ou se-
xual, incluindo estupro.
• Se foi emocionalmente ferido, de forma intensa.
• Se está se recuperando do vfcio de bebida ou drogas e não
está sóbrio há pelo menos um ano.
• Se não tiver a permissão do seu terapeuta.
SEUruDOSPRIMEIROS
ltESGATANÓO ANOSDEVJDA 127

Se você tem objeções de ordem religiosa à meditação , deve


saber que não há nada anti-religioso neste exercício. Além disso,
deve saber também que você entra e sai de um estado de transe
várias vezes por dia . Não peço nad:i. que você já não faça ou que
não saiba como fazer. Lembre-se de que os problemas da criança
interior ferida são, em pane , resultado da regies são esponcâaea
no tempo . Fazendo uma meditação que envolve a regressão no
tempo, você está, na verdade , comando o controle desse proces-
so.L embre- se_também de que pod e parar quan do quiser , se ficar
angu.stiado. E perfeitamente cor.ceto parar no meio da medita-
ção. se for precis o.
A primeira parte da meduaçã o será usada para todos os es-
tágios de desenvolvim ento. Grave no seu gravador, fazendo um a
p ausa silenciosa de mais ou menos 15 segund os enue as frases,
como indicado abaixo.

Comece sentado tranqüilamente , observando tudo que o ro-


deia ... localize-se no espaço e no temp o. Sinta que suas cos-
tas e suas náde gas estão tocando a cadeira ... Sinta a roup a
no seu corpo ... Ouça todos os sons que puder ou vir... Sinta
o ~r na sala ... Po.r:enquanto , você não rem de ir a lugar ne-
nhum e não cem de fazer nada... Apenas esteja aqui e ago•
ra ... Pode fechar os olhos se já não os fechou ... Pode sentir
a própria respiração... Sinta o ar entrando e saindo ... Sinta
o ar nas suas narinas quando ele entra e sai ... Se tiver pensa -
ment os alheios à meditação , tudo bem . Pode dar atenção
a eles como se fossem palavras na tda da televisão anunciand o
chuva pesada ou uma tempestade . O importante é dar aten-
ção a eles. Deixe que passem por você... Enquanto contin ua
a respirar, pode seguraro consciente tanto quanto quise r...
Ou pode largarde um modo que você sabe que é relaxan-
te ... Você aprendeu a segurare largar quand o era criança...
E sabe exatamente quanto deve securare quanto deve lar-
gar. Você aprendeu o equilíbrio perfe ito quando aprende u
a respirar, logo que nasceu ... Você aprendeu a inspícar ... e
segu rar o temp o suficiente para oxigenar seu! glóbulos san-
güí neos... E você aprendeu a larg2r... e senúr o ar saio do...
Q uand o bebé, você aprendeu a sugar o seio da sua mâ~.. .
Vocé aprendeu a suga.r a mamadeira ... E a largarpara sentir
o gosto do leit e mom o... Você logo aprendeu a segurar sua
128 YDD'ANJW

mamadeira ... E a soltar qua:ndo acabava ... E aprendeu a se-


gurar na grade do berço ... E a soltar quando estava pronto
para deitar outra vez... Ponanto , você sabeexatamente quanto
deve segurare quanto deve largar... E pode confiar em você
para saber exatamente o que precisa ...
E agora você talvez esteja sentindo um certo peso nas pálpe-
bras ... Pode deixar; que elas :se fechem com força... Pode sen-
tir peso no queixo ... nos braços e nas mãos ... E pode sentir
como se tivesse pesos nas pernas e nos pés ... Como se não
pudesse mover as pern as... Ou pode sentir exatamente o O?OS·
ro, como se todo seu corp o esúvesse flutuan do ... C.omo se
suas mãos e seus braços fossem feitos de penas ... Você sabe
exatamente o que está sencindo, peso ou leveza... E seja o
que for, é exatamente o que é bom para você.
E agora pode começar a experimentar algumas lembranças
da infância ... Pode lembrar dos seus primeiros dias na esco-
la ... ,e seu melhor amjgo naq uele s di as... Pode lembrar de
um professor ou de um vizinh o bondos o... E _pode lembrar
da _casa em que morava antes de ir para a escola ... De que
cor era ?E ra um apartamento....) LJm uai·1er ,V,•
' a casa.... .... oce
morava·.'na cidade? ... No campo? ... Agora você pode ver aJ.
guos cô~odos da casa ... O ode você passava o tempo nessa
casa?...' Tinha um quarto especial ?... Onde ficava a mesa de
jantar? ... Veja quem está à mésa de jantar ... Qual era a sen-
J
saçãode estar sentado àquela mesa?... Qual era a sensação
de morar naquela casa?...

Esra.é a instruçãogeralpara cada estágio de desenvolvimento.A


instrução especifica é diferente para cada estágio.

Agora imagine ou lembr e-se da casa em que sua fanúlia mo-


,rava quando você nasceu ... imagine o quarto onde dormia
logo dt:pois de nascer ... Vej:a o belo bebê que você era ... Es-
cute sua voz balbuciando, chorando, cindo ... Imagine que
pode segurar no colo esse seu eu fofinho ... Você está ali co-
mo um mago velho e sábio ... Você está vendo sua pr ópria
·-e • .
11uanoa... Quem ma.1.s esta~ presente....
t Sua mae....
- ? Seu pai")... .
Qual a sensaçãode ter nascido nessa casa, de ssas pessoas?.. .
Agora imagine que você é o bebê pequeníno e precioso,
SEU.ElJDOSPRIMEIROS
RESGATANDO A.
NOSDEVIDA 129

olhando para tudo isso... Olhe para você adulto ... Veja você
como uma pessoa, um mago. ou apenas você me smo ... Sin-
ta a presen ça de alguém que o ama. Agora ima gine que o
adulto que é você o segura no colo. Ouça as afirmações se-
guinte s na voz carinhosa dele :

Bem-vindo ao mund o. Eu escava à ~ua espera .


Estou tão feliz por você estar aqui!
Preparei um lugar especial pa ra você motat.
Gosto de você do jeito que você é.
Nun ca o .abandonarei. aconteça o qu e aconcecc.:.
Aceito todas as suas exigências.
Darei a você todo o tempo que precisa para ter suas ne•
cessidades atendidas.
Estou feliz po r você ser menino (ou menina ).
Qu ero toma r conta de você e estou preparad o para isso.
Gosto de alimentar você, dar banho, trocar sua fralda
e de passar o tempo com você.
Ern rodo o mund o, nun ca houve outro con10 você
Deu s sorriu quando você nasceu.

Enuegue-se aos sentirnen cos provocadospor essas afirmações..


Agora, deixe que o adulto que você é o ponha no berço...
Ouça a voz dele dizendo que nunca vai abandoná-lo ... E que ,
a partir desse moment o, estará sempre à sua disposição... Ago-
ra, volte a ser o adult o... Ol he para o bebê precioso que é
você... Conscientize -se de que acaba de recuperá-lo ... Sinta
a sensaçãodessavolta ao lar.... Aquele bebê pequenino é de-
sejad o, amado e nun ca mai s ficará sozinho ... Saia do qu arro,
da casa e olhe para trás enquanto se afasta .. , Suba a ladeira
da memória ... Passe por sua primeira escola ... Entr e na sua
adolescência ... Entre na memóri a de jovem adult o... Agora
carrunhe para onde você está agora.Sinta os dedos dos pfs ...
Mexa os dedos dos pés ... Sinta a energia subindo pelas per-
nas... Sinta a energia no peito quan do respira fund o... Solte
o ar ruidosamente ... Sinta a energia nos braços e nos ded os
das mãos... Mexa os dedos das mãos... Sinta a ener gia nos
ombr os, no pescoço e no queixo ... Estenda os braços... Sint:;;
seu rosco e volte a esta r completamente presente ... Voice ao
seu estado conscien te naru ral. .. E abr a os olhos.
13(1 IDITAADLAR

Fique sentado por algum tempo e procure- refletir sobre a


experiência que acaba de ter. Sinta o que está sentindo. Preste
atenção nas afirmações que o tocaram mais de peno. Reflita so-
bre essas palavras, sentindo todo o poder nutriente delas. Se teve
uma reação de raiva, sinta raiva. Por exemplo, pode ter pensado:
''Isto é bobagem, isto é uma brincadeira ,. ninguém jarn.us me
desejou realmente!" Sinta a raiva..Grite! Bata no travesseiro com
uma raquete de tênis ou com um bastão de fulebol, se tiver von-
tade. No fim da reflexão, escreva seus pensamentos e impressõe s,
se q1.1iser.Fale com sua mulher ou com seu marido , monhor ou
amigo,se quiser. Conscientize-se d'! gue o adulto que vocêé l) O·
de tomar conta desse bebê ·- o bebê que é você.
Cenàs pessoas têm dificuldade para visualizar, seguindo as
instruções. Nós todos pe(ceptualizamos, mas nem todos visuali~
zam com facilidade. Cada pessoa tem um mapa prima.rio do mun -
do, Se você fbr primarian:ienre visual, provavelmente diz coisas
como.: "P osso me ver fazendo isso.1 ' Mas se é p,rimaúame nr e au-
ditivo, pode dizer : "Isso me soa bem ", ou "Algo me diz para
fazer isso.'' As pessoas com percepção cinestésica prova.velmente
dir~o: ''Sinto que isso é certo ", ou ' 'Sinto-me impelida a fazer
isso.'' Portanto , não se preocupe se river dificuldade em visuali-
zar - você ~ai perceptualizar a seu modo .
Às vezes.aspessoas não podem ver, ouvir ou sencir sua criança
interior. Descobú que isso acontece potque durante o exercício
elas são a criança. Estão realmente no estado de um bebê . Se isso
aconteceu com você, repita a medita§â9, procurando ver a você
mesmp como adulto e ouvin .do sua personalidade de adulto di-
zendo as f.rases de afirmação e de amor.
Cenas pessoas sentem que a criança setâ um novo peso se
a 1tvarem para casa. Se esse é o seu caso, provavelmente, você está
sobrecarregado de responsabilidades . Lembre-se de que você pre-
cisa apenas de alguns minutos por dia para entrar cm contato
com sua tt.ia:nÇ2. int erior. Esta é uma criança que você não precisa
alimentar, vestir ou •t .omar conta . Amar e nutrir sua criança inte-
rior é uma forma de dedicar algum tempo a você mesmo - o
que v,ocê provavelmente não tem feito .
As vezes as pessoas ficam zangadas ou revoltadas quando
vêem o bebê que elas foram . Isso indi ca um nível muito grave
de vergonha t6xica. Nós nos envergonhamos do mesmo modo que
fomos eo°\o'ergonhadôs.Se suas imagen s de sobre\>ivência o rejei-
RESGATANDO
SEUEUDOSPJUMEllOS
ANOS
DEVIDA 131

taram por sua vulnerabilidade de bebê, você pode rejeitar seu


eu da mesma maneira . Se sentiu raiva.desprezo ou repulsa quando
fez este exercido , precisa tomar uma decisão sobre sua disposição
para aceitar a parte fraca e vulnerável do seu eu . Garanto que
é uma pane real da sua pessoa. É uma parte de todos nós .
Enquanto você não estiver disposto a aceitar a pane mais fraca
e mais desamparada do seu eu, não poderá ser realmen te pode-
roso e forte. Uma pane da sua energia e da sua força esrará ocu-
pada em rejeitar a outra parte da sua personalidade . Essa luta
interna desperdiça uma grande porção do seu tempo, da sua ener -
gi2 e da sua força. Por ma.is paradoxal que pareç a. su a forca s"'
vai aparecer se aceitar sua fraqueza!
Agora que você recuperou seu bebê interior , repita as afir-
mações durante muitos dias . Imagine qu~ está embalando o be-
bé oos braços e dizendo em voz alta: ''Este é o seu lugar! Nunca
houve ninguém como você! Você é único. ini mitável!" Acrescen-
te as afirmações que detonaram as emoçõe s mai s fortes - são
as que você mais precisa ouvir. Sente-se em um parque e olhe
para a grama, para as flores, os pássaro s, as árvores e os an1mais.
Tudo isso pertence ao universo. §ão uma parte necessária da cria-
ção. E você também pertence. E tão necessá.tio quanto os pássa-
ros, as abelhas, as árvores e as flore s. Você perten ce a esta cerra.
Seja bem-vindo !

Ttabalhando em conjunto
Se você quiser fazer esses exercícios com um amigo , ótimo.
Cada um precisa estar pr .esente para o outro de modo especial .
Uma vez que a criança interior precisa saber que você não
vai partir de repente, os dois devem tomar o compromisso
de estar presente para o outro enquanto realizam esse trabalho .
Não precisam fazer nada de especial, e cenamente não preci-
sam fazer o papel de terapeutas. Basta estar presente na med i-
da do possível. Um dos dois fará as afirmaç ões positivas. Acon-
selho a usar as afirmações como foram dadas. (Em um seminá-
rio recente , uma muJher ficou tão entusiasmada quando cscav:i
fazendo as afirmações para um homem , que eJa disse: "Bem-
vindo ao mundo . Você é tão desejado! Quero fazer sexo com
você!" Isto não é o que um bebê precisa ouvir de alguém


que toma conta dele!) Depois do primeiro exercício, invertam
os papéis.
Quando se trabalha junto, e muito bom abraçar e acariciar
o parceiro enquanto dizemos asafirmações . Isso deve ser cuida-
dosamente verificado com antecedência. Muítos adultos crianças
tiveram suas fronteiras físicas sev.era.mente invadidas. Mostre ao
seu parceiro como você quer ser abraçado e acariciado. Obviamen-
te, se vo.cé não quer ser toéado, diga a ele.
Quando estiverem preparados para o exercício, leia para seu
companheiro a inuodução geral à medita窺· Leia lenta e a~en-
tamente , Podem ter uma música de ninar ao fundo , Recomendo
a Suíce de Ninar de Steven Halp,·rn . Depois de Ier a frase ''.Escu-
te a voz dele fazendo carinhosan.ent-e estás afirmações'', diga as
afirmaçõesem. voz alta para seu .companheiro.Termine de Jer o
exercício. A diferença entre fazer esse exercido sozinho e com um
com panheiro é que, t10 segundo caso, você fa.z as afirmações em
voz alta, acaúciando o companheiro da forma qué ele deseja.
Quando ierminar, invertam os papéi s.

Trabalhode grupo
Nos meus seminários, a maior pane do trabalho de recuperação
é feita em gftql.ÓS. Acredito que o trabalho de grupo é a forma
maispoderosa de terapia , No fim do seminário, digo a todos que
fotam apen;is um recurso primário para os ouuo s. Queto que eles
, saibam o que podem fazer sozinhos.
Entretanto, sempre tenho vários terapeutas disponíveis du-
rante esse processo, .pàra o caso de alguma crise emocional. Eles
me auxiliam no caso de alguma pessoa ser dóminada pela emo-
ção. Essa crise: pode ocorrer quando a pessoa regride dominada
pela vergonha tóxica ou por emoções contraditórias. Essas emo-
ções são mais perturbadoras que as naturais. Nã ve.rdade, nin-
guém é dominado pelas cmoçõc~ naturai s.
As seguintes sugestões são oferecidas aos:

• terapeutas ou conselheiros experiente s que querem con-


duzir grupos através do processo de recupetaçâo.
• membros da CODA (Co-dependentes Anónimos) 'ou ou-
tros grupos de recup .eração que seguem ó método da auto-
ajuda mútua;
WGAIANDO
SEURJ DOSPaJME!lOS DEVIDA
ANOS IJl

• outros que procuram seriamente o crescimento pessoal e


que estão dispostos a aceitar as linhas gerais que eu reco-
mend o. ·

Paraformar um grupo ).é necessário um mínimo de cinco pes-


soas e o máximo de nove. E indispensável a presença dos doísse•
xos em cada grupo - pelo menos duas pessqas do sexo oposto.
Isso porque ·todos tiveram mãe e pai e devem ou~ir vozes mascu-
linas e femininas.
S~as pessoas do grupo não se conhecem , sugiro que façam
o Sé!?Ulnte:

A. Passem algum tempo juntos, corno um grupo, antes de co-


meçar os exercícios. Tenham eoconuos de , no mínimo , um a
hora e meia. Aproveitem o primeiro encontro para as apre-
sentaçães · e para compartilhar exemplos seguros da cootami-
naçio dos adultos pela criança incerior. Deprus. saiam e fa-
çam um . lanche juntos .
No encontro seguint e, cada pessoa deve falar duran te de1.
minutos sobre sua família de origem e sua infáncia (ananje m
algl.lém para marcar o tempo). O terceiro encontro deve ser
mais espqntâneo. Mas cada pessoa deve ter sempre dez mi-
nuto s para falar. Podem den:ierac mais de uma hora e meia.
se quiserem , mas cheguei à conclusão de que é necessária um a
cena e~rrururação do tempo para obter um melhor resulca-
dp. A estruru~a de dez minutos para cada um é muito im -
ponante. Algumas crianças feridas não conseguern parar de
f;uar, ou.tras são h.istêricas e usam Q barulho emocional (pro -
blemas conánuos) para gátantir a atenção de todos.
B. Depois que todos passaram algum tempo juntos, cada pes-
soa deve se compromececverbalmencea csra.c pccscn-redll.(ancc
rodoo processo(os exerácios que abrangem os cinco estágios
de desenvolvimento , do nasciment o até a adolescência). Aqui.
também, a criança ferida precisa saber, acima de tud o, que
alguém vai estar sempre ali p:µa ela. Os horários devem ser
planejados de forma que todos possâm se comprometer a es-
tarem presentes.
C. Em seguida, os limites físicos devem ser decennina dos com
precisão. Isso si'gnifica que cada pessoa de:vedizer clarament e
quais são seus limites físicose sexuais. Se uma pessoa do gru-
po faz algum gracejo sobre sexo, que o desagrad a, você deve
134 VOIL\AO1All

discutir o assunto. Se :você é sexualmente compulsivo,


comprometa-se com você mesmo a não agir compulsivamen-
te com nenhuma p~oa do grµpo. (Se não é sexualmente com-
pulsivo, mas sente attação sexual por uma pessoa do grupo,
tome a mesma decisão.)

É de importância crucfa.Jque todos saibam que estão ali pa-


ra dar ;i.poioe permitir que os outros sintam as sensações.O pa-
pel dos.membros do grupo é servir de espelho e de eco uns para
os outros. Isso implica declarações corpo; ''Vejo o tremor dos seus
lábios e ouço a tdsteza ôo seu cbótu' ', ou '· Senciraiva (ou meao,
ou tristeza) quando você descreveu ·sua infância.' ' Como mem -
bro do grupo você nunca deve fazer .o papel de terapeuta, acon-
selhar ou tentar "a rrumar as coisas" para quem está fazendo os
ocercicios. Imagine que você é um videoteipe passando o que aca-
bou de ~bse~. Analisar, discutir e dar conselhos fazem com que
você fique preso dentro da sua cabeça e fora dos seus sentimen-
tos. Quando você discute e dá conselhos, está afastando a outra
pessoa dos próprios sentimentos .
Muiios adultos crianças aprenderam a ser importantes trans-
formando-se ~m responsáveis por outras pessoas. Desse modo são
vidades em •~consertar as coisas' ' e em ajudar. Geralmente, dis-
traem a outra p-essoada concentração em suas emoções, dizendo ,
por exemplo, '''Veja o lado bom " , ou , "Age ra vamos examinar
suas alternativas' ·', ou ainda, perguntan _do por quê. ("Por que
.1 você acha que seu pai bebia?") As melhores ft.ases são: "Como
está se senti ndo agora?'' ou, •'Qual foi a sua sensação?' ', ou , '' Se
sua triste.zâ pudesse falar,o que diría??' São palavras que encora-
jám a pessoa a expressar suas emoções.
Não se esqueça de que este é o trabaJho da dor original.Ge-
raJmente tentamos retirar as pessoas de dentro das suas emoções
porque as nossas não foram resolvidas. for exemplo, se você co-
meça a soluçar, pode comover minha tristeza não resolvida. Se
eu puder fazer c;omque voe~pare de soluçar,oão preciso sentir
a min,ha dor. Mas essa a:juda aparente para terminar com a emo-
ção não o ajuda em nada. Na verdade , cria confusão e, provavel-
mente , foi o que aconteceu quando você era crianç;i.. As pes,5oas
que 0 consolavam, pensando que estavam ajudando. esEavam,na
verdade,. impedindo
~ .
que você
. fizesse o que mais pred $_ ava fazer
- senur os propn,os senC1111e1ltos ,
RESGATANDO
SEUEUDOSPJUMEIROS
ANOSDEVIDA 135

Os que procuram ajudar estão sempre ajudando a si mes-


mo s-.Aprenderam que podiam ser importantes ~judando os ou-
tros,. superando a própria sensação de impotência.
Porém , exisceuma maneira de ajudar . Consiste em deixar
que as pessoas sejam o que elassão,permiàndo que tenham sen-
timentos e que os reconheçam . Esse reconhecimento pode ser ex-
presso do seguinte mod o: '' Eu o vejo e ouço sua voz e o vaJorízo
como você é. Aceito e respeito a ~ua realidade.''
Se você foi criado cm uma família disfuncionaJ , que tinha
como base a vergonha . é difícil estar presente para os outros da
ro:;.ncira que descrevi. Ninguém ! ne nht:m gn:? C p.:i:i: :::zer is-
so com petfeição . Quando tÍver consciência de estar denµo da sua
carênci a, simplesm ente reconhe ça que está falando sobre você,
não sobre a outra pessoa .
Entre tanto . se seu companheiro ou uma das pessoas do gru-
po sofre um a crise emocional , pare o exercício. Olhe oos olho s
dele, ou dela, e faça com que responda a pergunta s como: ''Q ual
é a cor da m inh a camisa ? Onde você mora ? Qual a marca do seu
carro? E a cor? Quantas pessoas há nesta sala nesre mome nt o?
Como se chamam ?' ' Essas perguocas obrigam a p essoa a focali-
zar o presente sensorial. Quando as pessoas rém um a crise em o-
cionai estão prisioneiras de um estado de espírito inte rior. Estão
revivendo os antigos sentimentos acumulados em um reservató-
ri-:ie são apanhad as pela energia do passado . Precísamos ajud á-
las a voltar para o presente . As perguntas as aju darão a voltar ao
aq u1 e agora .
Quando estiver pronto para o exercício, escolha uma pessoa
do grupo com a voz mais calma para gravat a meditação (ver
pág. 127). Grave até onde diz: ' 'Agora. imagine que você é o be-
bé pequenin o e precioso, olhando para tud o isso.'' Não graveas
afirmações, mas dê uma cópia a cada pessoa . Mande que cocos•
tem o polegar esquerdo em um dos dedos da mão esquerda. Deixe
que fiquem assim durante mais ou menos õOsegun dos. e man-
de separar os dedos . Continue grar..ndo a meditação onde diz :
''S aia do quarto, da casa... (ver pig . 129) e assim p or dian te, atê
o fim.
Agora faça o grupo ouvir a gravação. Quan do termíu ar, t e,
d os terã o reexpeumentado as sensações d o próprio nasciment o.
E cada um terá feito uma á.ncoradessas sensações com os do1s
dedos d a mão esquerda. Uma âncora é um gatilho sensorial asso-
1~ VO!!AAOLAR

ciadoa uma ~eriênciá do passado.(Cançõesantigassão bons c:xem-


plosdc âncoras. Ouvimos a.música eá associamosa um namorado
ou namorada ou ao verãocm que tínhamos 15 anos. Expressõesfa-
ciaissão boas âncoras. Se seli pai franzia a testa de cena modo, an-
tes de criticar alguma coisa que você'tinha feito, qualquer homem
que repita essa expressãofaz rcvivêraquela anri'ga âncorá.) Nassas
âncoras mais automáticas são resultados de traumas. O capítulo 9
tem tJm exercíciocompleto com o uso de âncoras.
Em seguida, formeq1 um CÍ(culocom uma cadeira no cen,
tro. Os membros do grupo revezam-se nessa cadeira. Antes de
começar seu trabalho, cada um decerminaseus Jimices FJS.icos . Por
exemplo, diga ao grupo a que distância deve ficar de você e como
você quer ser abraçado e acariciado. A pessoa no centro começa
a trabalhar, juntando o polegar esquerdo a outro dedo da mes,
ma mão - isto é, tocando a ' ' âncora sensorial'' que fizeram du-
rante a meditação. A finalidade é entrar em contaco com lem-
branças dos prime.iresmé$es de vida. Quero notar que você sem-
pre está em contato com essas lembranças. muito mais do que
imagina. Os co-dependencesgeralmente pensam que não estão
fazendo bem o aercício.Procurenão se comparar aos outros mem-
bros do grupo, A vergonha tóxica que criou sua co-dependência
é resultado dá. co,mpuaçãoque seus pais faziam entre você e a
criança que des achavam que você devia ser.
Tenha cúidado com observaçõescomo: 1 'Eu sei que estou fa-
. zendo tudo en:ado", ou., "A pessoa antes de mim começou a so-
J luçar e eu não estou nem com vontade de.chorar.'' A única coisa

que deve dizer a você mesmo é: ''Estou fazendo isto exatamence


da forma que eu préciso fazer.''
Quando você está no centro, já determinou seus limites físi,
cos e tocou sua âncora, o processo começa. ·
Cada membro do grupo escolhe à vontade as afirmações que
ttansffiÁtea vocêcom voz pausa,da e carinhosa. Deve haver um
intetvalo de ~Osegundos entre uma pessoa e a seguinte . Depois
de 20 segundos. o outro membro di.z sua afirmação, até terem
dado três voltas completas. (Isso significa que algumas afirma-
çõest provavélmente, serão repetid as.) Providencie uma caixa de
lenços de papel para quem .está sentado no centro. Depois que
cada um disse t.cêsafirmações, a pessoa -fica~entada no centro por
mais alguns minutos. Depois desse tempo, faça com que da voi-
ce para o grupo. Não comencem o exercícioanres que .rodos re-
RESGATANDO
SEUEU00S PIJMER0.5
ANOSDI!VIDA IH

nham frito seu trabalho. Quando todos teaninararn, cada pes-.


soa comenta a experiência de sentar no centro. Lembre-se, cada
experiência é úruca.
_Quando compartilhar sua experiência, procure focalizar os
seguintes pontos:

• Quais foram as afirmações que você escolheu para a pessoa


que estava no centro? Você seguiu algum padrão? Você re-
petiu a mesma afirmação muitas vezes? As afirmações que
escolheu foram quase todas as que vocêmais precisava ouvir?
• Alguma afirmação feita a você detonou um a descarga im c-
cliata de energia, raiva, tristeza ou medo? Por exemplo, mui-
tas mulheres soluçam quando ouvem as palavras , ''Estou
feliz porque você é uma menina.'' Cenas pessoas choram
quando ouvem, ''Você terá todo o cen,po que precisa.''
Preste atenção à volragem.Voltagem. ou intensidade emo-
cional, é onde a enetgia está bloqueada. Essa afirmação
de alta voltagem pode ser o tipo de alimento que você mais
precisa na vida.
• Preste atenção às vozes femininas e masculinas. Uma voz
masculina provocou medo , raiva, tristeza ? Uma voz femi-
nina provocou alguma emoção especial? Essas informaçõe s
são importantes para a elaboração do programa de defesa
da parte III deste livro. Conhecer os tipos específicos de
carência da criança interior é vital para dar o que da precisa.

Quando todos tiverem oportunidade de comentar as suas ex•


periências, termina o processo de grupo.
É assim que gosto de imaginar o resgate do meu bebê.
B8 \OIIAAOW

Agora qtle você resgatou seu bebé interior, poden1os passar


para o resgate ,dasua criança quando começou a andar .

.I
CAPÍTUID5
RESGATANDOSlJA CRIANÇAQUE
COMEÇAA ANDAR

Glória a. Deus pelas coisas coloridas


Por céus de duas cores como uma vaca malhada;
Por manchas róseas pontilhando as mw1.1 que nada111;
Outonos casunhos como carvão aceso, asas de tentilhão...
Tudo que é volú'YCI, sardento (quem sa~ como?)

- Gcrard ManJc:yHopkim

O que anda na ponta do pé nilo pode ficar de pé,


O que di largos passos nllo pode andar.

Provérbiochinés

A CRJANÇAQUE APRENDEA ANDAR

(UNIÃO OPOSICIONAL)

EU SOU EU

IDADE
: 9 MESES
(EST
- 18MESf.S
ÃGJO
mIDRATÓRIO
- ~ ANOS
18MESES
) -
AGIODE
(EST SEPARAÇÃO
)
POl.ARIDADEDEDESENVOLVIMENIO
: AUI'ON0MJA
XVERGONHAEDÚVIDA
FORÇADOEGO
: IQRÇADEVONTADE
PODER: SENTIR
EFAZER
RElACIONAMFNIO: NASOMENTO
PSICOLÓG
ICO:
C0NTRADEPENDtNOA
140 VOIIAAOI.Al

"'
INDICE DE SUSPEITA

Responda sim ou não às perguntas seguintes. Depois de ler cada


uma espere e veja o que está sentind o. Se sentir uma fone ener-
gia para o sim, responda sim; para o não, responda não. Se res-
ponder sim a qualquer uma dessasperguntas, pode suspeitar que
a sua criança maravilhosa foi ferida. Há vários graus de ferimen-
to. Você está em algum lugar da escala de uma cem. Quanto
maior o número de perguntas que você sente que deve respon-
der sim, mais ferida foi a sua criança, neste estágio.

1. Vocêcem dificuldadeem saber o que quer? Sim........ Não........


2. Tem medo de explorar quando chega a um lugar que não
conhece? Sim........ Não........
:.. Tem medo de tentar novasexperiências?Quando tenra, sen-
te sempre que alguém já as tencou antes? Sim........ Nã·o........
4. Tem muito medo de ser abandonado/a? Sim........ Não........
5. Em situações difíceis, você deseja que alguém lhe diga o que
f:azer.I· s·
~1m.. ..... . N-ao........
6. Acha que:·q:m sempre de aceitar as sugestões dos ouu os?
Sim........ :Não....... .
7. Tem dificuldade em se concenuarna exueriéociadQ momen-
to? Por exemplo, quando está de féri~. vendo algo maravi-
lhoso, preocupa-se com a possibilidade do ônibus da excu.r-
são partir sem você? Sim........ Não ........
8. Está sempre preocupado/a com alguma coisa? Sim........
Não........
9. Tem dificuldade em ser esponrhieo/a? Por exemplo, não cem
coragemde cantar de felicidadena frente dos outros?Sim........
Não........
10. Está sempre em conflito com representantes da autoridade?
Sim........ Não........
11. Geralmente usa palavrasrelativasa defecarou urinar - como
merda, mijo, etc.? Seu senso de humor se relaciona sempre
a piadas de banheiro? Sim........ Não........
12. É obcecado/a por nádegas? Prefere fantasias sobre sexo anal,
ou a prática dessa forma de sexo a qualquer outra? Sim........
Não'"'.....
RESGATANDO
Sl!ACRJANÇA
QUECOMEÇA
AAND.U 141

1.~. É freqüentemente acusado/a de ser:mesquinho com dinhei-


ro, amor, nas expressões de emoções ou em demonstraçõe s
_e • - ). ·s·
de a.ie1çao 1m........ N-ao....... .
14. Tem obsessão por limpeza e ordem? Sim ...... .. Não ....... .
15. Sente a raiva nas outras pessoas? Em você mesmo? Sim ..... ~
Não ...... ..
16. É capaz de qualquer coisa para evitar conflitos? Sim........
Não ...... ..
17. Sente-se culpado/a quando diz não a outra pessoa? Sim........
Nã0 ....... .
1e Evita dizer cão diretament e, mas quase sempre deixa de fa.-
zer o que prometeu , fazendo uso de meios indiretos passi•
v._ose manipuladores? Sim........ Não ...... ..
19. As vezes você "e nlouquece " e se descontro la completamen -
te? Sim ........ Não ........
2<' Cririca excessivamente as outras pessoas? Sirr, ........ Nã o..... ..
21. Você é amável com as pessoas e depois as crítica e fala mal
del as quando se afastam ? Sim........ Não .... ....
22. Quando é bem-sucedido em alguma coisa, cem dificulda de
em ficar satisfeito e acreditar no que conseguiu? Sirn ........
Não ........

Essas perguntas se relacionam ao pecrodo em que a criança


aprende a andar. A5 perguntas de 1 a 9 dizem respeito ao perío-
do de 9 a 18 meses. Esta é a primeira pane desse estágio , e com-
preende engatinha ~ tocar, sentir gosto e a curiosidade gener ali-
zada para explorar o mundo que o cerca.
As perguntas de 10 a 22 rdaciooam-se à idade de 18 '!leses
aos 3 anos. Este período é chamado estágio de separação.E um
estágio de conuadcpcndênciacaracterizado por uma união opo-
sicional.Na união oposicional a criança dirâ coisascomo: •'Não'',
'' Me deixa ÍáZer'' e' 'Não quero ' ', especialmente em resposta aos
pedidos dos país. Ela desobedece, mas semprena fren te dos pais.
A criança está ainda presa, mas tem de se opor aos país para se
separar e ser ela me sma.
Esse processo de separação foi chamado de seg'Jndo nasci-
mento ou nascimento psicológico. Marca o verdadeir o inicio du
nosso Eu Sou.
Agora começamos a jornada de exploração do mundo que
nos rodeia e da descoberta de quem somos. resr~ndo nossos po -
142 V011ANJW

deres. Para a criança de nove meses, o mundo é uma cornucópia


sensorial, repleta de coisas interessantes para serem exploradas.
Se foi estabelecida uma noção básica de confiança, nos primeiros
nove meses de vida, a criança começará a explorar cíambiente em
que vive. Ela quer especialmente vet, tocar e sentir o gosto.
Erik Erikson chama esse período de estágio Je ' ' incorpora -
ção". A criança quer .incorporar tudo à sua vida. Essa curiosidade
básica, quando alimentada , vai ser a fonte de todas as realizações
criativas, arriscadas e de avennua .
É o tempo de risco para a càança , u~a vez que ela não sabe
a diferença enue um objeto intere ssan te e uma tomada eléni ca.
As crianças, nesse período exploratório, exigem um cuidado cons-
tante e muita paciência . Os pais precisam ter um 6001 equillbrio
emocional para manejar bem essa fase .
A exploração e a separação tornam- se mai s intens as à medj.
da qu e a musculatwa da criança se:desenvolve. Ela aprende a en-
gatinhar, a andar . Tudo é parte do plano natural . Erikson vê o
desenvolvimento muscular em termos d e " segurar" e " larg ar" .
Todos nós temos de aprender o equilíbrio entre segurar e Jarga,i.
Aprender a andar , a comer, controlar a eliminaçã o, bóncar com
objeto s, 6:tlançar, nadar e correr eiógem esse equilíbrio de segu -
rar e largar. /\. criança aprende: esse equ ilíbri o ã med ida q ue de-
senvolve os músculos e a força de vonrade.
A criança tem boa força de vontade quando sabe ' 'segurar ''
(quando precisa '' ir ao banheiro' ' e está na igreja) e ''largar '' ade -
' quadamente (quando mamãe a fa.z sentar no urinol).
Segurar e largar estão relacionados também ao controle das
emoções. A centelha natural de vida leva a criança a ser ela
mesma, a querer as coisas ao seu modo. No começo, a criança
não tem equilíbrio emocional . Seu impulso na direção da auto-
nomia é super -reativo. Não mediu ainda o que pode e não po -
de fazer. Nesse estigio, torna -se absoluúsca e um pequen o "d i-
tador''. Tem crises de raiva quando não consegue o que quer .
O que ela precisa é de pais finnes mas paciente s, capazes de
determinar os limi tes adequados à idade da criança e de um
ou dois quanos "à prova de criança' '. Nessa idade, ela precisa
do pai e da mãe. As vezes, ela é "demais " e a m ãe precisa
de um descanso. O pai deve apoiar a m ãe e determinar Jimires
saudáveis. O pai é o símbolo do inclividualismo ; a mãe, o sím-
bolo da incorporação.
-
RESGATANDO
SUACi!ANÇA
QUEOOMEÇA
AANDAl

Os pais devem dar o exemplo da expJessão saudável da raiva


e da habilidade para resolver conflitos. A solyção de E9tifliros é
de importª1}cia vital para uma intimidade saudável. As _9'ian as
precisa'!) ver o~ai§_ !_esglve_l!doos próprios conflito s. ~m o~tras
palavras, __precisall!ver um relacionapiento honesto , no -~al O!_
pais ~ressaro seus verdacleiros .$Cncimentose resolvem suas di-
ferenças. -
A criança precisa expressar sua separação e explorar suas di-
ferenças. A princípio , ela quer tudo que é bom e que dá prazer.
A intervenção dos pais, determinando limite s, cria coniliros. A
cciançª deve aprenc;i_er que 12.odç jic_arzan_gJ?dae~ a 1!2, a.mãee
com o papaf_~gye mamãe e py,ai so ncinuarãoao seu fado:_De-
ve aprender a resolver o conflito e que não pode ter tudo ao seu
modo . Precisa aprender que o não tem conseqüências e que não
pode ter o sim e o não. (Você não pode dizer '' não' ', eu não qu e-
1
ro ir e quando compreende que a família vaià praia. dizer ' sim' ',)
Essas lições são aprendidas quando a criança aprende a andar , o
estágio em que desenvolve o sentimento de vérgonha e de dúvida .
A vergonha saudávd é simplesmente uma emoção de limites.
Ela nos permite sermos humanos, sermos imperfeitos. Não preci-
samos de muita vergonha- apen ~ o sufic_ient~-ª,E saber ue não
somosD ~" A vergonha éa salvaguarda do espírito'·, dJSseNiet2•
sche. A dúvida nos impede de saltar de janel as do segund o and ar
e nos permite a colocação de grades para garantir nossa segurança .
A força de vontade saudável é o objecivo desse estágio. Com
eli'-, desenvolvemos o poder de fazer. Não podemos fazer nad a
bem sem disciplina, o equilibrio entre segurar e largar. Alguém
disse certa vez que de rodas as máscaras da liberdade, a discipli-
na é a mais misteriosa. Precis_;unosde disci lina ara sermos livres.
Sem uma força de vontade saudável não remos disciplina .
Não sabemos quando segurar e quando largar. Ou larga.mos in•
devidamente (agindo desregradamente) ou seguramos indevida-
mente (açambarcar, controle c::xagerado,obsessão/compulsão) . En-
tretanto , os que aprendem a segurar adequadamente têm wna
boa base para a. fidelidade e para o amor e os que aprendem a
largar devidamente estão preparados para Jamenrar as transições
da vida e saber quando devem seguir em frente.
Um dos principais resultados da autonomia saudável. além
da força de vontade bem equilibrada, é a realização da •'cons-
tância do objeto''. Isso significa simplesmente que roda criança
VOo:AAOW

de trêuo.os _pr.ecisa co,mp...cc.cndrr9J1~..JJ.inBM.émé peáéirq nem


seus p_;us,nemi:1ªmesma._4_ve1gonha saudável ajuda a comQrecn-
_' 'Mamãc e pa ai são humano s. Não vão sem refaze r
der is_g>.
9_gue cu quero nem dar o que cu peço . Se forem saudmis. eles-
me darão o ~ue eu preciso. Quando eles determinam limites , eu
sempre fiço zangado. Mas é assim que eles conseguem o equilí-
brio.'' A constância do objeto nos permite ver o mundo como
o fenómeno imperfeito que ele: é. Quando a criança compreende
que os mesmos pais às vezes lhe proporcionam prazer, ouuas ve-
zes o negam, os pais permanecem como uma constante, embora
possam ser bons e mau s. do ponto de vista d a c~iaoça. A cria1.ça
deve aprender também que tem polaridades. As vezes ela est á
feliz; outras, está triste. Feliz ou triStc, continua sendo a mesma
pessoa._b-dul~~om crianças interiores feridas que não aprende-
ram essa li ão são, e~ _geral rí idos e absolutistas. Para elç_~ s§.
valem os exucmos .._!udo ou nada.
A medida que conquista a separação, a criança começa o tra-
balho de estabelecer suas fronteiras. Saber o que é meu e o que
é seu é essencial para um bom relacionamento. A criança, nesre
estágio, diz , constantemente , '• é meu '·. Isso é necessário parasa-
ber o q1Ic,..é seu e o que pertence a outra pessoa .

DISTÚRBIOSDO CRESCIMENTO

Neste estágio é mujto importante que os p~s tenham fronteiras


bem estabelecidas. E importante também uma forte noção de força
de vontade. Como cu disse antes, a força de vontade é uma força
do ego que forma a substância das boas fronteiras. Além disso,
a força de vontade nos permite contr olar nossas emoções expres-
sando -as adequadamente ( quando alguém p õe a mala em cima
do seu chapéu) e não as expressando quando não devemos (quando
o guarda nos manda parar por excesso de velocidade ). Ela nos
permite também dizer não par-a nós mesmos e para os outros .
O mais importante, a força de vontade apóia-se solidamente na
noção de equilíbrio.
jlais ue são adultos ccian_çasnão têm uma boa noçâo de
ectuilíbrio. Ou não sab em dizer não ou sempre dizem n ão. Âs
RFSG
.ATANDO
SUACRIANÇA
QUECOMEÇA
AANDAR 145

vezes, dizem sim e 1o_go -clizem não; de modo inconsistente e ma-


nipulador.
Nesse estágio, resolvi esse problema aprendendo a ' 'segu-
rar'' exageradamente. Abafei minha autonomia cornapdo-me um
garotinh·o perfeítamente obediente. Eu era o ''ajudanceda ma-
mãe,,. e o "bem meafuo" da vovó. Foi uma s.uperadapcaçio .
Minha criançama1avilhase escondeu.
Quando tentava expressaras outras partes do meu eu - raiva.
fazer desordem, rir alto, e assim por diante - era envergonhado.
Meu aprendiz~do de ir ao banheiro d·eve ter sido um pesadelo!
Durante muitos anos ti've medo de ir ao banheiro em lugares em
que todo mund 'o sabia o que eu ía fazer, Quando e-Capeq_ueno,
ia de pessoa cm pessoa, avísando que não de.viam ir ao banheiro
e depois trancava a pona. Não é um comportamento instintivo
normal. Eu sempre abria a torneira para que não ouvissemquando
urinava.. Para evacuar, tínha v9nrade de contratar uma banda!
Eu a.chava que meu corpo era o mal ou, pdo menos, que
eta sujo. Minha tradição religiosa via a vida humana como um
vale de lágrimas . A vida é o que temos de .suporrar para conse-
guir a morte. A 01orceerá a realização final! Os hábitos negros
dos padres e das freiras e .a caixa neg.r;apara confessàr vergonha
e culpa eram os símbolos de Deus no. ambiente em que cresci.
Meus pais foram também espiritualmenre violentados por
essas tradições. Meu pai não tinha fronteiras, era rodo baseado
na vetgonh.a. A vergonha tóxica nos faz pensar que wdo c;stásem-
pre errado em nõs mc;smos.Ser dominado pela vergonha é nã o
1e1:nenhum limite, o que nos leva ao vício. Meu pai tinha uma
porção de 'Vícios.Ele nã.osabia dizer não. Mais tarde, quanqo eu
tinha idade para me rebelar, segui o mesmo caminho.
Minha mãe era.uma· escravadó dever.Era a boa mulher 1 boa
esposa é boa mãe superadaptada. O problema com o dever é que
·ele é rígido, arbitrário e perfeccionista. Agi:adeçoa.Deus por mi-
nh3,mãe porque e~ não tecia sobrevivido sem seu senso de dever.
SegtH~ é melhor do que largar quanclo se educa uma criança.
Mesmo assim, a moralidade petfeccionísta escrava do dever ccia
filhos cuja base principal é a vergonha.
Ser escravo do dever é sentir que não se tem direito ao pn -
zer. A mãe escrava do deve.eodeia o p.raze,rporque fazer o que
ela g.osta produz a sensação de culpa. O dever cria os human os
''qu~ faz:en1''como diz Marion Woodman: •'para o perfeccionista.
14~

treinado para fuer, simplesmente seré como um eufemismo para


deixar de existir'•.
O distúrbio de crescimento desse c:ríodo é a erda do e ui -
líbrio. Até recobrar minha criança ferida, eu stgura'Va demais ou
largava demais. Eu era um santo (celibatâtio ), estudando para ser
padre ou um alcoólatra c!esconttolado, à procura de orgias. Eu
era bom ou mau, mas nunca as duas coisas e via os outros como
bons ou maus, nunca asduas coisas. O que finalmente aprend i
na recuperação foi que não sou "melhor" do que sou 11 pior"
(desculpem a gramãtica ). Ser sempre o ' 'bom menino' ' não é hu.
mano. como não é humano querer agradar sempre . Lembro-me
bem de uma das .regras-da miriha fumilia para a auto-expressão,
"se você não pode dizer uma coisa agradável, não diga nada ' '.
Thumpe,r, tornou essa regra famosa com o Bambi , de Walt Dis-
ney. Mas Thumper era um codho!
O distúrbio de crescimento nesse estágio pode ser resumido
da seguinte maneira:
Ferimento espiritual - negg_ç_ão do Eu Sou. Não é bom ser
você. O ferimento espiritual ge(almenre começa nessa idade .
Vergonhatóxica.A vergonha tóxica diz que nada está cerro
em vocé. -O que você sente e pensa está err~do. Você é falho co-
mo ser hurn·ano.
, Reforço_pãra o comporca.meatoagressivo.A f;üta de disci-
plina cr.ia o··comportamento agressivo. O agressor quer o que quer,
não importa quais.sejam as conseqüências . Não se responsabili-
., za por seu componamento irresponsável.
Controle exageradoobsessivo. Quando se adapta demai ~•.&,.
crianÇ,aJorna-se_uma ~~soa q4e J!rocu1ug_ r:«iy ~ tQ.,dos_u,gmar
çq_ntade todos. Aprende a ·govemar segundo a letra da lei. E crí-
tica e arbitrária com ela e corn os out ros.
Vído. Sua criança interior não sabe dizer não, Você é ~icia-
do. Você bebe demais., come demais, ga.w ..Qt[Ilais ouJª .z ! Ç!,Q
demais.
Isolamento. Sua criança interior esta isolada e sozinha. Só
assim pode sentir~ prçíprias fronteir~. Ninguém pode magoá-
.lo se você não tiver contato com as pessoas.
Faltade equilíbrio - problemas de fronteiras. Porque sua
criança interior nunca fil?tendeu g man er o eÇJ_ujlíbri p engç__s~
gurar e largar, você é (1) me.~guínho ~.2.lF dioheitQ , ~l]1Qç
ç es,._do-
·gios ou amor, ou você é desi:egrad0icompletamente desconrrolado.
SUACRIANÇA
RESGAL\NDO QUEOOMEÇA
A ANDAR 147

Gasta tudo, incluindo você mesmo. A falta de equilíbcio o leva


a (2) controlar excessivamenteseus filhos (disciplina rígida) oo
recusar a eles qualquer limjte real (submissão ou licença exage•
rada), óu você pode fazer ora uma coisa, ora a outra. Não há
consistência nem equilíbrio o.o modo com que trata seus filhos.
Sem habí1ida:dede conuadependência você tem (3) graves pro•
blemas de relacionamento. Ora esti enredado/a, embaraçado/a,
preso/a (nã o pode sair)'. ora isolado/a e sozínho/a no relaciona-
mento.
Embora este não seja o estágio em que a criança aceita as
regras do sistema familiar, eStabelece-senesse período µma ce..-ia
tendência para a escolha das regras._Corno a criança que viveem
mim experimento..Y..&P ~acaçâ.o...u:aiYa.._c.IDILQabandono.
_dssenv..ol-
vi uma rendência para agradar as pessoas e tomar conta delas.

INFORMAÇÃO

.Para obter informações sóbre a história da sua c.r:ian


~a interior nesse
estágio. use o questionáüo seguinte como um guia geral:

1. Quem escavapresente quando vocêtinha de dois a ttês anos?


Onde esrava seu pài? Ele brincava sempre com você? Passava
tempo com você?Papai e mamãe continuaram casados? On-
de estava sua mãe? Ela era paciente? Passava tempo com vo-
cê? Seu pai ou sua mãe, ou ambos. tipham algum vício?
2. Como seus pais o disciplinavam? Se por meio de punição fí-
sica - o que exatameacedesfaziam - detalhe. Se por meio
de punição emocional, como eles o amedrontavam? Diziam
que ia levar uma surra ou ficar de castigo quando seu pai
chegasse em casa? Mandavam você apanhar o chinelo, o cin-
to, etc.?
3. Você tinha irmãos mais velhos? Como eles o tratavam?
4. Quem escavalá pál'avocê? Quem o abraçava quando estava
assustado ou quando chorava?Para determinar limites bon-
dosos mas firmes quando vocêficava zangado? Quem brin-
cava, ria e se divertia corn você?
14& 'JOUA
AOIAR

Escreva o máximo possível sobre sua história nesse estágio.


