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Vulnerabilidade do lugar vs.

vulnerabilidade
sociodemográfica: implicações metodológicas
de uma velha questão *

Eduardo Marandola Jr.**


Daniel Joseph Hogan***

A pergunta “vulnerabilidade a que?” é primária nos estudos sobre riscos


e perigos. Nos estudos populacionais, ess a pergunta se direc iona a
grupos demo gráficos que estã o sujeitos a determinados perigos, que
pode m estar relacionados às características da dinâmica demo gráfica ou à
sua situação socioeconômica, ligadas ao ciclo vital, à estrutura familiar ou às
características migratórias do grupo. O camp o de população e ambiente
acresce ntou a dimensão espacial à problemática, considerando a posição e
a situação (relacionais e relativas) componentes dos elementos que produzem
perigos ou que fornecem condições de enfrentá-los. Notam-se , de um lado, a
influência de uma abordagem ec ológica, que entende o meio como um
conjunto físico-social que influencia e é influenciado pela população, e, de
outro, a presença de postulados materialistas, que concebe a relação
sociedade-natureza como um devir histórico-social que se pauta pela
produção contraditória e desigual do espaço e da sociedade. Em ambientes
fortemente modificados pelo homem, como as grandes cidades, a matriz
causal de riscos e de elementos que podem interferir na vulnerabilidade é
consideravelmente maior, tornando difícil apree nder relações de causalidade
entre determinados perigos e certas características do grupo demográfico. Em
vista disso, olhar para os perigos e para a vulnerabilidade do lugar é uma
estratégia que permite, em microescala, captar os elementos que interferem na
produção, ace itação e mitigação dos riscos. A dimensão ec ológica é re-
significada ao incorporar a dimensão existencial e fenomênica do lugar,
entendendo os grupos demográficos em sua relação de envolvimento e
pertencimento ao seu espaço vivido. A partir de uma série de trabalhos
empíricos desenvolvidos nos últimos anos , este artigo reflete sobre as
poss ibilidades dess a perspec tiva teórico- metodológica, que utiliza uma
prática qualitativa de campo e uma orientação geográfica na construção de
um diálogo mais estreito entre Geografia e os estudos populacionais, a partir do
campo População e Ambiente.

Palavras-chave : Riscos. Cidade. Espaço. Metodologias qualitativas. Geografia


da população.

“What make s people vulnerable?” Est a & people (HILHORST; BANKOFF, 2004 ,
é a pergunt a que abre a introdução do livro p.1), a qual é, sem dúvida, uma das mais
Mapping vulnerability: disasters, impor- tante s questões contem por ânea s:
development como

* Uma primeira versão deste texto foi apresentada no X V I Encontro Nacional de Estudos Populacionais, Abep,
realizado em Caxambu – MG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008, na Sessão Temática “População
em risco e vulnerabilidade socioambiental”, organizada pelo Grupo de Trabalho População, Espaço e Ambiente.
** Geógrafo, Núcleo de Estudos de População, da Universidade Estadual de Campinas
(Nepo/Unicamp).
*** Demógrafo e sociólogo, profess or do Departament o de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humana s
(IFCH)
e pesquisador do Núcleo de Estudos de População (Nepo), ambos da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp).

R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v. 26, n. 2, p. 161-181, jul./dez. 2009


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

compreender os mecanismos e processos produçã o do s perigos e na composição


que produze m riscos e perigos, tornand o da matriz causal da vulnerabilidade. En-
as pessoas vulneráveis? contramos diferentes soluções e aportes
Desde que vulnerabilidade, risco e pe- teórico-metodológicos para o estudo de
rigo tornaram-se termos fundamentais para tais fenômenos, que em outro s trabalhos
compreender e discutir as transformações (HOGAN; MARANDOLAJr., 2005; MARAN-
na sociedade contemporânea, tem havido DOLA Jr.; HOGAN, 2006b) identificamos
uma busc a tanto por uma melhor com- enquanto ligados a uma tradição de análise
preensão teórica acerca dos process os e sociológica, que se relaciona aos estudos
significad os que conformam situações de sobr e a pobreza , e outra linha que é
risco, quanto por método s de medida e ava- herdeira da s primeiras preocupaçõe s
liação dos recursos que permitem diminuir moderna s com os impactos do ambiente
ou aumen tar a vulnerabilidade de diferentes sobr e a sociedade, mais geográfica, ligada
grupos . Por outro lado, a importância da aos perigos naturais e que, mais
espacialidade (localizações e situações) recentemente, se configuraram enquanto
também tem sido discutida, especialmente questão ambiental. Embora não haja um
nos espaços urbanos e em questões am- corte necessariamente disciplinar nessa
bientais, situações em que é mais evidente leitura, a influência de uma aborda - gem
a dimensão espacial da existência que prioriza os fatores ecológicos e es-
social. Os lugares, portanto, também paciais é mais evidente entre os segundos,
podem ser entendidos como vulneráveis enquanto as estruturas sociais são prepon -
ou expostos a riscos. derante s entre os primeiros. O resultado
No contexto dos estudos de população são dua s abordagen s da vulnerabilidade
e ambiente, os dois lados da questão (es- que se distanciam ou se tocam em certos
pacialidade e produçã o social) pontos, priorizando um e outro ângulo:
aparece m na seguinte formulação: o vulnerabili- dad e ambiental ou do lugar e
foco está nas pessoas (demografia) ou vulnerabilidade social ou
no espaço (geo- grafia)? Est a dúvida sociodemográfica .
reprodu z um antigo debate da relação Ess e debat e é extremamente perti-
homem-meio, que tem seus primeiros nent e para o context o dos estudo s sobr e
registros com Hipócrates e acompanh a população e ambiente, na medida em
toda a filosofia e ciência ociden- tal que a questã o que o anima é a mesma.
(RATZEL, 1990; HASSINGER, 1958). A Compr een der como se dá, em determi-
Geografia, ciência que tradicionalmente se nad o espaço-tempo, a relação de
coloca nessa interface, tem se esforçado grupo s demográficos específicos com
em construir teorias e estratégias se u am- biente passa , necess ariamente,
conceituais e empíricas de trabalhar com por uma concepção da natureza dessa
essas esferas sem dicotomizá-las, relação, nem sempr e explicitada mas
embor a nem sempre com sucesso. Com o efetivamente cons- truída a partir do
advento das ciências sociais, no entanto, a instrumental metodológico e conceitual
esfera humano-social foi apropriada como utilizado na s análises. No s estudo s de
sendo de sua alçada, marcando uma população e ambiente, temo s notado
ruptura que seria transgre - dida em influências da economia política, da
alguns raro s momentos , o que propiciou ecologia humana, da sociologia ambiental
uma leitura mais conjuntiva da e da própria geografia (MARANDOLA Jr.;
sociedade em seu ambiente. HOGAN, 2007). Essa s influências, no en-
A velha questão está na natureza dessa tanto, pouc o dialogam e permanece m re-
relação: população (P) vs. ambiente (A)? O lativamente paralelas. Enten demo s que, do
sentido da flecha de ação é PàA ou AàP? pont o de vista metodológico, é fundamental
Seriam os lugares que mudam as pessoas que haja maior discuss ão dessa s matrizes
ou as pessoas que mudam os lugares? No para que se poss a avança r em termo s de
context o dos estudo s sobre uma construção mais robusta e consistente
vulnerabilidade, essas questões retornam dess e camp o de investigação.
com muita força por conta do s fatores Este artigo é fruto de inquietações que
que interferem na têm permead o noss o trabalho no Núcleo
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

de Estudos de População, 1 especialmente principal, encarando a experiência espacial


