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Ano 2, n° 2 | 2012, verão

[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ NUESTRA AMÉRICA] ISSN [2236-4846]

O Fascismo Liberal Reconsiderado*

Gabriel Romero Lyra Trigueiro**

I. Introdução

É possível que o mercado editorial norte-americano não antecipasse a reverberação


provocada pela publicação de Liberal Fascism (a que nos referiremos aqui pelo título
brasileiro, Fascismo de Esquerda), em 2008, por Jonah Goldberg. O fato é que sequer o
próprio autor poderia imaginar tamanha ressonância – traduzida em um sem-número de
colunas, muitas contrárias e tantas outras simpáticas ao argumento central de seu livro, bem
como no convite a diversos programas televisivos de grande audiência1. Não há dúvida quanto
à eficácia midiática do empreendimento – ainda que, muito provavelmente, não de todo
voluntária. Todavia, seria interessante investigar a densidade acadêmica, bem como
metodológica, dos argumentos contidos no livro. No presente artigo examinaremos o primeiro
capítulo2 de Fascismo de Esquerda e cotejaremos sua tese com os argumentos utilizados em
um seminário promovido pela History News Network acerca do livro de Goldberg. Será
interessante observarmos a argumentação utilizada pelos scholars no referido seminário, pois
em que pese a considerável reverberação na imprensa norte-americana, a academia reagiu
timidamente ao livro de Goldberg.

II. Jonah Goldberg e o Fascismo de Esquerda

*
Artigo recebido em outubro de 2011 e aprovado para publicação em fevereiro de 2012.
**
Mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (PPGH/UFF).
1
Goldberg chegou a ser entrevistado no famoso The Daily Show with Jon Stewart em 16 de Janeiro de 2008.
Disponível em: http://www.thedailyshow.com/watch/wed-january-16-2008/jonah-goldberg. Acesso em: 15 de
agosto de 2011.
2
A opção metodológica por examinar os argumentos contidos no primeiro capítulo se justifica na medida em que
o cerne da tese de Goldberg é o de que os progressistas norte-americanos compartilharam influências intelectuais
com os fascistas – e não raro adotaram um modus operandi similar. É Goldberg ainda que trata o moderno
liberalismo norte-americano como sendo sucessor do progressismo do início do século XX. Após analisar o
governo de Woodrow Wilson no primeiro capítulo, Goldberg examina as presidências de Franklin Roosevelt,
Lyndon Johnson e John Kennedy (além de outros atores políticos da esquerda norte-americana). O fato é que o
autor faz constantes remissões à chamada Era Progressista. Pode-se afirmar seguramente que se trata do período
histórico escolhido por Goldberg para balizar toda sua análise política.

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Goldberg é jornalista e comentarista político da National Review3 desde o final da


década de 1990 – inicialmente responsável somente pela edição online, logo se tornou
também editor da versão impressa da revista. Além da National Review, Goldberg também
contribui frequentemente para inúmeros periódicos de grande circulação nos EUA, tais como:
The Wall Street Journal, Commentary, The New Yorker, Slate e The Public Interest. Todavia,
é importante salientarmos que, se Goldberg já era há um bom tempo um profissional
conhecido do público norte-americano, foi somente com a publicação de seu Fascismo de
Esquerda, em 2008, que obteve notoriedade em uma ordem de grandeza desconhecida até
então em sua carreira. Uma amostra significativa de seu sucesso editorial foi a permanência
durante sete semanas seguidas na lista de Hardcover Nonfiction do The New York Times4.
Logo na introdução de seu livro, Goldberg afirma:

Pois o que chamamos de liberalismo – o edifício reformado do progressismo


americano – é, de fato um descendente e uma manifestação do fascismo. Isso
não significa que seja a mesma coisa que nazismo. Nem que seja irmão
gêmeo do fascismo italiano. Mas o progressismo foi um movimento irmão
do fascismo, e o liberalismo de hoje é o filho do progressismo. Seria possível
forçar a comparação e dizer que o liberalismo de hoje é o bem-intencionado
sobrinho do fascismo europeu. Dificilmente seria ele idêntico a seus parentes
mais feios, mas, ainda assim, exibe embaraçosos traços comuns de família
que poucos admitirão reconhecer. (GOLDBERG, 2008, p. 10.)

A proposta metodológica de Goldberg é inicialmente analisar historicamente os


regimes de Mussolini e Hitler – este último considerado “um homem de esquerda”, nas
palavras do autor –, e em seguida examinar alguns governos americanos nos quais ocorreram,
ainda segundo Goldberg, experiências fascistas. As presidências estudadas são as de
Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt, J. F. Kennedy e Johnson.
Goldberg, ainda na introdução, se ocupa em esboçar seu argumento central. Segundo
ele, a dificuldade em se encontrar uma definição adequada para o fenômeno fascista reside,
sobretudo no fato de que “sua expressão em cada sociedade variou em função da cultura

3
Trata-se da notória revista conservadora fundada em 1955 por William Buckley Jr. –intelectual decano da
direita norte-americana, falecido em 2008.
4
New York Times. Best Sellers. Disponível em:
http://www.nytimes.com/2008/03/09/books/bestseller/0309besthardnonfiction.html?_r=1&oref. Acessado em:
15 de agosto de 2011.

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nacional” (GOLDBERG, 2008, p. 16). O autor vai além, ao afirmar que o fascismo
internacional “brotou” do mesmo substrato intelectual e filosófico que gerou o progressismo
americano5.
A afirmação é polêmica sob diversos aspectos. Em primeiro lugar, porque contém em
seu subtexto uma relação causal. Isto é, Goldberg parece assumir que uma vez que se tenha
contato com determinadas “fontes intelectuais”, suas ações invariavelmente refletirão aquelas
mesmas fontes – tal é a sorte de analogia que ele estabelece entre a trajetória política de
progressistas e fascistas. Adiante veremos que ele não se furta a recorrer inúmeras vezes a este
método de argumentação. Goldberg também parece supor que as ideias merecem destaque em
detrimento das ações dos movimentos e partidos políticos de tendências fascistas, Algo na
contramão da opção metodológica de Paxton6 – como observaremos ao longo do trabalho.
É interessante notarmos outro ponto recorrente na argumentação de Goldberg.
Segundo ele a experiência histórica do Holocausto atuou como um ponto de inflexão na
caracterização ideológica do fascismo – tendo este passado de uma extremidade a outra do
espectro político. Ele afirma:

Antes da Segunda Guerra Mundial, o fascismo era amplamente visto como


um movimento social progressista, com muitos adeptos liberais e
esquerdistas na Europa e nos Estados Unidos; os horrores do Holocausto
mudaram completamente nossa imagem do fascismo, que passou a ser visto
como algo peculiarmente maligno e inevitavelmente ligado a nacionalismo
extremista, paranoia e racismo genocida. Depois da guerra, os progressistas
americanos que haviam louvado Mussolini e até olhado Hitler com simpatia
nas décadas de 1920 e 1930 tiveram que se distanciar dos horrores do
nazismo. Por conseguinte, intelectuais esquerdistas redefiniram o fascismo
como “direitista” e projetaram seus próprios pecados sobre os conservadores,
embora continuassem a tomar grandes empréstimos do pensamento fascista e
pré-fascista. (GOLDBERG, 2008, p. 17-18.)

5
Podemos classificar os progressistas como um segmento historicamente importante da esquerda norte-
americana. Eram reformistas sociais que no início do século XX, por exemplo, se posicionaram favoravelmente à
flexibilização das leis trabalhistas vigentes e ao voto feminino. Geralmente são vistos como a geração que
antecedeu politicamente os liberais sociais que emergiram durante as reformas levadas a cabo pelo New Deal de
FDR. Não se trata de uma definição tão precisa, uma vez que a evolução histórica do progressismo nos EUA
ocorreu paralela a do liberalismo
6
Robert O. Paxton é reconhecido internacionalmente como um destacado especialista no estudo do fenômeno
fascista. Leciona no departamento de História da Universidade de Columbia.

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O que Goldberg propõe, como tese central, é que “durante Primeira Guerra Mundial, a
América tornou-se um país fascista, embora temporariamente.” (GOLDBERG, 2008, p. 20.)
Ele ilustra este argumento recorrendo ao fato de que o primeiro Ministério da
Propaganda no mundo moderno foi criado nos EUA. Além disso, Goldberg se refere aos
“milhares de prisioneiros políticos assediados, espancados, espionados e jogados na prisão
simplesmente por expressarem opiniões privadas”7. O argumento de Goldberg não é tanto
enumerar possíveis caracteres fascistas na América, em um dado momento histórico. O que
ele enuncia na verdade é algo um tanto mais drástico – segundo ele, o surgimento do moderno
totalitarismo no Ocidente não ocorreu na Itália nem tampouco na Alemanha, e sim nos
Estados Unidos.
Além disso, o argumento central de Goldberg parece sempre estar atrelado ao seu
conservadorismo político. Por exemplo, de modo mais amplo, sua tese no livro é indissociável
de uma crítica radical da Modernidade. É interessante neste sentido destacarmos o modo como
ele se refere à Revolução Francesa. Goldberg considera o jacobinismo inspirado
intelectualmente por Rousseau a grande força motriz ideológica das revoluções de esquerda ao
longo do século XX. Não há aí uma imprecisão analítica, do ponto de vista histórico. O
problema é a utilização do epíteto “fascista”, por Goldberg, ao se referir à Revolução
Francesa. Segundo ele:

Já não é controvertido dizer que a Revolução Francesa foi desastrosa e cruel.


