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São Francisco
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1900 mmmmm


SWAMI V I V E K A N A N

O QUE E

RE LI GI AO
COM UMA PEQUENA B I O G R A F I A DE

SWAMI VIVEKANANDA ESCRITA POR

CHRISTOPHER ISHERWOOD

Lotus do Saber Editora


O que é Religião — Título original: What Religion Is
© 2,004 ADVAITA ASHRAMA, Calcutá, índia
Sob autorização do
RAMAKRISHNA VEDANTA ASHRAMA
Largo Senador Raul Cardoso, 2.04
Vila Clementino — São Paulo — SP
Tel &C Fax: n 5572.— 042,8 í*£ vedantasp@uol.com.br
Direitos da edição em língua portuguesa reservados à
LOTUS DO SABER EDITORA
Rua General Edmundo Gastão da Cunha, 26
Rio de Janeiro — RJ — 2.0541-090
Tel &c Fax: 2,1 2,511—2.069 54? lotusdosaber@uol.com.br
Projeto Gráfico, Copyright da Tradução, Capa e Edição
de Texto: Lotus do Saber Editora
TRADUÇÃO DE ADELAIDE PETTERS LÊS SÁ
Revisão
Leonardo Thierry
Revisão de conteúdo filosófico
Álvaro Vasconcellos '-
\
V842.0
Vivekananda, S wami, 1863 - 1902.
O que é religião / Swami Vivekananda ;
tradução de Adelaide Petters Lessa. -— Rio de Janeiro :
Lotus do Saber, 2.004
Tradução de : What Religion Is
ISBN 85-87546-L8-X
,-
i. Vedanta 2.. loga
I. Título. •. '
03-1807 CDD 181.48
CDU 294.11

Nota do Editor l Tomaz Lima


VII

Prefácio ff Swami Nirmalatmananda


IX

Introdução P Christopher Isherwood


XIII

i O Ideal de uma Religião Universal


i

2, Princípios e Práticas da Vedanta


;
-:;',; - 43

3 Auto-Realização pelo Conhecimento


105

4 Auto-Realização pelo Controle da Mente


147

5 Auto-Realização pela Ação Altruístm


6 Auto-Realização pelo Amor a Deus
2-55
7 Grandes Mestres do Mundo •
305 ~

Ordem Ramakrishna

Catálogo de Livros
355
Catálogo de CDS
357 .•"S

"•

~-

'

Navio Empress of índia, que levou Swami Vive-


-
kananda de Yokohama, no Japão, para Vancouver,
no Canadá, em sua viagem para participar do
Parlamento das Religiões, em Chicago
1893 wimmm
.

EBIT'
Tomaz Lima

A EDITORA LOTUS DO SABER sente-se honrada de


publicar esta introdução ao pensamento do grande
iogue, filósofo e místico indiano Swami Vivekananda,
cujo poder de síntese, clareza de raciocínio, refinado
humor e indiscutível autoridade para tratar de assunto
tão vasto e, ainda hoje em dia, tão arriscado como
religião, deleitará o leitor.
Tudo que existe de valioso em religião — sua univer-
salidade, origem, significado, manifestações e meios para
expressá-la — encontra-se nesta obra representado.
O livro contém também uma importante introdução
à antiqüíssima ciência da Vedanta e à filosofia da Yoga,
na união de seus principais métodos: conhecimento,
controle da mente, ação e amor — Jnana, Rafa, Karma
e Bhakti. Antes da vinda de Swami Vivekananda para o
ocidente, a Yoga era considerada um conceito filosófico
e não um caminho prático.
What Religion Is — O Que E Religião — foi publica-
do pela primeira vez em Londres, no ano de 1963, para
celebrar o centenário de nascimento de Swami Viveka-

VII
NOTA DO EDITOR

nanda. A tradução agora publicada pela Lotus do Saber


Editora refere-se à sexta impressão do texto em inglês,
publicada na índia pelo Advaita Ashrama. -
Tenho a convicção de que O que é Religião será de
grande valor para todos que buscam a liberdade e uma
explicação para o sentido da vida, do amor e da morte.
Gostaria de agradecer de público a tradutora, os
revisores e todas as pessoas que de alguma maneira
contribuíram para a publicação desta obra, entre as quais
não posso deixar de mencionar Eneida e Luiz Antônio
Souto Monteiro, Kasmin Schemes, Leda Motta, Maria ^
Dulce e Paulo Kenzo Iwashe, Almir Santana, Alexandre
S. da Rociha, Eduardo Chohfe, Ana Maria Schindler e,
em ^especial, o Reverendo Swami Nirmalatmananda,
Diretor Espiritual do Ramakrishna Vedanta Ashrama,
em São Paulo, Pravrájika Vrajaprana, do Convento de
Santa Barbara, na Califórnia e Edmundo Pimentel, de -
•~
saudosa memória, que normatizou o livro e trabalhou
na preparação dos originais da introdução e dos dois
primeiros capítulos.
Para finalizar, devo dizer que O que é Religião é o
resultado do trabalho árduo e da incansável dedicação
de Lúcia Sweet-Lima que, em meio a circunstâncias
extremamente adversas, permaneceu devotada à visão
de que este livro causará um impacto na mente e no
coração do leitor, além, da convicção de que o que
estamos publicando haverá de fazer uma diferença em
suas vidas.
Será para mim uma grande recompensa se isto acon-
tecer, ainda que em pequena medida.

VIII
- ,

.•

'

PREFÁCIO À PRIMEIRA
EDIÇÃO EM LÍNGUA
PORTUGUESA
Swami Nirmalatmananda

Swami Vivekananda nasceu em Calcutá em doze de


janeiro de 1863, e viveu apenas trinta e nove anos. Seus
pais deram-lhe o nome de Narendranath, que significa
"líder dos homens." Aos quatorze anos teve sua primeira
experiência de ou samadhi, passando
a viver, desde então, com a mente constantemente
mergulhada na mais profunda realização espiritual.
O conhecimento que ele transmitiu resultou de sua
percepção direta das verdades supremas.
Quando participou do Primeiro Par lamento- Mundial
das Religiões, em Chicago, Swami Vivekananda tinha
trinta anos. Na abertura, seu profético pronunciamento^
em onze de setembro de 189 3, ecoou como prenuncio do
que está acontecendo hoje: *
O sectarismo e a intolerância, CMJ& forma mais,
terrível de —já
tempo se apossaram deste kelo planeta*
no de violência, inundaram-no inúmeras vezes com.

