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HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA

E MEDIEVAL
CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD

História da Igreja Antiga e Medieval – Prof. Ms. Pe. Ronaldo Mazula

Sou Pe. Ronaldo Mazula. Sou mestre em História da Igreja


pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Bacharel em
Teologia pelo Studium Theologicum de Curitiba e graduado
em Filosofia pelo Curso Seminarístico de Rio Claro e Ribeirão
Preto. Atuei como Vice-Reitor e Pró-reitor de Extensão e Ação
Comunitária do Claretiano (Batatais-SP), como professor titular
do Studium Theologicum (Curitiba-PR) em outras instituições.
Sou assessor da CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil) de
vários jornais de abrangência regional. Além disso, participei de
eventos como: congressos e atividades nas áreas educativa e religiosa no Brasil e em outros
países – Áustria, Alemanha, México, Roma, Espanha, Bolívia, Peru, Colômbia, República
Dominicana etc. No curso de bacharelado em Teologia do Claretiano, sou autor da
disciplina História da Igreja Antiga e Medieval. Recentemente fui elegido Vice-Provincial e
coordenador das obras apostólicas dos Missionários Claretianos do Brasil.
e-mail: ronaldomazula@hotmail.com
Prof. Ms. Pe. Ronaldo Mazula

HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA


E MEDIEVAL

Caderno de Referência de Conteúdo


© Ação Educacional Claretiana, 2010 – Batatais (SP)
Trabalho realizado pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP)

Cursos: Graduação
Disciplina: História da Igreja Antiga e Medieval
Versão: jul/2013

Reitor: Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva


Vice-Reitor: Prof. Ms. Pe. José Paulo Gatti
Pró-Reitor Administrativo: Pe. Luiz Claudemir Botteon
Pró-Reitor de Extensão e Ação Comunitária: Prof. Ms. Pe. José Paulo Gatti
Pró-Reitor Acadêmico: Prof. Ms. Luís Cláudio de Almeida

Coordenador Geral de EAD: Prof. Ms. Artieres Estevão Romeiro


Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves

Corpo Técnico Editorial do Material Didático Mediacional


Preparação Revisão
Aline de Fátima Guedes Felipe Aleixo
Camila Maria Nardi Matos Rodrigo Ferreira Daverni
Carolina de Andrade Baviera
Talita Cristina Bartolomeu
Cátia Aparecida Ribeiro
Vanessa Vergani Machado
Dandara Louise Vieira Matavelli
Elaine Aparecida de Lima Moraes
Josiane Marchiori Martins Projeto gráfico, diagramação e capa
Lidiane Maria Magalini Eduardo de Oliveira Azevedo
Luciana A. Mani Adami Joice Cristina Micai
Luciana dos Santos Sançana de Melo
Lúcia Maria de Sousa Ferrão
Luis Henrique de Souza
Luis Antônio Guimarães Toloi
Patrícia Alves Veronez Montera
Rita Cristina Bartolomeu Raphael Fantacini de Oliveira
Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Tamires Botta Murakami de Souza
Simone Rodrigues de Oliveira Wagner Segato dos Santos

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SUMÁRIO

CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 9
2 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA DISCIPLINA............................................. 11

Unidade 1 – HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA: TEMAS INTRODUTÓRIOS E


COMUNIDADE PRIMITIVA
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 25
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 25
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................................ 26
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 28
5 HISTORICIDADE DA IGREJA.............................................................................. 28
6 ANTIGUIDADE CRISTÃ (DO ANO 1 A 692): SÍNTESE ....................................... 37
7 AMBIENTE DO NASCIMENTO DA IGREJA........................................................ 39
8 JESUS CRISTO..................................................................................................... 54
9 COMUNIDADE DE JERUSALÉM E EXPANSÃO INICIAL..................................... 61
10 E XPANSÃO DO CRISTIANISMO FORA DA PALESTINA..................................... 67
11 Q UESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 75
12 CONSIDERAÇÕES............................................................................................... 76
13 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 76

Unidade 2 – ORGANIZAÇÃO DO CRISTIANISMO ANTIGO, LITURGIA, VIDA


MONÁSTICA, HERESIAS, ESCRITORES CRISTÃOS E CONCÍLIOS
ECUMÊNICOS
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 79
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 80
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................................ 80
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 81
5 ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA DA IGREJA ..................................................... 82
6 HIERARQUIA DA IGREJA .................................................................................. 86
7 DIOCESES, PROVÍNCIAS ECLESIÁSTICAS,
PATRIARCADOS E PRIMADO DE ROMA ...................................................... 91
8 SÍNODOS E CONCÍLIOS..................................................................................... 95
9 CULTO E SACRAMENTOS................................................................................... 96
10 F ESTAS CRISTÃS E MEIOS DE SANTIFICAÇÃO.................................................. 104
11 A SCETAS, VIRGENS E ORIGEM DA VIDA MONÁSTICA.................................... 106
12 C ISMAS E HERESIAS DOS PRIMEIROS SÉCULOS............................................. 115
13 H ERESIAS, CISMAS E CONCÍLIOS DOS SÉCULOS 4º AO 7º.............................. 124
14 PADRES APOSTÓLICOS E ESCRITORES
ECLESIÁSTICOS (SÉCULOS 1º AO 3º)................................................................ 129
15 PADRES DA IGREJA E ESCRITORES ECLESIÁSTICOS
DOS SÉCULOS 4º AO 7º ................................................................................... 134
16 Q UESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 135
17 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 136
18 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 137
19 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 137

Unidade 3 – PERSEGUIÇÕES ROMANAS, OFICIALIZAÇÃO DO


CRISTIANISMO E ALIANÇA COM O ESTADO ROMANO
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 139
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 139
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................................ 140
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 141
5 PERSEGUIÇÕES DO IMPÉRIO ROMANO AOS CRISTÃOS................................. 142
6 IGREJA NO IMPÉRIO ROMANO CRISTÃO ........................................................ 162
7 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 176
8 CONSIDERAÇÕES............................................................................................... 177
9 E-REFERÊNCIA................................................................................................... 177
10 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 177

Unidade 4 – CARACTERÍSTICAS DO MUNDO MEDIEVAL, QUEDA DE


ROMA E ASCENSÃO DO CRISTIANISMO
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 179
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 179
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................................ 180
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 181
5 IDADE MÉDIA .................................................................................................... 181
6 QUEDA DE ROMA (476) E OS POVOS GERMÂNICOS
E ESLAVOS (BÁRBAROS)................................................................................... 185
7 ASCENSÃO DA IGREJA, CRIAÇÃO DO ESTADO
PONTIFÍCIO E FEUDALISMO............................................................................ 192
8 ESPIRITUALIDADE CRISTÃ................................................................................. 196
9 VIDA MONÁSTICA............................................................................................. 198
10 Q UESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 199
11 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 199
12 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 200
Unidade 5 – A CRISTANDADE MEDIEVAL: CISMA DO ORIENTE (1054),
IGREJAS ORTODOXAS, ISLAMISMO E CRUZADAS
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 201
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 201
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................................ 201
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 202
5 CONTEXTO DESTE PERÍODO............................................................................. 202
6 ORGANIZAÇÃO ECLESIAL NA IDADE MÉDIA (A CRISTANDADE).................... 205
7 CISMA DO ORIENTE (1054) E AS IGREJAS ORTODOXAS................................. 213
8 ISLAMISMO E CRUZADAS ................................................................................ 217
9 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 225
10 CONSIDERAÇÕES............................................................................................... 225
11 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 225

Unidade 6 – O AUGE E A CRISE DA CRISTANDADE A INQUISIÇÃO A


TRANSIÇÃO ENTRE A IDADE MÉDIA E A IDADE MODERNA
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 227
2 CONTEÚDOS...................................................................................................... 228
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE................................................ 228
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 229
5 O AUGE E A CRISE DA CRISTANDADE (AS INVESTIDURAS)............................ 229
6 HERESIAS MEDIEVAIS (CÁTAROS, VALDENSES, APOCALÍPTICOS)................. 236
7 MOVIMENTOS DE RENOVAÇÃO ECLESIAL...................................................... 242
8 INQUISIÇÃO....................................................................................................... 246
9 TRANSIÇÃO ENTRE IDADE MÉDIA E IDADE MODERNA................................. 254
10 C RISE DA CRISTANDADE E MOVIMENTOS
PRÉ-LUTERANOS ............................................................................................... 263
11 M OVIMENTOS DE REFORMA ECLESIAL SÉCULOS 14–15................................ 268
12 Q UESTÕES AUTOAVALIATIVAS......................................................................... 274
13 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 275
14 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 275
Caderno de
Referência de
Conteúdo

CRC

Ementa––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Temas introdutórios e comunidade primitiva. Constituição e organização da Igre-
ja. Heresias antigas, escritores cristãos e concílios ecumênicos. Perseguições
romanas e aliança com o Estado. Queda de Roma (476). Introdução ao Cris-
tianismo medieval e Cristandade, Feudalismo. Cisma de Oriente. Islamismo e
Cruzadas. Heresias Medievais e Inquisição. Cátaros, valdenses, apocalípticos.
Ciência escolástica e a mística medieval. Movimentos de renovação eclesial
(mendicantes). Transição entre Idade Média e Idade Moderna Idade. Período
pré-luterano.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

1. INTRODUÇÃO
Seja bem-vindo!
Você iniciará o estudo de História da Igreja Antiga e Medie-
val, que é uma das disciplinas que compõem os Cursos de Gradu-
ação na modalidade EaD. Teremos satisfação em desenvolver esta
disciplina com você!
10 © História da Igreja Antiga e Medieval

Inicialmente, este estudo nos permitirá refletir sobre os te-


mas introdutórios relacionados à história da Igreja antiga. Isso sig-
nifica que construiremos conhecimentos sobre a comunidade pri-
mitiva da Igreja e estudaremos a constituição e a organização da
Igreja antiga e sua relação com o Estado. Como você verá, a Igreja
fundamenta-se na ação de Deus, bem como de homens e mulhe-
res, discípulos de Cristo. Dessa forma, ela é, simultaneamente, um
fato histórico e um fato revelado – é a "Igreja da fé" e a "Igreja da
história", a Igreja divina e humana.
Estudaremos que, como instituição salvífica, a Igreja perten-
ce a dois mundos: ao mundo terrestre e visível, porque está com-
posta de homens que atuam no contexto da história; e ao mundo
sobrenatural, porque a Igreja é também obra de Deus, efeito de
uma causa transcendente, situada além da história. Então, pode-
mos refletir sobre uma Igreja santa e pecadora, divina e humana,
espiritual e temporal etc.
Faremos, também, uma análise da atuação e do papel da
Igreja durante a Idade Média, desde a queda de Roma, no século
5º, até o período anterior à reforma protestante, no século 16.
Conheceremos a estrutura da Igreja medieval e o sistema de Cris-
tandade, passando pelo Cisma do Oriente, Islamismo e Cruzadas,
heresias medievais e Inquisição, para finalmente analisar o perío-
do da transição entre a Idade Média e a Idade Moderna.
Neste Caderno de Referência de Conteúdo, você encontrará
as informações práticas indispensáveis para o estudo dos conteú-
dos relacionados à História da Igreja Antiga e Medieval, o qual se
efetivará no Caderno de referência de conteúdo. Essas informações
ajudarão você a se programar e a se organizar.
Sugerimos, contudo, que não se limite aos conteúdos explici-
tados neste caderno, e, sim, interprete-o como um referencial por
meio do qual você possa expandir seus horizontes de conhecimen-
tos com o objetivo de uma especialização consistente, de maneira
especial no que se refere à história da Igreja antiga.
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
© Caderno de Referência de Conteúdo 11

Lembre-se, ainda, de que as possibilidades são inúmeras.


Por isso, será imprescindível que você realize pesquisas, compar-
tilhando conhecimentos e reflexões para crescer no exercício de
interpretação histórica.
Desejamos êxitos na realização de seus estudos, pesquisas,
interatividades e atividades!

2. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA DISCIPLINA

Abordagem Geral da Disciplina


Neste tópico, apresenta-se uma visão geral do que será estuda-
do nesta disciplina. Aqui, você entrará em contato com os assuntos
principais deste conteúdo de forma breve e geral e terá a oportunida-
de de aprofundar essas questões no estudo de cada unidade. Desse
modo, essa Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento bá-
sico necessário a partir do qual você possa construir um referencial
teórico com base sólida – científica e cultural – para que, no futuro
exercício de sua profissão, você a exerça com competência cognitiva,
ética e responsabilidade social. Vamos começar nossa aventura pela
apresentação das ideias e dos princípios básicos que fundamentam
esta disciplina.
Desejamos que o estudo desta disciplina leve você a com-
preender a História da Igreja, seu desenvolvimento e caminhada
ao longo do tempo. Na História da Igreja, vamos enfatizar a An-
tiguidade e a Medievalidade cristãs. A divisão do tempo recebe o
nome e periodização clássica e divide a História em quatro grandes
períodos:
1) Idade Antiga.
2) Idade Média.
3) Idade Moderna.
4) Idade Contemporânea.
12 © História da Igreja Antiga e Medieval

Cronologia da História da Igreja


A Antiguidade compreende o período que vai do nascimento
de Jesus Cristo, no ano 1 d.C até o ano de 476 d.C., ano em que
Roma foi invadida pelos povos germânicos e eslavos, chamados
pelo romanos de bárbaros. Dessa maneira, foi um período que se
caracterizou pelo nascimento e expansão inicial do Cristianismo,
com as dificuldades, principalmente em torno de sua organização
interna, as rupturas com o judaísmo e as perseguições promovi-
das pelos romanos; a sociedade neste tempo estava marcada pela
existência de grandes impérios e pelo escravismo.
A Idade Média estende-se de 476 d.C., queda do Império Ro-
mano do Ocidente ou do ano 692, quando terminam as grandes con-
trovérsias doutrinais antigas, até 1453 com a queda de Constantino-
pla ou até o ano 1303, quando começou o declínio do poder temporal
dos papas ou ainda, até 1517, até o início da reforma protestante.
Neste período, o Cristianismo torna-se uma grande força no mundo
ocidental e se consolida o Sistema de Cristandade, no qual toda a vida
social girava em torno da vida cristã. Assim, não podemos esquecer
das características centrais, a fragmentação dos poderes político e
econômico, bem como do modo de produção feudal.
A Idade Moderna compreende os anos de 1303 ou 1453 ou
1517 até o ano de 1789, ano em que se deu a Revolução Francesa.
Período da crise eclesial no renascimento e do grande cisma lute-
rano e da Reforma da Igreja. É, também, o período de transforma-
ções paradigmáticas, a invenção da imprensa, o desenvolvimento
marítimo e pelo modo de produção capitalista.
A Idade Contemporânea teve início em 1789 e perdura, se-
gundo a periodização clássica, até nossos dias. Caracteriza-se pe-
las tentativas de diálogo da Igreja Católica com a modernidade,
ocorrido especialmente a partir do Concílio Vaticano II e, também,
pelas Grandes Revoluções, pelo liberalismo político, econômico e
social, pelos conflitos armados de grande proporção e pela nova
ordem mundial.

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Caderno de Referência de Conteúdo 13

Fundação do Cristianismo
O Cristianismo foi fundado por Jesus Cristo e teve continui-
dade com seus discípulos, com destaque inicial para Pedro, Paulo
e os apóstolos. A fundação ocorreu na Palestina, na época, domi-
nada política e militarmente pelos romanos, que estavam vivendo
o seu apojeu.
Surgiu como seita judaica surgida no século 1º, mas pouco
a pouco houve a ruptura com o Judaísmo. Nos primeiros séculos,
os romanos perseguiram o Cristianismo ocasionando a morte de
milhares de mártires e dificuldades para a expansão cristã.

A separação do Cristianismo e do Judaísmo


Inicialmente, os cristãos foram vistos como "judeus fervoro-
sos", mas, com o passar do tempo, a pregação cristã, que enfati-
zava Jesus Cristo, como filho de Deus, fez com que os judeus os
proibissem de pregar. Tal medida não foi suficiente e os cristãos
foram expulsos das sinagogas judaicas.
Os cristãos, diferentemente dos judeus, passaram a adotar
os livros do Novo Testamento, escritos após advento de Jesus Cris-
to por seus apóstolos e que relata a Sua vida e dos primeiros acon-
tecimentos da comunidade cristã nascente.

A aproximação entre a Igreja e o Estado


A aproximação entre os cristãos e o Estado, o Império Roma-
no, se deu por que o Cristianismo se propagou muito. Assim, per-
seguir os cristãos acabou por ser prejudicial ao próprio império,
que vivia uma crise religiosa e social e encontrou no Cristianismo
apoio e respostas.
No ano 311 foi publicado um Édito de Tolerância, pondo fim
às perseguições. O Édito de Milão (313 d.C.) declarava que o Impé-
rio Romano seria neutro em relação ao credo religioso e concedia
a liberdade de culto ao Cristianismo; ele foi emitido por Constanti-
14 © História da Igreja Antiga e Medieval

no I e Licínio. Com o Imperador Teodósio, no fim do ano século 4º,


o Cristianismo tornou-se a religião oficial do império e teve a chan-
ce de se organizar melhor e expandir. Neste contexto, surgiram os
concílios ecumênicos que ajudaram na organização interna, na su-
peração dos problemas, especialmente no combate às heresias e
no diálogo com a sociedade e com o império. Esse acontecimento,
que em outras palavras foi a aproximação entre essas duas institui-
ções sociais e políticas, foi importante para ambos os lados. Para
o Cristianismo, ampliou a sua capacidade de influência sobre a so-
ciedade, pois a partir daquele momento a Igreja definiria e agiria
de acordo com seus valores e regras na condução da sociedade,
inclusive imporia seus dogmas a ela. Já para o Estado, a vantagem
foi o apoio da Igreja Católica em suas ações e o consequente au-
mento no número de súditos e servidores do Império.

Idade Média
O período medieval é extenso e vai do século 5º ao 15. É marcado
pela grande influência da Igreja Católica na política, economia e socie-
dade. É o período de maior e mais expressiva influência do Cristianis-
mo na sociedade com o chamado Sistema de Cristandade. Os valores
cristãos permeavam a vida de todos; as verdades eram as verdades da
Igreja; as doutrinas eram as defendidas e propagadas pelo Cristianismo.
Vejamos alguns acontecimentos da cristandade medieval.