Mas é profundamente controvertido dizer que foi fascista, porque a
Revolução Francesa é a fons et origo da esquerda e da “tradição
revolucionária”. A direita americana e os liberais clássicos valorizam
orgulhosamente a Revolução Americana, que foi essencialmente
conservadora, mas estremecem diante dos horrores e desvarios do
jacobinismo. Mas, se a Revolução Francesa era fascista, então seus herdeiros
teriam de ser vistos como frutos dessa árvore envenenada e, por fim, o
próprio fascismo seria corretamente posto no lugar que lhe cabe na história
da esquerda. Mas, como isso causaria uma desordem sísmica na visão de
mundo esquerdista, eles adotam a dissonância cognitiva e recorrem a um
golpe de mão terminológico. (GOLDBERG, 2008, p.22.)

7
Ver o Espionage Act, de 1917, por exemplo.
Disponível em: http://www.firstworldwar.com/source/espionageact.htm
Acessado em: 15 de agosto de 2011.

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Ao ler Goldberg classificar a Revolução Francesa como “fascista”, notamos o autor


incorrer em um erro que vai além do mero anacronismo. Ao utilizar a expressão “árvore
envenenada”, ele sugere, uma vez mais, uma relação causal e necessária (pois uma causa
pode ser parcial na obtenção de um efeito) entre origem intelectual e práxis histórica.
Ademais, é interessante notar que a despeito da Revolução Francesa ter tido diversas fases
históricas, o autor prefere convenientemente focar no Terror jacobino. Adiante, Goldberg
sintetiza a argumentação central contida em seu livro. Ele descreve o liberalismo americano
como uma espécie de “religião política totalitária”. Dizendo isso, afirma que não se trata de
algo na acepção orwelliana, mas, em suas palavras, de algo “gentil, não brutal” (GOLDBERG,
2008, p. 23). Ele prossegue afirmando o caráter holístico do liberalismo norte-americano. Isto
é, o principal problema desta “religião política totalitária” é investir de significância política
os foros mais íntimos da vida humana. Goldberg argumenta:

Sexo é política. Comida é política. Esportes, divertimento, seus motivos


interiores e sua aparência externa, tudo tem relevância política para os
fascistas liberais. Os liberais depositam sua fé em especialistas alçados à
posição de sacerdotes que sabem o que é bom para nós, que planejam,
exortam, molestam e censuram. Eles tentam usar a ciência para desacreditar
noções tradicionais de religião e fé, mas falam a linguagem do pluralismo e
da espiritualidade para defender crenças “não tradicionais”. Tal como no
fascismo clássico, os fascistas liberais falam de uma “Terceira Via” entre
direita e esquerda para a qual confluem todas as coisas boas e onde todas as
escolhas difíceis são “escolhas falsas”. (GOLDBERG, 2008, p. 23.)

Todavia o problema aqui é que Goldberg parece ignorar a falsa simetria em sua
argumentação. Uma dada legislação “x”, ainda que seja invasiva e algo arbitrária, se votada
dentro de um estado democrático de direito funcional, poderá ser refutada segundo a própria
arquitetura jurídica do Estado em questão. Já uma legislação “y”, se surgida em um Estado
fascista, dificilmente terá tido legitimidade popular e tampouco encontrará mecanismos legais
que não se coadunem a ela – tal são a força e a discricionariedade estatal em regimes dessa
natureza.
Goldberg também afirma que a exortação dos “fascistas liberais” à chamada Terceira
Via é algo similar ao chamado fascista de “transcendência” da política. No entanto, aqui ele

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compara um fenômeno observado em regimes democráticos na década de 19908 com o apelo


fascista das décadas de 1930 e 1940. O fato de o primeiro estar completamente circunscrito ao
arcabouço liberal e democrático de seus Estados, e o segundo ser a tentativa de eliminar este
mesmo arcabouço, parece dizer pouco para Goldberg.
O autor argumenta ainda que, devido à tradicional suspeição norte-americana em
relação ao chamado big government, o fascismo acabou adquirindo uma superfície de
benevolência e “pragmatismo” nos Estados Unidos. Sobre a chamada Era Progressista,
Goldberg recorda:

O progressismo americano, do qual descende o liberalismo de hoje, foi um


tipo de fascismo cristão (muitos o chamavam de “socialismo cristão”). Os
liberais modernos têm dificuldade em apreender esse conceito porque estão
acostumados a pensar os progressistas como aqueles que resolveram o
problema do fornecimento de alimentos, conseguiram a jornada de oito horas
e acabaram com o trabalho infantil. Mas os liberais frequentemente
esquecem que os progressistas também eram imperialistas, tanto em sua
própria terra quanto no exterior. Foram os autores da Lei Seca, das batidas
policiais inconstitucionais comandadas por Palmer (Palmer Raids)9, da
eugenia, de juramentos de lealdade e, em sua encarnação moderna, do que
muitos chamam de “capitalismo de Estado”. (GOLDBERG, 2008, p. 24.)

É interessante que Goldberg nota a natureza moral do endosso à Lei Seca, por parte
dos progressistas, e, no entanto, silencia a respeito da natureza (igualmente de ordem moral)
dos argumentos conservadores a respeito da proibição das drogas.
Ainda a respeito do fragmento acima retirado, vale notarmos a expressão “socialismo
cristão”. Ela será importante para Goldberg mais adiante. Ele irá associá-la à retórica do
“conservadorismo compassivo”10 empregada inicialmente pelo governo de George W. Bush.

8
Podemos pensar agora nos governos Clinton e Blair, por exemplo.
9
Eram batidas que visavam prender e deportar esquerdistas radicais e anarquistas. Foram autorizadas pelo
Procurador Geral Mitchell Palmer. Funcionavam de acordo com diretrizes dadas pelo Departamento de Justiça
norte-americano. Durante a Primeira Guerra Mundial possuíam um caráter inequivocamente étnico – uma vez
que imigrantes alemães e irlandeses eram grupos que mais frequentemente eram atingidos. Após a Revolução
Russa de 1917 o direcionamento das batidas passou a ser mais de natureza política do que étnica.
10
Antes do 11 de Setembro, George W. Bush adotava uma retórica bem menos beligerante. Ele definia sua
filosofia política da maneira que se segue: “I call my philosophy and approach compassionate conservatism. It is
compassionate to actively help our fellow citizens in need. It is conservative to insist on responsibility and
results. And with this hopeful approach, we will make a real difference in people's lives.”
Disponível em: http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2002/04/20020430.html
Acessado em: 15 de agosto de 2011.

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Mas se Goldberg cria uma superfície de isenção intelectual, ao direcionar sua crítica também à
direita política, é só para dirigir mais um golpe à esquerda norte-americana. Por exemplo,
quando ele argumenta que programas como o No Child Left Behind Act (2001) revelam uma
visão de Estado que é “totalitária em suas aspirações”, é para logo em seguida classificar essa
visão como “uma forma de progressismo”. É para, claro, demonstrar que esse tipo de ação
política não é “particularmente conservadora no sentido americano” (GOLDBERG, 2008, p.
32.).
É fundamental investigarmos a definição de fascismo utilizada por Goldberg, se
quisermos adiante examiná-la e colocá-la sob o escrutínio dos estudos de outros estudiosos.
Segundo o autor:

Finalmente, já que precisamos ter uma definição operacional de fascismo,


aqui está a minha: fascismo é uma religião de Estado. Ele presume a unidade
orgânica do corpo político e almeja um líder nacional afinado com a vontade
do povo. É totalitário no sentido de que vê tudo como político e sustenta que
qualquer ação do Estado é justificada quando se trata de alcançar o bem
comum. Ele assume responsabilidade por todos os aspectos da vida, inclusive
nossa saúde e bem-estar, e busca impor uniformidade de pensamento e ação,
seja pela força ou por meio de regulamentações e pressão social. Tudo,
inclusive a economia e a religião, tem de estar alinhado com seus objetivos.
Qualquer identidade rival é parte do “problema” e, portanto, definida como o
inimigo. Argumentarei que o liberalismo americano contemporâneo
incorpora todos esses aspectos do fascismo. (GOLDBERG, 2008, p. 33.)

O pensamento de Goldberg começa a ficar mais claro quando ele analisa as influências
intelectuais da experiência fascista na Itália. Ele evoca o nome de Georges Sorel, por exemplo,
para descrever o quadro conceitual do sindicalismo, presente, sobretudo nas ideias que
circulavam no Utopia – jornal socialista comandado por Mussolini na década de 1910.
Segundo Goldberg:

O impacto de Sorel sobre Mussolini é fundamental para se compreender o


fascismo, porque, sem o sindicalismo, o fascismo seria impossível.
Atualmente, a teoria sindicalista é algo difícil de ser penetrado. Não é

Ainda sobre o conservadorismo compassivo, vale a leitura de A Charge to Keep. Trata-se de um livro escrito por
George W. Bush ainda em 1999. Antes, portanto, de ocupar a presidência dos EUA. Lê-se com interesse
sobretudo o capítulo 16, dedicado à elucidação dessa filosofia política e moral.