Dê atenção a qualquer coisa que sabe sobre segredosde famíJia,
que não podia saber naquela idade. Por exemplo,papai eravi-
ciado cm sexo e tinha muitos "casos"? Seu pai ou sua mãe era
uma vitima não tratada de violência física, sexual ou emocional?
Conheço um homem que, aos 40 anos, descobriu que sua mãe
fora vítima de incesto físico e não-físico. Ele mesmo tinha '' repe-
tido o fato'' durante anos, escolhend o mulheres que eram víti-
mas não tratadas de incesto. Ele era muito chegado à mãe e acre-
dito que procurava repetir com outras mulheres o ferimenco de-
la. não resolvido.
Segredos de família são sempre sobre a vergonha tóxica e
você precisa compreender tudo que for possível sob re esses fatos.
Quando escrever, focalize sua atenção nos m odos pelos quais vo-
cê era envergonha do - todas as formas de repressão dos seus sen-
timentos, necessidades e desejos. Dê atenção especial também à
falra de disciplina em sua casa. Note como você adquiríu uma
sensação de falta de poder por não crr sido disciplinado. Note
que ninguém se deu ao trabalho de estabelecer seus limites, nin-
guém seimpocrou o bastante para ensiná-lo a dar e receber. Nin-
guém o eõsiµou a se responsabilizar po.rseu compoJtamento.
Descreva qualquer incidenre craumádcodesse período , com
todos os detalnes que puder lembrar . Por exemplo , descrevendo
o incidente em que você foi punido por uma coisa feita por seu
irmão, conte: "Meu irmão e eu estávamos brincando com duas
bonecas de trapo. Uma delas estava rasgada e o algodão estava
saindo. As duas eram pintadas de vermelho e azul , mas os deta-
lhes estavam desbotados. Meu irmão agarrou a minha boneca e
arrancou o braço dela. Imediatamente ele correu para mamãe e
disse que eu tinha arrancado o braço da boneca dele. Meu irmão
era o favorito da minha m_ãe! Ela imediatamente bateu cm mim,
uma palmada nas costas, a outra no tr.1Sc:iro.Doeu e corri para
meu quarto, chorando. Meu irmão começou a dr .''
Talvezvoe.énão se lembre de todos os <lcralhes, mas escreva
rudo que lembra . Há um slogan em terapia que àiz: ''Você não
pode errar com detalhe.'' O detaJhe está mais próximo da expe-
riencia real, portanto, mais .perto dos seus sentimentos reais. Por
exemplo, não vou causar grande impact o cm você se disser que
uma das minhas clientes me contou que o pai a obrigou a um
relaciona mento incestuoso desde que tinha um ano e meio até
RESGATANDO
SUACRIANÇA
QUECOMEÇA
AANDAR 149

os quat.to anos. Você pode ficar ho«orizado com a jdéia, mas não
terá unia resposta emocional. Mas agora eu digo que ele a deita-
va sobre suas .pernas todas as noites e a obrigava a sugar seu pê-
nis, o que a et1sinou a fazer pondo uma ponta igual a um mami-
lo na ponta do pênis. Agora ·você talvez, sinta um pouco da uai-
ção e da dot que essa mulher sentia.

COMPARmHANDO CO.M U~1 AMIGO


ESSE ESTi\.GIO DA SUA v1n~

Como no primeiro e~tágio, é necessário que \TOCêcompartilhe com


uma pessoa compreensiva e amiga esse período da sua vida. A
idéia ceht.rnJ deve ser de que o chamado comportamento do "due •
co terríYel' ·· é tão natural quanto a noíce depo is do dia. A,osnove
meses, toda criança começa a engatinhar e a explorar. Aos 18 me-
ses, toda criança começa a dizer ''nã o' ' e a ter críses de raivaquan-
do é contrariada .
O cox;nportamencq da criança de dois anos nada tem a ver
com sei '· m á'' ou ''bo a·' . Certamente , não tem nada a ver com
alguma coisa micica como o pecado original.Eu apreAdi , como
muitas outras crianças, que nasci com a mancha do pecado dos
nossos primeiros pais, Adão e Eva, que eu tinha teodêoda para
o mal e para o egoísmo e que a disciplina e os castigos eram para
meu bem (embora não tenha sido múito castigado fisicame,nte
quando crí,ança).
Se você observar uma criança dessa idade , brincando, ~em
de estender ao máximosua imaginação para concluir que ela é
tná e que tem tendência pata o mal. Quem quer bater, punir
e impor restriçõ .es é a criança ferida que viven0s pais. Ela fazisso
em razão ' do seu medo superadaptado de ser abandonada ou por
necessidaàe de vinganç .a (fazer aos filho$ o que gostariam de ter
feito aos próptios pais ).
A cri~nça é carente ·e imatura e difícil ele mane jar quando
come ça a andar , mas aão é um vj}ã.omoral! Fiager demonstro u
o que se conhece em cada idade. A idade da razão começa mrus
ou menos aos sete anos. Não é possível uma no ção de moralid a-
de antes disso.
JiO

Co.rnpanilhe com s.eu amigo a violação da sua criança nesse


estágio. Deixe que ele esteja ao seu lado e ouça sua história. Você
precisa de um aliádo para legitimare validara mágoa e a dor
sofrida . por sua criança preciosá.
Se você é agre_ssivo,precisa que o abuso sofrido seja legitimado.
Você não teve ninguém para detepri1nar os limites C:.para ensinar
a disciplina da responsabilidade pelos próprios atos. E verdade que
o comportamento agressivo nunca é justificado. Mas os agressores
geralmente focam, antes, vítimas. Na pane III deste livro sugj.ro al-
guns'modos para ensinar um pouco de disciplina à sua cáança ferida.
Vocêtem de trabalhar arduamente para desenvolver sua consciência.
Contar a história a um ai;nigo compreensivo é uma forma
de reduzir a vergonha tóxica. A vergonha tóxica, se está lembra-
do, cria o isolame nto e o silêncio. Quanto mais envergonhada ,
mais a criança sente que não tem direito de depender de nin-
guém. Porque a criança ferida jamais teve suas necessidades aten-
didas e sentia mais vergonha quando estava mais carente, ela po-
de pensar que está aborrecendo a pessoa se pedir para ouvir sua
história. Na verdade., você tem rodo diieiro de permitir que os
outros o amem e cuidem de você.
· Nio 'Se,esqueça ·, você .está fazendo isso por sua criança pre-
ciosa e ferid~. Ouça a crian.çaque você 6 dedilhando as córdas
do seu coração!

SENTINDO SEUS SENTIMENTOS

Se você tem uma fotografia sua nessa idade, olhe para ela. Veja
como era inocente e pequenino. Depois, observe durante algum
tempo uma criança .que está começando a andar e passe algum
tempo com ela. Concenue-se na normalidade desse estágio de
desenvolvimento. Era normal para você ser cheio de energia, ba-
rulhento e desordeiro. As crianças dessa idade me:x-emnas -coisas.
,Vocêera curioso e se interessava por tudo. Você dizia não para
começar uma vida só sua. Você ei:.ainseguro e imaturo e por isso
tinha acessos de raiva, Você era uma pessoinha inocente e bela .
Concentre -se em tudo que você passou durante esse e~ágio. Sin-
ta os sentimentos qúe a lembrança provoca,
J.ESGATANDO
SUACllANÇA
QUEOOMEÇA
A ANDAI 1) 1

CARTAS

Assim como para seu eu recém- nascido, escreva uma cana para
seu eu quando começou a andar. A carta é do adulto-voc ê - no
meu caso, um velho mago gentil e sábio. Uma das minhas cartas
para meu eu desse estágio dizia :

Queri do Joãozin ho
Sei que você eStá m uito solitári o. Sei que nunca che-
gou a ser você me smo. Você tem medo de ficar zangado por-
que pensa que o fogo terrível chama do inferno vai queimá-
lo se ficar zangado. Você não pode ficar uiste ou com med o
porq ue isso é para mar icas. Nin guém conh ece realmente o
garoto ma ravilhoso que você é nem o que você sente .
Eu sou do seu futuro e sei m elhor do que ninguém o
que você p assou. Eu o amo e que ro que você fiq ue comig o
para sempre. Deixarei que seja exatam ente o que é. Ensina -
rei alguma coisa sobre equi!Jbrio e de1Xacei que você fique
zangado, com me do, triste ou alegre.Por favor, quero qu e
pen se em me deixar ficar para sempre com você.
Amor
Joã o

Quando escrevi isso, senti a tristeza e a solidã o da minha criança


1nrenor .

CARTADA SU:ACRIANÇAINTERIOR

Em seguida, escreva uma cana da sua criança ferida para você-


adu lto . Lembre-se de escrever com sua mão não dominance, a es-
querda, se você é de stro; a direita , se é canh oto. Aqu i está o que
uma pessoa do meu semin ário escreveu:
m VOl!AAOUR

Querido 'Ricardo

Po, favor,ve V\ ha VV\ebus c..a.r


Es~ou rre~o V\UW\ 0Y-VY\ar10

h i 4D a V\OS:,
es+-ou dr'ª vord d~,
p,e ciso d e. voc..e .
K i Cd í d,·~ ~ o
Depõis de escrevera cana, fique quieto por algum tempo e
deixe vir à tona qualquer sentimento que apareça. Se estiveracom-
panhado, ou se•civerum amigo, um monitor ou um terapeuta que
saiba o que você está fazendo, leia para ele sua carta, em voz alta.
Essa leitura, com um rosto refletindo o seu, tem grande força.

-
AFIRMAÇOES

Mais uma vez vou pedir que volte ao passado, encontre seu eu
nesse estágio e faça as afirmações que ele precisa ouvir. Estas são
diferentes das afirmações para os púmeiros meses da vida.
Seu cu nessa idade precisa ouvir isco:

Pequeno ..........................., é certo ser curioso, querer olhar,


tocar e sentir o gosto das coisas. Eu farei com que vocé
possa explorar com segurança.
RESGATANDO
SUACRIANÇA
QUECOMEÇA
AANDAR

Eu o amo do jeito que você é, pequeno .........


Estou aqui para atender às suas necessidades. Vocênão pre-
~ cisa atender às minhas.
; ceno que você precisa de cuidados, pequeno ........
E ceno dizer não, pequeno ........... Estou felizpor vocêquerer
ser você.
É certo para nós dois ficarmos zangados. Resolveremosnos-
sos problemas.
É certo sentir medo quando faz as coisas ao seu modo.
É ceno ficar triste quando as coi~'lSnão dão cerco.
Nunca o abandonarei, aconteça o que acontecer!
Pode ser você mesmo, que continuará contando com meu
apo10.
Gosto de ver você aprendendo a andar e a falar. Gosto de
ver você separando-se e começando a crescer.
Eu o amo e dou grande valor a você, pequen o .......

Leiaessasafirmaçõesdevagare grave o significadoem sua men•


te. Agora vocéestá pronto para recuperar sua criança nesseestágio.

MEDITAÇÃOPARAESSE ESTÁGIO
Vocêdeve ter gravada a introdu~ão geral de todas as meditações.
Se não tiver, veja na página 127 e grave o começo da medicação
que termina onde diz: ''Qual era a sensaçãode morar naquela
casa?" (Se você está começando a ler daqui, por favor, leia as ins-
truções nas páginas 126 e 127).
Agora, acrescente o seguinte à introdução geral.

Imagine que pode sair daquela casa e ver uma criança que
está começando a andar, brincando cm um quadrado de
areia... Olhe para ela com atenção e procwe sentir a crian-
ça... Qual a cor dos seus olhos?... A cor do cabelo?... O que
está vestindo?... Fale com essacriança... Diga o que tiver von-
tade de dizer... Agora, deixe-se flutuar no quadrado de areia
e seja a criança... Qual a sensação dessa criança de ser tão
pequena?... Olhe para seu eu-adulto ...
VOIIA
1()1.AA

Ouça esse adulto, esse mago sábio e -gentil fazer, com voz
calma, as afirmações seguintes. Sente-se no colo do mago
se achar que é seguro.

Se você está trabalhando com um companheiro, neste mo-


mento leia para ele as afirmações das páginas 152 e 153. (Ele está
olhando para o próprio cu-adulto, mas está ouvindo a sua voz.)
Se está trabalhando sozinho, graveas afirmaçõescom sua voz. com
uma pausa de 20 segundos entre urna e outra. Depois de ouvir
as afirmações, espere dois minutos para que seu eu-criança sinta
o que tem de sentir, então continue :

Se tiver vontade de abraçar o seu cu-adulto, por favor, faça


isso. Enquanto o abraça, sinta que vocêé novamente seu cu-
adulto. Abrace seu cu-criança. Comprometa-se a amar essa
pane descuidada, aventureira e curiosa de você mesmo. Di-
ga para a criança: cu nunca o deixa,:ei ... Sempre estarei aqui
para você... Conscientize-se de que acaba de recuperar seu
eu-criança que está começando a andar ...
Sinta a sensação de voltarpara casa... Sua criança é dese-
jada, amada e nunca mais vaificar sozinha ... Afaste-se dessa
casa... Sü'ba_aladeira da memória... Passepelo pátio da sua es-
colaprimária. Olhe para o playgcounde para os balanços... Pas-
se pelo seu lugar favoritono começoda sua ado1e.scê:ncia... Passe
pela lembrança de dois anos atrás... Sinta vocêno espaço que
está ocupando agora.... Sinta os dedos dos pés... Mexaos de-
dos dos pés... Sinta a energia subindo por suas pernas... Sinta
a energia no peito, quando respira fundo ... Solte o ar ruidosa-
mente ... Sinta a energia nos ombros, no pescoçoe no queixo.'..
Estenda os braços... Sinta seu rosto e sinta-se completamente
presente... de volta ao seu consciente normal... e abra os olhos.

Fique sentado por algum tempo, pensando nessa experiên-


cia. Sinta tudo que tiver de sentir. Se não sentir nada, rudo bem.
Pensenas palavrasque causanm um maior impacto em voct Onde
as emoções vieram à tona para você? Como se sente agora? Do
que está consciente?
Escreva qualquer sentimento forte qu e tenha tido ou qu e
estã tend o. Se tiver vontade de compartilhar esses sentimento s,
por favor, faça isso.
RESGATANDO QUECOMEÇA
SUAOJANÇA AANDAR llS

Trabalhando com um companheiro

Se fizer este exercício com um /a companhei ro/a, reservem algum


tempo para legitimar mutuamente as violações sofridas. Atuem
como um espelho e o eco para seu companheiro , verificando o
que ele diz .
Devem se revezar para conduzir a meditação. Como está no
texto, a única diferen ça par a o caso de d11aspessoas é que seu
companheiro diz as afirmaç ô~·s em voz alt2. Além disso. o qu e
estiver conduzindo pode abr açar e acariciar você do modo que
considerarem seguro para os doi s. Para mais informações, leia a
introdução para o exerácio com um companheiro, na página 131.

O trab alho de grupo


Leia as instruções para o trabalho de grupo na página 132. Uma
vez gravada a introdução geral à meditaçã o, faça o porta-voz do
seu grupo acrescentar o seguinte: à gravação:

Agora imagine que você pode sair e ver uma criança que es-
tá começando a andar, brincando em um quadrado de areia...
Olhe para ela com atenção e sinta a sensação dessa criança ...
Qual a cor dos seus olhos?... Do s cabelos?... O que ela está
vestindo?... Fale com essa criança ... Diga o que tiver vontade
de dizer ... Agora, deixe-se flutuar no quadrado de areia e
seja essa criança pequena ... Qual a sensação de ser uma criança
tão pequena? ... Olhe para seu eu-adulto ... Ouça essa pessoa
adulta dizer em voz lenta as afirmações para esse estágio.
Sente-se no colo desse adulto se achar que é seguro.

Não graveas afirmações.Dê a cada pessoa urna cópia e siga as


iosuuções da página 135 para fazer uma âncora. Conti nue lend o
até o fim a meditação desrc capitulo. Entã o, ligue o gravador e
faça o rodízio com as afirm ações, descrito nas páginas 135 e 136.
Conscientize- se de que o seu cu-adulto pode tomar conra
da criançafrn'da que vive em você. Eis como eu vejo ·a recupera-
ção da minha criança que começa a andar .
/

Agora: está n.a hora de seguir adiante e trazer seu eu na ida-


de pré escolar para a festa de volta ao lar que estamos promo-
0

vendo.
CAPÍTUID6
RESGATANDOSlJA CRIANÇA
NA IDADE PRE-ESCOLAR

Ma,, b vezes, sou como uma árvore que se ergue sobre um. rúmulo, um2
irvorc frondosae crescidaque viveuo soonu especialque o menino morte< .
cm voltaáo qual suas rài.i:csse desenvolvem,perdeu a travesàe suas ume•
zas e seus poemas.
- Raincr MaciaRilkc

Seja 'fiel ao seu próprio eu.


- William Shaiccspc2:
e

IDADE PRÉ-ESCOLAR

(PRJJ.fEIRAIDENrIDADE)

MENINO
EU SOU ALGUÉM<
MENINA

ldidc: dos3 aos6 anos


Polmdadcde dcscD'IO
!vimcmo: Iniciativalffll/S Culpa
furça do Ego: Propósito
Poder: lmagioare Scotir
Rdroo021llcoto: lrulcpcndênci2

ÍNDICE DE SUSPEITA

Responda sim ou não às perguntas seguintes . Depois de ler cada


pergunta, espere e entre em contato com seus sencimencos. Se


1)8 vrnL\ AOLAR

sentir uma energja mais forte para o sim, responda sim; se para
o não, responda não. Se responder afirmativamente a qualquer
pergunta, pode suspeitar de que sua maravilhosa criança interior
foi ferida, no passado. Há vários graus de ferimento. Você está
em algum lugar em uma escala dé um a cem. Quanto maior o
número de perguntas que você sente-que deve responder com um
sim , maior é o ferimento da su:i, criança em idade pré-escolar .

1. Votê tem graves problemas de identidade? Sim ..... Não.~,..


Para .ajudarnesta resposta, considereas perguntãSseguintes:
Quem é você?A resposta vem com facilidade? Independe n.•
te das suas preferência s sexuais, você sente que é realmenre
um homem'? Uma mulher ? Você supe,rdramaüza seu se~o
(tenta ser macho ou scxy?)Sim..... Não .., ..
, 2. Mesmo quando faz sexo no contexto legítimo scnte•se cul-
pado/a? Sim ..... N.ão .....
3. Tem dificuldade em identificar o que está sentindo em um
determinado momento? Sim ..,., Não .....
4. Tem problemas de comunícaçâo com as pessoas com as quai s
. 1 ( cofiJuge,
conv1ve. ,. . filh
· os, patrao, - arrugas. s·
. 1) 1m..-~- N'ão .....
5. Tenra-controlar seus sençirnentos a maior parte do tempo ?
Sim .,:.. Não .....
6. Tenta controlar os sencimeorgs das pe ssoas com quem convi -

ve.1 un .,. .. N-ao .....
7. Você chora quando -fica zangado/a? Sim, ___Não .....
S. Esbraveja quando tem medo ou quando é magoado? Sim .... .
- .......
N ao, :.
9. Sente dificuldade em expressar seus s~ntimentos? Sim .....
Não ...
10. Acha que é responsável pelo comportamento ou pelos senti-
mentos de outras pessoas? (Por exemplo , acha que pode fâ-
zer as pessoas ficarem tristes ou zangadas?) Sim / .~: Não .....
Sente-se culpado/a por coisas que aconcecem aos m·embros
d a sua fami s·
· "l'1a.1 1m...... N ao- · .... .
- 11. Acredita que se você agir de um cerco mod o pode mudar Q
comporcameoto de outra pessoa? Sim .. , .. Não ....
_ 1;. Acredita que desejar ou seoci~alguma coisa pode fazee com
que se torne re-.u1 -l'd ade.t s· 1m.....,.-. N:::
."0.., ..
l 3. Você aceita men sagens confusas e comunicações inconsiscentes
.
sem pe di r e.xp11caç:ão. 1 ,s·
1m. ... . N ão....-.
SUACRIANÇA
RESGATANDO NAIDADE
m-ESCOW

14. Você age baseado/a em suposições não verificadas. tratando-


as como se fossem informação real ? Sim ,.: .. Não .....
15. Sente-se responsáveJ pelo problema conjugal dos seus pais,
ou pe lo d1vorao. s·
. " . ) un. ... . N-ao.,,
· ..
16. Você procura o sucesso para que seus pais fiquem satisfeitos
com eles mesmos ? Sim..:.. Não .....

,.
PRE-ESCOLARNORMAL

Mais ou meno s aos uês anos você começa a perguntar por quê
e mais uma porção de coisas. Não pergunta por ser burro ou in-
conveniente, mas porque isso faz pane do plano de crescime~to
de um poder maior. Você faz perguntas porque tem :.ima energia
vital - um impulso inicial - que o empurra na direção de uma
vida cada vez mais ampla.
Resumindo o seu desenvolvimento até aqui: sente -se bem-
vindo ao mundo e sabe que pode confiar no mundo o bastante
para ter atendidas todas as suas necessidades . Vocé já desenvol-
veu força de vontade suficiente e internalizou discipl ina para con-
fiar em si mesmo. Agora, precisa desenvolver o poder de visuali-
zar querµ você é e imaginar como quer viver sua vida. Saber quem
é signifi ca ter identidade, que compreende sua sexualida de, suas
cren ças sobre você mesmo e suas fantasias. A criança na idade pre-
escolar pergunta tanto por quê porque há tanta coisa para en -
tender. Alguns de nós estamos ainda procurando entender cer-
tas coisas.
Porque entender quem você é e o que quer fazer com sua vi-
da é uma tarefa tão difícil, as crianças têm uma proteção especial
para ajudá-las nessa compreensão. Essaproteção cham a-se egocen-
trismo. A criança é egocêntrica por natureza. Não é egoísta. Seu
egocentrismo éum fato biológico, não uma escolha. Antes dos seis
anos, a criança não é capaz de compreender o mundo segundo o
ponto de vista de ouua pessoa. O pré-es colar pode ser emocjonal-
mente conge nial, mas não pode, na verdade, se pôr no lugar dos
outros. Isso só conseguimos mais ou menos aos 16 anos.
A criança em idade pré-escolar é também muito mágica. Está
muito ocupada, testando a (_ealidade para separá-la da fantasia .
160 AO!.AR
VOIJA

Esse é um dos meios pelos qua.is ela descobre o próprio poder.


Testar é descobrir quanto poder ela tem.
Nessa idade, a criança é muito independente. Está ocupada
em fazer perguntas, em formar crenças, em visualizar o futuro
e tentando descobrir como o mundo funciona e o que faz com
que as coisas aconteçam. Quando desenvolve um sentido mais
apurad o de causa e efeito, aprende a maneira de influenciar as
coisas. Ela trabalha em tempo integral nessa tarefa natural e
saudável.
A tarefa dos pa.is consiste em ensinar 3'lS filhos e a dar exem-
plos. Enquanto o pai dá o exempl o do que é ser h omem. a mãe
dá o exemplo do que é ~er mulher. Mamãe e papai devem tam-
bém dar o exemplo de um relacionamento saudável, incluindo
uma sexualidade saudável. Além disso mamãe e papa.i devem ser
exemplos das habilidades da boa comunicação, como esclarecer.
ouvir, pedir o que quer e resolver conflíro s.
Os meninos precisam de uma ligação especial com o pai. Is-
so só é possível quando o pai dedica baseante temp o ao fil~o. Es-
sa uni ão exige o contato físico tanto quanto emocional. E vital
para a menina ter um pai, mas não é tão impo rtante quanto a
necessidade que um menino cem da presen ça e da companhia
do pai. A ménina já está ligada à mãe e precisa se separar del a.
O menino est«· ligado à mãe , mas não como a menina , em razão
do tabu do inc esto. O menino precisa se proteger para não incor-
porar a sexualidade projetada da mãe .
Unindo-se com o pai, o menin o quer ser igual a ele e come-
ça a imitar o seu cómportamento. Pode dizer a todos que quan-
do crescer quer ser igual ao pa.i, e nos seus brinquedos ele a·ge
simbolicamente, fingindo ser o pa.i. Alguns menino s encontram
outros heróis para admirar e imitar . Meus heróis eram os jogado-
res de beisebol. Colecionava figurinhas de beisebol e usáva o uni-
for·me do meu time favorito. Uma bola de bejsebol autografada
era uma das minhas ma.is precio sas possessões. Do n1esmo modo,
as meninas imitam o componamento da mãe. Podem brincar de
mãe , levand_oas bonecas no carrinho e dando mamadeira para
das. As meninas podem também ser muito provocantes vestindo-
se como adultos e usando maquia gem.
Nesse período pode surgir uma predi sposição biológica pa-
ra o homossexualismo . Quero deixar afirmado aqui que acredito
que há uma forre e crescente evidência de que o homo ssexualismo
..
SUACRJANÇA
KESGAIANDO NAIDADE
Pll-EiCOW. 161

é uma tendência inata. não um estado patológico ou um distúr-


bio do crescimento . (Em todos os meus anos de terapia, nunca
encontrei um gay que não tivesse certeza da sua orientação se-
xual desde pequeno.) Minha preocupação neste livro é com a crian-
ça interior de todas as pessoas . Muitos gayscarregam com eles
uma quantidade excessiva de vergonha, uma vez que é comum
envergonharem-se todos os que não têm as características e o com-
portam ento tradicionalmente masculinos. Se você é homossexual,
homero ou mulher, sua criança interior na idade pré-escolar pre-
cisa ouvir que é perfeitamente cerco ser o que você €.

FORÇA DO EGO NO PRÉ-ESCOLAR

Erikson chama de propósicoa força do ego na idade pré-escolar.


Segundo ele, essa força de propósito nasce de uma noção de ide n-
tidade. Quando o desenvolvimento até a idade pré-escôlar é sau-
dável, a criança pode dizer: ''Posso confiar no mundo , posso con-
fiar em mim mesmo e eu sou especial e único. Sou um men i-
no/sou uma merúna . Posso começar a visualizar meu futuro sem
precisar sabe'r exatamente o que quero fazer.' '
O poder nasce da aquisição da identidade - o poder de se
iniciar e de escolher. O pré-escolar saudáv el pensa : '· Eu posso ser
eu e tenho toda ;,.vida pela frente. Posso brincar de ser papai ou
de ser mamãe. Posso sonhar cm ser um homem como papai ou
uma mulher como mamãe. Posso sonhar que sou adulto e que
posso criar minha própria vida.''

DIS1ÚRBIO DO CRESCIMENTO

O distúrbio do crescimento neste estágjo mostra os resultados a longo


prazo da disfunção de uma família. As crianças procuram nos p:i.is
modelos para um comportamento adulto saudáv el. Se a mamãe e
o papai são adultos crianças co-dependentes e marcados pela vergo-
nha , os filhos não podem formar relacionament os ínti mos saudáveis.
162 YOOA
NJLAI

Os adultos crianças, tendo ,há muito tempo enterrad o seus eus


autênticos e perdido a noção de Eu Sou, não podem sedar aos com-
panheiros porque não têm um eu para dar. O adulto criança pro-
cura para casar uma projeção dos próprios pais - alguém que te-
nha os aspectos positivos e negativos dos seus pais e que comple-
mente os papéis do seu sistema familiar. Um Herói que cuida dos
outros geralmente casa com uma Vítima. uma vez que: assim cada
um pode desempenhar seu papel. Investem enormes quantidade s
de estimam útua, o que se torna mais evidente quando se:separam .
Um (ou os dois) pode se tornar suicida , afirmando que não conse-
gue viver sem o outro. Geralmente o adulto criança com prob lemas
de ser absorvido, se casa com um adulto criança com problemas de
abandono . Quand o o que tem medo tem de ser aband onado pro-
cura se aproximar, o que tc:ril medo de ser absorvido. foge:.Depois
de um período de separa ção, o que tem medo de: ser absorvid o se
sente suficientemente só para permitir que o comp anheiro/ a com
medo de abandono se aproxime durante algum tempo . Este/a, lem-
brando a separação anterior , logo se torna possessivo/a e absorve o/a
companheiro /afazendo com que esteiase afaste outra vez. Essã di -
nâmica de gar)gorra continua durante todo o tempo que dura o ca•
samento .-Cada um cria a resposta do outro .
Lembre-se do nosso desenho de dois adultos crianças que
eram como CFiançasde três anos. uma com 100 quilos , a outra,
som 70. Você e eu éramos a criança de cinco anos com 30 quilo s.
E claro que temos de lembrar que a mesma coisa aconreceu
com n,ossospais. Quando a criança ferida da mamãe ou do pa-
pai compreende que o outro não vai ser o progenitor há tanto
tempo desejado, voJta-se para os filhos para dar o que seus pais
não deram .
Considere a família la vender. Bronco la vender é um caixeiro-
viajao te. É também viciado em sexo. Nas raras vezes que está em
casa, finge que tem um relacionamento muito íntimo com a mu-
lher, Glory. O nome de Glo.cyfoi escolhido pelo pai , pastor pro-
testante, em honra à "gJ6ria" do Senhor. Glory é uma co-
dependente que está tendo um ''caso " com seu professor da Bí-
blia escolhido por el a mesma . Bronco e Glory •têm crês filhos :
dois meninos , 16 e 13 anos, e uma menina de 11 anos. O mais
velho é um atleta muito talentoso. É uma estrc:Ja na escola e o
' ' melhor companheiro '' do papai. Dos 12 aos 14 anos ele violen-
tou sexualmente a irmã . A menina é obesa e é constantemente
IESGATANOO
SUACllANÇA pg.f.Scow
NAIDADE 16}

repreendida pela mãe. Conheci os Lavcndcr quando me trouxe-


ram a filha para terapia cm razão do problema de peso. O filho
mais novo é o "queridinho da mamãe". Tem inclinações arusú-
cas, não é atleta e é muito religioso, o que agrada extremamente
à mãe. O pai não gosta dele e o atormenta chamando-o de mari-
cas, fracote, etc. Ele é o bode expiatório do pai. Aqui está um
diagrama da família La.vender .

/,,.. - - - "'\DIS'I'ÚRBIODE ,,,,..- ,


Subniruto da Mie / l INTIMIDADE/ '\ Subsúrura do !':li
ir
tCJ
Sa
o- du
D /
Bronca
VctJOnh2
~""'"""'"""....,,..,,...
,,
i-,vGlor, \ Co-Occcndcn1c
Vergonha / Viao - Religião
Co. cpen mcc \ Jõxin 1 / 1õxica /

1 ........
_ ___.1 1' /
1
\ 1 / /
Unilo __ ...\ 1 Uruã.o
Vcn.ical \ / / Vcrúcal

~~·~ 1 ~-~\/--~
Companheiro do Pai \
,' Bode Expiar6rio da Furu1 12
Criança Pcrdidz
AgfQ1i~ \ 1 1 Vitima
1 \ Disrútbio Alimenr:u
O Atleta \
\ __..
......... ,.........
__.. \
- - _A _ __ /
Homcotinho da Mamk
(Substlruro)
Bode .Expiar6ôo do Pai
Realizador
Zelador

Ninguém nessa família tem identidade real A mãe e o pai são


vítimas não tratadas de incesto não-físico. Ambos foram subsú-
tutos para os pais do sexo oposto. Aos três anos, Bronco foi aban-
donado pelo pai alcoólatra. Bronco cresceu para ser o orgulho e
a alegria da mãe. Faziam tudo juntos . A mãe freqüentemente
vestia-se na frente dele e usava o toalete quando ele escava LO·
mando banho. "Ela fez de mim a sua vida ", disse-me Bronco,
com lágrimas nos olhos. A mãe já morreu e Bronco lamenta com
freqüência o fato de "não existirem mais mulheres boas no
mund o' '.
Glory foi a dádiva de Deus para o pai . Fkava perto do púlp i-

_, ~
1~ VOIIAAOW

to, aos domingos, durante o sermão do pai. A mãe era hipocoodnaca


e estava sempre doente. Glory cozinhava, lavava e era uma bênção
.Para o pai Também dormiu com ele até os li anos. E embora não
tivessem sexo físico, ela era , sem dúvida, a substituta da mãe.
Bronco e Glory foram usados para amenizar a solidão da vi-
da dos pais. Pense na sensaçã.ode ser usado! Uso é abuso e cria
a raiva e a dor duradouras. Bronco e Glory idealizavam os pais,
colocando-o.sem um pedestal, achando que mereciam ser cano-
nizados. Bronco e Glory viviam na ilusão e na negação. Não ti-
nham noção do Eu Sou. Como podiam ter? Não havia ninguém
ali para eles e nenh um dos dois podia ser quem era realmence .
Tinham de cuidar d.i. carência e da solidão dos seus pai s. Isso é
abuso sexual não-físico.
Bronco e Glory levaram seus ferimentos espirituais para o
casamento e continuaram a mesma dinâmica disfuncional na nova
família . Bronco repetia o abuso sexual sofrido, tendo muitas mu-
as
lheres (ele amava e as deixava). Cada mulher rejeitada era uma
vitória simbólica sobre o controlç materno . É clal'o que fazia isso
inconscientemente. Ele nem sabia que tinha raiva da mãe , por -
que estava condic ionado para idealizá -la. Glory sentia -se arrasa-
da de vergenha com seu "caso' ' extraconjugal . Eu a ajudei a V("r
que o pai a ~ava como usava outras mulheres da sua igreja. Glory
usava a religião 'para disfarç~r sua tristeza e sua raiva. Ao mesm o
tempo estava praticando incesto não-fí sico com o filho mais no-
vo. Ele era o seu "homenzinho sensível" . Glory podia conversar
' sobre a Bíblia com ele. Fazia.m longas caminhadas, só os dois ,
aos domingos, meditando sobre a glória da palavra de Deus ,
Esse filho preenchia o vazio da criança ferida de Glory, enquan-
to que o filho mais velho cuidava da vergonha e da dor de
criança ferida que vivia no pai. A filha comia para preencher
o vazio da raiva, da dor e da solidão de todos da família. Bronco
e Glory preocupavam •sc com ela - o "p roblema da famílja",
" a paciente identificada", que foi trazida a mim para ser
'· consertada•' .
Os Lavender formavam um belo quadro na igreja, aos do-
mingos. Nin$uém podia imaginar o sofrimento profundo que vivia
neles. Ninguém na familia cinha identidade, porque nenhum de-
les reve as exigências da idade pré-escolar atendidas .
RESGATANDO
SUACRIANÇA
NAIDADE
·P~~OJLAR 16~

A familia Lavender é um bom exemplo da gravidade do fe-


rimento espiritual, provocado por um distúrbio de intimidade
no casamento. Quandó as crianças preenchem o vario das vidas
dos país , esse elo não saudável verticalou cransgeracional é extre-
mamente devastador para a identidade sexual da criança. A união
vertical é muito diferente da ltillào pai/filho e mãe/filha quedes-
crevi. A união ve(tical cria uma confusão do s papéi s desemp e-
nhados por cada pessoa - o filho ou a filha toma o lugar do pro-
genitor do sexo oposto no sistema familiar.
Bronco e Glory Lavender não tinham criad o o ambiente ne-
cess-ário para que a crianç a pudesse pensar, sentir e jmaginar. As-
sim, os filhos; incumbidos de tomar conta do casament o dos país,
estavam,na verdade, mantendo a família unida , Não foram aten-
didas suas exigências d o desenvolvimento no estágio pré-escolar,
quando a criança deve ser independente e inquisitiva , fazer per -
gunta s, testar a individu alidade e pens ar sobre as coisas. Com o
todas as famílias disfuncíona.ís, os lavender eram co-dependente s.
Cada pessoa era direcionada para o exterior. Nin guém tinh a temp o
par a presta r atenção aos próprios sinais inreriore s.
Da mesma forma e em graus variáveis, todas as famílias dis-
func iona.is víolencan1 a no ção de Eu Sou dos filhos. A disfun ção
pode ser vício de drogas ou bebid a, vki o de trabalho ou violên-
cia. Em cada caso, um dos pai s está envolvído com a prõpría dis-
função e o outro é ligad o a ele porco-dependênci a. Os filho s são
abandonados emocionalmente . Para piorar as coisas, estâo todo s
envolvidos com a necessidade , patente ou não, de manter o equ i-
líbrio pre cário e não saudável da famlli a. Nas famílias disfunci o-
na.is, ningu€m chega a saber quem €. Todos são postos a serviço
das necessidadesdo sistema.
A conseqüência mai s comum dessa disfunção é a fixação (J.
gida dos papéis represen tados por cada membr o da família. Co-
mo no scripcde uma peça , esses papéi s determinam o compona-
mento de cada pessoa e o que da pode ou não pode sencir. As
distorções de papéis ma.is comuns no estágio pré-escolar são: o
Exageradamente Responsável, o Sup ec-Realizador, o Rebelde, o
Sub-Realizador , o que Agrada a Todos (o cara legal/um amor ),
o Zelador e o Agressor .
A falta de identidade individual faz com que as famílias dis-
funcionais sejam dominadas pela culpa tóxica. O sentimento de
culpa saudável é o guardião da consciência. Tem origem num scn-
166 VOLTA
NJlAR

cimento saudável de vergonha , é a dimensão moral da vergonha


saudável. A vergonha da criança em idade pré-escolar é pré-moral
e em grande parte pré-verbal. Não é possível a moralidade en-
quanto não houver a noção de valores ínternali.zados. Os valores
são criados pelo pensamento e pela sensação. Valores pressupõem
uma noção mais ou menos desenvolvida de consciência. No fim
do estágio pré-escolar, a criança possui o começo de urna verda-
deira noção de moralidade, uma consciência em formaç ão.
Nas famílias disfuncionais a criança não pode desenvolver
uma consciência saudável nem urna noção saudável de culpa. A
falta de individualidade a proíbe de sentir que tem direito a uma
vida própria e desenvolve o sentimento de culpa tóxica. Esse é
o dobre de finados para o eu psicológico. A culpa tóxica é um
meio de ter o poder numa situação de impotência . Ela nos diz
que somos responsáveis pelos sentimento s e comportamentos de
outras pessoas, pode até mesmo dizer que nosso comportament o
faz outra pessoa ficar doente, como quando o pai diz: "V ejam
o q'.!e vocês fizeram, crianças, sua mãe está doente por sua cau-
sa!'• lSto tem como resultado urna noção grandiosa de responsa-
bilidade. A culpa tóxica é a causa de um dos ferimento s mais da-
nosos para- a_criança em idade pré-escolar .
,.

INFORMAÇÃO
J

À medida que avançamos nos estágios de desenvolvimento torna-se


ruais fácil escrever nossa história , mas a maioria das pessoas não
cem muitas lembranças anteriores aos sete ou oiro anos. Antes
disso, seu pensamento ainda era mágico, não lógico e egocêntri-
co1como uma forma de altera ção do consciente, Entretanto, pro-
cure se lembrar de tudo que for possível. Em geral, os faros trau-
máticos são mais maicantes . Representam os maior.es riscos de vida
e por isso deixam uma impressão mais nítida e duradou ra. Escre-
va tudo que puder lemb rar sobre as violações traumáticas desse
período. Não esqueça os detal hes específicos,
Escreva também tudo que puder sobre o sistema familiar.
O que seu pai fazia? E sua mãe ? O que você sabe - ou supõe
- sobre o casamento deles? D ê aten ção especial às suas suposi-
RESGATANDO
SUACilANÇA
NAIDADE
PRÉ-ESCOLAR 167

çõcs sobre a família. Finja que são verdades e verifique se o aju.


dam a compreender o sistema familiar. Se não ajudarem, esque•
ça. Se ajudarem, conviva com elas durante algum tempo.
Um cliente desconfiava que a avó fora violentada incestuo-
samente pelo pai. Essa avó foi criada em uma fazenda, a úruca
filha mulher entre sete irmãos . Meu cliente nunca ouviu a avó
falar sobre o pai. Ela era agorafóbica e bastante neurócica. Pare•
eia odiar os homens e uansmitiu esse ódio para as três filhas, uma
delas a mãe do meu clien te. Quand9 me procurou , ele apresen-
tava todos os sintomas emocionais da vítima de incesto. Escava
reoetindo o aco sexualmen c:: ' ' matand o" as mulher es oor me1(,
d; sedução, ele escrevia versos e dava presentes caros para elas.
Assim que elas engoliam o anzol. com chumbada. linha e rudo ,
meu cliente as abandonava, geralmente, num acesso de raiva.
Embora nã o haja nenhuma prova de que a avó fora vítima
de incesto, ele escreveu a hist ória da famí lia como se fosse verda-
de e, assim, muicas coisas se encaixavam e passaram a fazer sentidc,.
Quan do escrever a hi stória da sua criança ferida nesse está-
g10 pergunte -asi mesmo quem existia para você. na familia . Com
qual modelo você mais se ide ntificava? Quem foi o primeiro a
ensiná-lo a ser um homem? Uma mul he r? Quern o ensinou so-
brc sexo, an:or e int imidade ?

IRMÃOS E ffiMÃS AGRESSORES

Não falei sobre o abuso prati cado por irmãos, mas isto pode
ter um efeito importante - geralmente ignorado - no desen-
volvimento da criança. Talvez você tenha sido atormentado por
um irmão ou urna irm ã. Talvez tenha sido atorrr,enrado e mo•
lescado pelo filho do vizinho. Até mesmo a zom b3.rÍa pode ser
excremamence abµsiva, e a provocaçã o crônica pode se-r um
pesadelo.
· Escreva rudo que puder lembr ar sobre sua vida nesse esrá-
g 10 pré-escolar.
168 VOl!A>DW

COMPARTlllfANDO COM UM AMIGO SUACRIANÇA


INTERIOR EM IDADE PRÉ-ESCOLAR

Use os métod os descritos nos capítulos 4 e 5. D ê atenção especial


aos incidentes de violentação que pode lem brar. Use o seguinte
como possíveis fontes de sentiment os dolorosos:

• Brincar de sexo com a.migos da mesm a idad e.


• Incesto físico ou emocional .
• Ser ridicularizado e çensurado por pedir informação .
• Modelos deficientes de intimidad e.
• Senti mento de culpa provocado por outros.
• Falta de informação sobre sentime ntos.

SENTINDO OS SENTIMENTOS

Aqui, também, procure ver você mesmo nesse estágio de desen-


volvimento. :Observe e deixeque venham à tona os sentime ntos
provocados p9,r·essa lembrança. Se não consegue visualizar. passe
algum tempo com crianças dessa idade. Veja como são maravi-
lhosas. Imagine uma delas assum indo a responsabilidade de um
,1 cônjuge e sendo sub metida a um incesto físico. Pense na supres-
são da sua vitalidade e da sua curiosidade natural. Talvez você
tenha ainda uma boneca ou um brinquedo desse tempo. Verifi-
que se esse brinquedo tem ainda alguma energia para você. De i-
xe q~e essa energia o conduza a qualquer senti ment o que possa
surgir.

CARTAS

Para este estágio de desenvolvimento eu peço a você para escre-


ver três canas. A primeira , do seu eu-adulco para sua criança fe-
rida. Diga que você quer escarcon1 ela e está disposto a dispen -
sar toda a atenção e toda orient ação que ela precisa. Diga-lhe que
RESGATANDO
SUACRIAN
ÇANAIDAD~
Pl!t-ESCOIAR 169

pode perguntar o que quiser. Acima de tud o. diga que a ama


e dá um grande valor a ela.
A segunda e terceira canas são da sua criança ferida nesse
estágiopré-escolar.Lembre-se de escrever com sua mão não do-
minante. A primeira deve ser endereçada aos seuspais. Consiste
em dois parágrafos: um para sua mãe , outro para seu pai . Deixe
que a criança ferida diga a eles o que ela queria deles e nunc a
teve. Não é uma cana acusadora, é uma expressão da perda sofri-
da. Um homem , em um recente seminário, escreveu:

!-,fa
.mãe e papai querido ,;.
Papai, eu precisava que vocé me protegesse . Sentia me-
do o tempo rodo. Eu precisava que você brincasse comigo.
Gostaria de reri do pescar com você. Queria que tivesse me
ensinado muitas coisas. Gostaria que você não bebesse o cem·
p0 rodo.
Mamãe, eu p recisava que você me dogiass e. Precisava
que você dissesse que me amava. Gostaria que não me ti-
vesse feito tom:.r conta de você. Eu pre cisava de alguém pa-
ra tomar cont a de mim .
Amor
Robbie

É irnporcanceler sua carcaem voz alcapara a pessoa que vai


lhe dar apoio.
A segunda cana da sua criança ferida nesse estágio é para
o seu eu-adulto . É a resposta à sua. Essa cana pode surpreendê-
lo quando você entra em contato com a criança que deseja ar-
dentemente ter um aliado. Lembre-se de usar sua mão não do-
minante. Se 9uiser, pode compartilhar essas canas com um airu-
go. seu moou or ou com seu gru po.
Se estiver trabalhand o com um comp anheiro, cada um deve
ler sua cana para o outro. Depois de ouvir a cana do seu compa-
nheiro, de~creva o sentimento que ele demonsnou dur ante a lei-
tura. Diga se sentiu raiva, med o. e assim por diant e. Pode ser um
sentimento mais relacionado com você do que com ele, mas é
urna resposta honesta. Diga tan1bém os sentimentos que vocé-oi.,.
servou nele. Pode dizer, por exempl o: "Eu percebi sua tristeza
Havia lágrimas nos seus olhos e seus lábios escavamcomprimjdo .:.'
170 VOLTA
ADLAR

Evite.dizer coisas como: "Ca ra, você ficou mesmo sentid o.'' NãO'
interprete e não defina, diga apenas o que vo.cê viu e ouviu e que
o fez coochii r que de estava sentido. Pode dizer também que deve
ter sido horrível sentir-se negligenciado ou violentado como elefoj.
lsso ajuda a legitimar e validar a dor . Revezem -se nesse trabalho .
Se-você está fazendo os exercícios com um g.rupo, revezem -
se na leitura das cartas e deixem que cada pessoa descreva os sen-
timentos que observou no leitor .

OS PAPÉIS NOS SISTEMAS


FAMILIARESDISFUNCIONAIS
.
1::iencifique e descreva os papé is escolhido s pela sua criança em
idade pré-escolar para ser imponanre dentro da família. O meu
foi de Estrela, Super-ReaJizador , Zelador e Menino Bonzinho. Os
papeis escolhidos fazem de nós pacte cio elenco da peça familiar.
-Procure saber quais os sentimentos que precisou reprimir para
representat. seu papel. Os scâpcsexigem que os papéis sejam re-
presentados de determinado modo. Alguns sentimentos fazem
pane do scripc,·outros são proibi dos por ele. Meus papéis exi-
giam que eu.•estivesse sempre alegre, sorridente e parecendo feliz
e me proibiam de ter medo e ficar uiste ou zangado. Eu só era
, imp ortan te enquanto fosse a Estrela e estivesse realizando algu-
ma coisa. Não podia ser medíocre nem precisar de ajuda . Tinha
de ser forte . Se ey não representasse a contento, seria destituído
do rns:u poder. E claro que me tornei viciado em fazer coisas.
E importante senti r as conseqüências vitalmente prejudidais
dos papéis desempenhados. Eles custaram a perda do seu eu au-
têntico da infância. Enquanto continuar a desempenhar esses pa-
péis, o ferimento espiritual permanece e você pode chegar ao fim
da sua vida sem saber quem realmente você é.
Para recuperar sua criança ferida desse esd.gio , você precisa
desistir dos s.eus papéis rígidos no sistema famili:u. Esses papéis ,
na verdade, nunca o fizeram sencir que era importante e cerca-
mente não ajudaram a ninguém da fiunília. Pense no assunt o.
Alguém da sua família foi ajudado pelo faro de vocé representar
seus papéi s? Feche os olhos e im agin e que não pode mais repre-
sentar seu papel principal ! Qual a sensaçãode desisár desse papel ?
RESGATANDO
SUACRIANÇA
NAIDADE
Pli~COI.AR 171

Tente ~agina,r três novas formas de componameoto que po-


deriam ser usadas para anular o papel de Zelador da família . Por
exemplo, podia dizer não quando alguém pedisse ajuda. ou pe-
dir ajuda a alguém mesmo sem precisar, ou, ainda, pensar em
um problema atual e pedir a opinião de alguém entendido no
assunto. Com isso você pode mudar o papel usado por sua crian-
ça ferida para se adaptar à situação e entrar em contara com seu
eu verdadeiro. Seu eu autêntico pode gostar de ajudar os ouu os.
Uma vez tendo desistido do papel úgido, pode começar a ajudar
os outros porque isso lhe dá prazer e nã o porque cem de faze r,
par a se sentir dign o d e amor e considera ção.
Examine outros papéis. usando a fórmula descura acima. En-
tre em contato com os sencimc:nros que precisou reprim ir par a
desempenhar seus papéis. Desse modo , você estará recuperand o
os sentimentos autênticos da criança ferida na idade pré-escolar.

EXERCÍCIO

De.:;creva toda s as conseqüências prejudiciais dessa confus ão 0 1.1


seu sistema familiar para sua vida atual . Faça a conexão com os
sentimento s de perd a provocados pelo papel principal auto-
imposto. Compartilhe esses sentimentos com seu companheiro /a,
monitor/a ou com seu grupo. Os papéis são uma grande ajud a
para chegar à dor original. Uma vez estabelecido seu papel, você
verá os sentimentos que c::ve de reprimir para representá-lo. Es-
ses sentimentos reprimidos são sua dor original . Na inversão do s
papéis da união cransger acio nal você teve de desistir da sua
infância.