União da Igreja com o Estado


O Sistema de Cristandade iniciou-se com a queda de Roma
em 476 e fortaleceu-se com a aliança entre os papas e os francos,
especialmente a partir da coroação de Carlos Magno, pelo papa
Leão III no ano de 800 d.C.. Este fato provocou a restauração do
Império Romano, que ficou reconhecido como Sagrado Império
Romano Germânico. Carlos Magno tentou restabelecer as frontei-
ra do extinto Império Romano contando com o apoio da Igreja. Sua
coroação deu origem a mais uma desavença entre a Igreja Católica
do Ocidente e a Igreja Católica do Oriente. O Patriarca de Constan-
tinopla não a aceitou, pois afirmava que os legítimos herdeiros do

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Caderno de Referência de Conteúdo 15

Império Romano eram os católicos do Oriente e não um rei bárba-


ro. A consequência disto, em conjunto com outros fatos (heresias
monofisita e iconoclatismo; cisma fociano, liturgia, política etc.),
foi o "Cisma do Oriente", em 1054, com a separação entre a Igreja
do Ocidente, chefiada pelo Papa e a Igreja do Oriente ou Igreja
Ordotoxa, chefiada pelo Patriarca de Constantinopla.

Cruzadas
As Cruzadas foram convocadas para reconquistar Jerusalém,
os "lugares santos" resgatar os cristãos que caíram em mãos mu-
çulmanas. A primeira foi convocada pelo Papa Urbano II, no ano
de 1095. Foram um total de nove Cruzadas, a última aconteceu no
ano de 1270. Os cristãos tiveram algumas vitórias, mas não conse-
guiram a reconquista total da região.

Inquisição
A Inquisição é a instituição cristã mais criticada em toda a Histó-
ria da Igreja. Em função do surgimento de algumas heresias medievais
e da crise no mundo feudal, o surgimento das cidades e pré-humanis-
mo e pré-modernismo, a Igreja e o Império tentaram manter as estru-
turas políticas, econômicas e sociais. O Papa Lúcio III e o Imperador
Frederico Barba-Roxa, em 1184 optaram pela excomunhão e punição
aos hereges. Em 1232, a Inquisição passou cometer muitos atos ilíci-
tos, que cresceram quando ela passou a ser dirigida e instrumentali-
zada pelas lideranças políticas medievais e modernas.

Filosofia Cristã – importante fundamento do pensamento


humano
O início da Idade Média deu-se com o apogeu da Patrologia
ou época dos Santos Padres, com grandes teólogos e filósofos que
organizaram a ortodoxia cristã. Destacam-se Atanásio, Gregório de
Nazianzo, Gregório de Nissa, Basílio de Cesareia, Ambrósio, João
Damasceno, Eusébio de Cesareia (primeiro historiador cristão) e
Santo Agostinho, com grande destaque.
16 © História da Igreja Antiga e Medieval

Santo Agostinho de Hipona escreveu muitas obras, com desta-


que para Confissões e Cidade de Deus. Seus escritos se caracterizam
pela análise dos mais diferentes assuntos e temas que recobrem a hu-
manidade partindo da visão cristã. Ele foi influenciado pelo platonismo
e o neoplatonismo, particularmente por Plotino. Ele foi importante para
a retomada do pensamento grego e a sua entrada na tradição cristã.
Já no fim da Idade Média, no apogeu do Sistema de Cris-
tandade, desenvolveu-se a Ciência Escolástica com o domínio da
Teologia sobre as outras ciências. O método teológico-filosófico
do aristotelismo era ministrado nas escolas de conventos e cate-
drais e nas universidades medievais. A escolástica tentou resolver,
partindo do dogma religioso e mediante um método especulativo,
problemas como a relação entre fé e razão, desejo e pensamen-
to; a oposição entre realismo e nominalismo; e a probabilidade
da existência de Deus. Foi a época das grandes "sumas" ou sínte-
ses do conhecimento a partir da visão teológica. Destacaram-se
alguns pensadores: Abelardo; Alberto Magno; Pedro Lombardo;
Guilherme de Ockam e o grande destaque ficou com Santo Tomas
de Aquino, que escreveu a Suma Teológica, As cinco vias para a
demonstração racional da existência de Deus e muitas outras.
Como você pode notar, esta disciplina abarca dois períodos
intensos e extensos, pois englobam desde a Antiguidade cristã até
a perda de sua supremacia, que começou no final de Idade Média
e se concretizou com a Idade Moderna.
Portanto, sugerimos que você se dedique na elaboração
e construção de seu conhecimento e, mais, olhe para a História
como um processo humano e divino, pois a história da Igreja é fei-
ta por homens, mas cremos na ação de Deus sobre os fatos.
Bons estudos a todos!

Glossário de Conceitos
O Glossário de Conceitos permite a você uma consulta rá-
pida e precisa das definições conceituais, possibilitando-lhe um
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
© Caderno de Referência de Conteúdo 17

bom domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de


conhecimento dos temas tratados na disciplina História da Igreja
Antiga e Medieval. Veja, a seguir, a definição dos principais concei-
tos desta disciplina:
1) Apócrifos: escritos cristãos dos primeiros séculos que
visavam dar notícias e einformações da vida de cristo,
apóstolos e comunidade cristã primitiva, mas que conti-
nham erros teológicos e históricos e lendas fantasiosas,
eles não fazem parte do escritos canônicos do novo tes-
tamento e, por isso, foram considerados falsos ou inade-
quados.
2) Apologias: conjunto de escritos cristãos, situados entre
os séculos 1º ao 4º, que tinham por objetivo defender
o Cristianismo primitivo dos ataques dos imperadores,
dos intelectuais e do povo que eram contrários à orto-
doxia e prática cristãs.
3) Arianismo: doutrina cristã que, na relação trinitária, ne-
gava a divindade de Jesus cristo, subordinando-o com-
pletamente a Deus Pai. Assim, Jesus seria unicamente
um homem que foi adotado pelo Pai.
4) Concílio Ecumênico: reunião dos representantes das
Igrejas cristãs em todo o mundo para tratar de temas
doutrinais, pastorais e disciplinares da Igreja. A Igreja
católica romana reconhece 21 concílios: o primeiro foi
realizado em Niceia, no ano 325 e o último foi o Concílio
Vaticano II, de 1962 a 1965.
5) Cristandade: sistema construído na Idade Média, com
forte união entre o Estado Romano e o Cristianismo, com
grande influência na vida social, cultural, econômica, po-
lítica. O cristianismo influenciou outros estrututas.
6) Cristologia: é o tratado teológico que estuda sobre a
pessoa e a doutrina de Jesus Cristo, fundador do Cristia-
nismo. Vários temas fazem parte deste estudo: encarna-
ção e nascimento de Jesus, natureza humana e divina,
ressurreição etc.
7) Cruzadas: movimento militar-religioso iniciado na Euro-
pa ocidental sob os auspícios do Cristianismo, no fim do
18 © História da Igreja Antiga e Medieval

século 11, que visava à reconquista da Terra Santa, ocu-


pada pelos muçulmanos desde o século 7º.
8) Donatismo: doutrina herética cristã do século 4º que
relativizava a identidade da Igreja enquanto instituição
de salvação e que negava a validade dos sacramentos,
fazendo-os depender da santidade ou integridade do
ministro.
9) Feudalismo: característica marcante das relações mar-
cantes na Idade Média (século 6º ao 13) em que era mui-
to forte a predominância do mundo rural sobre o urba-
no. A economia girava em torno da terra, a autoridade
era do senhor feudal e o Cristianismo influenciava a vida
cotidiana.
10) Heresia: palavra que designa uma doutrina heterodoxa,
ou seja, que vai contra a ortodoxia ou doutrina correta.
11) Humanismo: movimento cultural iniciado com a crise do
mundo medieval a partir do século 12 e surgimento da
vida burguesa. Ele colocava o homem no centro do uni-
verso, e não Deus. Com isto, com o tempo, provocou a
separação entre Igreja cristã e Estado e entre razão e fé,
gerando o sistema político laical.
12) Inquisição: tribunal eclesiástico criado pelo Cristianis-
mo, a partir do fim do século 12 com o objetivo de julgar
e condenar as heresias medievais que assolavam a Cris-
tandade ocidental. Foram condenadas muitas pessoas
inocentes e, com o tempo, a Inquisição foi usada tam-
bém pelo poder político para eliminar seus inimigos.
13) Mendicantes: ordens religiosas (franciscanos, domi-
nicanos, mercedários etc) que nasceram no século 13,
numa época em que a Igreja era muito rica e poderosa.
A característica principal deste movimento era a volta à
pobreza e a uma espiritualidade mais encarnada e fiel
ao Cristo.
14) Ortodoxia: doutrina correta ou fiel a uma tradição.
Quando se fala de igrejas ortodoxas se faz referência às
Igrejas que se separam da comunhão romana, seguindo
o rito grego e permanecendo fiéis a Constantinopla.

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Caderno de Referência de Conteúdo 19

15) Monofisismo: doutrina herética cristã em torno das na-


turezas humana e divina de Jesus Cristo, que afirmava
que, após a união entre elas, a natureza divina dominava
e absorvia completamente a humana, gerando uma de-
sigualdade e desequilíbrio entre elas.
16) Padres Apostólicos: conjunto dos escritores cristãos,
discípulos dos apóstolos, situados nos séculos 1º e 2º
que ajudaram a construir a ortodoxia. Eles se caracte-
rizam por serem escritos pastorais e com forte acento
comunitário.
17) Patrologia: ciência teológica que tem por objetivo estu-
dar os escritores da antiguidade cristã, conhecidos como
Padres da Igreja ou Santos Padres.
18) Pelagianismo: doutrina herética cristã do início do sécu-
lo 5º que afirmava que o homem pode se santificar pelo
esforço pessoal e próprio e que não necessita da graça
divina. Negava também a o pecado original e a corrup-
ção da natureza humana.
19) Século de Ferro: período conturbado na história do pa-
pado e da igreja romana que caiu nas mãos de nobres,
nos século 9º e 10, em que os escândalos, golpes de Es-
tado, corrupção e mundanidades comprometeram a fi-
delidade e a comunhão eclesiais.
20) Santíssima Trindade: doutrina do Cristianismo que afir-
ma a união do pai, do filho e do espírito santo. São três
pessoas distintas, mas que formam um só deus.

Esquema dos Conceitos-chave


Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais im-
portantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um Es-
quema dos Conceitos-chave da disciplina. O mais aconselhável é
que você mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até
mesmo o seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você
construir o seu conhecimento, ressignificando as informações a
partir de suas próprias percepções.
20 © História da Igreja Antiga e Medieval

É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos


Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações en-
tre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais
complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você
na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de
ensino.
Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende-se
que, por meio da organização das ideias e dos princípios em esque-
mas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu conhecimen-
to de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pedagógicos
significativos no seu processo de ensino e aprendizagem.
Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem es-
colar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas
em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda,
na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que es-
tabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos
conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim,
novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem
pontos de ancoragem. 
Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, ape-
nas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preci-
so, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure
como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante con-
siderar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais
de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos concei-
tos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez
que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cog-
nitivas, outros serão também relembrados.
Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é você
o principal agente da construção do próprio conhecimento, por
meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações internas
e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por objetivo tor-
nar significativa a sua aprendizagem, transformando o seu conhe-
cimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja, estabele-
cendo uma relação entre aquilo que você acabou de conhecer com
o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo (adaptado do
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
Primeiras heresias:
Ambiente do nascimento
judaizantes, milenaristas,
da Igreja; expansão inicial,
monarquianos;
organização, dificuldades e
controvérsias .penitenciais
potencialidades.


I- Cristianismo no Império
Crise da Igreja e da Vida Apóstolos, Padres
 Romano pagão (séculos I-III) JESUS CRISTO: fonte
Religiosa beneditina Apostólicos, Apócrifos
e origem do
(Cartuxa, Cistercienses)
 Perseguições: apologias
Cristianismo
Mendicantes e heresias.

Desejos de Reforma.
 Heresias trinitárias, cristológicas
II- Cristianismo no e soteriológicas. Concílios

 Império Romano cristão


IV- Igreja e a crise Ecumênicos: Niceia,
  (séculos IV-VII): união Constantinopla, Éfeso e
medieval. Início da
com Estado (Constantino Calcedônia
Modernidade  e  e Teodósio), expansão
mudanças...
  cristã, heresias concílios e
monacato. Padres gregos (Atanásio,

Eusébio de Cesareia, Cirilo de
 III- IDADE MÉDIA: introdução e
Alexandria, Gregório de Nissa,
cronologia. Ascensão do Papado e
 João Crisóstomo).
Estado Pontifício. Aliança com
 Francos. Padres Latinos ( Hilário de
Poitiers, Ambrósio, Jerônimo,

Agostinho, Leão Magno,
Espiritualidade
 medieval: Cisma do Oriente. Cruzadas e
Sistema de Cristandade e Gregório Magno).
eucaristia, mariologia, expansão muçulmana.
Feudalismo. Século de Ferro.
devoções, peregrinações, Inquisição. Heresias medievais
Reformas da Igreja
© Caderno de Referência de Conteúdo

monaquismo. (cátaros e albigenses).


(beneditinos e Gregório VII.
VIIVII).

Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave da disciplina História da Igreja Antiga e Medieval.


ceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em: 11 mar. 2010).
site disponível em: <http://penta2.ufrgs.br/edutools/mapascon-
21
22 © História da Igreja Antiga e Medieval

Como você pode observar, esse Esquema dá a você, como


dissemos anteriormente, uma visão geral dos conceitos mais im-
portantes deste estudo. Ao segui-lo, você poderá transitar entre
um e outro conceito desta disciplina e descobrir o caminho para
construir o seu processo de ensino-aprendizagem.
A questão da datação: existem algumas opções em torno da
escolha de algumas datas referenciais. Nós optamos por escolher
datas que fazem referência a eventos mais eclesiásticos, sem dei-
xar de lado datas de eventos históricos mais políticos ou civis. As-
sim, muitos historiadores usam para o fim da antiguidade cristã a
data de 692, quando ocorreu o II Concílio de Constantinopla que
pôs fim às controvérsias doutrinais antigas; outros já usam o ano
de 476, quando ocorreu a queda de Roma, ou ainda, a ano de 313,
quando com o Edito de Milão começou a aliança do Cristianismo
com o Império Romano.
Esquema dos Conceitos-chave é mais um dos recursos de
aprendizagem que vem se somar àqueles disponíveis no ambiente
virtual, por meio de suas ferramentas interativas, bem como àqueles
relacionados às atividades didático-pedagógicas realizadas presen-
cialmente no polo. Lembre-se de que você, aluno EaD, deve valer-se
da sua autonomia na construção de seu próprio conhecimento.

Questões Autoavaliativas
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem ser
de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertativas.
Responder, discutir e comentar essas questões, bem como
relacioná-las com a prática do ensino de História da Igreja pode ser
uma forma de você avaliar o seu conhecimento. Assim, mediante a
resolução de questões pertinentes ao assunto tratado, você estará se
preparando para a avaliação final, que será dissertativa. Além disso,
essa é uma maneira privilegiada de você testar seus conhecimentos
e adquirir uma formação sólida para a sua prática profissional.

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Caderno de Referência de Conteúdo 23

As questões de múltipla escolha são as que têm como respos-


ta apenas uma alternativa correta. Por sua vez, entendem-se por
questões abertas objetivas as que se referem aos conteúdos
matemáticos ou àqueles que exigem uma resposta determinada,
inalterada. Já as questões abertas dissertativas obtêm por res-
posta uma interpretação pessoal sobre o tema tratado; por isso,
normalmente, não há nada relacionado a elas no item Gabarito.
Você pode comentar suas respostas com o seu tutor ou com seus
colegas de turma.

Bibliografia Básica
É fundamental que você use a Bibliografia Básica em seus
estudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as biblio-
grafias complementares.

Figuras (ilustrações, quadros...)


Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte inte-
grante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilustrativas,
pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no texto.
Não deixe de observar a relação dessas figuras com os conteúdos
da disciplina, pois relacionar aquilo que está no campo visual com
o conceitual faz parte de uma boa formação intelectual.

Dicas (motivacionais)
O estudo desta disciplina convida você a olhar, de forma
mais apurada, a Educação como processo de emancipação do ser
humano. É importante que você se atente às explicações teóricas,
práticas e científicas que estão presentes nos meios de comunica-
ção, bem como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois,
ao compartilhar com outras pessoas aquilo que você observa, per-
mite-se descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a
ver e a notar o que não havia sido percebido antes. Observar é,
portanto, uma capacidade que nos impele à maturidade.
24 © História da Igreja Antiga e Medieval

Você, como aluno dos Cursos de Graduação na modalidade


EAD, necessita de uma formação conceitual sólida e consistente.
Para isso, você contará com a ajuda do tutor a distância, do tutor
presencial e, sobretudo, da interação com seus colegas. Sugeri-
mos, pois, que organize bem o seu tempo e realize as atividades
nas datas estipuladas.
É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em
seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode-
rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ-
ções científicas.
Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie
seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discuta
a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoaulas.
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os
conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos
para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas,
pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure-
cimento intelectual.
Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na
modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando
sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.
Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a
esta disciplina, entre em contato com seu tutor. Ele estará pronto
para ajudar você.

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EAD
História da Igreja Antiga:
Temas Introdutórios
e Comunidade
Primitiva
1
1. OBJETIVOS
• Apresentar conceitos e noções fundamentais acerca da histo-
ricidade da Igreja, bem como da historiografia eclesiástica.
• Identificar e analisar o ambiente em que se deu o advento
da Igreja (Mundo Romano e Judaico).
• Explorar fontes e cronologia fundamental relacionadas à
história de Jesus Cristo.
• Caracterizar e interpretar a comunidade de Jerusalém,
bem como sua expansão inicial.
• Abordar a expansão do Cristianismo além dos limites da Pa-
lestina (Damasco, Antioquia; o trabalho de Paulo, Pedro - em
Roma - e de outros apóstolos).

2. CONTEÚDOS
• Noções preliminares: historicidade da Igreja e historiografia
eclesiástica.
• O nascimento da Igreja: Mundo Romano e Mundo Judaico.
26 © História da Igreja Antiga e Medieval

• Jesus Cristo: fontes e cronologia.


• Comunidade de Jerusalém: caracterização e expansão inicial.
• Expansão do Cristianismo além dos limites da Palestina:
Damasco, Antioquia e Roma; o trabalho de Paulo, Pedro –
em Roma - e de outros apóstolos.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Leia os livros da bibliografia indicada, para que você am-
plie e aprofunde seus horizontes teóricos. Esteja sempre
com o material didático em mãos e discuta a unidade
com seus colegas e com o tutor.
2) Leia, também, os livros que compõem a Bíblia, dedican-
do especial atenção à leitura dos livros que abordam os
primórdios do desenvolvimento histórico do Cristianis-
mo sobretudo o livro dos Atos dos Apóstolos.
3) Tenha sempre à mão o significado dos conceitos explicitados
no Glossário e suas ligações estabelecidas no Esquema de
Conceitos-Chave para o estudo de todas as unidades deste
CRC. Isso poderá facilitar sua aprendizagem e desempenho.
4) Para a maior compreensão desta unidade, sugerimos
que você retome o tema "Introdução ao Cristianismo".
Nessa retomada, consulte as seguintes obras:
• História da Igreja, de P. PIERRARD, tradução de Álvaro
Cunha (São Paulo: Paulinas, 1982).
• Para ler a História da Igreja, de J. COMBY, tradução
de Maria Stela Gonçalves-Adail V. Sobral (São Paulo:
Loyola, 1994. v. 1.).
• Manual de Historia de La Iglesia, de H. JEDIN (Barcelo-
na: Herder, 1980. v. 1.).
• História da Igreja, de K. BIHLMEYER e H. TUECHLE, tradu-
ção de Ebion de Lima (São Paulo: Paulinas, 1964. v. 1.).