IX
PREFÁCIO

sangue humano, destruíram civilizações e levaram


nações inteiras à desesperança. Se não fosse pela
interferência desses terríveis demônios, a sociedade -
humana estaria num estágio muito mais adianta-
do de desenvolvimento. Agora, porém, chegou seu
momento final. Espero fervorosamente que o sino
que esta manhã tocou em honra desta convenção,
anuncie também a morte de todo tipo de fanatis-
mo, de todo tipo de perseguição, seja com a espa-
da, seja com a palavra, e de todo tipo de sentimen-
to inclemente entre pessoas que caminham juntas,
com o mesmo objetivo.
--•
Em vinte e sete de setembro, na sessão final do Par- —•>
lamento, ele concluiu seu discurso com as seguintes pa- •—
lavras: •^
-
Lamento profundamente que alguém possa
sonhar com a sobrevivência exclusiva de sua •
própria religião e com a destruição de todas as
outras. Chamo a atenção de quem pensa dessa
forma para o fato de que, sobre a bandeira de todas
as religiões, em breve estará escrito, a despeito de
qualquer resistência: cooperação, e não confronto,
inclusão, e não destruição, harmonia e paz, e não
discórdia.
.
Pioneiro, Swami Vivekananda trouxe para o ocidente,
pela primeira vez, a Yoga e os métodos de meditação.
Escreveu, inclusive, vários livros sobre o assunto, entre
os quais podemos citar: Raja Yoga, Karma Yoga, Jnana
Yoga e Bhakti Yoga, sintetizados neste livro. Proferiu -
centenas de palestras, escreveu artigos e poemas e
PREFACIO

correspondeu-se com pessoas em todo o mundo. Suas


obras completas, publicadas na índia em inglês e outros
idiomas, abrangem cerca de cinco mil páginas em nove
volumes.
O que é Religião tem como objetivo apresentar ao lei-
tor ocidental, em linguagem accessível à mente moderna,
uma seleção de textos representativa do pensamento de
Vivekananda, organizada por Swami Vidyatmananda,
nome adotado por John Yale ao tornar-se monge da Or-
dem Ramakrishna. Excetuando-se algumas poucas ex-
plicações ou definições de termos sânscritos, bem como
adições inseridas entre colchetes pelos editores, não há
uma única palavra do texto, das introduções aos capítu-
los e das seções que não seja de Vivekananda.
E nosso sincero desejo que o leitor que desconheça
a mensagem libertadora de Swami Vivekananda, possa
acompanhar seu pensamento de modo sistemático.
Como o próprio Swami Vivekananda disse, com pa-
lavras proféticas, há mais de um século — Eu tenho uma
mensagem para o ocidente, assim como Buda tinha uma
mensagem para o oriente.
Auspiciosamente, esta mensagem chega agora ao
Brasil.
Novembro, 2.004

XI
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IPoster cio OParlameilt© das íRéligiões


INTRODUÇÃO
Christopher Isherwood

CEDO NUMA MANHÃ de setembro de 1893, a senhora


George W. Hale olhou pela janela de sua bonita casa
na Avenida Dearborn em Chicago e viu, sentado na
calçada oposta, um jovem de aparência oriental, a
cabeça coberta por um turbante, vestindo o hábito ocre
de monge hindu. -
Felizmente a senhora Hale não era uma mulher
convencional. Não chamou a polícia para dizer ao es-
trangeiro que se retirasse dali, nem mesmo chamou os
empregados para que fossem perguntar o que ele queria.
Notou que ele não havia feito a barba e suas roupas es-
tavam amassadas e sujas, mas percebeu também o ar de
realeza que o envolvia. Perfeitamente calmo, ele sentava
ali, meditativo, sereno. Não aparentava ter perdido o
rumo. (Na verdade, acontecia exatamente o contrário,
não se perdera; acabava de entregar-se à vontade de
Oeus). Subitamente,, a senhora Hale teve uma intuição
brilhante; inteligentemente, saiu de sua casa, atravessou
a a~ua e perguntou com a maior cortesia: — O senhor é
um dos delegados ao Parlamento das Religiões?
Recebeu a resposta com igual gentileza, em inglês
fluente e culto. O estrangeiro apresentou-se como Swami
Vivekananda e disse que, de fato, viera a Chicago para

XIII
INTRODUÇÃO

assistir às reuniões do Parlamento, apesar de não ser um


representante oficial. Chegara da índia em meados de
julho para descobrir que a abertura do Parlamento havia
sido adiada para setembro. Seu dinheiro estava acabando
e alguém o aconselhara a procurar um alojamento mais
barato em Boston, para onde ele fora de trem. Durante
a viagem conheceu uma senhora que o convidou a ficar
em sua casa, que era chamada de Breezy Meadows. f~

Desde então, dera palestras em várias igrejas e grupos


sociais, respondera a muitas perguntas tolas sobre seu
país e, por causa de sua roupa, fora ridicularizado por -
.

crianças. Dois dias antes, o professor J.H. Wright, que -*•

ensinava grego na Universidade de Harvard, dera-lhe


uma passagem de volta a Chicago, garantindo-lhe que •-=
seria bem recebido no Parlamento, apesar de não ter
convite: — Pedir-lhe credenciais, Swami, seria o mesmo
que perguntar ao sol se ele tem permissão para brilhar.
O professor também lhe dera o endereço do comitê
de recepção dos delegados ao Parlamento; Vivekananda, •-
porém, o havia perdido na viagem para Chicago. Ten-
tara pedir informações a pedestres; infelizmente a esta- '•-

ção de trem situava-se em um bairro onde o idioma


predominante era o alemão e o Swami não conseguira
fazer-se entender. Como a noite se aproximava, sem ter
como obter ou usar o guia da cidade, ele estava impossi-
bilitado de encontrar um Ijotel apropriado. Pareceu-lhe
melhor dormir em um vagão grande e vazio, na área
da ferrovia destinada aos trens de carga. Na manhã
seguinte, com fome e amarrotado acordou, conforme
disse, "sentindo cheiro de água fresca" e caminhou em
sua direção, chegando às margens do Lago Michigan. As •—

XIV
INTRODUÇÃO

suntuosas mansões situadas em Lake Shore Drive, porém,


nada tinham de hospitaleiras. Batera à porta de várias
delas e fora rudemente despachado. Afinal, após muito
andar, parou naquela calçada decidido a não ir adiante e
sentou-se para aguardar o que Deus lhe tivesse reservado.
Agora, concluiu Vivekananda, "Que prodigioso socorro!
Como são notáveis os caminhos do Senhor!"
A senhora Hale deve ter achado graça no que ouviu,
pois Vivekananda sempre relatava suas aventuras e
desventuras com bom humor, e suas risadas eram con-
tagiantes. Os dois entraram juntos na casa e o Swami
foi convidado a lavar-se, barbear-se e tomar o café da
manhã. A seguir, a senhora Hale acompanhou-o à sede
do comitê onde providenciaram seu alojamento com os
outros delegados orientais ao Parlamento.
A idéia de realizar um Parlamento de Religiões em
Chicago fora concebida pelo menos cinco anos antes,
em acréscimo ao projeto-mor da Exposição Mundial,
[World's Columbian Exposition] destinada a comemo-
rar o quarto centenário do descobrimento da América
por Colombo. A exposição foi projetada para exibir o
progresso material do homem ocidental, especialmen-
te nos campos da ciência e tecnologia. Concordou-se,
entretanto, que todas as formas de progresso deveriam
ser representadas, e vários congressos foram efetuados
tratando de temas como progresso feminino, imprensa,
medicina e cirurgia, temperança, comércio e finanças,
música, governo e reforma jurídica, ciência econômica
e, estranho como possa soar aos ouvidos de hoje, repou-
so aos domingos. Citando a linguagem oficial do comitê,
como "a fé em um poder divino tem sido, como o sol,