AFIRMAÇÕES

As afirmações para a criança interior ferida des se estágio são as


segwntes :
172

Pequeno ................ ......... ,


Eu gosto de vê-lo crescer.
Estarei aqui para verificarsuasfronteiras e descobrir seuslimites.
É cerro pensar em si mesmo . Pode pensar sobre seus senti-
mentos e sentir sobre o que está pensando.
Gosto da sua energia vital, gosto da sua curiosidade sobre
SCJCO.
É cerro descobrir as diferen ças enue menin os e meninas.
Eu determinarei os seus limites para ajudá-lo a descobrir
.
quem voce e.
~

Gosto de você como você é, pequeno ........................ ..


É ceno ser diferente, ter sua opinião sobre as coisas.
É certo imaginar coisas sem medo de que elas se tornem rea-
lidade . Eu o ajudarei a separar a realidade da fantasia.
Gosto que você seja menino/ou menina .
Gosto que você seja gay. embora seus pais não gostassem.
É ceno chorar, mesmo agora, quando está crescendo.
É bom para você descobrir as conseqüências do seu comp or-
tamento.
Pode pedir o que quiser.
Pode fiuer perguntas se não entender alguma coisa.
Você nãci::'éresponsável pelo casamento dos seus pai s.
Você não é-·responsável por seu pai.
Você não é responsável por sua mãe.
Você não é responsável pelos problemas da família.
, yocê não é responsável pelo divórcio dos seu s pais.
E certo explorar quem você é.

MEDITAÇÃODO ESTÁGIO PRÉ-ESCOLAR

Use a introdução geral das páginas 127-129.Depois àa frase: "Qual


era a sensaçãode morar naquela casa?'' acrescente o seguinte com
uma pausa de 20 segundos em cada intervalo indicado.

Agora veja sua criança interior aos cinco anos ... lrnagine que
ela acaba de sair da casa e você a vê sentada no quintal .
Aproxime-se dela e diga alô... O que ela está vestindo?... Est:í
..

RESGATANDO
SUAOJANÇA
NAIDADE
Pll-ESCOI.All IH

brincando com uma boneca, um ursinho de pelúcia , uma


pá ou outro brinquedo?
... Pergunte qual é seu brinquedo favorito ... Pergunte se da
tem um animal de estimação ... Diga que você é do futuro
e está ali para estar com ela sempre que precisar de você...
Agora seja essa criança ... Olhe para seu eu-adulto (o mago
sábio e gentil ).. ; Veja seu rosto bondoso e cheio de amor ...
Ouça seu eu-adulto dizer ao seu eu-criança que pode sentar
no seu colo, se quiser ... Se não quiser, tudo bem ... Agora,
ouça seu eu-adulto fazer as afirmações com voz lf'nta e cari-
nhos a....
.

Grave as afirmações das páginas- 152 e 153. Quando chegar


à última, faça uma paus~ de um minuto .

Deixe que a criança sinta o que ela sente ... Agora, bem de-
vagar, volte -aser seu eu-adulco ... Diga à sua criança interior
gue está ali agora e que vai conversar muiro com ela. Di ga
que você é a única pessoa que ela jamai s vai pe rder e que
você nunca a abandonar á ... Despeça-se por agora e comece
a subira ladeira da memória. Passe por seu cinema favorito
e por sua sorveteria favorita ... Passe pelo pátio do seu giná-
sio... Sinta que está voltando ao presente ... Mexa os pés...
Mexa os dedos dos pés ... Sinta a energia subin do por seu
corpo ... Sinta suas mãos ... Mexa os dedos das mãos ... Sintà
a energia na pane superior do corpo ... Respire fundo ... Sol-
te o ar ruidosamente ... Sinta a energia no seu rosto... Sinta
onde está sentado ... As roupas no seu corpo ... Agora abra
os olhos lentamente ... Fique sentado por alguns minu tos e
experimente tudo que está experimentando .

Se quiser, compartilhe essa medicação com um amigo compre -


ens1vo.

Trabalho com um companheiro

Trabalhe com seu companheir o como ante s (veja instruções na


págin a 131). Cada um lê a medita ção para o outr o. dízeod o as
afirmações em voz alta .
174

Trabalho de grupo
Como nos exerácios anteriores de grupo , as afirmações são dadas
por cada membro do grupo de uma vez (veja instruções na pág.
132). A pessoa escolhida para gravar a medita ção deve gravar o
material adicional desta parte, até a frase, "Olhe para seu eu-
adulto (o mago sábio e gentil) ... Veja seu rosto bondoso e cheio
d e amor ..."
Grave então as instruções para fazer uma âncora. Termi n!'
a meditação, começando com a frase, "Despeça- se por agora e
comece a subir a ladeira da memória .' '
Lembre-se de que é imponante que todos do grupo tenh am
feito seu exerácio, antes de começarem os comentários sobre o
crabalho de cada um.
Vocêagora recuperou sua criança ferida na idade pré-escolar.
Conscientize-se de que seu eu-adulto pode tomar conta dela.
Se, depois de fazer todos esses exerácios, você tiver uma sen-
sação de pânico, garanta novamente à sua criança interior que vai
estar semp r~ presente para ela. Quando sentimos pela primeira
vez sentimento~ antigos e congelados, ficamos angustiado s. São
sentimentos estranhos às vezes arrasadores e não controláveis. Diga
à sua criançá interior que você não a abandonará e que vai desco-
brir todos os meios para amá-la e ajudá-la a satisfazer suas carên-
, das. Aqui está a minha idéia de como é meu pré-escolar recupe-
rado.
RESGATA
NDOSUACRJANÇA
NAJDADE
UÉ-ESCOLAR 17S

. i 1
1 1

À medida que nos conhecemos melhor, descubro que ele não é


apenas um ·garotinho carente , mas também uma companhia ale-
gre e divertida .
CAPÍTIJID7
RESGATANDOSEU EU
NA IDADE ESCOLAR

O nupa do mundo de cada pessoa é tão único como as suas impressões


digitais. Não c:mtcm duas pessoasiguais.Não h:i duas pessoasque em en-
dem a mesma foue do mC$IIl o modo... Assim, na sua convivência com as
p=as, procure nll.oenca.ixá-Jasno seu conceito do que elas dC\'Criam~r ...

- Milton Erick.son

Mandei meu irmão embora....


Eu o dei aos homens morenos que passavam...
Eles o ensinaram a usar o cabelo comprido,
a desliz.:unu, tomando água na concha das mãos,
amarrar canlos, seguir a trilha indistinta na .relvaamassac:a...
Leveimeu irmão para o outro lado do rio,
então nadei de volta, deixei meu irmão sozinho na margem.
Na Rua Sessenta e seis norci que ele se for11.
• P.u sentei e chorei.

- Robcn Bly
A D1cam of My Brothcr

IDADE ESCOLAR

(PERÍODO DE LATÊNCIA)

EU SOU CAPAZ

ldade: 6 anoiatéapubc1dadc
Flllaridad
e dedcsenwihimeou
,1 Habiliâaiicvmusiníaioriàadc
a doegc: Compt'ténm
Forç
: SabC't.
Poder aprcnder
Rda:ion1.1D
cmc: lnti:trlepen
cmtii. coopcr~i
c
RESGATANDO
SEUEUNAIDADE
ESCOLAR 177

.,
INDICE DE SUSPEITA

Responda sim ou não às perguntas seguintes. Depois de ler cad:i


pergunta , espere e entre em contato com seus sencimentos. Se
sentir uma force energia para o sim, escreva sim; para o não, es-
creva não. Se responder sim a qualque r pergunta , pode suspeir.ar
d~ que sua criança maravilho~:i do passado foi ferià a n:i icta<lc
escolar. Há :váriosgraus de ferimento . Voe.éestá em algum lugar
de uma escala de um a cem. Quanto maior o número de per-
guntas que você sente que deve responder com um sim, mais grave
é o ferimento da sua criança.

1. Costuma se comparar com outras pessoas e sempre se sente


. e . ' s·
1nreCJO(. lffi........ Não....... .
2. Gostaria de ter mais amigos, de ambos os sexos? Sim........
Não........
3. Costum a sentir-se pouco à vontade em süuaçôes ~ociais~
Sim,........ Não ....... .
-t Sente-se pouco à vontade como pane de um grupo? Sim..:·:.···
Não ........ Sente-se melh or quando está sozinho/a? Sim.,......
Nã o....... .
5. Às vezes dizem que você é muito competitivo/a? Sente que
precisaganhar? Sim........ Não ....... .
6. Freqüentemente tem conflitos com seus companheiros de tra-
balho? S1m........ Não ........ Com as pessoas da sua família?
Sim........ 'Não ........
7. Em uma negociação, você (a) cede completamente ou (b l 1n-
. te em fazer as coisas
s1s s·
' ao seu mo do.' trn ... ,.... N-ao........
8. Orgulh a-se de ser rígido/a e literal, seguindc a lei ao pé da
letra? Sim........ Não ........
9. Você sempre procrastina as coisas? Sim........ Não........


.178 'fOIIAADW

10. Tem dificuldade em terminar as coisas? Sim ........ Não....... .


11. Acha que devia saber fazer as coisas sem nenhuma instrução?
Sim ........ Não ...,... .
12. Tem muito medo de cometer erros? Sim ........ Não ........ Sente•
se extremamente humilhado /a quando é obrigado/a a cons-
tatar os próprios erros? Sim........ Não ...... ..
13. Fica zangado com freqüência e --'.(Íticamuito as outr as pe s-

soas.1 1m........ N-ao ........
14. É deficiente nas aptidões básicas da vida (le(. falar e/ou es-
crever gramaticalmente, fazer cálculos macemáúco~)?Sim.•!\....
Não ....... .
15. Passa muito tempo analisando ou obcecado/a com alguma
coisa que disseram a seu respeit o? Sim ........ Nã o....... .
16. Sente-se feio/a e inferior ? Sim ........ Não ........ Se respondeu
sim, tenta disfarçar isso com roupas, coisas, dinheiro ou ma-
.
qu1agem s·
1. 1m... ..... N-ao........

17. CosruJna mentir para você mesm o/a e para os outros com fre-
• ;i s·
qu•••enc1a. 1m........ N-ao_.......
18. Acredita que, por melhor que faça, nunca está fazendo a coisa
cerca., s·
un... ..... N-ao...... ..
I

IDADE ESCOLARNORMAL

Quando você foi para ·a escola, deixou o sistema familiar e en-


trou em um novo estágio de socialização e de formação de apti-
dões. Tendo estabelecido alguma noção de:poder com seus testes
da realidade e de formação da identidade , você está preparado /a
para o mundo. A escola vai ser seu ambiente prin cipal, pelo me-
uos. durante os próximos 12 anos. A idade escolar é chamada pe-
ríodo de latên cia, devido à ausência de um a force energia sexual.
(A energia sexual começa a se fort alecer na puberdade. )
Na idade escolar, o rirmo biológ.icoda crianç)lprepara o palco
para a .iprendizagem do conjunto segui nte das aptidões para a
sruEUNAIDADE
RESGATANDO ESCOLAR 179

sobrevivência. Com as forças primárias do ego de confiança e es-


perança, de autonomia e força de vontade, iniciaúva e propósito,
a criança vai aprender agora tudo que pode prepará-la para a vi-
da de adulto. As aptidõesmais imponantes que terá de apten-
der são as de socialização, cooperação, interdependência e uma
noção saudável de competição.
A preparação para a vida exige também aptidões acadêmi-
cas. Ler, escrever, contar. Contudo, essas aptidões não devem ser
mais importantes do que conhecer, amar e dar valor a si mesmo.
Na verdade, uma noção saudável de auto-esrima é essenciaip ara
aprend er berr..
A formação das aptidões na escola nos ajudou a pensar livre
e espontaneamente sobre o nosso futuro. A escola nos ajudou a
veri.ie.a.rnossanoção de poder. Sentimo-nos ativos, e compecen-
ces.Essas são as forças do ego que devem ser desenvolvidas na es-
cola. Se somos competentes. podemos ser ativos e criar um lugar
para nós mesmos no mundo . A realização das tarefas da idade
escolar nos dá a sensação de novo poder e no.vaesperança. · 'Por-
que eu sou capaz, posso ser o que eu quiser . ser."
A idade escolar deve ser um tempo de brincar e de traba-
lhar. O brinquedo é uma parte crucial do desenvolvimento da
criança. Ela aprende imitando e acomodando. A acomodaçãoim-
plica agir simbolicamente . Brincar de casa e de mamãe e papai
são parres importantes do desenvolvimento mental da criança.
Para a criança, brincar é um negocio muito sério.

PENSAMENTO LÓGICO CONCRETO

Aos sete ou oito anos a criança é capaz de pensar com 16gica,mas


é ainda uma forma concreta de pensamento. Só na puberdade
ela é capaz de abstrair e pensar em premissas contrárias ao fato.
Só então a criança começa a idealizar e a idolatrar. A idealização
exige hipóteses contrárias ao fato.
A criança em idade escolar é lógica-concreta . Você se lem-
bra quando aprendeu o Voto de Aliança? Vocêdisse palavras que:
não compreendia . Lembra-se de quando aprendeu a rezar? ''Ave-
rnaria, cheia de graça, o Senhor é D. Basco... Agora n:i hora da
\

l80 VOIIA
AOLAR

nossa morte ...'' A criança em idade escolar é também egocêntri-


ca no seu processo mental. Esse egocentrismo é expresso em coi-
sas como ·, 'apanhar" ós pais em errq e pensar que sabe mais do
que os pais. Essa ••vaidade cogpiciva'' é o cenuo de muitos fenô-
menos interessantes. A criança, nessa idade, muitas vezes pensa
que é adotada (a fantásia do órfão). S.e sabe mais do que os pais
então deve ser filho de outras pessoas. As piadas das criançasnesse
estágio geralmente são sobi:eadultos burros ou ignorantes. A his-
tória de Peter Pan encanta as crianças nessa fase, especialmente
pórque os personagens não precisam crescere se transformar em
adultos burros.
Um aspectoimportante do egoc·entrismo da criançaé a crença
de que os adultos são benevolentes.A criança faz essa hipótese
e apega-se a da em qualquer circunstância, Iembro-me de ter
sido éhamado para .ajudar um grupo de administradores de uma
escola elementar. Estavam abismados porque uma dasse do gi-
násio organizou um protesto contra a d~missão de um professor.
O mais·estranho era que as crianças detestavam esse professor.
Na minha opinião, tratava-se de um .exemplo da suposição ego-
cêntrica d;lScrianças de que o professor, por ser adulto, não po-
dia ser ruirir lsso ajuda a explicar por que a criança ferida nessa
idade sempre eefende os pàis, os professo.r:es , os que abusam de-
la. Algumas cdánças são tão traumatizadas que acabam apren-
dendo que hi alguma coisa errada com o adulto que as maltrata.
·M:1.$essas crianças são urpa exceção. ·
' Sua criança interior ia idade escolar era uma pessoa delicio-
sa, alegre, encantadora, que adorava est;u com os amigos e estava
ansiosa e curiosa para aprender. ·

DISTÚRBIODO CRESCIMENTO

Se e~taúltima afirmação é Yerdadeira,então, por que tantas criao-


ças detestam a escola'e a considerá'm aborrecida1 tediosa e coerci.
va? Um dos motivos é que a educação escolar é, muitas ·vezes,
uma fonte de ferimento espiritual. Na maioria das escolas, as crian-
ças são agrupadas horizontalmente , por idade. O pressuposto é
de que. todas as crianças de dez. anos têm o mesmo grau de ma-
sruEUNAIDADEESCOi.AR
RFSGATM1l0 181

turidade . Isso é completamente falso. Sua criança interior em idade


escolar pode ter sido ferida simplesmente pelo fato de ter estado
na classe errada, na hora errada . As escolas e as prisões nos Esta-
dosUnidossão osúnicoslugaresdo mundo onde o tanpó é mais
importante do que o trabalho a ser fdto. Se você e eu embarcar-
mos para as Bermudas ao mesmo tempo e eu chegar uma hora
ante s. você não é reprovado em Bermudas . Nas escolas, se você
não aprender geometria tão depressa quanto as outras crianças
da sua idade , você é reprovado em geometria. Na minha opiniã o,
geometria não é um iosqumento de sobrevivência - eu quase
nun ca gcomeu o! Porém, o perig o é que sua criança in rerior p o-
de ter sido penalizada p~r ser imatura .
O sistema de notas é muito humilhante e doloroso . Exerce
uma pressão constante sobre a criança para memorizar e realizar .
E evidentemente perfeccionista. Medeos seres humanos de rno-
do a feri-los espiritualmente. Como acontece com todos os siste•
mas perfeccionistas, ninguém jamais consegueco.Ciesponder àsex-
pectaa'vas. Isso cria a vergonh a tóxica. com a sensação de sermo s
deficiente;; . Afinal , se você é vqcê e não existe ninguém igual no
mundo, com quem o estão comparando? Na verdade , todos os
sistemas perfeccionistas nos comparam a um produto da pro je-
ção mental de outras pes soas.
A crian ça reprovada na escola é dolor osamente ma goa d a.,
sente-se inferior e transforma-se em um serferido: ''Eu não sou
bom ." Quando ela vai bem na escola, não há nenhum proble-
ma. Tudo na vida transforma-se num A em potencial, tudo con-
verge para o desempenho.
O sistema escolar dos Estados Unidos, como o sistema fami-
liar, é disfu ncional . Não facilita um ambie nte para a criança sa-
ber quem ela é. Não a trata como as pessoas únicas que elas são
realmente. Não existem duas pessoas iguais. Como disse MHton
Erickson. •'Não há duas pessoas que compcec:ndam a mesma frase
do mesmo mod o.'' Sua criança interior da idade escolar foi es-
magada pelo peso de se moldar ao sistema perfe ccionista da es-
cola. Você perdeu toda esperanç~ de sucesso e deixou a e.scola,
ou se deixou dominar pelo transe do conformismo e sua alma
foi assassinada no processo. Roben Bly, um poeta americano pro-
fun damen te comovenre, descreve a perda do irmão . No poc•ma
citado no início deste capítulo, o jrmão de Bly é a sua criança
Ín!:_erio
r espontânea - a parte que deseja '' u sar cabel os compri -


182

dos e tomar água nas conchas das mãos" . Essa é a parçe que per-
demos quando entramos na escola .
_As escolas tecom . ensam o co_nformismo e ~ memor j z~â ~
.em_ vez de recompensar a criativi dade e a cara~ etística de ser
único .
- ~uito~ dos 9!_l~se adapt~ 1 tirando sempre a nota mais al-
J ;t jamais desenvolvem uma verc;lªdeirl!,__ n..QǪ-
9 de com etência.
Pás.sei a maior parte da minha vida tentando curar o ferimento
no meu ser, realizando e fazendo. Por maior qu .e.fosse o número
de As que eu tirava na escola , não fiz nada para curar o profun-
_do ferL,:qi;p_t Q.esgiritual .Ê mi~tiê .f.Úa!!_Ça
interior ferida continuo u
a se sentir sozinha e incapaz.
Muitos de nós nunca aprenderam a convivência social por -
que estavam ocupados demais em tirar As na escola. Muitos de
nós se diveniram muito pouco nessa idade, porque a escola era
uma panda de pressão de exigências esttessantes. Estávamos tam-
bém num dilema porque nosso sucesso acadêmico impedía que
tivéssemos a aprovação dos nossos colegas.
Atualmepte, os aspectos mais criativos dá minha vida são ale -
gres e curiosos. Escrever este livro é uma diversão para mim. Eu
me ~e rci dandQ aulas , aprendendo e criando séries para a tde-
visão nos últimos anos. Quase tudo q~e faço hoje é produto de
aprendizado ..inddenta:1simplesmencs motivado pela necessida-
de ou deseJo de saber alguma coisa. E cenualízado no entusias-
mo e baseado na capacidade de me maravilhar com ascoisas. O
aprendizadp incidental é o que a sua criança mara\l'ilha faz natu-
ralmente. ·yocê come a seu a rendizado incidental uando, co-
mo uma crian !_que começa a andar, você ex lora o mundo. En-
._;ão isprovavelmente, é desviado dessa rota. Quase todos nós fo-
mos desviados. \:.ocê foLQbgg~do a ~e confo~mar e obrigado _ ª-
aprender coisas 9.~ abor~eciam.
infe lízmcnte, o granae av.anço na reforma da educação do s
Estados Unidos, que começou mais ou menos há 20 anos e que
eu vi acontecer quando era professor, não ajuda agoranossa criança
interior ferida.
Sem dúvida há muitos professores corajosos, ~riacivos e ver-
dadeiros educadores, mas há tambEm professores raivosos e abu -
sados. Eu sei, trabalhei com alguns deles. Esses professores pro je-
tam nos alunos as crianças feridas que vivem neles . Sua criança
jnterior pode ter sído vicimizada desse modo ; Provavdmeote , você
, sruEUNAIDADEESCOlAR
RESGATANDO 183

teve outras crianças para legítimar sua dor , mas elas não podiam
mudar nada.
Em alguns casos, os próprios colegas de classe são os agres•
so.ces. A criança em idade escolar pode ser muito cruel. Leia
O senh.or das moscas, de William Goldiog .
Recentemente estive com um amigo de escola que eu não
via há 40 anos. Passamos dojs dias fantásticos contando um ao
outro nossas vidas . Aos poucos , lembrei cenas fases da infância
atormentada desse amigo. Ele era um gênio acadêmico. Usava ÓCU·
los e não era dado a espones. Na escola primár ia era torturado
pelo s ma.is velhos. Cada dia e1:acomo entrar num poço de vergú-
nha , Geralmente ele se refugiava na sacrisria, pedindo a Jesus para
ajudá.lo a compreender por que eles o espancavam , o ridiculari-
zavam e o feriam tanto. Por quê ? Quando tudo que ele queria
era fazer par te do grupo! Chorei quand o ouvi essa históú:... f}.
quei envergonhado porque eu, evidentemente, era seu amigo
quando não tinha ninguém por perco.O grupo atormentador era
tão intenso que eu não podia me arriscar a ser visco com ele. Ele
dava grande valor à minha amizade. Isso era trágico. Tenho pra -
zer em dizer que ele sob reviveu a tudo isso com brilhanrismo ,
mas não sem cicatrizes profundas na sua criança incerior.
.A conversa que tive com ele me fez lembrar ourras vítimas
da crueldade daquele grupo. As merunas muito gordas, os garo-
dnhos com narizes engraçados, os que tinham deformidades fi .
sicas, os meninos que não praticavam esportes. Meus arquivos de
conselheiro estão repletos de histórias de homens e mulheres que
levaram com eles dwance rodaa vida, a vergonhafísica ou culru-
ral. Seus seres maravilhosos eram rejeitados porque eram mexi-
canos ou de outros países, ou judeus. Eram atormentados por•
que gaguejavam, eram desaieitados ou se vesàam pobremente.
As próprias crianças empunhavam a régua perfeccionista da me -
dida cultural e física.
Nenhuma criança em idade escolar é realmente feia, emb o-
_ ra algumas pareçam desrueitadas e abobª4ªs, São ap_e_oas niQ la-
_pj adas e não terminadas merecem nosso iespe ito e nossa aju.
da para gue ossarn d_eseny_(!lv;! suas forças.
184 VOLTA
AOLAR

INFORMAÇÃO

A esta altura você, provavelmente, já tem muita prática de escre-


ver sua história pessoal. A propósito , se estiver trabalhando em
um determinado estágio e se lembrar de repente de alguma coi-
sa de um estágio anterior, ótimo! Escreva e procure validar o mais
depressa possível. Neste trab alh o, é comum as lembranças apare-
cerem de repente , uma vez ou outra. Quanto maior for seu con-
tato com a criança interior, mais você merguJ},t no estado altera-
do que foi a sua infância. Quando você torna a entrar no estad o
consciente , começa a lembrar de mais coisas.
Começando na idade escolar, as lembran ças são geralmente
muiro mais vívidas. Agora, escreva a história da sua criança inte- ·
rior .nessaidade. Não esqueça, esse período abrange a sua vida do s
seis anos, mais ou menos, aré a puberdade, que geralmente ocorre
no fim do ginásio. Com a puberdade, surge uma aptidão mental
totalmen te nova e sofiscicada. (Falaremos sobre isso no próximo ca-
pículo.) Como linha geral, pode examinar sua idade escolar ano por
ano. Use as indicações seguintes se forem convenientes .

,. Adultos importante s

Além dos pais, estão incluídos os professores, o sacerdote ou ra-


J bino e as crianças mais velhas. Escreva o nome de cada pessoa e
diga se ela foi valiosa ou prejudicial para você. Valiosa significa
que estava realmente presente para voéê e lhe dava o devido va-
lo:. Uma pessoa que promovia sua noção de EU SOU. As pessoas
que o feriram espiritualmente são aquelas que o envergonhavam.

Marcos importante s

.
Escrevasobre os uês fatos mais imponanres de cada ano. Por exem;
.
p10, eu escrevi:

6 anos l. Entrei para o primeiro ano primári o.


2. Fiz xixi na calça um dia e fui humilhado na frente da
classe.
..
RFSGATANDO
SEUEUNAIDADE
FSCOWt 18i

3. Meu pai estava ,em casa mai s do que em qualquer


outra época.

7 an os 1. Passei para o segundo ano.


2. Ganhei um toca-discos de Natal.
3. Papai perdeu nosso carro. Bateu com o carro do vovô.

Contin ue com a lista até os 13 anos . Note que as idades de seis


e sete não foram especialmente traumáticas para mim. Inclua na
sua lista todas as lembranças, agradáveis ou desag radáveis.

Fatos traumático s
São as experiências d a sua vida que infligiram os fer:im entos es-
pirituais mais profundos. Por exemplo, quando eu tinha nove,anos,
meu pai começou a prim eira de muiras separações físicas da mi-
nha mãe. Essas separações ficaram cada vez mais prolongadas com
o passar do tempo.
Talvezvocê tenha se lembrado , durante anos, de algum acon-
tecimento que parece trivial.-Você não sabe po~ que lembr a de-
le, mas nun ca o esqueceu. Isto pode significar que houve um a
violação em aJgum nível. Por exemplo, jamais me esqueci de um
incidente ocorrido quando eu tinha cinco anos. Um vizinho ado-
lescente fez minha irm ã, que tinh a en tão se.isanos, tocar em seu
pênis. De cena forma eu sabia (sem saber realmente ) que estava
vendo uma coisa muito má. Não foi como me u brinqued o de
sexo com as duas menin as vizinhas, dois an os mais tarde . Unha-
mos a mesma idade e nossa brin cad eira era mais simb 6Üca. O
que aconteceu com minh a irm ã foi uma verdadeira violentação.
Agora compreendo por que essa lembran ça me perseguia.

COMPARTil.HANDOSUA IDSTÓRIA COM UM


COMPANHEffiO

Leia sua hist ória para um amigo, para sua mulher , seu marid o
ou seu terap eut a. Dê a você mesmo tempo suficiente para entrar
em contato com as violentações desse pe ríodo. Focalize especial-
r 186 VOil'A
AOLAR

mente o-sistema escolar como agressor espii:itual. Seja es,pecífico


na explicação de por que voéê não podia ser você mesmo na esco-
la. Escrevaqualquer tipo de agressãoque sofreu de professores
ou de outras crianç:is.

SENTINDO OS SENTIM.EN10S

Pro.cure fotografias suas do período escolar. Estude com atençã,1


uma de cada ano, se for possível. Você deve ter fotografias das
suas turmas. Compare as fotografias com tudo que você escreveu
sobre essa idade. Por exemplo, eu notei a minha mudança de ex-
pressão fa,cialem cada fotografia. Vocêpode sempre ver a mágoa
e a tristeza no seu rosto por um certo período da sua vida. As
fotografias podem ajudá-lo a entrar cm contato com a dor Cf'QO-
cional reprimida, ou você pode ver o seu rosto sempre inexpres,si-
vo e vazio. Aos sete ou oito anos você cqmeçava a desenvolver suas
mais sofisticadas defes_as do ego. Já tinha aprendido a se fechar
na própria· cabeça e bloquear as emoções, tanto do passado, quanto
do presente. :·
,,

1
UM MITO. OU UM CONTO D.EFADAS

Neste nível de idade, eu gosto de introduzir um exercício escrito


novo e de grande força - o mito ou conto de fadas sobre a in-
fância. (Se as canas que escreveu antes foram especialmente pro-
dutivas para você, por favor, continue a usar esse formato tam-
bém. Coruo nos capítulos antc1'iorcs, escreva três cartas, uma pa-
ra sua criança em idade escolar, uma para você, Ja sua criança
interior e outra para s~us pais e professores. dizendo o que você
precisava deles e .Q;iú recebeu .) •
Seu mito ou conto de fadas deve focalizar um evento ou even-
tos ocorridos durante seu tempo de escola, ou um evento ante-
rior, que o tenha afetado bastante. A boa coisa com mitos e con-
tos de fadas é que eles passam ao largo do seu cérebro pensante


llESGATANDO
SEUEUNAIDADE
F.SCOIAR 187

ou racional. Sua história pode ser sobre animais (a mamãe ursa


e o papai urso) ou sobre os deuses, ou sobre reis e rainhas.
Sua história deve ter duas partes. A primeira deve começar
com ''Era uma vez' ', e descrever os eventos escolhidos por você.
acentuando o modo pelo qual infligiram o ferimento espiritual .
A segunda parte deve começar com ''E quando ele/ela cresceu,''
e s_e co;11cenrrarnos efei-tosprejudiciais do ferimento espiritual da
pnmeua pane.
Não se preocupe se não puder lembrar de nenhum fato uau-
mático que tenha marcado sua vida , Você pode ter rido uma in-
fár.ci:::.d~ depr essão cróni.:a ou de ansiedacr, e~ ?OÓc c:r sia ç
negligenciado desde o começo .
Como você já deve ter percebido, a parábola do TernoElfo,
no começo da primeira pane é a adaptação de um mito que cu
escrevi a respeito de mim mesmo. Aqui está outro exemplo escri-
to por um dos participantes do meu semínári o.
Os fatos da vida deste homem foram os seguintes . Seu pai
era rico e casou com sua mãe porque, duran te uma bebedeir a,
ele a engravidou. Seu avô matemo ameaçou processar seu pai se
ele não se casasse com sua mãe. Seis meses depois do casamento ,
seu pai se divorciou da sua mãe. Ele a indenizou muito bem e
ela saiu da cidade , obedecendo a uma das el'jgéncias do divórcio.
A mãe , com 17 anos, estava nos primeiros estágios do vício
de drogas. Era também viciada em sexo. Ela pagava uma mulhe r
idosa para tomar conta do filho e passava meses sem vê-lo. Final-
mente, ela se casou e foi para ourra cidade , abandonando com-
pletamente o filho.
Meu cliente sofreu abuso físico, sexual e emocional nas mãos
da velha que tomava conta dele. Fracassou na escola e fugiu de
casa aos 16 anos. A partir daí sua vida foi uma novela de empre-
gos medíocres e relacionamentos abusivos com mulheres.
Esta é a história que ele escfeveu:

Era uma vez um rei poderoso chamado John. Ele se casou


com uma camponesa de baixa extração chamada Gretchen.
Casou-se com ela porque. cena noite, se embria gou , fez se-
xo com ela e a engravidou .
Por ser um casamento vergonhoso , ele manteve Gre t-
chen escondida . Finalmente, foi exilada para uma cerra
estranha.
1&8 VOIIANJW 1
O filho desse casamento vergonhoso t~bém se cha.
moujohn. A mãe, para conservar o amor do rei John; pen -
sou que ele a receberia de volta quando visse o pequeno pnn-
cipe
. . e quando.
soubesse que tinha seu nome. Então ela foi
v1s1caro re1 pua mostrar a cnança.
O rei John ficou furioso. Sabia que o pequeno prínci-
pe tinha sangue real, mas ele odiava Gretchen, pois ela o
fazia recordar sua vergonha . O rei decretou que Gretchen
e John fossem mandados para um país esuangeiro, no outro
lacíodo oceano, a centenas de quilômeuos do seu reino. Gret•
c.hen foi paga generosamente e jurou nunca contar ao pe-
queno John o segredo do seu nascimento.
Gretchen odiava o pequeno John. Ele a impedia de fa-
zer o que desejava. Ela queria beber e se divertir com ho-
mens. Culpava o pequeno John por seu exílio. Finalmente
ela pagou uma velha que morava no campo para tomar conta
dele. A mulher o espancava e dava a ele um mínimo de
comida.
Embora ele fosse realmente um príncipe de sangue real.
o pequeno John pensava que era filho baswdo da velha que
o crlava. Na escola caçoavam dele em razão dos trapos que
vestia. E.Iefoi um fracasso nos estudos porque unha pavor
de responder às perguntas dos professores. Não tinha tem-
po para estudar porque trabalhava muico em casa.
Quando cresceu,John fugiu de casa. Não tlnh~dinheiro
J e como havia deixado a escola, o único emprego que conse-
guiu foi de faxineiro em uma loja. Ele teve vários relaciona-
mentos . Toda vez que começava um relacionamento, era re-
jeitado. Todas as mulheres que ele escolhi~ o criticavam e
humilhavam.

É muito importante que você leia para seu companheir o, neste


trabalho, a hist ória que escreveu. A história pode ajudá-lo a en-
trar em contato com seus sentimentos sobre o abandono. Pode
também ajudá-lo a ver a conexão entre negligência oo atendi-
mento das suas necessjdades de dependência e a história da sua
vida.
Curam~ nossa vergonha tóxica quando compreendemos que
os probiemas da nossa "c riança adul to" são todos sobre coisas
que aconceceramconosco, e não sobre a pessoa que somos real-
mGATANDO
SEUEUNAIDADE
ESCOLAR 189

mente. Ver como estamos repetindo na nossa vida adulta nossas


carências não satisfe~tas da infância nos ajuda a curar a vergonh a
tóxica. Se você está trabalhando com um companheiro , revezem-
se na leitura das suas histórias . Quando seu companheir o ler sua
históçia, dê a ele sua resposta emocional . Abrace-o e o console,
se for o caso.
Se você está trabalhando com um grup o, deixe que cada pes-
soa do grupo leia sua história . No fim de cada história, a pessoa
deve fechar os olhos e ouvir a resposta emocional dos outr os par -
ticipan tes do grup o.

OS PAPÉISNO SISTEMAFAMILIAR
DISFUNCIONAL

Procúre identifi car os novos papé is que você se imp ôs nesse está-
gio escolar e trabalhe com de s como fez no capítulo 6, págs. 170
e 171. Sugiro que dê especial atenção aos papéi s de uni.ão rrans-
geracional porque eles o privaram de um modelo sexual saudá-
vel. Os papéis mais comun s nesse período são: Homenzinho da
Mamãe, Substituto do Marido da Mamãe, Confidente da Mamãe
(Melhor Amiga) , Mãe da Mamãe. Princesinha do Papai (Bone-
quinha), Substituto da Esposa para o Papai, O Melhor Compa •
nheiro do Papai, O Pai do Papai . É imponante compreender qu e
o súbscituto do cônjuge e os papéi s de pais dos pais não se li mi-
tam ao sexo opost o. A menina pode ser A Substituta do Marido
para a Mª1Jlãe, o menino pode ser o Substituto da Esposa para
o Papai. Em todos os casos, a criançaestá comandocontadospais.
ISto é uma inversão da ordem nat4ral das coisas.
Focalize as conseqüências dessespapéis que foram prefudi-
ciaisà sua vida. Eu penso cm Jimmy , por exemplo, que, aos seis
anos, foi abandonado pelo pai alcoólatra . Sua mãe tinha 28 anos
quando o pai os abandonou . Ela tinha outros dois filhos e ne•
nhuma qualificação para trabalhar . Jirnmy, o filho do meio e o
mais velho dos meninos , começou a trabalhar aos sete anos. Aju-
dava muito a mãe. Sentava ao lado dela duran te horas, consoian-
do-a , enquanto ela lamentava a vida que levava. Ele a considerava
uma santa e fazia o impossívd por ela. Jimmy não not ou (nenhuma
190 VOIIAAOU.R

criança notaria) que .quando ele chorava, a mãe o envergonhava


por estar chotando ou procurava distraí-lo dos próprios senci-
mentos. Ela lembrava o quanto o avô dele era maravilhoso
e a sorte que tinha por morar numa casa com comida à vonta-
de . Crianças morriam de fome na América Latina!
Aos 21 anos, Jimmy entrou para uma ordem de zen-budistas
e tornç,u-se um monge celibatáiio . .A mãe orgulhava-se dele
e o visitava com freqüênàa. Depois de alguns anos, Jimm y
deixou o mosteiro e teve vários relacionamentos com mulheres .
Sempre escolhia mulheres carentes para as quais ele era o salva-
dor. Aos 4 5 anos , iniciou um casamento desasuo so com um a
mulher de 26 anos, abandonada pelo marido e com três filhos.
O casamento foi um redemoinho de conflito s e distanciamen -
to, Jimmy odiava os filhos da mulher . logo no iníào ele teve
um caso extraconjugal que o levou a uma àcividade sexual
descontrolada que durou dez anos . Finalmente , a mulher pe-
diu divórcio.
A história de Jimmy é típica de muito s filhos que adotam
o papel de substitutos do pai . G.eralmente voltam-se pata ·a
religião ou para uma espiritualidade celibatária. Assim, perma -
necem fiéís ·-à mãe ; ou não conseguem se comprometer com
uma única mu\het. Uma vez que já ·estão compromerid ós com
a mãe, comprometer-se com outra mulher seúa o equivalente
a um adultério emocional. Esses homens são chamados de ' 'Ga-
rotos Voadores' ', porque voam de um relacionamento para ou-
-'tro. SãQ taml:,ém chamados "Peter Pan", porque nunca cres-
cem (nunca deixam a mãe) .
Jimmy me procurou quando -tinha Sl anos, zangado e
sozinho. O papel de substituto do pai tinha Jhe custado m1.üto
caro. Senti;i. que s6 era importante quando cuidava de mulhe:
res carentes, como a mãe. Jimmy jamais se senciu realmente
ligado a alguém . Na 'Verdade, nunca foi amado pelo que ele
era. Seu eu autêntico (sua cr;ança interior ferida na idade esco-
lar) nunca fora J;éêonhecido.
No capitulo 12, apresento um e,çei:cíc.iocorretivo para des-
fazer esses papéis .
~ATANDOSEUruNAIDADE
F.SCOW 191

AFIRMAÇÕES

As afirmações para sua criança interior em idade escolar são as


segulnte s:

Pequeno ........ , você pode ser você mesmo na escola. Pode


defender quem você quiser que eu o apoiarei.
É certo fazer as coisas ao seu modo .
É certo pensar sobre as coisas e experimentar antes de
adotá-la s.
Pode confiar nos seus julgamentos. Basta assumir as conse-
qüências das suas escolhas.
Pode fazer as coisas ao seu jeito e é certo discordar.
Eu o amo do jeito que você é.
~ode confiar nos seus sentimentos. Se civer medo , diga-me.
E cerco ter medo. Podemos conversar a respeito.
Pode escolher: seus amigos.
Pode s~ vestir como os ourros garotos, ou pode se vestir co-
mo quiser.
Você merece ter as coisas que deseja.
Estou disposto/a a ficar com você, aconteça o que acontecer.
Eu o amo .

MEDITAÇÃODA IDADE ESCOLAR

Acrescente o seguinte à introdução geral. Faça uma pausa de 20


segundos em cada intervalo indicado.

Como eram as coisas na sua casa quando você foi para


a escola pela primeira vez?... Lembra-se do seu primeir o
dia na escola?... Lembra-se do primeiro dia em cada sé-
rie?.... Você tinha u ma lancheira? ... Uma mochila para os
livros?.... Como ia para a escola?... Tinha medo de ir para
a escola?... Os valentões o assustavam?... Quem era seu
professor favorito?... Era professor ou professora?... Ima gine
o playground da escola... Veja seu eu na idade escolar,


192 'vUIL\AOW.

no playground... O que ele está fazendo? ... Como está vesti-


do?... Aprox4ne-se e ima:gine que pode ser de ... Agora, vo•
cê é uma crianç:a em idade escolar olhando para seu eu.
adulto ... Você se vê-corno um mago sábio e gentil... Ouça
sua voz de adulto ... Ouça sua voz de adulto dizendo pala-
vras carinhosas para você...

Se.estiver sozinho: Grave as afirmações para a criança ferida em


idade escolar.
Com um companh~iro: Digaas afirmações p~a seu companheiro.
Com um grupo: Pare aqui e faça uma :u1cora.
Sozinho ou com um companheiro : .Quando terminar as afirma-
ções, a meditáçã ·o continua.

Sinta tudo que pode sentir. Despeça-se do seu mago gendl


e o abrace, se quiser ... Volte a ser adulto. lentamente ... Diga
à sua criança interior que de agora em diante estará sempre
ali para ela ... Diga que pode contar com você...

Para grupos: Se você está trabalhando com um grupo, acrescente


o seguint@,.depois de ter feito a âncora . A conclusão é para todos
os casos - ~azinho, çom u.rp companheiro ou com um grupo .
Pat1sa de dez_-segundos em cada intervalo indicado.

Comece a caminhar para a frente no tempo. .. Veja seu


ginásio ...
Dê que cor é o prédio?... Veja seu melhor amigo dessa época...
Ouça uma música favorita dos adolescentes ... Caminhe no
tempo para os primeiros anos da sua vida de adulto ... Veja
4 casa onde mo,ra agora... Veja a sala em que está ... Sinta
•onde está neste momento ... Mexaos dedos dos pés ... Sinta
a energia subindo por suas pernas ... Respire fundo ... Solte
o ar ruidosamente ... Mexaos dedos das mãos ... Sinta-se com.
pletamente pr~sente, ·restaurado cm corpo e mente ... Abra
os olhos ...

Se vocé está sozinho, pense na experiência. Escrevao que está sen•


cindo. Se estiver com um companheiro , diga a ele como {oi a ex~
periência para você. Se estiver em grupo . revezem-se _paracontar
as experiências.
R.ESGmNDo
SEUru NAIDADE
ESCOLAR 193

Você recuperou sua criança cm idade escolar! Você pode to-


mar conta dela! Aqui está o quadro da recuperação da minha crian-
ça em idade escolar.

~lt!l+Al
H~\»AJ

,
CAPÍTUID 8
ORGANIZAÇÃO ~ UMA NOVA
ADOLESCÊNCIA

O que eu Íá(ô sou eu: para isso eu Yim,

- G:rald ~anJey_Hopkins

Acordo e enconuo --mc. nos bosque's , longe do cas1clo.


O trem ami.vcssa v,::loza solitária lDuisiana à noite ...
Quando olho pm tcl$, há um pcm10 cego n_o vagil.o.
É uma pane dó meu p~ que não posso ver.
Não posso lembnr os anos da minha infância .
Não possó cpconuu agora algumas panes de mim ...
._Tçra sobrado alglll);la panç de mim para sc:r honesto? ...
O ftllll.OIOme simo ·arrudo por meus pais! Caminho para trás e para a freme.
olhando para a velha estação.
Ràs, ROt)lrnas matcam , com seu co=r . o movimenco do planeta .

- Robert Bly
1 Night Frogs

ADOLESCÊNCIA

(REGENERAÇÃO)

EU SOU MEU ÚNICO EU

!~ade: 13-26
Polaridade
de desenvolvimento
: Idcotiôadc confus~o
persus àe papfo
rorç2do.ego: Fidelidade
Poder: Deregeoer2çã
o
Reb.cion2meato:Independência
da Í2mília
ORGAN17.AÇÃO ADOWâNOA
- UMANOVA

..
INDICE DE SUSPEITA

Responda sim ou não às perguntas seguintes. Depois de ler cada


pergunta, espere e entre em contato com seus sentimentos. Se
sentir uma forte energia para o sim, escreva sim; para o não, es-
creva não. Se responder sim a qualquer pergunta , pode suspeitar
que seu adolescente maravilhoso do passado foi ferido. Há vários
graus de ferimento . Você está em algum lugar , em uma escala
de um a cem. Quanto maior o número de respostas afirmativas,
mais grave E o feriment o.

1. Você ainda tem problemas com a autoridade paterna ou ma-


terna.;> s·1m........ N-ao ........
2. Continua a experimentar empregos sem encontrar seu lugar
certo? Sim ........ Não ....... .
.3. N -ao sab e ao certo quem voce ,, s·
• e. 1m........ N -ao........
4. Escã comprometid o com algum grup o ou causa? Sirn........
Não ...... ..
5. Considera-se desleal? Sim ........ Não ........
6. Sente-se superior aos outros porque seu estilo de vida é dife-
rente e nao - conrorm1sta.
e . ' s·1m..... ... N-ao........
7. Alguma vez abraçou alguma fé de sua escolha? Sim ........
Não ........
8. Não tem amigos verdadeiros do mesm o sexo? Sim........
Não ........
9. Tem amigos do sexo oposto? Sim........ Não ........
10. Você é um /a sonhador/a, prefere ter livros românticos e fic-
ção científica a fazer alguma coisa em sua vida? Sim ........
Não ....... .
11. Alguém já disse que você precisa crescer? Sim ........ Não ........
12. Voce• ·e, um , a coniorm1sca
r · ag1 s·
, ·do,, 1m.,...... N-ao........
13. Alguma vez questionou a religião da sua juvenrude? Sim........
Não ...... ..
14. Segue rigidamente algum tipo de guru ou her ói? Sim ....... .
Não ........
15. Você fala muito sobre as grandes coisas que vai fazer. mas
nunca faz realmente ? Sim ........ Não ...... ..
J9(i VOCTAAO
LAR

16. Acredita que ninguém ·passou por tudo que você tem passa-
do, ou que ninguém pode jamais compreender sua dor úni-
ca.) s·
1m........ N-ao........

Com a chegada da puberda:de, a infãncia propriamente dita che-


ga ao fim. A puberdade marca o início da primeira reciclagem.
Como mencionei ànteriormente, o livro de Pam levin , Cydes of
Power, diz que nós evoluímos ciclicamente. A vida ê um proces-
so que envolvea recorrência de certos temas e padrões. Cada re-
ciclagemconstrói sobre o estágio ante.ri0r e exige adaptações mais
sofisticadas. Cada .reciclagemê um rema de crise. E cada criseé
um tempo de aumento da vulnerabilidade e de potencial. Se o
desafio é superado, ocorre uma regeneração na qual o passado
é .reformado .

,.
ADOLESCENCIANORMAL

A re·aliz~a~o gu dável das tarefas críticas da adolescênciadepende


. das forçasdo ego.desenvolvidasna infância. Porém, a tarefa da ado-
lestência, qúe consisteno estabelecimc;ntode uma identidade cons-
ciente é, como diz Erik Erikson, •'mais do. que a So!lladas... iden-
tificaçõesda infância''. A identiqade da adolescência é uma iden-
tidade .reformada.Para cons·egui-la, devemos integrar nossasapti-
dões genéticas, as forças do ego e as aptidões cultivadas antes, às
oportunidades oferecidaspelo nosso papel social n~ nossacultura.
Erikson define da seguinte maneira essa nova. identidade do ego:

... a confiança de que a i-gualdade e a continuidade interior


(em minhas palavras, o EU SOU), preparadas no passado
serão combinadas com a igúaldade e a continuidade do que
a pess9a significa para os outros, como se evidencia na pro-
messa tangível de uma "carreira" .

Na minha opinião, is.so significa que a noção de EU.SOU da sua


criança interior deve ser agora confirmada de duas formas. Uma
afirmaçãovirá do reflexo nos olhos da pessoa que e importante
ORGANIZAÇÃO
- UMANOVAADOI.ESCÊNOA 197

para nós. num relacionamento amoroso (intimidade). A segun-


da afirmação virá de uma carreira que intensifique o nosso ser.
Os dois pilares da identidade do adulto são os dois famosos mar -
cos da maturidade, de Freud: amor e uabalho.
_A criaoçªJntwoúedda pode ser uma força devastadora de
_contaminaçãQ. durant~adolescência. _Mesmo a p~ss,oa com uma
--~ - - --
crian a inter ior saudável te á de •'re etir muitas das batalhas ---
primeicos anos", Pois a adolescência normal é um dos per.íodos
dos

maiscox:rnen.tosos.do._ciclo da vida.
Gosto de descrever a adolescência normal usando as letras
da palav ra adolcscenc~.