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 27

5) O conteúdo que expomos nesse livro-texto configura


uma porta de entrada. Ao longo do desenvolvimento
de seus estudos na disciplina, você encontrará subsí-
dios não somente para ampliar seu conhecimento so-
bre os temas específicos da disciplina, mas também
para transitar por outras áreas do saber e fundamentar
suas pesquisas.
6) Procure reconhecer o caráter dinâmico e atuante da
Igreja como um organismo vivo cuja ação cristã configu-
ra sua forma de ser. Além disso, considere as dimensões
terrena e sobrenatural da Igreja de forma a estabelecer
a reflexão sobre o seguinte questionamento: seria pos-
sível à Igreja estar voltada só para o mundo ou só para si
mesma? Anote suas reflexões para organizá-las melhor e
para valer-se delas em seus trabalhos acadêmicos.
7) Não se limite pelo conteúdo desse livro-texto. É impor-
tante expandir os horizontes das abordagens aqui pro-
cessadas abordando outras fontes de informação sobre
os temas estudados neste material, sobretudo no que
diz respeito à ação de Pedro e Paulo enquanto fundado-
res da Igreja de Roma. Para isso, consulte a bibliografia
indicada ou use a Internet como ferramenta de pesquisa.
Lembre-se de que o desenvolvimento desses conteúdos
está a seu alcance e integra o processo de construção
de sua autonomia, elemento fundamental na Educação
a Distância.
8) Para um maior aprofundamento da expansão cristã no
Império Romano (Roma e demais regiões da Itália; Gália;
Espanha; Alemanha; países danubianos - Récia, Nórico, Pa-
nônia, Mésia, Dácia; Britânia; África Norte-Ocidental; Egito;
Ásia Menor; Síria; Mesopotâmia; Adiabene - Assíria; Partia;
Pérsia; Palestina; Arábia e Índia), consulte a obra História da
Igreja, de K. BIHLMEYER e H. TUECHLE, tradução de Ebion
de Lima (São Paulo, Paulinas, 1964. v. 1.).
9) As traduções dos textos publicados originalmente em
língua estrangeira foram elaboradas pelo Professor Mes-
tre Ronaldo Mazula.
28 © História da Igreja Antiga e Medieval

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Nossos estudos se iniciam pela exploração de conceitos in-
trodutórios sobre a História da Igreja. Isso significa que você está
convidado a refletir sobre noções preliminares relacionadas à his-
tória da Igreja - definição, método, divisão, fontes, ciências auxilia-
res; à historicidade da Igreja e à historiografia eclesiástica.
Ao longo desta unidade, você será convidado também a res-
ponder às seguintes indagações:
1) Quando e como ocorreu o nascimento da Igreja?
2) Quais são as características fundamentais da Antiguida-
de Cristã e quais são suas fontes e cronologia fundamen-
tal?
3) Como era a comunidade de Jerusalém e como ocorreu a
expansão inicial da Igreja?
4) Como aconteceu a expansão do Cristianismo além dos
limites da Palestina?
Responder a tais questionamentos constituirá, portanto,
nosso primeiro desafio. E o primeiro passo em direção à superação
desse desafio consiste na abordagem do conceito da historicidade
da Igreja, abordagem essa que constitui o próximo tópico deste
material.

5. HISTORICIDADE DA IGREJA
O processo por meio do qual se estabelece a compreensão
e assimilação do conceito da historicidade da Igreja se inicia, fun-
damentalmente, pelo seguinte questionamento: qual a base de
sustentação em que se processa o desenvolvimento histórico da
Igreja?
Com efeito, a história da Igreja tem suas bases na revela-
ção divina, na manifestação das obras de Deus e na encarnação
de Jesus Cristo no mundo, evento no qual se materializa a ação de

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 29

Deus, que, fazendo-se homem e assumindo a natureza humana,


interfere na História.
Em Jesus Cristo, a propósito do transcurso de sua vida, da
sua presença e de seus ensinamentos no mundo, inicia-se a histó-
ria do Cristianismo e a de seus seguidores que desejam transfor-
mar a sua vida, seguidores esses que, por sua vez, se organizam
e tornam a Igreja presente no mundo, na qualidade de fiéis ao
mandato do próprio Cristo e de sujeitos que testemunham o Cristo
"em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até os confins da
Terra" (At 7, 8).
A Igreja fundamenta-se na ação de Deus e dos homens e mu-
lheres que se posicionam como discípulos de Cristo. Assim, ela é,
simultaneamente, um fato histórico e um fato revelado, configu-
rando, respectivamente, a "Igreja da história" e "Igreja da fé".
Com efeito, como instituição salvífica, a Igreja pertence a
dois mundos: ao mundo terrestre e visível, porque é composta de
homens que atuam no contexto da história; e ao mundo sobrena-
tural, porque a Igreja é também obra de Deus, efeito de uma causa
transcendente, situada além da história. Dessa forma, podemos
falar de uma Igreja santa e pecadora; divina e humana; espiritual
e temporal etc.
Jedin (1980, p. 28) afirma que o caráter histórico da Igreja se
apoia:
Na encarnação do Logos e na entrada deste na história humana;
mas, sobretudo, em que Cristo quis que a Igreja fosse comunidade
de homens (o povo de Deus) sob a direção e governo de homens (co-
légio apostólico, episcopado, primado papal) e a fez assim, depender
do trabalho humano e, também, da fraqueza humana. No entanto,
não a abandonou a si mesma. Sua enteléquia ou princípio vital, que
transcende a história, é o Espírito Santo que a preserva do erro, cria
e mantém nela a santidade e a pode tornar acreditável por milagres.
Sua presença e ação na Igreja pode, como a da graça na alma in-
dividual, deduzir-se por efeitos históricos comprováveis, mas em si
mesma é objeto de fé. Da ação conjunta deste fator divino com o
humano, no tempo e no espaço surge a história da Igreja.
30 © História da Igreja Antiga e Medieval

A propósito do discurso de Jedin (1980), no trecho citado


anteriormente, impõem-se os seguintes questionamentos: existe
apenas uma definição da disciplina "História da Igreja"? E qual é
seu objeto, enquanto ciência da religião?
O item a seguir propõe-se a responder a essas questões.

História da Igreja: definição


A História da Igreja, enquanto disciplina, é definida de di-
versas maneiras. E as definições disponíveis variam de autor para
autor. No entanto, essas definições convergem quando afirmam
que a disciplina se trata da ciência que estuda, investiga e busca
explicações para o desenvolvimento interno e externo da comuni-
dade fundada por Jesus Cristo.
A essa definição genérica podemos acrescentar ainda que a
disciplina se trata também da história dos seguidores de Cristo que
atuam em todo o mundo, guiados pelo Espírito Santo, com o ob-
jetivo de testemunhar a proposta salvadora e redentora de Jesus
para toda a humanidade.
A esse respeito Jedin (1980, p. 27) afirma que:
O objeto da história da Igreja é o crescimento, no tempo e espaço,
da instituição de Cristo que leva esse nome. Pelo fato de receber
tal objeto da teologia e mantê-lo dentro da fé, a história da Igreja
é uma disciplina teológica e se distingue de uma mera história do
cristianismo. No entanto, seu ponto teológico de partida, o concei-
to da Igreja, não pode entender-se de maneira que a estrutura da
Igreja estabelecida pela dogmática possa assentar-se ou ficar bem
como esquema prévio da exposição histórica, nem demonstrar-se
sobre ela, pois isso limitaria ou impediria a comprovação históri-
coempírica baseada nas fontes, das manifestações de sua vida; o
conceito teológico da Igreja só implica sua origem divina pela obra
de Jesus Cristo, a ordem hierárquica e sacramental por Ele estabe-
lecida em seus fundamentos, a promessa da assistência do Espíri-
to Santo e seu direcionamento à consumação escatológica, isto é,
àqueles elementos sobre os quais se funda sua identidade essencial
ou continuidade através de todas as mudanças de forma em que se
manifesta. A imagem da 'nave da Igreja', que faz, perfeita e imutá-
vel, sua travessia pelo mar dos séculos, é menos adequada que a

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 31

comparação, usada já por VICENTE DE LERINS, do crescimento do


corpo humano e da sementeira, que "não afeta para nada a sua
propriedade nem traz mudança alguma em sua essência" (Commo-
nitorium, cap. 29). Do mesmo modo que o grão de trigo germina e
brota, gera o talo e a espiga, mas permanece sempre trigo, assim
a Igreja realiza a sua essência num processo histórico com formas
várias, mas permanece sempre igual a si mesma.

Aprofundando essa discussão, Jedin (1980) menciona a exis-


tência de duas vertentes importantes em se tratando dessa profu-
são de definições da disciplina História da Igreja: uma delas ligada
ao pensamento ilustrado e racionalista, que a definia com base
em uma visão antropocêntrica e uma outra proposta, como a de
Möhler e Erhard, ancorada em uma visão teocêntrica.
A propósito dessa menção, Jedin (1980, p. 28) define a Histó-
ria da Igreja da seguinte maneira:
A história da Igreja como 'a série de desenvolvimentos do princípio de
luz e vida comunicado por Cristo à humanidade, para uni-la de novo
com Deus e prepará-la para a bem-aventurança'. Quando o histori-
cismo do fim do século XIX tentou reduzir a história da Igreja à história
profana e fazer do historiador eclesiástico um historiador leigo, Albert
Erhard introduziu a denominação "teologia histórica" e definiu como
objeto da história geral da Igreja 'a indagação e exposição do curso efe-
tivo do cristianismo em sua manifestação organizada como Igreja, ao
longo de todos os séculos de seu passado, em toda a extensão de seus
elementos e em todos os aspectos de sua vida (JEDIN, 1980, p. 28).

Uma vez estabelecida a discussão sobre quais bases devem fun-


damentar a definição da disciplina, faz-se preciso delimitar o método
subjacente a ela conforme o que se apresenta no item a seguir.

Método
A configuração do método que fundamenta a História da Igre-
ja é ditada pelos mesmos princípios que regulam a investigação his-
tórica de modo geral, levando-se em conta as peculiaridades que
emanam da vertente da fé, muito embora estas especificidades não
representem um impedimento na aplicação do rigor metodológico.
32 © História da Igreja Antiga e Medieval

Segundo essa perspectiva, Gómez (1995, p. 6-7), ao abordar


as características do método a ser utilizado, em se tratando da dis-
ciplina em questão, destaca que este deve ser:
a) crítico: deve examinar rigorosamente as fontes;

b) imparcial: precisa guiar-se unicamente pelo desejo de encontrar


a verdade;

c) pragmático-genético: precisa penetrar na evolução interna, nos moti-


vos e nas intenções ocultas, que guiaram a ação dos protagonistas;

d) religioso: a Igreja é obra divina e obra humana, por isso sua his-
tória precisa ser tratada com base em uma 'perspectiva religiosa',
sem que isso prejudique a vertente científica propriamente dita.

Jedin (1980, p.30-32), a propósito da questão metodológica


que envolve o estudo da disciplina, afirma que o estudo da História
da Igreja implica a utilização do método histórico, que, por sua vez,
compreende três momentos específicos:
1) Como qualquer outra história, a história da Igreja depen-
de também de suas fontes, e só pode afirmar ou negar
a respeito de acontecimentos e situações do passado
eclesiástico o que encontra nas fontes retamente in-
terpretadas. As fontes (monumentais, restos escritos e
fontes literárias) devem ser buscadas (heurística); tem
que se examinar sua autenticidade, tem que se editar
em textos seguros e tem que se investigar seu fundo e
valor histórico. O primeiro fim da investigação histórica
assim praticada é a fixação das datas e fatos históricos,
que formam o esqueleto de toda história, sem cujo co-
nhecimento se torna incerto todo passo seguinte [...]. Só
pela indagação e elaboração crítica das fontes a história
da Igreja conseguiu alcançar, a partir do século XVI, cate-
goria científica. Nesse estágio da investigação, a história
da Igreja deve muitos resultados importantes a sábios
que estão fora da Igreja e não reconhecem seu caráter
de disciplina teológica. O ponto de vista confessional é
apenas perceptível.
2) Mas já o simples enlace causal dos atos averiguados, a
indagação dos motivos que impulsionam as pessoas que
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 33

atuam neles e o juízo das individualidades eclesiásticas


que desses motivos depende, a valorização de movimen-
tos religiosos e espirituais e de épocas inteiras, tudo isso
vai mais além da simples constância dos fatos e se re-
monta acima deles as suposições e critérios valorativos,
que não podem ser tomados da própria história, mas que
tampouco podem ser-lhe alheios. O reconhecimento da
liberdade humana proíbe assentar leis históricas determi-
nantes. A causalidade histórica deve permanecer aberta
à intervenção e cooperação de fatores transcendentes,
e não pode tampouco se excluir a priori a possibilidade
de fenômenos extraordinários, por exemplo, místicos, e
até de milagres. Os conceitos históricos que formam ou
tomam a história da Igreja para sintetizar grupos de fa-
tos e correntes religiosas ou espirituais fundam-se pelo
geral, não menos que a seleção mesma da matéria, em
juízos de valor, e estes determinam, sobretudo, a aplica-
ção de categorias como 'florescimentos' e 'decadências',
'abusos' e 'reforma'. Os critérios para julgar pessoas e
acontecimentos não podem ser tomados da atualidade,
mas devem se ajustar ao eventual estágio de desenvol-
vimento histórico da Igreja. O que não quer dizer que se
relativizem a falha e pecado dos homens, nem se des-
carte a responsabilidade humana: tem culpa histórica e
mérito histórico. No entanto, o juízo da história da Igreja
não é um 'processo' sobre seu passado. O critério filo-
sófico, religioso e eclesiológico do historiador se deixa
sentir neste segundo estágio da exposição histórica, ain-
da no caso de que aquele se esforce para conseguir a
máxima objetividade e imparcialidade. A discussão de
sistemas históricofilosóficos como o materialismo histó-
rico ou a concepção biológica da história de Spengler,
ou de escolas historiográficas como a histórico-cultural
ou sociológica, não pertence aos temas da história da
Igreja. Mas é inevitável que aquela influa não somente
nos juízos, mas sim também na eleição da matéria e na
forma literária [...].
3) Em seu conjunto, a história da Igreja só pode ser com-
preendida dentro da história sagrada; seu sentido último
34 © História da Igreja Antiga e Medieval

só pode se integrar na fé. A história da Igreja é a conti-


nuação da presença do Logos no mundo (pela pregação
da fé) e a realização da comunhão com Cristo por parte
do povo de Deus no Novo Testamento (no sacrifício e
sacramento), realização em que cooperam, por sua vez,
ministério e carisma. Ela nos apresenta o crescimento do
'corpo de Cristo' não, como imaginou a 'teoria da deca-
dência', como um constante deslizar-se pendente para
baixo do ideal da Igreja primitiva; mas tampouco, como
sonharam os ilustrados dos séculos XVIII e XIX, como um
progresso contínuo. O crescimento da Igreja é tempo-
ralmente impedido a partir de dentro e a partir de fora;
a Igreja passa por enfermidade e sofre retrocessos e
impulsos. Não se apresenta como a esposa sem mácu-
la nem rugas, tal como a sonharam os espiritualistas de
todos os tempos, e sim coberta do pó e ainda do barro
dos séculos, sofrendo pelas deficiências dos homens e
perseguida por seus inimigos. Daí que a história da Igreja
seja teologia da cruz. Sem menosprezo de sua santidade
essencial, a Igreja não é o perfeito, e sim que necessita
constantemente de renovação (Ecclesia semper reno-
vanda).
Definidos os contornos fundamentais do método utilizado
no estudo e pesquisa da História da Igreja, é igualmente indispen-
sável compreender como a disciplina está dividida.

Divisão
A divisão da História da Igreja, que também pode ser enten-
dida como a vida da comunidade cristã ou como o percurso da
Igreja na história, pode ser analisada com base em vários aspectos
e sob diversas perspectivas.
Entre essas perspectivas, destaca-se a que se baseia nas
ideias de Gómez (1987, p. 7), segundo o qual: "A história, como a
vida, não conhece pausas nem censuras, nem saltos no vazio. No
entanto, também na história existem épocas e períodos com ca-
racterísticas muito acentuadas que os diferenciam de outras épo-
cas e períodos".

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 35

Com efeito, sob essa perspectiva, a História da Igreja é vista


como um processo contínuo, na medida em que os eventos que
o constituem são interligados. Em contrapartida, esse caráter de
continuidade não invalida a possibilidade de se estabelecer uma
segmentação temporal desse processo em "períodos" e "épocas",
como afirma o autor.
Pierini (1998, p. 21-38), por sua vez, vislumbra a historiogra-
fia cristã como "reconstrução da aventura histórica" partindo das
suas fontes e situa a História da Igreja no contexto que se estende
"da pré-história à época axial", relacionando o advento de Jesus
Cristo com a história de outros povos, o que equivale a dizer que a
História da Igreja está inserida no contexto da História Universal.
A perspectiva adotada nesse material baseia-se no que di-
zem esses dois autores e se materializa na divisão histórica tam-
bém adotada por Gómez (1987), segundo a qual a história é seg-
mentada em três grandes períodos:
1) Antigo.
2) Médio ou Medieval.
3) Moderno.
Essa proposta de segmentação foi introduzida pelos huma-
nistas dos séculos 15 e 16 e, nos manuais de história universal,
essa divisão aparece, pela primeira vez, no século 17.

Informação complementar––––––––––––––––––––––––––––––
É a obra Antiquae, Mediae, Novae Nucleus de Cristóvão Keller (conhecido tam-
bém como Cellarius), publicada em 1675-1676 que inaugura a utilização dessa
proposta de divisão tripartite da história nos manuais.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Durante a vigência do romantismo, com destaque para Mo-
ehler – Haase, essa divisão também foi, propositalmente, aplicada
à história eclesiástica.
Desde o início do século 20, no entanto, difundiu-se uma di-
visão quadripartida e que comportava as seguintes épocas:
a) Antiga.
36 © História da Igreja Antiga e Medieval

b) Média.
c) Nova ou Moderna.
d) Contemporânea.
A aplicação dessa divisão quadripartida à História da Igreja
gerou a seguinte configuração cronológica:
a) Idade Antiga
1º período (1-313): marcado pela atuação da Igreja no
Império Romano pagão (perseguições dos mártires).
2º período (313-692): marcado pela atuação da Igreja
no Império Romano cristão (oficialização do Cristia-
nismo e dos grandes concílios).
b) Idade Média
1º período (692-1073): marcado pela atuação da Igreja
na formação da Europa (cristandade medieval).
2º período (1073-1303): em que se deu o apogeu do po-
der temporal dos papas (auge da cristandade).
c) Idade Moderna
3º período (1303-1517): marcado pelo clamor pela re-
forma (crise eclesial pré-luterana).
4º período (1517-1648): marcado pelas Reformas Protes-
tante e Católica (renovação e fechamento tridentino).