XV
INTRODUÇÃO

uma potência propiciatória de luz e frutos no desenvol-


vimento intelectual e moral do homem", teria de haver,
também, um Parlamento de Religiões.
Pode-se sorrir de toda esta pompa mas, convenha-
mos, a inclusão de tal Parlamento foi um ato histórico
de liberalismo. Provavelmente pela primeira vez na his-
tória do mundo, representantes das principais religiões
reuniram-se em um local com liberdade para expressar
suas crenças. Paradoxalmente, os liberais mais genuínos
entre os organizadores foram os agnósticos, interessa-
dos apenas em promover a tolerância inter-religiosa. Os '

zelosos cristãos foram menos imparciais, como era de -s

esperar-se. Segundo as palavras de um padre católico,


"Não é verdade que todas as religiões sejam igualmente
boas; também não é verdade que todas as religiões, salvo
uma, não prestem. O cristianismo do futuro, mais justo
que o do passado, designará a cada religião seu lugar
no trabalho de preparação evangélica para abolir o pa-
ganismo, conforme salientaram os antigos doutores da
Igreja, trabalho que ainda não se completou." Em suma,
o paganismo é útil à preparação para o cristianismo.
O que realmente teve importância foi o líder dos ca-
tólicos americanos, o Cardeal Gibbons, ter aceitado o
convite para presidir o Parlamento. Aceitação esta extre-
mamente valiosa, porque o Arcebispo de Canterbury se
havia recusado a comparecer, objetando que o simples
fato da existência desse Parlamento implicava a igual-
dade de todas as religiões. Além dos cristãos, estavam ->

representados budistas, hindus, muçulmanos, judeus,


confucionistas, shintoístas, zoroastrianos e diversas sei-
tas e grupos menores. Vivekananda, certamente, poderia

XVI
INTRODUÇÃO

ter sido considerado membro da delegação hindu mas,


como veremos, ele representou de fato, algo muito mais
amplo do que qualquer seita, a antiqüíssima doutrina
hindu da universalidade da verdade espiritual.
Na abertura do Parlamento, na manhã de onze de se-
tembro, Vivekananda imediatamente chamou a atenção
como uma das figuras mais impressionantes sentadas na
tribuna, com sua esplêndida túnica, o turbante amarelo
e a bela face cor de bronze. Suas fotografias surpreen-
dem-nos pelo tamanho de suas feições — lembrando
um leão — o nariz proeminente, os lábios expressivos,
os grandes e escuros olhos ardentes. Testemunhas ocu-
lares mostraram-se impressionadas com a majestade
de sua presença. Apesar do físico atlético, sua estatura
era mediana, sem que isso o despojasse de uma aura de
grandeza. Disseram que, apesar de seu tamanho, ele se
movia com natural graça masculina, "como um grande
felino," segundo a expressão de uma senhora. Nos Esta-
dos Unidos era freqüentemente tido como um príncipe
ou aristocrata indiano, em virtude de seu sereno mas
afirmativo ar de comando.
Outros comentaram seu olhar de "satisfação inte-
rior." Parecia capaz de extrair forças de reservas internas
a cada momento. Em seus olhos havia uma cintilação
bem—humorada, observadora, que sugeria um calmo
e divertido distanciamento de espírito. Todos eram
receptivos à sua voz extraordinariamente profunda, se-
melhante ao belo tanger de um sino; certas vibrações
causavam uma misteriosa excitação psíquica entre os
ouvintes. Certamente tinham a ver com a espantosa rea-
ção do auditório ao primeiro discurso de Vivekananda.

XVII
~

INTRODUÇÃO

Durante a primeira sessão matinal, ao chegar sua vez


de falar, Vivekananda desculpou-se e pediu tempo. Mais —
tarde, em carta a amigos na índia, confessou ter sofrido
de medo de palco. Todos os outros delegados haviam
preparado discursos; ele, nenhum. Esta hesitação, po-
rém, só fez aumentar o interesse geral por ele. •

Afinal, durante a tarde, Vivekananda ergueu-se. Com


sua voz profunda, disse: — Irmãs e irmãos da América '•"

— e a audiência inteira, várias centenas de ouvintes,


rompeu em aplausos, saudando-o freneticamente duran-
te dois minutos. Até aquele momento o público estivera •
agradavelmente disposto. Muitos dos palestrantes ha- "N

viam sido saudados com entusiasmo e todos foram


recebidos com cortesia. Porém, nada acontecera antes
que se comparasse a essa demonstração. Com certeza, a
grande maioria das pessoas ali presentes não saberia dizer
porque ficara tão comovida. Nem a aparência, nem a
voz de Vivekananda poderiam explicar completamente o
ocorrido. A multidão tem sua própria e misteriosa espécie
de telepatia subconsciente e deve ter sentido, de algum
modo, que estava em presença do mais invulgar dos seres, •~

um homem cujas palavras expressam exatamente o que


na verdade ele é. Quando Vivekananda disse: — Irmãs e
irmãos da América, — ele considerava, de fato, aqueles
homens e mulheres à sua frente, seus irmãos e irmãs.
A desgastada frase de retórica tornou-se pura verdade.
Tão logo os aplausos serenaram, Vivekananda re-
tomou a palavra. Fez um discurso bastante curto,
falando a favor da tolerância universal e enfatizando
o fundamento comum a todas as religiões. Ao termi-
nar, novamente aplausos em massa, estrondosos. Uma

XVIII
INTRODUÇÃO

senhora presente recordou-se mais tarde: "Vi filas de


mulheres caminhando sobre os bancos para aproximar-
se dele e disse para comigo: bem, meu jovem, se con-
seguir resistir a esse assédio, você é, realmente, um
Deus!" Tais investidas viriam a tornar-se usuais em sua
vida nos Estados Unidos.
Vivekananda pronunciou vários outros discursos nos
dias subseqüentes, inclusive uma importante declaração
sobre a natureza e os ideais do hinduísmo. Quando o
Parlamento se encerrou ele era, incomparavelmente, o
orador mais popular. Teve sua agenda repleta de convites
sociais. Uma agência ofereceu-se para organizar-lhe uma
turnê, e ele aceitou.
Naquele tempo, quando a fronteira para o oeste
era ainda uma memória viva, não era preciso afastar-
se das grandes cidades a fim de encontrar o mundo
pioneiro do espetáculo apresentado debaixo da tenda
de lona. Políticos, filósofos, escritores, e até a grande
Sarah Bernhardt, todos eram mais ou menos tratados
como atrações circenses. Ainda hoje o título de swami
associa-se a truques teatrais; poucos americanos sabem
que os que têm direito de chamar-se swamis fizeram
votos monásticos formais, e que swami é um título tão
digno de respeito quanto o de padre na Igreja Católica.
Vivekananda chamava a si mesmo de swami. Por isso,
aos olhos do público, era yisto como um artista de teatro
de variedades. Ele podia contar com aplausos, mas não
podia esperar que respeitassem sua privacidade. Foi
obrigado a enfrentar a mais grosseira publicidade,
a curiosidade mais brutal, a hospitalidade mais
perdulária, porém desumana e absolutamente exaustiva,