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exatamente socialismo e não é exatamente fascismo. Joshua Muravchik a


chama de “uma variante mal definida do socialismo, que enfatiza a ação
direta violenta e era simultaneamente elitista e antiestatista”. Essencialmente,
os sindicalistas acreditavam no governo por sindicatos revolucionários. O
nome deriva da palavra francesa syndicat, enquanto a palavra italiana fascio,
de origem latina, significa “feixe” (alusão ao feixe de varas amarradas em
torno de um machado e usado pelos lictores romanos) e era usualmente
empregada como sinônimo de sindicato. (...) [A] maior contribuição de Sorel
à esquerda – e a Mussolini em particular – foi outra: seu conceito de “mitos”,
que ele definia como “combinações artificiais inventadas para dar a
aparência de realidade a esperanças que inspiram os homens em sua
atividade corrente”. Para Sorel, a Segunda Vinda de Cristo era um mito
essencial porque sua mensagem subjacente – Jesus está chegando, mostre-se
ocupado – era fundamental para organizar os homens conforme se desejasse.
(GOLDBERG, 2008, p. 46-47.)

Goldberg afirma que, segundo Sorel, a ideia de mito poderia ser aplicada
satisfatoriamente ao próprio marxismo. Sorel sustentava que a profecia marxista não precisava
se cumprir. “As pessoas apenas precisavam pensar que ela se cumpriria” (GOLDBERG, 2008,
p. 47.). Adiante Goldberg cita a influência de William James no pensamento de Sorel,
acentuando o caráter pragmático das formulações de ambos pensadores.

James tinha a esperança benévola de abrir espaço para a religião numa


florescente era da ciência, argumentando que qualquer religião que
funcionasse para o crente seria não meramente válida, mas “verdadeira”.
Sorel era um irracionalista que levou esse tipo de pensamento à sua
conclusão lógica: qualquer ideia que possa ser imposta com sucesso – com
violência, se necessário – torna-se verdadeira e boa. Casando a vontade de
crer de James com a vontade de poder de Nietzsche, Sorel redesenhou a
política revolucionária esquerdista, que passou de um socialismo científico a
um movimento religioso revolucionário que acreditava na utilidade do mito
do socialismo científico. Revolucionários esclarecidos agiriam como se o
marxismo fosse um credo a fim de trazer as massas para sob seu controle em
nome do bem maior. (GOLDBERG, 2008, p. 48.)

Além de Sorel, Goldberg refere-se a Rousseau como o pai do “fascismo moderno”.


Segundo o autor, a Revolução Francesa teria sido a primeira revolução totalitária; e
inspiradora do fascismo italiano, do nazismo e da revolução comunista russa. Todas as três
experiências citadas estariam, de acordo com Goldberg, sedimentadas na teoria da “vontade
geral” de Rousseau – segundo a qual um indivíduo será “livre” e “virtuoso” se viver em
consonância com ela, e “criminoso” e “herege” se desafiá-la. (GOLDBERG, 2008, p. 49.).

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Para Goldberg, o problema da ideia de “vontade geral” residia em subordinar a democracia


parlamentar a formas de governo que eram apresentadas como mais “autênticas” e “legítimas”
– formas que representavam “o Volk, o povo, a nação autêntica e sua missão providencial na
história”. (GOLDBERG, 2008, p. 50.)
Outro ponto controverso da argumentação de Goldberg é a caracterização que ele faz
da Revolução Francesa como “uma revolta espiritual romântica”. Para ele, a Revolução não
havia sido “a fonte da qual brotou o racionalismo”. Longe disso. Segundo Goldberg:

Invocações à Razão eram apelos disfarçados a um novo e personalizado


Deus da Revolução. Robespierre desprezava o ateísmo e os ateus como sinais
da decadência moral da monarquia, acreditando, em vez disso, num “Ser
Eterno que intimamente afeta os destinos das nações e que, a meu ver, parece
cuidar da Revolução Francesa de uma forma muito especial”. (GOLDBERG,
2008, p. 52.)

Isto é, segundo a interpretação de Goldberg, a revolução jacobina só obteria êxito se


Robespierre forçasse o povo a reconhecer que Deus falava por intermédio dele e da vontade
geral. Apenas desse modo os revolucionários de então – e posteriormente comunistas e
progressistas –, teriam subsídio retórico para suas tentativas de engenharia social. Tentativas
de “criar novos homens”, nas palavras do autor.
Outro aspecto pelo qual o fascismo é devedor da Revolução Francesa, segundo
Goldberg, é no que tange ao tratamento da violência como elemento central de coesão social.
Mais que mera violência coerciva, Goldberg identifica o uso do terror como inoculador de um
sentimento de crise constante nas sociedades nas quais fora instaurado. Segundo ele, “A crise
é rotineiramente identificada como um mecanismo central do fascismo porque cria um curto-
circuito no debate e na deliberação democrática.” (GOLDBERG, 2008, p. 53)
Após argumentar a respeito da Revolução Francesa e de seu caráter totalitário e
imanentemente fascista, o autor discorre a respeito do passado de Mussolini como figura de
relevo no socialismo italiano – com ênfase no imbróglio ocorrido a respeito da Primeira
Guerra Mundial. Goldberg recorda:

(...) embora muito certamente seja verdade que a Primeira Guerra Mundial
deu à luz o fascismo, ela também deu à luz a propaganda antifascista. Desde

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o momento em que Mussolini se declarou a favor da guerra, os socialistas


italianos o esconjuraram pela heresia. “Chi paga?” tornou-se a questão
central da campanha anti-Mussolini feita em surdina. “Quem o está
pagando?” Ele foi acusado de receber dinheiro dos fabricantes de armas, e
dizia-se, em surdina, que estava na folha de pagamento da França. Não há
nenhuma evidência disso. Desde o começo, o fascismo era chamado de
direitista não porque necessariamente fosse direitista, mas porque a esquerda
comunista achava que essa era a melhor forma de punir apostasias (...)
(GOLDBERG, 2008, p. 55.)

Isto é, Goldberg credita à propaganda comunista a classificação de Mussolini como


alguém de direita. Além disso, o autor estabelece similaridades entre o discurso pró-guerra de
Mussolini e progressistas norte-americanos – ou, nas palavras de Goldberg, “esquerdistas
intervencionistas” – como Woodrow Wilson, John Dewey e Walter Lippmann. Segundo o
autor, a retórica intervencionista era semelhante, uma vez que todos eles argumentavam que se
tratava de uma guerra contra “os alemães reacionários e o Império austro-húngaro, uma guerra
para liberar povos estrangeiros do jugo do imperialismo”. (GOLDBERG, 2008, p. 56.).
Goldberg menciona também a importância decisiva que teve a experiência militar de
Mussolini como combatente durante a Primeira Guerra Mundial. A partir daí, ele formularia o
que ficou conhecido como “trincheirocracia”. Tratava-se da percepção de que critérios de
classe talvez não fossem os mais importantes a serem levados em consideração politicamente.
Ele também havia percebido a guerra como um fator de coesão social sem igual. Tal qual
William James havia feito ao escrever seu The Moral Equivalent of War. Segundo Goldberg
recorda, Mussolini acreditava que “os veteranos mereciam governar o país porque haviam
feito mais sacrifícios e tinham a disciplina necessária para melhorar a difícil situação da Itália”
(GOLDBERG, 2008, p. 56). Com essa percepção em mente, Mussolini se reuniu com alguns
outros socialistas veteranos, nacionalistas e intelectuais sindicalistas e formou o Fasci di
Combattimento em Milão – segundo Goldberg, “uma frente popular de esquerdistas
favoráveis à guerra”. Goldberg aponta as semelhanças entre a agenda política da organização
recém criada por Mussolini e a adotada por progressistas norte-americanos naquele mesmo
momento histórico. Alguns dos princípios preconizados pelo Fasci di Combattimento podem
ser enumerados da maneira que se segue:
a) “Uma política externa que vise expandir a vontade e o poder italianos, em oposição
a todos os imperialismos estrangeiros.”

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b) Um salário mínimo.
c) “Um imposto fortemente progressivo sobre o capital que corresponderia a uma
expropriação parcial, num só momento, de toda riqueza.”
Além das similaridades entre a agenda fascista e progressistas, Goldberg tenta refutar o
argumento de Robert Paxton, a respeito da principal consequência da “derrota fragorosa” que
os candidatos fascistas sofreram nas mãos dos socialistas, nas eleições de 16 de novembro de
1919. Para Paxton, Mussolini havia aprendido com aquela derrota que não havia espaço para
um partido que fosse ao mesmo tempo nacionalista e esquerdista na cena política italiana. O
que, para Paxton, explicaria a adesão de Mussolini a um ideário de direita. Goldberg discorda
deste ponto de vista. Segundo ele:

Isso, a meu ver, distorce o quadro. Mussolini não deslocou o fascismo da


esquerda para a direita; ele o passou de socialista a populista. Um fenômeno
incômodo, o populismo nunca havia sido visto como tendo uma orientação
conservadora ou direitista, e é somente porque tantos estavam determinados
a rotular o fascismo de direitista que o populismo sob Mussolini foi
redefinido como de direita. Afinal de contas, a noção de que o poder político
está e deve estar investido no povo era uma posição liberal clássica. O
populismo era uma versão mais radical dessa posição. Continua sendo uma
ideologia que defende “o poder para o povo”, mas é cético a respeito da
máquina parlamentar do liberalismo convencional (i.e., o equilíbrio dos três
poderes constitucionais). Nos Estados Unidos, os populistas – sempre uma
força à esquerda no século XIX e início do século XX – defendiam reformas
como eleições diretas de senadores e a nacionalização de indústrias e bancos.
Democracia direta e nacionalização eram dois dos principais pontos da
agenda fascista. (GOLDBERG, 2008, p. 58.)