Ambivalence - Ambiv alência


Discancing from parenrs - Distanciamento dos pais
Occupation - Ocupação
Loneline ss - Solidão
Ego idenciry - Identidade do ego
Sexual expl oracion - Exploração sexual
Concepcual1zation - Conceitual ização
Egocenu1c thinking - Pensamento egocêntric o
JVarcissism - Narcisism o
Communicacion - Mania de comunicaçã o
Expenmencation - Expecimenraçâo

Ambivalência

A ambivalência é maravilhosameote descrita no livro de J.D. Sa-


linger, O apanhador no campo de cenceio. O personagem prin-
cipal, com 16 anos, Holden Caulfield, quer ser adulto. Em suas
fantasias ele bebe , dorme com mulhere s, é um gângster. Ao mes-
mo tempo , tem pavor da vida adulta e imagina-se o protetor da
irmã mais nova, PhQebe, e dos seus amigos pré-adolescentes. Fi-
car com as crianças mais novas (e protegê-las) é um meio de se
proteger da necessidade de enfrentar o mundo dos adultos. A
metade do cabelo de Holden é g.cisalha...,. Ele está vivendo enue
dois m.urulos, o.da..infâoçia_c_Lrmmd<LliQs-~t9 1- AmbivaleQ:
_eia é o vaivémen tre esses dois mundo s.
A ambivalên cia refere-se também às tempescades em~onais e
às mudançª-SJIº estado.&spícito. qy efazem parte da adolescência .


198 VOIJAAOLAR

Segundo Anna Freud , é normal para o adolescente detestar


a presença dos pais em um dia e desejar conversas íncim as com
eles, no outro.

Distanciamento dos pais

O distanciamento dos pais é uma parte normal da adolescêncja .


Para sair de casa, os ad olescentes pre ci. Am fazer com que os pais
pareçam pouco atraentes. O psicó logo de Yale, Theod ore Lidz,
acentua o fato de que ' 'o conflito das gerações é inerente à vida
cm sociedade'• . Oito centos anos antes de Cristo, Hesíodo estava
terrivelmente preocupado com a juventude d o seu temp o. Im;l•
ginava o que ia acontecer com a geração seguinte. Ontem, no su-
permer cado, ouvi uma senhora dizer exatamente isso.
O grupo da mesma idade é o veículo através do qual os
adole scente s conseguem esse distauciamento. Gos to d e me refe-
rir a.o grupo pai da mesma idade, uma vez que o grupo se
toro.a ltll) novo pai . O grupo pai da mesma idade é muito rígi-
do e fief.'a regras . Por exemplo, n o meu temp o. o estilo oficial
de cabelo-·era o '' rabo de pat o' '. Meu grupo usava calças com
costura s·'visíveis e bo lsos par a pistolas. Out .ros adolescente s que
J
não se vestiam como nós eram considerados ''qua dra dos" . Nó s
caçoávamos dele s!

Ocupação

Vários estudos demonstram que a principal preocupação dos ado-


lescentes é a carreira . Que tipo de trabalh o cu vou fazer? Onde
vou gastar minha energia? Como v9u tomar conta de mim mes-
mo? O que vou ser quand o crescer?
A própria ener gia vital nos leva a conside rar o tipo de tra ba-
lho que faremos pelo resto d a vida . As escolhas diferem de cul-
tura para cultura e de geração para geração. No passado, as esco-
lhas ocupacionais eram sc:veramente limit adas e determinadas com
antecedê ncia. A vida era m ais simples nesse tempo.
ORGANIZAÇÃO
- UMANOVA •A
ADOU:SdN 199

Solidão
A adolescência sempre foi um tempo solitário. Não impona a
quantos grupos penen ça, nem quantos amigos tenha, o adoles-
cente sen te um vazio interior. Não sabe ainda quem ele é. Não
sabe ao ceno para onde está iodo. Devido à nova aptidão de pensar
abstratamente, o futuro (uma hipóte se) torna- se um problem a
pela prÍmeira vez na vida da pessoa. O jovem, quando contem -
pla o fut uro, cem uma sensação de ausên cia. Essa sensação é mai~
intensa quand o ele tem uma criança interior ferida .
A nova estrutura cognit iva que começa a se formar permi te
que ele pense sobre o próprio eu (torna-se consciente da própria
pessoa), Os adolescentes podem pensar sobre pensar. Por isso,po-
dem perguntar, '' Quem sou eu?'' Tornam-se dolorosamente cons-
cientes da própria pessoa. Essa conscientização é intensificada pelo
aparecimento das caracteríscicas sexuais secundárias . As novas sen-
sações sexuais são poderosas e as mudan ças físicas são embara ço-
sas. O adol~scente sente -se constrangido e estranho.

Identidade do ego
Já citeia definição de Eàk Erikson para identidade do ego. As
questões do " qqem sou eu" e "para onde escou indo " são ore-
sultado das novas aptidões mentais do adolescente .

Exploração sexual
Com o aparecimento das características sexuais secundárias, sur-
ge também uma nova e poderosa energia . Essa energia é a ex-
pansão da centelha de vida. "A vida deseja a si mesm a'', disse
Nietzsche. A sexualidade genital é uma espécie de força preser-
vadora da espécie. Sem o impulso sexual , a espécie desapareceria
em um período de cem anos.
O ado lescente explora naturalmente a p róp ria sexualidade .
A primeira masturbação genital abre a válvula. As ameaças de
cegueira , verrugas na mão, até mesmo da queda do pên is pe.r-
200 YOIIAAOW:

dem todo significado comparadas a essa sensação. Afinal, quem


precisa enxergar - a gente pode fazer no escuro! Outras formas
de exploração geralmente vêm em seguida: a mastur bação mú -
tua, acariciar pessoas do sexo opoSto e, finalmente, o ato sexual.
A exploração dos genitais é crucial para uma identidade sau-
dável do ego. O sexo é o que n6s somos, e não uma coisa que
temos. A primeira coisa que notam os em uma pessoa é o seu sexo.

Concei tualização

A apcidão para o pen samento abstrato, em termos lógicos, ap~-


rece na puberdade, levando-nos além do pensamento concreto
e literal da criança em idade escolar. Uma das coisas que o pré-
adolescente não pode fazer e que o adolescente faz é pensar em
proposições concrátias aoiâco, Por exemplo, pensar no fururo exige
a capacidade de aceitar uma proposição contrária ao fato. Quem
sou eu e para onde estou indo? Quais são as minhas possibilida-
des? Na adolescência, pensar na idencidade é pensar na possibi-
lidade. "Suponhamos que eu seja médico ... advogado... religio-
so.. .'' e assim por diante . Cada suposição implica na criação de
uma hipót ese não restrita aos fatos.
Outrá manifestação da novaestrutura cognitivaé a idealiza-
ção. Os 'adolescentes são sonhador es. Sonhar e idealizar significa
criar modelos que nos motivam. Os adolescente s também têm
J
ídolos. Os mais comuns são astros e estrelas do cinema e do rock,
mas o jovem pode ter como ídolo motivador um político ou um
intele ctual . Os adolescentes são naturalmente religios0.se essa é
a época de maior preparo para a religião . Um ídolo espiritual ge-
ralmente é a obsessão centeal do adolescente.
A idealização ou idolatração pode também ser dirigida a
um culto ou a uma causa. Os Hare Krishnas do aeroporto, a
Guarda Vermelha da China, a mobilização dos adolescentes da
época, feita por Hitler - tudo isso prova como o adolescente
pode ser motivado para abraçar uma causa - positiva ou nega-
tiva. Esse compromisso com uma causa é a pase de uma força
do ego que Erikson chama de fidelidade. E uma imponante
força do adulto.

_I
- UMANOVAADOO.Sd:NaA
ORGANIZAÇÃO 201

Pensamento cgocênttiro

Ao contrário do egocentrismo da criança, o adolescente é capaz


de compreender o {>onto de vista de outra pessoa. Seu egocen-
trismo consiste · em acreditar que os pais são tão obcecados pot
eles quanto eles me smos. Os adolescentes são paranóicos por
natureza. Um olhar casual é interpretado como um julgament o
avaliador e pejorativo . Imaginem uma ecoa comum. A pequen a
Shfrley foi ignorada pelo garoto que ela adora. Chega em casa
deprimida e sentindo-se rejeitada. A mãe diz : "Oi , querida ,
cudo bem ?" Shirley corre par a o qu ano, berrand o: "Será que
não pode me deixar em paz?" David Elkind criou duas expres-
sões para descrever esse pensamento egocêntrico do adolescente :
"a audiência imaginária" e •'fábula pessoal". São duas formas
de pensamento grandioso. Shirley pensa que sua mãe assistiu
à cena de rejeição e testemunhou sua humilhação. A acentuad a
consciência da própria pessoa, no ado lescente, é resultado da
crença de que "todos estão olhando para mim" . Se o adolescen-
te foi envergonhado na infância, essa conscíentização é dolorosa-
men te intensificada.
A fábula pessoal é a crença de que sua vida é absolucamca -
cc únic a. ' 'Ninguém sofreu tanto quanto eu •', diz o adolescent e
para si mesmo. E continua, "Ninguém me compreend!' '. " Nin-
guém me ama " , ' 'Ninguém teve de agüentar pais iguais aos
meus". Lembre-se da fantas ia de Tom Sawyer em que ele se via
morr endo. Tom vê a tia e os outros adultos em volta do seu leito
de morte . Todos estão derramando rios de lágrimas. Agora final•
mente comp reendem a pessoa extraordinária e única que ele era.
Essa fábula, geralmente, termina quando a pessoa estabelece uma
intimidade real. A troca emocional de um relacionamento ínti-
mo ajuda a compreender o quanto sua experiência da vida é ou
foi comum .

Narcisismo
Os adolescentes são narcisistas. São obcecados por seu reflexo no
espelho. Podem passar horas olhando para eles mesmo s. ) sso é
o resultado da intensa conscientiza ção da própria pessoa. E taro•
bém uma reciclagem das necessidades narcísicas da intãn cia.


202 VOLTA
ADLAR

.M~ia de comunicação

No ApanhadoIl)Q Campode Centeio,HoJden está sempre ''dan-


do uma ligada'' para alguém no tdcfone. Tem uma necessidade
voraz de falar. A ccinscientização intensa de si mesmo e a soli-
dão desse estágio de desenvolvimento levam o adolescente a
querer se comunicar. Falar interminavelmente com um amigo
ou amiga é um meio de se sentir desejado e ligado a alguém.
L.embro-me perfeitamente de quando minha filha saia de carro
comigo, q~ando era adolescente. O tempo todo ela gritava fre-
neticamente nomes e mais nomes de rapazes e moças pelos quais
passávamos.

Experimentação

Os adolescentes estão sempre experimentando - jdéias, modas,


papéjs e comportamentos. Getalmente essas experiê'ncias são fei-
tas em opos~ção ao modo de vida ou àos. valores dos pais. Se a
mãe acha que ''a limpeza está Jogo abaixo da divindade' ', a filha
adolescente pe-de afirmar a própria idenddade tornando-se hip-
pie, com cabelos longos , raramen te tomando banho e andando
descãlça. Se o pai é um realizad or, viciado em trabalho, o filho
cercamente vai afirmar sua identidade deixando os estudos. Se
os pais são acei'sras, o filho ( ou ·a filha) pode afirmar sua identi•
dade tornando-se muito · religio so/a ou vice-versa.
A experímentação é uma forma de expangir os próprios ho.
rizontes, é tentar outros comportamentos ántes de finalizar a.for-
mação da iden.cidàde. De um modo geral, a adolescência é uma
integração e uma reforma de todo s os outros estágios anteriores
do desenvolvimento. É o resumo de todas as forças do ego. Dessa
reforma começa a surgir a nova identidade.

DISTIJRBIODO CRESCIMENTO
Na melhor das hipóteses , a adolescência é o tempo majs tempe s-
tuoso do ciclo da vida.. Anna Freud diz que o que é nonna1 na
ORGANIZAÇÃO
- UMANOVA
AD0LEictNOA 103

adolescência seria considerado extremamente neurótico em qual-


quer outro está:gio da vida. Se isso é verdade, quando todos os
estágios anteriores foram resolvidos saudavelmente, imagine os
problemas resultantes de uma criança interior gravemente feri-
da. Muitos não precisam imaginar, estão vivendo o problema .
Para mim , a ambivalência se transformou em um compo r•
tarnento maníaco-depressivo. A representação c:xcema do problema
por meio de um comportamento desregrad o e promíscuo abriu
a porta para uma grave depressão . Eu me distanciei procurand o
a companhia de vádos filhos de lares desfeitos. Nós nos rebela-
mos cone.a nossa eàucacão ri?i damenr e católica, procurando oroS'-
cicutas e bebendo. Minha pr edisposição genéuca para a bebida
entrou em cena imediatamen te. Aos 13 anos eu bebia até ficar
inconsàence e escava sempr e metid o em encrencas.
Erikson chama a aren ção para a difusão de pap éis como um
dos perig os da adolescência. Experimentan do com mu itos e va-
riados papéis , o adolescente perde o contexto para sinteti zar suas
forças do ego. Na ad olescência, eu me sentia terrivelmente con-
iuso e sozinh o. Não podia me revoltar contra meu pa i. porqu e
ele não estava presente e, por isso mesmo, não tinh a um mode lo
do papel que devia represent ar. Escolhi para mod elos os an ti-
heróis. Esta é a dinâmica do que foi chamad o' 'id entid ade nega-
tiva''. Eu não sabia quem eu era, ponantó me identifiquei com
o que eu não era. Eu era dife,rente, não como os ' 'quadrado s' ·
que viviam na sociedade. Meu grupo ridiculariz ava e zombava
de todos que não eram iguai s a nós, e isso compreend ia quase
rodo mundo ! As pessoas com identidade negativa afastam-se e
vivem à margem da vid a, zombando de rudo e de rodos.
Na verdad e, eu tinha pavor da vida. (Isso se aplica a todas
as ident idades negativas que conheci e com as quai s trabalhei.)
Com mínima ou nenhuma força do ego, não pod ia me organi-
zar. Embebedar-me era para mim um meio de me sentir adult o
e poderoso. Meu vazio interior impçlia-me a alter ar meu estado
de espírito de qualquer mod o.
E na adolescência que começamo s a repr esentar nossa.dor
original e as necessidades não acendidas da infânaa . A violência
ào delinqüente juvenil atesta a t'aiva indiferenci ada da criança in -
terior ferida e solitári a. A criminalidade é um a man eira de reaver
roubando o que lhe foi roubado da infância. O uso de dcoga.<,
amorte ce a dor da solidão da família disfuncio nal.


204 VOl!AN)l.Al

Em geral, os adolescentes revivem os segredos não expressos


da família. A reapresentação sexual é comum nessa época do apa-
recimento da energia sexual. A repressão rígida da mãe da se-
xualidade envergonhada pode ser revivida na filha como promis-
cuidade. Os casos secretos do pai podem ser reapresentados pelo
filho adolescente. A disfunção da intimidade dos pais, com toda
a solidão e raiva, pode ser simbolizada por um mau desempenho
na escola.
Muic.asvezes os adolescentes são os bodes ocpiatórios da fa-
mília. São os "pacientes identificados " , mas na verdade são os
representantes dos problemas da família. Quando conduzi Jm
programa contra o vício de drogas, em Los Angeles, não tratei
nenhum adolescente filho de um casamento saudável. Os pais
ewn portadores da doença multigeracional. Seus casamentos eram
casamentos de adultos crianças e os filhos estavam tentando levá-Los
à terapia. O comportamento compulsivo repetitivo dos adoles-
centes é diretamente relacionado à destruição das suas famílias.
Há também a questão das necessida.des de dependência ne-
gligenciadas. A adolescência é o tempo da formação das bases da
identidade. Crianças de familias disfuncionais não podem esta-
belecer~ identidade, porque não têm a noção do EU SOU quan-
do entram na adolescência.
Minha família foi severamente desestrutura da cm razão do
alcoolismo dÓ meu pai e porque ele nos abandonou fisicamente.
A desestruturação era assim.
J

F.AMÍLIA
DESESTRUTURADA

AUSENTE
Irmã

Pai
'(a.lco6latra)

Irmão
ORGANIZAÇÃO
- UMANOVAAOOUSdNOA 105·

Como podem ver, nenhum de nós tinha um eu completo e dis-


tinto. A maior parte de nós era pane dos outros. Quando um
de nós sentia alguma coisa, os outros sentiam também. Se ma-
mãe ficava triste, nós todos ficávamos tristes . Se ela ficava zanga-
da, todos sentiam e procurávamos acabar com a raiva dela . Eu
tive p~ouca base para criar minha identidade.
A medida que a difusão dos papéis se intensifica, o isola-
mento e o vazio interior crescem. O papd mais imporranu: de-
sempenhado no siscema f.uniliar até esseponto cransforma-se ao
meio mais acessível para ceruma ide.ntidadc. Aos 21 anos eu es-
tava totalmente confuso. Tinha pavor da min ha sexualidad e
Sentia -me vazioe inseguro. Estava assustado e zangado. A pers•
pecrivade uma carreira me arrasava. Lembro-me de caminhar pela
cidade, pensàndo em como todos os homens que eu via tinham
empregos , carros, casas e assim por diante. Com uma formação
baseada profundamente na vergonha . achava que nunca sena ca-
paz de ter tudo isso. Dessa fo.rma, x-ecue1para os papéis design a-
dos para mim pelo sistema familiar .
Continuei a ser a Estrela. Eui presidente da dasse. ediror do
jornal da escola e tinha um grande desempenho acadêmico . Con -
servei tudo isso a despe ito do alcoolismo e de pertencer ao grup o
dos •·caras sem pai'' . Porém , meu pape l mais imporr-an te era o
de Zelador. Era quando eu me sentia real mente important e.
Q uando meu pai nos deixou , eu me tornei o Homenzinh o da
Casa. Era o Paizinho do meu irmã o. Tomando conta dele s, eu
era importante. Desse modo , resolvi o meu problema de adoles -
cen,te tomando-me padre - padre celibacácio. A batina negra
e o colarinho branco me forneceram uma identidade imediata .
De repente, eu era o •'padre" John. Era agora um zelador de
aln1as.Aquele era o trabalho mais nobre que existia. Era o traba-
lho de Deus . Ser cdibatário era o preço que eu tinha de pagar.
Tornando-me padre, estava fazendo uma coisa que mereci a
o louvor e a aprovação da minha família. da minha religião e dos
meus professores (eles também padres e freiras ). Era um nobre
sacrifício e um sinal de generosidade e bondade. Essa escolha re-
solveu o medo que eu sentia em rela ção à minha carreira e per-
mitiu a condnuação dos papéis que eu representava no sistem a
fa,miliar . Eu era a Estrel a e o Zelador. e casando com a Sane~ M~-
d,:e Ig reja ;amais teria de deixar minha mãe . Sob essa f:alsa iden-
1:idade, vivia ainda um garoto solitário , confuso e apavorad o.
INFORMAÇÃO

Sem dúvida , a maior de todas as tragédias é não saber quem SO·


mos. Os papéis rígidos dentro da família, solidificados durante
a adolescência, tomam-se a identidade mais consciente que po-
demos ter. Na verdade; passam a ser um vício. Repres~ntando o
papel, sentimos que somos importante s. Desistir do papel signi-
ficaria tocar o fundo do reservàtócio de vergonha tóxica que apri-
siona sua dor original, cujo centro é oferiménto espiritual. Quando
perdemos nossa noçâó de EU SOU, perdemos todo significado.
Quando escrever a história da sua adolescência, atente para
o modo pelo qual a criança ferida contaminou sua vida nesse es-
tágio. Descreva detalhadamente seus traumas, os carrões do dia
dos namoradps que jamais recebeu, a solidão, a pressão do gru-
po de seus iguais e a dor por sua família.

COMPARTILHANDO COM UM AMIGO A HISTÓRIA


, DA SUA ADOLESCÊNCIA
I

Compartilhe ·sua história com a pessoa em quem confia. Seu ser


adolescente é a adaptação da criança ferida ao começo da vida
adulta. Lc;mbre-se ~e que seus papéis finalizados são as metáfo-
ras solidificadas da história da sua criança ferjda. Você precisa le-
gítimizar ·a escolha que fez entre as decisões que estavam ao seu
alcance nesse estágio.

SENTINDO OS SENTIMENTOS

Para curar o seu adolescente, você precisa realmente sair de casa.


Precisa, também, trazer de volta todos os seus estágios de desen-
ORGANIZAÇÃO
- UMANOVA
ADOLESd:NOA 207

volvimcnto. Sugiro que dê uma grande festa de boas-vindas cea-


do seu adolescente como anfitrião. Eu uso a seguinte medita ção
para conseguir 1sso.

MEDITAÇÃODA VOLTAAO LAR

Grave no seu gravador. Use o teipe de Daniel Kobialka, Going


l-lom e como n1úsica de fundo . Faça uma !,)ausade 20 segun dos
em cada intervalo indicado .

Feche os olhos e concentre-se na sua respiração... Encolha a


barriga para inspirar e solte-a para expirar. Aspire concando
até quatr o, prenda a respiração contand o acé quacro e solce
o ar contando acé oit o... Faça isso várias vezes... Aspire em
quatro tempos, prenda a respiração em quatro tempos e solte
o ar em 16 tempos ... Aspire em quatr o tempos, prenda em
quatro tempos, solte o ar em 32 tempo s... Faça isso três ve-
zes... Agora, respire normalmente . Concenrre-se no núme-
ro três quando soltar o ar.... Veja o número , desenhe-o com
o dedo, ou ouça ''três" mentalmente ... Agora o núme ro
dois ... Agora o número um ... Agora veja o númer o um se
transformar em uma porca ... Agora abra a porca e caminhe
pelo corredor longo e sinuoso com port as nos dois lados ...
Veja à sua esci,uerdauma porta onde está escrito Ano Passa-
do... Abra a porta e olhe para dentro. Veja uma cena agra-
dável do ano que passou ... Feche a porta e caminhe para a
seguinte, à sua direita ... Abra a pona e veja seu cu adoles-
cente de pé no meio do quart o... Abrace-o. Diga-lhe que
sabe tudo que ele passou ... Diga-lhe que está na hora de
sair de casa. Diga-lhe que você está ali para apoiá-lo... Diga-
lhe que, juntos , terão de sair à procura de todas as outr as
partes do seu eu - o beb~. a criança aprendendo a andar,
o pré-escolar, o menino cm idade escolar... Junto s, caminhem
até o fim do corredor e abram a porra ... Olhem para dentro
e vejam a primeira casa da qual você se lemb ra ... Entrem
na casa c·encontrcm o qu arto onde mora seu eu-bebê ... Fa-
ça seu adolescente pegar o bebê no colo... Agora, voltem para
208 VOl!A.
AOLAR

o corredor, abra a primeira pona à esquerda e veja seu eu


no est-ágiode aprender a andar ... Tome a mão delé e volte
para o corredor... Abra a primeira porta à direita e- veja
seu eu em jdade pré-escolar... Olhe para ele... O que ele
está vestindo? Tome-o pela mão e saia do quarto. Agora,
procure seu eu em idade escolar... O que ele está vestin-
do?... Peça a ele para segurar na mão do-seu eu-adole~cente
e saiam da casa... A-gora, você está perto do seu eu-adoles.
cente ... Quem está segurando seu bebê? Seu eu na idade
escolar seguta o b1:açodo seu eu-adolescente ... Você segura
as mãos do que começou a andar e do pré-~colar ... Agora.
v~ja seu bebê se transformar no garotinhQ que aprende a,
andar ... Agora, veja este se uansformar no seu eu em idade
pré-escólar... Agori ., veja o pré-escolar se transformar no me.
nioo em idade escolar... Agora veja,seu eu em idade escolar
transformado no seu eu-adolescente ... Você está de pé ao
fa:do do seu eu-adolescente .., Agora. veja seus pais saindo
da casa em que você morava quando era adolescente ... Você
e seu eu-adolescente acenaQi um adeus para eles... Diga-
lhes que todos os seus eµs estão partindo agoca... Diga que-
sabe ·que eles fizeram o melhor possível... Veja-os como as
pessoasíetidas que realmente são (eram) ... Perdoe seus pais
por ter sidõ abandonado ... Diga-lhes que agora você vai ser
seu próprio pai·.e mãe ... Comece a sé afastar da casa... Olhe
para a frente e veja um/a amante, esposo/a ou amigo/a à
' sua espera... Se você tem um terapeuta, veja-o também ...
Se tem um grupo de ~paio, vej?, seu grupo ... Se você tem
um poder mais alto, veja também ... Abrace tod9s ... Saiba
que tem apoio... Que não está sozinho... Saiba que você
cciou ou pode criar uma nova família de adoção... Ag·ora
deixe que seu adolescente se una a você... Escolha uma ida-
dt, a partir da infância, e veja sua criança interior nessa
idade ... Diga-lhe que você vai defendê-la ... Que você vai
ser seu novo pai protetor ... Diga-lhe que você sabe, melhor
do que qualquer outra pessoa, tudo que ela passpu, toda
a mágoa e a dor que sofreu ... Diga-lhe que, de todas as
pessoas que ela pod ·erá conhec:et, você é a única que t:la
jamais perderá ... Diga que você terá sempre tempo para
ela e ·que passará algum tempo com ela todos os dias... Di-
ga que você a ama de todo coração...
ORGANIZAÇÃO
- UMANOVAADOUSCTNOA 2()1}

Olhe agora no horizonte da sua mente ... Veja o núme-


ro três... Sinta os dedos dos pés... Mexa os ded os dos pés...
Veja o número dois ... Sinta a energia subindo por suas per -
nas até seu peito ... Sinta a energia nos braços ... Mexa as
mãos... Sinta a energia na sua cabeça e no seu cérebro... Ve-
ja agora o número um , abra os olhos lentamente e distenda
os músculos e se espreguice .

Agora você recuperou todo o seu sistema familiar interi or. Acaba
de ter uma festa de volta ao lar! A minha é assim.

v·1vAl vivAI.
ATlJRl--tA. ESTA iDDP-. AQv1i
210

PERDÃO

A re~uperação da sua criança interior fe:rida é um processo de per-


dão. O perdão nos permite dai como antes. Cura o passado e Li-
bei:ta as énergias para o presente.
O perdão não é um processo sentimental ou superficial. Fo-
mos realmente feridos e esse sofrimento deve ser validado elegi -
timizado. Quando rece>nhecemos o mal que foi feito , retiramos
o manto mítico com que envolvíamos nossos pais. Nós os vemos
como os seres humanos feridos que realmente são,(eram). Vemo
que são criançasadultasrevivendo suas próprias contaminações .
Sam Keen diz muito bem ~

Quando retiro o manto do mito do meu passado e reco-


nheço o caráter ambivalente e t:rágico de rodos os atos hu -
manos, descub1:ouma nova liberdade para mudar o signifi-
cado do qu.e foi... Só o perdão permite que eu aceite meu
passado e me liberte de ferimentos deformantes ... Julga -
mento , perdão e gratidão são as partes da alquimia que
traõ.s{ormam o sofrimento do pas~ado em boa sorte e que
me transformam, de vítima de causas qu e eu não podi a
controlár, em participante de um passado que reformo

conunuamente .

O uabalho de lamentação tem de ser feito. Fritz Petls disse: "Nada


múda áté ser o que é." Só cirando o manto do mito que envolve
nossos pais podemos tompreender o mal a que fomos submeti-
dos. Compreender a i:ealidade gesse mal nos permite identificar
nosso sentimento de termos sido violados. Sentir os sentimento s
é o trabalho da dor original . Quando entramos em contato com ..
esses sentimentos e os expressamo $, ficamos livres para seguir em
frente. Sem o peso de problemas do passado não resolvídos, não
mais contaminamos o presente. Nossa energia está agora dispo -
nível para dar força à nossa vida. Podemos viver no presente e
criar o futuro.
O pei:dão permite que abandonemos nossos pais. Nossa dor
congelada formava os profundos ressentimentos que nos ligavam
a eles. Os ressencimentos nos fazem .reciclarconstantemente os mes-
mo~sentimentos. A informação da criança ferida é que nunca prc-
ORGANIZAÇÃO
- UMA
NOVA
ADOLESctNCJA

cisamosnos separardos D0$.5.0Spais.Usando nossaen~rgiapara odiá-


lossecretamente, continuávamospresosa eles,o que impedia.o nosso
cre~cimentoe amadurecimento. O perdão cura nossosressentimen-
tos e nos pçrmite separar nossa criança mara-vilhada voz da vergo-
nha vinda das figuras materna e paterna internalizadas por nós.
Quando ~ecuperamosnossa criança·interior, devemostomar
um·a decisão sobre nosso~pais, se ainda estiveremvivos.Que tipo
de relacionamento teremos.com eles? Aqueles cujos pais são ain-
da agressores;deve.m tomar a decisão de ficar lollge deles. Reco-
mendo que vocêos deixe encteguesii própria sorte!Sei de mui-
coscasos em que os p.aiscontinuam a violentar os filhos adultos.
Se seus pais se recusam a assumir a responsabilidade por suas
próprias criançasferidas, vocêdeve lembrar que sua primeiraobri-
gaçãoé p:ua com a sua vida. Vocênão veioao mundo paracoroar
concados seus pais. Não estou falando aqui aos enfermos ou jn . .
válidos. Estou falando dos pais que recusam assumir a responsa-
bilidade das próprias carências. Cada um de nós deve permicir
qt,Je seu eu adulto decida sobre as próprias fronteiras com seus
verdadeirospais. Lembre-se,vocêagoraé responsávelpor sua crian-
ça interioL Ela espera que você a proteja.
Para .a maioria das pessoas, a recuperação da criança interior
cria um c<1ncexco para um novo e mais rico relacionamencocom
os pais verdadeiros.Tornando-se o novo pai ou a nova mãe dessa
criança, você a a_judaa terminar com o passado e preencher o va-
zio em sua mente. Quando a criança sente uma nova esperança,
au_tonomia, e propósito, iniciativa e competência, pode estabele-
cer a própria identidade . Então pode também ter um relaciona-
mento saudável com os pais.
1

:;.,,, ~
~
•!
,.·-

~
i ~

'
1
'
PARTEIII
DEFENDENDOSUACRIANÇA
INTERIORFERIDA

Quero que você imagine o que faria se encontrasse


aquela criança real na situação original ... Qual a coisa
mais razoável e compassiva que se pode fazer por uma
criança tão confusa e penutbada? Você senta e con-
versa com ela. Escuta o _que ela diz. Descobre o que
a preocupa, ajuda-a a compreender , você a consola,
a toma nos braços. Mais tarde , brin ca um pouco com
ela, explica coisas, conta uma histór ia. Isso é terap ia
no mais antigo e mais perfeito sentido, naàa compli-
cado, apenas bondade e paciência.
- Ron Kurt:z
INTRODUÇÃO

Agora que você recupe rou sua criança inter ior ferid:i. precisa ser
seu defensor . Como seu paladino , vai defen dê -la e Jurar vigilan-
remen te por ela. Essa criança precisa de alguém com pode_re po-
tência pa ra protegê-l a. Tend o você como pai ou mãe prot ecor/a
e zelador/a. ela pode começar o proces50 de cura. Ser o defensor
da sua criança ferid a é um mei o de ser os novos pais de si mesmo.
Permite tamb ém que ela real ize o trabal ho corretivo qu e devol-
verá a você seu verdad eiro eu. As novas permi ssões e a proteç ão
que você deve dar a essa criança formam o centro das suas cxpe-
."" . .
11enaascorreava.
s.
A dor original foi necessátia para que você entr asse em con-
tato com seu eu autêntico, sua criança maravilha natural . Porém .
mesmo depois de recuperá -la, muita coisa ainda precisa ser feita
Como o desenvolvimento dessa criança foi interrompido nos pri-
meiros estágios, ela não teve oportunidade para aprender as coi-
sas que precisava ter aprendido em cada estágio seguinte. A maior
part e dos problemas da criança ferida é o resultado dessa falha
de apre ndizado . Agora, isso pode ser reparad o.
A experiência corretiva é uma Íorma de reeducação. Como
deÍensor da sua criança interior, você vai alimentá-la , o que im-
plíca boa disciplina. A raiz latina da palavra disciplinasignifica
ensinar e aprender. A sua criança interior tem de ser alime ntada
e tem de aprender as coisas que nã o apren deu no mom ento cer-
to i: na seqüência natural . Só com essa disciplina eh pode emer-
gir completamente .


CAPÍTUID 9
O ADULTOCOMO NOVA FONTE
DE POTÊNCIA

Agora poac:mos'fala,r..• sobre os " trb Ps" ôa tcr.ipia...


Que são, potencia, permissão e proteção,

- Eric Bemc

Para defender sua criança interior é preciso fazer com guc ela confie
em você o suficiente para desobedecer ás norn1as sob as quais foi
criada, Você deve dar a ela , a permissão saudável de ser quem ela
é e desobedecer as normas e crenças dos pais, baseadas na vergo•
nha . Essas normas e crenças têm muita força . Se a criança as de•
sobcdece, arrisca-se ao castigo e ao abandono . É claro que isso
é apavorante para sua criança interior.
Agora, quando seu eu adulto dá à sua criança fedda permi s•
são para desobedecer às crenças e às normas impostas pelos pais,
ela precisa acreditar que você tem podersuficiente para se opor aos
seus pais. Esse poder é o que Eric Bernc chama de potência , o pri-
meiro P na mudança terapêutica. Gosto de ir ao encontro da mi-
nha criança interior como um .mago sábio e gentil porque os ma-
gos têm muito poder com as crianças. Quando ç:u sou um velho
mago sábio e gentil, minha criança .interior compreende o meu po•
der. Sugeri também que você deve pensar como seria se seu cu adul•
to de hoje pudesse estar presente durante as fases mais dolorosas
e traumiticas da sua infância. Sua criança interior o teria visto co-
mo um deus repleto de poder. Se já fez o trabalho de recupera•
ção, sua cria11çainterior acredita e confia na sua potência. Mesmo
assim, deve fazer com que da saiba tudo que pode saber sobre seu
poder e sua força. O exercício seguinte o ajudará a fazer isso.
218 VOIIA
AOLAR

...
LISTADE POTENCIA

Faça uma list a de três coisas que você pode fazer agora e que não
podia fazer quando era criança.
Exemplqs:

1. Ter um carro.
2. Dirigir um carro.
3. Ter conta no banco .
4. Ter dinheiro de verdade depositado na conta.
5. Comprar todo sorvete e tod as as balas que quiser.
6. Comprar brinquedos interessantes .
7. Ter apartamento ou casa próprios .
8. Fazer o que cu bem entend o.
9. Ir ao cinema sem pedir permissã o.
10. Comprar um animal de estimação se eu quiser .

Agora, feche os olhos e veja sua criança interior (deixe que ela
apareça em qualquer idade ). Quando você a vir (ouvir, sentir ),
fale das coÍY.ls
_da sua lista. Ela vai ficar muito impre ssionad a .
..
,,

PEDIR PERDAO
1

Outro modo de criar confiança e estabelecer sua potência consis-


te em pedir perdão por tê-la negligenciado durante tantos anos.
Isso pode ser feito com uma carta. A minha dizia o seguinte:

Joãozinho querido
Quero dizer que o amo do modo que você é. Arrependo-
me por tê-lo negligenciado desde a minha adolescência.
Eu bebia até ficarmos doentes. Eu bebi atê não poder me
lembrar de nada. Arrisquei muitas vezes sua vida preciosa.
Depois de tudo que você teve de supo rtar na infância, isso
foi urna coisa terrível. Eu também passava nohe s em claro,
divertindo-me , sem pensar que você precisava descansar.
Eu trabalhav a horas sem fim e nã o deixava você brincar ...
O ADUDO
COM
ONOVA
FON'IE
DEl'OrtNOA 219

Eu fui completamente insensívelcom você. Eu o amo e pro-


meto lhe dar meu tempo e minha atenção. Estarei aqui sem-
pre que precisar de mim. Quero ser seu paladino.
Amor
João.

Em seguida, usando sua mão não dominante, escreva a resposta.

João querido
Eu o perdôo. Por favor, não me deixe nunca mais.
Amor
Joãozinho

A partir do momento da recuperaçãoé imperarivodizer somen-


te a verdade à sua criançainterior. Ela precisa também ouvir que
você estará sempre ali para ela. Ron Kurrz diz:

A criança não precisa bater na cama ... sentir dor e gritar.


A criança precisa de algo muito mais simples. Precisa que
você esteja lá...

r.st:.r lá significa dar a ela seu tempo e sua atenção. Não adianta
estar lá p.orque acha que é seu dever e porque você sente-se bem
cuidando dela. Você precisa ouvir as necessidades da criança e
acendê-las.Ela precisa saber que é imporcancepara você.

O SEU PODER MAIS ALTO

Outra fonte poderosa de potência consiste em falar sobre seu Po-


der MaisAlto, se vocêreconhecealgum. Gosto que minha crian-
ça interior saiba que me sinto seguro e protegido com a crença
de que existe alguém maior do que eu. Chamo esse alguém de
Deus.
As crianças,de um modo geral, são crentes naturais, não têm
problema em aceitar o conceito de Deus. Eu digo à minha crian-
ça interior que Deus me mostrou como Ele é. Ele veio ao mundo
como um homem chamado Jesus. Jesus me diz que Deus é meu
220 VOl!A
AOLAR

pai e minha mã e.J esus diz que posso set amigo de Deu s. Diz
que Deus me fez como eu sou, e quer que eu cresça e amplie
o meu EU SOU. Ele me diz para não ·julgar os ouuos e _paraper-
doar. Acima de tudo, Jesus me deu o exemplo dó seu EU SOU.
1
Por isso Ele disse : ''Eu sou a verdade.' Ele era a verdade de si
mesmo. Gosto de Jesus porque posso falar com ele e pedir favo-
res. Jesus sempre me dá as coisas que peço sem que eu tenha de
fazer alguma coisapara merecer. Ele me ama como eu sou. Meu
poder mais alto, Deus, também me ama como eu sou. Na verda-
de, o meu EU SOU é como o de Deus. Qu ;iodo eu sou realmen -
te, sou quase igual a Deus. Quero que minha criança jntedor saiba
que Deus nos ama, que sempre nos ptbce-geráe sempre estará
conosco.Na verdade, o outro nome de Jesus é Emmanuel, que
significa ''Deus es~á conosco''.Digo à minha criança interior que
existe um poder ao qual eu posso recorrer e que é mui-to maior
do que nós dois)
.

"
UMA NOVAINFANCIA

Outr a forma pooerosa de asar st:1apotência de adulto consiste no


método chamado '' mudança da história pessoal''. Es.se método foi
· criado por Richard Bandler e John Grinde.r; e col~boradores, co-
, mo parte de um modelo de remapeamento chamado Programa-
ção Neurolingüística (N.l.P .) Eu uso esse modelo há oito anos. É
extremamente eficaz, desde que a pessoa tenha feito o uabalhó
da dor origínal . Se o lamento não expresso existir ainda , o méto-
do se transforma em uma mera viagem mental. leslie Bandler, ouua
criadora da N .L.P, confirma issono seu ótimo livro The Emotio-
n;tl Hostage,onde ela confessa que teve graves problemas emocio-
nais, apesar de conhecer e usar as técnicas sofisticadas da N.l.P.
A téc nica para mudar sua história pessoal é excelente para
rnodificar cenas especificas e traumáticas da infânciá. Estas, ge-
raimente , tornam-se o que Silvao Tomk:ins chama de "cenas mol-
dadoras ou dominantes", os filtros que dão forJ'llà à história do
nosso desenvolvimenco. Elas prendem nossa dor ç no ssas emo-
ções não expressas a uma âncora, e são então recicladas durante
toda a nossa vida.
O ADUDO
COMO
NOVA
R:>NTI
DEi'OrtNOA 221

A mudança da história pessoal funciona também com pa-


drõe i ma.is generalizados. como sentir-se indesejado na infância .
A mudança da história baseia-se na premissa cibc;roécicade que
n0sso cérebro e o sistema nervoso central não sabem a diferença
entre a experiência real e a imaginária, quando esta última é su-
ficientemente vívida e detalhada . Como diz Leslie Bandice:

A tremenda eficácia da mudança da história foi descoben a


estudando como as pessoas podem djsrorcer sua experiência
gerada internamente e agir externamente de acordo com a
distorção. es~uecendo gue foi criada por elas me sma:.

Geralmente, imaginamos coisas que acontecem no fut uro e nos


assustamos com os qu adros que nós mesmo s criamos. Como diz
Leslie Bandler , o ciúme é o exemplo principal :

... o ciúme é quase sempre o resultado da criação de um a


ímagem irreal da pessoa querida com outra pessoa, que pro-
vo~a uma resposta emocional desagradável em quem crio:.i
a imagem .

A pessoa sente-se mal e age em resposta aos próprios senrime n-


cos. como se aquilo fosse um faro real .
Consideremos também o poder da fanta sia sexual. A pessoa
pode criar uma imagem de um parceiro sexual e ficar sexualmente
excitada com ela.
A mudança da história utiliza esse mesmo processo delibe-
radamente. Com a mudan ça da hi5tória, usamos a potência das
nossas experiências de adultos para mudar as marcas interior es
do passado. Vejamos alguns exempl os.

Inf'ancia

Considere o trabalho realizado na pane II. Quais eram seus pro•


blemas na infância? Você ouviu as afirmações que precisava ou-
vir? Foi acariciado como precisava ser? Se a resposta for negauvd..
considere o seguinte:
Pense nos recursos da sua potente experiência de adulto qu e
pod eriam ter sido de ajuda na sua infância. Por exempl o, oeus('


222

num tempo em que se sentiu bem -vindo - talvez qu.an:do se


encontrou com um amigo quelido. Lembre-se da expressão de
alegria no rosto ·dele quando o"Viu. 0u ·pode se lembrar de uma
fes~a surpr_esa na qual você foi o centro das atençõé:s.
Para í;lzer a mudança na história, fecho os olhos e voho
para o ano de 1963, quando fui eleito "homem do ano" , no
fim do meu primeiro ano no seminário. Posso reviver a sensação
de estar ali de pé , de ouvir os aplausos e o brilho de 50 rostos
sorridentes, dizendo meu nome . Vejo o rosto do padre Mally
e o de John Farrell, meu melhor amir'). Enquanto sinto esses
sentimentos, m antenho a ponta do meu polegar di reit o encos-
tada na ponta do indicador da mesma mão , durante 30 segun-
dos . Depois, desfaço o contato do s dedos e (elaxo a mão. Está
frir:aa âncoia dá minha expc.âência de ser bem-vindo. Os que
uabalharam em grupo fizeram esse tipo de âncora durante as
da pane II. Se você é canhoto , faça sua ân cora com
.medit:::1.ções
a mão esquerda .

.. ÂNCORAS

O gesto de encostal' a ponta do poleg;u na ponta do indicador


é uma âncora cinestésica ou gatilho. Nossa vida é reple ta de ve-
lhas âncoras, resultados das experiência s gravadas neurologicamen-
te. Já falei sobxe a fisiologia do cérebro relacionada à experiência
traumática. Quanto mais traumática a ocperiênéia, mais profun-
da a marcá deixada. Sempre que temos uma experiência pareci -
da, as emoções originais são detonadas, atirando a âncoraoriginal.
Toda a experiência sensorial é codificada desse mod o. Temos
âncoras visuais. Por e:,cemplo, alguém olha para você da mesma
forma que seu pai violeuto olhava ante s de uma sur.ra. Isso pode
detonar uma poderosa resposta emocional - mesmo que você
não faça a conexão conscientement e. Temos âncoras auditivas, ol-
fatórias ou gustatÍ\i'as. Um tom de voZ:,um cheiro ou uma comi-
da póàem detonar antigas lembran ças com as respectivas em o-
ções. As canções são, talvez, as âncoras mais poderosas, ou a mú-
sica em geral. Aposto que já aconteceu com você estar ouvindo
o r~.dio no carro e, de repente , se lembrar de uma pessoa ou de
O ADUIJD
COMO
NOVA
FONTE
DEl'OltNCI
.A 22;

uma cena do passado distante. Nossa vida é u,ro,acúmulo dessas


marcas de âncoras - agradáveis e dolorosas.
Mudamos as kmbraoças dolorosas da infância juQtando-as
a experiências reais de força da nossa vida adulta . Se suas carên-
cias da infância não' foram atendidas 1 se você foi•uma Criança Per-
dida, pode dar a si mesmo uma .aovaipfância.Para isso,deve an-
corar as experiências reais relacionadas à força que possui agora.
Sevocê tivesse e~sas forças na infância ,. tudo teria sido melhor.
Uma vez essas forças ancoradas, ancoramos então os sentimentos
perdidos da infânda. Então . ativamos simultaneamente as duas
âncoras p;,.ra mudar realmente nossaexperiên cia da infânci2. Es•
tes são os passos que devem ser seguidos ·.

PRJMEIRO
PASSO

Pense em três e~períêndas positivas da sua vida adulta, que você


devia ter tido na infância e das quais sentiu falta . As minhas são:
A. A experiência de ser bem-vindo.
B. A exptriéncia de ser abraçadoe ata.riciad o.
C. A experiência de ser aceito incondicional1nenc-e.

SEGUNDO PASSO

Feche os olhos e penJe na experiência A. Vocêprecisa estar realmen -


te no local e no tempo da experiência, vendo com seus olhos, sentin-
do os sentimentos, etc. Quando sentir a alegria de ser bem-vindo,
faça uma âncora cinestésicá com o pol egar e o indicador . Mante-
nha os dedos assim durante 30 segundos e depois solte. Abra os
olhos e olhe para alguma coisa que esreja ao seu lado. Espere alguns
rijinutos, então feche os olhos e faça o mesmo com a experiência
B. Ancore essa experié_nciaexatariJence como fez com a primeira.
Isto se chama empilhar as âncoras e serve para intensificar
o poder das âncoras. Aumenta a voltagem. Abra os olhos e passe
àlguns minutos olhando para um objeto ao seu lado . Feche os
olhos e faça o mesmo com a experíência C, ancorando-a exaca-
mente corno fez com A e B.
Agora, você ancorou seus recursos positivos de adulto. Cha-
maremos a isto de âpcora Y.
224 VOIIAAOUR

TERCEIJ{OPASSO

Agora você precisa ancorar seus sentimentos da infância. Volte


à meditação do capítulo 4 . Siga a meditação até o ponto cm que
você é a criança no betço. Ancore o sentimento de abandono e
de ser indesejado. Essa é sua âncora negativa. Se você é destro,
faça essa âncora com a mão esq'uerda. Se Ecanhoto, faça com a
mão direita. Chamaremos isto de âncora X .

QUARTO PASSO

Agora você vai apanhar as forças ancoradas no Segundo Passo e


levá-hs de volta à infância. Isso é feito tocando simultaneamente
as âncoras X e .Y. Mantcn .do as duas âncoras , deixe que seu eu
sinta que é bem-vindo ao mundo. Sinta o calor das carícias. Quan-
to estiver repleto de calor e de força , solte as duas âncoras e abra
os olho s: Entregue ·-se ao sentimento do carinho positivo
incondicioi'íal ..

QUINTO PASSO

' Assimile essa experiência durante alguns minutos. Você acaba de


defender sua criança interior. Você misturou as primeiras impres-
sões ou marcas neurológicas com outras mais novas e mais positi-
vas. A partir desse momento, quando você tiver uma experiência
nova e sua infância for detoQadl\, vaiviver a nova experiência XY.
A amiga experiência X também seri detonada, mas não é mais
.dominant.e. De agora em diante, quando suas carências da in-
fância vierem à tona, você terá mais de uma escolha .

SEXTO PASSO

Os c,tiadores da N.l.,P. chamam a este passo de regular o anda-


mento dQfuturo. Consiste em imaginar um tempo no futuro em
que uma situàção nova detona suas carências da infância. Por exem-
O ADWOCOMO l'()NTEOEPOltNA
NOVA •
plo, ir a uma festa onde não conhece ninguém, ou o <!omeçode
um novoemprego. Você regula o andamento do futuro detonan-
do sua âncora Y (sua âncora positiva) e imaginando-se na nova
situação. Veja, ouça e sinta você mesmo manejando n1do muito
bem. Depois d~ fazer isso, veja a cena imaginária outra vez, sem
sua âncora positiva. Na verdade, regular o andamento do futuro
não passa de um ensaio geral posirivo. Os que têm uma criança
ince,cíorferida tendem afazer ensaios gerais negarivos. Criamos
imagens catastróficas de perigos e de rejeição. Regular o anda-
. . do futuro é um meio de reformular nossas expectaciv~
mento
1ntenores.
A mesma técnica de mudança da história pode ser usada para
curar lemt;>rançasdos estágíos de aprender a andar , pré-escolar
e escolar. E importante saber que eventos traumácicos diferences
podem exigir diferentes recursos adultos. Por exemplo, quando
eu escavana idade pré-escolar agredi um companheiro com wr i
pedaço de pau. Fui incitado a issopela provocação de ouuos me•
oinos. O pai do menino agredido era um lucador profissional!
Naquela noite, ele foi à minha casa para me repreender . Eu o
ouvi grirando com meu pai. Ele dizia que cu devia levaruma surr2
de.cinto. Lcmbto -me de que fiquei apavorado e me escondi no
oorão.
É muito diference da lembrança da minha idade pce-escolar
de estar sozinho em um apanamenco com minha mie , no dia
do meu aniversário. Eu escavaterrivelmente triste. Não sabia on-
de meu pai estava e sentia falta dele.
Cada uma dessaslembranças exigeque sejam ancoradasforças
difere.ntes.
Aqui estão alguns exemplos da mudança da histó.ciaem ca-
da estágio da minha infância.