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
É importante ressaltar que a divisão historiográfica referida no texto principal
não corresponde à divisão da historiografia considerada oficial que data o fim
da Idade Antiga em 476, o da Idade Média em 1453 (ou 1492) e o da Moderna
em 1789. Importa ressaltar também que há quem conside o Concílio Vaticano II
(1962-1965) como um novo marco na divisão da História da Igreja Católica.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
d) Idade Contemporânea
5º período (1648-1789): estendeu-se até a Revolução
Francesa (silêncio eclesial e críticas modernistas).
6º período (período após 1789): marcado pelas revo-
luções sociais (intransigência católica, diálogo com
modernidade e abertura pós-vaticana) (BIHLMEYER-
TUECHLE, 1964, p. 16 - 17).

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 37

No contexto do debate acerca da cronologia da História da Igre-


ja, Jedin (1980, p. 29) situa os eventos que marcam essa sucessão cro-
nológica em duas categorias, definindo-as da seguinte maneira:
Manifestações externas, como sua propagação pelo orbe da terra
(missão ou evangelização), sua relação com religiões não-cristãs e
com as confissões cristãs eclesiásticas separadas dela (ecumenis-
mo) e sua relação com o Estado e a sociedade (política e sociologia
eclesiástica); manifestações internas, como a formação e fixação da
doutrina da fé por obra do magistério na luta com a heresia e com
ajuda da ciência teológica, anúncio da fé pela pregação e ensino,
realização de sua natureza sacramental pela celebração da liturgia
e administração dos sacramentos, preparação dessa mesma reali-
zação pela cura das almas e o exercício da beneficência cristã, ela-
boração da constituição da Igreja como armazenamento e sustento
para o exercício do magistério e ministério e, finalmente, irradiação
do trabalho eclesiástico sobre todos os ordenamentos da cultura e
vida social humana.

A propósito das bases em que se sustenta o estudo da His-


tória da Igreja, apresenta-se o momento de fazermos uma viagem
pela Antiguidade Cristã.

6. ANTIGUIDADE CRISTÃ (DO ANO 1 A 692): SÍNTESE


O Cristianismo, nesta época conhecida como Antiguidade
Cristã, desenvolveu-se em meio a civilizações maduras (romanos,
gregos e judeus), civilizações altamente evoluídas que cresceram
sem ele e antes dele. Essas civilizações, em seu complexo desen-
volvimento histórico, assumiram, uma posição de estranhamento,
chegando mesmo a perseguir os cristãos.
Consequência disso foi o fato de que, neste período, o Cris-
tianismo teve que se organizar internamente e enfrentar as dife-
renças e perseguições externas. Esse período é o da vida interior
da Igreja e da predominante ou exclusiva atividade religiosa.

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
Nesse tempo, a Igreja, com as bases lançadas por Jesus e pelos apóstolos,
elaborou as formas fundamentais da própria vida interna (piedade, liturgia, cons-
38 © História da Igreja Antiga e Medieval

tituição), estabeleceu aspectos fundamentais concernentes ao âmbito e às ca-


racterísticas de seu patrimônio e atividade em consequência da sua missão (luta
contra o cristianismo judaico e a gnose, profissões escritas de fé ante o Estado
perseguidor, coleta dos escritos neotestamentários, símbolos de fé, lutas doutri-
nais trinitárias e cristológicas), e, com a pregação, assentou a vida e a definição
dos dogmas e doutrina.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O quadro externo é fundamentalmente diverso antes e de-
pois do ano 313. Antes dessa data, a Igreja, no que concerne ao
âmbito da vida externa, encontrava-se em uma posição, sobretu-
do, de defesa; devia sustentar uma luta sangrenta pelo seu direito
de existência e tentava definir as suas relações com a civilização.
Os cristãos representavam uma minoria.

Cristianismo: religião oficial do Estado


Depois de 313, o Cristianismo foi libertado (Edito de Milão
emitido em nome dos imperadores Constantino, Licínio e Galério)
e converteu-se em religião oficial de Estado (conversão consoli-
dada durante o governo do imperador Teodósio, a partir do ano
380). O método de ação da Igreja tornou-se positivo e as massas
aproximaram-se aderindo à Igreja.
A Igreja contraiu estreitas relações com o Estado e com a ci-
vilização, transformando-se em importante instituição no mundo.
As disputas espirituais, agora, situavam-se no interior da Igreja e
cresceram em importância (questões cristológicas, trinitárias, sote-
riológicas e concílios ecumênicos). A Antiguidade Cristã é, portanto,
a época do surgimento da Igreja; da sua primeira atividade missio-
nária e da consolidação de sua existência frente ao Estado, à cultu-
ra, à heresia e, depois, da estabilização da fundamental consciência
dogmática de si.
Jedin (1980, p. 34) chama este período de "propagação e de-
senvolvimento da Igreja no espaço helenístico-romano" e o des-
creve com as seguintes palavras:
Nascida na terra mãe judia, a Igreja se propaga, dentro do orbe cul-
tural helenístico-romano, sobretudo o império romano e no oriente,
mais além de suas fronteiras. Desconhecida juridicamente e reitera-

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 39

damente perseguida até Constantino o Grande é, a partir do século IV,


religião do império. A constituição metropolitana se apóia na divisão
imperial, os concílios ecumênicos são conselhos imperiais; a primazia
do bispo de Roma não atenta para nada ante a ampla autonomia dos
patriarcados orientais. A partir da aparição dos apologistas gregos no
século II, o cristianismo polemiza com a religião e cultura do oriente
romano helenizado; se vale da filosofia grega para formular os dogmas
trinitário e cristológico nos quatro primeiros concílios ecumênicos, e
de formas antigas de expressão em seu culto e arte. Como conseqü-
ência das controvérsias cristológicas, as igrejas nacionais surgidas mais
além das fronteiras orientais do imério se separam da Igreja imperial
de Bizâncio, enquanto sobre o solo do império do ocidente se consti-
tuem os reinos germânicos cristãos de abservância ariana (ostrogodos
e visigodos) ou romana (francos). A Igreja especificamente romana de
Gregório Magno e a invasão árabe do século VII marcam a linha divisó-
ria: as florescentes igrejas do norte da África enfraquecem ou morrem,
e o ocidente romano-germânico se distancia de Bizâncio.

Dando prosseguimento a esse esforço para determinar as


bases em que se desenvolveu a Igreja devemos abordar também o
ambiente em que ela nasceu, o que se faz no tópico a seguir.

7. AMBIENTE DO NASCIMENTO DA IGREJA


O ambiente em que nasceu a Igreja é, sobretudo, um am-
biente complexo, na medida em que é marcado por uma dinâmica
que envolve a ação de variados sujeitos em situações diversas.
As informações apresentadas e discutidas nos itens a seguir ob-
jetivam facilitar a compreensão e assimilação dessa complexidade.

Plenitude dos tempos


Compreender e assimilar a complexidade que marca o ambiente
em que nasceu a Igreja implica remontar aos textos bíblicos. Sob essa
perspectiva destacamos o que diz São Paulo, segundo o qual quando se
chegou à plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho (Gl 4, 4). Des-
sa forma, Jesus Cristo veio ao mundo quando a humanidade já estava
preparada para acolhê-lo. Conclui-se que esta "plenitude dos tempos"
se refere às circunstâncias ambientais (política, cultura, religião, socie-
dade) nas quais germinaria a semente do Cristianismo.
40 © História da Igreja Antiga e Medieval

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
Três povos se sobressaíam no contexto dessa época: romanos, gregos e judeus.
Como cultura e religião estão numa estreita relação, as características destes
povos irão convergir na expansão e consolidação da religião cristã.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O ambiente ao qual se refere o texto bíblico mencionado
trata-se do Império Romano, que, à época em questão, dominava
várias regiões, entre elas a Palestina, onde nasceu Jesus Cristo.

Império Romano e o nascimento de Cristo na Palestina


Sob o império de Otaviano Augusto (30 a.C. – 14 d.C.) e de
seus sucessores diretos, o Império Romano se expandiu, abrangen-
do os países do Mediterrâneo, a Gália e parte da Britânia, até os
rios Reno e Danúbio. Quando Jesus nasceu, o império vivia o que
se chamou de a 'pax romana' (conseguida com a vitória de Otavia-
no sobre Antônio no ano 31 a.C., pondo fim a vários anos de guer-
ras civis dentro da República), o que trouxe relativa tranquilidade
para toda a bacia mediterrânea, criou facilidades de comunicação
e ótimas condições para a circulação de mercadorias e ideias. O
primeiro século depois de Cristo é o apogeu do império e início da
sua lenta e gradual decadência, que teve seu acontecimento maior
na queda de Roma nas mãos dos bárbaros no ano 476.
A Palestina, nessa época, pertencia ao Império Romano. E
depois da tomada de Jerusalém por obra de Pompeu no ano 63
a.C., não existiu mais um Estado judaico independente. Depois da
morte do idumeu Herodes (37–4 a.C.), Augusto deixou o seu terri-
tório aos filhos.
No grande Império Romano, o "ângulo palestinense", a terra
dos desprezados judeus, era só uma parte insignificante. O impe-
rador, por sua vez, possuía um poder ilimitado; o governo era mo-
derado, e as províncias tinham autonomia.
O grande e poderoso Império Romano foi o ambiente onde
os primeiros cristãos viveram e deram continuidade à obra de Je-

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 41

sus Cristo, estabelecendo a organização da Igreja e a expansão das


primeiras comunidades.
Portanto, é importante conhecer um pouco da vida roma-
na para compreender o desenvolvimento do Cristianismo, pois ela
será, paradoxalmente, ponto de apoio para esse desenvolvimento
do Cristianismo, ao mesmo tempo em que representará muitas di-
ficuldades para a sua existência e expansão.
Pierini (1998, p. 50-52), referindo-se ao ambiente em que
se processa a atividade apostólica, assim descreve o grande Impé-
rio Romano:
[...] formado às vezes em condições inesperadas, recolhendo a he-
rança dos etruscos, itálicos e italiotas da Magna Grécia, superando
o imperialismo comercial cartaginês, vencendo e assimilando as
várias monarquias helenistas do Mediterrâneo oriental e, enfim,
levando as conquistas para o Noroeste, à Gália e à Britânia, para
o Nordeste, ao Reno e ao Danúbio, para o Sudoeste, até às mon-
tanhas de Atlas, e para o Sudeste, até as fronteiras do reino dos
partos. Desde o ano o ano 63.a.C., a Palestina encontra-se, direta
ou indiretamente, sob o domínio romano. [...] Esse império, que
no primeiro decênio da era vulgar media cerca de quatro milhões
de quilômetros quadrados e compreendia de setenta a oitenta mi-
lhões de habitantes, apóia a própria economia essencialmente na
agricultura, no artesanato, no pequeno comércio local e no comér-
cio mais robusto por via marítima. Um exército de cerca de qua-
trocentos mil homens mantém a ordem; uma estratificação social
rigorosamente observada, mas não rígida nem insuperável, divide
os homens em servos e livres; entre os livres, distinguem os "liber-
tos" (=escravos libertados) dos chamados "ingênuos" (=nascidos
livres), mas também os pobres dos ricos; estes, aliás, são os únicos
que podem ter aspirações a participar do grupo dirigente imperial,
como cavaleiros ou como senadores (desde que cidadãos roma-
nos), ou dos vários grupos dirigentes locais. No topo está o impera-
dor, que engloba em suas mãos vários poderes: antes de tudo, o de
comandante-chefe do exército (="imperador"), o de chefe do Sena-
do (="princeps senatus") e do povo romano (mediante a "tribunica
potestas"), agregando às vezes também os poderes de cônsul, pon-
tífice máximo, sensor, etc. [...] Embora a política imperial em rela-
ção às várias províncias seja sempre coerente, a tendência de base,
ela própria situação de fato, é chegar a uma unificação cada vez
maior. Tal tendência pode, porém, apresentar-se de forma centrí-
peta ou centrífuga, ou seja, conforme prevaleçam os interesses do
centro geográfico, ou seja, Roma e Itália, ou os interesses da perife-
42 © História da Igreja Antiga e Medieval

ria. A primeira tendência é, em geral, de matriz elitista aristocrática


e defende a tradição; a segunda é aberta, democrática e promove,
pelo menos dentro de certos limites, a inovação. A primeira supõe-
se preconceituosamente hostil ao cristianismo, como a qualquer
movimento cultural ou religioso não estritamente romano-itálico; a
segunda, ao contrário, procura o sincretismo e não se opõe por isso
ao cristianismo, podendo até mesmo favorecê-lo. De fato, as duas
tendências são condicionadas pelas circunstâncias e pela perso-
nalidade dos imperadores, que nem sempre demonstram possuir
uma visão orgânica da situação. [...] No período que vai do primeiro
triunvirato a morte de Domiciano, isto é, do ano 60 a.C ao ano 96
d.C, colocam-se em movimento os fatores que, entre muitas vicissi-
tudes, levam ao equilíbrio típico do século dos Antoninos (de Nerva
a Marco Aurélio, 96-180), o século de ouro do império romano. Na
conjuntura de César a Domiciano a idéia imperial – essa dimensão
estrutural que vem de longe e irá, apesar de tudo, muito longe, re-
aliza uma decisiva caminhada: acumulam-se e perdem-se enormes
riquezas, através das guerras e de um rápido intercâmbio social,
que colocam em ação uma variedade de fermentos econômicos,
políticos, culturais, artísticos, religiosos. Um desses fermentos, o
mais importante não tanto do ponto de vista dos tempos breves
ou médios, e sim na perspectiva dos tempos longos (estruturais), é
justamente a nova fé proclamada pelos apóstolos.

Roma era o centro, capital e imagem de todo o império. Ci-


dade, fundada no ano 753 a.C., por Remo e Rômulo, reunia os as-
pectos mais diversos do império, que vivia o seu apogeu político e
expansionista. O seu culto espiritual não era unitário; Roma tinha
uma estrutura pagã e havia templos para dezenas de deuses lo-
cais e estrangeiros. Existiam palácios luxuosíssimos e refinados,
que então começaram, em medida crescente, a servir à vida de
prazer. A imoralidade penetrava mais profundamente em todas as
classes. O luxo excessivo e a vida pomposa eram acompanhados
de um espantoso desprezo pela vida humana, especialmente os
miseráveis e os escravos.
As alianças políticas com povos estrangeiros foram, aos pou-
cos, enfraquecendo as forças locais e com o tempo o exército e ou-
tros segmentos estavam ocupados em enfrentar povos bárbaros,
como os eslavos, que buscavam riquezas e espaço na vida e cultura
romanas. O império agrupava uma multidão de povos que conser-
vavam os seus costumes, suas línguas e suas culturas. No entanto,
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 43

no conjunto do império impunham-se duas línguas: o grego "koiné",


"comum", e o latim.
Tendo em vista nossos objetivos, impõe-se, nesse momento, a
necessidade de conhecer um pouco da dinâmica religiosa de Roma.

A Dinâmica Religiosa de Roma


A pregação cristã encontrou no império sistemas religiosos
variados, pois os romanos eram tolerantes em matéria religiosa,
mas exigiam que todos os cidadãos e escravos prestassem culto aos
deuses imperiais, o que se tornou um problema para os cristãos,
que só prestavam culto ao seu Deus e não aceitavam o politeísmo.
Com efeito, muitos desses deuses oriundos das religiões e cultos do
império podiam opor-se à mensagem evangélica. Em contrapartida,
podiam ser também "escalas progressivas" para a revelação cristã.
A propósito dessa dinâmica geral no contexto do surgimento
do Cristianismo, podemos perceber quatro vertentes religiosas:
1) As religiões tradicionais (religiões rurais e citadinas em
que se destacavam as divindades: Zeus-Júpiter, Hermes-
Mercúrio, Possêidon-Netuno).
2) O culto ao soberano (trata-se de uma religião a serviço
da política).
3) A chamada segunda religiosidade (chama-se assim a
todo o conjunto de correntes espirituais definidas que
aparecem no começo da era cristã).
4) As religiões orientais mistéricas (oriundas de ambientes
populares, estes cultos respondem à angústia existencial
do homem; inquieto e desventurado no mistério, é o fiel
mesmo que morre e renasce para uma vida nova; princi-
pais divindades: Íris-Mitra, Cibelis-Attis etc.).
Pierini (1998, p. 36-37) descreve as religiões de mistério
como uma busca de resposta para os problemas do bem e do mal,
da dor, da vitória sobre a morte e a busca de salvação, o que se
pode observar quando diz o seguinte:
44 © História da Igreja Antiga e Medieval

Para oferecer uma solução a esses problemas, apresentam-se, na


época helenista-romana, do século IV a.C. em diante, as chama-
das "religiões de mistério". Elas, na maioria dos casos, originam-se
de antigos ritos agrários destinados a renovar as forças da nature-
za através de cerimônias de valor sagrado e mágico. O significado
agrário do rito torna-se logo psicológico, porque o crente, ao parti-
cipar desses ritos secretos (daí a palavra "mistérios"), fica convenci-
do de que pode morrer e renascer, tal como faz a natureza, para ou-
tra vida melhor. Primeiramente, são pequenos grupos insatisfeitos
com a religião oficial, muito fria e formalista; depois, o movimento
de adesão aos "mistérios" se amplia, tornando-se fenômeno de
massa nos tempos do império romano.
Essas religiões, com os ritos de iniciação, os sacrifícios de animais ou os
simbolismos vegetais, com as preces, as cerimônias secretas bastante
sugestivas, seja prometendo a descida aos infernos, seja assegurando
a elevação aos céus, contribuem para quebrar os estreitos limites da
cidade, da nação; oferecem uma esperança interior aos indivíduos, in-
dependentemente da sua colocação geográfica, social ou cultural. A
religião de Ísis, deusa-mãe egípcia, e o culto de Mitra, deus-guerreiro
persa, aparecem, nos primeiros tempos do império romano, como os
mais temíveis concorrentes do cristianismo nascente.

Apresentar e discutir a configuração religiosa romana não


basta para compreender o ambiente em que nasceu a Igreja. Para
alcançar essa compreensão, em toda sua complexidade, é preciso
ampliar e aprofundar a reflexão para além dos limites da religião
abordando outras dimensões como é o caso da Filosofia Romana.