Além de crer na similaridade de agendas políticas entre fascistas e progressistas,


Goldberg acredita que o liberalismo moderno também emulou traços característicos do
fascismo. O problema é que aqui Goldberg incorre em mais uma falácia lógica. O autor
recorda a grande greve de 1922, na Itália, convocada por socialistas e comunistas, como forma
de protestar contra a recusa do governo em “esmagar os fascistas”. Os fascistas agiram e a
greve foi encerrada em um dia. Como disseram na época, os fascistas “fizeram os trens andar
no horário”. (GOLDBERG, 2008, p. 61.) Goldberg argumenta que os italianos ficaram
impressionados com a eficiência militar dos fascistas. A ação deles parecia transcender a

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ideologia da política ordinária – os princípios da democracia parlamentar e as políticas liberais


eram vistos com uma suspeição cada vez maior. Segundo o autor:

Assim como muitos hoje dizem que precisamos “ir além dos rótulos” a fim
de ter as coisas feitas, Mussolini era visto como alguém que se movia para
além das “desgastadas categorias de esquerda e direita”. Assim também –
como ocorre com certos liberais modernos –, ele prometia o que chamava de
“Terceira Via”, que não era nem esquerda nem direita. Ele simplesmente
queria que as coisas fossem feitas. (GOLDBERG, 2008, p. 61.)

Basta recordarmos das experiências do que se convencionou chamar de “Terceira


Via”, na década de 1990, para notarmos a incongruência da analogia do autor. Goldberg
compara a ação violenta dos fascistas para reprimir uma greve como algo análogo às agendas
políticas de Clinton e Blair, por exemplo. Segundo Goldberg, foi devido a esta ação dos
fascistas de Mussolini que o apoio popular italiano foi obtido, e pôde ocorrer a subsequente
vitória na disputa eleitoral de 1924.
Goldberg também atribui ao filósofo norte-americano William James, parte substancial
das ideias levadas a cabo por Mussolini. Segundo o autor:

Parte da reputação de Mussolini como um novo tipo de líder derivava do fato


de que abraçava ideias “modernas”, entre elas o pragmatismo americano. Ele
afirmou em muitas entrevistas que William James era um dos três ou quatro
filósofos que mais o haviam influenciado. (GOLDBERG, 2008, p. 62.)

A estratégia retórica de Goldberg é tomar como autoevidente a proposição enunciada


por Mussolini. Isto é, a de que ele de fato fora influenciado por William James. E se James foi
uma das principais influências dos progressistas norte-americanos, logo Goldberg “prova” a
sua teoria – segundo a qual o fascismo italiano e a esquerda dos EUA possuem raízes
intelectuais compartilhadas. São bastante claros aqui os equívocos de sua argumentação. Em
primeiro lugar, Goldberg não consegue dar conta de provar que de fato William James foi
decisivo na formação filosófica do fascismo. Mais que isso, o autor não consegue demonstrar
como as práticas políticas fascistas poderiam conter qualquer preceito de James. Em segundo
lugar, se Goldberg não é hábil em sustentar sua primeira proposição, a segunda perde
automaticamente sua validade.

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[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ NUESTRA AMÉRICA] ISSN [2236-4846]

Goldberg também se propõe a falar da experiência nazista na Alemanha. O autor deixa


claro como a agenda política nazista, pelo menos em um primeiro momento, era
essencialmente revolucionária, e não conservadora. O autor discorre sobre a suspeição que o
movimento nazista nutria com relação à aristocracia local e à elite dos negócios. O problema,
segundo Goldberg, foi que:

(...) quando Hitler demonstrou que não sairia de cena, essas mesmas elites
decidiram que seria sábio pôr algum dinheiro de lado para apostar nos
arrivistas. Isso pode ser repreensível, mas tais decisões não foram orientadas
por nada semelhante a uma aliança ideológica entre capitalismo e nazismo.
As corporações na Alemanha, como suas contrapartes de hoje, tendiam a ser
oportunistas, não ideológicas.
Os nazistas subiram ao poder explorando uma retórica anticapitalista
na qual indiscutivelmente acreditavam. Mesmo se Hitler fosse o total niilista
pintado por muitos, é impossível negar a sinceridade dos seguidores nazistas,
que se viam empreendendo um assalto revolucionário contra as forças do
capitalismo. (GOLDBERG, 2008, p. 71.)

É interessante notarmos a caracterização que Goldberg faz do Partido Nazista.


Segundo ele, a plataforma do partido ia muito além do que normalmente é destacado – isto é,
ia além das denúncias ao Tratado de Versalhes e da aspiração à “Alemanha para os alemães”.
De acordo com Goldberg, um dos aspectos mais notáveis da agenda nazista “era seu apelo
decisivo à economia socialista e populista”. Ele prossegue citando outros pontos enunciados
pela agenda nazista:

(...) a provisão de sustento para os cidadãos, a abolição da renda de juros, o


confisco total dos lucros de guerra, a nacionalização dos trustes, a divisão
dos lucros com os trabalhadores, a expansão das aposentadorias por idade,
(...) e a proibição legal do trabalho infantil. (GOLDBERG, 2008, p. 82)

Goldberg também define o principal objetivo do Partido Nazista como sendo a busca
de “um comunitarismo anticapitalista, antiliberal e anticonservador”. (GOLDBERG, 2008, p.
82.) O autor crê ainda que o fato de o nazismo se opor às restrições sociais “conservadoras e
burguesas” basta para qualificá-lo como um fenômeno político de esquerda. Goldberg
menciona, também, que a principal crítica de Hitler ao marxismo era o seu internacionalismo
– a assertiva de que os “trabalhadores não têm pátria”. Aqui o autor avança para uma hipótese

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[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

um tanto mais controversa. Segundo ele, a literatura corrente filiada à esquerda política não
tem problemas em reconhecer que os nazistas procuraram “destruir a esquerda” antes de
lançaram-se contra os elementos conservadores da sociedade alemã. A justificativa para isso,
segundo ele, é que se tratava da manobra política a ser realizada com mais facilidade naquele
momento histórico particular. Ele argumenta:

A razão para isso era que os nazistas podiam derrotar mais facilmente os
oponentes da esquerda porque esses apelavam às mesmas bases sociais,
usavam a mesma linguagem e pensavam com as mesmas categorias.
Fenômeno semelhante estava acontecendo durante a década de 1960 quando
a Nova Esquerda nos Estados Unidos – e em toda a Europa – atacava o
centro liberal e, ao mesmo tempo, ignorava a direita tradicionalista. Nas
universidades americanas, por exemplo, professores conservadores muitas
vezes eram deixados em paz, enquanto acadêmicos liberais eram
implacavelmente hostilizados. O objetivo último dos nazistas era
transcender tanto esquerda quanto direita e promover uma Terceira Via que
rompesse com as duas categorias. (GOLDBERG, 2008, p. 83.)

Os problemas se agravam quando Goldberg passa à análise do que ele qualifica como
o fascismo liberal norte-americano. O autor estabelece uma tipologia confusa, e a utiliza como
ferramenta de análise histórica. Ele se vale, por exemplo, da utilização de expressões com
significações diversas, e as manipula de modo intercambiável. Quando ele argumenta a
respeito do governo Wilson, sua estratégia retórica se torna mais evidente. Por exemplo:

O fascismo, em sua essência, é a ideia de que todos os cantos mais


recônditos da sociedade devem funcionar juntos, em união espiritual e em
direção às mesmas metas, supervisionados pelo Estado. “Tudo no Estado,
nada fora do Estado”, assim o definiu Mussolini. Ele cunhou a palavra
“totalitário” para descrever não uma sociedade tirânica, mas uma sociedade
benévola na qual todos são atendidos e contribuem igualmente. Era um
conceito orgânico no qual todas as classes, todos os indivíduos, eram parte
de um todo maior. A militarização da sociedade e da política era
considerada simplesmente o melhor meio disponível para se alcançar esse
fim. Chame-o como quiser – progressismo, fascismo, comunismo ou
totalitarismo –, o primeiro verdadeiro empreendimento desse tipo foi
implantado não na Rússia nem na Itália ou na Alemanha, mas nos Estados
Unidos, e Woodrow Wilson foi o primeiro ditador fascista do século XX.
(GOLDBERG, 2008, p. 95.)