Aprendendo a andar
Não me lembro de nenhum aconcesimento traumátic o específi.
co nessa idade, mas quando lejo o lodice de Suspeita para esse
estágio. sei que minhas necessidades não foram atendida s. Assim,
prefiro trabalhar com todas as fases do meu desenvolvuncnr o.

1. Penso em uma época da minha vida de adult o quando:


226 VOIIA
ADIAR

A. Eu disse respeitosamente que não ia fazer alguma coisa.


B. Quis alguma coisa e procurei conseguir.
C. Expressei minha raiva respei_tosamente.
2. Usanda cada uma dessas experiências, criei a pilha de âncoras.
3. Criei a âncora de uma cena imaginária na qual eu apanhava
por s.er curioso e por mexer nas coisas interessantes que havia
na sala. Quando me disseram para parar , eu disse, ' 'Não, não
par o.'' Foi aí que eu apanhei.
4. Detonando as duas âncoras simultaneamente, repito a cena
imaginada. Digo que não ·vou parar , expresso minha raiva e
continuo a examinar e a tocar tudo que me interessa .
5. Penso nos meus problemas de independência desse estágio e
c9nsidero ó , impacto dessa falha na minha vida atual.
6. Eu me imagino no futuro , em uma loja de artigos esp ortivos.
Tocó alguma coisa que desperta meu interesse e digo não a
cada vez que o vendedor procur a me ajudar.
·~

Pré-escolar

Nesre estágio, trabalho com a cena do garoto que agredi e com


' o medo que senti do pai lutador .

1. Penso nas forças da minha potência de .adulto que póssuó agora


e que se eu tivesse naquele tempo, poderia ter manejado me-
lhor a situação. Por exemplo , podia:
A. Chamar a polícia.
B. Pedir a proteção do meu poder mais alto.
C. Assumir a responsabilidade por agredir o garoto e pedir
desculpas.
2. Faço uma pilha de âncoras com A, B e C, como um recurso
pos1nvo.
3. Anco.ro a cena em que me escondi apavorado no porão quan-
do o pai do garoto apareceu .
4. Detono as duas âncoras e repito a cena até m e sentir melhor.
O ADUIJO
COMO roNn DEPOIÍN A
NOVA • 211

5. Reflito sobte o impacto da cena na minha vida. (Eu tenho um


medo anormal de valentões .)
6. Regulo o andamento de uma cena no futuro na qual eu en-
fren to com sucesso um "valêntão".

Idad e escolar

Durante meu tempo de escola. minha familia desintegrava-se len-


tamente . São vários os eventos traum áticos com os quais posso
rrabalhar. mas vou escolner a véspera de Natal , quando eu unn a
11 anos . Meu pai chegou em casa embria gado. Eu esperava an •
siosamen ce a reunião de toda a famíli a. Meu pai devia chegar em
c1sa às 13 hor'aS. Havíamo s planejado compr ar um a árvore na-
ouela tarde e decorarmos iuntos. ante s de sairmos par a a Missa
~a h1eia-Noite. Meu pai só cnegou às 20:30. Esta\'a· rão bebadv
que mal podia ficar de pé . Minha raiva tinha crescido com o pas-
sar das horas . Também escava com muit o medo porque ele esca-
va bêbado . Ele não era violento, mas era imprev isível. Fui para
o. meu q:.iano. dei tei na cama. cobri a cab:::çae não quis falar com
n1nguém.

l. Penso nas forças de adulco que tenho agora que podiam ter
ajudado a modificar essa cena. Por exemplo. hoje posso ex-
pressar minha raiva com firmeza. sem desrespeitar as ouua s
pessoas. Sou fisicamente mais fone e independente. Posso me
afastar de uma situação fora do meu controle. Agora sou arti-
culado e posso dizer o que preciso dizer . Para fazer o exe-rácio
de mudan ça da história . penso em um tempo em que :
A. Expressej minha raiva de modo direto e controlado.
B. Afastei-me de uma situação dolorosa .
C. Falei com um representante da au toridade àc form a coe-
rente e articulada .
., Faço um 2 "pi lha" de áncoras envolvend o essas três experiên-
CJas.

;i. Prendo a ânt.:oraà cena origin al - a fuga do meu pai béb:-..ci


o
na véspera de Natal.

,
228 VOl!AAO
lAR

4. Dispato as duas âncoras simultaneamente e refaço a cena. Eu


saio do quano e enfrento meu pai. Eu dígo; "Papai, sinto mui-
to que esteja doeqte, sei que deve estar muito solitário e co-
beno de vergonha. Mas não vou deixar que continue a estra-
gar meus feriados e minha infância. Não vou ficar aqui para
·sofrer. Vou passar o Natal na casa do meu amigo. Não vou
permitir que votê me envergonhe mais.''
Note que eu não imagino a resposta do meu pai. Quan-
do refazemos ,uma cena como essa, devemos nos concentrar
no nossocomportamento e no nosso estado de espírit ?. Não
se pode mµdar outra pessoa.
5. Penso no modo como essa cena influenciou panes ·do meu com-
portamento interpessoal mais tarde. Vejo quantas vezes fui le-
vado a uma seqüência de raiva ~isolamento por essa antiga ân-
cora. Estou por mud2.r essa velha lembrança .
6. Penso em uma situação no futuro onde vai ser necessário ex-
pressar minha raiva. Ensaio a cena com minha âncora positi-
va. Depois, ensaio sem a âncora . É uma sensação boa poder
afit.mat a mim mesmo e viver essa cena.
Qu~do eu ensino o método da mudança da história, sur-
gem semp'te várias questões ,
E se eu não sentir nenhuma mudança depois de trabalharuma
, cena?
Talvez você tenha de trabalhar a mesma cena muitas vezes. Eu
repeti a cena da véspe.(a de Natal uma meia dúzia de vezes e ou-
tras, dtzenas de vezes. lembre-se: de que a âncora original é muito
poderosa. Para contrabalançar essa força, precisamos de novas ân-
coras bem formadas.
Como pç;ssoformar melhores âncoras de recurso?
As ânco,:as de recurso são a chave para a eficácia do trabalho . Sua
formação erige tempo e paciência . As condições para âncoras bem
formadas: são:

1. Acesso de alta intensidade. Isso significa que as melho-


.i;esâncoras de recurso são 'feiras quando cxperimentamó s
mais intensamenteos recursos positivos. lembranças in-
teriores são vividas de duas maneiras associadas e disso-
OADUllU
COt,JO
NOVAJ9N'll
DEl'Ol'ÊNOA 229

ciadas. Lembranças11.SSociadas oco.tremquaJ}doestamos


realmc.o.ccapenmcntando á antiga lembrança. As dis-
sociadasocorrem quando estamos observando as.antigas
lembranças.Téntc esta experiência.Fecheos olhose veja-se
de pé n9 meio da selva.Vejaum tigre enorme saindo do
meio do mato e correndo para você. Veja uma imensa
jibóia à s4a esquerda, pronta para atacá-lo... Agora faça
seu coq,o flutuar e esteja realmente naquele lugar. Olhe
pai:a suas botas de caminhada e sua c~ça qe brim cáqui.
Le"Vante os olhos e veja ó tigre andando na sua direção.
Ouça seu rugido feroz. Quand o,vocêcomeça a correr,vc:
a jibóia à esquerda, pronta para o bote ... Agora, abra os
olhos.
Compare o que sentiu nc;>sdois exercidos.O primeiro
foi uma experiênciadissociadainterior. A intensiâade da
sensação é geraJmente muito baixa. A segunda·foi uma
experiência associadaínterior. A intensidade da sensação
é ge.ralme.nte muito maior.
Agora,faça as âncoi:asbem formadasneciessáriaspara
trabalhar com lembrançasassoei.adas . Vocêprecisade ener-
gia de alta voltagem para combater a velha âncora.
'/.. Aplicaçãono moment o cerro. J\ âncora de recurso deve
ser formada quando a energia está com su,avoltagemmais
alta. Isto exige prática para se( bem feito. Eu cosrumc
manter minhas âncoras de 30 segundos a um minuro, a
fim de ancorar a maior voltagem possível.
3. Duplicação. Felizmente, você pode testar suas âncoras.
Se fçz uma boa âncora, ela podç ser detonada · a qual.
que.( momento. Quando.yocê encosta o polega-.rno indi-
cador, senre a energia de rec;.ursocirculando. Eu sempre
espero cinco minutos-e verificominhas ~ncoras. Se não
tiveram uma alta voltagem, faço outras. Na verdade, te-
nho como norma sernpteverificarminhas ântoras de re-
curso para ter ceneza de que estão bem forrnadas,
O que acQnteceà ân,corade recursose eu a usei uma vez para
desr,cuirum.a velha â1Jc.ora?
A â.nc~rade ·recurso c~nti~ua ali, de forma diluída, mas precisa
se.rform.ada:outra vez. se quiser usá-la para ourro evento. V0L·ê
230 'VOl!A
.AOLAR

pode tocar âncoras de formas diversas cm quase todas as partes


do seu corpo. Eu usô os dedos porque é mais fácil.
Um último exercício o ajudará a-determinar se foi feita uma boa
mudanç;t naquela parte da sua história pessoal (isto é, se a velha
âncora foi destruída). E.sse ·exerácio consiste em testar ·a âncora
negativa X. Feche os olhos e passe alguns minutos concentrado
na sua respiração. Então, lentamente , dispare sua antiga âncor a.
Preste atenção ao que você sente e experimenta. Se o exercício
de mudança da histõcia foi bem feito, a experiência negativa de -
ve ser sentida de rr1odo diferen~e. Geralmente não t~mos a sen-
sação de uma diferença dramáiica. Apenãs a intens idade da ân-
cora parece ter diminuído . É isso o que eu espero realmente da
técnica de mudança da história - uma diminuição aa intensi-
dade. Todas as nossas experiências humanas são úteis cm deter- •
minados contextos. É prudente dominar a raiva e se afasta.équando
um .bêbado violento ou um agtessor nos ataca. O trabalho de d ~-
fesa aão teqi como objetivo tfrar alguma cojsa da experiência ori-
ginal da sua criança interior , mas ofereccI a ela algumas escolhas
mais fle:idveis. É isso que faz a mudança ,da história. Permi te que
seu eu adulto proteja sua. cdaoça interior enquc1nto ela experi-
menta outr~ escolha. Isso suaviza a rigidez d a experi ência original .

1
1
A ÂNCORA DE SEGURANÇA

Outra maneira .de úsar sua potência de adulto pa.ca defender sua
criança.i_nterior consiste em fazer uma .âncora de segurança. Con-
siste em pen,s;u çm duas ou uês situações da sua vida em que você
se sentiu {llaisseguro. Se tiver dificuldade para se lembrar de algu-
ma, pode imaginar urna cena de segurança absoluta. As ués expe-
riênciasque eu usei para fazer minha âncora de segurança focam:

A. Cetra vez, no mosteiro, quando me senti um com D·eu s.


B. A lembrança do abraço de uma pés soa que me amava
incondicionalmente naquele moment o.
C. A lembrança de acordar, enrolado no meu cobenor ma-
cio, depois de dez horas de sono e sem nenhuma obri-
O ADUIJO
COMO
NOVA
FOl\1"E
DEPOTÉNOA 231

gação nem responsabilidade. (Eu não tinha de fazer na-


da e não precisava ir a lugar nenhum.)

Faça uma pilha de âncoras com suas três experiências de seguran-


ça. Pode usar mais experiçncias. se quiser. Considero esta âncora
como permanente. Trabalhei 30 !l)Ínutos por dia durante toda
uma semana pata fazer a minha. E muit o poderosa. SemP,re que
minha criança interio r fica assustada, disparo a âncora. E incrí-
vel! Ela me cira imediatamente das garras do medo. Os sentimentos
de medo tentam voltar . mas a âncora inte rrompe um a ' ·espiral
cte hnqo r' '. G anho assim alguns momentos ae segu ran ça e de
alívio. As vezes, alivia completamente os temores da minha criança
10;:eaor.

FAÇA SEU EU ADULTO ENCONTRAR NOVOS PAIS


PA,RASUA CRIANÇA INTERIOR

Outro meio de defender sua criança interior é fazer com que seu
eu adulto encontre novas fontes nu trientes par-a el:t. Chamo es-
sas fontes de novas mães e pai s. O ponto impor:anre é fazer com
que seu adulcoos encontr e, não a criança. Quando a criança far.
a escolha, ela prepara a cena para que você experimente ourra
vez a dor do abandono. A criança interior ferida quer que seus
pais verdadeiros a amem incondicionalmente. Para ela, a coisa
lógica é encontrar adultos que tenham os traços positivos e os uaços
negativos àos pais que a abandonaram. É claro que isso leva a
um grande desapontamento . A criança projeta no adulto esco-
lhido por ela um apre ço quase divino que não pode ser corres-
pondido. Como um ser humano limitado. o substituto adulro não
pode corresponder às cxpectaàvas da fantasia da criança , e da sr.
sente, entã o, desapontada e abandonada. Sua cáança ferida pre-
cisa saber que a infância acabou e que você jamais pode volw
a cerrealmenre novospais. Vocé tem de lameorar a perda da su:t
infância verdadeir a e dos seus pais "e:rdadeiros. Sua criança 1nre-
rior tem de saber que vocé. como adulro.pode fazer as vezes cio5
pais que ela perdeu. Entreranto , o adulto cm você pod e encon-
trar pessoas para alimentar e estimular seu crescimento. Por exem-
VOIJ'ANJW

pl0, o poeta Robert Bly é um dos meus novos pais . Ele é jospira-
dor e perceptivo. Ele comove a criança maravilhosa que vive em
mim e me estimula a sentir e a pepsar. Ele é sensível e bom . E
em hora não o conheça pessoalmente, eu d amo e o abraço como
á um pai. Um padre chamâdo David é outro dos meus país. ]le
me deu atenção carinhosa e positiva durante meus úhilllos clias
no seminário. Eu queria sair, mas achava que seria um fracassado
se o :fizesse. Est?-va extremamente aonfuso e cheio de vergonha .
O padre David era .meu conselheüo espiritual. Por mais que eu
me acusasse, elesempre focali.zava .minhas forças e meu valor co-
mo pessoa. Um religioso episcopaliano. o padr~ Charles \'Qyarc
Brown, é outro dos meus pais. Ele me aceitou incondicionalmente ,
quando comecei a lecionar.
Tenho também país intelectuais .éomo Santo Agostinho, Santo
Tomás de Aquino , o filósofo francês Jacques Maritaín , Dostoievs-
ki. Kierkegaard, Nietzsche e l(afka. (Para di·zer a verdade, meu
garoto apenas roleta nossos pais intelectuais. Ele confia quando
digo que são pais que alimentam n0sso espírit Q, m as acha que
são extremamente chatos. ) ·
Encontrei várias mães para minha crian ça e para mim . Virgí -
nia SaÚr,:.amaravilhosa pensadora , especial ista em sistemas fami -
Jiares e cer~euta, é 11ma delas . .Assim como a írmã Mary Huber -
r~. que se interessou pessoal.mente por mim no curso primário . Eu
sabia que era importante para ela. Ainda nos correspondemos. Te-
nho uma velha amiga que ser;í sempre uma das minhas mães. Na
minha busca espi.ritual, Santa T~resa,a Florzinha, foí o modelo de
cuidado materno para mim. Recebi também cuidado especial de
Maria, mãe de Jesus. Ela ê realmente minha mãe do téu.
Deus é meu pai principal . Jesus é tanto meu pai quanto meu
irmão.Jesus me mostrou como Deus , meu pai. me ama incondi-
cionalmente. Minha cura foi muito ajudada cóm a leit ura dás his-
tóri;is bíblicas do Filhç Pródigo e do pastor que s;ai à procura da
ovelha desgarrada. Na-história, ~le abandona o cebanho ,para pro-
curar a ovelha perdida. Nenhum pastor sensato faria isso. O re-
banho representa . toda sua riqueza terrena . Arriscar pe rder tod o
o rebanho para enconuar um ·a ovelha desgarrada seria uma ati-
rude frívola e irresponsável. A históriã quer demonstrar que o amor
de Deus por nós ~ai a esse extrémo. Minha crianç a interior, às
vezes, se sente como a ovelha desgarrada e fica feliz quando eu
provo que nosso Fai Celeste nos ama e nos protege.
OADUDO
COMO
NOVA
R>NltDEi'OitNOA

No momento, tenho quatro amigos muito chegados. São


meus irmãos no mais verdade.iro sentido da palavra . Muitas ve-
zes são também meus pais. Em muitas ocasiões, George, Johnny,
Michael e Kip cuidaram do meu gacoto assustado e cheio de ver-
gonha. Eles me elevaram à minha potência amando-me incondi-
cionalmente. Meu garoto e eu sabemos que eles sempre estarão
presentes para mim. Recentemente acrescentei Pat à lista. Nós
dois estamos no circuito dos seminários , ambos temos livros bes,-
sellers.Ele compreende certos problemas que outros não podem
compartilhar. De muitas formas. o adulto pode usar o que rece-
be de outros adultos para cuidar da sua criança inte rior.
A não ser que recuperemos e seJamos protetores da nossa
criança jnterior, sua carência a consumirá. As crianças precisam
dos pais o tempo todo. As necessidades da criança são insaciá-
veis. Se deixarmos que nossa criança interior dirija o espetáculo,
enlouqueceremos nossos amigos e as pessoas que amamos com
nossas carências. Uma vez feito o trabalho da àor original, pod e-
mos aprender a confia.e no nosso adulto para conseguir com ou-
tros adukos tudo que precisamos.
Por diversas razões, meu último aniversicio foi um momen-
to de extrema solidão. Meu amigo Johnny percebeu meu estad0
de espírito. Johnny sabe também que sou apaixonado por golfe.
Por isso mandou fazer um taco especialmente para mim. Nor-
malmente, meus amigos e eu não uocamos presentes de aniver-
sário. O presente de Johnny foi muito especial e muito precioso.
Meu adulto o aceitou como um ato de carinho paterno. Com aque-
le presente, Johnny escava sendo um pai para mim .
CAPÍTIJID 10
CONCEDENDO NOVASPERMISSÕESÀ t
SUA CRIANÇA INTERIOR 1
1

Quando pensamos no bem-estar dos nossosfilhos, pensamos cm dar a eles


tudo que não tivcinos ... Então, quando thcga o primeiro filho, enfrenta •
e
mos a realidade de que ser pa'.iou màc muüo maisdo que um sonho
l
de amor ... Em certos d ias surpreendemo-nos f-azcndo =tamente o que
prometemos jamais fazer... Ou ent ão cedemos ... Prcm:i,mos aprender ao-
aptidões, àsvezes virias del:\S, que não aprendemos nas nossas f:unílias
:va.s ~
de origem. 1
- Jean JJlslcyOarkc e Connic Dawson

·~ Nosn criança interior deve ser disáplioada para libcrcar seu ,,remendo
- · poder cspiri~I.

, '-· - Marioo Woodmao

Quando você começa a defesa da sua criança interior, tem de


enfrentar outro dilema. Uma vez que quase todos nós viemos
de famílias disfuncionais, na verdade não sabemoscomo cuidar
de nossa crian ferida. E a é infantil. Foi superdisciplinad:J. ou
su bdisciplinada. Precisa.ui..J>J!_$~f- discitilinadore ~ construtivos se
wiis.ennos_q ela fi ue curada . Sua criança int~rior precisa in-
,ternalizar . t!_ovasregras que lhe permiti.i:ão crescer e florescer . Seu
~tp _ precisa colher novas informa ôes spbr_e o @_e constitui
a_b.oa clisciP-lioa e ap_~ende
l..:!}ovas aptidões para a i_gt™-i o com
s.ua cria.oç_a. Yqçê !,15:y-á
sua for a de adulto P,.a.ta Jiª-U ela boas
permiss .ões. Elà precisa d e._germissão . 9-ªr.a _d.~wbe._~ç~r as nor-
mas dos outros ,Rais,gernússão ara ser autêntica e permissão
_ para_b,:Ílllli,_

1 ....
CON
QDENDO
NOVAS Ã SUACRIANÇA
PERMJSSôES INTERIOR 23)

DISCIPLINA CONSTRUTIVA

/d guém disse certa vez que ' 'de todas as máscaras da }jberdade,
a disciplina é a mais impenetrável''. §osro disso. Sem disciplina
nossa criança interior não pode~_.rckdeiramen te livre. M. Scott
Peck diz coisas importante s a esse respeito. Peck vê a disciplina
como um conj.un ro de técnicas equipadas para aliviar a dor ine-
vitável da vida. Está muito longe do que eu aprend i na infánci a.
No ámago do meu inconsciente, disciplina significa punição e
oor. Fara Pec;;.,a bo:i discipiin::.é um coniunco ce ensinament os
pata facilitar e adornar a vida. A boa disciplina implica regras
que permitem à pessoa ser quem ela é. Es~as regras eru:iquc:cem
nosso ser e proteg,em o nosso E:USOU,Aqui está um conjunto
de regras
.1oteno,.
.
construtivas para ensinar à sua criança maravilhosa

l. É cerro sentir o gu e você sente. Sentimentos não são certos nem


erra9os. Apenas são.Ninguém pode dizer o que vocêdeve sen•
rir. E bom e necessário falarsobreos próprios sentimento s.
2. É certo qu erer o que você quer. Não exisce nad:t que você
deva querer ou não quere r. Se você está em contato c~m sua
energia vital, certamente quer se expandir e-~resce,r.E cert o
e é necessário atender a suas necessidades. E..h_
om_pedir o
que yoc~_Quer.
3. É certo ver e ouvir o que você vê e ouve. Tudo que você viu
• ,; A-1'11\
e ouviu e o que voce ve e ouve:.
4. É cerro e necessirio qivertir-se e: brincar. É ceno gostar de:
brincadeiras sexuais.
5. É essencial dizer a verdade sempre. Isso reduzirá as dores da
vida. A mentira distorce a realidade. Todas as formas de dis-
torção do pensamento devem ser corrigidas.
6. É importante conhecer os seus limites e adiara gr::aificação,
às vezes. Isso reduzü á as dores da vida.
7. É essencial desenvolver u rna noção equilibraàa de responsa-
bilidade . Isso significa aceitar as conseqüências dos seus ato$
t recusar a responsabilida de pelos aros dos ourros.
236 vommw
...
8. E certo cometer erros. Os erros são nossos professores - nos
, ajudam a aprender.
9. Os sentimentos, necessidades e desejos das outras pessoas de-
vemser respeitados. Violar as outras pessoas leva à culpa e
• - ... A •
a ~e1tar as consequencras.
10. É certo ter problemas. E1esprecisam ser resolvidos. É cettó
ter conflitos. Precisam ser resolvidos.

Examinemos brevemente cada uma dessas novas regras,

Nova regra 1

É assustador para a criança interior quebrar as antigas regras fa-


miliares de não falar ou a regra·que determina que os sentimen-
tos são fraquezas e não devem ser expressos. VOfêdeve orienrar
sua criançainterior cuidadosamente nesta área. E importante en-
sinar qµe é correto senát o que ela sente e que os sentimento s
não são °C'e(tosnem errados. Mas é pfeciso determinar cenas li-
nhas gerais~para a expressão dos sendmentos. Existem situações
em que a exi1fessãodos sentimentos n;io é segura nem apropria-
da. Por exemplo, ensine sua criança interior a expressaro que sente
quando é multada pelo guarda. Raramente convém expressarsen-
timentos de abandono para os pais. Essessentimetttos devem ser
ex:pressosdo modo descrito na parte II deste 1.i\'ro.
Sua crianç_a interior precisa aprender também a dífe,:ençaco-
rre cxpressarumsentimento e agirde acordo com esse sentimen-
Iº· Por exemplo, a raíva é um sen!imento pedeitamente válido.
E o sinal de que uma violação dos seus direitos ou das suas neces-
sidades básicasocorreu ou está pata bcorrer. Nesse caso é válido
expressara raiva, mas nãc é válido agredir, xingar, gritar ou des•
múr a .propriedade. .
A criança,deve ter um ambiente onde possa expressar lívre-
roenre seus sentimentos . Paraconseguir isso, talvez você tenha
de entrar para um grupo de pessoas que estejam rrabalhando no
mesmo assuo,to.
Além disso, deve ensinar à sua criança interior que os senti-
mentos são pane do poder pessoal. Sào o combustíveJ psíquico
CONCEDENDO
NOVAS
PER.),(JSSÔES
À SUACRIANÇA
INIDIOR

que a conduz à satisfação das exigênciasda sua natureza. Eles nos


avisam da presença do perigo, quando estamos sendo violados
e quando perdemos algo de valor.

Nova regra 2

.E_scyeg_ ra conuapõe-se à_yergoajla.1.óxica9.fil..SUa


_crianÇ.!._Í
nte•
rior gnre s_obJe tudo qge precisa e tudo gue desejL Escálembra-
do do desenho dos pais-crianças, com três anos e 70 e 100 qui-
J,.,:·? São adultos criançasque nunca tiveram su1Snecessidades aten-
didas; assim, quando você demonstrava sua éarêocia e seus dese-
jos, eles !ie irritavam e o envergonhavam.
Sua criança interior incoxicac;lapela vergonha não acredita
que possa ter o direito de querer qualquer coisa. Você pode
defendê-la escutando atentamente tudo que....ela..d~.e~Lu.do..q.ue._
_ela r,recisa.Nem sempre vai conseguir dar tudo que ela quer. mas
oode ouvir e dar a ela permissão para querer. Sem desejo e ne-
cessidade, a energia vital é sufocada.

Nova regra 3

Esta regra opõe -se à ilusão e à mentiracomuns nas famílias di.s-


funcionais. Judy chega da escola e vê a mãe chorando: "O qu e
aconteceu, mamãe?'' A mãe responde , •'Nada. Vá brincar lá fo-
ral" Farquhar vê o pai deitado perco do carro, na garagem. Cu-
rioso e confuso, pergu nta à mãe se o pai está dormindo na gara-
gem. Ela responde que o papai precisa dormir no chão de cimento
da garagem porque "ele tem dor nas costas''! Billy ouve os pais
brigand o. A briga o acordou de um sono profundo. Ele vai ao
quarro dos pais e pergunta o que está acontecendo. Eles dizem,
1
'Nada. Volte para a cama. Você deve ter sonhado.' •
As crianças que recebemesse tipo de mensagens acabam por
não confiar nos pi:óprios sentidos. Sem dados sensoriajs é difícil
viverna realidade._As q::ian~as-~o especialistau_m s~ns~Qe~...Pre...:..
cisamos çiesse_s_o
nhecimento natural da criança inrenor. Para con-
2 egaj-lo, devemos dar a eluermissão uvir. I_ocar~
ara olhar. .Q_
exaQJ._:.r o mundo .
238 VOIL\AOW

Nova regra 4

Esta regra é sobre brincar e se divertir . Brincar é uma maneira


de s.imP.lesmentc scc.Aprendia reservar horários 12aracliv,crsão .
Nesses intervalos, posso jogar golfe, pescar ou fazer nada. Gosto
de ir a lugares e andar sem destino . Andar sem destino e não ter
nada para fazer é o brinquedo dos adultos. Atendemos às ncccs•
sidades do nosso ser quando pcrmicim os que nossa crian ça int e-
rior brinque e se cfrvina.
Outra forma maravilhosa de brinquedo dos adultos é o se-
xo. A melhor forma de sexo é quando nosso cu adulto manda
seus pais para fora do quarto, fecha a pona e deixa que a criança
natural que vive nele faça o que quiser. A criança interior gosta
de tocar, provar, cheirar, ver e falar durante o brínq4edo do sexo.
Adora passar algum tempo explorando , especialmente s~ apren•
deu que o sexo é vergonhoso e que é proibido olhar . E muit o
imponantc deixar que sua criança interior brinque e se movimente
à vob~de sexualmente. Seu eu adulto deve determinar os limi-
tes morais n os quais acredita. Mas, dentro desses limites. é bom
brincar mu ito de sexo durante toda a vid;i.

' Nova regra 5


Esta regratalvezstja a mais importante de todas. logo no início,
sua criança interior aprendeu a se adaptar para sobreviver. Nas
famílias disfuncionais a mentira impera. A ilusão e a negação que
dominam essas famílias são uma mentira. Os papéis falsos de-
sempenhados são uma mentira .• A.mentira é nec~ssária para en-
conder os aspectos desagradáveis da vida familiar. A mentira toma•
se um meio de vida nas famílias disfuncíonais e sua criança inte-
rior terá dificuldade para desaprender isso,
A criança interior ferida tem uma forma de pensamento que
viola a realidade e distorce a verdade. Todo pensamento infantil
é mágico e absoluto, e isso deve ser enfrentado.
A crian a in_terior ferida tem também a vergonha coIDQ..._
• base. ~sa forma de e~mcnto deve ser corrigida. A seguir L.-
algumas das distorções mais comun s do pensamento , que de-
CONCIDENDO
NOVAS
PF.RMISSÔF.S
À SUAOJANÇA
IN1DIOR 239

vem ser observadas quando você conversa com sua criança in-
teno,r.
Pensamentopolarizado.A criançainterior ferida vê tudo em
exttemos. Para da, se não é isto só pode ser aquilo. Não há meio-
termo. As pessoas ou as coisas são boas ou más. Pensa que se al-
guém não quer ficar com ela todos os minutos de todos os dias,
essa pessoa não a ama. Esse é o pensamento absolutista, resulta-
do da resolução deficiente da constâpcia do objeto, no estágio
em que a criança começa a andar. Essa forma de pensamento le-
va à desesperança. Yocêdeve ensi~à sua crian~a interior que
_toQQ..mundoé bom e n:iaJ!...S_q~_o:üuxisi:gp_a~luto s.
Pensamenrocacascró.ico. Sua criança interior aprendeu com
~ cdaoças feriQ.asdos pats a apavorar e · 'catastrofar' '. O encargo
de criar um filho, muitas vezes, tornava-seexcessivopara seus pais.
Eles se preocupavam, ficavam nervosos e o hipnotizavam com a
longa lista de advertências ansiosas,Exatamente quando vocêpre-
cisavade segurança para experimentar e explorar, foi aterroriza-
do com berros de "atenção ", "tenha cuidado' ', " pare" , " uão
faça isso'' e "depressa". Não é de admirar que sua criança inte-
rior seja supervigilante - ela aprendeu que o mundo é um lu-
gar assustador e pe.dgoso. VocêJ!_odedefender sua criança inte-
rior dando_;i.ela peri:nissãop;y;as..e...ID'entyrar
no ID.Y.P....do
e c:xpeci-
_mêntar ªs coisas, garantindo qº"çjssQ...es_tá c~no, que você está ali
2ara...!.Qmarconta delb.__
_Universaliz~ção . Sua cria_Q.Ça
interior ferida tende a transfor-
mar incidentes isolados em am las eneralizações. Se o/a namo-
rado/adiz que prefereficar em casa,nessanoite, para ler, sua criança
interior ouve o dobre de finados do relacionamento.Se alguém des-
maccaum encontro matai.do,sua criançainterior ferida concluique,
''Eu nuaazvou ter outro/a namorado/a. Ninguém jamaisvaiquerer
sair comigo.'' Se vocêestá aprendendo a esquiar na água e não con-
segue se Jevancar nos esquis na primeira tentativa, sua criança in-
terior conclui que você nunca vai aprender.
Você pode defender sua criança, enfrenundo e corrigindo
essauniversalização. Pode fazer isso cxag~randopalavras como w -
do, nuaaz, ninguém, sempre, etc. Q._uandoa criançadiz, por exem-
plo. Ninguém_jamaisme_ciutençào' ', você responde, '' Está di-
zendo .que nem uma única-12essoUM) _mundo inteiro nunca, nunca.
_nunca olhoy p.ara_v_Qcê_nem falou com você?'' Ensine sua criança
inteúor a_usar palavras..como.muira..t.~z.cs.calveze às veze$.
240 YOl!AADI.AR

As palavras são âncoras das nossas experiências. Literalmen•


te, nos h.lpnotizamoscom palavras. Nossa criança ferida assusta
_a si lll.Çs_ma com Ralav as distorcidas. Porém as alavras usadas
_ <ievidame a verdade e a honestidade.
.11te_são_npssº-Kfc.ulo...pJU"a
Nossa crian a interior recisa a render a ser honesta .
úiru.ra da mente. A leitura da mente é uma forma de
mágica. As criançassão naturalmente mágicas e quando os pais
dizem coisas como eSta, ' 'Eu sei o que você está pensando",
estão refo1çando a mágica dos filhos. Quanto mais a criança
é envergonhada,mais ela passa a depender da mágica. Sua criança
interior deve dizer a você: "Sei que meu chefe está se preparan-
do par.1.n1e despedir. Eu percebo pelo modo com que ele olha
para mim.''
A leitura da mente é também projetada por sua criança in-
terior, Digamos que ela não gosta de alguém, maSseus pais sem-
pre o repreendiam, dizendo que você devia góscar de todo mun•
do. Agora, os sentimentos de gostar ou desgostar da sua criança
interioI escãoescondidose abafados pela vergonha. Isso é demons•
-
uado quando a criança diz, Acho gue fulan o/a não gosra nada
de mim. Na verdade, ela não gosta dessa pessoa.
Ê m,uitQimponant~nfre11rar "leitura da mente da sua crian-
ça ioteriÕC . O_ mund_o_jj_t_eJ]UlfJl~assuficientes sem que preçj.
semos inventar outras. Ensine sua criança a verificar as coisas. Per•
mira-lhe fazér pc:rgµntas...
Honestidade e sinceridade criam a confiança, e a confiança
a intlaú~ .._
çriª- o-ª1Jl0r..c. Cadavezque sua criançainterior ren1ª._
_mentir, exagerar.QP distorcera realidade com absolutismo ou má-
_gica,você deve corrigi-la. Amor criativo e disci.plin;L.ceduzema
dor rovocada -ela mentira e ela distor ão.

Nova regra 6

Esta regra diz .respeitoàs necessidadesvonzes da criaoçajnte rior.


Todacriança quer o que quer quando quer. Seu nível de tolerân-
cia à frustraçãoe ao adiamento é muito baixo. Uma parte do cres-
cimento consiste em aprender a adiar a gratificação, o que a:juda
a diminuir as dores e as dificuldades da '7ida. Por exemplo, uma
reação exageradaprovocador de estômago e mal-escar, Gastar todo
o dinheiro de uma vez nos deix:i.sem nenhum a reserva.
CONCEDENDO
NOVAS À SUACRIANÇA
Pf.RMJSSÔES Rfl'ERIOR 241

Quando a criança sofre uma privação e negligência,tem mãis


dificuldade para adiar a gratificação. A criança ferida acredita g~
M_g_ma grande ~assez de ~or aliI!!_ent ~ári nho e prazer. Sendo
_assim, ~empre g ue surg~_ê...Q QQU...Uni_ckde de ter essas coisas,~eJ.L
exageJ;!._
Durante anos eu enchia meu prato, muito além do que po-
dia comer. Mas comia tudo. Eu também comprava coisasque não
precisava. s6 porque tinha dinheiro. Eu as amontoava no meu
quano, até ficar rodeado de coisas inúteis. Eu também senúa ciú-
mes do sucesso dos outros terapeutas ou conferencistas. Como se
não houves·se pessoas suficientes para serem rrarad.-is ou...como
se houvesse uma quantidade limitada de -amor e admiração e se
ourras pessoasos ganhassem primeiro não sobraria nada para mim.
Tudo isso era provocado por minha criança interior ferida. Para
da, eu jamais teria minha parte das coisas, pottanto devia pegar
tudo que pudesse, enquanto ppdia, As indulgências da minhà
criança intetíor foram causa de muito sofriment o durante anos.
Agor:11 defendo minha criança interior cuidando muir_Q_ bem_
cleb. Prometo cois~ m~ _~aY1L1'!~.t<!.S
_e _SeIJJp__re
cwnpIQ as promes-
·sas. Você deve semJ>recu111erir,1uas prom~ssas para ganba._ra con-
fiança da sua_criaQçain~erior. Da~çlo a ela coisas boas. eu estou
enS'i,nando. Uma vez O'J outra ela ainda asstm:ieo conuole. mas
t _muirq melhor;do. que er; êntes.-E·s;~;p .ro; a~do i ~i~ que _pc~-
demos ter mais prazer se admiramos a gratificaç~o.
Por ocempio, recentemente fiz uma experiência.Minha crian-
ça interior adora balas, torta, sundaes e assim por diante. Deb<ei
que ela comesse tudo que quisesse, durante utna semana. No fim
desse tempo, fizemos uma avaliação de como nos se.nóan1os. Es-
távamos hordveis - dois quilo s e meio a mais, minha barriga
caindo sobre a calça tamanho 40 apeFtada. Então, não permiti
q1Jeela comesse doces du.i::anteseis dias .na semana seguinte. Fa-
zíamos exercíciossempre que era possível. No domingo eu a dei-
xei comer doces. Quando fi:temos a avaliação,verificamosque es-
távamos nos sentindo muito melhor. Na verdade, não <romemoc:
muir o doce no domingo.
Essa dieta pode nJo ser aprovada pela associação de _m;d.íci-
_113 !?e~ pelos !!uui.~ogist?-5.:!f! ~E.. l:1P!ºv_ei a9 meuJ oãozin!-ioqu!::_
...!!a !. e_r_!l,
m«is P_!a.Z<'; _~diar a grar.ific~! o do ql;!eem se empant ~ff::t._
242 VOl!AADLAR

Nova regra7
Esta regra é a chave da felicidade. Grande pane do sofriment o
humano é provccado pelo fato da criança interior assumir ·respon-
sabilidade demais .ou de menos.
Precisamos enfrentaras conseqüências do nosso comporta-
mento , Recuperando sua criança interior ferida , você está cpme-
_ç,ando o trabalho de ser resp.,onsá.yd . A maior R<lne_d-~ ~2-ost ~
da criança intt":ÚQtnão é de tes.postas ve.c.dadeiras,mas re"°çõese
_!~.açõ~ exage~adas ancoradas . A respcma yer__dadeiraéJ esulçado_
de sentimentos verdadeiros e decisões conscientes. Para uma res-
..22.5taverdade m ~~.Qi~dsamq~_estar em cqnç~t9 CQJP'nossos s~n:i -
mentos, nossas ~egessidadés _e ~ossos de_s~jos.Adultos com urna
cria!!ça interior ferida, de certa for~a .! não estão em contato com
tudo isso.
Defender sua criª-nçi interior u_ nsiná-l ~ i igir .e p.ã Q. íl .r.ea-
gir.J>araªgir p1~ grn os s~r g p_azes de !5!po gder. A c~ cidade
.defesponder:e'Aige qµe vocç pqssª çoQt~olar a vida 4ª sua criança
ini erior Ç. n~o §er control_ado por ela:_
O melhor exemplo que conheço da importância de assumir
essa resp~psabilidade é o do relacionamento íntimo . A intimi -
dade pode:.cx.istir porque nós todos temos uma criança interior
maravilhosã e vulnerável. Duas pessoas "que se amam '' repetem
a simbiose~dÓ elo inicial enHe mãe e ftlho. Basicamente, elas se
incorporam uma na outra. 'Iem uma sensação onipotente de uni-
dade l': de poder. Cada uma compartilha seu eu ma.is·profundo
e mais vulnerávelcom o outro.
Essa mesma vulnerabilidade faz com que muitas pessoas te-
nham medo da intimidade e pode finalmente destruí -la. A des-
truição da intimidade em um relacionamento ocorre quando há
a recusa de um dos parceiros, ou dos dois, de assumir a responsa-
bilidade por sua criança interior.
Vejamoso qµe acontece quando dois adultos crianças se apai-
JCooam.Suas crianças interiores feridas ficam euf6ricas. Cada um
vê no companheiro as qualidades negativas e as qualidades posi-
tivas dos seus pais originais. Ambos acreditam qµe , dessa vez, suas
carências serão afinal atendidas. Cada um investe estima e poder
excessivo no outro. Cada um vê a pessoa amada como seu pai ou
sua mãe original. logo depois do casamento, começam a fazer
exigências mútuas . Essas exigências disfarçam as expectativa s in-
CO~CED
ENDO
NOVAS
PERMISSÕES
Á SUACRIANÇA
JNIERJOR

conscientesderivadas da carência e do vazio das suas crianças in-


terio,res ferjdas. A natureza odeia o vácuo e a centelha de vida
ineita a criança a terminar o que está inacabado. Ela procura os
cuid ados dos pais qúe sempre desejou e que nun ca teve. Um com-
panheiro pode até, provocar o outro para agir como seu p~,ou
sua mãe original. As vezes, um pode distorcero que o ouuo faz
para que ele ou ela se pareça com seu pai ou com sua mã e. Não
é uma cena agradável! Equivale ao casamento de duas crianças
de quatro ano s que tentam assumir as responsabilidades de
adulem .
Se vocé recuper ou sua cnança!nç_ep_o~, cem uma chance. Co-
mo seu defensor. você se responsabilizaPº !.sua vu.lperabilidade .
Quando você se compromete a ser o pai ou a mãe da sua crian ça in-
terior, está protegido/a contra a possibilidade de se unir a uma pessoa
que espera ser o pai ou a m ãe que você perdeu. Aintimidade fun-
cionaquandoc:idaum assumea responsabilidade daprópriacnaaça
incerior vulnerável.Não funciona quando procuramos cons egui r
<lo/a r.ompanheirG /a aquilo que nossos pais não nos de ram .

Nova regra 8

Esta regra consiste em ensinar à sua criança interior uma noção


saudável de vergonha. A vergonha tóxica nos obrig2 a sermos mais
do que humanos (perfeitos) ou menos do que humanos (animais).
A vergonha saudável nos permite cometer erros. o que constitu i
uma parte integral de ser humano. _Quws_sw _acivenências e
lições para toda a v~da. Com permissão para cometer erros. nossa
_ç_riançainterior ode ser mais es ontânea. Vive r com medo de
cometer erros ê pi sar sobre ovos e levar uma eióscência precavida
e superficial. Se sua criança interior acredita que precisa ter cui-
da<lo COJ!LÇ~d~ª'1avra que diz p;i.ra nun f_a dizer a coisa_err adb
, ela talvez nun ca consiga dizer a coisa cena. Ela nunca pedirá aj u-
d a, nem dirá que está sofrend9, nem q_uc Q 3.!!J l!.·

N .ova regra 9

Esta é a Regra de Our o. Manda que você ensine su a crian ça int e•


n oc a amar. dar valor e respeitar os outro s com o você am ::. d á
244 VOIJA
AOL\.~

valor e respeito a você mesmo . Ensina também que, quando essa


regra é violada, ela terá de aceitar as conseqüências. Nossa criança
interior ferida precisa aprender a scnàr uma culpa saudável e real.
Culpa saudável é a vergonha moral . Ela nos diz que violamos nos-
sos valores e os dos outros e que devemos pagar ,um preço por isso.
A culpa saudável é a baseda consciência saudável, que nossa criança
interior precisa ter. O comportamento agressivo que descrevi an-
tes ocorre especialmente porque ac.ciançainterior ferida nunca de-
senvolveu a própria consciência. No caso da criança feàda se iden -
tificar com o agressor , a criança adota o sistema de valores distor -
cidos do agressor. No caso de concessão de poderes por me1os de
indulgência e permissividade, a criança acredita que as normas-p a-
drão para as outras pessoas não se apli cam a da . O fato de ser '' es-
pecial" lhe confere permissão para se colocar acima das regras.

Nova regra 10

Esta regra ensina que a vida está repleta de problemas. É tão co-
mum.~ crianç.a sentir-se ofendida por problemas ou fatos desa-
gradáveis:...' 'Não é justo'' , ela recl3:!Da. ''Não posso acreditar que
isso esteja-acontecendo comigo.' ' E uma frasé muito comum nas
sessões à~i'erapia . Como se problemas e situaçõe s desagrad áveis
fossem um golpe baixo, inventado por um espírito cósmico sádi-
co! Problemas e coisas desagradáveis fazem pane da vida de todo
mundo . Como disse M. Scott Peck , '' O modo de manejar os pro-
blemas da vida é resolvê-los.'' Na verdade, o modo pelo qual tra-
tamos nossos problemas e situações desagradáveis determina a qua-
lidade da nossa vida. Ouvi Terry Gorski, um terapeuta de Chica-
go, dizer que ''crescer é assar de um cón ·unto de roblemas a-
g_QUtr..P c.Q.!_ljymomelhor de roblem as' '. Gosto da definição. Tem
sido a verdade absoluta da minha vida . Cada novo sucesso traz
novos tipos de problemas .
Precisamos ensinar à nossa càaoça interior que os proble -
mas são normll,is e que devemos aceitá-los .
Precisamos ensinat também que o conflit o é inevit ável nos
relacionamentos humanos. Na verdade, é imp ossível a intimida -
de em um relacionamento sem espaço para conflit o. Devemos aju-
dar nossa criança interior a aprender a lutar limpamente e a re-
solver os conflitos . Coment o m ais sobre isso no capítu lo 12.
CONGEDEND,O
NOVAS
PERMJSSÕES
À SUACRIANÇA
INTEIUOR

Quando a cria1;1çaaprende essas J.)ovasregras, automacica-


rn.ente te.m permis$âó para quebrar as antigas. Um a..v~ J'Qts:roa-
lizadas; essasregrastornam-se uma segl.Ul~a!!~~za. criando ~r:na
auro-estíma e a cura do ferimento espit~tual.

PERMISSÃO PARA SER VOCÊ

A criança inteú or precisa de sua pérmissão·incondici onal para ser


da mesma. A disciplina construciva que descrevemos fadlira ex-
tremamente essa auto-restauração. Outra forma de ajudar con-
s;sre em dar a cla permissão para abandonar o papel , ou papéis
rígidos que adorou, para manter o equilíbrio do sistema familiar
e para se sentir importante. Já falei muito sobre os papéis e cqmo
des se instalam
. '
nos sistemas familiares disfuncion;ti s. Você co-
me. §OU a dat: permissão para que ela se libertasse desses papé is
rígidos quandô recupêrou seu eu que começavaa andar e seu et.:
em idade pré-escolar. Deixe que esses capírulos sirvam de mod e-
lo geral para todos os seus falsos papéis.

Desistindo dos falsos papéis

PR1MEIRO
PASSO
Pa:racomeçar, você precisa ter umá visão clara dos seus papéis no
sistema familiar. Como aprendeu a ser importante, na infância?
O que voéê f~z paia manter a família unida e para atender às
suas ,neqessidades?Alguns dqs papéis mais comuns são: Herói,
Estrela, Supe_r-Realizador,Homenzinho da Mamãe, Sub.stitutodo
Pap:u ou da Mamãe., Pril,lcesinhado Papai, Companheiro do Pa-
P.Ú 1 Melhor Amiga da Mamãe , Zelador ou Solucionador de Pro-
blemas para Mamãe e/ou P-ãpai, Mãe da Mamãe , Pai do Papai,
Pacificador, Mediador , Vítima Sacrificialda Família, Bode E:xpia-
rôno, ou Rebêlde. Sub-Realizador, Criança.-P.toblema, Criança Pu-
did:i., Vítima e assim por diante. Os papéis são ínesgoráveis, rn~
rodos têm a mesrnn função , manter o sistema familiar e.quilibr a-
ào, congelado e p.roregido cqnua a possibilidad e de mu danç:i.

,
2(6 VOLTA
AOLAR

Cada papel tall}bém dá à pessoa que o desempenha o meio para


en<::obrirsua \'etgonha tóxica. Um papel cria estrutura e defini-
ção, determina um conjunto de comportamentos e emoções. À
medida que desempenhamos nossos papéis perdemos cada vez
mais a consciência do nosso eu autêntico. Come;>já disse ante-
riormente:, com o passar dos anos, ficamos viciadosem nossos
papéis.
Defender sua criança interior é dar a ela permissão para es-
colher ~ partes dos papéis que ela quer conservar e jogar fora
o resto. E ímponante dizer a ela claramente que os papéis fla ver-
dade não fuocionaram. Perguntei à minha criança interior: ''O
fato de você ser a Estrela, o Super-Re~izador e o Zc:lador,na ver-
dade, salvou alguém da sua família?'' A respostaimediata foi não.
Perguntei então: ''O fato de ser E$trela, Super-Rcali~dor e Ze-
lador deu a você alguma sensação de paz interior?'' Mais uma
vez a resposta foi não. Minha criança interior sente-se ainda va-
ziai solitária e deprimida grande parte do temp o. Em seguida per-
guntei: ''Quais as emoções que você teve de reprimir para ser Es-
trela, Super-Realizador e Zelador?" A respoSta foi que eu não
podia,Jicar assustado nem zangado. Tinha de ser sempre forte ,
alegre e positivo. Sob o di$.rce dos meus papéis de super-homem
vivia uma/ criança assustada, envergonhada e solitária.