no contexto de um projeto interdisciplina r,2 com o a principal mediação do indivíduo
na senda de uma interlocução mais estreita com o ambiente (TUAN, 1983). Este é
entre Geografia e Demografia, que envolve entendido de forma ampla, incluindo o
estas questões em tela, passando pelos es- mund o de significados onde a pessoa
tudos sobre vulnerabilidade, especialmente está inserida, desd e as esferas mais
na perspectiva ambiental e urbana , ma s imediatas (família, grupo, bairro, cidade)
com foco na reflexão metodológica. Ao se até as mais distantes (país, etnia, mundo) .
aproximarem duas ciências com diferentes É uma perspectiva que busc a interligar as
tradições e formas de ver/ler o mun do, a esferas sociais a partir da experiência,
dificuldade de adequação, em primeiro lu- permitindo abordar as questõe s nem pelo
gar, vem da necessidade de afinar o “como ambiente nem pela sociedade, mas a
ver” e o “como analisar”. Tendo o campo partir de sua relação. Esse é um dos
de população e ambiente com o a seara grande s desafios posto s aos estudos de
comu m de investigação, nossos trabalhos população e ambiente (LUTZ;
têm pro- curado uma trilha que permita não PRSKAWETZ; SANDERSON, 2002), e esta
apenas compartilhar um caminho ou uma trilha se apre- senta como promissora.
pesquisa, mas aproveitar o que de melhor Este artigo é um balanço dos resultados,
um estudo interdisciplinar pode propiciar: potencialidades e limitações de nossas
a interpene- tração de temas, conceitos e pes- quisas por esta abordagem. Colocam-
perspectivas, que devem se coadunar se em discussão algumas premissas e
numa abordagem conjuntiva do ponto de caminhos que o grupo de pesquisa tem
vista metodológico. desenvolvido, refletindo sobre seu alcance
Seguimos assim a sugestão de Hauser e possibilida- des em permitir uma análise
e Duncan (1959), que indicaram a impor- de mão dupla Pß à A, sem prevalência de
tância de compreender a Demografia para um polo sobre o outro. A expectativa é
além de seu núcleo duro, abrindo-se para poder contribuir para o debate dessa
análises qualitativas que se desenvolvem velha questão, apre- sentando
nas suas fronteiras com outras ciências. Os possibilidades de interlocução e lacunas
autores afirmam que nessa área fronteiriça que ainda precisam ser enfrentadas pelos
é necessário um diálogo metodológico em estudiosos de população e ambiente, de
busc a de soluções para problemas maneira geral, e pelos interessados nos
comuns , ocorrendo a interpenetração das estudos sobre riscos, perigos e vulnerabili -
temáticas e métodos. População e dade, de modo particula r.
ambiente é uma das fronteiras de
interação entre Geografia e Demografia por Lugar e população na análise da
excelência, permitindo o desenvolvimento vulnerabilidade
de uma demografia espa - cial e ambiental,
com enfoque qualitativo significativo. A pergunta “vulnerabilidade a que?” é
Em vista diss o, temos trabalhado primária nos estudo s sobre riscos e
com uma abordagem qualitativa a partir perigos. Nos estudos populacionais, essa
da Geografia Humanista e Cultural, de pergunta se direciona a grupo s
filiação fenomenológica, com o arcabouço demográficos que estão sujeitos a
teórico-metodológico no estud o da vul- determinados perigos, ou seja, as
nerabilidade (ENTRIKIN, 1980 ; HOLZER, “populações em situação de risco”. Estes
1996; BONNEMAISON, 2005), o que coloca podem estar relacionados às caracte-
a experiência do s fenômenos com o foco rísticas da dinâmica demográfica ou à sua
situação socioeconômica, ligadas ao ciclo
vital, à estrutur a familiar ou aos aspectos

1 A equipe que desenvolveu estes estudos contou com a participação de vários alunos de Iniciação Científica Pibic/
CNPq, SAE/Unicamp e Fapesp, entre os quais: Fernanda Cristina de Paula, Majore de Souza, Adriana Lopes
Rodrigues, Gabrielle Mesquita Alves Rosas, Luiz Tiago de Paula e Thais Fogliarini.
2 Trata-se do Projeto Vulnerabilidade – Dinâmica intra-metropolitana e vulnerabilidade sociodemográfica nas
metrópoles
do interior paulista: Campinas e Santos. <http://ww w.nepo.unicamp.br/vulnerabilidade>.
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migratórios do grupo . O camp o de


população e ambiente acrescento u a
dimensão espacial à problemática,
considerando a posição e a situação
(relacionais e relativas) componen- tes dos
elementos que produze m perigos ou que
fornecem condições de enfrentá-los.
Notam-se , de um lado, a influência de uma
abordagem ecológica, que entend e o meio
como um conjunto físico-social que
influencia e é influenciado pela população,
e, de outro, a presenç a de postulados
materialistas, que conceb e a relação
sociedade-natureza com o um devir
histórico-social pautad o pela produção
contraditória e desigual do espaç o e da
sociedade.
Na sociologia urbana , os estudo s
ecológicos datam já de quase um século,
influenciados pelas contribuições seminais
da chamada Escola de Chicago (PARK;
BURGESS; McKENZIE, 1925 ; BURGESS;
B OGUE , 1964; SHORT, 1971). Nesse s
estudos , a importância da localização e
da posição relativa é trazida para o estudo
social na medida em que revelam ou pro-
movem relações e posições ecológicas que
tanto expressam uma organização quanto
favorecem uma situação. Posição e situa-
ção, noções caras à geografia tradicional
francesa (DOLFUSS, 1973 ), são entendi-
das pelos sociólogos da ecologia humana
como componentes do chamado efeito de
vizinhança, que envolve a dimensão
propria- mente ecológica da estrutura e do
entorno do bairro, bem como de sua
posição e rela- ção com a estrutura da
cidade. O efeito de vizinhança está na
base da constituição das identidades,
comunidades e na promoção de coesão
social e cultural.
Este s estudos , ligados a uma visão
organicista da cidade, revelaram a
densi- dade e a coesão de vários bairros
que se constituíam em verdadeiras
comunidades devido a uma identidade
étnica, histórica ou migratória. A
sociologia urbana americana deu muita
envergadura e atenção a estes estudos e
à importância de tais comunida- des na
manutenção de valores, no enfren -
tamento de situações econômicas e
sociais adversas ou mesmo na explicação
da po- breza e de outros fatos sociais
(BLOKLAND,
2003). O bairro foi considerado unidade de
análise privilegiada para a compreensão
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade 1993; CUNHA et al., 2006), é
sociodemográfica interessante notar que, entre os
primeiros, ainda há pouca utilização do
enfoque no estudo de comunidades e
bairros.
interação social e até para
Os efeitos de vizinhança possuem re-
planejamento e empoderament o da
lações para além de aspectos econômicos
população (SAMPSON; MORENOFF;
ou de mera proximidade, potencializando
GANNON-ROWLEY, 2002 ;
relações e interações que têm natureza
ATKINSON, 2006).
espacial. As variáveis ecológicas não
Segund o Freiler (2004, p.3),
se limitam a aspecto s racionais que
existem trê s principais razõe s para a
pode m ser contabilizados, mas envolvem
ênfase no s bairros e sua retomad a nos
também simbolismos e identidades
últimos anos : (1) “Concer n about
construídas em torno de lugares que,
growing neighborhood con- centrations
mesmo degradados social ou
of poverty and disadvantage and their
economicamente, podem manter sua
effects on individuals and the broader
capacidade aglutinadora e atratora de
comm un ity”; (2) “Increasing
população (FIREY, 2006). Alguns dos mais
recognition that cities and urban
bem-sucedidos processos de recuperação
regions are socially, environmentally,
de bairros se deram a partir de movimentos
and economically critical to the well-
culturais iniciados pelos próprios mora-
being of individuals, regions and
dores , numa deliberada reconduçã o da
countries”; e (3) “The ‘discovery’ of
orientação e da morfologia de seus bairros
social capital and its potential as a
(JACOBS, 2000). Ass ociar pobrez a e de-
building block for social cohesion and
gradação urbanística com vulnerabilidade,
to finding local so- lutions to
portanto , pod e ser uma relação causal
problems”. Embora a teoria dos
simplista, que não se sustenta quando se
capitais seja um dos arcabouços
presta atenção aos efeitos da vizinhança na
movimen- tado s para o estud o da
capacidade da s pessoa s de lidarem com
vulnerabilidade tanto nos estudos
os perigos a que estão expostas.
ecológicos/espaciais quant o nos
Em vista diss o, estudo s que busca m
sociais/demográficos (WATTS; BOHLE,
uma abordagem qualitativa em uma escala