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O problema é que para Goldberg estabelecer a simetria entre os diversos regimes


políticos que ele cita, suas especificidades históricas acabam sendo ignoradas. O autor não
menciona, por exemplo, o envio, durante o governo Wilson, de tropas norte-americanas à
Rússia – para apoiar o Exército Branco na disputa política contra os bolcheviques11.
Tampouco é possível se referir ora ao comunismo, ora ao fascismo, como se ambos fossem
fenômenos históricos equivalentes. Nem mesmo o conceito de totalitarismo – já por si só
opaco o suficiente –, propôs sempre a simetria entre os dois regimes políticos.12 (Sem falar no
uso da palavra “ditador” para se referir a um presidente que teve seu principal projeto de
política externa, a Liga das Nações, barrado pelo Congresso.)
Goldberg tenta argumentar a respeito do que ele define como o caráter fascista do
governo Wilson. Ele menciona, por exemplo, o número superior de dissidentes presos, durante
alguns anos deste governo, em relação ao número absoluto de presos durante toda a década de
1920, sob o governo de Mussolini. O problema é que não há qualquer nota de referência a
esses dados estatísticos. E, não havendo referências, é impossível interpretá-los e
contextualizá-los adequadamente.
O autor também compara a militância progressista, nos EUA daquele momento, com
os fascistas italianos e os nacional-socialistas alemães.

Wilson não agia sozinho. Tal como Mussolini e Hitler, ele tinha um
movimento ideológico ativista à sua disposição. Na Itália, eram chamados
de fascistas. Na Alemanha, eram chamados de nacional-socialistas. Na
América, nós os chamávamos de progressistas. (GOLDBERG, 2008, p. 96.)

Goldberg caracteriza os progressistas como: imperialistas, apologistas da eugenia e


hostis ao individualismo. O autor argumenta que para os progressistas, “A religião era uma
ferramenta política, enquanto a política era a verdadeira religião.” Ele prossegue:

Os progressistas viam o sistema tradicional de equilíbrio entre os três


poderes constitucionais como um ultrapassado impedimento ao progresso,
pois achavam que tais instituições já superadas eram uma barreira as suas

11
Algumas informações a respeito, aqui: http://www.criticalenquiry.org/history/polarbear.shtml
Acessado em: 29 de outubro de 2011.
12
Ver a acepção de Robert Kurz, segundo havia algo como uma “economia capitalista totalitária”. Disponível
em: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz35.htm

265
[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

próprias ambições. O apego dogmático a constituições, práticas


democráticas e leis antiquadas era inimigo do progresso tanto para os
fascistas quanto para os progressistas. Na verdade, fascistas e progressistas
partilhavam os mesmos heróis intelectuais e citavam os mesmos filósofos.
(GOLDBERG, 2008, p. 96.)

Goldberg também menciona o caráter imperialista da agenda progressista. Ele recorda


a simpatia com que Wilson saudou a anexação de Porto Rico e das Filipinas. Outro traço
fascista, segundo o autor, na personalidade de Woodrow Wilson, era ter Otto Von Bismarck e
Abraham Lincoln como heróis. O argumento de Goldberg é que os aspectos de Lincoln que
atraíam Wilson tinham menos a ver com o herói abolicionista e mais com o “centralizador”,
com o personagem histórico que conseguiu “impor sua vontade a todo o país”. Goldberg
prossegue:

Lincoln era um centralizador, um modernizador que usou seu poder para


forjar uma nova nação, unida. Em outras palavras, Wilson admirava os
meios de Lincoln – a suspensão do habeas corpus, o alistamento militar e as
campanhas dos republicanos radicais depois da guerra – muito mais do que
gostava de seus fins. (GOLDBERG, 2008, p. 99-100.)

Goldberg compreende o progressismo como um fenômeno histórico análogo ao


fascismo e ao comunismo porque para ele, todos os três partiam da premissa de que eram uma
“força irrefreável de inevitabilidade divina ou histórica”. A ideia de que cabia à avant-garde
da sociedade mostrar a direção histórica correta, era uma proposição comum aos três regimes
– segundo o argumento esboçado por Goldberg.
Outra similaridade entre o fascismo e o progressismo, segundo o autor, é a visão do
Estado como uma extensão orgânica do próprio povo. Goldberg argumenta:

A visão que Wilson tinha da política pode ser resumida em uma palavra:
“estatolatria” (o mesmo pecado do qual o Vaticano acusaria Mussolini).
Wilson acreditava que o Estado era uma expressão natural, orgânica e
espiritual do próprio povo. Desde o início, pensava que governo e povo
deveriam ter um vínculo orgânico que refletisse o “verdadeiro espírito” do
povo, ou o que os alemães chamavam de Volksgeist. “O governo não é uma
máquina, mas uma coisa viva”, escreveu em Governo Congressual.
“inscreve-se não sob a teoria [newtoniana] do universo, mas sob a teoria
[darwiniana] da vida orgânica.” Dessa perspectiva, a crescente expansão do
poder do Estado era inteiramente natural. Wilson, junto com a vasta maioria

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dos intelectuais progressistas, acreditava que o aumento do poder do Estado


correspondia a um inevitável processo evolutivo. A “experimentação”
governamental, a palavra de ordem dos liberais pragmáticos desde Dewey e
Wilson até FDR, era o equivalente social da adaptação evolutiva. A
democracia constitucional, tal como entendida pelos fundadores, era uma
fase momentânea dessa progressão. Agora era a hora de o Estado ascender
ao platô seguinte. “O governo”, escreveu Wilson, aprovadoramente, em O
Estado, “agora faz o que quer que a experiência permita ou que os tempos
demandem.” Ele foi o primeiro presidente a falar depreciativamente da
Constituição. (GOLDBERG, 2008, p. 101-102.)

Para Goldberg, Wilson adotava um tom cético quanto à existência do chamado “direito
natural”. O autor argumenta ainda que, para Wilson, “uma lei que não podia ser executada não
era uma lei real” – isto é, a noção de “direito natural”, tão cara aos Pais Fundadores, seria uma
“mera abstração”, segundo a concepção do presidente norte-americano.
Goldberg definia a agenda dos progressistas como o simétrico oposto da agenda política
do liberalismo clássico. Trata-se de uma leitura incomum, uma vez que usualmente são
acentuados os aspectos convergentes dessas duas escolas políticas. Para o autor, a concepção
quanto ao papel do Estado, adotada durante a Era Progressista, era bem diferente. Ele
argumenta que:

Diferentemente do liberalismo clássico, que via o governo como um mal


necessário, ou simplesmente um contrato social benigno, mas voluntário, no
qual homens livres poderiam entrar por sua própria vontade, a crença em
que toda a sociedade era um todo orgânico não deixava nenhum espaço aos
que não quisessem se comportar de acordo, para não mencionar os que não
desejassem “evoluir”. Sua casa, seus pensamentos privados, tudo era parte
de um corpo político orgânico que o Estado estava encarregado de resgatar.
(GOLDBERG, 2008, p. 103.)

Mais que uma mera crítica ao governo Wilson, Goldberg direciona seus ataques à
noção de Modernidade – de um modo mais abrangente e geral. Ele define os progressistas
como “filhos do Iluminismo”. É a crença “ilimitada” na Razão e, por conseguinte, na ideia de
perfectibilidade humana, que Goldberg critica e tenta refutar. Segundo ele, foi este impulso
(essencialmente moderno) de reforma e perfectibilidade – e mesmo de “engenharia social” em
seu limite –, que animou a criação de “um arquipélago de agências, comissões e birôs” com o
intuito de “cuidar” das famílias norte-americanas. Goldberg discorre:

267
[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

(...) uma falange de reformadores progressistas viu a família como a linha de


frente na guerra para transformar homens em órgãos sociais submissos.
Com frequência, a resposta era retirar as crianças de casa o mais
rapidamente possível. (...) O lar já não podia mais ser visto como uma ilha,
separado do resto da sociedade e soberano. John Dewey ajudou a criar
jardins de infância na América justamente para esse propósito – para moldar
as maçãs antes que caíssem da árvore – enquanto na outra ponta do processo
educacional ficavam reformadores como Wilson, que resumiu perfeitamente
a atitude progressista quando, como presidente de Princeton, disse a uma
audiência que “nosso problema não é meramente ajudar os estudantes a se
ajustarem à vida no mundo..., [mas] torná-los tão diferentes de seus pais
quanto nos seja possível”. (GOLDBERG, 2008, p. 103-104.)