, SEGUNDO
PASSO
Agora vocêestá pronto para permitir que sua criança interior sinta
rudo que os papéis a proibiam de sentir. Diga a ela que é certo
ficartriste,. com medo, solitária ou zangada, Vocêjá realizou-grande:
parte desse trabalho na pane Ir, mas como novo defensor d~ sua
criança interior, precisadizer a e,laque tem permissão para sentir
os sentimentos especificamente proibidos pelos papéis que repre-
sentava. Isso dá. a ela permissão pata ser c:la mesma.
É especialmente importante protegê~la durante este passo,
pois os sentimentos são assustadores quando começam a vir à to-
na. A criançapode ficararrasada. Vocêdeveir devagare encorn:já-la
o tempo todo. Sempre que mudam os os velhos padrões da nossa
família de origem, esse ato nos parece po.ucofJ.miliar(literaimentt
não-fimúlia). ~ão nos sentimos "à vontade" com o novo com-
portamento. Sentir novas em(li;:ões pode parecer estranho, até me·s-
mo insano para sua criança interior. Seja paciente com da . Sua
CONCED
ENDONOVAS
PERMI
SSÕESÃ SUACRIANÇA
INTERIO
R 247

. . . ; . ,,. . .
criança 1ntenor so se arriscara a expenmentar esses novos sent i-
mentos quando se sentir absolutamence seguia.

TERCEIRO
PAs.50
Para explorar a nova liberdade, você precisa descobri! novos compor·
tamencos que lhe permitam experimentar seu eu em ouuo tontcxto.
o. q U" :$ sâ"
Por exemplo, perguntei à pane criativa domei.: et: ::.:!.:.:l~
as crês coisas que posso fazer para me libertar dos papéis de Estrela
e Super-Realizador. Peça ao seu cu adulto criativo para escolher uê s
comportamento
. s espeéíficos.
. Mr:ueu adulro disse o setruinct.
.
1. Posso ir a um seminár io ou grupo de uabalho onde ninguém
me conheça e me concencrar em ser apenas um participan te
do grupo. Fiz isso quando aprendi a Programação Neurolin-
güíscica.
2. Posso,fuer um trabalho medíocre qualquer . Fiz isso com um
artigo que estava escrevendo para o jornal .
3. Fosso contribuir para que alguém seja o centr o das aten ções.
Fiz isso comparrilhando o pódio com um colega. em los An-
geles. As luzes o focalizaram.

Essas exp.erjências foram muito boas para mim. Apre nd i a sensa-


ção de ser pane de um grupo e não a Estrela. Permiti a mim mes-
n10 escolhera não-perfeição. Gaseei de servir de apoio para oure=.
pessoa. Minha criança interior gostou de fazer tudo isso. Escava
cansada de precisar ser sempre a Estrela ou o Super-Realizador .
Usar esse passo com meu Zelador foi ma.is imponante ain-
da, porque era o papd ma.is significante para ter importância na
família. Modificá -lo foi também mais assuscador. A primeira vez
que trabalhei nisso, escolhi os seguintes comportamentos :
1. Dimínuí minhas horas de trabalho cómo conselheiro, de 50
para 40 por semana .
2. Mudei o número do meu telefone particular (que eu sempre
dava para meus clientes) para um número que não constan
da lista. Insta.lei um serviço de acendimento para emergéocia.'i.
3. Recusei passar pane do meu tempo livre, nas rcun1ões so-
ciais, respondendo a perguntas sobre problem as pessoais,
248 VOLTA
AOlAR

No começo eu me: sentia culpado cada vez que um desses com-


portamentos c,mtestado. Sentia-me egoísta. Gradacivamc:ote, mi -
nha criança interior verificou que as pessoas continuavam a me
dar valor e: a me respeitar. Aprender que eu tinha valor para os
outros e merecia respeito sem fazer coisas para eles foi um passo
importante no meu crescimento pessoal.

QUARTO
PASSO
Finalmente, você pre.àsa ajudar sua criança interior a escolher qu~
as partes desses papéis que deseja conservar. Por exemplo, gosTo
de falar pa.ra centenas de pessoas, nas palestras ou seminários. Mi-
nha criança interior gosta de fazer p~das e de ouvir as risadas.
Gosta também do aplau so no fim de uma palestra ou de um se-
minári o. Assim, decidimos continua r com esse trabalh o.
Minha criança interior me fez saber que eu a escava matan-
do com os papéis de Airadar Todo Mundo, Zelado! e Estrela. Por
exemplo, nos meus grup os de trabalho e seminários, nunca me
permitia uma folga. Falava com as pessoas, respondia pergunta s,
tentava fa2er terapia em três minut os e autografava livros em to-
dos os inte.cv'iilos
. Também fica,-a no local uma hora e meia de-
pois do fim do-trabalho de grupo ou do seminário. Isso, às vezes,
totalizava 11 horas seguidas de trabalho. Certa noite, no avião,
voltando de los Angeles para casa, minha criança interior come-
çou a chorar. Eu mal podia acreditar no que estava aconte cendo
mas entendi a mensagem. Embora minha criança quisesse conti-
nuar a ser a Estrela, o Zelador rinha de desaparecer. Então c:sco-
lhl alguma coisa que minha criança interi or gosta . Nestes últi-
mos anos s6 voamos de primeira classe. Freqüentemente somos
apanhados por lin1usines. Temos várias pessoas para cuidarem de
nós nos intervalos dos trabalhos de grupo e seminários. Usamo s
os intervalos para descansar e comer uma fruta fresca ou qual-
quer alimento leve. Agora, minha criança interior e eu estamos
dando aos outros uma assistência de qualidade. Mas estamos tam-
bém recebendo cuidados de qualidade. E deixando que os ou-
tros cuid em de nós. Escolhemos ser Estrelas, mas não à custa do
nosso direito de ser. Escolhemos dar 2.5Sistência , mas não somos
obcecados com isso. Também não acreditamos que não sere(llos
importantes se não dermos assistência aos ouuos. Dei assistência
C01\CEDEND
Ol\'OV.~PER.',{J
SSÔ ESÀ SUACR.IAN
ÇAINTERJOR 2~9

à minha criança interior. Eu a defendo e digo que a amo do mo-


do que ela é. Minha criança não acredita mais que precisa desis-
tir .do seu eu autêntico para ser amada. Nós dois sabemos qu e
o :elacionamçnto mais importante da n0ssa vida é o nosso. Eu
dei a e1a,permissão palia ser o que é, e isso fez toda a diferença .

-
CAPÍTIJID 11
COMO PROTEGERSUA CRIANÇA
INTERIOR FERIDA

As crianças que não são amadas por cla.smesmas, não sabem amar a ~-
mcsma.s. Como adultos,. precisamosaprender a cu1darda nossa rnança per,
didll e servir de mãe para ela.

- Marion Woodman

A criança quer coisas simples. Quer sqr ouvida. Quer ser am2.da... Pode
njo saber. as palavras, ma.s que, que seus diteirr:x;
seja·m prorcgidose seu
au10-respci10inviolado. Ela precisa que você c.sreja·a.

- Ron Kurrz

·- •.
O terneiro P na .t,erapia é proteção . Nossa crianç!._interior precisa
de rote ão o.r: ue é imatura e, de cena forma, rimiciva. É ain -
~a ambivalente quanto ao to de ter voe: como novo pai ou mãe. - -
,Em certos dias, ela confia em você absolutamente; em outros,
sente-se assustada e confusa. Afinal , você ficou mui~osano~ sçro
dara mehor atenção a ela. Çomo cm ual.9ue.r:relacionamento
saudável a confian a em você tem de ser construída o..s._12 oueo,s.

TEMPO E ATENÇÃO

Como já disse anteriormente, as crianças sabem, intuitivamente ,


que você dedica tempo às coisas que você ama . É de importância
vital saber quando ela precisa da sua atenção. Ainda estou traba-
lhando nisso, portanto só posso dizer o que aprendi até agora. Mi-
nha criança interior geralmente precisa da minha aten ção quando:
Estou entediado. Minha criança interior fica entediada com
COMO
PROfEG
.ERSUACRIANÇA
INTEUOR
rERIDA 2.11

minhas.palesuas e grupos de trabalho. Fica entediada quando


renho lóngas conversas intelectuais. Ela começa a se remexer e se
inquietar. Pede que eu verifique várias vez-es meu trabalho para
saber quanto mais tetá de agüentar .
psrou assustado.Minha Gtiança interior foi programada pa-
ta sentir medo. Ela se manifesta â menor sugestão de ameaça.
Estou .veado uma cena amorosa e carinhosaeauc pai e fj.
lho. Isso nunca falha. Par Cashcorreu a abraçar o pai quando ven-
ceu em Wimbledon e minha criança interior começou a chorar.
A mesma coisa acontecçu quando Jack Nicklaus venceu seu quinto
Campeonaco de Mestres e ele e o filho caminharam abraçados
na direção do l~? green. Acunceceu outra vez quanoo D ustin
Hoffman ganhou o Osc~. Ele telefonou para o pai que o estava
\'eJ)dona tele.visãoe minha criança interior começou a chorar. MJ.
n.,a criwçaintçrioç_ foí terr·velmenteferida or meu ai tê-la aban~
doo.ado. Embora eu já tenha trabalhado muito nisso (na verna-
dt:, eu ampare i meu pai no seu -leito de motce e não renho ne-
nhum negócio inacabado cQm ele), sinto aioda uma dor profun-
da por aguda perda da infáncia.
Estou cansado.Ficorabugento e irritado qua,ndo estou can-
sado. P,recisoter cuid.ado com minha criança iocerior, do conu~-
no, da .ataca quem estiver mais peno.
Estou fogaado uma parcidade um jogo comperitivo.Minha
criança interior é urna iná perdedora. Ela disfarça bem , mas, na
ve.rdade,detesta perder . Posso ficar muito emocionado em u.m:i.
partida de golfe. Monitorando meu comportamento fiquei atô-
nito com o nível· da minha regressão no tempo. Recentement e,
etrei uma t;icada fácil e ouvi minha voz qizer : ''Não sei por que
me dou ao tr:i.b~ho de fazer qu:i;lqu.er coisa!•' Uma declaração
bastante ampla e generalizada para um pequeno e-rro esquecido
.algumas horas depois.
Reajo exagemd'3l1Jeflte. Rea· ôes exag_e!_a~as
são regressõeses-
_oonclneas. Sei que minh ~ crÍ~.f!Ç ª i~j~tá présente quand o,
__fil:!çominh&..YQUWJ! r c~.da vez_maís altâ.J: m~efensiva.
Sinto-me ignoI'adoou rejeitado. Minh.acrimça inr 7rior per,
ccbe p _men.Quinal ,de re· ei~âo ou desinteresse. Tenho a e ser_~·
u~l,l)amenrec;uidadoso, po,e ue, ãs vezes, e.lavê rc:iei;ãoonde niic1
eXISte .
S.ou exposro inespe1adamence, Isso não acon:ece com fre•
qtiencia, porque. corno urna pessoa educada para se envergonhar,
\Ol!A AOLAR

aprendi a ser muito prudente . M_as qu;tlqu~r fracasso brusco d~ D!!:


_nhasexpectaciyas deixa minha cri~ a interior muito e~b:gaçada .
Tenho fome. Minha criança interior fica muito irritada quan-
do estou com fome.
Estou com meus melhores amigos. São momentos de ale -
gria para minha criança interior. Ela gosta de estar com meus me-
lhores amigos . Sente-se segura e alegre. Ela gosta de contar pia-
das, rir e se divertir .
Sinto-me solitário.Durante muito tempo não reconheci a
sensação de solidão . Agora sei que estou me sencindo solitári o
quando pareço estar insensível e tenho vontade de com er coisa.~
doces. Sei tamb _ém que estou me sentindo sozinh o quando re-
nho vontade de dar muitos telefonemas.
Sempr s; 4-,1.!Cminha crian a interior está _!csen te eu dou
a.r.enç,ã_cu..ela
_ Quan .~i_9est_á..(eli~e si;__
diy_ertindo, um simpl~s_si-
nal de que notei sua R,rescnça é o baseante ; quand o ela est~ cao -
s.ad.a...w.rnJome,...d~sawmada, uisce ou solitária, preciso falar com
_elaJ) escobri métodos r;:ioYQS e muito úteis para me comunicar
com minha criança interio !:_ - -

·-
COMuNiCAÇÃO COM A CRIANÇA INTERIOR

, Vocêjá aprendeu a primeira técnica - escrever cartas. Esse mé-


todo pode ser usado para a comunicação diária com sua criança
interior. lembre-se de usar sua mão dominante quando seu eu
adulto escreve e a mão não dominante quando sua criança inte-
rior escreve. Eu faço o seguinte: Quando me ievanto, de manhã,
escolho o tempo que vou dedicar à minha càança interior na-
quele dia. Às vezes, quando ela aparece cm momento s de dor,
solidão ou de tédio, faço a comunicação imediatamente. Mas, ge-
ralmente, escolho 20 minutos daquele dia, com antecedência. Hoje
foi às 20h30min. Eu precisava de um descanso do trabalho deste
livro e minha criança interior começava a se entediar . lstô foi o
que escrevi hoje .

JOÃO: Oi, Joãozinho! Quantos anos você tem nest e momen-


to?
COMO
PROTEGER
SUACRJANÇA
INI'ERIOR
FERJDh 153

JOÃ.OZIN;HO: Seis anos.


JOÃO : Joãozinho ., como estão a~ c.01sas com você nes.te mo-
mento?
JOÀOZINHO: Estou cansado de escrever, Quero brincar e esto u
com um n6 nó ombro.
)OÃO: Desculpe, eu não sabia que estava exagerando. O que vo-
cê gostaria de fazer agora ?
JOÃ OZINH O: Quero tomar o sorvere que a Karie trouxe .
JOÃO: Eu tinhá esquecido completamente. Vamos descer e to-
mar sorvete.

De pois dessa breve conversa por esct:iró, désci e me servi do sor-


vete que minha sobrinha. KatÍe. levara para roj m na q ueJe d.i:,.
Eu cinba esquecido o sorvete, mas o Joãozinho lémb rou. Depois
ce tomar o sorvete e descansar por algum tempo , voltei a escrever.
N em semp re passo .2'0minuto s com o.Joãozinho . mas reser-
vo esse tempo para ele . Sua capacidade de aten ção é ainda muit o
limitad a. Descobri que quanto mais eu dem onstro norar sua pre-
sença. menos rempo ele precisa. Sabe que esrol.l ali para eie ·e coo.fia
smmim. Estou t1sando o m écodo do diálo go há un s dois anos.
E uma fo rma simpl ·es de comunica ção. mas algu mas pessoa s
(!Ueixa:In-sede que levá muito tem po. Concordo. Sem dú vida exige
~~ .!!! tem ó é esforQo , no com ç_ço.Mas-sua_çrians_ainrer.orvale
is~ol
O segundo meio de comunicaçã o é a visualiza ção. Muitas
pessoas _têm usado este método para trabalhar, com a ·crian ça in-
terio r. E o meu favorito.
Feche os olhos e visualize uma sala com duas poltronas con-
fortáveis, uma de freate para a outra . Uma é maior do gué a ou -
tra e está .à direita da sua ima·gem. A outra é para 1a1ma<!rÍanç a,
bastante alta pata qee o rosto dela fique no mesmo nível que
o do aduito. Desenhei aqui meu eu adulto (o ma go gentil e sá-
bio) em uma das cadeiras e minha crian ça interior na outra. O b-
serve e escute com atenção a conversa dos do~.
VOIIAAOLAR

Comece sempre perguntando a idade da sua críança inte -


rior. Em seguida, pergunte como ela esrá se sentindo. Procure saber
cla(amente o que ela quer, fazendo perguntas sobre detalhes de
compo~amentos espeáficos. Por exem_plo, um homem do meu
grupb de'-ap_oiorecentemente percebeu que sua criança interioc
estava zangàda com ele. Quandó perguntou o qQe ela queria, a
criança respondeu que queria ir ao Astroworld (um parque de
diversões; em Houston) e andar em vários brinquedos. Especifi-
, cou a montanha-russa , a roda-gigante e a descida do rio. Meu
' amigo tem 50 e poucos anos , mas , relutantemente , acendeu o
pedido. Combinou com alguns oúrros casais e foram ao Asuo-
wodc;l.Meu amigo andou em todos os brinquedos que sua crian-
'rª interior pedira, e mais alguns outros. Ele se di:vertiu a valer!
Na nossa reuni ão seguinte, notéi algumas mudanç .as vis.fveis.
Esse homem é um banqueiro muito ocupado , especialista e.m pla-
nejamento finanéeiro e em planos de investimento complexos e
sofisticados. Sua criança interior escava fana de tud o isso: e resol-
veu moscar o que ele devia fazer para quebrar aquela rotina in-
tensa. Três dias depois da npssa reunião de grupo, ele me convi-
dou para ir ao Ascroworld!
Sua criança inter.iór precisa do seu tem po e da sua atenção.
Dessa maneira ela cem certeza de ter em você um verdadeiro
defensor.
rowol'ROIEGF.R lNlIRIORrER1DA
SUA CRJANÇA

UMA NOVA FAMÍLIA

Para defender sua crianç.a interior, você deve escolher uma nova
família para ela. A nova família é necessária para proteger sua
criança interior enquant o ela determina novas fronteiras e:fai seu
aprendizado cone tiyp. Sesua famili a de ori cm não está em ro-
cesso de reCJ:!Beração,_é quase impo.ssív~Lç
_onse~ic se~ap._oioeo-
g~anto você está na sua fase de reçup$ra_gg._Gcralmente eles pen-
sam que você está fazendo uma burrice e o envergQ!lham P..OI is-
so. Quase sempre se sentem amea çados ~o seu trabalh o IJ..o rgu eL
uando você desiste dos seus p~péis, abal1 o_equilíbrio congela-
do do sistem i. N!:!!!9 P.ermitiram antes_que você fosse você mes-
mo. Por ue iam ermitir a ora?-Se sua famOia de origem era
disfuncional, é o lugar menos provável para procurar o atendi-
mento das suas carências. Assim , aconselho a manter uma dis-
tância segura e trabalhar para encontrar um a nova família que
possa nutrir é apoiar sua criança interior . Pode ser um grupo
de apoio formado por amigos, pode ser o grupo com que
você tra_balha com sua criança interior ou pode ser qualquer
dos vários grupos de 12 Passos, espalhados agora por todo o
país. Pode ser uma igreja, uma sinagoga ou um grupo de
terapia. Seja qual for sua escolha, recomendo que encontr e
um grupo para vocês doi s. Você é o defensor da sua criança
interior e ela precisa do apoio e da proteção de uma nova
família de adoção.
Considere o caso de Sibonetta, criada por um pai violento
e emocionalmente abusivo e uma mãe dominada pela vergo-
nha . O pai de Sibonctta já morreu e a mãe casou ouua vez,
mas ainda telefona para da com freqüência. Sibonetta está
fazendo grandes progressos com a terapia, mas eu sempre sei
quando a mãe telefona. Sibonetta sofre uma regressão de vários
dias. Propu s a ela entrar p:ua um ·grupo Coda. EJa concordou
com relutância. Eu era seu protetor e não queria confiar seus
segredos a mais ninguém . Eu sabia que isso não era saudável,
por isso insisti para que ela fosse a 30 reuni ões desse grupo


2$6 VOIIAAOLAR

durante 30 dias. Esperava que esse atendimento intensivo a


adaptasse ao grupo. Minha estratégia funcionou . Ela começou
a se sentir bem no grupo e no fim dos 30 dias continuou
a comparecer a quatro reuniões por semana. Notei que o n1vel
da sua energia estava mais alto e que os telefonemas da mãe
não pareciam tão perturbadores. Ela os comentava com o -grupo
e eles sugeriam o que ela devia fazer. Eles também a convence-
ram a instalar uma secretária eletrônica para saber o que a
mãe queria e ligar de volta quand o esàvesse preparada. O
grupo deu a Sibonetta mais apoio do que eu podia dar e
a interpretação dos seus sentimentos feira por várias pessoas
era muito mais eficaz do que a minha voz solitária. Sibonecta
tem agora uma nova família para apoiá-la na lut a contra a
tirania da mãe.

O PODER E A PROTEÇÃO DA ORAÇÃO

Sua criança interior precisa ver que seu eu adulto tem uma fonte
de proteção muito além do seu eu humano finito. Embora você
·-
seja mágico e i.emelhanre a Deus para sua criançainterior, é muito
imponante para ela saber que você pode contar com um Poder
mais Alto. M,esmo que seu eu adulto não acredite em Deu s. sua
criança interior acredita em alguma coisa maior do que ela. As
,' crianças acreditam naturalmente em um Poder mais Alto.
A oração é uma poderosa fonte de proteção para sua criança _
interior feri4ª , e ela gosta que yocê .ceze com ela.Gosto defechar
os olhos e verminha criançainterí~ a idade efl!.._9ue da uiser a a-
recer. Eu a faço sentar no meu colo ou ajoelhamos lado alado e re-
zamos.Eu ~g o uma prece adulta, en uanto meu oãozinho~ um__ a____
_
preceiefantil.Ele gosta de "Agora eu me deito para dormir", quan-
do oramos à noite e_.às_yczes. fazemos juntosessaoraçio. O Me-
morareé uma oração.que aprendi na escola primária católica. É di-
rigida a Maria mãe de Jesus. Gosto do poder feminino na minh a
espiritualidade. Penso em Deus mate!Jlal e gentil. Ele me abr:iÇL
e me acalenta. Joãozinho também ·gosta disso. O Memorare diz:

Lembrai, 6 Abençoada Virgem Maria, que nul)ca aconteceu


de alguém pedir vossaproteção, implorar vossaajud:i.ou vossa
--- - _ -_

COMO
PROTEGER
SUACRIANÇA
INTEIUOR
FIRIDA 2n
t
q intercessão e não ser atendidQ. Inspirado por essa confiança,
corro para vós. Virgem das v·írgens , minha rQãe. A vós eu
venho, perante v6s eu me apresento, pecador e arrepend i-
ào. Não desprezai meus pedidos, mas, em '\l'.o ssa misericór-
dia, ouvi-me e acendei-me. Amém.

Meu eu adulto f!OSta de tod as as referências à vir!?"indadeporaue


eu não acredito que Maria fosse virgem . Mas tenho conseguido
uma fone proteção cQm essa prece. Eu a expliquei ao Joãozinho
e ele ficou muir o imoressionad o Você deve procur ar preces qu !'
sirvam para vocé e pa ra sua cri.2n;a 1ntecio1. h-tas recomendo dt·
todo coração gue dê à sua cria11çJLID-teúor a· poderos íl, pro~
da oração.

ACARICIANDO SUA CRIANÇAINTERIOR

Sabemos que a criança pode morrer se não fot fisicamente abra-


çada e acariciada. Os bebês precisam ser tocados e estimulad os
para viver e cresce(·. Caso contrário ficam·doentes , com un1-adoença
chamada marasmo (literal~ente, definhar), como se estivessem
morrendo de fome , A.criança com marasmo regride ao estado fe.
tal. É como uma reversão no crescimento. Sem c;arídas , o bebê
murcha e definha .. À medida que a criança cresce, devemos acres-
centar palavras encorajadoras às ~arfcias. Essa é uma forma de
proteção .
Uma vez que a criança não pode viver s'em ser acariciada,
ela procura cãêícias de um modo ou de ouuo . Se não consegue
boas carícias, procura as más caricias. ·Qualquer pessoa é capaz
de tomar água poluída · quando não há outra .
Provavelmente sua crian~a ih~o.t feridaescolheu umª-gtande
quantidade de água poluída . Por issoas afirmações que usamos
para cada estágio de desenvolvimento são tão importante s. Você
deve continuar a usá-las. São as carícias emocionais que sua criança
precisa para se alimentar. Voire auás e examine as afirmações de
cada.estágio. Procure lembrar quais tiveram maisforça para você.
Use essas ~rmações para suas carícias especiais. Sua criança int e-
218 VOIJAMJLAR

rior precisa ouvi-las todos os dias, quando você começa a apren -


der a defendê-la . As minhas são as seguintes:

JNFÂNCIA
Bem -vindo ao mundo ... Estou feliz .por você ser menino ... Voéê
terá todo tempo que precisa para atender suas carências.

COMEÇANDO
A ANDAR
É ceno dizer não ... É ceno ficar Janga d a ... Você pode ficar zan-
gado que eu continuarei aqui ... E certo ser cuúoso, querer olhar,
tocar e experimentar as coisas... Eu farei com que possa explorar
com segurança.

PRÉ-ESCOLAR
É ceno ser sexual ... É certo pensar por você mesm o... É ceno ser
diferente ... Pode pedir o que quiser ... Pode perguntar, se ficar con-
fuso com alguma coisa.

,,. ESCOLAR
É ceno · cometer erros ... Você pode fazer coisas mediocre s... Não
precisa ser perfeito e sempre tirar A na escola ... Eu o amo do jei-
, to que você é. Essas afirmações são feitas especialmente para mim
e para minhas necessidades. Você pode escolher as suas afirmações.
Recomendo também que escreva suas afirmações . Trabalhe
com uma de cada vez, escrevendo -a de 15 a 20 vezes por dia. Le-
ve a afirmação sempre com você., Olhe para ela com freqüência
e a repita em voz alta. .
Escreva, as afirmações em cartões de tamanho médio e espa-
lhe-os pela casa. Peça aos amigos para ler as afirmações em voz
alta. Grave e ouça as afirmações .

Exercíào para inserir carícias consoladora s


nas suas antigas lembranças traumáticas
Quando seus pais estavam no auge da raiva (gritando, esbrave-
jando, ameaçando , dizendo nomes e julgando) sua cr.iança inte•


r
1

.COMO
PRottGER
SUACJI.IA."4ÇA
INTERJ:OR
FERIDA

rior ferida i:ncernalizava suas palavras da forma mais dramática.


Era nesses momentos que sua sobrevivência corria o maior peri-
go. Você impritnia as palavras e lemJ::>ravadelas.
Votêprecisavoltara essas cenase deixarque seu eu adulto
e defensor dê à sua criança interior novas palavras construtivas e
consolador "as. Sem algumas impressões auditivas novas e cooso-
laddras, sua criança interior continuará a repetlr para ela mesma
as paiav ras da vergonha. O exe.rcíc.io abaixo ~º ajudar á a refazer
a cena de vergonha e instalar uma nova voz. E preferível escolher
uma lembran _ça traumática com a qual você já fez o trabalho da
dor oriei1.al. Se escolher uma cena cor.1 a qu al nunca trabalho u.
renha mu_icocu1àado,pois pode- ser facilmencesobrepujadopor
ela. Sigaasinscrugóes rigorosamence. Recomendo que grave o exer-
clc.ioou que p=ça a um terapeuta ou um amigo para acompanhá-lo
c:m todos os passos.

l'RIMElRO
PASSO
Imagine que seu eu adu lto está sentado em um cinen:rn
olhando p~ra a tela vazi:1. Olhe em volta e note os detalhe s
das paredes do cinem a. O que você vê? Olhe para o tet o.
Observe o belo trabalho de entalhe. Agora, olhe outra ve.z
para -atela e \'eja o título cie um filme . leia as palavras, ''A n-
tiga cena craumácica' '.. Agora, imagine que você está flutuan-
do para fora do seu corpo para sentar dez fileiras atrás de
onde está agora. Pode vér .sua cabeça e pode ver você mesmo
olhando para a rela. Faça uma âncora com .o polegar e o
indicador.

SEGUNDO
PASSO
Sem desfazer a âncora , veja a você mesmo olhando pàra um
filme em branco e preto gue mostra a anti ga cena traumát i -
ca. Veja você mesmo assisrind·o à cena do princ1pio ao fim.
Veja-se então olhando para a úJçima tomada da cena, imo-
bilizada na tela, que mostra sua criança interi or ferida exa•
tamente como aoarêcia
. na cena. uaumátic 2. Ela está senr2-
da e sozinh a.
2~ VOl!AAOLAR

PASSO
TERCEIRO
Desfaça a âncora e flutue de volta para seu corpo que
assistiu ao filme. Agora você está no seu corpo. Imagine-se
caminhando para o quadro na tela. 4gora você está na
tela com sua criança inierior ferida. Pergunte se pode abraçá-
la. Se ela disser que sim, comete a acariciá-la dizendo
as palavras de consolo que ela precisava ouvir quando
sofreu o trauma. Se ela não quiser ser abraçada, diga ape-
nas as palavras.

Por ~emplo, tenho uma lembran ça traumátic .a na qual sou


envergonhado por minha avó quando chorava histericamenre
porqu,e meu pai saíra de casa prometendo voltar "compléta-
mente bêbado". Ele·e minha mãe acabavam de ter· umá briga
violenta. Lembro-me de que fiquei apavorado. Trabalhando
nessa cena eu abraço ternamente minha ~cóança interior de
dez anos e digo: "Está tudo bem, JohlJ. E apavorante pensar
que seu pai vai se embriagar our.ra vez. E perfeitamente normal
para você ficar assustado, ter medo de que .seu pai não volte
nu_nca mais ou que ele possa machucar sua 1nãe. Você pode
chorar qüiajo quiser. Agora estou aqui para protegê-lo .''
..
QUARTO
PASSO
Quando terminar de consolar sua criança jncerior, imagine
toda a cena uaumática passada de t,ráspara diante, em
cores. Imagine que você e sua criança interior ferida estão
denuo do filme como se o tempo tivesse voltado para
trás. Espere uns dez minµtos e pense na cena traumática .
Perceba se sente alguma coisa diferente. Note se pode
ouvir o som da sua no-va voz de defensor. Se não puder,
precisa trabalhar um pouco mais. Uma cena pode ser tra-
balhada várias vezes. ·

Pedindo carícias
Aprenda a pedir ca.ríciassempre que..pu:cisar.Quase todo s
nós fomos enve~g9nh~9os guando expressávamos o deseio de
COMO
PRQI'EGER
SU,A
CRIANÇA
INTERlOR
FERIDA

_sermos acariciac;los.Nurnw:cnclemos _a-ncts-ª11~11ta~mocio-


nalmente. Agora, você deve dar à s~a crian 9a inteciQFpermissão
para fazerisso. Quando alguém o envetgonha , é muito saudável
telefonar para um/a amigo/a e pedir que ele/ela nos acaricie. Vo-
cê pode telefonar e dizer : •'Diga que eu sou uma pessoa boa e
valiosaH, ou, "Diga o quanto você me ama e me dá va1or ", ou
ainda: "Djga algumas das toisas quevoc _ê gosta em •mim.'' Pense
rio qt.:,e \'Czê fari.a se esú vesse famint o. Iria procurar comida ou
pediria a um amigo . Sua ci;iança interior não sabe que pode fa-
zer a mesma coisa quando está emocionalmente faminta .
É perfricam(;nte saudável pedir a caríci~ específlca que- você
precisa. Você já conhece algumas delas. As mulhere s belas são
acariciadas com elogios à sua beleza , Se você é uma mulher atraen-
te, precisa pedir outro tipo de carícias. Por e~emplo , se um h o-
mem diz que você está maravilhosa ou sexy, diga a ele: "Isso eu
sei, o que mais voçê gosta em mim ?1 ' Eu ouço uma quantidade
enorme de elogios à minha mente. Por exemp lo, ''Vocé é um g~-
nio . Não sei como você consegue.'' O que eu quero são carícias
no meu coipo. Por isso, e~tou ensinando minha criança interior
a dizer : "Sei que sou inteligente , o que você acha do meu cor-
po?'' Isso não é fácil. Como quase todos os noss.os pais eram adul-
tos crianças · 'pri.-ados de carícias' ·., eles eram muito avaros para
acariciar.
Além de acariciar sua criança interior com freqüência e do
modo específico que ela precisa, diga:

• Acaricie os outros tanto quanto você puder.


• É cerro você mesma se acariciar,
• É certo pedir carícias .
• É certo pedir o tipo de carícia que você precis a

Sua criança inte .rior precisa desse estimulo contínuo e dessa


,proteção.
Como defensor da sua criança interior , você pode dar a ela
os. três Psçlaterapia descritos por Eric Berne. Esses três p_ - po -
téncia, permissão e proteção - são também os elementos da pa -
ternidade saudável. Gosto de acrescentar um quarro P. Defeode _r_
a ·criaoça é um processo contínuo que impl,ica o aprendizad o cor-
retivo . Isso exige esforço e prádca. Vejam0s agora o qu arto P.
CAPÍTULO 12
PONDO EM PRÁTICA OS EXERCÍCIOS
CORRETIVOS

1:nircntamos tantos risco.s quanto os riscos dos quais fugimoi.


- Henry David Thorc:.u

Vai funcionar sç você fuocionu ,


- Slogan 1crapêutico

As melhores novassão que, uma vez.que a criançafoi ferida por negligên-


cia e falhas no aprendizado. n6s P.odcmosaprendera a1cr1dcr as caréndas
da criança, como adultos. Podemosdescn'IOivcraptidões cm todas as áre2:i
da imeraçil.ohumana; não se trata de desaprender. mas de aprender coisas
• p_:laprimeira vez.
- !Gp Flock

,Vocêjá lamentou a perda das-suas necessidades de dependénc.ia


, não atendidas. Agora pode aprender uma variedade de exercí-
cios que lhe darão experiências corretivas. A prática couedva é
o aspecto mais animador desse traba,lho. Nosso ferímc:nto é, em
pane, o résultado de falha de aprendizagem e p oJem os corrigir
essas falhás com uma nova aprendizagem. -Pazemos isso inciden-
talmente quando respondemos às exigênciassociais do crescimento.
Mas para a maior pane dos que têm uma criança interior ferida ,
existem ainda grandes áreas onde a falta dessas aptidões de de-
_senvolvimento provoca muita dor e desconforto . 1iuitos adultos
crianças não sabem que seu comportamento abortivo é devido
a falhas de aprendizagem . Continuam a culpar e envergonhar a
si mesmos pelos fracassos e falhas de caráter. Os exerácio s corre -
tivos ajudam a criança interior a compreender que seus defrito s
são, na verdade, déficits. As contaminações componamentai s pro-
vocadas pela criança interior são, na verdade, os modos de sobre-


PONDO
EMPRÁTIC.>.
OSEm.i:fCIOS
,'COlUtrnVOS
:

vivência que ela aprendeu. O psiqu~aua timmel'l Cermak com-


para esses comporç~en~os de ·sobrevivência às ca.racterísúcas d o
esci:essep,ôs-traumátito. Os soldados no campo d.e batalha e ou•
ttas pe·ssoas que sofrem eventos traumáticos preci sam usar todos
os seus retursos para sob.reviver. Não têm tempo para expressaf
seus sentimentos, Q.que é necessário para integ..rar o trauma. Mais
tárde , Q sentimento doloi;oso não resolvido manifesta-se por mei o
à.e crises cie ~osiedade, excesso de controle, iaps os de memon a,
depressão, regressão na idade e supervjgilância:. Essas sãQ as ca-
racte.tísticas associadas aos distúrbios do esue sse pôs-traumático
(PTSD). Se eu escrevesse aqui a lista completa desses distúrbio s.
veríamos o quanto eles se parecem com as contamina,ções provo-
cadas pela criança ince.àor, descritas no capítulo 1.
Os exercícios seguintes corrigirão seus déficit s de aprendiza-
gem do passado . Mais do que qualquer outra coisa, aperfei~oa -
rão a aptidão da sua cúança interior para apenas ser e para amar
melhor e conseguir maior intimi dade.
Vários autores oferecem ótimos recursos corretivos para cada
estágio do desenvolvimento. Eu mencionei o livro de Pam Levin ,
C,vdes of Po-wer.Quero c.ítar também Recovery from Có-
Dependency. de Laurie e Jonathan Weiss; Windows ro our Chil-
dte1~,de Violet ,Oaklander: Adult Chi1drenof Abusive Parenrs.
citSrephen Fa.rmer;Breaking Free of the Co-Dependen cy Trap.
de Barrye J~ae Weinhold e Thera~utic Metaphors for Children
and cbc:Cb.ildrenWíthin, de Joyc.e Mills e Richard Crowley. Para
os, exercíciosseguintes, tirei 1tluita coisa dessas fontes.
Esses exercícios funcionam melhor quando aplicados nas •átea-s
e·m que você foi mai ·s negligenciado. A esta alrur.a você já deve ter
uma boa idéia dos estágios em que sua cdançainterior ficou apri-
sionada. Recomen~o que trabalhe especialmente nesses estágios.

EXERCÍCIOSPARA CONSEGUIR QUESEJ4,M


ATENDIDASAS SUASNECESSIDADESDA INFANCIA

Na infância precisamos ter ·seguraoça suficien~e para apena.sser.A


rl)áioria das crianças interiores feddas aprendeu que não era certo
apenas ser - que só podemos ser importante s e cer significado
VOUAADLAR

se .izermosalguma coisa. Issoleva à perd:a da noção do EU SOU.


Agora precisamos aprender a não fazer coisa alguma e apenasser.
Os exercícios seguintes o ajudarão a apeoas ser o qt,ie você
~. em um determinado n1omçnto . Escolha os que parecem me-
lhores para você.

• Mergulhe em uma banheira com á·gua quente e passe algum


tempo concehtrado nas sensações do seu corpo. Não tenha pressa
de sair.
• Faça massagens reg ularmen te.
• Vá ao cabeleireiro e faça as unhas e o cabelo .
.
• Faça um amigo dar comida a você - cozinhar para você ou pa-
gar o Jantar em um restaurante.
• Fique sentado, quieto, envolto em um cobenor ou acolchoado .
No inverno, sente-se n.a frente do fogo e esquente marshmallows .
• Passemúito tempo trocando caríciassensuais com seu /sua amante .
• Faça seu/sua amante dar banho em você.
• Tome um banho de espuma ou pas~e um tempo na banheira
com água quente e óleos de banho.
• Reserve períodos do seu tempo para não fazer nada, não fazer
planos ; Oào ter compromissos.
• Passe de 30-minutos a tuna hora flutuand o em uma piscina ,
em um dia' çiue·nte e ensolarado.
• Deite-se em uma rede por um longo tempo .
• Ouça uma música suave de ninar. (Tente a Suíre para Ninar,
, ou Cançõesde Ninar e Doces Sor)}Jos,de Steven HaJpern.)
• Quando .estiver trabalhando te.nha sempre à mão líquidos para
tomar aos poucos.
• Chupe balas de honelã ou outras quando começar urn novo
emprego ou quando fizer qualquer coisa pela primeira vez.
• Mude seus hábitos aJitnentar .es. Em vez de '' três refeições com-
pletas'', faça diversasrefeiçõespequenas e nutritivas, durante o dia.
• Combine com pessoas (de preferência dos dois sexos)para abni.çá-
lo e acariciá-lo durante pedodo determinado , todos os dias.
• Tire quantas sonecas você puder nos dias em que tiver bastante
tempo .
• Descanse bastante antes de iazer quálquer coisa nova.
• Pratique "caminhadas de confiança" com um amigo. Peça a
ele para vendàr seus olhos e conduú-lo durante um período
de tempo determinado .


PONDÓ osEXERdCIOS
EMPMTICA co~vos 26S

• Arrisque·confiat ·em um .amigo de quem \'ocê gosta. Deixe que


ele faça, os planos e que coouo}e o que fizerem junto s.
• Arranje um/a companheiro/a e fiquem se olhando durante nove
r.ninutos. Podem rir naturalmente , ou sorrir, faz·er o que tive-
rem de fazei;.•A,p·énas fiquém· all, não falem. Apenas olhem um
pata 0 outro.
• Medicesobre o nada . Quando meditam os no nada. estamos me-
ditando em sermos ~ próprio nad,a. A infáncia é o tempo em
que fornos aprision~dos pelo poder de s~. Ha várias aborda-
§.'eosp~ra a medita ção do puro ser ·ou do pada. Essas medira-
m estado de auscnoa o.,, rneotc,
~êl::s tê!l) por objetivo cnar 1:1
às vezes, chamado de criar· '.o silêncio:'. Aprender a não ter men-
te, tomo um adulto, põe a cr:iançainterior em conexão profun.
da com o adulto.

MEDITAÇÃO
PARA
TOCAR
O PODER
DESER
O que·se segue é uma forma muito simples de medita cãó de au-
sencia da roente. Os grandes mestte s espirituais passam anos.pa-
ra dominar essa forma de medicação. Vaie a pen.a prancar. Reco•
meodo que você grave essa medi ~ação. Use sua música favorita
para rr,edirar, como fundo musical ,

Comece conceouando-se na sua respiração.!.. Conscienâte


apenas o ato de respirar... :Percebao que acohceceno seu corpo
quando você aspira e expira, .. Note o ar quando entra em
suas narinas e quando sai ... Qual a diferença?... Respire na
sua testa e expire qµalquer tensão que encontrar ... Depois,
respire em volta dos olhos ... E expire qualquer tensão que
encontrar ... Depois, em volta da boca ... Agora no pescoço
e nos ombros... Descendo pelos braços e s_aindQ pelas mãQs...
Respire na parte superio( do peito e expire qualquer tensão
que ·eocont:rar... Respire no seu abdome ... Respite nas suas
nádeg;i.se expire qualquer tensão que encontrar... Respire
na barriga das pérnas e expire qualquer tensão que éncon-
tra::... Agora, re1rucetodo o corpo,.. Imagine qee você esrá
vazio por dentro ... Imagine agora uma iuz dourada e quen-
te atravessando seu .cõrpo... Entregue-se à sensação cie peso
ou de leveza ... Você decide qual das dllcasestá se.ncindo... Suas
pâ.lpebras estão muiro pesadas... Suas pernas e seus pés esrãú
26~ VOl1AAO
.W

pesados... Ou você pode se sentir muito leve ... Como se to•


do seu corpo estivesse flutuando ... Imagine que o horizonte
da sua mente está ficando cada vez mais escuro até você ver
apenas escuridão... No centro dessa escuridão, você começa
a ver um pequeno ponto de luz ... A luz começa a crescer
lentamente ... Até que todo o horizonte fica banhado de luz ...
Agora, olhe para a luz ... A luz pura ... Conscientize-se do
nada da sua experiência ... Não existe nada lá ... Apenas pu•
ro ser... Agora, veja o número três aparecer lentamente no
centro do seu horizonte ... Concentre-se ouua vez na sua res-
piração ... Deixe que seu consciente examine todo seu corpo,
começando pelos pés, subindo pelas pernas, quadris , barri-
ga, peito, braços, mãos , pescoço e ombro s, rosco e cérebro ...
Conscientize -se no seu EU SOU... Você está cm contato com
você mesmo ... Com seu EU SOU... Vej~. agora, o número
dois ... Mcx-2os dedos dos pés ... Mexa as mãos... Sinta seu
corpo tocando a cadeira e seus pés tocando o chão ... Ouça
todos os sons que pode ouvir à sua volta ... Agora, veja o oú.
mero um e, lentamente , abra os olhos ...

Fique sentado guicto, em devaneio, por alguns momento s.., Deixe-


se apenas ser. ·
Todos esses cxcrácios são muit o úteis para cuida r das suas
carências da infância. Podem ser especialmente eficazes quando :
,
• Você está iniciando um novo ciclo no seu desenvolvimento.
• Tem de começar alguma coisa nova.
• Sofreu uma perda.
• Acaba de ter um filho .

Esses exercícios devem ser feitos lentamente e depois ruminados .


Experiências de sersão como a comida saudável - precisa ser mas-
tigada completamente, não engolida inteira . Se você engole sua
comida sem mastigar, a digestão é difícil. Os alimentos mal di-
geridos não nos dão a energia que precisamos. O mesmo se apli-
ca às suas experiências de ''ser''.
l'ONDO osEXERdaosCORR.ETIVOS
EMPllÃDCA 267

EXERCÍCIOSPARAATENDERÀS CARÊNCIAS
DA SUA CRIANÇA QUE COMEÇAA ANDAR

Engatinhar e estágio de exploração sensorial

Frit z Pe.ds costumava dizer que precisamo s ' 'perde r nossas men-
tes e entrar nos nossos sentidos' '. Nossa crian ça interi or teve os
sentidos bloqueados muico cedo. Precisamos refazer o cor.taco·com
o mundo dos sentidos que nos rodeia . Aqui estão algumas das
coisas que você pode fazer para reestimular as necessidades de
exploração da criança quan _do começa a andar .

• Vá a um ' ·mercado das pulgas '' ou a uma grande loja de de-


panamentos . Pegue e examine cudo que despenar seu interesse.
• Vá a um café ou restaurante que tenha bufê. Escolha uma por-
ção de comidas diferentes. Experimente coisas que nun ca co-
meu antes .
• Vá ao supermercado e compre coisas que normalmente você não
come com as mãos. Leve para casa e coma com as mão s.
Lambuze-se quanto quiser .
• Passe algum tempo mordiscando ou mastigando alguma coisa
crocante .
• Passe algum tempo na seção de frutas e vegetais, sentindo os
diferentes aromas.
• Vá a um lugar onde nunca esteve ances. Preste atenção a todos
os detalhes do ambiente.
• Vá a um playgrounde fique algum tempo com as crianças. Use
os balanços, o escorrega, suba nas árvores da selva de brinquedo .
• Vá à praia e passe várias horas brincando na areia e na água .
Const rua alguma coisa com areia.
• Brinque com massinha. Experimente novas formas e figuras.
• Comp re cinta para pintar com os dedos e passe uma tard e pin-
tando. Use o maior número de cores possível.
• Vá a uma classe Montessori e deixe-se guiar pelo ambiente . Tente
qualquer coisa que tenha vontade de farzc:r.
• Vista as roupas mais coloridas que encontrar e vá a algum lugar.
• Faça barulho com os objetos em casa. só para ouvir os sons. Não
esque ça as pane las e os talheres .
268 VOIIA
NJ1Al\

• Váa um parquç de diversões e pas~e hoias olhando e andando


nos biioquedos.
• Passeie pór um parque ou jardim e sinta todos os perfumes .
Passe de um perfume para outro.
• Vá a um museu de belas-artes e olhe as tores brilhanr_es dos
quadros.
• Convide um/a amigo/a ou namorado/a para urn longo passeio:
Caminhem de mãos dadas e deixe que seus sentidos determ i-
nem a direção a seguir .
• Vá a um parque com um/a amigo/a e pratique a observação
zen. Revezem-se no exetácio de fechar os olho s e àeixa.r-se1:-
var. Most:re a seu/sua amigo/à uma folh a, o tronco de uma ár-
vore, uma flor silvestre. Quando apenar a mão dele/a , deixe
que elc::/aabra os olhos como se fossem o visor de uma câmera.
Abra e feche os olhos quando o/a companheiro /a apertar sua
mão e vejaa pura essência da vista que ele/a preparou para você.
0 Ande descalço/a por um campo ou em volta da casa. Sinta as

texturas diferentes das coisas: da -grama , da terra, de uma pele


de animal, papelão , jornal, tapete s, almofa das. toalha s, mad ei-
ras, metal, ladriiho e assim por diante .
• Couvetse_com o/a companheiro/a sem falar - só por meio de
gestos e contato das mãos .
• Escreva uma lista das palavras que significam sensações e veja o
que vem a stÍa menre quando as lê em voz alta . Algumas pala-
vias podem ser: esbwacado,espinhoso,formigamen to,leveza, es-
corregadio
,. , duro, mado, fino, gordo, escuro,daro, e assim por
a1ante.
,. Recapture seu olha,: ol_hando para as coisas. Por exemplo, passe
por um pontç, de ônibus e veja a,spessoas na fila como se você
fosse urna máqu,ina fotográfica cirando fotografias. Descreva por
escrito detalhadamente o que viu .
• Sente-se na frente de uma flór, uma átvore ou uma maçã nu -
ma espécie.de estado de meditação. Sínta-se um com o objeto .
Vejao objeto em toda a sua maravilha. Deixe que sua mão siga
o que seus olhos vêem e desenhe o que está vendo.
• Converse com um/a amigo/a com palavras sem senddo. Procu-
r.em adivinhar o que o outro ~stá dizendo .
• Brinque de som " misterios o" com :.iro/a amigo /a, Vire de cos-
tas para adivinha r enquanto a outra pessoa põe água em u m
copo1 toca tambor, bate com um lápis, coça a cabeça e assim
por diant e. Revezem-se n a adivinha çao .

PONDO osEmdCJOScow:nvos
EMPRÁTICA 269

• Convide uma porção de pessoas para cantar. Cantem canções


divagadoras como, ''Eu queria ser uma maçã na árvore'', e in-
ventem novos versos. Toque canções infantis para todos, espe-
cialmentemúsicafolclórica.

Renovando o contato com os desejos

O exercido mais importante deSta seção talvez seja o que ajuda


sua criança interior a renovar o contato corr.seus desejos. ..A..p~
maispre1:.:dicada da nossa crianca ferida ê sua vonrade. A vontc.-
de é o desejo devado ao nível da ação. O, desejo flui de uma co-
oexão com as nossas necessidades. Como filha de uma família
disfuncional, nossacriança incerior não podia dar atenção aos pró-
prios sinais internos porque estava ocupada demais com a infeli-
cidade da familia. Muito cedo ela perdeu contato com as pró-
prias necessidades e desejos. Eu sabia o que meus pais queriam
antes mesmo deles saberem que queriam~specializan do-me em
saber o que eies queriam , perdi contato com o gue eu çru,eri:i._.
Llteralmenre, aprendi a ig-noraro que queria, e depois de algum
tempo, dei.'<eicompletamente de querer.,Seu eu actuh:odeveajudar
sua criançainteriora reconhecer os próprios dese,os e protegê-la
Ya.ntoela se arriscaa conseguir o que que !.:
J:.OQ
Um dos meios mais simples para identificar seus desejos é
fazer a lista dos seus comportamentos substitutos . Depois, per-
gunte a você mesmo: o que estou realmente pr-ecisandoou dese-
jando quando me comporto deste modo ? Aqui está uma lisra
dos comportamentos substitutos mais comuns.

