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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE BIBLIOTECONOMIA E COMUNICAÇÃO


ÉTICA EM JORNALISMO

Resenha do capítulo 6 e 9 de “Justiça”, por Michael J. Sandel

Dora Assumpção Schmidt

Michael Sandel é filósofo, escritor e professor americano - atualmente dá aulas no


curso de filosofia política na Universidade de Harvard - que passou a ser reconhecido
internacionalmente por suas obras (principalmente a qual será discutida a seguir), em que
questiona os princípios contemporâneos de justiça. Em “Justiça - O que é fazer a coisa
certa”, Sandel propõe uma investigação sobre o conceito de justiça e convida o leitor a
debater sobre diversos assuntos polêmicos como aborto, a questão da verdade e livre
mercado à luz da conceituação que levanta. Nos capítulos que vamos explorar aqui, o autor
aborda duas complexas questões: a equidade e a lealdade.
O autor traz os conceitos a luz através de exemplos que ilustram a contribuição de
diversos pensadores. No caso da equidade, Sandel busca levantar possíveis soluções para
o dilema que existe em torno do conceito de justiça. Para tanto, o autor se apoia no legado
do filósofo americano John Rawls, autor do livro “Uma teoria da justiça”, que teorizou em
cima de uma ideia denominada princípio da diferença. No princípio da diferença de Rawls
“só serão permitidas as desigualdades sociais e econômicas que visem ao benefício dos
membros menos favorecidos da sociedade” (p. 189). No caso da lealdade, Sandel analisa
uma série de situações em que nos deparamos com dilemas morais relacionados a essa
questão como, por exemplo, pedidos públicos de desculpas e indenizações, solidariedade
para com nossos companheiros, lealdade a cidade, patriotismo, lealdade fraternal, entre
outros. Neste momento, o autor traz o pensador Rawl novamente e também Kant para
debater se o que é certo tem primazia sobre o que é bom e, assim, buscar uma forma de
conceber a justiça em cada caso.
Por mais que os dois conceitos não estejam diretamente relacionados, podemos
tentar traçar um paralelo entre eles pensando a partir da ideia de que não é possível pensar
a equidade sem resgatar a ideia de lealdade. No capítulo 9, Sandel traz a ideia de vida
como narrativa e neste ponto coloca o seguinte pensamento: "Só posso responder à
pergunta 'o que devo fazer?' se antes puder responder a outra pergunta: 'de que história ou
histórias faço parte?'". Ou seja, não há como dissociar a imagem do homem de sua história,
de seu personagem. O mesmo podemos pensar para o conceito de equidade: é possível
tratar da justiça ignorando o contexto de cada ser humano? A ideia de John Rawls parte
dessa concepção, que ele chama de “véu da ignorância” e parte de uma condição irreal da
sociedade, em que estes aspectos históricos e contextuais são relevados.
Hoje, podemos dizer que vivemos um momentos de resgate desses fatores
contextuais e que são bastante relevantes. Somente através da história é que podemos
contestar (e devemos o fazer) o modo como vivemos hoje. Crenças, rituais, privilégios, tudo
que foi tido como “natural” durante tempos. Parte da instabilidade em que as instituições se
encontram hoje se deve a esses questionamentos, é verdade, mas que antecede uma nova
era. Afinal, não seria possível viver o Renascimento sem antes acontecer a Idade Média.