Goldberg não restringe suas críticas a Woodrow Wilson. Seu argumento é que parte
significativa dos progressistas corroborava naquele momento aquele tipo de ideário. O autor
menciona também Herbert Croly – eminente intelectual progressista, fundador da revista
política New Republic e autor do livro A Promessa da vida americana. Goldberg prossegue:

Quando lemos sobre Herbert Croly, frequentemente encontramos frases


como “Croly não era nenhum fascista, mas...”. Ainda assim, poucos se
esforçam para explicar por que ele não era um fascista. A maior parte parece
pensar que é simplesmente autoevidente que o fundador do New Republic
não poderia ter sido um discípulo de Mussolini. A realidade, no entanto, é
que quase todos os itens que compõem uma lista padrão das características
fascistas podem ser encontrados em A Promessa da vida americana. A
necessidade de mobilizar a sociedade como um exército? Sim! Um chamado
ao renascimento espiritual? Sim! Necessidade de “grandes” líderes
revolucionários? Sim! Recurso a “mitos” nacionais manufaturados e
unificadores? Sim! Desprezo pela democracia parlamentar? Sim! Socialismo
não marxista? Sim! Nacionalismo? Sim! Um chamado espiritual à expansão
militar? Sim! A necessidade de transformar a política numa religião?
Hostilidade ao individualismo? Sim! Sim! Sim! Parafraseando Whittaker
Chambers: de quase qualquer página de A Promessa da vida americana pode-
se ouvir uma voz, informada por uma dolorosa necessidade, ordenando:
“Direto ao fascismo!” (GOLDBERG, 2008, p. 114.)

Goldberg argumenta que a tese central de Croly, em seu A Promessa da vida


americana, é representativa da cosmovisão adotada pelos demais progressistas, de um modo
geral. Por exemplo, segundo ele, Croly refere-se de um jeito muito simpático à Guerra
Hispano-Americana de 1898. Para Croly, a guerra teria dado origem ao progressismo, e isso,
por si, já a absolveria dos seus demais pecados e injustiças. Destacar os chamados aspectos

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positivos advindos da guerra – isto é, a coesão nacional, o despertar de um fervor cívico e a


adoção de uma perspectiva holística por parte da sociedade –, era um expediente adotado não
somente por Croly, mas também havia sido o cerne da argumentação de William James, ao
escrever The Moral Equivalent of War, em 1906. Goldberg prossegue em sua descrição a
respeito da agenda política de Croly:

Industrialização, cataclismo econômico, “desintegração” social, decadência


materialista e culto do dinheiro estavam fazendo a América em pedaços, ou
assim acreditava ele – bem como a vasta maioria dos progressistas. O
remédio para o “individualismo caótico de nossa organização política e
econômica” era a “regeneração” liderada por um herói-santo que pudesse
derrubar as exauridas doutrinas da democracia liberal a favor de uma nação
heroica e restaurada. As semelhanças com a teoria fascista convencional
deveriam ser óbvias. (GOLDBERG, 2008, p. 115.)

Goldberg recorda de um episódio no qual um leitor enviou uma carta à New Republic,
e indagou a respeito da simpatia que a revista nutria em relação ao regime fascista de
Mussolini. O leitor perguntou como era possível racionalizar a brutalidade de Mussolini para
com o povo italiano. Croly prontamente argumentou que a experiência italiana talvez não
fosse tão diferente assim do que houvera com os EUA – ele referia-se à Guerra Civil norte-
americana. Havia a sugestão explícita de que sob certas condições históricas, os fins deveriam
inequivocamente estar subordinados aos meios.
Para o autor, “o conceito-chave para racionalizar o utopismo progressista” era a ideia
de experimentação. Esta era amparada por um suporte filosófico justificado “em termos de
autenticidade nietzschiana, evolução darwiniana e historicismo hegeliano, e explicada no
jargão do pragmatismo de William James.” (GOLDBERG, 2008, p. 120.)
Goldberg dá destaque também para a postura progressista no que dizia respeito à
guerra. Para ele, o argumento esboçado por William James, em The Moral Equivalent of War,
havia sido lançado originalmente por intelectuais alemães no final do século XIX. John
Dewey (filósofo residente da New Republic) usou a famosa expressão “possibilidades sociais
da guerra”, e se opunha aos pacifistas, que não reconheciam a guerra como uma janela para
uma possibilidade concreta de rearranjo social. A simpatia pela experiência da guerra também
uniu, segundo Goldberg, progressistas e as primeiras feministas. O autor menciona o caso de

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[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

Harriot Stanton Blatch, pioneira feminista, para quem “novas oportunidades econômicas para
as mulheres” surgiriam em decorrência da guerra. Ainda sobre Croly e a atitude progressista
apologista da guerra, Goldberg recorda:

O New Republic de Croly fazia uma incansável pressão a favor da guerra.


No primeiríssimo número, escrito por Croly, os editores expressavam suas
esperanças de que a guerra “deveria trazer com ela uma organização política
e econômica mais adequada para cumprir seu papel em nosso próprio país”.
Dois anos mais tarde, Croly novamente expressou a esperança de que a
entrada da América na guerra proveria “o tônico para uma séria aventura
moral”. Uma semana antes de a América entrar na guerra, Walter Lippmann
(que viria a escrever grande parte dos Quatorze Pontos de Wilson) prometeu
que as hostilidades produziriam uma “transmutação de valores mais radical
que qualquer outra coisa na história do intelecto”. Isso era uma evocação
transparente ao chamado nietzschiano para derrubar toda a moralidade
tradicional. Não por coincidência, Lippmann era um protégé de William
James, e seu chamado para se usar a guerra como meio de esmagar a velha
ordem ilustra o grau de semelhança entre as conclusões dos pragmáticos
nietzschianos e americanos e, frequentemente, entre seus princípios. De fato,
Lippmann estava fazendo soar a trombeta pragmática quando declarou que
nossa compreensão de ideias como democracia, liberdade e igualdade teria
que ser repensada a partir de suas bases “tão destemidamente quanto o foram
os dogmas religiosos no século XIX.” (GOLDBERG, 2008, p. 124.)

Goldberg acentua também como, em decorrência da entrada na guerra, o governo


Wilson aumentou exponencialmente os poderes do Executivo. Uma grande quantidade de
comitês de guerra, comissões e câmaras foram criados – todos subordinados à Câmara das
Indústrias de Guerra (War Industries Board, ou WIB, na sigla inglês) que, por sua vez, não
hesitava em estabelecer uma relação de grande proximidade com a indústria armamentista
norte-americana da época. Sob o pretexto de zelar pela segurança nacional, uma série de
comportamentos discricionários passaram a ser adotados pelo governo central. O autor
menciona, por exemplo, a Lei de Sedição, de maio de 1918 – segundo a qual, ficava proibido
“falar, imprimir, escrever ou publicar qualquer linguagem desleal, profana, caluniosa ou
abusiva sobre o governo dos Estados Unidos ou os militares”. Além disso, Wilson concedeu
autoridade ao diretor-geral dos Correios, Albert Burleson, para que este negasse “privilégios
postais” a qualquer publicação que ele quisesse – “o que significava fechá-la”, nas palavras de
Goldberg. (GOLDBERG, 2008, pg. 129.) Quase uma centena de publicações foram fechadas.
Além disso, periódicos estrangeiros só conseguiam entrar nos EUA se tivessem seus

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conteúdos traduzidos e aprovados pelos censores. Também digno de nota, foi a criação da
Liga Protetora Americana (American Protective League, ou APL, na sigla em inglês).
Tratava-se de um corpo de oficiais, criado pelo Departamento de Justiça de Wilson. Eram
homens que usavam braçadeiras com os dizeres “Serviço Secreto” e agiam como espiões,
solicitados por promotores, em um sem-número de casos. Além disso, contavam com
generosos recursos que provinham da administração federal. Goldberg também discorre a
respeito do modus operandi da Patrulha Vigilante Americana, uma divisão da APL:

A Patrulha Vigilante Americana (American Vigilante Patrol) da APL


reprimia a “oratória sediciosa das ruas”. Uma de suas mais importantes
funções era espancar “desertores” que evitavam o alistamento. Na cidade de
Nova York, em setembro de 1918, a APL deslanchou seu maior ataque
contra desertores, detendo cinqüenta mil homens. Mais tarde, provou-se que
dois terços eram totalmente inocentes. Ainda assim, o Departamento de
Justiça aprovou a ação. O procurador-geral adjunto notou, com grande
satisfação, que a América nunca tinha sido policiada com tanta eficácia. Em
1917, a APL tinha ramificações em quase seiscentas cidades e vilas, e o
número de associados era de quase cem mil. (GOLDBERG, 2008, p. 132.)

Outro aspecto destacado por Goldberg foi o investimento maciço do governo Wilson
em propaganda. O autor menciona, por exemplo, a criação do Comitê de Informações
Públicas (Committee on Public Information, ou CPI, na sigla em inglês) – sua chefia ficou a
cargo de George Creel, jornalista progressista designado por Wilson. A respeito das atividades
do CPI, Goldberg argumenta:

O CPI imprimiu milhões de pôsteres, botões, panfletos e coisas parecidas em


11 idiomas além do inglês. O comitê acabou tendo mais de vinte subdivisões
e escritórios na América e em volta do mundo. A Divisão de Notícias
sozinha produziu mais de cem mil notícias. Foram impressos quase cem
panfletos diferentes com uma circulação estimada de 75 milhões.
(GOLDBERG, 2008, p. 126.)