• Mentir.
• Comer quando não se tem fome.
• Apanhar um cigarro.
• Ficar amuado.
• lnsulcar uma pessoa de quem se gost:i.

Q:.ianclo percebo que estou agindo de uma dessas maneiras. eu


sento. fecho os olhos e presco atenção aos meus sinais interiore~.
Gera1menre escuto minh a criança inrerioz pedindo alguma coi-
sa. Aqui esrâ.o alguns exemplos dos dese1os relativos aos compor-
ramenros acima.


270

• Quero expressar raiva.


• Estou assustado e/ou solitário e quero estar com alguém.
• Não fumo mais, m,as quando fumava, geralmente estava sob
o efeito da· minha depressão crônica.
• Quero que alguém saiba que eu sou importante.
• Quero sua atenção, ·
• Preciso ser acariciado.

Há muitos outros compónamentos substitutos que as pessoas usar,


quando não sabem o qué realmente desejan1. Algun s são bas-
tante generalizados, outros extremamente idigssincrásicos. Para
ajudar nossa criança interior, devemos prestar atençã.o aos com-
portameotos substii;utos.
Jon e La.urie Weiss pedem aos seus clientes para fazer uma
lista de '' eu quero'', ou lista de ''desejo s''. Pedem que levem sem-
pre com eles lápis e papel. Toda vez que notam alguma coisa que
querem , acrescentam à lista . Cada cliente se compromete a es-
crever a lista do que realmente quer e mostrar ao seu_terapeuta
(pode ser a ,~m amigo ou um monitor) o que ele fez. E um exer-
cício excelenttl. que eu aconselho a fiµer.

EXERCÍCIOSPARA O ESTÁGIO DE SEPARAÇÃO


QUANDO A CRIANÇA COMEÇAA ANDAR

Quando a criança aprende a 'ficarsobre os próptios pés, ela co-


meça a se separar. Há vários exercícios para o caso da sua criança
interior nã0 'ter realizado essa separaç.ão necessária.
Pracicarpara dizer "não ' ' e "não vou fazer isso': Isso é ge-
ralmente bastante assustador se você foi punido e/ou abandona-
do por dizer "não" . Jon e Laurie Weiss sugerem um método de
três passos para aprender a di~er não.
l . O primeiro passo t opsiste em dizer não privadamenc .e. Di ga
não freqüentemente (20 vezes por dia) em voz alta. Diga não
às coisas que você não quer faze!. Isso o ajuda a sentir a re-
beldia natural de uma criança com dois :anos.
nl PRATICA
PONDO OSEXERdCIOS
CORRE'llVO
S 271

2. O pass.o seguinte consiste em dizer não num contexto semi-


público. Nos seus grupos de te rapia, os Weiss fai:em o clien-
te dizer não e eu não vou :hzer isso em voz alta e ao acaso,
não necessariamente em resposta a qualquer coisa que está
acontecendo no grupo. Obviamente esse comportamento seria
rude em qualq u er outra ocasião. Acho que você deve prati-
car isso com um/a companheiro/a ou grupo . Você pode com•
binar com seu/sua amigo/a a dizer não a tudo que ele/a per -
guntar. Faça isso durante um tempo. Diga não antes de sa-
ber exatamente o que você quer . Os Weiss en corajam se~~
clientes a d1zer não e depo is discu ti rem se q u erem reairue.n-
te ou não fazer alguma coisa.
3. Este é para valer! Você tem de dizer não a alguém de verda .
de. Seu não d·eve respeitar os sentime n tos da outra pessoa
mas não assumir a responsabJljdadepor essessencimencos
Eu gosto de expressar meus sentimentos sinceros e minha op i•
nião sobre alguma coisa que me pedem, mesmo quando não
concordo. Por exemp1 0. meu amigo M.jke récentemenr e me:
convidou para jogar boliche. Eu disse : ' 'Jogar boliche é di-
venido. E não, tenho muito que fazer hoje . Talvez outro dia.''
Gosto de elogiar a idéia . quando ela realmente me agrad a.
Gosto ta°:lbém de dizer e, ao invés de mas. sempre que ~
possível. As vezes eu digo , "Obcigado por me convidar ! E
não , tenho outro compromisso.''

Algvns "não'· são muito mais difíceis do que outros. É difícil


dizer não quando realmente quero fazer alguma coisa ou quan•
do toca uma área vulnerável das minhas carências não resolvidas .
Uma pessoa s.edenta de carinho fisico pode ter grande dificulda-
de em recusar um convite sensu~L
Quanto mais você ajudar sua criança interior a identifi car
suas carências e a ensinar a tomar conta delas, mais fácil é dizer não,
Outro bom modo para reforçar a independência da criança
interior consiste em fazer um c:urso de auto -afirma ção. Esses gru-
pos oferecem segurança e exercícioscuidadosamer:.ce estruturado s
para aprender a dizer nã o. Há também vário s livros bo ns p:u 'l
aprender auco-afirmaçã o. Dois dos meu s favorit os são l'õu.r Per-
tece Righc. de Roben Albeni e Michael Emmon s. e \\1/nen I Sa_1·
l No l Feel Guil rv. de Manu el Smith .

,
Se você é um rebelde, provavelmente, dirá não demais. Vo-
cê pode dizer não quando quer dizer sim. Conversecom sua crian-
ça interior. Diga que você quer proteger os direitos dela. Diga
que ela pode parar de gastar toda sua energia para garanàr seus
direitos . Diga que ao invés de esperar para saber o que ouuos
querem dela para poder resistir, ela pode agora determinar o que
ela quer e o que precisa, e pedir diretamente .

Estabelecendo se u próprio
domínio separad (l

Converse com a pessoa com quem vive a respeito da imporr áncia


de cada pessoa ter as próprias possessões, o próprio temp o e o
próprio espaço separados. Concorde em elaborar um coa junto de
regras pessoais para seu domínio separado. O conjunto de regras
pode ser este:

• Pane do meu tempo que me perten ce, posso ou não com-


partilhar com você.
• Ningutm pode usar uma coisa que me pertence sem minha
pc:rmissão.7'
• Se eu dou permissão para usar uma coisa que me penence ,
espero que você a devolva ao lugar, depois de usá-la.
.• Meu quarto (ou o espaço que tenho) é sagrad o para mim .
(
Quando minha pona estiver fechada ,_por favor, bata e espe-
re minha permissão antes de entrar . As vezes tranco a porta
para garantir minha privacidade .
• Por um determinado espaço de tempo quero negociar meu
lugar especial de trabalho, meu lugar à mesa de jantar e mi-
nha cadeira especial. Estou disposto a renegociar esses espa-
ços em uma data determinada, no fururo.

Outra prática útil para mudar um relacionamento confuso e


co-dependente consiste em fazer uma liscados seus percences.
Cole etiquetas brancas com seu nome em tudo que é seu. Pode
também escreverum horário e pregar do lado de fora da sua
pona. Iodique os espaços de tempo que peneocem à sua priva-
cidade: e solidão e o tempo que está disposto a compartilh ar
com os outros.
0S EXIRCÍCIOS
roNDOEMPRÁTICA CQRREDVOS 2H

Expressão da raiva ~tual

Nossa taiva epane do nosso. poder pessoal. É aenergia-.gue usa-,


o ara ·rote er nossas necessidades básicas. Sem nossa raiva,
_QLtransfurmamosem capàcb..Qs
..O e.bajujagores. Na in ânaa , tâl-
't'.ezvocê.renha sido punido e envergonhado cada vez que de.rnons-
- crou sua ra:iva. Sua criança interioraprendeua não maissc;ncir
~{>pria raivíl,.Com o passar dos anos, ela ficou tão insensib iJi-
za<laque n~ .sab..~us:i; á (.Q • caiyz. -
Pode ter aprendido ta.mbêm a usar o' 'sentimenro (a:quece''
para encobrir sua ra".iva.O sentimento raquete é um seoumenr o
usado para manipular alguém e para stibsricuiro sentimento real.
Sua criança ü:iteriorpode ter aprendido que quando se mosr.rava
magoada e chorava, por ser punida por sua raiva. ela podia con•
s egu ir um atendimento satisfatório qesuas necessidad es. ~ ~~
f.9.m., aprendeuo ~~inl~llW...! .ru:)J.l..C:J
t; - fu .~~da ou rri s-
>equ·a11doesta com i;ruY&
~a é diferente. Quase .sempre, gua nào a crian-
- ça expr.ess.a..s:ua..raiv .que ela se 5,;
,a.J.:u:c.w..cnm oracuá EIa ap ceade
~ue expressgr e désobediênci a. Esse cóm•
raivaé faltade r~s.peüo
ponamentó vai contra o quarto mandamento e é moralmeure er-
tado. Quando a criança ,sente raiv~ dos pais, ela imediatamente
sente-se culpada . Sente que fez uma coisa errada . Grande pane
do nosso sentimento de Eulpaem relação aos nossos pais é, na ver-
dade, raiya disfarç .ad;a. Muitas pessoas. confundem a raiva saud á-
vel com a explosãó volátil e repentina de fúria. que é •resultado da
raiva repümida até o limite máxirnó de contenç,ã0.
A raiva não tem de ser volátil. Em uma escala de um a cem,
os acessos de raiva estão no topo . Em geral, não compreendemos
que a rai:vacom .eça com l:llD aborrecimento ou um nervosismo
moderados.Se fot expressa imediatamente, é d~cauegada com
facilidade. Muitas pess_eas pensam que a raiva é volác.:ilporqu e
nunca aprenderam a habilidade de exp.ressã- .la adequadament e,
Por acreditar que a i:aivaé volátil, sua crian çain i:erior a teme.
lvfui tos adulros criançassão manipulados pela raiva. Eles des.istem
da própria .realidade para evitar que outra p('ssoafique zaogadit.
Ajudando a criança interior a eouar em contato com a pr ó~
pria raiva e ensinando como t::xpressá-la.reduzimos esse me do


274 AOI.Al\
VOLTA

Ela pode apt;ender a controlar a própria raiva. Pode aprender a


ver a raiva dos outros como algo que pertence a eles e pode se
recusar a se responsabilizar por e-la.
Se não ·é conveniente para você fazer um curso de auro-
afirmação, recomendo que pratique a expressão dá raiva do se-
guinte modo:

1. Quando estiver praticando pda primeiravez a expressar sua


raiva 1 afaste-se quando se sentir zangado. Sente e pense no
assunto. Procure 'tet .certeza do motivo da su·a raiva. Esrteva
esse moti-vo,se for necessário. Cenifique-se sobre o que você
quer ou não quer que a outra pessoa (aça. Por exemplo, re-
centemente eu fiquei furioso. Eu pedi ~ um empregado pa-
ra me telefonar e ele concordou. Chegou a hora corribinada,
1.4horas, e ele não telefonou. Esperei 30 minutos. Eu tinha
muito que fazer naqude dia. Às 14h30min eu estava furio-
so. Esperei que a voltagem baixasse, e então passei a uaba-
lhar pal'a expressar minha raiva.
2. Ensaie o que você vai dizer. Em voz alta. Se for possível, en-
saie expressando sua raíva_para um amigo que não tem nada
a ver com. o caso. Eu.ensaiej assim, di•zendo : ''Estou furioso
com voct Pedi para me telefonar às 14 horas, na sexta-feira.
Você di$é: · tudo bem. E você nã.o telçfonou.''

,' 3. Assim que estiver pronto, entre em contato com a pessoa com
quem está zangado. Diga-Jheo quanto está aborrecido e que
quer falar com ela. Marque um encontco.
4. Expresse sua raiva para a pessoa que o ofendeu. Eu costumo
prefaciar minhas expressões de raiva com a afirmação: 11 Mi-
nha raiva, provavelmente contém elementos da minha his-
t6ria e talvez eu não tenha consciência d.isso,mas estou zan-
gado com voce...A "

Às vezes, eu me conscientizo dos deme-ntos da minha história


p-essoal.Nesse caso, digo i$SO pata a pessoa. Por exemplo, eu pos-
so dizer : •'lvieu pai sempre dizia que ia telefonar e nunca telefo-
nava. Estou zangado com você. Eu pedi para me telefonar às 14
horas ...'' Você pode não obter a resposta que deseja da pessoa
com quem está tangado, mas o imponance é expressar sua raiva.


PONDO
EMPRÁUCA CORRFl'IVOS
OSEXERdCIOS

A raiva prccisaser.descattegada o.mais depressa possÍ'vel.Uma


v,eztendo-apr.endido um modo sáudável de exptessar a raiva, faça
isso o mais.-próximo possíveLdo incidente que a provocou. O úoj-
co moti~o pele qual eu sugiro que espere algum témpo é o faro
de qqe é sempJremuito assustadQr qµando começa.mosa apren-
der a expre~sara raiva·. Em razão de terror que en:volvea idéia da
zan'ga, ela geralmente é s-uper-rea-rivae se ·manifesta como raiva

Aprenda a .expressara raiva do passado


Quapdo sua criao_çaintedor sabe que você está ali para proteg é-
la, geralmente a raiva do passado começa a ~ir à tona. Sµa criança
Ínterior pode éstar zangada ainda com coisas que aconteceram na
sua.i'nfâncla. Como defêosbt d.asua criança .interior, vocêquer aca-
bar com o passado. Geralmente oão convém ir direcamenr:e â p~ -
soa que o feriu no passado. A raiva do passado pode ser crab:alha-
da sirnbolicamente . Feche os olhos e -vejasua criança inc.etio1. Per-
gunte sua idade:. Então imagine que vocêestá fiutuandfJ para den-
tro elocorpo dela. A·goi:a., você é uma criança. Olhe para seu adul-
to e seguresqa mão de aciul'to.FJ.çauma âncorafechando seu pua.bci
direico.A·gora, faça aparecei;a pessoa.que provocousuarai\ :a. 'Olhe
atentamente para ela. O que ela:escávestjndo? Diga-lne que você
es1:ázangado com eia.Fique .com o punho fechado o tempo tod o,
Diga-lhe tudo que tem a dizer, respire fundo e .abra a mão (isro
é, desfaça sua âncora). Volte ao seu eu adulto. Levesua criança in-
terior para fora da sala ou do qnarco. Abra os olhos lentamente .
Drga à sua c.cian_çaint.erior que é cena sentir e expressararai-
va. Gara.n:a que sempre estará ao seu líiclopara protegê-la . Diga•
lhe que ela pode ficar .zangada e:que você nunca a abandonará .
Há outros meios para se trabalhar a rarva e o ressentim.ento.
Alguns devem ser usados em um contexto texapêucico. Se tiver
dúvid;i.s, procure um ce.r::apeutaqualificado.

Perigo: uma observação sob.i:e3 fa,iva


O uabalho ,om a raiva deve ser feito sempr-ecom ajuda de um
profissional. A raiva é a zanga abafada peia vergonha. A zanga
abafada pela vergonha cresce em in.tcruldrui~ ç.gi?iL
.Q passar_ d~
176

anos. É orno um lobo faminto preso no orão. Com o cem o


a ene,rgia fica mais intensa e o lobo quer sair do porão :._Q~d Q__
come amos a descarreg !Ç_nossa raiva, ela é rimitiva e difusa. Po-
__ckmos..;gritat_eWY.íU,p__odem_2s _b.ater. e. girar__osbraços em_todas
~
A raiva contém elementos de terror; por isso, quase sempre
gritamos de raiva. A característica que quase sempre conduz à
raiva é sentir-se arrasad o, descont rolado. Nossos lábios cremem,
nossa voz fica entrecortada e dizemos coisas irrelevantes ou exa-
gerad as. Queremos ferir a ouua pessoa. A raiva possui uma qu ~-
lidade de absolutismo . Sentir raiva o tempo rodo e reagic_el@ge- .
.radam~n.~ :.i.coisas ~ m impo n;ânciª-P-ode indicaruma.Jai,:a.mai s_
ruofunda gue _precisa ser trabalhada e resolvida ,._
E prudente temer a raiva - tanto a nossa quanto a dos ou-
uos . Todos os presentes , incluind o você, precisam ser protegido s
quando você trabalha sua raiva. Consulte um conselhe iro para
esse trabalh o.

• Práticado confronto

Se aJguént" está invadindo suas fronteiras, você deve ajudar su2


criança inteâor a se defender da invasão. Gosro de usar um '' mo-
delo de per cepção'' para a prática do confronto. Esse modelo fo-
caliza os quatro poderes que todos nós possuímos para nossa in-
teração com o mundo. Esses p od eres são os nossos sentidos, no s-
sas emoções e nossa vontade (ou desejos e ne cessidades). Eu uso
mensagens do' 'Eu'' para transmitir a verdade da minha percep-
ção. Essas mensagens são afirmaçõe s auto -responsávei s. O mod e-
lo completo é assim:

Eu vejo, ouço, et c.......... (sentido s)


Eu interpreto .... . .. ......... (a mente , o pen samento )
Eu sinto.............. . ..... .. (em oções)
Eu quero .. ................. .. (des ejos)

Exemplo: Joe e Susic: foram ao seu clube de dança da quadrilh a.


A criança interior de Susíe está aborrecida porque Joe escolheu
uma mulher muito bonita para dançar uma das danças que Su-
sie não tinha aprendido aind a. Naquela noite Susie diz a Joe :


PONDO
EMPRÁTICA
OSEXERÓO0S
C0RJ\EllVOS 11·

' 'Eu vi você escolher Sarah Lowpara dançar. Eu ouvi vocês dois
rindo baixinho. Eu intecpreteí issocomoprovade que você se sr:nte
auaído por ela. Eu me senti assuscadae abandonada. E eu quero
que você fale a fr:speirodisso comigo."
Joe disse que achava Sarah bonitinha e gostava do modo rom
que ela dança'la. Disse também a Susie que a amava (Susie) e
que preferia estar com ela. Disse oue queria ensinar a ela o novri
passo para dançarem juntos por mais tempo.
A criança interior de Susie não gostou de saber que Joe achava
Sarah Low bonitinh a. Mas sentiu-se rnuico mais segura. Ela cem
d=aprender que ser norm ci1implica as auasco1s:;s.Jo:: pocie am:::
Susie e achar Sarah Low bonitinha .
Joe age com segurança e responde carinhosamente. Nem sem-
pre isso acontece nos relacionamentos. Pode acontecer qualquer
coisa. desde uma atitude defensiva, até a raiva quando confron-
tamos alguém. A não ser que se trat e de um ae-ressor víolent 0.
o c_onfro~to é muüo impon anre quando nos aborrecemos com
uma pe-ssoa especial na nossa '-lida. O confronto é uma atitud ~
nonesta e cria a confiança, po nan to, é:um aro de amoc. Quana c,
confronto alguém , estou me valorizando e decermJnando uma
fronteira. Estou também valorizando e confiando na pe!-súaqu:i.n-
do digo o que estou sentind o.

Pensamento de polaridade
Pensamento de polaridade é p ensamento sintético. É difc,ente do
pensamento de polarização ao qual me i:cferiantes. Vocêdeve en-
sinar o pensamento de polaridade à sua criança interi or.~cobu -
ma pessoa ou situação é só boa ou só má. O pen sament o de pola-
ridade nos permite ver as ''as duas coisas" da vida. Na Nova Re-
gra 5. recomendo que você confronte o absolutismo da sua crian -
l,-a interior. O pensamento de extremos é devastador para os rela-
cionamen tos de adu ltos. A criança tem o direito inato e natur al
de esperar o amor incondicional dos pai~, mas nenhum adulto pode
amar oucro incond.icionalmeote._Pormaissaudávelque seia o amor
çnuea.dulros. é sempre condicional.Com adulros, nosso amor dt -
pende sempre de cerr:i.scondições. Nenhum companheuo é per-
feito, nenhum cuidará sempre de nós nem estará presente para nós
em -rodos os momentos. Muitos de n ós somos volúveis. ocasio-
278 110ID.ADLAR

nâlmente. Aprender que a realida4c:cónsiste cm ambos/e é o iní-


cio da sabedoria. Aprenda a ver as qualidades eas deficiênciasdas
outras pessoas. Digaa si mesmo que todas as coisascriadassão mais
e são menos. Lembre-se, não existe luz sem trevas, nem som sem
silêncio, alegria sem tristeza, nem segurar sem largar.
Nossa criança interior gosta de ver as pessoas como deuses.
Faz isso por próteção. Devemos dizer a ela que não existem fadas
madrinhas, Sempre que fazemos de alguém nosso gu11,1, estamos
nos diminuindo. Diga à sua criança interior g_uevocê vai ser seu
~µ sou.o mago gentile,.sábio
,g.1,u11. do mey.J9ã.ozinho_..

Regras da luta limpa

A s regras que eu gosto são:


l , Fique no agora. Lute por aquilo que acabou de acontecer, não
por uma coisa que aconteceu há 20 anos.
2. Evite a contagem âe pontos . Nossa criança interior gosta de
guardar as coisas e, mais tarde, atirá-las contra as pessoas.
;,,
3. Atenha-se ao detalhe comportamental específico e concreto.
A criança interior funciona melhor com o que ela pode ver,
ouvir e tocar.. Dizer a alguém, '' Você me enoja'', não tesolve
, nada.
4. Seja rigorosamente honesto. Prefira a verdade à discussão.
5. Evite culpar e julgar.A culpa e o·julgamc:nto são disfarcespa-
ra a sua vergonha. Limite-se às mensagens do Eu e use o mo-
delo da percepção.
6. Use a regra da audição; repetindo para a pessoa o que você
a ouviu dizer(de forma que ela não possa negar) antes de co-
meçar a responder. A criança interior raramente era ouvida.
.Ela age baseada na vergonha e na defensiva. A regra da audi -
ção faz milagres quando duas pessoas se comprometem a
usá-la.
7. Evite discutir sobre detalhes: "Você ·está atrasado 15 minu-
tos.'' •'Não, nove minutos.'' A criança interior em idade es-
colar, concreta e literal, adora discutir detalhes.
POND osEXERdaos COR.R.ET
OEMPRÁTICA JVOS 279

8._Nãó sufasçe.a nãoser.quesuacriança, inre,rior


este,jasendo
agrediga. Se você está sen do agredido , sempreretire-se ou pro-
,(cure prote ção.
9. Eu ensino à minha criança interior a seguinte fronteira em re-
lação a conflitos. ''Eu não vim ao m u ndo para ser medido por
suas fantasias, crenças ou expectativas. Não serei medido ou
contro lado por eles. Se tivermos um conflito, vou ficar firmt:
e lu tar limpamente. Peço a você para faze r o mesm o. Se você
se tornar abusiv o sob qualquer aspecco, eu vou emb ora."

Estabelecendo novas fronteiras


Ensino à minha c(iança incerior a seguinte declaração de estabe-
lecimento das front eiras físicas: ''Eu tenho o dfrei co de decermi-
nar quem pode tocar e111mim. Eu direi aos outros quando ec o-
mo podem me tocar. Posso me ret.rair do conta to físico sempre
q ue m e parecer pouco segur o. Posso fazer isso sem or,_c1sarexpi;.
car. Jamais àeixarei que ninguém viole meu corp r :;.não ser qu e
minha vida esce;a em perigo.' '

Praticar para ser genioso e teimos o


Faça isso especialm ent e quando você deseja muito alguma coisa.

Aprender a mudar de idéia


Faça isso cinco ou seis vezes po r dia quando estiver praticand o
as carências da sua crian ça 1ncerior qu e começou a andar .

EXERCÍCIOSPRÁTICOS PARA A IDADE


PRÉ-ESCOLAR

Sua ·crian ça inte rior em idade pré-escolar rem várias tarefas jm.
panantes para realizar. Precisa estabelecer o alcance do seu pode r.
280 VOIIA
AOLAR

definindo a si mesma. À medida que sua mente e sua imagina-


ção se desenvolvem, ela começa a pensar .sobre suas experiências ,
acrescentando, fazendo uma porção de perguntas e chegando a
algumas conclusões sobre sua identidade sexual. ·Ela.usa a imagi-
nação para criar imagens da vida adulta. Imagina como é ser a
mamãe ou o papai, como deve ser trabalhar e fazer sexo.
Ela precisa se unir ao progenitor do mesmo sexo para se amar
como homem ou como mulher .
Tonto o menino quanto a menina, na idade pré-escolar, pensa
sobre uma variedade de coisas e começa a formular uma cons-
ciência primitiva. A forma ção da consdência le't'a à compreen são
de que urnas coisas são cerras e ouuas são erradas . lsso 1 por sua
vez, conduz à expeci'ência da culpa. A culpa é a emoção que pro .
tege nossa consciência .

Fazer muitas perguntas


A criança interior -ferida opera :a partir do transe familiar. Ela aceita
as palavr~ das pessoas sem pedir expljcações. Ela pensa, adivi-
nha , analis':i ~ fantasia seu caminho pela vida. Às vezes, age co-
mo se soubesse tudo porque foi envergonhada cada vez que co-
metia o menor .mo. Aprenda a reconhecer o fato de que sua crian-
ça interior está confusa. Aqui estão alguns exemplos dos sinrus
, de confusão da minha c:riança interior. Uma coisa pode me fazer
' sentir tristeza ou felicidade ao mesmo tempo. Dois componamen-
ros opostos parecem ter méritos para mim . Não sei ao certo o que
outra pessoa quer de mim. Não tenho certeza dos sentimentos
de outra pessoa. Perguntam o . que quero e eu digo que não sei.
Qu~do a sua criança interior está confusa, escreva o que a
está confundindo; por exemplo , eu me sihto feliz porque termi-
nei um relacionamento . Sinto-me também uiste pelo mesmo mo-
tivo. Pergunto a mim mesmo: ''Qual é a origem da minha felici-
dade?" A reS(>OStaé que estou livre para começar um novo rela-
cionamento. E bom sair da rotina . Sinto-me triste porque lem-
bro dos mómcntos bons que passei com aquela pes~oa.'Posso lem-
brar também os momentos ruins. Não há nada de errado em sencir
felicidade e tristeta ao me •smo tempo. É comum termos senti-
mentos diferentes sobre a pessoa. Escrever essas perguntas ajuda-
me a esclarecer minha confusão .


PONDO-EM osEmdoosCORRrnVOS
PRÁTICA 281

Se você está confuso sobre os sentimentos ou necessidades


de outra pessoa, faça pergunt as a ela até esclarecer sua confusão.
Ela também pode estar confusa sobre os próprios sentimentos.
Apren_gª-.~fazermuitas__perguntas
. Ensineà sua càança in-
terior que não ê fácil_e,nte[ld~r os outros. Ninguém 110 mundo
çntende a m~ma frase da mesma ™ cira:_Fazetperguntas é um3:.
permissão importante que devemos dar à nossa criança interior.

Esclarecendo as comuni cações

Em um relacionamento importante, combine com seu cornpa•


nheiro ou compa nheira determinarem um tempo para esclarecer
suas comunicações. Pratiquem dois tipos de auclição:ouvir o gra-
vador e ouvir acivamente. Ouvir o gravador ê simplesmente re-
petir para a pessoa as palavras que você ouviu dela. Eu uso um a
fórmula simples. "O que eu o/a ouvi dizer foi... Esrá ceno ?"
Ouvír ativamente consiste em ouvir com os olhos! Você ou-
ve as palavra.5,mas olha para os sinais de sentimentos na pessoa.
São sinais manifestados pelos movimentos dos olhos, expressão
facial, tensão muscular, variaçõesno tamanh o dos lábios. padrões
respiratórios e outros sinais físicos. como a postura.
Com a audição aciva, você percebe tanto o processoda pes-
soa, quanto o conteúdo da sua comunicação. Na verdade, sua
criança 1nteciof cem muita prática em_petcebec os pr:occ;ssos,,.das
,;
pessoas. Mas faz isso inconscientemente.
Pcacicando a audição ativa, você pode se tornar mais cons-
ciente do pi:ocessoda outra pessoa. Ouvir também nos ajuda a
yerificar o gu~ elª- está dizendo . Poucos de nós vimos esse upo
de comunicaçãocomo modelo nos nossos sistemasfamiliares. Mui-
tas vezes~n ho tratãdo com pessoas que se ap6iam em adivinha-
ções e em suposições não verificadas. Qua ndo essas fantasias são
tratadas como faros, aparecem sérios problemas no relacionamento.

Percepção dos próprios sentimento s

Lembre-se de que os sentimentos são nossos motivadores bioló-


gicos primários. O que você sm em um dçcerminaçlo.,mpJ.Tient o
....é...a ealidadi: oaguei e, momento $na cnanç3......
..po.oco~ nt!aJ_gi.JY.a,L


'282

~rior teve ~SS sentime ntos tão a ~ionados _pela ye,rgonható-


,xicaque scw;irg,yg[queIcoisaé sentir vergQ_nqatóxica. Aqui es-
tão algumas sugestões para encorajar sua criança interior a sentir
e expressarseus senamencos com segurança.
Durante 21 dias, passe 30 minutos diários apenas notando
o que está sentindo . Para ajudar meu J oãozinho a sentir seus sen-
timentos , uso a técnica da terapia gestalt do exagero. Se percebo
que estou uisre, deixo meu coSto demon strar tri steza e até fin jo
que estou chorando. Se percebo que estou zangado, exageroa raiva
no meu corpo, fecho os punhos ou, se meus dentes já estão cerra-
dos, cerro com mais força. Solto rosnados em voz baixa. Às vezes,
soco uma almofada.
Eu também dou palavras aos meus sentiment os. Pergunto
ao meu sentime nto o que ele quer dizer. Então, digo em voz al-
ta. Deixo que meu Joãozinho expresse a emoção com a maior força
possível.
Não deixe de fazer esse exercício com sentimento s de felic:í-
dade e prazer também . Se você está feliz e sorridente , sorria mais
ainda. Grite de alegri2.. Pule e dance . Use esta récnica sempr e
que perceber um senti ment o em um ambiente apropriado para
expressá-lo, (Não no meio de uma reunião de negócios.)
Ouvir r:qúsica,ir ao cinema ou assistir a um show na televi-
são podem dClonar fortes emoções. Algumas vezes somos apa-
nhados de surpresa porque, a princípio, a emoção parece não
ter nenhuma rda ção com o que a provocou ou é exageradamen-
t:e intensa. Em vez de ignorar o sentimento, respire fundo e en -
tregue-se a ele. Exagere o sentimento fisicamente na medida
do possível Expresse verbalmente o que está sentindo do modo
mais completo possível. Quand o terminar, pense sobre ele. É
imponancc: eStacconsciente de que está pensando sobre seus sen-
timentos. Sua criança.interior, muitas vezes, confunde sentimentos
com emoções. Enumere as emoções para sua criança interior .
Afirme e apóie a emoção e: diga à sua criança inte rior que é
cerco senti -la . ~

Estabelecendo fronreiras emocionai s

Gosto de dizer à minha criança interior que ela tem o direito de


estabelecer as próprias fronteiras emocionai s. Digo o seguínre :
PONDO OSEX.ERciqos
EMP&ÁTIGA CORRETIVOS 283

''As emoções não são cenas nerzyerradas. Elas simplesµ1entel


S:áo. O que você sente a:meu i:espeho é sobre suahiscória emocio-
nal ,Q q1;1eeu sinto. por você é sobre minha bistólia emodonal .j
Eu_respeito,suas•çmoçõese dou valor ã elas e peço que façã o
mesmo com as minhas. Não serei manipulado por sua raiva, sua
-rris~~z.a, medo ou alegria.' '

Estabelecendq fronteiras sexuais

A identiê.1de sexuru é um do~ hue ress~ orincipa.is das crianca.. ~


em idade .pié-escoiar, em bera não sejam muito .sofisticadassobre
Q assunto. A energia vital é energia sexual e faz com que o pré-
esc.ôlar descubra 0s limites do seu poder, estabelecendo uma auto -
definição, uma iáentidade. Essa ic:l.enti .dade sexual é o cenuo da
nossa verdadeira iaentiâad e. 0 sexo não ê uma coisa que temos.
mas o que somos. As crenças çia sua cdança interior sobre sexu~-
lidâde são forjadas pa marriz do gra.a de intimidade funcion al
do casamer.u.Jdos pais. na un.tão da criança com o progenícor d o
mesmo sçxo. e no que os -pais acreditam sobre sexo. Se você não
explotpu sua sexualidade, ê importante que o faça agç,ra. Sua cóao-
ça interior está sobree:.arregadade injuoções dos pais sobre sexo.
Ela precisa que você determine suas frooteiias sexu.iis e não a.e
ésqueça. Eu acho útil esçrevcr essas fronteiras, uma ve:zque es-
crever nos ajuda a esclarecer as coisas. F.açaprimeiro uma lista de
tudo que você acredita sobre sexo. Inclua coisas como freqüência
do 'ato sexual, a hora c.erta para fazer sexo, o alcance dos c0mpor -
tamentos sexuaispermissíveis,conversasobre sexo,comportamento
sexual perverudo , as carícias antes do ato sexual.. a resposta mas-
culina, :aresposta feroinima.Ao Jado de cada item. esci;evaa ori-
gem da sua opinião. Por e:xemplo,se logo abaixo da coJuna para
COrJ:lpotramento·sexµal pervemdo 1 você escreveu sexo oral, per-
gunte a si mes.mo quem disse que o sexo otal é urna perversão.
Se sua re~posranão for sua própria experiênciaou sua escolha pes.-
soal, v,ocêdeve experimentar seriamen.te esse componamento. De-
\ternos ajudar no..ssacriança interior a estabelecer noss:is crenças
sobre sexo, desenvolvendo um a consc.iência informada. Isso sig-
nifica o uso da nossa experienda de adultQs ~ a análise e·a coosi..
àeração pruàenre das tradições culcµrais e espirituais que nerda-
mos. Para mim , parece óbv:i9que um m!nimo de padronizaçãc-
284 YOl!AAOLAR

poderá proibir a exploração e/ou a violentação de ouua pessoa.


Isso dá margem a um grande número de experiências sexuais per-
feitamente apropriadas entre adultos . Cada pessoa deve escolher
as próprias fronteiras sexuais.
Aqui está um exemp lo de uma declaração escrita para suas
fronteiras sexuais: ''Eu escolho com quem quer o fazer sexo. Te-
nho direito de determinar como, quando e onde quero fazer se-
xo com outra pessoa. Minha única exigência básica é o respeito
por minha dignidade e a do meu/minha parceiro/a . Sendo as-
sim , jamai s farei qualquer coisa que possa violar ou explorar a
mim ou ao/ à meu/minha parceiro/a.'·

Liberando a imaginação

Muitas vezes a criança interior fica desesperançada. Essa desesp e-


ranç a é o resultado do esm~amenro da sua im aginaç ão quando
era muito pequena. Pode ter sido chamada de sonhadora , ou pode
ter sido enverg onhada por imaginar as coisas. Reserve período s
de ·tempo regularmente para visualizar durante 30 minutos no -
vas possibilidades para você e para sua vida . Embarque em uma
viagem de fanwia. Seja o que você quer ser. Come ce sua fanta-
sia com " E se ...'~ Escreva suas fantasias, quando terminar. Com
o passar do tempo algumas imagens podem se repetir . Não as
ignore! Uma declaração escrita para suas fronteiras pode ser as-
-sim: "Eu posso e vou visualiza r meu futuro , por mais estcanha
que essa visão possa parecer para você.' '

Confronto com suas expectativa s mágicas

A mágica é diferente da fantasia. A fantasia é um a:to da imagi-


nação. Mágica é a crença de que cena s comportamentos , pensa-
mentos ou sentimentos podem realmente fazer com que as coj-
sas aconteçam no mundo, quando não existe nenhuma relação
real de causa e efeito . ''Diga a palavra má gica•·, é uma jnjunção
comum dos pais e a criança interior ferida está, rnuiras vezes, re-
pleta de mágica. Ela pensa que se for um a cozinheira perfeit a
e boa parceira sexual, o marido vai parar de trabalhar obsessiva-
mente , ou de beber , ou de jogar . Ele pensa que se trabalhar ob-
l'ONDOEMPMUC..li.
osEXERdoos
CORRETIVOS 1Sí
. '

sessivamente e fizer ~uito dmheiro, ela automãticameoce será


feliz.
"Teptar" é outro compo ,namento mãgico. Muitas crianças
feridas aprenderam que se você rent:fr com afinco , não precisa
fazér.Em te.rapi1, ·•'tentar . é morrer ' ·. Muitas vezes, depois de pas-
sar um dever de casa para um cliente, na terapia, ouço sua ccian-
Çá interior dizer, cimidarnente , "Vou tentar." .Eu sei que issosig-
nifica que nã:ovãoÍaz.er . À$vezes exe111pl ifico essa autude dizen-
do; ''Tentem sair da cadeira." Quando eles começam a se levan-
tàJ, eu digo : " N ão. sentem e renretn sair das suas.cadeiras." De-
pois.de algL:n :~rnpu eits ;::~ccectm o oµe e:;rou dizendr,. vo,:-
sai da cadeira ou \ '()Ce nfü:1sai. tv1asvocê não tenra sair.
O casameoco é quase semore um acontecimento m ãgico para
à criança incerí'or. Ela pensa : ''Se eu casar, rodos os meu s proble-
mas desaparecerão . ;,e eu conseeui r me casar, serei fe.Jiz..'· Tira r
um diploma, com ur ar um a e:~a. cer um filh o. um a pi scin a.
a,paixonai-se e ter um a ren da suoerior acima aa média são ourras
formas de má gic:.. · ·
Pa,ra defr.nder :;: ;;1, crian ça 1n:etiot, você d,eve de~afiar cacill
uma das crianças m:.1g ici1sda i"nfãnci:LA vida€ difícil, Papai Noe l
não ele.isce,não há nínguém pa r-a beijar a esfolad.ura n o íoelh o'
.rl maior parte -dn temp o, aão é justa.

Aprenc;la a amar a si .mesmo co,cµo homem

É impon:mre pa,ra·o homem se·ntir-se como homem. lss0 é ver-


dade, independente da sua oúentação sexual . Acredito ·que, pa -
ra sentir-se como homem , nossa criança ínceríor precisav,aser ama •
da por um homem. São tantos os que perdem o pai. Eles deser-
tam os filhos , física ou emocionalmen~ç. Mortem cedo , na g,ucr-
.i;a,em •acidentes. ou por doenças. Morrem psicologiéameote sob
o peso de um mundo desumaniz.ador, Nosso menino interior nã 9
!eve um pai para se unira ele, por isso jamais se desfez o elo que
o unia à mãe. Sem essa união com o pai, ele jam;ús s-entiu o amo r
de homem. Assim, como poàe amar a si mesmo con10 homem ?
Corno resultado, ou ele procura mulheres maternai s q:iando esnl
sofrendo , ou continua aconsol;u mulheres carences , ou enrão faz
um pouco de cada coisa. A perda do pai é o feiimento do h o-
me m . Não pode ser curada p qr uma mulher.


286

Você pode trabalhar pata corrigir essa perda, encontrando


outros homens para compartilhá-la com você•. Esse tipo de rela-
cionamento tem de ser muito diferente da camaradagem normal
que consiste em óruais competitivos e conversas sobre conquistas
amorosas . Esse noto relacionamento deve quebrar os padrões no
nosso scripcmasculino cultural. Exige que sejam vulneráveis um
com o outro - compartilhando témores e desapontamentos . Es-
sa partilha de vulnerabilidade cria uma união verdadeira de amor
e intimidade. Nessa união podemos ver a aceitação refletida nos
olhos de um hómem. H qu,àndo esse all)or e essa :valorizaçãosão
interoalizados, começamos a nos amar como homen s.
Atualmente existem alguns homens na minha vida que me
amamtealmente . Sinto-me unido a eles. Posso ser vulnerávelcom
eles. Conto a eles rnéus temores, choro na frente deles , compar-
tilho com eles meus sucessos. Eles dizem que me amam. Eles me
abraçam . Seu amor e atenção tiveram grande impacto no meu
Joãozinho. Ele se sente mais como um homenzinho de verdade .
Eu me sinto como um homem .

Aptenda a amar a si mesma como mulher


'

Para amar a si mysma como mulher , a menina precisa ser amada


por uma mulher . Isso não tem nada a ver com orienta ção sexual.
.Tem a ver com a essência do seu ser. Muito já foi escrito sobre
, mães fracassadas com() mães. Esse fracass<;> tem maior impacto nas
meninas e é devJdo especialmente à falha na inrimidade do cas·a-
mento. Em razão dessa falha, a mamãe é frustrada e solitária . Ela
pode voltar-se; para o filho e fazer dele seu Homenzinho, rejei-
tando a filha. Ou pode se "oltar para a filha e usá-Ja para preen-
cher seu vazio. Nessa: situação confusa, a filha não pode ser ama-
da por si mesma. Ela adota o eu solitário e cheio de vergonha
da mãe , que só deseja o amor do marido.
Quando ·a menina não tem·o amor saudável da mãe, ela cresce
sem experimentar O$ aspectos cruciais da sua identidade sexual.
Por isso tantas mulhetes têm o pensamento mágico de que só V-a -
Jem como mulheres quando um homem as ama. Sê uin relacio•
namento termina, entram em pânico. Apréssam,se a formar ou-
tro relacionamento para se sentir bem. Se esse-é o seu caso, você
precisa deixar que sua criança ferida experimente o amor de u.ma
PONDO
-EM
PRATICA
OSEXERciO0S
C0RRETIVÓS 287

mulher. Encontre duas ou três mulheres dispostas a serem vul-


neráveis com vo cê. Não tentem ra,zer terapia uma com a oucra .
nem resolver os ,problemas. Apeaas estejam todas ali, apo iand o
umas às out1asna_procura do eu verdadeiro.A"Smulheres. natu-
ralmente se lµlem tendo como base a vulnerabilidade. Geralmente
o. cio é a vitimização comum. Sua menina interior precisa saber
que Eem você para; ajudá-la a se to rnar independente . Ela precis a
sabét que pode conseguir isso com você e com seu grupo de apoi o,
que não precisa de um homem para ser feliz .. Ela pode querer
um homém na sua vida. como oarte da su'l tend ência feminin a
na·tur aJ par ...o sexo(: c:.n..ta uruão ,~ 1;. :.:~ ho.n e:r.. Mas re: a :nõ..l G.
probabilidade de conseguir isso se for auto-suficiente e indepe n-
dente. Seu grupo o e apoio oe mulheres estar-á ao seu lad0 en-
quanto você pr ocur a atingir seu obj etivo.

Confronte sua culpa tóxica

::o.mo jâ acentuei , pr ecisam o·~ a ·a cuip asa udável para formar um a


consciênci;t e para aet errninar os limites do nosso comporram en to.
Sem ela, sedam os sociopatas, Mas acriançafetida carre ga com eJ:i_
uma grand e quant idade de culpa tóxica. A culpa cóx,ícane ga a vocc
o direito de ser seu eu único e intensifica o ferimento espirlru al.
A culpa tóxica apreseõta-se sob duas foonas . Uma , é o re-
sultado de vive.1;em um sistema familiar disfuncional. Cada pes-
soa nçsse sistema tem um papel rígido para manter o equilíbri o
do sistema. Se uma pessoa tenc;a desistir do p.apel que desemp e-
nha, a família se revolta e a cobre de vergonll,a. Se a pessoa tenta
àeixar a família, para ter uma vida só sua 1 é ,coberta de culpa.
O melhõÍ meio de enfrentar essa culpa é ajudar sua cüança feri-
da .a abandonar seu papel ou papéis rígidos no sistema. Use os
métodos já descritos. (Cap1tu,lo 10, pâgs . 245 e 246),
A segunda forma da culpa é resultado da .raiva de s.i mesm o
C'raiva retroflexiva ' ') , Sua criança interior fei:ida m9 itas vezes ci-
nha raiva dos s.eus pais, mas não podia e::{ pressar essa raiva. Con-
sidere a cena se:guinte:
Dizem ao pequeno Farquhar , com u ês ano s, que está na .ho ra
de ir para a cama. Ele está eriuécido com um brinquedo e se ài~
verrindo muito . Ele diz para a mãe, ''Nio , eu não vou.' ' A m ãe
o apanha no colo e o leva para a cama . Ele esperne ia. ésoraveja


288

e grita para a mãe ., ''Eu te odeio!'' Quando ouve isso, o pai levanta-
se de um salto e agarra o pequeno Fatquh.ar. Zangado, diz ao me-
nino que ele pecou contra o quarto mandamento de Deus, '' Hon-
rar pai e mãe ," O pequeno Farquhar fica apavorado. Ele violou
uma regra de Deus! Àgora, sente-se zangado e culpado ao mes-
mo tempo. Com o passar dos anos, para aliviar a dor da culpa,
ele faz o que pensa qué os outros querem que faça - mas sem-
pre com um profundo ressentimento.
Para trabalhar essa culpa, você precisa •expressar diretamen-
te a raiva que a originou . Use a técnica da imaginação descrita
na pág. 274 para se livrar d:1 velha zanga. Separar-se do pai ou
da mãe que originou o sentiméoto de culpa, por meio do traba-
lho eom a dor óriginal também pode ajudár.
Vocêpode reforçar esse trabalho ·conscíentizando-se do mo -
do co:m_oessa culpa tóxica foi formada em incidentes específicos.
Faça uma lista dos acontecimentos da sua inf ância que o fizeram
sencir,.se culpado. Compa,re seu comportamento . com 0s compor-
tamentos normais para o nivd de idade específico descritos na
pane II. N-am3,ioria dos casos vai descobrir que você agiu de mo-
do próprio à idade- seu comportamento saudávelfoi condena-
do e julglKio culpado. Rcpíta esses acontecimen tos na sua imagi-
nação e afirme seus cfueitos. O pequeno Farquhar pode dizer:
' 'Ei, sou apeaas um menino normal de trés anos que gosta de
brincar. Estou tentando determinar minhas fronteiras.. Escou zan-
gado com você por estragar minha b~incadeira.' ·
Finalmente, convém dar especial atenção aos sentimentos de
culpa resultantes de violação ou abuso . Sua ci:ia:nçainte.rior ego-
cêntrica, na maioria das vezes, petsónalizoii o abuso a que foi sub-
metida. lsso é drimaticamente verdadeiro para os que, quando
criançaS, foram vítimas de incesto e de mãus-rratos físicos.
E:xain.ínetam'bêm as maneiraspelas quais vocêcriou um sen-
timento de culpa devido às necessidades do seu sistema familiar.
Um cliente meu ternou -se o guardião da mãe qu~do o pai aban-
donou a familia. Sua criança interior sente-se culpada sempre que
a mà.e precisa de alguma .coisa, o que aoontece o t~mpo todo. Ele
me disse que sempre que ele está em uma situação difítil ou sob
tensão, imagina o que aconteceria com a m ãe se ela tivesse de
enfrentar essa siruação. Sua cdanra interior só esrá bem quando
sabe que a mãe está feliz. Uma vez que ela raramente está feJjz,
ele se sente culpado quase o tempo todo .
PONDO osl!XERdaos
EMPRÁTICA coRRi'lT\bs

Uma cliente conseguiu manter o casamento dos pais. Ela


teve um distúrbio gtave de alimentação que começou um pouco
~epois da mãe ter um . ''caso'' e o pai ameaçar pedir o divórcio.
A medida que a anorexia dela se agravava, a mãe e o pai fize-
ram as pazes e se uniram, ligados pela preocupação com a saúde
da filha. Conversando com ela, descobri que essa mulher tem
um profundo sentimento de cuJpa a respeito de qu ase cudo
em sua vida. Mas sentia -se especialmente cuJpada com a possi-
bilidade do divórcio dos pais. Sentia-se responsável pelo casa-
mento deles.
Nos dois casos, é essencial fazer o tr abalho da dor origin2.l,
descrito na pane 11.Você deve dizer continuamente à sua crian-
ça !nter ior que ela não é responsável pela disfuo cionalidade dos
pa.ts.

EXERCÍCIOS PARA SUA CRIANÇA INTERIOR


EM IDADE ESCOLAR

Quando sua criança interior entrou na escola, ela deixou o am -


biente bastante limitado da família e passou para a maior famí-
lia da sociedade . Para uma adaptação saudável , ela devia realizar
duas tarefas principais. A primeira tinha como centro o desen-
volvimento das aptidões soc_iais: interação e cooperação com as
crianças da mesma idade, e ser equilibradamente competitiva para
poder ter prazer com a vitória e saber aceitar a derrota .
A segunda tarefa era adquirir os conhecimentos necessários
para seguir uma carreira que , mais tarde, vai garantir sua sobre-
vivência econômica.
Precisava aprender também que as pessoas fora da sua famí-
lia são, quase sempre , diferentes. Pertencem a grupos étnicos, re-
ligiosos, políticos e socioeconômicos diferente s. Ela devia encon-
trar sua identidade única em relação a todas as diferenças que
experimenrou na interação com essa sociedade maior.
Se você acha que sua cciança interior foi ferida ne sse escágio,
aqui estão algun s exercícios que pode fazer.