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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
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menor de análise têm sido reclamados os próprios perigos urbanos (MARANDOLA


com o necess ários para melhor Jr.; 2008a).
compreensã o da vulnerabilidade, tant o Em vista disso, olhar para os perigos e
para entende r a dimensão sociocultural e a vulnerabilidade do lugar é uma estratégia
demográfica de sua composição, quant o que permite, em microescala, apreen der
para aprofundar a compreensão da os elementos que interferem na produção,
importância do lugar e da s comunidades aceitação e mitigação dos perigos. A
territorialmente centradas. dimen- são ecológica é re-significada ao
Comunidade não é o mesm o que incorporar a dimensão existencial e
bairro, é evidente. Est e termo tem sido fenomênica do lugar, entendendo os
usad o desd e a sociologia cláss ica, em grupos demográficos em sua relação de
geral de forma vaga e imprecisa. Serviu a envolvimento e perten- cimento ao seu
diversos fins em diferentes con textos, espaço vivido.
carregand o as noçõe s de desintegração, A partir de uma série de trabalhos
integração e coesão, desde o sentido da empíricos desenvolvidos no Projeto Vulne-
intimidade, da profundi- dade emocional, rabilidade, do Nepo/Unicamp, procuramos
do envolvimento moral, da coesão social, discutir as possibilidades dess a perspectiva
até, mais recente mente, da teórico-metodológica, que utiliza uma prá-
sustentabilidade (BLOKLAND, 2003). Faz-se tica qualitativa de campo e uma orientação
uma conexão imediata e rasteira entre co- geográfica na construção de um diálogo
munidade e bairro-vizinhança, embora sua mais estreito entre Geografia e os estudos
efetivação não seja tranquila nem populacionais, a partir do camp o
simplista. Apesar de vivermos uma época População e Ambiente.
de ênfase no local (BORDIN, 2001), isso na
verdade é um paradoxo que se coloca à Vulnerabilidade do lugar enquanto
medida que a busca pela comunidade é a proposta metodológica de pesquisa
própria denún - cia de que ela está escassa
na experiência contemporânea. A abordagem do lugar, no estudo dos
Qual a relação entre bairro, perigos ambientais, possibilita uma análise
comunidade e vulnerabilidade, integrada dos elementos físicos e sociais,
principalmente nas gran- des cidades considerando a relação população-ambien-
contemporâneas? te e não um ou outro polo. Incorporam-se
Em ambientes intensamente modi- à mesma discussão a mensuração do risco
ficados pelo homem , a matriz causal de biofísico (ambiental), a produção social do
riscos e de elementos que podem interferir risco e as capacidades de resposta, tanto
na vulnerabilidade é consideravelmente da sociedade (grupos sociais) quanto dos
maior, dificultando a apreensã o de rela- indivíduos (CUTTER, 1996). Parte-se de um
çõe s de causalidade entre determinados contexto social e geográfico onde o perigo
perigos e certas características do grup o ocorreu ou é potencial. Risco, as ações de
demográfico. Vivemos um enfraquecimento mitigação (res posta s e ajustamentos) e a
do bairro e da vizinhança. O estilo de vida vulnerabilidade do lugar são o resultado da
contemporâneo, fluido ou líquido, para usar interação particular destes elementos nos
a expressão de Bauman (2007) acerca do termos daquele espaço-tempo.
atual estágio da modernidade, é pautad o O aument o da s ações mitigadoras
na não-permanência, na mudança poderá significar a diminuição do risco e,
constante e na alta mobilidade. Essa consequentemente, implicará a redução da
tendência diminui a paus a necess ária vulnerabilidade do luga r. Por outro lado, o
para a experiência e a densificação dos risco poderá aumenta r se houver
lugares (TUAN, 1975), alterando a forma alterações no context o geográfico ou na
com o as pessoa s se relacionam com o produção social, que poderã o incorrer no
espaço urbano. A terri- torialização, crescimento da vulnerabilidade biofísica e
necessária para atingir a segu - rança social e da vulnerabilidade do lugar.
existencial, tem que ocorrer tanto em Ess e process o poder á ser iniciado
movimento quanto no lugar, transformando também por meio do
as estratégias de proteção e os riscos as -
sumidos, redesenhando a vulnerabilidade e
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. faz. Da mesma forma, o

aument o do perigo potencial, que tanto


pod e ser resultado quanto condicionante
da elevação ou diminuição da
vulnerabilidade (MARANDOLAJr.; HOGAN,
2005).
A importância dess e enfoque reside
no fato de permitir um olhar propriamente
geográfico da vulnerabilidade, e não ape-
nas sua “espacialização” (utilizada como
sinônimo de localização). Esta abordagem
parte das dinâmicas que configuram uma
dada espacialidade e procur a
circunscrever sua escala (uma região,
uma cidade, um ecossistema, um bairro),
identificando nas interações sociedade-
natureza os riscos e perigos que atingem
o luga r. Não se trata de enten der esta
espacialidade enquant o substrato físico
independente da sociedade. Antes, a
abordagem busca na delimitação escala r-
espacial uma unidade de referência para
compreender o contexto da produção
social do perigo em conexã o com o
context o geográfico. O resultado desta
relação – sua s tensões , aberturas,
estrutura s de proteçã o e risco – permite
identificar a vulnerabilidade (MARANDOLA
Jr.; HOGAN, 2006a).
A vulnerabilidade é, portanto, um
qualitativo, ou seja, envolve as qualidades
intrínsecas (do lugar, das pessoas, da co-
munidade, dos grupos demográficos) e os
recursos disponíveis (na forma de
ativos) que pode m ser acionados na s
situações de necess idade ou
emergência. Ass im, tanto o contexto
social quanto o geográfico possue m
atributos que fornecem elementos para
pessoa s e lugares estabelecerem seu s
sistemas de proteção . A relação entre o
coletivo (o que não está ao alcance direto
de intervenção individual, pois é produzido
socialmente e historicamente) e o particular
(aquilo que pessoas e lugares podem
cons- truir de forma direta) é uma chave
importante para compreende r o desenho
da s diferentes vulnerabilidades.
Nem o context o social nem o
geográfico são completamente coletivos ou
individuais. Ambos interferem
diretamente na s duas escalas,
fragilizando ou protegendo. O pri- meiro
pode ser tanto de longo prazo e de
influência nacional, quanto as
características próprias do ciclo vital,
classe social, família ou das escolhas do
padrão de mobilidade que uma família
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade necessidade de recompor as perdas e da-
sociodemográfica nos . Ess a recomposição (retornar ao
estad o de vida normal) dependerá de
capacidade acumulada para tal
regeneração , que é chamada de
contexto geográfico pode ser tanto o
resiliência, um dos conceitos fortes que
ecos - sistema, as dinâmicas de
surgiram na década de 1990 nos estudos
formação e trans- formação da
sobre vulnerabilidade.
geomorfologia (topografia) e da
Outra resposta ao desastre é a adapta-
hidrologia (drenagem) , a dinâmica
ção, tanto individual quanto social, já que
climática ou até geológic a
em muitos casos há necessidade de
(terremotos, vulcanismo, etc.), quanto
adaptar a forma de construção , o padrã o de
os atributos particulares do lugar,
ocupaçã o do solo, os hábitos em
com o o rio que pass a por ali, um
determinadas situa - ções , adoçã o de
bosque, um morro, etc.
protocolos de emergência, etc.
Podemo s entende r a
(JANSSEN; OSTROM, 2006). Ambas
vulnerabilidade como neutra: não é
visam retoma r o dia-a-dia pré-desastre,
negativa em si mesma, mas refere-se
reordenand o o território e recuperand o a
à interação risco-perigo em um
chamad a vida normal (WISNER et al., 2004).
determinado lugar, ond e certo s grupo s
Contudo , em noss a sociedade contemporâ-
e coletividades serão afetados
nea, a normalidade parece ser o risco: não
(MARANDOLA Jr., 2008a). São os
há vida sem a ameaça. Em muitos luga res e
recursos e as estratégias que estes
para muitas pessoas, conviver com o risco
terão para responder ao perigo
é a vida normal (Figura 1).
(próprios ou externos, coletivos),
Noss a leitura de lugar est á atrelada ao
absorven - do seus impactos e danos,
entendimento humanista que contribuiu
que determina- rão como aquele
para o seu redimensionamento na ciência
perigo afetará o espaço.
geográ- fica. Uma leitura de autore s como
Quando o perigo supera a
Edward Relph (1976), Yi-Fu Tuan (1975 ,
habilidade da população ou do lugar
1980 e 1983) e Anne Buttimer (1980 ) leva a
em responder ao evento, pode
uma compre- ensão fenomenológica do
configura r-se um desastre. A partir
lugar enquanto categoria de análise
deste, a vida normal é quebrada e há
geográfica. Compondo

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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

FIGURA 1
Diagrama conceitual risco-perigo-vulnerabilidade

Fonte: Marandola Jr. (2008a, p. 57).