Filosofia no ambiente romano


Muitos partidários do chamado Paganismo Greco-Romano en-
contraram um substituto para sua orientação pagã na Religião e na
Filosofia. Nesse sentido, aqueles indivíduos mais inclinados e recep-
tivos à Filosofia encaminharam-se lentamente para o monoteísmo;
para uma religião do dever a cumprir e da paciência na adversidade.
Nesse contexto floresce o Estoicismo, sistema fundado no sé-
culo 4º a.C., por Zenão de Cicio. Essa filosofia exigia uma submissão
ante a ordem do universo e prometia a felicidade para todos os que
assumissem e aceitassem a própria condição e existência de modo
sereno e pacífico. Assim, com o esforço pessoal e com uma vida vir-
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 45

tuosa e ética, o homem viveria conforme a natureza e se liberta-


ria de todas as más paixões e influências mundanas, chegando ao
equilíbrio e domínio de si mesmo (o que eles chamavam de apatia,
impassibilidade ou ataraxia). O imperador Marco Aurélio e Epiteto
(50–125 d.C.) foram importantes representantes desta corrente.
Além disso, esta época também é marcada pela expansão do
gnosticismo ou gnose, assim descrito por Pierini (1998, p. 37-38):
[...] entre o II e o I século a.C., o dualismo social e metafísico bem
como a mensagem de salvação são interpretados também pelas filo-
sofias e religiões gnósticas (do grego "gnosis" = conhecimento), assim
denominadas porque, segundo tais doutrinas, só o verdadeiro co-
nhecimento é fonte de salvação. Partindo do dualismo ético (o bem
e o mal estão na consciência do homem), o gnosticismo elabora uma
visão do bem e do mal em luta entre si em escala universal (dualismo
metafísico): o bem é Deus; o mal é a matéria, entendida também em
sentido físico (daí, em geral, o desprezo pelas exigências do corpo e
o rigorismo puritano na vida moral, às vezes disfarçado em indife-
rentismo moral e em libertinismo); entre Deus e a matéria existe um
mundo intermediário de espíritos (chamados "eons" = seres), entre
os quais um é mau, o chamado "demiurgo", criador e organizador
do universo material com todos os seus defeitos, o outro é bom, o
salvador, que pode também revestir-se de matéria (mas só aparente-
mente = "docetismo") com a finalidade de salvar os homens, que são
feitos de matéria e espírito, levando cada um deles a conhecer (eis a
"gnose") a própria fagulha espiritual e ajudando-os a alçarem até o
mundo dos "eons" (dito "pleroma" = plenitude), até Deus.
A atitude gnóstica, considerada um pouco como o "parasita" de
todas as grandes religiões, desenvolve-se não só no mundo pagão
greco-romano, mas também no mundo judaico, exprimindo-se em
alguns apócrifos do Antigo Testamento, sobretudo de estilo apoca-
líptico, e, mais tarde, muito precocemente, no ambiente cristão.

Conhecer a maneira pela qual se estruturava a sociedade


romana, bem como sua dinâmica nesse período é mais um dos
elementos que contribuem para determinar as características do
ambiente em que a Igreja nasceu. O item a seguir consiste em ex-
plicitar, de forma geral, como estava constituída e como se proces-
savam as relações no interior da sociedade romana para justamen-
te alcançar esse objetivo.
46 © História da Igreja Antiga e Medieval

Sociedade romana
A sociedade romana era chamada de "cooperativa da felici-
dade", felicidade que pertencia aos mais privilegiados (aristocra-
tas e comerciantes), pois quase um terço da população era formada
por escravos e pobres, excluídos do sistema político-econômico.
A sociedade romana era, portanto, dura para com os fracos.
A economia antiga baseava-se na escravidão, bem como no pre-
domínio masculino – a mulher era considerada inferior, apesar de,
em alguns segmentos, ter conseguido conquistar alguns direitos.
A tendência expansionista do Império Romano, bem como
a preocupação com a integração entre as regiões que eventual-
mente o constituíam, ambos objetos de análise do próximo item,
são elementos que também contribuem para a reflexão em que
consiste essa unidade.

Comunicação
No que diz respeito à integração entre as regiões que consti-
tuíam o Império Romano, observa-se que o império era entrecorta-
do por grandes estradas que levavam o nome dos seus respectivos
construtores, dentre as quais ganhavam relevância as seguintes:
• Via Ápia: que se estendia de Roma a Brindisi.
• Via Aurélia: de Roma a Genova.
• Via Domicia: que se estendia da Itália à Espanha, passan-
do pela Gália.
Como o império expandiu intensamente seus limites na ba-
cia mediterrânea, a navegação desenvolveu-se e o caminho do
mar tornou-se preferível em detrimento das rotas terrestres.
A propósito dessa configuração estrutural, o bispo cristão
Melitão de Sardes (+175) dizia, em síntese, que o Cristianismo e o
Império Romano tinham sido ordenados, pela Providência divina,
um para o outro (GÓMEZ, 1995, p. 18).

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 47

É verdade que o Império Romano foi benéfico ao Cristianis-


mo em certos aspectos por conta dos seguintes elementos: tole-
rância religiosa; unificação política (diversidade de povos dentro do
mesmo Estado); a unidade cultural helenística; intenso comércio e
rápidas vias de comunicação; organização em províncias. Mas, ao
mesmo tempo, o império constituiu um perigo para a Igreja nas-
cente, o que se reflete nas perseguições nos três primeiros séculos
de existência e no fato de que o Cristianismo foi muito combatido
dentro e fora do império.

Judaísmo
Para compreender o ambiente em que nasceu a Igreja é es-
sencial, também, conhecer a dinâmica do Judaísmo, outra grande
religião muito presente no contexto em questão. E para alcançar
essa compreensão, abordaremos, nesse item do material, elemen-
tos básicos que compõem a história, a dinâmica social e geográfi-
ca, bem como o desenvolvimento da religiosidade judaica que se
desenvolveu em Israel.
Israel está localizada em uma pequena e estreita faixa de ter-
ra entre a África e a Ásia. Trata-se de uma região muito cobiçada
pelas potências antigas, posto que configurava uma área estrategi-
camente muito bem situada.
O povo judeu sofreu com várias invasões e exílios. Em mea-
dos do ano 200 a.C., por exemplo, toda a região foi dominada pelo
Império Selêucida da Síria, quando se iniciou o que foi chamado
de "helenização forçada" da região, que por sua vez gerou uma
resistência muito forte da parte dos Macabeus. Mais tarde, antes
mesmo do nascimento de Cristo, no ano 63 a.C., os romanos domi-
naram a região confiando o governo local aos idumeus Herodes e
Arquelau, líderes regionais nessa época.
Neste ambiente, proliferou o gênero literário apocalíptico,
bem como o desejo de libertação fundamentado na crença da vin-
da do Messias, daí o fortalecimento da expectativa messiânica.
48 © História da Igreja Antiga e Medieval

Inicialmente, a sociedade judaica organizava-se em tribos


nômades que viviam no deserto. Já à época do nascimento de Je-
sus Cristo predominava, há séculos, uma organização baseada no
sedentarismo, em que a propriedade se submetia a um sistema
patriarcal, com evidente supremacia masculina.
As atividades econômicas fundamentais, nesse contexto,
eram a agricultura, baseada na produção de cereais (trigo, cevada,
centeio etc.), legumes e frutas; a pesca e a pecuária, que, por sua
vez, se concentrava na criação de bovinos, ovelhas e aves.
Na sociedade judaica, a família tinha valor e importância
muito marcantes, sendo que, em sua dinâmica, o pai tinha total
autoridade sobre esposa e filhos, daí o caráter patriarcal da socie-
dade judaica mencionado anteriormente.
A sociedade judaica era marcadamente dividida em dois seg-
mentos: os "ricos" (constituído pelos cortesões, latifundiários, co-
merciantes, nobreza sacerdotal etc.) e os "pobres" (formado por
escravos judeus, escravos pagãos, mendigos, diaristas etc.).
Na história do povo hebreu, que constituía a sociedade ju-
daica, a religião ocupava um espaço insubstituível. E o núcleo de
suas crenças era constituído pelos seguintes elementos:
• O monoteísmo.
• A fé no Messias, que nasceria em meio ao povo para eri-
gir, em Israel, o Reino de Deus.
• A observância da Lei expressa na Torá, tarefa que o ho-
mem piedoso se propõe a cumprir em sua vida diária.
Para os hebreus, o culto divino, tanto no templo como nas
sinagogas, mantinha vivo o conhecimento da Escritura e estimula-
va a prática e a valorização da pureza da Lei mosaica. No templo,
os judeus faziam o verdadeiro e único sacrifício. Durante o ano
existiam várias celebrações: os sacrifícios públicos (rituais que os
judeus faziam em suas visitas ao templo, com oferta e sacrifícios
de cordeiros, pombas etc.) , que eram diários; os sacrifícios pri-

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 49

vados (abluções, banhos, orações etc.) e as grandes festas (Pás-


coa ou Pessah, que celebra a saída e vitória sobre os egípcios e a
libertação da escravidão), Pentecostes (ou festa da colheita e a
celebração da aliança com Deus após o retorno do Egito), Tendas
(festa que recorda o tempo vivido no deserto), Yom Kippur (festa
do perdão e da purificação com forte jejum), Dedicação (consagra-
ção dos espaços e edifícios de culto, especialmente do Templo de
Salomão) etc.
Morin (1982, p. 13) expõe nove pontos que ocupavam o
núcleo da religiosidade judaica na época do nascimento de Jesus
Cristo:
1) As tribulações messiânicas: pestes, tremores de terra diversos
flagelos.
2) A volta de Elias.
3) A manifestação do Messias (cada um espera o Messias que cor-
responde à posição de seu grupo; o Messias atualmente escon-
dido pode desempenhar um papel essencial ou um papel secun-
dário, no conjunto).
4) A luta e a vitória contra as potências maléficas.
5) O Reino de Deus: restauração da teocracia em Israel, volta do
exílio, purificação de Jerusalém, transfiguração do templo, re-
novação no Espírito, reino político do Messias, participação das
nações.
6) A ressurreição dos mortos.
7) O juízo.
8) A idade de ouro: felicidade messiânica para os justos.
9) O castigo dos ímpios.

A propósito dessa perspectiva, existiam duas formas de pro-


fissão do judaísmo:
1) A da Palestina, caracterizada, sobretudo, pela extraordi-
nária imposição de restrições, pela rigidez e pelo extremo
senso de rivalidade frente a tudo o que não fosse judaico.
2) A dos judeus que viviam fora do contexto israelita (por
obra da diáspora ou dispersão), mais abertos ao mundo
helênico e às influências externas.
50 © História da Igreja Antiga e Medieval

No contexto do judaísmo palestinense, destacavam-se al-


guns grupos, com características religiosas marcantes e proposta
política específica que configuravam, conforme alguns autores,
verdadeiros partidos político-religiosos que vamos conhecer ao
longo dos itens a seguir.
Hassidins
Os Hassidins constituíram uma comunidade de homens sé-
rios, que buscavam a última e mais profunda vontade de Deus,
expressa na Lei; eram fechados, não se envolviam com o povo e
representavam uma certa elite político-espiritual.
Saduceus
Os Saduceus constituíam um grupo de origem incerta que
teria surgido há pelo menos 120 anos antes de Cristo. O grupo era
composto pelos mais ricos e altos sacerdotes e, por isso, estavam
muito vinculados ao templo e eram rejeitados por fariseus e zelotas.
Tinham uma visão racionalista, mais aberta à cultura helenística.
A respeito dos Saduceus, Morin (1982, p. 108-109), explicitan-
do características relevantes desse segmento, afirma o seguinte:
[...] Herodes os tratou duramente. Do ano 6 ao ano 70, comanda-
ram uma política de conciliação com o invasor romano. A partir do
ano 6 o sumo sacerdote, Joazar, persuadia os judeus a declararem
seus bens. Acalmavam os movimentos populares. Entre eles é que
se deve procurar os responsáveis pela morte de Jesus.
Suas tendências doutrinais conservadoras são coerentes com sua
posição política. São defensores da ordem estabelecida. Em maté-
ria cultual, apegam-se à letra da Torá e, neste ponto, muitas vezes,
entram em conflito com os fariseus. Assim, a presença de Deus é
muito localizada no Santo dos Santos do templo.

Os saduceus privilegiam os Cinco livros, o Pentateuco, supostamen-


te legados por Moisés. Não rejeitam os livros proféticos. Mas são
compreensíveis suas resistências e sua reticência em empregá-los!
A evolução doutrinal sem apoio no Pentateuco é descartada. Assim,
a idéia de uma retribuição individual e coletiva e extraterrena. Para
eles, o que importa é a salvação atual da nação. A ressurreição dos

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 51

mortos, a existência de anjos e demônios lhes parecem dados bas-


tante tardiamente acrescentados. Em matéria criminal, rejeitam as
mitigações inventadas pelos fariseus e as acomodações financeiras.
São partidários de uma estrita aplicação da lei do talião.
Os saduceus constituíam o partido da ordem. Vivam presos à
sua fé. Eram arrogantes e duros com os pequenos. Não tinham
influência sobre o povo. Acredita-se que nem mesmo sobre as
próprias mulheres. É que eles não resistiram à tentação de todo
partido no poder: utilizar a religião.

Fariseus (Separados)
Os Fariseus constituíam o maior grupo na época de Jesus,
composto por uma classe média separada do povo e das elites
sacerdotais. Formavam um grupo bem organizado, que conhecia
profundamente a Lei mosaica, observando-a de modo incansável
e escrupuloso.
Nesse grupo, majoritariamente laical, existiam alguns escri-
bas e poucos sacerdotes.
Na época de Jesus, eles estavam separados do poder políti-
co, personificado em Herodes, antigo aliado deles. Em contrapar-
tida, tinham uma grande influência junto ao povo e isso lhes dava
um grande poder no contexto político, o que se explica, segundo
Morin (1982, p. 111-112), da seguinte maneira:
O segredo de sua influência é conseqüência de dupla oposição. Pri-
meiramente, diante da massa popular, afirmavam sua origem judaica
com uma piedade bastante desenvolvida. A interpretação escrupu-
losa da Lei os levava a uma observância rigorosa do sábado, a um
extremo cuidado com a pureza legal, ao pagamento integral dos dízi-
mos dos mínimos produtos. Com isso, pretendiam impor ao povo em
geral, em toda a sua vida, uma pureza totalmente semelhante àquela
que devia caracterizar o sacerdote oficiante do templo. Os saduceus
não exigiam tanto, pois tinham que manter as distinções. Os fariseus,
mais católicos que o papa, mostravam-se, assim, como exemplo ao
povo. Fascinavam a todos e a todos desprezavam.
Por outro lado, opunham-se à nobreza sacerdotal e leiga na área re-
ligiosa, constituindo-se uma nova casta de intérpretes da Escritura
com espírito renovador. Diante dos que se agarravam apenas ao livro
da Lei, os fariseus escribas combinavam a exegese da Lei escrita com
52 © História da Igreja Antiga e Medieval

as contribuições da Tradição oral para a elaboração de uma teologia


mais aberta e mais espiritualista. Eles tinham uma idéia bastante ele-
vada das relações entre o homem e o Criador, da liberdade humana
e da providência. Manifestavam uma viva fé messiânica e afirmavam
a existência dos anjos, o julgamento depois da morte e a ressurrei-
ção dos justos. Ao contrário dos saduceus que desconfiavam de toda
abertura da história, os fariseus admitiam as crenças dos apocalípti-
cos e esperavam uma era verdadeiramente nova [...]
Os fariseus, irrepreensíveis aos olhos do povo, superavam, por sua
ciência e sua piedade, os chefes-saduceus pouco considerados nos
meios populares. Seu espírito comunitário e seu cuidado de purifi-
cação para todo Israel continham germes democráticos. Tudo isso
constituía excelentes trunfos para um partido de oposição que co-
lheu, no ano 70, os frutos de seu devotamento à Lei.

Zelotas (resistência combativa)


Os Zelotas eram judeus que se colocavam ao fiel serviço da
Lei, mas com atitude combativa e martirial. Eram chamados de si-
cários, pois carregavam um punhal com este nome e, quando po-
diam, matavam romanos e seus colaboradores. Muitos deles sur-
giram em meio aos fariseus, que eram considerados conciliadores
e menos combativos.
Morin (1982, p. 112-113) refere-se a eles da seguinte maneira:
[...] Durante a revolta dos anos 66 a 70, o fanatismo zelota atingiu
o paroxismo. Depois da queda de Jerusalém, eles ainda resistiram
e só cederam, no ano 73, em Massada. Mas Bar Koseba retomou a
resistência nos anos 132 a 135.
[...] Segundo Flávio Josefo, Judas o Galileu "censurava os judeus
por aceitarem o pagamento do tributo aos romanos e por admiti-
rem chefes mortais ao lado de Deus. E seus sequazes tinham um in-
vencível amor à liberdade, pois julgavam que Deus era o seu único
chefe e seu único soberano".
O programa dos zelotas continha uma reforma social, mas lutavam
pelo templo e, portanto, pela conservação das instituições judai-
cas. Eram os resistentes que queriam a expulsão dos romanos, mas
eram os reformistas que pretendiam, simplesmente, corrigir os
abusos do sistema em vigor sem questionar o modo de produção
vigente desde o século X antes de Cristo [...].