,
290

'Façaum inventário das aptidões


Faça uma lista das aptidões que você já possui. Em seguida ,
faça uma lista das que não possui - aquelas qu e facilitariam
sua vida. No meu caso, gostaria de ter estudado minha gramáti -
ca inglesa. Eu consegui passar só porque tinha uma boa memó-
ria e escudava como louco para os exames. Se você leu meu
primeiro livro, deve ter visto como lutei com a gramática. Tam-
bém nã o tenho aptidões mecânicas (sei trocar lâ mpada s, e isso
é tudo).
Escolha uma área que o ajudaria mais e faça uma destas du as
coisas, (a) entre para um curso da matéria ou (b) peça para aJ.
guém lhe ensinar essa aptidão.
É também importante repetir para sua criança interior que
sgrande pane da vida é baseada nas aptidõe s aprendidas . Geral -
men te. ela pensa que as pessoas têm sucesso na vida em razão
de algum '' poder mágico'' . Precisamos dizer a ela que usualmente
as pessoas estão na nossa frente porque tiveram 1nodeJos melho-
res e praticaram mais quando eram jovens. Di ga constantemente:
à sua criança interior que ela não tem cenas aptid ões porque nin-
guém as es.sinou . Com você como seu defensor. ela pode aprend ê-
las agora . Cci'nheço uma mulher cuja criança interior foi libert a•
àa quando seu,eu adulto enfrentou a voz interior cheia de vergo-
nha que dizia : '' Acho que não sou atraente para os homen s.''
, E ela disse: ''Você nunca aprendeu a flertar e a demonstrar inte-
, resse por um homem.'' Essa nova atitude deu à criança interior
a confiança necessária para pedir conselho a uma mulher mais
velha e experiente. Passaram uma noité divertidíssíma e ela apren-
deu várias "dicas" que tivetam ótimos resulrados .

Faça um inventario das aptidões sociais


Faça uma lista das aptidões sociais que você precisa aprender. São
aptidões que facilitam a vida em reuniões sociais, no escritório ,
para conhecer pessoas , para ser mais po lítico, para ser bom en:;
" conversa,; banais" e assim por diante .
Examine as aptidões um a a uma e encontre um modelo qu e
saiba usar todas das muit o bem . Preste atenção no que ele ou
ela f:1:z..
Tome notas .


POND
,OEMPRÁTICA
OSEXERdCIOS
CORRETIVOS

Atenção para os detalhes. Quando tiver alguns dados sobre


aquela pessoa. durante 15 _a aominutos , imagíne que ela está
fazendo tudo que você quér fazer.Escolha uma dessas ativida-
des, formandouma pequena moldura de componamento. Ob-
serve aquela pessoa fazendo isso e faça uma âncora. Então, man-
tendo a âncora, veja você mesmo fazendo a mesma coisa. Faça
outra moldura e repita o processo. Faça isso durante mais ou me-
nos wna semap.a. Encão, vej.a você mesmo.fazendo toda á seqüên-
cia, Pratique durante alguns dias . Então faça o teste. Pode usar
esse método para aprender qualquet aptidão social. Este exercí-
cio é uma variação do exercic.io de NLP que você já fez ante s.

Identifica,ção dos valores


Seus. valores são as suas fronteiras intele ctuais. Sua criança inte-
rior, geralmente, não sabe ,no que ela acredita, porque sofreu coer-
ção é lavagem ·cerebral ·na escola e na igreja.
O livro ValuesClari.icar.ion.
, de Sidney Simon , Leland Howe e
HowardKirschenbaum é um clássiconessaáre~ Essesautoresafum:un
que um valor não é um valor se nã:o tiver sete ekmenros, que são:

l. . Deve ser escolhido.


2.. Deve haver alte.rnativas.
3. Você deve conhecer as conseqüências da sua escolha.
4. Uma vez escolhido, . você o respeita e admira.
5. Você está disposto a proclamá-lo publicament.e .
6. Você àge de acordo com esse valor.
7. Você age de acordo com ele, consistente e repetidamente.

Faça uma lista das suas crenças mais queridas - seus dez man-
damentqs , Depois , avalie todas elas de ~cordo com a lista e veri-
fique quanta .s delas satisfazem os c~rit.étíos de valores acirna.
A primeira vez que fiz esse exerc1cio,fiquei chocado e um
pouco deprimido. Poucas coisas em que eu acreditava podiam ser
consideradas valores.
Usando e~sescritérios, você pode começar a tra:balhar na for-
mação dos seus valores. Pode conservar os que já tem e começar
á rtocat o que você não quer. C;ríar novos valores é um trabalh o
interessante para vocé e pa(a sua ciiaoça ínrerior .
VOLTA
AOUR

Determinando as 'íronteiras intelectuais

É importante ensinar sua criança interior a dizer:

Eu tenho o direito de acreditar em tudo aquilo que acreditá.


S6 preciso aceitar as conseqüências das minhas crenças. To-
das as crenças são parciais. Todos nós vemos as coisas a p;trtir
dos nossos limitados pontos de vista.

Avalia~o do seu espírito competítivo

É importante ser um vencedor, é importante também saber per-


der. Lembro-me de urna noite em que estava jogando cartas
com minha fanu1ia. O jogo era a dinhejro e à medida que as
apostas foram ficand,o mais altas, minha sogra começou ;t re·gre-
dir Quando ela perdeu a maior mesa ~a noite (c~rca de dois
dólares), ela jogou as canas na mesa e foi embora . Minha sogra
tinha só 77 anos! Evidentetnente ·o jogo havia det.ooado uma
regressão·-espontânea . Em unia cultura onde ~ importância de
vencer é exagerada desptoporcionalmenté, torna-se difícil per-
de,r. Lembro-me de quando quis deixar de jogar com meus fi .
lhos porque eu estava perdendo e ficando cada vez mais fwioso .
f
Eu tinha só 42 anos!
É bom reunir um grupo para jogos n9s quais todos podem
gan_har (fazer palavras cruzadas juntas). Isso é útil também para
formar equipes de trabalho.
O mundo dos neg6cíos é uma arena de competição feroz.
Quando a competição é fetoz demais, sua ériança interior pode
l
se,: tentada a jogar a toalha. Você precisa cuidar para que ela não
tenha uma crise de depressão quando h;i favoritismo no escritó-
rio, Pode contar como ceno o fato de que haverá no mundo dos
negócios os equivalentes à rivalidade entre iri:nã,ose·situações de
queridinho da professora. Você pi:ecisa set um fone defensor da
sua criança interior. Ajuda muito -esclarecer perfeitamente seus
objetivos. Resolva o que você quer e o qué está disposto a fazer
é vá em frente. Não esqueça de proteger sua criança interior a
cada passo do caminho ,
PONDO
EMP.RÁTIC/<
OSEXERÓCIOS
C.ORRJITI\.DS

Vencer ou vencer é a única forma em que a coisa funciona


p.i,ra todos. ,Pratique situações de vencerlve.ncer em sua vi~a. Sua
cria.nça ínteriot vai adorar .

Negociação

Geral mente a criança interior ferida quer o que quer quando qu~r.
Ela pensa que seu modo é o único cerro. Seu eu adulto deve en-
sinar a ela cotnpr:omisso e cooperação , que são as chaves da vida
in terdependent e e dos .relacionamencos adultos felizes. As cciar,-
ças cooperam quando têm a char,icede experimentar os ír.urosdo
compromisso.A maioria das nossas crianças interiores jamais viu
um conflito resolvido de forma saudável. A regra do incompleto
domina as f~1ias disfuocionais . Incompleto significa que os mes-
mos conflitos estendem- ·se por anos e anos.
Vocé pode aprender a usar o desacordo como o combusrível
para idéias novas e mais amplas . Debates e discussões são os ins-
trumentos para ; descobrir qual o caminho que cada pessoa deve
e quer seguir. E bom tér regras para regulamentar o debate, e
é-essendal ter urn juiz. Três pessoas podem prar:car debates so-
bre opiniões diferentes.
Use a regra da audiçã .o e mensagens d'OEu auto -responsável.
Procure negociar um compromisso ou acordo. Tenha sempre uma
cláusula · de re.negoci.~çâono seu acordo . Isso significa que qual -
quer uma das partes pode reabrir a discussão, c.fencrode um pe-
ríodo razoável de tempo, quando não está-satisfeita com o acor-
do firmado. Repito , procure sempre a solução vencer/vencer.
A ne.goçiação bem-sucedida é uma boa experiência pata ma-
nejar o -conflito. Sua criança interior vê que o conflito não é um a
situa~ão horrível e traum .irica. Na verdade:, é essen cial para o es-
tabelecimento de uma intimidade saudável. Cada un1 de nós tem
urnacriança in.reúor maratilhosi. única, preciosa e insubstituí-
vel. É i:1evitável que duas pessoas únicas discordem em muitas
c.oisás. E de esperar. Resolver nossos conflitos faz da vida uma aven•
rura excitante .
Nesta seção, estudamos a volca ao !ar como os quauo ele-
mentos dinâmicos de gua1que.r boa terapia. Defendemos nossa
criança matavilha oferecendo a ·ela nossa potência de aduito s. Es.•
sa poté.ncia dá à criança permissão para se libert ar das velh.as re-
VOIIAAOW

gras venenosas e c:xpeámentar ouuas, corretivas. As novas regr as


compreendem a essência da disciplina construtiva. Essa discipli-
na é necessária para conuolar a infantilidade egocêntrica da criança
interior e trazer à tona sua infantilidade espirirual. Essa infanti-
lidade precisa ser protegida de maneira que, enquanto pratica-
mos essas novas experiências corretivas, nosso poder tot .al criativo
possa emergir . Nosso poder criativo tem suas raízes na criança m a-
ravilha . Voltamo-nós agora para essa criança.

EXERCICIO PARA DESFAZERA FUSAO


-
PRIMÁRIACOM OS PAIS
Este exercício relaciona-se à fusão dos membros do sistema fami-
liar disfuncional, descrita no capítulo 7. Esses papéis dizem res-
peito à união mulcigeracional. Geralmente envolvem abuso se-
xual não-físico .
O exerácio é uma adaptação do trabalho d e Connirae e Sce-
ve Andreas e pode ser encontrado em sua forma original no livr o
desses autores , Reare of the Mind .
Recomendo que você grave o ex:erácio no seu grawdor ou
peça a um r(rapcuca , um amigo ou moni tor para acompanhá-lo
cm todos os passos. Reserve 30 minutos para todo o processo. Pro-
cure um lugar quieto, onde não possa ser perrurbado e faça o exer-
cício de pé. Faça pausas de 30 segundos nos intervalos indicados .
I

li
PRIMEIRO Afusãoromo paiou a mãe
PASSO:
Feche os olhos e concentre sua atenção na lembrança do progeni-
tor com que você mais se identificav a. Veja realmente , sinta · ou
ouça essa pessoa na sua experiência interior. Deixe que se apre-
sente no seu comporcamencomais atraente. Seu sub consciente
saberá que componamento é esse...
Confie na primeira coisa que lhe vier à mente . Se oão pode
visualizar a pessoa do seu pai ou de sua mãe, apenas sinta ou fin -
ja que ele/ela esrá presente.

SEGUNDO
PASSO;
Sentira fusão
Agora , veja sua criança interior oa idade escolar de pé. ao lado d o


l'C>NDP
EMPRÁTICA
OSEW.ÓClOS
CORRETIVOS 29l

seu pai ou de sua mãe ... Note o que a criança está vestindo ... Ouça
a ccia.oça falar com o pai ou com a mãe ... Agora, flutue para den -
tro do corpo da sua criança interior e olhe com os olhos dela para
seu paiou.sua mãe.,. Olhe para ele/eJa de ângulos diferentes ... Note
o som da voz dele/dela ... O seu c~~ro ... Agora, adiante-se e abra-
ce séu/sua p.ai/mãe ... Qual a sensação do contato físico com o pai
ou a mãe?... De quç modovocê se sente superligado a de/ela? Co-
rnovocê senc~e que está ligado? Como sente o pai ou a mãe liga•
do/a a v.oéê?E uma ligação física? Uma ligação com alguma parte
do seu corpo? (Muiras pe-ssoas sentem a ligação na virilha . no ~s-
tômago ou no peito. ) Existe um cordã o ou qualquer .oucra coisa
ligando você.a ele/ela? Há uma fita elástica em volta de vocês?Prv•
cure sentir total mente a qualidade de.ssa união .

TERCETRO
PASSO:
Desfazendo
a fusãotemporariamente
Agora, desfaça a conexão por ur:ô momento ... Procure perceb er
oual a sensação dessa separação. Se está ligado por um cordã o.
1mag1ne que o corra com uma tesour ,!.... Se eStá ligado ao corpo
do seu pai ou de sua mãe, imagine.:um raio laser com uma mira-
culosa luz dourada .que: os separa e fecpa o ferimenco .ao mesm o
rempo ... Você vai sentir um desconfono separa.od0-se neste mo.
ment a ... lsso é sinaJ .de qµe a conexão serve a um propósÍto 1m-
pcrtante na sua vida. Lembre-se de que voéê não esta desfazén-
do a conexão. Está só experimentando a sensação de uma separa -
ção temporária.

QUARTO PASSO: Descobrindo


o ~ropósito
positivo
da'fusão
Agora, pergunte a si mesmo; "O que eu recebo do m eu pai, ou
da minha mãe, que atende às minhas necessidades básicas?... O
que eu quero realmente dele/dela?" ... Espere até õbter uma res-
p os::a que atinja seu âmago - como, pot exempl o, seguranç a,
a
nroteção cooua a morte, sensação de ser impóttánte ., d1gno de
ser amado e valoi;izado... Agora refaça a conexão.

QUl~T'f(')
PASSO: Usando sua_pocênciade adulto
A gqra, volte-separa a ditei ta, ou para a.esquerda, e veja a si mesmo
como um mago s•ábio e gentil (ou completamente realizado


296 IDIL'.AOLAR

como seu mais poderoso cu). Conscientize-se de que esse seu cu


mais velho pode lhe dar o que você quer e acredite que está se
libertando daquele relacionamento confuso com seu pai ou sua
mãe. Olhe com atenção para seu eu adulto com todos os seus re-
cursos... Note como essa parte de você se move, fala, qual a sua
aparência . Adiante-se e abrace seu cu adulto ... Compreenda que
a coisa pior que sempre temeu já aconteceu ... Você foi violado
e abandonado ... sua parte adulta sobreviveu e funcionou a des-
peito de tudo isso.

SEXTO PASSO a conexão


: Transformando comseu
. - ... "
paiou suamacemumaconwocomvocemesmo
Olhe outra vez para seu pai ou sua mãe ... Veja e sinta a cone-
xão... Corte a conexão e ligue-se imediatamente ao seu eu
adulto , da mesma forma que estava ligado ao seu pai ou sua
mãe... Sinta o •prazer da inter dependência com alguém com
quem pode contar completamente: você mesmo. Agradeça ao
seu eu adulto por estar presente para você. Sinta a alegria
de receber do seu eu adulto o que você queria do séu pai
ou da sua--mãe . Seu eu adulto é a pessoa que você ja.mais
pode perder:'.'

SÉTIMO
PASSO: RespeiWtdo o progenitor
, ao qual esuvaligad
o
Olhe agora para seu pai ou sua mãe e note que ele/da tem uma
escolha. Pode religar o cordão ao seu próprio eu adulto. lembre-
se de que ele/ela tem ·as mesmas opções que você tem para recu-
perar sua unidade. Na verdade, note que ele/ela não teria a chance
de conseguir essa unidade se continuasse ligado/a a você... Você
o/a ama dando a ele/ela a chance de se completar. Note também
que agora, pela primeira vez, você pode ter com eleiela um rela-
cionamento verdadeiro.

OITAVO
PASSO:
Relacionamento
comseueu
Agora flutue de volta para seu eu adulto ... Sjnca a interconexão
com sua criança interior ferida, de idade escolar. Compreenda que
PONDO
EMPRÁTICA
OSEXIRÓCIOS
C_QJ1.REl1VOS 29,7

agora você pode amar e cuidar dessa c;riança e dar a·ela tudo que
ela p.t:ecisade um pai ou, de uma mãe.

O :FIM DO MITO OU DO CONTO DE FADAS

Como exe.rcício fil!;tl , termine o mito ou tonto de fadas que V'ocê


escreveu ,quando trabalhava com su_a criança em idadl! escolar
(pág. 186). Comece com as palavras, E enrâo...
Minha história terminou assim:

E então Farquhar ouviu a voz de Joni. Ficou tão como-


vido que prometeu a si mesmo criar um tempo de silêncio
todos os dias para ouvirJoni. A primeira •éoisa queJoo i dis-
se foi que ele devia• enu;ar para um grupo de pessoas que
tinham sido feridas e estavam agora praticando os segredos
dqs elfos. Estavam comprometidos com a disciplina do amor.
Isso significavà que eles adiavam a gratificação, eram auto -res-
ponsáveis, diziam a verdade a todo custo e levavam uma vi-
da equilibrada.
Farquha r foi aceito de braços aberto s. Logo ele viu seu.
eu elfo nos olhos amorosos das pessoas do grupo. Ele vivia
um dia d,e cada ve;ze comprometeu-se com a disciplina do
amor. Ele recuperou e defendeu sua ciiança interior ferida .
Logo começou a ensinar o segredo dos elfos. Com o passar
dos anos, ele se tornou um professar famoso e transforma-
dor das almas dos Snamuhs . Ele amava sua vida e vivia para
o dia em que pudesse voltar ao seu verdadeiro lar, para criar
e se aquecer eternamente na visão do seu EU SOU.
..



PARTEIV
REGENERAÇÃO

É imponante compree nde r que a necessidade de en-


contrar a criança faz pane do antigo desejo human o.
Atrás do nosso passado individ uru está nosso passado
cult~r a1, {ontido nos m itos. Nos mitos , vemos que a
criança é se_mprenasci da da união do human o com
o divino ... E a criança mftica ... que procu ramos. tan-
ro quanto a criança da nossa histéria !)CSSoa l.
- Rachel \·

E o fim de toda a nossa procur a


Será chegar ao lugar de onde panimôs
E conhecer esse lugar pela primeira vez.
- 1:S. Eliot
Quartetos

Onde antes s6 havia o vazio amedrontador ... desdo-


bra-se agora a riqueza da vitalidade. Isto não é a vo]ta
ao lar, um a vez que este lar nun ca existiu ante s. E a
descobena do lar.
- Alice Miller
INTRODUÇÃO

Quand0 vu..c: perm1te que sua ::uança se torne pane integrant e


da sua vida - dialogando com ela, ouvindo o que diz. determi-
nando-lhe fronteiras, dizendo que você nunca a abandonará -
urria nova força e uma nova criatividade começam a aparecer. Você
vai se ligar a uma nova visão da sua criança, enriquecida por seus
auos de expeti-éncia de adulto e muito mais profund a. ,
A criança que aparece agora é sua criança maravilha. A me-
dida que seu uabalho de proteção continua , sua criança maravi-
lha vai desabrochar naturalmente e começar a se expandir e se
auto-realizar. O estado natural da crianç.a maravilha é a criativi-
dade. Entrar em contato com a sua criatividade é mais do que
uma volta ao lar. é a descoberta da sua essêncí:i.. do seu !.U únic(I
e mais profundo.
Descobrir e recuperar a criança interior ferida é um processo
de descoberca.Além de desenvolver seu poder pessoal, a defesa
da sua criança a levará à recuperação do seu poder espiritual. Com
o poder espiritual da sua criança, começa a sua autocriação. Esta
é a sua verdadeüa volta ao lar. Aquilo que escavaescondido pode
·agora ser revelado. Os impulsos e os sinais do seu eu mais pro-
fundo podem ser ouvidos agora e respondidos.
Nesta última seção focalizo a necessidade humana universal
de encontrar a criança ferida. Descrevodois dos três modos pelos
quais as micologias do nosso mundo testemunham a regenera-
ção e o poder de transformação da criança maravilha. O primeiro
padrão mírico é a respeito da puer aecernus,ou a criança eterna,
que aparece na idade do ouro. O segundo padrão míuco é o in,
fance divino/herói que foi exilaào e volta para encontrar seu 01-
vino direíro inaco. Ambos são símbolos do impu lso human o vi-
tal e inevitável de realizar continuamente e de transcendermos
a nós mesmos.
\OIIAAOW

Eu o convidarei a usar sua criança maravilha como guia para


seu eu autêntico e para um novo sentido no propósito de sua vida.
Finalmente, sugiro que sua criança maravilha é o centro da
sua espiritualidade e a sua conexão mais profunda com a fonte
e a base criativa do seu ser. Na verdade , sugiro que sua crianç.a
maravilha é a sua Imago Dei- a parte de você que se assemelha
ao seu criador.

·-

'
CAPÍTUW 1~
A CRIANÇACOMOSÍMBOIDUNfVERSAL
DE REGENERAÇÃO
E TRANSFORMAÇÃO

doruiâo e acosto e .io mesmo rcm110d\,.


A " cri.io.µ" é rudb q\l.c E ab~J:'.
oamcmc poderos o; o come\ o ms1gnuic.i.mce dúb io e o fim t:lumaJ. ,¾
".m.ioça etc~~ " no h·omcm é um a opcriêqcia inllcscaú\'c l. uma lncon-
gtuidadc , uma d~rrn1 ;gcm e um.i prerrogativa divln.i. ; um impondcr.ívtl
ciuc àcrcnnina o valor sqprcmo ou a inutilidade ~prema da pc~nalidade

- C. G.J ung_

O grande psicólog0 Çatl Jung viu claramente a qualidad e para.


doxa.l da criança interior. Pai;a Jung , a criança era a fon te da
divindade. eia regeneração e de novos começos, e, ao mesmo
tempo . uma possível fonte de contaminação e de desrrui ção. Jun g
viu cJaramence a. criançaferida como parte aa criança arquetlp i-
ca. Essa foi a genialidade de Jung, pois somente nos últim os
50 anos a conscientização humana focalizou a criança ferida . Na
verdade, aci;edito que a criança ferida tornou-se o arquédpo
moderno .
T,Jmarquétipo é a repi:esentação da experiência cumulativa
e coletiva da humanidade, urp pot~ncial universal em cada ser
h.umano. Jung achava .qµe quando um certo padrão da expeúên-
cia humana era claramente estabelecido , de se tornava parte da
nossa herança psíquica coletiva. Ele acreditaya que os arquétipos
.~etr.i.nsmítem geneticamente, como o ADN . Arquétipos são co-
mo órfãos de nosso psiquismo , comparáveis às estrutur as esqu e-
léticas de nosso corpo. Arquétipos são predisposiçõe s psíquic ~
congênitas derivadas de padrões he(daâos criados em gerações pas-
s.i.das. Esses padrõe s emergem quando são alcançado s certos lê-
mia.tes da exper:iência human a.
Os arqué•tipos incluem aspectos positivos e negadvos dos pa•
d.rõ~s que eles representa m. Na mãe arqué tip o, o aspec:o posiri-
304 AOW.
VOIIA

vo é a mãe que alimenta e dá a vida, o positivo é a mãe que aba-


fa, devora e destrói os filhos .
No pai arquétipo , o aspecto positivo protege, determina os
limites para os filhos e tran smite a eles as leis e tradições da cul-
tura . O pai negativo é o tirano que, temendo a perda do poder.
mantém os filhos na seryidão e se recu sa a transmitir as tradições .
Na criança arquétipo, o positivo é vulnerável, infantil , es-
p ont âne o e criativo. A criança ne gat iva é egoísta, caprich osa e re-
siste ao crescimento emocional e intelectual.
O aspecto negativo da criança é a criança ferida. Somente
no nosso século foi dada atenção à cria nça interior ferida. No pa. -
sado, eram comun s e aceitos como normais .o abuso e a sub jug a-
ção da criança. Até 1890, não havia nenhuma Sociedade para Pre-
venção da Crue ldade contra Crianças. embora existisse uma So-
ciedade para Prevenção da Crueldade contr a Animai s.
Um dos grandes avanços da riossa ·g ecação foi a denúncia do
abuso contra crian ças. Só recen temen te chegamos :àconclusão de
que n ossas no rmas dominante s da educação infantil envergonham
e violentam a dignidade da criança e sua qualidade de ser única .
Essas normas fazem pane da nossa ignorância em ocional . Atice
Miller demapstrou com dolorosa clareza que nossas normas atuai s
de edu cação tê.m como objetivo fazer com que a criança corres-
ponda à imagenJ projetada pelo s pais . Contribuem tam bém pa-
ra a idealização dos pais pela criança ferida . Essa idealizaç ão cria
uma união imag inária , fazendo com que a crian ça acredite no
,'amor dos pais por ela . 1cm támbém contribwdo para perpetuar
o abuso das crianças há muitas gerações.
George Bernard Shaw tem uma descrição fantástica da criança:

O que é uma cria nça? Um a gpc:riêrtcia . U,rna noyª' tcnfari-


<Yêpar a produzi r o·h omem jyst o ... isco é, para coroar divina
a humanidade .

Shaw compreendia perfeitamente que. não podíamo s maltratar


nem manipular essa exper.:iência:

, E se você tentar moldar esse:novo ser à sua id éia de um ho-


..qiem diyjno ou de uma fll.Whe.r di~, _g.esro!irii a r..õgria
pQ_ tencialidade sagrada dessa criança , criando , tal vez, um
.monstro.
A CRlANÇA
COMO
SfMBOJ.b
UNIVE-Jl,SAI. ETRANSFQR.\!AÇÃO
DEREGENERAÇÃO 30l

É este último cenário que •compreenàemos hoje. Quando come-


çamos a questionar a uadjção antiga e generalizada do abuso coa-
era ~ qiançí,iS,egarnos dando J:)ovosnomes ,aos demônios do in-
cesto, esp;i.ncamento e violação el)locional. Vemos claramente o
assassinoda alma que cons,ticuio ferimento espiritual, resultante
da violação do EU SOU da criança,
A energia maciça do mbvimenro pela criança adulta i uma
ptova da nova compreensão do arqu~tipo da criança fef.ida.
Nosso tempo é de catástrofe e de~truição. Nada se compara
a ele na história da humanidade. 1'1:ilhõesmorreram oa lura pda
d~mocraci;i.e pela liberdade. Acredito que a catástrofe do nazis,
mo teve suas raízes na famíUa ~emã com sua~ regras e normas
baseadas na vergonha e no autoritarismo paterno. Entretanto, em-
bora essas normas tivessem sido levadas ao exrremo na Alemtt-
nha. não são normas alemãs. Na verdade, são normas mundiai s
que há muitas geraçõesvêm ferindo àS criançase que ex.tscemainda
h0je. Como as normas eram consideradas normais. não pe.rcçbia(Il
o quanto erarri desu:uti"'1S,Com a dedaraçãg dos dire1toshuma-
nos por ocasiã,odas revoluções francesa e americana - por mais
falhas que tenham sido essas revoluções - começou a surgir uma
nova era de ouro. Çomo a Fénix mitol ógica. ela se levanta das
cinzas. O reconhecimento do arquér.ipo da criança fericia nos !e.
vou.a curar e recuperar essa criança, permic.:ndo, assim, a recupe-
raçãó dá criança maravilha.

PUERAETERNUS

Em todas as grandes mitologias do mundo , o ciclo da criação se


repete eternamente. Periodicamente, o muhdo volta ao caos. As
montanhas desmoronam, as planícies são arráSadaspor chuvas tor-
renciais de fogo, a terra treme , os morros vol::.am.Esses eventos
são pref)gurações apocalíticas da no:va e-rade ouro. Tudo de\le ser
' • 1 • -
rectuz1ctoao caos pata que a nova cnaçao possa co.rneçar.
Em inwcos mitos, uma nova árvore brota das ruínas caó1;.
cas.Sua copa che:ga ao céueaEntâQ....l¾macríancamilagrosa aparece
e sóbe pe·lo tronco da árvore. É a chegada· da criança mi1a~ros1:.
306 VOrrAAOLAR

es,sepuer aecerl)us,quem .arca o começo da era de ouro. Em al-


gumas versões, a criança altera a estro,tura do cosmos. Em out.i:os
mitos, a criança cda a unificação que caracteriza a era de ouro.
Com a vinda da criança, todos os opostos se reconciliam. Os ve-
lhos ficamjovens, os doentes recupé.rama saúde, batatas e batatas-
doces crescemem árvores,cocose abacaxiscrescemdentro da terra.
Há uma abundância de alimentos e de mercadoóas, ninguém pr-e-
cisa trabalhar ou pagar Ífi!postos. Em todos esses mitos a criança
ê o símbolo da regeneração e da unificação.
Jung diz o que isso significapara nós, pessoalmente:

No processo de individualização , a criança antecipa a figura


formada pda..síntes.edos dem entQst onscientçs e...mgsmmen-
tes da P-e. É, ponanto o símbolo unificador ue
rsonalidade_,_
liga os opostos. um mediador...Q_Quecura'-º..!lue faz a uni-
dade.

Eíaminaremos agora esse aspecto criativoe regenerador da criança.

-
A CRIANç-A MARAVILHACO'MO EU AUTÊNTICO
,.

. No romance The FinishingSchool, de Gail Godwin, um dos per-


, sonagensdiz: ''Existem dois tipos de pessoas... .O primeii:o,aquele
em que percebemos à primeira vista a que ponto ele está conge-
lado no seu eu final ... sabemos que não se pode esperar mais sur-
presas dele... o outto .está sempre em movimento~ .u.::..
dando ... e combinando novos encontros com a vida e csse-inovi-
mento constante o mantém jovem.'' Este segundo ti.Boé a •pes•
soa cm contato com sua criança maravilha. Sua triança maravi-
lha é o seu eu mais verdadeiro.
Lembro-me como se fosse ontem: cu tinha 12 anos e estava
esperando o ônibus quando tive uma poderosa experiênciado meu
EU SOU. De certo modo , senti que eu era cu e que não existia
ninguém igual a mim. lembro-me de que fiquei 3.$1.lStado qu~do
reconheci esse isolamento , Lembro-me de que pensei nos meus
olhos como janelas através das quais só eu podia olhar para fora.
Compreendi que ninguém mais podia ver o mund o como eu via
A CRJANÇA
COMO
SÍMBOIO
UNIVBSAL
UBRE~ENERAÇÃO
EnANSFôRMAÇÃO 307

- pelas janelas.que ,eram me_us olhos. Compreendi também que


.ninguem jamais eStaria,realmente àeouo de mim, que eu era se-
parado do resto do mundo. Eu era eu e ninguém podia mudar
isso, nã0 importa o que me _fizessemou.o que tentassem me obri-
gar a fazer. Eu era quem eu era e era ú-riico.
Naquele momento, no ponto de ônibus na Rua rãirview,ti-
ve a intuição do meu próprio s~r. Essa.intuição, nascida do senó-
mento de maravilha, eu perdi muitas vezes durante os anos se-
guintes. Mas ela me conduziu ao esrudo e ao ensino da filosofia
e me conduziµ na iornada prssc~ a caminho da unificação do
m.eu '..e,r.Até b0je a filosofia ,ne fascina. Cem acim1raçãCJe res-
peito escudo a no~ão de ser, aquilo. que Jacques Maritain descre-
ve como '' a .atíeo:íetida vicoriosacom a qual •triunfaruos: sobre o
nada' '. A criança maravilha Jê aincia com respeitosa admiração
a per;gtint:ad'e Spinoza, '·'·Por·que exisre·algµrna coisa:; não o na-
_da?' · Essa mesma pergunta, milhões de séculos auá s, motivou
Taies de MiletQ. 0 pai da filosofia antiga. Mais rarde, Adstórde s
escreveu: "De v.ictoà_sua capacidadede se maravilhar é qu~ o ho-
mero começa agora e começou antes a filosofar."
• A primc:iraexperiécciaao meu,piQprioserfoi obra.da m,i.
_nha criança rnarãv'ílha. E 43 anos mais tarde essa cnanca maravi-
..Jha está falando por mim n~sr:e iivro. No âmago da minha per-
,cepçio, nada mudou . Embora durante muitos anos minha crian-
ça feriçia renha me impedido de seQ._rir e.perceber a essência s,a-
grad-ado momento p.cesente. aos:p..Q.u.Ços àquela
estOJJ....fQitg.p~o
sensação púmiciva de admiração respeitosa e de maravilha. Sinto
novamtl!nte aquele arrepio na espinha quando toco realmente o
_serde um ,oceano ou de um p,ôt-dc-solru:!..deµma ,noice esuelada.
Vocêpode expandir continuamente suu~~pçã o e ami;,liar
seus horizontes, mas·o âma.ggdº sc:u.,eu..iw~mic.o nàQ.~JJJ.ID .:
.fb. São F1~J}.ci;$,_ço
,..g_
~ 4ss~5.,,esq ;ey~ ~ e~ affiO§l?fOCUr3.Il.
do
é quem e~~áq~~do.'· A psiç.olggia.,uarup.çss0ãl c~ amaia .i sso · ·o
eu c~~em~ njí a'' - · 0 "e 1;1"aue olhapara mim.
, Na sua <lnançamaravilha ·você yai enconu::rrseus sentímeo-
·tos1 suas necessidades e seus desejos a1,1,têntlco s. Para a maioria_
, dos adultos criançasessacriançafOiperdida há muitos anos. Quan•
do você defende sua criança interior ferid a, ela passa a confiar
em você e na sua proce~ão consuudw..elasabçque você não a
abandonará. Essa sensação Riofunda de segurança e de c:onfianca
J~_?,S...!f~p
erp.Üt:eo surgimento da crianç,amaravilha . Então, servo-

308 VOIJ'A
AOLAl

cê mesmo não exige nenhum trabalho nem esforço. Não precisa


fazer nada. Como diz SamKeen:

Talvez a volta ao lar seja o equivalente secularizado e não


paroquial do que os ttistãos tradicionalmente chamavam de
justificação pela fé ... Sepárando a salvação da realizaçâoJ!L
_,cristãos estabeleceram a prioridade do ser sobre o fazer.

Minha criança aprisionada pela ve,:gonha transformou-se cm um


'' realizador' ' humano para ter signifiçado e importância aos olhos
dos outros . Depois de 40 anos nos papéis de Estrela, Super-
Realizador e Zelador, tive de aprender que não podia curaro meu
e h · e do ·coisas.O im ·oitante é ainda ser ugp eu ,sov.
Sua crianç;t marav a é o seu eu essena . psico og1atrans-
pessoal faz: distinção entre o eu essencial e o eu adaptado . A pa-
lavra ger_almente usada por esses psicólogos para desçrever o eu
essencial é alma. O eu adaptado é ch~mado de ego.
No modelo desses pskólQgos, o ego é a esfera limitada do
consciente que usamos para nos adaptar às exigências da família
e da ~ulrura : O ego é limitado pot esses ,:equisitos de sobrevivên-
cia. E o ego Tü:gitado_pelotempo e tem raízes tanto na nossa fa-
mília de origem quanto na cultura na qual nascemos . Todos os
sistemas familiafes e culturais são rç:lati'9'ose representam apenas
um dos vários modos possíveis de interpretação e compreensão
'elarealidade. Mesmo quando a adappi.çãQdo ego é complecamenre
<funáonal em relação ã família ·e à cultura , é limitado e fragmen-
t.ado em relação ao verdadeiro eu . Na teoria uanspessoal, seu ego
é sempre não autêntico comparado à sua alma, Por isso identifi-
ca,a alma com a criança maravilha e o ego com a criança ferida .
Contudo , o ego deve ser integrado e funcional para que pos-
samos sobreviver e atender às exigências diárias da vida temporal .
jJ m _ego fortemente .integrado nos dá a sensação de confian•
ça e de control ·e. A recuperação e a defesa da criança interior feri-
...,
da,permitem que realizemos a cura e a integração do egQ.Uma
vez integrado, o ego torna-se a fonte da força que permite o co~
nhe cimento da crian.ça maravilha, nosso ego essencial. Por mai s
paradoxal que pare ça, nosso ego precisa set bastante fone para
abandonar a atitude enremamente defensiva e de controle exa-
gerado. ft eciswi9s de _µ~ne_para rranscender o ego. Um
_ exem.cl,Q_s irnpies: o ego e como o foguete lan çador gu~ nos @ ~
J..ClllANÇA
COMO
SÍMBOIO
l/NIVEP.SAJ.
DEllGENWÇÃOE TRANSR:lRMAÇÃO 309

_cm..6rbitª'-.No.ssa..a.lma,eruão
assumt.JUPntrok..J>perandona ex-
pansão ilimitada do espaço roerior.
J) relacionamento da crian~mamyilha alma) com a crian-
___ça_k~go) deJ11:s.cr..cu.cado antes .qu~ possamosenm r em con-
_mto com nosso eu_qsencial . Uma_yezfeit..Q. o trabalho do e_go(o
Jfª -~a!l;i.,2
da dor o~ ou do sofrim_ento le ítimo) estamos pr.Q!!;__
tos ara a realiza ão do u .
Na verdade, é a criança marav#ha quem nos motiva a fazer
o uabalho do nosso ego. A criança ferida não pode realizar o tra•
balho de recuperação, urna vez que está muico ocuoada com a
própria defesa e sobrevivência. Quan do a vida toda e uma dor
de dente crônica, não se pode transcender essa dor para ver que
existem campos mais verdes. Uma vez que a criança maravilha.
é o eu autêntico, da está sempre nos incitando à realização do
eu, mesmo quand o o ego está fechado e atento apenas aos pro-
blemas da sobrevivência. Carl Jung diz muito bem:

A criança arquétipo é a personificação das forças virais fora


do alcance limitado da nossa mente consciente... Ela repre-
senta o estímulo mais fone e mais inevitável de todo ser, ou
seja, o estímulo para realizar a si mesmo.

~ando sentimos a conexão com ossa crianç;i,_ mrnilha, co-


meç.fil!HYSa ver toda a noJ a ida c9m uma_pc_ngectivamuito
ri:iaisampla. A _cr:iançª-.maravilhiLnãop,re.cis.~f!)_ais se esconder
atrãs das defesas do ego para sobreviver. A criança maravilha
não é um eu melhor, é um eu diferente com uma visão muito
mais ªI!Wb..

MEDITAÇÃO
PARAREFORMULAR
MARAVILHA
A VIDACOMA CRIANÇA

Os·zen-budistas têm um koan, ou adivinhação tradicional, que


diz: 1 'Qual era sua face original - aquela que você tinha antes
de ser concebido por seus pais?''
Pense nisso quando começar esta meditação. Vou pedir tam-
bém para você adorar, pelo menos temporariamente. algumas
crenças que r.µvez não sejan1comuns para você. Não perca ten1-
po em debate pata resolverse você acredita ou não nessas coisas.
Simplesmente pense e sinta como se sua criança maravilha úves-
3LO VOIIA
NJ UJ\

se a noção de destino. muito antes de você nascer. Aceite a cren-


ça de várias tradições religiosas de que você é um espírito encar-
nado. Pense na possibiHdade de ser mais do que sua personali -
dade sociocultural, Jimitada pelo tempo , na possibilidade de ter
uma herança divina e eterna. Acredite . como Tomás de Aquino
e os grandes mestres Sufi, que vocêé uma expressão única de Deus
- o Grande EU SOU. Acredite ainda que o universo seria mais
pobre se você não tivesse nascido. que há alguma coisade Deus
que só pode ser expressapor vocêe que só pode ser experimenca-
da por ouuos através de você. Acredite que sua criança maravi-
lha sabia de tudo isso o tempo todo. Nesta meditação , você en-
trará em contato com sua criança maravilha e sentirá sua herança
divina - o propósito da sua encarna ção, Tendo experimentad o
isso,você estará em contato com seu eu autêntico e verá toda sua
vida de forma diferente .
Recomendo que grave a meditaç ão ou que peça a um ami -
go para ler em voz alta . Lembre-se de que os pontos significam
uma pausa de 10 a 20 segundos.

Comece concentrando-se na sua respiração. Observe lenta-


menti:sc;u processo respiratóri o... Pense na sua respiração...
Perceba ã sensação do ar quando entra e quando sai... Co-
mece a ver o número cinco, enquanto solta o ar ... veja um
número cinco negro numa cortina bran ca ou um númer o
(
cinco branco numa cortina negra ... Se tiver difi culda de em
visualizar, imagine-se pintando com o dedo o número cin-
co, ou ouçamentalmente o número cinco. Se possível, faça
as três coisas. Veja. pinte e ouça o número cinco... Agora,
o número quatro. Veja, pinte e ouça, ou faça as três coisas...
Faça o mesmo com os números três, dois e um (pausa Jon-
ffe')... Quando vir o número um , imagine que ele é uma por-
ta. Antes de passar p9r essa porta , imagine que está pond o
todos seus pro blemas e preocupa ções em uma bola de cris-
tal . Enterre a bola cheia de preocup ações... Você pode recu-
perar suas preocupações quando terminar a meditação... Ago-
ra, passe pela porta e veja tr ês degrau s que levam a outra
porta. l'\gora , im agine que está pondo suas descrenças e ce-
ticismos em uma bola de cristal. Enteue a bola de cristal com
suas descrenças e ceticismos. Agora, receba seu novo sistema
de crenças. Aqui está o seu mico do " como se" .
A CRIANÇA
COMO
SÍMBOID
UNJVWAl
DEREGFNBAÇÃO
E nANSIOR!,!AÇÃ
O lll

Você é uma manifeStaç.ão única e inimitável do divin o.


Você tem um destino que só você pode expressar atra-
vés do seu ser.
Não é dramático nem melodramático.
É simplesmente a difei:ença que seu ser faz . É a dife -
rença que faz a diferença .
Sua criança maravilha sempre soube o que é.
Sua criança maravilha pode levá-lo à descoberta do pro-
pósito da sua vida.

Agora, suba os degraus e abra a port a ... vaiencontrar um al-


pendre com uma escada que sobe até o céu. (Você p ode cocar
Ecos Anagosou SuícedasEscrelas.de Steven Halpern . ne ste
ponto. ) Comece a ver uma figura descend o a escada , envoica
em uma luz bran ca azulada ... À medida que ela se apr oxi -
ma, você sente que é um ser amigo e cheio de calor. Não im -
porta a forma que ela toma . desde que seja amiga e calorosa.
Se a Eg ura o assusta, mande -a embora e esp ete que apa reça
ouua. Esse ser é·seu guia interi or. Pergunte o nom e d ele. Di-
ga que quer falar com sua criança maravilha ... D eixe que eie
segure sua mão e come ce a subir a escad a ... Vai chegar a u m
grande temp lo. Seu j?Uia o levará até a port ::... En rre. Veja ob -
jetos de grande e delicada beleza . Caminhe para um altar al-
to onde está a estátua de uma criança bela e pre ciosa - essa
é sua criança maravilha ... Veja a eStátua tomar vida . Abrac e
sua criança maravilhosa. .. Peça a ela uma declaração sobre o
propósito da sua vida: Por que estou aqui? (pausa longa) ...
Aceite a resposta na forma que ela é dada. Um símbolo, pa-
lavras, uma forre sensação. Fale sobre da com sua criança ma-
ravilha (pausalong2)... Mesmo que você não compreenda, leve
com você o que lhe foi dado. Agradeça a sua criança maravi-
lha e volte para a pona. Seu guia interior está à sua esper a.
Desça a escada com ele ... Quando chegar ao alpendre , par e.
Agora você vai rever toda sua vida , desde o nascimenr o até
o presente, à luz da sua nova compreensão. Mesrr10c;ue a me n-
sagem da sua criança maravjlh a não tenha sido clara. veja sua
vjda com o que você earecde sobre o prop ósito da su a vida ...
Agora, volte ao momento do seu nasciment o. Como se pu-
desse vec a você mesmo nascend o. A partir do n ascune nro,
VOIIAAOW.

veja cada marco importante ou cada evento que puder lem-


b.(ar;,à luz do seu novo conhecjmento . Veja as pessoas qne es-
tavam lá. Você as vê de modo diferente agora ? (pausa longa)
Pode ver alguém que julgava insignificante, com uma nova
importância agora (pausa longa). Alguns acontecimentos po-
dem ter diferentes significados. Pode ver um significado di-
ferente nos acontecimentos traumáticos que sofreu? (pausa
longa) Volte ao momento presente da sua vida. Aceite toda
a sua vida como perfeita, do ponto de vista da sua alma. Agora
que já fez o trabalho da dor original e o trabalho do ego, você
p ode ver desse ponto de vista m.ús vanta joso. Aceite o pas~a-
do como perfeito. Comprometa-se com o seu propósito... Man-
de seu amor a todos que você conhece ... Compreenda que
somos todos crianças, lutando para encontrar a luz. Veja seus
pais como crianças feridas. Veja a luz dourada e quente en-
volvendo a todos. Imagine-se tocando e abraçando as pessoas
da sua vida. (pausa longa) ... Pense em todos como crianças
carentes de amizade e amor.
Agora, volte ao alpendre com a escada que leva ao tem -
plo. Abra a pona e desça os três degraus . Recupere toda s
as crenças, ceticismos e pressuposições que quiser ... Passe pela
porta segliinte e apanhe todas as preocupações e ansiedades
qu e quise.r-:.. Respire fundo três vezes. Sinta a vida volta ndo
aos seus pés, enquanto vê o número um ... Sinta a cadeira
, em que está sentado, as roupas que está vestindo, enquanto
vê o número dois... Sinta então a energia nas suas mãos. Deixe
que da suba por seus braços até o pescoço e os ombcos ...
Agora, veja o número três. Sinta seu cérebro todo desper-
tando. Respire profundamente . Diga a si mesmo que vailem-
brar essa experiência. Diga a si mesmo que vai guardar as
imagens, mesmo que não as compreenda perfeitamente. Ago-
.
ra, veja o número quatro,.
to enquanto ve o numero anco.
e sinta-se
. completamente desper-

É bom viver com essa meditação por algum temp o. Às vezes, as


imagens fazem sentido mais tarde. Para alguns essa meditação
marcou o começo de uma nova per cepção de si mesm os e de suas
vidas. A criança maravilha de um homem deu a ele uma chave
onde estava escrita a palavra andgu.idade . Quando criança, ele
gostava de passar longas horas na casa da avó que tinhá uma
AOUANÇA
COMO
sl~OIO UNIVERSAi.
DEREGENERAÇÃO
ETRANSFORMAÇÃO 313

g.tandecoleçãode relógios,antigos. Ele gostavade ouvir a av6 contar


a história de cada relógio, Ela era uma ótima contadora de histó-
riase estimulava a imaginaç~o dele. Ele começou a colecionar re-
lógios antigos, mas nunca conseguiu dedicar muito tempo à co-
leção, porque tinha de dirigir sua agência de seguros. Eu o vi um
ano e meio depois dele ter feito a meditação, em uma exposição
de objetos andgos. O homem tinha vendido a agência e era ago-
za u1n come~cia.ntede antiguidades. Especializou-se em relógios
antigos e chaves antigas com formatos originais! .Parecia muito
ent1.1siasmidocom a neva.vida. Outras pessoas contam também
resultadosespetacularesdessa meditação. O guia irn:erior e a criança
maravilha representam a sabedoria da sua alma. A alma op~ra
ern um mundo de símbolos e usa a linguagem da imagem. E a
nossa alma quem fí!.la: nos nossos sonhos. O ego tem díficuldade
para entender a linguagem dos sonhos. Precisamosconvivercom
as imagens, senti-las para compreender seu significado. Aceite o
que você recebe com.o o que é ceno p~a você.
Compartilhe essa experiência com um amigo com cujo apoio
você pode contar.
Consegui uma reg.eneração maravilhosa com esse exercícío.
Muitasoutras pessoastiveram também experiênciasde grande força..
Se você não teve uma experiência desse ·up o, tudo bem tamb ém.

A NÃO-IDEALIZAÇÃO DA CRIANÇA MARAVILHA

Neste ponto quero deixar bem claro que não acredito na criança
maravilha como o único modelo de vida autêntica. Acredito co-
mo Sam Keen que isso seria destrutivo para a dignidade da exis-
tência do homem adulto e amadurecido. Ser apenas uma criança
maravilha é vivçr no exílio, no presente. Eu sei o quanto isso é
horrível. Meu avô perdeu completamente a memória nos últimos
anos da sua vida. Quando eu o visitava ele sempre me fazia as
mesmas perguntas . Meu avô era um belo homem que cú ou uma
vida com trabalho duro. fidelidade e amor. Vê-lo assimsem pas-
sado e sem .futuro era extremamente doloroso. Precisamos viver
no agora,. mas não para o agora. Devemos ' ' pieencher o minut o
impiedoso com 6ô segundos de corrida em distância" , como di-
VOl!AAOW.

ria Kipling. Mas a nova visão da criança maravilha precisa da vi-


são e da experiência do adulto que você é agora. Na verdade sua
ttiança maravilha só estará ptesente se tiver-o apoio e a proteção
do seú eu adulto.
Uma criança, por mais maravilhosa que seja, não é o mode-
lo para a vida adulta , autêntica como o adulto não é o modelo
adequado ·para o que a criança deveria ser. Sam Keen escreve:

Tornamo-nos humanos só quando abandonamos o·Paraíso.


maduros só quando compreendemos que aquela infância aéa-
bou. Voltamos para casa, para nossa humanidade comp leta
só quando .admitimos e assumimos a responsabilidade pel a
percepção present