XIX
INTRODUÇÃO

que o exauriu e por fim arruinou sua saúde. Contudo,


na época, ele parecia estar à altura das circunstâncias e,
aparentemente, divertia-se com elas. Era tão franco que ~
chegava quase a ser rude; jamais deixava uma pergunta "•••
sem resposta e nunca perdia o equilíbrio, mesmo quando
rugia com momentânea indignação às perguntas idiotas
sobre seus compatriotas "pagãos." Ninguém riria ou
caçoaria mais de Vivekananda do que ele próprio, pois
não havia ninguém melhor do que ele para apreciar a
rica e sutil pilhéria de sua presença em tais ambientes
— um monge pregando num circo!
Vivekananda viera aos Estados Unidos para falar de
sua terra natal. Queria expor aos americanos a pobre-
za da índia e pedir ajuda. Simultaneamente trazia uma
mensagem ao Ocidente. Pedia aos ouvintes que aban-
donassem o materialismo e aprendessem com a antiga
espiritualidade dos nindus. Trabalhava pelo intercâmbio
de valores. Reconhecia grandes virtudes no Ocidente ~--
— energia, iniciativa, coragem — que faltavam aos •-
indianos. Não viera aos Estados Unidos com o intuito
de fazer críticas negativas. Durante os primeiros -dias de
sua visita, quando foi levado ;a conhecer urna prisão em
Boston, sua reação íoi a seguinte: :
Como são tratados com benevolência! Os presos
.são reabilitados e enviados de volta como membros
úteis da sociedade. Que'grandeza, que maravilha,
é preciso ver para crer! Quanto meu coração doeu
ao pensar na classe baixa da índia, nos pobres que
não têm oportunidade, não tem salvação, não têm
como subir na vida. Eles se degradam cada vez
mais, a cada dia.

XX
INTRODUÇÃO

Entretanto, ele ofendeu muitos com sua franqueza.


— Em Nova York — dizia sorrindo — esvaziei audi-
tórios inteiros. — E não se admirem! Aos ouvidos de
fundamentalistas rígidos, seus ensinamentos sobre a di-
vindade essencial do homem devem ter soado como uma
grande blasfêmia, especialmente porque eram apresen-
tados com frases pitorescas, que mesclavam seriedade
e troça: "Contemple o oceano e não a onda; não veja
diferença entre a formiga e o anjo. O verme é irmão do
Nazareno... Obedeçam às Escrituras até serem bastante
fortes para passarem sem elas... Todo homem nos países
cristãos tem uma enorme catedral na cabeça e, acima
dela, um livro... O âmbito dos ídolos vai da madeira e
da pedra a Jesus e Buda..."
Vivekananda ensinou que Deus está dentro de nós e
que nascemos para redescobrir nossa própria natureza
divina. Sua história favorita versava sobre um leão que
pensava ser uma ovelha, até outro leão mostrar-lhe seu
reflexo numa lagoa. — E vocês são leões — dizia aos
ouvintes — vocês são almas puras, infinitas e perfeitas...
Aquele a quem vocês suplicam e rezam nas igrej as e tem-
plos.. . é seu próprio Self. — Me foi o profeta da autocon-
fiança, da busca individual e do esforço.
Falou pouco dos cultos hinduístas — a devoção espe-
cífica a Rama, Kali, Vishnu ou Krishna, praticada pelos
devotos das diversas seitas. Só ocasionalmente ele se re-
feria a seu culto pessoal e revelava que ele também tive-
Ta um Mestre, que considerava uma encarnaçã© divina
—- um Mestre que se chamava Ramakrishna, falecido má
•menos de dez anos, a quem .conhecera intimamente (veja
a ultima parte deste livro).

XXI
"
INTRODUÇÃO

Vivekananda foi um grande devoto, mas não pro-


clamava a todos sua devoção. Sua recusa em fazê-lo
--
era uma decisão fundamentada. Após seu regresso à
índia, falando de seu trabalho nos Estados Unidos, ele
disse: — Se tivesse pregado sobre a personalidade de
Ramakrishna, poderia ter convertido metade do mundo.
Porém esse tipo de conversão dura pouco. Em vez disso,
ensinei os princípios de Ramakrishna. Se as pessoas acei-
tarem esses princípios, eventualmente aceitarão a perso-
nalidade por trás deles.
Na época do Parlamento das Religiões, Vivekananda
tinha apenas trinta anos. Nasceu em Calcutá, em doze
de janeiro de 1863. Seu sobrenome era Datta e seus pais
deram-lhe o nome de Narendranath, Naren, para encur-
tar. Como monge, perambulou pela índia usando vários
nomes; adotou o nome monástico de Vivekananda pou-
co antes de embarcar para os Estados Unidos, por suges-
tão do Marajá de Khetri que, juntamente com o Marajá ~
de Mysore, pagou as despesas da viagem.
Viveka é uma palavra sânscrita que significa discrimi-
nação, mais especificamente no sentido filosófico de dis-
cernimento entre o real (Deus) e o irreal (os fenômenos
reconhecidos por nossas percepções sensoriais). Ananda
significa felicidade divina, ou paz obtida por meio da ilu-
minação; o sufixo é freqüentemente agregado ao nome
monástico que o religioso a,dotou.
Na adolescência Naren freqüentou um colégio em
Calcutá. Era um jovem de bonita aparência, atlético e
extremamente inteligente. Ótimo cantor, tocava vários
instrumentos. Nessa ocasião, já exercia grande poder de
liderança entre os rapazes de sua idade. Seus professores