De fato, o argumento central de Goldberg, a respeito das similaridades entre


progressistas e fascistas, pode ser resumido da maneira que se segue:

De fato, é muito difícil deixar de perceber que os progressistas se


encaixavam nos critérios objetivos que definem um movimento fascista, tal

271
[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

como convencionados por tantos especialistas no tema. O progressismo era,


em grande medida, um movimento de classe média que se opunha tanto ao
capitalismo desenfreado acima dela quanto ao radicalismo marxista da base.
Os progressistas esperavam encontrar uma via mediana entre os dois, o que
os fascistas chamavam de “Terceira Via” ou o que Richard Ely, mentor
tanto de Wilson quanto de Roosevelt, chamou de a “média de ouro” entre o
individualismo laissez-faire e o socialismo marxista. Em todos eles, o maior
desejo era impor uma ordem moral unificante, totalitária, que regulasse o
indivíduo em casa e na rua. Os progressistas também partilhavam com os
fascistas e nazistas um candente desejo de transcender diferenças de classe
dentro da comunidade nacional e criar uma nova ordem. (GOLDBERG,
2008, p. 136-137.)

O debate da History New Network e considerações finais

Após dois anos da publicação de Liberal Fascism, o centro de estudos conhecido como
History News Network, vinculado ao Center for History and New Media da George Mason
University, promoveu um debate acadêmico a respeito dos argumentos contidos no livro de
Jonah Goldberg13. Os intelectuais que participaram do debate foram os seguintes:
a) David Neiwert, jornalista com alguns trabalhos publicados sobre crimes de ódio nos
EUA;
b) Robert O. Paxton, cientista político e historiador. Um dos estudiosos mais
proeminentes do fenômeno fascista;
c) Roger Griffin, acadêmico inglês – figura ao lado de Paxton como um dos mais
reconhecidos estudiosos do fascismo;
d) Matthew Feldman, de Northampton;
e) Chip Berlet, membro da Political Research Associates;
f) Michael Ledeen, intelectual neoconservador – estudioso do fascismo italiano.
Iremos nos concentrar nas críticas feitas por Paxton e Griffin, uma vez que acreditamos
que sintetizam satisfatoriamente o tom geral dos argumentos levantados durante o debate.
Todavia, convém mencionar brevemente alguns pontos interessantes abordados por Neiwert.
Neiwert inicia sua argumentação discorrendo sobre a eficácia propagandística do livro
de Goldberg. Ele argumenta que o livro não passa de polêmica estéril, e que foi eficaz como

13
Como opção de formatação, optei por relacionar os links dos ensaios dos debatedores somente no final
deste artigo – para evitar constantes remissões e o consequente desvio de atenção na leitura do texto.

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munição para extremistas de direita – Neiwert chega a mencionar o Tea Party e a citar
nominalmente Glenn Beck e Rush Limbaugh14. Ele segue adiante:

Nowhere is this more evident than at gatherings of the Tea Party movement,
the right-wing populist phenomenon that has sprung up in opposition to the
policies for which Barack Obama was elected president. It is common at Tea
Party rallies to see signs equating Obama with Hitler, and declaring the
current regime “fascist.”
Similarly, Goldberg’s thesis has become the running theme for Glenn Beck’s
wildly popular Fox News program, in which Beck regularly insists that
Obama is secretly a radical fascist (or Marxist, or socialist, or Communist,
depending on that day’s flavor), and that the progressive movement – dating
back to Woodrow Wilson – not only is at the root of all the nation’s miseries,
but represents a concerted effort to remake America as a totalitarian state.
Beck has regularly equated fascism with progressivism, a claim central to
Goldberg’s book. And indeed, Goldberg himself has appeared on Beck’s
show numerous times to promote these claims.
Beck is hardly alone in this regard. At various times, such right-wing
pundits as Rush Limbaugh (for whom the claim was actually old hat), Sean
Hannity, and Michael Savage have promoted the “liberal fascism” thesis as
well.

Neiwert também critica o que ele caracteriza como uma imprecisão terminológica por
parte de Goldberg. O uso que este faz da expressão totalitarismo, segundo Neiwert, é
problemático – uma vez que Goldberg ignora as distinções que o fascismo historicamente
apresentou em relação às outras formas de totalitarismos. Neiwert também nota ironicamente
que, ao longo de mais de 400 páginas, Goldberg não faz qualquer menção ao antiliberalismo
intrínseco dos movimentos fascistas. Neiwert argumenta ainda que Goldberg recorre
frequentemente ao que Orwell chamou de Newspeak. Ele explicita:

In assessing the broader effects of Liberal Fascism, it may be useful to recall


George Orwell’s concept of “Newspeak,” the official language of the
totalitarian regime of 1984. Newspeak combines two ideas that,
conventionally speaking, are virtual (if not precise) opposites, and presents
them as identical -- thereby nullifying the meaning contained in each word:
"War is Peace." "Ignorance is Strength." "Freedom is Slavery." It serves
two functions: It deflates the opposition by nullifying its defining issues, and
throws the nominal logic of the public debate into disarray; and it provides
rhetorical and ontological cover for its speakers' own activities and agenda.

14
Ambos comentaristas conservadores que possuem grande audiência – Glenn Beck apresenta um programa no
canal a cabo Fox News e Limbaugh é radialista.

273
[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

O que Neiwert argumenta, afinal, é que juntando duas expressões contraditórias, como
“fascismo” e “liberal”, Goldberg acaba por esvaziar o sentido de ambas. Neiwert também
define a asserção de Goldberg de que “o fascismo é um fenômeno da esquerda” como uma
“fraude histórica”.
É, porém, Robert O. Paxton que desfere as críticas mais contundentes. Segundo
Paxton, Goldberg “chooses his scholarly data selectively and sometimes misleadingly in the
service of his demonstration.” Paxton prossegue:

Liberal Fascism is an oxymoron, of course. A fascism that means no harm is


a contradiction in terms. Authentic fascists intend to harm those whom they
define as the nation’s internal and external enemies. Someone who doesn’t
intend to harm his or her enemies, and who doesn’t relish doing it violently,
isn’t really fascist.

Paxton também argumenta que Goldberg utiliza a expressão liberals como um


espantalho argumentativo. Isto é, ele se ocupa em caracterizá-los como um grupo homogêneo,
estanque – uma vez que este tipo de definição se coaduna melhor aos seus fins retóricos, mas
não à realidade histórica. Paxton exemplifica:

Goldberg stereotypes liberals to make them abstract, uniform,


robotic. The telltale phrase is “liberals say” or “liberals think” (mostly
without anyone quoted or footnoted). For example, “Liberals . . . claim”
that free-market economics is fascist (p. 22). Could we please have a few
examples of “liberals” who say this? It is a straw man, as is the vast, ghostly
“liberal mind” that sounds like a physical reality: “fascism, shorn of the
word, endures in the liberal mind” (p. 161). Does this liberal mind have a
telephone number, as Henry Kissinger said famously of the European Union?

Paxton também menciona um erro factual na argumentação de Goldberg. Este define


fascismo como sendo “o uso do poder do Estado para fazer um mundo melhor e criar uma
comunidade”. Paxton refuta esta definição:

This is not only too vague to mean much, it is simply wrong. Authentic
fascists have never wanted to make the whole world better. As
uncompromising nationalists, they want to make their own group stronger,

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purer, and more unified, and establish its domination over inferior groups, by
force if necessary. Goldberg’s real target is state activism and matters would
be much clearer if he had just left it at that.

Paxton destaca ainda algo que já mencionamos no início deste artigo. Ele se refere à
estratégia retórica de Goldberg, que frequentemente ressalta os aspectos discursivos dos
movimentos fascistas em detrimento da análise dos comportamentos que eles adotaram na
prática. Paxton repara que Goldberg dá ênfase nos pontos de convergência com o discurso
socialista que os movimentos fascistas tinham no início, mas pouco fala a respeito das ações
completamente hostis e repressoras que estes adotaram com os diversos atores que gravitavam
em torno da esquerda política – tanto na Itália fascista quanto na Alemanha nazista. Paxton
prossegue:

Goldberg simply omits those parts of fascist history that fit badly with his
demonstration. His method is to examine fascist rhetoric, but to ignore how
fascist movements functioned in practice. Since the Nazis recruited their
first mass following among the economic and social losers of Weimar
Germany, they could sound anti-capitalist at the beginning. Goldberg makes
a big thing of the early programs of the Nazi and Italian Fascist Parties, and
publishes the Nazi Twenty-five Points as an appendix. A closer look would
show that the Nazis’ anti-capitalism was a selective affair, opposed to
international capital and finance capital, department stores and Jewish
businesses, but nowhere opposed to private property per se or favorable to a
transfer of all the means of production to public ownership. (…) A still closer
look at how the fascist parties obtained power and then exercised power
would show how little these early programs corresponded to fascist practice.
Mussolini acquired powerful backing by hiring his black-shirted squadristi
out to property owners for the destruction of socialist and Communist unions
and parties. They destroyed the farm workers’ organizations in the Po
Valley in 1921-1922 by violent nightly raids that made them the de facto
government of northeastern Italy. Hitler’s brownshirts fought Communists
for control of the streets of Berlin, and claimed to be Germany’s best
bulwark against the revolutionary threat that still appeared to be growing in
1932. Goldberg prefers the abstractions of rhetoric to all this history, noting
only that fascism and Communism were “rivals.” So his readers will not
learn anything about how the Nazis and Italian Fascists got into power or
exercised it.