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 53

Essênios
Os Essênios tratavam-se de grupo formado por judeus que se
articulou no século 2º a.C. Repudiavam o culto do templo e os sa-
crifícios, levando uma vida de rigor ascético, ao estilo dos monges,
com celibato, vida comum, partilha dos bens etc. Não se permi-
tiam a convivência nem com os pecadores do povo judaico e tam-
pouco com os pagãos. Eram extremamente radicais na fidelidade à
Lei, à observância ritual e na pureza da Aliança. Tornaram-se mais
conhecidos após e a propósito da descoberta dos Manuscritos de
Qumrã, no Mar Morto.
Apresentadas as características fundamentais dos principais gru-
pos de judeus palestinenses, abordaremos a seguir a dinâmica do even-
to que ficou conhecido como Diáspora ou Dispersão, mais um elemento
determinante para a compreensão da dinâmica do Judaísmo.
Diáspora/Dispersão
Após e por estímulo do cativeiro assírio (722) e babilônico
(597), o povo judeu dispersou-se pelos países limítrofes, muito
embora também tenham havido emigrações voluntárias.
Os judeus formaram mais de 150 comunidades, mais abertas
ao mundo greco-romano, sendo que muitos dos integrantes dessas
comunidades pertenciam à classe média. Foi nestas comunidades
derivadas da diáspora que os apóstolos e primeiros missionários
iniciaram seu trabalho anunciando a mensagem cristã e foi no in-
terior da dinâmica dessas comunidades que muitos se converte-
ram ao Cristianismo, especialmente os "tementes a Deus", pagãos
simpatizantes do judaísmo que não queriam assumir o judaísmo e
viram no Cristianismo uma proposta semelhante e menos exigente
em alguns aspectos.
Observe que o "monoteísmo" e a ideia de um "Messias" liber-
tador constituem os elementos positivos que o Judaísmo oferece
ao nascente Cristianismo, mas a Igreja encontrou dois obstáculos
profundos e difíceis de superar nesse processo de influência dou-
54 © História da Igreja Antiga e Medieval

trinária: o "nacionalismo judaico", que considerava o Cristianismo


como algo exclusivo, contrariando o universalismo da mensagem
evangélica e a "piedade farisaica", que se expressava unicamente
no cumprimento exterior da Lei e não valorizava as exigências da
boa intenção interior, que é algo essencial no Cristianismo.
Pierini (1998, p. 50-51), aprofundando a consideração da re-
lação entre Cristianismo e Judaísmo, assevera o seguinte:
Nascendo na Palestina, a mensagem evangélica e a atividade apos-
tólica têm que se confrontar com três ambientes estritamente liga-
dos entre si, mesmo onde estão em concorrência ou em conflito:
o ambiente judaico-palestinense propriamente dito; o judaico-he-
lenista, que mesmo na "diáspora" gravita em torno de Jerusalém,
encontrando-se e, às vezes, conflitando com os judeus autóctones;
e o pagão (ou "étnico", "gentílico"), representado sobretudo pelos
comerciantes, soldados romanos, mas também pelas populações
semíticas circunvizinhas [...]. A unificação romana do Mediterrâneo
geralmente preservava os interesses das classes dirigentes locais,
favorecendo suas atividades e autonomias não só econômicas
e políticas, mas também culturais e religiosas. A Palestina, nesse
quadro, não é uma exceção. O povo judeu conserva a própria fisio-
nomia e as próprias tradições; os chefes do povo, especialmente os
saduceus, são filo-romanos, ou pelo menos toleram a imposição
estrangeira. No entanto, dada a suscetibilidade religiosa e nacional,
típica de Israel, não se pode falar de verdadeira colaboração, mas
só de coexistência mais ou menos pacífica, interrompida de vez em
quando por lampejos de rebeldia.

Considerado o ambiente em que nasce a Igreja, abordemos,


agora, o seu fundamento maior.

8. JESUS CRISTO
Em Jesus de Nazaré está a origem da História da Igreja. A
Igreja apresenta-se a si mesma como fundada por Cristo. Mas Cris-
to existiu realmente? Para responder a esta pergunta, é preciso
remontar às "fontes históricas" da vida de Jesus, que podem ser
divididas em três categorias:

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 55

1) Fontes cristãs: Os "Evangelhos" (Mateus, Marcos, Lucas


e João) e as "Cartas" de Paulo. Infelizmente, Jesus não
deixou nada escrito, mas, por meio destas obras, pode-
mos conhecer bem a sua vida e seu ensinamento, apesar
de que essas fontes apresentam algumas lacunas.
2) Fontes não cristãs: "fontes judias" (Flávio Josefo, 37-100)
e a tradição talmúdica.
3) Fontes pagãs: Tácito (55-120), Suetônio (70-128) e Plí-
nio, "O Jovem" (61-114).

No campo das fontes históricas, além das fontes literárias,


como citamos anteriormente, existem ainda as fontes arqueológi-
cas, com destaque pra os "lugares santos" (Nazaré, Belém, Jerusa-
lém e Santo Sepulcro).
Muitos estudiosos quiseram provar que Jesus Cristo não
existiu enquanto personagem histórico e que sua figura se trata de
criação mitológica, sendo que a esse respeito Bihlmeyer e Tuechle
(1964, p. 52-53) dizem o seguinte:
A negação da existência histórica de Jesus feita por A. Kalthoff,
P. Jensen, A. Drews, P. L. Couchoud e outros, que consideram o
Redentor uma figura puramente mítica, proveniente das idéias
difundidas na Ásia Menor, de um Deus salvador, que morre e res-
surge e das visões imaginosas dos judeus sobre a vinda do Mes-
sias, é uma grave aberração da crítica radical. O testemunho do
Evangelho e do Apóstolo Paulo permanece solidíssimo. Um frag-
mento de papiro do Evangelho de João, descoberto há pouco e
que remonta ao princípio do século II, demonstra que nos tempos
do imperador Trajano já se escrevia de Jesus aquilo que nós lemos
hoje.
Por outra parte, possuímos também testemunhos seguríssimos de
fonte pagã e hebraica. Tácito (+120 d.C.) nos Anais V, 44, falando
da perseguição aos cristãos ordenada por Nero, alude também à
execução capital de Cristo ordenada pelo procurador Pôncio Pilatos
(auctor nominis eius [sic. Chrestianorum] Christus Tibério imperan-
te, per procuratorem Pontium Pilatum supplicio affectus erat. Cfr. E.
Panneels, Nova ET Vetera 1947, 43-55).
O procônsul Plínio, o Jovem, refere, pelo ano 112, numa carta ao impera-
dor Trajano (Ep. X, 96) que os cristãos da Bitínia costumavam cantar um
hino a "Christo quase Deo" durante suas funções religiosas.
56 © História da Igreja Antiga e Medieval

O historiador hebreu Flávio Josefo [...] pelo ano 96, em suas "An-
tiquitates judaicae" XX, 9,1 chama Tiago Menor "irmão de Jesus,
que é chamado o Cristo". Duvidosa, porém, é a autenticidade do
seguinte texto que parece estranho às "Antiquitates" XVIII, 3,3.
"Naquele tempo viveu Jesus, um homem de grande valor [se, con-
tudo, pode ser chamado homem, pois ele era] um realizador de
obras maravilhosas, [um mestre dos homens, que acolhem com
alegria a verdade]. Ele conquistou muitos judeus para sua causa,
mas também muitos pagãos. Ele era [ou pelo menos parecia ser]
o Messias. Quando Pilatos em base a uma acusação movida con-
tra ele pelos nossos homens mais eminentes o condenou a mor-
rer na cruz, aqueles que antes o tinham seguido não se afastaram
dele [pois que ao terceiro dia apareceu-lhes novamente vivo já
que os santos profetas tinham predito dele estas e muitas outras
coisas maravilhosas]. Ainda hoje a gente dos cristãos, que toma o
nome dele não cessou de existir."
As palavras entre colchetes, que interrompem o sentido e se afastam
do estilo de Flávio Josefo, são provavelmente uma nota marginal já
conhecida por Eusébio (H. E. I, 11, 7, 8), mas ainda não por Orígenes;
ou então trata-se de uma manipulação do texto original por obra
de cristãos. Todavia, encontramos ainda em tempos recentíssimos
quem sustente sua autenticidade [...] enquanto outros declaram
todo o trecho interpolado mais tarde por mão cristã é espúria.
As últimas comunicações (5 fragmentos) fornecidas pela versão
paleo-russa (séculos XI-XII) da "Guerra judaica" de Flávio Josefo so-
bre as aspirações de Jesus (Messianismo político) e a sua Paixão,
embora tenham encontrado defensores em R. Eisler e em outros,
são certamente lendárias [...]
São também apócrifas a pretensa relação de Pilatos ao imperador
Tibério sobe a morte e ressurreição de Jesus e a carta de Lentulo
(presumido antecessor de Pilatos) ao Senado sobre a personalida-
de física de Jesus; cfr. Dobschütz ZntW 1902, 29 ss; Christusbilder,
308ss. Uma falsificação recente é a chamada carta de Benan, que
dá notícias sobre Jesus e seus discípulos, a qual, conforme o editor
ou então inventor Ernesto, nobre de Lanitz (1910) teria sido escrita
no ano 83 d.C. pelo médico egípcio Benan; cfr. C. Schmidt e H. Kra-
pow em TU 44, 1,1921.

Cronologia de Jesus Cristo


Considerar a figura de Jesus Cristo como personagem histó-
rico e não como criação mítica implica considerar os eventos que
compõem essa história em sua cronologia básica, conforme o que
se expõe a seguir.

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 57

Nascimento
No ano 526, o monge Dionísio, o Exíguo, fez cálculos para
fixar a data de nascimento de Jesus, e assinalou o ano 753 da
fundação de Roma. Mas, segundo a cronologia moderna, Dioní-
sio equivocou-se em 4 anos. Dessa forma, o nascimento de Cristo
situar-se-ia no ano 749, o que configura um atraso de 4 anos no
calendário ocidental vigente.

Vida pública
Alguns autores modernos como Van Beber, Belser, entre ou-
tros, fundamentando-se no testemunho de determinados Padres
da Igreja, restringem a vida pública de Jesus a um ano de dura-
ção. No entanto, a maioria dos autores inclina-se para dois anos
e meio.
Morte
Como Cristo começou sua atividade pública aos trinta anos
(Lc 3, 23), sua morte teria ocorrido nos anos 32-33, ou, 14 Nisan (1º
mês do ano judaico) de 783 de Roma, isto é, 7 de abril do ano 30.
Pierini (1998, p. 41-43), tratando deste tema, conceitua uma
"cronologia relativa da vida de Cristo" e uma "cronologia absoluta
da vida de Cristo". Na primeira, confrontam-se os quarto evange-
lhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e são colocadas algumas di-
ferenças de disposição e proporção (PIERINI, 1998). A respeito da
mencionada "cronologia absoluta", por sua vez, Pierini (1998, p.
43-45) diz o seguinte:
Todavia, além dos problemas da cronologia relativa existem os da
cronologia absoluta: isto é, trata-se de atribuir a cada etapa da
vida Cristo uma data, segundo um calendário que estabeleça anos,
meses e dias precisos e até, se possível, horas e minutos. Mas as
dificuldades que se encontram são consideráveis, às vezes até in-
superáveis.
A primeira questão refere-se ao ano e ao dia do nascimento de Cris-
to. A esse respeito, Mateus diz que Jesus nasceu "no tempo do rei
Herodes" (MT 2,1), e Lucas, que o evento se verificou durante o cen-
so realizado "enquanto Quirino era governador da Síria" (Lc 2,2). As
58 © História da Igreja Antiga e Medieval

indicações, como se vê, são muito vagas, e devem ser completadas


com informações oferecidas por outros autores. Quanto a Herodes,
o escritor hebreu Flávio Josefo afirma que ele morreu antes da Pás-
coa (=11 de abril) do ano 750 da fundação de Roma. Deve-se deduzir,
então, que o nascimento de Jesus, ocorrido muito antes da morte de
Herodes, verificou-se necessariamente antes de 750, e que Dionísio,
o Pequeno, estabelecendo o ano do nascimento em 753 da fundação
de Roma, errou em três anos: Cristo, então, nasceu ao menos três
anos [...] antes de Cristo. Pelo menos três anos, mas provavelmente
também não mais do que sete anos. De fato, o censo a que Lucas se
refere deve ter sido, conforme indicam os dados arqueológicos, o se-
gundo convocado por Augusto, promulgado no ano 746 da fundação
de Roma. Pode-se concluir, pois, que Jesus nasceu depois do ano 746
e antes de 750 "ab Urbe condita".
Quanto ao dia do nascimento de Cristo, a data de 25 de dezembro
(ou 7 de janeiro, segundo o calendário Juliano em uso nas Igrejas
orientais) nem entra em questão, porque, como se sabe, trata-se
de uma data litúrgica, introduzia no séc. IV para substituir as festas
pagãs do solstício de inverno.
A segunda questão da cronologia absoluta está ligada ao início da
vida pública e ao batismo de Jesus, feito por João Batista. Também
nesse caso, apesar dos detalhes solenemente proclamados por Lu-
cas (Lc 3,1-2), a data precisa foge do alcance da pesquisa histórica,
porque não consegue estabelecer qual o critério usado pelo evan-
gelista ao escrever "no ano décimo quinto do império de Tibério
César", que tanto pode ser 26-27 ou 28-29 d.C. Como Lucas diz
também que Pilatos já era procurador da Judéia e o início do exer-
cício desse cargo deve ser colocado entre os anos 26-27 d.C., está
claro que precisamos nos manter entre os 26 e 29, mais provavel-
mente 27, ou seja, no ano 780 da fundação de Roma (se as Páscoas
da vida pública de Jesus foram três). Quanto ao dia exato (do início
da vida pública), aqui também nada se sabe, a não ser que deve ter
sido antes da Páscoa, pelo que afirma Jo 2,13.
O terceiro e mais importante problema refere-se à data da sexta-
-feira. Como já dissemos, festa pascal judaica ia do pôr-do-sol do
dia 15 do mês de Nisan, que correspondia a uma parte dos nossos
meses de março e abril. Dado que é absolutamente improvável que
Cristo tenha sido condenado e crucificado na manhã ou na tarde de
um dia festivo e tão solene como a Páscoa, ou seja, a 15 de Nisan,
só resta aceitar a data de 14 de Nisan. Além disso, como pelas pes-
quisas astronômicas fica claro que no período em que Pilatos go-
vernou a Judéia, isto é, dos anos 26 a 36 d.C., apenas em dois anos
o dia 14 de Nisan coincidiu com a sexta-feira ou seja, nos anos 30 e
33; levando em conta, também, que o ministério público de Jesus
começou não ano 27 ou 28 e durou dois-três anos, pode-se deduzir
que o dia 14 de Nisan do ano 30 parece a data mais plausível: ela
corresponde ao dia 7 de abril do nosso calendário.

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 59

Pode-se afirmar, por isso, com suficiente segurança, que Jesus Cris-
to nasceu entre os anos 8 e 4 a.C., começou a vida pública no ano
27 ou 28, e morreu numa sexta-feira, no dia 7 de abril do ano 30
d.C. Esse quadro cronológico essencial da vida de Jesus pode pa-
recer um tanto pobre, mas é mais do que suficiente para situar o
Verbo encarnado na história dos homens.

A cronologia básica da história de Jesus Cristo (nascimento,


vida pública e morte) complementa-se por intermédio da conside-
ração de sua ação, de acordo com o que se expõe a seguir.

Atividade de Cristo
Jesus nasceu, milagrosamente, de acordo com textos ne-
otestamentários, de Maria Virgem em Belém. Até a idade de 30
anos levou uma vida oculta na pequena vila de Nazaré com seus
pais. Depois disso, começou sua atividade de Mestre, ensinando
uma mensagem de paz, amor e respeito; curando muitas pes-
soas de vários males e fazendo muitos milagres. Cristo não se
apresentou como um reformador da religião judaica, e sim como
o instaurador de um novo modo de viver a relação com Deus e
com o próximo.

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
O Cristianismo afirma que "Jesus Cristo" é "Deus". E esta convicção de fé no
Cristo é sustentada pela própria consciência messiânica de Jesus, pelas profe-
cias que se cumprem n'Ele, pelos milagres (especialmente a ressurreição corpó-
rea), pela santidade e pureza de sua vida, pela sabedoria, pela verdade absoluta
de sua doutrina e pela divina sublimidade de sua pessoa.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Merece a máxima atenção o modo como Jesus proferia sua
fala com perfeita segurança, de ser inatingível para os homens,
que não perde nunca o próprio equilíbrio. O Reino de Deus anun-
ciado por Ele destina-se a todos os homens (universalismo) e não
só aos judeus.
A obra de Jesus volta-se, essencialmente, para a fundação da
Igreja. Jesus acentua, reiteradamente, o aspecto comunitário da
sua religião, o que se pode observar no uso reiterado da primeira
60 © História da Igreja Antiga e Medieval

pessoa do plural (nós, nosso) no Pai nosso "Pai 'Nosso', venha a


'nós' o vosso reino, o pão 'nosso' de cada dia" [...]. Ele quer reunir
o "povo de Deus". E Ele fundou a sua Igreja como uma Igreja Mis-
sionária, o que se evidencia quando delega aos seus discípulos a
missão de anunciar a boa nova do Reino a todo o mundo.
Jesus fundou a Igreja também como sociedade visível e comu-
nidade histórica, o que se pode perceber na solene declaração: "tu
és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do
inferno nunca prevalecerão contra ela" (Mt 16, 18); na instituição dos
sacramentos; na constituição dos apóstolos como "sacerdotes da
Nova Aliança" (Lc 22, 19) e como "mestres dos povos" (Mt 28, 19).
Dessa forma, a Igreja apresenta-se como fundamento da
nova sociedade desejada por Jesus e, para realizar este fim, Ele
escolheu os 12 apóstolos, que, depois da morte-ressurreição-as-
censão, desenvolveram e expandiram a Igreja.
Pierini (1998, p. 46-47), a respeito do início e fim do ministério
de Jesus, de sua relação com discípulos e seguidores, bem como da
formação da primeira comunidade cristã, escreve o seguinte:
Essa massa de seguidores passou por uma gravíssima crise quando
a mensagem e a obra do "rabi" pareceram contrariadas pelos acon-
tecimentos que se sucederam de 2 a 7 de abril do ano 30 (783 da
fundação de Roma): entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, prisão,
processo diante do sinédrio sob a acusação de blasfêmia, condena-
ção à morte confirmada pelo procurador romano Pôncio Pilatos,
crucificação e morte.
A partir de 9 de abril, porém, a comunidade dos discípulos gradu-
almente se recompõe em torno da nova presença do "rabi", até 18
de maio, dia da sua definitiva glorificação (ascensão ao céu). Nasce,
então, a comunidade de Jerusalém, composta, como afirma Lucas
em At 1,15, de cento e vinte pessoas; nasce a comunidade cristã
primitiva propriamente dita, situada não só em Jerusalém mas
também em outras localidades da Palestina, pois o Cristo ressusci-
tado aparece em mais lugares, como em Emaús, (Mc 16,12; Lc 24,
13ss), no lago de Tiberíades (Jo 21,1-22), no monte da Galiléia, que
talvez corresponda à aparição a mais de quinhentas pessoas (Mt
28, 16-20; Mc 16, 15-18; 1Cor 15,6).

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 61

A Igreja-mãe de Jerusalém, dez dias depois, a 28 de maio, por oca-


sião da festa de Pentecostes, recebe o "batismo" no Espírito e pro-
clama publicamente, pela boca de Pedro, a própria fé. Os discípu-
los, que antes haviam reconhecido Jesus como um profeta, a partir
da confissão de Pedro em Cesaréia o reconheceram como um Mes-
sias, e depois da ressurreição, como um Messias divinizado, agora
o proclamam abertamente como "Senhor" (=Kyrios", cf. At 2,36).
Essa mensagem é dirigida antes de tudo aos povos da diáspora ju-
daica mas também aos "distantes" , isto é, aos pagãos (At 2,39).
Nesse dia, cerca de três mil pessoas se agregam ao grupo dos cren-
tes (At 2,41), que gradativamente chega a cinco mil (At 4,4).