XXII
INTRODUÇÃO

estavam certos que ele estava destinado a ter um futuro


brilhante.
Naquele tempo, Calcutá era o principal porto de
entrada das idéias e influências culturais européias; ne-
nhum jovem indiano ficava imune a elas. Para enfrentar
o desafio do cristianismo missionário, formou-se um
movimento para modernizar o hinduísmo — extinguir
antigos rituais e práticas clericais, emancipar as mulhe-
res e abolir o casamento de crianças — que se denomi-
nava Brahmo Samaj. Naren filiou-se, mas logo achou
superficiais seus objetivos; não satisfaziam suas neces-
sidades espirituais. Leu Hume, Herbert Spencer e John
Stuart Mill, passando a considerar-se agnóstico. Seus
pais insistiam em casá-lo; recusou-se, sentindo que devia
manter-se casto e livre para devotar-se de corpo e alma
a uma grande causa. Qual? Não sabia até então exata-
mente qual. Ainda buscava alguém ou algo em que pu-
desse acreditar de maneira irrestrita. Por enquanto, seu
espírito inquieto e corajoso ansiava pelo calor da ação.
Por coincidência, um parente de Naren era devoto
de Ramakrishna e o diretor de seu colégio, o professor
Hastie, era um dos poucos ingleses que havia conhecido
Ramakrishna. O que estes dois disseram a respeito dele
despertou a curiosidade de Naren que, em novembro
de 1881, foi convidado a cantar em uma casa onde
Ramakrishna se encontrava. Tiveram uma conversa
rápida e Ramakrishna convidou-o a vir visitá-lo no
templo de Dakshineswar, onde vivia, às margens do
Ganges, a alguma distância de Calcutá.
Desde o primeiro momento, a personalidade de Ra-
makrishna despertou o interesse de Naren, deixando-o

XXIII
INTRODUÇÃO

perplexo. Nunca antes em sua vida encontrara alguém


como esse homem delgado, de barba, que aparentava ter
quarenta e poucos anos e tinha a inocente sinceridade
de uma criança. Parecia envolto em uma aura de intenso
deleite, e vivia perpetuamente falando alto e irrompen-
do em canções que expressavam sua alegria e o arre-
batamento que sentia por Deus sob a forma de Mãe
Kali, que era para ele, evidentemente, uma presença
viva. A conversa de Ramakrishna misturava sutileza
filosófica com prosaicas parábolas. Falava com leve ~
gagueira, no dialeto de seu vilarejo natal, em Bengala
e, às vezes, empregava termos rudes de ambiente rural
com a franqueza singela de um camponês. Por essa
época sua fama espalhara-se e muitos ilustres habitan-
tes de Bengala visitavam-no com freqüência, inclusive
Keshab Sen, o líder do Brahmo Samaj. Não obstante
seus próprios princípios reformistas, Keshab amava e
admirava Ramakrishna, um hindu ritualista e ortodo-
xo que considerava as preocupações de Keshab com
reformas sociais um passatempo divertido e necessa-
riamente infrutífero. O mundo, de acordo com um
dito popular hindu, assemelha-se à cauda enrolada
de um cão — como pode alguém jamais endireitá-lo?
Naren foi a Dakshineswar com a mente dividida.
Enquanto metade ansiava por devoção e por sacrificar-
se pelos outros, a outra metade, influenciada por sua -
educação ocidental, era cética e impaciente com a su-
perstição. Naren entrou, com alguns de seus amigos,
-
no quarto de Ramakrishna, que lhe pediu que cantasse.
Naren aquiesceu. A extraordinária cena que se passou
pode ser melhor descrita com suas próprias palavras:
-

XXIV
INTRODUÇÃO

Cantei e então, pouco depois, ele se levantou


subitamente, tomou-me pela mão e conduziu-me à
varanda, ao norte de seu quarto, trancando a porta
atrás de si. Ficamos a sós. Pensei que fosse dar-me
algum conselho em particular mas, para meu abso-
luto espanto, começou a verter lágrimas de alegria
— uma torrente delas — enquanto segurava minha
mão e me falava com ternura, como se eu fosse um
velho amigo: — Ah! — disse ele — como você de-
morou a chegar! Como pôde ser tão insensível, dei-
xando-me à sua espera por tão longo tempo? Meus
ouvidos estão quase calcinados de ouvir a conversa
de gente mundana. Oh, quanto tenho almejado de-
safogar meu coração com alguém que compreenda
tudo — minha mais íntima experiência! — Ele
continuou nesse tom, entre soluços. Então, juntou
as palmas das mãos num gesto de prece e dirigiu-se
a mim solenemente: — Senhor, eu Te conheço. Tu
és Nara, o antigo sábio, a encarnação de Narayana.
Voltaste ao mundo para aliviar as tristezas da hu-
manidade... E assim continuou.
Fiquei completamente mudo diante de seu com-
portamento. Pensei: "Quem é este homem que vim
visitar? Deve ser um louco varrido. Eu, um desco-
nhecido, filho de Vishwanath Datta, e ele ousa cha-
mar-me de Nara!" Portem, continuei quieto e dei-
xei-o falar. Logo em seguida ele foi até seu quarto
e me trouxe alguns doces, feitos de açúcar—conde e
manteiga, que me deu de comer com suas próprias
mãos. Fiquei dizendo a ele: — Por favor, dê-me
esses doces, quero partilhá-los com meus amigos

xxv
INTRODUÇÃO

— mas não adiantou, Ele não parou até que eu os


tivesse comido todos. Então, segurando-me pela -•
mão, pediu: — Prometa-me voltar aqui sozinho, ••—.
em breve! — Ele insistiu tanto que tive de dizer
sim. A seguir, voltei com ele para a companhia de
meus amigos.
Este foi, com certeza, um profundo teste psicológico
para o estudante intelectual de dezoito anos! Contudo,
a intuição de Naren era mais profunda que sua sofis- *>
ticação. Ele foi incapaz de varrer Ramakrishna de sua
mente, como se ele fora um mero excêntrico. Se este
homem era louco, então sua loucura tinha algo de santa. —
Naren sentiu que estivera em presença de um grande
santo e começou a amá-lo.
No segundo encontro, Ramakrishna revelou-se sob
outro aspecto, bastante diferente, como um ser dotado
de poder sobrenatural e aterrorizante. Desta vez, Naren
encontrou-o sozinho no quarto. Ramakrishna cumpri-
mentou-o afetuosamente e pediu-lhe que sentasse a seu
lado. Mais tarde, Naren descreveu o que se passou:
Murmurando palavras para si mesmo, com os
olhos fixos em mim, devagar me fez chegar mais ~

perto dele... Num piscar de olhos, plantou seu pé


direito em meu corpo. Este contato me trouxe uma
experiência inteiramente nova. Com meus olhos —

abertos, arregalados, vi as paredes e tudo o mais no -*•


-
quarto girando, desaparecendo no Nada. Todo o
universo, junto com minha individualidade, estava
•—

prestes a dissolver-se num onipresente, misterioso


Vazio! Eu estava em pânico e pensei que mergulha-
va na morte, pois a perda de minha individualidade
'