a partir da s diferentes contribuições, ambiente. É o que Jöel Bonnemaison (2002 )


teremo s uma definição mais ou menos chamou de geossímbolos.
complexa e abrangente, passando a Ess a cumplicidade entre o eu e o
entender o lugar com o a meno r célula mund o foi express a por Eric Dardel (1952)
espacial, na escala do corpo , que se pela sua noçã o de geograficidade
relaciona com a casa , o confi- namento, a estabelecida seja entre a comunidade e o
proteçã o e a identidade. lugar, seja entre o in- divíduo e o seu meio.
O lugar é conceituado na dimensão da Mais tarde, Tuan (1961), claramente
experiência, perpassando as escalas indivi- influenciado por Dardel, desenvol- veu a
dual e coletiva, nas suas diversas esferas, noção bachelardiana de topofilia, que
e consubstanciando també m as escalas expressa os laços afetivos e de
espa- ciais de ocorrência dos fenômenos envolvimento do home m com o ambiente,
físicos, sociais e identitários. O lugar é, constituindo-se, a partir deste
portanto, centro da afetividade e da razão envolvimento, o lugar.
sensível, constituindo-se no foco da No entanto , ess e entendimento do
experiência hu- mana. No entanto, o lugar lugar não o limita a uma dimensão
também possui uma dimensão coletiva, existencial ou afetiva. A ênfase nessa
que diz respeito às relações históricas dimensão torna-se fundamental no
que a comunidade estabelece e demarca contexto científico de en- tão, em que o
no espaço. Em vista diss o, monumentos , positivismo e o cientificismo haviam
ruas , edifícios, parques , rios, árvores , retirado qualquer possibilidade de
florestas, bancos de praça , um mastro ou considerar tais fenômenos essencialmente
mesmo uma paisagem podem constituir humanos na investigação científica, em ge-
lugares relacionados à historici- dade, à ral, e geográfica, em particula r. As demais
memória e à identidade de certo grupo. dimensões da vida humana também tinham
As experiências históricas são assim seu lugar, principalmente a partir da noção
compartilhadas tanto pela religiosidade ou de mund o vivido, trazida por Buttimer (1976)
mística do luga r, quanto pelos fatos vincu- da fenomenologia de Husserl:
lados ou impressos naquela paisagem ou
The place-environment component of the
lifeworld may be equal in value to the social,
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

economic, and psychological dimensions


é articular escalas de ocorrência e análise
that have received more academic attention
in the last several decades. In short, one dos fenômenos e suas dimensões.
can again say without embarrass ment that
people are as much geographical beings Lugares e perigos na Região
as they are social, cultural, or economic.
(SEAMON, Metropolitana de Campinas
1980, p.194, grifo do autor)
Entendend o os lugares como unidades
Ênfase maior em outro s aspecto s da espaciais densas que são construídas na
rela- ção do home m com seu ambiente intersubjetividade, historicidade e geogra-
també m foi dad a na obra de Relph (1976) e ficidade, uma região se torna um conjunto
na sua con- ceituação dos place less e de lugares hierarquizados, de diferentes
place less ness .3 naturezas , que estabelecem ou não
O autor complexifica a discuss ão sobr e relações entre si (FRÉMONT, 1980). Dess e
o lugar, pensand o medidas diferenciadas pont o de vista, quand o se tem com o
de relacionamento com ele (posições em referência uma região metropolitana, que
rela- ção ao lugar) e na sua própria possui aspectos institucionais que a
constituição. Para isso, Relph diferencia delimitam, procuramo s enfocar sua
lugares de place - less ness a partir do s dimensão experiencial, vivida. Para nós,
conceitos filosóficos de autenticidade e independente da discuss ão que se poss a
inautenticidade. desenvolver em torno do recorte oficial, é
Para compreender a autenticidade dos importante compreende r as trama s
lugares, Relph prioriza a produção do es- espaciais que constroe m aquela região en-
paço, principalmente por meio da ação do quanto um espaç o vivido, o que nos
poder público, que cria e produz permite pensa r os lugares dentr o dess e
lugares. Estes, quand o representa m uma contexto. Em vista disso, o primeiro
descon- tinuidade em relação à desafio foi compre- ende r a Região
historicidade da comunidade, rompe m a Metropolitana de Campinas (RMC), noss o
relação orgânica de produção da cidade e camp o de análise, enquant o uma região
de construção de lugares, constituindo-se, vivida, interligada no âmbito do cotidiano,
segundo o autor, em uma atitude nos espaço s de vida e na lida diária das
inautêntica, manifesta pela ruptura e pela pessoa s (MARANDOLA Jr., 2005, 2006 ;
não preocupação com o sen- tido do lugar. MARANDOLA Jr.; DE PAULA; PIRES, 2006 ).
Em situações como essa , com a fraca Ess a perspectiva da experiência nos
aderência entre pessoas e lugar, a permitiu olhar para a região como um con-
vulnerabilidade pode ser potencializada junto orgânico, um espaço heterogêneo de
pela sua própria formação material e densidades variadas, composto por cami-
simbólica. nhos , trajetos, lugares, conexões. Alguns
Olhando para o lugar, nas suas várias espaços são mais denso s e intensos,
escalas, tem-se uma unidade de análise outros mais dispersos e rarefeitos. As
que permite aborda r os riscos e perigos cidades e seus fragmentos não pulsam no
em sua dimensão fenomênica, ou seja, em mesmo rit- mo, mas há regiões que estão
sua unidade essencial. Essa abordagem é sintonizadas na mesma frequência. A
importante para aumentar a compreensão
dinâmica que anima essa s variações est á
da vulnerabilidade em sua concretização
ass ociada a formas específicas de relação
na vida das pessoas . As teorias sociais,
população-ambiente, com níveis diferentes
enquanto teorias, serve m para estimular
de peso de um e de outro lado.
nosso pensar sobre a realidade, mas não
podemos abdicar de uma discussão empí-
rica dos riscos e perigos. O grande desafio

3 Não existe uma palavra correspondent e para place less ou place lessness em português . O segund o é o negativo do
lugar, ou seja, que não corresponde à experiência da historicidade e geograficidade na sua delimitação, possuindo
elementos inautênticos. O primeiro é o processo ou a característica que marca a formação deste placelessness. Autores
brasileiros têm utilizado pelo menos duas opções de tradução: “deslugar” e “não-lugar” (MELLO, 2003; HOLZER,
2006). O primeiro termo é excessivamente vago para a sua adoção. Por sua vez, o segundo, além de não
corresponder exatamente ao significado da palavra, remete ao conhecido conceito non-place , do antropólogo Marc
Augé, cujo significado está muito marginalmente relacionado ao placelessness (AUGÉ, 1994). Em vista disso,
preferimos manter os termos no original (MARANDOLAJr.; MELLO, 2005).
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