Roger Griffin também não poupa críticas ao trabalho de Goldberg. Griffin argumenta
que a definição de fascismo adotada pelo autor não é nada além de mera tautologia. A
definição de Goldberg a que Griffin se refere é a que segue:

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[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

(...) fascismo é uma religião de Estado. Ele presume a unidade orgânica do


corpo político e almeja um líder nacional afinado com a vontade do povo. É
totalitário no sentido de que vê tudo como político e sustenta que qualquer
ação do Estado é justificada quando se trata de alcançar o bem comum. Ele
assume responsabilidade por todos os aspectos da vida, inclusive nossa saúde
e bem-estar, e busca impor uniformidade de pensamento e ação, seja pela
força ou por meio de regulamentações e pressão social. Tudo, inclusive a
economia e a religião, tem de estar alinhado com seus objetivos. Qualquer
identidade rival é parte do “problema” e, portanto, definida como o inimigo.
(GOLDBERG, 2008, p. 33.)

Griffin enumera o que julga serem as principais falácias da definição de Goldberg – de


acordo com o consenso acadêmico nos estudos comparativos do fenômeno fascista, ele
acentua. Em primeiro lugar Griffin argumenta:

“There is now wide scholarly agreement that fascism exists a) as an ideology


of total national rebirth and renewal in a new order, b) as a revolutionary
movement bent on overthrowing liberal democratic, communist, absolutist,
or conservative authoritarian regimes, or c) as a regime which attempts to
inaugurate a new order based on a utopia vision of the reborn national or
racial community”.

Griffin também é critico à noção de “organic unity”, cara a Goldberg, segundo a qual os
regimes acometidos pelo que ele chama de liberal fascism objetivam uma unidade orgânica da
sociedade. Trata-se de uma definição que está em completo desacordo com a noção do que é
uma sociedade liberal – isto é, uma sociedade com instituições representativas e separação de
poderes. Um governo fascista despreza este arcabouço liberal, e, na primeira oportunidade que
tiver, tenta superá-lo. Um governo que conjugue as duas visões políticas é um paradoxo, por
definição. Griffin o tempo todo parece crer na incompatibilidade estrutural entre a arquitetura
política e institucional dos EUA e a emergência de um regime de caráter fascista.
Para compreendermos a atual cena política e cultural norte-americana, é instrutivo
notarmos como se deu a recepção de Fascismo de Esquerda nos EUA. É possível afirmar que,
em um primeiro momento, o livro de Goldberg foi ignorado pelo establishment acadêmico. A
estratégia (consciente ou não) adotada pela academia foi não dar destaque aos argumentos
esboçados por Goldberg. Sequer o levaram a sério como um possível interlocutor.
Provavelmente acreditaram que seu livro iria ficar restrito a um público limitado de pessoas

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[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ NUESTRA AMÉRICA] ISSN [2236-4846]

que compartilhavam sua visão política. O problema é que a realidade foi bem diversa.
Rapidamente o livro de Goldberg figurou na lista de best sellers do New York Times. Na
verdade algo mais complexo que isso ocorreu. Os atores políticos identificados com o
conservadorismo norte-americano adotaram os argumentos de Goldberg com uma velocidade
impressionante. Membros do Tea Party e comentaristas políticos conservadores como Glenn
Beck começaram a utilizar a expressão liberal fascism de modo muito frequente. Passou a ser
usual observarmos ativistas de direita se referirem ao governo de Woodrow Wilson como o
momento histórico no qual as coisas passaram a dar errado nos EUA. O revisionismo histórico
de Goldberg havia enfim chegado ao mainstream do discurso político.
É interessante lermos os argumentos de Chip Berlet, pois ele coloca em perspectiva
histórica as ideias de Goldberg. Berlet demonstra, por exemplo, que não há qualquer
ineditismo na tese contida em Fascismo de Esquerda. Ele menciona o livro Collectivist
Economic Planning: Critical Studies on the Possibilities of Socialism, editado pelo
economista austríaco Friedrich A. Hayek em 1935. Berlet argumenta que parte substantiva das
ideias contidas no livro, acabou por dar subsídio a uma coalizão “anti-socialismo” que se opôs
firmemente às políticas do New Deal de Roosevelt. É interessante notar a composição
ideológica desta coalizão anti-socialismo mencionada por Berlet. Tratava-se de uma união de
esforços entre libertários, mais preocupados com questões econômicas (advogavam um
sistema de livre-mercado com pouquíssima intervenção do Estado), e a direita cristã. Da
mesma forma que segmentos conservadores hoje se referem ao presidente Obama ora como
socialista, ora como fascista, o mesmo ocorreu com FDR em sua época. É no entanto em seu
livro de 1944, The Road to Serfdom, que Hayek ataca com ainda mais virulência aquilo que
chama de “coletivismo”. Mais que isso, Hayek cria uma relação de causalidade envolvendo
coletivismo e totalitarismo. Segundo ele, a medida que uma economia tivesse mais ingerência
do Estado, maior seria a possibilidade do sistema político daquela sociedade derivar para uma
forma totalitária de controle e coerção. Também é interessante notarmos o título de um dos
capítulos de seu livro: ”The Socialist Roots of Nazism” – já antecipando a ideia de Goldberg
há pelo menos meio século. Ainda em 1944, Ludwig Von Mises escreve Omnipotent
Government the Rise of the Total State and Total War – outro livro que serviria para
consolidar o pensamento político de suspeição com relação às ações do Estado

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[O FASCISMO LIBERAL REVISITADO * GABRIEL ROMERO LYRA TRIGUEIRO]

Berlet também demonstra como a campanha do candidato republicano Barry Goldwater


foi um ponto de inflexão histórico importante para se compreender a emergência dessas ideias
no Partido Republicano – muito em função da ação política de ativistas da John Birch Society.
Ainda que Goldwater tenha perdido a eleição, as articulações políticas e intelectuais no
partido haviam começado naquele momento. Todavia seria somente na década de 1980, com a
vitória de Reagan, que esse ideário político ganharia força e penetração nacionais.
Podemos entender Fascismo de Esquerda como mais uma etapa das culture wars norte-
americanas. Isto é, refiro-me aqui às disputas de narrativa a respeito da história norte-
americana, travadas entre liberais e conservadores. Não seria equivocado falar também em
“batalhas da memória”. O fato é que Goldberg tinha inúmeras possibilidades interessantes de
explorar o assunto. Griffin e Paxton, por exemplo, concordam que hoje há um consenso
acadêmico (ainda que limitado a alguns tópicos) a respeito do estudo dos diversos fenômenos
fascistas. Um tópico que parece consensual entre os diversos scholars é o fato de que tanto o
fascismo italiano quanto o nazismo utilizaram elementos retóricos e políticos de diversos
segmentos do espectro político. São perceptíveis tanto traços socialistas quanto conservadores
nos movimentos fascistas do século XX. Goldberg poderia ter feito um estudo interessante a
respeito dos, digamos, elementos de esquerda apropriados discursiva e politicamente pelos
fascismos. O problema é que ele não fez isso. Goldberg tenta sustentar uma tese que não
encontra qualquer respaldo histórico. E, não encontrando este respaldo, ele se vale de
tautologias, falácias lógicas e falsas analogias.
Todavia, a leitura de Fascismo de Esquerda não deixa de ser interessante por dois
motivos. Primeiro, Goldberg conseguiu documentar dados históricos interessantes a respeito
da história política norte-americana do século XX. A interpretação que ele faz desses dados é
que é equivocada. Em segundo lugar, o livro de Goldberg serve como um barômetro preciso
de qual foi a direção adotada pelo conservadorismo norte-americano. Ainda que seja arriscado
utilizar a expressão “padrão histórico”, a verdade é que lendo o livro de Goldberg, fica claro
quais são os elementos retóricos recorrentes da crítica conservadora em relação papel do
Estado. Conseguimos compreender que, longe da aura inaugural que alguns insistem em
imputar ao discurso crítico do Tea Party, alguns elementos discursivos estão presentes na cena
política e cultural norte-americana há pelo menos cinco décadas. Conhecendo as ideias de

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Goldberg, passamos a entender qual é a natureza dessa crítica e como ela se fundamenta –
crítica esta que, não me parece equivocado dizer, se constitui, de modo mais geral, como uma
crítica à Modernidade, tal qual ela se plasmou nas organizações sociais e políticas na história
recente dos EUA.

Fontes
A) History News Network Special: A Symposium on Jonah Goldberg's Liberal
Fascism:
http://hnn.us/articles/122469.html
B) WILENTZ, Sean. THE NEW YORKER. Confounding Fathers: The Tea Party’s
Cold War roots. Disponível em:
http://www.newyorker.com/reporting/2010/10/18/101018fa_fact_wilentz
Acesso em 15 de agosto de 2011.

Bibliografia

GOLDBERG, Jonah. Fascismo de Esquerda: a história secreta do esquerdismo


americano.Rio de Janeiro: Record, 2009.
GRIFFIN, Roger. The Nature of Fascism. New York: Routledge, 2006.
_____________. Modernism and Fascism: The Sense of a Beginning under Mussolini and
Hitler. New York: Palgrave Macmillan, 2007.
MANN, Michael. Fascistas. Rio de Janeiro: Record, 2004.
PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

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