XXVI

^
INTRODUÇÃO

significava morte para mim. Não conseguia con-


trolar-me e gritei: — O que está fazendo comigo?
Meus pais me esperam em casal — Ao ouvir isto,
ele riu alto. Passando de leve a mão em meu peito,
disse: — Muito bem, por hoje é só. Tudo virá a seu
tempo. — O maravilhoso foi que, ao dizer estas pa-
lavras, a experiência acabou. Voltei a ser eu mesmo.
Tudo dentro e fora do quarto tornou a ser o que era.
Ramakrishna, com seu toque, levara Naren à porta da
experiência de superconsciência, que os hindus chamam
de samadhi. Em samadhi, todo o senso de identidade
pessoal desaparece, vindo-se a conhecer o Self, a Divin-
dade, que sendo unidade, experimenta-se como uma
espécie de Vazio, em contraste com a multiplicidade
de objetos que preenchem nossa consciência sensorial
comum. Dentro desse Vazio, perde-se a identidade
pessoal: essa perda, para quem não está preparado,
necessariamente se parece com a morte.
Para Ramakrishna, em seu quase inimaginável ele-
vado estado de consciência espiritual, o samadhi era
uma experiência cotidiana e a percepção da presença de
Deus nunca o abandonava. Vivekananda recordava-se:
"Eu me arrastei para perto dele e fiz a pergunta que du-
rante toda a minha vida tinha feito a tantos outros: — O
senhor viu Deus? — Sim, ele repondeu. — Pode com-
provar o que está dizendo? — Sim. — Como? — Porque
eu O vejo como vejo você aqui, só que com muito mais
intensidade. — Isso impressionou-me imediatamente.
Pela primeira vez eu tinha encontrado um homem que
ousava dizer que tinha visto Deus e que a religião era
uma realidade — para ser sentida e experimentada de

XXVII
INTRODUÇÃO
-—-

uma forma infinitamente mais intensa do que sentimos


o mundo." ,

Depois disso Naren passou a visitar Ramakrishna


com freqüência. Viu-se gradualmente envolvido no cír-
culo de jovens discípulos — quase todos de sua idade , _
— que Ramakrishna treinava para a vida monástica.
Naren não se rendeu facilmente à influência dele. Con- -*

tinuava a perguntar-se se o hipnotismo podia explicar o


poder de Ramakrishna. A princípio, recusou-se a parti-
cipar do culto a Kali, considerando-o mera superstição.
Ramakrishna parecia apreciar esses escrúpulos. Costu-
mava provocar: — Teste-me como os cambistas testam
suas moedas. Você não deve acreditar em mim antes
de testar-rne por completo. — Por sua vez, ele testava
Naren, não tomando conhecimento de sua presença
durante semanas, para verificar se isso faria com que o
jovem deixasse de vir a Dakshineswar. Naren voltava
assim mesmo. Ramakrishna louvou-lhe a força interior: ••-
— Qualquer outro — disse — teria me deixado há muito .

tempo.
Realmente, o temperamento de Naren, que o fazia
duvidar, constituía uma de suas qualidades mais inspi-
radoras. Dúvidas, todos experimentamos e este arguto
observador nos assegura que nada tem de ser aceito
facilmente. A nós até parece, conforme lemos a vida de
Ramakrishna e verificamos quantas vezes ele concedeu a
Naren as mais profundas revelações, que o discípulo du-
vidou demais e por longo tempo. Devemos lembrar que
ter fé era muito difícil para Naren. Ele duvidava muito
por ser capaz de acreditar muito. Para a maioria de nós,
as conseqüências da conversão a urna crença não são de
-••

XXVIII
"

-•
INTRODUÇÃO

grande alcance. Para ele, crer significava absoluta dedi-


cação ao objeto de sua crença. Não é de espantar que
ele hesitasse e que sua luta interior fosse tão rigorosa!
Em 1885, Ramakrishna passou a sofrer de câncer na
garganta. A medida que se tornava evidente que em breve
o Mestre não mais estaria com eles, os jovens discípulos
tornaram-se mais próximos uns dos outros. Naren era
seu líder, junto com o jovem Rakhal, mais tarde Swami
Brahmananda. Certo dia, quando Ramakrishna jazia
nos últimos estágios de sua doença, Naren meditava
num dos quartos do andar térreo. De súbito, perdeu
a consciência do mundo exterior e entrou em samadhi
[nirvikalpa]. Por um momento, aterrorizado, gritou:
— Onde está meu corpo? — Outro discípulo julgou que
Naren estava morrendo e subiu correndo para contar ao
Mestre. — Deixe-o nesse estado por um tempo — disse
Ramakrishna com um sorriso — há muito tempo ele tem
pedido, com insistência, que eu lhe dê essa experiência.
Bem mais tarde, exuberante de alegria e paz Naren
entrou no quarto de Ramakrishna. Ramakrishna o
preveniu: — Agora a Mãe mostrou-lhe tudo, mas eu
conservarei a chave. Quando você terminar o trabalho
da Mãe, encontrará o tesouro outra vez. — Esta foi só
uma das muitas ocasiões em que Ramakrishna deixou
claro que destinava Naren à missão de ensinar ao mundo.
Em dezesseis de agosto de 1886, Ramakrishna pro-
nunciou o nome de Kali em voz clara e sonora, pas-
sando ao samadhi final. No dia seguinte, ao meio dia, o
médico declarou-o morto.
Os jovens sentiram que deviam manter-se unidos e
um devoto conseguiu para eles uma casa em Barana-

XXIX
INTRODUÇÃO

gore, a meio caminho entre Dakshineswar e Calcutá.


Fizeram dela o seu mosteiro. Era uma velha e dilapidada
casa, com najas sob o piso, alugada por algumas rúpias,
porque era tida como mal-assombrada. Em um altar —
entronizaram as cinzas de Ramakrishna, onde eram cul-
tuadas diariamente. Encorajados por Naren, resolveram <*
renunciar ao mundo e mais tarde professaram os votos --
monásticos na forma prescrita.
Eram apenas quinze, com pouco dinheiro e poucos
amigos. Algumas vezes ficavam sem alimento; outras,
viviam de arroz cozido, sal e ervas amargas. Cada um
tinha duas tangas, nada mais. Possuíam em comum uma
muda de roupa, a ser usada no caso de um deles precisar ~
ir à cidade, e dormiam em esteiras de palha, no chão.
Todavia, brincavam e riam constantemente, cantando
hinos e participando de animadas discussões filosóficas.
Permaneciam em silêncio apenas durante as meditações.
Sentiam a presença contínua de Ramakrishna entre
eles. Em vez de percebê-la com reverência e tristeza,
chegavam até a fazer graça do Mestre. Um visitante ~
descreveu como Naren imitava Ramakrishna entrando
em êxtase, enquanto os outros morriam de rir.
Gradualmente, os jovens começaram a ficar inquie-
tos, desejosos de seguir o caminho de monge errante.
Com o cajado e a tigela de mendicante, perambularam
por toda a índia, visitando santuários e locais de
peregrinação, pregando, mendigando e passando meses
em choças longínquas, em meditação solitária. Algumas
vezes eram recebidos por marajás e ricos devotos, po-
rém, com maior freqüência, compartilhavam da comida
dos mais miseráveis.
•"•
-