O resultado são situações e posições lho (ZALUAR, 1986; LAPLATINE, 1988 ). Mas ,
específicas que permitem compreender o para o estud o da vulnerabilidade, uma
lugar em uma perspectiva contextual. A es- maior densidade era necessária.
colha de alguns lugares para pesquisa pro- De fato, pode-se dizer que, para uma
curava selecionar diferentes situações que abordage m qualitativa do espaço, de qual-
trariam questões pertinentes para a análise quer temática, a etap a de conhecimento
do lugar em si (seus atributos e relações) e e envolvimento é o primeiro e crucial
para a compreensão da região (aquilo que passo . Ness a fase, delinear-se-á a bas e
ele possui de exemplar). Como se trata de sobr e a qual o pesquisador irá construir
uma região com mais de dois milhões de sua pes- quisa. Se ess a primeira etap a for
habitantes, qual recorte delimitaria lugares queimada, substituindo-se a construção
com maior aderência a uma identificação experiencial em camp o por revisão
individual, sem abstrações ? O bairro nos bibliográfica, informações secundárias ou
pareceu uma boa unidade de trabalho, por de terceiros, grand e parte do potencial de
constituir aquele meio imediato à casa, uma investigação baseada no vivido será
o lugar por excelência, não raro tornando- perdida, pois a bas e continuará send o
se extensã o da própria residência aquela mediada, construída de fora para
enquant o foco principal da experiência dentro . O esforço ness e tipo de trabalho é
urbana , o pon- to zero de todo o espaço de deixar que o lugar se revele, que a experi-
vida. Por outro lado, compreender a ência do pesquisador em camp o contribua
formação dos bairros e as questões fundamentalmente para a produçã o do co-
referentes à sua inserção na cidade e na nhecimento. Est a é a postur a
região congregaria outros as- pecto s fenomenológi- ca de pesquisa, que busc a o
relacionados à organização espacial da conhecimento tal com o aparece na
metrópole, suas possibilidades e riscos, experiência (MERLEAU- PONTY, 1971 ;
conectando a dimensão mais íntima (casa, HEIDDEGER, 2002 ).
vida privada) à social (comunidade, vizi- Pensa r o lugar enquant o unidade de
nhança), permitindo-nos ampliar o diálogo estudo da vulnerabilidade, portanto, passa
com toda a tradição de estudos da inicialmente por se pergunta r acerc a da
ecologia humana e seus trabalhos sobre constituição fenomenológica daquele lu-
bairros e comunidades (Figura 2). gar, que envolve tanto os atributos
O primeiro local estudado foi a físicos quant o a produçã o social e
Ponte Preta, bairro consolidado de simbólica da intersubjetividade.
Campinas, ao lado da região central, O trabalho de campo experiencial
component e dos anti- gos arrabaldes da foi tomad o como referência em toda s as
cidade (DE PAULA, 2005 ; MARANDOLAJr.; pesquisas desenvolvidas. Est e se insere
DE PAULA; FERNANDEZ, na tradição de estudos fenomenológicos
2007). Esse estu do foi fundamental para aju- em Geografia e nas ciências sociais, cujo
dar a delinear muitos dos aspectos que se- fundamento é a compreensã o da experi-
riam importantes nas pesquisas seguintes. ência vivida (ROWLES, 1978; BERGER;
Um primeiro aspect o importante foi per- LUCKMAN, 1979; MANEN, 1990 ), aliando
ceber que, para a discussão qualitativa da uma perspectiva hermenêutica (interpre-
vulnerabilidade e dos riscos, seria necessá - tativa) dos relatos orais (narrativas) com a
rio um primeiro estágio de pesquisa em que descrição fenomenológica da experiência
a aproximação e o envolvimento com o (GEORGE; STRATFORD, 2005). Isso impli-
lugar teriam que ser buscados. Sem uma ca transcender a separação sujeito-objeto,
certa imersão e intimidade com a promovendo o entrelaçamento do ser com
dinâmica do lugar, seu “balé” (SEAMON, o outro (homem, lugar, ambiente). A meta
1980), não seria possível compreender as desta s pesquisas é a compree nsão do
tramas espaciais que envolvem a forma mundo vivido, ou seja, a experiência vivida,
como as pessoas li- dam com as situações que envolve a volição, a intencionalidade e
a que estão expostas. Esta prática é o conhecimento intuitivo, imediato, oriundo
reconhecida como essencial nos estudos do encontro do ser cognoscente com o
qualitativos, o que nos permitiu uma base mundo (MERLEAU-PONTY, 1971).
de apoio metodológico de traba-
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

FIGURA 2
Lugares estudados – Região Metropolitana de Campinas

Autor: Eduardo J. Marandola Jr.


Elaboração: Marina Piazzon Teixeira.
Base cartográfica: Emplasa, 2003.

Neste contexto, a descrição é um pro- A pesquisa engloba, portanto , a ex-


cedimento que não se refere a uma enume - periência do s pesquisadores, que estã o
ração banal. Antes, envolve o cuidado de comprometidos com o conhecer espacial -
permitir ao objeto aparece r, ou seja, ser re- ment e os lugares estudados , implicando
velado tal como é vivido (HUSSERL, 1986). um envolvimento que vai além da
A descrição fenomenológica implica um verificação ou de meras impressões
trabalho de escavação dos sentidos mais (MANEN, 1990). Os significados são
originais em busc a de sua ess ência, compartilhados – a inter- subjetividade
mesm o que se mantenha a dúvida sobr e o (SCHUTZ, 1979) –, estand o a pesquisa
êxito final de alcançá-los (ALES BELO, fenomenológica atenta à forma não só
1998). como estes sentidos são construí -
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

dos, mas, sobretudo, como eles aparecem tintos da constituição dos lugares e procu-
em experiências vividas. rando abarcar diferentes bairros para poder
Este s press upostos epistemológicos, ampliar o escopo das questões. Se a Ponte
convertidos em prática de campo, trazem Preta nos mostrou que os espaços
implicações latentes, tais como as discuti- públicos, como a Praç a das Águas, são
das por Rowles (1978): envolvimento com fundamentais para compreende r um lugar e
os participantes; investimento de longo que um bairro pode conter uma unidade
tempo; pequeno número de participantes simbólica sob a toponímia, mas não as
(pesquisados e pesquisadores); e mesmas condições de vida (a
inferência indutiva. Estas implicações fragmentação da paisagem pro - duz
refletem-se tanto na condução (uma diferentes lugares dentro de um bairro), o
atitude diante da pes - quisa e dos temas São Bernardo trouxe um exemplo mais
em questão) quanto na forma de bem acabado da fragmentação intrabairro.
apresentar os resultados oriundos dela. Por Dividido em dois, internamente, Alto e Baixo
serem experiências vividas e pela presença São Bernardo compõem lugares diferentes
significativa da indução, muitas das para os-de-dentro, embor a sejam vistos
questões levantadas não são passíveis de como um bairro só para os-de-fora. Com
mensuração nem de experimentação. A territórios vividos de forma distinta,
pesquisa reverbera os fenômenos estuda - sã o paisagens específicas separadas e
do s tal como apar ecem (o sentido da que não se misturam. E são justamente
palavra fenomenologia) na experiência, seus espaços públicos que expressam a
buscando nas camadas de mediação e de diferen- ça entre as duas vizinhanças: as
sentidos, nas quais estamos todos praças e ruas do Alto São Bernardo não
imersos, os senti- dos originais e dão abrigo aos seus moradores, ao
permanente s que constroem, contrário do Bai- xo São Bernardo , que
coletivamente, o significado dos tem rua s e praças sempre ocupadas
fenômenos (MARANDOLAJr., 2005a). pelas pessoas do lugar. Nest a área , o
Para adensa r alguns aspectos espaç o público é extensã o do espaço
referentes à vulnerabilidade na Ponte Preta, privado da casa, incorporado à proteção,
realizamos pesquisa sobr e a Praç a das enquanto na parte alta o espaço público é
Águas, um do s poucos espaço s públicos o lugar do risco, separad o por grades
do bairro, inaugu- rad o durant e a pesquisa. altas e sistemas de segurança do espaço
Foi muito importan- te acompanha r o privado (DE PAULA; MARANDOLA Jr.;
process o de abertur a de um espaç o em HOGAN, 2007a).
meio à densidade construída e de ruas A diferença de uso e característica
estreitas do bairro, sua apropriação intensa do espaço público, na verdade, express a
no início e o subsequente declínio formas distintas de proteçã o e interação
(MARANDOLA Jr., 2005 b). social, qualidades intrínsecas aos lugares
Hoje, a praça encontra-se muito aban - e paisagens dos dois fragmentos do bairro.
dona da e a necessidade de incorporar o Ma s qual a naturez a da constituição
es- paç o público ao espaço privado da s desse s diferentes fragmentos territoriais? O
casa s e apartamento s foi superad a pelo estud o sobre os DICs (Distritos
med o e pela repulsa que a condição Industriais de Campinas) nos permitiu
deteriorada da praç a causou . O que no avançar ness e sentido, identificando nos
início foi um feliz encontr o com o espaço diferentes territó- rios vividos elementos
tornou-se em pouco tempo um reencontro comun s que dava m ao conjunto do s DICs
com o risco, e as críticas ao projeto e à (na verdade , um con- junto de pequeno s
forma de gestão daquele lugar superara m bairros planejados pela Cohab-Campinas
a necess idade que o bairro tinha dele. A e várias invasões) uma unidade enquant o
intervenção de cima-para-baixo, sentido de vizinhança. A identidade
produzindo um placelessness , mostrou-se, territorial é construída a partir da memória
no final, uma pretensão governamental por urban a e da experiência coletiva de um
não ter incorporado as demandas sociais devir histórico e geográfico comum , que se
do luga r. estabelece no desenvolvimento do bairro e
Nossos estudos subsequentes levaram liga a história pessoal à história urbana.
em conta isso, aprofundando aspectos dis-
R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v. 26, n. 2, p. 161-181, jul./dez. 2009 171
Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