9. COMUNIDADE DE JERUSALÉM E EXPANSÃO INICIAL


Como era a vida da Igreja-mãe de Jerusalém? Esse é o ques-
tionamento que perpassa essa unidade.
A propósito do referido questionamento, vejamos o que nos
diz Pierini (1998, p. 47):
A comunidade jerosolimitana, em contínuo crescimento, apresenta
as seguintes características (At 2, 42-47): adesão à mensagem de
Pedro e dos outros "apóstolos", especialmente dos "doze"; comu-
nhão fraterna através da solidariedade espiritual e material, levada
inclusive à comunhão de bens, celebração da refeição eucarística
nas casas, em memória da refeição feita pelo "Senhor" antes da
sua paixão; assiduidade às cerimônias do Templo. Essa comunida-
de, por isso, se apresenta como a realização do Israel teocrático-
messiânico descrito pelos profetas.

Considerando esse contexto jerosolimita, impõe-se a abor-


dagem das características principais da Igreja primitiva que são
apresentadas a seguir.
Foi em Jerusalém que Jesus foi condenado e crucificado
Em Jerusalém, o Cristo ressuscitado apareceu aos 11 apósto-
los (Lc 24, 33-34. 49; At 1, 4-12) e eles permaneceram "concordes
na oração, com as mulheres e com Maria, Mãe de Jesus e seus
irmãos" (At 1, 14). Todos juntos somavam cerca de 120 homens
(At 1, 15). Ali, depois de 50 dias, no Pentecostes (At 2, 1-13), expe-
rimentaram a descida do Espírito Santo (At 2, 1).
62 © História da Igreja Antiga e Medieval

Os membros desta comunidade eram judeus


O livro Atos dos Apóstolos fornece informações sobre a origem
judaica e a vida da primeira comunidade, bem como sua sucessiva pro-
pagação impelida pela força da verdade conquistadora que se revela
imediatamente. Pedro, chefe da comunidade, começou a pregar Cristo
ressuscitado com êxito e, no dia de Pentecostes, converteram-se 3.000
indivíduos (At 2, 41) e, dias depois, mais 5.000 (At 4, 4).
A vida da primeira comunidade cristã constituía um belo ideal
São Lucas descreve a comunidade primitiva da seguinte ma-
neira: "tinham todos um só coração e uma só alma" (At 4, 32). Os
discípulos continuavam participando na vida coletiva dos israeli-
tas, mas, ao mesmo tempo, tinham consciência de que sua mis-
são era formar uma "comunidade" particular, uma "ecclesia", uma
"assembleia oficial" do povo de Deus, o que constitui o ideal que
caracteriza essa primeira comunidade.
A organização da referida comunidade é bem clara desde o
princípio; os membros estão divididos em dois grupos bem distin-
tos: os 12 e os demais. Os 12 têm Pedro como chefe, o que se pode
perceber em vários momentos: na eleição de Matias (At 1, 15-26),
na pregação do dia de Pentecostes (At 2, 14-36), diante do Sinédrio
(At 4, 8-12), na reprovação a Ananias e a Safira (At 5, 3) e no batismo
do centurião Cornélio (At 10, 48).
Neste momento, o que distingue os cristãos de todos os demais
judeus é o reconhecimento de Jesus de Nazaré como o Messias.
Vida religiosa e moral da primeira comunidade
A vida religiosa e moral da primeira comunidade foi marcada
pela fidelidade ao Templo de Jerusalém e à Lei mosaica. A despeito
disso, aos poucos, os seguidores de Cristo, chamados de "nazarenos"
ou "galileus" passam a desenvolver um culto próprio e isso é visto no
"Batismo", na "Oração em Comum", na "Fração do Pão" (At 2, 42), na
comunhão de bens, escatologismo ou espera do retorno eminente de
Cristo, no entusiasmo movido pela ação e presença do Espírito Santo
e pelas primeiras conversões e milagres.
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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 63

Uma das características mais marcantes deste período é a


partilha ou comunhão de bens. Drane (1985, p. 77), aprofundando
a análise acerca da temática sobre o "comunismo" da primitiva
Igreja de Jerusalém, diz o seguinte:
A partilha dos bens não era coisa nova; era considerada como um
ideal pelos escritores gregos, ao passo que os judeus estavam bem
cônscios da necessidade de serem caridosos. A comunidade que
morava às margens do Mar Morto, em Qumrã, praticava uma se-
melhante partilha de recursos, embora nesse caso um convertido
não dispunha de todas as suas posses até completar um ano desde
sua admissão na seita.
A marca distintiva do "comunismo" cristão era sua espontaneida-
de. Em Qumrã, a partilha era cuidadosamente regida por normas,
como o era a distribuição das esmolas entre os judeus em geral.
Mas Jesus não tinha determinado nenhuma política inflexível para
seus discípulos seguirem. Ele próprio viveu, como todos sabiam,
em relativa pobreza, e seus seguidores imediatos deixaram tudo
quanto tinham para segui-lo. Quando certo homem rico desejou
tornar-se discípulo, foi-lhe dito: "Vai, vende o que tens e dá o di-
nheiro aos pobres" (Mc 10,21) – e é difícil não concluir que Jesus
acreditasse que um rico achasse mais duro segui-lo que um pobre
(MT 19,24). Mas mesmo os pobres podiam ter obsessão pelas ri-
quezas, e deles também se esperava que cedessem sua última mo-
eda para o serviço de Deus (Mc 12, 41-44).
Assim, não é difícil entender por que esses primeiros cristãos quiseram
partilhar seus bens com os outros. Contudo, parece que não foi uma
iniciativa de êxito completo, pois nada mais se ouve a respeito de tal
partilha generosa, quer em Jerusalém, quer em outros lugares. Confor-
me o historiador marxista Karl Kautsky, a razão é que, após ter come-
çado entre o proletariado humilde, a Igreja logo se instalou na classe
média da sociedade, e aí os ideais de vida comunística não eram tão
atraentes. Certamente é verdade que quando a Igreja se espalhou pelo
vasto mundo romano alguns de seus convertidos eram provenientes
das classes sociais mais elevadas. Mas tal não acontecia na Palestina.
Tudo que sabemos da igreja de Jerusalém sugere que ela continuou
sendo pobre enquanto existiu. A igreja de Antioquia mandou um do-
nativo para Jerusalém (At 11, 27-30), e as igrejas gentias de Paulo fize-
ram o mesmo (Rm 15, 22-29). Paulo duas vezes se refere à igreja de
Jerusalém qualificando-a de "pobre" (Rm 15,26; Gl 2,10), e mais tarde
os judeus cristãos da Palestina se autodenominam "ebionitas", o que
significa simplesmente "os pobres".
64 © História da Igreja Antiga e Medieval

Separação da sinagoga
Os cristãos eram, desde o princípio, uma comunidade distinta,
mas continuavam observando a Lei mosaica e participavam das ceri-
mônias do Templo. As autoridades judaicas olhavam com bons olhos
e simpatia aquele grupo de "judeus fervorosos"; mas, ao crescer a ex-
pectativa dos povos com os milagres dos apóstolos, a simpatia trans-
formou-se em hostilidade: Pedro e João foram levados ao Sinédrio e
foram pressionados a não pregar, tendo sofrido ameaças caso não se-
guissem essa orientação (At 4, 1-23); todos os apóstolos foram presos
e libertados por intervenção de Gamaliel (At 5, 18-35).
As hostilidades evoluíram para a perseguição sangrenta. Com
efeito, entre os cristãos havia alguns provenientes da seita dos fari-
seus, muito ligados à Lei de Moisés e ao Templo, mas havia também
alguns oriundos da diáspora, que relativizavam os usos e costumes ju-
daicos, sendo que a perseguição em questão se mostrou mais aguda
contra esses indivíduos. Entre estes cristãos "helenistas", sobressaía o
diácono Estevão, primeiro mártir que, ironicamente, não defendia a
abolição da Lei e do Templo por obra de Cristo (At 7, 54-60).
Uma segunda fase de perseguição sangrenta, dirigida contra to-
dos os cristãos, ocorreu durante os anos 42-43 quando Herodes Agripa
mandou assassinar São Tiago, o Maior (At 12, 2). E a mesma sorte esta-
ria reservada a Pedro se, por ventura, um anjo não o tivesse libertado
da prisão (At 12, 7) e ele não tivesse fugido de Jerusalém (At 12, 17).
Primeira expansão do Cristianismo na Palestina
A origem da Igreja na Galileia (situada na região norte da
Samaria e constituída por Nazaré, Seforis, Naim, Corozaim e Mag-
dala) é desconhecida, mas considerando a informação de que a
maioria dos discípulos de Jesus provinha dali, é possível supor que
se deva a algum deles a evangelização da região.
A evangelização da Samaria (norte de Jerusalém), por sua vez,
está ligada à fuga dos cristãos helenistas de Jerusalém depois do martí-
rio de Estevão. Felipe, um dos sete diáconos, trabalhou nesta região.

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A origem na Transjordânia está ligada, também, aos cristãos


helenistas fugidos de Jerusalém.
Ao iniciar-se a expansão da Igreja primitiva, começaram a sur-
gir grupos distintos dentro da comunidade de origem e opções igual-
mente diversas. Isto foi importante para a expansão, mas também
favoreceu divisões internas, dadas as diferenças entre as orientações
desses grupos. Pierini (1998, p. 52-54), a respeito dos grupos "judeu-
cristãos", "heleno-cristãos" e "étnico-cristãos", diz o seguinte:
A língua e a cultura constituem, desde o início, o primeiro elemento
de distinção no interior da comunidade dos novos crentes, mesmo
sem levar a uma divisão propriamente dita. De um lado, os judeu-
cristãos, isto é, os crentes de língua hebraica ou aramaica; de ou-
tro, os fiéis judeus de língua grega. Os judeu-cristãos são tolerados
pelas autoridades de Jerusalém, embora Pedro e os outros apósto-
los tenham sofrido duas prisões seguidas (cf. At 4, 1-3; 5,17). Mas
também os judeu-cristãos, a certa altura, são atingidos por uma
perseguição, no ano 44, desencadeada por Herodes Agripa II, com
a prisão e decapitação de Tiago de Zebedeu, irmão de João, e com
a prisão de Pedro (cf. At 12,1-2). Depois que Pedro foi libertado e
afastado de Jerusalém, a comunidade dos judeu-cristãos é confiada
a Tiago, "irmão do Senhor" (At 12,17; Gl 1,19).
Nesse contexto, a mensagem de Cristo é entendida e vivida cada
vez mais rigidamente, segundo a mentalidade do tardio judaísmo-
palestinense de tipo farisaico-rabínico: viva atenção aos tempos e
lugares sagrados (sobretudo o Templo); uma teologia arcaica ex-
pressa nas categorias de angelologia e mediante um simbolismo
rico e fantasioso; uma estrutura comunitária do tipo patriarcal.
Assim, a primeira versão da mensagem cristã é o judeu-cristianismo
ortodoxo, que se espalha não só pela Judéia e pela Galiléia, mas
também pela Samaria, por volta do ano 37, chegando muito cedo a
Roma, pois na capital do império a colônia judaica é numerosa, viva,
respeitada, mantendo relações freqüentes com a Palestina. A propa-
gação pela capital deve ter-se verificado durante os anos 40, dado
que o imperador Cláudio, por volta do ano 49, toma medidas contra
os judeus romanos, que estavam em briga por causa de certo "Cres-
to" (=Cristo?) (cf. Suetônio, Vida dos Césares, Cláudio, 25, 3-4).
Os judeus, porém, voltam a ser numerosos na capital do império,
e de suas fileiras saem certamente os primeiros colaboradores dos
apóstolos que chegaram a Roma: Pedro, talvez, pelo final do reina-
do de Cláudio ou no início do de Nero, entre os anos 53 e 54; Paulo,
mais tarde, em 61.
66 © História da Igreja Antiga e Medieval

Ao mesmo tempo vem se firmando, junto com o judeu-cristianis-


mo, a tendência heleno-cristã. Judeus de língua grega e prosélitos
provenientes da diáspora constituem, desde o início, um grupo à
parte, manifestando uma desconcertante (para os judeu-cristãos)
liberdade de espírito em relação à lei mosaica e ao Templo e subli-
nhando as críticas que o próprio Jesus havia feito ao legalismo e ao
ritualismo exagerados.
Esse grupo é entregue a uma instituição nova, associada aos "doze": a
instituição dos "sete" (que não corresponde à ordem sagrada do diaco-
nato, que se delineou depois) (cf. At 6, 1-6). Justamente a pregação e a
obra dos "sete", sobretudo, a de Estevão e seu discurso perante o Siné-
drio (cf. At 7,2-53), que é documento mais importante do pensamento
heleno-cristão, acarretam para os judeu-helenos de Jerusalém uma
perseguição no ano 35 ou 36, e Estevão é apedrejado, sob a acusação
de blasfêmia (cf. At 6,8-8,1). Expulsos de Jerusalém, eles se dispersa-
ram para o setentrião, até Antioquia da Síria, ampliando a pregação
da mensagem cristã e dando vida a uma ampla iniciativa missionária
na Samaria (cf. At 8,4-40), em Damasco (cf. At 9,10: Ananias, cristão de
Damasco), na Fenícia (At 11,19), em Chipre (IBID.).
Os heleno-cristãos são uma ponte para o terceiro grupo de cren-
tes, o dos étnico-cristãos, provenientes do mundo dos não-circun-
cidados, ou seja, dos pagãos (embora simpatizantes do judaísmo =
"tementes a Deus"). Na realidade, o primeiro passo em direção aos
"gentios" é dado pelo próprio Pedro, entre os anos 40 e 41, quan-
do, enviado a Cesaréia Marítima, batiza o centurião Cornélio e os
de sua casa (cf. At 10, 1-11,18).
Ao mesmo tempo, porém, no ano 40 ou 41, comunidades étnico-
cristãs formam-se também em Antioquia, por obra justamente de
helenistas-cristãos oriundos de Chipre e de Cirene, que tinham fu-
gido de Jerusalém após a perseguição de 35-36 (cf. At 11,19-21).
Dado que os novos crentes vêm também do mundo dos não-circun-
cidados, torna-se fácil para os pagãos distingui-los dos demais ju-
deus: assim, justamente em Antioquia os seguidores dos apóstolos
de Cristo são chamados pela primeira vez "cristãos" (cf. At 11,26).
Para confirmar a validade do novo rumo intervém um emissário
da própria Igreja-mãe de Jerusalém, Barnabé, cipriota e helenista-
cristão (cf. At 11, 22-24).

Considerando todo este processo de expansão e a riqueza


de grupos que vão se formando no seio do Cristianismo, estudare-
mos, no próximo tópico desse material, como ocorreu sua expan-
são e como se deu a dinâmica de sua presença fora do contexto
geográfico da Palestina.

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 67

10. EXPANSÃO DO CRISTIANISMO FORA DA PALESTINA


O início da expansão cristã fora do contexto geográfico pa-
lestinense se deu em Antioquia. Vejamos, pois, os contornos fun-
damentais da Comunidade Cristã fundada nesta região.

Comunidade cristã de Antioquia


Como se disse na abertura desta unidade, foi na cidade de
Antioquia que se instituiu o primeiro centro de expansão cristã fora
da Palestina. O livro Atos dos Apóstolos menciona duas comunida-
des cristãs importantes criadas nessa região: Damasco, por obra
Ananias (At 9, 10) e Antioquia, fundada por cristãos helenistas de
Jerusalém (At 11, 19), onde a evangelização dirigiu-se aos judeus,
bem como aos pagãos gregos (At 11, 20).
Em meados do ano 42, a comunidade cristã, nessa região,
já era numerosa e os apóstolos enviaram Barnabé para organizar
aquela Igreja, e este chamou Paulo (Atos 11, 21-26) para colaborar
na evangelização e nos trabalhos locais.
É importante observar que foi em Antioquia que se atribuiu,
pela primeira vez, o nome "cristãos" aos discípulos de Jesus. Antio-
quia foi, em última análise, o centro de irradiação do Cristianismo
por todo o Oriente.

São Paulo, apóstolo dos gentios


A primeira alusão à figura de Paulo, personagem principal do
Cristianismo primitivo, no transcurso da história do Cristianismo,
ocorre por ocasião da morte de Estevão (At 7, 58), episódio em
que Paulo é identificado como um opositor dos cristãos.
Considerando sua procedência familiar, Paulo é de origem
israelita, mais especificamente da tribo de Benjamim, mas, ao
mesmo tempo, é considerado cidadão de Roma por ter nascido
em Tarso da Cilícia, região que atualmente pertence ao território
68 © História da Igreja Antiga e Medieval

da Turquia, mas que à época era dominada pelos romanos. Por


sua formação religiosa, foi discípulo de Gamaliel, fiel às tradições
judaicas, da seita dos fariseus e inimigo do Cristianismo, o qual
considerava como uma "seita herética" do judaísmo (At 9, 1). Des-
sa forma, por sua formação, conhecia a língua e cultura aramaica,
bem como a língua e cultura helenista, o que lhe facilitou muito
o acesso tanto às comunidades da diáspora, como às de outros
povos, chamados pelos judeus de gentios ou pagãos. Seu trabalho
missionário foi imenso, tendo feito várias viagens, passando por
dezenas de cidades e fundando novas comunidades ou animando
e reforçando a fé dos cristãos.
A seguir, enumeramos os principais eventos, cronologica-
mente organizados, da vida de Paulo:
1) Ano 36: morte de Estevão (At 7, 58).
2) Ano 38: conversão às portas de Damasco (At 9, 1-25).
3) Ano 41: viagem a Jerusalém com Barnabé (At 9, 26-27).
4) Anos 42-43: Paulo trabalha com Barnabé em Antioquia
(Atos 11, 25-26).
5) Anos 46-49: primeira viagem apostólica.
6) Ano 50: Concílio de Jerusalém - judeus versus gentios
(At 15, 1ss).
7) Ano 51: segunda viagem apostólica; Paulo leva Silas con-
sigo (At 15, 36–16, 1ss).
8) Anos 54-58: terceira viagem apostólica (Atos, 18: 23ss).
9) Anos 58-60: prisão em Cesareia; Paulo apela a César
(At 21, 27ss).
10) Anos 60-62: prisão em Roma. Liberdade.
11) Anos 62-67: viagem à Espanha (Atos 27; Romanos 15,
24-28).
12) Em 29 de junho de 67: segunda prisão e martírio em
Roma na Via Ostiense.