xxx

^
INTRODUÇÃO

Tais experiências foram particularmente valiosas para


Naren. Durante os anos de 1890 a 1893 conheceu dire-
tamente a fome na índia, sua miséria, nobreza e sabedo-
ria espiritual, que levaria consigo em sua viagem ao Oci-
dente. Depois de atravessar o país de norte a sul, chegou
ao Cabo Camorim, onde teve uma visão. Viu que a índia
tinha uma missão no mundo moderno como potência de
regeneração espiritual, mas percebeu que esta força não
se tornaria efetiva enquanto suas condições sociais não
melhorassem radicalmente. Precisava recolher fundos
para escolas e hospitais e recrutar milhares de professo-
res e trabalhadores. Foi quando tomou a decisão de ir aos
Estados Unidos em busca de ajuda. Mais tarde essa deci-
são foi confirmada, quando o Rã j á de Ramnad lhe suge-
riu comparecer ao recém—anunciado Parlamento das Re-
ligiões em Chicago. Assim, essa específica oportunidade
serviria ao propósito de Naren. Em fins de maio de 1893,
tomou o navio em Bombaim, via Hong Kong e Japão,
para Vancouver, de onde alcançou Chicago por trem.
Após o encerramento do Parlamento das Religiões,
Vivekananda permaneceu quase dois anos inteiros
fazendo palestras em vários lugares do leste e do centro
dos Estados Unidos, principalmente em Chicago,
Detroit, Boston e Nova York. Na primavera de 1895
estava terrivelmente cansado, em más condições de
saúde; porém, como lhe era peculiar, sorria da situação.
— O senhor nunca leva as coisas a sério, Swamiji?
— alguém certa vez lhe perguntou, talvez com uma
ponta de reprovação na voz. — Oh, sim — replicou
ele — quando tenho dor de barriga. — Ele conseguia
até mesmo perceber o lado engraçado dos inúmeros

XXXI

INTRODUÇÃO

excêntricos e curandeiros que, impiedosos, o acossavam


esperando tirar algum proveito de sua fama. Em cartas, -~-
Vivekananda referiu-se jocosamente à seita da "Senhora
Ventoinha" e a certo curandeiro mental "metafísico-
químico-físico-religioso e não-sei-o-que-mais."
Ao mesmo tempo, conheceu e impressionou gente
mais séria — o agnóstico Robert Ingersoll, o inventor
Nikola Tesla, a cantora lírica Madame Galvé. E, ainda
-~
mais significativo, atraiu alguns estudantes cujo interesse --
e entusiasmo não foram passageiros e que se dispuseram
a dedicar o resto de suas vidas à prática de seus ensi-
namentos. Em junho de 1895 convidaram-no a trazer
doze deles a uma casa situada em Thousand Island Park,
numa ilha do rio São Lourenço. Durante quase dois
meses, instruiu-os informalmente, como Ramakrishna •-
fizera com ele e seus gurubhais [discípulos do mesmo
Mestre]. Dos presentes, ninguém jamais se esqueceu da- --
quelas semanas. Talvez tenha sido o período mais feliz
da primeira visita de Vivekananda aos Estados Unidos.
Em agosto, embarcou para a França e a Inglaterra, ~>
retornando a Nova York em dezembro. Foi então que,
em virtude da urgente solicitação de seus devotos, fun-
dou a primeira das Sociedades de Vedanta nos Estados
Unidos: a Vedanta Society de Nova York [Vedanta
significa a filosofia não—dualista exposta nos Vedas, a •— •
mais antiga das escrituras hindus. De acordo com suas
convicções, Vivekananda não deu à fundação o nome
de Sociedade Ramakrishna]. Foi também nessa época
que ele foi convidado para ocupar a cátedra de Filosofia
Oriental em Harvard, tendo recebido convite similar da
Universidade de Golúmbia. A ambos recusou, alegando
'••

XXXII
INTRODUÇÃO

que, sendo monge errante, não podia exercer trabalho


desse tipo. Além do mais, almejava regressar à índia. Em
abril, rumou de navio para a Inglaterra, primeiro estágio
de sua volta para casa.
Da Inglaterra levou consigo dois de seus mais fiéis e
dinâmicos discípulos, o Capitão Sevier e a esposa, além
de J.J. Goodwin, um inglês que conhecera nos Estados
Unidos e se tornara o escriba de suas palestras e lições.
Mais tarde seguiu-o a irlandesa Margaret Noble, que se
tornou a Irmã Nivedita e devotou o resto de sua vida à
educação das indianas e à causa da independência do país.
Todos estes primeiros colaboradores faleceram na índia.
Vivekananda desembarcou no Ceilão [Sri Lanka] em
meados de janeiro de 1897. Dali em diante, sua jornada
a Calcutá progrediu triunfalniente. Seus compatriotas
haviam acompanhado pelos jornais as notícias de suas
palestras nos Estados Unidos. Talvez o sucesso de Vive-
kananda possa ter sido, em algum momento, tratado
com certo exagero. Com justiça, porém, valorizaram sua
visita ao Ocidente como uma vitória simbólica, exceden-
do em grande proporção à rnera quantia de dinheiro que
ele havia recolhido em prol de sua causa ou ao número
de discípulos que havia feito. Na verdade, nenhum in-
diano antes de Vivekananda fizera americanos e ingleses
aceitarem-no desta maneira — não como aliado servil,
não como inimigo declarado, mas como simpatizante e
sincero amigo, disposto igualmente a ensinar e aprender,
pedir e oferecer ajuda. Quem mais permaneceu, como
ele, imparcial entre o Oriente e o Ocidente, prezando
as virtudes e condenando os defeitos das duas culturas?
Quem mais poderia oferecer uma síntese da jovem índia

XXXIII
~

INTRODUÇÃO

do século xix e da ancestral índia dos Vedas? Quem


mais poderia levantar-se como defensor de sua pátria
contra a pobreza e a opressão e, ao mesmo tempo, since-
ramente louvar o idealismo americano e a objetividade
britânica? Tal é a grandeza de Vivekananda.
Em meio a toda essa adulação, Vivekananda jamais "•
-

esqueceu quem era: discípulo de Ramakrishna e irmão em
igualdade de condições de seus companheiros monges.
Em primeiro de maio de 1897, convocou uma reunião
dos discípulos de Ramakrishna — monges e chefes de
família — a fim de fundar e constituir sua obra. Propôs
a integração dos serviços educacionais, filantrópicos
e religiosos; foi assim que a Ramakrishna Mission e
o Ramakrishna Math [mosteiro] surgiram. A Missão
entregou-se ao trabalho imediatamente, participando
do socorro nas calamidades e na luta contra a fome, e ~
fundando seus primeiros hospitais e escolas. Elegeram
Brahmananda seu primeiro presidente. Vivekananda
entregou-lhe todo o dinheiro recolhido na América e na
Europa. Feito isso foi obrigado a pedir alguns centavos —
para atravessar o Ganges de balsa. Desde então, insistiu
em compartilhar da pobreza de seus gurubhais, irmãos
monges.
O mosteiro foi consagrado algum tempo depois, em
Belur, a pouca distância do Templo de Dakshineswar, na
margem oposta do Ganges. É o mosteiro principal da
Ordem Ramakrishna, hoje com mais de uma centena de
centros na índia e em terras asiáticas vizinhas. Os monges
devotam-se à vida contemplativa, ao serviço social,
ou à combinação das duas atividades. A Ramakrishna
Mission possui seus próprios hospitais e dispensários,