A mobilidade e a permanência são ele- do lugar e dos moradores mais antigos, o


mento s centrais para com preen der esse s que expõe cada grupo a riscos e
processos , já que o bairro foi constituído perigos diferentes e resulta,
enquanto periferia no seu sentido consequen temen te, em vulnerabilidades
pejorativo, com todas as carências sociais distintas.
e infraestru- turais, ma s mesm o ass im foi Esses estudos foram avanços no sen-
capaz de reter sua população ao longo tido de melhor compreender a importância
do tempo . Est a encar a com o vitoriosa do lugar na constituição da s diferentes
sua permanência, pois o lugar foi vulnerabilidades. Contudo , precisávamos
densificado e significado ao longo do aprofundar estas questões, o que foi feito
tem po, rece bendo atributos (físi- cos, tomando-se novas localidades como foco
sociais e afetivos) que lhe dão condição de da vulnerabilidade do luga r.
território capaz de fornecer seguranç a a Escolhemos três lugares na RMC que
seu s mora dore s (DE PAULA; MARANDOLA pudesse m trazer diferentes questõe s re-
Jr., 2007; DE PAULA; MARANDOLA Jr.; ferentes ao s riscos e perigos e à
HOGAN, 2007 b). própria naturez a dos lugares: Jardim
Discutimos o revers o dess a perm a- Amanda, em Hortolândia; o bairro
nência a partir de pesquisa realizada Mansões Santo Antonio, em Campinas; e
no condomínio Residencial Parqu e do s o trecho da Via Anhanguera entre
Sabiás, localizado na cidade de Sumaré Campinas e Sumaré . Agora na segunda
(MARANDOLA Jr., 2008b). Esse etapa do estudo, estes lugares nos
condomí- nio de classe média reúne uma ajudaram a dissipar as dúvidas que
população de maioria migrante com alta restavam sobr e as variáveis ecológi- cas
rotatividade. Grande parte mudou-se para da vulnerabilidade, trazend o nova s e
a cidade por motivo de trabalho e tem importantes orientações metodológicas.
todo seu espaço de vida organizado a Em primeiro luga r, projetos idênticos foram
partir das rodovias que cortam a região. tomando rumos próprios, obedecendo às
A opção por um con- domínio, mesmo particularidades dos lugares.
que não de alto padrão, é justificada O Jardim Amanda é um conhecido bair-
pela segu ranç a, já que, por não ro que carrega a imagem de periférico no
conhecerem a cidade, acabam não se município de Hortolândia, que, por sua vez,
sentindo seguros em escolher residências também possui esta imagem no imaginário
nos bairros. O condomínio não oferece ne- da RMC. Ali, à semelhança dos DICs, um
nhum item de segurança além dos muros e bairro com acentuada s carências sociais
da guarita, mas esta condição é suficiente passa por um processo de consolidação,
para justificar sua escolha. ainda não concluído, que melhora sensi-
A partir desse estudo, pudemos perce - velmente as condições de vida do bairro e
ber melhor que o conhecimento espacial torna-o passível de retenção de população.
do lugar é fundamental na constituição da Com aproximadamente 50.000 habitantes,
vulnerabilidade, já que os migrantes (os de é um bairro de proporções de cidade que
fora) não possue m referências espaciais manté m elevados índices de
locais para orienta r-se, o que torna pendularidade, principalmente para o
todos os lugares potencialmente centro metropolitano (DE PAULA, 2008 ; DE
perigosos, dife- rente dos estabelecidos, PAULA, MARANDOLA Jr.; HOGAN, 2008).
que, utilizando-se da tradição e da No entanto , pela sua posição (fica
memória, já possue m os lugares descolado do centro de Hor- tolândia e às
seguros pree stabelecidos ou construídos margens da rodovia que liga Campinas à
ao longo do tempo, podendo usufruir de cidade de Monte Mor), é prová- vel que
uma condição herdada que lhes oferece seu s moradores tenha m padrõe s de
estratégias e recursos (sociais, físi- cos e mobilidade variados em diferentes
existenciais) de alcançar a segurança . direções.
Migrantes de estratos médios e superiores Além da importância da memória e
tendem a buscar os lugares de segurança da história migratória no desenh o da s
no circuito metropolitano de lugares vulnerabilidades, o estud o do bairro tem
globais, mantendo-se não raro à parte do revelado outros aspecto s que se referem à
sistema condição duplamente periférica (cidade e
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

bairro) e aos processo s sociais e espaciais é evidentemente outro, e isso interfere não
do próprio lugar em se transformar e em
promove r, ao longo do tempo , segurança ,
fatores especificamente demográficos que
ainda estã o send o investigados (DE PAU-
LA; MARANDOLA Jr., 2009 ).
O estudo do bairro Mansões Santo
An- tônio traz outro s elementos que
enriquecem as análises. Local de
contaminação do solo por uma indústria de
solventes desativada em meado s do s
ano s 1990, ess a bem localizada área de
Campinas tem sofrido nos últimos dez
anos um intenso processo de
incorporação e especulação imobiliária.
Sua paisagem, de chácara s de lazer ou
pequenas moradias, tem se modificado in-
tensamente, com o surgimento de edifícios
residenciais de alto padrão que marcam o
skyline da cidade.
O cas o da contaminação veio à tona
quando a construção de um edifício foi re-
alizada sobre o terreno da antiga indústria,
acumulando gases na garage m do prédio.
A imprensa acompanho u o processo ,
gerando muita especulação sobre os altos
investi- mento s na região. No entanto , a
exemplo de outros casos de
contaminação, há um hiato entre a
identificação do risco, a percepção da
população e a su a comunicação, as
quais obedecem a diferentes lógicas. A
vul- nerabilidade do lugar não pode ser
apenas a equação das análises de risco,
devendo considerar também a questão do
estigma e da própria desvalorização
econômica.
Assim como em Cubatão ou em Adria-
nópolis, on de as populações negara m a
contaminação entendendo que admiti-la ou
dar-lhe ênfase seria uma forma de denegrir
seu próprio lugar (HOGAN, 1993; DI
GIULIO,
2006), també m no bairro Mansões Santo
An- tônio o risco ass ociado à contaminação
não é valorizado por seus moradores, que
não consideram o fato um problema ou
preferem não dar destaque a ele
(FOGLIARINI, 2008). A vulnerabilidade do
lugar, ali, precisa incor- porar o processo
de comunicação do risco e a sua
construção social em pelo menos dois
contextos: dos moradores antigos do
bairro (que ainda estão nas chácaras) e dos
novos moradores que chegaram depois. O
envolvimento dos dois grupos com o lugar
apena s na sua percepçã o do risco, ma s ligação muito próxima com o centro de
também na sua vulnerabilidade. Campinas, que é acessado pela rodovia, o
Por fim, o terceiro lugar que estamos que faz dela o grande eixo estruturador da
investindo nesse momento é o trecho me- região (MARANDOLA Jr., 2008a).
tropolitano da Rodovia Anhanguera entre Contudo , ao mesm o temp o em que
Campinas e Sumaré, que constitui a parte conecta e permite aglutinar, a rodovia exer-
de maior intensidade de conexão e ce um papel desagregado r e segregado r
interações espaciais na região, com (ROSAS, 2008; ROSAS; HOGAN, 2009 ).
conurbação e o convívio de dois Bairros de um lado e do outro da Via Anhan-
trânsitos: o regional e o local-orgânico. guera são lugares distintos, sem conexão.
Propomos pensar a Anhan- guera como As várias passarelas ou viadutos não são
lugar por conta de seu papel simbólico e suficientes para promover a integração dos
estrutural no espaç o urban o das duas fragmentos, o que resulta em diferentes
cidades, especialmente no de Sumaré. A condições de acessibilidade que, em áreas
Anhanguera estrutur a o espaç o da cidade, de urbanização dispersa, podem significar
sendo mais central para a maior parte dos acesso a bens, serviços ou até ao mercado
seus mais de 230.000 habitantes. Por todo de trabalho. Em vista dessa fragmentação,
o trajeto entre as duas cidades, a rodovia a experiência da rodovia é muito diferencial
corta a área do município, para aqueles que moram no seu entorno e
organizando não apenas o trânsito e a para aqueles que apenas passam por ela
malha viária dos bairros, mas também a (ROSAS; MARANDOLAJr.; HOGAN, 2008).
vida cotidiana. Ela é o grande eixo que liga O meio de transporte utilizado é a diferença
os bairros das áreas do Matão, Maria central, trazendo distintos perigos depen-
Antônia, Área Cura, Nova Veneza e dendo do tipo, frequência e até horário em
Dallorto, exercendo mais centrali- dad e do que se utiliza a rodovia. Nesse caso, apro-
que o próprio centr o tradicional. Em virtude fundar as poss ibilidades de envolvimento
da distância, esses bairros possuem uma com o lugar-rodovia é fundamental para