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 69

Pedro e a fundação da Igreja de Roma


A atividade apostólica de Pedro, até a sua libertação milagrosa
do cárcere no ano 43, está amplamente descrita em Atos 1, 12. Des-
ta data em diante, não se sabe nada a respeito de suas ações até sua
participação ativa e principal no Concílio dos Apóstolos, no ano 50.
Conhecemos sua presença em Antioquia pela carta de Paulo
aos Gálatas (Gl 2: 11-21). A estada de Pedro em Corinto, por sua vez,
está testemunhada por São Paulo, que faz alusão à presença de um
grupo de partidários de Pedro naquela cidade, o que se evidencia
na seguinte fala: "Eu sou de Apolo, eu sou de Pedro" (1Cor 1, 12).
Dionísio de Corinto (ano 170), por sua vez, diz que a sua Igreja foi
fundada pelos apóstolos Pedro e Paulo, de acordo com o que relata
Cesareia (2002, p. 49).
Origem da Igreja de Roma - Estadia de São Pedro em Roma
A fundação da Igreja romana remonta ao período logo após a
morte do Senhor. Com efeito, nos tempos do imperador Cláudio (41-
54) já havia judeu-cristãos em Roma. Em meados do ano 47 ou 49
Cláudio teria desterrado os judeus de Roma por conta dos tumultos
que organizavam impulsore Chresto (por causa de um "tal" Cresto).
A contribuição dada por São Pedro no advento da Igreja de
Roma, por sua vez, é testemunhada por São Jerônimo (século 4º),
que afirma que São Pedro: "pontificou em Roma pelo espaço de
25 anos", não sendo necessário entender estes 25 anos como uma
permanência contínua.
Testemunhos literários
Entende-se por testemunhos literários os documentos es-
critos que sustentam as pesquisas e estudos históricos. E em se
tratando do tema desenvolvido neste tópico, destaca-se a primeira
Carta de Pedro. Nesse documento, em que profere a expressão:
"vos saúda a Igreja da Babilônia" (5, 13), Pedro evidencia a concre-
ta instituição da Igreja em Roma, tendo em vista que o termo "Ba-
bilônia" se trata, na verdade, de expressão figurativa utilizada para
70 © História da Igreja Antiga e Medieval

se referir ao nome real da cidade, no caso, "Roma", o que ocorre


inclusive em passagens da Bíblia, como no caso do Apocalipse, ca-
pítulo 17, versículo 5 e capítulo 18, versículo 2.
Outro testemunho literário importante, a propósito do que
se apresenta neste tópico, é o de Clemente Romano (95), que es-
creve à Igreja de Corinto, dizendo que Pedro e Paulo "foram entre
nós um belo exemplo", referindo-se ao martírio desses persona-
gens. Santo Inácio de Antioquia (110), por sua vez, a respeito da
autoridade dessas importantes figuras, escreve aos romanos: "não
vos mando como Pedro e Paulo [...]". Papias de Hierápolis (135)
fornece, também, uma importante evidência literária da presen-
ça e atuação marcantes de Pedro em Roma, quando afirma que
Marcos escreveu, a pedido dos fiéis, o evangelho que Pedro pre-
gava em Roma. Encerram essa listagem de testemunhos literários
acerca da atuação de Pedro em Roma o proferido por Dionísio de
Corinto (170), que afirma que Pedro e Paulo padeceram o martírio
em Roma; o de Irineu de Lyon (180), que afirma repetidamente
que Pedro e Paulo são os fundadores da Igreja de Roma; o de Ter-
tuliano (205), segundo o qual Pedro foi equiparado ao Senhor e
batizou no Tíber (rio de Roma) e os catálogos mais antigos dos
bispos de Roma, os quais são, recorrentemente, encabeçados pelo
nome de Pedro.
Testemunhos arqueológicos
Os testemunhos arqueológicos são, por sua vez, as fontes ma-
teriais por intermédio das quais se processa a pesquisa histórica.
No que diz respeito às fontes materiais que evidenciam a
atuação de Pedro em Roma, destacam-se as "Catacumbas de São
Sebastião e Basílica de São Pedro no Vaticano".
Considerando-se o que já se pôde descobrir, a propósito dos
testemunhos arqueológicos disponíveis, o mais provável a respei-
to da presença de Pedro em Roma é que teria chegado a Roma
no período entre os anos 43-44, permanecendo na cidade até a

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 71

expulsão dos judeus por ordem do Imperador Cláudio, motivada


pelas disputas frequentes e tumultuadas que a pregação do Cris-
tianismo causava entre os judeus (47-49). Quando Nero permitiu
o regresso dos judeus a Roma (56), Pedro regressou à cidade, ten-
do ali permanecido até sua morte em 29 de junho do ano 67, no
desfecho da perseguição que sofreu da parte daquele imperador.
Muito provavelmente a permanência de Pedro em Roma após esse
seu regresso não configurou período ininterrupto (BIHLMEYER-
TUECHLE, 1964, p. 62-65).

Atividade dos demais apóstolos


Uma tradição antiga e bastante fundada afirma que os após-
tolos permaneceram em Jerusalém 12 anos antes de espalharem-
se pelo mundo.
A respeito da vida e obra desses apóstolos, Debarros (1999,
p. 15-16) afirma que:
Uma vez incumbidos de anunciar a boa nova do Evangelho a toda a
criatura (MT 28,19, At 1,8), os apóstolos passaram por um processo
gradativo e, por vezes, penoso de ruptura com o típico sectarismo
judaico, que lhes imprime um forte sentimento de exclusividade
em relação ao Todo-Poderoso. A desafiadora perspectiva de evan-
gelizar os gentios impulsionou suas numerosas campanhas missio-
nárias, orientadas para um mundo que, embora ostentasse uma
atmosfera relativamente pacífica, apresentava muitas situações de
conflitos sociais localizados, típicas de uma sociedade que experi-
mentava o impacto de profundas transformações culturais, como
aquelas vividas no primeiro século. Essa conjuntura social ofereceu
às missões apostólicas horizontes tão atraentes quanto perigosas
[...]

As primeiras experiências de oposição enfrentadas pelos doze, no


exercício da propagação de sua fé, não vieram do estrangeiro, mas
de seu próprio ambiente, da sua própria casa: a Palestina. Ali, a
tenaz resistência das instituições judaicas sedimentou, aos poucos,
a realidade de que aqueles para os quais o Messias viera não o re-
ceberiam (MT 20,16, Jo 1,11). Embora a palavra tenha encontrado
solo fértil em muitos corações em Israel, tornava-se cada vez mais
clara a direção divina que os impelia ao encontro dos gentios e ju-
deus além-fronteiras, para um ministério em que o limite seria o
próprio mundo então conhecido.
72 © História da Igreja Antiga e Medieval

A propósito do que se apresenta aqui, importa conhecer um


pouco da obra dos apóstolos.
São João
São João iniciou sua pregação em Jerusalém, tendo também
participado da missão na Samaria, a fim de confirmar aquela comu-
nidade, e estado presente no Concílio de Jerusalém (Jó 19, 26-27).
Depois de sua morte, São Paulo governou as Igrejas da Ásia,
tendo fixado residência em Éfeso.
No reinado de Domiciano (81-96), foi levado a Roma, onde,
segundo Tertuliano, sofreu a prova do "óleo fervente", da qual saiu
milagrosamente ileso. Esteve desterrado na Ilha de Patmos, onde
escreveu o Apocalipse. Depois da morte do perseguidor Domicia-
no, pôde regressar a Éfeso. Escreveu o 4º evangelho e três cartas.
Morreu por volta do ano 100.
Demais apóstolos
Há poucos dados disponíveis sobre os apóstolos não mencio-
nados até aqui, sendo que o essencial, das informações das quais
se têm notícia, é apresentado a seguir:
1) Tiago Menor - primeiro bispo de Jerusalém; escreveu
uma "Carta canônica"; no ano 62 morreu mártir, lançado
do topo do Templo; seus restos mortais são venerados
em Roma na Basílica dos 12 Apóstolos.
2) Mateus - trabalhou inicialmente na Palestina, onde com-
pôs o seu "Evangelho"; pregou o Evangelho na Etiópia
onde sofreu o martírio; é venerado em Salerno, na Itália.
3) Matias - pregou o Evangelho na Judeia e na Etiópia; foi
decapitado com um machado na Judeia e seus restos
mortais foram transladados, por Santa Helena, a Tréve-
ris, na Alemanha.
4) Judas Tadeu – era Irmão de Tiago Menor; pregou o Evan-
gelho na Mesopotâmia e escreveu uma "Carta canôni-
ca"; em Beirute foi martirizado e é venerado na Basílica
de São Pedro, em Roma.

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5) Tomé - pregou o evangelho entre os partos e na Índia (ao


norte); padeceu o martírio em Calamina e seu sepulcro
está em Malabar (Índia); seus restos foram transladados
a Edessa, a Quíos e finalmente a Ortono (Itália).
6) Bartolomeu - trabalhou na Armênia e na Índia (ao nor-
te); foi martirizado na Armênia e suas relíquias foram
transladadas por Oto III a Roma no ano 983 e deixadas
na Ilha Tiberina.
7) Simão, o Zelota - pregou o evangelho na Pérsia; foi mar-
tirizado, mas não se conhece o lugar de seu sepulcro;
suas relíquias foram guardadas em vários lugares (Roma,
Colônia, Hersfeld etc.).
8) Felipe - evangelizou na Ásia Menor; em Hierápolis, na
Frígia, foi crucificado e apedrejado; seus restos são ve-
nerados na Basílica dos 12 Apóstolos em Roma.
9) André – era irmão de Pedro; trabalhou nos Bálcãs e no
sul da Rússia; morreu crucificado na cidade de Patrás
(Grécia) e seu sepulcro é venerado em Amalfi (Itália).
10) Tiago, o Maior - era irmão de João; foi o primeiro mártir
dos Apóstolos (no ano 43); teria pregado na Espanha e é
venerado em São Tiago de Compostela, na Espanha.
Considerações acerca do alcance da difusão do cristianismo –
aspectos facilitadores e inibidores
A difusão do Cristianismo é assim caracterizada por Bihl-
meyer e Tuechle (1964, p. 68-69):
A grande extensão das viagens missionárias de S. Paulo e dos ou-
tros apóstolos, faz pensar com razão que o Evangelho tenha lança-
do sólidas raízes na maior parte das províncias romanas ainda nos
tempos apostólicos (cfr. ROM 1,8; Col 1,16.23), enquanto somen-
te depois se propagou nas outras províncias e em outras regiões
não pertencentes ao Imperium Romanum. Nas cidades maiores
formaram-se logo comunidades notáveis. Por um espaço conside-
rável de tempo o cristianismo permaneceu substancialmente reli-
gião das cidades e penetrou mais lentamente nas zonas rurais (cfr.
§ 20,1). O primeiro entrosamento o ofereciam a diáspora judaica,
muito difundida e os pagãos "tementes a Deus". A nova religião
firmou-se sobretudo nas classes sociais médias e humildes (arte-
sãos, comerciantes, escravos) e no mundo feminino; contudo, des-
de o princípio encontramos nas fileiras dos crentes também ricos,
74 © História da Igreja Antiga e Medieval

pessoas distintas e cultas, como se deduz nos Atos dos Apóstolos


e das cartas paulinas. No fim do século II o número de cristãos de
classe superior e culto, até mesmo da nobreza romana, dos solda-
dos e funcionários cristãos está em aumento contínuo. Por volta do
ano 250 o cristianismo já penetrara tão profundamente que nem as
mais ferozes perseguições, que então se desencadearam sobre ele,
puderam impedir-lhe a vitória final. No princípio do século IV, sobre
uma população global do império romano de cerca de 50 milhões,
o número dos cristãos era ao menos de 7 milhões, na maioria do
Oriente. Particularmente notável fora a penetração cristã na Ásia
Menor, na Macedônia, Síria, Armênia, no Egito, em algumas regi-
ões da Itália central e meridional, na África norte-ocidental, na Es-
panha e na Gália meridional. Já Clemente Alexandrino e Orígenes,
e mais ainda os Padres da Igreja do século IV e V, reconheceram e
com muita razão, na difusão sobremodo rápida e vasta da religião
cristã, apesar de todos os obstáculos (cfr. § 14) uma prova luminosa
da sua origem sobrenatural.

Debarros (1999, p. 18-35), por sua vez, considerando essa


propagação, afirma que:
É inegável a força de expansão que o Cristianismo foi adquirindo
com o decorrer dos anos. Muitos autores aprofundaram este tema
e buscaram explicação nas forças e fraquezas deste processo, tanto
dentro como fora do Cristianismo.

Debarros (1999) destaca ainda os aspectos facilitadores da


difusão da fé cristã no mundo greco-romano: o senso de unida-
de e universalidade política do Império Romano; a relativa segu-
rança e facilidade de trânsito proporcionada por Roma; a univer-
salidade da língua grega e a expansão do latim; a expansão do
judaísmo a propósito da Dispersão (ou Diáspora); a decadência
religiosa dos povos conquistados por Roma e a contribuição da
filosofia grega.
Debarros (1999) assinala, também, os fatores que atuaram
como inibidores da historicidade apostólica, quais sejam, a modés-
tia e a simplicidade dos apóstolos, que não os credenciava, para os
primeiros cristãos, a ser objeto de análise biográfica; a ausência de
uma perspectiva histórica duradoura, por parte da Igreja primiti-
va; o silêncio da história secular perante o cristianismo primitivo;
o advento da Sucessão Apostólica; a crescente rivalidade entre a
Igreja oriental e a ocidental e a corrida pelas relíquias apostólicas.
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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 75

11. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS


Sugerimos, neste tópico, que você procure responder, discu-
tir com seus pares e elaborar comentários para serem comparti-
lhados, a propósito das questões / atividades a seguir, que tratam
da temática desenvolvida nesta unidade.
Se encontrar dificuldades em responder a essas questões / ativi-
dades, procure revisar os conteúdos estudados para sanar suas dúvidas
e compartilhar essas dificuldades com seus parceiros (tutores, alunos
etc.). Lembre-se de que, em se tratando de Educação, não somente de
modalidade a distância, mas da educação como um todo, a construção
do conhecimento ocorre de forma cooperativa e colaborativa. Daí a ne-
cessidade de compartilhar descobertas e obstáculos com seus colegas.
Tenha sempre em mente, em especial durante a realização
das atividades que compõem esse item, que o conhecimento não
é algo estanque e compartimentado. Ao contrário, uma de suas
características mais marcantes é o caráter de integralidade.
Dessa forma, é imprescindível conduzir suas reflexões de
modo a buscar a interdisciplinaridade, ou seja, contemplando as
interconexões que existem entre todos os elementos que com-
põem o processo de construção do conhecimento, o que impli-
ca, inclusive, considerar as relações que existem entre esta e as
demais unidades e temáticas que compõem o curso como um
todo.
Confira, na sequência, as questões e atividades propostas para
verificar seu desempenho no estudo desta unidade, bem como para
sedimentar o processo de construção de seu conhecimento:
1) Produza um texto, com pelo menos 5 linhas ,em que se apresente uma sín-
tese da História da Igreja Antiga. Essa tarefa não se trata de reproduzir todo
o conteúdo abordado aqui, mas sim de captar e expor o fio condutor que
marca o desenvolvimento da Igreja Antiga exposto neste material.

2) De acordo com o que você estudou até aqui, de que modo as culturas roma-
na e judaica contribuíram para o desenvolvimento do Cristianismo?
76 © História da Igreja Antiga e Medieval

3) Quais dificuldades apontadas, ao longo desta unidade, que o Cristianismo


teve de enfrentar no contato com a dinâmica do Império Romano e do Mun-
do Judaico durante o processo de seu desenvolvimento primitivo?

4) Quais elementos, característicos das comunidades cristãs antigas e assina-


lados na unidade, podem contribuir para o desenvolvimento da Igreja atual,
a propósito do estabelecimento de um processo de intercâmbio positivo de
práticas, fundamentos, dinâmicas doutrinais e estruturais etc.?

5) Liste as informações, expostas na unidade, que mais lhe chamaram a aten-


ção a respeito da historicidade de Jesus Cristo? Comente cada item listado.

6) Produza um breve texto analisando o processo da expansão cristã, conside-


rando suas possibilidades e fragilidades com base nas ideias expostas nos
textos da unidade.

7) Produza um texto no qual seja abordada a influência dos estudos da unidade


em sua vida acadêmica, profissional e pessoal.

12. CONSIDERAÇÕES
Ao longo do que se expôs nesta unidade, privilegiou-se a
aquisição de noções preliminares sobre a historicidade da Igreja
e a historiografia eclesiástica, as quais são imprescindíveis para a
compreensão da história da Igreja Antiga.
Além disso, estabeleceu-se a reflexão sobre o ambiente em
que nasceu a Igreja; sobre a historicidade e vida de Jesus Cristo;
sobre a comunidade de Jerusalém e sua expansão inicial e sobre a
expansão do Cristianismo para além dos limites da Palestina, bem
como sobre suas principais características.
Na Unidade 2, ampliaremos a perspectiva abordando a orga-
nização do Cristianismo antigo; as heresias e cismas dos três pri-
meiros séculos; os escritores eclesiásticos; os concílios e os Padres
da Igreja.

13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALMEIDA, A.J. O Ministério dos presbíteros-episcopos na igreja do novo testamento. São
Paulo: Paulus, 2001.

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© História da Igreja Antiga: Temas Introdutórios e Comunidade Primitiva 77

ARENS, E. Ásia Menor nos tempos de Paulo, Lucas e João. Tradução de João Rezende
Costa. São Paulo: Paulus, 1998.
BIHLMEYER, K.; TUECHLE, H. História da igreja. Tradução de Ebion de Lima. São Paulo:
Paulinas, 1964. v.1.
BOGAZ, A. S.; COUTO, M.A.; HANSEN, J. H. Patrologia : caminhos da tradição cristã. São
Paulo: Paulus, 2008.
BOSCH, J. S. Nascido a tempo. Tradução de Mário Gonçalves. São Paulo: Ave Maria,
1997.
COMBY, J. Para ler a História da igreja. Tradução de Maria Stela Gonçalves-Adail V. Sobral.
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CESARÉIA, Eusébio de. História eclesiástica. Tradução de Wolfgang Fischer. São Paulo:
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DEBARROS A. C. Doze homens, uma missão. Curitiba: Luz e Vida, 1999.
DRANE, J. A vida da Igreja primitiva. Tradução de José Raimundo Vidigal São Paulo:
Paulinas, 1985.
FIGUEIREDO, F. A. Introdução à patrística. Petrópolis: Vozes, 2009.
FREYNE, S. Jesus, um Judeu da Galiléia. Tradução de Élcio. V. Filho. São Paulo: Paulus,
2008.
GÓMEZ, J. A. Manual de historia de la iglesia. Madrid: Publicaciones Claretianas, 1987.
JEDIN, H. Manual de historia de la iglesia. Barcelona: Herder, 1980. v. 1.
KEE, H. C. As origens cristãs em perspectiva sociológica. Tradução de J. Rezende Costa.
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MORIN, E. Jesus e as estruturas de seu tempo. Tradução de Vicente R. de Souza. São
Paulo: Paulinas, 1982.
PIERINI, F. A Idade antiga I. Tradução de José M. Almeida. São Paulo: Paulus, 1998.
PIERRARD, P. História da igreja. Tradução de Álvaro Cunha. São Paulo: Paulinas, 1982.
PRIETO, C. Cristianismo e paganismo. Tradução de Euclides M. Balancin. São Paulo:
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SAULNIER, C-ROLLAND B. A Palestina no tempo e Jesus. São Paulo: Paulinas, 1979.
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