XXXIV
INTRODUÇÃO

faculdades, escolas secundárias, agrícolas e industriais,


bibliotecas e editoras, dirigidos por monges da Ordem.
Em junho de 1899, Vivekananda embarcou para
sua segunda visita ao Ocidente, levando em sua
companhia Nivedita e Swami Turyananda, um de
seus gurubhais. Desta vez ele veio pela Europa e
pela Inglaterra, mas passou a maior parte do ano
seguinte nos Estados Unidos. Foi à Califórnia e deixou
Turyananda lecionando em São Francisco. Era desejo de
Vivekananda fundar centros de Vedanta no Ocidente.
Atualmente1, há dez centros nos Estados Unidos,
um na Argentina, um na Inglaterra e um na França.
De volta à índia, Vivekananda era um homem muito
doente; revelara que não esperava viver por muito mais
tempo. Sentia-se, porém, feliz e tranqüilo. Parecia con-
tente de poder relaxar da energia e ansiedade que con-
sumiram seus anos de ação no mundo. Agora, almejava
apenas a paz da contemplação. Pouco antes de deixar a
América, escreveu uma bela carta a um amigo, extraor-
dinariamente reveladora:
Estou contente por ter nascido, contente por ter
sofrido tanto, contente por ter cometido grandes e
graves erros, contente por alcançar a paz. Que meu
corpo morra e me liberte, ou que eu encontre a li-
berdade enquanto ainda estiver no corpo, o velho
homem se foi para sempre, para nunca mais voltar!
Por trás do meu trabalho havia ambição, por trás do
meu amor, personalidade, por trás da minha pure-
za, medo. Agora que se estão desvanecendo, flutuo.
Há quem diga que a despedida de Vivekananda deste
mundo, em quatro de julho de 1902-, no Mosteiro de

xxxv
~

INTRODUÇÃO
~-

Belur, teve a aparência de um ato premeditado. Alguns •


meses antes ele começou a livrar-se de suas diversas
responsabilidades e a treinar sucessores. Sua saúde havia
-
melhorado. Tomou a refeição do meio dia com apetite,
discutiu filosofia, caminhou cerca de três quilômetros.
Ao cair da noite, entrou em profunda meditação e seu -s
coração parou de bater. Durante horas procuraram •~

reanimá-lo, mas aparentemente seu trabalho havia


sido concluído e Ramakrishna lhe devolvera a chave. do
tesouro. ^
A melhor introdução a Vivekananda, porém, não é ler
sobre sua vida, mas ler seus livros. A personalidade do
Swami, com toda a força, encanto, coragem, autoridade
espiritual, vigor e bom humor, com que impacto nos
alcança por intermédio de seus escritos e anotações!
Ao ler o que ele escreveu, é bom lembrar que "uma
coerência insensata é o bicho—papão das mentes peque-
nas." Quando Emerson escreveu essa frase em seu ensaio
sobre a autoconfiança, estava confrontando as "mentes
pequenas" com as grandes mentes de Jesus, Sócrates e
outros. Com certeza, Emerson acrescentaria Vivekanan-
da à sua lista caso eles se tivessem encontrado e conheci-
^
do. Mas Emerson morreu em 1882.
~
Vivekananda era o último homem no mundo a preo- —
cupar-se com coerência formal. Quase sempre falou de
improviso, inflamado pel^s circunstâncias do momento,
dirigindo-se a um grupo específico de ouvintes, reagindo
à intenção de cada argumento. Esta era sua natureza
— supremamente indiferente à aparente contradição
entre suas palavras de ontem e de hoje. Mestre ilumina-
do, sabia que a verdade nunca está contida na forma do

XXXVI
INTRODUÇÃO

discurso. Está naquele que o enuncia. Se ele é autêntico,


suas palavras são menos importantes. Nesse sentido, Vi-
vekananda é incapaz de contradição.
Vivekananda não foi apenas um grande mestre com
uma mensagem internacional; foi também um grande
indiano, um patriota que inspirou seus conterrâneos
até as gerações presentes. Mas é um erro pensar nele
como uma figura política, mesmo no melhor sentido do
termo. Ele foi, sobretudo, o jovem que devotou sua vida
a Ramakrishna. Em última análise, sua missão foi espi-
ritual, não tendo sido nem política nem mesmo social.
O plano de ação da Ordem Ramakrishna sempre se
manteve fiel à intenção de Vivekananda. No começo
da década de vinte, quando a luta da índia contra a
Inglaterra se tornou intensa e amarga, a Ordem foi
duramente criticada por recusar-se a permitir a seus
membros a participação no movimento de resistência
pacífica, de Gandhi. Gandhi, porém, nunca fez coro
com essa crítica. Ele compreendeu perfeitamente que
uma organização religiosa ao defender uma causa po-
lítica — por mais nobre e justa que seja — só pode
comprometer-se espiritualmente e, portanto, perde a
autoridade que justifica sua existência na sociedade
humana. Em 192,1, Gandhi veio a Belur Math, no ani-
versário de nascimento de Vivekananda, para prestar a
ele seu tributo emocionado. Os escritos do Swami, disse
Gandhi, o ensinaram a amar ainda mais a índia. Visitou
com reverência o quarto que se abria para o Ganges,
onde Vivekananda passou os últimos meses de sua vida.
Esse quarto pode ser visitado ainda hoje; é conser-
vado exatamente como Vivekananda o deixou. Mas não

XXXVII
">

INTRODUÇÃO

parece um museu nem um aposento desocupado. Logo


à direita encontra-se o quarto usado pelo Presidente da
Ordem Ramakrishna. Estão ali, lado a lado, a autoridade
•'-
humana visível e a presença inspiradora invisível. Em
Belur Math, Vivekananda continua a viver e participar
de suas atividades diárias tanto quanto qualquer um de —
seus monges. -
Junho de 1960

*
->

i Na página 3 5 1 0 leitor encontrará números atualizados dos centros da


Ordem Ramakrishna no mundo inteiro. N. do E.

•"••

~^

'-

Quarto de Swami Vivekananda em Belur Math


;

XXXVIII
EAL DE U
RELIGIÃO UNIVERS

A alma é potencialmente divina.


A finalidade da vida é manifestar essa divindade interior
pelo controle da natureza, interna e externa.
Faça isso por meio da ação, do culto, do domínio da
mente ou da filosofia — por um, mais de um ou por
todos esses meios — e seja livre.
Nisso consiste a religião.
Doutrinas, dogmas, rituais, livros, templos ou imagens
são apenas particularidades secundárias.