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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

podermos compreender as diferentes espaciais e permitem olhar para a região a


situa- çõe s de risco e as estratégias e partir da experiência, ajudando a conectar
capacidades de resposta aos perigos. experiências individuais a construçõe s
Todos esses trabalhos tinham uma liga coletivas. Os territórios, construídos
comum: estavam concentrados na sede e entre lugares (pausas) e trajetos
numa porção da RMC que, por vários mo- (mobilidades), sã o fun damentais para
tivos e critérios, pode ser encarada compreende r a constituição da
como a mais intensa e de relação mais segurança-insegurança com bases
orgânica espaciais, individuais e coletivas. A casa,
– a microrregião noroeste . O estudo dessa nesse contexto, apresenta-se como
região nos permitiu produzir um amálgama elemento importante na medida em que é
entre os estudo s dos lugares, contextua - o ponto zero de onde partem os desloca -
lizando cad a um num todo, numa escala mentos e o lugar a partir do qual organiza-
mais próxima daquela primeira perspectiva mos todo nosso cotidiano. Por outro lado,
da experiência da RMC como um todo. a tendência de que ela se torne o
Ess a microrregião, centralizada por único pont o fixo da metrópole (ASCHER,
Americana e composta por Nova Odessa, 1998) aument a sua importância na
Sant a Bárbar a d’Oeste e Sumaré , constituição da vulnerabilidade, send o
apresent a relações orgânicas mais fortes fun damental olhar para ela, em toda s as
internamente do que com o centro suas dimensões, para podermo s pensa r
metropolitano. Os es- paços de vida a vulnerabilidade num sentido que
nessas cidades conformam um mesm o ultrapasse o estritamente físico ou
conjunto de trajetos e itinerários, populacional, permitindo buscar a relação
apresentando-se como um todo urban o orgânica entre eles.
único, ond e as funções e equipamentos
são complementares entre as cidades.
Novas questões e uma agenda de
Apesar de ter um centro e de manter as
pesquisa
relações com Campinas, como maior
referência, no âmbito da experiência há Mesm o que esse s estudos tenha m
pouca hierarquia entre elas, apresentando- apontad o aspectos importantes para a
se como alterna - tivas igualmente viáveis compreensão da vulnerabilidade do lugar,
dependendo da situação (MARANDOLA notamos dificuldade em operacionalizar,
Jr., 2008a). em cad a caso , aspecto s mais fortes ou
De fato, a potencialidade da mobili- mais evidentes que foss em diretamente
dade não é apenas um dos pontos-chave ligados à vulnerabilidade. Isso se mostrou,
que conduziram a microrregião à sua atual para nós, como uma indicação de que é
integração e conurbação, mas é sobretudo provável que o problema seja a forma
um dos seus pontos ambivalentes de risco- como estávamos encarando a
proteção mais significativos. A mobilidade, vulnerabilidade. Em primeiro luga r, não se
ao invés de se constituir enquant o risco estuda a vulnerabilidade, algo intangível e
(desagregação do lugar, enfraquecimento conceitual. Ela se revela por meio de
do s laços comunitários e de vizinhança, outros elementos que, estes sim, sã o
fragilização da cas a e da família), é tam- escrutinados pela pesquisa. Riscos e
bém estratégia de segurança, à medida perigos são o foco, as estrutura s e os
que permite aproximar e mobilizar recursos qualitativos disponíveis para que o lugar
(sociais, físicos e simbólicos) distantes no (pessoas , comunidades) possa
espaço. Assim como o lugar não é mais a movimentar- se quando em risco ou em
única forma de estar seguro, a mobilidade face do perigo. Ass im, a discuss ão sobr e
tam bém não significa mais o risco vulnerabilidade sempre nos conduz a
total (MARANDOLAJr., 2008a; 2008b). pensar sobre insegu- rança e sistemas de
Pensando a região como espaço vivido proteção, que abrem uma perspectiva
e a mobilidade como contraponto ao lugar, fun damental para que possamo s
temo s ass im uma poss ibilidade de identificar elementos que ajudam a compor
interlocu- ção entre os diferentes lugares a vulnerabilidade.
estudados. Os espaço s de vida estrutura m A ideia de um atlas de lugares pod e
as interações ajudar a pensar áreas grandes em termos
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Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

de sua vulnerabilidade. Se estudos que que?” não é feita no início, pois a


prio- rizam a escala grande conseguem vulnerabilidade é
abarcar grandes áreas a partir da
simplificação dos fatores envolvidos,
estudo s em pequena escala consegue m
aprofundar elementos específicos em
cad a caso, permitindo, a par- tir da
compree nsão do fenômeno, pensá-los
enquanto essências, ou seja, enquant o
fatos do mundo . Uma amplitude
considerável de lugares com diferentes
características e situações, amarrados por
um plano espacial mais amplo comum
(como a região), per- mite esse tipo de
análise, por compartilhar um mesm o
context o espacial e ess encial
(circunstancialidade) que lhes dá coesão.
Por outro lado, o lugar pode ser aden -
sad o à medida que aumentamo s noss a
capacidade analítica em outro s campos .
Em cada estudo que temos feito, há uma
di- mensão demográfica pouco explorada,
tais como as composições etárias, a
organiza- ção da família e o ciclo vital.
Estas variáveis são componentes
essenciais dos lugares e ajudam na sua
compreensão ecológica. As comunidades
ou os territórios são fenôme- nos , o que
implica uma perspectiva holística e
integrativa na sua leitura, que focaliza a
relação entre os elementos naquele
determi- nado contexto em sua
circunstancialidade. Est a é fundada numa
dupla característica de singular e universal
que permite olhar para lugares enquanto
exemplares e ao mesmo tempo únicos,
permitindo à pesquisa avan- çar a partir de
casos específicos. Mas, para isso, é
necessário abrir as possibilidades de
incorporação de matrizes causais a perigos
específicos. Mas quais riscos selecionar?
Tomando a postura metodológica aqui
desenvolvida, é necess ário não delimitar
os perigos a priori. Isso fecharia as possi -
bilidades das inter-relações relevantes e
de identificar os fatores que interferem
na constituição da vulnerabilidade. Talvez
essa seja a maior diferença em orientar a
pes- quisa pela perspectiva da
vulnerabilidade do lugar e não da
vulnerabilidade social ou
sociodemográfica. O lugar circunscreve
uma situação da relação população-
ambiente, permitindo acompanha r sua s
interações em dad o espaço-tempo social
e cultural. A pergunt a “vulnerabilidade a
entendida com o qualitativo, neutra nos ajudará a identificar elementos
portanto , característica própria dos diferentes revelados pelas especificidades
fenômenos diante de todas as situações. dos lugares. Por ou- tro lado, a
Mas para que isso se efetive, é identificação daquilo que é mais ess encial
necess á- ria profundidade no estud o dos em cad a um é importante para balizar as
lugares. O en- volvimento característico de class ificações, não caindo num montar e
pesquisas qua- litativas exige tempo e desmonta r de um quebra-cabeça sem
constância para que o process o do sentido.
pesquisador de ultrapassar a linha Utilizamos variáveis ecológicas num
imaginária que separa os-de-dentro e os- es forço de identi ficar aspecto s comuns que
de-fora poss a se efetivar, conseguindo permitam a discuss ão dos lugares a partir
compreende r os lugares pelo olhar do de suas semelhanças e diferenças. Em
outro, daquele que o experiencia vista diss o, ness e primeiro esboço , há uma
diretamente. prevalência de aspecto s que caracterizam,
Em termos analíticos, entendemos que no sentido da produção e organização do
alguma forma de organizar os lugares a espaço , os lugares. Esse s aspecto s (com o
par- tir de tipos ideais seria de valia na a situação quant o à incorporação, a posi-
tentativa de encontrar traços essenciais que ção na cidade e na região e o próprio us o
possam ajudar a compreende r os do solo) expressa m a espacialidade, ou
processo s de maneira mais ampla. seja, os aspecto s materiais da reproduçã o
Nesses primeiros es- tudos, podemos social, que compõe m a matriz causal da
ensaiar uma aproximação preliminar com vulnerabilidade, servindo també m de con-
uma tipificação dos lugares estudados, textualização para uma análise dos lugares.
conforme o Quadro 1. Os temas Contudo , orientando-se pela fenomenolo-
escolhidos para a tipologia permitem gia, ess a espacialidade é re-significada a
dar ênfase a certos aspectos, tornando partir da própria experiência, a qual atribui
visíveis diferenças ou semelhanças. É valores e redefine as distâncias e os ritmos
evidente que olhar por vários ângulos utilizando outra s lógicas e racionalidades.

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Apesar dess a diferença, a espacialida- iss o, considerar as variáveis ecológicas,


de é parte integrante dos lugares, ajudando numa perspectiva relacional, no s permitirá
na composição da trama que os anima. Por discutir as relações referentes a população
outro lado, aspecto s importantes com o o e ambiente a partir de questõe s que sejam
tempo de residência nos lugares são pertinentes ao bem-estar e à qualidade
funda- mentais para podermo s de vida da s pessoas , a preocupaçã o que
compree nder os la- ços de envolvimento acompanh a e motiva tais estudos.
espacial das pessoas . Em vista diss o, Noss a velha questão , portanto, receb e
definir melhor a condição de migrante do outra dimensão. Pensa r a flecha causal
próprio bairro (predominam migrantes ou PàA ou AàP, hoje, envolve pensa r a rela-
não-migrantes?) e da s pes- soas ção sociedade-natureza em seu significado
(quanto s ano s são necess ários para human o radicalizado. O ambiente vivido,
consolidar relações no lugar?) é necess ário tecnificado e mediado não é aquele da s
para melhor entende r as condições e re- relações regionais em ecoss istemas tra-
curso s que as pessoa s dispõem para lidar dicionais. A realidade brasileira apresenta
com os perigos. desafios mais complexos aos
Outro aspecto a ser conside estudo s de população, que, mesmo na s
r a d o refere-se ao fato de que as grande s regiões agrárias ou florestais, têm
questõe s am- bientais propriamente de lidar com a presença da sociedade
ditas dificilmente aparece m como urbana . A velha questão , portanto ,
relevantes sem que haja uma dedicação parec e ter sido invertida na medida em
específica do pesquisador ou alguma que a influência do ambiente sobr e os
situação muito significativa no lugar. Iss o homen s é vista na forma de males
se deve principalmente à forma com o (riscos e perigos). Nos ambientes
ainda lidamos com o ambiente, que, metropolitanos, foco de noss a
apesa r do s progresso s em termos de investigação e reflexão, a espacialidade e
tomad a de consciência, ainda não faz a abordagem ecológica (trabalhada no s
parte da principal paut a de preocupaçõe s moldes fenomenológicos) têm apontad o
da s pess oas. caminhos para pensar a relação P-A em
Iss o, de fato, não cheg a a ser um pro- seu duplo movimento, indicando a
blema, desd e que tomemo s o ambiente importância da abordage m do lugar por
no seu sentido mais amplo, envolvendo o focar-se na circunstancialidade da s
ambiente construído tanto quant o interações P-A em dad o contexto espaço-
aquele da natureza . As cidades são os temporal, geográfico e demográfico.
ambientes humanos por excelência ness e
século. Por

QUADRO 1
Lugares pesquisados de acordo com variáveis ecológicas
Condição
predominante da população

Ponte Preta Centro Residencial-comercial- Bairro histórico Não-migrante Violência,


Bairro metropolitano Central industrial bairro de passagem
São Bernardo Centro Residencial-comercial- Bairro consolidado Não-migrante Fundos de vale,
Bairro metropolitano Central industrial violência

DICs Centro Residencial (comércio Bairro em Não-migrante Mobilidade,fundos


Bairro metropolitano Periférica local) consolidação de vale, invasões
Contaminaçãodo
Mansões Santo Centro Residencial-industrial Bairro em
Antônio Bairro Central Migrante solo, especulação
metropolitano (comércio local) consolidação im obiliária
Jardim Amanda Entorno Residencial (comércio Bairro em Migrante Mobilidade,acesso
Bairro metropolitano Periférica local) consolidação ao Estado
Consolidado em
Rodovia Centro-entorno Industrial-residencial- Mobilidade,poluição
Trajeto Periférica transformações Migrante
Anhanguera metropolitano comercial recentes do ar, trânsito

Praça das Águas Espaço Centro Central Lazer Em degradação Não-migrante Lazer e cultura,
público metropolitano violência
Residencial
Entorno Mobilidade,
Parqu e dos Sabiás Condomínio metropolitano Periférica Residencial Consolidado Migrante qualidadede vida
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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

Mesmo que não tenhamos novas res- sentido do habitar contemporâneo, expres-
postas à velha questão, problematizá-la já são maior da relação da população em seu
faz parte do caminho de redescoberta do ambiente.

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Resumen

Vulnerabilidad del lugar vs. vulnerabilidad sociodemográfica: implicaciones metodológicas


de una vieja cuestión

La pregunta “¿vulnerabilidad a qué?” es primaria en los estudios sobre riesgos y peligros. En


los estudios poblacionales, esta pregunta se dirige a grupos demográficos que están sujetos
a determinados peligros, que pueden estar relacionados a las características de la dinámica
demográfica o a su situación socioeconómica, ligadas al ciclo vital, a la estructura familiar o
a las características migratorias del grupo. El campo de población y ambiente aumentó la
dimensión espacial a la problemática, considerando la posición y la situación (relacionales y
relativas) componentes de los elementos que generan peligros o que suministran condiciones

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Marandola Jr., E. e Hogan, D.J.
Vulnerabilidade do lugar vs. vulnerabilidade sociodemográfica

para enfrentarlos. Se advierten, por un lado, la influencia de un abordaje ecológico, que


entiende al medio como un conjunto físico-social que influencia y es influenciado por la
población, y por otro, la presencia de postulados materialistas, que concibe la relación
sociedad-naturaleza como un devenir histórico-social que está pautado por la producción
contradictoria y desigual del espacio y de la sociedad. En ambientes fuertemente
modificados por lo hombre, como las grandes ciudades, la matriz causal de riesgos y de
elementos que pueden interferir en la vulnerabilidad es considerablemente mayor, tornand o
difícil aprehende r relaciones de causalidad entre determinados peligros y ciertas
características del grupo demográfico. En vista de ello, mirar hacia los peligros y hacia la
vulnerabilidad del lugar es una estrategia que permite, en micro-escala, captar los
elementos que interfieren en la producción, aceptación y mitigación de los riesgos. La
dimensión ecológica es re-significada al incorporar la dimensión existencial y fenoménica del
luga r, entendiendo los grupos demográficos en su relación de involucramiento y pertenencia
a su espacio vivido. A partir de una serie de trabajos empíricos desarrollados en los últimos
años, este artículo reflexiona sobre las posibilidades de esa perspectiva teórico-
metodológica, que utiliza una práctica cualitativa de campo y una orientación geográfica en la
construcción de un diálogo más estrecho entre Geografía y los estudios poblacionales, a partir
del campo Población y Ambiente.
Palabras-clave: Riesgos. Ciudad. Espacio. Metodologías cualitativas. Geografía de la
población.

Abstract
Place vulnerability vs. sociodemographic vulnerability: methodological implications of a very
old issue

The question of “vulnerability to what?” is standar d in studies on risks and dangers .


In demographic studies the issue comes up in regard to demographic groups that are subject
to danger s that can be related to the characteristics of the demographic dynamics or to the
groups’ socioeconomic situation, which have to do with their life course, family structure or
migratory characteristics. The field of population and environment added the spatial
dimension to the issue, considering position and situation, which are components of the
elements that produce dangers or that provide the conditions to face them. On the one hand ,
one can note the influence of an ecological approach, which sees the environment as a
physical-social set that influences and is influenced by the population and, on the other, the
presence of materialistic postulates, which conceive the relationships between society and
nature as a social and historical factor regulated by the contradictory and unequal production
of space and society. The causal matrix of risks and elements that can interfere in vulnerability
is considerably higher in environments strongly modified by human beings, such as large
cities. This fact makes it difficult to grasp the causal relationships between certain dangers
and certain characteristics of the demographic group. In view of this, observing dangers and
the vulnerability of places is a strategy that, on a micro scale, enables one to detect the factors
that interfere in the production, acceptance and mitigation of risks. The ecological dimension
is re-signified when it incorporates the existential and phenomenic dimensions of places and
considers demographic group s in their relationships of involvement and belonging to the
surrounding space. On the basis of a number of empirical texts published in recent years, this
article reflects on the possibilities of this theoretical and methodological perspective, which
uses qualitative field practice and a geographic orientation in constructing a closer dialogue
between geography and demographic studies, based on the field of population and
environment.
Keywords : Risks. City. Space. Qualitative methodologies. Geography of the population.

Recebido para publicação em 05/05/2009.


Aceito para publicação 10/07/2009.
R. bras. Est. Pop., Rio de Janeiro, v. 26, n. 2, p. 161-181, jul./dez. 2009 181

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